o Racionalisnlo da Ética

Argumentativa em Face
da Secularização Moderna ~
Luiz Bernardo Leite Araújo ,.
Resumo
o artigo se interroga sobre a fundamentação racional proposta pela teoria discursiva da moral
após o esgotamento dos fundamentos metafísicos e religiosos da ética. As sociedades modernas,
em razão do pluralismo cultural, dependem da existência de um consenso neutro com respeito às
imagens de mundo. Mas as abordagens teóricas não concordam quanto ao modo de justificação
de um ponto de vista moral independente das diferentes visões religiosas e metafísicas de mundo.
Nesse contexto, a concepção racionalista de Habermas permanece uma resposta original à ques­
tão tipicamente moderna da fundamentação da moral em um mundo privado de um ponto de
apoio último de natureza transcendente. Procuramos apresentar a Ética do Discurso como uma
teoria da secularização, na medida em que seus traços principais resultam de uma tentativa de
. O presente artigo, escrito originalmente em língua francesa, foi apresentado no XXVII Congres
de IAssociation des Sociétés de Philosophie de Langue Française (Québec: 18 a 22 de agosto
de 1998) e no VIII Encontro Nacional de filosofia promovido pela ANPOF (Caxambu: 25 a
30 de setembro de 1998).
.. Doutor em Filosofia pela Universidade de Louvain, Bélgica; Professor e coordenador do PGFIL­
UERJ.
Luiz Bernardo Leite Araújo
substituição da autoridade da fé pela autoridade de um consenso visado pela comunicação, ou
seja, uma ética racional que, pela força coerciva da argumentação, retoma o conteúdo das tradi­
ções religiosas.
Palavras-Chave: Habermas; ética argumentativa; secularização
Résumé
L'article s'interroge sur la fondation rationnelle proposée par la théorie discursive de la morale
apres I'épuisement des fondements métaphysiques et religieux de I'éthique. Les sociétés modernes,
en raison du pluralisme culturel, dépendent de I'existence d'un consensus neutre à I'égard des
images du monde. Mais les approches théoriques ne s'accordent pas quant au mode de justification
d'un point de vue moral indépendant des différentes visions religieuses et métaphysiques du
monde. Dans ce contexte, la conception rationaliste de Habermas démeure une réponse originale
à la question typiquement moderne de la fondation de la morale dans un monde privé d'un point
d'appui ultime de nature transcendante. Nous essayons de présenter I'éthique du discours comme
une théorie de la sécularisation, dans la mesure ou ses traits principaux résultent d'une tentative
de remplacement de I'autorité de la foi par I'autorité d'un consensus visé par la communication.
c'est-à-dire, une éthique rationnelle qui, par la force contraignante de I'argumentation, reprend le
contenu des traditions religieuses.
Mots-c1é: Habermas; éthique de I'argumentation; sécularisation
Segundo a pragmática universal, o modelo da "razão comunicati­
va" (kommunikative Vernunfd
1
só se tornou possível com o ad­
vento da modernidade ocidental. No âmbito das sociedades tra­
dicionais, dominadas pelas imagens religiosas e metafísicas de
mundo, Lima tomada de posição clara diante das diferentes pre­
tensões de validade não era possível porque os conceitos formais
de mundo não estavam ainda suficientemente distinguidos, por­
quanto as visões de mundo confundiam-se com a própria ordem
mundana. Tomando por base a análise de Max Weber a propósito
da diferenciação das esferas culturais de valor engendrada pelo
processo de desencantamento das imagens religiosas de mundo,2
paradigmaticamente inscrita na arquitetônica kantiana da razão,
Habermas tenta demonstrar que é graças a esse processo de dife-
I Ler os estudos sobre: Théories relatives à la vérité (1972); e: La Signification de la pragmatique
universelle (1976), in: Jurgen HABERMAS, logique des sciences socia/es et autres essai50 1987,
p. 275-328 e 329-411. IN. do L Para dados bibliográficos completos deste e dos outros
títulos, cf. as Referências Bibliográficas abaixo.]
2 Cf. Max WEBER. Gesamme/te AufsJtze zur Re/igionssozi%gie. Habermas explora sobretudo os
capítulos sistemáticos, que elaboram, em sua opinião, o tema central da obra weberiana em seu
conjunto: o processo universal de racionalização e de desencantamento do mundo, mutua­
mente relacionados. Sobre o assunto, permito-me remeter o leitor a meu artigo: Luiz B. L
ARAÚJO, Weber e Habermas: religião e razão moderna, Síntese Nova Fase, v. 64, 1994, p. 15­
41.
NlImen; revista de estudos e pesquisa da religi:io, Juiz de Fora, v. 3 n. I, p. 39-51
o Racionalismo da Ética Argumentaliva em Face da Secularizaç30 Moderna
renciação que as pretensões de validade específicas, frente às quais
os sujeitos podem tomar posição dizendo "sim" ou "não", estabe­
lecendo-se assim um processo de comunicação, puderam apare­
cer.
Destarte, é na modernidade, e somente a partir de uma com­
preensão moderna de mundo, que os indivíduos adquirem as
condições necessárias para uma conduta racional de vida, uma
conduta autônoma liberada do peso inibidor da autoridade sa­
grada. Evidentemente, a análise weberiana não leva apenas em
conta a racionalização cultural, mas também a racionalização so­
cial, cujo processo de diferenciação dos sistemas cristalizados em
torno das esferas do Estado e da economia verificou-se igualmen­
te na modernidade. Ora, as tendências para uma autonomização
do agir comunicativo e para uma separação entre as orientações
da ação à intercompreensão e ao sucesso suscitam o problema
de integração das sociedades modernas secularizadas, nas quais
as ordens normativas devem ser asseguradas na ausência de ga­
rantias meta-sociais.
3
Não pretendo tratar diretamente dessas duas tendências assi­
naladas por Habermas. O que me interessa particularmente é a
posição eminente atribufda por este filósofo à idéia da
"verbalização" (Versprach/ichung) do sagrado para um acesso co­
erente ao processo moderno de racionalização, e a tentativa sub­
seqüente de uma fundamentação racional da moral após o esgo­
tamento de seus fundamentos religiosos. A teoria do agir comu­
nicativo compreende aevoluçãO do mundo moderno tendo como
pano de fundo as visões religiosas de mundo, já que o potencial
elevado de racionalização das religiões universais tornou-se um
elemento (paradoxalmente) importante do processo de seculari­
zação.
Mas se a religião é crucial para a emergência de uma moral
universalista, governada por princípios absolutos, ela não o é para a
manutenção ou a estabilização de um estádio pós-convencional da
consciência moral. As sociedades modernas, em razão do pluralismo
religioso e cultural, dependem da existência de um consenso neutro
3 o problema enunciado está no cerne das análises habermasianas da Theorie des kommunikativen
Handelns ( 1981) e de faktizitJt und Celtung ( 1992). Cf. HABERMAS. Théorie de {'agir
communicationnel, 1987; Direito e demoCl<Jcia: entre facticidade e validade, 1997.
Numen: revista de estudos e pesquisa da refigi30, Juiz de Fora, v. 3 n. I, p. 39-51
Luiz Bernardo leite Araújo
com respeito às imagens de mundo.
4
A Ética do Discurso busca
precisamente fundar o moralpoint ofviewem um mundo privado de
um ponto de apoio último de natureza transcendente.
1 - A 'Verbalização" do Sagrado
Uma hipótese fundamental da teoria habermasiana da
modernidade é a de uma dissociação do medium da comunica­
ção, correspondente à separação entre as esferas do sagrado e do
profano. O simbolismo religioso é interpretado como uma raíz
pré-lingüística do agir comunicativo e, neste sentido, exprime um
consenso normativo tradicional, que é estabelecido e renovado
na prática ritual. Tal consenso normativo, garantido pelos ritos e
mediado pelos símbolos, constitui o núcleo arcaico da integração
social. A "verbalização" do sagrado significa, para Habermas, uma
dominação progressiva do agir comunicativo: as funções básicas
de reprodução simbólica das estruturas do mundo vivido, origina­
riamente garantidas pelo rito e fundamentadas no domínio sacra I,
passam doravante às estruturas da comunicação lingüística. Desde
então,
a autoridade do sagrado é gradativamente substituída pela autori­
dade de um consenso tido por fundado em cada época. Isto impli­
ca uma emancipação do agir comunicativo em face de contextos
normativos protegidos pelo sagrado. O desencantamento e a
despotenciação do âmbito sacral se efetuam por meio de uma
verbalização (Versprachlichung) do consenso normativo fundamental
assegurado pelo rito; com este processo destrava-se o potencial de
racionalidade contido no agir comunicativo. A aura de encanta­
mento e temor difundida pelo sagrado e sua força fascinante são
sublimadas, ecom isso reconduzidas ao cotidiano. na força vinculante
das pretensões de validade criticáveis.
s
4 Esse tema também é central no liberalismo político de John Rawls (John RA'NIS, ItJlitical liberalism,
1993). Sobre as divergências entre suas concepções, cf. os artigos no número especial da revista
The Journal of Philosophy, v. 92, n. 3, March 1995: HABERMAS, Reconciliation through the
public use 01 reason: remarks on John Rawls's Politicalliberalism, p. 109-131; RAWl5, Reply to
Habermas, p. 132-80.
5 HABERMAS, Théorie de Iagir communicationnel I/, p. 88.
Numen: revista de estudos e pesquisa da religi:lo, Juiz de Fora, v. 3 n. I, p. 3 9 ~ 5 1
o Racionalismo da Ética Argumentativa em Face da Secularizaç.1o Moderna
A idéia de verbalização do sagrado traduz uma laicização ra­
cional do vínculo social primitivo na força ilocucionária da lingua­
gem profana,6 cuja autoridade está ligada à força não-coerciva,
motivada racionalmente, do melhor argumento. A tendência à
racionalidade só pode ser percebida quando se passa do domínio
sacral ao domínio profano. Habermas representa, pois, a evolução
histórica pelo deslocamento gradual das esferas de ação profana
de seu contexto religioso primordial.
Graças a essa f1uidificação comunicativa do consenso religioso
de base, que torna possível a transformação da comunidade de fé
impenetrável à racionalidade em comunidade de comunicação
submetida à autoridade da argumentação, as estruturas do agir
orientado à intercompreensão tornam-se importantes para preen­
cher as funções de reprodução cultural, integração social e socia­
lização dos indivíduos. Neste sentido, a verbalização do sagrado é
a mais profunda expressão de uma racionalização do mundo vivi­
do.
Contudo, Habermas está atento ao fato de que a margem de
cobertura dos conflitos diminui sensivelmente em conseqüência
da superação do contexto tradicional marcado pela fusão sacra I
entre facticidade e validade, que decide previamente quais são as
pretensões de validade que podem obter efetivo reconhecimento.
Com o aumento da carga a ser assumida pelos próprios indivídu­
os para uma definição comum das situações, cresce também o
risco do dissenso e da boa coordenação das ações. Eis a razão
pela qual Habermas examina, de um lado, a gênese dos sub­
sistemas do agir racional com respeito a fins que, oriundos do
próprio processo de racionalização do mundo vivido, tornam-se
autônomos vis-à-vis seu contexto de origem; e, de outro lado, a
pluralização e a diferenciação desse horizonte comum de convic­
ções profundas e não-problemáticas que representa o mundo vi­
vido, cujas certezas não são suficientes para compensar os déficits
normativos resultantes da ruptura moderna com o sagrado.
6 Razão pela qual, seja dito, Rainer ROCHLlTZ, Éthique postconventionnelle et démocratie, se
insurge contra o termo "mise en langage", usado pelo tradutor francês de TAC 11 para verter a
expressão alemã Versprach/ichung, fato que "(_1 sugere a manutenção do sagrado pela simples
transposição na linguagem", As versões espanhola e inglesa utilizam, respectivamente, os ter­
mos U'ingüistización" e Ulinguis@cation", inadequados, ao nosso ver, em língua portuguesa.
Numen: revista de esmdos e pesquisa da religi:\o, JUIZ de Fora, v. 3 n. I, p. 39-51
Luiz Bernardo Leite Araújo
Ora, a idéia de desencantamento do domínio sacral é desen­
volvida particularmente com base na evolução do direito e da
moral, desde a imbricação entre a ética mágica e o direito revela­
do das sociedades arcaicas, passando por uma certa distinção
entre a ética da lei e o direito tradicional, até a separação entre as
éticas da convicção e da responsabilidade e o direito formal das
sociedades modernas. Segundo Habermas, a moral autônoma e o
direito positivo se diferenciam e passam a constituir uma relação
de complementaridade recíproca após o desmoronamento dos
fundamentos sagrados da normatividade. Assim, no contexto de
uma substituição da autoridade da fé pela autoridade de um con­
senso racional visado pela comunicação, a moral é, dentre as es­
feras culturais de valor - cuja diferenciação entre elas e a
autonomização de cada uma delas na modernidade é assinalada
com veemência por Habermas -, a mais importante a ser conside­
rada. Éela, com efeito, que assume a herança da religião:
Pelo fato de que a esfera religiosa tenha sido constitutiva para a
sociedade, é evidente que não são nem a ciência nem a arte as que
assumem a herança da religião; somente uma moral convertida em
ética discursiva, f1uidificada na comunicação, pode, nesta perspecti­
V<1, substituir a autoridade do sagrado. Nela se dissolve o núcleo
arcaico do normativo, com ela se desdobra o sentido racional da
validade normativa (...). A moral conselVa algo da capacidade de
penetração inerente aos poderes sagrados de origem.
7
2 - A Fundamentação Racional da Moral
Habermas parte da intuição capital segundo a qual uma ética
contemporânea deve necessariamente encontrar apoio racional
num mundo desencantado. Não há mais lugar para um funda­
mento último - de raiz metafísica ou religiosa - da moralidade.
Destarte, o decreto nietzscheano da "morte de Deus" está na ori­
gem da problemática moral moderna.
8
O problema da fundamen­
7 HABERMAS, Théorie de lágir communicationnelll, p. 104.
8 A questão de saber qual atitude adotar em relação à ética, depois que a fundamentação
religiosa deixou de existir, é também o problema fundamental dos cursos e conferências reuni­
dos por Ernst TUGENDHAT, Lições sobre Ética.
Numen: revista d'e estudos e pesquisa da r e l i g i ~ o , Juiz de Fora, v. 3 n. I, p. 39-51
o Racionalismo da Ética em Face da Secularização Moderna
tação da moral é um problema tipicamente moderno na medida
em que, a partir do momento em que as visões religiosas e
metafísicas começavam a cair em descrédito, urgia encontrar um
novo fundamento para as ações morais, isto é, um fundamento
capaz de suplantar horizontes teológicos e cosmológicos
norteadores do caráter obrigatório das normas.
Como percebe Manfred Frank,9 a crise de credibilidade da cha­
mada crença superior, mesmo tendo afetado todas as modalida­
des de julgamento, adquiriu sua maior amplitude no campo da
ética. Neste terreno, a privação de um fundamento sólido, de ca­
ráter transcendente, foi visto e sentido como um fato alarmante.
Efetivamente, a idéia de fundamento (Crund), embora importante
para a filosofia teórica e a crítica estética, longe de constituir tarefa
puramente acadêmica ou mero estabelecimento de um fato
empírico, resulta em algo essencial na esfera da moralidade, uma
necessidade incontornável de nossa vida concreta. Certamente,
há múltiplas e complexas formas de reação em face da crise de
fundamento último da ética, 10 mas a concepção habermasiana
revela-se uma resposta original à questão central de uma moral
pós-tradicional tornada independente de seu contexto religioso
e/ou metafísico de emergência.
A posição sustentada por Habermas é a de uma ética comunica­
tiva que retoma a substância das tradições religiosas sob uma forma
profana, isto é, de uma teoria moral que visa traduzir, em linguagem
racional e secularizada, as exigências das éticas da convicção, outrora
alicerçadas na autoridade do sagrado. A derrocada do fundamento
último absoluto não implica, então, a recusa da possibilidade de
justificação das convicções morais, mas sim uma retomada da univer­
9 Cf. Manfred FRANK, Comment fonder une morale aujourd'hui? Remarques à propos du débat
Habermas-Tugendhat.
10 Cabe sugerir as direções da fundamentação radonal kantiana, do ressurgimento da perspeçti
va metafíska da ética de Aristóteles e da rejeição de qualquer fundamento na tradição inau
gurada por Nietzsche. Segundo Tugendhat (Lições sobre Ética, p. 27s), as éticas filosófkas
atuais cometem o erro de supor que ou há apenas uma fundamentação absoluta (religiosa ou
radonal) ou nenhuma fundamentação. Assim sendo, ele propõe uma fundamentação "indire
ta" e simplesmente "plausível" da moral. Éóbvio que este pensador rejeita a tentativa desen
volvida pela Ética do Discurso de fundamentação "direta" e "absoluta", assim como Habermas
critica o voluntarismo em que se apóia a argumentação de Tugendhat em matéría de ética. Cf.
HABERMAS, De lethique de la discussion, p. 130-38.
Numen: reviSla de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 3 n. I, p. 39-51
Luiz Bernardo leite Araújo
salidade da razão prática através da razão intersubjetiva. Nesta ótica, a
teoria discursiva da moral situa-se na tradição kantiana das éticas
cognitivistas que enfrentam, com vigor, as conseqüências da ruptura
moderna entre o ético e o religioso, pela via de uma fundamentação
racional de princípios e procedimentos universais.
Comenta Manfred Frank:
Salvar asubstância da legitimação religiosa nas condições de irreligião
só pode significar a manutenção de sua função sem retomar sua
forma tradicional. Esta forma nos é proibida uma vez que nenhum
fundamento substancial está anosso alcance. A idéia de Habermas,
se ouso simplificá-Ia em excesso, é que a falta de um princípio
transcendente (de Deus, do Absoluto) remete as sociedades mo­
dernas ao longo caminho do entendimento mútuo. Tal entendi­
mento está presente como fim - ou melhor: como imperativo - em
toda comunicação real, e serve - contrafactualmente - de critério
prático de racionalidade. Éesta idéia que Habermas nos apresenta
sob o título de uma "Ética do Discurso", ou seja, de um entendi­
mento racional que visa engendrar um consenso acerca daquilo
que tenha a pretensão de valer para toda uma sociedade.
1I
Para Habermas, a falta da âncora do princípio último da fé
religiosa representa um ganho de racionalidade: as perdas
irreparáveis resultantes do processo de racionalização do mundo
moderno, tal como, em matéria moral, o aumento do fosso entre
o "ser" e o "dever-ser", são mitigadas pelo contrapeso representa­
do pela possibilidade de se atingir um entendimento racional em
que se impõe apenas a autoridade do melhor argumento.
O programa de fundamentação racional da moral com base
numa teoria discursiva comporta, segundo Habermas, dois aspec­
tos essenciais, asaber:
12
a introdução do princípio de universalização
como "regra de argumentação" para os discursos prático-morais e
a demonstração do valor universal de tal princípio a partir da
comprovação pragmático-transcendental que estabelece a exis­
tência de "pressuposições universais e necessárias da argumenta­
11 FRANK Comment fonder-. p. 368.
12 Sobre o que segue, cf. HABERMAS. Consciência moral e agir comunicativo. p. 143ss. O autor
plDpõe, em texto recente, um caminho de três estágios na direção de uma fundamentação da
moral, apontando certas transformações importantes na teoria do discurso (cf. HABERMAS, Le
contenu cognitif de la morale. une approche généalogique). Entretanto, a reconstrução do
conteúdo cognitivo da moral, tendo como fio condutor a depreciação de sua base de valida
de religiosa. como me propus a apresentar. é não apenas mantida, mas acentuada.
Numen: revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. ]' n. I, p. 39-51
o Racionalismo da Ética Argumentativa em Face da Secularizaçdo Moderna
ção". A fundamentação racional do princIpIo kantiano de
universalização éaquestão principal da teoria moral após o declí­
nio da religião, porquanto este princípio é o único a permitir o
reconhecimento da validade de uma norma enquanto expressão
da vontade geral dos indivíduos e o único também a evidenciar o
caráter impessoal dos mandamentos morais.
3 - Uma Teoria da Secularização?
o chamado moralpointo(viewé, portanto, o de uma apreciação
imparcial das questões morais, e a Diskursethik o encontra no
próprio círculo da argumentação. Nesta ótica, a teoria discursiva
da moral "não indica orientações conteudísticas, mas um proces­
so: o Discurso prático. Todavia, este não é um processo pa ra a
geração de normas justificadas, mas, sim, para o exame da valida­
de de normas propostas e consideradas hipoteticamente")3. Esta­
mos diante de uma ética deontológica (concentrada na questão
da fundamentação da validez prescritiva de mandamentos ou nor­
mas de ação), cognitivista (fundada na idéia segundo a qual a
decisão de agir conforme uma certa norma, bem como a escolha
da norma enquanto tal, são suscetíveis de verdade) e formalista
(pois fornece apenas um procedimento formal de argumentação
moral). Na medida em que Habermas defende cada um desses
traços, no âmbito da filosofia prática em geral, ele se demarca de
outras posições, embora não se possa obnubilar o fato de que a
Ética do Discurso propõe uma reformulação intersubjetivista da
teoria moral kantiana, ao mesmo tempo em que incorpora críticas
bem-fundadas erguidas pelo hegelianismo em face do
universalismo abstrato. Daí sua caracterização como uma ética
kantiana pós-hegeliana, que se atém à relação interna entre justiça
e solidariedade sem dissolver a moralidade na eticidade.
14
Uma ética da justiça e da solidariedade, que associe os princí­
pios distintos, porém complementares e igualmente importantes,
13 Ibid., p. 126.
14 A esse propósito, cf. HABERMAS, Les objections de Hegel à Kant valent-elles également pour
I·éthique de la discussion? (Note-se que a tese de uma complementaridade entre o direito e
a moral deve-se justamente às insuficiências cognitivas e volitivas da moral pós-convencional
de sociedades marcadas pelo pluralismo das visões de mundo.)
Numel1: revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. J n. I, p. J9-St
Luiz Bernardo leite Araújo
dos direitos dos indivíduos (igual respeito) e do bem da comuni­
dade (responsabilidade solidária) - eis aqui uma idéia-chave da
teoria do agir comunicativo - pode estabilizar-se sem nenhum
fundamento religioso. Assim, de um lado, a "verbalização" do sa­
grado indica a caducidade da forma tradicional de legitimação
religiosa da ética e da política, com a instauração progressiva de
um acordo normativo fundado sobre a validade racional dos atos
de fala, e, com isto, da institucionalização de procedimentos
discursivos com vistas à formação democrática da vontade. De
outro Jado, ao adotar uma separação estrita entre preferências
axiológicas e validez prescritiva de normas, em virtude de uma
compreensão deontológica da moral inspirada de Kant, a ética
discursiva associa a dimensão religiosa a conteúdos morais concre­
tos, os quais, graças às exigências do pensar pós-metafísico, de­
vem ser submetidos aos procedimentos formais da argumentação.
Penso que esta concepção, que é central para algo como uma
"teoria habermasiana da secularização", não implica a construção
de uma espécie de religião secular cujo caráter básico seria o de
englobar integralmente a esfera religiosa num momento superior
qualquer, como o de uma síntese comunicativa. Se abstraímos de
sua caracterização da modernidade por uma extensão cada vez
mais ampla do domínio profano em relação à esfera do sagrado e
por uma reflexividade crescente das relações com o mundo, in­
clusive dos modos de crença, Habermas não sugere a idéia de
uma absorção da religião pela comunicação. O agir comunicativo,
em definitivo, não pode ser erigido em equivalente profano da
idéia de eternidade. A despeito de sua posição enfática quanto à
desvalorização da religião nos contextos modernos de ação, em
que o pluralismo inevitável das formas de vida permitiu a ruptura
da unidade substancial de um mundo vivido construído em torno
da mensagem religiosa, a teoria do agir comunicativo assume a
impossibilidade de desalojar ou substituir a religião, cuja lingua­
gem sui generis veicula, sem dúvida, conteúdos semânticos não
apenas inspiradores mas também necessários. Nas palavras de
Habermas,
a razão comunicativa não se apresenta no palco assumindo a figura
de uma teoria tornada estética, como se fosse o elemento negativo
apagado de religiões que distribuem consolo. Nem ela se arvora em
Numen: revista de estudos e pesquisa da religi:io, Juiz de Fora, v. 3 n. I, p. 39-51
o Racionalismo da Êtica Argumenlativa em Face da Secularizaç30 Moderna
consoladora. Ela também renuncia à exclusividade. Enquanto não
encontrar no meio da fala argumentativa palavras melhores para
caracterizar aquilo que a religião sabe dizer, ela coexistirá sobria­
mente com esta, sem apoiá-Ia, entretanto.\S
Parece-me que Habermas subscreveria à convicção de Charles
Larmore segundo a qual "Deus é tão grande que não precisa exis­
tir" é a essência do processo moderno de secularização.
'6
Tal con­
cepção possui duas conseqüências importantes, semelhantes ao
que já assinalei a propósito da leitura habermasiana da
modernidade. A primeira é que a emergência da sociedade mo­
derna ocidental é explicada em termos de um desencantamento
do mundo, no qual as grandes religiões, particularmente o
monoteísmo judaico-cristão, desempenharam um papel prepon­
derante. A segunda conseqüência é que a autonomizacão das
esferas culturais de valor, que ocasionou justificações humanas da
moral e explicações naturalistas da natureza, não implica o desa­
parecimento da religião, e sim o fato de que ela não pode mais
preencher, nas sociedades modernas, certas funcões outrora assu­
midas fundamentalmente por ela.
Evidentemente, a teoria weberiana da racionalização tem mui­
to mais importância na reconstrução histórica do processo mo­
derno de secularização em Habermas. Ademais, a idéia de uma
liberação de Deus concomitante a uma liberação do homem, em
virtude da exoneração da divindade de tarefas cognitivas e
normativas, mesmo se não comporta, a meu ver, qualquer prejuízo
aos resultados de sua abordagem teórica, não é considerada pela
teoria pós-metafísica de Habermas. Entretanto, ele concordaria que
a propalada opinião situada no cerne da secularização moderna­
"Deus é tão grande que não precisa existir" - não significa que sua
inexistência "seja uma implicação da modernidade", e sim "que
ele não precisa existir, ainda que possa muito bem existir. Nós
não precisamos mais de Deus para explicar o mundo e para fun­
dar as regras de nossa vida comum. Se Deus não existisse, não
seria mais necessário inventá-lo.}}'7 Na verdade, a teoria do agir
15 HABERMAS, Pensamento pós-metafísico, p. 181-82.
16 Cf. Ch. lARMORE, Au-delà de la religion et des Lumieres. A formulação é a seguinte: "Di eu
est si grand qU'il n"a pas besoin d"exister.'
17 Ibid., p. 74.
Numen: revista de estudos e pesquisa da religiao, luiz de Fora, v. 3 n. I, p. 39-5\
Lujz Bernardo leite Araújo
comunicativo também está "além" da religião,'8 mas ela permane­
ce vinculada às idéias diretrizes do Esclarecimento, sobretudo à
herança racionalista no campo da moral.
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Fayard, 1998, p. 11-63.
18 Para uma visão de conjunto da perspectiva habermasiana sobre a religião, cf. Luiz B. L ARAÚ­
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Numen: revista de estudas e pesquisa da religi:lo, Juiz de Fora, v. 3 n. I, p. 39-51
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RAWl5, John. Political Liberalism New York: Columbia University
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--o Reply to Habermas, The Journal 01 Philosophy, v. 92, n. 3,
March 1995, p. 132-80.
ROCHLlTZ, Rainer. Éthiq ue postconventionnelle et démocratie,
Critique, n. 486, 1987, p. 938-61.
TUGENDHAT, Ernst. Lições sobre Ética. Trad. de Ernildo Stein et
alii. Petrópolis: Vozes, 1997
WEBER, Max. Cesamme/te AufsJtze zur Religionssoziologie. 3 Bd.
8. Aufl., TiJbingen: Mohr, 1986. [1920.]
Luiz Bernardo Leite Araújo
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Maracanã
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Numen: revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 3 n. \, p. 39-51

c'est-à-dire. mutua­ mente relacionados. v. reprend le contenu des traditions religieuses. L ARAÚJO. em sua opinião. pela força coerciva da argumentação. Juiz de Fora. por­ quanto as visões de mundo confundiam-se com a própria ordem mundana. revista de estudos e pesquisa da religi:io. Palavras-Chave: Habermas. IN. 15­ 41. dans la mesure ou ses traits principaux résultent d'une tentative de remplacement de I'autorité de la foi par I'autorité d'un consensus visé par la communication.] 2 Cf. No âmbito das sociedades tra­ dicionais. Habermas explora sobretudo os capítulos sistemáticos. la conception rationaliste de Habermas démeure une réponse originale à la question typiquement moderne de la fondation de la morale dans un monde privé d'un point d'appui ultime de nature transcendante. Les sociétés modernes. éthique de I'argumentation. sécularisation Segundo a pragmática universal. uma ética racional que. permito-me remeter o leitor a meu artigo: Luiz B. secularização Résumé L'article s'interroge sur la fondation rationnelle proposée par la théorie discursive de la morale apres I'épuisement des fondements métaphysiques et religieux de I'éthique. ou seja. Nous essayons de présenter I'éthique du discours comme une théorie de la sécularisation. logique des sciences socia/es et autres essai50 1987. 39-51 . p. e: La Signification de la pragmatique universelle (1976). p. Sobre o assunto. retoma o conteúdo das tradi­ ções religiosas. Tomando por base a análise de Max Weber a propósito da diferenciação das esferas culturais de valor engendrada pelo processo de desencantamento das imagens religiosas de mundo. do L Para dados bibliográficos completos deste e dos outros títulos. dépendent de I'existence d'un consensus neutre à I'égard des images du monde. 64. v. as Referências Bibliográficas abaixo. 3 n. 275-328 e 329-411.2 paradigmaticamente inscrita na arquitetônica kantiana da razão. Weber e Habermas: religião e razão moderna. NlImen. Síntese Nova Fase. in: Jurgen HABERMAS. que elaboram. en raison du pluralisme culturel. Dans ce contexte. o modelo da "razão comunicati­ va" (kommunikative Vernunfd 1 só se tornou possível com o ad­ vento da modernidade ocidental. une éthique rationnelle qui. dominadas pelas imagens religiosas e metafísicas de mundo. Gesamme/te AufsJtze zur Re/igionssozi%gie. p. o tema central da obra weberiana em seu conjunto: o processo universal de racionalização e de desencantamento do mundo. cf. I. ética argumentativa. Lima tomada de posição clara diante das diferentes pre­ tensões de validade não era possível porque os conceitos formais de mundo não estavam ainda suficientemente distinguidos. 1994. Max WEBER. Habermas tenta demonstrar que é graças a esse processo de difeI Ler os estudos sobre: Théories relatives à la vérité (1972). Mais les approches théoriques ne s'accordent pas quant au mode de justification d'un point de vue moral indépendant des différentes visions religieuses et métaphysiques du monde.Luiz Bernardo Leite Araújo substituição da autoridade da fé pela autoridade de um consenso visado pela comunicação. Mots-c1é: Habermas. par la force contraignante de I'argumentation.

Mas se a religião é crucial para a emergência de uma moral universalista. 1997. já que o potencial elevado de racionalização das religiões universais tornou-se um elemento (paradoxalmente) importante do processo de seculari­ zação. Numen: revista de estudos e pesquisa da refigi30. é na modernidade. e somente a partir de uma com­ preensão moderna de mundo. v. a análise weberiana não leva apenas em conta a racionalização cultural. Théorie de {'agir communicationnel. puderam apare­ cer. Direito e demoCl<Jcia: entre facticidade e validade. O que me interessa particularmente é a posição eminente atribufda por este filósofo à idéia da "verbalização" (Versprach/ichung) do sagrado para um acesso co­ erente ao processo moderno de racionalização.3 Não pretendo tratar diretamente dessas duas tendências assi­ naladas por Habermas. em razão do pluralismo religioso e cultural. Cf. p. Destarte. frente às quais os sujeitos podem tomar posição dizendo "sim" ou "não". as tendências para uma autonomização do agir comunicativo e para uma separação entre as orientações da ação à intercompreensão e ao sucesso suscitam o problema de integração das sociedades modernas secularizadas. mas também a racionalização so­ cial. I. dependem da existência de um consenso neutro 3 o problema enunciado está no cerne das análises habermasianas da Theorie des kommunikativen Handelns ( 1981) e de faktizitJt und Celtung ( 1992).o Racionalismo da Ética Argumentaliva em Face da Secularizaç30 Moderna renciação que as pretensões de validade específicas. Evidentemente. Juiz de Fora. e a tentativa sub­ seqüente de uma fundamentação racional da moral após o esgo­ tamento de seus fundamentos religiosos. que os indivíduos adquirem as condições necessárias para uma conduta racional de vida. 1987. As sociedades modernas. 3 n. nas quais as ordens normativas devem ser asseguradas na ausência de ga­ rantias meta-sociais. HABERMAS. estabe­ lecendo-se assim um processo de comunicação. A teoria do agir comu­ nicativo compreende a evoluçãO do mundo moderno tendo como pano de fundo as visões religiosas de mundo. cujo processo de diferenciação dos sistemas cristalizados em torno das esferas do Estado e da economia verificou-se igualmen­ te na modernidade. governada por princípios absolutos. 39-51 . ela não o é para a manutenção ou a estabilização de um estádio pós-convencional da consciência moral. Ora. uma conduta autônoma liberada do peso inibidor da autoridade sa­ grada.

que é estabelecido e renovado na prática ritual. Isto impli­ ca uma emancipação do agir comunicativo em face de contextos normativos protegidos pelo sagrado. v. Reply to Habermas. Reconciliation through the public use 01 reason: remarks on John Rawls's Politicalliberalism. com este processo destrava-se o potencial de racionalidade contido no agir comunicativo. uma dominação progressiva do agir comunicativo: as funções básicas de reprodução simbólica das estruturas do mundo vivido. correspondente à separação entre as esferas do sagrado e do profano. a autoridade do sagrado é gradativamente substituída pela autori­ dade de um consenso tido por fundado em cada época.A 'Verbalização" do Sagrado Uma hipótese fundamental da teoria habermasiana da modernidade é a de uma dissociação do medium da comunica­ ção. 5 HABERMAS. cf. p. O desencantamento e a despotenciação do âmbito sacral se efetuam por meio de uma verbalização (Versprachlichung) do consenso normativo fundamental assegurado pelo rito. 92. n. p. garantido pelos ritos e mediado pelos símbolos. exprime um consenso normativo tradicional. I. March 1995: HABERMAS. p. s 4 Esse tema também é central no liberalismo político de John Rawls (John RA'NIS. 88. A "verbalização" do sagrado significa.4 A Ética do Discurso busca precisamente fundar o moralpoint ofviewem um mundo privado de um ponto de apoio último de natureza transcendente. os artigos no número especial da revista The Journal of Philosophy. neste sentido. RAWl5. O simbolismo religioso é interpretado como uma raíz pré-lingüística do agir comunicativo e. Juiz de Fora. para Habermas.Luiz Bernardo leite Araújo com respeito às imagens de mundo. 39~51 . Numen: revista de estudos e pesquisa da religi:lo. origina­ riamente garantidas pelo rito e fundamentadas no domínio sacra I. p. 109-131. ecom isso reconduzidas ao cotidiano. Théorie de Iagir communicationnel I/. Desde então. Sobre as divergências entre suas concepções. 3 n. passam doravante às estruturas da comunicação lingüística. v. Tal consenso normativo. 1993). 3. constitui o núcleo arcaico da integração social. 132-80. na força vinculante das pretensões de validade criticáveis. A aura de encanta­ mento e temor difundida pelo sagrado e sua força fascinante são sublimadas. ItJlitical liberalism. 1 .

6 cuja autoridade está ligada à força não-coerciva. que decide previamente quais são as pretensões de validade que podem obter efetivo reconhecimento. a pluralização e a diferenciação desse horizonte comum de convic­ ções profundas e não-problemáticas que representa o mundo vi­ vido. ao nosso ver. JUIZ de Fora. motivada racionalmente. a gênese dos sub­ sistemas do agir racional com respeito a fins que. tornam-se autônomos vis-à-vis seu contexto de origem. cujas certezas não são suficientes para compensar os déficits normativos resultantes da ruptura moderna com o sagrado. de um lado. Contudo. Éthique postconventionnelle et démocratie. do melhor argumento. respectivamente.1o Moderna A idéia de verbalização do sagrado traduz uma laicização ra­ cional do vínculo social primitivo na força ilocucionária da lingua­ gem profana.o Racionalismo da Ética Argumentativa em Face da Secularizaç. e. p. cresce também o risco do dissenso e da boa coordenação das ações. as estruturas do agir orientado à intercompreensão tornam-se importantes para preen­ cher as funções de reprodução cultural. a evolução histórica pelo deslocamento gradual das esferas de ação profana de seu contexto religioso primordial. Rainer ROCHLlTZ. a verbalização do sagrado é a mais profunda expressão de uma racionalização do mundo vivi­ do. de outro lado. usado pelo tradutor francês de TAC 11 para verter a expressão alemã Versprach/ichung. integração social e socia­ lização dos indivíduos. Habermas representa. Neste sentido. A tendência à racionalidade só pode ser percebida quando se passa do domínio sacral ao domínio profano. oriundos do próprio processo de racionalização do mundo vivido. 6 Razão pela qual. os ter­ mos U'ingüistización" e Ulinguis@cation". Habermas está atento ao fato de que a margem de cobertura dos conflitos diminui sensivelmente em conseqüência da superação do contexto tradicional marcado pela fusão sacra I entre facticidade e validade. fato que "(_1 sugere a manutenção do sagrado pela simples transposição na linguagem". que torna possível a transformação da comunidade de fé impenetrável à racionalidade em comunidade de comunicação submetida à autoridade da argumentação. Com o aumento da carga a ser assumida pelos próprios indivídu­ os para uma definição comum das situações. Graças a essa f1uidificação comunicativa do consenso religioso de base. Eis a razão pela qual Habermas examina. I. Numen: revista de esmdos e pesquisa da religi:\o. 39-51 . pois. seja dito. inadequados. em língua portuguesa. v. As versões espanhola e inglesa utilizam. se insurge contra o termo "mise en langage". 3 n.

depois que a fundamentação religiosa deixou de existir.A Fundamentação Racional da Moral Habermas parte da intuição capital segundo a qual uma ética contemporânea deve necessariamente encontrar apoio racional num mundo desencantado. que assume a herança da religião: Pelo fato de que a esfera religiosa tenha sido constitutiva para a sociedade.da moralidade. somente uma moral convertida em ética discursiva. Destarte. pode. é evidente que não são nem a ciência nem a arte as que assumem a herança da religião. f1uidificada na comunicação.. a moral é. Juiz de Fora. o decreto nietzscheano da "morte de Deus" está na ori­ gem da problemática moral moderna.).Luiz Bernardo Leite Araújo Ora. Lições sobre Ética. no contexto de uma substituição da autoridade da fé pela autoridade de um con­ senso racional visado pela comunicação. com efeito. a mais importante a ser conside­ rada. a moral autônoma e o direito positivo se diferenciam e passam a constituir uma relação de complementaridade recíproca após o desmoronamento dos fundamentos sagrados da normatividade. A moral conselVa algo da capacidade de penetração inerente aos poderes sagrados de origem.de raiz metafísica ou religiosa . substituir a autoridade do sagrado. nesta perspecti­ V<1. Segundo Habermas. v. dentre as es­ feras culturais de valor . até a separação entre as éticas da convicção e da responsabilidade e o direito formal das sociedades modernas. p. Numen: revista d'e estudos e pesquisa da religi~o. Assim. É ela. 8 A questão de saber qual atitude adotar em relação à ética. Nela se dissolve o núcleo arcaico do normativo. 7 2 . 104.cuja diferenciação entre elas e a autonomização de cada uma delas na modernidade é assinalada com veemência por Habermas -. 39-51 . Não há mais lugar para um funda­ mento último . 8 O problema da fundamen­ 7 HABERMAS. desde a imbricação entre a ética mágica e o direito revela­ do das sociedades arcaicas. Théorie de lágir communicationnelll. passando por uma certa distinção entre a ética da lei e o direito tradicional. é também o problema fundamental dos cursos e conferências reuni­ dos por Ernst TUGENDHAT. a idéia de desencantamento do domínio sacral é desen­ volvida particularmente com base na evolução do direito e da moral. I. p.. com ela se desdobra o sentido racional da validade normativa (. 3 n.

3 n. ele propõe uma fundamentação "indire ta" e simplesmente "plausível" da moral. isto é. Segundo Tugendhat (Lições sobre Ética. Juiz de Fora. adquiriu sua maior amplitude no campo da ética. De lethique de la discussion. I. Certamente. Numen: reviSla de estudos e pesquisa da religião. 10 Cabe sugerir as direções da fundamentação radonal kantiana. Efetivamente. Neste terreno. HABERMAS. É óbvio que este pensador rejeita a tentativa desen volvida pela Ética do Discurso de fundamentação "direta" e "absoluta". 130-38. há múltiplas e complexas formas de reação em face da crise de fundamento último da ética.9 a crise de credibilidade da cha­ mada crença superior. de uma teoria moral que visa traduzir. as éticas filosófkas atuais cometem o erro de supor que ou há apenas uma fundamentação absoluta (religiosa ou radonal) ou nenhuma fundamentação. de ca­ ráter transcendente. v. a partir do momento em que as visões religiosas e metafísicas começavam a cair em descrédito. Como percebe Manfred Frank. 27s). Manfred FRANK. a privação de um fundamento sólido. urgia encontrar um novo fundamento para as ações morais. Comment fonder une morale aujourd'hui? Remarques à propos du débat Habermas-Tugendhat. em linguagem racional e secularizada. longe de constituir tarefa puramente acadêmica ou mero estabelecimento de um fato empírico. 10 mas a concepção habermasiana revela-se uma resposta original à questão central de uma moral pós-tradicional tornada independente de seu contexto religioso e/ou metafísico de emergência. assim como Habermas critica o voluntarismo em que se apóia a argumentação de Tugendhat em matéría de ética. um fundamento capaz de suplantar horizontes teológicos e cosmológicos norteadores do caráter obrigatório das normas. Cf. então. embora importante para a filosofia teórica e a crítica estética. a recusa da possibilidade de justificação das convicções morais. mas sim uma retomada da univer­ 9 Cf. resulta em algo essencial na esfera da moralidade. p. outrora alicerçadas na autoridade do sagrado. a idéia de fundamento (Crund). 39-51 . foi visto e sentido como um fato alarmante. mesmo tendo afetado todas as modalida­ des de julgamento. A derrocada do fundamento último absoluto não implica. A posição sustentada por Habermas é a de uma ética comunica­ tiva que retoma a substância das tradições religiosas sob uma forma profana. as exigências das éticas da convicção. p. uma necessidade incontornável de nossa vida concreta.o Racionalismo da Ética Argumenr~iva em Face da Secularização Moderna tação da moral é um problema tipicamente moderno na medida em que. isto é. do ressurgimento da perspeçti va metafíska da ética de Aristóteles e da rejeição de qualquer fundamento na tradição inau gurada por Nietzsche. p. Assim sendo.

com vigor. O programa de fundamentação racional da moral com base numa teoria discursiva comporta. Nesta ótica. Le contenu cognitif de la morale. o aumento do fosso entre o "ser" e o "dever-ser". a reconstrução do conteúdo cognitivo da moral. A idéia de Habermas. Numen: revista de estudos e pesquisa da religião. HABERMAS. 1I Para Habermas.Luiz Bernardo leite Araújo salidade da razão prática através da razão intersubjetiva. Juiz de Fora. p. tendo como fio condutor a depreciação de sua base de valida de religiosa. e serve . a saber: 12 a introdução do princípio de universalização como "regra de argumentação" para os discursos prático-morais e a demonstração do valor universal de tal princípio a partir da comprovação pragmático-transcendental que estabelece a exis­ tência de "pressuposições universais e necessárias da argumenta­ 11 FRANK Comment fonder-. HABERMAS. como me propus a apresentar. Consciência moral e agir comunicativo. 12 Sobre o que segue. as conseqüências da ruptura moderna entre o ético e o religioso. O autor plDpõe. dois aspec­ tos essenciais. Entretanto.em toda comunicação real. Comenta Manfred Frank: Salvar a substância da legitimação religiosa nas condições de irreligião só pode significar a manutenção de sua função sem retomar sua forma tradicional. p. pela via de uma fundamentação racional de princípios e procedimentos universais. une approche généalogique). é não apenas mantida. 368. I. p. ]' n. apontando certas transformações importantes na teoria do discurso (cf. É esta idéia que Habermas nos apresenta sob o título de uma "Ética do Discurso". é que a falta de um princípio transcendente (de Deus. segundo Habermas.de critério prático de racionalidade. cf. do Absoluto) remete as sociedades mo­ dernas ao longo caminho do entendimento mútuo. em matéria moral. em texto recente. Esta forma nos é proibida uma vez que nenhum fundamento substancial está a nosso alcance. se ouso simplificá-Ia em excesso. Tal entendi­ mento está presente como fim . tal como. mas acentuada.contrafactualmente . v.ou melhor: como imperativo . são mitigadas pelo contrapeso representa­ do pela possibilidade de se atingir um entendimento racional em que se impõe apenas a autoridade do melhor argumento. 143ss. 39-51 . um caminho de três estágios na direção de uma fundamentação da moral. a teoria discursiva da moral situa-se na tradição kantiana das éticas cognitivistas que enfrentam. ou seja. a falta da âncora do princípio último da fé religiosa representa um ganho de racionalidade: as perdas irreparáveis resultantes do processo de racionalização do mundo moderno. de um entendi­ mento racional que visa engendrar um consenso acerca daquilo que tenha a pretensão de valer para toda uma sociedade.

. portanto. 14 A esse propósito. A fundamentação racional do princIpIo kantiano de universalização é a questão principal da teoria moral após o declí­ nio da religião. bem como a escolha da norma enquanto tal. Nesta ótica. o de uma apreciação imparcial das questões morais. ao mesmo tempo em que incorpora críticas bem-fundadas erguidas pelo hegelianismo em face do universalismo abstrato. 3 . sim. cognitivista (fundada na idéia segundo a qual a decisão de agir conforme uma certa norma. mas um proces­ so: o Discurso prático. v. no âmbito da filosofia prática em geral. este não é um processo pa ra a geração de normas justificadas. Daí sua caracterização como uma ética kantiana pós-hegeliana. Todavia. 13 Ibid. I. que se atém à relação interna entre justiça e solidariedade sem dissolver a moralidade na eticidade. são suscetíveis de verdade) e formalista (pois fornece apenas um procedimento formal de argumentação moral). HABERMAS. Les objections de Hegel à Kant valent-elles également pour I·éthique de la discussion? (Note-se que a tese de uma complementaridade entre o direito e a moral deve-se justamente às insuficiências cognitivas e volitivas da moral pós-convencional de sociedades marcadas pelo pluralismo das visões de mundo. Na medida em que Habermas defende cada um desses traços. J9-St . mas.) Numel1: revista de estudos e pesquisa da religião. p. 126. para o exame da valida­ de de normas propostas e consideradas hipoteticamente")3. Esta­ mos diante de uma ética deontológica (concentrada na questão da fundamentação da validez prescritiva de mandamentos ou nor­ mas de ação). p.Uma Teoria da Secularização? o chamado moralpointo(viewé. porém complementares e igualmente importantes. a teoria discursiva da moral "não indica orientações conteudísticas. cf.o Racionalismo da Ética Argumentativa em Face da Secularizaçdo Moderna ção". 14 Uma ética da justiça e da solidariedade. e a Diskursethik o encontra no próprio círculo da argumentação. que associe os princí­ pios distintos. Juiz de Fora. porquanto este princípio é o único a permitir o reconhecimento da validade de uma norma enquanto expressão da vontade geral dos indivíduos e o único também a evidenciar o caráter impessoal dos mandamentos morais. ele se demarca de outras posições. J n. embora não se possa obnubilar o fato de que a Ética do Discurso propõe uma reformulação intersubjetivista da teoria moral kantiana.

não implica a construção de uma espécie de religião secular cujo caráter básico seria o de englobar integralmente a esfera religiosa num momento superior qualquer. Nas palavras de Habermas. os quais. Penso que esta concepção. que é central para algo como uma "teoria habermasiana da secularização". De outro Jado. da institucionalização de procedimentos discursivos com vistas à formação democrática da vontade.Luiz Bernardo leite Araújo dos direitos dos indivíduos (igual respeito) e do bem da comuni­ dade (responsabilidade solidária) .pode estabilizar-se sem nenhum fundamento religioso. sem dúvida. Habermas não sugere a idéia de uma absorção da religião pela comunicação. v. com a instauração progressiva de um acordo normativo fundado sobre a validade racional dos atos de fala. Assim. a "verbalização" do sa­ grado indica a caducidade da forma tradicional de legitimação religiosa da ética e da política. 39-51 . cuja lingua­ gem sui generis veicula. a teoria do agir comunicativo assume a impossibilidade de desalojar ou substituir a religião. p. 3 n. e. em que o pluralismo inevitável das formas de vida permitiu a ruptura da unidade substancial de um mundo vivido construído em torno da mensagem religiosa. I. A despeito de sua posição enfática quanto à desvalorização da religião nos contextos modernos de ação. O agir comunicativo. como se fosse o elemento negativo apagado de religiões que distribuem consolo. a razão comunicativa não se apresenta no palco assumindo a figura de uma teoria tornada estética. in­ clusive dos modos de crença.eis aqui uma idéia-chave da teoria do agir comunicativo . a ética discursiva associa a dimensão religiosa a conteúdos morais concre­ tos. ao adotar uma separação estrita entre preferências axiológicas e validez prescritiva de normas. conteúdos semânticos não apenas inspiradores mas também necessários. não pode ser erigido em equivalente profano da idéia de eternidade. em definitivo. graças às exigências do pensar pós-metafísico. de um lado. Juiz de Fora. de­ vem ser submetidos aos procedimentos formais da argumentação. Nem ela se arvora em Numen: revista de estudos e pesquisa da religi:io. como o de uma síntese comunicativa. com isto. Se abstraímos de sua caracterização da modernidade por uma extensão cada vez mais ampla do domínio profano em relação à esfera do sagrado e por uma reflexividade crescente das relações com o mundo. em virtude de uma compreensão deontológica da moral inspirada de Kant.

Ela também renuncia à exclusividade. Evidentemente. entretanto. ainda que possa muito bem existir. Entretanto.\S Parece-me que Habermas subscreveria à convicção de Charles Larmore segundo a qual "Deus é tão grande que não precisa exis­ tir" é a essência do processo moderno de secularização. v. qualquer prejuízo aos resultados de sua abordagem teórica. sem apoiá-Ia.' 17 Ibid.não significa que sua inexistência "seja uma implicação da modernidade". A primeira é que a emergência da sociedade mo­ derna ocidental é explicada em termos de um desencantamento do mundo. Nós não precisamos mais de Deus para explicar o mundo e para fun­ dar as regras de nossa vida comum. e sim o fato de que ela não pode mais preencher. I. a teoria do agir 15 HABERMAS. que ocasionou justificações humanas da moral e explicações naturalistas da natureza. não implica o desa­ parecimento da religião. p.o Racionalismo da Êtica Argumenlativa em Face da Secularizaç30 Moderna consoladora. Se Deus não existisse. a teoria weberiana da racionalização tem mui­ to mais importância na reconstrução histórica do processo mo­ derno de secularização em Habermas. e sim "que ele não precisa existir. '6 Tal con­ cepção possui duas conseqüências importantes. mesmo se não comporta.. p. particularmente o monoteísmo judaico-cristão. a idéia de uma liberação de Deus concomitante a uma liberação do homem. desempenharam um papel prepon­ derante. 181-82. 3 n. não seria mais necessário inventá-lo. ela coexistirá sobria­ mente com esta. a meu ver. Numen: revista de estudos e pesquisa da religiao. lARMORE. semelhantes ao que já assinalei a propósito da leitura habermasiana da modernidade. Au-delà de la religion et des Lumieres. 74. certas funcões outrora assu­ midas fundamentalmente por ela. no qual as grandes religiões. Pensamento pós-metafísico. 16 Cf. 39-5\ . ele concordaria que a propalada opinião situada no cerne da secularização moderna­ "Deus é tão grande que não precisa existir" . Ademais. não é considerada pela teoria pós-metafísica de Habermas.}}'7 Na verdade. Ch. p. nas sociedades modernas. luiz de Fora. em virtude da exoneração da divindade de tarefas cognitivas e normativas. Enquanto não encontrar no meio da fala argumentativa palavras melhores para caracterizar aquilo que a religião sabe dizer. A formulação é a seguinte: "Di eu est si grand qU'il n"a pas besoin d"exister. A segunda conseqüência é que a autonomizacão das esferas culturais de valor.

1996. 1992. Hunyadi. 3.. Trad. Traduit par M. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. cf. Logique des sciences sociales et autres essais. São Paulo: Edições Loyola.. Religião e Modernidade em Habermas. 1988. Luiz B. Trad.'8 mas ela permane­ ce vinculada às idéias diretrizes do Esclarecimento. Revue Internationale de Philosophie. 1992. FRANK. 15-32.­ M. 39-51 . Siebeneichler. v. Religião e Hodemidade em Habermas. . . JÜrgen.o Théorie de lagir communicationne12 Tomes. 1998.. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.o Reconciliation through the public use of reason: remarks on John Rawls's Political Liberalism. Traduit par J. p. L ARAÚ­ JO. p. 1994. --o Síntese Nova Fase. L.o Consciência moral e agir comunicativo. 361-82. Referências Bibliográficas ARAÚJO. Numen: revista de estudas e pesquisa da religi:lo. Juiz de Fora. 2 v. l-L. Paris: Cerf. Paris: Cerf. Weber e Habermas: religião e razão moderna. 198Z . I.o Direito e democracia: entre facticidade e validade.o Le contenu cognitif de la morale. .. p. Rochlitz. 64. Trad. Manfred. une approche généalogique. p. Guido A de Almeida. Paris: PUF. Traduit par R. TheJournalofPhilosophy. p. Rochlitiz.v. Flávio B. 92. 1990... Comment fonder une morale aujourd'hui? Re­ marques à propos du débat Habermas-Tugendhat. v. sobretudo à herança racionalista no campo da moral.Lujz Bernardo leite Araújo comunicativo também está "além" da religião. 198Z . Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.o Pensamento pós-metafísico. 15-41.. Hunyadi. In: L'intégration républicaine. Siebeneichler. 1997. Schlegel. Traduit par R. Paris: Fayard. Paris: Fayard. March 1995. 3 n. Luiz B. Flávio B. 166. p.ections de Hegel à Kant valent-elles également pour I'éthique de la discussion? In: De /'éthique de la discussion. n. 109-31. 18 Para uma visão de conjunto da perspectiva habermasiana sobre a religião. n. 11-63. Traduit par M. .. .o Les ob. .o De lethique de la discussion. Feny. 1989. HABERMAS.

Ri 20550-013 Numen: revista de estudos e pesquisa da religião.o Reply to Habermas.. Au-delà de la religion et des Lumieres. Ernst. 3 n. p. The Journal 01 Philosophy. p. 1993. Trad..Sala 9103 Maracanã Rio de Janeiro . Aufl. Juiz de Fora. Lições sobre Ética. 132-80. March 1995. 3. Critique. 3 Bd. 938-61. TUGENDHAT. Rainer. Paris: PUF. 8. Petrópolis: Vozes. Éthiq ue postconventionnelle et démocratie. 1997 WEBER. p. 92. . Political Liberalism New York: Columbia University Press. TiJbingen: Mohr. v. \.] Luiz Bernardo Leite Araújo Rua São Francisco XavieJ. Cesamme/te AufsJtze zur Religionssoziologie. 39-51 . 524 Bloco E . ROCHLlTZ. 486. [1920. Max. de Ernildo Stein et alii. p. 71-92. 1986. n. John. v. 1993. Ch. In: Modernité et morale.o Racionalismo da Ética Argumentativa em Face da Secularjzação Moderna LARMORE. 1987. n. RAWl5.