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Fundação Heinrich Böll

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Ser Mulher
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Organização, pesquisa e redação
Alejandra Rotania
Pesquisa
Vanessa Ventura
Quem Somos?
Apresentação
Introdução
Biopolítica
Biotecnologias
Biotecnologia Verde
Biotecnologia Vermelha
PGH (Projeto Genoma Humano)
NTRc e G (Novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas e Genéticas)
FIV (Fertilização In Vitro)
ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóide)
Heteroplasmia mitrocondrial
DGPI (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional)
Clonagem
Clonagem Animal
Clonagem Humana
Eugenia
Bionanotecnologia
Biodiversidade
Biopirataria
Patentes
Biossegurança
Bioética
O que já realizamos.
O que podemos fazer?
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Design Gráfco e Ilustrações
Alexandre Lobo
www.cromossoma.com.br
Planejamento Gráfco
Alexandro Mandur Thomaz
Edição de texto
Morissawa Casa de Edição
Impressão
Nacif Gráfca
Agradecimento às colaborações de:
Ana Regina Gomes dos Reis, Eliane Ramos,
Guilherme Mury , Jean Pierre Leroy,
Maria Fernanda Escurra, Miriam Nobre, Sabrina Petry,
Thomas Fatheuer, Vera Menegon.
Nova Friburgo . RJ . Novembro . 2006
Por que fazer um caderno sobre biopolítica?
Trata-se, na realidade, de um convite para pensar. E, para isso, propomos criar um tempo próprio
para momentos de refexão sobre temas que dizem respeito à nossa civilização e ao nosso futuro.
Devemos compreender as grandes mudanças ocorridas na história da Humanidade dos pontos de vista
econômico, social, ético, político e cultural, e enfrentar nossas dúvidas ou tomar posição quanto a
ser este o mundo que queremos. Neste mundo, a natureza, todos os seres vivos e o conhecimento
tornaram-se comerciáveis e a vida, em seus íntimos componentes, corre o risco de passar a ser
propriedade privada.
Fundação Heinrich Böll
Com sede em Berlim, a Fundação Heinrich Böll é uma organização política sem fns lucrativos, ligada à coalizão
partidária alemã Aliança 90/Os Verdes. Seu objetivo primordial é promover o conceito de cidadania e os valores
democráticos por meio do debate crítico das questões sociopolíticas, econômicas e culturais relevantes de nosso
tempo.
Mantém parcerias em 55 países com indivíduos, grupos e movimentos da sociedade civil envolvidos na
preservação do meio ambiente, na luta pelos direitos humanos e no fortalecimento do protagonismo social e
político das mulheres.
A Fundação Heinrich Böll atua no Brasil desde 1990. Em 2000, inaugurou o escritório próprio no Rio de
Janeiro para estreitar a cooperação e intensifcar o intercâmbio entre pessoas e instituições no Brasil e
na Alemanha. Desde 2004, o escritório também é responsável por programas em todo o Cone Sul.
O fortalecimento da cidadania compreendida como exercício pleno e irrestrito dos direitos
políticos, sociais, econômicos e culturais é o pressuposto civilizatório da democracia plena. Por
meio da sensibilização da sociedade, do apoio a movimentos e processos participativos e da
mobilização de pessoas e instituições, a Fundação Heinrich Böll quer contribuir para a construção
de uma sociedade mais eqüitativa.
Ao apoiar publicações sobre a temática abordada neste caderno, ela procura sensibilizar a
opinião pública para temas emergentes e fundamentais na sociedade.
Ser Mulher
O Ser Mulher – Centro de Estudos e Ação da Mulher Urbana e Rural –, entidade sem fns lucrativos
fundada em agosto de 1989, com sede no município de Nova Friburgo, RJ, caracteriza-se por ter adotado, a
partir do ano de 2000, uma estrutura organizativa semi-aberta-matricial, investindo na formação continuada
de seus quadros técnicos e políticos, e promovendo a capacitação de lideranças femininas comunitárias com
intervenção nos níveis municipal e regional. Atua também nos níveis nacional e internacional.
Suas atividades organizam-se em torno de três programas: 1) Programa de Saúde, Bioética e NTRc e
Genéticas; 2) Cidadania, Direitos e Violência Contra a Mulher; e 3) Desenvolvimento Local e Sustentável; Programa
Crisálida – Sustentabilidade Institucional, que implicam a formação de lideranças comunitárias, com estímulos à
participação e organização das mulheres de baixa renda.
A missão institucional do Ser Mulher é criar consciência na sociedade sobre as desigualdades de gênero e
promover mudanças em prol da cidadania e da autonomia das mulheres. As perspectivas feministas se contextualizam
na crise da modernidade e se fundamentam no respeito à integridade do ser humano e a suas relações com a
natureza.
As linhas de ação da entidade compreendem: formação e estímulo às mulheres de baixa renda para sua participação
social e organização autônoma em âmbitos de intervenção municipal e regional; capacitação e empoderamento das
mulheres; estímulos e incidência nas políticas públicas; assessoria, capacitação e fortalecimento da sociedade civil na
perspectiva de gênero; articulação política, participação e formação de redes, entre outras.
O Ser Mulher apóia o fortalecimento da autonomia das mulheres, dos grupos e dos povos, para que, pela consolidação
e ampliação de estratégias de resistência, seja possível a construção de uma sociedade ética, justa e responsável.
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Com as novas tecnologias e seus usos, vivemos um momento de grandes mudanças, como as já
propiciadas na história da Humanidade, entre elas a Revolução Industrial, entre os séculos XVIII e XIX,
que introduziu novas máquinas e artefatos para facilitar a vida das pessoas e otimizar o trabalho para
o capital. Veremos, aos poucos, as diferenças entre essa revolução e a que vivemos agora, isto é, quais
são as diversas mudanças históricas e seus impactos sobre a natureza e os seres humanos, a partir do
grande desenvolvimento do conhecimento sobre a vida.
Hoje em dia, tudo se passa a uma velocidade incalculável. Há quem diga que estamos todos dentro
de um “trem-bala”, no sentido de haver “algo ou alguém “ que se apodera de nossa capacidade de,
indo mais devagar, entender o momento da civilização que estamos vivendo, preservar nossa forma
de ser e nossa liberdade, e sermos seres humanos, homens e mulheres, donos de nosso próprio
tempo para pensar, decidir, participar, criar.
Para refetir sobre tudo isso devemos dominar uma linguagem que sempre nos parece muito
difícil e nos deixa tensos, que é a linguagem da ciência, da tecnologia, dos diversos setores do
conhecimento especializado e, também, da flosofa e das ciências humanas. Ou seja, devemos
ter informação clara, e é fundamental perder o medo da crítica e exercer o pensamento livre.
Para o processo de aprendizagem são necessários os esclarecimentos conceituais, o
resgate histórico das questões, exemplos e indagações. E, para a efcácia desse processo,
devem contribuir o estímulo ao debate, o despertar de novas dúvidas e perguntas, o
favorecimento da integração dos diversos temas e o fortalecimento da articulação da
sociedade civil para sua intervenção e participação de forma ativa e consciente.
Este caderno pode ser usado no trabalho social por associações comunitárias, ONGs,
movimentos sociais, associações de profssionais de diversas áreas, grupos de direitos
humanos e todas as pessoas que, de uma ou de outra maneira, são formadoras de opinião,
capacitadoras, ativistas e multiplicadoras atuando junto a diferentes públicos, preocupadas
com o futuro da vida em geral e da vida humana em particular na Terra. Nessa perspectiva,
os textos aqui apresentados trazem um conteúdo relativo a todos os setores/temas abrangidos
pelo que chamamos de biopolítica e contam com questões, perguntas ou idéias para refetir que,
trabalhadas coletivamente, contribuirão para o próprio processo de apropriação, problematização
e aprofundamento das temáticas. Esses temas são biotecnologias, biodiversidade, biopirataria,
biossegurança, eugenia, bionanotecnologia, patentes e bioética.
Esperamos, assim, que este caderno represente um estímulo para o desenvolvimento de outras
iniciativas dirigidas a públicos diversos, com necessidades, inserções e interesses específcos.
O ser humano tem a capacidade de olhar a vida e o tempo e como se
desenvolve a história da qual ele é protagonista. Olhando antigas fotografas
podemos perceber a diferença, por exemplo, entre o modo de vestir de
cem anos atrás e o de hoje. Remontando à Antigüidade, podemos até
imaginar um ser humano contemplando a olho nu o universo como
um círculo imenso contendo tudo aquilo que é possível observar
e perceber com os nossos próprios sentidos. Um círculo pleno de
signifcados que explica quem ele é propriamente e toda a vida
a seu redor.
Mais adiante, esse
ser inventa e fabrica
ferramentas e artifícios
para comprovar aquilo que
vê, e inventa teorias para
explicar as coisas, a natureza,
os movimentos, o céu, a Terra,
tudo em harmonia. Tudo aquilo
que existe o supera. Inventa
o telescópio, pois o mundo é
grande demais e é preciso abranger
o máximo. Logo depois, inventa o microscópio, e um mundo inimaginavelmente pequeno
se apresenta a seus olhos. Ao longo do tempo e com o aperfeiçoamento cada vez maior desse
instrumento, descobriram-se muitas outras coisas sobre a natureza e a matéria que não só a cor
e a forma, entre elas o “coração da matéria”, isto é, a substância que se encontra no núcleo das
células de todos os seres vivos e é responsável pela hereditariedade e pela formação dos novos seres
vivos.
Num tempo muito remoto, as mulheres se deitavam na terra úmida, sobre folhas macias, para
terem seus bebês e acreditavam que eles haviam sido fecundados nas fendas das rochas de um modo
milagroso. Bem adiante na História, os especialistas fabricaram instrumentos para que as crianças
nascessem em uma sala de hospital, por meio de uma cirurgia, ou para que os futuros bebês fossem
concebidos em vidros nos laboratórios, fora do corpo da mulher, sem necessidade da relação sexual.
A forma de conhecer e de agir dos seres humanos mudou, assim, de acordo com esse novo
Thomas Fatheuer
Diretor do Escritório Rio de Janeiro
Fundação Heinrich Böll.

Alejandra Rotania
Coordenadora Executiva de Programas
Ser Mulher - Centro de Estudos
e Ação da Mulher Urbana e Rural.
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conhecimento. Conhecer o íntimo, o “muito pequeno”, a célula e seus mínimos componentes permitiu
manipular a matéria e modifcá-la, e até abrir a perspectiva de criar novos seres, substâncias e
procedimentos que antes não existiam, fabricando novos produtos para sustentar a economia mundial.
Novas revoluções e novas tecnologias vieram. Revelaram-se novas formas de relação dos seres humanos
com a natureza, e nós, atualmente, devemos compreender quais são as diferenças dessas mudanças,
seus signifcados, seus riscos, seus benefícios...
... e nossa responsabilidade para com o futuro!!!!!
Vamos tentar conhecer juntos este que um escritor norte-americano chamado
Aldous Huxley denominou “admirável mundo novo”.
Biopolítica é algo tão antigo quanto a organização
das primeiras cidades, quando o termo se referia
mais especifcamente à maneira com que o Estado se
apropriava dos corpos e das sexualidades dos cidadãos
para sustentar um modelo político e econômico
determinado. A vigilância sobre a virgindade das
mulheres, isto é, a preservação de sua castidade,
por exemplo, era um mecanismo da Igreja e do
Estado para controlar a sexualidade feminina e
a procriação para fns sociais e econômicos. O
pesquisador francês Michel Foucault falou muito
bem a respeito disso.
Agora, de acordo com o flósofo alemão
Hans Jonas (1903-1993), o centro da
disputa política é a vida biológica e a
possibilidade de “fazê-la” ou “modifcá-la”
em sua essência, o que nunca tinha acontecido
na história da Humanidade. A biopolítica
acrescenta hoje novas questões. Referimo- n o s
a outras realidades materiais-biológicas ( cél ul as ,
cromossomos, moléculas, genes) que, no caso da biotecnologia, por exemplo,
têm utilidade econômica e passam a ser apropriadas pelas grandes corporações capitalistas. No
contexto atual, a técnica, a ciência e a indústria intimamente relacionadas entre si transformam-
se em pilares do sistema econômico.
A biopolítica é um campo que permite agregar, aproximar, associar setores da realidade
relacionados com a vida, a natureza e o conhecimento, cujas mudanças ao longo do tempo foram
provocadas pela indústria, pela ciência e pela tecnologia, que hoje disputam o campo político-
econômico mundial.
Quais são os setores da realidade e os ramos da ciência que podem se agrupar no campo da
biopolítica? Podemos citar, entre outros, a biotecnologia, a engenharia genética, a biossegurança,
a biopirataria, o problema da água, a privatização e informatização do conhecimento, o acelerado
desenvolvimento da biomedicina, as experiências científcas, a artifcialidade e a mercantilização da
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reprodução humana, as pesquisas utilizando tecido embrionário e a bionanotecnologia. Esses setores
da realidade, que aqui não esgotaremos mas buscaremos desenhar, fazem parte de uma economia e de
uma política que transformam a vida e a natureza como um todo em fatias de mercado e em objeto de
mercantilização.
Ao campo da biopolítica acrescenta-se a descoberta de uma dimensão inexplorada da Natureza,
que é a informação. Por exemplo: cada ser vivo é portador de uma informação; seus recursos genéticos
podem ser patenteados, isto é, declarados propriedade particular, como qualquer outro objeto – uma
casa, um terreno, animais etc. Assim como o material, a informação da qual este é portador também
pode ser patenteada.
O conhecimento sobre a realidade íntima da vida biológica pode ser transformado numa
mercadoria, no sentido do grande valor que adquire para as indústrias. A informação sobre os
recursos genéticos pode ser vista como uma das bases da nova fase do capital mundial. Todos
esses aspectos provocam uma grande mudança histórica na humanidade.
As associações entre os setores que compõem o campo da biopolítica são, em geral, pouco
percebidas. A biotecnologia tem condições de fabricar em laboratório sementes agrícolas
que não existiam na natureza, modifcando sua organização genética. Embriões humanos
podem ser criados em laboratório, por meio de técnicas genéticas de melhoramento
da qualidade. Ou seja, sementes e embriões têm coisas em comum: são produtos
de uma mesma técnica, podem ser manipulados do mesmo modo e, como veremos
ao avançar nesta cartilha, são frutos de um mesmo objetivo cultural, econômico e
político.
Os agricultores ou as pessoas comuns têm, em geral, pouca ou nenhuma
informação do que ocorre no mundo da medicina e da complexa tecnologia da reprodução,
e os médicos ignoram o que acontece com as sementes modifcadas e os efeitos dessas
mudanças na saúde das pessoas. Contudo, não podemos viver como se a realidade fosse uma
série de caixinhas isoladas.
Uma mesma técnica serve para modifcar toda forma de vida, qualquer que seja a
espécie, e as conseqüências disso podem signifcar grandes benefícios ou riscos incalculáveis
para a humanidade e a natureza como um todo.
Há quem diga que a civilização atual deve ser criticamente analisada, buscando-se os sentidos
éticos e políticos que se perderam ou se esconderam por trás de algo altamente valorizado e mal
compreendido – o progresso. O progresso não é necessariamente uma coisa boa, altamente positiva,
que não mereça avaliação e crítica. É preciso saber o que entendemos por progresso e conhecer
também seu lado obscuro, perceber que tem uma face oculta a ser desvelada. Isto é, há uma tendência,
em nossa cultura, de encarar o conhecimento, as técnicas, os novos produtos, artefatos, como avanço
e progresso, sem colocar nada em questão, considerando somente o lado positivo.
O grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia e as características do capitalismo, hoje,
que se manifestam no que aqui propomos chamar de biopolítica, oferecem perigos que não estão
distantes. Veremos que se trata de uma realidade já existente, cujos signifcados a sociedade ainda
não compreende. Descobrir esses signifcados (que podem ser negativos ou positivos) e tomar posição a
respeito deles é responsabilidade de cada dia para a sociedade como um todo.
Vamos pensar!
É importante a discussão destes temas? Quem discute?
Quem deveria discutir?
Por quê?
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Um setor fundamental que defne o território
da Biopolítica é o da biotecnologia. Como vimos nas
páginas anteriores, a ciência e a tecnologia da vida,
que se desenvolveram com grande dinamismo nos
últimos tempos, determinaram um modo de
ver a natureza, a vida e o conhecimento
radicalmente diferente do que se tinha
antigamente e permitiram a intervenção
do ser humano na natureza de maneira
nunca vista antes na história da
humanidade.
No século XIX, um monge
chamado Gregor Mendel
(1822-1884), nascido na
atual República Tcheca,
começou suas experiências
com ervilhas de 34 tipos de
sementes diferentes, tendo
em vista a cor das fores,
se elas eram rugosas ou lisas
e como essas características
eram passadas de uma geração a
outra. Ele buscava, assim, entender
o mecanismo da hereditariedade, ou
seja, as características transmitidas de
progenitores a descendentes, por meio
de técnicas tradicionais convencionais,
misturando manualmente ervilhas de
diferentes tipos e observando o que acontecia
ao longo do tempo. Foi assim que ele descobriu as leis
da hereditariedade, fundando, desse modo, uma nova
ciência: a genética.
A biotecnologia tradicional, ao modo de Mendel, compreendia procedimentos
aplicados aos processos biológicos de diferentes espécies, que permitem
manipular plantas, microorganismos e animais, sem atingir ou modifcar sua
estrutura. Mendel utilizava a técnica de “hibridação”, o cruzamento
entre espécies diferentes a partir da observação e da explicação dos
fatos tal como são percebidos. Na biotecnologia tradicional usavam-
se bactérias para fermentar suco de uvas, produzir vinho e fungos,
transformar leite em queijo, fabricar o pão etc., por meio de
métodos artesanais e mecânicos. A partir do século XIX, com
o progresso da técnica e da ciência, especialmente do ramo
da microbiologia, assistimos a grandes mudanças.
Biotecnologia é sempre uma técnica de manipulação
dos seres vivos e da matéria orgânica, mas, a partir
de um determinado momento da história, tornou-se
possível “convencer” (tecnologicamente) uma célula
a fazer algo para o qual ela não estava programada.
Dizendo de outro modo, consegue-se transformar
organismos em seu estado “natural” em “outra
coisa”, como veremos constantemente neste
caderno. Por quê e como? Porque se conhecem
os componentes da célula, suas substâncias, suas
partículas, as características do núcleo, os genes
e se têm as condições de manipulá-los a partir das
informações assim obtidas.
Da combinação de biotecnologia com a engenharia
genética surgiram os OGMs (organismos geneticamente
modifcados) e os OVMs (organismos vivos modifcados).
Biotecnologia e Engenharia Genética
A biotecnologia usa uma série de conhecimentos (físicos,
químicos, biológicos) e de técnicas ou procedimentos que conseguem reformar,
reconstituir, reproduzir ou até criar seres vivos que não existem na natureza.
A engenharia genética, inventada em 1971, é uma técnica que não apenas permite
observar os processos biológicos, físicos e químicos do DNA, mas também intervém, corta,
substrai, substitui genes.
As novas tecnologias têm condições de transformar uma ervilha em algo novo, inédito, por meio
da manipulação dos genes, que são pedaços variados de DNA. Pode-se, assim, eliminar o efeito do

gene responsável pelo cheiro de morango e produzir essa fruta sem seu cheiro característico; pode-se,
também, substituir o gene responsável por um aroma e substituí-lo pelo de limão, e assim por diante,
e, desse modo, temos algo “novo”: um morango com cheiro de limão. São as tecnologias que operam
mudanças específcas no DNA (ácido nucléico) ou no material genético que se encontra no núcleo das
células de todas as espécies vivas e é responsável pela reprodução e pela hereditariedade. Quando se
agregam ou se acrescentam genes de uma espécie a outra, o resultado é um organismo transgênico.
Manipuladas e alteradas as células germinativas (reprodutoras) de uma espécie ou reorganizados seus
recursos genéticos, essas mudanças serão para sempre, ou seja, atingirão todas as futuras gerações.
É por isso que se diz que a engenharia genética, com a manipulação do DNA, possibilita “reorganizar
a vida”. O que era, por exemplo, uma ervilha pode ser programado para ser uma ervilha que não
existia antes na natureza e que, em geral, entende-se, deve ser propriedade de quem inventou
essa “nova organização”. Daí a busca pelas patentes.
Para refetir e discutir.
As aplicações da engenharia genética na modifcação dos seres
vivos são inimagináveis. Nos jogos olímpicos do futuro, por exemplo,
além dos exames antidoping realizados nos atletas, para detectar
substâncias proibidas, poderão, estimulados pelo desenvolvimento
tecnológico, ser aplicados outros, mas estes voltados a detectar
genes modifcados com a fnalidade de aumentar tamanho,
agilidade, velocidade e outros atributos considerados estratégicos
numa atividade (o esporte) cada vez mais competitivo. Você já pensou
sobre isso? Quais podem ser os signifcados do uso dessa tecnologia para a
natureza em geral e para os seres humanos?
Para visualizar melhor os signifcados da aplicação da biotecnologia e individualizar ou
diferenciar problemas e especifcidades, começou-se a dar nomes nada científcos a cada setor,
como biotecnologia verde, para aquela que se aplica à agricultura, às sementes, às árvores, aos
alimentos, e biotecnologia vermelha, para aquela aplicada às espécies animais e humana.
Biotecnologia Verde
Retomando o tema da engenharia genética, deveríamos perguntar: então, o que é um organismo
transgênico? A partir do uso da engenharia genética, como técnica, ou da biotecnologia, realizam-se
cruzamentos artifciais em laboratório para inserir genes de uma espécie (como planta ou sementes)
em outra (um animal). Desse modo, cultivam-se tomates que não amassam, rosas com cheiro de limão,
alfaces com vacina contra hepatite B, tomates que ajudam a prevenir câncer de próstata, criando-se
espécies inexistentes na natureza.
As empresas que utilizam a engenharia genética têm colocado no mercado produtos transgênicos
vegetais. Existe uma vasta produção de sementes geneticamente modifcadas – de soja resistente a
herbicidas, de tomates com maior durabilidade e de milho imune a insetos.
A soja transgênica possui características que a tornam resistente ao glifosato, que é um poderoso
herbicida. Ela resultou de uma experiência, feita por uma grande empresa, em que parte de uma
bactéria encontrada no solo foi introduzida na semente.
Você sabia...
... que um trecho do DNA extraído da planta Saponaria offcionalis,
espécie silvestre americana, é inserida em sementes de algodão? O grão
cultivado germina e desenvolve-se normalmente. Quando a plantação
amadurece, o gene “exterminador” (terminator, em inglês) entra em
ação, a planta torna-se estéril e não produz outra geração. Na safra
seguinte, os agricultores poderão ser obrigados a comprar novas
sementes do fabricante. A tecnologia poderá vir a ser aplicada em
espécies forestais e animais, até mesmo em peixes.
A utilização da engenharia genética e dos produtos transgênicos signifca riscos
para o meio ambiente, para o espaço de vida de todas as espécies. Por exemplo, um
problema grave é o da contaminação de lavouras convencionais ou ecológicas, porque é
muito difícil controlar a propagação: o vento, os insetos, pássaros, a água da chuva fazem
com que o pólen de uma planta atinja outras localizadas a quilômetros de distância.
Em um experimento realizado na Universidade de Cornell, em Nova York, pesquisadores
constataram que, após quatro dias alimentando-se lagartas da borboleta Monarca com folhas
contendo pólen geneticamente alterado de milho, quase metade das lagartas morreram e a outra
metade comia uma quantidade nitidamente menor. O milho transgênico contém uma substância
orgânica tóxica que serve para combater as pragas.
No Peru, uma empresa americana, sem licença para realizar a pesquisa no país, experimentou um
soro derivado de arroz transgênico com proteínas recombinantes produzidas nos Estados Unidos em
bebês com quadro de diarréia severa, que apresentaram reações alérgicas e, segundo as mães, têm
hoje saúde delicada, manifestando reações alérgicas a quase tudo. Já está praticamente comprovado
que determinadas substâncias usadas nos alimentos transgênicos são tóxicas, sendo responsáveis por
alergias variadas e por tornar o organismo humano resistente aos antibióticos.
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Biotecnologia Vermelha
Como já foi dito, a biotecnologia aplicada aos animais e aos seres humanos é denominada vermelha,
em referência à cor do sangue.
Quais seriam os objetivos de fabricar animais transgênicos? Obter espécies para experimentação;
aumentar a produtividade dos sistemas pecuários tradicionais (crescimento mais rápido); melhorar
determinadas qualidades; e preparar os animais para transplantes de órgãos.
Você sabia...
... que mosquitos transgênicos estão sendo criados no Brasil para
alcançar a cura para a dengue, ou seja, mosquitos incapazes de transmitir
a doença?
Além de ser usada na produção de sementes, árvores e alimentos,
a transgenia é aplicada à fabricação de medicamentos e diversas outras
substâncias, para variados fns. As multinacionais farmacêuticas investem esforços
e dinheiro para transformar mamíferos transgênicos em verdadeiros fabricantes de
substâncias de interesse farmacêutico. Elas não se organizam para derrotar a fome
ou a doença no mundo; estão interessadas somente em se apropriar de fatias cada
vez maiores de um mercado mundial que hoje representa mais de seis bilhões de
pessoas.
Atualmente há fêmeas de mamíferos transgênicos que produzem leite com diversas
substâncias de interesse econômico, tanto para aplicação humana como para outros animais.
Entre essas substâncias estão fatores de coagulação, insulina, hormônios e vacinas. A ovelha
Polly, para cuja produção se utilizaram genes humanos, foi uma biofábrica de propriedade da
empresa PPL Terapêutica.
Outros exemplos de transgenia são: o gado que recebeu o hormônio de crescimento para
aumentar a produção de leite; os porcos que receberam genes humanos para produzir medicamentos
ou para que seus órgãos estejam preparados para a reposição de órgãos humanos; o peixe que brilha
nos aquários, obtido pela mistura de genes de paulistinha com os de uma água-viva fosforescente.
Este último exemplo mostra que até produtos de decoração e de estimação não escapam às empresas
de biotecnologia.
Ainda não há liberação dos transgênicos em geral no Brasil. A única produção transgênica
autorizada é a da soja, em alguns estados.
A biotecnologia vermelha aponta para um campo muito amplo de aplicação das novas tecnologias,
não sendo possível aqui abranger todos. Portanto, serão destacados somente o PGH (Projeto Genoma
Humano) e as NTRc e G (Novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas e Genéticas).
PGH (Projeto Genoma Humano)
O PGH iniciou-se formalmente nos
Estados Unidos, em 1990, para em seguida
ter a participação de vários outros países,
incluindo o Brasil. Seu objetivo era
identifcar, mapear e seqüenciar os genes
do corpo humano.
Mapear signifca descobrir onde está
cada gene nos cromossomos; seqüenciar
signifca descobrir em que ordem estão
os pares das bases químicas (tinina,
guanina, citosina e adenina) que
compõem o DNA. Isso para depois estudar que
tipo de função tem cada gene.
Conhecendo a função dos genes, abre-se um leque inestimável
e sempre crescente de conhecimento e intervenção nas diferentes
formas de vida e na natureza como um todo. Isso
pode ser visto pelo ângulo positivo, considerando-
se o progresso da ciência e da tecnologia, ou
pelo negativo, tendo em conta os riscos
imprevisíveis desse progresso para a
humanidade.
A tecnologia genética pode ser
utilizada para se obterem informações
sobre a origem das populações e das
migrações do mundo, as características
das etnias, as causas das anomalias
e doenças, as especifcidades da
diversidade animal, as possibilidades
de elaboração de medicamentos e de
fabricação de armas biológicas, entre
outras. Na área ligada à saúde e à medicina
em geral, pode-se incluir, por exemplo, a
elaboração de testes genéticos que oferecem
a possibilidade de investigar a tendência a
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doenças futuras, como câncer de intestino e de mama, bem como de diagnosticar malformação genética
nos fetos já nas primeiras semanas de vida. Também é possível, por meio dos testes, identifcar a
tendência a baixa estatura e o fato de o desempenho sexual e de a perda gestacional poderem ser
associados ao patrimônio genético.
À medida que a tecnologia genética se incorpora à medicina de alta complexidade, os testes
acessíveis a uma determinada camada social tornam-se banais e são vistos muito levianamente como
uma tecnologia de ponta “salvadora”, mas sua qualidade tem sido considerada duvidosa em vários
estudos. Um teste genético de efcácia reconhecida, aceito e muito utilizado é o chamado “teste
de paternidade” ou “teste de DNA”, que permite descobrir quem é o/a genitor/a da criança. Esse
teste é também usado no campo judicial, especifcamente na área criminal.
Imaginemos que, em um futuro próximo, os genes responsáveis por nossa inteligência sejam
localizados e torne-se possível identifcar, por meio da análise do DNA, qual será o potencial
genético de um indivíduo quanto a essa característica.
Para refetir e discutir.
Como poderia ser usada essa informação?
Seriam instituídos testes genéticos antes da admissão de crianças
em escolas, jovens em universidades ou candidatos a empregos?
Haveria discriminação ou maior tolerância
em relação aos menos dotados?
Empregadores e companhias de seguro-saúde
teriam acesso às informações?
Quem vai controlar a confdencialidade das informações genéticas?
Dadas a quantidade inestimável de informações e a velocidade com que se devia trabalhar
no Projeto Genoma Humano, dependeu-se muito das tecnologias de informática, e isso provocou
um grande desenvolvimento na área de computação ou da chamada Bioinformática, que é parte
essencial da genética atual. Os fragmentos de DNA foram enviados pelos laboratórios a bancos
de dados internacionais de seqüência genética. Especula-se que, por trás de tanta pressa, está
a indústria farmacêutica buscando impulsionar os rentáveis negócios dos “kits de diagnósticos
genéticos”, bases da medicina preditiva, isto é, da medicina que pode prever possíveis doenças.
Na era que se seguiu à análise do genoma humano, denominada “era pós-genômica”, desenvolveu-
se o setor de pesquisa farmacogenômica ou farmacogenética, que estuda a relação dos genes com os
remédios e as pessoas, e também os constantes problemas de efeitos colaterais de medicações, que
têm obrigado a indústria farmacêutica a retirá-las do mercado.
NTRc e G (Novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas e Genéticas)
Os conhecimentos e os procedimentos obtidos nas experiências de reprodução animal da
biotecnologia vermelha foram transferidos para a reprodução humana. Com isso, a tecnologia da
medicina científca contemporânea tem provocado mudanças inéditas no modo de procriação. Em
geral, os resultados negativos das experiências em animais foram ocultos, com o objetivo de impedir
possíveis rejeições das futuras usuárias das técnicas inerentes.
As mudanças na reprodução foram radicais. Eliminou-se a necessidade da relação sexual
própria dos mamíferos para essa fnalidade, pois a união do óvulo com o espermatozóide (fecundação
sexuada) passou a ser realizada por meio de fertilização em laboratório, e não dentro do corpo
feminino ou das fêmeas. Portanto, a relação sexual humana e o cruzamento animal tornaram-se
desnecessários para fns de reprodução. A técnica da clonagem, que permite obter um novo
indivíduo como se fosse uma cópia, manipulando o núcleo das células, deu lugar à fecundação
assexuada, isto é, na qual o espermatozóide já não é mais necessário para a reprodução,
assinalando-se um momento de extrema mudança.
Tais procedimentos biotecnológicos são denominados, na área médica, procriação
medicalmente assistida ou reprodução humana assistida, para acentuar os aspectos
médicos e de saúde das técnicas. Embora a engenharia genética e a tecnologia
genética façam parte desses procedimentos, o fato de serem considerados eventos
médicos obedece à intenção de que eles se desvinculem de questões ligadas à
indústria, ao comércio, aos interesses econômicos de grandes corporações, à
engenharia genética e à biotecnologia, buscando a preservação do mercado.
A biotecnologia aplicada ao processo de reprodução animal e humana responde ao
grande desenvolvimento da tecnologia de alta complexidade nessa área e a interesses
econômicos. Tudo isso signifca basicamente um fabuloso incremento do lucro das grandes
empresas em seus diversos setores, maior rapidez e dinamismo na produção animal e a ampliação
do setor ligado ao desenvolvimento da medicina humana reprodutiva, da farmacologia, entre
outros ramos, com a fnalidade de criar novas formas de mercantilização da vida.
Esses aspectos nos levam a refetir sobre quais são os interesses ou os motivos de se propor
a utilização de tais técnicas de forma banal, em casos de infertilidade feminina ou masculina, em
vez de se apresentar ao casal infértil um programa de cura ou tratamento da infertilidade, que
teria como objeto a saúde reprodutiva. As NTRc e G são, na verdade e em geral, um mecanismo de
substituição do problema, e não um tratamento para a infertilidade.
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Você sabia...
... que alguns estudos internacionais indicam uma redução média
de 50% na concentração espermática de homens que vivem em países
industrializados? Os homens expostos à poluição do ar apresentam
alteração na velocidade e na forma da estrutura dos espermatozóides mais
freqüentemente do que os jovens menos expostos, que vivem na zona rural.
FIV (Fertilização In Vitro)
A FIV (fertilização in vitro) – ou seja, na proveta, é o tipo de fecundação que se realiza fora
do corpo feminino. Por essa técnica, capturam-se os óvulos, colhem-se os espermatozóides;
ambos são colocados na proveta do laboratório e espera-se pela fecundação. Na coleta dos
óvulos, as mulheres devem receber consideráveis doses de hormônio para produzir mais
óvulos e garantir o sucesso do procedimento. Essas altas doses de substâncias, algumas
delas produzidas por engenharia genética, podem provocar a chamada síndrome da
hiperestimulação ovariana, que apresenta efeitos leves, moderados ou graves, entre
os quais trombose, danos aos ovários e aumento de volume, ruptura e hemorragia na
cavidade abdominal, na caixa torácica e em volta do coração. Os sintomas possíveis
são dores pélvicas, náuseas, vômitos e difculdades respiratórias e renal. Há riscos
ainda desconhecidos implicados nesse procedimento para os bebês, resultantes do
tipo de substância utilizada para otimizar o número de óvulos a serem fecundados
e garantir sucesso no procedimento.
Uma vez fecundados in vitro, os embriões são transferidos ao útero. Atualmente no Brasil podem
ser transferidos até 4 embriões. Aqueles que não são transferidos podem ser doados a terceiros ou
congelados. Daí a discussão sobre o uso dos embriões congelados das clínicas de fertilização in vitro para
estudos e pesquisas, por exemplo, ligados à questão das células-tronco.
No Brasil, alguns projetos específcos de regulamentação das técnicas reprodutivas ou da reprodução
assistida surgiram em 1993. Ao projeto de lei 1.184, de 2003, foram anexadas as principais propostas
legislativas. Atualmente esse projeto está aprovado no Senado Federal em sua forma última, mas ainda
se encontra tramitando no Congresso. Emendas e mudanças na relatoria do Projeto, durante o processo
legislativo, provocaram alterações, entre as quais as mais importantes são: a limitação do número de
embriões que poderiam ser produzidos e transferidos (somente dois) e a proibição do armazenamento
(congelamento) dos demais.
A FIV abriu defnitivamente as portas para uma cadeia inestimável de possibilidades cada vez
maiores de associação da medicina reprodutiva com técnicas complementares, técnicas genéticas,
indústria, entre outras.
O exame pré-natal, por exemplo, concebido para verifcar e diagnosticar doenças e alterações
que possam comprometer a saúde materna e fetal, tem propiciado o contato das mulheres com
o aconselhamento genético. Desse modo, além das recomendações costumeiras, é cada vez
mais freqüente a indicação para a realização de testes genéticos para garantir o sucesso
da gravidez, especialmente na rede particular. Embora esses testes, quando devidamente
indicados, possam trazer benefícios, é preciso atentar para o fato de que são muitas
vezes solicitados mesmo quando os testes tradicionais não sugerem a existência de
qualquer problema com a criança ou com a mãe.
Nos Estados Unidos, um especialista em reprodução humana manifestou que o
futuro da reprodução estaria sob a denominação geral de “reprogenética”, avaliando
como altamente positiva e inevitável a união das tecnologias reprodutivas com a
genética. Esse especialista também é favorável à técnica de clonagem como forma
de reprodução. No Brasil, vários bioeticistas e especialistas em reprodução humana são
favoráveis também à perspectiva de clonar seres humanos, tendo em vista justifcativas
como morte de flho, doenças hereditárias, doação de órgãos, escolha de sexo e outras.
Seria lícito que um casal planejasse ter por clonagem dois ou mais gêmeos para que cada um
deles pudesse ser doador de órgãos para transplante ao outro que não provocasse rejeição?
A proximidade entre as técnicas reprodutivas e as genéticas (que serão descritas mais
adiante) pode levar a produzir alterações nos óvulos, espermatozóides ou embriões, e, nesse caso,
qualquer alteração será passada de geração a geração. Pode-se, também, fazer uma modifcação
genética em outro tipo de célula (não-reprodutiva, chamada “somática”, de qualquer tecido do
corpo) sem que haja alteração na descendência. Porém, de todas as formas, essas técnicas, sobre
cujos efeitos pouco se sabe ainda, podem, “sem querer”, provocar alterações genéticas.
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ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóide)
Uma dessas técnicas é a ICSI, sigla da expressão em inglês correspondente a injeção
intracitoplasmática de espermatozóide, utilizada quando há problemas de infertilidade
masculina, como ausência completa, baixa qualidade, pouca motilidade (difculdade
de movimento) e malformação dos espermatozóides, entre outros.
Como é feita a ICSI? Um espermatozóide ou um espermátide (espermatozóide
que ainda não se desenvolveu plenamente) é colocado em uma agulha e injetado
diretamente no óvulo durante o processo de FIV. O esperma de homens inférteis
pode conter alterações genéticas que podem resultar em problemas de saúde futuros
ou em anormalidades para os bebês (problemas neurológicos, por exemplo). Além de
tratar dos casos de anormalidade do esperma masculino, essa técnica está sendo utilizada
desnecessariamente para garantir efcácia no processo da FIV.
Não se sabe ao certo quais são os critérios precisos de utilização da técnica nem suas
conseqüência para a saúde das crianças concebidas. Especialistas em reprodução vêm colocando
reservas ao uso de células imaturas, alegando que podem ser geradas crianças com anomalias ou
doenças mais graves que a do pai.
Heteroplasmia Mitocondrial
Outra técnica genética é a heteroplasmia mitocondrial ou rejuvenescimento de óvulos, que
permite reparar os óvulos de mulheres mais velhas submetidas às técnicas de FIV e que podem apresentar
problemas no funcionamento de certos mecanismos celulares. Uma substância e o espermatozóide são
injetados com uma micro-agulha no óvulo da mulher receptora. Contudo, essa é uma técnica que pode
ser considerada uma modifcação genética hereditária, porque a fecundação é produzida com material
genético (óvulos) de duas mães diferentes.
Não há consenso quanto às conseqüências do uso dessa técnica nas novas gerações
da mulher que a utilizou. Especialistas em reprodução humana avaliam que ela pode
resultar em mais de 100 doenças, como alterações do sistema nervoso, problemas
cardiovasculares, convulsões permanentes e demências.
DGPI (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional)
Este pode ser considerado, também, uma técnica de modifcação genética da espécie. Ele permite
a retirada para biópsia de uma única célula de um embrião de até 14 dias para análise dos cromossomos
(constituídos por molécula de DNA), a partir da qual é possível identifcar se o embrião é afetado por
doenças genéticas antes de transferi-lo para o útero. Essa técnica é usada para determinar o sexo do
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embrião e, ainda, permite “desenhar” um bebê, por meio da seleção de traços desejáveis e da rejeição
dos indesejáveis.
Comente...
... o que pode signifcar esta possibilidade tecnológica para a humanidade.
Em 2000, a França anunciou o primeiro bebê selecionado geneticamente, a partir da aplicação
dessa técnica, com a fnalidade de evitar o desenvolvimento de uma doença hepática grave. Na
Itália, efetuam-se quase mil procedimentos de FIV por ano, dos quais cem com emprego do DGPI.
Ele é utilizado também no Brasil, embora não haja legislação específca em nível nacional e,
portanto, controle social sobre as técnicas que são efetivamente utilizadas. Empresas oferecem
esse exame pela internet, devidamente explicado e com informações sobre custos e forma de
pagamento.
Clonagem
A clonagem, a engenharia genética e a genômica são as três técnicas mais poderosas da biotecnologia.
Unidas e associadas a outras técnicas (a bionanotecnologia, por exemplo, que será abordada mais
adiante), elas apresentam perspectivas tenebrosas para o futuro da humanidade.
A técnica da clonagem pode ser “à moda antiga” ou ao “modo moderno”. À moda antiga,
isto é, por meio da união do óvulo com o espermatozóide in vitro (FIV), leva-se o embrião a
se dividir várias vezes utilizando-se estímulos elétricos. Ao modo moderno, com a clonagem
radical, uma biotecnologia das mais polêmicas, consegue-se abolir a reprodução sexuada,
não sendo necessária a união do óvulo e do espermatozóide para se ter um novo indivíduo.
Com isso, como já mencionado, o espermatozóide não tem mais nenhuma função. O
núcleo (que contém toda a informação genética) de uma célula adulta (da pele, por
exemplo) é retirado e fundido com um óvulo sem núcleo, sendo quimicamente
“convencido” a “achar” que é um embrião e começando a se dividir por estímulos
elétricos. O resultado é uma cópia genética, uma duplicata do indivíduo doador,
qualquer que seja a espécie que se reproduza.
Clonagem Animal
Em 1997, o Instituto Roslin, da Escócia, anunciou a clonagem da ovelha Dolly, abrindo
a perspectiva do uso da técnica no reino animal. Foram utilizados 227 óvulos e produzidos 27
embriões. Anos depois, fez-se a clonagem da ovelha Polly, à qual já fzemos referência.
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Quando a clonagem de mamíferos começou, nos anos 1990, a intenção era usar
animais clonados e transgênicos como “biofábricas”, para produzir – no leite, por
exemplo – proteínas de interesse para a indústria farmacêutica, como já foi visto.
No Brasil, empresas se interessam pela clonagem de bovinos. A clonagem da vaca Vitória
foi o primeiro caso bem-sucedido de transferência nuclear realizado no Brasil, em 2001.
A intenção é aumentar a efciência da técnica de modo a pôr os “produtos” no mercado
o quanto antes, para depois licenciar o conhecimento para quem queira comprá-lo.
O resultado mais comum da clonagem de animais adultos é o aborto dos fetos, seguido da
morte dos recém-nascidos. No caso de bovinos, hoje, de cada cem bezerras clonadas que nascem, no
máximo cinco sobrevivem até os seis meses de idade. Além disso, por uma série de motivos que os
cientistas não entendem muito bem, como falhas na reorganização das células adultas, os clones
padecem de várias anomalias (anemia, órgãos mal desenvolvidos, defeitos fatais no coração e
nos pulmões, obesidade mórbida, genes desativados, falência do sistema imunológico, artrites,
entre outras).
Clonagem Humana
Para a clonagem humana, as técnicas utilizadas são as mesmas mencionadas para a animal.
Ela pode ser usada para fns de pesquisa ou com objetivo reprodutivo, isto é, conseguir um embrião
clonado para ser transferido a um útero e levado a termo. Se um embrião é usado com fnalidades
de pesquisa para, por exemplo, gerar alguns tipos de células-tronco, o processo chama-se clonagem
para pesquisa (ou “clonagem terapêutica”). Se, ao contrário, ele é implantado no útero de uma
mulher e levado a termo para gerar uma criança, o processo chama-se clonagem reprodutiva.
Em 1993 foram obtidos clones humanos numa universidade norte-americana. Obtiveram-se embriões
por FIV, à “moda antiga”, ou seja, um óvulo e um espermatozóide fecundados na proveta foram
subdivididos por estímulos elétricos, conseguindo-se 48 embriões. Esses embriões foram descartados.
A quantidade de óvulos utilizados em uma experiência é sempre inestimável. Nesse caso, o número e
os tipos de erro, defeitos e “monstrinhos” criados e descartados foram ocultados. A experiência causou
grande impacto e o tema foi aos poucos se incorporando à discussão internacional sobre a legitimidade
de a clonagem “radical”, ao modo da Dolly , “fabricada” em 1997, ser aplicada aos seres humanos.
A perspectiva de se clonarem células de seres humanos para fns de pesquisa e reprodutivos
desencadeou grande debate. A clonagem humana para fns reprodutivos foi objeto de extensa discussão
mundial e objeto de legislações restritivas nacionais e internacionais. Até dezembro de 2001, cerca de
trinta países haviam proibido a clonagem reprodutiva humana, entre eles o Brasil.
O uso das células-tronco dos embriões (já existentes, provenientes de FIVs e que não foram
utilizados ou clonados para tal fm, isto é, células embrionárias humanas que se reproduzem até
alguns dias após a fecundação em laboratório) deu lugar, também, a um complexo debate entre
diversos setores sociais e institucionais. Essas células (de um embrião de aproximadamente cinco
dias ou até 120 horas após a fecundação) ainda não se diferenciaram nas células específcas
que são necessárias para formar os tecidos e os órgãos humanos (isto é, pele, tecidos, fígado,
coração, e assim por diante), de modo que poderiam ser usadas para curar doenças, reparar
órgãos lesados, fabricar tecidos de reposição, entre outras possibilidades.
As células-tronco adultas são encontradas no ser humano, por exemplo na medula
óssea, no cordão umbilical e na placenta, podendo cumprir a mesma função que as
embrionárias e constituindo importante fonte de pesquisas. As perspectivas das
células-tronco do cordão umbilical dão lugar a uma discussão sobre o armazenamento,
se os bancos devem ser privados ou públicos, se esse tipo de tratamento pode ter
êxito efetivo ou se não passa de mais uma ilusão do poder da tecnologia na área da
saúde. Há uma tendência mundial à aceitação da clonagem terapêutica.
Refita e discuta.
A biotecnologia de hoje utiliza seres vivos como matéria-prima e instrumento.
Cabe perguntar:
Quem são os benefciados?
A que desejos, projetos ou interesses responderia essa técnica?
Quem seriam os responsáveis pelas possíveis alterações genéticas da
espécie humana?
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O termo eugenia deriva do grego eugenes e tem originalmente acepções
ligadas às idéias de “bem-nascido”, “de boa linhagem, espécie ou família”, “de
descendência nobre”, “bem-concebido”. Em sentido mais técnico é um termo
genérico surgido no século XIX – quando surgem as idéias eugenistas – para designar
a ciência que “estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da
espécie humana, ou seja, ao melhoramento racial/étnico”.
A eugenia como melhoramento se expressa em múltiplas formas e mecanismos sociais
e culturais e atravessa todos os tempos e todas as sociedades.
O fato de a humanidade ter reservas em relação aos casamentos consangüíneos, pelos
efeitos que possam ter sobre a descendência, é um exemplo de preocupação eugênica a ser
destacado. Na própria história da genética, encontramos a implicação das idéias eugenistas, por
exemplo quando se falsifcavam resultados de testes ou pesquisas para provar a superioridade
genética de determinados grupos.
A eugenia pode ser classifcada genericamente em positiva e negativa.
A eugenia positiva incentiva casamentos de indivíduos considerados superiores para fortalecer a
raça humana por meio da seleção da população. Estimula a reprodução dos indivíduos considerados os
melhores (brancos, sem defciência mental ou física e sem doenças). Na época do nazismo, a eugenia
positiva estimulava, por exemplo, o casamento entre arianos loiros.
A eugenia negativa prega a eliminação dos indivíduos que sejam considerados inferiores e indesejáveis
(alcoólatras, delinqüentes, doentes, pobres, mulheres, entre outros). No nazismo, a eugenia negativa
estimulava a eliminação das raças/etnias consideradas inferiores.
A política imigratória do Estado brasileiro, durante o Segundo Reinado, baseada na importação de mão-
de-obra européia, pode ser considerada outro mecanismo eugênico, pois trazia implícita uma tentativa
de melhorar as bases sociais do Brasil. Historicamente
foram aproveitadas, em várias culturas, medidas como a esterilização de mulheres consideradas
capazes de parir flhos “socialmente indesejáveis”. A manipulação da capacidade reprodutiva de
mulheres foi uma violência eugênica dos sistemas escravistas nas Américas. No caso do Brasil, o
controle da natalidade atingiu durante muitos anos especifcamente as mulheres negras, que foram
extremamente vulneráveis à esterilização cirúrgica, uma das medidas de anticoncepção tomadas
no país.
Na década de 1960, as novas tecnologias de controle da fecundidade, como os métodos
contraceptivos hormonais, ao mesmo tempo em que respondiam a legítimos anseios das mulheres
para evitar a maternidade obrigatória, abriam novas perspectivas de controle da fecundidade
das mulheres negras, indígenas e asiáticas.
Com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, da engenharia genética, das
diversas biotecnologias e das novas técnicas médicas de reprodução e sua associação
com a genética, entre outros ramos, a eugenia adquiriu outras formas. Essas formas
são mais sutis e sempre ocultadas por trás do objetivo do bem-estar e da saúde. Por
exemplo, o DGPI (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional), do qual já falamos, é
uma técnica que permite estudar e modifcar o embrião antes de sua transferência
ao útero, constituindo claramente, portanto, uma técnica eugênica. Por meio dele
é possível descartar embriões com defeito ou intervir para evitar alguma perspectiva
de doença futura, escolher o sexo e os traços desejáveis, como cor de olhos, estatura
e outros, ou seja, para praticamente “desenhar” o futuro indivíduo ao sabor
de interesses e desejos individuais e coletivos.
Para refetir e discutir.
Escolher o sexo do bebê pode ser considerado
um direito reprodutivo?
Baseado nos resultados de testes genéticos e realizado por uma equipe de saúde,
o aconselhamento genético tem como objetivo explicar para as pessoas o risco de terem flhos com
problemas genéticos. Tanto os testes genéticos pré-natais e seus resultados como a orientação dos
responsáveis pelo aconselhamento podem facilmente se desviar em direção à eugenia negativa.
Médicos e biólogos especialistas em reprodução humana consideram que as modernas tecnologias da
clonagem, da engenharia genética e da modifcação genética humana estarão futuramente a serviço do
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“melhoramento” da humanidade, possibilitando estabelecer, segundo um biólogo molecular americano,
duas categorias incompatíveis de seres humanos: os naturais e os geneticamente ricos.
Os bancos de sêmen, comuns nos Estados Unidos, são evidências da nova eugenia que pode
estar presente nas técnicas complementares de reprodução humana. Eles mantêm espermatozóides
congelados em nitrogênio líquido por tempo indeterminado, para serem utilizados em inseminações
artifciais ou outras técnicas de reprodução assistida. A formação de um banco de sêmen implica,
obviamente, a existência de um controle de qualidade e de uma lista de preferência na escolha dos
doadores. Isso leva a concluir que essa proposta é por si mesma eugênica. Segundo propaganda de
clínica de reprodução assistida na internet, o banco de sêmen “é seguro, pois seleciona candidatos
saudáveis entre 18 e 40 anos, que farão doações anônimas”. O doador recebe uma avaliação de seu
estado de saúde, incluindo exames sorológicos e espermograma.
Criaram-se bancos de sêmen de homens de elevada inteligência, de modelos, de prêmios
Nobel, voltados à geração de bebês “superdotados” ou que expressem o estereótipo de beleza
propagado pela mídia. Jovens brancas e universitárias vendem seus óvulos para pagar seus
estudos, o que sinaliza uma preferência desse mercado pela etnia que elas representam.
Esses são outros exemplos da presença do critério eugênico nas técnicas complementares
de reprodução humana.
Para refetir e discutir
“Pague as mensalidades da faculdade com óvulos”, diz um
anúncio em jornal de faculdade norte-americana!!!!
O que você pensa a respeito desse “mercado humano”?
Vamos ao cinema!
Quando tiver tempo, assista ao flme Gattaca: uma experiência genética.
Aí você poderá visualizar a perspectiva de uma sociedade geneticamente organizada!
(Direção: Andrew Niccol, Columbia Pictures, Estados Unidos, 1997.)
Outras novíssimas tecnologias e de alto risco ou de impactos
i n c e r t o s relacionadas com a biotecnologia se desenvolvem no mercado
e são lançadas sem nenhum conhecimento e debate da sociedade
civil, ou seja, impostas sem qualquer tipo de discussão pública.
Entre elas se insere a bionanotecnologia. Para compreender esse
conceito, convém começar pelo que o antecede:
nanotecnologia.
A nanotecnologia abrange um conjunto
de técnicas usadas para manipular em
laboratório a matéria, viva ou não-viva,
no nível dos átomos e moléculas que
a constituem, com o objetivo de
criar mecanismos organizados para
desempenhar tarefas específcas. Nano
é uma medida, não um objeto. Enquanto
a biotecnologia manipula também o pequeno
– por exemplo, a molécula de DNA, o gene, isto é a vida –, a
nanotecnologia manipula a matéria inerte, inorgânica, refere-
se somente a uma escala, uma medida da matéria.
O nanômetro (símbolo nm) é uma medida eqüivalente
à bilionésima parte de um metro. Para se ter uma idéia,
um fo de cabelo humano tem aproximadamente 80
mil nanômetros de espessura e uma molécula de
D N A tem aproximadamente 2,5 nanômetros de
largura.
Quando se manipula o átomo da
matéria, isto é, usando uma dimensão
como o nano, acontecem coisas curiosas. A
matéria inorgânica, por exemplo, apresenta
nesse nível propriedades que não tem quando
aparece em tamanho maior. Os materiais
podem ser alterados drasticamente e mudar
¸( ¸|
de cor, ganhar mais elasticidade, oferecer maior resistência, conduzir mais efcazmente a eletricidade,
entre outras características.
Exemplos do que se pode observar com esse tipo de manipulação: já foi produzido um arroz
experimental, atomicamente manipulado, introduzindo-se nele um átomo de hidrogênio para mudar
sua cor; trabalhado em nanoescala, o óxido de zinco, que é normalmente branco e opaco, torna-se
transparente; o carbono na forma de grafte (como o do lápis), que é macio, pode se tornar mais
resistente que o aço!
Existem dois tipos de nanotubos de carbono (fbras com menos de 100 nm de diâmetro): os
de única camada e os de múltiplas camadas, que podem ser usados das mais diversas maneiras
e para a produção dos mais variados materiais. Descritos, hoje em dia, como os materiais mais
importantes em nanotecnologia, os nanotubos podem conferir uma resistência 50 a100 vezes
maior que o aço.
Essa característica da matéria manipulada em nível nano fez com que os cientistas,
os pesquisadores e logo, claro, os empresários das grandes corporações pensassem
imediatamente na perspectiva de criar novos materiais e lançar novas possibilidades no
mercado.
A manipulação da matéria em nível nano permite a construção de novos
materiais por átomos, como se fossem blocos, a exemplo dos brinquedos tipo “lego”.
A “matéria-prima” da nanotecnologia são elementos químicos tanto da matéria
animada (viva) quanto inanimada. Esses novos materiais pretendem substituir os
naturais, como, por exemplo, a borracha por material da nanotecnologia, para
aumentar a vida dos pneus. Isso traria sérias conseqüências econômicas para os países
que vivem da comercialização da borracha natural; o mesmo acontece com o algodão,
com a fabricação de uma fbra manipulada em nanoescala, que tem a mesma textura do
algodão mas adquire muito maior resistência.
Os investimentos em nanotecnologia no mundo foram estimados em 8,6 bilhões de dólares,
em 2004, e são acompanhados de uma corrida pelo patenteamento (veja adiante texto sobre
patentes) e monopolização de nanoprodutos e nanoprocessos.
Estima-se que 720 produtos contendo partículas em nanoescala, não-regulamentados e de
origem não mencionada nos rótulos, já estão comercialmente disponíveis, incluindo alimentos,
agrotóxicos, cosméticos, protetores solares, combustíveis e muito mais. A nanotecnologia poderá
ser aplicada às indústrias automobilística e aeronáutica, com materiais mais leves, pneus mais
duráveis, plásticos não-infamáveis e mais baratos, entre outros produtos.
No Brasil, estão em andamento experiências com novo material da área têxtil, feitas
por universidade pública em parceria com empresa privada. Trata-se de um tecido que repele
líquidos e evita manchas de água, óleo e até graxa, sem perder as características de frescor e
“respirabilidade”.
A união da engenharia genética e da nanotecnologia ou a chamada bionanotecnologia pode dar
lugar a novas situações assustadoras e de impactos inimagináveis. Poderão ser fabricadas plantas mais
duras, para que não possam ser comidas pelos insetos; uma pelagem que retarde a ação do fogo; e uma
porta de carro com proteínas incrustadas nela mesma para se auto-reparar depois de uma colisão.
Quando se combina material biológico com material não-biológico, podem-se criar novas espécies
de criaturas (as máquinas híbridas), que serão dirigidas pelos seres humanos e terão a propriedade de
auto-reprodução. Novos sistemas vivos, organismos e produtos híbridos resultarão, assim, da fusão
desses materiais que podem se multiplicar desordenadamente e sem controle, afetando o meio
ambiente e a saúde humana.
Há sérias preocupações com o efeito das nanopartículas de produtos que se consomem, pois
elas são tóxicas, movem-se para dentro do corpo humano e podem passar pelo sistema imunológico
sem serem percebidas, incrustando-se no tecido pulmonar, atravessando a pele, a barreira de
sangue do cérebro e a placenta.
A bionanotecnologia poderá dar lugar, entre outras coisas, à produção de kits de
autodiagnóstico, de materiais para regeneração de ossos e tecidos, de novos microscópios,
à realização de procedimentos para administração de remédios e à criação de sistemas
de observação miniaturizados.
Em medicina, o mapeamento do genoma humano associado à nanotecnologia
sugere um futuro no qual o tratamento médico poderá ser muito diferente do
que é hoje. De que forma? Imaginem partículas minúsculas que possam “fritar”
tumores de dentro para fora; remédios tipo “bombas inteligentes” que só explodem
sobre seus alvos e moldes refnados que possam conduzir à regeneração de tecidos.
Imaginem dispositivos médicos com capacidade para circular na corrente sangüínea e
detectar e reparar células cancerígenas antes que se estendam.
As promessas da biotecnologia estão vinculadas a nanopartículas associadas ou não,
aos OGMs, com poder de neutralizar produtos químicos altamente tóxicos ou outros tipos de
poluição urbana e industrial. As conseqüências dessa associação para a saúde e a biodiversidade
são desconhecidas e implicam inimagináveis ameaças futuras para a humanidade
Para refetir e discutir
Defensores do uso dessa tecnologia dizem que os produtos fabricados a
partir dela teriam um custo menor, o que favoreceria seu uso
em grande escala.
Mas isso diminuiria a pobreza, favorecendo o desenvolvimento
dos países mais pobres?
As implicações dessa tecnologia deveriam provocar um debate público?
Que atores sociais deveriam estar envolvidos?
¸, ¸¸
O que signifca biodiversidade?
Signifca a inestimável diversidade, ou variedade, da vida no
planeta Terra, incluindo a fora, a fauna, os microorganismos, os
grandes ecossistemas, os seres humanos e toda sua variedade
genética, em seus mais diferentes níveis de organização e
interação.
Como afrmou um biólogo visionário, a biodiversidade
carrega consigo a inteligência de três bilhões e meio de
anos de evolução e de produção de diferentes formas de
vida.
A noção de variedade da vida e o esforço de classifcação
dos organismos vivos e das espécies são muito antigos, mas a
designação biodiversidade surgiu nos Estados Unidos apenas
em 1988, em resposta à importância crescente do tema na
segunda metade do século XX e sua inserção na pauta do debate
político internacional, como parte da chamada biopolítica, que é o
assunto central desta publicação.
A importância da biodiversidade e sua integração à biopolítica
explica-se, em resumo, porque:
. Fonte potencial de imensas riquezas, ela é a base de sustentação
da vida, faz parte do patrimônio de uma nação ou dos povos e é produto
de milhões e milhões de anos de evolução;
. Constitui uma das propriedades fundamentais da natureza, enquanto
responsável pelo equilíbrio e pela estabilidade dos ecossistemas;
. Representa um imenso potencial de uso para a saúde humana;
. Preocupa que esteja sendo deteriorada, devido ao impacto das atividades da
relação do homem com a natureza, que acarreta o aumento crescente da taxa de
extinção de espécies;
. A deterioração do solo pelo uso de produtos químicos e pelo desenvolvimento
da lavoura de transgênicos terá conseqüências nefastas sobre a diversidade de
plantas;
. A mudança do ecossistema vem prejudicando as atividades agrícolas, pecuárias,
pesqueiras e forestais; e
. Sua não-preservação trará conseqüências negativas do ponto de vista
ecológico, genético, científco, social e cultural.
Muitos dos produtos utilizados pela sociedade contemporânea – como
alimentos, fbras, produtos farmacêuticos e químicos, óleos naturais e
essenciais, entre outros – pertencem à biodiversidade brasileira e fazem
parte das principais fontes de informação para o desenvolvimento
da biotecnologia, assunto que abordaremos também nesta cartilha.
O abacaxi, o amendoim, a castanha-do-pará, a mandioca, o caju e a
carnaúba, entre outras, são espécies de plantas originárias do Brasil
que atraem sempre o interesse econômico das grandes corporações
multinacionais.
O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo e muitas
de suas espécies são exclusivas. Alguns exemplos: nossa fauna
apresenta 55 espécies de primatas (24% do total mundial), 516
espécies de anfíbios, 3.010 espécies de vertebrados, 3.000 espécies
de peixes de água-doce, totalizando três vezes mais que qualquer outro
país no mundo, mais de 522 espécies de mamíferos (um em cada onze espécies
no mundo), 1.622 aves, 468 répteis e 516 anfíbios; nossa fora conta com 390
espécies de palmeiras e 2.300 de orquídeas.
No Brasil, as atividades de extrativismo forestal e pesqueiro empregam
mais de 3 milhões de pessoas e grande parte dos brasileiros utiliza-se de plantas
medicinais na solução de problemas corriqueiros de saúde. O interesse do
mercado pelos produtos, e não pelos ecossistemas, gera estratégias de exploração
da biodiversidade em tempo muito menor do que aquele que se leva para manter ou
preservar o meio ambiente. Portanto, a não-preservação da biodiversidade do país signifca
u m prejuízo enorme para nossa população, colocando em jogo sua subsistência.
As empresas de biotecnologia, que fazem parte de grandes corporações multinacionais, parecem
¸¤ ¸;
estar empreendendo uma corrida aos “garimpos” genéticos antes que estes acabem. Ao
artifcializarem e homogeneizarem as sementes e ao imporem os OGMs (organismos
geneticamente modifcados), elas provocam o que se chama de “erosão genética”,
cujo signifcado é similar ao de “desertifcação”, e uma nova forma de poluição – a
poluição genética –, que causa sérios danos ao meio ambiente.
A Lei de Patentes (9.279/96), que regula a propriedade industrial, e a Lei
de Cultivares (9.456/97), que cria direitos de propriedade intelectual sobre
variedades de plantas comerciais, reforçaram a submissão dos recursos biológicos e
genéticos à lógica do mercado. A abertura do mercado brasileiro às sementes e produtos
transgênicos, “empurrada” pelo Legislativo e pelo Executivo, é exemplo do modo
como prevalecem os interesses empresariais e, no caso, antes de tudo, das
empresas transnacionais, sobre os ambientais e sociais.
A degradação ambiental e a conseqüente extinção dos animais só
poderão ser evitadas por meio de ações preservacionistas concretas de
todos nós, envolvendo a prática de uma educação ambiental abrangente
e efetiva que, a propósito, é obrigatória atualmente em todos os níveis
de ensino de nosso país, conforme a Lei 9.795, de 27 de abril de 1999.
Nossa omissão nos coloca sujeitos a perder, em poucas décadas, nosso riquíssimo
patrimônio natural, só nos restando guardar na memória as imagens
daquilo que pudemos conhecer.
A contaminação genética e a clonagem de recursos biológicos
vegetais e animais são grandes inimigos da biodiversidade. Não
devemos nos esquecer de que as ameaças à biodiversidade pela
contaminação genética, pelos efeitos do uso de procedimentos e de
produtos biotecnológicos e por outros fatores se acrescentam também a
questões da sociobiodiversidade humana.
A sociobiodiversidade humana diz respeito à complementaridade entre diversidade cultural e
biológica. Em sentido amplo, o termo engloba as diversidades cultural (cada cultura
constrói relações com os ecossistemas de modo a criar nichos de saberes que lhes
possibilita a sobrevivência), populacional e dos ecossistemas. Quando falamos nos
seres humanos, devemos ressaltar sua variedade genética e a importância desse
fato em relação harmoniosa com o ecossistema. Isso porque a biotecnologia tende
a criar monoculturas de árvores geneticamente modifcadas em grande escala e
seres vivos padronizados, e a planejar a organização dos seres vivos, até mesmo
da espécie humana, como se viu ao abordarmos as biotecnologias de reprodução
humana.
As pautas e valores culturais e as formas de vida e trabalho dos povos indígenas,
dos camponeses e dos imigrantes formam um mosaico social diverso estreitamente
relacionado com a biodiversidade. Pensar em preservar a biodiversidade signifca
reconhecer a diversidade humana e sua estreita relação com todas as formas de
vida que devem ser conservadas.
A maioria dos membros das populações atingidas pelas práticas indiscriminadas
da Coca-Cola faz parte também de algumas das comunidades mais marginalizadas da
Índia – populações indígenas, as castas mais baixas, os trabalhadores de baixa renda
e os trabalhadores rurais fazem parte desse mosaico e se vêem prejudicados
pelas ações das grandes corporações multinacionais no campo das bios.
A água e a terra são centrais para a
agricultura e mais de 70% dos indianos
vivem de alguma atividade
relacionada à agricultura. A
escassez de água e a poluição
do solo e da água originados
pela Coca-Cola resultaram
diretamente na quebra das
colheitas – levando milhares
de pessoas na Índia à perda de
sua sobrevivência.
Mais da metade da população da
Índia vive abaixo da linha da pobreza
e impedir a atividade agrícola, onde
quer que seja no país, é uma questão de
vida e morte para muitos.
A poluição indiscriminada da fonte
de água subterrânea feita pela Coca-Cola
é um grande problema de longo prazo. É
extremamente difícil, senão impossível, limpar as
fontes de água subterrâneas por meio da tecnologia,
e as futuras gerações estão agora sujeitas a consumir
água poluída. A alternativa é instalar o encanamento
de água tratada em suas casas e pagar pelo consumo, o
que a maioria das pessoas não tem condições de fazer.
¸( ¸7
O termo “biopirataria” foi lançado em 1993 pela Raf (Rural Advancement
Foundation International), ONG hoje conhecida como ETC-Group (Grupo
de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração), com a intenção de
provocar uma refexão e alertar sobre os seguintes fatos: recursos
biológicos e conhecimentos indígenas sobre o uso de boa parte destes
estão sendo colhidos e patenteados por empresas multinacionais e
instituições científcas. As comunidades locais e tradicionais
que há séculos usam esses recursos e geram esses
conhecimentos perdem, assim, o direito de decidir
de que modo se benefciarem e participarem ou
não de tal desenvolvimento.
Então, o que é biopirataria? Por
enquanto, ainda não existe uma defnição-
padrão para esse termo. Genericamente
signifca a apropriação indevida e a
monopolização por indivíduos ou instituições
de material orgânico, recursos genéticos e
conhecimento, este último gerado sobretudo
por comunidades indígenas e de agricultores.
Você sabia...
... que a biopirataria pode ser
praticada via correio?
“Biopirataria via SEDEX”
é a manchete de um jornal brasileiro!
O que seria apenas uma caixa de documentos de uma empresa
com sede no Brasil, que vende de detergente a sopa em pó para
um de seus laboratórios na Inglaterra, terminou em abertura de inquérito para
apurar suspeita de biopirataria com envio ilegal de patrimônio genético brasileiro para fora
do Brasil.
Pensar em preservar a biodiversidade signifca reconhecer a diversidade humana,
sua estreita relação com todas as formas de vida que devem ser conservadas
e compreender os signifcados dos impactos do sistema econômico sobre a
população.
O eucalipto, por exemplo, é uma ameaça à biodiversidade; uma vez plantado
não e possível retomar a fertilidade da terra. Eles criam o chamado “deserto verde”.
As raízes penetram nos lençóis freáticos prejudicando o abastecimento de água das
regiões, favorecendo a monocultura , causando dano ao meio ambiente e à qualidade
d e vida das populações
A transnacional Aracruz Celulose colocou em operação 27 tratores para
destruir uma área da Mata Atlântica do Espírito Santo que apresentava
avançada regeneração. A empresa não contava com a reação de mulheres
camponesas que, junto com suas crianças e maridos, arriscando suas
vidas, se colocaram na frente das máquinas, para deter o processo
de desmatamento que já havia destruído 50 hectares da vegetação
natural. Foram abatidas árvores nativas com mais de 6 metros de
altura, que haviam conseguido resistir e crescer em meio ao plantio
de eucaliptos.
Discuta...
... a atitude da empresa Aracruz e a ação das
mulheres camponesas diante da ameaça
de desmatamento.
¸A ¸¬
O pacote, declarado aos Correios apenas como “documento”, trazia, na verdade,
768 frascos com conteúdo vegetal, aparentemente partes de uma planta.
Já foram encontradas pelos Correios embalagens com aranhas e escorpiões
indo do Brasil para a Alemanha e a França. Só este ano (2006), o Ibama apreendeu
5.831 espécimes da fauna que estavam sendo retirados do país. As borboletas
lideram a lista, com 2.034 apreensões. Também foram encontradas 1.583 partes
de borboletas. Em segundo lugar estão os grilos, com 1.084 registros de apreensão,
seguidos por besouros, 949. Aranhas e escorpiões estão entre os mais cobiçados.
Em menor número foram detidas encomendas com larva de besouros (50), grilos
esperança (15) e minhocas (13). Até uma cigarra foi vítima da cobiça de colecionadores.
Outrora existiam os piratas, mercenários dos mares, que roubavam pedras preciosas e
especiarias a serviço de impérios e reinados que procuravam estabelecer seu poder. Atualmente
existem os biopiratas, especializados em surrupiar espécies da fauna e da fora, e conhecimentos
de comunidades nativas de diferentes países, para o aproveitamento das sementes, das
plantas, dos cabelos, da pele, do sangue, entre outros elementos, das diferentes espécies
a serviço e em benefício de grandes corporações multinacionais, que se apropriam dos
chamados “recursos genéticos”, aquela matéria íntima da vida cujo conhecimento
pode ser transformado em mercadoria.
A biopirataria é uma prática ilegal estimulada e fundamentada no neoliberalismo
global, ou seja, no sistema capitalista atual. O biopirata moderno não necessita ter
a banda preta no olho, pois ele é uma pessoa comum, que tira seu passaporte e faz
turismo, conhece as forestas, trabalha nos laboratórios das universidades e realiza
o contrabando de várias formas de vida da fora e fauna.
O biopirata é, portanto, aquele que representa interesses de grandes empresas
nacionais ou internacionais e age fora das legislações dos países ou tira proveito da situação
quando não há legislação ou nenhum tipo de controle social sobre esse aspecto.
Um biopirata moderno, por exemplo, é o geneticista Craig Venter, que organizou coleta
de amostras de microorganismos marinhos da costa brasileira com fnanciamento de 12 milhões
de dólares pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos. Consultados pela imprensa,
representantes do CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético), ligado ao Ministério do Meio
Ambiente, negaram que o órgão tenha recebido qualquer pedido da parte do cientista para fazer
coletas em águas brasileiras.
Disse Alejandro Argumedo, indígena e ativista quéchua peruano: “Os contratos de repartição de
benefícios são como despertar no meio da noite e ver que estão roubando sua casa. Ao caminhar até a
porta, os ladrões lhe dizem que não se preocupe, prometendo que vão dividir o lucro que obtenham ao
vender o que antes era seu” (COP 8 Boletim Diário, 20-31 mar. 2006).
Os recursos que interessam às indústrias podem ser material pertencente às espécies vegetais,
animais e até à humana. Esses recursos e o conhecimento, incluindo diferentes formas de vida, são
privatizados (isto é, passam a ter um dono, uma grande empresa ou corporação) por meio do registro
de marcas e patentes. Essas corporações (algumas das quais estão listadas abaixo para ilustração) são
verdadeiros “polvos”, cujos tentáculos abrangem inúmeros setores da produção e do conhecimento
(armas, cosméticos, alimentos, medicamentos, produtos, procedimentos medicinais etc).
No comando dos biopiratas: Monsanto (Estados Unidos); Syngenta (Suíça); Groupe
Limagrain (França); KWSAG (Alemanha); Land O’Lakes (Estados Unidos); Merck (Alemanha);
Sakata (Japão); Dupont/Pioneer (Estados Unidos); Bayer Crop Science (Alemanha).
Fonte: ETCGroup, 2005
A apropriação ilegal da vida pelos biopiratas alimenta o mercado mundial com
substâncias que vêm direta ou indiretamente da natureza e também serve de base
para as pesquisas dos grandes laboratórios internacionais.
Exemplos de espécies vegetais, animais e da humana visadas pela biopirataria
são o cupuaçu, o açaí, a copaíba, a andiroba, o jaborandi, o ayahuasca, o Jaborandi,
sapo verde e o sangue de ianomâmis.
Jaborandi, sapo verde e sangue de ianomâmis.
Entre as espécies citadas no texto, selecionamos uma de cada reino natural para abordar
as implicações da biopirataria em sua exploração.
Jaborandi (Pilocarpus pinnatifolius). De ocorrência natural entre o Pará e o Maranhão e
que aparece também no cerrado brasileiro, induz o suor e a salivação, é expectorante e atua
contra a calvície e as artrites, entre outras propriedades. A empresa multinacional Merck detém
a patente do processo de isolamento da Alkaloida pilocarpina, a partir de culturas in vitro dessa
planta, para usá-la no tratamento do glaucoma, e foi transformada em remédio (Salegen) para a
difculdade de salivar. Se a empresa decidir cancelar toda a sua produção do jaborandi ou começar
a sintetizar o produto de forma mais econômica, os povos indígenas que originalmente coletavam
o jaborandi perderá sua única fonte de renda. A extração em grande quantidade sem um adequado
plano de manejo colocou a planta, desde 1992, na Lista Ofcial de Espécies da Flora Brasileira
Ameaçadas de Extinção, publicada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
¤( ¤|
Naturais Renováveis). Há anos, a planta vem sendo extraída em grandes quantidades da natureza
para uso de laboratórios estrangeiros. Não existem planos para reposição dos exemplares retirados
da região. As poucas áreas de cultivo regular são controladas por laboratórios multinacionais.
Sapo verde (Phyllomedusa bicolor). Encontrado na Amazônia, produz uma secreção cutânea
que serve para fazer a chamada “vacina do sapo”, usada para reforçar o sistema imunológico e
controlar diversas doenças.
Pesquisas científcas vêm sendo realizadas, desde a década de 1980 ou até mesmo antes,
sobre as propriedades dessa secreção. Amostras foram levadas do Peru por um pesquisador
norte-americano, que já tinha investigado e patenteado substâncias da rã Epipedobates tricolor,
utilizada tradicionalmente pelos povos indígenas do Equador. Trabalhos sobre as propriedades da
secreção também foram publicadas por pesquisadores franceses e israelenses. A Universidade
de Kentucky (EUA) está pesquisando (e patenteando) uma das substâncias encontradas na
secreção do sapo verde, em colaboração com a empresa farmacêutica Zymogenetics.
Sangue de Ianomâmis do Brasil e da Venezuela. Foi colhido por pesquisadores norte-
americanos e brasileiros, durante as décadas de 1960 e 1970, para estudo do DNA, sem
que os doadores tenham sido informados dos objetivos do procedimento e dado seu
consentimento informado. Os anciãos ianomâmis de Toototobi (próximo à fronteira
com a Venezuela) relatam que a coleta de sangue foi realizada após apenas
um discurso vago dos pesquisadores sobre suas intenções, fazendo referências
a melhorias nas condições de saúde e a uma distribuição de mercadorias em
troca.
A geração atual dos Ianomâmis doadores reivindicaram a devolução das
amostras colhidas, em nome de suas tradições relativamente aos pertences dos
mortos. Depois de quatro anos de investigação, o material genético começa a ser
recuperado pelo Ministério Público Federal, o que representa passo inédito na discussão
sobre apropriação de material genético e no estabelecimento de regras mais
claras de conduta ética em pesquisas científcas.
Discuta.
Qual o interesse de extrair sangue dos Ianomâmis sem seu
consentimento e armazenar em um banco de DNA fora do país?
Outro exemplo conhecido de biopirataria humana foi o das células de uma mulher
Ngobe (indígena panamenha), que foram levadas para os Estados Unidos por mostrarem resistência
particular a certos tipos de leucemia. Os dados que levaram às patentes procediam do Projeto HGDP
(Diversidade Genética Humana) cujo objetivo era coletar amostras de sangue, cabelo e pele de grupos
indígenas de todo o mundo que pudessem apresentar variações genéticas capazes de lhes conferir maior
ou menor resistência a certas doenças. O projeto havia detectado 722 grupos “interessantes”, entre
os quais grupos indígenas considerados em perigo de extinção. Esse projeto foi duramente criticado,
conseguindo, fnalmente, que a Unesco e outras instâncias o condenassem publicamente.
Nos últimos anos, o avanço da biotecnologia, a facilidade de se registrarem marcas e patentes
em âmbito internacional e os acordos internacionais sobre propriedade intelectual multiplicaram as
possibilidades de tal exploração. O conhecimento com o qual é possível favorecer a produção de
remédios para o bem da humanidade pode ser considerado simplesmente uma propriedade dentro
do sistema capitalista, uma mercadoria que tem um dono e é comercializada como qualquer objeto
no mercado.
Para refetir e discutir
Quais os objetivos de transformarem as sementes em propriedade
privada (das grandes corporações multinacionais) e de as tornarem
estéreis ou misturá-las com genes de outras espécies?
Quais os pontos em comum entre os temas da Biodiversidade e o
da Biopirataria? Em que se aproximam e em que se diferenciam?
¤, ¤¸
O saber sobre a vida ou a natureza em sua íntima essência, ou seja, em seus recursos genéticos,
e as condições hoje possíveis de manipulá-la e mudá-la levam à transformação da matéria orgânica
(células, genes) e do conhecimento nisso envolvido em mercadorias, como, digamos, uma tevê,
uma geladeira, uma peça de roupa. Opera-se, nesse caso, a privatização do conhecimento por
meio de patentes.
O que é patente?
Trata-se de um documento formal (chamado carta-patente no Brasil) expedido
por uma repartição pública, que reconhece o direito de propriedade e uso exclusivo
da invenção de um produto, processo de fabricação ou de aperfeiçoamento de algum já
existente. Esse documento garante ao portador (o inventor ou a empresa patrocinadora do
invento) a exclusividade de exploração do objeto da invenção pelo período máximo de 20
anos e, a partir do momento em que se encerra esse prazo, cai em domínio público.
Para que outras pessoas possam usar esse invento/conhecimento são necessários uma
autorização e o pagamento de uma taxa (royalty) ao inventor ou ao dono da patente pelo uso dos
produtos patenteados.
A patente de material genético humano ou de seres vivos muda a compreensão que temos de nós
mesmos, da natureza e de nosso lugar nela. Como seres humanos, não estamos, nesse caso, colocando
em circulação mais um artefato inédito, mas algo que resultou da manipulação da vida, nossa e de todas
as espécies.
Um exemplo de patente recentemente registrada é a da tecnologia Terminator, da qual já tratamos.
A patente dessa tecnologia é abrangente, aplicável a plantas e sementes de todas as espécies, incluindo
as transgênicas. Grandes empresas estão na lista das que possuem patentes dessa tecnologia.
Para refetir.
Uma parte de nós poderia ser considerada de propriedade de alguém?
A informação e a matéria genética transformaram-se, assim, em capital e
se tornaram uma base da nova economia. O espanto (ou o encantamento) que
na realidade têm tomado conta da sociedade nas últimas décadas deve-se ao fato
de a matéria biológica ter se tornado matéria-prima para a indústria, sem limites
éticos para sua manipulação, produção, comercialização e consumo, e de as informações
genéticas dos seres vivos terem passado a ser conhecimento privado.
Hoje é possível patentear medicamentos, produtos alimentares, os microorganismos e
animais geneticamente modifcados e outros produtos e processos da biotecnologia.
Entre 1981 e 1995 foram concedidas, em todo o mundo, 1.175 patentes para seqüências
de DNA humano. Mas a possibilidade de patentear seres vivos criou uma grande dúvida: é
possível existir patentes de componentes dos corpos dos seres humanos, como o sangue e a
pele, por exemplo?
Antigamente, as leis brasileiras não permitiam patentes de seres vivos ou de seus componentes,
mas em 1997 foi aprovada no Brasil uma nova lei sobre patentes – a Lei 9.279/97, que permite
patentear microorganismos transgênicos.
O rato que foi modifcado geneticamente e que contém um oncogene, ou seja, um gene que
produz câncer, é utilizado como matriz de pesquisa. Como está patenteado, deve-se comprar, ou
seja, pagar as taxas estipuladas a quem inventou o processo.
A empresa norte-americana Myriad Genetics possui a patente dos genes do câncer do seio BRCA
1 e 2 pelos próximos 20 anos. Pode aproveitar e estabelecer o preço que quiser pelo uso desses
genes para pesquisa.
Entre os genes humanos e linhagens celulares patenteados e vendidos por empresas estão
alguns roubados de povos indígenas de várias partes do mundo, por meio até do uso de força física,
com o pretexto de lhes oferecer assistência médica..
Os bancos de DNA de populações inteiras, como as da Islândia e de Tonga, foram vendidos a
empresas privadas.
Ainda existe o fato de que populações tradicionais estão perdendo o controle sobre os recursos
genéticos com os quais sobreviviam e resolviam seus males. Durante 10 mil anos, as sementes
agrícolas foram produzidas e melhoradas por gerações de camponeses de todo o mundo para
fns medicinais e para a alimentação. Nos últimos anos, com o avanço da biotecnologia, a
facilidade de se registrarem marcas e patentes em âmbito mundial, bem como com os
acordos internacionais sobre propriedade intelectual, multiplicaram-se as possibilidades de
exploração tecnológica dos recursos genéticos.
Refita e responda.
O conhecimento em geral sobre a vida em todas as suas formas
é um bem comum de todos?ou ele pode ser patenteado?
Biossegurança é a ciência voltada ao controle e à minimização de riscos inerentes
à prática de diferentes tecnologias, buscando tornar mais seguros os avanços dos
processos tecnológicos e tendo como prioridade proteger a saúde humana e animal
e o meio ambiente. No entanto, é ilusório pensar que seja possível estabelecer
uma biossegurança total ou de risco zero por vários motivos:
. As características dos vários setores que fazem parte da biopolítica, sobretudo
os relacionados ao meio ambiente;
. Os confitos entre agentes econômicos; e
. As características de tecnologias como a biotecnologia genética e a nanotecnologia,
de difícil controle social.
Como garantir a segurança do meio ambiente e da saúde diante da possível contaminação
pelos OGMs? Estes resultam de uma tecnologia incerta e insegura. Quando podemos dizer que
estamos “biosseguros” com esse tipo de tecnologia altamente invasiva e manipuladora? Alguns
riscos podem ser previsíveis e, portanto, razoavelmente controláveis, mas outros, os das tecnologias
mais complexas, como a bionano, são absolutamente desconhecidos. E alguns deles só poderiam
ser percebidos depois de ter comprometido e mudado geneticamente várias gerações de plantas ou
animais.
Em vários países do mundo, a biossegurança é regulada por um conjunto de leis que ditam e
orientam a forma de condução das pesquisas tecnológicas. No Brasil, a Lei n.
o
11.105, de 24 de março de
2005, refere-se a riscos de processos envolvendo OGMs, alimentos transgênicos e engenharia genética,
¤( ¤7
bem como a questões relativas às pesquisas com células-tronco embrionárias. O órgão regulador da lei
é a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), criada pela própria lei.
Empresários, governos e pesquisadores esforçam-se para proteger a sociedade e cuidar do futuro,
mas é preciso destacar que a biossegurança não pode ser uma questão de especialistas, ainda mais num
tempo em que estes se encontram, em sua maioria, subordinados aos interesses econômicos.
A palavra biossegurança aparece relacionada também ao contexto de indústrias, hospitais,
laboratórios de saúde pública e de análises clínicas, hemocentros, universidades etc., utilizada no
sentido da prevenção dos riscos gerados por inúmeros agentes envolvidos em processos em que o
risco biológico se faz presente.
A biossegurança ligada à biotecnologia e, agora mais recentemente e ainda em estudo, à
nanotecnologia não implica preocupação somente com as pesquisas, mas também com os riscos de
contaminação do meio ambiente e do uso de substâncias, produtos, alimentos e medicamentos
modifcados geneticamente no campo da saúde humana e da medicina.
Há um caso muito interessante de um agricultor canadense que teve sua lavoura
contaminada com canola transgênica. Surpreendentemente, a multinacional
responsável por essa contaminação entrou na Justiça acusando-o de violar sua
patente. Como já foi dito aqui, a contaminação pode ser causada por insetos ou
pelo vento, que transportam o pólen das fores de plantas transgênicas, e até
mesmo por máquinas, caminhões ou silos utilizados na colheita, benefciamento,
transporte e armazenamento de transgênicos.
O uso do conceito de risco, no campo da biossegurança, deveria signifcar que
os danos e a probabilidade de que eles ocorram são conhecidas. Deveria estar claro,
também, que incerteza signifca que há “possibilidades” de ocorrerem danos, mas ainda
não foi possível calcular quais são as probabilidades.
As incertezas devem ser levadas em conta pelas instituições que desenvolvem e aplicam
novas tecnologias, para que elas possam ser debatidas, e não diluídas ou mesmo escondidas sob
um discurso que dá ênfase apenas às diversas formas de controle dos riscos. A administração das
incertezas traz, de alguma forma, para o debate a questão das responsabilidades pela
produção e uso de novas tecnologias, independentemente da área de aplicação.
Para refetir.
Para assumir uma atitude crítica, talvez seja mais correto pensar no
biorrisco das biotecnologias do que propriamente na biossegurança. Diante
da associação feita entre risco e perigo, talvez o termo “biorrisco” seja
mais efetivo para se pensar na administração das incertezas presentes em
determinado procedimento ou processo. A noção de biorrisco foi oculta pelo
rótulo da biossegurança, um conceito que parece mais adequado para quem
quer minimizar os danos e manter a noção de segurança.
Nesse sentido, é ilustrativo que, no uso de substâncias ou procedimentos
genéticos nas tecnologias de reprodução humana, os próprios especialistas
reconhecem a ignorância da ciência em relação aos efeitos colaterais do ICSI ou
do DGPI sobre a saúde do bebê a longo prazo. Ou seja, eles não podem garantir
nenhuma segurança, em vista da falta de estudos consistentes a respeito.
A ICSI, que abordamos no item Biotecnologias, por exemplo, coloca no palco das NTRc e
G as preocupações com a falta de ética nos procedimentos e a forma como são rapidamente
banalizados. As clínicas podem estar ajudando a transmitir uma doença genética ou uma disfunção
reprodutiva, visto que ainda há muitas incertezas e ignorância sobre os efeitos do uso dessa
técnica. Ou seja, o desconhecido é desconhecido.
Sabe-se das inúmeras tentativas realizadas para se conseguir a clonagem animal, como
no caso Dolly, por exemplo, em que mais de 200 foram feitas antes de se conseguir o
clone da ovelha. É possível garantir a segurança nos procedimentos biotecnológicos,
em termos da saúde reprodutiva da mulher, que incluem a hiperestimulação dos
ovários para se conseguirem mais óvulos?
As possíveis implicações da segurança biológica se relacionam com os riscos
das aplicações cada vez mais crescentes da nanotecnologia e com seus impactos,
em futuro próximo, no campo da biodiversidade, da medicina e do meio-ambiente.
Esses riscos não têm sido sufcientemente analisados, até mesmo porque a maior parte
deles é desconhecida. Vale indagar, também, se os riscos e a questão da biossegurança
só podem ser analisados do ponto de vista da tecnologia e da ciência. Poderia ser possível
pensar que um procedimento, embora se diga que é “seguro” do ponto de vista da técnica,
seria de alguma forma arriscado do ponto de vista moral, cultural, ético ou social?
Para terminar, fcamos com uma outra importante indagação: onde está efetivamente a
sociedade civil? Quais as reais chances de controle social no campo da biossegurança?
¤A ¤¬
A ética é um saber desenvolvido na Grécia, nos séculos VII e VI a.C., para explicar o mundo
e as ações humanas de uma forma diferente de como faziam os mitos dentro do pensamento
mágico-religioso. A palavra deriva de ethos (que também signifca “casa”, “morada”) e se refere
aos costumes, comportamentos, hábitos, valores, normas e ações que buscam determinar o que está
certo ou errado, o que é o bem, o mal ou o melhor.
Os valores, os modos de ser, de pensar e de agir passam de uma geração a outra e a humanidade
de tempos em tempos os revê na busca de responder a novas situações. Há, portanto, variações, mas
há valores fundamentais (a liberdade, por exemplo) que perpassam toda a história da humanidade e
permanecem perenemente nas sociedades.
A discussão da ética no campo da biopolítica ou da biotecnologia deverá ser tão intensa como
intensos e inéditos foram os fatos provocados pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia, seus
desafos e seus signifcados. Vários estudiosos falam da necessidade de construir uma ética apropriada
para a Era Tecnológica. Por exemplo, buscar justifcativas e fundamentos para poder responder à
pergunta: podemos nós, seres humanos, criar vida por meio da biotecnologia?
Parece que o ser humano sempre sonhou se apropriar da natureza dos deuses, querendo ser Deus
também e fabricar a vida. Em 1818, a escritora inglesa Mary Shelley escreveu uma história, cuja
personagem central era o Dr. Frankenstein, um médico que, recuperando um cadáver e injetando-
lhe vida, busca criar um ser humano ideal. Hoje, a biotecnologia, a engenharia genética e todas as
técnicas de modifcação da espécie humana parecem tornar possível a realização desse velho sonho
humano.
Na década de 1970, nos Estados Unidos, as experiências de engenharia genética com
microorganismos, bem como com seres humanos, eram intensas e realizadas sem nenhum
critério ético. A sociedade, incluindo médicos e cientistas, manifestou sua preocupação com
as conseqüências das experiências com bactérias em laboratório e com a perspectiva de
liberação dos OGMs (organismos geneticamente modifcados) no meio ambiente.
Foi nessa época que o biólogo e oncologista norte-americano V. R. Potter,
preocupado com o impacto da ciência e da tecnologia na qualidade da vida humana,
no meio ambiente e no futuro, cunhou o termo bioética – ética da vida ou ética do
bios. Nessa mesma década, o termo passou a ser usado pelo médico André Hellegers
em referência mais restrita à pesquisa e à área de assistência à saúde. Nisso
observamos que, em vista das variações históricas das questões éticas, foi preciso
antepor ao termo “ética” o prefxo bio, para diferenciar as preocupações, em termos
de valores, concepção de mundo e modo de agir, do atual estádio do desenvolvimento
humano, em que ressaltam problemáticas que não existiam.
A bioética apresenta várias vertentes de pensamento, pois há muitas maneiras de se
entender o que seja a vida, a liberdade e o bem, e, dependendo do que se entenda por tudo
isso, serão ou não estabelecidos limites ou estes serão diferenciados para controlar a ação
humana. Dependendo da concepção de mundo, natureza, conhecimento e vida que tenhamos,
nós, os seres humanos podemos avaliar qual deve ser nossa conduta em relação ao meio ambiente,
às experiências com animais e humanos, à engenharia genética, às técnicas da reprodução, enfm à
biopolítica em geral.
Nascida em 1970, nos Estados Unidos, a bioética se disseminou pela Europa, na década de 1980,
e pela América Latina, na de 1990. Os estudiosos buscam sempre estabelecer os grandes princípios
éticos que podem ajudar a determinar o certo e o errado. Um deles é o princípio da benefcência (o de
fazer o bem), da justiça, da malefcência e da autonomia, este ligado ao direito de autogoverno. Mas
esses não são os únicos princípios bioéticos reconhecidos nas diferentes teorias. Existem, por exemplo,
o da responsabilidade, solidariedade e justiça, que dá lugar a outras teorias bioéticas.
;( ;|
A perspectiva ética dos fatos da vida ajuda a analisar os impactos da biotecnologia sobre a
natureza, os seres humanos e todas as espécies vivas. Podemos avaliar, por exemplo, se é ético ou não
desviar determinado trecho de um rio, realizar a reprodução humana em laboratório, se é moralmente
justifcável usar a tecnologia genética da reprodução para acrescentar 30 pontos ao QI de um futuro
bebê, para satisfazer pais que desejam ter flhos mais inteligentes, e assim por diante. Essa avaliação
pode ser feita do ponto de vista dos valores tanto mais gerais ou globais quanto individuais.
Surgiu, nos últimos anos, no campo jurídico e das normas éticas, uma tendência a permitir e
favorecer a apropriação e mercantilização da vida, sobretudo por meio das leis de patente, e se
tomou hegemônica uma vertente da bioética que se preocupa em liberar as perspectivas geradas
pela biotecnologia (por exemplo, usar embriões para pesquisa e cultivar transgênicos), em favor de
setores científcos, governamentais e empresariais.
A bioética traça grandes rumos ou referenciais para agir do ponto de vista da sociedade e
do global, no plano da macrobioética, e estabelece princípios e valores para agir do ponto de
vista da relação entre as pessoas, no plano da microbioética. Trata-se de um campo da ética
que permite levantar problemas, formular críticas e questionar ou mesmo aceitar aspectos
relacionados à ciência, em suas fundamentações modernas, à tecnologia e à informação,
refetindo sobre seus signifcados. Assim, a sociedade como um
todo, e não somente as instâncias de poder (cientistas,
empresários, especialistas em bioética, igrejas etc.),
poderá compreender a civilização na qual está
inserida, engajar-se politicamente e tomar posições,
apresentando propostas de controle, resistência e
mudança.
A discussão sobre bioética, ou ética da vida, em
tempos de grande desenvolvimento da ciência e da
tecnologia, atravessa todo o campo da biopolítica. Essa
tarefa exige discutir os valores e a concepção de mundo
que permitirão colocar limites aos abusos ou simplesmente
rejeitar determinado tipo de desenvolvimento que coloca em
risco o futuro da humanidade. Seria isso possível? É importante
refetir sobre qual conhecimento queremos que predomine,
quais os valores sobre a vida e a natureza que devemos preservar
para garantir nossa identidade como humanos.
Se um embrião é considerado uma “bolinha” de 100 células, material orgânico que serve
de base para procedimentos de pesquisa, supõe-se que esse pensamento obedece a uma posição
(bio)ética que abre campo à realização de experiências sem nenhum tipo de reparo. Nesse caso,
a “bolinha” de 100 células é como qualquer material trabalhado pela engenharia (ferro, madeira,
entre outros). Só não são possíveis experiências como, por exemplo, aquelas sobre as chamadas
células-tronco de tecido embrionário ou aquelas de clonagem humana, simplesmente porque o
estádio do desenvolvimento científco e tecnológico ainda não os permite. Só por isso, dizem alguns.
De modo que faremos a clonagem, seja para reprodução ou para obter células embrionárias para
as células-tronco quando isso for possível tecnicamente. E não haverá nenhum impedimento de
natureza ética para isso.
Se, entretanto, os valores predominantes indicam que essa “bolinha de 100 células” é um
“algo a mais” de natureza sagrada ou signifca vida humana em potencial, essa forma de pensar a
vida não permitirá nenhum tipo de manipulação e utilização.
Existem, portanto, nesta exemplifcação, a aplicação de duas vertentes (bio)éticas totalmente
diferentes e, assim, as ações sociais, econômicas e políticas nelas fundamentadas também o serão
e terão efeitos diferenciados na história da Humanidade.
Para refetir
Um especialista em bioética da Universidade da Pensilvânia,
Estados Unidos, disse numa entrevista que fazer bebês por via
sexual será no futuro cada vez mais raro e que as preocupações
éticas serão vencidas.
Você pensa que a Bioética deve ser considerada um
assunto de especialistas?
Você acha que tudo o que pode ser feito, deve ser feito?
Você acha que tudo o que pode ser feito deve ser feito, mas regulamentado,
tendo em vista riscos e benefícios?
Você acha que as considerações éticas devem ser levadas
em conta antes de fazer?
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O Ser Mulher, a Fundação Heinrich Böll e os parceiros que a seguir se mencionam vêm realizando ações
sobre esta temática a partir de meados da década de 90. Entre outras, constam as seguintes:
Organização do Simpósio Bioética e Procriação Humana: Diálogos com o Feminismo, realizado no Rio de
Janeiro, 1996 (Ser Mulher, COPPE/UFRJ, Fiocruz, Criola);
Elaboração de registro sobre o IV Congresso Mundial de Bioética, realizado em Brasília, 2003 (parceria
Ser Mulher e Fundação Heinrich Böll );
Reunião temática “O Paradigma Biotecnológico e seus Signifcados Globais”, realizada no Rio de
Janeiro, dezembro de 2003 (parceria Ser Mulher e Fundação Heinrich Böll);
Simpósio Sob o Signo das Bios: Tecnologia, Ética, Política e Sociedade, Rio de Janeiro, 2004
(parceria Ser Mulher e Fundação Heinrich Böll);
Publicação de WERNECK, Jurema e ROTANIA, Alejandra (orgs). Sob o signo das bios – Vozes
críticas da sociedade civil – Refexões no Brasil. Rio de Janeiro, Criola/Ser Mulher, 2004. vol.
I. Apoio Fundação Heinrich Böll;
Seminário “Sob o Signo das Bios: Privatização da Natureza e do Conhecimento”, durante
o Fórum Social Mundial de 2005, Porto Alegre, janeiro de 2005 (parceria Fundação Heinrich
Böll, Criola, Ser Mulher, Center for Genetcis and Society, Acción Ecológica, Grain e Fase);
Reunião de criação do Grupo de Trabalho sobre Biopolítica, realizada no Rio de Janeiro,
fevereiro de 2005;
Seminários durante várias edições do Fórum Social Mundial, sobre a temática da Biopolítica,
em parceria com a Fundação Heinrich Böll e demais ONGs e instituições Fase, Rede de Educação
(SP), Criola, Universidade de Montreal (CAN), Adelphi University (EUA), Movimento de Mulheres Negras
(EUA), Center for Genetics and Society (EUA), Fundación Software Libre (ARG), entre outros.
Investir na socialização da informação sobre Biopolítica por intermédio das instituições
de ensino, de ONGs e de organizações que atuam especifcamente em cada setor;
Aprofundar o conhecimento das características de cada setor e de seus avanços e
aplicações;
Observar e acompanhar criticamente como o tema é apresentado nos meios de
comunicação em nível nacional, buscando formas de neutralizar as propagandas das
multinacionais sobre os temas da biopolítica;
Propor seminários e debates de aprofundamento de cada setor da biopolítica e de temas afns,
para reconhecer e divulgar as tecnologias de alto risco e promover a conscientização sobre os perigos
que as tecnologias podem representar;
Contribuir para a elaboração de uma legislação proibitiva nacional e internacional do uso da
transgenia (vegetal, animal e humana), da clonagem humana e das tecnologias de modifcação genética
humana;
Discutir coletivamente a perspectiva de controle social e da regulamentação da biomedicina reprodutiva
e das técnicas pertinentes em geral;
Propiciar a articulação de agentes sociais que atuam nas áreas próprias da Biopolítica para fortalecer a
ação social e política da sociedade civil;
Dar apoio às ações nacionais e internacionais da sociedade civil que apresentem uma visão crítica e
propositiva acerca dessas tecnologias;
Propor ações populares ou civis, quando forem possíveis, para que se possa interromper o ato danoso ao
meio ambiente e à saúde.
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www.abcdasaude.com.br
www.abdelmassih.com.br
www.ambientebrasil.com.br
www.anbio.org.br
www.ansol.org
www.bebedeproveta.com.br
www.bioetica.ufrj.br
www.biosseguranca.com
www.biosseguranca.sites.uol.com.br
www.biotecnologia.com.br
www.boell.org.br
www.calazans.ppg.br
www.canalkids.com.br
www.centroecologico.org.br
www.cfemea.org.br
www.cfm.org.br
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www.conceptus.br
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www.dominiofeminino.com.br
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www.ghente.org
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www.ib.unicamp.br
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Fundação Heinrich Böll Rua da Glória, 190/701 - Glória - Rio de Janeiro - RJ Telefax: +55(21)3852-1104 boell@boell.org.br www.boell.org.br Ser Mulher Rua Souza Cardoso, 56 - Centro - Nova Friburgo - RJ Tel: +55(22)2523-5282 sermulher@sermulher.org.br www.sermulher.org.br Organização, pesquisa e redação Alejandra Rotania Pesquisa Vanessa Ventura

Design Gráfico e Ilustrações Alexandre Lobo
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Planejamento Gráfico Alexandro Mandur Thomaz Edição de texto Morissawa Casa de Edição Impressão Nacif Gráfica Agradecimento às colaborações de: Ana Regina Gomes dos Reis, Eliane Ramos, Guilherme Mury , Jean Pierre Leroy, Maria Fernanda Escurra, Miriam Nobre, Sabrina Petry, Thomas Fatheuer, Vera Menegon.
Nova Friburgo . RJ . Novembro . 2006

Quem Somos? Apresentação Introdução Biopolítica Biotecnologias
Biotecnologia Verde Biotecnologia Vermelha
PGH (Projeto Genoma Humano) NTRc e G (Novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas e Genéticas) FIV (Fertilização In Vitro)
ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóide) Heteroplasmia mitrocondrial DGPI (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional)

04 05 07 09 12
14 16
17 19 20
22 22 23

Clonagem
Clonagem Animal Clonagem Humana

24
25 26

Eugenia Bionanotecnologia Biodiversidade Biopirataria Patentes Biossegurança Bioética O que já realizamos. O que podemos fazer? Sites Consultados Bibliografia Consutada

28 31 34 39 44 47 50 54 55 56 57

Fundação Heinrich Böll
Com sede em Berlim, a Fundação Heinrich Böll é uma organização política sem fins lucrativos, ligada à coalizão partidária alemã Aliança 90/Os Verdes. Seu objetivo primordial é promover o conceito de cidadania e os valores democráticos por meio do debate crítico das questões sociopolíticas, econômicas e culturais relevantes de nosso tempo. Mantém parcerias em 55 países com indivíduos, grupos e movimentos da sociedade civil envolvidos na preservação do meio ambiente, na luta pelos direitos humanos e no fortalecimento do protagonismo social e político das mulheres. A Fundação Heinrich Böll atua no Brasil desde 1990. Em 2000, inaugurou o escritório próprio no Rio de Janeiro para estreitar a cooperação e intensificar o intercâmbio entre pessoas e instituições no Brasil e na Alemanha. Desde 2004, o escritório também é responsável por programas em todo o Cone Sul. O fortalecimento da cidadania compreendida como exercício pleno e irrestrito dos direitos políticos, sociais, econômicos e culturais é o pressuposto civilizatório da democracia plena. Por meio da sensibilização da sociedade, do apoio a movimentos e processos participativos e da mobilização de pessoas e instituições, a Fundação Heinrich Böll quer contribuir para a construção de uma sociedade mais eqüitativa. Ao apoiar publicações sobre a temática abordada neste caderno, ela procura sensibilizar a opinião pública para temas emergentes e fundamentais na sociedade.  

Ser Mulher
O Ser Mulher – Centro de Estudos e Ação da Mulher Urbana e Rural –, entidade sem fins lucrativos fundada em agosto de 1989, com sede no município de Nova Friburgo, RJ, caracteriza-se por ter adotado, a partir do ano de 2000, uma estrutura organizativa semi-aberta-matricial, investindo na formação continuada de seus quadros técnicos e políticos, e promovendo a capacitação de lideranças femininas comunitárias com intervenção nos níveis municipal e regional. Atua também nos níveis nacional e internacional. Suas atividades organizam-se em torno de três programas: 1) Programa de Saúde, Bioética e NTRc e Genéticas; 2) Cidadania, Direitos e Violência Contra a Mulher; e 3) Desenvolvimento Local e Sustentável; Programa Crisálida – Sustentabilidade Institucional, que implicam a formação de lideranças comunitárias, com estímulos à participação e organização das mulheres de baixa renda. A missão institucional do Ser Mulher é criar consciência na sociedade sobre as desigualdades de gênero e promover mudanças em prol da cidadania e da autonomia das mulheres. As perspectivas feministas se contextualizam na crise da modernidade e se fundamentam no respeito à integridade do ser humano e a suas relações com a natureza. As linhas de ação da entidade compreendem: formação e estímulo às mulheres de baixa renda para sua participação social e organização autônoma em âmbitos de intervenção municipal e regional; capacitação e empoderamento das mulheres; estímulos e incidência nas políticas públicas; assessoria, capacitação e fortalecimento da sociedade civil na perspectiva de gênero; articulação política, participação e formação de redes, entre outras. O Ser Mulher apóia o fortalecimento da autonomia das mulheres, dos grupos e dos povos, para que, pela consolidação e ampliação de estratégias de resistência, seja possível a construção de uma sociedade ética, justa e responsável.

Por que fazer um caderno sobre biopolítica?
Trata-se, na realidade, de um convite para pensar. E, para isso, propomos criar um tempo próprio para momentos de reflexão sobre temas que dizem respeito à nossa civilização e ao nosso futuro. Devemos compreender as grandes mudanças ocorridas na história da Humanidade dos pontos de vista econômico, social, ético, político e cultural, e enfrentar nossas dúvidas ou tomar posição quanto a ser este o mundo que queremos. Neste mundo, a natureza, todos os seres vivos e o conhecimento tornaram-se comerciáveis e a vida, em seus íntimos componentes, corre o risco de passar a ser propriedade privada.

bionanotecnologia. Tudo aquilo que existe o supera. entender o momento da civilização que estamos vivendo. a Terra. Veremos. com necessidades. também. tudo se passa a uma velocidade incalculável. Um círculo pleno de significados que explica quem ele é propriamente e toda a vida a seu redor. sobre folhas macias. exemplos e indagações. Bem adiante na História. Para o processo de aprendizagem são necessários os esclarecimentos conceituais. devem contribuir o estímulo ao debate. Logo depois. esse ser inventa e fabrica  ferramentas e artifícios para comprovar aquilo que vê. como as já propiciadas na história da Humanidade. grupos de direitos humanos e todas as pessoas que. Ou seja. O ser humano tem a capacidade de olhar a vida e o tempo e como se desenvolve a história da qual ele é protagonista. Inventa o telescópio. movimentos sociais. entre os séculos XVIII e XIX. e é fundamental perder o medo da crítica e exercer o pensamento livre. Esperamos. pois o mundo é grande demais e é preciso abranger o máximo. quais são as diversas mudanças históricas e seus impactos sobre a natureza e os seres humanos. capacitadoras. criar. por meio de uma cirurgia. os textos aqui apresentados trazem um conteúdo relativo a todos os setores/temas abrangidos pelo que chamamos de biopolítica e contam com questões. por exemplo. eugenia. dos diversos setores do conhecimento especializado e. Ao longo do tempo e com o aperfeiçoamento cada vez maior desse instrumento. e inventa teorias para explicar as coisas. e sermos seres humanos. no sentido de haver “algo ou alguém “ que se apodera de nossa capacidade de. Olhando antigas fotografias podemos perceber a diferença. Num tempo muito remoto. associações de profissionais de diversas áreas. a partir do grande desenvolvimento do conhecimento sobre a vida. ativistas e multiplicadoras atuando junto a diferentes públicos. isto é. Nessa perspectiva.Centro de Estudos e Ação da Mulher Urbana e Rural. Este caderno pode ser usado no trabalho social por associações comunitárias. ou para que os futuros bebês fossem concebidos em vidros nos laboratórios. são formadoras de opinião. que introduziu novas máquinas e artefatos para facilitar a vida das pessoas e otimizar o trabalho para o capital. perguntas ou idéias para refletir que. o céu. Há quem diga que estamos todos dentro de um “trem-bala”.Com as novas tecnologias e seus usos. ONGs. homens e mulheres. o despertar de novas dúvidas e perguntas. que este caderno represente um estímulo para o desenvolvimento de outras iniciativas dirigidas a públicos diversos. que é a linguagem da ciência. Remontando à Antigüidade. assim. patentes e bioética. biossegurança. devemos ter informação clara. decidir. as diferenças entre essa revolução e a que vivemos agora. entre elas a Revolução Industrial. aos poucos. participar. contribuirão para o próprio processo de apropriação. de acordo com esse novo Thomas Fatheuer Diretor do Escritório Rio de Janeiro Fundação Heinrich Böll. sem necessidade da relação sexual. donos de nosso próprio tempo para pensar. A forma de conhecer e de agir dos seres humanos mudou. entre o modo de vestir de cem anos atrás e o de hoje. vivemos um momento de grandes mudanças. tudo em harmonia. Para refletir sobre tudo isso devemos dominar uma linguagem que sempre nos parece muito difícil e nos deixa tensos. a substância que se encontra no núcleo das células de todos os seres vivos e é responsável pela hereditariedade e pela formação dos novos seres vivos. biopirataria. da tecnologia. a natureza. descobriram-se muitas outras coisas sobre a natureza e a matéria que não só a cor e a forma. . Hoje em dia. e um mundo inimaginavelmente pequeno se apresenta a seus olhos. de uma ou de outra maneira. E. trabalhadas coletivamente. problematização e aprofundamento das temáticas. inserções e interesses específicos. fora do corpo da mulher. as mulheres se deitavam na terra úmida.  Mais adiante. o favorecimento da integração dos diversos temas e o fortalecimento da articulação da sociedade civil para sua intervenção e participação de forma ativa e consciente. para terem seus bebês e acreditavam que eles haviam sido fecundados nas fendas das rochas de um modo milagroso. podemos até imaginar um ser humano contemplando a olho nu o universo como um círculo imenso contendo tudo aquilo que é possível observar e perceber com os nossos próprios sentidos. preocupadas com o futuro da vida em geral e da vida humana em particular na Terra. biodiversidade. Esses temas são biotecnologias. os especialistas fabricaram instrumentos para que as crianças nascessem em uma sala de hospital. os movimentos. Alejandra Rotania Coordenadora Executiva de Programas Ser Mulher . para a eficácia desse processo. indo mais devagar. assim. o resgate histórico das questões. da filosofia e das ciências humanas. entre elas o “coração da matéria”. preservar nossa forma de ser e nossa liberdade. inventa o microscópio. isto é.

seus benefícios. Agora. e até abrir a perspectiva de criar novos seres. devemos compreender quais são as diferenças dessas mudanças. o “muito pequeno”. e nossa responsabilidade para com o futuro!!!!! Vamos tentar conhecer juntos este que um escritor norte-americano chamado Aldous Huxley denominou “admirável mundo novo”. A vigilância sobre a virgindade das mulheres. substâncias e procedimentos que antes não existiam. Biopolítica é algo tão antigo quanto a organização das primeiras cidades. a ciência e a indústria intimamente relacionadas entre si transformamse em pilares do sistema econômico. era um mecanismo da Igreja e do Estado para controlar a sexualidade feminina e a procriação para fins sociais e econômicos. por exemplo. o problema da água. genes) que. Novas revoluções e novas tecnologias vieram.conhecimento. a célula e seus mínimos componentes permitiu manipular a matéria e modificá-la. o centro da disputa política é a vida biológica e a possibilidade de “fazê-la” ou “modificá-la” em sua essência. No contexto atual.. Revelaram-se novas formas de relação dos seres humanos com a natureza. a preservação de sua castidade. têm utilidade econômica e passam a ser apropriadas pelas grandes corporações capitalistas. a biossegurança. cujas mudanças ao longo do tempo foram provocadas pela indústria. a técnica. isto é. de acordo com o filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993). a natureza e o conhecimento. A biopolítica acrescenta hoje novas questões. fabricando novos produtos para sustentar a economia mundial. pela ciência e pela tecnologia.. quando o termo se referia mais especificamente à maneira com que o Estado se apropriava dos corpos e das sexualidades dos cidadãos para sustentar um modelo político e econômico determinado. O pesquisador francês Michel Foucault falou muito bem a respeito disso.. aproximar. seus riscos. Conhecer o íntimo. associar setores da realidade relacionados com a vida. a engenharia genética. A biopolítica é um campo que permite agregar.. Referimonos a outras realidades materiais-biológicas (células. a privatização e informatização do conhecimento. por exemplo. no caso da biotecnologia. moléculas. o acelerado desenvolvimento da biomedicina. a biotecnologia. a biopirataria. as experiências científicas. o que nunca tinha acontecido na história da Humanidade. seus significados. cromossomos. entre outros. que hoje disputam o campo políticoeconômico mundial. e nós. atualmente. a artificialidade e a mercantilização da   . . Quais são os setores da realidade e os ramos da ciência que podem se agrupar no campo da biopolítica? Podemos citar.

Descobrir esses significados (que podem ser negativos ou positivos) e tomar posição a respeito deles é responsabilidade de cada dia para a sociedade como um todo. seus recursos genéticos podem ser patenteados. isto é. podem ser manipulados do mesmo modo e. Há quem diga que a civilização atual deve ser criticamente analisada. como avanço e progresso. as técnicas. como qualquer outro objeto – uma casa. oferecem perigos que não estão distantes. Isto é. Veremos que se trata de uma realidade já existente. em nossa cultura. Ao campo da biopolítica acrescenta-se a descoberta de uma dimensão inexplorada da Natureza. são frutos de um mesmo objetivo cultural. altamente positiva. em geral. Embriões humanos podem ser criados em laboratório. que é a informação. A informação sobre os recursos genéticos pode ser vista como uma das bases da nova fase do capital mundial. Vamos pensar! É importante a discussão destes temas? Quem discute? Quem deveria discutir? Por quê? 10 11 . econômico e político. Uma mesma técnica serve para modificar toda forma de vida. que não mereça avaliação e crítica. cujos significados a sociedade ainda não compreende. as pesquisas utilizando tecido embrionário e a bionanotecnologia. Os agricultores ou as pessoas comuns têm. O grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia e as características do capitalismo. Todos esses aspectos provocam uma grande mudança histórica na humanidade. modificando sua organização genética. que aqui não esgotaremos mas buscaremos desenhar. declarados propriedade particular. Esses setores da realidade. que se manifestam no que aqui propomos chamar de biopolítica. e os médicos ignoram o que acontece com as sementes modificadas e os efeitos dessas mudanças na saúde das pessoas. no sentido do grande valor que adquire para as indústrias. pouco percebidas. O conhecimento sobre a realidade íntima da vida biológica pode ser transformado numa mercadoria. O progresso não é necessariamente uma coisa boa.reprodução humana. perceber que tem uma face oculta a ser desvelada. As associações entre os setores que compõem o campo da biopolítica são. buscando-se os sentidos éticos e políticos que se perderam ou se esconderam por trás de algo altamente valorizado e mal compreendido – o progresso. Assim como o material. não podemos viver como se a realidade fosse uma série de caixinhas isoladas. por meio de técnicas genéticas de melhoramento da qualidade. animais etc. há uma tendência. Ou seja. sementes e embriões têm coisas em comum: são produtos de uma mesma técnica. Por exemplo: cada ser vivo é portador de uma informação. hoje. considerando somente o lado positivo. como veremos ao avançar nesta cartilha. em geral. A biotecnologia tem condições de fabricar em laboratório sementes agrícolas que não existiam na natureza. um terreno. e as conseqüências disso podem significar grandes benefícios ou riscos incalculáveis para a humanidade e a natureza como um todo. qualquer que seja a espécie. a informação da qual este é portador também pode ser patenteada. sem colocar nada em questão. fazem parte de uma economia e de uma política que transformam a vida e a natureza como um todo em fatias de mercado e em objeto de mercantilização. de encarar o conhecimento. Contudo. os novos produtos. pouca ou nenhuma informação do que ocorre no mundo da medicina e da complexa tecnologia da reprodução. artefatos. É preciso saber o que entendemos por progresso e conhecer também seu lado obscuro.

é uma técnica que não apenas permite observar os processos biológicos. tendo em vista a cor das flores. Biotecnologia é sempre uma técnica de manipulação dos seres vivos e da matéria orgânica. substrai. por meio de técnicas tradicionais convencionais. consegue-se transformar organismos em seu estado “natural” em “outra coisa”. fundando. inédito. físicos e químicos do DNA. A biotecnologia tradicional. assim. mas também intervém. as características do núcleo. a ciência e a tecnologia da vida. Ele buscava. As novas tecnologias têm condições de transformar uma ervilha em algo novo. substitui genes. que permitem manipular plantas. assim. especialmente do ramo da microbiologia. as características transmitidas de progenitores a descendentes. fabricar o pão etc. com o progresso da técnica e da ciência. começou suas experiências com ervilhas de 34 tipos de sementes diferentes. uma nova ciência: a genética. transformar leite em queijo. corta. No século XIX. misturando manualmente ervilhas de diferentes tipos e observando o que acontecia ao longo do tempo. produzir vinho e fungos. compreendia procedimentos aplicados aos processos biológicos de diferentes espécies. mas. sem atingir ou modificar sua estrutura. os genes e se têm as condições de manipulá-los a partir das informações assim obtidas. a partir de um determinado momento da história. determinaram um modo de ver a natureza. químicos. tornou-se possível “convencer” (tecnologicamente) uma célula a fazer algo para o qual ela não estava programada. eliminar o efeito do . Dizendo de outro modo. ao modo de Mendel. Como vimos nas páginas anteriores. reproduzir ou até criar seres vivos que não existem na natureza. Da combinação de biotecnologia com a engenharia genética surgiram os OGMs (organismos geneticamente modificados) e os OVMs (organismos vivos modificados). A engenharia genética. Na biotecnologia tradicional usavamse bactérias para fermentar suco de uvas. suas partículas. Por quê e como? Porque se conhecem os componentes da célula. desse modo. inventada em 1971. suas substâncias. microorganismos e animais. Mendel utilizava a técnica de “hibridação”. por meio da manipulação dos genes. Pode-se. A partir do século XIX. assistimos a grandes mudanças. Foi assim que ele descobriu as leis da hereditariedade. que se desenvolveram com grande dinamismo nos últimos tempos. a vida e o conhecimento radicalmente diferente do que se tinha antigamente e permitiram a intervenção do ser humano na natureza de maneira nunca vista antes na história da humanidade. que são pedaços variados de DNA. biológicos) e de técnicas ou procedimentos que conseguem reformar. o cruzamento entre espécies diferentes a partir da observação e da explicação dos fatos tal como são percebidos. como veremos constantemente neste caderno. por meio de métodos artesanais e mecânicos. entender o mecanismo da hereditariedade.Um setor fundamental que define o território da Biopolítica é o da biotecnologia. 13 Biotecnologia e Engenharia Genética A biotecnologia usa uma série de conhecimentos (físicos. se elas eram rugosas ou lisas e como essas características eram passadas de uma geração a outra. ou seja. nascido na atual República Tcheca. um monge chamado Gregor Mendel (1822-1884).. reconstituir.

às sementes. por exemplo. para detectar substâncias proibidas. Por exemplo. pode-se. segundo as mães. com a manipulação do DNA. e assim por diante. têm hoje saúde delicada. o que é um organismo transgênico? A partir do uso da engenharia genética. A tecnologia poderá vir a ser aplicada em espécies florestais e animais. O que era. Existe uma vasta produção de sementes geneticamente modificadas – de soja resistente a herbicidas.. essas mudanças serão para sempre. O milho transgênico contém uma substância orgânica tóxica que serve para combater as pragas. feita por uma grande empresa. criando-se espécies inexistentes na natureza. como técnica. uma ervilha pode ser programado para ser uma ervilha que não existia antes na natureza e que. além dos exames antidoping realizados nos atletas. a água da chuva fazem com que o pólen de uma planta atinja outras localizadas a quilômetros de distância. As aplicações da engenharia genética na modificação dos seres vivos são inimagináveis. ser aplicados outros. Nos jogos olímpicos do futuro. Desse modo. estimulados pelo desenvolvimento tecnológico. manifestando reações alérgicas a quase tudo. para aquela aplicada às espécies animais e humana. o gene “exterminador” (terminator. até mesmo em peixes.. Biotecnologia Verde Retomando o tema da engenharia genética. um problema grave é o da contaminação de lavouras convencionais ou ecológicas. poderão. por exemplo. em Nova York. deveríamos perguntar: então. os agricultores poderão ser obrigados a comprar novas sementes do fabricante. ou seja. alfaces com vacina contra hepatite B. Quando a plantação amadurece. Já está praticamente comprovado que determinadas substâncias usadas nos alimentos transgênicos são tóxicas. mas estes voltados a detectar genes modificados com a finalidade de aumentar tamanho. espécie silvestre americana. Para refletir e discutir. quase metade das lagartas morreram e a outra metade comia uma quantidade nitidamente menor. experimentou um soro derivado de arroz transgênico com proteínas recombinantes produzidas nos Estados Unidos em bebês com quadro de diarréia severa. Em um experimento realizado na Universidade de Cornell.. São as tecnologias que operam mudanças específicas no DNA (ácido nucléico) ou no material genético que se encontra no núcleo das células de todas as espécies vivas e é responsável pela reprodução e pela hereditariedade. porque é muito difícil controlar a propagação: o vento. Você sabia. pesquisadores constataram que. As empresas que utilizam a engenharia genética têm colocado no mercado produtos transgênicos vegetais. começou-se a dar nomes nada científicos a cada setor. Ela resultou de uma experiência. para aquela que se aplica à agricultura. deve ser propriedade de quem inventou essa “nova organização”. que um trecho do DNA extraído da planta Saponaria officionalis. entende-se. velocidade e outros atributos considerados estratégicos numa atividade (o esporte) cada vez mais competitivo. pássaros. . temos algo “novo”: um morango com cheiro de limão. e biotecnologia vermelha. e. . No Peru. rosas com cheiro de limão. que é um poderoso herbicida. Manipuladas e alteradas as células germinativas (reprodutoras) de uma espécie ou reorganizados seus recursos genéticos. às árvores. cultivam-se tomates que não amassam. possibilita “reorganizar a vida”. em que parte de uma bactéria encontrada no solo foi introduzida na semente. os insetos. Para visualizar melhor os significados da aplicação da biotecnologia e individualizar ou diferenciar problemas e especificidades. após quatro dias alimentando-se lagartas da borboleta Monarca com folhas contendo pólen geneticamente alterado de milho. a planta torna-se estéril e não produz outra geração. que apresentaram reações alérgicas e. também. Daí a busca pelas patentes. como biotecnologia verde.. aos alimentos.gene responsável pelo cheiro de morango e produzir essa fruta sem seu cheiro característico. em inglês) entra em ação. desse modo. tomates que ajudam a prevenir câncer de próstata. Na safra seguinte. uma empresa americana. para o espaço de vida de todas as espécies. Você já pensou sobre isso? Quais podem ser os significados do uso dessa tecnologia para a natureza em geral e para os seres humanos? 1 1 A utilização da engenharia genética e dos produtos transgênicos significa riscos para o meio ambiente. realizam-se cruzamentos artificiais em laboratório para inserir genes de uma espécie (como planta ou sementes) em outra (um animal). o resultado é um organismo transgênico. é inserida em sementes de algodão? O grão cultivado germina e desenvolve-se normalmente. ou da biotecnologia. atingirão todas as futuras gerações. de tomates com maior durabilidade e de milho imune a insetos. sem licença para realizar a pesquisa no país. É por isso que se diz que a engenharia genética. Quando se agregam ou se acrescentam genes de uma espécie a outra. em geral. A soja transgênica possui características que a tornam resistente ao glifosato. sendo responsáveis por alergias variadas e por tornar o organismo humano resistente aos antibióticos. agilidade. substituir o gene responsável por um aroma e substituí-lo pelo de limão.

tendo em conta os riscos imprevisíveis desse progresso para a humanidade. Você sabia. . Isso pode ser visto pelo ângulo positivo. Conhecendo a função dos genes. a biotecnologia aplicada aos animais e aos seres humanos é denominada vermelha... ou seja. os porcos que receberam genes humanos para produzir medicamentos ou para que seus órgãos estejam preparados para a reposição de órgãos humanos. árvores e alimentos. que mosquitos transgênicos estão sendo criados no Brasil para alcançar a cura para a dengue. Isso para depois estudar que tipo de função tem cada gene. 1 1 Ainda não há liberação dos transgênicos em geral no Brasil. Portanto. incluindo o Brasil. melhorar determinadas qualidades. não sendo possível aqui abranger todos. Este último exemplo mostra que até produtos de decoração e de estimação não escapam às empresas de biotecnologia. A ovelha Polly. e preparar os animais para transplantes de órgãos. PGH (Projeto Genoma Humano) O PGH iniciou-se formalmente nos Estados Unidos. tanto para aplicação humana como para outros animais. para variados fins. foi uma biofábrica de propriedade da empresa PPL Terapêutica. as possibilidades de elaboração de medicamentos e de fabricação de armas biológicas. Na área ligada à saúde e à medicina em geral. Seu objetivo era identificar. mosquitos incapazes de transmitir a doença? Além de ser usada na produção de sementes. ou pelo negativo. considerandose o progresso da ciência e da tecnologia. as causas das anomalias e doenças. serão destacados somente o PGH (Projeto Genoma A tecnologia genética pode ser utilizada para se obterem informações sobre a origem das populações e das migrações do mundo. As multinacionais farmacêuticas investem esforços e dinheiro para transformar mamíferos transgênicos em verdadeiros fabricantes de substâncias de interesse farmacêutico. em alguns estados. as características das etnias.. Outros exemplos de transgenia são: o gado que recebeu o hormônio de crescimento para aumentar a produção de leite. o peixe que brilha nos aquários.Biotecnologia Vermelha Como já foi dito. em 1990. Quais seriam os objetivos de fabricar animais transgênicos? Obter espécies para experimentação.. estão interessadas somente em se apropriar de fatias cada vez maiores de um mercado mundial que hoje representa mais de seis bilhões de pessoas. pode-se incluir. A única produção transgênica autorizada é a da soja. entre outras. abre-se um leque inestimável e sempre crescente de conhecimento e intervenção nas diferentes formas de vida e na natureza como um todo. Entre essas substâncias estão fatores de coagulação. em referência à cor do sangue. a elaboração de testes genéticos que oferecem a possibilidade de investigar a tendência a . Atualmente há fêmeas de mamíferos transgênicos que produzem leite com diversas substâncias de interesse econômico. hormônios e vacinas. seqüenciar significa descobrir em que ordem estão os pares das bases químicas (tinina. para em seguida ter a participação de vários outros países. obtido pela mistura de genes de paulistinha com os de uma água-viva fosforescente. por exemplo. Humano) e as NTRc e G (Novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas e Genéticas). Mapear significa descobrir onde está cada gene nos cromossomos. citosina e adenina) que compõem o DNA. a transgenia é aplicada à fabricação de medicamentos e diversas outras substâncias. A biotecnologia vermelha aponta para um campo muito amplo de aplicação das novas tecnologias. aumentar a produtividade dos sistemas pecuários tradicionais (crescimento mais rápido). mapear e seqüenciar os genes do corpo humano. insulina. para cuja produção se utilizaram genes humanos. as especificidades da diversidade animal. guanina. Elas não se organizam para derrotar a fome ou a doença no mundo.

pois a união do óvulo com o espermatozóide (fecundação sexuada) passou a ser realizada por meio de fertilização em laboratório. deu lugar à fecundação assexuada. Esse teste é também usado no campo judicial. As mudanças na reprodução foram radicais. os genes responsáveis por nossa inteligência sejam localizados e torne-se possível identificar. Em geral. à engenharia genética e à biotecnologia. Com isso. Especula-se que. desenvolveuse o setor de pesquisa farmacogenômica ou farmacogenética. os resultados negativos das experiências em animais foram ocultos. por meio da análise do DNA. Imaginemos que. aceito e muito utilizado é o chamado “teste de paternidade” ou “teste de DNA”. À medida que a tecnologia genética se incorpora à medicina de alta complexidade. com o objetivo de impedir possíveis rejeições das futuras usuárias das técnicas inerentes. na verdade e em geral. maior rapidez e dinamismo na produção animal e a ampliação do setor ligado ao desenvolvimento da medicina humana reprodutiva. da farmacologia. assinalando-se um momento de extrema mudança. em um futuro próximo. aos interesses econômicos de grandes corporações. Eliminou-se a necessidade da relação sexual própria dos mamíferos para essa finalidade. jovens em universidades ou candidatos a empregos? Haveria discriminação ou maior tolerância em relação aos menos dotados? Empregadores e companhias de seguro-saúde teriam acesso às informações? Quem vai controlar a confidencialidade das informações genéticas? 1 1 Dadas a quantidade inestimável de informações e a velocidade com que se devia trabalhar no Projeto Genoma Humano. e não dentro do corpo feminino ou das fêmeas. na área médica. A técnica da clonagem. buscando a preservação do mercado. o fato de serem considerados eventos médicos obedece à intenção de que eles se desvinculem de questões ligadas à indústria. Tudo isso significa basicamente um fabuloso incremento do lucro das grandes empresas em seus diversos setores. bem como de diagnosticar malformação genética nos fetos já nas primeiras semanas de vida. a relação sexual humana e o cruzamento animal tornaram-se desnecessários para fins de reprodução. que teria como objeto a saúde reprodutiva. ao comércio. em vez de se apresentar ao casal infértil um programa de cura ou tratamento da infertilidade. a tecnologia da medicina científica contemporânea tem provocado mudanças inéditas no modo de procriação. isto é. Um teste genético de eficácia reconhecida. Os fragmentos de DNA foram enviados pelos laboratórios a bancos de dados internacionais de seqüência genética. denominada “era pós-genômica”. A biotecnologia aplicada ao processo de reprodução animal e humana responde ao grande desenvolvimento da tecnologia de alta complexidade nessa área e a interesses econômicos. isto é. qual será o potencial genético de um indivíduo quanto a essa característica. especificamente na área criminal. com a finalidade de criar novas formas de mercantilização da vida. e não um tratamento para a infertilidade. por trás de tanta pressa. Também é possível. e também os constantes problemas de efeitos colaterais de medicações. bases da medicina preditiva. manipulando o núcleo das células. Embora a engenharia genética e a tecnologia genética façam parte desses procedimentos. mas sua qualidade tem sido considerada duvidosa em vários estudos. Portanto. procriação medicalmente assistida ou reprodução humana assistida. Para refletir e discutir. que permite descobrir quem é o/a genitor/a da criança. na qual o espermatozóide já não é mais necessário para a reprodução. e isso provocou um grande desenvolvimento na área de computação ou da chamada Bioinformática. que permite obter um novo indivíduo como se fosse uma cópia. dependeu-se muito das tecnologias de informática. entre outros ramos. Tais procedimentos biotecnológicos são denominados. os testes acessíveis a uma determinada camada social tornam-se banais e são vistos muito levianamente como uma tecnologia de ponta “salvadora”. para acentuar os aspectos médicos e de saúde das técnicas. identificar a tendência a baixa estatura e o fato de o desempenho sexual e de a perda gestacional poderem ser associados ao patrimônio genético. da medicina que pode prever possíveis doenças. . em casos de infertilidade feminina ou masculina. Esses aspectos nos levam a refletir sobre quais são os interesses ou os motivos de se propor a utilização de tais técnicas de forma banal. NTRc e G (Novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas e Genéticas) Os conhecimentos e os procedimentos obtidos nas experiências de reprodução animal da biotecnologia vermelha foram transferidos para a reprodução humana. Como poderia ser usada essa informação? Seriam instituídos testes genéticos antes da admissão de crianças em escolas. que é parte essencial da genética atual. As NTRc e G são. que têm obrigado a indústria farmacêutica a retirá-las do mercado. um mecanismo de substituição do problema. por meio dos testes.doenças futuras. está a indústria farmacêutica buscando impulsionar os rentáveis negócios dos “kits de diagnósticos genéticos”. Na era que se seguiu à análise do genoma humano. como câncer de intestino e de mama. que estuda a relação dos genes com os remédios e as pessoas.

vômitos e dificuldades respiratórias e renal. de 2003. Nos Estados Unidos. também. Atualmente esse projeto está aprovado no Senado Federal em sua forma última. além das recomendações costumeiras. possam trazer benefícios. doação de órgãos. entre as quais as mais importantes são: a limitação do número de embriões que poderiam ser produzidos e transferidos (somente dois) e a proibição do armazenamento (congelamento) dos demais. é o tipo de fecundação que se realiza fora do corpo feminino. Seria lícito que um casal planejasse ter por clonagem dois ou mais gêmeos para que cada um deles pudesse ser doador de órgãos para transplante ao outro que não provocasse rejeição? A proximidade entre as técnicas reprodutivas e as genéticas (que serão descritas mais adiante) pode levar a produzir alterações nos óvulos. náuseas. Atualmente no Brasil podem ser transferidos até 4 embriões. mas ainda se encontra tramitando no Congresso. por exemplo. indústria. provocaram alterações. ruptura e hemorragia na cavidade abdominal. No Brasil. 20 21 Uma vez fecundados in vitro. podem. fazer uma modificação genética em outro tipo de célula (não-reprodutiva. Embora esses testes.. tendo em vista justificativas como morte de filho. avaliando como altamente positiva e inevitável a união das tecnologias reprodutivas com a genética. Emendas e mudanças na relatoria do Projeto. Desse modo. Os sintomas possíveis são dores pélvicas. A FIV abriu definitivamente as portas para uma cadeia inestimável de possibilidades cada vez maiores de associação da medicina reprodutiva com técnicas complementares. qualquer alteração será passada de geração a geração. Esse especialista também é favorável à técnica de clonagem como forma de reprodução.Você sabia. os embriões são transferidos ao útero. as mulheres devem receber consideráveis doses de hormônio para produzir mais óvulos e garantir o sucesso do procedimento. que alguns estudos internacionais indicam uma redução média de 50% na concentração espermática de homens que vivem em países industrializados? Os homens expostos à poluição do ar apresentam alteração na velocidade e na forma da estrutura dos espermatozóides mais freqüentemente do que os jovens menos expostos. Na coleta dos óvulos. danos aos ovários e aumento de volume. algumas delas produzidas por engenharia genética. moderados ou graves. entre os quais trombose. quando devidamente indicados.. de todas as formas. doenças hereditárias. espermatozóides ou embriões. vários bioeticistas e especialistas em reprodução humana são favoráveis também à perspectiva de clonar seres humanos. capturam-se os óvulos. concebido para verificar e diagnosticar doenças e alterações que possam comprometer a saúde materna e fetal. e. é cada vez mais freqüente a indicação para a realização de testes genéticos para garantir o sucesso da gravidez. Daí a discussão sobre o uso dos embriões congelados das clínicas de fertilização in vitro para estudos e pesquisas. ambos são colocados na proveta do laboratório e espera-se pela fecundação. chamada “somática”. Aqueles que não são transferidos podem ser doados a terceiros ou congelados. foram anexadas as principais propostas legislativas. sobre cujos efeitos pouco se sabe ainda. durante o processo legislativo. resultantes do tipo de substância utilizada para otimizar o número de óvulos a serem fecundados e garantir sucesso no procedimento. nesse caso. na proveta. essas técnicas. FIV (Fertilização In Vitro) A FIV (fertilização in vitro) – ou seja. provocar alterações genéticas. Essas altas doses de substâncias. de qualquer tecido do corpo) sem que haja alteração na descendência. por exemplo. entre outras. ligados à questão das células-tronco. tem propiciado o contato das mulheres com o aconselhamento genético. Por essa técnica. O exame pré-natal. “sem querer”. técnicas genéticas. escolha de sexo e outras. que apresenta efeitos leves. No Brasil. alguns projetos específicos de regulamentação das técnicas reprodutivas ou da reprodução assistida surgiram em 1993. colhem-se os espermatozóides. .. Pode-se. na caixa torácica e em volta do coração. especialmente na rede particular.. Porém. Ao projeto de lei 1. podem provocar a chamada síndrome da hiperestimulação ovariana. é preciso atentar para o fato de que são muitas vezes solicitados mesmo quando os testes tradicionais não sugerem a existência de qualquer problema com a criança ou com a mãe. Há riscos ainda desconhecidos implicados nesse procedimento para os bebês. um especialista em reprodução humana manifestou que o futuro da reprodução estaria sob a denominação geral de “reprogenética”. que vivem na zona rural. .184.

Uma dessas técnicas é a ICSI. O esperma de homens inférteis pode conter alterações genéticas que podem resultar em problemas de saúde futuros ou em anormalidades para os bebês (problemas neurológicos. pouca motilidade (dificuldade de movimento) e malformação dos espermatozóides. Como é feita a ICSI? Um espermatozóide ou um espermátide (espermatozóide que ainda não se desenvolveu plenamente) é colocado em uma agulha e injetado diretamente no óvulo durante o processo de FIV. entre outros. por exemplo).ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóide) ser considerada uma modificação genética hereditária. sigla da expressão em inglês correspondente a injeção intracitoplasmática de espermatozóide. baixa qualidade. que permite reparar os óvulos de mulheres mais velhas submetidas às técnicas de FIV e que podem apresentar problemas no funcionamento de certos mecanismos celulares. Especialistas em reprodução humana avaliam que ela pode resultar em mais de 100 doenças. Uma substância e o espermatozóide são injetados com uma micro-agulha no óvulo da mulher receptora. também. 22 Não há consenso quanto às conseqüências do uso dessa técnica nas novas gerações da mulher que a utilizou. Contudo. porque a fecundação é produzida com material genético (óvulos) de duas mães diferentes. Ele permite a retirada para biópsia de uma única célula de um embrião de até 14 dias para análise dos cromossomos (constituídos por molécula de DNA). como ausência completa. essa é uma técnica que pode Este pode ser considerado. Especialistas em reprodução vêm colocando reservas ao uso de células imaturas. 23 DGPI (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional) Heteroplasmia Mitocondrial Outra técnica genética é a heteroplasmia mitocondrial ou rejuvenescimento de óvulos. a partir da qual é possível identificar se o embrião é afetado por doenças genéticas antes de transferi-lo para o útero. Não se sabe ao certo quais são os critérios precisos de utilização da técnica nem suas conseqüência para a saúde das crianças concebidas. Essa técnica é usada para determinar o sexo do . uma técnica de modificação genética da espécie. utilizada quando há problemas de infertilidade masculina. convulsões permanentes e demências. essa técnica está sendo utilizada desnecessariamente para garantir eficácia no processo da FIV. problemas cardiovasculares. alegando que podem ser geradas crianças com anomalias ou doenças mais graves que a do pai. Além de tratar dos casos de anormalidade do esperma masculino. como alterações do sistema nervoso.

a partir da aplicação dessa técnica. anunciou a clonagem da ovelha Dolly. a engenharia genética e a genômica são as três técnicas mais poderosas da biotecnologia. Empresas oferecem esse exame pela internet. controle social sobre as técnicas que são efetivamente utilizadas. O resultado é uma cópia genética. por exemplo) é retirado e fundido com um óvulo sem núcleo. por meio da seleção de traços desejáveis e da rejeição dos indesejáveis. Ele é utilizado também no Brasil. qualquer que seja a espécie que se reproduza. da Escócia. uma duplicata do indivíduo doador. Comente. a França anunciou o primeiro bebê selecionado geneticamente. 2 Clonagem Animal Em 1997. isto é. uma biotecnologia das mais polêmicas. consegue-se abolir a reprodução sexuada. o espermatozóide não tem mais nenhuma função. Clonagem 2 A técnica da clonagem pode ser “à moda antiga” ou ao “modo moderno”. efetuam-se quase mil procedimentos de FIV por ano... embora não haja legislação específica em nível nacional e. por meio da união do óvulo com o espermatozóide in vitro (FIV). com a clonagem radical. . elas apresentam perspectivas tenebrosas para o futuro da humanidade. abrindo a perspectiva do uso da técnica no reino animal. ainda. que será abordada mais adiante). com a finalidade de evitar o desenvolvimento de uma doença hepática grave. por exemplo. leva-se o embrião a se dividir várias vezes utilizando-se estímulos elétricos. o que pode significar esta possibilidade tecnológica para a humanidade. O núcleo (que contém toda a informação genética) de uma célula adulta (da pele. sendo quimicamente “convencido” a “achar” que é um embrião e começando a se dividir por estímulos elétricos. portanto. como já mencionado. dos quais cem com emprego do DGPI.embrião e. não sendo necessária a união do óvulo e do espermatozóide para se ter um novo indivíduo. Com isso.. Foram utilizados 227 óvulos e produzidos 27 embriões. Em 2000.. Anos depois. à qual já fizemos referência. . devidamente explicado e com informações sobre custos e forma de pagamento. o Instituto Roslin. Ao modo moderno. Unidas e associadas a outras técnicas (a bionanotecnologia. À moda antiga. Na Itália. A clonagem. permite “desenhar” um bebê. fez-se a clonagem da ovelha Polly.

seguido da morte dos recém-nascidos. um óvulo e um espermatozóide fecundados na proveta foram subdivididos por estímulos elétricos. como falhas na reorganização das células adultas. genes desativados. coração. fabricar tecidos de reposição. pele. por exemplo – proteínas de interesse para a indústria farmacêutica. ao modo da Dolly . reparar órgãos lesados. Até dezembro de 2001. As perspectivas das células-tronco do cordão umbilical dão lugar a uma discussão sobre o armazenamento. isto é. entre outras possibilidades. os clones padecem de várias anomalias (anemia. por exemplo. O uso das células-tronco dos embriões (já existentes. Reflita e discuta. isto é. defeitos fatais no coração e nos pulmões. nos anos 1990. No caso de bovinos. provenientes de FIVs e que não foram utilizados ou clonados para tal fim. defeitos e “monstrinhos” criados e descartados foram ocultados. no máximo cinco sobrevivem até os seis meses de idade. o número e Cabe perguntar: Quem são os beneficiados? A que desejos. Se um embrião é usado com finalidades de pesquisa para. conseguindo-se 48 embriões. se esse tipo de tratamento pode ter êxito efetivo ou se não passa de mais uma ilusão do poder da tecnologia na área da saúde. entre outras). para depois licenciar o conhecimento para quem queira comprá-lo. no cordão umbilical e na placenta. células embrionárias humanas que se reproduzem até alguns dias após a fecundação em laboratório) deu lugar. projetos ou interesses responderia essa técnica? Quem seriam os responsáveis pelas possíveis alterações genéticas da espécie humana? . também. entre eles o Brasil. em 2001. Além disso. as técnicas utilizadas são as mesmas mencionadas para a animal. hoje. falência do sistema imunológico. a intenção era usar animais clonados e transgênicos como “biofábricas”. 2 Para a clonagem humana. ele é implantado no útero de uma mulher e levado a termo para gerar uma criança. fígado. obesidade mórbida. A perspectiva de se clonarem células de seres humanos para fins de pesquisa e reprodutivos desencadeou grande debate. Em 1993 foram obtidos clones humanos numa universidade norte-americana. por exemplo na medula óssea. empresas se interessam pela clonagem de bovinos. o processo chama-se clonagem reprodutiva. Essas células (de um embrião de aproximadamente cinco dias ou até 120 horas após a fecundação) ainda não se diferenciaram nas células específicas que são necessárias para formar os tecidos e os órgãos humanos (isto é. cerca de trinta países haviam proibido a clonagem reprodutiva humana. podendo cumprir a mesma função que as embrionárias e constituindo importante fonte de pesquisas. A quantidade de óvulos utilizados em uma experiência é sempre inestimável. No Brasil. órgãos mal desenvolvidos. A clonagem da vaca Vitória foi o primeiro caso bem-sucedido de transferência nuclear realizado no Brasil. de modo que poderiam ser usadas para curar doenças. ser aplicada aos seres humanos. o processo chama-se clonagem para pesquisa (ou “clonagem terapêutica”). ou seja. a um complexo debate entre diversos setores sociais e institucionais. Obtiveram-se embriões por FIV. Ela pode ser usada para fins de pesquisa ou com objetivo reprodutivo. à “moda antiga”. A experiência causou grande impacto e o tema foi aos poucos se incorporando à discussão internacional sobre a legitimidade de a clonagem “radical”. os tipos de erro. se os bancos devem ser privados ou públicos. e assim por diante). ao contrário. A intenção é aumentar a eficiência da técnica de modo a pôr os “produtos” no mercado o quanto antes. A biotecnologia de hoje utiliza seres vivos como matéria-prima e instrumento. tecidos. A clonagem humana para fins reprodutivos foi objeto de extensa discussão mundial e objeto de legislações restritivas nacionais e internacionais. Clonagem Humana 2 As células-tronco adultas são encontradas no ser humano. conseguir um embrião clonado para ser transferido a um útero e levado a termo. gerar alguns tipos de células-tronco. Se. “fabricada” em 1997. artrites.Quando a clonagem de mamíferos começou. por uma série de motivos que os cientistas não entendem muito bem. Nesse caso. Esses embriões foram descartados. Há uma tendência mundial à aceitação da clonagem terapêutica. para produzir – no leite. de cada cem bezerras clonadas que nascem. como já foi visto. O resultado mais comum da clonagem de animais adultos é o aborto dos fetos.

pois trazia implícita uma tentativa de melhorar as bases sociais do Brasil. pobres. abriam novas perspectivas de controle da fecundidade das mulheres negras. o DGPI (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional). sem deficiência mental ou física e sem doenças). Tanto os testes genéticos pré-natais e seus resultados como a orientação dos responsáveis pelo aconselhamento podem facilmente se desviar em direção à eugenia negativa. indígenas e asiáticas. “de descendência nobre”. ao melhoramento racial/étnico”. Na década de 1960. é uma técnica que permite estudar e modificar o embrião antes de sua transferência ao útero. estatura e outros. espécie ou família”. Na época do nazismo. O termo eugenia deriva do grego eugenes e tem originalmente acepções ligadas às idéias de “bem-nascido”. Historicamente foram aproveitadas. A eugenia pode ser classificada genericamente em positiva e negativa. O fato de a humanidade ter reservas em relação aos casamentos consangüíneos. a eugenia adquiriu outras formas. A política imigratória do Estado brasileiro. Escolher o sexo do bebê pode ser considerado um direito reprodutivo? A eugenia positiva incentiva casamentos de indivíduos considerados superiores para fortalecer a raça humana por meio da seleção da população. pelos efeitos que possam ter sobre a descendência. A eugenia como melhoramento se expressa em múltiplas formas e mecanismos sociais e culturais e atravessa todos os tempos e todas as sociedades.estimulava a eliminação das raças/etnias consideradas inferiores. medidas como a esterilização de mulheres consideradas capazes de parir filhos “socialmente indesejáveis”. entre outros). a eugenia negativa Baseado nos resultados de testes genéticos e realizado por uma equipe de saúde. do qual já falamos. como os métodos contraceptivos hormonais. A manipulação da capacidade reprodutiva de mulheres foi uma violência eugênica dos sistemas escravistas nas Américas. as novas tecnologias de controle da fecundidade. “bem-concebido”. Estimula a reprodução dos indivíduos considerados os melhores (brancos. uma técnica eugênica. para praticamente “desenhar” o futuro indivíduo ao sabor de interesses e desejos individuais e coletivos. portanto. No caso do Brasil. da engenharia genética e da modificação genética humana estarão futuramente a serviço do . Essas formas são mais sutis e sempre ocultadas por trás do objetivo do bem-estar e da saúde. Médicos e biólogos especialistas em reprodução humana consideram que as modernas tecnologias da clonagem. encontramos a implicação das idéias eugenistas. ou seja. entre outros ramos. ao mesmo tempo em que respondiam a legítimos anseios das mulheres para evitar a maternidade obrigatória. escolher o sexo e os traços desejáveis. Em sentido mais técnico é um termo genérico surgido no século XIX – quando surgem as idéias eugenistas – para designar a ciência que “estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da espécie humana. uma das medidas de anticoncepção tomadas no país. doentes. é um exemplo de preocupação eugênica a ser destacado. ou seja. pode ser considerada outro mecanismo eugênico. No nazismo. Por exemplo. da engenharia genética. 2 2 Para refletir e discutir. por exemplo quando se falsificavam resultados de testes ou pesquisas para provar a superioridade genética de determinados grupos. em várias culturas. das diversas biotecnologias e das novas técnicas médicas de reprodução e sua associação com a genética. a eugenia positiva estimulava. o aconselhamento genético tem como objetivo explicar para as pessoas o risco de terem filhos com problemas genéticos. durante o Segundo Reinado. baseada na importação de mãode-obra européia. mulheres. por exemplo. Por meio dele é possível descartar embriões com defeito ou intervir para evitar alguma perspectiva de doença futura. que foram extremamente vulneráveis à esterilização cirúrgica. A eugenia negativa prega a eliminação dos indivíduos que sejam considerados inferiores e indesejáveis (alcoólatras. delinqüentes. como cor de olhos. Na própria história da genética. “de boa linhagem. o controle da natalidade atingiu durante muitos anos especificamente as mulheres negras. constituindo claramente. o casamento entre arianos loiros. Com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

isto é. O nanômetro (símbolo nm) é uma medida eqüivalente à bilionésima parte de um metro. o gene.) . comuns nos Estados Unidos. O doador recebe uma avaliação de seu estado de saúde. duas categorias incompatíveis de seres humanos: os naturais e os geneticamente ricos. segundo um biólogo molecular americano. ou Entre elas se Outras novíssimas tecnologias e de alto risco ou de impactos relacionadas com a biotecnologia se desenvolvem no mercado lançadas sem nenhum conhecimento e debate da sociedade seja. não um objeto. Os bancos de sêmen. obviamente. Para compreender esse conceito. Segundo propaganda de clínica de reprodução assistida na internet. pois seleciona candidatos saudáveis entre 18 e 40 anos. impostas sem qualquer tipo de discussão pública. são evidências da nova eugenia que pode estar presente nas técnicas complementares de reprodução humana. 1997. um fio de cabelo humano tem aproximadamente 80 mil nanômetros de espessura e uma molécula de D N A tem aproximadamente 2. por exemplo. voltados à geração de bebês “superdotados” ou que expressem o estereótipo de beleza propagado pela mídia. assista ao filme Gattaca: uma experiência genética. para serem utilizados em inseminações artificiais ou outras técnicas de reprodução assistida. com o objetivo de criar mecanismos organizados para desempenhar tarefas específicas. Columbia Pictures. uma medida da matéria. Enquanto a biotecnologia manipula também o pequeno – por exemplo. Quando se manipula o átomo da matéria. Para se ter uma idéia. inorgânica. Os materiais podem ser alterados drasticamente e mudar 30 31 Para refletir e discutir “Pague as mensalidades da faculdade com óvulos”. a nanotecnologia manipula a matéria inerte. incluindo exames sorológicos e espermograma. Aí você poderá visualizar a perspectiva de uma sociedade geneticamente organizada! (Direção: Andrew Niccol. A formação de um banco de sêmen implica. convém começar pelo que o antecede: nanotecnologia. o banco de sêmen “é seguro. o que sinaliza uma preferência desse mercado pela etnia que elas representam. referese somente a uma escala. Nano é uma medida. A nanotecnologia abrange um conjunto de técnicas usadas para manipular em laboratório a matéria. que farão doações anônimas”. possibilitando estabelecer. Jovens brancas e universitárias vendem seus óvulos para pagar seus estudos. diz um anúncio em jornal de faculdade norte-americana!!!! O que você pensa a respeito desse “mercado humano”? Vamos ao cinema! Quando tiver tempo. de prêmios Nobel. de modelos. Esses são outros exemplos da presença do critério eugênico nas técnicas complementares de reprodução humana. A matéria inorgânica. usando uma dimensão como o nano. acontecem coisas curiosas.“melhoramento” da humanidade. Isso leva a concluir que essa proposta é por si mesma eugênica. a molécula de DNA. no nível dos átomos e moléculas que a constituem.5 nanômetros de largura. apresenta nesse nível propriedades que não tem quando aparece em tamanho maior. Estados Unidos. isto é a vida –. viva ou não-viva. Criaram-se bancos de sêmen de homens de elevada inteligência. incertos e são civil. insere a bionanotecnologia. a existência de um controle de qualidade e de uma lista de preferência na escolha dos doadores. Eles mantêm espermatozóides congelados em nitrogênio líquido por tempo indeterminado.

No Brasil. Imaginem dispositivos médicos com capacidade para circular na corrente sangüínea e detectar e reparar células cancerígenas antes que se estendam. os pesquisadores e logo. atravessando a pele. cosméticos. com materiais mais leves. Exemplos do que se pode observar com esse tipo de manipulação: já foi produzido um arroz experimental. oferecer maior resistência. não-regulamentados e de origem não mencionada nos rótulos. A “matéria-prima” da nanotecnologia são elementos químicos tanto da matéria animada (viva) quanto inanimada. plásticos não-inflamáveis e mais baratos. por exemplo. o mesmo acontece com o algodão. com poder de neutralizar produtos químicos altamente tóxicos ou outros tipos de poluição urbana e industrial. A bionanotecnologia poderá dar lugar. estão em andamento experiências com novo material da área têxtil. como os materiais mais importantes em nanotecnologia. aos OGMs. como se fossem blocos. incluindo alimentos. ganhar mais elasticidade. de novos microscópios. que é macio. à realização de procedimentos para administração de remédios e à criação de sistemas de observação miniaturizados. uma pelagem que retarde a ação do fogo. Isso traria sérias conseqüências econômicas para os países que vivem da comercialização da borracha natural. favorecendo o desenvolvimento dos países mais pobres? As implicações dessa tecnologia deveriam provocar um debate público? Que atores sociais deveriam estar envolvidos? 32 33 . a barreira de sangue do cérebro e a placenta. o carbono na forma de grafite (como o do lápis). o que favoreceria seu uso em grande escala. organismos e produtos híbridos resultarão. Mas isso diminuiria a pobreza. conduzir mais eficazmente a eletricidade. óleo e até graxa. o óxido de zinco. para que não possam ser comidas pelos insetos. Essa característica da matéria manipulada em nível nano fez com que os cientistas. assim. Os investimentos em nanotecnologia no mundo foram estimados em 8. a borracha por material da nanotecnologia. em 2004. Poderão ser fabricadas plantas mais duras. e são acompanhados de uma corrida pelo patenteamento (veja adiante texto sobre patentes) e monopolização de nanoprodutos e nanoprocessos.de cor. de materiais para regeneração de ossos e tecidos. Em medicina. A união da engenharia genética e da nanotecnologia ou a chamada bionanotecnologia pode dar lugar a novas situações assustadoras e de impactos inimagináveis. pneus mais duráveis. da fusão desses materiais que podem se multiplicar desordenadamente e sem controle. agrotóxicos. As conseqüências dessa associação para a saúde e a biodiversidade são desconhecidas e implicam inimagináveis ameaças futuras para a humanidade Para refletir e discutir Defensores do uso dessa tecnologia dizem que os produtos fabricados a partir dela teriam um custo menor. o mapeamento do genoma humano associado à nanotecnologia sugere um futuro no qual o tratamento médico poderá ser muito diferente do que é hoje. incrustando-se no tecido pulmonar. sem perder as características de frescor e “respirabilidade”. As promessas da biotecnologia estão vinculadas a nanopartículas associadas ou não. os nanotubos podem conferir uma resistência 50 a100 vezes maior que o aço. A manipulação da matéria em nível nano permite a construção de novos materiais por átomos. pois elas são tóxicas. e uma porta de carro com proteínas incrustadas nela mesma para se auto-reparar depois de uma colisão. combustíveis e muito mais. pode se tornar mais resistente que o aço! Existem dois tipos de nanotubos de carbono (fibras com menos de 100 nm de diâmetro): os de única camada e os de múltiplas camadas. De que forma? Imaginem partículas minúsculas que possam “fritar” tumores de dentro para fora. movem-se para dentro do corpo humano e podem passar pelo sistema imunológico sem serem percebidas. remédios tipo “bombas inteligentes” que só explodem sobre seus alvos e moldes refinados que possam conduzir à regeneração de tecidos. que podem ser usados das mais diversas maneiras e para a produção dos mais variados materiais. Estima-se que 720 produtos contendo partículas em nanoescala. entre outras coisas. que tem a mesma textura do algodão mas adquire muito maior resistência. que é normalmente branco e opaco. os empresários das grandes corporações pensassem imediatamente na perspectiva de criar novos materiais e lançar novas possibilidades no mercado. introduzindo-se nele um átomo de hidrogênio para mudar sua cor. a exemplo dos brinquedos tipo “lego”. Trata-se de um tecido que repele líquidos e evita manchas de água. entre outros produtos. já estão comercialmente disponíveis. Quando se combina material biológico com material não-biológico. trabalhado em nanoescala. Há sérias preocupações com o efeito das nanopartículas de produtos que se consomem. atomicamente manipulado. claro. hoje em dia. feitas por universidade pública em parceria com empresa privada. protetores solares. à produção de kits de autodiagnóstico. torna-se transparente. para aumentar a vida dos pneus. que serão dirigidas pelos seres humanos e terão a propriedade de auto-reprodução. A nanotecnologia poderá ser aplicada às indústrias automobilística e aeronáutica. como. Novos sistemas vivos. entre outras características. podem-se criar novas espécies de criaturas (as máquinas híbridas).6 bilhões de dólares. Descritos. com a fabricação de uma fibra manipulada em nanoescala. afetando o meio ambiente e a saúde humana. Esses novos materiais pretendem substituir os naturais.

622 aves. ela é a base de sustentação da vida. 516 espécies de anfíbios. como parte da chamada biopolítica. faz parte do patrimônio de uma nação ou dos povos e é produto de milhões e milhões de anos de evolução. nossa flora conta com 390 espécies de palmeiras e 2. em resumo. a não-preservação da biodiversidade do país significa prejuízo enorme para nossa população. mas a designação biodiversidade surgiu nos Estados Unidos apenas em 1988. Portanto. Muitos dos produtos utilizados pela sociedade contemporânea – como alimentos. fibras. . os seres humanos e toda sua variedade genética. e não pelos ecossistemas. mais de 522 espécies de mamíferos (um em cada onze espécies no mundo). pesqueiras e florestais. ou variedade. A importância da biodiversidade e sua integração à biopolítica explica-se. a biodiversidade carrega consigo a inteligência de três bilhões e meio de anos de evolução e de produção de diferentes formas de vida.010 espécies de vertebrados. O que significa biodiversidade? Significa a inestimável diversidade. Representa um imenso potencial de uso para a saúde humana. porque: . Constitui uma das propriedades fundamentais da natureza. . e . O interesse do mercado pelos produtos. Preocupa que esteja sendo deteriorada. O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo e muitas de suas espécies são exclusivas. 3. gera estratégias de exploração da biodiversidade em tempo muito menor do que aquele que se leva para manter ou preservar o meio ambiente. o amendoim. 3 3 As empresas de biotecnologia. incluindo a flora. em resposta à importância crescente do tema na segunda metade do século XX e sua inserção na pauta do debate político internacional. a fauna. A deterioração do solo pelo uso de produtos químicos e pelo desenvolvimento da lavoura de transgênicos terá conseqüências nefastas sobre a diversidade de plantas. colocando em jogo sua subsistência.. 468 répteis e 516 anfíbios. as atividades de extrativismo florestal e pesqueiro empregam mais de 3 milhões de pessoas e grande parte dos brasileiros utiliza-se de plantas medicinais na solução de problemas corriqueiros de saúde. devido ao impacto das atividades da relação do homem com a natureza. . assunto que abordaremos também nesta cartilha. científico. produtos farmacêuticos e químicos. Como afirmou um biólogo visionário. Fonte potencial de imensas riquezas. o caju e a carnaúba. O abacaxi. enquanto responsável pelo equilíbrio e pela estabilidade dos ecossistemas. genético. entre outras. da vida no planeta Terra. a castanha-do-pará. os grandes ecossistemas. A mudança do ecossistema vem prejudicando as atividades agrícolas. social e cultural. entre outros – pertencem à biodiversidade brasileira e fazem parte das principais fontes de informação para o desenvolvimento da biotecnologia. que é o assunto central desta publicação. são espécies de plantas originárias do Brasil que atraem sempre o interesse econômico das grandes corporações multinacionais. a mandioca. óleos naturais e essenciais. u m . A noção de variedade da vida e o esforço de classificação dos organismos vivos e das espécies são muito antigos. que acarreta o aumento crescente da taxa de extinção de espécies. Alguns exemplos: nossa fauna apresenta 55 espécies de primatas (24% do total mundial). os microorganismos. pecuárias.300 de orquídeas.000 espécies de peixes de água-doce. No Brasil. Sua não-preservação trará conseqüências negativas do ponto de vista ecológico. que fazem parte de grandes corporações multinacionais. totalizando três vezes mais que qualquer outro país no mundo. 3. em seus mais diferentes níveis de organização e interação. 1. parecem .

cujo significado é similar ao de “desertificação”. Não devemos nos esquecer de que as ameaças à biodiversidade pela contaminação genética. o termo engloba as diversidades cultural (cada cultura constrói relações com os ecossistemas de modo a criar nichos de saberes que lhes possibilita a sobrevivência). elas provocam o que se chama de “erosão genética”. as castas mais baixas. nosso riquíssimo patrimônio natural. e a Lei de Cultivares (9. Mais da metade da população da Índia vive abaixo da linha da pobreza e impedir a atividade agrícola. é uma questão de vida e morte para muitos. até mesmo da espécie humana. dos camponeses e dos imigrantes formam um mosaico social diverso estreitamente relacionado com a biodiversidade. A degradação ambiental e a conseqüente extinção dos animais só poderão ser evitadas por meio de ações preservacionistas concretas de todos nós. A contaminação genética e a clonagem de recursos biológicos vegetais e animais são grandes inimigos da biodiversidade. As pautas e valores culturais e as formas de vida e trabalho dos povos indígenas. Ao artificializarem e homogeneizarem as sementes e ao imporem os OGMs (organismos geneticamente modificados). no caso. que cria direitos de propriedade intelectual sobre variedades de plantas comerciais. A abertura do mercado brasileiro às sementes e produtos transgênicos. Quando falamos nos seres humanos. A poluição indiscriminada da fonte de água subterrânea feita pela Coca-Cola é um grande problema de longo prazo. em poucas décadas. A Lei de Patentes (9. Isso porque a biotecnologia tende a criar monoculturas de árvores geneticamente modificadas em grande escala e seres vivos padronizados. pelos efeitos do uso de procedimentos e de produtos biotecnológicos e por outros fatores se acrescentam também a questões da sociobiodiversidade humana.795. limpar as fontes de água subterrâneas por meio da tecnologia. A alternativa é instalar o encanamento de água tratada em suas casas e pagar pelo consumo. 3 3 . populacional e dos ecossistemas. A escassez de água e a poluição do solo e da água originados pela Coca-Cola resultaram diretamente na quebra das colheitas – levando milhares de pessoas na Índia à perda de sua sobrevivência. como se viu ao abordarmos as biotecnologias de reprodução humana.456/97). Nossa omissão nos coloca sujeitos a perder. antes de tudo. que regula a propriedade industrial. A sociobiodiversidade humana diz respeito à complementaridade entre diversidade cultural e biológica. os trabalhadores de baixa renda e os trabalhadores rurais fazem parte desse mosaico e se vêem prejudicados pelas ações das grandes corporações multinacionais no campo das bios. é obrigatória atualmente em todos os níveis de ensino de nosso país. onde quer que seja no país. Pensar em preservar a biodiversidade significa reconhecer a diversidade humana e sua estreita relação com todas as formas de vida que devem ser conservadas. sobre os ambientais e sociais. e uma nova forma de poluição – a poluição genética –. e a planejar a organização dos seres vivos.estar empreendendo uma corrida aos “garimpos” genéticos antes que estes acabem. é exemplo do modo como prevalecem os interesses empresariais e. “empurrada” pelo Legislativo e pelo Executivo. o que a maioria das pessoas não tem condições de fazer. das empresas transnacionais. É extremamente difícil. reforçaram a submissão dos recursos biológicos e genéticos à lógica do mercado.279/96). A água e a terra são centrais para a agricultura e mais de 70% dos indianos vivem de alguma atividade relacionada à agricultura. Em sentido amplo. senão impossível. só nos restando guardar na memória as imagens daquilo que pudemos conhecer. A maioria dos membros das populações atingidas pelas práticas indiscriminadas da Coca-Cola faz parte também de algumas das comunidades mais marginalizadas da Índia – populações indígenas. de 27 de abril de 1999. e as futuras gerações estão agora sujeitas a consumir água poluída. a propósito. devemos ressaltar sua variedade genética e a importância desse fato em relação harmoniosa com o ecossistema. que causa sérios danos ao meio ambiente. envolvendo a prática de uma educação ambiental abrangente e efetiva que. conforme a Lei 9.

. . o direito de decidir de que modo se beneficiarem e participarem ou não de tal desenvolvimento. . junto com suas crianças e maridos. recursos genéticos e conhecimento. de 3 O termo “biopirataria” foi lançado em 1993 pela Rafi (Rural Advancement Foundation International)... com a intenção de provocar uma reflexão e alertar sobre os seguintes fatos: recursos biológicos e conhecimentos indígenas sobre o uso de boa parte destes estão sendo colhidos e patenteados por empresas multinacionais e instituições científicas.. Eles criam o chamado “deserto verde”. favorecendo a monocultura . causando dano ao meio ambiente e à qualidade vida das populações A transnacional Aracruz Celulose colocou em operação 27 tratores para destruir uma área da Mata Atlântica do Espírito Santo que apresentava avançada regeneração. ONG hoje conhecida como ETC-Group (Grupo de Ação sobre Erosão. . Você sabia. para deter o processo de desmatamento que já havia destruído 50 hectares da vegetação natural. ainda não existe uma definiçãopadrão para esse termo.. que vende de detergente a sopa em pó para um de seus laboratórios na Inglaterra. Genericamente significa a apropriação indevida e a monopolização por indivíduos ou instituições de material orgânico. As raízes penetram nos lençóis freáticos prejudicando o abastecimento de água das regiões. terminou em abertura de inquérito para apurar suspeita de biopirataria com envio ilegal de patrimônio genético brasileiro para fora do Brasil.. A empresa não contava com a reação de mulheres camponesas que.. o que é biopirataria? Por enquanto. sua estreita relação com todas as formas de vida que devem ser conservadas e compreender os significados dos impactos do sistema econômico sobre a população. assim.Pensar em preservar a biodiversidade significa reconhecer a diversidade humana. é uma ameaça à biodiversidade. que a biopirataria pode ser praticada via correio? “Biopirataria via SEDEX” é a manchete de um jornal brasileiro! O que seria apenas uma caixa de documentos de uma empresa com sede no Brasil. 3 Discuta. este último gerado sobretudo por comunidades indígenas e de agricultores.. O eucalipto. que haviam conseguido resistir e crescer em meio ao plantio de eucaliptos. Então. se colocaram na frente das máquinas. arriscando suas vidas. uma vez plantado não e possível retomar a fertilidade da terra. Foram abatidas árvores nativas com mais de 6 metros de altura. por exemplo. As comunidades locais e tradicionais que há séculos usam esses recursos e geram esses conhecimentos perdem. Tecnologia e Concentração). a atitude da empresa Aracruz e a ação das mulheres camponesas diante da ameaça de desmatamento.

Só este ano (2006). Consultados pela imprensa. 1 Jaborandi. a copaíba. são privatizados (isto é. o ayahuasca.034 apreensões. 20-31 mar. Se a empresa decidir cancelar toda a sua produção do jaborandi ou começar a sintetizar o produto de forma mais econômica. A empresa multinacional Merck detém a patente do processo de isolamento da Alkaloida pilocarpina. com 1. cujos tentáculos abrangem inúmeros setores da produção e do conhecimento (armas. Esses recursos e o conhecimento. da pele. negaram que o órgão tenha recebido qualquer pedido da parte do cientista para fazer coletas em águas brasileiras. a andiroba. mercenários dos mares. sapo verde e o sangue de ianomâmis. Disse Alejandro Argumedo. uma grande empresa ou corporação) por meio do registro de marcas e patentes. a partir de culturas in vitro dessa planta. os povos indígenas que originalmente coletavam o jaborandi perderá sua única fonte de renda. aquele que representa interesses de grandes empresas nacionais ou internacionais e age fora das legislações dos países ou tira proveito da situação quando não há legislação ou nenhum tipo de controle social sobre esse aspecto. Fonte: ETCGroup. os ladrões lhe dizem que não se preocupe.831 espécimes da fauna que estavam sendo retirados do país. dos cabelos.583 partes de borboletas. animais e até à humana. alimentos. O biopirata moderno não necessita ter a banda preta no olho. das plantas. Sakata (Japão). passam a ter um dono. com 2. 2005 0 A apropriação ilegal da vida pelos biopiratas alimenta o mercado mundial com substâncias que vêm direta ou indiretamente da natureza e também serve de base para as pesquisas dos grandes laboratórios internacionais. medicamentos. na Lista Oficial de Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção. A extração em grande quantidade sem um adequado plano de manejo colocou a planta. das diferentes espécies a serviço e em benefício de grandes corporações multinacionais. conhece as florestas. As borboletas lideram a lista. seguidos por besouros. trabalha nos laboratórios das universidades e realiza o contrabando de várias formas de vida da flora e fauna. 768 frascos com conteúdo vegetal. ligado ao Ministério do Meio Ambiente. na verdade. animais e da humana visadas pela biopirataria são o cupuaçu. Land O’Lakes (Estados Unidos). Syngenta (Suíça). para usá-la no tratamento do glaucoma. Um biopirata moderno. que organizou coleta de amostras de microorganismos marinhos da costa brasileira com financiamento de 12 milhões de dólares pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos. Aranhas e escorpiões estão entre os mais cobiçados. Ao caminhar até a porta. é expectorante e atua contra a calvície e as artrites. portanto. o Ibama apreendeu 5. Até uma cigarra foi vítima da cobiça de colecionadores. é o geneticista Craig Venter. pois ele é uma pessoa comum. no sistema capitalista atual. KWSAG (Alemanha). aparentemente partes de uma planta. prometendo que vão dividir o lucro que obtenham ao vender o que antes era seu” (COP 8 Boletim Diário. O biopirata é. Também foram encontradas 1. 2006). A biopirataria é uma prática ilegal estimulada e fundamentada no neoliberalismo global. Dupont/Pioneer (Estados Unidos). Merck (Alemanha). Jaborandi (Pilocarpus pinnatifolius). que roubavam pedras preciosas e especiarias a serviço de impérios e reinados que procuravam estabelecer seu poder. induz o suor e a salivação. e foi transformada em remédio (Salegen) para a dificuldade de salivar. Em segundo lugar estão os grilos. do sangue. 949. Exemplos de espécies vegetais. De ocorrência natural entre o Pará e o Maranhão e que aparece também no cerrado brasileiro. trazia. incluindo diferentes formas de vida. Atualmente existem os biopiratas. produtos. Entre as espécies citadas no texto. sapo verde e sangue de ianomâmis. que se apropriam dos chamados “recursos genéticos”. ou seja. selecionamos uma de cada reino natural para abordar as implicações da biopirataria em sua exploração. procedimentos medicinais etc). desde 1992. grilos esperança (15) e minhocas (13). declarado aos Correios apenas como “documento”. representantes do CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético).O pacote. entre outros elementos. o açaí. o Jaborandi. Já foram encontradas pelos Correios embalagens com aranhas e escorpiões indo do Brasil para a Alemanha e a França. o jaborandi. Outrora existiam os piratas. cosméticos. Essas corporações (algumas das quais estão listadas abaixo para ilustração) são verdadeiros “polvos”. Os recursos que interessam às indústrias podem ser material pertencente às espécies vegetais. para o aproveitamento das sementes. No comando dos biopiratas: Monsanto (Estados Unidos). Bayer Crop Science (Alemanha). que tira seu passaporte e faz turismo. e conhecimentos de comunidades nativas de diferentes países. Em menor número foram detidas encomendas com larva de besouros (50). indígena e ativista quéchua peruano: “Os contratos de repartição de benefícios são como despertar no meio da noite e ver que estão roubando sua casa.084 registros de apreensão. publicada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos . entre outras propriedades. por exemplo. especializados em surrupiar espécies da fauna e da flora. Groupe Limagrain (França). aquela matéria íntima da vida cujo conhecimento pode ser transformado em mercadoria.

o que representa passo inédito na discussão sobre apropriação de material genético e no estabelecimento de regras mais claras de conduta ética em pesquisas científicas. (Diversidade Genética Humana) cujo objetivo era coletar amostras de sangue. a planta vem sendo extraída em grandes quantidades da natureza para uso de laboratórios estrangeiros. conseguindo. As poucas áreas de cultivo regular são controladas por laboratórios multinacionais. cabelo e pele de grupos indígenas de todo o mundo que pudessem apresentar variações genéticas capazes de lhes conferir maior ou menor resistência a certas doenças. sobre as propriedades dessa secreção. Qual o interesse de extrair sangue dos Ianomâmis sem seu consentimento e armazenar em um banco de DNA fora do país? Outro exemplo conhecido de biopirataria humana foi o das células de uma mulher Ngobe (indígena panamenha). usada para reforçar o sistema imunológico e controlar diversas doenças. Nos últimos anos. Para refletir e discutir Quais os objetivos de transformarem as sementes em propriedade privada (das grandes corporações multinacionais) e de as tornarem estéreis ou misturá-las com genes de outras espécies? Quais os pontos em comum entre os temas da Biodiversidade e o da Biopirataria? Em que se aproximam e em que se diferenciam? 2 3 Discuta. Pesquisas científicas vêm sendo realizadas. Há anos. O conhecimento com o qual é possível favorecer a produção de remédios para o bem da humanidade pode ser considerado simplesmente uma propriedade dentro do sistema capitalista.Naturais Renováveis). em colaboração com a empresa farmacêutica Zymogenetics. o material genético começa a ser recuperado pelo Ministério Público Federal. Não existem planos para reposição dos exemplares retirados da região. que já tinha investigado e patenteado substâncias da rã Epipedobates tricolor. Esse projeto foi duramente criticado. desde a década de 1980 ou até mesmo antes. a facilidade de se registrarem marcas e patentes em âmbito internacional e os acordos internacionais sobre propriedade intelectual multiplicaram as possibilidades de tal exploração. Foi colhido por pesquisadores norteamericanos e brasileiros. Sangue de Ianomâmis do Brasil e da Venezuela. produz uma secreção cutânea que serve para fazer a chamada “vacina do sapo”. Os dados que levaram às patentes procediam do Projeto HGDP . finalmente. A Universidade de Kentucky (EUA) está pesquisando (e patenteando) uma das substâncias encontradas na secreção do sapo verde. sem que os doadores tenham sido informados dos objetivos do procedimento e dado seu consentimento informado. Sapo verde (Phyllomedusa bicolor). que a Unesco e outras instâncias o condenassem publicamente. utilizada tradicionalmente pelos povos indígenas do Equador. Amostras foram levadas do Peru por um pesquisador norte-americano. em nome de suas tradições relativamente aos pertences dos mortos. A geração atual dos Ianomâmis doadores reivindicaram a devolução das amostras colhidas. Depois de quatro anos de investigação. uma mercadoria que tem um dono e é comercializada como qualquer objeto no mercado. Encontrado na Amazônia. fazendo referências a melhorias nas condições de saúde e a uma distribuição de mercadorias em troca. entre os quais grupos indígenas considerados em perigo de extinção. para estudo do DNA. que foram levadas para os Estados Unidos por mostrarem resistência particular a certos tipos de leucemia. O projeto havia detectado 722 grupos “interessantes”. Os anciãos ianomâmis de Toototobi (próximo à fronteira com a Venezuela) relatam que a coleta de sangue foi realizada após apenas um discurso vago dos pesquisadores sobre suas intenções. Trabalhos sobre as propriedades da secreção também foram publicadas por pesquisadores franceses e israelenses. o avanço da biotecnologia. durante as décadas de 1960 e 1970.

as leis brasileiras não permitiam patentes de seres vivos ou de seus componentes. ou seja. produtos alimentares. Para refletir. não estamos. uma peça de roupa. digamos. ou seja.279/97. como o sangue e a pele. é utilizado como matriz de pesquisa. e de as informações Trata-se de um documento formal (chamado carta-patente no Brasil) expedido por uma repartição pública. Entre 1981 e 1995 foram concedidas. genéticas dos seres vivos terem passado a ser conhecimento privado. uma geladeira. em todo o mundo. deve-se comprar. Um exemplo de patente recentemente registrada é a da tecnologia Terminator. sem limites éticos para sua manipulação. genes) e do conhecimento nisso envolvido em mercadorias. Como está patenteado. O espanto (ou o encantamento) que na realidade têm tomado conta da sociedade nas últimas décadas deve-se ao fato de a matéria biológica ter se tornado matéria-prima para a indústria. Esse documento garante ao portador (o inventor ou a empresa patrocinadora do invento) a exclusividade de exploração do objeto da invenção pelo período máximo de 20 anos e. 1. aplicável a plantas e sementes de todas as espécies. A patente dessa tecnologia é abrangente. uma tevê. Hoje é possível patentear medicamentos. assim. mas algo que resultou da manipulação da vida. como. da natureza e de nosso lugar nela. cai em domínio público. a partir do momento em que se encerra esse prazo. pagar as taxas estipuladas a quem inventou o processo. por exemplo? Antigamente. em capital e se tornaram uma base da nova economia. da qual já tratamos. nesse caso. Uma parte de nós poderia ser considerada de propriedade de alguém? O que é patente? A informação e a matéria genética transformaram-se. que permite patentear microorganismos transgênicos. incluindo as transgênicas. O saber sobre a vida ou a natureza em sua íntima essência. ou seja. nesse caso. em seus recursos genéticos. A patente de material genético humano ou de seres vivos muda a compreensão que temos de nós mesmos. nossa e de todas . os microorganismos e animais geneticamente modificados e outros produtos e processos da biotecnologia. comercialização e consumo. processo de fabricação ou de aperfeiçoamento de algum já existente. mas em 1997 foi aprovada no Brasil uma nova lei sobre patentes – a Lei 9. que reconhece o direito de propriedade e uso exclusivo da invenção de um produto. e as condições hoje possíveis de manipulá-la e mudá-la levam à transformação da matéria orgânica (células. Para que outras pessoas possam usar esse invento/conhecimento são necessários uma autorização e o pagamento de uma taxa (royalty) ao inventor ou ao dono da patente pelo uso dos produtos patenteados. Grandes empresas estão na lista das que possuem patentes dessa tecnologia. O rato que foi modificado geneticamente e que contém um oncogene.175 patentes para seqüências de DNA humano.as espécies. Mas a possibilidade de patentear seres vivos criou uma grande dúvida: é possível existir patentes de componentes dos corpos dos seres humanos. colocando em circulação mais um artefato inédito. Como seres humanos. Opera-se. um gene que produz câncer. produção. a privatização do conhecimento por meio de patentes.

foram vendidos a empresas privadas. No entanto.A empresa norte-americana Myriad Genetics possui a patente dos genes do câncer do seio BRCA 1 e 2 pelos próximos 20 anos. de difícil controle social. Reflita e responda. Os bancos de DNA de populações inteiras. portanto. Quando podemos dizer que estamos “biosseguros” com esse tipo de tecnologia altamente invasiva e manipuladora? Alguns riscos podem ser previsíveis e. Pode aproveitar e estabelecer o preço que quiser pelo uso desses genes para pesquisa.. a facilidade de se registrarem marcas e patentes em âmbito mundial. e . a Lei n.  Em vários países do mundo. bem como com os acordos internacionais sobre propriedade intelectual. como as da Islândia e de Tonga. é ilusório pensar que seja possível estabelecer uma biossegurança total ou de risco zero por vários motivos: . As características dos vários setores que fazem parte da biopolítica. Nos últimos anos. . multiplicaram-se as possibilidades de exploração tecnológica dos recursos genéticos. Entre os genes humanos e linhagens celulares patenteados e vendidos por empresas estão alguns roubados de povos indígenas de várias partes do mundo. a biossegurança é regulada por um conjunto de leis que ditam e orientam a forma de condução das pesquisas tecnológicas. Ainda existe o fato de que populações tradicionais estão perdendo o controle sobre os recursos genéticos com os quais sobreviviam e resolviam seus males. refere-se a riscos de processos envolvendo OGMs.105. Os conflitos entre agentes econômicos. O conhecimento em geral sobre a vida em todas as suas formas é um bem comum de todos?ou ele pode ser patenteado?  Biossegurança é a ciência voltada ao controle e à minimização de riscos inerentes à prática de diferentes tecnologias. de 24 de março de 2005. as sementes agrícolas foram produzidas e melhoradas por gerações de camponeses de todo o mundo para fins medicinais e para a alimentação. com o avanço da biotecnologia. E alguns deles só poderiam ser percebidos depois de ter comprometido e mudado geneticamente várias gerações de plantas ou animais. são absolutamente desconhecidos. alimentos transgênicos e engenharia genética. Como garantir a segurança do meio ambiente e da saúde diante da possível contaminação pelos OGMs? Estes resultam de uma tecnologia incerta e insegura. com o pretexto de lhes oferecer assistência médica. por meio até do uso de força física. buscando tornar mais seguros os avanços dos processos tecnológicos e tendo como prioridade proteger a saúde humana e animal e o meio ambiente. razoavelmente controláveis. No Brasil. mas outros. Durante 10 mil anos. . os das tecnologias mais complexas. As características de tecnologias como a biotecnologia genética e a nanotecnologia.o 11. como a bionano. sobretudo os relacionados ao meio ambiente.

a multinacional responsável por essa contaminação entrou na Justiça acusando-o de violar sua patente. no campo da biodiversidade. Nesse sentido. que incerteza significa que há “possibilidades” de ocorrerem danos. universidades etc. e não diluídas ou mesmo escondidas sob um discurso que dá ênfase apenas às diversas formas de controle dos riscos. coloca no palco das NTRc e G as preocupações com a falta de ética nos procedimentos e a forma como são rapidamente banalizados. por exemplo. os próprios especialistas reconhecem a ignorância da ciência em relação aos efeitos colaterais do ICSI ou do DGPI sobre a saúde do bebê a longo prazo. de alguma forma. Ou seja. independentemente da área de aplicação. Há um caso muito interessante de um agricultor canadense que teve sua lavoura contaminada com canola transgênica. até mesmo porque a maior parte deles é desconhecida. em termos da saúde reprodutiva da mulher. que transportam o pólen das flores de plantas transgênicas. um conceito que parece mais adequado para quem quer minimizar os danos e manter a noção de segurança. hemocentros. também. por exemplo. se os riscos e a questão da biossegurança só podem ser analisados do ponto de vista da tecnologia e da ciência. A ICSI. em sua maioria. talvez o termo “biorrisco” seja mais efetivo para se pensar na administração das incertezas presentes em determinado procedimento ou processo. Deveria estar claro. As clínicas podem estar ajudando a transmitir uma doença genética ou uma disfunção reprodutiva. a contaminação pode ser causada por insetos ou pelo vento. Sabe-se das inúmeras tentativas realizadas para se conseguir a clonagem animal. Surpreendentemente. que incluem a hiperestimulação dos ovários para se conseguirem mais óvulos? As possíveis implicações da segurança biológica se relacionam com os riscos das aplicações cada vez mais crescentes da nanotecnologia e com seus impactos. É possível garantir a segurança nos procedimentos biotecnológicos. o desconhecido é desconhecido. deveria significar que os danos e a probabilidade de que eles ocorram são conhecidas. beneficiamento. mas ainda não foi possível calcular quais são as probabilidades. Empresários. que abordamos no item Biotecnologias. agora mais recentemente e ainda em estudo. A administração das incertezas traz. transporte e armazenamento de transgênicos. Poderia ser possível pensar que um procedimento. à nanotecnologia não implica preocupação somente com as pesquisas. governos e pesquisadores esforçam-se para proteger a sociedade e cuidar do futuro. subordinados aos interesses econômicos. Para assumir uma atitude crítica. para que elas possam ser debatidas. rótulo da biossegurança. em que mais de 200 foram feitas antes de se conseguir o clone da ovelha. ético ou social? Para terminar. Vale indagar. visto que ainda há muitas incertezas e ignorância sobre os efeitos do uso dessa técnica. criada pela própria lei. talvez seja mais correto pensar no biorrisco das biotecnologias do que propriamente na biossegurança. no campo da biossegurança. laboratórios de saúde pública e de análises clínicas. em vista da falta de estudos consistentes a respeito. hospitais. Esses riscos não têm sido suficientemente analisados. no uso de substâncias ou procedimentos genéticos nas tecnologias de reprodução humana. em futuro próximo. As incertezas devem ser levadas em conta pelas instituições que desenvolvem e aplicam novas tecnologias. ficamos com uma outra importante indagação: onde está efetivamente a sociedade civil? Quais as reais chances de controle social no campo da biossegurança?   Para refletir. Como já foi dito aqui. da medicina e do meio-ambiente. seria de alguma forma arriscado do ponto de vista moral. embora se diga que é “seguro” do ponto de vista da técnica. cultural. também. A noção de biorrisco foi oculta pelo . Diante da associação feita entre risco e perigo.. mas também com os riscos de contaminação do meio ambiente e do uso de substâncias. ainda mais num tempo em que estes se encontram. para o debate a questão das responsabilidades pela produção e uso de novas tecnologias. e até mesmo por máquinas. produtos. A palavra biossegurança aparece relacionada também ao contexto de indústrias. eles não podem garantir nenhuma segurança. Ou seja. como no caso Dolly. mas é preciso destacar que a biossegurança não pode ser uma questão de especialistas. alimentos e medicamentos modificados geneticamente no campo da saúde humana e da medicina. O uso do conceito de risco. O órgão regulador da lei é a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). A biossegurança ligada à biotecnologia e. utilizada no sentido da prevenção dos riscos gerados por inúmeros agentes envolvidos em processos em que o risco biológico se faz presente. caminhões ou silos utilizados na colheita. é ilustrativo que.bem como a questões relativas às pesquisas com células-tronco embrionárias.

A bioética apresenta várias vertentes de pensamento. o da responsabilidade. Em 1818. eram intensas e realizadas sem nenhum critério ético. os modos de ser. a engenharia genética e todas as técnicas de modificação da espécie humana parecem tornar possível a realização desse velho sonho humano. o mal ou o melhor.. cuja personagem central era o Dr. Hoje. o que é o bem. nos Estados Unidos. para diferenciar as preocupações. Há. Os estudiosos buscam sempre estabelecer os grandes princípios éticos que podem ajudar a determinar o certo e o errado. pois há muitas maneiras de se entender o que seja a vida. Nascida em 1970. a bioética se disseminou pela Europa. valores. as experiências de engenharia genética com microorganismos. a liberdade e o bem. normas e ações que buscam determinar o que está certo ou errado. natureza. serão ou não estabelecidos limites ou estes serão diferenciados para controlar a ação humana. um médico que. foi preciso antepor ao termo “ética” o prefixo bio. criar vida por meio da biotecnologia? Parece que o ser humano sempre sonhou se apropriar da natureza dos deuses. A palavra deriva de ethos (que também significa “casa”. Os valores. às experiências com animais e humanos. por exemplo. que dá lugar a outras teorias bioéticas. comportamentos. Potter. nos Estados Unidos. nós. e pela América Latina. 1 A ética é um saber desenvolvido na Grécia. dependendo do que se entenda por tudo isso. à engenharia genética. no meio ambiente e no futuro. seres humanos. às técnicas da reprodução. busca criar um ser humano ideal. Na década de 1970. . em vista das variações históricas das questões éticas. R. Vários estudiosos falam da necessidade de construir uma ética apropriada para a Era Tecnológica. na década de 1980. A sociedade. concepção de mundo e modo de agir. na de 1990. nos séculos VII e VI a. seus desafios e seus significados. cunhou o termo bioética – ética da vida ou ética do bios. buscar justificativas e fundamentos para poder responder à pergunta: podemos nós.A discussão da ética no campo da biopolítica ou da biotecnologia deverá ser tão intensa como intensos e inéditos foram os fatos provocados pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Por exemplo. em termos de valores. conhecimento e vida que tenhamos. Nisso observamos que. portanto. hábitos. mas há valores fundamentais (a liberdade. solidariedade e justiça. querendo ser Deus também e fabricar a vida. Dependendo da concepção de mundo. Nessa mesma década. variações. e. 0 Foi nessa época que o biólogo e oncologista norte-americano V. para explicar o mundo e as ações humanas de uma forma diferente de como faziam os mitos dentro do pensamento mágico-religioso.C. da justiça. da maleficência e da autonomia. Frankenstein. preocupado com o impacto da ciência e da tecnologia na qualidade da vida humana. a escritora inglesa Mary Shelley escreveu uma história. este ligado ao direito de autogoverno. em que ressaltam problemáticas que não existiam. a biotecnologia. incluindo médicos e cientistas. por exemplo) que perpassam toda a história da humanidade e permanecem perenemente nas sociedades. Existem. Mas esses não são os únicos princípios bioéticos reconhecidos nas diferentes teorias. os seres humanos podemos avaliar qual deve ser nossa conduta em relação ao meio ambiente. “morada”) e se refere aos costumes. bem como com seres humanos. manifestou sua preocupação com as conseqüências das experiências com bactérias em laboratório e com a perspectiva de liberação dos OGMs (organismos geneticamente modificados) no meio ambiente. enfim à biopolítica em geral. Um deles é o princípio da beneficência (o de fazer o bem). do atual estádio do desenvolvimento humano. o termo passou a ser usado pelo médico André Hellegers em referência mais restrita à pesquisa e à área de assistência à saúde. de pensar e de agir passam de uma geração a outra e a humanidade de tempos em tempos os revê na busca de responder a novas situações. recuperando um cadáver e injetandolhe vida.

formular críticas e questionar ou mesmo aceitar aspectos relacionados à ciência. empresários. a sociedade como um todo.). em tempos de grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia. e estabelece princípios e valores para agir do ponto de vista da relação entre as pessoas. à tecnologia e à informação. Surgiu. Seria isso possível? É importante refletir sobre qual conhecimento queremos que predomine. madeira. Assim. E não haverá nenhum impedimento de natureza ética para isso. realizar a reprodução humana em laboratório. para satisfazer pais que desejam ter filhos mais inteligentes. aquelas sobre as chamadas células-tronco de tecido embrionário ou aquelas de clonagem humana. disse numa entrevista que fazer bebês por via sexual será no futuro cada vez mais raro e que as preocupações éticas serão vencidas. A discussão sobre bioética. em suas fundamentações modernas. Se. simplesmente porque o estádio do desenvolvimento científico e tecnológico ainda não os permite. as ações sociais. engajar-se politicamente e tomar posições. deve ser feito? Você acha que tudo o que pode ser feito deve ser feito. Para refletir Um especialista em bioética da Universidade da Pensilvânia. e assim por diante. Nesse caso. Essa tarefa exige discutir os valores e a concepção de mundo que permitirão colocar limites aos abusos ou simplesmente rejeitar determinado tipo de desenvolvimento que coloca em risco o futuro da humanidade. nesta exemplificação. Trata-se de um campo da ética que permite levantar problemas. Se um embrião é considerado uma “bolinha” de 100 células. apresentando propostas de controle. seja para reprodução ou para obter células embrionárias para as células-tronco quando isso for possível tecnicamente. tendo em vista riscos e benefícios? Você acha que as considerações éticas devem ser levadas em conta antes de fazer? 2 3 . refletindo sobre seus significados. no plano da macrobioética. especialistas em bioética. poderá compreender a civilização na qual está inserida. dizem alguns. os seres humanos e todas as espécies vivas. Você pensa que a Bioética deve ser considerada um assunto de especialistas? Você acha que tudo o que pode ser feito. Existem. mas regulamentado. usar embriões para pesquisa e cultivar transgênicos). por exemplo. a “bolinha” de 100 células é como qualquer material trabalhado pela engenharia (ferro. por exemplo.A perspectiva ética dos fatos da vida ajuda a analisar os impactos da biotecnologia sobre a natureza. e não somente as instâncias de poder (cientistas. em favor de setores científicos. Essa avaliação pode ser feita do ponto de vista dos valores tanto mais gerais ou globais quanto individuais. igrejas etc. assim. resistência e mudança. sobretudo por meio das leis de patente. Podemos avaliar. quais os valores sobre a vida e a natureza que devemos preservar para garantir nossa identidade como humanos. econômicas e políticas nelas fundamentadas também o serão e terão efeitos diferenciados na história da Humanidade. se é moralmente justificável usar a tecnologia genética da reprodução para acrescentar 30 pontos ao QI de um futuro bebê. entre outros). no campo jurídico e das normas éticas. uma tendência a permitir e favorecer a apropriação e mercantilização da vida. atravessa todo o campo da biopolítica. Só por isso. governamentais e empresariais. Só não são possíveis experiências como. A bioética traça grandes rumos ou referenciais para agir do ponto de vista da sociedade e do global. portanto. supõe-se que esse pensamento obedece a uma posição (bio)ética que abre campo à realização de experiências sem nenhum tipo de reparo. nos últimos anos. os valores predominantes indicam que essa “bolinha de 100 células” é um “algo a mais” de natureza sagrada ou significa vida humana em potencial. material orgânico que serve de base para procedimentos de pesquisa. De modo que faremos a clonagem. a aplicação de duas vertentes (bio)éticas totalmente diferentes e. essa forma de pensar a vida não permitirá nenhum tipo de manipulação e utilização. ou ética da vida. entretanto. no plano da microbioética. Estados Unidos. e se tomou hegemônica uma vertente da bioética que se preocupa em liberar as perspectivas geradas pela biotecnologia (por exemplo. se é ético ou não desviar determinado trecho de um rio.

Reunião temática “O Paradigma Biotecnológico e seus Significados Globais”. realizada no Rio de Janeiro. Política e Sociedade. COPPE/UFRJ.O Ser Mulher. Apoio Fundação Heinrich Böll. realizada no Rio de Janeiro. Entre outras. Fundación Software Libre (ARG). Fiocruz. Observar e acompanhar criticamente como o tema é apresentado nos meios de comunicação em nível nacional. buscando formas de neutralizar as propagandas das multinacionais sobre os temas da biopolítica. Center for Genetics and Society (EUA). para que se possa interromper o ato danoso ao meio ambiente e à saúde. 2003 (parceria Ser Mulher e Fundação Heinrich Böll ). Center for Genetcis and Society. Elaboração de registro sobre o IV Congresso Mundial de Bioética. Criola). durante o Fórum Social Mundial de 2005. Simpósio Sob o Signo das Bios: Tecnologia. realizado no Rio de Janeiro. 2004. a Fundação Heinrich Böll e os parceiros que a seguir se mencionam vêm realizando ações sobre esta temática a partir de meados da década de 90. Criola. Grain e Fase). animal e humana). Reunião de criação do Grupo de Trabalho sobre Biopolítica. Alejandra (orgs). Propor ações populares ou civis. Criola. sobre a temática da Biopolítica. realizado em Brasília. Seminários durante várias edições do Fórum Social Mundial. entre outros. Rio de Janeiro. Propiciar a articulação de agentes sociais que atuam nas áreas próprias da Biopolítica para fortalecer a ação social e política da sociedade civil. Dar apoio às ações nacionais e internacionais da sociedade civil que apresentem uma visão crítica e propositiva acerca dessas tecnologias. Propor seminários e debates de aprofundamento de cada setor da biopolítica e de temas afins. constam as seguintes: Organização do Simpósio Bioética e Procriação Humana: Diálogos com o Feminismo. 2004 (parceria Ser Mulher e Fundação Heinrich Böll). Sob o signo das bios – Vozes críticas da sociedade civil – Reflexões no Brasil.   Investir na socialização da informação sobre Biopolítica por intermédio das instituições de ensino. Porto Alegre. fevereiro de 2005. Contribuir para a elaboração de uma legislação proibitiva nacional e internacional do uso da transgenia (vegetal. da clonagem humana e das tecnologias de modificação genética humana. para reconhecer e divulgar as tecnologias de alto risco e promover a conscientização sobre os perigos que as tecnologias podem representar. Ética. Universidade de Montreal (CAN). quando forem possíveis. de ONGs e de organizações que atuam especificamente em cada setor. Adelphi University (EUA). . Criola/Ser Mulher. 1996 (Ser Mulher. Rio de Janeiro. Acción Ecológica. dezembro de 2003 (parceria Ser Mulher e Fundação Heinrich Böll). Aprofundar o conhecimento das características de cada setor e de seus avanços e aplicações. Rede de Educação (SP). Movimento de Mulheres Negras (EUA). Seminário “Sob o Signo das Bios: Privatização da Natureza e do Conhecimento”. janeiro de 2005 (parceria Fundação Heinrich Böll. Discutir coletivamente a perspectiva de controle social e da regulamentação da biomedicina reprodutiva e das técnicas pertinentes em geral. Publicação de WERNECK. Ser Mulher. em parceria com a Fundação Heinrich Böll e demais ONGs e instituições Fase. I. Jurema e ROTANIA. vol.

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