You are on page 1of 2

Nobel para a Telomerase – a enzima da imortalidade celular

Rejuvenescer o nosso corpo? Talvez... Mas primeiro aniquilar o flagelo do cancro
2009-10-05

Por Miguel Godinho Ferreira *

Miguel Godinho Ferreira

O prémio Nobel da Medicina e Fisiologia do ano de 2009 foi atribuído conjuntamente a Liz Blackburn, Carol Greider e a Jack Szostak pela descoberta da enzima telomerase e dos telómeros como protectores das extremidades dos cromossomas. Esta é uma história de como uma questão da biologia fundamental pode ter impacto na medicina e trazer tanta esperança em áreas como o cancro, células estaminais e o envelhecimento. É também o validar da ciência baseada em “organismos modelo” tais como os ciliados (seres microscópicos unicelulares comuns nos nossos rios) e as leveduras (que todos conhecemos do fermento do pão, da cerveja e do vinho). A esperança gerada por esta descoberta e por outras que a seguiram estão a materializar-se hoje em vacinas e fármacos contra o cancro que estão em fases I e II de ensaios clínicos. Dentro de poucos anos, teremos certamente novos tratamentos menos tóxicos no combate a esta doença que nos afecta a todos. *Investigador principal e responsável pelo Laboratório dos telómeros e Estabilidade do Genoma do Instituto Gulbenkian de Ciência Desde os anos 30 que se reconhecia uma função especial das extremidades dos cromossomas. As pontas dos cromossomas estavam protegidas por estruturas a que se deram o nome de telómeros. Mas foi com a descoberta da estrutura do ADN que os telómeros saltaram para a ribalta. O problema que surgiu era simples: se as enzimas que sintetizam o ADN necessitam de uma cadeia molde pré-existente, o que acontece quando chegamos ao fim do molde nos telómeros? Percebeu-se, então, que o ADN não é totalmente sintetizado cada vez que é de duplicado, perdendo sequências todas as vezes que as células se dividem. Consequentemente, as divisões celulares entrariam em declínio se não se repusessem as extremidades dos cromossomas. Este problema (conhecido por “end replication problem”) foi solucionado por uma hipótese revolucionaria proposta por Liz Blackburn: talvez houvesse nas células uma enzima especializada para os telómeros que possuía o seu próprio molde. Assim, após cada ciclo de

anfíbios. Quanto ao futuro?. a telomerase é hoje alvo de estudo de companhias farmacêuticas que pretendem inibir a sua actividade em cancros. a telomerase pode ser utilizada como factor de diagnóstico no despiste precoce do cancro. porque esse – sem duvida – será a consequência da activação desregrada da telomerase em células normais. Mas mais importante. A combinação dos estudos bioquímicos em ciliados levados a cabo por Liz Blackburn e Carol Greider aliados aos estudos genéticos em leveduras conduzidos por Jack Szostak e Vicki Lundblad levaram à identificação da telomerase como a enzima (quase) universal que sintetiza as extremidades dos cromossomas. aves e mamíferos – todos partilhamos cromossomas que terminam em telómeros constituídos por curtas sequencias da ADN quase idênticas sintetizadas pela enzima telomerase. São extremamente raros os marcadores moleculares comuns a todos os tipos de cancro e a telomerase é um deles. Das leveduras aos homens passando pelas amebas.. . cogumelos. a dita “telomerase” sintetizaria novas sequências restabelecendo o tamanho prévio dos cromossomas. Esperamos com grande antecipação um tratamento que. Possuímos vacinas e fármacos capazes de inibir a telomerase que já demonstraram grande eficácia na inibição da proliferação de células tumorais. Mas com toda a segurança teremos que aniquilar primeiro o flagelo do cancro. terá como alvo exclusivo as células tumorais.replicação de ADN. insectos. ao contrario de quase a totalidade das terapias correntes.. Mas qual é a relevância deste estudo interessante vindo da ciencia fundamental? A relevância veio quando se verificou que a telomerase estava entre os factores que distinguem as células tumorais das células normais que lhe deram origem. plantas.. não induzindo a toxicidade generalizada no organismo humano. Teremos terapias baseadas na telomerase para rejuvenescer o nosso corpo? Talvez. Estudos clínicos mostram que 90% de todos os tumores expressam telomerase e provêm de células normais que não a possuiam. Assim..