NÚMERO III - ABRIL DE 2012 - CAXIF/UFSC

80 anos
O Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, que neste ano completa 80 anos de existência, é reconhecido nacionalmente por seu pioneirismo e sua tradição. O Centro Acadêmico XI de Fevereiro valoriza essa tradição, mas entende que ela é insuficiente para definir o nosso Curso, pois falar do Direito UFSC exige muito mais do que simplesmente aclamar a sua história. Precisamos, sobretudo, pensar nas atuais condições em que ele se encontra e planejar seu futuro, tendo sempre em mente o papel central que o nosso Curso desempenha na UFSC e na sociedade. Nesse sentido, devemos nos questionar cotidianamente sobre a qualificação dos profissionais de Direito que formamos e, em especial, sobre a contribuição concreta que o nosso Curso dá (ou não) à sociedade que o paga. Afinal, será que ainda somos tão críticos quanto fomos nos tempos de Luís Alberto Warat? O CAXIF, que busca garantir os interessses dos estudantes e defende uma universidade pública, gratuita e de qualidade, acredita que o Curso, a despeito do que dizem os rankings ou as estrelas da Editora Abril, precisa ser posto em xeque. É somente por meio de uma rigorosa autocrítica quanto às mazelas da nossa graduação que a tradição da qual nos orgulhamos transcenderá a mera retórica e os estudantes dessa instituição passarão a ser a diferença na sociedade. Por isso, o Centro Acadêmico XI de Fevereiro tem se empenhado ao longo do último ano em fazer uma séria avaliação do nosso Curso. Trata-se de um momento em que os estudantes param as atividades de sala de aula e procuram identificar, por meio de momentos coletivos de discussão, os problemas estruturais da graduação, bem como propor, a partir disso, soluções. Essa avaliação considera não apenas a opinião dos estudantes, mas também a dos professores e da Direção. O CAXIF acredita que essa é uma importante ferramenta para que o nosso Curso continue sempre sendo uma referência. Da esquina da Praça XV com a Rua Felipe Schmidt, passando pela Rua Esteves Jr. n° 11 e chegando ao Campus Universitário da Trindade transcorreram 80 anos. É momento de homenagear o nosso Curso de Direito e lembrar a sua história e a sua tradição, mas sem esquecer que é preciso fazer mais todo dia; é preciso pensar o Curso de Direito da UFSC e fazê-lo sempre pensar. Somente assim, construiremos um curso que seja, ao mesmo tempo, de excelência e transformador do próprio Direito e da sociedade.

EDITORIAL

O silêncio do departamento
No último semestre, o CAXIF realizou a primeira avaliação do curso de Direito da UFSC baseada em momentos coletivos de discussão entre discentes e docentes. Como síntese do diagnóstico dos estudantes em sala de aula e das conversas com os professores, bem como da Assembleia Geral estudantil realizada durante a XV Semana Jurídica, o Centro Acadêmico redigiu uma carta sobre o processo de avaliação, documento que foi entregue ao Chefe de Departamento no dia 07/12/2011. Dentre outros problemas estruturais do curso de Direito da UFSC, o CAXIF discutiu a política irresponsável de contratação de professores substitutos e suas implicações sobre o famigerado tripé ensino-pesquisa-extensão. Nesse sentido, reivindicamos, por exemplo, que o Chefe de Departamento apresentasse uma previsão de professores que se aposentarão ou se afastarão do curso; que fosse apresentada uma planilha das áreas em que temos professores na casa e, com base no currículo, que fosse indicado o número de professores de que precisamos para cada área e que os estudantes tivessem participação efetiva nos próximos concursos de professores, efetivos ou substitutos. Ao final da carta, solicitamos ainda: “[...] que professores, Departamento de Curso, Coordenação de Curso e Direção de Centro apresentem uma resposta efetiva a essa carta, comprometendo-se com as solicitações dos estudantes ou, ao menos, expondo pública e objetivamente os motivos pelos quais elas não podem ser atendidas.” Até hoje, não recebemos resposta alguma. Além disso, em meados de fevereiro, fomos surpreendidos por um concurso para professor substituto de Direito do Trabalho e Prática Jurídica, cuja realização fora reiteradamente solicitada pelo CAXIF durante o último PAD e negada com veemência pelo Chefe de Departamento. Talvez muitos de vocês estejam pensando: “O concurso afinal aconteceu. Agora temos um professor substituto de Direito Individual do Trabalho que fez uma prova para essa área e não um professor substituto que passou em oitavo lugar de um concurso para Processo Civil. Qual é o problema?” Bom, isso não seria um problema se o cronograma de provas do concurso tivesse sido adequadamente divulgado, de modo a permitir que o CAXIF pudesse acompanhar o processo, o que não ocorreu. O problema está, portanto, na postura de descaso do Departamento para com os resultados de uma avaliação de curso que se pautou justamente pelo diálogo e para com a entidade que representa os estudantes, maiores interessados na qualidade do corpo docente do CCJ. O CAXIF entende que é sim da alçada do estudante ajudar na escolha dos professores que depois estarão em sala de aula. Por isso, repudiamos a atitude do Departamento, reafirmando assim nosso compromisso de lutar por uma real participação estudantil nestes processos e de acompanhar os três concursos para contratação de professores efetivos que ocorrerão neste semestre.

SUMÁRIO

01 03 05 06 07
2

80 anos

Centro Acadêmico XI de Fevereiro

08 Biscoitos de chocolate recheados
Carlos Martins da Silva

De Orwell a Zizek
Felipe Dutra Demetri

Parvos patos criticando e grasnando e seguindo a canção
Francisco Yukio Hayashi

09

O que a representação discente fez no ano passado
Centro Acadêmico XI de Fevereiro

ORGANIZAÇÃO:

APOIO:

Vandalismo eletrônico ou ativismo cibernético: a problemática dos ataques de negação de serviço
Eduardo Luiz Venturin

Inevitável desejo

::500 exemplares::

::folhaccj@gmail.com::

Carlos Martins da Silva

FOLHA ACADÊMICA NÚMERO III

DIREITO EM DEBATE: LIBERDADE DE EXPRESSÃO

De Orwell a Zizek

bolsista do Programa de Educação Tutorial - PET

Felipe Dutra Demetri

No dia 28 de outubro de 2011, o colunista e blogueiro da revista Veja, Reinaldo Azevedo (ou Rei como alguns preferem chamar), publica um e-mail enviado por um estudante da Universidade Federal de Santa Catarina. A pequena mensagem eletrônica diz respeito ao império da esquerda na universidade: onde estudantes militantes promovem palestras de facções bolivarianas; onde a Venezuela é exaltada como uma grande democracia; que estudantes do CAXIF fumam maconha para depois discutir sobe segurança pública. Trata, também, do Seminário Direito e Neoliberalismo, promovido pelo PET-Direito, e faz referência, possivelmente, a sua tutora, que teria “babado de raiva” e que seria “filiada ao PT”. Fala, ainda, de uma aliança entre militantes e professores esquerdistas. O e-mail reconhecidamente carece de fundamentos na realidade e está repleto de imprecisões factuais. Mas não é isso que me incomoda agora. O blogueiro Reinaldo Azevedo e o estudante indignado são os elementos que menos me chamam atenção. O que quero, neste espaço, é falar um pouco sobre liberdade de expressão. Existe um livro chamado Revolução dos Bichos, do militante socialista George Orwell, lido e aclamado em todo o mundo. Trata-se de uma distopia dos totalitarismos do século XX. O texto foi utilizado, durante a Guerra Fria nos EUA, como propaganda antirussa barata (e continua sendo usado de forma oportunista até hoje). Por mais que de uma obra artística possam se desdobrar os mais diversos sentidos e significações, esse tipo de apropriação panfletária nunca foi o verdadeiro objetivo do autor, sendo preciso, então, contextualizar. A intenção declarada de Orwell era de realizar uma crítica inteligente ao regime totalitário soviético, num período onde a Inglaterra se aliara com a URSS para vencer o nazismo. Nesse sentido, a maioria das críticas de esquerda ao regime dos soviets, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, eram suprimidas. Segundo o autor, essa censura não se dava de forma declarada e autoritária por órgãos oficiais do governo britânico, mas de uma outra forma muito mais sutil e branda, de modo que os editores julgavam a publicação do livro como “inoportuna” e “inadequada”. Diz o autor que esse elemento “voluntário” (sem necessidade de proibição oficial) constituia o pior da censura literária na Inglaterra, pois não era exatamente proibido fazer essa ou aquela crítica, mas certas coisas simplesmente não podiam ser ditas. Lendo os comentários no blogue de Reinaldo Azevedo referentes ao e-mail do estudante, podemos ver coisas como: 1) “Reinaldo, sou estudante do cursinho Objetivo aqui de Ribeirão Preto, e o dois professores de História fazem mais propaganda política de esquerda, do que dão aula. Fico “puto” da vida! Não há nenhum meio de enquandrar esses professores? Denunciandoos em algum orgão, por exemplo.”; 2) “Você ACREDITA QUE A PROFESSORA DE CÁLCULO, CÁLCULO, não era de “história”, uma ESQUERDOPATA AVÓ! AMAVA CHAVEZ, FIDEL e abominava TUDO que não fosse de ESQUERDA, nas aulas sempre pregava a “ideologia” dela, viveu a época da ditadura, amargurada, ela queria a OUTRA DITADURA, a de ESQUERDA. (grifos da autora)”; 3) “Coisas parecidas acontecem nas faculdades privadas também. Quando fiz Comunicação/Publicidade em uma, tive que engolir na sala de aula as teorias de cultura de massa de Theodor Adorno, aquele marxista alemão que odiava televisão”.

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DIREITO EM DEBATE: LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Pois bem. Ao contrário do cenário que esses comentários, o referido e-mail e o blogueiro em questão tentam insistentemente montar, o espaço da crítica de esquerda, tanto na academia como no espaço público em geral, é altamente reduzido. De um lado, os conservadores e liberais criticam o atual governo não pelo seu direcionamento político, e sim na forma de gerir o aparato estatal; ou seja, é uma crítica quase técnica, sem um caráter de disputa política (afinal, o plano econômico do governo agrada os setores mais abastados). Do outro lado, temos um grande consenso em torno do atual governo, onde as impressionantes estatísticas econômicas e sociais ocultam problemas sérios e que, normalmente, não são discutidos. Um pequeno exemplo é a construção da usina hidrelétrica em Belo Monte, assunto que tem pouca relevância nas manchetes dos grandes jornais. O atual governo, composto majoritariamente por um partido de tradição de esquerda, parece acomodar-se na democracia capitalista, vista como a forma última de definir a política numa sociedade. Criticar o desenvolvimentismo é ocupar uma posição anacrônica. Portanto, assim como já disse Saramago, não se discute a democracia liberal-capitalista, pois qualquer debate em torno desta é visto como um atraso ou uma forma de impedir o desenvolvimento. Mais ainda, representaria também uma posição autoritária, como se o debate em torno das formas de governo se desse no âmbito democracia liberal versus ditadura. Diante deste palco onde os atores representam apenas um teatro de disputa, parece pertinente o modo como o filósofo esloveno Slavoj Zizek trata o tema. De acordo com o autor, estamos desprovidos de uma linguagem adequada para articular nossa total falta de liberdade. Explico. Atualmente, a democracia liberal-capitalista é sacrossanta tal qual Stalin no período pré-guerra, e não se pode discutir essa forma de governo pois ela representaria o ponto culminante do desenvolvimento humano. “Podemos imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo”, diz Zizek. Portanto, é evidente que um seminário que tem como tema o Neoliberalismo sob um viés crítico não tenha um estrondoso sucesso de público, pois essa discussão é “anacrônica” e “inoportuna”. Nesse mesmo sentido, os estudos conduzidos pelo IELA (que nada tem a ver com uma “facção bolivariana”) para identificar as mudanças na América Latina, ou seja, as novas formas de gover-no, as novas constituições e as alternativas ao modelo de democracia liberal-capitalista sejam, também, vistas como “inapropriadas” ou alinhadas com a “ditadura chavista”. Assim como adverte Orwell, avança entre nós uma censura branda, onde certos debates são colocados de lado em função de um objetivo maior. Quando a crítica é amortecida e grandes consensos são forjados, é função da academia não se calar e partir para uma alternativa séria e comprometida. Enquanto existir esse “silenciamento voluntário” nos dizendo que criticar é algo que não se faz, maior deve ser a nossa voz para desconstruir certas ideologias e consensos. Alguns podem ver como ingenuidade a construção de uma outra sociedade, mas acredito que essa postura é infinitamente melhor que lidar com um frustrante fardo: aquele que nos diz que vivemos no melhor dos mundos...

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FOLHA ACADÊMICA NÚMERO III

DIREITO EM DEBATE: LIBERDADE DE EXPRESSÃO

PARVOS PATOS CRITICANDO E GRASNANDO E SEGUINDO A CANÇÃO
Francisco Yukio Hayashi
Não desperdiçarei tinta e espaço divagando a respeito do que especificamente tratamos quando defendemos intrepidamente a liberdade de expressão. Ao modesto fim dessas poucas linhas, basta esclarecer que suponho auto-evidente ser a liberdade de opinião englobada pela liberdade de expressão. Parece-me também inquestionável que somente com a livre exposição de diversas opiniões ocorrerá o debate necessário a toda sociedade democrática. Quero abordar uma questão referente ao recorrente debate da liberdade de expressão, ao meu ver essencial, que parece ter sido esquecida completamente: Como exercitar nosso direito de liberdade de opinião, se não tivermos...opinião? Não me refiro a simples palpites, mas da opinião emancipadora. Opinião sincera, fundada em critérios objetivos. Opinião que demanda interesse, exige estudo e dispêndio de tempo. Conquistá-la é para poucos. Precisamos nos afastar de nosso eu egoísta, que confunde razão e paixão, transcender nossa própria relação com a situação sobre a qual queremos nos manifestar. Apenas após esse trabalho hercúleo, teremos uma opinião verdadeiramente livre. Mas, já perceberam que nós brasileiros temos “opinião” sobre tudo? É que, como disse Benjamin Franklin, “qualquer tolo pode criticar, condenar e reclamar. E a maioria dos tolos o faz”. Parecemos não ter a capacidade de ficar calados, ou dizer o antiquado “não sei”. Questionados sobre qualquer assunto, não conseguimos – e nem queremos - controlar o turbilhão de palavras que vem sei lá de onde. Afinal, o importante é se manifestar, é ser participativo e celebrar a democracia! Mas, ora, qual a razão (e digo razão na acepção de inteligência) do indivíduo que apresenta sua “opinião”, se, de fato, ele não tem uma? Nós não gostamos, não estamos satisfeitos, queremos transformar, desejamos renovar, mas, o quê? “Ah, as coisas, a sociedade, o sistema, tudo”. Ora, a bem da verdade, não entendemos tudo, entendemos praticamente nada. E quem somos nós para criticar o que não entendemos? Do jeito que estamos a liberdade de expressão é mera formalidade. Basicamente, nos igualamos a patos, só fazemos grasnar. Somos patos parvos impotentes seguindo a canção que é tocada para nós.

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DIREITO EM DEBATE: LIBERDADE DE EXPRESSÃO

VANDALISMO ELETRÔNICO OU ATIVISMO CIBERNÉTICO: A PROBLEMÁTICA DOS ATAQUES DE NEGAÇÃO DE SERVIÇO*

Eduardo Luiz Venturin

Instituições públicas e privadas de várias partes do globo enfrentaram recentemente uma onda de ataques de negação de serviço, também conhecidos como ataques DDoS (Distributed Denial of Service). A sistemática da operação consiste em indisponibilizar temporariamente uma página da web obstruindo a conexão ou sobrecarregando o sistema do servidor, através de comandos originados de vários computadores. A ascensão da internet revolucionou a comunicação: se antes os grupos sociais se mobilizavam no boca-a-boca e protestavam em praças públicas com faixas e cartazes, hoje a internet possibilita uma adesão muito mais numerosa num curto espaço de tempo. Enquanto que nos protestos convencionais os participantes obstruem as vias públicas para apresentarem suas reivindicações, nos ataques de negação de serviço os manifestantes se expressam no meio virtual, através da indisponibilização do acesso a determinadas páginas e sua eventual substituição por palavras e imagens de ordem. É preciso diferenciar o mero vandalismo do ativismo cibernético (hackativismo). Da mesma forma que um protesto de rua não pode ter por fim quebra-quebra ou prejuízo a serviços essenciais, as manifestações na rede mundial de computadores precisam obedecer a certos preceitos. Para que a ação não seja abusiva, a interdição do serviço deve ser temporária, além de não trazer prejuízos permanentes ou interceptar o banco de dados da instituição atingida. Na mesma perspectiva, é reprovável o controle de computadores de terceiros sem o devido consentimento por meio de programas infecciosos (botnets) para participarem das mobilizações. A liberdade de expressão, assim como todos os Direitos Fundamentais, não é absoluta – seu exercício é limitado no caso concreto pela supremacia de bens jurídicos mais relevantes. Contudo, sua restringibilidade deve ser a exceção, tendo em vista que é inconcebível um Estado Democrático de Direito que prescinda da ampla garantia à liberdade de expressão. É essencial assegurar o direito à manifestação popular em todos os meios, sobretudo no ambiente digital, caracterizado desde sua concepção como um campo aberto para a disponibilização de informações e o compartilhamento de ideias.

* Artigo fruto da Conferência sobre crimes cibernéticos (ICCyber 2011)

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FOLHA ACADÊMICA NÚMERO III

CULTURA

INEVITÁVEL DESEJO

Carlos Martins da Silva

E tu vieste ao mundo pronta para sentir amor. Amparando o que é tão necessário por mim, O cuidado vital as minhas ideias. Desculpe-me pelo tempo que não tivemos, E desculpe-me também pelos beijos que sempre esperaste. Fizeste-me tanta falta mesmo sem nos conhecermos. Mas tua alma, ela me buscava com o cheiro do teu corpo. Em minha presença percorria caminhos por que andava solenemente. Assim distraído, por tão longe, compreendi o teu chamado suave. E cada toque, e cada olhar, e cada suspiro teu não pensados em mim, Já me pertenciam na eternidade irrevogável da tua existência. A tua dor, incompreendida por tantos, transparente para mim. Decifrável a níveis inimagináveis pelo sentimento conjunto que há entre nós dois. Foram escolhas, feitas em papel marcado, que trocaram nossos encontros. Mesmo assim, convergência inevitável. E se buscas a ordem precisa para a tua felicidade. Percebe a volúpia que arde por mim. Pois o encontro aconteceu, teus desejos acontecem, Teu controle esmaece, tua vontade surpreende, E o meu toque há de liberar o que mais importa para ti, Compreendendo cada olhar em segundos premeditados. Possuir-te não é mais um desejo, é a ordem emanada do teu coração.

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CRÔNICAS

BISCOITOS DE CHOCOLATE RECHEADOS

Carlos Martins da Silva

Rômulo Augusto é um cara trabalhador. Daquele tipo que só finaliza o expediente depois que terminar toda a tarefa programada para o dia de trabalho. E faz isso com seriedade, enfrenta até as constantes piadinhas dos colegas sobre um tal de Ricardão, amigo da sua esposa. Não é isso o mais notável em Rômulo Augusto. O que todos admiram é a capacidade que ele tem de sempre saber resolver as coisas. Ele tem solução para tudo, e constantemente nega precisar da ajuda de alguém. Outro dia, chegando a sua casa após uma tarde cansativa de trabalho, depara-se com sua esposa na cozinha, pensativa e angustiada. Incomodado com o que vê, Rômulo Augusto pergunta a ela o que aconteceu. _Estou preocupada com o nosso filho. – Comenta a esposa. _O que há de errado com o Caio Otávio, minha querida? Andou tirando notas baixas na escola? _Antes fosse isso, meu bem. Sinto ser algo muito mais sério. Rômulo Augusto já bastante preocupado, e vendo que sua esposa tão cedo se apressaria em contar de vez o que havia de errado com seu filho, tenta sutilmente acelerar a conversa utilizando o elevado conhecimento em psicologia feminina que herdara do pai: _Desembucha mulher! Conta logo o que aconteceu que eu tenho mais o que fazer! De imediato e falando baixinho para que o filho deitado no sofá da sala não ouvisse a conversa, a esposa explica que o menino chegou da escola muito estranho. Não respondeu nenhuma das perguntas que ela fez sobre a aula, não quis jogar videogame, negou até o convite do melhor amigo para jogar bola na frente de casa, como fazia sempre. Passou o dia todo deitado no sofá, e com uma carinha muito triste, disse ela. _Mas não foi isso o que mais me preocupou, Rômulo Augusto. – Diz a esposa querendo criar suspense. _Depois de muito perguntar o porquê dele estar daquele jeito, recebi uma resposta nada animadora. Ele disse que não sabia dizer ao certo o que era, mas que no fundo, sentia-se muito vazio por dentro, e ficou de cara fechada o dia todo. Não sei não, Rômulo Augusto. Acho que temos que levar o Caio Otávio a um psicólogo o mais rápido possível. Pode ser que seja um problema grave de depressão infantil. Rômulo Augusto com cara de bravo protesta: _Tá maluca mulher? Gastar dinheiro com essas bobagens quando podemos resolver isso aqui mesmo, em casa? Você acha que não posso ajudar nosso filho? _Não é isso Rômulo Augusto, só acho que nem sempre você pode resolver as coisas do seu jeito. Sentindo-se desafiado, o marido fica em silêncio por um instante, coça a cabeça vagarosamente com o mesmo dedo que a pouco servia de utensílio para aliviar uma leve coceira no nariz. _Cadê aquele pacote de biscoitos de chocolate recheados que compramos ontem no Mercadinho do Bira? _No armário de cima, terceira porta à direita. – Responde a esposa, curiosíssima. Rômulo Augusto encontra o pacote de biscoitos e sem pestanejar grita ao filho: _Caio Otáaaaavio? Sabe aquele pacote de biscoitos de chocolate recheados que eu comprei ontem? _Sei sim, pai. – Responde meio surpreso e já se endireitando no sofá. Quer ele todo pra você? _Quero, pai! Claro que quero! – Responde o filho de pé, já em frente ao pai e com um sorrisão de orelha a orelha. _Toma, é todo seu! Ao entregar o pacote de biscoitos, Rômulo Augusto vê o filho sair pulando e gritando todo feliz: _Eba! Eba! Eba! A mãe do garoto conservando uma cara de espanto, com uma bocona aberta e os olhos arregalados, não consegue dizer uma só palavra diante de tudo que vê, mas Rômulo Augusto sim, ele sempre tem algo a acrescentar. Olha para esposa fazendo cara de quem resolveu o problema mais uma vez, dá um tapinha nas costas dela e diz: _Se um dia você sentir um vazio dentro de você, coma que é fome.

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FOLHA ACADÊMICA NÚMERO III

MURAL

O QUE A REPRESENTAÇÃO DISCENTE FEZ NO SEMESTRE PASSADO

Centro Acadêmico XI de Fevereiro

Embora nem todos os estudantes conheçam a organização das instâncias deliberativas do Centro de Ciências Jurídicas, as decisões tomadas nos Colegiados de Curso, de Departamento e no Conselho da Unidade afetam diretamente o nosso cotidiano. É por esse motivo que participam desses espaços deliberativos representantes discentes, os quais são eleitos a cada nova gestão do Centro Acadêmico. A gestão Primavera nos Dentes, eleita em maio de 2011, elencou como um dos seus princípios fundamentais a integração dos estudantes com a Universidade, a qual corresponde justamente à busca por desmitificar, por meio do estabelecimento de um diálogo com o corpo discente sobre este tema, o monstro da política estudantil. É nesse contexto que o CAXIF vem relatar o papel desempenhado pela representação discente no último semestre, o que, por sua vez, está intimamente ligado ao processo de avaliação de curso aplicado a partir de meados de setembro de 2011. Caso 1: Estágio probatório não é burocracia Era o último semestre de estágio probatório do(a) docente, depois do qual ele seria efetivado como professor(a) do Departamento do Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Catarina. As avaliações realizadas anteriormente pelo Chefe de Departamento não haviam indicado quaisquer problemas. Aparentemente, não havia empecilhos à aprovação do estágio. As avaliações de curso, contudo, indicaram o contrário, razão pela qual os representantes discentes solicitaram vista dos autos do processo de estágio probatório e redigiram um voto requerendo a aprovação do(a) professor(a) com ressalvas. O voto discutia, primeiramente, as deficiências do método de avaliação do estágio probatório, bem como indicava, concretamente, as dificuldades apontadas durante a etapa coletiva da avaliação de curso pelos estudantes das três turmas a quem o professor ministrava aulas. De modo diverso do que interpretou o(a) professor(a), o maior objetivo do CAXIF era dar sentido à burocracia do estágio probatório e não impedir, por mero deleite, a contratação como efeito(a) daquele(a). Aliás (e não custa reforçar), o processo avaliativo como um todo não se orienta por princípios medievais de caça às bruxas, mas procura sim identificar problemas estruturais do curso, o que passa, necessariamente, pelo corpo docente. Bem, e o que resultou desse imbróglio? As ressalvas do CAXIF não foram aprovadas pelo Colegiado e, extirpadas do processo que seria encaminhado à Reitoria, constaram apenas em ata. Para a aprovação dos estágios probatórios vindouros, decidiu-se que as avaliações dos docentes nessa situação serão encaminhadas diretamente à Comissão do Estágio Probatório. Também se determinou que o Departamento passasse a requerer por escrito a anuência do professor que fosse alocado em disciplina diversa daquela pela qual ingressou na Universidade. O estágio probatório do(a) professor(a) foi aprovado por unanimidade. Caso 2: Representar ou representar O CAXIF acredita no processo de avaliação e o defende, porque percebe nele o possível motor de muitas mudanças necessárias ao nosso curso. É nesse sentido que não conseguimos entender o processo avaliativo descolado de suas conseqüências. Uma dessas possíveis conseqüências é iniciar representações contra docentes que descumpram suas obrigações e requerer, por exemplo, a não renovação do contrato de um professor substituto. E foi isso que o CAXIF fez no semestre passado.

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MURAL
Com base nas avaliações de duas turmas, bem como no relato de integrantes de turmas do semestre anterior que haviam cursado a mesma disciplina com o(a) mesmo(a) professor(a), identificaram-se problemas graves, como atitudes pouco pedagógicas do(a) professor(a) e descumprimento da ementa prevista no currículo do curso. Com base na comparação entre o que foi passado em sala (juntou-se cópia de cadernos cedidos pelos estudantes) e o que deveria ter sido lecionado, bem como questionando, uma vez mais, a contratação irresponsável de professores substitutos, o CAXIF entregou ao Chefe de Departamento solicitação formal requerendo a não renovação do contrato do(a) referido(a) professor(a). A resposta ao pedido veio no dia 29/12/2011. Por considerar que as dificuldades apontadas nas avaliações eram sanáveis, bem como diante da verificação de pontos positivos do(a) professor(a), como pontualidade e assiduidade, e da ausência de reclamações anteriores por parte dos estudantes, o Departamento renovou o contrato do(a) referido(a) docente. Caso 3: O PAD O Plano de Atividades Departamentais de 2011.2 foi marcado, por um lado, pelo aspecto inovador de que as reivindicações estudantis estavam agora calcadas na avaliação de curso e, de outro, pelo vazio tradicional das reuniões. O PAD, infelizmente, não tem público no CCJ e isso reflete não só um descompromisso do Departamento para com esse espaço de deliberação (já que a última reunião do PAD foi marcada para o dia 15/12/2011, às vésperas do Natal), mas também o completo descaso dos estudantes para com o curso, inclusive daqueles que se comprometeram a representar suas turmas. Se mais pessoas freqüentassem o PAD, saberiam que professores avaliados negativamente pelos estudantes tiveram parte de sua carga horária transferida para cursos de pós-graduação de outros cursos; que alguns foram realocados em disciplinas de “Noções Gerais de Direito” e em outras matérias da grade curricular. Descobririam ainda que aconteceram também modificações para que as disparidades na distribuição de professores efetivos e substitutos entre os períodos noturno e diurno diminuíssem. Mas, acima de tudo, se mais pessoas participassem do PAD, perceberiam como o Departamento se aventura em remanejamentos de professores e experiências de política pedagógica questionável, acreditando que estas são facilmente “acertadas” no futuro, sem gastos ou implicações para os estudantes. E é justamente aí, em assuntos que tocam diretamente o cotidiano estudantil, que o espaço da fala real, isto é, com poder de decisão, nos é negado. Ficamos restritos às longas conversas com o Departamento que, na maioria das vezes, não levam a lugar algum. Nesse sentido, acentua-se a importância da participação dos representantes de turma, que legitimam a atuação do CA e ainda pressionam o Departamento a promover mudanças. O PAD deve contar com a presença dos RTs, porque é o momento de discutir os problemas antes que eles apareçam durante o semestre. Para o CAXIF, o representante de turma deve ir além das funções administrativas, como repasse de e-mails do professor, e participação no CRT: seu papel é o de garantir no PAD uma discussão mínima acerca da situação de sua turma. Por fim, mas não menos importante: os nomes dos professores foram aqui omitidos pelo simples motivo de que isso não é relevante. Em qualquer uma das situações relatadas, o comportamento do CAXIF seria o mesmo, independentemente da identidade do professor.

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