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O SERVIÇO DE INSPEÇÃO DO LEITE NA REGIÃO DE FRANCA - SP A PARTIR DA CRIAÇÃO DO PROGRAMA NACIONAL DE MELHORIA DA QUALIDADE DO LEITE
Claudine Campanhol Milinski (Uni-FACEF) Orientadora: Dra. Carla Aparecida Arena Ventura (Uni-FACEF)

Introdução Para que o Brasil pudesse competir na oferta de leite e derivados, no final dos anos 1990 foi criada uma política pública bastante abrangente e estratégica para o agronegócio brasileiro, denominada Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite - PNMQL. O Programa, que tem por objetivo alavancar o setor leiteiro com base em padrões de qualidade, visando a oferta de produtos com melhor nível sanitário para o mercado nacional e ampliação da participação brasileira no mercado internacional, foi oficialmente lançado pelo Governo Federal em maio de 1998 e regulamentado pela Instrução Normativa N° 51 do Ministério da Agr icultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, de 18 de setembro de 2002, que fixou os padrões sanitários para a produção, identidade e qualidade dos diversos tipos de leite produzidos no país, bem como a coleta e o transporte a granel do leite refrigerado, e está em vigor nas regiões sul, sudeste e centro-oeste desde julho de 2005 (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO, 2008). Um dos pontos abordados pelo programa é a melhoria da fiscalização dos processos de industrialização de leite e derivados, que no Brasil é realizada em três níveis: federal, estadual e municipal. A partir da implantação da IN 51, acredita-se que significativas mudanças ocorreram e estão ocorrendo para o processo de modernização do sistema agroindustrial do leite. A pesquisa justifica-se em função da necessidade de contextualização a respeito do PNMQL e os atores diretamente influenciados pelo mesmo, incluindo a visão dos órgãos regionais oficiais de inspeção de leite e derivados lácteos. Nesse sentido, o presente artigo propõe demonstrar a percepção de funcionários oficiais dos serviços de inspeção nas esferas municipal (SIM), estadual (SISP) e federal (SIF) com relação às mudanças ocorridas na inspeção e fiscalização junto às

que entrou em vigor em 01/07/2005 nas regiões sul.151 indústrias de leite e produtos lácteos da região de Franca-SP. A IN 51 determinou novos regulamentos técnicos para a produção. o RIISPOA. 2008). uma discussão nacional envolvendo os setores científico e econômico do sistema agroindustrial do leite. 2002). pasteurizado. para buscar alternativas para melhorar a qualidade do leite produzido no país. De acordo com a IN 51/2002. cru refrigerado. que estabeleceu um grupo de trabalho para analisar e propor um programa de medidas visando o aumento da competitividade e a modernização do setor leiteiro no Brasil. projeto que já vinha sendo desenvolvido desde 1996. a partir da implantação do PNMQL e apreender as influências da criação da referida política pública no desenvolvimento local. Esse grupo desenvolveu uma versão inicial do Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite . e o submeteu à consulta pública pela Portaria nº 56/99 no Diário Oficial da União (BRASIL. B. 1999). A versão definitiva das novas normas de produção leiteira foi publicada na Instrução Normativa nº 51 – IN 51. 1. cuja criação dá sustentação ao PNMQL. sudeste e centro-oeste e em 01/07/2007 nas regiões norte e nordeste (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. tornou-se obrigatória a refrigeração do leite na . 1998). a modernização do setor lácteo brasileiro acontece em três etapas para possibilitar a adaptação de produtores e de laticínios: na primeira fase.PNMQL. PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. C. Essa discussão resultou na Portaria nº 166/98 (BRASIL. O Programa publicado foi mantido à disposição para consulta pública por um período de 90 dias aceitando críticas e sugestões para análise e possível alteração. O Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite O Ministério da Agricultura do Brasil iniciou. assinada pelo então Ministro da Agricultura Pecuária e Abastecimento Marcus Vinicius Pratini de Moraes em setembro de 2002 e veio substituir a legislação de 1952. há cerca de 15 anos. identidade e qualidade dos leites tipos A. além de regulamentar a coleta de leite cru refrigerado e seu transporte a granel até as indústrias (BRASIL.

739. O produto podia apresentar no máximo 1 milhão de unidades formadoras de colônias/ml e 1 milhão de células somáticas/ml. 2008). em 10 de janeiro de 2008. a reformulação dos Regulamentos de Inspeção Industrial e Sanitária dos Produtos de Origem Animal – RIISPOA e do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal – DIPOA. todas as leis.152 propriedade e o transporte a granel até o laticínio. de 06 de janeiro de 2000. (NERO et al. em suas diversas ações. Na segunda etapa.. que possui sustentação na IN 51 criada pelo MAPA. o leite deve ser resfriado à temperatura inferior a 7° em até 3 horas após a ordenha e chegar à plataf orma da indústria à C temperatura máxima de 10° Na ultima etapa essas t emperaturas deverão ser de C. é seguida a lei municipal nº 4. São estas as ferramentas. a maneira que cada localidade brasileira encontra de fazer valer e atingir as metas propostas no Programa. os limites fixados serão de 100 mil unidades formadoras de colônias/ml e 400 mil células somáticas/ml (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. Para o Estado de São Paulo foi criada. as Resoluções nº 3 e nº 4 e especificamente para a região de Franca. 2005). prevendo diferentes prazos para as adequações exigidas pela IN 51. essas contagens deverão ser de no máximo 750 mil/ml. pois considera as diferenças econômicas e sociais das regiões brasileiras. de 31 de outubro de 1996 e o decreto nº 7. Na fase final. O Programa abrange. os Estados e municípios brasileiros forma autorizados a criar suas próprias legislações.782. Neste artigo. C C Para que fosse possível a implantação efetiva do PNMQL. O DIPOA vem se aperfeiçoando em . que entrou em vigor em 01/07/2008 para o primeiro grupo de regiões e entrará em 01/07/2010 para o segundo. O termo “Programa” refere-se a um conjunto de políticas públicas que implicam em ações de incentivo à qualidade do leite a serem desenvolvidas em escala gradativa e plurianual (MONTEIRO. para poder realizar as cobranças das exigências com foco regional e/ou local. 4° e 7° respectivamente. resoluções e decretos criados com base na IN 51 foram adotados como componentes integrantes do PNMQL. obviamente respeitando criteriosamente a legislação federal. PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Nas duas primeiras etapas. a fim de ajustá-los às novas normas exigidas. 2003). que entrará em vigor a partir de 01/07/2011 no primeiro grupo de regiões e em 01/07/2012 no segundo.

2004). diversas mudanças estão ocorrendo no cotidiano e nas relações entre todos os atores que compõem a cadeia produtiva do leite. o 1º ponto crítico de controle no processamento de qualquer produto lácteo (ICMSF. Os produtores rurais receberão o resultado de suas análises e com isso. Até 2011. o MAPA vai poder acompanhar a qualidade do leite em cada propriedade rural. uma vez que a produção representa. as indústrias estão adotando a postura de pagamento pela qualidade. muitas adequações ainda estão sendo realizadas para que o leite brasileiro . que passou a ser denominado “leite cru refrigerado” tanto para consumo como para produção de outros derivados ou. também abrange a criação e ampliação da Rede Brasileira de Laboratórios de Controle da Qualidade do Leite . “leite pasteurizado”. o PNMQL pretende acabar com a diferenciação entre os tipos de leite. No entanto. De modo geral. Entre outras ações. que são os laboratórios credenciados pelo Governo para receber mensalmente as amostras de leite de todos os produtores rurais que fornecem matéria-prima para as indústrias brasileiras. Um aspecto de fundamental importância é a conscientização da população quanto aos riscos para a saúde pública advindos do consumo de leite informal ou de baixa qualidade. De acordo com Velloso (2002). cerca de 50% do leite consumido no país é informalmente oferecido ao consumo. o Programa eliminou a comercialização do leite tipo “C”. pois será produzido um tipo “único” com padrão internacional de qualidade.153 Programas de Segurança Alimentar como a Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle – APPCC e após a IN 51. LÜCK. Desde o início da vigência do PNMQL em 2005. 1987). quando envasado e submetido ao tratamento térmico. e exigir que os problemas detectados sejam resolvidos (DÜRR. O autor destaca que esse tipo de problema precisa ser realmente assumido e resolvido pela sociedade brasileira. exige que o serviço de inspeção realize essa cobrança junto às industrias que fiscaliza. na forma direta ou através de derivados. As indústrias devem concentrar esforços junto aos seus setores de captação de leite. pôr parte da empresa. Até o presente momento. todos os ramos do sistema agroindustrial do leite no Brasil têm demonstrado interesse na melhoria da qualidade do leite e derivados para a ampliação dos mercados consumidores nacionais e internacionais. Para incentivar os produtores rurais a investir na melhoria da qualidade do leite e produzir de acordo com os padrões exigidos.1991.RBQL. exigindo a aplicação da legislação que proíbe esse tipo de comércio.

bem como os registrados nos serviços estaduais não podem comercializar fora do Estado de origem. não havendo simplificação das normas pelo tipo de registro requerido. Pecuária e Abastecimento . 2. a responsabilidade é estadual e se ocorrerem entre Estados e/ou internacional. por intermédio da Vigilância Sanitária. Estadual e Municipal.283 de 1950 instituiu o SIF – Serviço de Inspeção Federal. em 1989 foi promulgada a lei federal nº. também em 1989 houve a transferência compulsória de responsabilidade. Os Serviços de Inspeção Sanitária A industrialização do leite e derivados lácteos no Brasil é fiscalizada em três níveis: federal. Com o PNMQL pretende-se provocar mudanças definitivas no sistema agroindustrial do leite. os estabelecimentos registrados no Serviço de Inspeção Municipal não podem comercializar fora do município de origem. delegando aos Estados a obrigatoriedade da prestação do Serviço de Inspeção Sanitária e Fiscalização dos Produtos de Origem Animal e o SIM . Através de um decreto. Dentre os envolvidos nessas mudanças estão os Serviços de Inspeção em níveis Federal. . A lei federal nº.MAPA e as Secretarias Estaduais e Municipais de Agricultura. a responsabilidade é federal.Serviço de Inspeção Municipal. A diferença básica se dá no âmbito da comercialização. 1. que devem tornar-se mais eficientes para garantir a melhoria da qualidade do leite produzido no país e a modernização do setor lácteo brasileiro.889/89 que instituiu o SIE – Serviço de Inspeção Estadual. estadual e municipal. Assim. Caso aconteçam dentro do Estado. Após quase 40 anos. cada vez mais atento e exigente com relação às questões de segurança alimentar. Já a fiscalização no varejo compete à Secretaria de Saúde. São competentes para realizar essas inspeções e fiscalizações nos estabelecimentos industriais e no transporte o Ministério da Agricultura. serviço que pode ser estadual ou municipal. que é baseado nos mesmos instrumentos legais que dão sustentação em nível federal e estadual. Se a produção e comercialização ocorrem no âmbito municipal. 7. órgão responsável pela fiscalização da industrialização de leite e derivados em todo o país.154 atinja melhores níveis de qualidade e possa efetivamente conquistar espaço e respeito no mercado atual. a competência de inspeção e fiscalização é de responsabilidade do município.

Na presente pesquisa foram realizadas entrevistas com funcionários oficiais dos Serviços de Inspeção Municipal (SIM). portanto. os resultados como fruto de um trabalho coletivo resultante da dinâmica entre pesquisador e pesquisado.155 3. . Para Queiroz (1988). Vergara (2003. p. a fala e o silêncio. a aceitação de todos os fenômenos como igualmente importantes e preciosos – a constância e a ocasionalidade. Estadual (SISP) e Federal (SIF) da região de Franca a fim de verificar a percepção dos mesmos com relação às mudanças que ocorreram após a implantação do PNMQL nas indústrias de leite e derivados lácteos registradas no SIM. a responsável pela obtenção e interpretação dos dados. Em um estudo interpretativo. p. 2000). a continuidade e a ruptura.49) “os métodos qualitativos enfatizam as particularidades de um fenômeno em termos de seu significado para o grupo pesquisado”. estadual e federal.estruturada que será aplicada aos representantes dos órgãos oficiais de inspeção municipal. como o reconhecimento dos atores sociais como sujeitos que produzem conhecimentos e práticas. e destaca características importantes que devem estar presentes. a entrevista semi-estruturada é uma técnica de coleta de dados que supõe uma conversação continuada entre informante e pesquisador e que deve ser dirigida por este de acordo com seus objetivos. sem respostas ou condições prefixadas pelo pesquisador (MINAYO. Metodologia A pesquisa de campo está fundamentada na abordagem qualitativa. As informações foram coletadas pela própria pesquisadora. (1997. que foi. Nesse sentido. a coleta dos dados se dará por meio de entrevista semi. 47) afirma que: “pesquisa de campo é investigação empírica realizada no local onde ocorre ou ocorreu um fenômeno ou que dispõe de elementos para explicá-lo”. as revelações e os ocultamentos. para Diehl e Tatim (2004) os estudos qualitativos podem descrever a complexidade de determinado problema e possibilitam o entendimento das particularidades dos acontecimentos. SISP ou SIF. o significado manifesto e o que permanece oculto. a freqüência e a interrupção. Todas as características subjetivas complementarão os relatos coletados nas entrevistas de campo. Da mesma maneira. Chizotti (1995) menciona a necessidade de imersão do pesquisador nas circunstâncias e contexto da pesquisa. Para Goldenberg. Os entrevistados poderão se manifestar sobre o tema proposto.

Procedimentos da pesquisa de campo 3.156 Posteriormente as entrevistas foram gravadas. em uma sala anexa às instalações da indústria. é responsável por apenas um estabelecimento registrado no SIM. As informações foram registradas em diário de campo. 3.1. Estadual (SISP) e Federal (SIF) que participaram da fase anterior da pesquisa. O Serviço de Inspeção Federal da região de Franca localiza-se no interior da Usina de Laticínios Jussara em Patrocínio Paulista-SP (pequeno município vizinho de Franca). O Serviço de Inspeção Municipal possui o seu escritório no Parque de Exposições Fernando Costa da cidade de Franca e. Estadual (SISP) e Federal (SIF) de FrancaSP a fim de captar dados através de observações e conversas informais que serviram de subsídio para a elaboração do roteiro de entrevista. através da elaboração de categorias de análise.1. através das seguintes categorias de análise: Categorias de Análise Existência de Padrão para a qualidade do leite após a criação do PNMQL Opinião sobre o PNMQL Conseqüências observadas após a implantação do Programa Diferenças/semelhanças nos serviços de inspeção . em função do caráter permanente da fiscalização do SIF. transcritas na íntegra e submetidas à análise de conteúdo. O Serviço de Inspeção Estadual localizase no Escritório Regional de Defesa Agropecuária na cidade de Franca e é responsável pela inspeção e fiscalização de 13 municípios da região. B) Fase Focalizada Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas individuais com os funcionários oficiais dos Serviços de Inspeção Municipal (SIM).1. em relação à industrialização de leite. O entrevistado do SIF é fiscal permanente e exclusivo da Usina de Laticínios Jussara. a coleta de dados se deu em duas etapas. transcritas na íntegra e submetidas à análise de conteúdo. As entrevistas foram gravadas. Coleta dos dados Para um melhor desenvolvimento da pesquisa. descritas a seguir: A) Fase exploratória Na etapa exploratória foram realizadas reuniões prévias com os funcionários dos órgãos de Inspeção Municipal (SIM).

4. A técnica de análise de conteúdo refere-se ao estudo tanto dos conteúdos nas figuras de linguagem..2.. 4. que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. De acordo com os entrevistados. o leite produzido na região de Franca.] antigamente você não tinha padrões pra microbiologia [.. o PNMQL trouxe parâmetros e referências para direcionar a busca da melhoria da qualidade do leite produzido no Brasil. A padronização da qualidade do leite O processo de melhoria da qualidade do leite não acontece subitamente. das quais foram extraídos os temas de maior relevância para a pesquisa.]..157 Mudanças na rotina de trabalho após a implantação do Programa Cobranças das exigências do Programa Responsabilidade pelo controle de qualidade do leite Importância da atividade leiteira para a região 3. entrelinhas. Não existia. Estadual e Federal que atuam na região de Franca.]” . reticências. Então esse Programa traz padrões [. bem como todo o leite brasileiro. a qualidade do leite produzido na região de Franca demonstrou significativos avanços e atualmente as indústrias da região obedecem às regras mínimas para a obtenção de qualidade da matéria-prima. a Assistente Agropecuária e Assistente de Planejamento do Serviço de Inspeção Estadual e o Diretor do Serviço de Inspeção Municipal. quanto dos conteúdos manifestos e explícitos.. conforme demonstrado abaixo: “[. de acordo com Bardin (1977) é configurada como um conjunto de técnicas de análise das comunicações.. Antes de 2005. A análise do conteúdo das entrevistas possibilitou apresentar as mudanças que ocorreram após a implantação do PNMQL na visão dos funcionários dos órgãos oficiais de Inspeção Municipal. A análise de conteúdo. A partir da implantação do PNMQL em 2005. Análise dos dados Os relatos obtidos nas entrevistas foram transcritos na íntegra e passaram por análise de conteúdo. não possuía padrões definidos de qualidade.1. Resultados As entrevistas foram realizadas com os seguintes atores-chave: o Agente de Inspeção Sanitária e Industrial de Produtos de Origem Animal do Serviço de Inspeção Federal.

como destacase: “Hoje.. Além desses aspectos. e o que tá dando padrão hoje. entendeu? [.. 30 litros de leite por dia. O SIF. em relação ao SISP e ao SIM.. Eu acho que [o Programa] não consegue atingir todo mundo”. por enquanto. [. é isso aqui... “[o produtor rural] volta a vender leite em garrafa PET. que não dá para controlar. tem muito leite clandestino. tanto faz se é leite tipo C. aqui em Franca mesmo.] a Resolução”. A atuação da inspeção federal é realizada de forma permanente enquanto que a inspeção estadual e a inspeção municipal são executadas periodicamente.158 “[.] toda a indústria que tem produção grande como tem aqui.. proveniente do pequeno produtor rural que não possui condições econômicas e financeiras para se adequar às exigências.. Antes a análise com 10 milhões. os órgãos de inspeção entrevistados possuem âmbito de ação diferente e as suas perspectivas são distintas em alguns aspectos.. E aí o é que isso te traz? Te traz um problema maior do que você tinha antes”.] primeiro que São Paulo nem sabia o leite que era produzido. é que nós estamos permanentemente aqui dentro. as exigências por parte dos órgãos de fiscalização oficiais têm gerado..] a [IN] 51 ela veio pra dar parâmetros.. Na estadual não existe e na municipal não existe [. muita coisa irregular ainda. No entanto. estadual e a federal. ela tem uma inspeção permanente”..]. tá se descobrindo [. padronizou e passou a exigir a nível de produtor. “a diferença da municipal.]” “[.] Tanto faz se é leite tipo B.. que tem SIF. Então ela facilitou e melhorou a qualidade de leite nesse sentido”. é o único órgão que possui sala e integra as atividades diárias das indústrias com o referido registro. né? Então na verdade.]a grande vantagem é que começou a ter padrões. pra normatizar a produção de leite no Brasil como um todo. a gente não tá nem melhorando. Hoje não pode produzir mais com 10 milhões e achar que tá bem. “[. ele não tem condições de colocar um tanque de expansão lá pra 15 litros de leite por dia... não tinha padrão. [. você era obrigado a receber [... pra depois passar pro processo de melhoria.. durante esse período de transição e adaptação dos produtores rurais e das indústrias às novas normas.. um significativo aumento na comercialização de leite clandestino na região. ela normatizou. . Não tinha padrão.] E aí o que ele vai fazer? Ele vai lá e vai vender na garrafinha PET.

Serviços de Inspeção versus Indústria: adaptações ao Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do leite Após a implantação do PNMQL verificou-se diversas mudanças. conforme relatado enfaticamente em uma das entrevistas: “a lei maior sai da federação. Não pode ser menos rigorosa”. entendeu? Não existe estrutura nenhuma. mas não menos rigorosa. Quer dizer. A resolução não anula em nenhum momento o mais alto”. a inspeção municipal e estadual ela tá muito longe da inspeção federal. Não menos exigente do que a federal. A regra geral diz que nenhuma legislação estadual ou municipal pode sobrepor ou anular uma legislação federal. de pessoal treinado. eles podem fazer uma outra legislação mais rigorosa do que a federal. 4. entendeu? A minha não pode ser menos exigente do que a do SIF. Igual ou mais rigorosa. se viram obrigados a elaborar as suas próprias legislações. tratava da qualidade do leite em uma nova perspectiva de modernização. eu tenho que respeitar. Os Estados. principalmente no que se refere a fiscalização da qualidade do leite. na relação dos órgãos oficiais de inspeção com as indústrias e também na relação da indústria com os seus fornecedores de matéria-prima. eu não posso deixar de seguir ela também. cada um a sua maneira. aos aspectos citados pelo agente de inspeção sanitária e industrial de produtos de origem animal do SIF: “na prática. o municipal ele pode fazer uma outra legislação. A nossa legislação ela pode ser mais exigente do que a federal e não menos. Através da realização das entrevistas foi possível perceber que nem todos os envolvidos com os serviços de inspeção possuem clareza quanto as suas competências totais enquanto fiscalização oficial. A partir da criação do PNMQL. “Tem coisa que o RIISPOA [Regulamento para Inspeção Industrial e Sanitária para Produtos de Origem Animal] é mais exigente. ela pode mais exigente. . de servidor suficiente pra fazer o trabalho. entendeu? Porque esse aqui é a da federação. em diferentes aspectos. principalmente. estruturalmente. de pessoal capacitado. No entanto. Pra você colocar SIF numa empresa.2. os Estados e os municípios brasileiros. afim de cumprirem com a legislação federal que a partir de então. a facilidade é muito maior do que vc colocar SIF. é muito mais difícil. entendeu? Em termos de estrutura. entendeu? Ela tem que aceitar todas as exigências que o Ministério da Agricultura preconiza”. que quer por inspeção estadual ou inspeção municipal. qualquer empresa pequenininha. No municipal é a mesma coisa.159 As diferenças de atuação dos órgãos oficiais de inspeção se devem. mas mais rigorosa.

) essa daí é obrigatória.. emitir circulares de orientação pra conscientizar os produtores e tomar conhecimento das responsabilidades e obrigações deles inerentes à IN 51”.] 100% dos produtores são coletados mensalmente e mandado pra fazer a CBT e a CCS fora. em todos os postos de captação.. tava 100% granelizado [. Essa é uma exigência do MAPA. em virtude da instituição da IN 51.] porque eles viram que era melhor negócio do que o latão [.] eles vão em todas as regiões. Uma das principais mudanças exigidas no PNMQL foi a granelização no transporte do leite. A equipe de captação é ligada ao controle de qualidade e [. a indústria investiu em todos os produtores....] conseguiram financiamentos bons para os produtores pra poder colocar rápido o tanque.) não existia a nível de produtor”.160 Entende-se que todos os elos que compõem o sistema agroindustrial do leite estão intimamente envolvidos no processo de melhoria da qualidade do leite brasileiro e por esse motivo. ou seja...... “Os tanques. os produtores rurais também aparecem em diversos trechos das entrevistas. Além disso. na ESALQ (. o pessoal da captação tem um cronograma de palestras [.. “ainda existem as palestras até hoje. Então. a partir da IN 51 (. depois o cara pagava com leite [.. o envio mensal de amostras de leite de todos os fornecedores da indústria para um laboratório da Rede Brasileira de Laboratórios de Controle da Qualidade do leite – RBQL passou a ser obrigatório. a partir de 2005. imediatamente em 2002. Eles.. quando chegou em 2005.. em Piracicaba-SP: “Todo mês eles coletam amostra do produtor [. Para que o produtor rural pudesse entender as mudanças que estavam ocorrendo e qual era a proposta do PNMQL. em caminhões-tanque e não mais em latões de leite. Isso implicou ao produtor rural de leite a aquisição de tanques de resfriamento para armazenamento do leite cru na propriedade até a chegada do caminhão de coleta: “Desde 2003 [a indústria] já começou investindo nos tanques e já passou nas palestras o porquê dos tanques e apresentando a IN 51”. elas passaram a fazer palestras junto a seus produtores. a partir da criação de IN 51/2002 a indústria se mobilizou. que essas análises sejam realizadas. levando informação e orientação até o campo conforme descrito pelos entrevistados: “As empresas atualmente.] são contratados da empresa”.. a entrega do leite deveria ser realizada. O laboratório da rede mais próximo para atender a região de Franca é a Clínica do Leite da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – ESALQ.. A função nossa é cobrar que essas providências. . Ela ajudou.]”.

que jeito que tava.. no caso. o leite gelado.. pelo que a . o RIISPOA . o laticínio transportava tudo em latões.. criou o laboratório.. É caminhão-tanque. mais iguais pra todos os produtores”. houve uma conscientização muito grande a nível de empresariado em termos de produção nacional”. “Antes da IN 51 os problemas eram com os produtores. A gente tinha que ver as condições do latão. Porque vc tinha problemas sérios de leite com acidez [. foi realizado um forte trabalho de conscientização com todos os atores envolvidos no sistema agroindustrial do leite: “Pro serviço de inspeção teve mudança de atitude. então o ministro convocou uma comissão que tá fazendo uma revisão do RIISPOA pra poder melhorar ainda mais o nível de fiscalização [. Também na rotina de trabalho dos serviços de inspeção ocorreram mudanças. As alterações ocorridas nas indústrias de leite são fiscalizadas pelos serviços de inspeção federal.] tá sendo revisado e nós devemos sair. estadual ou municipal: “O que mudou foi que o laticínio criou o laboratório e ele mudou o transporte. Agora a gente olha o caminhão”. se tava limpo.] A IN 51 ela tornou o poder de fiscalização mais eficiente.161 As indústrias de leite que ainda não dispunham de laboratório interno de análises físico-químicas e microbiológicas tiveram que se adequar e foram obrigadas a adquirir ou reforçar a frota de caminhões-tanque para o transporte do leite a granel. Com a modernização e tecnificação da cadeia produtiva do leite...] a amostra passou a chegar aqui já pronta. a coleta pronta. vc vai ter que enquadrar. Ele comprou o caminhão-tanque e ele se enquadrou. Então nós fomos lá fiscalizar. então vc muda todinha a sua rotina [... a legislação vigente sobre leite e produtos lácteos. Ele transportava em latões de leite e teve que comprar o caminhãotanque. Os serviços de inspeção demonstram estar cientes e concordantes com as alterações que irão ocorrer: “O RIISPOA está em revisão.. A partir de tal data é IN 51.. mais dinâmico e com parâmetros mais claros. De um dia pro outro a nossa rotina também mudou [. houve uma conscientização muito grande a nível de produção lá na fazenda. devido aqueles problemas da operação ouro branco.Regulamento para Inspeção Industrial e Sanitária para Produtos de Origem Animal também está sendo reformulado.] a IN 51 preocupou muito com isso.. Para que toda a cadeia mudasse.. a partir da data ele comprou o caminhão tanque e passou a transportar assim. Antes da IN 51.

] tá escrito na legislação.. só que é checado pela inspeção federal todos os dias”. com a evolução das industrias[. Ah. e não uma inspeção permanente. É por causa de evolução das industrias do Brasil e do mundo [. ..] Então eu vou pegar o resultado da análise dele e vou ver o padrão que tá o leite dele. deu presença de antibiótico. E cada vez mais. Então. Nós vamos fazer só periódico”. então.] Você tá enviando as amostras pra Clínica do Leite? Não.] tá tecnificando muito a produção. “não é por causa de falta de profissional.. No SIE e no SIM. a gente vai sair também de dentro da indústria.] Fiscalização periódica [. entendeu? Ah. procedimento operacional padrão [. “[na inspeção estadual e municipal] a responsabilidade é 100% da empresa. 4. Que isso sim assegura que o estabelecimento está dentro das normas [.. É porque hoje em dia tem maquinário..] Com exigências de programas de auto-controle da industria [.] análise de risco e pontos críticos de controle.. [. Isso tudo a gente chama de programas de auto-controle da industria [. A gente vê esse resultado e vê se tá batendo com o que a legislação tá preconizando.. esse trabalho é facilitado em função do referido órgão de inspeção estar localizado permanentemente no interior da indústria. No entanto.. não tô. “Então eu vou fiscalizar um laticínio [.162 gente tá entendendo. esse trabalho é realizado em conjunto com o Responsável Técnico contratado pela indústria para monitorar a qualidade da matéria-prima recebida pela indústria e inspecionar os processos produtivos de maneira constante e diária. Então me mostra as análises [. sabe. não deu presença de antibiótico. então tem que tá tudo arquivadinho lá [. pouca célula somática.. aí que tá onde a gente fiscaliza a qualidade do leite. “Porque hoje em dia.. a gente tá inserindo [. que cada vez mais a gente exija os programas de auto-controle. no SIF.] Mas não porque é falta de profissional. higiene operacional..] Pra cada vez menos precisar da intervenção do fiscal”... que são as boas práticas de fabricação. tô.. a responsabilidade de inspecionar e fiscalizar os produtos lácteos é atribuída aos serviços de inspeção federal. Os Serviços de Inspeção e suas responsabilidades Pela legislação federal.] ele vai receber laudo de análise.. A proposta está se voltando mais para ser auditores mesmo. pois os fiscais de inspeção estadual e municipal visitam as indústrias periodicamente..] É como uma auditoria... Ou.] essa é a proposta. Aqui [na inspeção federal] a responsabilidade de coletar o leite também é da empresa. entendeu? A resolução nº 3 e nº 4 [estadual] fala dos padrões como na IN 51”. fiscalizador...3......] os programas de auto-controle da industria... Passível de autuação [. estadual e municipal.. muita célula somática. entendeu? Maquinários que fazem o que o humano que fazia antes”.

5. No caso do SIM. do interior das industrias e o tornará periódico como acontece com os Serviços de Inspeção Estadual e Municipal... Nas entrevistas é citado que o RIISPOA está passando por reformulação. de acordo com os entrevistados. o PNMQL trouxe padrões de qualidade para o leite produzido no Brasil. O fiscal federal afirma na entrevista que cobra a exigência e não está tendo problemas com essa adequação. que hoje é realizado de maneira permanente. 2002. 1952. Não somos nós que analisamos o leite. A totalidade dos produtores que fornecem leite para a Usina de Laticínios Jussara. foi observado que não há o cumprimento total da lei federal. A principal razão dessas mudanças foi a necessidade de adequação das normas publicadas no RIISPOA às atuais realidades de produção e consumo de leite no Brasil (BRASIL. Antes da implantação do Programa não havia parâmetros que orientassem para a busca da qualidade. Nós olhamos o sistema de produção. A fiscalização é realizada apenas no que diz respeito à estrutura física de produção da indústria. a região de Franca está cumprindo a exigência a partir da implantação do PNMQL. a responsabilidade é do Responsável Técnico”. A checagem dos resultados laboratoriais referentes à qualidade do leite. na qual determinará a saída do Serviço de Inspeção Federal. e a parte da qualidade do leite.163 “[em âmbito municipal] Análise quem faz é o Responsável Técnico. onde se localiza o SIF estão enviando amostras para o laboratório da rede. Com relação à obrigatoriedade de envio mensal de amostras de leite para análise na Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade do Leite – RBQL. a inspeção e fiscalização do leite e dos produtos lácteos produzidos pelas indústrias da região é de responsabilidade dos fiscais oficiais. realizados diariamente pelo . MARTINS.. no que diz respeito à fiscalização da qualidade do leite. Mas quem faz análise é tudo o próprio responsável técnico. 2004). que é a lei maior. Discussão (em desenvolvimento) De acordo com os entrevistados. Em momento algum foi colocada como responsabilidade exclusiva do Responsável Técnico da indústria. Para os entrevistados do SIF e do SISP..

K. 1991. M. identidade e qualidade do leite tipo. Cria grupo de trabalho para analisar e propor programa e medidas visando ao aumento da competitividade. 1977. Lisboa: Edições 70. 1997. Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal.. Diário Oficial da União. In: Robinson. Seção 2. 2002.. W. Portaria nº 56. p.. INTERNATIONAL COMMISSION ON MICROBIOLOGICAL SPECIFICATIONS FOR FOODS. Diário Oficial da União. v. El sistema de análise de análisis de iresgos y puntos críticos: su aplicación a las industrias de alimentos. Control de la calidad de la industria Lactologica. 30.255-94. Competitividade da cadeia produtiva do leite no Brasil. O Compromisso com a Qualidade do Leite no Brasil. Análise de conteúdo. Referências BARDIN. TATIM. p. Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite: uma oportunidade única. Portaria nº 166. L.691.C. Brasília. Pesquisa em ciências humanas e sociais. Revista de . A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. In: DÜRR. DÜRR..13.. MARTINS..164 Responsável Técnico da indústria. Brasília. Diário Oficial da União. 10785. Zaragoza Acribia. BRASIL.42. BRASIL. de 29 de março de 1952. C. R. p. D. A.2. Aprova os regulamentos técnicos de produção. 1999. Brasília. Rio de Janeiro: Record. M. Percebeu-se durante a entrevista a falta de clareza em relação às competências totais do serviço de inspeção municipal e o conhecimento parcial da legislação federal. Instrução Normativa nº 51. Pesquisa em ciências sociais aplicadas: métodos e técnicas. p.. H. deveriam ser auditadas pelo fiscal municipal e. São Paulo: Prentice Hall. de 20 de setembro de 2002. 1995. DIEHL. Passo Fundo: EdiUPF. 06 maio 1998. J. BRASIL. de 107 de dezembro de 1999. Acribia 1987. BRASIL. Seção 1. J. Decreto n. 2004.). São Paulo: Cortez. p. Brasília. A. Zaragoza. GOLDENBERG. 07 jul. seção I. Seção 1. ed Microbiologica Lactologica. 21 set. et al. (eds. 2004. 1952. no entanto isso é negligenciado. W. Submete a consulta pública os regulamentos técnicos de padrão de identidade e qualidade de leite. 08 dez. Diário Oficial da União.34.A.. CHIZOTTI. LÜCK. que é referência obrigatória para a elaboração da legislação municipal. de 05 de maio de 1998.

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