O PELICANO Personagens A Mae, Elisa, viuva O filho, Frederico, estudante de direito A filha, Gerda O genro, Axel, casado com

Gerda Margarida, empregada Um salao. Ao fundo, uma porta que dá a sala de jantar. A direita, a porta estragada de uma sacada. Mesa, escritorio, diva com uma coberta de pelos vermelha, uma cadeira de balanco. (Entra a mae, se senta em um diva e fica abúlica, sem fazer nada. Está de luto. De vez em quando, escuta nervosa.) ( Se ouve "Fantasía Impromptu", opus 66, de Chopin, obra póstuma, que alguém toca na casa ao lado.) (Margarida, a cozinheira, entra pela porta do fundo.) Mae - Fecha a porta, por favor. Margarida - A senhora está sozinha? Mae - Fecha a porta, por favor... Quem bate? Margarida - Ai, que noite ruim! Como sopra o vento! E como chove... Mae - Já disse para fechar a porta! Nao posso suportar esse cheiro de fenol e ramo de abeto. Margarida - Eu já sabia disso, senhora. Por isso disse para fazer o velório na igreja... Mae - Foram os meninos que insistiram em celebrar a cerimonia em casa... Margarida- Por que voce continua aqui? Por que nao muda de casa? Mae - O proprietário nao nos deixa mudar. Nao podemos sair daqui... (pausa) Por que voce tirou a manta do diva vermelho? Margarida - A levei a lavanderia. (pausa) A senhorita sabe muito bem, claro, que o senhor morreu neste sofá. Mas tire voce o sofá... Mae - Nao posso tocar em nada até que terminem o inventário... por isso estou aqui aprisionada... e nao posso ficar nos outros comodos.... Margarida - Mas por que? Mae - As lembrancas... essas penosas lembrancas... e esse cheiro horrível... É meu filho que toca? Margarida - Sim. Nao se sente a vontade aqui. Está nervoso, inquieto. E, além disso, está sempre com fome... Disse que nunca pode comer até ficar cheio... Mae - Sempre foi adoentado, desde que nasceu... Margarida - Um menino que é criado com mamadeira tem que ser alimentado depois com comida nutritiva... Mae (cortante, agressiva) - O que disse? Alguma vez faltou algo aqui? Margarida - Faltar precisamente, nao. Porém, a senhora nao deveria comprar sempre a pior comida e a mais barata. E mandar os meninos a escola com uma xícara de chicória e um pedaco de pao... isso que nao está bom! Mae - Meus filhos jamais se queixaram da comida...

Margarida - Ah, nao? Nao se queixaram a voce, claro, porque nao se atreveram. Mas desde que ficaram maiorem, vinham para a cozinha e se queixavam... Mae - Sempre vivemos no meio da escassez... Margarida - Para! Li no jorna que as vezes o senhor pagava impostos por ingressos de vinte mil coroas... Mae - E tudo se esvaía! Margarida - Sim, tudo bem. Mas os meninos estao doentes. A senhorita Gerda, bom, agora terei que chamá-la de senhora, parece uma menina e isso porque já completou vinte anos... Mae - Que besteira dizes? Margarida - Sim, claro, besteiras! (pausa.) Nao quer que ligue o aquecedor? Aqui faz frio. Mae - Nao, obrigada. Nao podemos permitir o luxo de queimar dinheiro... Margarida - Mas seu filho passa o dia tremendo. Por isso sai de casa ou fica tocando piano... para se esquentar... Mae - Sempre foi muito friorento... Margarida - A que se deve isso? Mae - Tem cuidado, Margarida... (pausa.) Tem alguém lá fora? Margarida - Nao, ninguém. Mae - Voce acha que tenho medo de fantasmas? Margarida - Eu nao sei... Mas nao vou ficar muito tempo aqui... Eu vim para esta casa foi como se meu destino fosse cuidar dos meninos... Ao ver como tratavam mal as criadas quis ir embora, mas nao pude ou nao me deixaram... Agora, depois do casamento da senhorita Gerda, tenho a impressao de que minha missao terminou. Está chegando a hora da minha aposentadoria, mas ainda é cedo... Mae - Nao entendo uma palavra do que diz... todo mundo sabe como tenho me sacrificado por meus filhos, como tenho levado as coisas da casa e como tenho cumprido com meus deveres... Voce é a única que recrimina minha conduta, mas eu nao me importo. Pode ir embora quando quiser. Quando os recém casados vierem viver nessa casa, já nao pensarei mais em ter empregada... Margarida - Espero que a senhora fique bem com eles... os filhos sao ingratos por natureza, e ninguém gosta das sogras, só se tiverem dinheiro... Mae - Nao se preocupe comigo... pagarei a minha parte e ajudarei com os trabalhos de casa... Além do mais, meu genro nao é como os outros genros... Margarida - Ah, nao? Mae - Nao, é muito diferente. Nao me trata como a uma sogra, mas sim como uma irma... pra nao dizer como uma amiga... (Margarida faz uma careta.) Mae - Sei o que significam suas caretas. Sim, gosto do meu genro, nada pode me proibir, e ele merece... Meu marido nao gostava dele, lhe tinha inveja, pra nao dizer ciúmes... Sim, sim, me honrava com seus ciúmes, porque já nao sou tao jovem... Dizia algo? Margarida - Nao, nada... Me pareceu que vinha alguém... Deve ser seu filho, como ele vem tossindo... Acendo o aquecedor? Mae - Nao precisa! Margarida - Senhora... Eu tenho passado muito frio nesta casa e tenho

.Infelizmente os clientes nao podem ser vendidos..Por aí dizem que pode. Assim ao menos nao terá que se envergonhar diante de minha substituta.. Bom.. já passou. nao aguentaria muito tempo. Mae ..) Cena dois... O filho . A todos chegam as suas horas. Mae . claro.. Pelo amor de Deus! ..Fecha a porta. Onde estao minha irma e meu cunhado? Mae . e tem a paz que ele tanto merecia.passado muita fome..Sempre falando de comida! Voce tem algum motivo pra se queixar da comida que eu te dou? O filho .Que boa hora! Nao disse que ia embora? Margarida .Muito obrigada!. se é que vem alguém quando eu me for! Mae .E se viesse.Voce tem sempre que responder desse jeito? Que que voce quer? O filho ..Me está cansando. assim nao... por favor. Já estou velha e cansada..É verdade! Tinha me esquecido! mas pela honra desta casa. Vi irem embora desta casa umas cinquenta criadas.. Mae .. logo chegará a sua hora. Mae .Voce esteve falando com o adbogado? (Pausa) É assim que voce guarda luto pelo seu pai? O filho .) Mae .Porque eram gentalha. Mae .Voltaram esta manha da lua de mel e se hospedaram numa pensao.Pelo menos na pensao eles poderao matar a fome. uma cama de verdade. A todos.Por que? Mae .. essas roupas em que morreram várias pessoas.Posso estudar aqui? Faz tanto frio no meu quarto. um armazem vazío. sem se mover! (Pausa.... queime a roupa da minha cama. O filho .A loja! Voce chama de loja um local que nao tem mercadoria. Gagueia muito pouco. (Pausa) O filho . Mae . Mae .. senhora. Provavelmente.. Bem. Mas uma coisa nao tem nada a ver com outra.Nao. Voce nao tem sentido a morte do seu pai? O filho . mas agora ele está bem.. só dívidas. voce sabe disso. um a um.Sempre tao friorento.Sim... com um livro na mao. nao....E porque essa pergunta neste momento? Esperemos que passe o luto. Primeiro faz como que le) Ainda nao terminaram o inventário? Mae . Isso nao é obstáculo pra que eu queria conhecer minha situacao. Como sao todas.Nao. Mae .. Mas me de uma cama.Sim..Nao virá ninguém! Margarida . O filho . (O filho entra tussindo..Mas a razao social. o nome e os clientes. Mae .Teu pai nao deixou nada. Maragarida . O filho (depois de refletir).O frio se sente mais quando se esta sentado. sim.Mas a loja tem que valer alguma coisa. Se poderei continuar estudando ate o dia do exame sem ter que pedir um empréstimo.. logo! Bem logo! Antes do que voce imagina! (Sai. Veja se me deixa em paz! Margarida . O filho .

As que ele tinha.Mas me diz uma coisa.Nao sei.. nao me disse nada de especial! Mae . Tenta gostar dele.Sim. O filho . Quer dizer. Quatro estéreos por um jantar! .A mim nao parece..Estou esperando a Axel e Gerda.Eu nao sei nada dos negócios do meu pai. dissia isso? Sabe se tinha dívidas? O filho .Sim. Voce se lembra quando eu tive que viver separada do teu pai por um tempo.Ah. Mae .Ele tambem nao gosta de mim.Creio que agora tem alguem lá fora. E alem disso nao se dava bem com meu pai..Voce nao gosta do teu cunhado. Mas ele dissia que manter esta casa era muito custoso.Mae . como se explica que durante os últimos anos ganhava 25 mil coroas anuais e nao nos deixou nada? O filho .Eu nao ouco nada.. Voce quer cumprimentá-los? O filho . O filho . Mae . Mae ..Quem teve a culpa? O filho . Ele nunca te falou da situacao economica dele? O filho (entretido na leitura) . é? O filho .Faz 20 anos que escuto a mesma história! Ao invés disso podiamos parar de fazer aquelas viagens ridículas ao estrangeiro. O filho . voce sabe que tua irma e teu cunhado vem morar aqui e voce terá que sair de casa e buscar uma habitacao na cidade.. porque ele merece.Nao me simpatizo com ele.Nao podemos nos dar o luxo de andar queimando o dinheiro. nao é? O filho .. e voce foi morar com ele. esse que está aí pindurado. eu ja sei.Pois leva.. Mae .Onde foi parar o dinheiro? Haverá algum testamento? A mim. vivia me ameacando em me deixar na rua.Entao. que odiava. O filho ..O enterro e os assuntos do teu pai me deixam um pouco nervosa.Por que voce nao leva o retrato do teu pai pro quarto? Sim. Terá escondido o dinheiro em algum lugar? (Pausa) Tem alguem lá fora? O filho .E porque? Mae . Ja que gosta tanto. Mae . Mae . Tem um olhar tao duro. com cem coroas dá pra comprar dá pra comprar quatro estéreos de lenha..Nao me apetece.. Vou pro quarto.Ah..Porque eu nao gosto... Mae .Ascende um par de luzes! Só duas! (O filho ascende a luz. e parar de ir a esses restaurantes onde o jantar é equivalente a cem coroas. Mudando de assunto. O filho . eu levo.Meu pai era incapaz de fazer mal a alguem. Mae . é justo que fique com voce.É um bom moco e muito inteligente. ja estavam pagas.Nao.) (Pausa. Mae . Se eu pudesse ligar o aquecedor pelo menos um pouco. (Pausa) Mae .) Mae . Mae . O filho (tirando o quadro) . E ha pouco tempo tinha comprado moveis novos.

.) Mãe (o cumprimenta afetuosamente) – Axel! É você? Finalmente! Estava com tanta saudade de você! Mas onde está Gerda? Genro – Já vem. O filho .Tenho que beber um pouco por causa da tosse. nem me tornar na protecao legal de uma puta. abre as gavetas da escrivania..Que besteira! O filho . Porque a amizade nao é mais do que um grupinho de gente entregada ao exercício da admiracao e da adulacao mutua.Tudo? O filho .Uma reflexao muito inteligente. O filho . Mae . Mae . nao é ruim. precipitadamente. O filho . Nao estou disposto a manter uma mulher para entreterimento dos solteiros.. Um homem tao independente como ele nao podia te-los. Aqui tem acontecido coisas muito estranhas. obrigado. ia falar mais uma coisa.Voce acha que posso comprar um pouco de roupa de la? Mae . Que tem gosto de ar! Mae (Asombrada) . me entenda.Quando terminar os estudos.Voce está bebado? Tem que estar! Saia daqui.O que voce insinua? O filho .. tao pouco.As dívidas e os assuntos pendentes. meu pior inimigo.Nao... mas basta por hoje. quando pensas em casar? O filho .Outras vezes voce tempera com tanta pimenta e sal que só abre o apetite.Ele nao tinha amigos. é? O filho . Va pra teu quarto! To ate aqui com voce! Tenho certeza que voce está bebendo de novo! O filho . e pra matar a fome. E você. Mae .Outra vez a comida! A que eu te dou é tao ruim assim? O filho . pede um empréstimo como os demias.Nao é besteira. Mae . Mae .. nem dar armas ao meu melhor amigo.Sim ja vou. O filho . Mas é tao leve.Saia daqui.. Mas acabou.. O filho .Casar-me? Nao. Nao me cuidarei muito de fazer isso.. uma vez acertadas as contas.Ah.Quando terminarmos o inventário e arrumarmos tudo. Que terás aprendido com teu pai.E quem vai me emprestar dinheiro? Mae .Os amigos do teu pai. Mae . É como comer ar temperado com ervas. Sim! (Sai) (Mae caminha inquieta pela casa. Que as vezes cometeu alguma loucura..Como voce pode me pedir isso agora? Melhor voce ir trabalhar conseguir algum dinheiro.Era o que me faltava ouvir. CENA 3 (Entra o genro sem bater.Meu pai foi um homem muito inteligente. para que se lanze numa encrucilhada contra mim. Mae .Mae ..Entao.. O filho . como está? Como está tudo por aqui? . Mae .. Mae .O que a gente tem que ouvir! Bem.

como se fosse pouco... o tempo se nos fazia interminável... tem muitos preconceitos e é um pouco teimosa. Mãe – Não é a primeira vez. por que você não usa o uniforme? Eu devo confessar que é muito difícil reconhecer você de civil. Pelo luto. não sabe nada da vida..Mãe – Anda. Sim..... fanática.. Genro – Bom.... E além do mais estávamos muito acostumados com sua companhia. sabe que chorei?.... Mãe – Ah.. Às vezes Gerda fica um pouco louca. Gerda quase que tinha ciúmes de você. é suficiente que eu veja uma mulher.... você sabe.. Genro – Gerda é como uma criança.. nós três temos nos mantido unidos mesmo com todas as dificuldades e eu acho que também tenho sido útil para vocês. Mas eu não dei atenção... Genro . sim. Imagina eu tendo que obedecer aos meus filhos! Genro – Você não tem que obedecê-los nem um pouco.... ... não é? O que que você quer que eu diga? Acho que nunca dedicaram uma poesia parecida a uma sogra no dia do casamento da filha. o que você achou? Mãe – Você está se referindo à poesia que você me dedicou... Por que vocês voltaram tão cedo? Planejaram uma lua de mel de oito dia e ao terceiro já estão em casa. quando duas pessoas já se disseram tudo que já se tinha pra dizer. Tínhamos muita saudade de você.. em alguns momentos. dizia.... Mãe – O que você diz? Vocês não são felizes? Genro – Felizes? Se você pudesse me explicar o que é isso? Mãe – Deus! Já brigaram? Genro – Já? Só temos brigado desde o dia do noivado. mas você não perdeu a valsa.... Mãe – Então. Ela queria que eu fosse vestida de preto. é absurdo... Já não sou mais tenente de reserva.. mas parece que ela gostava mais de mim quando eu era militar. senta aqui e deixe-me fazer umas perguntas..Então você chorou. O pelicano que alimenta os filhos com o próprio sangue.. E. a solidão se faz insuportável.. ainda tem o fato de eu ter pedido demissão do exército.... Mãe – O que você achou da festa do casamento? Genro – Um sucesso! Um verdadeiro sucesso! E a poesia. é? De verdade? Certo.. Parece outro homem. Não nos temos visto desde o dia do matrimônio.

Mãe – Esses imbecis são muito mal agradecidos. Genro – Não importa. com certeza. você procurou também na escrivaninha do velho? Mãe – Sim. .. como vão os negócios? Mãe – Francamente.. Mãe – De qualquer forma. Todos os dias eu vejo seus papéis. Mas.. com certeza.. porque não faz mais que escrever cartas e depois as rasga. Genro – Esse imbecil. Genro – E o que você quer que eu faça? A vida tem que ser vivida! E falando em viver. não sei! Mas estou começando a suspeitar de Frederico. Se noivou com um tenente e do nada se vê casada com um qualquer. Genro – Mas procurou direito? Em todas as gavetas? Mãe – Todas! Genro – Todas as escrivaninhas costumas ter gavetas secretas... as regras proíbem..... Genro – E nas gavetas de seu filho? Mãe – Também. Mãe – Não pode usá-lo? Genro – Não. Genro – Você procurou direito? Mãe – Eu procurei nas gavetas... Genro – Por que? Mãe – Esta tarde me disse umas coisas tão estranhas. E não me surpreenderia se existisse um testamento ou algum dinheiro guardado em algum lugar..Genro – Só posso usá-lo quando estou de serviço e nos desfiles. sinto pena de Gerda... Mãe – Não pensei nisso! Genro – Então temos que procurar de novo...

. Rápido! Genro (entrega à mãe um envelope grande que ela esconde) – Toma! Esconda-o! CENA 4 (Alguém bate à porta. Está lacrada por causa do inventário..) . Mãe – Mas que Gerda não perceba! Genro – Não..... não a toque... Genro – E não podemos romper os selos? Mãe – Não! Isso nunca! Genro – Basta tirarmos a madeira de trás.. Estamos perdidos! Mãe – Cala a boca! Genro – Você é uma idiota!. Genro – Falta nada! Posso tirar sem elas... com certeza... Abre!.. Se você não abrir... ela iria correndo contar a seu irmão. Mãe – É Gerda! Me dá os papéis.. Todas as gavetas secretas estão aí.. veja! Alguém já esteve procurando coisas aqui. A madeira está solta...) Genro – Mas.. Sai daí..... Mãe – Agora só faltam ferramentas... rápido! Vem alguém! Genro – Um envelope. Mãe – Foi Frederico! Você percebe como ninhas suspeitas. Genro (examinando a parte de trás da escrivaninha) – Veja.) Gerda (Entra.... brava.. Mãe (fechando as portas) – Assim estaremos mais seguros.. eu vou abrir!..... a trás...Por que vocês fecharam a porta? .. (Abre a porta. como você teve a idéia de fechar com chave?.Mãe – Não. Posso enfiar a mão..

. E alegre essa cara! Gerda (se senta numa cadeira.. que jeito é esse de entrar em casa? Você entra sem cumprimentar. Como foi a viagem? Foi boa? Vai. Porque não falamos dos móveis que você quer comprar? Suponho que vocês vão viver aqui.. Gerda – O que posso fazer... sozinha. a única coisa que peço é ter o marido para mim. Mãe – Com certeza.... vamos os três juntinhos.... menina... Gerda (fica com a cara iluminada) – E você me ajudará nos trabalhos de casa. abatida) – Por que vocês fecharam a porta? Mãe – Porque ela se abre sozinha e eu estava cansada de pedir a todos que entravam que a fechassem..... isso é o que todas faziam na pensão e por isso foi tão curta a lua de mel. Genro – Como as senhoras têm medo da escuridão. Só basta por uma cama. Com a ajuda dos três... Gerda – E isso por que? Eu não quero ficar sozinha aqui.. Axel? Genro – Nós viveremos aqui e a senhora Elisa não terá queixa. Genro (falando à mãe) – Mas você pretende por uma cama na sala? Gerda (responde pensando ser com ela) – Está falando comigo? Genro – Não. filha.. porque onde existe harmonia. conta.Mãe – Mas.. está tudo bem. O único que não farei é lavar a louça. e isso porque não nos temos visto desde o dia do matrimônio. e você.. minha filha.! Pra mim tanto faz.. Até que nós não tenhamos feito a mudança não ficarei tranquila. Gerda – Como pode lhe ocorrer uma coisa assim. mamãe! No mais... E com o pagamento de dona Elisa poderemos viver.. a mato! Agora todos sabemos disso! Mãe – Por que não começamos a mudar alguns móveis? Genro (olhando fixamente para a mãe) – Muito bem! Gerda pode começar neste cômodo.. Mas tudo vai se resolver.. .. Não tolero que olhem para ele.. Gerda – E qual será a habitação de mamãe? Mãe – Esta aqui.. falava com sua mãe..... Mas a quem tentar tirá-lo de mim..

. se é que temos cuidado. Genro – Deixa ler! Mae – Não. Ainda bem que não chegou as mãos dele... E se não o tem. o vento... Veja a cadeira de balanço! (A cadeira balança) Genro – É a corrente. também o tirarias . não está morto! Não consigo viver aqui... sua velha! Mae – Eu. e se tivesse um filho.. A cadeira de balanço balança. Você está escutando. eso te lo vas a ahorrar. sua empregada? Genro – Assim voce vai sentir as mesmas misserias que tem sofrido suas empregadas com voce. bastará para pagar o aluguel. Eu contava com a herança que vocês me colocaram na frente dos olhos... Ainda que. Senão. é o único que conseguiu conservar... que o deixei sem dinheiro!..) Cena 5 (O espaço fica vazio.. é uma carta dirigida ao meu filho na qual nos calunia a mim.) Que é isto! A cadeira se move! Genro – (Atrás dela) – O que foi? Que escreveu? Deixa ler! É o testamento? Mae – Fecha a porta! A corrente vai nos levar! Tenho que ter a janela aberta pelo cheiro..) É como se ele se levantasse da sepultura e falasse comigo... Não. e arruinado! Vamos ter que mantermos unidos para conseguir viver. tudo mentira!. lendo o papel que leva na mao. Teremos que fazer economias e você vai nos ajudar. é veneno puro! Vou rasga-la. Cai uma fotografia pendurada na parede. Não é verdade! Eu não o matei! Morreu de um derrame cerebral. Que eu o arruinei. e a ti.. o certificou o médico. Pausa.. Não é o testamento. Axel? Você tem que tirarmos desta casa quanto antes! Eu não agüento mais! Faz a promessa!. enfim.. Fala também outras coisas. claro. eu vou embora.. Se escuta a voz do filho: “Fecha a janela”. (Rasga a carta e a joga no aquecedor. Mae – Voce quer dizer que eu vou ser empregada na minha própria casa? Isso não! Genro – A necessidade não conhece lei... não teria me casado. exceto do dormitorio.. Agora temos que aceitar a dura realidade e você pode me considerar um genro enrolado. Voce a arrancou do meu coracao...) Mae – (Entra furiosa. Não tem mais solução. Mae – Abandonando a sua mulher? Voce nunca a amou! Genro – Isso voce o sabe melhor do que eu. Mae – Eu tenho minha pensao... pelo menos... Os papéis do escritório voam pela habitação e a “palma” que está sobre a prateleira se move violentamente. Esta carta fala que eu o matei. Mae – Tiramos daqui! Promete que me tirar daqui! Genro – Não posso.(Saem os três. voce a foi apartando de todos os lugares.. Mae – Voce é um canalha! Genro – Fecha a boca. O frio e a fome que passaram.. Genro – A que não é suficiente nem pra pagar uma pensao ruim. Aqui. A porta de fundo começa bater. Faz um vento muito forte que provoca um assobio nas janelas e provoca mais um barulho na chaminé.

não entende nada.. divagando pela plantacao de tabaco. embaixo da chuva. Mae – não me entenda mal. temos. não podemos separarmos. (Gritos no interior da casa) Mae -Que é isso? Escuta! É ele. Com sus provocacoes voce o deixou louco e desesperado.. voce já sabe. Estamos condenados a isso.. sim. Mas as vezes tinha sentimentos humanos.. voce não percebe que ele escrevo pro filho que morreu assasinado? Genro – Tem muitas maneiras de assassinar... Pobre de voce o dia que ela abra os olhos! Mae – Axel! Temos que mantermos muito unidos. Aceito tudo. Mae – O único que te reclamo é o fato de voce ter-me afastado do meu lar com seus enganos. Ainda não sabe nada.... Mae – Mas.. quem? (Mae ouvindo) . Genro – Isso também. Mae – Me rendo! Genro – Faz muito bem.. Temos que viver em paz. Alem de tudo.. entao. Porque voce não ficou de bracos cruzados.. a solidao. tem pensoes fora de aqui.. e casa de beneficencia e o asilo de ancianos. Genro – Ele se cruzou no meu caminho e depois não quis apartar-se... Mae – não.. Genro – Sim. se lembra? Era ele. a primeira vez que estive na tua casa..... mas ela está comecando a acordar desse sono de sonambula.. não era.. menos o divã. não posso viver sozinha. gritando de dor pela ausencia da mulher e os filhos. envolvido na escuridao..dela. Genro – não.. Genro – Sua simpatia comeca a mudar de direcao. Genro – E por que fala disso agora? E como voce sabe que era ele? Mae – O escreveu na carta. mais do que voce. não temos dinheiro pra esses luxos. este é muito bonito..... e nunca esqueceré aquela tarde.Por isso tive de empuja-lo. que pareciam vir duma cadeia ou um manicomio. Não quero estragar o chao instalando aqui seu dormitório.. Mae – Mas se isso aqui é um banco velho! Genro – Tonterias! Mas se voce não gosta. entao me compra outro diva. Genro – (rude) Ele. y a sua tem a vantagem de que não está registrada no código penal. Cena 6 Mae – Mas. Genro – E que importa isso? Ele tambem não era um anjinho. Mae – Minha vantagem? Diga “a nossa vantagem”. quando iamos comecar o maravilhoso jantar e de repente ouvimos aqueles gritos horríveis que vinham da plantacao.

Está bebado esse canalha. não nos tinhamos muito afeto. Mae – Mas que jeito de falar é esse! Se lembra que é o meu filho! Genro – Sim. não poderei aguentar! E com ele. Genro – Sim. Ou agora quer fazer o papel de sogra? Mae – Vai deixar sozinha sua mulher na primeira noite de que está em casa? Genro – Isso também não é assunto seu.. sempre tentávamos de evitarmos. Gerda – Voce sempre ficava da parte do pai. o que ele falava? Como ele reagiu? . a mim e a meus filhos. que ficou com ele.. Mae -Agora percebo o que nos espera. Mae -É o Federico? Parecía que fosse ele.. Federico. Filho (se senta) – Acho que nunca tivemos uma verdadeira conversacao. e eu da mae. ele só queria sua felicidade. Queriamos que ele. Eu não esqueco. Filho – E Axel? Onde ele está? Gerda – Numa reuniao.. Filho – Quem sabe agora as coisas mudem um pouco. Cena 7 O mesmo decorado. na realidad.. Conheceu bem o seu pai? Gerda – Que pergunta! Embora. anchovas rancas... Filho – Mas voce percebeu que ele te amava? Gerda – Entao. O menino! Terá voltado a beber. de Jocelyn. Assim voce me faz companhia.. sintisse na sua própria carne o que era uma separacao. não beso chá aguado. Chegou o momento de tirar fora a máscara. eu só viesse ele com os olhos da mae. chegou o momento.. tenho uma reuniao. Não é assunto seu. é seu. Filho – Foi teu marido que a levou a deixá-lo? Gerda – Meu marido e eu. ele teve seu castigo quando mamar o deixou. para falar um pouco. me conta. Alguem toca fora a composicao de Godard: Berceuse. (Tira o relogio do bolso) Mae – Porque ve a hora? Não vai ficar pra janta? Genro – não. achei que. porque ele se opus ao meu relacionamento e depois tentou acabar com ele? Filho – Porque achava que esse homem não era quem voce precissava. Filho (entra) – Está sozinha? Gerda – Sim. Mae -Que tipo de reuniao? Genro . que tinha tentado separarmos. Longa pausa..Genro – Quem será?.. obrigado..De negocios. Gerda – Voce... Alem de tudo. o que acontecerá agora? Genro – Vai ver. Gerda está sentada na escrivania. Senta aqui comigo.. Gerda – Em todo caso. Filho – Isso cortou sua vida... E acredite.

. estou estudando direito. voce sabe que a mae é muito curiosa. Provavelmente está agora atrás da porta ouvindo-nos. E que saber usar o telefone muito bem. não poderia viver. Como voce pode explica-lo? Sabe muito bem como é! Gerda – não. tenho comprobado que os criminais mais conocidos não podem explicar como se desenvolveram os fatos de autos. Gerda (Chora. Não consegue ficar um dia longe dela.Filho – Sou incapaz de desvrecer a sua dor. depois do que eu ví. Filho – Ah. Porque. Gerda – Me machucou muito! Quero morrer! Filho – Por que voltou tao cedo da viagem de lua de mel? Gerda – Axel estava muito preocupado pelos negocios dele. Mas ainda.. E fui aprendendo a calar e entao tudo mundo elogiaba minha . tapando a face dela com as maos) – Oh. O que eu posso afirmar é que... tomara que seja tarde! Uf.. achavam que agiam corretamente ate o momento da detencao e entao acordavam. Algum interés terá voce em saber. mas pressinto! Se lembra quando éramos meninos... entao... Sei que um dia acordarei. Gerda – Me deixa dormir. tudo isso que não conheco. Filho – Entao.. lendo a história dos grandes processos. Gerda – O que dissia da mae? Filho – Nada. E não quero que me acordem. entao o faziam enquanto dormiam. Gerda – O que insinua? Que ela esteve espiando a gente? Filho – É o que sempre faz. (Pausa) Gerda. Pois bem. Gerda – Cala! Sou uma sonambula que caminha dormida. Filho – Num restaurante? Gerda – O que? Como voce sabe disso? Filho – Achei que voce sabia.... é uma outra coisa. bom! Se voce não quer saber. Filho – Porque seu marido deixou voce sozinha a primeira noite que passam em casa? Gerda – Por uma reuniao de negócios. é feliz.. mas. nem quero saber!.. o sei. meu Deus! Meu Deus! Filho – Me perdoa. E tinha saudades da mae. Gerda – Voce sempre pensa mal da nossa mae. Se não fizeram seus crimes enquanto sonhabam. é? E as outras coisas da viagem? Passaram um bom tempo? Gerda – Muito bem! Filho – Pobre Gerda! Gerda – Por que voce fala assim? Filho – Veja bem. Não queria te machuchar.. Falavam que era ruim quem falava a verdade. voce é feliz? Gerda – Claro! Quando uma mulher se cassa como o homem que ela quer.. voce não achará que todos vivemos como sonambulos?... Como voce sabe.. Filho – E voce sempre pensa bem. (Se olham fixamente) Filho – Ah. Que má voce é! Me dissiam quando explicava algo que era ruim. nunca vou me casar.

mas ao mesmo tempo ocultar suas proprias preocupacoes. Senta do meu lado e continuemos falando. Filho – Sim. boa pra ascender o fogo.. Falam sem parar. é melhor que voce continue falando. me fui preparando pra minha entrada na sociedade. Assim fui aprendendo a falar o que não pensava... é isso.... quer dizer. É dificil saber como comportar-se. Filho – Voce tambem! Que estranho o que acontece nesta casa. Expulso da sua propria casa. entao todos falam. Filho – Voce tambem é friolera? Gerda – Eu sempre tive frio e fome nesta casa. Que ficavam encerrados no comedor para fazer música e ler. Vamos ter um grande problema se ascendemos. Filho – Pobre Gerda! Gerda – Sabe o que mais me machuca? (Pausa) Comprovar a futilidade da completa felicidade! Filho – Isso é muito disser?????? não entedi isso aqui. porque Axel tirou dele a sua filha e a sua mulher. é uma sorte ter um pai de reputação tao limpa. As vezes a mae punha umas pequenas lenhas pra nos enganar... Querem ouvir novidades sobre os outros.. Mas eu achei ridiculo celebrar a felicidade de um . tem umas faspas. discursos e poemas que dedicavam em seu honor.. Depois percebeu que Axel recebia melhor comida que ele mesmo.Mas se vou atras de lenha. lembro.. não ascenda.) Gerda -Voce sabe porque meu pai odiava tanto ao meu marido? Filho – Sim. eu calo. se damos um passo mais. para virar surdos.. (O filho vai em direcao dela. Liga um pouco o esquentador. Gerda – não. únicamente para ocultar seus pensamentos. não acabará nunca. Mas. Se existe uma coisa pela qual devemos estar agradecidos. (Pausa) O que é isto? Uma carta! Rasgada. tem algo de faspas no esquentador. Pobre pai! De qualquer maneira. Porque isso é verdade.. senta e deixa a carta na mesinha do lado. Gerda – Nos não percebíamos o que fazíamos.. quer dizer. O deixou completamente sozinho.. E por isso. ?? Gerda – Tenho frío.. entao viramos hipocritas e aduladores.. Gerda – Cala! Filho – Bem. finalmente comecou ir pro café. mas não de isso. Mas as vezes é um dever falar a verdade sem apelativos..boa educacao.. Voce lembra só dos discursos na celebracao das suas bodas de prata. é verdade. Filho – Sim. sim.. Fedrerico. sim. Para esquecer.. Filho – Voce deve dissimular os defeitos e as fraquecas do próximo.que faziam coisas que meu pai não podia gostar. O silencio me faz ouvir o que voce pensa. Quando as pessoas se reunem.) (Pausa. Ele foi sentindo que era deixado de lado. vai ser um escandalo nesta casa que vai durar uma semana! Gerda – Quem sabe. (Pausa) Gerda – não.

como querendo me disser alguma coisa. Não parece bravo com ela. Filho – É disso precissamente que estou falando! Gerda – O que voce quer dizer? Filho – Meu Deus.. e essa mulher.. me diga o que é! (Pausa) Filho – É demais... mas não conseguir abrir os labios. fica calada como uma morta. lhe pergunte porque nunca tenho a sensacao de estar satisfeito... é para mim. Filho – Me lembro que meu pai costumava usar a palavra “Mafia” um pouco como brincadeira.. embora os problemas.. Gerda – Também eu! Quando o veo em sonhos é um homem de trinta anos... ele tentou muitas vezes me falar alguma coisa. Gerda – Mas foi belo. (Pega a carta. Gerda – Cala! Filho – Devia ter motivos que nos nunca soubemos. farto. Gerda – Que frio tao ruim! É um frio sepulcral! Filho – Voy ascender o esquentador e que aconteca o que Deus quera... e tivemos que segura-la com forca para impedi-lo.. Voce sabe muito bem a vida que levaram. Mas no final da vida dele não a usou mais nunca. E depois do divorcio. As vezes a mae está com ele. Pode me explicar? Gerda (seca) – não! Filho – Agora vejo que voce tambem faz parte disso! Gerda – não entendo o que voce quer dizer.) Gerda – O que é isso? O que voce le? Filho – É horrível! (Pausa) Espantoso! Gerda – Mas. que tanto me ama. fica brava. Gerda – As vezes voce fala como um louco. e elam. depois de comer.. porque ele a amou.. aos poucos seu olhar vai fixando na carta e comeca a ler) Mas.. levava bem a casa.. Ate o final.. Ou não se lembra de quando mar tentou se jogar pela janela. primeiro distraído.. mas não consigo entender o que ele fala. De qualquer jeito. o que é isto? É a letra do meu pai! (Pausa) Ao meu filho!. (A Gerda) É uma carta que escreveu meu pai antes de .. embora todas essas situacoes.matrimonio que teve uma vida de cachorros! Gerda – Fedrerico! Filho – não consigo falar mentiras. Se deixa caer numa cadeira e continua lendo em silencio. (Comeca ler a carta. que não para nunca de falar. quando eu acompanhaba o pai nos seus passeios. Se lembra do bem que falou dela o dia das bodas de prata! Dando as gracas pra ela. As vezes tenho sonhos com ele. Filho – As vezes me pergunto se meu pai não foi victima dessa silenciosa mafia de voces. como todas voces calam a boca quando falo desse assunto! É só falar da administracao da casa para que todas voces calem a boca! Eu já perguntei a mesma Margarida. me ve carinhonsamente... que ele provavelmente tambem descubriu.... algumas coisas sobre a economia da casa..? Filho – Embora! Isso é muito dizer! E tambem não disser nada.. Entao. Ela tinha um grande mérito.

. Chs! Cala! O canalha volta pro hogar! … Cala. ela prometeu que ia mudar.. comprava sempre o pior falando que pagava o mais caro. e como tambem.. Gerda (chora.) Gerda – Pode ser que não seja verdade! Filho (bravo) – É sim. Era uma coisa que não conseguia imaginar. Filho – não quer acreditar! Veja. por isso fomos sempre criancas magras. sem substancia. pra ocultar o jogo. fica em pé. Se não. Os detalhes.. Filho – A mafia! Volta a mafia de novo! Vou te contar tudo!.. Gerda – não acredito uma palavra disso! Filho – A mafia! Y agora vem o pior! Esse canalha.. Escuta! Gerda -Tenho a impressao que sei tudo. vou esquecer. tremendo. nossa. de modo geral. esse degenerado.. Ele não tem como mentir desde a tumba.. Gerda. comia na cozinha pelas manhas y a nos nos dava as sobras esquentadas. enquanto guarda o papel no bolso) Gerda (se ajoelhando ao seu lado) – Que acontece com voce. Quando o nosso pai descubriu tudo isso. Tomava tambem o dinheiro da lenha e por isso a vida entera estivemos morrendo de frio. Filho – Pra onde? Gerda – não sei.. Isso é.. Por que? Diga. tao absolutamente incrível! (Se recupera. embora eu não sabia. falsificava as contas. Quanto . muitas vezes!... Meu irmao querido.. desnutridas. teu marido tinha pedido dinheiro emprestado pra sua mae. o que acontece!. A mae é sagrada. Filho (incorporando-se) – Eu não posso continuar vivendo! Gerda – Mas... Mas o egoísmo dela as vezes a cega. esta é a verdade! A mulher que nos pariu não é mais que uma ladra. pode ter sido vitima de fantasias enfermizas.. voce pode imaginar. Filho – E agora. Gerda – mas quem sabe. seca as lagrimas) – Eu já sabia isto. não! Filho – Quando o pai ficou saben de tudo.... O que faremos para tirar voce desta humilhante situacao? Gerda – Ir embora.morrer! (Continua lendo) Agora eu acordo do meu profundo sonho! (Se joga sobre o diva gritando a sua dor. Frederico? Me diga.. me diga. o que aconteceu. me diga. porque é de mais. que agora é seu marido. mas tudo continuou igual. a chamou pra falar. o sem vergonha pediu tua mao. Gerda – não! Filho – Roubava o dinheiro da casa. Gerda! Agora nos dois faremos outra mafia! Esta é a senha “Te bateu a noite de bodas” Gerda – Me lembra sempre. Mas não quero acreditar. senao a sua mae! Gerda – Oh. Gerda – Uma filha não tem armas pra lutar contra a mae. Gerda – Vamos embora daqui! Filho – Onde? Não! Nos ficaremos até que esse sem vergonha jogue ela fora de casa!.. não te amou nunca. bebia o leite. Filho – Entao vamos esperar o fluxo dos acontecimentos.. Filho – É tao incrível. Filho – Como o mesmo Satanás! Gerda – não diga isso! Filho – É astuta como uma raposa. está enfermo? Me diga.

Gerda. Foi bos sua reuniao? Te deram alguma coisa boa? Genro – Foi suspensa! Gerda – Quem se surprendeu? Genro – Disse que foi suspensa! Gerda – Ah! Ouvi que voce vai ficar encarregado da administracao da casa. a companhia de Frederico alegra qualquer um. ou isto vai terminal mal! Embora seja uma novidade que voce está de bom humor.Fala melhor que para a vinganca! Cena 8 (Entra o Genro) Gerda (representando seu papel) – Benvindo!.... Genro – Quao contente voce está esta noite! É claro... é um jogo perigoso.. comeca tocar um estante de livros) Filho (fica em pé. até que entra a Mae).. Genro – Para com essas brincadeiras. para relembrar e memoria do nosso pai e buscar um conzerto para nos! Gerda. Voce esta sempre tao triste. veio alguem? Filho – Gerda e eu nos fizemos de espíritas. (Vai acariciar a Gerda na face.. (O Genro assombrado.. mas ela se aparta) Tem medo de mim? Gerda (atacando). Tambem não podemos esquecer.E pela Justica! Filho. entao... existem gestos mais expressivos que caretas e palavras que ocultam o que pode ser revelado em gestos e expressoes... não temos mais nada a respeitar.eu gostaria de esquecer! Filho – Acabaram com nossas vidas. Vivamos. neh? Ou é que voce não tem segredos? Genro – O que aconteceu aqui. Filho – Então brincaremos de vingança! Genro (incomodado) – Que coisas estranhas voce fala! O que voces estiveram falando aqui? Segredinhos? Ah? Gerda – Voce não conta por aí seus segredos. Gerda – Temos estado brincando da mafia.Eu? Absolutamente não! Existem sentimentos que parecem medo.já vem mae com o mingau! Genro – O qué? Cena 9 . Genro – Muito cuidado.. e temos recebido a visita de um fantasma. deixando a cadeira de balanco se balancando. nada que nos seja util como modelo. mas são outra coisa.

Genro – Com vinte mil coroas por ano. outros de outro. Genro – Mas o que voce está falando. Por exemplo. Cena 10 Se escuta o vals de Ferrai “Il me disait”. senhores. Mímica) Mae – O que está lendo. Mae – Somos pobres e não podemos gastar. sabe? Depende do gosto de cada um. Mas vi outras coisas.Onde está Axel? Mae – Isso não é meu problema! Gerda – Veja só! Brigaram? (Pausa. depois a cozinha ficou em silencio. Gerda sentada lendo um livro. A caidera era dele. Me explica! . Porque não poem os tempos que os diferentes pratos devem ser cozinhados? Mae (incomodada) – É que isso depende muito.. na minha casa. Gerda – Vamos! Ánimo senhores! Vou lhes preparar um filé com pao e manteiga! Mae – Voce? Gerda – Sim.. e se estraga. facam o favor de passar! Genro (a mae) – O que está acontecendo? Mae – Aquí tem gato encerrado! Genro – Sem duvidas! Gerda – Passem. Recem feita.Mae (entra. senao tem que esquenta-la d enovo. Genro – não. Filho – Sim. fica aterrada ao ver balancar a cadeira de balancao. Se são de aveia pode da-las aos cachorros. Genro – não. os que emprestam dinheiro a quem não o devolve. está louco? Filho – Quem sabe. e tinha gosto de ar. na minha própria casa. facam o favor! (Vai tudo mundo pela porta) Mae (ao Genro) – Viu a cadeira de balanco. obrigado. Mae – As coisas que tenho que ouvir! Gerda (mostrando a porta) – Senhores. A comida tem que ser servida no ponto. Mae (entra) – Reconhece a música? Gerda – Claro.. e na hora da janta não tinha o menor aroma de nada. eu. Mae – O vals da sua boda. eu já estive antes. Mae – Vamos comer. e deixou ela duas horas no fogo. estava se meixendo. não ví. Uns o fazem de um jeito. voce esqueceu a comida. Durante a primeira hora a casa estava cheia de um aroma muito gostoso.. que eu dancei ate a madrugada! Gerda – Voce?. filha? Gerda – Livro de cocinha. ninguem é pobre.. Gerda – É isso que não consigo entender. se domina) – Querem ir a comer? O mingau está servido..

. Gerda.... Gerda e eu temos decido comer fora. serei eu quem administre a casa! Mae (brava) – E eu serei tua empregada.. E saia um momento voce. o dinheiro não.Mas é que vamos a queimar o dinehro da casa? Genro – não. Genro – Mentira. sentado nessa cadeira! . onde foi parar o molho da comida? Quem comeu isso? Mae – não entendo uma palavra do que voce fala! Gerda – Porque eu tenho estado perguntando coisas. ou voce guardó o dinheiro.Porque ontem dei dinheiro para comprar bem mais. e fiquei sabendo de algumas coisas. Mae (interrompendo) – já sei. e voce a minha. pra nos dar as sobras no dia seguinte? Ou convidar os amigos quando não tem na cozinha mais do que restos de comida. Eu poderia te ensinar a administrar a casa... mais lenha...! (Mae sai rápido e volta com mais lenha) Genro . Mae – E eu? Genro – Voce está gorda como um porco. Ou escolher. quando temos convidado pra jantar. senao. Gerda – Voce fala de administrar a pimenta e a aveia que voce sempra dá pra nos? Isso tambem sei administra-lo eu. Traga mais! E deixa a estufa cheia! Mae . Como nos temos tido que emagracer tambem. Cena 11 Genro (entra com um bastao na mao) – Durmiu bem? Como foi o diva? Mae – Vou te contar. Assim nos ajudaremos. é? Pois bem.E agora voce vai ascender o esquentador! Mas de verdade! Mae – Como voce parece com o velho agora..Mae (brava) – não entendo! Gerda – Me explica porque estaba tao seca a comida. tem pouca madeira. certo? Gerda – Eu a sua. Aí vem Axel. Mae – Agora percebo quem voce é realmente! Genro (sentandose na cadeira de balanco) – Faz muito tempo voce teria conseguido ver isso se sua idade e experiencia não tivesse sido enganada pela minha juventude. Genro (ameacando) – Alguma reclamacao? Falta alguma coisa pra voce? Mae – Agora comeco entender! Genro – Ah. O que tem que queimar é a lenha.. desde hoje. Voce estará muito melhor se fica um pouco mais magra. Como nesta casa sempre ficamos com fome... Mas não será voce quem me ensine coisas novas.. Agora vai ligar o esquentador! (Gerda sai) Mae (tremento de raiva) -Ja pus bastante lenha! Genro – não.. pra esquentar a casa! Rápido! Genro – Tres pedacos de lenha? Mae– Me parece que não tem mais lenha. Assim que voce não precissa de muita coisa.? Tudo isso o aprendi já muito bem y por isso. Rápido. pratos esquisitos que ninguem come.sabe que.

já vou! Genro – E agora. Mae – O que fala? De que carta voce está falando? Filho. Se não estivesse um pouco bebado. isso! Fica aí a te nos voltarmos! (Genro sai) (Pausa) (A mae primeiro para o balanco da cadeira. vou te encerrar! Mae (susurrando) – entao me jogrei pela janela! Genro .Uma pessoa qu atingiu já uma idade avancada.Genro – Ascende rápido! Mae (com raiva) – já vou. Mae – Mente! . Lembra? Quando..Entao vou embora de casa. Os livros de zoologia falam que tudo isso é uma lenda. depois tira uma parte da lenha e ghuarda ela atras do diva.) Cena 12 (Entra o filho.a que voce robou e jogou no esquentador.. Aí tive que ficar tres horas escutando tuas mentiras. não poderia te falar com franqueca. Não bebeu vc já a nata? É justo! Mae (triste).E da primeira vez que voce mentiu pra mim. Uma certa idade. alias. Mentira! Mae – Se voce tem alguma queija de mim. Cumprindo meus deveres de mae. Me sacrificando pelos filhos.. Veja. Deixa de balancar a cadeira desse jeito. E deixa quieta a cadeira! Filho. as mentiras que voce contava pra ela. logo escuta a porta. não me lembro.. corri atrás do piano. voce fica encarregada do fogo enquanto eu vou comer. são fantasías.Sempre mentindo! Ainda me lembro de quando voce me ensinou a mentir pela primeira vez.Sim! O pelicano! Que. mae.! Voce devia ter feito isso faz tempo! Assim voce teria salvado quatro vidas.. di-lo. Mae – Como voce está? Está mal? Filho. Eu me lembro. se lembra? Mae – não. nunca alimentou com seu sangue os filhos. eu ainda menino. Mae – Com leite desnatada? Genro – Como deve ser. Acho que não vou durar muito! Mae – O que voce está dizendo.Sim.Por mim. Eu apenas sabia algumas palavras. Mae – E o que eu vou comer? Genro – As graos de aveia que deixará Gerda na cozinha pra voce cozinhar. Ascende já! Sopra bem! Isso.. posso dizer que lí a carta do pai. Filho.Veja bem. E que passei a vida inteira trabalhando. va a te a porta espiar.Muito mal. e chegou uma senhora de visita. Mas agora. como estou eu. porque não teria coragem. um pouco bebado) Mae (Assustada)-Ah! É voce! Filho. Genro – não. o que é que não fiz? Filho. Não vai conseguir.

Esqueceu já que eu te disse e eu apanhei por fofoqueiro e mentiroso! Voce usava sempre essas duas palavras. mas precissava disse-lo.. me levou a ver sua irma que trabalhava num burdel e aí presenciei as misteriosas cenas que os proprietários oferecem aos meninos na rua. voce falava que era mentira.De fato. mas agora ela tambem esta ciente disto! Mae – Para de se balancarna cadeira! O que ela sabe? Filho. Ainda me lembro bem das suas palavras: “bastante dificil é a vida.. Um ano depois.. Mas ele era bom com voce e conosco. não quero admitir.O que voce sabe e eu não consigo falar! É horrível ter tido tudo isso pra voce.” Mae – Teu pai. Nunca terminarei a carreira de advogado. em parte. eu sei. que a natureza tinha feito de voce uma grande impostora. Papai falava “Mesmo ponham ela na cadeira do tormento. voce foi assistir uma opera.. pelicano. animada pelo pouco afeto que voce sentia por mim. e muitos.. claro. ela nunca será capaz de admitiruma falta ou confessar uma mentira.. é bastante exepcional e está em contra das leis da natureza. . Ainda lembro da noite que Gerda estava agonicando.. Que sempre foi experta pra se livrar das suas responsabilidades e ir pra festa. tinha quatro anos. porque sempre que voce ouvia uma verdade. Um crimem que a lei não castiga. Mae – Continua..Tinha. essa mesma empregada. num ataque de colera.. continua mentindo! Filho. A empregada. por meu pai pra tumba. Embora tudo tenha sido verdade. na primaveira e outono. Por isso voce tambem não coneguia se corrigir.. e voce falava que eu mentia e me batia. e seu quarto era usado frequentemente pelo casal. mas tinha aprendido a mentir.. mas não quero acreditar. me iniciou aos cinco anos em todos os segredos do assunto! Com cinco anos! Depois comecei passar frio. E tive que esperar ate agora pra ficar sabendo que voce roubava o dinheiro. porque naoa credito na administracao de justica.Um dia o pai falou. pra que faze-la mais dificil?” E os tres meses de verao que voce passou em Paris com meu pai acumulando dividas pra familia. Me parece que quando passem o efeito do alcohol vou me matar. Mae – Por que voce não me disse antes? Filho. Tambem voce sabe como matou minha irma. Mas no teu matrimonio ainda tem segredos. Voce sabe muito bem como matou meu pai. Veja a Gerda que está nos ossos. As leis parece que foram escritas por ladroes e assassinos como propossito de absolver os culpados. que suspeitei. Mae (Dá volta como uma fera engaiolada) – Jamais ouvir um filho falar desse jeito a sua mae! Filho.E sabe porque sou tao magro? Porque voce nunca me deu peito! Me criei com a mamadera que me dava a empregada. mas tinha que falar isso! Voce estaba dormida como uma zonambula e não conseguiamos acordar voce. que era um bombeiro. fome como o pai e todos os outros. Entao me veja nos olhos.Filho. Uma delas ficava aqui em casa com o marido dela. Por isso continuo bebendo.Agora eu vou beber. coisas que eu intuo. Ele não tinha defeitos? Filho. Mae – não acha que voce já falou bastante? Filho. Naquele verao minha irma e eu estivemos que ficar na cidade com duas empregadas. que não tinha aprendido como as outras criancas a falar. Esses segredos foram levados. Quando contava pra voce o que tinha acontecido.

É o que eu achava ate faz pouco tempo. alguem pode me difamar! Sinto um despreco tao grande pela vida.. Frederico. muito longo! É terrível! Por que não me acordaram antes? Filho – Se ninguem conseguiu faze-lo.O testimonio de um homem honesto não vale nada. As onze e meia. É irremediável. Filho – Verdade. Quantas vezes não terei dito: “é tao ma que sinto lástima”! Mae – Obrigado pelas suas palavras. a abre e mira pra baixo. So vai complicar a situacao. Filho.Isto não tem mais solucao? Mae – não.. uma margem que falte no escrito pode fazer com que eu va pra cadeia. Não fica aqui. tem que ir embora.. fica um pouco com os bracos cruzados sobre o peito. é irremediável. Mae (beijando servilmente a mao) – Continua alando essas coisas! Filho.. Mae – não va embora. a historia do garoto seduzido. Voce não tem culpa nenhuma.Que voce não podia ser diferente de quem voce é.Pra que voce quer que eu fique? Não faria mais do que torturar voce com minhas palavras ate voce morrer.não posso falar mais. Axel é um canalha Filho.não va embora! Filho. quero pedir uma coisa pra voce. Filho -Uma coisa é consequencia da outra! Mae. Sim. claro que sim.Estou nervosa. Sim. Filho – Mas voce não tem coracao! Mae – não va embora! Não posso ficar aqui.. Vou embora. a sociedade e por mim que nem tenho mais vontade de fazer o menos esforco pra continuar vivendo. Agora va embora. me parecia ver dois grandes facas de cortar carne. eu.. Cena 13 Mae (Sozinha. Que me cortabam em pedacos o coracao. Mae – Em que ma companhia voce deve estar! Filho. um inocente! Se mostro clemencia por um delinquente. (Sai). pela humanidade. Filho.Está acordando? Mae – Sim.E essa cadeira de balanco me deixa louca. agora acordo.. Depois va pra janela. Agora acho que é mais uma vitima da tua perversidade... Mae – Repete essas palavras! Filho. Filho. (Va a porta) Mae – não va embora! Filho – Tem medo da escuridao? Mae. mas depois das doze perdi o processo. minha causa é considerada justa. Mae . Volta pro centro da habitacao e pega . mas as testemunhas falsas constituem uma prova concluente. Um erro. longe. será porque era impossível.Claro! Nunca tive boas companhias. como de um longo sonho..Pobre mae! Mae – Tem compaixao de mim? Filho.Sim. Quando ele ficaba sentado aí. Mae – Voce tem razao.

Se não come. que eu veja! Mae – não consigo! Gerda – (se ajoelha e tira uns pedacos de lenha de embaixo do diva). Se lembra do dia da sua boda? Escuta o vals. Frederico! (O vento derruba algumas coisas) Fecha a janela! Morro do frio! E o esquentador está desligado... Axel ficou chateado. Mae – Eu não consigo beber esse leite desnatado.. não fará nada de ruim pra mim. que tanta saudades sente de mim.. Mae – não tenho fome. Gerda – Voce já bebeu a nata de manha com o café das onze.! E agora come. que se abre de novo. não está morto? Que vou fazer? Donde vou entrar? (Se esconde atrás da escrivania). Sentia falta de voce! Mae – Que gentil! Gerda – Aqui tem a janta. o vento move a cadeira de balanco. Gerda – Tem sim. todas as lámparas. direi a Axel que robou a lenha! Mae – Axel.) Gerda – Seria mais prudente não relembrar aquele escandalo! Mae – E me dedicaram poesias. como as vezes. mas ao ouvir a porta bater muda de parecer) Quem será? Quem terá sido? (Fecha a janela) Entre! (Se abre a porta do fundo) Tem alguem aí? (Se escutam os gritos do filho no interior da casa) É ele! Na plantacao de tabaco! Entao.. logo apaga as lampadas menos uma) Mae (acorda e fica em pé) – não desliga! Gerda – Sim..impulso pra pula pela janela. ela comeca a dar voltas pela habitacao. Sabe por que? Pelo sadico sorriso que iluminava sua face quando nos obrigava a comer essa aveia. o que acontece é que voce não gosta de comer essa aveia. Gerda – não. que se escuta no interior da casa. Cena 14 Se escuta o vals “Il me disait” que toca em outra habitacao (A mae continua no diva com a cabeca escondida) (Entra Gerda com o prato de aveia numa bandeija que coloca na mesa. A mesma que voce dava aos cachorros. fecha a porta. (Ascende a luz eletrica. nunca.. (canta a melodia do vals. Mae – Gosto sim. (O vento sopra de novo e os papeis voam pela habitacao) Fecha a janela.. ate que se joga no diva e esconce a face). temos que guardar dinheiro! Mae – já Voltaram? Gerda – Como faltava voce. que pra mim foram as flores mais hermosas! . Mas hoje voce vai comer.

Gerda (pega a mae pelos hombros) – Acorda.. Se lembra quando voce me fazia pedir dinheiro pra ele. Gerda – Oh. Gerda .. victimas. e voce não mais do que uma menina.. mae! Acorda! Mae – Voce ainda não é uma pessoa adulta. mas ter tirado ele de mim. O que voce acharia de mim se me cassasse de novo! Gerda – Pobre mae! Ainda está como uma sonambula. cuja natureza faz com que ao passo dos anos.... E aí as adoraveis Peris que se alimentam do cheiro das flores. ainda quando eu era uma crianca..não.. me deu uma garrafa de vidro e um pedaco de GOMA que eu chupava. As Peris são uns genios ou fadas. Isso é o que eu comia. mae. vinagre e pao velho com mustarda! Mae – Veja só! Roubando desde pequena! Muito bem.. como temos vivido todos. como dize-lo? Atrativa que voce? Tenho a culpa que ele me prefera a mim? Sem duvida. voce me mandava falar que precissava de livros pra escola? Quando ele dava o dinheiro o repartiamos entre as duas. minha vida! Com ele foi que comecei a viver! Mae – Tenho a culpa dele ter me achado mais... eu nem entendia o significado desses palavras.. Como vou esquecer esse pasado? Não tem nada que faca eu esquecer minha memória? Se pelo menos tivesse forca pra deixar tudo isto! Mas sou como Frederico somos impotentes.. voce não estará achando que voce é uma Peri! Mae – Era o poema que falava isso.... alguem que nem consegue sofrer pelos proprios crimes! . meu pai não me castigava. é o único que me compreende. voce que me fez ir em contra dele! Se lembra de quando me ensinou a falar palavras que feriam pro meu pai. “No Ginnistan. E o tio victor que declarou o amor dele por mim. Gerda – Ate quando ameaca voce com o bastao? Mae – A mim? É a voce quem amenaca com o bastao.. tem melhor gosto do que teu pai.eu podia ter perdoado tudo. Eu o comia com mostarda e quando não aguentava mais a garganta tinha que beber vinagre..” Ginnistan é uma palavra que significa Jardim do Eden.. (Tres golpes na porta)Quem chama agora? Gerda – não fale mal do meu pai! Não acredito que me alcance a vida toda para arrependerme do mal que eu lhe fiz! Mas voce vai pagar. Claro. Eu sou sua mae que te criou com seu sangue.. Era o suficientemente inteligente como pra saber que voce manipulava a situacao...Gerda – Cala! Mae – Lembra daquela poesia? Quer que eu declame: Sei decor. voce está ficando louca? Mae – Ele sentia minha falta esta tarde.. minha filha! Gerda – Mas. Mas voce não vai acordar nunca? E tambem não entende os insultos de Axel? Mae – Quais insultos? Eu continuo acreditando que é um homem que tem muitas consideracoes comigo... que não soube me aprociar nem um pouco... Temos sempre tantas coisas do que falar. tuas victimas! E voce. Meu Deus.. fiquem mais jovens. Depois me vi obrigada a roubar comida. e ainda não tem vergonha de confesa-lo! Muito bem! E pensar que eu sacrifiquei minha vida por uns filhos assim! Gerda(chorando) . onde não tinha mais do que pao velho. sim..

acho. o que voce está falando? Fala claro! Filho – Sim. que tem fumaca.... meio bébado) Acho.. magra.O médico disse.l Mae – Como voce sabe isso? Gerda . mas uma luz vermelha a detem).. minha filha! Quando tenha o seu primeiro filho verá como vao sair todas essas ideias da sua cabeca. que a sua vez tambem poderiam culpar os pais deles e assim sucessivamente. Mae – Besteiras.. queima! Mae – Se queima? Mas. Mae – O que? Filho – Acho.. não.. Filho – Aonde vou? Não. é como se eu mesma me ferisse... não quero... se queimar. tudo tem que arder no fogo. corre! Temos que sair daqui! Filho – não tenho mais forca. o que mais pode fazer? Cena 15 Filho – (Entra.. o mesmo pasa em todas as familias.. dizem os livros da nossa infancia..E se eu pudesse fazer o mal do jeito que desejo. Gerda – Foge.. algo se qu. mas com a esperanca de que a vida depois melhore! Mae – Que exagerada é voce. que voce tem forca. Gerda .Fogo! Como vamos sair daqui? Não quero me queimar viva! Não quero! (Comeca dar voltas pela habitacao) Gerda (Abracando o irmao) – Frederico! Vai embora. o que sucede é que eles não o gritam a estranhos! Gerda – Se a vida é assim.. desnutrida como Frederico! E por isso não quero viver.. o que mais podia ser feito? Podiamos ter feito outra coisa? Gerda – não. que.. (Para a música... meu Deus.. nunca . (Abre a porta do balcao e se precipita no vazio) Gerda – Oh. abre a porta. e bem que pode ser assim. Gerda – Eu não posso ter filhos. de quem? Dos nossos primeiros pais. e assim eu tambem não culparei meus pais. Gerda . mas. não me culpe. na cozinha. acho que tem fogo! Mae (corre ao foro..Voce está mentindo de novo! Sou estéril. Alem.... Senao.Mae – O que voce sabe da minha infancia? Pode sequer imaginar o horror do hogar no qual eu fui criada? O mal que eu aprendí aí? É como uma heranca que vem de acima.. ajuda-nos.. se escutam gritos do Filho no interior) Mae – Outra vez bébado Gerda – Pobre Fedrerico.. Mae – Está errado. eu não quero viver! E se tengo que continuar vivendo prefiro ficar cega e surda para conseguir atravessar toda esta miseria... Filho – Era o único! Gerda – Voce que fez isto? Filho – Sim. Mae -Eu prefiro me jogar pela janela. voce já não existiria! Por que é tao dificil fazer mal? Quando tento ir em contra de voce.

como ele falava! O pelicano era ele! Era ele que se sacrificava por nos. Pobre mae. Frederico. se ve o intenso resplandor verlemho do fogo. Gerda – Me abraca.. É como em noite de Natal.. rápido... Filho (em extase).. o feio. O fogo não nos queimará. Pobre mar.. o ruim. Ia sempre mal vestido enquanto nos tinhamos as melhroes roupas. Nunca me senti tao feliz. Não. as ervas. meu irmao.. forte.! já não tenho frio. escuta o fogo... já vem. que bom é ter o calor agora.Já é verao? As flores! Estamos já de férias! Se lembra quando iamos no porto ver os barcos que estabam recem pintados. ate ficar satisfeitos. Não sente o cheiro bom? As flores do pai que cheiram a queimado! Agora se queima o armario da roupa da cama. Filho e Gerda caem no chao. não vejo ela... porque era tao ma. FIM. Filho – Irmazinha querida! Pobre mamae! Sente o calor. e o cravo. meu irmao. e passar o pao na manteiga... Abraca-me forte... meu irmao.. Mae já esta sentada no barco. onde estará... a canela.. Entao o pai estaba feliz! Se sentia viver. Qué claridade! A luz leva tudo. como dissia papai.. jantar na cozinha. Gerda.. era tao ma. que bom cheiro! No sente? É o aparador da cozinha que arde. Mais forte.. Sem mamae não estaremos bem. Tudo o velho arde. Cheiro de rosas queimadas! No tenha medo. o barco está saindo! Já soou a campana. o mal.. o café. me aperta no seus bracos.poderemos sair daqui.. Aí está vindo. não está... não está aqui. Me abraza. forte. Pobre mae. me abraca. Agora comecam as férias! (Pausa) Se abre a porta.. A fumaca noa afogará primeiro. . quando nos deixavam comer a vontade..

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