O CONTO DO MOLEIRO

Seguem-se aqui as palavras entre o Albergueiro e o Moleiro.

Quando o Cavaleiro acabou de contar a sua história, não havia jovem ou velho, em toda a comitiva, que não a proclamasse uma narrativa nobre e digna de ser conservada na memória, do agrado principalmente das pessoas requintadas. Nosso Albergueiro riu e praguejou: “Que eu me dane, mas a coisa está indo que é uma beleza! E agora que abriram a fivela da mala, vamos ver quem vai contar a história seguinte; pois não há dúvida de que a brincadeira começou muito bem. Senhor Monge, conte-nos agora, se puder, algo para pagar a história do Cavaleiro.” O Moleiro, que estava pálido de bêbado e mal conseguia equilibrar-se em cima do cavalo, não se mostrava disposto a tirar o chapéu, ou o capuz, para fazer cortesia a quem quer que fosse. Assim, com voz de Pilatos no teatro, pôs-se a gritar, jurando pelos braços, pelo sangue e pelos ossos de Jesus: “Eu conheço uma história que vem a calhar para a ocasião, e é com ela que vou pagar o conto do Cavaleiro.” Nosso Albergueiro, percebendo que ele tomara uma bebedeira de cerveja, disse: “Devagar aí, Robin, meu querido irmão. Alguém melhor que você é quem vai contar primeiro. Calma! Vamos fazer as coisas direito.” “Por Deus”, berrou o outro, “isso é que não! Ou falo agora mesmo, ou vou-me embora.” Respondeu o Albergueiro: “Diabos, pois que fale! Você não passa de um tolo; não está certo da cabeça.” “Muito bem”, disse o Moleiro, “agora escutem todos! Mas antes devo declarar que estou bêbado... Sei disso pelo som de minha voz. Portanto, peço-lhes que, se por acaso eu falar ou disser qualquer coisa imprópria, deixem isso por conta da cerveja de Southwark. “Vou narrar-lhes a história e a vida de um carpinteiro e de sua mulher, e como um estudante fez aquele artesão de bobo.” Nesse ponto, o Feitor o interrompeu: “Feche essa matraca, esqueça as suas obscenidades de bêbado libertino! Além de grande besteira, é pecado ofender ou difamar um homem e manchar a reputação das mulheres. Há muitas outras coisas sobre o que falar.” Imediatamente, o bêbado do Moleiro retrucou: “Oswald, meu caro irmão, só quem não tem mulher não pode ficar cornudo. Não estou dizendo com isso que você seja um, mesmo

mas cuja inclinação era toda para a astrologia. Então. para que levar a sério uma simples brincadeira? Aqui inicia o Moleiro o seu Conto. bem como à moral e à santidade. tanto assim que. não culpem a mim. e isso ninguém ignora. Aqui termina o prólogo. e agia sempre com esperteza e discrição. O mesmo se pode dizer do Feitor. . depois. a culpa não será minha. Um marido não deve querer saber nem os segredos de Deus. Vivia antigamente em Oxford um camarada rico. Lamento ter que reproduzi-la aqui. Além disso. de assuntos históricos concernentes à fidalguia. – entre muitos outros mais. escondendo-se atrás de uma aparência delicada de moça. quem não desejar ouvi-la. peço às pessoas mais refinadas que. o astrolábio.porque há muitas mulheres boas. de fazer prognósticos para saber quando iria chover ou fazer seca. mas. ou o que iria acontecer com referência a muitas coisas. eu também tenho mulher. nem os de sua mulher. Vivia à cata de prazeres e aventuras amorosas. e as pedras de seu ábaco jaziam espalhados em prateleiras junto à cabeceira de sua cama. grandes e pequenos. necessário ao exercício de sua arte. Basta que tenha a seu dispor aquilo de que precisa. tudo o que tem a fazer é virar a página e escolher alguma outra narrativa. contando a sua história indecente como bem entendeu. assim como você. graciosamente enfeitado com plantinhas aromáticas. – umas mil para cada uma que não presta. Se vocês escolherem mal. Por isso. pelos touros do meu arado. Esse estudante era conhecido como o “belo Nicholas”. quando perguntado em certas horas. que aceitava pensionistas em casa. eu é que não vou ficar imaginando mais coisas do que convém e achar que tenho cornos. por que ficar tão furioso com minha história? Por Deus. é melhor não indagar. quanto ao resto. Com ele morava um estudante pobre. ele próprio tinha o perfume da raiz do alcaçuz ou da zedoária. porque senão estaria falseando uma parte de minha matéria. apenas repito os contos de todos eles.” Tudo o que posso acrescentar é que esse Moleiro não se calou em consideração por ninguém. não atribuam qualquer propósito maldoso a meu relato. – eu nem poderia dizer todas. até você sabe disso. aliás. Estejam de sobreaviso. – e ambos só sabiam falar de coisas obscenas. sem companhia alguma. carpinteiro de profissão. longas e breves. Tinha na hospedaria um quarto só para si. prefiro acreditar que não. que fizera o curso de artes. O Moleiro é um crápula. pelo amor de Deus. bons ou ruins. por meio de cálculos. Pelo contrário. era capaz. Assim sendo. Há de encontrar diversas. Seu Almagesto e os seus demais livros. A menos que esteja louco.

Mas. tendo caído na armadilha. Usava um cinto com debruns de seda. um avental branquinho como o leite da manhã. desconhecia Dionísio Catão*. não fazia muito. – capaz de imaginar tão graciosa bonequinha. casara-se. Era ciumento. graças à ajuda dos amigos e ao que ele próprio conseguia apurar. com uma mulher que ele amava mais que a própria vida. e. com seu corpo pequeno e esbelto de doninha. e nisso. ou como pilha de maçãs por sobre o feno ou urze. digna de ser levada para a cama por um fidalgo ou desposada por um rico lavrador. seus olhos eram maliciosos. como era velho. tinha medo de ser corneado. tanto dentro quanto fora. Os homens devem procurar sempre alguém nas mesmas condições. ou moça igual. Ela era mais bonita de se ver do que a pereira nova. Era irrequieta como um potro brincalhão. Quanto ao carpinteiro. Pendia-lhe da cintura uma bolsa de couro. deu-se o caso que um dia o belo Nicholas começou a rir e a brincar com a jovem esposa. atada no alto. e a fita larga nos cabelos. na frente e atrás. sem dúvida. e que tinha dezoito anos de idade. e mais suave do que a lã do cordeirinho. sob duas sobrancelhas depiladas. Subiam-lhe pelas pernas as tiras com que atava os seus sapatos. Cantava o Angelus ad Virginem e depois o Hino do Rei. Saltava e brincava como o cabritinho ou o bezerro atrás da mãe. pois. comprida como um mastro e reta como uma flecha. que conviver com essa preocupação. arqueadas e negras como o abrunho. e quem o ouvia. Sua boca era gostosa como cerveja doce ou hidromel. se . Branca também era a camisa. e sobre ele descansava um alegre saltério. – mesmo que o tenha percorrido de alto a baixo. furtivamente. Sua tez luzia mais que o “nobre” recém-cunhado na Torre de Londres. era forte e vivo como o da andorinha quando pousa num celeiro. freqüentemente abençoava sua garganta melodiosa. meu senhor. E assim passava o seu tempo esse gentil estudante. Era uma primavera ou cardamina. também era de seda. em Oseney (os estudantes são muito espertos e sabidos). Por mais sábio que seja. dado que a juventude e a idade muitas vezes entram em atrito. preso em torno dos quadris. e ela fogosa e jovem. A jovem esposa era encantadora. de seda preta como carvão. aproveitando-se de que o marido estava fora. tinha.O armário para as roupas era revestido de frisa escarlate. mantendo-a sob sete chaves. e meu senhor ali. como tantos outros. não há homem neste mundo. Quanto a seu canto. instrumento que tocava todas as noites tão docemente que o quarto inteiro ressoava com sua música. todo cheio de babados. Então. dizendo: “Meu amor. com borlas de seda e contas de latão. Fechava-lhe o decote um broche grande como a protuberância no centro dos escudos. Não sendo instruído. E. apanhou-a pela boceta. com uma gola bordada. As trenas da touca branca combinavam com a gola. que recomendava o casamento entre iguais.

acompanhando-se com a guitarra. que ele não visitasse em suas estripulias. se você não tiver muita paciência e muita discrição. barbear. era um pouco implicante em matéria de peidos. desviando rapidamente a cabeça. porém. – que Deus me ajude. Não havia na cidade cervejaria ou taverna.” “Ora. e.” E assim. deixe disso. de fato. Ora. agarrando-a firme pelos quadris. ouça-me Deus! Além de tudo. que lembravam as janelas da igreja de São Paulo. tendo jurado isso. – vou morrer!” Ela. senão. sabia fazer sangrias. “por certo teria desperdiçado o seu tempo o estudante que não fosse capaz de enganar a um carpinteiro. jurando-lhe por Santo Tomás de Kent que estaria a seu dispor assim que surgisse a primeira oportunidade. Nicholas. explicou ela. Com belas calças de cor escarlate. tenho certeza de que será o meu fim. esparramando-se atrás como um leque grande e largo. dentro de uma túnica azul-claro muito bonita. tinha o brilho do ouro. após afagar muitas vezes as coxas da jovem e após beija-la com ardor. respondeu: “Eu é que não vou beijar você! Ora. sapateava e dançava de vinte modos diferentes. cortar cabelo. sussurrou: “Meu bem. com alegres garçonetes. esta minha paixão vai me matar. E Nicholas. foi quem naquele dia santo carregou o turíbulo. Seu cabelo encaracolado. inteiramente recoberta de rendas aplicadas. saltou como o potro que está no cercadinho para ser ferrado. . alva como um ramo em. Pouco depois aconteceu que. também tocava canções num pequeno alaúde. tão divertido e brincalhão. como era prática naquele tempo em Oxford. deixe disso. retorquiu Nicholas. atirando as pernas para a frente e para trás. às vezes. um rapaz muito jovial. Mas. Seus sapatos estavam cheios de aberturas rendilhadas. e tinha uma língua perigosa. eles combinaram e prometeram aguardar a ocasião apropriada. apanhou o seu saltério e se pôs a tocá-lo e a cantar alegremente. repartido ao meio numa linha direita e igual. ou começo a gritar socorro. cantava com voz aguda e poderosa. Era. tendo chegado um dia santo. acudam. pode deixar”. Sua pele era rosada. havia nessa igreja um sacristão de nome Absalon. Luzia-lhe a testa como o próprio dia. “Meu marido”. seus olhos. plena florescência. E falou tão bonito e fez tantas promessas que ela afinal acabou cedendo. Esse Absalon. de tanto que a lavara ao terminar o seu trabalho. É preciso agir com o máximo cuidado neste caso. a boa mulher foi à igreja da paróquia cumprir os seus deveres cristãos. para dizer a verdade. “é tão ciumento que. andava sempre bem arrumadinho. e. e redigir escrituras de terras e recibos. cinzentos como o ganso. venha comigo agora mesmo.” Em seguida. Sobre ela vestia alegre sobrepeliz. Faça-me o favor de não pôr mais as mãos em mim!” Nicholas passou então a implorar piedade. como eu já disse.você não me der o que desejo.

Por isso. por Deus. e logo se virou para a mulher: “Quê? Alison. ao mesmo tempo. se ela fosse um ratinho e ele um gato. quem por pancadas. que recusava os donativos das senhoras para não ferir (dizia) o cavalheirismo. se tudo corresse bem.jogando incenso nas mulheres da paróquia. e esqueça Absalon. entoou com voz doce e gentil. e bolos chiando de quentes. e. Pareceu-lhe que só de olhar para ela já gozava o paraíso. Entretanto. que está sempre ao redor dela. não importa o que o outro faça. oh dama. vá adiante. quem por afagos. com seus lamentos e seus cantos cheios de “ais”! E foi o que se deu num sábado. Volta o teu pensamento para mim. E. de nada lhe serve tudo isso: ela ama tanto o belo Nicholas que. Uma vez. – principalmente sobre a mulher do carpinteiro. Naquela noite a lua brilhava esplendorosa. Eu até diria que. canta e gorjeia como um rouxinol. quando. até que chegou à casa do carpinteiro logo após cantar o galo. feliz e enamorado. para mostrar sua agilidade e seu talento. transformando em zombaria o que ele faz com seriedade. manda-lhe vinho temperado com especiarias. este alegre Absalon tinha tal espírito de galanteador. é muito certo o provérbio que diz: “Longe dos olhos. de tanto que era formosa e doce e provocante. o que se pode desejar melhor que o ótimo? Dia após dia. perde o lugar para Nicholas. escutou a música. o belo Nicholas e Alison acertaram que poriam em prática um estratagema para enganar aquele marido ciumento e simplório. a tal ponto que já começa a desesperar-se. John. você não está ouvindo o Absalon. longe do coração”. e. jura tornar-se o seu criado. a cantar sob a janela de nosso quarto?” Respondeu ela ao marido: “Sim. pularia em cima dela ali mesmo. estou ouvindo. chega a ofertar-lhe dinheiro*. representa Herodes no palco levantado. Pois. e Absalon tomou de sua guitarra com a intenção de despertar suas amadas. atirava sobre elas muitos olhares amorosos. sim. É como se ela visse em Absalon apenas um macaquinho.” O carpinteiro acordou. por mais que Absalon delire ou se enfureça. tendo outra vez o carpinteiro viajado para Oseney. solicita-a por intermediários e por procuração. hidromel. Afinal. Já não dorme noite e dia.” E assim caminham as coisas. ela dormiria a noite . cerveja aromatizada. como ela era da cidade. E lá se foi. for assim. a paga para os seus esforços sempre há de ser o desprezo. e que. o alegre Absalon vem cortejá-la com insistência. belo Nicholas. postando-se sob o peitoril de uma janela. penteia a cabeleira esparramada e se enfeita. estando longe de sua vista. bem afinada ao som de sua guitarra: “Se teu querer. Este sacristão. Com efeito. Pois há quem se deixe conquistar por riquezas.

e finalmente conseguiu vislumbrá-lo. não dera resposta alguma. Apesar de tudo. Nicholas. O criado desceu a escada aos pulos. olhe como estão as coisas e venha correndo contar-me tudo!” O criado subiu as escadas resolutamente. porque a criada o chamara aos gritos. até domingo. Logo em seguida. Isso ele não viu. que não sabia onde estava. e logo contou ao patrão em que estado havia encontrado o homem. juro por Cristo-Rei! Robin. este mundo é tão imprevisível! Hoje mesmo vi levarem para a igreja um cadáver que ainda na última segunda-feira estava trabalhando!” “Vá até lá”. imaginando o que estaria acontecendo. sem dizer outras palavras. Sim.inteira em seus braços. quando caiu num buraco margoso. arranjeme uma vara para eu forçar a porta por baixo enquanto você a levanta. . O carpinteiro começou a persignar-se e foi dizendo: “Que Santa Fridesvida nos proteja! Uma pessoa nunca sabe o que o futuro lhe reserva. Queira Deus que ele não morra de repente! Na verdade. que só conhece o próprio credo! Houve um outro estudante de astromia que teve o mesmo destino: saiu pelo campo para olhar as estrelas e ver o que estava para acontecer. pedindo à jovem que dissesse a seu marido. receio que Nicholas não esteja passando bem. O tolo do carpinteiro ficou muito preocupado com Nicholas. espiou por ali. caso perguntasse por ele. ordenou ele a um criado. quando o sol se recolheu. ou bata com uma pedra. por Santo Tomás. Assim se passaram as coisas naquele sábado. estava com o olhar fixo no alto. Nicholas. apesar de tudo. sorrateiramente levou para o seu quarto comida e bebida para um dia ou dois. não pretendendo perder mais tempo. que o gato usava para entrar e sair. parado. “Chame à porta. eu tenho muita pena do belo Nicholas. comendo. deteve-se diante da porta do quarto. Este homem deve estar sofrendo de algum tipo de loucura ou angústia. Descobriu então um buraco. chamou e bateu como louco: “Ei! Que se passa? Que faz aí. abençoado é o ignorante. Ele vai levar um bom pito por causa destes seus estudos. como era desejo dele e também dela. tudo por causa de sua ‘astromia’. Sempre achei que essa história tinha que acabar assim! A gente não pode querer saber os desígnios de Deus. senhor Nicholas? Como pode dormir o dia inteiro?” Foi tudo inútil: não ouviu sequer uma palavra. e sou eu que vou dá-lo. numa tábua mais embaixo. que achava que devia estar doente. E Nicholas permaneceu quietinho em seu quarto. e disse: “Por Santo Tomás. bebendo ou distraindo-se como julgou melhor. pois não pusera os olhos nele o dia todo. como se perscrutasse a lua nova. e ele.

que agora. O carpinteiro.” Respondeu Nicholas: “Traga-me algo para beber. nunca fui mexeriqueiro. porque. comparado com ela. prosseguiu ele.” “Nesse caso. que era um rapaz forte como exigia a ocasião. E se você não guardá-lo para si. por sua honra. na próxima segunda-feira. Guardai-nos contra o espírito maldito! Que o Padre-Nosso Branco nos dê paz. fez o carpinteiro sentar-se a seu lado. segurou-o com força pelos ombros e o sacudiu violentamente. Nicholas? Que é isso agora? Vamos! Olhe para mim! Acorde. e logo pôs abaixo a porta. Deus me livre. Descobri. outra vez o mundo todo terá que ser destruído?” Atalhou o carpinteiro: “O que você está dizendo? Ora. Nicholas continuou imóvel como uma pedra. pelo sagrado sangue de Jesus”. Pode falar o que quiser. sempre com o olhar perdido no alto. quero falar-lhe em particular de uma coisa que interessa a você e a mim. o castigo que vai sofrer será a loucura. “Não costumo dar com a língua nos dentes e. julgando-o fora de si. e disse: “John. e. como nós que trabalhamos. Depois. Seu criado. O Mundo”. você vai jurar-me aqui. ainda que eu mesmo o diga. ao mesmo tempo em que berrava: “Que é isso. pense em Deus. “em menos de . e pense na paixão de Cristo! Eu vou benzer você contra duendes e maus espíritos. Oh. “não vou mentir para você. depois de cada qual haver bebido a sua parte. você estará perdido.” “Não. não vou contar nada para nenhuma mulher ou criança... e voltou trazendo uma jarra grande. – pois é um segredo de Cristo o que lhe vou contar.” E foi postarse diante da entrada do quarto. Nicholas fechou bem a porta. irmã de São Pedro. um pouco antes do amanhecer. por meio de minha astrologia. continuou Nicholas. É algo que não pretendo contar para mais ninguém. o dilúvio de Noé não chegou nem à metade. John”. enquanto examinava a lua nova. agarrou sem demora o ferrolho.Aposto que desta vez nós o arrancamos dos tais estudos. se trair-me. Juro por aquele contra quem o inferno não pôde prevalecer. com um quarto de galão de cerveja das mais fortes. exclamou o simplório. exclamando: “Ai. onde estarás?” Depois de longo tempo. o belo Nicholas começou a suspirar profundamente.” O carpinteiro desceu. vai cair uma chuva tão pesada e violenta que. meu caro e estimado hospedeiro.” E imediatamente rezou o esconjuro noturno* nos quatro cantos da casa e no batente da porta que dava para a rua: “Jesus Cristo e também São Benedito. que não há de revelar este segredo para pessoa alguma.

– depois de ter feito um buraco no alto da cumeeira. porém. replicou o belo Nicholas. depois de ter arrumado dentro delas os alimentos. E você vai responder-me: ‘Olá. – e depois de ter cessado a grande chuva. não se deve perder tempo com palavreado e com demoras. Nunca ouviu falar de como Noé se salvou. tão terrível será a tempestade. e. Não se preocupe com o resto! As águas irão baixar e desaparecer no meio da manhã do dia seguinte.. num assunto urgente. Já posso vê-lo. para que ninguém descubra os nossos preparativos. e a humanidade inteira vai se afogar e morrer. ao ser avisado por Nosso Senhor de que o mundo inteiro se perderia sob as águas?” “Sim”. pendure-as bem alto no teto. nem sua criada Gill. Por isso.. Se estiver bom do juízo. minha mulher! Ela também vai se afogar? Oh.” O carpinteiro apavorou-se: “Oh. Mas que sejam grandes. Robin. Então você já sabe o que convém fazer. Traga depressa a esta casa dornas ou tinas de madeira para cada um de nós. “Teve tanto trabalho em levar sua mulher* para dentro da arca que aposto como teria dado todas as suas ovelhas negras para que ela pudesse ter um barco só para si. há de bastar-lhe ter recebido uma graça tão grande quanto a de Noé. Nicholas! Bom dia. hei de salvar a ela. E quando tiver arranjado aquelas três tinas (para ela. Depois de ter feito tudo como eu disse. a você e a mim. que falava sempre a verdade: ‘Siga os conselhos e nunca se arrependerá’. não perca tempo. Não poderei salvá-los. – e também machadinhas. Depois perguntou: “Não há nenhum remédio para essa desgraça?” “Claro que sim. John! Podem sorrir. Dentro delas coloque alimentos para um dia.” “E também não ouviu falar das dificuldades de Noé com os que o acompanhavam?” insistiu Nicholas. Alison! Ei. pois. mesmo sem velas ou mastros. então aposto como você há de flutuar feliz como a patinha branca atrás do pato. o dilúvio está passando’. não sabe? A situação exige rapidez. amanheceu!’ Então seremos donos de nossas vidas e de . não vou contar os segredos do Senhor. Elas nos servirão de barcos. não tenha receio. Agora vá. pois. ainda que insista. Aí eu vou chamá-lo: ‘Ei. se você se deixar guiar por bons conselhos. garanto-lhe que. para partimos as cordas e libertarmos as tinas quando as águas subirem. por Deus”. Nem me pergunte por que.. O que você não deve é seguir a própria cabeça. Quanto a sua mulher. como dizia Salomão. não deverá saber disso. um dia apenas. para você e para mim). que vou salvá-la... murmurou o carpinteiro. “há muito tempo atrás. o seu criado. “Basta orientar-se pela ciência e por conselhos.uma hora ficará inundado.. minha Alison!” E quase desmaiou de dor. – para que possamos passar livremente por sobre o estábulo em direção ao jardim.

e ajude a nos salvar.” O otário do carpinteiro foi então cuidar de suas tarefas. e as despacha secretamente para casa. Contudo. então corra. Antes. Vá! Deus o proteja. legítima esposa.. Chora. subiremos até as nossas tinas e. Com as próprias mãos fez três escadas. Amanhã à noite. tão profundas podem ser as impressões. ou talvez um pouco mais tarde. como Noé e sua mulher. São essas as recomendações. de se entregar a esses arranjos. Em seguida. arrumou tudo como devia. apenas se deve rezar. para o acesso até as tinas presas às vigas. desespera-se. trancou a porta da rua sem acender luz de vela. abasteceu a tina e as dornas com pão. e mais uma dorna e mais outra. exclamando: “Ai. Sou sua fiel. com os degraus e as laterais. e salve as nossas vidas.” Oh... quando todos estiverem dormindo. Depois vai. grunhe e suspira sem parar. Ajude-nos a escapar. nem apelos nem gritos. Não tenho tempo para alongar este sermão. geme. que coisa poderosa é o sentimento! Há quem morre por causa da imaginação. Agora vá fazer o que é preciso. enviou seu criado e sua criada para Londres. e lá se foram os três pelas escadas acima. O carpinteiro fez as suas orações e então calou-se. Embora ela estivesse a par de tudo e soubesse melhor do que ele todo o propósito da artimanha. depois rezou mais um pouco e novamente se calou. senão morremos todos. Nicholas quebrou o silêncio: “Agora. onde as pendura no teto. na hora do toque de cobrir o fogo. porém. E na segunda-feira. por simples trocas de olhares. com uma incumbência qualquer. Dizem que para bom entendedor meia palavra basta. não mais se diga uma palavra.. aguardaremos a graça do Senhor... arranja uma tina em forma de amassadeira.. O carpinteiro ingênuo começa a tremer: parece ter ante os olhos o dilúvio de Noé. meu maridinho adorado. pois esta é a preciosa determinação de Deus. sentados dentro delas. o suficiente para um dia. cansado de . queijo e uma jarra de boa cerveja. para que não haja pecado entre vocês dois. Você é bom entendedor: não preciso dizer mais nada. comportou-se como se fosse morrer. Vá. quando a noite se aproximava. é o que lhe peço. murmurando a todo instante “ai de mim!” e “que desgraça!” Também confidenciou a história a sua mulher. e “psiu!” disse Alison. na noite em que subirmos a bordo. Ficaram sentados quietos um bom pedaço. rolando como os vagalhões do oceano para afogar Alison.. se não por atos. à espera da chuva e atento para ouvi-la. vá logo. psiu!” E “psiu!” disse John.todo o mundo. um Padre-Nosso e.. Outra coisa: pendure a sua tina e a de sua mulher bem afastadas uma da outra. a sua queridinha. Mas tenho que preveni-lo de uma coisa: cuidado para que.

por mero acaso. Absalon. algum consolo acho que vou obter. pensou: “Esta noite tenho que ficar acordado. E. Ou talvez esteja em casa. Por isso. Afinal. todo atarefado em se vestir com elegância. minha boca coçou o dia inteiro. Saindo com ele da igreja. e venha falar comigo. Em seguida.” Ao canto do primeiro galo. Absalon. Por minha alma. Então vou dizer a Alison toda a minha paixão. todo aceso e feliz. Você nem se preocupa com meu sofrimento. Antes de tudo. também sonhei que estava numa festa. foram ambos para a cama. O fato é que não sei dizer com certeza onde se encontra. deu alguns gemidos agoniados.tanto trabalho. E lá houve diversão e melodia. Por minha fé. a fim de se tornar mais atraente ainda. minha canela perfumada? Acorde. caiu num sono profundo. aquele sacristão galanteador. até que o sino dos laudes tocou e os frades na capela começaram a cantar. depois. encontrou-se com um membro da abadia local. caminhou até a casa do carpinteiro. porém. lhe tocava o peito) e deu alguns tossidos abafados: “O que você está fazendo. e isso no mínimo é sinal de beijos. a cama do carpinteiro. o carpinteiro. E lá. Desde sábado que não vem aqui trabalhar. colocou sob a língua o raminho de uma planta que dava sorte no amor. e depois passarei acordado o resto da noite e vou me divertir. devido à má posição da cabeça. Além de tudo. Sentindo-se ainda oprimido. dirigiu-se à janela do quarto (que. minha doce Alison. já estava de pé.” Absalon. a quem perguntou discretamente a respeito de John. de tão baixa. pois a verdade é que hoje não o vi passar pela porta de sua casa desde que o dia raiou. meu favo de mel. – mastigou um grão de cardamomo e alcaçuz para perfumar o hálito. respondeu-lhe o outro: “Não sei. meu lindo passarinho. Enquanto esses fatos todos se passavam. passou a roncar. nem pensa . assim que o galo cantar vou bater de leve àquela janela baixa de seu quarto. seguido silenciosamente por Alison. na segunda-feira também fora com alguns amigos a Oseney para espairecer e divertir-se. o alegre conquistador. meu amor. sem dizer palavra. que vivia atormentado pela paixão. – antes mesmo de pentear a cabeleira. agora vou tratar de dormir uma hora ou duas. E lá ficaram Alison e Nicholas nos labores da alegria e do prazer. Logo Nicholas deslizou escada abaixo. pois ele costumava ir buscar madeira e demorar-se um ou dois dias na granja. e tenho certeza de que pelo menos conseguirei beijá-la. Acho que nosso abade o mandou buscar madeira.

disse ela. Estou comendo tão pouco quanto uma donzela. sentira uma coisa áspera e cabeluda. “como o amor sincero é maltratado. “Que Deus me ajude. com pó. que ainda teve tempo de ouvir tudo.. Boba de mim se não amasse. acabe logo com isso. e sua mercê. É tão grande. “que eu já vou. com areia. garantiu o sacristão. pois ando balindo como o cordeirinho atrás da teta.” O ingênuo Absalon. antes que os vizinhos vejam. com pano. Sua graça. meu bem. minha paixão. quem limpa a boca. “Então prepare-se”. E Absalon foi-se afastando com passos melancólicos. “Claro. antes que percebesse. o que é que eu fiz:?” “Ah ah ah”. que meu lamento é igual ao da fiel pombinha. “Uma barba. não quero saber de beijoquinhas. respondeu a jovem. Gritou então: “Oh. Então. que não enxergava nada. deu-lhe. E não é de se admirar que eu chore e sue por você. com . meu amor. pois depois disso espero que muito mais há de vir.” Absalon enxugou os lábios. ou como breu. no entanto. – com vinte diabos!” “Ai..” “Mas depois você vai-se embora?” perguntou ela. que você vai morrer de rir. Absalon. começou a morder os lábios de raiva e a dizer consigo mesmo: “Você vai me pagar!” Quem agora esfrega. Absalon. E deixe-me dormir em paz. “Pelo santo corpo de Deus. Por isso. foi a resposta de Alison. meu bem”. pobre de mim”. me dê pelo menos um beijo. A noite estava escura como carvão. um ardoroso beijo bem no cu. Por Jesus. caia fora. oh meu gentil passarinho!” Ela abriu a janela sem tardança. meu Deus.” Lá fora Absalon ajoelhou-se e murmurou: “Tudo está indo às mil ‘Maravilhas.” E cochichou para Nicholas: “Agora preste atenção.em mim.” “Saia daí. grande idiota”. com palha. que por você estou sempre a derramar o meu suor. uma barba!” gargalhava o belo Nicholas. pelo amor de Jesus e por amor a mim. batendo-lhe com força a janela na cara. essa foi ótima. dizendo: “Vamos. já que não posso ter coisa melhor. amo um outro bem melhor do que você. achando que alguma coisa estava errada. Sabia que as mulheres não têm barba. e ela pôs a bunda para fora da janela. resmungou Absalon. ou jogo-lhe uma pedra. Logo pulou para trás.

” E apanhando a barra de ferro pela ponta que estava fria. Primeiro tossiu. Conto-lhe tudo outra vez. como fizera anteriormente. que. assim como sou um bom ferreiro. Vim lhe trazer um anel de ouro. e . por que naquela hora não virei o rosto?” Seu amor ardente arrefecera e se apagara. depois bateu. a gritar a todo instante “ai de mim”? “Mesmo que eu tenha que entregar minha alma a Satanás”. e. Com passos ligeiros foi-se pela rua até a oficina de ferreiro de Mestre Gervase. de que Gervase sequer suspeitava. Será seu. que tinha se levantado para ir mijar.” E prosseguiu: “Ai.” “Oh não.” Gervase lhe respondeu: “Claro. especialista em forjar peças de arado. por Deus. estava. “é o seu Absalon. lhe andavam pela cabeça. estava curado de sua doença. asseguro-lhe. E chorava como criança que apanhou. naquele instante.” “O quê? Absalon? Pela cruz de Cristo.. Logo ouviu a voz de Alison: “Quem está batendo aí? Aposto como é um ladrão.” O outro fez-se de surdo diante dessas caçoadas.” “Quem está aí?” “Sou eu. Absalon. senão Absalon.” Nicholas. Pela salvação de minha alma. pelo inimigo de Cristo. Apenas disse: “Meu caro amigo. minha adorada. ouviu essa conversa ao passar por ali. quem o deu para mim foi minha própria mãe. rosnou ele. achando que todas as amantes do mundo não valiam juntas um pé de agrião. deixe estar. acordado tão cedo?! Bendito seja Deus. Por São Neot. Gervase.. Não respondeu palavra.lascas. Mas. meu doce amor”. e todo trabalhado. depressa. passou porta afora de mansinho e foi direto à janela do carpinteiro. você sabe muito bem aonde quero chegar. o que está acontecendo? Aposto como alguma bela rapariga é quem anda lhe roubando o sossego. disse ele. Absalon bateu de leve: “Abra. nem que fosse ouro ou uma sacola com moedas sem conta. a partir daquele beijo no cu. que haveria de emprestar-lha. ocupado em afiar relhas e segas. será que poderia emprestar-me esta sega em brasa aqui no fogo? Preciso dela para um servicinho. prometo que logo a devolvo. se você me der um beijo. pois outras coisas. o que vai fazer com ela?” Absalon replicou: “Quanto a isso. “prefiro vingar tal afronta a ser dono de toda esta cidade. É de grande valor.

imaginou: “Ai de mim. sentouse na tina com o tronco ereto. das nádegas até às coxas. diziam: “É. em seu delírio fantasioso. E assim chega ao fim esta história. cortou a corda com a machadinha. meu gentil passarinho. e Nicholas queimou a bunda. Mesmo os mais esclarecidos. ao ouvir que alguém gritava “água” desesperadamente. branco e pálido.” Em resposta. e Absalon lhe beijou o olho de baixo. e despencou.” E todo o mundo ria daquele grande rebuliço. o sacristão. pedindo a eles. grandes e pequenos. não consigo ver onde você está. pelo amor de Deus!” Nisso o carpinteiro despertou. e tratavam o seu infortúnio como se fosse piada. A sega em brasa queimou tanto o seu traseiro. Mas assim mesmo teve que engolir suas misérias. e. que ele pensou que fosse morrer de dor naquele instante.achou que poderia pregar-lhe uma peça ainda maior: desta vez faria Absalon beijar seu próprio cu. que também subissem lá e lhe fizessem companhia. Não parou para vender nem o pão nem a cerveja até estatelar-se no chão. Os vizinhos acorreram todos. Mas Absalon estava pronto com o ferro quente em riste. Então pôs-se a gritar como louco: “Socorro! Água! Água! Socorro. repeliam-no com maldições e grandes pragas. gritando “ai” e “socorro” pela rua. Absalon. E lá se foi bem um palmo de pele em toda a volta. pois logo que começou a falar foi prontamente desmentido por Alison e pelo belo Nicholas: contaram os dois a todos que ele havia enlouquecido. Alison e Nicholas saíram em disparada. comeram a mulher do carpinteiro. irmão! O homem ficou doido. e a cidade inteira o considerou louco varrido. porque na queda havia quebrado um braço. comprara três tinas e as pendurara no teto. abriu sem perda de tempo a janela e logo pôs todo o traseiro para fora. As pessoas olhavam e examinavam o teto. ninguém lhe dava ouvidos. As palavras do carpinteiro não faziam diferença: tudo era inútil. Assim. pelo amor de Deus. postando-se em torno do homem que jazia sem sentidos. apesar de toda a vigilância e todo o ciúme. E lá ficou desmaiado. sussurrou: “Fale. uma lufada que quase o deixou cego. e que ficara tão obcecado pelo dilúvio de “Noel” que. e Deus nos abençoe a todos! . e atingiu Nicholas em pleno olho do cu. Pelo contrário. Nicholas soltou um peido forte como o trovão. Dessa forma. quando conversavam entre si. aí vem o dilúvio de Noel!” Ato contínuo. O povo então começou a rir de sua extravagância.