Diálogo sobre a ética kantiana

Diálogo sobre a ética kantiana

Luís Veríssimo Colégio de Amorim, Póvoa de Varzim João: Estou profundamente desiludido com a teoria de Kant. Francisca: Pois eu nunca engoli muito bem a ética kantiana. Dá excessiva importância à intenção, mas esquece-se de que na prática só temos acesso às consequências. Maria: O quê? A mim parece-me uma excelente teoria. Julgo que o imperativo categórico ("Age unicamente de acordo com a máxima que te permita querer a sua transformação em lei universal") é realmente um princípio ético fundamental e universal. Fundamental porque é dele que brotam todos os nossos juízos morais, e universal porque qualquer agente racional tem de o aceitar. João: Ora aí está uma coisa que eu não percebo. Porque é que o imperativo categórico é um princípio racional? Porque é que uma pessoa racional não pode rejeitá-lo? Maria: Hmmm... Uma pessoa racional tem de ser coerente, não é? João: Sim, e depois? Maria: Então imagina que alguém diz isto: "Eu posso quebrar as promessas que faço, mas não quero, aliás não posso querer, que todos quebrem as promessas que fazem." Julgo que quem pensa assim, rejeitando o imperativo categórico, está a ser incoerente, não te parece? Julgo que o imperativo categórico é uma simples exigência de coerência que nos impede, entre outras coisas, de abrir excepções convenientes para nós próprios. Portanto, qualquer pessoa racional tem de aceitá-lo. João: Talvez tenhas razão... Talvez seja verdade que, como agentes racionais, temos de agir apenas segundo máximas que possamos universalizar. No entanto, este princípio parece-me vazio, uma pura formalidade sem as implicações práticas que Kant pretendia. Não serve, por exemplo, para resolver conflitos entre deveres. Maria: Como assim? João: Imagina que um amigo teu está a fugir de um assassino e pede para se esconder em tua casa. Atrás dele vem o assassino e pergunta-te se essa pessoa se escondeu em tua casa. Segundo Kant, devo dizer a verdade em todas as circunstâncias, uma vez que os nossos deveres são categóricos, ou seja absolutos e incondicionais. Mas também temos o dever de ajudar um amigo em necessidade, porque não posso querer consistentemente que toda a gente deixe de ajudar os amigos em necessidade (isso não só me impediria de poder ajudar os meus amigos, como também me deixaria privado de toda a chance de obter ajuda quando precisasse). O que devo fazer nesta situação? Francisca: O problema é esse, para encontrar um princípio absoluto e universal, Kant parece ter-se esquecido das circunstâncias concretas em que nos encontramos quando

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acho que podemos admitir que o imperativo categórico nos impede de mentir a torto e a direito e de maltratar o próximo. no entanto.. o mais correcto seria mentir e afastar o assassino do nosso amigo. 2 ... Maria: Como assim? João: É vazia de emoções. Não me conformo com isso. Maria: Que queres dizer? Francisca: Kant apresenta outra formulação do imperativo categórico. racionais. acho que o papel que Kant atribui às emoções assume contornos pouco humanos. Maria: Mas repara que se toda a gente andasse para aí a mentir. João: Bem.. em vez de agir por dever. Mas. a simpatia e o remorso não ter nada a ver com a moral?! Maria: Estás-te a referir àquela passagem em que Kant nos fala de uma pessoa que seja de tal modo compassiva.. é esse tipo de comportamento que Kant espera de agentes morais. dado que se está a deixar guiar por um gosto (ou inclinação) pessoal e subjectivo. Acho que Kant responderia a isso dizendo simplesmente que o sadomasoquista não está a ser um agente moral. na tua pessoa ou na pessoa de outrem.agimos. Como podem emoções como a compaixão. sempre como um fim em si e nunca apenas como um meio. O lugar que Kant atribui aos animais não-humanos na sua ética é simplesmente vergonhoso. que nos diz: age de tal forma que trates a humanidade. agindo deste modo não por puro dever mas por inclinação. certo? João: Sim.. Francisca: E por falar em humanos. que sem nenhum tipo de interesse ou vaidade. continuo a achar que a ética kantiana é vazia. um sado-masoquista poderia querer que a máxima "maltrata o próximo" se transformasse numa lei universal. A mim parece-me claro que. a mentira deixaria de fazer sentido. Maria: Hum. E. esta máxima vai contra aquilo que intuitivamente achamos correcto. racional. Francisca: Acho que existe aqui outro problema! Maria: Que queres dizer? Francisca: Suponhamos que estou disposta a aceitar que só devemos executar as acções que tenham origem em máximas que possamos querer ver transformadas em leis universais. Francisca: Pois bem. neste caso. Maria: Sim. se alegra ao espalhar a alegria à sua volta. porque toda as pessoas deixariam de acreditar umas nas outras. ainda assim.

Kant diz coisas como "no que diz respeito aos animais. o tratamento que Kant prevê na sua ética para os criminosos é desumano. o problema é que.." João: Que horror! Francisca: Nesse aspecto. Francisca: Bentham afirmou que "Toda a punição é danosa". Francisca: Pois. se alguém maltrata um ser humano é porque acha que essa é a forma como devemos tratar as pessoas. Os animais [. mas de tratamento. involuntariamente por causar várias mortes 3 . mostra não ter respeito pelas normas sociais. João: O que quer isso dizer? Francisca: É tipo "Olho por olho. dente por dente": o crime deve ser pago na mesma moeda. João: E o que aconteceu ao "trata a humanidade sempre como um fim em si mesma"? Maria: Calma. a dignidade humana. Alguém que viola a lei. O retributivismo leva-nos a aumentar. o utilitarismo veio finalmente propor uma teoria ética que coloca animais humanos e não-humanos na mesma categoria moral. ou seja. quando decidimos correctamente o que fazer. o que quer dizer que nos casos de homicídio Kant era a favor da pena de morte. antes de mais.] existem apenas como meios para um fim. João: Como assim? Francisca: A sua teoria é retributivista. Isto significa que idiotas bem-intencionados que acabem. mas isso só vem salientar o valor intrínseco que temos enquanto seres racionais. Isto porque punir implica sempre tratar mal as pessoas.. Maria: E como defende o utilitarismo que devemos tratar os criminosos? Francisca: Os criminosos não precisam de punição. Kant explica isso da seguinte maneira: segundo o imperativo categórico. Não oferece quaisquer regras que permitam orientar-nos na prática. Mas enquanto está detido. por isso deve. não temos deveres directos. e não a diminuir. a quantidade de sofrimento no mundo. e não devemos retribuir o mal feito com outro mal. além disso. não achas que também existem aspectos positivos? Francisca: Eu acho que a ética kantiana está desactualizada. Além disso dá demasiada importância à intenção. Esse fim é o homem.Maria: Sim. e no dia-a-dia lidamos sobretudo com as consequências das nossas acções. e torna-se potencialmente perigoso para a sociedade. Maria: Mas só estás a considerar os aspectos negativos da ética kantiana. e por isso é assim que quer ser tratado. ser detido. deve ingressar num programa de reabilitação tendo em vista a sua reinserção na vida em sociedade. E ainda há mais. é porque podemos querer que a máxima subjacente à nossa acção se converta em lei universal.

.K. João: Tens razão vamos embora. já percebi. O primeiro prende-se com o facto de procurar o fundamento da moral em nós próprios. Este requisito é o garante da imparcialidade exigida por toda e qualquer norma moral. E em relação ao segundo aspecto.. já viram as horas? Acho que esta conversa vai ter de esperar ou perdemos a camioneta. só somos responsáveis por aquilo que podemos controlar. a universali. João: O. um juízo moral é diferente da expressão de um gosto pessoal.. Maria: Isso explica-se porque as consequências das nossas acções escapam muitas vezes ao nosso controlo e. nesse ponto estou de acordo com Kant. João: Por falar nisso. Maria: Então é assim: se alguém diz "Eu gosto de chocolate". e se a pessoa não nos puder dar qualquer boa razão podemos rejeitar o conselho como arbitrário ou infundado. Maria! Maria: Até amanhã. temos de reconhecer que os juízos morais têm de se apoiar em boas razões.. 4 . dever implica poder. está apenas a declarar um facto sobre si mesmo. Pode-se legitimamente perguntar por que motivo se deve fazê-lo (ou por que razão seria errado fazê-lo).. João: Sim. Até amanhã. não necessita de apresentar razões para isso.. Teria de ser uma máxima que se aplicaria de igual modo a todas as pessoas. a igualdade de todos os cidadãos face à lei é um pressuposto básico de todas as sociedades democráticas do mundo contemporâneo. Maria: A universalizabilidade. gostava que me falasses um pouco mais sobre eles. para Kant. Quer concordemos na totalidade com a teoria kantiana quer não. João: Que queres dizer? Maria: Repara. podem ser moralmente inocentes à luz da teoria de Kant. aliás. a máxima subjacente teria de ser universalizável. João: Sim. como achas que se passa do plano moral ao plano legal? Francisca: Pessoal.. nada mais. João: Muito bem. para que uma acção fosse moral. ou seja. Maria: Agora suponhamos que alguém diz que eu devo fazer isto ou aquilo (ou que fazer aquilo seria errado). mas gostava que explicasses melhor. continua. na nossa capacidade racional. Como vimos. mas espera aí! Perguntavas há pouco se não existiriam aspectos positivos na ética kantiana. entendo isso. Maria: Gostaria de destacar essencialmente dois aspectos: a autonomia e a universalizabilidade.. em particular. E. Kant pensava que.em consequência da sua incompetência.

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