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Navegando os espaços da identidade individual e colectiva através da intertextualidade em Uma viagem à India de Gonçalo M. Tavares

Com a publicação, em 2010, de Uma viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares inseriu-se explicitamente no diálogo literário sobre a identidade que advém de séculos passados. Dizemos explicitamente, porque com este romance Tavares decide abordar directamente Os Lusíadas, de Luis Vaz de Camões. Ao fazê-lo, o autor desencadeia um discurso que ultrapassa as 450 páginas, em que, através de várias técnicas, como a imitação, a ironia, o distanciamento, a diferenciação, enfim, a paródia – o autor usa a grande epopeia camoniana como texto de fundo, para construir a uma paródia corrente, contemporânea, pós-moderna. Neste trabalho, pretendemos, primeiro, examinar e evidenciar alguns dos paralelismos e contrastes entre as referidas obras. Consideraremos, assim, tanto a estrutura interna como a externa do romance de Tavares, optando, desta forma, por rubricar não só uma análise temática, mas também uma comparação mais minuciosa, em que iremos salientar vários exemplos concretos desta intertextualidade. Depois, propomos que no distanciamento evidenciado entre o romance de Tavares e o poema Camões, abre-se o espaço para um argumento que dá eco às palavras de Stuart Hall

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em A identidade cultural da pós-modernidade, no qual este questiona a credibilidade do conceito de identidade nacional. No que diz respeito, ainda, a esta análise a que nos propusemos, apoiaremo-nos, em parte, na definição de paródia apresentada por Linda Hutcheon em A Theory of Parody: The Teachings of Twentieth-Century Art Forms. Começamos, então, com uma abordagem do conceito de paródia estabelecido por Hutcheon, no qual esta crítica literária considera a paródia, “one mode of coming to terms with that ‘rich and intimidating legacy of the past’” (4). Ademais, Hutcheon acrescenta que, “Parody, therefore, is a form of imitation, but imitation characterized by ironic inversion, not always at the expense of the parodied text. . . Parody is, in another formulation, repetition with critical distance, which marks the difference rather than similarity” (6). É este aspecto, o da paródia como uma forma de simultaneamente fazer uma alusão e estabelecer uma diferença, de criar uma distância, que nos parece extremamente útil na nossa análise de Uma viagem à Índia em relação a Os lusíadas. Como iremos constatar, a ideia de que paródia evidencia “a modern recording which establishes difference at the heart of similarity” (Hutcheon 8), vai ao directamente ao encontro com relacionamento literário estabelecido por Tavares na elaboração desta obra. Convém, ainda, mencionar o papel considerável que a ironia desempenha na

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definição de paródia, segundo Hutcheon, “Parody, then, in its ironic ‘trans-contextualization’ and inversion, is repetition with a difference. A critical distance is implied between the background text being parodied and the new incorporating work, a distance usually signaled by irony” (32). A ironia empresta, portanto, uma distância crítica aos textos, transformando uma simples alusão intertextual, em algo mais profundo e acutilante. Gostaria, de seguida, de oferecer um breve resumo de Uma viagem à Índia cujo enredo descreve a aventura pessoal do protagonista, Bloom, nome este que evoca outra herói literário, Leopold Bloom, do célebre romance de James Joyce, Ulisses. A partida precipitada de Bloom é provocada por uma tragédia pessoal, em que o herói se torna num parricida, depois de descobrir que o seu pai era o responsável pelo assassinato da sua amada, Mary, num episódio que ressoa paralelismos com Inês de Castro e Dom Pedro I. De Lisboa, Bloom parte para Londres onde ele é vítima dum atentado criminoso, semelhante à experiência de Vasco da Gama em Mombaça. Vendo-se livre daquela armadilha londrina, o protagonista dirige-se para Paris, onde conhece Jean M., um homem acolhedor, tal como o rei de Melinde descrito no Canto II de Os Lusíadas. Em Paris, Bloom começa por fazer uma descrição geral da Europa, para depois se concentrar em Portugal, e termina com um relato da história da sua família, algo que apresenta semelhanças estruturais com o relato que Vasco da Gama

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oferece ao rei de Melinde sobre a História de Portugal. Esgotadas as reminiscências de Bloom, ele parte de avião para a Índia, passando primeiro pela Alemanha e pela Austria. Finalmente, no Canto VII, tal como n’Os Lusíadas, Bloom chega a Calecute, onde encontra Anish, um amigo Jean M., que aqui substituí o Monçaide que serve de interlocutor para o enviado de Gama na epopeia de Camões. Depois de um conversa filosófica entre Bloom e Anish, este último introduz o nosso herói a um sábio, Shankra, que Bloom já há tanto tempo ansiava por conhecer. O encontro entre Bloom e Shankra, é caracterizado, inicialmente, por um longo discurso de Bloom sobre si próprio enquanto que Shankra o escuta atentamente, procurando conhecê-lo melhor. Contudo, depois deste período de reconhecimento mútuo, Shankra sugere uma troca de livros: ele está disposto a oferecer a sua cópia do Mahabarata, e quer em trocas as cópias de Cartas a Lucilio de Séneca e a Obra Completa de Sófocles, que Bloom tinha trazido consigo. Contudo, logo depois, é revelada a verdadeira natureza de Shankra, que tem mais de burlador do que de guia espiritual, porque manda os seus discípulos assaltarem Bloom e lhe roubarem os livros. Depois de um episódio idêntico ao do Canto VII de Os Lusíadas, quando Vasco da Gama é sequestrado, Bloom consegue fugir da Índia com a ajuda de Anish, tendo recuperado os seus livros e a conseguindo ainda ficar com a cópia do Mahabarata. A caminho de Lisboa, Bloom e Anish vão visitar

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Jean M. em Paris, cidade que anteriormente fora Mombaça, agora se transforma na Ilha dos Amores, sendo Jean M. convertido numa síntese de Venus e Cupido, e onde em fez de ninfas, temos um grupo de prostitutas que saciam os desejos carnais de Bloom, Anish e Jean M. Infelizmente, nem tudo corre tão bem nesta edição da Ilhas dos Amores, pois Bloom assassina uma das prostitutas, a que equivalia a Tétis, e é forçado a separar-se dos seus companheiros e a fugir de Paris. Finalmente, de regresso a Lisboa, Bloom é avisado de que é procurado pela polícia pelo assassinato do seu pai e da prostituta parisiense, e é ainda informado da morte da sua mãe. Completamente só e abafado por um sentimento de desilusão, Bloom está à beira do precipício, prestes a se jogar duma ponte, quando é abordado por uma mulher que quer falar com ele. E assim Bloom é salvo. Portanto, através deste resumo começamos a desvendar a forma como Tavares parodia Os Lusíadas, aproveitando os alicerces literários edificados por Camões, mas preenchendo essa estrutura com um conteúdo que remonta para o tal distanciamento crítico e irónico referenciado por Linda Hutcheon. Algo que evidenciaremos mais detalhadamente em breve, mas que vamos adiar para já, para podermos abordar o estudo de Stuart Hall, A identidade cultural da pós-modernidade. Assim, segundo este, o indivíduo debate-se com as alterações que o conceito de identidade sofreu como consequência dos trabalhos que Althusser, Freud, Lacan,

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Saussure, Foucault, e o movimento Feminista produziram no século XX, e que desafiaram o ideia vigente de uma identidade homogénea. Ademais, as estruturas políticas, psicológicas, linguisticas e sociais em que baseáramos, durante tanto tempo, esse conceito de homogeneidade, revelaram-se, de certa forma, ilusórias. Incluído nesse grupo, o conceito de identidade nacional também é indicado como uma estrutura que nos proporciona, ilusoriamente, uma sensação de coesão identitária. Ou seja, Hall sugere que a processo de identificação do indivíduo com o conceito da nação segue uma tradição em que essa lealdade fora já prestada, “à tribo, ao povo, à religião e à região” e que foi depois transferida para a “cultura nacional” (49). Verificamos, ainda, que, “Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto as nossas acções quanto à concepção que temos de nós mesmos” (Hall 50). Ou seja, Hall questiona a existência concreta da identidade nacional, e sugere que esta é simplesmente outra construção social e política para a qual delegamos o poder colectivo e organizador, e da qual recebemos, em troca, a ilusão de coesão individual. Hall classifica-a ainda como “comunidade imaginada”, que se organiza em volta de elementos como “a narrativa da nação” que representa as experiências nacionais através da história e literatura, e que se relaciona, com alguma frequência, com a “invenção da tradição”, onde um passado mais

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adequado às necessidades é fabricado, com o “mito fundacional”, e, finalmente, com a existência dum “povo ou folk puro, original” (51-55). Conceitos, portanto, que identificamos na epopeia camoniana. Dito isto, regressamos à Uma viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, revelando que tal como Os Lusíadas, este romance também é dividido em dez cantos, e que cada canto tem o mesmo número de estrofes que o seu correspondente na obra de Camões. Contudo, dentro dessa estrutura idêntica deparamo-nos com uma prosa lúcida e directa, onde talvez supuséssemos a existência duma rima fixa e da métrica decassilábica. Registramos, assim, uma paródia do estilo camoniano, que adopta e subverte a estrutura da epopeia, esboçando uma semelhança dentro da qual traça um claro sinal de divergência com a obra de fundo. Depois, o contraste entre a motivações destas duas viagens à Índia oferecemnos outra oportunidade para navegar o espaço identitário representado em ambas as obras. Assim, a viagem de Bloom, que ocorre entre 2003 e 2010, atravessa o continente europeu em vez de traçar o litoral africano. Repare-se também que, ao contrário da epopeia de Camões, a viagem de Bloom solitária e é motivada pelas necessidades pessoais de um indivíduo. Portanto, a expedição do Vasco da Gama de Camões afigura-se-nos como uma afirmação patriótica que alberga a vontade do rei e

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dos deuses, proporcionando ao poeta um espaço literário para louvar a história portuguesa, e para enaltecer o tal “mito fundacional” que Hall mencionara. Enquanto que, Bloom parte de Lisboa, “numa viagem à Índia, em que procurou sabedoria e esquecimento.” (Tavares 28). Portanto, em vez do louvor patriótico e religioso, esta viagem é motivada pela busca paradoxal “da sabedoria e [do] esquecimento”. Ambas as obras, portanto, retratam a tentativa de encontrar e expandir as suas bases de conhecimento, contudo a epopeia da nação contrapõe-se à epopeia individual, as exaltações patrióticas de Vasco da Gama contrastam com o esquecimento procurado por Bloom, e as fronteiras do conhecimento do primeiro são físicas, enquanto que as do segundo são metafísicas, ou seja, a diferença entre desvendar o mundo e a iluminação do próprio indivíduo. Outro distanciamento explicitado por Tavares relaciona-se com o despojamento das intervenções divinas e com a aniquilação do Destino. Desta forma, ainda no canto primeiro, o narrador transporta-nos por um processo de desmistificação, em que rejeita vários mitos conhecidos, como “o Santo Graal”, “as pirâmides de Gizé”, “Stonehenge”, “a Pedra Negra em Meca”, “Machu Pichu”, “as grutas de Lascaux”, entre outras alusões a lugares ou comportamentos associados ao misticismo. Por outro lado, a maioria das estrofes iniciais, ou seja as que coincidem com as estrofes da invocação e da

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dedicatória em Os Lusíadas, acabam com afirmação, “Falaremos de Bloom. E da sua viagem à Índia”, algo que se apresenta como uma clara subversão do poema camoniano. Contudo, e de certa forma, antagónico a este processo de desmistificação que acabámos de referir, outra das motivações da viagem de Bloom à Índia, foi a procura no Oriente duma Espiritualidade que o Materialismo regente no Ocidente tinha já há muito corrompido e dissolvido. Mas, a caminho do seu destino, Bloom articula uma crítica à realidade moderna que está no processo de evadir. Bloom ilustra, repetidamente, a mísera posição do ser humano, que se deixou relegar para um canto distante da sua própria existência, afectado por um distanciamento crescente causado por interacções cada vez mais intermediadas. Ou seja, a predominância da tecnologia, do espaço urbano, da linguagem, da jurisprudência, da burocracia e da ciência oculta-nos do nosso próprio lugar no mundo. Enquadrado neste contexto de desilusão e de tragédia, Bloom atinge o seu alvo geográfico, mas cedo se apercebe que nem a Índia escapou a essa peste materialista. Quando Shankra revela que o seu único interesse em Bloom são os livros que trouxe consigo, Bloom desabafa que “viajei tanto e tanto viajei para agora terminar em negócios bibliográficos. Pensava (pensa Bloom) que a sabedoria não tinha números de páginas mas enganei-me” (351). Esta realização agudiza-se

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quando Bloom se vê assaltado pelos discípulos de Shankra. Assim, ao abandonar a Índia, Bloom vê solidificar-se uma visão do mundo moderno, ← ← ← ← ← ← Há muito mundo, decadente e desesperado, mórbido, confuso, demasiado misturado, feito de promessas que falham e de demasiados imprevistos. Nada bate a horas certas; os relojoeiros tentam endireitar o tempo, mas nada resulta: quando se concerta de um lado do mundo, no outro um novo desastre é inaugurado. (379-80)

Com o fracasso da viagem à Índia, Bloom aprende que afinal já não existem subterfúgios físicos, na terra, e que nos resta somente a única coisa que realmente possuímos: nós próprios. E é aqui que, pelo menos no âmbito da identidade, este romance se destaca, pois ele propõe um questionamento sobre o rumo a explorar no desvendar de novos espaços identitários. Por conseguinte, é também neste ponto que se registra a maior subversão paródica, pois percebemos que Uma viagem à Índia usa Os Lusíadas como um ponto de partida, apontando para o grande marco literário da afirmação da nação, para depois apresentar uma alternativa que está virada para a frente, e como tal, se distancia desse ideal patenteado por Camões. Como tal, acreditamos que esta obra de

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Tavares se posiciona perfeitamente para responder às indagações de Eduardo Lourenço em O Labirinto Da Saudade: Psicanálise Mítica Do Destino Português, quando no âmbito da autognose nacional, este crítico equacionou que, ← Felizes, o antigo mar da História banha sem paixão o promontório sacro, donde outrora investimos o Desconhecido para hoje ainda, por esse gesto, termos no silêncio expectante duma memória que nos julga na sua luz imperecível um rosto e um nome que são os nossos por nós sermos eles. Para quando a nova viagem para esse outro desconhecido que somos nós mesmos e Portugal connosco? (68) Acreditamos que Uma viagem à Índia oferece uma excelente resposta a esta pergunta, particularmente quando interpretada como uma reflexão literária dos conceitos discutidos no já mencionado trabalho de Stuart Hall, afirmando que, “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como unificado” (7). Para Hall, portanto, o indivíduo moderno, que Bloom claramente representa, é uma reflexão das mudanças sociopolíticas registradas nas últimas décadas, ou seja, a fragmentação do indivíduo é uma projecção do facto de as sociedades modernas não terem, “nenhum centro, nenhum princípio articulador ou

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organizador único e não se desenvolverem de acordo com o desdobramento de uma única ‘causa’ ou ‘lei’” (Hall 16). Em conclusão, em Uma viagem à Índia Gonçalo M. Tavares oferece, através duma justaposição paródica a Os Lusíadas, um argumento sólido em prol da transposição do conceito de identidade nacional, privilegiando ao invés a exploração do espaço individual. Tavares não tenta idealizar a condição moderna, pois a ansiedade e insatisfação que Bloom sente, ao ponto de quase se suicidar, são indicações nítidas desta constatação. Contudo, Tavares indica que a resolução para essa insatisfação reside num olhar para dentro, e não mais num olhar para trás.