A PRÁTICA DA REPORTAGEM

A PRÁTICA DA REPORTAGEM 1 OBRA Autor: Ricardo Kotscho Editora: Ática Série: Fundamentos Local: São Paulo Ano: 1986

2 CREDENCIAIS DO AUTOR Ricardo Kotscho ingressou na carreira jornalística por influência de sua família. Suas primeiras experiências foram em jornais pequenos de São Paulo, tinha menos de 18 anos quando começou a trabalhar. Kotscho é hoje o que se pode chamar de um repórter investigativo. Em sua vida, já teve que fugir dos "poderes maiores" que regiam o país na época da ditadura. Nesse período, sua opção foi aceitar uma oferta de emprego para ser correspondente na Alemanha, se por acaso ficasse aqui, poderia até morrer. Hoje ele trabalha como diretor do Canal 21 da TV Bandeirantes e é colunista do Diário Popular. 3 CONCLUSÃO DO AUTOR Na época da ditadura, alguns jornalistas vagavam pelas cidades, em simpósios, reuniões, para romper o então agonizante silêncio, que cerceava a liberdade de expressão de cada um. As reuniões, ou encontros do gênero, aconteciam em escolas ou sindicatos, e as pessoas que procuravam os jornalistas, não os procuravam para saber somente a respeito das idiossincrasias da profissão. Elas estavam interessadas em tudo, ou seja, olhavam o jornalista como alguém que estava a par de todos os acontecimentos efervescentes da época. A resposta para isso é muito simples: ao jornalista cabe não apenas noticiar, ou escrever bem. Mas sim informar e atuar em meio a sociedade como se fosse um sacerdote, como dizia Fernando Pessoa. O jornalismo, é sem dúvida, um sacerdócio pois não se trata de uma profissão qualquer, é uma entrega diária, e uma opção de vida que vem do sangue. Por isso, saber ler e escrever bem, não é tudo nessa profissão. O que mais importa, como afirma Ricardo Kotscho em seu livro, A PRÁTICA DA REPORTAGEM é que ser jornalista é saber informar para transformar, portanto é uma arte. Há muitos aspirantes a jornalistas hoje em dia, talvez pelo fato de o jornalismo fazer parte do Show Bussiness e ter um certo glamour da mídia. No entanto, esse sucesso nem sempre acontece, e o jornalista pode estar fadado ao fracasso, ou ostracismo. Contudo, ser jornalista, é mais do que ver seu nome impresso em uma coluna de jornal, ou ainda,

Só assim vale a pena escolher a profissão. Para exercer essa profissão não basta saber – ou alegar saber – escrever. muito sol ou muita chuva. a qualquer hora e em qualquer lugar 4 DIGESTO Para Kotscho. Isso também acontece com o repórter que vira escravo da pauta e não faz nada além daquilo que é mandado. da "neutralidade" do repórter. os grandes assuntos. Não trata-se aqui da tal "objetividade jornalística". é a capacidade de transformar os pequenos fatos que fazem do dia-a-dia da cidade. ainda que o tema já seja batido. um sacerdócio. o que realmente diferencia um repórter do outro. desumano. cabe ao profissional da reportagem a missão de retratar a realidade tal como ela é. mas sem nenhuma grande novidade. onde estiver. Pode-se fazer uma reportagem de mil maneiras diferentes. Pecado capital é desprezar uma pauta antes de saber o que ela pode render. O ofício de repórter.conseguir seus 15 minutos diários de fama. mas é a arte de informar para transformar. só é valido. Há porém. A solução é não se acomodar. do país e do mundo em matérias boas de ler. É na rua que as coisas acontecem e a vida se transforma em notícia. E mais estar na rua em busca de notícia. Além disso cada história é uma história e merece um tratamento único. mostrar algo novo que está acontecendo. dependendo da criatividade e sensibilidade de cada um. morre de inanição. do país e do mundo. Um deles é a capacidade de transformar os pequenos fatos do dia-a-dia da cidade. Se existe os jornais seriam todos iguais. especialmente na reportagem. desde que seja uma pessoa honesta. O repórter que fica a vida toda esperando um grande assunto lhe cair nas mãos para fazer a matéria da sua vida. com pauta ou sem pauta. Não existe no Jornalismo (e esta tem sido a decepção de muita gente) um conjunto de regras que ensine como fazer uma boa reportagem. estão em todos os jornais e televisão. É preciso entender que a tarefa do repórter não se limita a produzir notícias segundo alguma fórmula "científica". injusto. dependendo da cabeça e do coração de quem a escreve. se ele tentar sempre mudar o que está errado e injusto na sociedade. Por isso não existem regras científicas no Jornalismo. cultivar as próprias fontes e manter as antenas ligadas dia e noite. lutando sempre para transformá-la naquilo que tem de errado. de caráter e princípios. em matérias boas de ler. pode render uma boa matéria. mesmo que o assunto seja desagradável pois qualquer assuntos serve quando se pode por meio dele. contados de formas diferentes. Jornalismo não é tão somente uma profissão mas acima de tudo uma opção de vida ou. Infelizmente a pauta apesar de organizar melhor o trabalho na redação dos jornais acomodou o repórter que aos poucos tornou-se um mero cumpridor das ordens do pauteiro ou editor. como diziam alguns dos veteranos da imprensa nacional. já que os grandes acontecimentos. Pelo contrário. Mesmo os assuntos mais rotineiros como uma enchente na cidade. garimpar por conta própria bons assuntos. Jornalismo também não é uma ciência exata que se aprende em pouco tempo. . algumas maneiras de fazer jornalismo que diferenciam uma reportagem da outra e consequentemente um repórter do outro.

Outro caso que exige muita dedicação e competência é a chamada reportagem investigativa. Economia. Ela rompe todos os organogramas e burocracias e por isso mesmo. não basta apenas a paixão. Paralelo a essa mudança nota-se nos grandes jornais um espaço cada vez menor para a chamada "grande reportagem". Algumas dessas reportagens são "quentes". O perfil é o tipo de reportagem especial que permite ao repórter fazer um texto mais trabalhado falando sobre a vida de um personagem raro. aquele que é pau para toda obra. esquecer a hora de comer e de dormir. como nas demais áreas profissionais. Outro fator determinante para que a reportagem seja bem sucedida é a parceria entre repórter e fotógrafo. de entrega e amor ao ofício. Artes e Espetáculos: os nomes variam mas geralmente são estas as áreas em que se divide a reportagem nas redações. Polícia. Em ambas as situações. Para fazer uma grande reportagem. o importante é que o repórter esteja bem informado sobre o assunto para que possa procurar as causas dos fenômenos e não ficar somente nos seus efeitos. tornam-se cada vez mais escassos os profissionais capazes de produzir reportagens por assuntos tão diferentes como política e polícia e o repórter de "geral". É preciso muita responsabilidade e preparação. aquelas que procuram descobrir e contar para todo mundo aquilo que se está querendo esconder da opinião pública. é preciso que o repórter transmita ao leitor a informação mas também a emoção dos fatos que está cobrindo. isto é. Política.Além disso. possibilitando sua completa interpretação. tanto em número de linhas quanto em páginas do jornal e implica em grandes investimentos humanos e financeiros para a empresa. Por isso deve-se estar disposto a ouvir todos os lados envolvidos. mas que possui uma história bela. Ciências e Tecnologia. O primeiro nunca deve se esquecer que o texto e as fotos tem a mesma importância dentro do jornal. Infelizmente há no jornalismo. Há ocasiões que o trabalho de reportagem exige muito mais responsabilidade do repórter. pois um confirma e complementa o outro. Outras são "frias" pois tratam de assuntos não tão urgentes. Talvez por isso a grande reportagem esteja cada vez mais rara. Informação e emoção são duas ferramentas básicas do repórter e ele terá de lutar consigo mesmo para saber dosá-las na medida certa em cada matéria. uma crescente tendência para a especialização. no entanto. Nas coberturas de assuntos especiais que fogem à rotina diária do jornal. é o mais fascinante reduto do Jornalismo no qual sobrevive o espírito de aventura. Antes de iniciar uma grande reportagem o . precisam ser checadas imediatamente e publicada rapidamente. Educação e Saúde. Apesar da dificuldades o resultado final terá de ser o fato bem contado. ou seja. que pode ser uma figura famosa ou uma figura anônima. encontrar uma maneira de vencer o medo. o cansaço e a saudade. são algumas providências essenciais. Esportes. Enquanto isso. Kotscho mostra que Cidade. A preparação das perguntas prévias e um mínimo de informação sobre a vida de quem se irá falar. A grande reportagem tem esse nome porque é realmente grande. geralmente o trabalho de investigação é demorado e programado para ser feito com muito cuidado e calma. por exemplo. tornou-se uma figura rara. Nesse caso. Numa ocasião destas não basta Ter capacidade profissional e saber escrever mas também é preciso muita resistência física. onde os assuntos possam ser tratados de forma abrangente e profunda. Cada vez mais temos repórteres "setoristas" especializados em assuntos ou editorias específicas.

indiferente. Não tem muito segredo. nesse caso. prefeito. considera Kotscho. Kotscho encerra seu livro com uma pitada de esperança ao afirmar que a reportagem sobreviverá enquanto existirem repórteres que levam seu ofício até as últimas conseqüências. Tem muita da reportagem investigativa. é necessário que o repórter se coloque no lugar do leitor fazendo com que ele "viaje" através do fato. como cantou Gilberto Gil. mistura ingredientes da reportagem social e às vezes é recheada com o perfil de um personagem marcante. desde os padrões gráfico e de diagramação – com muitas fotos e cor – até o formato dos textos . Outro detalhe importante: para que o texto jornalístico seja agradável de ler. Se o roteiro for bem feito. E por isso também é uma das mais difíceis de trabalhar. Afinal o importante é continuar contando o que acontece por aí.curtíssimos e com igual ou menos informação ainda do que as notícias fornecidas pela televisão. É um jornalismo por demais declaratório e que não se preocupa mais em testemunhar o que aconteceu. informador e transformador exige do repórter a coragem para tomar um posição dentro da reportagem. "denunciando o que há de ruim e errado. mas também é a que mais vale a pena lutar para fazer.repórter deve ler no arquivo do jornal tudo o que já se publicou sobre o tema para se informar sobre o assunto e não repetir uma história já contada. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA . Depois. que se essa volta não acontecer mais rapidamente. 5 CONCLUSÕES DO RESENHISTA Fazer um jornalismo atraente. Por trás da defesa à grande reportagem Kotscho também traça uma crítica ao jornalismo "televisado" adotado pelos jornais. no local e contar o que viu. O jornalista alerta. louvando o que bem merece". Denuncia também o jornalismo oficioso que tende a monopolizar os noticiários onde as matérias são feitas apenas com declarações do delegado. é ir andando e anotando num caderno como se fosse um diário de viagem. Quando deveria ocorrer o contrário: por dispor de mais tempo e espaço caberia ao jornal impresso aprofundar as discussões sobre os assuntos. "É um jornalismo sem tesão. Uma grande reportagem mistura um pouco de todos os demais gêneros. Apesar de todas essas mudanças que caracterizam o atual jornalismo brasileiro. E completa: "Os jornais precisam novamente de profissionais que sejam repórteres 24 horas por dia". os jornais não vão mais encontrar profissionais preparados para este tipo de serviço pois a formação dos repórteres nas escolas de comunicação tem moldado os profissionais para serem repórteres apenas durante as cinco horas de seu expediente no jornal. oferecendo-os ao leitor com mais detalhes e interpretação. porém. é colocar-se no lugar das pessoas que não podem estar lá. montar um roteiro com locais e pessoas para entrevistar e em seguida iniciar a coleta de informações. que apenas denuncia mas não aponta soluções para os problemas". governador etc. A função do repórter. sem vontade de transformar a coisa.

KOTSCHO. Série Fundamentos. . Ricardo. Àtica. São Paulo: 1986. A prática da reportagem.

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