SISTEMA ELEITORAL BRASILEIRO X SISTEMA ELEITORAL ALEMÃO Da representação que temos à representação que queremos.

João Vitor Gomes Martins
Acadêmico da graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo: Visando comprovar que a adoção do sistema distrital misto de lista fechada deve aprimorar a democracia no nosso país, este trabalho realiza a comparação teórica entre o sistema eleitoral alemão e o brasileiro, focando nos aspectos mais marcantes e nos pontos que comumente geram maiores discussões acerca da matéria. Palavras-chave: Comparação teórica, sistema eleitoral alemão e brasileiro.

Abstract: In order to demonstrate how the adoption of a electoral system, which delimits electoral district, with closed list, should improve democracy in our country, this work realizes a theoretical comparison between Brazilian and German electoral systems, focusing on the most important aspects and the points that commonly generate further discussions about this subject. Key words: Theorical comparison, German and Brazilian electoral systems..

Sumário: 1. Introdução. 2. Sistema Eleitoral Brasileiro. 2.1. Voto Proporcional. 2.2. Voto Majoritário. 3. Sistema Eleitoral Alemão. 3.1. Voto distrital. 3.2. Financiamento Público de Campanha. 4. Conclusões. 5. Referências bibliográficas.

1. INTRODUÇÃO Este trabalho tem por objetivo analisar como a adoção do sistema distrital misto, com lista fechada, o mesmo existente na Alemanha, pode produzir efeitos muito mais benéficos ao Estado brasileiro do que o atual sistema misto (majoritário e proporcional) em vigência. Inicialmente, se faz necessário expor grave problema referente aos partidos políticos. Estas instituições são a base de nosso sistema eleitoral, através delas exercemos, ou deveríamos exercer, nossa vontade perante os diversos órgãos estatais. Contudo, percebe-se o esvaziamento de suas funções primordiais, cada vez mais, são

deixadas de lado para visar objetivos imediatistas. vigiá-los e exigir que as medidas necessárias para o desenvolvimento estatal ocorram. tal não exclui a responsabilidade dos cidadãos pelas consequências de um mandato mal vigiado. falha grave de participação. no Brasil. adquirindo características corporativistas e visando a defesa de categorias. através da vinculação dos partidos à segmentos e movimentos sociais. cidadãos. enquanto aquele para os chefes do Poder Executivo bem como os representantes das unidades federativas no Senado Federal. tornou-se um espaço sem influência ideológica alguma. Da mesma forma. cabe a nós. enumerar os principais problemas decorrentes do nosso atual sistema eleitoral: • A pessoalidade das eleições. sendo este utilizado para eleger os representantes das câmaras municipais. Assim como apontam os artigos 45 e 46 da Constituição Federal. tanto em forma quanto em objetivos. Assim como se pretende provar neste artigo. 2. A mera existência de processo eleitoral não garante a democracia. • As coligações políticas. Contrariando o que deveria ser sua característica mais marcante. adota-se tanto o sistema majoritário quanto o proporcional de lista aberta. não se pode ignorar a influência da falta de organização social nesta análise. tal situação poderia ser superada através da adoção de um melhor sistema eleitoral. abandonaram os processos de médio e longo prazo. O desejo de poder a qualquer custo trouxe a tona uma política imediatista com a falta de uma política doutrinária. fato este que se deve. da Câmara dos Deputados e das assembleias legislativas. Entretanto. . Não se pode esperar que os problemas sejam resolvidos unicamente por aqueles que elegemos. Ao analisarmos o cenário político atual fica claro o descrédito das instituições jurídicas nacionais perante a sociedade. em especial. a inexistência de real representação da população por parte de seus eleitos. Da forma como se estruturam atualmente assemelham-se. SISTEMA ELEITORAL BRASILEIRO Cabe aqui. Cabe relembrar: apesar de o sistema ser representativo. • A baixa representatividade da população. a sindicatos e não partidos políticos.

apresenta-se a situação de Luciana Genro. eleitos. A Câmara dos Deputados compõe-se de representantes do povo. o resultado da divisão dos votos válidos pelo número de vagas disponíveis para aquele cargo. o partido (ou coligação) não elegerá candidato nenhum. da seguinte forma: a) divide-se o número de votos válidos atribuídos a cada partido ou coligação pelo número de vagas já obtidas mais 1. c) a vaga será preenchida. O Senado Federal compõe-se de representantes dos Estados e do Distrito Federal. (Constituição da República Federativa do Brasil de 1988) 2. o qual arrastou consigo mais três membros de sua coligação às cadeiras da Câmara. Tal fato compromete a representatividade e a seriedade do sistema eleitoral ao percebemos que tipo de situações pode decorrer do mencionado. em cada Estado. Por outro lado. cita-se o caso mais recente. ou seja. Como exemplo. cabendo a vaga ao partido ou à coligação que tiver a maior média. calcula-se o quociente eleitoral. eleitos segundo o princípio majoritário. em cada Território e no Distrito Federal. Tiririca. • Da mesma forma. o mais votado para o cargo em todo o país. 46.Art. sendo que estes não alcançaram o número mínimo de votos para ocupar o cargo. é o resultado da divisão de todos os votos válidos da eleição pelo quociente eleitoral. • Caso ainda haja vagas não preenchidas pela aplicação do quociente partidário. O resultado indica o número de vagas que o partido (ou coligação) obteve. pelo sistema proporcional. obedecendo à ordem de votação do partido ou coligação dos seus candidatos. elas serão distribuídas entre os partido ou coligações que obtiveram o quociente eleitoral. Art.1. Voto proporcional O sistema proporcional opera da seguinte forma: • Primeiro calcula-se o número de votos válidos para o cargo em disputa. candidata mais votada no estado do Rio Grande do Sul à Deputada . • O quociente partidário também é calculado. b) repete-se a operação até a total distribuição das vagas. Caso o resultado seja menor que 1. as vagas conquistadas são preenchidas pelos candidatos que tiveram o maior número de votos dentro do próprio partido ou coligação. o do eleito Deputado Federal. dentro do sistema proporcional. entre aqueles que não obtiveram a vaga pelo quociente partidário. Dada a utilização do sistema de lista aberta. 45.

. Art. (Constituição da República Federativa do Brasil de 1988) O artigo 14 da Constituição Federal deixa clara a importância concedida pelo legislador aos partidos políticos. Solução possível a este quadro seria a transição para o sistema de lista fechada. nos termos da lei. em detrimento da pessoalidade. 14. vota-se somente no partido ou coligação e não mais em um candidato específico. favorecendo o fortalecimento da instituição. pura e simplesmente...Federal. importa mais a imagem produzida pelos candidatos do que as ideias por eles defendidas. Tal sistema apresenta como principal desvantagem a personalização das eleições. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto. o candidato mais votado na eleição.] V . mediante: [. na forma da lei: [.2. À exceção dos prefeitos de municípios com menos de 200 mil eleitores e dos senadores. 2. colocando a filiação partidária como requisito primordial para candidatar-se aos cargos da vida pública. que apresenta como marca principal o fato de que cada partido ou coligação apresenta uma lista de candidatos em ordem estabelecida por eleições internas. Ainda assim. Voto majoritário Quanto ao sistema majoritário.. os candidatos em uma eleição majoritária têm de obter a maioria absoluta dos votos válidos (50% mais um).a filiação partidária. com valor igual para todos. Experimentamos um contexto de esvaziamento desta instituição. não apenas certos grupos. vota-se no candidato e não no partido. que suas políticas visem objetivos de longo prazo e que beneficiem a todas as camadas sociais. e. ainda que para isso tenha de haver um segundo turno.São condições de elegibilidade. É necessário que se fortaleçam suas ideologias. percebe-se que aquilo que deveria ser fortalecido durante o processo eleitoral são os próprios partidos. bem como de sua ideologia. não atingiu o quociente eleitoral.] § 3º . tal não exclui a possibilidade realização de coligações políticas. considera-se eleito. que não conseguiu se reeleger porque seu partido. como aponta . Assim. fato que enfraquece os partidos políticos ideologicamente e compromete todo um sistema baseado na autonomia partidária e na influência ideológica sobre a esta referida autonomia. Dessa forma. o PSOL.

pondera-se a não existência de divisão da circunscrição eleitoral. eleitos pelo povo.) Grande parte do enfraquecimento partidário se deve ao fato de inexistência de campo eleitoral delimitado. Dessa forma. Os Senadores integram a representação dos partidos tanto quanto os Deputados. aquele "vota mais na pessoa deste. e como conciliar a tese da representação do Estado com situações como esta? (SILVA. portanto defenderem. . e dá-se o caso não raro de os Senadores de um Estado. Ora. Voto distrital O sistema distrital misto consiste na aplicação do sistema majoritário e do sistema proporcional em uma mesma eleição. personalizando as eleições. 511. as eleições ocorrem em distrito eleitoral único. um candidato que possua as bases políticas em Florianópolis pode ir a oeste tentar conseguir votos nesta região.Paulo Bonavides. sendo que a metade das cadeiras seria ocupada pelo primeiro e a outra metade pelo segundo. de que se formava de delegados próprios de cada Estado. o que configura um problema grave ao ideal de representação democrática. em suas qualidades políticas (a personalidade ou a capacidade de bem representar o eleitorado) do que no partido ou na ideologia". a representação é partidária. Neste sentido. dois votos. citamos valiosa lição do professor José Afonso da Silva quanto ao Senado Federal. Considerando o atual cenário para eleições à vaga de Deputado Federal pelo Estado de Santa Catarina. concorrendo muitas vezes com candidatos do mesmo partido. então.1. no Senado. SISTEMA ELEITORAL ALEMÃO 3. tal como os Deputados. porque os Senadores são eleitos diretamente pelo povo. programa diverso deste. as eleições aconteceriam em duas fases. os candidatos de um mesmo partido competem entre si pelos votos de eleitores. Em decorrência dessa situação. 3. p. serem de partido adversário do Governador. outra instituição cuja falta de fidelidade ao que deveria ser sua característica principal compromete o todo de um sistema federativo: O argumento dos Estados pelo Senado se fundamentava na ideia. Há muito que isso não existe nos EUA e jamais existiu no Brasil. pelos quais estes participavam das decisões federais. inicialmente implantada nos EUA. possuindo o cidadão. uma realizada pelo sistema proporcional e outra pelo majoritário. por via de partidos políticos. De acordo com esse modelo.

A nosso ver. uma vez que. Os partidos políticos são pessoas jurídicas de direito privado. fica proibido de atingir as cadeiras a que foi designado. ainda assim. Tal restrição garante que não exista disputa entre candidatos do mesmo partido em um mesmo distrito eleitoral. para cada vaga em disputa haveria um distrito. Através das cadeiras reservadas ao sistema proporcional. Para garantir a representatividade efetiva de um partido e sua capacidade de se fazer ouvir no diante de outros é estipulada uma cláusula de barreira. característica fundamental e a mais marcante destes. por exemplo) em distritos eleitorais (regiões do Estado). ou seja. Aos candidatos indicados às cadeiras distritais. A estes. quanto mais votos esta receber. dada a proximidade ao eleitor. Uma vez que o financiamento privado não consegue garantir . tornado as eleições muito mais partidárias do que personalíssimas. sendo possível que cada partido inscreva um candidato por distrito. visa-se trabalhar em prol da lista. pois faz com que os partidos mantenham sua ideologia. que possui ordem definida pelo partido. o partido precisa atingir um percentual de 5% de representação nacional para poder assumir cadeiras. o que seria o elo da população local com os demais governantes eleitos pelo sistema proporcional. Nesse sentido. Os pequenos partidos podem ser beneficiados pelas sobras de cadeiras. possuem funções públicas. cria-se uma unidade partidária. por terem sido eleitos por toda a circunscrição eleitoral. pois inviabiliza as coligações políticas. portanto.2. Financiamento público de campanha Também há de se falar em favorecimento dos grandes partidos por sua influência econômica.Dentre as principais diferenças existentes entre esse modelo e o sistema eleitoral brasileiro destaca-se a divisão da circunscrição eleitoral (o Estado de Santa Catarina. decorrentes das divisões inexatas de vagas. isto é um ponto extremamente favorável. cabe apresentar uma visão mais regional dos problemas estatais. sendo estas distribuídas entre os partidos que venceram tal cláusula. sendo eleitos. 3. aos quais competem funções mais gerais. obrigando a representação do distrito. Tal pode ser superado por mecanismos eleitorais diversos como o financiamento público de campanha. apenas. A grande crítica feita a este modelo se faz por parte dos pequenos partidos. caso contrário. rege o sistema majoritário. os mais votados. mais candidatos assumirão as vagas.

. Em suma. proporcionaria o fortalecimento dos partidos que formariam uma lista de candidatos. Em paralelo. 2. Por fim. enfim. ao passo que o cidadão escolheria entre os candidatos que têm residência no seu distrito eleitoral. tem-se a relação de proximidade do candidato com os seus eleitores. de uma só vez. mediante lista fechada. muitos questionamentos vêm à tona: Quem estará por trás do partido? Quem o financia? Quais os seus interesses ao fazê-lo? O financiamento público de campanha apresenta-se como a melhor alternativa para solucionar esta dúvida. 2004. sobretudo. propiciando. Em segundo lugar. pode resolver. sua implementação deve ser acompanhada de um repensar sobre o nosso sistema partidário e. o fortalecimento dos partidos políticos. Primeiramente. o nosso sistema de governo. CONCLUSÕES A adoção do sistema distrital misto. ed. três dos problemas gravíssimos inerentes ao sistema misto majoritário e proporcional. Orides. fortalecendo um aspecto preponderante na representação democrática. a extinção das coligações políticas. 4. já que é capaz de garantir a igualdade de condições entre os candidatos. bastando para isso que se estabeleçam critérios para sua concessão e que haja uma intensa fiscalização sobre tais recursos. 5. e não a pessoalidade. valoriza-se a representatividade. Através dele. conclui-se que o sistema distrital misto apresenta-se como a melhor alternativa e possível solução para a crise de representatividade que experimentamos atualmente. propiciando a manutenção das ideologias partidárias e reafirmando a força do partido perante a sociedade. há maiores garantias de que as ideologias serão mantidas. Rio de Janeiro: Lumen Juris. de acordo com a sua afinidade ideológica.a igualdade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MEZZAROBA. Introdução ao Direito Partidário Brasileiro. ao extinguir-se a disputa entre candidatos de um mesmo partido e ao eliminarem-se as coligações políticas. em detrimento da personalização do voto. da mesma forma em que.

s p . Rodrigo. José Afonso da. Fabiano. 2005. . AIACHE CORDEIRO.a l . 25. CIAMBRA. a 1 c 2 2 5 b 7 1 1 5 c 7 1 e 2 1 9 8 9 d d 1 0 8 5 0 0 4 1 c a / ?vgnextoid=f6b3657e439f7110VgnVCM100000590014acRCRD&vgnextfmt=secondVi ew&id=982b11f2af7fa210VgnVCM100000600014ac____>.asp?id_dh=1363>.org. Acesso em: 20 de novembro de 2011. Disponível em: <http://www.. 10 de setembro de 2010. São Paulo: Malheiros. Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.b r /p o r ta l /s i te / In te r n e t /m e n u i t e m .br/v2/dhall.SILVA. Disponível em: <h t tp : / /www. Curso de Direito Constitucional Positivo. Acesso em: 20 de novembro de 2011. ed.jurisway. O voto majoritário e o voto proporcional. Sistemas partidários e sistemas eleitorais.g o v . Da Redação.

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