INSTITUIÇÕES, RETÓRICA E O BACHARELISMO NO BRASIL

Por Adriana D’Elia Chamovitz Fernanda Miranda Carvalho José Henrique Millan Kátia Cilene Freitas dos Reis Renato Sucupira Silvia Regina Sant´Anna Magalhães

Professora Izabel Cristina Costa Disciplina: História do Direito Brasileiro
Colaboração Cleusa de Souza Millan

Curso de Direito – Turno Manhã – Sala 5A Rio de Janeiro, 26 de abril de 2005.
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estendeu seu interesse particularmente ao Direito do continente europeu. o intervencionismo estatal no âmbito social-jurídico e econômico. como se a integração magistrado/comunidade pudesse contribuir para o desvio dos princípios de lealdade e Página 2 . com magistrados portugueses. consolidando-se o poder sem identidade nacional. Da mesma forma como ocorrera em Roma e Portugal. não será possível ao Brasil não sofrer as influências culturais predominantes na metrópole.1. fechada na fé e nos dogmas. Esta postura manteve-se em Portugal até as Reformas Pombalinas. que chegou ao Brasil em fins do século XVIII. posteriormente. o Brasil passa a organizar-se. reprodutora da ideologia da contra-reforma. Permite-se. política e economicamente através de uma elite. gerador de diretrizes burocráticas e patrimonialistas. social. geradoras do Iluminismo Pombalino. quando muito. lotados nos cargos públicos. As suas atividades deveriam obedecer a uma série de normas que previam o distanciamento do magistrado da vida social local. mediante um ideal conservador. responsável pelo aconselhamento da coroa. com isso. enquanto colônia. completamente desvinculado dos objetivos de sua população de origem e da sociedade como um todo. que permitiu impulsionar os procedimentos rumo ao liberalismo português. com as limitações impostas aos jesuítas e sua expulsão do Brasil em 1759.INTRODUÇÃO Durante séculos. o ambiente jurídico do ocidente permaneceu restrito ao Direito nacional e. tanto científica como filosófica. Os juristas passaram a constituir uma elite dominante. que influenciaram a formação dos juízes aqui nascidos e. do espírito crítico e do progresso resultante do capitalismo europeu. com as mesmas características burocráticas da administração da metrópole. mestiços e negros). na sua maioria membros integrantes do estamento. representada pelos grandes proprietários rurais e mão-de-obra na sua maioria escrava (índios. Os fatos se repetem na história. expressando-se como para servir a Deus e ao Rei. distanciada da modernidade. Assim. já detectadas ao longo da história em Roma e na Península Ibérica.

representado pelo poder elitista do patriciado e pela nobreza. mas somente precaver-se de ameaças ao poder estatal e garantir o pagamento de impostos. Esses aspectos sóciopolíticos e jurídico-culturais mantêm-se com a instituição do Império no Brasil. uma vez que alicerçadas no clientelismo. diante da experiência acumulada na metrópole ou na colônia Constituiu-se. admitindo que seus magistrados protegessem os seus próprios interesses e os dela. exerceria o cargo de juiz de fora. preferida por boa parte da burguesia em ascensão. com características revolucionárias. emerge com limitações e distorções. um quadro sóciopolítico de dominação. ouvidor da comarca. corregedor e desembargador. dada a ausência de uma revolução burguesa. Como carreira. convivendo com o sistema escravagista e estrutura Página 3 . partícipes da administração burocrática do Estado partrimonial. mas simplesmente adaptado para servir aos interesses dos grandes proprietários de terras e do clientelismo. assim. o Direito no Brasil. exploração e injustiça. e diante de tais expectativas. pelo pouco conhecimento da população. que não permitiu o desenvolvimento do espírito ideológico-liberal como proclamado na Inglaterra. Não valeu o governo ter editado uma Constituição. além de códigos voltados ao Direito nacional. jamais foi abraçado pelos vários estratos nacionais.obediência ao rei. Para o acesso ao cargo. no entanto. tendo em vista as necessidades do mercado e anseios de liberdade sob vários prismas: ético. em 1822. social e econômico. voltado aos interesses privativos dos “coronéis” e da coroa. inerentes ao próprio cargo. dessa maneira. levava-se em consideração a origem social. O estado reflete. político. na qualidade de colônia. França e Estados Unidos. como essencialmente particular. permeado por uma cultura elitista. Esta não buscava fazer justiça na colônia . O liberalismo brasileiro. ter exercido a profissão por dois anos e ter sido aprovado na seleção para o ingresso no serviço público. na sua maioria analfabeta e alienada. a melhor proposta foi a do liberalismo. sempre presentes no Brasil. que se manifesta contra o absolutismo monárquico vigente. Para o ingresso na magistratura cumpria ao interessado ter-se graduado na Universidade de Coimbra . em face das dificuldades de acesso a doutrinas ideológicas estrangeiras. somada ao apadrinhamento. preterindo os direitos do povo e privilegiando um estrato social específico. Pode–se afirmar que o idealismo de origem européia. por serem tais medidas repositórios de ideais europeus impraticáveis. desvinculado da população.

foi no item 1 oferecer uma visão panorâmica de alguns aspectos da história do bacharelismo. o período entre nós foi marcado por uma cultura jurídica formalista. Gilberto Freyre e Raymundo Faoro. op. onde se buscou os elementos para tecer algumas considerações acerca do bacharelismo liberal como fenômeno típico. como elemento significante.R. tratando-se de uso e costume sócio-político e não de um conjunto coerente de normas reguladoras de determinados fatos sociais (KOZIMA. a intenção foi destacar. além de lingüístico e psicológico. não da sociedade brasileira (como apressadamente se poderia concluir) mas de sociedades que se constituíram a partir de processos históricos dessemelhantes. e que não se poderia estudá-lo a partir do enfoque histórico-sociológico. o principal perfil da nossa cultura jurídica: o bachareslimo liberal (CURY. Como conseqüência. ideologicamente. o papel da doutrinação jesuítica. o do que lida com leis e ditos forenses e burocráticos. O que se pretendeu com o presente trabalho. José W. individualista e juridiscista e foi nesta junção do individualismo político e do formalismo legalista que se moldou. considerando as peculiaridades da nossa formação histórica. procurou-se demonstrar a experiência do patrimonialismo na primeira fase da colonização brasileira baseada na tipologia weberiana e foram apresentadas características do passado escravocrata. texto básico). Vera A.). e suas conseqüências. de uma maneira breve.patrimonialista de poder. referindo-se o primeiro à atividade política e o segundo à produção teórica-filosófica. cit. o fenômeno ganhou formas próprias. se assim fosse. resultando um liberalismo conservador ou uma conciliação entre patromonialismo e liberalismo. No item 3. tentando estabelecer um liame entre o passado colonial e o Página 4 . 2002). falar-se em bacharelismo é pouco menos que alimentar um mito a não ser que se frise que se trata de referir a uma experiência profissional. Caio Prado Júnior. dificilmente poder-se-ia considerá-la jurídica. prescindindo das recorrências às abordagens já realizadas por Sérgio Buarque de Holanda. outro fato importante é o da dicotomia referida por Afonso Arinos de Melo Franco entre bacharelismo e jurisdicismo. Entre nós. retórica. Segundo Nelson Nogueira Saldanha (in KOZIMA. procurando abordar os traços que auxiliam a identificar o fenômeno. nesta época. Segundo esse mesmo autor. O bacharelismo não podia ser considerado uma instituição (teoria da instituição) e.. Certo é que bacharelismo se trata de fenômeno político-social. No item 2. que não foi levada em consideração.

escravidão. No item 4. Segue-se o item 5. com a bibliografia consultada. relacionando-o com os capítulos anteriores (herança colonial. enfatizou-se o objeto central do presente trabalho.bacharelismo. Página 5 . com as considerações finais ou conclusão e o item 6. estado patrimonialista e doutrinação jesuítica). colocando-se em discussão tanto a história como o conteúdo do fenômeno.

o autor recorre ao passado dentro de uma perspectiva histórica e sociológica.2 . que se instala em todas as instituições econômicas e políticas da época. todas as relações entre o Estado e o Indivíduo. a distinção precária entre o Público e o Privado. 02 fatores: 1. Segundo a visão de Max Weber. mas feita por tradição e se exerce em virtude do pleno direito pessoal.1 – ESTADO PATRIMONIAL O autor José Wanderley procura nos apontar. com a apropriação dos cargos e funções publicas pelos seus respectivos detentores e 2. como foi vivenciada a idéia de “Estado Brasileiro”. A estruturação do Reino Português foi pautada numa realidade onde o Estado era primordialmente Patrimonial. em seu texto. É na estruturação do Reino Português. que vão se encontrar as raízes do “Estado Patrimonial Português” que irão permear. feita sob o Império da Guerra (séculos XI E XIII). o que implica numa forma de dominação racional-burocrática. o Patrimonialismo constituía-se num “Quadro Administrativo” acrescido ao Patriarcalismo. na época da Colonização. dono de toda riqueza territorial. do comércio e empreendimentos e era cercado por ”Servidores” que a ele se prendiam por uma relação de acentuada dependência e que faziam parte do Quadro Administrativo de seu governo. que o Estado ficava em superposição a uma sociedade civil desarticulada e dependente. ou seja. a precariedade da segurança do indivíduo perante as possibilidades da atuação estatal. Página 6 .ESTADO PATRIMONIAL E PASSADO ESCRAVOCRÁTICO: 2. Para tal. Portanto. Esses “Servidores” eram pessoas ligadas ao Rei por relações pessoais de confiança. uma espécie de concepção de Estado. Portugal teria vivenciado uma “Monarquia Patrimonial”. conclui-se. Tratava-se de um Estado racional e burocrático decorrendo. de pessoas com poder sócioeconômico. primeiro. de forma significativa. fase desta. O autor sugere a existência de um “Patrimonialismo Estatal”. de clientelismo. mais propriamente na 1a. daí. como estava estruturado o Reino Português antes do descobrimento do Brasil. procurando nos mostrar. o Rei era “Senhor”.

estava inserido na história geral da civilização e isso deve ser observado dentro de uma visão ocidental. sustenta que Portugal e Brasil não vivenciaram o Feudalismo em sua forma típica. na época. fez-se numa época em que o Reino Português vivenciava uma “Aventura Mercantilista” com pretenções meramente relacionadas ao extrativismo predatório. em seu livro “Os Donos do Poder”.Uma vez entendido como na época encontrava-se estruturado o Reino Português. o Rei optou por dividir as terras brasileiras e cedê-las a figuras importantes da Coroa. já despendera fortunas na conquista da Índia. a origem dos vastos latifúndios e da administração privada da justiça. Como a Coroa Portuguesa. Tudo isso era feito em nome Del Rei. aos quais nomeou de Capitães Donatários. entregues aos Capitães Donatários. particularmente controlada pela Coroa Portuguesa. possuíam o poder de doação de “Sesmarias” (doação de terras a colonos que em troca pagavam-lhe tributos) e também detinham: o monopólio da justiça (nomeavam os ouvidores que cuidavam da justiça local). acerca da Colonização Brasileira. especificamente falando da Brasileira. A Colonização realizada nas Zonas Temperadas tinham por finalidade o povoamento e o escoamento dos excessos demográficos da Europa. como por exemplo: Os Capitães Donatários fundavam vilas. As terras brasileiras eram cedidas aos mesmos por Cartas de Doação e Forais ou Carta de Foral. documentos esses que garantiam-lhes o direito a posse da terra. A Colonização dos Trópicos. dentre outras distorções. como convém ao Patrimonialismo. João III compreendeu que a única maneira de colonizar e preservar o Brasil era dando início a sua povoação. Vale a pena lembrar que Portugal. com funções típicas do patrimonialismo estatal português. o monopólio da religião (predominantemente Católica). a hereditariedade. A experiência das 15 CAPITANIAS HEREDITÁRIAS surgiu quando D. etc. direitos e deveres e. constava uma parte dedicada a cobrança de tributações por parte da Coroa Portuguesa aos Capitães Donatários. faz reforçar o entendimento que esta foi feita de forma Patriarcal e Privada. Fase da Colonização Brasileira. A observação dos fatos históricos. podemos agora dissertar sobre a 1a. Eurocêntrica. na época. Raymundo Faoro. o monopólio das finanças (arrecadação de tributos). embora reconheça aspectos feudais Página 7 . foi realizada pelos mesmos de forma peculiar. o monopólio das forças armadas. A historiografia associa a este fato histórico. A Administração das 15 Capitanias Hereditárias. também.

que existe até hoje dentro de nossa sociedade. ao Brasil. A adoção de mão-de-obra escrava na colonização da América constituiu fato circunstancial absolutamente divorciado da evolução natural da civilização ocidental. tivemos também um passado escravocratico. que somouse com uma outra característica fundamental para a formação da sociedade e da cultura brasileira: a economia baseada na exploração do trabalho escravo. fase da Colonização com a chegada. Página 8 . dentre outros fundamentos. favorecendo também um processo de exclusão e discriminação social. um verdadeiro corpo estranho na sua estrutura. Da forma de administração. por parte dos Capitães Donatários. a responsabilidade da Colonização Brasileira.PASSADO ESCRAVOCRÁTICO: Dentro desse patriacalismo. a Coroa Portuguesa não tinha condições de estruturar um controle efetivo sobre as Capitanias Hereditárias fato ocorrido. divulgando a distinção entre ocupações superiores (bacharelismo) e inferiores (escravos). Qualificado como sistema patriarcal de escravidão. contemporâneo aos primeiro passos da colonização. somente. somou-se e contribuiu para a institucionalização da cultura bacharelesca. A escravidão moderna incorporada à experiência colonial marcou a nossa formação social. nesta fase. do ponto de vista econômico. um período de exploração. Do ponto de vista ético moral. na 2a. influindo significativamente na consolidação do caráter brasileiro.ligados a tais Estados. uma involução cujas conseqüências fizeram-se sentir de forma pesada na historia dos povos a ela ligados. maldade e tortura. 2. Fase da Colonização Brasileira. cabendo a Coroa Portuguesa. dos “Representantes Reais”. Não deixando de destacar a submissão do índio e especialmente do negro ao trabalho forçado. A desvalorização do trabalho e o processo de aristocratização por meio da farda ou de beca foi um outro acontecimento histórico relevante. é que se extrai a conclusão da “Experiência Feudal Brasileira”. Foi uma experiência patriarcal e escravagista.2 . uma das causas do naufrágio da civilização ibérica (Portugal e Espanha). reafirmou. constituiu-se uma monstruosa aberração. Na 1a. a desvalorização do trabalho. de forma culturalmente significativa.

Os Jesuítas criaram muito cedo. até a fuga da família real para o Brasil. a ausência de cursos superiores no Brasil é normalmente atribuída à formação centralizada pretendida pela metrópole. nosso Ensino Superior resumiu-se. entretanto. comparativamente a cultura asteca. com a primeira universidade tendo sido fundada em 1538. especificamente Aristóteles e Tomás de Página 9 . não podendo. por circunstâncias alheias á sua vontade. em São Domingos. também foi entregue à direção dos Jesuítas. só poderiam ser realizados na Europa. e a do México. Ocorre um relativo abandono intelectual. A pedagogia jesuítica inspirava-se na sistematização de regras padronizadas. enquanto a América espanhola conheceu cursos superiores desde o início da colonização. em 1551. Durante os primeiros séculos da colonização portuguesa no Brasil o ensino havia ficado a cargo dos padres da companhia de Jesus em quase a sua totalidade. objetivos educacionais em sua origem. sem que tivesse tido. com que se depararam os Espanhóis. e mesmo a carência de recursos docentes verificada em Portugal poderiam servir de razões para o quadro. o desprezo pelo trabalho técnico e produtivo. A intenção de Santo Inácio foi inicialmente trabalhar na conversão dos muçulmanos. em Portugal. às experiências jesuíticas da companhia de Jesus. apartir de 1555. designadamente a Universidade de Coimbra. Também a cultura inferior aqui encontrada. sendo assim os estudos superiores. em 1553. dando evidência à retórica e privilegiando poucos autores. juntamente com os seus primeiros companheiros renunciou a este ideal como fim específico da companhia de Jesus e ofereceu-se então á Santa Sé para que dispusesse de sua organização conforme ela melhor entendesse que fossem as necessidades prioritárias da Igreja. com a tendência literária e o gosto que ficou tradicional pelo diploma de bacharel.3 – DOS JESUÍTAS AOS CURSOS DE DIREITO Conforme registra Luís Antonio Cunha. dar prosseguimento a este objetivo. maia e inca. a experiência pedagógica oferecida pelos jesuítas foi causa concorrente para a formação do espírito “acadêmico” que se disseminaria pela Colônia. quando da época do envio de seus primeiros missionários ao Brasil havia sido recém fundada pôr Santo Inácio de Loyola. A companhia de Jesus. seguida da Universidade de São Marcos (Lima). o colégio das Artes em Coimbra.

ao retornar para Portugal. Mas. Anos mais tarde. cada uma delas constituindo uma unidade. facilitar a entrada de livros e fundar cerca de uma dezena de instituições de ensino técnico ou superior em nosso território. quando o Marquês de Pombal expulsou todos os padres da companhia de Jesus de Portugal e de suas colônias. ocorridas a partir do Renascimento. todo o Brasil político e intelectual foi formado em Coimbra. Dom João quis resolver apenas o problema da falta de um certo número de engenheiros. Além disso. pois. autônoma e isolada. No lugar dos colégios da Companhia de Jesus foram criadas as aulas régias de Latim. único centro formador do mundo Português. essa influência teria tido o condão de tornar a cultura portuguesa razoavelmente insensível às significativas transformações do continente europeu. já previa que a independência do Brasil estava próxima e aconselhou seu filho que ficou como regente em seu lugar a pôr a coroa sobre a sua cabeça antes que algum bandoleiro qualquer lhe tomasse a iniciativa. agravava o quadro de nossa situação educacional o fato de que não havia. não se imprimirem livros no Brasil. no Rio de Janeiro. A situação começou a mudar com a vinda forçada de Dom João VI para o Brasil em 1808. médicos e agrônomos no Brasil. data-se daí os significativos avanços verificados. além de portanto. uma não se articulava com outras e nem pertenciam a qualquer escola. resolveu permitir a imprensa. iniciou um processo que ele sabia que não poderia mais voltar atrás. além de abrir os portos do Brasil às nações amigas. Página 10 . era extremamente difícil obtê-los vindos do estrangeiro. Grego e Retórica. no Rio de Janeiro e na Bahia.Aquino. Dom João VI sabia que sua estadia forçada em terras brasileiras não seria curta e. magistrados e professores são toda de bacharéis de Coimbra. portanto. A relação de nossos estadistas. mesmo ao fazer apenas isto. a exemplo a inauguração da Faculdade de medicina. fugindo das tropas de Napoleão que haviam invadido Portugal por esta época. e não o problema da educação do povo brasileiro. escolas técnicas nem superiores no Brasil. na Bahia e a cadeira de artes militares. O predomínio da educação Jesuíta no Brasil foi quase absoluto até o ano de 1759. propositalmente. a imprensa era proibida e.

A contribuição que coube à instalação dos cursos jurídicos para a formação da cultura jurídica nacional. economia e medicina. Sendo assim. ganhando impulso à “aventura liberal”. Os bacharéis de Direito foram muito importantes para a construção do Estado Nacional. Com a proclamação da Independência. uma cultura geral. estaria aí presente uma forma de distinção social e para aquisição de “cultura geral” o caminho mais adequado. ou mesmo à profissionalização do bacharel foi muito significativa. O ensino das faculdades de direito teriam facilitado a difusão das idéias e a troca de informações e referências bibliográficas. dada à qualidade do ensino e o empenho dos professores. o elemento nuclear do fenômeno conhecido por bacharelismo. na pratica.O ensino superior resumiu-se à formação militar e às outras áreas consideradas técnicas. O sistema de aulas avulsas teria que ser reconhecido pelo novo Estado e continuar. ou que pelo menos assim o pareciam aos homens daquela época. aa exemplo da engenharia. se buscava também no curso de direito. a implantação dos cursos jurídicos no Brasil. o Brasil tinha outros problemas mais urgentes. especialmente na atividade jornalística. Foi somente em 1827. é certo. destacadamente. este o bacharel genuíno. que se verificou efetivamente. com que se preocupar do que a fundação de uma universidade ou o estabelecimento de uma rede de ensino primário e secundário. aos saídos das academias de direito. que a propiciar efetivamente a formação de uma elite intelectual razoavelmente coesa e preparada. ou como existia no tempo dos jesuítas. desinteressada. Devemos considerar que. Página 11 . oferecida nesses cursos penetrados de filosofia de letras. reserva-se o vocabulário para aqueles com formação humanística e. já declarada a independência e tendo em vista exatamente a necessidade de serem dados os primeiros passos para a construção do Estado Nacional. seriam viagens e bibliotecas. as faculdades de direito prestaram-se mais a distribuir o status necessário à ocupação de cargos públicos de um quadro burocrático que já se expandia. na impossibilidade de substituí-lo imediatamente por um verdadeiro sistema escolar tal como entendemos nos dias de hoje. A cultura jurídica nacional formou-se apartir dessas duas faculdades.

foi o reinado dos bacharéis. para o financiamento de atividades artísticas cuja sorte. estiveram metidos em praticamente todos os grandes acontecimentos políticos da história brasileira. fora dos gabinetes políticos e dos cargos públicos. O discurso liberal incorporou-se ao Estado Patrimonialista. mais um traço que se poderia creditar à sua natureza patrimonialista. Neste caso. o que deve ser acreditado basicamente às possibilidades oferecidas pela vida acadêmica. o que ensejou a prática de uma certa espécie de mecenato por parte do Estado. o segundo reinado. sem que se lhe modificasse a sua substância. FORMALISMO E ABSTRAÇÃO O Bacharelismo é a situação caracterizada pela predominância de bacharéis na vida política e cultural do país. como hoje em alguns casos ainda serve. Assim a cultura bacharelesca não é somente retórica. se estabelece do todo para com a parte. poder-se-ia considerar. Página 12 . Não se pode deixar de considerar que o cargo público serviu. não pode depender de retorno econômico. o cargo e o salário teriam por virtude fomentar o exercício de arte independente e superior. não raro em prejuízo do conteúdo. retórica enquanto privilegia a eloqüência. além dos fatores já referidos. notadamente na produção literária e jornalística. No Brasil os bacharéis de direito tiveram papel fundamental na estruturação do Estado. por natureza. ingênua. se poderia dizer. Acerca da disseminação de bacharéis na literatura. literário enquanto talvez uma cultura livresca. mas também literária. Os bacharéis guiados pelos ideais da Revolução Francesa. ocupando os cargos públicos mais importantes.4 – O BACHARELISMO: RETÓRICA. com a contribuição indispensável do bacharel. que a aproximação entre esta e a retórica mencionada como elemento significativo da cultura bacharelesca. é uma relação que. O bacharelismo manifestou-se amplamente. ampla mas indiferente à realidade concreta. é um fenômeno político-social.

jurídico e administrativo em observância às diretrizes emanadas da Igreja Católica. mais que isso. colocando-se uma “frase lapidar”. o que. decorria da própria insustentabilidade do discurso e da ausência de conteúdo defensável. ostentar uma cultura literária e mesmo o conhecimento de textos legais tornou-se prática verificável fora do círculo restrito dos bacharéis. Fundaram-se. Por outro lado. a formação jurídica. Página 13 . por via reflexa. verificou-se uma motivação a mais em classes intermediárias para a prática do bacharelismo formal. em 1827. A retórica tornou-se a insígnia que convinha ostentar e que. fora do contexto. Falar difícil. num segundo momento. refletindo o jusnaturalismo tomista-escolático ou um direito baseado no conjunto de doutrinas teológicas e filosóficas de São Tomás de Aquino. portanto. Se se pretendesse uma abrangência maior. Buscava-se. retórica. vestir-se adequadamente. impregnou-se no discurso do bacharel. às vezes. Considerando-se que ser bacharel era um bom negócio. foi formalista. que se ensinava durante a Idade Média e que se manteve até fins do século XVIII. sobre os padrões culturais de indivíduos e agrupamentos sociais distintos.CONCLUSÃO A cultura jurídica do período imperial no Brasil. a que se refere Sérgio Buarque de Holanda. poder-se-ia considerar que o bacharelismo teve outros desdobramentos. a consolidação do Estado nacional. individualista e juridicista. podendo render algum prestígio ou distinção. em muitas ocasiões o discurso jurídico prestava-se a ocultar o objeto ao invés de revelá-lo como a indicar um despreparo técnico-jurídico socorrido por uma “cultura literária”. Impôs-se institucionalmente. nos seus aspectos éticos e religiosos. compreendida dentro de um fenômeno sociocultural e psicológico. assim. tendo em vista a formação de uma elite política e administrativa e. duas faculdades ou cursos de direito: em São Paulo e em Olinda.5.Os cursos jurídicos surgem num contexto sóciopolítico. ligando-o a uma forma desprovida de conteúdo. principalmente nos centros urbanos. com citações de fragmentos supostamente definitivos. Não se resumiu ou se resume apenas ao fenômeno restrito aos bacharéis de direito e por direito.

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