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Anexo:Imprimir/Uma Campanha Alegre

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Uma Campanha Alegre
por Eça de Queirós

Índice
Volume I

Advertência

Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas.: Estudo social de Portugal em 1871

Capítulo II: Os quatro partidos políticos

Capítulo III: A abertura das conferências do Casino

Capítulo IV: O que era o partido Reformista

Capítulo V: Pastoral de um bispo

Capítulo VI: À câmara dos deputados, e a sua falta de princípios, de ideias, de
saber, de consciência, de independência, de patriotismo, de eloquência e de
seriedade

Capítulo VII: Os candidatos das Farpas

Capítulo VIII: A fisiologia da eleição para deputados

Capítulo IX: Habilitações necessárias para ministro.

Capítulo X: Os sete marqueses de Ávila

Capítulo XI: A multa municipal para o lirismo sentimental

Capítulo XII: A supressão das conferências do Casino

Capítulo XIII: Máximas e opiniões da Nação, jornal

Capítulo XIV: O discurso da Coroa, seu presente e futuro

Capítulo XV: Tumultos no Parlamento

Capítulo XVI: A grande coragem de S. Exª

Capítulo XVII: O exército em 1871

Capítulo XVIII: A marinha e as colónias

Capítulo XIX: Palavras a Samuel

Capítulo XX: O Governo e a liberdade de pensamento

Capítulo XXI: Oito razões por que se não reformou a Carta

Capítulo XXII: A Praça de Santana instalada no edifício de S. Bento

Capítulo XXIII: Os srs. deputados esquecem a mera decência material

Capítulo XXIV: Três dias de insultos no parlamento.

Capítulo XXV: O romance de uma lancha

Capítulo XXVI: Três tipos de revolução, à escolha

Capítulo XXVII: A praça de peixe do Porto, e o luxo da sua mobília

Capítulo XXVIII: Delícias de jornadear nos caminhos de ferro em 1871

Capítulo XXIX: A cólera do Centro Promotor

Capítulo XXX: As malas da Srª condessa de Teba.

Capítulo XXXI: O príncipe Humberto

Capítulo XXXII: Júlio Dinis

Capítulo XXXIII: Ter génio por escritura pública

Capítulo XXXIV: História pitoresca da revolta da Índia

Capítulo XXXV: A polícia

Capítulo XXX VI: Uma nova penalidade

Capítulo XXXVII: Os missionários e o seu ramo de negócio.

Capítulo XXXVIII: A nossa diplomacia em 1871

Capítulo XXXIX: As crianças e a Igreja

Capítulo XL: Visitas indiscretas entre Espanha e Portugal

Capítulo XLI: Os anos de el-Rei

Capítulo XLII: Pescadores presos por não serem jurisconsultos

Capítulo XLIII: Palavras ao Clamor do Povo

Capítulo XLIV: A Câmara Municipal e o seu zelo cívico

Capítulo XLV: S. M. a Rainha a passeio

Capítulo XLVI: A elegante casa de Sabóia

Capítulo XLVII: Espoliadores do cigarro público

Capítulo XLVIII: O fisco na província

Capítulo XLIX: Desilusões de uma greve

Capítulo L: O teatro em 1871

Capítulo LI: O Governo e a emigração

Capítulo LII: Conversa com o Bem Público

Volume II

Capítulo I: O Ano Bom de 1872

Capítulo II: Epístola ao Sr. Fontes Pereira de Melo, sobre o imposto do pescado

Capítulo III: O nosso melhor navio de guerra, o Índia

Capítulo IV: Epístola ao sr. bispo do Porto, a respeito dos maus sacerdotes

Capítulo V: Pinheiro Chagas

Capítulo VI: Incoerências eclesiásticas

Capítulo VII: A descentralização administrativa

Capítulo VIII: Acerca da redacção das portarias

Capítulo IX: História de um concurso

Capítulo X: O enterro dos ímpios

Capítulo XI: Autorizadas opiniões sobre o estado da administração pública

Capítulo XII: Cortesãos ou demagogos?

Capítulo XIII: As variadas reformas da Carta

Capítulo XIV: Pedro de Alcântara e D. Pedro II

Capítulo XV: A mala de um príncipe

Capítulo XVI: O idioma hebraico. Predilecção principesca

Capítulo XVII: Indumentária de Pedro na sala dos Capelos

Capítulo XVIII: O clero nos saraus do Paço

Capítulo XIX: A casa de Alexandre Herculano

Capítulo XX: Missiva a S. M. o Imperador do Brasil

Capítulo XXI: O brasileiro

Capítulo XXII: Melancólicas reflexões sobre a instrução pública em Portugal

Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação
contemporânea

Capítulo XXIV: Socorros a náufragos

Capítulo XXV: Os missionários no Porto

Capítulo XXVI- Guerrilhas carlistas. Batalhões sagrados

Capítulo XXVII: A viagem de Sua Majestade às províncias do Norte

Capítulo XXVIII: O sermão político

Capítulo XXIX: O Salva-vidas da Foz do Douro

Capítulo XXX: Singulares aventuras de um soldado espanhol internado em
Portugal

Capítulo XXXI: A cadeia da Relação do Porto

Capítulo XXXII: Epístola: A alma de D. Pedro IV, nos Elísios

Capítulo XXXIII: O problema do adultério

Capítulo XXXIV: Os srs. operários e as suas greves

Capítulo XXXV: O soldado Barnabé

que de Norte a Sul. Capítulo I: O primitivo prólogo das Farpas. Aproxima-te um pouco de nós. Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. com padre-nossos maquinais. leva uma vida de misérias. algumas realidades do nosso tempo. E que se faz? Atesta-se. na economia. A agiotagem explora o juro. trabalhando só para o imposto por meio de uma agricultura decadente. enquanto quiseres. absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. A população dos campos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel.. O professor tornou-se um empregado de eleições. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Não é uma existência. Leitor de bom senso. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. leitor celibatário ou casado. O tédio invadiu as almas. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. entrecortada de penhoras. é uma expiação. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. e vê. conservador ou revolucionário.se tens bom senso! E a ideia de te dar assim todos os meses. A indústria enfraquece. proprietário ou produtor. que foi para ti que ele foi escrito . A renda diminui. alegres e justas. Perfeita. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. cresce. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião. vivendo em casebres ignóbeis. Diz-se por toda a parte: «o País está perdido!» Ninguém se ilude. na moral. conversando e jogando o voltarete.Uma Campanha Alegre (Volume I. A ruína económica cresce. o País está desorganizado . arruinada. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. O comércio definha. no Estado. velho patuleia ou legitimista hostil. das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. Não há princípio que não seja desmentido. que abres curiosamente a primeira página deste livrinho. Ninguém se respeita. De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. nem instituição que não seja escarnecida. O salário diminui. cresce. intelectual. sabe. nasceu no dia em que pudemos descobrir. A prática da vida tem por única direcção a conveniência.: Estudo social de Portugal em 1871) por Eça de Queirós Junho 1871. A mocidade arrasta-se.. sustentando-se de sardinha e de ervas. parado. O povo está na miséria. mas todos os temperamentos se dão bem na podridão! . envelhecida. Vivemos todos ao acaso. O País perdeu a inteligência e a consciência moral. através da ilusão das aparências. O número das escolas só por si é dramático. cem páginas irónicas.e pede-se conhaque! Assim todas as consciências certificam a podridão.

Sabemos que está cheia de negativas. nem clarim. E aqui começamos. longa ou curta. doutrinário e grave! Não sabemos se a mão que vamos abrir está ou não cheia de verdades. Assim vamos. Somos dois simples sapadores às ordens do senso comum. vamos para onde vós não estiverdes. com que outrora se pelejou a batalha de Aljubarrota . mundo oficial. com Pompeu e com César à vista. Pelo caminho não leremos a Nação. no alto da colina. Por ora. Nunca poderão tão ligeiras Farpas ferir a grande artéria social: ficarão à epiderme. a pátria. Apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal! As nossas bandarilhas não têm cor. vasto logradouro de ideias triviais. Devíamos fazê-lo com a indignação amarga de panfletários? Com a serenidade experimental de críticos? Com a jovialidade fina de humoristas? Não é verdade. em honrada companhia do Sr. mas não sabia para onde. onde se deve ir. O grosso do exército vem atrás. Não levamos bandeira. para muitos uma indústria. decerto. então. vamos sós. que desmaiam de fadiga entre as mãos dos tipógrafos? Não. talvez. Catão. sabia de quem havia de fugir. ou uma casa de banhos quentes.e hoje se fazem caixinhas de obreias! Aqui estamos pois diante de ti. Não sabemos. a fé e o amor! E patentearíamos aquela crença vivida. Ternos esta meia ciência de Catão. aquele arranque peninsular. aparecemos só nós. De onde vimos? Para onde vamos? . sem azedume e sem cólera. voltados para os lados da Palestina. leitor de bom senso. E se nos tiranizasse excessivamente o astuto demónio da prosa. nem o branco da auriflama. Proudhon ou Vacherot seriam insuficientes. Dentro . que neste momento histórico só há lugar para o humorismo? Esta decadência tomou-se um hábito. E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa.o progresso da decadência. rindo muito. a apontar dia por dia o que poderíamos chamar . Contra este mundo é necessário ressuscitar as gargalhadas históricas do tempo de Manuel Mendes Enxúndia. burguês. Chama-se a Justiça. cantaríamos. Fundaríamos antes um depósito de bichas de sangrar. O áspero Veillot não bastaria. E mais uma vez se põe a galhofa ao serviço da justiça! Achas imprudente? Achas inútil? Achas irrespeitoso? Preferias que fizéssemos um jornal político. sabemos. ajoujados aos líricos de Barcelona. constitucional. ministérios. onde se não deve estar. com todas as suas inépcias e todas as suas calúnias. nem o Almanaque das Cacholetas. políticos. Nesta jornada. Parlamentos. nem o azul da blusa. eclesiásticos.Podemos apenas responder: Vimos de onde vós estais.Nós não quisemos ser cúmplices na indiferença universal. quase um bem-estar. Vamos conversando um pouco. Fernandez de los Rios. exploradores. estão de pedra e cal na corrupção.

Vamos rir. dos intrigantes que não alcançam. o riso é uma opinião. Nos templos mesmo a religião caiu em descrédito. e que ninguém crê na realeza! E que ninguém crê em ti. e pelos governos demitidos. é um ofício. E a perpétua escarnecida. Aceitam Deus como um chique. O povo. 11 escarnecida nos teatros. Sebastião. pela sua acção e pela sua inacção. Mas não há partido que não lance a sua inépcia à conta da realeza. Expulsa da consciência liberal. O público está para com ela num estado enervado. os jurisconsultos que te comentam. A burguesia fez-se livrepensadora. E a única coisa que faz além de pagar. Tem ainda um resto de respeito maquinal pelo Todo-Poderoso. por dar bailes e por não dar bailes. O riso é uma filosofia. Desprezam-se os padres e despreza-se o culto. pelo menos. pois. as burguesas enriquecidas tomaram-na sob a sua protecção: e gostam igualmente que as suas parelhas sejam vistas à porta da Marie e à porta dos Inglesinhos. e diz coisas desagradáveis ao Papa. os jornais que te citam. o sacerdote crê e ora na proporção da côngrua. como com um importuno a quem não lhe convém dizer: vai-te embora! . os padres que falam em ti à missa conventual. as autoridades que te realizam. Segundo a Carta. ridicularizam-te pelas mesas dos botequins! A Carta adorada da Grã-Duquesa tem mais sucesso do que tu! Descrê-se da religião. que a Carta tanto honra. dos oradores que não falam. A realeza é acusada por tudo: pelas despesas que faz e pela pobreza em que vive. E em política constitucional. O cepticismo faz parte do bom gosto. todos te renegam. Muitas vezes o riso é uma salvação. E escarnecida nas conversações dos cafés. A pobre realeza. e na maledicência do Grémio. e.sangue azul ou sangue vermelho. ó Carta Constitucional! Os ministros que te defendem. o que não impede que a propósito de qualquer coisa se exija o juramento! A religião ficou sendo um artigo de moda. ganhando o seu pão em teu nome. onde o tipo do Rei Bobeche teve o triunfo de um panfleto. a que deste a honra de um parágrafo.Se não fosse o Rei! . E como acredita mais na secretaria dos negócios eclesiásticos do que na revelação divina. reza. o maior monumento do espírito humano. a realeza é irresponsável. E escarnecida pelos jornais de oposição. É por isso talvez que ninguém crê na religião. faz estalar de riso os cavalheiros liberais. esse. aqueles mesmos cuja única profissão era crer em ti. Nenhum ministro que se preze ousaria acreditar em S. . dos jornalistas que não escrevem. dissolução de guano ou extracto de salsaparrilha. Ser padre não é uma convicção.é a desculpa invariável dos ministros que não governam. trabalha nas eleições. mas criva de epigramas as pretensões divinas de Jesus.continuará a correr serenamente a matéria vital . não é mais bem sucedida. Aqui está esta pobre Carta Constitucional que declara com ingenuidade que o País é católico e monárquico. A Teologia. os professores que te ensinam.

com a mesma distracção com que ouve falar dos negócios do Cáucaso. Ser doutrinário é ser um tanto ou quanto de todos os partidos. a uma multidão inumerável de simples. declarasse terminantemente e compactamente . não há comoções. — Mas tudo se equilibra. Chega-se a admirar Luís Blanc. mas ficaria satisfeita se a nobreza. qual seria o Governo útil. a um palhaço de pernas quebradas. diz a opinião constitucional. O orgulho da política nacional é ser doutrinária. na extinção do funcionalismo. a esta política infiel aos seus princípios. em vez de oferecer a veia. Porque então a opinião acordaria . E a ordem pelo desdém. De modo que todos estes monárquicos. Uma plebe ardente fala em beber o sangue da nobreza. E trágico. pede ainda. mas prefere-se a tudo isso uma terra de semeadura obrigada à côngrua para o pároco e aos tantos por cento para a viação. Cada um se abaixa avidamente sobre o seu prato. Nas sociedades corrompidas a ordem chega assim às vezes a reinar. profícuo. pois. A burguesia invejosa e desempregada fala na federação. chamado a pronunciar-se por um plebiscito negativo. é ter deles por consequência o mínimo. neste deplorável estado do espírito público? Aquele que o País. tudo se equilibra .que não queria. necessário. bem no íntimo. é não ser de partido nenhum . Tanto se conciliam todos! E assim que o egoísmo domina. por desprezo. ou a inquietação nervosa do esguio ministro B. Existe para ela como um efeito de Quintiliano . se no entanto lhe derem a ela lugares de governadores civis ou de chefes de secretaria. vivendo num perpétuo desmentido de si mesma. na emancipação das classes operárias. apupada. Todos estes republicanos terminam por concordar que é indispensável a monarquia! Quer-se geralmente o prestígio da realeza e a majestade do poder. O País ouve falar da evolução política. como se se pedisse. na república federativa. mas entende que o País pode esperar por estes benefícios todos.como um movimento de eloquência para os discursos de grande gala! Apesar disso.ou ser cada um apenas do partido do seu egoísmo. a salvação da coisa pública. mais uma cambalhota ou mais um chiste. como as cadeiras do Governo são indiferentes a suportarem a pesada corpulência do gordo ministro A.No entanto a opinião liberal continua a declarar que existe um trono. Sabem. Outros diriam pela imbecilidade! A opinião é tão indiferente e alheia às mudanças de ministério. não há lutas! Sim. desautorizada. votariam por uma república. mandasse abrir Cartaxo. mas deseja-se que elRei se exiba numa sege de aluguel e que Sua Majestade a Rainha não tenha mais que dois pares de botinas.no desprezo.

não se interessa pelos personagens e a todos acha impuros e nulos. e combinar partidas de whist. Por isso o parlamento é uma casa mal alumiada. deixou de ser um poder do Estado. Às vezes procura viver. para dirigir. Está no cartaz. defronte de um público enojado e indiferente. Não governa.já dissemos que é a única coisa que faz além de rezar. Os lustres estão acesos. Alguém decerto está do outro lado. Mas o espectador. o poder executivo.Bem. sonolenta. O Parlamento é uma sucursal do Grémio. em provas incessantes. teve que pagar no bilheteiro! Pagou . escrever cartas particulares. nada reforma. dão-lhe uma farsa. e àqueles que são seus parasitas. Paga os que o assassinam. E apenas uma necessidade do programa constitucional. a sua incapacidade orgânica para discutir. agita-se. prepara-se. se lembra que para poder ver. alguém. — Lá vai um ministro! . abanando com a cabeça que sim. para criar.diz-se na rua. lutaria. O ministério. um dito fino! A deputação é uma espécie de funcionalismo para quem é incapaz de qualquer função. viveria. . Paga àqueles que o espoliam. não se interessa pelas cenas e a todas acha inúteis e imorais. arma-se talvez . para pensar.para um lado a Reacção. Paga e reza. não tem ideia. por trás do fundo. para outro a Revolução. e sobre os quais gira como nos seus pólos naturais a lei do aperfeiçoamento: . Só às vezes.talvez. O País verifica todos os dias que alguns correios andam atrás de algumas carruagens . está ali. pela pressão administrativa. No entanto. o País nada tem de comum com o que se representa no palco. um princípio. Paga os seus reis e os seus carcereiros. Paga para ter ministros que não governam. soldados que o não defendem. não tem sistema. ignorante. — Ah! vai? . no meio do seu tédio. e apareceriam dois partidos que não existem agora. E o emprego dos inúteis. E em recompensa. Não sai dela uma reforma. esta grande farsa que se chama a intriga constitucional. conversar. O corpo legislativo há muitos anos que não legisla Criado pela intriga. vem apenas a ser uma assembleia muda. deputados que não legislam. e demonstra então. existe a ordem! E assim se passa. padres que rezam contra ele. Paga tudo. e paga os que o atraiçoam.e fica contente. para resolver a questão mais rudimentar de administração.exclama a burguesia. espera. é o que basta. paga para tudo. nada estabelece. um período eloquente. e pelo eleitor a 500 réis. Enquanto a farsa se desenrola na cena. A tribuna é uma prateleira de copos de água intactos. tendo perdido a sua significação. uma lei. Até lá os poderes do Estado subsistem. à uma hora. onde se vai. cuidado! Aquele pano de fundo não está imóvel: agita-se como impelido por uma respiração invisível. pela presença de quatro soldados e um senhor alferes. maldizer um pouco. é necessário que apareça na cena.

E não obstante. bispo de Viseu.que se esqueceu de contar oportunamente o caso.queixa-se de que não há economia nem moralidade. Os políticos têm todos a mesma política: A . O que apenas podemos dizer é que não é o sr. o que ele receia muito que venha a prejudicar a ordem. A imprensa é composta de duas ordens de periódicos: os noticiosos e os políticos.quer ordem. porque ele nota que principia a faltar a moralidade e a economia. Os fundos descem. Os noticiosos têm todos a mesma notícia: A . seu colaborador. galanteia as cozinheiras. Viva a Carta! Decerto. como tudo parece feliz e repousado! Os jornais conversam baixinho e devagar uns com os outros.— Quem é esse alguém? As vossas consciências que vos respondam. maneja sorrindo as quatro espécies. para se entreter. diz aos partidos -chuta! As secretarias cruzam os braços. . D . D . para as Caldas da Rainha.refere que o seu amigo. colaborador e assinante que partiu para as Caldas da Rainha. assinante e amigo.narra que. colaborador e amigo X. coitado. é X.diz que a ordem se não pode manter por mais tempo. assinante e colaborador. traz ao outro dia: «Querem alguns dizer que partira para as Caldas da Rainha X. O parlamento ressona. economia e moralidade. todo encolhido. A polícia.. O tribunal de contas. As árvores do Rossio enchem-se de folhas. O ministério. B . e descem há tanto tempo que devem estar no centro da Terra. partiu X.noticia que o seu assinante. O povo. partiu para as Caldas da Rainha. lá vai morrendo de fome como pode. O conselho de Estado rói as unhas.. lhe parece poder asseverar que será mantida a ordem. A câmara municipal mata em sossego os cães vadios. o nosso amigo. como tudo é congénere! Vejam a imprensa. C . lá no seu cantinho. Se a imprensa política é assim harmónica na exposição da doutrina.observa que no estado em que vê a economia e a moralidade. Deus faz a sua Primavera. Não demos fé». torcendo os bigodes. O exército toca guitarra. nem sempre o é na apreciação dos factos. C . Nós fazemos os nossos livrinhos. B .

Exª é ominoso! Não! As suas botas não são de vitela francesa. o ministério Fulano propõe em cortes : . feito presidente de ministros. Quando um Governo assim procede. Ao outro dia dizem os jornais ministeriais: «O nobre Presidente do Conselho tinha ontem. e nos leva direitos ao abismo!» Também não é igualmente harmónico o processo para julgar as pessoas. só ela ficou imóvel. uma verdadeira mãe! Dizem os mesmos jornais Fulanistas: «O ministério ominoso. Fulano. atentas grandes vantagens para a causa pública. os fortes dotes oratórios do Sr. umas magníficas botas de pelica. dizemos-lhe em face a verdade. Exª tinha simplesmente umas botas moderadas de vitela francesa». por exemplo. declaram: . Então os jornais Fulanistas exclamam: «O Governo acaba de se declarar pai da ostra. o ministério Fulano cai. o Governo se declare para todos os efeitos em relação à ostra. falsíssima. como quer uma oposição refalsada. De modo que. Exª um tão grande zelo pelo bem do País e uma tão alta experiência das coisas públicas. nem ela compreende o seu tempo. como quer uma maioria venal. nem o temperamento individual do escritor. Sobe o ministério Sicrano. que acordasse de um sono secular numa fábrica de cerveja. e logo em seguida propõe em cortes: . não exprime nada: nem a tendência colectiva da sociedade. É mostrar um profundo desprezo pela ordem e pela economia! Quando um ministério assim pratica é que vai no caminho da anarquia. S. Os jornais de oposição exclamam: «Insensatos! Que vindes vós falar na experiência.Assim. Presidente do Conselho. mais que um pai. sem originalidade.sem ideia. atentos os serviços da ostra. nem ninguém a compreende a ela. pasmada e alheada. apesar do seu tacto político. nem de pelica fina. A literatura . nas virtudes cívicas do Sr. vai à Câmara. O Sr. hipócrita. declarou-se mãe da ostra. Tudo em torno dela se transformou. um penhor solene de zelo pelos serviços públicos. se pode encontrar uma tão boa pelica!» Os jornais moderados. em meia oposição.que.«Não somos aduladores do poder. Que admirável pelica! Só quando se tem como S. As suas botas demonstram que caminhamos para a anarquia e são de couro de Salvaterra!» Olhemos agora a literatura.que de ora em diante. E como um trovador gótico. que com mão tão incerta dirige o leme da coisa pública. Presidente do Conselho? S. mas.poesia e romance . Conhecemos a longa experiência. à sua entrada na Câmara. por qualquer coisa. pode-se dizer que ampara com mão segura o leme do Estado!» Mas no dia imediato. Medida de grande alcance! E uma garantia para a ordem. em expectativa. convencional. . o Governo seja autorizado a declarar que se considera para com a ostra como um verdadeiro pai.

Fala do ideal. de liras. por entre o gás e o pó do macadame. e usam flanela. em que Lamartine. Mera questão de retórica: os poetas líricos e os cismadores idealistas tratam de se empregar nas secretarias. positivo. assim como da decadência latina ficaram Apuleio. para que o público saiba que o poeta lírico. de virgens pálidas . estes senhores vêm contar-nos as suas descrençazinhas ou as suas exaltaçõezinhas! No entanto operários vivem na miséria por essas trapeiras. Rouher e Fialin (vulgo de Persigny). e gente do campo vive na miséria por essas aldeias! E o Sr. vai todavia soltando. Policarpo de tal. pergunta. num caramanchão. No Paris da decadência. apenas nela se retratam sombras. das questões que em roda de nós de toda a parte se erguem como temerosos pontos de interrogação. de rosas. empregase uma imensa quantidade de vida e de trabalho. da febre. Elvira . calandra-se o papel.e é a única coisa que lhes dá direito a julgarem-se vivas! A poesia fala-nos ainda de Julieta. Fulano e o Sr. Sicrano empregam toda a sua acção intelectual em se gabarem que apanharam boninas no prado. E no meio das ocupações do nosso tempo. em que Bernardim de Saint-Pierre lhes oferecia rapé da sua caixa de esmalte circundada de pérolas. porque Francisca está nos braços de outro! O poeta lírico C conta-nos uma noite que passou com Eufémia. e há-de ter o seu lugar na história do pensamento. embuçado na capa romântica de 1830. desatendida e desautorizada. fabril. e dos Srs. exprimiu a corrupção. nenhuma acção original se espelha. Em França ao menos a literatura. são de um centro político. para as ir pôr na cuia de Elvira! Noites e noites movem-se os prelos a vapor. ama uma virgem pálida com olheiras! . Como nas águas imóveis e escuras da lagoa dos mortos. de Primaveras. arrasam-se os revisores. com grandes ares. A literatura de Boulevard há-de ficar por esse motivo. Petrónio e o mordente Tertuliano. Na corrente da literatura portuguesa nenhum movimento real se reflecte. intransigentemente ideal. experimental. as declamações sonoras do lirismo de Lamartine e do misticismo de Chateaubriand. Mas são sombras que não têm as lívidas roupagens usadas no Estígio: estão de fraque e de chapéu alto . esfalfam-se os tipógrafos. os livros detestáveis foram a expressão genuína e sincera de uma sociedade que se dissolvia. olhando os astros e dizendo frases. prático. do êxtase. Hoje são um ideal de museu.e em torno dela o mundo industrial. O poeta lírico A diz-nos que Elvira lhe dera um lírio numa noite de luar! O poeta lírico B revela-nos que um desespero atroz lhe invade a alma. ela nada conhece no Mundo. E todavia. E gloria-se de ser nos seus costumes e nas suas obras. levem-na à Polícia! Ela. meio espantado. as passeava em gôndola nos lagos da Itália. cultivam o bife do Áurea. de Laura. no Paris do barão Haussmann. A poesia contemporânea compõe-se assim de pequeninas sensibilidades. meio indignado: — Que quer esta tonta? Que faz aqui? Emprega-se na vadiagem. pequeninamente contadas por pequeninas vozes. quando a corrupção veio. Virgínia. além destas mulheres. cujo estilo tem cintilações ainda hoje tão vivas que parecem emanadas da podridão do moderno mundo poético.belas e interessantes criaturas no tempo em que Shakespeare se ajoelhava aos seus pés.

Poesia lírica. X não diz a verdade. ou na alma do Sr. A poesia individual tem um nobre alcance quando o poeta se chama Byron. orgias. como num sumário. esconde-te nos conselhos de ministros ou nas secretarias do Estado! Não apareças ao mundo vivo.. ordinariamente.. Nada estuda. Francisco? A imensa dúvida que pesa sobre a Baixa? Os tormentos ideais que agitam a Rua dos Fanqueiros? E a maior desgraça e a maior tolice é que. O leitor tem o tédio. Não tem psicologia. esse. prazeres. Estuda-se ali.E ainda se a poesia lírica se contentasse com ser de uma inutilidade lorpa. O editor tem a perda. Porque então. Musset. Hugo. não pinta caracteres. com um barrete de algodão na cabeça. O Sr. X pinta a verdade quando escreve estes seus versos. a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da fazenda. leitor de bom senso. não analisa paixões.Santa distribuição do trabalho! De resto. todo o século com as suas dúvidas. naquelas almas. bom chefe de família. alguns homens honestos na sua vida vêm diante do Público declarar-se perversos na sua rima! Tomemos um exemplo. António trabalha. erguer-se o . se retrata. o que é uma vergonha burguesa. . Aí não se fala senão em amores. entre um dicionário e uma poética. poesia lírica. quando o gás da sala diminui. e desmaia liricamente nos braços de Artur. é a apoteose do adultério. as suas lutas. tem o hábito de Sant’Iago. desgrenhado e macilento. e desconsidera sua esposa. X. Mas ela é de um erotismo ofensivo! Há lupanares mais castos do que certos livros de versos que se chamam melancolicamente Harpelos ou Prelúdios.. Neste caso como havemos de acreditar na seriedade da sua arte? O romance. quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances.. Mas tu tens lido por essas esquinas os cartazes. as suas contradições. Espronceda. E é sobre este drama de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 18501 O autor. que se há-de estudar na alma do Sr.. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel. o que é uma glória romântica.. uma: Ou o Sr. e todos aqueles seus êxtases são rimados muito aconchegadamente à mesa do chá. e Artur é vadio. virgens sacrificadas. com franqueza. e então é um devasso que dá um exemplo detestável a seus filhos. delírios. não desenha temperamentos. ganhando honradamente o seu pão. Merece a nossa estima. João. casada com António gordo. Como havemos de acreditar em tal caso na seriedade do seu carácter? Ou o Sr. e tens visto. Das seguintes coisas. um dos mais piegas . nada explica. nem acção. Vejamos a sua poesia... São grandes almas sonoras onde vibra em resumo toda a vida que as cerca. é o Limoeiro. a existência de uma época. X é um rapaz honesto. as suas tendências. as suas incertezas. Lamartine.o Sr. atira as algemas conjugais à cabeça do esposo. mal sentado. Júlia pálida. Deves querer que te falemos do teatro. Sabes qual é o lugar que tu nele mereces? Não é o Panteão. por farfanteria lírica. Mas.

Os jornais aplaudem. põe-se Beco do Fala-Só. No entanto.e repousa na imortalidade. ou . Onde está Mr. e que o adoptava. onde está Lyon. procura. exª. Ele tem uma filosofia. Levantava-se então a hóstia ao som da canção do general Bum! A alta burguesia sobretudo é que o frequentava. A ideia que acode a todos é traduzir. cirze. mas põe-se no cartaz: original. que ficaram no seu tempo reprovados no exame de Francês. e este esforço prodigioso de invenção está gastando em Portugal a força de uma geração literária. gracejos do Sr. Então imita-se. remenda.pano sobre farsas tão melancólicas como uma ruína. Fontes ou de José Estêvão. acompanhar uma senhora. Não. Mas é necessário por vezes que haja obras originais. e todo o mundo vai tomar chá com emoção. sermões (muitos sermões!). vós não tendes uma ideia. como ao Passeio. o cofre roubado. o dramaturgo nacional tudo explora e tudo aproveita: vai. alguns arranjadores. E desde logo moços. cose. Não se vai assistir ao desenvolvimento de uma ideia. pedaços de artigos de fundo. cola aqueles pedacinhos à língua de cada personagem. discursos do Sr. Ou faz-se deveras uma coisa original. perdeu até o seu fim. a sua significação. Nesse caso imita-se do mesmo modo. tira aqui. o homem do povo sublime.quando há um drama bem pungente . arranca frases dos Miseráveis. acusavam o maestrino filosófico de perverter o gosto. e sobre dramas tão cómicos como uma caricatura de Cham! O teatro perdeu a sua ideia. Uma acção também se alcança: há muitas feitas . todos os realejos o moíam. ver uma mulher que nos interessa. vós nem tendes uma gramática! Quem. quando se ergue o pano. combinar um juro com o agiota. o Rei preside ao espectáculo. e depois. pelo seu saber. em noites de calor. Nem a burguesia teve razão em o adoptar. e abaixar o nível intelectual. ensaia músicas tristes para os finais de actos (puxando assim ao sentimento o arco do rabecão). recorta. manda levantar o pano . todos os sinos o repicavam. todas as famílias o decoravam. Mas nem sempre se pode traduzir.a filha per-dida e depois achada. as obras francesas são para grandes companhias de actores. O difícil e fazer falar esta gente Neste lance. A dificuldade não está em obter os nomes das personagens.. Que importa? Sabem-no apenas três ou quatro amigos. O tempo em que o teatro floresceu foi o tempo em que o teatro cantou Offenbach. salpica-os de gestos de desespero. Onde está vous. como se lê um necrológio para se ficar de bom humor. se movam algumas figuras e se troquem alguns diálogos tem por isso de existir em Portugal uma literatura dramática.. Vai-se ao teatro passar um pouco a noite. põe-se o Conselheiro Bezerra. para estar. não se vai sequer assistir à acção de um sentimento. deixam livre a fantasia criadora do dramaturgo. desmoralizar a consciência. como ele. põe-se Arcos de Valdevez. põem v. onde está Rue Vivienne. pelos seus recursos. não compreendestes Offenbach! Offenbach é maior que vós todos. Valeroy. como é necessário que. copia ali. ele tem uma crítica. O público gosta de ver coisas que se pas-sem no Chiado e na Rua dos Fanqueiros. etc. Offenbach então triunfava. nem os dramaturgos em o maltratarem.para rir. o fidalgo arruinado. que pelo seu número. bateu em brecha todos os preconceitos do seu . traduzem. dramaturgos amigos. Vai-se. Luís de Araújo. faz esguedelhar os cabelos. E nesta simpatia geral apenas alguns dramaturgos. tratados de Economia política.

da Bela Helena. esta situação perpetua-se de pais a filhos corno uma fatalidade. como ele. ciganos. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. da navalha e da taberna. não pode propriamente ter costumes. A vida militar não é uma carreira. é uma multidão desocupada que quer viver à custa do Estado. tudo abalou num couplet fulgurante! Não. Ficámos exactamente em condições idênticas. é uma classe inteira que vive dele. que o vai buscar alegremente. A classe eclesiástica já não é recrutada pelo impulso de uma crença. que vos não reconhecestes um por um naquela galeria ruidosa dos medíocres do tempo? Não é o Rei Bobeche a fantasmagoria cantada da vossa realeza? Não é Calchas. dos vossos cortesãos vos ristes. Sim.tempo? Quem. a vaidade burguesa. deixou para sempre desautorizadas velhas instituições? Quem. ou não tendo fé nos seus princípios. Com o seu ordenado ninguém pode acumular. à moral. Ora como o Estado. vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. não fizeste bem em o aplaudir e em o proteger. Julgaste encontrar nele um passatempo. o despotismo. Tão mal alumiados são os teatros. à justiça. não tendes feito um único serviço ao bom senso. a baixeza cortesã. tudo feriu. tão estreita a vossa penetração. cantando o Bendito. de chapéu alto e paletó. tudo revolveu. Offenbach. ao meio-dia. a mascarada pagã do vosso clero? Não é o general Bum a personificação ruidosa da vossa estratégia de salão? Não é o barão Grog a grotesca pochade da vossa diplomacia? Não é o trio da conspiração a fotografia em couplets das vossas intrigas ministeriais? Não é toda a Grã-Duquesa a charge implacável dos vossos exércitos permanentes? Vós ristes perdidamente de todas aquelas criações facetas? Pois da vossa realeza.uma bofetada? Não! Uma palmada na pança. a mocidade vê nele o seu repouso e a garantia do seu futuro. a letra . ao alegre compasso dos cancãs. paga pobremente. com quatro compassos e duas rabecas. é uma ociosidade organizada por conta do Estado. A sua música é a tua caricatura. Logo desde os primeiros exames no liceu. Os proprietários procuram viver à custa do Estado. alta burguesia. das procissões. com a vossa severidade. A ciência depende do Estado. A própria indústria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. fez a caricatura rutilante da decadência e da mediocridade? Vós. da vossa diplomacia. como ele. a intriga. clero. Fomos outrora o povo do caldo da portaria. ladrões. Toda a Nação vive do Estado. o sacerdócio venal. O caldo da portaria não acabou. nobreza e povo. numa gargalhada europeia! Offenbach é uma filosofia cantada. Tendes só feito sono! E ele? o militarismo. Daí o recurso perpétuo para a agiotagem. e a dívida. poucos se podem equilibrar. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: e fizemos muitas revoluções para sair dela. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos. beatos. das vossas intrigas. pobre. deste nesta burguesia oficial . Portugal. não tendo princípios. com a tua mão espirituosa. caceteiros. O Estado é a esperança das famílias pobres e das casas arruinadas. Este caldo é o Estado. do vosso exército. encontraste uma condenação. Resulta uma pobreza geral. E convosco riu-se todo o mundo. e ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio.

Deixa de frequentar as ideias. as árias ao piano. propõe injustiças e aceita-as. sem progresso. Não se respeitando a si. e se chega a medrar. A família é a primeira a desmoralizar neste sentido a consciência. Esta pobreza geral produz um aviltamento na dignidade.. Tudo é pobre: a preocupação de todos é o pão de cada dia. As que porventura casam ricas desenvolvem outras vontades: satisfeitas as exigências do luxo. do merceeiro. não sabendo fazer valer a terra. o cão de regaço. Não há um juiz em Portugal que não possa contar que se lhe tem pedido as coisas mais monstruosamente iníquas. histórico e regenerador . Braamcamp. habitua-se a dobrar-se. A desgraça é que. Depois. . sem recursos. Aquilo começou pelo namoro e termina pelo tédio. precisam casar. a corrupção. o vestido sujo. Vem a indiferença.protestada. os penteados fantásticos. tendo perdido a altivez da dignidade e da opinião. é a voz doméstica. não respeita os outros: mente. com a simplicidade com que se pede o lume de um cigarro. não tendo de formar o carácter.. arqueja à beira da pobreza e termina sempre recorrendo ao Estado. reformista!.. .. A caça ao marido é uma instituição. histórico. as coisas mais contraditórias.«Quem apanhou.não tendo de formar uma opinião. temos a atitude do nosso interesse. Por outro lado o comércio sofre desta pobreza da burocracia. perde também a individualidade de pensamento. Um governador civil dizia: «É boa! dizem que sou sucessivamente regenerador. aos bailes. apanhou».costuma-se a viver sem carácter e sem opinião. Extingue-se nele gradualmente a noção do justo e do injusto. mas quem se vê no poder. Mas a maior parte das vezes. aquele homem. Eu nunca quis ser senão . porque lhe seria incómoda e teria a todo o momento de a calar . o sonho cai no lajedo: e casam com um empregado a 300$000 réis por ano. O homem. monárquicos. Levam-se as meninas aos teatros. não quem se respeita. aos passeios. se em Portugal existissem partidos republicanos. Cai na ignorância e na vileza. socialistas. Pobres. Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência. aparecem as exigências do temperamento. . porque mudar do Sr. Julga o favor. Fontes para o Sr. As mulheres vivem nas consequências desta decadência. A sua mira é o casamento rico. a cuia despenteada. Serve-se. como elementos regulares da vida. porque ele lhe é inútil e teria a todo o momento de o vergar. para as lançar à busca. e fica ele mesmo na alternativa de recorrer também ao Estado ou de cair no proletariado.ambos aqueles cavalheiros são monárquicos e constitucionais e católicos. atraiçoa. . dobra-se diante do agiota. Faz-se com a maior simplicidade esse acto simplesmente monstruoso. das salas estofadas: um marido rico realizaria esses ideais. monárquico e socialista . da boa mesa.governador civil!» Este homem tinha razão. é pela intriga. as meninas têm as toilettes ruidosas. perde o amor da rectidão. para as mostrar. A agricultura. Dobra-se sempre. a protecção. as coisas mais iguais -seria republicano. do criado. assim como fora sucessivamente reformista. à maneira que perde a virilidade de carácter. Gostam do luxo. Para se imporem à atenção.isto e. O indivíduo assim rebaixado. funções naturais e aceitáveis. não é mudar de partido.isto é.

Em que se tornou hoje a família? A Família é o desastre que sucede a um homem por ter precisado de um dote! A grande questão é o dote. criados.emprestado! Ao teatro não se pede uma ideia: querem-se vistas. onde se vai estar. Mulher. exalta a sensibilidade. A Moda é que é uma religião. sem respeito. desocupada e enfastiada. se os há. gravemente. A modista reina. A mulher. flores e altares . Rara a mulher que lê um livro. Depois boceja-se.é o coro geral. fatos. o corpo enfraquecido. um livro de história. Gradualmente. feitas de há muito. Há quatro ou cinco frases. filhos. os sentidos insatisfeitos. o homem só procura distrair. descrevemos a acção de uma lei geral. nem um critério para a consciência. parentes. fazendo a digestão de um mau jantar. a família vive no egoísmo. e não dá uma regra para o julgamento. um livro de literatura. dá-se à concubinagem e ao jogo. O Passeio Público é um prazer lúgubre. absorve tudo. as mulheres virtuosas. em silêncio. que se repetem. enquanto não são educados pelos cafés. Faltando assim o laço moral. festas de igreja. É esse. o pensamento de cada um dos conversadores é poder-se livrar dos outros três. Mas em quê? Na leitura? Não se compra um livro de ciência. o supremo motivo do casamento. Meio deitados para cima das mesas.tudo o que excita os sentidos.que elas valem muito mais do que nós. . Nós é que somos abomináveis com a nossa caça à herdeira. Ninguém possui ideias originais e próprias. as mulheres dignas formam ainda na sociedade portuguesa uma maioria inviolável! Se alguma coisa podemos dizer profundamente verdadeira é . Lê-se Ponson du Terrail . com a vontade doente. ou então crêem apenas na exterioridade -novenas. os bastidores pintados do Rabo de Satanás.Outrora havia a religião. dá-se ao sentimentalismo e ao trapo. um quadro sombrio? . — Ando aborrecido! . Os filhos. prefere-se olhar. mutações. os homens tornam o café a pequenos goles. murmuradas as trivialidades.Não. recostado. são desagradáveis consequências que se sofrem. são educados pelos criados. Os espíritos estão vazios. matar o tempo. não deixa tempo para a menor ocupação ou curiosidade de espírito. de braços pendentes! Os cafés são soturnos. No fim de tudo. para o homem. Quatro pessoas reúnem-se: passados cinco minutos. de olhar amortecido. Mas hoje as mulheres crêem da religião o que é necessário para ser moda. a capricho. hoje. O homem. O espírito tem até preguiça de compreender um enredo de comédia. A conversação extinguiu-se. Rara a que tem um interesse intelectual É porventura isto desenhar. ou fumam calados. E uma secretaria arborizada.

Em Portugal o cidadão desapareceu.ou para a conquista.Perdeu-se através de tudo isto o sentimento de cidade e de pátria. . E todo o País não é mais do que uma agregação heterogénea de inactividades que se enfastiam. É uma Nação talhada para a ditadura .

troando.e hoje releio essas paginas amarelecidas das FARPAS. essa. para governar entre os homens o pensamento ou a conduta. para todos os lados onde supunha entrever o escuro cachaço taurino. à ilharga de Ramalho Ortigão. por uma tocante superstição de amizade. a que eu dou agora o nome único que as define e as páginas deste livro são aquelas com que outrora concorri para as FARPAS. Assim foi que.mas escassamente uma verdade adquirida. não cessei durante dois anos de arremessar farpas. muito elevada. Aí vão pois as minhas FARPAS. uma após outra. que força ou razão superior recebera dos deuses. Ora vale a pena recolher. de pensamento e de saber. convencidos. e. irremissível Erro. nos primeiros tempos. que a «tolice tem cabeça de touro». da . senão o rumor fugidio e remoto de risadas de há vinte anos. só por amar a Verdade imagina que a possui. e cada vez mais sumidos nessa corrente vaga chamada «dos Tempos». E. já tão raros. magnificamente certa da sua infalibilidade. e os seus pequeninos livros. da cor torpe do lodo. convém juntar um livro mais de onde nada sai. folhas de lírio e folhas de louro. em torno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra. para assim me estabelecer na minha terra em justiceiro destruidor de monstros?. Nada que. como nos campos de Plateia. os homens. tão mortas como as rosas de então? Penso que não. mas cada arremesso era governado por um impulso puro da inteligência ou do coração. ele desejou que não ficassem fora do seu monumento aquelas páginas que eu compus a seu lado.. as suas ilusões imensas. Reunindo as suas FARPAS. cada rijo golpe fazia brotar uma soberba verdade. fadado à exterminação. . estirando por cima de nós a sua sombra teimosa. quando aberto. como o Poeta. Que encontro nelas? Um riso tumultuoso. algum resultado visível dessa inspiração de Minerva que eu supunha combatendo por trás de mim. esparso outrora em panfletos leves? Há porventura utilidade em codificar assim a gargalhada? Aos milhares de livros que atravancam o Mundo. A mocidade tem destas esplêndidas confianças. e que ela portanto considera Erro. decidimos farpear até à morte a alimária pesada e temerosa. anseia por investir contra tudo o que diverge do seu ideal. me apressei a gritar na cidade em que entrava . porque as vejo ainda. chegando da Universidade com o meu Proudhon mal lido debaixo do braço. mais altas.Uma Campanha Alegre (Advertências) por Eça de Queirós Vinte anos são passados.«Morte à Tolice!» E desde então. o meu camarada Ramalho Ortigão. quando.. invisível e armada de ouro. levados na mesma santa revolta. como as tubas de Josué. Encontro um riso desabalado . quando Ramalho Ortigão e eu.unicamente um riso imenso. sem dúvida muitos ferros se embotaram nas lajes. Não me recordo se acertava. . por determinação minha. E assim desses tempos ardentes me ficara a ideia de uma campanha muito alegre. em que a ironia se punha radiante mente ao serviço da justiça. que providencialmente vai acarretando tudo o que se tornou inútil. perpetuar este riso. Não o consentiu porém assim. nos abalançámos a atacar toda uma Sociedade com um punhado ligeiro de ironias douradas. merecesse ficar arquivado em tornos duráveis. Quem era eu. lançado estridentemente através de uma sociedade como seu comentário único e crítica suprema. vasta obra. direitas. eu deixaria estas FARPAS nos breves folhetos amarelos onde o Diabo ri por trás de um óculo. uma conclusão de experiência e de saber.

UMA CAMPANHA ALEGRE. Outubro. e a estabelecer. dirigido por Minerva armada . contra a coisa detestada que urgia demolir. Todo este livro é um riso que peleja. em que as palavras. Depois de ter combatido arrebatadamente ao lado de Ramalho Ortigão em folhetos fogosos que um vento levava e espalhava nas ruas. tal me pareceu agora a desordem. num tropel clamoroso. E. que não resisti por vezes a disciplinar esta turba fremente de vocábulos em correria. Que peleja contra aquilo que eu supunha a Tolice. é sobretudo a camaradagem.demolição de tudo ressaltava uma educação para todos. 1890. enferrujadas. sem gume e sem brilho. na sua forma primordial.. Q. e verbos se acavalavam sobre verbos . sinto felicidade e orgulho em me encontrar ainda junto do meu amigo em volumes repletos. ao acaso. Mas. empenhada numa campanha intrépida. As minhas FARPAS surgem à superfície. pesados advérbios caíam no fundo de reticências inesperadas. compostura e ritmo. pela Razão. Aí vão pois estas FARPAS.quero dizer. improvisada na pressa e no fragor da lide . nesta solene reedição. que vão repousar no decoro e na paz das Bibliotecas. Terá ainda hoje este riso vibração bastante para despertar outros risos?. Paris. Este livro é menos unia reimpressão que uma escavação. . As coisas que o provocaram são já tão passadas como as de Tróia. E todavia. as mesmas vírgulas. Que peleja por aquilo que eu supunha a Razão. e pelo contágio da sua sinceridade acordou os risos da multidão contra a «Tolice de cabeça de touro». tudo é empurrado para avante. as exclamações. como o dos Gregos combatendo em Plateia. nestas orações descompostas onde adjectivos se estramalhavam. procurei escrupulosamente que não se desmanchasse aquele feitio especial das FARPAS que constituiu a sua força especial. e tão incorrigivelmente se me impõe o amor da harmonia. Não há aí com efeito senão uma trasbordante alegria.forma desordenada e tumultuária. calmos. as justifica .alguma regra. Que importa? O que me encanta. e que nem uma nota se evaporasse daquele riso que outrora tão triunfalmente cantou. além destas depurações exteriores. e o tumulto do ataque aparentemente desordenado era. «dorés sur tranche». como as antigas armas de uma batalha de que ninguém sabe o nome..

a lista civil. e prova irrefutavelmente a urgência da economia. é constitucional. irreconciliáveis. e dá subida atenção à economia. monárquico. Capítulo II: Os quatro partidos políticos) por Eça de Queirós Maio 1871 Há em Portugal quatro partidos: o partido histórico. Há ainda outros. . Todos quatro estimam a liberdade. . intimamente monárquico. e lembra nos seus jornais a necessidade da economia. mas anónimos. e citam a Bélgica.» . Impossível! eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre. a centralização. Todos quatro querem o progresso. latindo ardentemente uns contra os outros de dentro dos seus artigos de fundo. e o constituinte. Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? . Os quatro par. Tem-se tentado uma pacificação. a diplomacia. com jornal e porta para a rua. não há remédio.as Públicas Liberdades. o exército. etc. Quais são então as desinteligências? . o reformista. a ideia de liberdade entendem-na de diversos modos.. provando com abundância de argumentos que o que se deve respeitar são .. O partido histórico diz gravemente que é necessário respeitar as Liberdades Públicas.Vejamos: O partido regenerador é constitucional. O partido constituinte é constitucional. vivem num perpétuo antagonismo.Profundas! Assim. uma união. «Caminhamos para uma ruína! . por exemplo. O partido histórico é constitucional.. monárquico. e doidinho pela economia! Todos quatro são católicos. O partido reformista é monárquico. conhecidos apenas de algumas famílias.O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra. nega numa divergência resoluta.Propõe um imposto.exclama o Presidente do Conselho. A conflagração é manifesta! Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Todos quatro têm o mesmo afecto à ordem. Todos quatro são centralizadores. o regenerador.. é necessário pagar a religião. Assim o partido histórico propõe um imposto. imensamente monárquico. O partido regenerador nega. Porque. tidos oficiais.Uma Campanha Alegre (Volume I.

. e todo o mundo se assoa com alegria e esperança! — Tem a palavra o Sr.diz o presidente. Abre a sessão parlamentar. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados! Porque. a 300 réis por corrida.mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto. Zás! cai o ministério histórico! E ao outro dia. E a única maneira de nos salvarmos.. etc.o imposto que temos a honra. Presidente do Conselho. enfim. elaboram-se discursos.. o País está desorganizado. reúne o seu centro... (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria. ontem no ministério.) que entre em discussão . esperando. no poder.. e está tudo confiado. As faces luzem de suor.. Senhor Presidente.exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. triunfante. a opinião descreu mais. e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça! ... a moralidade pública abateu mais . ocupa as cadeiras de S. Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. Vozes: Ouçam! ouçam! «. Porque. com voz cava.É por isso que eu peço que entre já em discussão.Mas então o partido regenerador. o partido regenerador. levando. brame de desespero. e cada um alarga o colarinho na atitude de um homem que vê desmoronar-se a Pátria! — Como assim! . as transacções diminuíram mais.Guerra ao imposto!. é necessário restaurar o crédito. Bento. apoiado! . .» . tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel. que está na oposição. inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais. (apoiado! apoiado!)» E nessa noite reúne-se o centro histórico. os cabelos pintados destingem-se de agonia.. — O novo presidente: «Um ministério nefasto (apoiado..exclamam todos .mais impostos!? E então contra o imposto escrevem-se artigos. Todos estão lúgubres. O novo ministério regenerador vai falar.O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder. — «Meus senhores . O telégrafo está vibrante de impaciência.. o ministério regenerador vai dizer o seu programa. para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da Pátria.» Murmúrios. hoje na oposição.

Não. não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos! .

É o que faz agora o periódico a Nação. As conferências hão-de encontrar resistências.. Havia outros republicanos: todos os jornais na oposição se dão vagamente esse ar. o defunto Calígula.como uma ciência a estudar. Não o fariam mais tranquilamente se se tratasse de anatomia. e a um ou outro regedor. tinha-se até hoje manifestado muito indistintamente . A revolução aparece ao mundo conservador. não são a apóstrofe. É a primeira vez que a revolução. foi algum tempo republicanos e dizia aos tiranos coisas desagradáveis que deviam magoar Napoleão III. na sua feição partidária e política. O mundo revolucionário. Em primeiro lugar o nosso público inteligente e literário. mais suspeitadas que verificadas. falam então no suor do povo. ama sobretudo o bel-esprit. dirigia apóstrofes ao rochedo de Guernesey. Capítulo III: A abertura das conferências do Casino) por Eça de Queirós Maio 1871. e outros ex-opressores. Antero de Quental abriu no dia 19 as conferências democráticas no Casino. sob a sua forma científica. como o cristianismo ao mundo sofista. As vezes meia folha de papel era distribuída grátis. E isto vai numa tal contaminação democrática. ao Rei. Marquês de Angeja parece que também tendia para republicano. em tom lírico.é republicano. Moda peninsular.é Danton! Tal era o partido republicano. berrá-la. Temos ouvido cantar a democracia. representante da burguesia liberal. pelo menos assim o pensavam os criados do Martinho. a propósito de liberdade insultava senhoras. Não és original. dizia-lhe: . Outras vezes aparecia um jornal. As declamações têm tirado à democracia o seu carácter privativo de realidade e de ciência. ou pelas agitações. Corre que outros chefes de partido o são também. sob pretexto de ser um jornal de combate.por alguma voz isolada que sem eco se extinguia no silêncio da opinião. a frase. era um jornal de difamação. citava o Gólgota em questões de fazenda. São a demonstração. são a ciência. Deixemos no bengaleiro a nossa perpétua inclinação nacional de escutar odes . Alguns reformistas têm dito que o sr. (Imaginarão que a aristocracia não sua? Como se iludem!) O Jornal do Comércio. não são a eloquência. a oratória.e entremos só com a tendência humana de resolver problemas. soluçá-la: é tempo de a vermos demonstrar.Tu! Por vezes ainda um jornal de capa vermelha. bispo de Viseu. cantava a fraternidade e os seus encantos. O partido do Sr. vendo aparecer homens que apresentam a revolução serenamente . bem no seu fundo . que o único conservador constante que nos fica . e.. quando se trata da revolução. com alguns insultos aos ministros.Uma Campanha Alegre (Volume I. e voltando-se para o Rei.exigem justamente o contrário dos aparatos retóricos. Ora as conferências pela sua natureza científica e experimental . de especuladores e de intrigantes. que causava hilaridade! Por isso o espanto é grande. e de calúnia de outras cores. o mundo republicano. ó Nação! . tem em Portugal a palavra. O Sr. Os solistas tinham tomado o partido de rir daqueles nazarenos. ou antes. que.

colocase por essa mesma confissão fora do sistema. a esperar pelos restos da injúria e da hortaliça. segundo nos parece. armado de um chuço à embocadura de uma rua. Desdigamo-lo depois quando ele mentir. o procurador do povo. Fazer conferências . do que encontrarmos o próprio proletário mudo. Esta palavra horrorosa. nas ruas. refutemo-lo quando errar. Uma coisa que a compromete é ela falar em nome do proletário. Jornal do Comércio. na sala do Casino.. e reservemo-nos a liberdade de a esmagar . O simples bom senso indica que se deixe falar o proletário. e atiram-lhes com cebolas à cara. dizem que o País está desorganizado. que é um dobre a finados pela dignidade humana.se bem atentamos neste acto -reconhece-se que é uma coisa diferente de fazer barricadas. uma reforma social. nos estancos: — Ora! isto está podre! Quando a opinião. um policeman segura-o gravemente pela gola da casaca. pálido de ambição ou de fome.depois de a ouvir. quer por um lado contar a sua miséria. os nossos parlamentos. inspira ainda as instituições. O proletário inglês não espingardeia os seus governos. Gazeta. É por lhe não permitirem fazer conferências que o proletário parisiense faz fogo. tão geral. que todos os dias declara que o sistema constitucional está desautorizado! (Diário Popular. sossegadamente. os operários ingleses pedemlhes contas nos seus comícios. quando aqueles que falam no poder os representam mal. Não o nega decerto a imprensa. nos passeios. pela razão de que fala nos meetings. Sejamos lógicos. nem a república. nos cafés.Santo Deus! Parece que lhes dói a consciência. às instituições! Deixemos falar o proletário. Temos ainda que. Silêncio ao pobre! gritava Lamennais em 48. E. nem o constitucionalismo. . Há muito tempo que a opinião pública as pedia. por uma propaganda nova. e convida em nome da moralidade. a nossa polícia? Deixemo-lo falar. passim). Vejamos: não tem a imprensa confessado todos os dias a podridão do País e a desorganização das suas forças vivas? (Jornais políticos. e deseja. com uma certa convicção desleixada. Não o nega a opinião. nem o sebastianismo. Desejam simplesmente ser a lógica e o bom senso. cobrem-nos de impropérios. o grande carácter das conferências é. passim). Se a vítima tenta fugir ou fazer resistência à cebola ou ao insulto. actualmente. a oportunidade. diz que um país está perdido dentro de um sistema. por outro provar o seu direito. que todos os dias exclama. maiorias e oposições. Que receiam? Não temos os nossos exércitos. As Farpas não são o legitimismo. O proletário pretende explicar-se. É muito mais cómodo encontrarmo-nos com quem represente o proletário.Tenhamos bom senso! Escutemos a revolução. etc. taciturno.. O quê! há aí alguém que o negue? Não o nega decerto o parlamento onde todos os dias ministros.

dentro do sistema. de caso pensado. que este não serve? E vós. que o sr. Braamcamp? É. então faltam duplamente à dignidade.Não é verdade que a Gazeta do Povo tem provado que ambos eles são incapazes? E não é verdade que a Revolução e o Diário Popular têm afirmado uniformemente que o incapaz é o Sr. porque desconsideram os outros enganando-os. que esta não presta!? Não vemos os partidos. . Por consequência parece que estais inutilizados uns pelos outros. e desconsideram-se a si mentindo. Quem fala depois do Sr. todos a falseiam. porque têm essa propaganda nova que implicitamente pediam. o cepticismo no espírito público. e que lhe apareça apenas com ideias. bispo de Viseu é incapaz de organizar o País? É. Fontes é incapaz de organizar o País? É. para o interesse da sua intriga. Portanto ou tendes de aceitar a vossa condenação. não confessais vós todos os dias a impotência dos vossos políticos? Não vos tendes dito uns aos outros os extremos insultos? Não vos tendes destruído uns pelos outros? Apelamos para ti. Se não são. Não é verdade que o Diário Popular tem dito. Qual é a conclusão? A necessidade de uma propaganda nova. leitor de bom senso. Todos os partidos estão pois interessados nesta propaganda. ou não. em quem deve residir a consciência do Estado. que o Sr.Outra. derrubarem todos os dias ministérios. depois de lhes experimentarem um momento a inteligência .Ou são sinceros. . ou tendes de confessar a vossa falsidade. como um homem que num chapeleiro experimenta chapéus Outro. dentro do sistema. todos a falam. São perturba dores de profissão: querem lançar. é o que o Casino enfim lhe fornece! Muito feliz ainda que lhe não apareça com chuços. e tocando a rebate através das consciências. É o que a imprensa está pedindo há longo tempo. Se um fala verdade. Se um a falseia. Antero de Quental? Deve ser o sr. .Se são sinceros então devem estar radiantes de alegria.Não é verdade que a Revolução tem provado à saciedade. jornais políticos. tocando a rebate pelas ruas. Pertencem portanto ao ministério público. bispo de Viseu! . Não vemos nós os ministérios dissolvendo câmaras sobre câmaras.

rugiu. de arte? — Economias! .disse com voz potente o partido reformista. sobre educação. Ninguém se aproximava dele.disseram . um princípio que domine toda a vida social. Havia em torno um terror.uivou. — Bem! e em moral? — Economias! . sobre trabalho. — Viva! e em educação? — Economias! . Assim. uma ideia sobre moral. verdadeiro. a questão religiosa é complicada. Fez-se uma nova tentativa.roncou. Então os mais audaciosos fizeram-lhe perguntas. Era de carne. alguns jornalistas mais curiosos foram-se chegando. pouco a pouco. Capítulo IV: O que era o partido Reformista) por Eça de Queirós Maio 1871. Todo o mundo tinha os cabelos em pé. começaram a tocar-lhe com o dedo. Por fim. Qual é o vosso princípio nesta questão? — Economias! . etc.rouquejou.Uma Campanha Alegre (Volume I. Percebeu-se mesmo que falava. — Santo Deus! e em questões de literatura. Perguntaram-lhe: — Que horas são? — Economias! . Aquilo não dizia mais nada. — Safa! e nas questões de trabalho? — Economias! . por exemplo. — Senhor . — Apre! e em questões de jurisprudência? — Economias! .bradou. . Fizeram-se novas experiências. Espanto geral. no meio da imensa impressão que causava nos moços de fretes. a ver se era de pau.espalhou-se por aí que vindes restaurar o País. mais doce. Ora deveis saber que um partido que traz uma missão de reconstituição deve ter um sistema.mugiu.

tão intransigente. com mágoa. outros que era uma seita religiosa para a criação do bicho-da-seda. Um suor frio humedecia as camisas. ou da mamã? — Economias! .bravejou. de repente. pesado. aquela palavra que repetia sempre. tão triste. sem a compreender. sem se saber como. Ninguém sabia bem o que aquilo queria.. a todo o propósito.— De quem gosta mais. de voz possante. Era um estafermo austero. O partido reformista é o papagaio do Constitucionalismo. Apresentava-se tão grave. Possuía apenas uma palavra. Foi necessário reconhecer. — Economias! . que o partido reformista não tinha ideias.. Interrogaram-no então sobre a tabuada. Alguns diziam que era o sebastianismo sob o seu aspecto constitucional. Corriam as mais desvairadas opiniões. O partido reformista apareceu um dia.gania. sem se saber por que. do papá. sobre a questão do Oriente. que no Chiado afirmava-se ser um personagem da história romana empalhado! .

O Papa tinha então também um domínio temporal . Se o papado perder para sempre Roma. Urbano II.equilibrado entre o calendário e a indiferença. num país católico. A opinião liberal irritou-se vendo o sr. os ilustres senhores deputados. porque o catolicismo é a expressão mais lógica do cristianismo-por consequência inimiga da religião. de conquista ou de doação. Capítulo V: Pastoral de um bispo) por Eça de Queirós Maio 1871. Ora afirmar que o papado pode viver exclusivamente do poder espiritual. porque o cristianismo é a expressão mais lógica do conceito religioso. O catolicismo degenera assim numa espécie de protestantismo . Desde que a fé se extinguiu. em pleno parlamento.que fica? Um vago e indefinido interesse espiritual. O que é então? Uma falta notável de princípios e de lógica. que no parlamento protestou ser católica apostólica romana. fazendo profissão de ateísmo! De resto a pastoral de S. não como condição vital da sua supremacia.Uma Campanha Alegre (Volume I. De modo que a opinião liberal. e fazia dele o vicariato de Deus. Escusamos de citar épocas históricas. e da tradição de S. O verdadeiro império tiravam-no eles da espontaneidade da fé católica e da força da unidade. é um documento deplorável. R. é uma patente má-fé (não é o caso da opinião liberal). em que se falou consideravelmente em placet e non placet.mas como uma jóia da sua tiara. e entende que o Papa se deve ocupar unicamente dos negócios do Céu. falando em nome da fé que ninguém possui.o que sustenta o catolicismo e a soberania espiritual? É a soberania temporal. A opinião liberal faz a polícia do espiritualismo. eram apenas a glorificação do seu pontificado. e que a religião de dominadora passou a consentida . símbolo visível da supremacia religiosa . censura a defesa do catolicismo e a defesa da unidade. O papado podia viver sem o temporal quando a religião lhe dava o domínio em todas as consciências. . Pedro que ninguém já sabe em que consiste. que por toda a parte o Estado fez cisão com a Igreja. bispo do Algarve lamentar com azedume a extinção do poder temporal. E. Inocêncio III se afirmaram tão grandes: as terras. censurando a defesa do poder temporal. ou um prurido revolucionário (não é também o caso da honrada maioria constitucional). E aqui temos. Não foi por possuir Roma e mais uns pedaços de terra que Gregório VII. o reino de Roma. A opinião liberal não ama o poder temporal. Ergueu-se a este respeito um debate na Câmara.por consequência inimiga do cristianismo. E através dos seus protestos ortodoxos mostra-se inimiga do catolicismo .

panfleto de sacristia sem critério. cardeais. sem ciência. Mas hoje o Papa não tem Roma. a condenação pura e simples da filosofia e da razão. começando por dirigir apóstrofes à arca de Noé e terminando por pedir esmolas para o Papa. Seria um documento lógico. que os fiéis imaginam que vão tomar mais chorumenta a terrina papal. o que quer que seja de beato e de lacrimoso. uma defesa do temporal intransigivelmente posta aplaudiríamos a pastoral. sem lógica. bispo do Algarve. Mas não! a pastoral é uma espécie de artigo de fundo molhado em água benta. Roma vivia das esmolas do sr. patriarca.Se fosse um protesto católico. apresentava o estranho caso de um estado fundado unicamente sobre a mendicidade. e as esmolas continuam a tomar o caminho de Roma! O caminho de Roma? Quem sabe? Aí estão os jornais espanhóis que declaram que a subvenção católica para o Papa não é mais que unia inscrição disfarçada para o legitimismo. com um cheiro a opa e a feno seco. clero e populaça eram todos mendigos de profissão. publicou uma pastoral. . Papa. sem ortodoxia. Mundo. uma pequena encíclica para uso nacional. vão simplesmente ser empregados em comprar balas e pólvora para a insurreição da Navarra. e que todos esses dinheiros. Esmolas! Esmolas! O papado quando tinha Roma.

põem-se-lhe alcunhas. que não és deputado. que é também um grande carácter. Fazem-se-lhe epigramas. Um grande escritor.. A Câmara (tomemos a actual. de eloquência e de seriedade) por Eça de Queirós Maio 1871. Isto não quer dizer que isoladamente. Capítulo VI: À câmara dos deputados.murmura-se na véspera das sessões. Latino. de ideias. responde tu. nem eloquência. nem patriotismo. ou lês as sessões no jornal. nem ciência.respondem uns. leitor de bom senso e de boa-fé. e a sua falta de princípios. Se se pergunta: — Que houve hoje na Câmara? — Uma farsa .. indivíduo por indivíduo. Aparecem contra ela panfletos satíricos. seria ridículo negar a erudição do Sr.exclama-se nas galerias (textual). Diz-se mal da Câmara por toda a parte. nosso amigo e confidente! A opinião é legítima e fundada em experiência. De que provém este desdém geral? De um surdo fermento de hostilidade que haja entre nós contra os grandes corpos do Estado? Da convicção nascida de uma experiência diária? Tu. de independência. de saber. Os jornais políticos vêm cheios destas fórmulas: «A Câmara ontem deu um espectáculo triste para quem preza os verdadeiros princípios. — Amanhã há escândalo! . e coberto de aplausos. — O parlamento é uma vergonha . nem independência. . é sempre citado. de patriotismo.Uma Campanha Alegre (Volume I. a honestidade do Sr. — Uma feira . se não encontrem estas qualidades com um relevo poderoso. Os jornais mais sérios falam constantemente na sua improdutividade. nem consciência. os jornais de notícias contam com uma singeleza dramática: «Ontem a sessão passou-se em injúrias pessoais». nem seriedade.» «A Câmara salta por cima dos princípios mais rudimentares de administração»... nem ideias. — Vamos aos touros! . Ela é geralmente considerada como um sórdido covil de intrigas. «A Câmara está oferecendo a prova da sua falta de independência. para exemplo) não tem princípios. A opinião tem pela Câmara dos Deputados um sentimento unânime. chamou-lhe: «Lupanar!» O dito julgado justo. de consciência. e te sentas na galeria. e unanimemente declarado: o tédio.respondem outros. Os folhetins escarnecem-na.diz-se nos cafés.

e corta a lista civil. mas reduzindo-lha no orçamento. o seu copo de água com açúcar. sentada nas suas cadeiras. vir contar nas . a sua organização. Sampaio.Rodrigues de Freitas. pela agricultura? A Câmara intriga e vocifera! De resto é um baralho de cartas com que chefes hábeis fazem uma partida de voltarete. não é no terreno da justiça pública. O seu critério. ressuscitar Afonso Henriques.. é que. por uma dedução lógica. e a abundância de defeitos que a desonram. E só serve as ambições de chefes. melhor que nós. etc. um professor consagrado. a sua campainha. ou se o não deve ter. logicamente entendido. nem economia. Quem ignora os exemplos? A sua enumeração fatigaria Homero. o Sr. a sua moral. Se alguma coisa decide. Dias Ferreira. A Câmara não tem ideias. obriga o ministério a levantar a forca.«porque o comando da Armada é de tradição de três séculos». Ainda a dissolução não aponta ao longe. que faz? Discute a questão das ostras. dando toda a latitude ao Rei na política. um regulamento. Dá. A Câmara não tem princípios. Não apresenta uma lei. poderiam. É monárquica. nem gramática: a Câmara nada sabe. é hoje inepto? É que o sr. E o País é quem leva os codilhos. O ministro declara que sim . e mostra-se hostil à defesa do poder temporal. um projecto.a Câmara tem a falta absoluta de qualidades que a ilustrariam. Nesse caso para que lhe dão a lei de meios até Julho? É um imbróglio conduzido por uma intriga. maioria a todos os partidos. A intriga política. e um ou dois magistrados que são deputados. na sua pequenina área de alterações pequeninas. pela indústria. O que se quer dizer. Este princípio do Governo. a intriga partidária. o seu progresso? Que faz por ele? Com que instituições o dota? Que melhoramentos lhe dá? Que interesse tem pela instrução. alternadamente. A Câmara não tem independência. com o seu presidente. Durante um mês inteiro discute se o Sr. um jornalista ilustre. ir imediatamente descobrir outra vez o caminho da índia — e ficar sempre a descobri-lo! A Câmara não tem justiça. Nem administração. A Câmara não tem consciência. Vede as ameaças de dissolução. É necessário prová-lo? Que lhe importa a ela o País. Diante de um país desorganizado de um extremo ao outro. como corpo constituído. O Sr. A Câmara não tem patriotismo. nem direito constitucional. reconstruir os conventos. Soares Franco deve ter o comando da Armada. que a exploram e que a desprezam. Porquê? Era ontem apto. mas dão-lhe o poder por mais dois meses. uma reforma. é no do interesse político. etc. e os seus contínuos . Acham-no tão impróprio que se afastam dele. marquês de Ávila. já a Câmara está encolhida debaixo dos bancos! A Câmara não tem ciência. o que. nem direito público. A maioria apoiava o sr. é a intriga. marquês de Ávila se nega à discussão do orçamento. a maioria abandona-o. É católica. nem história. é mostrar-se simpática à condenação do catolicismo.

que segundo ele. Menciona Júpiter. Vejam o Diário das Câmaras. ao espectáculo sem igual. dos ídolos. deputado. Fala na Eólia. acha que não dizemos uma verdade perfeita. Quem não viu uma sessão? O sussurro. O orador começa por um exórdio. isto é. no Olimpo.Farpas os discursos grotescos proferidos no parlamento em questões de doutrina. Conta como Platão dormia a sesta. Se algum de vós. o barulho. mas que é natural que por lá lhe ficassem antigas fervenças. era um deus com cabeça de gato (parece incrível mas é textual!) Logo adiante cita as portas da Aurora. sentado no seu trono coruscante (textual). Para que dizer o nome? A nossa questão não é de nomes. Aponta por essa ocasião Saturno. um modelo de discurso? Foi o sr. do cão Anúbis. Depois diz que desejava ter os dotes de suavidade e brandura para rastrear Platão. leitor de bom senso. Narra durante dez minutos a fábula de Oxilus. ora indignado ora divertido.. e no Peloponeso. na sua consciência. diante do público. e a pena ao vento. As questões pessoais estão constantemente na ordem do dia. Trata dos sacerdotes egípcios. que nos atire a primeira pedra como no Evangelho. restos daqueles fluxos seivosos (textual). um pouco mais abaixo Isócrates. marquês de Ávila e da comissão de fazenda. que nos lance a primeira contradição. é de factos. Pausa. Principia por declarar que já vai longe para ele o período da adolescência. e continua-se a conversar. A Câmara não tem seriedade. Discursa ainda sobre Sião e Babilónia. e senta-se! Tudo isto a propósito do sr. e da esfinge. na Etólia. e o que faziam as abelhas do Himeto. Ájax brandia o ferro!» Passa em seguida aos trabalhos de Hércules. Depois explica como era o acordo que reinava entre os deuses de Homero: «Aquiles empunhava o gládio. a confusão são perpétuos. Alude às hidras. Voam os desmentidos. Queres ver. Vota-se sem saber o que se discutiu.. Entra em seguida em matéria. Desenrola uma história imensa das Confissões de Santo Agostinho. E das galerias o público assiste. .Apelamos para vós mesmos. que levantamos um por um. os farrapos da vossa decadência? . Achais estas páginas cruéis? Pensais que não nos dói tanto escrevê-las como vos dói o lê-las? Pensais que é com espírito alegre. Nos momentos mais serenos é a graçola e a troça. A Câmara não tem eloquência. A propósito da sua alma brada: «Malheur à qui sonda les abimes de l’âme!» Depois ocupa-se da maneira de conceber das aranhas. Fervilham as injúrias.

Ora grande parte dos senhores candidatos têm aquela porção do seu ser tão morta como o Dr. E. Nuno Alvares Pereira! Debalde passeiam! Debalde falam! Estão mortos. ou cabralista de 45. ou o condestável Pereira. porque eles se acham em identidade de circunstâncias com a grande parte dos candidatos que se apresentam por esses círculos. Nuno Álvares Pereira! São estes dois cavalheiros . Qual será o liberal inteligente que recuse o seu voto a estes dois homens históricos? Valerá mais o Sr. que o sangue circule. mas que talvez influa nos ânimos timoratos: é que o doutor e o condestável morreram há quatro séculos! Pois bem! nós afirmamos que esse detalhe nada importa.viver é ser do seu tempo. ou o Sr. e dirigir um país . e como D. ou carlista de 36. velaria pelos foros populares? Quem como o condestável manteria a independência da Pátria? . por este lado. Capítulo VII: Os candidatos das Farpas) por Eça de Queirós Junho 1871.não é viver. outro o seu valor heróico. como a maioria dos candidatos se acham mortos e embalsamados no seu próprio corpo .a expressão gloriosa da sua Pátria. Propomos pois: O DOUTOR! . ajudar a criação social do seu século. sentir a comunhão das ideias novas.cidadãos! . como o Sr. João das Regras! O condestável D. Viver para sentir fisicamente é simples -basta que os pulmões respirem. cidadãos! Podem apenas pôr-nos uma objecção -pequena por si. ou regenerador de 51 . organizar. João das Regras. Nós possuímos também dois candidatos queridos. Regras. Mas viver para legislar e pensar é mais complexo .À urna. é recordar-se. quem sabe também se os mortos se recordarão? Por consequência.é necessário que a inteligência e a consciência estejam em vigor. que o alimento se digira. estar no seu momento histórico. Com efeito.estão na categoria em que se encontram os defuntos Regras e Álvares Pereira. no sentido de legislar. Ser democrata de 20. trabalhando.Uma Campanha Alegre (Volume I. José de Morais. São: O Dr. Um é o seu pensamento jurídico. de Norte a Sul do País! Todos esses beneméritos estão na realidade tão mortos como João das Regras. Coelho do Amaral?! E depois quem.

Os jornais portugueses é numa prosa dormente que os aconselham. com recato. e que desta condição não se gabam o doutor e o condestável. à escolha do sr. Melício. um corpo. Todos os jornais. não podem ter a pretensão. medida.é também verdade que estão vivos no seu corpo. lhes falta a condição vocal aquela grande condição de deputado que consiste em dizer: — Apoiado! Nesse caso. na época de eleições. para que os senhores secretários os possam tomar como personalidades . ou o Sr. de dizerem presentes! . sendo um punhado hipotético de pó. em tipo enorme. como não temos a pretensão de provar que o bronze e a pedra possuam uma extrema facilidade de locução . marquês de Ávila! . à adesão pública. Não nos dirão decerto que estes não tenham forma. peso! À urna. Os jornais franceses lançam os nomes desses. deputados estão mortos no seu espírito . pois! Mas podem fazer-nos sentir: Que se estes últimos cavalheiros têm a condição corpórea.propomos: A ESTÁTUA DE CAMÕES.como o Sr. no alto da página. A DE JOÃO DE BARROS. Carlos Bento. que podem dizer presentes! na chamada.O CONDESTÁVEL! Podem todavia observar-nos: Sendo verdade (como é) que os srs. uma pouca de matéria.propomos: Dois papa gaios. têm os seus candidatos predilectos. os quais. verdadeiramente tirânica. que são de carne! Bem! Então uma vez que é necessário um vulto.

E que em Portugal tudo faz sono . leitor pacífico que não pertences aos centros. Capítulo VIII: A fisiologia da eleição para deputados) por Eça de Queirós Junho 1871. isto é. A urna afecta várias formas. pelas escadarias de S. foram expulsas! Houve talvez umas certas fórmulas. metem gravemente o papelinho branco (o voto!) na caixinha (a urna!). dentro de umas caixas de pau. mas a verdade é que elas foram precipitadas. do feitio de vasilhas.porque uma Câmara não é eleita pelo povo. transportados de furor constitucional: . segundo as freguesias: Há urnas do feitio de caixas de açúcar. Fecharam.Uma Campanha Alegre (Volume I. O deputado é um empregado de confiança. e que se deitam num domingo. onde está escrito um nome. não penses que foi a sonolência comunicativa das nossas palavras severas. É ao alegre fugir da pena. um dito. os quais são tiras de papel. fez evacuar a sala! E aí está como a grande ocupação do mês são as ELEIÇÕES. Nomeia . uma carranca! O Governo entrou. comodamente sentada nas suas cadeiras. Bento abaixo. o Governo nomeia outra. Estes homens chamam-se a mesa. etc. estão em roda da urna. no último período dos seus manifestos. Se eles adormecerem no meio mais pungente da declamação. esperando com gravidade cívica que o Governo manifestasse a sua ideia por um projecto. bem barbeada. fez-se decerto o programa do encerramento. Lê-o ao chá aos teus pequerruchos. A Câmara estava quieta.até a anarquia! Quando uma Câmara se fecha. é nomeada pelo Governo. as Câmaras fecharam. um grito. a quem tua mulher prepara as fatias com manteiga. um curso de anatomia política. Este mês. com um gesto palaciano e galhardo. com gesto cívico e cheios do espírito das instituições. É por meio de votos. São eles que. aos empurrões. de camisas lavadas. quando os cravos abriam. E o melhor ensino que lhe podes dar do abaixamento do seu tempo. Somente a sua nomeação não é feita por um decreto nitidamente impresso no Diário do Governo: o processo dessa nomeação é mais complicado e moroso. numa igreja. e. Os candidatos gritam sempre. um relatório. do feitio de chávenas. que se chamam romanticamente urnas. É necessário que te expliquemos. o organismo interior de uma eleição. sem desconfiança. Uns homens graves.

Os amigos dos ministros são. Para serem exactos deveriam exclamar. Um tem um primo que casou. O Governo pois nomeia os seus deputados. O deputado obedece ao Governo. dissolvido. é demitido. é pianista. outro deseja um homem a quem deve uns centos de mil-réis (mas dispensa a candidatura para esse ladrão. ao caixote! E noutras: — Cidadãos. — Espera! tenho eu um primo. Depois os candidatos são mudados como figuras de um jogo de xadrez. — Não. Diz-se.. — Tu não tens ninguém pelo círculo tal? . outro sabe de um folhetinista com talento e língua fácil.— Cidadãos. o interruptor. à urna! E puramente uma denominação sentimental. O pobre rapaz tem poucos meios. indicam depois outros. Um escravo! Posso dizer ao rapaz que conte com a coisa? — Podes dizer ao rapaz. estes amigos. e exerce uma função. os primeiros escolhidos. seus parentes que procuram colocar. etc. E quando desagrada.pergunta X ao ministro.àqueles que vão ao enterro dos parentes e trazem o pequerrucho da casa às cabritas.. o homem dos precedentes. outro quer um cunhado. 2º Porque sendo a posição de deputado ociosa e rendosa. o deputado é tão igualmente funcionário como se fosse nomeado por oito linhas triviais e burocráticas do Diário do Governo. Por dois motivos: 1º Porque a amizade supõe identidade de interesses. Os pretendentes são numerosos. ou seus aderentes que querem utilizar. naturalmente. naturalmente e logicamente. como um bando de pardais em torno de um saco de espigas. Mas é fiel como um cão. em certas freguesias: — Cidadãos. dá-se o . com menos asseio. escolhidos entre os amigos dos ministros. Somente não se diz demitido. é coerente que seja dada aos amigos íntimos . Há o apagador. Estes homens são. se o ministro fizer esse ladrão recebedor de comarca). Para completar o número de uma maioria útil. Os amigos íntimos agitam-se em volta do ministro. o homem dos incidentes. à vasilha! Ora. Lentamente a lista da maioria vai-se formando em Lisboa. o gritador. confiança inteira. A um. apesar desta nomeação aparatosa e de grave cerimonial. seu íntimo. a quem se prometeu o círculo D. mais em contacto.

— Nada de palavras equívocas. O jornal da localidade já provou que meu genro era um animal. porque se descobre que C tomou chá com o chefe da oposição. que residem na província. Mas dá-se a E.são esses partidos que dão ao ministério as listas das suas maiorias particulares.» Meses depois deste exercício o Governo possui enfim. intrigue. O governador civil chama particularmente cada administrador de concelho. e nomeia estas maiorias.. Ou a eleição certa para o Governo. e o Governo. Às vezes é um influente pelo círculo X. ou a demissão certa para si. comunica-a aos governadores civis. Eu é que tenho influência. — Mas o círculo Z está prometido a Fulano. quando tu estás no poleiro. e com os braços disponíveis.. Mas meu genro espancou a redacção. a lista da sua maioria. estatelado no lodoso chão da intriga. compacta. compre. mas o sujeito convencido de animal pelo periódico da localidade! Há ainda os amigos do Governo. que. onde é proprietário. querido amigo. Tal é este prodigioso e baixo imbróglio! Logo que o Governo possui completa a sua lista. Quando o Governo não tem política própria. maltrate. E as duas maiorias livres da fastidiosa ocupação de amparar um Governo antipático. E quem vem pelo círculo Z não é o professor distinto. O que nós queremos é que o Governo vença! . Compromete-se a fazê-lo vencer? — Farei as diligencias.. inteira. que foi quem denunciou C. e vive. e troca com ele estes nobres dizeres: — Pelo seu círculo o Governo propõe Fulano. pede que seu genro venha pelo círculo Z. um publicista! Seu genro tem pelo menos algum curso? — Meu genro não tem curso nenhum. ameace. apoiado em dois partidos . Começa aqui o que se chama o trabalhinho das autoridades.governo civil de B-como indemnização. Tira-se a C a candidatura. Esses escrevem ao ministro: «Tenho aqui tudo preparado pelo círculo.. cai de costas. Sabes que sou fiel como um cão. De resto peça. nem programa próprio. e gasto um dinheirame. abarrotada de nomes fiéis. Constituída a Câmara. desamparado. que é um professor distinto. nem amigos próprios. espero que me mandes apoiar a eleição. em paga da sua influência. cada partido retira a sua maioria. Isso é consigo. rompem logo a invectivar-se uma à outra com galhardo brio.. O Governo aceita.. Por isso. como o actual.

alguma coisa se há-de comer! Adeus. no círculo. que está muito trabalhada pela oposição — Conte com eles. É do Governo! O administrador. trotando pelas estradas do concelho. grande transtorno lhe vai fazer! Mulher e quatro filhos. e. Trabalhar. quer seguir a carreira administrativa... Regateia-se o voto: 500. — Precisava também de tropa. . Esses meios são: 1º A compra pura e simples.É um sujeito de Lisboa.. meu amigo. — Mas quem é ele? — Eu sei lá quem ele é! . Mas enfim — Está claro. 1$000. — Pois bem . mas são raros. Os regedores partem. Há-os de meia libra.. ruminam os seus meios.. — Com todo o gosto. vive daquele escasso rendimento.. reúne os seus regedores: — O candidato é Fulano. Honesto sistema! A primeira dificuldade é que. sente o seu interesse que o insta. E cada administrador vai trabalhar para o seu círculo. para a frente!. Coitado. e cede a S. — Que seja transferido o escrivão de fazenda. ninguém conhece o candidato. .responde a própria autoridade. — Além disso preciso uns 300$000 réis para a freguesia de tal.. — E necessário que seja demitido o reitor do liceu.respondo por tudo. que diabo.diz . trabalhar! Esta nossa vida administrativa é o demónio! Mas... Mas tenho exigências.. A mulher é da vila. para ordenar a escaramuça. 1$500 réis. Mãos à obra! É trabalhar-me bem essas freguesias! É pedir. Exª.O administrador tem família. — Venham elas. ameaçar. que é todo oposição — Tomo nota.

de destacamento para longe. arranjo-te a que o sejas apenas em 9. e excepção da décima para ele.lhe o vinho na taberna. da administração.por cabeça. Está para entrar no recrutamento. fraqueza que se não ataque. e tens a vergonha em casa Ou quando não: — Tu andas colectado em 10. O proprietário exerce pressão sobre os rendeiros. etc. 100. 100 ou 200 livres votos ao candidato do Governo! E por todos os círculos se trabalha sem descanso! As autoridades têm dias pesados de fadigas. aturdido. a tua filha será chamada à presença da autoridade. e esse homem dá generosamente. Se não. Se votas no Governo livro-te o filho. Se votas contra.2º A pressão. nomeia-se-lhe um primo recebedor ou apontador de estradas. para maior esplendor da monarquia. Há votos por influência. tens para o ano no cachaço 16 ou 17. noites cortadas de telegramas. Os coronéis exercem pressão sobre os oficiais . A ameaça é mais especialmente feita pelo regedor na sua freguesia. Pagase. acessível a todos. simples. um título. — Mas quem é o Felizardo? — Ora! É o Felizardo! Eu sei lá quem é! É um para deputado! . da repartição de fazenda. Bate-se por todo o concelho a áspera e ávida caça ao eleitor. Ou então: — Tu sabes que tua filha tem aí um namoro.com ameaça de participação para a secretaria da guerra. promete-se-lhe a isenção do recrutamento para o filho. 200 votos: dá-se a esse homem uma comenda. de mudanças de corpo com despesas. O eleitor é acariciado. 3º A ameaça. da câmara. que exercem pressão sobre os trabalhadores. tens o filho com a farda às costas. além compra-se. E o pobre eleitor. Aqui ameaça-se. do liceu. saudado. da repartição de obras públicas. Não há interesse que se não seduza. Demite-se aqui um regedor que é suspeito. Nos centros de distrito ou de concelho a autoridade superior exerce pressão sobre todos os empregados do governo civil. miséria com que se não especule.arranja-se um sujeito que dispõe de 50. esses 50. Se votares com o Governo. E o mais eficaz. diz à mulher em casa: — Oh! senhores. além muda-se um pároco que é hostil. etc. Se não votares com o Governo. E aqui está como o Governo arranja votos . O regedor dirige-se ao eleitor e verte-lhe esta honesta eloquência: — Tu tens um filho de 20 anos. Isto é . não me deixam! Por causa do tal conselheiro Felizardo. A pressão é uma arma geral.

aqueles a quem livrou os filhos do recrutamento.No entanto a oposição trabalha também. e que. apesar de ser a mais lodosa. Para os deter até às 10 horas. Recorre sobretudo à prosa. em que são recolhidos. Em vésperas de eleição todos o vêem.. Estão ali uns poucos de centos de homens. Tem uma casa pintada de amarelo. ou. Manifestos nas vilas. o secretário da mesa chama numa voz dormente. vereador! Já não usa jaqueta. Tudo o que ele pede é satisfeito.a corrupção. e pragas mais longe . fala-lhe vagamente no hábito de Cristo. espera que chegue a hora de dar o seu voto ao Governo. As leis afastam-se para ele passar. a lista no bolso do colete. é ainda a mais sólida . dispersos. ou o corpo da cadeia. nem tamancos. de grandes colarinhos brancos. ou um grande pátio. Antigo cavador de enxada. Nasce enfim o dia. num futuro glorioso. discursos populares pelas freguesias. gesticulando. A autoridade passalhe a mão por cima do ombro. calça um par de luvas pretas. com um cheiro enjoativo e um rumor de troça. estejam expostos às tentações da oposição . etc. e viva lá seu compadre! e à saúde do nosso regedor! e grandes risadas daqui e empurrões além. de regedor à frente.e toda aquela multidão avinhada. Passam os copos em redor. Os tamancos soam no lajedo da igreja. e o seu reino assenta sobre a coisa que. Os seus meios são menores. encontrardes o influente. os queixos mastigam. o influente de eleições. o domingo desejado. tudo o que ele lembra é realizado. Dispõe ordinariamente de 200 ou 300 votos: são os seus criados de lavoura. ele é exceptuado: é o influente! Só ele caça nos meses defesos: é o influente! Só a sua rua é calçada: é o influente! Se algum dia. misturado entre os grupos. impedir que eles se desmantilhem. berrando. ele pode tê-los: é o influente! Se são proibidos os portes de armas. Os regedores começam a chegar à frente das suas freguesias. com uma importância tremenda. quer ser da junta de paróquia. Fala nos impostos. e mais tarde. montado na sua mula pelos caminhos das freguesias. a bolsa do aumento de décima. nas poucas estradas que o Governo faz e nas muitas infâmias que o deputado governamental tem feito No meio disto agita-se um dos tipos característicos da província. espontâneo e consciente! Cada freguesia vai votar arrebanhada. os seus devedores. Lugar nas Farpas ao influente! Lugar à pesada corpulência do sr. com o varapau na mão. da junta dos repartidores. leitores das Farpas. perdeste a lista? Pensei! Deita ali! Rua! . aborrecida. impaciente. No entanto vem vinho e bacalhau. As suas fazendas não são colectadas à justa: é o influente! Os criminosos por quem se empenha são absolvidos: é o influente! Se são proibidos no concelho os arrozais. Ele reina. influente! O influente ordinariamente é proprietário. livre. sentados no chão. os seus empreiteiros. fora das vistas zelosas do regedor. enriqueceu. e fala na soberania nacional. amontoados. A cada nome o regedor volta-se para o indivíduo: — Vá! és tu. nas vexações do escrivão de fazenda. tirai-lhe o vosso chapéu. tem ambições. nos dias de mercado.. ou um enorme armazém.há um casarão. Chega-te. Os homens vêm de cara lavada.

os Cristos sobre os altares agonizam nas cruzes. conclusões. os influentes satisfeitos fumam no adro. leitor! Querias comentários.E a igreja vai-se esvaziando. Viva o sufrágio! Bem te compreendemos. no fim desta narração. os papelinhos brancos acumulam-se na urna. e a moral desta farsa? Olha. . se sentires. a necessidade de uma liga de todos os homens sérios contra o triunfo progressivo desta corrupção . os senhores da mesa bocejam. as beatas persignam-se com água benta.esse será o único comentário justo e fecundo. os sacristães apagam as velas nos altares.

Uma Campanha Alegre (Volume I. segundo a sua própria opinião e os seus jornais . e num chouto tão triunfante! Daqui provém também este caso singular: .. os amigos do povo. perdem o poder. os verdadeiros liberais. os esbanjadores da fazenda. aos quatro cantos de uma sala. pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis.os corruptos. Capítulo IX: Habilitações necessárias para ministro.pela imprensa. rico. sempre os mesmos..a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País. não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da fazenda e ruína do País. pela palavra dos oradores. os que não estão no poder. trocam o poder. para deixar de ser o mais depressa que puderem .os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País. cansam-se. a ruína do País! Os outros. coisa notável! . O poder não sai de uns certos grupos. conspiram. e os interesses do País! Até que enfim caem os cinco do poder. Não há nenhum que não tenha sido demitido. Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas . Do ze ou quinze homens. feliz. são.os verdadeiros liberais.. cheios de fel e de tédio . ou obrigado a pedir a demissão. num rumor de risos...) por Eça de Queirós Junho 1871. como uma péla que quatro crianças.. pelas incriminações da opinião.. os salvadores da causa pública. pelo ar. E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o País. Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos.os verdadeiros liberais. alternadamente possuem o poder. segundo a opinião.. esses homens são. abundante. forte. pela afirmativa constitucional do poder moderador. Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder. e os interesses do País. reconquistam o poder. e os outros. entanto que os que caíram do poder se resignam. entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do País. neste caminho em que ele vai. atiram umas às outras. e os dizeres de todos os outros que lá não estão . durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se. Mas. coroado de rosas.

O bacharel Eleutério. Se caiu foi porque naturalmente a opinião. acena-lhe com um lenço branco. quantas mais vezes tem sido ministro . por essa ocasião. prodigiosamente! É novamente ministro: se tiver a fortuna de ser derrubado do poder. o chefe do Estado tem de proceder da maneira seguinte na apreciação dos homens: O menino Eleutério fica reprovado no seu exame de francês. Ora tudo isto nos faz pensar . entrará permanentemente no Almanaque de Gota. O poder moderador. será elevado a um título. E a sua importância aumentou. O poder moderador não pode conter o júbilo. Carlos Bento foi uma primeira vez ministro da fazenda. Mostrou de novo a sua incapacidade pelo menos assim o julgou. Por isto foi ministro da fazenda uma segunda vez. o poder moderador. dando outro passo largo. os partidos coligados.. O caloiro Eleutério.isto é. O menino Eleutério.Um homem é tanto mais célebre. Assim o Sr. Carlos Bento saiu do poder com importância. quantas mais vezes tem mostrado a sua incapacidade nos negócios. tanto mais consagrado. e convencido pela opinião de uma incapacidade absoluta. E a opinião aplaude! . Teve a sua demissão. E o Sr. e quer a todo o transe ter com ele umas falas sérias. dar-se-lhe-ão embaixadas. logicamente. e fá-lo ministro da Justiça. sendo esbanjador da fazenda. e não foi naturalmente pelos serviços que estava fazendo à sua pátria. alvoroçado. pelo engrandecimento que estava dando à receita pública. o julgaram menos conveniente para administrar a riqueza nacional. E a importância do Sr. Carlos Bento cresceu! Por consequência foi terceira vez ministro. fica reprovado no 1 ano da Faculdade de Direito. O poder moderador exulta.que quanto mais um homem prova a sua incapacidade.. continuando a sua bela carreira política. devemos portanto ainda supor Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado: que naturalmente deu provas de não ser competente para estar na direcção dos negócios. tanto mais apto se torna para governar o seu país! E portanto. avançando sempre. impondo-lhe a sua demissão. o poder moderador. Caiu. fica reprovado no seu exame de história. etc. ruína do País. a imprensa. etc. fica reprovado no concurso de delegado. O poder moderador deitalhe logo um olho terno.

De modo que, se um homem se pudesse apresentar ao chefe do Estado com os seguintes
documentos:
Espírito de tal modo bronco que nunca pôde aprender a somar;
Reprovações sucessivas em todas as matérias de todos os cursos.
O chefe do Estado tomá-lo-ia pela mão, e bradaria, sufocado em júbilo:
— Tu Marcellus eris! Tu serás, para todo o sempre, Presidente do Conselho!

Uma Campanha Alegre (Volume I, Capítulo X: Os sete marqueses de Ávila)
por Eça de Queirós

Julho 1871.
Ninguém até hoje precisou bem a razão real e íntima deste fenómeno; e o motivoé que
ninguém sabe, com verdade e nitidez, a maneira como foi constituído este ministério
ilustre.
Para fornecer, pois, a explicação crítica desse caso instrutivo, aqui revelamos a
organização do ministério tal como a impuseram as circunstâncias partidárias, as
dificuldades de acordo, e a justa repugnância que todo o cidadão decoroso tem em se
associar à acção que se chama governar o País.
O ministério foi assim composto:
Presidente do Conselho - Marquês de Ávila e Bolama;
Ministro dos Estrangeiros - Marquês de Ávila e Bolama;
Ministro do Reino - Marquês de Ávila e Bolama;
Ministro da Fazenda - Marquês de Ávila e Bolama, sob o pseudónimo de Carlos Bento da Silva;
Ministro das Obras Públicas - Marquês de Ávila e Bolama, sob o simpático e suposto
nome de - Visconde de Chanceleiros;
Ministro da Justiça - Marquês de Ávila e Bolama, sob o anagrama - Só Vargas;
Ministro da Guerra -- Marquês de Ávila e Bolama, sob a denominação verdadeiramente
inexplicável de - José de Morais Rego.
Alguns jornais, com referência ao ministério, têm frequentemente aludido ao caso
singular de ser na realidade o sr. marquês de Ávila o único ministro que vive, fala,
decreta, influi, faz deputados - a única individualidade agente e movente.

Uma Campanha Alegre (Volume I, Capítulo XI: A multa municipal para o lirismo
sentimental)
por Eça de Queirós

Julho 1871.
Numa prosa anterior (prelúdio) escreve que a missão da arte é ensinar a amar (!)- e que
na arte não entra realidade, justiça ou moral pública porque (acrescenta) a arte nada tem
com os direitos civis. Colocado assim à Larga, na anarquia da voluptuosidade e do
lirismo, aí está o que o poeta expõe e ensina num jornal popular, com uma tiragem de
20000 exemplares, que anda por cima das mesas e nos cestos de costura!
Começa por dizer:
— Que é bom amar no campo, à tarde e a sós!
Depois continua:
— Que prefere o campo, porque nas salas do mundo não lhe é dado beijar a mão dela às
largas! Que o campo é livre e as sombras dão refúgio!
Por fim acrescenta:
Que queria que os raios cintilantes os cingissem a ele só com ela, erguidos em êxtase,
longe de quanto é vil...
(Quanto é vil, na gíria da poesia lírica, é o mundo real, a família, o trabalho, as
ocupações domésticas, etc.).
Dispensamo-nos de citar mais estrofes lascivas.
Aquelas bastam para legitimar as seguintes observações:
Nenhum jornal publicaria semelhantes teorias em prosa;
Nenhum homem que as escrevesse ousaria lê-las a sua filha, sem gaguejar, e sem comer
as palavras;
Nenhuma senhora que por acaso as tivesse lido ousaria citá-las.
Como se consente então a sua publicação em verso? A higiene não é só a regularização
salutar das condições da vida física; nela devem também entrar os factos da moralidade.
Se é proibido que um monturo imundo ou um cão morto corrompam o ar respirável das
ruas - porque há-de ser permitido que um poeta, com as suas endechas podres, perturbe
o pudor e a tranquilidade virgem?
Há uma postura da Câmara que impõe uma multa a quem pronuncia palavras
desonestas: porque não há-de ser igualmente proibido publicar ideias desonestas?

Um ébrio, um pobre homem a quem se não deu educação, a quem se não pode dar
leitura, a quem quase se não dá trabalho, diz uma praga numa rua, ouvida apenas de três
ou quatro pessoas, e vai para a cadeia ou paga uma multa de 3$000 réis. Um poeta
lírico, esclarecido, aprovado nos seus exames, empregado nas secretarias, publica num
jornal de cinquenta mil leitores, em letra impressa, permanente e indelével, uma série de
desonestidades, e é apreciado, cumprimentado no Martinho, indigitado para uma
candidatura!
Pedimos pois:
Ou que seja permitido livremente dizer na rua e no jornal pragas e desonestidades;
Ou que a multa da Câmara Municipal seja aplicada a todos - e que tanto o ébrio que não
sabe o que diz à esquina de uma rua, como o poeta lírico que escreve, com reflexão e
rascunho de uma semana, ao canto de um jornal, paguem os 3$000 réis à
Câmara, um pela sua praga, outro pela sua endecha.
No folhetim do Diário Popular de 24 de Junho lêem-se notáveis considerações de ordem
moral. São em verso. O poeta dirige-se, na sua declamação solitária, a uma mulher.

Uma Campanha Alegre (Volume I, Capítulo XII: A supressão das conferências do
Casino)
por Eça de Queirós

Julho 1871.
Conheces já decerto, leitor sensato e honrado, o protesto dos conferentes, a adesão de
outros cidadãos, a opinião da imprensa...
E achas certamente na tua consciência que este acto do sr. marquês de Ávila, não tendo
de certo modo equidade, não tem de modo algum legalidade; que é sobretudo
profundamente inábil; e que o sr. marquês, dando um golpe de Estado contra alguns
escritores que no Casino faziam crítica de história e de literatura, foi criar uma atitude
política onde só havia um intuito científico.
Homens que numa sala, com senhoras na galeria, movem questões científicas e
literárias, numa alta generalização de ideias, são tão inofensivos na política do seu país
como um livro de matemática. São motores de pensamento e de estudo, que não vão
tocar a rebate no sino das Mercês.
— Mas homens que o Governo obriga a fazer um protesto num café, na agitação de
trezentas pessoas; a percorrerem as redacções dos jornais, seguidos de uma multidão
indignada; a colocarem-se como defensores da consciência ofendida - esses parecem-se
terrivelmente com homens de uma acção política! As conferências desceram assim da
sua serenidade filosófica; estão na luta, estão na discussão da Carta, estão na prosa da
Gazeta do Povo!
Vejamos a legalidade do facto. Num país constitucional, tem-se sempre aberta sobre a
mesa a Carta Constitucional - ou para descansar nela o charuto, ou para tirar dela um
argumento. Diz a Carta no seu artigo 145º:
A inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos portugueses.., é garantida
pela Constituição do Reino, pela maneira seguinte:
§ 3º Todos podem comunicar o seu pensamento por palavras e escritos, e publicá-los
pela imprensa sem dependência de censura, contanto que hajam de responder pelos
abusos que cometerem no exercício desse direito.
Temos, pois, adquiridos à certeza dois pontos:
1º Que todo o cidadão pode publicar o seu pensamento falando ou escrevendo;
2º Que o cidadão fica responsável pelo abuso do seu direito.
Por consequência, logo na primeira conferencia:
1º O Sr. Antero de Quental podia falar sobre a religião em toda a liberdade da sua
opinião;

comissário não achou. não as conferências que se tinham feito. não intimou. Vidal é um poeta lírico ligeiramente inferior a Lamartine. Luciano Cordeiro! Quem o diria!? Quando se escrever que o Sr. director do Casino. antes da conferência que ia ser feita. que o Sr. Ora. ministro do Reino fez entregar por um empregado de polícia ao Sr. Antero de Quental? Não. o trono de Sua Majestade ficará bambaleando um quarto de hora! Mas vejamos! A última conferência foi feita no dia 19 de Junho. por ordem superior. e uma grande porção do Sr. tivesse feito por suspiros . o Sr. Portanto o sr. Talvez o O sr. sem atrair sorrisos maliciosos sobre tão insensata metáfora. na sua consciência. só se pode coibir a liberdade de pensamento quando houver abuso: e como esse abuso não existia.em que se notificava que. A dissolução da reunião só pode ser intimada à assembleia . O comissário assistente das conferências... Em que atacavam estas a religião ou as instituições políticas? Fazer a crítica da literatura contemporânea é ofender (segundo a linguagem rococó da portaria) o código fundamental da monarquia? Nesse caso pedimos a cabeça do Sr. As conferências que se seguiram foram. o prelector)». Antero de Quental abuso punível. Antero de Quental abusasse da liberdade de expor o seu pensamento. Ora quem torna efectiva a responsabilidade desse abuso? Em primeiro lugar: O comissário que deve assistir a todas as reuniões públicas. o crânio do Sr.depois da autoridade advertir em voz alta os directores da reunião (neste caso. a portaria foi dada no dia 26 do mesmo mês. marquês de Ávila fechou.reaccionário pela intenção. pelo simples motivo que a conferência ainda não fora feita. ministro do Reino violou a Carta. nem em voz alta. Por consequência o sr. Por consequência nem o comissário presente à conferência. Antero de Quental. Antero de Quental respondia pelo abuso.2º Se abusasse. e não advertiu o Sr. Ao ministro cabia unicamente o direito de fazer processar o Sr. nem com gestos. uma sobre crítica literária contemporânea. estavam fechadas as conferências democráticas. a terceira sobre o ensino e as suas reformas. o Sr. Rangel. e por consequência o pensamento não fora manifestado . o que seria um pouco inútil . na ideia do decreto com força de lei de 15 de Junho de 1870.segue-se que o sr. se esta palavra violar ainda se pode empregar a respeito da Carta. Em segundo lugar: O ministério público querelou do Sr. como nova expressão da arte. outra sobre o realismo. mas demagógico pela gramática . encontraram na conferência do Sr. segundo o citado artigo da Carta. Júlio Machado.mas esse caso não está na lei. «As reuniões públicas (diz este decreto) podem ser dissolvidas pela autoridade. nem o ministério público. Antero de . quando por qualquer forma perturbarem a ordem pública. um papel .mas as conferências que se iam fazer. É lógico. Zagalo. Pinheiro Chagas.

..Quental. quase fora da humanidade. o bom senso. Do que o ministro não tem o mínimo direito é da rude supressão da palavra a prelectores de literatura. de Vacherot? Foi a crítica religiosa? Para que se consente então que atravessem a fronteira ou a alfândega os livros de Renan. os romances do Sr. de arte e de pedagogia. marquês de Ávila com o instrumento seguinte: — «Requeiro à Câmara dos Deputados que torne efectiva a responsabilidade do sr. de Salvador.. de Strauss. queixas. fechemos as conferências do Casino onde se ouvem doutrinas livres.segundo me é permitido pelo § 28 do citado artigo. e ATÉ expor qualquer infracção da constituição. § 5? Pelo que obrarem contra a liberdade dos cidadãos. e para a acção: é a mesma entrada para a consciência por duas portas paralelas.. 145º da Carta Constitucional . de Girardin. a legalidade. temos até aqui argumentado com a legalidade.. Pode fulminar o espirro! Ora o artigo 103º da Carta diz: «Os ministros são responsáveis. como para o ministro que infringiu a lei. segundo a mesma Carta. requerendo. procedendo contra ele como infractor do § 3º do art. Isso era a lógica. Agora a equidade: Que se quis fazer calar nas conferências? Foi a crítica política? Para que se deixa então circular no País os livros de Proudhon.«Como está? passou bem?» Pode suprimir ainda um sorriso ou um olhar expressivo. Façamos calar o Sr. Proudhon. como fez. Alexandre Herculano. Fazendo. fora do espírito do tempo.» E o § 28 do artigo 145º acrescenta: «Todo o cidadão poderá fazer apresentar reclamações. de Michelet? Sejamos lógicos. para a memória.» Tanto em relação ao prelector que abusou da liberdade. ministro mandar suprimir As Farpas. os volumes de historia do Sr. segundo a Carta.. Ouvir ou ler dá os mesmos resultados para a inteligência. esta simples pergunta . Antero de Quental. mas expulsemos os livros onde se lêem doutrinas livres. Camilo Castelo Branco.» Seria portanto possível responder à portaria do sr. Com direito igual pode amanhã o sr. a conversação.. a efectiva responsabilidade do infractor. mas proibamos na alfândega a entrada dos livros de Vítor Hugo. de Luís Blanc. ministro do Reino. tal supressão está fora da lei. os jornais.

com gestos moderados ou com gestos descompostos: tudo isto é legal. Antero condenar as monarquias absolutas. a critica literária. na torpeza moral e no tédio. contra isso. e deixemo-nos apodrecer. e parece-nos que um tiro é um argumento que penetra o adversário . toda a crítica francesa. ainda quando em redor a intriga e o interesse fazem um ruído horrível .enfim uma revolução pelo Governo. realizada pelas concessões sucessivas dos poderes conservadores. Dobremos a cabeça sobre a nossa ignorância e sobre a nossa inércia. a ciência. mas para o próprio sr. racionalistas e socialistas . Quinet. toda a sorte de livros materialistas. à luz do Sol ou à luz do gás. e ao Sr. Posso lê-lo em voz alta aos meus amigos. inertes. e não é permitido a um conferente do Casino fazer a crítica da política dos jesuítas? Argumentemos! Eu posso comprar um livro de Proudhon que combate o catolicismo.e não há-de ser permitido falar do que há de mais abstracto na política. uma coisa que se não cala. pequeno mas honrado. . se a ciência dos conferentes se resumisse a dizer: — A barricada. Soromenho condenar os romances eróticos? Pois o marquês de Pombal expulsa os jesuítas e a sua política. meus senhores. não para a Europa. tal como ela se faz lentamente e fecundamente na sociedade inglesa. ataques rancorosos à liberdade constitucional e à realeza constitucional . a História? Pois é permitido à Nação publicar. proíbem-mo! Concordo em que mo proíbam. em prosa impressa e permanente. ignorante. É assim que queremos a revolução. ou aos meus criados: estou nos limites da Carta. Feuerbach.Langlois. é amanhã na Rua da Bitesga! Quanto ao petróleo. Detestamos o facho tradicional. toda a ideia. pondo-lhe a mão na boca.um tanto de mais! Seríamos pois nós os primeiros a pedir o encerramento das conferências do Casino. mudos. está lá em baixo no bilheteiro! Mas que se faça calar. e do exemplo que devemos a nossos filhos. Nós não queremos também que num país como este. jornais da Comuna. de mais estranho e superior às agitações humanas e às violências partidárias. espalhada pela influência pacífica de uma opinião esclarecida. protestamos e apelamos. vis. marquês de Ávila. as monarquias. para uma coisa que ele deve ter debaixo da sua farda. desorganizado. jornais republicanos. a história. todo o pensamento alemão. em nome do respeito que nós devemos a nós mesmos. o capital: estou na legalidade. Littré.a consciência! Pois quê! Podem ler-se nas Bibliotecas e no Grémio. o que seria sofrivelmente inútil. Que eu trate no Casino de algum dos pontos de que se ocupa esse livro. toda a história. Posso decorá-lo: haverá alguma lei que me proíba este exercício de memória? Posso recitá-lo. mas proíbam também aos livreiros a venda de . do fundo deste livro.e não pode ser permitido ao Sr. se lance através das ambições e das cóleras o grito de revolta! Queremos a revolução preparada na região das ideias e da ciência. o sentimental rebate de sinos.

a dignidade. ridicularizava-se aí o pudor. entre toda a sorte de gestos desbragados.isso é permitido por todas as leis! Homens que escutam gravemente uma voz que fala de justiça. apupando desgraçadas criaturas que se deslocam em trejeitos vis para fazer rir . marquês de Ávila compatível com a moral do Estado! As conferências. essas pareceram ao sr. a honra. Eram as conferências do deboche. a virgindade. gritando. de moral. a família. de arte. a um compasso acanalhado. a história. E havia muitos alunos! Pois isso que era a obscenidade. imundas! Num verso bestial. o trabalho. a pantorrilla ao léu. a crítica. um repertório de cantigas impuras.isso é proibido com tanta violência que se salta por cima da Carta para o proibir! a isso manda-se um polícia dar duas voltas à chave! Miserere! Miserere! . a boca avinhada. com os braços nus. a literatura. Antes de haver conferências no Casino havia ali cançonetas. a crápula. obscenas. o pensamento. obstou-se ao mesmo tempo que Renan fosse lido. a infâmia.Proudhon! Quando se proibiu em França que Renan falasse. de civilização . que eram o estudo. bebendo conhaque. parecia ao sr. Deus! Eram também conferências. cantavam. marquês incompatíveis com toda a moral! Homens refestelados. Mulheres decotadas até ao estômago.

Uma Campanha Alegre (Volume I.e exulta abundantemente. os seus advérbios vão desfraldados ao vento.prepara-lhe máximas de boa governação! Eis algumas dessas máximas. em Junho. calma. colhidas ao acaso entre doces pilhérias de direito divino: — A liberdade de consciência é uma palavra boa para enganar os tolos.como se diz nos «vaudevilles». recenseado e eleitor. e diz gravemente. Em Espanha com Carlos VIL ... Mas quem? . É respeito? E pudor? Estratégia? Não se sabe. agora. onde se lê: — 12 de Junho. com aquele ar meditado que toma a burguesia nas graves questões da vida: — Diabo. gritando: — Perdão! o cavalheiro não tem direito a dizer essa irreverência! Surpresa do cidadão. jornal) por Eça de Queirós Julho 1871. apresentado nestes últimos tempos com um ar de esplêndido triunfo. . desde as suas citações latinas até aos seus anúncios de água circassiana! E a Nação não podendo mandar já preparar-lhe quartos na Ajuda ou em Queluz . Ora muito bem sabemos a restauração de que. ao desembocar das ruas. E o polícia mostra-lhe o repertório oficial. e no mero êxtase dos seus «pontos de admiração» se sente que ela espera para breve -a restauração. Os adjectivos dos seus artigos de fundo caminham a marche-marche. Capítulo XIII: Máximas e opiniões da Nação. Ora este modo de pensar pode dar lugar a interpretações aflitivas. que nada significa a não ser um grande contra-senso. a Nação triunfante. mas totalmente ignoramos a restauração de quem.e em Portugal com. Suponhamos a restauração feita. Evidentemente aqueles pontos de reticência designam alguém.o honrado Nabucodonosor! Seja quem for. em que um frio traiçoeiro nos surpreende à tarde. Põe pontos de reticência. a Nação espera! A Nação vem cheia de júbilo.e di-lo claramente. Querem uns que seja o defunto Herodes.. caminha no Rossio. A Nação espera a restauração em França com o conde de Chambord .. jornal de arqueologia e de piedade. outros o falecido Filipe II. Depois acrescenta: . A Nação. alguns ainda sugerem que seja esse outro ausente do número dos vivos . está frio! Acode subitamente um polícia legitimista. Um cidadão.

Não! A Nação é clara.O Brigadeiro Vírgula. Nós podemos estranhá-lo.E o polícia terá razão! Desde o momento em que o direito divino nega a liberdade de consciência. com uma tradição de 100 anos . nenhum cidadão tem direito a espalhar doutrinas diferentes das de um repertório fundado na sabedoria das nações. Pontos de Reticência I. aos pontos de reticência! Nós afirmamos que a opinião anda transviada quando pensa que aqueles pontos encobrem um nome temido. autora da sua história -energicamente o afirma. Ministro da Guerra: .mas não contestá-lo.. tremenda! O Sr..O Duque de Ponto Final.infalível cartilha das nossas temperaturas! Mas volvamos. A Nação quando diz: — Em França reinará Henrique V. sabedora das suas tradições. volvamos. Pontos de Reticência é um nome.Pontos de Reticência I. Pois bem! um correspondente eclesiástico da Nação exclama. E lícito aos constitucionais ignorá-lo . com o seu ministério constituído. um único.que a ciência no seu domínio era independente da fé. Ministro da Justiça: . vaidoso! a ciência não pode dar um passo. Adolfo Coelho: «Como ousa o sábio dizer que a ciência é alguma coisa sem a fé? Não. em Espanha Carlos VII. Em breve o teremos no seu trono. que temos esquecido o nosso Almanaque de Gota. Mas a Nação. Reinará pois em Portugal . ao que parece . E serão terríveis! E para este rei que se preparam tão boas máximas de governação! Citemos outra.O Comendador Dois Pontos de Vasconcelos. sem ser auxiliada pela fé!» .Visconde de Parêntesis. Ministro do Culto: . voltando-se mentalmente para o Sr. Como será nobre! tradicional! feudal! Como terá o sereno e radioso aspecto das coisas augustas e eternas! Presidente do Conselho: . Adolfo Coelho dissera no Casino. depositária dos papéis de família da legitimidade. autorizado pelos bispos. Ministro do Culto: . sem equívocos. Quer simplesmente dizer que em Portugal reinará Pontos de Reticência. e em Portugal. nós que não sabemos a genealogia e os ramos laterais das casas legitimistas da Europa. O nome de um rei.Visconde de Parêntesis.

vive na infinita transparência da luz . O eclesiástico arregala para a criada um olho pávido: — Depressa. está a fazer a soma. o bom Deus.. Ferreira Fagote. Tomás! E folheia.e o ex-Tártaro. Noailles.. Nada porém ensina sobre essa matéria o sublime Doutor. Já examinou as parcelas. A ciência bem lhe diz que são 10. tomando o rol à criada. à noite. Orígenes. para evitar a sórdida palavra liberdade: — Tomo...e o homem do Senhor corre a consultar Santo Agostinho. os rebanhos balam. mas pensemos então como a vida deve ser cruel e molesta para aquele eclesiástico e para toda a redacção da Nação. Fagote! . no reinado legitimista. enterrado em in-fólios. vulgo Inferno. Deus. Ante elas as faces castas corarão . E para a casa das dezenas interroga Santo Atanásio.. pálido.. Lactâncio. os concílios de Trento e de Florença. verdadeiro absolutista e verdadeiro jesuíta. Bossuet.Queremos que esta seja a verdade. o Sr. é 2!» E erra a soma! Outra máxima da Nação: «A liberdade e a igualdade são palavras ímpias e impuras. murmurará discretamente. aturdido. de chambre. a Cartilha. Não as dirão nunca nas salas as pessoas delicadas.e o pobre eclesiástico. de apresentar a vossa reverência o Sr. o Larraga . as andorinhas gritam na sua glória e na sua alegria. Uma luz mística banha as prateleiras. Serão desonestidades.. querendo apresentar ao bispo de B. — 3 e 7.. Já é de madrugada: a criada dormita’ a alvura esbatida do dia faz grandes fios pálidos nas vidraças. Imaginemos um destes homens piedosos. baixa-me daí a summa de S. João Clímaco. nenhum homem de bem. o Deus Justo. E imediatamente pára. filha. mas a ciência não é nada sem o auxilio da fé . aquela que o pudor me impede de nomear. calcula o clérigo suando. ousará pronunciar essas palavras réprobas. não perdoará! Assim o conde de A. Fleury. O gato ressona. A cena é solene. exconstitucional. à luz do candeeiro. sonolento. as árvores espreguiçam-se nos braços do vento. Por consequência. folheia o Dicionário de Bergier. e para a das centenas os Evangelhos comparados!.para saber se pelas leis da Igreja lhe é permitido afirmar que «11 noves fora.

. e afrontando o sagrado depósito das nossas instituições.é a conquista! A pena de pato da Nação é pois uma lança disfarçada. para fazer sentir ao júri que circunstâncias que militaram num caso jurídico devem militar num outro..Esterquilínio. ensinando a ler os meninos: I-g-u-a-l-gual-d-a-da-d-e-de . num bote! Mas Cacilhas. a indústria será punida pelos códigos. que a consideração pelo tribunal e o meu amor pelas instituições me retém na língua de circunstâncias! Um mestre de primeiras letras. num artigo lírico e heróico. como perturbadora da ordem e contrária aos destinos nacionais.. Empregado outrora nos artigos de fundo. diz que a verdadeira missão do País não é a indústria . pois. no tribunal. Toda a mágoa da Nação é que Cacilhas não seja moura! Se o fosse. Nos dicionários virá: Igualdade. delegado do procurador régio promoverá ordem de prisão contra o insensato que em desprezo das leis. delegado. o mesmo sr. E o sr. pois. curvado na dor e no arrependimento. não via ele a afrontosa Castela?! . senhores jurados. a que os mais simples princípios de moral me vedam pronunciar.. não vedes que o réu lançou uma mácula nas nossas tradições impolutas? Faltava porventura a esse desgraçado onde exercer a sua actividade? Não tinha ele as muralhas de Diu? Não podia ele ir redobrar o Cabo? Porque não partiu com armas para as plagas do Oriente? Não via ele ao longe a África adusta? E mais perto. A Nação julga a indústria uma causa de ruína moral para o País. Há mais! A Nação. ouse fundar -uma saboaria.Um pai austero gritará a seu piedoso filho. quer que se proíba a indústria! Portanto. exclamarão. apontando com o fura-bolos vingativo para o mísero. E os advogados. na audiência. hoje expressamente punido pelo artigo 10º do Código Penal.. a fiel Cacilhas. na mais perfeita (tossindo). logo que a Nação triunfe e Pontos de Reticência I suba as escadinhas do trono. que entrou cambaleando às 3 da manhã no ninho seu paterno: — Quem lhe deu. sobre o banco dos réus: — «Pois quê! senhores jurados. para que se mantenha pura e sem mistura a tradição heróica de Portugal. com uma eloquência nova: — Estamos. a Nação vestia a sua armadura e ia lá. de entrar a estas horas da madrugada? A palavra igualdade será também forçada a tomar o caminho do exílio. Ouviremos então.. A Nação. substantivo tão miserável que nem tem género. condena a indústria. menino. não é moura! Ai! A Nação.

Esta noite tomai sorvete botequim.Cidadãos! ou a obreia ou a morte! A indústria terá os seus mártires. para uma caverna.Será um tempo terrível! Haverá sociedades secretas para fazer gravatinhas de seda. mas por ordem de uma associação secreta. e provou que era brisa. Antero de Quental. cuja fímbria arrasta por entre as turbas da Rua Nova do Carmo. onde se dava à criminosa ocupação de refinar o açúcar. á sebo!» E nos jornais saborearemos estas locais: Prisão importante: O célebre Eduardo Compostela foi ontem capturado com todos os seus cúmplices. Antero anda vestido com uma toga. Antero de Quental. . num covil. perseguidos. exclamando com o sorriso iluminado e os olhos no Céu: . e descreveu-o como fariseu . a Nação. A vidraçaria da Vista Alegre passará. Segundo.«Só tu és verdadeiro.comendo-as! A Nação tem sobre os conferentes do Casino esta admirável opinião: Que eles iam ali falar. mas execução de uma ordem da Internacional. Chamou-lhe fariseu. porão nas esquinas proclamações desesperadas com estas palavras . nem o nome! De modo que se um conferente toma à noite um sorvete no Áurea. Tornou-se muito censurável o procedimento de alguns agentes de polícia que destruíram as provas do crime . nem as ideias. transportada a ocultas. Aí chamou-lhe brisa. em que respondia ao Sr. terá de assinar assim o seu nome: Antero (por assim dizer) de Quental (se ouso exprimir-me assim). que morrerão com heroísmo. de ora em diante. Viva a comuna! De morango!» E o Sr. tu és grande! Mas a mais profunda ideia da Nação foi a de um artigo. em próprio. Ó Nação. O malvado fez revelações. não por vontade sua. nem a acção. Veremos subirem aos cadafalsos fabricantes de velas de sebo. pois. Que nada lhes pertence. Conveniente levantamento classes operárias! Em sorvete intransigentes. . Os fabricantes de caixinhas de obreias.arrastando por entre a multidão a fímbria da sua toga. Que nenhum acto seu é espontâneo. o Sr. é porque recebeu pela manhã este sinistro telegrama: «Comité central: 7 da manhã.

e fez chaine de dames. cheia de algas. para ao pé das tuas sombras queridas! E apresenta as nossas saudações carinhosas ao Sr. Tão contemporânea como Telémaco. o Gordo! . Afonso II.. e nos seus olhos brincavam os jogos e os risos. a Nação! «. Tinham ambos as cabeças coroadas de rosas. de conchas. Macário dedilhou na harpa eólia concertos maviosos.. a polícia nos átrios. Nação. é todavia desculpável na Nação. Carlos Testa levantou a túnica tinta em púrpura. erguendo de leve a alva clâmide.. O Sr. Na via esperavam numerosas quadrigas!» Nação. Lançaste a âncora no meio do oceano e ficaste parada. Es tão viva como Eneias. No meio do festim o nobre presidente do Conselho recebeu um papiro que escravo lacedemónio lhe apresentou em lavrada lâmina. tu és de além da campa! Mas tens o carácter firme. tu és fabulosamente velha. Estás apodrecida. Tu és velha. encanecidos em Marte.. de crostas de peixes. Velhos legionários. Mas és um jornal sombra. Circularam até tarde as taças de Falerno. As damas reclinadas nos triclínios respiravam aromas. que a Gazeta do Povo nunca cometeria. boa amiga! não nos queiras mal. D. na arqueologia: não sabe que hoje já se usa o fraque. E no meio da leviandade movediça destes partidos liberais . pensa que ainda se vai na toga! Se a Nação tivesse de descrever um baile (assim ela se pudesse desprender das contemplações seráficas para se dar a estes exames terrenos!) aí está como ela descreveria um baile. apoiados aos gládios. faziam. adiantou o coturno com meneio gracioso.tu tens uma vantagem. Volta. erguendo o pâmpano!. mas não andaste no ludíbrio de todas as ondas e na camaradagem de todas as espumas! Tu eras excelente . Nação. A Nação vive exclusivamente no passado.se fosses viva.Então o nobre marquês de Ávila.Este erro de toilette. Por seu lado o Sr.

seu presente e futuro) por Eça de Queirós Julho 1871. Capítulo XIV: O discurso da Coroa. Pois bem. etc. Todos têm visto.grita de novo. um pequerrucho jogando a bisca com um irmão mais velho. Volta no seu cerimonial o discurso da coroa. E nessa legislatura. grita: — Desta vez não valeu. O pequeno. vamos a outro! Mas se o jogo que lhe volta à mão é pior: — Abaixo! . O poder executivo tinha mau jogo. . bradando: — Agora é que é a valer! Agora é que é! Das outras vezes não! Mas agora com toda a certeza! Agora é que nós vamos. se tem mau jogo. o discurso da coroa tem na política a atitude teimosa da criança que joga a bisca. positivamente e de uma vez para sempre. e cada vez espalha maior confusão. e todo o mundo sorri em redor! Às vezes . e deitou as cartas abaixo.. profundamse dissidências mesquinhas. Surge outra Câmara. Mas durante a legislatura vem a confusão. Diz: — Da vez passada não valeu! Mas agora é que nós vamos aplicar-nos com o maior zelo à questão da fazenda.o irmão mais velho. cansado. confunde. decerto. deita as cartas sobre a mesa. termina por atirar furiosamente à cabeça do pequeno o baralho de cartas amarrotadas. .. O discurso da coroa entra esbaforido. No começo de cada legislatura. e cada vez promete maior seriedade. o discurso da coroa declara gravemente: — Desta vez vamos ocupar-nos com toda a seriedade da questão da fazenda. e baralha-se outra vez o jogo. Agora é que é sério! E derruba um terceiro jogo. baralha. trocam-se palavras vãs. a dissolução. é imposta uma nova dissolução.. Reabre-se a Câmara. especulam-se lugares rendosos.. E nada se resolve. resolver a questão da fazenda. ri.Uma Campanha Alegre (Volume I.Este também não valeu. como a confusão se alarga mais.funesto momento das revoltas humanas! .

O seu dever com efeito é resumir tudo o que politicamente se fez no interregno parlamentar.chega a irritar! Se não. tem de recorrer aos cancãs interessantes da vida particular. e já percebemos. promete resolver a questão da fazenda. «Está aberta a sessão. só ele espera! Segundo ele o País floresce. impreterivelmente. o discurso da coroa foi sobretudo chamente noticioso. Ora nós estamos vendo isto ao canto da sala. M. Desta vez. o discurso da coroa.» . atentos e desinteressados. enquanto ferve o chá. nº108. rosnando com a mão no peito: — Pois senhores. No entanto. um leve esforço. O sr. nesta falta de significativos factos da vida pública. conversa como uma tagarelice do Chiado. Vamos ocupar-nos com todo o afinco da questão da fazenda. e o Paraíso está ainda mais perto que a Outra Banda. no irmão mais velho. agora a todo o custo.chegando a dispensar o Sr. O discurso da coroa tem de dizer alguma coisa ao Pais. conselheiro Pestana partiu para Vizela.E aí vem o discurso da coroa abrir de novo as cortes. É talvez bastante censurável esta concorrência que o discurso da coroa faz ao Diário de Notícias. querendo Deus. Chegou o brigue Carolina. cada vez que aparece em público. A teima das crianças . num momento de adorável franqueza. porém. Mas se nesse interregno o facto mais característico da vida nacional foi o partir para o Porto a companhia do teatro do Ginásio. assim concebido: «Dignos pares e senhores deputados da Nação: — É com o maior prazer que me acho no meio de vós. confessou ao poder legislativo que S. etc. intitulado o Brado da Lourinhã. enriquece. havemos de resolver a questão da fazenda. nada se pensou! O discurso da coroa. O poder executivo. o discurso da coroa. Não podendo falar como uma página de história. um movimento de quem vai atirar com o baralho de cartas à cabeça do pequerrucho. E francamente tem razão. Mas o quê? factos da vida política? da acção civilizadora? do pensamento público? Como? se nada se fez. nada se civilizou. Há hoje dobrada na Rua Augusta. Melício. que o digam o mestre régio das Mercês . O cambista Fonseca espera os seus fregueses. ele próprio! Há só um ponto negro que assusta o discurso da coroa: é a questão da fazenda. mas ele realmente não pode proceder de modo diverso. palavra de honra. Vai publicar-se brevemente um novo jornal. E tentarmos um passo. o Imperador do Brasil tinha estado em Lisboa. que remédio senão que o discurso da coroa dê parte desse sucesso constitucional? E ainda veremos.e Félix Pyat. Singular temperamento o do discurso da coroa! Todo o mundo está desiludido. e entrarmos para sempre na tranquilidade augusta da perfeição .como a teima das instituições .

Mas já que os governos não têm a capacidade de tolher a desorganização.o discurso da coroa será obrigado. meus senhores. vindo diante do País.» Para quê o discurso da coroa? Para que obrigar o chefe do Estado a repetir uma velha lauda de prosa escrita em 24. E seja substituído o discurso da coroa por um franco e honrado: .E com o maior desprazer que me acho no meio de vós. um assobio lúgubre.e então que confiança nos pode inspirar este magistrado. toca a sentar! Porque. para dizer alguma coisa. para os lados do despenhadeiro tenebroso. cada vez maiores. Elisa?. tinha ouvido. De súbito parou. não haverá em breve nem factos políticos a proclamar. pelos desfiladeiros da serra Morena. . recitar parolas ocas e vãs? Sabemos perfeitamente que a coroa não é culpada do discurso que lhe obrigam a recitar. Passemos agora à questão da fazenda. como em virtude da inacção política e sonolência individual. se ele ignora inteiramente o estado do seu país? Ou não exprime opinião alguma . como não é responsável pela desorganização em que a obrigam a viver. A desorganização é a consequência de uma política ignorante e torpe . embuçado em capa alvadia.. ou o discurso da coroa exprime rigorosamente a opinião e a consciência do chefe do poder executivo ..E. pois que estou fatigado da vossa imbecilidade. um vulto misterioso caminhava..» E mais tarde. A situação exterior é esta: somos o que somos. da vossa intriga e do vosso desleixo.Por uma fria noite de Inverno. Por consequência. «E aplicaremos todo o nosso zelo à intrincada questão da fazenda.e então que seriedade tem o chefe do poder executivo. uma falsificação da história? O País está desorganizado: esta certeza é dada pelas discussões do parlamento. «Está aberta a sessão.Bons dias.Isto: «Meus senhores: . a recitar obras de imaginação: «Dignos pares e senhores deputados da Nação portuguesa: . pelas conversações dos cidadãos. porque nos deixam sê-lo por misericórdia. Vergava-lhe a fronte uma grande amargura. pelos relatórios dos ministros. cada vez mais vago. Continuar-se-á na próxima sessão de abertura. nem notícias particulares a referir .. quando eram necessárias palavras decisivas. pelas afirmações da imprensa. e que é hoje uma negação da verdade. o discurso da coroa murmurará: «Dignos pares e senhores deputados da Nação portuguesa: «Era no Outono quando a imagem tua A luz da Lua sedutora eu vi: Lembras-te. sabe a coroa o que logicamente devia dizer? . tenham ao menos o pudor de cortar o cerimonial.o discurso é a fórmula de um cerimonial antigo e rococó.

abrir-se deste modo com o País: «Dignos pares e senhores deputados da portuguesa nação: . vida municipal extinta.para nos irmos escravizar no tratado de gramática de Sadley? A que vêm estas expressões repetidas de pública fazenda.. pensamento emudecido. assim ou de outro modo. volte às tradições da nacional gramática.. O executivo poder esse manterá as publicadas leis. funcionalismo desbragado. Está aberta a ordinária sessão das portuguesas câmaras. E o próprio Sr. A nacional fazenda merecerá o maior zelo ao legislativo poder. e que o Diabo os carregue. leis em confusão. clero ignorante e imoral.» Assim devia falar a coroa. para manter as pátrias liberdades. Vão. Mas. Disse. serviços públicos desorganizados. para os seus lugares. colónias exploradas pelo estrangeiro. All right!» Esperemos que a coroa. Pinto Bessa aplaudirá! . ensino caótico.adoptada pelo discurso da coroa? Que britânico furor a tomou de colocar os adjectivos antes dos substantivos? E uma adulação à pérfida Álbion? Quebramos nós o Tratado de Methuen . agiotagem em triunfo. nacional riqueza? São influências da política inglesa? Confiemos em que nunca tenhamos de descer à humilhação de ouvir a coroa. E necessário que zelemos a pública administração. etc. que seja sobretudo nacional em gramática! Que significa a construção do período à inglesa . etc. mais bem aconselhada.Feliz me acho.A interior é esta: finanças em ruína. indústria entorpecida. etc. proletariado em miséria. carácter corrompido. marinha nula. Sem o constitucional decoro não há públicas garantias. por me sentar no meio do nacional parlamento. por atenção aos nossos fiéis aliados. dando começo às nacionais lides.

cresceram tão constitucionalmente que o Sr. presidente do Conselho que não tinha confiança na sua política. que se achavam presentes. ser-se tão excessivamente trocista. Exª. ao abrigo das instituições. nem aqueles tumultos . a tempestade evacuou a sala. presidente. ou cometeu um erro de gramática. Aí reinam o tumulto. amigos.E foi assim. segundo a afirmação de outros. Houve um momento em que S. deputados foram cumprimentados à saída pelos melhores frequentadores do sol na praça do Campo de Santana. era apupá-lo! E a Pátria deve agradecer aos senhores deputados que eles não lhe tivessem dado bengaladas! Então o sr. o motim. sem ingerência policial . mas um corpo de legisladores. teve de enterrar na cabeça o seu chapéu alto. presidente que se considerava ofendida com a designação de praça.Uma Campanha Alegre (Volume I.porque a polícia intervém e faz evacuar a praça. sr. Aires de Gouveia. Impunemente. A palavra patife fez então pela primeira vez a sua entrada na Câmara e tomou assento. etc. presidente do Conselho. rompeu num alarido tal como não é uso fazer-se na praça de touros -tudo para demonstrar bem claramente que não estava ali um grupo de moços de forcado. em que a altura das ideias competiu com o vigor da eloquência! Parece pois definitivo que o Parlamento decidiu adoptar o motim e a assuada como a forma parlamentar dos seus trabalhos. o charivari. o chasco. A assuada. Em mais nenhuma parte é permitido. presidente do Conselho falava. que se passaram os factos. Tal foi esta memorável sessão. . a título de esclarecimento.uma assuada só se pode dar na Câmara dos Deputados. cheio de dedicação nacional. O sr. mandou o epíteto malcriados a cumprimentar e abraçar os eleitos do País. Numa praça nunca há nem aqueles gritos. «As sessões da Câmara não têm seriedade. O facto é que a maioria entendeu que a melhor maneira de manifestar ao sr. a sessão de 29 de Junho. presidente. para provar ao sr. Capítulo XV: Tumultos no Parlamento) por Eça de Queirós Julho 1871. pelos regulamentos da polícia.. Foi também então que o sr. segundo o dizer de alguns jornais.» Uma nova justificação desta verdade apareceu na sessão do dia 29. Quereis assistir à de 29 de Julho? Aí tendes o seu fiel extracto: O ORADOR (concluindo): .. O caso é que a maioria. a confusão.. ou arremessou desdenhosamente à circulação a eloquente palavra bomba. As galerias permaneceram impassíveis. A este gesto. em compensação. Vistes. perguntou timidamente se se achava numa praça pública. Diz-se que alguns srs. eclesiástico. Pergunta excessivamente ociosa.

-Salta meia de Colares! O SE.Fora. O SR. apoiado).Apoiado. Vozes: . AIRES DE GOUVEIA: . presidente do Conselho sucumbe. PRESIDENTE DO CONSELHO: . Eu.O que diz ele? Vozes: . (acende o cigarro). que o ruído impediu que chegassem à mesa dos taquígrafos.Os senhores não têm direito a interromper sovas que o regimento garante (berreiro). JOSÉ DIAS (batendo com a bengala sobre a mesa. com ar melancólico): «Oh virgem pálida e triste Branca visão doutros Céus!» O SR.O SR. presidente.. COELHO DO AMARAL (espancando com dignidade o Sr. presidente. sob uma chuva de bengaladas). MARIANO DE CARVALHO: . a um continuo) :-Dois cafés! Um cabaz! Vozes (atravessando o corpo legislativo).Ele cisma! Ele cisma! A oposição atira cebolas ao Sr. . não posso consentir que esse biltre entre no meu foro interior! Vozes: . Mariano e Santos Silva): .Petas? oh! descarado! (apoiado. Alguns senhores deputados grunhem obscenidades. Barros e Cunha) : .. COELHO DO AMARAL (continuando o espancamento): .O ilustre deputado diz uma refinadíssima peta. O SR.A Câmara está-se sepultando na mais profunda abjecção! (O sr. PINHEIRO CHAGAS (deitado.. Pinheiro Chagas.E assim provo. O SR..Não me interrompam o discurso! Não me interrompam! O SR. sr. O SR. apoiado! O ORADOR (voltando-se e desabotoando o colete): . fora! O SR. PRESIDENTE (aos Srs. Barros e Cunha não tem razão Escrevemos no primeiro número das Farpas: alguma nos princípios que estabeleceu. LUCIANO DE CASTRO (interrompendo com grandes punhadas na mesa): . que o Sr.Mas a ditadura foi nefasta! E não há mariola nenhum que me demonstre o contrário. sr.

eu passo a outros argumentos. que nem a polidez instintiva coíbe os homens. O SE. dá cambalhotas. O Sr. gritando. Santos e Silva. Alguns senhores deputados miam de gato. Os contínuos levantam as garrafas de Colares. PRESIDENTE: . rebolando pelas escadas abaixo.Para amanhã continua esta interessante discussão. O Sr. A política chegou a tal miséria. A Câmara sai correndo.O ORADOR: .. e o tinteiro aos queixes da oposição. presidente atira a campainha à cara da maioria.A Câmara não quer escutar-me? Pois bem. Tumulto. O sr. . (Distribui bengaladas).. no auge da sua indignação. Luís de Campos espalha uma prodigiosa quantidade de pontapés.

com a simplicidade de Turenne.que S. Exª. e por único troar de artilharia os foguetes do Sr. regritou marcialmente: Para a frente! E tomou o reduto . A cada movimento que faz. Exª pretendeu colocar-se ridícula e presunçosamente. sobem-lhe à cabeça. repetindo a façanha heróica. militar. Exª está como um homem gordo que não faz exercício: S. nestas circunstâncias. varou o polícia com uma repreensão. Foi o caso que S. e fortemente argumentadas.e ele. como aos sanguíneos a abundância de vida. palpitante de redutos a tomar. Exª) por Eça de Queirós Julho 1871.exuberância de brio guerreiro! S. o ruído. vêm-lhe à boca . Exª. às Cortes. a imortalidade na história . meus senhores. porém.vivendo burguesmente e pacatamente na Baixa. chefe de polícia. Outro polícia faz parar a carruagem. Exª é um homem valente. tornou irrisórias as disposições policiais: que S. E verão. em risco de vida. províncias conquistadas. Cardim! Um bravo. nomes de generais heróicos que cintilam em telegramas. Exª. ensinou o desdém das leis: que S. S. A coragem fazlhe já vertigens. como excepção. Acrescentem a isto a atmosfera militar em que esta época se move e respira: guerras no Reno. dizemos afoitamente que aquele acto só prova em S. S. guerras civis. Exª subia numa carruagem a rampa de S. Exª sofre de excessos de valor . com ânimo notável. que ainda há-de acabar por lhe fazer -furúnculos! Imagine-se com efeito um homem forte. que costumamos. sob a aparência exterior dos factos. cidades que ardem. repreendeu dois homens pelo facto de eles cumprirem o seu dever: que S. e só a muito custo vai conseguindo penetrar para os lados de Aldeia Galega. Exª tem congestões de brio. e que a fama do seu nome ainda não passou de Cacilhas. e tendo por única glória estratégica destacar patrulhas para o Arco do Bandeira. Bento. dos gorgomilos ao estômago quantidades prodigiosas de furor guerreiro. legislador.isto é. Capítulo XVI: A grande coragem de S. quando um polícia civil advertiu ao cocheiro que não era permitida a passagem. deu o exemplo do desacato à disciplina militar: que S.ondas de ardor bélico. S. . superior às determinações da polícia: que S. Exª. subiu a rampa. sôfrego de sangue inimigo . homem de bem que deve cumprir o seu dever.mas o comandante obscuro de uma milícia civil. procurar-lhes a realidade secreta. Mas as guerras acabaram. novo perigo. A história raras vezes regista tão altivos rasgos. a fulguração da glória. gritando ao polícia: Para trás! e bradando ao cocheiro: Avante! Mais adiante. Quiseram dizer . Exª obriga as pessoas de senso a lembrarem-lhe que ele não é o tirano Nabucodonosor . Exª.a imprensa invejosa amesquinha os heróis .tiveram para este facto censuras ásperas.como esse homem sofreria de excessos de sangue. Ainda não secaram os louros de Montes Claros! Alguns jornais . Isto disseram alguns malévolos. bateu-se bem. acumula dentro em si. Exª. Exª . a cabeça fora da portinhola.Uma Campanha Alegre (Volume I. deitou. e S. Nós. ou no quartel do Carmo. Exª. febril de batalhas a dar. S.

Sangra o boi . Mas ai! os bandidos que S.«S. O guerreiro todas as manhãs. e fica para todo o dia repousado. sem ímpetos de bravura. num facto de grande coragem praticado por S. Exª está viúvo de glória! Por isso.condenado. vai matar o seu vitelo.e S. S. eram mesários da confraria das Chagas! Esse período épico. ao mais pequeno motivo.. nestas circunstâncias. Exª de dentro do deputado da maioria saca o herói da municipal. O herói limpa a espada. Era o tempo das patrulhas dobradas e dos grandes recontros da Rua Nova do Carmo. Dá-se assim um calmante à sua ferocidade. julgamos que há uma única maneira de salvar este temperamento. acabou. porém. Exª vivia nos interesses da luta. E o nome de s.. E a polícia civil entrará de novo no gozo da sua dignidade e da sua pele Assim seja! . brande a espada. Jorge e Portugal» E partia. Por isso atacou com tão cru arremesso os dois polícias civis. respondia: . em que S.«Há penicheiros para os lados da Bitesga» .para uso do herói. Exª. sorrindo. destacava um corpo de exército composto do Bento da 5ª . e a cabeça armada do bezerro inimigo rola-lhe aos pés. S. Exª necessita de dar satisfação às exigências do seu temperamento . Exª surpreendia minando as instituições. Exª. S. Exª está de novo na disponibilidade do heroísmo. como única acção radiosa. Exª corria. S. pacato como uma couve. Exª chega.e orchata? Ora. a repreender o 73 da 2ª porque furtou uma correia ao 48 da 5ª! Esta castidade na luta pesa a S.outro composto do José Prefeito da 1ª.para o Clamor de Alpedrinha! Outras vezes eram vultos suspeitos que tinham entrado numa casa. Falou-se muito. quando as guardas avançadas lhe vinham dizer: .e o brio. Exª. nas comoções soberbas. O mundo cada vez se torna menos interessante. Exª andou ferindo as grandes guerras . a horas lôbregas. cercava. Houve um tempo feliz entre todos. Então S. Tem ele culpa? Pode ele dizer ao seu sangue que não corra e à sua espada que não vença? Pode ele impedir-se de tomar Cacilhas . como quem vai tomar o seu leite de burra. E S. Então. no matadouro. Exª aparecia nos telegramas do correspondente de Lisboa .dos penicheiros. bloqueava. tranquilo.S. vem almoçar. durante este mês. fatalmente belicoso: E estabelecer. reses . Doente de valor.

ao cabo de 24 anos de paz! O seu armamento é inteiramente ineficaz. nem transportes. Capítulo XVII: O exército em 1871) por Eça de Queirós Julho 1871. Nenhum aparelho de marcha. Mas nas guerras modernas estas qualidades são inúteis. exigem no soldado outras qualidades além da coragem: exigem sobretudo. as espingardas do exército passariam para o inimigo . como é. quadros rareados. colocá-lo amarrado a 4 palmos da peça. A primeira utilidade de um exército é que se bata.rebentadas em estilhaços. temos ocasião de algumas francas e fortes risadas. nem cantinas. Corre que. O nosso exército não se pode bater. nos estados-maiores.que o Governo vai ter o impudor de consentir que se discuta o orçamento geral! E natural que por essa ocasião melancólica se atente no orçamento especial do muito belicosamente chamado Ministério da Guerra. sendo o orçamento. aqui estiramos sobre estas páginas algumas reflexões amáveis. como o touro. a estratégia como uma ciência. nisso a que os relatórios chamam pomposamente o exército. Corre. porque se torna difícil averiguar a exacta verdade. etc. por tão pouco armamento. Está provado cientificamente que. estamos como depois de uma derrota .as balas ficam a meio caminho do inimigo. Quando não rebentem. dignas de Homero. Ora estes grandes duelos de artilharia. um inviolável segredo. Diz-se . Queremos dizer . e conseguir assim inutilizar-lhe a barretina! O equipamento é nulo. sofredor.e quem sabe se é uma torpe calúnia? . Os . nenhum material de acampamento. se gastam anualmente perto de 4000 contos. Pelo número dos seus soldados (batalhões incompletos. procurar não errar o tiro. Nem tendas. há um só meio de ela prejudicar o inimigo: é fazê-lo prisioneiro.correndo atrás dele: mas para isso faltam-lhe sapatos! Realmente.). o seu alcance é humanitário. mais valia uma tanga e uma flecha! Quanto à nossa artilharia. firme. tem o élan. Ora se estudarmos bem a utilidade do nosso exército. o arremesso. O soldado português é bravo. Compreendeu-se já que uma peça de artilharia é um soldado mais sofredor e mais firme que um filho de Adão.Uma Campanha Alegre (Volume I. depois de meia hora de fogo. Verdadeiramente o nosso exército só poderia alcançar o inimigo . Para tal eventualidade.

e que para isso são pagos . Não têm o hábito do acampamento. nunca lhe paga o vinho. a sua família.o exército seria ainda inútil. Para que serve? Para gastar 4000 contos. amor da arma. Isto é . quando ela é indispensável. nem sentinelas: as ruas estreitas. Não servindo o exército para a guerra . que não têm outros deveres que não sejam esses. bebe nas mesmas tabernas. Inútil para policiar.o mais alegremente possível. sentimentos próprios. chamando-lhe bourgeois e pekin. um dia cada semana.cidadãos que têm o seu trabalho. brinca nas mesmas romarias. nem subordinação. A disciplina está relaxada. nem trabalho. Em Portugal o exército não se bate facilmente com o povo: o exército é uma porção de povo fardado. Nada mais natural que aproveitar os vagares do regimento para patrulhar a cidade. O soldado vive na cidade. para não apanhar o ar da noite.nossos generais não têm ciência: tiveram outrora.podia naturalmente servir para a polícia. sem cuidado e sem persistência. de propósito para mais livremente poderem manter a ordem. Em Portugal o soldado vive com o povo: saiu dele. da fadiga. . Ora os cabos de polícia são cidadãos que fazem este serviço obrigatória e gratuitamente. hábitos. os seus deveres. volta brevemente para ele: está com ele no contacto de todos os dias. não há respeito. das marchas. na mocidade. Os regimentos não têm instrução. são os cabos de polícia. brio de quartel. é ainda um cidadão. depois de terem passeado desde as 8 horas da manhã. Inútil para reprimir uma revolta. Pois nessas cidades não há patrulhas. bravura e pulso: depois veio a idade: perderam a força quando ela na verdade já não era necessária. numa indolência de paisano: fuma. Nas cidades de segunda ordem os regimentos vivem ociosos. Homens que não têm família. namora. De modo que o exército em Portugal: E inútil para a guerra.deitam-se às 8 horas da noite. e não tendo dúvida alguma em o espingardear. Não! o regimento deita-se às 9 horas. sofrem ainda a obrigação de manter a tranquilidade de graça. Quem vigia vagamente. Mas não serve. Não têm pontaria. são um terreno livre à desordem. Oh bom senso! Oh pátria nossa! O exército deste modo é uma ociosidade organizada! Convém ao menos ter exército para o caso de uma revolta? Nesse caso . canta as mesmas cantigas. mal alumiadas. sujas. canta o fado: é um camponês que procura sofrer a farda cinco anos . Não existe mesmo espírito militar. Em França o exército é um mundo à parte. sem comunicação com o povo. Não espingardeia o cidadão! Quando muito. exilado nos seus quartéis e nos seus camps. com ideias. nem rondas. mas não ganharam a ciência.

Onde estão as nossas praças-fortes? A nossa artilharia? Os nossos arsenais? Os nossos campos entrincheirados? As nossas fábricas de armamentos para um caso de perigo? Os nossos fortes? Os nossos caminhos estratégicos? . como se os gastássemos em caixinhas de soldados de chumbo (plúmbeos guerreiros. a não ser o bom senso fechado. .e criemos: 1º Uma guarda nacional.Nada temos. a fronteira aberta. Não gastemos 4 000 contos tão improdutivamente. 2º Um corpo de gendarmaria civil.o que é poético. Vidal. mas não a expomos.. receando que a corte nos mandasse assassinar. Então façamos o que se deve num país que não é militar. 4º Estabelecer por todos os distritos do País um serviço de polícia. Alcançávamos assim: 1º Economizar 4 000 contos ou pelo menos 3 000.Há mais: um exército só por si é inútil se não faz parte de uma inteira organização militar. diria o Sr. à agricultura.. poeta lírico). uns poucos de mil braços inesperados. Licenciemos o exército . 3º Tornar eficaz a defesa nacional. necessidade impreterível. Havia ainda uma 5ª vantagem. e umas peças de artilharia a que deu Jogo Camões . com serviço extensivo a todo o cidadão válido. mas frágil! Dir-nos-ão: «Mas nós não somos um país militar. 2º Entregar.

voltam-se para a Metrópole.. a Baixa pululou de alvitres. a Metrópole remete às colónias um governador: agradecidas.de desembargadores! Às vezes os jornais dos Açores. não és tu capaz de nos pilhar. quando se trata do orgulho nacional e da Baixa.em maior desprezo não sois vós capazes de estar! Quando muito. Diríamos que está por um fio! . e o orgulho nacional da Rua dos Retroseiros pareceu profundamente ferido. às vezes. ouvia.Uma Campanha Alegre (Volume I. Corria que o Sr. Foi acusado acremente o Governo. que é nenhum. Elas não nos dão rendimento algum: nós não lhes damos um único melhoramento: é uma sublime luta de abstenção! — Não .mais rendimento que o deste ano. Lisboa exclama: — Que riqueza a das nossas colónias! Positivamente. as colónias mandam à mãe-pátria . começam a dizer que não seria mau tentar os Estados Unidos! O País ataranta-se. Portugal para com os Açores é inesgotável . a horas mortas.exclamam elas com o olhar voltado de revés para a Metrópole . e para lisonjear os Açores.se tão lamentável equívoco se pudesse escrever.que não são uma colónia. não. A Metrópole tem certas generosidades consideráveis com as colónias. e gritam-lhe no rosto: madrasta! O reino imediatamente lhes manda. inquietos. vozes vingativas que lhe bradavam: — Que fizeste tu de Macau. Macau ainda é vosso! A verdade parece ser que Macau está ainda preso à Metrópole . e o Governo de cá. pela separação de interesses. As relações de Portugal com as suas colónias são originais. tomando um ar severo. Bento? E tanto que o Governo. pelo abandono. somos um povo de navegadores! É necessário no entanto fazer justiça à Metrópole. com todo o zelo dois desembargadores! Mas daí a pouco os Açores.por alguns telegramas que se estão trocando entre o governador de lá. com os Açores . Capítulo XVIII: A marinha e as colónias) por Eça de Queirós Julho 1871. bradou de entre as colunas do Diário do Governo: — Não. Carlos Bento. para nos tranquilizar. mas que pela distância. malvada! — Também .uma banana.responde obliquamente a Metrópole . como outrora Caím. Portugueses.. E perante este grande movimento de interesses e de trocas. manda-lhe mais . têm toda a fisionomia colonial. Assim.

aterrados. Para se ser remetido como mimo da Metrópole é necessário. De todos os paquetes. em falsas vozes.de celerados! E celerados escolhidos com inteligência. — Oh! muito gosto em conhecer. colónias. como demonstra.desembargadores. Os comerciantes irão dizendo. afirmando: Que o País despreza as colónias. que a energia individual só pode ser fecunda num país bem policiado. que nas colónias não há garantias de . sem tranquilidade. Fulaninho. Há-de vir tempo mesmo em que quem quiser em Moçambique ou em Angola um criado. sem estímulo. tinha intimado Portugal a evacuar aquela colónia . — Basta de segunda instância! E a Metrópole. segundo se afirmava. um amigo ou um noivo .. as entranhas de um amigo querido! Poderá supor-se que Moçambique e Compª recebem estas dádivas com um entusiasmo extremamente sublinhado. pelo menos. que elas estão abandonadas a uma frouxa iniciativa particular. — Basta! . nunca poderá aspirar a fazer parte da sociedade de Luanda. inexaurível no seu amor. os Açores.. vêem desembarcar turbas de desembargadores.. sem protecção. essas! Para aí o País é inesgotável . continua impassível a verter-lhe no seio catadupas de desembargadores! Igual generosidade para com as possessões de África. Um sujeito que tenha tido a baixeza de roubar só 5$000 réis. Não! As possessões de África estão contentes. — Então? tem a bondade de se sentar! E com estas generosidades que o Governo responde vitoriosamente àqueles que vão.onde só devia reinar o rabicho.. com a navalha de ponta.esperará a remessa dos facínoras. ladra muito conhecida na sociedade da Boa Hora. verdadeiras e legítimas Houve este mês um pânico patriótico: julgou-se que íamos perder Macau! A China. com ar pensativo: — Isto vai mal! Não há caixeiros de confiança! Os ladrões desta vez tardam! E um sujeito será assim apresentado numa casa particular: — O Sr. ter sondado.exclamam os Açores sufocados. que teve a honra o ano passado de assassinar seu próprio pai. — E a Srª Fulana. Já aquele fértil solo negreja de desembargadores.

no desleixo. Tentou-se primeiro comprá-los. mas exausta. sulca profundamente o orçamento. na desorganização. que.como se vende um livro pelo peso. ausente dos mares. Por esse tempo o Governo português . para glória da monarquia.travou conhecimento com a Hawks. não se mexeu. Não têm aplicação. João tem 50 anos. nem polícia. A Mindelo é um esquife . e que o único movimento é o do estrangeiro que as explora de facto — apesar de nós as possuirmos de direito. A Mindelo tem um jeito: deita-se. Há ideia de as alugar como hotéis. nem higiene.segurança. vendida. E quando mais tarde. Melício. sem artilharia. e comprou a Hawks. Era esta corveta uma carcaça britânica. não quis. A nossa esquadra é uma colecção de jangadas disfarçadas! E este grande povo de navegadores acha-se reduzido a admirar o vapor de Cacilhas! Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor pelo respeito da idade. A D. todas as nossas glórias. antes de tudo.desfez-se-lhe nas mãos! . o breu cobre-lhe as cãs: o seu maior desejo seria aposentar-se como barca de banhos. nem capacidade para conduzir tropa. A Napier insensível. Das 8 corvetas que possuímos são inúteis para combate ou para transporte . robustos. o Sr. Quem ousaria atacar as cãs destes velhos? Já se quis muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos caducos . Os oficiais de marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais. Mas.mas não pode pedir troco. sem condições de navegabilidade. não pôde voltar. Pediu-se-lhe. nem instrução.morgado de província ingénuo e generoso . que tudo ali vive na desordem. Nem construção para entrar em fogo.e justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos marinha! Todavia a nossa marinha. com um impudor abjecto . que o Almirantado mandava vender pela madeira .alguns navios novos. E uma marinha inválida. Sucedeu o caso da corveta Hawks. com cordame podre. velhos. nem solicitude pelo comércio. a mastreação carunchosa. Gasta 1159 000$000! Que realidade corresponde a esta fantasmagoria das cifras? uns poucos de navios defeituosos. quase inúteis.a hélice. Conseguiu lá chegar. lembrou-se-lhe a honra nacional.todas as 8. dá uma soma que o pudor nos impede de escrever. quis usar dela. todas as suas tendências. A Napier saiu um dia para uma possessão. ágeis. todos os seus esforços são para se deitar. nós não temos marinha! Singular coisa! Nós só temos marinha pelo motivo de termos colónias . numa antiquíssima rotina. decrépitos. O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes . A Pedro Nunes está em tal estado. citou-se-lhe Camões. No mar alto. a Hawks. meus senhores. a história obscura. como morta.

a viagem da Estefânia teve o Sr.. Entra nos estaleiros a Infante D. Não nasceu para aquilo: um navio é um organismo. Lança-se ao Tejo. E a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força. E pacata como um conselheiro. . nem engenheiros. E no Tejo realmente dá-se bem. Tentou-se todavia . alegria nacional. e como tal pode ter vocações: a vocação da Estefânia era ser gabinete de toilette. e ninguém lhes pode contestar que tivessem esse direito. porque a noite estava fria). Para diante.o palito! A nossa glória. mais cento e tantos contos! O Arsenal. não ia. inquestionavelmente.puxada a bois. ó terra do nosso berço!) quebraram como linhas. O. desilusão imediata! A lancha recuava. João custou em Inglaterra. João. E um salão de Verão surto no Tejo. Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava. A marinhagem também não quis subir às vergas (opinião respeitável. O caso foi muito falado nesse tempo. A Infante D.Estava podre! Nem fingir soube! Tinha custado muitas mil libras. O capelão quis confessar os navegadores.e com o lenço no nariz. no género construção em madeira. Mais celebrado que a descoberta da índia.. Alguns aspirantes choraram de entusiasmo pela Pátria. mas para trás. Foi meter máquina a Inglaterra. colchas.e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Fundo podre! O Arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente antipatriótica! Os engenheiros em Inglaterra já se não aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés . nem instrumentos. Pegava-se! O Arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar . Nova tentativa. não! Aí tem tonturas. tinha o fundo podre! Foi necessário gastar com ela mais cento e tantos contos. No mar alto. Essa só teve Camões que naufragou. humilhado no género navio. Vai meter máquina a Inglaterra. E uma fragata do Tribunal de Contas! Por isso quando a quiseram levar a Suez. foguetes. bandeirolas. Era uma brisa que a repelia.. Vasconcelos que arribou! Tanto é semelhante o destino dos que cultivam o ideal! O facto é que desde . range o costado . Tentou-se então construir em Portugal. O Arsenal roeu a humilhação. Alegria inesperada. 87 contos de despesa. da Cordoaria Nacional (sempre tu. nem direcção. é a Estefânia. quantos desgostos deu à sua Pátria! quantas brancas fez à honra nacional! E verdade que os cabos novos. E aí se descobre que a tenra Duque da Terceira. geme a máquina.. cultivar . O País riu durante um mês. da idade de meses. nem organização.e a lancha imóvel! Mas de repente faz um movimento. Fez uma a vapor. Parece que poucas nações possuem um vaso de guerra tão bem tapetado! O orgulho daquele navio é rivalizar com os quartos do Hotel Central. encetou a espécie caí que. Sabia-se que o Arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas. Ainda o havemos de ver. As construções saídas do Arsenal sucumbiam de podridão fulminante. começou a tentar a especialidade lancha.

E as solidões do Oceano repetirão gemendo: — Il. Vê-lo-emos . pela nossa pobreza progressiva. bradará no espaço e nos ventos: — Il. garantir a paz interior. E aí está! Nós a pensarmos que um navio ia vigiar o litoral.mo Sr.mo Sr. Melo Gouveia que pensa de outro modo. que eu de cá também a olho com a alma em ti. as comunicações com as colónias terão de ser feitas .! E depois. sucede que nem todos os ministros dão igual importância à marinha.. corveta mobilada pelos Srs. meu bem.a Estefânia.pedir à marinha mercante o patacho Constância. (textual: discurso de S. tranquila. e aí. Pensando nos teus encantos.mo e Ex. Com tal marinha. aqui temos o Sr. irá um amanuense da secretaria ao Cais do Tejo. pelo vapor da carreira. dar protecção ao comércio . Para expressar o nosso sentimento basta que o Governo remeta às colónias. dou largas ao salgado pranto.» .. e sobretudo. Exª por ocasião da discussão do orçamento da marinha na legislatura passada) sobretudo «para certificar às colónias que elas são lembradas na Pátria com carinho e saudade». um bilhete contendo uma saudade roxa.. Gardé e Raul de Carvalho.e no fim o que o navio vai fazer é significar às colónias que a Pátria melancólica lhes manda muitos recados e os seus suspiros! Ora neste caso a marinha pode ser dispensada..para manter bem presente nas colónias a ideia da Pátria.. e estes dizeres meigos: — «Colónia! lembro-me de ti com pungente mágoa. definho nos teus ardores.então brilha no Tejo. impor o respeito ao estrangeiro. um ofício. Há-de chegar a recorrer às faluas de Alcochete. Até à morte o teu Fiel amante. voltando-se para o sul. reluzente e vaidosa . Se por exemplo os Srs. com o fim de acudir a Timor. o ministro e secretário dos negócios da marinha e ultramar.para vergonha eterna de uma das caravelas de Vasco da Gama . E mais tarde. como podem as colónias prosperar? O Governo daqui a pouco.mo e Ex. Lembra-te de mim. Latino e Rebelo pensavam que a organização da marinha garantia a prosperidade das colónias.de viva voz! Quando houver um ofício que remeter para um governador de colónia. quando a idade for dizimando estes antigos vasos de guerra .. uma ordem. uma mecha dos seus cabelos. ele! Ele entende que a marinha serve .não tem quem lhe leve às colónias um regimento. Olha de lá a Lua. Gouveia e Melo.

um meio interessante para que o Governo possa manifestar às colónias . Melo Gouveia achará. Não tardará que na Europa se pense em as libertar.! Mas somos pobres. e que tirar as colónias à nossa inércia nacional.para não vender as salvas de prata que foram de seus avós? Todos diriam que era um imbecil canalha! Pois bem.» Enfim. COLÓNIAS PORTUGUESAS FITA AZUL NO CHAPÉU «Sigilo e sentimento.bem! As colónias seriam no futuro uma força. como compete a uma nação do século XIX . para não dar escândalo. Nós temo-las aferrolhadas no nosso cárcere privado de miséria. estes 4 milhões de portugueses são os filhos esfomeados do Estado.que as ama! A quem daria ele então as esperanças da sua mocidade e o viço do seu peito? Não.. Sim. M. Teu. Afonso Henriques. Gouveia . Gouveia. decerto.e vendamos as colónias. E hesitará o Estado em as vender? Sobretudo quando temos de as perder? Se o País se pudesse reorganizar . sede sempre fiéis a Gouveia! Não espezinheis esse coração de vinte anos. irremissível. cheio de crenças! Que a vossa divisa seja doravante . colónias. etc.Gouveia e cacau! E prosperareis! . Quem te pudesse ver no Passeio Público à boquinha da noite! Unamos as nossas mentes na mesma prece. porque não temos Governo que as administre. Confiemos no Céu. para quem as colónias estão como velhas salvas de família postas a um canto num armário. e o Sr. e. depois de extinta a marinha. pode o Governo de S. pelo facto lamentável de pertencerem a Portugal. que dor para o Sr. A Europa pensará que imensos territórios. Vasco da Gama.compraria fragatas! Dilema pavoroso! Devemos vender as colónias. sim! bem sabemos! a honra nacional.. não devem ficar perpetuamente sequestrados do movimento da civilização. é conquistá-las para o progresso universal. Mas assim! com esta decadência progressiva. meus senhores! E que se diria de um fidalgo (quando os havia) que deixasse em redor dele seus filhos na fome e na imundície . porque não teríamos Governo que administrasse o produto! Miserere! E depois se as vendêssemos. mas não as podemos vender.a sua chama! Para que temos colónias? E ai de nós que as não teremos muito tempo! Bem cedo elas nos serão expropriadas por utilidade humana. recorrer a um anúncio amoroso nos jornais. E verdade que se as vendêssemos. Para evitar esse dia de humilhação sejamos vilmente agiotas. como já não tinha colónias .Ou. Ralado de paixão. o Governo deixaria o País no mesmo estado de miséria. o amor é muito engenhoso. Recebi.

e em que discute opiniões. a posse exclusiva da verdade.porque ninguém é o bom senso! Mas. e presta as suas mãos. por tão pouco. Capítulo XIX: Palavras a Samuel) por Eça de Queirós Samuel é nosso amigo. não apagaria a sua lanterna! Samuel escreve-nos uma carta. nas páginas rápidas destes volumes.e contentando-se com serem alegremente recebidas. atende bem! . Samuel porém insinua que as Farpas mostram vaidade quando afirmam que são o bom senso . ágeis e laboriosas como abelhas. ama o nosso riso. nem a grande voz do deserto! . com a suprema plenitude da razão. . nem as doze tábuas da lei. juízos. ditos. para ajudar a tirar a verdade do fundo do nosso poço. injusto Samuel.Uma Campanha Alegre (Volume I. por alguns espíritos simpáticos e por algumas brancas mãos. Pobres Farpas! decerto que elas não são a coluna de logo. aguçadas e incisivas na sua porção de ferro. espalhados. nenhum temperamento e muita roupa branca! O nosso prospecto não declarava .As Farpas são o espírito de Deus levado sobre as águas. pela manhã. sem grandes erros de gramática e sem grandes verdades de filosofia. estalando de riso por todas as entrelinhas. mesmo quando franzem a testa .As Farpas não disseram que eram o bom senso absoluto. elas são sobretudo e antes de tudo 96 páginas impressas na Tipografia Universal. Diógenes decerto. que diz cansadas e velhas.Enfeitadas e coloridas na sua porção de bandarilhas. ao flutuante acaso do humorismo. à hora do correio e do almoço. que ele intitula Consciência.

nós riremos. Um Governo decreta? gargalhada. vibrante. sobre ela. Por qual destes três factos é ele processado? Qual determina o estado de criminalidade? Explicar os partidos em França? Então são seus cúmplices e devem ser processados pelo Governo português: Todos os jornais.Ih! ih! 1h! A tua recordação entre os homens será . além de proibir o folheto. tiramos do cesto o ferro em brasa. de todas as nações. Bom. Era anónimo. destrói tudo. E sempre esta política. Tu és filha de um dichote que casou com uma pirueta! Tu és clown! tu és Fajardo! Se viveres. oprime . . esgotado em Junho. discute. vai processar o autor do folheto. sempre. defendia alguns actos da comuna e alguns dos seus homens. nem um sentimento. Thiers e Jules Favre. Capítulo XX: O Governo e a liberdade de pensamento) por Eça de Queirós Agosto 1871. de todas as cores. sê o que quiseres. pensa. ensina. O livro é publicado em Maio. Aí. ou mau. Todos os deputados. E no entanto é o único comentário do mundo político em Portugal.a gargalhada! Política querida. levemente discutido. totalmente comprado. esgotado no outro. alto! Recolhemos a gargalhada. o folheto foi lido. Processado porquê? Três coisas fazia o autor anónimo daquele opúsculo: Explicava a situação e as ideias dos partidos em França. rimos! A oração fúnebre que diremos sobre a tua campa será -Ah! ah! ah! -A nota que a teu respeito se lançará na história será . terá em redor dela. e proibido em Julho! A única crítica é a gargalhada! Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio. envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa. Que há-de acontecer? o Governo proíbe-lhe a venda! Só aqui há um mundo revolto de pilhéria. de todas as câmaras. e cruel . A tua atmosfera é de chalaça. proibido no seguinte! Oh Pátria! Oh cambalhota! oh Bertoldinho! Mas corre que o Governo.Uh! uh! uh! Oh poder executivo! oh Sandio Pança! oh pilhéria! Publicado num mês. verberava os Srs. perpetuamente. de todas as cidades. Cai? gargalhada. não responde por coisa alguma. Reprime? gargalhada. liberal ou opressiva.Uma Campanha Alegre (Volume I. toma todas as atitudes. não cria nada.

sequestrou as nossas casas. Adolfo e Júlio! Mas é acusado o autor do folheto por ter defendido alguns actos da comuna e alguns dos seus homens? . Espártaco salvador de escravos. violentador do poder em 4 de Setembro como radical. a mim. que portaria. Thiers elevado à categoria de dogma? E ele equiparado pelo Governo à religião do Estado? Temos o Sr. mas Publicou-se. e proíbe que se discuta uma política cujos excessos se passaram a 100 léguas de nós. e em 18 de Março ministro conservador. na Imprensa da Universidade. em Coimbra. antigo redactor do Nacional. aproveitável a um país que precise viver de expedientes. que decreto me inibe.O Sr. quartos no Limoeiro! Ergue-te e abre. E preparar. pois nós declaramos isto: . Thiers é um sujeito astuto. Thiers inviolável como Cristo? Que façam um processo às Farpas. Moisés que libertou um povo. deve logicamente proibir que se exaltem os homens de 93. Thiers.tira-te tu. o Sr. iguais em inviolabilidade à Sagrada Eucaristia. cortou a machado nossos pais. de todas as políticas. O. ó Manuel Mendes Enxúndia! É acusado o autor do folheto por ter verberado os Srs. e o Governo português impede-o? Pois o Governo não proíbe que os jornais legitimistas exaltem o absolutismo que prendeu e matou. de gritar em cima das torres que o Sr. um folheto acerca da Comuna. há tempo. o imperador da Rússia um bebedor de champanhe?! Está o Sr. Thiers e Favre? Que lei lho proíbe? Que regulamento. porque nós admiramos os Gracos. declamador de tribunal. a ti. perfeitamente inapto para uma nação que tenha de se organizar com ideias. Francisco de Sales e a desprezar Tibério?! Pois a opinião impõe-se como as posturas da câmara municipal?! Pois haverá cartilha para as nossas apreciações históricas? Se o Governo proíbe que se exaltem os homens da Comuna. seremos degradados. de todos os continentes. fautor da revolução de 30! E que vá mais longe então! que nos processe. para que vá eu! E aqui estão estes Adolfo Thiers e Júlio Favre. Thiers é um imbecil. O Sr. Favre é um bastardo de Robespierre. ou à Imaculada Conceição! E seremos processados. o Governo provisório de 48. se ousarmos vergastar com algumas frases de história as carnes antiquadas dos Srs. Cristo que remiu uma raça! . para toda esta gente.Todos os livros. e que admiremos o próprio Sr. sem relação connosco. a ele. personagem característico daquela farsa política que se chama . queimou as nossas searas. Favre um traidor. é um político de pequenos meios que já foi polícia e parteiro. de Vasconcelos que mandou fuzilar o arcebispo de Paris? Pois não pertence a história ao puro domínio do pensamento? Pois a própria França não impede que se escrevam livros louvando a comuna. sem acção na nossa acção?! Pois há alguma lei que me obrigue a amar S.Oh! indigna vergonha! Pois é proibido em Portugal ter opinião sobre um facto estrangeiro? Pois a comuna passou-se na nossa política? Foi a Rua do Arco do Bandeira incendiada com petróleo? Foi o Sr.

dá-lhe tu a recompensa! .O Governo português pondo a sua tosca mão sobre o pensamento! .oh! pirueta.

ajudai a gargalhada! O Sr. Mas confessar publicamente que sim. amarrado a uma árvore.Uma Campanha Alegre (Volume I. o progresso que descobre melhores limas para cortardes os calos! Esse progresso decerto o amais! Mas o que não amais é o pro-gresso político. Compreende-se que discutam. o vulto. Exª que não é daqueles que Liga pouca importância às constituições políticas. desde que verificaram que é um homem. e a opinião? Sim ou não? Só isto se pode debater. às vossas declamações. De madrugada passam dois cavaleiros. Exª chama à designação explícita de 5 capítulos uma coisa vaga . E aí está o que vós não quereis.. mas desejamos que ele continue a sofrer! Ninguém dá crédito.. e votar que não . se é ou não um homem que ali está em agonia: mas. 4. na neblina. Carlos. e tomar sorvetes no Verão com sossego! Eis aí! Ah! vós dizeis que amais o progresso. a força da opinião popular! E sabeis porquê? Porque se a democracia.mas indefinido.a oportunidade de o salvar? A Carta contraria ou não as tendências do espírito moderno. com o extracto das vossas cómicas opiniões colado às costas. tivesse o seu advento . no primeiro momento. amáveis bandidos! Vinde no entanto para diante dos leitores das Farpas. E já que não auxiliais o bem. Capítulo XXI: Oito razões por que se não reformou a Carta) por Eça de Queirós Agosto 1871. Somente entendem também que a reforma é inoportuna.isto é. Ora o projecto marcava muito explicitamente os títulos 3. . o que se dirá do seu bom senso se começarem a discutir . este progresso tirar-vos-ia os meios de poderdes gozar o outro. 5. Ainda bem! Mas que estranha revelação! Há pois políticos em . transtornaria as vossas posições. Um homem é agarrado por dois ladrões. e vêem ao longe.as vossas doces e rendosas sinecuras ficariam estateladas no chão! E vós quereis ouvir Bellini em S. Barjona começou por dizer que o projecto da reforma lhe parecia indefinido e vago. mesmo sob a forma monárquica. porém.o que chamará então às nuvens do poente? Chamar-lhes-á soma de 5 parcelas? E acrescenta S. o progresso que vos monta operetas de Offenbach para acompanhar alegremente a digestão do jantar.é o mesmo que declarar: — Nós entendemos que o País sofre com esta constituição. levantaria as vossas décimas sonegadas. Santo Deus! se S. vagamente. porque esse traria uma ordem de coisas que extinguiria os vossos ordenados. Pode chamar-se-lhe largo . Amais o progresso que vos inventa cadeiras mais cómodas. senhores! Vós o que não quereis é nenhuma reforma da Carta! O que tentais evitar é que intervenha na vossa política. 6 e 7.

não muitos.ai! como ele então deseja a reforma da Carta! O Sr. depois do Génesis. porque a verdade é que esses indivíduos não estão encarregados. doçura. Barros e Cunha é conservador: mas como homem de sentimento. Adriano Machado não quer aquele projecto da reforma da Carta . melancolia. amor. só em algum dos seus artigos. Peixoto pareceu sobretudo grande quando declarou que o povo não tem direito a mais liberdade! O Sr.porque pretende ele mesmo apresentar um. Costa e Silva deixado o seu bibe! O Sr. quando escuta o rouxinol . a tê-las. É um homem que tem ambições e a sede de um nome! Em lugar da Reforma Mendes. quando segue o gemer da guitarra.depois de se ter visto singularmente enredado em grandes frases.) são pela reforma da Carta: mas que a frieza da sua cabeça não lhe permite admitir essa reforma. Aí 5 ou 6 contentam-no: se fossem 3 e meio. Isto entende-se. quando raciocina. Peixoto. de escovar o meu fato. o Sr.e termina por dizer que em vista daquela dolorosa ladainha.Portugal (e só em Portugal se é só político).por entenderem que a Carta deve ser reformada. claramente. Como homem frio. todas as reformas que o País precisa . que não é neto do conde Chambord. A câmara conservadora defende-se! rejeita por 51 votos contra 23 a reforma da Carta! Mas como foram estranhas as declarações de alguns dos 51 conservadores! Porque (quem jamais o diria?) eles só votaram contra a reforma da Carta . nem possui na África plantações de café. Peixoto (?). aspira a que os jornais da província celebrem no futuro a Reforma Adriano! O Sr. quando cisma ao luar. como o Miguel. mas é uma questão puramente pessoal). tinha cãibras de prazer! Mas sobretudo o que ele apetece . e perguntavase com cuidado onde teria o Sr. Silveira da Mota é mais estranho ainda! Examina. com grande critério.é resolver a questão financeira! E espera que ela seja resolvida! Doce ingenuidade! Todo o mundo estava admirado de tanta inocência infantil. Que existam porém sujeitos que tendo profissão de ser só políticos (oh farsa!) não dêem atenção às constituições políticas estranho parece. que antes de tudo a reforma urgente consistiria em escrever bons livros! Que não basta que haja escolas! que são sobretudo indispensáveis bons livros! Faz isto desconfiar que o Sr. estava a fingir para a galeria que era da casa de França e grande senhor de . o País não precisa nenhuma. é o das Proezas de Rocambole! Mas o Sr. (E ainda assim não gosta do Sr. Peixoto supõe que o único livro que se tem escrito. Barros e Cunha declara que todo o seu sentimento (êxtase. O Sr. e. etc. Costa e Silva entende que a Carta é liberal e não precisa reformas. que não dêem importância às constituições políticas? O meu criado não dá com efeito muita atenção a essa espécie. O que se traduz deste modo trágico: isto está tão arruinado que já agora deixá-lo ficar assim! O Sr. mas porque dá todos os seus cuidados a escovar o meu fato. Carlos Bento. conseguiu desentalar-se e dizer. Para este senhor a questão é de quantidade.

há todo o motivo para supor que o País está salvo! O Sr. Este moço justifica o seu voto . porque é pouco experiente. Franco Frazão declara que a reforma da Carta não deve ser admitida à discussão.mostrando a sua pouca barba! O Sr. se devia ocupar .significa: «Não nos levantemos tarde e não comamos coisas que nos façam mal ao estômago». geada. em que notáveis opiniões viram a luz do dia . assim fixado: Janeiro. e não percamos este!» Abismemo-nos na contemplação deste período imortal. da administração.engenhos! Pobre moço! E quando ele jurou que a verdadeira reforma.. antes da questão da fazenda. É este um grande princípio que passará para os repertórios. Se acrescentarmos a isto os banhos do mar. que incumbia ao parlamento. à parte a sua construção cómica . Por ora. frio. Franco reforma e organiza.em havendo frio! Deixem vir Janeiro.e a luz do dia viu notáveis opiniões! .em escrever compêndios de geografia e tratados de moral. era dar ao povo livros que lhe ensinassem a natureza do seu País e a sua própria índole? Muita gente compreendeu que esta frase difícil significava que a câmara. e o País verá como o Sr. E terminou assim: «Estas reformas reclamam todas as nossas forças e todo o nosso tempo. Pinheiro Chagas vota contra a reforma da Carta. etc. planta chicória e reforma a Carta! Tal foi esta sessão. não fatiguemos aquelas. não. porque está muito calor! Este homem é grande! Este homem há-de ir longe . que.

Uma Campanha Alegre (Volume I. e assobiem. se organiza.se têm desabotoado tanto a dignidade? Vamos. para maior comodidade de suas pessoas. mente! Mais cerveja! Issoé uma bestialidade. e que a Pátria veja nas pregas das camisas o suor dos seus eleitos! Venha cerveja! Saltem as primeiras rolhas! Caiam as últimas injúrias! Ferva a intriga e espumem os bocks! Ao tilintar dos copos misture-se o embate dos insultos! . Nem mesmo se prendam com o asseio! Tirem os botins. a consequência lógica do seu procedimento? Se se desprenderam de todo o respeito. e atirem por cima das carteiras. E no . Sois tão criminosos que nos fazeis perder o riso. que ali mora defronte. Entre nós vemos.e há-de exigir que nos curvemos como se ela vivesse nas ideias elevadas? Pois aquela senhora. Barros e Cunha há dias tinha calor. santo Deus? Porque se impõem a inexplicável privação de não beberem cerveja na sala? Que significa esta falsa compreensão das regalias constitucionais? Porque não tiram. quando ela se não respeita? Pois ela vive nas assuadas indecorosas . meus belos cavalheiros da injúria franca! Um último passo! Já aniquilaram o decoro.e as nódoas de vinho um comentário aos projectos de lei! E praguejem. O Sr. o ódio de todo o trabalho. ponham de lado a polidez. e o abandono de toda a ideia. e não se pôs em mangas de camisa! Via-se bem antes de ontem que o Sr. e se o Governo comprou ou não comprou exemplares de um Elogio do Sr. poderá estranhar que eu a repila brutalmente. e o que se debate é se se fez ou se não fez a estrada da Covilhã. à face do País. se legisla. a porção da nossa liberdade que se vai enterrando no lodo!. durante um mês. ela me vier fazer esgares com a cuia à banda? Porque vos havemos de respeitar.se em vez de passar na discreta compostura do pudor. Capítulo XXII: A Praça de Santana instalada no edifício de S. e escarrem! E viva a troça! Hip! hip! hip! Hurra! Salta um decilitro! Fora. em todas se trabalha. se pensa. em lugar de a saudar delicadamente . Ávila! E todas as questões úteis e altas desprezadas. arrastar-se uma discussão sobre perso-nalidades de regedores. e uma perpétua ventania de insultos trocados. fora! Cigarros! Rompam as disputas de café em atitudes de taberna! Ninguém se coíba! Que o fumo do tabaco faça uma nuvem às votações . porque não se desembaraçam das suas gravatas? Se se atribuíram o direito de dizer injúrias. lo-lé! Para o pagode! Oh! legisladores! Oh! homens de Estado! Oh! feira das Amoreiras! Pois temos nós obrigação de respeitar a câmara. patife! E larilo. e em todas há seriedade e discussão inteligente. essas peúgas de alvura duvidosa! Desapertem esses coletes. o esquecimento de toda a decência! E no entanto a Espanha mede. Arrobas estava apertado no seu colete.. dizei? Pelo saber que não tendes? Pela dignidade que renegastes? Lêem-se os extractos de todas as câmaras do mundo. porque não se dão o direito de trazer chinelas? Porque conservam uma certa compostura de toilette .. e no entanto não se desabotoou! Estranhas abstenções! Porque se coíbem.É falso. polegada por polegada.lé. Bento) por Eça de Queirós Agosto 1871.

não descalçam as suas botas! Ninguém explica esta reserva. Nota-se com espanto que os senhores deputados. . trémulos e grotescos. ao escárnio da multidão. expondo.entanto ele é a nossa vingança! E é indispensável que se mantenha sempre pronto. cruel. querendo Deus. ao entrar. amargo. para que em nome da consciência ofendida vos vamos A câmara dos deputados está tendo realmente uma compreensão muito estreita dos seus deveres parlamentares.

e.. contado na correspondência do Sr.é necessário que estes se tenham permitido atitudes verdadeiramente estranhas! Dado mesmo que alguns senhores se tivessem deitado ao comprido. Quadro esplêndido! Suas Ex. dá ao Comércio do Porto. Jaime Moniz. tanto quanto lhes permitia a sua qualidade de madeira. estouros. ainda assim. cachações. gravata solta. deputado.entre portugueses! Teria o Sr. Capítulo XXIII: Os srs. homem noticioso e linfático.no parlamento! Teria o Sr. É que as magnetizava um espectáculo refinadamente excepcional. ou tivessem dado cambalhotas . E note-se que as galerias resistiram. que desenhou os contornos de uma sessão memorável na Câmara! Tomaremos a exacta narração que o Sr. Não queremos que acusem as Farpas de parciais! Não se dirá que foi a nossa pena. Diz o Sr. deputados levaram o sr. Barjona? Mas isso que importava . deputados esquecem a mera decência material) por Eça de Queirós Agosto 1871.nada disto. Teles de Vasconcelos montado às cavaleiras no Sr. Melício. todas as variedades sonoras de uma argumentação eloquente! Isto já é grande! Isto já é prodigiosamente grande! Mas maior é o último detalhe do motim. Arrobas cortado os seus . presidente a MANDAR EVACUAR A GALERIA! Pergunta a imaginação aterrada . Barjona falava quando o motim rebentou. exaltada pela fantasia e pela ironia..as de cabelo em desalinho. As provocações (diz o Sr. palmadas. visconde de Valmor rompido no excesso de se pôr de cócoras? Mas é tão natural isso . tomando biocos suplicantes. pontapés. Melício) eram acompanhadas de murros sobre as carteiras. Melício. e Suas Ex. mostrado o interior das suas flanelas? Teria o Sr. para afirmar à Câmara e ao País a moderação dos seus princípios. encontrões. atirando-lhes murros. Que se passou pois? Teria o sr. justificaria a precaução pudica do Sr. Melício: as POSIÇÕES POUCO ACADÉMICAS E MENOS PARLAMENTARES (???) de alguns srs. as carteiras vergando. excelente folha lúgubre! O Sr. correspondente.que posições foram essas? Não! isto é extremamente sério! Para que o presidente de uma Câmara mande evacuar as galerias com o motivo de elas não presenciarem as posições que os deputados estão tomando .Uma Campanha Alegre (Volume I. António Aires.as .

não se cobriu apenas.se puseram nus! Não. Exª se descobrisse à porta. vendou-se. num acesso de ira. deputados . Enterrou o chapéu até o pescoço. piedoso e justo! É evidente que os srs. pondo o seu chapéu.calos? Teria o Sr. botado a língua de fora? Não! Não podiam ser somente estes actos ligeiros! Posições académicas e pouco parlamentares! O Sr. vieram médicos que lhe extraíram o chapéu a ferros. diante do comandante da guarda. Barros e Cunha. Que seria?! Santo Deus! Deus clemente. senhores! . e para que S. António Aires.

de onde a mansidão é excluída.) por Eça de Queirós Agosto 1871. passa à ordem do dia! Depois o modo carinhoso como a Câmara tomou conta da infeliz palavra insulto! . Senão vejam! Todos os dias aqueles ilustres deputados se dizem uns aos outros: É falso! É mentira! E não se esbofeteiam.para o País! Quanta elevação cristã num diploma de deputado! Quando um homem leva em pleno peito. minto? Pois bem.Uma Campanha Alegre (Volume I. apelo para o País! . que S. Exª é uma verdadeira serpente: — Mando para a mesa a seguinte moção: A Câmara. não se enviam duas balas! Piedosa inocência! Cordura evangélica! É um parlamento educado por S. E veremos os tempos em que um senhor deputado.«Sou deputado da nação portuguesa! Apelo para o País! Pode continuar a bater!» E depois que doçura de expressões! Não vimos ainda há pouco o Sr. compenetrada de que o sr. onde a humildade é glorificada. e digo-o à face do País.este homem é um santo! Não entrará decerto nunca no Jockey-Club. o desmentido acolhido com tão sentida resignação! Sublime curso de caridade cristã. meus caros senhores. mostrando o seu diploma: . este rude encontrão: É falso! . sapo. Capítulo XXIV: Três dias de insultos no parlamento. dirá modestamente ao agressor. apela . mas entrará no reino do Céu. diante de duzentas pessoas que ouvem e de mil que lêem..e diz com uma terna brandura: Pois bem. ministro da Fazenda é uma lontra. Cuidam que apela para o espalmado da sua mão direita ou para a elasticidade da sua bengala? — Não. É uma escola de humildade este parlamento! Nunca em parte nenhuma. esbofeteado em pleno e claro Chiado. o ver discursos assim concebidos: — Não aprovo o projecto do ilustre presidente do Conselho. Ávila designado no meio de uma questão financeira com estas benévolas qualificações ..camaleão. porque entendo na minha consciência. apelo. como ali. Francisco de Sales! O ilustre deputado mente! Ah. o insulto foi recebido com tão curvada paciência. como é moral. elefante?! Que autoridade no dizer! que elevação no pensar! Como é instrutivo.

António Aires. quando os tigres passeavam docemente par a par com os cordeiros. Três dias! — O ilustre deputado não me insulte! — Vou responder a esses insultos! — Menos insultos! Ai! o mundo despoetiza-se! As coisas terríveis perdem o colorido da lenda.e os srs. — O ilustre deputado há três dias não faz senão insultar-me (textual). cada deputado podia formar de véspera uma útil e séria lista de argumentos . e ela agora vem. Assim o público ficava avisado . Exª.e engorda! Mas o Sr. . As O Parlamento vive na idade de ouro. tão comprometedora. O insulto já não é aviltante! Não é! A Câmara dos Deputados vive há um mês. e o Sr. numa discussão.quando o mal ainda não existia. devidamente prevenido. em perpétua ordem do dia . que nunca aparecia outrora que não fosse o sinal de um duelo ou de uma policia correccional .e S. o seu aguadeiro.consultando o dicionário. que quer zelar os interesses do seu país. a porta da Alfândega e os fadistas da Praça da Figueira. para que continua a dizer com a sua voz eloquente: — Amanhã continua a mesma discussão? A escrupulosa verdade . O diabo já não é temido. e ninguém se revolta. António Aires tem para ela um bom sorriso.o parlamento refez-lhe uma virgindade e um decoro. do que ver. deputados também! Porque nada deve custar mais a um ilustre deputado. tendo no seu seio o insulto. sacerdote e católico.pede que se declare: — Amanhã continua a mesma assuada.e a palavra mente! não atraía a bofetada! crianças riem do papão. quando Caím era um bom rapaz. exausta a sua colecção de injúrias. esse. Vive nas idades inocentes em que se colocam as lendas do Paraíso . está adstrito a observar este regimento da consciência .Aquela pobre palavra. quando ninguém tinha tido o cavalheirismo de inventar a palavra calúnia! . findos os seus apontamentos de berros! Não é quem quer doutor em impropérios! E assim.

no largo. na praia. os remos partidos. Capítulo XXV: O romance de uma lancha) por Eça de Queirós Agosto 1871. Vinha a entrar uma lancha à vela. Vinha cheia de água. atirava para fora a corda da rede. com paisagem. de cabeça branca sob um barrete de pele de lontra. passado à beiramar. Os palhaços empalideciam sob o alvaiade. com guizos. apanhou-a pela popa. A sombra da noite caía. no alto. já vestidos. e grandes tons dourados desbotavam numa tinta roxa.«Está livre! não está livre! Santo Deus! Jesus!» .Uma Campanha Alegre (Volume I. vê-la atracar. ela fugia à bolina. As ondas tomavam a pequena embarcação pela popa. Correram todos ao cais. e na linha da barra sucediam-se.aqui está um conto. Pois bem . ao pé do Castelo. ergueu-a. de bruços sobre o chão. Dois palhaços. tinha a brancura de uma porcelana: já a decoração inflamada do poente se apagava.A onda. na água impiedosa! Ora sabem qual é o imposto que sobre este duro trabalho lança o fisco? . vieram olhar. de um azul duro. Uma vaga maior sacode-a furiosamente.40 réis por pescada! Não é o antigo dízimo absolutista . O patrão. quebrando. e por um momento viu-se apenas. Tinham trazido 10 ou 12 pescadas! Cada pescada podia valer seis vinténs! E tinha estado perdida. seco. . a vela oscilar. Entre as rochas. Estivera perdida. O céu. . à imaginação. balouçou-a. uma após outra. A lancha tinha escapado. largas ondas monótonas. a lancha! E era ao anoitecer. a maresia era violenta. A lancha corria. mulheres. rijamente impelida. na espuma. Era há dias. caiados. Há ali perto uma barraca de saltimbancos. Ergue-se sobre ela outro mar mais forte. com a lenta palpitação da asa de um pássaro que morre. um velho baixo. Pescadores. estava riscado de espumas. Na praia as mulheres gritavam. O mar. com a vela molhada até meia altura.é o terço liberal! E assim acaba o romance! Pode alguém estranhar que as Farpas não contenham nunca uma página dada ao romance. rompem a gritar. pasmados. na Foz. ao fim da tarde. longe de socorro.

empolgar o poder e as suas doçuras.Foi ontem apupado na Rua da Alegria. vai renascendo a confiança. Batalha Reis. o Sr. decano do partido republicano.numa r-e-v-ol-u-ç-ã-o! Mas qual? Três correntes de opinião. . pelo mero facto de triunfar. Alexandre Herculano. antigo conferente do Casino. terá logo. S. . mesmo nas opiniões opostas. nem letra de menos . S. Pedro IV. .Foi preso o Sr. Exª estavam ignobilmente abatidos. . Seja qual for a que triunfe. Exª passeou ontem as ruas de dog-cart. .As autoridades e funcionários das secretarias são demitidos em massa. . pela força ou pela manha. Oliveira Marreca. Foi preso o Sr.nem letra de mais. para os Inglesinhos. foi nomeado patriarca.O sr. — 19 de Fevereiro..A emigração tem abrandado.O Sr. . .Haverá grandes tributos para ocorrer as despesas da reconstituição da nobreza. darão os jornais depois da vitória: Revolução nº1. no valor de 3 milhões cada um. aqui apresentamos de antemão as notícias que. segundo for uma ou outra dessas três opiniões que consiga.O Governo que felizmente nos rege continua na sua obra de pacificação. E a revolução variará.Uma Campanha Alegre (Volume I.Assistiu ontem uma inumerável multidão à execução do Sr. M.Os membros do novo . marquês de Ávila e Carlos Bento foram fuzilados. duques de Palmela. adversas ao constitucionalismo e ao parlamentarismo. A redacção da Nação mudou-se para o palácio dos srs. ElRei Nosso Senhor visitou ontem o lausperene da Graça.Mandaram-se fundir à Alemanha três carrilhões. V. S. ao Calhariz. reformista. S. Vai ser demolida a estátua de D. Não o devemos ocultar! Fala-se . SS. . Exª caminhou para o suplício com grande valor. E para que cada cidadão possa devagar escolher a revolução que lhe convém. poeta erótico.. Capítulo XXVI: Três tipos de revolução. atravessam o País. . aderentes inumeráveis. Parece que uma representação do clero exige o desterro do Sr.O novo Governo provisório deu ontem um esplêndido jantar no Hotel Central. na ocasião em que observava a chegada das andorinhas! Revolução nº2 — 19 de Fevereiro. Osório de Vasconcelos. Padre B. Luís e Mártires. -Admiráveis em Braga as iluminações. . .Fala-se em grandes bailes dados pela coroa. . à escolha) por Eça de Queirós Agosto 1871. de cada uma delas.

Foram suspensas as Farpas. . Antero de Quental.Foi saqueada a casa do Sr. -Vai ser feita a reforma administrativo-comunal. o Sr.Têm sido suspensos vários jornais. Luís de Bragança.-Corre que se vendem algumas das colónias. . .Foi publicado o decreto licenciando o exército.E certa a reforma do imposto.O Sr. poeta erótico. foi apupado na Rua do Arco do Bandeira.Vão criar-se escolas industriais.Bandos armados dão pilhagem às províncias do Sul. . V. . os principais vultos dos últimos anos da política constitucional: diz-se que serão degredados. que ia a correr atrás de uma borboleta! Revolução nº3.Nas províncias do Norte é grande a miséria. . — 19 de Fevereiro. . . D.Estão nomeadas comissões para proceder à confecção do cadastro. .Chegou a Paris o Sr.Está decretada a instrução obrigatória e gratuita. . . . .Ontem o Sr.As secretarias vão sofrer grande golpe. .Têm sido fechadas as igrejas.Estão presos e vão responder a processo. .Fechou-se a Universidade. e o ensino superior será reorganizado numa nova base. deu pontapés no comité.Formamse por toda a parte sociedades cooperativas. e organizando uma guarda nacional.Foi suprimida a câmara dos pares. . poeta erótico. V.Foi ontem apupado no Rossio. .Governo atribuíram-se ordenados anuais de 12 contos de réis. . . a quem o comité da Rua da Bitesga fora oferecer a presidência. Cada membro do Governo provisório recebe anualmente 600$000 réis. José Maria Eugénio. . . .O Governo provisório lançou fogo aos arquivos da polícia. onde estava a contemplar um lírio. — Teremos a liberdade de cultos.E concedida a plena liberdade de reunião e de coalizão.

cercadas de árvores. a Câmara daria ao País o exemplo de uma grande dedicação pelo peixe! . Capítulo XXVII: A praça de peixe do Porto. de luz. casa bem reparada.. alcovas. etc. higiénico. com altas e fortes paredes.a não ser inspirado pelas injustiças da inveja . com lindos modos: — Suas Ex. esbeltas. lavadas por um perpétuo escorrer de água. aconchegado. que.nem mesmo um quartel. Enfim.fazendo concorrência à vadiagem dos filhos-famílias . sob uma coberta de damasco . aos domingos . e receando. rasgadas. colocar nos recantos sofás. A honrada Câmara Municipal do Porto quis dotar a cidade com uma praça de peixe.. A peixeira conduzi-lo-ia a uma alcova. Aquelas varandas são para que. Tem uma arquitectura própria. porque a vadiagem do peixe pelas ruas . com leves colunatas de ferro sustentando um tecto de madeira ou de vidraça. quase um palacete. gabinetes interiores. confortável. Pois bem! A Câmara Municipal do Porto. O comprador tiraria o chapéu comovido. as largas varandas de ferro da fachada da praça! Alguns malévolos riem..é sobremodo insalubre! Mas uma praça de peixe não é um teatro nem uma casa de banhos .duas pescadinhas-marmotas. fresco. desinfectado. com mais alguma despesa. em toda a parte. e não esquecer um piano. de água. Nada mais higiénico. para quem parece ser uma extremosa mãe. com uma nobre solicitude pelo peixe. o peixe teve os seus aposentos definitivos. O peixe deslizaria aí dias de grande doçura: os robalos estariam deitados em divãs de seda: o polvo teria livrarias para se instruir! O comprador seria introduzido por criados de libré. que o peixe se constipasse. São a 80 réis cada uma! Ah! A Câmara tem decerto grandes planos! Como estão bem feitas. com as janelas cerradas.. e mostraria inocentemente adormecidas. ou sofresse a indiscrição dos vizinhos. E a peixeira. ergueria os cortinados de um leito. construiu-lhe uma praça fechada. nas grandes cidades. têm um destino que ninguém . Assim.as recolheram-se tarde. tão amplas e cómodas. aberta e devassada pelos ventos. as praças de peixe são de uma construção ligeira. varandas.Uma Campanha Alegre (Volume I. que a Câmara hesita se há-de pôr ali peixes. com um carinho assustado. corredores. De todo o tempo.poderá condenar. mais justo.Era mandar tapetar a praça. livre. se livros . e o luxo da sua mobília) por Eça de Queirós Agosto 1871. condições especiais de ar.e se fará daquilo um mercado ou uma biblioteca! A nós parece-nos. um lugar são.. E tudo de tal modo tranquilo. Mas nós sabemos que essas varandas na praça do peixe..o peixe venha tomar café para a janela! .

os aterros que tendem a desabar. as refeições envenenadas. meter em cada carruagem um lobo esfomeado. espalhar pela estrada destacamentos de bandidos que espingardeassem o comboio. As travessas podres. a última placa de uma herança! Apaixona mais que ler Os Três Mosqueteiros! Suscita os tremores de perigo e de transe que só dá uma ascensão ao Monte Branco! Talvez estar para ser fuzilado não cause tanto alvoroço! E a intenção da Companhia é evidente. parece-nos um meio eficaz de impedir que o viajante tenha ocasião de se enfastiar. devia ter a companhia em cada estação empregados.lhe cravassem uma navalha na ilharga! E a viagem ficaria deste modo marcada com indeléveis encantos e cicatrizes! Jornadear nos caminhos-de-ferro portugueses de Norte e Leste. a todos os respeitos. a confusão. no bufete das estações. numa última volta de roleta. se aproximassem do passageiro. dar-lhe sensações supremas! Parece-nos pois que alguns conselhos à companhia não podem deixar de ser por ela recebidos .Uma Campanha Alegre (Volume I. os desaterros que tendem a esboroar. ao parar do comboio. com todo o respeito . para nos estimular com uma sensação mais forte ainda . . Correndo sobre os rails. mantém o espírito do viajante num estado delicioso de palpitação e vibração. Outrossim. há para nos interessar e excitar . até as demoras. há. Assim. Capítulo XXVIII: Delícias de jornadear nos caminhos de ferro em 1871) por Eça de Queirós Setembro 1871. E enfim. seria de todo o ponto dramático e excitante.não diremos de braços. Esta hesitação. o serviço desleixado. mas de rails abertos. parados. os atrasos.comover fundamente o viajante. os túneis mal seguros. as máquinas cansadas. por exemplo. tudo converge para o mesmo legítimo fim . E como quando se joga. uma aventura cheia de emoções. é. e delicadamente. como meio de produzir a mais aguda impressão. tudo.a probabilidade do descarrilamento. que. entre o tombo e a cólica.o envenenamento a 500 réis por estômago. tudo. os rails gastos e desaparafusados. as pontes rachadas.

(porque é necessário conservar a tradição jacobina). esgazeando os olhos. o seu filé. E depois as belas atitudes de protesto.Uma Campanha Alegre (Volume I.jurou qualquer coisa! Nós não sabemos. o Centro subiu a um banco com um martelo. tomou resoluções!. trocaram algumas falas. para fazer alguma coisa como a destruição da Bastilha. e ainda não se averiguou nitidamente . ministro adquire uma alta feição de sensatez e de direito: não só está na legalidade. ministro pedia que o Centro não continuasse em discussões. sacudiu as mãos. Capítulo XXIX: A cólera do Centro Promotor) por Eça de Queirós Setembro 1871. e brada. espanejou-lhe o pó. eis o sr. influências.que discussões agitavam o ar abafado da sala do Centro. e a impressão que ainda fazem os mártires em Vila Nova de Cerveira e em Mogofores!. Bento. despregou um retrato da parede da sala.interroga o Centro ávido. vice-presidente que corre à sala do Centro. serenado por esta decapitação moral. real. e que se esmiuçavam ministérios. Em seguida esperou. Se o Centro Promotor discutia nas suas reuniões a política que intriga e que grunhe em S. O sr. e. com mais seguro critério. presente. pô-lo ao canto de um armário. tomando ambos o seu rapé. câmaras. limpou os beiços. o apetecido golpe de Estado! E apenas o sr. O seu desejo. — O golpe de Estado! Então. tomando subitamente a sua carranca de solenidade.. o indefinido perfil da questão. completamente. gritou. e amigavelmente.. o Centro deliberou.. porque fez cumprir um estatuto . era atrair sobre si um golpe de Estado. se falava da internacional e das suas pompas. . Escutando estas admoestações. e de pé . o seu capricho. então a advertência do sr. como se se tratasse de um codilho: — Meus senhores! levámo-lo! — O golpe de Estado? . ministro do Reino teve a imprudência de chamar à secretaria o vice-presidente do Centro. o vice-presidente do Centro tremia de júbilo. porque afastou os que trabalham na penumbra dos que enredam. e se discutia a sanguinolenta questão do salário 1 Querem outros porém afirmar.. Para isso perorou.mas na verdade. a horas lôbregas. e outras espécies torpes. completo . Uns dizem que ali. reformistas e reforminhas. que as discussões do Centro eram de ordem política e intrigante. Estas duas informações alteram. ministro termina. Ora justamente o sr. que nem estavam na permissão dos estatutos nem na sua dignidade de corporação. partidos.o estremecido. Ali o tinha inteiro. eleições. E.

correndo à desfilada sobre o velho mundo que apodrece! Voltai aos vossos interesses e voltai às vossas casas! Deixai o senhor A ser um político. nas suas sessões.trate as questões que mais vitalmente interessam as ditas classes laboriosas. correspondente. Mas também nos não pareceria inteiramente inútil que. de sair da sua obscuridade venerável e da sua modéstia tradicional. de trabalho. ministro enche-nos de perturbação! Parece realmente que se não deve estranhar que uma associação criada para promover o bem das classes laboriosas . Decerto. Braamcamp? Quereis dar à política a vossa colaboração? Vós? Tão desmoralizados estais que desejeis abandonar a vossa dignidade de trabalhadores. a associação. que tendes de comum com os improdutivos por excelência . de todos os pontos do horizonte. Apeteceu a popularidade do telegrama. ministro tem razão.. pela pena de pato das secretarias? Não é outro o vosso dever. por exemplo. às boas cores de vossos filhos e à substância do vosso caldo. bom Deus. depois de terem dado uma parte da noite às questões sérias. de escola. para salvar os seus interesses de operário. um operário. a maneira mais meiga de interpretar o final da Lúcia) dedicassem também uns minutos. levantar-se e dizer: — «Pedi a palavra sobre a questão social: a minha opinião é esta: La donna é mobile Qual pluma al vento. seria interessante e proveitoso que o Centro Promotor se ocupasse em averiguar e experimentar o meio mais profícuo de pernear o cancã . Aqui à puridade. ó troça! Ah! mas se porventura o Centro Promotor tratava apenas. correndo. ó riso! e o senhor B um homem de Estado. o trabalho. discutissem a melhor maneira de servir o champanhe! E qualquer de nós ficaria pálido se visse. todo moderno. o sr. a coalizão. as altas questões de salários. amigos operários do Centro! O dever da vossa associação não é discutir combinações ministeriais ou personalidades estéreis. entre gentlemen. as vossas.porque só trabalhais. confessemos que imensa seria a nossa admiração .Sim. visto acharem-se ali reunidos. para repousar o espírito. de produção. os produtores por excelência . no Centro. pela Um dia o Centro promotor das classes laboriosas sentiu o ímpeto. as questões sociais. para vos absorver. para vos virdes curvar entre a sabuja humilhação dos políticos? Vós. Melício. em lugar de falar do seu salário. a advertência do sr. a questão social e operária .porque convém que cada um saiba a maneira de se portar no meio das sociedades cultas. Apeteceu as palpitações do perigo. como por demais. Ávila ou nas magras costelas do Sr. Que importa ao vosso bem-estar. por prazer. ociosidade mendicante do parlamento? Quereis trocar as vossas livres ferramentas. esses operários. Apeteceu a prosa descritiva do Sr.o salário.porque só intrigam? Quereis trocar a altiva fadiga da oficina.então. outro o destino do vosso pensamento? Não tendes. de associação? Elas erguem-se. a fútil e folgazã questão do salário! . (como. que a farda pública esteja nas costas grossas do Sr.se operários reunidos. de instrumentos. a greve .

ministro. Mas convém que.proclama noutro dia o Governo.jogando o pião! Criançolas! pequerruchos! grandes homens do Centro! oh traquinas! Ah! a vossa maneira de protestar é cómoda para os homens . elegante e romântica. fechaduras. tremei. E o que fizestes? Uma alteração na mobília! Pretendíeis significar por esse facto que éreis os homens da dignidade austera. caprichosamente. A. Oh grandes homens do Centro! Vós quisestes fazer uma alta justiça social. Sampaio. . portadas empenadas da janela. e todo o mundo vê que sois simplesmente os admiradores das paredes lisas! Dizei cá! A advertência do Sr. e protestou.mas terrível para a mobília! — «Está suspensa a sessão do Centro!» .Entenda-se! as Farpas não querem de modo algum sustentar que as associações operárias sejam para discutir as questões operárias! Não! O operário. nas suas reuniões. deve exercitar-se em recitar Lamartine. que estava na parede -está agora num armário. Isto está estabelecido na prática de todas as nações e nos princípios de toda a economia. se entretenham a arranjar o melhor meio de não morrerem inteiramente de fome! O Centro julgou-se tiranizado. — Está? Rasguem-se as bambinelas! E são terríveis! Que culpa tendes vós. Como? Fazendo um arranjo na sua sala. O retrato do Sr. (e sem que isso perturbe os interesses de ordem literária. foi ou não opressiva do vosso direito? Não? Então que homens sois vós que gratuitamente.. do vosso pensamento reprimido . que lhes estão confiados) os operários. boas paredes de papel francês? Ai! se o Centro se resolvesse um dia a conspirar deveras e o Governo a reprimir deveras . — Está? . mesa suja de tinta. tremei. R. por todo o desafogo do vosso direito violado.Volte-se a mesa de pernas para o ar! — «O Centro está dissolvido» ..grita o Centro. lírica.tremei. ó capachos da entrada! . coitados.não tendes mais iniciativa do que a de um criado tonto! A vossa justiça indigna-se despregando pregos! Isto leva-nos a acreditar que o vosso carácter se afirma . de vez em quando. dais a desautorização a quem vos deu a associação? Foi opressiva? Então que homens sois vós que. Sampaio.declara um dia o Governo.

me de Brinvilliers.». com o bandido que. sacudia a cinza do seu cigarrinho histórico sobre o peito dilacerado da Pátria. etc.) por Eça de Queirós Setembro 1871. Nunca se averiguou se Madama Bonaparte tinha sido privilegiada delicadamente com uma portaria quase amorosa . Os periódicos acusadores. e não era um homem! A Srª condessa de Teba não se apresenta decerto tão especialmente nociva como estas três espécies: .. vergastados.atenda-se bem! .o privilégio não nos escandaliza.. da Alfândega para a estação de Santa Apolónia. que Luís Bonaparte tinha também servido! E esses homens eram mandados aos milhares no porão dos navios. sem curiosidade. Acusava-se este facto: a Srª D. todavia. e para ti. cobertos de vérmina. ao abrigo das instituições! Ora da Srª D. a trabalhar nos . Capítulo XXX: As malas da Srª condessa de Teba. e afirmando que os baús ex-imperiais. e a questão das malas perdeu-se na esbatida penumbra das locais folgazãs. Se o privilégio se deu . meus senhores.ou se aproveitara as disposições de uma portaria qualquer. bem sabemos! «É uma infeliz. estendidas nos balcões da Alfândega. e a roupa branca daqueles que amamos. e era também uma dama! Lucrécia Bórgia gozava estas qualidades franzinas. Eugénia de Montijo achamos que ela é casada com o assassino de 2 de Dezembro. etc.Uma Campanha Alegre (Volume I. para que não fossem revistadas as bagagens de S. esfomeados. Os jornais deste mês travaram uma questão singular. M. feroz devota. porém. e o Governo expedira à Alfândega uma portaria galante.. condessa de Teba.mas lembrando outra pela qual são isentas das indiscrições fiscais as bagagens em trânsito. Oh! sim. Por este tempo.mas que tal não era o caso da loura e altiva inquilina das Tulherias. ex-imperatriz dos Franceses (por um crime de seu marido) atravessara Lisboa para ir ver a Espanha os antigos paraísos da sua antiga mocidade. com o deportador para Caiena e para Lambessa.mas no seu tempo deportavam-se para Caiena. não se julgava também feliz. tinham passado rapidamente. com o esmagador de toda a liberdade. nós queremos indagar qual é o mérito da Srª condessa de Teba: e procuraremos desde logo alcançá-lo para nós mesmos e para todos os nossos concidadãos-pondo assim a nossa roupa branca. com o escravizador de todo o pensamento. com um desdém censurável pelas glórias de Lisboa. porém. temos visto bastantes vezes. Exª! A isto respondiam algumas gazetas negando esta portaria . homens cujo único crime era terem servido a república de 48. declaravam que conheciam de antiga data a portaria de excepção para as bagagens em trânsito . Eugénia de Montijo. com o comedor das substituições militares. E. tudo isto impõe à Srª condessa uma cumplicidade moral. A pobre Catarina de Médicis era também uma infeliz. com o destruidor da riqueza da França. Trégua às frases! E vamos direitos aos factos como uma bala justiceira. é uma dama. Tudo isto destinge sobre a Srª condessa. a índia penetrou nos artigos graves. numa desordem impiedosa. para Lambessa e para a ilha do Fogo. toda a traparia obscura que habita as nossas malas! Mas como todo o privilégio pressupõe um mérito. feita para mim. pelas estradas de Sedan.

veja o pudor das suas peúgas exposto à indiscrição pública! . crê em Deus. e há-de dar portanto licença que eu lhe crave esta navalha no fígado! Não havendo esta precaução. Eugénia Montijo. Antes de desembarcar. e murmuralhe com doçura: — O cavalheiro tenha paciência. mas eu não queria que na Alfândega me desarranjassem as minhas ceroulas. matar dois ou três grumetes.me Swetchine. quando se entra no reino!» Assim. a Srª condessa de Teba? A Srª condessa de Teba. estamos todos prevenidos. todo aquele que desejar ordem na sua roupa. nada temos que estranhar. Se foi a eles que S. Exª deveu a delicada vantagem de lhe não serem revistadas as suas bagagens. no entanto. leitora simultânea dos manuscritos eróticos de Merimée e das efusões místicas de M. aproxima-se de um marinheiro ou de outro passageiro. E que fazia. que não goze a vantagem de ter fuzilado o seu semelhante no boulevard ou de o ter mandado morrer de febres para Caiena. o sujeito tem a alta vantagem de não ver amarrotada a goma das suas camisas. esposa e mãe. é triste realmente que um homem. as viúvas nas lágrimas perpétuas. Com este documento. chegue à Alfândega. nunca terá bastante vida para consumir em bastante penitência! Tais são os méritos que encontramos na senhora D.presídios! E as famílias ficavam dispersas. e por falta de três ou quatro crimes. Somente pedimos que se declare explicitamente por uma portaria: «que alguns crimes cometidos no estrangeiro isentam a bagagem de revista. dançava nas salas das Tulherias. e não custa nada. entre o esvoaçar dos tules. os filhos na miséria ou na casa de correcção. quando se chega à barra. aos compassos da rabeca de Strauss! Se essa devota Bénoiton.

passar tranquilo no meio deste doce povo: podia V. O príncipe Humberto teve estas precauções delicadas: chegou devagarinho. Os reis hoje passam de largo. escorreito e são. tiquetique. ó Lusos! Os jornais de Madrid contaram que S.bradando «genebra a um!» Que S. nossa irmã. tantos reis errantes. não se afoita assim pelo meio das populações. olho no povo. não é polido engoli-lo de um bocado! Podia V. jamais vo-lo perdoaria. esteve quietinho. colhendo a respiração. porque S. ao único país legitimamente autorizado a devorá-lo . A. Alteza. ia tomar o seu sorvete a um café onde geralmente se reúnem os italianos. Nunca! Se tal fizésseis. que não seria estrancinhado! Portugal sabe respeitar o príncipe do seu próximo. Portugueses. R. olho na porta . Capítulo XXXI: O príncipe Humberto) por Eça de Queirós Setembro 1871. todas as noites. A. Ser-nos-ia mais fácil. em Madrid. Portugueses. que dorme ao pé de um muro de quinta. com a despreocupação de um homem que entra na Deusa dos Mares. largamente envolto no sol. . A. para quem. Calmai-vos. E aí está. um príncipe. tomar o mesmo Sr. tantos palácios onde o musgo nasce. Melício às colheres . Italia mater! Tragar um príncipe alheio seria indelicadeza e esquecimento das boas relações internacionais.Uma Campanha Alegre (Volume I. Os compêndios de civilidade. o Sr. partiu escondidinho. não foi bater com a ponteira da sua bengala no mármore de uma mesa do Martinho .como quem passa por um cão de fila. João Félix. cosidos com a parede. se desdém.. E creia V. não teve senão charutos abomináveis atirados com mão enfastiada. ficou desconfiada. A. Vaz Preto às fatias! Mas cravar o queixal sôfrego num príncipe de Itália.o belo país de Itália. A. Tantos tronos aluídos. Um rei. em passinho miúdo. mesmo ter sido mais afável com os cavaleiros da tourada de Sintra. que. se tranquilizasse.só significa timidez. A. significava economia. porém! Nós vamos no nosso trigésimo primeiro rei. têm tornado a espécie timorata. No primeiro caso queria propô-lo deputado reformista por Vouzela ou Palhares. sem saber se a abstenção de S. e ainda não devorámos nenhum. a respeito do café e de outros inefáveis encantos da Baixa . A. A. ficando assim definitivamente acomodada na península a casa de Sabóia: no segundo desejaria simplesmente voltar-lhe umas costas democráticas.. nãoé da etiqueta abocanhá-lo. o príncipe Humberto. e escutai-nos! A abstenção de S. A população de Lisboa. ensinam-nos que se não mete a mão no prato do vizinho! Sabemos. A. e quando nos mandam um gentil príncipe.o mesmo Sr. quando nos mostram um fruto raro. V. instados pela gula revolucionária. ficando assim exuberantemente vingado o café Martinho. Alteza. E decerto não iríamos experimentar o dente sobre um príncipe de outras terras! Tínhamos em nossa honra entregá-lo. lente de civilidade. dizem os despeitados. R.

e se tomou café. para não despertar ninguém.. A. partiu devagarinho. em bicos de pés. chegou.Esta familiaridade. se não como um príncipe. não teve a inspiração de o tomar no Martinho! (Tanto a etiqueta coíbe os instintos mais naturais!) . enchia de um júbilo espumante a imprensa monárquica e o dono do estabelecimento. inteiramente contemporânea da Internacional. Em Lisboa lia-se isto e esperava-se o príncipe Humberto. porém. ao menos como um consumidor! S. esteve.

árvore por árvore e casal por casal. fugitivamente. Há nos seus romances tal descampado. daí decerto a realidade que os seus livros deixam entrever. As suas figuras só servem para dar expressão e vida à paisagem. Os campos. Nunca porém se desprendeu do seu idealismo e sentimentalismo nativo. as searas. À maneira daqueles povoados que ele mesmo desenha. em torno delas. Júlio Dinis amava a realidade: é a feição viril e valiosa do seu espírito. A realidade tinha para ele uma crueza exterior que o assustava: de modo que a copiava de longe. Dizem que os seus livros são memórias. com receio. escondidos no fundo dos vales sob o ramalhar dos . em criações finamente tocadas. e que ele faz a aguarela suave das paisagens em que viveu. erguer com cuidado. Nãoé que não ame. Era um livro real. adoçando os contornos exactos que a ele lhe pareciam rudes. Tudo nela é velado de névoa poética. as meigas figuras de velhos. os seus galãs violentos e ternos. e que só ao compassar dos soluços o coração lhe aprendera a bater: daí pois aquelas meias-tintas azuladas e melancólicas em que se move. não persiga a verdade: somente quando a fixa na página traz já a pena toda molhada no ideal que o afoga. os sentimentos com que palpitou. Capítulo XXXII: Júlio Dinis) por Eça de Queirós Setembro 1871. entre as atenções transviadas. e que personaliza. que tem mais ideia. mas são poetizadas: parece que só as vê e as desenha quando a névoa outonal esfuma. Mas parece que não fora feliz. não são nos seus livros a decoração que cerca uma humanidade fortemente sentida: as suas camponesas romanescas. Esse livro fresco. os montes. fez palpitar fortemente as curiosidades simpáticas As Pupilas do Sr. as aldeias que tanto amava. até as suas caricaturas . Era um livro onde se ia respirar. um romance. azula. aberto sobre largos fundos de verdura. os céus profundos.é que foram por ele colocadas assim para poder. e com que ele procura esbater e adoçar a crueza das realidades humanas que o fizeram sofrer. quase idílico. tal parreira onde os gatos se espreguiçam. habitado por criações delicadas e vivas . o povo romântico dos seus livros. mais vida. com uma simplicidade verdadeira.Uma Campanha Alegre (Volume I. Terá o seu dia de justiça e de amor. como uma paisagem de Cláudio Loreno entre grossas telas mitológicas. aparecendo no meio de uma literatura artificial. Nunca um sol sincero e largo bate a sua obra. As suas aldeias são verdadeiras. Um só livro seu. tal eira branca batida do sol. que as figuras vivas que em torno se movem. Era sobretudo um paisagista. idealiza as perspectivas. as claras águas. Reitor.surpreendeu. num rumor brando. espalhando uma aguada de sensibilidade sobre as cores verdadeiras que a ele lhe pareciam berrantes. Reitor as obras de Júlio Dinis passaram de leve. Depois das Pupilas do Sr. mais acção.

tem o seu destino afirmado. que deu tanto encanto. os seus livros serão procurados como lugares repousados. fugitiva como a água. criou. com um relevo forte: Júlio Dinis viveu de leve. morreu de leve. Foi simples. zumbem no ar! . Mais feliz que nós. para além desta página serena.. foi puro. morreu. escreveu de leve. com um rumor impaciente. tranquila e meiga. Tréguas por um instante nesta áspera fuzilaria! Numa página à parte. Que as pessoas delicadas se recolham um momento. Já do outro lado. na sua obra gentil e fácil. só retém aqueles que vivem ruidosamente. Passemos pois. as ironias aladas que. que este espírito excelente não ficou popular: a nossa memória. e para ele resolveu-se a questão. onde os nervos se vão equilibrar e se vai pacificar a paixão e o seu tormento. pomos a lembrança de Júlio Dinis. Tal é o nosso mal. e que merece algum amor. ouvimos.castanheiros. foi inteligente. pensem nele. Trabalhou. de largos ares. inumeráveis como abelhas vingadoras..

e os mais rudemente batidos eram os 600$000 réis. com boa ortografia. a dita consciência dos Açores. Mas ai! o espírito dormita. Sena Freitas seja um grande historiador. estalou sobre toda a linha de gazetas uma argumentação indignada. Ouvi mais! Se o Sr. . quod Deus avertat. Sena Freitas tivesse sido encarregado por este decreto: «Manda el-Rei que o Sr. comezinhamente. erudito. bom metal: por outro lado o Sr. beneditino? O Sr.e aí ficava estragada a história dos nossos bem-amados Açores. o segredo das palavras que ficam. Mal o contrato foi assinado. Sena Freitas se trocou este contrato: O País daria ao Sr. Sena Freitas 600$000 réis por ano. e o Sr. quando lutava. se proclamasse a República — e vós ficaríeis sem história e sem Freitas. escarnecia-se o contrato. ó Açores. História é a consciência escrita da humanidade».. E a plebe irreflectida pode ladrar em vão! Ouvi cá. M. que a história dos Açores é a consciência escrita dos Açores. a escrever a história dos Açores. Ora sucede que entre o passado Governo de S. prosódia sã. Capítulo XXXIII: Ter génio por escritura pública) por Eça de Queirós Setembro 1871. Sena Freitas de que havia de criar uma obra original e profunda? O Sr.ou piruetas. e pontuação certa. E agora respondei! Preso por um contrato. Acusava-se o ministro. não dá o Sr. nós só temos bênçãos e flores. Sena Freitas se tivesse decidido espontaneamente.Uma Campanha Alegre (Volume I.. gratuitamente. Freitas dava apenas a garantia do seu espírito. homens de estreita fé! Se o Sr.»que garantias dava o Sr. sofre obscurecimentos. Freitas dava só a garantia da sua obediência ao seu Rei. disse um homem. Como se diria na Bíblia. condenava-se a história . que garantia dava ele de fazer um trabalho de poderosa crítica? Que garantia dava de compor mesmo um livro minucioso. cheio de factos. Mas ai! ai! a obediência aos reis pode fazer concessões . para este contrato. Nós podemos pois dizer. Sena Freitas encarregar-se-ia de pôr em letra redonda. caduca . o escândalo veio pelos fariseus! Pois bem. estranhava-se o historiador. Que amanhã. que teve. ligado por uma escritura.

a garantia da sua honra? Obrigou-se por um contrato a ser um grande historiador. consultaria o Sr.a ser um homem imortal! Em Portugal só assim se podem alcançar grandes homens! É obrigá-los por um contrato. nem estudos especiais. Ávila que seria. A é um dramaturgo inferior a Guilbert de Pixerecourt! Se o Governo tivesse . a Boa Hora lá está que. Exª. S. como forma. Exª. Exªé um rapaz inteligente e espirituoso. podia não dispor de crítica. podia não ter elevação de pensamento.embora! Estamos descansados. o obrigará à força . Vidal. arranje as coisas como quiser! E se recuar. um dramaturgo maior que Shakespeare . Exª não for admirável. não possuir outra aptidão senão escrever folhetins. tem de o ser! Cara alegre e espírito desafogado! É para ali! Ah! queria talvez ganhar 600$000 réis e não ter o trabalho de ser um historiador como Michelet! Há-de sê-lo! Já não lhe é permitida a obscuridade. nem de método. e quando S. um poeta maior que Vítor Hugo.Sena Freitas a garantia suprema. de contrato em punho. no prazo de vinte e quatro horas. Se S. e brandindo as contas do processo. Não basta. Sempre queríamos ver agora que S. Nós seguiremos o trabalho de S. Sena Freitas citado para.não teria o País a vergonha de confessar que o Sr. Exª tivesse contratado ser um candeeiro do Rossio. Exª obrigou-se por um contrato a ser um grande historiador: S. página por página. Exª se atrevesse a não ser um grande historiador! Em Portugal há tribunais. Exª é um homem honrado: S. S. seja o Sr.um grande historiador! Podia S.e seria um nobre candeeiro do Rossio! Sua Exª contratou! A fé jurídica não admite conciliações.«Que. tem forçosamente de ser um génio! Nem uma só vez mais na vida lhe é concedido o doce desafogo de não ter gramática! Há-de ser maior que Guizot. Exª houvesse contratado com o Sr. Exª. Exª cumpriria com valor o seu contrato . Sena Freitas pesa desde hoje a responsabilidade de ser sublime. lutaria. nem a mediocridade! Queira ou não. Exª será um historiador grande! Acreditamos em S. a 600$000 réis por ano. Exª (temos a inteira certeza). por exemplo. compraria um dicionário de rimas. se hesitar. em virtude do contrato de tantos de tal. mas seria um poeta maior que Vítor Hugo. a tanto por mês. S. podia não fazer ideia do que é a ciência histórica e a filosofia da história. requeremos à Boa Hora: . como ciência. podia não ter estilo nem gramática . trabalharia. tem portanto toda a sua dignidade empenhada em ser . ser sublime a páginas tantas da sua obra sobre os Açores!» O contrato não foi escrito e registado para que os Açores tenham um historiador medíocre! Sobre o Sr. tem de ser um grande homem! Contratou para isso. Se S. se se eximir. como crítica. Exª. Ah! se o Governo tivesse contratado com o senhor A que ele fosse. Conhecemos S. S.

mas a culpa vem dos poderes públicos.um soneto! Que todo aquele que tenha de mostrar documentos. mas recrutem-se também génios para Vila Nova de Gaia! Porque não temos um poeta épico? Que faz o Governo? Quer desleixar a epopeia. amarrado de pés e mãos! Que o talento seja imposto como o serviço militar! Recrutem-se soldados para Caçadores 5. além da décima .contratado com o senhor B.a grande civilização lusitana! . forçado pelos tremendos laços da lei. como político. seja adstrito a apresentar. ainda inferior a Sancho Pança. Que se decrete que todo o cidadão válido deve ao seu país. abandonar assim os homens à sua iniciativa? Que intento é este de deixar a cada um a liberdade de ser medíocre? O Português só poderá ser inteligente obrigado por um contrato.um artigo de almanaque! Haja o génio obrigatório! E o País florescerá. rei de Baratária! Que significa. num país culto. além da ressalva e da folha corrida . e poderemos definitivamente esperar que em Mato Grosso comece enfim a fazer impressão . que ele fosse um homem de Estado como Pitt .não passava a Pátria pelo vexame de ver que o senhor B e.fulminem-se penas severíssimas a quem não for grande homem! É forçoso confessá-lo! O País está embrutecido. como desleixa a fazenda? A Pátria precisa de grandes homens .

banianos e gentios. os expedicionários. A Baixa teve os seus alvitres heróicos. e partiu. Mas sabemos. meus dignos senhores. por altos motivos que só os grandes homens de Estado como o Sr. Se um baniano toca a púcara de barro poroso de um canarim. formado destes elementos antipáticos.Uma Campanha Alegre (Volume I. ríamos. Os jornais perfilaram de novo. mais que outros quaisquer. a acocorar-se à beira do mar! E não há severidades. e não lho trazem . Meteu-se na mão do sr. não! Como outros quaisquer.e cada um envergou o velho brio patriótico! Começou então o movimento. atira a arma para um canto. de velhos bastardos da fidalguia indiana.mouros. nem os rigores igualitários da disciplina. cheia de mobília e de brio. Quase não se comunicam. Oh. entretanto. que se amaldiçoam. nada as dissipa: nem as promiscuidades inevitáveis da caserna. Augusto uma espada .não tem unidade nem coesão. guerreiam-se. A própria Estefânia. não era cepticismo. mandados do continente. O grosso do exército da índia é composto de indígenas . Além destes oficiais nativos . A oficialidade deste exército compõe-se pela maior parte de portugueses nascidos na índia -mestiços. São os filhos de antigos degredados. e vai ao quartel ladrar contra o rancheiro. cruza as mãos atrás das costas. se chega a hora da ablução. o canarim espedaça num cunhal a púcara desventurada! Estas hostilidades. que alterem estes hábitos orientalmente fatais. Sacudiu-se o velho brio patriótico do pó e da caliça . infante D. castiços ou descendentes. De sorte que o exército.condicional. e onde apenas há o contacto material dos ombros na fileira . horas impreteríveis. aos pulos. a salvar o mapa das possessões Nós. de peruca e rabicho. amamos este pobre e velho Portugal. de oficiais expedicionários. Santo Deus. todas as castas têm hábitos fatais. Estes. era necessário que a respeito dela exis-tisse o correspondente brio patriótico. Uma vez que a gloriosa índia ainda existia.ele pousa tranquilamente a espingarda. em parada. Estes nomes melodiosos designam castas. As castas desprezam-se. que celebram num ritmo dormente o alto amor da Pátria. que se não unem. que uma revolta militar na índia é alguma coisa tão extremamente insignificante e efémera como um meeting civil no reino. canarins.há os oficiais europeus. as frases solenes. e corre. e nunca absolutamente se fundem. Está o soldado gentio de guarda: se chega a hora do seu arroz. Barros e . Além disto. comovida. Capítulo XXXIV: História pitoresca da revolta da Índia) por Eça de Queirós Setembro 1871. não há castigos. e as castas na índia conservam ainda todo o seu velho e irreconciliável separatismo. venceu os nervos e a preguiça. etc.

sem simpatia. Obscura. envolta num telegrama do sr. vêem-se. Os que possuem alguma rupia.O que hoje há. para defesa dos grandes interesses portugueses. fracos. fiel e valente.Cunha podem saber. ignorantes.já não existe! A Pátria distraída esqueceu-se de renovar os paquelós: e a Morte. tem a qualidade lamentável das legiões de Varo: . a comer o seu arroz! A notícia de que ela ainda tinha vitalidade bastante para se revoltar . realizada ela. uivado cortado pela mão espalmada que bate rapidamente sobre a boca. idiotas. foi-os levando. Ora os oficiais índios. dobrada sobre si mesma. que. com um zelo pelas rupias extremamente compreensível. Januário. E o motivo é que os oficiais. sem adesão. estéril. á concidadãos timoratos! Para conter este elemento indígena.como estão ali. Em primeiro lugar os soldados não vão por um impulso próprio. dispõe da guarda municipal. Essa guarda foi de todo o tempo composta de soldados portugueses. Por essa ocasião muito bom português se admirou que a índia ainda fosse nossa! Ela saíra. odiando-se. porém. (Têm a ingenuidade Andávamos inteiramente esquecidos da índia! Uma clara manhã ela aparece violentamente no meio de nós. Se contra eles. interesses. que meios tem o sr. não em virtude da revolta sua. nas brumas distantes. bebida alucinadora que leva à caquexia! . Quase não aparecia nos orçamentos. quereriam ter um soldo igual aos oficiais que vão de Portugal. é um bando de mouros sujos. destruiu na índia todo o poder lusitano. tentaram uma revolta. visconde de S. Somente. com um desdém pelas nossas possessões que nunca lhe censuraremos bastante.vão unicamente porque os seus oficiais. e bêbedos de aguardente! Pois bem! ainda assim uma revolta na índia não tem seriedade. e estimulam o seu entranhado patriotismo com aguardente de banana.como eles dizem. O babadé é um ah! ah! ah! prolongado. no primeiro momento. Por consequência requerem. E depois. nesses dias . todos a supúnhamos unicamente ocupada. como uma variedade mais ruidosa. arruinada. uma certa porção de revolta! Levam alguns batalhões para a rua e soltam o babadé. Vêem-se sós. telégrafos . havia muito. É mesmo assim . para terem maior número de rupias no seu soldo. velha. Melício seria um fringui! Esta guarda foi sempre segura. para policiar e sustentar o poder português. Os portugueses que vão servir como funcionários são considerados aristocracia. sem terem interesse comum ou vontade comum . têm um soldo maior que os oficiais índios. Na índia o Sr. das pompas solenes do artigo de fundo. singularmente embaraçados. Divididos em castas. fortalezas. e chamam-se fringuis. cidadãos. Tais são as revoltas da índia. os oficiais revoltados não têm rancho para lhes dar. mas por obediência à revolta alheia .dispersam. governador-geral? Diz-se que o sr. permitem-se. O povo conserva-se indiferente.quase aterrou! asiática de requerer!) Mas quando desesperam dos despachos da Pátria.espantou! A certeza que ainda ali havia soldados. pois. hoje. e paqueló após paqueló. se apontar uma espingarda fiel . governador-geral. lhes mandaram que fossem. nessa índia gloriosa e tradicional. Hoje duas ou três companhias de mouros compõem a guarda fiel: estes pobres mouros arrastam na vadiagem os sapatos rotos. que os índios chamam paquelós.

mal sustentado de arroz.enterram-na. à janela. Depois. As pessoas inexperientes e impacientes fazem um prodigioso consumo de índios. consumido pelo sol. um regimento de 400 praças revoltou-se. Há tempos. e entre os goles. à mais pequena insurreição. escondem-no. vagarosamente sorvidos. O comandante.. sem adesões. mal ouve o nome de paqueló . Um empurrão. nesse dia come pouco. suspira. nem táctica.. com a sua mão grave e jurídica. ao criado: — Mais açúcar! E continuava: . nem munições. e morre com uma palmada na espinha. Acrescente-se que os oficiais da índia não têm instrução. sem disciplina. propõe a amnistia. Ninguém confia uma para a um oficial revoltado. em Mapuçá. exclamava para o regimento insurgido: — Ah! vocês revoltaram-se? Depois para dentro. Além disso no exército índio não há pólvora.ele cambaleia. Ao segundo dia de desordem. já famosamente diminuta. sem dinheiro. em chinelas. sem rancho. miudinho. Sai para a rua e vem fazer babadé para defronte da casa do comandante. patriotas da Arcada? E não se deve esquecer ainda esta circunstância: o índio das nossas possessões é de uma debilidade gelatinosa.atira-se de bruços. Não há talvez desembargador algum em Goa que não tenha. não são capazes de ordenar uma marcha hábil. os oficiais só têm a dar aos soldados-palavras de entusiasmo! Os soldados (nunca podemos compreender por quê) preferem o arroz à retórica. e o índio tomba . de formar um campo entrincheirado. Aí vem o paqueló — foge! Vê o paqueló . assassinado um índio! Dá-se uma pancada leve no ombro do índio -. e começam a debandar. e volta para o seu quartel! Ainda tendes medo. e as diversas castas aproveitam os vagares da revolta para se espancarem com fervor. os que têm arroz ensacado. Se o governador-geral faz sair um bando que. de darem um apoio estratégico à revolta. ao som do tambor. no outro estende-se ao sol a gemer. e morre. começa a beber muita água. assustadiço. o índio cai de bruços com uma carícia no rosto. sem munições.treme. quando chega a hora do rancho. cada um solta um ah! de satisfação e de alívio. desaparece. já moribundo. E uma fraqueza comprometedora. a disciplina. Anémico. o soldado índio. sem pudor nenhum. Quase não há armas! Por outro lado. tomava café.na eternidade. Ao fim de dois dias de gritos e de babadé .acham-se nesta situação triunfante: sem ponto de apoio.

eu já vos falo. o deboche tem o ardor do clima. e no entanto velhos pardieiros. a higiene é feita pelos cães que lambem as imundícies na rua. O regimento hesitava. que se vêem nos patins.— Bem. todas as castas. sim. todas as fraquezas se levantavam num ímpeto. fazer olas.porque. Há pouco Macau. nem iniciativa. que se esboroam às mordeduras do sol. descalços e encruzados. e quando se lhes garante um forte juro. debandaram aos gritos. dois ou três homens ricos. o cipaio viria obrigá-lo. não existe nenhum comércio. a distância. ele pode subir os postos até major.menos o Inglês.. Nem mesmo se chegou nunca a saber por que se tinham revoltado! Porém. velhacos? — Dá cá o cachimbo! .Pois bem.Ora deixai estar que os paquelós aí vêm! -lume!. não há nelas movimento. comendo o seu arroz com a mão. descendentes. a única indústria. que são os encanastrados de palmeira com que se erguem os pacaris. á homens de Estado. em que a Inglaterra mandasse um soldado à fronteira da índia Portuguesa . . só com ver ao longe os 20 paquelós. e estas comoções matam-no. A índia não nos serve senão para nos dar desgostos. e se fosse inglês. os soldados embebedam-se com aguardente. a única cultura é o arroz. Que se abra mesmo um registo no ministério da Marinha. o tenente Bruno de Magalhães que vinha. Povo e tropa na índia tudo querem . uma intriga sórdida e rastejante agita indígenas e europeus. no desleixo. cavam e emprestam. .porque no nosso regime ele vive na ociosidade. agora a índia! Que as colónias nos deixem respirar! Que se revoltem. canarins. meus senhores. Nisto aparece. mas com intervalos. e por que foram tão supérfluos os vossos fervores patrióticos! No entanto. na sua imundície querida. só em Setembro de 1872 será permitido que Timor se subleve. a polícia é feita por cada um com o seu bambu. E um pedaço de terra tão escasso que se anda a cavalo num dia. sem acumular. sob o nosso regime. na sua bem-amada traficância. Jossy e mais dois. é indispensável que estes sustos acabem! O País está débil e fraco. as escolas são uma ficção grotesca. mestiços. as estradas são a espessura do mato. Em Setembro de 71 revoltou-se a índia? .. E o soldado índio detesta o Inglês . os tributos esmagam. com 20 paquelós. Os 400 revoltosos.Uma colher! -Assim é que estais disciplinados. a ser policiado e a ser trabalhador.todo o território índio. As pequenas povoações caem em ruína e em imundície. bater os 400 revoltosos. alpendres coloridos e frescos que sombreiam as janelas. numa pequena elevação. e sob o regime inglês não subiria nem a cabo! Aí está a razão por que uma revolta na índia não tem valor. podeis dizer-nos: — Mas se a Inglaterra meter lenha para o forno? A Inglaterra?! No dia. que exportam a 5 para importar a 8. O povo não quer o Inglês . a golpes de curbach. têm o dinheiro enterrado.

e desejaríamos dar-lhes coronhadas. dir-lhe-emos insolências. Oh! meus senhores. o passado é caturra! Seria verdadeiramente impertinente que uma rosa murcha tivesse a pretensão de andar na boutonnière da nossa sobrecasaca: que uma pomada rançosa do ano passado ousasse querer anediar os nossos cabelos: e que o esqueleto da mulher amada tentasse ainda dar-nos beijos! Se podemos vender a índia aos Ingleses. cumpramos os deveres do nosso tempo!» . segundo as ideias do nosso tempo. terão a nossa consideração. Tem paciência. se elas se querem conservar na história e na pompa da epopeia. positivo e racionalista. glorioso varão! Sobre as tuas soberbas façanhas. soluçando e gemendo. lembram as nossas glórias e alastram o chão de caliça. os deveres do teu tempo segundo as ideias do teu tempo. quando se tratar de negociar. João de Castro. elas se interpuserem com recordações importunas. Dorme agora quieto o teu grande dormir. meu velho D. o nosso tempo científico. Mas se. é por ser uma glória do passado.e é já glória bastante! A única coisa por que conservamos a índia. este grande melhoramento .bem: quando o passado pretende antepor-se aos interesses do presente. Arrobas . por Deus! E quanto às glórias de Dio e de Damão. contentemo-nos com o barítono Lisboa e com o Sr. O passado é belo e heróico .vendê-las! Ocorre-nos outro ainda maior a respeito da índia . e deixa que nós. Tal é a índia Portuguesa. também D. quietinhas e caladinhas. caturras! voltai para o sepulcro e para o pó das crónicas! D. não serve senão para os rapazes de latinidade fazerem temas na província. Noutro número das Farpas lembrámos. Fora daqui. vendamos a índia. hoje. João I é uma glória. João. a respeito das colónias.esconderijos de corvos. e nós não nos conservamos abraçados à sua sepultura. não tem senão a dizer-te: — «Cumpriste sublimemente.dá-la! E quanto a glórias nacionais.

da Escola Médico-Cirúrgica. Ora não queremos dizer que a patrulha não tenha a faculdade de matar. em questões de ciência. de um aneurisma. Ninguém foi preso. escalavrado. ergue a mão. surpreendido. Um dos solda-dos. O cidadão estendido morto. O redactor de um dos mais vivos jornais de Lisboa contava-nos pouco depois. e tomando as espingardas pela coronha. à coronhada. visto a polícia possuir este método específico. Capítulo XXXV: A polícia) por Eça de Queirós Outubro 1871. os fadistas rompem a chasquear e. na redacção. sufocado. Quando alguém se sentisse doente. E decerto a melhor maneira de fazer entrar um cidadão na ordem -é fazê-lo entrar no cemitério. Coronhadas como as que vimos estalar. diante de um homem com um acidente. e escalavrava-o a pontapés! Uma economia paralela nos ocorre a respeito da municipal. que sofra do peito. a arquejar. nas ilhargas de dois cidadãos. Talvez a Medicina não siga inteiramente este sistema de curar acidentes: no entanto a polícia tem essa opinião terapêutica. este processo policial.e o Governo deveria encarregá-la de tratar os cidadãos enfermos. de uma lesão. que o deixa rendido. para variar um pouco os seus prazeres. Poupávamos assim a despesa com a Escola de Medicina. com um vigor castelhano. que ela decerto julga proveitoso porque o usa. com a espinha partida ou o crânio aberto. e nós não podemos contestar a ninguém o direito de divergir. A esse tempo já Um fadista gania. Em todo o caso é respeitável. vem pé ante pé.Uma Campanha Alegre (Volume I. os cidadãos que destranquilizam as ruas! Seria esse mesmo o meio mais eficaz de estabelecer na cidade uma paz inalterável. não lhe poderia custar muito um pequeno trabalho a mais . podem muito naturalmente matar um homem fraco. Não é necessário que haja juiz para julgar os cidadãos . Somente nos parece que. Quando os dois espanhóis passavam. os polícias então davam-lhe pontapés no estômago. e. começa por atirar às costas do espanhol uma pancada horrível. chamava da janela o polícia da esquina.quando a municipal previamente se encarrega de desfazer esses . de um vício de construção. Nisto uma patrulha. Mas então (economia!) suprimamos os tribunais. queixava-se de ter escangalhado a arma! Respeitemos. submissos. dá garantias superiores do seu sossego e da sua cordura. arregaçava a calça. E boa? É má?. depois de tomar o pulso e reconhecer a autenticidade do mal. com um som baço e gemente.. sob outra coronhada municipal. O outro então.. depois. e este benemérito. que vira na véspera alguns polícias. tratando de lhe fazer voltar os espíritos à força de pontapés na cabeça: o homem rebolava no chão. faz um cerco. mandava pôr o doente em posição. que descia o Chiado. dá em redor algumas bofetadas sonoras e fulminantes que fizeram rolar na lama os magros tocadores de guitarra. esbofeteiam um espanhol. O acidente tratado pelo espancamentoé uma teoria. Recolha-se definitivamente a magistratura ao seio das suas famílias e das suas torradas. aos pés do municipal.

vinham conversando dois espanhóis.para ele lhe fazer perguntas! E como poderia um cadáver pagar a multa? Poupemos à justiça estas colisões vexatórias! Saíamos do Antony Um pouco adiante de nós.cidadãos às coronhadas! O mais subtil magistrado ficaria pálido de embaraço se lhe apresentassem o corpo despedaçado de um desordeiro . No alto da rua. num grupo ruidoso. subindo a Rua Nova do Carmo. ao fundo do Chiado. espadaúdos e robustos. tocavam guitarra. alguns fadistas. .

Nunca se dirá que as Farpas se arrojam indiscretamente sobre o seio das famílias. fora preso. São miudezas domésticas em que não intervimos. do que à alcova retalhar a esposa! Não nos espanta também o castigo infligido pelo meritíssimo juiz de Gouveia. para melhor organização do seu interior. de ora em diante.é mais simples ir à cozinha trinchar o rosbife. «Um marido matara sua mulher. e começa a considerar-se uma pena infamante. é certo.de resto todo Local. Que os maridos. que embirraria que os vizinhos a suspeitassem de ter empregado o . não prevendo esse castigo de varrer as ruas de Gouveia . Alexandre II da Rússia (que Deus guarde e muitos anos conserve em prosperidade e glória) manda trabalhar. Que grande honra. partira-a aos pedaços. varredores de Lisboa .não querendo.. a varrer as ruas de Gouveia!» De modo nenhum queremos limitar os maridos no direito de decepar suas mulheres. nenhum cidadão se quererá incumbir de limpar as ruas. nas minas de Orilieff! A imundície da província tem mistérios. passar por terem assassinado suas esposas. partam suas mulheres aos pedaços — coisa é que nem nos escandaliza.Uma Campanha Alegre (Volume I. Há gente tão meticulosa. O código..o limpar as ruas de Gouveia! Talvez mesmo o juiz . os códigos da Europa.. quando um marido se sinta dominado pelo desejo invencível de partir alguma coisa . dada esta greve. em substituição da pena de morte. ao estalo do chicote. deponham com gesto de desdém o cabo das suas vassouras nas mãos atarantadas da câmara municipal! Por outro lado. por uma susceptibilidade exagerada. varrer as ruas deixa de ser um emprego municipal.rompesse no excesso arbitrário de entregar aquele facínora ao suplício imenso de limpar as ruas da sua vila! Bem pode ser que aquele marido esteja cumprindo uma sentença pavorosa. Limpar as ruas de Gouveia será talvez a pena que de futuro adoptem. marca uma pena diversa. Reparem bem! «E condenado. para a sujidade nacional! Mas uma coisa nos ocorre: . quando lhes convenha. Mas quem sabe se não será uma tremenda penalidade . e que o devamos lastimar mais que os infelizes que S.. nem nos jubila! Talvez não imitássemos esse exemplo: não por nos parecer fora das atribuições maritais. e condenado. mas por se nos afigurar excessivamente trabalhoso o partir aos bocadinhos uma consorte estimada! E entendemos que.por lhe parecer insuficiente o degredo perpétuo . Nós não temos a honra de conhecer Gouveia.e é que. M. tão escrupulosa. meus amigos. Capítulo XXX VI: Uma nova penalidade) por Eça de Queirós Outubro 1871. E pode acontecer que os srs.

que merece um emprego remunerado pela câmara. e se. a ir. qualquer cidadão pode ter a vantagem de espatifar sua esposa: se a imundície especial e pavorosa das ruas de Gouveia torna realmente essa pena igual à de degredo: ou se o sr. Esperamos. por sentença de um tribunal. É o chefe do Estado. aquela que fosse pela lei do Reino declarada irresponsável. adiante de si. juiz de Gouveia entende que matar a esposa é acto tão meritório.trinchante na pessoa da sua consorte. Esse é irresponsável. de vassoura em punho. M. não comete crimes. . melancolicamente seguido da sua corte. a O Diário de Notícias. nos esclareça sobre estes pontos: se limpar as ruas é uma penalidade nova. modestos e respeitosos. por essas vielas. levando. Mas seria realmente atroz que S. em nu vens de poeira. nem sofre penas. se visse obrigado. jornal que tem imposto aos seus correspondentes o hábito das informações escrupulosas e sérias. a troco de quatro vassouradas. as respostas dos poderes públicos. inseria ultimamente uma carta de Gouveia em que era narrado este caso: imundície dos seus vassalos! Que a justiça. Esse é o único que poderia varrer as ruas sem que ninguém se lembrasse de pensar que ele andava ali. às vassouradas. Ora há só uma neste caso. pois. A única pessoa que afoitamente ousaria varrer as ruas seria aquela de quem se não pudesse suspeitar um crime. depois do teatro.

para que estas páginas não venham a ser consideradas tão picantes como as das memórias de Faublas. Capítulo XXXVII: Os missionários e o seu ramo de negócio. que na devota cidade de Braga alguns missionários vendiam aos fiéis cartas inéditas da Virgem Maria. também pregam sermões. pelo mesmo processo extático. Corre que os editores desta correspondência inesperada da Mãe de Jesus tiveram um ganho excelente. No entanto uma inquietação atormentava este varão pio. que presenciara em Trás-os-Montes uma singular agudeza: Um missionário chegou ali com grande bagagem de rosários. como absorto em êxtase. diante de tabuleiros de feira. não trazia caixeiro! De tal sorte que teve de se contentar com dois que lhe forneceu um negociante de panos. Mas o desleixado.outras. Somente desejamos saber: Se os srs. há pouco. Estes dois hábeis vendedores a retalho. Os caixeiros eram honrados. O missionário então. mais particularmente. o imprudente. . colocados à porta da igreja nas tardes de sermão. que.Contar aqui o que ele declamava no seu vozeirão labrego não o podemos . missionários. Ao fim de cada sermão. Quem entrava na igreja comprava com devoção. à contagem das outras relíquias. clamava: — Agora vão-se benzer as relíquias! Quem tiver rosários de Nossa Senhora. eram dirigidas. e este homem fez um bom lucro. fragmentos da túnica. a voo de pregador. pedaços do santo lenho. E quando saía da igreja conferia os seus apontamentos mentais do púlpito com os resultados monetários da porta. Estas cartas. missionários são exclusivamente negociantes. Que Deus o proteja. Depois abençoava-os. erga-os ao ar! Os fiéis que se tinham provido daquela espécie levantavam-na com fervor. umas a personagens dos tempos evangélicos . Um sábio professor da Universidade de Coimbra contava-nos. . de passagem e por demais. e a polícia o não incomode! Nós achamos tudo isto extremamente regular. etc. enfeitados de toalhas bordadas e cheios de relíquias. contas. os rosários. dirigiam activamente o seu negócio pio. E no entretanto o missionário no púlpito trovejava. a cidadãos de Braga. Passava em seguida. O comércio da relíquia piedosa é a ocupação usual dos srs. contava com os olhos. e punha neles uma confiança pouco evangélica! De modo que tomou este expediente triunfante.) por Eça de Queirós Outubro 1871.Uma Campanha Alegre (Volume I. rapidamente. segundo parece. Não sabia a conta exacta das relíquias que dera aos caixeiros. com uma indignação ingénua. sudários. Alguns jornais contaram este mês.

e curam as doenças. em viagens maravilhosas. e vir para a praça vender rosários. na hipótese do segundo caso. Se porém. sendo negociantes que por demais pregam sermões. preguem os seus sermões. para se ocuparem em mais alguma coisa. Está no seu pleno direito civil.Mas então. e está incurso nas penalidades da lei. Ainda há pouco um homem que vendia camisolas de malha vermelhas. e que torna necessário que. depois de terem feito o seu negócio. queiram mostrar a sua eloquência. tendo recolhido na praça o seu ganho. nos recitasse uma ode da sua lavra. Por consequência todo o missionário pode descer do púlpito. se existem em Portugal vilas ou aldeias não convertidas ao cristianismo. subam ao púlpito a exalar a sua retórica. o seu culto? Se os missionários não vão lá senão ensinar a religião que lá se prega. doutores de teologia! E se os senhores bispos entendem que é necessário que os missionários fortaleçam a fé enfraquecida das freguesias .Ou se são sacerdotes. Estes senhores que vão fazer agora em diligência a Tondela. que não pode impedir a simplicidade e a credulidade. Mas se. iam à China. etc. fazem voltar ao amor os maridos distraídos. No primeiro caso. eles são sacerdotes que acumulam um pequeno negócio de relíquias. imagens. para a restabelecer. usa de fraude. então uma coisa grave se apresenta: Todo o negociante que atribui ao objecto que vende uma qualidade superior. Um negociante que.as Reverendíssimas? Por que consentem SS. em que pensa o Governo que não manda as suas hostes rechaçar o infiel? Bajoica de Riba é moura? Expulse-se de lá o adorador de Mafoma! Mas se Bajoica já é cristã e católica. Julgamos pois dispensável que os srs. invocando Deus e sob a garantia da sua missão religiosa. Ex. educados na tradição apostólica. Ex. são evidentemente inúteis: se vão ensinar uma religião nova. Que andam eles fazendo? Andam espalhando a palavra de Deus? . as suas missas. também fazem negocio. põe-na ao abrigo dos exploradores. missionários. foi devidamente autuado e multado. declarando que elas tinham o privilégio de curar repentinamente o reumatismo mais rebelde.então que se dirá de SS. missionários. esse homem afiança do púlpito. servindo-se da sua autoridade sacerdotal. ou em ónibus a Mafra? Não possui cada freguesia o seu pároco. que a polícia e o Estado os condene. ensinavam o Deus novo. que essas relíquias lhe foram entregues por um anjo. e morriam nos tormentos. as suas prédicas. Fugi a isto. que têm que fazer lá os missionários? Os antigos padres das missões. para o fazer valer. que.as nas suas dioceses um clero colado tão incompetente que assim deixa enfraquecer a religião. ande constantemente percorrendo o País um clero errante? Parece-nos pois inútil que os srs. A lei. saram a . seria aleivosamente impertinente. depois de terem feito o seu comércio. ao Japão e à índia. porque não é permitido alterar a religião do reino. depois de nos vender uma peça de linho. litografias de santos. achamos perfeitamente inútil que.

sabem. bocado da túnica da Virgem) julga-se na graça de Deus e na permissão de toda a fantasia! Daí por diante pode altercar na taberna. substitui o respeito de Deus pela adoração imbecil de emblemas. Os jornais liberais dirão que esse homem lança a multidão num fanatismo animal. e que recai um castigo sobre quem as não compra esse homem atribui ao seu ramo de comércio um valor sobrenatural. é um negociante fraudulento. diremos. lasca de lenho santo. roubar quem passa: não tem ele bem guardada no peito a relíquia que o absolve. além disso.é que a relíquia comprada os absolve de antemão de todo o pecado.esterilidade.infringe a lei comercial e contraria a lei civil. livram de tentações.Esse homem. depois de pagar e meter na algibeira a sua relíquia (rosário. conduz os homens à idolatria! Nós colocamo-nos no ponto puramente legal: . que a certeza principal que se dá aos devotos . que lhe salva a alma? Assim. o missionário que prega e vende . Todos aqueles que têm observado as missões e a venda de relíquias. e vende como relíquia vinda do Céu uma quinquilharia de Braga. pedaço de sudário. E estes males são ainda bem menores que os que ele faz à lei moral! . Cai pois. De modo que o cidadão. com um mesmo acto. como negociante fraudulento. sob os rigores da polícia! É lógico. maltratar a mulher. faz da absolvição divina uma especulação própria. espancar o vizinho.

as entendem que o País está bem representado desde o momento em que o seu colarinho é irrepreensível. os seus adidos. em Viena de Áustria. etc.em branco. Que quer o distinto redactor do Jornal da Noite que o Governo publique? A diplomacia só tem a oferecer.as vão unicamente encarregados de mostrar aos países estrangeiros a excelência dos nossos alfaiates . despesas de representação. os seus ordenados.as desempenhado as suas missões? Que tratados vantajosos têm alcançado para o nosso País? Que estabelecimentos portugueses têm lá favorecido? Que serviços internacionais têm regularizado? Que relações sólidas e protecções valiosas têm obtido para a nossa pequenina nação? Que estudos têm feito sobre a organização e instituições desses países? Em que sábios trabalhos as têm aconselhado para nosso progresso? Que conhecimento têm dado aos estrangeiros das nossas instituições. organizaram.. em Roma. Ex. Estão ali para serem diplomatas na gravata . com bons ordenados e viagens pagas. em consciência. Ex.as estão representando uma nação . em Madrid. em Washington. bem convivida. SS.? Etc. trataram . em Berlim. em Milão. despesas de expediente.SS. como resultado dos seus trabalhos há vinte anos. despesas secretas.então o País não é o interessado. Nenhum curso lhos ensinou. Ex. nenhuma lei lhos incumbiu. bem voiturée. o seu papel almaço . em Estocolmo. Ingénuo Jornal da Noite! E o mesmo que censurar que se não fotografem os baixosrelevos — de uma parede Lisa. Se os nossos diplomatas quiserem um dia remeter para Portugal. em Paris.. Ex. E todavia SS. bem dançada.«Como têm VV.e não uma camisaria! Se SS. Ex. com os seus secretários de embaixada.as a tais interrogações ficariam pálidos de surpresa! Os nossos diplomatas inteiramente ignoram que estes sejam os seus encargos.?» . no Rio de Janeiro. unia voz impertinente perguntasse: . bem gantée. os documentos do que nas suas missões criaram. em Bruxelas. devidamente empacotados. e o Sr. ministros. Queixava-se há tempos o excelente Jornal da Noite que o Governo não publicasse os relatórios dos seus diplomatas.Uma Campanha Alegre (Volume I. Cidadãos! Vejamos um pouco a nossa diplomacia. Capítulo XXXVIII: A nossa diplomacia em 1871) por Eça de Queirós Outubro 1871.a secretaria encontraria espantada. em Sampetersburgo. da nossa ciência! Etc.e não para serem diplomatas no espírito: e achariam um abuso inclassificável que os tivessem nomeado para marcar o cotillon e no fim lhes exigissem relatórios. Keil que lhes . ao abrir o pacote: Um montão de luvas gris-perle em mau uso!! Se a esses cavalheiros que têm sido ministros e encarregados de negócios em Londres. pensaram. etc. secretários. bem comida. Eles seguem a velha tradição de que a diplomacia é uma ociosidade regalada. encarregados de negócios.. do nosso comércio.

Exª tomando delicadamente o garfo. esplendidamente real.pague! Se SS. já lhe bateu as palmas: ela aparecia. Autorizam-no a isso a sua experiência e o seu critério. Braamcamp. empresários de S. a bondade de valsar um momento pela casa.. A. parece-nos inútil que se lhe peçam provas de que conhece o direito internacional e a história diplomática! O mais trivial bom senso ordena que ele seja examinado simplesmente em pontos como estes: Maneira mais própria de pôr a gravata branca. Não se requer. com os braços unidos. Método mais fino de comer a ostra. . As habilitações que se exigem de um cidadão devem estar em harmonia com os serviços que se esperam dele. provará a sua imensa competência naquela questão difícil. a um rumor de orquestra: já riu com ela. E o barão Grog conspirava! Os nossos nem sequer conspiram! Ele tinha graça. — Tenha agora V. entendemos que SS. os nossos custam-nos infinitos contos! Evidentemente na organização da nossa diplomacia vamos seguindo um caminho imprevidente. Valdez e Cossoul. e não ousando pedir ao Governo que os faça recolher à secretaria. Braamcamp (dirá o júri). para nos provar que não lhe é estranho esse ponto da ciência diplomática.. etc. e curva-se com menos elegância. questões principais. e suas divisões. a grã-duquesa de Gerolstein.. Ex. aplicações. dos que pretendem ser lentes do Curso Superior de Letras. Ora se a missão de um diplomata é comer bem. na corte grotesca de S. Exª. O barão Grog. Braamcamp. que os façam recolher ao corpo de baile! O País conhece bem a nossa diplomacia: já a viu à luz da rampa. com donaire. E S. Da valsa: teorias. Carlos. os nossos são lúgubres! Ele só nos custava um bilhete de plateia. Ex. Exª. princípios gerais. Que se lhe dê! Mas que antecipadamente S. Sr. pedimos aos Srs. dançar bem.as têm apenas por missão mostrar lá fora como o País dança bem. exemplos. poderosa princesa em três actos. a cabeça direita. e na extremidade de dois dedos uma côdea fina de pão. os olhos baixos. Sr. por exemplo..as prestam melhor serviço na sua pátria. vestir bem. Era o barão Grog. o Sr. que apresentem certidão de saber dançar dignamente o cancã. a bondade de se sentar àquela mesa e comer aquele linguado frito. não se lembram? Somente a nossa diplomacia não usa rabicho. pretende uma embaixada. Exª seja examinado na secretaria dos estrangeiros por um júri competente e recto: Tenha V. Assim suponhamos que algum dos nossos mais nobres «vultos políticos».

por toda a ciência e experiência dos negócios. quando o Sr. secretário da legação portuguesa. nos pontos sujeitos. o olhar amoroso.e o Sr. E mais tarde registassem para vaidade eterna da nossa Pátria: «Ontem a maravilha no baile da corte foi a maneira adorável por que dançou a Srª Pinchiara. Carlos. Braamcamp.. Se o dever essencial de um adido é a exposição solene dos colarinhos que se alteiam sob a suíça. (N. não sobre a ciência dos concorrentes-mas sobre a sua roupa branca.comidos e dançados! Também nos ocorre que consistindo uma das principais funções dos secretários de embaixada e adidos em dançar nos bailes do Paço. E a diplomacia começará a dar garantias da sua eficácia. . com comentários e notas.Para que o concorrente não valse só. ou outro cavalheiro. X tiver conquistado os sufrágios do júri pelo brilho das suas camisas inglesas e pelo valor das suas peúgas . Parecia um silfo. hoje unicamente usado pelos pollos de Madrid! Não seria pois fora de propósito que existissem na secretaria dos estrangeiros figurinos-modelos.. ou então adoptam o velho chique de boulevard. dos Largos peitos de camisa que se arqueiam como couraças. SS. melhor acreditarem lá fora as nossas instituições. harmonia e ligeireza nos movimentos. . Notou-se apenas que o sr. hoje secretário da embaixada portuguesa. entre a diplomacia europeia. mais graça. com a cabeça meigamente reclinada. o País podia entregar-lhe confiadamente uma missão numa corte estrangeira. EXª ou se ajeitam pelo feitio nacional que tanto domina na Rua dos Fanqueiros. e dos punhos que espirram para fora da manga com uma rijeza de aço . provará vitoriosamente que tem compulsado com mão diurna e nocturna todos Os expositores daquela ilustre matéria. um reles colarinho à mamã! Com entranhada mágoa o dizemos: os senhores diplomatas portugueses vestem-se de um modo a que só falta para ser distinto . com os seus vestidos de gaze. E aprovado que tosse o Sr. que os senhores adidos deveriam estudar antes de encomendar as suas farpelas.» Igualmente nos parece vantajoso que o concurso para adido de legação verse.deve o Governo de S. poderá utilizar-se como dama o contínuo da secretaria. pela beleza e solidez dos seus engomados. É admirável a brancura do seu colo!. ainda do tempo do ministério Rouher..ser inteiramente diverso do que é. a cintura mórbida. secretário da legação estava um pouco decotado de mais. que o examinando tomará nos braços com requebro meigo). Y for plenamente reprovado por ter apresentado.E S. certo que os seus interesses seriam ali dignamente . M. E seria honroso para todos que os jornais estrangeiros pudessem noticiar: «Chegou hoje a Srª Pinchiara. B. despedido em giros graciosos por entre as mesas da secretaria. antiga primeira bailarina de S. utilizar para o serviço diplomático aqueles que.. a melhor maneira de alcançar um pessoal diplomático verdadeiramente superior seria escolhê-lo-no corpo de baile! Ninguém teria então. Exª arqueando molemente os braços.

Ditas para cerimónias religiosas. diplomatas possam fazer um fraque sem previamente levarem o corte e talhe à aprovação da comissão diplomática. etc. ele é a arma verdadeira da diplomacia. . A verdade é que.Outrossim se nos afigura imprudente que os srs. e. para todos os usos da vida. Ditas para enterro de pessoas reais. Ora. desde Morny até ao sombrio Sr. a diplomacia tem feito do espírito quase um método. que pilhéria deverá o senhor dizer? — Num camarote de ópera. eloquência da alegria. E. Ser espirituoso é metade de ser diplomata. Concorre muito para que a nossa diplomacia não seja brilhante. Não se pode dizer que isto proceda do amor de os possuir no seu seio: antes parece que o domina o terror de que eles vão destruir a reputação de embrutecimento que o País goza lá fora. sobretudo pelo indefinido que dá à conversação. que não deixe sair nenhum senhor diplomata sem previamente lhe ter examinado: As unhas e a caspa do cabelo! Uma das coisas que prejudica a nossa diplomacia é ela não possuir espírito. Ditas para recepções no Paço. que os senhores diplomatas deveriam decorar: Pilhérias para baile. Ditas para almoço. Igualmente pedimos ao Governo. em pontos assim concebidos: — Estando o senhor adido numa sala. adoptado como um sistema. de Bismarck. dá uma posição no mundo. Seria por isso bem útil que o ministério dos estrangeiros examinasse os seus diplomatas. em nome do País. antes de os nomear. A tradição clássica mostra-nos Talleyrand governando a intriga europeia com as finas decisões dos seus bons ditos: modernamente. Ditas para entreter personagens célebres. O espírito move tudo e não responde por coisa alguma: ele é a. e o entrincheiramento das situações difíceis: salva uma crise fazendo sorrir: condensa em duas palavras a crítica de uma instituição: disfarça às vezes a fraqueza de uma opinião. acentua outras vezes a força de uma ideia: é a mais fina salvaguarda dos que não querem definir-se francamente: tira a intransigência às convicções. com compunção o dizemos. derruba um império. quais são as facécias que deve lançar um secretário de legação sobre o corpo de baile? E seria conveniente que a secretaria possuísse uma lista de jocosidades. o horror que o País tem a ser representado por homens inteligentes. e começando na rua a chover. a nossa diplomacia não tem espírito. fazendo-lhes cócegas: substitui a razão quando não substitui a ciência.

. nem um landau para passear.é porque andam ocupados em arranjar mais rosbife para o estômago. António. De modo que um ministro plenipotenciário vê-se mais embaraçado com o rol das compras. por arrojo absurdo. mas da fraqueza de legação mal alimentada. Quer uma diplomacia bem fardada. tem de recorrer às instituições. nem fardas.quando algum homem inteligente vai em missão diplomática. bem bordada: e no fim se se lhe apresenta. aumente-lhes ao menos a hortaliça. caiu inanimado de fome um indivíduo bem trajado. na Rua de. os jornais bravejam.presuntos! Por isso manda homens. D. E só por isso! Ao mesmo tempo o País gosta de pagar barato à sua diplomacia. no número do pessoal diplomático . se não agaste com estes traços ligeiros! Quisemos apenas rire un brin. corno ao mesmo tempo é avaro e desconfiado. não é diante das instituições estrangeiras com respeito.. Se não fossem os jantares da corte e as ceias dos bailes. lhes arrancassem . de raiva. que são entre nós . E ainda veremos os jornais estrangeiros. a Nação. porque. nem comendas! É carne! Que o País.era o embaixador português. Deram-lhe logo bifes. que com o manejo das políticas! Os diplomatas portugueses passam por agra.escandalizase e grita pelo sr. não podendo arrancar a tais diplomatas segredos políticos. E neste ponto abusa. Não o faz. Onde um embaixador português mais se demora. Alexandre Herculano. e a opinião pública apita! Se alguém ousasse. com as lágrimas nos olhos. Eles pedem ao seu país uma coisa bem simples: não é um palácio para viver. por ter uma diplomacia.diminua os adidos e aumente os bois. mandar em embaixada o Sr. E nesta nossa triste terra. é diante das lojas de mercearia com inveja! E se eles não podem alcançar bons tratados para o País . uma conta um pouco maior do que por ter um carroção . bispo de Viseu. abria as veias! Por sua vontade o País enviaria às cortes estrangeiras. quando a gente se quer alegrar e folgar um pouco.pilhérias organizadas funcionando publicamente. Conduzido para uma botica próxima o infeliz revelou toda a verdade . dar no estrangeiro pela sua palidez! Mas não se sabe que a sua palidez vem. para ser representado dignamente .. aliás meritória e simpática. Que a nossa diplomacia.» Que o País atenda a esta desgraçada situação! Que tenha um movimento generoso e franco! Dê aos seus embaixadores menos títulos e mais bifes! Embora lhes diminua as atribuições. não da beleza de raça peninsular. receia que as cortes estrangeiras. noticiarem: «Ontem.bacorinhos do Alentejo. O desgraçado sorria. a posição de diplomata português era insustentável.

O Sr. e lhes ensinem cuidadosamente . definitivamente limpo do ladrar dos cães e do chorar das crianças . sobre o degrau do altar.o mais alto grau de pureza.imediatamente lhes esmaguem as cabeças no lajedo. Encomendado de Santos-o-Velho. — Deixai vir ter comigo as crianças. De sorte que o Sr. porque deveria talvez. ordenar às mães que quando à missa as criancinhas lhes chorem ao peito . o seu amigo imortal! Respeitamos profundamente esta opinião católica do Sr. com a sua autoridade de sacerdote e de teólogo. e quando choram nas igrejas é porque Satanás pretende insultar o culto e o sacerdote. (Chicotes. sacerdote de Jesus. Parece que ultimamente o clero não tem esta consoladora ideia de Jesus. e repreendeu as mães que levavam consigo as crianças à missa! E aí estão enfim as crianças expulsas da Igreja. Lanternas. se perfilasse do outro lado da porta o meritório empregado enxota-crianças. Encomendado tivesse uma realização prática: que houvesse na Igreja.Uma Campanha Alegre (Volume I. E o culto alcançaria. o ilustre legista de Angers. Capítulo XXXIX: As crianças e a Igreja) por Eça de Queirós Outubro 1871.mostrando-lhes. que não têm quem lhes fique em casa a tomar conta dos filhos. uma exclusão irrespeitosa. em lugar de uma cruz. nas sombras da Galileia. que percorria perpetuamente. paramentado. ao lado do respeitável funcionário enxota-cães. Sprenger. . as crianças trazem dentro de si o demónio. a mesma polícia que há para os cães: e que. Às crianças ricas não imporia ele. os manuais de inquisidores. para abafar a voz do Maligno! O Sr.E essas mães pobres podem talvez dizer-nos: Que são pobres. Spina e Bodin. Realmente as crianças que choram à missa cometem um desacato. para as crianças. não podendo ao menos ir uma vez por semana erguer as suas pequeninas mãos para Aquele que foi outrora. Encomendado de Santos-oVelho. são os títulos destes livros pios) e ainda segundo as profundas obras de Nieder.esta máxima salutar: esfaquiai-vos uns aos outros! Assim se formam os justos. Fustigações. no dia de Finados. era um meigo rabi. sem dúvida mais moral que as mães levem seus filhos à taberna. voltou-se para o povo. as dissertações dos dominicanos. Encomendado de Santos-oVelho ainda nos parece tolerante. uma navalha de ponta . Segundo afirma a teologia casuística. abençoadas são elas! elas sabem muitos segredos que os sábios ignoram. Encomendado referia-se apenas às crianças pobres. E seria mesmo conveniente que a opinião do Sr. esse aristocrático mestre. quando não sofria ainda aquela áspera melancolia que lhe deu mais tarde a presença de Jerusalém branca e dura. depois da missa conventual. . Jesus.

As mulheres davam-lhe mel. sem pão farto. também não é mais feliz: há muitos séculos que ele procura erguer a pedra do seu túmulo . e que se torna de toda a justiça que sejam excluídas da Igreja. Os discípulos afastavam as crianças. o vosso amigo. ao pé do lume. a serem atropelados. Entrava nas sinagogas. .as mães que ousem vir rezar com o seu filho ao colo! Pobres pequenos! consolai-vos! Jesus. a ferirem-se. sentava-se às portas. vinho de Safed. Encomendados não podem ser interrompidos na sua missa pelas crianças que rabujam. comentando os velhos papiros da lei.Mas também é verdade que os Srs. ora a pé. como são pobres. fala!» As crianças tomavam-lhe as mãos. a sua tranquila e humana Galileia. se são mais crescidos.no infinito enlevo do seu sonho. arriscados ainda a caírem. como perturbadoras da ordem. ensinava o Deus novo. Mas o Mestre murmurava sorrindo: que os não querem deixar sós no berço. debaixo dos sicômoros. só lhes resta na Igreja o sonho consolador de um Céu que repara! Isto é talvez assim (ainda que se percebe que estas razões são inspiradas por Satanás). ora num desses pequenos burros que têm os olhos tão grandes e tão doces e que vêm da alta Síria. queriam ver o fundo dos seus olhos. e. a virem para a rua. desgraçadas neste mundo. Parava nos casais. amarrado por uma corda da pele de camelo. e diziam: . chorando no isolamento. ou puxando-lhe pelas compridas pontas do seu couffie. e que. rabi. ou.e há muitos séculos que o seu clero carrega na pedra para baixo! . da decência e do respeito .«fala. sobre os bancos encanastrados de vime. que enfim não se querem separar deles.

ministros e tribunos. Capítulo XL: Visitas indiscretas entre Espanha e Portugal) por Eça de Queirós Outubro 1871. piedoso Deus! as nossas câmaras. coloca-nos em embaraços terríveis. jornalistas. A companhia dos caminhos de ferro. que venceram em África e que venceram em Espanha. e que vêem. o facilitar assim por preços baratos. sem cerimónia. estudam o nosso exército. Canovas. O País precisa fechar-se por dentro e correr as cortinas. a essa aparatosa Espanha. E tanto que pedimos claramente ao Governo.e não gostamos que gente culta venha ter a revelação da nossa mobília pobre e da nossa conversação simplória. a ciência que lá falta. F. descaradamente ilustre . o abandono de todo o decoro. em chinelas . na galeria desbotada de S. O País está atrasado. uma coorte espanhola. Que vergonha.. oradores. num dia de sessão. interessados. em nome do País envergonhado e com a barba por fazer. Sagasta. e que por única verve e por única profundidade sabem afirmar que o regedor de Cabanelas é amigo do ferrador da Cortegaça e que este compadrio aldeão dá cinquenta votos combinados ao Governo de S. as questões do tempo. arquitectos. os insultos e os desmentidos. a história. examinam o nosso armamento. à companhia dos caminhos de ferro. sob as penas mais severas. meus senhores. a nulidade do pensamento. toda a ideia.! Imaginemos que esses generais. ao largo arquejar da máquina. filósofos e dialécticos. vergonha eterna! que eles ignoram a administração. hóspedes curiosos. conversam com os nossos generais! . literatos. esses parlamentares. insípido. Py y Margal. Digamo-lo rudemente: nós não estamos em estado de receber visitas! Vivemos aqui ao nosso canto. a horrível baixeza daquela pocilga constitucional! Imaginemos que esses estadistas conversam com esses que são entre nós os estadistas e vêem. sujo.. esses oradores. a economia. todo o facto. que proíba. pintores. M. a intriga que lá abunda. embrutecido. Castelar. remendado. Rivero. com intenções amáveis e civilizadoras. num desses comboios impudentes. que vergonha! Imaginemos que esses homens políticos. se vão sentar. generais. a compostura plebeia e grossa. visitam os nossos quartéis.estadistas. de luneta sarcástica! Imaginemos que amanhã chega aí. conservadores e revolucionários. Martos. viagens de recreio através da nossa miséria! O País não pode em sua honra consentir que os Espanhóis o venham ver. a relice da palavra. Bento. professores.Uma Campanha Alegre (Volume I. E é uma impertinência introduzir no meio do nosso total desarranjo. Zorrilla.

sem escolha! O viajante português chega......venha. uma comenda e um diploma enrolado! Já se sabe de antemão aquela graça. para maior franqueza.. outrora.Oh por piedade! consideremos que esses professores podem entrar na obscura vergonha das nossas escolas! Que esses jurisconsultos podem querer ver os nossos tribunais! Que esses arquitectos podem deitar a luneta às nossas construções! Que esses pintores podem perguntar pelas nossas galerias! Que esses homens do mundo podem tratar com os nossos dândis.Chego amanhã....... fazer o inventário jocoso do nosso abaixamento! Não consintamos que nos vejam! Aferrolhemo-nos! Os Chins.. a Espanha condecora todos os por-tugueses que cometam o arrojado feito de ir a Madrid! Sem distinção. calle S.. Patagónios....... sem prevenção............ que se organiza........... o dono da Fonda traz-lhe chocolate .. Sejamos a China da miséria! E se por acaso a companhia dos caminhos de ferro. Moreto... e com cujas civilizações possamos competir: Cafres... a garrida Espanha.. com uma originalidade cómica.......... e Hotentotes! E estaremos então em família. de luneta no olho e gargalhada na boca... ser a condecoração indicada na lista dos hotéis: Gravanzos . para fingir que tem passageiros e movimento. grátis . Lapónios.... porém.. Tártaros.......... económico..... é que parece desejar profundamente que nós os Portugueses examinemos de perto o seu salero político. que se levanta. Ou porque a Espanha queira compensar os incómodos e os tédios de lhe ir ver a capital: ou porque o rei Amadeu.. ou mirar-lhes a toilette! Que vergonhas! que vergonhas! A companhia dos caminhos de ferro está abusando um pouco da amizade impaciente que (no seu entender) nós e a Espanha nutrimos reciprocamente. Podia.e um contínuo do Paço Real traz-lhe a comenda. Etiópios. que se engrandece .. todos os oito dias. . artístico. assim.. Abexins... que nunca foi visitado pela aristocracia espanhola. A Espanha. até... Jeronimo: Ao Sr. proprietário...... não permitiam que os europeus vissem o seu esplendor..... que excede tudo quanto contaram os romances picarescos do século XVII..... A cada momento nos facilita entrevistas baratas e ternas. decerto. nós e os Espanhóis meigamente nos amamos! Mas não sentimos a necessidade urgente e ávida de nos pre-cipitarmos.... sem água vai......... prepare-me quartos e a comenda de Carlos III.o português que chega recebe em pleno peito....... Sim... não consintamos que essa cruel Espanha. Pode-se até telegrafar assim para Madrid: Hotel de los Embajadores... 1 duro Grã-cruz de Isabel a Católica ... se comova até à lágrima e até à condecoração quando se digna ir vê-lo a burguesia lusitana .. religioso e teatral: porque...então ao menos que só dê lugar nos seus velhos vagões àqueles de quem nós não tenhamos vergonha. precisa impreterivelmente fazer passar a fronteira a alguns viajantes curiosos ... nos braços uns dos outros! Ah! meus senhores..

— Um bilhete de 2ª classe. poeta. comendador entrava para o seu vagão! Há. M. romancista. atravessou os montes da Judeia. e gritar comovido: — Viajante dessa ordem. Amadeu. e a condecoração! . e lhe falasse destarte: — Real senhor! o vosso humilde servidor já foi a Espanha. com o fim único de favorecer a companhia dos caminhos de ferro.. dás uma comenda de prata. . Jornalista. depois de alguns dias de Madrid. reina sobre os Espanhóis! Gloriosa Espanha. desde a mais distante mocidade.gritaria o viajante ao postigo do vendedor de bilhetes.a quem empreende a viagem de Madrid e chega à Calle Reale. depois à Arábia. Amadeu não podia deixar de descer os degraus do trono. E o sr.A Cristóvão Colombo. Mas então que honras se reservam àqueles que vão ainda além de Madrid? Que grã-cruzes se dão a quem vai a Barcelona? Que títulos de nobreza esperam aqueles que chegam às Vascongadas? Porque enfim se um de nós se perfilasse diante de S. depois ao Egipto. dramaturgo.. subiu à Síria. Plaza Santo António. e a Jerusalém. inumerável em gravanzos . em Cádis. peregrinou até o Jordão. deste umas poucas de palhas para ele morrer num cárcere: . que fez a viagem maravilhosa e chegou ao Novo Mundo. não uma cicatriz mas uma conta de hotel. daí a Malta. Depois da guerra de Marrocos. O nosso espirituoso amigo Pinheiro Chagas tem sido. M. recebem na Secretaria da Gobernacion a comenda de Carlos III! Nesse caso aqui estamos! Temos uma conta da Fonda de Madrid. depois à Palestina. Agora parece que. gloriosa Espanha. aqueles que puderem mostrar.. sempre à sua mesa de trabalho com o . faceta Espanha! Andávamos bem enganados com os méritos humanos.S.. um trabalhador. historiador.e a comenda no peito do fraque. evidentemente. faceta Espanha! . Em tal caso era mais cómodo entregar logo a condecoração em Santa Apolónia. E a companhia pregava-lhe a marca no bojo do saco de noite . visitou o Líbano.Dizem que o Governo espanhol resolveu condecorar assim os que tomam bilhetes de 1ª a ou 2ª classe para Madrid. crítico.e em duros inumerável! Em boa lógica não pode deixar de nos ser dada uma capitania geral! E ainda perdemos! A segunda intenção é premiar os que viajam. aqueles que podiam mostrar uma cicatriz apresentavam-se na Secretaria da Guerra e recebiam a Medalha de África. duas intenções delicadas naquele derramar de condecorações: A primeira é compensar as contas dos hotéis.

o maior feito que pode cometer um varão contemporâneo não é fazer um grande livro. com um grito de amor. Levingstone. num momento de coragem. de tomar o comboio de recreio e de ir a Madrid! E quereis saber. ao meio-dia. sós.ir. . aquele senhor condecorado. meneando a sua bengala? — Sim. Nenhum governo lhe pôs nada ao peito. A Espanha nunca pensara em lhe dar os bons-dias! Pinheiro Chagas lembra-se um dia de se meter num vagão do caminho de ferro. e. nem um botão de rosa no casaco. Em vagões nunca dantes franqueados Passaram ainda além de Badajoz. — Admira-o. as tribos antropófagas . e imita-o! Aquele homem sublime. papá. os ásperos sertões. ganhar uma grande batalha. fita-lhe o peito. O Governo espanhol acorda. como começará o novo poema que mais tarde ou mais cedo tem de ser feito sobre os Novos Lusíadas? Começará assim: Eu celebro os varões assinalados Que da ocidental praia. amigos. aos olhos do Governo espanhol. crava-lhe a placa de Carlos III! Qual é a ilação? Que. levando nossos filhos pela mão. os rios bárbaros. contando em nada a vida.mas ter a sobre-humana coragem de ir a Madrid. menino. diremos a nossos filhos: — Vês. meu filho. heróicos. à Rua de Alcalá! E nós Portugueses. descobrir uma grande máquina . quando encontrarmos mais tarde algum dos heróicos viajantes de Madrid. teve um dia o valor febril. cheio só da fé em Deus e do amor da humanidade. a audácia estonteada. que tem viajado os desertos desconhecidos. tem belamente despertado com a sua pena vigorosa a nossa curiosidade indolente.valor de quem está numa trincheira. Haverá nada mais humilhante para Madrid? E fazer uma pavorosa ideia de uma capital o considerar como um acto de coragem . mas falta-lhe a façanha suprema .é grande.ir lá! O Dr.

como o cerimonial é menor do que no momento retro.senão ficar eternamente na tribuna.é belo. caçar a lebre na tribuna. se apresenta na tribuna. sair do seu camarote. ocupa o seu pequenino camarote de veludo cor de cereja. passear a cavalo na tribuna. por este modo. a comer bifes. sob o esplendor dos lustres . e for humanamente meter-se na sua carruagem. sem gesto. o respeito é menor ainda .. M. a dirigir-lhe chulas: Quando S. se mostra na tribuna. e saltaríamos para os seus reais ombros. Capítulo XLI: Os anos de el-Rei) por Eça de Queirós Outubro 1871. acender o seu charuto. à maneira que S.vindo dos antigos tempos em que na presença do seu rei o vassalo devia estar sem ideia. M.Uma Campanha Alegre (Volume I. nos dias simples. Portugueses. dentro do seu cupé. numa liberdade crescente. vai saindo do cerimonial da gala. não tem remédio para se fazer respeitar cabalmente . e não podendo fazer ruído quando S. e viajar pelas províncias . Este costume . nem patear. M. o nosso respeito estava no fio.e rompamos logo. e começamos a fazer barulho: (E esta lógica não pára nas suas conclusões!): Quando S. Consiste ele em que. Ora isto. vai diminuindo o nosso respeito para com ele! Quando S. e principiávamos a darlhe piparotes na orelha. como a gala diminuiu ainda mais. Se o víssemos de robe de chambre o respeito ficaria extinto. S. M. a dormir na tribuna.segue-se que o rei só é respeitável e só se respeita quando está de gala! Portanto. M. Mas autoriza uma certa lógica: Podendo o espectador aplaudir ou desaprovar quando S. os espectadores não podem aplaudir. no aparato de corte.. está na tribuna. quando S. estamos humildes e tácitos: Quando S. tomar banho na tribuna. M. nem mostrar opinião. Não. Se víssemos S. perdemos um pouco o respeito. vem para o seu camarote. realmente. não o consintais! . esporeando as suas reais ilhargas. E seria cruel obrigar S. M.na tribuna. não convém à Monarquia! Porque enfim. o nosso respeito diminui também . nos dias de gala. perfilado e nulo . a atirar-lhe cebolas. M. M.e passamos. M. M. numa intimidade já irreprimível.

Que os poderes públicos pois sejam generosos. ter opinião! Não aplaudir. e se permita à plateia de S. E seria triste que perguntando um estrangeiro: — Porque está esta plateia tão amuada? Se lhe devesse responder: — Porque faz anos o seu rei. no teatro de S. . Carlos. um antigo costume de todo o ponto prejudicial aos interesses da monarquia.é talvez o respeito: mas pode confundir-se também com o desgosto. estar sério. Carlos. com o tédio. Reapareceu ou continuou (não sabemos). mesmo em dias de gala. sorumbático. soturno .

uma pouca de sardinha. ou por violência de temperamento. Surge o Sr. do seu patrão. Como vêem. na promiscuidade da mesma gamela. impõe vigilância escrupulosa. O acto varia de perfil. para comer à noite. teria de folhear a colecção de leis: o Sr. foi justamente por não saberem corno rábulas estas portarias sucessivas. do seu vizinho. que os vinte pescadores da Foz foram encarcerados na Relação! Um pobre homem passa o seu dia remando. com uns poucos de filhos. eram pregados a uma porta pelas orelhas. o fellah. juiz respectivo levou os pescadores para o cárcere. vexavam o trabalhador. Capítulo XLII: Pescadores presos por não serem jurisconsultos) por Eça de Queirós Outubro 1871. os cádis (autoridades locais) que. O sr. ainda depois de 1820. Regedores são totalmente alheios a esta parte da jurisprudência. Vem o sr. Um advogado. No Egipto. ou por imbecilidade. pendurados. não conhece de cor esta legislação confusa: os srs.Uma Campanha Alegre (Volume I. como morcegos. e as redes de arrastar varrem livremente as costas. Levou para isso a sua rede de arrastar com que trabalha há muito. bispo de Viseu. no tempo de Mehemet-Ali. Governador Civil do Porto. Dias Ferreira e dá ampla liberdade às redes. consultado. Pois bem. que ele vê no barco do seu amigo. quebrado pela luta com o mar. o peixe desaparecia das nossas costas se se fizesse de tais redes um uso imoderado. ou por exploração. no travejamento de uma porta! Raciocinemos! As redes de arrastar prejudicam a pesca. No ministério seguinte a portaria cai em desleixo. Administradores não poderiam diferençar com exactidão as épocas tolerantes e as épocas proibitivas: os Srs. enfim. Começa. e ali ficavam dois dias. Não estão sen-tindo uma forte saudade por este exemplar Mehemet-Ali. Outra vez esta proibição se relaxa. Uma lei proibiu as redes de arrastar: mas até 1867 nunca foi posta em prática. Na Foz foram presos vinte pescadores por usarem redes de arrastar. Desembarca ao pôr do . a vigorar em 1867. e proíbe de novo as redes. ora meritório ora culpado. conforme o temperamento do ministro e o seu amor pela pesca. por uma portaria. temos aqui uma legislação complicada e flutuante. gotejando sangue. E uma derradeira portaria. com as famílias atrás a chorar: os barcos ficaram em estado de arresto: o peixe apreendido foi vendido em leilão: o dinheiro cuidadosamente guardado no depósito judicial. E necessário seguir com cuidado o Diário do Governo para conhecer com precisão quando as redes são legítimas e quando as redes são criminosas. certamente. o astuto tirano que foi pastor? Ah! realmente uma autoridade dá muitas garantias quando está sujeita a ver as suas orelhas pregadas por dois pregos de cabeça amarela. No ministério seguinte nova proibição.

é o Sr. o mar aplaina. até as dos lavradores miseráveis. que já vão ao mar. e agora rediviva e activa . grandes estudos de legislação. caída depois em desleixo. Vinham em dois barcos. quem vai ao leme. enquanto as mães. e todos molhados das voltas do mar . revogada por uma portaria posterior. se algum arrais leu o edital. ousando também eles. uma mão à escota. com os barcos mal cheios de peixe. que já aprendem a morrer na idade em que os outros ainda nem sequer aprendem a viver. por ignorar inteiramente esta jurisprudência trapalhona. eram duas companhas.ele. que já ajudam os pais. esfomeado. Pela manhã manda-os embarcar. há aí alguma lei nova que o proíba?» Porque então torna-se difícil ser pescador. claramente. quando todas as crianças brincam. o vento refresca. novamente revogada. o céu limpo. com a consciência tranquila. quantos editais não têm visto na esquina! Quantas vezes pregados. sem receio de desacatar alguma portaria. As redes estão no barco! mãos aos remos! vela ao largo! Partem.E como existe a portaria de tantos de tal. os facínoras. vai ser levado por aqueles soldados ao Porto e aferrolhado numa enxovia! O crime deste homem. que guiam os bois. quantas vezes arrancados! Quantas vezes pescou com as redes. as mães choram às grades! É justo! estes indignos entezinhos também pescavam! Aos 10 anos. Regedor! . é realmente singular que à volta. antes de obedecerem ao seu arrais! — «Mas tinham-se afixado editais!» Lêem eles editais? sabem eles ler? Trabalham. inquietas.e encontra pela frente o Sr.estes bandidos que já trabalham. esperavam na praia. portanto. serão necessários para arrais. presos por não terem ido consultar um advogado. estes celerados tinham ido nos barcos com as redes.Sol. É ele quem dirige a pesca. é não ler o Diário do Governo! Esse homem está preso por não ser um jurisconsulto! Esse homem será condenado por ousar ser pescador — antes de ser bacharel formado! Foram presos vinte. o vento mudo. que já são um braço ao remo. ignorar as portarias do sr. e se o mar tem a condescendência de os não esmagar na negra rocha de Leixões ou de Felgueiras. ganhar o seu pedaço de pão. em chusma. diante do regedor! Quantas vezes elas têm sido proibidas e quantas vezes toleradas? Vê o mar bom. doze horas de remos.vão dali do cais. pescar a sardinha . E. posta em vigor por outra. alterada por uma diferente legislação. ultimamente anulada. o arrais diz: larga! Largam. ministro do Reino! Por isso agora choram na cadeia! . O barco tem as redes. às vezes uma criança ao mar. trepam aos ninhos. e o único homem que pode. procurador-geral da Coroa! E além disso foram presas três crianças de 10 anos! Ah! estes criminosos vão decerto ser tratados com as penas mais severas! Lá estão na enxovia. se rolam rias altas ervas . encharcado de agua . Martens Ferrão. e naturalmente não manda este telegrama à secretaria: «Cá vou à pesca. O arrais é dono do barco e mestre da companha.

o dinheiro guardado no depósito. sem lume! Os pais. sem pão. varrido dos ventos. os maridos. com os seus mantéus pela cabeça.E são vinte pescadores! Vinte famílias. É justo: os homens na cadeias as mulheres na miséria. e começa aquele mar violento. laceradas! Bom Mehemet-Ali! Evidentemente eras um justo! Dois bons pregos! uma trave segura! e as duas orelhas de um regedor da Foz! . que as pobres mães olham dias e dias da praia. têm ao menos o rancho da cadeia: as mulheres pedem pelas esquinas! E estamos em pleno Inverno. sem o verem jamais condescendente. o dinheiro na algibeira do Governo. e vêm os temporais. os irmãos presos. dez pelo menos. Não sentem unia imensa saudade de Mehemet-Ali. ensanguentadas. sem o verem jamais piedoso! E no entanto o peixe apreendido é vendido em leilão. o velho tirano que pedira esmola aos piratas do Arquipélago nas praias de Cavala? Bom Mehemet-Ali! Excelente Mehemet-Ali! Cismemos! Um cádi. arroxeadas. e elas repuxadas. pendurado pelas orelhas.

cai logicamente sob o domínio da história. Exª se manifestou na vida pública do seu País. gerente e reinante .foi Tito Lívio! Diz o Clamor do Povo que não devíamos acusar a Srª D. Guizot. coronel de guias! Hugo não podia prever na noiva de Saint-Cloud a regente de França. ao lado de seu marido. Se a história não pode falar das mulheres. Se a Srª condessa de Teba. desde a nossa mãe Eva. e nós que é um grotesco. a conselhos de Estado. Exª foi duas vezes regente.A verdade. inatacável. sentenças. que matou João Baptista? Levar para a história as preocupações de uma sala seria chique mas bacoco.Uma Campanha Alegre (Volume I. Não podemos em boa verdade escrever histórias . era apenas uma loura amorosa. como fazem SS. dançando nas Tulherias uma valsa desinteressada com o galante de Failly. Seria privar-nos de saber o que pensaram tantas lindas cabeças. o Clamor do Povo dirá que ele é um gentleman. porém. deixa no silêncio a mulher de Luís Bonaparte. calar no futuro o seu reinado. durante o governo amável de seu esposo. nunca recebemos de Nero a mais ligeira descortesia! E por esse lado Michelet. como uma força política. o que cometeram tantas lindas mãos. no fundo retiro dos seus quartos. O Clamor do Povo pensa dignamente que é menos delicado envolver em ironias vingativas uma mulher desgraçada. O Clamor do Povo diz que mais generoso que nós foi Vítor Hugo que. com que direito então os livros sagrados amaldiçoam Jesabel? Com que direito condena o Evangelho Herodíade. Eugénia porque nunca recebemos ofensas de Napoleão III. assinou proclamações.e todavia. fomentou a reacção religiosa. indiscutível. as imperatrizes da Alemanha e da Rússia. mãe de Jesus. dirá que o Clamor do Povo é um romântico de xácara . Por este lado ainda mais generoso que Hugo.e as Farpas umas burguesas de senso. Capítulo XLIII: Palavras ao Clamor do Povo) por Eça de Queirós Outubro 1871. sob o pretexto que Isabel II de Espanha é uma mulher. constituiu ministérios. Estes factos colocam-na sob a crítica e sob a história. não se tivesse separado do seu cesto de costura. do berço de seu filho e das chaves da sua despensa. Mas. ela teria sido simplesmente uma esposa e uma mãe inviolável. A Srª condessa não foi uma esposa obscura e desinteressada do Governo.unicamente masculinas. Se devemos calar e chorar quando passa uma imperatriz destronada. a loura e bárbara curiosa! Se um historiador. interveio na política do seu tempo. E se o século XX aprofundar esta questão. nos Châtiments. é que a sr. S. nesse tempo. glorificada ou condenada. à volta do Calvário? Os políticos não têm sexo: têm o sexo dos seus actos. o Clamor sabe que a Srª condessa de Teba ainda não era casada. MM. decretos. Mas se S. que silêncio e que lágrimas devemos reservar quando no Evangelho passa Maria. porque são mulheres. . creia o Clamor . Mais pasmado ficará o excelente jornal quando lhe afirmarmos que Nero foi um celerado . condessa de Teba é apenas uma imperatriz despedida. pela nossa honra o juramos. presidiu. nunca. .

. com a sombra azulada da sua ombrelle chinesa ondeando-lhe sobre o colo. fez entregar por M. tomasse com aquele firme andar que fazia lembrar Diana. M.O Clamor do Povo alude às relações dos redactores das Farpas com o segundo império francês. . ou no Poço do Bispo. bela página poética. Exª. teve ocasião de oferecer ao imperador. que tem apenas o defeito de que um trovador a poderia assinar. em Homero. O Clamor do Povo fez. das imagens mais floridas. . no cais de Porto Said. um artigo eloquente. aquele que devia ser depois o prisioneiro de Wilhelmshöe. Uma garrafa dada. O vinho foi achado delicioso nas Tulherias: e. o mesmo que em Londres está redigindo hoje uma folha bonapartista. imperatriz que foi dos Franceses da decadência. desembarcando toda vestida de linho branco. por intermédio deste amigo comum.queixam-se de que a Srª condessa de Teba tem quem a defenda de mais! A França. O outro redactor desta crónica. depois de destronada. O redactor das Farpas julga-se quite com o segundo império. os jornais franceses dizem justamente o contrário . O Clamor do Povo. a imperatriz dos Franceses. achando-se em Paris. a dianteira de um cortejo em que o redactor das Farpas se achava obscuramente incorporado. a Srª condessa de Teba usando. evidentemente saído dos ateliers de madama Julie. de Conti. S. sob um sol candente. ao alvorecer do dia! O perigo está em que esse homem. de resto. quando passou em Lisboa. censura às Farpas algumas páginas irónicas sobrea Srª condessa de Teba. uma garrafa do mesmo vinho do Porto que o jornalista americano e o jornalista português tinham bebido juntos. ao que parece.por Carlos Magno ou Pepino o Breve! O Clamor do Povo pinta. M. com grande sensibilidade. teve ocasião de esperar a que era então S. James Mortimer. passados dias. B. em Bond-Street. e almoçando em casa de Véfour com o seu amigo II. Não vimos. Diz o Clamor que se não deve motejar uma senhora que não tem quem a defenda. uma coroa de espinhos. E de resto não tem ela seu marido? Não nos eximiremos a trocar com Luís Bonaparte uma estocada ou uma bala no alto de Alcolena. cheio dos mais cavalheirescos sentimentos. um bilhete agradecendo. estando no Egipto. Oh! meu Deus. écuyer. N. capitule.Martin. Esclareçamos: Um dos redactores das Farpas. um bilhete de visita ao que é agora redactor das Farpas. num artigo traçado com uma generosidade apaixonada e poética. ferve em partidários bonapartistas. pelo hábito. levava apenas um elegante chapéu branco. até que S. durante duas horas. só poderiam escrever a história de França se tivessem sido esbofeteados no boulevard .

A Prússia encarregou-se de vingar o redactor das Farpas. Vinte dias depois. uma fadiga terrível.e aproveita esta ocasião solene de agradecer publicamente à Prússia. de Beust.que lhe fazia apanhar tanto sol. o imperador da Áustria. Mas.Duas horas de sol. o príncipe Frederico da Prússia. o príncipe da Holanda. lembrando-se também das duas horas de Porto Said. num areal do Egipto! Em redor. espécie de casebre de pau. Era na areia fulva. . quando teve de sair à pressa pela razão que estava chegando e se ia lá abrigar S. M. suavam e abanavam-se com os seus lenços de baptiste os Srs. apertados no estreito cais de madeira. O redactor das Farpas continuou sob o sol. confessa-o. Abd-el-Kader. o mesmo redactor das Farpas passava no deserto do Sara sob um sol cruel. Ele julga-se igualmente quite com a família Bonaparte . M. Havia a distância um khan. o duque de Aosta. e S. nesse momento. onde se podia ter abrigo e o repouso de um bom sono. Pouca água. pediu mentalmente ao Deus justo que castigasse o segundo império . a perder de vista. a imperatriz. O redactor das Farpas ia abrigar-se lá.

A ilustre câmara pratica com os canos a mesma delicada reserva que os escravos dos haréns com os perfumes preciosos e evaporáveis. planta as suas árvores. Nós vivemos sobre um furúnculo: onde quer que se pique. A cidade por baixo está podre: aí habitam na sentina as epidemias. sai uma vaporização torpe. ao pé da Casa Havanesa. não oferece um aspecto próspero. os que velam bocejam. realmente. iluminação. no entanto. apressam-se no Inverno a reabilitar-se mostrando que são. pela sua limpeza. oferecendo assim o caso de uma sociedade rica e dândi que passeia no brilho da riqueza e nos vagares do luxo . Lisboa sua a morte. passeios. que muita gente supõe que a câmara abre as suas ruas. A glória da capital.de relíquia. o Aterro. a cólera.com um bicho dentro de uma jaula! A cidade. e nem sabem que são candeeiros. Nem se nos afigura lógico que a 300 000 habitantes que pedem higiene. depois de se terem desfeito no Verão numa atmosfera de pó fétido. polícia. que se escave. nem de leve. Não se lhe toca. a câmara responda.com a palma da mão sobre a boca e o lenço sobre o nariz! As obras que a câmara constrói são talvez excelentes: mas ela vai-as erguendo tanto em segredo. mereceram de nós a designação que lhes ficou . vendo as senhoras que passam. apagados. As ruas.o cheiro da imundície dos canos. O gás mostra-se inferior em seus serviços à antiga candeia de lata. Há dias assim foi. parte dos candeeiros repousam. O entulho tem um certo direito a estar parado nos passeios. Todavia parece-nos discutível esta maneira zoológica de pôr alguma ordem na confusão do município. e o pó de carvão das fábricas. a maravilha. a deterioração da raça: através da delgada película das calçadas. essas. a câmara mantém ao domicílio da imundície a inviolabilidade que a Carta só garante ao cidadão. Monturos de caliça e de pedregulho tomam nas ruas um espaço abusivo. a anemia. As que são calçadas tomam com a chuva o aspecto gentil de uma missanga de charcos. no seu zeloso cuidado . Capítulo XLIV: A Câmara Municipal e o seu zelo cívico) por Eça de Queirós Dezembro 1871. como outra qualquer vereda. que perturba. As macadamizadas. isto é. outros nunca se estrearam. alarga os seus passeios .na sala do conselho. debaixo da mesa. os tifos. E. capazes de saber exercer a profissão de lameiro.Uma Campanha Alegre (Volume I. Nas principais ruas. limpeza.canos do avesso. Respeitamos a câmara. num dormente bocejo de luzinha mortal. A iluminação é sepulcral. mas não deve pelo menos privar de igual regalia os habitantes que pagam décima. . em sessão secreta! A canalização merece da parte da câmara o respeito . é ladeado em todo o seu comprimento por duas suaves circunstâncias . tão longe das curiosidades imprudentes.

tudo faz daqueles lugares . a última obra em construção devorou na Rua Nova da Palma uma criança de cinco anos. a exalação das sarjetas. adquirir mais leões. como um cano.para aqueles bairros se atira A Câmara Municipal de Lisboa. desapiedadamente com os restos da plebe! Lisboa é a cidade mais suja da Europa. penetrado da sua responsabilidade.. Nunca a câmara viu. É talvez interessante. trata com toda a solicitude de fazer a aquisição de um leopardo. se enfileirassem lobos! A câmara. quando se expuser convincentemente à câmara que a cidade de noite está escura. em lugar de dar ao habitante fatigado um banco de madeira . Diz-se ainda que depois procurará alcançar. este facto: a fera em substituição da obra pública. entram no domínio do ilícito. mas não excessivamente prático.querendo acumular a qualidade de melhoramentos municipais. por exemplo. a vadiagem dos cais..são mais limpas. a própria Atenas. e resolvido a dotar a cidade de condições habitáveis . Mas entendemos que as feras se portam mal.Os bairros pobres são por si uma acusação cruel. E seria desagradável que os jornais noticiassem: «Ontem. E por seu lado o habitante não se daria por extremamente satisfeito.o que lhe dá? Um leopardo. para completar a obra da regeneração municipal. Como para o vão da escada se atiram nas casas os restos de trapos. o município. o encarregasse de substituir um passeio público. M. Deste modo toda a cidade corria o risco de ser em breve mordida pelos melhoramentos municipais. E perante esta situação. Portanto não é justo que nas praças. excedem as suas atribuições de fera . com o torpe desleixo turco. a humidade infecta. os casebres imundos e caducos. deve compreender que o bicho não é inteiramente o equivalente do edifício. El-Rei passear as ruas a cavalo no Arsenal. junto do mar. seria a sentina da Europa. de regalada. no seu zelo febril. de louças. araras do Brasil. As vielas negras e sujas. mostram uma ambição indesculpável.uma espécie de depósito da miséria pública.ela lhe ofereça o dorso de um rinoceronte. na sua inteligência.. Não queremos mal às feras: e quanto mais conhecemos os homens mansos. E se não fosse o Tejo que lhe faz uma certa toilette. A própria Constantinopla. a câmara não pode em sua honra -em vez de mais gás. no dia em que nos passeios. os destroços de vitualhas e de farrapagens. Porque a verdade é que. S. aqui ao canto. compenetrada da necessidade iniludível de melhorar as condições da cidade. Um crocodilo é decerto estimável: mas ver-se-ia superiormente embaraçado quando a câmara. . com a indolente miséria grega . para fazer as vezes de árvores. ficando depois a lamber os beiços. mais estimamos os bichos bravos. segundo se afirma. e este sol maravilhoso que tudo alegra e doura Lisboa.. de chinelos velhos .

E no dia seguinte àquele em que a câmara. um elefante . aparelha a câmara! O que prejudicaria fortemente os interesses constitucionais! .«O António.pode esquecer-se a ponto de gritar: — O António. comprar. em substituição.pode levar o habitante a substituir os animais pelas instituições. põe o selim no ruço. .. para mandar abrir um chafariz.qualquer sujeito. que se ela der o exemplo funesto de substituir as construções pelos animais . em vez de dizer ao criado: .Que a câmara medite (porque a sua inteligência é para muito)..

umas velhas botas esfarrapadas. cujo vestido de veludo orlado de peles era perfeito. aconchegando no xale traçado uma pobre criancinha que se encolhe entre os farrapos.. andam sob o terror da polícia. retido todo o dia na esquadra policial. O dia estava nublado. sem camisa. Sempre que um pobre se aproxima com a mão estendida de S. apoiados tremulamente a uma bengala. a Rainha. os Infantes-é preso. escondidos nas sombras dos entulhos. Capítulo XLV: S... continuou serenamente na serenidade da tarde.. M. no degrau de uma porta fechada. O desgraçado. e que à noite. com a gola do casaco remendado erguida para cima. esfarrapado e nojento.. comem de vez em quando. o Rei. M.. timidamente. são deitados à vala!. e a cidade está cheia da vossa multidão. a Rainha a passeio) por Eça de Queirós Dezembro 1871. de S. S. Aprovamos. Não se sabe ainda se o fuzilarão. coçando as chagas da cabeça com a sua pobre mãozinha regela da. tu foste impudente! Viste aquela senhora. acolhidos pelos cocheiros na palha das cavalariças. Vós sois muitos. M. com batedores. rica.. que erra por essas esquinas. com uma saia curta.. julgaste que ela. com o terror da recusa. M. pedem. com frio e com fome. de caridade em caridade! Bem vos conhecemos: os velhos com os seus chapéus altos. com as lágrimas nos olhos.. esfomeada e amarela. Um mendigo vem junto dela e pede-lhe esmola. S. Porque enfim. as mulheres. bem se vê que vais precisando de comer por este frio áspero. uma moeda de vintém. Um polícia corre e prende o mendigo. velhaco. o peito sumido para dentro. bem agasalhada. descendo de uma caleche. AA. tem unia dor. têm todas as dores que dá o frio. que gemem. rainha.. os desgraçados pequenitos. os que suplicam baixo. os que ficam a rezar. Foi necessário mandá-lo numa maca para o hospital. não se aproxima assim de uma princesa nova. rendeu-te a cadeia. Aprende! Um mendigo como tu. desgraçado. Vivem em buracos ignorados. enrolados numa velha e larga jaqueta de cotim.Uma Campanha Alegre (Volume I. os que não têm trabalho. «Miserável. iremos a seu lado para exprobrar a esse homem pervertido os fundos abismos da sua negra acção! Dir-lhe-emos: — «É bem feito! Bem te conhecemos. Imaginaste que a tua audácia te podia render um vintém! Bem vês. e apelam com o desespero de um náufrago que se agarra a uma última tábua. de rostos macilentos. podia dar-te a ti. sufocados. mas seco. embrulhados numa serapilheira. pedindo com uma voz exausta e meio morta. na frescura aveludada da sua toilette! Pois ousaste ir pedir uma esmola sem levares uma farda de moço fidalgo? O teu hálito de fome podia incomodar aquela . explicando a sua fome. pobre diabo. os que querem beijar a mão de agradecimento. desejam o hospital como um refúgio.. a Rainha passeava no Aterro. M. dormem pelos bancos. o custo de um caldo quente numa taberna!. todas as agonias que dá a fome. os que são insistentes. E como este mendigo vai para a cadeia. de SS. e um dia. fazendo bater na laje da rua as solas despegadas.

que prendeu o pobre . as caxemiras. E estamos certos que. nem uma manta. para honra e sossego de todos. a Rainha tivesse culpa ou responsabilidade deste facto intolerável e grotesco.. e pediríamos a S. nessa mão sempre estendida e cortada do leste. a Rainha. a quem chamam a imperatriz da Alemanha. as peles. e aquele pavilhão azul do Céu que lhe devia ter custado milhões? És tonto! Supões que uma rainha desce assim. que não seja permitido a qualquer sr. a única missão das rainhas é a caridade. bem se vê! Ouviste talvez dizer que um. Pede outra vez. Ora aprende! Medita na Cadeia a caridade das rainhas! Bem feito. M. anda! pede! Muito feliz foste ainda em não te correrem a chicote!» Assim falaríamos a este indigno mendigo vil e torpe. não foi o pobre . que se chamava Napoleão III. Que desgraça! a sua luva perfumada com «marechala»! Pois a policia podia lá consentir tal desastre! Tu és um animal! Vejam lá! Sob pretexto de que o Inverno é terrível. a Rainha que insistisse em que esse grande criminoso fosse rapidamente enforcado . M. polícia chegar-se ao pé de S. se alguém se afligiu seriamente. nem lume. tu cuidas que os vestidos de cetim e de veludo..foi a polícia. parava nos passeios a cada momento o seu breack para encher de sous os chapéus dos pobres? Talvez te contassem que uma. Não foi S. os perfumes. Ora pedimos. que tiritas. nuvens.. de que não tens pão. dinheiro aos mendigos! Mas essa gente . as jóias. com os cabelos caídos sobre um penteador. e fazer-lhe insulto mais brutal e mais vil . M.foi S. Ah! tens frio? tens fome? Pois a enxovia te dará o pago de teres fome e teres frio.que é prender os desgraçados que lhe pedem esmola! . Tens ouvido que a mais bela.. como esse frio que te traspassa? Que desplante! «dê cá 10 réis!» E onde os havia ela de ir buscar. que sentes dores. distribui por sua mão. em toda a crua realidade dos teus andrajos. Imagina que ela manchava a ponta da sua luva gris pene. os 10 réis? Tu imaginas que todo o mundo é rico como o bom Deus que atira tudo às mãos cheias. e pedes-lhe 10 réis! 10 réis! Assim se pedem 10 réis! Ah! imbecil. se te tocasse na mão. a ter pena de um pobre? Tu não lês os jornais. M. estrelas. sóis. vêm do ar e de graça. como uma burguesa. vais assim pôr-te diante de uma princesa. velho! Decerto não lês o Figaro.é gente exagerada! Talvez também ouvisses dizer de um chamado Jesus. que abraçava os pobres e lhes enxugava o sangue das feridas! Esse era um poeta! Tu és ignorante. que és velho. de manhã. maravilhas.se na realidade S.gentil senhora. M.

Mécia Lopes. Mas que vos fez a casa de Sabóia? Viveis vós em Florença? Viveis vós em Madrid? Sois vós o povo metralhado na galeria do café de Nápoles? Sois vós o infeliz escritor Roque Barcia preso nas enxovias de Madrid? Sois vós. Mafalda. na casa de Habsburgo. expunha à aragem do Tejo coiffures de um vaporoso tão gentil? Estais porventura na ideia que D. se movia com tão airosa debilidade? Bárbaros! Vós não imaginais que feias rainhas se agrupam no fundo da vossa história! Só os heróicos feitos dos maridos conseguem fazer esquecer os horríveis narizes das esposas. da casa de Sabóia? Uma senhora. revolvendo a história. e guia melhor os seus póneis que a mitológica Diana! A casa de Sabóia entre nós é uma questão de toilette e de graça feminina: e melhores toilettes e mais distinta graça . de ingrata. onde as mulheres parecem intrigantes viragos. e na casa do Hanôver. S. ó bárbaros. só tinham para os acolher e encantar os chatos seios das des-dentadas . ao voltarem com as suas armaduras amolgadas dos recontros maravilhosos. Indagai nas crónicas! E considerai que os valentes que venceram em Silves. onde as mulheres têm a frieza da alma e rosto que se sente nas libras! Orgulhai-vos. um dandismo impecável. acusar a casa de Sabóia de avara. não o encontrais na casa de Hohenzollern.sabei-o. onde as mulheres são pesadas e burguesas. de invejosa.Uma Campanha Alegre (Volume I. onde as mulheres ostentam uma majestade de teatro já desusada e caturra. e vedes de perto. na casa de Borbom. no Salado e em Ourique. se oferecia ao seu povo incipiente em toilettes mais distintas? Pensais que D. Urraca. o Papa Pio IX? Que possuís vós. conhecendo da casa de Sabóia só uma senhora . Capítulo XLVI: A elegante casa de Sabóia) por Eça de Queirós Dezembro 1871. podeis.a única acusação que podeis fazer à casa de Sabóia. de sanguinária. de mercenária — mas certamente não podeis deixar de dizer que a parte da casa de Sabóia que possuís. ó habitantes da Rua dos Fanqueiros. esposa do tão célebre Afonso Henriques. N. na vossa bela cidade de Lisboa. Portugueses! Nunca tivestes no trono coisa assim! Conheceis a história? Cuidais por acaso que D. bárbaros. consorte do interessante Afonso II o Gordo. tem uma soberba elegância. digníssima metade de Sancho II o Capelo. é que ela se veste sem distinção ou se penteia sem gosto! Ora vós. P. Uma única senhora! e confessai que.

disforme. todo o regedor caído. ou as cuias odiosas das obesas Mécias Lopes! Ingratos! Ingratos! Vós não merecíeis uma senhora da casa de Sabóia. carrega o chapéu para a testa e vai para um canto amaldiçoar a casa de Sabóia! . com a casa de Sabóia? Desde que possuímos entre nós uma pessoa da casa de Sabóia.nua. todo o ministro demitido. e preta! É curioso! Que tendes vós. ó patriotas.Urracas.merecíeis uma fêmea da casa de Tuen-Fuem. todo o partido despeitado. tirano da Patagónia . não .

mas me dão 5 em mercadoria. etc.com o qual sucede que no fim a gente sempre se chega a entender .mas pessoas algum brio viril. que entraram naquela conspiração tenebrosa. de ora em diante dois cigarros são para os meus vícios particulares: aí tem o cavalheiro os 4 restantes». as despesas de produção.me foram levados. Se eu dou 10 em moeda. Mas não há nada para estes feitos como vir apoiado numa associação! A associação inocenta tudo. caprichosamente aumentado. Foi simplesmente este roubo. chamássemos o polícia mais desocupado da esquina. grande erro. Capítulo XLVII: Espoliadores do cigarro público) por Eça de Queirós Dezembro 1871. o que diz a imensa opinião anónima . E todavia se todos os srs. é necessário que me dêem 10 em mercadoria (contando-se. se ainda existe nas suas ex. Ora a pobre gente. e toda a venda de mercadoria cujo valor é arbitrariamente. E no entanto a coligação continua serena. e tudo purifica! Que se há-de objectar a um celerado que nos diz respeitosamente: . e o luveiro lhe dissesse. desde que se soube a coligação das fábricas de tabaco. incondescendente.Uma Campanha Alegre (Volume I. nem a opinião que se desdenha. um operário dava 10 réis e davam-lhe 6 cigarros.). Ora se eu dou 10 em moeda.era natural que nós saíssemos fora. Assim. arrecadando a prata: «Aqui tem o cavalheiro a luva da mão direita. Se por acaso qualquer de nós entrasse num luveiro. em todo o vasto Universo. Receia-se um pouco a polícia correccional.«Perdão.acontece que em definitivo nada se receia. prosperaram. nestes 10 de mercadoria. Uma troca só se considera justa quando há reciprocidade de valores. a da esquerda permita que a retenha por certos motivos» .sentiriam. despreza-se em absoluto a opinião pública. impassível. ao entregarem os costumados 6 cigarros. e desde há muito. e nos estancos.«Meu senhor. luvas ou outros objectos miúdos. Porém uma fresca manhã. capitalistas. e pondo os seus 750 réis sobre o balcão pedisse umas luvas gris perle. as fábricas. entesouraram. eu e alguns bandidos das minhas relações fizemos num tabelião uma escritura pela qual combinámos recolher a nossa casa todos os paletós Lisboa é talvez. e as fábricas entendiam que este contrato era vantajoso porque o mantiveram. é imprudente ser-se só e isolado . tem quase infamado aquele monopólio inesperado. E como a polícia correccional se assemelha ao céu de Molière . é desonesta. a opinião unânime. torna-se evidente que realmente os 5 a mais que eu dou .mas é de todo o ponto proveitoso e impune ser-se uma companhia com uma escritura num tabelião! Erro. nem a polícia que se evita. ouvissem nos cafés. disseram ao consumidor: . que um cidadão desacompanhado nos venha delicadamente pedir o relógio numa viela escura: ordinariamente este cidadão imprudente vai fazer parte da sociedade de Angola. a espoliar o vício e a arrecadar o ganho. nas esquinas. mas enfim com o mesmo direito com que numa estrada nocturna e solitária um cavalheiro de barbas celeradas me diz galhardamente: «Ou a bolsa ou um tiro!» Até agora. cerrada. para extorquir cigarros. está claro. com brandos sorrisos é certo. a cidade onde a opinião exerce menos influência. tem acusado. relógios. a . que vê os seus dois cigarros sumirem-se nos cofres da coligação. O facto na verdade é estranho. não pode chamar o polícia! De onde se conclui que. e deixássemos o luveiro em conversa particular com a lei. por bons modos sim.

usando de algum meio fraudulento. Onde está pois a pena? Isto é claro. E numa mercadoria que faz objecto de comércio. 276º. explícito..terá lugar a pena logo que haja começo de execução. Se o meio fraudulento empregado para cometer este crime for a coligação com outros indivíduos.» Que vos parece. E declara mais este amável Código: «.. art. positivo. desta honrada simplicidade do Código Penal? Os preços foram alterados. aqui está o contrato. cidadãos. mas todos os meus cigarros! Senão desfecho!» Abrindo o nosso Código Penal. Agora quero os meus cigarros.» A execução é também patente em todos os estancos. tem toda a analogia com as espécies citadas. Houve este meio fraudulento? O § único responde: «Se o meio fraudulento empregado para cometer este crime for a coligação. Somente o artigo acrescenta . tenha a bondade de me passar o seu paletó!» O caso das fábricas guardarem para si. O crime é evidente. sem motivo.. logo houve o meio fraudulento especificado pelo Código.quando se usar de algum meio fraudulento. conseguir alterar os preços nas mercadorias que forem objecto de comércio.. estes dizeres simpáticos: «Qualquer pessoa que. secção 1ª. Que cada cidadão que fuma cigarro ponha os seus 10 réis sobre o balcão. encontramos no Capítulo XL. e portanto os exima da pena? O artigo 23º do Capítulo III do título 1º.. e prisão de um a três anos. . a escritura e outros papéis que V.necessidade indeclinável de se bater em duelo. simples. § único. Sª terá a bondade de examinar àquele candeeiro.» É o nosso caso! A coligação é patente. será punida com multa conforme a sua renda. de dez em dez minutos.. e declare apontando um revólver ao peito do estanqueiro: — «Aí estão 10 réis. desde a primeira alvorada até ao primeiro lume de gás qualquer coisa como seiscentos e oitenta duelos! que passeiam impudentemente as ruas nas costas egoístas de seus donos. E portanto a verdadeira maneira de afrontar esta coligação não é pelos meios legais. diz: «Não podem ser criminosos os loucos de qualquer espécie. Haverá alguma circunstância que desculpe os coligados do crime. com dez cavalheiros de cada vez! O que lhes daria no fim do seu dia a bagatela gentil de sessenta duelos por hora! O que perfaz. parte dos cigarros que dantes davam por certas quantias. terá lugar a pena logo que haja começo de execução.

Os menores de sete anos;
Os maiores de sete, e menores de catorze, quando não têm discernimento;
Os ébrios;
Os que praticam o acto em virtude de obediência devida.»
Por consequência, os srs. fabricantes só estão isentos da multa e prisão de um a três
anos, se provarem:
Que habitam Rilhafoles, ou que se babam de idiotismo;
Ou que andam de bibe, e pela mão da criada, atirando a péla;
Ou que não têm discernimento, a ponto de serem tatibitates;
Ou que estavam no momento do crime, num tal estado de ebriedade, que se tinham
deitado no enxurro;
Ou que praticaram o acto contra vontade, cheios de repulsão, mas obrigados por
algumas pessoas que lhes diziam com o punhal sobre a garganta: «ou a coligação ou a
morte!
Se não provarem que se acham em algum destes casos - são criminosos, e nada os pode
desprender das mãos do polícia que lhes tome a gola do fraque, e os leve, de rastos e
ganindo, aos bancos luzidios e lúgubres da polícia correccional.
E notem que o Código diz cometem este crime. E um crime: não é a honesta
contravenção nem a modesta infracção! É o crime.
E o crime com as circunstâncias agravantes que marca o Código no Capítulo LI, art.
19º:
Premeditação: quem negará que os ilustres fabricantes meditaram longamente,
ruminaram longamente o seu caso?
A sedução de outros indivíduos para cometer o crime: não contaram os jornais que
tinham sido convidados pelos autores do crime, para tomar parte nele, as fábricas do
Porto?
Ter manifesta vantagem sobre o ofendido: não são eles ricos, e pobre a população
humilde que fuma cigarro? Não é o facto uma exploração do vício?
Cometer o crime por dinheiro: não foi decerto para ganhar bênçãos, nem reumatismos!
Cometer o crime tendo recebido benefícios do ofendido: há uns poucos de anos que os
nossos vícios enriquecem os seus cofres!

Cometer o crime de noite: é justamente quando os estancos mais vivem, mais ganham, e
portanto mais delinqúem!
Que fazem no entretanto os srs. delegados do procurador-régio? Fulminam com a sua
eloquência reles algum desgraçado que não tem casa, algum miserável que não tem
trabalho!
Os jornais dizem: «O Governo já que não pode fazer nada, consinta que se estabeleçam
mais fábricas, ou diminua o direito sobre o tabaco em folha». E curioso. E como se
diante de um desgraçado, espancado e ensanguentado, e diante do seu espancador, já
descoberto e já preso, os jornais exclamassem:
— Uma vez que a justiça não pode fazer nada ao criminoso, ao menos não impeça que
se cure o ferido!
Não pode fazer nada? Pois já não existe na Boa Hora um banco para um réu, na casa do
depósito um cofre para uma multa, no velho Limoeiro um quarto para um preso?...
Porque não queremos suspeitar que o que não existe - seja a igualdade perante a
Lei!
O que impede que se proceda contra eles?
O facto de se terem coligado? - Então por este modo só é culpado o salteador isolado,
mas perfeitamente inocentes os salteadores associados. Se amanhã, (o que tal não
suceda) S. M. El-Rei for assassinado, só haverá crime e só poderemos castigar o
assassino se ele for um só: mas se forem seis, teremos de lhes deixar os nossos bilhetes
de visita!
O ter havido uma escritura? - Mas então declaremo-lo por uma lei, para que os srs.
ladroes, assassinos e incendiários, se previnam com contratos no tabelião antes de
partirem para as suas façanhas!
O serem capitalistas? - Aqui é que a porca e a lei torcem o rabo! Sim, desgraçadamente,
é por serem capitalistas...
Ah! o tirânico segundo império não permitia estas coisas! Na guerra da Crimeia, os
vendedores de toucinho coligaram-se para imporem um preço superior. Foram
delicadamente empurrados pelas costas à polícia correccional. Havia entre eles ricos
negociantes, ricos capitalistas. Uma terrível multa e a prisão foram a paga das suas
proezas gorduráceas. Tão vilmente lhes pagou o carinho que tinham tido por ele - o
impudente toucinho!
Quem impede que amanhã os nossos charutos custem cada um 7$000 réis, e cada
cigarro nos saia a 1$800 réis? Estão na lógica os srs. fabricantes. E têm a suprema
garantia do consumo - a garantia do vício! E isto virá talvez a acontecer se não tivermos
a previdência de nunca comprarmos tabaco - sem irmos acompanhados por uru polícia,
e um escrivão que lavre o auto!

E é sobre o operário, sobre o trabalhador, sobre o soldado, sobre o pobre que pesa a
espoliação! Os srs. capitalistas tiveram o cuidado delicado de não fazer pagar nem mais
5 réis diários a quem ganha ou tem por mês de l00$000 réis para cima: e por isso fazem
pagar mais 10 réis diários a quem tem por dia de 240 réis para baixo! Isto alegra-nos
profundamente. E tanto que, fundados na nossa argumentação, não deixaremos de pedir
que a cidadãos tão prestantes como os ilustres fabricantes, se dê a honra de se lhes
oferecer um banco na Boa Hora, com o modo mais risonho! Com o que temos o prazer
de desejar as maiores prosperidades a SS. S.as , senhores do nosso respeito e
espoliadores do nosso tabaco!

Uma Campanha Alegre (Volume I, Capítulo XLVIII: O fisco na província)
por Eça de Queirós

Novembro 1871.
Em Abrantes - segundo informações de um amigo nosso, jurisconsulto ilustre - sucede
este estranho caso:
Pela lei de 10 de Julho de 1843 só são obrigados ao imposto do pescado os pescadores
que exercem a sua indústria em água salgada - e naquela parte dos rios somente até onde
cheguem as marés vivas do ano.
Ora em Abrantes entende-se de um modo largamente torpe esta acção do fisco sobre a
pesca. Vinte homens, extremamente miseráveis, que pescavam no rio - onde não podiam
chegar marés vivas - e alguns mesmos que de todo não pescavam, foram obrigados a
pagar o imposto do pescado! Uns não se defenderam desta extorsão por pobríssimos:
outros não se defenderam em virtude da ideia popular na província-deque, com o fisco,
paga-se sempre e nunca se questiona, porque naturalmente depois é-se obrigado a pagar
mais.
Isto constitui puramente, numa linguagem talvez plebeia, mas exacta, um roubo.
Obrigar um pescador do rio a pagar o imposto do pescador do mar, é (além de uma
confusão deplorável do velho e respeitável Oceano com qualquer fio de água que
murmura e foge), um sistema extremamente parecido com o que empregam as pessoas
estimáveis que nos metem a mão na algibeira e levam para casa o nosso lenço. Nós não
desejamos embaraçar os negócios fiscais. Somente nos parece que impor a qualquer
cidadão, mesmo quando não pesque, o imposto do pescado, é um expediente
sumamente complicado. E o fisco, que deve ser parcimonioso do seu tempo e dos seus
recursos, tem um meio mais singelo e mais expedito, que consiste em se aproximar de
qualquer, e gritar-lhe pondo-lhe uma carabina ao peito:
— Passe para cá o que leva na algibeira!
Estes processos do fisco, que se repetem arbitrariamente em toda a província e que são
sem dúvida um dos recursos do Estado, parecem-nos imprudentes - porque estabelecem
confusão. Há por essas estradas isoladas, em certas vielas de cidades mal policiadas, nos
pinheirais, nos sítios ermos e amados da sombra, uma espécie de cida-dãos, de resto
singularmente diligentes, que se deram por missão suspender por um momento as
pessoas que passam, e pela maneira mais delicada tirar-lhes o dinheiro, os relógios e
outras insignificâncias. Por seu lado o fisco costuma deter os cidadãos, e sob qualquer
pretexto (como por exemplo no caso de Abrantes, por serem pescadores de água
salgada) exigir-lhes uma quantia e entregar-lhes um recibo. Estes dois processos, o do
fisco e o dos senhores ladrões, oferecem uma tal similitude que pedimos ao Governo
que distinga por qualquer sinal (um uniforme por exemplo), estas duas estimáveis
profissões; para que não suceda que os cidadãos se equivoquem e que vão às vezes
lançar a perturbação na ordem social, confundindo o facínora e o funcionário - apitando
contra o fisco e pedindo humildemente recibo ao salteador!

Uma Campanha Alegre (Volume I, Capítulo XLIX: Desilusões de uma greve)
por Eça de Queirós

Novembro 1871.
Este mês a opinião preocupou-se com o que se chamou a greve de Oeiras.
Parecia realmente indecoroso que Lisboa, já civilizada, com teatro lírico e outros
regalos de capital eminente, não tivesse esse chique social - a greve! Oeiras, com uma
dedicação amável, forneceu-lhe esta elegância. Oeiras deu a greve. Alguns estadistas
puderam ter ocasião de comentar a nossa última greve, e de falar no terrível
proletariado.
Somente esta greve de Oeiras apresenta uma novidade excêntrica.
O fabricante diz:
— Eu dou a esses operários indignos, que abandonaram a minha fábrica e se puseram
em greve, 4$000 réis por semana. Vinde!
E os operários respondem:
— Não, não, isso não! Só voltamos ao trabalho se nos garantirem por semana 3$600!
Confessem que é para empalidecer de confusão. Não se protesta aqui contra a avareza
do fabricante, protesta-se contra a sua generosidade: o operário resiste a ganhar: só
trabalha se lhe diminuírem o salário: tem avidez de sacrifício, e deseja antes de tudo
sofrer fome! Que mistério é este? Ei-lo desvendado:
Como sabem, há dois trabalhos essenciais no fabrico do lanifício: preparar a teia, o que
leva uma semana, e produzir o tecido, o que gasta outra semana. Ora o fabricante
descontava na semana do tecido uns tantos por cento do salário; e na semana do preparo
levava a sua habilidade a descontar o salário todo.
De sorte que havia semanas gratuitas. E justamente os operários pedem agora que lhes
paguem menos cada semana, mas que lhes paguem as semanas todas.
O fabricante exclama:
— 4$000 réis cada semana que tecerdes!
E os operários replicam:
— 3$600 réis cada semana que trabalharmos. Porque preparar a teia é tanto trabalho
como tecê-la.
Tal é esta greve original, que não descrevemos com a sua precisão técnica, para não dar
a estas páginas o aspecto de um tratado sobre lanifícios.

heroísmo... sem que não se descubra. Estamos em frente de uma greve do capital! Ora abrindo o nosso admirável Código Penal. na realidade.nós temos o Bonga! Todos têm um poeta -nós temos o Sr. nos dava a esperança de abrigarmos enfim no nosso seio. que chique. De modo que a famosa greve de Oeiras se reduz simplesmente a isto: Um fabricante que diminuiu abusivamente o salário dos seus operários . um chique. se for seguida do começo de execução. Lisboa. são casos burgueses que pertencem à Boa Hora! Vergamos sob o destino de ser medíocres! Todo o País tem uma revolta -nós temos a índia! Todos têm uma expedição . O código define crime «o facto declarado punível pela lei penal» .e que cai portanto sob os rigores do artigo 277º do Código Penal. é decerto crime para o indivíduo isolado. daí a dias.» O código fala em coligação.. nossas.. a Internacional! .O que temos pois aqui. secção 1ª. é um fabricante que diminui arbitrariamente o salário dos seus operários. legítima. nos revestia de uma atitude civilizada. essa grande elegância revolucionária. encontramos estes dizeres no Capítulo XI. mas o que é crime para muitos indivíduos coligados. só nossas .e vê-se que nos achamos apenas com um caso de polícia correccional! Um a seis meses de prisão. Vidal! Fazíamos tanto empenho nesta greve que nos nobilitava. Suspendamos. Aqui houve só um fabricante. e o Sr. e aquele. autêntica. Até a greve de Oeiras! Ah! não podemos possuir uma glória. artigo 277º: «Será punida com a prisão de um a seis meses. um heroísmo. à mão. ou glória.o Sr. e que tiver por fim produzir abusivamente a diminuição do salário. por Deus!. e com a multa de 5$000 a 200$000 réis. O crime recai sobre o facto.. O número não faz a culpa. não sobre o ajuntamento. toda a coligação entre aqueles que empregam quaisquer trabalhadores. que miséria! Ah! evidentemente só gozamos duas glórias incontestáveis. garantidas.e não acrescenta «segundo o maior ou menor número de pessoas». de quem um juramento terrível e sacrossanto nos veda pronunciar o nome! .

complicados de incêndios. e facilmente gorjeada. se apresentam com ambições de arte italiana.Lecoq. encontrando aqui telas roídas da humidade. Além disso o repertório estrangeiro é feito pelas boas vozes. . naufrágios. S. Actores de vontade e de talento. o Príncipe Real. De sorte que a Trindade necessita escolher operetas que possam facilmente atravessar as estreitas gargantas nacionais. e descontentam. dão comédias traduzidas dos velhos repertórios estrangeiros. imperfeita para navegar. Fica assim reduzido o número a cinco ou seis imbróglios espanhóis. Capítulo L: O teatro em 1871) por Eça de Queirós O teatro em Portugal vai acabando. como as óperas cómicas não se parecem com as ostras. maravilhas baratas de velho cartão. Opera cómica nacional. um papelão apodrecido. não a temos. não devemos sofrê-la em couplet. os restos da velha geração artista. Precisa recorrer a zarzuelas que não oferecem a cintilação alegre da verve francesa. num esforço heróico. educadas. Seria tão impudico como sapateá-la em danças. A Trindade não tem que dar a um público enfastiado que pede música acessível. Primeiramente pelo abaixamento geral do espírito e da inteligência entre nós: e depois pelas condições industriais e económicas dos teatros. a que a Trindade se vai amparando como a muletas provisórias. e no vasto repertório estrangeiro tem de preferir as operetas fáceis. que vivem apenas dos esplendores da decoração. num país em que as instituições são tiradas do Barba Azul e da Grã-Duquesa. etc. Carlos. Fatigou este repertório galante. fatos de paninho remendado. Portanto estes teatros arrastam uma vida difícil. A Carta. entre cenários desbotados.e não podem interessar: e os dramalhões. concebidas para a fina interpretação de actores educados. a raça ficou esgotada com o esforço violento que fez inventando o lundum da Figueira. Esta verdade ressalta dos próprios cartazes. o nosso cérebro é impotente para a criação musical. começou pelos melhores autores da escola francesa . A Trindade encetou a ópera cómica. As nossas óperas são os hinos. essa. Mas naturalmente. Maria é a jangada da Medusa da arte nacional. Hervé. a Rua dos Condes. encontram aqui uma interpretação grosseira e falta de ofício . uma miséria que os apaga e os apelintra . com a legítima urgência do ganho. com as dificuldades económicas. as operetas constipadas. espremeu a quantidade de libras que ele continha e. que quanto mais se procuram mais abundam. . bem basta que a suportemos em código. incompleta pela organização: boa para lutar.admirável pelo esforço. O Ginásio. desabamentos. esse. criadas nos conservatórios. chilreia. Ora a Trindade não poderia fazer facilmente representar o hino da Carta. D.Offenbach. Por dois motivos. debilmente instrumentados. as «de meia garganta)). E verdadeiramente uma jangada . sucede que a Trindade está nas condições de um preso que devorou a sua ração.Somente acontece que as comédias estrangeiras. Aí sobrenadam. E verdade que não pareceria estranhável que a Carta passasse a ser uma ópera cómica. ou dramalhões alinhavados exclusivamente para a estulta plebe (como diziam nossos avós).lutam com a escassez da literatura. um director excelente .Uma Campanha Alegre (Volume I. com a inércia do público.não podem atrair. formadas pelo gosto e pela tradição dos teatros especiais.

vai.é o tédio da casa que o repele. O que se passa pois no palco torna-se secundário. que é o entretenimento querido do português e da portuguesa correlativa. dos sentimentos não se percebe ou não se exige. a realidade. a observação da vida . vai. Com esta grande vantagem sobre um salão: . Daí vem para o português elegante o hábito de se encostar nas salas. o general de barrete de dormir. em lugar de salões. Conversar! os homens tremem e as senhoras empalidecem. as jóias e as toilettes. e antes de tudo preferimos o doce egoísmo aferrolhado e trancado do cada um em sua casa. A nossa literatura de teatro toda se reduz ao Frei Luís de Sousa. porque não há dinheiro.é o que basta. nunca o teve. lances bruscos. Então o mundo comercial e burguês. Põe a melhor gravata. de belas imagens. enche a sala. como se diz. uma soirée. Salão calado . etc. O Português não tem génio dramático. a matrona bulhenta. o outro retruca em períodos sonoros e melódicos . que não há . um adultério que se idealiza encanta. passar a noite .e comprado no bilheteiro. possuímos dois tipos de dramas. De resto o teatro favorece o namoro. um transe: é o Cabo das Tormentas dos modernos Lusíadas. com o que se chama finais de acto. De facto o teatro é o centro do namoro nacional. o tombo. Não é a beleza do espectáculo que o chama . Um director de teatro não é pois escrupuloso com o seu espectáculo: alguém bem vestido que fale e dê um pretexto para a luz do lustre . caracteres solidamente desenhados. O teatro é a substituição barata do salão. a natureza. Conversar para o Português constitui unia dificuldade. que se vende. costumes bem postos em relevo. Sobretudo aos domingos.e a acção torna-se assim um tiroteio de prosas ajanotadas: o drama de efeito. ou mais nacionalmente uma assembleia. De resto. um raout.isso encontra-se ainda menos num drama do que numa corrida de touros. mesmo entre as passadas gerações literárias. as senhoras penteiam-se. com aspecto fatal. hoje clássicas. entreter. um embuçado que aparece. No teatro há a vantagem de que se pode mostrar a toilette.e não se conversa.Esta decadência deplorável tem causas diferentes: A primeira é a própria literatura dramática. E é tudo! Sentimentos.não se conversa. Requer-se apenas uma certa moralidade física: . o empurrão. em que unia personagem lança frases soberbamente floridas. porque no jornal e no livro o ganho não seduz com cintilações de montes de ouro.que se não dêem beliscões nas ingénuas. estudos sociais concretizados numa acção. não há sociabilidade. mover o alado e fino batalhão das ideias. Uma das condições é que as actrizes se vistam bem. . O lisboeta. Não por o ganho ser diminuto. que repousa e se diverte. da acção. A principal razão está no feitio da nossa inteligência. O público vai ao teatro passar a noite. Se se der Hamlet. para que nos camarotes as senhoras observem. uma mãe que se revela: — Ah! Céus! E ele! Matei meu filho! Oh!» Acresce a isto a farsa com os velhos motivos de pilhéria lusitana. é um ócio de sociedade. discutam as rendas. tipos finamente analisados. namorar. que constantemente se reproduzem: o drama sentimental e bem escrito. A moral do drama. O teatro entre nós não é uma curiosidade de espírito. ode dialogada. à ombreira da porta. se se der Manuel Mendes Enxúndia. Outra causa de decadência: o público. Os escritores retraíram-se inteiramente do teatro. Conversar.toma uma cadeira de plateia. com modas novas. as sedas. Em Portugal ninguém recebe e ninguém é recebido. e é uma sala. Um beijo que estala sobressalta. todo o português imagina que esta maravilha só se pode dar nos romances de franco.

e lhes dava os grandes vagares do estudo. da dispersão dos centros dramáticos . a arte dramática . como pelas condições do seu destino. à concorrência. formaram-se quando o teatro normal (pelo seu regulamento) os punha ao abrigo da luta da vida. torna-se fatalmente um homem de ofício que necessita ganhar. com a sala deserta. a largos traços. E dá 25 contos a S. além da sua organização artística. 6$000 é a quinta parte de muitos rendimentos mensais . pelo precário estado da sua arte. A carestia da vida. o preço do fato. O artista que. Perante esta situação ocorre naturalmente esta pergunta: qual é a atitude do Estado. São actores como outros são empregados públicos. o estudo entram aqui numa proporção ínfima. Santos. Eles desgraçadamente em Portugal não pertencem a uma arte. protegendo-o? . tudo isto deixa a bolsa cansada. São maus . e falências. Os actores em geral são maus. complicações. 1$500 de luvas. de se sustentar. o actor atabalhoa papéis.Então para que dá subsídio a S. Lisboa é uma terra de empregados públicos. respectivamente aos teatros? É esta: O Governo não dá nada aos teatros nacionais. tem de pensar em comer (quando não é extraordinariamente dotado.o artista não pode ter os nobres vagares necessários à cultura artística. das quebras de companhias. num palco. Não há dinheiro.não tanto por incapacidade própria.da pluralidade dos rendimentos. de se vestir! A arte. nem escola. No meio da oscilação das empresas. recitam prosa à luz do gás.«É o Governo obrigado a auxiliar e a subsidiar a arte teatral?» — Não. pertencem a um ofício. . Que hão-de fazer? . Tal é o perfil do estado geral dos nossos teatros. Questão de ganhar um ordenado. incapaz de teatros. Outro motivo da decadência dos teatros: a pobreza geral. nem público.Outro motivo de decadência: os actores. O teatro é caro. com excepção de 4 ou 5 individualidades inteligentes e estudiosas que progridem. Os nossos grandes actores. os altos alugueres. nem incentivo. nem ordenados. o cofre do teatro não se enche.Então para que deixa sem subsídio o teatro nacional? Se o Governo entende que deve abandonar à indústria. Daí dívidas. Naturalmente. As dificuldades da vida embaraçam as preocupações da inteligência. o poeta redige notícias. o escultor faz jarras de porcelana. em tal caso o pintor ilustra almanaques.ao todo 6$000 réis.Não têm estudos. Por consequência a afluência aos teatros é pequena. uma certa necessidade de representação que domina a gente de Lisboa. Carlos? — É. porque então a necessidade retempera-lhe a habilidade). Rosa. Carlos! Ora que o Governo nos responda: . à iniciativa particular.para que faz uma excepção ao teatro italiano. como outros expedem ofícios numa sala abafada. Uma noite de teatro pode levar a uma família 3$000 réis de camarote. à espontânea acção das vocações. . 1$500 de carruagem no Inverno .

uma influência perdurável. O teatro normal seria o deperecimento providencial das pequenas comédias eróticas. formando discípulos. Ora a verdade é esta: O teatro nacional é uma necessidade inteligente e moral . o Governo diga: — Eu nada tenho com a arte teatral. ideias. ou o Governo deixando o teatro à iniciativa industrial e literária. e toda a pessoa sensata o condenará connosco. como um elemento poderoso de civilização e de cultura moral . o enriquecimento do nosso património intelectual . desamparando-o? Que o Governo pois se decida: Ou se declara indiferente e desinteressado em questões de teatro .e o teatro italiano é uma inutilidade sentimental e luxuosa. Nós não temos opinião. elemento histórico para o futuro. isto é.educação permanente no presente. e por consequência pretendo que o teatro nacional se feche de penúria. Porque o drama hoje. das mágicas que não passam de um mau acompanhamento da digestão e de uma escola de embrutecimento.e então fecha igualmente os seus cofres aos galãs e aos tenores. e por consequência dou 25 contos ao teatro italiano. a subtracção de uma população ociosa e enfastiada às casas de jogo e aos lupanares clássicos. Ou diga: — Eu sou o protector da arte teatral. dos dramas sentimentais que servem para excitar os sentidos da burguesia casada. com uma lógica torpemente offenbáquica. como toda a obra de arte. Ou se declara responsável pelo desenvolvimento deste progresso intelectual . Compreendemos igualmente o Governo protegendo o teatro com subsídios. instituições contemporâneas que estuda e critica. é que. Quais seriam as vantagens de um teatro normal? O teatro normal seria a criação de uma literatura dramática. O teatro normal seria a fundação de uma escola de actores. uma forte .Se o Governo entende que deve auxiliar a arte teatral. centro vital das artes teatrais. conservando uma tradição. penetrante e subtil nos costumes. que constituem a aguardente moral das pessoas que não vão à taberna. costumes. é no seu tempo uma lição para o critério . fortemente educada. tem dois alcances: pelos sentimentos.então para que faz uma excepção ao teatro português. O que condenamos.e no futuro um documento para a história.e então dá um subsídio ao teatro nacional. e formam uma espécie de comunicação cómoda com o vício sem se descer de um camarote! Seria um constante apelo da atenção às coisas do espírito. como a Comédia Francesa.

levando ao público o encanto do seu repertório superior e aos artistas os exemplos da sua arte perfeita. roncada no rabecão.é a influência da música italiana. Bem ao contrário. uma excitação erótica. os galãs. Os actores formados aqui iriam constituir pequenos e bons conjuntos teatrais na província. o amor como a coisa superior e única da existência. senão alguns duetos que as donzelas beliscam ao piano. Se alguma coisa debilita o carácter e enfraquece o espírito . Braga. Viseu. ele! O teatro de S. mas de decadência. ou do imbecil Trovador que corre a salvá-la? O teatro de S.Lúcia. as principais cidades. romanescamente. Baile de Máscaras. semeia tudo de beijos. O País paga para que este público goze. enfim um elemento sadio na nossa vida. arrastada na dilacerante agonia da rabeca. Gastamos dinheiro. a largos traços. escolhido. assobiada irritantemente na flauta. O teatro de S. Carlos canta-os? De modo nenhum. Para que nós tenhamos árias. Bellini.estes detestamo-los como erotismos que arrulham. faria participar todo o País no desenvolvimento da sua arte. cada alegro. Coimbra. Fulanini vá ganhar mais dinheiro para Sampetersburgo ou para Covent Garden. Favorita. modulada aereamente na harpa. insubstituível e indispensável. os amorosos. porque prende com o que uma cidade tem de mais definitivo e de mais determinante . respeitamo-los como ideias que cantam . Isto seria. a honestidade mal portée. Carlos não dá participação a todo o País da sua arte. Meyerbeer. De resto Donizetti. Estimamos a música. Carlos não forma bons actores nacionais. e em certos meses a companhiamodelo visitaria Porto. ou que os sinos tilintam ao levantar da hóstia! Que educação se tira da Traviata expirante. tornada acre e triunfante nos instrumentos de metal. e morre de amor. amorosa. Faz apenas a popularização da velha escola italiana de música sensualista. Cada dueto. soluçada de um soluço inteiro pelo demónio invisível que habita o violoncelo. a não ser de dois em dois anos Meyerbeer a fugir e a fingir. Bem ao contrário! É uma fábrica de reputações para os artistas estrangeiros. Gluck. numa ária dolente! Ah! nós não somos bárbaros. comem os lavradores sardinhas! . arte de que nada resulta para o País. as adúlteras. se torce nos êxtases da paixão.? O adultério idealizado. que geme. Carlos o que é? o que faz? Não aumenta decerto o nosso património literário. Mas S. Maria de Rohan. todos os sensualistas! Ora aqueles. Uma ópera é um lupanar. sempre igual. Mozart. Carlos não constitui um elemento de civilização. arqueia os braços. são verdadeiros pensadores. todo um mundo melodioso e devasso. e toda aquela moral suspirada. Traviata. O teatro de S.educação pela imaginação. etc. Norma. nós! para que o Sr. e sobre esta massa de voluptuosidade instrumentada. gemida. mórbida.a sua inteligência e a sua moral. sentimental. Imagine-se uma menina ouvindo durante um ano aquela ladainha de sensualidades que se chama . de um público limitado. langorosa. O teatro normal não seria um regalo exclusivo de Lisboa. o dever considerado burguês. o teatro normal. Beethoven. entra pelas portas das alcovas. é um teatro exclusivo.

Nem há ali um elemento de civilização.. com os tapetes comidos dos ratos. não tem obrigação de o pintar. perante o júri comercial é não falir. um orgulho de capital rica. Diz-se que o Governo tem uma razão suprema para sustentar S. nem um centro de arte nacional. provinciano. antes de saírem para a rua. os brancos rivalizam com rostos de carvoeiros.Enfim. Também não construiu o teatro: recebeu-o assim do Governo. E ao mesmo tempo esforça-se. Na superior. Quanto à corte. Carlos. é evidente.. os velhos dourados sujos têm o aspecto melancólico de adornos de capelas antigas. não! Começa logo pela mise-en-scène. Na geral bancos estreitos. soltam.o que lhe fez perder a frescura. ao pé dos municipais formados. compreendemos. No peristilo escuro há lama. Esse. o tapete à sua . e o chão tem tanto asseio que os frequentadores. Fora algumas belas telas de Rambois e Cinnati. aos farrapos. É um velho chique pelintra. o chegar dos trens. E o Governo dá-lhe vinte e cinco contos . nem de o forrar. realmente. uma velha mesa carunchosa onde o tirano se apoia. lembram o cárcere. nem é culpada de que a música seja. bastidores roídos da traça. está na lógica da sua acção. uma inutilidade sentimental. o portal de casa de jogo. não reúne uma única razão para subsidiar S. nem uma escola de artistas. dirão. nem um aproveitamento geral do País! Não é também um centro de luxo. Carlos. plebeu. S. deixa sair uma clina fétida: o papel está esgaçado. Para que serve S. Mas é ao menos. Carlos: . expostas a um vento frio que toma aquelas paragens piores que a serra da Estrela! Tudo aquilo é pequeno. Além disso ela não é culpada de que o teatro nacional pereça de penúria. nem interesse geral do País. elas com os braços nus mal lavados. como de réus.é que S. A corte sente a necessidade impreterível de se distrair? Excelentemente! Que pague e subsidie S. limpam os pés nos capachos por compaixão com os varredores. fofos de pó. nem elemento de civilização. Sim. nem criação de uma arte. na escassez do seu número. nem formação de artistas. As senhoras esperam.. Os coristas agrupados a um canto. uma luz soturna e abafada.. que o ilumine.. Carlos: fatos remendados torpemente. as fechaduras quebradas. o veludo dos parapeitos. cada vez mais raras. por mostrar aqui as belas vozes. Carlos um teatro elegante. Carlos? É um luxo. nem de o dourar. Carlos Constitui uma distracção para a corte e para a diplomacia. eles com as botas enlameadas. Nos camarotes. um centro belo e fino de vida rica? Ah! por Deus..para o continuar a ser. na civilização de um País. e pelintra! Não queremos acusar a empresa. nem de o tapetar. num gesto dormente. Outro tanto não sucede ao Governo. Uma iluminação funerária entenebrece a sala. o forre. Como companhia comercial o seu único dever imprescritível. ouriçam a sua palhinha quase podre. as ricas organizações musicais. que mise-en-scène! Tome-se para exemplo o D. não! Companhia comercial. no seu saco. uma voz por onde têm passado todas as pateadas desde 1836 . Os corredores. cadeiras de palhinha áspera raspam como uma navalha de barba o pano das casacas. uma maravilha da vida amplamente gozada.

à beira do Tejo. O poder moderador não poderá mais ir a S. A corte ainda não leu o Panorama? Ah! pois aí está. Nós trazemos na alma os crepes da nossa história.custa. como diria Cipião. não nos parece que o País tenha obrigação de a distrair. A Lusitânia não é lugar de troça.as estão extremamente enganados. hoje vai estudar a sua política: e nada de choramigar. Carlos sem pedir licença à opinião pública.ou pelo menos para Badajoz! Perdoem estas longas páginas. A preocupação do País não é precisamente evitar que a corte boceje. que se feche S. ou lendo o Panorama. as nossas placas de 500 réis. corte respeitada e amada. não possuirás. e outros lutos tão amargurados!. as rabecas . Se temos de pagar a iluminação. E o que faz cada um. e ir depois tomar sossegadamente o seu chá.que nos seja dado o direito de dispor e regularizar os seus prazeres. E a opinião pública ficará no seu legítimo direito de responder: «Não senhor. Camarotes a três ou quatro libras. Ora que o País pague. não! Que eu. e deixa ao abandono o teatro nacional que é de necessidade. . o poderzinho moderador fica hoje em casa: ontem o poder foi ao teatro. Os seus governos e os seus reis que a distraiam! Os srs. Quem vem para aqui é para a bela melancolia! Nós não gostamos de nos rir. ele. a verdade e a dignidade. um elemento de cultura. Somos. De resto se a corte se distrai à nossa custa . Não imagina que fonte de distracções! A corte quer teatro? Que vá ao Salitre! Passa-se muito bem. tenham a bondade de ir para Mabille . Exª’ se querem divertir e rir. corte reluzente e maravilhosa! Perdoa. e que seja feliz. e alguma economia mais nas famílias. não.. ou que frequentem o Martinho! De resto a diplomacia é bem audaciosa em pretender divertir-se! Intenta ela estabelecer uma excepção insultuosa aos costumes nacionais? Aqui ninguém se diverte! Suas Ex. O teatro nacional que tenha um subsídio. Vinte e cinco contos anuais é prodigioso . que dê por cada camarote 20$000 réis por noite. eles. um centro de arte. deitemos no erário dinheiro para tu te divertires. não era mau. por cada stalle 4$000 réis. de profissão.para que a corte tenha onde passar a noite! Que a corte se distraia a si mesma. Carlos. Sebastião nas areias de África. que durma lá. Carlos sem subsídio que eleve os seus preços. que o frequente com ardor. se torne uma escola. O luxo que se sustente pelo luxo. não. A questão dos teatros tem uma importância pública. São algumas árias de menos num palco. Se ninguém quiser.. O Governo comete o contra-senso de subsidiar um teatro estrangeiro que é de luxo. os cantores. a 1$500 cada camarote. entre nós. vieram talvez para Portugal por equívoco! Tudo. Se VV. diplomatas que comprem soldadinhos de chumbo. senão ferramo-lo no quarto escuro!» E quanto à diplomacia. e o pobre D. mas. vós. A corte pode muito bem entreter a sua noite jogando as damas. S. Dia e noite soluçamos. tétricos! Havíamos de nos rir. Só isto é o senso. ingrata. cadeiras a libra. e tanta tristeza por essa história atrás.então devemos intervir nos seus divertimentos. nós. e o infame domínio de Castela. A corte pode ali gozar a sua soirée regaladinha. é grave.

com bons salários. trabalhar. em lugar de alguns centenares dos nossos -não nos queira levar a nós todos. como em toda a parte. a trasbordação de uma população que sobra. em massa. tomando o rumo dos países estranhos. provido de boa fortuna. e um país de fracos e de indolentes padece um prejuízo incalculável. quando se quer falar de um país caótico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa da Europa . contraria a necessidade urgente de regularizar interiormente uma emigração de província a província. o Sr. Em Portugal a emigração não significa ausência . agita-se ainda. trazendo-lhe o auxílio da vontade robustecida.os excelentes vapores da Liverpool and Mississipi Steam Ship Company. temos em lugar do incerto milagre do mar Vermelho .que haja quem estranhe a emigração.significa abandono.citam-se. que leva para Nova Orleães. vai à Austrália e à América fazer um começo de fortuna . Há um homem. Fugimos das cebolas do Egipto. por exemplo. Agitou-se. a sua comuna. mesma indignidade política. Em Portugal a emigração não é. a questão da emigração. nas revistas. Nathan funesto. Em Portugal a emigração. mais felizes que os israelitas. vem ser um burguês improdutivo. mesma trapalhada económica. A emigração. do dinheiro ganho: para Portugal. entre nós.Uma Campanha Alegre (Volume I. Capítulo LI: O Governo e a emigração) por Eça de Queirós Janeiro 1872. Charles Nathan. é decerto um mal. mesmo abaixamento dos caracteres. mesma decadência de espírito. casar. Enfim a emigração é má. Em Portugal quem emigra são os mais enérgicos e os mais rijamente decididos. todas as actividades que se ofereçam. Mr. Nathan. Porque partimos já. sem hesitação. da experiência adquirida. Nos livros estrangeiros. uma inutilidade a engordar. Vamos todos! E estranho . perdendo as raras vontades firmes e os poucos braços viris. a . servir o seu País.para voltar a Inglaterra. E. Não é o espírito de actividade e de expansão que leva para longe os nossos colonos. como leva os ingleses à Austrália e à índia. mas a miséria que instiga a procurar em outras terras o pão que falta na nossa. mas a fuga de uma população que sofre. Somente o nosso pesar é que o Sr. Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza. O inglês. a par. o emigrante que volta.

por 80 réis diários.. As indústrias fabris são poucas. ou embarca no Pireu e emigra para Alexandria. Pedro V tinha lido o livro de E. nem chamar a si o poder absoluto! Um tal rei. atrasado e relaxado. errante de fazenda em fazenda. periclitantes. por um imposto de 20 e 30 réis. nos tempos de salário. segundo o julgamento do excelente rei. E o Governo.empobrecendo a terra e empobrecendo o homem. onde vinham as narrações das indignidades políticas de Atenas. o facto permanente é a emigração. abandoná-lo! O País é belo.a necessidade de procurar longe o pão que a Pátria não dá. uma literatura de modelo universal. no bacalhau. lírico. e por vezes um subtil humorista . Pedro V escrevera ao lado: «Cá chama-se o senhor. vimos nós pagar 5 e 6 mil-réis. Figura no livro. Nathan. O trabalhador dos campos vive na miséria. para os estados barbarescos.entretera-se anotando à margem o precioso livro de About. Ora. a honra de ter criado uma religião. para as escalas do Levante. admiram-se! Mas onde pode a plebe ganhar o pão? A grande indústria. roubar viajantes ingleses.Grécia e Portugal. Na província. About A Grécia contemporânea: e aquele rei que era um grave e fino espírito.termina sempre por morrer cedo. nem agricultura. de deliciosa paisagem. a administração. para qualquer ponto onde haja algum pão a roer ou alguma piastra a ganhar. fugir. Não temos piscicultura. no azeite. unidas. A usura e a agiotagem. Apenas nos ufanamos do Sr. Lisboa.monopólio no pão.toma então a sua carabina e vai para as montanhas que Teócrito cantou. Vidal. E nós emigramos. nem silvicultura. como torpe. tornaram aqui a vida . etc. um certo ministro da Fazenda que era ladrão . não pode todavia entregar a Nação à experiência republicana. Como deve ser infeliz um rei inteligente. Mas a política. com interrupções constantes de trabalho. mudados os nomes -é a descrição mais exacta do estado de Portugal. na Grécia. e o museu humano da beleza da Arte. cáustica e tão profundamente francesa.D. trabalhando aos dias. a dos tabacos. além de uma história gloriosa. Os pobres não tinham a quantia? penhora no casebre! Nas cidades o operário é vítima do monopólio . que (bem a nosso pesar) não podemos ir roubar para as montanhas porque não temos a quem roubar . caído em cepticismo e misantropia pela certeza que adquiriu de que está no meio de uma pocilga política. as vexações do fisco incessantes. com custas. o rei punha os nomes correspondentes dos homens públicos de Portugal. Nós.. para Trípolis. encontra-se ao entrar na vida sem colocação: . nem indústria pecuária. exploram a gente do campo: os tributos são fortes. Onde estavam nomes dos estadistas da Grécia. se não se converte por fastio num bom rei de Yvetot . dá 250 réis de salário a um operário com família. muito homem hoje célebre na vida pública. com bons ordenados e autoridade.». ele lançava à margem as correlativas indignidades políticas de Lisboa. El-Rei D. onde About desenhava com a sua pena maliciosa. A agri-cultura vive de rotina . O Grego que não tem indústria. para Marselha. pelo mesmo motivo que o Grego emigra . come sardinhas e ervas do campo: a maior parte anda à malta.vamos procurar o Sr. porém. Nós. quando. não possuímos como a Grécia. barítono. a opinião. e do Sr. A indústria mineira está abandonada à exploração de companhias estrangeiras. O livro assim anotado. sim. Não há entre nós uma escola teórica de aprendizagem! Que querem os senhores que se faça num país destes? Sair. nem comércio.

e enriquecei! O Estado. associai-vos em grandes companhias. e os poetas líricos. que faz o Estado. não tendo a honra de lhe pertencer. proletários. Seria doce gozá-la. tomai vós. operários. ó proletários. os moços de café. Dizer a um homem: . os eternos terrenos do Alentejo. e volta-se para os colonos. os quatro ou cinco mil contos que tendes aí no bolso roto da jaqueta. a imprensa e a opinião oferecem esses terrenos tais como estão. perante a emigração crescente. lavrai tantas léguas quadradas. Só se pode ser português .Você quer ganhar dezoito vinténs por dia? Escusa de sair do País. os jornais. regai. e vem a ter de salário. tu Manuel da Horta. ó gente do campo.intolerável.conquistemos o Santo Sepulcro. estabelecei lezírias.senão emigra. e mandemos varrer o Largo do Loreto! Mas a melhor facécia tem vindo do sentimentalismo: . não direi os dezoito vinténs justos. sim. — Pois bem. E justamente o Governo. a opinião têm razão. gaste aí uns mil contos a arrotear terrenos incultos.somente como o trabalhador não traz ali os quatro ou cinco mil contos na algibeira e não está para os ir buscar a casa.sendo-se inglês! E no entanto. Tendes acolá os terrenos do Alentejo! Ora os terrenos. não produzem na generalidade senão bolota. E o País exclama: — Não emigreis.e diz àquela plebe esfaimada: — O quê! quereis ir embora? Oh imprudentes. tais como estão. mas dezassete e meio com certeza. tendes acolá os terrenos do Alentejo . Conheceis brincadeira mais abjecta? Uma população de trabalhadores. comprai máquinas e instrumentos. arroteemos! Mas então aproveitemos este grande impulso nacional. aplica-lhes a luneta . fazei aquedutos. a opinião? Interrompe-se um momento. pede trabalho .». Arroteie-se o Alentejo! exclama cada um esfregando as mãos. a imprensa. arroteai. meus senhores. tu jornaleiro . a imprensa. Dizer isto é uma facécia impudica! Tem sido de um alto grotesco este conselho que se dá de arrotear os terrenos do Alentejo! Todo o mundo o dá. e puxando o fumo do cigarro. á pés descalços. abri poços. por causa da chuva -embarca para Nova Orleães. os frequentadores da Casa Havanesa. levantai grandes fundos com o vosso grande crédito. . Os terrenos do Alentejo. esta energia das forças vivas! E de passagem ..isto é.. são simplesmente um gracejo torpe. tu ferrador. tu José da Cancela.

mas o lugar para onde se emigra. Somente que processo emprega o Governo? Coloca-se entre o bote e o emigrante.dirigem a emigração. A guerra é feita à Nova Orleães. Isto é .. Que fazem com isto a imprensa e a opinião? Incitam à emigração. Como? Acusando o pouco que os colonos vão ganhar na Nova Orleães. a verde alfombra. temos a opinião e a imprensa confessando que a vida é extremamente difícil em Portugal.. Se assim é. remando a toda a força para o paquete da Nova Orleães. enfim. a emigração. gritando altivamente: — «Não passarás!» Agarra-o pela gola da jaqueta. de estudar o meio de organizar o trabalho. Mas. de regularizar uma emigração interior.tinha-se visto nas anedotas do Tintamarre. Por consequência o que se condena não é o facto da emigração. abala extremamente os emigrantes-os quais provam a sua comoção. que se julga irremediavelmente necessário . o escondido casal na encosta do monte. É-nos dado. de converter em vantagem nacional a energia nativa da população. autêntico. tão firmado em cifras. E no entanto.mudam-lhe a direcção. a nós Portugueses. o grato rouxinol que. de obstar ao enfraquecimento do País pela perda da sua riqueza viva. Não detêm a corrente . possuir o facto real. ganindo: «Faz favor de não se safar?» Que o Governo nos esclareça! Bom e querido Governo!. ainda que tomando para isso o caminho mais laborioso. diante destes . referendado. colonos! ides deixar a terra do vosso berço. o que é uma maneira de a desenvolver. e fazendo cotejos que implicitamente lhes lembram o muito que ganhariam em São Paulo ou na Califórnia.— O quê.. na praia. O caso é que a opinião não traga a Nova Orleães. A Nova Orleães fez o que quer que fosse à opinião pública. tão positivo. como se dizia na Grã-Duquesa de Gerolstein. Entretanto que faz o Governo? Diz-se que o Governo recomendara às autoridades do País que impedissem a emigração.. tendo de examinar as condições do País agrícola. Mágoas diz do seu penar? Este argumento tão económico. de empregar os braços ociosos. e que a acção natural que todo o cidadão português deve ao seu País — é abandoná-lo. não ao abandono da Pátria. Um Governo impedindo a acção de uma lei económica por um ofício . gostamos. Talvez questões de mulheres. a imprensa suspira! Um facto curioso é que a opinião que mais tem enrouquecido a bradar contra a emigração. Diante deste grave problema. tenta sobretudo provar que a emigração para Nova Orleães não dá as vantagens prometidas pelo engajador.

.problemas .era maior. A governação do Estado torna-se questão de serralharia! Um trinco é um princípio: um parafuso uma instituição! Como vós sois grandes! Deixai-vos ver bem de frente. . o melhor é fechá-los à chave!» Como solução a um problema económico . por toda a ciência. por toda a ideia. lança esta ordem: «A respeito dos colonos.o Governo acha uma fechadura. Ah! sois imensos! Mas Sancho Pança .o Governo volta-se para o regedor e..

Porque não se pode obrigar esse homem a ouvir missa depois de morto! . a estar de joelhos ao lausperene e a comer bacalhau à sexta-feira? Sim. como pois condená-lo depois de morto a essas orações e assembleias que detestava em vivo?» O que equivale a dizer: Se esse negociante não queria ouvir missa. Bem Público! sim. E acrescenta o Bem: . Somente nos parece que não há absoluta semelhança entre o cemitério público e o jazigo de família do sr. «Lisboa é capital de Portugal» — não queremos inteiramente dar a entender que a capital de Portugal seja o Hotel dos dois irmãos unidos. ser obrigado a ir para debaixo da terra. Não. O primeiro destes artigos.Sim.«Se um negociante. com as assembleias religiosas. amigo! sim. pág. dentro do seu esquife.. pretende combater a afirmação das Farpas .. Depois o Bem. ao estudar a nossa geografia.«que o cemitério não pertence aos padres. tu até tens boa ortografia! Até tens bem boa forma de letra! Se quisesses. honrado colega! A verdade é essa! disseste-la com boca melíflua e sábia! Deve-se excluir do cemitério todo o homem que não ouviu missa em vivo. Capítulo LII: Conversa com o Bem Público) por Eça de Queirós Dezembro 1872. estamos absolutamente de acordo! Um homem que gosta de comer à sexta-feira rosbife não pode.«A censura tem o mesmo valor que se a dirigisse ao sr. não. Bem! Não rojes assim uma cabeça penitente no pó igualitário do macadame! Não. pertence aos cidadãos».Uma Campanha Alegre (Volume I. O Bem Público cora no seu rosto indignado e exclama: . linha 25).como condená-lo. duque de Palmela. tu não és insensato! não te calunies. aniquiladora. porque seria insensata» (Bem Público. não te humilhes. depois de morto. amigo. comer à sexta-feira o detestado rodovalho! Sim. tão rudemente desmantelado pelo estimável Bem Público . num outro período austero. de juvenil fé e de discreto lábio. por não consentir que no jazigo da sua família sejam sepultados os cadáveres das pessoas que falecem!» Esta argumentação é vitoriosa. 188. Mas acrescenta: «Não a daremos. tu. Bem. sem tirânica vileza. duque de Palmela. sob pretexto de deveres religiosos mal cumpridos». com profundidade no dizer e alto critério no pensar: . Quando dizemos.censurava o clero do Funchal «por ter impedido que um negociante fosse enterrado no cemitério público. amortalhado. e explica qual é essa razão. não quer ter nada com as orações. E lá o explicas. Bem Público. Para aniquilar esta ideia o Bem afirma que poderia dar uma longa razão. nem assistir ao lausperene. até eras subtil! É que não queres! Se tu quisesses! . amigo. tu o disseste. nem jejuar enquanto vivo . enquanto vivo.

E continua o estimável Bem argumentando. As Farpas disseram: - «Os cemitérios têm a
sua origem na higiene, na polícia, na moral, na vida municipal: não têm a sua razão de
ser na teologia». E o Bem exclama: - «Pois dizendo tal caem num erro histórico: os
cemitérios têm a sua razão de ser na teologia: basta o nome e a história para prová-lo».
Mas então uma consideração pavorosa acode: a teologia é pelo menos - deve sabê-lo o
Bem - posterior aos primeiros séculos do cristianismo. Começa com as escolas, e com
os doutores. Ora se os cemitérios datam apenas deste tempo, segundo afirma o Bem
Público, se só têm a sua razão de ser desde que a teologia teve a sua razão
O excelente jornal, o Bem Público, num artigo amargo e piedoso, trabalhado com
doçuras de sacristia e repelões de sala de armas, de resto subtil e curioso - dá-nos a
honra de sacudir, com a sua pesada mão católica e romana, três pobres artigos das
Farpas. de dominar - o que acontece? É que todos os mortos, desde Nemrod, estiveram
aos milhares e aos milhares, enfastiados, de braços cruzados, esperando que a teologia
lhes permitisse deitarem-se nos seus sepulcros. Horrorosa antecâmara! Esperaram
séculos! E vinham mais, e mais, e mais! Em que se entretiveram tanto tempo, envoltos
nos seus sudários, impacientes pelo seu enterro? Oh! sábio Bem Público, diz-no-lo, tu
que o sabes! Se os homens só foram enterrados desde que a teologia se fixou em grossos
tornos - em que lugar tenebroso aguardaram o seu dia de sepultura os primitivos árias,
os luminosos índios, o persa trabalhador, o grego erudito e subtil, os milhares de
habitantes do império romano, as raças que viveram junto ao Nilo, e os povos bárbaros
que habitavam o norte da Europa, e todos os habitantes de todos os continentes, de
todos os séculos? Di-lo, sábio Bem! Será verdade que eles passeavam pelo éter,
fumando o seu cigarro - à espera que Santo Agostinho nascesse? Como tu és instrutivo,
oh Bem! Só há cemitérios onde há teologia católica. E corno explicas então os
cemitérios modernos de Constantinopla e do Cairo, e os de todos os países maometanos,
e os de todos os outros países onde floresce alguma das 1 religiões que florescem na
Terra, além da católica? Explica isto bem, Bem!
Mas o piedoso jornal exclama ainda: «Os católicos não impedem que os que têm pouca
religião ou nenhuma, sejam enterrados: porque não estabelecem as câmaras municipais,
para esses, cemitérios especiais?» Parece-nos prudente este alvitre do Bem: estabelecer
cemitérios para quem tem muita religião: outros para quem tem bastante: outros para os
que possuem alguma: outros para os que alardeiam pouquíssima: outros para os que não
apresentam nenhuma. Enfim, um cemitério para cada medida! Um cemitério aos
gramas! Ah Bem, como tu vais mal!
O segundo artigo das Farpas censurava que «os missionários vendessem cartas da
Virgem Maria a diversos devotos».
O Bem Público diz que nós agitamos argumentos bicórneos. Mas não combate, nem
aprecia, nem sequer indica - esses argumentos. É timidez? É desdém? É pudor?
Somente acrescenta: - «A história é falsa: 1º porque os jornais de Braga não falaram em
tal...»
Mas, querido Bem, os jornais de Coimbra, os jornais do Porto, e os jornais de

Lisboa, que são liberais, contaram-no. Vale alguma coisa que o não referissem os jornais
de Braga, que são ultramontanos? E esses mesmos não estão anunciando a cada
momento livros que se vendem para evitar o fim do mundo, cartas vindas do Céu,
relíquias achadas, etc.?
Diz mais o Bem: «2º porque em Braga não há missionários!» Como assim!
Tresloucas, Bem! Não há missionários em Braga? Diz antes, amigo, que não há turcos
em Constantinopla! que não há água nos rios! que não há estrelas no céu! que não há
sons na música! Ah querido! Não há missionários em Braga? Onde os há então, em
Berlim?
No terceiro artigo, as Farpas tinham censurado o Sr. Encomendado de Santos-o-Velho,
por ter proibido que as mães levem os filhos à Igreja! O Bem Público escandaliza-se e
grita: - «O que iam as crianças fazer aí? Se as mães queriam ir à missa, e não podiam
deixar as crianças em casa - que não fossem à missa, que estão em primeiro lugar os
deveres da lactação, que os desejos da devoção!»
Esplendidamente bem dito! Mas quem o disse? Foi Michelet decerto, o iniciador
naturalista da educação anticatólica? Foi Proudhon talvez, o rude inimigo da Igreja?
Não, meus bons senhores! não, Nação! não, Braga! Foi o Bem Público, jornal católico,
romano, devoto, piedoso, ungido em água benta! Os deveres da lactação primeiro que os
desejos da devoção! Mas é perfeitamente revolucionário! A lactação antes da devoção isto é, a natureza antes do misticismo, a razão antes da fé, o dever humano e consciente
antes do dever divino e transcendente, o raciocínio antes do dogma, a higiene antes do
Evangelho, a mãe antes da devota, o preceito naturalista antes da regra da
Igreja, o homem antes de Deus! Bravo, Bem Público! Segundo tu, o preceito, a missa, a
Igreja, são coisas secundárias, indiferentes, para quando houver vagar. Objecto de luxo,
para os dias de ócio, uma forma do teatro aos domingos! «Que farei hoje, irei à igreja ou
à Rua dos Condes?» De modo que só quando a mulher tiver amamentado seu filho,
arranjado a sua casa, cozinhado o seu jantar, cumprido todos os seus deveres humanos, e
se achar numa hora desocupada e vaga - é que deverá ir à missa? Dizes excelentemente!
Mas então repara bem, ó Bem. Se pões o mais pequeno dever humano antes do mais
pequeno dever católico - rachas de alto a baixo o catolicismo: se a mãe deve amamentar
antes de rezar, o homem deve obedecer à sua razão consciente antes de obedecer ao
preceito religioso: tens a análise, a liberdade religiosa, a reforma, a revolução. Abres
uma fresta no mundo velho e entra-te por ela um mundo novo! O Bem
Público, estás pois assim naturalista e ateu? És então um falso devoto? Por cima da tua
sotaina de sacristão pões uma faixa escarlate de membro da comuna? O Bem! Espalhas
tu água benta ou petróleo? Treme, desgraçado! enquanto a Nação tua irmã, enquanto o
Diário Nacional, a Crença, estarão muito contentes no Paraíso, tu, Bem Público,
excluído da bem-aventurança por teres renegado a fé, errarás, como uma sombra aflita,
na vastidão do céu negro, através de interminável dor, aos encontrões com as sombras
condenadas de Sardanápalo, o pagão, e do aborrecido Pilatos!

Ah! Bem Público, excêntrico maganão, conserva-te quieto na tua doce sombra!
Reza, jejua, canta no coro, usa cilício - mas deixa-nos em paz.
Contenta-te em ser um jornal boa pessoa, pesadote e pacatote - e a ter o inteiro aplauso
de antigos egressos. Mas não venhas interpor-te no nosso caminho. Toma ao teu canto o
teu rapé, e usa em silêncio a tua flanela. E serás grande, ó Bem! ó bom Bem! á
Bem bom! Bum!

Uma Campanha Alegre (Volume II, Capítulo I: O Ano Bom de 1872)
por Eça de Queirós

Janeiro 1872
Aí o tens defronte de ti, mudo, impenetrável, com o seu largo chapéu de feltro
escondendo a face, a capa cor de mistério traçada à Lindor, e altas botas de pregas
reluzentes. A ponta da sua espada ergue de leve, por trás, uma prega subtil, a orla do
manto escuro. O traidor! - vem armado!
Como será o seu rosto - claro e pacífico ou sombrio e batalhador? E os seus cabelos grisalhos e acamados como os de um musgoso conservador, ou negros e revoltos como
os de um revolucionário impaciente? E a palma da sua mão - macia e fácil como a do
que espalha dinheiro, ou adunca e áspera como a do avaro ganchoso?
"Quem o sabe? Quem o saberá?" diz o cuco da lenda.
Que te trará ele a ti, fiel camarada das Farpas e da sua campanha irónica? Um acesso no
teu emprego? A herança de um velho tio? Uma noiva de cinta airosa? Uma bela viagem
por conta do Estado? Um pequerrucho guloso de leite?
"Quem o sabe? Quem o saberá?" diz o cuco da lenda. Que ele, o Ano Novo amável, te
conserve a cabeça serena, o estômago são, o bolso sonoro, e a mão decidida.
Eis o bom e o positivo na vida. E também que faça penetrar em ti como um calor
reconfortante a estima das Farpas - ou, pelo seu nome genérico, a estima do Bom senso.
E que trará ele à Pátria? É justo que pensemos um pouco na Pátria. Porque enfim, temos
uma pátria. Temos pelo menos - um sítio. Um sítio verdadeiramente é que temos: isto é
- uma língua de terra onde construímos as nossas casas e plantamos os nossos trigos. O
nosso sítio é Portugal. Não é propriamente uma nação, é um sítio. Já não achamos mau!
A Lapónia nem um sítio é: apenas unia dispersão de cabanas na vaga extensão da neve.
Podemos pelo menos desdenhar a Lapónia. A miserável Lapónia!
Como a nossa organização é mais rica, a nossa raça mais digna! Nós ao menos temos
um sítio!
O que vai trazer à nossa terra, debaixo da sua capa, o digno Ano de 1872?
Trar-lhe-á a paz, como um folhetim monótono continuado da véspera?
Trar-lhe-á a guerra, como uma aventura emovente a marche-marche?
Trar-lhe-á, embrulhada num cartucho, a revolução?
Trar-lhe-á, no meio de um espantado oh! universal - uma ideia?
Trar-lhe-á entre os braços, para lhe depositar no colo, uma nova dinastia - de mama?

Trar-lhe-á, como um noivo para a fecundar, o exímio prelado de Viseu que recua e cora
de pudor?
Atirar-lhe-á aos pés, como um mimo de Céu, Melício, melhor que os favos?
"Quem o sabe, quem o saberá?" diz o cuco da lenda.
Nem ele mesmo o sabe talvez, o Ano Novo! Os anos chegam desprevenidos, sem plano,
e começam por tomar informações com os anos que saem. E então, pelas notas colhidas,
como um dramaturgo, preparam os seus episódios! Ah! que diria o Ano
Velho, ao partir com as suas malas e as suas rugas, a este Novo Ano que chegava, inexperiente e curioso? Que confidências trocaram, ao encontrar-se nessa misteriosa estrada
por onde caminham os dias e os anos, pacientes transeuntes da Eternidade?... Pois nós,
Querido público, eis-te diante de um Ano Novo - o ano de 1872. os feiticeiros das
Farpas, por grande maravilha o sabemos! Ano Velho e Ano Novo cruzaram-se na
fronteira, em Badajoz. O Ano Velho estivera trezentos e sessenta e cinco dias em
Portugal; recolhia enfastiado e embrutecido; tinha os dedos queimados do cigarro;
levava o estômago estragado da mesa do hotel; ia ressequido da falta de banhos;
palitava os dentes com as unhas; sabia ajudar à missa; assoava-se a um lenço vermelho;
perguntava a todo o propósito que há de novo? - e era reformista. Estava aportuguesado.
Ano Novo, esse, saía da frescura do Céu.
Cumprimentaram-se, risonhamente.
E no silêncio da noite, à sombra dos muros de Elvas, de onde nós escutávamos, palpitou
entre os dois, vivo e rápido, este diálogo:
Ano Novo (preparando a carteira e o lápis):
— Este país em que vou entrar é uma monarquia ou uma república?
Ano Velho (gravemente):
— As geografias dizem que é uma monarquia... Pelo que vi pareceu-me que nem era
uma monarquia, nem uma república - e que era apenas um chinfrim.
— Mas, Ano Velho, pelo menos há um rei?
— Há um, Ano Novo. Os jornais revelam de vez em quando a sua existência - contando
que fora fotografar-se! É quanto se sabe da sua vida pública.
— Mas, esse rei reina?
— Reina - como quando se diz na descrição de uma sala: "no alto, ao pé da cornija,
reina um friso dourado...
— E por onde se governa esse país?

. — E de onde saem esses homens? — Do liceu. são chamados a desatar . É tudo o que o país sabe dela.. e aos 45 inúteis e semi.. não se estuda? . — Sem nunca entalar os dedos? — Bem ao contrário! A alguns fica-lhes na mão o pó da corda.em suetos. Dinis. — É uma espécie de nó que todos.. caro colega.e que cada um aperta mais.mo e Ex.— Este país tem a Carta. para pagar as despesas da casa .. e actua nas repartições de ano a ano . mas há uma Universidade. Cada ministério. — E de que vive o país? Tem rendimentos. — Mas aí... São salas onde homens tristes escrevem em papel almaço "Il.uns cinco ou seis mil contos. Mas é apenas um edifício histórico para se provar que existiu D. vem a ser?.. onde em rapaz se decoram bocados de livros para ter o direito de não se tornar a ler um livro inteiro depois de homem. Quando se pertence a um partido. — Perdão.e a que puxa o chefe do partido. um por um. sempre com o freio nos dentes! — Mas a questão da fazenda. seu fundador. — Pertencer a um partido. parece.. Ora é com esse pó que se compram os melões.. todos os anos.. que é um lugar com bancos. de ter a mão na chave da despensa. — Um momento! Eu sou um simples. — E o País.. que se manifesta todos os meses nas músicas regimentais — em hinos. aos 30 inúteis. mo Sr. em que se emprega?. um ingénuo..isto é. É a isto que eles chamam ..as finanças. — Nas secretarias. O que é um ministério? — É uma colecção de doze homens que se encarregam (seis trotando a cavalo atrás dos outros seis) de governar o País .. — É meter-se a gente num ónibus que leva aos empregos . dizia. — Há.para poderem jantar. chego." .. tem orçamento? — Tem de menos. Santo Deus. e ter este acesso: aos 20 anos semi-inúteis.

que acabou há um século. lê lá dentro um romance que traz na algibeira.consentindo-se ao povo. — Há ainda. a teologia.... a ciência dos ignorantes. . faz uma cortesia profunda ao lente. nomeados pelo Governo. para o contentar. e a riqueza dos pobres.e que estão atrasadas vinte anos.passando por Santos e Silva. — Perdão..unia qualidade que se exige para tudo."eloquência parlamentar?" — É a série de palavras sabidas que vai de Barros e Cunha a Osório de Vasconcelos .— Sim.. outra câmara — A dos pares. e sai fazendo ao lente outra cortesia profunda.com excepção de uma. Bento. — E a que chama a política. — E tudo isso para quê? — Para se ser bacharel . — Na aparência sentados. . — E qual é a posição dos deputados?. ao que parece. — Ah sim! a posição para com o Governo? Empregados de confiança do Governo. É um forno apagado onde cada Governo mete lenha nova . — A política é a ocupação dos ociosos. e que se não respeita para coisa nenhuma... Se não fizer isto é reprovado. estudam-se ciências que levam cinco anos a estudar . ao entrar. meu amigo? Tenho-lhe ouvido. — Quem são esses homens? — São eles mesmos . por dentro de cócoras.para poder cozer o seu pão.e têm um trabalho imenso para serem tanto. . — E como é a organização dos estudos? — O aluno.. — Reside em S. que assine o decreto! — Explique-me uma palavra dos meus apontamentos: . — Um santo do calendário? — Uma sala que a Carta instituiu para perpetuamente se discutir quem há-de organizar o País definitivamente.

— Estranhos casos! E há um partido antidinástico?...
— Perfeitamente: há um partido que se ri do rei por ter tão pouco poder sobre o seu
povo - e lastima o povo por sofrer tanto poder do seu rei.
— Fale-me da aristocracia...
— É uma colecção de capacetes, vazios das velhas cabeças, as quais iam cair ao chão, e
onde se metem, para os sustentar, cabeças novas de merceeiros, que pagam para isso ao
Governo.
— Ainda bem! fale-me agora do povo...
— É um boi que em Portugal se julga um animal muito livre, porque lhe não montam na
anca;
— e o desgraçado não se lembra da canga!
— E a burguesia?
— Chuta! Mais baixo! Esse é o nome de desprezo com que os tendeiros enriquecidos
que já descansam, fulminam os tendeiros pobres que ainda trabalham.
— E este País, que crédito tem entre os outros, para além dos Pirenéus?
— Portugal, lá fora, é estimado pela laranja.
— E a diplomacia?...
— Cada Governo, meu amigo, costuma mandar como embaixadores para fora, aqueles
que não quer ver dentro como chefes da oposição. Na realidade os diplomatas são como
os criados que os companheiros mandam espreitar para a sala - para eles comerem mais
à vontade na cozinha.
— Tem viajado decerto, amigo. Fale-me das cidades... Há boas estradas?
— Há: mas estão todas na secretaria das obras públicas, para não se deteriorarem.
— E o caminho de ferro?
— É novo em Portugal, gatinha ainda.
— Mas... E o Porto o que é?
— Uma terra onde se é negociante para ter os meios de fingir que se é aristocrata.
— E Coimbra?

— Uma cidade onde o município não varre as ruas para não perturbar os que estudam enquanto os que estudam, com o barulho que fazem na rua, não deixam dormir o
município.
— E Lisboa, enfim?
— Lisboa é a cidade onde Melício habita. De resto uma burguesa que desejaria parecerse com uma cocotte - se pudesse costumar-se a lavar os dentes.
— Mas então os Portugueses não são escrupulosos no asseio?
— Outrora, colega, quando os criados inexperientes dos hotéis viam chegar o viajante
português, traziam-lhe, como a todos, uma tina cheia e fresca. E o Português respondia
invariavelmente: "obrigado, não tenho sede!"
— Mas a vida elegante de Lisboa?
— É não ser cigarreiro da fábrica de Xabregas. Tudo o mais é elegante.
— E os Portugueses são inteligentes ao menos?
— Foi o ABC que espalhou isso - vaidoso de que o tivessem compreendido!
— E a família?...
— É um grupo de egoísmos - que janta de chinelas.
— Mas as mulheres?
— Pessoas excelentes, que têm a doçura de fingir que não têm espírito - só para não
humilharem os maridos!
— E são bonitas?
— São bonitas - nos intervalos da cuja.
— E honestas?
— Muito mais do que os maridos dão a entender.
— E ternas?
— Aprenderam a ternura de cor - mas recitam-na mal.
— Que tal conversam?
— Não se sabe. Nunca tiveram com quem.
— E amorosas?...

— Diz o Sr. Vidal que sim.
— E femininas?
— Meu amigo, são utilitárias. Acham em tudo o que acharam na própria valsa - uma
utilidade.
— Na valsa? qual é?
— O meio de suar com elegância em sociedade.
— Oh! bom Deus, voltemos às generalidades! O País é rico?
— Portugal é um país que todos dizem que é rico, povoado por gente que todos sabem
que é pobre.
— Mas a agricultura?
— A agricultura aqui é a arte de assistir impassível ao trabalho da Natureza.
— E as colónias?
— Velhas salvas de família, que se enferrujam ao seu canto.
— Mas este País tem um exército...
— Pode-se permitir essa formalidade - porque tem segura a paz.
— E polícia?
— A polícia é uma instituição que passeia aparatosamente em certas ruas - para prevenir
os malfeitores que vão para outras.
— Falou de malfeitores. Como são as cadeias?...
— São latrinas - onde também se guardam presos.
— Mas a Câmara Municipal, ao menos vela pela cidade?
— Zelosamente. Por uma das suas posturas, por exemplo, é proibido a qualquer
cidadão, sob pena de uma grave multa, ter em sua casa, mais de seis meses - um lobo
danado!
— É extraordinário! E o bom senso, não o há?
— Evita-se: porque tê-lo chama-se pedantismo, e publicá-lo chama-se insulto.
— Mas esse povo nunca se revolta?
— O povo às vezes tem-se revoltado por conta alheia. Por conta própria - nunca.

— Em resumo, qual é a sua opinião sobre Portugal?
— Um país geralmente corrompido - em que aqueles mesmos que sofrem não se
indignam por sofrer. De resto a Pátria do grande Afonso de Albuquerque e de outros.
— E não há um protesto? Agora me lembro! As Farpas? fale-me delas...
— Um jornal que tem um só merecimento - sentir-se com bom senso e não aspirar à
ditadura.
Mas tendo percebido que os escutavam (éramos nós) o Ano Novo e o Velho Ano
separaram-se, com grandes shake-hands. E o Novo Ano, senhor de uma série de
definições que o habilitavam a conhecer o País, entrou a fronteira, ao repicar dos sinos.
Bem-vindo! E Boas-Festas!

Uma Campanha Alegre (Volume II, Capítulo II: Epístola ao Sr. Fontes Pereira de
Melo, sobre o imposto do pescado)
por Eça de Queirós

Janeiro 1872.
Anda às vezes uma lancha quarenta e oito horas sob a chuva, o vendaval e a neblina, na
inclemência da água. Os homens estão perdidos e trabalhados, como dizia
Camões. É necessário passar a noite no mar. Deitam a âncora e as redes, acendem uma
lanterna, persignam-se, e, sob a escuridão e a tormenta, embuçados nos gabões,
encharcados, ali ficam no vasto mar escuro. Tudo isto para erguer as redes vazias,
quantas vezes rotas! Vão homens e vão crianças. Um homem de companha ganha 80
réis por cada pesca, dois dias de trabalho áspero. Uma criança ganha um vintém. E
necessário ver como habitam. Em Espinho - e é uma das costas mais populosas e mais
ricas - vivem em casebres de pau, onde a chuva, o vento, a névoa, entram livremente;
dormem sobre farrapos de velhas jaquetas e de antigas velas inúteis; comem numa
grande tigela, promiscuamente, a caldeirada escassa de sardinha e côdeas de broa. Isto
no tempo feliz e abundante. No Inverno internam-se e pedem esmola. Tal é aquela vida
a traços largos. Escusamos falar-lhe, sr. ministro, dos temporais, dos naufrágios, de
barcos partidos, de redes inutilizadas, do fim deles sobre a terra, que é o hospital, do seu
fim debaixo da terra, que é a vala. Vir sobre estes homens o fisco, e tirar-lhes, por meio
de unia conta de dividir, parte daquilo que eles ganham por meio de um risco de morrer,
era excessivamente torpe, mesmo para portugueses! Os pescadores têm, sr. ministro, um
verdadeiro imposto: as grandes ondas que viram as lanchas.
Agradecemos, sr. ministro, a sua simpática iniciativa.
Ao Ex.mo Sr. Fontes Pereira de Melo. - Vimos agradecer-lhe, sr. ministro, a proposta
pela qual é extinto o imposto do pescado. As Farpas tinham apresentado, com um relevo
doloroso, toda a cruel indignidade desse imposto. Não sabemos se V. Exª já viveu algum
tempo nas costas de Portugal. Devia-o ter feito. Nada mais duramente instrutivo. Um
interior de cabana ensina mais que um livro de Maurício Block. (Mesmo os livros do
dito Maurício não ensinam nada). A pesca não constitui uma indústria regular, mas um
ganho de surpresa. O mar, sr. ministro, não tem a calma tranquilidade da terra. Essa
estende-se ao sol, como a ninfa antiga, e deixa serenamente na sua impassibilidade santa
que a violem, a dilacerem, lhe tirem o vinho, o pão, as frutas, até o carvão, e aos que a
rasgam e roubam dá tudo o que é necessário para que o corpo viva, e ainda a mais as
verduras e as flores para que a alma se alegre. O mar, sr. ministro, esse, defende-se.
Olha o homem como um inimigo; cerca-se de rochas, embuça-se traidoramente na
névoa, apavora com o seu ladrar monótono. É necessário espreitá-lo, ver quando dorme:
então o pescador, rema em silêncio, deita as redes, e rouba-o. Já vê, sr. ministro, que não
temos aqui uma indústria disciplinada - mas a pirataria da fome.

o índia. que é novo. vê que lhe cumpre sustentar o nome da Lusitânia. O índia .mete apenas cinco polegadas de água por dia! E todavia o Índia podia . o Índia) por Eça de Queirós Janeiro 1872. defesa das nossas colónias. o Índia é o nosso glorioso vaso. o Índia . comprado com madura reflexão. que sábias comissões aprovaram. glória da nossa marinha.quem lho impediria? quem ousaria coibir-lhe a nobre vontade? -o Índia poderia não ter casco! O Índia poderia não ter costado! Mas não! o Índia sabe os deveres de todo o honrado transporte de guerra para com a Pátria que o emprega. que uma recta imprensa exaltou. compreende a responsabilidade que arvora. o melhor navio que temos. expressamente feito para uso do País. conhece o brasão heróico que usa. impecável. o índia . e portanto o Índia. perfeito. examinado com escrupulosa ciência.limita-se a meter apenas cinco polegadas de água por dia! O Índia. garantia da nossa honra. com uma moderação que nos comove até às lágrimas. Louvemos a Providência em humilde atitude: o Índia podia não ter fundo! Mas não.Uma Campanha Alegre (Volume II. o navio novo. que professores da escola normal celebraram. que custou muitas mil libras.mete apenas cinco polegadas de água por dia! . Capítulo III: O nosso melhor navio de guerra.

Excelentíssimo prelado! Isto é simplesmente o missionarismo que ameaça a virgindade. reverendíssimo prelado. Ao Sr. D. britar pedra com a argola da grilheta! . Capítulo IV: Epístola ao sr." O que significa. irritado da contradição.Uma Campanha Alegre (Volume II. nos tribunais civis. Américo. A discussão tomou unia feição teológica. por um chamado Rocha. excelentíssimo prelado. um assassino declarasse que matar. eu digo que melhor. levado. sustento-o! E um bem. bispo do Porto. Dezembro. e Rocha. a respeito dos maus sacerdotes) por Eça de Queirós Janeiro 1872. que se haviam sacrificado pela justiça. . de decidir se existem as famosas labaredas do Inferno. que . se um ladrão se gabasse de que roubara sicrano. porque aumento a população. que é no mundo eclesiástico . para a qual chamamos a atenção inteligente de V. ataca e grita: — "Ah! eu estou convencido de ser impudico? Melhor! Confesse o meu impudor. Pois bem. fulano. Camilo Castelo Branco traz a ela toda a originalidade fogosa da sua veia peninsular. Exª e a sua autoridade hierárquica: "Diz o Sr. Se. digníssimo prelado: "É um bem que os missionários seduzam as suas ouvintes . defende os missionários. Temos aqui o missionarismo. esta frase. violentamente contra o muro .nós mandaríamos estes dois reformadores beneméritos.qualquer coisa. eclesiástico. encrespa-se. para diminuir a população. O Sr. a interferência da sua mitra.faz como os gatos longo tempo perseguidos e espicaçados. requenta sediços argumentos teológicos. parece. Camilo Castelo Branco.ferido. Camilo que a presença dos missionários aumenta a faina da roda dos expostos. torcendo-se sob a mordedura da verdade.porque aumentam a população. no ano de 1871. assanha-se." Foi escrita esta frase. Bispo do Porto.Deve Reverendíssima saber que o Diário da Tarde. jornal dessa diocese. Trata-se. porque aumenta a "população. tem publicado cartas trocadas entre o Sr. sopra." E prepara-se! Pedimos. e aconselha a prática das suas doutrinas. para fazer girar os capitais . o chamado Rocha divaga. na cidade do Porto. Ora numa das cartas do dito Rocha encontra-se. excelentíssimo prelado. entre nós os profanos. desenrosca-se. que no mundo profano é um romancista excelente.

Ex na sua capela um lugar para irmos aí agradecer a Providência maternal. de rojo nas lajes . que atenda a que a frase do chamado Rocha é a expressão sintética de uma teoria de missionário. Exª Reverendíssima. não deixarão passar em impunidade a palavra do chamado Rocha. 0 Admiradores da ciência e crentes da virtude de V.para aumentar os homens! Se nada estatuem. no meio das nossas desgraças e da nossa pobreza. dê-nos V. a V. nos dá ao menos o moedeiro falso que aumenta o capital e o missionário que aumenta a população! Como.e que uma vez que os seus padres.pois que é tão benévola com a terra de Frei Bartolomeu dos Mártires que. . como somos. desfaria o seu azorrague nestes vendilhões de bentinhos. Exª. Exª que açame os seus padres! Beijamos o anel pastoral de V.Não sabemos o que as leis eclesiásticas cominam àqueles senhores missionários que entendem do seu dever desflorar as mulheres . excelentíssimo prelado.sendo.que os missionários são muitos.que Cristo. vimos humildemente pedir. . excelentíssimo prelado.que os maus sacerdotes fazem desertos os melhores altares. então. não será injusto que nós supliquemos a V. . ameaçam aumentar a população. o supremo Mestre. . porém. a justiça e conhecida dignidade de V. Exª Reverendíssima . . Exª Reverendíssima.

Foi por o não ter domado que Babilónia caiu! É um erro que uma nação comece a viver . toda a virtude de alma. Revela-o ele. toda a elevação de carácter. está desde esse momento. Quem doma o Indostão. no Diário de Notícias. Doma o Indostão e não faças estradas a circulação aumentará. puser restrições ou dúvidas . toda a abundância de riqueza.a população saberá ler.Uma Campanha Alegre (Volume II.é burlesco. Assim as Farpas seriam burlescas . Braamcamp ou sobre a grandeza de qualquer instituição nossa. Capítulo V: Pinheiro Chagas) por Eça de Queirós Janeiro 1872. Braamcamp um grande filósofo? . Braamcamp. trocando os períodos sonoros que o puro Fénelon lhes colava alternadamente aos lábios. a excelência da nossa instrução pública. segundo o feliz Pinheiro Chagas. tão perfeito que na sua superfície social e morai não é possível encontrar nem uma fenda nem uma mancha: e aí declara que todo aquele que achar na Lusitânia defeitos e no cisne farruscas . com a nossa energia.se ousassem duvidar da superioridade filosófica do Sr.como aquela cidade ideal onde o jovem Telémaco e o calvo Mentor passeavam. sorrindo.desde o momento em que nós outrora domámos o Indostão! É este um sistema de progresso social fácil e cómodo: domar o Indostão. desenha o País como superiormente perfeito. desta superioridade inteiramente inacessível às raças inferiores? Duas provas: Termos descoberto o caminho da índia! Termos. coroados de louros. nem a instrução se pode esquivar a ser tão derramada como na Prússia . nós possuímos toda a perfeição de administração. E todo aquele que.sem se ter prevenido com alguns Indostões domados. E isto porque nem o Sr. muito finamente. Doma o Indostão e fecha a escola . ou sobre a filosofia do Sr. Parece que. domado o Indostão! Assim. toda a beleza de forma . Aí. Doma o Indostão e deita-te a dormir. E sabem quais são as provas que o nosso admirável amigo dá deste estado de perfeição a que chegou Portugal. .sabem porque razão é o Sr.Porque nós descobrimos o caminho da índia. acusando com gentil espírito. na plenitude da verdade e na posse da abundância. e sê-loiam se se atrevessem a negar. Braamcamp pode eximir-se a ser um filósofo tão profundo como Kant. os que "fustigam a Pátria".é burlesco. Foi por não o ter domado que a França se acha nos embaraços da inconstituição. segundo esta teoria de impecabilidade . no seu folhetim de 5.

Querem conhecer um cidadão absolutamente optimista. Que novo agravo . que o Indostão foi meu!" .. E o Indostão. em verso: "Zoilos... tremei. os estudos são perfeitos.. desgraçadas?. As Farpas condenam o procedimento tumultuoso da Câmara dos Deputados.. Que ousais dizer. nesta terra? .As Farpas acusam a desorganização dos estudos.É o nosso amigo Pinheiro Chagas. Como esqueceis o Indostão domado? As Farpas acusam o enfraquecimento dos caracteres. pois não domámos nós o Indostão?. vejase a energia com que domámos o Indostão!. O País pode e deve dizer. As Farpas censuram a ineficácia da direcção económica. As Farpas revelam a decadência literária. Mentira.. rara avis. o soberbo Indostão domado.pois nem a recordação do Indostão que domámos?...

Mais ainda! Littré é ser (parte do Universo. de homem. porque a carreira sacerdotal de SS. Enquanto a eleições. que é incompatível com tudo o que é Littré. segundo a opinião recente do clero. Sª depende essencialmente da sua habilidade eleitoral: e SS. Mas sendo Littré cidadão francês . sábio latinista e panfletário ilustre? Em Portugal. se é consequente. E enfim demitido de académico. Capítulo VI: Incoerências eclesiásticas) por Eça de Queirós Janeiro 1872.Uma Campanha Alegre (Volume II. Ora. De sorte que. deve trabalhar até conseguir . a demitirse da sua qualidade de homem. Dupanloup.não pode tratar de eleições.e o positivista Littré é deputado à assembleia.as não foram subtis apresentando a caça ao voto incompatível com a devoção a Roma. etc. demitir-se de cidadão francês. de francês. Dupanloup. e portanto o lógico e incompatível Mgr.) são em Portugal associações públicas com os seguintes fins: Eleições. S.deve Mgr. bem entendido. Isto. porque onde está a fédupanloup não pode estar a impiedade-littré . Socorros mútuos. um católico .a sua demissão de ser. jacobina. como sabem. Resta porem alguma coisa. hoje as associações maçónicas (que perderam há muito a sua feição carbonária. Dupanloup (se nos não trans-via uma errónea lógica) a pedir a sua demissão de deputado à assembleia. positivista e académico recente. proteger e auxiliar os seus amigos. Beneficência. deste bispo de Orleães. Ainda há pouco Mgr. e o princípio de Mgr. E não é tudo ainda. de deputado. e de ser . Nem socorrer. Littré é animal vertebrado. Dupanloup obriga-o desde já. Dupanloup deve correr perante a autoridade competente e demitir-se nobremente de animal vertebrado. Littré é homem. agora.o que fica. etc.) e Mgr. pedia à Academia a sua demissão por incompatibilidade com Littré. obrigaria Mgr. pela lógica da incompatibilidade. de matéria. Auxílio e protecção recíproca aos irmãos no País e no estrangeiro. eclesiásticos são os mais lesados em que haja incompatibilidade entre a qualidade de católico e de agente de eleições. os srs. bispo de Orleães e antigo académico. o clero descobre incompatibilidade entre a qualidade de católico e a qualidade de mação. Dupanloup. segundo as suas palavras. .

Quererão SS.perde um formoso apoio: e se. . O clero começa a reconhecer entre a Igreja e a vida incompatibilidades inesperadas. acolhe Melício com amoroso braço. para ganhar o Céu.Querem os srs. párocos definitivamente abandonar a urna? Então SS. Porque se é um pecado irresgatável o ter trabalhado em eleições (o que constitui uma das ocupações da maçonaria). Pretendem continuar a proteger candidatos? Em tal caso perdem a sua natureza católica e não podem ganhar pelo altar. esquecido todos os deveres cristãos. eleitoral. Devem lembrar-se que a Igreja vive de esmolas! que o Papa vive de esmolas! E essa teoria nova leva a suprimir o dinheiro de S. e em vivo a delícia de gozar como deputado o Sr. Melício . perde o Paraíso. Enquanto a socorros e protecção . na luta política. Ou S. rasgam-se.outro emprego fortuito da maçonaria. repele Melício com pudico e místico meneio .entre o Céu e a maioria. para ter esse voto considerável. sacerdotes sejam muito mais hábeis. o que lhe traz a perda do poder! Porque ter depois de morto a glória do Céu. a côngrua. mas a maçonaria é hoje simplesmente uma sociedade constituída para fazer eleições.não nos parece que os srs. ou contentar a Igreja.não pode ser! Tem de escolher entre Melício para a câmara e o Céu para a bem-aventurança.a Igreja portanto condena completamente o tráfego eleitoral. em companhia criminosa. S. nem fins mais altos reúnem-se usualmente como bandas de música! E assim chegaremos ainda a tempos amargos em que os jornais publiquem esta retractação: "Declaro que renego e me arrependo do facto culpado e terrível de ter. Se. o que lhe atrai a reprovação da Igreja. Pedro. podem dar-se casos terrivelmente burlescos. influenciassem. Tem de decidir . declarando que ser católico é incompatível com ser beneficiente. todos os haveres eclesiásticos. Devoto. E por esta estrada de votos que se chega às boas paróquias. numa diocese próxima de Lisboa.não tendo trabalhos. Tem pois o Governo a escolher entre fazer eleições. . para achar nela incompatibilidades com o Céu.as arriscam-se a criarem bolor nas suas pobres paróquias de aldeia. por todos os modos patentes e ocultos. Na última eleição. sê-lo-á igualmente ter pertencido a unia filarmónica . perde as eleições.lhe sob os pés as fendas do abismo teológico. a autoridade eclesiástica superior oficiou aos párocos de todas as suas freguesias para que desenvolvessem o maior zelo. Em algumas terras do reino as sociedades maçónicas filiais . S. Pedro ou Melício. e sob a influência do espírito mau tocado o "Barba Azul" no clarinete!" Não se vê menos embaraçado o próprio Governo.as dizer-nos que não trabalham em eleições? É a sua missão mais clara e efectiva. Por outro lado se o sacerdote começa a esmiuçar à beira do leito de morte a vida do moribundo. ele! A Igreja condena a maçonaria.

Que fazer? colher Melício? . e deixa. Melício. E enfim o Céu é o Céu. o pomo de onde depende o Bem e o Mal! (E não falamos do Sr. perde um voto imenso. Satã. deita-lhe a mão à gola do casaco: se se afasta. Porque aqui Melício é mais que homem.Melício está-lhe de frente. Deixar Melício nas árvores para que os pardais o comam? . Se estende mão ávida para colher Melício.é a queda do poder. d'Ele. com todas as apetitosas atracções da maçã proibida. nas manhãs do Paraíso. mas um Melício é um Melício. Melício baloiçando-se na ponta do ramo verde. aqui Melício é pomo. inteligente e laborioso rapaz. de Melício!) Que fará o Governo nesta questão espinhosa? Renunciará às eleições ou renunciará ao Céu? . que amamos: falamos do grande símbolo constitucional.é o ranger de dentes. o terrível comissário civil do abismo. sem o colher.

Estranha inconsequência provinciana! Escandalizar-se uma excelente vila . "Sei .. fosse concedido a este concelho o continuar a administrar . Sampaio . as vielas descalçam-se.. . Dizem-se apenas meias palavras e aperta-se apenas meio botão. como não se vestem inteiramente os casacos: a vida e os casacos -trazem-se às costas. Pois bem.. dotemos as nossas escolas? quer amarrar a vontades alheias a força dos nossos braços? É assim que recompensa o nosso zelo provado?. A vila está entregue aos acasos naturais. os porcos fossam às portas.. Nenhuma polícia. nas esquinas os bêbedos..que muitos concelhos mortos para a administração vão ressuscitar para a resistência. até à cadeia que vai perdendo as grades. as autoridades espreitam do canto. Há concelhos cm que nem câmara. uma égua que trota. no dia da procissão dos Passos. ninguém é vivo. um dia uma portaria diz: "Este concelho está extinto . nem se conserva coisa alguma. os maus cheiros fazem atmosfera.porque a lei lhe legitima o erro! Reclamar . no mercado a desordem.porque o que fora o vício da sua imbecilidade se torna a virtude da sua obediência! Singular. Nenhuma higiene: a imundície apodrenta em sossego.ele continuaria a apodrecer. os enxurros empoçam. os muros aba-tem. Não se cria nada.o que até aí era nela desleixo! Amuar-se . na taberna o jogo. A administração namora as moças.Uma Campanha Alegre (Volume II. a regedoria barbeia os fregueses. Nós que há tanto tempo curamos desveladamente.." Ora se. Nenhumas obras. surpreendem: as crianças escancaram a boca. O que há serve tranquilamente para se estragar: desde a escola que vai perdendo os discípulos. nem administração. Um marchante que passa.diz o Sr. nem regedoria se manifestam mais do que em atravessar pomposamente a praça. Não se vive inteiramente. É uma vila que apodrece. etc. Indignação! Clamor! "O quê! quer o Governo impedir que nós mesmos construamos as nossas estradas. Há aí o silêncio dos sítios em que cresce o bolor.e fica anexado a tal outro. uma frase de poderosa realidade. Ninguém é rico. singular! Há no relatório da Reforma de Administração. a praça é uma capoeira pública. em atenção a estas reclamações ansiosas." É a verdade.por a lei lhe tirar um trabalho que ela espontaneamente já tirara de si! Arrufar-se porque a lei lhe estabelece como preceito . fazendo reluzir ao sol o óleo espesso do penteado. Capítulo VII: A descentralização administrativa) por Eça de Queirós Janeiro 1872.

" . José. é possível. porém.não difere inteiramente de roubar uma bolsa alheia para saciar um vício próprio. não findem os dias Que eu ditoso prelibo a teu lado. ministro ordenou que se redigisse uma portaria no sentido inteiramente justo de fazer uma inspecção ao hospital. Tal se nos afigura este caso imundo. mas que.. ministro se arrisca a empalidecer de surpresa diante de todos os números do Diário do Governo. positivamente se reconhecia que era um crime! Os jornais oficiais acodem. Alves Branco um silêncio. ministro sustente. .Uma Campanha Alegre (Volume II. Nunca sói o momento fadado. Capítulo VIII: Acerca da redacção das portarias) por Eça de Queirós Janeiro 1872. o que assinou por surpresa. tão anti-higiénico. oh Deus. tendente a mostrar que a portaria que impunha ao Sr.que consiste em meter sub-repticiamente a mão na algibeira de um semelhante e privá-lo dos seus valores. para sempre infamantes: "Pela presente portaria fica determinado: Que não fujam. Roubar uma assinatura oficial para legalizar uma acção particular . ministro assinou a portaria sem a ler! E exaltam a sua dedicação em aceitar a responsabilidade pública daquela distracção burocrática! É realmente louvável que o sr. era uma portaria que de longe se parecia com uma torpeza. No entanto parece-nos que. sobre o hospital de S.. Mas seria mais louvável que castigasse a surpresa para desafrontar a dignidade! Porque o introduzir sub-repticiamente. Tínhamos já coordenado uma página. e que os senhores empregados se equivocaram a ponto de a redigir . Em que eu deva deixar-te e partir. António Rodrigues Sampaio. o sr.no sentido de proibir toda a crítica e exame do hospital.O ministro. Estando as secretarias. como é notório. vista de perto e mais à luz. papéis obscenos. que se leiam ainda estas linhas. a declarar que o sr. por dignidade. Mas houve realmente distracção ministerial? Antes queremos acreditar que o sr. "Secretaria dos negócios do reino. sob a pena ministerial que vai correndo. se não der alguma atenção mais aos papéis escritos que lhe passam sob a pena. povoadas de vates líricos e outras espécies sentimentais não menos torpes. é uma acção cuja índole se parece singularmente com aquela outra tão conhecida dos tribunais .

.Enquanto à portaria em si própria. todo o seu castigo está neste facto : declara-se oficialmente que ela foi introduzida enganosamente à assinatura do ministro! O que as Farpas pudessem considerar sobre esse documento. Aquela declaração é para ela a mordedura fumegante do ferro em brasa.seria apenas a beliscadura débil de uma unha irónica.

O concurso era documental. Eis o que sucedera: A lei diz: . como lhe impunha a lógica e a força inatacável dos documentos. Ora acontecera que o Sr. requereu precipitadamente à câmara para ser incluído no recenseamento. A administração do hospital classificou o Sr. Boaventura Martins.."Não pode exercer lugar público o indivíduo que não tenha sido recenseado. o Sr. porque o contingente do seu ano estava plenamente preenchido. O Governo também o considerou digno dessa classificação. "Que fazer?" como se diz nas óperas cómicas. Boaventura em primeiro lugar. tinham uma evidência iniludível. e tirou dele esta sentença: "O Sr. Um o Sr.. Pois foi justamente fundado nele que o Governo o excluiu do lugar! Não podendo negar-lhe a superioridade de classificação . A câmara respondeu com bom senso que. espuma paradoxalmente de pilhéria. Boaventura juntou aos seus papéis este atestado da câmara. O Sr. Dois médicos aparecem. Boaventura não fora recenseado em tempo competente por descuido da câmara.. o Governo confessa: Que dez louvores e seis prémios num curso habilitam. que estala de riso por todos os poros. concorrendo. os louvores. tacitamente. e tem apenas um R. Boaventura não devia ser recenseado.negou-lhe a validade do concurso! De sorte que. Havia um lugar de cirurgião do banco no Hospital de S. tendo dez aprovações plenas com louvor. por causa de mim. Somente sucedia que o ministro não queria despachar o Sr. Não queremos privar os nossos amigos da história de um concurso. Boaventura e ansiava por despachar o cavalheiro do R. Boaventura a exercer o lugar de médico do banco do hospital: somente que de nada lhe valem louvores e prémios. apresenta como documentos os certificados de onze cadeiras do curso médico. com superior razão. O outro concorrente não tem nos seus documentos nem louvor. tendo passado os 21 anos da lei. nem prémio. cintilante de jovialidade. e que seria inútil que o fosse. Quando reconheceu esta omissão. os prémios.. Mas (supremo embaraço!) os documentos. Surpresa! Assombro!. o Sr. Boaventura não pode ser despachado por não ter sido recenseado". não! esse cavalheiro requereu para ser recenseado! somente é agora inútil que o seja porque o seu contingente está preenchido!" . José. e seis diplomas de prémios.Uma Campanha Alegre (Volume II. Capítulo IX: História de um concurso) por Eça de Queirós Janeiro 1872.". porque a câmara municipal se esqueceu de o recensear! Debalde a câmara exclama pela voz dos seus documentos: "Não. O Governo ruminou nas profundas do seu peito.

"Não! desde o momento em que a câmara se esqueceu de o recensear. seria um soldado do 18 com a autoridade da sua fardeta suja. Boaventura . segundo a doutrina do Governo. Ora ninguém negará que qualquer soldado do 5 ou do 18 está mais bem recenseado. Portanto quem. para curar. esse médico pode ser um hábil carpinteiro. Logo o recenseamento substitui o curso.para despachar um cavalheiro protegido e querido! Portanto. o que se colige é que o concurso não tinha esta interrogativa racional: "qual é o melhor médico?" Tinha esta estranha interrogativa: . e prova melhor a eficácia do seu recenseamento. Tomás de Carvalho com a autoridade do seu largo saber."qual é o mais bem recenseado?" O mais bem recenseado seria o mais apto.O Governo insiste: . do que o sábio professor Tomás de Carvalho. tratar doentes. mas é-lhe vedada a clínica! E imediatamente se aproveita desta interdição do Sr. deveria reger a cadeira de anatomia. segundo o Governo. Tal é a história jovial e imunda deste concurso! . operar. um fino miniaturista. e não o Sr.

Deus escolherá e distinguirá as almas: a câmara deve dar igualmente aos corpos ateus e aos corpos beatos uma cova higiénica.agradecemos . perante o cadáver dos inbeatos e dos indevotos.porque foram as Farpas que se insurgiram contra os escrúpulos e as resistências dos srs. A portaria teria evitado este embaraço decidindo. A portaria estatui que haja no cemitério público. ministro do Reino a sua portaria. à câmara o que é da câmara.A autoridade administrativa? É entregar ao Estado uma averiguação que é toda da filosofia. mas o que sabemos de positivo. à dignidade civil. eclesiásticos. a um canto. resolvendo o enterro dos ímpios nos cemitérios públicos. com uma simplicidade antiga. A Deus o que é de Deus. longe dos túmulos católicos. o eleitor. No entanto.nem do ateu nem do devoto. (Têm mesmo a perspectiva de gozarem neste caso um fresco tecto de folhagens. por uma concessão espiritualista. é já um progresso de bom senso. um lucro para a higiene. o contribuinte não seja prejudicado pelos miasmas . a portaria é excelente. jazigo civil . o que importa é que os corpos sejam enterrados nos cemitérios. A câmara municipal não vê almas. Capítulo X: O enterro dos ímpios) por Eça de Queirós Janeiro 1872. que é toda civil. que o vento e os pássaros encherão de doces murmúrios). e não atirados para os cantos dos quintais . o jazigo dos irreligiosos ou dos dissidentes. porque. uma aquisição para a dignidade civil. é que todos os corpos apodrecem. Isto é o legítimo bom senso. A portaria no entanto não é completa. e os cemitérios são a supressão administrativa desta infecção fatal. pelo progresso que estabelece. que todo o cidadão morto será sepultado no cemitério público.é decerto para os ímpios que reserva. E à higiene. faz colocar num sítio separado. E . Fazer recolher ao cemitério cadáveres que o clero quereria afastar para as estrumeiras. Portanto cumpre à câmara vigiar que o transeunte. vê corpos Ora depois da morte nem todas as almas se salvam. E a sua obrigação civil é enterrar a putrefacção — sem indagar quais sejam as suas crenças religiosas ou as suas opiniões filosóficas. ou naquela parte onde só há árvores verdes. Mas quem decidirá que o cidadão morto foi um ateu? A autoridade eclesiástica? É entregar ao clero a polícia do cemitério. à polícia. E não podendo a portaria referir-se nem aos protestantes nem aos israelitas que têm o seu cemitério privativo . Aos racionalistas não deve importar que o seu cadáver seja enterrado na parte do cemitério onde só há cruzes negras.Uma Campanha Alegre (Volume II. .o que era uma degradação para o morto e uma infecção para o vivo! Agradecemos ao sr. aquele lugar de desdém.

dos cidadãos mortos. ou por princípios filosóficos como os racionalistas . ou por diferença de religião como os israelitas. 0 . ou por dissidência de igreja como os protestantes. um lugar para os corpos daqueles que.sejam não-católicos.

em algodão. ruas facções com invejas. que resta? Que estamos num abominável estado de administração segundo confessa o Governo e segundo confessa a oposição: e que ficamos nesse estado! É risonho.. que cada reforma cai sucessivamente com cada Governo. uma desorganização funesta. Ora nem a reforma do Sr. fez no relatório. Enfim que o País chegou à última decadência administrativa. que precede o seu projecto de Reforma Administrativa. ministro do Reino. Resultado: o ministro do Reino e o chefe da oposição declaram oficialmente o País num estado deplorável de administração.. O Sr. uma exposição sombria da administração do País. Registemos esta preciosa declaração do chefe da oposição. como está. Vamos guardá-la. Luciano de Castro.. De tal sorte. Vamos guardá-la. .Uma Campanha Alegre (Volume II. um abandono mortal.que o País chegou à última decadência administrativa. chefe da oposição. é uma confusão vergonhosa. que as leis são um aparato de eloquência parlamentar e não uma eficácia de organização civil. Enfim . Registemos esta confissão sincera do sr. declara que a administração.. Aí confessa que acabou a fé política e a dignidade política. que não existem partidos com ideias. no relatório do seu projecto de Reforma Administrativa.em espírito de vinho. Sampaio. Luciano se efectuará. como um bicho precioso . nem a reforma do Sr. ministro do Reino. O Sr. Capítulo XI: Autorizadas opiniões sobre o estado da administração pública) por Eça de Queirós Janeiro 1872. como uma jóia . que o País está desorganizado e entregue ao abandono. Sampaio se realizará.

.revelando que ele espalhava. no Bairro da Ajuda. para que as Farpas conservem perante Vossa Majestade uma atitude curvada e risonha. são as bolsas de dinheiro com que nos cobre a pálida demagogia. nossos comuns inimigos.o seu corruptor metal! Vossa Majestade. de sermos benevolamente cortesãos com a realeza e a família real: e perfidamente sugerem que estamos comprados pela Coroa para vergastar a demagogia. com mal disfarçado despeito o dizemos. seis contos de réis de esmolas. com toda a severidade. Fundam-se os primeiros em que fomos menos amoráveis com Sua Majestade a Rainha .revelando a história indecorosa do mendigo preso. Outros jornais acusam-nos. Rogamos a Vossa Majestade se digne declarar se já deixou cair na nossa mão estendida . com toda a gravidade. nem sequer é assinante das Farpas! Procedimento este que prova não ser inteiramente erróneo o que a história conta dos crimes da realeza. para eficazmente provar que não estamos comprados pelo seu oiro: . espalham subtilmente que Vossa Majestade nos sacia de oiro. Fundam-se os segundos em que fomos vassalamente aduladores com Sua Majestade El-Rei .Alguns malévolos. pedindo a rápida justificação da nossa integridade à Monarquia e à Revolução: AO REI DE PORTUGAL Senhor. é sob a influência dissolvente dos cofres da Coroa! Lívida colisão! De tal sorte que resolvemos imprimir estas duas cartas. .mas então patentemente se perceberia que o que nos inspira a prosa amarga.Uma Campanha Alegre (Volume II. Alguns jornais acusam-nos. As pessoas imparciais compreendem decerto o nosso embaraço: Por um lado quereríamos desde já atirar palavras pungentes à Coroa. de sermos violentamente hostis à realeza e à família real: e obliquamente insinuam que estamos comprados pela demagogia para atacar a Coroa.mas então abertamente se veria que. Capítulo XII: Cortesãos ou demagogos?) por Eça de Queirós Janeiro 1872. para mostrar que não nos acorrenta a força dos tesouros demagógicos: . Por outro lado quereríamos desde já devotar períodos amorosos à Coroa. se falamos com um som tão meigo.

ao fundo do qual tem de encontrar a chorosa vereda do exílio ou o gotejante corredor da masmorra. publicamente. Humildes vassalos. Sr.e que.Os redactores das "Farpas". a falsidade desta asserção imunda. erguem o desagradável cadafalso de Carlos I. que nunca Vossa Majestade passou para a nossa mão uma parte dos seus valiosos tesouros. mais tarde ou mais cedo. A recusa da assinatura merece a desforra da revolução! Cuidado! Em todo o caso. . .a Hidra. por hoje o que pedimos a Vossa Majestade é que declare. como é a intransigível verdade.Aproveitamos a ocasião de lembrar a Vossa Majestade que são esses actos que tornam odiosos os tiranos . Aceite. os protestos da maior consideração. À HIDRA DA ANARQUIA Tendo alguns jornais dado a entender que nós atacávamos a realeza porque estávamos para isso pagos pela Hidra da anarquia .pedimos ao dito bicho que declare. Um rei que não assina as Farpas vai por um declive.

Mas. Exª é empurrado de novo para a vida particular. Quando o sr.. caracola sobre a eloquência de aluguer. miserável e amarfanhada. iludir a Nação ingénua. ministro é despedido. imitar a iniciativa fecunda dos reformadores "lá de fora". as pobres reformas. a um canto escuro das repartições. como a rosa de Malherbes . como todos os papéis velhos e inúteis. reforma da judicatura! Parece que é toda uma regeneração do País! Pois são apenas folhas de papel que palpitam um momento ao vento da contradição. Capítulo XIII: As variadas reformas da Carta) por Eça de Queirós Janeiro 1872. quando S. enodoada e perdida. às galas. ser o lixo da esquina! Assim as reformas políticas servem um ou dois meses para um ministério fingir que administra. são escovadas. jazer na confusão amarelada dos arquivos estéreis! As reformas em Portugal são um adorno externo de ministério como o correio. apertar finas cintas na valsa. justificar a sua permanência no "poder". na dispersão melancólica dos trapos inúteis! Assim as reformas. ministros são como as fardas dos srs. Enquanto se tem correio. As fardas servem para ir ao paço. lançadas triunfantemente a grande ruído de tambor e retórica. eis que as reformas vão. A reforma da instrução pública: A reforma da administração: A reforma das comarcas. e os bordados da gola! . anediar o bigode ovantee eis que ao outro dia vai no cisco.. reforma da Carta. enrodilhadas em papel de seda. cercadas da atenção zelosa da criada e do pasmo do aguadeiro. e despacha: e no fim. reduzida a jaqueta de toureiro para se aproveitarem os bordados. para quê? Todas estas imensas reformas. perde-se enfim. ilude. estendidas em lençóis de linho. lavadas com chá. Com elas o ministro governa. ministros.o espaço de uma manhã! Que necessidade há pois de encaixilhar na nossa crítica uma folha que vai secar? Para que entremear de notas o fumo efémero de um cachimbo? para que erguer pedestal à estátua de neve que em breve se derreterá? Reforma da administração. reforma da instrução. ser desfeitos e enrodilhados sob as vassouras justiceiras dos srs. a farda é vendida. fornecer alimento à oratória constitucional: e depois tendo feito o seu serviço. dependurada no prego miserável de uma loja de adelo. São o distintivo oficial e bordado dos que governam. aparentar zelo pelo bem da Pátria. Uma luva cor de palha serve para entrar num baile. varredores públicos! As reformas dos srs. vão. esquecidas e inúteis. Estas formidáveis iniciativas parece que deviam ser acompanhadas pelas Farpas com comentários condignos.Uma Campanha Alegre (Volume II. e que daqui a pouco cairão miseravelmente e para sempre. ao beija-mão. com que ele tanto se empertigou e tanto se assoalhou. e depois de ter chegado às costas suadas de um máscara do Casino ou de um comparsa do Salitre. durarão.

. Ex. O ministro cai .deita reforma e cupé.e o chefe da oposição actual brada que a administração é um vergonhoso caos! Haveria um livro a fazer. e os srs. a oposição arranja representações na província contra ela. Os jornais falam dela um momento.melhor! Pede-o a Carta.o cupé recolhe à cocheira e a reforma à gaveta. correios que querem trotar! Que ele tenha farda .. Senão vejam: Reformas Fontes: inúteis. Reformas Braamcamp: inúteis. como uma justificação da sua nomeação . ou por um enredo.E depois destas seis tentativas de reformas. Reformas Saldanha: inúteis. Os grandes factos políticos do mês foram as reformas da Carta (plural melancólico!): Reformas Ávila: inúteis. nos últimos três anos.Todo o ministério que entra . todas mortas ainda de mama! . a comodidade dos seus calos oficiais. cai: e a reforma segue-o na sua saída e logo se some como um sulco atrás da quilha! Quantas reformas de administração. seis reformas de administração .menos essencial que o cupé de aluguer.bem! Pede-o a civilização. Há pelo menos esta definição a dar: . intitulado: Da fisiologia das reformas em Portugal. as comissões metem os pés nos capachos e discursam sobre ela. e logo esvaírem-se sem terem provado da vida mais que a doçura de um reclamo nas gazetas subsidiadas! Tem havido. de instrução. Reformas Regeneradoras: inúteis. mais necessária que a farda de empréstimo! Pedimos portanto. a honra do País. Reformas Bispo: inúteis. não tem o País visto aparecerem no horizonte parlamentar.todas irrealizadas. como sombras que vão chegar à vida.uma reforma. o ministro do reino actual confessa que a administração é um caos vergonhoso .. de finanças. que o ministério seja dispensado dessa formalidade! Que ele tenha cupé de aluguer . a corte. e a necessidade de evitar que SS. Reformas Reformistas: inúteis. Cada ministro tem o dever tradicional de apresentar. por uma bambocha.A reforma é uma formalidade que tem a preencher perante o País todo o ministro . urgentemente. Mas o ministério. por uma intriga.as se apresentem a el-Rei de quinzena e gabão.

Pois em vez de se lhe exigir uma reforma mais sobre qualquer instituição.que não pode alugar essa formalidade na companhia lisbonense de carruagens. sejam eximidos a essa formalidade ridícula. nem pedi-la emprestada ao adelo da esquina. não! Que os srs. O País também não . em nome da dignidade pública. seja a reforma do País substituída pelo aparato do trintanário! E o desgraçado Portugal lucrará! .Mas para que se há-de exigir a um português. ministros. anacrónica. que reforme? Quem lucra com isso? Ele não . Nas insígnias ministeriais.como sabem. a um pobre e débil lusitano? Não. esse esforço de saber. Antes se tome este alvitre: Nas suas carruagens de aluguer os srs. Para que se há-de exigir pois esse trabalho de inteligência. não. ministros trazem apenas na almofada o cocheiro. nos símbolos do poder. caturra .exija-se-lhe um criado mais sobre a almofada.de reformar a Pátria. ainda que ministro.

Que farão os historiadores futuros? Dirão que viajou em Portugal D. ou a familiaridade dos cidadãos o pretendiam tratar como Pedro de Alcântara . erramos porque ele asseverou que era D. Logo que as recepções. se ele o fosse! e suficientemente simples para se poder dar a um plebeu.Pedro de Alcântara e D.porque ele afirmou ser Pedro de Alcântara. nem D. desacertamos . Pedro II. Pedro II? Mas se ele o negou! Contarão que Portugal foi viajado por Pedro de Alcântara? Mas se ele o contradisse! Qual é o nome desse homem venerável que passou? A história não tem nome a dar-lhe! É por isso indispensável. Pedro II. Quando os horários dos caminhos de ferro. que se lhe imponha um nome. os banquetes se produziam para glorificar D. e que ao mesmo tempo seja suficientemente sério para se poder dar a um príncipe. Pedro II. que. Pedro II .ele apressava-se a declarar que era apenas Pedro de Alcântara. Se nos lisonjeamos por ter hospedado D.ele passava a mostrar que era D.seja bastante genérico para os abranger ambos. quando esteve entre nós (e mesmo fora de nós). para segurança das crónicas. Pedro II. não recordando especialmente Pedro de Alcântara nem D. . Pedro II porque o vedou . Pedro II . era alternadamente e contraditoriamente . se ele o era! Proporemos portanto aos presentes e aos futuros que Ele . os regulamentos de bibliotecas. os hinos.seja simplesmente chamado PSIU! Um instante de atenção! O Imperador do Brasil.que não pode ser chamado Pedro de Alcântara porque o recusou. De tal sorte que se dizemos que se hospedou entre nós Pedro de Alcântara. Capítulo XIV: Pedro de Alcântara e D. Pedro II) por Eça de Queirós Fevereiro 1872.Uma Campanha Alegre (Volume II.

sustentam que dentro havia peúgas: outros. porque o incomodava para dormir no beliche do paquete: mas não daria a ninguém o direito de afirmar que ele não era o Príncipe. mais discretos. trazia em vagão a mala. Como a coroa é o sinal da sua realeza no Brasil. Sua Majestade era homem para tomar ."apertem-me a mão.Sua Majestade acrescentou à sua mala um guarda-sol. Durante meses. mas traz na mão a bagagem. mas Sua Majestade descobria a mala ."reparem que não sou Ele". de couro escuro. costear os montes. Capítulo XV: A mala de um príncipe) por Eça de Queirós Fevereiro 1872. mais profundos. afiançam que dentro não havia nada! Tal se nos afigura a verdade . mas Sua Majestade mostrava a mala -e imediatamente as autoridades desabotoavam os coletes! Os camaristas dos outros reis iam beijar-lhe a mão.a mala não guardava nada! A mala era uma insígnia .e os cortesãos davam-lhe logo. Se S. aproximavam-se deste Príncipe ilustre os cortejos oficiais. debaixo do . sabe-se que Sua Majestade estava disposto a mostrar . a mala era o sinal da sua democracia na Europa. tratemme por Pedro. viu-o o Velho Mundo absorto sulcar os mares. palmadas doces no ventre. mas tomou-a sem cerimónia na Europa! A mala é a tabuleta do seu incógnito! A mala diz: . medir os monumentos. M. isso indicaria apenas que Sua Majestade não trouxera o ceptro. Que continha ela? Uns querem que ela tivesse no seu seio os tesouros imperiais: outros afirmam que ela encerrava os imperiais manuscritos.duas malas! Se a etiqueta insistisse. mal viam Sua Majestade começar a Falemos da mala deste príncipe ilustre! Todos a conhecem. via-lhe a mala. À entrada das cidades. S. pela mesma razão que usa no trono o ceptro. e dizia logo: . Aquilo significava: . e não me toquem o hino!" A Europa olhava-lhe para as mãos. Confusas opiniões se erguem em torno dessa mala fechada.um baú! Em Portugal.como o perpétuo chapéu baixo constitui a sua coroa de caminho de ferro. visitar os reis. A mala formava o seu ceptro de viagem . atravessar as capitais. como receasse recepções aparatosas à entrada . o Imperante! Com a mala. Se Sua Majestade percebesse que uma só mala não bastava para mostrar o seu desejo de sem-cerimónia. que tal te dás por cá?" O Senhor Pedro trazia a mala para que o não confundissem com Sua Majestade. trouxesse as mãos vazias. É por ali que ele a segura. que não só deixou a realeza no Brasil. não! A mala significa que não só não tem na mão o ceptro. e ao seu guarda-sol um embrulho! Foi assim que o viram descer do vagão os povos perplexos! E se não tivesse havido a precaução de retirar apressadamente todo o cerimonial. Alguns. alegremente. Ela deixa na Europa uma lenda soberba. em toda a parte."Ó aquele. com duas asas que se unem.Uma Campanha Alegre (Volume II. M.as suas chinelas de mouro! Mas as autoridades.a insígnia do seu incógnito. Ma outra mão trazia às vezes o guarda-sol. Sua Majestade deitaria ao ombro . ensinar os sábios com a sua mala na mão! É uma mala pequena.

disfarce ou bagagem ."muito tempo se falará dela sob os lustres dos palácios e sob o tecto das cabanas". ou a grande cobardia de Napoleão o Pequeno! Mesmo a celebridade da mala.menos! demonstrar. Por isso ela vinha vazia. Sua Majestade trazia a mala . Ela ficou popular na Europa como o pequeno chapéu de Napoleão o Grande. Londres. por meio de objectos familiares. Madrid. .punha-a como disfarce. Dá a esta corte em viagem uma nota nobre de simplicidade e de sinceridade.braço entalava a espaços um embrulho de papel. Dele .a mala é profundamente simpática. o Cairo . Sua Majestade não a usava como bagagem . Uma mala pequena não pode chegar para tudo: tapa por um lado o Imperador do Brasil . que não era o príncipe . Florença. Viena.a mala nunca! Paris. .conhecem-na. Como disse o bom Beranger da batalha de Austerlitz .descobre por outro o homem de bem. Roma. outras alheou de si o embrulho. receosas que Sua Majestade levasse a sua demonstração até ao excesso de despir as calças. encobre um pouco a glória do príncipe. Muitas vezes depôs o guarda-sol.como outros trazem um nariz postiço.apressavam-se a recolher toda a gala. Berlim. Foi graças a estas precauções que Sua Majestade conseguiu atravessar a Europa disfarçado na sua mala. No entanto .

quase com assomos de cólera -o seu hebraico! Quando Sua Majestade Imperial chegou a Londres. esta circunstância de estupefacta gula. um só petisco. desde a trufa até ao Johannisberg. acerca do qual Sua Majestade revela uma gula excepcional.rapa os pratos e lambe os dedos. nem mesmo um professor de hebraico! De tal sorte que nos longos dias preguiçosos de paquete.para o idioma hebraico! Sua Majestade é um guloso de hebraico. Este dândi marcial perguntou a Sua Majestade o que desejava. E. rompe logo a pedir nos corredores. É verdade que os jornais parisienses contaram que no banquete que o Sr. No hebraico .Sua Majestade a cada momento cortava a conversação literária e céptica que faiscava em redor da mesa. Há. para gritar com a sua imperial boca cheia: "que precioso peixe! que sublime galinhola!" No entanto. com ganidos de gula.um daqueles belos capitães de Horse-gards.Sua Majestade passa cruéis privações de hebraico. uma adulação política à cozinha do dito Adolfo! As gazetas republicanas como não encontram nada a exaltar nas ideias políticas de Adolfo . Capítulo XVI: O idioma hebraico."hebraico!" . ainda com a mala na mão. todos os delicados mimos da fornalha ou da adega. (presidente certo de uma república incerta) deu ao Imperador do Brasil . porém.Uma Campanha Alegre (Volume II. nas horas fastidiosas de vagão . nem sequer um cristão hebraizante.querem ao menos glorificar-lhe as iniciativas culinárias. Sua Majestade desdenha demagogicamente. narrada com ironia pelos jornais de Paris -não oferece autenticidade: é um reclamo. Adolfo Thiers. o Príncipe de Gales enviou-lhe um dos seus ajudantes de campo . Predilecção principesca) por Eça de Queirós Fevereiro 1872. que põem à noite um jasmim do Cabo na jaqueta escarlate e oiro. naquele momento em que punha o seu pé de além-mar nas plagas verdes de Álbion. por uma inexplicável imprevidência. E já que não podem dizer: "que organização ele dá à França!" gritam: "que jantares ele dá aos Reis!" A verdade incontestável é que Sua Majestade o Imperador é um sóbrio. Sua Majestade não traz consigo nem um homem de raça hebreia. Esperavam todos que Sua Majestade pedisse chá — ou um banho. Por isso chega sempre esfaimado de hebraico: e mal entra as portas festivas dos hotéis. Uma só coisa neste planeta lhe aguça a língua. Para uma só coisa tem uma sofreguidão incansável e sorvedoura: . Sua Majestade respondeu avidamente: .

. tal é o chorume dos jantares da corte nos paços da Tijuca. Mas ninguém se lembrara do hebraico! E Sua Majestade estrebuchava! Partiram então exploradores em todas as direcções . por um dos homens mais sóbrios do seu vasto império. a orelheira. já ao descer as escadas do paquete. Depois de se fartar. Sua Majestade. no Lazareto. o Sr. que lê e fala o hebraico.. por um rasgo genial. pedindo hebraico a fortes brados. com guinchos de gozo. Sopa. o apetite enristado. o Imperador do Brasil consumiu incalculáveis porções de hebraico. com os lábios secos. todos os artifícios do génio português. Sua Majestade esperava ansiosamente..à Sinagoga! Sua Majestade precipitou-se entre os hebreus. legumes. vinha resmungando: "salta o meu hebraicozinho!" E daí a minutos expedia gritos famintos. estonteado e surpreendido. Salomão Saragga. — Hebraico! Foi assim em Lisboa. que são doutores da lei. olhou em redor . repetia famintamente: . Serviram-lhe o Sr.Os oficiais olharam-se consternados. a toda a brida fogosa de um landau. o Imperador do Brasil . E o Imperador. a grandes bocados. Alguns arriscavam timidamente: — Se Vossa Majestade quisesse antes um caldo. água e um palito. Não houve cumprimentos. cercaram o homem augusto. a broa. ficavam apavorados e confusos quando Sua Majestade assomava aos limiares das portas. assim mesmo . as mãos nervosas. Que consternação! Tudo estava preparado: a canja.e por fim voltaram trazendo. com justiça. Os sábios rabis. Saragga. em cidades da Europa. Sua Majestade imperial passa. o caldo de unto. nem se pôs toalha."hebraico! só hebraico!" . carne cozida. os ajudantes do Príncipe de Gales levaram. vorazmente.e pediu mais! Certos donos de hotéis..Então. debruçado na janela.. — Hebraico!. o capilé.cru! Sua Majestade deixou-lhe uns restos! 0 .. — Se Vossa Majestade quisesse antes um monumento. e.

não se segue que vá com as suas chinelas de ourelo: e por não receber as autoridades revestido do seu uniforme .quando a toilette é um fim.onde estão as rosas.Oferecei gelados! Quereis luvas cor de palha? -Amai.quereis vós que a gente ponha gravata branca e um jasmim do Cabo na lapela? Pois não vemos aí os senhores de Teologia. Trata-se de um fino prazer dos sentidos . bacharel-não nos parece que tenham cabimento as exigências de elegância.Quando foi que a Universidade teve jamais a curiosidade e o respeito da toilette? Ela que ainda há pouco levava ao cárcere os estudantes que usavam colarinho! Ela que reprovava os estudantes que entravam nas aulas com luvas! Ela que proibia em Coimbra os estabelecimentos de . numa soirée. Dr. trazendo batina . Num baile. Um rei por não ir ao passeio com o seu ceptro de oiro .desde as toilettes até às flores. É verdade que um príncipe pode deixar de se comportar com a pompa de um rei . Maria I. quereis toilette? Valsai! . antigos comentadores do Pegas. com os seus sapatos achinelados? . para ouvir uma charanga torpe dilacerando a grandes golpes de figle um minuete da Srª D. imóveis num estrado.Quereis gravatas brancas? . é requerida para o tornar completo e perfeito. Não nos parece justificável o despeito da Universidade. com o seu brilho exterior. com as suas velhas lobas enodoadas? Não vemos os senhores de Direito. para admirar quatro archeiros sebáceos perfilados entre ramos de louro murcho . Se a veneranda cerimónia do capelo é uma festa que reclama os requintes de toilette . na Ópera . numa gala. a gardénia ou a grã-cruz são essenciais. antigos egressos espapados de gordura. as caudas de seda ondeando na valsa? Se o capelo é um sarau galante. Tudo aí deve convergir para a harmonia geral . nos priva do maravilhoso contorno do seu seio. Entre o manto de arminhos e a rabona .não é honesto que as receba vestido apenas com a sua pele. a luva cor de pérola. porque é que o Sr.Uma Campanha Alegre (Volume II. venerandos doutores! Mas para aturar uma enfiada de carões sorumbáticos e de batinas caturras. Forjaz não dirige os arrebatamentos do cotillon? Ah.e a toilette. Fulano. de direito.a gravata branca. lentes jubilados moverem os leques com a mão calçada em luva de 16 botões? E porque é que o Sr. o rumor dos flirts. para um fim elegante. Mas quando se trata apenas de doutorar o Sr. porque estas festas constituem unicamente uma reunião de elementos elegantes.afogada? Porque não vemos os srs. os gelados.sem que por isso passe a comportar-se com a maltrapice de um varredor. as jóias nos colos nus. Capítulo XVII: Indumentária de Pedro na sala dos Capelos) por Eça de Queirós Fevereiro 1872.há gradações. Brito. doutores saibam que a toilette só é realmente exigida . Mas também não nos parece que uma quinzena e um chapéu desabado seja toilette que escandalize a douta Universidade! É necessário que os srs. entre decorações elegantes.

de amável.que é a Igreja onde se professa para doutor. em outras eras. nas altas botas moles e no chicote de estalo do defunto Luís XIV. trajando jaquetão de viagem. ele espectador.sujá-las! E abespinha-se porque Ele foi ver um capelo. e exclama com uma exigência mundana de cocotte para trás! que horror! vós não estais de casaca! E não compreendo o que havia de intencional. na toilette de Pedro! Ele quis-se apresentar entre sábios. Antes de sair para o capelo. ele Pedro. banhos! Ela que. sobre a maneira como Sua Majestade o Imperador se apresentou na sala dos capelos. se veio sentar nos bancos severos da antiga sala adamascada . E é neste lugar funerário que os srs. se a Universidade tivesse lógica. a Universidade revolta-se porque um dos assistentes não está de gravata branca! Pois quê! Recebe a Universidade um sábio. E a Universidade quis ver no jaquetão de Sua Majestade e no seu chapéu braguês. na rabona de sábio! Ele não quis humilhar nenhum sr. mas por ousar entrar.olha aquele de jaquetão! A Universidade dando-se ares de saber que existe o alfaiate Poole! Irrisória vaidade conimbricense! É célebre! Vimos sempre a Universidade. com um chapéu desabado e um saco a tiracolo.não por ele se ter abstido da gravata. E.que o rasgão é uma glória e a tomba na bota uma respeitabilidade! E. onde se troca a graça mundana pela sensaboria catedrática. Doutores emergem da sonolência sepulcral para murmurarem (talvez em latim!) .de jaquetão e chapéu braguês! E onde então? Na sala dos capelos .recua. naquele recinto clássico da porcaria. quando se tratava de pôr gravata branca — desculpar-se com as suas preocupações científicas. agora que se tratava de uma consagração doutoral. devia escandalizar-se e corar .A Universidade e os seus doutores têm espalhado apreciações rancorosas. ele turbamulta . em lugar de molhar os dedos num frasco de água-de-colónia (sabe-se isto! ) ensopou as mãos num tinteiro! Ele seguiu a velha tradição universitária . num dia de doutoramento e de cerimónia. doutor . com tão poucas nódoas no fato! . a mesma significação desatenciosa que o Parlamento de Paris viu. e onde se substitui a alma por um compêndio.com a mesma familiaridade com que se sentaria na almofada da diligência dos Arcos de Valdevez. onde faz o voto de melancolia e de carranca perpétua. conseguia sobretudo . Dizem que Sua Majestade. e em lugar de se perder com ele nos retiros difíceis das mais sérias questões do saber .pelo asseio da sua roupa branca! Vestiu-se com o rigor científico. destinada a bacharelar as novas gerações. ele viajante. onde o sujeito deixa de ser um homem para ser um lente.

Ora o concerto não era uma recepção oficial dos corpos do Estado . De S. num lugar onde um homem toma nos braços uma mulher. podem participar destes gozos mundanos. no galante sarau de el-Rei. o amor divino que o enchia! Está assim a lenda dos santos cheia de renunciamentos místicos e de uma intratável hostilidade aos regalos. as caudas de . Perguntamos se os srs. entre champanhe e perdizes trufadas. descalço e esfarrapado. os aromas perturbadores de pó de arroz e de femina. Capítulo XVIII: O clero nos saraus do Paço) por Eça de Queirós Fevereiro 1872. falando aos pássaros que lhe voavam em roda . rochas. com os seus votos. e aí. flores e danças.que fosse espairecer do serviço de Deus para um bufete resplandecente de baixelas. na santa ferocidade da sua fé.. Do poético S. Igreja.ou não nos parece que os srs. feras. aromas. beijando as árvores dos caminhos.. Da tradição dos Padres e dos Santos não consta que as piedosas e místicas figuras. desses Homens do Espírito. Domingos sabemos que. como já não tinha dinheiro . pregava e impelia uma cruzada contra os hereges do Languedoc: que vendia os seus livros para comprar lenha aos mendigos: e que um dia. Que tínheis em torno de vós. Ou conhecemos muito pouco a essência do catolicismo .Uma Campanha Alegre (Volume II. preparava-se para Deus: se se correspondia com o rei de Inglaterra e com o imperador da Alemanha.se quis vender a si como escravo. sob um alpendre de folhagem. e a arrebata através da sala. para socorrer uma mulher pobre. viveu muito tempo num buraco.mas uma festa! Uma festa com luzes. era em dez linhas apressadas: mas era em dez páginas que escrevia a pobres monges aflitos de alma. que nunca o sacerdote deve arredar um só momento o seu espírito da contemplação de Deus e da meditação da Graça. Ora não é natural que SS. eclesiásticos? Os moles sofás que inclinam às preguiças românticas.as estivessem possuídos destas preocupações espirituais. e partiu a peregrinar as terras. A teologia nos ensina. orquestras. De S. srs. eclesiásticos. roçando-lhe as pontas dos bigodes no calor do colo nu. S. Bernardo sabemos que vivia em Clairvaux para fugir à riqueza de Cister. flores.e espalhando sobre todos os seres. E de nenhum se conta . mulheres decotadas. Francisco de Assis sabemos que renegou as suas riquezas. eclesiásticos possam estar legitimamente e segundo a lei da. comendo pão duro e bebendo no fio dos regatos. fossem vistas jamais por entre o rumor lânguido dos violoncelos e o palpitar amoroso dos leques. para os encher da Graça.

pela educação. srs.. S. este Imperante pretendia ter nas salas do Paço o índice dos nossos costumes e Portugal em resumo? Sendo assim ainda bem que esse príncipe. emergidos da frieza da sacristia. Entre estas seduções sataníferas que pensavam VV.as podem..as foram ao concerto porque Sua Majestade Imperial.. assim como exigiu que na sala do concerto estivessem as profissões-não pretendeu que lá se achassem também os estabelecimentos! Ainda bem que. às glórias do decote. não causa já grandes estremecimentos a presença da beleza mortal: estamos acostumados. constelados de jóias. a misteriosa fatalidade do mal . S. fatigados do breviário. estava a trufa e o champanhe.é que VV. desejou ver lá os sacerdotes . para VV. sobretudo o do Paço. eclesiásticos. se os fizerem encostar ao bufete sobre os aromas do Madeira. os pescoços brancos de um polido de mármore.as . ao subir para as festas. os cabelos Lustrosos. homens pecadores e perdidos.. Conhecemos Satanás em todas as edições. mas não lhe podem dar a guardar . porém.então lamentemos todos o singular temperamento deste príncipe que vai para o vagar dos saraus passar revista às profissões! Apressado. oferecido ao Imperador : -e foi que.quebrar! Se. casada com o conselheiro sicrano: e o champanhe. Mas para VV.seda ondulantes e lânguidas. Ora votos. E um povo que não crê na pureza dos seus padres termina por se esquecer dos martírios do seu Deus! A verdade . Ninguém crê que uma rosa saia intacta de um forno.é o pescoço da srª fulana. ele não reclamou que além dos folhetinistas e dos sacerdotes comparecessem também no sarau . eclesiásticos? Mais longe. srs. é uma triaga feita com aguapé de Bucelas. eclesiásticos assistiram ao concerto do Paço. no bufete. para poupar passadas. curioso.as . os tempos vão de molde que o povo já se afasta dos simples virtuosos -reclama santos! Ora os santos não se supõem entre o frufru dos cetins e o suspirar das rabecas. Ah. se os passearem entre ombros nus. Um sarau dá sede. Para nós um colo decotado não é Deu-se um facto equivoco no sarau do Paço. srs. numerosos srs.as ! E. amarrados pelos votos tirânicos.. segundo as mais verídicas informações. Como a saciastes. espicaçado pelo tempo escasso. Também nos não perturba o demónio cor de opala que faísca no champanhe.aqui entre nós . assim como quis lá ver os folhetinistas. eclesiástico puro de um baile. terminam sempre por lhes acontecer o que acontece às casas comerciais que abusam das festas . sacerdotes? A nós outros. se os deixarem cismar aos compassos de Strauss. S. S. por mais fortes que sejam. sucedeu que VV..as tipografias e as igrejas! — Que embaraço para el-Rei nosso Senhor! . dar ao criado os seus paletós a guardar.os seus votos. S. educados no isolamento e no regime do seminário. e um sr.

sustentam que Sua Majestade foi à solidão do eminente vulto que.. e a História tranquila. ensinam que Sua Majestade foi ao albergue daquele que.. por seu turno. no meio disto. as opiniões radicalmente divergem .é acerca do lugar em que se realizou a visita do Imperador brasileiro ao historiador português..) Uma correspondência para um jornal do Porto afiança que o Imperador foi ao aprisco do grande... Silva Túlio. O Diário de Notícias diz que o Imperador foi à mansão do Sr.. declara que o Imperador foi ao Tugúrio de Herculano.. Todos sobre ele estão acordes.Uma Campanha Alegre (Volume II. afirma que o Imperador foi ao retiro do homem eminente que. No que. O Diário Popular. Alexandre Herculano! . E um último mantém que o imperante foi ao exílio do venerando cidadão que. confessando que o Imperador esteve realmente na Tebaida do ilustre historiador que. O facto em si é inteiramente incontestável. O Sr... porém. Outros.. Alguns jornais de Lisboa. uma coisa terrível se nos afigura: é que Sua Majestade se esqueceu de ir simplesmente a casa do Sr. ao contrário. Herculano. Sua Majestade Imperial visitou o Sr.. Alexandre Herculano. etc. porém. Capítulo XIX: A casa de Alexandre Herculano) por Eça de Queirós Fevereiro 1872. Ora. contudo. Outra vem todavia que sustenta que o Imperador foi ao abrigo desse que.. (ainda que linhas depois se contradiz.

ousaram afirmar por factos públicos que Vossa Majestade era Vossa Majestade. Vossa Majestade pode verificar que estão todos bem barbeados. sucedeu que alguns imprudentes. tornamo-nos o verbo destes silenciosos! Senhor! Ei-los. revolvendo a terra! Quando a iluminação não ardeu. Deram amplamente o seu dinheiro. Ora fazendo estas iluminações (secretas). M. pedem simplesmente que Vossa Majestade os condecore com a comenda da Rosa! Ora aí está! Ah. . são todos homens de bem e de boas famílias. Imperial Senhor! Carta a S. uma coisa bem insignificante. Nós. Nem que Vossa Majestade lhes compre os mimos de Pomona. Igualmente aconteceu que. o Imperador do Brasil) por Eça de Queirós Fevereiro 1872.Ousamos dirigir-nos a Vossa Majestade Imperial. Eles. Nem que Vossa Majestade lhes faça a eles a honra que fez à orelheira de porco . E gastaram o seu rico dinheiro! gastaram contos de réis. se por um lado Vossa . Capítulo XX: Missiva a S. M. manejam regularmente as quatro espécies. um fim supremo. o Imperador do Brasil. Não! Estes cavalheiros. e apesar de termos a obrigação de acreditar (segundo as ordens de Vossa Majestade) que não era Vossa Majestade que estava entre nós. foi para a comenda.a cidade não podia ficar inteiramente às escuras! Ousamos dizê-lo. que a plebe ignorante chama maçãs. Nem que Vossa Majestade lhes pergunte pela família. Imperial Senhor! é que eles foram incansáveis! Vigiavam alta noite os trabalhos dos obeliscos! Reanimavam com faias exaltadas o cansaço dos operários! Chegaram a estar de cócoras. como Vossa Majestade compreende . Imperial Senhor. compadecidos e generosos. por isso. Tremem. esses homens prestantes! Aqui os tem Vossa Majestade a seus pés. Para isso acendiam fósforos! foi no interesse superior das suas casacas pretas! Senhor. Senhor.Uma Campanha Alegre (Volume II. Eles pedem. eles tinham. Senhor. . Veio Vossa Majestade a estes remos. em risco de cair no imperial desagrado. recuam. Vossa Majestade deve-lhes a comenda! Eles não ergueram os dois obeliscos para regalar os príncipes nem para alumiar a plebe.mas são acanhados. eles sopraram com desvairada fúria pelos canos! Alguns ficaram calvos! E se não puseram mais iluminações é que. São acanhados como araras. Não é que Vossa Majestade os visite a Vale de Lobos. e usam boa roupa branca. não comem com a mão. por um motivo de indeclinável justiça. mas não dão facilmente o seu segredo.prová-los. como aquele de quem falam os telegramas de Santarém. e docemente esperado.

dava bastantemente a entender. por outro. Oh. Enfim.mas sua alma estava cheia de lamparinas. forte. ficou inteira e pura a intenção dos iluminantes.. . vendo um homem alto. Senhor! A generosidade desta graça será recordada nas glorificações da história. No entanto. Abichastes a comenda!) Nós. (E vós.. Vossa Majestade é generoso. claro em sabedoria. encanecido.. Senhor.aqui ficamos nestes países.Deus tenha Vossa Majestade sob o seu olhar paternal. . maganões da Comissão dos Festejos esfregai as manápulas. chamamos familiarmente "o Dador!" Estes indivíduos ergueram dois obeliscos de madeira e envolveram-nos de tubos de gás: o gás não ardeu.e a iluminação pelo mesmo motivo não foi a iluminação. venerando. académico.não esperaram mais. ou como historiadores dos seus feitos ou como fornecedores de mais orelheira de porco. Mas Vossa Majestade sorri! uma benevolência radiosa sobe ao seu rosto! Já o sim desejado lhe baila nos lábios!. alguns indiscretos. penhorados até à profundidade da nossa essência .. Deliberaram então estes sujeitos acender. irmão dos terceiros da Lapa e com uma mala na mão . e no seu impulso febril e ávido de glorificar o Imperador do Brasil. obrigado. nem o actual varredor da Travessa das Gáveas. para o seu serviço bem-amado. uma iluminação no Rossio ao pé da estátua do Pai de Vossa Majestade . se a iluminação se recusou obstinadamente a resplandecer.Majestade negava ser o Imperador do Brasil. que não era inteiramente nem o defunto Pilatos. por abreviatura. aos pés do Imperador. neste País apressado e preguiçoso. inesgotável de alma! Esperamos com os joelhos no chão. Eles não tinham lumes em seus obeliscos .a quem nós. Mas Vossa Majestade não era Vossa Majestade: . em honra daquele que Vossa Majestade diz não ser. querendo também passar incógnita. festejaram Vossa Majestade.

a venda da mandioca numa baiuca de Pernambuco. o rico torna-viagem. guarda-sol verde. o senhor de todos os prédios grotescamente sarapintados. Cada nação possui assim um tipo criado para o riso público. cinzelado em castiçais. pé largo como uma esplanada. O trabalho. As comédias. nele faz rir. tão santamente justo. lembra nele. para nós. e ele torna-se o grotesco clássico que chega a ser motivo de ornato industrial. o dinheiro. os botões de brilhantes nos coletes de pano amarelo. Há longos anos o Brasileiro (não o brasileiro brasílico. sempre traído. A França tem o inglês de coco diminuto na nuca. na persuasão pública. chapéu sobre a nuca. um sabre prodigiosamente insolente e um relógio de sala roubado debaixo do braço! Nós temos o Brasileiro: grosso. O Povo supõe-no o autor de todos os ditos celebremente sandeus. nele é quase cómica e faz lembrar os tamancos com que embarcou a bordo do patacho Constância. colarinho alto como um muro de quintal. na tradição popular. os romances. de joelhos. de toda a boa anedota. desenvolvem-no. o eterno tosco da Rua do Ouvidor. como aquelas abóboras de Agosto que sofreram todas as soalheiras da eira: não se lhe admite distinção. aguarelado em caixas de fósforos. e recorda a sua espessa pessoa. e um vício secreto. o namorado de todas as mulheres gordalhufamente ridículas. tão justamente respeitada. É o brasileiro: ele é o pai achinelado e ciumento dos romances românticos: o gordalhufo amoroso das comédias salgadas: o figurão barrigudo e bestial dos desenhos facetos: o mandão de tamancos. os desenhos. e os fardos de café que carregou para as bandas de Tijuca. joanetes nos pés. cabelo em bandós. o pobre brasileiro. rabona de xadrezinho. tão teimosamente idealizado. recorda nele. as cançonetas espalham-no. e ele é. não se lhe concede coragem. o frequentador de todos os hotéis sujamente lúgubres. nascido no Brasil . de imenso bigode na focinheira. Nenhuma qualidade forte ou fina se supõe no brasileiro: não se lhe imagina inteligência.mas o português que emigrou para o Brasil e que voltou rico do Brasil) é entre nós o tipo de caricatura mais francamente popular.oh minina! De facto. popularizam-no. aperfeiçoam-no. o herói de todas as histórias universalmente risíveis. capacete em bico.Uma Campanha Alegre (Volume II. . a pobreza. dentuça taluda. tão humildemente servido. o grande fornecedor do nosso riso. pança ricaça. Tudo o que se respeita no homem é escarnecido aqui no brasileiro. e ar lorpa: ultimamente tem a mais o prussiano. o amor. torneado em castões de bengala. colete e grilhão de oiro. como não se imaginam negros com cabelos louros. e ele permanece. é hoje. Capítulo XXI: O brasileiro) por Eça de Queirós Fevereiro 1872. com gargalhadas. olho desconfiado. trigueiro com tons de chocolate. com riso. a vozinha adocicada. dizendo com uma ternura babosa . de larga e aguda suíça em forma de costeleta alourada.

estão neles florescentes. modesto. nas Antilhas Espanholas.Fitais às vezes uma gravata verde com pintas escarlates? É o Brasileiro a remexer por dentro. calos e prédios sarapintados de verde. de folhas palmares e reluzentes. Sementes a que falta o sol. discreto e grave -passando para o sol do Equador. Rirmo-nos do brasileiro é rirmo-nos de nós sem piedade. retraída. lisboetas! Ah. é uma pequena árvore tímida. atingiu o seu pleno desenvolvimento: nós permanecemos rudimentares. escandalosa de bananas. Eles estão já acabados como a abóbora. Em cada um de nós. É o sol de lá que nos fecunda. afogado . nos nossos climas. lá dentro. Nós somos o germe.nós somo-lo. lemos Renan. brotar em diamantes de peitilho. (Aprende-se isto nos liceus. toda sonora de sábiás e outros. nós embrionários como a pevide. O espanhol das Astúrias. Eis o formidável princípio! O Brasileiro é o Português desabrochado. traz em si a larva de um brasileiro. ruidoso. estão retraídos. tronco possante. um brasileiro entaipado. estéril: no calor do Brasil é a grande árvore triunfante. . aqui sob um clima frio. . não aparecem. abrem-se em grandes evidências grotescas. ao frio encolhem. As qualidades internadas em nós. Cada lisboeta. .que. repetimos Paris. Quem o não tem sentido agitar-se. Pelo contrário! o brasileiro é bem mais respeitável.Porque. expansivamente . sabei-o! vós estais sempre no vosso estado interessante . Desejais inesperadamente uma boa feijoada comida em mangas de camisa? E o Brasileiro. eles são à larga ridiculões. que ao sol alargam e florescem. Pois bem! O Bra-sileiro é o Português dilatado pelo calor. Mesma lei para os homens. A bananeira. torna-se o sul-americano vaidoso. como o feto no seio da mãe? . sob um sol fecundante. humano. no nosso fundo.de um Brasileiro! . sob a influência da temperatura.Apetece-vos ir visitar a Memória do Terreiro do Paço? É o Brasileiro.Pois bem! É uma injustiça que assim seja. O Chiado sob os trópicos dá inteiramente a Rua do Ouvidor.um brasileiro. Os nossos defeitos. o que é o Brasileiro? É simplesmente a expansão do Português. O Português é pevide de Brasileiro! Que somos nós? Brasileiros que o clima não deixa desabrochar. O que eles são. Existe uma lei de retracção e dilatação para os corpos. quando vem o buço). Nós aqui vestimos cores escuras.Lembra-vos reler uma ode de Vidal ou uma fala de Melício? É o Brasileiro! Ele está dentro de vós. E nós os portugueses que cá ficámos. só necessita embarcar e ir receber o sol dos trópicos. eles são o fruto: é como se a espiga se risse da semente. Sob o céu do Brasil a bananeira abre-se em fruto e o português rebenta em brasileiro. A mesma lei para as plantas. palreiro e feroz. porque é completo. sabei-o. está aboborando . existe. ao frio acanham e estiolam. Os corpos ao calor dilatam. ficam por dentro: lá. seiva insolente. e no entanto cá dentro. retraidamente. enfim. Onde nós somos à sorrelfa ridiculitos. fatal e indestrutível. para crescer. não temos o direito de nos rirmos dos brasileiros que de lá voltaram. em germe. ardente.

és tão extraordinário como uma couve. que não deixais a capital.mas procuras viver à custa do brasileiro. E tu português não és formoso. esse prédio sarapintado de amarelo. e nós ficamos-lhe dentro. ou contribuinte da Rua dos Bacalhoeiros.ao sol! Tais são as sábias verdades que soltamos de nossas mãos. Tenhamos juízo! Reconheçamo-nos neles como nós mesmos . estalas em pilhérias: . no café. ó português. germina. a usar quinzena de alpaca. dândi desventuroso do Chiado. a passear depois do jantar com o palito na boca. fecha bem as algibeiras. Então começais a deitar o chapéu para a nuca. a frequentar a Deusa dos Mares! Sabeis o que é? É o Brasileiro.no jornal.intentamos a nós mesmos um processo amargo. entre amigos. etc. é sobre a nossa própria e rica pessoa que descarregamos o riso feno. és inexaurível a glorificar o Brasileiro. que tanto te escarnecem.mas tu. nem como Delescluze que queimou Paris: . é ela que contém a pevide. e se a tua bem-amada to diz. chegado ao Brasil. a querer romper! Portanto quando nos rimos dele .o Brasileiro interior tende a florir.que em conversas. que tanto te .mas tu. na imprensa é o nosso irmão de além-mar. nem extraordinário — é um trabalhador. no discurso ou no sermão. a alastrar em cachos. Em cavaqueira é o macaco. O brasileiro não é belo como Apolo. morrerias de fome! Por isso tu .és um mandrião! De tal sorte que te ris do brasileiro .mas tu. não és certamente espirituoso! De cima dos embrulhos daquela tenda.E quereis uma prova? É o Verão! É o cruel Verão! Então sob a temperatura germinadora . . não valeis mais que o minhoto que volta de Pernambuco. tu também não és belo. Aproveitai-vos. e ainda tão extraordinário como um chinelo. Ora o brasileiro não é formoso.e se ele nunca de lá voltasse com o seu bom dinheiro. ele lá. compatriotas! E sobretudo certificai-vos que vós outros. a exigir dos vendedores a água do Arsenal. O brasileiro não é espirituoso como Mery ou Rochefort: . português. que lá tendes dentro na entranha. és inesgotável a troçar o brasileiro . é que não tem mais nada que te dizer e mente por mero deleite. brota em fruto. Brasileiro amigo. nem elegante. tens a tua elegância dependurada no bom Nunes algibebe! O brasileiro não é extraordinário como Peabody que deu de esmolas cem milhões. português. nem espirituoso. queres tu por teu turno rir do lisboeta? A esse colete verde. atraído pelo sol. português. nem como o mais recente Dom João: . a desabrochar. Ora se esmagarmos a abóbora a grandes golpes de chacota. Quando vês o brasileiro chegar dos Brasis. Nós cá contemos o brasileiro.mas tu. No Inverno a pevide contém a abóbora: mas quando a abóbora cresce no Verão. quarenta folhetins to provam! O brasileiro não é elegante como o conde de Orsay ou Brummel: .

tranca-lhe bem a porta. aos quais tanto se acusam os joanetes e os tamancos primitivos. que tanto ria de ti! 0 .caricaturam. não os ponhas mais nos hotéis da capital -e poderás rir. rir do carão amarrotado com que então ficará o lisboeta. esses pés.

As câmaras municipais. todos os afilhados de SS.as os vereadores. SS. Algumas câmaras tendo. devemos lembrar que em Inglaterra. A lei de 20 de Setembro de 1844 concedeu às câmaras municipais autorização para fundarem. Rússia. deram generosamente o auxílio dos seus cofres para a organização do ensino . Dinamarca. que por uma velha tradição nunca se ocuparam das coisas da inteligência . (E como estranhar esta abstenção pode parecer uma originalidade fantasista. Espanha. desde 1844. para dar um pataco a uma escola. subsidiar. suam sob a folhagem da faia . Quem atenta nestes termos. aos corcovos. S. mas num chouto modesto: e supõe enfim que. Itália. alargando um pouco as rédeas. nunca levaram a mão à algibeira. com algumas reflexões e algumas cifras. com singularíssimas e simpáticas excepções.as os vereadores.e as 300 câmaras do Pais. de tamancos e colete aberto. França. com um subsidiozinho de tostões para a fundação de 41 escolas! . onde SS.sub tegmine fagi. 5as os vereadores. Alemanha. S. há quase trinta anos? Uma. sabem quantas escolas têm as câmaras fundado.não dão sequer esmola ao ABC. neste espaço de 30 anos.Uma Campanha Alegre (Volume II. e que o amor da instrução tinha verdadeiramente tomado o freio nos dentes: supõe ainda que leis anteriores teriam circunspectamente domado este ímpeto desabalado de educar :-e que a lei de 1844. feita a concessão.as têm a iniciativa cansada e a bolsa esvaziada. Uma Câmara tem antes de tudo. e em geral manter. permitiu às câmaras palpitantes o criarem as apetecidas escolas. S. como objecto. supõe muito racionalmente que as câmaras estavam ávidas de fundar escolas. Suécia. os particulares sustentam com um ombro as paredes da escola que os municípios amparam com o outro). depois tem de construir as estradas que levam às quintas. o estado da instrução pública em Portugal: Em primeiro lugar a instrução entre nós está toda a cargo do Governo. Estados Unidos. macadamizar comodamente as ruas ou as vielas de SS. não numa carreira desordenada. inteiramente a expensas suas. Por seu lado os particulares. em Setúbal! De resto. as câmaras se atiraram aos pulos. com o curso dos anos. escolas primárias. com a cima esguedelhada. juntas às 4000 paróquias. não sejamos injustos. a levantar os alicerces das escolas! Pois bem. chegado a compreender que soletrar não é inteiramente tão criminoso como roubar. com os seus rendimentos. Capítulo XXII: Melancólicas reflexões sobre a instrução pública em Portugal) por Eça de Queirós Março 1872 Eis aqui. Quando chega a passar o ABC. têm concorrido. depois tem de empregar.

de sete a dez anos. E a culpa toda recai no Estado. de 97000 crianças que traz nas suas escolas . diz-se. Tem a altura de uma enxada e a utilidade de um homem.em cada 50 alunos apura-se 1 aluno! Portanto Portugal. eis o que o Estado tem feito: Sabeis. possuímos apenas uma escola para cada 300 crianças! Há uma escola para cada 2 00 habitantes! Das 700000 crianças que existem em Portugal o Estado.. se ocupam da instrução. a inteligência. por ano? Segundo as últimas inspecções . quantas escolas há. e a escola.as . segundo as últimas estatísticas. A criança aí. O Estado. guarda o gado. tendo um país a educar. ó cafres! Para esta situação concorrem o aluno. 1940! Mordei-vos de ciúmes. como o general Boum. recolhe às trindades. de Norte a Sul. pois. estão fora da escola mais de 600000! Destas 97000 crianças que frequentam as escolas. A família não nega o filho à escola.Tal é o desvelo. sabendo os rudimentos. o mestre. Vai. Porque o Estado impossibilita o aluno. fundar uma escola para cada 50 crianças. Temos 2300! Devendo. Erro. requer o filho para o trabalho. Isto é. por três caminhos . nessas 2300 escolas . com o seu dia . tem a instrução inteiramente a seu cargo.. amigos.contra o ABC! Nos campos a família é hostil à escola. sacha. neste País onde floresce a vinha e Melício pensa? 2300! Existindo no País. S. quantas se apuram prontas. apanha a lenha. inutiliza o mestre e abandona a escola. Ora. portanto. as espessas câmaras municipais. colabora na cultura. o patriotismo com que SS. e não sendo justo que se apertem na estreiteza abafada de uma escola mais de 50 alunos.ensina 97000. (e já é fazer transpirar de mais tenros cidadãos imberbes) segue-se que deveríamos ter 14000 escolas. amigos. Sai de madrugada. sabeis.tira por ano. 700000 crianças. acarreta. de 700000 crianças.de nossos irmãos os cafres. e sob sua responsabilidade. já conduz os bois. É uma situação paralela à dos cafres .

de manhã e de tarde. e cuja instrução se arrasta vagarosamente. restam menos de 100! Que lhes parece. sabem o que sucedeu? Meses depois. umas poucas de horas. as câmaras negaram-se a continuar as dotações! Algumas mesmo não chegaram nunca a pagá-las! Outras não quiseram satisfazer ao professor os ordenados já vencidos! Num distrito. dão para os cursos nocturnos. dos 18 cursos nocturnos que se abriram.12000$000 réis. Ora uma família de lavradores não pode luxuosamente diminuir as suas forças vivas. Um aluno de mais na escola é assim um braço de menos na lavoura. é diminuir a força produtora do casal. para auxiliar estas criações . criar 545 cursos! As câmaras. 3! No distrito de Coimbra (oh lusa Atenas!) de todos os cursos que havia. suprema facilitação da instrução? 1200$000 réis! Sabem quanto dá o Estado para esses 62 cursos? 240$000 réis para os cursos nocturnos! 3$890 réis a cada curso! Pouco mais de três quartinhos! É com estas despesas desvairadas que se fazem as bancarrotas desastrosas! Mas não é tudo! Em 1867 o ministro do Reino promoveu energicamente a criação de cursos nocturnos. o campo restituiria a criança à escola. Portanto tiram a criança à escola para a empregar na terra. Não é por o filho saber soletrar a cartilha que a terra lhe dará mais pão. meus senhores. restavam apenas. esta singular infâmia? . não restava. prometeram magnanimamente. os cursos nocturnos eram frequentados por 700 alunos. de pequena cultura e de pequena indústria. Fez-se um esforço arquejante. os trezentos municípios do Pais. Pois bem. no primeiro entusiasmo.rudemente trabalhado. Os cursos nocturnos eram outrora exclusivamente para os adultos que tinham o seu dia tomado pela lavoura ou pelo ofício. No entanto num país pobre. havia . passados meses . O filho tem o seu dia tomado pelo mesmo labor do pai. Ora sabem quantos cursos nocturnos havia em Portugal em 1862?-62! Em Itália. a criança trabalha quase tanto como o homem.senão para ambos. Mandá-lo à escola. como o nosso. em Peniche. A hedionda câmara fechou-os todos! Dos 545 cursos que se conseguiram criar em 1867. meses depois. Os cursos nocturnos deveriam ser sobretudo para ele . depois de meses prolongados. À noite. O remédio a isto seria a criação de cursos nocturnos. país de população apenas quíntupla.nenhum! Ultimamente. e conseguiu-se. no bestial distrito de Évora.5000! Sabem quanto todos os municípios juntos.

Em 1813. 80 a Itália. Pois bem. violentamente.determinou que os professores de Lisboa tivessem 400$000 réis.com treze vinténs por dia. difícil ciência que se necessita aprender. Rodrigo da Fonseca Magalhães. te vergaste nos velhos pelourinhos que ainda existam. E em 1872. Note-se que. pauta. 260 réis por dia! Tem de se alimentar. sem ordenados suficientes não há professores idóneos". vestir. e mais cruelmente desatendido. Acresce que o professorado é uma alta. papel . o professor para a indigência! Além disso o professor de instrução primária não tem carreira. O homem assim não procura progredir: embrulha-se na sonolência do seu ofício como quem se acomoda para a eternidade. Está fechado no seu destino como numa desgraça murada: crescer-lhe-ão os filhos. Sabem quanto ganha um professor de instrução primária? 120$000 réis por ano. e o vazio da sua escola seria o fim do seu salário. nem aproveitar. para criar uma família . Pedia-se isto há 60 anos! A junta dizia. nossa Pátria! Deus na sua justiça te dê uma boa e feroz tirania. É esse o fim das escolas normais .treze vinténs por dia! Mas ouçam! Já em 1813 a junta directora dos estudos pedia ao Governo que.Oh. de outro modo desertam-lhe a aula. e continuará sem esperança de melhoria a sofrer dentro dos seus l20$000 réis! A falta de carreira é a extinção do estímulo. e quase sempre comprar para a escola papel. Se tem de comprar penas. para a alta moralidade da sua missão. a petrificação da vontade. o professor deve ser casado. . pelo menos. O aluno pobre só aceita o ensino absolutamente gratuito. energicamente: "decidamo-nos. pagar uma casa.o professor tem ainda de ordenado os velhos 120$000! Note-se mais! Há 35 anos. lousa. desse aos professores primários 200$000 réis. tem hoje já 91 escolas . 200$000 réis para um professor era considerado pelas repartições competentes um ordenado . comprar livros. terá educado gerações.aprender a ser mestre. e te enforque nas traves apodrecidas das forcas de outrora! Outra das vergonhas desta situação é o professor. e os das outras terras 250$000 réis. com o ordenado avaro do antigo regime . O professor de instrução primária é o homem no País mais humildemente desgraçado. que te deite nas palhas das cadeias. o abandono do ser à fatalidade.abandona a escola. lápis. considerando que o professor não podia viver. Pois bem: daí a três meses essas medidas racionais e inevitáveis foram abolidas! Determinou-se até que aos professores não fossem pagos os ordenados vencidos . Uma eternidade de 120$000 réis! E ainda deste estreito salário tem quase de sustentar a escola. nem educar-se. vir-lhe-ão os cabelos brancos. com o extraordinário aumento dos preços. O professor é forçado a pagar estes apetrechos.apenas suficiente.e arremessou-se de novo. etc. lousas. lápis. a triplicada carestia da vida . à rotina e à inércia.

a falta de inspecção. e o resto ocupava-se no ensino livre! Este professorado quase sem salário. nem estímulo eficaz. ao ar livre. ensinavam em pátios. Não pedimos decerto para uso do ABC os clássicos jardins de Armida: mas está na mesma essência da organização dos estudos a boa disposição material do edifício escolar.172! Que vos parece. a gratificação de . Os edifícios (a não ser os legados pelo conde de Ferreira. numa saleta tenebrosa e abafada. Isto vigora desde 1844. A inspecção é a consciência pública da escola. Sem inspecção . repetem a lição. Froebel fazia alterar o estudo do ABC e o trabalho manual. 91 professores. de 1 687 (como viram). sem inteligência.extinguiu-a! É verdade. os grandes educadores. A escola entre nós é uma grilheta do abecedário. desleixa-se por falta de interesse. Além disso. só foram encontrados com habilitações literárias 263! E só foram julgados zelosos . escura e suja: as crianças. nem luz. entre árvores. que por toda a parte multiplicava as Escolas Normais? Correu sobre a única que tínhamos e . A escola não deve ter a melancolia da cadeia. da luz alegre dos prados e dos montes. Nem espaço. para inspeccionar as escolas do seu distrito. a criança soletrava e cavava. Pestallozi. nem asseio. Nada torna o estudo tão penoso como a fealdade da aula. patriotas? A escola por si oferece igual desorganização. e a escola desorganiza-se por falta de direcção.normais. o ministro do Reino dizia à Câmara dos Deputados. E sabem o que fez o Governo para seguir esse movimento civilizador e fecundo. só 172 foram achados competentes! É que há um outro mal terrível . Sobretudo nas aldeias é quase impossível atrair ao estudo. e põe todo o tédio da sua vida na rotina do seu ensino.o professor que não tem ordenado suficiente. As escolas estão abandonadas à indolência do professor: e o professor está abandonado à desesperança da vida! Sabem como é feita a inspecção? Em cada distrito administrativo há um comissário dos estudos que tem por ano.de entre 1687 professores. cria a seguinte situação: Na última inspecção . extinguiu-a! Dera ela. meus senhores. A educação deve ser dada com higiene. nem destino garantido. Froebel. ocupados na direcção dos liceus. não curam nem podem curar da visita e inspecção das escolas primárias!" E pois o . num relatório: . nem ar. todos aproveitados pelo Estado . crianças inquietas que vêm do vasto ar. enfastiadas. É o que se dá por todo o País. Sabem quantas havia em Portugal? Uma. e nas regências de cadeiras. Ora em 1854.120$000 réis. Ordinariamente é um professor do liceu ou o reitor. no pouco tempo que viveu. de todo sem carreira. sem aprendizagem normal."os comissários dos estudos. que ainda quase não funcionam) são na major parte uma variante torpe entre o celeiro e o curral. sem estímulo: o professor domina pela palmatória.porque 70 regiam ainda há pouco escolas públicas. sem vontade. nem arranjo.

foram julgados com habilitações literárias 263 . apenas se encontram 97000 nas escolas! Destas 97000 apenas se apuram 1940. 2300 escolas num país de 4 milhões de habitantes! De 700000 crianças a educar. foi lavrada pelo Governo . De 1867 professores. Portanto de 700 000 crianças a educar . Foi extinta! (Tenta-se agora criar 5). Eis. o estado da instrução.e ainda existe hoje. escritos com uma exacta ciência e com um altivo sentimento.educa o País 1940! Sendo indispensáveis os cursos nocturnos . 1 A instrução em Portugal é uma canalhice pública! Que o actual Governo volte os seus olhos. resumidamente. devemos exceptuar os excelentes trabalhos do Sr. Hoje restam 100! Os professores têm em 1872 o ordenado de réis 120$000 . nos fins do século XIX. Havia 1 em 68. D.criaram-se 545. não há. Pois bem. António da Costa. . Já em 1854 se queixava disso o ministro do Reino! Estamos em 1872! Eis aqui o estado da instrução pública em Portugal. da inspecção dos comissários. para este grande desastre da civilização! 1 Desta indiferença profunda e bestial que há pela instrução. a inspecção pelos comissários à moda de 1844.que já em 1813 era julgado absolutamente insuficiente! Só com boas escolas normais se podem criar bons professores. em 1872.e zelosos 172! As escolas são currais de ensino! Inspecção. há perto de 20 anos que esta sentença condenatória.Estado que claramente condena o regime estabelecido em 1844. Os seus livros. um momento. são o protesto da civilização e a desforra do espírito.

foi mais forte e original do que a nossa-é porque as mães. pois. A geração de 1830. e movendo os passinhos numa tal fadiga. em França. para bem ou para mal. Uma pele fresca e lisa. tinham sido as raparigas vivamente sacudidas pelos tempos dramáticos das lutas civis.indicam juízo forte. romântica. E um ser magrito. porque as mães tinham vivido nas emoções heróicas das guerras. estas gentis raparigas de 15 a 20 anos de quem nascerá. atirada para o sótão. Diz-me a mãe que tiveste . O primeiro sinal saliente é a anemia. É. Está tão longe de nós como os pastores vestidos de seda. desbotada. com um penteado laborioso e espesso.que o dever essencial de uma menina é ter saúde. Taine diz. como educadoras. Assim poderemos prever o que elas serão mais tarde como mães. O madrigal ficou para sempre suspirando esterilmente sobre a lombada dos livros de Curvo Semedo. Hoje os pastores são rudes miseráveis. gerada durante o primeiro império . A geração burguesa e plebeia de 1789 a 93. Se a geração de 1851. beiços vermelhos .porque as mães que a conceberam tinham chorado e pensado sobre as páginas de Rousseau. músculos que jogam livremente. A saúde é o esplendor físico da inocência. sadias e robustas. superiormente interessante saber o que são hoje.foi nervosa. A acção de uma geração é a expansão pública do temperamento das mães. em Portugal. não se atreve a pôr o seu pé florido nestes caminhos revoltos da vida presente. busto direito. foi livre. metido dentro de um vestido de grande puff. as meiguices a Clóris: pedem mais pão aos patrões! O madrigal é triste como uma flor de laranjeira de papel. um . se a nossa pena nem sempre for glorificadora como um soneto de Petrarca: mas a tinta moderna sai do poço da Verdade. na contemplação das fortunas maravilhosas. pálido. frescas e moças! A menina solteira! Vejamos o tipo geral de Lisboa. apoiados a bordões de cristal.dir-te-ei o destino que terás.Uma Campanha Alegre (Volume II. em 1872. cobertos de farrapos. em versos sonoros. Que elas nos perdoem. Capítulo XXIII: As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea) por Eça de Queirós Março 1872. Não suspiram. idealista. que mal se compreende como poderá jamais chegar ao alto do Chiado e da vida. consciência recta. Mens sana in corpore sano. o pastoril desembargador. de onde ela saiu. sensível e humana . Não há nada como belas verdades. pintando o sólido vigor inglês . a geração portuguesa de 1893. essas gentis meninas.

braços amolecidos. é uma perpétua desnutrição. Sobretudo pela educação. O ar da Baixa corrompe o sangue. depois de ir de uma loja na Rua do Ouro a uma igreja no Loreto. Nas casas de província. como a oração. Ora entre nós. é feita pela mãe: os grandes princípios. O sangue alimentado a massa. anda como pensa direita e certa. as raparigas não têm saúde. Uma menina está direita e firme. não se alteram as palavras gravadas. sem carne. as olheiras. O Baltresqui. é ela que lhos deposita na alma. o peito deprimido. Os antigos moralistas atribuíam-lhe mesmo uma influência deplorável nos costumes e no carácter. saltitam. falta de ar puro. A palidez. bondade. constantemente sentadas e aninhadas. Algumas mesmo não sabem andar. e todas da clorose que ataca os seres privados do sol. Uma inglesa tem por dever moral. do recosto e da almofada . o Ferrari. . uma inglesa. como a firmeza do caminhar. homem de trabalho e de actividade exterior. por pudor.ou percorrendo num passinho derreado a Baixa e a sua poeira. Em primeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça de um sofá. todo de higiene.mais tarde os livros. sem preocupação "janota". o hábito do sofá. gingam e rolam. oscilam. corpo abandonado. como num mármore branco. com ingénuo horror: mulher gulosa. Comem doce e alface. quando têm de se pôr a pé e de marchar. a sociedade só conseguem escrever. A educação dos primeiros anos. Paris cria a ideia e Lisboa o pastel. restaurador. sem sangue. das natas. bicha manhosa. honestidade. religião. O pai. A gulodice do açúcar.o largo passeio. cabeça errante. É como na pintura e na estatuária se representa sempre a Inocência. dos bolos. e o ar das salas. Jantam as sobremesas. impõe-lhe menos a sua feição. A deterioração pelo doce começa aos quatro anos. são. Nada dá tanta ideia da constância de carácter. a mãe grava. Além disso. Magrinhas. Depois. sentir puro. disse Michelet. As palavras escritas podem apagar-se. enfezadas. Depois não comem: é raro ver uma menina alimentar-se racionalmente de peixe. como Paris é uma cidade intelectual. ovos. A criança está assim entre as mãos da mãe como uma matéria transformável de que se pode fazer . dá estes corpos débeis e estas almas amolecidas. o ar murcho . natas. amor do trabalho. arquejam e recolhem à pressa no ónibus. as que andam a pé. . a mais dominante e a que mais penetra. Uma inglesa nunca toma. resguardadas por cortinas ou alumiadas a gás. amor do dever. Aqui. sem força vital . outras do peito. com as janelas fechadas. As nossas raparigas.umas padecem de nervos. Na criança.um herói ou um pulha. bem marchado durante duas horas.acostuma às posições lânguidas.A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães. Daí a grande quantidade de doenças de estômago e de maus dentes. o passeio . não fazem exercício. os costumes. é menos camarada e menos confidente. escorregam. onde a moral existe guardada em decrépitos provérbios como em frascos. Uma alemã. estas atitudes. outras de estômago.revelam um ser devastado por apetites e sensibilidades mórbidas. não tem oxigénio e portanto não alimenta. obediência. carne e vinho. dizem os velhos. São atitudes de serralho ou de pomba amorosa. O homem é "profundamente filho da mulher". Portanto. mais longe do filho. a . Lisboa é uma cidade doceira.

de melado. e com os materiais tenebrosos que metem por baixo para sustentar e erguer mais a construção inclemente. para satisfazer às botinas Luís XV desconjunta-se o pé. obra do seu mau jornal. de em segunda mão. tem encanto e pode seduzir. o nariz afila. em forma de capacete. Fere as três causas da vida. obra do seu bom Deus . sem ar. Pulmões sem ar.e na bela idade da florescência. cria um estado de inflamação. Começam a precisar. Mas que venha. de concha. De modo que o balanço das condições físicas de uma rapariga portuguesa é este: Músculos sem exercício. Outra causa de doença é a toilette. com aquele aspecto safado que o pó das estradas dá à virgindade das folhas. A pele amarelece.acumulam sobre a cabeça um fardo. É a moda. ao mesmo tempo.para o acomodar ao figurino. amolentado. a circulação. todo o corpo corcova . está adoecendo como um corpo que se não despe. O espartilho que destrói a beleza da linha. Digestão estrangulada. estão secos e cor de rato.Sinto hoje um peso na cabeça!. uma pobre rapariga de quinze ou dezoito anos está como alguma coisa de amarrotado. da luz do gás. que não deixa arejar o crânio. Ouve-se dizer quase sempre às mulheres . um pouco de pó de arroz. do figurino. a respiração e a digestão. ao outro dia. de murcho.. e muitos tules espalhados. com os cabelos lustrosos. dizem. para obedecer ao puff torce-se a espinha. A primeira consequência é que uma rapariga assim destrói a sua beleza. Ah! o velho Páris não lhe daria a maçã. a vivaz mocidade. as orelhas despegam do crânio. os lábios gretam. depois. e a graça. a sincera luz da manhã! Todas as mácula' destacam: os cabelos. A transudação acumula-se à raiz do cabelo. chamuscados do ferro de frisar. a pobre mulher precisa de reformar o corpo. os beiços são como um velho bago de romã espremida.Cruel razão! A moda começa por ter isto de absurdo: não é ela que é feita para o corpo . para seguir o chique das cintas baixas . É o fardo! E o crânio que.. No brilho artificial daquela luz crua uma menina. o nariz tem. fecha os poros.Confeitaria Lisbonense arrasam o nosso organismo social. para serem bonitas. eriçados. Com estes penteados enormes. De modo que para sustentar o chapéu deforma-se a cabeça.. um vinco escuro. uma trouxa. de fronha. de chalé. toda a pele parece a de uma galinha cozida!. os olhos encovam. e na fresca expansão da vida. a melodia das curvas naturais.mas o corpo que tem de ser modificado para se ajeitar nela A moda vem de fora. Lisboa é a cidade do Universo onde as meninas mais se apertam e se espartilham. as mãos humedecem.. insólitos. feita pela fantasia burguesa de um desenhador de armazém: e aqui. dificulta. Circulação comprimida. . na cartilagem que o liga ao rosto.

cantarola um pouco pela casa. Desabitua o espírito da invenção. em toda a bela originalidade das suas linhas.e todas.. é o bom tom por assinatura. deixa-o cair no regaço. É uma confissão tácita de que se não tem espírito. mórbido: sente-se aí logo a indecisão. que o seu modo de andar.se ocupava menos da invasão de Xerxes do que do corpo de Lais! Veja-se então que racional. se alojam. o seu gosto. vai-se pentear. inoprimido. hesitante. condizem. bela. passa pelo espelho. Não é com a intenção mística daquela santa que cortou o nariz para aniquilar as glórias mortais da sua beleza! Não! Hoje mais que nunca se glorifica a beleza. vão bem com o molde decretado e chegado pelo correio. umas certas mangas . Veja-se o andar de uma inglesa. e assim vai puxando o tempo pelas orelhas. Uma larga túnica de Linho. quando a carne se tornara o crime da vida. dá duas pancadinhas no cabelo. atira-os para o lado. pega no croché ou na costura. um certo chapéu. Que falta de espírito! e os maridos pagam-no! Depois da anemia do corpo. nas conversas dos pórticos ou nos peristilos dos banhos . o que nas nossas raparigas mais impressiona . é ter o gosto que se recebeu de encomenda. o seu peito. conversa vagamente. Vejam-se nos tempos merovíngios e carlovíngios .destrói-se o busto. um certo corpete. a sua altura. de amplas pregas. volta ao espelho. direito. arrastado. firme. E era em pleno ascetismo. corre o Diário de Noticias. é mandar vir as ideias pelo correio.. ao comprido das costas.é a fraqueza moral que revelam os modos e os hábitos. em Paris. Somente não se aceita o corpo que a natureza dá . A moda destrói a beleza e destrói o espírito. derreada com a sua ociosidade. A sua preguiça é um dos seus males. ao mês. adianta mais dois pontos no trabalho. Ter a toilette do figurino. . come um bocadinho de doce. chega à janela. se enfiam naquele molde. a sua cor. para a ir recitar na rua. magras e gordas. e bocejando as horas. O dia de uma menina de dezoito anos é assim dissipado: almoça.é como um escritor que não acha e não inventa as suas ideias. é alugar o chique. se des-prezou. que deixava o corpo livre. Um vestido inteiro. e o corpo é o fim supremo. modelando o corpo como uma luva. elástico. sob o domínio da democracia. Veja-se o andar de uma menina portuguesa.e procura-se aquele que se vende nas modistas. a personalidade bem afirmada. o seu perfil. harmonizam. harmónica toilette. da espontaneidade. sério: sentese ali a saúde. as altas e as pequeninas. as loiras e as trigueiras. o pescoço livre. Mas mesmo nos tempos bárbaros se respeitava a perfeição da forma. se deteriorou tanto o corpo humano. se introduzem. nem fantasia. da liberdade. incerto. Nunca como hoje. é fazer como os merceeiros que têm a opinião da sua gazeta. abdicam a sua originalidade. a incoerência. a decisão. Nada mais significativo. a coragem. Aceitam uma banalidade em seda-e um lugar comum com folhos. Uma senhora que não inventa e não cria os seus vestidos . sem se preocuparem se o seu corpo. Abandonando-se servilmente ao figurino. já notámos. Seguir um figurino é aprender a elegância de cor.os vestuários daquelas rainhas sanguinárias e magníficas que brilham nas iluminuras dos velhos códices. os cabelos em duas tranças. branco ou negro. Ah! onde estão os tempos em que a beleza era como uma santidade! em que a vida toda era uma educação e idealização do corpo! em que se erguiam estátuas às nudezas maravilhosas! em que o desfigurar um homem era punido com as velhas leis bárbaras do sacrilégio! e em que o ateniense. a timidez. Um caixeiro desenha a lápis.

a ideia precisa: mas terminam quase sempre por seguir o conselho da criada. e desfechariam também. pelo abrasado caminho de Mar-Saba. que sustos. dos soldados e das máscaras.e aí estão inutilizadas. cai. comiam entre duas pedras no leito seco das correntes. o relógio que parou. grandes olhos verdes inocentes e fortes. fica no meio da vida. toma o seu guarda-chuva. vivas. Dezanove a vinte e dois anos. Um não. que gritinhos. de outro modo.Outro mal seu é o medo. Uma sobretudo era admirável com a sua alta figura de Diana. têm os terrores que têm os canários. a inglesa. reza. que viu em Jerusalém. por causa de alguns pingos de água. dar-lhes a decisão. hesitam. e aí vai chapinando a lama. irresoluta e suspensa. Veja-se que companheira para a vida do homem . nas montanhas de Judeia. saltam para cima dos móveis. inclusa (segundo a pitoresca expressão do nosso grande desenhista Manuel de Macedo). uma crise de família. Não há nelas nenhuma decisão. É vê-la nas jornadas! se tem de montar a cavalo. Iam partir para o Jordão. estacam. o pescoço de uma brancura de camélia húmida. uma inglesa! Quantas destas encontrou um de nós. uma alemã. dos castigos de Deus. como o shake-hand franco. que precisa ganhar o seu pão. nos desfiladeiros do mar Morto! Sofriam longas horas de sol e caminho. Tinham ambas os seus chicotes. de outro modo. dormiam sob a tenda. A inglesa. numa desolação maior que a de Job sobre o seu monturo. nem um sultão para ter aninhadas. uma situação difícil. da morte. e sempre alegres. gritam só com ver um revólver. arcar com todas as durezas da vida. rosadas. Uma menina portuguesa. e de mimos de romance! Que diferença de uma francesa. nos mais remotos países. Não são capazes de atravessar uma sala apagada à meia-noite. Isto é: lutariam. de trovoada. Daqui vem a sua falta de acção. muito pronto. Têm a fé abstracta que só Deus as pode inspirar. Perante um perigo. huris perfumadas. É necessário que tudo em roda na vida seja muito fácil. se tem que fazer compras ou visitas. se lhes pedissem a bolsa fariam fogo: tal é a . em fofas almofadas. de ladrões. Basta vê-las no Inverno. Nunca ele se esquecerá de duas nobres e belas inglesas. nas ruínas e nos desertos. dos corredores escuros. geme. a sua infeliz "passividade". um vestido de amazona verde-escuro. se a sua cavalgada fosse atacada por beduínos de rapina. põe o seu water-proof. muito claro. justo como uma luva. se um rato corre no soalho. num grande dia de chuva. amuada. Precisa ser mandada e governada. E eram duas crianças quase: se as fitassem de certo modo. uma carruagem que falta. luvas de camurça. um medo horrível de tudo. não tem iniciativa. nem determinação. nem vontade. gostam de subir à tolda. cheias de puff. calça as suas galochas. com os braços caídos. a francesa. sentir a brisa húmida: a portuguesa em baixo. Como há-de ele lutar com os braços sobrecarregados por estas criaturinhas que desfalecem e gemem. e à cinta os seus revólveres. encolhida. rezam. e toma caldos. A portuguesa em casa. o riso fácil. de fantasmas. de pó de arroz.e do homem moderno que não é um trovador ou um contemplativo. sucumbem. de rabuge. o tempo que mudou . mas um trabalhador. um quase nada as embaraça. que padrenossos murmurados! A bordo de um paquete. solteiras. ver o mar. corariam.

afogada em mimo. Depois. mas não penetra o espírito como uma lei que tenha eficácia. Uma deu um dia a um nosso amigo um amor-perfeito.de coração doce e de carácter rijo. a recitar o padre-nosso. Vejamos. tem perrices por causa de uma fita. de rendas. habita e se move o Pecado. um nadinha de mulher. Tinha nove anos. Vivendo na certeza da sua beleza como uma santa no seu altar. De sorte que. 5º gula. leves como fios. a Doutrina Evangélica fica na memória como uma toada que tem harmonia. ei-la já com gravidades de dama. e anquinhas e puffs. que é o cárcere do anjo. depressa ou devagar. Raça incomparável . seguidamente. no Catecismo? Uma série de fórmulas e de palavras combinadas. E assim a pequenina pouco a pouco se penetra da influência dos seus vestidos. põe pó de arroz conscientemente. e salteada. Ora a toilette. as doenças. e um grande aparato. Aprende-a maquinalmente. cheias de mistério. uma fórmula trivial que se repete de joelhos. vai-se impregnando de vaidade como uma esponja de água. 4º ira. a ajoelhar com gravidade. A pequerrucha aprende a persignar-se. de se recusar. lentamente. por obrigação. já trazem a cinta apertada num anel tirânico. e cria no fundo aquele lago imóvel.mas sem a menor compreensão. sob a educação interior. toda preocupada de vestidos. de folhos! Na idade em que precisam de toda a liberdade de corpo e de movimentos para crescer. e a criaturinha. pedindo-lhe que o guardasse. 2º avareza. Começam por as vestir como pequeninas senhoras! A pequerrucha de seis. gota a gota. um bocadinho de criatura. a morte. Ao mesmo tempo vai-se-lhe ensinando o catecismo e a doutrina. Aos oito anos olha-se ao espelho. uma doutrina que lhe mostre o que deve pensar e que lhe aponte o que deve fazer: critério para bem-julgar e critério para bem-viver. a cabeça oprimida por duros penteados em que o ferro lhes cresta o cabelo. os pezinhos devorados pelo verniz.obriga. A criança repete todos os dias que os pecados mortais são: 1º soberba. 6º . São graças. à maneira de uma lição de escola que tem de 0 recitar a certas horas. segundo os Místicos. É a educação moral. 3º luxúria. um modo de se retrair. em segredo. Desabrocham então as pequeninas simpatias. a espreitar com um certo disfarce malicioso. Todos os lábios da família peregrinam no claro. Mas a vaidade infiltra-se na alma. seriazita. negro e resplandecente. quer a meia esticada e elástica para dar relevo a uma perninha mimosa. E termina por papaguear a Doutrina correntemente. uma baby. sentindo através delas um certo terror . rosado rosto da Bebé. de cor. porém. aclamada e beijada começa a ter certos sorrisos.porque se trata de Deus e segundo lhe ensinam é Deus quem manda as trovoadas. que é ainda uma argila santa. como a tabuada ou como as capitais da Europa . tal é a sua força. O que se lhe ensina. como se penteia e como trata as unhas. Ora para que se ensina a religião a um homem ou a uma mulher? Para lhe dar um guia para a sua consciência e um guia para a sua inteligência. a ter umas ternuras de andar. que há-de fazer corar por vezes o seu anjo da guarda. coberta de fitas. um pouco. tornada um exercício de recitação. onde. decora todas as orações da cartilha. como a nobreza . direita.delicadeza da miss. sem ligar uma ideia sua às palavras mortas. como as nossas raparigas portuguesas se formam. oito anos. cujo sentido lhe é tão estranho como uma língua ignorada. As mães põem nas suas pequerruchas todo o interesse que uma artista põe na sua glória: e tratam de dar a essa glória um relevo magnífico.

o que a governa .como não se pode guiar pela religião que desconhece . É que para obedecer a um preceito é necessário compreende-lo . não lhe falemos alemão."E um cesto roto esta criança" . não lhe serve muito mais do que a um canário ou a uma rola. Pois bem. Sabe rezar o padre-nosso. aparatosa doutrina que lhe ensinaram e que não percebeu . se vê sua filha mentir. a agudeza do pequenino cérebro. aos domingos na Igreja. qual foi a criança que. diante de um prato de bolos. Uma ilusão. ela não liga ideia que a prenda. os sermões. hesitou jamais em lhe deitar a mão. Desde que a criança sabe de cor o catecismo. e deixamos de respeitar os outros porque os induzimos voluntariamente em erro. a faísca. sem lha explicar. e o País é todo ele uma grande consciência falsa. etc. supõe-se que ela tem religião. Vem tudo da educação. quando dispõe inteiramente da palavra e da frase começa a mentir.não a pode salvar. o orçamento. como esposa. como filha. Princípios que lhe sirvam para se dirigir na vida. aos cinco anos. sente-se verdadeiramente ofendida. a mentira é um hábito público. De resto. Às meninas sobretudo (como se supõe que elas não terão relações oficiais ou publicidade de vida em que a mentira possa prejudicar) consente-se a mentira.o que é o germe da covardia: depois conta o que os outros não fizeram — o que é a semente da calúnia. e à sexta-feira na cozinha. No princípio nega o que faz . Mente o homem. a ciência. e que tanto usa.guia-se pelo instinto ou pelo capricho. resistência ou interesse superior. como mulher sociável . e não comer carne à sexta-feira. Diante pois de qualquer circunstância da vida ela. um falso. de modo que às palavras que papagueia. um caluniador. religiosa. a política. A pequerrucha Bebé. é uma graça: prova o engenho. por temor de cometer o pecado da preguiça? Qual foi a que se coibiu de gritar para não cair em ira? — E será porque contra a nossa natureza. o catecismo . à flor dos lábios. como se a interrogassem sobre cálculo diferencial. Bebé mente. A religião de que tanto fala. não sabe o dever: ou pelo menos o que ela supõe o dever é ouvir missa aos domingos. chegando aos quinze anos. A criança cresce na mentira. Ora a criança. a arte.inveja e 7º preguiça. deixamos de nos respeitar porque afirmamos o que é falso. os versos. fatalmente impregnada do mal. E não sabem que o "cesto roto" fará depois um intrigante. Uma senhora inglesa ou francesa ou alemã. que recita maquinalmente.diz a família rindo.não o percebeu. cristã e devota . Em Portugal a mentira da criança faz rir. sejam impotentes. Mas se. Da religião sabe a "reza". Contra as tentações da vida ela não terá no seu espírito conselho. para nos fazermos obedecer de um criado minhoto. como .não sabe um. Declamava-se-lhe a vontade de Deus. a imprensa. entre nós.como é necessário que."qual é o teu dever como esposa cristã? qual o teu dever de cristã como mãe?" ela ficará tão embaraçada. por se lembrar que a gula é um pecado mortal? Qual foi a que deixou de adormecer sobre os seus livros. Uma só mentira contém duas culpas. . força.é o instinto. e se quebrem como bolas de sabão contra um muro as prescrições da religião? Não. como mãe. um momento de abandono podem-na perder: e toda a copiosa. Porque no fim. um intrujão. Bebé começa a mentir para ter triunfozinhos à mesa. lhe perguntarem .

uma vivacidade inofensiva! Inofensiva! como se não importasse menos que o homem minta na publicidade da rua .a criança estiola. tias. Ora quais são aqui os factos que oferecem à sua curiosidade as conversas da família. Espírito nascente. Não o diremos inteiramente como um defeito. e afirmando que tal comédia é fresca ou que tal romance é imoral. abraça o pacífico e grave jumento. giram . Uma das causas desta precocidade é a casa. que vai produzindo a sobreexcitação dos nervos.. penetra-se de ar. Pela manhã já ela está solta. O caso é que Bebé. visita os bois. falando com grande autoridade sobre casamentos. Em Lisboa as casas não têm quintais . do comércio. as invenções. pelos hábitos ou pelas leis. como uma esponja chupa a água. dá à sua pequenina alma uma palpitação ansiosa . a Ciência.do que a mulher no recato da família. No entanto da curiosidade proveio toda a civilização. é obra da curiosidade. Corre. trabalha principalmente sobre a ideia que contém mistério. ou se trate de uma palavra que escutou. que é inexplicável a riqueza de toilette de outra.alguma coisa do que produz o primeiro cheiro das madressilvas nas borboletas ainda afogadas na vida inerte do casulo. Grande instrumento de acção. Ver o que está dentro . luta com o carneiro. aos quinze anos. os escândalos. ávido. E sempre os namoros. com um bibe. que sicrano lhe faz a corte. arranha os joelhos. o engraçado anjo .e o ardor da criança. excluídas da vida pública. um velho chapéu. o loiro. raptos. pelos factos e pelas ideias que oferecem ao exercício da sua curiosidade. de que lhe chega já nas conversas um sopro e uma vaga sensação. uns largos sapatos. Qual é depois o resultado? Que vemos aqui meninas.e isto só explica muitos destinos. mas que sicrano tem uma actriz. as descobertas de continentes: toda a História. sem ar .absorve. ou de um boneco que lhe deram. da indústria. amigas ou visitas? Que fulana casou. Ela é a viagem perpétua que o homem faz através dos factos e das ideias. a Filosofia. recebe os largos abraços do sol.em volta destes dois supremos assuntos: vestidos. os vestidos. Veja-se a criança educada numa quinta. sabe de cor as árvores.mente! Além disso é curiosa. Toda a criança é curiosa. de vida. conhece os ninhos. a propensão melancólica.são dois factos de curiosidade. Em Portugal. preside à reunião das galinhas. as mulheres. A criança grande ouvido e grande curiosidade . tudo o que ouve dizer em redor. Estiolação lenta. ficam apenas de posse de um pequeno mundo. decerto! Mas é necessário saber como a educação o dirige. de viço.como borboletas em torno de um globo de candeeiro . os mexericos. seu elemento natural . Um grande agente na educação da criança é a casa. a variabilidade de humor. Num andar. farão dela . dotes. resta saber se os que a educam. sem árvores. conversando. de quase tudo. adultérios. sem horizonte. que aquela se separou do marido.a família e a toilette.. e inocente como um bicho. mãe. no conchego das saias juntas. a debilidade do carácter. Descobrir a América e escutar a uma porta .uma descobridora ou uma mexeriqueira. toda a Crítica. A curiosidade tem sido muito caluniada: e este nobre impulso humano é quase sempre considerado como um simples vício de criado. e namoros. O espírito da criança fita grandes olhos nestes mistérios pitorescos! E toda esta vida do mundo. cai. as histórias de paixões. Daqui provém que senhoras reunidas. cura-se pulando. etc. enlameia-se. com janela para a rua ou para o saguão. fresca . da literatura.

em curiosidades . acanhada. do imprevisto. os teatros. o rosto vermelho como uma amora. À noite. E por isso que elas aos quinze anos dizem. cabeça fresca. e estão sempre prontas a refugiar-se nos primeiros braços que as acolhem. as camaradagens. não a retendo a paz do colégio. rezam aos santos. a vida exterior.dizia a ama de Julieta. decide-se. com olheiras. Presa. em verdade. anula o espírito. nem a influência do dever -tudo na sua natureza impaciente e curiosa a leva a desejar o mundo. e sabem que na família estarão tão confinadas como no colégio. Nada a pode prender ao colégio: nem a serenidade de vida . de todos os tranquilos seres que cumprem nobremente. Em contraste veja-se uma menina de dez anos. das suas conversações. nestas altas casas encarceradas: pálida. os segredos. do que está na rua quando nós estamos em casa. das recolhidas sombras. cheia de fadiga. . Na cidade são tímidas. lendo já o jornal. A pequerrucha na quinta habitua-se a estar sobre si. entra em casa aos pulos.Um dos grandes males do colégio é o tédio. e esse admiravelmente — o pudor. das searas. espírito vivo da verde natureza.aqui. do que está no vício quando nós estamos no dever. só compreende um lado. de lições. sabe defender-se. com um cheiro de fenos e prados atravessados. nem o interesse da ciência.. ardendo em vontades. curvada. forte musculatura. e sossegadamente. abafada. O refúgio são as conversas. e só deixa viva e exigente . de confuso e resplandecente que se balança indefinidamente. gritam. no campo a criança está longe da sala.uma boneca de cera habitada por um bico de gás. Ora se alguém se aborrece é uma colegial. Além disso (grave consideração). a uniformidade claustral. cheia de si. os bailes: mesmo as que são pobres. o seu dever de crescer! Mas o melhor é o resultado físico: bom sangue vermelho. E nesse estado de espírito que se encontra diante de horas regulamentadas.a curiosidade. aconchegada nos mesmos quartos. aqui em Lisboa. do que se não tem. é adversa ao estudo e à ciência: nem a satisfação de cumprir o dever .que estão cheias de experiência! Será necessário que penetremos nos colégios? . as mãos cheias de terra. com o bibe sujo. hesitam. digestão de aço. não sai das árvores. tem acção. e sob o esplendor dos lustres: concebem-se. o ruído. O tédio enfraquece. De sorte que. sem sensibilidade e sem tristezas.Espreitemos só pela porta. a vontade.porque a mulher. do pacífico marchar dos regatos. E que educação superior. do dever. A mulher. tremem. das relvas. as salas.. aos oito anos. penetra-se. De quê? de tudo. com um desdém que espanta e faz recuar -. Mau hábito . do espírito crescido. ampla respiração. caprichosa. encolhem-se.porque a compreensão abstracta do dever não tem presa sobre o espírito feminino. Mas este mesmo regime mantém a imaginação perpetuamente excitada. o que é deplorável.como uma madressilva. e da sua malícia : . o refeitório insípido. dos milhos.porque não é o sangue buliçoso e sacudido dos catorze anos que aspira a repousar: nem o estudo . arregimentada. com desproporções absurdas. empalidecem. pela simples constituição do seu cérebro. O mundo aparece-lhes como alguma coisa de maravilhoso. berrando pela sua sopa. dorme como um canário. têm . de costuras. parece unia flor apertada entre as duas folhas de um livro. as grandes amizades. ao rumor das orquestras. perde o medo. as narinas palpitando de vida.

As senhoras. ser ricas. curiosidades da botânica. uma vida sentimental precoce e falsa. pelo uso) . As senhoras inglesas e francesas aos serões de família. a narração de longas viagens. mais esterilizadora do que a dos colégios. Entre nós lêem Ponson du Terrail ou Dumas Filho e o seu bando de analistas lascivos. história natural dos animais. Entre nós nenhuma senhora se dá às sérias leituras de ciência. entre as colegiais. quanto a história e a vida das flores. insípido. . duelos: cartas que se escrevem em que uma assina João. a aprender de cor nomes geográficos e anedotas históricas que dois dias depois de sair do colégio esquece voluntariamente. leituras de serão. Querem ser impressionadas. E. intrigas. duas ciências caturras que lhe lembram os óculos da mestra e o seu dedo repreensivo e áspero. e como ambos se perderam num caramanchão. Isso lembra-lhes a mestra. depois nas famílias. Não da profunda ciência (o seu cérebro não a suportaria). Os livros de Michelet. dos povos bárbaros. Passamos sobre eles as compridas e sonolentas noites do estudo. também. nem ao grande Virgílio. tiramos-lhes. mas que influem mais tarde. E o que nos acontece a nós os homens. as regiões pitorescas da China. repelem o espírito das mulheres dos livros e das coisas da ciência. doce ciência para espíritos delicados que amam a vida e os seres. com gosto. ou em voz alta aos irmãos mais pequenos ou aos filhos.produz. a monotonia do colégio.a geografia e a história: a geografia com as suas listas de rios e montes.dois monótonos martírios de memória . todavia. curiosas vidas de animais. ou para si. com ciúmes.preferem o drama e o romance. choramos sobre as suas páginas a dor das palmatoadas. vinganças. o dever. a maravilhosa existência dos insectos. o Insecto. A imaginação que se desenvolve nos colégios tem outro mal . abaladas . o Pássaro. têm sido adoptados como livros de família. e como ele fitava uma estrela. com o Telémaco e com o Virgílio. as contam rindo: são grandes paixões que têm umas pelas outras. Tomam em desdém os livros e o estudo. livros de história natural. Os colégios. de Sião. inocentes no momento.. Depois acham vulgar. Ensina-se à rapariga de oito a dez anos (além das línguas. A geografia e a história ficam-lhe sendo assim duas recordações odiosamente colegiais. pelos seus métodos fatigantes. que só aprendem bem. das Antilhas. Não há educação literária mais falsa. Daí as mil pequeninas coisas que todos sabem. o significado duro. poema genésico de uma transformação social. primeira aurora do mundo moderno.esperanças sobressaltadas.. mesmo depois de casadas. maravilhas dos mares e dos céus. viagens. francês e inglês. E os grandes ímpetos dos sonhos partem em largos voos. contém mais drama e mais maravilhoso do que a descrição dos amores de Pedro e de Francisca. mas mesmo dos lados pitorescos da ciência. tão profundamente sentidos. a Montanha. de profunda educação naturalista. palavra a palavra. de uma tão grande harmonia moral. o Mar. e como ela arfava de voluptuosidade. lêem. podem casar. como põe de parte o escuro vestido de merino do regime escolar. de tal sorte que não voltamos mais nem às piedosas e moralistas ideias do puro Fénelon. nem à Eneida. a história com a sua lista de batalhas e reis. à sua Geórgica. Uma criança gasta meses numa luta áspera.

e as luvas. depois o do estofador. trigueira.é toda positiva: a necessidade de ter dinheiro para viver. O mundo estende sofregamente a mão. nem a Arte . os lábios secos. deitada na relva. rude ou trivial. Hoje. música. começa a misturar-se no governo da casa.Pedro. A organização material da vida e o seu custo.é o dinheiro. Courbet. sem um casamento rico. e um camarote de teatro. Na família a rapariga vê a constante influência do dinheiro. contanto que traga o dinheiro.duas raras espécies.. nem das santas . E uma paisagem magnífica: duas mulheres solteiras descansam ali. . Depois. teatros. embebe-se dela. romances. casar rica. imbecil. a sociedade. pela educação moderna dos colégios. exaltado ardor de sentimentalismo. O desinteresse é desprezado com uma ingenuidade bacoca. . no fundo do pensamento ou do sonho. ou conde de tal: o retrato de um primo que se obtém: o chapéu do mestre de música que se abraça às escondidas. na frescura tépida das sombras. as grandes voluptuosidades. seja o marido velho. Casar rica para gozar: é em que se resolve a ambição de todo o destino feminino. fez um quadro: As duas meninas do segundo império. A preocupação não é a religião. carruagem. o olhar direito. e um chapéu. o mais poderoso pintor crítico dos tempos modernos.É o que todo o pai em Portugal deseja para sua filha. . Por outro lado a sociedade diz-lhe: goza! Ora na vida da mulher o que se entende por gozar? Ter um marido rico.hoje o rol dos fornecedores. etc. com os braços estendidos. a entrar nas conversas económicas dos pais. Não falamos aqui nem das ricas. acções de companhia e jogo de fundos. a comprar. é necessário que a rapariga esteja séria. à bolsa da casa. e o poder que ele dá. E nos colégios que se aprende a astúcia. os encontros rápidos e perigosos no fundo de um parque. a testa curta. etc. diante das mestras. bailes. a família. Hoje. Tem dezasseis ou dezassete anos: ei-la entrando na vida. seco. alta. nas conversas. nos jornais. a vida moderna não é mais que uma perpetua decadência e uma humilhação. como abraçando a terra. cidades. A impressão que nesta idade mais directamente lhe dá a família . A educação vai-se completar agora por duas influências . correcta. de fisionomia nervosa e imaginativa. loira. Para isto é necessário disfarçar. amanhã o da modista. calcula: . e todas as exaltações da sensibilidade. Dinheiro -e sensibilidade.as duas meninas do segundo império. e. outra exterior. a examinar contas.sente-se que pensa em dinheiro. Além disso. há sempre o dinheiro. A ideia do dinheiro torna-se nela fixa. está sentada. Uma. Primeira. branca. cisma: sente-se que sonha festas. toilettes magníficas. As mulheres tornam-se aí hábeis em contradizer com o rosto a alma. dão-lhe logo a certeza de que sem dinheiro. arfa por voar e vencer. A outra. moral contemporânea . . estão em cada mulher: fria ambição de dinheiro. camarote de ópera. juros. nem a Pátria. Tudo lhe mostra a vida aplicada. profunda influência no espírito da mulher.Daí o desejo de casar com dinheiro. grande luxo de casa. com um dedo apoiado à face.uma interior. fria quando a imaginação palpita. tem o perfil frio. como uma bomba aspirante.

outros no amor. ultimamente. Julgamos inútil insistir nestes estudos de moral contemporânea. O que se evita hoje. o trivial. deixam-lhe os seus bilhetes. O que se pede é a comoção. eis o nosso ideal. de elegantes. . o drama! O drama. terás bailes. Um negociante dizia um dia a Proudhon: Há um prazer horrível em um homem se sentir falir! Esta palavra monstruosa contém a explicação de um mundo.Aceitas?" Trata-se de saber se a moral contemporânea dá bastante força a uma alma. Suponhamos uma mulher nova.O Mistério da Estrada de Sintra. indigna perante a família. o sobressalto. a sensação.pela educação severa. serás doidamente amada por um homem. dá um relevo poético à paixão. outros nas conspirações. Fazer drama. as tuas carruagens maravilharão a cidade. e vão às igrejas pedir a Deus que a salve da morte. que no silêncio da sua casa cumpre prosaicamente. A família. a chinela. sem mágoa. Desarmada. O marido que mata a mulher. Uns procuram-na na política. Pueril ingenuidade. em Paris. sublimemente o seu dever? E que a nós só nos excita. para que ela repila. que juntava à insignificância literária. a religião tornou-se um hábito incompreendido. outros no dinheiro. Toda a literatura. e a tua existência será pecadora perante a religião. e perpetuam o tipo da mulher perfeita. Sobretudo do amor ilegítimo e culpado. ou pelo sentimento inteligente da religião. e a porta do hospital onde a recolheram à pressa para os primeiros socorros (fora ferida em casa do amante) está apinhada de senhoras. Nós mesmos.palpitar fortemente. Nada tem um encanto tão profundamente atraente como a catástrofe. o final trágico. Há muita gente ingénua que supõe que uma grande consideração para a mulher . a prática da justiça ainda não chegou: em que se apoiará a mulher? Isto poderá parecer vago. e enquanto se transforma. a fé já não existe. pois. Ela satisfaz o desejo mais violento da alma . torna-se uma espécie de anjo veemente dos amores ilegítimos. Aí o perigo. educada em Lisboa. a tranquilidade. mata sua mulher: ela não morre das feridas: e subitamente. de mundanos. a esterilidade moral . que pedem notícias dela. o palito nos dentes. eis a nossa perdição. romance e versos educam neste sentido: vibrar. Por ele nos lançamos nos . não influencia nem dirige. ou pela influência da existência recatada ao modo inglês . amarás loucamente. Suponhamos que se lhe diz: "tu terás todas as elegâncias e triunfos da toilette. Quem irá nunca orar às igrejas ou deixar o seu bilhete à mulher obscura e pacata. é o terra a terra. O que é esse livro? A idealização da catástrofe. pensando dar um castigo justo ao pecado.esta tentação cintilante. com a sua dignidade. Uma só consideração resumirá estas notas: a mulher na presença do mundo tentador está hoje desarmada. novo e belo. outros no deboche. Pelo drama desejamos a morte e cometemos o mal. atraem como um abismo delicioso. teatro.é o terror da catástrofe. com tédio . festas ruidosas e magníficas. enfraqueceu. e a virtude plebeia. nítido e prático. sem hesitação. mas para isto serás forçada a enganar teu marido e descuidar teus filhos. a moral está-se transformando. injusta perante a moral. o encanto terrível das desgraças de amor. com a educação contemporânea.Felizmente muitas há que . escrevemos ambos um livro deplorável. ninguém possuirá uma casa ornada com mais gosto e requinte. que estamos aqui moralizando.estão como numa redoma. nesta excitação do mundo. não recebem o contágio do mundanismo. O conde du Bourg. sentir fortemente. Um exemplo. inteiramente. nos exalta. os vossos amores serão interessantes como uru drama. ou pela simplicidade de espírito.

têm apenas o amor! . Ora o homem tem para fazer drama . As mulheres. confinadas no mundo do sentimento .destinos violentos. os livros. as revoluções. os duelos. e mesmo (infelizmente para muitos empresários) o próprio teatro.a guerra.

exige 7$200 réis por afogado. Mas a embarcação escapa-se à vaga e entra o rio. Capítulo XXIV: Socorros a náufragos) por Eça de Queirós Abril 1872. apresenta-lhe. uma conta em que somando as ondas e as forças de remo . de capote de oleado. cumpre um dever estrito de polícia: e portanto apresentando ao barco protegido a conta somada dos seus serviços .3$350 réis. estava eu aqui. por meio de tiros.2$400 réis. Julião dá tiros de "alarme". E no dia seguinte. concidadão amado? Tal foi um caso recente. No outro dia recebeu esta conta: "Deve o barco tal. à torre de S. salva. outro ajuda-o a levantar. Uma pequena embarcação acha-se em perigo à barra. Era de noite. pelos tiros de ontem . com grandes felicitações. Por ter de mudar de fato. Deve o senhor ex-afogado . Era uma bateira. da iminência de um perigo. escuro mar e escuro céu. Animadas salutarmente por estes exemplos. e atira-se logo para uma loja de papel a redigir a conta da sua acção piedosa. Um cidadão escorrega. A torre de S. . a rondar: o Estado paga-me por isso 360 réis diários: deve mais o senhor 4$800 réis! Esta nova interpretação do preço da segurança vai transformar radicalmente os costumes: o bombeiro reclamará do incendiado a despesa de esforços e de trabalhos que adiantou: o salva-vidas apresenta. recebes um papel dobrado. sorrindo. Por secar este. Por ter nadado. a caridade e a filantropia abandonam o idealismo estéril do seu desinteresse . ao náufrago. Julião. ao teu almoço. avisando o porto. 800 réis. 1 $000 réis. onde está escrito: "Deve o senhor fulano à patrulha nº tantos por socorros prestados na estrada de tal27$000 réis!" Que dirias tu. 350 réis. 15200 réis." Ora a Torre de S.Uma Campanha Alegre (Volume II. concidadão. este papel: Por me ter molhado. Julião. Esta patrulha argumenta assim: o senhor podia ser roubado e não foi. O farol faz suspender a marcha dos navios e destaca o escaler com a conta: tanto de gás e tanto de boa vontade. Um homem cai ao mar e o barqueiro decidido que o salva.cai na inexplicável singularidade daquela patrulha que te salva.e reclamam salário. a pedir socorro.

que depois se recusará e dirá: "Não. Julião. E a torre anda imprudentemente adiantando trabalho. ao acaso.mas para sermos uma nação janota. com a imprevidência de trovadores . que prontidão. por caridade. amigavelmente. mas para celebrar os dias de gala e honrar as esquadras ricas que nos visitam. E é que sendo ela tão escrupulosa que não adianta. um tiro de pólvora . querido concidadão. Sente-se de repente o trote de cavalos..que era crivar-te de facadas.gastar 2$400 réis para salvar vinte vidas. Não estamos numa situação de tal prosperidade que possamos. nas torres do mar.. E uma patrulha. a senhora torre. Imagine-se que salvava apenas alguns miseráveis varinos de gabão esfarrapado! . Que excelente patrulha! Que bravura. Como distingue a preclara torre? Ela não pode fiar os seus tiros. Certamente entras em casa trasbordando em gratidão sentida. aos teus negócios.Sua senhoria perdia a sua pólvora! Também perante um navio em perigo. quem lhe encomendou o tiro?" E a venerável torre seria caurinada.Uma coisa porém nos perturba. Pode querer regatear. dispersa à pranchada os senhores assassinos. à vaga que detenha o seu salto. e restitui-te à vida. Nem podia deixar de ser. o barco é apenas uma forma indistinta na água inclemente. E com ela o Estado! Porque evidentemente o Estado recebe avidamente o preço da pólvora gasta. salvas de 21 tiros. eu não pedi para ser salva por esse preço. uma ronda de segurança! Chega.é evidente que há-de por todos os modos pretender evitar que a sua despesa não seja Supõe. não o vou roubar à estrada. ao Grémio e aos teus vícios. Preparas-te para lhes deixar nas mãos. que decisão! Que gente! integralmente paga. Gastamos com esse luxo contos de réis de pólvora . Parece-nos isto. Nós damos frequentemente. proletária das águas. à rocha que se afaste -para ter tempo de perguntar ao capitão: "quem dá vossemecê por fiador?" Lúgubre embaraço! Por outro lado é bem possível que nem todos os preços convenham ao navio. eras uma noite atacado por dois ladrões. Estás num momento deplorável. morrão e pólvora por uma embarcação aferrada aos cobres. ela não pode dizer ao vento que se retraia. um mar bravio. Mas os senhores ladrões pretendiam a mais um pequenino divertimento . nos navios. A ilustre torre não pode saber se ele é uma rica galera inglesa de largo crédito . Um náufrago tem direito a ser salvo. por preços cómodos.se uma pobre muleta de pescadores. foi porque quis. neste sistema judaico da torre de S. A ilustre torre não pode querer decerto que a caloteiem! E decerto só adiantará os seus tiros com segurança de exacto pagamento! Mas como faz a ilustre torre para conhecer da honradez dos seus navios? E de noite com um céu negro. tenho mulher e filhos. nos castelos. de graça. se atirou. pois. aos beijos dos teus pequerruchos. o teu relógio e a tua bolsa de trama de prata. Para . que no escuro isolamento de uma estrada. um negócio em que a torre pode perder muito. um vento ululante.

ladra-te a onda. para a tua noiva. é impossível que o barco .. Ora muito bem. E o Estado não perderá o seu tempo e a sua pólvora. torce-te o vento. Meia moeda por doze vidas! Dois tostões por vida. e estamos nós sós. Tudo para maior grandeza deste País. E necessário que o náufrago largue a espórtula. vais-te despedaçar. . mas passai para cá a quantia! Com tais falas. barco perdido. estás aí nessa demência da água impiedosa. vais morrer.não largue os cobres. é muito. pobre barco. tu. Quereis viver. vens cheio de água. o barco. "Tu. as amarras. onde as vinhas florescem. vós tripulantes. para o bom sol do dia.salvar uma tripulação não podemos gastar a mais 2$400 réis. torre salvadora. Não podemos ter a caridade gratuita. eu. ir para vossas casas tranquilos. esperam-te os rochedos. tu que és velho. é de noite.. para os contentamentos da vida. e Osório medita. tão lógicas. vendei a rede. para a tua filha? Dai para cá três moedas. Se sois miseráveis. tu que és novo.

as imagens consagradas e os vasos. se entra a porta faz mesura como diante do sacrário. não se atreve a contradizê-lo .eis uma nova doutrina teológica e católica. dos senhores missionários. De sorte que. para a ceia. com vinho. Capítulo XXV: Os missionários no Porto) por Eça de Queirós Abril 1872. nesta ordem dos excelentes padres. os comunga. Suas senhorias tomam o culto uma ocupação doméstica. na sua sala de jantar? A Igreja e a sua santa decoração. desta adoração profana. O beato.e hospeda-se na casa particular dos senhores padres. na sua rua. a beata. que sem saber. e enrolam-na depois ao seu próprio cachaço para fazer a barba. está no grito pavoroso daquela beata: "ai! maldita seja eu. Se um senhor missionário determina confessar na sua alcova . e começam a ser como as árvores ou como os teatros. toda a santidade a atribuem ao padre. toda a sabedoria. No Porto a opinião irritou-se porque viu. tais como os forma a devoção fanática. é simplesmente a aplicação de um princípio que é hoje dominante no espírito do beatério. A recomendação inesperada. e toda a filosofia. e à noite põemlhe em cima. de vago. Deus é alguma coisa de incompreensível. Penduram a toalha ao pescoço do devoto que vai comungar. os guia. infinitamente original. respeitam o sacerdote. A religião abandona os templos . os doutrina. tornam-se inúteis.como à mesma sabedoria. e torna-se assim um Deus ao alcance dos sentidos e ao contacto da mão. Os utensílios da casa servem de alfaias do culto. enxotei o gato do senhor abade! . todo o poder. conserva os olhos baixos e aterrados. O Porto equivocou-se. O dispensar o templo e o altar na prática dos sacramentos . Pela manhã armam a mesa em altar para a missa.Uma Campanha Alegre (Volume II. um plano canónico para organizarem comodamente os seus prazeres. julga-o impecável. prestam culto ao padre. será baptizada na pia da cozinha do senhor abade! Tal é a inovação dos senhores missionários. E a criança ao entrar na vida e no cristianismo. Não prestam culto ao Deus. É a radical inutilização do culto. E o padre que os confessa. os penitencia. um regalo da cidade. as aras e os sacrários. na profundidade dos firmamentos: o padre está ali. de perdido no fundo dos Céus: pelo contrário o padre é o sempre presente e o sempre visível. Para espíritos embrutecidos. Como a alcova é confessionário. Veja-se uma beata ou um beato diante de um padre: beija-lhe a mão com temor. e um ornato do município. respeita-lhe a casa como um templo. não respeitam a divindade. Deus está num indefinido misterioso. Para os santos óleos emprega-se o azeite que se emprega para a pescada. lentamente.porque não há-de o senhor pároco dizer missa. a caneca vidrada. ao pé da sua casa. cândido e perfeito. o púcaro da água é cálice. Os cadáveres serão levados a casa de suas senhorias e responsados na capoeira ou na sentina. sempre pronto. na religião.

E ficaremos tranquilos. fazem naturalmente das suas casas igrejas. esta recomendação toma desde logo uma significação singular e diabólica. com todo o respeito. O lugar que habitam julgam-no consagrado. Somente. 0 .e dirão talvez missa na sua cozinha. Continuam logicamente a santidade que o beatério lhes atribuiu. a cadeia.e aos senhores governadores civis se não têm. perguntaremos aos senhores bispos. E é com uma No Porto os missionários têm ultimamente recomendado. costumados a serem tratados como Deus. entre os edifícios do seu distrito. às pessoas devotas que se vão confessar .Portanto os senhores missionários. a interdição . sinceridade ingénua que eles confessam nas suas alcovas . se não têm.a casa deles missionários! Sendo as mulheres as que mais beatamente se acolhem à direcção espiritual de suas senhorias. entre os direitos da sua autoridade.

O homem convalescia. assustada. guiam. porque a Espanha é um país rico e belo. e deve ser bom possuí-la. que caracteriza. contas de pregos. O mesmo Sr. se tivéssemos armas. Pela penitência. albigenses. pela tradição do Evangelho. esconder-se num povoado. na invenção dos tormentos. Era no tempo das guerras de D. Nas guerras civis são os primeiros a armar-se . São curas que comandam as guerrilhas. a ferina crueldade dos fariseus. Já um poderoso filósofo fez notar que o temperamento do padre é inclinado a fazer sofrer. e Constitucionais que a possuem. pelo confessionário. uma fogueira por dia. A inquisição é eclesiástica. guerrilhas. tremer de medo. armam. um empréstimo e um partido. Melício. Depois do corpo a alma. atacam. munições. em casa de umas pobres mulheres velhas. ao sol. executadas por padres. A Igreja pôs ali. a ferocidade eclesiástica nas lutas civis. O padre impele à guerra. também quereria a Espanha para si. Boa gente. constitucional. não podemos deixar de notar a atitude feroz dos padres nesta guerra carlista. apesar da nossa neutralidade. Começava a erguer-se. ao ruído dos tambores. toda a subtil habilidade que tinha posto na argumentação da casuística. a subtil. foram pregadas. Somente. Miguel. Oprimir parece ser o instinto do sacerdote. piedosa. que encheram a história de sangue. Um homem. entre Carlistas que pretendem a Espanha. Parece-nos que ambos têm razão. a secreta explicação destas tendências sanguinárias. de bandeira ao vento. disciplinas. . Nós dois. a vir à porta. reclamar a Espanha. tinha sido ferido. E é singular como mãos imaculadas e costumadas à hóstia têm tanto vigor para a clavina. Sobretudo às mulheres. que eram sacerdotes. os padres gostam de fazer chorar. Nós somos neutros . O homem fora denunciado. Os cilícios. ainda hoje vivo. são de origem devota. O que coíbe o Sr. As matanças de mouros. Capítulo XXVI. na sua educação. Melício é não ter artilharia. durante dois séculos.e sem querer procurar nos seus hábitos. não é talvez inteiramente inútil contar uma história verídica e lúgubre. luteranos. judeus. Batalhões sagrados) por Eça de Queirós Abril 1872. Tinha chegado ao povoado o Batalhão Sagrado. consumida pelos terrores do tempo. pela nossa parte. São eles que pregam.inteiramente neutros. Está na memória de todos os Cristãos. Teríamos então o Melicismo. De miséria em miséria. cristãos-novos. também iríamos. Um dia as duas mulheres apareceram numa grande aflição. se tivesse um exército e artilharia.Uma Campanha Alegre (Volume II. no seu temperamento. dirigidas.Guerrilhas carlistas. com poderoso e melancólico relevo. tiritar debilmente a sua fraqueza. conseguira recolher-se. turcos. amargurar. sofrer. fanatizam. Os processos de feitiçaria deram aos padres ocasião de acender.

calcinavam-lhe as feridas. pedia que lhe mitigassem com água fresca. cantando o Bendito. foice ao ombro. na Península. Se os padres vierem eu cá estou. Quando voltou a si. aparecia ao pé da casa. davam cabo de mim da mesma maneira. estabeleceu-se no Tesouro. Eu cá estou. o sol. um preso também. um homem estava debruçado sobre ele. digo que estava aqui contra a vontade das senhoras. Atiram-me para um canto e acabou-se. pelos montes. a raros tiros de espingarda. com grande ruído de armas. espancavam-no. Assim é melhor. na Como mudam os tempos! Há cinquenta anos. Hoje. iam estes sacerdotes levando através das povoações . alguma guerrilha constitucional. Se dessem busca à casa e me achassem para aí escondido. . — Bem . Estou fraco. e vossemecês padeciam. . aproximaram-se: cada um o tomou por um lado do rosto. não me há-de custar muito morrer. liberdade da serra e dos caminhos. domando o orgulho. Eram temidos mais que todos os flagelos. E a prisão era pior que a morte . sou eu. Era no Verão. de batina arregaçada. e com um empuxão terrível arrancaram-lhas! O homem caiu no chão. o Legitimismo governava triunfalmente. As duas mulheres tremiam ao pé do doente. para refrescar aquelas feridas! Ao chegar à cadeia. desembaraçados dos votos. rindo. mal armada e mal mantida. O homem saiu e disse tranquilamente: — Aqui estou. Era a guerrilha idiota do assassínio. o homem recusou com a indiferença de um vencido. e é o legitimismo que anda agora a monte na Navarra e na Biscaia.uns a cólera bestial do seu fanatismo. todos uma lúgubre e temerosa opressão. para as prisões de Almeida. e apenas. Esse preso piedoso não era um vencido político. e as moscas picavam-lhe a carne viva. de clavina ao ombro. que o pobre homem. cruz na mão. A poeira.O Batalhão Sagrado era composto de padres armados de clavinas e foices. Não pode ninguém escrever o que faziam os padres do Batalhão Sagrado.vossemecês em todo o caso não têm que temer. protestava. A inflamação fazia-lhe nas feridas uma dor pungente. atiraram-no para cima de uma esteira. ai! o constitucionalismo de guerrilha fez-se exército. em nome da vaga e indefinida deusa que tem entre os homens o nome ininteligível de Liberdade. Longe das suas igrejas. A jornada durou dias.Então dois padres. O homem levava o rosto em chaga. . Daí a pouco o Batalhão Sagrado. As mulheres choravam. os padres atiravam ao homem um pedaço de pão. Apresento-me. queriam escondê-lo.disse ele .. picavam-no com as pontas das baionetas. com um contínuo suor de sangue..E foi ele que curou as chagas feitas pelos senhores padres do Batalhão Sagrado. ávidos como animais soltos. por desfastio. De vez em quando. nos despovoados. Os padres então. com grandes risadas. outros a violência animal da sua sensualidade. um compadecido daquela desgraça. Era um assassino. Os ásperos caminhos ardiam de sol. Os padres amarraram-no com cordas em cima de um macho.porque era a tortura requintada e monstruosa. Levava as mãos amarradas. Matavam e prendiam. apoderou-se do Estado. pelas barbas. Era um enfermeiro de acaso. e partiram com ele vitoriosamente. perseguida com mais rancor que um lobo. Quando chegavam às tabernas.

supõe que Lisboa amarelada e débil não come. a sua vida na agricultura. as casas sujas e velhas. as ruas latrinárias. e as vivas glórias das aclamações. examinar o estado das províncias. Àquele que chega de Lisboa apressa-se a gente estimável . Sua Majestade preferiria sempre um bom grito alegre que saúda. respirar. uma paisagem original. perante aqueles aspectos folhosos. a imundície das repartições. para a pesada pompa das merendas minhotas. pois. Faziam-no viajar. se embuçasse em murtas.encontraria a miséria pública! Em compensação a localidade. mal chegava el-Rei. fosse buscar a Laundos ou a Bouças a fina flor das sensações. a sua ordem. Detrás daquelas galas de arcos e de colchas.a fartá-lo. coerente. supor-se . na feição das ruas. O Minho tem. pelas monótonas exigências do seu cargo. Aquela viagem não era um suave regalo. Não lhe mostraram uma quinta.não reinando sobre um país -mas governando um caramanchão! Para honrar a presença do Rei e glorificá-la. a negrura das tabernas.Uma Campanha Alegre (Volume II. Com Sua Majestade o cuidado foi tão exaltado que lhe deram bois vivos. A província do Minho. que cada localidade . nos costumes. murmurosa e profunda. Mas Sua Majestade conhecia o Minho e o encanto das suas sombras. verdes. escovar o pó.mostravam-lhe silenciosamente a perna de vitela. Os srs. Porque todos. Não nos parece. estudar. de mesa em mesa. mas uma excursão alimentícia: . Capítulo XXVII: A viagem de Sua Majestade às províncias do Norte) por Eça de Queirós Julho 1875. de modo que Sua Majestade poderia. e Sua Majestade ia. Jante! E os proprietários arrastavam-no. ver a sua civilização. e não é conjecturável que para se refazer dos tédios emolientes da sua capital. melancólicas como esqueletos de triunfo. uma obra de arte. uma ideia . supunham que Sua Majestade não fazia uma viagem política. e desdobravam a toalha. a infecção das cadeias. uma paisagem. um edifício. o escuro desleixo dos quartéis. louros. dobravam os negócios.em lugar de se mostrar em toda a sua realidade e verdade -se disfarçasse. um estabelecimento agrícola. naquelas pitorescas vilas de remotas e decrépitas ideias. Algumas câmaras desejariam substituir a cerimónia gótica da entrega das chaves . de grande e gordo alimento. a pobreza estagnada das lojas . sim. punha a mesa. ocultavam-se como um muro velho por trás de uma trepadeira florida. Não se desejava saber a opinião das colchas. à fileira dos ramos secos que pendiam mesquinhamente na amarelidão da poeira.e se Sua Majestade afastasse o ornato administrativo . por entre uma paisagem de colchas. nos estabelecimentos. uma curiosidade. lá estavam as multidões. uma observação supunham só que era um estômago: ele vinha. proprietários não supuseram que Sua Majestade fosse um espírito. As colchas eram inúteis. uma fábrica. debaixo do pálio. alfazemas. o seu aspecto festivo e amorável.pela entrega dos bifes. Não o deixaram examinar. a acumulação dos enxurros. era um fatigante dever. festões.

E tanto fizeram nesta recepção suculenta . enfeitar os largos em vésperas de S. uma utilidade: ornatos de gala. É uma revelação. queria-lhes o lombo. mas a doses de carne assada. a respeito dos povos . colchas de damasco. nas estradas armadas em gala. a coluna de lona do tempo de D. bandeiras.os jornais digam: . isto. é arrebique de festa. A senhora localidade ficava assim escondida. esperase. para armar as ruas. João VI! A câmara escolheu delicadamente a escola para enfeite: podia pôr ali uma filarmónica ou um mastro: preferiu a escola. Eis o ABC hino municipal! No dia seguinte os festejos murcham. extinguia-se mesquinhamente a um canto. como de um dominó administrativo. às escolas.Na viagem memoranda e vitoriosa que Sua Majestade El-Rei fez às províncias do Norte. querem ser barões. festões.com um mestre-escola cercado dos seus discípulos. erguia-se este ornato: um palanque . A câmara tinha ali aquela escola. não lhe servia de nada. ei-los! E como se poderia erguer nos tambores e nas trompas o hino . ensino e ramos de louro.escolas e arcos de buxo. Pois bem.que elas não são nem florescentes. já se vêem os bordados das fardas. não era à custa de acções valiosas. agachada.que Sua Majestade poderá muito bem trazer esta ideia das suas províncias do Norte . muitos ingénuos daqueles lugares frondosos. arma-se sobre um palanque. Mal Sua Majestade se avizinhava.na estrada. as localidades cobriam-se. Mas ei-las agora substituindo galhardamente.um palanque! . à passagem do Rei. sentido! Os trens rodam surdamente no macadame. lanternas.ergue-se nas bocas estudiosas o B-a-ba. João e nos aniversários da Carta. e tantas sonoras imaginações! A escola é ornato municipal. lamparinas. na estrada. desde enxovia até curral: só não tinham sido duas coisas . e fumo de foguetes. é paz. da parte das câmaras! Um pouco antes de Vila do Conde . a poeira enovela-se: . um fim. trasvestida. seguindo-se o exemplo inteligente de Vila do Conde . nem decadentes . ao longe.é El-Rei. as cidades e vilas observaram uma singular táctica: disfarçaram-se. nesta viagem. e supuseram que a melhor maneira de atrair a boa vontade de el-Rei. Ora as cidades e vilas deviam saber que Sua Majestade não foi às províncias do Norte para se divertir! e que Sua Majestade. Além disso. despercebida. ramos de louro. desarma-se a escola . dosséis de paninho. E esperemos que na próxima viagem de El-Rei ao Norte. é futuro. E invejam-se os Reis! Quantas singularidades.e tudo. põe-se-lhe rapé novo no nariz. despregam-se as luminárias. sob c lento bolor. desfazem-se os arcos. Decoração inesperada! As escolas até aqui tinham sido quase tudo. mascarada. o ensino arma-se em quadro vivo! Que dizem os livros e os espíritos sentimentais que a escola é civilização. arranja-se o mestre com gravidade pedagógica. funcionando. um destino. volta a apodrecer nos sótãos da casa da câmara! Achou-se enfim. põem-se os meninos em Posições estudiosas. livros.que são apenas indigestas. sob a decoração de verduras fatigadas e de damascos desbotados. Tira-se a escola da sua inércia. A instrução torna-se festão de luxo. escova-se. de arcos de murta.não lhes queria o amor. enverniza-se a palmatória.

mete-o na algibeira. fazia-nos suspeitar nas povoações do Minho . possuído de um amor sobrenatural pelo seu serralho.. etc. cheia de prudência. Vila do Conde. que pelo dizer dos jornais inteligentes . te espalhou na rua? Aconteceu."A estrada de Penafiel a Amarante estava brilhantemente adornada de escolas primárias: de espaço a espaço. agora inocente. vimos Penafiel. sim.onde Sua Majestade fosse recebido apenas com agrado ficasse apenas contuso. inaugurado no Minho. excelente folha sonolenta! Folha de tédio. que. Comércio do Porto. . O furor da publicidade desvaira. Vila Real. o povo. . com lindo efeito. saía ao caminho um homem de casaca ou uma mulher de branco.) um regimento . e espera a família real. em notícias daí: "Na nobre povoação de tal.mas este notável estabelecimento científico -não chegou a tempo! Oh. repletos de manuscritos. testemunhavam o amor dos habitantes pelo neto de D. Aquela palavra. rasga e dilacera a fêmea. Lembrava-nos o amor do leopardo. Os membros de Sua Majestade.partido ao meio!" Tais são os jornais sérios! Tal tu foste. Este procedimento. Se Sua Majestade não se recusar a estas leituras de estrada.Para que escondê-lo? Temíamos. liceus: havia ideia de pôr no topo a Universidade .Mas que nas povoações. dilacerados e espalhados em poças de sangue. Quem tiver um livro manuscrito. o entusiasmo das populações ao avistar a real família. Lembrava-nos aquele legendário rei mouro que. singelo. teve também a sua parte de ovação e lá está . ah! receávamos ler. pelas estradas que Sua Majestade percorreu. folha grave e oca.. com sobressalto. às vezes. Quem tão soturna. terra do nosso berço! No entanto os jornais sérios comentavam a viagem de el-Rei: e nas suas colunas circunspectas puderam-se ler. com o tempo.por ocasião da passagem de Suas Majestades. o entusiasmo e a ovação cresceram ao entrar el-Rei sob o pálio. sem a enérgica interferência da força pública. . Para o reter marchavam providencialmente os regimentos e mordiam-se os cartuchos. pedia ao Rei um instante de demora. que nos meses magnéticos em que o seu pêlo faísca no fulvo ardor dos juncais. Augusto. pode tornar-se. o pensador da província salta à estrada. estas linhas textuais e extraordinárias: "Foi uma providência mandar para (nome da localidade. o seu séquito. Pedro IV! O senhor infante D. pela estrada. sobressaíam. onde o recebesse um entusiasmo exaltado. senta-se numa pedra. porque se não poderia prever onde chegaria. Tendo possibilidade de fazer parar o Rei." E em Lisboa.e lia uma ode ou uma fala.pavorosas espécies de entusiasmo. tremíamos. fatal. desdobra a prosa e acomete. o mandou retalhar ao fio de alfange. desembrulhava um papel . e formar assim um público. com apreensões pungentes. gracioso. pode ver um dia o seu caminho ladeado de autores impacientes. compreendido no amor do povo.

Isto. Bois. Este animal enorme. subiam a encosta alpestre do monte. A condescendência de Sua Majestade pode ser-lhe fatal. não deve encontrar à esquina de cada muro a face pálida de um poeta inédito. Vates. irmãos do Santíssimo com tochas. El-Rei julgava as estradas seguras. carne tenra. em noites trabalhosas. não. ou renques de árvores na terna tristeza das alamedas. atlético e meigo. Estavam na estrada. faça romper a galope. em 3 volumes. formados em alas. não. O proprietário imprudente que tiver nutrido no seu seio uma ode. . real senhor. gordo. quando já se eleva a quente exalação do prado e se começa a ouvir o canto dos sapos. Quando muito podia supor que encontraria lobos.Ora não é justo que quem nas províncias tiver composto. uma peça literária. Quando vir despontar o sujeito inspirado.Para que estavam ali? Em que qualidade? com que intenção? . é o melhor boi das criações de Portugal. que a afogue. Muito menos o boi do Minho. .Começam suavemente pela ode. poderoso trabalhador. Não são de mais todas as forças de uma parelha — contra todas as ameaças de uma ode! Se consentir em parar. e terminam pelo volume. A viagem de Sua Majestade não é a edição gratuita dos poemas da província. Em alas só soldados num aparato militar. respeitáveis 160 bois! Não queremos escandalizar o boi. luzidio. veja surgir de um recanto um homem pálido. no silêncio das sestas.movendo-se para o curral na fila mugidora e lenta. por uma estrada. riqueza dos prados.ai! apreciamo-lo muito limitadamente . Sua Majestade vai num plano inclinado com a sua imprudente bondade. Era uma delicadeza da câmara. mas não saia com ela à estrada. lendo: Por uma bela tarde de Verão dois cavaleiros embuçados em capas alvadias. perde-se. E ainda poderá acontecer que um dia. El-Rei partiu confiado no amor dos seus povos. discreteando de coisas de amor. é o meu romance Isaura ou a Vingança do Mouro. indo Sua Majestade incautamente.. Saia antes com a clavina. Sua Majestade não sabe do que é capaz a poesia de província. digam-nos: . Consentiu em ouvir uma fala de júbilo . que estenda a mão e diga. se o apreciamos na placidez das paisagens planas. entre as altas verduras ou no descorar do ocaso. recostado na sua caleche.destacando. e voam as borboletas pardas .terminará por ouvir um tratado de aritmética.em alas. Eu continuo! Quando Sua Majestade chegou a Vila do Conde esperava-o uma pompa singular. Para quê? Senão. Mas se estimamos o boi nas calorosas fadigas do arado. se o contemplamos amoravelmente .se o amamos mais tarde com mostarda e bordéus .. maravilha dos mercados de Londres. se julgue obrigado a não privar dela o Rei. desprevenido.

numa digressão agrícola. diante da criada da esquina. a condessinha de. Seria o boi respeitado? Ah! é bem certo que se poderia ler nas gazetas aterradas: Ontem um bando de facínoras agarrou o policia º6. Parabéns aos noivos". se o boi estava ali como curioso. Seu esposo. arrebique.Representavam como polícias.que Lisboa e Porto substituam a polícia civil . à chegada de um cortejo. ia junto da sua interessante esposa . leitor. à orla das estradas. Se por acaso. na sua alocução. os bois misturados com as autoridades. Presidente da Câmara. examina. E o boi que vai ver passar o Rei. O boi está nos campos. passeando em Sintra nos Setiais.pastando!" Oh! bois! Ah! se por acaso Sua Majestade El-Rei viajasse pela aldeia. é talvez económico. O boi é mais sólido. e assou-o no espeto.. com o Sr. entre as possantes juntas de bois suados do trabalho.dos cidadãos e dos bois. evidentemente se abre uma época inesperada nos destinos do boi! Se eles podem policiar. Mas tinha inconvenientes. ou no prato. hoje dado todo à família. por um dos mais elegantes e conhecidos bois da nossa sociedade. Ei-lo nos teatros. seria pitoresco.. Informam-nos ser da mais tenra a carne deste agente da força pública". na poeira da estrada? . aquele boi tão elegante e tão crevé que nós todos conhecemos. Dir-se-ia que os bois faziam parte da deputação da vila. mais sóbrio. comissário!" . não. correndo o binóculo pelas gazes enganadoras do corpo de baile. Recebedor da Fazenda!. numa recepção oficial.às autoridades e ao gado: e certificava ao Rei que era bem recebido e querido . luva gris na pata. graciosa como sempre. e tem-no à disposição dos seus fregueses para ceias e almoços. se referia ..Como bois.... conveniente e seguro . com uma camélia na papeira. leva-nos logicamente ao boi que vai ouvir cantar a Lúcia. sendo assim. porém.Ou ainda: "O Café Centrai acaba de fazer aquisição do polícia nº20. de uma bela e nobre simplicidade. Ou também: "Vimos ontem.pelo gado bovino. Em que qualidade se perfilavam.a Viscondessa de. Ei-lo cheio de impressões. para ver o cortejo real. a anca do Ruço roçando a farda do Sr. para conter em alas a multidão impaciente? Estavam como curiosos? . quando o Sr. de desejos. Providências. em atitude namorada. Ei-lo nas locais: "Ontem foi pedida em casamento a filha mais velha da Sr. disse nós. fazê-lo entrar nos prados. sentado. Ei-lo observador. a cauda do Ligeiro fustigando a suíça do Sr. Mas numa estrada. a parceirar com os homens do fado. Não seria o boi que levaria a sua tarde vigilante. Melício. mais duradouro e sério que o polícia. um dos bois nossos amigos. sr. Não. estava de cor-de-rosa. e que. interroga. que revolução nos seus hábitos! O boi começa a atender às coisas da civilização. parece-nos imprudente da parte de Vila do . não seria o boi que entraria no fumacento ruído da taberna. os bois estavam ali como ornato. todo preto com malhas. Por outro lado. Eilo no Grémio. numa viagem política. castanho. então. esperando. de vida social. espectador. com a mesma intenção com que estariam arcos de buxo. ei-lo conversando de perna dada. a pé. na augusta sombra da arcada. Interessa-se.Porque então. com a sua gentil noiva. Administrador. aprende. A gentil noiva. Em alas nunca.

e que não é uso em tais casos mostrar as mangas da camisa. desordem de sensações.Conde substituir as grinaldas de verdura . mancebos não se lembraram que ao lado do Rei ia uma Senhora . convicção. cintilam sob o capuz de cetim. e então deve ser aplaudido com dignidade. está-se febril.que . como numa orgia . Não é o cidadão que está ali quando um homem despe a sua casaca. para que a dançarina tal pouse o seu pé subtil: é o rapaz. não são bambochas de estudantes que estalam. nem o estroina. as suas generosas alegrias. desastradamente. que no futuro. na cascalhada de uma orgia. fazer às vezes essa estrada de casacas pretas aos pés mimosos de uma dançarina ou de uma contralto famosa: não era lógico que a repetissem a El-Rei. de repente. um princípio. com o lenço.por animais de carne. gritase. de auxílio seguro e forte. o amante: não é o cidadão. que se supunha entre cidadãos. A vila seguinte. petulância de sangue. com a vida. os seus olhos.é o cidadão que está ali. vem-se da luz do gás e do pó de arroz dos camarins. Mas. com as garrafas de champanhe aos espelhos melancólicos do restaurante! Não é assim com Sua Majestade. teve um singular final.em lugar de atirarem a Sua Majestade flores. Sua Majestade foi ao Porto ter a adesão dos cidadãos. tão bela. mancebos. pode adornar as ruas com carne cozida. Consciências de cidadãos que se afirmam. que. ela sorri. Srs. o estroina. numa grande aclamação. achamos equívoca esta demonstração! Os srs. ha uma ponta exigente de amor. não é digno no cidadão! Ou Sua Majestade é recebido como um Rei -isto é. seriedade: ou é recebido como uma dançarina famosa e então não se lhe apresenta o pálio . acompanharam o carro de Sua Majestade . na Mary.não é uma estroinice ruidosa. rasga a luva em relíquias. atira beijos. sólidas amizades para a sua dinastia. gulosos de ruído. Quando um homem aclama o Rei . lhe atirem almôndegas! A ovação tão espontânea. uma ideia. Ora despir assim a casaca pode ser natural no estroina. Se entre os senhores é máxima . nem o diletante. Vitoriar o Rei é uma afirmação política . não se toma a atitude familiar com que se faz a barba. lorettes encomendadas e o bacará da madrugada. uma política. não é o namorado.dá-se-lhe uma ceia na Foz.ao chegar ao Paço despiram as suas casacas pretas e estenderam-nas no chão. pôde julgar-se entre cidadãos honrados. atira-se com o paletó. Os entusiasmos políticos pelos reis devem diferir na essência dos delírios nervosos pelas actrizes. numa povoação exaltada . como se atira. pode suceder. bebeu-se nos entreactos. estroina. aparências de orgia. de consciência séria. dizem os jornais. boémia. exaltação. para El-Rei passar por cima. tem-se os nervos impacientes. E inconveniente adornar uma estrada com carne crua. o doido. e quando ela desce do carro.e Sua Majestade. Os mancebos elegantes. com champanhe por copos de água. E encetando-se estes festejos de carne. feita a Sua Majestade no teatro do Porto. Pode ser um funesto exemplo. e vendo as suas aclamações cerradas. querendo rivalizar em galas. Numa ovação a uma dançarina há fantasia. absurdo. aí no Porto. mancebos costumam. Para se cumprimentar a Rainha. acha-se apenas entre pândegos! Ora Sua Majestade não viaja para recolher nas províncias a adesão da patuscada! Os srs. por violência. os sujeitos despem as casacas.

fosse a benzina! Acautelai-vos. temerários. com as maneiras da escravidão! E. lama. não é próprio festejar a liberdade. sujidade na rua. . Deixai-vos ficar de calças! E sobretudo. do que no próprio corpo. E seria terrível que o comentário desse dia não fosse a glória . A liberdade não vos pede tanto.pedimos-lhes em nome do decoro que não estimem El-Rei de mais. Parai. E que podíeis arriscar-vos a que o dia 9 de Julho. não se mostra a um Rei que ele tem vassalos que julgam a sua casaca mais bem acomodada nas lajes da rua. que os senhores chamam o dia da liberdade? Pois bem. uma consideração que há-de ferir os vossos espíritos. é que o pano preto está pela hora da morte! E que há pó. Por Deus! Os senhores não festejavam o 9 de Julho. Já o amam até ficar em mangas de camisa. mancebos! Vós ides na amizade real e na toilette por um declive. depois. não vão apreciá-lo até ficarem em peúgas! E o pudor que o pede. filhos do Porto e do País. meus senhores. não vos ficasse gravado no espírito pelas lembranças da liberdade mas pelas nódoas da casaca.quanto mais estima menos roupa .

não: chamou-lhes simplesmente ladrões. especializa atitudes. O sacerdote volta-se para o Cristo do altar e grita-lhe: peço a palavra sobre a ordem. Isto significa que a nova espécie-o sermão político . conta anedotas. Tal é o sermão galante. na Quaresma. Capítulo XXVIII: O sermão político) por Eça de Queirós Julho 1872. o reverendo Melício. e que é um ladrão o Sr. O púlpito alarga-se em tribuna. Melício. pregar em S.e aparece-nos agora o sermão político . e com gestos sumptuosos. Até aqui o sermão louvava o santo do dia ou comentava a festa sagrada. Domingos sobre a questão do real de água! Mas distingamos: o sermão do senhor prior de Belas não foi uma crítica política. os actos de Vítor Manuel e as ideias de Bismarck. anuncia que vai tratar da castidade. marca dias. E o sermão artigo de fundo.é empregada não na crítica mas na injúria. Braamcamp. diz as palavras próprias cruamente. e saiu do templo como de um lugar desonesto. explica. que murmuração hostil em torno do sermão político do senhor prior de Belas! Realmente o caso é característico. . clama . . prescreve abstenções. Põe-se de parte Deus.Tínhamos o sermão galante . O clero sai do Céu.e as mulheres coram. e a doutrina que ensinou foi que Vítor Manuel é um ladrão. o povo rompeu num grande tumulto indignado. num desses derradeiros sermões. Do sermão político deu-nos o senhor prior de Belas um exemplo acentuado e conciso.Uma Campanha Alegre (Volume II. O senhor prior não analisou historicamente. o Sr.E leremos em breve nos jornais: "Tivemos ontem nos Mártires um belo sermão de oposição! E ouviremos. e depois das ave-marias murmuradas. Tratar da castidade significa contar a que se arriscam. revolvendo o assunto com a sofreguidão com que um avaro revolve o dinheiro. . olha pausadamente a multidão feminina. O sermão obsceno é uma particularidade minhota dos senhores missionários. aprofunda. Um de suas senhorias sobe devotamente ao púlpito. Sua senhoria debruçou-se levemente no púlpito. O que nos encanta neste sermão é a originalidade. dilata-se. descreve. divide as espécies. juridicamente. E a Correspondência de Portugal contava ultimamente que. apertada e contrita. agora ataca a política e discute as dinastias. exalta-se. os que cometem os ternos pecados do amor. tínhamos o sermão obsceno e estamos em presença do sermão injurioso. foi uma difamação pessoal. faz certas proibições. O padre é o jornalista de sobrepeliz. e entra na Arcada. e enceta-se o Sr. E então o senhor padre. Assim. nos futuros infernos de além-vida. de Bismarck.ou antes. De resto Pio IX é Cristo.

Quem quiser uma apreciação sobre o Sr. 0 . como um homem débil e nervoso que sente umas unhas compridas raspar a cal da parede. o livro .com a unção dos nossos respeitos e o beijo de paz nas suas mãos apostólicas. ministro. revestido dos seus hábitos. partiu para Roma. O Sr.E assim a crítica inquieta teve a honra de ir depor diante da imutável tradição! Pedimos a Monsenhor que deponha estas páginas verídicas. é que se dirige ao pregador: e este. como um documento vivo e actual. lá está o púlpito . O sermão político. e na presença das imagens. a conferência. Encolhe-se. Os senhores padres prodigalizam-se. e há-de fazer seu barulho". perfil exacto dos sermões portugueses. dobra-se. com um rumor irritado. E termina por mostrar aos senhores eclesiásticos os seus dois poderosos punhos fechados e impacientes. Peço um padre-nosso e duas avemarias. núncio apostólico de Sua Santidade. cheias de história eclesiástica: "Hei-de dar isto a ler no Vaticano." Quando Monsenhor Oreglia. fazendo ondear a estola .isso é da competência profana: mas quando se quiser injuriar o Eis aí. . a colecção das Farpas. geme. dirige-se à Gazeta do Povo: só no caso extremo de o querer injuriar. nada tem com a crítica legal. Fontes. seguindo o exemplo discutido.debruça-se e clama: "Meus amados ouvintes.isso entra na atribuição eclesiástica. O País está com o clero. sobe ao púlpito. espetada na ponta da nossa pena. o silêncio da opinião. parlamentar. levou consigo. o sermão é sempre para o vitupério. disse Sua Eminência. depois de se persignar e de tossir. e os seus feitos despertam a cada momento. com gesto devoto. científica. mais uma proeza eclesiástica. aos pés do Santo Padre . Fontes é um ladrão. a tribuna.Quando se quiser comentar a política de um ministro lá está a imprensa.

cujas atribuições ignoramos. um barco que tinha a forma. morrem 14. O salva-vidas não desceu ao mar. dizem rumores gloriosos. Pedro IV . quando se volta uma lancha com 24 homens. navegar um instante: não. O Porto confiou sempre que o salva-vidas se tripulasse a si mesmo. Capítulo XXIX: O Salva-vidas da Foz do Douro) por Eça de Queirós Julho 1872. ou "Foi mandada louvar pelo governo civil a Comissão do Salva-vidas". nem sequer finge. e ele mesmo estenderia a proa. repousava placidamente o salva-vidas. Podia descer. E esperou-se sempre que. se houvesse um naufrágio. No entanto a opinião interroga o senhor fiscal. como era um naufrágio. rapidamente. Esta comissão. como mão salvadora e firme. num cofre. exclusivas. que se apressou corajosamente. Assim foi muito tempo. resulta que tem de se aprestar. da praia do Cabedelo. se tivesse desabado um muro. Eram apenas 14 homens que iam morrer afogados. se desceria ao mar. Porque. conserva-se agasalhado na sua habitação onde. se iria ao leme. na aflição. o salva-vidas se desamarraria. O salva-vidas não tinha tripulação. num risco agudo. A 10 passos do mar. por exemplo. Lê-se: "Ontem reuniu-se a Comissão do Salva-vidas. . O salva-vidas. em que ele pudesse dar os seus serviços especiais . a construção aparente. Os socorros foram dados por uma lancha de pilotos. e por outro barco. e resulta que o salva-vidas.Uma Campanha Alegre (Volume II. ou como a estátua de D. Conseguiram salvar 10 homens: 14 morreram. O salva-vidas da Foz tem um fiscal remunerado e tem a Comissão do Salva-vidas. O senhor fiscal explica: — Não saiu o salva-vidas. Entendeu que não era com ele. molhar-se. Destas deliberações e destes louvores resulta que. revela às vezes a sua existência na prosa das gazetas. se remaria. o salva-vidas conservou-se imóvel. e complica o desastre. que veio.como. Assim. que às vezes se volta numa violência de mar. para deliberar". não. aos náufragos desolados. o tamanho dos outros a que se chamava salva-vidas. um barco casual. O salva-vidas só se moveria para algum caso especial. porque não há tripulação. ele está embrulhado em algodão. aboborando. em assembleia geral. Quem tinha obrigação de vir era a bomba dos incêndios. Fez como o Palácio da Torre da Marca. devia ter qualidades originais. enfim.deixou tranquilamente os pescadores na agonia das vagas. com homens voluntários e compassivos. de excepção -e que naturalmente possuía o poder de se dirigir e de se tripular. se meteria cordas e cabos. Então correria.

em grupo. em assembleia geral. e o grosso mar bramia.foi a opinião dos peritos. Morreram 14 homens. afirmou definitivamente esta ideia .foi que o governador civil. E a comissão com o olfacto resguardado. A comissão suava.. em portaria. e diziam secamente: . convidado a comparecer. O salvavidas. O salva-vidas não se moveu. E de vez em quando o senhor governador civil. Mas aí foi a crise temida. Gritava-se na praia.Agora. viu-se que o barco estava imóvel. disseram entre si. os destemidos. acercava-se do salva-vidas. como num alicerce. . Então a inteligência da comissão deu um grito e compreendeu . manda louvar a comissão. agora! murmuravam. Cada marinheiro. Bom! Abrem-se-lhe as portas e a comissão fica esperando que ele se espreguiçasse e corresse febrilmente ao desastre. Quando a comissão. as gaivotas voam. A cada recusa afastava-se melancolicamente. e os que naufragam morrem. e sacudiram-no robustamente. E o senhor fiscal. há pouco. despertando do seu cismar. Sempre que uma lancha se volta a comissão reúne-se. Aproximou-se do salva-vidas. estendia a sua sombra bojuda sobre a quente amarelidão da areia.o barco. Vem um naufrágio. e grave. saiu e continuou a deliberar.Está a dormir.. tripulação. pedia-lhe. cuspia-lhe: . olhava-o. . Mas com um espanto aterrado. Foram chamados os afoitos. cada remador. . apalpava-o. Os naufrágios seguiam o seu curso trágico. concentrado e pontual. delibera. o jovem salva-vidas estava podre! Se descesse à água desfazia-se .E começou-se a procurar uma tripulação. surpreendido justamente por tanta agudeza e engenho . voltou-se uma lancha. os heróicos. interrogar o segredo estranho. A areia do Cabedelo reluz ao sol. inabalável. exasperada. e ia deliberar. veio. e recusava resolutamente.Menos eu! A comissão tinha os cabelos brancos. .os mandou louvar.Esperava-se isto do brio do salva-vidas. Enfim um dia a comissão. as senhoras passeiam na Cantareira. increpava-o. recebe o seu ordenado. Torciam o barrete entre os dedos.que para fazer navegar um barco é necessária uma Na Foz. O salva-vidas dormia. Olhou e levou violentamente a mão ao nariz.

Capítulo XXX: Singulares aventuras de um soldado espanhol internado em Portugal) por Eça de Queirós Julho 1872. pelo Porto. com as espingardas carregadas. algemar-lhe os pulsos. um entorpecimento febril enerva. não podia deixar de ter a maldade. E aquele espírito radioso dizia sobre este facto . pacífico. É necessário ter visto o sofrimento das algemas. se entrega. mas a ração de preso devida pela compaixão. o Sr. às autoridades portuguesas.e o pato. Teve fome. não marcham a pé duas léguas. entre privações e rudezas. Este oficial português levava o preso desarmado. Em Viana foi atirado para o aljube. comandante da escolta . Os braços inertes incham. com uma escolta de 20 soldados. um hóspede. e não lhe deram de comer. É a consciência do exército.Uma Campanha Alegre (Volume II. fatigado. desarmado. a respiração dificulta-se. e os mais duros. foi tratado deste modo singular: Veio de Melgaço até Viana. sem que a dor lhes faça correr as lágrimas em fio. esfo-meado. não lhe dar sequer o caldo da enxovia. Teve ainda receios do soldado espanhol.levá-lo. da dignidade civil e da piedade humana. de cadeia em cadeia. desarmado. maltratá-lo.que devíamos por fim encontrar-nos com a vileza. Alexandre Dumas tinha um abutre que era o camarada íntimo de um pato. os pulsos arroxeiam. Deu-se isto com o soldado espanhol. para Peniche. que por isso que tem a inépcia.que 20 soldados portugueses . Portugal tem em si o abutre . fazê-lo atravessar as imundícies e as fomes das nossas cadeias.e manda carregar as espingardas: mas treme ainda . De Viana foi. que lhe abonassem. arremessá-lo para a negrura de um aljube. os mais fortes. M. fazê-lo esperar longas horas às grades a chegada do pão.e manda algemar o preso! Dá portanto a entender . sob a garantia dos tratados. Requereu. inútil . Este homem que. não já o soldo devido pelos tratados. com os pulsos encadeados. Há tanto tempo nos separamos da inteligência . os mais concentrados. pede 20 homens: mas receia . impor-lhe a fome. um homem que se entrega aos respeitos da lei e às protecções da piedade. vencido. e impeli-lo para um destino escuro. comandada por um tenente. Exigiu que o algemassem. como um boi que se encurrala . e 20 homens.que era a natural ligação da estupidez e da ferocidade.é bem digno deste País. Tendo de conduzir um soldado espanhol internado.esse é um sintoma. um vencido. adormecem. então. Tomar um militar. metê-lo numa escolta de 20 homens. O senhor tenente. na confiança da sua miséria. impeli-lo à humilhação de pedir.

diante de 1 soldado espanhol! Ó comissão do 1º de Dezembro! O foguetes altivos. que se 1 000 soldados espanhóis. desarmados. só teriam um meio de os conter . de todo o Reino. .que operava junto da raia portuguesa um carlista. De tal sorte.mandar os malsins algemá-los! Depois da dispersão de uma guerrilha carlista . os 20 mil soldados portugueses.contra um soldado espanhol vencido. com o seco ruído do engatilhar de 20 espingardas e com o metálico estalido dos fechos de uma algema . um sargento. e pacífico. passassem o Caia. armados. de um bairro de Badajoz. entrou a fronteira e depôs as armas. soberbas filarmónicas do Largo do Rossio! aí está com o que vos responde o exército.— corriam perigo nas estradas povoadas do Norte .

e novo. três blusas.dá-se a um homem uma camisa e uma calça. o fervilhar dos vermes. que são os presos encarregados de varrer e lavar os dormitórios e corredores .a falta de espaço. Corpos que se não lavam. um enxoval cómodo. Um preso tem em Portugal. a quente exalação de todos os cheiros. O Limoeiro tem um lúgubre guarda-roupa: calças de linho. com a indiferença pelo corpo que dá a miséria do destino. É sujo. ao fazê-lo. de três em três dias a sua roupa. sem água. nos nossos navios. Em Portugal. o carcereiro deve ter de véspera a relação dos que partem. deficiente. Ele mesmo tem obrigação de lavar. bárbaro. dá ao deportado seis camisas. Conheceu-se. fatal e definitivo como a mortalha .não têm roupa. e um ou dois quase nus.. dois pares de sapatos. etc. a falta de pessoal. os presos pobres. a falta de ar. além dos faxinas. facilmente transportável na sua mochila. a falta de asseio. o abatimento do tédio. os que partiram foram vistos sair do Limoeiro em farrapos a maior parte. o descrevem como a maior deformação da miséria. com a sua camisa única e a sua calça solitária? Por isso os que têm visto um porão de degredados. seis calças. O regulamento das cadeias é provisório. outros doentes. a abafada negrura daquele vão soturno. a bordo. para lhes preparar o enxoval.Uma Campanha Alegre (Volume II. antigo. na acumulação bestial dos corpos.queremos destacar. país quente. De entre tantas faltas das cadeias -.uma camisa. o chão escorregadio de imundícies. uns enjoados. Ora quando se embarca uma corda de degredados. quanto era incompleto. Os presos . sapatos brancos e bonés de cotim. uma calça. sujo: fez-se provisório. anti-higiénico. confusão de enxergas. a falta de alimento.e ali vão apodrecendo. sem disciplina. como um diamante de um colar. Daqui fornecem-se os faxinas.uma camisa e uma calça. Metido atulhadamente no negro porão de um navio. Sabem há quanto tempo dura este regulamento provisório? Há vinte e nove anos. a falta de roupa. . aqueles lúgubres restos de gente. cabelos que se não penteiam. Capítulo XXXI: A cadeia da Relação do Porto) por Eça de Queirós Julho 1872. em que estado chega ao seu desgraçado fim aquela miserável criatura condenada. a vil confusão dos farrapos. para a África. ar coalhado e torpe. a falta de moral. em nome da lei. camisas de riscadinho. e a sua limpeza é fiscalizada com o rigor de um dever. A França. Na última leva de degredados. mal seguro. É infame! . na promiscuidade dos suores. para o seu degredo de África . Mas hoje é uma curiosidade toda particular que queremos revelar. lógico. por alguns meses.e. terra afogueada . a falta de higiene . que não é exemplar na organização dos seus serviços penais. um boné e um par de sapatos! Fiquemos a ver um pouco esta avareza imunda. a falta de segurança. seis lenços.

Nesta última leva. E enquanto às suas cabeças. alguns quase nus. Terra de ruas infectas e de corpos imundos! Ao menos sejamos francos: em lugar das cinco quinas. Quem decretou esta infâmia? Se foi o regulamento das cadeias. com o aspecto devastador dos remendos da enxovia. dá um irremissível desprezo próprio . uma vida em rodilha .única . nem higiene. coalha e petrifica a alegria. ministro da Justiça lhes faça pagar os seus ordenados em sabão. não se enjoem. porque se alguma coisa humilha. a camisa da lei. mas é um corpo que se evita. Esse regulamento não é inepto . a 5 do mês passado. Essa mesma camisa . E porque o preso. reforme-se essa disposição como se lava uma nódoa. Pela nossa parte achamos bem: e só pedimos a todos os nossos amigos que indaguem cuidadosamente quais foram as autoridades que. em Portugal. A autoridade é mais suja que o degredado.uma camisa . enodoa a esperança.foi julgada excessiva. Quem consente que um homem leve para um degredo . Para um degredado. disse com uma tristeza irritada: isto precisa de ser arrasado! A cadeia da Relação é das melhores deste Reino venturoso onde florescem de acordo . as baixas feições de um país! Uma camisa para um desterro. Não precisa crítica . Tal autoridade não deve ser repreendida. com os farrapos pendentes daquele pobre corpo maquinal que vai para o seu porão! E uma atenção aos srs.é a Quando o Senhor D. Para ser reconhecida não precisa a toga . Que o sr. não pediremos à lei que as inspire . não se enojem.uma camisa era de mais. um farrapo humano. Não lhe façamos crítica.precisa benzina. Tirou-se a camisa ao degredado.a papoila e Vidal. Pois bem. E só para atravessar a Baixa. uma sombra pisada. E porque o não reformam? As autoridades que o consentem dão uma ideia bastante escura da sua limpeza pessoal. na viagem. nem dignidade. Suas senhorias.é sujo.uma camisa. imóveis em seus chinelos aos portais da loja. o homem que sente o seu corpo suar e verminar-se na sua única camisa. nem dó. tem de passar na Baixa. Para isso.basta-lhe o cheiro. dando esta ordem suja . lojistas. Não obriga só a reagir a consciência. uma camisa era afrontoso. lojistas e ourives. que apodreçam! Ah! como estas coisas põem ao claro sol do desdém. obriga a pôr o lenço no nariz.mas sim que as cate. ponhamos as cinco nódoas.E é um castigo maior para além da sentença. amolece e amiasma o sentimento. a consciência. a vontade. até ao cais. Depois. e a lei é mais suja que a autoridade.deram uma tão . basta uma camisa.pode ser um jurisconsulto que se respeite. iam todos em trapos. Uma camisa tem um desembargador! E por isso tirou-se a camisa ao preso. As autoridades entenderam. deve ser lavada. porcaria forçada. que para um degredado. tolerando para enxoval de um homem . essas autoridades. E para que os srs. e não se quer enojar os curiosos que param. E deve perder o pudor. Era. cair numa desmoralização bestial. não podem exalar de si um aroma fino. avilta. e bem. debocha o carácter. atiremos-lhe bacias de água. com efeito. Pedro V subiu um dia as escadas da Relação do Porto. E sabem porque se dá ao degredado essa camisa? Não é asseio. amolece a dignidade. um zero.

especial ideia do seu próprio asseio .para que não suceda aproximarmo-nos delas. desprevenidamente .sem desinfectantes! .

Mas Vossa Majestade pode perguntar ao seu velho amigo duque da Terceira. vesti-lo de gala. que passados 36 anos de indiferença sobre o 24. Senhor. está bem diferente do que Vossa Majestade o conheceu. para a região calada onde jazem as suas batalhas e as suas leis. rude e plebeia. comendo alegremente arroz e bacalhau. onde as mulheres iam com o pobre vestido de chita da Rua das Flores. nunca voltam os olhos para trás. o fossem desenterrar do passado. sensível diante dos melodramas do teatro nacional. de ruas estreitas e agitadas. o dia 24 de Julho e as suas glórias estiveram sepultados insondavelmente no fundo das que. um soldado sem nome." Eis. dançando nos bailes improvisados. Senhor. neto de Vossa Majestade. e fazê-lo reinar . resmungão e rezando ao Esta carta. e de onde os homens saíam. patriota. impertinente e cheia de oposição. o 24 de Julho. naquele dia. NOS ELÍSIOS Senhor: Não sabemos se Vossa Majestade se lembra ainda do dia 24 de Julho. como se não nota.como aquela monótona Inês de Castro. os factos da vida terrestre devem ser como farrapos fuscos de sonhos extintos. lembre-lhe a batalha de 23 e os fogos acesos de noite no pontal de Cacilhas! Ora deve saber Vossa Majestade que. na sombra inviolável. Nunca ninguém se lembrou 36 anos. Senhor. noutras épocas de batalha e de necessidade. o duque da Terceira tivesse dado uma capital aos constitucionais. tinha ido ao Porto. Pedro IV. "Mísera e mesquinha Que depois de morta foi rainha. os seus tamancos estóicos. com as suas dinastias de comerciantes honrados. Senhor. a quem a educação revolucionária alterou a curiosidade. sem intenção e sem ideia. passava por nós entre a sequência dos dias. na passagem de um regimento. ainda com feições de burgo antigo. O Porto. a exemplo das que os humoristas de 1830 escreviam a Voltaire. impassível diante dos redutos. têm a memória fugitiva como a água dos rios: e os novos. Senhor. para o fogo das linhas . durante memórias veteranas. e ninguém o notava. nos Elísios) por Eça de Queirós Agosto 1872. Deve parecer-lhe pois singular. Os velhos. O Porto já não é aquela seca e escura cidade. o que se tinha passado. Capítulo XXXII: Epístola: A alma de D. que .Uma Campanha Alegre (Volume II. Sua Majestade o Rei actual. Todos os anos.o Porto. À ALMA DE D. PEDRO IV. Para as almas que palpitam aí. cansados da gavota.

sombras profundas como túmulos. por ocasião da presença de el-Rei. absolutista e sujo. alamedas de mirtos. que não obrigue ao peso da espingarda e ao frio das alvoradas. contra estes sotainas. esquecidos nos silêncios das altas livrarias: o padre plebeu. Outra data de que Vossa Majestade se não recorda. como a dos países Cimérios. portanto o Porto queria fazer alguma coisa solene. que se combata com palavras. sentindo. pois. Ora o jesuíta é um bom inimigo. que tomava a monte a clavina: o padre fanático.é escrita na suposição de que há unia região cheia de silêncio e de imobilidade. cheio dos favores da corte. possuindo a vitalidade do espírito. diz ele. brasileira. um pouco sonolenta. Uma festa constitucional. Se Vossa Majestade encontrar aí. Doce deve ser esse lugar: lagos calados como a neve. aquilo seduz as cozinheiras. Fez a festa do dia 8 de Junho. cheia de poetas líricos. com ventre. aquilo faz negócio de bentinhos. festiva. com os hábitos de se bater. por ocasião do dia 24 de Julho de 1872. imperial Senhor. conversando à porta do Moré ou em volta de um bock na Águia de Ouro. estrondosa. Ah! Vossa Majestade imperial conheceu padres bem diferentes: o grandioso frade crúzio. onde as almas vivem numa abstracção transparente. conversando e recebendo o seu correio. Senhor de Matosinhos! O Porto. possuído de um Deus inquieto. Hoje temos o padre Couto e o José Maria. brutal e devasso. é uma cidade larga. o terror. interessando-se. pacato. pretende um inimigo cómodo. ávido de domínio. com o seu adunco perfil cortante e subtil . pançudo e pesado. e ávida de baronatos. Porque há cinco ou seis meses o Porto foi tomado desta doença singular: o tédio. regatos mudos. tranquilas como as vegetações dos sonhos. não e verdade? Tal é o efémero da vida. Aquela boa cidade ficou. fale a Shakespeare em .para uso do Porto. irreverentemente. lembrou-se. e em tudo um repouso augusto e inefável. para fazer perrice aos jesuítas. género constitucional. Vossa Majestade não conhece o padre Couto? nem nós: o padre Couto é uma reprodução barata do jesuitismo . dos tempos de Vossa Majestade. hoje. Que Vossa Majestade nos perdoe o arremessarmos para aí. ocupado na intriga e dirigindo ocultamente as venerandas cabeleiras do desembargo do Paço: a multidão pitoresca dos frades eruditos. O Porto. artigos de fundo. Vossa Majestade acostumou-os tão bem. grosseiras notícias da vida . bem anafada. que eles não podem dispensar-se de ter um inimigo a vencer. Aquilo intriga nas secretarias. De sorte que o Porto adoptou o jesuíta . vasto e burro.Vossa Majestade deve aí conhecer. Mas o Porto. cheios de rapé e de textos. de fazer uma festa constitucional. ao lado da qual trotavam dois lacaios de cabeleira: o anafado frade dominicano. que não desarranja os hábitos da digestão. versos e meetings. sob alguma plácida ramada de mirtos. hoje.mas nós queremos contar-lhe o que se passou nesta cidade onde Vossa Majestade viveu.como inimigo figadal. a quem se dá batalha. que vão com a tranquilidade rítmica de um verso de Virgílio. demandista e rábula. o ódio ao jesuíta. Napoleão. que enchia a caleça. aquilo negoceia uma missa de doze ou de cruzado. fale-lhe em Austerlitz. E contra isto que o povo se revolta. E combate o padre Couto.

sim? Em lugar de uma praça o Porto ergue duas. calar-se-ão. aproveitando a presença do Rei.o que fez? Fez representar no Baquet a Boceta de Pandora. murmurando como memórias extintas couplets de vaudeville. rica. Carlos e o Martinho. da pequena ciência. de um grande pitoresco de paisagem. quando em Lisboa se soube que o Porto dava esta grande festa . etc. Lisboa inveja ao Porto a sua riqueza. é Mazzini. o convento. Mas consegue apenas ser duas vezes pior. social. O Porto tinha feito uma grande festa constitucional . As damas de Lisboa riem-se da pouca distinção. como uma desfeita. Domingos: mas os da Águia de Ouro abrem sobre as mesas as . Detestam-se. os artistas. a costumada inveja. Senhor. improvisa Cascais. há-de ver um velho corcovado. rubro de ódio. comercial. faz corridas de cavalos. elegante. o conforto das suas casas. E assim ficou batida vitoriosamente em brecha a propaganda jesuítica. ascético.a boa cidade do Porto. Bem! O Porto sorri-se e para se desforrar. foram chatamente batidos. que por aí deve ter encontrado. rir-se com o seu estreito e triste riso de jacobino. rancorosa. Senhor. e que é o Sr. Grande troça nos sportsmen a pé do Chiado: vamos batê-los. vamos batê-los desalmadamente. Não se lembram! Ora pensando que o jesuíta representa o absolutismo. tratou de organizar a festa do dia 8. Mas faltava-lhe o bom gado. o Rei. comédia em três actos. Chegaram lá. alimentícia. o legitimismo. descendentes dos vates parasitas do adro de S. mas com grande doçura no olhar. as suas belas ruas novas. sítio enfezado entre pinheiros éticos e rochedos de ópera cómica. O Porto inveja a Lisboa a Corte. o dízimo . praia de banhos. abrirão os olhos surpreendidos. Ora. a forca. diziam. o seu comércio. a faísca da troça. Scribe. Lisboa. o estonteado especial. o sal das touradas daqui. Lisboa teve a tradicional.Lisboa não tinha nenhuma! É necessário que Vossa Majestade saiba que existe uma incurável rivalidade moral. da falta de chique e de quê das toilettes do Porto? O Porto. Pode interrogar um velho risonho e subtil. a solidez das suas fortunas. S. no Chiado. vendo a maneira portuense de combater o jesuíta . uma réplica aos jesuítas . Os poetas do Porto fazem sorrir.com vaudevilles. os líricos da corte. a seriedade do seu bem-estar. Esse homem. Ah.enchendo-a de elementos liberais. O Porto tinha a Foz. O Porto quis ter este bom tom de lezíria.Hamlet.Lisboa teve um estremecimento de cólera. Lisboa tinha touros. prodigalizando as bandeiras azuis e brancas. às sombras curiosas e saudosas da terra. política. -E então para caracterizar a intenção liberal e democrática do dia . cobre as suas senhoras da sumptuosidade dos estofos e das faíscas dos diamantes. as Câmaras. seco e ardente. Vossa Majestade não sabe o que é? Nem nós. entre Lisboa e Porto. Se Vossa Majestade ler esta carta alto. Representou-se a Boceta.

do espírito republicano: o Porto recebe el-Rei. cheio de honras e de colchas de damasco. acostumado às comoções abrasadas da guerra. que. resplandecente. Senhor.. António. para o entreter com desenhos improvisados a lápis . de cravo ao peito. aos grupos. com as pontas dos dedos. a gente põe-se a caminho. Senhor. achará encanto: sobretudo aí. Senhor. são coisas da sua terra: e depois. desentulhou-se. nas largas tardes pálidas. enfim. nesse mundo interessante e sublime. iluminado. se um bocadinho de maledicência é já um tão bom encanto entre nós os vivos ocupados e apressados . é reformista: eis que Lisboa se veste de um grande desdém pelo sr. onde Vossa Majestade tem Voltaire para conversar. com um delírio que só Vossa Majestade inspirou nos dias em que passeava a pé. informe. como único comentário digno. por circunstâncias. não é verdade. como o Porto tinha a sua festa constitucional. como um anémico e um precioso. o esqueleto do dia 24 de Julho: o quê? és tu? existes? és! Vem! serás célebre. de restaurar as datas históricas do regime constitucional. . mas pára a cada momento.a oposição viu nisto um belo cabo para uma vassoura. cada vez mais. aprofundou-se e foi-se achar. Um belo cabo para a sua vassoura.Escavou-se. para lhe fazerem músicas de almas em sombras de violoncelos.o que não será nessa grande ociosidade da Morte.E puseram-no de pé! Aqui começa. seguia-se naturalmente que ela ficava . isto.a que não sabemos se Vossa Majestade. nas faces rechonchudas das mulheres do Candal. Realmente. e abraça-se. estrondoso.. à travessa do cozido. como a um estandarte. Meyerbeer e Beethoven e Mozart. sob o silêncio dos sicômoros. Assim Vossa Majestade saberá. Em Lisboa houve ultimamente um certo movimento subterrâneo. logo que se tratou da festa do dia 24 . e batia. quando. com a sua estreita farda de coronel de caçadores. nos tempos apressados de Vossa Majestade? Hoje.com a honra de ter feito uma grande festa liberal.perante o País e a cidade . no chorume da velha cozinha portuguesa. no fundo de um passado esquecido.O facto é.Mas em quantas coisas estamos falando.. que. - . Perdão! esperamos que Vossa Majestade não tenha aí convivido tanto com Racine e outros retóricos. Lisboa come com pretensões francesas e fantasistas: logo o Porto se afoga. se pudesse acontecer que toda a iniciativa desta festa de liberdade pertencesse à oposição. . e onde tem. bispo de Viseu. O Porto. molho de carne assada. .. a fumar as cigarrilhas azuis da fantasia.odes de Vidal. que são para Vossa Majestade como as sílabas irritantes de um dialecto bárbaro? Era-se mais conciso. junto à mudez dos lagos. indistinto. que se tenha impregnado do horror às frases populares e energicamente significativas.Rubens. Miguel Angelo e Velázquez! Mas. as Sombras passeiam. uma intriguinha constitucional e burguesa . Lisboa quis ter a sua: mas qual? . e entornam-lhes em cima. de ser a mais intimamente afeiçoada ao espírito democrático.

As comissões entenderam que deviam solenizá-lo.em questões de celebrar a liberdade . morrão às peças e fogo! Hoje somos todos pessoas de ordem: servimos a Ideia. Servimo-la assim. mais Lourinhã. uma em Lisboa . de casaca.tudo. Príncipe! Chame Nicolau Tolentino. mostre-lhes isto. a decisão. chame Scarron.enquanto que. Guerrazinhas de homenzinhos. chame aquele inquieto personagem curto. Vossa Majestade lembra-se ainda dos lugares? Lisboa. com um pontal agudo encravado na água. ele. os crimes -toda a violenta desordem do encontro de uma realeza vencida com uma ideia vitoriosa . .a festa foi apenas.tolera mas não promove. onde Cacilhas estende o seu focinho. simbolizando a opinião constitucional. que se abraçam gravemente no Cais do Sodré! Ah! Melício! Ah! cruel! . o terror da cidade. num vapor alugado. e nessa noite acendeu. Saiba agora Vossa Majestade como foi esta festa augusta. dinheiro seu e homens seus . em toda a extensão das linhas ocupadas. os fugitivos. uma parada da oposição histórica contra o ministério regenerador. aqui. e chame a alma de Rebelo da Silva. o alegre espírito. as tropas. mais irmandade da Senhora da Luz! O desembarque. Nomearam-se duas grandes comissões. depois da batalha de Cacilhas. que não podia ter iniciativa. a vingança que reaparece. simbolizá-lo. a luta. mais círio. Ora que melhor reclamo para um partido do que celebrar por comissões suas.e de cá a comissão de Lisboa foi esperá-la. ao Terreiro do Paço. o Governo. . nem eles. pelas campanhas de Vossa Majestade e dos seus generais. Como Vossa Majestade se pode informar com o duque da Terceira. vastamente espapada nas colinas. chame a macerada figura óssea de Bocage. para que ele lhe descreva os personagens. que é Marcial. lhe narre as figuras! Riam! Que se não viu mais Manuel Mendes Enxúndia. de gravata branca. E aí tem Vossa Majestade que a festa do dia 24 não é uma ideia de liberdade festivamente manifestada: nem uma manifestação tardia das glórias do constitucionalismo: nem um entusiasmo retrospectivo e bem arranjado. a 23. era outra coisa. de cabelo hirsuto. acampou ali. desembarcava em Lisboa. Que nem Vossa Majestade. de toga curta à maneira ibera. como de uma grande justificação! . cheio ainda das recordações da terra. O desembarque foi o êxito do dia. imperial Senhor. olhos faiscantes. nariz adunco. ideias suas.simbolizando as tropas do duque da Terceira. de madrugada.outra em Cacilhas. com um cerimonial expressivo.Ria-se. se regozijem. Que fizeram? A comissão de Cacilhas partiu de lá. os saques desconhecidos.uma festa à liberdade! Boa táctica. ficava naturalmente com o aspecto de quem .simbolizado por alguns cavalheiros. implicitamente. e do outro lado os montes pelados e amarelados de saibro. de gravata branca. pela manhã. Que quer? no seu tempo. Senhor. chame o Aretino e os grandes escarnecedores de outros séculos. as famílias espavoridas. grandes fogos. Ao outro dia. que ia ao encontro do libertamento. mais barriga de manteiga. desgraça e glória . o rio defronte. de água esverdeada. o calvo mestre de retórica. com filarmónicas . os medos que se escondem.

um papel. e desse fio astuto pendia. aos Sanchos e Afonsos. E no Rossio. O clube do Arco do Bandeira pela sua atitude. Nada que lembre o soldado. . Vossa Majestade está com a espada na bainha. Ora se era necessário representar. sobre uma peanha. Vossa Majestade passa à posteridade com um rolo de papel na mão . Se Vossa Majestade puder.eis o que ela sabe dar de mais delicado aos heróis que ama. Senhor. parece não dar por tal. E a quem Vossa Majestade a mostra. jurídico. equilibrando-se sobre uma bola de bronze. E uma estátua doméstica.De resto.UM ARRAIAL DE OPOSIÇÃO. Senhor. Foguetes e filarmónicas . violentada para conceber uma festa. e as nossas felicitações. Vossa Majestade deve estar fatigado. Maria. que já foi uma pátria. que reinaram neste canto da Terra ... Porque Vossa Majestade tem uma estátua! . Mais nada. na sua delicadeza de sombra. A sua imaginação. . com estas notícias que levam o peso grosseiro da terra viva.Depois que assim se encontraram as comissões. água fresca bem apregoada. e que é hoje apenas um chinfrim provisório. mas a figura de Mouzinho da Silveira. Há três anos que Vossa Majestade a tem. modesta e digna. a Carta — ao clube do Arco do Bandeira.não era Vossa Majestade que devia lá estar com a carta na mão. Ora nesse dia 24 a estátua de Vossa Majestade estava coroada. diga-lhes que aqui estamos às ordens. não pode produzir mais que o arraial. a uru metro da cabeça da estátua. um fio de arame. 0 . Lisboa é uma cidade sabia: é uma cidade de fora de portas: é uma cidade de aldeia.e se Vossa Majestade entender que é delicado e da etiqueta apresentar aí os nossos respeitos de portugueses e de vassalos. escreva-nos. No meio. . o espírito político. arquejavam. pedindo-lhe que nos recomende aí a todos aqueles que nós estimamos. polida e branca como uma vela de estearina. esguia. ou um vate. dirigiram-se com as filarmónicas para diante da estátua de Vossa Majestade. Mas como? Tinham passado dos telhados de um dos lados do Rossio aos do outro.Lisboa faz o que pode: quem tem um temperamento saloio não pode tirar dele requintes de artista. e mostra.Nós. As costas para o teatro de D.tenha Vossa Majestade a condescendência de dizer aos ditos Sanchos e Afonsos.e é mesmo para nós uma felicidade ter esta ocasião de dar a Vossa Majestade esta nova soberba. temos conversado muito. buxo. as filarmónicas. bamboleando-se. Que quer Vossa Majestade? . foguetes. enorme.. beijamos as mãos de Vossa Majestade Imperial. sim. desde Rabelais até Camilo Desmoulins . uma coroa larga como a roda de um ónibus! Em baixo. Vossa Majestade está no alto de uma coluna.De modo que este dia de festa como se pode definir? . legista do constitucionalismo . peça-nos histórias deste país que foi seu.como um tabelião. etc. e bandeirolas. enquanto não descemos também a essas regiões definitivas e purificadoras.

Sobretudo em questões femininas: porque aí o Sr. remexido. Sabe pelo que esgaravata no lixo. tudo correu pelo faro do escândalo. tudo foi sacudido. a virgindade. do adultério. fechando a navalha no bolso. jornalistas. Tomás de alcova. era um homem sereno e recolhido.mata-a! Outros. e exposto à vil publicidade como um guarda-roupa na tristeza de um leilão. cosido com os muros conjugais.a sua opinião e a sua prosa. com argumentos e boa gramática . cuias velhas. saias e consciências. panos revolvidos.se os maridos deviam matar suas mulheres. de faca na mão. o seu depósito de observações: porque o Sr.com panfletos. envolveram-se. saber desde as leis até às pantoufles toda a fisiologia do casamento. Dumas filho entorna sobre o boulevard. Alguns vaudevillistas ensinavam entre um bock e uma pilhéria -vai-a matando sempre! E outros acrescentavam. escrevendo sobre este caso impertinente. o adultério. o astrónomo. Quando. E doutor . Mr. Uma só coisa o fazia irritar e sacudir como uma juba o seu comprido cabelo à Convenção: era ouvir um peralvilho da mocidade dourada. lorettes. firme como a ciência e tranquilo como a verdade. e ser no tempo presente um S. voltado ao sol. revolvido. folheando a Bíblia . Mr. farrapos reveladores . é acordar o escândalo que dorme. em Paris. O Sr. a mulher. Provocar a pena indiscreta e aparada em bisturi do Sr. Capítulo XXXIII: O problema do adultério) por Eça de Queirós Outubro 1872. Dumas. Alexandre Dumas filho . não os escandaliza esta questão? Laplace. o pudor. com artigos e com vaudevilles. diziam generosamente: não a mates. Dubourg foi ultimamente condenado em cinco anos de prisão. o antigo. E o amor. o Sr. E de noite. algum Incrível dos que tinham feito fechar o clube dos jacobinos e traziam a reacção entalada na alta gola do . numa discussão vibrante acerca do amor. com Livros. por ter assassinado sua mulher às facadas . como um barril de lixo. Ora a conclusão da questão era estranha: tratava-se de decidir. que foi secretário de legação em Itália na missão de Tour d'Auvergne. publicistas retirados. a maternidade.os srs. expondo que era necessário estudar mais a questão e consultar dicionários: por ora não a mates! E no entanto. por cima da memória da pobre senhora nervosa e infeliz. a sangue-frio.em roupa suja. cravos. Dumas é observador como outros são trapeiros.Uma Campanha Alegre (Volume II. arrastando essa desgraça através da sua prosa. L'homme femme tornou-se então um rebate através das alcovas: jornalistas. Dumas supõe-se uma espécie de Santo Padre do amor. o casamento. Foi assim que o Sr. Antes de tudo. os maridos esperam. d'Ideville. d'Ideville provocou L'homme femme. julga possuir a plena compreensão da mulher. Dumas tinha dito com o charuto na boca. apanhando e fisgando em segredo tudo o que cai da alcova. teve a ingenuidade de pedir ao Sr. um bom rapaz. com uma lanterna e um gancho. De sorte que sempre que se trata de um caso sentimental.que ele vai coligindo a sua ciência. Ganiu-se um grande charivari filosófico . do casamento e da morte.

Ora se alguma coisa deve irritar e fazer rugir. d'Ideville. abrir a porta do jardim à impaciência de Artur. não lemos ainda nem L'homme femme do Sr. E também não inspiram o ideal . estendese molemente à sombra dos castanheiros. O que sabemos apenas é que todas estas prosas incitam a mulher. sensível. localista do Rei e Ordem. Sobre a fidelidade e os seus claros esplendores. á senhores prosadores. esta questão esmagadora. de ir pé ante pé. . há tempos. num momento de bonomia. pela ciência de Proudhon. que pede o recolhimento do Inverno e o silêncio do fogão. devemos confessá-lo. Dumas. à prática da virtude! Ora observa-se que. e outros galantes. Como? . Bezerra.são pelo menos inúteis. se uma mulher tem um amante. com todos os ardores do susto e do mimo amoroso.com uma navalha de seis tostões. E não despedirá o homem que lhe dá a sensação . que lhe dá prosa. através da opinião parisiense. e um amante vivo. Porque a retórica não anula o temperamento. que condena o adultério. Dumas filho.. Porque um periódico bem escrito não abafa uma paixão bem movida. nem nenhum dos folhetos que rolaram como um enxurro. Não evitam o pecado. para seguir o folhetim. um artigo magnífico e pomposo com interjeições. . a verdade é esta: entre um folhetim.. E isto porquê?. que é a linguagem. julgando inoportuna a estação de banhos para esta leitura. E por isso que estas declamações soluçantes a que se entregam. à questão do Adultério. Porque os adjectivos não dirigem os nervos. falar e decidir. Referimo-nos. o jornal e o drama . e faz-nos o obséquio. Então o sereno Laplace rugia.porque não há felizmente senhoras tão estranhamente desgraçadas que vão aprender a virtude nas gazetas ou nas rampas dos teatros. Uma questão singular tem. forte e amado . é ver os Srs. de resolver no direito e na moral esta dificuldade tenebrosa. impresso a tinta preta num papel amarelado. lágrimas e flores: Sobre o adultério e as suas aflitas misérias. não a resolveu. começa a dar-lhe uma solução racional e positiva. o velho espírito romano: perturbaram-na e lançaram-na em confusão a teologia e o cristianismo: apenas a revolução. as pessoas sensíveis e os fabricantes de armas proibidas. Que. nós ambos. que é a realidade.em atenção ao Sr. esse ângulo tão perigoso da dificuldade social. com os braços erguidos. em períodos comoventes. ouvindo cantar os pássaros.nenhuma mulher deixará o amante. em vindo a noite.falar de astronomia. autor da Lorette e profeta do Ginásio. sobressaltado legitimamente os maridos. pela manhã ao almoço. Não a resolveu. a Bíblia. poderá suceder que ela leia. sobre o casamento. E porque. Mas nem por isso deixará. como compreendem.no entanto o Sr. com toda a sua grandeza.seu fraque à Barrás . nós dois. Dumas. como Evangelistas do macadame.

Ora aconselhar um procedimento fixo para este momento alucinado.a regra. de ofensa. é querer impor ao que há de mais desvairado . o momento em que sabe o seu desastre é fatalmente um momento de excitação. linfático. permanece e impele pela sua fatalidade fisiológica .a paixão. E dizer de antemão ao pulso .tu baterás deste modo.improvisa. o estudo. tão banal. que apesar do apuramento nervoso da humanidade. outra família e outro direito. prático e frio.tu rugirás desta forma.com forças de a empreender. Quem vai estudar de antemão ao espelho as atitudes que deve tomar na dor? quem decora no seu quarto a palavra que deve dizer na cólera? A febre não calcula .seria necessário. no quintal. O general de Campvallon que é gotoso. No primeiro caso. fulano. melodramático.e então torna-se tão monótona. se tem a sua origem na moral. de vergonha. encosta-se. é uma provocação irritante! Ou o adultério é um facto fatal da natureza eterna. Porque. analíticos. com todo o seu tédio. cheio de opiniões feudais. Um fidalgo de Burges. se ele provém da corrupção do matrimónio e da sua decadência e descrédito como instituição social. para se perceber a inutilidade pedagógica e retórica de marcar de antemão um procedimento. Um negociante holandês fleumático.E depois. as anedotas. Um outro encontra sua mulher anediando uns cabelos de homem que não são os seus. da moral. Basta ver quantas soluções diferentes a verdade e a arte têm achado para este momento agudo. sanguíneo. da civilização. Dumas filhos . é equívoca. põe-na à porta da rua com uma mala e uma nota do banco. fumando brevas e cosendo prosa? Mas mais absurdo que tudo é a palavra final da questão: o mata-a ou não a mates! a decisão do destino que o marido desvalido deve dar à esposa revoltada! Para todo o homem. como uma transformação na ordem social. o mais linfático ou o mais endurecido. Otelo. que nos dê uma outra religião. que nem Robinson Crusoé na sua ilha deserta. outra moral. bárbaro e justo. se faz sermão ou se faz negócio. vai ao seu quarto. Segundo se é sanguíneo.a quereria: ou então é tratada por espíritos subtis. toma sua mulher pelo braço. acham-se os Srs. com os detalhes. então é necessário fazer uma revolução nos costumes tão profunda como foi o cristianismo. bilioso. desfecha a carga de um revólver no peito de Artur.assim se faz sangue. originais como Dumas. de despeito. esta questão do adultério. ou é tratada num folheto pelo sr. ou é um facto fatal da moral moderna. se ele é a antiga e primitiva lei da promiscuidade animal. Ora qualquer destas coisas. batalhador. os quadros. torna-se uma divulgação de alcova e uma pimenta amorosa! De modo que quando não é uma trivialidade estéril. e sendo esse folheto o único folheto e sendo essa distracção a única distracção . tanto uma alteração de constituição fisiológica. bonacheirão ou egoísta . se nasce da extinção da fé conjugal nos esposos. toma a . e sucede que. Depende sobretudo dos temperamentos. para o extinguir. Sgnarello ou Marneffe. e aconselhar previamente à cólera . do direito. toma o travesseiro. bom rapaz e empregado público . tão recalcada. à ombreira da porta e morre de apoplexia. ao surpreender sua mulher. aferrolha a porta e volta tranquilamente para o seu escritório. cheio de achaques. e mata por asfixia. que é negro. mudar a própria constituição natural ou esperar mais vinte séculos. o que há de mais raciocinado . as revelações. e ele não pode subtrair-se a palpitar com uma pulsação de febre. se deriva da perversão lançada na dignidade matrimonial pelo idealismo amoroso. No segundo.

acham um encanto inefável. dos caracteres. e obriga-o a assinar uma letra. infelizmente bem conhecido. das condições. porque seria estranho que um marido surpreendendo sua mulher e Artur . pensam no homem. Tal temperamento. a mesma palavra vil. rendido e mais amoroso. assombrados. vendo sua mulher apenas saída da virgindade. noiva e pela Graça quase sagrada. seguindo a velha tradição dantesca da casa de Rimini. faz para a infinita diversidade dos desesperos . Dumas filho que os maridos. estudar muito tranquilamente no Sr. as descendentes de Fedra. a doce ocasião destes pequeninos afazeres escrever cartas às escondidas. Para a generalidade das mulheres . imaginam que ele a matou. de circunstâncias a que.o bárbaro generoso mata. ter o orgulho de possuir um segredo. trazendo-a pelo braço. não queremos privar as curiosidades inteligentes de algumas pequenas notas que não resolvem. e sem querer saber dos temperamentos. amante.mas com a lógica do seu carácter . toma um revólver e parte para a Eternidade.lhe dissesse: — Srª esposa e sr. é para que os maridos o leiam. tremer e ter susto. pelo seu organismo e pela sua educação. estendida no sofá. a toilette. degola com a espada os dois sobre o sofá. Outro espera Artur no fundo da escada. vai ao seu quarto. se apropriem daquela ideia e decorem aquele procedimento. E um outro. Mas a raiva é a mesma.ter uma quantidade de ocupações. aprendam a lei. tal solução. A maior parte da gente imagina que para uma mulher esta ideia e mesmo esta palavra ter um amante. essência da questão. E no entanto o Sr. Dumas o que lhe deve fazer quando ela for adúltera? . Todos estes infelizes se desesperaram: . vêem-no sair risonho. de factos.ter um amante significa . curiosos dessa matéria. o .Não pode ser também no momento da revelação.um catecismo uniforme. significa muito simplesmente . diz durante dois anos a sua mulher. todos os dias de manhã. em que momento preciso do seu casamento? — Não pode ser logo que casem: qual é o marido bastante torpe para ir no dia seguinte ao do noivado.quando quer o Sr. Ter um amante é ter a feliz. eu vou para a minha biblioteca consultar os autores e amanhã lhes darei parte do destino que lhes reservo: tenham a bondade de me passar daí os documentos da infâmia e um dicionário! Enquanto ao adultério. o estudem e tomem apontamentos? Se o Sr. passeando com ela no jardim.riamos! . Ter um amante .sua roupa branca e parte para sempre para o Egipto. Dumas entende que o procedimento colérico se pode ensinar como um passo de contradança. O general Pallavicini. o civilizado infame faz assinar a letra. ter aquela ideia dele e do seu amor. fechar-se a sós para pensar. tranquilo e risonho. Dumas faz um tratado e uma lei de morte. E . se convençam. fecha-se no quarto com a mulher e quando os criados. acompanhando como uma melodia em surdina todos os seus movimentos. De modo nenhum: só muito raras. Mas quando. mas explicam.ter um homem que amam. Outro surpreende. com argumentos e exemplos.esse catecismo que conclui pela morte .não é para elas abrir de noite a porta do seu jardim. Um outro.

dominar as atenções. de ossianesco. uma ponta. o bordado é a mais perniciosa excitação da fantasia: sentada. O homem. no fundo do seu peito. ao canto de um fogão. rindo com os seus brancos dentinhos de rato? Educa-se-lhe primeiro o corpo para a sedução. sério e indiferente. nas crónicas íntimas. De resto. publicidade. Alguma coisa de vago. de ocupação romanesca que ele dá à sua existência. sob o seu movimento excêntrico e resoluto. ser espectáculo. o maior dos encantos femininos! etc. faz-se o contrário. De tudo isto uma consequência lógica: . e vê-lo a ele. como a recolhida flor do segredo. amam-no pela quantidade de mistério.são a sua grande atracção. impedir que ela procure as ocupações do amor. a sua higiene. Que se lhe ensina desde o momento em que a pequenina mulher de 7 anos. é fazer toilette com intenção. Hoje. Ensina-se-lhe a arte sentimental e inútil de bordar flores e pássaros. estar. que em toda a vasta aristocracia inglesa que faz a season em Londres. como realização do amor. de interesse. etc. A inglesa. de exalado da harpa de Erin. sensível e fria .o que pretende sobretudo e exclusivamente no amor. a sua virilidade de pensamentos — conserva todavia. é procurar uma certa flor que se combinou pôr no cabelo. que a idealizam . as suas risadas francas. o bordado. nos bicos dos pés. e só eles dois estarem no encanto do mistério. que requintamentos de sensação.mas as outras restantes contentam-se em ter o coração sentido. rectidão de ideias. subtis e profundas temperamento. É fácil de ver. com a sua carnação saudável. . Havia muito deste sentimento nas místicas e nas antigas noivas de Jesus. diante do espelho. uma semente de melancolia. E claro que.ter o coração sentido. uma poderá ter um amante e os seus pecados . andar. encostar-se com todas as graças para sensibilizar.isso agora apenas começa vagamente. é estar triste por ideais amorosos. nos dias de chuva.banho. de saído de Ofélia.a que ela chama com certos requintes finos . se enfarinha de pó de arroz. das que têm a mocidade e o espírito do sentimento. E que a lady romanesca. . que excitações do chique! Taine explica isto por muito finas razões. que vagares. que enchem a sua existência. justamente. que a complicam em cor-derosa.De sorte que de mil senhoras da aristocracia inglesa. são as suas ocupações. A inglesa não se pode dispensar de ter aquela melancolia de certas horas. como Dumas. ficou no fundo daquelas naturezas femininas dos países louros. havia apenas um adultério! E todavia que luxo. contava-se então. a mais inglesa. o penteado: é estar numa sala cheia de gente. azulada e terna . Não pela ginástica . amam o amor. é a felicidade de andar melancólica no fundo de um cupé.ou para o casamento. os seus cabelos espalhados e impertinentes. Por aqui se explica uma coisa que surpreendeu Taine. Hoje a mulher é educada exclusivamente para o amor . que idealismo. Estas pequeninas coisas. boas saúdes. falamos das classes ricas e improdutivas. com a sua sainha tufada e o seu puff pueril. vencer o noivo. Amavam a Deus porque ele era o pretexto do culto. as suas corridas a cavalo. E foi que na sua última viagem a Inglaterra.procurando dar uma ocupação ao espírito disponível da mulher. é a sua melancolia. sentar-se.: esqueceu-lhe uma razão. E o que amam. como uma imitação inglesa -mas pela toilette: ensina-se-lhe a vestir.

Arminho. Os românticos são como uma chama impaciente.E na plateia velhos sargentos de cavalaria coram até às dragonas! . meu tudo. o católico. da fofa penumbra dos cupés? Amor. Feuillet põe na boca de uma menina de 15 anos. minhas delícias." Que lhes parece? Aprovado por Monsenhor de Ruão.Oh! vem. Neve. . meu alento! Minha alma impaciente enlouquece por ti! "Acto de amor. mas para maridos não! . meu bem-amado. Depois ensina-se-lhe a música. de sensibilizar. estas palavras: Adoro os rapazes para valsistas.aqui estão os trechos de um livro de orações aprovado pelo sr.Tenho pois enfim a felicidade de te possuir! Abrasa-me. Trata-se do amor de Jesus -dirão: pois também seria excessivo que se tratasse de Artur! A Igreja não o faz expressamente -dirão ainda: quem o duvida? Nem um momento desconfiamos da austera intenção da Igreja. das rendas loucas. quase um catecismo universal. que interesses vai encontrar? os da política? os da ciência? os da arte? os da economia doméstica? os da guerra? Decerto que não: . nas soirées. como é educado? Pelo romance. os velhos minuetes. E um catecismo francês. sacudir o enxame. Donizetti. A música clássica. por meio das sedas sonoras. Duvidam? . Mas é inocentemente e sem intenção. curvada. o que escreve para as virgens aristocráticas e louras do faubourg Saint-Germain. o canto. e quantas vezes a casa arde! Querem saber agora como falam e pensam as mulheres educadas neste elemento abrasado? Vejam a última peça de Octávio Feuillet. que lhe descreve o amor. Prepara-se-lhe assim um meio de encantar. arcebispo de Ruão . todos os amorosos. ao gás dos bailes. Bellini. pela ópera que lho suspira. e dá-se-lhe alguma coisa da habilidade das sereias. pela opereta que lho assobia.imóvel. príncipe da Igreja. na intimidade das mulheres. . o piano. educada num convento. . Pomba. as fugas. Que lhe diz o luxo. Jesus é meu. o bem-amado é meu. que é ela sempre ferida no cálice. de. o seu espírito. o cardeal Bonnechose. que as mães deixam as crianças ao pé do lume. o casto. queima-me. o pudico.traduzido por toda a parte: "Actos de desejo.os do amor. as árias simples — eram uma serenidade para o espírito. um correr de água fresca. Que lhe ensina a mesma religião? o amor. Que ideia lhe dá a família. das caxemiras. a maternidade? O encanto de um amor legítimo. No mundo. açucena coberta de rendas.Depois. carne adorável. consome-me com o teu amor. das pedrarias. o voo inquieto das imaginações e dos desejos palpita-lhe em roda. os motetes. meu amor. como um enxame de abelhas: e é isto o que perde as rosas. dos saltos à Luís XV. pelo teatro que lho dialoga. da vitrina das lojas. andar. picando delicadamente a talagarça. adormecer. como diz um velho poeta ascético: é porque a rosa não pode fugir.

exalando romance. impelidas. O homem. O Oriente. do pobre homem que a seu lado resfolga.a valsa. cuidadosamente . alegres. o apetite inglês. tornam a valsa um exercício radicalmente salutar. contempla e fuma o chibouk. os dedos errantes em longos bigodes sentimentais. a pele macia e seca. de cima de seu encanto. nunca deve dançar: o seu movimento são as armas.a pilhéria e a víscera. legitimamente.Bom Deus! Não somos caturras! Dizemos a verdade. O homem na frescura da sua toilette. os suores. As boas valsas são as de Strauss. a palidez. vermelho. duro. radiosas. firmemente resvaladas — que têm alguma coisa de ataque e muito de triunfo. intacto. a solidez das articulações. a todas as mulheres de 14 anos. a ginástica: já Napoleão o dizia. fresco. E é justamente o que mais lhe regateia uma moralidade banal. pode excitar o sentimento: quem nunca o excitará é o valsista . E sobretudo uma fadiga. o homem que valsa. depurativa. a testa cheia de gotas. com a gravata de cetim negro em nó. fortemente sacudidos. foram feitos para a valsa e acentuamna como um palpitar de asa.o homem faz-lhe a farsa. alagado. De resto como não temos a responsabilidade da corrupção humana. faz girar abundante e igualmente o sangue. se a tem. quase igual à ginástica: desenvolve a firmeza do andar. soprando. A mulher olha e sorri.com a pele oleosa. E por isso que os românticos. de resto. cerrado. o salto. E têm-se visto doenças inexplicáveis de mulheres curarem-se com uma valsa. A valsa é moral e educadora: porque acostuma as mulheres a ter dos homens uma ideia positiva e burguesa. moral. como pode ter espírito? O que naturalmente lhe sairia pela boca fora se a abrisse. o nariz luzidio. sereno. De sorte que se pode rir. a transpiração igual. a claque debaixo do braço. o olhar triste e dominante. Pois era um sábio. Na valsa a mulher faz a poesia do movimento . os netos de Byron e de Dom João não valsavam: pálidos. E um doce medicamento contra a anemia. as pernas pulantes como as de um gafanhoto que vai para os seus negócios. educadora e positiva. perfeito. a marcha. Dá às raparigas uma boa alegria de ave que voa. outras circunstâncias. exercita e excita a facilidade da respiração. idealiza. escarlate e esfalfado. um arquejar pesado. e o arfar dá-lhe a delicadeza. Um higienista célebre recomendava. a aba da casaca esvoaçando. Além disso os vestidos compridos. Porque ela é que não perde a graça. leves. ágeis. conversa e ri num baile. Dá os bons sonos saudáveis e frescos. compreendeu isto admiravelmente: aí as mulheres dançam sós entre si. a luta. o ar embezerrado. Os movimentos rápidos. A valsa é higiénica. Quem é que disse que o Inferno era um lugar bem interessante? Foi Brantôme. para cima duas horas de valsa por dia. encostados à ombreira. galopados. Nesta educação da mulher uma só coisa é profundamente boa . tão profundo e tão subtil. não seriam as graças-seriam os bofes: é por isso que ele. encostado no divã. feliz e grotesco. estavam imóveis em todo o encanto do seu mistério. também não fugimos para o deserto. . rojados. robustece o peito. espesso. o homem. E depois. Toda a mulher que se não cansa. todos os abandonos mimosos da ave que cansa. a respiração ofegante. guarda dentro em si para seu uso.

do seu escritório. quando tem escrita e cheia a primeira folha de papel. as criadas vestem-na. de fazer as suas compras. a não ser as excepções de temperamentos. E querem uma prova? E que as mulheres mais ocupadas são as mais virtuosas. abandonada à fantasia. doméstica. ele nunca mais valsou. tendo por profissão escrever. casa. que morreu agora em Florença. e sem carruagens. e portanto as mulheres.O que resta a esta infeliz criatura. dado muito longe daqui. nas classes agrícolas. a modista faz-lhe os vestidos um cupé macio caminha por ela. decerto. como deve ser.e creiam que esta glorificação e desinteressada: o que escreve estas linhas não valsa. sem criadas. toma outra . encolhida no tédio da sua causeuse? Resta-lhe a sua genuína ocupação. A sua natureza torna-se excessivamente prática. dos seus fundos. todo o movimento. e fica-lhes um dia cheio e trabalhado. Ela naturalmente faz como um amanuense que. Outra prova é que Lisboa é uma terra de mulheres virtuosas. dos seus amigos .bem. a maior parte das famílias são de empregados públicos. a ama cuida-lhe dos filhos. E isto evidente na pequena burguesia. e a razão é que Lisboa é uma terra pobre. ao fim de um baile. fraca e tenra.. assim formada. da sua política. Era de madrugada. Valsou um dia. A verdade é essa. alarga-lhe a vida em redor. isolada. dar a esta natureza. les rieurs de la ville. cheia de pequenas preocupações. impressionável e agitável. um sábio doutor prussiano. ao Oriente e ao Ocidente. e deixa-a no meio.mal. de economias.para continuar a escrever. quatro pessoas assistiam gravemente àquela valsa solitária: um chefe de tribo dos confins da Núbia. lorde C. sem aias. mademoiselle J. que vem curiosa. a que lhe ensinaram e em que é perfeita . Mas se o marido. hostil à fantasia e aos seus cortejos. têm. de chaves. toda a dificuldade. a cavalo num criado. uma ocupação que a absorva e que a preencha? Não. Se o marido se conserva um amante . de manhã à noite. exclusivamente educada para o amor? Esta mulher.que assim como o rei de Tule nunca mais bebeu. as moças arrumam-lhe os quartos. Tal é a verdade. luminosa e cintilante como uma visão do sultão Achmed. de lavar os filhos. de atenções caseiras. Na sala deserta. Valsou.o amor. Os adultérios aí.Valsem! valsem! . se ocupa dos seus negócios. E tantas saudades lhe ficaram ao que isto conta. Uma mulher assim fatigada. no mundo proletário. ao sonho e à chama interior: a cabeleireira penteia-a.. naturalmente. des Bouffes e um capitão de artilharia inglesa. não tem vagares para o sentimento. o rude trabalho de uma casa a dirigir: têm de se vestir. E nas classes ricas: o marido trata de lhe tirar todo o trabalho.. a governanta trata-lhe da casa.. são quase todos originados na necessidade e na pobreza. Valsou com um preto. O marido vai. um jornal de modas pensa por ela. que olhava gravemente. Além disso. do seu clube. . de tomar róis. o marido ganha-lhe dinheiro. vendo o marido sobrecarregado e sustentando pela firmeza do trabalho aquela nau . daquela valsa . imóvel na sua túnica de linho e fio de oiro. Podem rir-se os incrédulos da cidade. de alinhavar vestidos. como dizia Tallemant des Reaux. positiva. Ora o que se faz a esta mulher inteiramente.

Para a mulher a beleza é o mais alto dos seus direitos e o mais grave dos seus deveres! Colocar a mulher nas ocupações da família. Vejamos como eles mesmos se consideram a si: consciência própria e consciência pública. Dê-se-lhe uma casa a governar. As casas são pequenas. eis o que achamos de mais genérico para evitar a dissolução do casamento. . farta.nesse caso esta mal. se a quer como uma sultana da Geórgia. alegre . mesmo que fosse sentimental. e ela encontrará no seu coração mais valor para ser virtuosa. se a torna um pequenino mimo e um gozo de voluptuosidade. Querem a prova? No adultério entram . e que é necessária a todos.dona da casa ou mulher de prazer. Quando falamos assim de moda. O adultério é um facto aprovado pela opinião. com irreverência. O espectáculo é curioso. pedimos que observem o que se passa nos costumes. para que lhe dêmos este nome clássico.. não é na vida real mais que um entretenimento de baile ou uma distracção de teatro. do que nós encontramos razões no nosso espírito para sermos honrados.o sedutor. torna-se impossível toda a inteligência secreta com o exterior.Ora agora se o marido faz da sua mulher uma amante mignonne e luxuosa. reina verdadeiramente. A mulher adquire uma alta ideia da sua missão. Vendo-se centro de actividade na casa. nas mesmas salas.menagère ou courtisane . e que pelo seu trabalho e pela sua ordem a família está confortada. e que a sua presença consola.encarregue sua mulher de fazer casa. Além disso. que se transporta nos braços . a todas as horas. Dê-se à mulher um alto interesse doméstico. e que a sua coragem fortifica. e então o risonho Offenbach adianta-se com a sua batuta e o seu couplet garoto. e aconselha-o a que nunca entre em casa . Palavra . nos interrogam directamente sobre o adultério e os seus motivos. diremos que cada um .sem prevenir. Proudhon disse que a mulher só tem um destino .julga-se e tem o orgulho de Providência. não queremos dizer que a mulher não cuide da sua beleza. asseada. porém.toma-se por ele de um grande respeito. e nem por todos os encantos quereria descer na estima do seu pequeno mundo honrado. Bem ao contrário. as condições de existência burguesa defendiam-na como muralhas. na voz e no silêncio. Vejamos o sedutor: Dizia Napoleão: o adultério que é um tão grande facto no código e na moral. e a dispense de fazer moda. Seria longo explicar a alta moral que esta palavra encerra. Se. e dá-se-lhe uma virtude invencível. Não poderia sequer ter por muito tempo um segredo do coração: a família adivinhar-lho-ia na preocupação do rosto. O casamento torna-se assim uma associação de trabalho. o que é extremamente raro. o contacto da família é permanente. uma família a dirigir. se faz dela um ornato de teatro e quase um embelezamento público. a mulher e o marido. mas se aos maridos basta um resumo concludente e firme.

Está nos costumes. O que faz a sua corte vai com ela às lojas. provocar-lhe o espírito. Por coisa alguma se lhe diria. crévé. enfastiado. e Plutarco narrou-o.é para cumprir a sua elegância. a cidade por vezes tem orgulho nele. Opera de longe. é um diletante. Não é para dissolver a família. pôr-lhe o seu burnous com as pontas dos dedos. fazer-lhe uma conversa interessante. rodeado de braços abertos. Não é perigoso. Vou fazer ainda a minha corte a fulana. e é ele que . O que faz a sua corte é sempre íntimo de casa: tem o seu talher. vou fazer a corte a tua mulher. olhado curiosamente. A sua distinção honra a civilização e o luxo. O celibatário não é o carrasco oficial da felicidade conjugal. é um ocioso. É uru bom rapaz.Onde está fulano? perguntam no corredor ao marido que fuma. num entreacto. como é considerado pelo mundo e pela opinião? Optimamente. lhe diz: — Tenho estado a fazer a minha corte a tua mulher. é o celibatário que faz a sua corte. adivinhar a mulher. Ninguém lho estranha. o leão. Fazer a corte é olhar de longe. se é recebido em sua casa. Bem recebido. se conhece uma mulher. . está na sua ocupação habitual.Ficou a fazer a sua corte a minha mulher. — Não queres ficar para jantar? — Não.entra no camarote e dizlhe: Se queres vai fumar.quando o marido o encontra saindo da sala de sua mulher. conta-lhe ao ouvido o enredo da ópera. pode ser invejada por uma couve que está. Outra coisa. No entanto o celibatário. invejado pelos maridos maniatados ao casamento. porém. é um voluptuoso.é o amante. provocar os desastres . ri em segredo com madama.para que o digamos desde já . intencionalmente e medrosamente pelas mulheres -torna-se centro e toma no seu mundo uma atitude vitoriosa. com largos voos. Fazer a sua corte é sentar-se ao pé de uma mulher. ter a atitude sentimental. foi uma glória de Atenas. traz-lhe ramos de que tira um botão de rosa para o marido pôr na boutonnière . Não é por mal que o celibatário olha: é por obrigação da sua profissão. seguir. fita uma certa mulher. Não é com intenção fatal que ele faz a sua corte a uma mulher. tem obrigação de lhe fazer a sua corte. traz-lhe a valsa da véspera e o escândalo do dia. Fazer a sua corte .é necessário que saibam . Alcibíades.que ele ali está de luvas gris . eu fico a fazer a minha corte a tua mulher. dar-lhe o braço à saída. Diz-se muito legitimamente a um marido: Vou fazer a minha corte à tua mulher. sob pena de bengaladas. Se o celibatário faz a corte é porque não é da intimidade da casa. . O celibatário sentado na sua cadeira. . o dândi. ou está posto em suspeição pela desconfiança marital. O celerado! o bom rapaz! Ora bem: este homem que . como uma ave que voa.é uma coisa muito diferente de fazer a corte. é porque.profunda. é por dever de ofício. procurar falar-lhe. tomado como tipo e mestre pelos solteiros. que o fere pela cor dos cabelos ou pelo feitio da toilette: daí às vezes uma tragédia.

E a opinião das salas não lhe é mais favorável: é considerado um inábil e um colegial sem valor. vai governar as províncias . nega-se-lhe a experiência feminina. até Dom João. diz do príncipe de Birac: . Se teve três. ligeiramente ridículo. vai descansar das almofadas de boudoir na cadeira de primeiro-ministro. caturra. não há mãe que não deseje para sua filha.um voo de milhafres sobre as tenras pombas. sem originalidade. é o caso de Cade Rousse. ao movimento amoroso . A protecção feminina segue-o como um amparo providencial. E não é difícil à mulher mais fraca resistir ao encanto do . tão indispensável como ter aprendido a gramática. tenha já de antemão gasto a chama impaciente: por onde? Pelas famílias dos outros! Sendo assim uma alta glória a sedução . pormenor fatal. arremessa-se de badine em riste. é. é um inútil. É mais: é um complemento de educação. segundo a apreciação mundana. E enfim. atenta à devoção. mas teve-as no seu mundo. diria Marivaux . como Romieu. Esta palavra é um traço fotográfico da opinião moderna. sem beleza. é na moral contemporânea um chique. Se tem tido mais. fica numa civilização como tipo perfeito da fina flor dos bravos. deseja que. não há filha que não deseje para si . para dar garantia de felicidade à sua família. não é abandonado como o de Lafontaine. a marquesa. Aqui há o celibatário. É colocado numa embaixada ou num senado: o Estado encarrega-se dele. Mas se teve uma amante com publicidade e relevo.o que faz.ou. ah! é um homem. Perigo que não temos em Portugal .é evidente que todos desejam a auréola perfumada e que todo o moço de vinte anos. atribuise.um homem de bem que viajou e teve aquele número de aventuras que fazem parte da educação.e que mais acentua a nossa virtude. isto é.lhe falta de coragem e de domínio. E se o leão envelhece. tornado Símbolo. posto em música pelos maestros divinos. é cantado pelos poetas. e passa à situação hirsuta e florestal de bicho do mato: é a opinião dos cafés. como o duque de Morny. ter desorganizado um certo número de famílias. escolhido pelos pintores como a expressão do ideal. com o número de seduções. se ele não interessou nem fez palpitar ninguém é porque é sem espírito. livre do recrutamento.um homem que tenha já passado as primeiras verduras: isto é. Hoje é um chique. A sua fisionomia interessa e exala mistério. E aí temos pois que ter seduzido algumas mulheres casadas. e pode dizer-se das perfeições de um gentleman: Deitou a perder uma mãe de família e sabe os verbos. que se sente um pouco de espírito e de roupa branca. e um marido morto em duelo.Assim o ter tido um certo número de amantes. torna-se celebridade. Na Princesse Georges. mas não há o leão. sem toilette e sem descrição. é um seminarista extraviado. Na moral antiga teria as penas infamantes da mutilação. que por ter tido três mil. como de uma glória pública: e. depois de governar as alcovas. e depois de 400 anos ainda a sua legenda faz suspirar de amor. é leão. tem o sorriso escravo das mulheres e um lugar no Estado. na mocidade de um homem e para garantia do seu destino. E quem o diz é uma mulher honesta. a mãe. O homem que nunca teve uma amante casada e. dá-se-lhe aquela indiferença que se dá às coisas sem dono. filósofo. E assim a glória cresce.

mas estão realmente longe de ter em espírito. boa mão de bilhar.são também excelentes. em valor. dignos. ao cumprimentar. muito entendidos em espanholas. em distinção. em réplica. duas linhas acima do seu eterno sofá de damasco amarelo.Lovelace nacional: porque o celibatário está nas secretarias ou está nas cavalariças. 0 . espírito de ordem. mas inteiramente dados ao gado. De modo que por este lado. ó filhas de Maria Satanás anda longe. Enquanto aos que estão nas cavalariças . aquela alta superioridade que fazia com que madama Recamier se erguesse. Os das secretarias são excelentes rapazes. perfeitos. com boa letra. em sentimento. em petulância.

nós que ainda não há cem anos deixámos pela primeira vez de ajoelhar. anunciava no congresso a sua chegada oficial. ministro dos estrangeiros. . diante do rei imutável e sagrado sob o seu dossel de arminhos.ai está que nos pomos a descer lentamente . senhores operários. o quarto estado vem! E ainda há pouco em Espanha. quando falávamos na sala dos Estados gerais. Martos. Nós outros. Desçamos.a populaça. Vamos-lhes abandonando a terra. mas a verdade é que muitos dos senhores não são . que os senhores têm o seu dia. os filhos de Robespierre! Paciência. os que pertencemos ao terceiro estado. Nós levámos a alcançar a roupa branca independente. . nós que há apenas noventa anos estávamos ruminando tranquilamente a nossa autoridade no alto da cidade . lamentáveis como o pó e como o pó abandonados. e já por trás dos senhores. Dá cá o braço. não se regozijem excessivamente. Porque onde existe o empregado público. Os senhores estão no seu momento histórico. a presença do operário Albert no Governo provisório era a primeira aparição muda e instintiva do vosso temeroso mundo. alguns séculos de trabalho consciente! E os senhores.porque os senhores se aproximam! O terceiro estado vai-se. o Sr. algumas considerações queremos submeter à sua atenção. de uma moderação resoluta e daquela tranquilidade que é a melhor garantia de que se possui o direito. ninguém tem o alto da desgraça. cheia de um espírito fraternal. Enfim. senhores operários. operários e as suas greves) por Eça de Queirós Outubro 1872. Pouco temos a dizer-lhes.Uma Campanha Alegre (Volume II. que hoje temos. Melício! Mas.Os senhores falam do seu direito. mas terão o seu fim. mas não queremos deixar de os felicitar pelo bom resultado das suas greves. no meio dos seus triunfos. na noite de 4 de Agosto. E se a sua Fraternidade Operária os pode conter a eles. e já vamos descendo para a penumbra histórica. não terão os senhores reunido a si o verdadeiro proletário . Capítulo XXXIV: Os srs. nós que ainda há pouco. repelíamos para a arqueologia o privilégio aristocrático. Nem apreciamos menos a atitude que tiveram. que são o povo. nós. dizendo: a revolução de Setembro é o advento do quarto estado! Mas os senhores foram mais felizes que nos. Ainda há trinta anos. reclamam-no com greves. caloiros que sois. E a primeira é que não se devem os senhores julgar os mais oprimidos da cidade. nós vemos uma temerosa sombra que murmura e rosna . em 1848. conseguem-no com cotizações. Resignemo-nos.o proletário burguês.Parece incrível! e estamos em 72.

mas muitos empregados públicos a não comem também. Estudem. por exemplo. se estão opondo às greves. esta questão temerosa. têm imediatamente uma tal alta nos géneros de primeira necessidade. da cidade. de tal sorte que a média dos senhores ganham 800 réis diários.os senhores não têm visitas. portanto. Vejam que uma parte dos homens eminentes da Internacional. Mas não é inteiramente à guitarra que os senhores hão-de conhecer a questão do salário. porque têm a vantagem da vida pobre. todavia. os filhos e as mulheres. por exemplo.lhes fará compreender . por exemplo.mas o director-geral não é a regra. seus filhos vão aprender um ofício e ganham logo. . os senhores. e gastarem por dia um pataco mais no que consomem. Isto. não devem deixar na sua miséria atroz os seus irmãos que trabalham nos campos. O fado é bom e bonito. Em Portugal as indústrias são quase todas privilegiadas. que residindo nos grandes centros industriais. Estudem. Mas estudem-na. Assim. têm de viver num andar da Baixa.que deveria falar. E esta. Não cantem um pouco de mais o fado. Se além dos empregados públicos . vestidos com certa decência.os senhores se lembrarem das classes agrícolas e da miséria dos trabalhadores do campo. Outra coisa porém lhes pedimos com todo o empenho . de tal sorte que suceda este facto impertinente: os senhores terem um vintém mais por dia no que ganham. com os seus ordenados de 600 a 800 réis.que a pequena burguesia já está mais pobre que o proletariado: que ela. mas se houver uma greve agrícola.é que estudem melhor as suas greves. É verdade que um pintor de carruagens é a excepção .verão que no fim de tudo.e que. não vão os senhores por excessivas greves causar um encarecimento geral. cujo salário pode elevar-se a 2$000 réis por dia. os senhores chamam-se a Fraternidade Operária. aumentando o preço por que vendem aos que consomem. de pano e de seda. é de uma justiça irrecusável: somente arruína-os. têm a plena inteligência da lei económica das greves. nos merecem mais simpatias que o proletário da cidade.a fome. tendo os patrões o meio de se desforrar do aumento do salário que os senhores lhes exigem. proletários . talvez não comam carne todos os dias.desgraçados. e suportam Srs. porventura os mais científicos. o que e um grande mal. para além dos senhores. que são. nem teatros. nem convites. um primeiro oficial de secretaria é mais pobre e bem mais proletário do que um operário pintor de carruagens. da agiotagem . do alto preço dos géneros. que tem uma polidez de mau agoiro .não pode todavia fazer greves . a classe infinita dos amanuenses. e olhem que essa questão envolve uma coisa positiva e nítida .e não sei se diremos que eles. em breves palavras. de andarem eles. suas esposas trazem com muita graça as chitas simpáticas dos tempos simples. Operários: todas as desvantagens da sua posição oficial. as quais já deram em Inglaterra para os operários o resultado igual ao que tira um homem que lança ao ar uma pedra e ela lhe vem rachar a cabeça. criados na salutar educação da terra e da cultura. sem fazer o quadro mais minucioso e realista da vida de um empregado público . Porque. como os senhores. consultem os experientes. andam perfeitamente com a sua jaqueta. E com isto os senhores vivem em casas baratíssimas. Os . que não cobrirão com todas as greves industriais o desastre que lhes causou a greve agrícola. Se são irmãos. muita miséria existe calada . Agora acresce que eles.o que lhes pode parecer uma aproximação humorística . vivendo sob a pressão feroz da carestia dos alugueres. a importação é grandemente limitada pela taxa das alfândegas. e alguns 1$000 réis. têm de mandar os filhos aos colégios.

que vamos buscar as bengalas. .produção e indústria. É uma lei histórica.e pacificamente. ou suscitam a sua opinião Os senhores não têm que fazer prosa. nos anúncios. operários. Aparecem aqui e acolá.tenham a bondade de esperar aí um momento.senhores têm de chegar e de vencer. Somos. Estudem-no bem . Prosa fazemo-la nós .e é mesmo essa uma das causas por que teremos de responder amargamente no dia do juízo social. Os senhores o que fazem é . fraternais amigos e antigos admiradores. senhores operários: é que contenham certas tendências que os senhores vão mostrando para a literatura. prosas de operários que em termos poéticos e com muita retórica agradecem aos patrões. escondem apenas organizações de localistas . A questão está toda no meio. Ninguém lho nega. Se porém os senhores. sob a sua dignidade de operários. srs. exprimem o seu direito. Outra coisa lhes pedimos.

musculosa. ensebada. para hesitarmos em lhe sacrificar Barnabé ou João. soletrando a prosa florida . asseada. que nunca ninguém vira. Mas trata-se de uma vida . a sua consciência. inactiva. esmoucada. é tão singular que o movimento instintivo é olhar para ela. e. sanguinários que pedem a morte. não conheceria esta discussão. sobre ele. na reclusão mortuária da sua casamata. O soldado Barnabé rectificou. babando-se e pedindo sangue para se reconfortar.a probabilidade de viver ou a probabilidade de morrer! Ora os que pedem a comutação da pena. São simpáticos. Esta aparição da Disciplina. ou a Disciplina se rebaixa inteiramente. a sua dignidade.que vivem e suplicam na sua prosa. se forem necessários cadáveres. Mas o que é necessário é que a Disciplina militar. seja verdadeiramente e . correcta. uma anedota excessiva. a disciplina aparecer entre as colunas dos jornais. se desabotoa. nós não temos o respeito sentimental e lírico da vida humana. Qual! Vem trôpega. Nunca fora invocado este personagem: desde a deserção do soldado até à insurreição do general tudo se tem passado tranquilamente. caturra.e vemos de repente. o respeito da vida. encostem-se homens ao muro e forme-se o piquete de execução. que todos supunham que ela pedira a sua reforma e gemia. são sensíveis. que vem pedir essa vida para garantia da sua conservação. Podia supor-se ainda que o soldado Barnabé. sem que a disciplina se adiante a reclamar os seus direitos . Ou lhe dão o soldado Barnabé crivado de balas.Uma Campanha Alegre (Volume II. o soldado Barnabé escreveu para os jornais. pudica e grave. que é para ele alternadamente . têm por si a beleza do sentimento: é a piedade. o ódio das penas irreparáveis . Capítulo XXXV: O soldado Barnabé) por Eça de Queirós Outubro 1872. Mas os srs. indiferente. O soldado Barnabé lê os jornais. Ela é a honra activa do exército. nas ruas. e publicamente. ou antes temos o respeito excessivo da vida pública e social. tendo um correspondente improvisado. intacta. surpreendidos. compreendem-se. Um copo de sangue para a Disciplina! E todo o mundo se admira que ela não prefira meio de Lavradio! Entendamo-nos com a Disciplina. como um mendigo escavacado pede um caldo. um reumatismo antigo. o que é pior.podia supor-se que ela vinha forte. nos subúrbios. . tácita. De modo que devemos crer que ele todas as manhãs abre a gazeta e vai procurar no artigo de fundo. e pedir essa vida em seu nome e para sua garantia. E é a primeira vez em Portugal que a Disciplina se estreia como razão.estava há tanto tempo calada.bandeira da misericórdia e dobre de finados. Mas qual! O soldado Barnabé conhece os jornais. Para ela se manter intacta e perfeita. desinteressada. Sem o que a Disciplina não responde por si. esfarrapada. em que se fundam? Na Disciplina militar. E que desilusão! Vindo pedir sangue . Ela tem em nós dois respeitadores imutáveis.

tinhas agora o teu cadáver. não.termina-se pelo tiro. Se à primeira falta contra ti. durante um mês. para se desafrontar. Imediatamente a imprensa apossa-se vorazmente deste facto. à anarquia da disciplina segue-se a tirania da brutalidade. travase entre sanguíneos e linfáticos esta discussão: Deve o soldado Barnabé ser fuzilado? deve o soldado Barnabé conservar-se vivo? E. está perdida . Um general que leva os seus soldados à revolta. Quando um exército se sente desorganizar. desfigurada e poluída por todas as revoltas e todas as desobediências. É como se uma prostituta se viesse queixar de que lhe deram mais um beijo! Pois tudo a disciplina tem sofrido sem se queixar! Corpos desorganizados. pede sangue. superstição. É a quem tem melhor pontaria. dissolução nos costumes. os quartéis sem condições. exemplar. sem hábitos de marcha e de acampamento. sem manobras. a execução de um homem . rígida e prussiana. Quando uma mulher se queixa. no entanto. os estados-maiores sem talento. ó Disciplina. a artilharia sem peças. condenado a ser passado pelas armas. desfalques nos ranchos . jornalistas e curiosos decidam .encolhem-se os ombros.e de repente ergue-se e grita que a quiseram violar e que matem o violador! E há quantos anos te estás tu deixando violar. Assim. a obediência do dever até à minuciosidade. sem fé patriótica. a atenção pelos inferiores e o respeito pelos superiores . os soldados sem disciplina . virgem de deserções e de revoltas. alimenta a desobediência. os coronéis sem fidelidade.a disciplina perfeita. sem reagir. sem nódoa. come rosbife. não tem andado desde as sete da tarde a oferecer-se aos tumultos. à uma hora da noite. na sua prisão. a que nos vem pedir. e. as escriturações sem regularidade. para se conservar assim. sem instrução.está ferida. sem vigor físico. ou se deve ser encostado a um poste e atravessado de balas.legitimamente a disciplina militar: isto é . sem defecções e sem traições. Se esta disciplina. e é. pelo conselho de guerra. desordens nos quartéis. que a insultaram. tendo a religião da lei até à Deu-se ultimamente um facto singular: o soldado Barnabé mata o seu alferes com um tiro. rigorosa. de semana em semana? És tu que fazes os Barnabés. os quadros sem gente. roubos nos armamentos.se ele pode continuar a aquecer-se ao sol. o soldado Barnabé. atirem-selhe baldes de sangue! Mas se é uma disciplina exautorada e desmoralizada. os arsenais sem armas. regimentos insubordinados. tivesses reclamado. Não é mau. espera que os srs. traições nas fileiras. Se queres carne com sangue.e qual o remédio para tudo isto? — Matar o soldado Barnabé! . De modo que temos o exército sem espírito militar. o espírito de camaradagem. E diz-se que sem este exemplo o exército em Portugal não pode ter seriedade. Escreve-se isto. está extinta. intacta. termina na última escala pelo soldado que dá tiros nos seus oficiais. e como perde o brio militar.

então sim: encostem-no ao muro e crivem-no de balas. sejamos mais benévolos .Nós bem sabemos que são os novos oficiais saídos das escolas e cheios de um espírito vivo -que querem este exemplo.acharam-na assim e são como filhos. Ora se eles são enérgicos e sentem em si a força das criações proveitosas. desmoronando-se ao Inverno. Arrasem a casa e façam-na de novo. tendo alguma coisa no espírito da rectidão matemática.e não seja o pobre Barnabé que vá estrear . instruídos. que encontram arruinada a casa de seus pais. tardiamente nascidos. Depois se algum soldado resmungar. mas estes bons rapazes estão na ilusão.Não. cadáver por cadáver? . devem estar consertando a casa. Eles não concorreram para a desorganização militar .o novo sistema de armas! . novos inteiramente no vigor e nas tendências sociais. vidro por vidro. educados pela ciência. e sustentando a disciplina caduca. para impedir o fim de tudo. homens positivos. e se há classe com que simpatizemos é a destes moços oficiais. Até lá.

0. below. 51 Franklin St. Inc. which is a copyleft license designed for free software. The "Cover Texts" are certain short passages of text that are listed. We recommend this License principally for works whose purpose is instruction or reference. but changing it is not allowed. The Document may contain zero Invariant Sections. We have designed this License in order to use it for manuals for free software. PREAMBLE The purpose of this License is to make a manual. refers to any such manual or work. or with modifications and/or translated into another language. if the Document is in part a textbook of mathematics. A "Modified Version" of the Document means any work containing the Document or a portion of it. You accept the license if you copy. November 2002 Copyright (C) 2000. or other functional and useful document "free" in the sense of freedom: to assure everyone the effective freedom to copy and redistribute it. modify or distribute the work in a way requiring permission under copyright law. The "Invariant Sections" are certain Secondary Sections whose titles are designated. commercial.2001. while not being considered responsible for modifications made by others. as being those of Invariant Sections. and a Back-Cover Text may be at most 25 words. it can be used for any textual work. It complements the GNU General Public License. Fifth Floor. to use that work under the conditions stated herein. 1. which means that derivative works of the document must themselves be free in the same sense. as Front-Cover Texts or Back-Cover Texts.2. unlimited in duration. this License preserves for the author and publisher a way to get credit for their work. philosophical. or of legal. regardless of subject matter or whether it is published as a printed book. This License is a kind of "copyleft". that contains a notice placed by the copyright holder saying it can be distributed under the terms of this License. and is addressed as "you".GNU Free Documentation License A editoriação e comentários desta obra estão licenciados nos termos da GNU Free Documentation License. APPLICABILITY AND DEFINITIONS This License applies to any manual or other work. in the notice that says that the Document is released under this License. Version 1. a Secondary Section may not explain any mathematics. with or without modifying it. If the Document does not identify any Invariant Sections then there are none. . either copied verbatim. The "Document". Boston.2002 Free Software Foundation. MA 02110-1301 USA Everyone is permitted to copy and distribute verbatim copies of this license document. (Thus. Any member of the public is a licensee. either commercially or noncommercially.) The relationship could be a matter of historical connection with the subject or with related matters. But this License is not limited to software manuals. royalty-free license. textbook. Such a notice grants a worldwide. Secondarily. in the notice that says that the Document is released under this License. ethical or political position regarding them. because free software needs free documentation: a free program should come with manuals providing the same freedoms that the software does. If a section does not fit the above definition of Secondary then it is not allowed to be designated as Invariant. A Front-Cover Text may be at most 5 words. A "Secondary Section" is a named appendix or a front-matter section of the Document that deals exclusively with the relationship of the publishers or authors of the Document to the Document's overall subject (or to related matters) and contains nothing that could fall directly within that overall subject. in any medium.

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It is requested. if any. you must either include a machine-readable Transparent copy along with each Opaque copy. if there were any.  G. to ensure that this Transparent copy will remain thus accessible at the stated location until at least one year after the last time you distribute an Opaque copy (directly or through your agents or retailers) of that edition to the public. create one stating the title. Preserve the section Entitled "History". together with at least five of the principal authors of the Document (all of its principal authors. one or more persons or entities responsible for authorship of the modifications in the Modified Version. Add an appropriate copyright notice for your modifications adjacent to the other copyright notices. Use in the Title Page (and on the covers.  D.  E.  F. If you use the latter option. If there is no section Entitled "History" in the Document. and publisher of the Modified Version as given on the Title Page. Preserve all the copyright notices of the Document. Preserve in that license notice the full lists of Invariant Sections and required Cover Texts given in the Document's license notice. 4. Preserve its Title. thus licensing distribution and modification of the Modified Version to whoever possesses a copy of it. if it has fewer than five). year.  I. Preserve the network location. and likewise the network locations given in the Document . year. authors.  H. MODIFICATIONS You may copy and distribute a Modified Version of the Document under the conditions of sections 2 and 3 above. You may use the same title as a previous version if the original publisher of that version gives permission. to give them a chance to provide you with an updated version of the Document. when you begin distribution of Opaque copies in quantity. as the publisher. then add an item describing the Modified Version as stated in the previous sentence. with the Modified Version filling the role of the Document. and publisher of the Document as given on its Title Page. but not required. if any) a title distinct from that of the Document. Include an unaltered copy of this License.  J. that you contact the authors of the Document well before redistributing any large number of copies. you must take reasonably prudent steps. unless they release you from this requirement. free of added material. new authors. or state in or with each Opaque copy a computer-network location from which the general network-using public has access to download using public-standard network protocols a complete Transparent copy of the Document. given in the Document for public access to a Transparent copy of the Document. you must do these things in the Modified Version:  A. and add to it an item stating at least the title.If you publish or distribute Opaque copies of the Document numbering more than 100. provided that you release the Modified Version under precisely this License. a license notice giving the public permission to use the Modified Version under the terms of this License. List on the Title Page. in the form shown in the Addendum below. In addition. immediately after the copyright notices. as authors. and from those of previous versions (which should. State on the Title page the name of the publisher of the Modified Version.  C. Include. be listed in the History section of the Document).  B.

and any sections Entitled "Dedications".  K. Make the same adjustment to the section titles in the list of Invariant Sections in the license notice of the combined work. but you may replace the old one. COMBINING DOCUMENTS You may combine the Document with other documents released under this License.  L. You must delete all sections Entitled "Endorsements. or if the original publisher of the version it refers to gives permission. likewise combine any sections Entitled "Acknowledgements".for previous versions it was based on. The author(s) and publisher(s) of the Document do not by this License give permission to use their names for publicity for or to assert or imply endorsement of any Modified Version. you may not add another. under the terms defined in section 4 above for modified versions. If the Modified Version includes new front-matter sections or appendices that qualify as Secondary Sections and contain no material copied from the Document. and multiple identical Invariant Sections may be replaced with a single copy. If the Document already includes a cover text for the same cover. To do this. You may add a passage of up to five words as a Front-Cover Text. forming one section Entitled "History". You may add a section Entitled "Endorsements". These may be placed in the "History" section. 5. If there are multiple Invariant Sections with the same name but different contents. Preserve any Warranty Disclaimers. unaltered in their text and in their titles. In the combination. statements of peer review or that the text has been approved by an organization as the authoritative definition of a standard. Section numbers or the equivalent are not considered part of the section titles. and list them all as Invariant Sections of your combined work in its license notice. Preserve all the Invariant Sections of the Document. Do not retitle any existing section to be Entitled "Endorsements" or to conflict in title with any Invariant Section. on explicit permission from the previous publisher that added the old one. you must combine any sections Entitled "History" in the various original documents. and preserve in the section all the substance and tone of each of the contributor acknowledgements and/or dedications given therein. Such a section may not be included in the Modified Version. Only one passage of Front-Cover Text and one of Back-Cover Text may be added by (or through arrangements made by) any one entity. The combined work need only contain one copy of this License. COLLECTIONS OF DOCUMENTS . Preserve the Title of the section. Delete any section Entitled "Endorsements".  M. You may omit a network location for a work that was published at least four years before the Document itself. and a passage of up to 25 words as a Back-Cover Text. provided it contains nothing but endorsements of your Modified Version by various parties--for example. to the end of the list of Cover Texts in the Modified Version. unmodified. previously added by you or by arrangement made by the same entity you are acting on behalf of. and that you preserve all their Warranty Disclaimers. make the title of each such section unique by adding at the end of it. or else a unique number. add their titles to the list of Invariant Sections in the Modified Version's license notice.  N. the name of the original author or publisher of that section if known. you may at your option designate some or all of these sections as invariant. These titles must be distinct from any other section titles.  O. provided that you include in the combination all of the Invariant Sections of all of the original documents. For any section Entitled "Acknowledgements" or "Dedications"." 6. in parentheses.

If the Document specifies that a particular numbered version of this License "or any later version" applies to it. but you may include translations of some or all Invariant Sections in addition to the original versions of these Invariant Sections. and will automatically terminate your rights under this License. If the Document does not specify a version number of this License. parties who have received copies. and follow this License in all other respects regarding verbatim copying of that document. then if the Document is less than one half of the entire aggregate. or rights. revised versions of the GNU Free Documentation License from time to time. and all the license notices in the Document. so you may distribute translations of the Document under the terms of section 4. TERMINATION You may not copy. You may extract a single document from such a collection. If the Cover Text requirement of section 3 is applicable to these copies of the Document. 10. provided that you follow the rules of this License for verbatim copying of each of the documents in all other respects. sublicense. modify. 9. from you under this License will not have their licenses terminated so long as such parties remain in full compliance. Any other attempt to copy. See http://www. the requirement (section 4) to Preserve its Title (section 1) will typically require changing the actual title. FUTURE REVISIONS OF THIS LICENSE The Free Software Foundation may publish new. If a section in the Document is Entitled "Acknowledgements". You may include a translation of this License. Each version of the License is given a distinguishing version number. but may differ in detail to address new problems or concerns. and any Warranty Disclaimers. . 8. Such new versions will be similar in spirit to the present version. you may choose any version ever published (not as a draft) by the Free Software Foundation. or "History". this License does not apply to the other works in the aggregate which are not themselves derivative works of the Document. "Dedications". in or on a volume of a storage or distribution medium. Replacing Invariant Sections with translations requires special permission from their copyright holders. 7. is called an "aggregate" if the copyright resulting from the compilation is not used to limit the legal rights of the compilation's users beyond what the individual works permit. TRANSLATION Translation is considered a kind of modification. provided that you also include the original English version of this License and the original versions of those notices and disclaimers. the original version will prevail. When the Document is included in an aggregate. and replace the individual copies of this License in the various documents with a single copy that is included in the collection. provided you insert a copy of this License into the extracted document. and distribute it individually under this License. you have the option of following the terms and conditions either of that specified version or of any later version that has been published (not as a draft) by the Free Software Foundation. modify. or the electronic equivalent of covers if the Document is in electronic form. In case of a disagreement between the translation and the original version of this License or a notice or disclaimer.gnu. Otherwise they must appear on printed covers that bracket the whole aggregate. sublicense or distribute the Document is void.org/copyleft/. the Document's Cover Texts may be placed on covers that bracket the Document within the aggregate. AGGREGATION WITH INDEPENDENT WORKS A compilation of the Document or its derivatives with other separate and independent documents or works.You may make a collection consisting of the Document and other documents released under this License. However. or distribute the Document except as expressly provided for under this License.

Obtida de "http://pt. such as the GNU General Public License. A copy of the license is included in the section entitled "GNU Free Documentation License". distribute and/or modify this document under the terms of the GNU Free Documentation License. If your document contains nontrivial examples of program code. consulte as Condições de Uso.. Para mais detalhes.Texts.org/w/index. and with the Back-Cover Texts being LIST. If you have Invariant Sections. or some other combination of the three. include a copy of the License in the document and put the following copyright and license notices just after the title page: Copyright (c) YEAR YOUR NAME..  Este texto é disponibilizado nos termos da licença Creative Commons Atribuição .How to use this License for your documents To use this License in a document you have written. merge those two alternatives to suit the situation. and no Back-Cover Texts.0 Não Adaptada (CC BY-SA 3. Front-Cover Texts and Back-Cover Texts. pode estar sujeito a condições adicionais.0). Version 1.php? title=Anexo:Imprimir/Uma_Campanha_Alegre&oldid=80053" Categorias:  Obras com versão para impressão  Uma Campanha Alegre  Esta página foi modificada pela última vez às 19h35min de 17 de Dezembro de 2007.2 or any later version published by the Free Software Foundation.wikisource. Permission is granted to copy. with no Invariant Sections. to permit their use in free software. we recommend releasing these examples in parallel under your choice of free software license. with the Front-Cover Texts being LIST. If you have Invariant Sections without Cover Texts. replace the "with.Partilha nos Mesmos Termos 3. . no Front-Cover Texts." line with this: with the Invariant Sections being LIST THEIR TITLES.