Tatiana Barros Rodrigues

MODA EM REVISTA: O jornalismo de moda segundo Vogue e Elle

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

Tatiana Barros Rodrigues

MODA EM REVISTA: O jornalismo de moda segundo Vogue e Elle
Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo. Orientador: Prof. Luciano Andrade Ribeiro.

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

Do mais involuntário respiro a um elaborado projeto, o agradecimento e o maior crédito são sempre a eles. Meus modelos de vida: meus pais.

RESUMO Esta monografia pretende identificar as características do jornalismo de moda em revista, no Brasil. Para isso, foram selecionadas edições nacionais das revistas Elle e Vogue. O estudo é relevante por se tratar de um tema ainda pouco aprofundado na área acadêmica, embora a moda esteja em expansão, em diversos setores. Através dessa pesquisa, será possível pontuar a forma com que é trabalhado o jornalismo de moda, atualmente, assim como a linguagem utilizada e os temas abordados com maior frequência. Para isso, serão utilizados como referenciais teóricos Lipovetsky (1989), Joffily (1991) e Villas Boas (1996), entre outros.

Palavras-chave: Jornalismo de moda; discurso jornalístico; revistas especializadas.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Bastidores Elle ....................................................................................................... 42 Figura 2 – Vogue Colaboradores ............................................................................................. 43 Gráfico 1 – Publicidade em Vogue .......................................................................................... 50 Gráfico 2 – Publicidade em Elle.............................................................................................. 50

SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 08 2 A ESPECIALIZAÇÃO NO JORNALISMO VOLTADA À IMPRENSA FEMININA ............................................................................................................................ 11 2.1 Do jornalismo ao jornalismo especializado....................................................................... 11 2.2 História das revistas e da imprensa feminina no Brasil..................................................... 14 2.3 Os elementos de construção do discurso jornalístico ........................................................ 18 3 A MODA ALÉM DO SIMPLES VESTIR ....................................................................... 22 3.1 A moda no contexto histórico............................................................................................ 22 3.2 Comportamento e consumo de moda ................................................................................ 24 3.3 A evolução da moda na sociedade brasileira..................................................................... 26 3.4 Jornalismo de moda........................................................................................................... 29 4 ELLE E VOGUE: REFERÊNCIAS DO JORNALISMO DE MODA NO BRASIL .... 33 4.1 O mundo da moda pelas páginas das revistas.................................................................... 33 4.2 Metodologia....................................................................................................................... 35 4.3 O universo jornalístico de moda em Vogue e Elle Brasil .................................................. 37 4.3.1 Capa ................................................................................................................................ 37 4.3.2 Carta do Editor ............................................................................................................... 39 4.3.3 Bastidores ....................................................................................................................... 41 4.3.4 A linguagem no jornalismo de moda.............................................................................. 43 4.4 O consumo estampado nas revistas ................................................................................... 46 4.4.1 As seções voltadas ao consumo...................................................................................... 46 4.4.2 Editorial de moda ........................................................................................................... 48 4.4.3 Publicidade ..................................................................................................................... 49 5 CONCLUSÃO..................................................................................................................... 52 REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 55 ANEXOS ................................................................................................................................ 57 Anexo A – Capas..................................................................................................................... 57

Anexo B – Editoriais de moda................................................................................................. Anexo C – Consumo ...............................................................................................................

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1 INTRODUÇÃO

A moda passa por um momento de expansão no Brasil. O mercado de moda tem investido no País, o que possibilita um crescimento econômico e, com ele, novas oportunidades para a área. Joffily (1991) esclarece que a moda é um fenômeno de faturamento em qualquer cultura e responsável por empregos na indústria, comércio, imprensa, assessorias e agências de publicidade.

A diretora de redação da Vogue Brasil, Daniela Falcão, publicou, no editorial da revista, edição 392, que, na temporada 2011 de moda em Paris, diversas foram as vezes em que foi abordada por grifes e empresas interessadas em investir no País. “O Brasil é a ‘bola da vez’ é o que mais se ouvia. A questão é que, parafraseando o tio de Peter Parker1, 'grande poder demanda grande responsabilidade'. Os próximos anos serão de grandes oportunidades - e quem não se preparar já, pode terminar perdendo o bonde da história” (FALCÃO, 2011, p.51).

Com a expansão do setor, o jornalismo de moda passou a ganhar espaço, tornando-se um dos principais segmentos da imprensa feminina. A revista é o principal veículo desse jornalismo especializado e suas centenas de publicações abordam o que há de mais relevante na moda mundial.

O presente estudo pretende identificar as principais características do jornalismo de moda em revista, no Brasil. A partir dessa leitura, elabora-se uma análise, sobre a forma como esse jornalismo especializado se processa. Para isso, foram selecionadas edições nacionais das revistas Elle e Vogue.

As duas publicações são consideradas referências no universo da moda por apresentarem, em suas páginas, dicas de consumo, editoriais que antecipam as tendências e matérias sobre a melhor maneira de utilizar as novidades ali expostas. Com essa linha editorial, as revistas chancelam e, por isso, criam referências por meio das análises aprofundadas sobre o contexto da moda atual.

Famoso personagem de quadrinhos, criado pelo desenhista Stan Lee. Peter Parker é a identidade do super-herói Homem-Aranha.

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A Vogue surgiu nos Estados Unidos, em 1892, como um veículo que retratava a alta sociedade de Nova York. Ao longo dos anos, a publicação foi se dedicando à moda e, atualmente, é considerada a principal revista sobre o assunto, estando presente em 18 países, entre eles, o Brasil, que, há 36 anos, possui sua própria edição da Vogue.

Já a Elle nasceu na França, em 1945, e se tornou a revista de moda com maior circulação no mundo. A publicação está presente em 41 países, acumulando milhares de leitores, em todos os lugares em que se encontra presente. O Brasil possui sua própria edição desde 1988, sendo o sexto país no mundo a receber sua versão nacional de Elle.

Diante dessa representatividade das publicações no universo da moda, sobretudo no Brasil, as revistas Vogue e Elle foram escolhidas para referendar o objeto de estudo desta monografia.

Para a realização deste estudo, será utilizado o apoio de autores como Marília Scalzo (2004), Gilles Lipovetsky (1989), Sérgio Villas Boas (1996) e Ruth Joffily (1991). Por meio desse embasamento teórico, a especialização no jornalismo, a imprensa feminina no Brasil e a moda no contexto nacional serão os principais pontos a serem analisados.

Espera-se, nesta pesquisa, elucidar a hipótese inicial de que o jornalismo de moda se diferencia das outras especialidades, não só por tratar de um tema voltado ao público feminino, como também, por possuir suas especificidades na forma de falar com a leitora e na maneira de expor, visualmente, os assuntos das matérias e no modo de tratar o consumo. Além disso, há a ideia de que o jornalismo de moda no Brasil, embora procure valorizar a moda nacional, ainda é amparado pela internacional, até mesmo na linguagem utilizada.

A partir desta introdução, estão os dois capítulos teóricos que servem de apoio à pesquisa. O capítulo 2, intitulado “A especialização no jornalismo voltada à imprensa feminina”, dedicase ao jornalismo especializado, dando maior ênfase à história da imprensa feminina e ao seu discurso nas revistas. Como referenciais teóricos, estão os autores Villas Boas (1996), Buitoni (1990) e Abiahy (2000), entre outros.

Já o capítulo 3, “A moda além do simples vestir”, aborda, primeiramente, a história da moda, especialmente aquela estudada por Gilles Lipovetsky (1989), Érika Palomino (2003), Garcia e

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Miranda (2005), entre outros. Também fará parte deste capítulo a moda no Brasil. Finalmente, o consumo de moda e o jornalismo de moda irão consolidar o raciocínio teórico desta parte.

O quarto capítulo, “Elle e Vogue: referências do jornalismo de moda no Brasil”, trará, finalmente, a análise das revistas Vogue Brasil e Elle Brasil. Além disso, será explicada, a metodologia científica utilizada e as histórias das revistas analisadas. A análise é dividida por categorias: o universo jornalístico de moda em Vogue e Elle Brasil, que engloba a capa, carta do editor, bastidores e linguagem; e o consumo estampado nas revistas, abordando as seções que tratam de consumo, editoriais de moda e publicidade.

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2 A ESPECIALIZAÇÃO NO JORNALISMO VOLTADA À IMPRENSA FEMININA

O jornalismo traz o ângulo do mais recente fato a seus leitores. Mas não só isso. Com a evolução da sociedade moderna, os interesses se expandiram e o jornalismo não se acomodou. Hoje, não somente informa, mas também educa e entretém. Com isso, novos veículos surgiram e se especializaram. Neste capítulo, será abordado o caminho percorrido pelas revistas, de forma especial, como representantes desse jornalismo que descobriu, acima de tudo, a mulher como consumidora de informação.

2.1 Do jornalismo ao jornalismo especializado

O jornalismo, em sua essência, vive a busca pela maneira mais rápida e, ao mesmo tempo, completa, de se passar informações sobre determinado episódio. No entanto, o exercício do jornalismo ultrapassa essa esfera, sendo também a prática que possibilita a discussão e análise de distintos contextos vivenciados na sociedade. "O jornalismo, independentemente de qualquer definição acadêmica, é uma fascinante batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos: leitores, telespectadores ou ouvintes" (ROSSI, 1994, p.7).

Para Rossi (1994), essa conquista só é possível devido à capacidade do jornalista de conquistar seu leitor com sua visão, usando, assim, seus argumentos e opiniões, ainda que não explícitos no texto. Com isso, o autor contraria a ideia da objetividade no jornalismo, que seria a posição imparcial do profissional diante da informação passada ao seu leitor. Também argumenta que, se tal prática fosse possível, a batalha pelos leitores ficaria limitada aos editoriais, onde fica reservado o espaço para que seja explicitada a opinião do veículo sobre assuntos em voga na comunidade.

De acordo com Amaral (1996), a objetividade é considerada uma virtude no jornalismo, presente desde a pauta até a definição do tamanho da matéria e sua apresentação gráfica. "Uma questão de honra, um ideal a ser atingido ou uma paixão do jornalismo do século XX, embora, desde sua incorporação, tenha sido confrontada com o seu contrário, a subjetividade" (AMARAL, 1996. p. 18).

Amaral (1996) acredita que, para existir a objetividade, o jornalista deveria deixar em casa seus princípios, crenças, ideologias e preferências políticas. O autor afirma ainda que, além de

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enfrentar suas questões pessoais na busca pela imparcialidade, o profissional ainda precisa atender os interesses da empresa para qual trabalha.

Para Amaral (1996), a própria motivação de um jornalista para realizar uma matéria ou reportagem, embora a escolha nem sempre seja dele, é um resultado da emoção com a razão, o que corrobora a opinião de Rossi (1994). Mas não só isso. Na opinião do autor, a subjetividade está presente em todos os processos de construção da matéria, como na sua forma de enxergar o fato, na escolha das fontes, na seleção das falas das pessoas ouvidas e, até mesmo, no que irá compor o lead e o que irá ficar no final na matéria.

Outra questão que provoca controvérsias no meio jornalístico são as discussões acerca da especialização no Jornalismo. Rossi (1994) reforça o pensamento de que o jornalista é um especialista em generalidades, apresentando a necessidade de saber um pouco de cada assunto, direcionado pela entrevista ou matéria seguinte, porém, sem se aprofundar em tema algum.

Essa visão é compartilhada por Scalzo (2004), que argumenta o fato de que, quando um especialista ou um jornalista especializado utiliza expressões conhecidas apenas pelo público conhecedor do assunto abordado, o texto fica restrito a um grupo menor. Com isso, inevitavelmente, não desperta a atenção daqueles que poderiam passar a se interessar também, caso utilizasse uma linguagem mais simples.
O jornalista é, por princípio, um 'especialista em generalidades'. Vem justamente daí, convenhamos, parte da graça e do desafio da profissão. É a falta de especialização do jornalista que, teoricamente, capacita-o a perguntar o que não se sabe para quem domina determinado assunto e, depois, traduzir tal informação, de modo que todo mundo a entenda (SCALZO, 2004, p. 55).

Scalzo (2004) afirma que, quando um jornalista se especializa, existe a possibilidade de passar a se considerar o especialista e, assim, perde a curiosidade simplista, existente no leitor leigo. Outro problema apontado pela autora é o fato de o jornalista especializado se limitar a estudar e escrever apenas sobre o tema de seu interesse, desconsiderando um universo de assuntos também importantes a serem tratados.

O desenvolvimento do jornalismo especializado se dá por questões econômicas, uma vez que veículos de comunicação buscam a segmentação do público, como pode ser observado em

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canais de TV a cabo, onde as programações são voltadas para uma audiência específica. "Muito além de ser uma ferramenta mais eficaz de lucro para conglomerados midiáticos, o jornalismo especializado é uma resposta a essa demanda por informações direcionadas que caracteriza a formação das audiências específicas" (ABIAHY, 2000, p. 5).

A especialização significa também a possibilidade de se aprofundar em determinado tema e passar o máximo possível de informações sobre determinado assunto ao público. Segundo Abiahy (2000), os veículos especializados se preocupam menos com o factual, ao contrário das publicações que se preocupam com a factualidade, mas que ignoram a compreensão de seus leitores.

De acordo com Abiahy (2000), com a segmentação do jornalismo especializado, é possível alcançar a identificação de grupos que não viam seus interesses divulgados nos demais veículos. A autora enfatiza, ainda, que o jornalismo especializado assume um papel social de unir esses indivíduos, de acordo com seus gostos, contextos e afinidades.

Diante da nova abertura de se falar para grupos específicos, surge uma categoria do jornalismo, direcionada para o entretenimento, nomeada por Marques de Melo (2010) como jornalismo diversional. Para Abiahy (2000), esse tipo de veiculação, voltada para os interesses dos indivíduos, ganhou a preferência de muitos leitores, ultrapassando editorias consideradas de maior importância, como política e economia. Com isso, matérias sobre beleza, moda e decoração, consideradas, até então, fúteis, ganham mais espaço em jornais diários.

Esse jornalismo que trata de assuntos mais leves é caracterizado por Candiani (2000) como jornalismo soft, que, para a autora, é o resultado do novo papel do jornalismo na sociedade.

O jornalismo soft é uma zona de fronteira sem demarcação entre jornalismo e publicidade. Ele abre portas para editoriais que podem ser atrelados a anúncios e informes publicitários sem entrar em choque com interesses dos anunciantes e, mais que isso, é uma prática que valida a organização social baseada no consumo (CANDIANI, 2000, p. 1).

Candiani (2000) explica que essa forma de se fazer jornalismo estimulou o estilo batizado como News you can use, cuja tradução, do inglês, indica a notícia que pode ser utilizada. De acordo com a autora, esse tipo de informação procura abordar a vida cotidiana, com dicas de como torná-la mais prática, matérias sobre relações interpessoais, beleza, saúde, entre outros.

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Segundo Assis (2010), esse estilo de matéria está inserido no denominado "gênero diversional", que se destina à diversão do leitor, sem deixar de lado informações jornalísticas. "Trata-se de um tipo de texto voltado à apreciação do público que tem a possibilidade de ocupar seu tempo livre com a leitura de tais relatos" (ASSIS, 2010, p. 17).

A revista é o veículo impresso mais associado a esse gênero jornalístico. Por ser a publicação que melhor se relaciona com a idéia de uma leitura leve, em um momento de descanso, matérias ligadas ao lazer são comuns. Algumas publicações, inclusive, são direcionadas, unicamente, para o jornalismo diversional, tendo como foco beleza, televisão, esporte, entre outros.

2.2 História das revistas e da imprensa feminina no Brasil

A história das revistas no Brasil tem seu início, praticamente, com a chegada da família real portuguesa às terras brasileiras. A primeira revista de que se tem registro se chamava As Variedades ou Ensaios da Literatura, surgida em Salvador, no ano de 1812 e tinha características semelhantes às de um livro. Ainda nos primórdios da história das revistas no País, muitas foram as publicações lançadas, porém pouco se tem registrado sobre elas. Segundo Mira (2001), a dificuldade em caracterizá-las se dá pelo fato de que de algumas, só se tem registro do nome, e há controvérsias entre fontes até sobre datas e conteúdos.

Baptista e Abreu (2010) explicam que uma semelhança entre as revistas lançadas no século XIX foi a curta existência, já que mal chegavam aos dois anos. A explicação para isso, de acordo com as autoras, era a falta de recursos e assinantes, o que fazia com que circulassem poucas vezes e ainda tivessem tiragem baixa.

A primeira revista de variedades surgiu em 1849 e foi lançada com o nome de A Marmota da Corte. Para atrair os leitores, contava com muitas ilustrações, o que chamava a atenção não só dos letrados, como também dos analfabetos. Baptista e Abreu (2010) contam que o lançamento da publicação incentivou o surgimento de outras revistas do gênero, como a Semana Ilustrada, Revista Ilustrada e a Revista da Semana.

Mas é só a partir do final da década de 1920, que é lançada no Brasil a emblemática revista de informação, cultura e entretenimento, O Cruzeiro. O empreendimento do empresário Assis

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Chateaubriand e de seu grupo Diário Associados foi a principal revista do segmento, durante três décadas, quando a concorrência ainda era fraca, diante do fenômeno editorial.

O Cruzeiro trazia um pouco de tudo e se dirigia a todos, homens e mulheres, jovens ou não, longe da preocupação, hoje obrigatória, de descobrir as preferências de cada um, seus gostos, expectativas ou estilos de vida. Era a revista da família brasileira (MIRA, 2001, p. 20).

O Cruzeiro, das décadas de 1930 a 1960, foi a publicação responsável pela crônica social, política e artística, no contexto nacional e mundial. O veículo trouxe inovações em elementos presentes, até os dias atuais, na comunicação brasileira. Um exemplo disso, segundo Mira (2001), é a inserção de correspondentes estrangeiros, até então inédita em publicações nacionais. Além disso, Chateaubriand investiu em outros elementos que contribuíram para a importância da revista, como marketing, tecnologia, preocupação com o padrão visual e esquema de distribuição.

A principal concorrente de O Cruzeiro era a revista Diretrizes, lançada em 1938, também de circulação mensal, mas que não ultrapassava os cinco mil exemplares, por edição. E em 1952, foi lançada, pela editora Bloch, a Manchete, mais direcionada ao grande público urbano, com muitas ilustrações e pouco texto.

Apesar de todo o sucesso editorial de O Cruzeiro, na opinião de Mira (2001), se existiu uma revista capaz de ter atingido a unanimidade, esta foi a Realidade. Lançada em 1966, a publicação, com 100 páginas em média, chegou à marca de meio milhão de exemplares. Porém, de acordo com Mira (2001), foram dez anos de existência e, no entanto, apenas três de condições empresariais ideais. A publicação começou a circular dois anos após o golpe de 1964, época em que a censura era branda e ainda existia considerável liberdade de expressão. A partir de 1968, as vendas começaram a despencar e, quando deixou de circular em 1976, quase não ultrapassava os 120 mil exemplares.

A revista Cláudia foi lançada em 1961 e se tornou a responsável por consolidar a imprensa feminina no Brasil, além de contribuir para a formação da sociedade de consumo no País. Para Mira (2001), além de Cláudia, outras três publicações têm relação com a modernização da sociedade brasileira, na segunda metade do século XX: A Quatro Rodas, voltada para a imprensa automobilística, contribuiu para a chegada das indústrias do setor, e a Veja, a revista semanal de informação, voltada para o plano político e a mais vendida no Brasil, atualmente.

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Mira (2001) explica que as revistas de informação, que marcaram a primeira metade do século XX, cedem seu lugar para as recém lançadas publicações especializadas, dentre as quais se destaca a imprensa feminina.

A imprensa feminina trata os interesses, questionamentos e necessidades do público feminino. Mira (2001) afirma que o progresso da imprensa feminina teve início com as publicações Vida Doméstica, Jornal das moças e A Cigarra, esta última comprada pelos Diários Associados. Para a autora, as massas passaram a ter destaque e virar público alvo devido ao avanço da industrialização e urbanização, à melhoria na educação e à política populista de Getúlio Vargas. No entanto, a autora relembra que, em seus primórdios, a imprensa feminina, especialmente as fotonovelas presentes na revista Capricho, se pautava mais em histórias voltadas para a moral e bons costumes da época, e questões como virgindade, sofrimento e casamento eram abordagens constantes.

Buitoni (1990) expõe que críticos desvalorizam o segmento, justamente por não se tratar de uma imprensa geral, ligada a fatos. Há pessoas que acreditam que o “verdadeiro jornalismo” deve falar para o público, sem distinção de sexo. No entanto, a autora contrapõe essa ideia, ao afirmar que, apesar de nem tudo que é produzido na imprensa feminina ser condizente com o que é considerado jornalismo pelos críticos, esta é ainda mais ampla, podendo incluir materiais jornalísticos ou não.

Considerando que a imprensa feminina tem enorme penetração no mundo inteiro, vale mais pensar suas funções do que caracterizá-la como jornalística ou não. Nessa linha de raciocínio, interessa afirmar que jornalismo não é uma categoria de julgamento. A imprensa feminina é passível de críticas, porém critérios para análise não devem partir de oposição jornalismo/não-jornalismo (BUITONI, 1990, p. 12).

Buitoni (1990) contraria alguns autores por dizer que não se pode considerar que a imprensa feminina seja um jornalismo especializado, uma vez que trabalha para um público amplo e aborda extensa variedade de assuntos. Para a autora, essas definições de segmentação servem apenas para definição do público alvo, sendo que algumas podem ser consideradas corretas, embora não abranjam toda a imprensa feminina, apenas um segmento dela, como revistas jovens, de moda ou decoração.

No decorrer das décadas, a imprensa feminina acompanhou as evoluções sociais da história, traduzindo costumes de distintas épocas. Buitoni (1990) explica que, sempre que novidades

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significativas foram sendo incorporadas pela sociedade, a imprensa feminina registrou. Sua visão é compartilhada por Amaral (1996), que afirma que as páginas voltadas para o público feminino nos jornais sempre foram um reflexo da evolução da mulher na sociedade.

As mudanças na imprensa feminina brasileira ocorreram de forma gradativa, sendo que, até 1940, poucas ocorreram. Somente na década de 1960, a sexualidade começou a ser abordada nas revistas. Buitoni (1990) relembra que isso aconteceu de forma tímida, sendo apresentadas, apenas, matérias que tratavam de controles de natalidade. A autora conta que, somente a partir de 1970, o sexo passou a fazer parte da curiosidade feminina, devido à disseminação da pílula anticoncepcional. Assim, o assunto, considerado tabu, passou a ser tratado de forma mais aberta. Juntamente com isso, a imprensa passou a ser mais reivindicatória, consequência do contexto histórico vivenciado pelo país, uma época de ditadura e repressão.

Alguns temas despertam maior interesse do público feminino, como matérias relacionadas ao amor, que podem gerar inúmeras abordagens. Buitoni (1990) considera a imprensa feminina a mais eclética, dentre todas, uma vez que há uma variedade de pautas. No entanto, a autora determina que três eixos principais regem a imprensa feminina: moda, casa e coração.

A prioridade da imprensa feminina é aquilo que é útil para a leitora. Buitoni (1990) esclarece que a utilidade é a filosofia da revista, uma vez que a leitora busca nas páginas da publicação algo que ela poderá usar em sua vida, o que, para a autora, justifica o crescimento do jornalismo de serviço. A imprensa feminina, em sua opinião, é que apresenta maior facilidade de mudança, de se adaptar às evoluções da sociedade, ao mesmo tempo em que é a mais conservadora em alterações gráficas e certos conteúdos.

Em 1914, surgiu a primeira grande revista feminina no Brasil, a Revista Feminina, considerada precursora em sua modalidade, devido ao fato de mostrar, em suas 90 páginas, uma diagramação inovadora, eficiente esquema de publicidade e assuntos de interesses femininos, como moda, beleza e comportamento. Com o decorrer das décadas, a revista se tornou o principal instrumento da imprensa feminina. Buitoni (1990) elucida que, devido às suas características, a revista influencia, ainda hoje, outros meios de comunicação, como o rádio e a TV, que já veicularam programas nas fórmulas das revistas femininas, com editorias de moda, culinária, sexo, entre outros componentes típicos da publicação impressa.

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Para Buitoni (1990), as revistas femininas brasileiras chegam a níveis iguais ou até melhores que publicações americanas e europeias, devido à sua qualidade gráfica e de conteúdo. A principal diferença entre os veículos se dá pelos números de vendagem, que são significativamente inferiores no Brasil. Enquanto revistas americanas e europeias alcançam a marca de 1 milhão de exemplares, em apenas uma publicação, veículos nacionais, atualmente, mal ultrapassam os 300 mil. Em 1995, segundo Mira (2001), a Cláudia passou a ser a revista feminina de maior vendagem no Brasil, alcançando a marca dos 536 mil exemplares. Com isso, também se transformou na segunda revista mais vendida, entre todas, atrás, somente, da Veja. O sucesso da publicação no país abriu espaço para outras revistas, focadas no público feminino, mas que abrangeram os assuntos que cercam esse universo.

Afinal, quando se fala em público feminino, trata-se de um grupo extremamente amplo, com suas especificidades. E, assim, distintas publicações como Nova, Elle, Criativa, entre outras, surgem para conquistar as diferentes mulheres que compõem o público alvo da imprensa feminina, com seus próprios estilos de vida, condição financeira, interesses e necessidades. 2.3 Os elementos de construção do discurso jornalístico A revista apresenta as notícias depois que os veículos de massa mais instantâneos, como rádio, internet e televisão já noticiaram o máximo que podiam. Isso ocorre devido à sua periodicidade, que costuma ser, no mínimo, semanal. Por esse motivo, a revista possui o desafio de não só passar a informação, assim como os outros veículos, mas também, ir além, buscando a diferenciação. Scalzo (2004) argumenta que o principal desafio da revista é mostrar a notícia de uma forma inédita, com fatos ainda não revelados, entrevistas exclusivas e novos ângulos, sem deixar de lado o perfil do seu leitor.

Se o fato de mostrar determinada informação depois que todos a divulgaram é uma desvantagem, por outro lado, a revista possui o benefício de possuir mais tempo para a elaboração de suas matérias. Com isso, abre-se o leque de possibilidades na forma de elaboração dos textos; na maneira de se contar determinada história. Para Villas Boas (1996), a questão da periodicidade permite textos mais criativos e com forte caráter interpretativo, o que não é possível nos veículos de circulação diária. Para o autor, o texto de revista precisa ter o objetivo de conquistar o leitor e, embora não possuem regras rígidas, devem ser elegantes e

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sedutores.

Apesar de se mostrar mais livre e aberto a diferentes linguagens, o texto de revista mantém certas fórmulas, como, por exemplo, a narrativa e a preferência por reportagens. No entanto, Villas Boas (1996) esclarece que o texto preza pela investigação e interpretação, deixando a objetividade em segundo plano, além de privilegiar a criatividade, aproximando-se, assim, do estilo literário. “Como na literatura, é preciso inspiração para escrever em revista, sem perder de vista, é claro, o estilo jornalístico” (VILLAS BOAS, 1996, p. 35).

Por possibilitar um maior aprofundamento dos temas abordados em suas páginas, a revista permite que o jornalista a utilize como um meio de não só noticiar, mas também de educar e entreter. A função da educação se deve ao fato de que a revista aprofunda um assunto, apresenta matérias de serviço e entretém com suas figuras e textos leves. "Possui menos informação no sentido clássico (as "notícias quentes") e mais informação pessoal (aquela que vai ajudar o leitor em seu cotidiano, em sua vida prática)" (SCALZO, 2004, p. 14).

O jornalista de revista deve se preocupar com a forma como seu texto é escrito. Espera-se uma leitura agradável, escrita simples, porém sem ser distante, já que o tempo de leitura requer mais intimidade e permanência com o leitor. Villas Boas (1996) explica que elementos como a leveza, o comedimento e o domínio do jornalismo sobre a narrativa são usados para que o leitor "use a cabeça". Além disso, o autor acredita que um texto leve pode ser mais instigante e proveitoso. Essa opinião é compartilhada por Scalzo (2004), ao completar que a revista cumpre seu papel ao suprir as necessidades do leitor por informação, cultura e entretenimento, de uma maneira que, ao terminar sua leitura, este se sinta feliz.

A revista desenrola o novelo dos fatos, busca testemunhos e solta a palavra. Narra e reporta. Por essa razão, costuma deixar algo 'no ar' ou nas entrelinhas. Isto não significa que as revistas sejam infiéis ao fato reportado. E sim que, ao soltar as amarras da padronização, pode haver o risco de conduzir o leitor a um certo "juízo de valor (VILLAS BOAS, 1996, p. 102).

Por privilegiarem um texto mais longo e completo, é importante que as reportagens de revista prendam a atenção do leitor, ainda na abertura. Um primeiro parágrafo menos convencional e que fuja do tradicional lead, presente em textos de jornais diários, demonstra que o texto, em si, é instigante, o que atiça a curiosidade do leitor. Para Villas Boas (1996), a revista não precisa de um lead, não importa de que tipo seja e, que o importante, é que o texto possua

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uma "abertura envolvente". Da mesma forma em que não há fórmula pré-modelada para a elaboração da abertura de uma reportagem de revista, também não há regras quanto ao fechamento da mesma. Contudo, Villas Boas (1996) salienta que, ao encerrar a leitura, o leitor deve se sentir satisfeito. Mas, para isso, o jornalista não deve se repetir, nem encarar o fechamento como um resumo da matéria e sim, mostrar uma visão diferente, utilizando outros recursos, que sirvam como um ponto de ligação ao tema central. O autor enfatiza que, para o texto ser uma unidade coerente, o fechamento deve coincidir com a escolha feita para a abertura do texto. A revista, no entanto, é formada por outros "ingredientes", além das reportagens. Scalzo (2004) aponta, entre outras coisas, o contato entre o editor e o leitor, que se entendem e se identificam pelo que é produzido por um e lido pelo outro.

Editor e leitor encontram, através da revista, um grupo ao qual pertencem. A autora cita a diferença de comportamentos de um grupo de garotas que lê a revista adolescente Capricho e as que não leem. O grupo que lê se identifica com os assuntos e comportamentos, presentes no veículo que fala, diretamente, a essas meninas. No entanto, mais do que se influenciar pelo que é publicado no veículo, "quem define o que é uma revista, antes de tudo, é o seu leitor" (SCALZO, 2004, p. 12).

Um exemplo da relação próxima entre veículo e leitor é a revista Nova. Mira (2001) conta que a participação da leitora na publicação está cada vez mais ativa e interativa. Em entrevista que a autora realizou com a então editora da Nova, Fátima Ali, foi informado que a revista recebe, por mês, cerca de 300 cartas de leitoras, falando sobre suas opiniões sobre a publicação.

Na entrevista, a diretora de redação da revista Nova, Márcia Neder, explicou que:

Nós sempre fizemos questão de saber como era nossa leitora. Fomos a primeira revista a inaugurar o telefone da leitora (0-800). Através dos telefonemas criticando, sugerindo, elogiando, a gente pode aperfeiçoar nosso material redacional. As cartas ajudaram nesse processo. Nunca deixamos de responder uma carta. Com isso, sempre soubemos onde acertamos ou erramos e também ficamos armados para eventuais mudanças de rumo. Paralelamente, temos sempre uma entrevista mensal com uma leitora, que pode ser abordada na banca de jornal ou em casa. Isso ajuda o nosso trabalho de saber o que nossa leitora quer (MIRA, 2001, p. 218).

Villas Boas (1996) aponta outra característica presente nas revistas, seja de forma explícita ou não: o ponto de vista, que nada mais é do que as referências de vida, presentes no

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escritor/jornalista. De acordo com o autor, esse tipo de ponto de vista não deve ser confundido com qualquer tipo de opinião. "Quando escrevemos, o pensamento se encarrega de transferir noções (lidas ou vividas) analisadas, transformadas e redistribuídas no discurso escrito” (VILLAS BOAS, 1996, p. 21).

Como pode ser percebido nas revistas, o texto contém mais do que informações. É ali onde o leitor pode encontrar respostas mais aprofundadas, acompanhadas de retrospectos, análises e entrevistas complementares. Mas, especialmente, no texto de revista, mais do que em qualquer outro meio, é possível identificar pontos de vista do autor, dada a possibilidade de um texto ser mais livre. Entre as estratégias do produtor daquele conteúdo está o de esclarecer questões até então permeadas de dúvidas e, ainda, fazer com que o leitor pense, analise por si próprio e chegue às suas conclusões sobre o assunto ali abordado.

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3 A MODA ALÉM DO SIMPLES VESTIR Nos últimos anos, a indústria cultural, de um modo mais abrangente, passou a ter na moda uma representante de peso. Ao movimentar a economia, tanto no setor de produção quanto no setor de consumo, a moda se consolida como segmento empresarial. Este capítulo aborda esse nicho econômico e, obviamente, como o jornalismo de moda é construído para falar desse mundo de estreita relação com a personalidade contemporânea da sociedade.

3.1 A moda no contexto histórico

A recente história da moda é marcada por dois eixos que, ainda hoje, dividem esse mercado e determinam a atual forma de consumo de moda: a Alta Costura e a confecção industrial. Embora, aparentemente, estejam em extremidades opostas, tais segmentos se completam. Isso ocorre devido ao fato de que a Alta Costura é responsável pela criação de modelos e tendências, que servem de referência para as indústrias, que irão confeccionar e levá-las às ruas, tornando-as acessíveis ao público.

Em seu auge, a Alta Costura era composta por um grupo seleto de estilistas que impunham ao seu reduzido grupo de clientes da elite o que deveria ser usado. No entanto, com o advento do prêt-à-porter2, o gosto e expectativas dos clientes passaram a ser importante questão a ser considerada ao se criar as coleções. Segundo Lipovetsky e Roux (2005), os estilistas e suas antigas revoluções na moda já não são mais o centro e seus impactos perante a sociedade mal são percebidos.

O prêt-à-porter foi lançado como uma maneira de se produzir moda industrialmente, com menor custo e mantendo, ainda assim, a qualidade dos produtos, que acompanham as tendências lançadas pelos estilistas. A partir da década de 1960, o prêt-à-porter começou a ganhar traços próprios, desvencilhando-se da alta costura.

Com o decorrer dos anos, surgiram as produções em grande escala, lojas de departamentos e a popularização das grandes marcas. O histórico da moda que, segundo Joffily (1991), é atualmente umas das principais atividades econômicas do mercado, é marcado pela
Prêt-à-porter é uma palavra de origem francesa, que significa “pronto para vestir”. É uma nova versão da expressão americana ready to wear. O termo se refere à produção em grande escala de roupas e acessórios, o que tornou a moda mais acessível ao público.
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identificação do público consumidor com o seu próprio estilo, o que possibilita toques pessoais e únicos ao se vestir.

Atualmente, é crescente o interesse dos homens pelo consumo de moda, anteriormente tão exclusivo às mulheres. Hoje, existe a preocupação masculina pela estética e pela moda, o que gera uma modificação neste setor. De acordo com Lipovetsky e Roux (2005), o mercado de produtos cosméticos voltados para homens, por exemplo, vive um momento de potencial expansão.

Da mesma maneira que o mercado da moda vive um momento de expansão, ele também sofreu uma desaceleração no ritmo em que cria suas tendências, que acompanhou a sua popularização. O que justifica tal contexto é o fato de haver "de um lado, uma oferta sempre muito precipitada e inconstante, do outro, uma demanda sem fidelidade e 'emancipada', que não anda a passo cadenciado" (LIPOVETSKY, 1989, p.142). A consequência disso é um comportamento mais livre do público consumidor de moda, que pode, eventualmente, acompanhar a última tendência, mas não se vê na obrigação consumi-la.

A efervescência temporal da moda não deve ser interpretada como a aceleração das tendências para a mudança, mais ou menos realizadas segundo as civilizações, mas inerentes ao fato humano social. Ela traduz não a continuidade da natureza humana (gosto pela novidade e pelo enfeite, desejo de distinção, rivalidade de grupos, etc.), mas uma descontinuidade histórica, uma ruptura maior, ainda que circunscrita, com a forma da socialização que se vinha exercendo de fato desde sempre: a lógica imutável da tradição (LIPOVETSKY, 1989, p. 32).

Garcia e Miranda (2005) apontam ainda dois fatores responsáveis pelas mudanças na moda. O fator pessoal determina a escolha de produtos de moda por envolver questões como personalidade, idade, ocupação e estilo de vida. Essas características devem ser ressaltadas já que diferenciam indivíduos mesmo sendo da mesma subcultura, classe social e/ou ocupação. Há, por último, o fator psicológico que deve ser considerado, afinal, em cada pessoa, há uma motivação e satisfação distinta em relação ao consumo de moda.

O fenômeno efêmero, caracterizado pelas modificações nas tendências, atingiu outras esferas além da moda, como o design, a propaganda, a música e a televisão. Para Lipovetsky (1989), a cultura de massa também é voltada para o contemporâneo e, assim, atinge um público plural, usando como atrativos aquilo que é belo. O autor justifica esse apelo ao afirmar que “sua finalidade explícita reside antes de tudo no lazer imediato dos particulares; trata-se de

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divertir, não de educar, elevar o espírito ou inculcar valores superiores” (LIPOVETSKY, 1989, p. 210).

Se a moda se expandiu e hoje se encontra unida a outras áreas, o mesmo ocorreu com a informação sobre moda, que está em todos os lugares e, segundo Garcia e Miranda (2005), não ocorre mais de forma unilateral. Um desfile pode ser visto por meio da internet por milhões de pessoas e cada um assimila o que foi apresentado de uma forma distinta. A partir do que foi estimulado aí, as pessoas poderão consumir o produto no futuro. No entanto, o consumidor adquire mais que apenas produtos. A cada compra, a pessoa está montando uma imagem com que se sinta à vontade e que poderá mostrar ao mundo.

Como se pode observar, atualmente, a moda está mais livre. Nem mesmo no círculo dos profissionais de moda, há a obrigação de segui-la e muitos mantêm seu visual inalterado por anos. Não há mais a "ditadura" por parte dos estilistas que, há alguns anos, eram os responsáveis por determinar o que seria usado nas ruas. A moda é feita, também, por quem anda nas ruas, quem realmente consome a moda e é responsável por sua constante mutação.

3.2 Comportamento e consumo de moda

As pessoas utilizam a moda como uma maneira de criar uma aparência e se mostrarem da forma que acham mais adequada ao seu grupo social e, assim, criam um tipo de camuflagem para se relacionarem com o outro, e se sentirem inseridas em um contexto específico.

Para Garcia e Miranda (2005), a moda se tornou um instrumento pelo qual a sociedade pode se expressar, mostrando sua individualidade, o que é ou deseja ser. No entanto, Lipovetsky e Roux (2005) afirmam que a paixão pelo consumo, em especial pelos produtos de luxo, vai além do desejo de ser admirado ou invejado pelas outras pessoas. Segundo os autores, a pessoa, ao consumir moda, também procura a auto-admiração.

Não é fácil compreender as escolhas pessoais diante do que vestir, principalmente por ser algo que se modifica com as alterações da sociedade em si. Além disso, há o fato de que o ser humano é complexo e, assim, também são seus comportamentos, que “têm como base valores e atitudes profundamente arraigadas, uma visão do mundo e do lugar que ocupam nele, o que pensam a respeito de si e o que desejam que os outros pensam deles: racionalidade e bom

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senso, bem como caprichos e impulsos” (GARCIA; MIRANDA, 2005, p. 27).

Para Joffily (1991), a principal característica da democratizada moda atual é, justamente, a capacidade de se inserir no cotidiano de cada um. Por meio da moda, é possível comunicar e passar mensagens, podendo ser as mais díspares. Um exemplo próximo de todos é o sutiã, que, em décadas passadas, foi renegado e queimado por representar, para feministas, símbolo de opressão e, hoje, é utilizado como instrumento de sedução. Garcia e Miranda (2005) explicam que é necessário se passar uma mensagem com um adorno ou torná-lo um símbolo, para justificar o consumo e não ser, apenas, uma peça fútil. De acordo com Lipovetsky (1989), é na chamada Moda dos Cem Anos que surge o constante interesse por novidades, uma vez que novas coleções e tendências passam a ser apresentadas em períodos pré-determinados. Com isso, houve o que Lipovetsky (1989) define como “democratização da moda”, o que representou não uma unificação dos grupos sociais, mas sim um abrandamento. Além disso, possibilitou que se valorizem qualidades pessoais, como a juventude, magreza, beleza física, sensualidade, entre outros. Os fatores sociais ainda são determinantes para as mudanças na moda, por terem influência sobre os consumidores de moda. A maneira pela qual pessoas de determinada classe social se vestem, indica sua posição perante a sociedade. Garcia e Miranda (2005) alegam ser importante considerar a classe social a que determinada pessoa pertence ou pertenceu antes de emergir para uma classe superior, para definir seus comportamentos em relação ao consumo.

A partir do século XIX, ocorre o encontro da mulher com o consumo e passear pelas lojas, olhar vitrines e adquirir os mais recentes lançamentos passa a ser um prazer comum entre as mulheres. "O ato de consumir tornou-se um divertimento feminino, uma ocupaçãocompensação, um substituto das diversas frustrações da vida social afetiva. Ao confinar a mulher na esfera privada, a modernidade burguesa criou a mulher consumidora" (LIPOVETSKY; ROUX, 2005, p. 72).

O consumidor de moda, à medida que se interessa pelo assunto e passa a se informar sobre as últimas tendências e o que mais envolve esse universo, torna-se um especialista e formador de opinião, sendo assim, referência em moda. Garcia e Miranda (2005) explicam que o consumidor tende a se influenciar mais por líderes de opinião do que por pessoas comuns.

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O líder de opinião tem importância primordial para o consumo de moda. Isto acontece porque os estágios do ciclo de vida de produto de moda são introdução e adoção por parte desses líderes, seguidas pelo incremento da aceitação pública (crescimento), conformidade da massa (maturação) e o inevitável declínio e obsolescência (GARCIA; MIRANDA, 2005, p. 72).

Os fatores culturais também são determinantes para se compreender a relação da mulher com o consumo, uma vez que cada local possui sua cultura específica e, com isso, produtos assumem diferentes significados. As modificações na moda, ao longo dos anos, também são consequências de fatores determinantes para a relação “moda e consumo”. 3.3 A evolução da moda na sociedade brasileira Como foi analisado anteriormente, na sociedade contemporânea a moda não se limita a ser, apenas, o vestuário, o vestir para o dia a dia, ou o simples consumo sem propósito. Atualmente, o sistema da moda abrange contextos amplos e de inegável relevância, como o político, sociológico e econômico. "A moda passou também a atender às necessidades de afirmação pessoal, do indivíduo como membro de um grupo, e também expressar ideias e sentimentos" (PALOMINO, 2003, p.16).

No Brasil, a moda passa a criar suas características próprias no século XX, embora durante as primeiras décadas ainda fosse marcante a influência europeia, em especial a francesa. Segundo Palomino (2003), em 1901, houve a primeira iniciativa de se fabricar produtos direcionados às necessidades brasileiras, levando em conta o clima, que muito se diferencia do europeu. Embora tenham sidos pensados no consumidor brasileiro, esses primeiros produtos foram sapatos fabricados na Escócia. Mas essa iniciativa incentivou, aos poucos, a fabricação de roupas e calçados no Brasil.

A partir da década de 1920, começou-se a assumir o estilo tropical do Brasil, mantendo-se forte, ainda, a influência europeia. O movimento modernista, que marcou a década, foi um dos responsáveis por essa nova visão. No entanto, é no início dos anos 1940, que a moda no Brasil começa a ganhar traços marcantes. E isso ocorreu graças a Alceu Penna, ilustrador da revista O Cruzeiro, onde expunha seus figurinos e chegou a fazer modelos para a cantora Carmem Miranda. No final da década de 1950 e início de 1960, surge o primeiro estilista brasileiro: Dener Pamplona de Abreu. Segundo Palomino (2001), Dener foi o primeiro a ter uma grife com seu

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nome e, assim, abriu as portas para outros, como Clodovil Hernandes, José Reinaldo e Ronaldo Ésper. A moda nos anos 1970, em todo o mundo, foi marcada pelo movimento hippie e seu visual largado. No Brasil, não foi diferente, porém outro fator passou a ser marcante para a moda no País e continua até os dias atuais: as novelas. Desde a produção teledramatúrgica Roque Santeiro (1985), pela Rede Globo de Televisão, e o visual extravagante da personagem principal, a Viúva Porcina, interpretada pela atriz Regina Duarte, passando por Dancing Days (1978) e suas meias de lurex, no auge da era disco, até os acessórios orientais de O Clone (2001), as novelas são referências de moda para os brasileiros. A cada nova produção, surgem novas tendências que, rapidamente, chegam às ruas, desde as grifes mais caras de shopping centers até as lojas populares espalhadas pelo país.

A verdadeira revolução na moda brasileira teve início na década de 1990, sobretudo com a abertura do mercado internacional, o que tornou possível a importação de tecidos e equipamentos, que anteriormente tinham altos custos e burocracia.

A competição com o importado não é fácil, gerando crise no setor têxtil. A modernidade passa a ser vital. A medida muda a cara das grandes e pequenas confecções (que deixam de ser artesanais para integrar o grupo industrial). Até aquele momento, uma costureira faz uma calça inteira, no sistema de linha de produção. No novo perfil, aparecem as células de produção, com grupos especializados em determinadas tarefas em função da tecnologia (HOLZMEISTER, 2001, p. 144).

Ainda nesse período, as modelos brasileiras, com suas belezas miscigenadas, começaram a chamar a atenção do mundo fashion. Palomino (2003) conta que meninas de todo país começaram a tentar a sorte como modelos, inspiradas pela modelo Shirley Mallman, que ganhava as passarelas dos principais pólos da moda. Nesse contexto, surge a gaúcha Gisele Bündchen, o principal nome da moda brasileira nos dias atuais. A modelo conquistou empresários que a queriam como garota propaganda, estilistas que a cobiçavam em seus desfiles, mulheres que desejavam ser como ela e os homens que admiravam sua beleza estonteante.

Gisele é considerada übermodel, expressão criada especialmente para ela, em uma demonstração de que não há nenhuma outra em seu patamar. O sucesso da top iniciou a soberania das modelos brasileiras, que hoje estão entre as principais do mundo, o que contribuiu também para o Brasil entrar, de uma vez por todas, na moda.

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Ao longo dos anos 90, a moda entrou em pauta na sociedade brasileira. Passou-se a conhecer o nome das principais modelos, estilistas começaram a aparecer em programas de TV, desfiles entraram ao vivo nos noticiários da noite e chegaram às primeiras páginas de jornais. Tudo andou tão rápido que é como se tivesse sido sempre assim. Quem está envolvido com a moda mal consegue lembrar-se de quando as coisas eram diferentes (PALOMINO, 2003, p. 8).

Para Edvaldo Vieira (apud Palomino, 2003, p. 55) 3, outra mudança em relação à moda no Brasil, se deu pela visão que os próprios brasileiros passaram a ter do país. Embora Rio de Janeiro e São Paulo continuem sendo pólos econômicos, outras cidades passaram a ter seus potenciais descobertos. É a valorização da diversificada cultura brasileira, existente de norte a sul.

Em estados do Nordeste, como o Ceará, por exemplo, as rendas e bordados passam a chamar a atenção de estilistas e pessoas ligadas à moda. Naddaf (2001) explica que a produção artesanal, passada de geração em geração, e antes limitada a produções familiares, ganhou ares contemporâneos. Hoje, é possível encontrar essas técnicas sendo divulgadas em escolas de moda, direcionadas para o contexto atual da moda brasileira.

A moda no Brasil é diversificada e muito se deve à pluralidade cultural existente em cada região. Na Bahia, o axé, principal ritmo musical do Estado, é um fator determinante na forma das mulheres se vestirem. Por se tratar de músicas que tratam da sensualidade, as roupas tendem a ser mais ousadas. Peças como vestidos curtos, blusas decotadas e mini shorts estão entre as preferências da consumidora baiana.

Contudo, segundo Pires (2001), o povo baiano não é alienado quanto às influências da moda, apenas a trata de uma forma mais prática. "A moda exerce um grande fascínio sobre o consumidor baiano. Não no sentido intelectualizado, mas orgânico do vestir, do sentir a roupa sobre a pele. O vestuário representa quase uma segunda pele" (PIRES, 2001, p. 128).

Seja pelo clima, referências culturais ou contexto econômico, a moda no Brasil é caracterizada pela diversidade. Há algum tempo, deixou de ser apenas o pólo da moda praia, para mostrar ao mundo a criatividade de seu povo. Rendas, crochês e bordados se entrelaçam e, unidos ao talento de estilistas e artesãs, contribuem para mostrar ao mundo, a moda que vive nas ruas de todo o país há décadas e, agora, ganham as passarelas dos centros fashions.

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Edvaldo Vieira é um empresário do Espírito Santo, dono da marca de roupas Fiorucci.

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3.4 Jornalismo de moda

O jornalismo de moda está em evidência diante desse múltiplo mercado que se consolida mais a cada dia que passa. Tal afirmação pode ser comprovada ao se observar o espaço destinado ao tema, em programas de variedade, jornais e seus cadernos segmentados, blogs - que têm alcançado credibilidade no meio - e revistas especializadas, que são referência ao se falar do assunto.

Com a democratização da moda, o jornalismo de moda assumiu o papel de um dos principais segmentos da imprensa feminina. Entre suas funções, está a de mostrar ao público quais são as novas tendências, a melhor maneira de utilizá-las (adequando ao estilo e ao corpo de cada um), alternativas àquelas caras peças de grifes. Joffily (1991) complementa que um editorial de moda deve realizar críticas sobre o que envolve o mercado da moda, acompanhar as evoluções comportamentais, sociais e econômicas. A atividade é "uma composição que organiza elementos na busca de um estilo ou, mais concretamente, de um certo clima global da foto que traduza um estilo" (JOFFILY, 1991, p. 103). Além desses aspectos, o jornalismo de moda deve prestar um serviço à leitora, possibilitando que se ele possa adequar o seu desejo pela moda, ao seu dia a dia.

Para Hinerasky (2006), a apresentação de matérias relacionadas ao jornalismo de moda vai além de mostrar tendências e desfiles. A autora disserta que cada programa de televisão que trata sobre o tema ou matéria que é publicada “está criando um espaço de construção de identidades e distinções sociais e culturais” (HINERASKY, 2006, p. 7).

Existem três tipos, basicamente, de matérias de moda: tendência, serviço e comportamento. Em tendência, são mostrados os últimos lançamentos, o que será usado na próxima estação. As de serviço dão dicas ao leitor sobre como inserir as tendências no seu dia a dia, adequando a cada individualidade. As notícias de comportamento, por sua vez, ampliam a moda para o contexto cultural, histórico e social.
De uma forma geral, matérias de comportamento (consideradas mais complexas), embora pouco frequentes, são comuns a todas as publicações. Claro que isso varia de acordo com a imagem que se faz do público que se pretende atingir. É preciso reconsiderar frequentemente essa "imagem" de forma a não se passar para o público uma limitação formulada pela própria linha editorial (JOFFILY, 1991, p. 100).

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O jornalismo de moda é uma área ainda em construção, não existindo, em muitos veículos, uma editoria específica para o tema. "Em alguns jornais, a 'parte' de moda não recebe o status de uma editoria. Permanece como uma seção, sem especialidade, semelhante às de passatempos, palavras cruzadas, fofocas da cidade etc" (JOFFILY, 1991, p. 10).

Para Hinerasky (2006), a cobertura de moda em jornais está crescendo, embora haja resistência por parte de alguns editores. A autora acredita que a moda deixou de ser um assunto de variedades para se tornar uma editoria. No entanto, é possível observar que nos jornais, a moda é apresentada de maneira superficial, estando presente em diferentes editorias, como Cultura, Lazer e, até mesmo, Economia, dependendo da abordagem e do veículo.

No jornal Estado de Minas, por exemplo, a moda está inserida no caderno Feminino & Masculino, que inclui outros assuntos ligados ao comportamento da mulher, sobretudo, e do homem, em situações mais específicas. Porém, os assuntos não são, necessariamente, ligados à moda. Já na publicação Folha de S. Paulo, matérias relacionadas à moda estão presentes no caderno Ilustrada, que aborda assuntos ligados à cultura. O que há em comum entre as publicações, segundo Joffily (1991), é o fato de mostrarem as tendências mais recentes, focando sempre nas novidades, uma vez que se trata de periódicos semanais ou diários.

Além das mídias tradicionais, a internet se tornou um propagador do jornalismo de moda e o crescimento de sites que abordam o tema é, notoriamente, crescente. De acordo com Hinerasky (2006), o que se observa é que a internet é uma referência quando se trata de moda, não apenas em versões online de revistas já consagradas. Portais voltados para a análise de tendências, do mercado e com informações sobre moda, estilo, consumo e cursos relacionados ao tema têm conquistado o meio. Além disso, blogs pessoais, mantidos por quem se interessa pelo assunto, são a nova “moda na moda”.

Nas revistas femininas, diferentemente, as editorias de moda estão presentes, além de ser crescente o número de publicações dedicadas à moda. No entanto, a revista O Cruzeiro foi a primeira a publicar reportagens sobre moda, em suas páginas, especialmente com a coluna "As garotas do Alceu Penna".

A publicação Manequim, da editora Abril, foi a primeira revista especializada em moda a ser lançada no país, no ano de 1959. Em suas páginas, são abordadas maneiras para a leitora

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inserir a moda em seu dia a dia, dicas de beleza e culinária, além de moldes para as mulheres fazerem as roupas estampadas na revista.

Atualmente, as revistas de moda de maior prestígio, em todo o mundo, são a norte-americana Vogue e a francesa Elle. As suas edições nacionais seguem o padrão internacional, no entanto, adaptam algumas abordagens ao estilo do público brasileiro. De acordo com Hinerasky (2006), isso acontece não apenas com elaboração de matérias regionais, como também na escolha das modelos que irão estampar capas, editoriais, cenários, linguagens e produtos.

As publicações são referência no assunto por apresentarem, antecipadamente, as tendências a serem utilizadas nas próximas estações e por fazerem análises aprofundadas sobre o contexto da moda mundial, na atualidade. Os seus editoriais de moda também são referência para quem trabalha na área.

Os editoriais de moda são o principal destaque nas revistas de moda. Para a realização desses trabalhos, a produção de moda é fundamental. Baseado nisso, a função do produtor é, através de suas produções fotográficas, transmitir ao público o que estará em voga e oferecer inspirações de como utilizar determinado elemento no dia a dia, porém de forma lúdica, ficcional. Segundo Joffily (1991), uma produção de moda não deve ser um retrato fiel da realidade, mas deve utilizar elementos para servir de inspiração na criação de um novo contexto. Para isso, são utilizadas cores, iluminações e cenários, que se complementam e concretizam a ideia proposta, de maneira sutil, não tão óbvia.

As produções dos veículos podem apresentar variação de estilo, determinado pela linha editorial e público alvo e isso se reflete na maneira como as tendências serão apresentadas ao público. Joffily enfatiza que "a aceitação de uma foto depende quase exclusivamente da coerência com que o produtor organiza os elementos - da composição ficcional, do estilo que expressa" (JOFFILY, 1991, p. 110).

O jornalismo de moda, no geral, é uma reunião de imagem, diagramação bem feita e textos curtos, que procuram descrever as imagens e o contexto em que se apresentam. “Em se tratando de estilo, observa-se que os editores, jornalistas e ou especialistas que têm escrito sobre o assunto costumam conciliar a técnica jornalística com críticas, análises e opiniões e interpretações acerca do assunto publicado” (HINERASKY, 2006, p. 11).

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Acima de todas essas questões, deve estar o leitor, que deve se identificar com o que é publicado. Deve haver uma aproximação entre o jornalismo de moda e quem recebe a publicação, que, na maioria das vezes, foge dos padrões estéticos expostos nas páginas das revistas. Para Joffily (1991), o foco editorial do jornalismo de moda deve ser voltado para a mulher comum que busca a autoconfiança, informação que se enquadra no seu perfil e estilo de vida.

Joffily (1991) argumenta que, se forem utilizados vocabulários familiares somente para os incluídos no contexto da moda, por exemplo, o público perde o interesse pela leitura e se prende, somente, às imagens e fotografias expostos ali. Isso contribuiu para o senso comum de que as leitoras do estilo, realmente, não gostam de ler.

O que se pode observar é que o jornalismo de moda é uma segmentação editorial que vem se estabelecendo no país, assim como a moda como um todo. A evolução do mercado econômico de moda, a visão do mundo sobre a moda feita no Brasil e os eventos que chamam a atenção dos principais pólos contribuem para que o próprio País veja o potencial da moda nacional. Com isso, o jornalismo de moda vive uma época de expansão e profissionalização, como poderá ser visto, no próximo capítulo, quando os objetos de estudo desta monografia.

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4 ELLE E VOGUE: REFERÊNCIAS DO JORNALISMO DE MODA NO BRASIL

As revistas Elle e Vogue se dedicam a abordar o universo da moda, em todas suas edições pelo mundo. Ao longo dos anos, se tornaram os principais títulos, referências no assunto. Por abordarem as diversas facetas da moda, e apresentarem, a cada edição, análises sobre o contexto atual, são responsáveis pela concepção de um modelo próprio sobre como se falar da moda.

4.1 O mundo da moda pelas páginas das revistas

Foram selecionadas três edições das revistas impressas Vogue Brasil e Elle Brasil, como objetos do estudo desta monografia. As publicações tratam sobre o universo da moda e mostram as tendências lançadas, dicas de consumo, editoriais e reportagens sobre profissionais que fazem a moda no mundo. Além disso, Vogue e Elle indicam para o leitor, sobretudo o feminino, o que há de novo em relação ao cinema, literatura, decoração, viagens, e outros.

A americana Vogue e a francesa Elle são significativas no mundo editorial da moda e elaboram, a cada edição, ensaios conceituados, que exemplificam as tendências a serem utilizadas na temporada. Além disso, por meio de seus editoriais, as revistas destacam peças de estilistas e grifes que consideram destaques entre as apresentadas nas semanas de moda mais recentes, como, também, as tendências nas maquiagens e acessórios.

As edições brasileiras de Vogue e Elle, existentes há 36 e 23 anos, respectivamente, mantêm o padrão de suas publicações matrizes, exaltando o que há de novo na moda internacional. No entanto, adaptam a moda dentro do contexto nacional, exaltando o trabalho de estilistas brasileiros e, obviamente, os critérios de interesse do consumidor local.

A revista Vogue é, atualmente, a principal revista de moda, não só no Brasil, como também nos 18 países que possuem sua própria edição. Há 35 anos no País, a Vogue Brasil, que possui tiragem mensal de 50 mil exemplares, dedica suas páginas para a abordagem da moda, não só no Brasil, como também em outros lugares do mundo. Já a Elle, sua concorrente mais direta, possui tiragem mensal de 139.330 exemplares, atualmente é considerada a maior revista de moda em circulação. A publicação está presente em 41 países e contabiliza mais de 23

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milhões de leitoras pelo mundo, segundo o site4 da própria revista. As duas publicações são referenciais dentro do jornalismo de moda por apresentarem, antecipadamente, as tendências a serem utilizadas nas próximas estações e fazerem análises aprofundadas sobre o contexto da moda mundial, na atualidade. Os editoriais de moda também representam paradigmas informativos para quem trabalha na área.

A Vogue surgiu, em 1892, com o propósito de registrar os eventos sociais, que aconteciam na alta sociedade nova-iorquina. Em 1909, a edição foi comprada pela editora Condé Nast, um dos maiores grupos editoriais de todo o mundo. Segundo matéria publicada na edição 253, da Vogue Brasil, em junho de 1999, com a compra da revista pela famosa editora, a Vogue emergiu para uma publicação voltada para classe alta, o que foi considerado um marco na época e se mantém até hoje.

Em sua edição 321, que comemorava os seus 30 anos no Brasil, a Vogue publicou uma matéria em que relembrava a trajetória da revista, desde que foi lançada no País.

Vogue Brasil surgiu como uma lufada de ar fresco para um público carente de informações sobre o que se passava na moda, no entretenimento e na cultura nos grandes centros do planeta. Referência de uma maneira de ser e de viver que já foi chamada de estilo (antes que a palavra caísse em desgraça, de tanto ser empregada de forma errônea), não é nenhum exagero dizer que a Vogue Brasil formou uma inteira geração de fotógrafos, entre os quais se destacam monumentos nacionais, como J.R Duran, Luiz Tripoli, Bob Wolfenson, Miro, Vânia Toledo, Chico Aragão, Rômulo Fialdini e Luis Crispino (GANCIA, 2005, p. 45).

A francesa Elle foi lançada em 1945, por Hélène Lazareff, com a missão de falar sobre o que envolve o interesse feminino, unindo seriedade e profissionalismo com bom humor e leveza. Em maio de 1988, chegou às bancas a edição brasileira da Elle, sendo a sexta publicação da revista, fora da França. No Brasil, Elle possui uma tiragem mensal de, aproximadamente, 91 mil exemplares, possuindo uma média de 235 mil leitores.

Assim como em todas as edições pelo mundo, a Elle Brasil segue a fórmula da revista francesa. “No Brasil, Elle assistiu à profissionalização da moda feita aqui - uma verdadeira profusão de cursos tomou as faculdades do país e a principal semana de moda do país, a SPFW5, foi criada em 1996, sob o comando de Paulo Borges” 6. Em entrevista, a editora de
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O endereço online da revista Vogue Brasil < www.vogue.com.br> São Paulo Fashion Week é a semana de moda mais importante da América Latina, que acontece duas vezes por ano, em São Paulo, organizado pelo promoter de eventos, Paulo Borges. 6 Informação disponível no site <www.ellebrasil.com.br>. Acessado em 29 de setembro de 2011.

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redação da Elle, Lenita Assef, explicou que dentro da edição é possível encontrar diferentes formas de se falar de moda. As primeiras páginas são dedicadas às dicas de modo de usar e onde comprar peças, por exemplo. Já no meio da revista, estão os editoriais e ensaios, onde a Elle permite que suas leitoras sonhem. “A gente se permite voar um pouco mais, porque as leitoras querem esse vôo, elas adoram. A mulher que lê a Elle sabe que não precisa ter aquilo se ela não quiser copiar, porque a moda tem momentos de realidade e de sonho. A leitora da Elle conhece um pouco de moda e não é aquela pessoa que acabou de aterrissar” (ASSEF, 2011).

E assim, as duas publicações procuram unir a influência de suas edições matrizes com as especificidades da cultura brasileira, adaptando o modo de se falar de moda, de acordo com as necessidades e gostos da leitora brasileira. No próximo capítulo, este estudo pretende pontuar os elementos presentes em Elle e Vogue Brasil, que possibilitam a identificação das características do jornalismo de moda em revista no País.

4.2 Metodologia

Este trabalho é um estudo sobre o jornalismo de moda em revista no Brasil, a partir das revistas Vogue Brasil e Elle Brasil. Para a realização, serão utilizadas, como procedimentos metodológicos, a pesquisa bibliográfica e pesquisa documental. Para a pesquisa bibliográfica em questão, foram definidos dois eixos temáticos:

(a) (b)

Comportamento e consumo de moda Jornalismo de Moda.

Como base teórica, foram privilegiados os autores: Lipovetsky (1989), Joffily (1991), Villas Boas (1996), Scalzo (2004), Lipovetsky e Roux (2005) e Garcia e Miranda (2005).

Quanto à pesquisa documental, foram selecionadas as seguintes edições das revistas: Vogue Brasil, Número 358 Junho de 2008, Número 379 Março de 2010, Número 395 Julho 2011; Elle Brasil, Ano 21 Número 5 Maio de 2008, Ano 22 Número 3 Março 2010, Ano 23 Número 5 Maio de 2011.

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Para uma pesquisa melhor detalhada, será utilizada uma edição de aniversário de cada publicação, por serem edições especiais e que, geralmente, requerem uma produção mais elaborada. Além desses exemplares, serão estudadas duas edições habituais, de cada revista, para exemplificar como se estruturam, normalmente, sendo elas do mesmo ano de publicação. Após pesquisa bibliográfica e feita a pré-análise do material selecionado, foram definidas como categorias de análise:

Categoria 1: O universo jornalístico de moda em Vogue Brasil e Elle Brasil: Os temas e estruturas textuais dos veículos em relação a matérias produzidas sobre a temática moda, enfoques das matérias e reportagens, as editorias, a capa, os estilos, a equipe editorial, como o tema consumo é abordado nas publicações, etc.

Serão identificados os pontos em comum entre as revistas de moda, a que se refere a capa; o que já de característico em relação à escolha do perfil de quem estampa, normalmente, a primeira página, o que as fotografias representam nas edições, as escolhas para a chamada principal, além da linguagem utilizada nas capas das publicações.

Na seção de carta da editora, serão identificados a abordagem utilizada pelas editoras, a linguagem e a forma com que as jornalistas falam com seus leitores e a estrutura desses textos.

As revistas de moda costumam dedicar um espaço para mostrar os bastidores das publicações e também dão destaque a quem faz as revistas, mostrando fotografias, perfis e entrevistas com os profissionais. Na análise, serão identificadas as características dessa seção e o que elas representam nas mesmas publicações.

Nas publicações de moda, a maioria das editorias contém uma seção de consumo, relativa ao tema. Diante disso, o estudo irá qualificar essas seções, mostrando o contexto em que aparecem e quais suas características visuais.

O editorial de moda é o "carro chefe" das revistas e a pesquisa irá identificar sua representatividade para a moda e o seu significado.

Na análise, também será possível observar a linguagem utilizada nas revistas de moda. O uso

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de estrangeirismos, a opinião nos textos e o uso de palavras coloquiais.

Categoria 2: Será analisado de que forma as publicações de moda trabalham o consumo e qual o significado desses editoriais para o jornalismo de moda.

No que se relaciona à análise quantitativa, este estudo visa levantar os seguintes dados:

- O número de páginas dedicadas à publicidade. O citado levantamento é necessário para determinar o quanto de espaço é dedicado a matérias, nas publicações voltadas para a moda e o quanto é reservado para anúncios de produtos voltados ao público alvo das revistas em questão.

4.3 O universo jornalístico de moda em Vogue e Elle Brasil

4.3.1 Capa

A capa de uma revista, seja ela de que especialidade for, é o ponto de atração entre o leitor e a publicação. A capa é o primeiro contato do público com a edição e, é através dela, que é possível a identificação, por parte do leitor - ou leitor em potencial - das informações imediatas sobre o que a revista tem a oferecer na edição mais recente.

Nas revistas voltadas para a moda, a capa tem maior representatividade. A imagem e a moda andam juntas e, através da fotografia presente na primeira página, a leitora tem a possibilidade de identificação imediata de uma tendência da estação. A Vogue e a Elle, referências na moda, a cada mês, produzem capas que costumam conter tendências da moda estampadas, como uma forma de prever o ponto alto da estação ou adiantar para a leitora a matéria (ou editorial) principal da edição. Na edição de número 379 da Vogue Brasil, publicada em março de 2010, a chamada principal é "Moda Militante". Para reforçar a ideia, a modelo brasileira Bárbara Berger aparece vestindo um look que remete ao militarismo, como uma jaqueta da cor verde militar. Além disso, o fundo da revista também remete ao tema, com um verde claro em dégradé.

No entanto, a capa não precisa, necessariamente, ter um significado explícito, referente a uma tendência de moda. Ela pode, por exemplo, primar apenas pela beleza ou para aquilo que a

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editora acredita que irá chamar a atenção de sua leitora. Um exemplo disso é a edição Ano 23, Número 5 da Elle, que comemorava o aniversário de 23 anos da publicação brasileira. Nela, a modelo Gisele Bündchen aparece vestindo, nada além de uma meia calça preta. Nenhuma tendência de moda foi explicitada. Mas como a editora de redação, Lenita Assef, explicou na seção "Carta da Editora", a ideia era produzir uma capa "especial", e que após discussões, chegou-se à decisão de que "existe alguma top mais top do que Gisele Bündchen? E ela está aqui, linda, poderosa, indiscutivelmente única. A número 1" (ASSEF, 2011, P. 19).

No texto, a editora explica que a preocupação não era passar uma imagem de moda, mas, sim, estampar, na edição de aniversário, uma personalidade icônica, que fizesse jus ao significado que a edição “especial” tinha. E essa foi a capa: Gisele, ali, nua, representando, unicamente, a sua própria imagem, a sua representatividade para o mundo da moda, ao invés de ser um "cabide" mostrando um look.

Por falar em modelos, algo que se observa nas duas revistas é a preferência por estampar, em suas capas, modelos brasileiras, que, além de representarem a moda nacional e a valorizarem, são tops já reconhecidas internacionalmente. Essa afirmação pode ser comprovada pelos objetos de estudo escolhidos. Em todas as seis edições analisadas, sendo três de cada publicação, há modelos brasileiras nas capas: (ANEXO A)

Em Vogue: Edição 358, Isabeli Fontana Edição 379, Bárbara Berger Edição 395, Gisele Bündchen

Em Elle: Edição Ano 21, Número 5, Raquel Zimmermann Edição Ano 22, Número 3, Aline Weber Edição Ano 23, Número 5, Gisele Bündchen Como Palomino (2003) explica, desde a década de 1990, as modelos brasileiras chamam a atenção do mundo fashion. Tudo começou com Shirley Mallman, que trabalhou para as principais grifes internacionais, o que inspirou outras garotas a seguirem a carreira. E com a ascensão de Gisele Bündchen, segundo a autora, teve início a soberania das modelos brasileiras, que, como já foi dito, contribuiu para o Brasil entrar na moda.

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As chamadas de capa são relativas às matérias contidas na edição. Elas são como uma prévia do que a leitora pode encontrar de mais importante nas páginas seguintes. Mas as chamadas contêm mais que simples informações. Nelas, já é possível identificar a carga opinativa, típicas desse tipo de publicação. Na edição Ano 22 Número 3 da Elle, a chamada principal de capa é "Especial Moda - Escolhas de Elle: Nossas 120 peças favoritas". Somente nesta frase, fica explícita a opinião da revista na escolha do que é relevante para ser mostrado ali. A primeira pessoa do plural "nossas" reforça não só a opinião da revista, como impõe uma decisão conjunta com o leitor.

Outra característica presente nas chamadas é o uso de adjetivos para caracterizar os temas centrais das matérias. Expressões como "chiquérrimo", "perfeito", "Londres é o máximo!", "hotéis de sonho e uma mala perfeita", entre outras, são comumente encontradas.

O uso de estrangeirismos é comum no jornalismo de moda, uma vez que países como França e Inglaterra ditam a moda e são responsáveis pelas criações de tendências. E, já nas capas, é possível identificar a influência do vocabulário estrangeiro. A edição 358 da Vogue foi a única da publicação que apresentou expressão em inglês na capa: "Férias easy rider". Já na Elle, o uso é mais presente, uma vez que as três revistas analisadas possuem expressões estrangeiras, já na primeira página: "Festa in black", "Beauty Collections", "Very Cool" e "God save McQueen". Esta última frase se refere à morte do estilista inglês Alexander McQueen, que cometeu suicídio em fevereiro de 2010. A Vogue, na edição de março, mesmo mês da edição da Elle, optou por usar a frase em português: "O adeus de Alexander McQueen".

Para finalizar, as chamadas principais das edições costumam estar relacionadas ao luxo, como vestidos de festa ou ideias para repaginagem de visual, ou como chamam, new look.

4.3.2 Carta do editor

Como foi dito no capítulo teórico, uma das características do jornalismo de revista é a relação entre o leitor e o editor. Através do texto, ambos se entendem e se identificam. No editorial – ou Carta do Editor – esse contato é aproximado, uma vez que o editor de redação fala, diretamente, com o seu público.

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Em edições normais, os editoriais de revistas de moda relatam o que a leitora pode esperar da edição; quais as matérias mais relevantes. Na edição 358 da Vogue, a então editora, Patrícia Carta (atualmente, o cargo é de Daniela Falcão), conta que “esta edição vem cheia de bossa. Não me refiro apenas à seção Nostalgia, que traz histórias deliciosas dos bacanas da Bossa Nova, mas também à moda descompromissada que aparece nas páginas a seguir” (CARTA, 2008, p. 21).

Na Elle, também é possível identificar esse tipo de abordagem. “Esta edição da revista é pura renovação. São nossas dicas básicas do que vale a pena comprar (ou guardar), nossos melhores achados (já!), com preços superbacanas, nossas escolhas do que é mais moderno, mais bonito, mais ELLE. Enjoy!” (ASSEF, 2010, p. 9). Nesta edição Ano 22 Número 3, a editora dá uma amostra do que a leitora irá encontrar nas páginas seguintes e reforça a subjetividade das matérias e seleções, ao enfatizar o termo “nossas escolhas”, sendo este, inclusive, o título da seção.

No editorial, a publicação também faz uma análise, ainda que resumida, sobre o contexto atual da moda ou algo específico que se destacou, no mês da edição. Na Vogue, edição 379, Patrícia Carta ressalta o último desfile apresentado por Alexander McQueen. Como o estilista inglês havia sido encontrado morto, na época, a editora enfatizou a importância de McQueen para o mundo da moda.

Mais do que nunca, a moda também busca digerir e adaptar as imagens do último desfile de verão de Alexander McQueen, recentemente apresentado em Paris. Divisor de águas, foi o mais apoteótico e apocalíptico da história. De forma já diluída, a revista pontua essa forte influência e homenageia o estilista que acaba de morrer prematura e inesperadamente. (...) McQueen dominava estruturas complexas de absoluto rigor, reconhecidas por trás do estilo revolucionário, caricatural e arrebatedor de suas peças (CARTA, 2010, p. 31).

Em edições especiais, como as que comemoram aniversários das publicações, o editorial costuma focar neste assunto, resumindo a história, relevância das revistas ou como foi elaborar a edição e o que ela representa. Na Elle, Ano 23 Número 5, o título do editorial é “Nosso aniversário”, e a editora de redação, Lenita Assef, já inicia o texto com a frase: “Fazer a edição de aniversário é uma epopéia. Festiva! (...) Capa resolvida, decidimos que esta seria uma megaedição, com mais de 200 páginas editoriais, que deveriam ser preenchidas com o melhor de tudo”.

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Na edição 395, especial de aniversário da Vogue, a atual editora, Daniela Falcão, foca no fato de Gisele Bündchen protagonizar dois editoriais. No entanto, o texto não se limita a enaltecer a edição ou a modelo. Na seção, também é possível observar a competição entre Vogue e Elle. Em 2011, as duas publicações resolveram comemorar suas edições de aniversário estampando na capa a modelo Gisele Bündchen. Primeiro, em maio, a Elle publicou uma foto tirada pelo fotógrafo Nino Muñoz, em seu estúdio em Nova York, para a revista Muse, em 2010. Dois meses depois, a Vogue publicou quatro diferentes capas com a mesma modelo (e a leitora escolhia, nas bancas, qual desejava consumir), com fotos tiradas na Amazônia e em Nova York. No Editorial da Vogue de julho, a editora de redação, Daniela Falcão demonstrou o seu descontentamento com a coincidência: "Não à toa, Vogue é a única revista do país para quem a top abre espaço em sua atribuladíssima agenda - enquanto a maioria se contenta em republicar fotos antigas de Gisele, Vogue vai além".

Este trecho também exemplifica outra característica dos editoriais de revista de moda. São nessas seções, que a editora enaltece o trabalho da publicação e enfatiza a sua representatividade no meio da moda. Na edição Ano 21 Número 5 de Elle, Lenita Assef resume sua trajetória na publicação e dá ênfase ao trabalho exercido ali:
Sinto o maior orgulho e emoção ao ver que a equipe desta redação tem, a cada mês, o fôlego, o amor e a determinação de quem faz um número 1 e quer entregar a vocês uma ELLE com toda a força do seu DNA: a capacidade de traduzir a moda, a beleza, o estilo de uma maneira única – cheia de ideias novas, ousadas, possíveis e lindas, despertando desejos, assegurando prazeres (ASSEF, 2008, p. 10).

Para finalizar, a linguagem informal usada pelas editoras, que usam o editorial como um espaço para conversar com a leitora, como se esta fosse uma amiga. Abusam da linguagem coloquial e buscam uma relação próxima com a leitora. Um exemplo disso é a forma com que a editora de redação de Elle, Lenita Assef, finaliza seus editoriais: sempre se despedindo com "beijos".

4.3.3 Bastidores

As revistas de moda procuram passar, para a leitora, a imagem de que a publicação valoriza sua equipe. Para isso, publicam fotos dos bastidores dos editoriais, mostrando as particularidades do que ocorreu durante as produções. Como um diário, relatam para a leitora as curiosidades acerca disso, juntamente com imagens descontraídas.

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Na edição Ano 23 Número 5 da Elle, a editora de moda Susana Barbosa escreveu para a seção Backstage, presente apenas nesta edição, dentre as três analisadas. No título, "HappyElle", uma referência ao aniversário da publicação. Na página, fotos da equipe de produção nos editoriais e legendas, ressaltando o trabalho dos profissionais. Em um olho gráfico, está escrito: "Juntamos um time de peso para comemorar os 23 anos de ELLE".

Figura 1: Backstage Elle

O texto exalta a importância da edição e procura passar para a leitora, todo trabalho envolvido para o resultado final.

A edição de aniversário é sempre a mais esperada do ano e, por isso mesmo, a mais bacana de fazer. É uma delícia pensar em cada matéria e tentar imprimir ali o ar glamouroso que toda revista comemorativa deve ter. E, como sempre, cada editorial tem mil histórias por trás nem tão glamourosas assim. Na matéria Dream Farm, vivemos uma verdadeira aventura: dois dias inteiros de foto em meio a cavalos e muito esterco, claro! (BARBOSA, 2011, p. 25).

Já a Vogue, a cada edição, reserva a seção "Colaboradores", onde um pouco dos bastidores da revista é revelado, ao mostrar fotos de quatro colaboradores que ajudaram a fazer a edição em questão. Além disso, é exibido um perfil, em que os profissionais são apresentados à leitora, juntamente com um resumo do trabalho realizado para a publicação. respondidas questões mais pessoais sobre o personagem em destaque. Também são

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Na edição 358, por exemplo, um dos quatro perfis exibidos foi do florista americano, Jeff Leartham. Veja abaixo:

Figura 2: Vogue Colaboradores

4.3.4 A linguagem no jornalismo de moda

O texto no jornalismo de moda possui suas particularidades, em relação a outras editorias. Conforme citado no capítulo anterior, Joffily (1991) destaca que o uso de fotos e legendas nas revistas de moda para apresentar produtos indicados para as leitoras, pode contribuir para o preconceito de que "leitora de moda não lê".

Como já foi exemplificado, a seção sobre "consumo" se baseia, basicamente, nessa estrutura de foto e legenda, deixando para a imagem atrair o desejo da leitora, enquanto consumidora em potencial. A Elle, na edição Ano 21 Número 5, montou um especial sobre Beleza. Três páginas foram dedicadas a produtos que deixam a mulher mais sexy, exibindo fotografias de cores de batons, esmaltes e sombras, com legendas explicando o preço e a marca, de cada um.

Apesar do espaço destinado à imagem, as revistas de moda têm considerado a importância do texto e a fotografia sendo usada como ilustração. Com isso, o principal destaque da matéria é a parte escrita e a imagem tem a função de ser, apenas, um complemento. A Vogue, na edição

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395, utilizou esse recurso na matéria "Roupa Cabeluda", sobre as franjas, nas peças de roupas. O texto começa justificando a relevância da matéria:

Se houve um grande recado transmitido em uníssono pelos desfiles cariocas para o verão 2012, foi: as franjas são o novo paetê. Quem teve a oportunidade de visitar os showrooms e conhecer de antemão as novas coleções das marcas que não desfilam também saiu com a mesma sensação de onipresença dos fios longos (MOURA, 2011, p. 73).

O restante do texto é dedicado a explicar o porquê da comparação com o paetê e o motivo da peça ter virado tendência entre os estilistas americanos e, posteriormente, os brasileiros. Além disso, a editora de moda Bárbara de Moura cita marcas brasileiras que estão investindo nessa moda e dá uma dica para as leitoras:

"Se sua vontade é incorporar neste verão a índia navajo, a étnica sofisticada ou a famme fatale, boas opções não vão faltar. Mas cuidado: em se tratando de franjas, a regra de ouro é fugir de seu estigma de fantasia de carnaval e atribuir a elas uma conotação nova e surpreendente" (MOURA, 2011, p. 73).

As fotografias utilizadas foram, apenas, de peças dos estilistas citados na matéria.

Ainda retomando o capítulo teórico, uma das características consideradas fundamentais nos textos especializados, como o de moda, é a clareza. Isso porque, comumente, os jornalistas utilizam expressões estrangeiras, familiares, apenas, para quem está inserido no universo da moda. Expressões como trend-setters (inovadores de tendências), homeless (visual estilo de morador de rua), it bag (bolsa da moda), easy rider (traduz o visual de alguém “sem destino) são usadas com frequência e os veículos de moda partem do pressuposto de que a leitora conhece essas e outras expressões e, por isso, não explicam o significado das mesmas. A Elle, por exemplo, utilizou na capa da edição Ano 23, Número 5 as expressões very cool, beauty collections e gadgets.

O jornalista de moda utiliza o texto como um meio de aproximação com sua leitora. Para isso, ele faz uso da primeira-pessoa, passando a sensação de uma conversa informal, uma narrativa da sua visão sobre o tema abordado ali. Na edição 379 da Vogue, a jornalista Vicki Wood foi até um hotel na França para entrevistar a estilista Phoebe Philo, responsável pela grife Céline. No entanto, a matéria não se resume apenas em uma entrevista sobre o trabalho da designer e isso fica claro nas primeiras linhas: "Assim que chego, meus olhos são atraídos para as sandálias que vestem seus pés: preciso de um par idêntico! São Céline. É a primeira vez que

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vejo um sapato Céline e sinto o desejo urgente de compra. Digo que as cores são lindas, com a ponta arredondada. Phoebe Philo apenas sorri" (WOOD, 2010, p. 122). Nas linhas seguintes, ela continua sua descrição, passando para sua leitora, cada detalhe observado naquela conversa. "Sua silhueta delgada, o rosto delicadamente bonito, com olhos enormes, lhe dão uma aparência frágil, sensação reforçada por sua voz titubeante e pelo sotaque londrino - a fala é pontuada por aquelas pausas e gagueiras iguais às de Hugh Grant". E por aí segue a matéria, uma mescla de conversa entre amigas (jornalista e leitora) e uma entrevista profissional, sobre a profissional e o seu trabalho.

Além de uma linguagem mais pessoal, o jornalismo de revista - sobretudo o de moda - utiliza de símbolos e comparações, até mesmo para dar leveza à matéria. Na Edição Ano 23, Número 5 da Elle, o jornalista Fred Melo Paiva abordou três polêmicas, envolvendo o estilista John Galliano, e os atores Mel Gibson e Charlie Sheen. A matéria, intitulada "Tiro no pé", faz uma comparação entre os escândalos dos envolvidos e os erros cometidos por cada pessoa.

Tiro no Pé é um clássico capaz de deixar no chinelo, por exemplo, a Bala na Agulha. Ou o famoso Três Oitão, recentemente aposentado pela Polícia de São Paulo com obituários de página inteira. Nem todo mundo tem Bala na Agulha ou manuseou o Três Oitão - mas não há ser humano que já não tenha dado um Tiro no Pé (PAIVA, 2011, p. 206).

A polêmica de John Galliano se dá pelo fato de o estilista ter dito a algumas mulheres italianas, que amava Hitler, entre outras declarações consideradas antissemitas e ele foi acusado de nazista. Na matéria da Vogue, ele é comparado a outra figura:

Aquela noite, no Marais, Galliano era o Clint Eastwood na trilogia dos dólares de Sérgio Leone - o cavaleiro solitário que bebe num canto do saloon, impassível, o rosto sem expressão, o gesto sem desperdício, o copo à sua frente. A diferença é que, nesse caso, o cavaleiro é que deve ter ficado amarrado na porta do bar (PAIVA, 2011, p. 206).

No decorrer do texto, outras comparações são feitas, como uma forma de analisar os casos e colocar, cada um deles, no lugar das personalidades. Em outro texto, o autor questiona: "Quantas vezes não fomos, num só corpo, a Preta Gil e o Jair Bolsonaro. Quer dizer, o Bolsonaro também já é demais - digamos, mais apropriadamente, que em nosso corpinho muitas vezes habitam o Lula e o FHC, a Luana Piovani e o Dado Dolabella, o Palocci e o Guido Mantega". Enfim, todo o texto segue essa linha e enfatiza uma das características do jornalismo especializado.

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Para finalizar, no jornalismo de moda, é comum o uso de expressões imperativas, como uma forma de convencer as leitoras a "comprar" a ideia proposta ali. Na edição 358 da Vogue, a editoria "Shops" continha a matéria intitulada "Tem que ter", sobre modelos de malas para quem vai viajar. A expressão dá a entender que é obrigatório que a leitora escolha entre os acessórios, como se não fosse aceitável que não possua, pelo menos, um deles. Em outra matéria, da editoria "Estilo", a frase utilizada para apresentar peças importadas foi "Vogue faz uma seleção com o best of para você atualizar o look já". O "já" transmite à leitora a ideia de que ela deve comprar as peças o mais rápido possível.

Todos esses recursos de linguagem reforçam a apresentada no capítulo teórico, de que o consumidor tende a se influenciar pelos líderes de opinião, e a linguagem utilizada nos veículos de moda possui o papel de fazer essa ligação. A mulher comum busca, nas páginas das revistas, a informação que se enquadra no seu perfil e estilo de vida. A forma como isso é transmitido a ela interfere, obviamente, na interpretação das mensagens ali comercializadas pelas revistas.

4.4 O consumo estampado nas revistas 4.4.1 As seções voltadas para o consumo

As pessoas utilizam a moda como uma maneira de criar uma aparência que melhor corresponde a sua personalidade e, de alguma maneira, que seja aceito em seu grupo social. Como foi visto no capítulo 3, a paixão pelo consumo de produtos de luxo tem relação com o desejo do indivíduo em ser admirado, além de buscar uma autoadmiração.

Se você é um simples consumidor ou consumidora de moda, deve seguir ou não as tendências? Isso também é com você. Hoje, o mundo se divide entre aqueles que querem obedecer à moda, comprando as chamadas "Peças da estação", e os que fazem questão de ter estilo e atitude. O mais gostoso é acompanhar a moda e interpretá-la, adaptando-a à nossa vida, nosso corpo, nosso bolso (PALOMINO, 2003, p 38).

Nas revistas de moda, há seções voltadas, unicamente, para o consumo, dentro de um tema estabelecido. Essas páginas privilegiam as fotografias dos produtos selecionados, acompanhadas pelo nome da marca e seu respectivo preço.

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Seguindo a ideia de estabelecer um tema para a seção "Achados", voltada para o consumo, a Elle apresentou, na edição Ano 21, Número 5, quatro páginas dedicadas a dicas de peças para se inspirar no estilo das estrelas do cinema, Grace Kelly, Marisa Berenson, Marlene Dietrich e Rita Hayworth.

Na página intitulada "À la Marlene Dietrich", há o bigode: "Peças masculinas e preto & branco fazem o visual que a atriz consagrou nos anos 1930", acompanhado de uma foto da atriz, em preto e branco. Além disso, há fotografias de oito peças que representam seu estilo, e na legenda informações sobre as mesmas. Para exemplificar, o número onze é uma gravata, cuja legenda explica: "11. Gravata vintage, Brechó Juisi by Licquar, R$ 65. Experimente usar afrouxada, como se fosse uma écharpe".

Em sua seção "Shops", da edição 379, a Vogue também publicou dicas de consumo, inspiradas no visual da mesma atriz. Intitulada "Ícone Fashion: Marlene Dietrich", na página há quatro fotos com legendas e o bigode: "Inspire-se na estrela de cinema alemã que transformou o estilo militar em objeto fashion de deseja nos 40". Para exemplificar o estilo, fotos de peças inspiradas no estilo militar, com suas respectivas marcas e preços.

A Vogue possui a seção "Shops", dedicada a diferentes temas sobre dicas de consumo. Na edição 395, foram reservadas sete páginas para o consumo, embora não tivessem relação entre si. Enquanto a página 56 estampou o título "Mariner Invernal", referente a peças de inverno, inspiradas no estilo marinheiro, a página 60 foi intitulada "Tricô multicolorido", com malhas de tons diversos. Nas páginas seguintes, a seção "Shops", se dedicou ao tema "No avião para", dando dicas de produtos para viagens à Londres, Córsega e Chile.

As seções de consumo, nas duas publicações, também acompanham uma determinada editoria. Na edição 379 da Vogue, a editoria "Estilo" dedicou sete páginas a diferentes matérias relacionadas ao jeans. Na página 142, a seção "Shops Especial Jeans" mostrou a "Cor do mês Blue Jeans", com fotografias de peças jeans, com informações sobre o preço e a marca, de cada uma.

Na edição Ano 22 Número 3 da Elle, a editoria "Décor" publicou uma matéria de cinco páginas sobre a decoração minimalista, que privilegia cores e traços neutros. Na página

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seguinte, a seção "Elle Décor Shopping" mostrou objetos que se inserem na proposta da matéria, privilegiando objetos brancos e madeiras.

A última página, de cada edição da Vogue, sempre é dedicada a uma dica de consumo de moda, intitulada "Vogue Last Look". Na edição 358, o título era "Pronta para Voar - Bruno Frisoni se inspirou no filme Os Pássaros, de Hitchcock, para criar os exóticos acessórios de penas de ganso da Roger Vivier. Ouse. E use!". E, em destaque, duas fotos dos acessórios fashion em questão - um sapato e uma bolsa de mão.

4.4.2 Editorial de moda

O editorial de moda é o principal diferencial das revistas de moda, em relação às outras publicações. As produções transmitem ao público o que está na moda, através de elementos lúdicos que compõem as fotografias. O editorial é pensado e editado dentro da lógica jornalística e é a apresentação visual do que o veículo diz estar na moda, naquele momento. No entanto, a mensagem não pode ser literal, sendo apenas uma mensagem da ideia apresentada e, com essas informações, a leitora retira o que acha mais adequado ao seu estilo. Como foi explicado no capítulo anterior, o editorial deve fugir do óbvio, criando cenários e produções que sirvam de inspiração para essa leitora. Em entrevista ao canal da revista Elle7, a editora de redação Lenita Assef define que "a função do editorial é trazer ideias, como o que usa com o quê, como se mistura... A gente procura sempre fazer uma coisa nova e inusitada". Para a editora, a importância do editorial se deve ao fato de ter o aval de um veículo conceituado e de ser elaborado por profissionais que pesquisam sobre o mercado da moda e têm conhecimento daquilo que é relevante e deve fazer parte do dia a dia da leitora.

Em sua edição Ano 23 Número 5, a Elle produziu um editorial inspirado nos filmes de Bang Bang, para mostrar roupas para serem usadas em festas. Intitulado "Dream Farm", com edição de Susana Barbosa, as 20 páginas mostram a modelo em uma fazenda, em meio aos fenos, animais e trabalhadores locais. As fotografias alternam entre o colorido e o preto e branco, que reforça a inspiração cinematográfica, com uma carga dramática, presente na

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Disponível no site < www.youtube.com/watch?v=bvICWOB8aGg .> Acessado em 05 de setembro de 2011.

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fisionomia da modelo. (ANEXO B)

O editorial permite que a moda apresente outras culturas para a leitora, fazendo referências aos vestuários típicos ou usando locações exóticas como cenário. A Vogue, na edição 358, publicou um editorial produzido, originalmente, pela Vogue americana. A inspiração foi a moda hippie, com seus looks étnicos e artesanais, envolvida na cultura peruana. As cores fortes, as paisagens naturais, lhamas e moradores locais, com suas vestimentas típicas, não só compõem o cenário, mas também são responsáveis por apresentar essa cultura, para a leitora da revista. O editorial possui dez páginas e foi fotografado pelo fotógrafo Mario Testino, que conhece as paisagens selecionadas, uma vez que em nasceu em Lima, locação das fotos. (ANEXO B)

Há editoriais em que a modelo mal aparece e as roupas não são o destaque da produção. Algumas publicações dedicam suas páginas há editoriais de maquiagem, ressaltando as cores e estilos que estarão em alta na estação. Em outros, a própria modelo é dispensada e o foco são os acessórios. A Vogue, na edição 395, produziu um, com o tema “A hora da natureza”, onde cada página exibia relógios que imitam couros, cerâmica e cetim. Foram selecionados cenários naturais, com pedras, plantas e madeira, para exibir as peças.

O importante nesses editoriais é deixar em evidência a tendência que a produtora deseja mostrar para a leitora, para que não se confunda as mensagens transmitidas. 4.4.3 Publicidade

Por dar ênfase ao consumo, como foi visto anteriormente, as revistas de moda dedicam significativa parcela de suas páginas à publicidade. Os produtos de luxo, beleza e outros, que interessam a essas mulheres leitoras, ocupam a maior parte do espaço reservado a essas propagandas.

Para exemplificar, abaixo, algumas das marcas encontradas em cada edição analisada e gráficos, que ilustram o espaço ocupado, nas revistas:

Vogue 358 - Carolina Herrera, Burberry, Vivara, Chanel Vogue 379 - Atten, Gregory, Camila Klein, Santa Lola

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Vogue 395 - Hope, Bo.Bô, Tom Ford, Contém 1g

Elle Ano 21 Número 4 - Victor Hugo, L'oréal, Zoomp, Tommy Hilfiger Elle Ano 22 Número 3 - Diesel, Hermès, Corello, Lacoste Elle Ano 23 Número 5 - Calvin Klein, Gucci, Riachuelo, Tufi Duek

Gráfico comparativo entre o número de páginas de cada edição e o quanto é destinado à publicidade:

Gráfico 1: Publicidade em Vogue

Gráfico 2: Publicidade em Elle

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A Vogue possui, ainda, a seção "Promovogue", em que são publicadas matérias pagas, sobre determinado produto, espaço ou profissional. Na edição 395, por exemplo, há três matérias identificadas desta maneira, sendo uma sobre clínica de dermatologia, outra sobre chefe de cozinha e uma terceira sobre a coleção feita pela Gisele Bündchen para a loja C&A. Na Elle, por sua vez, não fica explícito quando se trata de uma matéria paga.

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5 CONCLUSÃO

O presente estudo visou identificar os principais pontos que caracterizam o jornalismo de moda em revista, no Brasil e, com isso, analisar de que forma esse jornalismo especializado se processa.

Conforme foi elucidado anteriormente, a hipótese inicial deste estudo se baseou na idéia de que o jornalismo de moda se diferencia das outras especialidades, não só por tratar de um tema voltado ao público feminino, como também por possuir suas especificidades na forma de falar com os leitores. Para isso, as revistas de moda utilizam recursos e técnicas particulares na maneira de expor, visualmente, os assuntos das matérias e na forma de tratar o consumo.

Outra hipótese, que sustenta a primeira, é o fato de que, apesar de valorizar o que o Brasil tem a oferecer no setor, o jornalismo de moda no País ainda se baseia no que é produzido nos lugares considerados pólos da moda.

Por meio do arcabouço teórico construído, foi possível identificar as particularidades do jornalismo especializado, além de compreender a relação da moda e do consumo, dentro do contexto comportamental e histórico. Essas teorias contribuíram para a realização da análise e o devido cumprimento das categorias analíticas propostas.

As hipóteses iniciais foram confirmadas pelo estudo devido a uma série de fatores. Ao analisar a linguagem utilizada nas publicações, foi identificado que as mesmas utilizam, em seus textos, um discurso mais pessoal, com a intenção de que se crie uma identificação por parte do leitor, receptor característico, obviamente, do sexo feminino. Pode-se perceber, nas matérias analisadas, que os jornalistas das revistas procuram tratar a leitora como uma amiga, reportando a ela todos os detalhes percebidos em uma entrevista, por exemplo, ou fazendo uso da opinião, ao comentar uma tendência ou produto testado.

Além disso, por meio do estudo, foi reafirmado que a imagem tem papel fundamental nas revistas de moda. Tal relevância está presente desde a escolha da capa, que reflete tendências ou antecipa o que a revista tem a mostrar para a leitora. A capa representa a visão da publicação sobre o contexto da moda atual e, até mesmo, a escolha de quem vai estampar a primeira página e a forma em que será representada, há um significado específico.

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A imagem ganha ainda mais relevância no jornalismo de moda quando se trata dos editoriais de moda. As produções retratam as tendências, a forma com que essa informação de moda deve ser passada para a leitora, além de servirem de inspiração. Como foi observado, os editoriais também possuem a função de tratar outras culturas e países, o que atrai, ainda mais, a atenção da leitora. Além disso, a imagem ganha destaque nas seções de consumo, que visam incentivar a leitora a adquirir e estimular o desejo pelos produtos ali expostos. A fotografia, no jornalismo de moda, é usada como um recurso de persuasão, para convencer a leitora da mensagem passada ali.

O consumo está presente em toda a revista de moda como quando aborda, por exemplo, temas ligados ao turismo ou às inovações das vestimentas e dos acessórios. De forma explícita ou subliminar, as informações ali construídas – e por isso comercializadas - incentivam inúmeros caminhos de consumo. As seções nomeadas de “shops” e “achados” expõem, com a credibilidade e autoridade do próprio título que as nomeia, fotografias e informações como preço e marca, produtos que devem ser consumidos ou, simplesmente, desejados. As expressões “você tem que ter” ou “não pode viver sem” reforçam essa intenção.

Esse comportamento editorial das revistas Elle e Vogue comprova um tratamento padronizado e globalizado da informação sobre o mundo da moda. Apesar de dar destaque às modelos brasileiras e sempre apresentar matérias referentes à moda produzida no Brasil e seus principais expoentes, é claro o predomínio do que é estrangeiro. Até mesmo as publicidades se referem, em grande parte, à divulgação de grifes internacionais, assim como as seções de consumo reservam grandes espaços aos produtos importados, além das matérias que focam celebridades internacionais.

O uso de expressões estrangeiras também é muito presente nas publicações e, obviamente, interfere na produção da linguagem das revistas. A Elle utiliza de forma mais presente esse recurso. Existem expressões que são usadas, normalmente, sem tradução, em qualquer situação, como a tradicional e indefectível prêt-à-porter. No entanto, em outras situações, o estrangeirismo é dispensável e, mesmo assim, o veículo dá preferência, como no momento em que utiliza o termo "God Save McQueen" para se referir à moda do estilista inglês Alexander McQueen. Isso, de certa forma, demonstra que a tradução para o português não legitima o que é exposto ali e somente é valorizado se for mantida a linguagem padrão.

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O estudo pode comprovar que, de fato, a Elle e a Vogue são referências no assunto. Até mesmo nas pesquisas teóricas, as duas publicações, por diversas vezes, foram citadas como os principais nomes do jornalismo de moda, mundialmente. Com a pesquisa, só se pode reforçar essa ideia, por apresentarem, de forma até mesmo parecida, como é o jornalismo de moda em revista e como a moda tem sido vista, atualmente, em todo o mundo. A análise permite afirmar que os veículos deste estudo são responsáveis, também, pela valorização da moda e reafirmam isso, em editoriais e diversas outras situações.

Por meio desta monografia, foi possível identificar as características presentes no jornalismo de moda em revista no Brasil. Como a área ainda é carente de estudos mais aprofundados, espera-se que este trabalho seja ponto de partida para estudos posteriores, seja no campo no lato sensu ou stricto sensu. O mais importante é legitimar como área relevante e crescente o jornalismo de moda no Brasil e as grandes perspectivas dessa editoria para a imprensa de um modo geral.

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ANEXOS

Anexo A -: Capas

Anexo B: Editoriais de Moda

Anexo C: Consumo

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