Thiago Madureira de Alvarenga

NELSON RODRIGUES E JUCA KFOURI:
dois estilos na crônica esportiva brasileira

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH) 2011

Thiago Madureira de Alvarenga

NELSON RODRIGUES E JUCA KFOURI:
dois estilos na crônica esportiva brasileira

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH) como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo. Orientadora: Adélia Barroso Fernandes

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH) 2011

RESUMO Esta monografia tem por objetivo analisar dois paradigmas na crônica esportiva brasileira: poética e analítica. Para tal, foram escolhidos dois cronistas que melhor representam cada época, Nelson Rodrigues (crônica poética) e Juca Kfouri (crônica analítica). As crônicas foram retiradas dos livros À Sombra das Chuteiras Imortais, de Nelson Rodrigues, e Por que não desisto – Futebol, Dinheiro e Política, de Juca Kfouri. A análise será realizada de acordo com critérios relativos ao estilo textual, as temáticas abordadas, a visão do jogador de futebol, o peso dado a informação, entre outros. A base teórica aplicada será fundamentada em estudos acadêmicos e publicações editoriais que abordem o panorama histórico, os representantes e os paradigmas da crônica; a informação esportiva; o valor argumentativo e o desenvolvimento do futebol no Brasil. Conclui-se, então, que a crônica esportiva poética, representada por Nelson Rodrigues, se caracteriza por ser mais dramática; fantasiosa; apresentando linguagem míticometafórica; e não guarda relação fidedigna com o fato. Já a crônica esportiva analítica, por sua vez, representada por Juca Kfouri, é mais informativa e objetiva. Palavras chaves: crônica esportiva; jornalismo e futebol

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO...........................................................................................................................05 2 CRÔNICA E DISCURSO.......................................................................................................07 2.1 Panorama histórico, características da crônica e sua relação com o jornalismo...................07 2.2 Crônica esportiva....................................................................................................................12 2.3 Comunicação, Linguagem e Argumentação..........................................................................17 3 FUTEBOL E INFORMAÇÃO ESPORTIVA......................................................................24 3.1 Os desdobramentos da história do futebol no Brasil..............................................................24 3.2 Jornalismo esportivo (ou futebolístico)...............................................................................31 4 NELSON RODRIGUES E JUCA KFOURI: DOIS PARADIGMAS NA CRÔNICA ESPORTIVA...............................................................................................................................35 4.1 História e obra de Nelson Rodrigues e Juca Kfouri...............................................................35 4.1.2 Nelson Rodrigues.................................................................................................................35 4.1.2 Juca Kfouri...........................................................................................................................37 4.2 Análise das crônicas de Nelson Rodrigues.............................................................................39 4.2.1 Complexo de Vira-Latas......................................................................................................39 4.2.2 Dragões de Espora e Penacho .............................................................................................42 4.2.3 A Realeza de Pelé................................................................................................................44 4.2.4 Gol Mil ................................................................................................................................46 4.3 Análise das crônicas de Juca Kfouri.......................................................................................49 4.3.1 Lula, o cartola......................................................................................................................49 4.3.2 Futebol de Popstars..............................................................................................................52 4.3.3 Ah, eu sou brasileiro!...........................................................................................................54 4.3.4 O rabo de cavalo e o ninho de rato......................................................................................56 CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................................................59 REFERÊNCIAS..........................................................................................................................63 ANEXOS......................................................................................................................................65

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INTRODUÇÃO Essa monografia tem como objetivo analisar dois paradigmas presentes na crônica esportiva brasileira, o poético e o analítico. Os cronistas escolhidos são Nelson Rodrigues e Juca Kfouri. A idéia é abordar a forma como os dois se posicionam, observando a linguagem utilizada, como se dá o enfoque das crônicas, as temáticas preferidas, qual crônica possui maior valor informativo. A escolha dos cronistas foi motivada pela relevância que ambos têm, por viverem em momentos históricos distintos e, fundamentalmente, por apresentarem estilos diferentes. Serão analisadas quatro crônicas escritas por Nelson Rodrigues, retiradas do livro À Sombra das Chuteiras Imortais, e outras quatro escritas por Juca Kfouri, extraídas de Por que não desisto – Futebol, Dinheiro e Política. Nelson Rodrigues é um dos expoentes do estilo poético da crônica esportiva, de linguagem mítico-metafórica. Traz uma visão inusitada da partida, preterindo muitas vezes a informação. No livro À Sombra das Chuteiras Imortais estão crônicas publicadas após 1950, com a perda da Copa do Mundo, no Brasil, até a conquista do tricampeonato mundial, em 1970. Este é conhecido como o período de ouro do futebol brasileiro, quando surgiram craques, como Pelé, Garrincha, Tostão, Didi entre outros. Juca Kfouri representa a crônica analítica, que surge no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. Durante este período, o jornalismo esportivo e o futebol, que perde grande parte de seus grandes jogadores, se alteram. Com isso, as crônicas passaram por um processo de renovação, ficando mais informativas. No livro Por que não desisto – Futebol, Dinheiro e Política estão publicadas crônicas ligadas, principalmente, à condução política do esporte no Brasil. No primeiro capítulo, é feito um panorama histórico da crônica desde a Antiguidade Clássica aos dias de hoje, demonstrando suas peculiaridades, a forma com que foi sendo alterada ao longo do tempo. Os primórdios da crônica esportiva, os estilos que foram desenvolvidos e os cronistas mais renomados. Serão apresentados também métodos de comunicação e estratégias argumentativas.

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No capítulo seguinte, o futebol é o ponto de partida. As relações deste esporte com os brasileiros serão exploradas, seus desdobramentos no Brasil, o preconceito e a ingerência política em alguns momentos históricos. Outro ponto para reflexão do capítulo é sobre a informação esportiva. Serão expostas a história desta editoria do jornalismo, sua forma de atuação e os desafios da profissão. No terceiro e último capítulo, serão feita análises das crônicas Complexo de Vira-Latas, Dragões de Espora e Penacho, A Realeza de Pelé e Gol Mil, de Nelson Rodrigues e Lula, o cartola; Futebol de Popstars; Ah, eu sou brasileiro! e O rabo de cavalo e o ninho de rato, de Juca Kfouri. Nas considerações finais, paralelo entre as obras dos autores será realizado para explicitar os paradigmas analisados.

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2 CRÔNICA E DISCURSO O presente capítulo tem por objetivo apresentar o gênero jornalístico crônica. Seu surgimento, os desdobramentos e a evolução promovida pelos cronistas brasileiros, as características deste gênero e o modo de conduta dos cronistas brasileiros. O panorama histórico e os paradigmas da crônica esportiva também serão explicitados, assim como alguns expoentes da crônica esportiva. Em discurso e argumentação, está explicitada a importância da função comunicativa, a organização e constituição de um texto e os dispositivos de argumentação. 2.1 Panorama histórico, características da crônica e sua relação com o jornalismo O surgimento da crônica remonta à Antiguidade Clássica. Durante a Idade Média e o Renascimento, período em que a produção ganhou em robustez, chamava-se de crônica o relato histórico. Essa denominação, em alguns idiomas, por exemplo, o inglês, francês, espanhol e italiano, permaneceu conceituando a crônica como gênero histórico, explica Coutinho (1999). Em 1500, na chegada dos portugueses ao Brasil, Pero Vaz de Caminha fez um relato da descoberta de novas terras com paisagens e animais singulares. Esta carta se caracteriza como a primeira crônica brasileira. Gênero ainda pertencente ao tradicional sentido do termo – relato cronológico de um acontecimento importante. Em função disso, para Sá (1985), a literatura brasileira nasce da crônica. Segundo Coutinho (1999), no século XIX, contudo, não se sabe com precisão se no Brasil ou em Portugal, a palavra crônica passou a ser usada para se referir a um gênero estritamente ligado ao jornalismo. Eram publicações literárias de prosa, sendo uma espécie de análise de assunto livre. A crônica como conhecida nos dias de hoje foi registrada pela primeira vez em folhetins franceses do século XIX, como uma forma de entreter os leitores, afirma Sá (1985). Essas publicações, no entanto, se aproximavam mais do gênero conto. No Brasil, a crônica ganhou nova roupagem, chegando a ser considerada um gênero tipicamente brasileiro pelas adaptações linguísticas e temáticas que só eram vistas por aqui, além de características próprias, como estilo e técnica. O gênero absorveu uma semântica diferente:

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englobou a narração, o comentário, deixou de lado o rigor temporal da atualidade para fixar-se em seu rigor filosófico, expõe Beltrão (1980). Com o passar dos anos, os importantes movimentos literários em voga no Brasil, como o Romantismo, Realismo, Parnasianismo e Simbolismo, foram reproduzidos nas crônicas de acordo com a característica de cada autor. De acordo com Coutinho (1999), foi Francisco Otaviano de Almeida Rosa quem iniciou o trabalho de cronista em dois de dezembro de 1852, no Jornal do Commércio, no Rio de Janeiro. E também na então capital federal, nos folhetins do fim do século XIX, pelas mãos do jornalista Paulo Barreto, mais conhecido pelo pseudônimo de João do Rio, que a crônica, além de assumir um espaço de maior visibilidade, ganhou uma roupagem mais literária. Em vez do usual registro formal, João do Rio desenvolvia um comentário dos acontecimentos observado pelo ângulo subjetivo da interpretação, salienta Sá (1985). A obra de João do Rio representa a mais ousada tentativa de elevar a crônica à categoria de um gênero não apenas influente, mas também dominante.

Outro expoente da crônica brasileira é o escritor Machado de Assis. Alguns críticos literários consideram que a atividade de cronista realizada por Machado de Assis serviu de reforço criativo para criação de seus romances.

Nas primeiras décadas do século XX, a crônica passou a ser empregada em grande frequência, sobretudo em jornais do Rio de Janeiro. Pela quantidade, constância e qualidade, o gênero se tornou um produto genuinamente carioca, acredita Moisés (1982). Devido à sua característica intrínseca ao jornalismo, muitos críticos se recusam a ver na crônica algo permanente, considerando-a uma arte menor. Em alguns jornais elas vinham acompanhadas do título “Páginas Menores”, um indício de como o gênero era encarado. Sá (1986) evidencia que a crônica cobre um espaço no jornalismo que é de ensinar o leitor a ver mais longe, muito além do factual. Isto só é possível quando o fato, os personagens e a preocupação estratégica revelada na estruturação do texto se associam para que o resultado final alcance a empatia com o leitor. Jornalisticamente, a crônica é menos rígida e ambiciosa que o

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artigo. Nela, o escritor ganha liberdade para trabalhar o seu texto, usar a subjetividade e ser menos factual e objetivo. Logo, o gênero se caracteriza por ser elástico, flexível e livre. O fundamental na crônica é a superação de sua base jornalística e urbana, seja construindo uma vida além do fato; enriquecendo uma notícia com elementos psicológico, com humor; e fazendo o subjetivismo sobrepor-se à preocupação objetiva do cronista. Sendo um gênero textual híbrido, ponto de intersecção entre o jornalismo e a literatura, a crônica quebra os pilares da tradicional notícia do jornal, fundadas na objetividade e imparcialidade, explica Coutinho (1999). De preferência, a crônica deve empregar expressões da atualidade, sem evitar os idiomismos e certos jogos de palavras que se formam para desaparecer algum tempo depois. “Sem essa prática, a crônica deixaria de refletir o espírito da época, uma vez que a língua corrente constitui a mais viva expressão da sociedade humana, no tempo” (COUTINHO, 1999, p.134). Cabe ao cronista explorar o poder das palavras para que o leitor possa vivenciar com emoção aquilo que está sendo narrado. Diferentemente do repórter, o escritor de crônicas não deve apenas registrar uma notícia. A forma de expressar do cronista desempenha a função poética no momento em que recria a notícia captando o seu encantamento. Com um toque de sentimentalismo, ele tem o poder de converter um fato insignificante em algo que também tem sua relevância para a vida humana.
A crônica é na essência uma forma de arte imaginativa, arte da palavra a que se liga forte dose de lirismo. É um gênero altamente pessoal, uma reação individual, íntima, ante o espetáculo da vida. O cronista é um solitário com ânsia de comunicar-se. Para isso, utilizase literariamente desse meio vivo, insinuante, ágil que é a crônica. (COUTINHO, 1999, p. 136).

Para fazer seu trabalho, o cronista deve, também, levar em consideração as ideias em curso na comunidade, as informações que consegue recolher sobre fatos e as suas emoções pessoais, explana Beltrão (1980). O cronista discorre de forma literária a percepção dos fatos que observa. Por isso, a crônica é uma mistura de jornalismo e literatura. E a posição do cronista deve ser de seguir seus ideais e defender sua independência moral, mesmo estando em desacordo com a linha de pensamento do jornal, frisa Sá (1985).

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Para ver além da banalidade, o cronista vê a cidade com os olhos de um bêbado ou de um poeta: vê mais do que aparências, e descobre, por isso mesmo, as forças secretas da vida. Não se limita a descrever o objeto que tem diante de si, mas o examina, penetra-o, recria, buscando a sua essência, pois o que interessa não é o real visto em função de valores consagrados (SÁ, 1985, p. 48).

Por jornalismo literário, compreende-se um estilo que desenvolveu no século XIX e que se caracterizou pela militância de escritores na imprensa e pela publicação de crônicas e contos. O número de cronistas consagrados representa uma simples amostra do valor literário através do jornalismo nacional. Nomes como Manuel Bandeira, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Sérgio Porto Luiz Fernando Veríssimo, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, entre tantos outros, assinavam crônicas em periódicos e são alguns dos muitos representantes da produção literária brasileira. Para Cândido (1992), as características do jornal não são ignoradas pelos cronistas, por isso, pode-se dizer que a transitoriedade do veículo é incorporada pela própria crônica. No entanto, quando a crônica passa do jornal ao livro, verifica-se que a sua durabilidade é transformada, ganhando uma sobrevida considerada surpreendente até mesmo pelos próprios cronistas. Quanto à constituição, Beltrão acredita que “a crônica tem por objetivo interpretar um tema utilizando argumentos, ora lógicos, ora sugestivos e persuasivos, em conjunto ordenado para levar o leitor à aceitação do juízo último” (BELTRÃO, 1980, p.69). Através de algumas crônicas de caráter informativo, é possível tomar conhecimento dos fatos e, ao mesmo tempo, receber uma compreensão de mundo; um posicionamento explícito de como o autor analisa e relata tais fatos. A opinião presente no ato de informar, somada às possibilidades criativas próprias da literatura, fazem da crônica uma simbiose entre duas importantes esferas do conhecimento. Estudiosos utilizam de alguns métodos para classificar as crônicas. Coutinho (1999) criou cinco categorias que segmenta a produção dos escritores brasileiros. O autor ressalta que não se trata de uma separação definitiva entre os textos, uma vez que existem crônicas que transitam em diversas destas categorias:

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1-

Crônica Narrativa: tem características muito próximas ao conto, cujo eixo é uma história

ou um episódio. O exemplo mais conhecido é o de Fernando Sabino;
2-

Crônica Metafísica: constituída de reflexões de cunho mais ou menos filosófico ou

meditações sobre acontecimentos ou sobre os homens. É o caso de Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade, que encontram sempre ocasião e pretexto nos fatos para divagar filosoficamente;
3-

Crônica Poema em Prosa: tem conteúdo lírico, mero extravasamento da alma do artista

ante o espetáculo da vida das paisagens ou episódios para eles carregados de significado. Os cronistas mais conhecidos são Rubem Braga e Manuel Bandeira. 45Crônica informação: é aquela que divulga fatos tecendo comentários ligeiros. Crônica comentário: dos acontecimentos, que tem um acúmulo de muita coisa diferente

ou díspar. Os representantes são Machado de Assis e José de Alencar.

Outra classificação é feita por Beltrão (1980). O autor dispõe as crônicas quanto à natureza do tema e ao seu tratamento: Quanto à natureza do tema: 1Crônica geral: é aquela com espaço fixo no jornal, onde o autor aborda assuntos

variados. 23Crônica local: também conhecida como “urbana”, trata dos temas quotidianos da cidade. Crônica especializada: o autor, que é um “expert” no assunto, trata de assuntos

referentes a um campo especifico de atividade. Quanto ao tratamento dado ao tema:

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1-

Analítica: nesta os fatos são expostos e dissecados de modo breve e objetivo; é

dialética. 2Sentimental: o autor apela à sensibilidade do leitor; os fatos comovem e influenciam a

sensibilidade. 3Satírico-humorística: critica, ironiza, ridiculariza fatos ou pessoas com a finalidade de

advertir ou entreter o leitor; possui feição caricatural. 2.2 Crônica esportiva Do fim do século XIX à metade do século XX, as crônicas esportivas foram divididas cronologicamente em um corte temático. A primeira fase está ligada à sociogênese do esporte no Brasil. As produções eram focadas nas manifestações de pertencimento esportivo e ufanismo, pautadas em um modelo civilizatório vindos da Europa, pondera Capraro (2007). O debate teve desfecho após a popularização do futebol. Os representantes desse período não eram cronistas especialistas em esporte, mas escreviam, entre outras coisas, sobre o tema. Esse é o caso do escritor Lima Barreto. Afonso Henriques de Lima Barreto se caracterizou por ser um nacionalista exacerbado em suas publicações jornalísticas e nos textos literários. Em função disso, demonstrava paixão pelo que fosse puramente brasileiro, como a rasteira. Condição essa que o fez negar, por exemplo, o futebol, alegando ser um esporte intruso no país. Em 1919, o escritor fundou a “Liga Contra o Foot-ball”. Barreto escrevia artigos e crônicas sobre os prejuízos que o jogo provocava na saúde dos praticantes. Em sua grande maioria, no entanto, os cronistas brasileiros eram admiradores do esporte vindo do Reino Unido. Caso, por exemplo, do artista modernista Mário de Andrade.
Que coisa lindíssima, que bailado mirífico um jogo de futebol! Asiaticamente, cheguei até a desejar que os beija-flores sempre continuassem assim como estavam naquele campo, desorganizados mas brilhantíssimos, para que pudessem eternamente se repetir, pra gôzo dos meus olhos, aqueles bugoanos contraste. (ANDRADE apud LUCENA, 2003, p. 167)

Na segunda fase, o futebol já era considerado um esporte de massa e um elemento central da cultura brasileira, assumindo um papel de agente firmador da identidade nacional. A partir do

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crescimento do futebol, criou-se um ideário de brasilidade em função da relação do esporte com a sociedade brasileira. Capraro (2007) A crônica esportiva ganhou em popularidade no Brasil a partir das produções do jornalista Mário Filho. Anteriormente, os textos eram mais rebuscados e eloquentes. Mario Filho adotou um estilo de escrita para criar uma aproximação com os fanáticos por futebol. Foi graças a Mario Filho que o leitor tornou-se próximo do fato. Filho enriqueceu o vocabulário da crônica de uma gíria típica do próprio futebol, transformando em um paradigma para o jornalismo. As crônicas de Nelson Rodrigues e Mário Filho tinham vida própria, segundo Coelho (2003), porém nem bem chegavam a ser jornalismo. As crônicas eram recheadas de drama e de poesia, por isso se destacavam na cobertura esportiva. Esses textos motivavam os torcedores a sair de casa e ir ao estádio no jogo seguinte para, especialmente, ver seu ídolo em campo. Criaram novos heróis nacionais e ajudaram a construir figuras míticas: Pelé virou o Rei do Futebol; Didi, Príncipe Etíope; Jairzinho era o Furacão da Copa; entre outros. A narrativa da crônica esportiva reveste-se em muitas ocasiões de uma linguagem pessoal e fantasiosa para dar conta desse espetáculo imprevisível e dramático, que é o esporte, pondera Marques (2000). As construções imagéticas do cronista conseguem causar um fascínio especial nos leitores, em meios às notícias frias e objetivas. Os cronistas esportivos, em geral, compõem relatos que se distanciam dos acontecimentos e da mera descrição das partidas e produzem textos nos quais se observam uma marcante subjetividade, uma preocupação com a linguagem e, em alguns casos, com os recursos da narrativa literária, pondera Lucena (2003). Para Coelho (2003), as crônicas esportivas poéticas não guardavam relação fidedigna com o fato. Coelho exemplifica esse desencontro de informação com a descrição que Nelson Rodrigues faz do terceiro gol do Brasil na final do Mundial do Chile, em 1962. Rodrigues narra o lance como se Vavá tivesse marcado o gol de cabeça. No entanto, o tento foi feito com um arremate de pé direito, contando com o auxilio do goleiro, que falhou no lance. O problema é que a verdade e a lenda se misturam, e nem todos diferenciam o romance do jornalismo. A crônica esportiva literária teve seu auge justamente no período em que eram abundantes craques e títulos na seleção brasileira. Sobretudo, no período delimitado entre a década de 1950 e 1970.

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Outra segmentação feita na crônica esportiva é entre os textos poéticos e os analíticos, expõem Costa, Ferreira e Soares (2007). Nelson Rodrigues é um exemplo da construção da crônica poética, com linguagem mítico-metafórica. Rodrigues utilizava de adjetivações valorativas, ritmo, jogo de imagens e subterfúgio de metáforas.
A pura, a santa verdade é a seguinte: - qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: - temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de "complexo de vira-latas". Estou a imaginar o espanto do leitor: - "O que vem a ser isso?". Eu explico. Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos "os maiores" é uma cínica inverdade. (RODRIGUES, 1993, p.51)

Para Nelson Rodrigues, a verdade do futebol estava além do que os nossos olhos podiam ver. Quase cego, superava a dificuldade de enxergar ao usar a audição e a imaginação como suportes para escrever. Em função dessa deficiência, o rádio foi fundamental para a elaboração das obras do escritor. Como grande poeta do futebol, recriava cada passe, cada drible, cada gol de uma forma única. Como cronista, Nelson Rodrigues brincava com estruturas objetivas da categoria jornalística, dizendo que, antes da objetividade jornalística, os jornais eram mais interessantes, e utilizava associações metafóricas, presentes nas narrativas literárias, esclarece Proença (1961). Proença (1961) enumerou algumas expressões elaboradas por Nelson Rodrigues. É um vocabulário metafórico a partir de sua vivência com o futebol, uma de suas características como cronista: “Pedia uma baba elástica e bovina”; “sentou no meio fio e chorou lágrimas de esguicho”; “é de sair soltando fogos de artifício pelas ruas”; “óbvio ululante”; “se não tiver sorte, engole-se o palito do Chica-Bom”; “pôs as sandálias da humildade”; “mortos tremeram no túmulo”; “idiotas da objetividade”; “mau tempo do 5ºato de Rigolleto”; “lambe rapadura há dois mil anos”; “Búfalo de Marajó”; “lacrais do boulevard”; “remador de Ben-Hur”; “trote de cavalo inglês”. Essas metáforas hiperbólicas de Nelson Rodrigues normalmente eram comentadas pelos torcedores fanáticos e até entre os da elite intelectual, que se deliciavam com o estilo do autor.

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Assim, criava-se uma aproximação, uma conversa mais íntima com os torcedores, acredita Proença (1961). Outro expoente da crônica poética é o advogado de formação e o jornalista por opção Armando Nogueira, que exerceu a atividade de 1950 ao ano de sua morte, em 2010. Com seu estilo literário, Nogueira tornou-se um dos cronistas esportivos mais respeitados do país. Uma das características que o destacava era a busca profunda de uma estética nos textos. As crônicas de Nogueira são providas de vários elementos estruturais literários, como metáforas, jogo de antônimos, sonoridade e aliteração. Defensor do futebol arte, não faltava inspiração para as crônicas de Armando Nogueira. Craques como Maradona, Pelé, Garrincha, Tostão e tantos outros protagonizaram seus mais belos textos. Essa etapa da crônica esportiva tem seu declínio durante as décadas de 1980 e 1990, adaptandose a uma série de fatores ligados ao jornalismo e ao próprio esporte. O futebol ganhou novas configurações táticas, as partidas ficaram mais duras e o talento, visto de sobra durante as décadas passadas, se exauriu. A transmissão esportiva pela televisão, com o desenvolvimento de recursos tecnológicos, também contribuiu para que a visão sobre o esporte e os temas debatidos fossem substituídos. A televisão expôs de forma definitiva que os grandes craques não viviam apenas dos lances geniais, dos gols maravilhosos e da altivez própria dos heróis. As imagens demonstravam que os gênios do futebol também tinham suas fraquezas. Surgiu, assim, a crônica esportiva analítica, mais informativa e voltada a questões táticas e técnicas, afirmam Costa, Ferreira e Soares (2007). Embora as divisões cronológicas sejam feitas, existem representantes das diversas fases escrevendo em momentos similares. Alguns cronistas, como Fernando Veríssimo e Milton Hatoum, quando escrevem sobre futebol, ainda preferem manter a identidade das crônicas poéticas. O perfil do cronista esportivo também passou por um processo de renovação. Além de serem especialistas, deveriam conhecer as novas formatações táticas, a função desempenhada em campo por um jogador e sempre informar com precisão e exatidão sobre os assuntos abordados,

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buscando um ângulo diferenciado para a abordagem do assunto. Segmento pouco explorado anteriormente, a política relativa ao esporte e seus bastidores passaram a ganhar mais destaque. Com essas mudanças, as crônicas analíticas se tornaram mais informativas e menos romanceadas, destacam Costa, Ferreira e Soares (2007). Para Coelho (2003), as crônicas analíticas, por serem extremamente fieis à realidade, alijaram todo um imaginário cultural dos grandes heróis de chuteiras criado anteriormente. Muito em função disso, os craques que surgiram após os anos 1990 não tiveram a mesma exposição romanceada e heroicas. Romário e Ronaldo, dois dos melhores jogadores da história do futebol mundial, por exemplo, não tiveram a imagem ressaltada como os jogadores do passado. As conquistas e as marcas alcançadas por ambos não foram alardeadas nem de perto com a mesma fleuma acometida tempos atrás. Portanto, os cronistas analíticos podem ser considerados mais objetivos e com uma visão mais crítica. Um dos representantes desta nova fase da crônica é Juca Kfouri. A partir de 1974, quando assumiu o comando da revista Placar, Juca Kfouri foi um dos responsáveis por delinear a linha editorial da revista no chamado jornalismo combatido. Kfouri, que atualmente é colunista do jornal Folha de S. Paulo, assumiu a vertente crítica do jornalismo e, também por isso, se tornou um dos ícones da crônica esportiva a partir da década de 1990. Como característica, ele não poupa os cartolas, os políticos, à desorganização do futebol e sempre se posiciona de uma forma forte sobre os assuntos atuais relacionados ao esporte. Na Copa do Mundo de 1994, surgiu outro cronista de destaque, Eduardo Gonçalves de Andrade. Tostão, como é mais conhecido, é mineiro de Belo Horizonte e sempre gostou de futebol. Foi atleta profissional de 1963 a 1973, conquistando, entre outros títulos, a Copa do Mundo de 1974, no México, com a seleção brasileira. Após um problema na visão, o jogador se aposentou e resolveu voltar aos estudos: formou-se em medicina e lecionou por mais de uma década na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Durante a Copa de 1994, nos Estados Unidos, foi convidado para voltar ao mundo do futebol, mas desta vez como cronista. Convite aceito. Seus textos caracterizam-se por serem temporais e analíticos. Atualmente, ele escreve uma coluna esportiva que é veiculada em vários jornais. Para Costa Ferreira e Soares (2007), as concepções táticas e conceitos técnicos adquiridos por Tostão têm em suas crônicas as experiências pessoais como filtro.

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A partir da década de 1990, os periódicos cederam mais espaço para textos opinativos. Com isso, o número de cronistas esportivos também cresceu. Para Marques (2005), essa constatação pode ser explicada em decorrência de cinco fatores: 1Para combater o predomínio das redes de televisão, os jornais resolveram publicar

textos mais opinativos, uma vez que o autor já consumiu a informação no dia anterior. Ele agora procura outras interpretações para o fato. 2Com a grande concorrência entre os jornais, a crônica é uma alternativa para conquistar

um maior número de leitores. Torna-se um diferencial. 3Surgimento de patrocinadores para o caderno de esportes que anteriormente não tinham

muito interesse da publicidade. 4A presença de alguns cronistas esportivos é uma das formas de tentar acabar com o

preconceito que alguns leitores têm com o caderno de esportes. 5O futebol transformou-se num fenômeno de importância social, política, econômica e

cultural. Angariou a paixão de milhões de torcedores no Brasil que querem entender do esporte de diferentes formas. É nas crônicas esportivas que os escritores e jornalistas perpetuam a singularidade do gênero. Contrariando as várias definições de efemeridade da crônica, os textos nelas descritos mantêmse firmes com o tempo e alguns devem ganhar a eternidade por meio de livros publicados. Caso de vários cronistas esportivos: À sombra das chuteiras imorais, de Nelson Rodrigues; Confissões de um torcedor, de Nelson Motta; Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso, de José Roberto Torero; A eterna privação do zagueiro absoluto, de Luis Fernando Veríssimo; Por que não desisto - Futebol, Poder e Política, de Juca Kfouri. Esses são alguns dos cronistas responsáveis pelo enriquecimento do discurso da imprensa por meio de relatos e de construções em alguns pontos literárias e que superam a ortodoxias ditadas pelo trabalho jornalístico, relata Marques (2000).

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4.1.3 Comunicação, Linguagem e Argumentação A ação de comunicar é um dispositivo que relaciona locutor, o texto e o interlocutor. O que diferencia os vários tipos de comunicação existentes são os quatro dispositivos nelas presentes: a situação de comunicação, que é a relação em que se encontram os parceiros; a língua, o material verbal estruturado; o modo de organização do discurso, que são quatro princípios da organização linguística, que variam conforme a finalidade comunicativa: enunciar, descrever, contar e argumentar; e o texto, resultado material do ato de comunicar que varia de acordo com o modo de organização do discurso, estabelece Charaudeau (2008). Assim, todo texto é construído por recursos e métodos linguísticos para atender o modo de organização do discurso, que varia de acordo com a finalidade discursiva: enunciativo, descritivo, narrativo e argumentativo. O modo enunciativo tem uma função particular na organização do discurso. Ele exerce vocação essencial na posição do locutor com relação ao interlocutor e intervém na constituição de cada um dos outros três modos de organização. Nele, o locutor do texto demonstra de onde está falando suas preferências e seus pontos de vistas. Para haver uma diferenciação, existem três categorias da língua que ordena a posição do falante em relação ao interlocutor: alocutivo, enunciativo e delocutivo. Entre as elas, está o comportamento alocutivo de superioridade (relação de força; caso da injunção ou interpelação) ou inferioridade (o sujeito falante necessita do “poder fazer” do interlocutor; caso da interrogação e da petição) no discurso. Essa modalidade foi subdividida por Charaudeau (2008) em várias categorias: interpelação (locutor destaca o interlocutor, enquanto este se vê obrigado a reconhecer como alvo do apelo); injunção (locutor estabelece em seu anunciado uma ação a se realizar; o interlocutor se vê com uma obrigação a fazer); autorização (locutor estabelece no enunciado uma ação a se realizar; o interlocutor recebe o direito de fazer); aviso (declarar sua intenção ao interlocutor; o interlocutor toma conhecimento de uma informação que deveria prevenir-lhe contra um risco); julgamento (locutor atribui, estabelece, postula; interlocutor qualifica-se pelo julgamento do locutor); sugestão (locutor propõe, estabelece uma ação; interlocutor é dotado de liberdade para utilizar ou não); proposta (locutor oferece, atribui, estabelece uma ação a se realizar; interlocutor recebe uma proposta do qual pode ser beneficiado); interrogação (locutor estabelece, revela uma questão; interlocutor vê-se obrigado a responder alguma coisa); e petição (locutor julga uma ação a realizar, é tido como realizador de um pedido).

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O modo enunciativo requer revelar o ponto de vista do locutor sobre o propósito referencial num comportamento elocutivo, sem que o interlocutor seja afetado na tomada de decisão. O ponto de vista do locutor pode ser dividido, segundo Charaudeau (2008), em: constatação (locutor reconhece um fato do qual observou de maneira objetiva); saber (informação é conhecida como verdade pelo locutor); opinião (locutor explicita a posição que o faltou a informação ocupa em seu universo de crenças; interlocutor é a testemunha da convicção do locutor); apreciação (avaliação de ordem afetiva de algum fato); obrigação, locutor estabelece como seu enunciado uma ação a ser realizada, interna (só depende do locutor e varia na ordem moral, em nome de algum valor ético, ou por ordem utilitária, justificando o projeto em nome de algum valor pragmático) ou externa (não depende do locutor. Submete-se a uma ordem externa, uma injunção); possibilidade (estabelece uma ação a fazer que depende do locutor, mas que pode não ser feita); querer (estabelece uma ação a fazer que não depende somente dele); promessa (expõe uma ação que deve ser executado pelo mesmo); aceitação/recusa (é dirigido um pedido ao locutor que pode ser aceitado ou negado); concordância ou discordância (responde um pedido expressando sua adesão ou não ao propósito); declaração (locutor detém um saber que é desconhecido ou gera certa dúvida no interlocutor); e proclamação (posição institucional, fazendo com que essa fala se transforme em um ato). Já o comportamento delocutivo, por sua vez, é a retomado da fala de um terceiro, que não esteja embutido no processo. É o resultado de uma enunciação objetiva de pontos de vistas externos. Dentro da modalidade, está a asserção. Neste caso, o locutor se dirige ao interlocutor para relatar um discurso feito anteriormente por um outro sujeito, podendo ser relatado de diferentes formas: citado (de forma direta, quase integralmente), integrado (é integrado a forma com que o locutor relata), narrativizado (se adapta totalmente ao dizer do locutor) e evocado (aparece como uma menção, um dado evocativo). Sobre o modo descritivo, nomeia-se para dar existência. Descrição é um modo de organização que cria taxonomias e outro tipo de listas que constroem ou fazem inventários dos seres do universo. O modo descritivo é utilizado para construir uma imagem atemporal do mundo, afirma Charaudeau (2008). Determina lugares, épocas, maneiras de ser e de fazer das pessoas. É uma forma de imortalizar. Para se compreender melhor o modo descritivo, é preciso conhecer os procedimentos de configuração discursivos e linguísticos.

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Os textos que reproduzem construção subjetiva de mundo, o sujeito falante descreve os seres de acordo com sua percepção e visão de mundo, relata Charaudeau (2008). Os textos que incitam são os publicitários com a missão de demonstrar a qualidade dos produtos. As publicações com finalidade de contar são reportagens, histórias em quadrinhos e canções que procuram informar e seduzir ao mesmo tempo. Outro modo de organização de um texto é o narrativo. Narrar vai além de contar uma história, explica Charaudeau (2009). Para que uma sequência de acontecimentos transforme em narração, é preciso ter um contexto. Contar significa obter respostas sobre perguntas fundamentais que o homem, sendo sempre posterior a existência do acontecido. A lógica narrativa é concebida de uma sucessão de acontecimentos que se organizam por princípios de coerência. A narrativa só tem sentido quando segue um determinado encadeamento de ideias dirigido a um fim. É por um princípio da intencionalidade que os acontecimentos se definem. A sucessão de encadeamentos ocorre em um enquadramento tempo/espacial, seguindo o princípio da organização. O autor de um texto qualquer pode apresentar duas identidades: indivíduo que vive e age na vida social (apresenta identidade própria, conhece experiências individuais e coletivas como participantes do mundo das práticas sociais). É chamado de autor indivíduo, torna-se personagem da narrativa, testemunha de uma história vivida. Na segunda identidade, o autor desempenha um papel social particular, o de escritor. O escritor é testemunha do seu projeto ato de escritura e, através dele, traça sua ideologia sócio-artística. O último dos quatro modos de organização, segundo Charaudeau (2008), é o argumentativo. Ao contrário dos outros, ele é mais difícil de ser tratado, pois leva em conta a experiência humana e formas de pensamento. A argumentação dirige-se a capacidade de refletir e compreender. O sujeito que argumenta tenta modificar uma posição do interlocutor. E para haver argumentação, é necessário: uma proposta que provoque questionamento, um sujeito que desenvolve um raciocínio para tentar estabelecer uma verdade e outro sujeito que seja o alvo de argumentação, tentando conduzi-la a mesma verdade. Argumentar é uma atividade discursiva que busca uma racionalidade que tende a um ideal de verdade quanto à explicação dos fenômenos do universo, que parte da experiência individual e

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social do indivíduo e uma busca a um ideal de persuasão, compartilhando com o outro certo ideal de discurso até o ponto que este seja levado a mesma convicção do argumentador. Isso caracteriza a argumentação não como uma vertente absolutamente racional, frisa Charaudeau (2008). Toda relação argumentativa se compõe de pelo menos três elementos: premissa, uma fala sobre o mundo que atribui alguma propriedade, conclusão, essa asserção pode ser chamada de conclusão da relação argumentativa, representando a legitimidade da proposta, e a asserção de passagem, que pode ser chamada de prova ou argumento sobre os questionamentos em que se inscreve. Entre os modos argumentativos, relevantes para a aceitação da razão demonstrativa, estão: dedução, explicação e associação. A dedução trata-se de um modo de raciocínio que se baseia na premissa para chegar à conclusão. Existem quadro tipos de dedução: por silogismo, uma consequência implicativa; pragmática, modo de encadeamento consequência explicativa; cálculo, fato existente que serve como modelo a ser seguido; e condicional, existe uma obrigação condição para que um ato seja exercido. A explicação baseia-se na premissa para chegar à conclusão. Existem três tipos de explicação: por silogismo, pragmática, por cálculo, que se diferenciam da dedução por ter um modo de encadeamento causal, e a explicação hiperbólica, coloca a causa como um objeto de suposição. A associação é um modo de raciocínio que coloca a premissa e a conclusão em relação contrária, em textos mais voltados à sedução do que à argumentação, usados em textos publicitários; ou de identidade, é o modo tautológico e deveria ser eliminado do modo de argumentação por ser uma simples redundância. De acordo com Charaudeau (2008), existem alguns procedimentos que contribuem para produzir a validade da argumentação. Os argumentos se fundamentam em um consenso social pelo fato de alguns grupos compartilharem determinados valores. Esses são os domínios: avaliação da verdade (define de modo absoluto, em termos de verdadeiro ou falso); estético (definem a partir do belo e do feio o que são os seres da natureza); ético (definem em termos de

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bem e do mal o que devem ser os comportamentos humanos); hedônico (define o que é agradável e desagradável o que é do âmbito dos sentidos); pragmático (define o que útil ou inútil por meio de cálculos). Para aumentar o efeito de persuasão algumas categorias de outros modos de organização são utilizadas: definição, comparação e descrição. A definição serve para produzir efeito de evidência e de saber para o sujeito que argumenta. Não pode ser questionada, uma vez que é de saber popular e ou científica. A comparação é usada para reforçar a prova de uma conclusão ou de um julgamento, produzindo efeito pedagógico. Entre as comparações, existem a por semelhança, fazendo analogia entre uma coisa e outra; por dessemelhança, mostrando as diferenças entre um e outro; de forma objetiva, se faz a partir de um comparativo verificável; e de modo subjetivo, por analogia ou outros termos imagéticos. Já a descrição narrativa, encontrada em grande número nas crônicas, análises e comentários, estabelece um raciocínio que produz um efeito de exemplificação, para o leitor entender melhor um texto. Koch (2006) defende a proposta de que o ato linguístico fundamental é o ato de argumentar. A autora vai ainda mais longe e diz que a argumentatividade é inerente à linguagem. Comunicar é montar um discurso envolvendo as intensões cuja ação discursiva se realiza nos diversos atos argumentativos construídos na tríade falar, dizer e mostrar. A argumentação é uma atividade estruturante do discurso, encadeando e articulando entre si enunciados ou parágrafos, de modo a trasformá-los em texto. Dessa forma, a argumentação pode ser considerada como importante elemento coesivo. Entre os efeitos visados pelo uso da linguagem, Koch (2006) destaca dois: convencer e persuadir. O primeiro diz respeito ao raciocínio lógico, realizados por meio de provas objetivas, possuindo caráter puramente demonstrativo e atemporal. Já o segundo, por sua vez, procura atingir a vontade, o sentimento dos interlocutores por meio de argumentos plausíveis e verossímeis; tem características ideológica, subjetiva e temporal. O ato de argumentar é visto

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como uma forma explicita de persuasão, envolvendo neste caso a subjetividade, a temporalidade e não criando certezas. Dentre as relações que se estabelecem entre o texto e o evento que constituiu a sua enunciação, podem-se destacar as seguintes marcas linguísticas da argumentação, de acordo com Koch (2006): As pressuposições, em que as argumentações se sustentam a partir de pressupostos compartilhados; intensões explícitas ou veladas que são veiculadas em um discurso; os modalizadores que revelam a atitude do enunciador (pedido, ordem) através de certos modos de tempo e adverbiais; operadores argumentativos (estruturam o texto e determinam sua orientação discursiva); e imagens que os interlocutores têm de si inscritas na própria língua é que leva a postular a argumentação como o ato linguístico fundamental. Pertencem ao mundo comentado todas as situações comunicativas que não consistem apenas como relatos e que apresentam como característica a atitude tensa: nelas o falante está em tensão constante e o discurso é dramático, pois se tratam de coisas que o afetam diretamente. Além disso, os discursos que têm por finalidade persuadir o receptor apresentam três provas argumentativas: o logos, o phatos e o ethos. O logos é a razão persuasiva; apresenta recursos intelectuais convincentes. O phatos é a emoção inserida no discurso pelo autor, gerando um efeito emocional sobre o receptor. O ethos é a imagem que o locutor passa de si, através do discurso. Para que o logos e, sobretudo, o pathos sejam ainda mais eficazes, ambos precisam muitas vezes que o ethos tenha boa credibilidade com o receptor. É pela presença do ethos que existe certa circularidade entre os participantes do ato comunicacional. Isso porque o enunciador pressupõe uma imagem do receptor, que cria outra do enunciador a partir do discurso. A construção do ethos envolve aspectos do logos e do pathos. Então, o estudo do ethos pode revelar uma abrangência maior do discurso, do que apenas a imagem de si.

3 FUTEBOL E INFORMAÇÃO ESPORTIVA

Este capítulo discorre sobre os desdobramentos do futebol no Brasil e sua relação com a população brasileira. Aspectos políticos e econômicos do esporte também serão explicitados.

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Em informação esportiva, será apresentada a história do jornalismo esportivo brasileiro e a conduta esperada do jornalista que milita nesta área.

3.1 Os desdobramentos da história do futebol no Brasil Para Guterman (2009), analisando o processo de construção histórica do Brasil, o futebol conseguiu dar unidade nacional ao país. A população brasileira encontrou neste desporto os anseios e as emoções que a monótona vida cotidiana não conseguia oferecer.
O futebol é o maior fenômeno social do Brasil. Representa a identidade nacional e também consegue dar desejos de potência da maioria absoluta dos brasileiros. Essa relação, de tão forte, é vista como parte da própria natureza do país – as explicações para o fenômeno vão mais na direção da Antropologia que da História. (GUTERMAN, 2009, p.9)

O futebol, ao longo dos anos, acompanhou o processo político e social vigente no Brasil, avalia Guterman (2009). O esporte desembarcou no país durante as últimas décadas do século XIX ligado, sobretudo, aos ingleses e seus descendentes. O pontapé inicial do futebol no Brasil se dá em 1894, na cidade de São Paulo, quando o aristocrata, filho de ingleses, Charles Miller regressa dos estudos na Grã-Bretanha trazendo consigo uma bola, algumas camisas, chuteiras e calções. No Rio de Janeiro, foi Oscar Cox, ao voltar de uma viagem à Suiça, em 1897, quem introduziu o esporte no estado. Cox, segundo Rodrigues (1964), cumpriu também o papel de difusor e organizar de jogos de futebol na capital fluminense. Até os primeiros anos do século XX, a presença de representantes das baixas classes sociais na prática futebolística era improvável. Os clubes eram formados por quem tivesse condições de arcar com os materiais esportivos (bola, uniforme, chuteiras, calções, camisas e meiões) que utilizaria em campo, sendo que todos eles eram importados da Europa. As equipes de destaque da primeira década do século XX, por exemplo, Fluminense, Paulistano, Paysandu, Botafogo e Germânia, eram sediadas em regiões nobres das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.
Para entrar no Fluminense o jogador tinha que viver a mesma vida de Oscar Cox, de um Félix Frias, de um Horácio da Costa Santos, de um Waterman, de um Francis Walter, de um Etchegaray, todos homens feitos, chefes de firmas empregados de categorias de grandes casas, filhos de pai rico, educados na Europa, acostumados a gastar. Era uma vida pesada. Quem não tivesse boa renda, boa mesada, bom ordenado, não aguentava o repuxo. (RODRIGUES, 1964, p. 34)

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Devido à falta de oportunidades, o negro foi excluído do futebol brasileiro. O preconceito no futebol virou até política de Estado. Em 1919, o então Presidente da República Epitáfio Pessoal proibiu a Confederação Brasileira de Desportes (CBD) de convocar jogadores negros e mulatos para disputar o Campeonato Sul-Americano daquele ano. De forma tímida, uma das primeiras inserções do negro de baixa renda no futebol brasileiro teve como ponto de partida questões geográficas. Devido ao isolamento do bairro de Bangu, na cidade do Rio de Janeiro, onde estava instalada uma fábrica têxtil britânica, não havia jogadores suficientes para realização de uma partida com os ingleses que lá moravam. De certa forma, isso obrigou os europeus a cederem espaço para que os operários participassem das recreações. O estímulo da empresa em liberar os operários para a prática de esporte veio da Rússia. Alguns fabricantes de tecidos ingleses fomentavam o futebol para melhor dispor os trabalhadores. Tempo depois, surgiu o Bangu Atlético Clube, o primeiro clube formado por operários a contar com negros em seus quadros de atletas no país. Esse fato representou um presságio da democratização do esporte no país. Durante os primórdios do futebol no Brasil, portanto, a elite dominava o esporte. A maioria das equipes tinha em suas fileiras universitários grã-finos. O estádio do Velódromo, onde ocorreram as primeiras exibições esportivas em São Paulo, estava constantemente com todos os seus lugares ocupados por cavalheiros de fraques e senhoras com seus belos vestidos, explica Guterman (2009). Alguns colégios católicos, inclusive, chegaram a introduzir o futebol em busca de disciplinar e aumentar a participação dos jovens nas práticas esportivas. Muitas instituições educacionais tornaram o futebol obrigatório por pressão dos próprios pais dos alunos, que gostariam de ver seus filhos praticando um esporte elitizado. No entanto, a partir dos anos de 1920, o futebol abriu suas portas definitivamente para entrada de negros e pessoas de baixa classe social. O Vasco da Gama representou uma ruptura ainda maior do que aquela ocorrida com o Bangu, que não teve desdobramentos efetivos. Campeão da segunda divisão do Campeonato Carioca de 1923 e da primeira divisão no ano seguinte, o clube de origem portuguesa alcançou destaque no Rio de Janeiro quando democratizou suas fileiras, abrindo as portas para qualquer bom jogador. “Representou [o título da primeira divisão] muita

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humilhação para os times grã-finos, cujos times eram formados, em sua grande maioria, por jovens estudantes e profissionais de alto nível da elite carioca”. (CALDAS, 1990, p.44). Na década de 1920, o futebol brasileiro ganhou força no mundo. Os clubes foram chamados a participar de amistosos internacionais. Muitos ganharam as competições e, consequentemente, prestígio. Essa internacionalização mudaria a imagem dos jogadores, que passaram a serem mais respeitados e bem visto pelo mercado internacional. Com baixos rendimentos e amargando o amadorismo, vários jogadores deixaram o Brasil. Os destinos mais comuns foram países de origem latina, como Itália, Espanha, Argentina e Uruguai. O êxodo de jogadores acelerou o processo de profissionalização do futebol. Em 1929, houve um episódio que simbolizou o momento futebolístico vivido à época. Um empresário italiano veio ao Brasil para contratar jogadores para o futebol europeu. Entre os contratados estavam metade dos jogadores do Corinthians, o então tricampeão paulista, três atletas do Palestra Itália, entre tantos outros de clubes de menor expressão. Como a CBD não reconhecia nenhum contrato entre clubes e atletas, em função do amadorismo, não havia multa rescisória e nem nenhum tipo de imposto a ser pago. Custo zero. Os jogadores estavam automaticamente liberados e poderiam se inscrever em outros países com o reconhecimento da própria Fifa. Com as baixas, os clubes começaram a repensar sobre o profissionalismo no país. Mas os mais engajados eram, sobretudo, os jogadores que precisavam do futebol para sobreviver e queriam continuar no Brasil. Entre os atletas, houve divisão entre os amadoristas e os profissionalistas. Os amadoristas preferiam dar prosseguimento à organização do futebol do mesmo modo em que ela se encontrava. Eram aristocratas que trabalhavam em bons empregos, preferiam ver o futebol com certo romantismo, uma vez que não precisavam de outro tipo de renda. Em contrapartida, os atletas-operários, que necessitavam do dinheiro para dedicar exclusivamente ao futebol, lutavam com afinco para o reconhecimento do atleta de futebol, que já era profissionalizado em vários outros países da Europa e da América do Sul. Na década de 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, o futebol recebeu seu devido reconhecimento. O projeto getulista abrangia o esporte como ferramenta fundamental para a transformação do brasileiro e também para a superação das diferenças políticas, duas circunstâncias fundamentais para a consolidação do regime.

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Para Vargas, reconhecer o futebol e seus atletas era um mecanismo eficiente de aproximação popular. “A primeira medida concreta neste sentido, no mundo do futebol, foi a intervenção na legislação esportiva, que até 1933, ainda determinava que futebol era coisa para amadores” (GUTERMAN, 2009, p.80). Ao longo do tempo, o futebol adquiriu um caráter polissêmico. Ele não é só lazer, paixão, instrumento político, catarse coletiva, alívio, derrota, vitória. É também um dos mais importantes produtos culturais brasileiros, relata Caldas (1990). Com a popularização, o futebol também se torna um esporte de com forte símbolo de união e identidade social. Getúlio Vargas empreendeu esforços para ter controle sobre o futebol, acelerando o processo de profissionalização. Apoiar os jogadores de futebol significava atrair o eleitorado dos atletas e das classes desfavorecidas, afirma Guterman (2009). Reitera-se nos anos 1930, o caráter de união e identidade nacional através do futebol, que a essa altura estava definitivamente incorporado à cultura popular brasileira. A primeira manifestação neste sentido foi detectada inda em 1922, quando a seleção brasileira venceu o sul americano pela segunda vez. A partir de 1933, com a democratização do esporte, o futebol transfere-se de lazer ao trabalho, criando um canal de emancipação social de negros e mulatos. Com isso, o esporte no Brasil se transforma. Os primeiros ídolos do futebol brasileiro foram negros: Friedenreich, considerado o melhor jogador da fase amadora; Leônidas da Silva, artilheiro e melhor jogador da Copa do Mundo de 1938; Domingos da Guia, um dos melhores zagueiros da história do futebol brasileiro. Na década de 1950 e 1960, a Geração de Ouro, com Pelé, Vavá, Garrincha e Didi, conquista o bicampeonato da Copa do Mundo, em 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile, com um futebol que encantou os amantes do esporte. Para Rodrigues (1964), foi a partir da inserção dos negros e mestiços no futebol que nasceu o estilo brasileiro de jogar futebol. Os negros são identificados com a criação do chamado “futebol-arte”, caracterizado pela criatividade, improviso, singularidade brasileira no esporte. O futebol no Brasil expressa a mulaticidade e a brasilidade. A mistura de raças seria responsável pela ginga dos atletas brasileiros, considerado um diferencial.

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Com a Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil, era grande oportunidade dos brasileiros se reafirmarem. Para isso, a seleção teria que conquistar o tão sonhado título. A derrota na final, no entanto, pegou a todos de surpresa. A partir daquele momento, a identidade nacional, construída sobre a singularidade e a diversidade racial, foi duramente contestada. “Um dos questionamentos mais discutidos foi suscitado pela presença dos jogadores negros na seleção – ou seja, aquilo que era tido como triunfo passou a ser visto como fardo” (GUTERMAN, 2009, p.99). O negro só conquistaria seu verdadeiro prestígio oito anos mais tarde, em 1958, com o título da Copa do Mundo de 1958, afirma Guterman (2009). A vitória na Suécia glorificou os craques da seleção, que eram em sua maioria negros (Pelé, Garrincha, Didi, Vavá, entre outros). Condição essa que se confirmou com a conquista do bicampeonato em 1962, no Chile. Assim como fizera Getúlio Vargas, o Regime Militar, a partir de 1964, soube explorar a importância que o escrete brasileiro havia adquirido junto às massas. Guterman (2009) acredita que a seleção, que já não era uma simples representação nacional, tornou-se a essência do brasileiro, um orgulho patriótico. Quando Médici assumiu a Presidência da República, em 1969, as relações se intensificaram ainda mais. O governante era apaixonado pelo esporte e conhecia seu valor popular. Como poucos, conseguiu aproximar a imagem da melhor seleção de todos os tempos, campeã mundial de 1970, ao seu governo. O futebol foi usado para integrar ainda mais os brasileiros. Em 1969, o governo militar lançou a loteria esportiva incluindo jogos de vários clubes do Brasil para que os torcedores acompanhassem partidas de todas as regiões. Em 1971, o Campeonato Brasileiro foi criado com base no discurso de nacionalidade implantado pelo regime, salienta Guterman (2009). Na década de 1980, o Brasil viveu um regime de transição: do autoritarismo à democracia. Foi o período em que os brasileiros saíram às ruas para clamar pela eleição presidencial direta. O futebol também absorveu a luta pela igualdade. O Corinthians, um dos clubes mais populares do Brasil, criou uma democracia interna, no qual jogadores, técnicos e torcedores tiveram o mesmo peso em assuntos referentes ao clube.

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O time [Corinthians] entrava em campo com faixas alusivas à democracia, e a camisa passou a ser usada como outdoor das aberturas pelas campanhas políticas – às vésperas da eleição de novembro de 1982, os corintianos exibiram a inscrição “No dia 15 vote”. Foi o marco seguido por outras ousadias, como “Eu quero votar para presidente” e “Diretas já”. (GUTERMAN, 2009, p.206).

Depois de fracas campanhas nas Copas de 1974 e 1978, o futebol-arte regressou à seleção brasileira. Jogadores como Zico, Sócrates, Falcão, entre outros, recuperaram a alegria e a confiança na seleção. O belo futebol esperado por todos foi jogado durante a Copa de 1982, na Espanha, sob o comando do experiente e sempre ofensivo técnico Telê Santana. Mas uma única derrota, 3 a 2 contra a Itália, acabou com o sonho do tetra. O revés despertou os brasileiros para a realidade de um país ainda em transição e em profunda crise política e de identidade, elucida Guterman (2009). Assim como as transformações políticas, com o regresso do país ao regime democrático, os cartolas acreditavam que a seleção também deveria se modificar de acordo com os novos tempos. O técnico Sebastião Lazaroni assumiu o comando da equipe brasileira prometendo ganhar torneios sem dar espetáculos. Um golpe duro nos amantes do “futebol-arte”. Lazaroni implantara na seleção as estratégias difundidas na Europa. O futebol brasileiro se primou pela burocracia e pelo pragmatismo. O resultado foi um desastre. Eliminação precoce na Copa de 1990, nas oitavas de final, pela Argentina e um retrocesso tático e técnico para o esporte no Brasil. A mesma “modernidade” vista na seleção foi notada no discurso do jovem presidente Collor, que apresentou desempenho semelhante ao do escrete na Copa. Por causa da péssima condução econômica e pelas acusações de crime de responsabilidade, os brasileiros foram às ruas pedir a saída de Collor. Pela primeira vez, um presidente sofreu um impeachment. “Era um país à mercê de seus próprios fantasmas e rendido às evidências de que talvez a democracia e a beleza do futebol fossem concessões de sua própria imaginação” (GUTERMAN, 2009, p. 223). Em 1994, Parreira assumiu a seleção e adotou uma postura metódica. Tudo foi muito bem planejado e esquematizado. O time claramente não encantou na Copa, mas foi campeão. O Brasil venceu como os europeus, um time competitivo e sem compromisso com o espetáculo, afastando-se da sua origem.

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Para Guterman (2009), a volta dos campeões retrata bem a condição do nosso país. Os atletas brasileiros compraram centenas de mercadorias americanas e passaram pelo fisco sem pagar imposto. O governo autorizou essa prática condenável na época. A década de 1990 ficou marcada pela globalização. Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência propondo a redução do Estado e a abertura econômica. A abertura também foi vista no futebol brasileiro. Dos 11 titulares da seleção na Copa do Mundo de 1998, na França, apenas três jogavam no Brasil. Com um futebol sem brilho, a equipe brasileira caiu na final para a França. Para Guterman (2009), o mundo globalizado havia definitivamente engolido os brasileiros naquilo que eles consideravam seu patrimônio nacional. O estilo brasileiro de jogar futebol entra em crise, sobretudo, a partir das últimas décadas do século XX. O esporte intensifica a preparação física, formando atletas cada vez mais forte e com perda da habilidade que tanto diferenciou os atletas formados no Brasil. Por fim, chegam-se os anos 2000. Um século depois, o futebol e a república no Brasil, que nasceram dominados pela aristocracia branca e demofóbica, assistiam finalmente à revanche, salienta Guterman (2009). Com imensa identificação popular, Lula conseguiu se eleger presidente da república. O governo do novo presidente teve como lema de campanha a diminuição do abismo social existente no país. A seleção brasileira, depois de uma péssima eliminatória, conseguiu belas apresentações e conquistou o pentacampeonato na Copa do Mundo de 2002, na Coreia e no Japão. Seus principais jogadores eram negros e de origem pobre e não advinham de famílias abastadas, outra rasteira na história do futebol no Brasil. Para DaMatta (1982), o futebol é, no Brasil, um agente da modernidade que nos ensina a respeitar regras, estimula a igualdade de condições e favorece a cidadania. As pessoas são socializadas para perder e ganhar. O futebol dramatiza socialmente os brasileiros, permitindo expressão e coesão entre nós em detrimento dos outros, o que significa que podemos forjar nossa identidade utilizando-se do futebol. 3.2 Jornalismo esportivo (ou futebolístico)

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Segundo Coelho (2003), desde os primeiros anos do século XX, os periódicos já veiculavam informações esportivas. Nas redações, o desporto era e ainda continua sendo, para alguns, assunto pequeno. Acreditava-se que o esporte nunca ocuparia as manchetes, nem mesmo o remo, que era o mais popular entre os praticados no início do século. O primeiro jornal a divulgar páginas inteiras de informação esportiva foi o Fanfulla, em 1910, salienta Coelho (2003). Naquela época, não existia o que hoje chamamos de jornalismo esportivo. O periódico circulava em São Paulo e seu público alvo era a colônia italiana, cada vez mais numerosa na cidade. Embora não fosse formador de opinião, foi a partir de um informativo despretensioso veiculado no Fanfulla que nasceu o Palestra Itália, que mais tarde se tonaria um dos clubes de maior torcida no Brasil, o Palmeiras. Hoje, o jornal é um acervo para consulta sobre os primórdios do futebol em São Paulo. O uso do termo imprensa esportiva no Brasil é considerado amplo para designar a cobertura que é voltada quase que de forma exclusiva ao futebol. No caso da imprensa brasileira, para Vilas Boas (2005), o ideal é empregar a denominação jornalismo futebolístico. O processo de transformação do futebol no esporte mais popular do Brasil tem o seu momento mais simbólico em 1923. Naquele ano, o Vasco da Gama sagrou-se campeão da segunda divisão do Campeonato Carioca com um quadro formado, entre outros, por pobres, negros e mulatos. Era a popularização que faltava também para o desenvolvimento da imprensa esportiva. O primeiro periódico a veicular exclusivamente informação esportiva foi o Jornal dos Sports. Nasceu no Rio de Janeiro, então capital federal, nos anos 1930 em função da gama crescente de fãs do futebol. Tempos depois, surgiram os cadernos de esporte nos grandes jornais. A primeira revista esportiva com um período de vida regular, de acordo com Coelho (2003), nasceu apenas em 1970, Placar.

Foi Mário Filho, fundador do Jornal dos Sports, quem liderou a transformação sofrida no modo de retratar a informação esportiva. O texto parnasiano e pedante dos homens de elite foi perdendo campo para o papo de botequim e arquibancada. Mário Filho revolucionou as páginas de esportes do jornal A Manhã e realizou muito mais em O Globo, cedendo espaço às regatas e

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ao futebol. O jornalista abrasileirou vários termos em uso que adotavam o padrão inglês, como o próprio football. Facilitou também o entendimento do esporte entre os leigos e assimilou a linguagem dos que gostam do esporte. Coelho (2003) pondera sobre a carreira de jornalista, considerada por ele muito difícil. Devido à grande oferta de mão de obra em detrimento do reduzido número de vagas, poucos conseguem a oportunidade de trabalhar no setor de esportes. Nesta forte concorrência, quanto maior o conhecimento acumulado sobre um determinado esporte, maior será a vantagem que ele terá diante de seus concorrentes, explica Coelho (2003). O saber adquirido ao longo do tempo facilitará na construção de matérias mais detalhadas, permitirá maior compreensão dos fatos e melhorará o seu contato com as fontes. Para Vilas Boas (2005), o jornalista esportivo deve ser dedicado e estudioso. Assim como o jogador treina quase que diariamente, o repórter também deve se preparar durante a semana aglutinando o máximo de dados, fatos, impressões e observações a respeito dos jogadores e dos clubes envolvidos na partida em que trabalhará. É comum observar repórteres setoristas em dia de treinamento posicionar os braços cruzados, sentados na cadeira, esperando o treino acabar para participar da coletiva. Com esse comportamento, os jornalistas perdem o mais importante: mudanças táticas e movimentação dos jogadores. Muitos não se interessam porque não tem cultura tática para interpretar as mudanças promovidas. Também não procuram estudar para aprender. Os treinadores e jogadores, por sua vez, aproveitam essa situação e escondem o jogo, não revelam nada. Mas é verdade também que muitos boleiros não detêm conhecimento para tanto. Alguns profissionais da imprensa assumem o papel de amigo do jogador e evitam fazer questionamentos duros, preferem ouvir as ladainhas como desculpas. Outros, de estirpe ainda pior, mencionam nomes de alguns empresários, comerciantes para faturar algum por fora. São os índices de audiência que pautam a cobertura esportiva. Se é a baixaria e a gritaria que geram verba com publicidade, logo é isso que assistiremos na televisão. Estamos na era do entretenimento acima de todas as coisas. O artista - algumas vezes encarnado pelo próprio jornalista - que fica em frente à câmera deve ser bonito, polêmico ou um grande publicitário.

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Em muitos programas, o que interessa é a polêmica pela polêmica. Ou melhor, a luta desvairada pelo ibope. O entretenimento aos poucos está substituindo o jornalismo. Nas transmissões esportivas pela televisão, não se pode relatar o visto de um jogo de futebol. Se a partida está ruim, um joguinho modorrento, está proibido falar mal do espetáculo, isso porque a empresa dona dos direitos de transmissão paga milhões para exibir o evento. Para piorar, o patrocinador não quer ver sua imagem ligada a um evento de qualidade duvidosa. Com isso, o compromisso com a verdade vai por água abaixo. Assim, poucos estão comprometidos a realmente fazer jornalismo, acredita Vilas Boas (2005). Na década de 1990, com a consolidação da internet, vários jornalistas com larga experiência foram chamados para fazer parte das redações dos sites de informação e ganhando bem. Parecia ser a redenção dos jornalistas. Em 2001, no entanto, a situação mudou completamente. Dezenas de sites dispensaram suas redações pela falta de interesse da publicidade. Coelho (2003) ressalta que não existe jornalista de esporte. O profissional não tem tempo hábil para acompanhar com regularidade todos os esportes. Existe jornalista de futebol, esporte a motor, vôlei, tênis. Esportes como atletismo e judô, por exemplo, requerem que emissoras de rádio e televisão contratem ex-atletas para comentar torneios de maior prestígio, com os Jogos Olímpicos. Um dos deveres básicos do jornalista é ser isento e imparcial na mais passional área de atuação. O leitor não é um mero amante da política e economia, é um torcedor, que só busca a razão quando ela está ao seu lado. Por isso, é essencial que o jornalista entenda essa paixão e tente ser justo em tudo que fizer. Jornalista pode torcer para um time. Nunca distorcer por ele. Não ser um porta-voz do time de coração muito menos um porta-voz das arquibancadas. O bairrismo é um problema crônico do jornalismo esportivo. Em muitos meios de comunicação, o comentarista faz sua análise sobre o time local e esquece que existe outra equipe em campo. Se sair um gol para o visitante, será desorganização da defesa, falha do goleiro. Nunca méritos do goleador adversário. Essa valorização ao produto regional começou na década de 1910 entre paulista e cariocas, relata Vilas Boas (2005), chegando ao ponto de desfalcar a seleção brasileira de uma Copa do Mundo – os paulistas não enviaram jogadores à Copa de 1930 no Uruguai por não ter um pedido atendido pela Confederação Brasileira de Desportes.

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A crítica é um ponto onde muitos comentaristas perdem-se. Não cabe a ele fazer o julgamento se fulano deve vestir a camisa de um clube ou se beltrano é um verdadeiro perna-de-pau, por mais que ele tenha razão. Uma linha de comentário maldoso não é só um erro jornalístico, mas também ético. E essa é a conduta de muitos jornalistas, que jubilam e podem, inclusive, acabar com a carreira profissional de muitos atletas. Falta responsabilidade na hora de criticar. Com relação ao relacionamento entre jornalista e fonte, Coelho (2003) afirma que todo cuidado é pouco. Jornalista deve guardar a isenção e não beneficiar a fonte pela informação, muito menos aceitar troca de favores. O profissional deve ser ético; pensar em apurar e informar o público da melhor maneira possível. Nunca se vender pela notícia. O furo é assunto controverso. O jornalismo esportivo é um campo fértil para profissionais que não seguem os preceitos éticos da profissão e acabam se vendendo em busca de alguma informação de cocheira. Mais importante do que dar em primeira mão uma informação, é repassar a notícia de forma mais completa possível. “Não vale saber quem divulgou a informação em primeiro lugar. Vale, sim, quem deu a notícia com mais detalhes, com maior riqueza”. (COELHO, 2003, p.76). O consumidor de informação esportiva fica informado, mas muitas vezes não sabe sequer o nome do repórter a dar o furo. Agir como paparazzi é hábito repudiável de parte da imprensa esportiva. Isso acontece quando os repórteres tentam invadir a vida pessoal dos atletas. Não importa o que eles fazem nas horas vagas, nas madrugadas. Não diz respeito aos jornalistas nem ao torcedor. O que deve importar é o comportamento do mesmo nos treinamentos e durante as partidas, esclarece Vilas Boas (2005). 4 NELSON RODRIGUES E JUCA KFOURI: DOIS PARADIGMAS NA CRÔNICA ESPORTIVA A pesquisa teve como objetivo principal analisar dois tipos de crônicas esportivas: poética e analítica. Para isso, foram consideradas as crônicas de Nelson Rodrigues, presentes no livro À sombra das chuteiras imortais, representando os cronistas esportivos poéticos, e as crônicas de Juca Kfouri, extraídas de Por que não desisto – Futebol, Dinheiro e Política, representando os cronistas esportivos analíticos.

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Para desenvolver a análise, houve uma pesquisa bibliográfica sobre o panorama da crônica no Brasil e no mundo; o desenvolvimento da crônica esportiva, os estilos e a linguagem que as difere; e argumento e discurso; a história do futebol no Brasil, a relação entre o futebol e o brasileiro; e, por fim, a informação esportiva. Desta feita, foi possível elucidar algumas diferenças e singularidade entre estes dois tipos de crônica esportiva. Os estudos foram realizados em oito crônicas, sendo quatro de cada autor. As crônicas foram escolhidas de acordo com o grau especificidade dos estilos. Para a realização das análises das crônicas esportivas, o método utilizado é o da análise de conteúdo. Os conceitos utilizados para a análise foram aplicados a partir da bibliografia trabalhada nos capítulos anteriores. Serão analisados os tipos de temáticas e abordagem em cada um dos estilos. A forma como a linguagem é explorada por ambos os autores, os recursos literários mais utilizados, como as crônicas retratam a figura do jogador de futebol e o valor que a informação representa nos dois paradigmas esportivos. 4.1 História e obra de Nelson Rodrigues e Juca Kfouri 4.1.1 Nelson Rodrigues Quinto herdeiro de Mário Filho e Maria Esther Falcão, Nelson Rodrigues nasceu no dia 23 de agosto de 1912, em Recife, Pernambuco. Cresceu em uma família politizada: seu pai era jornalista, assim como outros de seus irmãos, e político. Em 1916, mudou-se para o Rio de Janeiro. Seu pai, Mário Filho, que convivia pouco tempo com os filhos, costumava levá-los ao Correio da Manhã, jornal em que trabalhava. Era o primeiro contato de Nelson Rodrigues com periódicos. Tempos depois, Mário Filho fundou o jornal A Manhã, o que aproximaria ainda mais seus filhos deste espaço profissional. Com apenas 13 anos, iniciou sua carreira jornalística, em 29 de dezembro de 1925, como repórter da editoria de política no A Manhã. Nas reportagens, Rodrigues já conseguia impressionar os leitores com sua capacidade de dramatizar pequenos acontecimentos. Nas páginas policiais, adquiriu experiência e vivência para escrever peças teatrais sobre a sociedade brasileira. Ainda jovem, ganhou uma coluna no jornal.

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O A Manhã, entretanto, estava mal administrado e cheio de dívidas. Um novo sócio assumiu o controle acionário e, paulatinamente, a família de Nelson Rodrigues abandonou o periódico. Com a morte do seu irmão Roberto, provocada pela ira de uma mulher que teve o divórcio estampado na capa do jornal, a produção de Nelson Rodrigues sofreu uma importante transformação, tornando-se ainda mais dramática. Rodrigues teve depressão passou alguns anos em Pernambuco, mas voltou ao Rio de Janeiro. Em 1931, Rodrigues começou a escrever no caderno de esportes e, depois, de cultura do jornal O Globo, ainda sem muito espaço. Em 1941, escreveu sua primeira peça teatral, A mulher sem pecado. Mas não conseguiu encená-la. Dois anos depois, finalizou Vestido de Noiva, que trazia, em matéria de teatro, renovação para os palcos - peça dirigida pelo renomado Zbigniew Ziembiński e que estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A despeito de ser um dos grandes representantes da literatura teatral brasileira, suas peças naquela época eram taxadas muitas vezes como obscenas e imorais. Quatro anos depois, abandonou O Globo e assumiu um cargo nos Diários Associados. Em O Jornal, um dos veículos de propriedade de Assis Chateaubriand, começou a escrever seu primeiro folhetim, Meu destino é pecar, assinado pelo pseudônimo "Susana Flag". O sucesso alavancou as vendas de O Jornal e estimulou Nelson a escrever sua terceira peça, Álbum de família. O jornalista adotou o pseudônimo "Susana Flag" para escrever outros romances. Em 1950, foi para o jornal Última Hora. No periódico, Rodrigues começou nova coluna, A vida como ela é, seu maior sucesso jornalístico. Na década seguinte, Nelson passou a trabalhar na recém-fundada Rede Globo de Televisão, participando da Grande Resenha Esportiva Facit, a primeira "mesa-redonda" sobre futebol da televisão brasileira. Também na Globo, no programa Noite de gala, o autor apresentava o quadro "A cabra vadia", onde entrevistava pessoas. O primeiro foi João Havelange, presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Nelson Rodrigues escreveu a primeira novela brasileira de todos os tempos: "A morte sem espelho". Com direito a grande elenco: Fernanda Montenegro, Fernando Tôrres, Sérgio Brito, Ítalo Rossi, Paulo Gracindo.

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Foi em Personagem da Semana, coluna da revista Cruzeiro, e em À sombra das chuteira imortais, do O Globo, que ganhou destaque no meio esportivo, sobretudo, por retratar o futebol por meio de uma forma singular, repleta de dramatização e pouco objetiva. Nelson Rodrigues faleceu na manhã do dia 21 de dezembro de 1980, um domingo. Ao todo, publicou 18 livros, entre romances, seleção de crônicas e contos; 17 peças teatrais; três novelas para televisão e 20 filmes, incluindo as adaptações de suas obras. 4.1.2 Juca Kfouri José Carlos Amaral Kfouri, conhecido como Juca Kfouri, nasceu em quatro de março de 1950, em São Paulo. Formou-se em ciências sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Logo após concluir a magistratura, Juca Kfouri foi convidado a trabalhar no Departamento de Documentação da Editora Abril. Cargo que exerceu de 1970 a 1974, quando assumiu a chefia de reportagem da revista Placar. O bom trabalho à frente da revista resultou em um convite tentador da TV Tupi de São Paulo, por meio do presidente da empresa, Sérgio Souza. A experiência durou apenas três meses. Por conta de atrasos salariais, Kfouri e parte da equipe pediu demissão. Na manhã posterior à saída da TV Tupi, Jairo Régis, que integrava a alta cúpula da Abril, recontratou Kfouri para ser editor de projetos especiais da Placar. Sindicalista atuante, por reivindicações em busca de melhorias salariais, Kfouri conseguiu paralisar todas as redações da Editora Abril. Paradoxalmente, mesmo tendo comandado a greve, recebeu uma promoção de Roberto Civita, presidente da Abril. Por sua dedicação a empresa e pela saída do jornalista Jairo Régis, Kfouri assumiu o cargo de editor de redação da Placar. Como comandante máximo da revista, Juca Kfouri adotou estilo editorial ainda mais crítico e independente. O jornalismo combativo, uma das características de Kfouri, aos poucos foi sendo absorvido e fazendo parte da revista. Placar se propôs a moralizar o esporte brasileiro e, em função disso, priorizou as reportagens investigativas, que trouxeram ainda mais credibilidade à publicação.

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Em 1982, Placar publicou uma das principais reportagens investigativas da história do jornalismo brasileiro. A revista desvendou a máfia da loteria esportiva. Neste esquema de manipulação de resultados, alguns dirigentes, jornalistas, funcionários da Caixa Econômica Federal, “bicheiro”, entre outros, compraram árbitros e jogadores para fraudar o resultado da partida e, assim, a loteria esportiva. Consequentemente, a máfia levou os prêmios semana a semana. Dezenas de pessoas foram presas. No entanto, ninguém acabou condenado. Juca Kfouri permaneceu no cargo até 1993, quando foi remanejado para a diretoria de redação da revista Playboy. Em 1995, saiu definitivamente da Editora Abril. Kfouri também exerceu a atividade de comentarista esportivo em programas televisivos. Iniciou na Record, em 1982. De 1984 a 1987, analisava o esporte em jornais no SBT (Sistema Brasileiro de Telecomunicações). No ano seguinte, em 1988, chegou à TV Globo, onde ficou até 1994, fazendo comentários no Jornal da Globo. Na Rede TV, Juca Kfouri assumiu um programa semanal de esportes a partir de 2000. Ao lado do comentarista Jorge Kajuru, a atração dominical findou em 2003. No canal educativo Cultura participou do programa Cartão Verde de 1995 a 2000 e de 2003 a 2005. Em canais de televisão a cabo, comandou programas na CNT entre 1996 a 1999. Atualmente, Juca Kfouri comanda o Juca Entrevista e participa do programa semanal Linha de Passe ambos na ESPN Brasil, de 2005 aos dias de hoje. Como cronista, Juca Kfouri assinou colunas nos jornais O Globo, Lance! e Folha de S. Paulo. Para o diário carioca O Globo escreveu de 1989 a 1991. Em 1995, foi para o jornal Folha de S. Paulo, onde ficou até 1999, ano em que saiu para o diário Lance!, ficando até 2005, quando voltou à Folha de S. Paulo, permanecendo até os das de hoje. Suas crônicas são marcadas por abordaram o lado político e os bastidores do esporte. Juca Kfouri também trabalhou em rádio. Na CBN (Central Brasileira de Notícia), atuou como âncora de 2000 a 2010 do CBN Esporte Clube. Atualmente, faz comentários ao longo da programação. No portal UOL, Juca Kfouri assina um dos blogs de esportes mais acessados do Brasil, o Blog do Juca. Kfouri já escreveu cinco livros: A Emoção Corinthians (1982); Corinthians, Paixão e

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Glória (1996); Meninos, Eu Vi… (2003); O Passe e o Gol (2005); Por que não desisto Futebol, Poder e Política (2009). Já ganhou alguns prêmios, entre os principais, está o da crítica da Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA), em 2010, pelos dez anos à frente do CBN Esporte Clube em busca da ética e da moralização do esporte. Faturou também o prêmio Esso em 1991 pelo conjunto da obra à frente da revista Placar. 4.2 Análise das crônicas de Nelson Rodrigues 4.2.1 Complexo de Vira-Latas Na crônica Complexo de Vira-Latas, Nelson Rodrigues argumenta que a seleção brasileira tem tudo para ser campeã do mundo em 1958. Para isso, basta superara a vergonha da derrota na final da Copa do Mundo de 1950 e acabar com o complexo de inferioridade que assola o brasileiro. Na crônica, o enunciador faz um movimento de aproximação em relação ao receptor. Para criar um laço entre ambos, Rodrigues denomina-os como amigos, explicitado no segundo parágrafo: “Eis a verdade, amigos”. Em outro momento, coloca-se entre os leitores: “E, hoje, se negamos o escrete de 1958, não tenhamos dúvidas: - é ainda a frustação de 50 que funciona”. No momento em que a crônica foi escrita, a seleção brasileira já se encontrava na Suécia se preparando para a estreia da Copa do Mundo de 1958. Para sustentar sua tese de que o brasileiro está envergonhado e com medo de ser otimista desde a derrota de 1950, no Maracanã, é usado o apelo patêmico. Rodrigues utiliza a dramatização para captar o receptor e fazê-lo aderir emocionalmente ao argumento de que os brasileiros, sobretudo os jogadores de futebol, se inferiorizam frente ao resto do mundo. Para isso, são utilizadas algumas expressões: “Extraiu de nós o título como se fosse um dente”; “Mas o que trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão”; “A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro”; “Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar”. Desta forma, Rodrigues reveste a crônica de uma linguagem pessoal e dramática, uma das características da crônica poética, como expõe Coelho (2003).

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Rodrigues emprega como muleta a metáfora complexo de “vira-latas”, título da crônica, para explicar essa humildade exacerbada em que o brasileiro se coloca frente aos outros povos. A crônica, sobretudo, tem embutida uma crítica social. “Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos ‘os maiores’ é uma cínica inverdade”. Como explicita Coutinho (1999), há um enriquecimento da análise realizada com elementos psicológicos, vista, fundamentalmente, na crônica poética de Nelson Rodrigues. Observa-se, de acordo com Beltrão (1980), que a crônica tem por objetivo interpretar um tema utilizando argumentos, ora lógicos, ora sugestivos e persuasivos, com o objetivo de convencer o leitor. Neste caso, o autor parte da premissa de que a perda da final da Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil, com um Maracanã lotado e imenso favoritismo à seleção brasileira, que acabou derrotada para o Uruguai, por 2 a 1, fez de “nós” um povo descrente de si mesmo. “E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: - é ainda a frustração de 50 que funciona”. A despeito da falta de confiança, Nelson Rodrigues explicita nos parágrafos seguintes argumentos que colocam o escrete nacional no mesmo patamar dos favoritos, ou até mesmo à frente. “Pois bem: - não vi ninguém que comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho”. Para o autor, quando os jogadores brasileiros se desamarram de suas inibições, entrave esse que atrapalha o desempenho, exercem o futebol-arte de forma única. A crônica foi publicada em 1958. Durante esse período, ainda havia certa desconfiança sobre a formação da população brasileira. Um dos questionamentos era o seguinte: a miscigenação era uma característica que nos empobrecia ou, ao contrário, nos notabilizava intelectualmente? Rodrigues é um brasileiro que acima de tudo, como ele mesmo diz, acreditava que ‘tínhamos’ tantas qualidades quanto qualquer outro e características que nos singularizava como a criatividade e a malandragem. “Sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo”. Outro ponto importante de análise, uma das singularidades do autor, é o viés profético do discurso. Rodrigues elenca argumentos e termos que comprovam esta tentativa de prenúncio:

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“Eis a verdade, amigos”; “Mas vejamos”; “A pura, a santa verdade é a seguinte”. Desta forma, Rodrigues se coloca como detentor da verdade. Rodrigues conclui a crônica traçando a teoria de que o brasileiro tem um problema de fé em si mesmo - o chamado complexo de vira-latas - e precisa superá-lo para conquistar seu objetivo. “O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês na anedota. Insisto: - para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão”. Neste momento, o futebol já era um esporte de massa e um elemento central da cultura brasileira, assumindo um papel de agente firmador da identidade nacional, como demonstra Guterman (2009). O ethos, a imagem que o locutor passa de si através do discurso, pode ser observada em diversas partes da crônica. Nelson Rodrigues assume-se, acima de tudo, um torcedor confesso da seleção brasileira. “Mas eis a verdade: eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: - sou de um patriotismo inatual e agressivo”. Nelson Rodrigues vai além da banalidade e não se limita em descrever, mas sim em analisar o objeto, neste caso, o brasileiro, buscando demonstrar soluções para os dilemas apresentados. (Sá, 1985). 4.2.2 Dragões de Espora e Penacho Na crônica Dragões de Espora e Penacho, Nelson Rodrigues escreve sobre a conquista do tricampeonato mundial pela seleção brasileira. O autor, no entanto, não se prende aos lances da partida final diante da Itália - embora os faça de maneira curta no fim do texto - nem à campanha do Brasil. A crônica, na verdade, está voltada para uma análise sobre o comportamento descrente da crítica esportiva, que, naquela época, não depositava tanta confiança na conquista, pelo contrário. “Era mais fácil encontrar uma girafa em nossas redações do que um otimista”. Como cronista, Rodrigues expõem uma visão distinta do fato, deixando em segundo plano o fato principal, que neste caso é a conquista da Copa do Mundo pela seleção brasileira. Sá (1986).

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Com estilo ácido, Rodrigues denominou os jornalistas que militavam na área esportiva incrédulos no título mundial de “entendidos”, de forma metafórica, que pode ser observada em crônicas poéticas, explicitado por Costa, Ferreira e Soares (2007). Ao longo da crônica, o autor evocou o termo em seis oportunidades: “Vocês se lembram do que os nossos “entendidos” diziam sobre os craques europeus”; “E os “entendidos” recomendavam: “Humildade, humildade!”. Como se o brasileiro fosse um pobre-diabo de pai e mãe”; “Mas os ‘entendidos’ juravam que o futebol brasileiro estava atrasado trinta anos”; “O “entendido”, só de falar da Inglaterra e Alemanha, babava na gravata”; “Mas, sem querer, com sua inépcia, com sua incompetência, os “entendidos” acabaram prestando um grande serviço, porque tornaram os brios do escrete mais eriçados do que as cerdas bravas do javali”; “Esse [favoritismo do Brasil] era o óbvio ululante, que o mundo enxergava, menos os “entendidos” daqui”. Rodrigues ainda utilizou a linguagem metafórica denominar os críticos da seleção brasileira de hienas, abutres e chacais. “Quando o escrete saiu daqui, as hienas, os abutres, os chacais uivavam: - ‘Não passa das quartas-de-final!’”. Para convencer o leitor do grande feito da seleção brasileira de vencer a Copa do Mundo mesmo sem apoio da imprensa, Rodrigues utiliza a estratégia argumentativa de persuasão, se valendo do logos. Produzindo um efeito pedagógico, a comparação é usada para reforçar a prova da conclusão por meio de uma analogia entre o time do Brasil e o exército de Napoleão: “Se Napoleão tivesse sofrido as vaias que flagelaram o escrete, não ganharia nem batalhas de soldadinhos de chumbo”. Rodrigues é dono de expressões mítico-metafóricas que o caracterizavam como cronista esportivo poético, expõem Costa, Ferreira e Soares (2007). Em Dragões de Espora e Penacho é possível observar algumas delas: conversa de terreno baldio (papo informal): “Eu me lembro do dia em que João Saldanha foi chamado para técnico do escrete. Tivemos uma conversa de terreno baldio. Ele me dizia o João: - ‘Vamos ganhar de qualquer maneira! O caneco é nosso!’”; babar na gravata (admirar): “O ‘entendido’, só de falar da Inglaterra e Alemanha, babava na gravata”; escrito há 6 mil anos (era o destino): “Que ele seria nosso estava escrito há 6 mil anos”; gol franciscano (miserável, escasso): “Quem fez o gol da Itália, o franciscano gol da Itália, não foram os italianos”; óbvio ululante (evidente): “Esse [favoritismo do Brasil] era o óbvio ululante, que o mundo enxergava, menos os ‘entendidos’ daqui”; e banho de

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Paulinha Bonaparte (banho de classe, beleza, nobreza): “Antes que eu me esqueça, preciso observar o evidentíssimo: - ganhando dando, no adversário, banho de Paulinha Bonaparte”. Apenas nos três últimos parágrafos, o enunciador utiliza da narração para descrever lances da partida, demonstrando que o grande mote da crônica foi a crítica aos jornalistas. De forma patêmica – em busca de captar o leitor pela emoção -, o gol marcado por Pelé mereceu destaque: “A cabeçada de Pelé, na abertura da contagem, foi algo de inconcebível. Ele subiu, leve, quase alado, e enfiou no canto. Em suma, cada gol dos nossos é uma preciosidade”. Neste momento, é possível observar o estilo erudito que caracteriza a crônica poética. O cronista faz um movimento de aproximação do leitor e, às vezes, se coloca entre eles. Num primeiro momento, para criar um laço de confidencialidade, o receptor recebe a denominação de amigo: “Amigo, foi a mais bela vitória do futebol mundial de todos os tempos”. Para reforçar essa relação, o enunciador se coloca entre eles: “Depois o Paraíso, jamais houve um futebol como o nosso”. Prova dessa aproximação é que as palavras nosso, nossos, nossa e nós aparecem 14 vezes ao longo da crônica. As crônicas de Nelson Rodrigues são conhecidas por terem uma linguagem pessoal e fantasiosa para dar conta desse espetáculo imprevisível e dramático que é o futebol, destaca Marques (2005). Contudo, às vezes, a fantasia se torna maior que o próprio fato, distorcendo e, conseqüentemente, manipulando a informação. Nesta crônica, é feita menção às finais das Copas que tiveram uma disputa mais intensa, Rodrigues exemplifica com a decisão de 1938, na França: “Todas as finalíssimas são duríssimas. Alemanha x Itália, em 38, exigiu prorrogação. Quando acabou, os craques deitavam-se no chão, muito mais mortos do que vivos”. Na verdade, Alemanha e Itália não se enfrentaram na referida Copa do Mundo. A seleção alemã foi eliminada ainda no primeiro jogo, derrota por 4 a 2 para a Suíça no confronto desempate. A final daquele mundial, disputada em Paris, reuniu italianos e húngaros. A partida também não esteve nem perto da prorrogação: quatro a dois para a Itália, até então o resultado mais largo em finais. Erros crassos de informação como esse são vistos com frequência nas crônicas romanceadas de Nelson Rodrigues. Como Coelho (2003) elucida, as crônicas esportivas poéticas não guardavam relação fidedigna com o fato. 4.3.3 A Realeza de Pelé

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Em A Realeza de Pelé, pela primeira vez, o jogador Édson Arantes do Nascimento, conhecido como Pelé, foi chamado de rei. “E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: - a de se sentir rei da cabeça aos pés”. A crônica foi publicada em 25 de fevereiro de 1958. Pelé, que tinha apenas dezessete anos, havia marcado, dias antes, quatro gols, em pleno Maracanã, na vitória do seu clube, o Santos, sobre o América-RJ por 5 a 3. Sua atuação monopolizou a cobertura esportiva na época. Aquele seria apenas um indício das grandes jogadas que protagonizaria dali em diante. “Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar”. Como Coelho (2003) explicita, a fase poética da crônica esportiva, da qual Nelson Rodrigues é um dos expoentes, cria uma imagem mítica sobre os jogadores. Pela forma como os lances e os próprios atletas são descritos, tamanha a sedução aplicada pelo cronista, os atletas deixam de ser apenas simples esportistas e se tornam heróis nacionais. É o caso de Pelé nesta crônica. Construindo uma denominação específica, Rodrigues designa Pelé como “rei”. Termos como este demonstram o engrandecimento valorativo proposto pelas crônicas poéticas. Para demonstrar que Pelé realmente era um jogador diferenciado, uma realeza do futebol, Rodrigues utiliza da estratégia argumentativa por persuasão, o logos, argumentos intelectuais convincentes, e o phatos, uso da emoção no discurso. Como premissa, está a superioridade demonstrada pelo atacante do Santos: “Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Pões por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha”. Algumas citações são dispostas para comprovar que Pelé estava ciente do que ele representava e o que viria a representar para o futebol: “E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: - ‘Quem é o maior meia do mundo?’ Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: - ‘Eu’. Insistiram: - ‘Qual é o maior ponta do mundo?’ E Pelé: - ‘Eu’”. Neste momento, Rodrigues elogia a imodéstia do rei e critica a humildade do complexo de vira-latas do brasileiro. A crônica faz um paralelo entre Pelé e sua autoconfiança e o brasileiro e sua humildade. A tese da crônica é de que com Pelé, o Brasil e a seleção vão levantar a cabeça. Nelson Rodrigues cria

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um ideário de brasilidade, relacionando, com frequência, o brasileiro e o futebol, em função da relação do esporte com a sociedade brasileira, assim exposta por Capraro (2007). Em seguida, vem a asserção de passagem, que pode ser chamada de prova ou argumento sobre os questionamentos em que se inscreve, os feitos do craque: quatro gols em uma grande partida, sendo um deles driblando o time todo. Para isso, é utilizada a descrição para melhor entendimento do leitor. Passo a passo do jogador, do momento em que ele domina a bola até a finalização, é narrado pelo observador do fato: “Ainda no primeiro tempo, ele recebe o coro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para a frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: - sem passar a ninguém e sem a ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra”. Termos como ferozmente, sensacionalmente, destruição revelam o lado dramático impresso por Rodrigues, assim exposto por Coelho (2003). Nelson Rodrigues consegue, ao longo da crônica, justificar o ousado título da crônica, A Realeza de Pelé. Para que o leitor se convença de tal afirmativa, realiza uma série de adjetivações valorativas, de forma patêmica – explorando a emoção -, transformando um atleta com apenas dois anos de carreira em um verdadeiro rei do futebol. No primeiro parágrafo, há uma alusão entre o jogador do Santos e um dos maiores defensores da história, Domingos da Guia: “Grande figura que o meu confrade Albert Laurence chama de ‘o Domingos da Guia do ataque’”. Logo em seguida, vem a alcunha de rei: “Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope (...). O que chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma”. No segundo parágrafo, está uma das argumentações mais fortes quanto à grandeza de Pelé: “Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições”. Com seu rebuscado leque de expressões, o cronista inicia o terceiro parágrafo denominando o garoto de dezessete anos como craque implacável: “Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível”.

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Para finalizar a crônica, Rodrigues explicita que Pelé deveria ser o líder e, mais do que isso, um espelho para os outros jogadores da seleção brasileira. Pelé tinha autoestima - o que faltava aos brasileiros -, imprescindível para a conquista de uma Copa do Mundo. Era o herói nacional que precisávamos para salvar a seleção brasileira, propriedade da crônica poética, explicitado por Coelho (2003). “Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: - aposto que Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau”. Mais uma vez explicita o comportamento profético. A crônica acabou sendo um presságio do que viria a acontecer. Naquele ano, 1958, Pelé foi para integrar a seleção brasileira que disputaria a Copa do Mundo na Suécia. Lá, o jovem Pelé confirmou a expectativa depositada em relação ao seu futebol: marcou seis gols, sendo dois na final diante dos donos da casa, e auxiliou o Brasil a conquistar seu primeiro grande título intercontinental. 3.2.4 Gol Mil Em Gol Mil encontra-se o registro do milésimo gol de Pelé, marcado em 19 de novembro de 1969, na partida entre Santos e Vasco, no Rio de Janeiro, válida pelo Torneio Rio-São Paulo. Rodrigues inicia a crônica fazendo um movimento de aproximação do leitor, denominando-o de amigo, como lhe é característico (“Amigos, a cidade tem 5 milhões de habitantes, talvez mais”). Na época, havia uma expectativa muito grande do local onde Pelé marcaria seu milésimo gol. Por onde o Santos jogasse, uma multidão estava a espera do “rei do futebol”. Em uma partida em Alagoas, por exemplo, Pelé chegou a receber o título de cidadão honorário, tamanho era seu prestígio. Rodrigues faz uma analogia entre o jogo do milésimo gol e a batalha do exército de Napoleão considerada perfeita, uma tentativa de mitificar os feitos do jogador elevando ao patamar de um dos maiores estrategistas em Guerra. “Mas vejam como o grande acontecimento tem a paisagem própria. Como já escrevi, Austerlitz não podia ser disputada num galinheiro. Foi isso que eu disse, quando o Santos jogou no campo do Esporte Clube Bahia. É óbvio que,

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depois do Estádio Mário Filho, todos os campos pequenos se tornaram galinheiros irremediáveis”. Rodrigues compara aquele momento a outros da história da humanidade, forma de romancear e dramatizar a crônica, lembrando Coelho (2003). “Ao que íamos assistir já era História e já era Lenda. Imaginem alguém que fosse testemunha de Waterloo, ou da morte de César, ou sei lá”. Rodrigues transforma em “poesia” a história de Pelé e eleva seus feitos aos feitos das figuras mais emblemáticas da história, como César e Napoleão. Para elevar ainda mais aquele episódio, Rodrigues, de forma dramática, assim como ele transcorre em todo o texto, elenca algumas frases com o intuito também de fazer o receptor aderir e compreender o argumento central da crônica, transformando aquele acontecimento em uma festa nacional, digno de um herói brasileiro: “a mais linda festa do futebol brasileiro de todos os tempos”; “era uma festa nacional, a festa do povo, a festa do homem”; “Só ele marcou mil gols. Nunca se viu nada parecido” e “desde Pero Vaz de Caminha, nenhum brasileiro recebera apoteose tamanha”. No quarto parágrafo, o enunciador descreve de forma valorativa na tentativa de passar ao leitor que aquela não se tratava de uma marca isolada. Pelé era muito mais do que um fazedor de gols. A participação daquele jogador não se resumia a empurrar a bola para as redes. “É uma glória maravilhosamente individual, maravilhosamente solitária. Some-se a isso os gols que ele deu de bandeja, gols dos quais ele foi co-autor, ou melhor, foi mais autor do que o autor”; e “herói nacional”. Como se tratava de um dia especial, no primeiro parágrafo, o enunciador, utilizando do phatos para atrair o leitor pela emoção, afirma que as cinco milhões de pessoas que habitam no Rio de Janeiro deveriam estar ali, no Maracanã – estádio que comportava na época apenas 250 mil pessoas. “Amigos, a cidade tem 5 milhões de habitantes, talvez mais. Pois esses 5 milhões deviam estar presentes, anteontem, no Estádio Mário Filho para ver o milésimo gol de Pelé”. Demonstrando ter uma visão diferenciada, no terceiro e quarto parágrafos, Rodrigues explana que as mais lindas mulheres do Rio de Janeiro se encontravam no Maracanã. A maioria delas não era admiradora do futebol, mas do craque Pelé. “Não sei se sabem que o sublime crioulo fascina a mulher bonita. As mais lindas garotas estavam lá. Mas falei em festa do futebol e,

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realmente, foi muito mais do que isso. Era uma festa nacional, a festa do povo, a festa do homem”. Neste momento, ele utiliza de uma estratégia de retomada para falar sobre a presença de uma mulher da alta sociedade: “Na fila dos elevadores, o meu primeiro olhar descobriu a grã-fina das narinas de cadáver”. Esta é uma personagem que figura em outra crônica do escritor. Assim, o receptor tinha que ter conhecimento prévio para compreender a que ele estava se referindo. A “grã-fina de nariz de cadáver” era uma mulher sofisticada, de uma das mais tradicionais famílias cariocas, mas que nada sabia sobre futebol. Na sequência, é feito uma descrição do lance que originou o pênalti, que Pelé converteria para completar a sua coleção de mil. “Na sua penetração fulminante, tinha batido toda a defesa adversária. Ia entrar com bola e tudo. E sofreu o pênalti”. Na verdade, está narrativa, revestida de drama, é fantasiosa. No lance original, Pelé não havia batido toda defesa. O camisa 10 do Santos recebeu um lançamento e disputava a jogada com um zagueiro, que o derrubou com uma rasteira. As descrições não são fidedignas ao fato ocorrido. Essa é uma das características da crônica poética, como atestam Costa, Ferreira e Soares (2007). Para Nelson Rodrigues, o futebol estava além do que os olhos podiam ver, recordando Sá (1985): “Quando a bola foi colocada na marca do pênalti, criou-se um suspense colossal no estádio[...] No ex-Maracanã, fez-se um silêncio ensurdecedor que toda cidade ouviu. No instante do chute, a coxa de Pelé tornou-se plástica, elástica, vital, como a anca de um cavalo”. A crônica termina de forma lírica e o enunciador acaba se contradizendo. No primeiro parágrafo, cita-se 5 milhões de pessoas no Maracanã. Agora, são apenas cem mil: “De repente, como patrícios do guerreiro, cada um de nós sentiu-se um pouco co-autor do feito. Pelé voou, arremessou-se dentro do gol. Agarrou e beijou a bola. E chorava, o divino crioulo. Cem mil pessoas, de pé, aplaudiam como na ópera. Depois, assistimos a volta olímpica”. Comprova-se, assim apontado por Coelho (2003), que existem desencontros de informações em suas crônicas. 3.3 Análise das crônicas de Juca Kfouri 4.3.1 Lula, o cartola

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Em Lula, o cartola, o enunciador descreve um fato que serve como fio condutor da crônica, seu ponto de partida. Era o ano de 2003, e o presidente Luiz Ignácio Lula da Silva iniciaria o seu governo sancionando o Estatuto do Torcedor, que protege os direitos do consumidor em qualquer evento esportivo, e a Lei de Moralização do Futebol, que alterava alguns pontos na Lei Pelé. Naquele dia, Juca Kfouri relata que recebeu um telefonema do então chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, a pedido do próprio presidente. “Ele [Lula] queria saber se eu iria à cerimônia no Palácio do Planalto. Respondi que não. E ouvi dele [Gilberto Carvalho] que o presidente ficaria feliz se eu fosse. Fui”. A abordagem do tema política para as crônicas esportivas surge, com maior força, apenas com o aparecimento das crônicas analíticas, lembrando Costa, Ferreira e Soares (2007). A estratégia de revelar o nome do interlocutor e o teor da conversa é uma forma de conquistar a confiança do leitor, ganhando em credibilidade. Para descrever o presidente naquele momento, em Brasília, o cronista caracteriza-o como alegre, leve e solto. Demonstrando o que estava sentindo, uma das características que enriquecem a crônica, descreveu que ficou admirado ao ouvir seu nome no pronunciamento: “Surpreso, ouvi o presidente, na abertura de seu discurso, dizer textualmente: ‘Nunca mais quero ouvir o Juca Kfouri dizer que no Brasil o torcedor é tratado como gado’”. Neste período, em 2003, Lula estava iniciando o seu governo. E as primeiras medidas esportivas tomadas por ele tiveram boa repercussão na mídia. “Estávamos em maio de 2003 e, admito, ingenuamente, voltei para São Paulo feliz da vida”. No entanto, algum tempo depois, as leis acabaram sem aplicação prática. Utilizando da persuasão comparativa, o enunciador, no parágrafo seguinte, aguçando o sentimento dos interlocutores por meio da argumentação patêmica, descreve o presidente, passados três anos, de forma completamente oposta: “Um Lula rancoroso e com a má consciência de quem, enfim, mergulhou seu governo na vala comum dos que o antecederam”. Kfouri analisa aquelas mudanças na legislação apenas como um jogo político, porque na prática os torcedores continuaram a receber o mesmo tratamento de sempre. “Poucos anos depois pouca coisa mudou. Os torcedores continuam a ser tratados como gado e o nosso esporte é tão sujo como então”.

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A partir daí, quinto parágrafo, o cronista levanta a tese, nome da crônica, de que o presidente Lula tinha se tornado mais um cartola. Para justificar a assertiva Lula virou cartola, Kfouri utiliza da própria argumentação do presidente, que, em outro discurso, disse que a responsabilidade da desorganização e degradação do futebol brasileiro era de todos, a ponto de inocentar os cartolas dos clubes e das federações. A ironia é um dos recursos literários mais utilizados por Juca Kfouri, típico do cronista. Cria-se, neste caso, uma ridicularização de um acontecimento com a finalidade de advertir e também entreter o leitor, afirma Beltrão (1980). No oitavo parágrafo, por exemplo, o suposto desconhecimento do presidente no caso conhecido como “mensalão” – compra de votos de políticos para a aprovação de preposições na Câmara dos Deputados – é exposto com extrema sagacidade. “Que ele não queira assumir responsabilidades que são deles é compreensível porque, afinal, nunca soube de nada, nunca viu nada, nunca fez nada. Mas dividir culpas que têm endereço certo com quem nada tem a aver com isso é demais”. Em seguida, Kfouri utiliza mais uma vez a citação de um discurso do presidente, agora na assinatura da Timemania – loteria que visa auxiliar financeiramente a quitação da dívida dos clubes de futebol com a União sem qualquer tipo de contrapartida administrativa. Lula tratou de comparar a desonestidade do futebol brasileiro ao europeu, em defesa dos cartolas corruptos que permeiam o esporte. ‘“Como é que a Espanha chegou ao que chegou? Como é que a Itália chegou aonde chegou? Dizer: Mas, no Brasil, é porque os dirigentes não são honestos, é a coisa mais simples, é você jogar pecha de desonesto em cima de alguém. A Itália, que é esse monstro sagrado do futebol, que já está quase perto do Brasil na conquista de Copa do Mundo, todo dia a gente tem uma denuncia no jornal, entretanto, o futebol não perde no profissionalismo’”. Para demonstrar que a impunidade é uma chaga quase que exclusiva do futebol brasileiro, refutando o que argumentou Lula, Kfouri exemplifica que os clubes envolvidos em trapaças na Itália caíram para a segunda divisão, caso da Juventus, sendo severamente punidos, e dirigentes espanhóis corruptos, assim como os italianos, estão atrás das grades. Percebe-se que o cronista é conhecedor da história do esporte e transmite dados precisos, uma das marcas da crônica analítica, rememorando Costa, Ferreira e Soares (2007).

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Com o uso reiterado de paralelos e analogias, é possível afirmar que Kfouri consegue fazer com que a crônica cubra um espaço no jornalismo que é de abrir novas janelas, mostrar outras perspectivas aos leitores, que, assim, enriquece e amplia sua visão de mundo, evidenciado Sá (1985). Neste caso, o cronista exemplifica o que acontece em outros países para que as palavras do presidente não assumam uma verdade sem sê-la. “Na Itália, time cai por causa da desonestidade. Na Espanha, cartola é preso pelo mesmo motivo”. Mesmo sendo declaradamente um comunista, simpático aos petistas na crônica, Juca Kfouri segue seus ideais, defendendo sua independência moral e profissional, sem partidarismo, demonstrado na sua visão crítica ao modo de gestão seguido pelo presidente Lula. Esses são os pilares do cronista, demonstrado por Belrão (1980). Nos últimos parágrafos, Juca Kfouri explana que os maiores interessados nesta nova forma de os clubes arrecadarem dinheiro, a Timemania, são os próprios dirigentes acusados de improbidade administrativa e outros crimes ao patrimônio das instituições esportivas, demonstrando seu estilo combativo de fazer jornalismo: “Aqui, seu [Lula] discurso está sendo aplaudido de pé por Edmundo Santos Silva, ex-cartola impune do Flamengo, aquele que reconheceu na CPI do Futebol que não era um ‘criminoso comum’”. O texto é finalizado com mais uma tirada de argúcia do cronista. Para que se compreenda melhor o que representaria a Timemania, é feito uma comparação com a vida do receptor. “Meu raro leitor: fique você sem pagar seus impostos. Quem sabe o governo não lhe dê uma loteria para pagá-los?”. Raciocínio dedutivo: o governo beneficia os maus pagadores e sacrifica os bons pagadores. A ironia demonstrada na frase acima e um dos recursos literários mais por Juca Kfouri. Em Lula, o cartola, não há descrição tática ou técnica de nenhuma partida de futebol, nem sequer uma menção. Juca Kfouri exerce predileção por assuntos relativos à política e aos bastidores do ‘mundo’ dos esportes - o que envolve os cartolas, empresários, representante, político, os próprios atletas, entre outros. Predicados que marcam a crônica analítica, como expõe Coelho (2003). Nesta crônica, o futebol é discutido de forma mais ampla. Fala-se de importantes direitos para os torcedores e dos pilantras que comandam o esporte no Brasil. 3.3.2 Futebol de Popstars

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Em Futebol de Popstars, é retratada a mudança econômica e de status que o futebol sofreu ao longo dos anos. O enunciador demonstra que atletas agora não são somente atletas, viraram celebridade: “Quem joga futebol de primeira linha não é mais simplesmente um atleta. É celebridade, popstar”. As crônicas esportivas analíticas assumiram outra visão sobre o atleta, evidenciado por Coelho (2003). É estabelecido um modo de raciocínio que permite refletir e compreender o que aconteceu ao longo dos anos e quais são os resultados destas mudanças para o futebol contemporâneo, característica assumidas pelas crônicas analíticas, como destacam Costa, Ferreira e Soares (2007). A. Para explicar que a concepção e a mentalidade dos atletas evoluíram, Kfouri evidencia que os reais interesses e preocupações dos desportistas estão cada vez mais voltados para assuntos individual e que extrapolam o esporte em si: “Antes de mais nada, a cabeça de cada um está voltada para o seu próprio umbigo. O coletivo vem depois, quando vem. Interessa, em primeiro lugar, o patrocinador, o anunciante, porque, por maior que seja o salário pago pelos clubes, a maior fonte de renda vem dos anúncios”. Para fazer esta comparação, Kfouri deve dominar o assunto e ter conhecimento de ambos os períodos históricos. Utiliza-se, lembrando Koch (2006), o logos. Apresentar argumentação convincente, que se sustenta em informações credíveis. Kfouri auxilia o leitor a ver mais longe - além do futebol das quatro linhas -, como frisa Sá (1986). Ele tenta explicar a lógica estabelecida no esporte. Expõe que os jogadores estão interessados em ótimos contratos pouco se importando com os clubes. Como exemplo, usando a persuasão, o cronista cita o Real Madrid. O clube madridista é a instituição esportiva mais valiosa do mundo, fatura milhões todo ano com venda de produtos licenciados e possui os jogadores mais badalados. “O melhor exemplo é o Real Madrid, cada vez menos um clube esportivo, cada vez mais uma agência que põe suas estrelas a serviço da economia globalizada”. Os dados repassados são comprovados e apurados. Não há desencontro de informação, lembrando Coelho (2003).

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É possível observar a construção que é feita do ethos do enunciador. O cronista adota um posicionamento crítico no que tange a essa nova realidade do esporte. Embora no começo ele diga “se for para melhor ou para pior menos importa”, são expostos argumentos que comprovam sua reprovação, mesmo que de forma velada ou indireta, com a enumeração de valores que o próprio julga reprováveis: “a cabeça de cada um está voltada para o seu próprio umbigo”; “interessa, em primeiro lugar, o patrocinador”; “garotos-propaganda que não tem pudor de emprestá-la nem mesmo para fazer campanhas de bebidas alcoólicas”. Constantemente, o enunciador faz paralelos do passado com o presente, caso das derrotas, que, anteriormente, causavam tristeza geral somente pelo resultado, agora possui outros significados, como uma provável queda nos negócios: “Perder um campeonato é ruim muito menos pela tristeza da derrota do que pelos prejuízos à imagem dos garotos-propaganda, que não tem pudor de emprestá-la nem mesmo para fazer campanha de bebidas alcoólicas”. Existe, portanto, uma mudança na forma com que o cronista analisa os jogadores de futebol. Se, anteriormente, na crônica poética, havia um endeusamento dos grandes atletas, somente o lado positivo era explorado, agora, eles são vistos de forma crítica, frisado por Coelho (2003). Uma tese levantada pelo cronista, para corroborar essa mudança no meio esportivo, é de que os negócios também são uma das formas de se explicar a derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2006, algo impensável outrora. O escrete do Brasil era o Real Madrid de verde e amarelo. Reflexos da globalização do esporte, que surge a partir da década de 1980 e 1990, explicitado por Guterman (2009). Ao todo, quatro jogadores atuavam pelo clube da Espanha: Cicinho, Robinho, Ronaldo e Roberto Carlos. “A CBF virou grife menor, e como sabia que o hexa não era mesmo para o seu bico (não foram poucos os jogadores e membros da comissão técnica que, em particular, reconheciam tal impossibilidade) em gramados europeus – onde a Nike manda menos e está fora da decisão -, tratou de incentivar recordes pessoais, como os de Cafu e Ronaldo”. Dessa constatação, o cronista chega à assertiva de que aconteceu uma “entrega apática” diante dos franceses, em partida válida pelas quartas de finais da Copa do Mundo realizada na Alemanha. Neste trecho, é possível notar um trabalho de apuração feito nos bastidores, com fontes de confiança do cronista, para comprovar a afirmação de que as possibilidades de vencer na Europa eram menores.

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Análises como está exigem que o cronista tenha uma larga experiência na área esportiva. Isso faz com que encontre os exemplos mais precisos para que o receptor possa compreender com maior facilidade as mudanças do futebol. 3.3.3 Ah, eu sou brasileiro! Em Ah, eu sou brasileiro!, o enunciador discorre sobre um assunto ligado ao viés antropológico da sociedade brasileira, refletido no esporte, apresentado no período em que a crônica foi escrita, em 2001, mas que ainda existe: o bairrismo. O que motivou o cronista a escrever sobre o assunto era uma manifestação comum nos estádios brasileiros, o brado da regionalidade. Torcedores de uma determinada região cantavam o amor por aquele lugar: “Ah, eu sou gaúcho”, “Ah, eu sou mineiro”, “Ah, eu sou paranaense”, em evento de qualquer natureza esportiva. Kfouri faz uma avaliação do comportamento do torcedor brasileiro, levando em conta acontecimentos e especificidade de algumas regiões do Brasil. Esse tipo de abordagem é visto com maior frequência nas crônicas poéticas. Em específico, esta crônica trata-se de um amistoso do Brasil disputado no estádio Olímpico, em Porto Alegre. Neste dia, pôde-se ouvir surgir das arquibancadas os gritos de “Ah, eu sou gaúcho”. Não existe relação entre essa manifestação e o jogo em si. “Ainda se fosse a seleção gaúcha, tudo bem, valeria o provincianismo”. A partida da seleção brasileira acaba ficando em segundo plano na crônica. Kfouri não cita o placar, o adversário, nem outros detalhes do evento esportivo. A manifestação vinda das arquibancadas, que em muitas vezes nem se quer recebe o devido valor e acaba esquecida, tornou-se o principal elo de discussão de uma temática contemporânea. É essa sensibilidade que se espera dos cronistas: trazer para discussão fatos que parecem não ter nenhuma razão de ser. Assim como evidencia Sá (1986), a crônica, neste caso, cobre um espaço no jornalismo que é de mostrar ao leitor um algo a mais. Kfouri sai da discussão que envolve as quatro linhas e propõe um debate sobre os valores presentes na sociedade brasileira: “a irracionalidade e a estupidez são cada vez mais majoritárias nesta sociedade sem face e sem valores para valer”.

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Na construção, é possível observar a imagem que o enunciador passa de si a partir do discurso o ethos. Desde a primeira frase, há demonstrações explicitas do descontentamento com aquelas manifestações: “Cada vez me irritam mais os bairrismos”. Esse sentimento de orgulho exacerbado já havia infestado e prejudicado o futebol brasileiro, principalmente, durante os anos de 1920 a 1940. A seleção brasileira, inclusive, foi atingida por disputas entre cariocas e paulistas durante a primeira Copa do Mundo, na qual os jogadores pertencentes aos clubes paulistas não participaram em determinação às ordens dos cartolas, assim explicado por Guterman (2009). Usando a persuasão, logos, analisado por Koch (2006), o cronista utiliza como argumento os preceitos que deveriam reger um país como honestidade, o trabalho, a inteligência e não a pura e simples ideia de localidade. Neste momento, existe um questionamento sobre qual sociedade estamos formando e qual sociedade queremos. E faz uma provocação: “Qual a vantagem de ser gaúcho, carioca, mineiro?”. Dentro de uma análise socióloga, Kfouri diagnostica que esses tipos de manifestações evidenciam traços de inferioridade e nada mais são do que uma pueril manifestação por se acharem melhor por ter nascido em determinada região. “No fundo, no fundo, esse tipo de manifestação revela antes um certo sentimento de inferioridade do que de outra coisa qualquer”. Juca Kfouri utiliza alguns termos que demonstram seu desgosto com esse tipo de manifestações, que já, inclusive, causaram e causam as mais diversas guerras até os dias de hoje: “irracionalidade”, “estupidez”, “ridículo”, “arrogantes”, “convencidos de uma superioridade”, “preconceito idiota”. Kfouri assume o viés combativo, como lhe é característico, e contesta esse tipo de manifestação bairrista, que em nada acrescenta ao futebol brasileiro. Para demonstrar que o local de nascimento de uma pessoa não a credencia em ser melhor ou pior no que faz, cria-se uma associação entre jogadores de futebol de destaque que atuaram em estados diferentes do nascimento deles. “Basta dizer que o maior jogador gaúcho de todos os tempos é um catarinense [Falcão] e o maior craque paulista da história é um mineiro [Pelé]”. 3.3.4 O rabo de cavalo e o ninho de rato

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A crônica O rabo de cavalo e o ninho de rato coloca em voga uma discussão sobre a política desportiva brasileira, assunto que passa a fazer parte da pauta das crônicas esportivas a partir da ascensão do paradigma analítico, como demonstram Costa, Ferreira e Soares (2007). As metáforas utilizadas no título da crônica, O rabo de cavalo e o ninho de rato, aglutinam todo o sarcasmo e a crítica produzida pelo cronista ao longo do texto, características da obra de Kfouri. O rabo de cavalo expressa o crescimento do esporte brasileiro e as mentiras que devem ser criadas em benefício dos dirigentes. O ninho de rato, esse animal asqueroso, foi a melhor forma encontrada pelo cronista para designar os dirigentes, que se apegam ao poder e utilizam inúmeras maneiras de se beneficiar. Kfouri torna explícita sua opinião, com o uso do logos - a razão persuasiva -, ainda no início da crônica, sobre a importância do direcionamento da política esportiva ao investimento na massificação do esporte, pensando na saúde da população e na formação de cidadãos, não na conquista por medalhas. “Perder [para o Brasil] é a regra e, a rigor, não tem maior importância se houvesse pelo menos um esforço no sentido de pensar o esporte como fator de saúde pública (cada dólar investido no esporte economiza três na saúde pública, segundo a Organização Mundial da Saúde) e de inclusão social”. O debate se amplia. Não se trata apenas do esporte, mas sim da formação e da saúde de parte significativa da população brasileira. Kfouri, no entanto, demonstra que os profissionais responsáveis pelo esporte no Brasil adotam uma política desportiva que prioriza o resultado (as conquistas obtidas), ao passo que valores mais importantes ficam esquecidos. Nesta crônica, Kfouri expõe seu estilo combativo e crítico. O cronista coloca em discussão o resultado obtido pelo esporte de alto rendimento. O quadro de medalha dos Jogos Olímpicos é tido por ele como circunstancial. Países com tradição em determinada modalidade esportiva podem se dar bem mesmo não tendo estrutura adequada. Na crônica, é feita um paralelo do Brasil com países de dois grupos (os considerados pobres e os desenvolvidos) para explicitar que o relativo sucesso em alguns esportes não significa uma política adequada para o setor. “Ficar atrás no quadro de medalhas de países ainda piores como Jamaica, Quênia ou Etiópia é tão circunstancial como ficar adiante da Nova Zelândia, da Suécia ou do Chile. Porque o Brasil não é pior que o trio que superou nem muito menos melhor que o que ficou atrás, simplesmente porque os primeiros têm seus fenômenos e os

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últimos têm outras prioridades”. Neste momento, observa-se que os dados de número de medalhas é um argumento central. Desta forma, a informação assume papel primordial para a sustentação e credibilidade da crônica, pilares da crônica esportiva analítica, lembrando Coelho (2003). Atrás de todas estas críticas está o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Nuzman, cargo que ocupa desde 1995. Kfouri demonstra nesta crônica sua característica combativa, criticando e evidenciando a ineficácia deste modelo adotado pelos cartolas brasileiros. Confirmando sua faceta crítica, em determinado momento da crônica, Kfouri denomina Nuzman de mentiroso. “Terrível mesmo, além de ver os sucessivos governos brasileiros cúmplices dos cartolas, é pegar um como o sr. Carlos Nuzman em meio às mentiras patéticas que tentou nos enfiar goela abaixo em seu balanço pós-Pequim, quando quis provar que o desempenho brasileiro cresceu. Só se for como o crescimento de rabo de cavalo”. Kfouri faz, de forma irônica e bem-humorada, uma citação comparando o estádio Ninho de Pássaro, construído em Pequim para os Jogos Olímpicos em 2008, com um estádio que poderia ser erguido no Rio de Janeiro, para a Olimpíada do Brasil em 2016, na tentativa de adaptar os dirigentes esportivos ao seu habitat natural. “Certo está o jornalista Fernando Victorino, da ESPN Brasil, que inspirado no Ninho de Pássaro, de Pequim, propôs um Ninho de Rato para o Rio de Janeiro, para que nossos cartolas não se sintam deslocados, peixes fora d’água”. O rabo de cavalo e o ninho de rato comprovam o estilo lingüístico irônico e sarcástico adotado por Kfouri. Além disso, é explicitada também a informação sempre sendo uma forma de sustentar suas opiniões, a temática política e a postura crítica externadas por ele. Nota-se também o uso do logos, rememorando Koch (2006), no qual o cronista utiliza da persuasão, argumentando de forma consistente. Para demonstrar que a cartolagem brasileira tem os mesmos hábitos, o de ser incompetente e de aparecer em público nos momentos certos, Kfouri também cita o ministro do esporte Orlando Silva, fazendo uma alegoria incluindo atletas que participaram dos Jogos Olímpicos. “Como o digníssimo ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., que sumiu, qual um avestruz ou como a vara de Fabiana Murer, embora tenha um discurso quase impecável, a léguas de distância da prática, mais para Jardel Gregório do que para Maurren Maggi”.

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O cronista possui conhecimento das mais diversas áreas, o que lhe permite fazer associações, como a psicologia e a sociologia, descritas na última frase do texto: “E não é que depois de ter tentado vetar a psicologia do vôlei feminino, Nuzman que agora que cada delegação leve uma? Mas nem Freud explica este país da rapaziada bronzeada”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da evolução do jornalismo, que se tornou mais informativo e objetivo, e da mudança do próprio futebol, perdendo em técnica e beleza e, em contrapartida, ganhando em força e novas formulações táticas, pôde-se perceber que a crônica esportiva passou por um processo de adaptação a esses novos padrões. Os cronistas carregam consigo as especificidades de cada período histórico. Nelson Rodrigues vivenciou dois momentos distintos: um de desconfiança, com a perda da final da Copa do Mundo de 1950, no Rio de Janeiro, e um glorioso, com a conquista do tricampeonato da Copa do Mundo, em 1958, 1962 e 1970, e o surgimento dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, como Pelé, Garrincha, Didi, Tostão, Rivelino, entre outros. Juca Kfouri, por sua vez, depara com um futebol que deixou de ser inspirador: as partidas ficaram mais duras e táticas e o número de craques diminuiu consideravelmente. O futebol incorporou as facetas mais perversas da sociedade, tornando-se, também, um espaço para corrupção, fisiologismos e uso do esporte pelos cartolas em benefício próprio. Consequentemente, as informações ganharam mais espaço também entre os cronistas. Na comparação entre ambos os cronistas, ficam evidentes as diferenças entre os estilos. Nelson Rodrigues, representante do estilo poético, carrega uma faceta dramática que dialoga também com sua produção de peças teatrais e romances. Incorpora linguagem recheada de metáforas hiperbólicas, utilizando expressões como babar na gravata, banho de Paulinha Bonaparte e conversa de terreno baldio. Os textos de Nelson Rodrigues também se caracterizam por construções poéticas e fantasiosas. Como recorria sempre à imaginação para escrever, não era adepto da apuração. Por isso, muitas vezes, havia um desencontro de informação. As crônicas

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literárias não bem chegavam a ser jornalismo, segundo Coelho (2003), porque não guardavam relação fidedigna com o fato. Já Juca Kfouri é um dos expoentes do paradigma analítico da crônica esportiva. Ao contrário de Rodrigues, tem na informação um dos seus pilares. Em decorrência disso, as crônicas se tornaram mais factuais e reflexivas. Além de abordar o que acontece no esporte, o estilo analítico abre espaço para assuntos outrora alijados das páginas esportivas, como a política, que está assumindo um papel cada vez mais importante em vias da Copa do Mundo no Brasil. Os textos de Juca Kfouri possuem, como uma de suas peculiaridades, o viés combativo e crítico, apresentando construções repletas de ironia. Em comparação, os cronistas esportivos analíticos perderam o deslumbramento que os poéticos apresentam. O futebol não proporciona a beleza e a plástica vista outrora. As alterações no modo de transmissão da informação também contribuíram para a mudança no paradigma da crônica esportiva. Com o desenvolvimento de novos recursos tecnológicos, as notícias começaram a chegar com uma velocidade maior, uma vez que a cobertura esportiva se intensificou. Como ponto em comum, é possível observar que ambos os autores superam o relato descritivo jornalístico, condição de ser da crônica, como elucida Coutinho (1999), e realizam análises profundas, cada um ao seu modo. O mais importante para ambos é ir além do fato, criando uma forma singular de enxergar o futebol, uma vez que a crônica é um gênero livre que comporta variadas formas de se pensar, lembrando Sá (1986). Quanto à forma como as crônicas são constituídas, existem diferenças evidentes entre os autores. Nelson Rodrigues enfoca as temáticas sempre de forma romanceada e poética. Além da persuasão, emprega termos dramáticos que trazem certa comoção ao texto, afirma Coelho (2003). Rodrigues, lembrando Coutinho (1999), se encaixa na crônica metafísica, constituída de reflexão de cunho próximo ao filosófico. Utiliza-se do esporte para debater temáticas relevantes para a sociedade, por exemplo, a baixa autoestima do brasileiro. Consegue, por meio do seu estilo, cativa os leitores chamando-os de amigos. Desta forma, provocava uma relação de cumplicidade entre ambos. Utiliza-se com maior frequência do phatos, explicitado por Koch (2006), deixando o texto mais emotivo. Segundo Coelho (2003), Nelson Rodrigues transcrevia

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uma linguagem pessoal e fantasiosa, descartando a objetividade – fato comum atualmente em crônicas de outras editorias. Juca Kfouri, por sua vez, utiliza-se muito mais da persuasão, o logos, explicitado por Koch (2006), sempre embasada na informação, preterindo a dramaticidade. Emprega uma linguagem mais informativa e reflexiva, apropriando-se, corriqueiramente, de recursos linguísticos como o sarcasmo. As crônicas de Kfouri estão classificadas na categoria informativa, no qual alguns fatos são revelados e discutidos a fundo, demonstrado por Coutinho (1999). Ao contrário de Nelson Rodrigues, todas as informações divulgadas por ele trazem consigo alto grau de confiabilidade. Observa-se que Nelson Rodrigues e Juca Kfouri produzem crônicas no qual pode se notar preocupação com a linguagem culta e com os recursos da narrativa literária, uma das características da crônica, como demonstra Lucena (2003). As crônicas de Rodrigues estão repletas de adjetivações valorativas. O cronista cria alcunhas para denominar alguns jogadores de futebol, caso de Pelé, chamado de rei do futebol, e Didi, de príncipe etíope. Destaca-se também por constituir um discurso profético, pregando-se como dono da verdade. Possui vocabulário rico, afastando-se da linguagem pedante e extremamente rebuscada que se via nos jornais em meados do século XX. Com seu irmão Mário Filho, criou e introduziu no jornalismo esportivo uma elocução que se aproxima dos torcedores sem perder a forma literária e rebuscada de escrever, evidenciado por Coelho (2003). A ironia é o recurso literário mais utilizado por Juca Kfouri, que cria uma forma de ridicularizar alguns cartolas do meio esportivo. Essa é uma das maneiras encontradas por ele para fazer um jornalismo combativo sem ser sisudo. Desta forma, Kfouri faz análises críticas e consegue, ao mesmo tempo, entreter o leitor. Também, assim como Rodrigues, apresenta linguagem culta. Juca Kfouri e Nelson Rodrigues utilizam da ampla sabedoria em diversas áreas do conhecimento para traçar analogias, paralelos e perspectivas no que tange a determinados assuntos esportivos. Desta forma, os autores deixam os textos mais ricos e didáticos, com explicações detalhadas e profundas.

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As temáticas adotadas pelos cronistas são distintas. Nelson Rodrigues, além de discorrer sobre os grandes jogadores do futebol, abordava assuntos amplos envolvendo o esporte e a sociedade brasileira. Foi um dos precursores em acreditar na relevância da psicologia no meio esportivo. Apresenta um ideário de brasilidade que é, com frequência, exposto, em função da relação do esporte com o população nacional, recordando Capraro (2007). Não raro são as crônicas em que o assunto é abordado atrelado à forma com que o atleta brasileiro se comporta diante de um estrangeiro. Juca Kfouri envereda-se com frequência pela política esportiva. O cronista demonstra sua insatisfação e é extremamente crítico quanto à forma de administração do esporte no Brasil. Traz informação de bastidores e tem fontes na alta cúpula do governo, o que dá ainda mais credibilidade para o que escreve. Kfouri faz leitura sobre as nuanças do esporte, que permite refletir e compreender os desdobramentos dos fatos na sociedade. Traz também uma visão crítica no que tange aos atletas, lembrando Coelho (2003), que passaram a encarar o futebol, sobretudo, como um negócio. Ambos utilizam o vasto escopo cultural que possuem para enriquecer seus textos, uma vez que o cronista precisa ter um pensamento diferenciado, mantendo distância do lugar-comum evitando os erros estilísticos, assim como prega Coutinho (1999). Verifica-se, também, nas crônicas de Juca Kfouri e Nelson Rodrigues ligação de fatos históricos e sociais de determinados temas abordado, enriquecendo e dando mais legitimidade sobre o que ambos escrevem. Embora as crônicas sejam tradicionais na construção do jornalismo esportivo, existem poucos trabalhos acadêmicos dedicados a refletirem sobre os cronistas esportivos e suas peculiaridades. Por causa desta falta de empenho acadêmico, houve dificuldade de encontrar bibliografia específica.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELTRÃO, Luiz. O jornalismo opinativo. Porto Alegre: Sulina, 1980. CALDAS, Waldenyr. O Pontapé Inicial: Memória do Futebol Brasileiro. São Paulo: IBRASA, 1990. CÂNDIDO, Antônio. A Crônica: o Gênero sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas, SP: Unicamp:1992. CAPRARO, André Mendes. Identidades Imaginadas: futebol e nação na crônica esportiva brasileira do século XX. 2007. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007. CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e Discurso. São Paulo: Contexto, 2008. COELHO, Paulo Vinícius. Jornalismo esportivo. São Paulo: Contexto, 2003. COSTA, Felipe Rodrigues; FERREIRA, Amarílio Neto; SOARES, Antônio Jorge Gonçalves. Construção esportiva brasileira: histórico, construção e cronista. Disponível em http://www.revistas.ufg.br/índex.php/fef/article/view/198. Revista Pensar a Prática (UFG). Acesso em 29 de Abril de 2011. COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. São Paulo: Global, 1986. COUTINHO, Iluska. Colunismo e poder: representação nas páginas de jornal. Rio de Janeiro: Sotese, 2005. DA MATTA, Roberto. (org). Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982. FERNÁNDEZ, Maria do Carmo leite de Oliveira. Futebol fenômeno lingüístico: análise lingüística da imprensa esportiva. Rio de Janeiro: Documentário, 1974. GUTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil: uma história da maior expressão popular do país. São Paulo: Contexto, 2009.

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ANEXO Crônicas de Nelson Rodrigues 1 Dragões de Espora e Penacho Amigos, foi a mais bela vitória do futebol mundial em todos os tempos. Desta vez, não há desculpa, não há dúvida, não há sofisma. Desde o Paraíso, jamais houve um futebol como o nosso. Vocês se lembram do que os nossos “entendidos” diziam dos craques europeus. Ao passo que nós éramos quase uns pernas-de-pau, quase uns cabeças-de-bagre. Se Napoleão tivesse sofrido as vaias que flagelaram o escrete, não ganharia nem batalhas de soldadinhos de chumbo. Era mais fácil encontrar uma girafa em nossas redações do que um otimista. O otimista era visto, e revisto, como um débil mental. Quando o escrete saiu daqui, as hienas, os abutres, os chacais uivavam: — “Não passa das quartas-de-final!”. Fazia-se uma campanha do pessimismo. E os “entendidos” recomendavam: “Humildade, humildade!”. Como se o brasileiro fosse um pobre-diabo de pai e mãe. Eu me lembro do dia em que João Saldanha foi chamado para técnico do escrete. Tivemos uma conversa de terreno baldio. E me dizia o João: — “Vamos ganhar de qualquer maneira! O caneco é nosso!”. Raríssimos acreditavam no Brasil. Um deles era o presidente, que me dizia: — “Vamos ganhar, vamos ganhar” — e que, ainda no sábado, dava o seu palpite para a finalíssima. Mas os “entendidos” juravam que o futebol brasileiro estava atrasado trinta anos. E a famosa velocidade européia? Essa velocidade existia entre eles, e para eles. Mas o Brasil ganhou de todo mundo andando, simplesmente andando. Com a nossa morosidade genial nós enterramos a velocidade burra dos nossos adversários.

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Sempre escrevi (graças a Deus, não “entendo” de futebol), mas escrevi que a finalíssima de 66 foi o antifutebol e, repito, uma pelada da pior espécie. Mas ai de nós, ai de nós. O “entendido”, só de falar da Inglaterra e da Alemanha, babava na gravata. Queria acabar com o gênio, a magia, a beleza do nosso futebol. Mas, sem querer, com sua inépcia, com sua incompetência, os “entendidos” acabaram prestando um grande serviço, porque tornaram os brios do escrete mais eriçados do que as cerdas bravas do javali. O curioso é que os não entendidos é que acreditavam na seleção. Por exemplo: — o Walther Moreira Salles. Pôs-se à frente de todo o movimento de apoio financeiro ao escrete. Não faltou quem lhe dissesse: — “Não faça isso. Esse escrete é uma droga”. Coisa curiosa: — em momento nenhum o Walther Moreira Salles deixou de acreditar na nossa seleção. Muitas vezes me disse: — “Eu sei que vamos ganhar”. Paro de escrever para atender o telefone. É o Vadinho Dolabela, o último boêmio, o último romântico do Brasil. Chora no telefone: — “Nelson, ganhamos, Nelson! O caneco é nosso!”. Que ele seria nosso estava escrito há 6 mil anos. Nunca uma seleção fez, na história do futebol, uma jornada tão perfeita como o Brasil em 70. Ganhamos de todos os pseudocobras. Todas as finalíssimas são duríssimas. Alemanha x Itália, em 38, exigiu prorrogação. Quando o jogo acabou, os craques deitavam-se no chão, muito mais mortos do que vivos. Alemanha x Inglaterra, nova prorrogação, tanto em 66, como em 70. O Brasil não precisou de um minuto a mais. E nós, ontem, demos um passeio. Quem fez o gol da Itália, o franciscano gol da Itália, não foram os italianos. Foi uma brincadeira de Clodoaldo. Esse notabilíssimo craque, sergipano quatrocentão, resolveu dar uma bola de calcanhar. O inimigo recebeu de presente, recebeu de graça, o passe e o gol. Ao passo que os gols brasileiros foram obras de arte, irretocáveis, eternas. A cabeçada de Pelé, na abertura da contagem, foi algo de inconcebível. Ele subiu, leve, quase alado, e enfiou no canto. Em suma, cada gol dos nossos era uma preciosidade. Já na véspera as maiores autoridades do futebol declararam, unanimemente, que o Brasil tinha que ganhar o jogo, porque era muito melhor. Esse era o óbvio ululante, que o mundo enxergava, menos os “entendidos” daqui. Antes que eu me esqueça, preciso observar o evidentíssimo: — ganhamos dando, no adversário, um

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banho de Paulina Bonaparte. Dizia-se que os italianos eram formidáveis. Perderam de 4 x 1 para nós, e devia ser de 4 x 0. Ou melhor: — e nem de 4 x 0, mas de 5 x 0, e explico: — no último momento, Rivelino, driblando todo mundo, invadiu a área e ia entrar com bola e tudo, quando sofreu o mais cínico, o mais deslavado dos pênaltis. Era um gol mais do que certo. Ainda tivemos que enfrentar um árbitro altamente pernicioso. Amigos, glória eterna aos tricampeões mundiais. Graças a esse escrete, o brasileiro não tem mais vergonha de ser patriota. Somos 90 milhões de brasileiros, de esporas e penacho, como os Dragões de Pedro Américo. 2 A Realeza de Pelé Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor. O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

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Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”. De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para a frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável. Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau. Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos viralatas. Os outros é que tremerão diante de nós. 3 O Gol Mil Amigos, a cidade tem 5 milhões de habitantes, talvez mais. Pois esses 5 milhões deviam estar presentes, anteontem, no Estádio Mário Filho para ver o milésimo gol de Pelé. Dirão os idiotas

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da objetividade que o ex-Maracanã comporta, no máximo, 250 mil pessoas. Mas os que não pudessem entrar ficariam do lado de fora, atracados ao radinho de pilha e chupando laranjas. O que acho incrível e, sobretudo, indesculpável é que alguém, vivo ou morto, pudesse ficar indiferente à mais linda festa do futebol brasileiro em todos os tempos. Sim, os vivos deviam sair de suas casas e os mortos de suas tumbas. Viva a mulher bonita, que não faltou. Só as feias não apareceram. Não sei se sabem que o sublime crioulo fascina a mulher bonita. As mais lindas garotas estavam lá. Mas falei em festa do futebol e, realmente, foi muito mais do que isso. Era uma festa nacional, a festa do povo, a festa do homem. Na fila dos elevadores, o meu primeiro olhar descobriu a grã- fina das narinas de cadáver. Vocês entendem? Ela continua não sabendo quem é a bola. Mas o que a magnetizava era Pelé como homem, mito e herói. Bem sabemos que futebol é um esforço coletivo. São os times que ganham, perdem ou empatam. Mas no caso de Pelé, foi um só. Só ele marcou os mil gols. Nunca se viu nada parecido no mundo. É uma glória maravilhosamente individual, maravilhosamente solitária. Some-se a isto os gols que ele deu na bandeja, gols dos quais ele foi o co-autor, ou melhor, foi mais autor do que o autor. Um passe genial vale como um gol. Muitos lamentam que tenha sido de pênalti. Meu Deus do céu, e daí? Na sua penetração fulminante, tinha batido toda a defesa adversária. Ia entrar com bola e tudo. E sofreu o pênalti. Não foi um companheiro, mas ele próprio quem foi derrubado. Não queria cobrar. Mas seus companheiros fizeram uma greve linda contra o pênalti. Ninguém tocaria na bola. E, então, 100 mil pessoas, na gigantesca cadência coral, começaram a exigir: — “Pelé, Pelé, Pelé!”. Uma das que mais se esganiçavam era a grã-fina das narinas de cadáver. Uma louríssima suspirou, arrebatada: — “Com esse eu me casava!”. Mas vejam como o grande acontecimento tem a paisagem própria. Como já escrevi, Austerlitz não podia ser disputada num galinheiro. Foi isso que eu disse, quando o Santos jogou no campo do Esporte Clube Bahia. É óbvio que, depois do Estádio Mário Filho, todos os campos pequenos se tornaram galinheiros irremediáveis. O Pacaembu, por exemplo, é um galinheiro.

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O campo do Botafogo, do Fluminense, do Parque Antártica, e centenas, milhares de outros campos obsoletos, são outros tantos galinheiros. É aqui e, repito, é no Estado Mário Filho que Pelé teve os seus grandes dias e as suas grandes noites. O próprio crioulo sabe que é muito mais amado aqui do que em São Paulo. Quando a bola foi colocada na marca do pênalti, criou-se um suspense colossal no estádio. O meu colega e amigo Villas-Bôas Corrêa, que não tem nada de passional, estava comovido da cabeça aos sapatos. A louríssima, por mim citada, sentia-se cada vez mais noiva de Pelé. O marido, ao lado, parecia concordar com o noivado e dar-lhe sua aprovação entusiástica. Eu não sei como dizer. Mas estávamos todos crispados de uma emoção, um certo tipo de emoção, como não conhecíamos. Ao que íamos assistir já era História e já era Lenda. Imaginem alguém que fosse testemunha de Waterloo, ou da morte de César, ou sei lá. No ex-Maracanã, fez-se um silêncio ensurdecedor que toda a cidade ouviu. No instante do chute, a coxa de Pelé tornou-se plástica, elástica, vital, como a anca de cavalo. Mas havia alguém contracenando com ele no quinto ato da batalha. Era o formidável goleiro argentino Andrada. Em qualquer hipótese, ele ia se tornar uma figura histórica: — defendendo ou não. E quando Pelé estourou as redes, o Estádio Mário Filho voou pelos ares. Desde Pero Vaz de Caminha, nenhum brasileiro recebera apoteose tamanha. De repente, como patrícios do guerreiro, cada um de nós sentiu-se um pouco co-autor do feito. Pelé voou, arremessou-se dentro do gol. Agarrou e beijou a bola. E chorava, o divino crioulo. Cem mil pessoas, de pé, aplaudiam como na ópera. Depois, assistimos à volta olímpica. Pelé com a camisa do Vasco, Naquele momento éramos todos brasileiros como nunca, apaixonadamente brasileiros. 4 Complexo de Vira-Latas Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: — “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto: — não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

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Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: — “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício. Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: — eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex- fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho. A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: — temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?”. Eu explico. Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem

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do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos. Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão. Crônicas de Juca Kfouri 1 Futebol de Popstars O futebol mudou. Se foi para melhor ou para pior, é o que menos importa. Importa que mudou, e é com esta nova realidade que teremos de conviver. Quem joga futebol de primeira linha não é mais simplesmente um atleta. É celebridade, popstar. Os Ronaldos, por exemplo, além de um bom nome para um conjunto de rock, estão para o futebol assim como Michael Jackson está para o showbiz. Antes de mais nada, a cabeça de cada um está voltada para seu próprio umbigo. O coletivo vem depois, quando vem. Interessa, em primeiro lugar, o patrocinador, o anunciante, porque, por maior que seja o salário pago pelos clubes, a maior fonte de renda vem dos anúncios. O melhor exemplo é o Real Madrid, cada vez menos um clube esportivo, cada vez mais uma agencia que põe suas estrelas a serviço da economia globalizada. Perder um campeonato é ruim muito menos pela tristeza da derrota do que pelos prejuízos à imagem dos garotos propaganda, que não têm pudor de emprestá-la nem mesmo para fazer campanhas de bebidas alcoólicas. A seleção brasileira na Copa do Mundo de 2006 foi claramente atingida por este novo estado de coisas. Uma espécie de sucursal do Real Madrid (Roberto Carlos, Ronaldo, Robinho, Cicinho), a CBF virou grife menor, e como sabia que o hexa não era mesmo para o seu bico (não foram poucos os jogadores a membros da comissão técnica que, em particular, reconheciam tal impossibilidade) em gramados europeus- onde a nike manda menos e está faro da decisão- , tratou de incentivar recordes, como os de Cafu e Ronaldo.

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Razão pela qual até faz sentido a entrega apática diante dos franceses. Que, é claro, também tem seus popstars, além de, como disse Henry, terem melhor formação cultural e, certamente, vínculos mais estreitos com seus países e seus torcedores, pela proximidade, impossível aos nossos, da convivência. Assim como Luxemburgo sucumbiu diante desta nova realidade no Real Madrid, Parreira a entendeu como líder de celebridades milionárias. 2 Ah, eu sou brasileiro! Cada vez me irrita mais os bairrismos. Mesmo sabendo que trata-se de uma luta perdida, porque a irracionalidade e a estupidez são cada vez mais majoritárias nesta sociedade sem face e sem valores para valer. “Ah, eu sou gaúcho”, gritam no Olímpico, como se significasse dizer “ah, eu sou honesto”, “ah, eu sou inteligente”, “ah, eu sou trabalhador”, “ah, eu sou branca”. Qual é a vantagem de ser gaúcho, paulista carioca ou mineiro? Se gritassem “ah, eu sou gremista” ou “ah, eu sou colorado”, ou “ah, eu sou petista” daria para entender. São escolhas clubísticas ou partidárias e é natural que o corintiano se sinta mais privilegiado que os demais ou que o comunista se tenha na conta de mais generoso que seus adversários. Mas gaúcho, nordestinho ou goiano, que vantagem Maria leva? E num jogo da seleção brasileira?! Ainda se fosse da seleção gaúcha, tudo bem, valeria o provincianismo. E sabe quantos gaúchos estavam em campo com a camisa da seleção? Apenas um! E bem o Tinga, porque até o Eduardo Costa é catarinense. No fundo, no fundo, esse tipo de manifestação revela antes um certo sentimento de inferioridade do que de outra coisa qualquer.

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Porque é inimaginável o Maracanã gritar “ah, eu sou carioca” ou o Morumbi cantar “ah, eu sou paulista”. E não é porque cariocas e paulistas sejam menos bairristas, diga-se. É porque têm mais senso do ridículo e porque são menos arrogantes, convencidos de uma superioridade que não possuem. É compreensível quando o nordestino, por exemplo, reclama, porque, sem duvida, ele é vítima de um preconceito idiota chamado “sul maravilha”, que é conceito muito além da geografia. Se o patriotismo não é necessariamente os refúgios dos canalhas, como alguém já exagerou ao defini-lo, o bairrismo é uma pueril manifestação de quem se julga superior simplesmente por ter nascido aqui ou acolá, algo que não resiste a nenhuma análise. Basta dizer que o maior jogador gaúcho de todos os tempos é catarinense e o maior craque paulista da história é mineiro. Um é loiro e o outro é negro. Um se chama Paulo Roberto Falcão e o outro Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. E ambos se orgulham, muito, de ser brasileiros. E basta. 3 Lula, o cartola Às vésperas da assinatura das duas primeiras leis do governo Lula (o Estatuto do Torcedor e a chamada Lei da Moralização do Futebol) recebi um telefonema do chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Ele queria saber se eu iria à cerimônia, no Palácio do Planalto. Respondi que não. E ouvi dele que o presidente ficaria feliz se eu fosse. Fui. Surpreso, ouvi o presidente, na abertura de seu discurso, dizer textualmente: “Nunca mais quero ouvir o Juca Kfouri dizer que no Brasil o torcedor é tratado como gado.” E, no fecho, o ouvi dizer, não me recordo exatamente das palavras, que a minha presença ali significava um desagravo a todos os jornalistas que foram “perseguidos e processados” por lutar por um esporte limpo no Brasil.

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Era um Lula alegre, leve e solto. Estávamos em maio de 2003 e, admito, ingenuamente, voltei para São Paulo feliz da vida. Poucos anos depois, pouca coisa mudou. Os torcedores continuam a ser tratados como gado e o nosso esporte é tão sujo como então. Mas, sem dúvida, uma mudança houve e foi radical, estridente, calamitosa, escandalosa, brutal: Lula virou cartola de futebol. Um Lula rancoroso e com a má consciência de quem, enfim, mergulhou seu governo na vala comum dos que o antecederam. A ponto de inocentar os cartolas da CBF e dos clubes e afirmar que a culpa do estado de coisas em nosso futebol é nossa, de todos. Que ele não queira assumir responsabilidades que são dele é compreensível porque, afinal, nunca soube de nada, nunca viu nada, nunca fez nada. Mas dividir culpas que têm endereço certo com quem nada tem a ver com isso é demais. Na cerimônia de assinatura da Timemania, entre outras pérolas, Lula perguntou e respondeu: “Como é que a Espanha chegou ao que chegou? Como é que a Itália chegou aonde chegou? Dizer: “Mas, no Brasil, é porque os dirigentes não são honestos”, é a coisa mais simples, é você jogar a pecha de desonesto em cima de alguém. A Itália, que é esse monstro sagrado do futebol, que já está quase perto do Brasil na conquista de Copas do Mundo, todo dia a gente tem uma denúncia no jornal, entretanto, o futebol não perde o profissionalismo.” Pois é, presidente. Na Itália, time cai por causa da desonestidade. Na Espanha, cartola é preso pelo mesmo motivo. Aqui, seu discurso está sendo aplaudido de pé por Edmundo Santos Silva, ex-cartola impune do Flamengo, aquele que reconheceu na CPI do Futebol que não era um “criminoso comum”. E Alberto Dualib, o presidente do seu Corinthians, só não esteve de corpo presente para também aplaudi-lo porque negocia em Londres com a máfia russa para trazer mais dinheiro e cobrir os rombos de sua danosa gestão.

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Foi para essa gente que está criada a Timemania, sem nenhuma contrapartida que exija mudança estrutural no modelo de gestão ou na responsabilização individual dos cartolas. “Eu sei que tem muita gente que faz crítica, tem muita gente que fala em clube-empresa com uma facilidade, é tudo muito fácil na teoria”, discursou Lula, diante da concordância agora entusiasmada de Mustafá Contursi, eminência parda do Clube dos 13 e responsável pelo rebaixamento do gigante Palmeiras tempos atrás. Mas, mais do que isso: cartola que só não criou uma empresa sua para ficar com o Palmeiras porque a “Folha” descobriu e denunciou. Meu raro leitor: fique você sem pagar seus impostos. Quem sabe o governo não lhe dê uma loteria para pagá-los? 4 O rabo de cavalo e o ninho de rato Ganhar ou perder faz parte do esporte e dos chavões da vida. Quase redundância. Sem educação, saúde e política esportiva, ganhar é sinônimo de surpresa num país como o Brasil, fora as exceções de praxe. Perder é a regra e, a rigor, não tem maior importância se houvesse pelo menos um esforço no sentido de pensar o esporte como fator de saúde pública (cada dólar investido no esporte economiza três na saúde pública, segundo a Organização Mundial da Saúde) e de inclusão social. Mas qual! Verdade que nunca antes neste país se investiu tanto em esporte, mas só no de alto rendimento. Quase R$ 1,2 bilhão no último ciclo olímpico, graças a leis como a Lei Piva e a lei de incentivo ao esporte, além dos diversos convênios com empresas estatais do tipo Banco do Brasil, Correios, Caixa Econômica Federal etc. Dividido por 15 medalhas, o mesmo número ganho em Atlanta, 12 anos atrás, cada medalha custou cerca de R$ 79 milhões, para nem falar que as três de ouro foram menos que as cinco de Atenas. Porque isso, de fato, é o de menos. Ficar atrás no quadro de medalhas de países ainda piores como Jamaica, Quênia ou Etiópia é tão circunstancial como ficar adiante da Nova Zelândia, da Suécia ou do Chile.

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Porque o Brasil não é pior que o trio que o superou nem muito menos melhor do que o que ficou atrás, simplesmente porque os primeiros também têm seus fenômenos e os últimos têm outras prioridades. Terrível mesmo, além de ver os sucessivos governos brasileiros cúmplices dos cartolas, é pegar um como o sr. Carlos Nuzman em meio às mentiras patéticas que tentou nos enfiar goela abaixo em seu balanço pós-Pequim, quando quis provar que o desempenho brasileiro cresceu. Só se for como o crescimento de rabo de cavalo. Tudo, é claro, para pedir ainda mais recursos e para incrementar a campanha pelos Jogos Olímpicos no Brasil, em 2016, com a anuência, também, do domado Rei Pelé. Certo está o jornalista Fernando Victorino, da “ESPN Brasil”, que inspirado no Ninho de Pássaro, de Pequim, propôs um Ninho de Rato para o Rio de Janeiro, para que nossos cartolas não se sintam deslocados, peixes fora d’água. Porque chega a ser acintoso, um deboche mesmo, que Nuzman, desde 1995 na presidência do Comitê Olímpico Brasileiro, nos impinja discurso tão desqualificado, incapaz de buscar soluções, porque as soluções que busca se limitam às que atendam ao seu bem-estar, mordomias e privilégios. Papagaio de pirata em cada medalha conquistada, Nuzman foi sumindo dia após dia em que os resultados por sorte ou por azar não vinham, porque o acaso não é aliado dos incompetentes, para dizer o mínimo. Como o digníssimo ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., que sumiu, qual um avestruz ou como a vara de Fabiana Murer, embora tenha um discurso quase impecável, a léguas de distância da prática, mais para Jadel Gregório do que para Maurren Maggi. E não é que depois de ter tentado vetar a ida da psicóloga do vôlei feminino, Nuzman quer agora que cada delegação leve uma? Mas nem Freud explica este país da rapaziada bronzeada.

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