A construção da personagem infantil em Luandino Vieira

por Darville Lizis Souza Moreth Aluno do curso de Pós Graduação Lato Sensu em Literaturas Portuguesa e Africanas

Trabalho entregue à profª Teresa Salgado na disciplina Literaturas Africanas

UFRJ/Faculdade de Letras 1º semestre /2011

Porém. através da aparência física. no tecido social com todas as implicações ideológicas pertinentes. vitais.58). moral. Como nos lembra Anatol: É importante observar que não poderá apreender esteticamente a totalidade e plenitude de uma obra ficcional. p. Na ficção a verdade é criada por meio de uma série de emaranhados de escolhas. Já que o universo diegético é restrito. Focaremos nossa atenção. Escolhas não gratuitas. Estória da galinha e do ovo e A fronteira do asfalto. sua caracterização por intermédio de palavras faz com que possamos de certa maneira circunscrever-lhes a totalmente a personalidade. o enredo existe através das personagens que vivem no enredo. 2007. que delimitam a personalidade da criação. de frases e de objetos significativos. Segundo Antonio Candido. baseados. hedonísticos etc. religiosa. É de suma importância ressaltar que a realidade na qual as personagens estão inseridas somadas as relações que o real ficcional trava com a criação. Como.45). quem não for capaz de sentir vivamente todas as nuanças dos valores não-estéticos_ religiosos. (p. da aceitação da verdade por parte do leitor (CANDIDO. os seres criados não fogem a regra. O material analisado será três contos Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos. marcando/caracterizando a personagem para a identificação com o leitor (p. político-social e tomam determinadas atitudes oriundas desses valores (ROSENFELD. morais.54). do comportamento e por meio de aspectos da intimidade das personagens. a forma com que as criaturas da ficção se debatem nas chamadas situações limite. e se encerra nele próprio.Partindo do princípio que as personagens são baseadas em seres humanos e como tal encontram-se integradas num denso tecido de valores de ordem cognoscitiva. políticos-sociais. traçaremos um esboço das principais características dos personagens infantis na obra do escritor. 2007. de gestos. Luandino Vieira. p.46) Visto que a nossa visão do ser humano é fragmentária e limitada. no modo pelo qual o autor dirige o nosso olhar. que segundo o autor supracitado fazem aflorar traços profundos da personalidade. logicamente. por exemplo. primordialmente. A aceitabilidade de verossimilhança da trama depende. como nos sugere Anatol Rosenfeld. de nacionalidade angolana. poderão ser .

A interação com Vavó Xixi constitui uma linha delimitadora entre duas gerações. Percebemos no transcorrer da estória que a linguagem oral é privilegiada por Luandino Viera. a narrativa tem outro componente bem marcado e marcante em toda a trama: a fome. Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos Apesar do foco deste trabalho ser o personagem infantil. em Luanda. dentre os diversos mecanismos que o autor aponta como sendo os vetores principais na criação. Vavó Xixi e Zeca Santos. vide as criações indígenas de José de Alencar como O Guarani. localizada num musseque. e o respectivo efeito narrativo que logra atingir. elaboradas e/ou ressaltadas. Ubirajara. Zeca vive com a avó em uma habitação pobre. modificadas. assim como o . dos mais novos. só poderão ser criados tipos. é magro e tem carapinha. segundo as intenções do autor. Podemos inferir que todas as formas de elaboração convergem para um “termo geral”: as personagens são criadas através de um modelo existente no meio na qual o narrador está inserido. o que não quer dizer que. Iremos abordar os respectivos contos separadamente. nem com a vida cotidiana nas tribos. no artigo A Personagem de Ficção. não poderemos deixar de explanar que além da natureza tão bem descrita. sendo passíveis de sofrerem alterações. A constituição física no neto de Vavó Xixi é feita de maneira sorrateira no decorrer no conto: o miúdo tem orelhas de abano. portadores de imaturidades e dos mais velhos. Iracema. conforme a concepção estética/filosófica/ideológica do autor. O próprio autor relata que nunca teve contato com índios.inventadas. para melhor organizarmos a presente comunicação. se o narrador conhecê-los pessoalmente. Antonio Candido nos leva a concluir que os seres são criados via tipos já existentes. Levando em consideração Candido. como as personagens.

Em dado momento é oferecido a Zeca raízes de dália que a vavó diz ser mandiocas pequeninas. Além de utilizar de maneira imprevidente os ganhos reclama com sua velha avó doente da falta de comida. a querer blusa nova e consertar os . já que. ao invés de utilizar o dinheiro para comprar alimentos. visivelmente. O comportamento. O que nos causa angústia é a completa inadequação que a personagem tem perante a sua realidade de pobreza e privações. de certa maneira “exigia” que o mesmo se portasse de maneira diferente. e lidar com a violência social na qual está submetido. Xixi com sabedoria repreende o neto e o responsabiliza pela falta de comida. comum da criança neste caso nos é questionado. O estranhamento causado pelas atitudes de Zeca. Zeca Santos tem como traço marcante. A situação econômica de Santos. mente para a avó sobre a tapa aplicada por Fina. na personalidade. as mentirinhas são uma forma de preservar sua imagem. ele não tem coragem de contar para Delfina a espécie de emprego que conseguiu (carregar sacos de cimento). O horror de Santos é tamanho que sai desorientado correndo pelas ruas. tão viva na cultura angolana. Por que nos causa sensação de distanciamento atos tão corriqueiros da infância? A pobreza o elemento causador do estranhamento? Ou seja. Prefere adquirir uma blusa amarela bonita. não se deve ao fato do guri ter vaidade e comportamentos compatíveis com a sua idade. A válvula de escape de Zeca é Delfina. o que nos remete a ancestralidade. chegando a se constituir quase uma personagem. sua paixão por Fina que o leva a vaidade. a criança pouco favorecida é obrigada a “amadurecer” de maneira diferente? A situação limite do conto é a fome. a vaidade. que não podemos tomar juízo perante tais deslizes. logo seu ego. Nos momentos de angústia tanto de Xixi quanto de seu neto a fome torna-se mais grave. Por exemplo. elemento tão presente no tear na narrativa. Ao longo da novela nosso herói comete várias pequenas mentiras.respeito à sabedoria dos mais velhos.

não perfaz a personalidade dos monandengue. de criança ainda” (p. “vavó encontrou a sua coragem antiga. também. como no conto Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos.Fala. que o riso tem um papel fundamental em Xixi.sapatos solapados. “A autoridade de mais “peso”. As crianças são representadas por Beto e Xico. o riso se caracteriza por ser um elemento renovador. que Cabíri colocou na casa da vizinha. é um musseque.. não há descrição ou pistas sobre a composição física de Xico e de Beto. No final da O narrador em nenhum momento revela a idade do pequeno. e o efeito de humor causado pela história de nga Tita.51) A estória da galinha e do ovo As personagens infantis figuram neste conto como coadjuvantes de uma enredo que gira em torno de um quiproquó entre adultos. É interessante frisar. Bebeca transfere . a senhora que é a mais velha. Vale ressaltar novamente que o espaço ficcional. novamente. Luandino nos induz na crença de que Zeca Santos teria mais idade do que parece ter.”. e de que elas portam um papel no meio social relevante. somente nos oferece pistas. vavó?!. devido as atitudes e preocupações um tanto fora de tempo. entrando com contraposição com a miséria.. é da vavó Bebeca: “ – Então. em compensação ela torna-se um alívio da pobreza extrema. na trama. parecia era monandengue. Pela confiança dada nos relatos das crianças podemos deduzir que seus relatos são de confiança. Diferente no conto analisado anteriormente. como o trabalho. Somente no fim da estória de ao se desesperar pela fome ele nos ombros de Vavó Xixi. a chorar lágrimas compridas e quentes que começaram a correr nos riscos teimosos as fomes já tinham posto na cara dele. então. Nos momentos de maior míngua. Mesmo com extrema fome. “desatou a chorar um choro de grandes soluções. Temos aqui os meninos como pivô e testemunha de confusão estabelecida sobre a propriedade de um ovo. sua alegria de sempre”. O narrador.

E se as pessoas tivessem dado atenção nesse olhar tinham visto logo nem os soldados que podiam assustar ou derrotar os meninos do musseque...” Seriam Beto e Xico mais espertos e astuciosos do que a gente grande? . para afastar um pouco essa zanga que estava em todas as caras. em A estória da galinha e do ovo. seja como pedintes de tostões ao Vitalino. que comumente aparecem ligados.” Os guris são responsáveis pelo desfecho. A todo instante eles “zombam” da confusão. só viram. depois desaparecer na fogueira dos raios de sol. continuou a provocar o mona. vermelho dos lados e. Os guris. No fim do conto.” Em dado momento vavó indaga se a galinha está a dizer sobre a pertença do ovo. A pergunta tem uma intenção de provocar o riso. a união da dupla de amigos é festejada. Pois são os únicos ali que tem o poder de “entender” a linguagem dos animais. o bicho ficar num corpo preto no meio. por querer o ovo pra si. somado a sensibilidade no relacionamento com Cabíri? “Foi Beto. um tanto fantástico. eles representam não só Beto e Xico. que gostava de bica quando faziam isso. quase nunca desprendidos um do outro. que tirou o ovo sem assustar a Cabíri. são portadores do riso e da alegria. provavelmente português: “ O melhor perguntamos anda no sô Zé.Ele é branco. do conto.. A galinha devido o emaranhado de vozes de galos cantando (feita pelos meninos) alça vôo e escapa “na direção do sol. causando confusão entre os soldados e a maioria dos adultos. logo. ou na zombaria com o sô Lemos. a autoridade de sô Zé é destituída. mas toda uma coletividade dos miúdos do musseque: “Beto e Xico miraram-se calados. os seus olhos brilharam e. já que o riso constituiu uma espécie de “válvula de escape” em momentos tensos: “Vavó Bebeca sorri.” Contudo. com sua técnica.a autoridade para o dono da quitanda. e são os únicos que se “preocupam” com o conforto da galinha.” A todo instante há interferência de Beto e Xico.. com a iminência da galinha ser levada pelos soldados. de repente.

o próprio Ricardo afirma: “Quando eu era o teu amigo Ricardo. a sociedade não perdoa a amizade entre os dois. assim fixarmos uma imagem concreta de definitiva de Nina. da mesma forma que a psicológica. em A fronteira de asfalto. etc. os dois protagonistas são as crianças Marina e Ricardo. um pretinho muito limpo e educado. morador do musseque (espaço privilegiado por Luandino Vieira. A relação entre os miúdos se circunscreve numa amizade profunda e recíproca. a maior marca limitadora de suas relações não é o asfalto e sim a cor negra do menino pobre do musseque. tanto para Nina que sofre repressão em todos os espaços: escolar. Em nenhum momento a graça aparece na trama. Limite violento e destroçador na vida das crianças. olhos azuis. Lembremos que este mundo se caracteriza por ser além de racista. Podemos afirmar que as crianças sofrem violência psicossocial no decorrer de toda a estória (estória?).A fronteira de asfalto No tenso conto A fronteira de asfalto. segregacionista. Diferente dos contos acima analisados. familiar. muito branca como a neve. como o riso. Em toda a trama as tranças/cabelos/caracóis loiros de Marina são ressaltados para. Apesar do título do conto ser A fronteira de asfalto. Quanto para Ricardo. O asfalto (negro) . Não cabia nos parâmetros da sociedade angolana a amizade entre uma branca de lindos cabelos loiros e um negro. A caracterização física das personagens é feita de maneira fragmentária no conto. pele branca. Nesta narrativa há um conflito assumido entre os amigos e o mundo. a pressão do meio direcionada aos dois é grande. ambos tem sentem um intenso carinho pelo outro. Vale notar que na infância primeira. que tem a alma dilacerada pela situação desconfortável. não há elemento de escape. a amizade entre os dois não causava nenhum estranhamento entre os adultos. nos três contos desta comunicação). Marina tem as tranças loiras.” O embate surge então quando ambos atingem certa idade entre a infância e a pré-adolescência. De Ricardo sabemos somente da negritude de sua cor e da carapinha preta na sua cabeça. segundo Ricardo.

Na noite ficou o grito loiro da menina de tranças. Anatol. 2007 LUANDINO. 2005 . O Toni ladrava. Afinal. segundo a mãe de Nina “um preto é um preto. A. Anatol Rosenfeld. (textos de Antonio Candido. No fim do conto. José Vieira. Luuanda.”.. et al.. a cor. Luandino. para o grito desesperado de Nina: “Luzes acenderam-se em todas as janelas. 1982 ROSENFELD. com a trágica morte de Ricardo. 1972. São Paulo: Companhia das Letras.separará inevitavelmente os dois. A personagem de ficção . A cidade e a infância. São Paulo: Editora Ática. o narrador transfere uma característica imanentemente física. Texto e Contexto I São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Perspectiva.” Bibliografia: CANDIDO. Décio de Almeida Prado e Paulo Emílio Salles Gomes) VIEIRA.

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