Ricoeur, P. O si-mesmo como um outro.

Sexto Estudo O SI E A IDENTIDADE NARRATIVA

Antropologia Filosófica Professora Drª. Paula Ponce Leão

Apresentação em 11/12/07 Grupo: 14883 – Sónia Barroso 14966 – Janaina Ferreira 15271 – Ana Nunes

Turma 8 INTRODUÇÃO O nosso trabalho diz respeito ao Sexto estudo da obra O si-mesmo como um outro. tocado nesta questão. A identidade narrativa e a dialéctica da ipseidade e da mesmidade 2 . aquando da sua obra Temps et récit. Na parte introdutória do estudo. e a ética. Ricoeur propõe-se tratar a identidade narrativa em duas perspectivas: por um lado. a abordar em estudos seguintes. que considera implicitamente contida na noção de identidade narrativa. seja de uma pessoa individual. e como tentaremos mostrar. DESENVOLVIMENTO 1. completar “a investigação do si relatado. de algum modo. Vamos explicitar a noção de “identidade narrativa”.“O Si-mesmo e a Identidade Narrativa” . pela exploração das mediações que a teoria da narrativa pode operar entre a teoria da acção e a teoria moral”. “levar ao seu mais alto grau a dialéctica da mesmidade e da ipseidade”. Temos uma pré-compreensão intuitiva deste estado de coisas: não se tornam as vidas humanas mais legíveis quando são interpretadas em função das histórias que as pessoas contam a seu respeito? E estas «histórias da vida» não se tornam elas. estruturámos o desenvolvimento da nossa exposição de acordo com as referidas vertentes enunciadas pelo autor. como o próprio autor refere na conferência acima referida: “Formei então a hipótese segundo a qual a constituição da identidade narrativa. nomeadamente na parte III. e. por outro lado. porquanto é por elas que o homem dá testemunho de si próprio. Assim. de Paul Ricoeur. . era o lugar procurado [de uma] fusão entre história e ficção.as intrigas . a terceira das quatro dimensões que considera fundamentais para podermos conhecer o homem. mais inteligíveis.” O autor já tinha. Ricoeur confirma que a identidade narrativa soluciona as principais aporias da ascrição/ assignação. por sua vez. recorrendo à definição do próprio autor. quando lhes são aplicadas modelos narrativos . em 3 de Novembro de 1986: “o tipo de identidade à qual um ser humano acede graças à mediação da função narrativa. abordadas em estudos anteriores.extraídas da história e da ficção (drama ou romance)?” Ao longo do estudo. dada na conferência que pronunciou na Faculdade de Teologia da Universidade de Neuchâtel. seja de uma comunidade histórica.no qual o autor se debruça sobre a narração. sendo as outras dimensões a linguagem e a acção.

na integração na permanência no tempo daquilo que pode parecer o seu contrário. pensamos nós. por vezes. por um lado. entendendo-a como o princípio da ordem que preside à organização dos factos. põem em perigo essa identidade.Ricoeur apresenta a tese de que a natureza verdadeira da identidade narrativa só se revela na dialéctica da ipseidade e da mesmidade. propõe definir a concordância discordante – característica de toda a composição narrativa. já que a intriga opera diversas mediações – diversidade de acontcimentos/ unidade temporal da história narrada. a sua tese. A importância da intriga Na continuação da reflexão apresentada na sua obra Temps et récit. dos acontecimentos. caracterizando-a pela concorrência entre.1. componentes distintos da acção/ encadeamento da história. Desenvolve. ou seja. pela noção de síntese do heterogéneo. então. uma exigência de concordância e. 2 – como a noção de intriga. por outro. até à conclusão da narração. enquanto conexão de acontecimentos. a descontinuidade. a variabilidade. a subverter a cronologia a ponto de aboli-la. Assim. considerando a noção da identidade-mesmidade. Ricoeur refere-se a identidade no plano da intriga em termos dinâmicos. considerando que esta dialéctica representa a maior contribuição da teoria narrativa para a constituição do si. no fundo. mostrando: 1 . numa narração. no fundo. Todas essa mediações. 1. Ricoeur considera a configuração. entende por discordância as reviravoltas do acaso que fazem da intriga uma transformação normal desde uma situação inicial até uma situação terminal. a admissão de discordâncias as quais. A arte da composição narrativa que articula concordância e discordância. uma dialéctica da mesmidade e da ipseidade. ou dialécticas. pura sucessão / unidade de forma temporal – mediações que chegam. Do mesmo modo. explicitam a oposição entre a dispersão dos vários episódios narrados e o poder de 3 . para a identidade pessoal. transposta da acção – intriga da acção – para os personagens – intriga do personagem – é geradora da dialéctica do personagem que é. E explicita o que entende por concordância. a instabilidade. baseando-se em Aristóteles. a diversidade.a importância que a intriga tem. ou seja.

Ricoeur. o acontecimento frustra as expectativas criadas pelo anterior curso dos acontecimentos – porque é o inesperado. Ricoeur considera que o carácter de uma personagem se desenvolve à medida que a narração avança e considera também que as narrações são. os papéis representados pelos personagens definidos por Propp. participando ele próprio da estrutura de concordância discordante característica da intriga. assim. ou seja. que a operação narrativa desenvolve um conceito completamente original de identidade dinâmica conciliadora das categorias identidade e diversidade. a própria poiésis. Glossário da crítica contemporânea ). para ele: o homem operante e o sofredor. Revisita sumariamente como é que na teoria narrativa se explicita a correlação entre acção e personagem: Aristóteles – relação de subordinação da identidade do personagem à da história narrada. Ricoeur passa. Assim. ou seja. consideradas contrárias por Locke. “o doador”. Neste contexto. Esta esfera de entendimento enraíza já na esfera moral que abordará em estudos posteriores. “o falso herói”. de seguida. no fundo. Deste entendimento da intriga. “o mandante. a focar-se na importância da consideração da categoria narrativa do personagem – aquele que faz a acção na narrativa – desejando saber o que é que esta categoria traz para a discussão da identidade pessoal. acerca de agentes e de pacientes. Angenot. “a pessoa procurada”. para Ricoeur. narratologia contemporânea – estatuto de sujeição semiótica: as “funções” (“a acção de uma personagem definida do ponto de vista da sua significação no desenrolar da intriga”. ou nem se quer acontecer – em efeito de necessidade narrativa ou de probabilidade narrativa pelo exercício da configuração. na Morfologia do conto: “o agressor”. aplicada primeiro à acção: o personagem é também intriga. “o herói”. tal como Aristóteles analisara na tragédia grega. resulta.unificação desenvolvido pela configuração. 4 . uma vez que no centro do próprio acontecimento produz-se uma inversão do efeito de contingência – aquilo que poderia acontecer de outra maneira. o acontecimento narrativo é definido pela sua relação com a própria configuração. Como simples ocorrência. “o auxiliar”. Sustenta que a identidade do personagem se compreende por transferência para ele da operação de intriga. considera haver. o acontecimento é fonte de discordância quando surge e fonte de concordância enquanto faz avançar a história. assim. M. cf. um paradoxo da intriga.

é na narrativa que se recompõe a atribuição. 32). M. afirmando que a narrativa constitui a réplica poética que a noção de identidade narrativa traz às aporias da ascrição. pois confere ao personagem uma iniciativa – o poder de começar uma série de acontecimentos – sem que esse começo constitua um começo absoluto. por outro lado. a seu modo. a antinomia entre a ideia de começo de uma série causal e a de um encadeamento sem começo nem interrupção. mas torna-as produtivas num outro registo de linguagem. anteriormente a toda a figuração sensível. Ricoeur acaba por concluir que uma semiótica do agente (actante) e uma semiótica dos percursos narrativos se reforçam mutuamente. o da acção e o do personagem. 2 .embora os predicados psíquicos possam ser descritos fora da atribuição a uma pessoa. A este nível. M. o meio e o fim de uma acção narrada. E Ricoeur termina esta parte da sua argumentação. em português do Brasil. ou de actante em Português (do francês actant). Conforme Angenot.Refere o modelo actancial de Greimas como aquele em que a correlação entre intriga e personagem é levada ao seu nível mais elevado de radicalidade. cf. Glossário da crítica contemporânea (p. Assim sendo. 33) verificamos que este modelo consiste na seguinte distribuição: “Sujeito/ Objecto. no sentido em que a resposta às aporias não é especulativa. fala-se antes de agente. até ao ponto em que surgem como percurso do personagem e insiste em como a estrutura narrativa reúne os dois processos de intriga. para além das suas características psicológicas. uma vez que o personagem se encontra reduzido à análise das suas funções na história. mostrando no tempo a conexão entre esses pontos de vista. Os “actantes são caracterizados pela esfera das funções que preenchem”. a articulação entre intriga e personagem permite encara uma investigação virtualmente infinita no plano da pesquisa dos motivos e uma investigação em princípio finita no plano da atribuição a alguém. dando ao narrador o poder de determinar o começo. (p. Glossário da crítica contemporânea. 5 . porquê e como.narrar é dizer quem fez o quê. pois: 1 . Destinador/ Destinatário. o seu carácter. e não de personagem. Adjuvante/ Oponente”. um começo do tempo. Na sua incursão pela narratologia contemporânea. Angenot. 3 – a narrativa resolve. postula que essa união é a verdadeira resposta às aporias da ascrição.

Ricoeur vai. quando. o personagem com um carácter identificável e reidentificável como mesmo. o personagem é singular no que respeita à unidade da sua vida tida como uma totalidade temporal. ou seja casos embaraçantes de 6 . temos. distinta. passando pelo romance clássico. num extremo. assim. A dialéctica do personagem. Ricoeur passa a refutar as considerações da filosofia analítica. nomeadamente o de autores russos. temos que essa correlação corresponde à dialéctica de concordância e de discordância desenvolvida pela intriga da acção. enquanto personagem de uma narrativa. a identidade pessoal de alguém. mas sem que a identificação dos mesmos desapareça. A identidade do personagem. ela mesma intriga em si própria. Chegado a este ponto da sua argumentação. das suas experiências. seguidamente. se entende a transformação do acaso em rota pessoal. acaba por ser revelada na síntese entre o concordante e o discordante. A noção de intriga transposta da acção para o personagem / a dialéctica do personagem. a identidade deste é verdadeiramente posta à prova. que oferecem personagens sofrendo grandes transformações. aquilo a que se chama as personagens planas. confirmar este aspecto. enquanto intriga ele próprio. só pode ser compreendida nessa dialéctica. como Dostoiévski ou Tolstoi. Uma pessoa. por fim. como acontece no romance dito de aprendizagem e no romance do movimento de consciência em que é a intriga que é posta ao serviço do personagem e.1. síntese essa que só pode ser captada de forma retroactiva na história de uma vida.2. pois. enquanto dialéctica da mesmidade e da ipseidade Considerando que há correlação entre acção e personagem da narrativa. nos contos de fadas e populares.. A identidade do personagem. não é uma entidade separada. inesperados que constantemente ocorrem – discordância. em que o personagem deixa de ser um carácter. mostrando como. passando em análise as variações imaginativas das narrativas da ficção literária. baseadas nos puzzling cases. o que o distingue de todos os outros – concordância . – concordância/ discordância . mas essa totalidade temporal é posta em causa pelos acontecimentos imprevisíveis. ou até personagens-tipo. A sua própria identidade dinâmica está associada à história narrada: o desenrolar da narrativa constrói a identidade do personagem – ou seja a sua identidade narrativa – construindo ao mesmo tempo a identidade da história narrada. e chegando ao pólo extremo de variação.inscreve-se na dialéctica da mesmidade e da ipseidade.

a ficcção literária. para concluir que é a identidade ipse – a ipseidade – que está desguarnecida.no teatro e no romance contemporâneos. a perda de identidade do personagem corresponde à perda da configuração narrativa e. sobre o conflito entre uma versão da identidade narrativa – a postulada por Ricoeur – e uma versão nãonarrativa da identidade pessoal. em particular. muitas autobiografias contemporâneas. vai estabelecer uma comparação com os puzzling cases de Parfit. questionando seguidamente o que será a ipseidade. os puzzling/cases da ficcção científica transpõem a condição corporal e terrestre considerada intransponível pela hermenêutica da existência subjacente à noção do agir e do sofrer – pelo sonho tecnológico segundo o qual o cérebro é considerado o equivalente substituível da pessoa: nas experiências de bissecção. a uma crise da conclusão da narrativa. a qual designa até como ficção tecnológica. Ricoeur lembra os puzzling cases da literatura em que existem ficções de perda de identidade . essencialmente – e toma como exemplo a obra O homem sem qualidades. se verifica perda de identidade. nascido em 1942. transplantação. nomeadamente da série Star Treck. Ricoeur interroga-se retoricamente sobre qual a modalidade de identidade de que se trata quando. por perda do suporte da identidade idem. como refere. filósofo britânico. Para responder à questão. quando é perdido o suporte da mesmidade. o que aproxima a obra do ensaio propriamente dito. Também do ensaio se aproximam. mesmidade. para explorar emoções e sentimentos relativos à identidade pessoal: Ricouer considera que as ficções literárias diferem fundamentalmente da ficção científica. 7 . as variações imaginativas em torno da condição corporal são variações sobre o si e a sua ipseidade. da racionalidade e da ética e das relações entre estas. Para apoio da sua tese. e autor da obra Reasons and persons (1984). nesses casos. na qual refere vários exemplos retirados da ficção científica. na qual. os indivíduos esquizofrénicos). de Robert Musil. enquanto imitação – mimésis – da acção está submetida ao constrangimento da condição corporal e terrestre.identidade pessoal (por exemplo. especialista nas questões da identidade pessoal. pois as variações imaginativas estabelecidas pelas ficções literárias giram em torno de uma invariante: a condição corporal humana vivida como mediação entre si e o mundo. o traço da ipseidade da corporeidade estende-se ao mundo habitado pelo corpo que é a Terra: a Terra é o nome mítico do nosso ancorar no mundo.

2 – a vertente dos estudos “morais” (que se seguirão nos outros estudos posteriores ao sexto). ocupa uma posição de charneira entre a teoria da acção e a teoria ética. Entre descrever e prescrever: narrar Nesta parte da argumentação. tomei consciência das dificuldades consideráveis ligadas à questão da identidade enquanto tal. respeitando os apoios e as antecipações que a teoria da narrativa propõe à interrogação ética. Após a publicação de Temps et récit III. bem como das inerentes a poder saber-se se acção descrita se iguala à acção narrada.a vertente dos estudos “lógico-práticos” (já desenvolvidos nos estudos anteriores) consideração da dimensão física da acção e das dificuldades da relação da acção com o seu agente. em particular na filosofia analítica de língua inglesa. 2. a teoria narrativa. tal como ela é actualmente discutida em largos círculos filosóficos. teletransporte o cérebro representa o ser humano manipulável.reduplicação.1. se for possível mostrar que esta noção e a experiência que ela designa contribuem para a resolução das dificuldades relativas à noção de identidade pessoal. enquanto que as da ficção literárias são relativas à ipseidade. Estudos “lógico-práticos” (Mas o que faltava a esta apreensão intuitiva do problema da identidade pessoal era uma clara compreensão do que está em jogo na própria questão da identidade aplicada a pessoas ou a comunidades. . Ricoeur defende que a narração. à relação dialéctica da ipseidade com a mesmidade. 2. A questão é desenvolvida em duas vertentes: 1 . Adquiri agora a convicção de que uma defesa mais forte e mais convincente pode ser proposta a favor da identidade narrativa. na realidade.as variações imaginativas da ficcção científica são variações relativas à mesmidade.) 8 . indo mostrar como é que na teoria da intriga e do personagem há uma transição significativa entre a ascrição da acção a um agente que pode (dimensão física da acção: a obra) e a sua imputação a um agente que deve (dimensão ética da acção).

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