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AMAI OS VOSSOS INIMIGOS

Nós todos somos filhos de Deus, e filhos muito amados, nós todos fomos por Ele queridos, e assim criados em vista da felicidade. Infelizmente a opção pelo pecado trouxe toda a desordem para o mundo, apodreceu o coração do homem com as concupiscências, os amores desordenados. O pecado,a maldição, o mau, as tragédias passaram a assolar a humanidade. Do coração do homem passou a sair más intenções, imoralidades, roubos, ambições desmedidas, e toda sorte de males. E tantos foram afetados em grande medida por tais mazelas. A verdade é que por uma graça de Deus alguns ainda são corretos, justos, direitos, mas o mundo ferido pelo pecado não só não é, como busca corromper a todo instante todas as pessoas. Diante de tudo isto, muitos poderão nos fazer mal, caluniar, injustiçar. É uma realidade própria da caminhada humana, encontrar pessoas que até por bons motivos querem nos prejudicar. E cada pessoa em menor ou maior quantidade e grau terá consciência que existem outros que podem estar tramando, desejando ou agindo contra nós. Seja ladrões, que não podemos descuidar, sejam opositores políticos, religiosos, profissionais. Sejam pessoas de nosso passado em retaliação ou ostensividade. E pior ainda, pessoas que no nosso passado, ou até atualmente tenham feito grande mal à nossa vida ou a de nossos queridos. Diante desta realidade porém, nós cristãos agimos diferentes do mundo para com os que lhes são opositores. Nós procuramos ser e agir iguais a um Deus que perdoou destes, toda a dívida, e que nos ensinou uma justiça totalmente diferente. Um Deus que é pai daqueles que agem mal, e os ama, os ama imensamente, e não cessa de querer que voltem para o caminho do bem. Sabemos que Deus não aprova as obras que estes fazem, mas que porém ama eles assim mesmo, e os quer de volta, e quer lhes dar o melhor, e quer lhe dá vida eternam, divina, santa. Assim como aos que são santos, Deus quer dar a aqueles que fazem o mal, vida em abundância, e tenta de todas as maneiras lhes alcançar.

eu sei que posso contar com a graça de Deus para ir mudando. e sincero que eu possa fazer. da qual foi decano. então seja este meu empenho. e nesta entrevista apresenta o perdão como uma opção cristã para o mundo de hoje. Gaspar Mora ensina teologia moral na Faculdade de Teologia da Catalunha. Este professor inicia um curso em 7 de março na Universidade de Barcelona . e Deus a liberou. a felicidade de Deus.Precisamos amar também estes que nos querem maus. mas amarmos imensamente estes. Talvez devamos ter isto em mente sempre. PERDAOOOOO Saber perdoar é uma «arte do espírito». por que Deus os ama. sendo. Em vez de deixarmos de lado e buscar-lhes fazer vingança. Minha dívida era imensamente grande diante de Deus. e Deus me perdoou. devamos cultivar isto em nosso coração. fazendo o que estiver a nossa disposição de pensamentos. Perdoar alguém que na verdade fez bem menos do que eu. pode agir e quer agir na vida destes que ao ver do mundo não deveriam ser amados. se for o caso até de punir a culpa quando diante de Deus virmos que preciso é. é diante de Deus o mais justo. palavras. sabendo serem amados por Deus. Diante da realidade de más atitudes daqueles que nos comentem injustiças ou prejuízos. Deus os quer imensamente pra si. que sou fortemente culpado. busqemos maduramente nos livrar desta linha de fogo. e Deus a redimiu. Eu pequei e feri muito a Deus . Deus age. Quem sustenta isso é o sacerdote e professor de teologia moral Gaspar Mora Bartrés. o meu coração. E se muitas vezes eu não consigo nem pensar naquele que me foi um algoz. ao mesmo tempo em que analisa o binômio justiça e misericórdia. se eu só tiver ao meu alcance desejar e orar por aqueles que nos fazem mal. querendo lhes fazer pessoas melhores. E isto nós podemos e devemos fazer. Queramos lhes dar o melhor. com a minha abertura. e corrigir isto. busquemos fazer-lhes o bem. atitudes e esforços para que estes alcancem o que todo homem desde o início do mundo verdadeiramente quis. correto. a sentença pros meus pecados era muito grave.

a partir da Palavra e do Espírito de Jesus e no âmbito da própria experiência pessoal. dentro das propostas de Teologia na Universidade. como salvação de nossa violência humana por caminhos de paz e de reconciliação. Entre seus últimos livros se destacam “A vida cristã: teologia moral fundamental”. mas como a resposta à pergunta que a humanidade se formula e que todos sentimos dentro: qual é a atitude adequada ante os demais e. a recuperar relações que talvez já foram . Metidos neste mundo tão violento. editado pela Faculdade de Teologia de Catalunha. em concreto. uma iniciativa de várias instituições eclesiásticas acadêmicas de Barcelona junto à delegação de pastoral universitária da arquidiocese para propor estudos teológicos nas universidades leigas da cidade. Mas precisamente se aprende não como algo raro e sublime que chega a nossa vida como um adendo. De todas maneiras. --A coragem do perdão é natural ou se aprende? --Mora: O chamado cristão ao perdão faz parte do que é mais radical e nuclear da mensagem evangélica: o amor. Falar do perdão surpreende. Deus revela seu chamado a um amor que perdoa. A pergunta. há dois mil anos. a atitude de perdão está chamada a criar âmbitos de humanidade. aprende-se.sobre «A coragem de perdoar». mas não é um aspecto distinto ou regional da mensagem evangélica. só pode entender-se como estabelecida ao conjunto: a mensagem cristã é natural ou se aprende? Sem dúvida. Não é só uma palavra proposta a algumas pessoas que sofrem. os conflitos continuam aí e de fato são muito graves. ante os que fazem e nos fazem mal. e hoje também. mas para resolver. --O mundo está marcado por conflitos em todos os níveis: o valor cristão do perdão pode aliviar tantas feridas? --Mora: Situemos a mensagem cristã sobre o amor que perdoa. do Centro Pastoral Litúrgica. O perdão é a opção cristã perante um mundo tão inumano. a confrontação e a vingança. É a revelação de Deus Pai a uma humanidade marcada pelo ódio. portanto. não para aliviar. os homens podem ignorar este chamado. mas que manifesta o rosto cristão do amor. e “O que é ser cristão?.

a do perdão de Deus. Nosso mundo moveu-se nos últimos séculos sob o impulso da justiça. mas em entender o que faz o mal como pessoa. ao outro e a mim mesmo. Saber-se já perdoado é o único clima que faz o homem capaz de dar estes dois passos. e por ela viveu mudanças e revoluções muito profundas. pode acolher esta mensagem ou pode rejeitá-la. duas coisas. mas que fundem em um poço sem saída e acabam destruindo a própria vítima. atitudes que parecem espontâneas e inevitáveis. Mas provavelmente hoje podemos valorizar melhor a mensagem do amor que perdoa.quebradas. sempre pretensamente justificadas. ainda que seja difícil e não corresponda. Comporta. é entender que a própria vida ou a dos meus entra também no âmbito do mal. Inclusive o perdão oferecido por uma pessoa ou um grupo e não reconhecido pelos demais pode dar o consolo de ter encontrado uma atitude profundamente humana. que todos navegamos na mesma nave. Os jovens de nosso tempo são filhos de nosso tempo e partem daí para seguir fazendo a história. entender o que o mal faz e aceitar as próprias negatividades. supera o ódio e a vingança. Ambas coisas são possíveis só no âmbito de uma experiência. significa não derivar a experiência da agressão em ódio ao agressor. inclusive em sua malícia. terríveis. aliviando assim feridas muito profundas. --Como se explica aos universitários que o cristão perdoa porque foi antes perdoado por Deus? --Mora: Saber perdoar é uma arte do espírito. sem negá-las. --A misericórdia de Deus é o ponto do cristianismo que mais atrai os jovens? --Mora: A juventude não parte do zero. cruentas. como todos os demais. Não seria a primeira vez que a palavra cristã sobre o perdão é acusada de ineficácia. Isto não significa justificar algo que pode ser terrível. O universitário. Para o Evangelho. em vista das barbaridades cometidas no século passado. A segunda é ainda mais difícil. Uma é aceitar e entender o agressor. perdoar comporta em sua raiz aceitar também o próprio pecado. como mínimo. Hoje olhamos com horror o sofrimento causado pelas guerras e as .

Se há deriva moral entre os jovens é porque há no conjunto social. quase como um refúgio ante a falta de perspectivas. Como é difícil praticar o perdão! Talvez seja porque sempre temos os olhos . os dois acentos que a experiência cristã descobre no mistério de Deus Pai. São o germe da humanidade nobre e positiva do futuro. Trata-se de aprender de nosso passado e buscar. e há pessoas e grupos. sem cair de novo nos enganos de sempre. mas é bom entender o sentido da crise moral que vivemos e que os jovens radicalizam. e que toda luz autêntica é reflexão do Evangelho de Jesus. e o recurso a experiências palpáveis. em muitas partes do mundo. o desencanto ante o fracasso de muitos grandes projetos. Faz parte de um dos acentos de nossa pós-modernidade. Hoje soa como luminosa a frase do Evangelho: Quem busca. Creio que é próprio de uma grande maturidade entender a sabedoria escondida no binômio “justiça e misericórdia”. Toda nossa sociedade está nesta situação como perante um desafio. que buscam. A justiça é necessária. Hoje é possível buscar. e avaliar o entranhável acento divino e humano da misericórdia de Deus. --Crê que há uma deriva moral em amplos setores da juventude? --Mora: A juventude é uma delicada caixa de ressonância de nosso mundo. assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. encontra. mas sua exigência pode levar durezas muito inumanas.revoluções do século passado. PERDAOO2 Quando rezamos o Pai Nosso. Não creio. A experiência cristã entende que quem busca a luz sobre a vida a encontra. em meio de todas as crises. Talvez hoje podemos entender algo que antes parecia ridículo: a necessidade de misericórdia. Há quem augura a perda cultural de todo sentido. suplicamos que “perdoe as nossas ofensas. adultos e jovens. É certo que há crises. e as que continuam hoje. imediatas. Nisto a juventude pode viver uma maturidade que antes era muito difícil.

D. E Jesus lhe deu a medida que o perdão não tem medida: “Não apenas sete vez. O Evangelho nos ensina que devemos ter o coração aberto. escreve: “sede bondosos e compassivos uns com os outros. e outra.1). Ef. uma o desvio do dinheiro público e o enriquecimento ilícito de grupos e corporações. Numa expressão belíssima de conteúdo. preceituou: “não julgueis os outros e Deus não vos julgará” (cf. Outro dia. diz “Terrível é o julgamento de Deus. Antonio Vieira no sermão sobre o Bom Ladrão. diz como o Pai Celeste tratará a cada um de nós se não perdoarmos de coração a nosso irmão. 21-22) E. no mesmo ato . conversando com um capitalista.7. Mt. com envolvimento até de quem deveria cuidar da observância da lei e da justiça. O perdão fica então difícil. abrem-se à nossa mente nossas emoções. mas até setenta vezes sete vezes” (cf. como se mata por um nada! Não preciso descrever as vinganças. E naquilo que nos parece ser. logo a seguir na parábola do empregado cruel que não perdoou o seu companheiro. Jesus que conhecia muito bem o coração humano. na Carta aos Efésios concitando-nos a viver como filhos da luz. E o julgamento do homem é terrível. porém mais terrível é o julgamento do homem. para nos justificar perante o Evangelho. Muitas vezes. no fim dos tempos. rancores e ódio. 18. porque na terra você não julgou…” E sobre o perdão. a ânsia de que a apuração seja no mesmo momento ostensiva. o ódio e a cobiça que as motivam. dele ouvi que o neoliberalismo impôs-nos uma ditadura do dinheiro. Hoje.4. 32). Até instituições de direito que limitam as cobranças pelo decorrer do tempo. Helder Câmara. numa de suas crônicas. tem sido questionadas. Pedro perguntou ao Mestre quantas vezes devia perdoar ao irmão. mas a mágua perdura em nosso coração. Pe. comenta que se passássemos pela terra sem julgar. sabendo perdoar uns aos outros como Deus vos perdoou em Cristo” (cf.” E dá a razão: é porque Deus julga pelo que é e o homem julga pelo que lhe parece ser. E se observarmos procedimentos policiais para inquéritos sobre ações que envolvem grandes somas de dinheiro. se até sete vezes. Paulo. quando. na santidade cristã. sobretudo público.abertos para julgar o próximo e estejamos sempre prontos a condenálo. chegássemos diante do Juiz ficaríamos surpresos ao ouvir:”você não será julgado. Tudo é visto sob esse ângulo. dizemos que o concedemos. aos holofotes sofisticados da “mídia” e que. Mt. observamos duas vertentes de atitudes.

De um político pego numa dessas ações. o cristão tem um norte: a caridade. estar eivadas dos sentimentos humanos. por profissão. um vidro de perfume num supermercado. . Lc. ou desviá-la por meios nem sempre lícitos. pior. como de um bem de que podia se apropriar. O dinheiro como valor absoluto de um lado. manter a ordem. A medida do perdão é o amor. Não podemos ser contra a ação policial que corretamente faz o seu dever e age com rigor sobretudo com aqueles que tem poder de mandar parar a investigação. certamente. pelas vias normais do direito o que é seu e dar a cada um o que lhe compete. 3. “é público”. Aprendamos a lição do Pai que. não calunieis e contentai-vos com vosso soldo” (cf. Amemo-nos como Cristo nos amou e assim cumpriremos sua lei.14). acima de tudo. de exigir. senão pela absolvição. depois não respaldado pela Justiça pela delonga no tempo. ouviu-se o conceito que tinha do dinheiro público. Saibamos perdoar uns aos outros como Cristo na cruz perdoou aos seus algozes. haja o julgamento popular e a condenação do envolvidos ainda sem a prova. o que não ocorre com aquele de surrupia um pão. A prática do perdão não exime as ações de justiça. os soldados: “não useis de violência com ninguém. Sem observarmos este preceito do amor as nossas exigências podem. De outro o julgamento humano pelas aparências e. na morte de seu Filho nos perdoou. Mas.da apreensão. João Batista pregava aos que devem.