O ADVOGADO DO DIABO MORRIS WEST

CAPÍTULO I A sua profissão consistia em preparar outros homens para a morte; por isso, chocou-o estar tão mal preparado para a sua própria morte. Era um homem razoável e a razão dizia-lhe que a sentença de morte de um homem vem escrita na palma da mão desde o dia em que nasce; era um homem frio, pouco agitado por paixões, de maneira alguma avesso à disciplina, embora o seu primeiro impulso fosse agarrar-se desesperadamente à ilusão de imortalidade. O recato da morte mandava que se apresentasse discretamente, de rosto velado e mãos ocultas, à hora a que menos fosse esperada. Devia aproximar-se lenta e suavemente como seu irmão, o sono - ou rápida e violentamente como a consumação do acto de amor, para que o momento da rendição fosse de acalmia e saciedade, em vez de uma separação violenta entre o espírito e a carne. O recato da morte. Era por isso que os homens aspiravam vagamente, rezando por ela como se estivessem dispostos a tal - lamentando-se amargamente quando sabiam que Ihes seria negada. Blaise Meredith lamentava-o naquele momento, ali sentado, desfrutando o ameno sol primaveril, observando os cisnes em lenta procissão pela Serpentine, os casais de namorados na relva, os caniches que, levados pela trela, trotavam com enfado ao longo dos carreiros, atrás das saias esvoaçantes das donas. No meio de toda aquela vida - a relva farta, as árvores repletas de seiva nova, o balancear dos crocos e dos narcisos silvestres, os languidos jogos amorosos dos jovens, o vigor dos mais velhos que também por ali passeavam - somente ele, ao que parecia, fora marcado para morrer. Não havia que confundir a urgência ou a determinação do mandato. Estava escrito, para todos quantos o desejassem saber, não nas linhas da palma da sua mão, mas sim na folha quadrada da radiografia, onde uma pequena mancha cinzenta revelava a sua sentença. - Carcinoma! - O dedo brusco do cirurgião demorara-se um instante no centro da mancha cinzenta, depois movera-se para fora dela, traçando a expansão do tumor. - De crescimento lento mas de implantação bem definida. Tenho visto demasiados para haver possibilidades de me enganar com este. Ao observar o pequeno ecrã translúcido e o dedo que se movimentava atrás dele, Blaise Meredith dera-se subitamente conta

da ironia da situação. Toda a sua vida fora passada a confrontar os outros com a verdade acerca de si próprios, as culpas que os perseguiam, as concupiscências que os desgastavam, as loucuras que os diminuíam. Agora olhava para as suas próprias entranhas, onde uma pequena malignidade estava a crescer como uma raiz de mandrágora, até chegar o dia em que o destruiria. Reunindo toda a calma de que foi capaz, perguntou: - É operavel? O cirurgião desligou a luz que iluminava o ecrã, fazendo a pequena mancha cinzenta diluir-se na opacidade; em seguida sentouse, ajustou o candeeiro da secretária de maneira a fazer que o seu rosto ficasse na penumbra e o do paciente fosse iluminado como uma cabeça de mármore num museu. Blaise Meredith reparou no pequeno artifício e compreendeu. Ambos eram profissionais. Cada um deles lidava, à sua maneira própria, com o animal humano. Ambos deviam preservar um distanciamento clínico que Ihes permitisse refrear uma entrega excessiva, para não os tornar tão vulneráveis e apavorados como os seus pacientes. O cirurgião recostou-se na cadeira, pegou numa faca de papel e segurou-a com a mesma delicadeza com que manusearia um bisturi. Aguardou um momento, reunindo as palavras, escolhendo esta, recusando aquela, para depois as dispor num modelo de precisão meticulosa. - Sim, pode ser operado. Se o fizer, dentro de três meses estará morto. - E se não for operado? - Viverá um pouco mais, mas, também, morrerá com um pouco mais de sofrimento. - Quanto tempo mais? - Seis meses. Doze no máximo. - É uma escolha difícil. - Tem de ser o próprio a fazê-la. - Compreendo. O cirurgião descontraiu-se na sua cadeira. O pior já passara. Não se enganara em relação àquele homem. Ele era inteligente, ascético, controlado. Sobreviveria ao choque e acomodar-se-ia ao inevitável. Quando a agonia principiasse, suportá-la-ia com uma certa dignidade. A sua Igreja protegê-lo-ia das necessidades e enterrá-lo-ia com honras quando chegasse a hora; e, se não houvesse ninguém para o chorar, também o facto poderia ser considerado como a compensação derradeira do celibato, o abandono discreto da vida sem lamentar os seus prazeres ou recear as

suas obrigações por satisfazer. A voz calma e inexpressiva de Blaise Meredith atalhou-lhe os pensamentos: - Pensarei no que me disse. No caso de não me decidir pela operação, regressando ao meu trabalho, importar-se-ia de me passar um relatório para eu apresentar ao meu médico local? Um prognóstico completo, uma receita, talvez? - Com todo o gosto, Monsenhor Meredith. Trabalha em Roma, não é verdade? Infelizmente não escrevo em italiano. Blaise Meredith permitiu-se um ligeiro sorriso gelado. - Eu próprio o traduzirei. Será uma tarefa interessante. - Admiro a sua coragem, monsenhor. Não partilho da fé de Roma ou de qualquer outra, mas imagino que encontre nela uma grande consolação para uma altura destas. - Espero encontrar, doutor - retorquiu Blaise Meredith, com simplicidade - mas sou padre há demasiado tempo para contar com tal. Naquele momento encontrava-se sentado num banco de jardim, ao sol, com o ar impregnado de Primavera e o futuro reduzido a uma perspectiva breve e vazia a projectar-se na eternidade. Certa vez, nos seus tempos de estudante, ouvira um velho missionário pregar sobre o ressuscitar de Lázaro de entre os mortos- como Cristo se erguera diante da tumba fechada e Lhe ordenara que se abrisse, fazendo que o odor da podridão se espalhasse no ar parado e seco do Verão; como Lázaro obedecera ao apelo, aparecendo, a tropeçar na mortalha e detendo-se ao sol, a pestanejar. Que teria ele sentido naquele momento? perguntara o velho. Que preço tivera de pagar para regressar ao mundo dos vivos? Teria ele ficado para sempre mutilado, de modo que cada rosa Lhe cheirasse a matéria em decomposição, cada jovem loura não passasse, aos seus olhos, de um esqueleto bamboleante? Ou caminharia maravilhado pela novidade das coisas, com o coração enternecido de piedade e amor pela família humana? A reflexão interessara Meredith durante anos. Em determinada altura ocorrera-lhe a ideia de escrever um romance acerca do assunto. Agora, finalmente, tinha a resposta. Nada era mais doce ao homem do que a vida; nada Lhe era mais precioso do que o tempo; nada mais reconfortante do que o toque da terra e da erva, o sussurro do ar em movimento, o cheiro das florescências novas, o som das vozes e do tráfego e o canto harmonioso dos pássaros. Era isso que o perturbara. Há vinte anos que seguia a carreira do sacerdócio, solenemente devotado

à asserção de que a vida era uma imperfeição transitória, a Terra um símbolo indistinto do seu Criador, a alma imortal no seu invólucro mortal, debatendo-se numa ânsia para se libertar e entregar nos braços protectores do TodoPoderoso. Agora, que a sua própria libertação lhe fora garantida, a sua data determinada, porque não seria ele capaz de a aceitar, se não com alegria, pelo menos com confiança? A que se apegava ele que não tivesse de há muito rejeitado? Uma mulher? Um filho? Uma família? Não havia ninguém vivo que lhe pertencesse. Posses? Eram bastante modestas - um pequeno apartamento perto da Porta Angélica, uns quantos objectos de ornamento, um quarto cheio de livros, um salário modesto que lhe era dado pela Congregação dos Ritos, a renda anual que sua mãe lhe deixara. Nada que tentasse um homem a manter-se afastado do limiar da grande revelação. Carreira? Talvez houvesse algo aí - auditor da Sagrada Congregação dos Ritos, assistente pessoal do próprio prefeito, o cardeal Eugenio Marotta. Era uma posição de influência, de confiança lisonjeira. Estava-se na sombra do pontífice. Observavam-se os meandros intrincados e subtis de uma grande teocracia. Usufruía-se de um conforto simples. Dispunha-se de tempo para actuar livremente dentro dos limites da política seguida e da discrição. Algo aí... mas não o suficiente - não o suficiente, de longe, para um homem que ansiava pela união perfeita que pregava. Talvez fosse esse o âmago da questão. Ele nunca ansiara por nada. Tivera sempre o que desejara e nada mais havia desejado além do que Lhe fora propiciado. Aceitara a disciplina da Igreja, e a Igreja proporcionara-lhe segurança, conforto e possibilidade de expandir os seus talentos. Atingira a satisfação num grau superior ao que era permitido à maioria dos homens - e, se nunca pedira felicidade, fora porque nunca fora infeliz. Até àquele momento... até àquele momento desolado ao sol, ao primeiro da Primavera, e, para Blaise Meredith, a derradeira. A derradeira Primavera, o último Verão. A ponta última da vida mastigada e sugada como uma cana-de-açúcar, depois atirada para cima do monte de lixo. Aí havia a amargura, o sabor azedo do fracasso e da desilusão. Que mérito poderia ele registar e levar consigo para o julgamento? Que deixaria ele para trás que os homens o recordassem? Nunca tivera um filho, nem plantara uma árvore, nem

altura em que o médico italiano fizera o seu primeiro diagnóstico hesitante. não dispensara a caridade. as libações servidas no pub revestido de madeira de carvalho que ficava em frente do portão do cemitério. Na Itália. preferia ouvir a sentença pronunciada na sua própria língua. Já que o seu tempo de vida devia ser encurtado. onde a morte era mais familiar e amigável. Quando adoecera. Também este aspecto demonstrava agora não passar de uma ilusão. tudo teria um aspecto mais delicado . Nenhum pobre o abençoaria pelo seu pão. decidira instintivamente regressar a Londres. escutar o canto elegíaco dos rouxinóis na sombra das velhas igrejas. de não representar nenhuma defesa contra o inimigo insidioso e obscuro que se entrincheirava no seu próprio ventre. então desejava passar o que dele Lhe restava no ar suave da Inglaterra. Não espalhara a cólera. O mérito que porventura houvesse florescido do seu ministério era sacramental. vazio. a água tremeluzente do lago. De repente sentiu-se aterrorizado. plumas que se agitavam e ataúdes negros barrocos passando em frente de palácios de estuque para as criptas funéreas de mármore do campo santo. de um engano patético. a sepultura aberta na relva aparada. porém. morreria. em Roma. O terror esvaiu-se e a tranquilidade voltou de novo.colocara uma pedra em cima de outra para construir uma casa ou um monumento. Do corpo brotou-lhe um suor frio. e passado um mês o seu nome não passaria de um grão de poeira à deriva no deserto dos séculos. Os calafrios abrandaram lentamente. e não pessoal. Não tinha possibilidade de escapar-lhe. A razão dominou-o e começou a reflectir sobre a maneira como devia organizar a sua vida para o resto do tempo de que dispunha. entre lápides gastas pelo tempo. dramática . a morte era severa. As mãos começaram a tremer-lhe e um grupo de crianças que estivera a jogar à bola perto do banco afastou-se do clérigo descarnado e de rosto lívido que ali estava sentado a fitar.as orações murmuradas discretamente numa nave normanda. passear-se pelas colinas verdejantes e pelos bosques de faias. de olhos fixos e ausentes. nenhum pecador pela sua salvação.um final de grande ópera com coros lamurientos. Ali. nenhum doente pelo seu estímulo. Já que tinha de ser condenado. da mesma maneira que não . porque os Ingleses tinham passado séculos a ensinar-lhe boas maneiras. O seu trabalho ganharia anonimamente bolor nos arquivos do Vaticano. na Inglaterra. Fizera tudo quanto Lhe fora exigido.

regressaria todas as noites ao seu apartamento na Porta Angélica. . uma espécie de suicídio provavelmente justificável para os moralistas. Importar-se-iam aqueles mortos com o que ele escrevesse sobre eles? Importar-se-iam que um estatuto recente lhes permitisse usar uma auréola ou que os impressionistas fizessem circular um milhar de bentinhos com o seu rosto na parte da frente e as suas virtudes na de trás? Sorririam perante os seus biógrafos condescendentes ou mostrariam má cara aos seus detractores oficiais? De há muito que tinham morrido e sido julgados. uma nova peregrinação.conseguia fugir à convicção de que falhara como padre e como homem. Um novo culto. ouviria confissões de algum colega em férias. em Roma. Que fazer então? Submeter-se à faca? Acabar imediatamente com a agonia. aquela última poderia levá-lo à falência completa. um papa novo pudesse proclamar em São Paulo que mais um santo fora acrescentado ao calendário hagiográfico. há muito falecidos. pregaria ocasionalmente na Igreja inglesa. porque fora menos que heróico. Ou que meio século depois. Voltar ao trabalho? Sentar-se à velha secretária debaixo do tecto abobadado do Palácio das Congregações. Tudo o resto eram adendas. mas que a consciência nunca poderia verdadeiramente perdoar? Já não eram poucas as contas que tinha de saldar. Abrir os vastos manuscritos onde as vidas. Pôr as suas virtudes em causa e lançar novas dúvidas sobre as maravilhas atribuídas. obras e escritos dos candidatos à canonização. porque já o tinha pronto . sacerdote. Fazer mais apontamentos em novo manuscrito. post-scriptum dispensável. abreviar o medo e a solidão até um limite admissível? Não representaria aquele gesto um novo fracasso. era esse o seu trabalho e devia realizá-lo. dissecá-los. Examiná-los. analisar e anotar. canonista. ia ler um pouco. uma nova missa na liturgia. poderia trabalhar doze meses ou doze anos nos seus registos sem acrescentar nada de nada à sua felicidade ou um único castigo à sua condenação eterna. menos que sábio nas suas virtudes. tal como ele não tardaria a morrer e a ser julgado. No entanto. filósofo.e porque se sentia demasiado fatigado para iniciar qualquer outro. Blaise Meredith. Com que finalidade? Para que mais um candidato às honras canónicas pudesse ser rejeitado. não os afectariam absolutamente nada. Diria missa todos os dias. talvez dois séculos. estavam registados pela mão de incontáveis escribas. cumpriria a tarefa quotidiana que lhe cabia no Palácio dos Congressos.

com a maior rapidez e facilidade que Lhe fossem possíveis. Encaravam os santos com desconfiança e os místicos com prudência e estavam meio convencidos de que Deus Todo-Poderoso era da mesma opinião.. A seguir juntar-se-ia aos anónimos e seria esquecido nas comemorações gerais. Encontrava-se sentado num banco duro em frente . Aldo Meyer tinha. Durante doze meses. uma preocupação muito particular.rezar os seus ofícios. Contavam que um homem trabalhasse sobriamente para a sua salvação ou se condenasse com discrição. Era tempo de partir. depois debater-se-ia ao longo das noites agitadas até às manhãs amargas. passando a fazer parte de "todos os fiéis defuntos". Os namorados sacudiam as ervas dos casacos e as raparigas alisavam as saias. Todas as probabilidades eram contra ele. As crianças seguiam. mesmo na hora do seu monte das Oliveiras privado. como a firmar-se nas próprias pernas.mas Aldo Meyer era demasiado refinado e inteligente para a apreciar. com um pescoço e um traseiro bovinos e uns seios que faziam lembrar melões. que lidasse com a bebida como um gentleman e guardasse os seus problemas para si próprio. contrariadas. e a seguir caminhou firmemente em direcção à Brompton Road. de efeitos garantidos no afogamento da mágoa mais renitente . O Dr. Levantou-se rigidamente do banco. A bebida não passava de uma grappa ardente. naquela amena noite mediterrânica. A sua companhia era um proprietário rural abrutalhado e uma rapariga montanhesa bem nutrida. atrás de pais de má catadura. Era tempo de Monsenhor Blaise Meredith arrumar os seus pensamentos conturbados e compor as suas feições afiladas num sorriso cortês para participar no chá do administrador em Westminster.. de pedra. O local onde bebia era uma sala baixa. Os cisnes voltavam apressadamente ao abrigo das pequenas ilhas. Os Ingleses eram um povo educado e tolerante. ao longo dos carreiros. Durante uma semana pronunciariam o seu nome nas missas. sentiase satisfeito pelo facto de as convenções o obrigarem a esquecer-se da sua pessoa e a participar nas conversas dos colegas. no meio do ruído monótono da hora de ponta do trânsito londrino.. "o nosso irmão Blaise Meredith". Depois morreria. deixou-se ficar de pé durante um longo momento. a retesar o tecido sebento do vestido preto. Meredith.. com chão de terra batida que tresandava a vinho azedo. Tentava embriagar-se . Naquela altura já fazia frio no parque.

tal como Blaise Meredith. A rapariga. ainda mais de Londres. também encarava a bem-aventurança com apreensão. Contudo. com um coto de vela gotejante ao lado. Faltava-lhe um ano para completar os cinquenta. sobre a qual se inclinava. apesar do seu cepticismo. no entanto continuava a ser um estranho. cuja mulher estava em trabalho de parto havia dez horas. Envergava um fato citadino fora de moda. Gemello Minore encontrava-se muito longe de Roma. que contrastava estranhamente com a grosseria do que o rodeava e a vitalidade rude da rapariga e do padrone. no entanto os sapatos apresentavam-se engraxados e a camisa de linho limpa. à medida que o álcool barato se apossava dele. mas calosas como as de um operário. observando-o de soslaio e desconfiados. conversando em voz baixa e passando uma garrafa de vinho de mão em mão. com excepção dos pingos recentes de grappa que a tinham salpicado. A parteira mostrava-se desesperada e o quarto estava cheio de mulheres que cacarejavam como galinhas. Era como se estivesse à espera de que algo acontecesse antes de se render finalmente ao esquecimento. para depois voltar a gemer debilmente passados estes. os homens formavam um grupo. palitando os dentes com um pequeno pau e sugando ruidosamente os restos do jantar por entre as fendas. sentada num canto às escuras. com a morte e. Tinha um ar de distinção esmaecido. Tinha o cabelo branco. calaram-se. Em frente da casota. . A tasca imunda não apresentava qualquer semelhança com o Palácio das Congregações. de mangas desfiadas e lapelas lustrosas. Vivia entre eles há vinte anos. Quando chegou. ele bebera com rapidez. depois abrandara o ritmo. enquanto Maria Rossi gemia e se contorcia com os espasmos. Ao fim da tarde fora chamado a casa de Pietro Rossi. mas parecia um velho. As mãos compridas e flexíveis. naqueles momentos da sua vida tribal podia fazer-lhes falta. engolindo sofregamente. A princípio. o Dr. aguardava que o doutor esvaziasse a taça para Lha encher novamente. Os últimos dez minutos passara-os sem beber uma gota. O padrone apoiava-se no balcão do bar. enquanto Pietro Rossi o acompanhava até dentro de casa. a pele do seu típico rosto de judeu esticada sobre os ossos. Aldo Meyer preocupava-se. fitando a sua taça e traçando desenhos monótonos no líquido entornado que deslizava preguiçosamente no rasto do seu dedo.de uma mesa. porém nunca era bem-vindo.

está para breve. . Quando não conseguem curar as pessoas. à luz de vela ou de candeeiro.No quarto. . como se tivesse sido ele o seu causador. evidentemente. Isto é um bocado da sua camisa. a parteira e a mãe da rapariga mantiveram-se a seu lado.a declaração arrojada e profissional. Já fizera outras.uma mulher conflituosa. Tinha os dedos cerrados em torno dele e meteu-lho debaixo do nariz. Limitou-se a dizer: . Tenho obrigação de saber. Aldo Meyer continuou a observá-la. junto das mulheres.Não quero facas na barriga da minha filha. A perspectiva não o preocupava muito. As mulheres riram-se-lhe na cara. Três minutos depois teve a certeza de que não havia esperança de que o parto se processasse normalmente. todas as probabilidades eram a favor da paciente. cortam-nas e enterram-nas.Desta vez não. foi a mesma história: silêncio. desdentada e com olhos negros e viperinos. Houvera ocasiões em que dera resultado . . Contava com protestos. Pôs-se à frente dele. o desprezo pela sua ignorância . judeu! Sabe porquê? A mulher enfiou a mão dentro do vestido e mostrou um pequeno objecto envolvido em seda vermelha desbotada. Agora temos um santo mesmo nosso. e. morrerá por volta da meia-noite. Com a minha filha. sobre mesas de cozinha e bancos de tábuas.inquiriu. mas tive-os. os médicos são sempre os mesmos. Uma autêntica . quando surgiu novo espasmo. já que não passa de um infiel matador de Cristo. hostilidade.mas daquela vez falhou completamente. E também não precisei de um carniceiro de cavalos para os tirar cá para fora! Os gemidos da rapariga foram abafados pela revoada de risos estridentes.Se não a operar. apalpando e sondando o corpo inchado. desconfiança.Não sabe. gritando em dialecto denso: . Aquela gente era obtusa que nem mulas e duas vezes mais susceptível de entrar em pânico mas não esperava uma explosão. Desde que houvesse água a ferver e anestesia para os corpos robustos das mulheres montanhesas. Foi a mãe da rapariga quem lhe deu início . cabelo escorrido. ignorando as mulheres. Quero netos vivos.Sabe o que é? . Quando se inclinou para a enorme cama de ferro. não mortos! Vocês. de grande corpulência e musculatura. Nem todos foram fáceis. Já tive uma dúzia deles. não! Dê-lhe tempo que ela atira com este cá para fora como uma ervilha. ouviu-se um murmúrio chocado. Um a sério! Andam a tratar de canonizá-lo em Roma. Teria de fazer uma cesariana.

É nosso. quão diminuto era o poder que exercia sobre eles. mas peçam-lhe que me dê uma mão firme e à rapariga um coração forte. a sua mulher morre e o filho morre com ela. Meyer deu meia volta e enfrentou-o. A mãe da rapariga barrou-lhe o caminho para a cama. Ainda faltará muito tempo para eles começarem mesmo a discutir este caso em Roma. Acha que é capaz de fazer mais do que ele? Acha? Quem é que nós escolhemos. Meyer olhou em redor.Você. Aldo Meyer aguardou um momento. a sua mulher não chegará ao dia de amanhã com vida. Além disso. Pietro! Quer um filho? Quer a sua mulher? Então. disse-lhes simplesmente: . do que duvido seriamente. Estão todos assentes. As mulheres ergueram-se. ao mesmo tempo que a mãe se inclinava sobre a cama emitindo pequenos ruídos tranquilizadores e Lhe esfregava repetidamente a relíquia imunda em redor do ventre inchado.Se o fizer. observava o drama. mesmo que seja santo. manchada com o seu sangue. Têm sido mandados para o papa. Giacomo Nerone ainda não é santo. Ninguém se mexeu. . empurrando-o em direcção à porta. pálido. e pensou.. . escute o que lhe digo. Também ele fez milagres. Mas não conhece aquilo que Giacomo Nerone é capaz de fazer. procurando as palavras certas. . Pietro Rossi abanou teimosamente a cabeça. doutor. Rezem por ele se quiserem. tem uma vintena de pessoas na aldeia que Lhe poderão falar delas. depois de a rapariga acalmar. por amor de Deus. por baixo do cobertor.Tirar assim uma criança como se fosse da barriga de uma ovelha não é natural.relíquia viva. . Ele velará por nós. Se eu não operar imediatamente.. fitando aquela gente escura e sombria do Sul. formando um semicírculo cerrado. O rosto moreno do camponês estava branco como a parede. É melhor ir-se embora. quão mal os conhecia. ele não é um santo qualquer. desesperado. Conhece as minhas capacidades. gente? O nosso santo Giacomo Nerone ou este tipo? A rapariga que jazia no leito gritou numa agonia súbita e as mulheres calaram-se.Até mesmo um infiel sabe que contar com milagres sem tentarmos ajudar-nos a nós próprios é pecado. donde Pietro Rossi. Então. Pertence a nós. Não se pode pôr a medicina de lado e esperar que os santos nos curem. Além disso. Já não tenho muito tempo. Agora acabem com essa parvoíce e tragam-me água a ferver e lençóis lavados. Verdadeiros.

o velho liberal. Troçavam dos conhecimentos mais elementares. pão embebido em azeite e carne de cabra nos dias de festa. Os proprietários rurais para quem trabalhavam exploravam-nos. Já Lhe resta pouco tempo. O seu vinho era fraco e o milho pouco cheio e movimentavam-se com a lentidão das pessoas que comem de menos e trabalham de mais. Ele sofrera por eles. lutara por eles. era o derradeiro gesto de derrota. deixando-o depois a apodrecer numa valeta. o homem que acreditava no homem. Eram rapaces como falcões.É melhor chamarem o padre Anselmo. Era capaz de Lhes extorquir até à última moeda para um candelabro novo. se a conseguissem arranjar.mandá-los a uma clínica para tomarem injecções contra a febre tifóide. depois voltou a inclinar-se para esfregar o pequeno feixe de seda no ventre sofredor da filha. de rosto severo e em silêncio.ou não estava para aí virada . Não havia esperança para aquela gente. Ao descer pela rua de pedras redondas. As suas colinas estavam despidas de árvores e os seus terraços tinham um solo avaro donde as primeiras chuvas faziam escorrer as culturas. Comiam azeitonas. adulava-os com madonnas chorosas e bambini de traseiros rechonchudos. Viviam em casebres onde um agricultor consciencioso não albergaria o seu gado. Para Aldo Meyer. .Esboçou um gesto de resignação. Não hesitariam em Lhe comer o coração. Os seus padres . embora não pudesse melhorá-los. obcecava-os com santos. sentiu os olhos dos homens cravados nas suas costas como punhais. mas não podia . que se perdiam nas encostas pedregosas. vivera com eles e tentara educá-los. Somente a Igreja era capaz de os controlar. Ao chegar ao limiar. Contudo. voltou-se para os encarar. no entanto mantinham-se agarrados às abas dos seus casacos como crianças. mas tinham ouvido tudo e não tinham aprendido nada.mesmo apesar de ser o próprio médico a pagar o medicamento. no entanto idolatravam lendas e superstições com a mesma avidez de crianças. Atormentava-os com demónios. Fora nessa altura que decidira embriagar-se. A mãe cuspiu no chão em sinal de desprezo. As outras mulheres fitaram-no. mais depressa poriam o demónio na boca do que um comprimido de Atabrina . pegou na maleta e encaminhou-se para a porta. pasta. murmurando orações em dialecto. As mães andavam definhadas com tuberculose e os filhos exibiam ventres inchados devido à malária recorrente.

mas vivera momentos de triunfo. mas nenhum salário. apresentando-lhes a alternativa limitada de se contentarem com uma vida rústica na Calábria ou trabalhos forçados em Lipari. e o que o Estado não Lhes fornecia eles não providenciavam por si próprios. Aldo Meyer olhou fixamente para as borras escuras da sua grappa para nelas ler futilidade. Mas . Fora uma subserviência amarga. Ergueu a taça e emborcou os resíduos de uma vez só. numa altura em que os fascistas tinham reunido os semitas os intelectuais de esquerda e os liberais demasiado faladores. Chegara àquela terra na qualidade de exilado. que restaurou com as próprias mãos. Eram amargosos como absinto e não proporcionaram nenhum calor. Os camponeses pagavam-lhe em espécie. adulara e chantageara para implantar um serviço médico rudimentar numa área sujeita a uma má nutrição constante. ele fugira. e foi a custo que conseguiu arrancar às autoridades locais uma contribuição em remédios. instrumentos cirúrgicos e protecção contra um governo hostil.resvalavam frequentemente para a bebida e concubinagem. tratando-os com um desprezo tolerante. à malária endémica e à tifóide epidémica. um frasco de aspirinas e um compêndio de medicina. Nunca sacrificariam as suas horas de lazer a construir uma escola. dias em que Lhe parecera ter finalmente penetrado no círculo fechado da vida montanhesa primitiva. mas esgravatariam até ao fundo das suas minúsculas economias para encontrar liras que financiassem a canonização de um novo santo para um calendário já a rebentar pelas costuras. Se o Verão era tardio ou o Inverno rigoroso. desencanto e desespero. um saco de instrumentos. passara algum tempo em Roma. depois do armistício. Não podiam pagar a um professor. Tinham-lhe atribuído a designação irónica de médico oficial. a geada queimava as azeitonas e a fome grassava nas colinas. Não dispunham de escolas para os filhos. juntara-se aos guerrilheiros e. O seu hospital limitava-se a um quarto em sua casa. Era na cozinha que dava as consultas. Chegara com as roupas que trazia no corpo. Viveu numa casa de quinta arruinada. Quando os Aliados atravessaram o estreito de Messina e iniciaram o lento progresso sangrento pela península acima. medicamentos e anestésicos. Durante seis anos combatera e intrigara. Lavrou dois acres de terra pedregosa com a ajuda de um camponês idiota. no entanto tiravam da própria pobreza para os sustentar. quando o faziam.

. Do crepúsculo que reinava no exterior chegou um lamento prolongado de vozes femininas. . Caíra no erro de todos os liberais: a crença de que o homem está preparado para se mudar a si próprio. lamuriento como o vento pela montanha adormecida. a passo incerto. Sabia agora que não passara de uma triste ilusão. a rapariga deitou-lhe a língua de fora e benzeu-se contra o mauolhado. Fazer novos era difícil. liberdade e dinheiro podia fazer milagres. Os seus planos tinham ido por água abaixo diante da venalidade das entidades oficiais.Ela morreu . Ele vencera-se a si próprio.disse o padrone com a sua voz grossa e roufenha. pela estrada. um homem que dispusesse de boa vontade. que a verdade possui a virtude de fermentar por si só. onde se deteve a olhar para a penumbra fresca da Primavera . e os pequenos triunfos dos anos de privações tinham-no desafiado para outros maiores. De modo que regressara . desejo de introduzir melhorias. Os velhos amigos tinham morrido. que a boa vontade atrai a boa vontade. Treinaria rapazes para levarem a sua mensagem a distritos distantes. Tinham-no vencido. Lançaria as bases de um protótipo de organização para uma tentativa de cooperativismo. A rapariga e o padrone entreolharam-se e benzeram-se. do conservadorismo de uma Igreja feudal.à velha casa.ausentara-se durante um período demasiado extenso. No Sul. Doze anos atrás fora um sonho belo e renovador.Eu vou para a cama. .declarou Aldo Meyer. Bateu-lhe na porta. Ensinar-lhes-ia higiene e a conservação do solo e da água. uma organização que atraísse dinheiro de Roma para fins de desenvolvimento e dinheiro de apoio de fundações estrangeiras.Digam-no ao santo . agitou-lhe as persianas e perseguiu-o . E agora era demasiado tarde para remediar as coisas. O médico levantou-se e caminhou. Tornar-se-ia tanto professor como médico. Quando o médico se afastou. Seria um missionário do progresso numa terra onde o progresso parara três séculos antes. à velha aldeia. vacilante. levando consigo um sonho novo e uma sensação de juventude renovada. da capacidade e desconfiança de um povo primitivo e ignorante. para a porta. Acompanhou-o pela estrada de pedras até entrar em casa. O grito fúnebre subiu e desceu de tom. A névoa densa do álcool não o impedia de ver com toda a clareza.

mas a névoa do crepúsculo pairava densamente mais abaixo. rosto com papadas e a cabeça em forma de redoma e careca como um ovo sob o solidéu. contrastando com o moreno esverdeado da pele. a cidade começava a despertar do torpor da tarde. mais numerosos. para fora de São Pedro. Os títulos eram amplos. Era um homem baixo e rotundo. embora sem esforço aparente. e ainda Lhe restavam energias para as diplomacias tortuosas e as manipulações de poder que reinavam no interior da fechada cidade do Vaticano. Havia aqueles que encaravam com bons olhos a sua eleição ao papado mas havia outros. motoretas trovejantes e comerciantes a regatear. de São João de Latrão e do Coliseu. No entanto. titular de São Clemente. Os olhos cinzentos piscavam com benevolência. mas Sua Eminência ostentava-os com um bom humor e uma afabilidade que ocultavam uma inteligência subtil e uma vontade dominadora. arcebispo de Acropolis. Tinha sessenta e três anos. retomando a azáfama comercial. a boca era pequena e vermelha como a de uma mulher. comissário para a interpretação da lei canónica. protector dos Filhos de S. nas ruas estreitas. em Parioli. o ar mostrava-se límpido e as avenidas silenciosas. . com buzinas ruidosas. no Parioli. contrariados. e as paredes dos edifícios tinham uma aparência acinzentada e gasta. o poder que se erguia por trás deles também. ao cimo. prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos. os brasões de bronze sobre os lintéis lembravam aos visitantes a categoria e os títulos do cardeal Eugenio Marotta. o que é uma idade jovem para um homem alcançar o chapéu encarnado. Bem abaixo dele. enquanto Sua Eminência caminhava sob palmeiras pendentes. Trabalhava muito. o cardeal Eugenio Marotta passeava no jardim da sua villa. O sol-poente espraiava-se sobre as colinas e telhados das casas. de mãos e pés pequenos.pela noite fora. No entardecer dessa Primavera. no sono agitado e aflito. subprefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. à sua volta erguiam-se muralhas altas e portões de grades que protegiam a sua intimidade. As vendedeiras de flores aspergiam os seus ramalhetes para o derradeiro assalto dos amantes das Escadas de Espanha. no meio do odor perfumado dos jasmins em flor. José e das Filhas de Maria Imaculada e de vinte outras organizações religiosas de maior ou menor dimensão e importância no seio da Santa Igreja Católica. Os turistas arrastavam-se.

com o tapete das nações aberto a seus pés e por cima o rosto nu do Todo-Poderoso. Podia dar-se ao luxo de se descontrair. mas ainda Lhe faltava muito para morrer. A sua ascensão ao cume fora firme e progressiva. sozinho. Naquela hora de crepúsculo e jasmim. vendo o Sol a declinar sobre as colinas de Alba e reflectindo sobre as questões do dia com a atitude descontraída do homem que sabe que no fim acabará por resolvê-las todas. O bispo era-lhe vagamente conhecido como sendo um reformador rígido com tendência para a política. para além de encarar com pouca simpatia aqueles que Lhe cobiçavam o lugar. Além disso. mas o salto era grande.que defendiam a ideia de que o pontífice seguinte deveria ser um homem mais devotado às santidades. e os paroxismos da paixão não tinham para ele nenhum significado. Permaneceria cardeal até ao dia da sua morte. sabendo que mais valia não contar com altos voos. Só um louco poderia invejar-lhe o poder. Era muito mais porque não estava limitado por uma esposa. Eugenio Marotta contentava-se em aguardar o desfecho. Era mais do que um homem nos seus vigorosos sessenta anos poderia aspirar. Dois dias antes. Causara certa agitação uns anos atrás ao expulsar da ordem dois padres de província por concubinagem e ao reformar alguns dos seus pastores mais velhos por falta de . não tinha filhos e filhas para Lhe darem cabo da cabeça. menos preocupado com a diplomacia do que com a reforma da moral no seio tanto do clero como dos leigos. uma pequena diocese situada numa zona desfavorecida da Calábria. E o cardeal Eugenio Marotta de louco não tinha absolutamente nada. cidadão do estado mais pequeno e menos vulnerável do mundo. a glória e o terror de semelhante principado. bispo por uma consagração irrevogável. tinham-lhe posto sobre a secretária uma carta do bispo de Valenta. e dali nem a malevolência nem o desfavor o podiam retirar. Erguia-se sobre um pináculo açoitado pelos ventos. Chegara tão longe quanto o talento e a ambição o poderiam levar. O passo seguinte seria a cadeira de Pedro. príncipe pelo protocolo. Assim caminhava Sua Eminência pelo jardim da sua villa. tinha problemas que Lhe chegavam. O homem que usava o anel do Pescador e a tiara tripla também carregava os pecados do mundo aos ombros como um manto de chumbo. quase do meio do mundo para o vestíbulo da divindade. o sumo pontífice podia estar velho.

Esse tal Giacomo Nerone fora morto pelos guerrilheiros comunistas em circunstâncias que bem podiam ser consideradas de martírio. da parte da própria Roma. porém. mas era ali que residia o cerne do problema. de acordo com o que vinha estipulado na lei canónica . como prefeito da Congregação dos Ritos. o que lhe valera uma carta de cumprimentos do pontífice. muito mais. Investigações preliminares tinham confirmado a fama de santidade e a natureza aparentemente milagrosa das curas.demasiado simples para ser sincera e demasiado explícita para não despertar suspeitas a um veterano experimentado como o cardeal Eugenio Marotta. O bispo poderia ter um santo no seu território . Prosseguia informando que o pároco e os fiéis das aldeias de Gemelli dei Monti tinham enviado uma petição com vista à candidatura do servo de Deus Giacomo Nerone à beatificação. de dois homens sábios e piedosos . Somente os observadores mais argutos como Marotta é que se tinham dado conta de que o ligeiro aumento viera do partido monárquico.competência. Havia mais. sob a autoridade da Congregação dos Ritos. procurava conselho junto de Sua Eminência. com oficiais nomeados por si mesmo. A única forma que tinha de provar a sua santidade era através de uma investigação judicial. As estatísticas eleitorais da sua diocese tinham mostrado um desvio acentuado para os democratas-cristãos. também. e não dos comunistas. A carta do bispo era simples e explícita . assim como a sua ajuda na nomeação. martirizado pelos comunistas.um como postulante da causa. Antes de o fazer. ou advogado do Diabo. Os bispos locais eram normalmente muito ciosos da sua autonomia. o outro como promotor da fé. para organizar a investigação e levá-la por diante. primeiro na sua própria diocese e depois em Roma. as aldeias e suas cercanias tinham começado a venerá-lo espontaneamente e várias curas de natureza miraculosa eram atribuídas à sua influência. Mas os primeiros inquéritos deveriam ser conduzidos debaixo da sua própria vigilância e autoridade. Então a que se devera aquele apelo referente a Roma? O cardeal Eugenio Marotta caminhou pelos relvados . e o bispo estava disposto a autorizar a petição e a submeter o caso a um inquérito. Começava com saudações floreadas e deferências de um bispo humilde a um membro ilustre da Igreja. para submeter as provas e as testemunhas a escrutínio severo. que também tinham registado uma subida ligeira.um santo conveniente. Depois da sua morte.

que o poder divino actuava através dele para suspender ou alterar as leis da Natureza. região onde os cultos proliferam e desaparecem com a mesma prontidão. Mas uma acção prematura. Se se lograsse. Designar um homem como bem-aventurado era declará-lo um servo heróico de Deus. ele não só teria um beato mas também um bastão para dar nos comunistas. Os anticlericais acolheriam com prazer qualquer oportunidade para denegrir a Igreja e já dispunham de armas suficientes para que Lhes pusessem mais uma nas mãos. onde a imagem do Menino Jesus está pendurada à cabeceira da cama e os cornos pagãos pregados ao cimo da porta do estábulo. onde os camponeses fazem o sinal da Cruz com a mesma mão com que esconjuram o mau-olhado. Os Gemelli dei Monti situavam-se bem ao fundo do Sul da Itália. Havia outras questões mais profundas. Sua Eminência soltou uma risada perante a subtileza da manobra. Aceitar os seus milagres era admitir.aparados do jardim da sua villa e ponderou sobre a proposta. Se a investigação corresse bem. questões menos relevantes para o tempo do que para a eternidade. mas também ele carregava sobre os ombros o fardo da crença e no coração o medo do demónio do meio-dia. Sua Eminência estremeceu ante o cair da primeira penumbra fria sobre Parioli. Havia a política envolvida no assunto e as eleições italianas estavam apenas a um ano de distância. O bispo era um homem precavido que queria um santo para o bem da sua diocese. uma investigação mal feita. Toda a máquina maciça da Congregação dos Ritos fora criada para o evitar. para além de qualquer dúvida. onde a fé tem a cobri-la uma camada espessa de superstição. A opinião pública era sensível à influência do Vaticano nas questões civis. apresentá-lo como um exemplo e um intercessor a favor dos fiéis. . poderiam originar um escândalo grave e enfraquecer a fé de milhões numa Igreja infalível que clamava a orientação directa do Espírito Santo. Era um homem endurecido pelo poder e céptico relativamente à devoção. mas recusava pôr a sua própria reputação à prova ao lado da do servo de Deus. os homens sábios e piedosos de Roma sempre poderiam partilhar de alguma culpa. Mas havia algo mais em jogo do que a reputação de um bispo de província. Errar em semelhante questão era inimaginável. Procurem bem num homem do Sul e encontrarão uma raposa que farejou as armadilhas ao longe e Lhes deu a volta para chegar à capoeira das galinhas.

ele poderia não se sentir na disposição de aceitar uma tarefa tão pesada. o indivíduo reservado e sóbrio sobre o qual pairava a escuridão da morte. Estava relacionada com as almas . meticuloso. Descobrir-lhe-ia os homens . desprovido de paixões. Ainda assim. . e os que havia já se encontravam ocupados com outras causas.um postulante para reunir os factores ligados ao caso e apresentá-lo. O seu título oficial descrevia-o com precisão: promotor da fé. Ele possuía essas qualidades. menos que os outros. a sua missão primeira era de ordem espiritual. Era inglês. Mas. o luxo do erro. Devia ser frio no julgamento. O homem que mantinha esta fé pura. se pudesse. Se o veredicto médico fosse desfavorável. Sua Eminência não se sentia insatisfeito. Deu por findo o circuito de lazer pelo jardim mergulhado na penumbra e regressou à villa para rezar as vésperas com o pessoal da sua casa.Podia permitir-se. Podia não dispor de caridade ou piedade. De modo que caminhou e reflectiu seriamente enquanto o som harmonioso dos sinos Lhe chegava da cidade e os grilos no jardim iniciavam o seu coro agudo. O castigo pelo fracasso seria. mais rigoroso. impiedoso na condenação. Semelhantes homens eram raros. continuava a ser o princípio de uma resposta. o que afastaria a mácula do envolvimento político. isso era outra questão. O fardo pesado da maldição tanto podia cair sobre um cardeal em erro como numa cura sem fé. e um advogado do Diabo para o destruir. o advogado do Diabo era o mais importante. fosse qual fosse o seu custo em vidas arruinadas e corações destroçados. Devia ser culto.sua salvação e condenação. assim. Muito mais coisas dependiam dele. Dos dois. Apesar da pompa do seu título e da dignidade secular que Lhe era inerente. mas a precisão não Lhe podia faltar. se ele dispunha de vontade ou de tempo suficiente para levar a iniciativa a cabo. Concederia ao bispo de Valenta o seu pequeno triunfo. De repente lembrou-se de Blaise Meredith.

. O cardeal aguardou alguns momentos. observando-o com uma piedade impessoal. Talvez metade desse tempo. . ele revestia-se. Pode acontecer a qualquer de nós. Somos homens como os outros. Praticamos o celibato por legislação canónica. da dignidade que Lhe conferia a propriedade dos bens materiais. mas. Eminência. . e o debruado escarlate só servia para lhe acentuar a tonalidade doentia do rosto. nós. e o seu rosto. Formando contraste. cinzento e encarquilhado.A boca. Eminência. mas é sempre um choque. o cardeal Eugenio Marotta encontrava-se no seu gabinete de trabalho. quando se está prestes a enfrentar o julgamento final. Os poderes que exercemos. a conversar com Monsenhor Blaise Meredith. Nem mesmo a língua italiana. . na melhor das hipóteses. do corpo franzino. Tinha os olhos velados de fadiga e aos cantos da boca viam-se-lhe rugas profundas causadas pela dor. retorceu-se para cima. meu amigo. mostrava-se fresco e reluzente da barba recentemente feita. são independentes do nosso próprio mérito pessoal. claro. Depois observou suavemente: .Ainda assim é a verdade .Não devemos exigir demasiado de nós próprios. inconscientemente. .Não! .CAPÍTULO II Dois dias mais tarde. . A sotaina pendia-lhe. É uma carreira. Lhe alterava a voz seca e inexpressiva. Tornámo-nos padres por opção e vocação. sentado à sua enorme secretária de madeira trabalhada. um ano. uma profissão. num sorriso cheio de amargura. Estou na Igreja há muito tempo. de cantos descaídos. . larga. o inglês parecia pequeno. tal como os nossos irmãos no exterior do ministério. Tenho. Para nós é melhor que sejamos santos do que pecadores. somos geralmente algo que se situa no meio. devíamos estar preparados para tal.Fraca consolação. mais do que todas as pessoas. Sua Eminência dormira bem e tomara um pequeno-almoço leve.Lamento por si.As pequenas mãos de Marotta agitaram-se em discordância. . em termos de actividade profissional. a graça que dispensamos.recordou-lhe o cardeal friamente. com a sua vivacidade e romantismo. Na sala magnífica de tectos abobadados e com os seus tapetes de Aubussom e os seus quadros de molduras douradas.No entanto. redondo e afável.É como lhe digo.

tem muito boas possibilidades de o conseguir fazer até morrer. Talvez pequemos menos. mas no final de contas temos menos mérito por tal. Também há muitos solteiros profissionais no mundo. Blaise Meredith abanou a cabeça. cansado e enfermo.Se quiser. Meredith continuou: . . que.. posso providenciar-lhe uma pensão dos fundos da Congregação. impor uma disciplina aos seus desejos. Mas não deixamos de estar sujeitos ao orgulho..É muita bondade sua. tinha ainda a parte pior do seu calvário por enfrentar. Muitas vezes é mais difícil salvarmos as nossas almas do que as dos outros.. Marotta sentiu-se. desobrigo-o imediatamente das suas funções. evidentemente. Nessa altura. E depois? . mas não sou dotado para a contemplação.disse Marotta suavemente..esboçou um gesto de derrota com as mãos. Se um padre é capaz de manter as mãos afastadas dos bolsos e as pernas fora da cama de uma mulher até chegar aos quarenta e cinco. Não tenho cle lutar contra nada. à negligência. praticar amor e paciência. . brincando com a enorme pedra amarela do seu anel episcopal. Antes de o cardeal ter tempo para replicar..Finita la commedia.. contra vontade. . no entanto. . . Quanto mais alto se chega.Algum dia terá de parar. . meu amigo . Eu. Nem sequer disponho de cicatrizes para mostrar. Um homem que tem família deve fazer sacrifícios. percorria-o com uma dignidade desolada que era tipicamente inglesa. eu tenho receio de não poder garantir o melhor.Estou muito vazio . Preferia continuar a trabalhar.Sempre fez melhor do que Lhe cabia. O cardeal recostou-se na sua cadeira. tocado pela coragem gélida daquele homem. Eminência.meu amigo. à avareza.Tudo isto partindo do princípio. O único som audível na sala era o tiquetaque suave de um relógio de ouropel sobre a cornija de mármore da lareira. mais se vê. à indolência. Passados instantes disse pensativamente: . e com maior clareza. de que Vossa Eminência deseja utilizar os meus serviços. Dizer que o sacerdócio santifica o homem ou que o celibato o enobrece não passa de pura fantasia. Sei que sofrerei bastante. Se não fosse pedir demasiado. . Viveria tranquilamente. .declarou Blaise Meredith.Irei para o hospital.Não há mal de que me arrependa nem bem com que conte. gostaria de ser enterrado na igreja de Vossa Eminência.Sempre deu mais . à ambição.

quem sabe. e. O bispo inicia-o na sua própria diocese. Mas. da sua necessidade de um advogado do Diabo na causa de Giacomo Nerone.Símbolos em excesso podem ensombrar a face da realidade . o que não me agrada nada. Só depois é que os documentos nos são entregues.disse Meredith. O meu amigo não pode dividi-lo. . Depois de finalizar o seu resumo da situação.Em certo sentido. . atento como um advogado perante os pormenores de um novo processo.. .Em que bases? . Que significa isso? Um símbolo novo de uma verdade antiga: que toda a actividade legal pode conduzir ao bem ou ser pervertida para o mal.Discrição.lembrou-lhe Marotta calmamente.O homem é um animal político com uma alma imortal. . do pedido que o bispo de Valenta Lhe dirigira. que pensa da questão? . . Os olhos brilharam-lhe. Sempre achei que essa era a nossa função na Congregação dos Ritos: não colocá-los no calendário. Nomeamos um santo como patrono da televisão. tenho entre mãos um assunto no qual me poderá prestar uma grande ajuda.Santos em excesso podem desacreditar a santidade. Eugenio Marotta reparou na mudança.É uma imprudência .Podem pronunciar-nos contra ela. mas não fez comentários. também ajudar-se a si próprio. .Trata-se de uma manobra política. Meredith escutou.fez uma pausa. a iniciativa não parte de nós.disse Blaise Meredith secamente.do que prometeu. como subitamente acometido por um pensamento curioso .. Tudo o que a Igreja faz destina-se a proporcionar um carácter espiritual a uma evolução material.Bem. . Além disso. do mesmo modo que não pode dividir a Igreja em funções separadas e independentes umas das outras. Falou-lhe então. perguntou: . quem sabe. A altura não é propícia. Pareceu ficar tomado de uma vida nova. com voz firme. mas sim mantê-los afastados dele. tanto neste caso como em todos os outros. sem esperar pela resposta. endireitou-se na cadeira e as faces emaciadas adquiriram um pequeno rubor. é verdade.Tudo na Igreja é político . . . Não temos autoridade para proibir directamente a investigação. Estamos na véspera de eleições. O cardeal anuiu sobriamente. Giacomo Nerone foi assassinado pelos .

Sou um homem doente. No meio do povo surgiu um culto aparentemente espontâneo. reflectindo sobre a proposta. . Já se conduziu um inquérito preliminar e o veredicto tende para a aprovação. . Eminência. .reprovou-o Marotta friamente.Não entendo. ou como exemplo da caridade heróica? Os lábios vermelhos do cardeal distenderam-se num pequeno sorriso irónico. . .Além disso. Não conseguiria prestarlhe um bom serviço. é provavelmente uma presunção. é um sacerdote profissional. . É por isso que gostaria que o meu amigo fosse o advogado do Diabo. A fase seguinte processa-se quase automaticamente. Tem-se falado em milagres. abanou a cabeça. Não sou o seu confessor. Blaise Meredith pestanejou diante do brilho intenso e protegeu os olhos com a mão. O meu amigo. afastando os cortinados para deixar que o sol da manhã inundasse a divisão. Não posso olhar para dentro da sua consciência.. O cardeal ficou a olhar para o jardim. fazendo que os desenhos coloridos do tapete ressaltassem com a vivacidade de flores. Ambos têm de ser judicialmente investigados. Os comerciantes locais iniciarão as suas manobras de venda. E até certo ponto é capaz de o conseguir. Blaise Meredith franziu os lábios finos e pálidos. quando falou. na sua voz notava-se uma compaixão rara. Foi por isso que decidi aceder ao pedido de Sua Senhoria. . Qual é a nossa intenção? Utilizá-lo para ganhar um mandato regional.O que tenho para Lhe dizer. Atravessou a sala em direcção à janela. tal como muitos de nós em Roma. iluminando o escarlate e o dourado. Depois. O cardeal empurrou a cadeira alta e trabalhada para trás e levantou-se.guerrilheiros comunistas no último ano da guerra. monsenhor.Deve deixar esse julgamento para mim . mas estou certo de que atingiu um ponto de crise. passados alguns instantes. como referi.acrescentou.Assim que tal tiver lugar. . a causa também poderá ajudá-lo . Meredith não Lhe via o rosto. todos os jornais na Itália publicarão a história. Não se pode evitar. mas.Imagino que o nosso irmão bispo gostasse de satisfazer os dois aspectos ao mesmo tempo. As agências de viagens começarão a organizar excursões particulares. .. a apresentação do pedido de beatificação no tribunal do próprio bispo.Mas talvez possamos exercer algum controlo.

a estranheza desolada da pergunta. Perdemos em piedade. sim. Nunca conheceu a dignidade inerente à necessidade nem a gratidão por um sofrimento partilhado. com o rosto entre as mãos.. estudando a resposta que Lhe iria dar.. Somos os guardiães de mistérios. mas alguns de nós acreditam nisso até ao dia da morte. Está confuso. Nunca amou uma mulher. Ser bom profissional já é muito. meu filho.. medo e amor. no final das contas não fará diferença. apesar da hora tardia. . Trabalhamos regendo-nos pela legislação canónica. Essa a cruz que criou para carregar nos próprios ombros.Na sua vida não existe paixão. ou teve pena de uma criança. Muitos são os que não chegam sequer perto desta perfeição limitada.Qual é o meu mal. ou odiou um homem. Esse é o seu mal. De repente descobriu que não é suficiente. os ignorantes. a um consentimento árido da vontade. Eminência? A fadiga patética da voz. Tirá-lo-á para fora de Roma.um homem que seguiu a carreira da Igreja. porque não a vimos actuar nas vidas das pessoas vulgares. Nada pediu e nada deu. Tem sorte por ter sido tocado pela insatisfação. receoso. Quer ele seja pecador ou santo. eu e outros como nós andarmos há demasiado tempo afastados dos deveres pastorais. Retirou-se para dentro de si durante demasiado tempo e tornou-se um estranho na família humana. levá-lo-á até uma das zonas mais degradadas da Itália. É aí que as suas dúvidas principiam e também . Perdemos o contacto com as pessoas que nos mantêm em ligação com Deus. Não existe qualquer estigma nessa situação. mas estes deixaram de exercer o seu fascínio sobre nós. não pela caridade. depois deu-a. os que nada possuem. achamos que o mundo tropeçará no caos se não formos nós a valer-lhe. Reconstituirá a vida de um homem falecido a partir dos dados fornecidos por aqueles que com ele viveram: os pobres. porque acredito que se encontra agora no deserto da tentação. Parte do problema reside no facto de o senhor.. até mesmo pela dúvida. Reduzimos a fé a um conceito intelectual. Virou as costas à janela e viu Meredith encolhido na cadeira. Não é verdade. Tal como todos os administradores. O senhor viverá e falará com pessoas simples. É por isso que acredito que a investigação o pode ajudar. despertaram piedade no coração do velho homem da Igreja. . Aguardou um momento. gravemente. No entanto. não sabe o que fazer para reparar essa lacuna. que até a Igreja de Deus carregamos às nossas costas. Entre elas talvez encontre a cura para o seu próprio mal de espírito.

Tinha uma viagem de dez dias à sua frente e o rápido estava quente. Vá. .Todos os dias morrem homens . O lugar da frente estava ocupado por um camponês. Dez minutos depois de saírem de Roma desistiu. uma pasta contendo o seu breviário. Apresente as suas credenciais ao bispo de Valenta e lance mãos ao trabalho.A partir da necessidade . que guinchavam como cigarras e tropeçavam nos pés de todos.os seus receios. outros alcançam a salvação.disse Blaise Meredith.De manhã poderá partir para a Calábria. Blaise Meredith partia de Roma para a Calábria. Eminência.retorquiu Marotta firmemente. mas a mulher corpulenta agitava-se. Um homem anseia pelo seu primeiro beijo. e a mastigação ruidosa do padre enervava-o a ponto de ter vontade de gritar. empoeirado e apinhado de calabreses que regressavam de uma peregrinação organizada à Cidade Santa. pouco à vontade dentro do seu vestido de seda.Vá para casa e repouse . ocupando com os seus pertences os lugares vagos e os porta-bagagens. em paz e em nome de Deus! às onze da manhã do dia seguinte.disse o cardeal jovialmente.Sinto-me tão cansado . porque um homem que não consegue amar o seu semelhante também não consegue amar a Deus. As janelas iam completamente fechadas e o ar era desagradável e abafado. . Os mais pobres iam empilhados como gado nas carruagens da segunda classe. meu filho. levantou-se com esforço e foi . . Tirou o seu breviário para fora e muniu-se de toda a sua capacidade de concentração para ler o seu ofício.Como é que se começa a amar? . enquanto os mais abonados se espalhavam pela primeira. . . Meredith deu consigo firmemente ancorado entre uma matrona corpulenta de vestido de seda e um padre de rosto queimado que mastigava ruidosamente os rebuçados de hortelãpimenta de um pacote.observou Eugenio Marotta bruscamente.A partir da necessidade da carne e da necessidade do espírito. mas o trabalho da Igreja continua. Derrotado e agoniado. sua mulher e quatro filhos. . . e a sua primeira oração autêntica é feita quando ele anseia pelo Paraíso perdido. O ar viciado provocava-lhe náuseas e a cabeça latejava-lhe com o ruído monótono do comboio e o som estridente das vozes das crianças. A sua bagagem consistia numa pequena mala com roupas. . desconsolado. o seu livro de apontamentos e uma carta do prefeito da Congregação dos Ritos para Sua Eminência o Bispo de Valenta. Tentou dormitar.Alguns são condenados.O senhor é um homem duro.

o cheiro a chouriço rançoso e alho e corpos suados haviam posto fora dos respectivos compartimentos. que passava rapidamente. ao pé dos lavabos. o estuque da frontaria das casas fora lavado pelas chuvadas e branqueado pelo sol. Eles continuariam a reproduzir-se. A paisagem iluminada pelo sol. Mas tal nunca aconteceria. os rios secos. ruinosamente devastada ao longo dos séculos. O homem era um camponês de ar tosco do Sul. olhando para a paisagem. de pé. ainda se vislumbravam finas camadas de verde com que recordar um passado de fertilidade. demasiado pobres mesmo para o pasto de cabras. Ali estava uma terra cansada. reflectiu Meredith. encostado à parede de painéis. olhos faiscantes e mãos volúveis. no entanto. poderiam voltar a ganhar a sua prosperidade anterior. e até mesmo as ruínas dos aquedutos e das velhas povoações romanas se mostravam salpicadas de musgo fresco e de ervas daninhas que irrompiam por entre as pedras gastas pela acção do tempo. porém demasiado depressa para que os técnicos e os agrónomos tivessem possibilidade de restaurá-la. lentamente. casaco curto e um zircão flamejante num dos dedos rechonchudos. ao mesmo tempo que a terra morria sob os seus pés. um turista alemão com sapatos grossos e uma cara máquina fotográfica dmarca Leica. as árvores dizimadas. de tal . Quem chamou a atenção de Meredith foram os namorados. esvaziá-las das suas tribos proliferantes durante meio século. observando aqueles que o fumo dos cigarros. Se fosse possível deixar as terras em pousio. e Meredith passeou os olhos pelo corredor. Naquela altura imperava o verde. O milagre cíclico da renovação era mais vivido ali do que em qualquer outro país no mundo. Havia um homem de negócios napolitano de calças afuniladas. ervas e flores. As cicatrizes da erosão e da lavoura tinham-se revestido de erva nova. de mãos dadas. um par de francesas de peito chato. o solo reduzido a pó.para o corredor. Mesmo nas montanhas. nas íngremes vertentes cobertas de tufo calcário. de facto. cansou-lhe a vista. todos os anos arranjava maneira de fazer a sua exibição breve e arrojada de folhas. onde se deixou ficar. um estudante americano de cabelo à escovinha e faces sardentas e um casal de provincianos a namorar. as colinas desgastadas. As calças de algodão fino moldavam-lhe as ancas e a camisa suada colava-se-lhe ao peito. com os primeiros esplendores da Primavera. escuro como um árabe.

maravilhoso. Um santo como não há outro. aqueles dois deitar-se-iam juntos na pequena morte da qual nasceria uma nova vida . Teria de se sentar a repousar um pouco. mas não dava mostras de urgência. Ele retirara-se para dentro de si. A rapariga ia contente com ele e consigo própria. Estive muito perto dele. As costas latejavam-lhe. Iam em frente um do outro. possivelmente naquela mesma noite.um novo corpo. Na boca do estômago. Maravilhoso. Ao olhá-los. Que sabia ele do amor para além de uma definição técnica e uma culpa murmurada no confessionário? Que significado tinha o seu conselho diante daquela comunhão franca. na pequena eternidade secreta de um amor novo.. Uma pessoa sente o poder que dele emana.. Mas Blaise Meredith dormiria sozinho. o Santo Padre. os corpos descontraídos balançando ao ritmo do comboio. erótica. Ao abrir caminho de volta ao seu lugar. ainda confiante na sua posse... que Lhe esticavam o corpete curto do vestido. de cintura e tornozelos largos.ele ou eles? Quem se aproximava mais da perfeição do desígnio divino? A resposta era só uma. A paixão de que estavam possuídos era nítida. Quem estava certo . Um homem maravilhoso. reparou que o sacerdote calabrês estava completamente lançado num sermão: -. a pequena dor insidiosa começara de novo a fazerse sentir. uma nova alma. Bastar-me-ia estender a mão para Lhe tocar. Meredith sentiu-se atingido por uma vaga nostalgia ligada a um passado que nunca fora seu. os olhos cegos para tudo que não fosse os dois. as mãos dadas como formando uma barreira a qualquer intrusão. Eugenio Marotta tinha razão. A rapariga era baixa e com a mesma tez morena que o companheiro. em São Pedro. O compartimento estava impregnado do cheiro a . mas de seios cheios e firmes. Começou a sentir os pés a doer. que por determinação divina representava o começo da vida e a garantia da perpetuação do homem? Em breve. O rapaz exibia a vaidade de um galarote.! Não devemos deixar passar um único dia das nossas vidas sem que agradeçamos a Deus o privilégio de termos usufruído desta peregrinação. afastando-se da família humana. no corredor estreito.. Aqueles dois jovens seguiam em frente para a renovarem e perpetuarem.maneira que toda aquela masculinidade acentuada ressaltava sugestivamente nele.. com todos os mistérios do universo reduzidos a um silogismo escolástico no interior da sua caixa craniana.

até que se levantou para se ir aliviar aos lavabos.Conheceu-o. Meredith .Obrigado . Morreu como um mártir em defesa da fé. voltando a fechar os olhos. os pecadores arrependem-se: sinais indiscutíveis do favor do Todo-Poderoso. não pessoalmente. Blaise Meredith descerrou as pálpebras e perguntou inocentemente: . . Os doentes têm-se curado. evidentemente. no seu lugar. sem dúvida! Muito real! Blaise Meredith ficou imediatamente alerta. Que outra experiência se pode comparar com esta de termos ido a Roma. Eu próprio sou de Consenza. . O espírito do sumo pontífice vela por ela noite e dia. pensou Blaise Meredith. -. Este tipo de palhaçada nunca fez bem a ninguém. O calabrês agitou-se. A sua irritação desapareceu e aguardou atentamente o que se ia seguir. Ah. "Se essa é a maneira como o conquistam". seguido as pegadas dos mártires e ajoelhado no túmulo de Pedro? É ali que se vê a Igreja tal como ela verdadeiramente é: um exército de padres. Não? Uma história estranha e maravilhosa.Eles têm razão quando chamam a Roma a Cidade Santa. A paróquia ao lado. "Deus ajude o mundo. mas o certo é que um dia apareceu na aldeia.hortelã-pimenta. Se ao menos se calasse e reflectisse um pouco!" Mas o calabrês já ia lançado e a presença de um irmão eclesiástico só o impelia a maiores esforços. não! Até mesmo na nossa pequena província temos um santo: ainda não foi oficializado. padre? O calabrês varou-o com um olhar fugidio e desconfiado. . . mas é real.. irritado. como um homem enviado por Deus. monges e freiras a preparar-se para conquistar o mundo de Cristo. Ninguém sabe donde ele veio. E depois da sua morte têm-se verificado milagres sem conta no seu túmulo. Reparem. Oh.Se o conheci? Bem. O tipo fala como um vendedor ambulante. Construiu um pequeno ermitério com as próprias mãos e entregou-se à oração e às boas acções. Giacomo Nerone.. interminavelmente. Quando os comunistas entraram na aldeia para tomar conta dela. incomodado. não.. Blaise Meredith cerrou as pálpebras e rezou por uma trégua.. saiba muito acerca dele.O processo de beatificação já foi iniciado.agradeceu Blaise Meredith delicadamente. Se calhar já ouviram falar dele. Embora. mataram-no. depois da guerra. mas a grossa voz calabresa continuou a zunir. nem todos os santos da Igreja estão em Roma.

.Ah.Pertenço aos quadros da Congregação dos Ritos. do compromisso. mas o calabrês era um homem obstinado. abotoando atabalhoadamente os botões da batina.Trabalho lá . assoou-se ruidosamente e em seguida bateu discretamente no joelho de Meredith. Disfarçava fatuidade e falta de educação. Deixava as pessoas nuas e desarmadas em face de mistérios aterrorizadores: dor. Sentou-se.disse-lhe Meredith sem mais delongas. É um lugar mantido numa ordem razoável. Convidava a todas as perguntas. mas não respondia a nenhuma. . Era uma espécie de calão eclesiástico uma retórica adulterada que nada explicava. da cedência. que achava mais fácil pregar devoção do que enfrentar os problemas morais e sociais do seu tempo. resolvido a retomar a prelecção perante o seu auditório e o monsenhor de rosto cavado. Dispõe de oportunidades que são negadas a nós. pobres provincianos.aproveitou a vantagem da sua ausência para esticar as pernas e aliviar a cabeça dolorida de encontro ao recosto estofado. . Era o sinal da acomodação. . mais do que nunca.. o grande "talvez" do Além. Só enganava o homem que a pregava.Mas não é italiano. contudo.O monsenhor é de Roma? . pois não? .Tem muita sorte.Eu não lavro nada . no seio do clero. mas fazia alarde de uma verdade incontestável. uma visita do Vaticano? Um peregrino? . Agora. paixão. Não se sentia arrependido pelo que fizera. e Roma não é mais cidade de santos do que Paris ou Berlim. sim. morte. e o seu tom de voz foi áspero. Só satisfazia as velhas senhoras e as moças anémicas.retorquiu Meredith friamente. O calabrês de tez morena regressou ao seu lugar. Nós trabalhamos as terras pedregosas. A estrutura maciça da razão e da revelação sobre que a Igreja se fundamentava ficava reduzida a um ritual falso. O calabrês agraciou-o com um sorriso fraternal que exibiu uma boca cheia de dentes cariados. porque o papa faz questão .. Piedade de hortelã-pimenta. ineficaz e essencialmente falso. enquanto os senhores lavram as pastagens abundantes da Cidade dos Santos. . . disposto a transpor todos os obstáculos. Ficara sem saber como reagir àquela intrusão no seu repouso. Sou inglês.Não. amorfo.De Roma. monsenhor. florescia mais viçosamente onde a Igreja se mostrava mais firmemente implantada na ordem estabelecida. aquele tipo de ladainha era-lhe detestável.

em fazer valer os direitos que lhe assistem segundo a Concordata. assim acontecia até a fama do servo de Deus se espalhar. Ignorou a reprimenda e agarrou rapidamente no novo tópico que se Lhe apresentava. Gemello Maggiore. Tem muito maior experiência das questões. depois! . montanhas gémeas. Aldeias gémeas localizadas nos dois cimos de uma colina. .E depois? .e depois tentaria mudar de lugar em Formio ou Nápoles. É como se Deus tivesse vindo vingar-se dos traidores. Encontram-se a cerca de sessenta quilómetros de Valenta e a estrada é um pesadelo.. O calabrês tinha tanto de manhoso como de chato.Ah. Foi nessa aldeia que o traíram e assassinaram. . É tudo. Gemelli dei Monti? .O senhor desperta-me grande interesse.Precisamente. Pelo menos.Exactamente! Aí tem o aspecto que tanto me vem a interessar relativamente ao nosso servo de Deus Giacomo Nerone. . uma estalagem para turistas e peregrinos.A mão grossa e peluda do sacerdote agitou-se num gesto de pregador. Vive. Mas eu sempre disse que a vida simples do campo facilita muito mais o caminho da santidade do que a azáfama mundana de uma grande cidade.Toda a minha experiência me diz que os santos podem ser encontrados nos lugares mais variados e nas alturas menos propícias. monsenhor. Os aldeões são tão pobres e tristes como em qualquer das nossas outras províncias.. .Meredith começou a sentir. um hospital. O seu corpo foi secretamente levado para uma gruta próxima de Gemello Maggiore e ali enterrado. contrariado. Giacomo Nerone vivera e trabalhara em Gemello Minore. compensando aqueles que deram abrigo ao . . Gemello Minore é a aldeia pequena.Imagino que queira dizer. . Trabalha na Congregação dos Ritos.Nunca lá estive. Conhece o sítio onde ele viveu. com toda a certeza. Submeter-se imediatamente poupar-lhe-ia tempo e energias . Possivelmente lida com os processos dos santos e beati. o seu interesse a crescer. A partir dessa altura Gemello Minore começou a afundar-se cada vez mais. Tem uma igreja nova. numa das regiões mais desoladas da Calábria. Não é verdade? Caíra na armadilha e tinha consciência do facto. de preservar o seu carácter sagrado como centro do cristianismo. a maior. Acabaria por ter de se prestar à conversa. . Respondeu secamente: .Depois aconteceu uma coisa estranha. ao mesmo tempo que Gemello Maggiore cada dia ficava mais próspera. num mundo muito mais vasto do que o meu.Mas sabe o que o nome significa? .

Poderia ser resultado de alguma promoção arguta por parte do prefeito e dos cidadãos. até mesmo do padre da paróquia. dialéctica. misericordiosamente interrompidas pela chegada a Formio.É uma suposição duvidosa .Simplesmente desaprovo os julgamentos apressados e as doutrinas duvidosas. mas sim por decisão canónica. O padre ficou a olhá-lo de boca aberta durante um momento. o que proporcionou a Blaise Meredith a oportunidade de desentorpecer as pernas . O calabrês corou violentamente perante a imputação e desatou numa refutação acalorada. pior.Não pretendo opor-me a ninguém . Ao passear-se pela plataforma iluminada pelo sol. Este assunto já foi analisado por homens sábios e devotos. com ironia. homens que entendem o nosso povo. . Este tipo de factos já ocorreu anteriormente. um chato piedoso .Nem sempre a prosperidade representa um sinal de deferência divina. Era com a mesma familiaridade que falavam com as prostitutas de língua . Pretende opor-se à sua opinião? . sobre um padre provinciano? O calabrês era um chato .e perdera a sua primeira oportunidade de ficar a saber um pouco acerca do homem cuja vida estava encarregado de investigar. . Não concorda? .Seu servo. Tinham de esperar vinte minutos pelo comboio que seguia para o Norte.e a graça de se envergonhar.disse Meredith calmamente. na devida forma.e. Se tiver alguma prova a apresentar em primeira mão. Os santos não são feitos por veredicto popular. Que ganhara ele com aquela vitória barata.O monsenhor presume demasiado. tinham um prazer intenso na troca de impressões com os camponeses no seu dialecto rude e malicioso. observando os viajantes camponeses a movimentarem-se em redor do vendedor de refrigerantes. Enriqueciam-se com preciosidades de sabedoria e experiência à mesa de um proprietário rural ou diante de uma tigela de vinho na cozinha de um operário. para actuar como promotor da fé no processo de Giacomo Nerone. interrogou-se pela centésima vez sobre o que seria que lhe faltava que o impedia de comunicar livremente com os seus semelhantes. depois a sua confiança desfez-se em desculpas humildes. Essa a razão por que me desloco à Calábria nesta altura. Nada ganhara e nada dera . sabia. terei muito gosto em recebê-la.mas Blaise Meredith era um dispéptico intelectual desprovido de qualquer espírito de caridade. . Outros padres.respondeu-lhe Meredith.

A capacidade de amar e desejar. da boa. É uma batalha. mesmo no meio . pareceria uma escolha estranha para uma diocese do Sul. até uma bela villa erguida no meio de laranjeiras e oliveiras e sobranceira a um vale onde um riacho brilhava levemente sob o luar. O guarda fez soar o seu apito e Meredith subiu novamente para o comboio. mas Monsenhor Meredith. ainda no vigor dos seus quarenta. A anterior era irremediavelmente antiquada. Não deixavam também de ser bons padres e faziam muito pelo seu povo.explicou em inglês nítido e metálico. . vivera sozinho no meio dos volumes pocirentos da biblioteca do Palácio das Congregações. Valenta. seu seguidor profissional. Encontrava-se na estação à espera com o seu carro particular e. Qual era a diferença existente entre a sua pessoa e eles? Paixão.Nápoles. noite alta. E agora. bispo de Valenta. sabendo que o esperava uma viagem longa e suada . e antes da sua transferência fora assistente no Patriarcado de Veneza. obtendo uma singular satisfação pessoal no facto. onde o bispo estaria à sua espera para lhe dar as boas-vindas. com a morte a crescer-lhe no ventre sob a forma de uma pequena mancha escura .atrevida do Trastevere e com os requintados signori de Parioli. Também fixei aqui a minha residência oficial. Divertiam-se tanto com o humor obsceno do mercado do peixe como com o espírito da mesa de um cardeal. o que. Cassano. mas conto ganhá-la. Esta gente imagina que o clero nasceu de batina e que o seu único talento reside em dizer padre-nossos e ave-marias e balançar turíbulos na catedral.e sem ninguém no mundo que lhe fizesse companhia. à primeira vista. naquele seu último ano de vida. continuava sozinho.. de sentir com a dor dos outros. dissera-lhe Marotta. e as suas belas feições aquilinas brilhavam de inteligência e humor.Uma experiência . Nocera. Eboli. Cosenza e.. de partilhar da alegria dos outros. Eu nasci no Norte. A minha família trabalhava a terra nas montanhas. . Era um Trentino. Aurelio. Salerno. em vez de seguir para a cidade. Cristo comera e bebera vinho na companhia de proxenetas e taberneiros. O cabelo era cinzento-chumbo.Uma experiência em educação prática. levou Meredith uma dúzia de quilómetros para o interior do campo. foi uma surpresa em mais de um aspecto. franzino. meticulosamente penteado. Era um homem alto. Comprei este terreno a um proprietário rural que estava mergulhado em dívidas até aos olhos e ando a cultivá-lo com meia dúzia de rapazes a quem tento ensinar os rudimentos da agricultura moderna.

O bispo deteve o automóvel diante do pórtico trabalhado da villa e deixou-se ficar alguns instantes sentado ao volante. . reaccionarismo. Afastou-se e o criado conduziu Meredith ao andar de cima. gostaria de ver menos e melhores. adora-a! Meredith soltou uma pequena risada. é. brocados e querubins dourados com a tinta a sair-lhes dos traseiros? . monsenhor? . algo do género. .. e não como injustiças a serem remediadas.. até um vasto quarto de hóspedes cujas portas francesas davam para uma varanda estreita.Sim. É da velha escola.Está surpreendido. . sem malícia. Um criado fardado de branco abriu a porta do carro e acompanhou-os até dentro de casa. feudalismo. Encaram a pobreza e a ignorância como cruzes que têm de ser carregadas. porque Lhes parecem mais seguros e não estão preparados para os novos.comunicou Sua Eminência. Meredith ficou encantado com as linhas precisas e modernas da .Conservadorismo barroco? Veludos. Formalismo. . .O jantar é daqui a meia hora .perguntou Meredith brandamente. Entreguei-a ao meu vigário-geral. .Francamente.disse Sua Eminência. O bispo lançou-lhe uma mirada breve e penetrante.Espero que ache o seu quarto confortável. Acreditam que. Admira-se de que um homem como eu possa estar a defender a causa de Giacomo Nerone. ao lado da catedral. vai encontrar muito mais disso do que o suficiente. melhor será o mundo. Disse calmamente: . Quanto a mim. homens seguindo hábitos velhos.Aqui no Sul. monges e freiras houver.da cidade.Deixemos o assunto para ser tratado durante a fruta e o queijo .Menos santos também? . onde o luar arrancava reflexos prateados à copa das árvores. .Que os Ingleses sejam louvados! Neste momento um pouco de cepticismo estrangeiro só nos faria bem a todos. observando a encosta. Preferia ter menos igrejas e mais gente a entrar nelas.retorquiu Blaise Meredith. Pela manhã poderá ver o vale mesmo à sua frente e aperceber-se do que fizemos. Esperava algo completamente diferente. influenciado pela boa disposição contagiosa do colega. quanto maior número de padres.Agradavelmente . não é? . O bispo ergueu os olhos bruscamente e depois começou a rir com vontade.

uma disputa de argumentos entre peritos. Eles tentaram fazer demasiadas coisas e demasiado depressa.antipasto.Poderia ter acontecido. Também dispunha de sentido de humor. Eu sou socialista moderado. o vinho era um Barolo bem encorpado das vinhas do Norte.Em pedir ajuda a Roma. Os políticos não confiam em .Uns quantos. Sua Eminência possuía o instinto de um construtor civil e o bom gosto de um artista. sim. Se falham. . .Custou assim tanto a Vossa Eminência? O bispo anuiu gravemente. .Até o senhor chegar. Se são bem sucedidos.São muitos os que o criticam? . A conversa que a acompanhou foi muito mais subtil. com uma zona reservada à sanita e ao chuveiro. Os proprietários rurais não gostam de mim. com o bispo a iniciar as primeiras estocadas experimentais. E dispõem de vozes poderosas em Roma. começava a sentir que cometera um erro. de facto. um certo sacrifício da minha autonomia. especialmente aqui no Sul. italiano e inglês. tornam-se um exemplo. zuppa di verdura. Os modernizadores e os reformadores são sempre alvo de suspeita. Portanto.mas tudo cozinhado com distinção e meticulosamente servido. Havia uma estante com livros recentes em francês. Meredith sentiu o cansaço e a frustração da viagem libertarem-no como quem muda de pele. galinha assada. Foi uma refeição simples . meu caro Meredith. Uma porta estabelecia a ligação entre o quarto e uma sala de banho de azulejos recentes. apercebendo-se então de que aguardava com prazer e curiosidade o jantar com Sua Eminência. . Até a dor importuna provocada pela sua enfermidade parecia atenuada. fruta local e um queijo picante da região .Um erro? . sempre achei mais prudente seguir o meu próprio caminho e guardar as minhas questões para mim próprio e deixar os críticos jogar a primeira cartada. O meu arcebispo é monárquico. Ao tomar banho e mudar de roupa. assim como um exemplar da Imitação de Cristo sobre a mesinha-de-cabeceira. O clero acha-me demasiado rígido em questões de moral e excessivamente indiferente aos rituais e tradições locais.mobília. . Envolvia uma concessão. recebem a desaprovação dos colegas mais conservadores. sabe. virtude muitíssimo rara no seio da Igreja italiana. a força ascética do crucifixo de madeira que pendia por cima do oratório que se via a um canto da divisão.

. Para sua surpresa.Porque se trata de um campo novo para mim.observou Sua Eminência. Portanto. sem rodeios. Quando tal não acontece.Vocês é que são os peritos nesta matéria.Então porque escreveu ao cardeal Marotta? Porque pediu a vinda de sacerdotes de Roma. curiosamente bem-humorado. . . Se eu for bem sucedido. Acredito no misticismo. e os resultados de uma política como a minha numa área como esta podem não ser visíveis durante dez anos. Interroguei-me sobre os motivos que o teriam levado a enviar um inglês em vez de um italiano. Aí tem a razão que me levou a apelar à Congregação dos Ritos. Muito inteligente da parte dele! Mas receio que se engane. mas não tenho nenhuma experiência de mística.Que outra razão poderia haver? . porque prego que o partido é menos importante que o indivíduo que o representa.Política . Sou um nortenho pragmático por natureza e educação. meu amigo. eles acenarão sabiamente as cabeças e dirão que estavam à espera do acontecido há anos.Tem apoio em Roma? A boca fina de Sua Eminência distendeu-se num sorriso. . . . Compreendo a bondade.mim. tudo óptimo. fazendo rodar o pé entre os dedos longos e sensíveis e observando a luz a refractar-se através do líquido vermelho sobre a toalha de mesa nívea.Sorriu afavelmente. mas nunca esperei vê-los acontecer mesmo à entrada da minha própria porta.Fala como inquisidor . Eleições políticas. de mais liberdade disporei. Gosto de me certificar de que são cumpridas.Então é isso. . Quanto menos souberem.O senhor conhece Roma melhor do que eu. Se falhar. Admirei-me de Sua Eminência se mostrar tão cooperante. O riso morreu-lhe subitamente nos lábios e retomou .Foi a única razão? . e um padre secular em vez de um harFanita com cara de poucos amigos. protesto. Eles esperam pelos resultados. Disse cautelosamente: . mas não estou familiarizado com a santidade. um como postulante e outro como promotor da fé? Sua Eminência brincou com o copo de vinho. prefiro mantê-los na dúvida. o bispo atirou a cabeça para trás e riu às gargalhadas.retorquiu Meredith. Acredito em milagres. . ou cometer o erro mau no momento mau. Fazem promessas.

Meredith continuou. no entanto.Talvez Marotta entendesse . A primeira é simples e oficial. e eu acredito que mais vale proclamar uma reforma na justiça social do que um novo atributo da Virgem Maria. Trata-se de um culto não autorizado. .Ele está completamente enganado. . e as entidades oficiais não o entenderiam. Temos três milhões de desempregados e três milhões de mulheres a viver da prostituição. Uma árvore conhece-se pelos seus frutos. . Acho que a Igreja está a precisar de uma reforma drástica neste país. somos mais ciosos dos direitos que nos assistem sob a Concordata do que com os direitos do nosso povo sob a lei natural e divina. demasiadas igrejas e escolas a menos.Está a encorajar-me .Mas porque deseja um novo santo? . .. Estou a chocá-lo.Tenho estado a reflectir sobre si.retorquiu Blaise Meredith.Porque haveriam os dois de ser diferentes? .. O primeiro é a aplicação necessária de um princípio moral.disse Meredith calmamente. Aurelio. monsenhor? . Pousou o copo de vinho e abriu as mãos num eloquente gesto explicativo. demasiados cultos e catequismo a menos. tentarei explicar. mas erguemo-nos contra os anticlericais e os comunistas. recostou-se na sua cadeira e analisou o rosto pálido e esvaído do seu visitante. Um homem à beira da morte deverá estar acima de qualquer escândalo. bispo de Valenta. Agora começo a compreender. Controlamos o Estado através do Partido Democrata-Cristão e do Banco do Vaticano. demasiadas medalhas e assistência médica a menos.Porque Marotta é um velho humanista cheio de ponderação. os membros do clero. incentivamos uma dicotomia que proporciona a prosperidade a metade do país e deixamos a outra metade apodrecer na penúria. A segunda já não é assim tão simples.a seriedade. São duas as razões que me levam a estar interessado neste caso. Muito bem. Nós. Passado um longo instante disse brandamente: . e porque eu devo morrer de carcinoma daqui a um ano. Sou de opinião de que temos demasiados santos e santidade a menos.Isso é o que acontece em Roma.. Os nossos clérigos não dispõem de educação adequada e são inseguros.E eu também. para que seja aprovado ou condenado. Tenho de o investigar.. mesmo que este venha de um bispo. o segundo uma simples definição de uma crença tradicional. . Os estúpidos ficam ainda mais estúpidos e os espertos como Marotta tornam-se demasiado espertos para que alguém possa ganhar com o facto. .

Não sou eu .. que ele não vá a bom termo. .disse o bispo. . . Lucram à custa da sua memória. . .Arrastou a . Até aqui nenhum dos meus enviados o conseguiu.De manhã mandarei pôr a documentação no seu quarto. um consultor em questões agrícolas e vinte mil dólares de fruto da Califórnia. . mas espero. Na sua mente formava-se uma ideia nova e perturbante.Então porque pediu ajuda a Sua Eminência? . Oh. Espero que considere esta casa como sua e eu próprio como seu amigo. e eu quero freiras que sejam enfermeiras..Estou grato a Vossa Eminência.Não há nada que agradecer.É melhor indagar as razões por si só.Terei muito gosto na sua companhia.disse Sua Eminência. .É um princípio que vigora em Roma. devo dar-lhe um pequeno conselho. Gostaria de passar alguns dias a estudar os documentos. Que Giacomo Nerone é realmente um santo e um milagreiro? .O bispo sorriu despreocupadamente. com uma ênfase surpreendente. mais grato do que me é possível exprimir.Estou ligado ao caso.Estou a viver à custa de tempo emprestado. O prefeito de Gemello Maggiore recolheu quinze milhões de liras para avançar com o processo.Na minha opinião pessoal. não encontrará a verdade acerca de Giacomo Nerone em Gemello Maggiore. . Sinto que temos muita coisa em comum..Sim? . Blaise Meredith não sorriu. todos eles quererão uma nova igreja para o albergar. sou deveras preconceituoso. .Imediatamente . Se Giacomo Nerone for beatificado. como já Lhe referi .Esperarei pelos factos. Fez uma pequena pausa. Em Gemello Minore a história é completamente diferente. com toda a sinceridade. tentando encontrar as palavras que melhor a expressassem. . mas não sou capaz de Lhe arrancar um milhar delas para construir um orfanato diocesano. meu amigo.Há alguma razão? . desde que os convença a contarem-lha. olhando-o de esguelha com bom humor. Recebe-se sempre o contrário do que se pede.Mas imagine que o processo vai a bom termo. . Como vê. . Quando é que gostaria de começar a trabalhar? . Depois irei até Gemelli dei Monti para começar a ouvir depoimentos.respondeu Meredith. .Sou um pragmático. meu caro Meredith. Ele é venerado nessa aldeia.

Despiu-se. a água corria plana e repleta de estrelas. cioso da sua intimidade. sobre o vale . De repente vejo-me tremendamente só. enquanto os braços das montanhas rodeavam tudo como uma fortificação.Somos irmãos de uma família vasta . Boa noite e sonhos dourados. a solidão lúgubre do crente na presença de um Deus sem rosto a quem reconhecia sem ver. já que esta se tornara um acto árido da vontade que não podia nem tirar-lhe as dores nem atenuá-las. fraco e aos vómitos. . De modo que. Blaise Meredith preparou-se para mais uma noite. Arrastar-se-ia penosamente até à casa de banho. . Obrigado. o que o não tornava menos assustador. mas possibilitando-lhe manter o fluxo da vida. alta. Ficaria acordado até cerca da meia-noite. a boca a saber amargamente a bílis e sangue. Sozinho no enorme quarto de hóspedes. já ele teria acordado sobressaltado. envergou o pijama. Era avesso a confidências. Blaise Meredith sentiu-se tocado pela delicadeza nobre do homem que tinha na sua frente. naquela noite.Sou um homem doente. Não era capaz de Lhes escapar através do sono nem exorcizá-los pela oração. por trás de uma barricada de toros e areia empilhada. a correr-lhe pelas artérias. Pouco antes de o Sol nascer adormeceria novamente.disse o bispo suavemente. tentou retardar o Purgatório. . Abaixo delas. Ainda bem que posso ser útil. os chinelos de quarto e o robe e saiu para a varanda. Levar-lhe-ão o pequeno-almoço ao quarto. uma hora. Sugiro-lhe que fique até tarde na cama amanhã. Os laranjais luziam friamente e as folhas das oliveiras brilhavam como pontas de adaga retiradas de uma massa contorcida de sombras.uma caravela de prata antiga a vogar tranquilamente num mar luminoso. depois encher-se-ia de suporíferos e voltaria para a cama. Fez-me sentir em casa. a vergonha da dissolução lenta. Era um estranho misto de terrores: o medo da morte. em vez da fadiga que sentia. depois o sono chegaria. não o suficiente para Lhe retemperar as forças.Mas o celibato torna-nos egoístas e esquisitos. mas que em breve defrontaria sem véus e glorioso no seu julgamento. duas no máximo. superficial e agitado.É tarde e deve estar fatigado. O seu decurso já se Lhe tornara familiar.cadeira para trás e levantou-se. Eminência. o luar jorrando pelos caixilhos abertos das janelas. Antes de os galos anunciarem a falsa madrugada com a sua cantoria. o ventre a contorcer-se-lhe de dor. A Lua erguia-se. mas disse muito humildemente: . . cada vez mais débil.

Plantaram a Cruz no meio do deserto . Blaise Meredith olhou para a paisagem que tinha à sua frente e considerou-a boa.deixando do lado de fora o caos dos séculos. consequentemente. cardeal ou lavadeira. No entanto. mas acumulava propriedades como qualquer companhia pública. reformadores.. um acto santificado. Fazer florir a terra estéril era tomar parte no acto da criação. perfeitos na sua natureza e segundo as leis que governavam o seu crescimento e decadência. O homem era um junco pensante. formalistas como Blaise Meredith e loucos como o padre calabrês. Pregava o afastamento das coisas do mundo. no mundo. padres mundanos e anticlericais devotos. Ensinar estas questões a outros homens era fazê-los. mas assinava concordatas com aqueles que queriam destruí-la. Perdoava os adúlteros e excomungava os heréticos. quando o corpo adoecia. para que do símbolo estéril florescesse uma realidade verde. papas políticos. Boa em si. regado nas raízes. também. no entanto jogava na bolsa de valores internacional através do Banco do Vaticano. O homem não vivia só de pão . Aurelio. Os monges antigos tinham tido a mesma ideia. Plantar uma árvore era. Era ali que residia o mistério da Igreja: que mantivesse em unidade orgânica humanistas como Marotta. todos aceitariam . árvore e animal eram resultado do mesmo acto criativo que produziu o homem. Todos eram bons em si.mas todos os seus membros desejavam morrer no seu seio. para nela se viver . o papa. Ele era o herdeiro da tradição mais antiga e mais ortodoxa da Igreja: a de que terra. participar num plano divino.e depois plantaram milho e árvores de fruto. a responsabilidade moral ficava reduzida. boa no homem que por ela era responsável. erva. mas um pragmático cristão. Tornava necessária uma adesão inabalável à defesa da doutrina e permitia uma extraordinária divergência de disciplina. freiras que praticavam enfermagem. Era rígida com os seus próprios reformadores.. melhor que ninguém. bispo de Valenta. que o homem era uma criatura de carne e espírito.mas não podia viver sem ele. Impunha a pobreza aos seus religiosos. Era a mais dura comunidade. rebeldes e conformistas puritanos. não merecia a confiança de muitos dos seus colegas. aquecido pelo sol. bispo de Valenta. Somente a sua má utilização por parte do homem poderia reduzi-los a instrumentos do mal. era um pragmático. mas o junco devia ser firmemente ancorado em terra negra. Aurelio. Eles sabiam.

Era um mistério e um paradoxo.gratamente o seu viático do padre mais humilde da província. pelo que se retirou para dentro. . encrespando as estrelas na água.. mais longe de o aceitar do que Lhe acontecera em vinte anos. Agora. Nos seus tempos de saúde. Uma brisa ligeira correu pelo vale.Pater Noster qui es in Caelis. Era isso que o perturbava. subitamente acometido de frio. e começou a rezar. a sua mente aceitara naturalmente a ideia da intervenção divina nas questões humanas. não obstante Blaise Meredith estava mais longe de o compreender. Meredith estremeceu. água de um lago tranquila sob um luar eterno. Ajoelhou-se no oratório por cima do qual se via a figura de Cristo. e não houve resposta do Pai sem rosto ao filho moribundo.. de madeira.. . que a vida se Lhe esvaía lentamente. se é que o havia. uma flor.. apresentava-se completamente fechado para ele. fechando a porta da varanda atrás de si.uma árvore. agitando as folhas estaladiças. Mas o céu. dava consigo desesperadamente apegado à manifestação mais simples de continuidade física .

saiu. Depois voltou a entrar em casa. hesitante como uma tartaruga a fazer a sua primeira exploração cautelosa do dia. fechando a porta com um baque sonoro. os primeiros trabalhadores do campo a rumarem para os terraços e as faixas cultivadas. a janela do andar de cima abriu-se e a cabeça grisalha e desgrenhada do padre Anselmo apareceu. moreno como uma castanha. cerca de três quilómetros ao fundo do vale. Depois de um minuto de contemplação. o matraquear de uma carroça de burro sobre as pedras. Mal ela se afastou.mulheres a fazer os despejos da noite. bocejando e coçando os sovacos. raparigas de pernas nuas a caminho da cisterna. transportando enormes garrafões verdes à cabeça. embora se apegasse como um animal às imagens e sons familiares: o ressoar rítmico do martelo. atravessou tropegamente a estrada e esvaziou o bacio por cima do muro. para ir tirar água à cisterna. com os casacos rotos aos ombros e o pão com azeitonas embrulhado em lenços de algodão. toda a aldeia se agitava . para abrir a porta da sua oficina e pôr os foles a funcionar. e postou-se. escarrou ruidosamente. atarracado. espreitou a rua empedrada. Depois foi a vez de a porta da casa do padre se abrir e de Rosa Benzoni caminhar desajeitadamente cá para fora. A amplitude do seu desencantamento via-se pela indiferença com que encarava aquela hostilidade. as vinhas e os olivais a estenderem-se pela encosta em . o choro estridente das crianças. Aldo Meyer observou tudo sem curiosidade. apesar de passarem por ele de cabeças viradas para o lado ou fazerem o sinal contra o mau-olhado em direcção à sua porta. de ventre bojudo. a ver o sol a iluminar o telhado do novo hospital em Gemello Maggiore.CAPÍTULO III O Dr. Primeiro foi a velha Nonna Patucci a abrir a porta. gorda e disforme num vestido preto. o mulherio a ralhar entre si. Como obedecendo a um sinal. o ferreiro. de camisola interior. calças e socas de madeira. Felici. cuspiu para o chão e foi abrir os postigos. para cima e para baixo. furtiva como uma bruxa. sobre a vinha que se estendia mais abaixo. sem ressentimentos. do outro lado. crianças meio despidas urinando contra o muro da estrada. o sapateiro. Aldo Meyer deixou-se ficar à soleira de sua casa a ver a aldeia acordar preguiçosamente para um novo dia. Quando as suas primeiras marteladas começaram a soar na bigorna. A seguir surgiu Martino.

As suas vestimentas eram tão loucas como os seus costumes: camisa vermelho-vivo. com o passageiro do assento de trás a pular estrada acima no meio de uma nuvem de poeira cinzenta.e. o inglês era matto . esparsas. Do fundo do vale chegou-lhe o fragor diluído de uma motocicleta e. que se ligara a Black fazendo de guia. o passageiro que trazia à boleia era um jovem da localidade.para um lugar e um futuro novos .fé. Nem sequer dispunha da desculpa da juventude . enquanto Maria Rossi morria de parto com a sua relíquia sobre o ventre inchado. quando as raparigas deixaram de suspirar por ele.já passara dos trinta . avistou uma pequena Vespa. calcadas por gente ingrata e ignorante. sandálias de corda e um chapéu de palha que já conhecera melhores dias. O espectáculo não tinha nada de extraordinário. o brilho do sol sobre a próspera aldeia da colina mais afastada. estrada acima. Paolo Sanduzzi. as casas em mau estado que se espalhavam. A Vespa e o automóvel da condessa eram os únicos veículos motorizados existentes em Gemello Minore. os mais velhos começaram a tecer conjecturas grosseiras acerca da sua ligação com a condessa. A Vespa provocara um pequeno tumulto e um imenso pasmo que durara semanas. Para os aldeões.um tipo maluco que cirandava de um lado para o outro com um bloco de desenho ou que ficava horas sentado ao sol a pintar oliveiras. animal de carga e instrutor do dialecto e dos costumes locais.um pintor inglês. O seu melhor estava ali . que vivia em esplendor solitário por trás . rochas caídas a esmo e ângulos de edifícios em ruinas. sugadas e desperdiçadas em terra estéril. mas divertiu vagamente Aldo Meyer. calças de ganga desbotadas. debaixo de cuja aba um rosto sorria perversamente para o mundo que o rodeava. hóspede da condessa que vivia na villa situada no topo da colina e a quem pertencia metade do terreno arável e também a maior parte de Gemello Minore. Mas todas as noites a decisão se Lhe esvaía e ele sentava-se a beber até ir para a cama.e abandonar aquela malfadada tribo ao seu desvario. O seu motorista também era fora do comum . onde o santo fazia milagres para os turistas. Todos os dias prometia a si mesmo fazer as malas e partir .direcção aos campos do vale. O pintor chamava-se Nicholas Black. esperança e caridade praticadas até à exaustão. em direcção à grande villa que coroava o topo da colina. A verdade insofismável era que ele não tinha sítio para onde ir e nenhum futuro para construir. ao virar-se na sua direcção.

A Vespa deteve-se ao fundo da aldeia. com inocência maliciosa.Ressaca? . em direcção à casa da mãe. a quem o povo começara a chamar de santo.Comevá.inquiriu o pintor.retorquiu Meyer. que Lhes dera desconto. à maneira dos camponeses. como Nicholas Black. onde uma velha figueira acinzentada formava um dossel que protegia do sol. o jovem apeou-se e Meyer viu-o descer a vertente da colina com dificuldade.. Uma mulher servia-a de pão fresco. A Vespa foi de novo posta a trabalhar com estrépito e alguns momentos mais tarde detinha-se em frente da casa de Meyer. . O pintor apeou-se agilmente do seu assento e abriu os braços num cumprimento teatral: . seguido pelo seu visitante. com o seu corpo esguio de árabe e o rosto macio. Tinha as costas direitas. se tiver algum. um pedaço de queijo branco e uma malga com fruta da terra. mas não engordara como as mulheres da montanha.dos portões gradeados da villa. Sabia demasiado acerca da condessa e nos seus tempos em Roma lidara com demasiados artistas. A sua curiosidade era tanto maior pelo facto de ter sido ele próprio a trazer o rapaz ao mundo e saber que seu pai fora Giacomo Nerone.De que outra maneira conseguiria eu fazer face ao nascer do Sol? . dottore? Como é que as coisas vão esta manhã? Gostaria de uma chávena de café. Meyer encolheu os ombros com ar cansado e entrou em casa. com um sorriso. atravessando-a para desembocar num pequeno jardim murado.Há sempre café . Via-se uma mesa tosca coberta com uma toalha aos quadrados e com a louça de barro típica da Calábria. . ambos meticulosamente limpos. uma construção tosca de pedra situada no meio de uma pequena área cultivada. e a boca e os olhos eram curiosamente serenos. . e envergava um vestido de pano preto e um lenço da mesma cor. os olhos brilhantes e argutos e a sua tirania sobre o mestre excêntrico.. ao abrigo de um maciço de azevinhos. Tinha as pernas e os pés nus. iniciando a sua nova prole híbrida. como se algum antigo colono da costa tivesse deambulado até às montanhas para ali acasalar com uma mulher das tribos. Os boatos tinham chegado aos ouvidos de Aldo Meyer. Ao avistar o visitante. os seios salientes e firmes e as feições de um grego puro. Teria à volta de uns trinta e seis anos de idade. muitos deles ingleses. Já tivera um filho. Paolo Sanduzzi despertava-lhe mais curiosidade.

.disse Meyer friamente.Oh! Black corou e mudou de assunto.Que coisa? .esboçou um pequeno gesto de surpresa e fitou Meyer inquiridoramente. Ninguém fala de outra coisa. Vão beatificá-lo.Desse vosso santo.Absoluta.Tem a certeza do que afirma? . . apelando às pessoas que estiverem de posse de provas. os olhos do pintor seguiam-na e ele sorriu com ar conhecedor. dottore! Estive lá ontem para arranjar umas telas e tintas. . Vem cá todos os dias fazer a limpeza e cozinhar para mim. Já se fala nisso há coisa de um ano.O senhor surpreende-me.É de cá .Tem uma casa que é dela e é muito reservada. . Daqui a uns dias estará aqui. . O bispo tem um hóspede em casa. . dottore. .Não é novidade nenhuma. .Gostaria de a pintar. . . O senhor também ficará famoso.Meyer pousou violentamente a sua chávena.Ah. Meyer esboçou um gesto de indiferença e tomou um gole de café. um monsenhor de Roma que foi nomeado para tratar do caso.Porque não? . Observando a mulher enquanto ela se encaminhava para dentro de casa.Grandes notícias de Valenta. ao que parece.É disso que tenho receio .observou Meyer sombriamente. . . .Esta terra vai tornar-se famosa. grisalho e com ar de rato do Vaticano. . volúvel e dramaticamente.Não o aconselho a fazê-lo .disse-lhe Meyer secamente. . . Eu próprio vi o tipo a guiar o carro de Sua Eminência.É a mãe de Paolo Sanduzzi. mas fez-lhe discretamente sinal para que se retirasse. Correu a aldeia toda. Sentaram-se à mesa e Meyer serviu o café.Estará uma ova! . Onde é que a achou? Nunca a vi antes. Este nada disse. portanto faço tenções de Lhe oferecer um convite da parte da condessa para o alojar. Parece que é inglês. .O astuto rosto de fauno mostrava-se iluminado por um divertimento sardónico. Giacomo Nerone. depois Black começou a falar. mas agora é a sério! . doutor. Deixaram-se de conversas e iniciaram um processo oficial. a colocá-los em todas as igrejas.Soltou uma risada e serviu-se de nova chávena de café. Durante alguns instantes reinou o silêncio. Neste momento estão a fazer circular os avisos.

. e cabe-me registar a beleza e a loucura da humanidade. . . e o título já está pronto: Beatificação. é simples. Sem erguer os olhos. porque veio até cá? Notava-se uma ponta de ira na voz de Meyer e Nicholas Black notou-a imediatamente. é o que acontecerá quando eles começarem a desenterrar a verdade autêntica relativa a Giacomo Nerone. Aqui há toda uma galeria de quadros. Um aldeão santo. irritado.Mas eu estou envolvido. Sei o que a Igreja está a tentar fazer e porque será bem sucedida. meu caro doutor.Antes de mais nada.declarou o médico suavemente. e estou morto por ver. . O senhor também não. . Imagine o que Goya poderia ter feito numa situação como esta.. com bastante sucesso. .E a condessa não é uma pessoa simples. compreendo até muito bem. Como vê.Os olhos do pintor brilharam de interesse. O que não sei. Irá ser uma perfeita comédia. mas agora creio que ficarei. . A condessa foi uma das minhas clientes. Conto que me financie outra exposição daqui a uns tempos. apesar de já ter sido no final da temporada. mesmo até o próprio bispo. Felizmente morreu há muito tempo. . Tencionava partir na próxima semana. Comprou três quadros. de modo que agora é a minha vez. Sorriu e agitou uma mão volúvel. os aldeões pecadores e todo o clero. Não tem nada a ver consigo. pelo menos durante algum tempo. de facto.retorquiu Meyer. .As mãos compridas do artista agitaram-se enfaticamente.Pelo contrário. por Nicholas Black! O espectáculo de um homem só sobre um único tema.Porque haveria de ter receio? Nem sequer é católico.Receio? . Sou um artista.Não compreende nada. Aquilo que encara como uma comédia provinciana poderá muito bem redundar numa grande tragédia. Fiz uma exposição em Londres. Depois convidou-me a vir para aqui pintar durante algum tempo. Aconselho-o a não se envolver nela.Nunca nada é assim tão simples .É muito simples. . analisando as manchas escuras de fígado e a pele áspera e frouxa que o esclarecia mais do que as palavras sobre os muitos anos com que estava a ficar.Pelo contrário. Compreendo o que tentou fazer aqui e não conseguiu. O inglês atirou a cabeça para trás a rir. meu caro! . um observador. Que acha? Aldo Meyer baixou o olhar para as costas das mãos.O senhor não compreende . .

Quando ia a meio da casa. mas não nos compreende. meu amigo? . O senhor não pertence aqui.Nunca vi nenhum milagre. conhecia-o.. A condessa manda-lhe um . não é? .Já alguma vez sentiu vergonha de si mesmo. A sombra da figueira caiu-lhe sobre o rosto. meu caro doutor. ..? -. respondeu: .retorquiu Aldo Meyer gravemente.É meia verdade. Nunca compreenderá. tem receio desta investigação? Aldo Meyer empurrou a cadeira para trás e pôs-se de pé.Acredita neles? . e partir rapidamente.Acho que você é um homem muito infeliz. A única resposta que obteve foi o sorriso de pesar zombeteiro esboçado por Black. . Mas volto a dar-lhe um conselho: devia partir. Anda à procura de algo que nunca encontrará. .Nunca . Passado um momento. Sei que todos têm escondido algo. . Fala a nossa língua. Os olhos brilhantes e sardónicos fixaram-se no rosto esvaído do médico.Só de homens.Mas olhe que compreendo.Então por que motivo. A Igreja quer um santo e o doutor quer manter um segredo que o desacredita. o pintor deteve-se e voltou para trás.O rosto agradável e andrigino iluminou-se de malícia. doutor! . Deixe a condessa. . ocultando-lhe a dor repentina nos olhos.Quase me esquecia.E Nerone. Deixe Paolo Sanduzzi.E quanto aos seus milagres? .Ele era um santo? . vai para quinze anos. Nunca na minha vida.disse calmamente: . .retorquiu o pintor alegremente. É verdade.observou o médico brandamente. Acho que devia ir-se embora imediatamente. Deixe-nos a todos para tratarmos dos nossos problemas à nossa própria maneira.. que se levantou para sair. .De verdade que sim. aprofundando-lhe as olheiras das faces. . algo que agora irá ser revelado.Não. Nicholas Black. .E o que eu quero dizer . não conhecia? .. Não apertaram as mãos e Meyer não fez nenhuma tentativa para o acompanhar até fora do jardim. .Conhecia Giacomo Nerone.Sim. o que sempre é mais do que mera mentira. . era um homem.De santos não percebo nada .

. A mulher fitou-o com surpresa e choque.disse Nicholas Black. A imprensa estará interessada. Digamos-Lhe o que desejam ouvir e que o assunto fique arrumado. Nina. meu amigo. para as côdeas de pão que tinham caído e as borras escuras e cremosas que restavam nas chávenas de café.Quem pode combater o vento? Quem pode calar os gritos que eles soltam do outro lado do vale? Até em Roma os ouviram. Talvez então nos deixem em paz.Desta vez não.Trouxe-me notícias . .Então obterá a mesma resposta: nada! Meyer abanou a cabeça lentamente. .Que queria ele. A coisa foi demasiado longe. demasiado airosa para os anos que começavam a notarse no rosto inteligente e infeliz.E é o senhor a dizê-lo? O senhor! Meyer encolheu os ombros com ar derrotado e citou um provérbio antigo da região.Podes levantar a mesa. agora querem fazê-lo beato. ao reparar na sua presença. o homem que faz lembrar um bode? . Nina. . Não passa de mais um nome. Bom dia. Em seguida retirou-se.Terei muito gosto em aceitar.recado. Não altera o que ele foi: um bom homem.disse Meyer secamente. .Mas porque o querem? . .Ci vedremo . Mais vale que agora obtenham a verdade. .Os meus agradecimentos à condessa . e este é o resultado.Fará perguntas como os outros? . Gostaria que fosse jantar com ela amanhã à noite. mas perguntou: . sem ver.disse Meyer. O médico. uma figura esguia. Passado um bocado a mulher saiu da casa e ficou a fitá-lo com uma expressão de ternura e piedade nos olhos tranquilos. muito em breve. . Aldo Meyer sentou-se novamente à mesa e olhou. Nina . Voltaremos a ver-nos. Roma está interessada.Mais do que os outros. falando em dialecto.Agora havia raiva nos seus olhos e na sua voz. o meu homem. Veio um padre de Roma para participar no tribunal do bispo.observou . Nina.Que diferença é que faz? Chamaram-lhe toda a espécie de nomes em tempo de vida. . com indiferença.Eles não querem um homem. tal como a mulher.Andam a iniciar novas investigações acerca da vida de Giacomo Nerone. vagamente apalhaçada. . limitou-se a dizer: . Ela não esboçou nenhum movimento para Lhe obedecer. . Não tardará a aparecer por aí. .

absolutamente nada! Sabe porquê. . ou lutar por eles. Giacomo foi um homem notável. Deu-te um filho bastardo. É assim que a Igreja funciona: deita açúcar no vinho velho e azedo. depois gritou-lhe: . . uma nova promessa de milagres que os faça esquecer as dores de barriga. que faz de faminella para o inglês"? Não se vislumbrava qualquer sinal de vergonha no rosto calmo e clássico quando ela respondeu: . quando apontarem para o teu filho e disserem: "Ali vai o filho de um santo.E tu não. mas não podem impedir-me de tomar conta de ti por toda a eternidade!" Eu acreditei nele na altura e acredito nele agora. . velarei por ti e pelo rapaz. .Porque. dottore? Porque. se Lhes contarmos a verdade.Santo Deus.Eu sei que ele era um santo . . mas ainda não está perdido. antes de morrer. Meyer fitou-a.Meyer. O rapaz é tolo. cara. mas nunca casou contigo. "Aconteça o que acontecer.retorquiu Nina Sanduzzi calmamente.Então não tardará a estar . . . Eles podem matar-me. porque assim podem pôr-se de joelhos a implorar favores em vez de arregaçarem as mangas para trabalharem por eles. Giacomo me fez uma promessa em troca da minha.Que responderás tu. Não terão outro remédio. Nina? A resposta dela chocou-o como uma agressão no rosto.disse-lhe ela suavemente. Meyer fora vencido e tinha consciência do facto.Agora . E tu tens a coragem de estar aí a dizer-me que ele era um santo que fazia milagres. embasbacado. porque os vi. que desferiu maldosamente. no entanto restava-lhe mais uma arma. desistirão do caso. . Nina. O povo quere-o. . A Igreja quere-o. porque isso dá-lhes mais uma maneira de controlar o povo: um novo culto. mulher! Até mesmo tu? Ele dormiu na tua cama.Porque ele nunca o teria desejado . mas tinha tanto de santo como eu. Porque não o contaste aos padres da primeira vez? Porque não te Juntaste aos que por aí andaram a gritar pela sua beatificação? .Porque foi a única coisa que ele me pediu: que eu nunca contasse nada acerca dele.disse Meyer brutalmente.Então porque quer que eu os ajude? .Eles querem um santo de gesso com uma auréola dourada na cabeça.Que é que digo quando apontam para mim na rua e sussurram: "Ali vai a que foi a puta de um santo"? Nada.É o que pensa? .Sei que fez milagres. com ar fatigado.

não sentiu paz. e deixa-me em paz. por amor de Deus. levantou-se da cama. A seguir deu a volta ao quarto. depois voltaria de novo a acordar e enfiaria o primeiro cigarro do dia nos lábios sem cor e descaídos. substituindo-as por outras lavadas. mesmo depois de Nina partir. o que era uma gentileza. atrás de cortinados de veludo. enquanto a sua senhora não parava de comentar azedamente o pessoal doméstico e os seus defeitos. Terminado o pequeno-almoço. trazendo o tabuleiro com o pequeno-almoço. muito mais tarde. Nenhuma sombra da manhã penetrava ainda no quarto barroco de altas paredes da villa onde a condessa Anne Louise de Sanctis dormia. a criada ficaria no quarto. Finalmente. que regressaria. caminhou até à porta e fechou-se à chave. esponjas e frascos de . uma criada entraria e afastaria as cortinas.vai para casa. detendo-se em frente de cada uma das janelas para espreitar para o terraço e os jardins a fim de se certificar de que não havia ali ninguém. atarefando-se dentro e fora do quarto de banho. porque a condessa de manhã não era espectáculo agradável de se ver. a boca seca. e sabia que nunca mais a teria até os inquisidores chegarem e arrastarem a verdade para a luz do dia. Como a condessa nunca gostava de tomar as refeições sozinha. para deixar o sol espraiar-se sobre o tapete gasto. puxaria o cordão para chamar a criada. dobrando as roupas espalhadas. Mais tarde. Depois de esmagar a ponta do cigarro no cinzeiro de prata. a criada levaria o tabuleiro. a condessa foi para a sala de banho. segura da sua intimidade. olhos inchados e descontente perante a chegada de um novo dia exactamente igual ao anterior. Acordaria. Mas. Era a única cerimónia importante do seu dia sem importância. e ela executava-a no maior dos secretismos. ela despertaria. a condessa fumaria mais um cigarro antes de iniciar o pequeno ritual íntimo que era a sua toilette. o veludo desbotado e a pátina baça da madeira de nogueira trabalhada. Não havia premonição de problemas que pudesse penetrar a névoa de barbitúricos sob a qual a condessa sonhava. Certa vez um jardineiro curioso atrevera-se a olhar pelas persianas e aquela sua intrusão sacrílega nos mistérios valera-lhe o despedimento imediato. Mais tarde ainda. empalidecida. Terminado o cigarro. sorrindo com um bom humor cheio de ansiedade. Não chegaria à cama. dormitaria. despiu-se e entrou na enorme banheira de mármore com as suas torneiras douradas e a sua variedade de sabonetes.

Nua e resplandecente com a nova ilusão. saía do quarto e descia as escadas que conduziam ao jardim delicioso. o perfumar com uma loção tonificante e adstringente. Havia depois a secagem com toalhas felpudas e aquecidas.a fita para o prender atrás. onde Nicholas Black. Depois. Mas o banho era apenas o princípio. ainda esguias e jovens. Finalmente estava pronta para o clímace a que o ritual conduzia. afastado das maçãs do rosto esfregadas e brilhantes. que lhe diluía as efusões de um sono drogado e trazia de volta a ilusão de juventude a um corpo que começava a envelhecer. começava a vestir-se em frente do retrato. trabalhava numa tela nova. com os cuidados de um manequim. nu da cintura para cima. examinava-se a si própria: a linha das ancas. como a atraí-lo de dentro da moldura para os seus braços expectantes. em direcção a uma das gavetas da cómoda. a cintura um tanto grossa. Não requeria a presença de um parceiro. Vinte minutos mais tarde. não envolvia dependência nem entrega. Se já tinha rugas no pescoço. caminhava de volta ao quarto. Deitada na banheira de água a fumegar. fechava-a à chave e depois. sentava-se em frente do espelho e dava início à maquilhagem do rosto. A juventude ainda não a abandonara e a idade podia ser contida ao largo durante um pouco mais de tempo. o ventre liso e sem marcas de maternidade. Depois de completamente vestida. a que massagens ajudavam a manter a firmeza. calma e garrida. donde tirava a fotografia de um homem em uniforme de coronel alpino e colocava-a de maneira a ficar virada para o interior do quarto. ela ainda não as notara em nenhum espelho. com a ajuda de uma bateria de cosméticos que Lhe chegava. o pó-de-arroz aplicado ao de leve. envergando um elegante vestido de Verão. sem ser em excesso. e a condessa apegava-se a ele com a paixão de uma devota. beijando-lhe as mãos . os seios. a fricção com outras mais ásperas. voltava a guardar a fotografia na gaveta.sais de banho. Ao contrário dos outros prazeres. com toda a tranquilidade. e os vincos na boca e nos olhos ainda podiam ser massajados até desaparecerem. Ao ouvir-lhe os passos voltou-se e aproximou-se para a saudar com efusão teatral. a primeira escovadela do cabelo . semanalmente. aquele podia ser renovado sempre que fosse desejado e prolongado até à saciedade. Não havia prazer comparável àquela primeira imersão na água fumegante. de um discreto instituto de beleza da Via Veneto. pequenos mas redondos e ainda jovens.

.Mas. Achei que te daria prazer.. nunca me perdoarei. cara! Não sei como consegues! Todas as manhãs são como uma nova revelação. ao mesmo tempo que tagarelava como um papagaio contente: . Tomei a liberdade de dizer a Sua Eminência que terias muito gosto em tê-lo como convidado.Não! Era um grito de pânico. Anda. mas animou quando Lhe falei do teu convite para jantar. Não podia dormir com os camponeses. E meu. mas sabia que estavas de boas relações com o bispo. Oh. assim como sabia que não haveria por aqui nenhum outro alojamento apropriado para o homem.Esta manhã tomei café com o nosso amigo doutor. espalhando-lhe a saia do vestido por cima do banco. senta-te e deixa-me admirar-te. mas deveras intimidante.Magnífico. Não pude consultar-te. não parando nunca de falar. pois não? Ou debaixo de algum balcão de tasca. estragas a pose. e deixou que ele a conduzisse até junto de um pequeno banco de pedra à sombra de uma amendoeira em flor.Arrependeu-se imediatamente.. não! Não fales. Pousou o bloco de desenho e acercou-se dela. Mandou vir um monsenhor inglês de Roma para actuar como advogado do Diabo. Não posso deixar de te pintar com esse vestido.. cara! . Tenho cá a ideia de que ele está mais que ligeiramente apaixonado por ti. Aqui estás transformada numa beldade campestre reservada para a minha apreciação privada. inclinando-lhe a cabeça em direcção às flores e colocando-lhe as mãos no regaço. . não é? Além disso. Ajoelhou-se ao lado dela e enterrou-lhe o rosto no . a trabalhar.. O pintor ajeitou-a aparatosamente a seu gosto. é conterrâneo teu. com gestos rápidos e exibicionistas. deleitada diante dos elogios. Não me parece que o pobre diabo possa evitá-lo. zangado e receoso. Não. . . Ele estava com a ressaca do costume. Toda a compostura da condessa se ia por água abaixo e o pintor fitou-a. Se te ofendi. Viveu tanto tempo com os camponeses que Lhe deves parecer uma princesa de contos de fadas aqui no alto do teu castelo.Pensei que era o que gostarias que eu fizesse. as mãos e voz solícitas. Depois agarrou num bloco de desenho e começou. e outra coisa: o bispo de Valenta vai iniciar uma investigação completa à vida e virtudes de Giacomo Nerone. A condessa empertigou-se. Daqui a uns dias estará aqui em cima.e depois fazendo-a rodar sobre si para Lhe ver o vestido. Em Roma eras bela.

.e Nicholas Black andara a melhor parte da vida a tirar proveito das suas loucuras.. Não poderei contar nada que valha a pena. Vá. Terei muito gosto em receber esse tal monsenhor. Nicki. não é verdade? . . poderemos acompanhar as investigações de perto. . . Terminado o desenho.Nos olhos voltou a brilhar-lhe um pequeno sorriso de malícia. Vai colher umas flores para o quarto e deixa-me terminar o meu quadro.Mas que fará ele aqui? Nicholas Black esboçou um gesto vago. Conheceste Nerone. Ela fora simpática para com ele. volta a compor-te e deixa-me terminar este esboço. entregou-o à condessa com um floreado e sorriu interiormente perante a sua expressão de alívio e prazer. Era um truque velho como o mundo para levar à certa as mulheres carenciadas e mais uma vez funcionou. Claro que fizeste bem. Mas.Sua Eminência mostrou-se agradecido..Então porque te preocupas. Já que penso nisso. cada risco foi uma mentira. Eu. Além disso. não foi capaz de a descontrair novamente e. provavelmente tu própria serás uma delas.. Só vêem o que querem ver .. riu-se para com os seus botões. .O que eles todos fazem. Depois. Foi simplesmente uma surpresa.Estás a perturbar-me. como uma criança arrependida.Claro que não me ofendeste.Assim. . Perguntas. . . exame de testemunhas. beijou-lhe a mão e mandou-a embora.. . . não é? A condessa agitou-se pouco à vontade e recusou-se a fitá-lo nos olhos. E também conhecerás alguns dos mexericos de Roma. És um estorvo adorável. Mas todas as mulheres são umas loucas. com indiferença calculada.colo. . por muito que se esforçasse.Ficou instantaneamente jovial.Imagino que sim. quando chegou a altura de Lhe desenhar o rosto.Sabia que terias! . e não me parece que o nosso visitante seja muito aborrecido. Ao vê-la caminhar com passo incerto pelo relvado.. minha querida. ele não Lhe tinha nenhuma aversão pessoal.Só ligeiramente. anotações. cara? Terás um camarote reservado numa comédia de aldeia. A condessa passou-lhe carinhosamente os dedos pelo cabelo e disse com meiguice: . agora não me sinto preparada para elas como antigamente.O rosto ensombrou-se-lhe de novo e começou a mexer nervosamente nas dobras do vestido.

O pessoal fora escolhido pessoalmente pelo conde. assim como os portões de ferro forjado.Mas também ele possuía os seus prazeres secretos. as esculturas e as porcelanas exigidas pelo conde Gabriele de Sanctis para a sua esposa inglesa. Ao submeter-se às pequenas tiranias do pintor. Podia fazer-lhe a vontade . Era esse terror que a acompanhava agora pelo jardim salpicado de cores no topo da colina. apesar de as perceber e tornar alvo de brincadeira. os pinheiros e os laranjais plantados por lavradores arrendatários como tributo pago à família que os mantivera ao seu serviço durante séculos. A sua malícia assemelhava-se à de uma criança. mas que pressupunha sempre uma necessidade inconfessada em relação a ela. A casa. fazia-o porque estas lhe estimulavam a vaidade e porque sabia que ainda dispunha do poder a seu favor. para Lhe garantir a intimidade. Artistas napolitanos pintaram as paredes e os tectos abobadados e uma dezena de conhecedores trouxera os quadros. O muro circular fora erguido. As pedras foram arrancadas à encosta por pedreiros locais. ocasionalmente perniciosa. e o mais subtil de todos era amesquinhar através da intriga o que nunca poderia subjugar pela posse . onde a riqueza e a mão-de-obra barata tinham plantado um oásis no solo infecundo e ressequido da Calábria. remetendo-o para a vida mísera de um artista medíocre e para a sedução de mulheres carenciadas e complacentes. odiosa.a carne ávida.ou podia mandá-lo embalar as suas coisas no dia seguinte. mas o verdadeiro terror ainda ele não descobrira. para a servir solicitamente. sentia-se impotente para as utilizar contra ela. Ele queria que ela Lhe finânciasse uma nova exposição em Roma. embora se permitisse igualmente às loucuras da meia-idade e aos vícios que um corpo ainda vigoroso Lhe impunha. as terras e tudo o que se encontrava no interior de ambas constituíram o seu presente de noivado: um retiro campestre depois da temporada febril de Roma. A terra destinada aos relvados e canteiros fora trazida até ao cimo da colina em baldes transportados às costas das mulheres da aldeia. Para Anne Louise de Sanctis o momento tinha um significado bastante diverso. E fazia muito tempo que ninguém precisava dela. Não era estúpida nem viciosa. mas ele. . da mulher. Desfrutava dos seus medos e da sua solidão. Também ela tinha as suas próprias necessidades. as oliveiras. Agradava-lhe ver que também ele estava a envelhecer e que cada nova conquista se Lhe tornava ligeiramente mais difícil.

languidas e abundantes. vindo de Roma. Encaminhou-se. com passos lentos e arrastados. mas segura: o . Havia drogas para a ajudar a dormir e Nicholas Black para a entreter durante o dia. deixando-a mole e vazia. De repente. ela humilhara-se. onde havia uma pequena estátua de um fauno dancante sobre um pedestal de pedra gasto pelas intempéries. A condessa sentou-se. mas ele recusara. Andava a fugir há demasiado tempo. Havia uma alternativa.onde Gabriele de Sanctis ia ganhando notoriedade ao serviço do duque. Devia haver uma maneira de Lhe pôr termo. porém. fosse qual fosse a dor que pudesse seguir-se à revelação. Não havia possibilidade de escapar ao medo que trazia consigo como um hóspede no seu próprio corpo. acendeu um cigarro e inalou avidamente. desoladora talvez. Uma dezena de outros homens tinha chegado e partido nos anos seguintes. encarregado de fazer perguntas sobre o passado. Para a filha de um diplomata londrino sem importância fora como uma das mil e uma noites encantadas. numa manhã como aquela. Mas ela acabara por se vingar. implorando-lhe que a exorcizasse. Mas como pôr-lhe fim? Abrir todas as portas. a vida que se lhe insuflara no banho matinal pareceu esvair-se do seu corpo. Espiaria e vasculharia e nem mesmo a porta trancada do seu quarto de dormir guardaria segredos para ele. fantasmas assombrando os olivais e rindo escarninhos como sátiros no meio das laranjeiras em flor. inundando os pulmões de fumo e sentindo a tensão começar a diminuir lentamente. mas o terror chegara com ela aos portões e não mais a abandonara desde então. Mas agora ia chegar um homem: um clérigo de rosto sombrio. Agora compreendia. humilhar-se perante os inquisidores. se assim não fosse. Em frente do fauno via-se um banco rústico sobre o qual pendiam madressilvas.um suicídio duvidoso no deserto da Líbia. acabaria por resvalar para o negrume da loucura que ameaça todas as mulheres que atingem a menopausa infelizes e sem estarem preparadas. mas já morrera há muito . a vingança trouxera. mas nenhum deles fora capaz de a tirar daquele lugar.pesadelos na enorme cama barroca. Ultimamente incomodavam-na menos. No mesmo jardim. Gabriele de Sanctis dera-lhe origem. novas fúrias a atormentá-la . Alojar-se-ia na sua casa e comeria à sua mesa. submeter-se à penitência da confissão? Já o tentara anteriormente e o fracasso fora total. até um pequeno caramanchão escondido na orla do olival. Fora então que Giacomo Nerone aparecera. cobrar dívidas antigas e registar culpas enterradas.

uma promessa de outras soluções.. seria um presságio favorável . Se o fizesse. então seria simples.pequeno frasco das cápsulas gelatinosas que Lhe traziam o sono todas as noites. Ainda restava um pouco de tempo. irónico e derradeiro.e estaria terminado. De certa maneira seria o corolário da sua vingança contra Giacomo Nerone e também uma vingança para o corpo que a traíra com ele.. ela ainda estaria bela como ficava todas as manhãs quando saía do banho perfumado. quando a encontrassem. ora. de uma vez por todas. e a ele com ela. e. . e se ele não a pressionasse excessivamente.apenas ligeiramente maior . Uma quantidade um pouco maior . Mas ainda não. O padre que viesse.

CAPÍTULO IV Para Blaise Meredith os dias passados em casa do bispo foram os mais felizes da sua vida. Homem frio por natureza, começara a entender o significado da camaradagem. Reservado e auto-suficiente, entendera, pela primeira vez, a dignidade da dependência, o privilégio de uma confidência partilhada. Aurelio, bispo de Valenta, era um homem dotado da faculdade da compreensão e de um talento raro para a amizade. A solidão e a coragem desencantada do seu hóspede tinham-no tocado profundamente, de modo que lançou mãos, com tacto e simpatia, ao estabelecimento de uma situação de intimidade entre ambos. Logo na primeira manhã, bem cedo, entrou no quarto de Meredith levando consigo o volumoso livro de registos contendo as primeiras investigações efectuadas sobre Giacomo Nerone. Encontrou o padre, pálido e fatigado, sentado na cama com o tabuleiro do pequeno-almoço nos joelhos. Pousou o livro sobre a mesa e aproximou-se solicitamente, sentando-se na beira da cama. - A noite foi má, meu amigo? Meredith assentiu debilmente. - Um pouco pior do que o habitual. Talvez tenha sido da viagem e da excitação. Peço que me desculpe. Devia ter participado na missa de Vossa Eminência. O bispo abanou a cabeça, sorrindo. - Não, monsenhor. Agora encontra-se sob a minha jurisdição. Só tem autorização para a missa de domingo. Dormirá até tarde e retirar-se-á cedo, e, se o apanho a trabalhar demasiado duramente, poderei retirá-lo do caso. Agora está no campo. Desfrute de um pouco de tempo para si. Cheire a terra e as flores de laranjeira. Liberte os pulmões do pó das bibliotecas. - Vossa Eminência é bondoso - observou Meredith gravemente. - Mas o tempo que resta já é pouco. - Razão ainda mais forte para que o gaste mais consigo retorquiu-lhe o bispo. - E também um pouco comigo. Não se esqueça de que também sou um estranho aqui. Os meus colegas são boa gente, na sua maioria, mas uma companhia muito entediante. Há coisas que gostaria de Lhe mostrar, conversas que apreciaria ter consigo. Quanto a isto - apontou para o grosso volume encadernado a couro - pode lê-lo no jardim. Metade não passa de repetições e retórica. O resto poderá assimilar em poucos dias. As pessoas que deseja

ver estão apenas a uma hora de distância de carro... e o meu está à sua disposição em qualquer altura, com um motorista para tomar conta de si! O rosto pálido de Meredith abriu-se lentamente num sorriso intrigado. - A sua bondade para comigo parece-me estranha. A que se deve? O rosto do bispo iluminou-se com um sorriso juvenil. - O meu amigo viveu demasiado tempo em Roma. Esqueceu que a Igreja é uma família de fiéis, não simplesmente uma burocracia de crentes. É um sinal dos tempos, um dos sinais menos prometedores. Estamos no século da máquina e a Igreja já pactuou demasiadamente com ela. Agora no Vaticano há relógios, máquinas de calcular e papéis informativos para controlo das acções do mercado. Meredith, apesar do seu cansaço, desatou a rir, divertido. O bispo anuiu aprovadoramente. - Assim está melhor. Um pouco de riso honesto só nos fazia bem a todos. Precisamos de um satírico ou dois para nos restituir o sentido das proporções. - Provavelmente acusá-los-íamos de calúnia - observou Meredith com uma careta - ou processávamo-los por heresia. - "Inter faeces et urinam nassimur"! - citou calmamente o bispo. - Quem o disse foi um santo, e tanto se aplica a papas e padres como às prostitutas de Reggio di Calabria. Um pouco mais de gargalhadas perante o nosso cómico estado, algumas lágrimas honestas por comiseração relativamente às coisas, e seríamos todos cristãos bem melhores. Agora termine o pequeno-almoço e vá dar uma volta pelo jardim. Gastei muito tempo nele; detestaria que um inglês não Lhe ligasse importância! Uma hora depois, banhado, barbeado e revigorado, Meredith foi até ao jardim, levando consigo o livro de depoimentos sobre Giacomo Nerone. Chovera durante a noite e o céu mostrava-se límpido, ao mesmo tempo que se sentia o ar impregnado do cheiro a terra molhada, folhas lavadas e florescências recém-abertas. As abelhas zumbiam no meio das flores das laranjeiras e dos hibiscos escarlates, e os cravos e goivos erguiam-se, erectos, de cores berrantes, em redor das bermas de pedra dos carreiros. Mais uma vez Meredith sentiu nascer no seu íntimo uma ância de permanecer naquela terra impetuosa, cuja beleza via pela primeira vez. Se ao menos pudesse ficar junto dela mais tempo, enraizar-se como uma árvore, sentir as intempéries e o vento sobre si, mas, ainda assim, sobreviver para a chuva e o sol e a renovação da Primavera. Mas não. Vivera demasiado tempo no meio do pó das bibliotecas, e, quando

chegasse a altura, enterrá-lo-iam no meio dele. Não Lhe cresceriam flores pela boca como aos homens mais humildes, nem raízes se enroscariam nos restos do seu coração e dos seus rins. Enfiá-lo-iam num caixão de chumbo e levá-lo-iam para uma cripta funerária na igreja do cardeal, onde ficaria a desfazer-se, estéril como vivera, até ao dia do Juízo. à volta dos troncos da oliveira, a erva era verde e o ar quente e tranquilo. Tirou a batina e o colarinho e abriu a camisa para que o calor Lhe inundasse o peito magro; depois sentou-se, apoiando as costas ao tronco de uma árvore, abriu o enorme volume encadernado a couro e começou a ler: Depoimentos preliminares sobre a vida, virtudes e alegados milagres do servo de Deus Giacomo Nerone. Recolhidos a pedido e sob a autoridade de Sua Eminência o Bispo Aurelio, titular de Valenta, província da Calábria, por Geronimo Battista e Luigi Saltarello, padres da mesma diocese. A seguir vinha a cautelosa delimitação de responsabilidades: Os depoimentos e informações que se seguem não possuem carácter judicial, pois até à data nenhum tribunal os julgou e nenhuma autorização foi promulgada no sentido de se examinar oficialmente a causa do servo de Deus. Embora tenham sido empreendidos todos os esforços para se chegar à verdade, as testemunhas não prestaram juramento nem foram colocadas debaixo da alçada canónica para revelarem quaisquer matérias do seu conhecimento. Também nenhum dos processos de um tribunal diocesano foi observado no que se refere ao secretismo e ao método de registo. As testemunhas foram advertidas, no entanto, de que podem ser chamadas a prestar testemunho sob juramento no referido tribunal, quando e se constituído. Blaise Meredith abanou afirmativamente a cabeça e franziu os lábios com satisfação. Até ali estava tudo muito bem. Era a burocracia da Igreja em acção a legalidade de Roma aplicada às matérias do espírito. Os cépticos poderiam escarnecer dela, os crentes poderiam rir dos seus excessos, mas, na sua essência, era sólida. Tratava-se do mesmo génio que dera ao Ocidente o código de civilização sob o qual, pelo menos em parte, ainda se regia. Virou a página e continuou a ler: De non cultu (decreto de Urbano VIII, 1634) Em vistas de os relatórios referentes às visitas de peregrinos e à veneração prestada por determinados membros da comunidade dos fiéis no local de repouso do servo de Deus,

consideramos nosso dever firme inquirir se os decretos do pontífice Urbano VIII proibindo o culto público foram observados. Verificámos que muitos dos fiéis, tanto pessoas de fora como da localidade, visitam o túmulo de Giacomo Nerone e aí rezam. Alguns deles imploram benemerências espirituais e temporais mediante a sua intercessão. As autoridades civis, em particular o prefeito de Gemello Maggiore, têm feito alguma publicidade nos órgãos de comunicação e melhorado as condições de transporte para encorajarem o fluxo de visitantes. Embora o facto possa ser uma indiscrição, não infringe, porém, os canones. Nenhum culto público é permitido em termos canónicos. O servo de Deus não é invocado em cerimónias litúrgicas. Não se expõem fotografias ou imagens para veneração pública e, com excepção dos relatos deturpados de parte da imprensa, até ao momento ainda não circularam quaisquer livros ou panfletos contendo relatos de milagres. Certas relíquias do servo de Deus circulam privadamente entre os fiéis, mas não se permitiu que lhes fosse prestada nenhuma veneração pública. Assim, somos de opinião de que os canones que proíbem o culto público têm sido observados... Blaise Meredith dormitou ligeiramente ao chegar ao fraseado mais formal. Tratava-se de terreno já muito conhecido para ele - familiar mas reconfortante. A Igreja tinha por função não só impor a crença mas também limitá-la, encorajar a piedade mas desencorajar os que eram excessivamente piedosos. As leis existiam, por muito retrógradas que fossem, devido à ignorância, e a sua razão fria representava uma contenção aos exageros dos devotos e às exigências desmedidas dos puritanos. Mas ele ainda se encontrava muito longe do cerne do problema - a vida, as virtudes e os alegados milagres de Giacomo Nerone. O parágrafo seguinte aproximou-o um pouco mais. Intitulavase: De scriptis Não foram encontrados escritos de nenhum género atribuíveis ao servo de Deus. Determinadas referências, posteriormente notadas nos depoimentos, apontam para a possível existência de um manuscrito que se perdeu, ou foi destruído ou deliberadamente oculto por pessoas interessadas. Até se iniciar o processo judicial e ser possível exercer pressão moral sobre as testemunhas, é improvável que obtenhamos mais informações acerca deste aspecto importante. Blaise Meredith franziu o sobrolho, pouco satisfeito. Não havia escritos. Uma pena. Do ponto de vista jurídico, as coisas que um homem escrevia constituíam o único indício seguro das suas

crenças e intenções e, na lógica rigorosa de Roma, estas eram ainda mais importantes do que as suas acções. Um homem poderia assassinar a mulher ou seduzir a filha e continuar a ser membro da Igreja; mas ele que rejeitasse uma letra que fosse de uma verdade estabelecida e seria imediatamente proscrito. Poderia passar toda uma vida a fazer actos de caridade que no final desta nenhum mérito Lhe seria atribuído. O valor moral de um acto dependia da intenção com que era realizado. Mas, quando um homem morria quem poderia adivinhar os segredos do seu coração? Era um começo desanimador e o que se Lhe seguia ainda o era mais: RESUMO BIOGRÁFICO Nome: Giacomo Nerone. Há uma razão - mais tarde referida nos depoimentos - que leva a crer tratar-se de um pseudónimo. Data de nassimento: desconhecida. Descrições físicas prestadas por testemunhas variam consideravelmente, mas tudo aponta para que tivesse entre trinta e trinta e cinco anos de idade. Local de nassimento: desconhecido. Nacionalidade: desconhecida. Existem indícios de que Giacomo Nerone foi, inicialmente, considerado italiano, mas que, mais tarde, surgiram dúvidas quanto à sua identidade. Foi descrito como alto e moreno. Falava italiano fluente e correctamente, embora com sotaque nortenho. A princípio não adoptou o dialecto, mas mais tarde aprendeu-o e passou a falá-lo constantemente. Durante o período abrangido pela sua vida em Gemelli dei Monti, unidades dos Exércitos alemão, americano, inglês e canadiano estiveram em operações na província da Calábria. Têm-se feito várias suposições quanto à sua nacionalidade, mas os dados que foram apontados são, no nosso parecer, inconclusivos. Somos de opinião, contudo, que, por razões ainda não esclarecidas, ele fez um esforço considerável para esconder a sua verdadeira identidade. Também achamos que certas pessoas estavam a par da mesma, mas ainda se esforçam por ocultá-la. Data de chegada a Gemelli dei Monti: desconhece-se ao certo a data exacta, mas a opinião geral aponta para que terá sido em finais de Agosto de 1943. Esta data coincide mais ou menos com a da conquista da Sicília por parte dos

este era duvidoso. em casos como aquele. ensinamentos. pela lei natural. Começava pela premissa de um Deus pessoal que se autopreservava. A relação entre o Criador e a Sua criatura era definida. Certo era apenas o começo. e quaisquer declarações de santidade e heroísmo devem ser julgadas tendo como base os registos existentes sobre este período de tempo singularmente curto. a seu lado. no meio de toda uma vida que durara trinta a trinta e cinco anos. às 15 horas. cujos meandros eram visíveis e apreensíveis pela razão humana. mas. mortes e ressurreição do Deus tornado homem. Havia apenas um período de onze meses conhecido e garantido por testemunhas. que não chegou a um ano. Não havia escritos através dos quais fosse possível fazer um escrutínio. Todos os testemunhos se referem a este período. ser-se obrigado a voltar à lógica fria dos teólogos. Apoiou a cabeça contra o tronco rugoso da oliveira e reflectiu sobre o que acabara de ler. Data da morte: 30 de Junho de 1944. O homem era o resultado de um acto criativo da sua vontade divina. Havia demasiados pontos por esclarecer e a imputação de um secretismo deliberado era perturbadora. do ponto de vista do advogado do Diabo. Giacomo Nerone foi executado por um pelotão de guerrilheiros sob o comando de um homem conhecido por "Il Lupo" ["o Lobo"].Aliados e com as operações do 8º Exército inglês na província da Calábria. Blaise Meredith cerrou o espesso volume e pousou-o na relva. A perfeição do homem e a sua união última com o Criador dependiam de aquele aceitar a relação entre . antes de mais nada. Período de residência em Gemelli dei Monti: de Agosto de 1943 a 30 de Junho de 1944. Jesus Cristo. Tanto a data como a hora são específicas e confirmadas por testemunhas oculares. que era o tema da investigação de Meredith e do processo judicial do tribunal do bispo. Enterro: o corpo de Giacomo Nerone foi removido do local da execução por seis pessoas e enterrado no local conhecido por Grotta del Fauno. As circunstâncias também foram confirmadas por testemunho unânime. Acontecia sempre. onde presentemente se encontra. depois por uma série de relações divinas que terminavam na encarnação. Tanto a identificação do corpo como as circunstâncias do enterro são confirmadas pelo testemunho unânime daqueles que tomaram parte na inumação. era auto-suficiente e omnipotente. Nenhum daqueles factos excluía a santidade.

até à hora do almoço.nenhuma das quais podia ser atingida pelo homem pelo seu poder próprio. a santidade heróica. estas deviam ser preenchidas. a qual Lhe era sempre permitida na medida suficiente para garantir a salvação. Todas as eras tinham produzido a sua safra própria de santos. . O ar estava cálido. Esta implicação é que perturbava Meredith no início do estudo do caso de Giacomo Nerone.actos além do poder humano alterações divinas da lei da Natureza. através da utilização de graças especiais . Mas o que um homem deve fazer e o que a sua força Lhe permite são. . muitas vezes. Blaise Meredith deixou-se vencer por este conjunto de factores e dormiu. por um apoio divino a que se dava o nome de graça. já que envolvia a projecção de uma nova alma nas dimensões da carne. Sua Eminência riu agradavelmente quando Meredith Lhe confessou com pesar a sua fraqueza matinal.os dois. por sua própria natureza.óptimo! óptimo! Ainda fazemos de si um homem do campo. nesta conformidade. a sua salvação dependia do seu estado de conformação no momento da morte. e a noite mal dormida dominou-o insidiosamente. já que todos os actos a condicionavam para o seu último momento. duas coisas diferentes. o zunido dos insectos enganadoramente repousante. sobre a relva macia. A salvação implicava perfeição. A proclamação oficial envolvia algo diferente: o pressuposto de que a divindade desejava tornar as virtudes do santo conhecidas. O nascimento de um homem não tinha nada de trivial. A progressão da vida nada tinha de trivial. O homem era ajudado. Se se ocultassem factos. Blaise Meredith teria de os extrair à força. mas uma perfeição limitada. prestar-se a trivialidades ou a secretismos simplistas. E a sua morte era o momento em que o espírito era arrancado ao corpo na irrevogável atitude de conformidade ou rejeição. nem todos eles conhecidos. fossem quais fossem as lacunas na história pessoal de Giacomo Nerone. assim como nem todos oficialmente proclamados. pois também ele não tardaria em ser chamado a julgamento. implicava um apelo especial a uma perfeição maior. chamando a atenção sobre elas através de milagres . De modo que. Todo o teólogo acreditava no simples axioma segundo o qual um ser omnipotente não podia. desde que ele cooperasse com ela de livre vontade. Mas a santidade.

Cláro que a imagem poderá enriquecer à medida que eu for avançando.Precisamente. nem sequer fornecem uma imagem clara de Giacomo Nerone. . É uma das razões que me levam a ter tantas dúvidas em relação ao assunto. mas para já não há contornos definidos.observou-lhe Meredith suavemente.Estaria decidida a não ter nada a dizer. .Ainda não li nem estudei o suficiente. formal. . Temos uma linguagem que nos é própria. São obviamente resultado de uma investigação apurada. Mas. Em termos formais estão correctos.Nem mesmo de propósito. ou das testemunhas em si. E normalmente os santos são pessoas muito controversas. com grande interesse. E ambos são importantes aos nossos propósitos. como hei-de dizer. governada por uma casta sacerdotal. no seguinte: a Igreja é uma teocracia.Para mim.É quase como se uma parte da população se houvesse convencido de que este homem é um santo e quisesse prová-lo a todo o custo. . Malogradamente também temos uma retórica muito .disse Meredith. o meu amigo pôs o dedo num problema que tem merecido a minha reflexão há muito tempo: a dificuldade de uma comunicação exacta entre o clero e os leigos.Aí tem! . Dei uma olhada a alguns dos testemunhos pouco antes de vir almoçar mas receio achá-los deveras insatisfatórios. Não se notam elementos contraditórios ou controversos.Em que aspecto? .É difícil de definir.disse Meredith cautelosamente. como se as testemunhas falassem uma língua nova. A raiz desse mal está. reflectindo sobre a questão. ainda é muito cedo para estar a julgar essa possibilidade . . com bom humor e ironia. .E a outra parte? . uma linguagem hierática. admiravelmente adaptada a uma definição legal e teológica.Mas existem elementos de secretismo . segundo me parece. nem a favor nem contra. . se preferir. . de que o senhor e eu somos membros.exclamou o bispo.Não sonhei . estilizada.Teve bons sonhos? . . e que inibe até mesmo uma intimidade saudável no confessionário. . .Também foi a impressão que eu próprio tive. .O que foi uma bênção tão grande como a do sono Mas pouco trabalho adiantei. Mas o tom que se nota nos depoimentos que já examinei até agora é formal e estranhamente irreal. Os depoimentos são todos parecidos. O bispo manifestou a sua concordância.O bispo tomou um gole de vinho. É uma dificuldade que cada vez se torna maior em vez de ser ao contrário.

inter faeces et urinam.Através da língua materna . quando o sol brilhava. Que é a esperança? A confiança de uma criança na mão que a conduzirá para longe dos terrores que a ameaçam na escuridão. o eufemismo cauteloso.respondeu Aurelio. No entanto. como em depreciação do seu próprio fervor.O meu amigo nasceu. Mais ao fim dessa tarde. Pregamos a caridade e a compaixão. Bernardino de Siena são quase impublicáveis hoje em dia. . Mas nós não somos políticos. passado um momento. fora das persianas corridas. quem sabe.Eis o problema com as nossas testemunhas. limpando o pus de chagas siflíticas. porque não falam da maneira como nós falamos com elas. Elas eram verdadeiras e ele tinha consciência do facto. tal como eles. Não as entendemos. ponderava sobre as palavras do bispo. Um acto de vontade inspirado que é a única resposta de que dispomos para o mistério terrível que é sabermos donde viemos e para onde vamos. Os sermões de S. mas eles tocaram os corações. como é que a pregamos? Falamos severamente da fé e da esperança como se fizéssemos uma feitiçaria. de entre todas as pessoas. bispo de Valenta.. Todos os domingos falamos ao povo. e os habitantes ajuizados do Sul dormiam a sesta para fugir ao calor. porque a verdade que continham era afiada como uma espada. com humildade e amargura. à semelhança da de um político. como se a . Suspendeu-se e sorriu. Mas o hábito de anos exercia maior domínio sobre si.perguntou Meredith.mãos que se conspurcam em imundícies de enfermarias. para Lhe contarem a verdade.própria. Nem sempre foi assim. professores de uma verdade que afiançamos ser essencial à salvação do homem. E isso significa muito pouco para qualquer dos lados. suficientemente surpreendidos.. mas as nossas palavras não o alcançam.e não corpos a contorcer-se numa cama. e igualmente dolorosa. diz muito e explica pouco. disse suavemente: . monsenhor. Somos professores. mas raramente dizemos o que significam .Então como poderei eu. Blaise Meredith. deitado na sua cama. . . Depois. e eles ficarão surpreendidos ao saber que não o esqueceu. palavras ardentes murmuradas em locais escuros e almas atormentadas pela solidão e atraídas para a comunhão efémera de um beijo. a qual. Pregamos o amor e a fidelidade como se fossem histórias para a hora do chá . porque nos esquecemos da nossa língua-mãe. Que é a fé? Um salto às cegas nas mãos de Deus. a afectação sacerdotal. aproximarme delas? .

no entanto. Se não fosse. o promotor da coroa. Já tinham sido entrevistadas uma vez. Ele era um estrangeiro. Mas eles eram sacerdotes locais e supostamente imparciais .e como não havia razão para perder tempo com pessoas frívolas e não cooperantes . Como todos os testemunhos prestados nesse tribunal seriam jurados e secretos . continuaria a ser um homem e a verdade acerca da sua pessoa seria contada na linguagem simples do quarto de dormir e da tasca.sua língua devesse envergonhar-se da menção do corpo que o gerara e do acto sublime que Lhe dera o ser. à medida que a tarde se escoava e a primeira friagem da noite se infiltrava no quarto. o tribunal em si ainda não fora constituído. se estivessem envolvidos interesses mundanos . Ele falara na língua vulgar dos símbolos vulgares: uma mulher a gritar nas dores de parto.poderia contar com uma oposição activa e poderosa. Blaise Meredith começava a entender.como indubitavelmente acontecia .tornava-se necessário examiná-las primeiro em entrevistas privadas e informais. Não invocara nenhuma convenção que o abrigasse dos homens que Ele próprio criara. Era suspeito pela própria natureza do seu cargo e. não o alterariam perante o advogado do Diabo - . O seu primeiro problema era de carácter táctico. a mulher a quem muitos maridos não conseguiam satisfazer e se virava para um homem que não Lhe pertencia legalmente. A posição que ele próprio defendia era imensamente diferente. Embora os avisos tivessem sido publicados e os dois agentes inquisidores nomeados. lentamente. da mesma maneira que um advogado civil interroga as suas testemunhas antes de as apresentar. Aqueles que defendiam a causa do santo teriam o cuidado de o manter afastado de qualquer informação menos abonatória. cujos registos tinha entre mãos. bêbedos e mulheres da vida e não se inibira de tocar em mãos suadas que tinham acariciado os corpos de homens na paixão de um milhar de noites. assemelhar-se-ia ao seu Mestre. anteriormente. por Battista e Saltarello. um agente do Vaticano.se não realmente a favor do candidato. os eunucos gordos a bambolearem-se pelos bazares. o próprio Cristo se expressara na mesma linguagem comum. Se tivessem prestado depoimento a favor de Giacomo Nerone. E. Comera na companhia de trapaceiros. E Giacomo Nerone? Se fosse um santo. a tarefa que tinha diante de si.

Temos duas aldeias. lugares de pequena dimensão e muita pobreza. gémeas de nome e por natureza. A diferença era demasiado óbvia para ser ignorada e excessivamente artificial para ser aceite sem indagação. . Permita-me que Lha explique mais detalhadamente. empoXeiradas nos cumes da mesma montanha. Não havia ninguém tão teimoso como um católico em conflito com a sua consciência. Era irracional. evidentemente. Meredith decidiu discuti-la com o bispo na refeição que tomassem juntos a seguir. e todas as de carácter negativo tiveram origem na aldeia gémea menos favorecida. a condessa de Sanctis. O problema a enfrentar a seguir seria onde encontrar essas pessoas. a aldeia próspera.O bispo fez um parêntese irónico.embora pudessem submeter-se. Consideravam-nos companhia desagradável e as suas virtudes como uma reprovação permanente. nenhum deles com garantias de irrepreensibilidade. habitados por trabalhadores agrícolas contratados por proprietários rurais ausentes. . Era possível que estivessem dispostos a revelar algo que denunciasse os pés de barro num ídolo popular. nem mesmo com a ajuda do Espírito Santo.Também para mim essa tem sido uma das particularidades mais intrigantes da situação. Terei curiosidade em saber o que . mas no seio da Igreja havia tanta irracionalidade e intriga como fora dela. que eram? Típicas aldeolas calabresas. porque eles próprios ficariam desacreditados. Finalmente haveria aqueles que hesitariam em revelar factos imputáveis ao candidato. Antes da guerra.Mulher interessante. Segundo os registos de Battista e Saltarello. Não havia qualquer diferença perceptível tanto no seu aspecto exterior como nos respectivos padrões de vida. do outro lado do vale.. Poderia não ser fácil descobrir por que razão algumas pessoas não acreditavam em santos e consideravam os cultos prestados a estes como superstições perniciosas. todas as informações positivas vieram de Gemello Maggiore. tecer intrigas acerca do Todo-Poderoso. Sua Eminência abordou o assunto com maior precaução do que a habitual. . exceptuando o facto de em Gemello Minore haver uma padrona residente. Havia gente que acreditava em santos mas que não desejava ter nada a ver com eles. se este fosse capaz de descobrir razões para os pôr em causa. As melhores hipóteses de que dispunha pareciam agora residir naqueles que se tinham recusado a prestar quaisquer declarações. a condessa. A Igreja era uma família formada por homens e mulheres..

. Os homens jovens foram levados pelo Exército. Os aldeões aceitam-no e não discutem a sua pretensa identidade. não produziu nenhuma alteração no estado em que a população local vivia. depois de os agrários retirarem a sua parte. Blaise Meredith esboça um gesto de quem se sente intrigado.É no meio desta situação que surge um homem. e ainda mais pobre foi ficando à medida que os anos passaram. .. Havia um imposto sobre as colheitas. Hospedar-se-á em sua casa quando for para Gemello Minore. Inicia então uma ligação com a mulher que mais tarde é interrompida. As testemunhas mostram-se vagas. mesmo a meio da gravidez desta. Passa horas mergulhado na solidão e em contemplação.Muito pouco .De que maneira é que ele as lidera e com que finalidade? Estou a interrogá-lo. Afirma ser um desertor das batalhas que se travam no Sul. com a roupa de camponês em farrapos. Depois veio a guerra.incita-o o bispo argutamente. na altura como agora. É uma terra muitíssimo pobre. . Giacomo Nerone sai de casa de Nina Sanduzzi e constrói uma pequena cabana para si próprio no canto mais desolado do vale. Fala-se numa conversão.As mãos compridas e sensíveis de Sua Eminência esboçaram um gesto enfático. . os mais velhos e as mulheres ficaram a cuidar das terras. a sua presença.retorquiu Blaise Meredith. dá mostras de ter assumido a liderança das aldeias. Planta um jardim. Encontra-se ferido e atacado pela malária. Eles próprios têm filhos seus longe. Meredith. repare. mas continuo intrigado com ela.. Aparece na igreja aos domingos e recebe os sacramentos. Uma jovem viúva chamada Nina Sanduzzi recebe-o na sua casa e cuida dele. e era frequente grassarem grandes fomes nas montanhas. Não obstante. Os dados registados são imprecisos. como terá ocasião de verificar. . . um desconhecido que se diz chamar Giacomo Nerone. Ao mesmo tempo.. concluiu desta história.A partir dessa altura deixo de perceber. Não nutrem simpatia por uma causa perdida. . Que sabemos nós acerca dele? .. Eu próprio a conheço de cor e salteado.pensa dela.E depois? . porque quero ver o que o meu amigo.disse Meredith . Agora. pouco restava para os camponeses. numa viragem para Deus.Segundo leio nos dados registados . recém-chegado.. e. .Chega não se sabe donde.

a prestar quaisquer declarações sobre o assunto.admitiu Meredith. um exilado político. Aldo Meyer. . imagino .cautelosamente ... quando o Inverno chegou. O que vem a seguir também é a seu favor. . também talvez por mais alguns outros factores. .A seguir detectamos indícios de mais actividade religiosa.Mas até mesmo Cristo açoitou os vendilhões do templo. por favor. Quando não há padre. sorrindo: . pelo facto de ser um judeu num país de católicos. . Meyer foi o primeiro a tentar organizar esta gente para seu próprio benefício. . concordará que têm as cabeças mais duras e os punhos mais rijos da Itália.comentou o bispo com um sorriso subtil. um camponês doente que quisesse alguém que Lhe cuidasse da plantação de tomate.E o mais interessante é que. uma avó debilitada e só. Empreende viagens no meio da neve para trazer o padre com os últimos sacramentos. ele próprio os ministra. Continue..observou Sua Eminência friamente. É um homem de uma humanidade singular. Devia tentar conhecê-lo. . conforta os moribundos.Um procedimento muito pouco próprio de santo. queijo.Meredith faz uma pausa de dúvida.observou-lhe o bispo..Duas das testemunhas dizem: "Quando o padre Anselmo se recusou a vir. por vezes violentamente. mas pouco bem sucedido. azeitonas. produtos que depois passava para as mãos daqueles a quem faziam falta.Também esse aspecto tem merecido grande reflexão da minha parte .O que diz. Mais tarde. mas até aqui . organizou uma distribuição de trabalho e recursos e fê-la respeitar com rigor. Agora há um aspecto estranho. Nerone reza com os doentes. Ele trata dos doentes e parece ter proporcionado uma espécie de assistência médica rudimentar em colaboração com certo médico.Também foi a impressão que tive . Já pensei muitas vezes em afastá-lo. antes e depois da guerra. Meredith viu-se obrigado a sorrir diante da armadilha que o bispo Lhe armara. não acha? . que se recusou. quando conhecer melhor os nossos calabreses.. curiosamente.ele começou por ir de casa em casa a oferecer os seus serviços para quem deles necessitasse: algum velho que já não se sentia capaz de cultivar as suas terras. Admitiu a possibilidade. . não foi? E. .." Que quererá isto dizer? . mas falhou redondamente. vinho. Poderá ficar surpreendido. Daqueles que tinham posses ele pedia um pagamento em espécie: leite de cabra.Marquemos então um ponto a favor de Giacomo Nerone. .Têm-se gerado situações de grande escândalo em redor desse homem.

Esta associação com os alemães foi mais tarde apresentada como a razão que levou à sua execução pelos guerrilheiros. inicialmente um pequeno destacamento.. passaram pelas aldeias e incumbiram os guerrilheiros locais da tarefa de tratar das forças alemãs desbaratadas e em retirada. O desconhecido. não burocrata.Vê algum santo na pessoa dele? Meredith abanou a cabeça. ao que parece com sucesso. suponho. Mas eu sou bispo. mas não santidade. cada vez mais ralo.Detenha-se aí por um momento.Por volta de Março de 1944 chegaram os alemães. O perdido. . Continue. . Possui um sentido de gratidão.Ignotus! . Trago comigo o cajado do pastor e também as ovelhas tresmalhadas me pertencem. Já afastou outros. portanto não me debruçarei .Peço-lhe que me desculpe .Velho e. mesmo à beira do desespero. O bispo interrompeu-o.ainda não me decidi. um toque de compaixão.declarou Meredith tranquilamente. reforço de tropas para os que combatiam contra o 8º Exército inglês. erguendo a mão esguia. Mas quem é ele? Donde vem e porque actua daquela maneira? . O comandante da guarnição disciplinará os seus soldados e protegerá as mulheres cujos maridos e irmãos estão longe. não gostaria nada de me imaginar o responsável de alguma desgraça. . Os camponeses fornecerão um mínimo de carne fresca em troca de medicamentos e agasalhos de Inverno. que de repente se transforma no santificado. Quando os Aliados chegaram e começaram a avançar em direcção a Nápoles.Vossa Eminência tem fama de ser muito rígido em matéria de disciplina. depois um bem maior. Piedade talvez. Ainda não examinei os dados que dizem respeito aos alegados milagres.. O trato é razoavelmente mantido e Nerone ganha fama de mediador respeitável. Somos amigos. até aqui? . Tem o direito de perguntar. . o qual atravessara o estreito de Medina e ia abrindo arduamente caminho até à ponta da Calábria.disse o bispo suavemente. Fale-me um pouco mais acerca de Giacomo Nerone. Que Lhe parece. .É um homem de idade . Giacomo Nerone é quem negoceia com eles.Por enquanto não. um talento e talvez gosto pela liderança. Meredith passou a mão pelo cabelo. Porque não este? .Não tem qualquer importância. .disse Meredith imediatamente. Giacomo Nerone deixou-se ficar. . O homem de nenhures.

. com franqueza. Havia agora novos barões nas terras. Sua Eminência levantou-se e acercou-se da janela. . Saudavam com o punho cerrado da camaradagem e com o mesmo . meu amigo. fora esquecido. Diga-me. nem sequer nele próprio. Unicamente secretismo e mistério. Mas ressalto um outro: na santidade há um padrão que se reflecte numa grande racionalidade. Os seus nomes e rostos eram familiares . Luigi. tão-pouco acreditámos neles.Então deixe-me explicar-lhas. Tinham pão com que regatear. Homens com armas novas. gritando democracia e liberdade. Os seus filhos morreram por ma causa perdida. e também velhas contas a ajustar: políticas e pessoais.sobre este ponto. esfomeado. O povo estava derrotado.Mas Nerone não os esquecera . cartucheiras cheias. . assim como carne enlatada e tablettes de chocolate. Pior do que isso. na sua voz notava-se uma tristeza que já vinha de há muito. Só olhávamos para o pão que traziam nas mãos. Só sabia do que ouvia e lia. Beppi. onde o vento soprava levemente por entre os arbustos e onde as sombras eram profundas.admitiu Meredith. porque a Lua ainda não fizera o seu aparecimento sobre o topo das colinas. As pessoas esfomeadas nem sequer acreditam no pão até o terem engolido e poderem senti-lo dolorosamente nos estômagos desabituados. Gabriele. que sabe das condições existentes aqui no Sul nessa altura? .Estive fechado no interior da Cidade Santa durante toda a guerra. sem chefe. e a quem os conquistadores tinham passado a ordem rude de limpar as montanhas e mantê-las em ordem até se formar um governo novo e responsável. e tinha consciência do facto. o que. Ainda era um líder.Já deixara de o ser. Ficou desiludido com os seus líderes. Não acredita em ninguém.objectou Meredith.Sou italiano e compreendo esta história melhor do que a maioria. . Era assim que as coisas se passavam aqui. Quando os nossos conquistadores chegaram.Muito pouco .Michele.Talvez não haja mistério. Primeiro deve dar-se conta de que um povo derrotado não tem lealdades. Quando falou. detendo-se a olhar para o jardim. apenas ignorância e confusão. apesar de ainda não compreender as pessoas nela envolvidas. já me chegava deveras adulterado. no Sul. calculando exactamente o preço que nos pediriam por ele. Até agora não vi nenhuma racionalidade aqui. Deus sabe. . . Continuava junto deles.

Porque foi que alguns se mantiveram do lado dele como se fosse um santo e outros o rejeitaram e traíram.Vossa Eminência acredita nessa possibilidade? . .Chamaram-lhe colaboracionista. a verdade atingiu-o como um balde de água fria no rosto. inteligentes. antes de mais nada.Aquilo em que acredito importa. Os lábios finos sorriam ironicamente.Não basta! Não basta para explicar o ódio. Então. um homem bom apanhado na teia da política. desafiavam-no. estavam os guerrilheiros contra ele? . injusta e cruel talvez. . Tudo quanto me tendes mostrado aponta apenas para uma execução política. a divisão. .Porquê.Talvez não passe disso. Acusaram-no de manter um comércio lucrativo com os alemães. entregando-o aos carrascos? Porque. não ultrapassando esses limites. . a morte em defesa da fé e dos princípios morais. Também aquele homem tinha uma cruz a carregar.Se importa? Penso que importa muito. a relação directa de um homem com o Deus que o criou. . a violência. . O povo clama um martírio. porque o vosso Churchill dissera que faria negócio com quem pudesse ajudá-lo a restabelecer a ordem na Itália e a deixá-lo prosseguir a invasão da França. Que podia Giacomo Nerone fazer contra eles. respondeu brandamente: . Poderia ser um bispo. Meredith rejeitou a sugestão enfaticamente. . Não estamos preocupados com a política.Que foi que ele tentou fazer? Isso é que me interessa. o seu ignotus de nenhures? . tem medo do dedo de Deus. Eram muitos e poderosos. com um sorriso fatigado. o porquê de uma aldeia prosperar e a outra decair cada vez mais.Consta nos registos . monsenhor? O rosto patrício e astuto erguera-se para ele. como eu.disse Sua Eminência. monsenhor? Os olhos profundos. Também para nós não basta. O coração árido de Meredith sentiu-se invadido de uma compaixão rara. muito subitamente.Porque penso que Vossa Eminência. mas isso não evitava que as dúvidas o atormentassem e os medos o acossassem aos extremos da tentação. ainda assim.punho agrediam os rostos de quem se atrevesse a expressar opiniões diferentes. mas. mas sim com a santidade.

Trabalhava nele já ia para uma hora.embora raramente fosse capaz de transmiti-la nos seus trabalhos.uma energia na madeira. no meio delas crescia uma oliveira solitária. mas naquele lugar e hora tranquilos. corroídas e desgastadas pelas intempéries. . manchadas de fungos e sarapintadas de líquenes como a pele da muda de uma serpente. estendido a seus pés e por cima o vulto da montanha verde. o arrojo. cujos braços nus se projectavam como uma cruz no azul límpido do céu.o homem que nunca atingiria o ponto máximo. estendido como um lagarto numa rocha cinzenta. morta e despida de folhagem. com o vale. mas deploravam o osso mole e o sangue pálido sob a fina pele. evidentemente. Há muito que os críticos Lhe tinham notado a falha. Nicholas Black era alheio à emoção do contentamento e raramente a plena satisfação o tocava. Mais tarde tinham-no classificado de ratél . o ar era lânguido e seco mas barulhento com o canto das cigarras. no estilo condescendente que reservavam para as mediocridades simpáticas e para os audaciosos que nunca desistiam. quente. regada pelo sol do meio-dia. numa espécie de ressurreição na madrugada. O sol incidia. Depois disso. Havia nela uma força que o atraía .tanto mais por possuí-la em tão pouca quantidade . Admiravam o encanto dos seus quadros. na companhia do rapaz adormecidos o quadro tomando forma vigorosa sob a sua mão. devido a alguma debilidade fundamental na sua própria personalidade. na solidão bem iluminada de um pequeno planalto que ficava para trás da colina. nunca se sentira mais próximo daquele estado de espírito. no seu dorso bronzeado mas pouco musculoso. Era uma composição simples mas estranhamente dramática: um amontoado de rochas nuas. resplandecente e novo. trabalhava num novo quadro. como se um dia ela pudesse fender-se e deixar emergir um homem. o pintor. tinham-se mostrado simpáticos para com ele. com satisfação. Ele admirava a força . o brilhantismo dramático. a que os campos cultivados conferiam o aspecto de tabuleiro de xadrez.CAPÍTULO V Nicholas Black. Pintava calmamente. exteriorizando os pensamentos na tela e na árvore cinzenta e retorcida. músculo e osso sob a casca áspera e cinzenta. que fazia lembrar um patíbulo sobre um pequeno Gólgota. e Paolo Sanduzzi dormitava a uns passos dos seus pés.

Nas salas de estar jorgianas de Knightsbridge soltaram risadas durante os cocktails. mesmo naquela altura. e aquele que partilhava do seu apartamento e de mais de metade do seu amor atirou-lho à cara no fim de uma noite de discussão. E um jovem bronzeado e lânguido dormia . mas sem nunca. de encontros furtivos e casamentos bizarros. B. mas não a suficiente para proteger contra os intriguistas internos e os que zombam do lado de lá de barreiras inconsistentes. "Um dos eunucos da profissão". a três mil quilómetros e seis meses de distância do acontecido. Foi o momento mais amargo da sua vida e. possuí-la. C. um meio mundo de amantes perdidos. Os seus companheiros mais normais desdenhavam-nos. Sob os tectos das mansardas de Chelsea fizeram versos obscenos acerca do assunto. para Roma e para Louise de Sanctis. Assim. fora um destes que escrevera o brutal epitáfio que pusera Londres a rir durante uma semana e empurrara Black pelo canal. Mas agora chegara a um oásis na sua rota de peregrino. dissera o inteligente jovem crítico. a recordação mantinha-se lívida e vergonhosa. por negligência ou ironia do Criador. Estava a pintar uma árvore forte e viva como um homem. De vez em quando aparecia algum crítico jovem numa exposição de Nicholas Black que resolvia não estar com contemplações. torna-se o peregrino solitário de um culto secreto. como as esposas virtuosas desdenham a prostituta que vende por dinheiro o que elas recusam por amor. Mas nunca o levaram a sério. o sinal fálico e os toques furtivos numa assembleia de estranhos. nunca. Era um terror especial aquele. cujos símbolos são os desenhos nas paredes dos urinóis. vinham ao mundo defeituosos nos atributos que definem um homem. "Para sempre condenado a viver na contemplação da beleza. " No Bag o'Nails. quando um homem como Nicholas Black o abandona. Club riram à volta das suas cervejas. Elogiavam-no o suficiente para que as mulheres solitárias e carenciadas continuassem a comprar-lhe quadros e os pequenos comerciantes se mantivessem medianamente interessados. E. No meio mundo existe lealdade. um inferno muito particular reservado aos pobres diabos que. como os poetastros desdenham uma sátira que saliente as pomposidades do seu próprio trabalho.Noticiavam sempre as suas exposições. formam um reino no seio de si próprios. no Stag e no B.

Este jazia de costas.Quando for para Roma leva-me consigo? Black encolheu os ombros à maneira do Sul. Perguntou sem rodeios: . o rapaz sentou-se e fitou-o com olhos atentos e interrogativos. . . Traçou uma última pincelada cuidadosa e depois pousou o pincel e a paleta. aliviando-se à vista de Nicholas Black. O jovem voltou novamente para trás. .ao sol. Posso arranjar muitos criados aqui? mas um amigo. que percebeu a zombaria. Continuava a sorrir. Tal qual o jovem David que Miguel Ângelo esculpiu num pedaço de mármore. Portanto. A única roupa que envergava eram uns calções manchados e calçava umas sandálias de couro gastas. No ar seco e quente. vou mostrar-lhe! . . com ar ocioso. . Veremos. isso.Ainda temos tempo.Quero mijar . um dos joelhos levantados e um dos braços metido debaixo da cabeça. . De repente. com indiferença calculada.observou o pintor. . ficando a olhar para Paolo Sanduzzi. Paolo.Porque está sempre a olhar para mim dessa maneira? Black sorriu calmamente e respondeu: . mas não protestou. . Pôs-se lestamente de pé e caminhou até à beira do planalto.Mas o senhor disse-me que eu era seu amigo! A ansiedade era tão nítida e ingénua que poderia tê-lo enganado. em tom lamuriento e infantil.Um amigo deve provar que o é . acocorando-se ao lado de Nicholas. mas a verdade era visível nos olhos do rapaz escuros como ónix. sobre a rocha quente e cinzenta. um amante da beleza. Há muito que Nicholas Black não tinha nada a ver com a inocência. a pele brilhava-Lhe como madeira oleada e o macio rosto juvenil tinha. Mas ainda conseguia distingui-la. a poucos passos do rapaz e fumou pensativamente um cigarro. Eu sou um artista. Aderira demasiadas vezes à sua zombaria e sedução. perdido num momento raro de satisfação entre o passado acusador e o futuro duvidoso.És belo. mas notava-se-lhe uma expressão dúbia e calculista nos olhos escuros.Olhe. onde se postou de pernas abertas. em repouso. gosto de olhar para ti.queixou-se Paolo. ainda era capaz de lamentar a sua perda.Quem sabe? Roma fica muito longe e é cara. sorrindo. Um amigo verdadeiro . a seus pés. Sentou-se na rocha aquecida. enquanto o outro se estendia negligentemente ao comprido.. uma expressão de curiosa inocência.Mas eu sou um bom amigo.disse o rapaz. já pode ser diferente..

Atirou os braços à volta do pescoço de Black. tímido como um animal fora de alcance. O efeito foi espantoso. Depois de acabar disse-lhe que se aproximasse e mostrou-lhe a pintura. . na presença de um patrão temperamental.assustada. entre outras coisas. pegou no pincel e na paleta e disse por cima do ombro: . . sangrenta. começou a pintar a figura crucificada na imagem retorcida da oliveira: não era nenhum Cristo atormentado. mas sim um jovem em plena puberdade. . O jovem gritou de dor e depois começou a chorar acocorando-se no chão e cobrindo o rosto com as mãos. mas não exerceu nenhuma impressão sobre Paolo Sanduzzi. Este fazia lembrar uma pessoa à beira de um ataque de epilepsia. apontando para a tela. . O rapaz cansou-se muito antes de ele terminar mas Black obrigou-o a manter a mesma posição. O rosto do jovem contorceu-se numa máscara de terror. Black acercou-se dele e esbofeteou-o fortemente em ambaS as faces. abriu muito a boca e começou a tremer e a gaguejar. o jovem obedeceu e Black sorriu com satisfação irónica ao reparar como a ousadia e o desafio Lhe desapareciam juntamente com a roupa esfarrapada Agora não passava de uma criança .Tira as roupas! O rapaz fitou-o. com o rosto e o corpo de Paolo Sanduzzi. Não olhou para o rapaz. com o lanho vermelho aberto no peito pela espada.Vá! Despe-te. Quero que me sirvas de modelo. apesar de a vida se Lhe esvair. O pintor limpou a boca com as costas da mão e depois levantou-se sem pressas.Estica os braços. enquanto Black se ajoelhava a seu lado a tentar acalmá-lo.Agora mantém-nos aí.Que se passa? Que foi que te assustou? . sentindo o gosto da desilusão na língua. mas sorrindo mesmo. Black gritou-lhe asperamente.Que se passa? Que estás a tentar dizer-me? A voz de Black era alta e áspera. Assim. Depois de um momento de hesitação atabalhoado. admirado. É para isso que te pago. mãos nos quadris. Instantes depois voltou a perguntar-lhe: . beijou-o rapidamente e depois deu um salto para trás. amaldiçoando-o sempre que o via deixar cair os braços. insegura. Nicholas Black com pinceladas rápidas e seguras. na beira da rocha. a três metros de si. Acercou-se do cavalete. pregado à casca da árvore pelas mãos e pelos pés. que se mantinha de pé. O rapaz ergueu lentamente os braços ao nível dos ombros.

Que tem ele? .Anjos celestiais. um grito entrecortado escapou-se-lhe da boca contorcida. . surpreso. auxiliado por Nina Sanduzzi. Meyer desenrolou os cobertores e. sofrera um acidente quando trabalhava na bigorna. juntamente com o que restava da última pequena porção de mertiolato. como se fosse uma cruz. O corpo forte e rotundo do ferreiro fora envolvido em cobertores e jazia em cima da mesa de tábua da cozinha de Meyer. Terminado o curativo. Tinha um dos lados completamente paralisado . amarraramno. Esticaram-no nela assim. pousou a bacia com toda a calma e conduziu-a de volta ao canto. segurando na bacia de água quente e nos pensos. soltou um assobio baixo e significativo. o rosto mostrava-se contraído para o lado num ricto de surpresa e medo. Essa mesma tarde proporcionou a reintegração temporária do Dr. limpando-as..Que queres dizer? . Caíra sobre a forja e ficara gravemente queimado no peito e no rosto.praguejou Nicholas Black. Nessa mesma árvore. acalmando-a e repreendendo-a com voz baixa e amiga.Santo Deus! . Tinha os olhos fechados e a respiração rápida e ruidosa. Depois voltou para junto de Meyer. Quando Meyer Lhe tocou nas chagas das faces. atenta como qualquer enfermeira ajudando-o a retirar o carvão das queimaduras.Foi assim que mataram o meu pai. em voz baixa. Meyer procedeu a nova auscultação e . e depois fuzilaram-no. Aldo Meyer em Gemello Minore. .O quadro! . Martino. Tinham-no levado para a casa de Meyer e naquele momento o médico tratava dele. Depois de terminar o tratamento do rosto. .a perna e o braço tinham ficado sem acção. o ferreiro.. Ao ver a mulher de Martino precipitar-se para junto do marido. .É a árvore do meu pai! O pintor fitou-o. Nina Sanduzzi manteve-se impassível como uma estátua. enquanto a mulher de Martino observava nervosamente de um canto do quarto e os aldeões aglomerados do exterior tagarelavam como estorninhos acerca do drama ocorrido. de cabeça baixa. a limpá-las e a passarlhe genciana violeta por cima. mas que história! Mas que história agradável! Passado um momento começou a rir e o rapaz afastou-se assustado. e levando os calções e as sandálias na mão.A voz do rapaz era quase um sussurro. ao ver a extensão e profundidade das queimaduras do corpo.

. Teria ido lá acima à villa falar com acondessa a pedir-lhe dinheiro ou trabalho para a mulher de Martino.É forte como um boi .Têm a assistência social.Fará melhor em deixá-lo aqui durante algumas horas.Quem é que os irá alimentar. Seprecisar de si.Mas tem-nos . quando voltou para junto do seu paciente. lamuriando-se como um animal: . . Ao voltar perguntou-lhe sem rodeios: . não largando as pessoasaté estas ajudarem. agora que ele não pode trabalhar Meyer encolheu os ombros.Sabe o que Giacomo Nerone teria feito. . . .insistiu Nina teimosamente. não? . com frieza e amargura. voltou a envolver o doente nos cobertores e voltou-se para a mulher que chorava ao canto.Sim. doutor? Não o deixará morrer. . Sabia como . beijando-as e rogando aos santos que abençoassem o bom doutor.respondeu-lhe Meyer. Teria batido a todas as portas. viverá .respondeu-lhe Meyer calmamente .. A mulher agarrou-lhe nas mãos. E mais tarde terá o seu marido em casa.disse-lhe Meyer. ouviu-a à porta a gritar com os mirones. .Uma dezena de entrevistas e uma centena de impressos para um quilo de massa! Que espécie de solução é essa? . com um humor subtil. Nina Sanduzzi pegou-lhe no braço e acompanhou-a até ao exterior da divisão e Meyer.É a única que conheço nos tempos que vão correndo . . Teria arrebanhado parte das moedas da caixa das esmolas do padre Anselmo. Meyer soltou-se bruscamente.Já tive muitas outras. mas ninguém ligou nenhuma.Mas nunca mais servirá para nada de nada. Agora olhem. Não morrerão de fome. esta é a maneira antiga! Nina Sanduzzi fitou-o fixamente.Assistência social! . pois não. mandá-la-ei chamar. . Quiseram continuar à maneira antiga.contagem de pulsações. A mulher perguntou-lhe em tom suplicante. dizendo-lhe suavemente: .retorquiu-lhe ela em tom de escárnio.Ele não vai morrer. Nos seus olhos escuros e inteligentes lia-se comiseração e desprezo.observou Meyer.Agora volte para casa e dê de comer aos seus filhos.Foi sincero no que Lhe disse? Ele viverá? .. mandando-os cuidar da sua vida. Depois farei que Lho levem a casa. Ele compreendia este tipo de situações. com um gesto de indiferença. . não sabe? Teria ido ele mesmo para a forja trabalhar.Não morrerá.Ele tem seis filhos.Demasiados . .

Não nos organizamos. . o de Lupo e o seu também.. aguilhoaram-no.É o que este malfadado país tem de pior. os irmãozinhos de toda a gente. encaminhando-se para a porta que deitava para o jardim quente e bem iluminado. Mas sabe o que ele me disse? "Tens aí um homem bom. . Sabia que o senhor estava ligado ao assunto. Mas não foram capazes de os admitir. . É pOr isso que ainda estamos com cinquenta anos de atraso em relação ao resto da Europa.E o doutor assinou um documento a dizer que ele foi legalmente executado depois de um julgamento justo. era apenas o recordar tranquilo de factos conhecidos. uma malga de sopa e um par de mãos para trabalhar. Quem é que Lhe alimentará a mulher e os seis filhos? Não havia resposta possível para aquela lógica brutal e ele voltou as costas a Nina. fazendo-o retorquir. dottore. Tudo quanto Giacomo nos conseguiu foi uma côdea de pão.as pessoas ficam assustadas. não nos organizamos a nós próprios. de que vai valer? Martino nunca mais poderá voltar a trabalhar. o do padre Anselmo. mas sente-se infeliz. . . proferidas com voz calma.. esse seu Giacomo . Sabia o que iria acontecer. então? . Matou Giacomo. o da condessa. se bem me recordo.E qual era.Mas nunca nenhum de vocês falou alguma vez do verdadeiro motivo por que ele foi morto. Era uma dúzia deles. Trouxeram-nos a democracia.Não havia apenas um motivo. Nina Sanduzzi foi atrás dele e pousou-lhe uma mão hesitante na manga.Foi por isso que o mataram. Houve o de Martino. Martino. envergonhado e impotente. Não é possível construir um mundo melhor a partir de uma tigela de massa e de uma pia de água benta. os amigos da liberdade. Passado um momento. com brevidade. dottore. .disse Meyer. nem sequer entre vocês.Era um homem notável. quando o homem de alguma casa estava doente.desafiou-a o médico asperamente. portanto. Nina. . porque nunca realmente soube o que . descobriram um que vos servisse a todos: Giacomo era um colaboracionista. Está enganado. um adorador dos fascistas e dos alemães! Vocês eram todos libertadores. Antes de morrer veio ver-me. . Não cooperamos.Também não o pode construir a partir de balas.O senhor pensa que eu o odeio. foi um dos que dispararam a salva. o de Battista. Conseguiu o que queria. Ele esforçou-se por fazer demasiado. Giacomo também não o odiava. Agora.Não se lhe notava raiva na voz. Nunca foi capaz de ouvir uma criança chorar. exaltado: . As acusações. . dottore mio.

boa vontade e compaixão nunca conseguem um contacto pleno com a espécie humana e só despertam o desprezo e o ridículo no seio daqueles que tentam ajudar. e por que razão outros... outros amachucou. vai ter com ele. Eu devia tê-la entregue depois da sua morte. Se algum dia achares que precisas novamente de um homem. . Ele deseja organizar e reformar. e a ele custava-lhe admitir que ela o adquirira de Giacomo Nerone. conquistam imediatamente o coração dos . O que o intrigava era o facto de não existirem raízes que o justificassem nas suas orígens camponesas. Tenho de vê-los.Uma carta! Onde está ela. que toda a vida estudara. Ele está sozinho há demasiado tempo.E uma mulher cujo homem não pode voltar a trabalhar. mulher? Onde.Seis filhos são importantes . um dia deitou-lhes a mão e misturou-os todos. Meyer fora vencido e sabia-o. Meyer deu meia volta e encarou-a.Se eu os ajudar? mostras-me os papéis? Ela abanou a cabeça num gesto de recusa inabalável." Ele escreveu uma carta para si que juntou aos seus papéis..Tenho de ver os papéis. estava na posse da chave que dava acesso ao mistério que durante vinte anos escapara à decifração de Aldo Meyer: a razão por que certos homens cheios de talento.Giacomo disse outra coisa: "Uma pessoa nunca deve negociar com os corpos das pessoas. sê boa para ele. eu nunca aprendi a ler! Meyer agarrou-a rudemente pelos ombros. . Eu tenho sorte. . . Nina tal como Nerone.. Nina. Quando eu morrer. .disse Nina Sanduzzi calmamente. Mais tarde poderemos falar acerca dos papéis. Aquela mulher iletrada possuía uma força de granito. . quando voltei a reuni-los. mas não vê que tudo isso não tem valor se não for feito com amor.Eu tinha todos os seus papéis no meu armário. sem esforço aparente. . e. que ele. Quando Paolo era pequeno. Rasgou alguns. não era capaz de igualar. este será aquele que te tratará bem e ao rapaz. por amor de Deus? Nina Sanduzzi abriu as mãos num gesto de desespero. No entanto." Se as quiser ajudar. Corou como que diante de uma revelação vergonhosa. que o faça sem pedir nada em paga. uma reserva de sabedoria inviolável. .é amar e ser amado. não fui capaz de os distinguir uns dos outros. Não sabes até que ponto é importante.Eu. porque no princípio tive-te a ti para me ensinares.

.um . rugindo tão alto com a água do degelo que na aldeia. muito antes de Cristo vir de Roma até ali com S.a torrente do fauno . que lutava pela vida por trás do peito em chaga. Paolo Sanduzzi encontrava-se à beira do rio. Num gesto impulsivo.O senhor é um homem bom.porque nos tempos antigos. porque sem eles o vale perdera a graça. .O quê. Na Primavera era castanho e tumultuoso. o que era realmente uma pena. Pedro. Mais valia não pedir. e auscultou-lhe o resistente coração de camponês. mais acima. Falar-lhe-ei de Martino e verei o que podemos fazer. sentindo-lhe a pulsação fraca e irregular. Nina agarrou-lhe na mão e beiJ ou-a. Portanto. A face do rio mudava com as estações. O rio tinha um nome e três rostos. dottore? .Que dirias se eu te pedisse para casares comigo? Os olhos escuros e profundos não deram mostras de surpresa nem de prazer. O seu nome era Torrente del Fauno . Mas o nome ficara e por vezes os rapazes e as raparigas da aldeia encontravam-se ali secretamente para se entregarem aos velhos jogos pagãos. No Inverno era escuro. Falarei à mulher de Martino.homens e são recordados com amor muito tempo depois de morrerem. Mas não podia obtê-los nas condições dela. todos tinham desaparecido. constantemente em perseguição das três raparigas a que chamavam dríades.sátiros endiabrados. Antes de o Outono chegar voltava a secar .Tu também me podes dizer uma coisa. os faunos utilizavam aquele local . dottore. Ninguém deve ser deixado com medo por muito tempo. . dottore.Esta noite janto com a condessa. Depois afastou-se rapidamente e Aldo Meyer regressou ao seu paciente. quedando-se sob as ramagens que pendiam sobre ele das margens em poças tranquilas. Talvez nos papéis de Nerone lesse a resposta que não tinha coragem de pedir a Nina Sanduzzi. atirando pequenas pedras sobre a água e vendo-as saltar para os arbustos da outra margem. ocasionalmente com franjas de geada ou neve amontoada. O rosto calmo e clássico iluminou-se num sorriso. esboçou um gesto de resignação e disse-lhe: . No Verão ficava reduzido a um carrego estreito e límpido que corria suavemente sobre as pedras. todos podiam ouvir. frio e sinistro.Dir-lhe-ia o que Lhe disse da primeira vez. . Nina. Após a construção da igreja.

Acenou-lhe com mão indiferente . Deu-nos pão com queijo a todos e mandou-nos cá para fora brincar. foi detido por uma voz estridente. Mais cedo ou mais tarde. um ano mais nova do que ele próprio. e ainda não Lhe passara. Era como se o pintor estivesse em poder da chave que dava acesso ao domínio sobre a sua vida: ao passado que o envergonhava e ao futuro que só vislumbrava fracamente como uma visão de Roma! com as suas igrejas e palácios. Queres um bocado? Mostrou-lhe um pedaço de pão duro e uma fatia de queijo de cabra. Sentia-o activo naquele momento. A visão exercia um feitiço sobre si. . meio agradável e meio sinistro.Ei. ela acabaria por arrastá-lo de novo para junto do inglês.Viva.Estou esfomeado . como as poções que a velha Nonna Patucci dava às raparigas para atraírem os seus amores. as suas ruas repletas de automóveis reluzentes e os seus pavimentos apinhados de raparigas vestidas como princesas. Caiu com um ataque que Lhe deu e queimou-se na forja. Rosetta! Depois foi sentar-se junto da moça. .leito ressequido cheio de pedras alvas. sentada numa rocha com as pernas a balouçar na água. negligente. enfiou as mãos nos bolsos e começou a seguir corrente abaixo. .Vai morrer? . Ao dar a volta a uma curva da margem. A jovem partiu cuidadosamente o pão e o queijo em partes iguais e entregou-lhe a parte dele. a filha de Martinos o ferrador. sentia-se feliz por estar longe da árvore morta que parecia um cadafalso e do inglês cujo riso era como água a borbulhar num pote negro. uma comichão sob a pele. sobre a rocha. Era uma jovem franzina com ar de duente.Tenho o meu pai doente.disse Paolo. mas naquele momento sentia-se satisfeito por vê-la. um rosto pequeno e atrevido e seios a crescer-lhe debaixo de uma camisa coçada de algodão que usava à laia de vestido.Não. para a água. . Paoluccio! Ergueu o olhar e avistou Rosetta. O médico diz que viverá. Nunca se sentira tão assustado em toda a sua vida. Na aldeia ele ignorava-a ostensivamente. de cabelo fino. uma imagem opressiva por trás dos globos oculares. mesmo sem uma palávra nem o toque de uma mão. cujo sorriso zombeteiro umas vezes o fazia sentirse desajeitado como uma criança e outras despertava nele paixões estranhas e perturbadoras. Ficaram sentados a . Está em casa do médico. Naquela altura apresentava o seu aspecto agradável e Paolo sanduzzi ele próprio fazendo lembrar um fauno. Atirou uma última pedra. A mãe farta-se de chorar.

Não contes a ninguém. . Os homens não dizem coisas como essa. as pessoas não entenderiam.O inglês diz que eu sou bonito.Não é da tua conta. ao sol. com gravidade. na defensiva. . portanto gostava de olhar para mim! A jovem mostrou-se aborrecida com aquele seu estranho jeito de duende. às vezes pede-me que Lhe sirva de modelo.Agora tenho a certeza de que estás a inventar tudo isso. em silêncio. Retirou o braço e voltou-se de modo a encará-lo. .Eu sei .anuiu ele. e.Disse que eu era bonito e que ele gostava da beleza. concluiu que.Com o inglês. E começou também a beijá-la. A jovem rodeou-lhe o pescoço com o braço esguio e encostou a cabeça ao ombro nu. Não a repeliu e.retorquiu Paolo. .A fazer o quê? Ele encolheu os ombros com indiferença.Não conto. mas também Lhe agradou. Só as mulheres! Rodeou-lhe o pescoço com os braços e premiu os lábios nos dele e. Rosetta . afinal. .Limito-me a ficar no mesmo sítio e ele pinta-me.Tu também te despes? A pergunta apanhou-o desprevenido e ele respondeu-lhe rudemente. se és modelo? . não despes? Quero dizer. Os rapazes ou são simpáticos ou antipáticos. .disse-lhe ele. Quando ele pinta.De qualquer maneira.Levo-lhe as coisas. O gesto embaraçou-o. . por se sentir satisfeito. . Lhe estava a saber bem. fico a ver. quando ele Lhe sentiu os seios contra o peito através da camisa. Paoluccio? . Passado um bocado. . como uma estátua esculpida por Miguel Ângelo no mármore. . com ar sabedor. refrescando os pés na água. disse: .Onde tens andado. ela perguntou-lhe: . .A trabalhar. .mastigar.É um segredo. .Modelo de quê? . . foi o que ele disse .Mas despes-te.Que espécie de trabalho? . prometo.Teresina diz que em Nápoles há raparigas que se despem para homens as pintarem. como é costume um homem fazer perante uma mulher bisbilhoteira. Não bonitos. quando ele tentou resistir. .Que disparate! Só as mulheres é que são bonitas. . apertou-o com mais força.

Leva-me a passear e eu mostro-te. Do alto do planalto etéreo que se erguia por trás do pico da montanha. a partir de uma ligação cega de marido e mulher. . Fora baptizado juntamente com o irmão e recebera a mesma benção. tolo.idêntico no rosto e na forma ao irmão que o precedera uma hora à saída do útero. Nascera gémeo . numa das velhas famílias Fenland que tinham mantido a fé intacta desde a época da primeira Isabel à do último Jorge. a partir de cujos degraus os prados se estendiam. Ela segurou-a e ajudou-o a pôr-se de pé. ele ficou .Porquê? . a pesca.Agora leva-me a dar um passeio! . Além disso.E eu também te amo. Rosetta! . Desde o princípio que o enganavam: o início fetal escondido. Contrariado. até à beira dos juncos e do pântano sombrio. Amo-te de verdade. os seus contornos tornavam-se-Lhe nítidos . o segundo pálido e enfezado. O que nascera primeiro cresceu trigueiro e forte. inevitável e idêntico como os rebentos novos de uma árvore. altura em que elementos determinantes eram atribuídos pelo poder que porventura o decidia. Mas era aí que a sua identidade terminava e a lenta divisão principiava.Mais tarde a jovem pegou-lhe no rosto com as mãos pequenas e disse gravemente: . seguindo depois corrente acima. Pela primeira vez na sua vida.Que segredo? . Faziam lembrar Esaú e Jacob . e é o que os apaixonados fazem. Paoluccio. donde nasceria uma imitação burlesca de homem. e. Na escola ficou para trás. enquanto o seu irmão gémeo partiu em comissão na artilharia do Exército ao deserto Ocidental. as longas cavalgadas no Verão colorido. Nicholas Black espraiava o olhar sobre os caminhos dispersos do seu passado.Ainda bem. para partilharem os segredos antigos que as dríades contavam aos faunos dançantes. enquanto Jacob se apegava ao abrigo de sua casa e ao porto seguro que era a sala de costura e a biblioteca.tal como o futuro que se Lhe adivinhava. . vastos e verdejantes. estava um ano atrasado em Oxford. na capela da mansão. através da água límpida e sob os arbustos verdes. Nascera católico.Amo-te. .Porque nos amamos. Não como se fosses uma estátua. . estendeu-lhe a mão. tenho um segredo.mas Esaú desfrutava dos privilégios de primogénito: os campos de desporto.Pôs-se de pé com um salto e estendeu-lhe a mão.

desde então. alcançara uma espécie de paternidade. crê-se que morto". e em Nicholas Black havia apenas uma beleza imprecisa. Ele fora enganado: por Deus. Quem sabe. pela vida. A sua crença naufragara diante do mais difícil mistério de todos: o de um Deus justo poder criar monstros e continuar a contar que eles vivam como homens. procriaria demasiadas vezes e viveria sem sentido e na maior das misérias. Tornara-se. Aquele jovem era filho de um santo famoso. com um ataque de febre reumática. quando chegaram notícias dizendo "Desaparecido. casaria demasiado jovem. A Igreja censurá-lo-ia enquanto vivesse e absolvê-lo-ia quando morresse. O coração ficara-lhe empedernido pelos amores breves do submundo. pelo pai. um solitário. justificando a sua própria existência e a do seu professor. devorando as últimas ervas de uma terra empobrecida. pelo irmão gémeo morto. Mas. talvez ele atingisse a grandeza ao crescer.poder para fazer de outro o que ele não conseguira fazer de si próprio: um homem nobre na natureza.para a dignidade. A paixão despertava agora mais lentamente e era mais fácil de controlar. toda a debilidade no outro. para um amor mais puro do que qualquer dos que já experimentara. que proporcionaria à sua própria vida a disciplina e o sentido que sempre Lhe faltara.confinado a uma cama de hospital. teve a esperança de poder colher nele força e encontrar dignidade no afecto. E agora. Era um momento de deslumbramento. Cresceria na indolência. Com o rapaz à sua guarda. Qualquer talento que porventura possuísse ficaria perdido no meio da luta selvagem pela sobrevivência. A vida que teria era tão previsível como a de um milhão de outros nas aldeias sem trabalho da zona sul da Itália. o poder era-lhe colocado nas mãos . de sublimidade divina. se o levassem para fora da aldeia e Lhe concedessem uma oportunidade e uma educação. para a compreensão. que depois de um escândalo abafado em Londres o pusera fora de casa e Lhe concedera uma pequena pensão anual? para o manter longe. Toda a força se concentrava num. excepto quando era espicaçada pela vaidade e pela concorrência. Toda a virilidade pertencia ao que nascera primeiro. Depois. Enquanto o irmão viveu. fecundas e esfomeadas como coelhos. gerado no corpo de uma prostituta de aldeia. nessa construção talvez pudesse reconstituir a sua própria vida . Estava a ficar velho. no talento e na acção. O Estado ficaria sobrecarregado com uma dezena de reproduções suas. a suave subtileza de uma mente demasiado tempo voltada para si mesma. Onde seu pai e a . de repente. a última esperança morreu também e a amargura oculta começou a ganhar volume.

sonhos de mulheres.. .uma brincadeira de mau gosto de um humorista grosseiro. Era tarde e ainda não metera um alimento à boca. e homens mais nobres tinham sonhado mais miseramente nos seus pijamas do que Nicholas Black no seu planalto da Calábria iluminado pelo sol. na sua linguagem própria. Fazia-lhe lembrar um velho desenho no qual um asno crucificado representava Cristo . o símbolo possuía um significado novo: a juventude pregada à cruz pela ignorância. no entanto. pela primeira vez. Depunha grandes esperanças naquela tela. a superstição e a pobreza. seria o seu triunfo para além dos sofismas. Para os críticos. A condessa estaria fechada no seu quarto barroco e ele poderia levar o quadro para a villa sem chamar demasiado a atenção. Os aldeões deviam estar a iniciar a sua sesta.e o seu sucesso traduzir-se-ia na negação gloriosa dos valores que de há muito rejeitara. uma obra-prima fora do alcance da malícia. embasbacados.Igreja tinham falhado era bem possível que Nicholas Black ainda fosse bem sucedido .assim como Aldo Meyer e o clérigo sombrio que vinha investigar o passado de Giacomo Nerone.. no entanto sentia-se embriagado pelo vinho capitoso da esperança. Mas para Nicholas Black.. Era uma ambição estranha e. " Todo o homem tem a sua própria perdição. mas ainda a sorrir. Sorriu ao imaginá-los a olharem. vítima entorpecida e extática do tempo e das suas tiranias. não mais estranha do que os triunfos e vinganças que outros homens sonhavam para si mesmos . Sentia curiosidade em relação ao modo como Louise de Sanctis reagiria diante dela . sonhos de ópio e o sonho de um dia ouvir os inimigos dizerem: ". Se moldasse um homem perfeito a partir daquele barro camponês. já semimorta e condenada.. poder na imprensa para elevar homens ou enterrá-los no esquecimento. Nicholas Black era um medíocre. de modo que não se importou. Procurou um título e encontrou-o quase imediatamente: O Sinal da Contradição. com os seus segredos a exteriorizarem-se nos olhos e nos rostos. Sua Excelência o Primeiro-Ministro.impérios financeiros suficientemente poderosos para esmagarem qualquer oposição.

desconfiam. assim como terra para os encher. Para esta gente é uma espécie de milagre. Aqueles pulverizadores. numa ladeira cinzenta e não cultivada. Outros instalavam na parede de uma pequena barragem novas comportas destinadas a controlar o caudal da água para quintas situadas no exterior do domínio do bispo.. Do outro lado do vazadouro. pulverizando as jovens árvores com o produto dos novos recipientes de transportar às costas de fabrico americano.Porquê? . com uma lira extra para azeite para a panela. . Mas com o tempo acabarão por lá chegar. pequenas e atarefadas. . e Meredith foi levado a reflectir ironicamente que aquele milagre era tão espantoso como qualquer dos que constavam no seu livro forrado a couro: terra estéril a produzir de novo frutos pela vontade criativa de um homem. . mulheres de cestos às costas transportavam pedras para construir novos terraços para vinha. Ainda há um ano ou dois atrás esta gente banhava as suas árvores com o conteúdo de um balde de escarros. mesmo agora.. . Exprimiu o pensamento ao bispo.Que têm as laranjas a ver com a alma humana? . bispo de Valenta. onde os trabalhadores agrícolas se movimentavam lentamente de um lado para o outro na plantação.É má teologia.CAPÍTULO VI Monsenhor Blaise Meredith e Aurelio. que algures os espera uma armadilha.observou Meredith. Faziam lembrar formigas. cujo rosto esguio e inteligente se abriu num sorriso. De repente vêem-se com trabalho e pão na mesa.O meu amigo confunde-me . um recipiente com água que colocavam no meio do chão e para dentro do qual os homens da casa iam cuspindo enquanto fumavam ou mascavam tabaco. Encontravam-se no enorme terraço coberto de lajes da villa a admirar o vale que se estendia mais abaixo. preocupavamse com outra contradição: os milagres atribuídos a Giacomo Nerone. . por exemplo. mas um elogio agradável de ouvir. Não são capazes de entender como foi que aconteceu e. com toda a franqueza. Alguns dos mais velhos recusavam-se a admitir que o meu método é mais eficaz do que o deles. O único argumento que consegue convencê-los é eu apresentar-lhes três laranjas e eles apenas uma e vendê-las pelo dobro do preço por serem muito sumarentas. mas eles valeram bem o que custaram.Apontou para as figuras corcundas que iam passando pelo meio das laranjeiras. lá no fundo. meu amigo.Tive de os comprar com o meu próprio dinheiro.

. Quando não se sabe donde virá a refeição seguinte. . é quanto basta para mim. . Se o Todo-Poderoso o tivesse criado para essa finalidade. Se a razão e a revelação têm algum significado. Quando eu morrer.Tudo . astrólogos e espiritistas.E quanto basta para si. Sua Eminência encolheu os ombros e agitou expressivamente as mãos. . A minha tarefa é não estar satisfeito. . .Sempre me interroguei por que razão os missionários são geralmente melhores padres do que os seus irmãos nos centros de cristandade. um fruto de má qualidade.Que quer dizer? .Tarefa curiosa. gostaria de ser recordado como um bom padre e um bom fazendeiro. o milagre do engenho que mantém as rodas oscilantes do universo a rodarem nos seus eixos. quando se reflecte sobre ela. Meredith aquiesceu pensativamente. aplicar o código da . Mas será quanto basta para todos? . ainda assim.Não está satisfeito com os milagres de Giacomo Nerone? . Mas.. esse significado é sem dúvida o de que o homem trabalha a sua salvação no corpo através da utilização dos bens materiais. .E às vezes improvisam-nos eles mesmos .retorquiu o bispo sem hesitar. meu amigo. Uma árvore negligenciada.recordou-lhe o bispo.Paulo era fabricante de tendas e trabalhava no seu ofício para não ser um fardo para o seu povo.E às vezes conseguem-nos . A miséria desnecessária é um defeito ainda maior. as pessoas continuam a desejar um sinal: um sinal novo.deu uma pancadinha no volume que continha os depoimentos . como é que se pode pensar ou ter preocupações com o estado da alma? A fome não tem problemas de moral. Que significa tudo isto. . são defeitos no esquema divino das coisas. Se o não obtêm do Todo-Poderoso.senão que as pessoas desejam maravilhas no Céu e milagres na Terra? .Sou o advogado do Diabo. Imagino que o próprio Altíssimo dificilmente discordaria. viram-se para quiromantes. . tê-lo-ia feito bípede e carregando a alma num saco atado ao pescoço.Sorriu melancolicamente. porque representa um impedimento à salvação. com ironia.disse Blaise Meredith..Não se pode cortar um homem ao meio e embelezar-lhe a alma ao mesmo tempo que se deita o seu corpo para o monte do lixo. .imagino que bem eficiente.. Testar pela razão os alegados actos da omnipotência. O próprio Cristo foi carpinteiro na Galileia dos gentios .observou Meredith gravemente.É quanto basta .Os milagres rodeiam-nos por todo o lado: o milagre de uma laranjeira.

por exemplo. Sua Eminência esboçou um sinal de grave assentimento e observou calmamente: . a referida cura teve lugar contra ou devido a uma suspensão das leis da Natureza conhecidas.lei canónica àquele que rege o universo. Blaise Meredith assumiu de novo os seus modos afectados. estes testes não podem ser aplicados. constatamos que é muito difícil de provar. cujos prognósticos são familiares. testes clínicos e patológicos. No caso de Lurdes. o departamento volta a examinar o paciente e passa-lhe um certificado provisório de cura. e o terceiro é o de uma criança no último estádio de meningite. somente três mostram alguma conformidade com as exigências canónicas. Criou-se um departamento médico e providenciou-se uma série de testes conformes tanto à ciência médica como às exigências rigorosas da Igreja. Agora. Pode realmente tratar-se de um milagre. O departamento examina o paciente segundo os métodos convencionais: raios X. noutro local. e nunca antes de novos exames médicos.. pedantes. Mas só dois anos depois é que esse certificado se torna definitivo. segundo as exigências da lei canónica.. que recuperou . . Permite-nos dizer que. que afirma ter ficado são de um ferimento na espinha ocorrido durante a guerra. Mas em termos legais. no actual nível da ciência médica. é razoavelmente fácil. Aparece um sofredor com uma história clínica completa.Dos quarenta e três depoimentos que já li.Pensar acerca de Giacomo Nerone poderá ser menos perturbador. Poderemos aceitá-lo tendo por base o simples peso de provas apresentadas por leigos? mas geralmente não o fazemos.Até aqui. o segundo é o prefeito de Gemello Maggiore. Somente se aceitam as desordens orgânicas profundamente enraizadas.É o problema de todas as causas novas: aplicar os alegados milagres aos métodos médico-legais do século xx. Todas as maleitas de origem neurológica ou histérica são descontadas como provas de milagre. Se se reivindica uma cura. parece ser um método seguro. .E quanto às provas no caso de Giacomo Nerone? . Um diz respeito à cura de uma mulher de idade declarada como sofrendo de esclerose múltipla. No melhor dos casos dispomos de relatos de testemunhas oculares. de uma história médica adulterada acompanhada talvez por um certificado passado por um médico local. . no caso de um novo taumaturgol.

Geralmente. não só para os fiéis como para os que a inquirem honestamente do lado de fora..Mas não vejo que uma opinião teológica minoritária tenha grande importância. Fez uma pausa. Ambos são passíveis de erro.Mesmo estes necessitarão de um exame muito mais rigoroso. Mas também acredito que a mão de Deus escreve de maneira directa e simples para que todos os homens de boa vontade O entendam. antes de pensarmos sequer em aceitá-los. porque considero que ergue barreiras entre o pastor e as almas que ele tenta alcançar. franzindo o sobrolho. Para sua surpresa. Duvido da Sua presença na confusão e nas vozes que semeiam o conflito.Perguntava a mim mesmo o que terá acontecido nos velhos tempos em que a ciência médica era limitada e as leis que regulamentam as provas eram menos rígidas. . trata-se de uma proposta dúbia. Meredith ficou confundido. .depois da aplicação da relíquia de Giacomo Nerone.que determinados teólogos voltam a defender a opinião de que a canonização de um santo constitui uma declaração infalível de um papa à qual ficam obrigados todos os fiéis. . Mas não percebo aonde é que Vossa Eminência quer chegar.disse Sua Eminência friamente .Disse alguma coisa que divertisse Vossa Eminência? . E cada novo santo representa uma nova adição ao calendário.Concordo com Vossa Eminência . que pode suspender as leis da Sua própria criação.Acredita em santos. o bispo sorriu.Não é a opinião que me preocupa meredith.É verdade. . e o papa só é infalível na interpretação do depositório da fé. Na minha opinião. Deploro-a imensamente. . .Ultimamente tenho lido . Deploro esta realidade.Eu diria que muito provavelmente. antes de prosseguir no seu tom enfático de advogado: .disse Meredith. É a tendência: a tendência para complicar de tal maneira a questão com comentários.E que certos santos venerados possuam um registo de tal maneira obscuro que haja que duvidar da sua própria existência? . Mas mesmo estes. como se se lembrasse de algo engraçado. glossários e hipóteses que a simplicidade rígida da fé essencial fica obscurecida.Acredito em santos do mesmo modo que acredito na santidade. . intrigado. Não o pode alterar. a canonização baseia-se na biografia e no registo histórico de milagres.. Eminência? . Não será possível que muitos dos milagres então aceites não tivessem nada a ver com tal? . Acredito em milagres como acredito em Deus. .

o monsenhor chegou. na política.Tal como eu duvido dos milagres de Giacomo Nerone'? O bispo não Lhe respondeu imediatamente. Também tenho rezado. que nos guie. e se Deus o quer? Este é apenas um dos aspectos. como se estivesse absorto numa luta íntima. nós os dois: "Se é Tua vontade.disse Aurelio.. . grito. Creio que estou certo. Mas. Meredith... Disse lentamente: .De noite fico acordado .. mas na disciplina. . Senhor. Ajoelho-me e recito o meu ofício e o terço. O seu rosto continuava ensombrado. mas a minha vontade é um arbusto açoitado pelos ventos do desespero. mas as palavras são vazias. Encontro em si um irmão.Que sinal? O bispo fez uma pausa e depois. Passado um bocado. Ambos andamos neste momento à procura de um sinal. Sou. de torso nu sob a luz do Sol. receoso de o ter ofendido. mas sei que corro o perigo de. Meredith observou-o com espanto e ansiedade.. mas sim os símbolos da contradição... . . Tento predispor-me para a fé. Agora. a quem passei a amar e a confiar de todo o coração.E foi através da oração que cheguei a uma conclusão. sento-me num pináculo muito elevado. bispo de Valenta. esclareceu-o. Só estou sujeito ao pontífice. um homem à beira da morte. .Nestes últimos dias tenho reflectido muito. . cabaças secas a chocalhar no silêncio. Disse-lhe que não desejo um santo.. não em relação a matérias correntes de fé. Ainda bem que Vossa Eminência reza por mim. uma luz na escuridão.Sinto a vida a esvairse de mim. unicamente com o medo.. muito solenemente.. Tinha razão quando me disse que eu tenho medo do dedo de Deus. laranjeiras verdes e a água de superfície plana no local onde os homens andavam a arranjar os vazadouros. Sou um bispo da Igreja. no entanto sinto-me discordante em relação a muito do que tem estado a ser dito e feito pelos meus colegas em Roma. Quando a dor chega.Façamos esta oração. afastando-se e ficando a olhar para a vastidão tranquila do vale com as suas oliveiras cinzentas. como me acontece relativamente a este caso de Giacomo Nerone.Rezo por ambos . O senhor entrou na minha vida num momento de crise. nas atitudes. Não vejo sinais. Sinto-me sozinho e frequentemente confundido.disse Meredith. mas trazia os olhos repletos de uma suavidade solene. mostra-as no corpo . mostrar as virtudes do teu servo Giacomo Nerone. o bispo voltou a aproximar-se dele. Devemos pedir um sinal. a esperança e a caridade.. mas não com a oração. No rosto pesava-lhe uma expressão sombria. Existem muitos outros. Também vejo que está confuso e receoso do dedo de Deus. ao seguir o meu próprio caminho. tropeçar no orgulho e deitar a perder tudo o que me proponho fazer. A escuridão é terrível e sinto-me muito só.

O homem nascido na Igreja obtém um conforto singular na lógica fortemente entretecida da fé. . seu amigo. não comprada com a virtude! . meu amigo. .Nada fiz para a merecer. . . mas os seus aderentes movimentam-se livremente no seu seio.A misericórdia é oferecida. de olhos fitos na terra ensolarada. Era o momento que ele de há muito temia. .Não! Não! Não! O desespero do homem era comovedor.Se elas falharem.. A sua disciplina é rígida. tal o receio. o bispo deixou-o sozinho.Não posso fazê-lo! Não me atrevo! . porque eu. sem saber se presumi demasiado ou acreditei de menos. pressionou-o brutalmente. não ganha! Concedida aos que a pedem.Mas não em relação a si? .exclamou Meredith quase com um grito.Meredith ergueu o rosto.Não para si. a fim de ir falar com os jardineiros que pulverizavam as laranjeiras. . Vossa Eminência coloca-me mais uma cruz às costas.Também! . .Porque não? Nega a omnipotência? . .Não me atrevo a pedi-la. mesmo que nada signifiquem. como é . mais fortes do que imagina. mas nunca compreendera completamente: o momento em que as consequências severas da crença se tornavam finalmente claras. .E se elas falharem.São umas costas fortes. E ainda fica capaz de carregar com Cristo até ao outro lado do rio.Não me atrevo! .Acredito nela! . Lho peço.de Blaise Meredith..Não! . de expressão desvairada. porém. Os seus silogismos dispõem-se uns em cima dos outros. Nosso Senhor!" . Mas Meredith fazia lembrar uma estátua. Restitui-lhe a saúde e mantém-no afastado das mãos da morte durante mais tempo. o bispo. através de Jesus Cristo.A voz subiu-lhe de tom.E na misericórdia? . passados instantes.disse-lhe o bispo brandamente.Se não por si.Pedirá por ela . Dirá as palavras. firmes como tijolos na parede bem construída de uma casa. mas para mim e para todos os pobres diabos como eu. caio numa escuridão ainda maior. Os seus axiomas são de aceitação fácil. ao menos por mim . .

monges e freiras a lógica é mais meticulosa. a de que mais cedo ou mais tarde teria de se sobrepor às formalidades e às convenções e entrar numa relação directa. com os seus semelhantes e o seu Deus. Portanto. simplesmente por ser fraco em gramática ou na discrição. E o amor. em todas as suas formas e graus.porque pedir um favor é submeter o orgulho e a independência de uma pessoa. As suas promessas são reconfortantes: segundo elas. Para padres. A relação complexa e aterrorizante do Criador e criatura fica reduzida a uma fórmula de fé e a um código de comportamento. mas a segurança de corpo e espírito é incomensuravelmente maior.comum fazer-se dentro das famílias bem-nascidas. quando escrevia em termos oficiais . a disciplina mais rígida. como é expresso pela vontade da Igreja. pessoal. Mais de um colega seu medíocre tinha sido condenado por heresia. quer como um santo! Blaise Meredith era. uma vez escrita. ele encarava como numa relação entre filho e pai. Naquela altura. até à eternidade. a submissão do espírito na grande morte que ocorre no momento da união entre Deus e homem. Era uma actividade muito pouco do seu agrado.excepto uma. Nunca na sua vida Blaise Meredith se submetera a alguém. por temperamento. De modo que. Se não lograsse submeter-se. o bispo. a quem ele professava crença. Uma relação de caridade . a quem. ele pode viver e morrer em paz . todas as regras . frio e austero. Não pedira favores a ninguém .quer como um qualquer vegetal. E essa era a razão de todo aquele terror. estéril. Nascera agricultor e preferia ver uma árvore crescer a escrever um tratado sobre o facto. um conformista. Aurelio. Toda a vida respeitara as regras. mesmo quando a tal era obrigado pelo seu cargo. se uma pessoa se submeter à lógica e à disciplina. encontrava-se no seu gabinete de trabalho. Fora treinado para a diplomacia e sabia que uma coisa. é um submeter de corpos na pequena morte da cama.que é uma palavra latina imprecisa para definir o amor. a escrever umas cartas. independentemente da designação que Lhe pusesse. não conseguia pedir um favor ao Altíssimo. segundo a mesma crença. se um homem é capaz de se submeter totalmente à vontade do Criador. deixava de poder ser retratada. segue naturalmente pelo caminho da salvação. sem amigos. permaneceria para sempre o que naquele momento era: solitário.

com o carimbo do seu bispado, limitava-se a uma linguagem convencional com os seus clérigos, em mensagens moderadas finamente enfeitadas com a retórica do Sul; para Roma, uma circunlocução estudada, uma qualificação cuidada, um estilo ligeiramente floreado. Aqueles que o conheciam riam-se discretamente da sua argúcia. Aqueles que o conheciam mal - mesmo indivíduos perspicazes, como Marotta - tendiam a formar opiniões menos correctas acerca dele. Consideravam-no um provinciano algo antiquado que poderia ser muito eficiente para as gentes locais, mas que em Roma só serviria para incomodar. O que ia precisamente ao encontro dos desejos do bispo. Eram demasiados os homens da sua condição que tinham sido abruptamente transferidos para Roma na altura exacta em que começavam a realizar acções concretas nas suas dioceses. Era o processo que o Vaticano adoptara para Lhes acelerar a subida de maneira pouco agradável: um bispo no seu bispado é um poder instituído; na cidade dos papas não passa de uma personagem de pouca importância. Mas nessa tarde as cartas eram particulares, e Sua Eminência compô-las com maior cuidado do que o habitual. A Anne Louise de Sanctis escreveu: agradeço-lhe profundamente o seu convite para receber Monsenhor Meredith em sua casa durante a sua permanência em Gemello Minore. Nós, clérigos, somos frequentemente um fardo para o nosso rebanho - e por vezes um estorvo; no entanto, estou certo de que encontrará em Monsenhor Meredith um compatriota agradável e inteligente. E um homem doente, que espera, infelizmente, uma morte prematura; e tudo quanto puder fazer por ele será por mim encarado como um favor pessoal. Tenho pensado muito em si nestes últimos dias. Não sou indiferente à solidão que a atlige na sua qualidade de castelã de uma comunidade pobre e primitiva. Tenho esperança de que encontre em Monsenhor Meredith um confidente para os seus problemas e um conselheiro nas questões da sua consciência. Queira receber, cara condessa, os meus melhores cumprimentos em Jesus Cristo. Aurelio t Bispo de Valenta

Assinou o nome com um floreado e deixou-se ficar, por momentos, a examinar a carta, interrogando-se sobre se deveria ter dito menos ou mais - e se haveria palavras capazes de tocar o coração de mulheres como aquela. As mulheres constituíam o problema permanente para o clero. Eram mais as mulheres que os homens que se ajoelhavam às janelas dos confessionários. Os pecados referidos eram mais sinceros e mais perturbadores para o celibatário que se sentava do outro lado. Muitas vezes tentavam utilizá-los em substituição de um marido indiferente e o que não se atreviam a sussurrar na cama conjugal diziam livremente, muitas vezes em termos rudes, na pequena construção de madeira encostada a uma das paredes da igreja. Os homens podiam ser alcançados através das mulheres - as crianças também. Mas muitas vezes o velho Adão que dormia debaixo da batina era perigosamente despertado pelas confidências murmuradas por alguma rapariga adolescente ou matrona frustrada. Aurelio, bispo de Valenta, era muito homem e não tardou a aperceber-se da paixão que o espicaçava por trás da gentileza requintada da condessa de Sanctis. Também ela fazia parte das suas ovelhas, no entanto a discrição colocava-a fora do alcance do cajado do seu pastor, e ele perguntava a si mesmo se Blaise Meredith, o homem frio e sofredor, teria poder de se aproximar mais dela. Ao Dr. Aldo Meyer escreveu uma missiva de termos completamente diferentes: [...] Monsenhor Blaise Meredith é um homem sens'ível e liberal que passei a estimar como a um irmão. A tarefa de investigar a vida de Giacomo Nerone, que Lhe foi atribuída, é muito complicada e tenho esperança de que o senhor esteja disposto a colocar à sua disposição os conhecimentos locais consideráveis que possui. O senhor poderá achar, no entanto, que, como não católico, prefere não se envolver neste assunto delicado. Permita-me que Lhe assegure que nem Monsenhor Meredith nem eu desejamos embaraçá-lo com perguntas. Tenho, porém, um pedido a fazer-lhe. Monsenhor Meredith é um homem muito doente. Sofre de carcinoma do estômago e, de acordo com a evolução normal da situação, morrerá muito em breve. É pessoa reservada, como é habitual entre os Ingleses, mas possui uma coragem considerável, e eu tenho receio de que trabalhe em excesso e padeça de mais sofrimento do que o necessário. Apreciaria, pois, profundamente, que durante o

seu tempo de estada em Gemello Minore o doutor actuasse como seu médico e Lhe prestasse a melhor assistência possível. Providenciarei para que Lhe façam chegar todos os medicamentos que julgar necessários e responsabilizar-me-ei pessoalmente por todas as despesas de consulta e tratamento. Recomendo-o encarecidamente ao seu espírito de caridade e aos seus cuidados profissionais. "Basta!", pensou Sua Eminência. "Basta. Não se fazem homilias aos Sefarditas'. Eles compreendem-nos tão bem como nós a eles. São teocratas, tal como nós - absolutistas, como nós. Conhecem o significado da caridade e da fraternidade; e muitas vezes praticam-nas bem melhor do que nós. Foram perseguidos, tal como nós. Tiveram os seus fariseus, assim como nós - Deus nos ajude - temos os nossos, mesmo nos lugares mais altos. Meu irmão Meredith ficará em boas mãos. " A terceira carta era a mais difícil de todas e Sua Eminência reflectiu sobre ela durante muito tempo antes de escrever, com letra bonita e cuidada, o endereço. Ao Reverendo Padre Anselmo Benincasa, pastor da Igreja de Nossa Senhora das Sete Dores, Gemello Minore, diocese de Valenta Estimado reverendo, Escrevemos para informá-lo da chegada à sua paróquia do Reverendo Monsenhor Blaise Meredith, auditor da Sagrada Congregação dos Ritos, que foi nomeado promotor da fé na causa da beatificação do servo de Deus Giacomo Nerone. Solicitamos-lhe que Lhe conceda uma hospitalidade fraterna e Lhe proporcione toda a assistência necessária para que ele leve a bom termo a sua missão canónica. Estamos conssientes da sua pobreza e da exiguidade das suas acomodações, pelo que aceitámos um convite feito pela condessa de Sanetis para o alojar durante a sua permanência nessa paróquia. Sabemos, contudo, que o reverendo não se absterá de dispensar, pelo seu lado, todas as cortesias devidas a um sacerdote irmão, que também é membro do tribunal diocesano. De há muito que temos conhecimento, reverendo padre, através de relatórios chegados até nós, do estado precário em que se encontram as questões espirituais da sua paróquia e de determinados escândalos relativos à sua vida privada. Um destes, não o menor, diz respeito à sua prolongada ligação com a viúva Rosa Benzoni, que trabalha como sua governanta. Em situação normal, semelhante ligação ter-nos-ia levado já a

instituir um processo canónico contra o senhor, no entanto preferimos abster-nos desta medida drástica na esperança de que Deus Lhe conceda a graça de reconhecer o seu erro e emendá-lo, de maneira que os últimos anos do seu serviço na paróquia possam ser passados em penitência e dignidade e servindo devidamente o seu rebanho. Seja bem possível - Deus assim permita! - que, devido ao número avançado de anos, essa ligação tenha perdido o seu carácter carnal e possamos permitir que continue a manter essa mulher ao seu serviço, apesar das dívidas que contraiu em seu benefício. Mas uma tal indulgência da nossa parte não o dispensará do dever moral de reparar o escândalo e de se dedicar, com vigor renovado, aos interesses dos seus fiéis. Calculamos que a presença de um padre de visita à sua paróquia possa proporcionar-lhe a oportunidade de se aconselhar junto dele e pôr a sua conssiência em ordem sem demasiado embaraço para a sua pessoa. A nossa paciência tem sido longa e nutrimos grande estima por si como nosso filho em Cristo, mas não podemos ignorar o estado lamentável em que se encontram as altas a seu cargo. Não se pode desafiar Deus durante demasiado tempo. Os anos já são muitos e o tempo escasseia perigosamente. Recordamo-lo diariamente nas nossas orações e recomendamo-lo a Nossa Senhora das Dores, a patrona da sua igreja. Os meus sinceros cumprimentos em Cristo. Aurelio t Bispo de Valenta Pousou a caneta e ficou a olhar fixamente, durante muito tempo, para o espesso papel timbrado e a escrita que fluía através dele em linhas apressadas e disciplinadas. O caso do padre Anselmo simbolizava todos os males da Igreja mediterrânica. Não se tratava de um caso isolado. Era suficientemente comum para se ter tornado habitual na área degradada do Sul - e também não era muito raro no Norte. No seu contexto local, representava um pequeno escândalo - a Igreja fundamentava-se na ideia do pecado e a sua máxima mais antiga era a de que o hábito não faz o monge, nem a tonsura o religioso. Mas no contexto de uma Igreja nacional, num país onde o catolicismo era a influência dominante, o facto era indiciador

de fraquezas graves e de uma necessidade singular de reforma. Um homem como Anselmo Benincasa era o produto de um seminário mal dirigido e que dispensava um sistema educativo antiquado. Chegavam à ordenação com uma educação incompleta, uma disciplina imperfeita e com a vocação totalmente por comprovar. Aparecia mais um padre num país onde havia padres a mais e sacerdócio a menos - e tornava-se imediatamente uma carga suplementar para uma comunidade em dificuldades. O salário que recebia da diocese era puramente nominal. A inflação acelerada da moeda levava a que nem um pão pudesse comprar com ele. E a hierarquia continuava a apegar-se à ficção cómoda de que aqueles que pregavam o Evangelho deviam viver pelo Evangelho - sem se dar ao trabalho de definir muito claramente de que maneira deveriam fazê-lo. Não dispunha de pensão nem havia qualquer instituição que o recebesse quando a senilidade Lhe batesse à porta: atenazava-o, assim, o medo constante da velhice e a tentação constante da avareza. Quando o padre Anselmo chegara à aldeia de Gemello Minore, representara mais uma boca para alimentar. E, se a abrisse demasiado, o mais provável era que passasse fome. Portanto, era obrigado a acomodar-se: a submeter-se ao domínio do senhor rural da localidade ou a estabelecer um compromisso miserável com o rebanho carenciado. Em muitas comunidades calabresas havia falta de homens. A emigração anterior à guerra e os recrutamentos da própria guerra tinham-nos levado e as mulheres passavam anos separadas dos maridos, enquanto as raparigas solteiras eram obrigadas a arranjar amantes temporários ou maridos muito mais velhos. Mas o padre estava lá. O padre era pobre e dependia dos pobres para ter a sua roupa lavada, a comida cozinhada, a casa limpa e o prato das esmolas suficientemente cheio para que pudesse comprar a massa para a semana seguinte. Não admirava, pois, que resvalasse frequentemente para o pecado e que o seu bispo preferisse deplorar a sua fraqueza de fornicação em vez de o levar a tribunal por escândalo canónico de concubinagem pública. O sistema devia ser censurado tanto quanto o homem, e reformadores como Aurelio, bispo de Valenta, tinham grande dificuldade em alterá-lo, limitados como estavam pelos pecados históricos de uma Igreja feudal. A resposta residia na limitação do número de padres e numa melhor qualidade destes, em dinheiro para Lhes providenciar pelo menos uma sobrevivência básica, independente das

e os pedidos de fundos especiais para efectuar reformas tendenciosas eram recebidos friamente pelos cardeais a quem cabia o papel de administradores do património de Pedro. Devia partir para junto de estranhos. salvaguardar-lhe a alma imortal. melhor treino seminarial. Era celibatário por profissão e solteiro por disposição. ao contrário de muitos dos seus colegas. Dobrou as cartas. Seria hóspede em casa de uma mulher . cumprindo o seu papel de inquiridor diligente na reconstituição de factos impopulares. a Gemello Minore. longínqua e atarefada . enquanto os trabalhadores agrícolas dormiam a sesta debaixo das árvores e Sua Eminência escrevia no . depois tocou a campainha a pedir um mensageiro que a levasse imediatamente. um escrutínio mais rigoroso nos aspirantes às ordens sagradas. selou-os com o lacre vermelho e o sinete das armas do seu bispado. onde pouca intimidade havia. De modo que Anselmo Benincasa continuava em Gemello Minore e Sua Eminência o bispo de Valenta ficava com o problema do que fazer com ele e de como. Não tinha ilusões quanto à importância que Lhes seria concedida. e não Lhe agradava nada o esforço que teria de fazer para participar nas conversas superficiais que acompanhavam os cafés. morte e acto de amor. Blaise Meredith sentiu-se mais só do que em toda a sua vida. Tinha de trocar a intimidade cómoda do domínio do bispo pela pobreza e depressão de uma aldeia de montanha. pelo menos. pensões para os idosos e doentes. de motoreta. Entrara para o sacerdócio fazia muito tempo e sabia que a verdade podia permanecer estéril durante uma centena de anos até ganhar raiz no coração de um homem.e ele. Mas o dinheiro escasseava e os preconceitos pesavam? homens como Anselmo Benincasa levavam muito tempo a morrer e os jovens que cresciam nas aldeias ficavam sem educação e aptidão. Nunca mais poderia fazer confidências. até mesmo para o nascimento. enfiou-as em sobrescritos. Teria de suportar sozinho os seus terrores nocturnos. pouco talento possuía para lidar com o sexo oposto. A breve comunhão fraterna que se estabelecera entre si e o bispo estava prestes a ser interrompida. Na véspera da sua partida para Gemello Minore. Roma era rica. Então. Os bispados como Valenta eram pobres e obscuros. Sentia a energia esvair-se-lhe rapidamente e não se podia dar ao luxo de a desperdiçar em trivialidades domésticas.contribuições dos fiéis. teria de as extrair ele dos outros.

Os trabalhadores dormiam na encosta que ficava ao cimo do carreiro. No extremo do vazadouro. ao cimo. mas não tão pobres como muitos outros. quando desembocou no vale. formando uma reentrância baixa semelhante a uma caverna. mas ele seguiu por ele com triste determinação. Tinham as roupas manchadas e cheias de poeira e não usavam sapatos. entre as vertentes cinzentas da colina. Numa terra pobre com três milhões de desempregados era possuir muito. lamentando não dispor ali do abrigo das plantações. Despiu a batina e o colarinho. em ondas tremulantes. à sombra dos rochedos proeminentes. conseguir uma vista panorâmica da região em volta. da rocha coberta de turfa. onde a barragem se erguia. Debaixo das árvores. o carreiro bifurcava-se em dois caminhos de cabras. mas depois. caminhou firmemente e deu a volta à borda da barragem. mas. Meredith escolheu o caminho ascendente na esperança vaga de. que o sol bronzeara. A meio da subida deparou com um pequeno planalto. no entanto eram capazes de dormir tranquilamente e voltar para casa com dignidade. o outro subindo em direcção à depressão no meio da colina. oculto de quem olhava do vale. envergonhado com a sua fraqueza. o ar estava fresco e o carreiro estendia-se através de zonas de sombra e luz. Hesitou por um momento. onde as paredes rochosas se tinham recolhido. arregaçou as mangas e deixou que o sol Lhe brilhasse nos braços finos e pálidos.seu gabinete de trabalho. assumiam posições desconjuntadas fazendo lembrar bonecos de trapos. o calor atingiu-o como a baforada violenta de um forno. Aí havia sombra. um levando ao leito da corrente. as cabeças apoiadas nos casacos. O caminho era tortuoso e coberto de pedras cheias de arestas. porque tinham trabalho. assim como massa para a mesa e vinho e azeite para a acompanhar. Eram pobres. reparou que ele se evolava. como a desafiar a debilidade do seu corpo devastado e a afirmar que ainda era um homem. e Meredith. sentiu inveja da boa sorte que os assistia. descendo depois o carreiro estreito que conduzia à barragem e aos limites da propriedade. de modo que se sentou a repousar uns bem apetecidos . que há muito não sabia o que era dormir bem. em direcção à parede de sustentação. Trabalhavam para um senhor benevolente. permitiu-se o prazer derradeiro de um passeio pelas plantações. Os corpos entroncados. Ao olhar à sua volta. mas sim socas de madeira.

e. filtros de amor e velhos ritos . Em tempos idos. Meredith ouvira falar muitas vezes das superstições que ainda persistiam no seio dos povos que habitavam as montanhas . O bloco de mármore estava manchado e descolorido. ao mesmo tempo . Os rapazes pavoneavam-se arrogantes como galarotes. na altura em que as colinas se encontravam cobertas de florestas. no sítio onde outras bancadas tinham estado presas. em busca de uma certeza contra a esterilidade? Continuariam os homens a adorar o símbolo do seu domínio? Ainda haveria naqueles montanheses alguma esperança semiconsciente de que Pã pudesse fazer o que o novo deus não fizera: tornar a terra violada de novo virgem e frutificante com erva e árvores? O culto do macho encontrava-se profundamente enraizado no seio daquela gente. sobre o qual se viam malmequeres e folhas de vinha seca. a fim de que as olhassem e admirassem. faziam as mulheres parir até à exaustão. enquanto as raparigas faziam alarde de uma virgindade por vezes fictícia.mas era a primeira vez que via provas de tal com os próprios olhos. por cima destas. Nesse local as sombras eram mais densas e só passado um bocado é que se deu conta de um pequeno nicho escavado na rocha.as primeiras oferendas da Primavera a um velho deus desacreditado. Eles. Viriam as mulheres ali.de talismãs. tão velho. donde se projectava a forma grosseira de um falo. como nos velhos tempos. Levantou-se a fim de as examinar mais de perto e seguiu as linhas traçadas que conduziam ao fundo da caverna. a marca de ferramentas nas paredes. como se o tocassem frequentemente. de formato vagamente cúbico. junto à base de uma das paredes. quando casavam. mas as flores eram do século xx . estimulando os filhos para uma puberdade precoce. viu. reticulada à velha maneira romana. mas o falo apresentava-se branco e polido. Por trás das oferendas havia um pedaço de mármore. Agora só lhe restava aquele símbolo da fertilidade. feitiços. algumas bancadas em pedra toscamente trabalhada. Depois viu que fazia parte da base de uma estátua antiga.momentos. aquela caverna devia ter sido o santuário de um deus de madeira. antes de as tribos esfaimadas as desnudarem para obter combustível e materiais de construção. à medida que os olhos se Lhe habituavam à penumbra. gasto e manchado que não foi capaz de perceber do que se tratava.

Sentiu-se velho. dos comunistas e dos anticlericais. Quando se aproximou dele. Talvez aquela fosse a razão por que os liberais desapaixonados e os urbanos cépticos produziam tão pouco impacto sobre aquela gente. penetrar na mente daquele povo secreto que já era velho na altura em que Roma era jovem e que outrora estabelecera aliança com o deus negro e feroz da Cartago de Aníbal? Apesar do calor. Blaise Meredith ficou a olhá-la durante um momento. cansado e estranhamente receoso de ter de ir a Gemello Minore. numa terra estéril. sentiu um frio súbito. Ela virou a cabeça e fitou-o com olhos inexpressivos e lacrimejantes. Blaise Meredith deu consigo curiosamente fascinado pelo grosseiro símbolo de pedra e a sua sobrevivência activa a menos de quilómetro e meio da casa do bispo.que espancavam as filhas para as obrigarem a manter a castidade. Talvez a explicação de muitas das anomalias apresentadas pela Igreja mediterrânica residisse ali: a crença poderosa no sobrenatural. em direcção à depressão entre as colinas. antes de seguir o seu caminho sem proferir uma palavra. vinha a subir penosamente o caminho. Uma mulher idosa. Voltou as costas à pequena imagem obscena e saiu da caverna. Talvez fosse por isso que o símbalo correlativo do cristianismo não era o de Cristo a agonizar na cruz. iguallmente feroz. depois voltou o rosto para o vale. a forte influência da superstição. para o meio da luz do Sol. quase dobrada ao meio sob o peso de um feixe de ramos secos e madeira à deriva colhida no rio. Seria aquela a verdadeira explicação da morte de Giacomo Nerone a de que fora calcado pelos cascos do deus-bode? E como poderia Blaise Meredith. Blaise ergueu uma das mãos e cumprimentou-a no seu italiano preciso de Roma. Eles eram. . os símbolos derradeiros da fecundidade e os primeiros símbolos de alegria para uma mulher cujo fim seria uma servidão desprovida de alegria nalguma barraca em ruínas nas colinas. o legista de Roma. mas sim o da fecunda Madonna com o Bambino a sugar-lhe o seio de camponesa. o zelo feroz dos santos latinos e a rejeição. a razão de um misticismo exaltado ser a única resposta ao frenesim báquico que Lhes despertava nos corpos morenos e subnutridos.

Quando nessa tarde se encontraram ao chá. Dá-me uma hora e eu tornar-te-ei tão deslumbrante como qualquer beldade de Roma.Adoraria. . . Eu me encarregarei de os entreter devidamente. Pegou-lhe na mão com galanteria teatral e conduziu-a ao andar de cima.Permites-me? . Tenho lá tudo o que é preciso.disse ele meigamente. Não permitirei que te incomodem. e. ficou ainda mais maldisposta. a raiva que a assolava atingiu as raias do insuportável. quando a carta de Sua Eminência Lhe foi entregue. . Ao lembrar-se de que Aldo Meyer viria jantar. pelo mensageiro.Adoptou uma entoação de criança petulante. Se havia segredos a conhecer acerca da condessa. Onde é que procedemos à operação? A condessa hesitou por um momento. Era mais do que conseguia aguentar. É o calor. Nicki. cara! Mas um chapéu novo e um penteado diferente são a melhor das curas para enxaquecas. tendo subtileza bastante para Lhe sugerir um remédio imediato. rindo interiormente perante a facilidade da vitória alcançada.Como? Ainda tenho de aturar Meyer. anda daí! Lancemos mãos à obra. Porque não me deixas aliviar-te com um sortilégio? . cara . Agora vejamos.Penso que o quarto é o local mais indicado. paciência e a perícia sedutora das suas .Estás fatigada. . É aquilo que maior falta me faz aqui. Sinto que estou a tornar-me uma bruxa velha. a febre da Primavera. Nicholas Black não tardou a reparar na má disposição da sua anfitriã. era ali que ele os encontraria com tempo.Tens-me a mim. Não podia tolerar semelhantes intromissões na sua intimidade. cara . Até mesmo o tédio era preferível ao esforço a que teria de se prestar para ser agradável. .Então. . E amanhã chega o padre. porque não me deixas dar-te uma massagem facial e preparar-te o cabelo para o jantar? A condessa animou-se imediatamente.CAPÍTULO VII Anne Louise de Sanctis despertava da sua sesta terrivelmente deprimida. em mãos. .Quem me dera que pudesses. ao quarto barroco. depois respondeu com indiferença afectada: .disse-lhe solicitamente. Nicki.Nem pensar.Gostaria que me deixassem em paz. .

pouco depois o pintor começou a sentir a sensualidade a despertar lentamente nela. cara. tanto mais que ele continuava perfeitamente inalterado.o confidente da senhora. Inclinou-lhe a cabeça para trás. em movimentos que subiam do pescoço flácido e dos cantos da boca entediada. o filho veio cortejá-la sem saber quem ela era. aos sessenta anos. .. a testemunha de pormenores negados até mesmo a amantes..Tens uma pele linda. enquanto trabalhava. É uma história estranha. O pintor sorria e fazia floreados com as suas toalhas. És uma das afortunadas.. ajudando-a a despir a roupa.Sempre tive curiosidade em saber por que razão nunca voltaste a casar. elástica como a de uma rapariga. fazendo observações maliciosas tendentes a salientar a intimidade da ocasião. Há mulheres que a perdem rapidamente.Sempre quis ter filhos.Ainda podias tê-los. . pois os lacaios são indiferentes às virtudes mais bem dissimuladas. o contador de pequenas histórias escabrosas perante as quais a senhora não era obrigada a corar. Apaixonou-se por ela e suicidou-se ao descobrir a verdade. Black procedeu a uma pequena cerimónia desprovida de sentido sexual. envolvendo-a no négligé e sentando-a no cadeirão forrado a brocado que se encontrava em frente do toucador. Naquele momento fazia de parrucchiere .. e. . que conservou o segredo da juventude eterna. Depois de a porta se fechar atrás deles. Possuía um talento versátil para se adaptar a qualquer situação.mãos macias. mesmo que os seus pensamentos e planos se inclinassem para uma área diametralmente oposta. deixando-a tagarelar à vontade. Soltou uma pequena risada. onde se viam filas de produtos de toilette em recipientes de cristal... O facto proporcionou-lhe uma satisfação especial. por que motivo uma mulher bonita como tu preferiu enterrar-se na lonjura selvagem . Mas.Precisaria de algum ajudante não achas? ... A princípio a condessa mostrou-se tensa e desconfiada em relação a ele. A condessa submeteu-se obedientemente. limpou-lhe a maquilhagem do rosto. . começou a utilizar a linguagem fútil dos salões de beleza: . não é verdade? Ela riu agarotadamente. talvez tenha sido melhor não ter concretizado o meu desejo. passou-lhe cuidadosamente creme e depois começou a massajá-lo com dedos suaves mas firmes. Quando ainda era o furor de Paris. tal como Ninon de l'Enclos. Nicki. mas não tardou a render-se aos movimentos rítmicos e hipnóticos.Ainda bem que não tiveste filhos! Ela soltou um pequeno suspiro complacente.

Roma.respondeu-Lhe ele com ligeireza. cara. é simples. Como vês. Mas o meu lar é aqui. surpreendentemente. a condessa pegou-lhe na mão. Paris. destras.Consigo sempre o que desejo fora dele.Contigo. Continuo a ir regularmente a Roma. ela era mais complexa do que qualquer mulher que ele tivesse conhecido . Nenhuma delas me satisfez verdadeiramente. mas diabos me levem se alguma vez deixar percebê-lo. Podias viver onde muito bem te aprouvesse: Londres. apenas viúvas carentes e frustradas. como utilizavam o termo da gíria freudiana como se ele fosse a resposta para o derradeiro enigma do universo.Não sei do que estás a falar! A voz dele elevara-se. Nicki. tal era a irritação. Porquê? . cara." . como a palavra os evocava constantemente. Estive apaixonada. puxou-a para baixo e pousou-a sobre a curva do seio nU. Black foi apanhado desprevenido. . Não és pobre. ainda gordurosa do creme.Pobre Nicki! Achavas que eu não sabia? .Não respondeste à minha pergunta. como pode um homem ficar frustrado? Como num gesto de gratidão pelo cumprimento. . Eu também o sou. sem aviso. não haveria viúvas alegres. Nunca ardiam de paixão por um homem que não pudessem possuir. . Também tive aventuras e propostas. Nicki. enquanto procurava ansiosamente uma resposta. Estranho.Vocês.Alguma vez te sentes frustrado. .da Calábria. . reagiu violentamente: . Ao massajar-lhe as maçãs do rosto e a fina rede de rugas em redor dos olhos. As mãos. sentia a tensão a crescer nela. disfarçaram a malícia da pergunta. sob o négligé. e premiu os lábios nela. "São umas frustradas. pensou. Nunca se desgastavam.Já fui casada. Regresso sempre. como sabes. mas Anne Louise de Sanctis continuava a rir. . Nessa altura.Se não houvesse solteirões. a condessa desatou a rir. querido. Nunca tinham receio de ficar demasiado velhas para as derrubarem sobre o feno. de facto. os solteirões! .Não faças isso! Depois. cara.Nunca senti a falta do casamento .Tu também nunca casaste. .e era suficientemente perspicaz para virar a jogada contra ele. Nicki? Ele sorriu intimamente ao notar o novo queixume que Lhe aparecera na voz.Já lá estive. . Mas não era simples e ele sabia. .

Ela agarrou-lhe novamente a mão e manteve-a entre as suas. Meyer sentia-se fatigado e maldisposto para convívios sociais. Tu ajudas-me a tratar deste padre e eu ajudo-te em relação a Paolo Sanduzzi. É ou não é verdade? Black quase chorava de raiva. o ferreiro. este possivelmente fatal e muito provável após o primeiro. quando o Dr. Passara a tarde inteira com Martino. De as mulheres não te interessarem realmente para nada. Era quase escuro . com a talha nas mãos e a olhar.. . Ela fitou-o por um momento prolongado. Depois disse-lhe: .Tenho as minhas próprias razões. Almejo grandes feitos para ele. Era uma aliança de interesses e ambos o sabiam. Gosto do rapaz. Nicki. sem saber que pensar. Gostaria de o tirar da aldeia. Combinado? Ele inclinou-se e beijou-lhe a mão num sinal de gratidão abjecta e ela despenteou-lhe o cabelo no gesto meio materno e meio desdenhoso que Lhe era habitual para com ele.Acredito em ti. mas estaria disposto a gastar até à última moeda nesse projecto. Absolutamente nada. Mas até mesmo os inimigos sorriem um para o outro à mesa das negociações.Nada. tentando. em vão. mandá-lo educar e dar-lhe um começo de vida digno. Nicki! Não tens de guardar segredos para mim! O pintor soltou-se.E que pedirias em troca? A voz da condessa ainda conservava a suavidade. Nicki.Falo de seres diferente. . para os amorini de gesso do tecto. A resposta foi dada num tom de uma dignidade estranhamente patética. Anne. . quase acariciadora.Não é preciso zangares-te. à espera de um segundo ataque. Parou de rir e falou com voz baixa. decifrar os pensamentos que se ocultavam por trás daqueles lábios subtis e sorridentes. os olhos vivos e analisadores. a condessa mostrava-se radiante e Nicholas Black comportou-se com a deferência de um pagem ao serviço de uma senhora muito estimada. por cima da cabeça da condessa. ergueu a cabeça e fitou-a. . querido. E acho que posso ajudar-te em relação a ele. De que te precipitaste e perdeste a cabeça por Paolo Sanduzzi. Mas estou a ser sincera. de pé. mas notava-se-lhe um timbre de ironia. Aldo Meyer chegou para jantar. Mas não conto que acredites nisso. . Não tenho grandes posses. Deus é testemunha.Não há segredo nenhum. Portanto. Black. cheio de ferocidade.

embora nunca se houvesse referido verbalmente ao diagnóstico. por raramente se verem. havia uma área de desconfiança latente e uma animosidade disfarçada. dando-lhe depois um refúgio inseguro nos guetos de Trastevere. mas sugeria muito mais: uma cortesia que poderia crescer até assumir as proporções de um compromisso pesado. que tentaria encontrar alguém que mantivesse a forja a trabalhar sem cobrar em excesso.a condessa talvez . Mas. quer o desejasse ou não. o judeu liberal. Não havia amizade nas relações dele com Anne Louise de Sanctis. Vira-se obrigado a dar certezas que não sabia se poderia cumprir: que a doença não duraria demasiado tempo. devido ao juramento da sua profissão. desde que ela Lhe apresentasse um pão e Lhe oferecesse uma ilusão de segurança contra actos de Deus e dos políticos. obrigado a tratá-lo. Ao chegar a sua casa. Mas. nova acha a juntar à fogueira do descontentamento que Lhe preenchera aquele dia. que alguém . Sua Eminência pedia apenas a prestação de um serviço médico. sendo depois forçado a ouvir as lamentações da mulher. mais bem pago que aqueles que normalmente realizava. o inglês iria chegar e Meyer ver-se-ia. Aldo Meyer. habituado a séculos de feudalismo. Mas. Quando conseguiu escapulir-se. Cada um por razões opostas. nutria uma desconfiança saudável em relação aos homens absolutistas da Igreja. empenhara a sua alma e a sua reputação uma vintena de vezes e estava mais convencido do que nunca da esperança de reforma entre o povo ignorante. que ele próprio trataria de arranjar assistência por parte da comuna. Anne Louise de Sanetis estava a par das fraquezas do seu médico e aguilhoava-o com elas. Escolhera-o para seu médico à falta de outro melhor. capaz de beijar a mão do barão mais perverso.providenciaria a alimentação da família. Ambos tinham conhecido Giacomo Nerone. Ele era seu convidado por não dispor de outra companhia mais educada que a distraísse à mesa de jantar. encontrou a carta do bispo à sua espera. cujos predecessores tinham perseguido o seu povo até o expulsar de Espanha. por trás destas definições limitadas. porque ele sabia demasiado acerca das dela mesma.quando achou seguro mudar o paciente para sua própria casa. Meyer conhecia perfeitamente a natureza da doença da sua paciente. Ocasionalmente actuava como porta-voz dos aldeões nos apelos que dirigiam à sua padrona. que acabara de ter consciência das condições precárias em que a família se encontrava. estivera envolvido na sua morte. coexistiam . Esperava perversamente que não contassem com a sua amizade.

Meyer pelo bom vinho e uma refeição bem cozinhada.O que irá provocar uma descida nos democratas-cristãos? perguntou Nicholas Black. Com o apéritif falaram do tempo. fosse a que preço fosse. descontraída e cheia de gentilezas. como é evidente. Por altura da sopa estavam em Roma. Portanto. mantido por uma entrada de dinheiro americano e ajuda do Banco do Vaticano. A Igreja ameaçou todo o católico que votasse nos comunistas com a danação eterna. A condessa mostrava-se encantadora na aparência. Enquanto se barbeava e vestia à luz amarela de um candeeiro a petróleo. A presença de Nicholas Black e a vinda do emissário de Roma transmitiam um carácter novo e vagamente sinistro à ocasião. Não se vêem reformas espectaculares. O vinho soltara a língua do médico. Que irá acontecer desta vez? Os democratas aguentarão firme. as estatísticas. Mas ainda possuímos o partido comunista mais poderoso fora da Rússia. Há um equilíbrio na indústria. e Black relatou os divertidos escândalos da Via Margutta e o preço que os críticos cobravam por uma notícia favorável. mesmo entre aqueles que votaram sob o estandarte do Vaticano. . assim como uma singular falta de unidade de objectivo. conseguiram os votos entre os dois. e Washington acenou com um maço de notas de dólar para ajudar. preparou-se para uma noite desagradável. a condessa pela oportunidade de se vestir e jantar com um homem que não era nem um ignorante nem um padre. que se lançara numa dissertação animada: -.. e o Vaticano ainda era a única instituição italiana COm eStabilidade e credibilidade moral. . discutindo as perspectivas das eleições seguintes. com grande interesse. o . Quando o peixe foi servido.Primeiro. Nota-se uma subida no rendimento nacional. dos costumes locais e do declínio da escola de pintores napolitana. O sorriso do pintor apresentava-se liberto de subtilezas sardónicas e conversava animada e amigavelmente sobre qualquer assunto que se abordasse. estavam no Vaticano e vasculhavam os políticos. Os monárquicos ganharão mais alguns no Sul e os comunistas manter-se-ão onde estão: um núcleo firme de descontentamento..com delicadeza razoável e estavam gratos um ao outro de uma maneira peculiar . As pessoas queriam paz e pão. Inicialmente os seus receios pareceram infundados. Meyer encolheu expressivamente os ombros. nenhuma diminuição perceptível no índice de desemprego. da última vez os democratas-cristãos ganharam graças ao confessionário e à ajuda do dólar americano. Mas naquela noite sentia-se algo mais no vento. mas perderão votos numa viragem repentina para a esquerda.

Foi uma observação macia como manteiga. a verem o que faria para escapar.Por falar de padres . Está preparado para admitir que o Espírito Santo orienta o papa em questões de fé e moral. É o problema de ter um papa político. . É tudo. Um governo clerical é um governo fantoche.declarou Black. mas danadamente ilógico. O latino é extremamente racional. Meyer riu e abriu as mãos num gesto de desespero zombeteiro. . Não Lhes daria essa satisfação. que gostaria de discutir com a padrona. Tinham-no empurrado como a uma ovelha de um assunto para o outro . Mas isso não me impede de ser anticlerical. De momento tenho problemas próprios de sobra.e agora.Esse ponto interessa-me .Por toda a Itália se vêem mulheres que comungam diariamente e homens que usam as insígnias de meia dezena de confrarias e que ainda citam a velha frase: Tutti i pretti sono falsi.disse Anne Louise de Sanctis . teve um ataque hoje. a um preço. Ficou . Nesse caso. . Mas é quanto basta para manter os financeiros razoavelmente satisfeitos e os votos estabilizados por mais outro mandato. . franzindo o sobrolho ao ver que ele dera pelo truque. sorrindo subtilmente de troça. A segunda razão reside no facto de o próprio Vaticano ter perdido crédito através da sua identificação com um partido. que ficara encurralado. mais se notam os seus defeitos. mau para ambos os lados.Que tipo de problemas? . Quanto mais padres se tem. Chega e parte. eles que fossem para o diabo.Refere-se ao nosso inquisidor de Roma'? Não tem nada a ver comigo. Contornou a pergunta com ligeireza. .Martino. . Todos os padres são falsos. é o que de mais lógico pode haver no mundo. É divertido. Conheci alguns deveras competentes ao longo da minha vida. reportando-se à última parte do que ouvira. Na Itália pode consegui-la.que mal se reflecte no nível de vida da grande maioria da população. Ele sempre quis ter as duas coisas: o reino dos Céus e a maioria parlamentar na Terra.perguntou a condessa. observavam-no. mas ri-se diante da hipótese de também Lhe permitirem fixar as taxas cambiais.tenho curiosidade em saber como será Monsenhor Meredith. Não acredito que todos os padres sejam mentirosos. e o preço é o anticlericalismo no seio do seu próprio rebanho. o ferreiro. mas Aldo Meyer apreendeu-lhe a malícia. .Meu caro.

Agradecia que pedisse a Nina Sanduzzi para vir falar comigo amanhã.comentou Black azedamente.Porquê? . . Dissera o que tinha a dizer.e. Aqui não encontram nenhuma ocupação.Paolo Sanduzzi. por exemplo.Para camponeses de pé descalço não há dúvida que são danadamente pretensiosos! . .Somos um povo estranho . O pintor corou e enfiou o nariz no copo. . Meyer dera-lhe ouvidos . evidentemente. Aceitara um favor e devia aguentar a poção amarga que o acompanhava. Ultimamente tenho pensado muito na gente jovem. . ao mesmo tempo que Louise se permitia um pequeno sorriso discreto ao reparar na falta de à-vontade que o acometera. Para sua surpresa. . . mas fez sinal ao criado para que deitasse mais vinho e servisse o assado. Mas ela poderá não querer vir.disse Meyer cautelosamente. Trá-lo-ei para aqui e pô-lo-ei a trabalhar com os jardineiros. e criar trabalho para eles aqui. Ficaram ali sentados.paralisado e incapacitado. sem mais delongas. A família vai precisar de ajuda. Onde queria ela chegar?.Se pode utilizar os serviços dele. Achei que devíamos recomeçar a dar vida a alguns dos seus planos. Quem sabe. ele anuiu e disse com indiferença: . doutor. acabam nas ruas de Reggio ou Nápoles.Com certeza que o farei.Uma boa ideia . porque não? Mas tem de falar do assunto com a mãe. . As palavras que a condessa proferiu a seguir esclareceram-no claramente. É o mínimo que posso fazer. . E. mesmo que tentem imigrar. Agora é que ficara realmente preso na armadilha.Compreender-nos leva o seu tempo. . Em vez disso. a condessa acedeu com naturalidade. Teresina e Rosetta já têm idade suficiente para começarem a trabalhar. Limitou-se a dizer: . . desafiando-o a protestar e a fazer figura de tolo. sorrindo-Lhe por cima das bordas dos seus copos. Tenho a certeza de que o dinheiro extra fará jeito à mãe. a senhora poderia dispor de algum dinheiro e também aceitar duas das raparigas para servirem aqui.retorquiu Meyer. reflectiu.Porque ele é menor . Anne Louise nada disse.Com certeza. Nicki disse-me que o rapaz é inteligente e muito interessado. doutor. Parece-me uma pena deixá-lo andar por aí ao deus-dará.quis saber Nicholas Black.A mãe continua a ser a sua tutora legal. se Nicki desejava dar-se ao trabalho de terçar armas com .retorquiu-lhe Meyer calmamente.

entornaria o vinho e provavelmente adormeceria sobre o prato da fruta.com a padrona a fazer de dama graciosa perante um médico de província e um padre rústico que se veria aflito no manuseamento dos talheres. mas servirá. .disse a condessa. Nicholas Black engasgou-se subitamente com a galinha. . quando ele fosse recolher os dados. E. mas não se envolveria.Ele ficará aqui. . velas. Tenho criados para cuidarem dele e o doutor pode vir cá visitá-lo sempre que for necessário. Pede-me que sirva de médico assistente de Monsenhor Meredith. as Filhas de Maria e a Congregação do Santo Nome? Bandeiras.reagiu a condessa vivamente. acólitos e o padre Anselmo a trote na frente. irritada.Que espécie de boas-vindas. devíamos preparar as boas-vindas a este homem.Já estava à espera de que o dissesse .O tom de voz da condessa era áspero e peremptório. . o doutor e o padre Anselmo.Tu é que o convidaste. . Aldo Meyer manteve os olhos deliberadamente fixos no prato. Nada de complicado. . Não é muito confortável. Nicki! . Como era possível ir contra uma mulher como aquela? Um jantar simples! .Na minha casa há um quarto . em que se apoiaria senão naquela graciosa senhora . .Não percebo porque agora te queixas.Mas que aborrecimento dos diabos. .Hoje recebi uma carta do bispo. cada um contando os pontos marcados naquela batalha de interesses travada sob o véu de delicadeza da conversa. . amanhã à noite. Pouco depois a condessa pousou o garfo e disse: .Estava a pensar em ti.Um jantar tranquilo.Nada que se pareça.exclamou Nicholas Black. comeram em silêncio durante algum tempo. As palavras que Meyer proferiu a seguir levaram-na de volta ao que dissera. cara? Uma procissão com a Confraria dos Mortos. . Nicki .Tenho estado a pensar que.disse Meyer amavelmente. cara. de sobrepeliz imunda? . O assado foi servido e o vinho vertido. em voz baixa. enquanto o monsenhor de Roma observava tudo com bom humor tolerante.observou Meyer calmamente e sem ponta de ironia nos olhos.Santo Deus! . talvez fosse divertido assistir. Parece que ele está a morrer de cancro. num gesto de cortesia para com Sua Eminência. .o judeu. connosco. Um homem doente numa casa é um fardo pesado. . apenas uma ocasião simples para que ele conheça as pessoas que mais o poderão ajudar na aldeia.Não quero nem ouvir falar nisso! .

Gostaria de mudar de assunto. É inglês.O nosso monsenhor de Roma.Quem? .disse Meyer asperamente. Ajuda-os a compensar os pecadores. O pintor riu. . lúgubre e fazendo lembrar uma toupeira. Ao fitar Nicholas Black. o que deve torná-lo diferente. . Grande jeito Lhes faria disporem de bons penitentes. de modo a haver uma autogénese universal. o que o fez sentir-se subitamente desnudo diante das adagas daquele par de intrigantes estranhamente compatíveis. Quando o vi em Valenta.Isso tende a estragar a pele de um homem.Como será ele? . que acha? Ele ergueu os olhos. .Certamente.Está a morrer . . "Há sempre uma maneira de voltar para Deus!" Uns grandes oportunistas. . doutor? . . como água estagnada. Mas tenho o filho dele ao meu serviço.Mas não o seu temperamento. mas ainda menos pela blasfémia. confessores e rapazes imberbes acabados de sair do noviciado.declarou Meyer em tom friamente definitivo.Então.que tão cortesmente Lhe providenciava albergue? Um jantar simples . Claro que também isso poderá ter a sua utilidade. Alguns dos membros do clero de Roma são bastante liberais. . Sabe como é. . Aldo Meyer viu-a relaxar. doutor. pareceu-me atormentado. Outros gostariam de ver a Criação reformulada. o seu convidado. com uma expressão severa e séria no rosto. .inquiriu a condessa.É o seu hóspede. Provavelmente seco.que simplicidade tão grande! . captando-lhe o ar de triunfo furtivo no olhar. evidentemente.Mas virá? . esses padres. Detesto gente maldisposta à mesa.Que sabe acerca do assunto? O sorriso do pintor era um insulto disfarçado.. como Agostinho ou Margarida de Cortona. sem dirigir a pergunta a ninguém em particular. espero..Não tenho grande gosto pelo catolicismo. . Se calhar. Não concorda. Estou ansioso por ver que conclusões é que este tira do caso amoroso de Giacomo Nerone. . reparou que também este sorria. até é antiquado.Talvez não tanto quanto o senhor. Aldo Meyer virou abruptamente o rosto para o pintor.disse Black. brilhante e insalubre na conversa. e o senhor a amante a fazer-lhe a limpeza da casa. .Sou judeu . As listas recentes estão repletas de virgens.

com um sorriso. diga-me.Ainda vai ficar mais sórdida. empurrou a caixa para o outro lado da mesa. sempre que tentou fazê-lo. os músculos flácidos. Anne. Depois inclinou-se para a frente e soprou-lhe uma baforada de fumo em cheio no rosto. sério: . Deixe de se enfrascar com barbitúricos. e arranje um apartamento em Roma. Depois case-se com um homem que a satisfaça na cama e a mantenha feliz depois disso. Depois respondeulhe com frieza profissional. a pele fatigada debaixo da maquilhagem cuidada. e Anne Louise de Sanctis ficou a sós com o seu médico assistente. os pés de galinha em redor dos olhos.disse-lhe ela.Estás a beber demasiado.Primeiro dou-lhe a receita.Ponha-me à prova. Venda esta casa. defraudou-se a si própria e ao homem. A condessa não experimentou os prazeres do matrimónio. ou ponha alguém a tomar conta dela. deixe-se de fitas e diga-me o que tem a dizer.O doutor tem uma mente sórdida .Não me agradeceria. e. até junto de Meyer. Vá.A condessa acrescentou uma advertência sua. Nicki! O pintor corou de fúria.a bela ossatura. . porque.Você é um tipo obstinado. Aldo anio. e diga-me com jeitinho: qual é o meu mal e que receita é que me dá? Meyer deixou-se ficar sentado em silêncio durante um momento.E agora. . Meyer abanou a cabeça. desde que encare de frente o que deseja e o que Lhe faz falta para se preparar . Nunca mais o gozou desde então. Pare de coleccionar criaturas bizarras como Black. abruptamente dita: . porque era demasiado jovem e o seu marido demasiado descuidado para se preocupar com tal. também me torna obstinada. . . . Aldo Meyer prosseguiu. Pegou num cigarro. dottore mio. empurrou a cadeira para trás e saiu da sala. E não acreditaria em mim. Riu suavemente e estendeu-lhe a mão sobre a mesa. de olhos fitos no rosto outrora belo . É perfeitamente vulgar e perfeitamente ultrapassável. e aguardou que este acendesse os de ambos. as rugas cavadas de descontentamento. A um sinal da condessa. os criados também saíram. quando me olha de cima desse seu maldito nariz de judeu. Esta noite estou receptiva. . que Lhe enchem a cabeça de histórias sujas e no fim acabam por não Lhe proporcionar qualquer prazer.

disse Meyer calmamente.E como é que arranjo marido para mim. Depois pousou a cabeça nos braços e começou a chorar convulsivamente. . levantou-se da mesa e tocou a chamar um criado para o acompanhar até à saída. Anne? . Mas poderá dar em alcoviteira. . Mas nunca o fez. Giacomo Nerone repudiou-me e gerou um filho numa camponesa miserável. É perigoso. É por isso que gosta de tiranizar o seu pintor. minha querida.. Meu marido não pôde dar-me nenhum. Se o doutor não se interpuser entre mim e a mãe dele.. acabará por se destruir a si mesma. A condessa fez de conta que não ouviu a última tirada e perguntou ao médico. salvá-lo da mesma pobreza que espera os outros moços da aldeia. doutor. . Não é a primeira mulher a destruir um homem por ele a ter rejeitado. Retirou-se para a intimidade do seu pequeno mundo e encheu-o com uma espécie de pornografia mental que a deixa louca de desejo e insatisfeita. dar-lhe um bom começo de vida.disse Aldo Meyer gravemente. . Mas.Que faria com ele. senti a falta de um filho mais do que possa imaginar.Entregava-o ao pintor? A condessa. Mas esse ódio já morreu.Dados os factos. uma sobredose de suporíferos.Tire Giacomo Nerone da cabeça. sorrindo: .perguntou Meyer friamente. no final de tudo.Sempre quis um filho. provavelmente sair-se-á melhor com uma combinação honesta do que com um amor desonesto. Meyer fitou-a com interesse e argúcia. por sua vez. . Acaba com gigolos e indivíduos como Nicholas Black e.Só mais uma . Ao chegar a casa ficou surpreendido por encontrar o candeeiro aceso e Nina Sanduzzi sentada à mesa com .Mais alguma coisa. debaixo da tirania de um corpo insatisfeito.para o obter. se não for capaz de encarar a situação. Não tem a idade indicada para o fazer. como está a proceder em relação a Paolo Sanduzzi. doutor? Compro um? . .O quê? . Ainda está a tempo de ser uma amante. Aldo Meyer limpou o vinho do rosto magro. Odiei-o por isso. . poderei fazer algo pelo rapaz.Poderia fazer pior . pegou no copo semicheio de vinho e atirou o seu conteúdo para o rosto do médico. doutor? . porque se encontra. Deixe de tentar atingi-lo através de Nina e do rapaz.Esqueceu o mais importante. sem proferir palavra.

falando-lhe desabridamente. Depois de Lhe deitar a família e ajeitar Martino. No mesmo instante ela estava a seus pés. quem sabe. não ficarão mal de todo. enquanto Nina ia até ao outro lado da divisão acender a pequena lamparina. A explicação que recebeu foi deveras simples. por favor. mas depois lembrou-se de que ela não tinha capacidade para entender a ironia e ficaria perturbada.Passei a noite com a mulher de Martino. Também me parece que deseja que o rapaz lá esteja quando chegar o padre que vem de Valenta para . . Também aquele gesto era novo. .Que espécie de motivos? . . Disse em tom indiferente: . fitando-o do outro lado da divisão. a observá-la pensativamente. Mais tarde. Com os salários das duas e o pouco que venha da assistência social.perguntou Nina.É um começo. pode haver outros motivos! Ela virou-se lentamente para ele. De modo que Lhe respondeu simplesmente: .Que bom! . Ela é tola mas boa pessoa. ainda inclinada sobre a lamparina. que remendava.uma pilha de roupa na frente.O pintor inglês gosta muito dele. mergulhada na sombra. ficando. Quer um pouco de café? . . Aldo Meyer sentiu-se tentado a desabafar.A condessa também gostaria de falar contigo amanhã. Meyer nada disse.Sim. A condessa deseja servir-se dele para algo que ainda não está muito claro. Quanto a Paolo.No que te diz respeito. e já começou a dar conta do sarilho em que está metida.Para que quererá ela falar comigo? . sobre a qual estava a cafeteira do café. .Ela concedeu-lhe um dos seus sorrisos raros e tranquilos. Por um momento.Quer oferecer a Paolo um emprego de ajudante dos jardineiros. achei que podia esperar aqui para saber as notícias que o doutor traria da condessa. poderemos melhorar a situação.É o único motivo? . sim. A condessa fará uma doação em dinheiro e também tomará Teresina e Rosetta a seu serviço. A presença da mulher àquela hora era suficientemente desusada para o levar a interrogá-la.São boas novas para Martino. nunca antes assumira as funções de criada. no entanto. Meyer deixou-se cair pesadamente numa cadeira e começou a desapertar os sapatos. Perguntou: . a ajudá-lo. .

Ele transmitiu-lha suave e hesitantemente. Naquela casa reina uma certa loucura. Paolo disse-me que andou a passear pela Torrente del Fauno com a jovem Rosetta. Não sei quais são os sentimentos dele para com o inglês. . A cafeteira do café começou a ferver e Nina apressou-se a ir buscá-la. mas não sabia que palavras utilizar.Agitou os braços num gesto de fúria. mas. .disse Nina Sanduzzi brandamente. Fiquei contente. . Compreendes? .E essa é mais uma das razões que me fez vir aqui esta noite. Sei que tinha vontade de falar. falando ao mesmo tempo.Prometi unicamente que te daria o recado. Ele nunca acreditaria que a sua mãe pudesse também saber as palavras. e eles querem servir-se dele mesmo assim. Penso que Paolo também estava satisfeito. Eu poderia cometer erros e prejudicá-lo. .Não põem amor em nada do que fazem. . Mas. um rapaz que está agora à beira de se tornar um homem.. Nina. sinalizações.investigar acerca de Giacomo. O pai era alguém a quem chamavam de . São ambos jovens e é uma boa altura para o amor começar. penso que estás a ser sensata..Parecem cães a esgravatar num monte de esterco .lembrou-lhe o médico discretamente. Desconheço o que poderá ter acontecido entre eles. o doutor compreende como é com um rapaz. Nina começou a encher as chávenas de café que colocara na mesa. . . Queria ajudar. Meyer acenou a cabeça em sinal de concordância. Mas também compreendo a necessidade dele. Até a língua é diferente. Quanto ao resto.Um rapaz. seja o que for.Eu sei.O meu filho é uma criança. . dando assim tempo a Meyer para reflectir na resposta.. quando desperta para a vida. de o doutor poder dar uma pequena ajuda.Eu avisei-te . de modo que me lembrei da possibilidade de.Eles praticam em nós como se fôssemos animais. será sempre uma vergonha para o rapaz. O rapaz também não. É o que o torna furtivo como uma raposa.Claro que compreendo. da mesma maneira que o seu primeiro desejo por uma rapariga o envergonha. . desde que comece da maneira certa. Eu não irei. as coisas complicam-se. . é como um país desconhecido. Para ele trata-se de um mundo desconhecido.. tímido como uma ave. Quando não há um homem na casa. Não há mapas.

Os olhos humedeceram-se-lhe e sentiu um nó no estômago e um pequeno nervo começar a repuxar-lhe o canto da boca.Ele poderia ter sido seu filho. amores idos. pegou no embrulho sujo e segurou-o entre as mãos. alguém a quem chamam de prostituta. ou ao pai. massa e alguns vegetais. senti-me satisfeito. . como uma vez segurara na cabeça pendente e sem vida de Giacomo Nerone. Houve uma altura em que odiei Giacomo e. Agora lamento o facto.. depois foi até um canto da cozinha buscar as suas socas de madeira e o cesto maltratado onde guardara as compras do dia: um saco de carvão. . vívidas e opressivas . A mãe. E na altura aquele foi o seu único agradecimento. mas só durante algum tempo. Mas como poderei explicar-lhe o que de maravilhoso sucedeu entre nós? E como também devia ser maravilhoso para ele? . . odeia-me? .Meyer sorriu amargamente .Sempre soube que o doutor era um homem bom. pequenos triunfos e falhanços monstruosos.quando eu próprio não o entendo? A pergunta que Nina Lhe dirigiu a seguir chocou-o profundamente. Manda-o ter comigo que eu tentarei falar com ele.E a mim.Os papéis de Giacomo. não! Porque perguntas semelhante coisa? . .perguntou o médico perscrutando-lhe o rosto calmo. com medo. . .E a ti também. Mas nunca odiei a criança. Foi ao fogão.. O rosto de Meyer ensombrou-se com recordações antigas. . se estiver nas minhas mãos. . Talvez o ajudem a compreendê-lo a ele e a mim. De novo sentiu as recordações invadirem-no.É verdade. Talvez o ajudem a auxiliar o rapaz.Odeia o rapaz? .santo. antes da chegada de Giacomo. perante ele.Como poderei eu explicá-lo. Engoliu o conteúdo da sua chávena de uma golada só. Depois voltou para junto da mesa e entregou-lhe um masso espesso de papéis envolvidos num pedaço de pano e atados com uma fita descolorida. Não me justificarei.Deus Santíssimo.De que se trata? .Tome . ódios velhos.medos antigos.O suficiente para ajudar o filho dele? . Serviu uma chávena ao médico e outra a si própria.Não. . pegou na cafeteira do café e trouxe-o para a mesa. quando ele morreu. . Aí no meio tem uma carta para si.Já não os quero. ficando a observá-lo a beberricar o líquido escaldante e amargo. . Admirado.disse-lhe com firmeza.

olhos. Mas Nina Sanduzzi ia cega à beleza e surda à música da noite. a torrente corria. e. persistente. a partir das dissonâncias da vida em seu redor. Naquela noite sentia-se em paz. Era uma camponesa. quando muito. mas a pobreza era o seu estado natural. ao fundo do vale. transformara-se numa beleza antiga. com a alma de um homem morto segura entre os dedos trémulos. pronto a pagar. Não sabia ler nem escrever. a aldeia em ruínas já não era um monte de escombros. lágrimas e risos das crianças e nas recordações ciosamente guardadas como água numa cisterna.Quando. pela ajuda que ela prestava em tempos de aflição. Sob as estrelas os contornos agrestes das colinas tinham-se suavizado. Estavam gratos. dura. pelas sombras. banhada de prata. O panorama nada mais era do que o lugar onde ela vivia. fita de luz cinzenta. A Primavera era uma sensação no seu próprio corpo vigoroso. tirando da sua própria necessidade. mas. constituem uma diversão sentimental para os literatos. enraizada na terra como uma árvore. que. e era receptiva à harmonia. mas compreendia o que era a paz.uma concordância lentamente alicerçada entre ela e os aldeões. porque ela se acumulava lenta mas perceptivelmente. e. que viviam a sua necessidade maior. uma dívida para com um homem morto. O ar estava revigorante e límpido e as socas de madeira estalavam agudas nas pedras. e Giacomo nunca os deixara desejar demasiado ou durante demasiado tempo. O Verão era o calor que sentia na pele e a poeira na sola dos pés descalços e o Inverno uma hibernação fria e um poupar cauteloso de ramos secos e carvão. ergueu os olhos. tal como a mulher de Martino. cuidariam dela própria e do rapaz. mesmo depois da sua morte. sobre o canto intermitente dos grilos e o longínquo som abafado da água. A beleza que via . viu que Nina Sanduzzi partira e que ele ficara à luz do candeeiro. mãos.e via-a em grande quantidade . Também havia harmonia na sua vida . Agora. Precisavam dela. finalmente. quando Lhe chamavam .estava nos rostos. Só as figuras neles existentes é que importavam. Eram pobres. porque conhecera o conflito. Podia ver o início do cumprimento da promessa de Giacomo Nerone de que. ali estava Aldo Meyer. Nina Sanduzzi caminhava de regresso a casa na tranquilidade do luar primaveril. alheia às ilusões.

deixando-lhe a cabana.. subitamente tomada de terror. porque poucas outras conhecia. As batidas voltaram a soar e ela perguntou com voz forte: ."a prostituta". enfiou o vestido e foi à porta. "a mulher que dormiu com um santo" . sentindo-se grata. arranjando ocasionalmente trabalho no campo ou a dias. Por amor de Deus. à pequena cabana que se erguia no meio dos azevinhos. Estou doente. nua. o marido. trancada por uma barra. naquela noite ela voltava a casa. que tinham morrido de malária. Tudo o mais que constituíra a sua vida ficara bloqueado pela recordação daquele homem: seus pais.um homem corpulento.Quem é? Uma voz masculina respondeu-lhe em italiano. quente e sufocante. onde o povo entrava para rezar e saía curado das suas enfermidades de corpo e espírito. e toda a sua gratidão se centrava em Giacomo Nerone..Um amigo. anunciando trovoada.e a fome do ventre não pode ser apaziguada com sonhos Assim.estes já não soavam cheios de malícia. fraca e furtivamente. dormira com ela um mês para depois ser levado pelo Exército e morrer na primeira campanha na Líbia. Levantou-se da cama. deixe-me entrar! A aflição e debilidade da voz tocaram-na. . Depois da sua morte. Ela estava deitada. e nem mesmo o dia desgastante passado nas vinhas ajudava o sono a chegar. agitando-se sem cessar com o calor e os mosquitos e a urgência que frequentemente Lhe despertava no corpo forte dos braços de um homem e de senti-lo a seu lado na cama. Passara há muito da meia-noite. sozinha na sua cabana. moreno. porque a sua vida era embrutecida . Era um povo rude que usava palavras rudes. quando alguma das criadas da condessa adoecia. Trazia as mãos arranhadas pelos arbustos e as botas rotas e . Ouviu então bater à porta. tinha ela dezasseis anos.nomes grosseiros . morto há muito tempo e enterrado na Gruta do Fauno. como tantas outras mulheres. Sentou-se. Era uma noite de Verão. Nina ficara a viver. com sangue no rosto e uma mancha peganhenta a ensopar-lhe um dos ombros da camisa rasgada. na enorme cama de ferro. cobrindo os seios com a roupa da cama. alguns paus a fazerem de mobília e uma pequena arca de dote. eram apenas uma memória vaga de invejas antigas. Os seus símbolos eram vulgares. Fora então que Giacomo Nerone aparecera. um rapaz moreno e turbulento que casara com ela pela igreja. Correu a barra e abriu-a cautelosamente e nessa altura ele cambaleou para a frente .

Se fosse apanhado pelos ingleses. Se se juntasse ao seu próprio exército. Nina trouxe-lhe vinho e pão escuro com queijo e maravilhou-se com a sofreguidão com que o viu engolir tudo. como uma centena de outras histórias de viúvas solitárias e soldados em fuga em tempo de guerra. disse. faziam dele prisioneiro de guerra. ela lavou-lhe os cortes do rosto. Escondera-se durante o dia e viajara de noite.com boqueiras e. tratavam-lhe do ferimento e recambiavam-no de novo para a linha da frente. Teria de ser extraída. Ainda tinha a bala alojada no ombro. sorriu e voltou a descontrair-se. o que o trouxera a Gemello Minore e como é que arranjara aquela ferida no ombro. mas não aceitou mais comida. sobre o rosto. contou. cortou-lhe a camisa no sítio do ferimento e também o lavou. vivendo daquilo a que conseguia deitar a mão. tapou-o com os lençóis e deixou-o dormir até os primeiros alvores da manhã iluminarem o céu a oriente. ao tentar levantar-se. um sorriso rasgado e juvenil que afastou os últimos receios de Nina e a levou a sentar-se na beira da cama. caso contrário morreria. O homem despertou com o pânico súbito dos perseguidos. Embora ainda estivesse inconsciente. Na última noite fora detectado por uma patrulha inglesa que disparara sobre ele. o povo passava fome e ele só tinha direito a uma parte de viajante. Os Aliados tinham tomado a Sicília e o Exército inglês atravessara o estreito de Messina e ia abrindo caminho península acima. e ele tinha dificuldade em perceber-lhe o denso dialecto calabrês. mas as linhas da história que contou eram suficientemente claras. Nina precisou de recorrer a toda a sua força de camponesa para o arrastar e puxar para cima da cama. Por ser uma camponesa simples. olhando à sua volta. aceitou a história tal qomo Lhe foi relatada. Reggio caíra. de uma guarnição de artilharia estacionada em Reggio. A cabana ficava afastada da aldeia e nunca ninguém ali ia. fazendo uma careta de dor por causa do ombro ferido. deu dois passos vacilantes e caiu ao comprido. os olhos esbugalhados de medo. A sua unidade fora desmantelada e ele pusera-se em fuga. mostrou-se disposta a escondê-lo e a cuidar dele até a ferida sarar. Por gostar dele e por se sentir solitária e sem homem. porque. ao vê-la. Bebeu três taças de vinho. Sorriu novamente ao falar. na ponta da bota da Itália. perguntando-lhe quem ele era. Foi o começo: simples e sem importância. mas. Era soldado. Mas a riqueza que dali se ia expandir e a . De modo que estava a tentar regressar para junto da família que tinha em Roma. O sotaque do homem era estranho. A seguir descalçou-lhe as botas.

depois de a desdobrar. o que. Abriu-o cuidadosamente e tirou uma camisa de homem. o rapaz nunca fora capaz de perceber as palavras. fingindo que dormia.. Depois acercou-se da cama do . velha. Na cama. aparentemente adormecido. de maneira estranha. Depois retirou do interior desta um embrulho volumoso envolvido em papel branco. frente ao enorme letto matrimonio de ferro onde fora concebido e nascera. Terminadas as orações. Mas não ficava bem quando se tratava de uma mulher sozinha com o filho. Mas ela nunca o admitira na intimidade da sua comunhão com o pai. rapazes e raparigas na adolescência. o rapaz observava tudo por entre as pálpebras semicerradas. Depois ajoelhou-se desajeitadamente. bebés.tal como S.. assim como a paz que se lhe seguiu. no lado oposto do quarto. onde famílias inteiras dormiam numa única cama de grandes dimensões: marido. José. rasgada e manchada em vários sítios como de ferrugem. estendeu-a nas costas de uma cadeira de maneira que se notasse que os rasgões eram de buracos feitos por balas e que as manchas eram de sangue. o padrasto do Bambino. Apertou-a contra os lábios durante um momento e. e abriu a arca. Por muito que se tivesse esforçado. no tosco leito. apesar de. esta dizia-lhe simplesmente para rezar padre-nossos e ave-marias. Nina Sanduzzi atravessou o quarto. tal como ele fazia na igreja.tragédia que Lhe poria fim. e começou a rezar em murmúrios baixos. depois pousou o cesto e atirou as socas para o lado. como era costume no Sul. ele se recusar a participar nele. aproximando-se da arca grosseira que tinha à cabeça da cama. Nina Sanduzzi voltou a fazer o embrulho e fechou-o à chave na arca. porque seu pai era um santo com grandes poderes junto de Deus . Lhe provocara ciúmes. já fazia muito tempo. colocou-lhe a barra que a trancava. Agora encarava tudo aquilo como uma tolice feminina. apoiadas ao assento da cadeira. esposa. enterrou o rosto nas mãos. que usava presa com um alfinete fechado. Nina fechou a porta. Não havia pormenor do ritual que se seguia que não Lhe fosse familiar. ela comprou outra cama e cada um dormia na sua. Ao chegar a casa encontrou o candeeiro a brilhar frouxamente e Paolo enrolado. eram o espanto que a acompanhava todos os dias e as lembranças que não a largavam todas as noites. De dentro do vestido desprendeu uma pequena chave. Nos tempos em que ele se ajoelhava ao lado da mãe. portanto. Paolo dormira com a mãe até ao despontar da puberdade.

Mas antes de os braços dela se fecharem em torno dele. Paolo Sanduzzi manteve os olhos cerrados e a respiração lenta. abrindo os olhos no momento meio doce e meio vergonhoso em que a seiva da juventude é vertida e em que um rapaz não tem bem a certeza se está a dormir ou acordado. sonhou com Rosetta. também ele se ajeitou e resvalou lentamente no sono. vendo-lhe os lábios abertos. . e. a chamar por ele. inclinou-se para Lhe depositar um beijo na testa e afastou-se. pois. Paolo Sanduzzi agitou-se e gemeu. Correu para ela rápido. Quando dormia.filho. Deixou-se. Era o mesmo sentimento que o fazia fechar os olhos e virar o rosto quando ela despia o corpo. apesar de muitas vezes ter vontade de retribuir o beijo e de que a mãe o abraçasse como quando era menino. Depois. deparava antes com a face pálida e afilada do pintor. porque. havia agora uma repulsa nele que não conseguia explicar. aos baldões. sobre a rocha à beira da torrente. Sentia vergonha dela e de si próprio. em vez do rosto da rapariga. de pé. ficar imóvel até a mãe apagar a lamparina e subir para a cama de ferro rangente. mudavam para os de Nicholas Black. que os anos vinham engrossando. os olhos que riam e os braços que se abriam para o receber. ou se levantava para se aliviar durante a noite.

Vá. . Beberam como todo o homem conhecedor deve fazer quando se trata de um licor antigo e precioso: lentamente e saboreando.Lamento tê-la conhecido tão tarde. Sua Reverendíssima sugeriu que passassem ao seu gabinete de trabalho para tomarem o café. . mais ou menos do tamanho do seu polegar. um genuflexório. Sua Reverendíssima fez questão em ser ele mesmo a abri-la e servi-la. quando a refeição chegou ao fim.Um brinde . uma pequena bulla. No entanto. Se se sentir pior. O café foi servido e com ele uma garrafa de aguardente velha.A derradeira taça de agape.pediu Sua Eminência. com os lacres ainda intactos.Abra a bulla . como era costume.secundou Blaise Meredith. .Tenho um pequeno presente para Lhe dar.Ergueu o copo. monsenhor . meu amigo! . .Sentirei a sua falta.CAPÍTULO VIII Era a última noite de Blaise Meredith em Valenta: a sua última noite na companhia do bispo Aurelio. mande-me imediatamente avisar. . . confortavelmente e bem. . enfiando a mão no bolso do peito e retirando de dentro uma pequena caixa de couro florentino trabalhado. pois tratarei de o trazer de novo para cá.disse o bispo brandamente. Jantaram. mas escassamente mobilada com uma secretária. Meredith tirou o objecto do estojo e colocou-o na palma da mão. . sorrindo. . uma bola de ouro antigo.Espero servir bem Vossa Reverendíssima. Era uma sala grande e arejada.Os olhos de Meredith mantinham-se obstinadamente fixos no seu copo para disfarçar a dor que neles se lia. . ascético.Assim o farei. presa a uma linda corrente de ouro.disse o bispo. . . . pelo que o bispo Lhe tirou o . o gabinete reflectia com precisão a personalidade do homem que trabalhava dentro dele: culto. um conjunto de armários de aço e um conjunto de sofás de couro frente a um fogão de majólica. abra-a! Meredith premiu a mola e a tampa abriu-se imediatamente.à amizade .à amizade! E a si. com estantes cheias de livros que iam do chão ao tecto. meu amigo . prático.disse a Meredith. revelando.Mas o senhor regressará. poeirenta da adega. Mas os dedos de Meredith tremiam. Falaram nostalgicamente de uma variedade de assuntos e. numa base de cetim. que entregou a Meredith. com um gosto pelo conforto modesto.

Provavelmente dos princípios da segunda metade do século II.Não sei.Porquê? Meredith encolheu os ombros.Tenho andado a pensar. Destruí-lo. possivelmente um mártir. de surpresa e prazer. Vivem numa relação tão estreita com as funções naturais mais grosseiras que o seu humor se torna de facto muito terra-a-terra. representa um elo com o paganismo.Dificilmente Lhe teria chamado reconfortante observou Meredith.. Meredith. Encastoada na curva do ouro estava uma ametista enorme. .. e esta deve ter pertencido a um dos primeiros cristãos. A bulla era um enfeite muito vulgar em Roma. . .disse Sua Reverendíssima. ao falar. Não há dúvida de que há quem Lhe preste alguma espécie de homenagem. . sentiu-se comovido como já não Lhe acontecia há vinte anos.observou Sua Eminência pensativamente. . o peixe e os pães no dorso.Será o meu exorcismo contra o tédio .Ou se não se tratará de algo muito mais simples. meu caro Meredith.Todos os povos primitivos são obscenos. a voz saiu-lhe trémula.. O seu gambito de abertura parecia curiosamente irrelevante. cujo nome era o anagrama de Cristo. É escutar a tagarelice e as cantorias . como sabe. Terá de escutar um sermão final. Meredith soltou uma pequena exclamação..De um bom exemplo de vulgaridade bem-humorada. por exemplo? . não sei.Do quê. Mesmo sinistra.retorquiu-lhe Meredith.Obscena talvez. . Que acha que se deva fazer em relação a ele? . em nome da amizade. esculpida com o símbolo mais antigo da Igreja Cristã.Que outra coisa posso dizer senão "Obrigado". Guardá-la-ei até morrer. Blaise Meredith.Bem. e bem obsceno por acaso. um símbolo de idolatria. Foi encontrada durante as escavações nas catacumbas de São Calisto e foi-me oferecida por ocasião da minha consagração. . .Receio que haja um preço a pagar por ela. Os olhos inundaram-se-lhe de lágrimas e. abriu-o e mostrou-Lho. . o indivíduo frio. com singular bom humor. Gostaria que ficasse com ela. acerca do pequeno santuário fálico.É muito antiga . .objecto de adorno. suponho. . O bispo reclinou-se na sua cadeira e bebeu novo gole de brande. . .Não sei se será bem assim . uma superstição reconfortante como a de atirar moedas para a fonte de Trevi.

da mesma maneira que esta gente é simples. desde Agostinho a Aquino. E também já sabe o que ele lhe aconselha: Piano. Tinha a mesma fé. O homem que usou essa bulla nunca ouvira falar de um deles. se for capaz de traduzir o dialecto e as alusões.. como acontece agora.. .. quando for ter com eles. Quem é que no seio do meu rebanho tem capacidade para assimilar tudo isto? Pode o senhor ou eu? Assim é a mente da Igreja. que ensinavam o que tinham aprendido dos lábios de Cristo e o que tinham recebido da infusão do Espírito Santo no Pentecostes. e provavelmente punham-lhe a minha cara. Aqui existem realmente vestígios de paganismo. muitas vezes são bem mais sinceras do que as falsas modéstias de comunidades evoluídas. mesmo que pareçam menos lógicas. as quais. o que representa uma desvantagem. E também uma selecção dos textos místicos mais importantes.Apontou expressivamente com a mão para as paredes cobertas de prateleiras com livros. Em Gemello Minore encontrará uma mulher que vende amuletos e filtros de amor. sobretudo pertencentes à Igreja. A mente da Igreja dentro destas quatro paredes. Também está a par do ponto de vista oficial. A mente da Igreja assemelha-se à mente de um homem. expandindo-se para novas consequências a partir de crenças antigas.O meu sermão está a resultar... todos os grandes comentadores. Todas as encíclicas dos cinco últimos pontífices. Meredith. deve trabalhar com o . Todos os grandes historiadores.Todos os padres. Mas esta gente também tem as suas modéstias próprias. no entanto era tão católico como o senhor ou eu. Compreende? Meredith riu gostosamente. se o desejarem. poderia designar-se de sinistro. caminhe com calma e fale com calma. . sim. Mas o seu coração é simples. corará até às suas reverendas orelhas. embora grande parte dela fosse implícita e não explícita. Portanto. e o bispo sorriu aprovadoramente. Não se esqueça de que é uma entidade oficial e de que eles não confiam em semelhantes personagens. complexa e subtil.numa festa de casamento de aldeia que. Esteve próximo dos apóstolos. Olhe! . Quanto a "sinistro".. Piano!. Mas que posso eu fazer neste caso? Armar uma grande confusão? Exorcizar o símbolo e espatifar o mármore? Eles podem fazer um desenho obsceno em qualquer parede da cidade. contra vontade. para novos conhecimentos que florescem a partir de outros antigos como folhas a despontar numa árvore.

Experimente encher os bolsos das crianças de rebuçados e passear pela rua. Lamento.. Faltam-me as palavras..disse Blaise Meredith... Falta-me simpatia.É uma questão de atitude. Piano. Sua Eminência esboçou um gesto de indiferença. Descubra onde estão os doentes e visite-os com uma garrafa de grappa no bolso. Levantou-se e Blaise Meredith.Eu sei .disse Blaise Meredith. e não com a cabeça. mas não sou capaz.. Aurelio.ámen . . Se sente piedade e compaixão. É um facto que lamento. Que Deus o abençoe.! Agora parece-me que deveria ir para a cama. O dia de amanhã será longo e possivelmente complicado para si.coração. Os gestos são desajeitados e teatrais. e o guarde do demónio do meio-dia e do terror da noite longa. Estes sentimentos comunicam-se a si próprios até mesmo através das palavras mais atrapalhadas. . imagino. O bispo Aurelio era um bom pastor. só junto de Vossa Reverendíssima é que consegui sentir algum calor.O problema é que não sei como trabalhar com esse método. mas que não sei como emendar. . Praticava tudo o que pregava. O melhor processo de chegar a esta gente é através das suas necessidades e dos seus filhos. .. Piano. Mas a bênção nada pôde contra a dor que o assolou . obedecendo a um impulso estranho. Meredith beberricou o licor macio e perfumado. Confesso-o francamente... de olhos fitos na pequena bulla de ouro sobre a sua base de cetim. E o meu sermão chegou ao fim. Confessou o facto com gravidade: . meu filho. . E Blaise Meredith ainda não acedera ao único pedido que Lhe fora feito em nome da amizade. Experimente levar um quilo de massa ou uma porção de azeite de presente quando for a casa de algum pobre. . com palavras que mais pareciam um suspiro.Acabará por lá chegar. não anda longe do amor.. como se o atraso não tivesse importância. ajoelhou-se para beijar o anel episcopal que o bispo tinha no dedo. bispo de Valenta. do Filho e do Espírito Santo. ergueu a mão esguia no gesto ritual.. meu amigo! Inclinou-se para a frente e serviu nova porção de brande nos copos.Benedicat te Omnipotens Deus. meu amigo. em nome do Pai.Tenho tentado várias vezes rezar por esse milagre.

Tudo quanto agora restava era uma plantação. depois de uma curva fechada. aglomerados de casinhotas agrupados em volta de uma igreja a cair. no entanto mostravam-se íngremes e escarpadas e tão em cima umas das outras que a estrada parecia inclinar-se perigosamente para as orlas. quem sabe se erguida por algum velho mercenário angevino que tivesse arrastado a sua lança e o seu título insignificante por aquele reino turbulento do Sul. a ponto de quando a manhã chegou. Os seus habitantes tinham a aparência gasta e esgotada das próprias montanhas. de aspecto degradado. uma agonia avassaladora que o esvaiu de todas as suas forças. as galinhas e as vacas de costelas salientes. Meredith caiu numa modorra irregular. onde a água ficava mais perto e o sol era menos esparso. Outras não passavam simplesmente de uma fileira de cabanas de camponeses ao fundo dos vales. mas as colinas só nalguns pontos mostravam vegetação. ele parecer um homem que ia para o seu próprio funeral. Mas todas elas eram pobres. Assim que deixaram a vila. ora precipitando-se para cima.naquela noite: a pior que já experimentara no decorrer da sua enfermidade. nem mesmo nos becos mais sórdidos de Roma. os Romanos tinham cortado ali pinheiros para construir as suas galeras e arranjar carvão para as forjas dos ferreiros que Lhes faziam as armas. Era àquilo que o bispo Aurelio se referira quando chamara a atenção para a atitude insana que seria ir até ali com um livro . As colinas não eram tão altas como as alpinas. De Valenta a Gemello Minore a distância aproximada é de sessenta quilómetros. em tempos idos. mal dando para pastagem de gado ovino. Algumas das aldeias eram construídas nas depressões escavadas entre as colinas. que era esparsa. ora mergulhando no fundo. Os vales eram verdejantes nas zonas onde os camponeses trabalhavam a terra coberta de sedimentos arrastados pelas chuvas. mas depressa os saltos e os arranques o despertaram. Daquela pobreza nunca Meredith vira. a sua superfície tão irregular e cheia de buracos e a subida tão íngreme que são precisas duas boas horas de automóvel. levando-o a prestar uma atenção forçada à paisagem. a rodear alguma villa cujo proprietário ou caseiro fosse melhor lavrador que os seus concidadãos. Os filhos andavam imundos e magros como as cabras. desembocando. Custava a crer que. numa ponte periclitante que dava a impressão de mal suportar o peso de uma carroça de burro. mas a estrada é de tal maneira tortuosa. aqui e ali.

pelo que se esforçou por afastá-lo.. depois dividia-se em dois picos gémeos. Já que tinha de morrer antes da altura devida.numa mão e a cruz dos missionários na outra. Ficara profundamente deprimido depois da provação daquela noite e anteviase a si próprio cada vez mais debilitado no meio daquela gente. e o Cristo da Calábria teria de se fazer anunciar com um novo milagre da multiplicação dos pães e dos peixes.. assim como a velha compaixão pelos aleijados e pelos impuros.de se apegarem a tal com uma lógica feroz porque era nessa crença que estavam as raízes da dignidade humana. Aquela gente sabia o que era a Cruz. separados por uma fenda vasta. Os filhos morriam de malária. Mais abaixo. à medida que se iam embrenhando nos recessos montanhosos. ao menos que o deixassem fazê-lo com dignidade.Ecco. Era um pensamento infantil. conseguiam arranjar maneira de sobreviver. o coração de Blaise Meredith encolhia-se. até que. Não dispunham de gás. infecções pulmonares e pneumonia. Meredith apeou-se do automóvel e caminhou até à beira da estrada para obter uma vista melhor. no cimo de uma subida acentuada. mas a depressão ficou com ele. de repente. à oração e aos serviços da Igreja . Alguns ainda eram trogloditas. muito inclinada. implorando que a morte o libertasse da sua companhia. de cada lado. mas não podiam alimentar-se de ideias. com cerca de três quilómetros de largura. Monsignore! Olhe! Ali tem. o motorista deteve o carro e apontou para o vale que se estendia em frente. electricidade. Até mais de metade da sua altura era uma massa sólida. Viviam em casas que não eram melhores do que estábulos para vacas. Contudo. Conseguiam arranjar maneira de se apegar a uma crença em Deus e à vida no outro mundo. vivendo em cavernas escavadas nas rochas. por uma montanha que se recortava no céu límpido. As mulheres sucumbiam à septicemia e à febre puerperal. a estrada descia. Gemelli dei Monti. exclamando: . suportara a sua própria crucificação durante muito tempo. onde a viscosidade escorria das paredes. Os homens alquebravam-se com artrite antes de chegarem aos quarenta. um cheiro a limpo e a luz do Sol a entrar pelas janelas. em direcção a um vale rodeado. as Montanhas Gémeas. esgotos. Sem ela ter-se-iam tornado aquilo que pareciam à maioria das pessoas: animais na forma e nos hábitos. no meio de lençóis lavados. A febre podia dizimar uma comunidade inteira num mês. Em cada um dos picos erguia-se uma aldeia rodeada por um muro . fornecimento de água potável.

abaixo do qual começavam os terrenos cultivados. Um deles recebia o sol em cheio. em alguns dos edifícios mais altos. precipitando-se pelo flanco sólido da montanha até ao vale aos pés de Meredith. a imundície a escorrer sobre as pedras da calçada e crianças esfarrapadas a guinchar no meio do lixo.uma rua principal única.em ruínas. A estrada que se bifurcava até ela era negra e brilhava. onde se via meia dúzia de automóveis. um bairro superpovoado de vielas estreitas com cordas de secar roupa presas entre as paredes. que se espalhavam até à depressão existente entre ambos. Meredith sabia muito bem o que iria encontrar dentro dos muros . A linha dos telhados apresentava falhas. o outro pairava mergulhado na sombra. de alcatrão recém-colocado. . com os pára-brisas brilhando ao sol.emendou Meredith friamente. que teria muito gosto em receber um oficial do tribunal do bispo. um edifício grande e branco ressaltava. Blaise Meredith franziu o sobrolho e voltou-se para o gémeo mais escuro. por cima do ombro. fora aberto um grande espaço para estacionamento. Por um momento sentiu o coração falhar-lhe e esteve meio inclinado a dirigir-se a Gemello Maggiore e a montar ali o seu quartel-general. em contraste com a segurança compacta de Gemello Maggiore. O motorista abriu as mãos num gesto de enfado e afastou-se.Ainda não é santo . ao lado do seu gémeo.Veja o que o santo fez por ela. O novo edifício é o albergue para peregrinos. Gemello Minore. Os muros mostravam brechas em muitos sítios e. e mesmo no seu centro. unicamente uma minúscula carroça de burro com um camponês idoso a caminhar atrás das rodas. No seu topo. . Mas sabia que nunca seria capaz de enfrentar a vergonha de semelhante rendição. debaixo do campanário da igreja. no albergue novo ou mesmo em casa do prefeito. podia ver os alicerces despidos onde as telhas arrancadas nunca mais tinham sido substituídas. uma piazza minúscula em frente da igreja. . Não se podia falar com um padre com dores de estômago.anunciou-lhe o motorista. contrastando profundamente com as telhas calcinadas dos telhados circundantes. Não se viam carros no atalho de cabras poeirento que conduzia à aldeia. mesmo em frente dos muros. A aldeia ensolarada parecia maior. O que Lhe chamou mais fortemente a atenção foi a diferença entre os dois picos.Gemello Maggiore . No meio da depressão passava uma corrente de água. . menos maltratada.

Também havia pedras para carregar para as brechas que a tempestade abrira nos terraços e torrões de relva para sachar nos alqueives. Havia de vir a altura em que aquele tipo quereria falar com ele acerca de seu pai. Além disso. não um rapazola ranhoso que primeiro era acarinhado e a seguir levava. pegou-lhe na mão e. mas Paolo não se mexeu. até um ponto secreto da torrente onde ninguém ia nunca de dia. enquanto o carro andava às guinadas por cima dos buracos e derrapava nas faixas de cascalho solto. As mulheres empilhavam o joio para fazer estrume e juntavam os ramos secos para a lenha.. transformando a aldeia num antro de curiosidade. agachados debaixo de um aglomerado de arbustos onde ele jurava ter visto codornizes e onde nada mais havia além dos dejectos da lebre que roía as couves e um velho lagarto cinzento dormitando ao sol.fazendo lembrar um elfo moreno de veste esfarrapada.e toca a pegar outra vez no sacho! Paolo e Rosetta avistaram-no. E apesar de recear vagamente o ferrete negro que poderia marcar a vida da mãe e mesmo a sua. Semeava-se uma fila e começava-se outra. por um carreiro abaixo. nem arranjar leite da teta de um padre. Portanto. de braços nas ancas. se queria ser a sua rapariga.por isso voltou a entrar no automóvel e ordenou ao motorista: . depois de amarrado o último feixe de joio. Rosetta bateu palmas. Subito! Os camponeses que trabalhavam nos campos mais baixos foram os primeiros a avistá-los. limpando depois esta ao traseiro e recomeçando a trabalhar. havia que levar água da corrente para regar avaramente as raízes das plantas. a questão era importante para ele e Rosetta. a olhar para o automóvel. Aldo Meyer viu-o quando o automóvel abrandou o .. E. Apoiavam-se às suas enxadas e ficavam a vê-lo passar e alguns dos mais novos acenaram trocistamente. depois de o carro passar. tinha de entender. mas os mais velhos limitaram-se a passar com a mão pelo suor que Lhes escorria dos rostos. para o diabo com as duas coisas . dizia-lhe respeito e a sua rapariga devia ser a última a saber. Portanto. uma carruagem puxada a duas parelhas ou um foguetão da Lua. gritou e pôs-se a saltitar . Um automóvel. para eles era tudo igual.Gemello Minore. no fim de contas. aquele assunto. Não se podia fazer pasta com motores a gasolina. mas ele estava decidido a falar com ele como um homem. apesar dos protestos da moça. levou-a apressadamente através dos arbustos.

onde o porteiro abriu os enormes portões de ferro para o deixar entrar e a condessa o aguardava no vasto relvado cuidado. Sentiu-se aliviado quando o automóvel saiu da aldeia e subiu ruidosamente a última inclinação pronunciada de terreno que conduzia à villa. que ela saberia o que Lhe responder. e. O seu problema mais urgente. Ali ia. Quando o automóvel chegou à piazza. quando a chamaram até à porta para ver não foi. e. nos lábios contraídos num sorriso doloroso e na mão erguida num cumprimento pouco entusiasmado às crianças. Reparou no rosto cinzento e afilado. se quisesse vê-la. sem. que viesse. toda a aldeia se reunira ali. Reflectiu sobre o tipo de homem que ele seria e sobre o que o convívio diário com a morte estaria a fazer dele: o que pensaria da condessa e dos convidados desta para jantar e como reagiria às histórias enredadas que deveria ouvir. porém.andamento em frente da porta de sua casa e começou a abrir caminho por entre um bando de crianças aos gritos. era o que devia levar vestido à villa. fresca como uma flor. com o convite da condessa na mão. não sabendo muito bem de que maneira mostrar "cortesias a um padre irmão". e o padre. caminhou desengonçadamente até à cozinha. contudo. ver ninguém. se alguma vez Lhe fora dado ver algum. para o saudar. Encontrava-se sentada no leito do ferreiro Martino. . Até o velho padre Anselmo se via. Somente Nina Sanduzzi se recusara a aparecer na qualidade de espectadora daquela chegada inauspiciosa. espreitando furtivamente por entre as suas persianas. a corpos e a lixo a apodrecer ao sol. este via todos. como o bispo Lhe pedia. Tinha a sua própria dignidade. mal o automóvel passou. um homem com o estigma da morte marcado no rosto. gritando à velha Rosa Benzoni que Lhe lavasse o colarinho e tirasse as nódoas da melhor sotaina. Depois recordou-se de que Lhe caberia a ele colher o derradeiro sopro daquela vida e sentiu-se envergonhado por nem sequer ter cumprimentado o visitante à sua passagem. na casa deste. enfiando colheres de caldo na boca retorcida do homenzarrão. Era um mar de rostos indistintos e um clamor de vozes estranhas e um cheiro penetrante a poeira. Reflectiu sobre o raciocínio tortuoso que induzira o bispo a aceitar um oficial naquelas condições e a enviá-lo até ali para ser assolado e atormentado por todos os interesses em conflito no caso de Giacomo Nerone. No que dizia respeito a Blaise Meredith.

Oxford. A castelã encantadora dá as boas-vindas à Igreja. dirigindo-lhe . a sua primeira necessidade vai para a intimidade e água quente!" A um sinal da condessa. pensou: "Deus seja louvado pelos Ingleses.Saber-me-ia muito bem . ora.Fez boa viagem? . por amor de Deus. Tu saíste-te maravilhosamente. As estradas são más e presentemente não ando muito dado a viagens. Nem muito ao mar nem muito à terra. . cara. E.Que esperas que faça? Que beije o traseiro ao padre e Lhe peça que abençoe as medalhas? Mas. Nicholas Black saiu de trás de uma moita de arbustos e juntou-se a ela. . Gostaria de saber se ele usa cilício. O rosto fatigado abriu-se-lhe num sorriso. Vou pedir a Pietro que o leve até ao seu quarto.retorquiu Meredith.Oh. que está a acontecer contigo? Não me digas que te andam a apetecer grandes conversas! A condessa voltou-se para o encarar. .Sofrível.Pobre homem! Deve estar completamente exausto.Minha querida condessa! Obrigado por me receber aqui! . diria antes. Magdalen. O rosto de sátiro sorria abertamente. Mas cheguei inteiro. até a sombra da entrada o engolir. depois poderá lavar-se e descansar um pouco antes do almoço. Meredith sentiu-se confortado com o som de uma voz a falar inglês. provavelmente.Ora. Nicki! Black encolheu os ombros irritado e perguntou: . . querida. . com um toque de colégio inglês e um verniz de Vaticano a cobrir. És cá uma actriz! A condessa ignorou-lhe a ironia e observou pensativamente: . os olhos tranquilos e a mão macia mas firme no cumprimento. grato.. ora! Com que então é esta a personagem que teremos de enfrentar! Faz lembrar uma edição puída de John Henry Newman. a inglesa expatriada faz as honras da casa a um compatriota. Eles compreendem estas coisas melhor do que ninguém no mundo! Não armam confusões e sabem que quando um homem está fatigado. Um momento mais tarde. afinal.Meu querido Monsenhor Meredith! Que prazer em conhecê-lo! O sorriso era afectuoso. Depois do repenicar do dialecto..Ele parece muito doente. A condessa ficou na beira do relvado a observar-lhe a passada vacilante. o criado pegou nas malas e conduziu Meredith até dentro de casa. ..A oração e o jejum também dão aquele aspecto.

As suas acomodações eram confortáveis a sua anfitriã era encantadora.Escuta. Saboreara. Nicki! És um homenzinho razoavelmente simpático e um pintor medianamente bom. mas. teve medo.Está bem. Mas já tenho problemas que bastem com este padre e não te admito que armes em engraçadinho só para mostrares a tua esperteza. não representaria um fardo excessivo. o sabor amargo da flagelação que Lhe infligira e podia permitir-se ser generosa. Portanto. não ficaria sozinho e. Lembrou-se de que deveria escrever ao bispo a contar-lhe a satisfação experimentada pelas providências por ele tomadas. esplêndido. tinha razões para se sentir grato. com as persianas corridas contra o calor do meio-dia. Estás a sair-te muito bem comigo e eu ajudo-te a arranjar algumas das coisas que desejas ardentemente. Mais uma vez. Quando estivesse doente. descontraído e repousado. Depois. pensaria no seu trabalho e na maneira como o levaria à prática. Prometo! Por favor. perante um pessoal tão numeroso. Fossem quais fossem os problemas. Blaise Meredith lavou-se. Se não estás disposto a portar-te como deve ser. Depois fê-lo dar-lhe o braço e passeá-la pelo jardim. cara? Desculpa. Sozinho no quarto. dizendo-lhe: . dizendo com a sua voz de menino arrependido: .uma invectiva em voz baixa e feroz: . não é. apesar de toda a sua sagacidade. Mas.Estou sempre a fazer disparates. mudou de roupa e estendeu-se no enorme leito de nogueira. tagarelando sobre os últimos escândalos ocorridos em Roma. Fosse qual fosse a imundície da aldeia. Portar-me-ei bem. poderia contar com a boa vontade da condessa para o ajudar a resolvê-los. Não sei o que me dá. os criados eram solícitos. Anne Louise de Sanctis sorriu. Despenteou-lhe o cabelo fino e deu-lhe uma palmadinha na face. Levara a sua avante. por favor. assim parecia. sempre poderia regressar ali e esquecê-la. Desta vez fica esquecido. O pintor teve vontade de Lhe gritar. . de esbofeteá-la e chamar-lhe todos os nomes feios de que se lembrava. mais uma vez. agarrou-lhe na mão e beijou-a. como sempre. querido. perdoa-me. mais vale fazeres as malas e eu mando Pietro levar-te a Valenta para apanhares o próximo comboio para Roma! Espero que tenhas percebido. Mas de futuro porta-te como um menino bonito. a condessa nunca chegou a perceber até que ponto ele a odiava.

Segundo os registos de Battista e Saltarello. o Dr. Quem se seguiria? Talvez o médico. e os juristas da lei canónica nada poderiam fazer contra a sua discrição. Se ele tivesse sido. Desencadearia uma sondagem confessional até às intimidades mais profundas da relação havida: as confidências mútuas. Só se podia confiar na sua boa vontade. ela recusara-se a prestar qualquer depoimento. até mesmo a natureza das suas relações sexuais. já que mesmo os infiéis e os heréticos podiam prestar declarações a favor ou contra a causa. Aldo Meyer. que fora a amante de Giacomo Nerone e Lhe gerara um filho. não podia ser chamado a prestar declarações. ser considerado como testemunha incerta. Tudo indicava que o padre Anselmo iria ser um problema para o advogado do Diabo. e uma palavra sua faria desatar muitas línguas. confessor de Nerone. No entanto. Aldo Meyer deveria. ao que parecia. uma conversa com a condessa. evidentemente. as atitudes morais. o seu depoimento não poderia ser admitido no tribunal. no mínimo. Ele poderia simplesmente recusar-se a indicar sequer as fontes de informação. uma longa relação litigiosa com Nerone. a indicação das fontes de informação mais prováveis no que se referia a Giacomo Nerone. pensou: uma análise da aldeia e dos seus habitantes. Mas não poderia ser obrigado a fazê-lo. Devia estar a par de muitos pormenores. A sua posição de castelã feudal colocava-a certamente numa relação de in loco parentis com os camponeses. Ela devia saber bastante. Devia dispor de uma autoridade considerável. as razões que tinham levado à separação de ambos. Depois visitaria o padre local para Lhe apresentar as suas credenciais e solicitar-lhe uma cooperação oficial. O seu testemunho seria aceite. o interrogatório prometia ser o mais detestável de todos. como aconteceria se se tratasse de um católico. Também ali haveria problemas. mas também era uma possibilidade de fuga útil a um homem que tivesse algo a esconder.Primeiro. este ainda tinha responsabilidades canónicas na questão. que era judeu e um liberal frustrado. mesmo que durante pouco tempo. Também vivera. E tudo isto entre um padre que só falava italiano de Roma e uma mulher cuja língua era o . sob a ameaça de sanções morais. Nesse ponto havia um problema. mesmo que tal acontecesse. Depois havia Nina Sanduzzi. Tratava-se de uma medida de precaução inteligente da lei. Mesmo que o seu penitente o tivesse libertado do segredo da confissão. Mas. Parecia improvável que um padre estrangeiro qualquer pudesse alcançar maior sucesso junto dela. Apesar da reputação do pastor.

Com um bocado de jeito. a quem o repouso descontraíra. mas como é que habitualmente começa a trabalhar num caso como este? Meredith esboçou um pequeno gesto melancólico. Quando chegaram ao queijo e à fruta. Sou a padrona. fenício. em . a condessa começara de novo a sentir-se à vontade. que um acaso bizarro reunira numa terra estranha. mas também sou inglesa.Receio bem que não haja quaisquer regras. Era bemeducado. depois de reunido o tribunal do bispo. A minha vida situa-se noutro nível.. A minha interpretação poderá estar completamente errada. Mas desejo ajudar. discreto e. e Blaise Meredith. Sentia-se suficientemente confiante para dirigir a primeira pergunta indagadora a Meredith. como diz. não haveria qualquer problema. o que ainda era mais importante. . . e em segredo. nos velhos tempos de Londres e Roma. Nicholas Black dirigiu um olhar rápido e irónico à condessa.Peço-lhe que perdoe a minha ignorância. . se se apoiar em mim. mas acho que. claro. É uma questão de falar com o máximo de pessoas possível e depois coligir e comparar as informações. A condessa orientou os temas cuidadosamente. Penso de maneira diferente dessa gente. mas ela sorria calmamente. A condessa vive aqui há muito tempo.Estava a contar com a sua ajuda inicial. entendia as alusões e as nuances do idioma inglês. corre um risco.dialecto bastardo da Calábria. O conhecimento que tem das condições locais será uma esplêndida preparação para mim.E onde é que está a pensar começar agora? . Desde que Nicki continuasse a comportar-se. de música e da política da Europa e da Igreja. É a padrona. como é evidente. ainda o levaria a apoiar-se nela para interpretar as rudezas provincianas.Tenho muito prazer em fazer o que puder. . com os seus poliglotos de grego. Conhecera muitos como ele. O almoço começou bem: uma conversa agradável entre pessoas de bom gosto e educação. Nicholas Black parecia apreciar o seu papel de cosmopolita polido. falava com raro encanto e um conhecimento considerável de livros. Posteriormente. monsenhor. pode-se interrogar e examinar detalhadamente os dados obtidos sob juramento. árabe levantino e francês angevino.. Blaise Meredith ainda se encontrava às voltas com o problema quando um criado entrou para anunciar que o almoço estava servido e que a condessa o aguardava no andar de baixo. Ali estava um homem que ela era capaz de compreender.

algum erro que se cometesse poderia ser irreparável. achei que a medida mais útil a tomar seria pô-lo em contacto com o médico e o padre da paróquia. reflectindo na sua jogada seguinte. Convidei-os para virem cá jantar esta noite. onde o serviço de café fora colocado à sombra de um toldo às riscas. Nicki poderá mostrar-Lhe os jardins.disse Meredith. . monsenhor. em tom de desculpa. A condessa prosseguiu: .Enquanto aqui estiver. .Depois de Sua Eminência me escrever.A condessa disse-me que tem estado com grandes problemas de saúde.deferência para consigo e para com o bispo. Nicholas Black mostrou o caminho até ao terraço. obrigado. Ele é um velho amigo meu. O criado veio servir o café e Black fumou alguns momentos em silêncio.Com certeza .. enquanto a condessa se afastava da mesa.Fuma? . Pouco depois disse em tom casual: . . O pintor ofereceu a Meredith um dos cigarros da sua cigarreira de ouro esguia.disse Meredith. Os dois homens levantaram-se. Assim ficarei mais descansada em como o monsenhor recebe uma opinião equilibrada. abanando afirmativamente a cabeça e sem insistir. Dá-me licença.disse Meredith secamente. Sentia-se confortável e à vontade e não queria que Lhe recordassem a morte. não é verdade? . Muito diferente de Roma. Ambos sabem muito mais da aldeia do que eu. depois disso. Pietro servirá o vosso no terraço e. e. Não acha. Cheguei à conclusão de que me estraga a sesta. .Os peritos são os senhores . espero que ..Fico muito agradecido pelo incómodo que estão a ter por minha causa. A condessa levantou-se. Nicki concorda comigo. Tenho a certeza de que a tua ideia está correcta. . monsenhor? . monsenhor? Compreende. aquele sujeito era perspicaz e inteligente. cara. Com ele. Nessa altura poderemos todos trocar os nossos pontos de vista. como sabe. Apesar de todo o seu encanto. É um luxo de que tive de me abster desde que fiquei doente. o sono de beleza de uma mulher.Normalmente não tomo café ao almoço. Estamos numa terra estranha.Claro que sim. . depois de esta se retirar.Não.Muito grandes .

Meredith anuiu pensativamente.Eu não acredito em Deus .Eu também . . pode levar anos.disse o pintor.disse Meredith cautelosamente. Esteve cá tempo suficiente para casar com ela. Mas. Temos o exemplo clássico de Agostinho de Hipona1. . Não obstante. com toda a franqueza. Mas. . ele próprio. Meredith encolheu os ombros com ar de quem não gostava da ideia.Deve dispor de uma vintena de temas mais sugestivos do que eu. Tenho esperança de descobrir toda a história enquanto aqui estiver. em termos estritamente teológicos. evidentemente disse o pintor secamente.Digamos que o monsenhor representa um contraste .Também é verdade. Lhe dá um filho bastardo e depois a abandona. .O facto levanta obstáculos. Tem um rosto interessante e umas mãos expressivas.Quem acredita em Deus acredita necessariamente em milagres. .Mesmo que aconteça. acabou por se tornar um grande servo de Deus. Poderá ser uma base estupenda para o lançamento de um artista. .Depois de uma vida muito mais longa do que a de Nerone. Admitirei sinceramente que as circunstâncias são intrigantes..declarou Nicholas Black. .E com Ele já é suficientemente duro.retorquiu-lhe Meredith. evidentemente. Black. não é com palavras que se leva um homem à fé.. . um filho ilegítimo.Sem Ele. está bem? . . Além disso. . e temos aqui uma fantástica galeria delas. De facto não sou capaz de compreender como é possível beatificar um homem que seduz uma rapariga da aldeia. é um mundo sem sentido . .Isso pouco importa do ponto de vista do artista.me deixe pintá-lo. respeitemos as opiniões um do outro. Mr. com um sorriso. evidentemente. não se pode ignorar a possibilidade de uma conversão súbita e miraculosa. Pensei em dar-lhe o nome de Beatificação. .disse Blaise Meredith. é o romance. . estou a contar fazer um registo pictórico de todo o processo de Giacomo Nerone.Para quem acredita em milagres.O que mais me interessa. Portanto.Poderá nunca chegar a uma beatificação . . que viveu com muitas mulheres e teve. problemas de facto e motivo. O que conta são as figuras. Estou cheio de curiosidade do que irá achar delas.O mundano de Roma no meio dos provincianos. . monsenhor. .

Uma comédia de aldeia . . .E qual é o interesse que o senhor tem no caso? Notava-se uma ligeira irritação na pergunta. Estou apenas a dar-lhe um palpite amigável. Ninguém sofre de amnésia.inquiriu Meredith. Esteve por aqui durante o tempo de vida dele. Mas há tantos rituais sem sentido. conhecera mesmo uns quantos. Mais do que aqueles com que conta. Sou pintor.Mas o pintor não concordava em ser arrumado com tanta facilidade. . Gostaria de saber qual seria a fonte do rancor que o pintor nutria em relação à condessa e por que razão ela continuava a proporcionar-lhe hospedagem. Se terminou o seu café mostro-lhe o jardim. . E o maior de todos é o porquê de ninguém desejar falar do homem em Gemello Minore. . Depois talvez durma a sesta.É uma questão de facto. Mas isso não impede que não abram a boca por nada deste mundo. Estava cá quando ele morreu. Gostaria também de saber porque iludira o pedido de ajuda que ele próprio Lhe dirigira com a promessa de um jantar com as personalidades do .Há sempre mistérios.. É realmente muito simples.disse Meredith. . e não de fé . O pintor riu com vontade.Então ela também o conheceu? . uma figura alta. nem mesmo a condessa. Eu não. .Gostaria de acreditar. . De qualquer maneira. até dentro da ordem. Se não os houvesse. no jantar desta noite. Tantos mistérios. monsenhor. que atravessou o relvado e desapareceu no meio do maciço de arbustos.Mas o monsenhor não vai investigar o caso de Giacomo Nerone em termos de fé . ainda assim. monsenhor. não seria necessário ter fé..disse Black severamente. . encontrará muitos mistérios. se não se importa. . Verá. Meredith ficou sentado a vê-lo afastar-se. Encontramo-nos ao jantar. Não gosto de desperdiçar luz.redarguiu Black brandamente.Vai fazê-lo legalmente. Todos os outros também. com um novo interesse a transparecer-lhe na voz. esguia. Insistiu no argumento.E um artista a tirar proveito dela.Como quiser. o senhor é que tem a ver com o caso..Mas. Sentia-se demasiado ansioso para ver o tipo de homem que se ocultava debaixo da sotaina preta. .Claro que conheceu. Já não era a primeira vez que encontrava homens como aquele. .. meu caro. Anda a ver se o filho dele vem para aqui trabalhar para ela. .Ficarei aqui sentado.

as quais.Santo Deus. Paolo não terá mais nada que fazer além de andar por .a não ser que se tratasse dos interesses de Nina e Paolo Sanduzzi. ainda não. e eu acho que ela é boa para ele. sentira-se tentado a faltar pura e simplesmente. mais certo ficava de que devia ir. Sentado na sua cozinha.Tenho andado a pensar sobre Paolo. mulher! Porquê? . a passar-lhe a camisa a ferro e a limpar com uma escova as lapelas do último fato respeitável que Lhe restava.Primeiro. Mais cedo ou mais tarde teria de encarar a revelação: mas naquele momento não. o Dr. mexendo no papel que os envolvia. Depois da cena da noite anterior. Mal ela começar a trabalhar. afinal de contas. Nina Sanduzzi desviou os olhos da operação de passar a ferro e. Lhe fariam recordar tempos em que descera abaixo da condição humana. que continuavam na gaveta da sua secretária e que. Era como se estivesse em jogo uma batalha e ele não pudesse permitir-se ceder uma única vantagem à condessa e ao seu cavaleiro misterioso. Cheguei à conclusão de que. Está quase uma mulher e lutará por aquilo que quer. ainda não tivera coragem de abrir. até ali. . disse calmamente: . Mas também aquele objectivo era demasiado limitado para explicar a ansiedade com que aguardava o encontro com o padre inglês e o seu envolvimento total na questão de Giacomo Nerone. Também ele estava preocupado com o jantar da condessa. quanto mais reflectia sobre o assunto. Parte da sua resposta encontrava-se nos papéis de Giacomo Nerone. A verdadeira dificuldade estava em ele não saber claramente contra o que lutava . Tinha a impressão curiosa de que Blaise Meredith poderia satisfazer-lhe ambas as necessidades. Nicholas Black. Meyer fitou-a de boca aberta. Pegara neles várias vezes. depois de abertas. ele deve ir trabaLhar para a condessa. mas em todas elas recuara. mas. fitando-o. Eram como as cartas de um amante rejeitado. porque Rosetta estará lá.lugarejo. Aldo Meyer observava Nina Sanduzzi a escovar-lhe os sapatos. Também me poderá contar o que se passa na villa. receoso do sofrimento e da vergonha que poderiam conter para a sua pessoa. Ele procurava a chave do mistério do seu próprio fracasso e um sinal na vastidão erma que era o seu futuro.

Não se trata de mudar de ideias. com um bom humor melancólico.Mas também pensei que têm um padre lá em casa. e eu contar-lhe-ei o que por lá se passa. Mas.disse Aldo Meyer.Se eu Lhe contar todas as outras coisas acerca de Giacomo.preveniu-a Meyer gravemente. perdido nos seus pensamentos.observou Meyer. nem mesmo no fim. Não o vejo.sentia-se-lhe uma estranha convicção na voz . . diz-lhe que venha falar comigo. . e o pintor arranjará maneira de Lhe deitar a mão. com singular delicadeza. o rosto tranquilo de Nina não Lhe retribuiu nenhum sorriso. além disso.Diga eu o que disser. Mas sei o que ele quer. . e é isso que farei. antes de mandares o rapaz para a villa.Não devia ter receio . . mais velha e esperta do que Rosetta. e agora é.Ele não o odiava.Sou eu que tenho vergonha de mim próprio . tu vais fazer como muito bem entendes. tenho apenas a camisa que ele usava quando foi morto com os buracos das balas na zona do coração. porém. Acontecia apenas que a altura não era a indicada.a noite passada rezei. Pedir-lhe-ei que zele por Paolo. .. não o ouço. quando estiver preparado. Depois saiu para o jardim. penso que acreditará em mim. .Ontem estavas decidida a nada dizer-lhe..admitiu Nina calmamente. . . O padre virá ter comigo. E.Ainda não. . .Nunca pensei que as pessoas mudassem de ideias depois de morrerem . Porque haveria de Lhe causar vergonha agora? . . a Giacomo. Nessa ocasião contar-lhe-ei. Meyer fitou-a com olhar intrigado.A condessa também estará lá . em tom conciso. Virá ver-me. .disse-lhe Nina. como é meu costume.aí a vadiar pelas colinas. Que foi que te levou a mudar de ideias? E a promessa que fizeste a Giacomo? .Pensei nisso . tal como os outros fizeram.Poderá não acreditar em ti. Já leu os papéis de Giacomo Nerone? .Está bem. .O rapaz é mais importante do que uma promessa. Ela limitou-se a dizer: .E ela também é mulher. onde as cigarras cantavam no calor da tarde e a poeira se pegava às folhas verdes da figueira. . Meyer encolheu os ombros e abriu os braços num gesto vagamente desesperado.

Quando saudou Meredith.Fico satisfeito por conhecer o meu médico assistente. Via-se-lhe caspa nos ombros da sotaina e na parte da frente nódoas antigas de vinho e molho. Tinha as mãos cheias de artrite e enlaçava-as e desenlaçava-as continuamente. . Teria continuado a falar durante uma hora se a condessa não tivesse feito sinal a um criado que Lhe colocou um copo de xerez nas mãos e o afastou suavemente de . Meyer envergava um fato normal.É o problema que temos nesta parte do mundo.Fico contente em vê-lo. pois a condessa arrastara o padre Anselmo do seu canto para o apresentar ao seu colega de Roma. comportava-se com dignidade e o rosto cansado e inteligente mostrava-se calmo. e Nicholas Black apresentava-se impecável num smoking preto. suponho Meredith sorriu pouco à vontade e murmurou uma observação banal. O Vaticano nem sequer sabe do que se passa. monsenhor . com um bom humor desprendido. E a conversa ficou por ali. de ar gasto. No entanto. monsenhor. o seu italiano tinha o sotaque denso e áspero da província. quando estive em Roma. Tinha o rosto sulcado e gasto como o de um camponês e o cabelo fino. . mas nós nunca recebemos uma pitada dele. Têm mais dinheiro do que aquele que podem contar.Mais vale reservar o seu julgamento.disse Meyer. . Lembro-me que. . a tomarem bebidas no salão. Meredith desceu para jantar. O contraste entre elas era flagrante. mas o colarinho e os punhos começavam a esfiapar. Ficarei em boas mãos.Tenho má fama. a gravata estava desbotada e era antiquada. muitas vezes limpo e lustroso de tanto uso. encontrou a condessa e os seus convidados já reunidos. Era um indivíduo baixo. nessa noite. bem marcado pelos seus sessenta anos... grisalho e comprido. enquanto ia falando. A camisa estava limpa e passada de fresco. a roçar-lhe o colarinho. . Demasiado longe e desconfortável para eles. É muito raro recebermos a visita de romanos por estas bandas.CAPÍTULO IX Quando. mas o velho era tagarela e não havia quem o calasse. A condessa arranJara-se como se fosse passar uma noite em Roma. Meredith sentiu-se imediatamente atraído para ele e o cumprimento que Lhe dirigiu foi menos reservado do que era costume.

como o seu interesse era comum ao dela naquele momento. O padre Anselmo bebeu um grande gole de xerez e fixou nele o olhar remelento.Então. também pudesse revelar um coração. Nicholas Black também reparara e sorrira manhosamente para a condessa. Mais vale que nos entendamos um ao outro. Era-lhe doloroso. mais tarde. com um olho no xerez e um ouvido na conversa. sorrindo: . Meredith sentiu-se embaraçado. complicado e animado. que acha do nosso advogado do Diabo? . cujas sobrancelhas erguidas Lhe responderam com maior clareza do que palavras: "Isto vai como planeei.Estou de visita. aproximou-se do velho e disse-lhe em tom amigável: .Sua Reverendíssima envia cumprimentos! Que simpático! Sou uma mosca no seu ouvido e bem que ele gostava de se livrar de mim. Traz o estigma da morte. mesmo em contactos breves.Sua Reverendíssima envia-lhe cumprimentos e espera que eu não represente demasiado incómodo para si." E. mas a perspectiva de uma associação mais prolongada com aquele parecia-lhe extremamente assustadora. O homem tinha boa educação e era discreto. e dos cuidados manifestados para com aquele elemento perdido do seu rebanho e envergonhou-se imediatamente consigo próprio. dottore mio. Enquanto Meredith falava com a sua anfitriã e o padre Anselmo se mantinha um pouco afastado. Mas receio ter de me apoiar bastante no seu julgamento. Meredith não possuía defesas contra a grosseria dos outros. Disse com desenvoltura suficiente: . estava preparado para colaborar e esquecer o ódio que Lhe tinha. Aldo Meyer reparara imediatamente na breve e brusca troca de palavras e considerara-as como um ponto a favor de Blaise Meredith.junto do visitante. Depois lembrou-se de Aurelio. bispo de Valenta. Ignorando o criado que afastava o padre. Assim é que são as coisas. à semelhança da maioria das pessoas educadas. Os padres senis sempre o tinham incomodado.Tenho pena dele. O pintor estremeceu involuntariamente. Mas não pode fazê-lo sem levar o caso a tribunal. como se Lhe . Já deve estar a sofrer bastante. mas faltava-lhe a brutalidade para administrar uma resposta franca à altura. chamou Meyer à parte e disse-lhe. Depois afastou-se e foi falar de trivialidades com Anne Louise de Sanctis. Abanou a cabeça e disse queixosamente: . não me interessa a política local Não vejo razão para que não nos entendamos. Havia esperança de que.

. nos olhos injectados e fatigados que dormiam muito pouco e tinham visto demasiado sofrimento.Inclinou-se para Meredith a explicar. doutor? Sempre vem trabalhar para mim? .Penso que sim . desistindo de aprofundar o assunto. de cabeça baixa durante a breve oração em latim. O jovem Paolo Sanduzzi não é outro. sem saber se Meredith teria reparado no gesto. Aquele parecia suportar ambos com coragem. que Meyer não se esforçou por completar. Meyer beberricou o seu xerez e observou o rosto de Meredith. voltou-se para Meredith.Este assunto talvez Lhe interesse. Como obedecendo a um sinal. Meyer à esquerda e Nicholas Black e o padre Anselmo nos lugares mais afastados.Importa-se de dizer a oração. evidentemente senão o filho de Giacomo Nerone. viria à procura da sua alma. meu caro. .Ora francamente . A condessa sentou-se à cabeceira da mesa.Ainda bem. o jantar foi anunciado e todos se dirigiram para a sala de jantar. . um acorde de ironia em suspenso. na transparência doentia da pele. monsenhor? De pé. nas rugas de dor profundamente escavadas em redor da boca. Como é que acha que ele funcionará? Agradavelmente ou. se o imaginasse um católico em crise de fé. mas.. o que poderia complicar-lhe os planos que tinha em relação a Paolo Sanduzzi. mas era demasiado cedo para ver que mais Lhe estaria reservado. . fez o sinal da Cruz depois da oração. enquanto ele conversava com a condessa e o padre Anselmo. Momentos mais tarde. Antes de se sentarem. sem querer. Respondeu melancolicamente: . Estava a pensar noutra coisa. isto é. a condessa repetiu o nome em que ele pensara a Aldo Meyer. o padre deixá-lo-ia à mercê de Deus. o pintor riu de si para si. com Meredith à sua direita.? Deixou a pergunta no ar. . monsenhor.tivessem lançado um mau-olhado.Não tenhamos a morte à mesa de jantar. o senhor e eu? .A mãe virá provavelmente falar consigo amanhã.exclamou Nicholas Black acerbamente. É bastante arisco. . . Foi baptizado com o apelido da mãe.Porque haveríamos de nos importar.Que me conta do jovem Paolo. mas nós. Os homens reagiam de maneira variada à dor e ao medo. Sendo um ateu confirmado. passando cinco desconfortáveis minutos na dúvida.. Reparou na magreza que o marcava. Que actriz que aquela mulher era! Nem um só pormenor esquecido! Estava tão absorto na sua troça que.retorquiu Meyer cautelosamente. .

disse Meredith.comentou o padre Anselmo. de que mesmo os não católicos podem prestar declarações num caso de beatificação. . Depois.A mãe vive de quê? . . Também conheceu Nerone.informou-o Meyer. A voz começara a empastelar-se-lhe perceptivelmente e o sotaque estava mais acentuado do que nunca.Agora engrossou um bocado. Eu era um exilado político. pensámos que Lhe faria bem trabalhar.O padre Anselmo também poderá ajudá-lo bastante. em tom indiferente. conheci-o . monsenhor.Parece uma ideia bondosa . com a boca cheia de peixe.Provavelmente tem conhecimento.Conheceu Giacomo Nerone.respondeu Meyer. doutor.comentou Nicholas Black suavemente. quando Lhe der mais jeito. . Lembro-me dela quando fez a primeira comunhão. Sabia-se que as minhas simpatias não iam a favor do Governo. não é verdade. doutor? .Trabalha para mim . .Sim. . " Anne Louise de Sanctis interrompeu rapidamente o breve silêncio que se seguiu. Gostaria de falar consigo acerca do assunto.Ah. grato: "Ele é muito superior ao que eu imaginava.Fui a primeira pessoa a vê-lo depois de Nina Sanduzzi. Meyer fez de conta que não reparou na ironia. voltou a inclinar-se para o seu prato. Meyer e eu. com franqueza e à vontade. . . O pintor sorriu e esperou pela pergunta seguinte. .o Dr. O rosto ensombrou-se-lhe de desapontamento ao ouvir Meredith dizer simplesmente: . monsenhor. padre? Anselmo pousou ruidosamente o garfo e bebeu nova golada de vinho. E pensou. . não é verdade. . Meredith voltou-se para Meyer. claro.Quando quiser. doutor .Ela devia confiar em si. Oferecemoslhe um emprego como ajudante de jardineiro.Não havia razão para não o fazer. desde que estejam dispostos a tal. ao ver que ninguém Lhe ligava nenhuma. Não o levarão à certa com demasiada facilidade.Era uma bela mulher . . Linda criança! Engoliu o peixe com uma golada de vinho e limpou os lábios ao guardanapo amarrotado. Ela chamoume para Lhe extrair uma bala do ombro. Tem tido uma convivência muito chegada com toda a nossa gente. .

condessa? . recolhendo os pratos e preparando tudo para o que se seguia.. a que emprestou um carácter mordaz: .disse Meredith. senão toda. Qual é a sua opinião. os criados começaram a movimentar-se em redor da mesa. Nicholas Black passou o guardanapo pelos lábios finos e sorriu disfarçadamente.. Colocaram-me em regime de residência vigiada durante a maior parte do tempo.Tiveram os alemães aqui. Qualquer pessoa seria levada a pensar que era mesmo padre. Grande parte da mediação. Queria que fosse a correr com os sacramentos. Nunca tive tanto medo em toda a minha vida. Um pouco de paciência e ficaria a par de toda a história de Anne Louise de Sanctis. Foi terrível. com à vontade.. enquanto o povinho passava fome do lado de lá dos portões de ferro e do muro de pedra. Quando as relações na aldeia se tornavam tensas. . quase fez que os alemães disparassem sobre mim. Certa noite. era feita por mim mesma. Creio que talvez Nerone tenha exagerado a sua influência para aumentar o seu prestígio junto do povo. Numa base perfeitamente oficial. Costumava vir bater-me à porta.Penso que provavelmente é um exagero.disse a condessa rapidamente. Nicholas Black aproveitou a acalmia para apresentar a sua própria indagação.Os primeiros dados pareceram indicar que Giacomo Nerone actuou como uma espécie de mediador entre os camponeses e as tropas ocupantes. Regime de residência fixa? Deveria haver nomes que melhor descrevessem a situação. . mal alguém tinha uma dor de barriga. Interferia demasiado. Normalmente mostrava-se cooperante. evidentemente.Nunca tive grande opinião acerca do homem. Nessa altura.Tomaram conta da villa .Já me esquecia . Meredith parecia não ter pressa em aprofundar a questão. . . Imaginava-a a percorrer os campos na companhia dos conquistadores. Deve ter sido uma provação. os criados informavam-me e eu falava com o comandante.Já alguém determinou a verdadeira identidade desse homem e o sítio donde veio? . evidentemente. exibindo as suas vaidades de braço dado com algum capitão louro deitando-se com ele no enorme leito barroco rodeado de cortinados de veludo. Depois disso não voltei a sair depois do recolher. Blaise Meredith não deu mostras de perceber a ironia e continuou:.

Não sou nenhum teólogo. à cabeceira da mesa. . .Também é uma possibilidade . . . mesmo que Lhas espetem debaixo do nariz. Quebrar semelhante elo seria um pecado.perguntou Meredith. . Meyer manteve-se zombeteiramente silencioso. .Trata-se de algo que conto descobrir mais definitivamente.Nunca foi determinado com clareza. monsenhor? E o motivo? .Anne Louise de Sanctis estava atarefada a dar indicações ao criado que servia à mesa.Para pessoa que não é crente. Se se torna necessário que o cometa quando está sob juramento de serviço. foi Meredith quem Lhe respondeu: . pois não? .Mas talvez existam outros factos. ou canadiano.Temos de nos basear no testemunho jurado daqueles que o conheceram intimamente.O problema que vocês.Parece uma hipótese lógica. o tribunal examinará o valor do testemunho.observou Meredith. talvez. . Um homem não pode ligar-se por Juramento para cometer um pecado.comentou o pintor secamente. após uma pequena pausa de indecisão. não poderia ser um santo. rigidamente. Mais tarde. romanos. o senhor possui uma lógica muito cristã . .Como é que determina o facto. .. No palco de operações italiano havia uns quantos milhares de desertores.é não compreenderem as coisas mais simples que existem. . . não seria? E um desertor viveria em estado de pecado permanente. com interesse súbito. fitando em seguida a condessa. é obrigado a recusá-lo.disse Meredith.disse o padre Anselmo de repente . . Depois.Porque não? . . A princípio acreditava-se que era italiano.É uma tarefa de longa duração. A voz saía-lhe tão empastelada e incerta que os convidados se entreolharam profundamente incomodados. mas todos os soldados prestam um juramento. pensou-se que talvez fosse membro das unidades de Aliados que combatiam no Sul: inglês. O pintor abriu as mãos num gesto de humildade zombeteira. têm . O velho continuou atabalhoadamente.. que se sentava. parece.Sorriu afavelmente. com serenidade e bom humor.disse Meredith. e. . Uma pequena risada percorreu toda a mesa e o pintor corou atrapalhado.Interessante .Perfeitamente lógica . O padre Anselmo estava entretido com mais um copo de vinho.Se fosse um desertor. evidentemente.

em direcção à aldeia. esforçando-se por encontrar o fio à meada dos seus pensamentos. para logo ficar tocado de uma . cara.Irei eu .. Nicholas Black e a condessa deixaram-se ficar à mesa.É um padre irmão. Enquanto seguiam pela estrada pedregosa abaixo.disse Nicholas Black. .Pietro pode ir consigo . O doutor sabia. mais o doutor.retorquiu-lhe Aldo Meyer calmamente.Vai para o diabo! . O velho olhava apaticamente à sua volta.interrompeu a condessa. mas ele devia voltar imediatamente para casa. que murmurava e se babava. . naquele momento não passava de um velho frágil.propôs Anne Louise de Sanctis. foi por muito pouco..ofereceu a condessa. A. Não é longe. . . de ventre rotundo e cabeça oscilante e ensebada. .Está velho . não achas? . No salão e à mesa de jantar parecera intumescido e gordo.Toda a gente fala como se não soubesse de nada. que raras vezes se aproximara de uma pessoa embriagada e nunca vira um padre bêbedo. Tem o fígado muito gasto e fica arrumado com muito pouco. Juntos.Está embriagado . Eu sabia. com voz alta e irritada. segurandose a eles como uma criança doente.observou Meyer calmamente. Meredith ficou surpreendido ao reparar-lhe na leveza. Dê-me uma ajuda.O ar pô-lo-á mais sóbrio. Meredith. Eu levo-o a casa.Andar far-lhe-á melhor ..Levem o meu carro . Todos nós sabíamos quem ele era. . monsenhor. Meredith empurrou a cadeira para trás e levantou-se. a olhar um para o outro.exclamou a condessa.Peço desculpa por esta exibição. A cabeça grisalha cabeceava-lhe e dos lábios descaídos escorreu-lhe um pequeno fio de vinho. sentiu-se inicialmente revoltado. Eu o acompanharei a casa. Notava-se uma nova entoação na voz impassível e precisa. em tom seco. por onde saíram para o carreiro coberto de cascalho.Foi por pouco. com o padre Anselmo apoiado nos ombros de ambos e os pés a trotarem atabalhoadamente ao ritmo das passadas. . . deixando-o sozinho a sorrir como um sátiro diante dos restos do jantar oferecido pela dona da casa. monsenhor. Pouco depois o pintor disse suavemente: . . tiraram o homem da cadeira e ajudaram-no a passar pelos criados até chegarem à porta.

Avisei-o. . para o desculpar dignamente.Trouxemo-lo a casa. É melhor levá-lo para a cama. no cabelo emaranhado. Tiraram-no dos ombros e apoiaram-no contra a parede. A Rosa leva-te para a cama e toma conta de ti Mas o velho vacilou e tropeçou e teria caído se Meyer não o segurasse.pelo menos o suficiente para o livrar rapidamente de mais indignidades. a próstata Lhe falha e ele não consegue pegar na colher como deve ser.Então? Que se passa? Já não se pode dormir sossegada? Se querem um padre. enquanto Meyer batia ruidosamente à porta da frente. .Pegou na mão de Anselmo e tentou levá-lo para dentro de casa. Pouco depois ouviram o ruído arrastado de passos no interior e a seguir apareceu uma mulher velha e gorda envergando uma camisa de dormir preta e disforme e um barrete de dormir imundo e à banda. Rosa. . Não passa de um velho e de um bebé grande que não sabe tomar conta de si mesmo. . Aquilo era o que acontecia quando os anos enfraqueciam as faculdades e a decadência se infiltrava por entre os tecidos e a vontade cedia sob o fardo do tempo e da memória. ! A mulher encarou-o irada. porque a artrite Lhe tolhe as articulações. foi .Está embriagado . Este limitou-se a dizer a Meredith: . E Blaise Meredith? Seria que também ele se importava? Ou andava tão preocupado com as suas próprias dores de barriga que não conseguia ver que havia maneiras mais miseraveis de morrer e tormentos mais penosos do que o seu? Ainda ruminava estes pensamentos desagradáveis quando chegaram à porta da casa do padre. .compaixão profunda. para Lhe oferecer um ombro e levá-lo para casa pelos seus próprios pés. Meyer importava-se: o semita pobre e de reputação duvidosa que compreendia o que acontece quando o fígado de um homem fica sobrecarregado. Examinou-os ensonadamente.Eu já sabia que ia acontecer.se é que realmente restava alguma alma depois do longo desgaste dos anos? Meyer importava-se . ele não está cá. maluco.disse Meyer delicadamente. Porque não o deixam em paz? Ele não foi feito para tomar copos com gente fina. Quem poderia amar aquele farrapo humano? Quem é que agora se importaria de que ele vivesse ou morresse e que a sua alma fosse condenada para toda a eternidade . Aquilo era o que acontecia a alguns homens quando o terror da vida os dominava.Anda.

. Meyer meteu um cigarro entre os lábios finos. atravessou a atmosfera sufocante e saiu para a frescura deliciosa da noite de luar. . . deixe-o! Já causaram estragos suficientes para uma noite... Meyer começou a desapertar-lhe o colarinho e os sapatos. tacteando o caminho e descendo as escadas. Já o faço há muito tempo. A velha afastou-o. Levaram o velho para cima dela e deitaram-no. . Foi o que mais me comoveu.Está chocado.. Depois de um momento de hesitação.Tenho pena dele .Metade da culpa cabe à Igreja.O facto surpreende-o. .Eu sei . Depois concedeu a Meredith um olhar demorado e especulativo. barafustando. . Ela foi como uma esposa para ele. ao entrarem no quarto. Enviam um pobre diabo como Anselmo para um lugar como este. um salário ou qualquer espécie de segurança. com Rosa Benzoni à frente a iluminar o caminho com uma vela de sebo. . sem uma educação completa.disse Aldo Meyer brandamente. Meyer encolheu os ombros. Meyer encolheu os ombros e saiu do quarto. Meredith foi atrás dele.. e que um dos lados já fora utilizado. . É melhor levá-lo para a cama. Eu posso tomar conta dele. A casa cheirava a mofo e a bolor como uma toca de rato e. subindo pelas escadas pouco seguras. ofereço-lhe uma chávena de café.Envergonha-me. acendeu-o e inalou profundamente.. inquirindo friamente: .Muita pena. monsenhor? . Teve uma sorte dos diabos em encontrar uma mulher como Rosa Benzoni para o estimular e manter-lhe as meias limpas. que estalaram sob o peso.observou Meredith. e esperam que ele respeite o celibato durante quarenta anos. . em voz baixa.. monsenhor? .respondeu Meredith.. com ar ausente. coberta de mantas sebentas.Sacudiu a cabeça como para afastar um pesadelo obcecante.Gastei toda a minha vida no sacerdócio. . Não passa de um camponês e nem sequer muito inteligente.Deixe-o! Por amor de Deus. Pegaram-lhe pelos ombros e pelos pés e carregaram-no para dentro de casa. meu amigo. A mulher tem quase a idade dele. Meredith viu que este tinha uma enorme cama de casal.Então aconteceu a nós os dois . ela ama-o.Dê uma ajuda. Ela. monsenhor.Venha até minha casa. Creio que foi um desperdício.

Meredith sentiu a mesma descontracção e intimidade que experimentara em casa do bispo Aurelio.É humano . há algum tempo. O jantar foi ideia da condessa. de uma maneira ou outra. O que torna complicado ajudá-la. tal como Lhe acontecera na outra ocasião.Na sala térrea e fracamente iluminada da casa de Meyer.replicou-lhe Meyer calmamente. surpreso. Mas a ideia é a mesma.De nós mesmos .De mim? . com a sua mobília camponesa e as suas fileiras de utensílios de cobre polidos pelas mãos cuidadosas de Nina Sanduzzi. É uma mentirosa cheia de subtilezas. . ganhou um fraquinho por Paolo Sanduzzi.concordou Meyer. na vida e morte de Giacomo Nerone.É uma longa história . . Enquanto Meyer se movimentava pela divisão a preparar as chávenas. . .Mas isso é monstruoso! . .replicou Meyer. É um indivíduo bizarro. . . Sentiu-se grato pelo facto.Pareceu-me que ela está com medo do que poderá ser dito. Trouxe a cafeteira do café para a mesa e deitou o .disse Meyer. . Ela quis mostrar-lhe o tipo de pessoas com que o monsenhor irá lidar e como será muito melhor apoiar-se nela. Sabia o quanto necessitava de amizade e estava preparado para percorrer mais de metade do caminho para a encontrar.Meredith fitou-o.Também é verdade . . . e não em pategos de província como Anselmo e eu.O inglês também está abrangido.Mas a condessa disse que o doutor tinha concordado com a ida do rapaz para a villa para lá trabalhar. Recorreu à ajuda da condessa para o seduzir. e não de um rapaz.Ele participou mais tarde. Meredith mostrou-se chocado.Colocá-la em ordem para que a compreendesse levaria um certo tempo.Estava a mentir.Todos os que estiveram presentes esta noite andaram envolvidos.Todos temos tido medo. Meredith perguntou-lhe abertamente: . mas eu não fui capaz de descortinar qual. Nenhum de nós saiu da questão muito honrosamente. o pintor? . a medir o café e a cortar o pão que restava para acompanhar o queijo. mas daquela vez ambientou-se com maior rapidez e menor consciência. . Soa melhor quando se trata de uma rapariga.Qual foi o significado do jantar desta noite? Tudo parecia obedecer a um objectivo. com um sorriso maldoso. .

o que é a verdade na alma de um homem..E este é o único motivo que o move.retorquiu Meyer arrojadamente.Que é que o leva a pensar que pode confiar em mim. Mas não creio que errasse em relação às outras suposições que fiz acerca dele. . o inquisidor que vivia sob a pele de Blaise Meredith..Exacto. Caso contrário acabarei como o velho Anselmo. . Não sei muito bem porquê. e eu acho que mais vale que a saiba agora.Aprendi algo muito tarde na vida . Nos olhos de Meredith surgiu um brilho divertido.retorquiu Meredith. que o fitou com os olhos intrigados.O facto de ter a faculdade de se envergonhar de si mesmo . .. . ganhar um novo respeito por mim.Ajuda a compreender . por não ser capaz de enfrentar os meus pesadelos. Respeitava o homem que o apresentava. aqui vai o meu. com uma cirrose hepática.O que é deveras raro tanto dentro da Igreja como fora dela. Agora beba o seu café para conversarmos um pouco antes de eu o mandar para a cama! . Depois pode voltar para Roma e deixar-nos em paz. Depois de uma pausa respondeu: . Dei cabo da minha vida. porquê? . Disse cautelosamente: . Perguntou ironicamente: .O meu motivo tem alguma importância. seria incapaz de Lhe contar o sucedido.disse Meyer firmemente. Se não fosse capaz de confiar em si. doutor? . monsenhor? . Também desempenhei um papel na morte de Giacomo Nerone. Foi por essa razão que tive receio de si.Nunca se enterra a verdade tão fundo que ela não possa vir a ser desenterrada. Compreendia o ponto de vista. Mais cedo ou mais tade ficará a par dela.Tanto quanto um homem pode ser honesto em relação aos seus motivos. tal como os outros.conteúdo fumegante nas chávenas de barro. pela primeira vez. Poderá obscurecer a verdade. a verdade? Meyer pousou rapidamente os olhos nele e viu.O doutor está a ser muito franco. Quero contar tudo.Quer dizer que o doutor também está preparado para prestar testemunho? . Temos tentado enterrar a verdade relativa a Giacomo Nerone e agora ela empesta-nos o chão onde quer que pisemos.. Depois sentou-se em frente de Meredith. Meyer acenou gravemente com a cabeça. . Foi um erro da minha parte.

. o médico deitou-o na sua própria cama e procedeu à palpação do ventre ressequido. . porém .. é como se me pedissem para saltar através de um arco de papel do outro lado do qual está o negrume ou uma revelação devastadora. Mas Meyer captou a frase com interesse. monsenhor? . e nem tanto.Mas nessa noite não houve mais conversas com Meredith.Doze meses.. premindo a massa dura e mortífera que crescia no seu interior..Quanto tempo Lhe deram? . .Cada vez mais . .respondeu-lhe Meredith dolorosamente.Tentarei mantê-lo neles . para disfarçar o novo acesso de dor que o acometia. . com admiração irreprimível. Depois de passado o espasmo.Prefere antes suportar a dor que neste momento está a ter e as que ainda estão para vir? Meredith anuiu. será preciso um milagre! . . a dor que sentiu no estômago foi de tal ordem que Meyer teve de o ajudar a sair para o jardim a fim de vomitar a bílis e o sangue que o sufocavam.Mas. sem rodeios...Reduza a metade! .Repita novamente! .Não estou bem certo do que tenho medo. não tenho coragem para o fazer.disse-lhe Meyer. . . . meu amigo? . Algumas das curas referidas poderiam ser milagres.Quero movimentar-me sobre os meus pés o máximo de tempo que puder.Tem assim tanto medo do seu Deus. A única maneira de descobrir é saltar.Neste momento.Estranho.O pior são as noites..Era o que o bispo queria que eu pedisse: um milagre. Portanto. .Não tive coragem de concordar.Volte a reduzir a metade e ficará mais perto da verdade. se estes ataques se repetem muitas vezes.O bispo queria que eu pedisse um sinal.Assim tão cedo? Meyer anuiu. o monsenhor devia estar no hospital.E o monsenhor? Que foi que respondeu? . E eu. possivelmente menos. Parece-lhe estranho. . A primeira golada de café engasgou-o. . doutor? . uma prova palpável da santidade de Giacomo Nerone.. É. eu poderia sê-lo. . mas duvido de que parte delas seja provada judicialmente. Disse-o bem-humoradamente.disse Meyer..Os ataques como estes são frequentes.disse Meyer . .

perfeitamente fácil de entender. o amargo sabor da derrota. o rapaz viria. Requereria tacto e delicadeza. pálido e exausto.Estranho vindo de um homem como o monsenhor. e pensava no medo que o assaltava todas as vezes que tentava abri-los. breve. Sentado na cama. brilhantes. firmeza também. também Nicholas Black estava acordado. ele teria de alcançar o seu próprio porto de abrigo. que colocara num cavalete em frente das cortinas corridas. arrependendo-se ao chegar ao seu Verão indiano.um camponês rude a atrair para a polidez. dissera Meyer. antes que o Inverno começasse a soprar e as folhas mortas a estalar pelos carreiros do jardim. de maneira que a luz incidisse no ângulo correcto. nem mesmo aquele prazer podia atenuar nele a constatação da sua triste situação: a de que aquela situação era o que de mais próximo ele poderia almejar em relação ao que outros homens possuíam por direito natural . fumava um cigarro e contemplava com profunda satisfação o quadro de Paolo Sanduzzi. de quando em quando. Outros devassos tinham desposado as suas virgens. Escolhera a posição com um certo cuidado. Depois recordou-se da conversa do jantar e a esperança começou de novo a despertar nele. Pensava nos papéis de Giacomo Nerone. o pânico avassalador.pensativamente. nunca conheceriam um fim? Um dia. Nicholas Black tinha perfeita . acarinhar e acompanhar até à maturidade da idade adulta. Estaria ali de manhã e de tarde . para que a natureza da relação ficasse logo determinada desde o princípio. Fechou os olhos e recostou-se. Mas Meredith não pediu explicações. No entanto.filhos seus para amar. e a figura branca do rapaz parecia ressaltar de dentro da madeira escura da árvore em forma de cadafalso. alguém deveria aparecer para pôr fim àquela situação. Seria que aquela perseguição. um servo a atrair para uma situação de filho. na almofada. para mim. mas. à meia-noite. que ainda continuavam por examinar na sua secretária. depois de o acordar. Sua mãe falaria com Anne Louise de Sanctis e ele receberia a incumbência de trabalhar com os jardineiros. o futuro velado e ilusório. No dia seguinte. Narciso no seu lago não se veria mais belo do que Nicholas Black na contemplação solitária da sua própria criação. Os lábios escarlates sorriam para o homem que os pintara e os olhos contemplavam. acompanhou-o até à villa e pediu ao porteiro que o levasse até ao seu quarto. das quais tinham tido filhos e as pantufas aquecidas. . Breve. Meyer deixou-o dormitar até à meia-noite e.

tinha de haver outra razão. atingir os seus próprios desígnios. por vezes. Ela dispunha de dinheiro para se aprazer onde muito bem entendesse. Mas a condessa era demasiado experiente para fazer papel de tola na própria aldeia onde vivia. Não existe qualquer trégua na fuga desesperada e permanente da solidão. a posse pertence ao mais forte. O receio em relação a Meredith apontava para um envolvimento pessoal com Giacomo Nerone. no final de contas. A parte que via nada tinha de extraordinário." O ciúme assumia. deixando-lhe o manto nas mãos para se ir divertir com uma camponesa de má fama em vez de o fazer com a padrona da villa. As palavras mais simples assumem uma coloração de paixão e intriga. Paolo . voltando depois para casa para casarem com as prometidas à custa dos lucros ganhos. Portanto. A corrida é ganha pelo mais veloz. O que ainda o perturbava mais era não ser capaz de descobrir mais do que parte do motivo que levava a condessa a ajudá-lo na sua conquista. Ela desejava a sua cooperação para manobrar o padre. O mundo dos amantes perdidos é uma selva onde a estação do cio é uma constante. seria para. Desejava um aliado compreensivo que a encorajasse. Nicholas Black vivera muito tempo naquela selva e já não Lhe restavam ilusões. O rapaz devia ser levado a ver que todas as suas esperanças se centravam numa associação disciplinada e que qualquer tentativa de explorar o seu patrão as destruiria completamente. Capri ficava mesmo ao virar da esquina. O acasalamento é um ímpeto avassalador e as cores do esquecimento os gestos mais civilizados. dispondo de tempo e com a intimidade que a villa casualmente proporcionasse. Contudo. E estes quais eram? Paixão.consciência da atracção que sentia pelo rapaz. para sua ruína mútua. Roma era mais distante e discreta. talvez? Cada temporada trazia a sua leva de mulheres sós e carenciadas que levantavam as saias e namoriscavam descaradamente os rapazes na Primavera mediterrânica. Mas as razões por que ela ainda se retraía constituíam fonte de muito maior preocupação para ele. sentia-se confiante em consegui-lo. Elas pagavam e os rapazes desempenhavam o seu papel na comédia batida com cinismo latino. Se Anne de Sanctis o ajudasse. estava igualmente ciente da capacidade que o rapaz possuía de o atrair. formas bizarras. "A minha generosa senhora transformada em mulher depravada quando Joseph fugiu dela.

carne da sua carne. aninhar-se numa ilusão de eternidade. enevoando as arestas ásperas da realidade.dinheiro também. Ela tinha amor para Lhe dar . com uma frase brutal. o filósofo barato. e ela sabia que não poderia contê-las por muito mais tempo. odiando a mulher que.. Desejava Paolo Sanduzzi. Ele era filho de Nerone. a troco da guarida e da promessa de uma exposição. a cada noite que passava. Mas desejavao para si mesma. renovada. Mas. sentindo a água morna deslizar-lhe pela pele como um símbolo de absolvição. pusera-lhe a nu a auto-ilusão. Outrora. Este recusara-lhe até mesmo a piedade que ela Lhe implorara e.. Aquela divisão estreita.Sanduzzi. e um insulto consumado a Nicholas Black. representaria uma censura permanente ao seu fracasso como mulher e amante. deixava-se flutuar. ela poderia ter comandado a sua aliança contra Giacomo Nerone. harmonizando-se com a neblina de euforia dos barbitúricos que em breve a mergulhariam no esquecimento. O vapor perfumado evolava-se agradavelmente. e para onde se recolhia todas as noites. representava o útero donde ela ressurgia. a ilusão tornava-se progressivamente mais ténue. Nesse ponto havia verdade. Anne Louise de Sanctis estirava-se na sua banheira de mármore. recostou-se nas almofadas a olhar para o quadro de Paolo Sanduzzi. fugindo da confusão vazia da solidão. autojustificar-se. Nisso também havia verdade. Sentiu crescer dentro de si uma raiva surda. que era inimigo das ilusões. o jovem adolescente. que dera à luz o filho de Nerone. Amor . o reformador utópico. vozes desafiavam-na a sair da penumbra para o dia amargo. O impacto de cada manhã revelava-se mais brutal. o homem que nada sabia e nada fazia. Mãos invasoras penetravam-lhe na intimidade. com os seus frascos de cristal e o seu espelho enevoado. Ela desejava um filho. auto-absorver-se. todas as manhãs. pensara comprar-lhe uma escravidão tão brutal. mas naquele momento todos os seus cuidados se centravam em Nina Sanduzzi. Suspensa no líquido fetal contido nas paredes quentes e raiadas do mármore. sangue do seu sangue. Meyer era o seu adversário principal: o médico maltrapilho de rosto frustrado e punhos desfiados. Seduzi-lo para o afastar da mãe seria uma vingança indirecta contra o pai. porque ele próprio não possuía nenhuma.

Encarava a manobra como uma calculada jogada de sedução.. e a promessa de ajuda que Lhe fizera era igualmente calculada. educá-lo. seria implacável e invencível. Tinha pouca fé na estabilidade do pintor. depois a condessa entraria em cena. tudo se conjugava para que tivesse de recorrer a Nicholas Black. quando esse jovem se transformou num homem. Saiu de dentro da banheira. Oferecer-se-ia para afastar o rapaz de uma situação propícia à corrupção. primeiro em Roma e mais tarde na Inglaterra.que Nerone Lhe atirara ao rosto. Não hesitavam em invocar o estatuto civil como sanção a favor dos dez mandamentos. castelã interessada na defesa dos interesses das pessoas a seu cargo. e até mesmo o padre de tez acinzentada que viera de Roma. como acontecia a tantos outros jovens provincianos. Mas Meyer interpunha-se no seu caminho. O controlo maternal de Nina Sanduzzi seria posto em causa. Ela daria ao pintor tempo e oportunidade para exercer a sua influência sobre o rapaz. qual padrona solícita. deslizando para um sono fruto de drogas. O rapaz reagiria prontamente. Se Giacomo Nerone chegasse a subir aos seus altares. Até mesmo a Igreja veria mérito em semelhante acção. O pequeno escândalo da sua ligação assumiria proporções mais vastas. Vivia há muito tempo na Itália e compreendia as manobras subtis da Igreja na sua vinha do Sul.. através dos quais governavam um povo apaixonado e recalcitrante. e aquele já estava comprado e era de fácil manejo. Depois deixou-se ficar debaixo do enorme dossel de brocado. orgulhosa e realizada. de . Meredith ajudá-la-ia imensamente. já tocado pelos descontentamentos da adolescência. Meyer e Nina Sanduzzi. secou-se e perfumou-se. os louros caber-lhe-iam a ela. Nicholas Black que desempenhasse à sua vontade o papel de intriguista insignificante. como inimigo. como se Nerone o tivesse gerado no seu próprio ventre estéril. no final. não desejaria ver-lhe o filho perverter-se pelas aldeias. mas eram rígidos na aplicação dos princípios morais. sonhando com um jovem moreno de mão firmemente agarrada à sua. Depois. tentando-o com a amizade e a promessa de uma vida senhoril em Roma. Os seus príncipes manobravam a política com uma perícia maquiavélica. Portanto. mas precisava de um aliado. antes de se vestir para ir para a cama. E. Como aliado. Dinheiro para o resgatar da vida sórdida a que o pai o condenara. Passear-se-ia pela Via Veneto com Paolo Sanduzzi. Nem por um momento acreditava nos seus protestos de pura afeição pelo rapaz.

.filho passou a amante apaixonado. a ilusão da noite. despida de qualquer culpa.. foi. . no fim de contas.

CAPíTULO X Na manhã seguinte, bem cedo, enquanto Nina Sanduzzi varria e cuidava da sua casa, Aldo Meyer sentava-se debaixo da figueira a conversar com Paolo. A entrevista começara desajeitadamente. O rapaz mostrava-se ensimesmado e retraído, e as primeiras perguntas indecisas de Meyer não contribuíram para Lhe ganhar a confiança. O jovem manteve os olhos fixos no tampo da mesa, mordiscando nervosamente um pequeno galho e respondendo em tom murmurante e baixo, fazendo que Meyer tivesse de se esforçar por conter a irritação e manter uma entoação devidamente amigavel na voz. - A tua mãe já falou contigo acerca da possibilidade de ires trabalhar para a condessa? - Já. - Sabes que a jovem Rosetta também vai para a villa? - Sei. - Qual é a tua opinião? - Acho que está bem. - Queres ir ou não? - Não me importo. - O salário não é mau. Poderás ajudar a tua mãe e ainda ficares com alguma coisa para ti. - Sim, eu sei. - Isso quer dizer que estás quase a ser um homem, Paolo. O rapaz encolheu os ombros e palitou os dentes com o galho. Meyer bebeu um gole de café e acendeu um cigarro. A jogada que vinha a seguir era importante. Esperava não a deitar a perder. Passado um bocado disse, o mais suavemente de que foi capaz: - O início da vida de um homem é a sua parte mais importante. Normalmente compete ao pai lançar o seu filho no caminho certo. Tu não tens pai; portanto... gostaria de o substituir nesta ajuda. Pela primeira vez, o rapaz ergueu os olhos e fitou-o directamente. Lia-se-lhe um desafio no olhar e uma ligeira hostilidade. A pergunta que desferiu foi clara e sem vestígio de amizade. - Porque haveria de se importar? - Tentarei explicar-te porquê - replicou Meyer no mesmo tom. - Se não ficares esclarecido, pergunta-me o que quiseres. Em primeiro lugar, não tenho nenhum filho meu. Gostaria de ter tido um. Poderias ter sido tu, porque houve tempos em que andei apaixonado pela tua mãe.

Ainda continuo a gostar muito dela. Contudo, escolheu o teu pai, e o assunto ficou arrumado. Conheci-o. Fomos amigos durante algum tempo... depois ficámos inimigos. Tive a ver com a sua morte. Hoje lamento o acontecido. Se te puder ajudar, estarei a pagar uma dívida minha para com ele. - Não preciso da sua ajuda - retorquiu-lhe o rapaz rudemente. - Todos nós precisamos de ajuda - disse Meyer calmamente. - Tu precisas dela, porque andas envolvido com o inglês e não sabes muito bem o que fazer em relação ao problema. Paolo Sanduzzi manteve-se em silêncio, de olhos postos no pau mordiscado que tinha entre os dedos. Meyer prosseguiu: - Quero explicar-te uma coisa, Paolo. Sabes o que são homens e mulheres. Sabes como começam a beiJar-se e a acariciar-se, o que acontece quando fazem amor. Sabes o que sentes quando olhas para uma rapariga cujos seios cresceram e que começa a caminhar como uma mulher. Mas não compreendes é como podes sentir isso por Rosetta e teres a mesma sensação quando o inglês te toca. Mais uma vez a cabeça do rapaz se levantou impetuosamente, na defensiva. - Não há nada entre mim e o inglês. Ele nunca me tocou! - óptimo! - exclamou Meyer. - Nesse caso não tens nada de que te envergonhar. Ainda assim, devias saber que, quando o coração de um homem desperta e o seu corpo também, ambos podem inclinar-se para um lado ou para o outro, tal como o vento inclina uma erva. Mas depois o arbusto endireita-se e torna-se duro como uma árvore. Nessa altura não pode voltar a ser inclinado e cresce, tomando a sua própria forma. A maneira certa de um homem crescer é na direcção de uma mulher, não de uma feminella. Aí tens a razão por que não podes ficar com o pintor. Compreendes, não é verdade? - Então porque está a mandar-me trabalhar na villa? Ele estará lá durante todo o tempo. Assusta-me. Faz-me sentir que não sei o que quero. - Que é que queres: ele ou Rosetta? - Quero sair de Gemello! - exclamou o rapaz, em tom selvático. - Quero ir para outro lado qualquer onde as pessoas nada saibam acerca de mim, da minha mãe ou do meu pai. Acha que gosto que me chamem o bastardo do santo, o filho de uma prostituta? Aí tem

a razão pela qual quero ficar com o inglês. Ele pode fazer isso por mim. Pode levar-me para Roma, dar-me um começo novo... - E em Roma colocarão uma etiqueta ainda mais suja em ti e nunca mais te livrarás dela, onde quer que vás! Escuta, rapaz... - implorou-lhe em voz baixa, veemente. - Tenta ser paciente comigo. Faz um esforço para entender o que te vou dizer. A tua mãe é uma mulher boa, dez vezes melhor do que aquelas que Lhe chamam nomes. Tudo o que porventura fez foi por amor, e uma prostituta é aquela que se vende por dinheiro. O teu pai era um homem especialmente dotado... e sou eu que o afirmo, o homem que contribuiu para a sua morte. - Então porque não casou ele com a minha mãe e me deu o seu nome? Tinha vergonha dele? Ou de nós? - Já fizeste essa pergunta à tua mãe? - Não. Como poderia fazê-la? - Então acho que devemos fazer-lha agora - disse Aldo Meyer. Sem esperar pela resposta, chamou em voz alta: - Nina! Chega aqui um instante, por favor. Nina Sanduzzi saiu de casa e o rapaz viu-a aproximar-se com olhos assustados. - Senta-te, Nina. A viúva assim fez, no meio dos dois, olhando de um para o outro com olhar sério e inquiridor. Meyer disse-Lhe com simplicidade: - O rapaz tem uma pergunta para te fazer, Nina. Penso que tem direito a uma resposta. És a única pessoa que pode dar-lha. Ele quer saber por que razão o pai dele não casou contigo. - Acreditarás em mim se eu te contar, filho? O jovem ergueu os olhos, perturbado e cheio de vergonha, assentindo silenciosamente. Nina Sanduzzi aguardou um momento, reunindo coragem e palavras; depois, com voz firme, contou-lhe. Também Blaise Meredith acordou cedo naquela magnífica manhã de Primavera. Depois do ataque que sofrera em casa do médico, dormira de maneira menos repousada do que a habitual e, quando o criado Lhe viera trazer o café e correr as cortinas para deixar entrar o novo dia, decidira levantar-se e deitar mãos ao trabalho. Bebeu o café, comeu um pouco de pão fresco com a manteiga salgada de fabrico caseiro, lavou-se, fez a barba e desceu ao andar térreo para ler o seu ofício ao sol. Cumprida a sua obrigação litúrgica, ficaria livre

para iniciar as suas entrevistas às testemunhas. Ainda tinha bem presente na mente o aviso que Meyer Lhe fizera. O seu tempo de vida escoava-se mais rapidamente do que esperara e não podia dar-se ao luxo de desperdiçar um minuto que fosse. Sentia-se satisfeito por a condessa e Black ainda estarem deitados, o que o poupava ao ritual dos cumprimentos e da tagarelice do pequeno-almoço. Terminara as laudas e ia a meio das matinas quando ouviu o som de passos no carreiro coberto de cascalho e ergueu os olhos. Uma mulher e um rapaz caminhavam em direcção às traseiras da casa. A mulher estava vestida à maneira das camponesas, com um vestido preto e sem feitio, com um lenço enrolado à cabeça. O rapaz envergava uma camisa às riscas e umas calças remendadas e tinha os pés enfiados numas velhas sandálias de couro. Caminhava de maneira indecisa, olhando para todos os lados, como subjugado pelo esplendor do que o rodeava, depois da nudez grosseira da aldeia. A mulher tinha um porte orgulhoso, a cabeça erguida, os olhos fixos em frente, como disposta a cumprir um dever doloroso com dignidade. Meredith sentiu-se fascinado pela serenidade clássica do seu rosto, de contornos a arredondarem-se com a meia-idade, mas ainda mostrando uma beleza juvenil. Devia ser Nina Sanduzzi, pensou. O rapaz seria o filho de Giacomo Nerone, o qual, segundo Meyer Lhe contara, era a vítima da sedução que se conspirava entre a condessa e Nicholas Black. Teriam muito que esperar antes de a condessa se levantar e ficar pronta para recebê-los. Obedecendo a um impulso inesperado, Meredith pousou o seu livro e chamou: - Senhora Sanduzzi! Mãe e filho detiveram-se imediatamente e voltaram-se para o olhar. Chamou-os de novo: - Importam-se de vir aqui um instante, por favor? Olharam um para o outro, indecisos; em seguida, a mulher atravessou o relvado com o rapaz no seu encalço um pouco atrás. Meredith levantou-se para a cumprimentar. - Sou Monsenhor Meredith, de Roma! - Eu sei - replicou a mulher calmamente. - Chegou ontem. Este é Paolo, o meu filho. - Tenho muito gosto em te conhecer, Paolo. Meredith estendeu-lhe a mão e o jovem, depois de a mãe Lhe dirigir um aceno de cabeça, aceitou-a vacilante. - Sabe por que razão me encontro aqui, senhora?

- Sim, sei. - Gostaria de conversar consigo o mais depressa possível. - Encontrar-me-á em casa do doutor, ou na minha. - Pensei que talvez pudéssemos falar um pouco agora. Nina Sanduzzi abanou a cabeça. - Temos de ver a condessa. Paolo começa hoje a trabalhar. Meredith sorriu. - Vai ter muito que esperar. A condessa ainda não se levantou. - Estamos habituados a esperar - retorquiu a viúva gravemente. - Além disso, não falarei consigo neste lugar. - Como desejar. - Mas, quando Paolo estiver aqui a trabalhar, poderá conversar com ele. Isso será diferente. - Com certeza. Posso ir vê-la hoje? - Se quiser. à tarde estou em casa. Agora temos de ir. Anda, Paolo. Sem proferir mais nenhuma palavra, a mulher afastou-se. O rapaz foi atrás da mãe e Meredith ficou a vê-los até desaparecerem na esquina da casa. Apesar da brevidade do encontro, a mulher impressionara-o vivamente. Havia nela um ar... um ar de serenidade, contenção, sabedoria, talvez. Caminhava e falava como quem sabia para onde ia e como tencionava lá chegar. Não alardeava nem a falsa impudência de algumas camponesas nem a humildade praticada que séculos de dependência tinham imposto a outras. A língua em que se expressava era o dialecto mais áspero da Itália, no entanto a sua voz soara com suavidade e estranhamente meiga, mesmo na recusa firme de ainda há pouco. Se fora Giacomo Nerone quem Lhe ensinara a ser assim, então ele, no seu tempo, devia ter sido um homem de muito maior dimensão do que a maioria. Meredith reparou que a concentração lhe fugia das cadências latinas dos salmos para a reflexão de dois importantes elementos na vida pouco esclarecida de Giacomo Nerone. O primeiro era o elemento de conflito. A Igreja tinha um axioma segundo o qual um dos primeiros sinais de santidade era a oposição que esta desencadeava, mesmo no seio de gente boa. O próprio Cristo fora o sinal da contradição. A sua promessa não era a paz, mas sim a espada. Não havia santo no calendário que não tivesse sofrido oposição. Nenhum se livrara de difamadores e caluniadores. A ausência daquele elemento nos registos de Battista e Saltarello perturbara-o. Agora começava a dar-se conta da sua existência, assim como da sua força e complexidade.

semelhante a um selo. movendo os lábios ao dizer as estrofes familiares do poeta. os dois. deixou-o entrar em casa. . no coração dos outros. .Escutarei. não acha? . A velha Rosa Benzoni veio abrir-lhe a porta e. Usava uma velha navalha e Meredith admirou-se por ainda não ter cortado a garganta com ela.retorquiu Meredith suavemente. tem mau feitio. e eu tenho de viver com ela. enfiou-o num dos bolsos da sua batina e saiu da villa para ir falar com o padre Anselmo. Não gostei dos tipos que vieram para aí. obras e maravilhas imputadas ao candidato às honras de santidade. Uma boa obra reproduz-se a si própria tal como a semente de um fruto gera um outro. Avance. . Os primeiros relatórios deramme a conhecer que o reverendo se recusou a prestar quaisquer declarações relativamente a ele. Um milagre que não produza nenhum benefício num coração humano é um truque indigno de omnipotência. não prometo responder. homem.Ora esta! Que quer? .O segundo elemento era igualmente importante: o bem e o mal que ressaltavam claramente da vida. onde encontrou o velho sacerdote em mangas de camisa e suspensórios. pendurado na parede da cozinha.Era melhor conversarmos em particular.Está com problemas por causa da Rosa? Ela é meio surda e duvido de que entendesse uma palavra do que fala. nesse seu romano. A saudação com que o recebeu nada tinha de cordial. Se o bem existia em Nina Sanduzzi e se esse bem tivesse surgido da sua ligação com Giacomo Nerone.sugeriu Meredith. A santidade de um homem deixa uma marca.Não. Foi por ser seu confessor? . depois de alguns resmungos. Fizeram-me um . Depois de terminar. Tinha os olhos mais lacrimejantes do que o costume e as mãos nodosas tremiam ao rasparem o queixo coberto de pêlos. O velho soltou uma risada e depois praguejou ao cortar-se.É acerca de Giacomo Nerone. então o advogado do Diabo tinha de o ter em consideração na sua investigação meticulosa. Meredith esboçou um sinal de resignação e continuou. e diga o que traz para dizer. No entanto.Gostaria de falar consigo . Inclinou-se para o seu breviário. Também em relação àquele ponto havia um axioma: o axioma bíblico de que uma árvore se conhece pelos seus frutos. a barbear-se desajeitadamente em frente de um espelho rachado. fechou o livro. . Além disso. Trapaceiros e metediços. .

Mas cá em baixo não temos dinheiro que chegue para comprar uma cama nova. como eles os adoram! É dar-lhes uma história escabrosa. quanto mais dois pares de cobertores.grande sermão acerca do Juízo Final e da condenação eterna. Mas. . O velho pousou a navalha e passou uma toalha suja pela cara.disse o padre Anselmo.observou Meredith friamente. . Não gosto da posição em que me encontro. num gesto de impaciência.Soltou uma gargalhada ruidosa e grosseira. . Se Giacomo fosse santo. Era duro saber que um homem podia cair no desespero e na condenação eterna por não ter dinheiro para comprar um par de cobertores.Atirou com a toalha para o lado. O dilema daquele homem. Pela primeira vez na sua vida de sacerdote começou a compreender o problema real do arrependimento. Esta não tem outro remédio senão continuar a ceder a sua vida ao parasita. e de pouca . o melhor que se pode esperar é passar a noite aquecido.Na sua idade .Nós não somos crianças. ali posto nu e cru era assustador. De repente.. . monsenhor. . aproveitando-lhe a beleza. . o caso de Giacomo Nerone pareceu pequeno e insignificante ao lado do caso do padre Anselmo. Recebi uma carta do bispo a dizer que esperava que a minha ligação com Rosa tivesse perdido o seu carácter carnal.Então é o primeiro que encontro que não está.Não estou interessado em escândalos . que chucham nela como cães num osso de presunto. quem diabo se importa com o que eu digo? Sou o escândalo da diocese. . Além disso. quando a muitos dos meus malfadados irmãos na religião não importava que eu vivesse ou morresse. Deus. Mas Deus é testemunha em como ela tem direito a metade deles.sugeriu Meredith brandamente a maior parte dos casais dormem em camas separadas. Tenho muito poucos bens.Em Roma talvez . Tem sido boa para mim. mais do que o bispo. mas não deixando nunca de ir morrendo lentamente por falta de um jardineiro conhecedor.. na minha idade. com maus modos. Já é velha.. Disse com rudeza. Mandei-os passear sem Lhes dizer nada.. Olhe. .Quanto tempo é que ele pensa que um homem se mantém com essa capacidade? Na minha idade. mas sim as consequências que advêm dele e que proliferam como parasitas numa árvore. Sua Reverendíssima terá alguma resposta para essa questão? Meredith sentia-se comovido. tivera sorte terminara a sua longa batalha. . Tudo o resto eram palavras. que não é o pecado em si. como é que a altero? Não posso atirar com Rosa para o meio da rua.

Vou dizer-lhe uma coisa . mas hesitou em dar-lhe voz. terei muito gosto. Creio que tem consciência de que a maioria das pessoas faz os seus próprios escândalos. Se desejar que o ouça em confissão. Meredith concedeu-lhe um dos seus raros sorrisos bem-humorados.Eu pago tudo. Ainda se lhe notava dúvida na voz. Assim já ajuda? O padre Anselmo lançou-lhe um olhar rápido e desconfiado. Creio. Meredith teve uma ideia súbita. Os bons cristãos não se manifestam e rezam pelos irmãos com problemas. . . Passado um momento disse cautelosamente: .Sua Reverendíssima é um homem surpreendente. cá à minha .Daqui a três meses já estarei morto. que me diz? Anselmo esfregou o queixo mal barbeado com a mão nodosa. Os olhos lacrimejantes fitaram-no. eu suponho que é uma solução. O resto surgirá a partir do que fizer daí em diante. Não o posso levar comigo. Nós aqui vivemos na miséria. Mal nos dá para comer.Que mais tenho de fazer? . tenho a certeza.. Há muito que tenho andado preocupado. portanto.O bispo falou em reparar o escândalo. se o padre Anselmo mudasse Rosa para outra cama e para outro quarto. com um sorriso fatigado. . Gostaria de o ajudar. . Não vale a pena deixar as coisas a meio.Eu.. porém. .importância. A voz de camponês voltou a interrogá-lo. ela aceitaria a situação e nunca mais pensaria nela. . .. Então. Não poderá contar-me muito mais do que aquilo que já sei. Darei a si e a Rosa o suficiente para comprarem alguma roupa nova e depositarei mil liras no Banco da Calábria no seu nome. O velho sacudiu a cabeça teimosamente.. . incrédulos. Alguma vez terá de pôr a sua consciência em ordem. mas gosto muito da velha. de que. não lhe será demasiado penoso. a rudeza e a teimosia tinham desaparecido. A boca flácida abriu-se-lhe num sorriso.Quem é que paga a cama e as roupas? Parece-me que não está a compreender.O bispo é um homem muito sabedor.E porque haveria o monsenhor de se dar a tão grandes cuidados? Meredith encolheu os ombros.Nada. Não tardará que toda a aldeia saiba que passaram a dormir em camas separadas. .declarou Meredith.

Não me parece que o amor apresente algum problema. e detestaria magoá-la.exclamou o velhote bruscamente. Neste momento. Falarei com Rosa e explicar-lhe-ei as coisas como são. . Não houve despedidas. não a Blaise Meredith. contrafeito . Que me pode dizer em relação a ele? . . Não são assuntos que se possam tratar do pé para a mão. Vou pensar no assunto... palavras de agradecimento. monsenhor? Meredith tirou a carteira do bolso e pousou notas no valor de mil liras em cima da mesa. Meredith teve a sensação desconfortável de que fizera figura de tolo.Está bem! .maneira. ..Tomarei notas e depois o senhor será interrogado. Nessa altura ficará com a história completa. serve? . A voz parecia pertencer a outro homem. Assim que os advogados deitarem a mão aos bens.Os olhos brilharam-lhe argutamente. . O velho fez descair a cabeça para trás e riu ao seu jeito rude. . ao caminhar colina abaixo em direcção ao casebre do médico. também se tornam estúpidas.Um segredo confessional não serve para o registo do tribunal. Quanto ao resto. Está bem assim? . . .. quando chegam a velhas. .Era aonde eu queria chegar. no tribunal do bispo. amigo! Eles já tiveram escândalos da minha parte que chegassem.Como quiser . terei de tratar do assunto em Valenta. Levantou-se e dirigiu-se para a porta. sob juramento.disse Meredith.E não se esqueça do que tem de fazer em Valenta.Daqui a uns dias virei ter consigo. o indivíduo frio da Congregação dos Ritos. Pode comprar os cobertores e a cama. em tom cansado.Que acontece se eu Lhe contar? . . acabou! Só ficam as migalhas! E agora que mais é que desejava? . Espere até me ouvir em confissão. As mulheres são sensíveis e.Gostaríamos de ter tudo resolvido antes de o monsenhor morrer. Assim.É só para as primeiras impressões. e.replicou-lhe o velho.Giacomo Nerone.Ouça o que Lhe digo. Raios me partam se Lhes vou dar mais algum. também me fazia jeito dispor de algum.E quando é que vemos a cor do seu dinheiro. . .Esteja descansado. monsenhor. .Terá de estar .

monsenhor. monsenhor? .Assemelha-se a qualquer outro adolescente.Meyer cumprimentou-o. . doutor.Está com melhor aspecto esta manhã. Aqui entre nós.Não exactamente. Meyer fitou a sua tigela de vinho com um sorriso. Falei com um rapaz de pai para filho e escutei bons conselhos da mãe. Agora está disposta a ser sincera. Meredith apercebeu-se imediatamente da alteração que se notava nele: o médico tinha os olhos límpidos.preveniu-o Meyer. doutor. Sente-se atraído pelo inglês. conduziu-o até ao jardim e serviu-lhe uma tigela de vinho da região que tirou de um jarro de barro a refrescar à sombra.Acerca de Nerone? .Sim. .. . Quando estiver a seco.Em vez disso descalçarei os sapatos . .Gostaria de falar consigo. Ela provocou-me uma impressão profunda. sirva-se de mais! O Verão batia em pleno num mundo sem homens. Esta tarde vou fazer uma visita a Nina Sanduzzi. Meredith comentou o facto em tom brincalhão. . quando se é velho. que conseguirá muito dela. nunca se sabe até onde vai a capacidade de compreensão de um jovem ou que minhocas tem na cabeça. . e tinha o ar confortável de um homem que acaba de ficar bem consigo mesmo e com a sua situação. . E quer que o monsenhor mantenha o rapaz vigiado enquanto estiver na villa. Mas. . com humor melancólico: . espero ter feito algo de positivo pelo rapaz. meu amigo. mas ao mesmo tempo tem medo dele.Está na idade perigosa. . Já não tanto desde que eu e Nina falámos com ele. monsenhor.Meyer assentiu com satisfação.Não é costume pôr uma estola quando ouve confissões? .Vou dar-lhe uma pista. . falei com eles durante alguns momentos. o rosto vincado apresentava-se descontraído. . bem-disposto. Ela está disposta a falar. Observou.Vi-os na villa.Tive um bom começo de dia. Também está curioso em relação à mãe e ao pai. Vá com calma.Nina Sanduzzi? .disse Blaise Meredith.Exacto. E agora.óptimo. Manhãs quentes e meios-dias abrasadores e noites em que as nuvens rolavam sobre o vale carregadas de .E Paolo? .É uma longa história. .. . Aldo Meyer tomou uma grande golada de vinho e depois limpou os lábios finos com as costas da mão.Farei os possíveis. .

porque depois de partirem deixavam querelas nas casas e faces ensanguentadas e peles dilaceradas nos campos. Os temperamentos excitavam-se e a vitalidade era baixa. Meyer tudo engoliu e digeriu em segredo. havia cabeças-de-ponte noutros locais. comendo tudo o que a terra produzia. no entanto amaldiçoavam-no quando chegava e ameaçavam-no se faltasse algum dia . o inspector agrícola e os oficiais do Exército que vinham proceder às requisições. depois rasgado subitamente por gritos e violência. desertores ocultavam-se em cavernas e em camas amigas. fazia as suas rondas pelos enfermos. e não havia homens nas camas .excepto os idosos. A eles tanto Lhes fazia. Os guerrilheiros começavam a armar-se nos montes. eram meio gregas. como boas calabresas. queijo e cigarros se tinham os filhos doentes ou as filhas grávidas. e visitantes locais como a polizia e os carabinieri. Viera descalça.e depois davam-lhe vinho. O vale era como um ninho de gatos. Podia permitir-se fazê-lo durante mais algum. Se se mantinha liberto das mulheres da aldeia. para depois seguirem o seu caminho sem soltar a chuva. Lavrava os seus acres de terra dura. dormitava nas sestas e à noite ficava sentado até tarde. que representavam um estorvo. francesas. que Nina Sanduzzi foi ter com ele. ou se eles próprios se iam abaixo com a malária. as quais.tudo menos judias. almiscarado quente e languido para o acasalamento. Troçavam grosseiramente acerca do facto de ele ser judeu e circuncidado e preveniam-no de que não deveria poluir o sangue puro das mulheres. Esperara muito tempo. Meyer vivia nele porque era judeu e exilado e de dois em dois dias tinha de atravessar o vale até Gemello Maggiore. às voltas com os seus livros e a sua garrafa. Também estes eram um estorvo. não fosse o som das . tarde. italianas e árabes levantinas . Foi numa dessas noites. Mais cedo ou mais tarde acabariam por chegar e ele queria estar vivo para assistir ao acontecimento.humidade. mantendo os ouvidos atentos aos boatos que circulavam dentro e fora do vale. para assegurar a quaestura de que não estava doente nem morto. era por ser um homem fastidioso e também porque não queria encarar o futuro que se avizinhava com uma aldeã belicosa agarrada a si. Os alemães enviavam reforços para o Sul. Os Aliados estavam na Sicília. fenícias. espanholas. porque os exércitos eram como gafanhotos.

a ver bater à porta do médico. com barba de dias por fazer. moreno.suas socas de madeira acordar a aldeia adormecida. saindo pelas traseiras da casa. Seria extremamente doloroso por não haver anestesia e o homem corria o risco de morrer num espaço de dias. Quando despertou das suas divagações e a viu. por amor de Deus! Mais alguém sabe que ele está lá? . . Dei-lhe o pequeno-almoço e ficou dentro de casa todo o dia.Está bem. mas tratando-se de um soldado inglês era morte certa.Guarda isso. Encontrou o doente a delirar na enorme cama de ferro.Ninguém. mostrando-se irado. É desertor e está ferido. Aquece-me uma panela de água. para o caso de algum bisbilhoteiro. Chegou a noite passada. por favor? Trouxe dinheiro. olhos esbugalhados e uma boca que se babava e de onde saíam palavras entrecortadas e frases que ele reconhecia serem em língua inglesa. Fechou o livro. ainda acordado. e saltara o muro do jardim do lado do vale. Apresentava-se polposo e intumescido. como Lhe disse. passando o muro e descendo em direcção à pequena cabana escondida no meio dos azevinhos. mas inclinou-se sobre a cama e começou a cortar as ligaduras ensopadas que lhe cobriam o ferimento do ombro. nas faces chupadas. . Não fez qualquer comentário à rapariga. É capaz de o ir ver. Um trabalho complicado e nada fácil. Depois terás de segurar bem nele para eu poder trabalhar. Tem um buraco de bala no ombro.Tenho um homem em minha casa. Ao vê-lo. Meyer voltou-se para Nina.Nina! Que diabo fazes aqui? A mulher levou um dedo aos lábios para o calar e depois explicou em voz baixa. baixou a luz do candeeiro. irei. Meyer afastou-lhe a mão impacientemente. ela encontrava-se mesmo debaixo do foco de luz do candeeiro. Bonito serviço! Acoitar desertores já era suficientemente mau. todo vermelho e inchado. Retirou de dentro do decote do pescoço um pequeno maço de notas sebentas. um indivíduo alto. Quando voltei do trabalho.Acende o lume. A rapariga mostrou os dentes brancos num sorriso. . num dialecto matraqueado: . foi buscar a sua maleta de instrumentos e o seu pequeno stock de anti-sépticos e foi atrás de Nina. soltou um pequeno assobio de surpresa. tendo já principiado a deixar escapar lentamente uma supuração amarela. Assustou-se. . encontrei-o. .

colocaram-no na cama e Nina e Meyer sentaram-se a beber vinho e a comer uma côdea. Mas ele era uma pessoa cautelosa e acostumada à continência. e corajosa. Depois de terminado e de a parte mais dolorosa chegar ao fim. Não era dada à inércia e aos gritos como as outras.O doutor é boa pessoa . . Nina. mesmo para ela. A bala atingira a omoplata e encaixara-se obliquamente no osso. Quando fores para o trabalho.Então esperemos por mais tarde . Meyer sentiu a primeira tentação que o acometia em anos. voltarei cá. porta-se como um homem. Nina. calma e competentemente.disse Nina Sanduzzi suavemente. Espantava-o que tivesse passado por ela uma centena de vezes sem nunca reparar. . . O rosto da jovem era de um grego puro. Tinha o rosto mais esguio que o das suas conterrâneas camponesas. Os seios ressaltavam. e sentia-se-lhe uma vitalidade animal sob a pele cor de azeitona. mas à noite. . Não me atrevo a vir aqui durante o dia. . Ele está muito doente e poderá morrer. Se alguém descobre. dottore mio! Não estou habituada a ter homens aqui por casa! Enquanto subia a ladeira pedregosa.Já lá vai tanto tempo desde a última vez que tive um homem nos braços. pelo que acabou rapidamente de beber o seu vinho e preparou-se para partir. cheios e firmes. Olhando-a à luz do candeeiro. depois de a aldeia sossegar.O doutor quer que eu o ponha daqui para fora. Ela fitou-o espantada.disse Nina Sanduzzi.Num sítio cheio de porcos. doutor. doente como está? . enquanto o doente gritava desvairadamente.Mais tarde . Quando estiver melhor. Mas o prazer depressa se desvaneceu. . em tom fatigado.Agora vá. Quando havia algo a fazer. estás arrumada. com um sorriso. deitava mãos à obra.Agarrou-lhe na mão e beijou-a rapidamente. apesar da mordaça que Lhe tinham colocado na boca. Sabes isso perfeitamente.Entende uma coisa. e Nina Sanduzzi teve de recorrer a toda a sua força para o segurar. Faz um pouco de sopa e vê se consegues que ele não a vomite. . .Não podes mantê-lo aqui. tranca a porta e deixa-lhe vinho e comida. no quarto baixo. evitando a estrada . que será um prazer. Também era inteligente. Meyer foi obrigado a procurá-la durante vinte minutos..disse Meyer.

Precisou de mais de uma semana para afastar o doente de perigo. talvez três semanas. terá dificuldade em chegar muito longe. o indivíduo mostrou-se cauteloso em relação a eles. entre os acessos de febre e os longos intervalos de sono agitado. Quando é que acha que estarei suficientemente forte para viajar. Chamo-me Giacomo Nerone e sou atirador de Reggio. recusando-se. O ferimento era profundo. se entregasse ao vinho e às prostitutas da região. algo que os inimigos queriam que ele fizesse .Uma quinzena.e se aquela não seria uma mulher com a qual poderia ser feliz Tratava-se de algo de que tivera medo durante todo o seu exílio. Com Nina Sanduzzi poderia talvez continuar a evitá-lo. que se esquecesse de lavar as camisas e de se servir da faca e do garfo às refeições. Se forem interrogados. interrogou-se sobre se a continência não seria. O melhor era esquecer e ir para casa dormir. que por aquela altura começara já a comer e a falar um pouco. poderão responder com a verdade. a contar-lhes algo mais que não fosse a história que inicialmente relatara a Nina Sanduzzi. tal como todos os outros sacrifícios a que se prestava. onde tenho a família. até os primeiros alvores da aurora despontarem a leste e ser tempo de ele voltar para casa. . por Deus..principal. Até ali fora capaz de evitar tudo aquilo. que tal não aconteça. surgiram novas infecções e ele viu-se obrigado a drená-lo continuamente com os meios primitivos à sua disposição.que se tornasse brando. Mas este lugar está encravado no meio das colinas. porém. . mas. um desperdício sem sentido . Embora espere. Sempre que partia. Mais de uma noite ficou sentado ao lado de Nina a ver a febre subir e baixar. quando compreendeu a posição de Meyer como exilado político e os riscos que a rapariga corria por causa dele. Estoua tentar chegar a Roma. O seu sotaque não . nas colinas. doutor? Meyer encolheu os ombros.. a não ser que queira mais outra infecção.Mais vale que não saibam mais nada. antes de a aldeia saltar para fora da cama. Mas por onde é que faz tenções de seguir? Dizem que os Aliados acamparam a norte desta zona e estão a avançar de Reggio até à ponta. se integrasse com os da terra. sentia uma pontada de ciúme por deixá-la sozinha com o homem enfermo. Com os nossos homens a recuar e os alemães a descer. Todas as noites ele vinha sentindo a falta dela. descontraiu-se um pouco. mas corria um certo risco e ouviam-se cornetas soar ao longe. A princípio.

uma cama e comida. Perdeu dois filhos na guerra e tem um ódio de morte aos fascistas. não há qualquer razão para que não possa trabalhar para se sustentar. falarei com ele. sempre poderá dar uma ajuda. Mas temos falta de homens e há muito trabalho a fazer antes do Inverno. .Os olhos de Nina Sanduzzi esbugalharam-se. é claro. mas terei de pensar primeiro.é da Calábria. ..Não da maneira que imagina.... inseguro.Riu alegremente. Ouvi-o falar durante o sono.perguntou Nina Sanduzzi. . a não ser que volte a esconder-se.Porque não? . Não é muito. Não fiquem assim tão surpreendidos! Neste preciso momento anda por aí uma meia dúzia de rapazes a fazer o mesmo.Esquece o que ouviste .ordenou Meyer secamente. Perguntou secamente: . .disse Giacomo Nerone.Mas ela sorriu ao mesmo tempo. . Dois deles são da terra e os outros vieram Deus sabe donde.. Meyer anuiu..Não me está a compreender. Foi a vez de Nina não perceber. alguém acabará por fazer perguntas.Se ficar por cá.E nunca lhes falta uma cama! Eu podia arranjar-lhe trabalho com o velho Enzo Gozzoli.Tem aqui uma casa..Que mais esperam que eu faça? Aqui é que não posso ficar. mas durante a maior parte do tempo trabalham às claras.argumentou prudentemente .Vou pensar no assunto . e nesse caso onde arranjará que comer? Nerone sorriu com ar matreiro e ambos repararam de que maneira o humor o transfigurava. O homem moreno abanou a cabeça. . Os dois homens entreolharam-se..Estou muito grato. e ninguém tem vontade de armar confusão com o assunto. . .. Estas poderão ser-nos úteis mais tarde.Inglês! .disse Nerone.quando as coisas se modificarem por aqui. doutor. . Se aparece alguém suspeito. Também eles desistiram da guerra. É o capataz do meu grupo..Sou inglês . Meyer franziu os sobrolhos e depois disse asperamente: . Além disso. Mais cedo ou mais tarde. . . .A que se refere quando fala de ele ser leal a outras coisas? . Tudo indica que é leal a outras coisas. . os rapazes escondem-se.Ela deve ter razão. apresentando-lhes em seguida uma proposta que os deixou sem palavras. voltando a mostrar o rapaz que era. . Depois de uma pausa. Se quiser. Quando estiver melhor. . mas sempre é melhor do que morrer numa vala com outra bala no corpo. . .Está esquecido.E agora esqueçam o que eu disse.

Excepto que não mostrava inclinação para fazer o que qualquer homem nessa situação deveria fazer: tentar juntar-se à sua unidade.Meyer bebeu um gole generoso de vinho e limpou os lábios com um lenço sujo. a ouviu fechá-la . Era um homem .Ele podia ser uma de três coisas: um prisioneiro evadido. observando-a enquanto ela se inclinava para a cama. ao descer a colina.. Nina! .E a si. dottore mio. . . e eu teria tido muito gosto nisso. . A rapariga empurrou-o suavemente.Caso contrário ter-me-ia tomado há muito tempo.Não. . ainda não tinha ideia da sua identidade? . à noite voltava para casa de Nina e tornaram-se amantes. também. -. em voz branda.inquiriu Blaise Meredith. que lhe parecia ser? . Meyer afastou-se e pegou na maleta.retorquiu Meyer. agudo. o médico levantou-se. Deus sabe quanto! Mas quero-o todo para mim. o doutor está sozinho e passámos algumas noites juntos. tomou-a nos braços e tentou beijá-la. que a bebeu pensativamente. Um agente de espionagem? Sim. caro . Falava muito bem italiano. que.. .disse secamente.Analisei uma possibilidade de cada vez e tentei encaixá-lo no molde.E.Talvez . É Verão.Quero-te. um agente de espionagem britânico enviado para estabelecer contacto com os primeiros grupos de guerrilheiros. E foi assim que tudo começou? . . Mas eu não sou para si e o doutor sabe.Recostou-se na almofada. . .retorquiu Nina Sanduzzi. A rapariga serviu nova tigela de vinho a Meyer. começando a trabalhar para Enzo Gozzoli. Mais tarde viria a odiar-me.um som seco. . A seguir caminhou até à porta e abriu-a para deixar sair o médico. cerrou as pálpebras e alguns momentos depois adormecia... pegando no jarro de vinho. .disse-lhe ela. Um prisioneiro evadido? Sim. Fez um gesto rápido em direcção à cama. no ar lânguido. Quando Nina se voltou.Na realidade não me quer.Em três semanas ele pôs-se a pé e saiu de casa. para além do facto de ele ser inglês. ajeitando a cabeça morena na almofada. . ou um desertor. Agora não. Quero um homem. arranjando cuidadosamente as roupas da cama em redor do ombro ferido e detendo-se um instante na contemplação silenciosa do hóspede adormecido.Talvez fiques com ele! .Não.Precisamente . não um calão de cozinha e de bordel de soldados.

um talento para conduzir à realização das coisas. e por outros motivos. Estava a par da política local. Fazia-as rir retorcendo os sobrolhos pretos. o judeu de Roma. . Ele limitouse a rir e a dizer que Giacomo Nerone era um bom italiano e não via sentido na guerra. Uma vez restabelecido. Mas um desertor é um homem que tem medo. Tem um ar de fugitivo. Tinha ciúmes dele. monsenhor? Meredith acenou a cabeça com ar distante e Meyer encheu-lhe o copo.Parecia a categoria em que melhor se enquadrava. . quando Lhe lancei uns palpites para que se juntasse a mim numa tentativa para contactar com os guerrilheiros. Mas não dispunha de qualquer espécie de identificação consigo. mas Meredith fitava o vinho escuro da sua tigela com ar ausente. Vive na convicção de que um dia será apanhado.disse Meredith delicadamente. era um homem educado.Coragem. O resto? Não tinha bem a certeza. Mas.Parte dela já eu Lhe dei a conhecer .educado. Numa semana.Era of icial? . servindo-a.Deu alguma razão? . .O que nele me irritava era o facto de dar a impressão de . . corria o risco de ser fuzilado como espião.Era então um desertor? Meyer franziu os lábios pensativamente. boa disposição. . . Nerone achou-se como em sua casa. uma capacidade para levar à realização de coisas. Toda a minha vida experimentei essa sensação.disse Meyer. Contavam-lhe todos os escândalos.. Como digo.Não. Nerone não apresentava nenhum desses sintomas. sabe.. ensinavam-lhe o dialecto e repartiam o seu vinho com ele. Tinha o hábito de tomar decisões. Avisei-o de que. se fosse capturado naquelas condições pelos alemães e pelos italianos. Eu continuava a ser um forasteiro. . Aldo Meyer lançou-lhe um olhar rápido e avaliador.Compreendo o que sentia . Eu vivera no meio daquela gente durante anos. passou a comportarse como um homem livre. Continuou. .Por isso. também. Com a excepção de que nunca servi ninguém.Por causa de Nina Sanduzzi? .perguntou Meredith. Mais vinho. . . As mulheres adoravam-no.Foi o que me pareceu. Recusou delicada mas deveras firmemente. Os homens confiavam nele.Que opinião tinha acerca do seu carácter neste primeiro período? . recusou. Nunca chegara a aproximar-me verdadeiramente dela.

Meredith acenou afirmativamente a cabeça. . Quanto ao resto. não? Meyer abanou a cabeça.Por favor. . Parecia considerar-se como um deles. terá de falar com Nina. . Creio que nunca me senti tão ciumento dele como nesse momento.Eram felizes juntos. ou quando. a sua história e os seus costumes.Lamento estar a pressioná-lo desta maneira. . . Tento dar-lhe dados em primeira mão. Para ele.Demonstrava preocupação para com eles? .. o relacionamento no seio destas. Havia uma calma na sua pessoa. sentia animosidade para com ele. Quando não o via. uma bondade. Via-se-lhes bem nos rostos.Compreendo. O que mais o interessava era sobretudo a região em si.A fase seguinte principia em finais de Outubro. Era mais do que desejaria saber. Não estou com subterfúgios.Quais eram as relações dele com Nina Sanduzzi? Meyer sorriu amargamente e abriu as mãos num gesto de deprecação. doutor. .De que maneira reagiu ele ao facto? . eu ficava conquistado. mais tarde. continue. Tivera a sua guerra. Mas quando nos encontrávamos de passagem.Essa é a parte estranha.De que falavam? . as pessoas. Eu estivera tanto tempo à espera que ansiava por acção e por mudança. Viera não se sabia . .A princípio.Quer dizer que não se davam muito bem um com o outro. Era como se tentasse esquecer-se de tudo o que Lhe dizia respeito e deixar-se absorver pela vida dos montanheses. A mesma espécie de característica que o monsenhor encontra agora em Nina Sanduzzi.De tudo. excepto de Nerone. Nerone chamou-me para examinar Nina. Estava grávida de dois meses. Ambos ficaram. Recusava-se a qualquer assunto que pudesse dar-me uma pista acerca da sua identidade. a meio do Outono. tratava-se de algo perfeitamente natural. ele se habituou a vir até minha casa ao fim da tarde para conversarmos ou pedir-me um livro emprestado.Ficou satisfeito. Mas compreende o que me compete fazer. Nenhum esquema para seu benefício. . Mas não tinha planos como eu. suponho.. . . Sentia-se satisfeito com a situação vivida na altura. . Eu nada mais sabia. Como se a única coisa que importasse fosse o presente. não.considerar tudo garantido e definitivo.

" . haverá tempo de sobra para sinos de boda. dottore. não há qualquer vergonha em ser filho de pai incógnito). Havia carvão armazenado.. a comuna dava um pequeno donativo a quem Lhe mantivesse as estradas limpas e o cascalho .Ela desejava esse casamento? . Disse: "Depois de sabermos o que o futuro nos reserva.não porque estivesse preocupado (num país onde não há homens.No entanto. muito simplesmente e a propósito de nada: "Vai ser um Inverno mau. . .Como? .disse Meyer prudentemente . salame. vinho nas pipas e azeite em grandes garrafões verdes. depois disse: . doutor.Não.Lembro-me da parte seguinte com muita clareza. antes de a guerra começar a pender para o torto. não tomara nenhuma iniciativa para casar com Nina? . quando havia ainda uma autoridade e um objectivo na terra. e os moinhos tinham farinha para vender para a pasta. É melhor começarmos já os dois a preparar-nos para ele!" . mesmo que houvesse que esgravatar no fundo dos bolsos para encontrar dinheiro para os comprar. Os alhos pendiam em tranças das vigas.Qual foi a resposta dele? . antes de os homens serem levados. Em tempos idos. o Inverno fora suportável .E Nerone? Meyer baixou o olhar para as costas das mãos abertas como aranhas sobre a madeira quente da mesa. .donde e alcançara o que toda a vida me escapara: aceitação. Foi Nina quem respondeu. Precisamente quando acreditava ter percebido o que Nerone era (um passante da noite que não tardaria em pôr-se a caminho antes de a madrugada raiar). Hesitou por um momento.Disse. as aldeias estabeleciam um comércio de trocas entre si. amor e a promessa de um objectivo e de uma continuidade. as espigas de milho empilhavam-se a um canto e havia batata enterrada em palha. Havia queijo para comprar. Os alimentos estavam lá. Antes de as neves se cerrarem. presunto fumado e lentilhas. e. mas porque queria ver que tipo de homem ele era. .quando não mesmo um período feliz.Falei do assunto aos dois .Nenhuma. quando o trabalho nos campos abrandava até parar completamente.. mais uma vez ele me surpreendeu.

mas acrescentou mais algumas observações pessoais. Além disso. Nerone atirou a cabeça para trás e riu a bandeiras despregadas. sentiam as primeiras rajadas de chuva. sorrindo.Por amor de Deus. as colheitas eram pobres e as requisições do chefe do quartel levavam a melhor parte. . E em Gemelli dei Monti cheiravam o vento. os rapazes começavam a voltar. Mas naquela altura não havia homens. Era uma vida . reunindo-se a unidades ainda em acção ou vendendo-se a si mesmos. uma pessoa.sem ser muito agradável. . desertores e patrulhas que infestavam os caminhos? Mais valia ficar em casa e viver da própria gordura acumulada o mais que se pudesse. porque quem levaria a carroça do burro até ao mercado.Eles quem. . sujeitando-se aos ladrões." Giacomo Nerone também o disse. esperando por uma pequena retribuição da sua bondade. homem! Não sabe do que está a falar! Você anda fugido! Eu sou um exilado político. Já não havia governo.espalhado nas vias cobertas de gelo.As autoridades. ou aos conhecimentos que tinham da localidade. aos destacamentos alemães que se deslocavam para sul a fim de iniciarem o ataque ao 8º Exército dos Aliados.perguntou-lhe Nerone. Já não vemos nenhum deles . . doutor? . Meyer fitou-o. na esperança de que os seus pagamentos chegassem ou. Teremos de encabeçar a organização. A polícia. Aqueles que tinham tido um comportamento malvado estavam de partida.O doutor e eu somos as únicas pessoas com alguma inteligência e influência por aqui. chegava a ouvir a torrente rugir. fria e enfaticamente. Os funcionários que se tinham mostrado pessoas razoáveis ficavam. desorientados.Meu caro doutor! Esses tipos andam tão assustados neste preciso momento que só estão interessados em salvar a própria pele. embasbacado. Mal deitemos os pescoços de fora. desiludidos e esfomeados . Os carabinieri. A troca comercial estava reduzida a nada. a cheirar os primeiros ventos quentes do Sul e a sentir o gelo derreter nas botas com a chegada da Primavera. caso contrário. contavam as primeiras geadas e diziam: "Vai ser um Inverno mau. quando se apegava a ela durante tempo suficiente. O prefeito de Gemello Maggiore.mais bocas para alimentar com as rações já tão parcas. eles fazem-nos cair o machado em cima. . é certo mas.

. e que depois formávamos uma comissão para administrar as provisões.disse Nerone calmamente. alemãs. sem mais delongas. . Cada uma destas famílias vai tentar trazer mais uma para esta combinação. quando há fome. Disselhes que Nina e eu seríamos os primeiros a fazer uma contribuição.Tenho dez famílias que concordaram em ceder um quarto das suas reservas alimentares para um armazenamento comum destinado ao Inverno. passarão busca às casas à procura de alimentos guardados.Falei com eles. Preferiam comer os fígados uns aos outros a deixarem uma côdea de pão passar de uma casa para outra. não a eles. é assunto que nos diz respeito. Nós mesmos tratamos disso. . . .Então ensinar-lhes-emos o passo seguinte . Temos de Lhes arranjar mais medicamentos e tentar obter mais cobertores. . Dois homens e uma mulher.Começou uma ova! . Giacomo Nerone sorriu e encolheu os ombros. . O doutor.Não compreende esta gente. Nessa altura.Tratamos de quê. .Já comecei. Temos de nos certificar de que todos arranjam alimentos e combustível suficientes para se manterem vivos durante o Inverno. dos Aliados. . fazem lembrar aves de rapina. Temos de improvisar uma loja central e zelar para que as rações sejam distribuídas equitativamente. evidentemente.comentou Meyer sombriamente . . enquanto as coisas vão bem é que temos de colaborar uns com os outros e arranjar um local secreto para fazer de armazém colectivo.Não entendo como conseguiu fazê-lo.Não consegue fazê-lo.. .Do problema elementar que será a sobrevivência durante três meses. mas no fim concordaram.por aqui há semanas. o doutor e eu daremos uma volta e tentaremos chamar à razão aqueles que ainda estiverem de fora.Você está louco! . Não. como será inevitável no Inverno. . A família é a única coisa que conta. O resto pode apodrecer numa vala..e nunca fui capaz de fazer nada que se parecesse com isso. . Quando as coisas piorarem. mas.Tenho vivido aqui durante todo este tempo .Transformá-los-emos numa tribo. eu e mais três. Em tempos normais são grandes sovinas. como prova de boa fé. Chamei-lhes a atenção para o facto de ainda irem aparecer mais requisições: italianas. por amor de Deus? .declarou-lhe Meyer.Há que pagar um preço por isso. Além disso. Levou um bocado de tempo.

e ele paga sempre as suas dívidas!" . não foi? . -. . A seguir disse: "Amo este homem.Isso satisfê-lo? Meyer soltou uma risada e recostou-se à cadeira de maneira a chegar ao jarro de vinho. Encontrava-se a seu lado na altura.retorquiu Nerone pensativamente . Recordações saltavam vivamente por trás dos olhos pensativos de Blaise Meredith. . Não tem medo de nada. monsenhor. Levantei-me e fui para casa. recordo-me. . .E foram bem sucedidos? .. . Nerone e eu voltámos a encontrar-nos e iniciámos os preparativos para o Inverno..Não. e inclinou-se para lhe beijar o cabelo e depois segurar o rosto entre as mãos.Meyer fitou-o intrigado.Meyer fez um trejeito melancólico com a boca. No dia seguinte.mas creio que acabará por ser muito elevado.Foi onde o enterraram . . só existe uma solução.Não está a perceber. . Foi onde o enterraram..Pedi.repetiu Aldo Meyer. Quando se vê um homem e uma mulher naqueles termos e quando nós próprios estamos apaixonados pela mulher. E ela não está ao nosso alcance.Ainda não sei . Ele chegou a explicar o que queria dizer? perguntou Blaise Meredith.O doutor pediu-lhe que explicasse? . Antes de as primeiras neves chegarem..Que preço? . todos os que viviam em Gemello Minore tinham concordado com o plano e já estavam cerca de dez toneladas de mantimentos bem escondidas na Gruta do Fauno. ..A Gruta do Fauno..Mas mais uma vez foi Nina quem respondeu por ele.Fomos. . dottore mio.

Black diz-me que o seu filho é inteligente e cheio de vontade. também é bom para si. debaixo da figueira. . . .E trabalho . Aldo Meyer. no carreiro do lado de fora. demorara um pouco mais a tomar o pequeno-almoço e a fazer a ttoilette e a tagarelar dez minutos com Nicholas Black. ligeiramente triunfante. . Levantara-se tarde. Nina Sanduzzi encolheu os ombros com indiferença. Anne Louise de Sanctis sorriu benevolamente.Compreende . Pagar-Lhe-emos o salário de um homem. . .Ainda não discutimos o pagamento. dera uma vista de olhos às contas domésticas e ao menu para a refeição da noite. com o Dr. enquanto Paolo arrastava os pés de um lado para o outro. quando o criado a informara de que Nina Sanduzzi estava à sua espera juntamente com o filho.Qual é a opinião dele sobre o assunto? Está satisfeito por vir para aqui? .CAPíTULO XI Enquanto Blaise Meredith conversava.Utilizou um tom formal e distante para indicar o fosso profundo que existia entre a castelã e a serva. Está pronto para começar a trabalhar.retorquiu Nina Sanduzzi calmamente. O Sr. as mãos placidamente pousadas no regaço. e. mas menos maldisposta do que o habitual.O dottore disse que a senhora pagaria o que é costume. óptimo! Desde que seja trabalho de homem! . coberta do pó da estrada. mas direita e orgulhosa qual árvore à espera das rajadas do vento. .Quem pode adivinhar o que um rapaz sente? Está aqui. que saíra depois para o jardim com a sua maleta de pinturas.Isso é bom para o rapaz. depois instalara-se no salão e mandara um criado buscar Nina Sanduzzi. A condessa estava sentada numa cadeira de costas altas.Faremos melhor do que isso. . observando atentamente o rosto inexpressivo da camponesa que se mantinha de pé à sua frente. Se ele trabalhar bem.Por um trabalho de homem. com uma aparência fresca e cuidada. Anne Louise de Sanctis sentava-se no salão ornamentado da villa a falar com Nina Sanduzzi. Naquele momento encontravam-se as duas sozinhas. pés nus nas socas de madeira.disse Anne Louise de Sanctis trata-se de uma grande oportunidade para o rapaz. entretendo-se a ver os jardineiros a movimentarem-se acima e abaixo dos canteiros e o voo preguiçoso de uma borboleta amarela por entre os maciços de flores. .

Estranho que nunca tenha casado consigo.O pai! Giacomo Nerone foi seu amante.ripostou-lhe a condessa rispidamente. pode ser que venhamos a fazer muito por ele: dar-lhe uma educação.Ele foi o homem que eu amei . Costumava dizer que primeiro há que educar o coração e só depois a cabeça.A resposta foi mordaz.Não devia ter incomodado Monsenhor Meredith . ajudá-lo a ter uma carreira. Nina Sanduzzi anuiu pensativamente. inclinou-se e pegou no cesto de palha com que andava sempre. .Pedi-lhe que conversasse com o rapaz e o ajudasse. E que poderia haver de mais importante do que o filho de Giacomo? Além disso. Sentia ímpetos de atacar a outra mulher e deixar-lhe a marca dos dedos nas faces cor de azeitona.Se o rapaz trabalhar bem e mostrar qualidades. . o monsenhor disse que teria muito prazer em ajudar. tirou um pequeno embrulho de papel e entregou-o à condessa. Ele está a viver anos complicados. . com vivacidade forçada. obrigada que estava à diplomacia e a uma aliança de sorrisos e dissimulação. A frase ficou suspensa no silêncio que se gerou entre ambas. enviá-lo para Roma. evidentemente. . Terá alimentação e será confortavelmente instalado. Procurou no interior deste.disse a condessa.Falei com o monsenhor de Roma . senhora.Deixe o rapaz aqui.Anda atarefado com o meu Giacomo. Limitou-se a dizer: . talvez.Ele amava-me e amava o rapaz. o jardineiro indicar-lhe-á o que deve fazer. Anne Louise de Sanctis estava irritada. . espirituosa e condescendente. . não Lhe apreendeu o sentido oculto. .Pode retirar-se . Declarou com brusquidão: . Em vez disso.O rapaz ficará aqui alojado. Nina Sanduzzi não esboçou nenhum gesto para se retirar. . .O pai era um homem educado. . . mas os seus olhos continuavam velados e inexpressivos como os de um pássaro.disse a condessa. Não houve qualquer lampejo de emoção nos olhos impávidos e no rosto calmo. mas a condessa. por não conhecer bem o dialecto.Com certeza .É um homem doente e anda atarefado com muitos assuntos importantes! . Mas era uma indulgência a que não podia permitir-se. . Continuou a falar. não é verdade? . Pode tê-lo em casa aos domingos.disse Nina Sanduzzi.disse Nina Sanduzzi tranquilamente.

Não deve apresentar-se de mãos vazias. . lado a lado. da parte do seu filho! Anne Louise de Sanctis nada respondeu. Não dispomos de indicações quanto à sua crença religiosa ou à sua atitude moral. com quem falará esta tarde. Recebeu o pacote e disse desajeitadamente: . Posso perguntar o que é? . Quando. e nessa altura isso será precioso para si. A graça simples do gesto embaraçou a condessa.Nós somos gente pobre . o que o doutor me contou. Tem o seu sangue. ele chega a uma situação de crise... e a visão de um pedaço de relvado verde onde um rapaz caminhava ao lado de um jardineiro . está a viver em pecado. segundo os meus registos. Os seus actos. Certamente muito menos do que Nina. na qual.. Mas sei alguma coisa. É do que ele usava quando o mataram. . Passavam alternadamente da luz para a sombra e os seus sapatos faziam um som seco e sonoro nas pedras. um homem que assume a liderança e a responsabilidade pela comunidade que Lhe deu refúgio. passado um longo momento. O seu presente. Aldo Meyer e monsenhor Blaise Meredith tinham-se levantado da mesa e caminhavam. O seu futuro uma dúvida na sua própria mente. Damos do nosso coração. o rosto mortalmente pálido. . ao longo do carreiro coberto de lajes que se estendia a todo o comprimento do jardim. Pode ser que algum dia Giacomo venha a ser um beato.disse Nina Sanduzzi cautelosamente. É um presente.Deu um pontapé num pequeno seixo e ficou a vê-lo precipitar-se em direcção ao muro rudimentar de pedra. movendo os lábios num murmúrio surdo. Gostaria que ficasse para si.que temos? Um homem em fuga. O seu passado é um mistério.O meu filho vem trabalhar para a sua casa. para cima e para baixo. voltou a erguer os olhos. Aparentemente. Dou-lho a conhecer sem Lhe acrescentar nada.Chegados a este ponto . bons na essência. Agora. Que sabe acerca desse facto? .. limitando-se a ficar sentada a olhar hipnoticamente para o embrulho. não têm valor espiritual. ou em resultado da qual.Obrigado.disse Meyer deliberadamente. um homem apaixonado.Agora vejamos.. se afasta da sua mulher e se vira para Deus. e não da nossa riqueza.Talvez menos do que deveria . .Que é isto? . atravessando partículas de poeira...um rapaz que poderia ter sido seu filho.disse Meredith no seu tom preciso de homem de leis . Nina Sanduzzi já se retirara e havia apenas a luz do Sol a entrar obliquamente.

a de Giacomo Nerone. e. As patrulhas acampadas nas colinas perdiam homens devido ao frio e à gangrena. Os vagabundos e os desertores batiam às portas durante a noite e se estas não Lhes eram abertas. as gargantas doridas e os peitos congestionados. que depositaram uma camada macia sobre a geada endurecida que estava por baixo. mastigando cegamente a côdea comum. o chão de terra estava enregelado e o vento procurava a todo o custo esgueirar-se por entre as frinchas das portas e os caixilhos rudimentares das janelas atafulhadas de lama e jornais velhos. faziam de conta que não ouviam. amontoou-se ao longo das estradas e em tudo o que era reentrâncias. praguejavam em coro até elas finalmente pararem e ouvirem as passadas afastar-se ruidosamente pela neve gelada.. No interior das casas. ou ir buscar o comer e fazer café. deixando-lhes saliências de gelo aguçadas que faziam lembrar ondas picadas num mar branco morto. . Depois chegaram novas acalmias. O Inverno foi mais duro do que alguma vez sonharam ser possível. Havia somente uma pancada que conheciam e uma voz à qual respondiam . Os idosos tossiam e gemiam com o frio que Lhes tolhia as articulações com reumatismo.porque quem faria caixões com aquele tempo pavoroso.. Quem senão ladrões. esperando pelo degelo. A neve chegou dos altos picos de oeste. as famílias apertavam-se nas enormes camas de ferro. cada habitação transformada numa ilha num mar de neve. Se alguém batia à porta. quem cavaria o campo santo quando o solo se apresentava duro como granito? Viviam como animais em hibernação. sob a forma de tempestades cerradas.. quando algum deles morria. morriam na neve antes de o dia raiar. partiu os ramos às oliveiras e formou montes contra as portas das casas. Cortou os caminhos da montanha. era carregado para fora de casa e enterrado na neve até vir o degelo . levantando-se apenas para satisfazer as necessidades. porque o carvão armazenado tinha de ser poupado. os exércitos envolvidos sustinham armas. os jovens agitavam-se com as bochechas vermelhas. seguidas de novos nevões. loucos ou esfomeados andaria lá por fora com aquele tempo? Se as batidas eram persistentes. em busca de calor. Transformou-se em gelo duro e o vento soprou-lhes as partículas mais finas. A sul. interrogando-se debilmente sobre quanto tempo mais durariam e se mais alguma vez haveria outra Primavera. aproveitando o calor dos corpos uns dos outros. em contacto estreito com os odores de cada um.

os bolsos a abarrotar de aspirinas. bebeu a grappa de um só gole e disse abruptamente: . Que há de diferente esta noite? Nerone ignorou a ironia e continuou. Se precisassem de Meyer. com as botas envolvidas em sacos e o corpo coberto por camadas de farrapos e. A sua última visita do dia era sempre a Aldo Meyer. limpava as imundícies acumuladas e depois seguia o seu caminho. Então.um gigante de barba negra. A princípio mostrou-se entusiasmado e exultante diante daquele desafio à sua força e vitalidade. começou a andar nervoso e preocupado. desde que o padre Anselmo envelhecera. na cabeça. mas ele recusou-se terminantemente a fazê-lo. um gorro improvisado com uma meia de Nina.redarguiu Meyer suavemente. quando Dezembro deu lugar a Janeiro sem que o Inverno abrandasse. Giacomo entrou em casa de Meyer. Se o que lhes fazia faltaera um padre. tentava arranjar um . fazendo a ronda pelas casas . Bebiam um dedal de grappa.Nunca Lhe contei por que razão vim para cá. sorridente. nada de mais natural num homem que dormia pouco e pensava muito. já era tarde e novo vento começara a soprar para piorar a situação. medicava-os quando podia. Mas antes de partir tinha sempre cinco minutos para transmitir notícias e cumprimentos e alguns minutos para uma piada que os deixasse a rir. certa noite. . ele trá-lo-ia.São coisas suas. pois não? . perdera o vigor e não tinha vontade de se mexer. quando saísse de novo para a desolação que reinava no exterior. Então. parecendo.Pois gostaria de Lho contar agora. um frasco de óleo de fígado de bacalhau e uma miscelânea de medicamentos. ficava apenas o tempo que era preciso. a ficar alguns dias em casa com Nina. cheio de rações.Não havia dia em que ele não passasse. cozinhava um caldo para os que se encontravam incapacitados. . nunca mais. . deixou cair a sua mochila no chão. Quando chegava a uma casa. dedicar-se à sua missão ainda com maior ímpeto. além de que o jovem cura de Gemello Maggiore tinha as mãos demasiado ocupadas com os seus próprios moribundos. às costas levava um velho saco da tropa. depois disso. examinava os doentes.Já é costume . Passava-lhes em revista as provisões de alimentos.Meyer! Quero falar consigo! . Meyer incentivou-o a descansar.operação que era bastante mais complicada. trocavam impressões e depois Nerone mergulhava colina abaixo em direcção à cabana de Nina. Não era obrigado a dizer-me.

Apanhou um dos meus rapazes. . .respondeu Meyer. Limite-se a escutar.Fugiu. A sua guerra chegara ao fim. Havia um beco. Atirei uma granada pela dita janela. É o elemento humano.Um homem tem o direito de dizer disparates quando sente necessidade de tal. Atiradores acoitados.Porquê? Preciso. Era o último reduto por conquistar na Sicília. . Quando chegámos à casa. algum posto de metralhadora. à entrada do beco.Também sou desertor. O bebé apanhara a deflagração em cheio. Cumprira a missão para que fora pago.. Sou inglês. .. Meyer? . Correcto? . .Calculava. Mas para onde esperava ir? .Até que ponto o desprezo? .disse Meyer.Que quer que diga? .Mais ou menos. Diga-me.Porque veio para aqui? - . Tire as conclusões que quiser. por amor de Deus. Eu estava na guarda avançada do ataque a Messina. Para nós não apresentava dificuldade..Não diga nada. achou que chegava para si. Os alemães começavam a recuar a toda a pressa. Portanto.Fui educado na Sua crença . com as janelas voltadas para nós e um atirador na de cima.Eu sei . com um sorriso. como sabe. acredita em Deus. Avançámos. um velho pescador com a mulher e uma criança de berço.. Houve novo tiro. Não tem nada a ver com Deus. Digamos que encaro a questão com um espírito aberto. . É uma boa razão .Está bem.Acontece na guerra .perguntou Meyer.Sou capaz de começar a dizer-lhe disparates. É capaz de entender? . ficando de sobreaviso.Sim.Os meus amigos fascistas fizeram os possíveis para me convencer do contrário. Porque pergunta? . Manteve-nos parados durante dez minutos. esperei pela explosão e depois entrei. segui a rotina habitual e gritei uma ordem de rendição. o que não sabia.Mas eu fui o elemento humano. A minha companhia recebeu ordens para passar a pente fino os oitocentos metros quadrados de barracas que se estendiam até às docas.Não fazia ideia. .disse Meyer friamente. . . Não passava de uma operação de limpeza. Encontrei o atirador.retorquiu Giacomo Nerone. . .. Sou oficial.. . nada. Depois achámos que Lhe tínhamos acertado. desta vez da janela de baixo. com um bom humor seco. A vossa gente estava derrotada. entendo. Todos mortos.

Continua a não ser. meu amigo.Eu sei . dizendo com bom humor: . .Anda a vogar em águas fundas.respondeu Nerone sombriamente . tudo se torna monstruosamente importante. Quando começámos a fazer algo por esta gente. Quando engravidou.Nunca é . Ao vê-lo protestar.. Anda a dar cabo de si com a fadiga e a subalimentação. um conselho médico. os outros rastejam-lhe para cima em busca dos restos.. Nunca teve bem a . Nerone agarrou no copo com as mãos trémulas e bebeu sofregamente.. . Nerone? . a reparação ainda menos. A morte nada significa. ela representou um refúgio.. cada morte.Não tem qualquer significado . Todo este vale poderia enregelar até morrer que tal nada significaria.In vino veritas. durante muito tempo.Se não tem. depois limpou a boca gretada com as costas da mão. Disse sombriamente: .Não me pressione.. absolutamente nada. Meyer aproximou-se e sentou-se na beira da mesa.. . Quando nos apaixonámos. senti como se tivesse desfeito o que fizera.. .retorquiu-lhe Nerone.. Um de nós morre.Você acredita em Deus. não passa tudo de uma brincadeira monstruosa. Chame-lhe uma obra do acaso. disse com um humor frio: . Não foi o suficiente. cada vida.. Mas se Deus existe. . homem! Deixe-me contar tudo! Meyer encolheu os ombros e deitou uma quantidade extravagante de grappa no copo de Nerone. Beba.Quando conheci Nina. deixei de o fazer..E agora? . . foi mais.Mas que tem Deus a ver com isso? . ... voltar a pôr uma nova vida no lugar daquela que destruíra.E a reparação? . se quiser. meu amigo alertou Aldo Meyer suavemente. Somos formigas sobre a carcaça do mundo. Meteu a cabeça entre as mãos e começou a passar os dedos pelo meio do cabelo.Antigamente acreditava.a não ser que uma pessoa se dê a si própria como parte dela.Também não sei. foi a minha maneira de reparar o que fiz ao velho pescador e à mulher. . movimentando-se atarefadamente para lado nenhum.comentou Aldo Meyer. uma espécie de absolvição.Estou prestes a afogar-me nelas. gerados sem objectivo. em voz desprovida de qualquer inflexão.Deixe-me dar-lhe um pequeno conselho. Depois..

Só têm duas coisas a fazer em relação a Deus: reconhecê-Lo como os católicos ou negá-Lo como os comunistas.Sabe.disse Meyer. desfiando pensativamente uma das folhas grossas e rijas e sentindo a seiva peganhenta nos dedos.observou Meredith pensativamente - .Dantes era católico. .Mas a minha história tem falhas. Nerone fitou-o com o rosto escuro e barbudo descontraído num sorriso.disse Meyer lentamente. muito cuidadosamente. .Ocorre periodicamente . Meyer. Tem a religião encravada no espírito e carregará com ela até ao dia em que morrer.Poderá dar um bom comunista. Se me dá licença que o diga.. começa a preocupar-se com o facto. . mas nunca poderá ser um bom liberal. É por isso que no século xx já não há lugar para vocês. exasperado. os liberais. cometem o vosso erro. Se quer um conselho de médico.Este é o primeiro vislumbre que obtenho de um aspecto que se procura sempre em cada história de uma causa: a entrada de Deus nos cálculos de um homem. .. horas de sono insuficientes ou falta de satisfação sexual.certeza de que procedeu bem ou mal em se afastar da sua guerra. excesso de trabalho. Tinha obrigação de saber que as coisas não são assim tão simples. Tenho de pensar nela. Arranjem uma raçÃo extra e permitam-se uma festa. . o início de uma relação Criador e criatura. é aí que todos vocês.E que é o senhor? . Vocês querem reduzi-Lo a uma dor de barriga ou a um tema de conversa para durante o café e os charutos..O seu problema é esse . . fica preocupado com Deus. Terá de as preencher recorrendo a outras testemunhas.perguntou Meyer. . Meredith deteve as suas passadas e manteve-se por um momento à sombra da figueira. de repente. e. .Se houvesse escritos .. . doutor.. . fique em casa e brinque aos recém-casados com Nina durante alguns dias. Se esta situação se mantém.. Passado um bocado disse: . Agora. O doutor é judeu. Mas a minha receita mantém-se. à laia de conclusão. metade do misticismo insignificante do mundo provém de dificuldades digestivas. como Nina Sanduzzi. o início da aceitação das consequências da crença. No fundo não passa de um absolutista.Pensarei nela. Fez um bom trabalho por todos nós aqui e ainda continua a fazê-lo. por estar fatigado.

. Os olhos de Meredith deixaram transparecer um brilho de prazer circunspecto. com ar sombrio . .É um bom confessor. Meyer fitou-o com estranheza. serrando uma oliveira caída. Era o seu primeiro trabalho de adulto e tinha as mãos desajeitadas e inexperientes.concordou Meyer desajeitadamente.constituiriam uma grande ajuda. suponho.Eu próprio ainda não os li. . Foi Nina quem mo entregou. Ainda não o abri. Ainda bem que falei consigo. Depois entregar-lhos-ei amanhã.observou Meyer. . Está bem assim? .ficará perto de Deus. Vê-los a rir-se dele teria sido uma agonia. O lugar era novo e estranho. surpreendido. indivíduo taciturno.Depois . Meredith fitou-o. Gostaria de os ler esta tarde.Se não se importa de esperar um bocado . Algures entre eles talvez esteja a resposta a muitas das perguntas que me importunam há muito tempo. monsenhor? . Poderia apreciar-se uma atitude pessoal que explicaria as relações exteriores. Sentia-se satisfeito por estar sozinho. Estão em meu poder. No canto mais afastado dos terrenos da villa. Leve mais tempo. para merecer a sua ração. com um sorriso fatigado. e precisava de tempo para . se vê que precisa. Paolo Sanduzzi trabalhava. monsenhor.disse Blaise Meredith.retorquiu Meyer. enquanto o monsenhor for falar com Nina. Tenho tido receio deles. O jardineiro-chefe. juntamente com o resto das minhas próprias provas. ele próprio curtido pelo tempo e escuro como uma árvore. Pensar em todo o tempo que desperdicei aterroriza-me. . tendo toda a árvore cortada em madeira e esta amarrada aos molhos antes do pôr do Sol. .Existem escritos.Porquê. e no pouco que me resta. deixara-o ali com a indicação breve de que devia manter as mãos afastadas dos bolsos e trabalhar.Certamente.Posso vê-los? .Pela primeira vez na minha vida. Disse: . um receio muito parecido com aquele que tem em relação ao seu pedido de um milagre.Tenho um embrulho de tamanho considerável.Aí tem o que me aterroriza acima de tudo . . Até agora não tinha bem a certeza se desejava saber a resposta.É quanto basta . . . Meredith.São muitos? .Se ao menos soubesse até que ponto me sinto satisfeito por ouvi-lo fazer semelhante observação. começo a estar próximo das pessoas. para lenha.

partilhando a cama com uma das moças novas. nada de tão estranho como imaginara. Gostava do som que fazia e do cheiro. enquanto a serradura caía sobre as folhas a seus pés. até mesmo banheira e sanita. menos constrangido e receoso da condessa. enquanto a ele lhe caberia o seu lugar próprio . por vezes. até que. começou a apanhar-Lhe o jeito e os dentes morderam certeiramente a madeira. A madeira estava seca e era fácil de cortar. muito mais acessível. e depois de cortar os galhos com uma machada. e do inglês. a quem já encontrara demasiadas vezes. e quem sabe se na hora da sesta seria possível passarem algum tempo juntos.um cubículo estreito ao lado da cabana das ferramentas. ao que parecia.apanhar o ritmo à ferramenta que estava a utilizar. mas ele sentia-se demasiado ansioso e a serra emperrava-se-lhe e vibrava-lhe nas mãos. todas as pessoas tinham automóvel. em companhia das restantes criadas. porque o sol estava quente. agora. Roma estava muito mais próxima. que ainda não encontrara. Talvez até conseguisse arranjar maneira de concretizar o seu desejo mais ardente: sacudir o pó da aldeia das suas sandálias e ir para Roma. onde o papa e o presidente viviam e as ruas se mostravam cheias de fontes. com os seus olhos trocistas e a boca . Ele dera o primeiro passo. sentia-se mais seguro. ele sentir-se-ia melhor. Quando ela ali estivesse. Dormiria nas instalações destinadas às mulheres. uma cadeira e uma caixa com uma vela em cima. com um colchão de palha. que sabia mais acerca de seu pai. que o seu segredo era conhecido e partilhado com o médico. Fora daquelas maravilhas que o pintor Lhe falara muitas vezes. assim como o idioma daquela vida entre os signori. O facto de ser filho bastardo deixara de ser um mistério aterrador. assim como do sabor salgado do suor a escorrer-lhe pelo rosto. lembrou-se naturalmente de Nicholas Black. lançara-se à tarefa de serrar os ramos principais. ou a limpar o pó e a polir na villa. Teria sido agradável ter Rosetta ali sentada junto dele para conversarem e ela admirar a sua perícia. Despira a camisa. mas a jovem só viria no dia seguinte e nessa altura ficaria na cozinha com a cozinheira. Deixara a aldeia e penetrara no mundo verde e restrito da villa. e a sua magia ainda se fazia sentir fortemente nele. Pensando em Roma. a pouco e pouco. mais senhor de si. Agora. até aos cantos da boca. e sentir-se atraído pelo inglês não era. Mas teriam as refeições para se encontrar e falar e os domingos para passear. as raparigas usavam roupas e sapatos elegantes e todas as casas tinham água corrente e.

esperando ver o inglês atrás de si.Santo Deus. Paolo reparou que não faziam menção da sua mãe. Black diz-me que tu és inteligente e aprendes com facilidade. enquanto seu pai se passeara naquele mesmo sítio como convidado da casa. sentiu vergonha dela. Paolo. .retorcida num sorriso que podia levar uma pessoa a sentir-se ou um homem ou uma criança. os braços caídos ao longo do corpo.Que rapaz encantador! . Isso é óptimo. Sem saber o que fazer ou dizer. pelo que vejo. sentindo o suor a escorrer-lhe pelo rosto e pelo peito. em deferência para com o teu pai. . A impressão era tão vívida que. num novo vestido primaveril.A árvore está suja. as roupas grosseiras e os pés nus e cobertos . Sabias que eu conheci o teu pai? .A condessa soltou uma risada sonora e cristalina. Paolo? . talvez possamos fazer de ti um cavalheiro como o teu pai era.O meu pai trabalhou para si. Se for verdade. também com os olhos. ela sorriu-lhe.murmurou Anne Louise de Sanctis. . com um chapéu de abas largas escarlate a proteger-lhe o rosto do sol. Mr. sobressaltado. um grande signore! Paolo sentiu uma vergonha súbita por estar ali na qualidade de criado. e. Mas em vez do inglês era a condessa que ali estava.Um pouco . não! . Esse é um dos tais gestos que o teu pai teria. Nessa altura. ao ouvir um galho quebrar-se nas suas costas. Costumava vir até cá de vez em quando para me visitar. se voltou. Antes que tivesse tempo para responder. da mesma maneira que podia prometer todos os tipos de revelações sem proferir uma palavra. . com o seu dialecto rude. porém. Se trabalhares bem para mim. senhora. . esplendorosa como uma borboleta. a mover-se para o limpar. Ainda estraga o seu vestido. Ele era um signore. senhora. . agiu sob um impulso inesperado e estendeu-lhe a camisa sobre a casca rugosa.O teu pai era meu amigo. A condessa acercou-se um pouco mais e olhou em redor. O sorriso dela deu-lhe confiança.Farei os possíveis. o rapaz deixou-se ficar de boca aberta. a condessa continuou a falar. reparando na madeira serrada.Tens estado a trabalhar arduamente. . não se atrevendo. e mais uma vez. nunca te arrependerás.murmurou o rapaz desajeitadamente.Assustei-te. senhora? . quando a viu afastar as saias para se sentar no tronco caído da oliveira.Foi por isso que te trouxe para aqui.

Ela tomou-lhe o rosto entre as mãos e inclinando-o para cima.Guardarei.Poderei pedir ao Sr.Inglês! . Paolo.Claro! . senhora. o Sr.Muito grande. aprendas a ler.Então iremos pensar no assunto. a condessa agarrou-lhe nas mãos e aproximou-o dela de modo que ficasse meio de joelhos e meio de cócoras.A condessa sorriu-lhe. Gostarias? . Farei que vás para uma escola em Valenta.Exacto. Black e o monsenhor de Roma. . Terás de aprender a guardar segredos. Sem perceber exactamente porquê.Gostaria muito.respondeu a condessa. . . . nem sequer à tua mãe. a escrever e a falar como deve ser.Sei muito poucas coisas acerca do meu pai. .Parecia não acreditar no som da própria voz.É mais uma das razões que me levam a querer que te saias bem aqui.E poderia ir para Roma? . Respondeu rapidamente: .Isso significa que também sou meio inglês! . talvez também te possas tornar meu amigo. . quem sabe. A condessa continuava a sorrir.É um grande desejo teu. Paolo disse rapidamente: . acrescentou: .Tal como eu. . Paolo sentia-lhe as mãos macias e perfumadas no rosto e teve a nítida impressão de que a condessa sentia . a vestir-te bem. nem sequer com o monsenhor ou o Sr. . Paolo. A tua mãe nunca te contou? O rapaz abanou negativamente a cabeça. Depois.Preferia muito mais ir consigo. prometo. Mas raramente. Prometo. senhora. O perfume dela envolvia-o e ele podia ver-lhe os seios a elevarem-se e baixarem por trás do tecido fino do vestido. . Como é que ele era? . Mas nem uma palavra. Depois. a seus pés.Nem sequer te diz até que ponto te pareces com ele? . Black. Trabalharei bem. terei de confiar em ti. mas nos olhos aparecera-lhe uma advertência estranha.de poeira. disse suavemente: .Era inglês . Paolo. não é? . Ao abrir os braços no característico gesto de apelo do Sul. estimulado pelo sorriso aprovador da condessa.às vezes. Nada de mexericos com as pessoas da aldeia. senhora! . Black que te leve até lá de visita.Antes de o fazer. na sua direcção.Nem uma palavra.

. Não estava insatisfeito com a sua manhã de trabalho. que sabia que a condessa era uma mentirosa e que ambos não passavam de um par de conspiradores. a sua posição era-lhe extremamente desagradável. desde que aquela missão Lhe fora confiada. Uma constatação simples. e não como uma lenda. como acontecera em casa do padre Anselmo. Nicki! As palavras eram em inglês e Paolo não as entendeu. entre dois gatos prontos a saltar Pouco depois do meio-dia. Como hóspede da casa. Mas Meyer não o convidara e Meredith teve a impressão de que o médico necessitava de tempo para se recobrar e de intimidade para iniciar a leitura dos papéis do falecido.como um rato a um canto. O rapaz ainda nem sequer perdeu os dentes de leite e tu já a tentares seduzi-lo. nem mesmo pelo silêncio. Como sacerdote. cabia-lhe mostrar-se discreto e cortês. mas quando ergueu os olhos para o rosto afilado de sátiro do pintor e para o da condessa. Agitar os mandamentos à laia de cacete sobre a cabeça das pessoas não servia de nada. o caso de Giacomo Nerone perdeu a importância. ruborizado de raiva.Ninguém melhor do que tu para me falar de sedução. viera até ali em busca de provas e necessitava da colaboração das suas testemunhas. Agora.Francamente. ao ponto de. não sabendo como se comportar durante a refeição com a condessa e Nicholas Black. Teria preferido almoçar com Meyer. conivente na corrupção de uma criança. Havia que implorar a graça de Deus e depois lançar-se na busca. como um . cara! Não tens vergonha nenhuma. Ao deitar-se a descansar na cama.vontade de se inclinar para o beijar. podendo deste modo continuar a falar acerca do período crítico que a vida de Nerone conhecera a seguir. mas nesse mesmo instante ouviuse um som de passadas nas suas costas e a voz suave de Nicholas Black dizer: . Meyer era uma boa testemunha e as suas recordações revelavam-se desapaixonadas mas vívidas. se o sacerdócio significava algo. mas um empreendimento complexo. Ali havia almas em risco. sentiu-se encurralado . Como advogado do Diabo. e. esse algo era o apoio das almas. não podia tornar-se. Mais uma vez. Meredith começar a encarar Giacomo Nerone como um homem. Não valia a pena ameaçar de condenação eterna um homem que já estivesse a caminhar para o inferno pelos seus dois pés. sentiu a dor familiar na boca do estômago. Blaise Meredith regressou à villa para se lavar e descansar antes do almoço.

Mesmo nesses casos. Black concentrou-se no seu prato.Um tipo esperto. mais fresca. Três meses. beberricou o seu vinho e ambos comeram em silêncio durante algum tempo. Quando o nosso próprio corpo e mente se encontram enfermos.Muito boa.dificilmente terá tempo para terminar o seu caso.. no entanto. Meyer é uma testemunha excelente. essa dificuldade é a dobrar. ainda assim. Quantos mais testemunhos conseguir recolher agora. não importa. Almoçará no quarto. . Acenou-lhe alegremente e disse: . Mais século. A certa altura. monsenhor? .Penso que não.retorquiu-lhe Meredith friamente. e desceu o terraço.A condessa pede desculpa por não vir. Espera jantar connosco.Bastantes. . do medo que pudesse condicioná-lo ao arrependimento ou do amor que pudesse atraí-lo para aquele. . Meredith levantou-se.Na mesma.Em três meses . Não tinha vontade de acompanhar o seu antipasto com uma discussão.Tem muitas dores? .As testemunhas estão disponíveis . . "Quando o . menos século.Limpou uma migalha do canto da boca pálida. sozinho. um criado abriu-lhe imediatamente o guardanapo e serviu-lhe os copos que tinha em frente com vinho e água gelada. Meyer traçou-me um prognóstico pior do que aquele com que contava.Algumas mostram-se cooperantes. Meredith não ligou à insinuação. penteou-se. o pintor perguntou novamente: . monsenhor? . receio bem. Meredith sorriu melancolicamente.e. Admira-me que não tenha feito mais por ele próprio. Além disso. . de repente tomamos consciência do pouco tempo que resta. tenho a impressão de que o monsenhor está ansioso por avançar com o assunto.bom psicólogo.Como vai a sua saúde. Quando a hora do almoço chegou.perguntou o pintor. . melhor para todos. havia que esperar pelo local e momento mais propícios . à mesa. vestiu uma batina de Verão. Meredith acenou com a cabeça e sentou-se.E. diz ele. Muito informativa. Felizmente. . Nicholas Black já estava sentado. Está com uma enxaqueca. . O Dr. ..Quando os nossos limites ficam determinados.observou o pintor . dirigindo-se à zona do toldo de riscas. podia acabar por se falhar.Teve uma boa manhã. . a Igreja não gosta de se apressar nestas matérias. .

Meredith? Reuniu toda a má-língua que anda a circular na aldeia sobre mim e condenou-me. Pousou o garfo e a faca com ruído e disse.Está a cometer um acto detestável.homem deixa de poder trabalhar. Black.. não é verdade.Pelo menos é sincero. trocista: . pelo que vejo. enquanto o criado mudava os pratos que tinha diante de si.Já me julgou. . Meredith ruborizou-se. Muitos dos seus colegas não o são.Se o rapaz está corrompido. recostando-se depois na cadeira. Pena que tenha de se perder numa aldeia como esta.. Black. lamento profundamente. Meredith inclinou-se sobre o seu peixe e não respondeu. Perdoe-me.Quem não tem? . Mr. . . Os seus vícios privados são problema a resolver entre si e o Todo-Poderoso. Instantes mais tarde viram Paolo Sanduzzi sair do maciço de arbustos e atravessar o relvado em direcção à cozinha.Estou a brincar consigo. monsenhor.Rapaz encantador.perguntou Meredith calmamente.Não basta? . monsenhor. ao lançar-se na corrupção deste rapaz. Ficaria . Black concentrou-se de novo na mesa e disse com ar casual: . o pintor atirou a cabeça para trás e riu. Será que a Igreja não pode fazer alguma coisa por ele? Não se pode permitir que o filho de um beato ande por aí atrás de saias e a meter-se em sarilhos com a polícia como qualquer outro rapazola. está a cometer um crime contranaturo. Depois de o rapaz desaparecer na esquina da casa. a responsabilidade deve ser sua. monsenhor? . Em tom de desculpa disse.Muitos deles ainda não tiveram de encarar a realidade observou Meredith secamente. Mas. A acusação aproximava-se incomodativamente da verdade. já teve? Black soltou uma risada e bebeu um grande gole de vinho.E o senhor.Tem medo da morte. Que mais Lhe disse ele acerca de mim? ." . com precisão e frieza: . a noite chega. mesmo antes de ouvir uma palavra em minha defesa. Um David clássico. Mal acabara de falar quando Black atalhou rapidamente: . não é verdade? O descaramento impudente do homem foi superior às forças de Meredith.Meyer deve ter sido uma testemunha muito colaborante. Porque não se vai embora e o deixa em paz? Para sua surpresa. O pintor ficou a mirá-lo e Meredith fitou o pintor com olhar discreto e avaliador. como sabe.Se o julguei mal. Mr. Disse calmamente: . .

... Se visse o meu irmão antes da sua morte. Não pedi para nascer. esperança e caridade? . Sabe porque abandonei a Igreja? Porque ela responde a todas as malfadadas perguntas que se fazem habitualmente. O pecado.Estendeu um dedo esguio e acusador ao padre. Mas quem foi que me fez? Segundo a vossa teoria. estes boatos.. porque imagina que gosto deste rapaz e pretendo tê-lo para mim.. Não fui seduzido no vestiário ou chantageado no bar. . monsenhor. Deus sabe o quanto já sofri com isso. Analisemos a questão. Meredith. . Deus fê-lo acima de tudo para a procriação dos filhos e depois para o comércio do amor entre o homem e a mulher. Meredith? Também eu me atafulhei das teorias de S. . Em vez disso enfrentá-lo-ei no seu próprio terreno. encontraria o exemplo do macho perfeito. Mas. Desejar um rapaz da mesma maneira é um pecado contra a Natureza. Não pedi para nascer assim.Já está a ficar nervoso. Mas há uma falha. do macho excessivo. Mas em breve descobri. .. e aí é que agradeço que me esclareça. Não posso mudar.. É tudo. Tomás de Aquino. Partamos do princípio de que sou o que todos me chamam: um homem anormal. Estou a par de toda a vossa argumentação no que se refere ao uso e abuso do corpo. Que é que a Igreja tem para me oferecer em termos de fé.Compreendamo-nos. Eu?. satisfatória.imensamente satisfeito se o ouvisse negar estes. Eu sou simplesmente assim. excepto àquela para a qual precisamos de resposta. como dormir com uma rapariga antes do casamento ou cobiçar a mulher do próximo. mas não me consegue enganar a mim! Eu próprio tenho sido católico e conheço toda essa rotina falsa. vê.Escutarei e tentarei responder. Era gémeo. Nasci tal como sou.. . a combinação fica feita.. Se puder dar-me uma resposta. "Porquê?" O senhor diz-me que estou a cometer um crime contranaturo.disse Meredith asperamente. Nicholas Black riu grosseiramente.. Deus! O que eu quero e o que eu sou está de acordo com a natureza que Ele me deu. Concorda? .Quer que me defenda perante si? Raios me partam se o farei.. um corruptor da juventude.. prometo-lhe uma coisa: faço as malas e parto no primeiro transporte disponível. é um acto de excesso do instinto natural.. E fica por aí.Surpreendo-o. segundo a Natureza. O senhor pode fazer bluff com os seus penitentes e encantar as suas congregações dominicais.Sorriu sardonicamente perante o rosto pálido e atento do sacerdote. O pintor riu amargamente. se quiser. É quanto à minha natureza.Não posso regatear consigo . . A minha natureza levava-me a sentir-me mais atraído para os homens do que para as mulheres. ainda assim. O que eu era não estava muito claro.

O pintor continuou.. Deus fezme diferente.. o Todo-Poderoso cometeu um erro no seu acto de criação?. amargas e impetuosas. Ele próprio não estava consciente do facto... Seria normal. Meredith.. Repare em si mesmo! O senhor é um padre. Ali tinha o lugar e o momento preparados para ele. parecia que.. Meredith fitou o pequeno caos formado pelas migalhas no seu prato e escolheu as palavras com que iria dar a resposta. de acordo com a Natureza! Mas eu não sou feito dessa maneira. e para muitos outros. -. sem dúvida! Far-me-ia um sermão sobre a fornicação e tudo o resto. Mesmo que o não fosse.Levado pela paixão da sua argumentação. por falta de sabedoria e compreensão. Qual é a resposta que tem para dar a esta questão. a sua posição seria completamente diferente.mas a oração. porém. respondeu com gravidade: . tal como o argumento que deu. onde já não têm destas necessidades?. desafiando ainda mais violentamente Meredith com o seu silêncio do que com o ímpeto da sua invectiva. não os aproveitara convenientemente. as palavras brotaram de dentro de si. mais uma vez. não existe nenhuma resposta que não envolva um mistério e um acto de fé. não tardou a aperceber-se. Passado um momento. Mas precisarei menos de amor? Precisarei menos de satisfação? Caber-me-á em menor grau o direito de viver feliz porque algures. se eu neste momento estivesse interessado em seduzir uma rapariga em vez do jovem Paolo. eu entenderia as palavras e o que elas significam.. em determinada altura. enquanto outros homens morrem . mas. à sua frente . aguardando. a sua atitude passou do insulto sardónico à súplica da compreensão. Meredith? Qual é a resposta que tem para dar a mim? Ato um nó em mim próprio e espero que façam de mim um anjo no céu.Diz-me que tem sido católico. do mesmo modo que não sou capaz de Lhe dizer porque foi que Ele me fez nascer um carcinoma no estômago para que eu morra dolorosamente. pareceu estranhamente árida e impotente. Para o seu problema. Não aprovaria. Tentou fazer uma pequena oração silenciosa pela alma que tinha ali. Sabe perfeitamente que. nua. Mas não se sentiria demasiado infeliz.. sentindo-se mais uma vez envergonhado pela sua própria obtusidade. Sinto-me só! Preciso de amor como qualquer outro homem! Do meu tipo de amor! Deverei viver enclausurado até morrer? O senhor é a Igreja e a Igreja tem todas as respostas! Responda-me a esta! Calou-se abruptamente e recostou-se. Não Lhe sei dizer por que razão Deus o fez como é.

obtendo-se dele o melhor que estiver ao alcance. E quem a suportar tempo suficiente é promovido a santo. Bebés nascem com duas cabeças. Isso não é resposta. Mr. nesse caso. . Eu ficarei com o que tenho à mão e não quero saber de mais nada! Empurrou a cadeira para trás. O senhor fique com a sua cruz e o seu cilício. Vive-se nele o mais prolongada e alegremente que se pode. sem proferir mais palavra. porque é uma cruz que Deus põe nas costas das pessoas.. .implorou o pintor. .disse Meredith. .Se é que Deus existe. se existe um Deus. entrou em casa. Blaise Meredith limpou as mãos húmidas ao guardanapo e bebeu um gole de vinho para humedecer os lábios secos. .Aceito o "se" .De facto disponho.tranquilamente durante o sono. Os erros da Criação estão constantemente a aparecer. com amargura. e eu acredito que existe. Mas. Porquê? Somente Deus pode dar a resposta. há que aceitá-la e apreciá-la. com um interesse sereno..Já o sei de cor. o que a lei e os costumes sociais permitirem. homens morrem de pragas. levantou-se da mesa e. Ficou surpreendido ao achá-lo subitamente amargo. O senhor leva Paolo e usufrui dele.Se Deus não existe. então o universo é um caos sem significado. fome e temporais. Meredith. como vimagre numa esponJa. . Black? . como Giacomo Nerone. Meredith. mães de famílias enlouquecem e correm de facas na mão.Não me diga mais nada. Não posso discutir consigo. monsenhor . Seja qual for a confusão feita pela Criação. .Dispõe de alguma melhor.

Nina. mesmo brutais. e o senhor é seu amigo.CAPíTULO XII Ao princípio dessa mesma tarde. respondeu com brevidade e sem rodeios. mostrou-se sedutoramente delicado. segundo a informação que tenho. .Nunca se consegue esquecer completamente.Obrigado. senhora? Nina anuiu calmamente.disse Nina Sanduzzi. Giacomo também. . .A senhora era católica. Tinha pouca experiência de lidar com padres e os que conhecia. . do bom e do mau. . por sua vez. o quarto mostrava-se fresco e sombreado e até mesmo o canto das cigarras se reduzia a um murmúrio suave e monótono. mas porque temos de tentar saber tudo. monsenhor. Não violaria demasiado rudemente os aspectos privados do seu passado com Giacomo. Depois do calor sufocante que reinava no exterior. Nina Sanduzzi conversava com o monsenhor de Roma. Ainda assim ficou de sobreaviso e. aquele agiria com compreensão e delicadeza. tinha o rosto acinzentado e os lábios exangues e formara-se-lhe uma pequena dor forte na boca do estômago.Não é bem a mesma coisa.Primeiro quero que compreenda um aspecto: há perguntas que precisam de resposta. . na pequena cabana entre os azevinhos. Meredith. uma pessoa pensa nestas coisas e esquece-se do pecado. Prosseguiu. pouco tinham a abonar em seu favor. quando ele começou a interrogá-la. à mesa rudimentar e muito esfregada que se erguia a meio caminho entre a porta aberta e o enorme leito de ferro onde Giacomo Nerone dormira e onde o seu filho nascera. . Não tinham consciência de que se tratava de um pecado contra Deus? . Algumas delas podem parecer estranhas. Nina. Entende.Fomos amantes . o Inverno está a chegar e no dia seguinte pode já não se estar vivo. sorriu. O caminho pela colina abaixo fatigara Meredith rapidamente. Meredith. a senhora e ele começaram a viver juntos.É melhor que me trate pelo meu nome: Nina. . Mas aquele era diferente.Quando se está só. acerca desse homem. como o padre Anselmo. Assim faz o doutor. quando ali mesmo do outro lado da porta existe o medo. quando outrora teria franzido o sobrolho. Encontravam-se sentados. Formulo-as não porque tenha Giacomo Nerone em má conta. Nina Sanduzzi fitou-o com uma certa piedade. em frente um do outro. pouco depois da chegada de Giacomo Nerone a Gemello. o homem das leis.

. viu-lhe despontar um sorriso nos lábios e nos olhos.Nós amávamo-nos. Só o dia que corria é que era certo. O casamento poderia vir mais tarde. Eu tinha uma. Meredith assentiu. eram normais? Alguma vez ele Lhe pediu algo que não devesse ser feito entre homem e mulher? Nina fitou-o. Quis conservá-lo. Fizemos o que os amantes fazem e tínhamos prazer um com o outro. como se ela tivesse a importância que não tem.Vocês fazem todos a mesma pergunta.Continua a não entender. A aliança no dedo não queria dizer nada. mas o Exército levou-mo e matou-mo. mesmo a padres. Quer fosse a polícia a levá-lo ou os soldados.E a Nina não o desejava? Mais uma vez a velha chama Lhe tremulou nos olhos e o orgulhoso sorriso grego Lhe repuxou os cantos da boca. Eu tive um marido. Que mais poderia haver? . . Se ele desejasse partir. porque não se casaram? Iam ter um filho. Mas. monsenhor. monsenhor. Depois ergueu a cabeça orgulhosamente. não parecem tão más. os alemães ou os ingleses.As suas relações com esse homem. Agora sabia que o coração tinha razões mais profundas que aquelas que a maioria dos pregadores conheciam.. partiria e não haveria aliança que o prendesse. mas sem homem a acompanhar. momentaneamente estupefacta. Naquele momento tinha um homem. Mas. se alguma vez fosse suficientemente importante. as suas relações físicas.Giacomo recusou-se a casar consigo? . quando essas coisas acontecem com tanta facilidade. Era como um eco da velha Nina . Em mais de uma ocasião ele me disse que me desposaria se eu o desejasse. O que vinha a seguir podia trazer a polícia. Podíamos todos morrer de tifo ou malária. Uma semana atrás poderia ter compreendido menos e dito mais. já que se amavam tanto.apressou-se Meredith a responder.Nunca Lho pedi. Voltou às perguntas. Será que não Lhe deviam nada? Que pensava Giacomo? Pela primeira vez desde que a conhecera.a que desejara um homem que a apertasse nos braços e que estava pronta a enfrentar o carrasco para o conseguir. Disse-lhe. . . Além disso. .Pois não. havia outra coisa de . em dialecto animado e entremeado de calão: . ficaria perdido para mim na mesma.Nada . Não compreendem como as coisas se passavam naquele tempo.

. prendiam-no. excepto que me magoassem. mas nunca.que Giacomo falava muitas vezes. Se essa era a maneira de ele ficar satisfeito.De que se tratava? . a doença grassava. O monsenhor nunca se apaixonou? ... Na cama era forte e ao mesmo tempo meigo como um bebé. A cabeça de Nina ergueu-se. Não tinha medo de ninguém e de nada. . Podia enfurecer-se e fazernos tremer com o seu silêncio e.. Nina? .Vivemos com amor e separámo-nos com amor. Livre para não Lhe criar responsabilidades que me punissem a mim ou à criança. Nada mais importava. Até mesmo na voz se Lhe notava uma espécie de esplendor. . no entanto. não. Mas para ele..mas lentamente. que tipo de homem era Giacomo? Era bom para si? Era quase misterioso ver como as recordações Lhe afluíam à mente e de que maneira todo o seu corpo parecia ganhar vida como uma flor sob a chuva. Ou os alemães. devido à humidade e à imundície que reinava no interior dos casebres e porque cada dia os alimentos se tornavam mais escassos. Quando o servia..Lamento. Se assim acontecesse. Os fascistas continuavam em actividade e podiam deitar-lhe a mão. . . sim. se os ingleses ganhassem a guerra. nunca levantou uma mão ou ergueu a voz.Os lábios finos de Meredith franziramse num sorriso.. orgulhosa como uma deusa de mármore ao sol... .Isso tinha importância para si. Diga-me. mostrava-se grato e agradecia-me como se eu fosse uma princesa.. eu nunca viria a saber se ele estava vivo ou morto. fazia-me rir.Que tipo de homem?. . quando ele ria. monsenhor? Tudo o que uma mulher deseja estava naquele homem. . era como o Sol a nascer de manhã.Terá de ter paciência comigo. O Inverno arrastou-se numa longa alternância de tempestades e acalmias enregelantes. Alguns morriam. e desde aí nunca mais se passou um só dia em que eu deixasse de o amar. Quando eu tinha medo. Queria que eu ficasse livre para poder voltar a casar.Ele tinha a ideia fixa de que um dia algo Lhe aconteceria.. outros recuperavam . no entanto . Era desertor e. Como é que espera que responda a essa pergunta. quando viviam juntos.E..Para mim.disse Meredith com rudeza calculada abandonou-a em plena gravidez e nunca mais voltou a viver consigo. . para mim estava certa. e. Na aldeia e nas montanhas. .

Mas Giacomo falava sem rodeios. não deixarás de me amar? . sabes que há ocasiões em que um homem faz uma coisa e a mulher fica a detestá-lo. lentamente. Preparava. porque não entendeu as razões que o levaram a proceder desse modo. Mas Giacomo era diferente dos homens do seu próprio povo. ele não a forçava. quando ela estava doente. tinha as faces chupadas. Ela ainda o amava mais pelas suas atenções por saber que ele tinha as suas próprias preocupações: problemas que o mantinham acordado à noite e preocupado de dia. Ambas as coisas a deixavam perturbada. Mas depressa se restabeleceu e nunca mais pensou no assunto. e durante as longas noites de tempestade distraía-a com histórias de lugares e pessoas estranhas e de cidades empilhadas em blocos quase até ao céu. procurando atabalhoadamente a frase certa em dialecto para explicar o que queria dizer. Ele tratava-a com meiguice. Também nesse aspecto era diferente dos homens da sua terra. Um homem era um homem e ele exigia ser consolado e satisfeito. e os olhos encovados ficavam raiados de sangue. começava mesmo a encarar com desagrado o acto do amor que anteriormente tanto prazer Lhe proporcionara.Faça eu o que fizer. caro mio. Nina mia. da sua função conjugal e dos aspectos mais simples da religião. com as náuseas constantes e a fadiga que acompanham algumas mulheres desde o início da gravidez. com as próprias mãos. já que era pressuposto uma mulher nada saber além da lide doméstica. Portanto. Estava extremamente magro.Escuta. Nina. independentemente do que a mulher sentisse. às vezes desabafava com ela. de modo que ela se sentia forte e sabedora junto dele. o corpo Lhe ia engrossando. verificou que a monotonia da comida Lhe causava fastio e. à medida que. Se ela não estava disposta a aceitá-lo. A própria Nina adoeceu com o mal e lembrava-se de ter visto o médico e Giacomo a conversarem gravemente a um canto acerca de algo chamado rubella. . sempre que voltava para casa depois de um dia passado nas colinas.Em determinada altura houve uma epidemia que fez aparecer manchas nas pessoas. não é? . porque hás-de preocupar-te? .Eu sei. Até mesmo Giacomo começava a mostrar sinais da tensão que acompanhava aquele período de tempo prolongado e frio. mas eu entendo-te. olhos inflamados e febre. que se iam aconselhar às tascas em vez de o fazerem junto das esposas. comida que a tentasse.

Devia sentir-me orgulhoso do facto. mas sim enevoado. Então deitei a correr e de repente.. Dependem de mim. Estou mudado. Olham para mim com olhos interrogativos. não consegui comportar-me como qualquer outro homem e dizer: "Isto é a guerra! Este é o preço da paz! Esquecerei tudo e continuarei a bater-me por aquilo em que acredito. Sabia que vinha de Deus e no fim voltaria para Ele. porque é difícil de dizer. se põe a perguntar a todos: "Quem sou eu? Donde vim? Para onde vou?" Ninguém Lhe responde. mesmo assim. Igreja. Eu podia agir mal e.. Mas nenhuma estrada: perdera-me.. Nina. chegado ao meio de Roma. mas não me sinto. Para eles. Quando chegar ao fim. Mas nunca mais nada voltará a ser como era. porque não o percebem. absolutamente em nada! Havia apenas uma criança. sem saber porquê ou como..Então agora ouve. de repente.. porque estás perto e também me amas.. mesmo quando isso acontece. uma mulher e um velho que eu assassinara sem qualquer razão. Então.. vi-me aqui contigo. de novo em casa. evidentemente." Eu não acreditava em nada: na guerra. Não me interrompas. Quando me vi nesta situação em Messina. sou um tipo importante. porque caminho na neblina. aí chegado.Nunca. sem que eu saiba de alguma razão para tal. Tenho sido como o calabrês que.. Faz já muito tempo que sou um homem perdido. Eu era o vosso calabrês a gritar numa cidade de desconhecidos. que podia falar com Ele na igreja e tomá-Lo para mim na comunhão. Vejo-te e sei que te amo. Houve uma altura em que eu era como tu. E. ainda incerto quanto ao lugar donde venho e para onde vou e o que . Sou o seu calabrês que esteve na cidade grande e viu tudo. que conhece o papa. Mas do lado de fora da porta está a névoa e o desconhecido. na paz. nenhum lugar para onde ir no fim.. Em vez disso era a escuridão e vozes que me gritavam: "Por aqui! Por ali!" Segui as vozes até uma escuridão ainda mais profunda e. Sou o seu homem de confiança. encontrei outras vozes. Não havia Deus. . Até as pessoas são diferentes. o presidente e a maneira de resolver os problemas. como o vale aos primeiros alvores da manhã. porque não entende a língua que se fala em Roma. Podia afastar-me ligeiramente do caminho certo e ainda poder regressar a ele. deixou de haver estrada. indica-me o que não perceberes. quem não perceberia seria ele. ser perdoado. Nem sempre foi assim. Já não está escuro.

. Poderá ser o que fica por trás da névoa e quem sabe se verei a face de Deus e a face do carrasco ao mesmo tempo.deverei fazer. caro mio! . Mostra-me quem eu sou. . e a primeira é pessoal. Desta casa... mas ando perdido.Não.Estás a falar-me com amor. Estas Tuas pessoas. porque se voltam elas para mim. se for preciso. caro mio. quero deixar-te. por sua vez. no entanto.Nisso também há amor. Se estás aí. Nina. o homem de confiança. E também uma grande razão. . . Mas. em busca de ajuda? Terei alguma marca na testa que não seja capaz de ver? Se assim é. .E. ando perdido. e o meu coração entende. se Ele sabe alguma coisa. caro mio? Porquê? . com as minhas próprias mãos. A culpa é minha. Quero viver aí sozinho com Deus. Ver-te-ei muitas vezes e.Pode acontecer.Mas porquê. . Atrair-lhes-ei as atenções. que Te conhecem. Se não.Compreenderás o que te vou pedir? . virão. diz-me o que significa. . Alguns destes. És capaz de me entender.Estarei sempre por perto. uns ou outros levar-me-ão e provavelmente matarme-ão. Quero descobrir um pequeno canto secreto para mim.. até Gemello. construí-lo. donde venho. para onde vou. Nina? Ou estarei a falar como um louco? . cara. nada custa a suportar. e os Aliados deverão rechaçá-los numa fase final. Quando a Primavera chegar. cujo rosto deixei de poder ver. Se tiver sorte.." Não posso deixar de o fazer. os exércitos voltarão a pôr-se em marcha. Os alemães chegarão primeiro e haverá luta a sul daqui. Quando a Primavera chegar e a vida for mais fácil. o homem importante e obscuro.São duas as razões. e não para Ti. aceitar-me-ão e eu poderei ajudar as pessoas.Não do vale. fala comigo claramente. se Deus me aparecer. porque sou o que sou: Giacomo Nerone.. Os guerrilheiros movimentar-se-ão para acossar os alemães.Dio! Não! .Quando me abraças assim e posso sentir o teu amor nas tuas mãos e na tua voz. porque. afastar-me durante algum tempo. mais amor do que possas imaginar. falarei a Ele de ti. vais-te embora? . .Custa-me ter de te dizer. Nina.. sabe que te amo. Não sei. ou mesmo todos.E que vai ser de mim e do teu filho? . Quero dizer-Lhe: "Olha.

Fica nos meus braços. Ambos são meus.Agora. Mas aquilo não era suficiente para os advogados exigentes da Congregação dos Ritos. Tinham de ver para além daquilo. Porquê? . .. . Também sou o teu homem de confiança.Nunca me ausentarei completamente. e ouve as batidas do meu coração. voltarei cá para olhar por ti.Depois do degelo. moreno. voltou a interrogar Nina Sanduzzi: . Nunca até à eternidade. Portanto. Meyer tomará conta de ti. mas não menos persistentemente. Haverá tanto ódio como nunca imaginaste ser possível. talvez. caro mio! Abraça-me. A simplicidade bíblica da narrativa de Nina era mais avassaladora do que qualquer retórica. casarei contigo e darei o meu nome ao rapaz. e Blaise Meredith devia proporcionar-lhes os dados necessários. sofrerei quando não estiveres aqui. Já assisti a tudo isso anteriormente e é perfeitamente terrível.Nada.E até à altura de se ir embora.. que tenho medo. se tudo correr bem.de há muito adorado. Se não. carissima. não realizara ainda o acto . O rosto de um pesquisador . quando a Primavera começava a despontar.. deu consigo arrastado por ela. amo-vos e não deixarei que vocês ou as pessoas sofram por minha causa. Não podes continuar ligada a mim..Menos dessa maneira do que da outra. Nina. E. . Mas o que ele não Lhe disse foi o que tal Lhe demonstrava. sofredor. o homem empedernido das Congregações. . fez amor consigo? . talvez.Seja como for.Quando foi que ele a deixou? . qual galho ao sabor de uma torrente. de boca terna e olhos profundos e repletos de bondade. os inquisidores do Santo Ofício. Ainda tinha diante de si um homem perdido na escuridão. .Sim. Por trás deles. e Blaise Meredith. um pesquisador.um daqueles em quem repousa o fardo dos mistérios e que alcançam por vezes uma grande santidade. quando a Primavera chegar. dormiu consigo. . podes dormir descansada. O dialecto rude não impedia que o diálogo fluísse como as frases de um poeta na boca de um amante . de há muito lembrado. mais suavemente. Se me levarem. mas que ainda não encontrara Deus. É uma pergunta que tem de ser feita. Nina mia.aconteça o que acontecer. mas quando te fores embora? . porque existe a criança. .Abraça-me. devemos separar-nos. o rosto de Giacomo Nerone ganhou forma e volume até parecer real um rosto magro.

Mas sorria sempre e mostrava-se mais feliz do que quando o conhecera. . .Apresentava alguma mudança? . Excepto mostrar-se mais terno e atencioso para comigo.. em direcção à villa da condessa de Sanctis. Subiram a estrada poeirenta com os motores a trovejar.Disse porquê? .Ele mudara? . Havia amor nele.Eu estava grande por causa da criança.Fez amor consigo? Mais uma vez Nina sorriu ao padre com uma certa pena pela ignorância por este demonstrada. levava alimentos aos que deles necessitavam.... não. e depois continuaram colina acima. Depois.Para mim? Não. . Estou novamente em casa. para inspeccionar o que os rodeava. e ele não pedia. Tinha os olhos encovados e a pele esticada sobre os ossos da cara.Ele veio todos os dias. com grande fragor.. Estava mais magro do que alguma vez o vira. Pararam um pouco na rua estreita da aldeia.E a Nina foi? . . Havia dois camiões cheios de soldados e um quarto veículo carregado de munições e mantimentos. monsenhor. Nina. um dia pegou-me nas mãos e disse: "Estou em casa. .Foi para a depressão do vale onde ficam as cavernas e começou a construir a sua cabana.Não. Até ela ficar pronta dormiu numa caverna.A princípio. . tratava dos doentes. . Sentia-me calma e satisfeita. Perguntou-me se eu iria à igreja no mesmo dia.. cozinhou a sua própria comida e durante o dia fazia o mesmo que durante o Inverno: andava pelo vale. mas era ainda o símbolo desfigurado do amor que representa o princípio da santidade. como prometera.Sim." Fora a Gemello Maggiore confessar-se ao jovem padre Mario e no domingo disse-me que tencionava comungar. trabalhava para os que não podiam fazê-lo. . Os alemães chegaram no sábado e montaram o seu quartel-general na villa.E que aconteceu quando ele partiu? . enquanto a aldeia ainda esfregava os olhos de sono. Chegaram de manhã bem cedo.Viu-o durante esse tempo? . .de abandono à Sua vontade. . Havia um carro blindado com um sargento a guiar e um capitão de ar preocupado sentado atrás.

Levo os meus instrumentos e alguns remédios. Quando o deixou entrar. ele falou-lhe em frases rápidas e concisas . Os alemães não o tratarão muito melhor do que a mim. pão e queijo na frente e.Nina Sanduzzi ouvira-os chegar. a vida agitar-se dentro de si. Meyer. dottore? . A guerra estava a chegar a Gemello Minore e também todo o ódio e matança. enquanto ele comia. . pela primeira vez.Mas aonde vai.meio receosas. Só despertou completamente quando ouviu uma batida urgente na porta e a voz de Aldo Meyer pedir-lhe que a abrisse. para as colinas. Deverá trepar até ao cimo do rochedo. absorta na contemplação remota da mulher que sente. Nina colocou-lhe café. Só quando viu a pistola e sentiu o contorno duro das munições é que entendeu o que Giacomo Lhe dissera. um casaco de pele de carneiro e uma mochila aos ombros. ficou surpreendida por vê-lo vestido para viajar. disse-lhe: . Depois vira para o lugar a que chamam Rochedo de Satanás. Fixaste tudo? É importante. . com a boca cheia de pão e queijo. mas pouca atenção lhes prestara. Penso que veio do Norte especialmente para este trabalho. Alguém aparecerá para contactar com ele. meio exaltadas. Tem armas e munições e um bom sistema de comunicações. rumo a São Bernardino. Se me apanharem. Se te esqueceres. Os alemães estão aqui e não tarda que saibam que há um judeu no vale. Tem ar de indivíduo treinado. diz-lhe que siga uns dezasseis quilómetros pela estrada de São Bernardino.Tentei convencer Giacomo a vir comigo e a trazer-te também. mas deixei uma provisão deles a Giacomo na caixa grande que tenho debaixo da cama. O chefe deles é um homem que se chama Il Lupo.Quando vires Giacomo diz-lhe que fugi. . com botas grossas. serei enviado para os campos de concentração a norte. . Há lá um esconderijo de guerrilheiros e estou em contacto com eles há algum tempo. Primeiro pediu-lhe que Lhe desse de comer e. fez-lhe um embrulho com comida e enfiou-lho na mochila. Será fuzilado como espião.Não me esquecerei. É onde estão as primeiras sentinelas dos guerrilheiros.Mais para leste. ele corre o risco de ser fuzilado. enquanto Nina se atarefava para lhe satisfazer a vontade. Se Giacomo quiser entrar em contacto comigo. Ainda mal acabara de acordar. sentar-se e acender um cigarro. depois tirar o lenço e apertá-lo em redor do pescoço.

Reza. mas tinha o corpo completamente rígido. . Trabalha no seu jardim. os homens enlouquecem. Meyer soltou uma risada e limpou a boca com as costas da mão.Ele contou-me que reza muito. . . Obrigado pelo pequeno-almoço e pelo resto das . Meyer fitou-a melancolicamente por cima da borda da sua chávena. Sabes o que é que ele faz lá em cima na sua cabana? .Depende.És capaz de ter razão nesse aspecto. .Acha Giacomo louco? . . quando é de mais. Meyer sorriu com amargura. às vezes de manhã bem cedo.Devia ter mais cuidado consigo mesmo. embora tivesse o candeeiro aceso. Pensa. que os alemães estão aqui.disse Meyer. . Nina mia. Chamei por ele. tenho de ir. Entrei e encontrei-o ajoelhado no meio do chão com os braços abertos. ligeiramente irritado. outras vezes de tarde.Não foi o que eu disse. vim-me embora..Pode ser que tenhas razão.E também não come muito .Isso. mas não tive resposta. Espero que esteja certo. . A que horas é que o costumas ver? Nina encolheu os ombros e esboçou um gesto vago com as mãos. Mas aparece sempre. também. Cheguei-me a ele e abanei-o. a cabeça atirada para trás e movia os lábios.Que foi que Giacomo respondeu a isso? . Falei com ele. Nina? . mas... Tínhamo-nos esquecido de como são. Anuiu e disse com acentuada indiferença: . É uma pessoa estranha. Mas diz que a oração Lhe dá todas as forças de que precisa.Sentes-te satisfeita com esse arranjo.A noite passada fui lá à procura dele para Lhe falar neste assunto. Agora. . .Levantou-se e ajeitou a mochila nos ombros. Passado um bocado. Emagreceu bastante. Não consegui arrancá-lo dali. Nunca houve nenhum homem como este. Isso da oração não está mal. mas não me ouviu.Bem. Porque pergunta? . simplesmente. quando não o está a fazer para outra pessoa qualquer ou nas colinas.Sou feliz desde que tenha Giacomo. Tinha os olhos fechados. Nos olhos escuros de Nina lia-se surpresa. as pessoas vão depender ainda mais dele. . .Talvez porque haja tanta falta de homens bons por aí.Riu apenas e disse-me que conhecia os alemães melhor do que eu.

É um profissional e foi treinado na Rússia. Quer um Estado comunista na Itália. dottore! . . Achou que nunca ele lhe parecera tão jovem e vivo e perguntou-se despreocupadamente o que teria acontecido se Giacomo não tivesse vindo para Gemello Minore. quando ele chegou. . um destacamento em patrulha. Mas Meyer já espera há tanto tempo pela sua própria guerra que não consegue ver bem no que está a meter-se. Deseja mais do que uma vitória.E que vais tu fazer. depois desenlaçou-a suavemente e escutou-a quando Lhe falou acerca de Aldo Meyer e do recado que este Lhe deixara. Mas Giacomo estava ali e a sua presença preenchia toda a sua vida e. Ele manteve-a contra si até a tensão desaparecer. caro mio. O que ele quer é um homem que possa utilizar posteriormente. ele tentará obter o controlo da administração civil. agora já não há nada a fazer.Encolheu os ombros. .coisas. Giacomo? . Quando os alemães forem escorraçados e os Aliados entrarem.Tentei dissuadi-lo. . Vi-o partir e ele ia contente como um rapaz que vai à caça. Pousou-lhe as mãos nos ombros e beijou-a nos lábios. Ele pensa que Il Lupo quer mais um guerrilheiro. nada mais.Boa sorte. Diz a Giacomo o que te contei. É provável que o consiga. Seja como for.Boa sorte.Provavelmente será bom para ele. Não causarão grandes incómodos a ninguém. Ela não se opôs. Não sei o que acontecerá quando Meyer descobrir. Temos a nossa própria tarefa a realizar aqui. sorriu e pousou as palmas das mãos sobre o tampo da mesa.Assim farei. Meyer está no barco errado.Meyer não é o homem indicado para esta companhia. . Nerone abanou a cabeça gravemente e o rosto ensombrou-selhe. porque gostava dele e ele era um homem de partida para a sua guerra privada. Ouviu-a com gravidade e depois disse: . reparando na frugalidade com que se servia e no pouco molho condimentado que punha. ela apertou-se desesperadamente contra ele. Tenho ouvido falar de Il Lupo e posso calcular donde vem. chorando-lhe no ombro. Nina trouxe uma enorme tigela de massa para a mesa e ficou a vê-lo comê-la. Estes alemães não têm qualquer importância. Bem a mereces! Nina deixou-se ficar à porta a vê-lo descer pelo vale. Nina mia. dados os seus antecedentes. . pouco antes do almoço.

carissima.Disse-lhe que era inglês. -. . excepto que sou obrigado a ter os alemães em consideração. Deixei-a pensar que era um agente deslocado para esta zona a fim de preparar o caminho para os Aliados. excepto quando havia doentes nas montanhas ou homens fugidos para esconder dos . Fui lá acima ver a condessa há uns dias.retorquiu-lhe Giacomo. Está numa posição complicada.Ela devora os homens. Sugeri-lhe que me nomeasse feitor da sua propriedade. com a sua voz seca.desabafou Nina. .Se o tentar. Toda a villa foi transformada num campo armado. É um tormento.É bem feito para a condessa! . Ela ficou satisfeita em me ver.Vais viver na villa? .Sempre que podia. com inesperada maldade. Mas. O rosto de Nerone ensombrou-se. Ela deu-me um quarto nas dependências destinadas aos criados. de maneira a eu poder falar com o comandante alemão em igualdade de termos.Assim já poderá ter um homem para cada noite.. Precisarei dele. Mas nada disse. Ela é uma estrangeira. . quando temos tanto? . E eu não quero que ela te devore a ti. .Não fales assim.. enquanto for preciso. Pegou-lhe nas mãos e atraiu-a suavemente a si. com um sorriso. não um caso para brincar. .. Utilizá-lo-ei para dormir. Giacomo cumpriu algum dos seus deveres religiosos? Ia à missa e recebia os sacramentos? Nina Sanduzzi assentiu. Era como se o visse voltar a entrar num mundo que abandonara . o medo ainda ficou com ela e não foram poucas as vezes em que acordou a meio da noite a sonhar que Giacomo a abandonara para se casar com a mulher do topo da colina com o ventre liso e estéril. a boca atormentada e os olhos rapaces. Tratava-se de uma informação que ele não Lhe comunicara e Nina sentiu o aguilhão pungente do ciúme.disse Blaise Meredith. .. ficará com uma indigestão . Devo ainda fazer mais uma pergunta .Tenho um quarto lá. . Mas obterei um passe do comandante e terei liberdade de entrar e sair. Porque haveríamos nós de Lhe desejar mal.um mundo onde ele andara perdido e onde ela nunca o alcançaria.O que agora faço. .. aguardando que ele Lhe contasse o resto.Durante esse tempo. quando ele partiu. caro mio. uma mulher solitária com um fogo no sangue que ainda nenhum homem conseguiu apagar.

pela primeira vez. atravessava o vale e ia ter com o jovem padre Mario. que dizia e sentia Giacomo em relação aos alemães? A pergunta pareceu. . Quando desejava confessar-se. . mas que os homens que o tinham mandado para aqui teriam de responder seriamente por isso. Gostavam de possuir coisas. Eles vinham. Costumava dizer que Gesus construíra a Igreja como uma casa para a sua família nela viver. . As vezes trocavam palavras zangadas entre si. mas mais simples do que os Ingleses. lutavam teimosamente e com coragem. a utilizavam como um mercado e uma taberna. Os Americanos eram diferentes. Disse que eles lucravam à custa dela. como sempre acontecera. como . a enchiam de zangas e gritos e até Lhe sujavam o chão à maneira dos bêbedos.E que dizia Giacomo acerca do padre Anselmo? . mas duro e egoísta. obrigá-la a fazer uma pausa para pensar.O padre Anselmo não gostava dele. ela não tardaria a cair em ruínas numa geração. embora muitas vezes não soubessem como gozá-las. E tinha razão. mas que alguns homens.Que era digno de piedade e devíamos rezar por ele. Passado um longo instante. E admirou-se de a sua voz soar com tanta veemência. porque estavam presentes alguns alemães. incluindo mesmo padres. . embora tivéssemos combinado que não nos sentávamos juntos nem nos cumprimentávamos.alemães. porque eram mais jovens e mais ricos.Mas não com o padre Anselmo. se não fosse o amor de Gesus e os cuidados do Espírito Santo. Que. Nina abanou a cabeça.reconheceu Blaise Meredith.Agora diga-me. mas esqueciam que muitas das suas guerras tinham sido provocadas devido ao seu próprio egoísmo e indiferença. . quando o padre Anselmo se recusava a sair para atender os doentes depois da hora do recolher. Que eram delicados. porque viviam numa ilha e queriam guardá-la só para si. Que tinham um grande sentido de justiça. Dizia que os países são como homens e mulheres e que as pessoas ficam com o carácter do país onde vivem.Também acho . Nina disse: . Sentimentais e duros também. Disse que era disso que todas as casas precisavam: muito amor e pouca discussão. de uma parte da Alemanha onde há muitos católicos. parece. Tinham tendência.Era um assunto de que ele falava muitas vezes e havia ocasiões em que eu tinha dificuldade em compreendê-lo. Os Ingleses eram um povo sentimental. mas que o de caridade era pequeno. Cada país tem o seu pecado e a sua virtude especiais. Costumava vir à missa aqui aos domingos e eu via-o. Quando lutavam.

De tempos a tempos. Uma rapariga podia ir à cisterna e voltar para casa em segurança.Conseguiu? . Mas havia neles uma rudeza e uma violência que era despertada pelo álcool. Todas vieram a correr e com grandes clamores.todos os homens jovens. ou os países. Havia uma hora de recolher e ficávamos dentro de casa toda a noite. Se havia disputas. numa altura em que Giacomo se encontrava junto dela. quando os guerrilheiros encontravam uma patrulha alemã. mas Giacomo ficou de tal maneira preocupado que insistiu em chamar Carla Carese. e também Serafina Gambinelli e Linda Tesoriero. porque ele as tornara cientes da . Não éramos roubados. . se um irmão apontava uma arma ao seu irmão. para a violência. E muitos enganavam-se a si mesmos.Não. Eram ligeiros e irregulares. Vivíamos em paz. pelos grandes discursos e pela necessidade de se afirmarem. serem delicados. pois tinham de viver em conjunto como uma família. e os guerrilheiros foram atrás deles como lobos na peugada de ovelhas no Agruzzi. E foi dessa maneira que tentou viver com os alemães aqui.Era tudo? . e. acabariam por se destruir um ao outro. e. Podiam ser facilmente enganados por vozes fortes e pela magnificência. e nasceu cego. Os primeiros sinais apareceram ao fim de certa manhã. mesmo que não Lhes entendessem o significado. amantes da ordem e da eficiência e muito orgulhosos.E depois? . Dizia que ou se tirava a gordura da sopa ou ela ficava azeda. Mas voltava sempre ao mesmo: não importava como as pessoas eram. Pouco tempo depois. Eram grandes trabalhadores. mas isso era sempre longe de Gemello...Penso que sim. os alemães foram-se embora... . a parteira. Fora assim que Deus os criara. Giacomo costumava rir e dizer que eles gostavam de sentir Deus a trovejar-lhes na barriga quando ouviam uma música alta. .Em Maio chegaram-nos notícias de que Roma caíra nas mãos dos Aliados. porque gostavam do som das palavras. Giacomo falava com o comandante e o problema resolvia-se. mesmo que a sua vontade fosse cuspirem nos olhos de alguém. . descendo para o Sul. Os Alemães já eram outra coisa completamente diferente. no princípio de Junho Paolo nasceu. havia mortes. Havia alturas em que os dois tinham de engolir o seu orgulho e desistir... Giacomo gostava de falar desta maneira.

Os médicos eram para os doentes e elas sabiam que. mas as mulheres depressa a distraíram da ideia com a brincadeira. ao de leve.declarou Giacomo Nerone suavemente. quando viram que Nina ainda estava de pé e sem quaisquer problemas. antes que tivessem tempo para Lhe dizerem tudo isso. Giacomo beijou Nina e manteve-a apertada contra si durante muito tempo. Uma hora antes de Giacomo chegar. Nina também se riu e ficou surpreendida ao ver a nuvem de ira que Lhe ensombrou o rosto. Em seguida Giacomo tirou a criança dos braços da mãe e levou-a para cima da mesa. Aldo Meyer também a beijou. Mas. cara . A voz dele também soava zangada.Ele é cego. à qual se seguia muita alegria. e ele e o médico poderiam embebedar-se juntos como era costume entre bons amigos. Em parte tiveram razão.Diga-lhe . mas. Vou chamar o Dr.Vocês são loucas. uma figura magra e agoirenta a subir o caminho que levava à estrada de São Bernardino. Meyer. quando um deles era pai de um bambino vigoroso. quando Lhes declarou: . se tudo corresse bem. erguia as minúsculas pálpebras e se inclinava para mais perto a fim de melhor examinar os olhos. . da doença das manchas. A parteira e as mulheres mantinham-se aos pés da cama. rodearam-no de mãos nas ancas a rir-se dele. Passou-se cerca de meio minuto antes de o significado daquelas . e Nina apoiou-se às almofadas e semiergueu-se para perguntar receosamente: . como um irmão. segurando no candeeiro. não escapa nenhuma! Fiquem com ela e não a deixem. espreitava para os ouvidos. formando um pequeno grupo. que se chama rubella. o parto era uma operação simples. A criança chegaria antes de ele regressar. mesmo que barulhenta.grande urgência. Nina ficou preocupada com ele por causa da longa distância. a criança nascera e repousava. acompanhado de Aldo Meyer. Giacomo saíra. . nos braços de Nina.Nasceu com cataratas a taparem-lhe os olhos.Que se passa com ele? De que andam à procura? . A mulher que a apanha no segundo ou terceiro mês pode dar à luz uma criança cega ou surda. lavada e vestida. Foi da febre que tiveste. enquanto Meyer lhe auscultava o coração. porque aquela questão de dar uma criança à luz era trabalho de mulher. Mas eles não agiram como os outros homens perante um nascimento. disseram-lhe. Ficaram então a olhar para ele de boca aberta e até Nina se mostrou espantada.pediu Aldo Meyer.

finalmente a salvo da ameaça do campo de concentração. Giacomo serviu vinho a todos e depois começou a preparar uma refeição. e eu compreendo-te.Tu és meu amigo. enquanto Nina se serviu de uma tigela que colocara no regaço e conversava com os dois. de momento. ao ver o pequeno bebé cego aninhar-se contra si. e os guerrilheiros andam atrás deles. Meyer. da cama. Giacomo Nerone não proferiu qualquer palavra. mas acontece e. Portanto.É uma coisa triste. não pode ser alterada. mostrando-lhe as protuberâncias nos olhos da criança. pousando-lhe a criança nos braços. tendo as mulheres já partido. tentou falar com ela. Nina. Quando Giacomo o levou até à porta. porque tinha vergonha de ter dado um filho deficiente ao homem que tanto amava. Giacomo é um homem procurado e eu estou comprometido com o meu bando das montanhas. Depois. Pouco depois. Nápoles está transformada num lugar de carnificina e tu serias mais uma camponesa sem ninguém para te proteger. podia levar-te para um hospital em Valenta e depois talvez a Nápoles para consultares um especialista e saberes se alguma coisa pode ser feita. mas ouviu a voz de Giacomo dizer rudemente: . Mas a guerra ainda não acabou. mesmo que não concorde contigo. Muito tempo depois. Meyer continuou a falar-lhe com os seus modos suaves e profissionais. de momento. Giacomo aproximou-se e. Quando a paz voltar a reinar.Era a única coisa que Lhe ocorria pensar ou dizer. enquanto as mulheres se agitavam à volta dela como galinhas. Mas conserva Lupo . veremos o que se pode fazer.Mas o menino está cego! . Quando a criança choramingou. Os dois homens comeram-na à mesa. Giacomo voltou a aproximar-se de Nina. Os combates continuam e as estradas estão apinhadas de refugiados.Os deficientes precisam de muito amor . . com Aldo Meyer a seu lado. só resta esperar. . de regresso a casa. deu-lhe o seio e. chorou silenciosamente. mas o coração de Nina quase ficou destroçado com o sofrimento e a pena que se lia no seu olhar. no entanto Nina virou-lhe o rosto. Se as coisas fossem diferentes. Nina começou a berrar como um animal e enterrou o rosto na almofada. Unidades alemãs desbaratadas estão em fuga. Nina dormitava.palavras a alcançar.disse Aldo Meyer. Ela já se acalmara mais e Meyer falou-lhe sobriamente: . estabelecendo uma certa razão no terror inicial. tagarelando para a confortarem. Meyer saiu antes da meia-noite para ir dormir a sua própria casa.

todo o desapontamento lhe brotou no íntimo como uma fonte e Nina apertou-se a Giacomo como se tivesse o coração destroçado. . Depois de Nina acalmar novamente. fazer algo estranho. o apóstolo. o que se aproximava muito da verdade. beijou-a. Passados alguns minutos. Nina fitou-o. Segurar-lhe-ás o candeeiro em frente dos olhos e repararás como ele pestaneja e começa a segui-lo. Eu também não! Alguém tem de começar a organizar as coisas. . cara. tal como eu. As cataratas desaparecerão daqui a três semanas. . e. Ele que se mantenha longe de mim.Vamos pôr o nome de Paolo ao rapaz. Ficarei contigo. incrédula. Aproximou-se de Nina. Porque. . cara. Recostou-se de novo. mas voltou a ver.Isto é história. disse gravemente: . .Quem te diz sou eu. quando chegar a altura de um bebé começar a ver a luz. homem! Não a podes parar. o quarto mostrava-se inundado pela luz do Sol. ao mesmo tempo que movia os lábios numa oração silenciosa. como uma árvore. . encontrou-O na estrada para Damasco. Perfeitamente alheio.Mas o médico disse.Desejo dizer-te uma coisa.. Tu é que deves dar o nome. Giacomo voltou e colocou a tranca atrás de si. tal como este rapaz. quando ela o chamou. Mas porquê Paolo? . assustada. por entre as pálpebras semicerradas.Ele é teu filho. É uma promessa que te faço.. . Quando acordou. graças à misericórdia divina.Porque Paolo.Diz-me. O resto perdeu-se quando chegaram à porta e saíram para a noite clara.O rapaz verá. Então. era um estranho perante Deus e..afastado da aldeia. ajoelhou-se no chão de terra. e. Disse calmamente: .. Houve um momento em que todo o seu corpo pareceu tornar-se rígido. Giacomo. tirando-lhe a criança dos braços. Paolo era cego. o nosso Paolo também a verá. E a voz de Meyer na réplica áspera: . Giacomo acomodou-a entre as almofadas e baixou a chama do candeeiro e ela viu-o. . observando-o até a exaustão a dominar e a fazer deslizar para o sono. não deu sinais de a ter ouvido. fechou os olhos e esticou os braços como os de Gesus na cruz. o bebé berrava vigorosamente e Giacomo pusera a cafeteira do café ao lume para o pequeno-almoço. em nome de Deus.Esta noite não podes estar sozinha. Nina mia.A voz soava-lhe forte e profunda como o som de um sino.

calmamente. não sabendo como suportar a espera e esconder a dúvida que sentia. O momento do milagre foi como uma revelação. .. Nina. Mas Giacomo já estava morto e enterrado. Nina. como?" . Até Aldo Meyer partira para Roma e ela imaginava que ele nunca mais regressaria.Acredito. monsenhor? A voz e os olhos dela desafiavam-no.Cuidarei dele. Agora devo voltar para casa . firmes. O padre fitou-a durante um longo momento e depois disse. Quando o menino abriu os olhos. e.Quando acontecer. Mas acredito em si. cantar e chamar a rua inteira da aldeia para dizer a todos que a promessa de Giacomo se tornara realidade.Então cuidará do filho de Giacomo e guardá-lo-á do mal? . ele pestanejou. quando ela colocou diante deles uma luz. .Não me digas isso só para me consolares.Acredita no que Lhe contei.Mas como podes saber? Como podes ter a certeza? Tudo quanto Giacomo disse foi: .Não é uma esperança. Não poderia suportar alimentar esperanças e no fim ver que me enganara. Nina protegeu-os com a mão. voltando a pestanejar quando ela a desviou. Nina mia. É uma promessa. Precisamente três semanas mais tarde. Nina tirou a criança do seu berço e acordou-a. Ainda não sei o significado que tem. com uma determinação curiosa: .. envergonhados. Prometes-me? Nina anuiu em silêncio. Os aldeões desviavam-se dela ao passarem. Mas ainda mal proferira as palavras e já a sua consciência o desafiava: "Como? Em nome de Deus.... -. . . mas Giacomo limitou-se a sorrir-lhe. Nina teve vontade de gritar. Não contes a ninguém o que se passou esta manhã. e os olhos dele aquietaram-se. caro. . faz de conta que para ti também é uma novidade.É tarde e a Nina deu-me muito em que pensar. Acredita. estes mostravam-se límpidos e brilhantes como os do pai. Notava-se-lhe uma agonia na voz.disse Monsenhor Blaise Meredith.

tal como Giacomo frequentemente fizera. Nina dorme finalmente e o menino também adormeceu. Mas. e também esta era uma delicadeza que dificilmente se esqueceria Meu caro Aldo. havia uma grande ternura e a graça singular do perdão. detestarás o que foi feito e poderás ser tentado a odiares-te a ti próprio pela tua participação no caso. Se assim acontecer. a noite encerrava uma tarde estranhamente calma. quando os abriu e pôs em ordem. entre os meus outros papéis. quando for manhã. como se o esperasse um momento de crise ou revelação. ainda mais porque não haverá ninguém a quem possas dizer que estás arrependido. Mas. Não te culpo por nada disto. no fim. a carta a Aldo Meyer. começando a ler a caligrafia clara e interligada. mesmo depois dos anos passados. deixarei esta nota com ela. Logo a seguir ao almoço. a paz.CAPíTULO XIII Para o Dr. momentos de recordação pungente. Tu sentar-te-ás no meio dos meus juízes e acompanharás os meus carrascos. Amanhã iremos encontrar-nos. sentara-se a ler os papéis de Giacomo Nerone. E no último de todos os papéis. Cada um de nós pode seguir pelo caminho que Lhe parece o mais certo. nós os dois. quando estiver tudo terminado. Antes de partir. aproximara-se algumas vezes da amizade e não tardara a terminar em tragédia. depois de tudo terminar e os primeiros desgostos passarem. Pegara neles hesitante e receoso. de nostalgia por uma relação que principiara em conflito. mas a carta estava em italiano. Os restantes estavam escritos em inglês. foi como ouvir o próprio Giacomo nos seus velhos argumentos desafiadores.da mesma maneira que nunca houvera amargura na pessoa de Giacomo. .embora eu ache que um dia virás a mudar de opinião. talvez chegue às tuas mãos em segurança. a tentar descobrir a explicação da sua própria falência. cada qual comprometido com uma crença e uma prática opostas. a calma e a convicção contidas naquelas linhas comunicaram-se ao leitor. Estou em casa e é tarde. Havia passagens de uma simplicidade infantil que tocaram Meyer quase até às lágrimas e frases de exaltação mística que o deixaram. Passou momentos de vergonha perante os seus próprios fracassos. para depois assinares o certificado da minha morte. mas como desconhecidos. Mas nos registos não se vislumbrava amargura . Aldo Meyer. Cada um de nós está sujeito às consequências da sua própria crença .

sentira-se comovido até às lágrimas.e as suas falhas preenchiam uma grande página do seu calendário de cinquenta anos . Se falhara em todas as outras coisas . quando chegar junto de Deus. Será que posso descansar um pouco junto de si? . . quero dizer-te. Tens sido meu amigo.Com certeza. Deus nos guarde nas horas de aflição. enquanto a memória de outros ficava a ser acarinhada no íntimo secreto dos humildes. o que era raro. os lábios sem pinta de sangue e pequenas gotas de suor cobriam-lhe a testa e o lábio superior. por amor de Deus! Que foi que Lhe aconteceu? . Adeus. Portanto. se o fizeste por convicção ou ciúmes.aneste momento. Agora gostaria que me prestasses um serviço. Parece-me que esse sentimento ainda se mantém. Espero que te preocupes sempre com eles e cuides do seu bem-estar. As mãos tremiam-lhe e a voz soava abafada e vacilante. mas nunca. Sei que amaste Nina. E ali estava a resposta à pergunta que durante tanto tempo o martirizara: o porquê de grandes homens morrerem e desaparecerem da humanidade sem que ninguém os chorasse. meu amigo. doutor. como espero vir a fazer. Giacomo Nerone Quando Meyer relera a carta pela terceira vez. até agora.Portanto. Já não me restam forças e devo rezar um pouco Foi algo que sempre desejei. depois de caminhar durante algum tempo. porque nunca terás a certeza. a graça de morrer com dignidade. dottore mio. ao juntares-te à minha condenação. me lembrarei dos dois. E esta será mais uma cruz nas tuas costas. A aparência do sacerdote chocou-o. irás ter com o padre Anselmo e com Anne de Sanctis e dir-lhes-ás que não Lhes guardo rancor pelo que fizeram e que.Desculpe incomodá-lo. compreendi quão difícil é. mas. que não te odeio. Tinha o rosto exangue. reflectir e voltar a lê-la. Já falta pouco para a aurora nascer e sinto frio e medo. Mas eu sei e digo-te agora que morrerei continuando a ter-te na conta de um amigo. ao abri-la. O pensamento permaneceu vivo na sua mente durante o final da tarde e ainda continuava a ser fruto de reflexão quando bateram à porta e ele. deparou com Blaise Meredith. assim como de Nina e da criança. Quando receberes esta carta. homem! Entre.não morreria sem amor e sem perdão. Sei o que tem de acontecer e a minha carne arrepia-se perante a ideia. aqui o deixo. a caridade nela contida envolvera-o como uma absolvição.

. já não terá grande importância. Estou profundamente impressionado com o que ela me contou. Estou de regresso da casa de Nina.O senhor é um homem muito doente.Passarei muito tempo morto. . o facto era estranho? .Falou com Nina Sanduzzi acerca do assunto? . Meredith engasgou-se com o elevado índice de álcool da bebida.Três semanas.Exacto. a observá-lo com um olhar grave. se não se importa. à maneira ..O senhor preocupa-me. . No Inverno de 1943 houve por aqui alguma epidemia de rubéola? E Paolo Sanduzzi nasceu cego devido a ela? .Dê-me mais alguns dias. .Sob o ponto de vista médico. Daqui a pouco já estarei bem! Meyer conduziu-o até dentro de casa.A vida é sua. mas conseguiu engoli-la e. passados alguns momentos. Depois disso. Meyer mantivera-se a seu lado. Mas é um longo caminho antes de se chegar à estrada. Esta situação não pode continuar. Perguntei-lhe como e quando acontecera. Aqui vai a primeira. . mais perto de quatro.Limitou-se a fazer um gesto de indiferença e a dizer. e foi de mais para mim.Beba isso. Já fui demasiado longe para agora me retrair. monsenhor. . o rapaz recuperara a visão? . Para quê esta situação? . fê-lo deitar-se na cama e depois trouxe-lhe uma boa dose de grappa.Que foi que ela respondeu? . .Muito bem. começou a sentir o calor a espalhar-se e a força a voltar-lhe aos membros. . Mas existem algumas questões que gostaria de esclarecer consigo. Meredith.Pergunte o que quiser.Quando regressou. doutor. .Falei. meu amigo. para que o mandem para o hospital.Quanto tempo depois é que a criança voltou a ver? .Obrigado.Recuperara. As cataratas tinham desaparecido.Meredith sorriu lividamente. Sinto-me inclinado a entrar em contacto com o bispo. fui para Roma. Diga-me: que tal correram as coisas com Nina? . Nunca soubera de nenhum outro caso.Perfeitamente anormal.Não me aconteceu nada. Mais vale arder do que apodrecer. . . não.. Não tem grande qualidade mas pô-lo-á bom num instante. Meyer encolheu os ombros com desespero. . Sabe. .

depois sorriu e abanou a cabeça. a sua capacidade de visão teve o mesmo desenvolvimento que o das outras crianças. era a isso que ela se referia quando afirmou que Giacomo fizera milagres e que ela os presenciara.dos camponeses: ". depois de o doutor se ir embora. Hoje o rapaz vê. . . Meyer mirou-o com um olhar demorado e indagador. E.Na sua opinião. mas não lhe posso fazer a vontade. Aconteceu apenas". Porque pergunta. Meredith. A criança foi capaz de distinguir a luz da sombra. Ainda o estou. As cataratas desapareceram. .. .Mas foi possível. monsenhor? . Não acredito em milagres. Na sua opinião. Parecia perdido num pensamento novo que Lhe ocorrera. o nosso relacionamento não era tão bom como agora. Ao voltar a falar.Não posso. . apenas em factos sem explicação. teriam possibilidade de explicar o . Segundo Nina. que não conheço nenhuma explicação médica para ela. chegada a manhã.Nina contou-me que no dia do nascimento.Qual seria a sua opinião como médico? . com ar sombrio . Ela não mentiria nem para salvar a vida. foi como se o fizesse com os seus próprios botões: .Numa primeira análise diria que não era possível. Mas não estou preparado para dar um salto no escuro e dizer-lhe que se trata de um milagre provocado pela intervenção divina.Sei o que quer que eu diga.Quando é que ela fez essa afirmação? .disse Meredith bemhumoradamente. Giacomo passou a noite a rezar e que. Talvez a outros seja possível.Quero apenas que me diga se o pode explicar em termos médicos. foi precisamente o que aconteceu.perguntou-lhe Meredith vivamente.era verdade.Portanto. . ela falava verdade? . Poderia ir mais longe e dizer que nunca ouvi falar de um caso semelhante. ele Lhe prometeu que o bebé veria normalmente quando chegasse a altura em que os outros bebés também viam: três semanas mais tarde. Não insisti. Nessa altura.Se outros pudessem. . Posso apenas dizer que são situações que normalmente não se verificam..Quando falávamos da sua chegada e eu tentava convencê-la a conversar consigo. Mas fiquei intrigado. .retorquiu Meyer.Se ela o disse . . . a partir daí. que se teria passado? Mas Meyer não Lhe respondeu imediatamente.Não lhe estou a pedir que o faça .

sorrindo. no facto de o senhor rejeitar a possibilidade de milagres e eu a aceitar.Quem era Il Lupo? E porque Lhe pediu Nerone que o mantivesse afastado da aldeia? Meyer fitou-o com surpresa inesperada. . . . possivelmente. . .disse Meredith.Do meu conhecimento médico .Considerá-lo-á como inexplicado e. Como se fundamenta numa única testemunha e nas suas declarações posteriores.Qual é a pergunta que se segue? Meredith apresentou-lha sem mais delongas. Ela estava meio a dormir. com ar zombeteiro e intencional. que se tratou não de um milagre.. fugindo ao assunto. monsenhor? ..corrigiu-o Meyer.. sem vacilar. mas ouviu-o a conversar com Nerone à porta. com uma ironia suave.E estaria disposto a testemunhar nestes termos no tribunal do bispo? . Mas não pode pedir a ninguém que julgue um relatório em segunda mão de algo que aconteceu há quinze anos atrás. As nossas opiniões divergem.Que mais é que ela ouviu? .. Eu também não.Foi. .É quanto basta .disse Meredith.Estaria. Isto é história! Não a podes parar.O monsenhor teria dado um bom advogado observou Meyer.Registarei o facto nos meus apontamentos. . . inexplicável na actual fase do conhecimento médico? . se bem que inexplicado. . do mesmo modo que o meu sucessor.conhecimento antecipado que Giacomo tinha da cura? . meu caro doutor. Pensei que poderia dizer-me do que se tratava. Alguém tem de começar a organizar as coisas. mas estou convencido que a minha posição é bastante mais sustentável do que a sua. O assunto daria para estarmos aqui a falar muito tempo.Foi tudo? .O doutor disse: ".Nina. mas sim de um fenómeno físico raro.. .perguntou-lhe Meyer.A clarividência é um fenómeno aceite.Tenho um espírito aberto . . embora de facto possa ter sido.Aceito.Mas o doutor aceita o relatório como verdadeiro? . monsenhor.. Só posso tentar transmitir-lhe o que significou para mim. . provar.Qual é a sua opinião pessoal.Tentarei." . provavelmente acabaremos por recusar a sua aceitação como milagre. . através de todos os meios possíveis.Quem lhe contou esse facto? .Tinha muitos significados. . .

uma voz tranquila no falar. e dois homens acompanhá-lo-iam através das moitas.. embora como ou em quê nunca tivesse ficado claro.. As tendas estavam escondidas debaixo dos arbustos e as cabras e a vaca que tinham obtido dos camponeses da localidade estavam guardadas em segurança dentro da área ocupada. Só havia um caminho de acesso . No dia em que Giacomo Nerone foi trazido do Rochedo de Satanás.Poderíamos deixar isso para mais tarde? A minha mulher está em trabalho de parto. este podia ser observado durante todo o caminho. estendendo-lhe a mão. se deixavam entrar algum visitante. Milénios atrás devia ter sido a cratera de um vulcão. Os guardas transmitiram o seu nome e ao que vinha e IlLupo levantou-se. enquanto as sentinelas vigiavam os terrenos em redor. com olhos claros. até à tenda de Il Lupo. com roupas grosseiras. seria abordado e revistado. mas tinha as mãos e os dentes imaculados. Trabalhara em Milão e Turim e mais tarde em Roma. ao abrigo das protuberâncias denteadas. O observador postado na borda da cratera podia vê-lo durante todo o dia . Tinham o acampamento montado numa depressão em forma de bacia..um indivíduo baixo. onde estava colocada a primeira sentinela.o carreiro de cabras que principiava no Rochedo de Satanás. ora no dialecto provinciano mais rústico. tal como os seus homens. bem no alto da cadeia de colinas. voltando depois à Itália antes do início da guerra. Ouvi falar imenso de si. Gostaria que o doutor a visse o maisrápido possível. mas respondeu com brusquidão: . Nerone retribuiu-lhe o cumprimento. . As bordas eram denteadas como uma serra e as vertentes exteriores áridas e cobertas de entulho. . um rosto cheio e uma boca sorridente. O caminho de volta é longo. Quando chegasse à beira da cratera. Vestia-se. Admitira pertencer ao Partido e discutia política com autoridade e saber.Então você é que é Nerone! Tenho muito gosto em conhecê-lo. que era o chefe. mas no interior havia um pequeno lago para onde a água se escoava e nas suas margens cresciam arbustos e havia uma faixa de erva rija e fibrosa. Meyer recordava-se nitidamente dele . a leste. Falava pouco acerca do seu passado. mas Meyer soubera que combatera na Espanha e fora para a Rússia. ora no mais puro toscano. louro. Meyer encontrava-se na tenda de ILupo a combinar uma nova operação de patrulha. Gostaria de Lhe falar.e. barbeando-se cuidadosamente todos os dias.

- Ela teve rubella - explicou Meyer apressadamente. - Temos receio de complicações. Os olhos claros toldaram-se imediatamente de preocupação. Il Lupo apressou-se a expressar a sua simpatia. - Uma pena. Uma grande pena. É nesses casos que um Serviço Nacional de Saúde pode dar uma ajuda. Podem dar-se vacinas, mal aparecem sinais de epidemia. Você não tem soro, pois não, Meyer? - Não. Só nos resta aguardar e ver como é que a criança nasce. - Tem as parteiras com ela? Nerone acenou afirmativamente com a cabeça. - Então, pelo menos assistência está a ter. Dez minutos a mais ou a menos não farão diferença. Tomemos uma chávena de café e falemos um pouco. - Descontrai-te, Giacomo - disse Meyer alegremente. - Nina tem a fortaleza de um boi. Compensaremos a perda de tempo, quando descermos a colina. - Muito bem. Sentaram-se nas cadeiras de lona em mau estado. ILupo ofereceu cigarros e gritou a pedir café e, depois de alguns momentos de rodeios delicados, foi direito ao assunto. - Meyer falou-me de si, Nerone. Consta que é um oficial do Exército inglês. - É verdade. - E um desertor. - Também é verdade. Il Lupo encolheu os ombros e soprou uma nuvem de fumo em direcção ao tecto de lona. - Para nós não tem qualquer importância, evidentemente. Os exércitos capitalistas serviram o seu propósito ao ganharem a guerra. A nossa tarefa é estabelecer a paz que desejamos. Portanto, a sua história pessoal não representa nenhuma desvantagem. Pelo contrário, poderia até ajudá-lo, connosco. Nerone nada disse, limitando-se a ficar sentado a ouvir calmamente. Il Lupo continuou a falar com a sua voz calma e educada. - Meyer também me falou do trabalho que tem feito em Gemello. A confiança que despertou no meio do povo. Isso é excelente... como medida temporária. - Porquê temporária? - inquiriu Nerone suavemente. - Porque a nossa própria posição é temporária e ambígua. Porque, quando a guerra terminar, o que será em breve, este país necessitará de um governo forte e unido para o organizar e dirigir. - Refere-se a um governo comunista?

- Sim. Somos as únicas pessoas que dispõem de uma plataforma delineada e a força para a levar à prática. - Também precisam de um documento especial, não? Um mandato? Il Lupo anuiu amigavelmente. - Já estamos na posse dele. Os ingleses tornaram claro que entrarão no jogo de quem os ajudar a governar o país. Deram-nos armas e pelo menos um campo de manobra razoável para operações militares. Os americanos têm outras ideias, mas são politicamente imaturos e durante algum tempo podemos não Lhes dar importância. Esta é a primeira metade do mandato. Quanto à segunda, temos de a ganhar por nós próprios. - Como? - Como é que qualquer partido ganha a confiança? Mostrando resultados. Estabelecendo a ordem a partir do caos. Livrando-se dos elementos desestabilizadores e construindo a unidade com a força. - Isso foi o que os fascistas tentaram fazer - disse-Lhe Nerone calmamente. - O erro deles foi erguerem a sua ditadura baseando-se num único homem. A nossa será a ditadura do proletariado. - E gostariam que eu me juntasse a esse projecto? - Tal como Meyer fez - salientou Il Lupo tranquilamente. - Ele é um liberal por natureza, mas viu a falência do liberalismo. Não basta proclamar promessas de trabalho, educação e prosperidade como prémios da colaboração. As pessoas não se levam assim. São naturalmente estúpidas, naturalmente egoístas. Precisam da disciplina da força e do medo. Repare em si próprio, por exemplo. Fez um bom trabalho, mas onde é que ele o conduziu? Continuará a andar por aí com um cesto de ovos no braço no papel de Dama do Bem-Fazer, até ao dia da sua morte... E eles deixá-lo-ão fazê-lo. Que futuro vê nessa situação? Pela primeira vez desde a sua chegada, Meyer viu Nerone descontrair-se. O seu rosto magro e moreno abriu-se num esgar de genuíno divertimento. - Não tem futuro absolutamente nenhum. Eu sei. - Então para quê continuar assim? - O mundo é um lugar triste sem ele - disse Neron em tom ligeiro. - Concordo - disse Il Lupo. - Mas no mundo que nós construirmos não haverá necessidade desses actos. - É disso que tenho medo - declarou Giacomo Nerone. Pôs-se de pé. - Penso que nos compreendemos um ao outro.

- Eu compreendo-o muito bem - disse Il Lupo, sem ressentimento. - Não estou bem certo é se me compreendeu a mim. Vamos entrar nas aldeias, uma a uma, para nelas instalarmos a nossa própria administração. Gemello é a que vem a seguir na lista. Que tenciona fazer em relação a esse facto? Nerone sorriu, negando a proposta antes de a transmitir. - Podia reunir as pessoas e dar-vos luta. Il Lupo abanou a cabeça. - É demasiado bom soldado para tal. Nós temos as armas, as balas e o treino para as utilizarmos. Dávamos cabo de vocês numa tarde. Que proveito traria? - Nenhum - retorquiu-lhe Nerone calmamente. Portanto, passarei palavra pela população para aguardarem as próximas eleições livres sem violência. Um vislumbre de sorriso retorceu os lábios finos de Il Lupo. - Nessa altura já eles terão esquecido as armas. Recordarão apenas o pão, a massa e as tablettes de chocolate americano. - E os rapazes que vocês fuzilaram nas valas! A voz de Nerone deixou transparecer uma ira súbita. - Os velhos espancados, as raparigas com as cabeças rapadas! A nova tirania construída sobre a anterior, a liberdade mais uma vez escamoteada por uma ilusão de paz. Eles agora submeter-se-ão, porque perderam e têm medo. Mais tarde erguer-se-ão para vos julgar e correr convosco! - É dar a um homem um bom dia de trabalho, a barriga cheia e uma mulher à noite na cama, que ele nunca mais pensará no dia do Juízo Final. - Il Lupo levantou-se. A sua figura magra pareceu aumentar de estatura, enchendo a tenda. - Mais uma coisa, Nerone... - Sim? - Em Gemello não há espaço para nós os dois. Você terá de se retirar. Surpreendentemente, Nerone projectou a cabeça para trás e riu com vontade. - Você quer a carne sem a mostarda. Quer-me desacreditado e posto em fuga como um coelho, enquanto você marcha pela aldeia dentro como o salvador da Itália. Você é demasiado ambicioso, homem! - Se ficar - disse Il Lupo, com determinação e frieza - terei de o matar. - Eu sei - retorquiu Giacomo Nerone. - Quer fazer de mártir, não quer? - Isso seria uma loucura e uma presunção - respondeu-lhe

Nerone, com simplicidade. - Como qualquer outra pessoa, não desejo a morte. Mas não saírei da terra que lavrei com as minhas próprias mãos, de um lugar onde encontrei amor, esperança e fé. Recuso-me a ser expulso dela para lhe dar a si uma vitória fácil. - Muito bem - disse Il Lupo, sem ressentimento. Sabemos as posições um do outro. - Agora importa-se de que Meyer se venha embora? - De maneira nenhuma. Se esperar um segundo lá fora, terminaremos num instante o que estávamos a combinar. Depois de Nerone sair, Il Lupo disse, sem alarde: - É um fanático. Terá de ser afastado. Meyer, pouco à vontade, esboçou um gesto de indiferença. - É bom tipo. Faz muito bem e nenhum mal. Porque não o deixamos sossegado? - Você é brando, Meyer - disse Il Lupo, com vivacidade. - Daqui a dez dias tomaremos Gemello. Tem esse tempo todo para o fazer ganhar juízo. - Lavo as minhas mãos do assunto - disse Meyer asperamente. - Essa é da autoria de Pilatos, meu caro doutor. Os Judeus têm outro dito: "Se necessário, um homem deve morrer pelo seu povo." Continuava a sorrir quando Meyer deu meia volta e saiu da tenda para se juntar a Giacomo Nerone... ... Blaise Meredith estava deitado na cama, descontraído no corpo, mas activo na mente, escutando a narração crua e objectiva do médico. Quando, a certa altura Meyer fez uma pausa, perguntou: - É uma pergunta pessoal, doutor. Juntou-se efectivamente ao Partido Comunista? - Nunca tive cartão do Partido. Mas isso é irrelevante. Na montanha não se usavam cartões. O importante foi que assumira um compromisso com IlLupo e com aquilo por que ele lutava: a ditadura do proletariado, a imposição da ordem pela força. - Posso perguntar porquê? É muitíssimo simples. - Meyer agitou as mãos eloquentemente ao explicar. - Eu assistira à queda do liberalismo. Vira os retrocessos do clericalismo. Fora vítima da ditadura de um homem. Compreendia a necessidade de igualdade, de ordem e de uma redistribuição do capital. Também vira a estupidez e a teimosia das pessoas mais desfavorecidas. A solução de Il Lupo parecia-me a única. - E a ameaça dele a Giacomo Nerone? - Também tinha a sua lógica. - Mas discordava dela?

- Não me agradava. Não tinha a minha concordância. - Falou a Giacomo acerca dela? - Falei. - E que foi que ele disse? - Surpreendentemente, concordou com IlLupo. O rosto de Meyer ensombrou-se com a recordação. - Disse muito claramente: "Não se pode acreditar de uma maneira e actuar de outra. Il Lupo tem razão. Se quiserem construir um mecanismo político perfeito, têm de deitar fora as partes que não funcionam. IlLupo não acredita em Deus. Acredita no homem apenas como entidade política; portanto, está perfeitamente dentro da lógica. Tu é que és o ilógico, Meyer. Apetece-te omeleta para o pequeno-almoço, mas não queres partir os ovos." - Teve alguma resposta para dar? - Uma não muito boa, receio bem. Estava demasiado próximo da verdade. Mas perguntei-lhe como é que ele conciliava o seu próprio reconhecimento de que não havia futuro no trabalho com o facto de ele estar preparado para morrer por ele. - Que foi que ele disse? - Salientou que também ele tinha a sua própria lógica. Acreditava que Deus era perfeito e o homem, desde a queda, se tornara imperfeito e que no mundo sempre existiriam a desordem, o mal e a injustiça. Não era possível criar um sistema que destruísse esses aspectos negativos, porque os homens que o dirigissem também seriam imperfeitos. A única coisa que dignificava o homem e o mantinha afastado da autodestruição era a sua filiação com Deus e a sua fraternidade na família humana. O próprio serviço prestado por Giacomo era uma expressão dessa relação. Era inevitável que surgisse um conflito entre ele e Il Lupo, porque as crenças que professavam eram opostas e contraditórias. - E II Lupo, sendo o homem das armas, tinha de o destruir? - Exactamente. - Porque não se foi ele embora? - Também Lhe fiz a pergunta - disse Meyer, fatigado. - Sugeri-lhe que levasse Nina e o menino e se mudassem para outro sítio. Recusou. Disse que nenhum mal aconteceria a Nina e que ele mesmo há muito deixara de fugir. - Portanto, permaneceu em Gemello? - Sim. Eu regressei às montanhas. Na véspera do dia em que Il Lupo iria avançar e montar a sua administração, voltei à aldeia. Eles iriam utilizar a minha casa como quartel-general e eu tinha de a preparar.

. Não houve qualquer discussão entre ambos.É um homem esperto. Aprecio a tua atitude. Serás preso perto das nove e trazido aqui para um julgamento sumário. .Pede-me para que te diga que te deixa quase dezoito horas para te ires embora.Que é? . . . .Como é que ele se propõe desacreditar-me? . ruidosa com as primeiras cigarras. por baixo da figueira. E depois? . Virei aqui ter.Onde estarás às nove da manhã? . Trago dinheiro suficiente para te manter a ti. e falaram com a mesma sobriedade com que se desenrolaria uma conversa entre advogado e cliente.Nada. . Não vê benefício em despertar simpatias punindo uma mulher e uma criança. .Pouparei o trabalho a Il Lupo. se o desejares. Temos sido bons amigos. quente com a Primavera que se arrastava. .Então não há mais nada a dizer.Pelo pelotão de execução.E Nina e o rapaz? . acerca do que aconteceria quando Il Lupo descesse até à aldeia com os seus homens. Admito-o. agradeço-te por tentares. . . Il Lupo é cuidadoso com as formalidades.Nenhum mal Lhes acontecerá. Nerone recusou-se firmemente a partir e as palavras de Meyer limitaram-se a recitar o inevitável. a Nina e ao bebé durante dois meses. .Como? .Fico. Será um tribunal militar. Estou autorizado a dar-to em troca da certeza que dei que estarás afastado da área antes do nascer do Sol. .Deserção da causa dos Aliados e colaboração com os alemães.Há uma coisa. . quase me esquecia. pois não? . Nerone sorriu debilmente.Não deverá ter grande dificuldade em provar tudo isso. .. Il Lupo foi muito claro em relação a esse aspecto.Il Lupo foi muito claro quanto ao que irá ser feito. .A chegada dele está marcada para o nascer do Sol..Também me tinham dito que desse uma última palavra a Giacomo Nerone para levá-lo a mudar de ideias.Serás condenado e imediatamente levado para execução pública. Primeiro serás desacreditado e depois executado. Meyer. Passearam juntos no jardim. Nada alterará a minha posição. A tarde ia no princípio..Sob que acusações? .

. A seguir irei à villa pedir à condessa que receba Nina e o menino em sua casa até tudo terminar.Lamento que termine desta maneira. mas que é que vais fazer agora? Nerone respondeu-lhe tranquila e sinceramente: . portanto. no novo mundo de Il Lupo. para que I1 Lupo não soubesse onde ele estava e se . Teve vontade de recorrer à velha fórmula familiar e dizer: "Deus te guarde. dormir lá naquela noite. Giacomo foi lá acima à villa pedir refúgio para Nina e o filho. . Não te culpes demasiado.Isto não é em primeira mão. Então.E a condessa? . Meyer. O velho não gostava dele. Já não é da minha conta.. Nerone. Blaise Meredith perguntou: .Deteve as passadas e estendeu a mão.. Foi Pietro.Nada de especial. que é meu doente. Lembrar-me-ei de ti na eternidade." Mas lembrou-se a tempo de que. Nem todos os homens conhecem a hora e o local da sua morte. tanto quanto sei.. porque estava dito tudo quanto precisava de ser posto em palavras e porque nenhum dos dois sabia muito bem como dizer adeus. .Adeus. como sabe. .Vou lá abaixo ter com o padre Anselmo para me confessar. Depois. . às nove da manhã virei aqui ter pelos meus próprios pés. Deus deixaria de existir. Recusou-se a ouvi-lo em confissão.Depois vou dizer as minhas orações. .Obrigado....Adeus. um dos criados.Que aconteceu com o padre Anselmo? Meyer esboçou um gesto de indiferença.. . desajeitadamente: . . Também quis. Tomarei conta de Nina e do rapaz.Não pode ter tudo. . sentido e ele não a disse.O rosto moreno e encovado abriu-se num sorriso. . Tinham discutido muitas vezes. O assunto chegou-me aos ouvidos mais tarde. Ele quer uma detenção pública. .Lamento. até que Meyer disse. Ela é inglesa de nascimento e Il Lupo é demasiado esperto para agir impensadamente com alguém que pertença ao povo que Lhe deu as armas que tem. Tenho sorte em dispor de tempo para me preparar.Transmitir-lhe-ei o que disseste.. caminharam de um lado para o outro pelo carreiro lajeado que se estendia debaixo da figueira. na aldeia. mas assim não poderá ser. . Voltarei depois à cabana para ir buscar algumas coisas para entregar a Nina. que me contou. A despedida não fazia. que era agora o seu.

Meredith sentia-se chocado. observou: . mas à custa de um preço. Embora. . O preço que exigia era que Nina assinasse uma declaração em como deixava o menino à sua guarda e que Giacomo Nerone dormisse com ela nessa noite.disse Meyer. mas já se apaixonara por Nina Sanduzzi. sente-se provavelmente atraída por ele. Aparentemente ela foi suficientemente perspicaz para calcular que ele passaria a noite em casa de Nina. como deve calcular. . parece. . . Giacomo foi preso duas horas depois do nascer do Sol.Já a conheço há muito tempo.visse obrigado a abster-se da importância que uma detenção pública teria. Seja como for. . Acho melhor arranjar-me para jantar. Mas continua a ter ciúmes de Nina e detesta-se a si própria. com bom humor sombrio. Foi sempre demasiado orgulhosa para se satisfazer com algum homem da aldeia.Comerá pior.sugeriu Meyer impulsivamente.Quando muito. . Estou quase a terminar a transmissão do meu testemunho e mais vale que ouça o . .Não me parece que ela odeie o rapaz . O marido disiludiu-a. É uma apaixonada por natureza e tem grande necessidade de um homem.Porque não jantar aqui? . Blaise Meredith tirou os pés de cima da cama com um impulso e sentou-se. Os outros amantes chegaram e partiram como soldados em tempo de guerra. é por essa razão que ela odeia o filho dele.Que preço? . Mandou um homem levar uma mensagem sua a Il Lupo. Ele favoreceu-lhe os desígnios obscuros. apesar de não o saber. não me sinta com grande disposição para encarar os dois esta noite. necessidade ainda mais premente agora. . Desde o princípio que ela sentiu ciúmes dessa relação. Giacomo recusou. Nerone poderia ter sido seu companheiro.Ela é uma mulher estranha . que enfrenta o terror da meia-idade. É por isso que o seu amigo pintor tem tanta influência na villa. . Numa voz que era quase um suspiro.Então.Já lhe disse . Anne de Sanctis estava disposta a fazê-lo. mas não poderia afirmar que a percebo completamente. mas ao menos não se verá forçado a ser delicado.observou Meyer evasivamente.observou Meyer calmamente ela tem uma noção muito especial da realidade.Um homem na véspera da sua execução? . De modo que toda a sua vida emocional tem vindo a tomar os matizes da perversão. passando os dedos pelo cabelo fraco num gesto de cansaço patético e confusão.É tarde. só Deus sabe.

Estás metida numa trapalhada. Sinto que a culpa é minha por tê-lo trazido aqui. Nicholas Black também estava nervoso. porém..Eu sei. .e o final poderia ser uma convocação discreta da polícia e a revogação da sua licença de estada.Agora escuta! O padre está cá. cara. Já acontecera anteriormente. . a condessa e Nicholas Black jantavam à luz das velas. . subtil e impiedoso.Concordo que o padre representa um tremendo aborrecimento. Estamos presos a ele. Meredith forçara-o a falar à hora do almoço e tinham-se dito coisas que nunca deveriam ser recordadas. Nicki. na intimidade retraída dos conspiradores.disse Meyer.Há o bispo. Mandarei um moço à villa apresentar as suas desculpas. . sabes. O rosto da condessa iluminou-se imediatamente. que ele a interpelasse com as suas perguntas secas e pedantes e os seus olhos encovados e perscrutadores. .. e tu não o desejarias. .Eu é que lhe estou grato . [ Na requintada sala de jantar da villa. Os democratas-cristãos estavam no poder e por trás deles tinham o Vaticano. Não tardaria. à laia de encorajamento.A condessa concordou pesarosamente.Tenho a certeza de que podemos. todo o tipo de influências poderia entrar em acção .resto esta noite.Inclinou-se para a frente e deu-lhe uma palmadinha na mão. . Não nos podemos livrar dele sem cometermos um acto de indelicadeza. Se Meredith se lembrasse de invocar a ajuda do bispo. antigo. A condessa mostrava-se irritada e mordaz. . Quer respondesse ou mantivesse o silêncio. não tardou em se aperceber do medo da condessa e a explorá-lo para sua própria vantagem.com Nicholas Black a dominá-la e Meredith a colher sabia Deus que informações de Meyer. cara. de Nina Sanduzzi e do velho Anselmo.E de um judeu para um inquisidor é um grande cumprimento. Começava a aperceber-se do quanto a situação lhe escapava já ao controlo . nutria um respeito considerável pela influência temporal que a Igreja possuía num país latino. Gostaria de te ajudar a sair dela. apesar de toda a sua troça.. . Agora encontravam-se em oposição declarada e Black. acabaria desacreditada. .Pode crer que lhe ficarei muito grato.influências que alcançariam mesmo a própria Roma .Se puderes fazê-lo. .. Portanto. com um sorriso. . enquanto o pintor se livrava airosamente de qualquer embaraço e ficava com o prémio.

Que mãe recusaria semelhante oportunidade? E se o fizer? O rapaz está obrigado por um contrato de trabalho firmado contigo.. Penso que somos capazes de manter o nosso monsenhor ao largo durante esse espaço de tempo.É uma lembrança formidável. Queres agir como uma boa cristã e afastá-lo de mim. portanto.Ainda assim. É melhor seres tu própria a falar com o rapaz..Agitou eloquentemente uma das mãos. Queres comprar-lhe roupas novas.Amanhã trato de tudo e partiremos no dia a seguir. Nicki.Eu.É simples. . O comboio de Valenta parte para Roma de manhã..Os olhos luziam-lhe e ela bateu as palmas entusiasmada. é só um dia. cara. Fará os possíveis por dificultá-las. Precisas de consultar um médico imediatamente.Também pensei nesse aspecto .Black interrompeu-a bruscamente: . .Eu também sei que há o bispo. Meredith deve ficar.Eu fico aqui. Desejas treiná-lo para se movimentar no meio da sociedade com educação. vais a Roma. Nicki.Riu sardonicamente. . . com o seu sorriso satírico. cara. Levas a tua criada e Pietro e. não é? . . Os olhos da condessa brilharam perante a ideia nova e encorajadora.É pena .Não podemos.disse o pintor. mas voltaram a ensombrar-se novamente. quanto a ti? Meredith sabe quais são as tuas intenções. Mas nada te impede de te ires embora. Não .Não te tens sentido nada bem. pelo menos durante uma semana. Concordámos nesse ponto. Também poderias resolver esse óbice providenciando-lhe uma entrega semanal.disse Black. . Portanto. de parte do salário do rapaz. Se Meredith te fizer perguntas. . Não haverá tempo para preparar tudo. também te fazes acompanhar pelo rapaz. irritado. Tens de viver aqui. . A lei italiana é uma confusão tal que me parece que não terás dificuldade em levares a tua avante desde que o rapaz consinta. através do teu mordomo.. podes dizer francamente que achas que exerço má influência sobre o rapaz. como um favor especial a Nina Sanduzzi. eu não percebo. A mãe é que terá de enfrentar o problema de ter de explicar por que razão o quer aqui e que trabalho Lhe poderá arranjar. és obrigada a mostrar-te amigável. Simples. Precisas de pessoal para o dirigir. . Arranjas um apartamento por lá. . Talvez até estejas a pensar em mandá-lo educar pelos Jesuítas. Mas. Nicki! Maravilhoso! . .Porque não amanhã mesmo? .Maravilhoso. O próprio Meredith tem conhecimento de que tens sofrido enxaquecas e sabe Deus que outras maleitas femininas. . .

De repente sentiu-se chocada com um pensamento: "Mas quem é que me ama? E quem é que alguma vez chegará a amar-me?" . . esperemos. correndo diariamente perigo de sedução. Sinto-me responsável por ele. . . entre os bem-aventurados. Mas como é que me livro dessa responsabilidade? . sim.concordou Meyer. Nerone está morto e.Ao amor! . monsenhor. Certamente não ignora a situação em que está envolvido. Penso que é um rapaz são.Já tentou? . . Em relação à condessa.Serei franco consigo. querido! Depois abriremos outra garrafa e celebraremos.Com Black. As crianças que são criadas no leito matrimonial amadurecem cedo. do mal da meia-idade e de um velho amor que se tornou amargo e vergonhoso.Neste momento sintome menos preocupado com Giacomo Nerone do que com o seu filho. poderia ter alguma possibilidade. . As mulheres são criaturas muito pouco lógicas na maior parte dos casos e esta padece de um mal. Retraem-se como coelhos e são muito mais complicados do que os adultos. Meredith. ..exclamou Anne Louise de Sanctis. .É possível que encontre ainda maior dificuldade. Se eu pudesse convencer a condessa ou o próprio Black. doutor .devo dar a impressão de estar envolvido.Ao amor. comendo taciturnamente o resto do seu jantar. .Até mesmo num confessionário se torna difícil alcançar um adolescente. franzindo interrogativamente os sobrolhos. . apesar de inexperiente. com preocupação sombria.Bebamos.De uma coisa estou certo. A que devemos beber? Black ergueu o seu copo e sorriu à condessa por cima da borda. Meyer dirigiu-lhe um sorriso frio. esfarelando-a sobre o prato e formando montinhos com as partículas acinzentadas. mas Black é uma pessoa muito persuasiva. O seu filho encontra-se a braços com uma grave crise moral. Para um há cura. cara! . .disse Meredith.O rapaz é praticamente um homem. Meredith brincava distraidamente com um pedaço de côdea.É um problema . ainda nem sequer experimentei. Não fui capaz de encontrar um termo de concordância comum.Fez uma pequena pausa. Mas o homem está cheio de amargura e ressentimento.Voltou a encher o seu copo de vinho.Falarei com ele amanhã de manhã. . .. É livre de fazer o que quer e é moralmente responsável. mas para o outro.

Drogas. Il Lupo calculara tudo com exactidão. .disse Meyer. esse é o dilema com que os materialistas se debatem.Nenhum padre pode curá-lo. e não tumultos que o perturbassem. Existe uma outra. em silêncio. esta não fora absolutamente nenhuma. Dentro da sala. . A sua submissão era para com os fortes. pela estrada. . agarrando nas dobras da almofada com as mãos minúsculas e rechonchudas.Então. ele limitara-se a ficar imóvel. se deixou cair em cima da cama a gemer.exclamou Meyer. Não era herança dos brandos. . e não os fracos. Ao chegarem à casa de Meyer. A criança não chorou. bebida ou suicídio . Aquela gente vira demasiados conquistadores chegarem e partirem.. mas é uma palavra feia da qual poderá não gostar. não Lhe posso fazer a vontade. e para tornarem o espectáculo mais vistoso. Depois fizeram-no caminhar colina acima. Depois olhou em redor. Riscam Deus do dicionário e a única resposta que têm para decifrar o enigma do universo é uma palavra feia. A divisão fora disposta de maneira a fazer de tribunal.Três palavras para o mesmo desfecho. exigindo com Imprecações que regressassem a suas casas. que gritava e lutava como um animal selvagem .Sabe.Diabos o levem! . ao mesmo tempo que os outros seguravam Nina. Meredith ergueu o rosto lívido e sorriu-lhe bem-humoradamente.. As pessoas mantiveram-se à porta. .Se quer que eu diga que Deus é a resposta. Tomemos um pouco de café e falemos de Giacomo Nerone. às oito da manhã prenderam Nerone em casa de Nina. sem rodeios. I1 Lupo queria um julgamento ordeiro. . . prenderam-lhe os braços atrás das costas e inclinaram-no quase ao meio para atravessar a aldeia. Não se mostraram demasiado rudes para com ele.e que. qual vai ser o fim dela? . com um sorriso malicioso.E essa é a única resposta? . a olhar. Era uma terra dura com uma história dura. e até as crianças receberam ordem para se calarem enquanto ele passava.Diabos o levem por ser um inquisidor tão metediço. depois de o levarem. As pessoas vieram a correr como formigas para se postarem em frente. monsenhor. . Na realidade. Nenhuma voz se ergueu em protesto. Não admira que tão poucos dêem por ele. Giacomo Nerone gastou alguns momentos a flectir os braços entorpecidos e a limpar o sangue do rosto. nenhuma mão se estendeu para o ajudar. mas ensanguentaram-lhe o rosto e rasgaram-lhe a camisa para que desse a impressão de que lhes oferecera resistência. A fome não tinha lealdades. mas os guardas afastaram-nas. Meyer. atiraram-no rudemente para o interior e fecharam a porta. enquanto dois lhe prendiam os braços e um terceiro o espancava. permanecendo quieta no seu berço. Para surpresa do médico.

Sem dúvida. Somente um tribunal marcial inglês poderá julgar-me por tal. Meyer e três outros homens estavam sentados à mesa e por trás destes alinhavam-se guardas homens morenos de barba por fazer. . Nerone. . que me parece bem fundamentada. Disse com o seu tom de voz frio: . Dois outros guardas mantinham-se entre Nerone e a porta. . no entanto. este tribunal militar acusa-o de deserção do Exército inglês e de colaboração activa com as unidades alemãs a operarem em Gemelli dei Monti. Todos os rostos se mostravam determinados e sérios.Il Lupo. Não devia ter resistido à prisão. de conhecer as acusações que Lhe são feitas. em última instância.Este tribunal não tem autoridade para tratar da acusação que diz respeito à deserção." Voltou a pousar o papel em cima da mesa e acrescentou: . a tribunal. . .Pegou na folha de papel que tinha em cima da mesa e leu num toscano cuidadoso: "Giacomo Nerone.Tomaremos nota da sua objecção. O procedimento correcto seria manterem-me sob custódia e entregarem-me ao comandante inglês mais próximo.Também não vos reconheço autoridade para tal.Não concordo consigo .disse Il Lupo calmamente. A segunda acusação levá-lo-á. apesar do facto de você não dispor de provas em como é um militar inglês. com pistolas no cinco e espingardas automáticas displicentemente seguras. Esta autoridade deriva. Nerone não fez qualquer comentário. evidentemente. Os seus elementos não dispõem de nenhum mandato legal.Com que fundamento? . . Nerone fitou-o com olhos calmos.Lamento termos sido obrigados a tratá-lo com dureza.Assentará as minhas observações no processo? .Tem o direito.Este tribunal não obedece às leis estabelecidas. . como competia a homens que testemunhavam um acto histórico. . com uma única cadeira. Somente II Lupo sorria.Antes de ser julgado por estes crimes. de casacos de cabedal e boina na cabeça. .Os grupos de guerrilheiros foram formados para apoiar os Aliados. tem a liberdade de dizer o que desejar. qual anfitrião a presidir a um jantar. Il Lupo concordou tranquilamente. . Possuem uma identidade de facto como unidades militares e uma autoridade sumária em áreas locais de guerra. de olhos claros e delicado. e entre este e a mesa havia um espaço desimpedido.

que aqui está. Quantos homens Cristo curou? E quantos deles estão hoje vivos? A obra é uma expressão do que o homem é. Nerone sorriu. Em seguida sentou-se na beira da mesa e disse com simpatia: . .Aceitei. do que ele sente. evidentemente. limitou-se a ir até ao fogão preparar café. E depois? .Você desperta-me interesse. .Sobretudo da última: "consummtum est.Foi um louco em ficar. Nerone encolheu os ombros. Você também morrerá. .A obra continuará .Perfeitamente entendido. Mas não consigo vê-lo no papel de mártir. A um sinal de Il Lupo. aí tem porquê.disse Il Lupo. os guardas saíram para o jardim e os três homens ficaram sozinhos.Porquê? .Nesse caso. Il Lupo anuiu delicadamente. daquilo em que acredita. Como presidente do tribunal. Dar-lhe-ão café e algo para comer. . Meyer. se se desenvolve.disse-lhe Nerone.Você e a sua obra .A obra não é o importante. Está entendido? Pela primeira vez desde a sua chegada. que Lhe acendeu. . Muito provavelmente você próprio a fará melhor. não é por causa do homem que a iniciou.óptimo. . estou preparado para ter na máxima consideração qualquer dos aspectos que deseje discutir comigo. Meyer não proferiu palavra. A obra morre.A obra continuará. Nerone sentou-se e Il Lupo ofereceu-lhe um cigarro.retorquiu Nerone.Gosto das deixas . Para quê discutir sobre isso? .disse Il Lupo. mas porque outros homens pensam.Foi-me atribuído por si. . O Dr. O seu próprio partido é um exemplo dessa realidade. Se perdura. com brevidade. Há um milhão de homens que a podem fazer mais eficientemente." . Estamos ansiosos. Proponho sairmos da sala. não tenho nada a dizer. Os olhos claros iluminaram-se subitamente. . para que se faça justiça. com um humor grave. encontra-se preparado para actuar como seu advogado de defesa.E você aceitou-o. . sentem e acreditam da mesma maneira.Está feito . Sinto uma grande admiração por si. Apreciarei o café. como diante de uma grande revelação. . sabe.do Alto Comando Militar dos Aliados e da autoridade da ocupação na Itália. . O velho sistema perecerá com a . Disporá de algum tempo para preparar a sua defesa.

Haverá menos tempo para tumultos e manifestações. A América ficará isolada. . porque estive na mente de Deus durante toda a eternidade. como uma família. Ao terminarem. será hora de jantarem.Lamento . Acontecerá. . Nerone. A execução está marcada para as três horas. Os dados são incontroversos. .É a diferença que existe entre nós . o fútil. eu! O cego. o rosto de Nerone ensombrou-se momentaneamente. Trata-se apenas de uma questão de política.Porquê tão tarde? Gostaria de acabar com isto. .É uma loucura monstruosa. estou e estarei! .Realmente. Il Lupo não respondeu. A Europa será forçada a alinhar.Assim parece. Eu digo que sou. Aconteceu na Rússia.. .Tomaremos café e depois terá o resto da manhã para descansar.respondeu Giacomo Nerone.Tem alguma importância? . Il Lupo apagou o cigarro e levantou-se. O que me acontece é importante em termos de eternidade. Não é minha intenção ser cruel. Perguntou: .sua própria corrupção e o povo formará aquele que Lhe interessa. Quando acabarem os comentários e começarem a pensar.Morrerá por isso? .. .Você diz que não é importante. Consultou o relógio de pulso e depois disse bruscamente: .Caso contrário ver-me-ia obrigado a sová-lo antes de o tirar daqui.Acredita realmente nisso? . Compreende. .retorquiu Giacomo Nerone..Os olhos de Il Lupo perscrutavam-no atentamente.disse Giacomo Nerone brandamente.E há dois mil anos que se mantém. Il Lupo perguntou: . Não sei se a sua se manterá durante tanto tempo. Como é que tenciona defender-se? . mas eu não tenho importância.retorquiu Il Lupo delicadamente.Acredito. Declarou com convicção inabalável: . Estive. Acontecerá na sia.Eu sei . . Reuniremos o tribunal à uma da tarde.A propósito.Perfeitamente . não. não é verdade? . Se há coisa a que . .disse-lhe Il Lupo alegremente.Fico satisfeito em saber que não . tenciona fazer algum discurso antes da execução? Nerone abanou negativamente a cabeça. Meyer trouxe o café e os apetrechos do pequeno-almoço e sentaram-se à mesa a comer em silêncio. o hesitante. posso não estar cá para assistir. o falhado..

incluindo as crianças. a condessa. Levantou-se da mesa e dirigiu-se para o quarto ao lado.E no entanto .Meyer. nem num lado nem no outro. Passava das onze da noite quando Blaise Meredith saiu de casa do médico para regressar à villa a pé. Quanto ao resto? . Nem mesmo quando dispararam ela proferiu uma palavra: mas. beijou-o e depois retrocedeu.Foi muito simples. . . Sem erguer os olhos do tampo da mesa. Você não foi feito para este tipo de situações. depois de todos se retirarem. intrigado..Obrigado.. Meyer falou-Lhe.disse Meyer asperamente.Não acredito suficientemente. .Quem é que o enterrou? .. . mas no fim ele envergonhou-nos. Antes de ele sair. disse asperamente: . . Nerone foi julgado e declararam-no culpado. . -.não me posso permitir é a heroísmos. ficou no local. Ainda lá estava quando chegou o grupo que devia proceder ao funeral. Nerone fitou-o com gratidão nos olhos tristes.Não tem nada de especial. Nós os três queríamos odiá-lo. Aproximou-se dele.reconheceu Meyer. As longas mãos de Meyer esboçaram um gesto definitivo.quis saber Blaise Meredith. Lembrar-me-ei de ti.Eu sei .O amor é o sentimento mais terrível do mundo. sem pressas: .Se quiseres ficar algum tempo sozinho. utiliza a outra sala. Levaram-no para o topo da colina.. Todos estavam presentes. . Il Lupo disse. amarraram-no à velha oliveira e fuzilaram-no.E Nina? . irei chamar-te. Os dois homens olharam um para o outro. Nina e eu próprio. . .observou Giacomo Nerone. levando-nos a amá-lo.Não sou um herói . Ninguém te perturbará.Também. com voz inexpressiva.quando cheguei. dois homens da villa. Meyer. . Blaise Meredith franziu o sobrolho. Se deseja o meu conselho.Eu sei .Anselmo. Pela primeira vez desde a sua chegada.insistiu Meredith . depois da execução dispensá-lo-ei do serviço. Passado um momento. . . fechando a porta. Quando tudo estiver pronto. vocês todos tinham medo dele. Tens sido um bom amigo.Não compreendo. vá-se rapidamente embora e mantenha-se afastado durante algum tempo. .

Leva-me. enquanto lutava para reunir a sua vontade no acto de submissão. o sacerdote frio do Palácio das Congregações. Para a cama. rugindo incansavelmente. O tempo começava a escassear.feito. . mas não para dormir. bispo de Valenta. pousou o embrulho e encostou-o à árvore. Tal como Nerone. Chegou junto dos portões de ferro da villa e ultrapassou-os. começando a subir. Giacomo Nerone estivera naquela posição. havia que ler os papéis de Giacomo Nerone e escrever uma carta a Aurelio. via como a sua morte devia chegar. Senhor! Faz de mim o que desejares. permanecia sereno no centro do ciclone. a última ladeira íngreme que conduzia ao local da execução de Nerone .Blaise Meredith. da boca. inevitável. ele.Meyer mostrou-lhe a última carta de Nerone e entregou-lhe o embrulho contendo o resto dos papéis. A tempestade rodeava-o por todos os lados.. com uma lufada de violência. Pareceu escoar-se uma eternidade antes de as palavras Lhe saírem. restando apenas uma grande tranquilidade. uma maravilha ou um objecto de troça. Deram as boas-noites um ao outro e Meredith começou a caminhar pela rua de pedras gastas. Ergueu lentamente os braços. mas breve como o ocaso. num local estranho e noutra era. os conflitos.o pequeno planalto onde a oliveira se erguia. com esforço. num encantamento feito de silêncio e águas calmas. Antes de a manhã chegar. de maneira a estes ficarem estendidos sobre os ramos nodosos e os galhos secos picaram-lhe a pele das mãos. sentindo o coração a pulsar fortemente e o contacto rugoso da casca contra a pele. com grande esforço.. envolto na tranquilidade da decisão final. porém. Tal como Giacomo Nerone. de pulsos e tornozelos presos e olhos tapados. Sentiu-se invadir por uma sensação de estranheza e isolamento. Ao chegar junto dela.. Agora era a sua vez . acabado! Um homem vendido ao toque do martelo do seu Criador. estava perto do final da sua pesquisa. mas não se desviava do caminho que conduzia até ela pelos seus próprios pés. por amor de seu pai! Estava terminado . iluminada pelo luar. em voz baixa e agonizante: -. fazendo lembrar uma cruz negra contra a lua branca. Tinha medo. As dúvidas tinham desaparecido. no momento da rendição final.. Era tempo de voltar para casa. Mas salva-me o rapaz. como se tivesse saído do seu próprio corpo. O corpo tornou-se-lhe hirto e o rosto rígido na agonia da decisão.

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Blaise Meredith lera os escritos de centenas de santos. um vislumbre da mente de um homem outrora conhecido.CAPíTULO XIV Para Blaise Meredith. a personalidade era importante. fria e analiticamente.o homem ressaltava. na mesma evolução. Fundamentavam-se na mesma crença. à biografia do seu passado e pouco mais do que uns pormenores aos detalhes conhecidos da sua vida. e todas as suas agonias. em muitos aspectos. o homem das leis . Os seus subterfúgios. num padrão básico de penitência e devoção. Era da conformidade que ele andava à procura. que ia da purificação à iluminação. das páginas amareladas e da forte caligrafia masculina. nas horas lentas da noite. outrora odiado. em cada um dos processos que se deveriam seguir à primeira apresentação de provas no tribunal do bispo. vivo. Para o biógrafo. Assim. excepto pela dedução.os escritos de Giacomo Nerone foram. obras e morte em Gemello Minore. que ainda sentia a necessidade de clarificar os seus pensamentos e tornar as suas afirmações entendidas por si próprio. todas as suas efusões apaixonadas. no pequeno abrigo de pedra. Mas para a Igreja em si. cheio de frio e com o estômago vazio. as suas singularidades e génio individual é que o ligavam ao comum dos homens e faziam-nos considerá-lo como um patrono e um exemplo. o importante assentava no seu carácter como cristão na sua conformidade com o protótipo que era Cristo. uma desilusão. Nada acrescentavam. o pregador. tinham para ele a familiaridade de velhos conhecidos. o dramaturgo. no escrutínio. Meredith imaginou-o a pé até altas horas da noite. no entanto estranhamente contente. da iluminação a uma união directa com o Todo-Poderoso no acto da oração. finalmente amado apresentava-se sob outro aspecto ao advogado do Diabo. Mas nem mesmo ele era capaz de escapar ao impacto pessoal . tal como cada um dos examinadores e assessores a procurariam.nem mesmo naquela situação de clímace ele conseguia pôr de parte o hábito mental de toda uma vida . escrevendo uma página ou duas . para os teólogos e inquisidores que procediam às investigações e a representavam. A escrita era desordenada: anotações breves de um homem atormentado entre a contemplação e a acção.recordações pungentes. Blaise Meredith concentrava-se. todas as suas revelações. O que Aldo Meyer encontrara neles .

Se se pertence às famílias antigas. O fardo faz-se sentir primeiro. da crença. Ser católico na Inglaterra é submeter-se a uma submissão mesquinha em vez de construtiva. Terminavam quando o homem chegava ao fim. O consolo chega depois. Nascer no seio da Igreja . Colocados diante das consequências da crença.. visto não conhecer nenhuma outra .. lhe substituía as horas de sono. como era o meu caso. Mais cedo ou mais tarde é-se forçado a voltar ao primeiro acto de fé. Uma pessoa pode pecar. como me aconteceu quando saí de Oxford.. Ela é simples e generosa. mesmo que seja para uma folha de papel em branco. é possível usar a fé como uma excentricidade histórica . desde que a vontade seja determinada no primeiro acto de fé. em dignidade.é simultaneamente um fardo e um consolo. É realizar o primeiro acto consciente de fé. Se se rejeita este. apesar da característica irregular dos escritos. mais tarde. torne a fornicação um pecado para uns e um divertimento de fim-de-semana para outros.] . Começam a sentir-se defraudados. Contudo. um corrompido da Regência ou uma solteirona dada ao vício do jogo. fruto do acaso. O homem deve pagar pelos seus próprios pecados e não pode pedir a absolvição emprestada a outro.. como aconteceu comigo. porque o conhecimento de mim próprio é um fardo pessoal e não tenho o direito de o colocar todo nos ombros da mulher que amo. Suportará tudo e ainda terá espaço para mais.] Escrevo devido à necessidade que todo o homem tem de comunicar o que lhe vai no íntimo. quando se começa a fazer perguntas e quando se nos depara a chave para todos os problemas da existência. Iam acompanhando o crescimento do homem que escrevia. está-se perdido [. O fardo da ordenação e da abstenção e.e só posso falar da minha própria Igreja. no estrépito das submissões. Alguns acabam por rejeitá-la. é porque o fardo da crença se torna pesado e a constrição do cosmo principia a desgastar-se. aos últimos descendentes de Elizabeth e dos Stuarts. e toda a lógica vem perfice. mas ela peca no seio de um cosmo. mas o segredo faz tanto parte do amor como a entrega. Mas.antes de chegar a altura de iniciar a longa vigília de oração que. embora não menos rígida. [. Interrogam-se sobre a razão que leva a que um nascimento. calma e um estranho contentamento.da mesma maneira que algumas famílias ostentam uma bastardia. isto não basta. É-se levado ao arrependimento pela ordem implacável deste. cada vez mais. aceitar a primeira premissa. começam a lamentar a crença em si. É-se livre dentro de um sistema e o sistema é seguro e consolador. eles revelavam um ritmo e unidade próprios. Quando católicos se tornam invejosos dos descrentes. como muitas vezes lhes acontece.

. Despertei para ela como quem desperta para a primeira luz da manhã.. na direcção do amago oco de si próprio. Lamento este aspecto e tenho-o confessado e rezado em busca de perdão. que nada representa. foi porque quis. donde só é possível voltar retrocedendo.. pelo que nessa altura acreditava. Mas para mim não existia divindade. ele não teve qualquer significado moral.mas livre num caos.. esplêndida na entrega [. nem restrições. O momento de amor é um momento de união . eu nada tinha que pudesse chamar-se de natureza. Sem a fé é-se livre.. pelo menos. Mas na altura não raciocinava desta maneira. como uma fagulha saltando de uma fornalha. o que inicialmente representa uma sensação agradável.[. ela é criativa. Não há nada para construir além do pequeno rochedo que é o nosso próprio orgulho.] [. mas a sua natureza não se altera.. O meu acto foi instintivo . que sou. porque o amor é independente da sua expressão . Só mais tarde é que chega o terror. só me restava mergulhar um pouco mais no negrume.se existisse um Deus. É-se livre . Mas mesmo em pecado.] Eu andei perdido muito tempo. portanto. foi o que aconteceu. tal como o acto de fé.e somente a minha expressão dele é que foi contrária à lei moral. Mas. Fui formado numa forma comum. No meu caso. crepitante? Eu já estava perdido.] [. comunicativa.. as quais são suficientemente flexíveis para muitos propósitos. Se decidi arriscar liberdade e reputação e sofrer as sanções do Estado.. uma entrega. o acto de amor feito com amor .] Reflecti muito tempo sobre a natureza do meu acto de deserção. e acredito que um condiciona o outro.uma reacção irracional em relação a algo que era uma violência para a minha natureza.é protegido pela divindade. excepto aquelas que advêm dos costumes. Não posso arrepender-me de a ter amado. sem rumo certo [. Então apareceu Nina. Na altura.. O acto de amor é... Mas sou o quê? Um acidente nascido da desordem.. Não há problemas de consciência. É-se livre num deserto. Se escapei às sanções tanto melhor. Penso. sem que o soubesse.. em nada se baseia. num mundo inexplicado e inexplicável.. mas que importância tinha que uma fagulha escapasse.] Foi no esplendor da minha entrega a Nina e dela a mim que primeiro compreendi de que maneira um homem devia entregar-se a Deus . O juramento militar cessa perante a invocação da divindade. das convenções e das leis. A submissão que implica pode não ser a correcta.

não obstante. conduz-me. desta maneira. eu sabia. Tentei servir as pecssoas. Vi a sua obra no rosto de uma criança e acreditei.. mas no seio do cosmo. depois da descrença? Depois do pecado é fácil . Eu estava para além do pecado. tremo. através do raciocínio. A nossa união foi imperfeita por essa razão e ela poderá um dia vir a aperceber-se e quem sabe a odiar-me. Servi-as verdadeiramente. O acto nobre que se comete é desprovido de significado. um dia. ao relembrá-lo agora.um acto de arrependimento. Nasci católico. nenhuma relação é rompida. Ele estava ali. da mesma maneira que uma criança enjeitada poderá voltar a recordar a existência do pai. Foi a minha conversão religiosa. todas as crianças têm um pai. o significado das palavras "dom da fé". Devia-se ser capaz de dizer: "Foi nesta altura. Nunca escondas o teu rosto de mim. Eu sabia que Ele estava ali.e o acto de fé é mútuo e implícito. suo e rezo desesperadamente." Não. Como é que uma pessoa volta a acreditar. voltar a uma primeira causa e a um primeiro gesto. deitara fora. parte-se para nenhures. Mas quem era? Como se chamava? Que aspecto tinha? Amara-me ou esquecera-me para sempre? o verdadeiro terror centrava-se ali e. quaisquer trovões em Tabor. "Abraça-me com força. Mas quem eram as pessoas? Quem era eu? Tentei. da segurança que alcancei. até então. porque o pai está ainda ali. Um filho pródigo que regressa ao pai. Não existem palavras gravadas. Um homem bom falou-me e eu tornei-me bom.de corpo e espírito . Ele voltou a aparecer Não podia deixar de ter acontecido. Ele deve ter vivido. Rezei-Lhe anonimamente e Ele não respondeu. Ele conhecia-me e o mundo era uma casa que Ele construíra para mim. neste lugar. Tinha um Pai. Nina tinha um Deus. Mas vi nela tudo quanto rejeitara. no caos. tudo quanto necessitava e que. Nunca mais voltes a deixar-me partir. pedras marcadas por um dedo ígneo.. mas eu não possuía nenhum.. mas nunca compreendera. que mais me restava fazer senão dizer: "Aqui estou. não se passou assim. Até que. Lágrimas perdidas e dor escusada. que fora Ele que me fizera e que continuava a amar-me. Procurei-O hesitantemente e não consegui encontrá-Lo. Vem-se de nenhures. Chorei de noite pela Sua perda. Depois disso. faz de . Mas na descrença não há pai. No escuro é terrível!" Como é que cheguei a Ele? Só Ele sabe. a relação não foi interrompida. Ela estava em pecado.

Peço para ser iluminado. Só no momento presente é possível viver com certeza. mas a resposta não é clara.. As dores que infligi. mas o reflexo condicionado não responde a nenhumas perguntas . Todos os caminhos me estão barrados. Agora lamento-as. No entanto. O homem que pratica o bem no meio da dúvida deve ter o mesmo mérito que aquele que o faz na certeza iluminada da crença.e as perguntas estão sempre presentes. Os doentes morrem e os esfomeados voltarão a ter fome no dia seguinte. os amores possuídos e rejeitados.. quando os outros passarem a dominá-lo. Não como nem durmo o suficiente e fico até altas horas da noite a rezar. o próprio Meyer faz o mesmo instintivamente. Mas. mas lamentar não basta.mim o que quiseres. Todos estes aspectos alteraram e continuam a produzir alterações nas vidas das outras pessoas." Mas o caminho nunca fica desimpedido. mas. A sua honestidade céptica é muito meritória. No entanto. Esta é a diferença que existe entre os dois absolutismos . "Outras ovelhas tenho que não deste rebanho. A Igreja compreende a dúvida e ensina que a fé é um dom.. um dom que não se adquire pela razão ou pelo mérito. as mentiras. Tenho obrigação de as reparar o melhor que puder. O comunismo não permite dúvidas e diz que a crença pode ser implantada como um reflexo condicionado. tenho visto Meyer empenhar-se mais profundamente do que eu alguma vez fiz. Tento explicar como a necessidade de alimento e horas de sono se torna cada vez menor quando se .. Sou um prisioneiro neste pequeno mundo que encontrei. as injustiças. Salienta que não têm continuidade. Mas não posso mudar nenhum dos actos que pratiquei. Eu mudei. Só me resta dizer: "Quando a estrada estiver desimpedida. Por que motivo? Onde? Porquê? A questão que diz respeito à reparação preocupa-me imensamente em determinadas alturas. as fornicações. Mas como? É Inverno... Meyer ri-se de mim em relação às boas obras. Até certo ponto tem razão. rezo pela submissão. Receio por Aldo.a Igreja e o comunismo. farei o que me for pedido. nunca mais me deixes. Porquê? Os homens como Meyer duvidam da existência de Deus e consequentemente duvidam de tudo quanto não seja uma relação pragmática entre os homens. Nina diz-me que estou a ficar magro. Apenas me resta continuar no presente." Um alerta contra a presunção da fé herdada. não sei o que acontecerá. Ainda há uma dívida a pagar. por favor. Porque tenho tanto medo? Porque o arrependimento é apenas o começo.

Desconheço como o pagamento será pedido. por essa razão. São treinados para dirigir os fiéis. é um bem que não deve ser desprezado. Nada se resolve pela ira. Hoje encontrei o homem que se autodenomina Il Lupo. Ele é o príncipe deste mundo e dispõe do poder de vida e morte. Pergunto a mim mesmo o que deve ser feito em relação a este problema do casamento. Tenho de me compenetrar de que um padre é apenas um homem dotado de faculdades sacramentais. as consequências de cada uma das crenças são igualmente rígidas e inescapáveis. e este. mas nunca para aceitarem conselhos vindos da parte deles. Foi estranho verificar com que rapidez e facilidade nos compreendemos um ao outro. Pode ver-se o seu valor. o peso de um erro multiplicado pelas suas consequências. Ele acredita no não-Deus. mas ligados de coração e espírito. Podia levá-las a seguirem-me e a resistirem ao bando de Il Lupo. No entanto. A pobreza é um estado que alguns homens aceitam para se santificarem. Ele sabe que entre nós não pode haver coexistência.em amor. Eu acredito em Deus. Que poder possuo eu contra ele? "O meu reino não é deste mundo.. Estou disposto a fazer o que parece correcto. Não espera que eu seja menos honesto na minha própria fé.. Rezo e tento preparar-me. As faculdades são independentes do seu valor pessoal. o casamento poderia ser uma injustiça maior do que aquelas que já cometi. Tenho recebido tanto nestes últimos meses . Se houvesse maneira de falar com Anselmo como amigo. felicidade. mas não se deve julgar demasiado duramente quando os homens tropeçam sob o seu peso... O celibato do clero é uma disciplina antiga. Anselmo carrega agora a sua própria cruz.anda absorvido neste novo encantamento que é Deus. Mas . mas este é mais um dos problemas que os padres enfrentam.. Alguma vez terei de pagar por eles. mas que achava mais prudente esperar. Neste momento encontramo-nos separados de corpo. Tenho a sensação de que me esperam acontecimentos sobre os quais não tenho nenhum controlo e que. Ela dá a impressão de entender melhor quando Lhe digo que não tem necessidade de mim. mas não um artigo de fé. Um tem de destruir o outro. Discuti com ele e estou arrependido. Ele é honesto na sua crença. Disse a Nina que a decisão Lhe competia em primeiro lugar. consolo espiritual. Mas até mesmo no pecado existe um elemento de amor. O padre Anselmo preocupa-me. É um defeito no sistema. fisicamente. eu sei. Para outros pode conduzir à perdição eterna." Eu podia agrupar as pessoas.. porque a criança Lhe enche o ventre.

Agora entendo como a fé pode servir de sustentáculo no mistério da dor. àqueles . por amor do Teu Filho [.. Nelas não existe qualquer mérito meu.Se. depois da minha morte. à esperança e à caridade. ele terá muito a sofrer. tentando apegar-me ao primeiro acto de fé.. e este era são e sólido.] Ámen. do coração e da vontade. Um período negro para mim. Giacomo Nerone escrevera o seu próprio obituário: . Na última página. também pode curar olhos que sejam cegos. nas mãos que o formaram.. como competia a um advogado competente. ó Deus.com que finalidade? O fratricídio não tem nada a ver com o cristianismo. Aqueles que me esquecerem farão bem. a submissão da mente. Não devo discutir. voltei ao seu caminho pela mão de Deus. As balas não geram amor. Como é que sei que Ele o permitirá? Fala comigo. Mas receio por Meyer. É demasiado brando para andar metido nesta trapalhada. Compreendo como os antigos maniqueus puderam cair com tanta facilidade na sua heresia . fora realizada. e Blaise Meredith analisou tudo meticulosamente. E a renúncia através da qual o homem se liberta de todo o apoio material para se entregar à fé. Se Deus o permitir. As obras que realizei foram inspiradas por Ele. Havia mais.. Amei uma mulher. Tenho um filho e o menino é cego. muito mais. Aqueles que me matarem serão por mim recomendados a Deus como irmãos a quem amo. Parece que retrocedi para o meio da escuridão e rezo desesperadamente. e digo: "Não sou capaz de compreender. que saiba o seguinte acerca de mim: Nasci na fé. mas acredito.já que é difícil perceber o porquê de a dor e o mal entrarem na obra de que um deus omnipotente é o único autor. É-me extremamente doloroso assistir ao sofrimento de Nina. A submissão estava ali. Devo simplesmente aceitar. O peso da dúvida custa muito a suportar quando um homem é honesto. Ajuda-me a não fraquejar!" Se a fé pode mover montanhas. gerei um filho e amo ambos ainda em Deus e por toda a eternidade. Mais tarde.. perdi-a. àqueles que ofendi imploro que me perdoem. mas encontrara o âmago da questão. Il Lupo gostaria que eu discutisse e actuasse. Tenho de tentar fazê-lo ver que compreendo.. alguém ler estas linhas.

fazendo-o gritar em agonia. o arrependimento relutante do padre Anselmo. cortante e atroz. sinto que a vida se me esvai rapidamente. senão mesmo coragem.. Mas nem todos os frutos tinham já atingido a maturação. Era um bom fruto e no seu vicejar notava-se a marca do dedo atento de Deus. com mão trémula. lenta e desesperadamente.que me recordarem imploro que rezem pela alma de Giacomo Nerone. em direcção ao Sol. por Anne de Sanctis. contudo. o desfecho. que Giacomo Nerone foi um homem . até o sangue Lhe subir à garganta. baseado nas provas fornecidas por aqueles que o conheceram e nos escritos a que tive acesso. como uma árvore. rumo ao mar. obtidos na investigação empreendida aqui. era o jardineiro. Apesar de todas as previsões médicas.um longo rio a serpentear lentamente. antes de ter terminado a oração. Blaise Meredith. que morreu na fé. sem que Lhe restassem dúvidas. mas com determinação. da escuridão da terra para cima. Sabia agora. Mas. que tinham escolhido o mesmo deserto que Giacomo Nerone para atravessar.. quente e sufocante. Olhara para dentro da alma de um homem e vira-a crescer. definhar no ramo. Começou a rezar. que concretizei a minha entrega. graças a um descuido do jardineiro. arrastou-se até à secretária e. Acredito firmemente. Vira o fruto dessa árvore: a sabedoria e o amor de Nina Sanduzzi. fraco e atordoado. Paolo Sanduzzi e Nicholas Black. recostou-se de novo nas almofadas e fechou os olhos. como me garantiu que aconteceria. Quero que Vossa Reverendíssima saiba. E ele. o velho mal apossou-se dele. e pensar no pouco tempo que me resta oprime-me. que chegara ao fim da sua investigação. Blaise Meredith pousou a folha amarelecida em cima da colcha. Permita-me que Lhe fale em primeiro lugar do que descobri. Alguns poderiam mesmo. e que aguardo com apaziguamento. Estou muito mal e creio que morrerei antes de ter tempo de regEstar todos os resultados. outros cair ainda verdes e apodrecer no chão. começou a escrever. a humanidade em conflito de Aldo Meyer. Perscrutara a vida de um homem e vira-lhe a evolução . Muito tempo depois. Meu Reverendíssimo Bispo.

relativamente aos factos fundamentais. e a um pintor inglês hóspede da villa. O que o tribunal decidir é outra questão . corroboram solidamente o seu direito à santidade heróica.uma legalidade baseada nas regras canónicas da evidência. e receio que Vossa Reverendissima pouco possa fazer para resolvê-la. e irrelevante. que é filho de Giacomo Nerone. morreu na fé e como um mártir. Esta última apresentou provas de uma cura que poderá bem ser miraculosa. Trata-se de um homem deveras ignorante e a viver em grande pobreza. Espero poder planear . no meu ponto de vista. Tenho muita pena dele. a quem os problemas do dinheiro e da segurança subjugaram. A outra questão diz respeito à condessa de Sanctis. Posso contar com Vossa Reverendíssima para que o faça por mim e utilizando esta carta para fazer valer a minha vontade junto dos meus testamenteiros? Não cumprir o prometido a Anselmo seria uma ideia intolerável. Confesso-lhe. Prometi dar-lhe uma soma global de cem mil liras dos meus bens. mesmo que esta continue alojada em sua casa.de Deus. Vossa Reverendíssima aceitará ambas as atitudes como indícios de emenda. Os escritos de Giacomo Nerone que Lhe envio juntamente com esta carta são autênticos e os últimos e. Aldo Meyer e Nina Sanduzzi. Recomendei-os todos a Deus e pedi-Lhe que aceitasse a minha entrega como o preço pela sua salvação. se ele se separar fisicamente de Rosa Benzoni. Falei com o padre Anselmo e tomei a liberdade de Lhe sugerir que. a Paolo Sanduzzi. Eminência. e se fizer uma confissão sincera. as respectivas roupas e tudo o mais que seja necessário para que passe a dormir separado de Rosa Benzoni. As testemunhas mais eficientes de que Vossa Reverendissima poderá dispor são o Dr. embora eu duvide seriamente de que os assessores a deixem passar. assim como dinheiro suficiente para comprar outra cama. que neste momento estou menos preocupado com o processo de beatificação do que com o bem-estar de certas almas que vivem aqui em Gemello Minore. A questão é demasiado sórdida para ser relatada em detalhe nesta carta. Neste momento creio que não disporei de tempo para tratar destas disposições. Creio que o dedo de Deus se revelou neste caso e que a bondade de que este homem estava impregnado continua a fazer-se sentir nas vidas dos que com ele privaram. segundo me parece.

Tenho dois favores a solicitar. O segundo é permitir-me que seja enterrado aqui em Gemello Minore.as suas mãos começavam a calejar como as de um homem. O jardineiro também estava contente com ele. os quais espero não sejam considerados por Vossa Reverendíssima como demasiado enfadonhos. para depois Lhe traçar os rebordos e alisá-la. Blaise Meredith Dobrou a carta. pela primeira vez. o solo perder-se-ia. mas sinto-me tão debilitado e doente que não me atrevo a ter certezas. É muito tarde. e estou fatigado. Quando chovesse. mas esse era mais um pequeno aspecto que o orgulhava . reze por mim. Os terraços tinham fendido nos lugares onde a argamassa se esboroara e a terra começara a ceder. mas Roma está muito longe . Transmita-lhe as minhas saudações e implore-lhe que me lembre na sua missa. assobiando de satisfação. Não consigo continuar a escrever.e foi aqui. e. com o sol a brilhar-lhe sobre as costas. naquela terra rochosa. A cal queimava-lhe os dedos e tornava-lhe as mãos ásperas e rugosas. Pedi uma vez para o ser na igreja de Sua Eminência.amanhã medidas mais eficazes. de modo que se ajoelhou no local. dizendo-lhe o nome das plantas e por que razão as lagartas comiam umas e deixavam as outras. Era uma tarefa nova que aprendia. às vezes ficava a falar com ele no seu jeito rude e mastigado. Perdoe-me e. na sua caridade. espalhando-se. meteu-a dentro de um envelope que selou e atirou-a para cima da secretária. a explicar a minha posição e a apresentar as minhas desculpas pelo que tomo por um fracasso na minha missão. ele era demasiado precioso para que tal acontecesse. que me encontrei a mim próprio como homem e como padre. meu bispo. O velho jardineiro mostrara-lhe como misturar a cal com a areia negra vulcânica do rio e de que maneira trabalhá-la nas fendas com uma espátula. . O primeiro é o de que escreva a Sua Eminência o Cardeal Marotta. Depois arrastou-se de novo para a cama e dormiu até o Sol ir alto sobre os relvados verdes da villa. Paolo Sanduzzi encontrava-se a trabalhar na área pedregosa que ficava nas traseiras da villa. O vosso servo obediente em Cristo. uma nova habilidade que o fazia sentir-se orgulhoso.

Mas não acreditaste em mim? Bem.Amanhã. Tinha um lugar onde ficar. uma mulher enorme que lhe dava porções de massa a dobrar e tinha sempre um naco de queijo ou uma peça de fruta para lhe enfiar no bolso das calças.. . Dir-lhe-ás que tens de estar ausente alguns meses e . ao compasso do seu próprio assobio e do raspar da espátula na pedra cinzenta. no entanto compreendia que era uma maneira de viver que lhe sabia bem. raparigas de sapatos e ruas repletas de automóveis reluzentes. um trabalho e gente amiga à sua volta . O jovem endireitou-se imediatamente. A condessa estava atrás de si.. a cozinheira. . . A condessa olhou rapidamente em volta. o sonho se tornou realidade. excepto uma ou outra palavra espirituosa. vou para Roma. Paolo. Não dispunha de nomes para chamar a tudo aquilo.Sim. o velho protegia-o da algaraviada maliciosa das mulheres. quando. A única que não se ria dele era Agnese. O receio que tinha deles começara a abrandar e eram agora personagens que se diluíam agradavelmente quando sonhava acordado com fontes. de passagem. Depois disse-lhe: .Paolo! Quero falar contigo.Mas. Até mesmo Roma começara a recuar para uma distância que a tornava cada vez mais indistinta.às horas das refeições. às suas ordens. não é verdade? E tens desempenhado bem as tuas tarefas. deixou cair a espátula e colocou-se na frente da condessa.e no fim do mês teria umas liras a chocalhar no bolso para levar para casa e entregar à mãe. O único problema reside em teres de pedir à tua mãe.Porque estás tão admirado? Prometi-te. senhora. Naquele momento encontrava-se mergulhado em mais um dos seus sonhos. é verdade. como para se certificar de que estavam sozinhos. de repente. dizendo-lhe em voz acariciadora: . Paolo abriu a boca e gaguejou de espanto perante a ideia maravilhosa e inesperada. intensamente consciente do seu torso nu e suado e das mãos suj as. mas. A condessa não voltara a falar-lhe e o pintor deixara-o em paz.. Levo Zita e Pietro para cuidarem do meu apartamento e lembrei-me de também tu vires connosco. a condessa brindou-o com o seu riso sonoro e cristalino. Não ando muito bem-disposta e tenho de consultar o meu médico. .. que brincavam com a sua virilidade incipiente e com o que as raparigas lhe faziam quando o apanhassem a jeito. na comprida cozinha coberta de ladrilhos.

o Sr. Era muito agradável de ver.Mas o quê. Black fica aqui a trabalhar. De repente. O rosto parecia ter-se-lhe mirrado durante a noite. regressando a casa..Quando. senhora! . calmamente. ao dar a volta à esquina desta..A minha. a sua sordidez. senhora. enfiou-a com tanta precipitação que a rasgou e depois deitou a correr pelo carreiro de pedra abaixo. já não um amante fogoso. .Agora. a condessa sentiu-se chocada com o aspecto que apresentava. e. Mais uma vez a condessa riu. . que o Sr. exorcizando-o de todos os seus medos.Sim.Sim.que parte do teu salário Lhe será pago aqui mensalmente. e com toda a clareza.Dizes à tua mãe.. com grande entusiasmo.. quase caiu nos braços de Blaise Meredith. quando é que lhe posso dizer? . que caminhava pelo relvado com uma pasta de papéis na mão. a condenação inabalável a que se deixara conduzir pelo braço de Nicholas Black. por fim. Deitou a mão à camisa. Paolo. a minha mãe não gosta do inglês.exclamou Paolo. Está percebido? . Black. porque é melhor não o veres.Dir-lhe-ás que Pietro e Zita também vão e que ele irá continuar a ensinar-te. Anne Louise de Sanctis ficou a vê-lo ir. senhora. .Obrigado. Sentiu o sangue gelar diante do pensamento. E que é por essa razão que eu te levo. no outono do casamento. A pele tinha a tonalidade dos pergaminhos antigos e os lábios estavam sem pinta de sangue. se quiseres. entendeu o que fizera . Mas. em direcção aos portões de ferro. Quando ele a cumprimentou. quando a seiva da paixão começava a escassear e o marido passava talvez a ser um companheiro. . Devia ser aquele o sentimento que as outras mulheres experimentavam em relação aos filhos.a malícia do seu acto. . Mil obrigados.. As costas curvavam-se-lhe como sob um fardo pesado e as mãos longas tremiam-lhe contra o tecido . É capaz de não me deixar ir. Estremeceu e afastou-se. algo que fazia gosto ter por perto lá em casa. sorrindo ante a ansiedade juvenil do rapaz. Os olhos faziam lembrar carvões ardentes profundamente implantados no crânio. conseguiu fazer jorrar uma torrente impetuosa de palavras. . Depois voltas e contas-me o que ela respondeu.. . Paolo? O jovem não soube como dizê-lo. até que.

ter-lhe-ia faltado algo .Continua a querer vingar-se de Giacomo Nerone? . sim. minha cara condessa. estou. ela subiria ao andar de cima. escutando-lhe a voz e respondendo-lhe com uma outra que parecia não Lhe pertencer.Sabe..Monsenhor! Está doente! . por momentos. receio bem .. fazendo-a regressar à realidade. tomaria um banho e deitar-se-ia para dormir e nunca mais acordar. Apesar de contrafeita. Planos terríveis. . . Era difícil dizer.. .Muito doente.Então. Na boca de Meyer. . A voz do sacerdote soava cansada mas suave.Estava. Em breve terminaria. os seus próprios pensamentos e exclamou: .Vi o jovem Paolo descer o carreiro a correr.Sabe. Agora já não tinha importância. eu não sei que planos ele tem. uma suavidade. Ficará aqui.. minha cara condessa.Sabe. muito entusiasmado. logrando prendêla hipnoticamente.Eu. . Importa-se de passear um pouco comigo? A condessa quis recusar imediatamente. . eu não sei. Black também vai? . e. . a Itália é um país . fugir dele e esconder-se no seu quarto. A condessa esqueceu. onde tinha ao seu alcance o pequeno frasco contendo o esquecimento. Nada tinha importância. Aquele era o terror derradeiro.Mr.Sim. também está a par desse pormenor? . Parecia entusiasmado com alguma coisa.Eu.. porém ele pegou-lhe no braço com suavidade e ela deu consigo a acompanhar a passada ao lado do sacerdote.negro da batina. Porque o fez? Os pés da condessa estavam presos ao ritmo monótono das suas passadas. sim.. porque foi a senhora que traçou os planos com ele.uma intimidade. não é verdade? . .Não me parece que tenha muito mais tempo. mas não aquele padre com o estigma da morte em si. quando chegassem ao fim. Vou levá-lo para Roma comigo amanhã. as palavras saíram-lhe: .retorquiu-lhe ele. As palavras que o sacerdote proferiu a seguir chocaram-na.Mas irá ter consigo mais tarde. Meyer poderia tê-las dito. . amor. talvez. Ele podia perguntar o que desejasse e ela responderia. se a mãe o deixar ir. Terríveis para si e para ele e para o rapaz.Não.

Volte para Londres e fique lá a morar durante algum tempo. especialmente quando sorri. Talvez. problemas do corpo e do espírito. Para onde vou? Que faço? Como é que encontro aquilo de que necessito?" Meredith prosseguiu. A senhora é uma mulher apaixonada. Vá ao cinema. a súplica fora arrancada de dentro dela. essa necessidade transformou-se num frenesim. Continuaria a sentir medo. descubra alguma obra de caridade que Lhe desperte interesse. pois dotá-la-ia de uma consciência livre e pô-la-ia em paz com o seu Deus e consigo própria.. o que ainda seria melhor. que a porá em contacto com um especialista que trata de problemas como o seu. que não tem companheiro e não tem filhos representa um símbolo de troça para os outros e de tormento para si. Foi tudo quanto disse. mas que case consigo e a ame.Então que devo fazer? Diga-me! Por amor de Deus. Meredith respondeu-lhe calmamente. .Poderia aconselhá-la a rezar pela resolução deste problema. A mulher que não é amada. a andar solitária. Parta. Poderia dizer-lhe para fazer uma confissão geral. É primitivo e apaixonado. a estar insatisfeita.Está. que é uma cidade pequena e pode ser bem viciosa. já que a mão de Deus alcança mesmo os infernos privados que fazemos dentro de nós mesmos. Não espere grandes resultados muito depressa. porque não sabe que outra coisa fazer. o que não seria mau. sei-o mais terrivelmente do que o senhor. No seu caso.. mas teve vontade de acrescentar: "Sei tudo isso. ao mesmo tempo que lhe inibe a própria satisfação. necessidade também da troca sexual que o acompanha. O símbolo masculino reina acima de tudo. Ainda é uma mulher atraente. Mas não seria a resposta completa.Mas se não o encontrar? . a voz seca a humanizar-se à medida que ia falando. Tem vergonha dele e comete actos mais graves. encontre um homem. Passo-lhe uma recomendação para um amigo que tenho em Westminster.. Estou certo? . diga-me! Finalmente.. É um país de sol. .Notava-se-lhe uma .Abandone este lugar durante algum tempo. e esse frenesim leva-a a cometer o mal. não com quem dormir.mau para uma mulher como a senhora. Não para Roma. Mas saber não basta. . Tem uma grande necessidade de amor. agressivo na sua adoração dos processos da procriação. faça novas amizades. Entregue-se ao seu cuidado. quem sabe. .

Estar só não é nada de novo. minha cara condessa. como se fosse pela primeira vez.observou Meredith.Donde é que lhe vem a compreensão de tudo isto? Até hoje nunca ouvi nenhum padre falar desta maneira. a condessa sorriu-lhe e ele reparou. Passado um momento perguntou-lhe: .Tem deparado com os homens errados .. Acontece a todos mais cedo ou mais tarde.. acabamos num inferno mais escuro: nós próprios.. Amigos morrem. por fim chegaremos à conclusão de que.nota de pânico na voz. a família do homem. Os lábios exangues do sacerdote retorceram-se num sorriso exausto. e é preciso toda uma vida para aprender as lições mais simples. se nos lembrarmos de que há um milhão de outros nas mesmas circunstâncias. Alguns de nós são muito estúpidos. Fazemos parte de uma nova família. afinal. Nenhumas fórmulas que a exorcizem. . padre? Meredith abanou a cabeça. . se Lhe fizermos face. .. Envelhecemos. Não há comprimidos que a curem. e não a nós mesmos. É uma condição da humanidade à qual não podemos escapar. Meredith sentou-se. importava-se de me ouvir em confissão. quão bela aquela mulher devia ter sido. adoecemos.declarou Meredith pacientemente. cujo Pai é o Todo-Poderoso. estou muito fatigado. .Ainda não. .Importava-se. . com seca ironia. familiares falecem. Amantes e maridos também. fitando-o com uma admiração que crescia dentro de si e uma comiseração que nunca antes sentira por ninguém que não fosse a sua própria pessoa. Não me parece que já esteja preparada para a fazer. E a derradeira e a maior de todas as solidões é a morte. Mas.. Nós também somos humanos. Então. Se tentamos recuar diante dela. que eu estou neste momento a encarar.Deixe-me dizer-lhe algo muito importante . não estamos sós. Naquele momento foi a vez de a condessa lhe pegar no braço e ajudá-lo até chegarem junto do pequeno banco de pedra debaixo do caramanchão.. Importa-se que nos sentemos? Estou. . mas a condessa permaneceu de pé.O monsenhor é o primeiro homem que encontro na minha vida a prestar-me ajuda. se tentarmos consolá-los a eles. .As pessoas exigem muito de nós.

não é um instrumento para encorajar a auto-revelação. . e começando por reparar o mal que já causou.Eu próprio falarei com ele. já está meio realizada. Black.Refiro-me a si.A condessa fitou-o. com gravidade: . em seguida os olhos ensombraram-se-lhe e os lábios desenharam um rito sombrio. A condessa fitou-o de olhar perturbado. Para si. .Hesitou um momento. Quanto a Mr. . Black? . aos seus próprios desejos. ligeiramente assustada. a Mr.Refere-se a Nicki. É um sacramento judicial. No que diz respeito à segunda. Mas tenho receio de que não me dê ouvidos. tem de se preparar através da oração e da autodisciplina. .A confissão não substitui o divã do psiquiatra. no qual o perdãoé concedido em troca de uma admissão de culpa e uma promessa de arrependimento e emenda. franzindo as sobrancelhas. aos ciúmes que sente em relação a Nina Sanduzzi e ao seu filho.. para promover o bem-estar através de uma purga da memória. a primeira parte é fácil.. condessa. Meredith continuou.

Quem te quer em Roma sei eu. pronta a ser levada para a villa pela primeira vez.Então voltas direitinho para cima e dizes-lhe que não vais.Seja como for. não precisa? . Nina fitou o filho espantada. foi cair nos braços da mãe. Nina ergueu a mão e assentou um duro tabefe no filho.A condessa.Quer.Tu és jardineiro.. Rosetta estava com elas. Ela vai lá ver um médico..Uma semana.Começa do princípio! Quem é que disse que ias para Roma? . Se a condessa me perguntar. E.Precisa de criados. Paolo Sanduzzi. Mandou-me cá abaixo perguntar-te. . se houver encrenca.E quer levar-te com ela? . ela quer que eu vá. . .Porquê? . Sou tua mãe e não o permitirei. talvez! E depois aí o temos a fazer as malas e a partir para a cidade grande.Durante quanto tempo? . dez dias.Hoje não tenho de trabalhar.A voz de Nina Sanduzzi soava com aspereza. Vou para Roma. digo-lhe cara a cara.Então irei de qualquer maneira. sem rodeios: . Foi a condessa que disse. Vai lá estar uns dois meses. . Esse truque não enganava nem um bebé. . . Para quê a pressa? As palavras jorraram de dentro do jovem como uma torrente: .Mas não é nada disso! Ela disse-me para eu te dizer.Espera um minuto! . . Nina Sanduzzi disse. . .A raiva começou a crescer-lhe lentamente por trás do rosto de linhas clássicas. peço ao .CAPíTULO XV A meio caminho da aldeia. O rapaz ficou com um ar aborrecido. .Quando fores um homem e puderes pagar aquilo que comes e tiveres um trabalho seguro então já poderás falar dessa maneira. Em Roma não há jardins. . e para ti. O inglês vai ficar aqui.Agarrou-o rudemente pelos braços. e não é a condessa. disparado.. Ela falou para eu te vir pedir e dizer-te que Pietro e Zita vão e que eu continuarei a receber o ensino. . As duas mulheres fitaram-se significativamente. .Não vais e ponto final.Aonde é que pensas que vais? Devias estar a trabalhar. filho.. Ela estava em frente da loja do ferreiro a falar com a mulher de Martino. vestida com a sua fatiota de domingo. Paolo mio.

Um título adequado.O pai dele foi um santo . Espero que tenha dormido bem. sorriu. Black! . que nem a condessa . Mr. Espero não o incomodar.E o filho quer transformar-se numa feminella. monsenhor? . até ao momento. a jovem afastou-se a correr.Não quer nada . . . Meredith deu a volta ao cavalete e olhou para o quadro. Agora esquece tudo isso. Num recanto do jardim. não acha? . evidentemente.exclamou Rosetta. Ouvem coisas. A mulher de Martino bateu no chão com o pé nu e disse desajeitadamente: . Para mim é um símbolo. Eu trago-to de volta e obrigo-o a pedir-te desculpa. . Black. Pus-lhe o nome de O Sinal da Contradição. Não sabe o que quer. ergueu os olhos e cumprimentou o sacerdote com ironia. Estou mesmo a terminar. O pintor.Agrada-lhe. célere.Não esqueço nada! Isso é que não! Ela pediu-me e eu quero ir.doutor que fale com a polícia em Gemello Maggiore.Ele não queria dizer o que disse. Nina Sanduzzi. iluminado pel sol. não passas da prostituta de um santo! A seguir libertou-se da mãe e deitou a correr pela rua abaixo.disse Nina Sanduzzi amargamente. .. como um rapaz com juízo! . Meredith afastou-se um passo ou dois do quadro e depois disse: .Isso depende do ponto de vista.A voz do sacerdote soava com frieza. receio. Ela é a padrona e tu não és ninguém! Não passas. Ao som das passadas de Meredith. nos seus sapatos domingueiros. e a última visão que tiveram dela foi um revoltear de saias e um par de pernas morenas a desaparecer por cima do muro que separava a rua da corrente de água. . Não passa de um rapazinho.. o rosto transformado numa máscara de mármore.De maneira nenhuma. Meredith.. Antes que a mãe pudesse protestar. o meu melhor trabalho. . as abas da camisa a baterem-lhe nas costas.Bom dia. Gostaria de ver o quadro? Penso que é. Mr. Isso vai manter o teu inglês sossegado durante algum tempo. olhava para o filho. ao reparar-lhe na expressão do rosto. . Nicholas Black dava os últimos retoques no quadro retratando Paolo Sanduzzi crucificado na oliveira. . na sua voz límpida e sonora.. .É uma blasfémia.Vim dizer-lhe. . esgazeada.Bastante.Obrigado.Não foi bem assim.É apenas um menino.

. Achei que poderiam interessar-lhe. Tem consciência do que fez.nem Paolo Sanduzzi irão para Roma. A condessa ficaria muito satisfeita se o senhor abandonasse a villa o mais depressa possível. Voltou a capa de papel grosso castanho e examinou algumas páginas em silêncio. . .Então eu explico-lhe. depois os lábios abriram-se-lhe num sorriso que mais parecia um esgar de agonia.Porque me mostra isto? Meredith ficou intrigado pela estranheza que se notava no pintor. Depois fechou a pasta e perguntou em voz estranha e tensa: . e depois voltou a recuperá-la.É uma mulher infeliz que necessita de muita ajuda. Black. mas limitou-se a responder: .Constituem um documento muito comovedor: os registos espirituais de um homem que perdeu a fé. . .A Igreja também gostaria de o ajudar a si. e o senhor é decerto pobre. pegou na pasta que Meredith lhe estendia.disse o pintor. Agora importa-se de se retirar? Estou ocupado. Meredith. São os papéis pessoais de Giacomo Nerone.Para o diabo com a sua ajuda. tal como o senhor. sem uma palavra. Gostaria de lhes dar uma olhadela? Apesar de contrafeito. Limpou as mãos a um pano e. Mr. .replicou Meredith calmamente.Ofereci-me para o fazer por ela . de um panfleto da Sociedade da Verdade Católica? .Que só a Igreja está bem pronta a dar-lhe.Trouxe-lhe qualquer coisa que deve interessar-lhe. Nicholas Black fitou-o durante um momento.Não o entendo. . . .Ela devia ter a delicadeza de mo dizer pessoalmente.Ajude-me! O senhor tem um sentido de humor magnífico. com a mesma entoação tensa na voz. não tem? Fez que me expulsassem da casa. E emporcalhou a única coisa decente que tentei fazer na minha vida. Black. Privou-me da última esperança de financiamento de uma exposição que poderia ter reabilitado a minha reputação como artista. . É uma mulher muito rica. Não quero nada de si. monsenhor . Meredith fitou-o sem compreender.Não exactamente. está convencido . . O pintor pôs-se vermelho de raiva. ao que sei. Mr. Meredith. o pintor estava interessado.Tal como toda a gente nesta malfadada aldeia. .Do que se trata.

Sentia a cabeça à roda. . falou. Mas o senhor nunca acreditaria em tal. Queria levá-lo daqui para o educar e fazer dele o que eu nunca consegui ser: um homem completo. as mãos pegajosas e. E de que maneira poderia pedila. A condessa mostrou-se curiosa em relação ao que se passara entre os dois e Meredith foi obrigado a iludi-la com a invenção cortês de que tinham . sentia uma dor aguda nas costelas. se mostrava muito interessada em trocar impressões com ele. Nicholas Black não apareceu sequer. tanto no corpo como no intelecto e no espírito. Blaise Meredith voltou lentamente para casa. Não sentia o sabor da comida e o vinho amargava-lhe a boca. no facto de poder ter falado com razão em qualquer altura destes últimos quinze anos. sem reflectir.Importa-se de se retirar. Se isso significava abafar todos os meus impulsos para a paixão e todas as necessidades que tenho de amor e afecto. Disse gravemente: . que. Mandou recado pelo criado a apresentar as suas desculpas por não ir à mesa e a pedir que Lhe enviassem uma refeição ligeira ao quarto. Meredith. O pintor afastou-se um pouco e ficou a olhar para os prados banhados de sol. Instantes depois voltou-se para Meredith e disse. com uma delicadeza melancólica: . Black. sim. sentindo-se muito mal com a consciência do seu próprio fracasso.A ironia está.de que o único interesse que tenho em Paolo Sanduzzi é seduzi-lo. estava preparado para o fazer. Gosto deste rapaz. se não crê? Nicholas Black não respondeu. Mr. pois não? Então Meredith. não é? Meredith acenou a concordar sem dizer palavra. monsenhor? Não há nada que possa fazer por mim. finalmente. agora que deixara de Lhe ter receio. Fitava fixamente a imagem de Paolo Sanduzzi pregado à oliveira sombria. Tenho visto nele tudo o que faltou na minha própria maneira de ser. Quando. Mas agora não. O almoço foi uma refeição sombria para si. fez a observação mais brutal da sua vida. Mas não da maneira como imagina. sempre que respirava fundo. não sem uma graça singular de Deus. Mas via-se obrigado a sorrir e a manter conversa com a condessa. foi com uma gentileza estranha e longínqua. mas o senhor nunca seria capaz de concretizar esse seu desejo.Eu poderia acreditar em si. É verdade. estendendo-se até à villa.

Tinha conhecimentos de medicina suficientes para se dar conta de que era o que acontecia aos doentes cancerosos. o que os matava rapidamente. contra cartas viciadas. quando tentou girar o manípulo. O crescimento das células malignas e as hemorragias enfraqueciam-nos a tal ponto que apanhavam pneumonias com a maior das facilidades.dinheiro. a lei. Voltou a bater. ele ainda se encontrava muito afastado dessa fase. Ao chegar ao patamar da escadaria não seguiu directamente para o seu quarto. a oportunidade de relançar a sua reputação como artista. Mas. Não havia loucura no acto. viu que estava fechada à chave. a sociedade. Mas agora sabia que estivera a jogar. Ainda estava de pé e assim pretendia permanecer o mais que pudesse. nenhuma derrocada selvagem da razão sob o impacto de terrores inexplicáveis. Meredith foi ao andar de cima para descansar durante as horas mais quentes. A sua própria natureza. Terminada a refeição. Sozinho no seu quarto elevado.trocado umas palavras mal-humoradas e que Black possivelmente ficara demasiado embaraçado para se Lhes juntar. todos conspiravam para o manter arredado das satisfações mais elementares e necessárias da vida. quando bateu à porta não teve resposta e. Ouvia o pintor movimentar-se no interior. mas virou antes para o corredor. a protecção da condessa. Os que ganhavam podiam continuar a submeter-se à ilusão do jogador durante um pouco mais de tempo. aguardou um momento e depois voltou para o seu quarto. mas os que perdiam. como sempre. a esperança de justificar até a virilidade adulterada e incompleta com que a Natureza o dotara. não tinham outro recurso senão afastar-se com a maior dignidade possível das cartas dispersas. de que a vida era um enigma sem resposta. Nicholas Black deixou-se cair na derradeira apatia do desespero. final. como Lhe acontecera a ele. A subida mostrou-lhe mais claramente do que qualquer médico como estava enfermo. seguindo em direcção ao quarto de Nicholas Black. o sol esgueirando-se pelas gelosias e incidindo obliquamente sobre o quadro de Paolo Sanduzzi. Era uma constatação simples. Cada passo foi um esforço. mas. A respiração brotoulhe do rosto e do corpo e a dor nas costelas era como uma faca a dilacerá-lo sempre que respirava profundamente. Estava . a Igreja. Ele apostara tudo naquela última jogada . e com todos os baralhos marcados de maneira a desfavorecerem-no. um jogo que não valia a pena continuar a jogar. de acordo com todas as normas. da bebida entornada e do fumo acre dos últimos charutos.

Só lhe restava regressar ao submundo que. no fim da tarde fresca. purgá-lo-iam sem descanso. ainda continuava com ele. foi até à secretária. O quarto estava vazio. o único comentário que ele fizera. estabelecer um contacto humano com Black. a brandura conseguiria incentivá-lo a melhores propósitos. fora uma indiscrição rude e brutal. já o expulsara do seu seio. mas o preço que lhe exigiria seria brutal: submissão do intelecto e da vontade. lavou-se. Inventar alguma seria uma hipocrisia. ainda assim ele fora vítima de calúnia e revelara no seu íntimo um impulso. Empurrou-a e entrou. como Meredith.arruinado até na esperança. Ao passar em frente da secretária. a sua única contribuição como sacerdote. para o bem. aproximou-se do quadro que se encontrava sobre o cavalete e. O pensamento ensombrou-lhe o sono superficial e. mas. e o resto da vida numa negação repleta de amargura. A cama estava intacta. puxou de uma folha de papel. A caridade que ele pensava ter adquirido através de Giacomo Nerone era uma mistificação monstruosa que o deixara ficar mal quando mais falta Lhe fizera. Dessa vez encontrou a porta entreaberta. Inquisidores sombrios. reduzido a tiras. fria e metodicamente. os . Mas o quadro de Paolo Sanduzzi encontrava-se no seu cavalete. que devia estar a sofrer profundamente. ao bater. trocista. Ele não passava do que sempre fora desde o princípio: um homem vazio. Ele não se sentia capaz de Lhes fazer face e não faria. arranjou-se e em seguida voltou ao corredor onde ficava o quarto do pintor. A Igreja recebê-lo-ia de volta. escrevinhou três linhas apressadas e assinou. junto da janela. começou a cortar a tela às tiras. Depois pegou numa espátula de paleta. No entanto. arrependimento. Não havia perdão possível. Nenhum homem podia ser obrigado a pagar pelas excentricidades e caprichos de um Criador sardónico. quando acordou. profundo e não desprovido de nobreza. Devia pedir desculpa pela sua grosseria e tentar. depois tratariam de adulá-lo com o falso chamariz da eternidade. Fossem quais fossem os pecados passados de Nicholas Black. não obteve resposta. Só havia uma coisa a fazer. desprovido de humanidade e piedade. Nunca na sua vida Meredith se sentira tão envergonhado de si próprio. mais uma vez. A bondade poderia estimulá-lo. Meredith entrou no quarto e acercou-se para melhor o examinar.completamente nu . Levantou-se. Levantou-se. as loucuras da sua natureza invertida.

gritando ao guarda do portão que o abrisse para o deixar passar. Mas não havia nenhum Deus. Nicholas Black Os segundos foram-se passando. No cabeçalho estava o seu próprio nome: Meu caro Meredith.. Tentava explicar-se a si próprio . Seu. Toda a vida suportei as brincadeiras do Todo-Poderoso. a correr pelo carreiro coberto de cascalho. que vós finalmente vencestes.não a justificar-se. Pensei que ele pudesse estar vivo e tentei rezar com ele. o eco da sua própria voz. esfregando os olhos para espantar o sono. olhando fixamente para o papel que segurava na mão pálida. à primeira vista parecia que ambos estavam mortos. Não fui capaz de o descer.olhos foram-lhe atraídos para a folha de papel que se via sozinha.. Só muito tarde deram pela sua falta e só muito mais tarde os encontraram . enquanto Meredith continuava no mesmo sítio. Aproximava-se agora o momento que Meredith receara mais que tudo. apenas uma névoa e um silêncio e. balouçando-se de um ramo de oliveira. despercebidos. enquanto Pietro seguia como um louco no carro da condessa em direcção ao palácio do bispo. e depois deu uns passos curtos e apressados para o caminho a fim de observar o louco do monsenhor a subir pesadamente a colina com a batina a esvoaçar-lhe em redor dos calcanhares. desceu as escadas. não tive forças suficientes para tal. já que sabia que nenhuma justificação era possível. O velho espreitou por entre as grades. Disse os actos de contrição . Todos os melhores pregadores o usam. neste. Até que todo o horror se Lhe revelou no íntimo e precipitou-se para fora do quarto. Corri para ver se o encontrava e dei com ele já pendurado na árvore. mas sim a explicar simplesmente a Deus como aquilo acontecera e como ele caíra em falta sem qualquer má intenção. Estava a dormir. -.Galileu. mas Aldo Meyer distinguiu o pulsar ténue do coração de Meredith e mandou chamar o padre Anselmo. em cima do tampo forrado a feltro verde. em Valenta. e Blaise Meredith estiraçado sobre as suas raízes. sabe. Tereis possibilidade de repetir o velho sermão sobre mim . A vossa veio fazer transbordar a taça repleta. Não sabia que ele saíra.Nicholas Black pendurado.

.Onde está o rapaz? .Mas Deus terá escutado e lembrar-se-á. ... . Tudo se fará como pede.Gosto disso . . São amigos. O bispo Aurelio sorriu-lhe à sua velha maneira fraternalmente irónica. O bispo Aurelio tirou a estola ensebada do pescoço do padre Anselmo e colocou-a nos seus ombros. depois viu o rosto do bispo Aurelio. de fé e caridade. Aldo Meyer.E depois submeter-se à misericórdia..Devia.disse o bispo Aurelio. ..observou Blaise Meredith. meu filho. vinda do meio da névoa. dar-lhe-á um enterro cristão? . inclinado sobre si. Nina Sanduzzi. depois de os outros se retirarem do quarto.Estou a morrer..aconselhou Meyer. . . de Valenta. . A voz chegou até ele. não me lembro..Quem sou eu para Lho negar? .Tenho-a comigo.. Estendeu a mão emaciada e o bispo estreitou-a entre as suas. . doutor.Não deve falar tanto .Falhei em relação a ele. eu escrevi uma carta a Vossa Reverendíssima. Depois disso.É a última oportunidade que tenho de o fazer. Quis ajudá-lo.e de amor.Vossa Reverendíssima importa-se de confessar-me. Com dignidade e entre amigos.Rolou a cabeça na almofada e encarou o bispo. Mas ele não ouviu. o velho Anselmo com a sua batina manchada e a estola dos sacramentos ao pescoço. Perguntou debilmente: . Olhou além do bispo e viu-os agrupados aos pés da sua cama: Anne de Sanctis.Nicholas Black.respondeu Nina em dialecto. . . meu senhor. Poderiam ajudá-lo a compreender. .. mas falhei.Assim farei. . .Um homem deve julgar-se a si próprio primeiro. Um presente da minha parte. na esperança de que ele me escutasse e se juntasse a mim neles. .A amadurecer depressa. inclinou-se para ouvir o relato dos últimos pecados de Monsenhor . . familiar mas distante. por favor? Estou muito fatigado.Eu.Como vão as laranjas? . mandar algumas a Sua Eminência. e. .Como devia acontecer a todos os homens. A névoa dissipou-se lentamente e a voz chegou-lhe mais perto. .Só o Todo-Poderoso dispõe de poder para julgar as falhas.Com Rosetta .

pela terceira vez: [. A seu lado tinha uma pequena caixa de madeira polida.proferiu o bispo Aurelio. muito distintamente: . de uma singular honestidade mental e de uma humanidade de cuja riqueza nunca teve a noção completa..Está com Deus . o único alimento indicado para a viagem mais longa do mundo. O cardeal Eugenio Marotta encontrava-se sentado na sua cadeira de costas altas em frente da mesa de trabalho. Não foi um fracasso. tinham já terminado. como tenho lamentado a de poucos homens. Um ligeiro tremor agitou-o e a cabeça rolou-lhe frouxamente sobre a almofada branca. Era um homem dotado de uma grande coragem. Nas mãos tinha uma carta de Sua Reverência o Bispo de Valenta. onde o seu secretário acabara de colocar os jornais do dia. Agora é tudo tão fácil. recostou-se. na posse plena das suas faculdades e depois de receber os ritos completos da nossa Santa Madre Igreja. As suas investigações lançaram uma luz intensa sobre a vida e carácter do servo de Deus Giacomo Nerone e provaram que este foi um homem. enquanto o velho Anselmo Lhe administrava a extrema-unção. Meredith abriu os olhos e disse. Muito tempo depois.Tive medo durante tanto tempo. Sei que será uma grande perda para Vossa Eminência e para a Igreja. Lia-a lentamente. mas não me restam quaisquer interrogações acerca do bem que já foi feito através da influência de Giacomo Nerone e do falecido .] Lamento informar Vossa Eminência de que Monsenhor Blaise Meredith faleceu ontem de manhã. dentro da qual estavam seis laranjas douradas. enquanto o quarto se enchia lentamente com o murmurar das velhas orações aos espíritos que partem. Continuo a ter dúvidas de que valha a pena avançar com este processo mesmo até ao tribunal ordinário.disse Aldo Meyer.Blaise Meredith. às nove horas. os olhos fechados e as mãos entrelaçadas. . Antes de morrer. . de grande santidade. Sinto-me enlutado pelo irmão que ele se tornara para mim. Ao recebê-la. Depois de o absolver.. encarregou-me de apresentar as suas desculpas junto de Vossa Eminência pelo que designou de fracasso da sua missão. Lamento a sua partida. se não mesmo canónicos. de velas acesas na mão. cada qual aninhada na sua base de algodão.Está morto . chamou os outros novamente e todos se ajoelharam em volta da cama. em termos morais.

numa base de cooperativismo. A razão para esta mudança de vontade poderá dever-se a algum interesse final. Na última carta que me escreveu. tivesse ele vivido. donde seguirá para o cemitério amanhã. Soube que Monsenhor Meredith pediu certa vez para ser enterrado na igreja de Vossa Eminência.os primeiros frutos de uma nova cepa importada da Califórnia. e cito as suas palavras exactas: "Elas poderão ajudá-lo a compreender. próximo do túmulo de Giacomo Nerone. aos agricultores locais. Monsenhor diz: "Roma está muito longe . estou convencido de que teria gostado de tomar parte nele. vi claramente neles a intervenção do dedo de Deus. e eu.Monsenhor Meredith. esperamos ter mais destas árvores para distribuir. Fraternamente seu em Jesus Cristo. Em termos mundanos. Disse. No verdadeiro sentido da nossa fé. Um padre errante regressou a Deus. Aurelio f Bispo de Valenta . O corpo de Monsenhor Meredith encontra-se neste momento exposto na Igreja da Senhora das Dores. se Deus quiser. como é evidente. sem dúvida. Seguir-se-ão as missas habituais." Vossa Eminência entenderá. na véspera da sua morte. O pedido de envio destas laranjas foi-me dirigido no seu leito de morte. que normalmente me considero céptico. Eu oficiarei pessoalmente a missa e o enterro.tal como Vossa Eminência o desejará também fazer. As laranjas que Lhe envio constituem um último presente de Monsenhor Meredith. uma criança foi salva de um grande dano moral e uma mulher infeliz foi suficientemente iluminada para procurar soluções para a sua situação. No ano que vem. encontrei-me a mim mesmo como homem e como padre. para solo recém-consagrado. eles assumem uma dimensão muito vasta. e eu próprio passarei a fazer uma oração especial em sua memória nas minhas missas . São da minha própria plantação . Monsenhor Meredith mostrava grande interesse neste trabalho. pela primeira vez. em Roma. em Gemello Minore. sem dúvida. nas suas." A humildade domina-me quando penso que muitos de nós viveram mais tempo e fizeram muito menos.e aqui. a alusão. e. estes factos são pequenos e insignificantes.

Meredith. talvez fossem os mesmos homens e fosse ele apenas que tivesse mudado . Era um pensamento perturbador e prometeu a si próprio voltar a ele quando fosse altura do seu exame de consciência dessa noite. Cristo fizera bispos e um papa . um gonzo . Era a segunda sexta-feira do mês. Tirou um pequeno livro de notas encadernado a couro do bolso e escreveu. lançou um olhar rápido pela correspondência e tocou a pedir que Lhe trouxessem o carro à porta. ao que parecia. os esquecidos dos príncipes. cujas pedras eram os pobres. o dia em que o prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos se reunia com Sua Santidade o Papa para discutir. os ignorantes. na data do dia seguinte: "Lembrar na missa. quem sabe. cegueira e frieza no coração.. entre outras questões. mas nunca os esquecidos de Deus.cardo. O bispo que escrevera o primeiro pedido de um advogado do Diabo não era aquele Aurelio. Estava a envelhecer. Faltava um quarto para as onze.mas nunca um cardeal. Até mesmo o nome retinha mais do que o palpite de uma ilusão ." Depois voltou a guardar o livrinho no bolso. . os humildes.mais uma vítima das tentações insidiosas dos príncipes: orgulho. os pecadores e os que amam. Já não conseguia ler uma carta ou julgar um homem. Ou talvez tivesse vivido demasiado tempo em Roma.como se fossem os gonzos donde os portões do Céu estavam suspensos. O homem que morrera não era o homem que mandara fazer a investigação . Era um homem metódico e nesse momento tinha outros assuntos a tratar. Ou. com o seu espírito cortante e a sua tendência acentuada para a ironia.. Gonzos talvez fossem. poder.um pedante seco com o coração coberto pela poeira das bibliotecas. mas os gonzos eram pedaços de metal sem préstimo se não estivessem firmemente ancorados no tecido vivo da Igreja. a beatificação e canonização dos servos de Deus.Sua Eminência pousou a carta sobre o tampo da secretária e reclinou-se na cadeira. reflectindo sobre o que acabara de ler.

ambos adaptados ao cinema. Arlequim. pouco antes de professar. a 26 de Abril de 1916. Os seus maiores êxitos foram O Advogado do Diabo (1959) e As Sandálias do Pescador (1963). Os Palhaços de Deus. antes de se dedicar definitivamente à produção literária. sendo o mais velho de seis irmãos. Cumprido o serviço militar. mas que acabaria por abandonar em 1941.O Autor e a Obra Morris West nasceu em Melburne. tendo trabalhado nos Serviços de Informação durante a Segunda Guerra Mundial. na Austrália. Estão ainda publicadas em português as seguintes obras do autor: Filha do Silêncio. Cassídy. O Embaixador. igualmente adaptada ao cinema. Aos catorze anos entrou na Ordem dos Irmãos Cristãos. O Mundo é Feito de Nada. Golpe de Mestre e O Navegante. Alistou-se então no Exército. Proteu. FIM . onde tomou votos. trabalhou na rádio e em publicidade entre 1943 e 1953.