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Organizadores

Antônio Cavalcanti Maia Carolina de Campos Melo Gisele Cittadino Thamy Pogrebinschi

Perspectivas Atuais da

Filosofia do

LUMENlJURIS editora

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ANTÔNIO CAVALCANTI MAIA, CAROLINA DE CAMPOS MELO, GISELE CITTADINO, THAMY POGREBINSCHI
Organizadores

PERSPECTIVAS ATUAIS DA FILOSOFIA DO DIREITO

EDITORA LUMEN JÚRIS
Rio de Janeiro
2005

Sumário

Prefácio Considerações acerca do papel civilizatório do Direito Antônio Cavalcanti Maia FILOSOFIA DO DIREITO E FILOSOFIA A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas.. Antônio Cavalcanti Maia Heresias Spinozanas, Francisco de Oúimaraens Direitos Humanos corno Imperativos Categórico-Jurídicos? Kant, Hõffe e a Filosofia do Direito , Maria Lúcia de Paula Oliveira

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FILOSOFIA DO DIREITO E TEORIA POLÍTICA
O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana Alice Leal Wolf Geremberg Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer Carlos Bolonha Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Teoria da Justiça Caroíina de Campos Melo Justiça e Racionalidade Prática - Reflexões a Partir da Obra de Alasdair Maclntyre Cleber Francisco Alves "Invisibüidade", Estado de Direito é Política de Reconhecimento Gisele Cittadino A Crítica de Ratols ao Utilitarismo Marcello Ciotolà

63 91 117

135 153 167

Poder, Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saber 189 Marcelo Neves M. Raposo Esferas Públicas Transnacionais e Inclusão Política: Implicações Domésticas de Novas Configurações Transnacionais Márcia Nina Bernardes Auctoritas, non ventas facit legem Pedro H. Villas Boas Castelo Branco Considerações sobre a Identidade Nacional Rachel Nigro FILOSOFIA DO DIREITO E TEORIA JURÍDICA O Significado de "Direito". Observações a Respeito de uma Pergunta . Embaraçosa 279 Adrian Sgarbi O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno: Perspectivas e Desafios . Antônio Carlos de Almeida Díníz A Concepção Retórica do Direito e a Perspectiva Pluralista de Perelman Eduardo Pessanha Cavalcanti Reflexões sobre Ronald Dworkin e a Jurisprudência Contemporânea.. Florian F. Hoffmann A Justiça Diante da Lei na Razão Jurídica Contemporânea. Eqüidade, Razoabilidade e Proporcionalidade José Ricardo Cunha Clonagem Humana: Aspectos Teológico, Ético e Jurídico Manoel Messias Peixinho Algumas "Proposições Fulcrais" acerca do Direito: O Debate Jusnaturalismo vs. Juspositivismo Noel Struchiner 301 213 231 255

321 335

351 387

399

Novas Tendências para o Conceito de Culpabilidade - Uma Abordagem da Teoria Argumentativa no Direito Penal 417 Silvana Batiní César Góes O Problema da Justificação no Direito: Algumas Notas sobre Argumentação e Interpretação Thamy Pogrebinschi 449

FILOSOFIA DO DIREITO E DIREITO CONSTITUCIONAL A Interpretação Constitucional Contemporânea entre o Construtivismo e o Pragmatismo Cláudio Pereira de Souza Neto Da Teoria da Constituição ao Desafio da Legitimidade: A Trajetória de Radicalização do Poder Constituinte na Obra de Gari Schmitt Pablo Sanges Ghetti Participação e Deliberação Democrática: Acomodando Diferenças e Superando as Dificuldades de Efetivação dos Princípios Fundamentais Pauto Murillo Calazans 475

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Prefácio

Considerações acerca do papel civilizatório do Direito
Antônio Cavalcanti Maia*

"Nem opressão, nem anarquia: eis o lema que os cidadãos devem seguir e respeitar. Não lhes convém tampouco expulsar da cidade todo o temor; se nada tiver a temer, que homem cumprirá aqui os seus deveres? Se fordes reverentes ao poder legítimo, nele tereis um baluarte inexpugnável (...)" Esquilo, Eumênides As últimas décadas assistiram a uma significativa mudança no tocante à compreensão do papel do Direito nas sociedades complexas e diferenciadas do capitalismo tardio. Se durante boa parte do século passado o marxismo, a matriz mais importante do pensamento crítico - isto é, aquela que alimentava teoricamente as forças políticas comprometidas com o estabelecimento de relações sociais pautadas pelos critérios de justiça distributiva - reservou ao Direito um papel secundário, hoje em dia a situação é bem diferente.l Pode-se reconhecer nos dias atuais um crescente auditório sensível à tese da "descoberta do papel civilizatório do direito",2 sustentada, entre

Professor de Filosofia do Direito dos Programas de Pós-Graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Sigo aqui o entendimento de Pierre Bouretz quando afirma: "(...) podermos arriscar uma hipótese que explora as profundas ligações entre a derrocada do messianismo marxista e a confiança creditada ao direito na sociedade democrática". BOURETZ, Pierre. "La Force du Droit". In BOURETZ, Pierre (ed,) La Force du Droit - Panorama dês Débats Contemporains. Paris: Éditions Esprit, 1991, p, 14. MANDIETA, Eduardo. "Um Diálogo sobre Deus e o Mundo - Entrevista com Jürgen Habermas. In Era das Transições. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. p. 211. Quanto à tese do papel civilizatório do Direito, sirvo-me do que afirma Habermas a respeito do seu companheiro em Frankfurt, o grande jurista Rudolf Wiethõlter, e que poderia ser muito bem imputado ao próprio projeto jusfilosófico habermasiano: "O que pensa Wiethõlter é na domesticação política e na transformação democrática da sociedade capitalista por meio do direito, cuja força civittzatória seja capaz de penetrar e garantir articulação às diferentes formas culturais de vida. O verdadei-

outros, por Jürgen Habermas. Vale dizer, encontra-se hoje no front do pensamento de inspiração progressista a maior aposta na capacidade do direito de servir como um médium capaz de funcionar como um "escoadouro" aos inúmeros conflitos presentes em sociedades marcadas por um incontornável - e saudável - pluralismo cosmovisivo. Há pouco mais de uma década, em uma publicação emblemática desta mudança de percepção acerca dos destinos do direito na nova constelação teórica e política aberta pelo declínio do marxismo e pela queda do Muro de Berlim, intitulada A Força do Direito - Panorama dos Debates Contemporâneos, Pierre Bouretz e Antoine GaraponS salientavam a nova tendência dos estudos jusfilosóficos: o empenho de estabelecer o diálogo entre as diferentes tradições jurídicas - romano-germânica e common law - e o esforço de evitar o insulamento dos avanços teóricos provenientes das investigações acadêmicas em face da práxis cotidiana dos profissionais do mundo jurídico. Constatam também os autores a incontornabilidade dos mecanismos presentes no Estado Democrático de Direito - desde que dinamizados - como os únicos elementos capazes de canalizar as inúmeras e conflituosas demandas políticas presentes nas sociedades urbano-industriais contemporâneas através, principalmente, da estrutura constitucional; enfim, apostam no Estado Democrático de Direito. Este enquadramento teórico tem servido de inspiração aos esforços desenvolvidos pelo Programa de Pós-graduação em Teoria do Estado e Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, que apresenta esta coletânea como, por um lado, um testemunho de um labor já realizado, e, por outro, como um marco de um novo patamar a partir do qual poderemos continuar nossos esforços de articulação (e mediação) entre os últimos desenvolvimentos teóricos provenientes das culturas jurídicas mais maduras e as candentes necessidades de uma sociedade em transformação como a nossa, onde, sobretudo a partir da promulgação da Constituição de 1988, o balizamento jurídico da vida político-institucional tornou-se cada vez mais importante. Pletora - este é o melhor qualificativo para descrever o panorama dos estudos jusfilosóficos contemporâneos. O crescente entrelaçamento entre filosofia política e filosofia do direito, com a reconexão do debate de teoria do

ro direito seria capaz de liberar a sociedade antagonista, transformando-a em uma cultura da discussão", (grifo meu) HABERMAS, Jürgen. "El Filósofo Como Verdadero Maestro dei Derecho". In La Necesidad de Revisión de ia Izquierda. Madrid: Tecnos, 1991, p. 76. Em sentido convergente com o diagnóstico de Habermas acerca do papel civilizatório do direito como elemento crucial do funcionamento da democracia -, afirma Pierre Bouretz: "Conseqüência singular da derrocada da grande utopia igualitarista é, doravante, o papel conferido à democracia de provar sua capacidade de assumir suas promessas de igualdade". BOURETZ, Pierre. "La Force du Droit". op. cit., p- 15.

direito com o domínio da teoria da justiça; a sofisticação das discussões de metodologia jurídica, sobretudo com a proliferação dos casos difíceis, com o desenvolvimento expressivo das teorias de argumentação jurídica; a reabilitação da racionalidade prática e a erosão do paradigma positivista; o novo papel dos princípios jurídicos e a reconfiguração da teoria constitucional; o re-equacionamento da legitimidade da jurisdição constitucional a partir das discussões acerca do modelo de democracia deliberativa; as demandas de democratização e participação popular nas ações da administração pública; o alargamento da tarefa hermenêutica dos magistrados em face das exigências de efetivação dos direitos consagrados nos textos constitucionais; o crescimento da intervenção do Judiciário na vida quotidiana dos cidadãos e a necessidade de critérios para aferir a legitmidade de suas decisões (como, por exemplo, a exigência de mais cuidadosa motivação das decisões judiciais); a expansão das biotecnologias e a necessidade de parametrização ético-legal de seu desenvolvimento. Este elenco de temas, longe de ser exaustivo, eloqüentemente assinala a relevância de um enfoque de análise dos desenvolvimentos do mundo jurídico embasado por um "olhar" filosófico (e interdisciplinar), em especial, ao constatar, como aponta Manuel Atienza, o papel que a filosofia do direito pode e deve desempenhar nos dias de hoje, quando não se pode conceber "(...) a filosofia do Direito como uma disciplina fechada em si mesma e elaborada não apenas por, mas também para filósofos do Direito. Na minha opinião [Atienza], a filosofia do Direito deve cumprir uma função de intermediação entre os saberes e as práticas jurídicas, por um lado, e o resto das práticas e saberes sociais, por outro".4 Em um certo sentido, a filosofia do direito pode funcionar como um pivô, articulando diversos domínios intelectuais. A própria estrutura deste livro ilustra esta vocação do discurso jusfilosófico (que, neste aspecto, segue o poliglotismo próprio da filosofia, sempre aberta ao diálogo com as mais diversas áreas do saber): filosofia do direito e filosofia; filosofia do direito e teoria jurídica; filosofia do direito e direito constitucional; filosofia do direito e teoria política. Assim, além do cruzamento de tradições - posto em movimento no livro Force du Droit, referência desta coletânea -, há também o esforço de cruzamento de perspectivas. Cabe destacar também que a filosofia do direito assume uma espécie de tendência "anfíbia", sendo capaz de transitar entre dois terrenos diferentes: por um lado, acompanha atentamente os esforços descritivos sistematizadorés empreendidos no âmbito da teoria geral do direito, manancial da dogmática jurídica - crucial à vida cotidiana dos operadores do Direito; por outro,

ATIENZA, Manuel. As Razões do Direito - Tteorias da Argumentação Jurídica. São Paulo: Landy, 2000. p. 11.

quase que imbricada à filosofia política, mantém constante o esforço de resistir à deflação normativa impulsionada pelos discursos cientificizantes. Dito de outra maneira, mantém, enfaticamente, o discurso jusfilosófico, o compromisso com a dimensão normativa presente na autocompreensão do mundo jurídico desde o alvorecer das cogitações filosóficas no mundo grego. É no âmago dessa tensão entre o descritivo e o prescritivo que vive o verdadeiro pensamento jusfilosófico, procurando modificar a autocompreensão de fundo dos expert em Direito e, em muitos casos, motivando-os a participar da realização do Estado Democrático de Direito como um projeto histórico. Essa nova maneira de encarar o papel das coordenadas jurídicas na direção da sociedade por meios democráticos subjaz a esta coletânea. Obra coletiva reunindo textos de professores da área de filosofia do direito da PósGraduação e da Graduação da PUC-Rio, bem como um expressivo número de ex-alunos de nosso Programa de Pós-Graduação (muitos deles agora professores de nosso departamento) que, nos últimos cinco anos {após a reforma do Programa com a criação do curso de Doutorado), elaboraram pesquisas - trabalhos ou dissertações de mestrado - no âmbito da filosofia do direito. Não poderia em poucas linhas sintetizar tão variada gama de contribuições (o que na maior parte dos casos é a função precípua da apresentação de obras coletivas!), contudo gostaria de continuar utilizando esta apresentação como oportunidade de salientar alguns aspectos relativos à tese central deste texto: o papel civilizatório do direito e de suas instituições e o redimensionamento da função do direito por parte do pensamento de corte progressista, alinhado à esquerda do espectro político. Aliás, esta não é apenas a tese central deste texto, mas constitui também elemento axial do magistério dos dois professores (Gisele Cittadino e Antônio Maia), cujo papel difusor desta nova constelação do pensamento jurídico encontrou solo fértil nos inventivos e densos artigos aqui reunidos, muitos deles originalmente apresentados em um seminário realizado em maio de 2002, organizado por Tammy Pogrebinsky e Carolina de Campos Melo, com o título Novas Perspectivas da Filosofia do Direito.

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A defesa da tese do papel civilizatório do direito e de suas instituições aponta na direção de uma possível alternativa para os impasses vividos pelas estruturas políticas contemporâneas, carecedoras de opções que, mesmo de maneira modesta, possam "oferecer alternativas à situação sociopolítica prevalente".5 Ora, em face da hegemonia neoliberal das últimas décadas e da

AARNIO, Aulis. "Entrevista a Aulis Aarnio" - Concedida a Manuel Atienza, In Doxa, 21-1 (1998), p. 430.

derrocada das propostas coletivistas, "o direito tem um papel importante no desenho teórico de [uma] terceira via".6 Neste sentido, lapidar o posicionamento'de Aulis Aarnio: Em minha opinião, as teorias coletivistas, tal comoios diversos modelos marxistas, por exemplo, não oferecem um fundamento aceitável para compreender a sociedade do começo do século XXI. Por um lado, tem aumentado o domínio das forças de mercado e, como resultado disso, tem se reforçado o individualismo extremo, como dizem os pós-modernistas. Muitos pensadores neoliberais e seus seguidores não teóricos sustentam que é impossível dirigir a sociedade - que se desenvolve de acordo com as forças de mercado. Não gostaria de ceder a este tipo de concepções deterministas, independentemente de as idéias provirem de concepções coletivistas ou da crença nas forças do mercado. Baseio minha concepção na idéia de que existe uma "terceira via", mediante a qual podem evitar-se ambos os extremos. O Direito tem uma importante tarefa no desenho teórico da terceira via. Em qualquer caso, é um desafio ao Direito.7 Desafio para o direito como mecanismo fundamental de integração social que, cada vez mais, tem a sua importância reconhecida como "substituto para os fracassos dos outros mecanismos de integração social - mercados, administrações, ou valores, normas e comunicações face a face".8 Desafio também para todos aqueles envolvidos com as cogitações teóricas acerca do papel e das possibilidades dos instrumentos jurídicos na condução democrática da vida política contemporânea. Desafio exigindo esforço de reflexão, compromisso com a pesquisa de ponta (idéia pouco familiar aos investigadores no campo do Direito, ao contrário do observado nas ciências naturais) e imaginação teórica. A reavaliação observada, nas últimas décadas, com o "espetacular retorno do direito como termo ou valor de referência",9 acarretou, principalmente, uma mudança de perspectiva significativa por parte daqueles atores sociais envolvidos em práticas emancipadoras ou reivindicatórias. Se as forças comprometidas com as transformações sociais, até pelo menos maio de

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/dem, ibidem. /dem, ibidem. HABERMAS, Jürgen. "Introduction". In Ratio Júris. Vol. 12, nc 4, december 1999, p. 329. RENAUT, Alain e SOSOE, Lukas. Philosophie du Droit. Paris: Presses Universitaires de Prance, 1991, p. 26. Nesta obra os autores sublinham como cruciais para o "retorno do direito" as transformações ocorridas no âmbito jurídico-político europeu após a queda do socialismo real no leste europeu. Ela é sintomática da nova configuração assumida pelo direito nas últimas décadas, bem como da nova dimensão assumida pelo discurso jusfilosófico: esforçando-se par integrar as principais tradições intelectuais norte-atlánticas {continental - franco-alemá - e anglo-americana) e irresign ando-se em face das reduções positivistas e historicistas do conceito de direito (vale dizer, o abandono das considerações normativas no âmbito do pensamento jurídico).

pp. 10 CANOTILHO. "descobrindo" o direito como um momento essencial da modernidade social. no âmbito da filosofia política e das ciências sociais.o espírito protestante e a racionalidade do direito formal burguês). Direito Constitucional.com a sua inerente infravalorização das tradições democráticas do Estado liberal -. Oriundo da tradição do materialismo ecumênico e interdisciplinar da Escola de Frankfurt. 1984.sobretudo do direito constitucional . conferir o capítulo "A Racionalização do Direito. I. mas talvez em escala próxima à da avaliação formulada por Weber11 acerca de elementos constitutivos da moderna sociedade capitalista .alterando-se em largos setores da intelligentsia essa visão depreciativa e desqualificadora acerca do papel do Direito -. na página 248. podendo-se observar.Entre Facticidade e Validade) uma completa reavaliação do desenvolvimento do Direito nas sociedades ocidentais. pelas discussões jurídicas. 6a edição. In HABERMAS. O Diagnóstico Weberiano do Ttempo". tentando fugir quer ao autismo da validade normativa quer à pura facticidade típica da objectivação sociológica". Este quadro mudou drasticamente na década de 80 . o trabalho de Jürgen Habermas impõe-se corno referência incontornável a todos que subscrevem a tese da função civilizatória do Direito.para percorrer os problemas clássicos (confessa também que os seus conceitos pressupõem as categorias tradicionais da constituição e do constitucionalismo) e fornecer uma compreensão do estado de direito democrático e da teoria da democracia. entre outros aspectos. já que. também os novos movimentos sociais oriundos da fragmentação política pós-maio de 68 (contando agora com inspirações teóricas de matriz nietzschiana) mantinham uma atitude de extrema desconfiança em face do direito.68. atentas às transformações sociais. 1. 243-271. 11 Em relação a este particular. 2002. Coimbra: Livraria Almedina. Epítome dessa mudança de percepção acerca do papel do Direito nas sociedades contemporâneas. As obras de John Rawls e Jürgen Habermas são emblemáticas desse novo estado de coisas. mas ciente de que as únicas tradições que sobrevivem são aquelas abertas a renovações. Habermas reabilita o médium normativo do direito . Jürgen. utilizavam como grade de inteligibilidade à compreensão da dinâmica social o aparato marxista .10 Esta reavaliação consagra o reconhecimento de uma atribuição até então não conferida ao direito por nenhum grande teórico social (certamente diferente de Marx e Durkheim.344. Habermas elaborou no seu tratado jurídico (Direito e Democracia . The Theory oi Communicative Action. lemos: "Webei trata a emergência do desenvolvimento do capitalismo do ponto de vista da institucionalização de . em muitos casos. Joaquim José Gomes. um renovado interesse. Em especial. vol. reduziam o campo jurídico ao domínio da violência eufemizada e da mera mistificação. Boston: Beacon Press. "Reagindo contra o próprio ceticismo dos juristas. p.

12 Quando elaborou sua ambiciosa interpretação da sociedade capitalista contemporânea na sua opus magnum. In DEFLEM. constranger e regular os 'sistemas'".) Habermas. já tinha proposto uma reformulação desse modelo através do par conceituai trabalho/interação. Ele mostra como. dotadas de maior grau de sofisticação e abstração. sob o título nada específico da praxis social. Como explica um dos mais próximos colaboradores do filósofo de Frankfurt: "O mundo-da-vida é o lugar (potencial) de uma rede frouxamente conectada de discursos não institucionalizados nos quais uma auto-reflexão coletiva e uma autodefinição têm lugar. "On Reconstructive Legal and Política! Theory". de sistema e mundo-da-vida. Bernhard. Habermas elevou a um grau maior de abstração a dicotomia infra-estrutura e super-estrutura elaborada por Marx.e podem.Em relação ao direito cabe destacar (ao lado da tese de seu papel civilizatório. 11-43. 13 Quanto a este aspecto. contribuindo também para o reconhecimento de uma centralidade dos instrumentos jurídicos na configuração das sociedades contemporâneas: a função assumida pelo médium do direito de uma espécie de "correia de transmissão" entre o mundo-da-vida (Lebenswelt) e os subsistemas político e econômico respectivamente regidos pelos media do poder e do dinheiro. naquele momento. o fundador do materialismo histórico foi obrigado a estruturar essa dicotomia para oferecer elementos de compreensão a um caro problema posto a todos aqueles empenhados em elaborar uma compreensão da dinâmica da vida social: como articular a reprodução material da vida social com a reprodução simbólica? Habermas.13 Tal par foi substituído pelas novas categorias. mas. em um certo grau. Ora. Modernity and Law.ainda não tão distante. ao fazê-lo. grosso modo. em 1981. Notas sobra a Filosofia do Espírito de Hegel em lena". (grifo meu) 12 PETERS. verdadeiro pano de fundo da empreitada jusfilosófica habermasiana) um outro aspecto cardial de seu enfoque. 122. 1996. ele se depara com os papéis da ética protestante e da lei moderna. a racionalidade cognitivainstrumental á institucionalizada na economia do estado". a saber. London. p. . O direito institucionaliza os canais (na forma de procedimentos legais e políticos) e garante uma linguagem ou médium (na forma de normas obrigatórias) através de o^ie os resultados desses processos deliberativos informais podem se tornar vinculantes socialmente e efetivos . a Tfeoría do Agir Comunicativo. pp. onde Habermas começa a se afastar da matriz marxista mais ortodoxa da ia geração da Escola de Frankfurt ao afirmar que "Marx não explicita efetivamente a conexão entre interação e trabalho. da ortodoxia marxista -. (ed. reduz um ao outro. p. na década de 70 . a ação comunicativa à instrumental". In Técnica e Ciência como 'Ideologia'. 42. com a ajuda destas. Bernhard Peters esclarece: Habermas fez da distinção entre diferentes modos de regulação social e da correspondente distinção entre duas formas de análise teórica a pedra orientações de ações racionais em relação a fins. 1994. Quanto a esses dois planos de análise. Lisboa: Edições 70. conferir o texto seminal "Trabalho e Interação. Mathieu. Sage Pubücations.

T£is conquistas se encontram ameaçadas pela hegemonia neoliberal das últimas décadas. p. Bernhard.1'* Todavia. . ficava em aberto uma questão posta. 1997. a aposta no Direito avalizada por Habermas situa-se também no âmbito da defesa das conquistas normativas.. Op.comunicações. Enquanto integração social requer uma análise interna interpretativa ou reconstrutiva.M. por exemplo. 121. nas palavras de Hino. como disse Habermas. Princípios y Positivismo Jurídico. ou mundo-da-vida e sistema como esferas sociais que são constituídas por esses dois mecanismos. Ademais. Representariam uma prova de que.. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. "alguns autores têm considerado a incorporação de certos valores morais da modernidade às Constituições como uma prova de que a razão prática se estendeu ao diteito. individual ou coletivo de vontade produzidas pelos subsistemas. aumentando a relevância de sua função na vida das sociedades contemporâneas (juntamente com a tese que tem sido brevemente exposta nesta introdução acerca do papel civilizatório do Direito).15 Desta forma. identidades coletivas assim como disputas e conflitos. através do médium do direito: "(.. interações intencionais. p. atividades "intencionais" . objetivas. econômico e político].não no sentido de um sujeito. limitada à esfera do mundo da vida". 15 HABERMAS. mas Habermas as compreende mais como patologias em um campo de relacionamentos normativos. a todos os modelos dualistas: como estabelecer a conexão entre os dois planos de análise? A solução para este impasse foi apresentada. Alfonso Garcia. relações de confiança e solidariedade. Vol.16 principalmente quanto aos direitos fundamentais. não intencional ligação de resultados de atividades intencionais [A. p. a razão prática 'emigrou para o direito'. 1998. 65. a integração sistêmica consiste em interdependências funcionais. "On Reconstructive legal and Political Theory". crenças comuns.fundamental de seu trabalho. 112. Jürgen. Por outro lado. FIGUEROA. 16 Sobre este particular. em Direito e Democracia. I. Dominação pessoal e coerção obviamente ocorrem no mundo-da-vida. que. Madrid: Centro de Estúdios Políticos y Constitucionales. El no Positivismo Principialista em Ias Teorias de Ronald Dworkin y Robert Alexy. cit. Ele contrasta "integração social" com "integração sistêmica" como dois mecanismos básicos de coordenação social. consagradas nos textos constitucionais surgidos no pós-Guerra. em geral. ou. Direito e Democracia . normas legítimas.Entre Facticidade e Validade.) a linguagem do direito pode funcionar como um transformador na circulação da comunicação entre sistema e mundo da vida. o que não é o caso da comunicação moral. não simbólicas ou na não planejada. A integração social é baseada em relações intencionais simbolicamente constituídas . a integração sistêmica pode ser apreendida apenas por meio de uma análise empírico-analítica (ou funcional). que o raciocínio prático tenderia a um 'caráter imperialista' que haveria permitido sua extensão sobre o direito". respaldada por análises inspiradas pelas 14 PETERS. o Direito passa a ser encarado como um mecanismo crucial de reprodução da vida social.

conseguiram "domesticar" os excessos característicos da acumulação capitalista são hoje minimamente asseguradas pelos instrumentos jurídicos. por essa "mediação".. o objetivo e critério que dá sentido aos mecanismos jurídicos e políticos que o compõem". sustenta que a racionalidade do mercado exige um encolhimento do Estado e uma "selvagem" desregulamentação. constituindo "(.) La Hlosofía Hoy. 2001.) a razão de ser do Estado de Direito. a dimensão assumida pelos textos constitucionais. alterou-se. p. de certa forma.17 (grifo meu) II A idéia de que "as atuais constituições sugerem uma concepção totalmente diferente". sua finalidade mais radical. referência paradigmática para a nossa Constituição cidadã). Talvez precisemos sim de uma linguagem renovada para que esse olhar normativo sobre as coisas não caia no esquecimento sucumbindo às pressões para adequação aos imperativos funcionais. 17 . 323. Essa idéia aponta para o elemento capital à compreensão da tese do papel civilizador do Direito: absoluta centralidade dos textos constitucionais na vida política contemporânea. sobretudo graças ao caráter axial assumido pelos direitos fundamentais. Javier e CEREZO. Barcelona: Editorial Crítica. no século passado.aliado a uma antropologia pessimista . Jürgen. 2000.. é da própria natureza de um texto constitucional que ele represente o centro dos ordenamentos jurídicos modernos. Prima fade. Como sintetiza Habermas em texto recente: Não se sabe mais bem ao certo se a concepção democrática de uma sociedade que atua politicamente sobre si com a vontade e a consciência dos cidadãos reunidos assume os traços de uma utopia desejável e fora de moda ou de uma utopia perigosa. A Constelação Pós-nacional.18 O constitucionalismo do pós-Guerra modificou HABERMAS. se compreende em face do caráter universalista e do generoso catálogo de direitos fundamentais da Lei Fundamental de Bonn. Vale dizer: as garantias do Estado de bem-estar social que. Ensaios Políticos. O neoliberalismo . distinta do hegemônico discurso nivelador economicista. In MUGUERZA. No entanto. As atuais constituições sugerem uma concepção totalmente diferente. afinal. São Paulo: Littera Mundi. p. 18 DÍAZ. esta afirmativa pode parecer uma trivialidade. Pedro (ed. 205.também habitua-nos cada vez mais a uma nova condição mundial na qual a desigualdade social e a exclusão social voltam a valer como fatos naturais. de 1948 (fonte inspiradora das constituições Ibéricas dos anos 70 e.perspectivas sistêmico-funcionalistas e de escolha racional. Elias. "Filosofia dei Derecho: Legalidad-legitimidad".

DÍAZ. p. Elias. o entendimento atual da Constituição como norma jurídica. A renovada supremacia da constituição vai além do controle de constitucionalidade e da tutela mais eficaz da esfera individual de liberdade. In Revista da EMERJ. Kenneth.M. Elias Díaz destaca: "É verdade que no passado. 2002. uma das conquistas reside exatamente na nova configuração da relação entre os poderes do Estado. na 24. com todas as mediações e reservas que a prudência (inclusive a jurisprudência) autorize ou permita introduzir. A nova concepção de constitucionalidade une precisamente a idéia de Constituição como norma fundamental de garantia com a noção de Constituição enquanto norma diretiva fundamental". Frente a tais reduções. In VON SCHOMBERG. A. p. representativa de uma transição ímpar na história brasileira . (ed. 20 STRECK. pela Carta de 1988. New York: State University oi New York. direito à educação. 16. Lenio Luiz. não prescritivo. "Deliberativa Democracy and the Limits of Liberalism". Quanto ao redimensionamento do papel representado pela Constituição. ao trabalho etc). v. 110. não (mais ou menos) diretamente normativo. em geral de maneira não expressa. "Filosofia dei Derecho: Legalidad-legitimidad".20 É claro. à subsistência. vis-á-vis sua antecessora. os modelos da experiência alemã e das constituições Ibéricas somam razões à constatação que qualquer observador pode fazer acerca do redimensionamento da função da Constituição desempenhada.Essays on Habermas's Between fàcts and Norms. mas como uma agressão da prática comum de uma comunidade política". em nosso país. outro aspecto assume lugar cimeiro: trata-se da circunstância de as Constituições serem erigidas à condição de norma diretiva fundamental. p. A Filtragem Hermenênutica a Partir da Aplicação da Técnica da Nulidade Parcial sem Redução de Texto". Kenneth. . René e BAYNES. 320.uma visão tradicional mais limitada acerca da função da Lei Maior das estruturas jurídicas contemporâneas. de 1967. à segurança. Rio de Janeiro: EMERJ.com o fim da ditadura militar e o 19 BAYNES. 2003.. que o caráter analítico de nossa atual Constituição acarreta uma interferência em um número maior de áreas da vida social e jurídica nacional do que na nossa antiga ordem constitucional. quer dizer.) Discourse and Democracy . 19 Novamente. não acredito ser esta a razão precípua da grande mudança operada em relação ao papel assumido pela Constiuição no "imaginário" jurídico-político brasileiro. cít. fazendo com que "o direito não [seja.] visto somente como um meio de proteção dos direitos individuais. oportuna a lição de Lenio Streck: "No moderno constitucionalismo. que se dirige aos poderes públicos e condiciona os particulares de tal maneira que assegura a realização dos valores constitucionais (direitos sociais. Contudo. op. parece-me uma conquista a todas luzes muito positiva e completamente coerente com o melhor Estado de Direito". Salta aos olhos a força simbólica de nossa Constituição Cidadã. Com as Constituições democráticas do século XX. tendiase com excessiva freqüência e simplicidade (interessada?) a definir de modo redutivo a Constituição com um caráter quase meramente programátíco. 6. "Os Juizados Especiais Criminais à Luz da Jurisdição Constitucional. também. Neste mesmo sentido.

também. sem a menor dúvida. para a constitucionalista contemporâneo a ponderação é crucial. assim. 2001. Estudos em Homenagem a Paulo Bonavides. Um eloqüente exemplo da vinculação entre Filosofia do Direito e Direito Constitucional se dá quando se adota uma "(. posto que não há rol de direitos fundamentais sem colisão destes mesmos direitos .) postura'constitucionalista' em lugar da 'legalista estrita'. de virtualidades reconhecidas no âmbito normativo.. . Willis Santiago (org. Queiroz afirma: "o instrumento decisivo do 'método' de interpretação constitucional não é já a subsunção. nos últimos parágrafos. (grifo no original) QUEIROZ. da configuração geral do funcionamento da ordem jurídica. p. Eros Roberto e GUERRA FILHO. Desta forma. "O Intérprete e o Poder de Dar Vida a Constituição: Preceitos de Exegese Constitucional". 2002. já que as demandas de natureza política e axiológica penetram no coração da ordern jurídica burguesa. Coimbra: Coimbra Editora. mais significativa do que a subsunção-para o intérprete constitucional".) Direito Constitucional. podem vir a ser paulatinamente concretizados por políticas públicas conseqüentes e uma hermenêutica progressista. oriundos do pensamento político moderno e transpostos para os textos constitucionais da modernidade. Apresenta-se este aspecto teórico como mais um elemento onde constatamos esta tese do papel civilizatóiio do direito. 22 Cresce entre a melhor doutrina constitucionalista brasileira a incorporação do debate oriundo da experiência constitucional alemã acerca da eficácia direta dos direitos fundamentais (Drittwirkung) nas relações privadas. p. se. impõem o esclarecimento daquilo que vem se tornando quase um lugar comum dos estudos jurídicos hodiernos: o estreito liame entre Filosofia do Direito e Direito Constitucional . para a transformação. M. In GRAU. contribuindo. "a materialização política do sistema de direitos é uma práxis que se leva a cabo segundo os critérios e pelas vias do sistema de direito já existente..21 Ora. As 21 FREITAS. Tal mecanismo só pode ser empregado de maneira racionalmente controlável se seguir os cânones ditados pelas modernas teorias da argumentação jurídica campo por excelência dos desenvolvimentos jusfilosóficos recentes. vida e autonomia pessoal etc -. São Paulo: Malheiros Editores. Tais impulsos emancipatórios. o papel civilizatório do Direito como um mecanismo de garantia da efetivação dos impulsos emancipatórios. mesmo que modesta.já que considerações constitucionais desempenham papel central no âmbito da Filosofia do Direito. M. 184. isto é.inaugurar de uma experiência de democracia de massas -. impõe-se a demanda constante por ponderação. a ponderação revela-se. Juarez. a constitucionalista portuguesa Cristina M. contribuindo decisivamente para ensejar um solo fértil à dinamização da nossa cultura política.. 231. Cristina M. através dos direitos fundamentais e de sua capacidade de irradiação22 pelo ordenamento jurídico. Neste mesmo diapasão.como os incontomáveis conflitos entre liberdade e segurança. honra e liberdade de expressão. mas a retórica e o argumento". Constata-se. Direitos Fundamentais (Teoria Geral). As referências ao Direito Constitucional.

não podemos deixar de reconhecer os seus efeitos positivos. 25 SARMENTO. In BARROSO. Desta forrna. com índices intoleráveis de desigualdade social. "A Vinculação dos Particulares aos Direitos Fundamentais no Direito Comparado e no Brasil". Jürgen. 2002. "o estabelecimento de uma dimensão . p. Eros Roberto e GUERRA FILHO. 114. certos problemas acarretados por esse instituto. p. não podemos deixar de lembrar. Direitos Fundamentais e Relações Privadas. de acordo com parâmetros de justiça substantiva. quando afirma.A Eficácia dos Direitos Fundamentais na Ordem Jurídico-civil no Contexto do direito Pós-moderno". o reconhecimento da vinculação direta dos particulares aos direitos fundamentais pode servir como um importante instrumento para moldar. Desenvolverei algumas considerações sobre esta problemática na conclusão deste prefácio. Afinal. 61. Dificilmente podemos discordar da conclusão de Daniel Sarmento. Deve-se salientar que. o professor de Coimbra. Eis que a DrittwjrTtung desenvolve-se como um corolário do reconhecimento da dimensão objetiva dos direitos fundamentais. os direitos fundamentais deixam de ter apenas efeitos verticais sobre o Estado e os órgãos da administração pública e passam a ter efeitos horizontais em face das entidades privadas. Rio de Janeiro: Renovar. "Civilização do Direito Constitucional ou Constitucionalização do Direito Civil? . In GRAU. que. de certo modo. cit. na mesma página. "vivemos num país injusto. Willis Santiago (org. Como leciona José Gomes Canotilho: "A idéia de Dríttwirkung ou de eficácia directa dos direitos fundamentais na ordem jurídica privada continua.25 23 HABERMAS. extraídos da Constituição. exercendo influência nas relações jurídicas entre particulares. progresso do Iluminismo". Neste quadro. neste mesmo texto.. Daniel. o projecto da modernidade: modelar a sociedade civil segundo os valores da razão. op. Vêrdaci y Justificac/án. amiríade de relaÇões assimétricas travadas na sociedade".) A Nova Interpretação Constitucional Ponderação. Madrid: Editorial Tiotta. questiona a capacidade de efetivação dos potenciais emancipatórios presentes nas ordens jurídicas contemporâneas em face da crescente autonomia dos subsistemas econômico e político. entretanto. p. Luís Roberto (org. "sem embargo. servindo-se de uma ótica inspirada na teoria dos sistemas autopoiéticos. 2003. como esclarece Jane Pereira. a chamada eficácia 'horizontal' dos direitos fundamentais constitui um instrumento valioso na edificação de um Direito que se pretenda justo e emancipador". em que a opressão é capilar e onipresente. E mesmo sem sustentar que tal mudança traria uma contribuição absolutamente decisiva aos candentes problemas de nosso país.24 A. 284. de algumas demandas políticas através da estrutura constitucional. como acolhido pelo famoso acórdão Lüth do Tribunal Constitucional Federal Alemão.23 Uma via expansiva dos direitos fundamentais se dá através do fenômeno da sua irradiação horizontal-. José Joaquim Gomes. É o fenômeno caracterizado pela doutrina tedesca como Dríttwirkung der Grundrechte. vale dizer. Ensayos Filosóficos. incorporação dessa discussão doutrinária em nosso país e a provável influência que ela terá na atuação dos órgãos judicantes nacionais poderão caracterizar mais uma alternativa à canalização. 24 CANOTILHO.mesmas normas constitucionais estabelecem o procedimento segundo o qual elas mesmas se 'concretizam1 à luz das circunstâncias cambiantes".) Direito Constitucional. justiça.

juntamente com Cláudio Pereira de Souza Neto. problema do excessivo alargamento dos poderes dos juizes. HABERMAS. op. 1997. então. Confira-se a excelente obra . efeito de irradiação e deveres de proteção pode o Judiciário sindicar.e. Na literatura espanhola esse movimento de idéias capitaneado por Dworkin e Alexy recebeu também a denominação de "nãopositivismo principiológico". Não cabe aqui expender as razões justificadoras de tal tese. objetiva dos direitos fundamentais tem relevante repercussão no papel criador do Poder Judiciário. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Já Robert Alexy qualifica sua posição como não-posítivista. em seu livro El Concepto y Ia Validez dei Derecho. alinhados à matriz nietzschiana ou sistêmico-funcionalista.El No Positivismo Principialista en Ias Teorias de Ronald Dworkin y Bobert Alexy. elaboro. Op. 1994. uma breve explicação acerca dessa nova constelação teórica no texto "Os princípios de direito e as perspectivas de Perelman. a partir das abstratas noções de ordem de valores.sem permanecerem reféns das pesadas heranças metafísicas do pensamento jusnaturalista. Luís Roberto (org. No momento.. Os nomes de Chaim Perelman. 21-1. de forrna mais ativa.expressos por meio dos princípios jurídicos . Manoel Messias et. Na conclusão deste trabalho despenderei algumas considerações sobre esta questão. colmatando lacunas e deduzindo o conteúdo dos direitos". os comportamentos administrativos e a produção legislativa. Barcelona: Oedisa.)". Esclareça-se. Jane Reis Gonçalves. vol. In Direito e Democracia .de matriz kantiana o que é completamente contestado pelos autores pós-modemos. p. PEREIRA. Como ele afirma. por fim.. cuja tese central afirma a diferença inequívoca entre pós-positivismo e "pós-modernidade" (termo já usado por inúmeros autores para descrever a configuração do pensamento jurídico contemporâneo).A articulação entre Filosofia do Direito e Direito Constitucional constitui o elemento central da nova configuração teórica descrita entre nós como póspositivista. porém em uma sentença posso resumir o diferendo entre essas duas abordagens: o pós-positivismo faz uma aposta na reabilitação da racionalidade prática . In PEIXINHO. Dworkin e Alexy". Jürgen. (org) Os Princípios da Constituição de 1988. que Jürgen Habermas situa seu projeto jusfilosófico também em um quadro para além da dicotomia tradicional da filosofia jurídica. a literatura jurídica pátria tomou consciência de que a teoria dos princípios é hoje o coração das Constituições e que os direitos fundamentais. juntamente com Pedro Navarro César e Antônio Carlos Diniz. Rio de Janeiro: 2001. H. ai. Rio de Janeiro: Editora DP&A (no prelo). positivados na Constituição como princípios. c/t. 156. Na mesma tradição jusfilosófica de língua castelhana. 26 Desenvolvi. Robert Alexy e Carlos Santiago Nino destacam-se como os corifeus dessa nova abordagem que procura superar o estiolado debate jusfilosófico há décadas preso na inconclusa polêmica jusnaturalismo versus positivismo. pp. Ronald Dworkin. . In Doxa. 209-220. Surge.Entre íacdcjdade e Validade. Não há que se confundir estes dois movimentos teóricos. crítica-reprobatória desses autores -. "a teoria do discurso navega entre os escolhos do direito natural e do positivismo do direito (. de Alfonso Garcia Figueroa. há a esclarecedora análise de Albert Calsamiglia no texto "Pospositivismo". Princípios y Positivismo Jurídico. cit. em especial entre as páginas 57 e 60. uma exposição panorâmica desta nova constelação teórica no livro Princípios Jurídicos e Pós-Positivismo: O Neoconstitucionalismo Contemporâneo. . tornam-se vetores determinantes de todo o ordenamento jurídico. "Apontamentos sobre a Aplicação das Normas de Direito Fundamental nas Relações Jurídicas entre Particulares". via de regra. 1998.) A Nova Interpretação Constitucional. em linhas gerais. 315. ín BARROSO. "Posfácio". É que.. em seu Curso de Direito Constitucional. p. A obra destes quatro autores demonstra a possibilidade de reincorporar à análise do ordenamento jurídico elementos de natureza axiológica .2^ A partir do magistério de nosso insigne constitucionalista Paulo Bonavides.

de dívidas em vez de responsabilidades. Sage Publications. entre outros. organizações ligadas à proteção dos direitos humanos e de minorias. Jürgen. Barcelona: Editorial Crítica. "Constitutional Democracy . 29.28 Ademais. desde há décadas.de movimentos sociais. Javier e CEREZO. p. fundado na questão do câmbio. dezembro. Ele defende que discussões acerca do futuro de nosso país não devem estar centradas na moeda. "Imposible Futuro (Um Ejercicio de La Filosofia de Ia Historia)".27 é puramente economicista. Um programa de governo é. assim. Repetem. um projeto de sociedade e os instrumentos de realização deste projeto são uma política industrial. o neoliberal. Manuel. O discurso político moderno é um discurso sobre direitos. 37. em especial nos grandes periódicos da imprensa nacional. podemos falar da emergência de uma nova gramática das demandas políticas na qual a linguagem dos direitos tem sido crescentemente utilizada pelos mais diversos atores políticos . para ele. Paris: Bernard Grasset. partidos políticos. 336. Pedro (ed. ele tem representado o papel de um verdadeiro ideólogo do PT. o intento de liquidar o espaço político. o Estado constitucional contemporâneo pode ser entendido como pautado pela institucionalização de um reformismo democrático. In MUGUERZA.29 Assim. In Política] Theory. Claramente este enfoque se compreende melhor "desde que se conceba a Constituição como um projeto que faz com que o ato fundador se transforme num contínuo processo de formação constitucional que continua através das gerações". 28 HABERMAS. CRUZ. da taxa de juros e na estabilidade da moeda. reconhecido como normal no funcionamento da vida política.A Paradoxical Union of Contradictory Principies?". p. L 'Êthique de Ia Discussion et Ia Question de Ia Vérité. 768. O outro discurso. vo!. Cada vez mais o Ministério Público e o 27 Em sentido convergente à tese sustentada por Tarso Genro. fazendo assim com que os cidadãos possam mais facilmente "considerar que a Constituição é um projeto coletivo visando à realização sempre mais completa de um sistema de direitos fundamentais já estabelecido". destacando que devemos mudar o foco do debate político: de uma linguagem centrada na economia para uma mais voltada para o direito. Através de sua produção teórica. das atitudes conservadoras. p.Em face da conjuntura descrita nos parágrafos anteriores. sindicatos. tão característico.) La Filosofia Hoy. afirma o filósofo espanhol Manoel Cruz: "O supremo argumento da derrota de qualquer alternativa histórica ao que agora existe lhes permite Ias forças conservadoras) recuperar o discurso sobre a obsolescência de todo discurso. o dominante. Sua linguagem terminou por converter-se em familiar: têm que falar de mercadoria em vez de falar de direitos. de contribuintes em vez de cidadãos". 2001. na 6. 2JI HABERMAS. 2003. 2000. Jürgen. convertendo-o todo em mera administração de recursos. . uma política de distribuição de renda e de mobilização das classes da sociedade para demandarem seus direitos. pela enésima vez. o melhor exemplo de ator político que endossa um tipo de percepção da dinâmica política reconhecedor da centralidade do direito como canal capacitador de transformações sociais no Brasil é Tarso Genro.

um agente organizador da vida associativa. pondo. potencialmente. nesta nova gramática de demandas políticas. Em outra passagem deste texto elencam elementos que podem corroborar a tese do papel civilizatório do direito no tocante aos recentes desenvolvimentos da história política institucional brasileira: "Com essa intenção. Maria Alice Rezende de. Pensar a República. 150. obviamente. UFMG. apontam "a matriz do direito como ideal civilizatório [e que (A.3° Ora. Como salientam Luiz Werneck Vianna e Maria Alice Rezende de Carvalho. operando como um escoadouro das inúmeras reivindicações presentes em nossa formação social e possuindo um sentido equalizador inequivocamente progressista em nossa sociedade. a garantia dos direitos de cidadania tem. a percepção do deslocamento ocorrido quanto à avaliação do lugar assumido pelo direito e suas instituições na vida política nacional. própria das sociedades contemporâneas..uma justiça que. Luiz Wemeck e CARVALHO. caráter redistributivo. a inovação que extraiu o Ministério Público do campo do estado para fazer dele o intérprete dos direitos da sociedade civil tornou-o. institui-se o controle abstrato de normas pela 'comunidade dos intérpretes' da Constituição. esses autores revelam.).M.. Em recente texto. pode se constituir em um âmbito de animação desta. p. sob a ótica das ciências sociais. Em estreita consonância com a tese central deste texto. narrativa aufklárer da emancipação da ignorância e da servidão pelo conhecimento e igualitarismo. narrativa especulativa da realização da Idéia universal pela dialética do concreto. com a fixação de procedimentos que viessem a favorecer a cultura do civismo. diversas forças políticas aprendem a "converter interesses em direitos". podendo-se prever um efeito análogo com a criação dos chamados Juizados Especiais . iguais e livres oportunidades de conversão dos seus interesses em direitos" . grandes relatos como "narrativa cristã da redenção do pecado adâmico pelo amor. "República e Civilização Brasileira".31 Eu responderia de forma tipicamente filosófica: 30 VIANNA. (. In BIGNOTTO. Newton (org. a democracia participativa. os que mais se têm feito presentes no uso desses novos recursos institucionais". se tiver êxito na realização dos propósitos que a criaram. deverá estimular a prática da democracia deliberativa. bastando notar que são os partidos minoritários. objetivando íazer do povo um personagem comprometido com a sua Carta constitucional. III Um leitor cético poderia objetar que um tipo de defesa como esta do papel civilizatório do direito e de suas instituições tenderia a consagrar mais uma espécie de "metanarrativa". entre os quais os partidospolíticos e o mundo dos sindicatos. 31 Jean-François Lyotard caracterizou o tempo presente como pós-moderno pelo fim da crença nas grandes narrativas que desempenhavam uma função legitimadora.)I dela deveria partir a arquitetura das instituições. principalmente os de esquerda.) Ademais. narrativa marxista da emancipação da explora- . Belo Horizonte: Ed. longe de conflitar com a democracia da representação. especialmente no contexto das ações civis públicas.Poder Judiciário são provocados a atuar em questões envolvendo o largo elenco de direitos garantido em nosso texto constitucional. em especial nas sociedades periféricas. à disposição de todos. 2000. Com esse desenho imposto pelo constituinte.

como o papel civilizatório do Direito. 32 Como salienta um autor que já foi por muitos considerado pós-moderno. a idéia da Constituição como um projeto. 39.. Barcelona: Editorial Kairós. 37. Mas essa ambição é também a medida das expectativas deste fim de século. em determinados aspectos. 2001. quem sabe. se quisermos.. p. "nós podemos compreender que em face de uma tal estrutura conflituosa a tarefa assinalada ao direito é quase desmesurada: reside no direito o vetor de liberdade do sujeito ao tornar-se o receptáculo de uma pertença comum já não mais visível em outros lugares. O Pós-modemo Explicado às Crianças. In Cultura y Modernídad. a eficácia horizontal dos direitos fundamentais . porque esta aposta parte do reconhecimento de: a) haver um balizamento jurídico capacitador de práticas minimamente emancipatórias positivado em boa parte dos textos constitucionais contemporâneos mais importantes. são em si mesmas enganosas". Richard. todavia. uma esperança desmesurada em face de uma realidade política marcada por uma pluralidade de interesses divergentes e pela onipresença das considerações de natureza econômico-fiscal. 33 BOURETZ. ou. Perspectivas Filosóficas de Oriente y Occidente. p. que se autodenomina 'pós-modernismo'. porque. 34 FERRY. c) que não carrega mais nenhuma pretensão de revolução ou de redenção messiânica. Sim. para manter suas posições. de um princípio regulador para a reflexão e ação política que se encontra. e necessitam. Não. LYOTARD.). "Filósofos. Kundera y Dickens". mas. Philosophie Politique 3.33 Ora. Alain. RORTY. Luc e RENAUT. que nos diz que as esperanças de uma maior liberdade e igualdade. . a centralidade dos princípios jurídicos como realimentadores da dimensão moral do Direito. permitem fornecer um quadro de reivindica- ção e da alienação da socialização do trabalho. há a aposta em algum tipo de linha de fuga . que marcaram a história recente do Ocidente. Lisboa: Publicações Dom Quixote. À luz enfim da idéia de que não há nada razoável para além da democracia". é importante também compreender que essas idéias . proteger a autonomia dos indivíduos mantendo ainda a promessa ligada à justiça. constitui um sentimento desolador."sim" e "hão". Jean-François. op. Pierre.34 Enfim. "La Force du Droit". como afirma Pierre Bouretz.. do triunfo da cultura da incerteza. a encarnar-se em 'traços simbólicos' bem reais". 189. b) o fato de que as elites econômicas e políticas estão acostumadas.assumem o papel de "uma tarefa infinita. efetivamente. 20. 1999. cit. É claro que esta posição também exige demais do Direito. Novelistas y Comparaciones Interculturales: Heidegger. 1987. Richard Rorty: "Esse pessimismo. Paris: Presses Universitaires de France. mas que nos últimos trabalhos vem recusando esta denominação.capaz de dinamizar a vida política e defender vetores igualitários para além do ceticismo. À sombra de uma política privada das grandes utopias messiânicas (. narrativa capitalista da emancipação da pobreza pelo desenvolvimento tecno-industrial". Dês Droíts de Lhomme a Uidée Républicaine. No entanto. progressista). da linguagem do direito {que agora pode ser usada de maneira não mistificadora. p. talvez. do relativismo e da recusa pós-modema32 de compromisso. p.

In MELLO. sobretudo nas teorias sistêmico-funcionalistas que salientam como traço constitutivo das sociedades pluralistas contemporâneas a complexidade que tornaria inconsistente uma proposta teórica que ainda apqsta na possibilidade da direção da sociedade através da política. garantindo. 6a edição. Vontade política esta dependendo da articulação e organização dos diferentes interesses. Coimbra: Livraria Almedina. de Albuquerque. p. mas sim a garantia . Entretanto.35 Um observador pós-moderno imputaria a este tipo de percepção acerca do direito um caráter quase utópico. Celso D.000. "os juizes não são anjos nem heróis". boa-fé.3. pois o modo como ele é compreendido. Gomes. por meio de procedimentos jurídicos de auto-organização racional. (org.as mudanças sociais tão necessárias em nosso país.ções garantidos dos trilhos através dos quais podem se operacionalizar . 1. Direito Constitucionai. Droit.através das normas jurídicas e parametrizada pelos direitos fundamentais . responsabilidade social e capacidade teórica impõem-se aos magistrados. Enfim. Corno afirma Alexy. 2. ipso facto. e TORRES. Dire Já Norme. Merece também que fique aqui consignado o alerta: o principal "obstáculo" posto no horizonte dessa nova configuração teórica e de sua implementação em nossa cultura jurídica reside no alargamento dos poderes dos juizes. assim. mesmo esse observador crítico deveria conceder que não se trata de um "utopismo dogmático". em especial na ótica da teoria discursiva do direito e da democracia. pp. 36 CANOTILHO.e quem sabe acelerar .) Arquivos de Direitos Humanos 2. Ricardo Lobo. Jacques. da responsabilidade dos magistrados exige uma mais cuidadosa motivação das decisões judiciais respaldada nos parâmetros argumentativos referenciados às teorias da argumentação. honestidade. 1990. Rio de Janeiro: Renovar. usando uma imagem trivial. contudo a ampliação da latitude discricional da atividade judicante e. Quanto à competência teórica. multiculturais sociedades contemporâneas. aspirações e propostas políticas presentes nas complexas. momentum à dinâmica de nossa sociedade democrática. Discurso do Direito e da Democracia". um ideal "vetoriza o múltiplo e unifica a auto-realização simbólica do real". 3-80. 138. Paris: LGDJ.37. Imparcialidade. podemos entender que.36 idéia francamente questionada por inúmeros quadrantes do pensamento teórico contemporâneo estribados. Joaquim José. 37 Para uma apresentação geral dessa proposta veja-se meu artigo "Direitos Humanos e a Teoria do. André e LENOBLE. sobretudo os mais novos. terão que 35 BERTE^J. p.dos procedimentos capazes de ensejar a formação mais livre possível da vontade política. em inúmeros casos.37 não propugna nenhuma forma concreta de vida (nem sequer a sociedade "bem ordenada rawlsiana"). 2002. . isto por basear-se "na intencionalidade construtivista da política". diferenciadas e. no horizonte de sentido no qual se inscreve a vida em sociedade. nossos juizes. Politique et Enonciation.

respaldados. quem sabe. Porém. Assim. o futuro não está predeterminado e os vetores oriundos do subsistema político . por um compromisso visceral com o espraiamento das benesses econômicas e educacionais . não posso deixar de conclamar à responsabilidade ética os nossos decisores judiciais e esperar que o fortalecimento de mecanismo de fiscalização da atuação do Judicário . A3. Todavia.) a relação do Judiciário com a sociedade deve passar por um órgão de controle externo. cit. 92. Acredito na seriedade. municiar aqueles descrentes com as perspectivas de transformação social alavancada pelos instrumentos jurídicos com inúmeros contra-exemplos. Jürgen. In Opinião. 38 Quanto a um modelo ponderado de controle externo ao Judiciário. Quanto às questões relativas às virtudes morais. sem interferir na atividade jurisdicional. . além do já exaustivo conhecimento de dogmática jurídica. Quiçá os agudos problemas de exclusão social em nosso país obstaculizem as possibilidades de modificações significativas. Dentre outras funções. a história recente de nossa formação social. obrigadas agora a aprender mais de uma língua estrangeira para enfrentar o competitivo mercado de trabalho. punir desvios de conduta". Folha de São Paulo. Uma via de mão dupla. planejar estrategicamente a instituição. "O Controle Externo é Favorável ao Judicário". Uma outra objeção endereçada à tese defendida neste artigo (tese esta que subjaz a boa parte das contribuições apresentadas neste livro) pode ser resumida na seguinte frase de Habermas: "O direito não pode engendrar uma cultura política democrática. o facilite e lhe dê contexto". op. 39 HABERMAS. quando for o caso. contudo. a resposta é mais difícil. "El Filósofo como Verdadero Maestro dei Derecho". da redemocratização à eleição de Luís Inácio Lula da Silva. capaz de transmitir as expectativas dos cidadãos e de compreender as circunstâncias das instituições judiciais.. seguindo o parecer de Luís Roberto Barroso: " (. na verdade misto. sobretudo -. ao Conselho Nacional de Justiça caberia. facilmente."desempenhar" como as crianças de classe média das novas gerações. p. Não preciso me valer do recurso retórico: "Há juizes em Berlim!".hermenêutica e argumentação jurídica. elitista e corporativista presente em nossa vida política pode. 15 de fevereiro de 2004. p. políticas públicas e noções de economia. zelar pela universalização do acesso à Justiça e. Luís Roberto. reivindicar verbas e compromissos.38 mas sobretudo pela ampliação e pelo fortalecimento de um espaço público jurídico norteado por uma cultura da discussão argumentativa possa garantir que a ordem jurídica e sua aplicação contribuam para o desenvolvimento da democracia em nosso pais.não só por meio do controle externo. como em Filosofia do Direito . BARROSO. apresentar relatórios estatísticos.podem abrir a possibilidade de um horizonte menos iníquo para nosso país. se não sempre dependerá de uma cultura democrática que o fomente.39 A pesada herança autoritária. constitui testemunho de saúde democrática exemplar. apto a promover a comunicação adequada entre as duas instâncias. terão que aprofundar seus conhecimentos extradogmáticos. honestidade e compromisso do Judiciário brasileiro..

Uma coletânea como esta. . é de meia geração). que ainda contribuirão. na verdade. nos anos vindouros.Por fim. foi preparada em nosso departamento por três professores que situam a abordagem interdisciplinar do direito no eixo pensamento jurídico/ciência política: Ana Lúcia Lyra Tavares. que muito me orgulho de apresentar. para transformar o Rio de Janeiro em um dos pólos cardeais de estudos jusfilosóficos em nosso país. não poderia deixar de mencionar o fato de que esta perspectiva interdisciplinar. já é o resultado do labor de duas gerações de professores e se expressou brilhantemente nessa terceira geração de jovens professores (destacando-se que a distância entre esses três grupos de professores. José Ribas Vieira e José Maria Gomez. presente no perfil de nosso Programa de Pós-Graduação e sobejamente aqui testemunhada na interface entre filosofia do direito e teoria do direito.

FILOSOFIA DO DIREITO E FILOSOFIA .

de Cabral de Moncada a Miguel Reale. noumeno/fenômeno. Barcelona: Grupo Editorial Norma. razão teórica/razão prática) tenham sido criticados pela filosofia hegeliana .) ser e valer são Professor de Filosofia do Direito dos Programas de Pós-Graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.que atribuía a eles uma fonte de alienação. tal crítica não prosperou no âmbito da filosofia jurídica. Habermas ha elaborado una visión dei mundo muy amplia. PUTNAM. Conversaciones Filosóficas . ipso facto. da brilhante obra de Emil Lask a seus desdobramentos em Gustav Radbruch. en Ia cual ha logrado conciliar una teoria de Ia sociedad. Embora. In BORRADORI. un pensador global. da constatação de que "(••. 97. Hilary. entre fato e valor constitui ponto fulcral da reflexão jusfilosófica. p. o 'abrandamento' de tais dicotomias como um de seus mais relevantes impulsos -. Tais dualismos. El interés de Habermas no está dirigido solo hacia ei lenguaje.El nuevo pensamiento norteamericano.A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas Antônio Cavalcanti Maia* "Habermas me parece más un God-thinker. Giovanna (org. assim. perseguindo.1 Putnam A discussão acerca da distinção entre ser e dever-ser. cuéles son los defectos y como pueden ser mejorados o incluso evitados. "Entre Ia new left (nueva izo^üerda) y ei hebraísmo". sobretudo. do normativismo kelseniano ao realismo escandinavo de Alf Ross e. y hacia los modos en los que resulta destruyéndose solo. desde o século XIX. una perspectiva epistemologica y una teoria dei lenguaje". sino especialmente a todos los setores de nuestra cultura: como se conectan en forma de totalidad. estes dualismos {como forma/conteúdo. no âmbito de língua portuguesa. quizás Ia más amplia después de Karl Marx. ocupam um espaço central nas cogitações de boa parte dos principais protagonistas da filosofia jurídica novecentista. .). oriundos da arquitetônica kantiana. natureza/espírito e. 1996. Do estabelecimento desse campo de reflexões por Rudolf Stammler ao trabalho de Giorgio dei Vecchío. há um endosso quase que unânime da perspectiva kantiana e.

ou vemos as coisas enquanto são. inscreve-se no coração do movimento de reabilitação da filosofia prática. São Paulo: Saraiva. Tércio Sampaio. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito.como em face dos autores pós-modernos. neste trabalho. não definíveis e não analisáveis. Habermas desempenha um papel singular no debate contemporâneo de idéias filosóficas do Continente Europeu. mas igualmente as metateorías da economia e do direito. introdução à Filosofia. que constituem a base da distinção entre o mundo da causalidade e o da imputabilidade.. p.adstrito ao âmbito da epistemologia e da filosofia moral. FERRAZ JR.. com significativas conseqüências para os pressupostos filosóficos do debate jusfilosófico. devem ser".2 Todavia. Neste sentido. e. ciência da natureza e ciência normativa". posicionando-se antinomicamente tanto em relação às vertentes positivistas . 1988. as contribuições a tal discussão advindas da perspectiva desenvolvida por Jürgen Habermas. Quanto a este quadro filosófico.Antônio Cavalcanti Maia duas categorias fundamentais. porque valem. . Karl Otto Ap ei afirma: Nós sabemos que a situação da filosofia na primeira metade do século XXreflete esta constelação (. apud. Eles não dominam apenas a filosofia teórica.. necessidade e liberdade.): de um lado. que estão orientadas em função do paradigma de racionalidade das ciências axiologicamente neutras. 141. procurarei destacar. DIN1Z. Embora não vá trazer à colação as inúmeras reflexões concernentes ao direito formuladas em sua monumental obra Füticidade e Validade. duas posições primordiais do espírito perante a realidade. São Paulo: Saraiva. Nesta perspectiva. circunscreverei um domínio de considerações . ou as vemos enquanto valem. ou não-verifícáveis. os valores e as normas da moral não podem ser concebidos a REALE. Miguel. trazendo conseqüências relevantes ao domínio do pensamento jurídico. cuja superação a Teoria crítica da sociedade vem se esforçando em alcançar como opção plausível. encontramos as variações do positivismo cientificista. em síntese: o conjunto de domínios de racionalidade procedimental publicamente reconhecidos.seja no domínio filosófico ou no campo das ciências sociais . 108. na forma de uma teoria da ciência. Como observa Tércio Sampaio Ferraz: "Ser e dever-ser são independentes entre si: são conceitos simples. Ao lado dos outros protagonistas do projeto da ética do discurso. 1988. Maria Helena. esta forma de compreensão geral da natureza das relações entre mundo fenomênico e esfera normativa tem sido questionada por desenvolvimentos recentes no âmbito da filosofia. p. insurgindo-se contra a constelação filosófica dominante de nosso século que deixava ao largo dos debates racionais as questões atinentes às normas regradoras da vida social.

WPJGHT. na forma de instâncias complementares da filosofia positivista-cientificista. Derrida. 1997. a de uma ciência jurídica não infectada pela argumentação teleológica e moralista". pode-se apontar como elemento comum "(. 24-25.) um apaixonado afã de 'purificar' a ciência de ingredientes que considerava [m] incompatíveis com uma busca sem concessões da verdade. Habermas e 3 4 APEL. em síntese: como um assunto privado .A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas não ser como um assunto de sentimentos ou de decisões irracionais. ainda. de matriz francesa (Foucault. Weber via uma ameaça para a pureza científica nas valorações e professava o ideal de uma ciência valorativamente neutra (eine wertfreie Wissenschaft).) La normatividad dei derecho.posiciona-se diante do 'abismo intransponível' posto por essa antinomia impõe-se como relevante a todos aqueles concernidos com as questões relativas aos fundamentos e justificativas dos sistemas legais e com as correlatas cogitações atinentes à legitimação das ordens jurídicas contemporâneas.. aberto pelo Wittgenstein tardio. Cabe destacar que. "Ser y deber ser". Éthique de Ia discussion. In AARNIO. aferir o modo pelo qual a Teoria crítica da sociedade máxime a versão habermasiana . p. pp. A visão de Kelsen era de uma reme Rechtslehre. 87. 1994. Quanto a estes dois.como a religião -e é precisamente nesses confins de racionalidade procedimental publicamente reconhecida que podem entrar em jogo. as variações do existencialismo. infensa a qualquer posição que procure advogar um acesso racional a princípios morais de natureza universal. Ora. neste aspecto. subsumidas sob o rótulo de positivismo. e como Max Weber previu..também caracterizada como pós-moderna. discussões relativas a tal problemática conectam-se com o âmago das preocupações do domínio da filosofia moral e da filosofia do direito. A singularidade do ponto de vista sustentado pela versão contemporânea da Kritische Theorie situa-se não só em relação às correntes dominantes de boa parte do discurso filosófico do séc. ai. Lyotard e Deleuze) -. mas também em face da constelação pós-estruturalista. converge. XX. . pois se situa em um patamar distinto daquele quase que canonicamente determinado por dois gigantes do século XX: Weber e Kelsen. Georg Henrik von. Paris: Lês Éditions du Cerí. Karl-Otto. Desta forma. do pensamento singular. Barcelona: Editorial Gedisa. Tal constelação .4 Tanto para Weber como para Kelsen a distinção entre ser e dever-ser constitui elemento fulcral de suas concepções de ciência.^ Seu projeto filosófico traz imediatas conseqüências ao âmbito do pensar sobre o direito. cabem a elas tematizar o problema das decisões axiológicas últimas como irracionais e privadas. (org. Aulius et. ou. com os impulsos filosóficos provenientes da perspectiva heiddegeriana. bem como dos inúmeros desdobramentos do campo da filosofia da linguagem ordinária. neste particular.

penso que Adorno. HABERMAS. 141. insurgindo-se contra "o contextualismo que se beneficia hoje de larga influência". seriamente. uma limitada contribuição à análise empírica da supercomplexa realidade de nossa própria sociedade. Habermas (ao lado de Apel} desenvolveu uma perspectiva da Teoria crítica questionadora desse axioma positivista. enquanto Foucault e Adorno aceitaram os limites (positivistas) à possibilidade de acesso racional às discussões morais. "Dialética de Ia Racionalizacion". (grifo meu) HABERMAS. Nunca se engajou com elas.. como deveria ter feito. assim como Foucault. como pensadores da sociedade. "Ideologias and Society in the Post-war World". dão nos tópicos e temas de discussão que são altamente desejáveis. de seu próprio status". In Autonomy and Solidarity. Em outra oportunidade. Assim: De facto. 56. Lisboa: Editorial Teorema. em segundo lugar. pois que. Vérité et Justifícation. podem impor-senos de uma forma perfeitamente arbitrária. sistematicamente. conservando sempre uma reserva crítica.Antônio Cavalcanti Maia Karl-Otto Apel se diferenciam também de Adorno e de diversas correntes do materialismo histórico. ao contrário de Fbucault e de Adorno.5 Interessante observar como essa problemática constitui um elemento central das divergências de Habermas em face de Foucault e Adorno . com que constantemente nos deparamos. In Crítica. Paris: Gallimard. dadas as suas próprias intenções. Assim. ela falhou ao não garantir uma não ambígua explicação de sua própria fundamentação normativa. ter que nos voltarmos para 'dentro'e tentar traçar ao menos regras do pensar racional e tentar explicá-las. p. somos também obrigados a dar explicitamente tais juízos. Jütgen. Jurgen. Finalmente. Ora. abril 88. Desta forma: "(. 2001. formula críticas semelhantes: "Em primeiro lugar.. mas são também fortemente críticos em relação à possibilidade de quaisquer juízos normativos e eu penso que nós. 1988. p. o que significa. 43. do operar humano. os pontos de vista historicistas ou moralistas ou positivistas.Q (grifo no original) A procura por um caminho que possibilite a fundamentação racional dos juízos morais constitui um componente central da atividade teórica de Habermas. .) me parece que los pontos debiles de Ia Teoria Crítica se pueden caracterizar com Ias expresiones seguintes: 'fundamentos normativos'. Patenteia-se neste ponto uma diferença axial quanto às concepções destes três filósofos acerca da competência do discurso filosófico em relação à questão do agir. p.concernindo à capacidade de justificação racional dos juízos normativos. London: Verso. as contribuições das ciências sociais e da filosofia analítica. Jütgen. a Teoria crítica nunca levou em consideração. Jurgen. 'concepto de verdad y relacíon con Ias ciências1 e 'infra-valoracion de Ias tradiciones dei estado democrático de derecho"'. p. doutro modo. HABERMAS. Barcelona: Ediciones Península. n" 3. ela se refugiou numa crítica abstrata da razão instrumental e formulou. "Comunicação e Razão". 212. In Ensayos Políticos. Ele reprova a primeira geração da Teoria crítica da sociedade pela falta de explicitação da base normativa de seu discurso. 1992. apenas.7 Este problema 5 6 7 HABERMAS. Desse modo nós devemos formular juízos valorativos.

(na qual aborda três perspectivas: hegelianos de esquerda. Sobre a diferença en- .9 A ética do discurso. Dicionário do Pensamento Marxista. ao longo de sua dissertação tratando dos Hegelianos de esquerda. Tal preocupação o obrigou a uma série de desenvolvimentos teóricos. ou seja. Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. neste aspecto bem distinta daquela adotada por seu antigo assistente. hoje a figura de proa da Escola de Frankfurt. Revista Tampo Brasileiro.. cujas conseqüências trazem significativa repercussão no debate contemporâneo nos campos da filosofia moral.10 8 HABERMAS. entre a teoria e a prática". projeto desenvolvido por Jürgen Habermas. KarlOtto Apel. Esse projeto envolve a reconstrução de algumas das teses centrais da filosofia grega e alemã: a inseparabilidade entre a verdade e a virtude. sustenta a inexistência de fundamentos últimos para o conhecimento e os valores. Albrecht Wellmer e Robert Alexy.s Em relação ao Marxismo. Sérgio Paulo. a reprovação se encontra endereçada ao Marxismo Ocidental como um todo. da filosofia política e do direito. In Habermas 60 Anos. nunca terem sido dilucidados em termos satisfatórios". de caráter secular. Jürgen. por exemplo. marcando um dos pontos nos quais as diferenças de Habermas quanto à tradição do materialismo histórico se impõem com mais força. Tal distinção é destacada por David Held: "Enquanto o primeiro [Adorno]. jul. 10 ROUANET. na terceira conferência do D. uma perspectiva de: "(. entre os fatos e os valores. 1989.. 9 BOTTOMORE. Jürgen Habermas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (e na página seguinte) "(.-) as dificuldades se prendem com o fato de os fundamentos normativos da filosofia da práxis. Como salienta. 19. Ibm (org. assume uma posição dentro das éticas cognitivistas.F. O Discurso Filosófico da Modernidade. e que em tese não postula qualquer diferença categorial entre o conhecimento dos fatos do mundo e os do mundo moral". bem como do conceito de razão de que esta filosofia depende. Habermas defende o ponto de vista de que esse problema dos fundamentos . 1990.-set.o problema de constituir uma base normativa bem fundamentada para a Teoria crítica . "Ética Iluminista e Ética Discursiva". No caso do problema da fundamentação normativa observado no trabalho da primeira geração da Escola de Frankfurt.) filosofia moral que considera possível fundamentar a norma ética em princípios gerais e abstratos. 71-72.M. "a história do marxismo ocidental pôs a claro as dificuldades respeitantes aos conceitos fundamentais da filosofia da práxis. emblemática a posição de Adorno. Estas dificuldades resultam sempre de pontos obscuros acerca dos fundamentos normativos da crítica". p. p. hegelianos de direita e Nietzsche).). n° 98. 1988. 175. muito especialmente as potencialidades do conceito de práxis em relação às exigências de uma teoria crítica da sociedade..A Distinção entre Patos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas impoe-se como um dos aguilhões motivadores de suas reflexões. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.tem solução e procurou desenvolver os alicerces filosóficos da Teoria Crítica.

a investigação moral se torna dependente das ciências empíricas ou factuais. 117. Em contrapartida. de tal modo que do bom resta apenas o justo". as questões atinentes à vida boa ou ao bem comum. a perspectiva da ética do discurso concentra seu escopo de análise nas questões que tratam da 'justeza' das normas reguladoras da vida social aspiradoras à legitimidade. Jürgen. p. O cognitivismo se apresenta em duas versões: naturalismo e intuicionismo.Antônio Cavalcanti Maia Admitindo os juízos morais como assertivas passíveis de serem consideradas verdadeiras ou falsas. Moore. de. 1989. bem como influenciar outros. L. e estabelece a existência de Deus. Ewing) sustenta que os valores morais fundamentais são evidentes. . 'bem' significaria o mesmo que 'útil' (utilitarismo) ou 'capaz de gerar prazer' (hedonismo).11 2 As contribuições atinentes aos debates acerca do domínio da ética elaboradas por Habermas trazem necessariamente repercussões em relação a um problema em torno do qual (ou a partir do qual) a reflexão ética se divide entre éticas cognitivistas e éticas não cognitivistas: a 'Guilhotina de Hume'. In CARVALHO. já que "as éticas cognitivas eliminam os problemas do bem viver e concentram-se nos aspectos rigorosamente deônticos. os enunciados morais são insuscetíveis de receber um valor de verdade. os juízos morais são asserções e. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. (Org. Segundo o eznotivismo . o intuicionismo (G. não são passíveis de teste com base na observação ou no experimento. "Subsídios para uma interpretação do Paradigma Racionalista Crítico de Análise Social". Stevenson). ou faz comentários tre éticas cognitivistas e não cognitivistas esclarece Luís Alberto Peluso: "Segundo o cognitivismo. Segundo a variante naturalista. Luís Alberto. Ross. D. passíveis de ser considerados verdadeiros ou falsos. dado que enunciados morais tendem a evocar em outros sujeitos determinadas emoções ou a produzir neles o efeito emocional". Assim. 32. Não se encontram privilegiadas. p. tradicionalmente compreendidos como a diferença ontológica entre a esfera do ser e a do dever-ser (em vocabulário kantiano ou neo-kantiano Seín/Sollen).) Paradigmas Filosóficos da Atualidade. Prichard. PELUSO. que postula uma diferença radical entre dois planos da realidade. J. sem que para tal precisemos recorrer a qualquer instância empírica. dentro desta démarche. as doutrinas não-cognitivas sustentam que a esfera moral não é suscetível de ser apreendida por qualquer ato de cognição.A. 11 HABERMAS. H. Ayer) ou atitudes (Ch. portanto. exprime-se de uma maneira habitual. A. Maria Cecília M. Stevenson ressalta a função evocadota. In Consciência Moral e Agir Com única tiro. Destarte. 1989. Conseqüentemente. "Filosofia como Guardador de Lugar e Intérprete".variante do não-cognitivismo .E.os enunciados morais têm a função de dar expressão a nossos sentimentos (A. por certo tempo. generalizáveis. os juízos morais podem ser considerados verdadeiros.C. Campinas: Papirus. Ao contrário das concepções cognitivas. os predicados de caráter ético admitem redução a predicados de caráter não-ético. Hume expõe este problema em célebre passagem: Em todos os sistemas de moralidade que examinamos até agora se terá notado sempre que o autor. Enunciados morais podem ser derivados a partir de enunciados verdadeiros acerca do homem ou do mundo.

1996. 14 OPPENHEIM.^2 O problema da 'Guilhotina de Hume' traz implicações incontornáveis às discussões no campo da ética.. Este debate filosófico desenvolvido em torno da chamada 'Guilhotina de Hume' tem. nem dos fatos para os valores"14 e de que "(. 13 MESURE. conseqüências estas acarretadas pelo reconhecimento de que "evidentemente (. . também. Karl.).) não podemos ir do 'ser' para o 'dever-ser'. Porque. Tratado de Ia naturaleza humana. Nos limites deste trabalho não poderei desenvolver esta reíação. 1988.. Dicionário de Ciência Política. é necessário que se analise e se explique. pois que não se fundam em percepções como os juízos de fato. concernindo à proposta habermasiana de reabilitação da razão prática. David.) os juízos de valor não são suscetíveis de confirmação científica. Alain. Livro III. 15 LARENZ. Essai sm Ia quereUe dês valeurs. ao mesmo tempo que se dá alguma razão de algo que nos parece inconcebível. Esta mudança é imperceptível. acarretando "uma radical solução de continuidade entre os enunciados descritivos exprimindo um conhecimento dos estados de coisas (. 1995. na Teoria Pura do Direito.15 Esta discussão exigiria. In BOBEIO. e. Norberto et ai (org. 68. Felix.13 Articulada a esta disjunção temos. Brasüia: UNE. no campo da filosofia moral. para o seu melhor enquadramento. dado que esse 'devia' ou 'não devia' expressa uma nova relação ou afirmação. Metodologia da Ciência do Direito. Kelsen. contudo. tem-se como corolário a definição de duas esferas. 661. parte I. posto que. entre um saber que se aplica à ordem do ser e a razão prática que remete à ordem dos valores. p. Madrid: Tecnos. estriba seu ponto de vista em George Moore.em lugar dos verbos copulativos 'ser' e 'não ser' entre as proposições . Paris: Bernaid Grasset. será preciso que nos expliquem como esta nova relação pode ser uma dedução de outras que são totalmente diferentes.. mas de repente surpreende deparar com o fato de que .. Note-se que. ou planos da realidade: o mundo do ser (Sein) e o mundo do dever-ser (Sollen).) e os enunciados normativos pretendendo prescrever ao sujeito de ação o que ele deve ou não deve fazer". Verbete "Justiça". 2. contudo ela deverá ser enfrentada para um melhor enquadramento dos problemas aqui tratados. uma referência ao projeto crítico kantiano e aos seus desdobramentos neo-kantianos com as correlatas divisões entre mundo físico e mundo moral. a partir desta constatação. com fundamentais conseqüências no debate de filosofia moral. um dualismo entre um saber através 12 HUME. Sylvie e RENAUT. é de grande importância. p. Lisboa: Calouste GulbenWan. reino da necessidade e reino da liberdade. p. e assim possibilitam conferir expressão à convicção pessoal de quem emite o juízo". seção l (final). epicentro de ampla querêla na filosofia anglo-saxônica. 1989. a diferença entre juízos de fato e juízos de valor. que são suscetíveis de corroboração através da observação e experimentação. ao introduzir a discussão sobre ser e dever-ser.não há mais nenhuma proposição que não seja ligada por um 'devia' ou 'não devia'.. vinculações com a chamada falácia naturalista..A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas sobre os assuntos humanos.

e reelaborado por Habermas.*7 Ora.. Aqui é empregado sobretudo dentro de uma das acepções destacadas por Hart: "O ponto de 16 Elaborei uma explicação mais cuidadosa dessa derivação do princípio 'U' a partir da intuição universalista presente no imperativo categórico kantiano em meu texto "Direitos humanos e a teoria do discurso do direito e da democracia". 20-23. 2000. que dentro dos limites deste trabalho tal problema. esta questão filosófica estabelece um dos pilares da matriz positivista de pensamento iniciada pelo filósofo escocês. encaminhando a discussão de um dos vetores cruciais do seu projeto filosófico . Paris: Denoèl/ Gonthier. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. principalmente entre as pp. 16 Em um dos textos preparatórios da Teoria olo Agir Comunicativo. de amplas conseqüências em diversos campos do debate filosófico. 1980. o dualismo entre 'ser' e 'dever ser' (fatos e valores) foi plenamente esclarecido. p.derivações do imperativo categórico. 10 .com críticas principalmente ao Círculo de Viena e a Karl Popper -. e LOBO. o seu enquadramento.Habermas e a Escola de Frankfurt. La Philosophie Positiviste. 131. 18 KQLAKOWSKI..Antônio Cavalcanti Maia do qual podemos chegar a conclusões racionais . David Hume.) o verdadeiro pai da filosofia positivista". vale dizer. 17 HABERMAS. Raymond. Sabidamente. apresenta-se como indispensável para os fins das discussões objeto deste item. parciais e injustificadas. todavia. tendo sido um dos eixos em torno dos quais trabalhou a primeira geração .cardeais ao seu projeto . p. Significa a impossibilidade de derivar logicamente juízos de valor a partir de sentenças descritivas ou declarações".embora sempre provisórias e condicionadas . 41. Teoria Critica .is A obra de Habermas no campo da ética (bem como no plano epistemológico) se encontra em oposição ao enfoque positivista. texto basilar da perspectiva ética desenvolvida por Habermas.e uma prática que não dá lugar senão a posições decisionistas. 1976. mesmo em termos gerais. contrapõese a quem "sustenta: (a) que uma abordagem empirista da ciência natural é adequada. "um dos maiores espíritos que os tempos modernos produziram e (. em sua versão comunicativa da Teoria crítica. Arquivos de Direitos Humanos.). o autor reconhece serem os princípios 'U' e 'D' . Celso A. 9. 19 GEUSS. 1988. apresenta este termo inesgotáveis dificuldades de uma breve definição. comenta esta problemática destacada a partir da constatação da chamada 'Guilhotina de Hume': "Desde Hume. Cumpre observar. Rio de Janeiro: Renovar. Campinas: Papirus. p. Leszek. Ricardo (org. Em "Notas Programáticas para a Fundamentação de uma Ética do Discurso".a ancoragem normativa da Teoria crítica da sociedade -. contudo. Jürgen.19 Constitui este ponto de vista um dos elementos centrais da démarche da Escola de Frankfurt. posto que a ética do discurso se identifica como pertencendo à tradição kantiana. será tratado de forma não concludente. e (b) que toda cognição deve ter essencialmente a mesma estrutura cognitiva que a ciência natural". In MELLO. A Crise da Legitimação do Capitalismo Tardio.

Em contraste com Weber.Antônio Cavalcanti Maia Com o desaparecimento da razão prática.) uma assunção que é central ao trabalho de Habermas (. afirma. As proposições normativas escapam a essas duas esferas. J. La sécularisation de Já penses.22 E reverter esta posição . 31.. no qual esboça o programa da pesquisa realizada nos vinte anos subseqüentes: "Nossa excursão no discurso contemporâneo da ética foi ensejada para apoiar a afirmação de que as questões práticas admitem a verdade".. cabe salientar a sua posição acerca desta questão.. In VATTTMO. "Ética Iluminista e Ética Discursiva". p. Habermas estima. GADAMER. Luhmann e outros. um livro marcadamente programático.a razão teórica". Rio de Janeiro. Hans Georg. D. Jürgen. 1988. Habermas sustenta que as normas não asseguram meramente uma crença na legitimidade. pois esta. "(. Paris: Éditions du Seuil. como já mencionado.). Elas não são nem empíricas nem tautológicas. e portanto não podem ser fundamentadas à luz da única instância racional que sobreviveu à dissolução da razão kantiana . 141. 24 HABERMAS. mas que ela desempenha também. no entanto. 1989. só tem competência sobre as proposições analíticas da lógica e da matemática e sobre as proposições sintéticas relativas ao mundo objetivo dos fatos. Essa dimensão que se abre aqui eu gostaria de chamar 'dimensão hermenêutica'". "Edictor's Introduction".parece ser um dos objetivos principais da versão habermasiana da Teoria crítica da sociedade.Crítica!Debates.23 Em relação a este problema. como sublinha Gadamer: "Heidegger assim colocou em evidência o caráter problemático da distinção que fazemos entre julgamento de fato e julgamento de valor . In Habermas 60 Anos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 11. 1980. Gianni (org. Tempo Brasileiro. p. em A Crise de Legitimação do Capitalismo Tardio. p. É em parte por causa dessa dicotomia que as pessoas estão pessimistas e incapazes de vislumbrar uma via de 22 ROUANET. o reino das normas e fins deixa de ser acessível à razão.dominante no quadro contemporâneo . 12 . está articulada com uma das questões centrais do debate filosófico: a distinção entre fatos e valores. In Habermas. 210. 1982.25 Como salienta Hilary Putnam acerca de tal problemática. 25 Não posso entrar aqui em considerações acerca das objeções levantadas por Heidegger à própria existência dessa distinção.24 Esta discussão. e HELD.. ao se referir a Habermas: Eu dou um exemplo: eu penso que a dicotomia fato/valor é um dos problemas centrais de nossa época. p. que pode ser independentemente e racionalmente avaliada". Cambridge: MIT Press. que os filósofos deveriam partir da hipótese segundo a qual a dicotomia fato/valor não é somente o reflexo dos processos de base. A Crise da Legitimação do Capitalismo Tardio. Com efeito. um papel causai. e nisto eu estou de acordo com ele. reduzida à razão científica. "Lês fondements philosophiques du XXe siècle".) é a de que normas são suscetíveis de justificação racional. em parte. Paulo Sérgio.como se puras constatações de fato fossem possiveis. 23 THOMPSON. elas também erguem uma pretensão de correção. como diríamos em um jargão marxista.

Uma das características definidoras de uma Teoria social críti- 26 PUTNAM.que talvez seja a coisa mais essencial neste domínio -. Reconhecer que a distinção entre fatos e valores caracteriza dois domínios totalmente disjuntos e que é impossível derivar proposições normativas de proposições descritivas implica. Se há portanto alguma coisa de essencial com a qual os filósofos devem haver-se . 68. praticamente. têm-se conseqüências incontornáveis no debate de filosofia moral. em certo sentido. Com efeito. ou a um cocktail. sobretudo neste livro. Ora. fíazão. p. que Hume articulou e a tradição empirista em filosofia e a investigação social elevaram ao status de primeiro princípio. "Lês Voies de Ia Raison . melhores ou piores.Entretien avec Hilary Putnam par Christian Bouchindhomme". (grifo no original)27 Ora. ainda encontraria alguém dizendo-lhe: 'Isso é suposto ser enunciado de facto ou um juízo de valor?' A concepção de que não existe evidência sobre se as coisas são ou não boas. já que. descrição e avaliação. é claramente incompatível com a idéia de uma teoria crítica da sociedade. institucionalizada". como observa Putnam. a impossibilidade de elaborar uma discussão racional acerca do mundo normativo. na medida em que a dicotomia fato/valor se torna uma instituição cultural. ao contrário da maior parte das questões atinentes à filosofia da linguagem. etc. Verdade e História. ciência e crítica. ou tivesse uma discussão em algum corpo deliberativo do qual por acaso você seja membro. epistemologia ou metafísica. certamente interessantes para o filósofo.168. via de regra.porquoi ne peut-on pás "naturaliser" Ia raison.26 A problemática da relação entre fatos e valores se apresenta como um dos problemas filosóficos possuidores de relevância na vida quotidiana. más. tornou-se. Como observa Thomas McCarthy: "A clivagem entre fatos e valores. definindo uma das especificidades de seu posicionamento em face das outras correntes do debate filosófico. no trecho compreendido entre as páginas 165 e 190. tal dicotomia é. Lisboa: Publicações Dom Quixote. em discussões travadas entre pessoas que podem ser consideradas como pertencentes a um público cultivado. porém desprovidas de importância à vida ordinária. Um dos caminhos para o enfrentamento dessa problemática relativa à distinção entre juízo de fato e de valor e as conseqüências daí derivadas será o exame da perspectiva de Putnam. p. 1992. levada em consideração. A preocupação com os problemas relativos à distinção fatos e valores sempre esteve no centro das cogitações da Teoria crítica. é o fato de que se criou um universo em virtude do qual nós aceitamos a dicotomia fato/valor como uma exigência da razão. In Défínitions . 27 PUTNAM. Será necessário avaliar melhor o posicionamento da ética do discurso acerca destes dois pontos. 13 . Hilary.A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas saída para além do impasse no qual nós estamos. "(•••} da próxima vez que fosse à rua. 1992. Paris: Editions de 1'Éclat. Hilary.

nada menos. Legitímation Crisis. A superação do fosso entre ser e dever-ser. No nível da fundamentação filosófica. a razão teria jurisdição sobre o mundo dos valores e dos fins. os desenvolvimentos observados na Teoria crítica sob a liderança de Adorno. No tocante a este problema. p. Teoria Crítica e Psicanálise. uma reelaboração da idéia de universalização.Antônio Cavalcanti Maia ca é precisamente sua tentativa de superar a divisão empírico-normativa e a separação da teoria da prática que deriva desta divisão. ou do Ser: nos dois casos. In As Razões do Iluminismo. em última análise. Boston: Beacon Press. a respeito do projeto habermasiano: "É necessário. Rouanet salienta também encontrar-se no escopo da razão comunicativa o tratamento racional das questões normativas. ou do Dever-Ser.28 Contudo. com o enfrentamento da fratura humeana e a conseqüente possibilidade de justificação do juízo moral. por exemplo. Esta questão é salientada. Assim: "Traduzida no registro da ação comunicativa. como assistida nos últimos trabalhos de Adorno). abrindo a discussão racional no domínio normativo. Sérgio Paulo. entre vida e ciência. condenou as proposições normativas (organização da práxis) à inverificabilidade e à contingência da mera opinião". nos anos 70. em textos publicados no Zeitschrift für Sozialforschung"'. isto requer a reconceitualização da noção teorética de verdade e o estabelecimento de uma relação íntima entre verdade e liberdade.29 Que este é o desiderato de Habermas não parece haver dúvida. Desta forma. entre os julgamentos descritivos e os prescritivos. por Rouanet quando afirma. foi o retorno ao primeiro plano destes domínios de reflexão (e não a hipertrofia do discurso estético e de crítica da cultura. a questão é examinar a plausibilidade dos seus argumentos para sustentar tal posição (certamente escapando aos limites deste trabalho). paulatinamente afastaram esta linha de pesquisas das questões mais candentes de teoria social e filosofia política e moral. 286. só a argumentação racional pode decidir da validade de uma afirmação que se pretende verdadeira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Esta reconceitualização foi tentada pela primeira geração da Escola de Frankfurt. Thomas. 1986. especialmente por Max Horkheimer e Herbert Marcuse. Habermas enfrenta a problemática da fundamentação normativa da Teoria crítica desenvolvendo a ética do discurso. "Introdução". o principal objetivo dos esforços teóricos desenvolvidos por Habermas. Sérgio Paulo. 29 ROUANET. 1987. 1975. p. a exemplo de todas as éticas cognitivas que "(•-•) retomam a intuição que Kant exprimiu no imperativo categórico". 15. a partir dos anos 40. possivelmente. que desde Hume e sobretudo Weber. está sujeito aos mesmos critérios de racionalidade processual que o universo dos fatos. ou de uma norma que se pretende justa". In HABERMAS. São Paulo: Companhia das Letras. Jürgen. 14 . presente 28 MC CARTHY. ROUANET. X. porque o universo das normas. e. p. Uma das mudanças significativas operadas na Teoria crítica a partir da virada comunicativa nela imposta por Habermas. que fechar o abismo entre o Sem e o Sollen. "Introduction". constitui.

op. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. In Consciência Moral e Agir Comunicativo. HABERMAS. tão susceptíveis de serem falsas ou verdadeiras. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. por todas as pessoas concernidas. Jürgen. 26-27. Ao mesmo tempo. porque sem elas nenhum interessado participaria de uma argumentação moral. In Consciência Moral e Agir Comunicativo.. sem constrangimento. Mas o consenso só será fundado quando o discurso tiver sido conduzido segundo uma regra de argumentação . Ela supõe que as normas são racionalmente validáveis. no sentido de Hegel. de maneira previsível. Sérgio Paulo. 84. "Ética Iluminista e Ética Discursiva".) As condições expressas no princípio U são ideais. In Jürgen Habermas: 60 Anos.31 Mais uma vez o magistério de Rouanet explicita tal questão: É esse o fundamento da ética discursiva. pp. uma norma só deve pretender validez quando todos os que possam ser concernidos por ela cheguem {ou possam chegar). Neste sentido. mas necessário. As normas serão válidas quando tiverem sido objeto de um consenso. no sentido de Kant. 32 ROUANET. cít. pois raramente se atualizam em discursos concretos.-set. jul. 15 . o princípio 'U' defende o ponto de vista segundo o qual pode pretender validade uma norma cujas conseqüências e efeitos secundários resultantes. "Notas Programáticas para a Fundamentação de uma Ética do Discurso". como resultado de um discurso prático.. op. De acordo com a ética do Discurso.o critério da universalização. confundir esse princípio de universalização com um princípio no qual já se exprima fundamental de uma ética do Discurso. O princípio não é assim nem real. contudo. p.^2 Conforme afirma um comentador simpático às posições defendidas pelo herdeiro da Escola de Frankfurt: "U pode transpor o hiato entre 'ser' e 'dever 30 HABERMAS. que as proposições normativas são tão wahrheitsfaehig. 1989. 1989. que Habermas denomina o princípio U.A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas no imperativo categórico. tem-se: "Não devemos.. 31 Quanto ao princípio D (ou princípio ético discursivo). a um acordo quanto à validez dessa norma". 86. nem meramente um princípio regulador. p.. porque nenhuma sociedade histórica permitiu até hoje a concretização de discursos organizados segundo esse modelo. enquanto participantes de um Discurso prático. porque em cada argumentação discursiva temos que pressupor o modelo como já efetivo.(. Essa necessidade pode ser fundamentada. de sua observação universal com a intenção de satisfazer os interesses de todos e cada um podem ser aceitos. quanto as proposições descritivas. O princípio U não é pois contingente. "Notas Programáticas para a Fundamentação de uma Ética do Discurso". Ele deriva dos pressupostos pragmáticos de toda e qualquer argumentação discursiva. precisam ser pressupostas como reais. E supõe um princípio de validação. Jürgen.30 viabiliza o desenvolvimento de um ponto de vista moral moderno. cit.

nesta linha de desenvolvimen- 33 INGRAM. redefinição observada em seus livros do início da década de 90. p. na perspectiva de Apel -. Paris: PUF. Bouchindhomme). posto que. 1983. a autocompreensão da filosofia como uma espécie de terapêutica.certamente.. E a ética filosófica tem. 1990. Conscience morale et activité communicationnelle. Moraíe et Commúnication. Neste caso. ancorado. p. 108. Paiis: Lê Cerf. uma função esclarecedora em face das confusões que ela própria provocou na consciência das pessoas cultas . 1998. Pensar avec Habermas contre Habermas.. a versão habermasiana da ética do discurso . David. em circunstâncias extremas. Importa observar que. Habermas et Ia Sociologie. eles podem contribuir para desarmar moralmente os estratos acadêmicos alcançados pelo cepticismo cultural. não obstante adotar um ponto de vista cognítivista em ética. 148. acolhendo em parte a perspectiva wittgensteineana acerca destas questões. Stephanne. abrindo um promissor campo de pesquisas. p. neste aspecto. Jürgen. merecedora de reprovação por parte de Apel . 1990. sob muitos aspectos. sopesar a solidez das razoes aduzidas à justificativa desse ponto de vista impõe avaliar não só uma enorme gama de informações provenientes das elaborações teóricas realizadas por Habermas .^ Um melhor enfrentamento destes problemas obriga a uma investigação profunda no projeto habermasiano. citada por Apel em importante texto publicado no F&stschrift relativo dos sessenta anos de Habermas: Tampouco precisamos nos a/errar à pretensão de fundamentação última da ética.)". Quanto à importância deste texto de Apel vis-à-vis do próprio percurso teórico de Habermas. Kari Otto. tal como inaugurada por Wittgenstein. apuei APEL. Paris: Editions de UEclat.e. As instituições morais do quotidiano não precisam do esclarecimento do filósofo. 33 todavia.reconhecerem âmbito mais limitado acerca das possibilidades de uma ética filosófica. neste particular. acompanhando atentamente as contribuições de Apel neste particular. parece excepcionalmente vir a calhar. Ambas neutralizaram com interpretações erradas as intuições adquiridas de maneira espontaneamente natural no processo de socialização. mas também uma série de questões debatidas pela filosofia moral contemporânea. interessante a interpretação desenvolvida por Stephanne Haber salientando terem as críticas de Apei a Habermas formuladas nesse texto obrigado este último a uma certa redefinição das relações entre filosofia e ciências sociais em seu projeto. (trad. 16 .logo. New York: Paragon House. Criticai Theory and Philosophy. HABER. cabe destacar uma passagem de "Notas Programáticas para a Fundamentação da Ética do Discurso". 17. Neste sentido. em todo caso. apenas na medida em que o cepticismo axiológico e o positivismo jurídico se instalaram como ideologias profissionais e penetraram na consciência quotidiana através do sistema educacional. Quanto a tal problemática. 34 HABERMAS. tendo em vista sua presuntiva relevância para o mundo da vida. francesa de C.Antônio Cavalcanti Maia ser' (.

sobretudo quanto à versão desenvolvida por Adorno a partir dos anos 40. Cambridge University Press. O que é filosofia. rios. apontando para o corte com o paradigma representativo. Como ele destaca: Uma das mais antigas discussões metafísicas é aquela entre fato e valor. árvores e fatos brutos. 40 CONLEY. Subjacente à crença nessa distinção está a percepção de que valores de alguma forma derivam de pessoas e não podem estar presentes no mundo. Um problema com a distinção na história da filosofia é que tem havido muitas diferentes formas de caracterizá-la.39 aponta para uma das características fundamentais do filósofo alemão: a atenção dada ao domínio da práxis comunicativa quotidiana. já na compreensão dos enunciados. propôs. observa-se uma das mudanças mais significativas trazidas por Habermas ao seio da tradição da Teoria crítica. Manuel Maria. sublinhando que são muitas as situações em que ela não é passível de ser analisada em termos de valores de verdade e de falsidade e que. Situa-se no mesmo diapasão de Stephen Toulmin e Chaim Perelman. isso implica que se pressuponha. 76-77. oportuno o seguinte esclarecimento: "Wittgenstein enunciou. 1996. impôs a idéia de que a linguagem é ação e de que o seu sentido depende sempre do contexto em que ocorre". e em mesmo quando tal ocorre. Thomas M. identificada com a 'Guilhotina de Hume'.Antônio Cavalcanti Maia cia naturalista . talvez mais profundo e importante: uma determinação em combater o dogma. oriundos do trabalho do segundo Wittgenstein. 38 SEARLE. ao compartilhar "algo mais específico. CARRILHO. 39 Quanto a esta mudança na trajetória do filósofo austríaco e suas implicações para o projeto de Habermas. 305. ao abandonar as suas concepções logicistas.40 Ao privilegiar o plano de investigações supramencionado. Lisboa: Difusão Cultural. e em ancorar a filosofia na controvérsia". os limites da compreensão formalista da linguagem. p. pp. Com eles . Rhetoric in the European Tradition. 18 . Porque se estivessem eles cessariam de ser valores e se tomariam simplesmente outra parte desse próprio mundo. A valorização da linguagem corrente e a descrição dos seus usos foram a via alternativa que Wittgenstein que a seu modo se situaram primeiro Austin e depois Searle. e elas não são todas equivalentes. 1994. p. Não é o domínio esotérico da arte de vanguarda a área na qual se refugia o filósofo. e ao elaborar essa espécie de 'tractatus reíhoricus-philosophicus' em que consistem as suas Investigações Filosóficas. 1990. Hume é comumente apontado como tendo aludido a ela em uma famosa passagem no Tratado onde ele fala das vicissitudes de se passar do ser ('is') para o dever ser (' A utilização por parte de Habermas dos desenvolvimentos elaborados pela filosofia da linguagem ordinária. Chicago: The University of Chicago Press. John R. 175.grosso modo. Speech Acts-An Essayin the Philosophy of Language.é possível falar de uma ruptura pragmática que. em relacionar a filosofia com a vida quotidiana. pelo menos não em um mundo de pedras.mas também com Strawson e Grice . Cambridge. a univocidade que se pretende obter como resultado da análise.

obviamente. o mundo da vida é "(. p. mas afirma que: "(•••) é necessário alargar o conceito de Lebenswelt.43 De maneira simplista. Entretanto. reconhece a origem fenomenológica deste conceito. dois paradigmas até então competidores no domínio das ciências sociais..--) esforçando-se em explorar o solo daquilo que é imediatamente familiar e inquestionavelmente certo. 1991. em sua procura por objetividade. e pré-categorial. do elemento pré-predicativo. do fundamento do sentido esquecido da prática vital diária e da experiência de mundo". O Discurso Füosófíco da Modernidade. acaba produzindo uma análise niveladora dos intrincados fenômenos sociais nos quais os homens se encontram envolvidos. 86. admirável à compreensão das diferenciadas e hipercomplexas sociedades contemporâneas -. Jürgen. descurando da dimensão normativa inerente à vida de sujeitos cultural e historicamente enraizados. 43 HABERMAS. p. que forma um contexto índubitável do processo de compreensão por detrás dos participantes da interação". Atos de Fala. Na tradição fenomenológica este "(•••) termo compreende o vasto estoque de definições e compreensões do mundo dadas e assumidas que garante uma compreensão coerente de nossas ações e intelecções quotidianas".) o lugar das relações sociais espontâneas. 1987. de uma forma não apenas retórica. Desenvolvido originalmente por Dilthey. "(. Ele [Husserl] tentou esclarecer com meios fenomenológicos esse campo implícito. op.com um potencial heurístico ímpar. em sua opus magnum.. 291. Jürgen. Rio de Janeiro: Ibmpo Brasileiro. In Pensamento Pôsmetafísico. "Ações. Jürgen Hab&rmas. ele as incorpora em seu diagnóstico (causando inúmeras críticas por parte de colaboradores da tradição da Escola de Frankfurt. London: Tavistock Publication LTD. das certezas pré-reflexivas. no final de sua vida. tal incorporação não se traduz na aceitação de uma abordagem que. procura integrar. 20 . marcadamente influenciados pela perspectiva hegeliano-marxista).42 Tal alargamento se dá a partir da forma como esta noção foi trabalhada por Husserl. em seu esforço de estruturar uma metodologia própria no domínio das Geistswissenschaften.Alfred Schutz e George Hebert Mead -. aliando o compromisso entre a investigação sociológico-funcionalista e o âmbito filosófico-normativo. dos vínculos que nunca foram postos 41 PUSEY.. recebeu uma elaboração importante no último Husserl. 107. Tendo ocupado grande espaço nas considerações de dois teóricos sociais cruciais à perspectiva de Habermas . cit. p. Michel. Reconhecendo a extrema fecundidade das análises sistêmico-funcionalistas . O conceito de mundo da vida tem sua origem na tradição alemã. Interações Mediadas pela Linguagem e Mundo da Vida". 42 HABERMAS. tal conceito acabou recebendo acolhida nos trabalhos de Heidegger e Gadamer.Antônio Cavalcanti Maia Habermas.41 Habermas.

A reprodução cultural garante a transmissão e a continuação do conhecimento acumulado. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 46 HABERMAS. ou seja. Jürgen. tomar parte de processos de compreensão mútua e afirmar a sua identidade em contextos de interação alteráveis. "Ética Discursiva e Ética Iluminista". posto que "nestes três processos de reprodução são renovados esquemas de interpretação capazes de 44 ROUANET. O mundo da vida reproduz-se na medida em que cumpre três funções que transcendem a perpectiva dos atores sociais: a propagação de tradições orais. 314-315. das suas partes constituintes de caráterproposicional. Os processos de reprodução do mundo da vida são fundamentais. p. Cultura denomino eu o arsenal de saber no qual os agentes comunicacionais. Jürgen.45 Compõe-se de três estruturas: cultura. Sérgio Paulo. 21 . Rio de Janeiro: Tbmpo Brasileiro. In Jürgen Habermas: 60 anos. In Pensamento pós-metafisico Estudos Filosóficos. ou mundo vital) "(-••) é algo que nós temos sempre presente.A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas em dúvida". na integração social. a integração dos diversos grupos componentes do todo social através de normas e valores e a socialização das gerações vindouras. Personalidade serve de termo técnico para competências adquiridas que tornam um sujeito capaz de agir e de falar colocando-o assim em situação de. 45 HABERMAS. "Motivos de pensamento pós-metafísico". se munem com interpretações potencialmente consensuais. mundo da vida em comum. em cultura. de modo intuitivo e não problemático. cit. Sociedade (no sentido estrito de uma componente do mundo da vida) chamo eu às ordens legítimas das quais os agentes comunicacionais. pp.44 O mundo da vida (mundo vivido. sociedade e pessoa.. O Discurso Filosófico da Modernidade. como sendo uma totalidade pré-teórica não objetiva . já a integração social permite a estabilização das solidariedades entre os grupos que formam a sociedade. em cada contexto dado. retiram uma solidariedade fundada na pertença a grupos. Nele funcionam aqueles domínios sociais especializados na transmissão de valores e do saber cultural. por meio do agir comunicativo. ao entenderem-se mutuamente sobre algo que está no mundo. do common sense". 23. sociedade e personalidade conforme explicitado na seguinte passagem: Considerado como recurso. ao entrarem em relações interpessoais.^6 No mundo da vida. op. o mundo da vida divide-se de acordo com as componentes 'fornecidas' dos actos de fala. 1991. bem como na socialização de novos membros da sociedade. 48. ilocucional e intencional. p. ocorrem processos de reprodução fundamentais à subsistência da espécie humana.como esfera das auto-evidências quotidianas.

de um depósito de 'esquemas' interpretativos. em um longo parágrafo. no mundo social das normas de ação e mundo subjetivo das vivências. 50 OLIVEIRA.) o mundo vivido é considerado a partir do processo de entendimento no qual diferentes pessoas se entendem a partir de um pano de fundo comum sobre algo no mundo objetivo dos fatos.. então. "Ações. já que enquanto horizonte ele não é propriamente tema do entendimento. pois ambos compõem o 'em que' os sujeitos na comunicação se entendem sobre algo. pode-se apontar para uma dimensão na qual nos encontramos sempre "(•••) numa camada mais profunda de auto-evidências. que constitui o sentido intersubjetivamente partilhado a partir do qual as pessoas podem comunicar-se".Antônio Cavalcanti Maia consenso (ou 'saber válido'). ibidem. Interações Mediadas pela Linguagem e Mundo da Vida". Manfredo de Oliveira.50 O mundo da vida representa também um estoque de padrões interpretativos. como pano de fundo de todas as interações. que se articula lingüisticamente e se transmite por meio da tradição.. 93. A sua reprodução se dá através do agir comunicativo. destaca aspectos cruciais desta categoria: Trata-se. Atos de Fala. 48 Neste sentido. p. como condição de possibilidade do processo comunicativo: ele é um reservatório de evidências e de convicções inabaladas. ibidem. o qual se desenrola perante a intersubjetividade das relações de intercompreensão. 1996. 22 . marcadas pelo reconhecimento recíproco de seus participantes. São Paulo: Edições Loyola. Nesse sentido. O mundo se apresenta como um 'taken for granted background' que já se encontra sempre presente todas as vezes que os homens agem na sua vida social. 49 Idem. p. bem assim como capacidades de interacção (ou 'identidades pessoais')". p..49 O mundo da vida é sempre constituído na forma de um conhecimento global intersubjetivamente compartilhado por todos os seus membros. op. Como destaca Manfredo de Oliveira: "(. indismembrável e holístico.47 O horizonte do mundo da vida é intuitivamente conhecido pelos atores sociais. Apresenta também como características uma força totalizadora e uma imediatez. O mundo vivido 47 Idem. relações interpessoais ordenadas de modo legítimo (ou 'solidariedades'). 315. mas seu espaço possibilitador. apresentando-se de modo não problemático. 85. Habermas fala de uma 'quase-transcendência' do horizonte de entendimento. Constitutivos do mundo vivido são a linguagem e a cultura. aqui. Manfredo Araújo de. Reviravolta Lingüístico-Pragmática na Filosofia Contemporânea. 334. HABERMAS. culturalmente transmitido. cit. p. certezas e familiaridades" . Jürgen. e lingüisticamente organizado.48 posto que. O mundo vivido emerge.

"Edmund Husserl: à propôs du monde de Ia vie de Ia philosophie et de Ia science". a individuação de sujeitos autônomos se realiza em um horizonte definitivamente marcado por referências histórico-culturais. referências estéticas.A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas garante aos sujeitos de uma comunidade de comunicação convicções de fundo a partir das quais se forma o contexto dos processos de entendimento. pp. para Habermas o? mundo vivido se constitui como o horizonte de possibílitação no qual sempre se situam os que agem comunicativamente: ele é o pano de fundo não explicitado do agir comunicativo e. Jürgen. as estruturas do mundo vivido estabelecem as formas de intersubjetividade: suas evidências básicas são evidências que geram relações intersubjetivas.. É nesse âmbito que se reproduzem "representações coletivas. símbolos lingüísticos etc. um dos pontos nevrálgicos é a centralidade dada ao pragmatismo em sua arquitetônica teórica: da relevância da noção de comunidade de comunicação dos pesquisadores de Peirce ao processo de estruturação da personalidade através da idéia de 'ideal role taking1 de Mead. Um dos elementos cruciais desta influência do pragmatismo é a valorização do domínio da vida quotidiana. Em outras palavras.52 Tecidas essas considerações acerca do conceito de mundo da vida. com o reconhecimento da importância do 'common sense'. 30.) de um saber de todos os dias adquirido praticamente e por hábito. p. no sentido "(. A importância desses aspectos pode ser percebida na Virada' imposta por Habermas na visada geral da Teoria crítica da sociedade. Com efeito.. p... imagens do mundo. o lugar onde se movimentam os que agem comunicativamente. 23 . 334-335. Paris: Lês Éditions du Cerf. da concepção de democracia radical de Dewey à psicologia moral de Kohlberg.L'Étique de Ia communication. devem-se destacar também outros elementos necessários à inteligência das propostas habermasianas. Paris: PUF.)". In Tfextes et Contextes. Portanto. 1994. 52 FERRY. enquanto tal. 1987. Gestada na intersubjetividade aberta pela linguagem. legitimações políticas. Habermas .51 No mundo da vida reproduzem-se dimensões cruciais da vida humana dadas pela socialização própria a indivíduos dotados de competência comunicativa.". e sedimentado na tradição (. 53 A partir da valorização do common sense e da adoção do conceito de mundo da vida. 31. o depósito cultural de convicções de uma comunidade humana. 53 HABERMAS. já que os que agem comunicativamente nelas se apoiam e confiam. normas sociais e valores morais. Habermas vislumbra fragmentos de racionalidade presentes 51 Idem. ibidem. Jean-Marc.

Neste sentido. ou um hegeliano e webero-marxismo". Martin Beck. sem a doutrina de dois mundos". p. Habermas faz com Kant e Hegel o mesmo que Heidegger faz com Kant e Deleuze com Nietzsche: não um uso exegético mas uma interpretação criativa e produtiva. In Tfextes et Contextes. que. poderia afirmar que Habermas se apropria de Kant de maneira pouco ortodoxa. Paul. ou seja. 'Justiça e solidariedade . 13. IV no 4. o herdeiro da Escola de Frankfurt pode criticar o spiritus rector da primeira geração da Teoria crítica: "(.. 24. Fíávio Beno (coordenação). p. p. 76. p. quanto às conseqüências de sua empresa teórica vis-à-vis ao reconhecimento dos dois planos da realidade sustentados pela arquitetônica kantiana: "Os mundos irreconciliados de Kant. opus cit.F. "A Unidade da Razão na Multiplicidade de Suas Vozes". malgrado sua matriz kantiana. Revista Filosófica Brasileira.Antônio Cavalcanti Maia na vida quotidiana. 2000.55 Dito de outra forma. Piaget. embora marcadamente influenciado pela filosofia kantiana. Jürgen. outubro de 1989. o mundo objetivo dos fenômenos e o mundo moral do agir regulado por normas perdem sua dignidade lógico-transcendental. Quanto a essa 'hibridização' de autores canônicos. 55 MATUSTÍK. ou um pragmático e hegeliano kantismo. Lisboa: Ed. Habermas se esforça em ''(. no que concerne ao enfrentamento da falácia naturalista . 5924 .J. mais recente. p. assim. tem-se outro pertinente comentário: "Habermas usa Hegel para criticar Kant. a referência a algo no mundo". permitem descrever o impulso que subjaz em seu projeto filosófico como "um pragmático e kantiano hegelianismo. a perspectiva habermasiana no campo da ética não reconhece uma diferença de natureza ontológica entre duas esferas da realidade.U.. No mesmo diapasão destas considerações em outro texto importante. Oxford: Oxford University Press. 1999. Habermas.54 Esses esforços de Habermas.) ele [Horkheimer] era um crítico muito radical da razão para que ele pudesse ainda descobrir na práxis comunicativa quotidiana uma centelha da razão". junto com o mundo interior do sujeito empírico na forma de suposições ou pressuposições comuns.R. 2001.. Mais uma vez. "Max Horkheimer: à propôs de 1'histoire de 1'évolution de sã pensée". regulativo ou expressivo da linguagem e. In Comentários à Ética do Discurso. Jürgen.. mas usa Marx para reconstruir Kant". New York/Oxford: Rownian & Littledield Publishers. Com base nessa abertura para domínios da vida ordinária.tornam possível o uso cognitivo. bem como na abertura ao pragmatismo.65.isto é.56 Ademais. 7\ventieth-century german phUosophy. Jürgen Habermas: a philosophical-political profile. vol. mais ou menos triviais. eles retornam novamente à práxis comunicativa do dia-a-dia. quer seja no desenvolvimento e na utilização do conceito de mundo da vida. GORNER. Obrigatório o reconhecimento dessa característica da versão habermasiana da Teoria crítica à compreensão de seu projeto filosófico e de seus desdobramentos no domínio ético..) recuperar a intuição da ética kantiana a partir de premissas pós-kantianas. HABERMAS. 56 HABERMAS. Rio de Janeiro: Departamento de Filosofia . Jürgen. sobretudo no âmbito da transmissão da herança cultural e da socialização dos indivíduos. como explica Habermas: 54 HABERMAS. na acusação realizada por Hume de um trânsito indevido desde as proposições de fato ou as de valor ou dever -. In SIEBENEICHLER.para uma discussão acerca do "Estádio 6' ".

implicaria. Habermas and the UnfinishedProjectofModernity. cultura versus natureza. "Habermas and Foucault". 58 HABERMAS. fatos e valores . Paris: Gallimard. formulada a partir da teoria do agir comunicativo e alicerçada na diferença de enfoque entre sistemas e mundo da vida. James. p.57 Capital à compreensão da empreita habermasiana no que concerne ao enfrentamento do hiato entre ser e dever-ser. Cf. Rickert e Cassirer.frutífero desdobramento jusfilosófico da abordagem da teoria do discurso do direito e da democracia elaborada por Habermas na senda aberta pela tradição da Frankfurtschule . 1996.). posto que há "uma normatividade incontornável no ponto de vista do participante".hiato constitutivo da Weltanschauung contemporânea impregnada pelo naturalismo humeano . op. tem-se corno corolário dessa dicotomia a distinção entre a perspectiva do participante e a perspectiva do observador. por si só. Este argumento. "Ciências Sociais Reconstrutivas versus Ciências Sociais Compreensivas".é a distinção entre as perspectivas do participante e do observador. não tenho a intenção de defender qualquer dualismo ontológico entre determinados domínios da realidade (por exemplo. Maurizio Passerin e BENHABIB. Jüigen. esta posição de Habermas é passível de críticas. Vale dizer. ao distinguir as ciências hermenêuticas e as não hermenêuticas. tais como introduzidos sobretudo por Windelband.. 264. Véríté et justification.59 Ora. Tal distinção é crucial no trabalho de Robert Alexy . Seyla(ed. O que defendo é. 159. Robert. ALEXY. valores versus fatos ou outras demarcações neokantianas da natureza semelhantes). Barcelona: Gedisa Editorial. 25 . na sua ambiciosa interpretação das sociedades do capitalismo avançado. 1994. ela não se sustenta ao assumirmos a perspectiva do participante. A incontornabilidade da fratura humeana no âmbito da ética pode ser plausivelmente sustentada do ponto de vista do observador conforme endossado pelas diversas perspectivas positivistas -. porém. Jürgen. relativo à distinção entre perspectivas do participante e do observador.58 Certamente. tal posição se articula com a idéia de que a força ilocucionária dos atos de fala constrange os sujeitos a reagir através 57 HABERMAS. In Consciência Moral e Agir Comunicativo. 2001. O 'desmonte' da tese positivista da separação entre direito e moral opera-se a partir da distinção entre perspectiva do observador e perspectiva do participante introduzida por Habermas decisivamente no debate contemporâneo. a distinção metodológica entre as ciências que têm e as que não têm que abrir acesso a seu domínio de objetos mediante a compreensão daquilo que é dito a alguém". devido a sua importância. antes. cit.em sua crítica ao positivismo jurídico contemporâneo. El concepto y Ia vaüdez dei derecho. Carnbridge: Polity Press. 59 SCHMIDT. 58-59. p. 31-41. maiores considerações. pp. que serão objeto de reflexões futuras na continuação de minhas pesquisas. pp. O destaque da peculiar perspectiva do participante/interlocutor acarreta "a reivindicação (claim) de que descrições de razões para ações requerem do intérprete tomar o ponto de vista de um participante e chegar a uma decisão envolvendo um sim ou um não acerca das pretensões de validade que fornecem justificativas para essas ações". In D'ENTRÈVES.A Distinção entre Fatos e Valores e as Pretensões Neofrankfurtianas "Permitam-me acrescentar que.

Cambridge. 63 Neste sentido. In Habermas and Modernity.. Arquivos de Direitos Humanos. 208. op. "Filosofia como guardador do lugar e intérprete". 60 HABERMAS. COOKE. FERRY.). 166. Barcelona: Gedisa Editorial. Robert. desenvolvi uma série de considerações. Richard. BOTTOMORE. Rio de Janeiro. elas forçam-nos a tomar posição por um sim ou por um não". toma esta questão mais como um tema existencial do que profissional. In MELLO. cit. KÉtique de Ia communication. 1985. de Habermas: "A questão filosófica acerca da qual Habermas engaja sua própria responsabilidade: aquela da verdade das questões de ordem prática". Jorge Zahar Editor. El concepto y Ia validez dei derecho. 26 . permanece uma questão aberta para o futuro.. 61 GORNER. que funcionam como uma complementação aos pontos aqui expostos. Tbm (org. recusando a separação entre razão teórica e prática: a defesa da idéia de que a "razão é intrinsecamente prática". Celso A. op.61 O enfrentamento do venerável problema da relação entre razão prática e razão teórica que o idealismo alemão desenvolveu assume ern Habermas uma versão deflacionista. em língua francesa. posto que o elemento ilocucionário aponta para a dimensão na qual os sujeitos contraem relações interpessoais. 62 Para o acompanhamento desse complexo movimento no projeto filosófico de Habermas. pp.Antônio Cavalcanti Maia de decisões ou de tomadas de decisões. quiçá elevando-a a um patamar distinto daquele no qual vinha sendo trabalhada em nossos dias. In Consciência Moral e Agir Comunicativo.).60 Enfim. alcançando desdobramentos na comunidade de cooperação dos cidadãos. cit. Ricardo {org. Renovar. e LOBO. no meu texto "Direitos humanos e a teoria do discurso do direito e da democracia". veja-se Vérité et Justification. p. 63 Bibliografia ALEXY. Op. Ed. p. Jürgen. Dicionário do Pensamento Marxista. BERNSTEIN. 34. 375. p. Cambridge: MIT Press.a Study of Habermas's Pragmatics. Jean-Marc. toda a problemática exposta neste artigo deve ser entendida à luz do vetor em torno do qual Habermas constrói sua empresa filosófica. Se um ponto de vista como este granjeará a aceitação da comunidade de comunicação dos pesquisadores. estribada nos trabalhos de Jean Piaget e Laurence Kohlberg. Rio de Janeiro. aponta o principal comentador. 2000. p. 2000. 31-46. parece crível a idéia de quei "Razões são coisas de um estofo especial. "Introduction". 1997. Paul. 1994.62 Provavelmente. Oxford: Oxford University Press. 1988. Tlwentieth-century german philosophy. Quanto ao papel de Piaget e Kohlber no trabalho de Habermas. MIT Press. No entanto. Maeve. Language and Reason .

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34. Ele mostrou.1 Também não foi por menos que Spinoza tenha sido "excomungado"2 da religião hebraica. Mestre e Doutorando em Direito Constitucional e Teoria do Estado pela PUC-Rio e professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito-Centro da UCAM. Ed. objeto de profundas divergências. isto foi pensado uma vez. Por isso é muito difícil. Algumas noções necessárias Não é fácil falar sobre Spinoza. nem propicia o transcendente. Assim Spinoza é o Cristo dos filósofos. e os maiores filósofos não mais são do que apóstolos. As aspas se justificam por se tratar de um instituto jurídico-teológico distinto do referido no texto. o tornar-se-fílõsofo infinito. p. vindo a considerá-lo o "Cristo dos filósofos". o mais puro. 79). para mostrar desta vez a possibilidade do impossível. o porquê da dificuldade em adentrar o pensamento spinozano. Trata-se de autor que desperta necessariamente paixões as mais ambivalentes possíveis. A passagem é a seguinte: "O que não pode ser pensado. 2000. é árduo não se deixar levar pelo entusiasmo eufórico ou pelo ressentimento derivado da intenção do autor em desmontar noções que constituem a identidade egóica de muitos. Tendo em vista algumas opiniões a respeito do autor. que se afastam ou se aproximam deste mistério. em se tratando de Spinoza. erigiu. ao menos. pensou o "melhor" plano de imanência. no mínimo. seguir estritamente célebre conselho seu: compreender para não julgar. 2a edição. pode-se vislumbrar. da mesma forma que suas obras vieram a constar do Index católico.Heresias Spinozanas Francisco cte Guimaraens* 1. São Paulo. cujo rito e significação diferem dos da primeira. nesse caso a analogia é suficiente para. Spinoza. Daí se desvela a radicalidade do seu pensamento. maus sentimentos e percepções errôneas" {O que é a filosofia?. isto é. Não foi à toa que autores como Deleuze e Guattari renderam homenagens à sua obra. conferir uma impressão a respeito do tema. Em razão de seu pensamento se orientar contra as superstições e preconceitos que ainda se fazem presentes no cotidiano como se certezas inabaláveis fossem. ainda mais quando o clássico em questão é o maior pensador holandês do século XVII e um dos maiores pensadores modernos. aquele que não se dá ao transcendente. 31 . Entretanto. Não é nunca tarefa simples analisar um clássico. A excomunhão cristã corresponde ao herém hebraico. a não ser aos conceitos que são por ele polidos. e todavia deve ser pensado. aquele que inspira menos ilusões. na medida em que sua postura de não ceder. como o Cristo encarnou-se uma vez. Spinoza foi filósofo que não fez concessões senão ao pensamento. torna seus escritos. ao menos superficialmente.

Aqui outra subversão. etnológicas. que constrói modelos de Bem e de Mal segundo o qual deveriam os homens se guiar pela obediência aos ditames da reta razão. Marilena. que não é mais imagem e semelhança do homem. A despersonalização de Deus. segundo Spinoza. Não há disjunção entre liberdade e necessidade no pensamento spinozano. históricas e políticas do texto. portanto. julgador. retirando seu estatuto de autoridade transcendente que produz uma realidade que lhe é inferior. Spinoza ainda afirma ser a democracia o "mais natural dos regimes" também no Tratado Tbológico-Político. Poder-se-ia ainda falar que Spinoza inaugura. permitindo ao leitor observar que há outras lentes para tratar de temas que. dos costumes e do temperamento dos autores. parecem já resolvidos dentro das discussões travadas ao longo dos últimos séculos pela tradição. isto é. 32 .) e a data da composição da forma atualmente conhecida". Um Deus finalista. A preocupação fundamental é analisar algumas noções que tangenciem a discussão político-jurídica. fortuna dos escritos (. Chauí. verdades eternas. mas apenas "as circunstâncias e particularidades da vida. 2000. gramaticais. O conceito de Deus em Spinoza em nada se aproxima daquele formulado pela tradição teológico-filosófica do medievo.Imanência e liberdade em Espinosa. tampouco da noção de Deus cartesiana. O presente texto não tem a intenção de tecer comentários a respeito da ontologia spinozana ou de seu método de interpretação das Escrituras. das personagens e dos destinatários do texto. São Paulo: Ed. no presente momento. Sua filosofia insere Deus na imanência.3 Para gerar mais discórdias. ou seja. pode ser percebida na expressão também spinozana Deo sive natura (Deus. à qual falta algo e onde vigora a imperfeição. natureza). fundados em análises etimológicas. na medida em que é ele o próprio plano de imanência. Deus é livre por necessidade. pondo em xeque as monarquias que eram a regra em sua época.. 19. Spinoza despersonalizou Deus.Francisco de Guiraaraens Inúmeras são as "heresias" spinozanas. Desde o conceito de Deus até a afirmação da democracia como forma "mais natural" de governo. épocas e objetivos da redação e da leitura. Deus é livre por expressar sua essência a todo momento. A nervura do real . Cia das Letras. não é o que concebe Spinoza. o autor desmistifica e derruba uma a uma as teses que vigoravam no século XVII e que ainda reverberam nos discursos jurídicos e políticos vigentes em tempos "pós-modernos". p. o método moderno de interpretação dos textos bíblicos. Não foi por menos que Spinoza escandalizou tanto a religião hebraica quanto o cristianismo do século XVII. Deus. é uma atividade infinita de produção do real que se processa mediante modificações (modos) da própria substância. O texto bíblico não enunciaria.. no Tratado TeológicoPolítico.

O que é um corpo para Spinoza? Um corpo é definido. por uma certa proporção de movimento e de repouso. em Spinoza. sob o ponto de vista da coisa que fica ameaçada em sua existência? Tal encontro é mau na medida em que afronta exatamente a essência da coisa. com- 4 5 6 7 Spinoza. de conservar o próprio corpo não pode ter outra origem senão a Idéia. Nada há em cada coisa existente que possa levá-la à destruição. expressivo. Conceito de conatus "Toda coisa se esforça. Ética. é preciso retroceder um pouco. fundamentalmente. enquanto está em si. quando se pensa em nível bastante simples. sem a coisa. de conserver son corps ne peut avoir d'autre origine que 1'Idée. isto é. Escólio. afirmativo. Definição II. Proposição VI. Parte III. ou essence objective de cê corps. que est em chaque chose. Para esclarecer essa afirmação acima. Exatamente por esse motivo que Spinoza enuncia que a essência de algo é "aquilo sem o qual a coisa não pode nem existir nem ser concebida e.7 O autor se projeta além da tradição quando determina que a essência de uma certa coisa sem ela não pode existir nem ser concebida.6 Aqui Spinoza efetua outra torção no pensamento.Heresias Spinozanas 2. que está em cada coisa. Baruch de. Apêndice). ética. Ética. ou essência objetiva de tal corpo. Proposição VII. Parte II. que est dans l'attribut pensant" {"Donde se conclui claramente que o amor natural. que está no atributo pensamento" . não pode nem existir nem ser concebido". por perseverar no seu ser". pode-se afirmar que se trata de um conjunto de relações entre corpos. Como expõe Spinoza. 33 .5 A morte. é sempre um fenômeno exterior ao que se esvai. E por que se afirma ser tal agenciamento inadequado. Esforço em perseverar na existência é o que toda coisa expressa enquanto existe. É a partir dessa noção que se permite reorientar o pensamento. seu conatus. Ética. é resultado de um encontro entre coisas (modos) onde uma delas decompõe as relações constitutivas da outra. Lema VII. "o esforço pelo qual toda coisa tende a perseverar no seu ser não é senão a essência atual dessa coisa". definindo-se a partir de tais relações também uma determinada proporção de movimento e de repouso. Aumentando um pouco o grau de complexidade de um corpo. mas fundamentalmente algo concreto. Baruch de. de velocidade e de lentidão.4 Assim Spinoza abre a formulação do conceito de conatus. Ver Spinoza. Breve Tratado. Parte II. A essência de urna coisa não é um índice abstrato. em suma. em Spinoza. Proposição XIII. o mau encontro é aquele que tende ou que vem a decompor as relações constitutivas de um modo. de velocidade e de lentidão entre os corpos que se agenciam.tradução livre. Spinoza no Breve Tratado nomeia o conatus de "amor natural" na passagem seguinte: "D'oü se conclui clairement que 1'arnour natureí. aquilo que. Parte III. reciprocamente. de modo que a morte. constituindo um corpo ainda mais complexo.

por Spinoza. vale a pena observar a passagem seguinte: "La teoria de Ia existência em Spinoza comporta pues três elementos: ia esencia singular. Quando remete à mente. Como todas as coisas se inserem na ordem comum da natureza. Não se trata de pensar a natureza das coisas mediante categorias abstratas que as mesmas reproduzem. Segunda Parte. mas fundamentalmente estabelecer que. Spinoza era um exímio observador da natureza. 10 "Lê Désir. palidamente. A primeira vista pode parecer que o autor uniformiza as coisas e suas essências. p. A faculdade do juízo não é definida a partir de uma vontade livre e soberana que.10 Reside nesse ponto mais uma heresia do pensamento spinozano. tendo em vista não existir abstração na formulação desse conceito. 34 . esforçar-se em continuar existindo sob uma certa composição de forças entre corpos que constituem a coisa. Proposição IX. inclusive o ser humano que não é um império dentro de um império. avons-nous dit. desejo. Por ser a essência um grau concreto e imediato de afirmação. como já dissemos. Parte III. Capítulo XVI). Spinoza y ei problema de Ia expresión. es decir. o próprio esforço constitutivo da natureza B Sobre esse tema. nada resta em termos de uniformidade. Escólio. não poderia retroceder nesse ponto. que tem por ponto de partida a idéia de singularidade.9 Desejo e apetite são expressões do conatus. definiu a essência das coisas como um certo esforço para perseverar. mas esse ponto de vista é facilmente superado. Em se tratando do ser humano. Tudo se esforça para permanecer existindo. Quando referido ao esforço feito pelo corpo para permanecer existindo. Esse esforço é sempre singular. do mesmo modo que cada coisa. definindo-se a partir daí inclinações para o que um certo indivíduo julgue ser bom. 1996. plena e atual. se há imanência absoluta. 201). é singular. Court Traité. Mas isso não é tudo a respeito do conatus. necessariamente.8 Existir é. Cada conatus. o conatus é nomeado. é a inclinação que tem a alma por qualquer coisa que ela julgue ser boa" . A causa do juízo é o desejo. único. est 1'inclination qu'a ráme pour quelque chose qu'elle choisit comme bon" ("O desejo. em regra. definindo uma certa potência de intervenção na realidade e perseverança no ser da própria coisa. que es um grado de potência o de intenaidad.tradução livre. O pensamento de Spinoza. Ia forma individual. escolhe o Bem ao invés do Mal.Francisco de Guimaraens preendendo a essência em uma dimensão concreta. Ia relación característica o expresiva. Cada conatus é imensurável. a sua presença pode ser percebida de duas formas. isto é. que corresponde eternamente a Ia esencia dei modo" (Deleuze. Gilles. na medida em que cada coisa é singular. necessariamente as coisas e suas respectivas essências não se afastam. aliada à razão. de apetite. tendo em vista que as primeiras expressam em ato as últimas. Esse grau de afirmação é qualitativamente singular. Spinoza. 9 Ver Ética. Barcelona: Muchnik Editores. exprimindo um certo grau de afirmação na existência. Baruch. Ia existência particular. siempre compuesta de uma infinidad de partes extensivas.

É da potência de afirmação na existência que se definem os juízos emitidos. permitindo a constituição do plano de imanència e retirando a possibilidade (imaginativa) de sobredeterminação do real por forças ocultas. A potência é separada da sua necessidade de atualização. Vale a pena visualizar também o trecho a seguir: "A suma potência não é medida pelo mais ou pelo rnenos. 35 . Tradicionalmente. Vale ressaltar que. Basta ver o que afirma o autor na passagem seguinte: "Tenho. Essa é uma das grandes teses do pensamento spinozano. que decidiria por "decretos" segundo uma vontade infinitamente livre. potência é associada ao que se chama de potencial. dissolve-se a imagem de um Deus soberano. ou seja. mas não necessariamente virá a fazê-lo. p. Quando se afirma que algo é "em potência". poder e potência assumem outra dimensão relacionai. pois o infinito não se submete à medida. Parte I. de efetivação plena. misteriosas e distantes da realidade vivida em ato. decidir entre o Bem e o Mal.11 Em poucas palavras implodiu-se o arcabouço teórico que permitia pensar a potência a 11 Ética. 3. ou resulta sempre com a mesma necessidade. Quando Spinoza estabelece um conceito de potência radicalmente distinto do que a tradição e o senso comum assinalam a esse respeito. 871). Proposição XVII. O novo conceito de Deus formulado por Spinoza afasta a filosofia das superstições que envolviam o imaginário teológico-politico do século XVII.Heresias Spinozanas das coisas de perseverar na própria existência. estabelecendo-se um conceito de potência fundado em sua plenitude e atualidade. quando Spinoza determina que Deus é onipotente não porque pode conceber modelos de coisas. e não de uma capacidade de "suspender" a existência comum e.. da sua natureza infinita. conseqüentemente. mas fundamentalmente porque produz tudo o que há. soberanamente. Escólio. segundo a concepção tradicional do conceito de potência.) Pelo que a onipotência de Deus tem estado em ato desde toda a eternidade e em ato permanecerá para a eternidade". ela tem estado em ato desde toda a eternidade e para toda a eternidade porque não é senão a necessidade da natureza de Deus da qual tudo segue necessariamente" (Chauí. infinitamente. Antes de avançar na questão referente à relação entre poder e potência é necessário identificar a virada proposta por Spinoza ao conceber a idéia de potência. A nervura do real. Marilena. essa coisa tem possibilidade de expressar aquilo que se define potencialmente. porém. A potência dissocia-se do ato. em todo o pensamento jurídico-político. a recondução da relação entre poder e potência é uma das fundamentais. o que redunda em profunda alteração na própria idéia de poder e.. abstratamente. o Justo e o Pecado. e não as produzir. Poder e potência Dentre as inúmeras inovações postas por Spinoza. uma infinidade de coisas numa infinidade de modos (. ou. humanizado. dimana necessariamente. uma certa capacidade abstrata que não se vincula ao ato de concretização de tal capacidade. para mim que mostrei assaz claramente que do sumo poder de Deus. define-se que. por outras palavras.

Proposição IV. Cada ser humano (da mesma maneira que cada coisa) tem um certo grau singular de potência que se expressa enquanto parte da infinita potência constitutiva de Deus (ou da Natureza. Parte IV. 13 Humano. um esforço em perseverar na existência.l4 Ao pensar em grau de tenacidade ou perseverança. Realmente importa ser expressivo. conforme se preferir). aquele atributo que Descartes identifica como índice de que o homem é imagem e semelhança de Deus. também se afastou a possibilidade de se pensar a idéia de vontade livre. "A potência do homem. forma o mundo. Ao lado de tal implosão. pois é a partir da vontade livre que se pode escolher entre possíveis. àquilo que se faz. o descarregue em obras e ações". Produzir por si mesmo efeitos depende de um esforço imediato. mas em poucos é inato ou inculcado o grau de tenacidade. É a potência que. Ética. Ética. isto é. da essência de Deus. e não aquilo que poderiam expressar. agir bem e viver bem que não deseje ao mesmo tempo ser. 36 . agir e viver. cada um tem da natureza a possibilidade de alcançar vários talentos. isto é. da Natureza". ao expressar-se. Parte IV. também o é sua potência. um esforço concreto de afirmação no ser. 181. p. ou seja. é exatamente disso que se trata a potência.13 Nisso seu pensamento tangencia o de Spinoza. demasiado humano . pode-se afirmar que por esse conceito se concebe a constituição das coisas no mundo. tornar-se o que se é. é uma parte da potência infinita. movimentando o real e modificando o mesmo permanentemente. na medida em que "ninguém pode desejar ser feliz. Baruch de. Proposição XXI. para que alguém se torne de fato um talento.Francisco de Guimaraens partir de abstrações. Cia das Letras. se torne aquilo que é.Um livro para espíritos livres. estabelecendo-se como fluxo intensivo contínuo que mantém a vida. A potência expressa pelos indivíduos é também plena e atual. existir em ato". afirmar no Tratado Político que "o direito da cidade é definido pela potência 12 Spinoza. agir. 2000. 14 Spinoza. ou seja. Também o ser humano faz tudo o que pode.12 Se o ser humano é parte da Natureza. Tem razão Nietzsche quando enuncia que. inclusive. Ser causa adequada dos próprios efeitos não é algo que surge a partir do nada ou que dependa da intervenção de uma vontade livre e soberana. Cada qual possui talento nato. realizandose apenas parte do que "em potência" poder-se-ia realizar. Baruch de. E por que não faria? As coisas são o que expressam efetivamente. energia. Demonstração. a uma existência plena e positiva. Na medida em que a potência é um grau de intensidade pleno mediante o qual se intervém no real. mas não o fazem. A potência é causa eficiente das coisas constituídas. Conatus. São Paulo: Ed. "numa humanidade altamente desenvolvida como a de hoje. Nietzsche se refere à atualidade da intervenção. perseverança. enquanto se explica pela sua essência atual. isto é. o que permite a Spinoza.

Afirmar que o poder é efeito da potência não é suficiente para reconstruir a 15 Negri.16 o que permite definir exatamente a relação entre as duas noções em análise. O poder é produto da potência.Poder e potência em Spinoza. conseqüentemente. Não é o poder que institui o direito e. 1993. p. Não é da cabeça do rei que surge o direito. não em sua integralidade. Pelo contrário. necessariamente. Spinoza altera a ordem das relações.de produzir as coisas. não é difícil imaginar a resposta. "A potestas é dada como capacidade . A natureza do poder se traduz na conservação de relações entre forças. jamais evidenciava todas as suas artimanhas e tudo aquilo que poderia realizar. Civilização Brasileira. O poder é efeito da potência da multidão. mas como produto do processo de constituição coletiva". definindo até onde pode ir o poder. 248.) que busca perseverar na existência.conceptibilidade . de tão misterioso e distante da multidão. destrona-se toda a teoria da soberania moderna. em regra. Châtelet. "A relação poder-potência é totalmente invertida: só a potência. Resta saber quem constitui tais relações. por conseguinte. mediante expressão de sua potência constitutiva. pois o poder. eventualmente. Poder que não é visto como uma substância. estabelecido mediante mecanismos que permitam conservar um determinado arranjo de forças estabelecido. François. de seu poder (potestas). sociais. na medida em que o exercício deste se dá por autorizações jurídico-políticas. fundado no medo e nas mais variadas paixões tristes. Se a ordem constituída (direito da cidade) é definida pela potência das massas. fundadora do contratualismo e de suas derivadas. inclusive o poder. constituindo-se. a potência. Duhamel. Rio de Janeiro: Ed. define aquilo que a multidão pode fazer ou deixar de fazer. Aquele poder atribuído a uma totalidade (Estado) e exercido por mecanismos representativos não é mais suficiente para explicar a causa adequada da ordem constituída. é capacidade abstrata que. como força que as produz atualmente". por conseguinte. A potência instaura o direito e. 16 Negri. 1. Baruch . "Dicionário de obras políticas". Evelyne. p. Poder esse estabelecido em termos abstratos. é a multidão quem constitui o direito da Cidade. 37 . têm conatus. fazendo-se constituição coletiva. ao termo potentia. só a potência da multidão. nada resta da imagem tradicional da soberania. Olivier. econômicas etc.Tratado político".15 Mas como se apresenta a idéia de poder? Poder se associa ao termo latino potestas e a potência. se efetua quando se põe em risco sua existência. o poder. portanto.135). Mas isso não basta. O poder é. cuja expressão se dava. Org.Heresias Spinozanas das massas".1993. Pisier. mediante intervenção de sua vontade e. 34. Depois do que já foi exposto até o presente momento. pois todas as coisas. Rio de Janeiro: Ed. pode fundar um poder. Trata-se de um certo arranjo de forças (políticas. Antônio. Verbete "Spinoza. A anomalia selvagem . Nesse instante. Antônio.

de um lado. é necessário que se efetive constantemente mediante a modificação permanente dos estados de coisas estabelecidos. Se a potência se afirma por um regime de intensidade que produz as coisas no mundo. constituem-se continuamente o mundo e a vida. Ainda é preciso compreender uma última questão. por ser efeito de uma causa imanente. crise que permite a vida ser compreendida come permanente resistência produtiva. investe incessantemente no real para modificá-lo. p. A potência da multidão é causa imanente do poder constituído18 e. dessa crise. permanentemente sua amplitude é definida pela potência. "A causalidade eficiente imanente não transitiva evidencia a permanência da origem no originado. nessa nova concepção. de outro. p. 71. 263). Spinoza trabalha em toda sua obra com a questão da imanência absoluta. Diferente da tradição do pensamento político de sua época. Quando se determina que o poder é interno à potência da multidão. Política em Espinosa. imanente e atual.!7 Esse pressuposto ontológico do pensamento spinozano reproduz-se em sua política. 2003. São Paulo: Ed. a potência. 38 . Se o poder se define. O poder se torna. Ci das Letras. Para compreensão do que é imanência é fundamental identificar o conceito de causa imanente. internalizando a capacidade de agir na ação efetiva que constitui o mundo. 17 Chauí. Marilena. enquanto o modo é o ser em outro e por outro.Francisco de Guirnaraens concepção de poder e de potência integralmente. Spinoza não funde um no outro. pela conservação de uma certa estabilidade nas relações de forças que o constituem. existe distinção profunda e antagônica entre a natureza de ambos. por isso. manifestando no presente. produzindo novas relações e novas dinâmicas de poder. e essa diferença real entre ela e eles não os separa. sem que ambos se confundam: causa de si. como fluxo vital que se desdobra incessantemente e instaura linhas de fuga para permanecer em ato. seus efeitos intrínsecos" (Chauí. por ora. superar e reconstituí-lo para perseverar. Apesar de o poder ser interno à potência. não há como conciliá-los. 18 "A causa instituinte é eficiente. concebido por si mesmo. não se afasta dos seus efeitos. Se a potência é nômade e o poder sedentário. porque eles existem nela e ela lhes dá o ser exatamente no mesmo sentido em que o dá a si mesma". A nervura do real. a substância é o ser em si e por si. A relação entre poder e potência expressa uma crise constitutiva. concebido através desse outro. interno à potência social da multidão. Marilena. Spinoza não aceita a tese de que o laço causai que produz o corpo político se despedaça depois de sua realização. efetivando-se disjunção entre a causa e o efeito e se permitindo que o poder transcenda o campo social que o instituiu. A causa imanente é aquela que não se afasta dos efeitos produzidos por sua atividade. por intermédio da instituições. apenas compreen der que. Ao submeter o poder à potência. Pelo contrário. a todo instante. ela precisa.

em um primeiro momento. e um pacto de sujeição. Nesse âmbito se estabelece também uma profunda inovação de sua obra. Segundo o autor. "no caso da teoria jurídica clássica do poder. 39 . antes do surgimento da dicotomia entre direito público e direito privado. Para além do contratualismo Um aspecto do pensamento spinozano que não pode ser deixado de lado se refere à sua compreensão de como se dá a constituição do corpo político. que. inovação essa que permite construir uma série de reflexões úteis para pensar os regimes políticos em vigor na atualidade.Heresias Spinozanas Essas noções acima expostas permitem avançar no pensamento de Spinoza em direção à ruptura realizada pelo autor com o contratualismo. Spinoza recusa as teses contratualistas e também elabora um outro tipo de abordagem da idéia de direito natural. Esse contrato configura uma relação de troca entre os indivíduos e o soberano: os primeiros delegam seus direitos em favor do soberano. como não poderia deixar de ser. A isso Foucault atribui o nome de "economismo" na teoria do poder. recebendo em troca de sua obediência a segurança de suas vidas. 4. "A relação jurídica de poder define-se não só pela submissão da vontade. delega-se o exercício do poder a uma entidade que transcende o corpo social.Hobbes escrevendo contra o seu tempo. mas também pela troca de obediência por proteção.. 2* ed. logo após estabelecida a união.. confere proteção a elas. através dos representantes das "partes" do contrato. pp. Ao leitor sem medo .1^ A constituição do corpo político se dá por um ato de vontade que possui dupla face. Renato Janine. 169-170. e que se 19 Ribeiro. Nesse aspecto o autor apresenta posições radicalmente distintas da tradição do pensamento político de sua época. registro da existência onde a vida é precária e perigosa. a teoria de legitimação do poder estatal mais difundida ao longo dos séculos XVII e XVIII se valia de um instituto de direito privado (contrato) para constituir o espaço público. o Estado. Trata-se de um contrato onde se define um pacto de união. o poder é considerado um direito do qual se seria possuidor como de um bem. 1999. UFMG. É interessante perceber que. afastando-se do jusnaturalismo. O consentimento tem por consideração preservar a vida: só renunciamos ao direito de natureza o necessário para viver (. Ao instituir o estado civil pelo pacto fundado na razão e na vontade.) A obrigação dura apenas se o soberano me protege a vida". Qual a lógica na qual se assenta o contratualismo? Segundo essa corrente do pensamento. os indivíduos constituem o estado civil para deixar para trás o estado de natureza. mediante um ato de vontade. Belo Horizonte: Ed.

Em um cenário onde a lógica dos interesses privados informa a composição de um novo modo de sociabilidade não resta outra alternativa senão instituir um aparato transcendente. pp. nem nunca se confere um poder tão soberano que possa dispor de todas as coisas segundo seu arbítrio". 2002. que cada indivíduo tem um direito supremo sobre todas as coisas que puder alcançar. Capítulo XVII. o Estado soberano. Tyatacfo Teológico-Político. indica um grau de intensidade singular. Capítulo XVI.23 muito pelo contrário. de uma forma ou total ou parcial. a troca contratual.22 A partir desses trechos é possível iniciar a exposição das principais teses que permitem concluir por uma oposição radical de Spinoza ao contratualismo. Spinoza define de modo bastante distinto da tradição o que é o direito natural. obter mais poder.) A potência universal de toda a natureza não é senão a potência de todos os indivíduos reunidos..20 Em suma. foi concebida como mecanismo por excelência de instituição do estado civil. que o direito natural se estende até onde alcança seu poder (. considerada em absoluto. que o direito de cada um se estende até onde se estende sua potência".) que seria da ordem da cessão ou do contrato". por conseguinte. Não há qualquer conteúdo deontológico em se tratando de direito natural. Martins Fontes. isto é.. tem um direito soberano sobre tudo o que está em seu poder. caráter público. As passagens seguintes são exemplares para esclarecer tais questões: "É certo que a natureza. portanto. Em sua primeira obra política. transferir ou alienar. âmbito da existência político-social que tem. afirma que ela se distancia "tanto da perspectiva jusnaturalista estói- 40 . apenas e tão-somente. Tal idéia não traduz um deverser. é necessário que se institua uma esfera decisória fora do seu alcance que limite essa ânsia de dominação inerente à natureza humana. em conseqüência. isto é.21 "Ninguém dispõe de seu poder. necessariamente. que representa os cidadãos e ordena a vida social evitando que retorne o estado de natureza e ao qual não têm acesso imediato tais cidadãos. seguese. TV-atado Teológico-Político.. é fundamental observar o que expõe Marilena Cnauí que. transfere a outro seu direito sem que deixe de ser homem. nem. Quanto à distinção entre a proposta de Spinoza acerca do direito natural e as tradicionais perspectivas. um grau 20 21 22 23 Em defesa da sociedade. A contraposição spinozana ao pensamento de fundo contratualista é delineada já no TYatado Teológico-Político. ao analisar a concepção de direito natural do filósofo. São Paulo: Ed.. mediante um ato jurídico ou um ato fundador do direito (. 19-20. Na medida em que os seres humanos desejam. a mesma maneira de proceder nos negócios privados.Francisco de Guimaraens poderia.

Nas duas perspectivas tradicionais. 1994. Spinoza ainda apresenta outros argumentos contrários à idéia de que a sociedade política se constitui por intermédio de um pacto fundador.2& Do contrário. mas da própria servidão. a imagem ca (conhecida. Ao se associar o direito natural ao conatus. 24 Spinoza.Heresias Spinozanas determinado de potência. mas por toda a vontade que os determina a agir e através da qual se esforçam por se conservar"24 (grifo nosso). instaura o direito positivo com base naquilo que foi a ele transferido. Baruch de. entendido como existência de uma ordem jurídica natural decretada pela vontade de Deus sob a forma de leis divinas naturais e anterior à ordem jurídica positiva. Um dos requisitos essenciais a qualquer pacto é a liberdade para contratar. como da perspectiva cristã. a capacidade natural dos homens. o contrato. Baruch de. e a outra tutela a segurança e a vida. Tratado Político. os indivíduos que formam o contrato cedem ao soberano todo o seu direito natural e o último. isto é. "Os homens são mais conduzidos pelo desejo cego que pela Razão. obrigando-se a obedecer. Impossibilitado fica o contrato. como o medo. No momento em que se afirma ser o direito natural o esforço em perseverar na existência. 418. 290-291). § 5. da potência. 41 . o direito natural tenderá a ser interpretado como um dever-ser: o dever de ser racionalmente justo e o dever de cumprir a lei divina natural" (Política em Espinosa. No contratualismo. Pierre François. por sua vez. isto é. na qual o direito natural exprime a vontade racional de justiça. mas fundamentalmente afetos tristes. não há contrato em absoluto. e. Se não há liberdade. Tendo em vista que ninguém transfere por sua própria vontade o comando. pois não há como garantir ao soberano integral obediência.L'expérience et réterruté. não derivaria da liberdade. por conseguinte. como teoria do direito natural subjetivo). Não é a vontade fundada na razão que inspira a instituição de um regime obrigacional calcado na obediência a ordens alheias. torna-se lógica e fisicamente impossível a transferência integral de direito. 26 Spinoza. mais tarde. ninguém cede voluntariamente o comando a outrem. uma certa força de perseverança na existência (conatus). seu direito natural deve ser definido não pela Razão. 25 Nesse sentido ver Moreau. "É certo que não há ninguém que não goste mais de governar do que ser governado. Spinoza . pp. mas pelo medo. como observa Salústio no primeiro discurso por ele dirigido a César". mesmo se ele cumprir suas obrigações definidas no contrato. § 5. Na medida em que não existe orientação pela razão. p. na qual o direito natural subjetivo é acrescido da teoria do direito natural objetivo. Paris: PUF. ou seja. o que contradiz a ordem comum da natureza. instituída pelos homens. TVatado Político. é possível deduzir uma contrariedade ao pensamento contratualista. Se a troca contratual se funda em uma dupla relação onde uma parte cede direitos. ceder direito natural significaria deixar de perseverar por si mesmo na existência. Capítulo II. O que define o direito natural é a dimensão ontológica do conatus. Capítulo VII. não se torna possível concluir a troca. se existisse.26 A obrigação política de se submeter ao comando de outrem não pode derivar de uma líberalidade.

por tristeza. isto é. Os seres humanos são conatus. As potências singulares se compõem entre si. Parte IV Proposição VIII. A condição de vida do ser humano é cercada de incertezas e a potência de agir se manifesta. da solidão à comunidade. o movimento constituinte proposto por Spinoza é. paixões essas que nos explicam os afetos de alegria e de tristeza. favorece ou entrava a nossa potência de agir". já os de tristeza contêm tal esforço. Parte III. ora a uma menor. Seu pensamento busca definir a instituição da sociedade política mediante um movimento originado no singular que constitui o comum. a alegria reforça a potência enquanto a tristeza a enfraquece. Demonstração. Nesse estado. dependendo dos afetos experimentados na existência. ou mal àquilo que nos é útil ou prejudicial à conservação do nosso ser. o modo de exteriorização da potência pode se dar de distintas formas. em regra.2? Perfeição no pensamento spinozano é o mesmo que potência de agir. Assim. A potência de cada ser humano (seu esforço em perseverar na existência) define sua essência. Baruch de. através de reações fundadas no medo da 27 Spinoza. ao contrário. A partir da dimensão afetiva se estabelece a idéia de bem e de mal em Spinoza. dos quais todos os demais derivam: o desejo. intensificando o esforço de perseverar. A teoria do contrato social não se sustenta quando analisada sob as lentes do pensamento spinozano. por alegria entenderei. não existindo qualquer mecanismo de organização dos encontros formados. da tristeza à alegria. "Chamamos de bem. Proposição XI. os homens se encontram lançados à própria sorte. no que vai seguir-se. a paixão pela qual a mente passa a uma perfeição menor" . 42 . Ética. ao fim e ao cabo. Os afetos de alegria somam-se ao conatus. Spinoza define três afetos básicos. a paixão pela qual a mente passa a uma perfeição maior.Rrancisco de Guimaraens do contrato dissolve-se necessariamente. Ética. isto é. Escólio. Spinoza se projeta para além do contratualismo e suas idiossincrasias. já analisado. graus de intensidade que se afirmam em ato. Entretanto. estabelecendo um conatus comum ou coletivo no qual as mesmas se fortalecem e se exprimem de modo ordenado e ativo.28 O estado de natureza é aquela situação fática onde os indivíduos se guiam apenas pelos seus desejos e realizam seu direito natural com base nos afetos vivenciados individualmente. o que aumenta ou diminui. E um estado onde o acaso vigora com toda a intensidade. que são noções necessariamente singulares e relativas. a alegria e a tristeza. Baruch de. 28 Spinoza. No que consistem a alegria e a tristeza? "A mente pode sofrer grandes transformações e passar ora a uma maior perfeição. Na verdade. Desse modo. expressando-se pelo desejo e pelo apetite. Como se procede esse movimento éticopolítico é o que se demonstrará a seguir. um processo de passagem da passividade à atividade.

ao se constituir a Cidade. Por tudo o que se expôs até o presente momento. um registro de conveniência constituído pela ação humana. mas movimento constitutivo fundado na própria essência humana que é a do esforço em perseverar no ser. O pensamento no horizonte da democracia Spinoza estabelece explicitamente no Tratado Teológico-Político que a democracia é a forma mais natural de governo. Capítulo XVI. a democracia se estabelece como dispositivo de organização da vida civil. Muito pelo contrário. conforme afirma a Jarig Jelles em sua carta de número 50. Nada resta do contratualismo. nela o direito natural se manifesta em sua mais intensa expressão. A passagem onde essa questão se apresenta é a seguinte: "Creio haver exposto claramente os fundamentos do governo democrático. isto é. não mais a tristeza expressa pelo medo da morte violenta (Hobbes) ou da perda da propriedade (Locke). mas da atividade. no estado de natureza". Spinoza mantém o direito natural mesmo no estado civil. ele passa a exprimir-se sob outra roupagem.. de intervenção da potência de agir para que se persevere na existência sob outro aspecto.. Nele ninguém transfere a outro seu direito natural de maneira que não possa participar das deliberações (.) deste modo todos permanecem iguais como antes. na medida em que se define um regime de organização da vida onde os seres humanos convém entre si. definindo-se a transição da pura passividade a um regime de atividade. Todavia.35 O fato de os homens permanecerem iguais na democracia. O espaço político é. Não há acordo fundador. Entretanto. O conatus não é transferido no estado civil. como eram no estado de natureza.Rrancisco de Guimaraens entre os seres humanos é mantida. preferi esta forma de governo porque me parecia a mais naturaJ e a znais próxima da liberdade que a natureza concede a todos os homens. na medida em que a potência de agir 33 44 Tratado T&ológico-Político. os encontros são organizados por regras comuns que permitem a convivência pacífica. não mais da passividade. . A dinâmica constituinte expressa no pensamento político de Spinoza permite ao autor definir a democracia como o melhor dentre as formas de governo existentes. É o desejo e a alegria de estar em comunidade que informam tal movimento. portanto. isto é. outra não poderia ser a conclusão. É o que se demonstrará em seguida. não significa que tal regime se aproxime de tal forma de existência. 5.

261. p. 46 . Marilena. A democracia é a mais dinâmica forma de governo. ao obedecê-la. pois nela "a obediência exprime apenas a recriação ininterrupta da Cidade. obedecem a si próprios enquanto cidadãos". foi posta por todos os sujeitos políticos. permanecendo a ação como norte da vida em comum.Francisco de Guimaraens necessariamente compreendido como um processo contínuo de modificação do real e expansão da potência.35 A partir do momento em que a natureza da democracia se expressa pela participação igual no poder. permitindo que qualquer bloqueio à expansão das potências individuais e coletivas seja superado. no momento de sua instauração. necessariamente é intrínseco a tal regime modificar suas feições a todo instante. Política em Espinosa. pois nela se obedece a uma lei que. 35 Chauí. de sorte que.

Direitos Humanos como Imperativos Categórico-Jurídicos? Kant. levando em conta os novos desafios políticos internacionais. Neste texto. Professora de Direito Constitucional na UCAM/Centro. 47 . a retomada dos debates em torno da teoria da justiça tem como uma referência histórica marcante o filósofo de Kõnigsberg. Procuradora da Fazenda Nacional. que não advêm mais somente de fenômenos naturais. Com efeito. parece algo ultrapassado ou até pretensioso. a nova conjuntura política eleva a questão de uma teoria da justiça. delineando seu tratamento na obra do autor de "Critica da Razão Pura". mas também apresentando uma das reelaborações mais difundidas. A questão dos direitos humanos. tema que ingressou definitivamente na agenda mundial após a Segunda Grande Guerra. pretendemos explicitar um dos conceitos mais conhecidos da filosofia kantiana. qual seja. quando fala em "imperativos categóricos jurídicos". Neste cenário. ainda por cima com pretensões universalistas. o de "imperativo categórico". colocam na ordem do dia as questões morais. ao contrário. Professora de Filosofia do Direito da PUC/RJ. Com efeito. aquela que nos é apresentada por Otfried Hõffe. As ameaças à segurança humana. mas da própria ação do homem por meio de uma utilização antes impensável da tecnologia. O que se pretende evidenciar é que. Começamos a presente exposição com a referência a uma leitura já tradicional no pensamento jurídico que opõe imperativo categórico ao direito. Mestre em Direito e em Filosofia na PUC/RJ. Na renovação dos debates em torno da teoria da justiça exsurge a importância da contribuição do pensamento de Immanuel Kant. o saber tecnológico hoje consegue minimizar os riscos e buscar soluções para tentar evitar atos de terrorismo ou o avanço do narcotráfico. falar em uma teoria da justiça política. Hõffe e a Filosofia do Direito Maria Lúcia tíe Paula Oliveira* A formulação de uma ética jurídica universal em nossos dias encontra um novo obstáculo. mormente diante da necessidade de conciliar segurança pública e direitos fundamentais. parece ter sido posta em um segundo plano. Doutoranda em Filosofia do Direito na PUC/SP.

se assim podemos chamar "positivista". A seguir. Direito e Estado no pensamento de Emanuel Kant. e da autonomia deriva a esfera do categórico. dentre outros. 48 . segundo Bobbio dirigida sobretudo aos "estudantes de filosofia do direito". Nesse sentido. Aspectos bem ilustrativos da leitura de nosso autor sobre Kant é a identificação das dicotomias heteronomia . mas entende ele ser possível deduzir do sistema kantiano tal identificação: se da heteronomia da vontade deriva o âmbito do hipotético. é sinal de que o imperativo não prescreveu uma ação boa por si mesma.2 Uma vez atribuída a qualifiJúnior. José Alcebíades de Souza. grande nome da teoria política e da filosofia jurídica contemporâneas. Bobbio e a Filosofia dos Juristas. 54-55. apresentando de forma sucinta o "imperativo categórico" e sua aplicação ao Direito. tanto que. imperativo hipotético imperativo categórico com a dicotomia direito . nos voltamos para a obra kantiana. a leitura que Bobbio faz da obra kantiana é claramente.moral. e portanto é heterônoma. Conquanto sua teoria do direito tenha como um dos referenciais Kelsen. trad. Bobbio dedica-se à análise da doutrina do direito de Kant. em alguns pontos.1 Evidentemente. que busca uma releitura da filosofia jurídica de Kant. 1994. Bobbio salienta que em nenhum momento de sua obra Kant identifica o direito com o imperativo hipotético ou com a heteronomia. Norberto. uma vontade que é determinada por um objeto externo. Imperativo Categórico e o Direito: a Interpretação de Norberto Bobbio Norberto Bobbio. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. Brasília: Editora Universidade de Brasília. citamos especialmente a abordagem do tema por Nortaerto Bobbio em seu "Direito e Estado no Pensamento de Emanuel Kant". respectivamente. 26. 2. Bobbio. p. 1992. de Alfredo Fait. buscando "um deslocamento da racionalidade abstrata patrocinada pelo kantismo e que influenciou o kelsinismo para uma racionalidade passível de demonstração empírico-linguística". socorrendo-se ainda de trechos da fundamentação o!a metafísica dos costumes e ainda do texto Sobre a paz perpétua. Bobbio apóia-se no neopositivismo do Círculo de Viena. Nesse diapasão. fez publicar em 1969 sua leitura da obra de Kant. pp. Findamos com uma apreciação crítica do papel central da filosofia kantiana para o debate contemporâneo filosófico-jurídico. chega a se afastar do original kantiano. realÇando a contribuição de Otfried Hõffe. "mas uma ação cujo cumprimento depende da vontade de alcançar o objetivo externo do próprio desejo". especialmente acerca da formulação de um "imperativo categórico jurídico".Maria Lúcia de Paula Oliveira entendendo que a seara do direito não é aquela em podem existir imperativos categóricos.autonomia.

que se erigem sob uma necessidade incondicionada. Fundamentação da metafísica dos costumes. Kant. 49 . direito com autonomia". que. define-se como "a representação de um princípio objetivo. Kant. impedindo a elaboração de um conceito moral do direito. Hòffe e a Filosofia do Direito cação de heterônoma à vontade jurídica. Lisboa: Edições 70. Os imperativos podem ser hipotéticos ou categóricos. trad. Miguel.Direitos Humanos como Imperativos Categórico-Jurídicos? Kant. p. Nega a possibilidade de imperativos categóricos no direito. Já o imperativo categórico representa uma ação objetivamente necessária. 663. São Paulo: Saraiva. 3. Os imperativos categóricos são mandamentos ou leis da moralidade. fundamentação da metafísica dos costumes.. como bem frisa Kant. independentemente de uma finalidade. que seja possível que se queira (sinônimo de intenção possível na filosofia kantiana são as regras de prudência). Miguel Reale observa que "pode haver. 1993. na definição da Fundamentação da metafísica dos costumes. Começa ela pela identificação entre os binômios moralidade-legalidade e moral-direito. 1995. BA36. que obrigam. trazendo um "princípio da razão que é válido para todos". da vontade humana por exemplo".4 Logo. de Paulo Quintela. os imperativos só se justificam quando a determinação da vontade não se dá exclusivamente com base na razão (sendo determinada. resulta que uma linha fundamental caracteriza a interpretação de Bobbio da filosofia jurídica kantiana. Pretendemos a seguir elucidar este outro caminho. De tudo o que foi exposto. Os primeiros ordenam uma ação como necessária para que se possa alcançar outra coisa que se queira ou. 3 4 5 Reale.15a ed. seria possível atribuir a qualificação de hipotético ao imperativo jurídico. e há. por sua vez. Immanuel. enquanto obrigante para uma vontade". são "fórmulas para exprimir a relação entre leis objetivas do querer em geral e a imperfeição subjetiva deste ou daquele ser racional. contêm sempre o verbo "dever". por inclinações naturais) e é por isso que tais imperativos. o que nos leva a denominar a leitura de Bobbio de uma leitura "positivista" de Kant. Immanuel.3 o que nos desperta para a possibilidade de uma interpretação diferente daquela que pautada numa concepção positivista do direito que pretende negar qualquer possibilidade de uma ética jurídica (e daí de certa forma a dificuldade de admitir imperativos categóricos jurídicos). por exemplo. diz Bobbio. e termina com a apresentação da coação como elemento distintivo do direito em relação à ética. Ele consiste na fórmula de um mandamento. na nomenclatura do Mestre de Kõnigsberg. freqüente e normalmente. Imperativo Categórico na Filosofia Moral Kantiana O conceito de imperativo categórico é central para a ética kantiana. BA 36. Filosofia do Direito.5 Imperativos.

6 objetivando aproximar a fórmula universal do imperativo categórico da intuição humana. uma determinação completa de todas as máximas por meio das fórmulas. No que tange. 1994. como insinua Míchel Villey {Prefácio à obra. eu não devo matar. Paris: Librairie Philosophique J. e também não têm qualquer valor para uma legislação interior. os deveres não podem ser mais que externos. na base da inclinação.9 6 7 8 9 "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal". ora é uma inclinação. pois matar é crime (serei preso) ou porque tal comportamento não será lucrativo para mim). Kant. ser racional. É bom destacar que na Metafísica dos Costumes. tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro. por exemplo) não podem determinar o agir moral: "Os fundamentos de determinação empíricos não servem para nenhuma legislação exterior universal. O homem. p. isso porque a legislação jurídica possui a característica de ser exterior. quais sejam: a universalidade. portanto. pela tua vontade. eis que seus motivos devem ser buscados entre as inclinações e as aversões.7 O agir por dever é raro. sujeitando-se aos apetites e inclinações. de Aléxis Phüonenko. faz parte do mundo sensível. cuidarem eles do ser racional como fim em si mesmo. da livre atividade moral".Maria Lúcia de Paula Oliveira Kant apresenta três formulações do imperativo categórico.Doctrine du Droit. em lei universal da universalidade". Immanuel. sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio". "Age como se a máxima da tua ação se devesse tornar. p.Première partie .Doctríne du drojt. à legislação jurídica. A51. Fica claro. trad. Métaphysique dês moeurs . o que faz com que suas ações não estejam normalmente no campo da moralidade. "Age de tal maneira que uses a humanidade. em cada sujeito. 1993. Crítica da razão prática. Existem alguns elementos comuns às formulações apresentadas para o imperativo categórico. Kant modifica a fórmula do imperativo categórico que passa a ter a seguinte redação: "Age segundo uma máxima que possa ao mesmo tempo valer como lei universal" (Métaphysique dês moeurs . ora é outra que predomina pela influência". um porá o seu sujeito e outro indivíduo porá igualmente um sujeito diferente e. A diferença é que a legislação jurídica contenta-se com a simples legalidade (ainda que tal legalidade seja qualificada por sua conformidade com o Princípio Universal do Direito). 82). portanto. que a doutrina do direito para Kant não se tenha transformado na "antecâmara da doutrina da virtude" e o direito se torne o "instrumento" e a "condição" no estado de coexistência.8 Os deveres do direito não podem ser confundidos com os deveres contidos na doutrina da virtude. mas o agir conforme o dever é mais comum e está no campo da legalidade (por exemplo. 50 . pois. 100). As leis práticas devem ser universais.Première Partie . Lisboa: Edições 70. logo elementos empíricos (como a felicidade. de Artur Mourão. enquanto que a legislação ética supõe que cada ação seja feita por dever. Vrin. trad. A legislação moral (que para Kant abrange a legislação ética e a jurídica) vale na medida em que ela possa ser vista como fundada a priori e como necessária. 5a ed.

existiriam deveres de direito que constituirão imperativos categóricos jurídicos. p. Kant começa por uma investigação acerca da Teoria do Direito e do Conceito de Direito enquanto realidade antropológica. aquele que se dedica à ciência do direito positivo. A questão do direito é cuidada por Kant na "Doutrina do Direito". para Kant. 51 . l. mas costuma-se traduzir a obra de Kant como "Doctrine du Droit" (como fez Philonenko) ou "Doctrine of Right"(Gregor). intitulada "Introdução à Teoria do Direito". aquela que trata do justo. Para chegar ao Princípio Universal do Direito (que segundo HÕffe seria o imperativo categórico jurídico ao singular). 554)". Kant apresenta a distinção hoje estabelecida entre uma ciência do direito e uma filosofia do direito. mas os objetos de estudo são similares. e que portanto se presta ao conhecimento sistemático do direito natural.Revista da Sociedade Kant Brasileira". aquilo que em um ramo de conhecimento é ensinado articularmente (Grimm 12. Na verdade. Apesar de distintas essas ciências. Assim. Rechtlehre}. enfatizamos conceitos apresentados na parte inicial da "Doutrina do Direito". Kant ainda não denomina o conhecimento acerca do justo de filosofia do direito. em alemão. primeira parte da "Metafísica dos Costumes". As Condições de Aplicação do Direito em Kant e a Interpretação de HÕffe A primeira distinção desenvolvida por Kant na "Introdução à Teoria do Direito" refere-se às possibilidades de um conhecimento acerca do direito. ao comentar essa passagem da obra de Kant. conquanto as normas jurídicas positivas constituam-se em imperativos hipotéticos. o jurisconsulto. louvável pelo esforço de atualização que faz do pensamento kantiano. que se preocupa em conhecer um determinado conjunto de leis que tenha vigência em um determinado lugar e espaço. a simples ciência do direito. O imperativo categórico do direito: uma interpretação da "Introdução à Doutrina do Direito". designa uma teoria ou ciência do direito: Hans Kelsen também designa sua teoria de Reine Rechtlehre. "também pode significar "o conteúdo integral de uma lição. vol. Otfried. verifica-se que. 4. Lehre. distinguir-se-ia da ciência do direito positivo. que o título "Doutrina do Direito" (em alemão. deve tomar da ciência do direito os "princípios imutáveis de toda legislação positiva". não se cuidaria simples- 10 Kôffe. Lembra Hõffe. 204. que se poriam no plano de um direito natural crítico. Para elucidar o tratamento kantiano do Direito e da Justiça.Direitos Humanos como Imperativos Categórico-Jurídicos? Kant.10 Logo. n" l. Hóffe e a Filosofia do Direito Em conclusão. publicado em "Studia Kantiana . Contaremos ainda com o auxílio da abordagem que Otfried Hõffe faz dessa parte da obra de Kant.

porém. p. enquanto que na "Doutrina da Virtude" o seu princípio superior é qualificado como imperativo categórico. mas Hõffe entende que ela é sugerida pela filosofia prática de Kant. trazendo à posição kantiana para nossos dias. supõe o abandono de qualquer base empírica. por exemplo. "do conceito e padrão de medida do direito ordenado moralmente. não caracteriza um desprezo pela parte positiva do direito. A questão concernente ao conceito moral do direito começa a ser posta por Kant quando ele questiona acerca do direito. A questão de se dizer simplesmente o que é de direito (qui sit júris) é mais fácil. apresentando suas leis. O que mais causa surpresa em Hõffe. a definição de um critério de justiça política. central na "Doutrina do Direito") decorrem imperativos categóricos ao plural (apresentados no decorrer da mesma obra e subdivididos nos de Direito Privado e de Direito Público). 206). 11 Esta designação "imperativo categórico jurídico" não foi utilizada por Kant. En outre. Para maiores detalhes.12 Essa opção kantiana. é bom que se registre. Paris: Éditions du Cerf. Príncipes du Droít. Com relação ao conceito moral do direito. no entanto.trad. a ausência de tal discussão acerca do justo transforma a ciência do Direito em uma cabeça de madeira da fábula de Fedra: a cabeça pode ser bela. 1993. e que nos remetamos à origem na razão de qualquer juízo sobre o justo político. A questão. 52 . o filósofo começa por constatar a dificuldade de tal empreitada. comparando-a com aquela posta quando se pretende investigar o que é a verdade. louvamo-nos mais uma vez na lição de Hõffe. 1'imperatif juridique connait dês conditions d'aplication característiques que seule développe une éthique spécifique au droit".11 Do imperativo categórico jurídico ao singular (que seria o conceito universal do direito. ou melhor. Este direito natural definirse-iacomo "moral". On pourrait expliquer son absence dans lês écrits éthiques fondamentaux par lê fait que cês derniers traitent de Ia moraíité. p. mas carece de um cérebro.Maria Lúcia de Paula Oliveira mente da formulação de um certo saber acerca do direito. ao contrário de muitos jusnaturalistas de sua época. Respondendo à interrogação sobre o que é o direito em si. é que a expressão continua ausente na parte geral da "Doutrina do Direito". mais l'expression d'imperatíf categorique juridique n'apparait pás elle-même dans lês textes. lembra que ao negar que uma doutrina empírica do direito tenha cérebro. dont lê concept du dorit fait abstraction. como procura demonstrar em sua obra "Príncipes du Droit". de se dizer se o que essas leis prescrevem é justo. Na célebre imagem. proporia)(in O Imperativo Categórico Jurídico. de Jean-Christophe Merle. 12 Hõffe. pode ser respondida definindo-o como "o que prescrevem ou prescreveram as leis de determinado lugar ou tempo". mas da sistematização do direito natural. quando nos diz que o referido conceito refere-se a uma obrigatoriedade a ele correspondente e que repousa na "necessidade de uma ação livre sob um imperativo categórico da razão". Daí que a "Introdução à Teoria do Direito" trataria do imperativo categórico do direito no singular. "justo". ele nega uma auto-regulação do direito (como Luhmann. 91: "La philosophie pratique de Kant lê suggère.

na relação entre os arbítrios. mas deve ser um livre arbítrio. as condições de aplicação do direito não estariam na metafísica prática. Aqui. não basta a exterioridade da relação para caracterizar a noção de direito: supõe-se. no sentido de que sem que haja a repercussão da ação de uma pessoa no arbítrio de outra não se pode ter aí em absoluto legislação jurídica justa. porém. É 13 Para Hõffe. 1993. a noção de direito refere-se às relações exteriores e práticas entre duas pessoas. 14 Comentando tal aspecto da teoria kantiana. mas a forma na relação entre os arbítrios. e aí já se separam direito e ética. mas seriam descritivas. são irrelevantes para o direito. Vale esmiuçar cada uma dessas idéias. remonta-se mais uma vez à circunstância de que o direito se refere a relações exteriores. p. Contrariamente às visões de Wolff e de M. desde que não tenham qualquer repercussão no mundo exterior. aquele que pode ser determinado por uma vontade pura. a esfera íntima. portanto. constituindo-se numa "antropologia do direito": "A antropologia do direito praticada na "Doutrina do Direito" expõe-se à questão. 3} o que importa ao direito não é a matéria do arbítrio.14 Em terceiro lugar. levando-se em conta a influência que a ação de um possa ter sobre outras ações.Mendelssohn (1792-1786). estamos diante da relação não entre dois arbítrios. Mas. As ações que guardam pertinência com o direito são aquelas passíveis de ser imputadas ao seu autor. pertenceriam a uma metafísica teórica. Paris: Librairie Philosophique J. p. "postas de modo simplesmente tético". trad. de François Rüegg. não se considera a matéria do arbítrio. no sentido de poder ser determinável pela razão pura. mas sobre a liberdade dos sujeitos responsáveis. a relação entre dois arbítrios. ou seja. de seus sentimentos e idéias que se passam em seu mundo interior. 2) ele supõe a relação entre dois arbítrios. Vrin. Hõffe e a Filosofia do Direito Evidentemente. mas do arbítrio de um com o desejo de outro. mas somente a forma na relação entre eles. Como exemplifica Kant. sob que condições da "conditio humana" precisa-se em geral de direito"(0 imperativo Categórico do Direito. mas sim uma teoria do justo. A interioridade humana. Otfried Hòffe salienta: "É assim que para Kant a comunidade de direito não é uma comunidade fundada sobre a solidariedade dos necessitados. como decorrência da vinculação à idéia de liberdade. Mas. 212).Direitos Humanos como Imperativos Categórico-Jurídicos? Kant. 53 . Temos que partir então de um livre arbítrio. para Kant. os deveres da humanidade (caridade) não deveriam diretamente do domínio jurídico" (Introduction á Ia philosophie pratique de Kant. Tanto no âmbito do direito quanto da ética supõe-se um arbítrio. Um dever jurídico só se funda sobre a liberdade do arbítrio das outras pessoas. e é nessa dimensão que a noção do direito estaria relacionado com algumas idéias básicas:13 1) o direito refere-se ao mundo das relações externas. não é uma ciência positiva do direito que se propõe. O arbítrio pode ser determinado pela inclinação. nos atos de beneficência ou de crueldade. o qual é. mas aproxima sintomaticamente a filosofia kantiana da teoria apresentada pelo próprio Hõffe em sua Justiça Política. 182). livre. Essa leitura pode não ter sido explicitada por Kant.

Brasília: Ed. Kant apresenta respectivamente o conceito universal do direito. o direito distingue-se da economia como a forma do conteúdo em qualquer relação intersubjetiva o elemento material é econômico. 54 . tradução de Alfredo Fait. Segundo a formulação mais típica do formalismo jurídico.". para que não recaiamos em certa leitura da exterioridade do direito..como intenção. Da Moral ao Direito: a Reformulação do Imperativo Categórico Jurídico A partir dessa investigação sobre a noção de direito. 70). p. 99. ou por sua máxima. Immanuel. 105.Maria Lúcia de Paula Oliveira claro que o direito se interessa pela intenção. mas a consonância de tal contrato com o ponto de vista da liberdade. mas como se deve fazer" {Bobbio. o que significa dizer que se um contrato foi firmado sob o vício do dolo.18 O papel do direito.19 Tem-se aí uma 15 Veja-se. No exemplo fornecido pelo próprio Filósofo na Doutrina do direito.Doctrine du Droit. Universidade de Brasília. o elemento formal é jurídico... Metaphysique dês moeurs . não interessa o benefício pretendido por alguma das partes. a compatibilidade de ação das liberdades não é verdadeira se ela não for universal. por exemplo. É importante realçar tal aspecto. mas não é da incumbência do direito quaisquer fins da ação . está a origem da doutrina moderna chamada de formalismo jurídico. por exemplo. atribuir caráter formal ao direito significa dizer que o direito prescreve não tanto o que se deve fazer. cujos iniciadores foram exatamente os filósofos neokantianos do direito. 18 Ibidem.Première Partie . como Stammler e Kelsen na Alemanha. no caso de um contrato celebrado.17 "Age externamente de tal modo que o uso livre de teu arbítrio possa coexistir com a liberdade de cada um segundo uma lei universal. p. levando em conta a noção moral da obrigação jurídica. Direito B estado no pensamento de Emanuel Kant. p. pelo menos na primeira fase de seu pensamento. o seguinte trecho de Direito e estado no pensamento de Emanuel Kant: "Nesse terceiro atributo da relação jurídica. 100. que exclui qualquer relação do direito com a intenção ou os motivos da 6. Em outras palavras. que é de Stammler. até o ponto em que a intenção pode determinar a existência ou não do arbítrio. p. é tornar possível a coexistência entre pessoas responsáveis e exteriormente livres. o princípio universal do direito e a lei universal do direito: "Portanto.16 "É justa toda a ação que por si. não constitui um obstáculo à conformidade da liberdade do arbítrio de todos com a liberdade de cada um segundo leis universais". 2a ed. segundo Kant. 17 Ibidem. 19 íjbidem. 104. da fraude ou da força. Mas. e Del Vecchio. Norberto. 1992. na Itália. o direito é o conjunto das condições sob as quais o arbítrio de um pode conciliar-se com o arbítrio de outro segundo uma lei universal da liberdade". 16 Kant. p. tal circunstância não pode permanecer indiferente para o direito.

é mais do que urna ética social parcial: ela se torna uma disciplina fundamental de uma teoria da sociedade". a seguinte passagem da principal obra desse filósofo contemporâneo: "Se pensamos nos imutáveis direitos do homem. mas naquilo que se quer como válido. Otfried. então aquilo que facilmente é objetado à ética do imperativo categórico de Kant. Uma ética do direito. por outro lado. que para Kant não existe propriamente um catá- 20 Hõffe. pode-se deduzir duas importantes conseqüências. é convertido em sinal positivo. p. Tal afirmação faz distinguir a concepção kantiana de qualquer concepção de justiça que elege simplesmente como fim maximizar as liberdades individuais: a universalização sugerida pelo conceito universal do direito obsta essa tentação. teríamos direito objetivo. a imprescindibilidade do direito para permitir a coexistência entre seres livres decorre da circunstância de sob o ponto de vista moral ele é necessário. 55 . que convida a configurar a existência humana em geral de uma forma jurídica. trata-se daqueles direitos e pré e suprapositivos. seu rigorismo. isto é. pois que não se centra no querer. mas constituinte: "Enquanto em regra se espera de um princípio moral somente um significado normativo (aqui: do direito). ou seja. Assim também o princípio universal do direito permitirá aferir a justiça das ações humanas. p. 185-187. de Ernildo Stein. muito peculiar.21 Na lição de Hõffe. o imperativo categórico do direito assume adicionalmente uma tarefa constituinte do direito. que somente existem obrigações hipotéticas. porém. Com efeito o princípio universal do direito nada mais é do que conceito universal do direito. Otfried. Na medida em que elas subsistem antes e independentemente de ações jurídicas positivas. que se dá no plano "puramente racional". 1991. 66). Ensina Hõffe que no conceito de direito. por exemplo. considerado sob o ângulo dos atos juridicamente lícitos.22 Frise-se. já no princípio de direito teríamos o correspondente direito subjetivo. 222.2° Percebe-se pelo exposto que o conceito universal do direito tem um papel não somente regulativo. a totalidade das ações às quais se está autorizado segundo o direito objetivo (O imperativo categórico jurídico.tiad. a tarefa do direito é a coexistência na liberdade exterior. que chamamos de direitos inatos ou direitos humanos. mas a aplicação do conceito universal do direito servirá como um critério universal do direito: apurar a justiça de uma legislação positiva. são válidas sern exceção. Em primeiro lugar. (Justiça política. a legitimação de qualquer direito positivo. íntroduction à ia phiiosophie pratique de Kant. O imperativo categórico do direito. Hõffe e a Filosofia do Direito variação da formulação do imperativo categórico. tornou-se evidente que certas obrigações. Da afirmação do conceito universal do direito. Com efeito. Petrópolis: Vozes.Veja-se. justamente os inalienáveis direitos humanos. 21 Hòffe. A idéia de que o positivismo jurídico ou o empirismo jurídico silenciosa ou expressamente representa. Ao menos na esfera do direito. p.Direitos Humanos como Imperativos Categórico-Jurídicos? Kant. 223). 22 Aqui também é possível encontrar uma sintonia entre a filosofia kantiana e a teoria desenvolvida por Hõffe . pp. se mostra aqui como falsa e um imperativo jurídico categórico resta como conceito adequado". Isso não significa. o princípio universal do direito "fornece o padrão de medida moral para pretensões subjetivas.

buscando um fundamento puramente racional. de forma nenhuma empírico para a coação jurídica. longe de contrariar o direito. mais se deve falar de coercibilidade. é aquele que impede o que é juridicamente permitido. E mais: um direito sem a faculdade de coagir não pode ser considerado direito. Immanuel. pelo menos direito em sentido estrito. próprio de cada homem em decorrência pura e simplesmente de sua humanidade: a liberdade. Trata-se aqui de justificar o caráter coercitivo do direito. pois para ele só existe um direito inato: a liberdade. Legitimidade da Coercibilidade Jurídica Kant continua sua "Introdução à Teoria do Direito" acentuando a relação estreita entre o direito e a faculdade de coagir.23 7. Outra distinção importante seria aquela estabelecida entre direito inato e direito adquirido: o direito inato independe de qualquer ato jurídico.Maria Lúcia de Paula Oliveira logo de direitos humanos. Immanuel. Na linguagem técnico-jurídica. É evidente que a coação a que Kant se refere não é a coação puramente física. Métaphysiqve dês moeurs . p. Ora. p. 56 . a qualidade do homem de ser seu próprio mestre. ou seja.Première Partie -Doctríne du Droit. que permita a coexistência de arbítrios 23 Kant. De tal direito inato decorreria a igualdade inata. 106. idem. é perfeitamente conforme com ele. O primeiro teria por princípio a vontade do legislador de um determinado ordenamento jurídico. decorre da existência humana. único. possibilidade de uso da coação.24 O exemplo trazido por Kant à colação é expressivo: um credor pode forçar pela via do direito seu devedor a pagar sua dívida. mas sobretudo a motivação para o sujeito agir diferentemente. Para ele. segundo Kant. que consistiria na circunstância de que não se poderia ser obrigado por outros a outra coisa que não se lhes possa também obrigar. que é primitivo. Cabe recordar que não é qualquer coação que é justa. 112. conforme com a liberdade de todos segundo leis universais". Kant distingue entre direito positivo e direito natural. 24 Kant. aquele que fere o princípio universal do direito. eis que ela só é legítima na medida em que sirva para evitar a injustiça. existe somente um direito inato. seria aparentemente paradoxal relacionar o direito à faculdade de impor um obstáculo à liberdade. do que de uma coação física. que Kant define como "a possibilidade de uma obrigação mútua universal. O direito existe para permitir a convivência entre pessoas livres. o ato injusto. Assim. Estando o direito relacionado à liberdade. o segundo se funda em princípios puros "a priori" e consiste no objeto da ciência do Direito que o Mestre pretende tratar em sua doutrina do direito. independentemente de persuadi-lo de que sua própria razão o obriga a pagá-la. a resistência ao ato injusto.

l. 1997. Nesses casos. se o sócio que colabora mais na sociedade. podem duas possíveis obrigações conflitar. Cumpre ressaltar que o tratamento kantiano ao estado de necessidade decorre do fato de que para ele não há como se falar de um conflito de deveres. hipótese em que se verifica o estado de necessidade. não há qualquer direito jurídico que permita o agir. Eqüidade e Estado de Necessidade: Situações-Limite Em contraposição a esse direito estrito. supõe a possibilidade da coação. A justiça da coação só estaria plenamente assegurada.. p. como reconhece Kant. No máximo. das quais um seria insuficiente para obrigar. não se verificando de fato nenhuma colisão de deveres. isto é. aquele que tira a vida de outrem para preservar sua própria vida não pode ser punido. Também. vê em um tribunal da eqüidade uma contradição". por "respeito à lei". O imperativo categórico jurídico. Kant. com a garantia do direito decorrente da constituição do estado político. a coação é a outra face da obrigação jurídica: o direito estrito. que exigem apenas um comportamento objetivamente conforme a normas. existe um direito lato que se concretizaria para Kant de duas formas extremas: na eqüidade e no estado de necessidade. dois aspectos merecem destaque. ao mesmo tempo e sob aspectos diferentes. se assim estabelecido no contrato social. 26 Hõffe. Nos exemplos kantianos. e por vezes é até admitida imediatamente no próprio direito positivo. ocorrendo um sinistro. No estado de necessidade. uma exigência sem que haja o direito. Como resposta ao utilitarismo e a um relativismo moral crescente. Sobre a eqüidade. teríamos um direito que não pode obrigar. Por outro lado. no direito de necessidade. aquilo que é justo em si nem sempre pode ser admitido pelo direito. sem investigar essas relações. lembra Hõffe que ". Hóffe e a Filosofia do Direito livres conforme uma lei universal. 9. como acima descrito.Direitos Humanos como Imperativos C alegórico-Jurídicos? Kant. elas também podem ser seguidas. O Pensamento Jurídico Contemporâneo e a Filosofia Moral Kantiana A revalorização da ética kantiana na atualidade é inquestionável. 231. a qualquer momento. 57 .25 8. a filosofia kantia25 O mérito de tal construção teórica kantiana é salientado por Jüigen Habermas em "Dkeito e Democracia". sem levar em conta a possibilidade de seu reconhecimento moral. se resolve com o auxilio do conceito kantiano da legalidade: normas do direito são. O paradoxo das regras de ação.. receberá igual aos demais sócios. leis da coerção e leis da liberdade".26 Com relação ao estado de necessidade. a eqüidade vale como princípio jurídico geral. p. além disso. Otfried. vol.embora haja tradições de jurisprudência da eqüidade e que. 49: "Embora pretensões de direito estejam ligadas a autorizações de coerção. levando era conta sua pretensão de validade normativa. Na eqüidade.

para que seja viável essa retomada do projeto kantiano. compartilhar da análise de Ricoeur acerca da proficuidade do projeto kantiano. para o utilitarismo. sendo as duas propostas. O diagnóstico de um dos maiores filósofos da atualidade é concorrente com esta posição: "Au total. explicitando-a como alternativa para as chamadas teorias sistêmicas (como a de Luhman). e é nesse contexto que Ricoeur considera relevante. soit prétendent à tort dérivée de leur combinatoire. Qualquer esforço para legitimar o exercício da força conduz sempre à questão de determinados direitos que devem ser garantidos a qualquer homem em qualquer parte do mundo. à Ia faveur de son própré recour à 1'antTOpologie.Maria Lúcia de Paula Oliveira na vem sendo importante na elaboração de uma fundamentação filosófica para o universalismo de determinados direitos. a revalorização da "Doutrina do Direito" de Kant é passo indispensável na retomada do projeto kantiano. o esforço empreendido por Otfried Hõffe. Paris: Éditions Esprit. ele deve ser obrigatoriamente reavaliado. autant qu'elle fait front auxmultiples entreprises de "démoralisation" du juridique. em suas várias dimensões. on observera que lê mêmê projet met um frein à Ia derive du pluralisme sans bornes du posmodernisme. Segurança pública só se legitima (como a própria legitimidade da coercibilidade estatal e dos poderes públicos instituídos) quando objetiva garantir os direitos humanos (identificados na leitura kantiana de Hõffe como a versão contemporânea de um "imperativo categórico jurídico"). Mais c'est à 1'utilitarisme que Kant replique avec lê plus de succèss. Mas. lê projet kantien d'éthique juridique peut revendiquer à son bénéfice Ia dimension intégrative que lês théories "systémiques". Para maiores detalhes. lê role de contrepoint du contrepoint". 58 . sobretudo. en lui assignant. 28 Para Ricoeur.27 As palavras de Ricoeur acima transcritas exprimem de forma clara a relevância do projeto kantiano para o momento atual da filosofia do direito. Num momento em que a segurança pública se torna assunto primordial na pauta política. para o "pós-modernismo" e.28 só nos resta. em seu entendimento. bem como também a retomada da "Crítica do Juízo". VI. p. é bom que se diga. ver Lê Juste. nos moldes propugnados por Hannah Arendt. e a teoria jurídica de matiz kantiana (em relação a outras vertentes . 1995. para a filosofia do direito contemporânea. Suivant Ia même veine. por exemplo. comme celle de Luhmann. a teoria da justiça de Kant explicita que a questão da segurança pública está umbilicalmente ligada aos direitos humanos. dans Ia querelle contemporaine autour de Ia question dês fondements de 1'éthique juridique.e sem 27 Prólogo de Paul Ricoeur à Príncipes du Droit de Otfried Hõffe. complementares. indubitavelmente. soit méconaissent.

como a teoria sistêmica. o utilitarismo. Hõffe e a Filosofia do Direito desprezar suas eventuais contribuições para o pensamento jurídico. XXI.Direitos Humanos como Imperativos Categórico-Jurídicos? Kant. dentre outras) parece trazer uma compreensão mais eficaz dos desafios morais vivenciados no Séc. 59 . o chamado "pós-modernismo".

FILOSOFIA DO DIREITO E TEORIA POLÍTICA .

sem. os direitos fundamentais possuem um papel primordial. O terceiro trata da relação entre direitos fundamentais e democracia. realizar um mergulho mais profundo. 63 . em anexo. na medida em que a legitimidade do direito se desloca da legalidade para. da correção da decisão tomada pelo tribunal. sensibilizando os órgãos públicos. Institucionalizados e concretizados em um tribunal constitucional. e o quarto. O professor de Kiel elabora um paradigma que podemos dizer que é pós-positivista. uma análise da correção procedimental da norma e das decisões judiciais. à guisa de conclusão. por entender escapar ao escopo deste trabalho. transformam este tribunal em uma instância reflexivo-argumentativa. no qual cada cidadão encontra ambiente para colocar suas demandas e discutir questões. O primeiro item aborda o conceito de direito em Alexy e o de ordenamento jurídico. através da avaliação. efetuar uma aproximação da democracia alexiana à democracia deliberativa habermasiana. contudo.O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasíana Alice Leal Wolf Geremberg Introdução O presente trabalho objetiva abordar como Robert Alexy enfrenta a questão da democracia. pelos participantes daquele ordenamento jurídico. prioritariamente. relaciona o modelo alexiano ao conceito de democracia deliberativa de Habermas. E na teoria da argumentação que se encontra a reconciliação entre direitos fundamentais e democracia. princípios e procedimentos. Acreditamos tornar mais claro este breve preâmbulo no decorrer deste artigo. pois um requisito para que o tribunal constitucional seja uma instância reflexiva é a existência de um espaço público. ecoando-as para o interior do sistema político. Isto é possível porque o seu entendimento do direito está conceitualmente relacionado com a moral e o ordenamento jurídico é tido como um sistema de regras. de um locus de discussão. O segundo item esboça alguns contornos gerais do procedimento discursivo-argumentativo essencial à compreensão da relação o^ie se pretende apresentar. Dentro desta ótica. por derradeiro. Trago. Pode-se.

da ótica de um participante. pois o tribunal constitucional terá a correção das suas decisões sobre direitos fundamentais avaliada por um espaço público que igualmente observa as regras do discurso. tem de partir. de seu conceito de direito. 123. o argumento da injustiça (2) e o argumento dos princípios (3). pela teoria da argumentação jurídica. a fim de compreender como o professor de Kiel enfrenta a questão da democracia. as quais também possuem um mínimo de eficácia social e não são extremamente injustas e (3) ao qual pertencem os princípios e os outros argumentos normativos nos quais se apoia o procedimento de aplicação do direito e deve se apoiar a fim de satisfazer a pretensão de correção".Alice Leal Wolf Geremberg as regras e formas do "discurso prático racional geral" e da teoria da argumentação jurídica. Alexy defende a tese da vinculação do direito com a moral. visando propiciar ao leitor um panorama esquemático. El Concepto y La Validez Del Derecho. como igualmente à totalidade das normas promulgadas consoante a constituição. necessariamente. Robert. "o contexto institucional da promulgação. A correção procedimental. 1 ALEXY. 1. ibidem. a seu turno.2 segundo. 30. confere um maior grau democrático ao ordenamento jurídico. A definição de direito de Alexy é a seguinte: "O direito é um sistema de normas que (1) formula uma pretensão de correção. a partir da qual. O conceito pós-positivista de Direito em Alexy O caminho adotado. 1994. mais especificamente. da legalidade à análise da sua correção procedimental. de um membro do ordenamento jurídico. propiciada pelo "código da razão prática" e. (2) consiste na totalidade das normas que pertencem a uma constituição em geral eficaz e que não são extremamente injustas. relação esta conceituai e. 2 64 Idem. ou seja.1 Este conceito parte de duas primícias: primeiro é uma definição que inclui a noção de validez. é uma definição retirada de uma visão interna. pode-se averiguar que a tripartição do significado de direito corresponde aos seus três argumentos norteadores que visam reforçar a existência de um nexo conceituai entre moral e direito: o argumento da correção (1). . p. Barcelona: Gedisa Editorial. Feita esta observação. há uma transferência de prioridade. na aferição da legitimidade da norma jurídica. p. aplicação e imposição do direito".

para ser assim denominado. este sistema deixa de ser jurídico e retorna a uma ordem depredatória ou absurda. o desenvolvimento do povo. o sistema jurídico será considerado deficiente.atividade do juiz ou tribunal). o procedimento da pretensão de correção é dado pelo "código da razão prática". Além disso. ou seja. sob pena de serem consideradas ilegítimas. quando a pretensão de correção for formulada. situações que interfiram na exploração pretendida. uma maioria é governada por uma minoria armada sem conhecer os fins dos governantes. seja quando aquela não for formulada. é um sistema jurídico. dizemos que apresenta um caráter classificante. Na ordem absurda. esta ordem depredatória se converte em uma ordem de dominação quando todos os atos de exploração só são permitidos se seguirem a uma prática regrada. poder perseguir seus objetivos pessoais. nem implicitamente. como. Quando esta pretensão de correção não for formulada nem explícita. porque se funda65 . acarretando na perda da qualidade jurídica do sistema jurídico. Finalmente. todo sistema jurídico. nos quais a violência é permitida e o povo é explorado: ordem absurda. Este último ordenamento. Afigura-se então uma relação importante entre esta pretensão e o caráter democrático. tampouco. ou da decisão judicial (aspecto da aplicação do direito . sem contudo perder a juridicidade. Neste caso. extremamente democrático. Passa a haver uma hierarquia entre os bandidos e uma proibição de uso da violência em certos casos.atividade do legislador). Com relação às normas isoladas. um ato de violência só estará justificado publicamente se seguir o procedimento predeterminado e objetivar o desenvolvimento do povo. As ordens emanadas do poder dominante são contraditórias e variáveis e os dominados as cumprem por medo da violência. ainda que. Cada membro pode averiguar a legitimidade da norma (aspecto de criação do direito .O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana (1) Argumento da correção Este argumento é a base dos demais. o jusfilósofo alemão diferencia três ordenamentos sociais extremos. a qual só será tida como correta se servir a uma finalidade superior. como quando for formulada mas não for satisfeita. nem. dizemos que a pretensão tem um aspecto qualificante. A pretensão de correção deve ser possível de ser constatada nas normas e nas decisões judiciais por qualquer membro do ordenamento jurídico. Esta ordem se transforma em uma ordem depredatória quando esta minoria armada transmuda-se em um grupo de bandidos organizados. neste caso extremo. Para explicá-lo. A pretensão de correção funciona então como uma bandeira que pode ser levantada por qualquer participante do ordenamento jurídico. Logo. Porém. mas não for satisfeita. Deste modo. uma vez que formula uma pretensão de correção. falho. depredatória e de dominação. ela seja uma mera fachada. não obstante ser claramente explorador. deve possuir uma pretensão de correção. por exemplo. por exemplo. a pretensão de correção será sempre qualificante e as normas serão deficientes.

extremamente democrático e. Ei Concepto Y La Vaiidez Del Derecho.4 3 4 Apuei ALEXY. remetendo os leitores para ALEXY. não sobrando normas suficientes para a manutenção do sistema jurídico. A respeito dos sistemas jurídicos. o que corroborará a forte vinculação entre o direito e a moral. ou seja. cada membro do referido ordenamento se sujeita às normas e decisões porque as legitima. Neste ponto é relevante a bipartiçao de norma em regras e princípios empreendida por Robert Alexy. em sendo um requisito para a juridicidade do ordenamento jurídico. temos que o argumento da injustiça para as normas isoladas possui um aspecto classificante. ou íiarcf cases. locus dos casos duvidosos. assim. Não tratarei aqui desta distinção. condiciona a legitimidade da norma e das decisões judiciais à sua satisfação. nos mesmos moldes já explicados por ocasião da pretensão de correção. Deste modo. quando se tratar de injustiça extrema. (3) Argumento dos princípios Todo ordenamento jurídico possui um âmbito de abertura. 34. para os quais não há regra aplicável. (2) Argumento da injustiça Este argumento parte da fórmula de Radbruch: "O conflito entre a justiça e a segurança jurídica pode ser solucionado no sentido de que o direito positivo assegurado por sua sanção e o poder têm prioridade ainda quando seu conteúdo seja injusto e não funcional. comunicacional. a norma injusta perde seu caráter jurídico e.Alice Leal Wolf Geremberg menta na capacidade comunicacional do participante e impede qualquer tipo de exclusão que não a argumentativa (você só estará excluído de um debate se não tiver argumentos para nele se inserir). a menos que a contradição entre a lei positiva e a justiça alcance uma medida tão insuportável que a lei. p. constatando nelas a satisfação da pretensão de correção. em tanto 'direito injusto'. Barcelona: Gedisa Editorial. 1997. Em outras palavras: a pretensão de correção se refere à observância de um procedimento discursivo. o juiz se valerá de princípios.3 Sempre que for ultrapassado um certo limite de injustiça. Teoria de los Derechos Fundamentales. tenha que ceder ante a justiça". sobretudo se forem normas fundamentais para este ordenamento. intolerável. estes só perdem sua juridicidade quando muitas normas forem consideradas injustas. Robert. Todas as vezes que o juiz estiver diante de um caso difícil irá realizar uma ponderação através dos princípios nucleares colidentes. Nesta hipótese. 1994. capítulo 3. Robert. Madrid: Centro de Estúdios Constitucionales. 66 .

a seu turno. ALEXY.tese moral. Só pode ser cumprido de modo aproximado e possui assim uma função negativa. 173. A ponderação de princípios.O Procedimento Discuisivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana O argumento dos princípios se desdobra em três teses: tese da incorporação.6 O procedimento irá assegurar um patamar razoável de racionalidade regrando a fundamentação normativa. pois. 5 6 Quero ressalvar. Desta definição tripartide de direito exsurge o estabelecimento do sistema jurídico como um sistema de regras. e em que medida um princípio irá preceder a outro são pontos que o método da ponderação deixa em aberto. El Concepto y La Validez dei Derecho. sempre encontraremos alguns princípios que terão cunho moral. há de se agregar à parte passiva uma ativa referida ao procedimento de aplicação das regras e dos princípios". nem as regras regulam por si mesmas a sua aplicação. por si só. princípios e procedimentos. necessitando ser complementados pela teoria da argumentação jurídica (espécie do "discurso prático racional geral" do qual cuida o "código da razão prática"). Já de acordo com a tese moral. Eles representam só a parte passiva do sistema jurídico. A tese da incorporação afirma que todo ordenamento jurídico minimamente desenvolvido possui necessariamente princípios. pois o ato de elencar os princípios colidentes. 1994. Já aí se vislumbra a dupla característica dos princípios de pertencerem tanto ao direito . o caráter ideal. o procedimento preconizado pelo dito código. Se se quiser obter um modelo completo. Esta regrará o procedimento de fundamentação dos passos supracitados. Robert. de que o juiz se valha de princípios e realize uma ponderação. não dá conta de combater a arbitrariedade no manejo com os princípios.tese da incorporação . atuando como um parâmetro para a averiguação da correção moral. Através desta tese se afirma que há uma relação necessária entre o direito e a moral. p. no mais possível.quanto à moral . A moral será correta quando observar. A tese da correção. contrafático do "código da razão prática". mas não a qualquer moral senão à moral corret^ Entende-se por moral correta aquela que obedece a um procedimento discursivo universal baseado na fundamentação e que irá aferir o maior grau possível de racionalidade à razão prática (razão referida às ciências humanas e sociais). nos casos duvidosos.s Outro aspecto a ser considerado é a relevância do procedimento para aferição de uma moral correta. 67 . a resolução da colisão. há uma exigência jurídica. tese moral e tese da correção. "O nível da regra e o do princípio não proporcionam um quadro completo do sistema jurídico. Este procedimento Alexy desenvolveu e nomeou "código da razão prática". é a aplicação do argumento da correção no argumento dos princípios. estipulada pela pretensão de correção. Barcelona: Gedisa Editorial. de modo que o participante do ordenamento jurídico poderá verificar a correção da ponderação efetuada pelo juiz. contudo. Nem os princípios.

7 sobretudo nos casos difíceis para os quais a ponderação será exigida. 71. o da argumentação jurídica (Pa) e o do processo judicial (Pi). Esta será racional porque obedece a PP. Porém. Em suma: o conceito de direito em Alexy defende a tese da vinculação. e será considerado correto na medida em que for resultado do procedimento preconizado pelo "discurso prático racional geral" PP (procedimento do "discurso prático geral"). Este procedimento geral PP se divide na necessidade de outros três procedimentos: o da criação estatal do Direito (Pd).da correção. p. impondo-se para um caso uma só solução. mas também no campo de sua criação e no próprio processo judicial. Logo. Derecho y Razón Práctica. P* e Pa respectivamente. A relação que é feita é a seguinte: o sistema jurídico deverá ser elaborado levando em consideração o procedimento do "código da razão prática". da injustiça e dos princípios -.Alice Leal Wolf Geremberg A presença deste procedimento de correção moral se faz sentir não somente no campo de aplicação das regras e dos princípios. . restringe-se a possibilidade discursiva (viabilidade de elaboração de duas soluções contraditórias discursivamente possíveis. No entanto. México: Distribuiciones Fontamara. os quais em última análise trazem para o interior do universo jurídico valores morais e deslocam a legitimidade do direito da legalidade formal para a observância de um procedimento discursivo. são possíveis várias decisões jurídicas". Este deslocamento confere um maior grau democrático ao sistema. Isto aponta para a tarefa do legislador que igualmente se sujeita à pretensão de correção e permite a sua verificação por parte dos participantes do ordenamento jurídico. O ponto de partida de Pa é Pd. A criação das normas jurídicas (Pd) deve se dar através da observância de PP. 1993. É a argumentação jurídica que irá organizar os esquemas de argumento a favor e contra a tese sustentada. relação esta fundamentada em três argumentos . uma a favor e outra contra). a partir da qual há uma relação necessária entre o direito e a moral. Este dado orienta para o papel da argumentação jurídica de fechar estas brechas. 7 68 Idem. Já com relação a PP."com relação ao material autoritário produzido porPd. o que se evidencia pela existência constante em cada caso de duas teses contrárias. tem-se que o procedimento de argumentação jurídica é formado por regras específicas do discurso jurídico e por regras do "discurso prático racional geral" (neste sentido estas regras do da argumentação jurídicas são casos especiais das regras do "discurso prático racional geral"). Pa apontará para os limites da argumentação racional e das debilidades de Pa como critério de correção exsurge o procedimento do processo judicial para o qual se agrega o caráter decisório. dentro do sistema jurídico existirão lacunas de racionalidade .

Porém. 11 Estas regras.3) Estas regras garantem o direito de cada ser humano a participar do discurso e de inserir qualquer argumento. se retirar do discurso certas pessoas. pp.10 Logo. seja para introduzir qualquer afirmação. deverá dar razões que justifiquem esse ingresso ativo no discurso. junto com as regras fundamentais. desejos e necessidades (c) . pois introduzem as idéias de liberdade e igualdade nos argumentos. as bases do "discurso prático racional geral". ou ainda. Estas regras irão estipular que todas as vezes que um participante intervir no discurso do falante. Linguagem e Comunicação. São Paulo: Cortez.2) • Todos podem problematizar qualquer afirmação (a) • Todos podem introduzir qualquer afirmação no discurso (b) • Todos podem expressar suas opiniões. as quais afirmam que. todos os que possuem capacidade lingüística de dialogar comunicacionalmente estão habilitados a participar do discurso. entendendoas como incapazes de nele participar. seja para questionar qualquer afirmação feita.Liberdade de discussão (2. 102-105. a. quando estiverem na mesma situação. constituem. r. Em outras palavras. Portanto. Já as regras relacionadas ao procedimento discursivo possuem uma natureza dialógica. sendo denominadas regras específicas do discurso. opiniões ou necessidades.Alice Leal Wolf Geremberg tornam a fala de Hunipty Dumpty completamente ininteligível e impedem uma comunicação bem-sucedida com Alice. 2000. Constituem a base normativa da teoria discursiva. seja para expressar seus desejos. 12 O termo não excludente é utilizado para afirmar que não se trata de uma impossibilidade discursiva. elas são pressupostos indispensáveis para o êxito em qualquer prática comunicatíva. 3a ed. mas cuja restrição de participação no discurso se pauta na fundamentação. correspondem à situação ideal de fala de Habermas e. ainda que as regras referentes à estrutura dos argumentos sejam monológicas. a validade do meu argumento se perfaz somente se as suas conseqüências para um indivíduo puderem ser aceitas por todos os participantes deste discurso.Nenhum orador pode ser impedido de exercer os direitos anteriores mediante qualquer coerção interna ou externa ao discurso (2. Filosofia. somente os argumentos passíveis de universalização podem ser objeto de um discurso prático.1) .. a ampla liberdade dada aos participantes do discurso será limitada de uni modo não excludente12 em dois momentos: uma primeira limitação pode ser encontrada nas regras sobre a carga de argumentação. Danilo. Já uma segunda limitação pode ser vislumbrada nas regras de fundamentação. 70 . no sentido de que ad nutum.Quem pode falar pode participar do discurso (2.11 São elas: . de pronto. 10 Exemplo retirado do livro MARCONDES. que Alexy denomina regras de razão.

tanto que podem ser transcritos na forma lógica. 15 Este tipo de justificação interna. especifico sobre argumentação jurídica. vicie BARROS. Antônio (orgs. Teoria Gerai do Direito e Lógica Jurídica. 2002} somente será aqui enunciado. como tal. Este interesse é explicado porque a proposta de Alexy é a de apresentar um discurso jurídico cujos argumentos possuam um caráter racional. no caso de estar se falando da órbita do Poder Legislativo. O segundo ponto nevrálgico do discurso jurídico é a prevalência conferida à lei. a justificação interna se reveste da forma do entimema. 1998. A justificação interna corresponde à ordem lógica interna da proposição normativa. quanto à justificação externa e consiste na preocupação em revestir os argumentos jurídicos de uma forma lógica.O Pensamento Jusfilosófico de Robert Alexy. ou decisão judicial. 71 . mimeo. uma premissa menor particular e uma conclusão que consiste na inferência lógica alcançada a partir das premissas aduzidas. Rio de Janeiro: Editora Forense. são compostas por uma premissa maior geral. cabe à argumentação jurídica apresentar os porquês e organizar logicamente a opção por uma determinada norma. Seu papel resta claro: fornecer a justificação adequada para a escolha feita. dogmática e precedente. A regra é: toda vez que a justi- 13 Para um esclarecimento maior sobre proposição normativa. tais quais os silogismos. Ou seja. O aspecto institucional aqui se torna latente. entitulado "Principais Aspectos da Argumentação Jurídica de Robert Alexy: as Alterações Trazidas pela Inserção da Weight Formula".13 à organização das premissas utilizadas para a justificação.14 Porém. ou do Poder Judiciário respectivamente. a argumentação jurídica é o discurso prático empregado nas situações em que se exige a segurança jurídica. III.15 A justificação externa tem a função de fundamentar as premissas aduzidas como justificação interna. atualmente no prelo. Margarida e MAIA. o que implicitamente quer afirmar é que os argumentos jurídicos possuem um condão de racionalidade. quando terá de se optar por uma das teses possíveis sobre um mesmo assunto. deve observar as suas regras e formas. Ao transcrevê-los na linguagem lógica. à dogmática e aos precedentes. Seis são suas regras e formas. A argumentação jurídica possui três traços marcantes: o primeiro deles se refere tanto à justificação interna. In CAMARGO. se esta proposição for um princípio. Em certo sentido. mas de um modo simplificado podemos resumi-las em três: lei. a forma de justificação interna será uma fórmula elaborada recentemente por Alexy e que se denomina weight formula. Cristiane Gouveia de. Die Gewichtsformei. cap. Se esta proposição for uma regra.O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano a Democracia Deliberativa Habermasiana A argumentação jurídica é entendida como uma espécie do "discurso prático racional geral" e. O discurso jurídico se divide em justificação interna e justificação externa. 14 Entimema é um termo aristotélico que significa o silogismo aplicado àquelas relações dotadas de verossimilhança que. explicitada por Alexy em recente conferência que ocorreu entre os dias 21 e 24 de abril de 2002 em Fortaleza (ALEXY.). Robert. Uma exposição mais detalhada pode ser encontrada em outro artigo da mesma autora.

uma vez que a sua lesão atinge um cerne básico de liberdades e direitos do indivíduo) e abstrata (a limitação de satisfação de um direito fundamental só acontece no caso concreto através do exame de ponderação). A função dos direitos fundamentais não é somente apontar soluções para os casos duvidosos mas. 2. Finalmente. ainda que em termos genéricos. pela adoção de um enunciado dogmático. O procedimento discursivo -argumentativo ora aludido. sobretudo. mas a existência de um valor moral que consiste na justificação de sua fundamentação racional perante cada indivíduo). temos que o sistema jurídico alexiano é um sistema de regras. Porém. Visto o aspecto dos procedimentos. moral (sua validade pressupõe não a positivação. prioritários sobre todo o ordenamento jurídico. estes deverão ser exauridos. ainda. de exercer os seus direitos políticos de cidadão. direitos fundamentais. a inserção princípiológica no direito transcende a esta utilidade. que nada mais são do que os direitos do homem consubstanciados na declaração de direitos do homem e do cidadão. sobretudo nos casos difíceis. na medida em que repousa nas bases do conceito de direito alexiano e que um maior grau de cumprimento lhe asseguram um patamar razoável de legitimidade. sua defesa e a reconciliação com a democracia Continuando a análise realizada no item precedente. princípios e procedimentos. lhe propiciando condições de participar ativamente da vida política. Os direitos do homem têm uma natureza universal (são direitos de todos os seres humanos enquanto indivíduos). já propicia vislumbrar como suas características refletem positivamente para a construção e garantia de uma democracia. Os direitos fundamentais. Uma vez escolhidos os argumentos de justificação externa. a terceira característica é a regra de saturação. Os princípios possuem uma importância extrema para um ordenamento jurídico. 72 . As constituições democráticas devem conter. consoante o preâmbulo e o art. 28 da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão. tais argumentações serão preferíveis às outras. Constitui um forte pilar para a democracia e um fio condutor que a veicula e impulsiona. dar as bases para o desenvolvimento de uma sociedade democrática ao garantirem um mínimo de qualidade e dignidade para o ser humano. pela menção a um precedente. ou seja. passemos à análise das normas fundamentais e da relação destas com a democracia. ou. Devem ser institucionalizados. fundamental (seus conteúdos consistem em um núcleo essencial que conferem a estes direitos um patamar constitucional.Alice Leal Woif Geremberg fícativa puder passar pela interpretação da lei utilizada. no entender de Alexy. de sorte a reforçarem ao máximo o peso do argumento utilizado. a fim de assegurar-se o seu cumprimento.

nos casos em que a solução encontrada contrariar a disposição parlamentar. p. Há uma verdadeira luta pela correta interpretação dos direitos fundamentais. este conceito foi aperfeiçoado e o mesmo entende que os direitos fundamentais são os direitos humanos positivados mas seguindo um critério de otimização. A interpretação dos direitos fundamentais. teremos exposto o caráter contramajoritário. 17 ALEXY. 65.O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana Ao serem positivados. aqueles direitos fundamentais que com eles forem compatíveis poderão ser interpretados extensivamente para contemplar o direito humano não positivado. fiscalizadora da decisão do tribunal. 1999. ademocrático dos direitos fundamentais. 19 Idem. Agregam-se a estes dois elementos o significado fundamental dos direitos fundamentais (3) . p. Rio de Janeiro: Renovar. Robert Alexy em Fortaleza (em evento que ocorreu entre os dias 21 e 24 de abril de 2002). que possuem uma força de concretização suprema (2).19 Há aqui a necessidade de se distinguir entre a repre16 Atualmente. Dr. é tarefa de um tribunal constitucional cuja atividade hermenêutica apresentada será resultado de uma reflexão interna e de uma discussão na arena política. 65. pois "asseguram a existência de pessoas"17 através dos direitos de liberdade e igualdade e de condições funcionais para o processo democrático através dos direitos e liberdades políticas. direitos constitucionais. o que só é viável através do exame de ponderação. que "subtraia o poder decisório da maioria parlamentar legitimada". 18 /dam. p. O árbitro desta batalha é o magistrado e. ou seja. os direitos fundamentais otimizariam a aplicação dos direitos humanos. Portanto. como já exposto. realizados na maior medida possível. como o tribunal constitucional. Os direitos fundamentais são assim dotados de um duplo aspecto no que tange à sua relação com a democracia. em recente palestra ministrada pelo Prof. dependente também da consideração de seus outros três elementos.e a necessidade de uma interpretação maximizada (4). espelho de uma arena pública politizada. ibidem. os direitos do homem passam a se chamar direitos fundamentais16 e emanam mais claramente quatro características primordiais que tornam mais evidentes a sua contradição com relação à democracia. Possuem porém uma outra faceta ademocrática quando. Deste modo. Robert. o tribunal constitucional apresentar uma solução que contrarie o Poder Legislativo.Fundação Getúlio Vargas.18 A reconciliação entre os direitos fundamentais e a democracia é possível a partir da compreensão do tribunal constitucional como uma instância reflexivo-argumentativa. Gozam de um lado democrático. 66. a° 217. mas são representantes do povo tanto o parlamento. ibidem. 73 . ainda que existam direitos humanos não positivados na constituição em questão. É um pressuposto da democracia que todo poder estatal emana do povo. devem ser otimizados.direitos de liberdade e igualdade e de participação na formação da vontade política . Os direitos fundamentais são direitos de escalão hierárquico supremo (1). Revista de Direito Administrativo. ou seja. "Direitos Fundamentais no Estado Constitucional Democrático".

pois são vistos como meio de propiciar uma agregação de interesses privados. dentro dos umbrais legais. quando este se opuser ao parlamento. Os direitos políticos seguem a mesma regra. quando não houver um caráter contramajoritário da decisão do tribunal. vejamos esquematicamente como se estruturam os modelos liberal e republicano a partir de quatro aspectos: o papel do processo democrático. Aproximação Alexy-Habermas: a democracia deliberativa Habermas apresenta um terceiro modelo normativo de democracia. Trata 74 . o tribunal se converte em um foro reflexivo do processo político. Em uma concepção liberal o papel do processo democrático consiste na programação do Estado no interesse da sociedade. em cada caso. A representação política é feita pelo parlamento e é respeitada em geral pelo tribunal.Alice Leal Wolf Geremberg sentação política e a argumentativa do cidadão. Não haverá uma contradição entre a democracia e os direitos fundamentais. Isto se evidencia em alguns casos nos quais o parlamento lesa gravemente um direito fundamental. Esta constitui uma articulação entre os modelos liberal e republicano. a seu turno. não está atendendo à pretensão de correção e cabe ao tribunal examinar o ato legislativo eivado de ilegitimidade. que possibilita averiguar. Deste modo. Em primeiro lugar. A política irá. o conceito de direito e o processo político. tão-somente. longe de ser um reduto de especialistas alheios e distantes das demandas públicas e políticas. fiscalizando seus representantes que estão atuando antidemocraticamente. Nesta hipótese. O papel do cidadão não se resume na fiscalização da decisão tomada pelo tribunal. mas também consiste em uma participação ativa na esfera pública. O processo político no modelo liberal é uma luta por posições para que se disponha do poder administrativo. o parlamento não obedeceu às normas do procedimento discursivo. a democracia deliberativa. consiste em uma ordem jurídica construída a partir de direitos subjetivos. ou seja. o faz não contra o povo. se o tribunal. for sensibilizado pelas demandas de um espaço público que também controla suas decisões através da aferição de sua legitimidade via procedimento discursivo. O conceito de direito. Estas liberdades negativas devem ser asseguradas pelo Estado a fim de que cada pessoa possa perseguir seu objetivo de vida. de sorte que esta vontade política coletiva formada exerça influência sobre os poderes públicos. mas em seu nome. no entanto. entendidos como liberdades negativas que os cidadãos possuem e podem opor tanto a outros cidadãos como ao Estado. 3. que direito é cabível ao indivíduo. garantir os interesses privados perante a ordem estatal. através da aceitação da argumentação racional utilizada como justificação da solução apresentada. o conceito de cidadão. O status de cidadão é definido a partir dos direitos subjetivos.

O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Publico: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana de uma ação estratégica em que cada cidadão orienta seu voto de acordo com seu interesse particular e todo o processo de formação da vontade política está voltado para o objetivo de se alcançar posições de poder. Coloca em igual hierarquia os direitos e liberdades do indivíduo e os direitos de participação política. estão. Querem definir um modo de vida em comunidade melhor. os direitos políticos. É entendida como uma forma de reflexão dos aspectos éticos que ligam uma mesma comunidade. o outro. tanto um modelo quanto o outro. na qual os cidadãos dialogam e prepondera a ação comunicacionai. a partir dos direitos de cidadania. Os liberais fundam a legitimidade do direito em uma "lei superior. p. A formação democrática liberal é reduzida a uma relação de interesses.) Conforme essa concepção. que são liberdades positivas. ibidem. a despeito de priorizarem. por conseguinte. tanto o modelo liberal como o republicano são incompletos. Na concepção republicana. a política possui um enfoque diferente no processo democrático. comunidades que partilham da mesma cultura".21 dos mesmos valores e que conseguem efetivá-los pelo princípio da maioria. no qual os cidadãos deliberam o que deve valer para a comunidade como um todo. Lua Nova. Jürgen. A formação democrática republicana reflete uma "autocompreensão ética. 43. 1995. São Paulo: CEDEC. "A teoria do discurso toma elementos de ambas as partes e os integra em um conceito ideal de deliberação e tomada de decisões. fundamentando a legitimidade do direito nos interesses de um indivíduo ou de um grupo. é parte constitutiva do processo de formação da sociedade. "Três Modelos Normativos de Democracia. de participação política. em uma razão ou revelação transpolítica". mais eqüânime. O cidadão republicano é definido. na verdade.. Direitos Fundamentais no Estado Constitucional Democrático". a razão prática se afasta dos direitos universais do homem ou da eticidade concreta de uma determinada comunida- 20 HABERMAS. um os direitos individuais. 45. p. O conceito de democracia deliberativa procura realizar uma articulação entre ambos os modelos liberal e republicano. 36. Distante de ser um instrumento mediador entre o particular e o Estado. O conceito de direito é o de um sistema jurídico que garanta a convivência e o respeito mútuo com igualdade de direitos. v. No entanto. pois visam ao entendimento recíproco. equilibrando-os através da primazia que em ambos exerce a teoria do discurso.. 75 . O processo político é visto como uma seara argumentativa. 21 /c/em. deliberativa.2^ os republicanos a consideram como a expressão da vontade política prevalecente. Há a garantia de participação em um processo político de formação da vontade e opinião. ou seja. Como se observa. a um compromisso entre o Estado e o particular.(.

estabelece que ambos se pressupõem mutuamente. pois trata-se de uma autolegislação. segundo ele. numa relação de reciprocidade e interdependência. Com esta postura. Rio de Janeiro: Tempo Brasüeiro.) A submissão à norma. Se à ética incumbe trabalhar a noção de bem. da própria estrutura da comunicação lingüística". na 138. As normas elaboradas. a considero legítima. 116. Em outras palavras. na capacidade discursiva inerente a todo ser humano. mas na moral que é universal. Flavio Beno. resultantes deste processo. 23 NEVES. sendo universal e não se prendendo a nenhuma comunidade jurídica concreta. e em última instância. (org). São normas morais aconteudísticas. a legitimidade do direito se apoia em um "arranjo comunicativo". ibidem.23 A legitimidade do direito. apresentando uma terceira possibilidade conciliadora: ao invés da tradicional concorrência existente entre os modelos liberal e comunitário. 1999. A justiça está além de indivíduos ou comunidades que partilham a mesma cartilha de valores. 22 Idem. Jessé. Marcelo. na hipótese de sua incidência fática. é uma conseqüência desta reciprocidade. nas bases de um procedimento discursivo. 2001. p. 24 SIEBENEICHLER. p. Democracia Hoje. procedimentais.22 A legitimidade do direito passa a repousar em normas que possuem uma validade para além da comunidade jurídica concreta. são em prol de todos os envolvidos no procedimento e são legítimas na medida em que intersubjetivãmente formadas (pelo médium do discurso) e reciprocamente obedecidas/respeitadas (pois quem as elabora é concomitantemente autor e destinatário da norma.24 pois cada membro da sociedade participa de um procedimento discursivo o qual os coloca em condições de igualdade e lhes dá liberdade na argumentação. "Uma Filosofia do Direito Procedimental". portanto. contingente e referente a comunidades específicas. Habermas se posta como um intermediário entre os modelos liberal e comunitário. In: Jürgen Habermas: 70 anos. baseadas na habilidade lingüística. entre direitos humanos (liberdades negativas) e soberania popular (liberdades positivas). "Do Consenso ao Dissenso: O Estado Democrático de Direito a partir e alérri de Habermas". para se situar naquelas normas de discurso e de formas de argumentação que retiram o seu conteúdo normativo do fundamento de validade da ação orientada para o entendimento. In: SOUZA.Alice Leal Wolf Geremberg de. 167. Neste sentido. portanto. obedeço à norma que incide sobre mim porque participo de seu processo de elaboração e. 76 . tanto o modelo liberal quanto o modelo republicano de democracias constituem discursos éticos que correspondem "a preferências individuais ou coletivas a respeito da boa vida". não pode repousar na ética. o campo de trabalho da moral é a noção de justo. Brasília: Editora UNE. Habermas sustenta que. 46. p.

Sem sombra de dúvida. No patamar imediatamente inferior. Direitos Fundamentais no Estado Constitucional Democrático". mas sim de modo análogo a Habermas. O enfoque aos direitos fundamentais recai menos sobre o caráter de liberdades negativas do que sobre a questão de promoverem "uma resposta conseqüente à questão de como institucionalizar os exigentes pressupostos comunicativos do processo democrático". confere primazia ao processo político de formação da opinião e vontade. Podemos afirmar que Alexy toma como um pressuposto teórico o paradigma comunicacional de Habermas e. Jürgen. JáAlexy possui outro desiderato. de igual modo que Habermas. quando. Lua Nova. Além do que não centraliza a democracia na satisfação destes direitos pelo Estado. Habermas é mais pretensioso e possui uma teoria extremamente complexa e ampla.O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana Alexy não desenvolveu em separado uma teoria da democracia. o modo como Alexy conduz sua reflexão sobre democracia pode levar ao entendimento errado de que ele defende um modelo liberal. tal qual Habermas. portanto. filiando-o intrinsecamente à teoria do discurso habermasiana e. 77 .25 Os direitos de par- 25 HABERMAS. mas sem relegar a um segundo plano os direitos fundamentais. aplica a razão prática ao conceito de direito. 47. p. a partir dele. ao exigir a universalidade como um requisito da norma moral. Sua opção pela democracia deliberativa. "Três Modelos Normativos de Democracia. que necessita ser visto umbilicalmente relacionado à moral. que é o instrumento propiciador de legitimidade. seu esforço consiste em encontrar meios plausíveis para justificar racionalmente a introdução no direito e aplicação in caso concreto destes princípios morais. Constrói. é notória. porque apesar de partir de uma noção de direitos do homem. primordialmente. um direito pós-positivista. Neste ordenamento jurídico. No entanto. regras e procedimentos. v. em fornecer uma metodologia racional para o direito trabalhar com os aspectos morais que lhe são indissociáveis. É o que acontece quando constrói o seu conceito de razão prática. ainda que de forma esparsa e assistemática em seus trabalhos. apesar disto. São Paulo: CEDEC. aborda a temática. bebe da fonte kantiana. No entanto. portanto. há uma estrutura argumentativa. visando revigorar o potencial de uma racionalidade moderna desencantada através do paradigma comunicacional. também. em um terceiro nível. que emergem dos enfoques teóricos diferentes adotados por Habermas e Alexy. elabora seu modelo. os princípios morais possuem uma grande importância e. 1995. Não. nos moldes habermasianos. As diferenças são meras filigranas. isto não é o que acontece. tal qual fez com a questão dos direitos fundamentais e da argumentação jurídica. pois igualmente sustenta que a legitimidade do direito repousa em práticas discursivas públicas sociais inclusivas. Repousando sob toda a sua teoria. que consiste. 36. na teoria do discurso. composto por princípios.

consoante o modelo republicano. "Basic Rights and Democracy in Jürgen Habermas's Procedural Paradigm of the Law". 232. um direito individual ou minoritário teria preferência sobre a decisão majoritária. remanescendo no plano fático. Isto pode se dar quando a corte constitucional der primazia a um direito fundamental. numa lesão à 78 . é alto. Para ambos os teóricos. Significa a total idealização". 7. nas instituições parlamentares ou na rede de comunicação dos espaços públicos políticos". A revista dizia que o ex-combatente era um aleijado assassino nato. representaria uma barreira a tal liberdade. "Conta ela (teoria do discurso) com a intersubjetividade de ordem superior de processos de entendimento que se realizam na forma institucionalizada das deliberações. Robert. afastando uma norma que foi legitimamente (nos moldes habermasianos) constituída. à dignidade da pessoa humana. a afirmação de que Luth era um assassino nato não configurava difamação. na 2. Logo.. (. pois o ex-combatente havia sacrificado muitas vidas durante a guerra e haveria um interesse público na veiculação desta informação. Alexy afirma que a tensão só será definitivamente eliminada em um modelo ideal. mas sim a institucionalização dos procedimentos e pressupostos comunicacionais.26 Serão as práticas discursivas. Oxford: Blackwell Publishers. se pressupõem e articulam reciprocamente. também não irão refletir. ibidem. ibidem. no caso. unicamente. regedoras das discussões públicas travadas no interior dos fóruns abertos à discussão os quais garantirão.. "É fácil observar que qualquer tensão entre direitos fundamentais e democracia precisa desaparecer imediatamente no momento em se pressupõe a perfeita realização do princípio da democracia. restabelecendo a tensão entre eles e a democracia. acarretando no fim da tensão entre eles. uma diferença entre ambos merece consideração: Habermas defende que há uma reconciliação perfeita entre direitos humanos e democracia. a vontade de uma comunidade majoritária. Em situações concretas. a articulação entre a teoria do discurso e o conceito de espaço público é essencial. quando um ex-combatente é difamado por uma revista de grande circulação. os direitos fundamentais irão possuir um caráter ademocrático. 27 ALEXY.27 A tensão entre direitos humanos e democracia "só pode ser totalmente removida em um modelo que não tenha nenhuma conexão com a realidade".29 Nesta hipótese. pela legitimidade do procedimento. p. às vezes. Ratio Júris. O preço para isto. 28 Idem. distinguindo entre uma informação de interesse público e uma que se refere unicamente à esfera privada. v. p.Alice Leal Wolf Geremberg ticipação política. a seu turno. Porém. O tribunal constitucional impôs um limite à liberdade de expressão.2& O que o procedimento discursivo oferece é uma atenuação desta tensão. 29 Um exemplo disto é o caso Luth (de 1958). a seu turno. pois são cooriginais. Aquela estaria protegida pela liberdade de expressão e esta. a legitimidade dos resultados. p. no entanto. mas nunca sua eliminação por completo. 48. 235. chamá-lo de aleijado acarretava. Porém. havendo prevalência dos direitos à intimidade e. e o tribunal constitucional feri- 26 Idem. 1994.) Direitos humanos e democracia são reconciliados sem reservas.

Trata-se de "um processo constituinte duradouro e contínuo". "Direitos Fundamentais no Estado Constitucional Democrático".O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana ria o equilíbrio firmado entre autonomia pública e privada. Robert. elimina-se a contradição entre direitos fundamentais e democracia. Em Alexy. 30 HABERMAS. além de decidir racionalmente. passarão pelo crivo dos participantes daquele ordenamento jurídico. a legitimidade do tribunal constitucional está embasada na capacidade deste em captar os apelos oriundos da esfera pública e dizer o direito no caso concreto aproximando-se destes apelos.30 Da mesma maneira. quando o procedimento discursivo será utilizado na sua avaliação sobre a correção da decisão tomada pelo tribunal. Alexy considera que a constituição possui um caráter aberto a ser preenchido pelos princípios fundamentais através da ponderação e da fundamentação argumentativa. Rio de Janeiro: Editora Tempo Brasileiro. Revista de Direito Administrativo. 119. p. "Basic Rights and Democracy in Jürgen Habermas's Procedural Paradigm of the Law". então. Oxford: Blackwell Publishers. Rio de Janeiro: Renovar . v. p. vol. 66. sendo irrelevante a publicidade do dado. 237. a ser reconstruída pelos seus destinatários. "Isto é o caso. que voltam a se reconciliar. 79 . já que elas passarão pelo crivo dos cidadãos. quando os argumentos do tribunal encontram um eco na coletividade e nas instituições políticas. 31 ALEXY. neste segundo modo. n** 217. a fim de justificarem a solução contramajoritária. As razões apresentadas pelos magistrados. 1997. Com esta postura. transformado em uma instância reflexivo-argumentativa. Robert. O tribunal constitucional é. enquanto Habermasse concentra na via legislativa. a existência de um espaço público é requisito para que o tribunal constitucional seja considerado uma instância reflexiva. Em conseqüência. Direito e Democracia: entre Faticidade e Validade. Habermas afirma que o Estado Democrático de Direito deve supor uma constituição histórica inacabada. 7. fundamentando suas decisões consoante o procedimento argumentativo.Fundação Getúlio Vargas. formador de opinião através da observância das regras discursivas. p. Jürgen. que não se reduz aos períodos eleitorais. Deste modo. ALEXY. De uma forma mais tênue. O conteúdo da constituição é aberto e possibilita ré atualizações e reinterpretações que o tornem mais amplo e eficaz. até porque seu interesse é demonstrar o aspecto democrático navia judicial.31 A atuação da esfera pública. Porém. é feita sua intimidade e dignidade humana. conduzem a reflexões e discussões que resultam em convencimentos examinados". confere ao espaço público o título de um local privilegiado. II. n^ 2. através da prática discursiva. se a corte tornar pública a sua decisão e abrir espaço para que os fóruns argumentativos se manifestem e se posicionem acerca de sua legitimidade. 1994. há uma constante necessidade de legitimidade. 1999. o que em um primeiro momento é ademocrático pode passar novamente a possuir o caráter democrático. Ratio Júris.

quando esta controla a legitimidade da solução encontrada. por meio da análise da correção do procedimento adotado. Salvo a distinção de que em Alexy há a necessidade de um controle discursivo a posterior!. em ambos os autores alemães. 80 . quando tribunal constitucional decidir contramajoritariamente (ocasião em que se restabelece a tensão entre direitos fundamentais e democracia).Alice Leal Wolf Geremberg a posterior!. é na democracia deliberativa procedimental discursiva que encontramos um modelo mais adequado às sociedades pós-convencionais contemporâneas.

3) • Distintos oradores devem usar a mesma expressão com o mesmo significado. ao ser solicitado.2) • Todo orador que aplique um predicado F a um objeto B deve estar disposto a aplicar o mesmo predicado a outro objeto que apresente as mesmas características relevantes de B.Todos podem introduzir qualquer afirmação no discurso (b) .Anexo Tabela de Regras e Formas de Argumento apresentada por Robert Alexy 2. desejos e necessidades (c) • Nenhum orador pode ser impedido de exercer os direitos anteriores mediante qualquer coerção interna ou externa ao discurso (2. (1. fundamentar a sua afirmação salvo se der razões que justifiquem sua recusa (2) • Quem pode falar pode participar do discurso (2.4) Regras de razão • Tbdo orador deve.Todos podem problematizar qualquer afirmação (a) .1) (2 + 1.Todos podem expressar suas opiniões.1) Regras e Formas do Discurso Prático Racional Geral O discurso prático racional geral se divide em: • Regras fundamentais • Regras de razão • Regras sobre a carga de argumentação • Formas de argumento • Regras de fundamentação • Regras de transição Regras fundamentais • Nenhum orador pode se contradizer. (1. (3. (1.3) Regras sobre a carga de argumentação • Quem pretende tratar uma pessoa A de modo distinto de uma pessoa B está obrigado a fundamentar.1) • Liberdade de discussão (2. (1.1) • Todo orador só pode afirmar o que ele mesmo crê.3) 81 .2) .

ou necessidades.Alice Leal Wolf Geremberg • Quem ataca uma proposição que não é objeto da discussão tem que dar uma razão para fazê-lo.6) Regras de fundamentação • Quem afirma uma proposição normativa que pressupõe uma regra para a satisfação dos interesses de outras pessoas deve poder aceitar as conseqüências desta mesma regra. • As conseqüências de cada regra para a satisfação dos interesses de cada um devem ser aceitas por todos (5.2). deverá fundamentar a causa que levou-a a introduzir esta manifestação ou opinião.3) T (enunciado de fato de R') . R (4. • Toda regra deve poder ser elaborada de forma aberta e geral (5. (4) N T (premissa) ^ N F R (premissa) N FR R (afirma que FR é razão) R (4.1).R.5) (4. (3.1.4) Formas de argumento G (T ou F) -B. (3.2) • Quem aduziu um argumento só está obrigado a dar outros em caso de contra-argumentos.1.3). na hipótese de se encontrar em situação idêntica (5.1. desejos. (3.2) (4.4) RI P RK ou RI P RK (RI P RK)C ou (RI P RK) C (4.1) (4. 82 .3) • Quem introduz uma afirmação ou manifestação sobre suas opiniões. que não se refira a um argumento anteriormente manifestado no discurso.

exceto: ( 5. . • As regras morais que servem de base às concepções morais do orador devem ser passíveis de prova quanto a sua formação histórica individual. • Há de se respeitar os limites de realização realmente dados (5.1) . Regras e formas de justificação interna: • Formas (J.O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana " As regras morais que servem de base às concepções morais do orador devem ser passíveis de prova de sua gênesis histórico crítica. 2.2.2.l. exceto se foi estabelecida sobre condições de socialização não justificáveis (5. esta perdeu-se depois.. • Para qualquer orador e em qualquer momento é possível passar-se para um discurso de teoria do discurso (6. • Para qualquer orador e em qualquer momento é possível passar-se para um discurso de análise lingüística (6.2).2) Regras e Formas do Discurso Jurídico TABELA DE SÍMBOLOS LÓGICOS -i = não A =e v = ou —> = então U = se e somente se (x) = para todo x O = é obrigatório que.l) forma mais simples (1) (x) {Tx -> ORx) (2) Ta (3) ORa 83 .3).se ainda que originariamente fosse possível esta justificação racional. Regras de transição • Para qualquer orador e em qualquer momento é possível passar-se para um discurso teórico ou empírico (6.se não for originariamente possível a justificação racional.3)..1).2).

84 . 5} Devem ser articulados o maior número possível de passos de desenvolvimento . .3) Sempre que houver dúvida se a é um T ou um M.2) forma mais geral (1) (x) (Tx -» ORx) (2) (x) ( M1 x -> Tx) (3) (x) ( M2x -» M1* (4) (x) (Sx (5) Sá (6) ORa Legenda: x =uma variável de indivíduo a = um indivíduo determinado T= enunciado de fato de R (condições que estabelecem o campo de ação de R) R= ação impositiva ao destinatário da norma M= característica S= expressão que torna a aplicação da regra ao caso indiscutível • Regras . 2. . há de se aduzir uma regra que decida a questão.Regras e formas da argumentação empírica (empirismo).(J. 2) A decisão jurídica deve seguir-se logicamente ao menos de uma norma universal junto com outras proposições. . Regras.(J. 4) São necessários os passos de desenvolvimento que permitam formular expressões cuja aplicação ao caso em questão não seja mais discutível.2.(J. 2. e formas deJustificacão^xterna As regras e formas de justificação externa se dividem em: .1.(J. 2.(J. .2.Alice Leal Wolf Geremberg Legenda: x =uma variável de indivíduo a = um indivíduo determinado T= enunciado de fato de R (condições que estabelecem o campo de ação de R) R= ação impositiva ao destinatário da norma (J.1) Para a fundamentação de uma decisão jurídica deve aduzir-se ao menos uma norma universal.

O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana - Regras e formas de interpretação (lei).3.4. pois não rege nem WI nem WK.1) (1) R' (= IRw) é querido pelo legislador (2) R' A razão de validade de R' se encontra na vontade do legislador de que R seja interpretado mediante W (R'= IRw) -» regra de inferência . Z (3) R' Uma razão para que na aplicação de R seja obrigatória perseguirse o fim Z se encontra na vontade do legislador que com R o fim Z seja perseguido) —> regra de inferência Se perseguir o fim Z é obrigatório.3.(J.2) R1 não deve ser aceito como interpretação de R sobre a base de WI.(J.formas da interpretação genética . também o é qualquer meio necessário para a realização de Z) -^ regra de inferência 85 .1) R' deve ser aceito como interpretação de R sobre a base deWI.1.(J.2) (1) Com R o legislador pretende alcançar a Z (2) -. Regras e formas da argumentação prática geral (razão). . • Regras e formas da argumentação empírica (empirismo) • rege 6.3. não tendo sido elaboradas regras e formas especiais. Formas especiais de argumentos jurídicos. Regras e formas da argumentação dogmática (dogmática). R' (= IRw) -» -.4.(J.formas da interpretação semântica .(J.1) É possível aceitar R' como interpretação de R e não é possível aceitar R' como interpretação de R. . . Regras e formas do uso de precedentes (precedente). • Regras e formas de interpretação (lei) Formas .

(J.formas de interpretação histórica.(J. Formas Especiais de argumentos jurídicos Formas (J.15) (1) (x) (OGx->Fx) (2) (x) (-.13) Deve ser sempre citado. seja em sentido amplo.8) A determinação do peso dos argumentos de distintas formas deve ter lugar segundo regras de ponderação.(J. 11) Todo enunciado dogmático deve poder passar por uma comprovação sistemática. ao menos.5) (1) OZ ( enunciado normativo) (2) —i R (= I^w) —> —i Z (enunciado empírico) (3) R' . seja em sentido estrito.9) Devem ser considerados todos os argumentos que possam ser propostos e incluídos nos cânones de interpretação. • Regras do uso de precedentes (precedente) . comparada e sistemática não foram elaboradas formas especiais . . • Regras da argumentação dogmática (dogmática) . . -(J.(J.(J.(J.(J.16) (1) (x) {Fx v F sim x -> OGx) (l") (2)(x) (Hx -> F sim x) (2") (3)(x) (Hx -» OGx) Legenda: 86 .6) As formas de argumento dos cânones de interpretação devem ser saturadas.(J. . se for posto em dúvida.Regras .7) Os argumentos que expressam uma vinculação ao teor literal da lei (semânticos) e da vontade do legislador histórico (genéticos) prevalecem sobre outros.Alice Leal Wolf Geremberg . empregado-se. 10) Tbdo enunciado dogmático. . 12) Devem ser usados argumentos dogmáticos sempre que possível. OGx) (l 1 ) (J. quando houver a possibilidade. deve ser fundamentado.forma fundamental de interpretação teleológica (J. . um argumento prático geral. um precedente em favor ou contra uma decisão. Fx -> -. salvo se aduzirem-se razões que concedam prioridade a outros argumentos. 14) Quem não quiser usar um precedente existente assume a carga de argumentação.

nu 21. Isegoria . 1999. Editora Fbrense. 1999. ne 3. Teoria de Los Derechos Fundamentales. 23-36. . 81.). Bibliografia ALEXY.Fundação Getúlio Vargas. El Concepto Y La Validez dei Derecho. Teoria de 7a Argumentation Jurídica. Madridi Centro de Estúdios Constitucionales. Revista de Direito Administrativo. 1992. "La Tesis dei Caso Especial".O Procedimento Discursivo-Argumentativo no Interior do Espaço Público: Aproximações do Modelo Alexiano à Democracia Deliberativa Habermasiana F sim x = x é semelhante a F Exemplo: F = contrato de compra e venda H= contrato que tem por objeto a transmissão onerosa de um bem32 (2)R' -> Z (2111) (3) -> R' • Regras . pp. 18) As formas de argumentos jurídicos especiais devem ser saturadas. Barcelona: Editorial Gedisa. Robert. . Revista de Direito Administrativo. 231-252.Fundação Getúlio Vargas. v. _ . pp. Madrid: Instituto de Filosofia (CSIC). nQ 217. Rio de Janeiro: Renovar . . Ratio Júris. 5. 1994. "Direitos Fundamentais no Estado Constitucional Democrático". Die Gewischtsformel. .(J. _ . 1994. "Basic Rights and Democracy in Jürgen Habermas's Procedural Paradigm of the Law". 32 Exemplo retirado do livro BARROS. 1997. v. pp. "Derecho y Razón Práctica". ns 217. 87 . 1998. Oxford: Blackwell Publishers. 55-66. n^ 2. 1989. Cristiane Gouveia de. 227-238. (mimeo. "Colisão de Direitos Fundamentais e Realização de Direitos Fundamentais no Estado de Direito Democrático". 2002. "A Discourse Theoretical Conception of Praticai Reason". p. Ratio Júris. Teoria Geral do Direito e Lógica Jurídica. 1999. Rio de Janeiro: Renovar. . 67-77. pp. . Oxford: Blackwell Publishers. Madrid: Centro de Estúdios Constitucionales. México: Distribuiciones Fontamara.Revista de Filosofia Moral e Política. . pp. Rio de Janeiro. 7. 1993.

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Entre esses conceitos estão o da posição originária (artifício estratégico de representa1 2 Professor da Universidade Cândido Mendes e doutorando em Direito pela PUC-Rio. De um lado. originalmente. A Theory of Justice 1. de outro.e dois trabalhos de Michael Walzer . John. não metafísica".Spheres of Justice e On Tbleration -. nu 25. a perspectiva mais social de Walzer em compreender "cultura" como a fonte primeira e universal para se encontrar parâmetros mais definitivos para a concepção de justiça social. In: Lua Nova. 1992. Nesta investidura. Justice as fairness: political not metaphysical. brevemente. Introdução O presente trabalho procura investigar o percurso teórico mais recente de dois grandes pensadores: John Rawls e Michael Walzer. acreditamos ser ambas as produções diametralmente opostas em suas perspectivas teóricas.2 publicado em 1985. dispomo-nos a enfocar as respectivas teorias a partir de dois trabalhos de John Rawls . John Rawls procura negar o caráter metafísico de justiça em sua teoria. adotamos neste trabalho a versão em português do referido artigo: RAWLS. John Rawls. estudos esses que nos parecem bastante representativos para ambos os pensadores em questão. "Justiça como eqüidade: uma concepção política. 2. a proposta procedimental de Rawls buscando a conciliação entre a justiça e o pluralismo político das sociedades contemporâneas e. nosso estudo será tão-somente analítico e não comparativo. 91 . rediscutindo alguns conceitos específicos desenvolvidos no seu vultoso trabalho A Theory of Justice (1971). alguns aspectos pontuais de suas teorias concernentes à idéia de justiça.Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer Carlos Bolonha1 "Conceptions of justice must be justified by the conditions of our life as we know it or not at ali". na verdade. Revista de Cultura e Política.Justice as fairness: política! not metaphysical e Political Liberalism . A análise consiste em observar. porque. Por razões didáticas. Para tanto. O enfoque "ainda" metafísico de Rawls Em seu artigo intitulado.

há que se dizer também que essa teoria adota a perspectiva de que a condição humana está vinculada à justiça como uma virtude absoluta porque sem ela estaria desfigurada nossa humanidade e perderíamos a capacidade do pleno exercício de autonomia. 574. as chamadas controvérsias filosóficas. A visão rawlsiana. A Theory of Justice. se distancia dele para adaptá-lo a um modelo de justiça que de alguma forma procura regular todas as concepções do bem para as pessoas. sem precisar de que maneira isto é possível. como Rawls descreve. sobretudo. A idéia central da teoria rawlsiana sustenta que a justiça política deve se preocupar com a "estrutura básica" da sociedade. Cambridge. com isto. buscando clarificar a sua concepção pública de justiça enquanto um fenômeno político e não-metafísico. Para tanto. em seguida. responder à pergunta de como seria possível descobrir uma base pública de acordo político.: Harvard University Press. tentando propor uma visão da personalidade moral de cada indivíduo baseada na harmonia interna (sentido de justiça) e na noção precisa de separação entre os domínios público e privado. da ação cultural da humanidade. quando Rawls expõe que "our nature as a free and equal rational being can be fulfilled only by acting on the principies of right and justice as having first priority"? sendo a justiça uma virtude fundamental na constituição do caráter das pessoas. p. o do bem (fim último da sociedade). neste artigo. Rawls admite que seja possível uma cooperação plena (justiça política) entre indivíduos de uma sociedade a partir de um acordo público em que os mesmos estejam em condições de igualdade e de liberdade. em uma sociedade liberal. sem dúvida. Mas. a saber. Ante o aparecimento de inúmeras críticas. 1971. o autor norteamericano enfatiza o caráter pluralístico das sociedades liberais e. A despeito dessa consciência da diversidade. o da liberdade e igualdade (base ideal dos agentes que escolhem princípios de justiça) e. morais e religiosa. 3 92 RAWLS. o que determina a forma e o lugar para o florescimento social. "a reconciliação através da razão pública" (overlapping consensus). uma vez que as pessoas têm inúmeras concepções do bem humano. as instituições políticas que regulam a distribuição dos bens e protegem a ordem social. John. . Rawls retoma a discussão da "justiça como eqüidade". Para esse acordo. Mass. todos temos a obrigação de nos tornamos membros de um processo de cooperação. Rawls insiste na neutralidade das diferentes versões do conhecimento humano. o da própria pessoa humana (agente de determinação sob a perspectiva da justiça). que está acima de nossas próprias vidas. Rawls busca. Esta necessidade de rever tais conceitos surge da própria ambivalência de sua teoria. Deixando de lado a questão das preferências filosóficas. admite que as pessoas devem conhecer e respeitar o pluralismo da vida moderna.Carlos Bolonha cão).

mas por uma visão global e idealizada dos associados. sem saber claramente o sentido do "bem humano".6 Acontece que esses princípios são a base de seu conceito de autonomia. Ocorre que. como é possível tal compreensão racional (juízo de valor) sobre o bem se as pessoas estão desprovidas de suas compreensões doutrinárias? Aqui. Para isto. quando ele mesmo assegura em A Theory of Justice: "We can say that by acting from principies persons are acting autonomously: they are acting from principies that they would acknowledge under conditions that best express theirnature asfree and equal rational beings"? Pode-se compreender. A sociedade. deve chegar a uma conscientização de ordem íntima sobre o valor do bem (privado) para que exista uma aceitação sobre os princípios de justiça propostos por Rawls. In: Lua Nova. p.. assim. uma vez que estes acordam sobre os princípios. que a autonomia individual em Rawls está necessariamente vinculada a parâmetros ideais (princípios). RAWLS. "Justiça como eqüidade: uma concepção política. surge um dos primeiros problemas para Rawls no que se refere ao caráter metafísico de sua concepção de pessoa. de maneira similar. J. Qp. não metafísica". 30.^ Na verdade. p. a pessoa rawlsiana. Como 4 5 6 7 RAWLS. independentemente do tipo apontado por Rawls. É preciso que se compreenda o caráter "evolutivo" da teoria da "justice as fairness". p. entendimentos sobre o bem humano não são escolhidos ou construídos pelos agentes isolados. Logo. uma situação ideal que permita estar longe das "paixões" spinozistas. será aquela que determinará as visões do bem humano de forma que estes não sejam uma ameaça à própria ordem.Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer • "sua primeira tarefa [justiça como eqüidade] é propiciar uma base mais segura e mais aceitável do que a base utilitarista para os princípios constitucionais e para os direitos e liberdades fundamentais". o artifício da posição originária e o véu da ignorância. 29. desconhecendo o bem para si mesma. no desenvolvimento de sua teoria. A Theory of Justice. ao que parece.5 apenas apresenta de forma ilustrativa os seus princípios de justiça que seriam necessários para "servir de fios condutores no tratamento de como as instituições básicas podem realizar os valores de liberdade e igualdade". apresenta. até então. 1992. Rawls preocupou-se sempre em esclarecer e elucidar pontos obscuros conforme surgiam criticas e dúvidas por parte de seus interlocutores. J. cj't. em sua teoria. no 25. Afinal. e. a pessoa rawlsiana pretende obter um final harmonioso com outras pessoas como sendo um "bem racional" (público). 93 . 515. Rawls.

não metafísica". expresso no plano de vida. A Theory of Justice. explicar a idéia de racionalidade e de uma liberdade na vontade de "ocupar essa posição a qualquer tempo simples- RAWLS. J. Mesmo preocupado em demonstrar o caráter político da sua teoria. A capacidade de concepção do bem é a capacidade da pessoa de formar. e possuem o senso de justiça como "a normally effective desire to apply and to act upon the principies of justice. J.3 Esses indivíduos não são pessoas morais. de direitos e de moral. 94 . p. de referenciais e de valor. mas também um dispositivo que atribui moral e natureza humana aos indivíduos que nela se encontram. elas não possuem direitos naturais e tampouco possuem um senso de moral. dito racional. at least to a certain minimum degree". 505. ou do bem". no entanto. "Justiça como eqüidade: uma concepção política. E isto Rawls não consegue superar: "O senso de justiça é a capacidade de entender. entende que os agentes na posição originária têm a capacidade (poder) para conhecer o seu bem. p. Rawls insiste em conceber seus indivíduos como entes independentes das contingências reais do mundo. Ora. Ao que parece. Elas só possuem o dever natural de justiça e aquela "potencialidade" que já nos falava Kant: os indivíduos têm a capacidade de discernir e seguir normas de moral a partir de suas experiências sociais. mas pessoas com potencialidade para algo que se resume na própria aceitação dos princípios. de aplicar e de agir a partir da concepção pública de justiça que caracteriza os termos eqüitativos da cooperação social. RAWLS. mas devem buscar (poder) seguir seus deveres enquanto seres do bem. Rawls. Quando as pessoas "entram" na posição originária. o que existe são duas capacidades extremamente abstratas que determinarão uma "vontade geral" num processo de escolha. então. Eles são agentes repletos de moralidade e estão sujeitos a tentações que podem afastá-los da razão. Como. este artifício teórico não é somente um instrumento para que exista um contrato entre as partes ("a justiça como eqüidade refunde a doutrina do contrato").8 Se nos preocuparmos agora com a tentativa de Rawls em mudar o seu paradigma teórico de uma versão kantiana sobre justiça para uma versão política. de revisar e racionalmente perseguir uma concepção da vantagem racional. temos que analisar com maior cuidado o que se compreende por posição originária. parece extremamente difícil conciliar um conceito de justiça política de base metafísica com uma visão conservadora sobre o bem das próprias pessoas.Carlos Bolonha conseqüência. aqui nos deparamos com pessoas totalmente desprovidas de verdades e de interesses. 37.

os cidadãos são detentores de uma "capacidade moral" em conceber o bem. As pessoas rawlsianas possuem "deveres" naturais..'12 Podemos assim compreender o segundo nível de liberdade como sendo aquele em que os cidadãos adotam reivindicações válidas a partir de sua 10 RAWLS. Na verdade.'11 Rawls. 12 Op. como veremos mais adiante. compreendemos que a própria deliberação na posição originária está comprometida. cit. Rawls admite. o que ocorre é um processo psicológico da pessoa por meio do qual o senso de moral é adquirido na medida em que os princípios de justiça são escolhidos em condições próprias que permitam total ausência de interferências do acaso e do mundo. A solução de Rawls para o impasse é apresentar um "dever" natural para com a justiça. como sendo um atributo artificial e essa capacidade representa aquela que suporta o consenso. Situação esta que ao nosso ver está acima mesmo de uma concepção política da pessoa. 46. p. 45. assim. não metafísica". É uma habilidade natural das pessoas para que seja possível isentá-las de contingências do mundo. ou seja. entre os quais está a justiça que prepondera acima de qualquer outro. p. Em primeiro lugar. J.Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer mente raciocinando sobre os princípios da justiça de acordo com as restrições enumeradas"?'*-0 E possível.. pode ser vista também como irrelevante. consideremos como os cidadãos são representados na posição originária como pessoas livres". Mas Rawls também afirma que atributos naturais são arbitrários e moralmente irrelevantes. Logo. compreender que Rawls admite uma situação privilegiada para suas pessoas na posição originária onde impera uma preponderância da justiça (um estágio absoluto de liberdade e igualdade) sobre todas as circunstâncias que possam provocar uma deliberação moral. portanto. Descrevemos este "dever" anteriormente como sendo uma potencialidade das pessoas de buscar o bem. 11 Op. esta liberdade. pois. p. "Justiça como eqüidade: uma concepção política. 95 . esta capacidade natural pela justiça. A idéia repousa no fato de os indivíduos acordarem e apoiarem as já existentes instituições justas que se aplicam a eles. Ou não? Uma vez que se pode questionar a capacidade moral de justiça dos indivíduos na posição originária. elenca três pontos de vista em que os cidadãos são livres. ou sua identidade com respeito à lei básica". neste artigo que não seria de todo definitivo para o esclarecimento de sua teoria. cít. "não há perda do que podemos chamar sua identidade pública. 43. que "para explicar o que significa descrever a concepção da pessoa enquanto política.

o véu da ignorância está levantado. não compreendemos como Rawls dissocia a concepção moral de autonomia da sua concepção política. 15. J. A idéia é a de que. como prefere Habermas. Apesar de estarem eles em uma situação de caráter pré-institucional.Carlos Bolonha concepção política de justiça. Entende-se. 53. frente às instituições básicas justas. uma vez que. mas em vista de uma sociedade baseada em um contrato justo de fins perpétuos. Ao que parece. que as responsabilidades são assumidas não a partir de suas próprias escolhas. na posição originária. Rawls manipula seus indivíduos de maneira a levá-los para uma 13 RAWLS. or indeed any voluntary act. 96 . in order to apply". p. não em relação a eles mesmos. sempre com respeito à sociedade.13 O problema surge então de como esta derivação ocorre. they do not presuppose an act of consent. J. isto é. numa terceira perspectiva. São assim assumidos por Rawls de maneira que seja possível assegurar o dever natural de justiça dos indivíduos. não metafísica". ou seja. Rawls observa que os deveres naturais derivam das instituições do contrato social: "Though the principies of natural duty are derived from a contractarian point of view. "Justiça como eqüidade: uma concepção política. Neste sentido. Ainda é preciso observar que para Rawls as instituições têm uma prioridade moral sobre os cidadãos. Isto será possível na medida que os cidadãos tiverem plena consciência de seus atos. A Theory of Justice. express or tacit. os cidadãos são capazes de ajustar os seus fins últimos de acordo com os bens primários a eles disponibilizados. O dever natural de justiça política está acima da esfera de deliberação comunicativa. quando ele mesmo afirma que "a justiça como eqüidade é uma concepção moral". Os cidadãos ainda são livres também. quando existe um consenso sobre seus princípios de justiça. A teoria rawlsiana se refere primeiramente às instituições justas: "A justiça como eqüidade tenta apresentar uma concepção de justiça política fundada nas idéias intuitivas básicas encontradas na cultura pública de uma democracia constitucional". os direitos individuais são contingente e artificialmente estruturados na justiça como eqüidade. quando são capazes de assumir a responsabilidade pelas conseqüências de suas decisões. para além das fronteiras do véu da ignorância. p. pois.™ Rawls só admite a plena realização da autonomia do cidadão quando a justiça é plenamente realizada. mas a partir de uma única escolha: a dos princípios de justiça rawlsianos. 14 RAWLS.

As pessoas não escolhem ser justas. Será. John Rawls. ao publicar o seu Political Liberalism. adotamos também a versão em português deste livro: RAWLS.desde o entendimento da "persecução da ordem" em Hobbes até a idéia de "consenso por meio da ética discursiva" em Habermas. A idéia central do livro repousa na questão fundamental de como as instituições sociopolíticas assegurariam. 2000. a concepção política de pessoa e a concepção política de justiça.Duas Propostas de Justiça: Rawts e Walzer esfera além de qualquer possibilidade de resultados incertos. nada mais interessante do que investigar o que existe realmente de político nesta "nova versão" rawlsiana de justiça como eqüidade. a liberdade e a igualdade democrática ante as "divergências" presentes na sociedades contemporâneas.^ preocupase. 3. pois. que Rawls nos apresenta uma sensível "metamorfose política" de sua teoria. chegando até a uma democracia de direitos em Griffin. no capítulo I desse livro que o pensador liberal apresentará. 97 . Contrapondo-se às suas concepções em A Theory of Justice. que busca no respeito às instituições justas o caráter público de sua realização.justiça como eqüidade . São Paulo: Editora Ática. por exemplo. em reapresentar não somente sua teoria da justiça como eqüidade a partir de críticas ainda recebidas sobre sua obra A Theory of Justice. Isto resume a idéia de um acordo entre agentes. assim também as partes ali inseridas não são mais criaturas indefinidas. mas também procura adaptá-la. mas político. Se pensarmos em algumas interpretações sobre o que venha a ser "política". as suas idéias básicas sobre sociedade como sistema de cooperação. ele procura circunscrever os elementos de seu paradigma . novamente. Para Rawls. a saber. às sociedades democráticas. mas agora representantes de cidadãos sob a égide democrática. sem vontades pessoais. ou seja. verifica-se que Rawls já indica que. na sua ambição de reunir muitas 15 Por razões didáticas.dentro de uma perspectiva moderna . Elas são informadas de que possuem um dever natural de justiça. mais uma vez. J. Liberalismo Político. A base "quase" política de Rawls Em 1993.a uma esfera política. Podemos apontar. a "autonomia" individual não tem mais um senso ético. buscando amparar seus conceitos e concepções em categorias definitivamente políticas. a um paradigma político. por definitivo. mais realista. Uma vez que Rawls se dedica a "prestar contas" de sua teoria com uma forma mais política. logo de imediato. e "as leis psicológicas" do senso de justiça tornaram-se leis políticas. a posição originária. poderíamos discorrer . de maneira permanente. 1971. a posição originária é um "artifício de representação" e não mais uma "condição existencial" para o acordo.

doutrinas religiosas.Carlos Bolonha dessas idéias numa só teoria. p. indica ele mesmo em seu texto as três características básicas para a sua concepção política de justiça: 1) esta se aplica a estrutura básica da sociedade. ainda se pode dizer que a justiça política está marcada fortemente por uma concepção moral. também são independentes dessas doutrinas já mencionadas. 2) esta tem total autonomia em relação a qualquer outra doutrina abrangente . São essas razões morais. "liberalismo político" representa uma doutrina cujo objetivo central é tornar possível um acordo sobre uma "concepção política de justiça". é preciso não só haver cooperação entre os indivíduos. adotadas pelos cidadãos.. uma vez que. c/t.16 As razões para justificar a justiça política também se baseiam no elemento do "interesse próprio" dos cidadãos representado pelas vantagens mútuas que a justiça rawlsiana oferece numa sociedade bem ordenada como um sistema eqüitativo de cooperação. sociais e econômicas de uma sociedade. conseqüentemente. 57. que indicam caminhos diversos para o bem da sociedade. Entendemos. "As idéias intuitivas". definido por Rawls como "todas as doutrinas religiosas. para existir o acordo estável. Rawls. são o fundamento da justiça política que. Na verdade. encontradas na cultura política de sociedades democráticas. mas também um "consenso sobreposto". que a justiça política rawlsiana procura evitar as questões de cunho metafísico de um pluralismo social. filosóficas e morais razoáveis e conflitantes que provavelmente se manterão ao longo de várias gerações e conquistarão um número considerável de adeptos num regime constitucional mais ou menos justo. idéia esta diametralmente oposta a de Walzer. morais e filosóficas. possibilitando a cooperação de uma geração para outra. obviamente. sendo esta concepção totalmente independente de doutrinas religiosas. para tanto. principais instituições políticas. um regime cujo critério de justiça é essa mesma concepção política ". isto é. Nesta perspectiva. Apesar dessas "idéias intuitivas" terem possivelmente suas origens nessas próprias doutrinas. por sua vez. que trans- 16 Op. . morais e filosóficas que possam existir nas sociedades. Rawls pretende afastar a dificuldade de se aglutinar a infinitude de conflitos e interpretações. Rawls entende que por meio de um longo processo de amadurecimento histórico essas "idéias intuitivas" já estão enraizadas na cultura política de sociedades democráticas e cidadãos razoáveis podem aceitá-las como sendo o início para o acordo sobre justiça política. 3} esta é expressa por meio de idéias implícitas na cultura política pública de uma sociedade democrática.

17 Agora. faz-se mister observar que algumas "estratégias teóricas" mudaram substancialmente desde A Theory of Justice e desde Justice as Fairness: political not metaphysical. John. MA. em geral agem de acordo com as instituições básicas da sociedade. 99 . lhes era negada. p. completa consciência que representam cidadãos de uma sociedade democrática. Essas partes possuem a noção de sua geração {sociedade democratizada) que. Havard University Press. Ele sustenta a noção de "idéias intuitivas" como uma visão coerente de justiça dentro de uma cultura política. que ele sustentava tão veementemente nas primeiras páginas de seu livro de 1971. p. Rawls restringia suas "pessoas". o acordo se baseia em "crenças" compartilhadas entre os cidadãos de uma sociedade democrática. onde sua justiça política depende diretamente deste "senso comum". mas de uma cultura política de uma sociedade democrática. "beingfirst virtues ofhuman activities. que consideram justas". Rawls expressa claramente a necessidade do senso comum para fundamentar sua justiça política. Se. que eram desprovidas de qualquer conhecimento de suas origens.. A Theory of Justice. 19 Há que se observar que esta perspectiva teórica já havia sido alterada em Justice as Fairness: political not metaphysical. Liberalismo Político. agora. 58. é visível como Rawls se afasta da noção de verdade como elemento indispensável para que haja um acordo viável.18 Outro aspecto importante para ser destacado é o fato de que a justiça rawlsiana não depende mais de uma escolha racional dos participantes. Ralws aponta a necessidade de que seus cidadãos tenham "um senso normalmente efetivo de justiça e. por conseguinte. têm. 4. 1971. truth and justice are uncompromising". por causa desta razão política dada à justiça que Rawls passa a dar maior importância ao "senso comum" que era visto com tantas suspeitas em A Theory of Justice. As pessoas. 79. Cambridge. Em sua conferência VI -A idéia de razão pública.19 Sem dúvida. ao descrever "urna sociedade bem ordenada como uma sociedade efetivamente regulada por uma concepção política e pública de justiça". anteriormente.Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer cendem o plano do interesse próprio de cada um e propõem uma sociedade em que cultura e civilização serão preservadas e desenvolvidas ad eternum. John. cit. p. Para tanto. p. 17 RAWLS. Mesmo que ainda se note este caráter moral na justiça política rawlsiana. 274. 18 RAWLS.20 Quando atentamos para a "nova" concepção de pessoa em Rawls. Em Liberalismo Político. esta autonomia. a uma circunstância em que a autonomia era um valor moral. 20 Op. vislumbramos diferentes entendimentos sobre as partes na posição originária. na posição originária. de maneira que "esses outros pontos de vista [moralidade pessoal] não devem entrar na discussão política sobre os fundamentos constitucionais e as questões básicas de justiça". em A Theory o f Justice.

a idéia de cooperação numa sociedade e a caracterização de pessoas e posição originária. a capacidade de ter senso de justiça e a capacidade de ter uma concepção do bem. 78. Pelo que se analisa em Liberalismo Político.. a do senso de justiça e a de ter uma concepção do bem. 122. as duas faculdades da personalidade moral. Assim. cjt.. como ele mesmo descreve: "Dada sua capacidade moral de formular. p. sem dúvida. tinham como principal objetivo usar toda sua capacidade e autonomia em prol da justiça. 73. A sua teoria tenta fundamentar um "mecanismo" que torne viável a superação das tensões que desarticulam e de s estabilizam a sociedade democrática. "As pessoas são consideradas livres e iguais em virtude de possuírem.As capacidades dos cidadãos e sua representação. 100 . 22 Op. quais sejam. até aqui. Associamos essas faculdades aos dois elementos principais da idéia de cooperação. p. Creio que podemos partir do entendimento de dois contextos distintos na perspectiva rawlsiana: o momento em que pluralidade e diversidade existem nas sociedades democráticas e o momento em que é possível conciliar esta pluralidade em busca de uma unidade e uma estabilidade políticas. tais pessoas precisam não só exercer sua capacidade em favor de um senso de justiça.Carlos Bolonha em Liberalismo Político. revisar e procurar concretizar racionalmente uma concepção do bem. funda- 21 Op. a idéia de termos eqüitativos de cooperação e a idéia de benefício racional. de cada participante". Este era o objetivo central de suas ações. no grau necessário. ou bem. na posição originária de A Theory of Justice. da escolha dos dois princípios de justiça. compreender esses dois momentos como sendo os patamares do espaço privado e do espaço público da realidade política das sociedades humanas. Resta ainda. sua identidade pública de pessoa livre não é afetada por mudanças em sua concepção específica do bem ao longo do tempo". examinar como Rawls compreende uma sociedade bem ordenada. também podemos compreender que as duas capacidades que Rawls confere às suas pessoas. conseguimos atentar para alguns elementos distintos na filosofia política de Rawls. Esta idéia está ainda mais clara na conferência II . neste trabalho.2'1 Curioso ainda observar como as pessoas rawlsianas. como a sua concepção política de justiça. passa a reverenciar o aspecto político da identidade pública. p.22 Acreditamos que. Podemos. cít. mas também ter uma concepção do bem.

Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer

mentam uma "força catalizadora" para capacitar essas pessoas a viverem com as duas realidades distintas: um acordo público em favor da justiça, sustentado em seu primeiro princípio, e uma identidade privada individual, balizada pelo seu segundo princípio. É a esfera do consenso - público - em conflito com a esfera da individualidade - privado. A sociedade bem ordenada será aquela que melhor conciliar essas duas esferas: "A idéia dos cidadãos como pessoas livres e iguais e a idéia de uma sociedade bem ordenada como uma sociedade efetivamente regulada por uma concepção política e pública de justiça".2^ Compreendemos, assim, porque Rawls preocupa-se em eliminar doutrinas abrangentes na esfera pública: o pluralismo e a instabilidade da esfera privada geram uma enormidade de problemas para o consenso público. Na esfera pública, o importante é obter-se um consenso sobreposto, em que a identidade pública dos indivíduos seja representada por cidadãos "livres" sem que possam se identificar com qualquer sistema particular de objetivos privados (doutrinas abrangentes). Para que ocorra a exclusão dessas doutrinas abrangentes se fazem necessários dois esforços por parte do indivíduo: 1) este precisa renunciar aos seus fins privados; 2} este também precisa abdicar de suas doutrinas abrangentes; tudo isto para que seja possível um consenso público de justiça. Rawls preocupa-se, nesta idéia de sociedade bem ordenada, muito mais com a noção de esfera pública do que com a idéia de posição originária, referencial basilar em sua teoria da justiça como eqüidade, uma vez que seu paradigma, aqui, pretende ser a sociedade democrática - o caráter político. O problema na teoria de Rawls está na uníssona solução de conceber o espaço político de deliberação, a sociedade bem ordenada, como livre de atributos contingenciais, ou seja, as pessoas rawlsianas têm consciência de suas crenças políticas e morais, mas não podem usá-las na esfera política de deliberação. Rawls desloca tal saber para a esfera privada deixando lá a critério de toda a subjetividade humana. Pode-se afirmar com certa tranqüilidade que os cidadãos que adotam o consenso sobreposto na esfera pública se assemelham muito com os indivíduos da posição originária com o véu da ignorância, uma vez que fica nítido que o pluralismo é sempre afastado de alguma forma da esfera de acordo. A estratégia rawlsiana é manter fora da esfera de deliberação qualquer tensão que possa render impraticável o acordo. As pessoas, como dissemos, são outras (cidadãos), mas a sistemática de

23 Op. cjt.,p. 79.
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construção de uma identidade pública sobre idéias intuitivas parece a mesma de sempre: "Uma sociedade assim pode ser bem ordenada por uma concepção política de justiça desde que, primeiro, os cidadãos que professam doutrinas abrangentes razoáveis, mas opostas, façam parte de um consenso sobreposto, isto é, concordem, em termos gerais, com aquela concepção de justiça como uma concepção que determina o conteúdo de seus julgamentos políticos sobre as instituições básicas; e desde que, segundo as doutrinas abrangentes que não são razoáveis (que supomos, sempre existem), não disponham de aceitação suficiente para solapar a justiça essencial da sociedade".24 Ao desenvolver o seu liberalismo político, Rawls procura trazer para seus críticos uma realidade mais epistemológica: ele não apresenta mais sua justiça corno eqüidade sem um paradigma definido. Ele sustenta seu projeto nas idéias já existentes da cultura política de sociedades democráticas. Como ele mesmo explica: "O ponto central é o de que uma concepção de justiça somente poderá alcançar esse objetivo se oferecer uma maneira razoável de dar forma, numa visão coerente, às bases mais profundas de acordo inscritas na cultura política pública de um regime constitucional e aceitáveis para as suas firmes convicções refletidas".25 Assim, pode-se dizer, por fim, que Rawls pretende articular o seu projeto sobre a base de um argumento político que apresente, hermeneuticamente, o que ele considera como a melhor alternativa para um acordo viável na esfera pública, tendo como fundamento as idéias intuitivas, o consenso sobreposto e a justiça.

4. A valorização da cultura de Walzer
A idéia central em Spheres of Justice26 de Michael Walzer está pautada na concepção de como seria possível sustentar uma teoria da justiça que não

24 Op. cit., p. 82. 25 RAWLS, John. "Just/ça como eqüidade: uma concepção política, não metafísica", Lua Nova, Revista de Cultura e Política, n^ 25, 1992, p. 32. 26 Aqui, também, por razões didáticas utilizaremos a versão em espanhol do referido texto, uma vez que ainda não existe uma versão em língua portuguesa: WALZER, Michael. Lãs Esferas de Ia Justicia - Una defensa dei pluralismo y Ia igualdad. México: Fondo de Cultura Econômica, 1993. 102

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estivesse simplesmente baseada em um sistema metodológico abstrato, como a proposta por John Rawls em A Theory of Justice - 1971. Na verdade, como seria possível compreender os bens de acordo com a sua realidade social, uma vez que estes são o fundamento da articulação de princípios de justiça? Isto significa dizer que Walzer preocupa-se em identificar como bens sociais diferenciados aqueles que são distribuídos por razões distintas, de acordo com certos procedimentos específicos, por diferentes agentes e todos esses aspectos resultantes de entendimentos variados sobre os próprios bens sociais, isto é, bens que seriam compreendidos como resultantes de uma história e de uma cultura particulares. Pode-se observar de imediato que o approach teórico de Walzer atenta, primeiramente, para a necessidade de uma investigação mais empírica do valor social na avaliação dos bens distribuídos.27 Ou seja, Walzer mostra que a possibilidade de distribuição de bens nas sociedades não parte de uma solução metodológica de caráter abstrato, mas existe na prática e na dinâmica social: "La idea de Ia justicia distributiva guarda relación tanto com ei ser y ei hacer como con ei tener, con Ia producción tanto como con ei consumo, con Ia identidad y ei status tanto como con ei país, ei capital o Ias posesiones personales".25 A primeira noção apresentada logo no início de Lãs Esferas de Ia Justicia é a de que os bens assim distribuídos por diferentes razões se encontrariam em diferentes esferas distributivas, com situações particularizadas, em que a justiça se encontraria pela autonomia na distribuição desses bens. Isto significa dizer que a distribuição de certo bem, como a educação para os cidadãos de certa comunidade, obedeceria a certos princípios que não seriam influenciados por outros princípios de distribuição de outros bens, como o dinheiro. Para chegar a esta concepção de esferas, Walzer expõe que nunca houve um critério decisivo único a partir do qual se poderia controlar todas as distribuições; nem mesmo o Estado poderia regular tamanha pluralidade na distribuição e troca de bens. Da mesma maneira, informa que seria impossível adotar um critério único capaz de gerenciar tamanha diversidade das formas de distribuição de bens sociais. Na verdade, Walzer nega qualquer sistema teórico que pressuporia homens e mulheres idealmente racionais

27 Michael Walzer pertence ao grupo dos chamados autores "comunitários" que defende, contra o individualismo radical e o formalisrao da tradição moral e política liberal, uma concepção da justiça orientada para a vida e dentro da vida, em que a questão do sentido, dos fins e dos valores estão intrinsecamente relacionados com a prática histórica dos indivíduos e das comunidades. 28 WALZER, Michael. Lãs Esferas de Ia Justicia - Una defensa dei pluralismo y Ia igualdsd. México: Fondo de Cultura Econômica, 1993, p. 17.

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capazes de eleger com imparcialidade - não conhecendo sua real situação no mundo - princípios que regeriam um conjunto de bens abstratos, como a metodologia proposta por Rawls. De fato, atenta Walzer que o problema não reside no interesse dos agentes em procurar um meio de melhor distribuição de bens; a questão está nas particularidades dos contextos históricos e culturais em que se vive: "Quê escogerían personas como nosotros, ubicadas como nosotros Io estamos, compartiendo uma cultura y decididos a seguiria compartiendo? (...) La justicia es una construcción humana, y es dudoso que pueda ser realizada de una sola manera".2^ Entende-se, pois, que Walzer estabelece uma teoria a partir da qual bens podem ser distribuídos conforme esses bens são compreendidos e vistos por determinada cultura e por determinada circunstância histórica. Logo, deduz-se que Walzer, usando de uma metodologia empírica, recusa-se a aceitar teorias políticas e princípios de justiça que pregam a universalidade. A idéia walzeriana em dar maior atenção aos bens sociais do que aos próprios indivíduos na sua escolha mostra sua priorização da própria comunidade sobre os indivíduos. Se, de um lado, Rawls, por exemplo, valoriza a liberdade individual na escolha de princípios, por outro, Walzer precede a escolha de princípios com a categorização do bem social nele mesmo. Assim sendo, Walzer pressupõe uma teoria dos bens para poder "explicar y limitar ei pluralismo de Ias posibilidades distributivas". Os bens considerados pela justiça distributiva são bens sociais; isto significa dizer que os bens, na sua concepção e na sua criação, são processos sociais e possuem, conseqüentemente, significados (valores) diferenciados em sociedades distintas. Os bens não possuem valor natural: só adquirem seus significados ou valores por meio de um processo de interpretação e entendimento; e este processo será sempre de natureza social e não individual. Por esta razão, os bens terão diferentes significados ou valores em diferentes sociedades. As pessoas também assumem, conforme Walzer, identidades concretas a partir da maneira como concebem e criam os bens sociais, isto é, por meio de um processo histórico, os indivíduos compreendem como dar, receber e trocar os bens disponíveis no seu meio. E é por sua significação que os bens circulam e ganham também diferente importância e valor. É, naturalmente, pelo aparecimento de significados distintos que as distribuições devem ser autônomas; em que um conjunto de bens sociais constitui uma esfera distributiva específica onde existem certos critérios e princípios próprios de distribuição.

29 Op. cjt., p- 19.
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Criticando Rawls, em especial, Walzer aponta que a justiça social não se fundamenta a partir de bens primários, mas a partir de bens específicos com diferentes significados nas diversas sociedades. O problema que surge na maioria das sociedades, organizadas de acordo com uma norma fundamental, é o do monopólio de bens, ou seja, "un bien o un conjunto de bienes es dominante y determinante de valor en todas Ias esferas de Ia distribución" .3° Para Walzer, o monopólio de algum bem significa um desequilíbrio nas esferas de justiça, pois este representa um meio de possuir e controlar os bens sociais com o fito de explorar seu predomínio. O monopólio de um bem dominante, como, por exemplo, força física, cargo político, riqueza, conhecimento técnico, origina uma classe dominadora, em que seus membros estariam acima do sistema distributivo. Esta situação de monopólio de um bem dominante, como observa Walzer, pode ter uma conotação ideológica quando desenvolvida para fins públicos, como é o caso da aristocracia, da meritocracia, supremacia divina, etc. Mas existe, certamente, a dinâmica social que estimula o conflito e a polarização dos grupos de interesses pelos bens, o que acarreta a de s estabilização das ideologias: " El bien dominante es más o menos sistematicamente convertido en toda clase de cosas: oportunidades, poderes y reputación. De tal suerte, Ia riqueza es controlada por ei más fuerte, ei honor por los bien nacidos, los cargos por los bien educados. Quizá Ia ideologia que justifique ei control sea reconocida ampliamente como válida. Pero ei resentimiento y Ia resistência son (casi) tan expansivos como Ias creencias. Siempre hay gente, y después de un tiempo hay mucha gente, que piensa que ei control no es justicia sino usurpación (...) ei proceso de conversión viola Ia noción comum de los bienes De acordo com o entendimento de Walzer sobre o significado dos bens produzidos e repartidos na sociedade, sua distribuição deve ser autônoma, como já mencionamos acima. Como bem observa o autor, cada bem social ou cada conjunto de bens constitui uma esfera de distribuição na qual somente certos critérios são apropriados. Dinheiro, por exemplo, não é apropriado na esfera eclesiástica. Deve existir aqui o respeito da particularidade cultural desta esfera religiosa e por isso é exigido da sociedade a devida atenção para compreender o que é um bem para aquela esfera e, conseqüentemente, vindo a acarretar resultados na distribuição.

30

Op. cjt., p. 24.

31 Op. cj't.,p. 26.
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O que se deve observar na teoria de Walzer é que esta não condena a sociedade capitalista como injusta por distribuir equivocadamente o bemdinheiro, mas é como esse bem-dinheíro é dominante e torna-se "tirânico" sobre todos os outros bens da sociedade. E neste sentido o erro das sociedades está em buscar a "igualdade simples" ao invés de encontrar a "igualdade complexa". A idéia de igualdade simples e complexa parte da diferenciação entre bem monopolizado e bem dominante. O primeiro {buscando-se obter justiça) deveria ser melhor distribuído ou dividido; e o segundo deveria ser melhor autonomamente distribuído, o que para Walzer é mais significativo a partir da idéia de autonomia das esferas de distribuição de acordo com os significados específicos daquele bem. Igualdade simples, portanto, pode ser entendida do ponto de vista de que um bem. dominante - dinheiro - é distribuído igualmente por todos os indivíduos. Walzer aponta para a instabilidade desse processo de "regime de simples igualdade", uma vez que pelo regime da liberdade de troca, em pouco tempo, haveria novamente desigualdades. A única forma de manter tal equilíbrio seria por meio normativo estatal no uso de interferências permanentes nos grupos econômicos; "Esta regulación tendrá que ser necesariamente obra dei Estado, como Io son Ias leyes monetárias y agrárias".32 Deve-se, pois, considerar a igualdade complexa: "Imaginemos ahora una sociedad en Ia que diversos bienes sociales sean poseídos de manera monopolista (...), pero en Ia que ningún bien particular es generalmente convertible (...). Se trata de una sociedad complejamente igualitária. Si bien habrá infinidad de pequenas desigualdades, Ia desiguladad no será multiplicada por médio dei proceso de conversión ni se lê anadirán bienes distintos, pues Ia autonomia de Ia distribución tenderá a producir una variedad de monopólios locales, sustentados por grupos diferentes de hombres y mujeres".33 Sob esta perspectiva, o que Walzer nos chama atenção é que a desigualdade não significa um problema insuperável. O monopólio não representa ameaça para as esferas. A "tirania", como chama Walzer, será o elemento desarticulador das possíveis igualdades quando não respeita os princípios próprios de cada distribuição nas esferas particulares de justiça. A igualdade, para o autor, pode ser atingida quando preservada a relação complexa de pessoas regulada por bens que construímos, compartilhamos e trocamos entre nós, e quando existe respeito para com a diversidade de critérios dis-

32 Qp. ci£., p. 28. 33 Op. cit., p. 30.
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tributivos que refletem a diversidade dos bens sociais. Walzer sintetiza sua teoria, como segue: "El régimen de Ia igualdad compleja es Io opuesto a Ia tirania. Estabelece tal conjunto de relaciones que Ia dominación es imposible. Em términos formates, Ia igualdad compleja significa que ningún ciudadano ubicado em una esfera o en relación com un bien social determinado puede ser coartadopor ubicarse en outra esfera, con respecto a un bien distinto",34 É preciso sempre atentar, como nos mostra Walzer, para o fato de que a justiça pode ser alcançada quando se respeita os significados de cada bem, sem que haja troca entre esferas sem consideração das suas particularidades: "Ningún bien social x há de ser distribuído entre hombres y mujeres que posean algún outro bien y simplesmente porque poseen y sin tomar em cuenta ei significado de x".35 Aí está o princípio que estabelece a necessidade de se compreender diferentes bens em diferentes sociedades. Justiça significa, em Walzer, que cada bem seja distribuído de acordo com seus princípios específicos da esfera em que esteja incluído e que será descoberto conforme a interpretação do seu significado ou valor social. Uma sociedade será tirânica - não disporá de justiça - quando um bem dominar os outros e violar o modo interpretativo dos bens daquela esfera. Por este motivo, Walzer não aceita a idéia rawlsiana de uma lista de bens básicos que poderia ser adotada por todas as sociedades indistintamente, sem considerar a especificidade de sua cultura. Como exemplo desta análise pertinente de esferas, Walzer questiona-se sobre a possibilidade de existir uma sociedade em que o predomínio e o monopólio de um bem não sejam violação, mas a observação dos significados e valores daquela sociedade, quando os bens sociais são compreendidos como elementos hierárquicos. Walzer nos apresenta o sistema de casta da índia, quando o sistema possui uma integração de significados a despeito do aparente "mundo de fronteiras". Na verdade, o sistema está baseado em uma doutrina religiosa que promete bens na vida reencarnada. Aqui, segundo Walzer, é todo um sistema integrado numa única esfera de valor religioso, onde não necessariamente ocorre tirania. Desde que os valores sociais desta sociedade sejam suportados e genuinamente compartilhados, a justiça existe quando se é verdadeiro com esses valores. A tirania, ao contrário, somente ocorre quando há uma transgressão de uma fronteira particular das esferas, a violação de algum significado social particular;

34 Op. cit., pp. 32-33. 35 Op. c/t., p. 33.

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"La igualdad compleja exige Ia defensa de Ias fronteiras; funciona mediante Ia diferenciación de bienes, tal como Ia jerarquia funciona mediante Ia diferenciación de personas. Fero solo podemos hablar de um régimen de igualdad compleja cuando hay muchas fronteras por defenderse".^ Bens sociais e esferas de distribuição representam os elementos específicos da teoria walzeriana. A justiça, assim, respeita os significados sociais. O justo não determina a vida das sociedades e tampouco as transforma, pois há uma enormidade de vidas possíveis resultantes de um número incontável de culturas, crenças, ideologias, formas políticas que possibilitam a pluralidade do mundo. A sociedade será justa quando os seus membros compartilharem as mesmas noções e valores sobre a vida em comum. Quando há conflitos sobre os bens sociais, cabe à sociedade ser fiel a seus mecanismos institucionais para regular as distribuições necessárias a fim de buscar a justiça e o bem-estar: "En una sociedad donde los significados sociales sean integrados y jerárquicos, Ia justicia vendrá en auxilio de Ia desigualdad".37 Mas, tal concepção não traz à tona uma certa relatividade do significado dos bens sociais? Isto é, não haveria fundamento para criticar os significados sociais de outras culturas? Qual é, afinal, esta posição de Walzer em aceitar qualquer circunstância de distribuição de bens desde que se respeite a cultura da sociedade? Parece-nos bastante relativista esta idéia simplificada de que justiça resulta do entendimento social: "Una sociedad determinada es justa si su vida esencial es vivida de cierta manera".38 Walzer insiste na idéia de que avaliar os critérios de justiça de certa sociedade deve partir de uma visão local, interna aos seus valores sociais, sem qualquer apelo a princípios universais ou externos àquela dada sociedade. O importante é que qualquer avaliação ou crítica a certa sociedade deve levar em consideração a inequívoca interpretação daquela cultura a partir dela mesma. O relativismo de sua teoria, contudo, permanece. Ao se referir, por fim, às sociedades capitalistas, Walzer atenta para o fato de que nestas a justiça teria mais amplitude porque haveria mais bens distintos, mais princípios distributivos, mais agentes, mais procedimentos do que outras sociedades. E, neste caso, a igualdade complexa seria a única forma que a justiça poderia assumir, evitando a forte tendência à tirania nessas mesmas sociedades. Mas para isto Walzer chama atenção do papel fundamental dos cidadãos na preservação de seus direitos:

36 Op. c/t., p. 40. 37 Op. Cít.,p. 322. 38 Op. c/t-, p. 322.

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Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer

"Mucho depende de los ciudadanos, de su capacidad para defender sus derechos a Io largo de Ia gama de los bienes y para defender su propia noción de significado".^

5. As esferas sem método e sem moral de Walzer
O Professor Charles Larmore uma vez questionou why reasonable people should tend naturally to disagree about the meaning oflife and about certain features of morality? Acreditamos que a pergunta suscitada por Larmore possa ser discutida, em parte, a partir do binômio pluralísmo-valor ínsito em qualquer "esfera histórico-cultural" de vertente democrática no contexto político das sociedades contemporâneas. Detectar o porquê deste desacordo significa encaminhar uma reflexão sobre os deveres, os ideais, os entendimentos do bem, as razões morais que cada indivíduo ou grupo social possuem; e significa também buscar um "antídoto" para tais disparidades de forma a coordenar um possível consenso razoável entre os participantes de uma sociedade pluralista. As investigações e propostas teóricas desenvolvidas nos últimos anos possuem, de uma maneira geral, um formato procedimental (Rawls e Habermas), ou seja, propõem regras e princípios ideais, prédefinidos, que permitam estabelecer condições adequadas para o entendimento e o consenso. Michael Walzer, em seu livro, On Toleration,^ procura se resguardar desta linha teórico-argumentativa, em que princípios norteadores sustentam as negociações entre indivíduos e grupos, nos âmbitos político, social e econômico, para adotar uma visão empírico-intuitiva, porque não dizer humeana, sobre a possibilidade de a coexistência pacífica de grupos de pessoas, com histórias, culturas e identidades diferentes, ser conduzida por aquilo que a tolerância constrói. Longe de uma visão kantiana, Walzer parte de um pressuposto intuitivo de que uma "coexistência pacífica [...] é sempre uma coisa boa. [...] O sinal de que é boa é o fato cie as pessoas sentirem-se tão fortemente inclinadas a dizer que lhe dão valor"Ai isto é, o entendimento de Walzer parte da expressão de um sentimento humano42 - tolerância - ante um elemento concreto - coexis-

39 Op. cit.,p. 327. 40 Usaremos a edição brasileira, por motivos já explicados: WALZER, Michael. Da Tolerância. São Paulo: Editora Martins Fbntes, 1999. 41 WALZER, Michael. Da Tolerância. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1999, p. 4. 42 Mesmo que Walzer descreva e fale de "regimes de tolerância", num patamar político, precisamos aqui que o fenômeno da tolerância repousa na idéia individual de liberdade: em qualquer sociedade, tolerar é manifestação de liberdade e exige uma compreensão de si mesmo enquanto ser autônomo que busca uma identidade a partir do diálogo com os outros. Tolerar é uma antítese à autonomia sob a perspectiva kantiana.

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Carlos Bolonha

tência pacífica - como sendo o fundamento de um juízo moral sobre a possibilidade de um consenso entre as pessoas num mundo plural. Ora, o seu afastamento de um racionalismo prático se mostra claro quando ele nos explica que essa tolerância parte de uma inclinação ou desejo humano de autopreservação - sentimento abstrato. Não existe nesta reflexão qualquer referência a uma tolerância sustentada por um ato de "dever" individual ou de grupo com a suposição de uma absoluta convicção do ato de ser tolerante.43 Assim, pois, compreende-se que existe um relativismo incontornável na sustentação da tolerância como dispositivo de conciliar "as esferas" de um mundo plural: a tolerância pode ou não existir. E como fica, então? Falar-se-á apenas dos sucessos da tolerância entre os indivíduos em sociedade? E como responder a outros casos concretos como a recente guerra do Iraque: a tolerância buscou a coexistência pacífica? A resposta para situações extremadas como guerras não parte do valor das vontades solidárias dos indivíduos, mas surge da prévia condição de se poder contar com dispositivos procedimentais, razoáveis e democráticos, que racionalizem o dever e o convencimento de que a paz está acima de qualquer outro valor. Em Da Tolerância, Walzer compreende a tolerância como um dispositivo universalizante que possa responder à possibilidade de integração pacífica entre as esferas sociais caracterizadas pelos seus respectivos significados históricos e culturais. Para tanto, o autor pretende descrever diferentes regimes de tolerância, a partir de uma perspectiva histórica e contextualizada, e verificar qual forma assumiram, sem pretender chegar a um exame crítico classificatório com um devido valor moral para cada sistema analisado. O importante, em sua proposta, é buscar possibilidades de "comparações entre vários tipos de arranjos [que] são moral e politicamente úteis"44 para servirem de parâmetros ou alternativas na resolução de conflitos e desacordos em circunstâncias particulares em outras esferas sociais. Admite, portanto, que a "experiência" - arranjos políticos - de um regime de tolerância, com a descrição de seu processo de erros e acertos, conflitos e acordos, vantagens e desvantagens, ao longo de sua evolução histórica, pode ser útil para as a "experiência" de outra sociedade, cuidando-se das devidas modificações e adaptações para a nova realidade. A idéia walzeriana repousa na possibilidade de transposição, de uma sociedade para outra, de experiências, valores, normas, características de um regime de tolerância bem-sucedido. Não se trata aqui, como Walzer bem assevera, de defender um princípio universal

43 Kant já nos mostrava em seu Metafísica dos Costumes, com muita propriedade, que sentimentos solidários, como tolerância, por exemplo, com os outros não sustentam nem mesmo valor moral em nossos atos. É preciso, no entanto, agir de acordo com o nosso dever, um imperativo, e que exista sempre um convencimento sobre o imperativo desperto pela razão de cada indivíduo. 44 Op. cie., p. 7.
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Pluralismo. Lãs Esferas de Ia Justicia . casos em que "a tolerância da diferença é substituída por uma pressão no sentido da unidade 45 Qp. 128. como assinalamos. ou seja. porque não existe um ponto de vista imparcial do qual se possa partir. 111 .importados de uma esfera para outra . 32. Direito e Justiça Distributiva. p. 2000.'17 Como. p. Elementos da Filosofia Constitucional Contemporânea. Michael. então. 48 Qp. Intuitivo. critério a partir do qual se possa avaliar a 'verdade' destes significados sociais. Buscamos princípios internos para cada esfera distributiva". Gisele. os significados sociais são particulares a cada esfera e obedecem a princípios internos a cada uma delas: "Los bienes sociales tienen significados sociales.^ O importante. Acontece que o problema não está nem mesmo na possibilidade de "importação" das experiências válidas de uma esfera para outra. conteudístico e finalístico. 9.p.Una defensa dei pluralismo y Ia igualdad.devem obedecer necessariamente ao princípio moral da coexistência pacífica entre os indivíduos. 46 WALZER. dos significados sociais que integram moralidades densas". ou seja.^8 Assim sendo. cit. cj't. Walzer nos convoca a compartilhar da idéia de que a justiça primeira seria a possibilidade de conciliar o pluralismo sociocultural dentro de uma perspectiva de "paz perpétua" entre os indivíduos. de como tal "procedimento" se daria com critérios intuitivos e relativos para a adequação justa na nova realidade. nesta perspectiva teórica. portanto. Quando Walzer atenta para regimes de intolerância. 1993. seria preciso um critério mais do que "intuitivo" para adequar a importação de "arranjos políticos" de uma sociedade para outra. é escolher dentro de limites. Qualquer moralidade mínima decorre. Rio de Janeiro: Editora Lumen Júris. A questão central reside na dificuldade de interpretação dos bens comuns e dos significados46 de uma sociedade a partir de critérios "razoáveis e verdadeiros". escolher opções outras que sirvam adequadamente à realidade histórica daquela sociedade que importa essas idéias ou valores. y nosotros encontramos acceso a Ia justicia distributiva a través de Ia interpretación de esos significados. México: Fondo de Cultura Econômica. como bem esclarece Cittadino: "Não há.Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer para as escolhas que devem ser adotadas: "O melhor arranjo político é relativo à história e cultura do povo cujas vidas ele irá arranjar"... Walzer se prende necessariamente à idéia de que a adoção de parâmetros outros . 47 CITTADINO. avaliar o bem social da "coexistência pacífica" de cada esfera? Como o próprio Walzer afirma.

p. cit. 112 . Será. imigrantes. Da Tolerância. por exemplo. de transposição de uma realidade para outra. Robert C. os grupos ganham uma identidade política própria e lutam por uma "fronteira" de direitos. Esses. p. com o passar dos tempos. Os significados e seus desdobramentos são bem mais importantes para serem objetos de avaliação e. entram como indivíduos". a nossa citação inicial com a pergunta de Larmore: por que exite uma tendência natural de pessoas razoáveis em buscar desacordos sobre a vida e princípios morais? Ora. Constitutional Domains. Mas. Walzer não parece de todo preocuparse com esta questão quando reduz todos os "significados" das esferas a uma simples necessidade de coexistência entre os grupos e os indivíduos. "criam fortes movimentos e partidos. 50 Op. Michael. São Paulo: Editora Martins Fontes. Não é tão simples assim. Como projetos da política democrática moderna.49 existe uma nítida preocupação do autor em querer encontrar a "razão verdadeira" para a tolerância ante o pluralismo nas sociedades modernas e pós-moderna. 109. 1999. negros. Community. Retomemos. Aponta.51 que apresenta a sociedade contemporânea como sendo a confluência de três formas 49 WALZER. 2000. pois. mulheres. Democracy.Carlos Bolonha e singularidade". como a partir da Revolução Francesa os cidadãos republicanos passaram a tolerar as minorias independentemente de sua religião ou etnia como concidadãos. Aponta ainda a coexistência de indivíduos auto determinados e grupos comprometidos com afiliações religiosas.. é o bastante para categorizarmos como um regime de tolerância e por isso mesmo pode ser fonte de aproveitamento institucional para outras realidades. Se existe coexistência pacífica. 51 POST. políticas ou mesmo étnicas: o pluralismo é extenso e isto é o que caracteriza a modernidade. pois. Cambridge: Harvard University Press. organizações para defender-se e avançar em conjunto. aponta para a assimilação individual ou reconhecimento do grupo como sinais de formas de tolerância. configurando-se assim a "inclusividade democrática" como o primeiro projeto político da modernidade: judeus. esta tensãodinâmica entre grupos e indivíduos que determinará os "significados" das esferas walzerianas que poderão ser transportados de um arranjo para outro de forma que sirva de referencial para a busca da "coexistência pacífica" entre cidadãos de uma sociedade.50 Aqui. quando entram na cidade. Management. Adotemos a teoria de Robert Post. seja sob a perspectiva institucional para que possam delimitar seus "espaços político-jurídicos" dentro de determinada sociedade com definição de seus respectivos "poderes". trabalhadores. conseqüentemente. A coexistência pacífica numa sociedade parece ser mais do que a relação "funcional" entre grupos e indivíduos. 112. seja do ponto de vista geográfico. Para tanto. faz um pequeno resumo histórico da evolução das conquistas sociais de grupos minoritários.

talvez. atrevemo-nos a dizer que a tolerância. para resolver tensões de ordem políticoinstitucional. de fato..$2 E isto. uma propositura formalista e procedimental. ideais. cj't. Por um lado. there is the possibility that citizens will come to identify with the state as representative of their own collective self-determination". 6. Esses mecanismos. São esses mecanismos procedimentais que vinculam e conciliam. tudo aquilo que o pluralismo cultural capacita no indivíduo razoável como uma tendência natural para o desacordo. entendimentos do bem. A "coexistência pacífica" a partir da tolerância não pode ter mais uma conotação romântica de intersubjetividade: ela representa uma noção de bases procedimentais (forma que Walzer repudia) que criam condições de relacionamento entre os diversos grupos numa sociedade plural. Por fim. 113 . p. and ifgovernment decision-making is subordina teci to the public opinion produced by public discourse. deveres. administração e democracia. Rawls aplica um critério analítico-contratual em que é enfocado. E para tanto são necessárias regras "quase" que universais para responder à "razão pública" como a melhor forma de auto-regulação político-social. significa também a possibilidade de configurar mecanismos institucionais que possam assegurar o pluralismo social. Post é bastante elucidativo: "If public discourse is kept free for the autonomous panicipation of individual citizens. razões morais. Essas formas representariam três níveis de auto-regulação da lógica e da integridade de uma determinada sociedade e disporiam de mecanismos procedimentais.Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer distintas de ordem social: comunidade. não sendo somente um sentimento individual de ordem intuitiva como às vezes sugere Walzer e por isso um equívoco em sua metodologia de análise já aqui apontada. politicamente ou não. são tão fundamentais para a conciliação entre a autonomia individual e a autonomia da coletividade que a idéia abstrata e relativa da "coexistência pacífica" apontada por Walzer permanece em segundo plano. tanto Rawls quanto Walzer procuram estabelecer metodologias distintas para o trato da questão da Justiça. A sua teoria nos remete aos parâmetros r acionais-práticos na exigência de expectativas razoáveis de conduta humana: é sempre esperado o dever ser do agente rawl52 Op. hoje. em particular. como normas constitucionais. Neste particular. 7. Conclusão Como pudemos brevemente analisar. a realidade da tolerância dos nossos dias. represente.

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Charles.) Universalism vs. UK: Cambridge . François (dir. . New York: New York University Press. 1993. Paris: Presses Universitiares de France. In: Philosophy and Public Affairs. Da Tolerância. 1990.) Liberalism and its Critics.) Liberty. Equality and Partiality. UK: Cambridge University Press.) Liberal & Communitarians. São Paulo: Martins Fontes. Liberal Modernism and Democratic Individuality . . (ed. . NAGEL. 1979. La Liberte dês Modernes. 2002. Communitarianism Contemporary Debates in Ethics. SANDEL. _. Thomas. PATEMAN. Cambridge. Adam (eds. na 25. não metafísica. Paris: Presses Universitaires de France. New Haven: Yale University Press. Paris: Editions Jacob. 1997. Dana. MULHALL. Cambridge. CA: University of Califórnia Press. 1999. vol. . Berkeley. Robert. Salt Lake City: University ofUtah Press.A Critique of Liberal Theory. New York: Oxford University Press. David. University Press. New York: Columbia University Press.Lectures Philosophiques l Éthique et Philosophie Politique. 1987. 1971. Lãs Esferas de Ia Justicia . 1993. 1992. 1997. Justice as fairness: political not metaphysical. John. Michael. 0'NEILL.) Civil Society and Government.Duas Propostas de Justiça: Rawls e Walzer LARMORE. MA: The Belknap Press of Harvard University Press. Cambridge. The Morais of Modernity. Justiça como eqüidade: uma concepção política. Jean-Christophe. 1997. Cambridge. 3. Towards Justice and Virtue . Equality and Law. Stephen e SWIFT. Michael (ed. 2000. Carole. In: Lua Nova. Liberalism and the Limits of Justice. México: Fondo de Cultura Econômica. ROSENBLUM. 14. 115 . Princeton: Princeton University Press. 1996.) LAge de Ia Science . 1991. 1985. O Liberalismo Político. 1996 TAYLOR. . WALZER. Political Liberalism.George Kateb and Practices of Politics. 1996 McMURRIN. 1988. 1982. RECANATI. Princeton: Princeton University Press. São Paulo: Editora Ática. RASMUSSEN. RAWLS. 1992. Austin & VILLA. MERLE. MA: MIT Press. Oxford. . Charles. A Theory of Justice.A Construtive Account of Practical Reasoning. Sterling (ed. The Problem ofPolitical Obligation . SARAT. Nancy & POST. Uk: Blackwell Publishers. UK: Cambridge University Press.Una defensa dei pluralismo y Ia igualdad. Onora. 1984. Justice et Progrès. (eds. On Toleration. Cambridge.

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geral João Ferreira e Luís Guerreiro Pinto Caçais. a discussão em torno de classe passa a ser bombardeada pela discussão acerca dos grupos sociais. trad. desenhando os necessários limites ao seu pretensioso título. Um dos marcos centrais da Modernidade é a identidade em torno da classe social e da nacionalidade. BOBEIO. Não se pretende aqui percorrer tempos memoráveis ou imemoráveis para desenvolver concepções de justiça ou realçar contribuição de autores clássicos. os últimos capítulos do processo de globalização nos conduzem à dúvida acerca da permanência da identidade construída em torno da idéia aglutinadora de nação. é preciso desde já delinear o objeto deste trabalho. João Ferreira. O que se vislumbra é apresentar o debate acerca de uma teoria da justiça engajada. Seja equiparada à legalidade. Teria a proliferação de grupos identitários como étnico. Dicionário de política. Norberto. Brasília: Editora Universidade de Brasília. p. igualitarismo ou retribuição. 117 . Advogada da União (AGU). Nas últimas décadas. Ao mesmo tempo. Pode-se mesmo afirmar que a História do Direito consiste precisamente na tentativa de se definir o conceito de justiça. Nicola & PASQUINO. impulsionada na década de 90 e que tem como cerne a questão do reconhecimento/redistribuição. Trad. Mestre em Direito pela PUC-Rio. Professora de Direitos Humanos e História do Direito da PUC-Páo. imparcialidade. Pós-Graduação e Pesquisa. Com a queda do Muro de Berlim. rev.2 o conceito de justiça veste inúmeras feições normativas. 1997. Gianftanco. Neste sentido. coord. Varriale et ai. A politização das classes é substituída pela Carolina de Campos Melo é coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direito da PUC-Rio. 9a ed.Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Teoria da Justiça Carolina de Campos Melo1 A justiça é um dos temas centrais da Filosofia do Direito. em termos teóricos. MATTEUCI. Membro da Associação Nacional de Direitos Humanos. sobrevive o questionamento: teria a identidade de classe desaparecido em face de outras reivindicações identitárias? Por outro lado. 661. o socialismo real assina seu atestado de falência perante o cenário mundial. religioso ou de gênero substituído a identidade nacional? O século XXI tem início com um imaginário político que traz os grupos sociais para o centro da arena. Carmen C.

1.Carolina de Campos Melo da cultura. Trata-se precisamente de uma compreensão de justiça como reconhecimento. Em primeiro lugar. como arma isolada pode ser considerado um artefato teórico incapaz de adequar-se aos problemas em um mundo real. gênero. torna-se necessária a apresentação do instigante diálogo entre duas das mais importantes teóricas norte-americanas da atualidade: Nancy Fraser e íris Marion Young acerca de outras formas de justiça que devem estar conectadas com as políticas de reconhecimento. Mister a confecção de uma gramática política que consiga dialogar concomitantemente com os dilemas de classe e de cultura. Para tal. analisaremos a contribuição de Charles Taylor para a discussão acerca do reconhecimento. Assim. Neste contexto. este artigo será dividido em três partes. serão contemplados os aportes de duas autoras que vieram a acrescentar ao reconhecimento a necessidade de conjugação com a redistribuição. Em reação. texto que desencadeou uma série de debates acerca da existência de outras forma de violência e injustiça que não passam necessariamente pela exploração de classe. Com o intuito analítico de apresentar algumas reflexões acerca do debate ré distribuição/reconhecimento. a luta por reconhecimento ocorre em um mundo permeado por relações materiais. Deve-se adiantar desde já que. Neste sentido. é inafastável a contribuição de Charles Taylor. raça. Esta pode ser ainda detectada em sociedades nas quais grupos nacionalistas reivindicam maior autonomia ou mesmo secessão em face dos seus Estados como os 118 . Todavia. religião ou nacionalidade. Tal afirmativa torna-se ainda mais contundente em um mundo globalizado. incluído o Brasil . Estados Unidos e América Latina. ambas apelam para modelos analíticos completamente distintos. canadense de matriz hegeliana. apesar de terem em comum a crença de que as políticas de reconhecimento não são um fim em si mesmas. No "Novo Mundo" Canadá.o convívio com a diferença marcou o contato entre colonizadores e colonizados. autor de Multiculturalismo e Políticas de Reconhecimento. pensar a justiça como reconhecimento. a justiça deve estar em constante diálogo com a redistribuição. É preciso rever o conceito de justiça tendo como ponto central o reconhecimento das identidades. A fragmentação inerente ao multiculturalismo pode ser percebida de diversas maneiras. a justiça como reconhecimento deve deparar-se com diversos eixos de subordinação coexistentes como classe. As políticas de reconhecimento de Charles Taylor A pluralidade de identidades constitui questão dominante na maior parte das sociedades contemporâneas. no qual fluxos migratórios e a intensificação de comunicações contribuem para a intensificação de grupos culturais.

Ainda. este seja um elemento importante para detectá-lo. agregado é a classificação que tem por base um atributo determinado.3 Todavia. limitada ao espaço territorial de uma nação". Coordenação de Carme Castells. entre tantas outras para fazer parte identificações inclusivas. concretizado ao longo das últimas décadas. Não pode ser confundido o grupo social com dois outros conceito: o de agregado e o de associação. México. Primeiramente. "Cidadania Global e Estado Nacional" in Dados . "(O) que realmente define o grupo como tale a identificação de certas pessoas com um status social. Buenos Aires.4 A mais inclusiva das identificações homogeneizantes foi a cidadania. pois é no quadro da comunidade nacional que os direitos cívicos podem ser exercidos. Se. e ainda não são. por muitas vezes. Foi necessário despir-se das referências de gênero. Joshua e ROGERS. Associations and Democracy. suficientes para anular a pluralidade de grupos sociais. marca de carro ou cor da pele são considerados atributos. em que muitos papéis sociais eram prescritos pelo nascimento. p. outra forma de pluralidade pode ser diagnosticada em sociedades nas quais fluxos migratórios alteram por completo o quadro demográfico-cultural. o traço contrastivo da formação da identidade nacional afastou a possibilidade de outras formas de identificação. ("Social groups in Associative Democracy" ín COHEN. É baseada em um contrato individual que não se encontra relacionado com o sentido de identidade. 210. mas também de genocídio e "limpeza étnica". exploração ou dominação". Liszt. "a nação precede a cidadania. Como esclarece Liszt Vieira. Cor dos olhos. I. p. Austrália e Europa Ocidental. Tbdavia. 109). London: Verso. sua identidade deve ser concebida de forma relacionai. Em III] "Vida política y diferencia de grupo: una crítca dei ideal de ciudadanía universaT in Perspectivas feministas en teoria política. p. Rio de Janeiro: IUPERJ. Em diversas partes do inundo. op. orientação sexual. íris Young define grupo social como "coletivo de pessoas diferenciado de pelo menos um outro grupo por formas culturais. 1995 [I]. a homogeneidade necessária à formação do Estado nacional e das classes passa a ser atacada violentamente por um movimento teórico oposto. afinidade através da qual tais pessoas identificam-se mutuamente e através da qual outras pessoas as identificam" (p. a nacionalidade transformou súditos em cidadãos. Roga-se ao ethos a titularidade do demos. Joel. por mais que. práticas e 'way of life" que "interagem com relações de exclusão. a história comum que este status social produz e a auto-identificação". por um lado. A cidadania fica. a autora afirma que um grupo social implica "a afinidade com outras pessoas. as associações são constituídas por pessoas que se juntam voluntariamente: clubes. católicos irlandeses ou kosovares. religião. o grupo social não tem uma essência ou uma natureza. 119 . cit [II]. (YOUNG. Afinal. Em ruptura com o Antigo Regime. 1996. Desta forma. os kurdos. Vol. VIEIRA. Barcelona. a nacionalidade foi responsável pela construção da cidadania nacional. 42. partidos. 400.Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Teoria da Justiça chechenos. A formação das identidades características da Modernidade como a nacional e de classe exigiu a abdicação de outras formas de identificação. bascos. um atributo não determina um grupo social. 1999. assim.Revista de Ciências Sociais. 109) Por sua vez. raça. grupos sociais não são alvo apenas de discriminação. notadamente Estados Unidos. igrejas. Exalta-se a heterogeneidade já que mesmo vigorosas forças de unificação como o Estado-nação/classe não foram. as definições de grupo não podem proceder do exterior como forma de etiqueta ou exteriorização. Canadá.

2000. Para uma apresentação da teoria de Honneth. "Precisamente porque os sujeitos primários dos valores são as comunidades históricas específicas -e a correção destes valores é resultado exclusivo de sua efetiva aceitação . O falso reconhecimento ou a falta de reconhecimento podem causar dano. "A tese é que nossa identidade se molda em parte pelo reconhecimento ou pela falta deste: freqüentemente. Cf. Pluralismo.6 Debruça-se sobre o multiculturalismo pelo viés do reconhecimento. 85-86. também. p. uma autêntica deformação se as pessoas ou a sociedade que o rodeiam lhe mostram. e por vezes imperceptível. ou degradante ou depreciativo de si mesmo. p. deformado e reduzido". Brasília: Universidade de Brasília. pelo falso reconhecimento de outros. 44. Asei Honneth também aceita o desafio de contemporizar o reconhecimento em face de uma teoria sociológica sistemática. Procura ainda nos estudos de Donald Winnicott paralelos entre a relação mãe/filho e a construção da autonomia na vida social adulta. 1993. resgatando tal categoria teórica do legado hegeliano. afirma que grupos sociais historicamente desprivilegiados precisam se libertar de uma identidade imposta e destrutiva. considerada a autodepreciação um instrumento poderoso de opressão. 86.5 Em oposição à compreensão liberal de que os indivíduos são átomos que compõem o tecido social. assim. 1999. um indivíduo ou um grupo de pessoas podem sofrer um verdadeiro dano. Rio de Janeiro: Lumen Júris. pp. El Multiculturalismo y Ia 'Política Del Reconocimiento'. pp. podem ser uma forma de opressão que aprisione alguém em um modo de ser falso.Carolina de Campos Meío É precisamente no resgate identitário que se localiza a contribuição de Charles Tàylor. TAYLOR. Honneth recorre à psicologia social de G. Jessé. ultrapassa as barreiras da cortesia ou da deferência. ver SOUZA. México: Fondo de Cultura Econômica. o reconhecimento. como reflexo. Tradução de Mônica Utrüla de Neria. Assim. Mead.7 Tal dano. e. enquanto elemento essencial à constituição da identidade.H. Gisele CITTADINO.8 Taylor não se encontra sozinho no aprimoramento do legado hegeliano acerca do reconhecimento. internalização da inferioridade é transferido de geração para geração. 45. uma vez que este tem sua identidade culturalmente produzida pelos valores e tradições vigentes. /ciem. ao identificar a intrínseca relação entre reconhecimento e identidade. trata-se de uma questão de necessidade humana vital.os indivíduos estão integralmente vinculados às culturas que eles criam e compartilham". A Modernização Seletiva. p. um quadro limitativo. o autor assume o compromisso com o particularismo. Uma reinterpretação de dilema brasileiro. representado pela constante. 120 . Na busca de uma estratégia intersubjetiva e aberta às ciências empíricas. Em seu ensaio Multiculturalismo e Política do Reconhecimento. 113-121. Elementos da Filosofia Constitucional Contemporânea. Direito e Justiça Distributiva. priorizando assim a comunidade em face do indivíduo. Charles.

cit. Tradução de Mònica Utrilla de Neria. na qual a honra constituía divisor das posições ocupadas em sociedade. a dignidade igualitária apregoa um reconhecimento universal entre iguais. op. entre todos os indivíduos: uma "identidade universal geral". Todavia. c/t.e desaparecerem de nossas vidas. "Mesmo depois de deixar para trás alguns destes outros . de importância restrita a um tempo determinado da vida. Primeiramente.a nenhum reconhecimento público. p. Ainda no fim do século XVIII. ser ridicularizado pelos meios de comunicação . 1999. " (n)ao somente a afiliação e o sentimento de pertença deixam de representar um entrave à realização do indivíduo.. 1993. nossos pais . SP: EDUSC. mas transformam-se em condições possibilitadoras" . Apropria-se deste eterno conflito entre dignidade universal e reconhecimento da particularidade para enfrentar os anseios relativos à construção de uma concepção plural de sociedade.por exemplo. a conversação com eles continuará em nosso interior enquanto vivemos". O indivíduo somente pode autocompreender-se ou autodefinir-se em contatos traçados constantemente com a alteridade em seu grupo social. e às vezes em luta com elas". constata-se uma sociedade hierarquicamente intransponível. a exigência de reconhecimento era desnecessária para os poucos e inútil para os muitos". A troca com o outro deve ser considerada da mesma forma como uma constante independente da fase da vida. 121 9 . Ho contexto desta segunda fase. op. México: Pondo de Cultura Econômica. Multiculturalismo. 11 TAYLOR.afeta intensamente a auto-estima e acaba por ser interiorizada no âmago da identidade. Enfatiza-se o caráter fundamentalmente dialógico da subjetividade humana.9-10 A justiça como reconhecimento significa para o autor um pressuposto para formação da identidade. 10 A compreensão do atual conceito de reconhecimento pressupõe a verificação de suas três fases. Há de se ressaltar que a identidade não é um dado. Bauru. p. a identidade é vislumbrada como valor dividido. em pés de igualdade.Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Teoria da Justiça A depreciação sistemática . In El Multiculturalismo y Ia "Política dei Reconocimento". Consagra Taylor a importância de pensadores como Jean-Jacques Rousseau e Johann Gottlob Herder para a construção de um terceiro momento: o do reconhecimento igualitário. Taylor acredita que a Modernidade tenha sido constituída pela convivência não pacífica entre estas duas últimas fases. "A maioria não podia aspirar . 53.11 SEMPRINI. Em vez da 'honra pré-moderna' (SOUZA.se fosse realista . Isto fornece ao indivíduo um sistema de valores e de normas de conduta. "Introdução". as revoluções liberais conduzem à transformação dos valores aceitos pelo grupo social como predominantes. observado o Antigo Regime. que pressupõe distinção e privilégio. sofrer constantes batidas policiais. E ainda. "sempre definimos nossa identidade em diálogo com as coisas que nossos outros significantes desejam ver em nós mesmos. No entanto. (GUTTMAN.. o Romantismo aponta para a importância de uma identidade individualizada em que o sujeito se descobre em sua profundidade interna (identidade como autenticidade). 17). compreendidos por significações compartilhadas. O caráter dialógico é colocado por Taylor não como fenômeno temporário. p.ser recusado pelo táxi. p. Amy. Andréa. que toma forma somente no quotidiano do processo de educação e aprendizagem. Jessé. Tradução Laureano Pelgrin. e sim uma construção. 109). Afinal. a derrocada da sociedade hierárquica não resultou em linearidade. Continua ainda o autor: "(•••) a identidade individual é concebida como uma estrutura oca. permitindo-lhe 'compreender' o mundo e sua posição no interior deste". 103.

2002. 14 CRENSHAW. "Documento para o encontro de Especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero". Na realidade. também é verdade que outros fatores relacionais a suas identidades sociais. o patriarcalismo. são 'diferenças que fazem diferença' na forma como vários grupos de mulheres vivenciam a discriminação". religião. pois. Como afirma Kimberlé Crenshaw. Alerta que o multiculturalismo tem como principal reivindicação a denúncia acerca do etnocentrismo calcado no "varão europeu". n^ 1. não pode funcionar como uma "prisão". as identidades são fluidas e relacionais. A identidade de gênero. 173. cor. O campo por excelência de tal discussão é a educação. origem nacional e orientação sexual. raça. casta. sujeitas ao peso da discriminação de gênero. 1999. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-moderenidade. São Paulo: Cortez. O sujeito que se coloca em dilema sobre sua identidade é precisamente aquele que questiona as referências hegemônicas. Florianópolis: UFSC. p. Afinal.13 "Congelar" identidades dos grupos sociais seria persistir no equívoco histórico das identidades nacional e de classe. por exemplo. raças. de algum modo. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo. 122 .Carolina de Campos Melo Neste sentido. etnia. "como é verdadeira o fato de que todas as mulheres estão. etnias. as "identidades são. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. 135. tais como classe.'14 A utilização da discussão de gênero para exemplificar uma experiência interseccional1^ não exclui outras. Kimberlé. e mais especificamente a implementação curricular. Vol. Não se prestam como rótulo a ser etiquetado no fronte de seres humanos. a opressão de classe o outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres. isto significaria tornar a bipolaridade masculino X feminino fronteira igualmente homogeneizante. idem. as quais enfatizavam a dicotomização nacional X estrangeiro ou classe trabalhadora X proprietária. Boaventura de Souza. 10. 5a edição. p. Taylor é um intelectual engajado: aplica todo este arcabouço teórico para analisar o caso do Quebec. Nunca se chega a uma identidade pronta e acabada: elementos de identificação e diferença sempre desafiarão a formação da identidade. in Estudos feministas/Universidade Federal de Santa Catarina. identificações em curso". classes e outros". Centro de Comunicação e Expressão. Ressalta ainda Boaventura de Souza Santos que o titular da busca identitária é aquele que luta contra a subordinação. Quais os autores devem ser lidos? Exclusivamente os "varões brancos mortos"? Deve ser realimentada a tradição de que a criatividade ao longo da história foi prerrogativa deste 12 SANTOS. 13 Ibidem. p. São o resultado de processos de negociação de sentido. 177. 15 Interseccionalidade pode ser definida como "conceituação do problema que busca capturar as conseqüências estruCurias e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação.12 Tal processo não é passível de finalização.

a qual consagrou direitos fundamentais a todos os cidadãos canadense. cit. Aborígenas e quebecois são grupos que historicamente vêm sendo alvo de políticas originadas da cultura anglo-saxã. supomos que sua contribuição cultural ainda está por ocorrer (quando os zulus produzirem um Tblstoi) (.Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Teoria da Justiça grupo? Não se pretende aqui trazer à baila o ensino das humanidades.) Se os zulús têm gue produzir nosso tipo de excelência. então. de inspiração liberal. sem deixar. seu texto Multiculturalismo e Política de Reconhecimento constitui menção obrigatória em qualquer estudo acerca do tema.. Por último. 17 A questão tomou o palco da discussão jurídica em 1982 por ocasião da Carta Canadense de Direitos e Liberdades. vem a Suprema Corte do Canadá decidindo em favor de medidas que visem à sobrevivência e à promoção da cultura francófona no Quebec. Ibdavia. p. de se posicionar a favor das reivindicações francófonas. C. (TAYLOR. op. diversas foram as medidas legislativas e administrativas tomadas pelo governo do Quebec com a finalidade de preservar a cultura francófona da infiltração anglo-saxã. Durante a década de 90. que proíbe aos pais francófonos e imigrantes que 123 . a que impõe a língua para todas as propagandas e rótulos e ainda a que estabelece a necessidade de que todos os documentos comerciais sejam produzidos em língua francesa. Segundo. independentemente das diferenças inerentes aos francófonos e aborígenes. Para os francófonos. o qual infere ao Quebec em grau constitucional a qualidade de 'sociedade distinta' e reconhece ainda a presença francófona como 'característica fundamental' do Canadá. Afirmou também constitucional a controversa Lei 101. Declarou este Tribunal a consonância com a Carta Constitucional de leis como a que obriga todas as empresas com mais de 50 empregados a serem administradas em francês. Em termos gerais. deve-se demarcar o campo do ensino como fundamental aos questionamentos multiculturais. aquijaz a suposição implícita de que a excelência tem que adotar formas familiares às nossas: os zulús devem produzir um Tolstoi. em qualquer momento. Tal inclusão passa a garantir que todo o controle da constitucionalidade das leis canadenses seja efetivado em consonância com tal distinção. O Canadá formaria assim uma "federação assimétrica". sua única esperança está no futuro". Taylor presenteia as atuais lutas por reconhecimento com sua interpretação do legado hegeliano e ainda demonstra a violência com que o falso reconhecimento pode operar na construção da identidade. como resulta evidente. já que este trabalho não constitui espaço para controvérsia tão ampla e difundida.. então os leremos". denominado Emenda Meech. O etnocentrismo na qual esta frase é imbuída é banalizado por Taylor na seguinte passagem: "Primeiro. Quebec não constitui um membro da federação como os demais: é parte fundadora e equiparada ao restante de matriz inglesa.16 Ao fim e ao cabo. Acirrou-se a controvérsia em 1987 na oportunidade da aprovação do Acordo do Lago Meech. mesmo que também traduzido em outro idioma. 105).17 Como não 16 Ironiza Taylor uma passagem de Saul Bellow que bastante demonstra a forma pela qual se expressam os críticos ao multiculturalismo: "Quando os zulús produzirem um Tblstoi. Taylor abdica de qualquer neutralidade para examinar a questão canadense. Verificou-se ainda uma aproximação ao judicial review norte-americana de forma a garantir um controle centralizado destes direitos perante a Corte Constitucional.

143). o conflito de concepções individuais sobre o significado de vida digna. Nesta perspectiva. surgem as elaborações de Nancy Eraser e íris Young acerca do reconhecimento/redistribuição. como princípio. "Comentário". Entretanto.pela outra" (idem. México: Fondo de Cultura Econômica. não podem se separar das lutas econômicas: a justiça como reconhecimento não se divorcia da justiça como redistribuição. o que deixa clara uma não-neutralidade no tocante ao ente estatal. Neste sentido. dos privilégios e as imunidades que apesar de siía importância podem ser revogadas ou restringidas por razões de política pública mesmo que necessitássemos de uma boa razão para fazê-lo . tais medidas foram levadas ao Poder Judiciário para o^ie este verificasse a sua constitucionalidade. Michael. p. Apesar das disputas teóricas. p.Carolina de Campos Melo poderia deixar de ser. 1993. constituindo a melhor máscara para sua preservação. onde o Estado deve manter uma posição de neutralidade. o Liberalismo l corresponderia a visão liberal. pois os confrontos culturais são. as medidas foram consideradas constitucionais. O modelo liberal (Liberalismo 1) geralmente auto-intitula-se o mais adequado já que condicionado à denominada neutralidade. as que nunca devem ser infringidas e portanto devem encontrar-se ao abrigo do todo ataque. Uma das principais entre estas é a constatação de que o reconhecimento ocorre em um mundo eivado de desigualdades sociais. E é precisamente neste campo que se pronuncia Taylor no sentido de cjue a justiça como reconhecimento permite que o Estado dispa-se de um papel de neutralidade e incentive políticas de valorização da diferença. A definição do papel a ser exercido pelo ente estatal diante da diversidade não constitui fórmula mágica. Assim como deve o aparato estatal defender o "ar limpo e os espaços verdes". Lembra WALZER que a neutralidade é "freqüentemente . por uma parte.hipócrita e sempre incompleta" (WALZER. também pode este recrutar-se a outras metas coletivas. o trabalho do autor teve repercussão em diversos outros países. O Estado deve restringir-se à proteção dos direitos individuais. Taylor aproxima-se de uma fronteira bastante delicada quando afirma serem alguns direitos fundamentais e outros apenas privilégios. desde que garantido o direito das famílias anglófonas de fazê-lo. uma sociedade pode organizar-se em torno de metas sem que por isto fira direitos fundamentais daqueles que não compartem da mesma meta. Ainda complementa: "Há que se distinguir as liberdades fundamentais. a neutralidade está entrelaçada ao status quo. Ao comentar o ensaio de Taylor. isento de perspectivas culturais ou qualquer meta coletiva. Tradução de Mônica Utrilla de Neria. as autoras concordam em um ponto: reconhecimento e redistribuição fazem enviem suas crianças a escolas de língua inglesa. Conforme este modelo. Michael Walzer distingue dois tipos de liberalismo. Visto o Quebec como uma sociedade distinta. Seu impacto teórico e prático deu margem a simpatias e discordâncias. A discussão elaborada por Taylor para o Canadá pode ser facilmente transposta para outras realidades sociais em que o reconhecimento se torna uma bandeira de justiça. Esclarece que o Liberalismo é geralmente eleito como doutrina oficial para as sociedades imigrantes. neste sentido. 89). Além disso. 124 . alerta Taylor para a grande barreira que teria sido construída em torno dos direitos fundamentais. em termos teóricos. Afinal. elegendo como exemplos os Estados Unidos e o Canadá inglês. Tais exemplos apontam para a existência de uma meta coletiva no Quebec em prol da proteção e promoção da cultura francófona. Tais políticas não bastam por si sós e. In El Multiculturalismo y Ia "Política dei Reconocimento".

Por sua vez. Todavia. Rio de Janeiro: Record. sendo que qualquer movimento deve considerar o outro jogador. mas passam a operar no campo de agentes culturalmente definidos como grupos. ambiental e cultural (VIEIRA. pp. Neste sentido. 1997. para íris Young. reconhece 5 dimensões constantes neste processo: econômica. p. Cidadania e Globalização. este imaginário está concentrado na idéia de justiça enquanto distribuição e na descrita condição pós-socialista. A utilização do sufixo 'panorama' justifica-se por não se tratarem de aspectos materiais fixos. etnopanorama. Por sua vez. 2. Liszt. Cria-se no imaginário social a passagem da injustiça calcada em aspectos socioeconômicos para uma enraizada culturalmente. Proliferaram-se as lutas contra a opressão: estas não mais se restringem à classe social como grupo economicamente construído. Neste sentido. Liszt Vieira faz uso da expressão dimensão para compreender a globalização em sua totalidade. Elege 5 panoramas. (I). a condição pós-socialista é caracterizada pela ressurgimento do (neo) liberalismo econômico. Os atores sociais deixam de ser economicamente definidos como classe para serem culturalmente definidos como grupos. tais reivindicações atendem ao ideário da dimensão19 econômica da globalização ao afastar apa- 18 Descreve a autora 3 características constitutivas da condição pós-socialista: • A ausência de qualquer visão progressiva creditável como herança do socialismo. New York & London: Routledge. social. os fluxos globais ocorrem no bojo de uma ordern disjuntiva. a história continuou seu rumo. midiapanorama. tecnopanorama. (Cf. reconhecimento e redistribuição constituem dois lados da mesma moeda. 1-3) 19 A globalização deve ser tida aqui como um processo permeado por diversas dimensões. e • Com os processos de globalização. marcada pela complexidade e justaposição entre economia. cultura e política. De forma ilustrativa. 80). política. Praser afirma que este quadro constitui uma proliferação de lutas sociais. Arjun Appadurai. Fazendo uso da idéia da condição pós-moderna de Lyotard. Afirma que opções apontadas genericamente como a 'democracia radical' ou o 'multiculturalismo' são insuficientes por não depositarem devida atenção à questão da economia política. mas sim 125 . sob as vestes de uma audaz mercantilização das relações e de um agudo crescimento das desigualdades materiais. Não há dúvida de que as reivindicações por reconhecimento ocorrem em um mesmo momento em que ascende a hegemonia neoliberal. Criticai reflections on the 'postsocialist condition. prevalece a problemática do reconhecimento. Justice Interruptus. finançopanorama e ideopanorama. Nancy Praser. ambas são posições opostas em um tabuleiro. O dilema reconhecimento/redistribuição de Nancy Fraser É inescapável a contribuição da autora norte-americana Nancy Fraser para a compreensão do reconhecimento em um mundo em que imperam desvantagens econômicas. • Uma mudança no imaginário político: nos limites do socialismo.Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Teoria da Justiça parte do mesmo jogo. O "day after" da queda do Muro de Berlim pode ser descrito como o fim do socialismo real. Fraser descreve o que denomina por condição pós-socialista'18 como horizonte no qual se move o esquadro político de nossos dias. 1997. para Nancy Fraser. Torna-se assim impossível divorciar qualquer uma destas teorias de justiça.

(FRASER. Nancy.. em vez de estas complementarem ou enriquecerem aquelas". A injustiça socioeconômica baseia-se na estrutura política e econômica de uma sociedade.Carolina de Campos Melo rentemente o igualitarismo socialista . segundo Fraser. a visão de John fíawís de justiça como escolha justa dos princípios que governam a distribuição de 'bens primários'. Modernity at Large. São inúmeras as classificações apresentadas por diversos autores. [III].23 Combate-se assim o argumento de que o multiculturalismo teria prosperado em um vazio deixado pelo fim do socialismo real. a visão de Amartya Sem de que justiça requer garantias de exercício igual das 'capacidades para funcionar' e a visão de fíonató Dworkin que requer "igualdade de recursos".22 Fraser objetiva "conectar duas problemáticas políticas que são costumeiramente dissociadas. Em recente artigo. o que corrobora seu aspecto ideológico. O que se pretende aqui é precisamente compreender a globalização como um processo formado por vários elementos. Neste sentido. Brasília: Universidade de Brasília. são rnafastáveis. 2001. 126 . Como tentativa de síntese. afirma a autora que entre estes "a teoria de Mane de exploração capitalista. no tocante às injustiças culturais ou simbólicas. a injustiça cultural tem suas raízes nos padrões de representação e interpretação de uma sociedade. 246. 249). Na realidade. O cerne da discussão 20 21 22 23 construções perspectivas fluidas e irregulares. íris Marion Young e Patrícia Williams. as contribuições de Charles Taylor. pois só por meio da reintegração do reconhecimento e da redistribuição pode-se chegar a um quadro adequado às demandas de nosso tempo". p. Por sua vez. Diversos foram os teóricos que ao longo dos últimos séculos buscaram compreender as injustiças socioeconômicas. Ambas são o centro dos conflitos pós-socialistas. "Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça na era pós-socialista" in Democracia hoje: novos desafios para a teoria democrática contemporânea/Jessé Souza (organizador). p. N. Injustiças culturais existem em contextos sociais ainda marcados por desvantagens econômicas.21 Por sua vez. 1996. Nancy. Arjun. Podem ser apontadas como demonstrações desta injustiça a exploração e a marginalização econômica. University of Minesota Press. |III). Cultural Dimensions of Globalization. cit. 33). reconhecimento e participação" in Revista Crítica de Ciências Sociais. as injustiças socioeconômica e cultural são fenômenos que devem ser enquadrados historicamente. Não se pode ter a globalização como um fato por si só. discerne duas formas de injustiça coexistentes: a socioeconômica e a cultural/simbólica. "A justiça social na globalização: redistribuição. que ofusca uma concepção de justiça capaz de dar conta da complexidade de um mundo globalizado. Novos movimentos devem assim ser interpretados como complementares e não substitutivos à classe trabalhadora. Número 06. p. FRASER. op. FRASER. Axel Honneth. Nancy Fraser alerta para o "risco da substituição das lutas pela redistribuição pelas lutas pelo reconhecimento.20 É o que denomina por problema da substituição. as quais 'caracterizam tanto o capital internacional quanto o estilo internacional de vestuário" (APPADURAI. já que o capitalismo em sua etapa atual não eliminou as etapas anteriores. Outubro 2002 [II].

246. 2000. como veremos nas próximas páginas. é compreendido pela atenção ou valorização da diferença. Eraser consagra paradigmas analiticamente distintos. em parâmetros gerais. Por mais que se argumente que a distinção entre injustiça econômica e injustiça cultural seja meramente analítica. o debate entre Fraser e Young. Para demonstrar a conexão entre as duas formas de justiça. Apresentadas as duas extremidades. No extremo econômico da redistribuição. O dilema proposto pode ser facilmente vislumbrado quando se tem em mente os remédios necessários para a implementação da justiça como reconhecimento e justiça como redistribuição. O reconhecimento.25 Todavia. Na definição da autora. redistribuição e reconhecimento não constituem uma antítese por natureza. inobstante movimentos sociais pareçam exclusivamente preocupados com aspectos como diferença e identidade. caracterizados por uma sexualidade menosprezada culturalmente na estrutura social. Ao afirmar a existência de um dilema entre o redistribuição e o reconhecimento. encontram-se os homossexuais. redistribuição e reconhecimento constituem paradigmas analiticamente distintos de justiça. Esta contradição cria o que Fraser denomina de dilema redistribuição-reconhecimento.2^ Afinal. Afinal. 127 . Bhikhu Parekh. identificação determinada pela estrutura político-econômica de uma sociedade que ao longo dos últimos séculos vem lutando em nome do movimento dos trabalhadores.Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Teoria da Justiça está precisamente em se definir quais grupos sociais devem ser alvo de políticas de reconhecimento. Rethinking multiculturalism. a conexão entre tais formas de justiça não constitui tarefa fácil. p. torna-se necessária uma teoria "que identifique e defenda apenas versões da política cultural da diferença que possa ser coerentemente combinadas com a política social de igualdade". localiza a concepção marxista de classe. Macmillan Press. Tais remédios são em si contraditórios. 2. é precisamente neste ponto que ocorrerá. Por sua vez. Afinal. Cultural diversity and political theory. estes não podem estar divorciados de uma estrutura econômica e social mais amplas. Fraser delineia um espectro que apresenta duas extremidades: a redistribuição e o reconhecimento. a redistribuição pretende abolir a desigualdade dos arranjos econômicos. como explicita Bhikhu Parekh. Fraser concentra esforços para localizar categorias que se encontra precisamente no meio termo do espec- 24 /dem. que tipo de diferença faz diferença? É precisamente neste sentido que a autora defende uma teoria crítica do reconhecimento que atente para a intrínseca relação entre os conflitos culturais e sociais. p. No extremo do reconhecimento. opondo-se a qualquer diferenciação. Afinal. 25 Cf.

trivialização.) em um rol de punições sofridas pelas mulheres. a questão racial também trata de uma coletividade que se encontra. No entanto. Nos dias de hoje. e assim foram responsáveis pela construção das estruturas econômicas em diversos Estados.)"26 Estas últimas são injustiças de reconhecimento. ao mesmo tempo em que a justiça como reconhecimento contempla remédios específicos que superem o sexismo por meio da reavaliação do gênero historicamente menosprezado. Poder-se-ia citar como exemplo o fato de que. 261.. todavia. Op. Eis a versão feminista do dilema redistribuição/reconhecimento: como podem as feministas simultaneamente abolir diferenciações de gênero e enfatizar a sua especificidade? Por sua vez. Demonstra-se assim que os remédios são contraditórios: a justiça enquanto redistribuição exige a abolição da especificidade do gênero. coisisficação e humilhação esteriotípica nas representações da mídia. ainda recebem salários mais baixos e ocupam atividades de inferior status na sociedade. Em primeiro lugar. [III]. esta diferenciação não se restringe ao campo da redistribuição: permeia também o da valoração cultural. molestamento e depreciação em todas as esferas de vida quotidiana.. Gênero e raça são apontados como paradigmas nesta localização. ao mesmo tempo. os negros desempenharam o papel de escravos. exclusão ou marginalização em esferas públicas e corpos deliberativos. a divisão social do trabalho em remunerado e produtivo para os homens e o não-remunerado. É claro que não se pode mais pensar no quadro do capitalismo em sua ascensão.Carolina de Campos Melo tro: as coletividades que sofrem injustiças em virtude da estrutura políticoeconômica. Historicamente. cit. nem remédios estritamente redistributivos ou de reconhecimento podem isoladamente garantir justiça. reprodutivo e doméstico para as mulheres constituiu historicamente estrutura essencial para o desenvolvimento do capitalismo. A desvalorização do "feminino" é clara "(. até mesmo na ausência de qualquer intenção de discriminação. exploração sexual e violência doméstica. diante da má-distribuição e não-reconhecimento. no tocante ao gênero. em uma média mundial. a "raça" apresenta reper- 26 FRASER. 128 . como também da valorização cultural da sociedade. Todavia. Nestes casos. discriminação atitudinal..(. N. tais vícios de origem provocam conseqüências marcantes até os dias de hoje. p. incluindo agressão sexual. as mulheres ainda recebem 1/3 do salário masculino no desempenho das mesmas funções. sujeição a normas androcêntricas nas quais as mulheres aparecem como menos importantes ou desviantes e que contribui para prejudicá-la.. negação de plenos direitos legais e proteções iguais.

Nancy Fraser acerta no diagnóstico ao criticar a tendência das políticas de reconhecimento em suplantarem a justiça econômica. 3. marginalização. 129 . na qual se insiste em afirmar que não há racismo e sim mera separação social. é contundente na crítica quando afirma que sua solução em estabelecer categoria de justiça econômica em oposição à cultural é "pior que a doença". Fraser chega a travar um debate acerca destas categorizações afirmando que. A guide to the current debate. Tbdavia. há uma disputa classificatória que divide as autoras. Em seu livro Justice ande tfie pohtics ofdifference. 51.. a existência de determinadas categorias que não podem ser localizadas em qualquer destas extremidades e. o espectro de Fraser é bastante simbólico no sentido de que é possível a existência de injustiças somente de redistribuição ou de reconhecimento. 28 A bipolarização encontra em Young um outro problema. a raça negra no Brasil. powerlessness. porém. Na realidade. [IVJ. Na concepção de Fraser. Young afirma a existência de 5 formas de opressão: exploração. Antes de passarmos para a contribuição de íris Young. Acredita Young que esta exagera no grau em que o reconhecimento se afasta das lutas por redistribuição e. Massachusetts. devem ser vislumbradas como categorias centrais paradigmáticas. por isto. UK: Blackwell Publishers. Em resumo. nem tanto à terra. Edited by Cynthia Willet. íris Marion Young: a continuidade entre o reconhecimento e a redistribuição Para íris Young. p. Em resumo. as 5 formas classificadas por Young são duas: a injustiça político-econômica de má-distribuição (exploração. precisamente por estarem localizadas nas extremidades deste prisma. por conseqüência.27 Sua crítica localiza-se precisamente no foco bipolar da teoria de Fraser. imperialismo cultural e violência. encontra-se precisamente no meio-termo entre a redistribuição e o reconhecimento. USA / Oxford. discriminação. é imperioso reafirmar que ambas conjugam a mesma crítica aos defensores da justiça como reconhecimento: este ocorre em um mundo material em que a redistribuição não pode ser afastada.Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Teoria da Justiça cussão também na dimensão cultural: esteriotipização.28 Tais categorias não podem ser visualizadas com um 27 YOUNG. erra quando bipolariza as duas esferas de justiça. "Unruly categorias: a critique of Nancy Fraser's dual systems theory" ín Theorizing Multiculturalism. não abdicam as autoras de uma interessante disputa teórica. Todavia. marginalização e powerlessness) e a injustiça cultural de mau-reconhecimento (imperialismo cultural e violência). A localização no ponto mediano do espectro redistribuição/reconhecimento deve ser enfatizada em sociedades como a brasileira. íris Marrion. marginalização ou mesmo exclusão da esfera pública. nem tanto ao mar. a raça e. no caso. Não nega. na realidade.

Carolina de Campos Melo

fim em si mesmas. Neste sentido, Fraser encontra contradições onde estas não existem. Ainda, as categorias "puras" apresentadas no espectro de Fraser não passam de ficção. Não se restringe a expressar incômodo em relação à classificação do gênero ou raça como categorias paradigmáticas, mas afirma que nenhuma categoria pode ser considerada "pura". Em um mundo real, estruturas de economia política e de representação cultural são inseparáveis. Na percepção da autora, "a distinção entre redistribuição e reconhecimento é assim inteiramente teórica, uma distinção analítica necessária para a construção de uma tese".29 Retornando à ilustração do espectro de Fraser, Young assevera que a separação entre os exemplos "puros" como a classe no extremo da redistribuição e a homossexualidade no extremo do reconhecimento são tipos ideais, e por isto, não encontrados no complexo mundo real. Pode-se aqui apresentar tal contradição em relação aos homossexuais, colocados por Fraser na extremidade do espectro como uma categoria pura. Correndo o perigo de uma síntese homogeinizadora, pode-se afirmar que o movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trangêneros) reivindica não apenas o combate à homofobia e o reconhecimento de outras formas de compreensão da sexualidade, mas também uma melhor distribuição de renda. Tal realidade apresenta-se cotidianamente em nossos tribunais quando parceiros do mesmo sexo pleiteiam partilha de bens ou mesmo heranças e pensões.30 Neste sentido, é possível concluir que tais pedidos pressupõem o reconhecimento de outras formas de convívio social, ao mesmo tempo em que possuem intenção de diminuir discriminação também material e econômica. Se as categorias consideradas "puras" já são em si controvertidas, mais ainda são aquelas que ocupam o meio do espectro de Fraser, como é o caso dos elementos gênero e raça. Estas são classificadas por Young como coletividades dilemáticas. Tanto o movimento negro quanto o de mulheres, em oposição à contradição encontrada por Fraser, podem lutar pela afirmação de identidades de grupo ao mesmo tempo em que pela eliminação das posições ocupadas respectivamente pela raça e gênero na divisão do trabalho.

29 30

YOUNG, I. op. cjt. [l], p. 52. Um importante exemplo deste contexto pode ser vislumbrado pelo provimento pela Justiça Fedeial de ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal do Estado do Rio Grande do Sul. Nesta ação, pretendeu-se ampliar para os parceiros homossexuais dois benefícios previdenciãrios: pensão por morte e por prisão. Em decorrência desta ação, foi editada portaria do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) que confere aos mesmo tais benefícios. Tal portaria tem validade em todo o âmbito nacional. Conclui-se aqui que tal portaria não somente reconhece uma forma socioafetiva diferenciada, mas também considera efeitos patrimoniais à mesma.

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Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Tteoria da Justiça

No caso do gênero, por exemplo, assegura Young que mudanças na divisão do trabalho não conduzem meramente à redistribuição, mas também à réssignificanciã cultural de diferentes formas de trabalho. "A divisão de gênero do trabalho que aloca responsabilidade primária do care work para as mulheres fora da economia paga, por exemplo, não sofrerá mudanças sem o reconhecimento da natureza e do valor deste tipo de trabalho".3i É precisamente neste ponto que Young coloca-se em franca oposição ao posicionamento de Fraser, a qual acredita haver contradições na aplicação de políticas de reconhecimento e redistribuição. Isto porque as primeiras visam ao respeito a padrões sociais diferenciados de representação/interpretação e estas possuem o objetivo de produzir mudanças materiais e econômicas. Contrariamente, Young afirma que as políticas de reconhecimento consistem em forma de promoção de igualdade econômica e política. A inferiorização cultural de um grupo social produz ou reforça opressões econômicas estruturais. "As duas lutas são contínuas. Se a política de diferença desconecta cultura do seu papel de produzir opressões materiais e privações, e considera expressão cultura com um fim em si mesmo, então tais políticas podem obscurecer conexões de opressão e liberação",32 Vejamos o exemplo das políticas de ação afirmativa em processo de implantação no contexto social brasileiro. Constituem estas políticas que visam, ao mesmo tempo, à promoção do reconhecimento quanto da redistribuição. Considerando as cotas com uma das mais importantes políticas de ação afirmativa, pode-se afirmar que estas, notadamente no campo do ensino superior, constituem o campo propício para o estabelecimento de um círculo vicioso no qual o elemento racial passa necessariamente pelo diagnóstico da diferença, ao mesmo tempo em que uma melhor inserção em ensino superior e no mercado de trabalho conduzem à diminuição da opressão econômica. Não seria arriscado afirmar que Young "carrega na tinta" na crítica realizada a Fraser. A imagem do espectro ou do tabuleiro de xadrez podem ser interpretadas como a conexão entre tais pólos. Todavia, Young faz questão de frisar que para Fraser existem extremos que podem levar à consideração destes como valores em si mesmos. São estas as perspectivas do embate teórico. Em resumo, pode-se asseverar que a principal contribuição teórica de Young é a conexão necessariamente intrínseca entre tais concepções de justiça.

31 YOUNG, I, op. cít. [II], p. 58. 32 Idem, p, 64.
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4. Conclusão
O desfecho deste texto merece a retomada de seu título: Reconhecimento/Redistribuição: por uma nova teoria da justiça. A colocação do travessão (/) entre os dois nomes é fruto de um impasse. Não seria melhor a colocação de uma oposição (X) ou mesmo de uma adição (e)? Optou-se pela mera apresentação de duas formas de justiça que vêm tomando, isolada ou conjuntamente, espaço no cenário da teoria política contemporânea. A contribuição de Charles Taylor, Nancy Fraser e íris Young são a demonstração de que é possível uma teoria da justiça engajada com a prática dos grupos e movimentos sociais. Sejam os francófonos canadenses, fervorosamente defendidos por laylor, quanto o feminismo, o movimento LGBT ou a questão racial, tão presentes nos trabalhos de Fraser e Young, tais grupos encontram suas lutas projetadas em um importante passo na teoria política. É claro que cada um destes autores, como pretendeu demonstrar-se, tem enfoques diferentes sobre a questão do reconhecimento/redistribuição. Taylor oferece o pontapé inicial na afirmação de que o não-reconhecimento ou o mal reconhecimento constituem formas de opressão. Por sua vez, Fraser e Young alertam para o fato de que as lutas pelo reconhecimento existem em um mundo marcado por privações materiais. Em posições diversas, Fraser acredita na contradição interna entre políticas de reconhecimento e redistribuição, determinando assim a existência de um dilema. Por sua vez, Young acredita que cultura é política econômica e política econômica é cultura, o que conduz a uma conexão intrínseca entre tais concepções de justiça. Na realidade, o que realmente distingue a perspectiva das autoras é o grau de separação analítica entre reconhecimento e redistribuição. Sem a tomada explícita de uma das posições apresentadas, o que se pretendeu aqui foi a breve apresentação do quadro teórico mais relevante acerca do tema nos dias de hoje. Por mais que o objeto deste artigo não seja o estudo da realidade social brasileira, é possível observar, nas entrelinhas, que esta consiste em um terreno muito fértil para tal compreensão. O cenário de politização dos grupos sociais brasileiros presencia um círculo vicioso de mútua confirmação de subordinações sociais e culturais, Movimentos sociais como o dos Trabalhadores sem Terra (M.S.T.), movimento de mulheres, negro (quilombolas ou iniciativas como o Pré-Vestibular para Negros e Carentes), LGBT e ainda o movimento indigenista podem ser apontados como sujeitos que atuam em um embate em que redistribuição e reconhecimento constituem pontos necessários na agenda de reivindicações. Neste sentido, torna-se necessária a confecção de uma teia de coalizão que considere a intrínseca conexão entre diversas formas de opressão que não se restringem à perspectiva atacadista da classe social. A hegemonia cultural constitui importante forma de violência. Somente assim será possí132

Reconhecimento/Redistribuição: Por uma Nova Tteoria da Justiça

vel afastar as indagações multiculturais da postura de oposição à discussão '.de classe e compreender a conexão entre redistribuição e reconhecimento como formas de luta por uma nova concepção de justiça.

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Caiolina de Campos Melo

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Justiça e Racionalidade Prática Reflexões a Partir da Obra de Alasdair Maclntyre

Cleber Francisco Alves"

1. Introdução
O presente trabalho pretende apresentar algumas reflexões decorrentes do estudo da obra do pensador escocês Alasdair Maclntyre, especificamente acerca do tratamento que as diversas tradições de pesquisa que conformaram a cultura ocidental contemporânea deram à questão da teoria da justiça e da racionalidade prática. A diretriz adotada para a exposição do tema foi partir de uma abordagem da crise epistemológica que afeta os paradigmas da ciência moderna. Essa crise atinge também o campo das "ciências sociais", em especial a política e o direito, despertando a atenção da filosofia política e jurídica, e, desse modo, insere-se no contexto do debate travado entre os que têm buscado defender os postulados do liberalismo e aqueles que sustentam o esgotamento dos paradigmas liberais para dar conta da complexa e intrincada realidade social que se nos apresenta. Assim, verificaremos que o estudo levado a efeito por Alasdair Maclntyre, acerca da Justiça e da Racionalidade Prática, reflete uma tentativa de demonstrar a derrocada do projeto liberal da modernidade, na medida em que pretendeu erigir-se sobre princípios teóricos que desprezaram expressamente a tradição e os pressupostos acumulados na cultura e na história. Tais princípios centralizaram-se numa concepção marcadamente individualista em detrimento de toda a bagagem comunitária que se revela essencial para a compreensão da natureza humana. Para Maclntyre não se pode prescindir das referências que configuram um determinado contexto cultural para que se estabeleçam os critérios de Justiça e Racionalidade Prática a serem observados.

Professor e Pró-Reitor Acadêmico da Universidade Católica de Petrópolis. Mestre e Doutorando em Ciências Jurídicas (PUC-Rio). Defensor Público no Estado do Rio de Janeiro.
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Cleber Francisco Alves

2. A crise da modernidade e o debate entre liberais e comunitários
Segundo expressiva corrente de pensadores da atualidade, nossa civilização estaria passando por um fase de profunda ruptura cultural, notadamente no que se refere ao campo científico, marcada pela crise dos paradigmas reinantes que remontam o período de surgimento da modernidade, ainda no século XVI desta Era Cristã. Tais paradigmas, então predominantes, eram caracterizados por um "determinismo" mecanicista que, no dizer de Boaventura de Souza Santos, era compreendido como sendo "o horizonte certo de uma forma de conhecimento que se pretende(ia) utilitário e funcional, reconhecido menos pela capacidade de compreender profundamente o real do que pela capacidade de o dominar e transformar". Ainda na perspectiva do sociólogo português, transposto para o plano social, tal característica também representava "o horizonte cognitivo mais adequado aos interesses da burguesia ascendente que via na sociedade em que começava a dominar o estádio final da evolução da humanidade".1 Diversos acontecimentos no mundo das ciências ditas da natureza, ocorridos desde os albores deste século XX, notadamente as descobertas de Einstein e a mecânica quântica, suscitaram novas concepções acerca da natureza e da própria matéria que abalaram as colunas da física clássica e inverteram completamente os postulados que tinham marcado a gênese e o avanço da ciência moderna.2 Como exemplo desse fato, Boaventura de Souza Santos cita a teoria das estruturas dissipativas e o princípio da "ordem através de flutuações", decorrentes dos estudos do físico-químico llya Prigogine, onde se constatou que esse determinismo mecanicista - até então inabalável na ciência física - não se aplica, ocorrendo, ao contrário, um processo espontâneo, imprevisível, e de instabilidade. Em suma, o que se verifica na ciência contemporânea, servindo-nos das belas palavras do referido autor lusitano, é uma completa alteração dos postulados até aqui dominantes: "Em vez da eternidade, a história; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente". E completa: "A teoria de Prigogine recupera inclusivamente conceitos aristotélicos tais como conceitos de potencialidade e virtua-

1 2

SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Estudos Avançados. São Paulo: IEA/USE Vol. 2, na 2, p. 51, maío-agosto, 1988. Apesar de paradoxal, não se pode perder de vista, entretanto, que essas e inúmeras outras conquistas teórico-científicas só foram possíveis a partir dos pressupostos desses paradigmas forjados na modernidade.

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Justiça e Racionalidade Prática - Reflexões a Partir da Obra de Alasdair Maclntyre

lidade que a revolução científica do século XVI parecia ter atirado definitivamente para o lixo da história".3 Aproveitando essa referência à herança aristotélica, e direcionando a linha de análise deste trabalho para o campo da ética, da filosofia do direito e da teoria política, cabe considerar que essa crise epistemológica verificada no campo das ciências naturais também atinge de forma contundente as ciências sociais. Assim, para um estudo, ainda que ligeiro, que pretendemos desenvolver acerca dessa problemática, utilizaremos o instrumental teórico de um importante filósofo da atualidade que, todavia, não vem merecendo muitos estudos entre nós, no Brasil. Trata-se do pensador escocês, radicado nos Estados Unidos, ALASDAIR MACINTYRE, que em suas reflexões sobre o impasse em que se encontra a filosofia política e jurídica liberal da modernidade também aí constata a existência de uma grave crise quanto aos paradigmas de verdade no que se refere aos princípios que devem ser adotados como inspiradores da Justiça nas relações entre o Estado e os indivíduos e entre estes, na sua convivência cotidiana, e quanto aos critérios de racionalidade prática aptos a orientar suas atitudes no relacionamento social. E, mesmo sem revelar maiores pretensões no sentido de oferecer respostas definitivas e conclusivas sobre as saídas que devem ser buscadas para essa crise no pensamento político da modernidade, Maclntyre também evoca a tradição helênica, emergente da obra de Aristóteles, como um princípio de solução para o impasse existente na sociedade política dos nossos dias. No quadro de pensadores políticos contemporâneos do ocidente, Alasdair Maclntyre costuma ser classificado num grupo de críticos do liberalismo individualista, no qual se incluem Michael Walzer, Michael Sandel e Charles Taylor, que costumam ser identificados sob a denominação de "comunitários". Em breve síntese, mesmo com o risco de incorrer em reducionismo, pode-se afirmar que o grande confronto entre os pensadores ditos liberais e a perspectiva comunitária se traduziria no fato de que "os liberais esforçam-se por revelar padrões morais pelos quais possam ser avaliadas as instituições sociais e políticas de qualquer sociedade", enquanto que, "segundo as críticas comunitárias, o problema consiste no fato de esta tarefa fazer pouco sentido, visto que os princípios morais só podem ser compreendidos como resultado das práticas que prevalecem nas sociedades reais".4 Os críticos comunitários, em linhas gerais, entendem que o modelo de sociedade traçado pelo liberalismo - ao tentar "acomodar" uma realidade plu-

3 4

SANTOS, Boaventura de Souza. Ob. cit, p. 56 KUKATHAS, Chandran, PETTIT, Philip. Rawls: Uma "teoria da Justiça e seus Críticos. Coimbra: Gradiva, 1995. p. 111.
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ralista típica do mundo moderno, onde grassa uma enorme variedade de concepções dos valores religiosos, éticos e morais, cuja compatibilização e harmonização é perseguida através de princípios e normas liberais - perde a condição de verdadeira sociedade, tornando-se mera justaposição de indivíduos, estes sim o centro das atenções e principal "artefato social e cultural"^ da sociedade liberal. Os comunitários propõem uma alternativa de modelo de sociedade onde a primazia se desloque do enfoque individual para a primazia do bem comum, ou seja, uma sociedade na qual o bem da comunidade seja proeminente.6 Essa crítica comunitária ao modelo liberal está presente no pensamento de Maclntyre quando disserta que "o reconhecimento de uma série de bens (no sistema liberal de avaliação) faz-se acompanhar pelo reconhecimento de uma série de esferas compartimentalizadas, cada qual com seu próprio bem a ser perseguido: político, econômico, familiar, artístico, atlético, científico. Desse modo, é dentro de uma série de grupos distintos que cada indivíduo persegue seu próprio bem, e as preferências que ele manifesta expressam essa variedade de relações sociais. (...) A heterogeneidade é tal que não é possível uma ordenação geral dos bens. Ser educado na cultura de uma ordem social liberal significa, portanto, tornar-se o tipo de pessoa para quem parece normal buscar vários bens, cada um adequado a sua própria esfera, sem um bem supremo que confira unidade geral à vida".7

3. A crítica de Maclntyre ao projeto liberal moderno: a questão da moralidade
No seu livro "After Virtue", Maclntyre se ocupa primordialmente de refletir sobre o tema da moralidade, na filosofia política e jurídica, enfrentando a questão do desacordo moral vigente na sociedade contemporânea. O autor demonstra como o projeto iluminista de justificação racional da moral estava simultaneamente em continuidade e em ruptura com a cultura que o precedeu, enumerando as razões de seu malogro. O fracasso do projeto de justificação racional da moralidade seria decorrente de uma circunstância bastante simples; os protagonistas desse projeto eram herdeiros de uma tradição histórica comum de crenças morais, com base na sua origem cristã, tradição essa que estava deslocada do contexto histórico no qual o esquema moral dominante a partir do século XII mostrava-se coerente. Em textual: " Theyinherit incoherent fragments ofa once coherent scheme of thought and action and, since they did not recogni-

5 6 7
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MACINTYRE, Alasdait. Justiça de Quem? Quai Racionalidade? São Paulo: Loyola, 1991, p. 365. KUKATHAS, Chandran, PETTIT, Philip, ftawls: Uma Teoria da Justiça e seus Críticos, p. 114. MACINTYRE, Alasdair. Justiça de Quem? Qua7 nacionalidade?, p. 362.

Justiça e Racionalidade Prática - Reflexões a Partii da Obra de Alasdair Maclntyre

ze their own peculiar nistorical and cultural situation, they could not recognize the impossible and quixotic character of their self-appointed task".s Para Maclntyre, a experiência moral contemporânea, que foi gerada no contexto da filosofia política liberal, baseada no projeto racional iluminista, apresenta um caráter paradoxal de radical incoerência: "Seeking to protect the autonomy that we have learned to príze, we aspire ourselves not to be manipulated by others; seeking to incarnate our own principies and stand-point in the world ofpractice, we find no way open to us to do só except by directing towards others those very manipulative modes of relationship wich each of us aspires to resist in our own case. TheJncoherencQ of our_aítitudes and our experience aríses from the incoherent conceptual scheme wícJi we have inherited".§

No cerne de seu livro, Maclntyre sustenta a tese de que o fracasso do projeto iluminista teria resultado diretamente da rejeição da tradição aristotélica.10 Para dar conta dessa empreitada, o autor percorre a linha evolutiva da idéia de virtude na civilização helênica, chegando ao período medieval, quando a doutrina de Aristóteles foi plenamente assimilada na filosofia tomista, e inserida no novo contexto histórico. Feita essa abordagem histórica, lança-se Maclntyre na tarefa de elaborar uma teoria da virtude, tomando como suporte uma concepção narrativa do agir humano, onde as noções de história e tradição assumem um papel fundamental. A parte final desse livro apresenta, como diz Marcelo Perine, "uma impressionante fenomenologia da modernidade e do seu maior artefato filosófico, a saber, o indivíduo". Evidencia que "o processo de perda da concepção da vida humana como unidade narrativa e da noção de prática dotada de bens internos, que levou à perda da noção de virtude, pode ser detectado já a partir do séc. XVII, quando começou-se a pensar o homem como egoísta por natureza, e a moral passou a ser entendida como resposta ou solução aos problemas postos pelo egoísmo humano".11 Maclntyre insiste na proposição de que

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Tradução livre: " Eles herdaram fragmentos esparsos de um sistema harmônico de pensamento e ação e, uma vez que eles não reconhecem sua própria situação histórica e cultural peculiar, não conseguem reconhecer o caráter impossível e quixotesco da tarefa a que se propõem". MACINTYRE, Alasdair. After Virtue. 2* ed. Notre Dame, University of Notre Dame Press, 1984, p. 55. Tradução livre: "Buscando proteger a autonomia que nós tanto prezamos, aspiramos não ser submetidos à manipulação de terceiros; buscando encarnar nossos próprios princípios e pontos de vista no mundo da prática, não se abre outro caminho a não ser o de seguirmos em direção aos outros a cujas relações manipuladoras cada um de nós pretende resistir. A incoerência de nossas atitudes e experiências emerge do esquema conceituai incoerente que herdamos". MACINTYRE, Alasdair. After Virtue. p. 68. Em linhas gerais, Aristóteles propunha como verdadeiro caminho para o alcance do bem a prática das virtudes, sendo que esse bem só poderia ser alcançado plenamente no interior da Polis, visto que o homern, animal político (politikon zoon), só atinge a realização de sua natureza na comunidade. PERINE, Marcelo. Virtude, Justiça, Racionalidade. A propósito de Alasdair Maclntyre. Síntese Nova Fase. Belo Horizonte. nQ 58, 1992. p. 400.
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as únicas restrições são aquelas que a prudente racionalidade poderia impor. Mas esse debate sobre a Justiça e os princípios de Racionalidade Prática. cada qual com seu próprio interesse. Já em Rawls. Alasdair. Vejamos: "It is in any case clear that for both Nozick and Rawls a society is composed of individuais.quando então enfatiza sua crítica ao individualismo que está por trás das teorias de ambos os pensadores. uma sociedade é composta de indivíduos. na ótica de Maclntyre. no campo teórico. analisando as posições de dois baluartes do liberalismo contemporâneo acerca da temática da Justiça . each with his or her interest. MACINTYRE.John Ralws e Robert Nozick . e a identificação dos interesses individuais tem primazia. A questão da Justiça e da Racionalidade Prática nos estudos de Alasdair Maclntyre O primeiro capítulo do livro cujo título em português é "Justiça de quem? Qual racionalidade?" inicia-se com a constatação de que nas sociedades contemporâneas coexiste uma variedade de concepções de Justiça. mereceu de Maclntyre uma atenção específica na sua obra publicada em 1987 com o título original de "Whose Justice? Wich Rationality?^ É sobre as idéias tratadas nesse livro que passaremos a discorrer no próximo item. seria conseqüência. o equívoco em que incorrem esses dois pensadores. p.então . tomados em primeiro plano. cada uma tentando oferecer respostas alternativas consideradas racionais para questões instigantes da vida em comunidade. Marcelo Pimenta Marques. who then have to come together and formulate common rules oflife. and independent of. abordado apenas superficialmente em "A/ter Virtue". bem como a inconclusividade do debate atual sobre a justiça. No pensamento de Nozick. Os indivíduos são. and the Identification of individual interests is prior to. After Viztue.12 Fica patente que. the construction of any moral or social bonds Jbetween them. 140 . e é independente da construção de algum vinculo entre eles".Cleber Francisco Alves a modernidade é incapaz de chegar a um consenso sobre o tema da virtude. existe a restrição adicional negativa de (observarem) um elenco de direitos básicos. Nozick e Rawls. 250. da rejeição das noções de virtude e tradição. e está editado pela Loyola com o título: "Justiça de Quem? Qual Racionalidade?". e desenvolve seus argumentos no capítulo 17. 4.precisam juntos formular regras de vida comum. In Rawls case the only constraints are those that a prudent rationality would impose. 13 Tal livro foi traduzido para o vernáculo pelo Prof. que . In Nozick's case there is the additional negative constraint o/a set of basicrights. e a sociedade em segundo. Individuais are thus in both accounts orimarv and society secondarv. Apenas como exemplo podem ser 12 Tradução livre: "Fica patente que para ambos. em ambos.

Justiça e Racionalidade Prática . enquanto outras apelam para os direitos humanos inalienáveis. mesmo se aqueles que pagam os custos de tal compensação não tenham tomado parte na injustiça? Por questão de Justiça permite-se ou exige-se a imposição de pena de morte e. o Liberalismo Político do século XX). que nos habilitem a decidir sobre esse impasse crucial a respeito da visão mais adequada dos princípios de Justiça. Enumera. Maclntyre demonstra que. assim como naqueles que são objeto de conflito entre nós e os outros. mas também os indivíduos per se. mas uma visão construída a partir de um amálgama de fragmentos sociais e culturais herdados tanto de diferentes tradições das quais nossa cultura originalmente proveio (puritana. aparecendo outra esfera de conflito e diferença no contexto das sociedades contemporâneas. como um todo. Eis sua reflexão sobre esse ponto: "Ser racional na prática. católica. Justiça tíe Quem? QuaJ Racionalidade? São Paulo: Loyola. p. Aqui também. Diante desse quadro. como exemplo. judaica). para que espécies de ofensas? É justo permitir o aborto legal? Quando é justo entrar em guerra?. etc. as concepções de Justiça que se concentram na consideração do mérito. A tese de Maclntyre é de que o fato de existir em nossa sociedade uma enorme diversidade de julgamentos sobre esses tipos particulares de assuntos revela a existência de um conjunto conflitante de concepções de Justiça. social e política?"14 Esse questionamento suscita uma outra problemática que é tratada simultaneamente com esse tema da Justiça. na obra ora sob comento: a necessidade do estabelecimento de padrões de racionalidade prática. como na questão da moralidade tratada em "A/ter Virtue". também nesse campo. o Liberalismo econômico do século XIX. grassa um conflito radical que atinge não só a sociedade. 1991. como de diferentes estágios e aspectos do desenvolvimento da modernidade (o Iluminismo francês. um grupo afirma. 12. o Iluminismo escocês. freqüentemente. de vários modos. Mais uma vez. é agir baseado em cálcu- 14 MACINTYRE. 141 . outras para alguma noção de contrato social. surpreendentemente em desacordo umas com as outras.Reflexões a Partir da Obra de Alasdair Maclntyre enumeradas as seguintes indagações: a noção de Justiça admite elevadas desigualdades de renda e propriedade? Exige-se ação compensatória para remediar desigualdades resultantes de injustiça passada. Alasdair. grassa enorme multiplicidade de pontos de vista. Maclntyre percebe que "muitos de nós são levados através da educação a adotar não um modo coerente de pensar e julgar. Portanto. nos desacordos que emergem dentro de nós mesmos. em caso positivo. somos forçados a enfrentar a seguinte questão: como devemos escolher entre visões opostas e incompatíveis de justiça que porfiam por nossa adesão moral. e ainda outras para alguma padrão de utilidade social.

16 A outra alternativa . enquanto sua concepção de racionalidade ideal consistindo em princípios aos quais um ser socialmente desencarnado chegaria. é agir sob restrições tais que qualquer pessoa racional. traz ínsita uma perspectiva de contradição. o resultado parece não ser o desejável. é agir de maneira a alcançar o último e verdadeiro bem dos seres humanos". ou certos tipos de associações políticas. aqueles que pretendem insistir numa tentativa de compreender tal problemática de maneira sistemática recorrem a duas instâncias diferentes para encontrar as respostas desejadas: primeiramente as pesquisas e discussões da filosofia acadêmica moderna. para cuja justificação ela será mais tarde usada. e. de outro lado. necessariamente implica". p. capaz de uma imparcialidade que não concede nenhum privilégio particular aos interesses próprios. apesar de a maioria dos cidadãos estar completamente alheia a tal preocupação. concordaria que devem ser impostos. sentencia Maclntyre: "Habitamos.comporta uma distorção que passa a embasar-se num fideísmo que atinge não somente certos grupos religiosos mas também algumas facções seculares que ignoram qualquer relevância dos argumentos racionais.Cleber R-ancisco Alves los de custos e benefícios para si mesmo. o do individualismo liberal. secretamente pressupõe um tipo partidário particular de explicação da justiça. 142 . Ser racional na prática. Justiça de quem? Qual racionalidade?. 14. Ser racional na prática. de todos os cursos de ações possíveis e suas conseqüências. teórica ou prática.15 Maclntyre constata que. que propõe uma atitude de neutralidade e imparcialidade para avaliar essas visões conflitantes de justiça e racionalidade prática. na verdade. diz um terceiro grupo.de buscar argumentos para dar conta dessa problemática da diversidade de concepções de Justiça e Racionalidade Prática nas crenças incorporadas na vida de determinados grupos sociais . 16 MACINTYRE. p. 12. e depositam sua confiança em pessoas ao invés de fazê-lo nos pressupostos objetivos de racionalidade. E. portanto. no sentido de encontrar soluções verdadeiras para sair desses impasses. tais como igrejas ou seitas. ilegitimamente ignora o caráter inevitavelmente limitado pelo contexto histórico e social que qualquer conjunto substantivo de princípios de racionalidade. de modo que sua aparente neutralidade não é mais que uma aparência. A via da filosofia acadêmica. ibidem. os recursos fornecidos por comunidades mais ou menos organizadas em torno de crenças comuns. explicitada por Maclntyre da seguinte forma: "Sua exigência de ausência de interesse. afirma grupo contrário. Tbdavia. de conjuntos de convicções 15 Idem. mesmo por esses caminhos. Alasdair. uma cultura na qual a inabilidade de se chegar a conclusões comuns e racionalmente justificáveis sobre a natureza da justiça e da racionalidade prática coexiste com a utilização. por parte de grupos sociais em oposição.

Assim. acima abordada. 143 . E. tendo em conta aquelas perspectivas que deliberadamente foram excluídas de nossos horizontes dentro dos paradigmas do Iluminismo. teriam fracassado na tentativa de chegar a um consenso sobre que princípios deveriam ser considerados irrecusáveis por todas as pessoas racionais. Eis sua versão da origem desse quadro: "Era uma aspiração central do Imuminismo .17 Para escapar esse dilema. portanto. tratadas no domínio público.) As questões disputadas concernentes à justiça e à racionalidade prática são. pudessem ser julgados justos ou injustos. dentro de nossa cultura. "uma concepção de pesquisa racional incorporada numa tradição..18 Todavia. É daí principalmente que decorre a inabilidade. o legado do Iluminismo é a provisão de um ideal de justificação racional que se mostrou impossível atingir. a idéia de que a justificação racional era justamente aquilo que os pensadores do Iluminismo tinham dito que era passou a ser aceita.Reflexões a Partir da Obra de Alasdair Maclntyre rivais e conflitantes não embasadas na justificação racional. constata-se que os pensadores do Iluminismo. 17. esclarecidos ou não esclarecidos. ou seja. esperava-se. Outra causa desse estado de relativismo e ceticismo que grassa no campo da filosofia política e jurídica contemporânea.Justiça e Racionalidade Prática . racionais ou irracionais.(. uma concepção de acordo com a qual os próprios padrões de 17 MACINTYRE. exatamente na mesma linha de argumentação já defendida na sua obra primeira. Esse é o pensamento de Maclntyre: "Consequentemente. portanto. ainda. notadamente no que se refere à falta de uma unidade de concepção dos princípios da Justiça e racionalidade prática que devem nortear o convívio social. também seria derivada desse projeto da modernidade.prover o debate público de padrões e métodos de justificação racional através dos quais cursos de ação alternativos. ibidem. de unir convicção e justificação racional". Alasdair. p. Justiça de quem? Qual racionalidade?. a razão tomaria o lugar da autoridade e da tradição. não como um assunto de pesquisa racional. 16. A justificação racional deveria lançar mão de princípios inegáveis a qualquer pessoa racional e. p. e bem assim os seus sucessores. mas como exigindo a afirmação e a contra-afirmação de conjuntos de premissas alternativas e imcompatíveis". que os pensadores do Iluminismo consideravam mera roupagem acidental da razão em lugares e épocas particulares. 18 Idem. aquilo para o que o Iluminismo nos cegou. independentes de todas as particularidades sociais e culturais. em cada esfera da vida. e agora precisamos recuperar. Maclntyre retoma suas críticas ao projeto da modernidade.aspiração cuja formulação foi por si só uma grande realização . pelo menos pela grande maioria das pessoas cultas. nas ordens sociais e culturais do pós-iluminismo"..

O conceito de tradição é expresso em "A/ter Virtue". uma variedade de encargos. Alasdair. Justiça de Quem? Qual Racionalidade?. se por um lado a modernidade se debate entre uma extensa gama de argumentos opostos de racionalidade prática e de princípios de justiça. 221). da nação. mas esteja aberta às adaptações que se fizerem necessárias para dar conta de responder às perguntas mais fundamentais que desafiam o homem na sociedade contemporânea. expectativas de direitos e obrigações que constituem os dados prévios de nossas vidas. da tribo. p. e os debates internos. is to deíorm mypresent relationships. Mais uma vez. de maneira a viabilizar sua solução. se percebe a crítica ao individualismo característico da modernidade. resultaria numa igual impossibilidade de resolver a discordância radical entre as concepções rivais. através dos quais o significado e a razão dos acordos fundamentais são expressos e através de cujo progresso uma tradição é constituída" {MACINTYRE. sempre sem perder de vista o contexto histórico e cultural da comunidade onde essas tradições floresceram. diferentemente do que ocorre no projeto iluminista. que conferem a nossa vida sua particularidade própria no âmbito moral: "J am born with a past. dentro da história dessa mesma tradição". 20 Aquí convém assinalar. na qual certos acordos fundamentais são definidos e redefinidos em termos de dois tipos de conflito: o conflito com críticos e inimigos externos à tradição que rejeitam todos ou pelo menos partes essenciais dos acordos fundamentais.ejam exigidos pelo modo como transcendem as limitações e fornecem soluções para as insuficiências de seus predecessores. da cidade. Alasdair Maclntyre empreende uma pesquisa que percorre mais ou menos a mesma linha evolutiva já adotada na sua obra precedente. desenvolvida ao longo do tempo. mas transformá-lo. ainda que de forma sucinta. da família. and to t/y to cut myself off from that past. tornando-se substrato indissociável dessa mesma cultura.20 Diante dessa constatação de que precisamos fundar os princípios da Justiça e da Racionalidade Prática sobre o alicerce seguro de uma pesquisa racional desenvolvida e aperfeiçoada no seio de uma tradição.Cleber Francisco Alves justificação racional avultem e façam parte de uma história na qual eles s. também a constatação da existência de uma enorme diversidade de tradições. p. a tendência que se verifica no interior das tradições antagônicas de pesquisa racional não é meramente a de abolir o conflito e as diversidades. 18. que não ignore a dimensão histórica e o contexto comunitário inerente à natureza humana. O autor responde afirmando que. cada uma com seu modo específico de justificação racional. quando Maclntyre ^afirma que nós herdamos do passado. interpretativos. Justiça de quem? Qual racionalidade?. ih the individualist mode. The possession ofan histórica! identity and the possession of a social identity coincide" (p. 23). algumas noções do que Alasdair Maclntyre concebe acerca da tradição: "Uma tradição é uma argumentação.is Uma objeção que poderia ser levantada pelos adeptos do Iluminismo à tese formulada por Maclntyre seria a constatação de que. 144 . nosso ponto de partida moral. heranças. abordando a forma pela qual o conceito de pesquisa racional foi implementado por quatro diferentes tradições que se sucederam na história da cultura ocidental. Alasdair. 19 MACINTYRE.

na sua própria. Maclntyre lança uma perspectiva que será retomada na conclusão do livro. era: "Desenvolver o trabalho de construção dialética sistematicamente.Justiça e Racionalidade Prática . culmina descrevendo a visão de Aristóteles sobre a Justiça e sobre a Racionalidade Prática. na tarefa explicativa da gênese da ação humana. que entendiam violada no obra toxnista. nessa jornada. dedica dois capítulos para analisar o pensamento de Santo Tomás de Aquino. Maclntyre constata que esse grande teólogo do medievo efetivamente realizou um trabalho de perfeita integração do pensamento que lhe precedera. omissões. Na obra do doutor angélico. Alasdair. O que o projeto de Santo Tomás pretendia. de modo a integrar toda a história anterior da pesquisa. e que bem sintetiza seu pensamento sobre essa problemática dos conflitos entre racionalidades diferentes. Justiça de Quem? Qual Racionalidade?. 159. Eis a citação: "Em termos de racionalidade.Reflexões a Partir da Obra de Alasdait Maclntyre O esforço desenvolvido parte do estudo do imaginário grego. incorporando a singular descoberta agostiniana da noção de vontade. ihidem. Em seguida. Sua contraposição de autoridades foi concebida para mostrar o que. de modo que não seja mais vulnerável às objeções e argumentos específicos". p. de forma a transcender tais limitações. asseverando que seu pensamento oferece um esquema no qual as realizações e as limitações de seus predecessores puderam ser identificadas e avaliadas. à medida que a conhecia. tendo por suporte a obra literária de Homero que forneceu toda a base sobre a qual foi edificada a cultura helênica de que somos tributários. elaborar formulações cada vez mais compreensivas e adequadas de suas posições. só há progresso a partir de um determinando ponto de vista. através do procedimento dialético de propor objeções que identificam incoerências. os quais rejeitaram grande parte de sua herança intelectual em favor da "coerência sistemática".22 O próximo passo. resistia ao teste dialético de todos os pontos de vista até então desenvolvidos. em cada uma delas. segundo Maclntyre. através também do procedimento de encontrar os mais fortes argumentos disponíveis para sustentar essas objeções. e. falhas explicativas e outros tipos de falha e limitação em elaborações anteriores. em horizonte teológico. 22 Idem. ainda. E ele só é alcançado quando os partidários desse ponto de vista conseguem. num grau significativo. de tentar reelaborar a posição. Passando pela doutrina de Platão. as concepções de Aristóteles. 158. é dedicado à apreciação de como essa tradição clássica foi assumida e enriquecida pelo pensamento cristão. com o objetivo de identificar as limita- 21 MACINTYRE. Tal pretensão pareceu absurda a inúmeros pensadores que lhe foram contemporâneos. elaborando uma concepção de Justiça e de racionalidade prática que unificou. p. Cícero e Santo Agostinho. 145 .21 Comentando o acerto da doutrina aristotélica.

através do recurso a normas genuinamente universais e independentes da tradição. não foi e não é apenas nem principalmente um projeto de filósofos. tomou-se. Ele foi e é o projeto da sociedade liberal moderna e individualista. no qual os indivíduos possam emancipar-se da contingência e da particularidade de tradição. não podia ser impugnado nem mesmo pelo mais rigoroso dos testes". As regras de justiça distributiva consistiriam tanto em fixar limites ao processo de negociação . em cada um deles. Alasdair. dentro dessa perspectiva de investigar os diversos enfoques oferecidos para estabelecimento de critérios de justiça e racionalidade prática. era um grave erro a ser remediado o mais rápido possível. Como diz Marcelo Perine.23 A terceira das grandes tradições abordada por Maclntyre. Alasdair. Marcelo. Justiça. 25 PERINE. p. Justiça de quem? Qual racionalidade?.Cleber Francisco Alves ções de cada ponto de vista e o que. pelo menos aos olhos de alguns liberais. do ponto de vista do liberalismo nascente.quanto em proteger os indivíduos para que tenham liberdade de expressar e. e as razões convincentes que temos para acreditar que a esperança de universalidade independente da tradição é uma ilusão derivam da história desse projeto. no capítulo 17. que lhe são particularmente familiares em razão de sua origem cultural (daí certamente o motivo da escolha desse enfoque!). Racionalidade. Justiça de Ouem? Qual Racionalidade?. Síntese Nova Fase. era exatamente o de "libertar os homens da tirania da tradição ". na 58. deixando patente que suas fontes estavam vinculadas ao pensamento teológico calvinista. foi transformado em tradição cujas continuidades são parcialmente definidas pela interminabilidade do debate de tais princípios. 1992. o liberalismo. Maclntyre considera o Liberalismo como uma quarta tradição a ser analisada. Pois no curso dessa história. respeitados esses limites. 406.24 Ainda que subsista controvérsia. mesmo reconhecendo a aparente contradição decorrente do fato de que o projeto da modernidade. como premissas para o raciocínio prático". foi a tradição do Iluminismo escocês. Finalmente. 361). e da tradição aristotélica. Essa interminabilidade que. é inegável que o Liberalismo tem uma concepção do bem e do que antigamente se chamava virtude. por exemplo. que por sua vez guardava marcante influência da doutrina agostiniana. 24 "O projeto de fundar um tipo de ordem social. implementar suas preferências. portanto. 225. A propósito de Alasdair Maclntyre. O autor percorre os primórdios dessa tradição. em que se insere o liberalismo. como formulações de uma razão para a ação e. que começou corno um apelo a supostos princípios de racionalidade compartilhada. as regras de justiça teriam uma função definida. um tipo de virtude. E a necessidade de uma concep- 23 MACINTYRE. no esquema liberal. Tal é o que propõe Maclntyre: "Naturalmente ocorre freqüentemente que as preferências de indivíduos e de grupos de indivíduos diferentes entram em conflito. RE. p. p.assegurando o acesso a ele de todos quantos de outro modo ficariam em desvantagem . "a sua novidade está em que o bem passou a ser concebido exclusivamente em termos de preferências pessoais expressas em primeira pessoa. Virtude.25 Assim. 146 . (MACIHTY-. contra o eme se considerava tirania da tradição.

pp. determinar tal aceitação. às vezes. Maclntyre ingressa na problemática relativa à possibilidade de encontrar critérios pelos quais uma tradição possa reivindicar superioridade sobre as outras. ser necessária para alguém satisfazer suas preferências efetivamente. Duas são as correntes que acabam por concluir na impossibilidade da fixação desses critérios: a primeira. Dramatic Narrativo and the Philosophy of Science". "perspectivista". realmente. 1977). então. 69. e a eficácia e a racionalidade podem. A prioridade da racionalidade é exigida de modo que as regras da justiça possam ser justificadas através do recurso à racionalidade. Maclntyre constata. A pri- 26 MACINTYRE. Mas para que alguém seja racional não é necessário que apresente uma disposição de ocupar-se com a justiça como tal". através dos quais a cooperação na implementação das preferências possa ser alcançada. ainda que reconheça que esboços ou partes dessa racionalidade possam ser encontrados em vários autores. num importante trabalho do qual nos servimos para alinhavar as idéias apresentadas neste texto: "A resposta à questão da superioridade de pesquisa é sugerida por Maclntyre pela capacidade que uma tradição tem de superar o que ele chama de "crise epistemológica" (Ver: "Epistemological Crisis. numa teoria expressa nas suas próprias práticas de pesquisa e por elas pressupostas. Justiça de Quem? Qual Racionalidade?. dentre os quais cita expressamente Newman. nessa cultura liberal.Justiça e Racionalidade Prática . mesmo que nunca tenha sido desenvolvida. 367-8. Esse é o objeto do capítulo 18. que o que deve fazer não é buscar bases para uma resposta coerente a tais objeções no bojo específico de alguma das tradições que desenvolveu nos seus estudos. sobre "a racionalidade das tradições". uma pessoa pode ser inteiramente racional sem ser justa. questiona a possibilidade de se reivindicar a verdade a partir de qualquer das tradições. ou mesmo noutra que tenha sido desconsiderada na sua obra. 147 . à medida do possível.26 Após discorrer sobre essa nova "tradição" liberal. A aceitação das normas da justiça pode.Reflexões a Partir da Obra de Alasdair Maclntyie cão de justiça implica. portanto. denominada "relativista". caracterizada pela dissolução de certezas historicamente fundadas. 4. segundo os padrões dessa cultura. e a estruturação de novos tipos de teoria que respondam a três exigências. Alasdair. enquanto que a outra. Como diz Marcelo Perini. nada mais nada menos que a necessidade de um conjunto de princípios reguladores. e sobre o tratamento que os temas da Justiça e da Racionalidade Prática recebem nesse contexto teórico. e as decisões tomadas quanto a que tipos de preferências têm prioridade sobre outros. que exige a invenção ou descoberta de novos conceitos. A solução deve ser buscar uma concepção de racionalidade no contraste dessas mesmas tradições. funda-se na negação de que o debate racional entre tradições adversárias seja possível. The Monist. Observe-se que.

Na realidade.. como o relativismo. precisamente naqueles aspectos que. Vktude. atores que encarnam uma série sucessiva de papéis temporários.Cleber Francisco Alves meira é que o novo esquema conceituai forneça 'uma solução aos problemas que se revelaram intratáveis. 394-395. descompromissados. pois "estar fora de todas as tradições significa ser estranho à pesquisa e estar num estado de destituição moral e intelectual. independente de quão estranho lhes possa ser. pois se estivesse inserido no contexto de uma determinada tradição não teria isenção para tanto. é uma doutrina que só é possível. para aqueles que se consideram de fora.. lhe falta a compreensão."28 No penúltimo capítulo do livro em comento. numa condição a partir da qual é impossível formular a objeção relativista". ou ambos. a terceira. p. cultural e intelectual que sejam inacessíveis a ela e a seus tradutores". 29 MACINTYRE. A propósito de Alasdair Maclntyre. Maclntyre trata do problema da "tradutibilidade" de uma tradição diante de outra que lhe venha contrastar. no que se refere às objeções relativista e perspectivista. ora tal hipótese é absurda.27 Enfim. antes que ela adquirisse esses novos recursos'. mas uma multiplicidade de compromissos antagônicos entre os quais só é possível o conflito. Racionalidade. 148 . Justiça de quem? Qual racionalidade?. Exatamente nessa dificuldade de tradução é que esbarra a tradição liberal da modernidade. racional ou não. 28 MaclNTYRE. nisso. que supõe ser capaz de compreender tudo sobre a cultura e a história humanas. O perspectivismo. estritamente de cunho lingüístico. 414. Justiça de Quem? Qual Racionalidade?. ou melhor. 1992. p. em tais tradições. mais uma vez. somente uma pessoa alheia a qualquer das tradições poderia coerentemente formular tal objeção. em cujos termos a tradição de pesquisa tinha se definido até então'". Justiça. 27 PERINE. a modernidade recusa o pensamento de que "possa haver modos tradicionais de vida social. anteriormente. como poderia parecer. mas alcança todo o contexto cultural de que a língua é mero veículo. que ele forneça 'uma explicação justamente daquilo que tornava a tradição estéril ou incoerente. a segunda. na 58. ou seja. Sint&se • Nova Fase. 408. O problema não é. que essas duas tarefas sejam realizadas 'de modo a apresentar a continuidade fundamental das novas estruturas conceituais e teóricas com relação às crenças comuns. A falácia do perspectivismo fica ressaltada em conseqüência desses mesmos argumentos que minaram a objeção realista: "A multiplicidade de tradições não permite uma multiplicidade de perspectivas entre as quais poderia mover-se.29 Aqui estaria o "ponto-cego" do Liberalismo. Alasdair. de modo sistemático e coerente'. em recusar admitir que dentro de certas áreas outras tradições possam ser racionalmente superiores a ele. pp. Marcelo. Alasdair. o autor conclui que elas caem por terra exatamente por conterem em seu interior contradições que não passam pelo crivo de um raciocínio lógico elementar: quanto ao relativismo.

humiana. assim como as frustrações e fracassos da tradição tomista nos termos oferecidos por tradições rivais de pesquisa pode. e.Cleber Francisco Alves guas pelas quais são verbalizadas. mesmo do ponto de vista dos adeptos dessas tradições. epistemologicamente falando. p. através do qual nos afiliamos a uma tradição particular de pesquisa. Alasdair. Daí o título escolhido por Maclntyre para sua obra: "Justiça de quem? Qual racionalidade?". ibidem. correção e defesa. proporcionando-lhe "uma consciência do caráter específico da sua própria incoerência e. Justiça de Quem? Qual Racionalidade? São Paulo. na medida em que não oferece uma perspectiva definitiva de que critérios devem ser considerados verdadeiros. 431).35 33 Ideai. p. destacando que uma das causas dessa crise era exatamente a insistência de se desvincular de qualquer das tradições vivenciadas pela humanidade até o presente. p. a partir do ponto de vista construído por Aristóteles. liberal pós-iluminista. tomista. 150 .34 Assim também ocorrerá com a questão da justiça e da racionalidade prática. esse indivíduo poderá "transformar suas próprias incoerências iniciais em vantagens argumentativas. Loyola. Todavia. 1991. Justiça cíe quem? Qual racionalidade?. fica patente que a pretensão de sua obra estava limitada a apontar questionamentos acerca da crise epistemológica por que passa a tradição liberal moderna.33 Aparentemente as conclusões de Maclntyre parecem frustrantes. e na direção apontada. que a tarefa de caracterizar e explicar as realizações e sucessos. Finalmente. primeiro por Aristóteles e depois por Santo Tomás. ou qualquer outra". o que o leva a reconhecer que " em primeiro lugar. exigindo de cada tradição que ela lhe fornceça uma visão de como essas incoerências podem ser melhor caracterizadas. têm toda razão. 430. moral e político de classificação e explicação". Nas palavras do autor: "Nós. 34 MACINTYRE. poderá fazer com que uma tradição de pesquisa lhe forneça um tipo de autoconhecimento que ele não possuía. que só poderão ser adequadamente respondidas no contexto de uma determinada tradição de pesquisa. ainda. Maclntyre não se priva de explicitar suas conclusões pessoais decorrentes da investigação das quatro tradições abordadas em sua pesquisa. para o estabelecimento de princípios de justiça e racionalidade prática. em segundo lugar. só podemos começar a pesquisar a partir da perspectiva oferecida por nossa relação com o passado social e intelectual específico. ser uma tarefa mais difícil do que as vezes se supõe" (MACINTYRE. como uma história aristotélica. 35 Ainda que tenha considerado que a resposta a essas perguntas fundamentais dependerá diretamente do padrão de argumentação desenvolvido no interior de cada uma das tradições rivais que venham a se ocupar dessa problemática. 426. explicando o caráter particular dessa incoerência através de seu esquema metafísico. quem quer que sejamos. aqueles que desenvolveram suas reflexões através dos tópicos da justiça e da racionalidade pratica. pelo menos até agora. Alasdair. agostiniana. admitindo que a tradição aristotélica teria recursos para sua própria expansão. continuando a história dessa pesquisa até o presente. para sustentar que a racionalidade de sua tradição foi confirmada nos seus encontros com outras tradições. explicadas e superadas".

Zahar Editores. PEGORARO. 1994. Lisboa/Coimbra: Gradiva. Da Dogmatização à Desdogmatização da Ciência Moderna. Liberalismo e Sociedade Moderna. maio-agosto. FENATI. 46-71. SANTOS. Chandran. Olinto A. 1995. 2a ed. pp. PERINE. Notre Dame: University of Notre Dame Press. 1995.Justiça e Racionalidade Prática .Nova Fase. nu 58 (1992). 1984. na 53 (1991). Richard. Ética é Justiça. Alasdair. São Paulo: IEA/USP Vol. MACINTYRE. Bibliografia BACHELARD. 1991. Editora Unesp. Philip. Bachelard e a Epistemologia Clássica. Edições Afrontamento. São Paulo. PETTIT. São Paulo. Boaventura de Sousa. Síntese . Estudos Avançados. Justiça cie quem? Qual Racionalidade? São Paulo: Loyola.Reflexões a Partir da Obra de Alasdair Maclntyre 6. 2a ed. Síntese .Nova Fase. 1989. Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna. na 2. A/ter Virtue. 2. KUKATHAS. Racionalidade. 1988. Boaventura de Sousa. MACINTYRE. SANTOS. Marcelo. Gaston. In: Introdução a uma ciência pós-moderna. Alasdair. BELLAMY. Virtude. Ricardo. Justiça. A propósito de Alasdair Maclntyre. Petrópolis: Vozes. 151 . Rawls: Uma Teoria da Justiça e seus Críticos. Epistemologia (textos escolhidos).

153 .. Aos dois. Caxambu. Enfrentando frustrações reais. p. controlam o imaginário e terminam por deformar o pensamento. "pela pressão da necessidade externa (. volume 23 (Conferências Introdutórias sobre Psicanálise . que há uma relação dialética entre realidade interior e realidade exterior. o meu carinhoso agradecimento."Invisibilidade". sempre acharam difícil renunciar ao prazer. Pequena Coleção das Obras de Freud. gera fantasias que escapam do controle da consciência e deformam o pensamento. o indivíduo.) é obrigado a renunciar. Trata-se de um mecanismo de defesa que busca tornar inacessíveis experiências internas de frustração. sejam materiais. Cf.Teoria Geral das Neuroses II). Sigmund Freud. na atividade da fantasia.. 40. reprimem desejos. o indivíduo busca formas de compensação ilusórias e se protege ocultando de si mesmo uma parte dessa realidade externa. Frustrações. Estado de Direito e Política de Reconhecimento* Gisele Cittadino l. Privações e Interdições Sociais Desde Freud parece não restar dúvidas de que a natureza humana está condenada a tentar satisfazer seus desejos no âmbito de uma realidade que lhes impõe limites. A imposição do desprazer. não podem deixar-se levar a fazê-lo sem alguma forma de compensação (. O sofrimento que resulta da opressão da realidade exterior é imaginariamente anulado através de fantasias que permitem ao sujeito uma compensação por suas renúncias. Rio de Janeiro: Imago. contudo. de outra parte.1 O que a psicanálise assim nos revela é que não há como manter qualquer idéia de civilização sem supor instâncias externas de dominação que. É importante esclarecer. Ao longo da elaboração desse trabalho.. afetivas.. Nas palavras de Freud.). contei com textos e opiniões de Mareia Nina Bernardes e Adrian Sgarbi.. outubro de 2003. 1976.). temporária ou permanentemente. portanto. a uma variedade de objetos e de fins aos quais está voltada sua busca de prazer (. Desse modo. atuando na estrutura psíquica dos sujeitos. Se as interdições à gratificação de Trabalho apresentado no XXVII Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).. institucionais ou ideológicas. Os homens. os seres humanos continuam a gozar da sensação de serem livres da compulsão externa".

pois "todo psiquismo é desde sempre social". As diversas formas de identificação alienantes. Cf. é preciso "distinguir entre privações que afetam a todos e privações que não afetam a todos. 1984. Os Pensadores... 1978. Idem.5 existem privações que são decorrência de uma realidade marcada pela hierarquia e pela desigualdade e aqui falamos das exigências reais impostas em benefício de grupos minoritários. 88.possam atingir a todos.2 Ao mesmo tempo. p. São Paulo: Brasiliense. a realidade interior recolhe nesse mesmo mundo social os elementos necessários para produzir e reproduzir a falsa consciência. sem dúvida. Para Freud. instituições e ordens.instituições. São Paulo: Abril Cultural. 1987. abandonar a linguagem pública através da qual as privações podem ser discutidas. a respeito. Jürgen Habermas. valores etc. A Razão Cativa. sejam verticais. Habermas6 demonstra o funcionamento de uma estratégia psíquica que exclui da comunicação pública todas as interpretações associadas ao sentimento de insatisfação em relação a uma realidade hierárquica e desigual. mas apenas a grupos. capítulo 18.4 Assim. Cf. que . a realidade exterior não pode ser tomada como uma mera abstração. Afinal. se a realidade interior é caracterizada por uma estrutura psíquica que protege a si mesma das percepções associadas ao desprazer. Neste sentido.Gisele Cittadino desejos impostas pela sociedade causam frustrações que viabilizam as fantasias. ela é caracterizada por "regulamentos.3 portanto. baseadas no pressuposto de uma "universalidade do psiquismo". 154 . Jurandir Freire Costa. Ao interpretar Freud.. O FYituro de uma Ilusão. sejam horizontais. na identificação vertical com a figura do líder ou com tudo aquilo que pode nele ser representado . Voltar-se para um universo interior.o sujeito está impedido de criticar a autoridade se ela representa toda a perfeição que ele julga encontrar em si próprio. visam não apenas a efetuar uma certa distribuição da riqueza. Sigmund Freud. representa. classes ou mesmo indivíduos isolados" . Como bem explica Jurandir Freire Costa. 2a ed. . ainda que as frustrações como resultado de impulsos reprimidos pelas exigências da civilização . privado. Falar de frustrações que atingem a todos não significa defender qualquer compromisso com a crença em uma certa universalidade das estruturas psíquicas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara.. 91. são as diferenças reais entre os sujeitos que não são percebidas porque encobertas pela ilusão do "tornar-se semelhante". a psicanálise não pode ser vista como uma lógica ou uma ontologia do inconsciente. Ver. 1987. a deformação da realidade exterior e a construção de um imaginário interno são faces de uma mesma 2 3 4 5 6 Ver. Sérgio Paulo Rouanet. 129. Pdo de Janeiro: Graal. Conhecimento e Interesse. p. a respeito. A psicanálise é apenas uma teoria construída com o objetivo de analisar a "vida psicológica de sujeitos históricos". revelam essa dialética interioridade/exterioridade e mostram como há um compromisso entre desejos recalcados e interdições sociais. Violência e Psicanálise. na identificação horizontal com os demais indivíduos. mas também a manter essa distribuição". p.

10 7 Ver.) que provoca a fantasia individual. 9 Cf. por outro lado. então. viabiliza.9 Esses controles adicionais. op. ao retirar da memória vivências indesejáveis.. mas também a internalização de normas cuja função é legitimar a exigência desses sacrifícios adicionais. Isso não significa. A Sagrada Família. Uma Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud. em Habermas. pp. 8 Ver. como vimos. em todos. Eros e Civilização. 155 . para Freud. existem interesses específicos de dominação que "introduzam controles adicionais acima e além dos indispensáveis à associação civilizada humana". resultado da desigual distribuição de poder. Eros e Civilização. Dessa forma. Afinal.. Qualquer que seja a chave interpretativa. decorre de uma situação de opressão social. Marcuse os relaciona às exigências de um trabalho alienado separado de qualquer sentimento de gratificação. Estado de Direito e Política de Reconhecimento moeda. é aquilo que se pode designar como duplo recalque. (. 10 A esse respeito. cit. responsáveis pelo duplo recalque.. op. 1978.. da mesma forma como a fantasia é mobilizada pelo imaginário para se proteger das exigências do mundo exterior. a respeito. todavia. É Marcuse quem explica como. O que nos interessa.7 Podemos afirmar.8 que. e passam a ordenar as produções do imaginário. 2001. o fundamental é perceber que na origem das relações de violência encontramos não apenas desejos inaceitáveis que foram banidos para a esfera privada do psiquismo. 51 e ss. p. cit. p. Karl Marx e Friedrich Engels. que o recalque. as possibilidades temáticas para a produção de cenários concretos não são ilimitadas e dependem dos 'esquemas' derivados da cultura e interiorizados individualmente".) a escassez e a dominação geram uma frustração (."Invisibilidade".os esquemas . eles estariam vinculados a um mundo de comunicação sistematicamente deformada.. 211. ainda que o mesmo não ocorra quando falamos no sofrimento decorrente de uma existência marcada pela ausência de dignidade. 37 e segs. Herbert Marcuse. Marx já demonstrou que a alienação atinge a todos indistintamente. Essas normas que legitimam o duplo recalque são observadas pelo sujeito de maneira automática. 53. p. Uma Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores. supor a existência de uma realidade externa que seja percebida de maneira não deformada por parte da sociedade. a realidade exterior interfere duplamente nas operações da fantasia. o convívio com fantasias cuja função é a de garantir que essas mesmas vivências mantenham-se censuradas.que são interiorizados. Herbert Marcuse. São Paulo: Centauro. pois. no entanto. Sérgio Paulo Rouanet esclarece com precisão: "O indivíduo absorve da cultura um repertório de temas básicos . Ver A Razão Cativa. são. recaindo apenas sobre determinados indivíduos ou grupos. é na própria cultura que são encontradas as diversas representações cuja função é exatamente a de viabilizar fantasias inconscientes. além do controle sobre os instintos imposto pelas exigências civilizatórias. a respeito. Por um lado.

p.. A psicanálise. p. representada pela interiorização da normatividade hegemônica". A Sagrada Família. O processo comunicativo é deformado por relações de violência que sistematicamente promovem uma falsa consciência como resultado da impossibilidade da crítica.Gisete Cittadino É com base nesta perspectiva que podemos. 12 Cf.. impedindo a comunicação intersubjetiva através do acionamento de mecanismos de violência internos e externos.. seja porque as normas são imunizadas contra a crítica e automaticamente internalizadas.. ademais. Sérgio Paulo Rouanet. op. Afinal. o obriga a se revoltar (. tanto em sua existência pública . normas e instituições. 333. Ou seja. "as estruturas individuais e as societárias da falsa consciência estão mutuamente relacionadas e convergem para o mesmo resultado. p. ao mesmo tempo. Ser obrigado a renunciar à comunicação real."'13 11 Cf. a miséria que lhe é imposta (. pública . representa bloquear a linguagem pública e banir do âmbito da comunicação real todas as representações indesejáveis. mas adquiriu. Mas talvez seja Marx.. Teoria Crítica e Psicanálise. toda minoridade psíquica fruto da incapacidade de abandonar o âmbito privado de uma consciência que fala apenas consigo mesma .) e libertar-se a si mesmo". seja porque o impulso é suprimido através de sua remoção para o mundo do imaginário privado.^ Falar em relações de poder que não são passíveis de problematização significa falar em relações de violência. op.). pública.de desejos e instituições. o resultado é que não há problematização discursiva . Assim.. com fantasias imaginárias e com representações sociais destinadas a legitimá-las. Conhecimento e Interesse. de sua parte. 251. cit. cit. a consciência teórica desta perda. Rio de Janeiro-Fortaleza: Tempo Brasileiro/Edições UFC. 38. 156 . com Habermas. revelando como a falsa consciência vincula-se.resulta em sofrimento.portanto. que é a nãotematizaçâo das relações de poder. Não permitir a problematização discursiva de desejos. ao discutir os mecanismos da alienação humana. já demonstrou que essa deformação do processo comunicativo não ocorre impunemente. a miséria que ele não pode mais evitar nem disfarçar. associar desejos individuais recalcados e interdições sociais.M Habermas igualmente assinala que a "a crítica não tem o poder de se impor sobre a falsa consciência caso não seja impulsionada pela paixão da crítica.as normas e instituições . neuroses e instituições. 13 Cf. No início se localiza a experiência da dor e da carência. quem melhor explicite a dor que se encontra na origem do pensamento crítico: " O homem perdeuse de si mesmo.. é não ter outra alternativa senão a de mergulhar no mundo privado da falsa consciência.. Jüigen Habermas.como em sua existência privatizada. ao mesmo tempo. Kail Marx e Friedrich Engels. 1983.

op. A reação contra o "duplo recalque" é.e a conseqüente conquista da autonomia . Estado de Direito e Política de Reconhecimento É do sofrimento. Impulsionado pela dor. suas manifestações prático-morais e suas manifestações prático-estêticas". através de restrições e distorções à comunicação. uma reação contra a "violência estrutural"'14 de uma sociedade que. dessa forma.mesmo que gratificantes garantidoras de um consenso que prescinde de uni processo de argumentação intersubjetiva. A superação dessa consciência narcísica . Como assinala Habermas. enfrentar as imposições autoritárias . mas quem é capaz de se deixai ilustrar sobre sua irracionalidade (. 258. Jürgen Habermas. p. é uma operação executada na e com a linguagem". pois quando o indivíduo reage mecanicamente a mandamentos externos .seja ignorando o sentimento de desprazer.implica o ingresso em um mundo inter subjetivo. cit. gerar o impulso deflagrador da transformação. Madrid: Taurus.... resultado de uma comunicação distorcida. Capítulo VI. 1987. construídas a partir de suas próprias vivências: "Quem sistematicamente se engana sobre si mesmo este se comportando irracionalmente. Tbmo II.. Habermas acredita que os indivíduos têm a capacidade de se libertar de suas ilusões e fantasias. uma falsa consciência que é. ela própria. mas pode. limites e mecanismos específicos .com suas contradições. 15 Cf. Sem um amplo processo de deliberação argumentativa não há como enfrentar o "duplo recalque".. rejeita a impossibilidade de conhecer e enfrenta conflitos internos e confrontos políticos através de amplos processos argumentativos. único local onde pode ocorrer um processo de justificação discursiva das normas e instituições sociais.16 Ainda que possa parecer paradoxal tentar dissolver. seja abrindo mão de avaliar criticamente o real . ver Jürgen Habermas. espaço do debate e do diálogo. portanto. impulsionado pela dor.. Obter o controle sobre a palavra e a ação significa. que se origina a "potência" capaz de conduzir o indivíduo a desvendar os mecanismos que limitam sua autonomia e o impedem de pensar criticamente. 16 Adotando a perspectiva freudiana. através de um amplo processo comunicativo. Teoria de Ia Accion Cornunicativa. instrumentaliza as relações humanas e assegura a desigualdade.ele não transcende os limites de uma consciência ocupada consigo mesma. ele pode tomar consciência da ilegitimidade de um poder que condiciona seu pensamento e limita sua liberdade. lugar da alteridade. nessa perspectiva. op."Invisibilidade". se "a fuga de si mesmo . Conhecimento e Interesse. Cf Jürgen Habermas. Teoria de Ia Accion Comunicativa. é apenas no exercício do debate político . tomo I. 157 .que a auto- 14 Sobre a idéia de uma "violência estrutural" representada pela violação da rede intersubjetiva das práticas comunicativas cotidianas.) dispõe da força de se comportar reflexivamente frente à sua própria subjetividade e penetrar as coações irracionais ás quais podem estar sistematicamente submetidas suas manifestações cognitivas. p. igualmente. 41. cit.^ não há como romper com a falsa consciência senão através de um processo que. é preciso não esquecer que da mesma maneira como a fantasia deforma o pensamento.

2. ele próprio. é capaz de vencer progressivamente os limites impostos por uma realidade marcada pela desigualdade.aqui entendidas como processos de sistematização das percepções através de explicações aceitáveis ou consistentes . 1989. e mais fundamentalmente. racionalizações . que vão viabilizar as confrontações permanentes com vistas ao estabelecimento de normas e instituições através das quais a dominação e a desigualdade possam ser enfrentadas.. De outra parte. Identidade e "Invisibilidade" Falar de nossa identidade significa descobrir quem somos. Jürgen Habermas. pp. perceber que os indivíduos da sociedade pósconvencional têm a possibilidade de se confrontar com os mecanismos de produção do "duplo recalque". Rio de Janeiro: Reluine-Dumará. discutidas e limitadas. que atua. 135. quais são os nossos desejos. Joel Birman. pós-convencional. através de um debate político no qual normas e instituições devam ser justificadas por razões que sustentem a sua validade social. in Escritos sobre Moralidad e Eticidad. o mundo contemporâneo. social. Nesta perspectiva. 1991. a partir de uma rede de reconhecimento que se estrutura através da linguagem: "O sujeito se constitui e se revela simultaneamente pelo ato de falar. Freud e a Crítica da Razão Delirante. os indivíduos "só se constituem enquanto tal porque ao crescerem como membros de uma particular comunidade de linguagem se introduzam em um mundo da vida intersubjetivamente compartilhado. 105-106. É precisamente essa referência à idéia de todos. valores e tradições concretas. Como assinala Habermas.que caracterizam todos os indivíduos como sujeitos capazes de auto-reflexão e crítica. portanto. significa admitir a possibilidade da conformação de uma identidade que.Gisele Cittadino nomia e a prática da liberdade se tornam possíveis. 18 Cf. Nos processos comunicativos se formam co-originariamente a identidade do indivíduo e a do cotetjVo". p. Objecciones de Hegel a Kant. designada como intersubjetividade. opiniões e aspirações. Organizam-se. como vimos. lhes permitindo exigir igualdade de respeito e disponibilidade para o diálogo. pela via de um processo de emancipação. in Freud . organizada através de estruturas lingüísticas. portanto uma inter-relação sujeito/sociedade.18 17 Cf. inscrita nas racionalizações do mundo democrático atual..50 Anos Depois.17 Há. como realidade exterior. sobre a realidade interior. Por esse ato o sujeito se enuncia pelo dizer. Mas o dizer apenas funda o sujeito quando a fala é dirigida a um outro". Barcelona: Paidós. 158 . Sabemos que as identidades vão se constituindo através da internalização e da adoção de papéis e regras sociais que são transmitidas pela via de costumes. estimula.

H.. 19a ed. portanto. os modos de expressão por meio dos quais o diálogo é possível. Mead. uma vez apreendida a linguagem. nos identificamos como membros de um grupo quando somos capazes de ver nossos próprios sentimentos e ações com o mesmo olhar com que os demais também veriam. a figura do "outro" continua a ser decisiva. cít. 21 Cf. Sérgio Paulo Rouanet.. estabelecidos internamente. op. Sentimentos e ações não são. 22 Cf. Só se pode falar de uma identidade autônoma diante de uma consciência capaz de "julgar a validade das normas e instituições. E precisamente por isso que a idéia de "outra generalizado" formulada por G. 351. Self.19 Assim. nem podem ser solitariamente interpretados. do contrário. Chicago: The University of Chicago Press. 155. 20 Ver George Herbert Mead. dessa forma. Estado de Direito e Política de Reconhecimento Parece não restar dúvidas. a respeito. G. p. aberto ou interno. Mead20 é tão cara ao pensamento de Charles Taylor e Habermas. invasão e violência."Invisibilidade". por intermédio da nossa relação com os outros. Teoria Crítica e Psicanálise. o sujeito internaliza expectativas de comportamento do grupo: "O diálogo interno do indivíduo consigo mesmo (. de uma maneira autônoma. os indivíduos passem a utilizá-la privadamente através de um processo de reflexão solitária. 1993. pp. de que a principal característica das •relações humanas é o diálogo. Não se trata tampouco de um processo no qual. que inclui não apenas as exigências que ele apresenta.22 Mas isso só 19 Ver. porque a identidade humana se constitui a partir de um diálogo com o "outro". pois.. Mind. p. É por isso que a construção da identidade pressupõe esse diálogo. H. 1974. O psiquismo não é algo construído por vontade e determinação próprias. 159 . mesmo depois de dominada a linguagem. para o sujeito. como a luta do sujeito contra estas mesmas pretensões. além de todos os papéis particulares que a sociedade lhe impõe" . cít. México: Fondo de Cultura Econômica. Adquirimos a linguagem. especialmente com aqueles que são importantes para nós. esse olhar representaria. Self & Society. com aqueles que nos cercam. amoroso ou conflítivo. Ao contrário. Ao internalizar o "outro generalizado". É por intermédio de tais redes de reconhecimento intersubjetivo que constituímos nossa identidade. op. El Multiculturalismo y "Ia política dei reconocimiento". independentes da vontade. Charles Taylor. Incorporar o ponto de vista do outro não pode significar uma reação mecânica à ordens e proibições que são vistas como fatos externos.) ~ a conversa que constitui o processo ou a atividade de pensamento . Quando expressamos sentimentos e ações o fazemos por meio de práticas lingüísticas apreendidas através de nossa relação com os demais.é conduzida pelo indivíduo a partir do ponto de vista do 'outro generalizado'". Mind & Society. 152 e ss..21 No entanto. assumir o olhar do outro também pressupõe um ideal de reciprocidade.

supplementary volume 75. 24 Cf. A discussão sobre a forma de dissolução desse "triplo recalque" caminha. Essa nova forma de recalque tem origem naquilo que Axel Honneth designa como "invisibilidade". em sua ausência. viabiliza .. mas uma não-existência no sentido social. imagem que alguns deles não puderam deixar de adotar. Invisibility: on the epistemology oi 'recognítion'. como supor o exercício crítico de uma consciência que. ou seja. in The Aristotelian Society. Afinal.que estão fisicamente presentes . (. Axel Honneth.geram aquilo que se designa como "duplo recalque". O que dizer agora da recusa sistemática de reconhecimento de certas identidades sociais. 44. "a sociedade branca lhes projetou durante gerações uma imagem deprimente de si mesmos. os aprisionam em um mundo marcado pela subalternidade e pela humilhação. El Multiculturalígmo y "Ia política dei reconocimiento".24 Nesta perspectiva.^ Como também assinala Charles Taylor ao mencionar a internalização de signos de inferioridade por parte de indivíduos negros. para ela.) Sua própria autocfepreciação transforma-se em um dos instrumentos mais poderosos de sua própria opressão". interditando as gratificações dos desejos. como enfatiza Taylor. na direção de mecanismos capazes de liberar certos indivíduos e grupos dos signos de inferioridade a partir dos quais a sociedade pretende conformar suas identidades.o recalque como mecanismo que retira da memória vivências indesejáveis. pela falta de reconhecimento ou por um falso reconhecimento. não tem sua identidade reconhecida? Já vimos anteriormente como a sociedade. 160 . visíveis". E não há outra forma de fazê-lo senão recorrendo ao mesmo tema que está na origem da reação ao "duplo 23 Cf. Ao referir-se a situações nas quais aquele que domina expressa sua superioridade social através da não-percepção daqueles que são dominados.. indivíduos ou grupos podem ser levados a estabelecer representações aviltantes de si próprios. 112. Honneth preocupa-se especialmente com a ação de uma sociedade branca que "intencionalmente procura deixar claro aos negros . que não envolve evidentemente uma ausência no sentido físico. se partirmos do pressuposto de que o reconhecimento configura as identidades e que. de igual forma observamos que existem privações adicionais decorrentes de uma realidade hierárquica e desigual que ao recair sobre determinados indivíduos e grupos .Gisele Cittadino é possível se. p. inevitavelmente.que eíes não são. associando-as a signos de inferioridade? Seria o caso de fazermos referência a um "triplo recalque"? Com efeito. os "outros significantes" causam um grande prejuízo a indivíduos ou grupos quando. nada nos impede de imaginar um "triplo recalque" como resultado de sentimentos que são automutiladores. 2001.em todos . op.portanto sobre alguns . uma forma de ser invisível. Charles Taylor. associarmos identidade e reconhecimento.. p. ei t. em suas relações com os "outros significantes".

No entanto. Afinal. já não é possível falar em processo de deliberação pública senão a partir da idéia de reconhecimento igualitário. visam assegurar direi25 Cf. Amy Gutmann. cit. FondO de Cultura Econômica. Em outras palavras. 19. em alguns casos. Uma política de reconhecimento igualitário demandaria. Estado de Direito e Política de Reconhecimento recalque". como também em atuar no cenário público. portanto. El Multiculturalismo y "Ia política dei reconocimiento". cit. demandadas e introduzidas sob o signo de uma "política de reconhecimento". só poderia ser assegurada por direitos coletivos que ultrapassassem os limites dos direitos fundamentais . o debate político. encontrariam grande dificuldade não apenas de conduzir com dignidade suas vidas. Liberalismo Político. É evidente que esse princípio da cidadania igualitária. E neste sentido que o compromisso com o princípio da cidadania igualitária envolve a atribuição de iguais direitos a todos e só admite a alteração desse esquema se a distribuição desigual de direitos vier a beneficiar os mais desfavorecidos. portanto. o reconhecimento público de nossa identidade requer uma política que nos permita deliberar publicamente acerca daqueles aspectos de nossa identidade que compartilhamos ou que potencialmente podemos compartilhar com outros cidadãos" .sejam civis. ou seja. a dissolução do "triplo recalque". a respeito.. a respeito. raciais. 161 . parece vir em auxílio da dissolução do "duplo recalque". étnicas ou religiosas.25 E precisamente por isso que. além dos direitos a todos assegurados. O oferecimento de um mesmo conjunto de direitos e liberdades não seria suficiente para permitir o acesso dessas minorias ao cenário político. Charles Taylor. o que impediria. p. no âmbito das sociedades democráticas.27 é ineficaz no sentido de assegurar as pretensões de reconhecimento público reivindicadas por grupos culturais cuja identidade foi historicamente vinculada à imagens depreciativas e signos de inferioridade. John Rawls. Isso significa supor que em determinadas circunstâncias pode haver uma relação de oposição entre o direito de iguais liberdades subjetivas e a proteção das identidades coletivas. México. a todos destinados. Introducción.26 Os direitos civis e políticos são. 1995. para muitos. op. a garantia de coexistência igualitária entre grupos culturais diversos. "se a identidade humana é criada e constituída dialogicamente."Invisibilidade". ao comprometerse com a luta contra as desigualdades sociais. para muitos autores.cuja referência são os cidadãos individuais. 27 Ver. enquanto os direitos socioeconômicos estão associados ao processo de inclusão social daqueles que. Charles Taylor. as diversas formas de "ação afirmativa". o reconhecimento de necessidades particulares de indivíduos ou grupos enquanto membros de culturas subjugadas. O exercício democrático pressupõe tratar a todos como iguais independentemente das múltiplas identidades sexuais. políticos ou sociais . in El Multiculturalismo y "Ia política dei reconocitniento". na ausência de tais direitos. op. 26 Ver. É por isso que. a política do igual respeito.

A ordem jurídica das sociedades contemporâneas assegura.cuja função é compensar condições sociais desiguais . nos perguntar se há efetivamente uma incompatibilidade entre a afirmação de certas identidades coletivas .a luta por uma cidadania igualitária .. fundamento do Estado de Direito. liberal". 191.. percebemos Cf. portanto. Jürgen Habermas. já podemos perceber que o apelo a direitos coletivos que venham a exceder os limites de uma teoria dos direitos concebida em termos individualistas significa "quebrar em pedaços nossa tradidicional autocompreensão do Estado democrático de direito. aqueles que pretendem introduzir direitos coletivos alheios a esse sistema interpretam equivocadamente o universalismo dos direitos fundamentais como abstração das diferenças. pois os bens sociais podem ser ou individualmente distribuídos ou individualmente desfrutados. Paidós. como sabemos. Há. Nesta perspectiva. uma teoria do direito formulada em termos individualistas. La Lucha por ei Reconocimiento en ei Estado Democrático de Derecho. portanto. como vimos. desse enlace interno entre autonomia privada e autonomia pública. que está definida com base em um modelo de direitos individuais e é. in La Inclusión dei Otro.. Estado de Direito e Políticas Afirmativas Da idéia de que os cidadãos se associam por sua própria vontade para formar uma comunidade de sujeitos de direito livres e iguais resulta uma concepção de Estado de Direito que é inseparável dos conceitos de direito subjetivo e de indivíduo como sujeito portador de direitos. 1999. 29 A esse respeito. neste momento. no interior dos próprios procedimentos do Estado de Direito. na origem das Constituições modernas. De outra parte. neste sentido. Barcelona.) como os autores racionais dessas normas". Senão vejamos. 3.através de políticas de "ação afirmativa" e a idéia de cidadania igualitária. Em outras palavras. a história da universalização dos direitos .Gisele Cittadino tos culturais entendidos como direitos coletivos.2S De outra parte.. além de ignorar as concepções sobre as quais se assenta o constitucionalismo moderno. portanto. essas liberdades subjetivas estão intimamente conectadas com direitos de cidadania oriundos da plena autonomia política dos indivíduos. Habermas ainda acrescenta cjie "a positividade do direito expressa a vontade legítima que deve a sua existência à autolegislâ^ão pressupostamente racional de cidadãos politi162 28 .) apenas pode conservar a sua força socialmente integradora em virtude do fato de que os destinatários individuais das normas jurídicas podem ao mesmo tempo reconhecer a si próprios (. iguais liberdades subjetivas para todos os cidadãos e o faz através de um procedimento legislativo democrático do qual todos devem participar.23 Se partirmos. Assim. p.são incompatíveis com essa teoria dos direitos formulada em termos individualistas. Resta-nos. "o direito coercitivo (. Nem mesmo os direitos sociais .foi escrita.

Jürgen Habermas. La Lucha por ei Keconocimiento en ei Estado Democrático de Derecho. cit. precisamente. op.) dos quais podem resultar importantes subvenções. p.3'1 Uma vez estabelecida essa intrínseca relação entre autonomia privada e autonomia pública.30 Esta ligação intrínseca entre liberdades subjetivas e direitos de participação política . Nesta perspectiva. O resultado disso é que. no exercício da soberania popular. "se levamos em conta a natureza intersubjetiva dos sujeitos de direito. Ou seja. Contributiona to a Discourse Theory of Law and Democracy.fundamento do sistema de direitos do constitucionalismo democrático . Más Alia dei Estado Nacional. 1997. Cf. é da conexão interna entre autonomia privada e autonomia pública que decorrem as normas que levam em conta tanto a desigualdade das condições sociais de vida. (. Más Alia dei Estado Nacional. enquanto que o desigual. a respeito. então devem também existir direitos concernentes ao caráter de membro de uma cultura. 31 Cf. Cambridge: Massachusetts Instituis of Technology Press. pp. serão estabelecidas normas que irão assegurar um igual tratamento para grupos homogêneos. em sociedades plurais. cj't. Da exigência de cameníe autônomos". na conexão interna entre direitos humanos e soberania popular."Invisibilidade". se uma sociedade democrática é uma comunidade de cidadãos livres e iguais. op.".. p. quanto as diferenças culturais. atenção pública. 163 . Between Facts and Norms. Jürgen Habermas. não há como supor que o sistema de direitos deixará de considerar seriamente as diferenças culturais existentes em comunidades específicas. Neste sentido. Estado de Direito e Política de Reconhecimento que os cidadãos não podem nem mesmo chegar a gozar de certas liberdades subjetivas se eles mesmos. 30 Ver. Madrid: Editorial Trotta.não pode.enquanto legisladores .. tanto quanto um tratamento diferenciado para grupos diversos.estabelecem um consenso acerca dos "critérios conforme os quais o igual vai receber um tratamento igual.que se encontra na origem da legitimidade do direito positivo . não definem quais as normas e interesses que devem ser reconhecidos. 33. nessa perspectiva. um tratamento desigual". nas sociedades democráticas contemporâneas. A distribuição dos direitos subjetivos só pode ser igualitária se os cidadãos .32 O princípio da igualdade de respeito . o ordenamento jurídico não pode ser um mero distribuidor de liberdades de ação de tipo privado. 100. Jürgen Habermas. 32 Cf. 103-104. ser visto como uma "imposição igualitária" incompatível com a necessidade de proteção diferenciada de certas identidades coletivas.. in La Inclusión dei Otro. 1996. De resto. "a autonomia pública de cidadãos que dão a si mesmos suas próprias leis em processos democráticos de formação da opinião e da vontade tem a mesma origem que a autonomia privada dos sujeitos jurídicos que estão submetidos a essas leis". como os sujeitos de direitos se individualizam através de um processo de socialização. garantias etc. Jürgen Habermas.traduz-se.

em fundamento da cidadania. De outra parte. se as políticas afirmativas podem ser vistas como mecanismos capazes de colaborar com a integração de grupos subprivilegiados no cenário do debate político. Nesta perspectiva. no presente.Gisele Cittadino garantir a inclusão de todos. as políticas afirmativas utilizadas para garantir a diversidade étnica e social nos mais variados setores não são contrárias ao sistema de direitos sobre o qual se baseia o constitucionalismo democrático. 10. invocar o argumento compensatório sem fazer referência à existência de um dano específico e mensurável. desde que desvinculadas de qualquer idéia de direito coletivo que represente opressão de liberdades individuais. independentemente de quão marginalizados eles tenham sido . teriam a função de reparar ou compensar injustiças que. O compromisso com o ideal de uma cidadania igualitária não é incompatível com a garantia de direitos culturais demandados e introduzidos sob o signo das "políticas de reconhecimento". Ao mesmo tempo. no passado. p. Jhtoierance and Discrimination. como conseqüência. é com base nesse argumento que não podemos tomar as ações afirmativas como políticas compensatórias que.e. viabilizando.apenas podem ser protegidas junto com o livre acesso aos contextos de comunicação e mútuo reconhecimento nos quais as pessoas podem adquirir e consolidar suas identidades. o que transformaria a raça . Afinal. isso não pode significar nenhum compromisso com uma visão de sociedade permanentemente dividida em grupos raciais. "porque a individualização das pessoas naturais ocorre através da socialização.e sabemos que a ausência de reconhecimento de identidades coletivas (ou seu falso reconhecimento) quase sempre vem acompanhada de uma situação social de desvantagem -. suas identidades .33 Percebe-se. Em primeiro lugar. que apenas uma interpretação equivocada do princípio do igual respeito pode imaginá-lo cego e ineficaz em face da discriminação e das desigualdades sociais e culturais. Com efeito. do ponto de vista estritamente jurídico. na l. resulta a necessidade de assegurar a integridade de cada um nos contextos sociais e culturais nos quais a sua identidade se constitui. portanto. volume l. Sn New York University School of Law. articular seus entendimentos de si mesmos e desenvolver seus próprios projetos de vida". da mesma forma que a compensação só pode ser reivindicada daquele que efetivamente pode ser responsabilizado pelo prejuízo cau- 33 Cf. recaíram sobre os antepassados dos seus atuais beneficiários. a dissolução do "triplo recalque". Jürgen Habermas. É isso que nos obriga a optar por uma ampliação intersubjetiva do conceito abstrato de "sujeito de direito". a legitimidade para reivindicar a reparação é exclusivamente daquele que sofre o dano. a integridade dos sujeitos de direito . 2003. não há como. assim. 164 .e não a identidade política .

5 de novembro de 1998. no entanto. 2001. utilizá-las 34 Ver..com igual consideração e respeito . No entanto. a respeito. Is Affirmative Action Doomed?. cuja função primordial é dissolver os obstáculos que.34 O ato discriminatório do membro de um grupo não pode transformar automaticamente todo o grupo em devedor. 15 de maio de 2003. quando as vítimas da discriminação pertencem a uma comunidade segregada os seus efeitos atingem todos os seus membros. Ação Afirmativa & Princípio Constitucional da Igualdade. como causa de uma injusta desigualdade racial. Elizabeth S. University of Michigan. compatibilizá-las com o sistema de direitos sobre o qual se assenta o constitucionalismo moderno e. Estado de Direito e Política de Reconhecimento sado."Invisibilidade". Integration. no âmbito de uma discussão pública. número 8. introduzidas com base na necessidade de implementação de políticas de reconhecimento. mas como medidas de integração. 37 Cf. 36 Ver. vinculados a uma discriminação atual.no processo político e nas deliberações que produziram aquela decisão". 2001. Do mesmo autor. de um lado. Ronald Dworkin. ela garante apenas que ele será tratado como um igual . O que se está afirmando é que a segregação não pode ser vista como um efeito de um passado de discriminação. Barbosa Gomes.35 É evidente que isso não significa supor que a discriminação é um evento discreto que atinge apenas vítimas individuais. de outro. volume 50. The Court and the University. Rio de Janeiro: Editora Renovar. quando essa perda é resultado direto de uma vulnerabilidade que decorre do preconceito. impedem a efetiva e igual participação de amplos setores da sociedade nos processos de deliberação política. in The New York Review os Books. Ao contrário. "não há dúvidas de que a ação afirmativa não pode ser justificada como uma compensação. Ronald Dworkin. ser vistas não como mecanismos de compensação.36 As ações afirmativas. and Strict Scrutiny.37 Nesta perspectiva. Sovereign Virtue. mas. texto para discussão. não há como se falar em igualdade de respeito e consideração: "A igual proteção não garante que cada cidadão será igualmente beneficiado por cada decisão política. ver seu mais recente trabalho. tomar as políticas afirmativas como medidas integrativas nos permite.. 35 Cf. benefício ou direito exercido por um outro. Anderson. A verdade é que não se viola o princípio da igual proteção simplesmente porque um grupo social. deixou de ser beneficiado por uma decisão política. Departament of Philosophy. da hostilidade e da segregação. porque (. 2002. Como assinala Dworkin. da mesma maneira que a injúria sofrida por um indivíduo não pode ser compensada por uma preferência. devem. Volume 45. in The New York Review of Books. a respeito. Harvard University Press. Joaquim B. The Theory and Practice of Equality. portanto. ao contrário. Não podemos. transformar as políticas afirmativas em uma espécie de modelo de justiça grupai.) as preferências requeridas pelos negros no presente não compensam gerações de negros que sofreram injustiças no passado". 165 . Affirmative Action. número 17.

decorrentes da segregação racial. As políticas afirmativas. Se estamos de acordo que nas democracias contemporâneas a cidadania . as políticas afirmativas. como medidas de integração e inclusão de grupos marginalizados no espaço público.Gisele Cittadino como mecanismo capaz de colaborar com a dissolução do "triplo recalque". não são intervenções administrativas normalizadoras que favorecem um grupo em detrimento de outros. como vimos.e não a raça . 166 . não podem representar qualquer compromisso com a implantação de uma "política da diferença" que venha a violar o princípio do igual respeito.deve ser a base da identidade política e se também concordamos que o Estado de Direito deve ser o ponto de referência inabalável para qualquer interpretação crítica. O compromisso com a cidadania igualitária assegura. nessa perspectiva. a integridade do indivíduo nos contextos sociais e culturais nos quais a sua identidade se constitui. na medida em que sua principal função é eliminar todos os entraves que. impedem uma democrática e efetiva participação dos grupos raciais marginalizados. São apenas uma das formas de concretizar os direitos que decorrem do princípio da igualdade de respeito.

enfocaremos a concepção teleolócfica de Santo Tomás de Aquino e a ética deontológica de Kant. enquanto este se aplica à distinção entre o bem e o mal". no presente trabalho. Depois. cabendo enfatizar que estamos apenas iniciando uma pesquisa que deverá ser aprofundada na tese de doutorado. a partir da tradicional divisão de suas teorias em teorias teleológicas e teorias deontológicas. Vocabulário Técnico e Crítico da filosofia. iniciando a pesquisa de um tema que pretendemos aprofundar na tese de doutorado. mas. 348. Ver André Lalande. é apontar a crítica de John Rawls ao Utilitarismo. São Paulo. abordaremos a ética normativa. uma vez mais. p. A crítica de Rawls à doutrina utilitarista será examinada na parte final do trabalho. 1993. A Ética Em seu Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. permeia todo o texto de Uma Teoria da Justiça. Doutorando em Teoria do Estado e Direito Constitucional na PUC-Rio. No primeiro item. Martins Fontes. ética normativa e ética descritiva ou sociológica. Em seguida. 167 .A Crítica de Rawls ao Utilitarismo Marcelo Ciotola* Introdução Nosso objetivo. recorrendo à sistematização feita por Santiago Nino. no rol das teorias teleológicas e deontológicas de ética normativa. que se inserem. nos valendo do esforço sistematizador empreendido por Carlos Santiago Nino. a abordagem do assunto exigirá de nós um esforço maior no futuro. discorreremos sobre algumas teorias de ética analítica ou metaética. Conseqüentemente. inicialmente mostraremos os três planos do discurso ético: ética analítica (metaética).1 William Frankena * l Professor de Filosofia do Direito e Introdução ao Direito na PUC-Rio e UERJ. André Lalande define a Ética como sendo a ciência "que tem por objeto o juízo de apreciação. O segundo item será dedicado ao Utilitarismo e à justiça como imparcialidade rawlsiana. ao contrário. respectivamente. Com o intuito de finalizar o primeiro item e. visto que a referida crítica não tem um locus privilegiado. 1.

1995. Rio de Janeiro: Jorge Zahai. cit. 7^ reimpressão. portanto. a metaética busca responder a questões como.. cit. op.. 354. Vide William Frankena. se analisa "ei tipo de significado que caracteriza a los termos éticos .y ei significado de los juicios de valor . ultrapassamos o estágio em que nos deixamos dirigir por normas tradicionais e ultrapassamos também o estágio em que essas regras se entranham em nós tão profundamente a ponto de dizermos que nos sentimos dirigidos do íntimo. os problemas morais e os juízos morais. 17.2 Pode-se distinguir três tipos de investigação ou pensamento que se relacionam com a moralidade. p. 16. por exemplo:5 • • • • Qual é o significado das expressões moralmente certo ou bom? Como se pode formular ou justificar juízos morais? Qual a natureza da moralidade? Qual o significado de livre... Não se confundindo com investigações e teorias empíricas ou históricas. Em nossa abordagem sobre os planos do discurso ético nos baseamos em Carlos Santiago Hino. p.como "Ia pena de muerte es injusta" -. 2* ed. ética normativa e ética descritiva ou sociológica. 2* ed.. cit. de responsável? 2 3 4 5 168 William Frankena. de acordo com Santiago Nino. ya que Ia posibilidad de justificar racionalmente los juicios valorativos depende de quê clase de juicio son ellos y quê significado tienen Ias expresiones que se usan tipicamente para formulários ".3 A ética analítica ou metaética discute o caráter dos juízos de valor e o significado dos termos éticos. op.como bueno. três planos do discurso ético: ética analítica. o mesmo autor leciona: A filosofia moral surge quando. pp. .Marcello Ciotola vê a Ética ou Filosofia Moral como sendo o pensamento filosófico que versa sobre a moralidade. No que diz respeito à sua origem. ou seja. p. pp. O objeto da ética analítica é o problema concernente à possibilidade de justificar racionalmente os juízos de valor. como Sócrates. ingressando no período em que pensamos por nós mesmos em termos gerais e críticos (como os gregos estavam começando a proceder na época de Sócrates) e alcançamos uma espécie de autonomia na condição de agentes morais. e nem envolvendo a elaboração ou a defesa de juízos normativos ou de valor. Neste nível teórico.4 Trata-se de saber. 16-18.. Buenos Aires: Depalma. Introducción aí análisis dei derecho. 353 e ss. Carlos Santiago Nino. correcto y sus opuestos . Ética. justo. 1975. op. se existem procedimentos racionais para justificar a validade dos juízos de valor. e William Erankena.

mas. a ética analítica. assim como as questões normativas a respeito do que é bom ou correto. se desenvolve nesses dois sentidos. historiadores. o objetivo é descrever ou explicar os fenômenos morais ou elaborar uma teoria da natureza humana que diga respeito a questões éticas". cit. bom ou obrigatório. psicólogos e sociólogos. Nesse campo. a ética normativa e a ética descritiva ou sociológica. a ética descritiva ou sociológica tem por meta descrever os juízos de valor formulados em certa sociedade e em determinada época. o autor examina certas teorias referentes ao significado dos conceitos morais (metaética) e ainda algumas teorias de justiça e moralidade social (ética normativa). nas palavras de Frankena. ao contrário. Carlos Santiago Nino empreende um valioso esforço para sistematizar as principais teorias acerca do significado dos conceitos e juízos morais. p.deve enfrentar dois problemas: um no sentido de saber se existem procedimentos racionais para justificar a validade dos juízos de valor. tem por objetivo formular e justificar juízos morais.. acerca do que seja bom ou correto num caso particular ou como princípio geral. Seu esforço sistematizador. Em decorrência disso. 16. "o conhecimento é um bem" e "é sempre mau prejudicar outrem". tal como a levada a cabo por antropólogos. 169 . poderá "também assumir a forma de um debate íntimo ou de um debate com terceiro. isto é. Em sua Introducción ai análisis dei derecho. como fazem William Frankena e Carlos Santiago Nino. c/t. de um trabalho intelectual frente ao direito que não se limite em descrevê-lo e sistematizá-lo.A Crítica de Rawls ao Utilitarismo A ética normativa. por sua vez. Santiago Nino entende que o desenvolvimento de uma jurisprudência normativa .. p. Esse tipo de pensamento normativo. é mais razoável. no cmal se indaga o que é certo. William Frankena. daí retirando um juízo normativo. portanto. histórica ou científica.isto é. à guisa de conclusão". segundo Frankena. 17. revelando que coisas os indivíduos desse grupo social consideram justas ou boas.8 Das principais teorias de ética normativa examinadas pelo jusfiló- 6 7 8 William Frankena.7 Embora alguns filósofos limitem a Filosofia Moral à ética analítica ou metaética.6 Finalmente. visualizar a Ética abrangendo os três planos acima examinados. assim corno também as concepções gerais de justiça ou moralidade que têm mais influência no pensamento atual. procure abordar também a justificação de suas regulamentações e a proposta de interpretações valorativamente satisfatórias . existe "um tipo de investigação empírica e descritiva. e devemos estar preparados para fundamentar esses juízos. determinando que ações ou instituições são boas ou justas. tais como. Neste caso. podemos nos defrontar com juízos normativos de afirmação. não havendo razão para uma postura restritiva. por exemplo. Sendo assim. op. op. e outro no sentido de determinar quais são os princípios de justiça e de moralidade social que permitem valorar as normas e as instituições jurídicas. excluindo de seu campo de investigação as questões relacionadas com a Psicologia e a ciência empírica.

afirman que tales juicios. cit. podemos agrupar as principais teorias acerca do significado dos conceitos e juízos morais (metaética) do seguinte modo:9 Teorias descritivistas subjeti vista 1) Naturalismo ético objeti vista subjetivista 2) Não-naturalismo ético objetivista Teorias não-descritivistas 1) Emotivismo ético 2) Prescritivismo ético Outras posições 1) A teoria do ponto de vista moral 2) A teoria do objeto da moralidade As teorias descritivistas "sostienen que los juicios de valor constituyen enunciados descriptivos de alguna clase de hechos. atribuir verdad o falsedad a un juicio moral y. p.10 Todavia. 355. cit. não há acordo entre os descritivistas no que concerne a saber a que fatos os juízos morais se referem e como se determina sua verdade ou falsidade. 170 . tienen significado cognoscitivo. seguindo Santiago Nino. En consecuencia. en principio.Marcello Ciotola sofo argentino trataremos mais adiante. Dessa forma. 355. 10 Santiago Nino.. ver pp. op.. y también los términos éticos que aparecen en ellos. Tais divergências dão 9 Vide Santiago Nino. nos dedicaremos ao estudo das teorias que têm sido propostas para explicar o significado dos termos éticos e o caráter lógico dos juízos de valor. tales juicios pueden ser justificados racionalmente". op. Tiene sentido. p. acrescenta Santiago Nino. Por ora. 355-382. por Io tanto. Para uma análise pormenorizada dessas teorias.

Os naturalistas. op.ei propio hablante.descriptivismo generalmente vá acompanado de un escepticismo. p. O naturalismo sustenta que as palavras éticas designam propriedades observáveis. de alguien que puede ser . etc. cít. Santiago Nino. A concepção naturalista subjetivista "sostiene que los juicios éticos hacen referencia a sentimientos. entretanto.11 As posições naturalistas de cunho objetivista. o que significa dizer que tais juízos têm caráter cognoscível.12 O naturalismo. La implicación de esta concepción de los juicios morales es que ellos no pueden ser verdaderos o falsos. por Io que ei no . op.. empíricas o supraempíricas. Ia mayoría de los rniembros de determinado grupo social. p.) también es llamada intuicionista. no entanto.. por sua vez. tem sido objeto de críticas muito violentas. Para Santiago Nino: "Esto está vinculado con Ia idea de que los términos éticos no tienen. op.según Ias distintas versiones . por ejemplo ei de influir en Ia conducta de Ia gente. p. como aquela.. Santiago Nino.. sendo os juízos de valor empiricamente verificáveis. que (. cit. cit. Santiago Nino. No se formulan con ei propósito de transmitir información acerca de como es Ia realidad sino con otros propósitos. divergem acerca de que fatos observáveis são descritos pelos juízos de valor. sean objetivas o subjetivas. cit. dudas radicales acerca de Ia posibilidad de justificar racionalmente nuestros juicios de valor.. etcétera". sustentam que os juízos de valor são caracterizados pelo fato de não serem centralmente descritivos de certos fatos.. op. o no tienen exclusivamente. 359.13 Para as teorias descritivistas. que puede ser más o menos extremo. p. actitudes. originada em Moore. como vimos. significado cognoscitivo: ellos no designan tipicamente propiedades fácticas. respecto dei papel quejuega Ia racionalidad en matéria ética". 356. sustentam que os juízos valorativos descrevem "hechos empiricamente verificables que no consisten meramente en actitudes o sentimientos de cierta gente". Esta posición afirma que los juicios de valor son descriptivos (pueden ser verdaderos o falsos) pero no son verificables empiricamente puesto que los hechos que describen no son naturales". confundindo o plano dos fatos empíricos com o plano dos valores. os juízos de valor constituem enunciados descritivos de alguma classe de fatos.A Critica de Rawls ao Utilitarismo lugar ao aparecimento das concepções denominadas de naturalismo ético e não-naturalismo ético. 357. 363. Esto generã. As teorias não-descritivistas.14 11 12 13 14 Santiago Nino. 171 . ao contrário.. que o acusa de cometer a denominada falácia naturalista. obviamente. Os defeitos que Moore visualizou nas teorias descrítivistas naturalistas levaram-no a "adoptar una posición no-naturalista.

e o prescritivismo de R. a exemplo do emotivismo. más bien 15 16 17 18 172 Harry Gensler. p. por razones expositivas. London.. principalmente em sua obra intitulada A Linguagem da Moral. Conseqüentemente.. "prescriptivism sees ought judgments as a type of prescription (or imperative). Santiago Nino. it expresses our will. entre outras. Do juízo de valor "não se deve fumar".M. "emotivism says that moral judgments express positive or negative feelings. Routledge. But unlike simple imperatives. 72. De acordo com Harry Gensler. 'You ought to do A. Nas palavras de Harry Gensler.18 Em seu esforço para sistematizar as principais teorias metaéticas. explicarlas aparte. p. podendo-se. sob a rubrica "outras posições". Só there can't be moral truths or moral knowledge". 367.!? Segundo Hare. não podem ser classificadas satisfatoriamente no âmbito das categorias anteriormente examinadas: "Si bien estas teorias están más cerca dei descriptivismo que dei prescriptivismo. p. like 'Do A. ought judgments are universalizable. por parecer identificar a linguagem moral com exclamações de agrado ou desagrado. podem ser mencionadas. aborda a teoria do ponto de vista moral e a teoria do objeto da moralidade. os termos valorativos são utilizados para orientar ações e eleições. 1998. es conveniente. p. 365. cit. A teoria emotivista. é chamada pejorativamente de teoria do "boo-hurrah".and hence can't be true or false. Vide Santiago Nino. 59. Essas duas concepções metaéticas.15 Uma das objeções levantadas contra a teoria emotivista consiste exatamente em dizer que ela destrói a moralidade.Marcello Ciotola Dentre as teorias nao-descritivistas.M. Vide Santiago Nino. deduzir imperativos. também se enquadra no rol das teorias metaéticas não-descritivistas. This leads to a useful form of golden rule reasoning". op. conforme assinala. cít. or our desires. . 'X is good1 is equivalent to the exclamation 'Hurrah for X' . op. Hare. defendida por Charles Stevenson. puesto que ellas no identifican ei significado de los términos éticos con ciertas propiedades específicas. Instead. Os juízos de valor são prescrições. se retira o imperativo "não fumes!". por exemplo. Harry Gensler. concordar com um juízo de valor implica aceitar o imperativo que dele se deduz. This means that they logically commit us to making similar evaluations about similar cases. Foi formulado e desenvolvido por R. a partir deles. Hare. doesn't state a fact and isn't true or false. ya que sostienen que hay hechos empíricos que son relevantes para resolver Ias cuestiones de valor. sendo o discurso moral basicamente emotivo. Ethics. 16 O prescritivismo. a teoria emotivista. pois. não haveria maneira de decidir racionalmente entre juízos morais antagônicos.

em dois grupos: teorias teleológicas e teorias deontológicas.. e a obrigatoriedade moral requer a liberdade de escolha e de ação do sujeito agente. Vejamos a lição de Adolfo Sánchez Vázquez. teorias que pretendem estabelecer aquilo que é obrigatório fazer. isto é. por sua vez. vamos agora.Marcello Ciotola Tendo examinado as principais teorias metaéticas. nem com a coação externa ou interna. vide pp. busca formular e justificar juízos morais. é um comportamento obrigatório e devido. como vimos. 13* ed. como sabemos. A ética normativa. investiga a existência de procedimentos racionais que possam justificar a validez dos juízos de valor. 382. p. pressupõe uma liberdade de escolha e uma limitação a essa liberdade. orientando-o numa certa direção. Sendo o comportamento moral. Mas sou obrigado moralmente só na medida em que sou livre de seguir ou não este caminho.22 As teorias de justiça e moralidade social (teorias de ética normativa) também são chamadas de teorias da obrigação moral.23 Os estudiosos da moralidade costumam dividir as teorias da obrigação moral ou teorias de ética normativa. É o sujeito quem livremente escolhe. 22 Santiago Nino. por paradoxal que pareça. Rio de Janeiro. 174 . Nesse sentido. 156. na medida em que posso recusar o outro caminho. isto é. livre e obrigatório. aunque hay algunas que parecen más firmemente conectadas con ciertas concepciones meta-éticas. Civilização Brasileira. ha sido defendido por naturalistas. teorias de ética normativa. É preciso lembrar que há uma relativa independência entre as teorias de ética normativa e as de meta-ética. Para uma análise aprofundada acerca da obrigatoriedade moral. intuicionistas y prescriptivistas. O comportamento moral. ou seja. p. ainda que o faça por dever. A obrigação moral apresenta-se assim como a determinação do meu comportamento. seguindo o mesmo autor. isto é. ao mesmo tempo. abordar algumas teorias de justiça e moralidade social. por ejemplo. determinando que ações ou instituições podem ser consideradas boas ou justas. op. 23 Adolfo Sanchéz Vázquez. a obrigação moral pressupõe necessariamente minha liberdade de escolha. Io mismo puede decirse de otras teorias normativas. ao mesmo tempo. Ética. A metaética. A obrigação moral. a partir do valioso esforço de sistematização empreendido por Carlos Santiago Nino.. a obrigatoriedade moral não pode se confundir nem com a simples necessidade causai. 153-179. mas supõe. cit. El utilitarísmo. uma limitação de minha liberdade.

La Teoria de Ia Justicia en John Rawls. Ver também Santiago Nino. creadora de contenidos morales a partir de uma fórmula de deber. Carlos Santiago Nino aborda quatro teorias normativas. como derivar dei imperativo categórico en Kant o ser elegido en Ia posición originaria en Rawls. e julgam as ações por suas qualidades intrínsecas. sino por una cualidad intrínseca. 50. 50. Ver também Santiago Nino. nos dedicaremos ao utilitarismo e à justiça como imparcialidade. El deber de actuar conforme ai imperativo categórico o conforme a Io que seria elegido en Ia posición originaria es ei centro de estas teorias". No rol das teorias deontológicas... nas referidas teorias.. A razão moral. Madrid: Centro de Estúdios Constitucionales. sobre Ia atuación debida. por sua vez.Ia mayor felicidad general o maximización de Ia utilidad . no âmbito das teorias teleológicas. p. É por este motivo que. Por eso ei bien es prioritário logicamente. cit. conferem primazia ao moralmente correto em relação ao bem. prossegue Martinez Garcia. 24 Jesus Martinez Garcia. p. que ai menos en principio no son relevantes. Sendo assim. El deber consiste en maximizar ei bien. op. cít. o dever é prioritário sobre a bondade ou o bem.24 As teorias deontológicas. Para finalizar o presente item de nosso trabalho. cit. ao contrário das teleológicas. Para essas teorias. 383. um ato é moralmente correto "si sus consecuencias maximizan cierto bien intrínseco ya dado. não há metas externas e a correção de uma ação deriva do fato de ser o cumprimento de um dever. são abordadas a teoria ética kantiana e a justiça como eqüidade de John Rawls. que no momento mais nos interessam. p. que se situam entre aquelas que mais influíram e influem no pensamento ocidental. p. Lo que debe hacerse no se determina por Ias consecuencias de los actos. 1985.y serán moralmente correctos los actos cuyas consecuencias cumplen ei objetivo mejor que otros. faremos uma breve referência ao tomismo e à perspectiva kantiana.A Crítica de Rawls ao Utilitarismo As teorias teleológicas dão primazia ao bem em relação ao moralmente correto. 175 . mas sim levando em conta como elas e suas conseqüências contribuem para alcançar uma meta considerada valiosa ou maximizar certo estado de coisas intrinsecamente bom.25 Em seu esforço sistematizador. o autor examina o perfeccionismo de Santo Tomás de Aquino e o utilitarismo. También Ias teorias perfeccionistas entrarían aqui". 383. não é "instrumental de um fin dado previamente desde fuera sino que aspira a ser autônoma. Um ejemplo típico seria ei utilitarismo: hay una meta o bien intrínseco . nas palavras de Jesus Martinez Garcia. 25 Jesus Martinez Garcia. No item seguinte. op. op. sobre Io correcto. conforme a lição de Jesus Martinez Garcia. o que significa dizer que julgam as ações não em função de certas qualidades intrínsecas. en satisfacer una meta o finalidad Io mejor posible. Para uma concepção teleológica.

cit. p. de modo que ei teólogo y ei filósofo lleguen a Ias mismas conclusiones desde sus diferentes puntos de vista". A lei natural. Os atos obrigatórios. cit. Filosofia do Direito. são "una subespecie de los actos buenos: son aquellos actos buenos cuya omisión es moralmente mala (cosa que no ocurre en ei caso de todos los actos moralmente buenos)".. Coimbra: Armênio Amado. assim como a de Aristóteles.26 A teoria moral tomista. 5a ed. por intermédio da razão. ao contrário. de tal maneira que não se pode considerar Direito qualquer preceito que de modo frontal contrarie as normas do Direito Natural (.3° Os Dez Mandamentos são um exemplo de lei revelada. p. da qual deriva dedutivamente ou representa uma especificação em cada situação concreta. p. 28 Ver Giorgio dei Vecchio. mas. não sendo conhecida inteiramente pelo homem. Os atos humanos adquirem qualidade moral em função de sua relação com o bem final do homem.). 1994. A esta tríade poderia ser acrescida uma quarta espécie. 16aed. por si próprios. op. p. denominada de lei divina ou revelada. depende de que o referido ato constitua o cum- 26 Santiago Nino.. pp. De acordo com Miguel Reale. para o aquinate. 65-66. 1979. op. que pode.Marcetlo Ciotola O tornismo constitui uma tentativa de conciliar a filosofia aristotélica com o pensamento da cristandade medieval. devido ao fato de os homens serem incapazes de. São Paulo: Saraiva. no entanto. A teoria ética de Emanuel Kant é deontológica. consiste numa participação da criatura racional na lei eterna. segundo o princípio de ordem prática fundamental de toda a concepção tomista. 639. através de suas manifestações. 176 . como assinala Del Vecchio. lei natural e lei humana.28 é a admissão de três categorias de leis: lei eterna. determinar todos os princípios da vida prática. 29 Miguel Reale. op. dela obter um conhecimento parcial.. de que o bem deve ser feito e o mal evitado". A primeira é uma expressão da razão divina que governa o universo. A pretensão de Santo Tomás foi harmonizar "Ias elaboraciones de Ia teologia com Ias de Ia filosofia.27 O fundamento da doutrina jurídica e política tomista. Lições de Filosofia do Direito. 638. cit. que é uma forma de "lei positiva" posta por Deus. pois a correção moral de um ato não decorre do fato de suas conseqüências maximizarem certo bem intrínseco. 384.. se impõem "de maneira absoluta ao legislador e aos indivíduos. 27 Santiago Nino. 384... é teleológica. já diretamente cognoscível pelo homem.29 A lei humana é uma invenção do homem e deve se ajustar aos preceitos da lei natural. a lei natural "estatui aquilo que o homem deve fazer ou deixar de fazer. 30 Ver Miguel Reale. visto que a idéia do bem tem prioridade em relação à idéia do moralmente correto ou obrigatório.. continua Reale. Os princípios do Direito Natural.

La máxima según Ia cual intento actuar poderia formularse diciendo: "cuando me convenga prometerá algo y no compliré con Io prometido". exige a pura autonomia . supongamos que estoy inclinado a romper una promesa. o requisito da universalidade das leis ou princípios morais é fundamental na filosofia kantiana. as leis morais são universais. p. estando contido no famoso imperativo categórico. Kant "repele qualquer forma de paixão que tenda a arvorar-se em diretora do agir. Puedo yo querer consistentemente que esa máxima se convierta en ley universal? La respuesta es llanamente negativa. ao mesmo tempo.. en consecuencia. 135. cie. prescrevem uma ação como sendo por si mesma objetivamente necessária.. Acerca da diferença entre os imperativos categóricos.ou seja: a determinação em harmonia com a lei universal do dever" . as leis morais são autônomas.33 31 Giorgio Del Vecchio. Kant sostiene que ei imperativo categórico sirve para se leccionar Ias verdaderas máximas morales. por h que querer que esa máxima sea universalizada es contradictorio: implica querer ai mismo tiempo que Ia práctica de prometer subsista y no subsista. Por ejemplo. assim também como de nossos próprios desejos ou impulsos. p. y Ia conducta que se conforma a ella es moralmente mcoirecta. c/t. Para Nino: La aspiración de Kant era que de este principio puramente formal dei razonamiento práctico se pudieran derivar princípios morales substantivos (. e os imperativos hipotéticos. p. Por Io tanto. O conceito de dever. é prioritário em relação ao.A Crítica de Rawls ao Utilitarismo primento de um dever. op. op. op. característicos da moral. conceito de bem. Como nos lembra Santiago Nino. são autônomas porque impostas pela própria consciência ao indivíduo. A moral exige a superação de todas as afeições sensíveis. 659. 33 Santiago Nino. gostaríamos de reproduzir a lição de Miguel Reale: "São imperativos categóricos aqueles que. Primeiramente.32 Finalmente.31 Em segundo lugar. y. 32 Miguel Reale. querer que ela se torne lei universal. esa máxima no puede ser um verdadero principio moral. são categóricas. dice Kant. Na visão kantiana. categóricas e universais. ao contrário. 177 . yo no podría prometer. obrigando a todos os seres racionais por igual. Nas palavras de Del Vecchio.. portanto. e não como simples meio para se atingir certo fim. de maneira imediata..). cit. os imperativos que se enunciam como condição para alcance de fins em si mesmos não obrigatórios". independentemente das ordens de alguma autoridade humana ou divina. Hipotéticos são. puesto que si todo ei mundo actuara según esa máxima Ia institución de Ias promesas desapareceria. 403. pois aquilo que ordenam é incondicional. que é o princípio fundamental da moralidade: age somente de acordo com uma máxima tal que possas..

prossegue o jusfilósofo argentino. mas também em relação aos próprios fundadores. cit. abordaremos inicialmente a ética teleológica militarista. Rio de Janeiro: Imago. faremos menção à crítica que o autor de A Theory of Justice endereça ao utilitarismo. de acordo com a definição de John Stuart Mill.1873) -. Embora. por exemplo. 35 Vide John Stuart Mill.35 Como observa Carlos Santiago Nino. 30. De acordo com Santiago Nino: Esto quiere decir que. 391.1832) e John Stuart Mill (1806 . ou seja.. num segundo momento vamos nos referir à ética deontológica de Rawls e. No entanto. ao contrário.34 Compreendendo felicidade como prazer e ausência de dor.Marcello Ciotola No próximo item. 178 . según esta concepción Ias acciones no tienen valor moral en si mismas sino en relación a Ia bondad o maldad de sus consecuencias. p. entonces. p. Hay que distinguir. osfilósofosque os seguiram na defesa desta concepção moral apresentam tantas divergências não só entre si. não é uma doutrina que tenha sido elaborada por um grande mestre e depois articulada. 2. a su vez. o utilitarismo. 36 Santiago Nino. A Crítica Rawlsiana Por utilitarismo pode-se entender. entre esos estados de cosas que son en si mismos buenos (o maios) y los estados de cosas que solo Io son instrumentalmente. que se torna difícil oferecer uma caracterização geral do utilitarismo compatível com todas as variações existentes. 1999. a concepção que "propõe como fundamento da moral o princípio da utilidade. p. O Utüitarismo. a doutrina utilitarista aceita a utilidade ou o princípio da maior felicidade como sendo o fundamento da moral e sustenta que as ações são corretas quando tendem a promover a felicidade e erradas quando tendem a produzir a infelicidade. 63. 2000. do tomismo. e infelicidade como dor e privação de prazer. por fim. La bondad o maldad de los efectos de los actos está. determinada por Ia medida en que ellos inciden en Ia materialización de ciertos estados de cosas que se consideran intrínsecamente buenos o maios. explicada e aplicada a novas circunstâncias por respeitosos discípulos. introdução à Filosofia da Moral. São Paulo: Iluminuras. todas as concepções tidas como utilitaristas partilham o caráter conseqüencialista desta doutrina. op. o utilitarismo tenha seus grandes fundadores .Jeremy Bentham (1748 . o princípio de que as ações são moralmente boas na proporção da felicidade que produzem para o maior número de pessoas". o sea como médios para materializar Io que es bueno (o maio) en forma intrínseca.3^ 34 Ver Antônio Gomes Penna.

Essa classificação. o a toda Ia humanidad o a todo los seres sensibles. cít. 395. 1.. 1986.280.. c/t. e Antônio Gomes Penna. op. cj't. de modo que "en cada caso. cj't. 63-64.. pp. isto é. por un lado.39 Essa constitui a versão tradicional do utilitarismo.A Critica de Rawls ao Utilitarismo Em função das divergências é preciso enumerar algumas das várias formas assumidas pelo movimento utilitarista. op. 39 Santiago Nino. enquanto no utilitarismo universalista as ações estão centradas nos outros. O utilitarismo de regras. pp. 392-397. enumerar algumas espécies de utilitarismo:37 { Utilitarismo Utilitarismo Utilitarismo egoísta univer s alista hedonista idealista de atos de regras positivo negativo clássico médio Utilitarismo Para o utilitarismo egoísta as ações se mostram centradas no próprio agente. pp. 38 Santiago Nino. 179 . p. Norberto Bobbio et alii.277-1. por sua vez. 392. portanto. debe determinarse si todos sus efectos incrementan más que disminuyen ei bienestar general". Utilitarismo. centra-se 37 Ver Santiago Nino. por Bentham. para establecer si una acción es moralmente correcta. op. leva em conta "si Ias consecuencias que pueden hacer a una acción buena o mala son Ias que afectan solo ai própio agente.. in Dicionário de Política. e foi definida.38 O utilitarismo de atos é aquele para o qual o princípio de utilidade se aplica diretamente a cada ato individual. Brasília: Universidade de Brasüia. p. por otro lado". Ver também Giuliano Pontara. por exemplo. op. Sidgwick e Moore.

396. ao contrário. é a tentativa de transformar a ética em ciência positiva da conduta humana. O utilitarismo clássico sustenta que nossa obrigação moral consiste em maximizar a felicidade total.. um aspecto fundamental do movimento positivista. . cit. o que significa dizer que nossa obrigação moral é agir de acordo com a norma cuja aplicação produz o maior bem. derivado da natureza metafísica do homem. Discutese. Dicionário de filosofia. como a maioria dos filósofos que defendem idéias utilitaristas enquadram-se nessa posição. a felicidade geral deve ser determinada dividindo-se a felicidade total pelo número de pessoas.41 Deixando de lado as divergências existentes. entende que nossa obrigação moral consiste em minimizar a dor ou o sofrimento. Se imaginarmos "dos sociedades. p.. p. São Paulo: Martins Fontes. Essa característica faz do U. ao mesmo tempo que lhe garante um lugar importante na história da ética.Marcello Ciotola na obediência de normas. todavia. op. do qual Popper se aproxima. p. o que permite obter uma utilidade média. op. o bem intrínseco "es Ia felicidad general entendida como suma total de placeres y satisfacciones". O utilitarismo negativo. gostaríamos de citar. cít. Ver Santiago Nino. que nos remetem ao problema das várias espécies de utilitarismo. ei utilitarista clasico preferirá Ia segunda sociedad mientras que. 396. Sendo assim. liga-se à tradição hedonista.. ambas sociedades tendrán igual valor". o U. ou seja. substitui a consideração do fim.42 Para concluir.43 cinco aspectos essenciais do utilitarismo (U): ÍQ Em primeiro lugar. pela consideração dos móveis que levam o homem a agir. universalista e hedonista.. ciência que Bentham queria tornar "exata como a matemática". 986. Não só os fundadores. para ei utilitarista dei promedio. una con un millón de personas contentas y otra con dos millones de personas igualmente contentas. visto que há ações que podem ser descritas tanto como promovendo a felicidade como minimizando o sofrimento. Nisto. 3& ed. p. que vê no prazer o 40 41 42 43 180 Santiago Nino. 1998. O utilitarismo positivo prescreve a promoção da felicidade ou do bemestar. op. 392. Nicola Abbagnano.40 o utilitarismo médio. de acordo com Nicola Abbagnano. o U. se esses dois tipos de utilitarismo podem efetivamente ser distinguidos. Santiago Nino. 22 Por conseguinte. considera nossa única obrigação moral a maximização da média de felicidade. pode-se afirmar que a forma standard de utilitarismo é conseqüencialista. cít.

o U. também foi denominado radicalismo. pois defende a prioridade do justo sobre o bem. no seio da comunidade política. Associação estreita do U. De acordo com Pegoraro: A ética política de J. com as doutrinas da nascente ciência econômica.. 4°. mas sim o princípio fundador de uma sociedade bem ordenada. Isso significa que. de tal modo que o fim de qualquer atividade humana é "a maior felicidade possível. Malthus (1766 . Trata-se de uma teoria deontológica. obedece.Rawls em três tempos: (a) reconhecimento do conflito entre os bens disponíveis escassos e o desejo ilimitado de posse por parte dos indivíduos. -Reconhecimento do caráter supra-individual ou intrasubjetivo do prazer como móvel.. nem num sentido propriamente kantiano.1834) e David Ricardo (1772 . A última teoria de justiça e moralidade social que vamos examinar é a justiça como eqüidade.1823). o U. Nesse . A justiça. Dois dos fundadores dessa ciência. A aceitação dessa fórmula supõe a coincidência entre utilidade individual e utilidade pública que foi admitida por todo o liberalismo moderno (. (b) intervenção da teoria da justiça instaurando a 181 .A Crítica de Rawls ao Utilitarismo único móvel a que o homem ou. foram utilitaristas e compartilharam o espírito positivo e reformador do U. Rawls é uma tentativa de solução de um conflito básico de ordem social: a disputa dos bens primários produzidos por uma comunidade política. o ser vivo. aspecto. em geral. a justiça não é uma virtude e também não é um direito. 3°. Nesse aspecto. conforme observação de Olinto Pegoraro. para o professor de Harvard. torna-se necessária a intervenção de um princípio que ordene a distribuição. a partir da idéia de conflito social pode-se concentrar a ética política de J. 5Q. é o tema central das obras de Rawls. foi tratado sobretudo por Bentham. assim como no precedente. Espírito reformador dos utilitaristas no campo político e social: preocuparam-se em pôr sua doutrina moral a serviço de reformas que deveriam aumentar o bem-estar e a felicidade dos homens em vários campos.). de John Rawls. Como os bens são quantitativamente limitados e sem medida o apetite de cada cidadão. Portanto. Sendo que ela não é considerada nem em sentido aristotélico. compartilhada pelo maior número de pessoas": fórmula enunciada primeiramente por Cesare Beccaria e aceita por Bentham e por todos os utilitaristas ingleses.

1997. Em segundo lugar. da qual Kant fizera parte.. op. 46 Ver Olinto Pegoraro. artifício que os impede de conhecer "(a) seu lugar na sociedade. Rawls se insere na tradição contratualista. pp. y sus instituciones básicas se ajustan a tales princípios. Rawls aclara que solo se vá a ocupar de los princípios dejusticia que deben regir en una sociedad "bien ordenada". cit. y saben que los dernás aceptan. Leda Miranda Hühne (org. Rawls leva às últimas conseqüências a idéia kantiana de seres abstraídos de suas circunstâncias contingentes de caráter empírico. a cooperação. que fundam uma nova ordem política e determinam uma justa repartição dos bens. em Rawls será estipular princípios de justiça capazes de avaliar a estrutura básica da sociedade. p. 410. op. o senso da justiça e as virtudes da cidadania. 45 Santiago Nino. que comprovam essa afirmação. Por fim. força e gosto.46 são escolhidos numa situação fictícia denominada de posição original. a exemplo da kantiana. Cabe apenas enfatizar que. (c) sua concepção particular do bem. Em terceiro lugar. iguais e cobertos por um véu de ignorância.. 182 . (d) as particularidades de seu plano racional de vida. pp. in Ética. se em Kant o objeto do contrato era o estabelecimento do Estado. Rio de Janeiro: UAPÈ. Nas palavras de Santiago Nino: Rawls entiende por princípios dejusticia aquellos princípios que establecen critérios para asignar derechos y deberes en Ias instituciones básicas de Ia sociedad y definen Ia distribución apropiada de los benefícios y cargas de Ia cooperación social. Rawls seguiu os passos de Kant. Primeiramente.). o sea una sociedad destinada a avanzar ei bien de sus miembros. livres.. conforme sustenta Santiago Nino. que é uma reunião imaginária de seres racionais e auto-interessados. é deontológica. dotados da capacidade de escolher livremente princípios morais independentes de seus interesses e desejos. a correção moral de um ato não deriva de sua capacidade para maximizar certo bem. tais como inteligência. 44 Olinto Pegoraro. cit. a teoria moral de Rawls. cit. cit. p. 408-416. p. (b) sua sorte na determinação de características naturais e habilidades. 53-59. y donde todos aceptan. o que significa dizer que. buscando derivar princípios morais substantivos de princípios formais de raciocínio prático. 56. los mismos princípios de justicia.45 Os princípios de justiça. Em nossa brevíssima exposição da justiça como eqüidade nos baseamos em Olinto Pegoraro. Ética e seus Paradigmas.Marcello Ciotola sociedade bem ordenada (justa).. op. para ela. 54. (c) a consolidação da comunidade política onde prevalecem. e Carlos Santiago Nino. op. sua classe ou seu status social. Há quatro aspectos.^ A justiça como eqüidade é uma teoria de inspiração kantiana.

os dois princípios se desdobram em três. Lisboa. 49 Vide Santiago Nino.47 Respeitadas essas restrições. dissertação de mestrado. entre os princípios. pp. p. uma ordem léxica. em sua escolha. Uma Teoria da Justiça. o princípio da igualdade de oportunidades tem prioridade sobre o princípio da diferença. com especial referência aos princípios utilitaristas.48 seriam os seguintes: Primeiro princípio: Cada pessoa deve ter um direito igual ao mais amplo sistema total de liberdades básicas iguais que seja compatível com um sistema semelhante de liberdades para todos [princípio da liberdade]. simultaneamente: a) redundem nos maiores benefícios possíveis para os menos beneficiados. recorreriam a uma regra de racionalidade para decidir em condições de incerteza. de forma que o primeiro tem prioridade sobre o segundo. Reproduzimos a redação dos princípios que se encontra no parágrafo 46 de A Theory of Justice. temos o princípio da liberdade. No seio do segundo princípio. p. Seu argumento principal. de acordo com Rawls. (f) sua geração". Esta regra de racionalidade estabelece que em situações de incerteza. cj'£. Segundo princípio: As desigualdades econômicas e sociais devem ser distribuídas por forma a que. 293. Presença. 413-414. o princípio da diferença (que manda beneficiar os membros menos favorecidos da sociedade) e o princípio da igualdade de oportunidades. Como se pode notar.A Critica de Rawls ao Utilitarismo (e) suas propensões psicológicas. Há. Assim. que se desdobra em a e b. Estamos nos referindo ao princípio denominado de maximin. Introdução ao Estudo de A Theory of Justice de John Rawls. como é o caso da posição original. p.. op. se baseia na suposição de que os participantes da posição original. 48 Ver John Rawls. cít. 410. e b) sejam a conseqüência do exercício de cargos e funções abertos a todos em circunstâncias de igualdade eqüitativa de oportunidades [princípio da igualdade de oportunidades]. prossegue Nino. é racio- 47 Ver Carlos Bolonha. Santiago Nino49 observa que Rawls desenvolve uma complexa e dispersa argumentação para demonstrar por que as partes na posição original elegeriam seus dois princípios de justiça e a regra de prioridade. Vicie também Carlos Santiago Nino. Departamento de Direito da PUC-Rio. de uma forma que seja compatível com o princípio da poupança justa [princípio da diferença]. 1993. 1994.. 183 . em detrimento de outros princípios. op. 11. os princípios de justiça escolhidos na posição original.

pois a ética utilitarista admite o sacrifício de alguns indivíduos. é o verdadeiro imperati50 Santiago Nino.50 Conforme observa Olinto Pegoraro. É preciso lembrar que a situação pior sob a égide de um princípio utilitarista pode ser verdadeiramente catastrófica.Maicello Ciotola nal eleger o curso de ação cuja pior alternativa seja a menos má. intoleráveis no seio do primeiro princípio. etc. principalmente os de cunho utilitarista. pois a prioridade da liberdade e o princípio de diferença asseguram a todos um mínimo muito superior ao mínimo das demais alternativas. op. según él.. seres racionais e auto-interessados recorreriam ao maximin pelo fato de este representar o princípio de prudência adequado nas situações nas quais se desconhece as probabilidades das diferentes alternativas. a justiça como eqüidade desafia a tradição utilitarista. Rawls trava um debate com as teses marxistas e com o liberalismo ortodoxo. através do princípio da diferença (que diz respeito aos interesses materiais e à repartição equilibrada dos bens primários. o maximin leva as partes a preferirem seus dois princípios e a regra de prioridade em detrimento de quaisquer outros princípios. p.. não podem ser negadas na ordem social. segundo Rawls. 414. se isto for necessário para maximizar o bem da sociedade. El principio de diferencia hace que Ia posición social y econômica peor no pueda ser muy mala. 184 . Este princípio. de opinião.Rawls afirma as desigualdades sociais que. de reunião.51 Por intermédio do primeiro princípio. Na visão de Rawls. cj't. J. quando confrontada com as piores alternativas dos outros cursos de ação. 51 Olinto Pegoraro. op. de consciência. o denominado princípio da liberdade e dos direitos humanos fundamentais (que garante os direitos de participação política. si esa privación no es aceptable para él y no lê es compensada con Ia ampliación de otras libertades de que él puede gozar. Acrescenta Nino que. São aceitáveis desde que beneficiem os mais desfavorecidos na escala social". cit.). son admisibles son aquéllas necesarias para incentivar una mayor producción que tenga como resultado que los menos favorecidos estén mejor que en una situación de estricta igualdad (Ia postulación de que los participantes en Ia posición originaria no son envidiosos sino solo auto-interesados permite que ellos elijan este principio. gradas a eso. dos encargos e das vantagens sociais). em aras de um supuesto beneficio colectivo. p. de religião. ya que no lês importa que otros estén mejor que ellos si. ellos están mejor que en una situación de igualdad). "Contra as teses igualitaristas. econômica e cultural regida pelo segundo princípio. segundo Pegoraro. Nas palavras de Santiago Nino: A prioridad de Ia libertad garantiza que nadie pueda ser privado de sus derechos básicos. pues Ias únicas desigualdades que. 57.

p. Tal concepção não é irracional e não é certo que consigamos fazer melhor. nem ter em consideração os numerosos aprofundamentos contidos nas análises contemporâneas. op. a rigor. portanto. verdadeiramente impressionante. muitas vezes.52 O desafio de Rawls ao utilítarismo se manifesta já nos primeiros parágrafos de Uma Teoria da Justiça e. p. acabamos por escolher uma variante do princípio da utilidade. somos obrigados a escolher entre o utilitarismo e o intuicionismo. sob qualquer das suas formas. 72. Na maior parte dos casos. 1995. 185 . a partir de uma posição muito mais limitada. Mas tal não é razão para que não tentemos.. Aqueles que os criticaram fizeram-no. não conseguiram construir uma concepção moral funcional e sistemática capaz de se lhes opor.^ 52 Ver Olinto Pegoraro. Mas.53 Mais adiante. 53 John Rawls. a teoria sistemática dominante tem sido o utilitarismo. Para a maior parte da moderna filosofia moral. acrescenta: Há múltiplas formas de utilitarismo e o desenvolvimento da teoria tem prosseguido ao longo destes últimos anos. cit. pelo seu objeto e sofisticação. O resultado é que. Ver também Olinto Pegoraro. e que a doutrina moral por eles produzida foi moldada por forma a satisfazer as suas vastas áreas de interesse e a formar uma concepção de conjunto. às suas diversas versões. p. Rawls afirma: Talvez a melhor forma de explicar o meu objetivo ao escrever este livro seja a seguinte. 54 Idem.A Crítica de Rawls ao Utilitaiismo vo categório da filosofia política rawlsiana. Apontaram os aspectos obscuros do princípio da utilidade e referiram a aparente incongruência entre muitas das suas implicações e os nossos sentimentos morais. p. muitas vezes. permeia todo esse grandioso tratado de filosofia moral. ainda se referindo aos seus objetivos. 57. Não vou passar em revista essas diversas formas. eram teóricos da sociedade e economistas do mais alto nível. Ética é Justiça. além de fundamento do Estado de direito e da democracia constitucional. Esquecemos por vezes que os grandes utilitaristas. Petrópolis: Vozes. O meu objetivo é produzir uma teoria da justiça que represente uma alternativa ao pensamento utilitário em geral e. 13. No prefácio. Bentham e MUI. segundo creio. Uma das razões para tal está no fato de o utilitarismo ter sido adotado por uma longa linhagem de brilhantes autores. 40. Hume e Adam Smith. circunscrita e restringida por certas formas ad hoc. op. os quais construíram um corpus de pensamento que é. cit.. mediante o recurso a limitações intuicionistas.

op. sendo a mais grave. 55 56 57 58 /c/em. cit. Esse domínio tem sido mantido apesar das reticências persistentes que o utilitarismo facilmente provoca. Carlos Alberto Pereira das Neves.. 61. Dicionário de Filosofia. Creio que a teoria da justiça como eqüidade constitui um esforço nessa direção.).. op.Marcello Ciotola Antes de dar início ao exame dos princípios da justiça. "John Rawls: Uma Teoria da Justiça". 270. pudesse eliminar aquelas dúvidas. ver Santiago Nino. Vide Jesus Martinez Garcia. Rawls enfatiza: Ao apresentar a teoria da justiça como eqüidade. 2a ed. pode preencher este espaço.57 Muitas têm sido as objeções levantadas contra o utilitarismo. p.. A explicação desta situação particular está. plausível e bem desenvolvida. conforme assinala Samuel Gorovitz. 1979. Faço-o por várias razões. aquela que o acusa de sancionar violações aos princípios de justiça. Bibliografia ABBAGNANO. cit. 1994.. Ver Carlos Bolonha. Brasília: Universidade de Brasília. Departamento de Direito da PUC-Rio.^8 consiste em nos fornecer uma perspectiva moral alternativa. Introdução ao estudo de A Theory of Justice de John Rawls. 8. 3a ed. com o qual polemiza constantemente ao longo de sua obra. Contudo. Para um aprofundamento do exame dos atrativos e dos inconvenientes da concepção moral utilitarista. pp. devidamente elaborada. Anthony de Crespigny e Kenneth Minogue (orgs. Jeremy. São Paulo: Martins Fontes. O intuicionismo não é construtivo e o perfeccionismo é inaceitável. 1998. tendo as mesmas virtudes de clareza e sistematicidade. em parte por comodidade de exposição e em parte porque as diversas variantes da visão utilitarista há muito vêm dominando a nossa tradição filosófica. São Paulo: Abril. p. cít. creio.. BOLONHA. p. provavelmente.55 Os objetivos principais de Rawls56 em Uma Teoria da Justiça são conceber e justificar princípios que possam organizar a estrutura básica de uma sociedade justa e desenvolver uma teoria de justiça superior ao utilitarismo. 71.. 186 . 1982. Nicola. BENTHAM. op. p. o grande mérito de John Rawls. Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação. vou contrapô-la ao utilitarismo. Os Pensadores. 397-400. 2a ed. Dissertação de Mestrado. Ver Samuel Gorovitz. no fato de não ter sido proposta como alternativa qualquer outra teoria construtiva que. A minha hipótese é a de que a doutrina do contrato. in Filosofia Política Contemporânea.

Dicionário de Política. Harry. 1997. LALANDE. Ética é Justiça. Armênio Amado. Madri. Monografia. MAGEE. Nelson. 1986. Rio de Janeiro: Zahar. São Paulo: Brasiliense. Coimbra. Maria Cecília M. 1993. Olinto. Giorgio. 9a reimpressão. Introdução à Filosofia Moral. "John Stuart Mill acerca das relações entre justiça e utilidade". 1982.. 1996. 1999. 1995. 1999. 16a ed. 1975. São Paulo: Loyola. Giuliano. "Ética e seus Paradigmas". Justiça como eqüidade. NINO. 1998. São Paulo: Saraiva. La Teoria de Ia Justicia en John Rawls. ia ed. 2a ed.). 2000. In: BOBEIO. In: Anthony de Crespigny e Kenneth Minogue (orgs. Norberto et alü. "Utilitarismo". London: Routledge. São Paulo: Martins Fontes. GARCIA. Álvaro. 1992. Buenos Aires: Astrea. 1994. PEGORARO. . Ética e História. Ética. MORAES.A Crítica de Rawls ao Utüitarisino CARVALHO. Filosofia do Direito. FRANKENA. Petrópolis: Vozes. Brasília: Universidade de Brasília. Uma Teoria da Justiça. 1995. Florianópolis: Insular. John. SALDANHA. Rio de Janeiro: Renovar. Introducción ai Análisis dei Derecho. DEL VECCHIO. GOROVITZ. 1995. GENSLER. VALLS. de. EALE.. Iniciação à Ética. Miguel. Ethics. 13a ed.. Ét/ca.. In: HÜHNE. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. MILL. Bryan. Carlos Santiago. Centro de Estúdios Constitucionales. Adolfo Sánchez. Leda Miranda (org. Brasília: Universidade de Brasília. Antônio Gomes. 1998. Gustavo.). Jesus Martinez. "John Rawls: Uma Teoria da Justiça". Paulo Elias Martins de. Filosofia Política Contemporânea. John Stuart. São Paulo: Iluminuras. In: Sônia Felipe (org. O liberalismo político de John Rawls e a posição originária. 1999. 2â ed. PENNA. KORTE. 1993. VÁZQUEZ. PONTARA. 5& ed. 1997. Lisboa: Presença. História da Filosofia. Ética. Rio de Janeiro: Uapê. RAWLS. O p^je é ética. 1979.. Departamento de Direito da PUC-Rio. William.). 187 . O Utilitarismo. Rio de Janeiro: Imago. 1985. Samuel. André.. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. São Paulo: Juarez de Oliveira. Lições de Filosofia do Direito.

1995. difundiu-se também uma crítica radical à razão. assim como as diferentes funções desempenhadas pelos diversos sujeitos de conhecimento. conforme o caso. 1998. EWALD. "Uma Analítica do Poder sem Lacunas". In Pensamento PósMetafísico: Estudos Filosóficos. Michel Foucault: da Arqueologia do Saber à Estética da Existência. 7n CASTELO BRANCO. Hardt buscam fazer avançar este debate. Não devemos esquecer. Antônio. Rio de Janeiro: Ed. Jürgen. Gilles. "Introdução: Por uma genealogia do poder". posteriormente desenvolvida por Deíeuze e Guatarri (como "máquina abstrata". Tempo Brasileiro. "A genealoyia de Foucault e as formas fundamentais de poder/saber: o inquérito e o exame". Rio de Janeiro: Ed. Raposo "Os conceitos céticos de razão tiveram um efeito terapêutico sobre a filosofia. que as próprias colocações de Foucault sobre Marx variam 189 . a qual não somente protesta contra a transformação do entendimento em razão instrumental. são indissociáveis. valendo-me de uma terminologia deleuziana. "O Horizonte da Modernidade está se deslocando". outubro de 1995. Rio de Janeiro: Ed. Nau. 16. Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saben Marcello Neves M. cf. 1990. MAIA. In Foucault: O Paradoxo das Passagens. Th Microfísica do Poder. André. 2000. Guilherme.: "Um novo cartografo (Vigiar e Punir)". porém. MACHADO. como também identifica a razão como repressão procurando. como o penal (dispositivo disciplinar). encontrar refúgio em algo totalmente Outro "2 As práticas jurídicas sempre foram abordadas por Foucault como modelos exemplares que mostram muito bem como as relações de saber. das relações de poder. QUEIROZ. o da sexualidade (dispositivo confessional). De outro lado. também. p. apesar de dotadas de autonomia relativa. NEVES. A. Muitos marxistas importantes vêm essa conceptualização de Foucault. 1999. As relações da crítica foucaultiana com o marxismo são confusas. In DELEUZE. desencantando-a e confirmando-a na sua função de guardiã da racionalidade. Vega. Negri e M. "Sobre a analítica do poder de Foucault". fbucault.g. In Tempo Social. 7. "Anatomia e Corpos Políticos". Lisboa. de modo fatalista ou extático. de seu lado de fora3 (que não se confunde Sobre a analítica do poder de Foucault. "As estratégias ou o não-estratificado: pensamento do lado de fora (poder)". v. como um resquício de idealismo que estaria presente no pensamento de Michel Foucaul e Gilles Deíeuze. Roberto.). Luis Felipe Baeta (orgs). C. Graal. Rio de Janeiro: Ed. a Norma e o Direito. Pazulin. ou. Revista de Sociologia da USíí v. a seguir. HABERMAS. In Foucault. os regimes de enunciação.Poder. Fiançois. além de seus trabalhos genealógicos sobre os diversos dispositivos de saber. Ed.

) Nesse ponto as análises de Foucault têm grande importância.. O Estado contribui para fabricar essa individualidade por um conjunto de técnicas de saber (ciência) e de práticas de poder. redes de informação. em poucas palavras. mas de forma ainda mais geral podemos dizer que toda a primeira fase de acumulação capitalista (na Europa e em outras partes) foi conduzida sob esse paradigma de poder.. ou realmente dentro da perversa dialética do Iluminismo. no sentido de produtivos de singularidades e de resismuito ao longo de sua trajetória. assim. à guisa de comparação. as colocações de Poulantzas sobre as relações existentes entre as criticas de Foucault e de Marx: "O papel do Estado. (. Marx reconheceu algo familiar no que chamou de passagem da subordinação formal para a subordinação real do trabalho ao capital. não é o de inculcar a ideologia dominante. ao contrário do que pensa Foucault. distribuídos por corpos e cérebros dos cidadãos. que distingue radicalmente inculcação ideológica e normalização. não pode ser mera questão de ideologia. mesmo materializada em práticas. pois constituem análise materialista de certas instituições do poder. a obra de Foucault nos permite reconhecer a natureza biopolítica do novo paradigma de poder. (. Em primeiro lugar.Marcello Neves M.. (. Império. porém. (. solo originário das classes em sua especificidade capitalista.. Os comportamentos de integração social e de exclusão próprios do mando são. e. (. pp. Elas tanto confirmam as análises marxistas. já materializadas em práticas estatais. com efeito. a obra de Foucault nos permite reconhecer uma transição histórica.) O poder disciplinar se manifesta. o que Foucault eveita ver ou dizer. Sabe-se... Raposo com seu exterior). nas formas sociais da sociedade disciplinar para a sociedade de controle. e que se cristaliza nessa forma moderna do poder que Foucault chama de 'panoptismo'. considerando de certo modo que a ideologia não está nas idéias e que todas as vezes Cfue se tratar de práticas ou de técnicas..) E certo que as relações entre o Estado-poder e o corpo. de época.) no objetivo de um estado de alienação independente do sentido da vida e do desejo de criatividade. cada vez mais imanentes ao campo social. a transição foucaultiana lida fundamentalmente com o paradoxo da pluralidade e da multiplicidade . A transição a que nos referimos.. sancionando e prescrevendo comportamentos normais e/ou desviados. na estruturação de parâmetros e limites do pensamento e da prática. a que Foucault chamou de disciplinas ('que se pode caracterizar.. 'em que nova tecnologia do poder e uma outra anatomia do corpo foram elaboradas'.) Momento de normalização. a obra de Michel Foucault preparou o terreno para essa investigação do funcionamento material do mando imperial. 2001. Processo no qual intervém as formas primeiras da ideologia dominante. como também enriquecem-na em inúmeros pontos. Record. da distinção privado e público. 190 . NEGRI. na vida cotidiana. cobrem um campo bem amplo.. etc. portanto. 42-44. do diagrama que nelas se atualiza e se consolida. cada vez mais interiorizados nos próprios súditos. Michael. não se trata simplesmente da concretização dos direitos e obrigações. Antônio. em vez de concentrar-se na unidemensionalidade do processo descrito por Marx e reformulado e ampliado pela Escola de Frankfurt. Devemos entender a sociedade de controle. Citarei..) A seguir.. instituição política investida pelo poder... O poder agora é exercido mediante máquinas que organizam diretamente o cérebro (em sistemas de comunicação.) A tecnologia política do corpo tem como base primeira o quadro referencial das relações de produção e da divisão social do trabalho. Foucault geralmente se refere ao ancien regime e à idade clássica da civilização francesa para ilustrar o surgimento da disciplinariedade.e Deleuze e Guattari desenvolveram essa perspectiva com clareza ainda maior". procedimento designado pelo termo normalização: (. é fundamentalmente desigual porque. pode-se dizer que a relação cada vez mais intensa de mútua implicação de todas as forças sociais que o capitalismo buscou durante todo o seu desenvolvimento foi plenamente realizada. HARDT. "Em muitos sentidos. como aquela (que se desenvolve nos limites da modernidade e se abre para a pós-modernidade) na qual mecanismos de comandos se tornam cada vez mais 'democráticos'. etc. e posteriormente filósofos da Escola de Frankfurt analisaram uma transição estreitamente relacionada da subordinação da cultura (e das relações sociais) à figura totalitária do Estado. Rio de Janeiro: Ed. fixando pontos de emergência. (. É por esse caminho que se pode resolver com segurança o problema essencial para a teoria do Estado que é a individualização do corpo social.. entretanto. em contraste. dizendo que são uma modalidade do poder para o qual a diferença individual é pertinente').) Nessa passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle.

74-76. universal dos discursos. a oficina ou a fábrica. aquilo que a Arqueologia denominava como "quadro". de todas as formações históricas de saber que se dão como "disjunção-conjunção" das positividades {matérias formadas e funções finalizadas) entre o ver e o dizer. sobretudo. O quadro referencial do poder seria anterior a cada campo particular que o concretiza. o diagrama. e sim promover analíticas que dêm conta da constituição e do funcionamento histórico de seus próprios objetos. que Foucault rejeita uma interpretação que viria basear essa materialidade do poder. como objeto. repudia a fenomenologia.) É evidente que não se pode atribuir grande importância a esse aspecto do pensamento de Foucault. ordenada. regulada. de seus diagramas. ordenando-os em rede. pois é toda a economia. pp.Poder. (. Não se basearia no 'econômico'. POULANTZAS. simultaneamente. atravessada por relações de força que atuam sobre os corpos assim agenciados. uma 'máquina abstrata' imanente a cada campo particular. para recolocar o corpo num plano em que ele aparece como superfície histórica dos acontecimentos políticos. essas observações pendem para o idealismo". como um tetos ideal. especificamente nas relações de produção e na divisão social do trabalho. passíveis de serem resguardados ou regulados por uma Ética procedimental do Discurso. por uma Pragmática Universal da linguagem. como "série de séries" relativas às relações ou aos regimes de enunciação agrupados por unidades discursivas. Foucault aprendeu muito bem com a fenomenologia do corpo de MerlauPonty que o mesmo é dotado de uma espécie de "logos nascente". Valendo-me mais uma vez da terminologia de Deleuze. O entendimento ou o consenso não funcionam. e por conseguinte do Estado. Nicos. alvo e efeito dos investimentos políticos sobre os corpos. o Socialismo. Foi Deleuze. sobre a "alma" do sujeito moderno. para as relações de poder... consistentes em entender/explicar. que pressupõe esses mecanismos de poder. Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saber tências. as ciências. constituiria um 'diagrama' (o 'panoptismo'. compreender ou formular juízos normativos "justos" ou "corretos". constituindo-os. Rio de Janeiro: Ed. como "superposição de mapas". subordinados a um Interesse maior da espécie em tornar-se madura. Graal. quem se encarregou de explicar a diferença entre o pensamento de Foucault e o marxismo. as práticas ou formas jurídicas de verdade não existem historicamente no nível de uma pura relação com certos Interesses constitutivos ou transcendentais da espécie. 1990. o saber. 191 . em que vêm se inscrever as relações de poder. no caso). o Poder. produzida. fixando os indivíduos na imanência de seu campo. Podemos dizer com que os Arquivos de saber fazem com que as certamente. O crítico hoje não deve propor grandes modelos ou justificativas para a ação. como materialidade biológica de força composta. produzindo-os como instrumentos e efeitos de dominação. quando consideramos as dimensões daquilo que Foucault chamou de "ordem do discurso". O genealogista. Nessa perspectiva. como função pura que deve ser abstraída de todos os agenciamentos efetivos. contudo. por ele considerada "pré-estruturalista". põe exemplo. O Estado. representa.

promovido pelas cortes eclesiásticas e monárquicas do fim da Idade Média como meio de exercício do poder. "função objetiva". restabelecer a ordem. Raposo relações de força. serviu muito bem aos propósitos de concentração e centralização do poder em torno das monarquias territoriais nascentes. O diagnóstico crítico de Focault sobre as sociedades modernas é dirigido de forma a problematizar. as experiências. Como dissemos anteriormente. dissociar as formas de jurisdicção dos modos de veridicção que elas fazem funcionar. Se o regime da prova. não podemos. nominalista por necessidade. os duelos judiciários. "reduplicam a história". que são seu exterior. Eis aí o sentido que devemos dar à arqueologia e à genealogia como "caixa de ferramentas". portanto. as séries de disjunções arqueológicas que funcionam nos "interstícios" entre o dizível-visível como "formas de exterioridade". com suas provas de força e resistência disputadas pelos litigantes.Marcello Neves M. como forma de extração e produção da verdade. as formas de enunciação do direito ou as diversas partilhas entre a moral e o direito fossem indissociáveis de um certo tipo de discurso. formado pelo devir das forças que. derrisórias e cruéis. o autor de obras literárias. que percam sua condição de pura "virtualidade". conforme o modelo histórico de jurisdição representado pelo direito grego e germânico arcaicos. Foucault nos mostra de que forma o Inquérito. "matéria formada" (visível). de mera "evanescência afectiva". considerado como conjunto histórico de práticas sociais. um dos grandes meios de manifestação do poder soberano. em torno das quais foram se constituindo essas espécies de grandes unidades antropológicas. segundo Deleuze. analiticamente. saiam de seu elemento informe. ordenados em torno do Julgamento de Deus. etc. fazendo com que. os intelectuais como locutores de discursos de contrapoder. de uma determinada tecnologia jurídica de produção da verdade. ocupa um lugar privilegiado nas análises genealógicas do indivíduo moderno como objeto e sujeito. Nesse sentido. Afinal de contas. fazer justiça. genealogicamente. enunciar a verdade são. dos corpus de conhecimento gerados por nossas civilizações dá-se sob a forma de uma genealogia das formas jurídicas de verdade. sem dúvida. de tecnologias de poder organizadas em torno da figura da lei. a genealogia das grandes formas de saber. numa história analítica. rebatia-se na alquimia como forma de conhecimento. ou na série de conferências proferidas em A Verdade e as Formas Jurídicas. do contrato e da soberania. como se os modos de jurisdição. o direito. num considerável número de casos. nós terminássemos por nos reconhecer como sujeitos de determinadas experiências de saber e poder. Em Vigiar e Punir. como o sujeito de conhecimento da ciência e da filosofia. entre estes com seu "lado de fora". para se desdobrarem como "formas de conteúdo" (dizível). Capturar. de pura função ou de pura matéria não formada. as práticas de inquéri192 . ao longo de um desenvolvimento histórico complexo em torno de estratégias não reconhecidas de poder.

ao influenciar toda a tradição ocidental da filosofia quando postula uma incompatibilidade de essência entre saber e poder. Microfísica do Poder. jurídico e político representado pela vontade de saber imanente às práticas de poder inquisitoriais. Abril Cultural. constituirá a matriz das ciências do homem no século XIX. como técnica de saber vinculada às economias punitivas e correcionais investidas como aprisionamento dos corpos. São Paulo: Ed. Galileu. as verdades do mundo inteligível de que são portadores os colocam numa posição de "isenção". da mesma forma que mais tarde o exame. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. no ano passado. 1995. pois o saber. Este ano. fora do modelo histórico. Se as práticas de medida tornaram possível a matemática na Grécia. Façamo-la confessar suas leis. a genealogia e a história". Francis.Poder. o homem de Estado que propunha a realização de um grande Inquérito sobre a natureza. Na verdade. a restituição da norma como meio de qualificação e de s qualificação do indivíduo. e isso através de procedimentos de saber que coloquem o sujeito que conhece numa posição não mais de enfrentamento em relação às forças ocultas da natureza. Foucault cita o exemplo de Bacon. em suas prescrições gnoseológicas e metodológicas do sujeito frente aos objetos. dos acontecimentos que resultavam em danos. em suas estratégias de captura e produção de conhecimento. Pão de Janeiro: Ed. objetivamente situado em relação aos seus objetos "naturais". BACOW. em sua relação com a formação do Estado medieval.4 traçando um grande programa de conhecimento cujo objetivo era descobrir a existência de leis. em transgressão de sua vontade inscrita na lei. trata-se de um dos mais belos exemplos de Foucault. dominação e conquista que se encontram saturados na figura clássica do tirano. buscando a reconstituição objetiva. Foucault. em desequilíbrio temporário da ordem que o rei fazia reinar. só podem ser filósofos. Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saber to. foram transpostas. In FOUCAULT. em seu resumo do Cursos do Collège de France proferido entre 1971 e 1972. 1979. não podem ser compreendidos. posteriormente. estabelece que "a medida havia sido analisada. o inquérito foi estudado da mesma maneira.5 É por isso que os legítimos governantes. Spinoza. mas como investigador "neutro". como forma de 'poder-saber' ligada à constituição da cidade grega. para o grande modelo de operacionalização do conhecimento representado pelas chamadas ciências naturais. testemunhai dos "fatos". a epistemologia naturalista clássica não pode ser pensada fora do grande modelo inquisitorial de dominação. sobre as Teorias e instituições penais. de "imunidade" conquistada frente aos imperativos de poder. no ano que vem. promoverá a fixação. todos os grandes nomes do Racionalismo e do Empirismo da filosofia clássica. O grande inimigo do genealogista é Platão. Michel.6 O juízo-desafio Cf. Cf. 193 . para Platão. "Nietzsche. de regularidades universais existentes nas estruturas da natureza. Descartes. mostrando-nos que a "verdade" não existe fora do poder. Graal.

Jorge Zahar. do que se chamam ciências do homem". dos interesses mesquinhos que estabelecem relações de verdade sempre provisórias. uma passagem da concepção belicista de poder para a noção de "governo" como um conjunto de práticas ou técnicas de direção de consciência. Michel. a exclusão. no combate dos homens ou dos elementos. também. dos instintos em luta. em sua formação histórica. mas. a concepção nietzschiana de conhecimento como vontade de saber. a justeza das relações. a história derrisória. mas o resultado de uma dominação imposta. mas também. matriz de todas as psicologias. 194 . de exclusão e de punição próprios às sociedades industriais. as propriedades. não devemos procurar a harmonia. 1997. nosso objetivo aqui é mostrar a centralidade das práticas jurídicas como campo privilegiado de produção tecno- abotdaremos o exame como forma de poder-saber ligada aos sistemas de controle. a qualificação. se o direito não representa a suspensão cívica e racional das lutas. porque presenciaram os fatos pertinentes à administração da justiça. Por detrás do saber e do conhecimento. um feixe de estratégias em ação. psiquiattias. Rio de Janeiro: Ed. ao rnesmo tempo. a concepção de Nietzsche do conhecimento como vontade de saber. O exame: meio de fixar ou de restaurai a norma. com a formulação da noção de "governo dos homens" (nem. a regra. o inquérito e o exame foram todos três. o prazer e a felicidade de conhecer. é porque assumiu. se a luta permanente deve ser vista como cifra da paz. As práticas de justiça. FOUCAULT. Foucault tenha abandonado a concepção nietzschiana de poder-saber. em testemunhos-assertóricos de pessoas qualificadas para falar porque viram. tampouco. O /nguérito: meio de constatar ou restituir os fatos. indissociável de estratégias de dominação. p. de uma reformulação de perspectivas cujo objetivo é dar conta da especificidade dos objetos tratados. 20. Trata-se. a paz imposta aos contendores. matriz do saber matemático e físico. matriz dos saberes empíricos e das ciências da natureza. como dissemos anteriormente. no interior de análises históricas concretas. contra toda a tradição da filosofia. em suma. dos enfrentamentos estratégicos. pela difusão de práticas inquisitoriais. o governo de si). como identificação dos direitos e das partilhas de bens. Se Foucault. e a ordem justa. sempre sujeitas a reversões e retomadas estratégicas. umo dos Cursos do Collège de Franca (Í970-1982). mas. A medida: meio de estabelecer ou de restabelecer a ordem. como forma organizada de reação social ao crimes. nos trabalhos de Foucault. não podemos dizer que. são os grandes modelos históricos utilizados por Foucault para desenvolver. De qualquer maneira. os acontecimentos. os direitos. nada gloriosa. meios de exercer o poder e. a partilha. mas o jogo mesquinho dos interesses que buscam incessantemente se afirmar. sociologias. também. tão-somente. como "acontecimentos" que remetem à ordem das maldades. Raposo dos contendores em litígios que se expunham à vingança dos deuses nas sociedades arcaicas será transformado. A medida. regras de estabelecimento do saber. Re. Se podemos notar. psicanálises. pode afirmar que "a política é a guerra exercida por outros meios". invertendo a fórmula de Clausewitz.Marcello Neves M.

por mais complexas que sejam". O filósofo do direito. Por isso. HABERMAS. por seu turno. Eles iluminam o horizonte de determinada sociedade.Poder. De um lado. sua função primordial consiste em abrir portas para o mundo. disposta por conseguinte à sedição. necessita de elementos normativos e descritivos. como qualquer paradigma. nos seguintes termos: "Os paradigmas do direito permitem diagnosticar a situação e servem de guias para a ação. mostrando que o mesmo não pode ser pensado fora das práticas sociais que o tornaram possível.7 mas como um conjunto de armas. por oposição aos paradigmas formal-liberal-burguês. como exemplo histórico privilegiado de uma analítica do saber a partir do poder. tendo em vista a realização do sistema de direitos. sobre o projeto de um Tribunal popular para julgar a polícia. opondo-a à fórmula burguesa do tribunal. perigosa. Jurgen.. II.). Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saber lógica da "verdade". v. por um lado. o primado das relações e das forças de produção na análise histórica do social. estratégias que remetem a um determinado equilíbrio histórico de forças. Dentre todos 195 . 1997.) Segundo essa concepção. contrapõe-se à grande tradição que o precedeu. (. de forma inquestionável. Não devemos. A rede tecida pelas comunicações jurídicas é capaz de envolver sociedades globais. por outro. o paradigma jurídico-procedimentalista. do até então inexistente na arena política à "unidade". denunciando o direito e o Estado como superestruturas ideológicas de dominação burguesa. entende o Estado democrático de direito como a institucionalização de processos e pressupostos comunicacionais necessários para uma formação discursiva da opinião e da vontade. embrião de um aparelho de Estado destinado a negar a possibilidade de uma verdadeira justiça popular: "É preciso notar que a burguesia. ao mesmo tempo que as decifra no interior de uma grade bélica de dominação disfarçada. também reduz a emergência irredutível do novo. Direito e Democracia: entre facticidade e validade. e do Estado social de bem-estar. pois está inserido nos contextos de um mundo da vida através de uma esfera pública ancorada numa sociedade civil. fez tudo o que pôde para desligar esta força de uma fração do povo considerada como violenta. A macroanálise histórica do poder em Marx é relativizada. Rio de Janeiro: Ed. a comunicação jurídica pode ser entendida como um médium através do qual as estruturas de reconhecimento concretizadas no agir comunicativo passam do nível das simples interações para o nível abstrato das relações organizadas. o exercício da autonomia política e a criação legítima do direito. Nesta medida.. obrigada a recuar perante essas formas de associação do proletariado. Tempo Brasileiro. como médium racional dos conflitos em sociedades democráticas de capitalismo avançado. p. fundada no discurso. Marx mostrou. portanto.) Este pode compensar os eventuais problemas de integração na sociedade global. em alguns pontos importantes. falando da justiça popular... Em 1972. a teoria do direito {grifo do autor). à "universalidade" proclamada de sua estratégia em ação. colocando a formação institucionalizada da opinião e da vontade em contato com comunicações públicas informais. sem respeito pela legalidade. nessa perspectiva. Foucault.. por oposição à autocompreensão jurídica inerente à cultura normativa dos experts. a justiça. Se quase toda a filosofia moderna se dá arqueologicamente como repetição do Mesmo. a qual possibilita. por uma microfísica do poder8 que o considera como exercício Habenrtas propõe seu paradigma procedimental. (. Foucault participou de uma entrevista com intelectuais maoístas de esquerda (Benny Lévy e André Glucksmann).. (. 181. Eles lançam luz sobre as restrições e as possibilidades para a realização dos direitos fundamentais. como forma de "administração" de conflitos. Paradigmas abrem perspectivas de interpretação nas quais é possível referir os princípios do Estado de Direito ao contexto da sociedade corno um todo. encarar o direito moderno como um "sistema em expansão de direitos".

o criminoso. Que este instrumento tático não tenha levado em conta as verdadeiras possibilidades da revolução. não referi-lo idealmente à idéia fictícia do contrato ou ao evento histórico de uma dominação maciça. (. o roubo. houve alguns muito reduzidos. esse movimento que fazia passar toda uma ética através da alfabetização. mas pura e simplesmente pela burguesia.. Há em particular uma ideologia do proletariado que se tornou permeável a um certo número de idéias burguesas sobre o injusto. como burguesia. ela não podia Ter consciência das relações reais e dos processos reais. Foi fascista quando foi policial. operando grandes divisões entre massas de súditos. Eis aí um excelente corretivo à filosofia jurídica e política clássicas: não mais localizar exclusivamente o poder nas instituições e aparelhos de Estado. instituições. Pelo contrário. desejo de ser protegido pela lei. durante um século e meio. a burguesia propôs as seguintes escolhas: ou vai para a prisão ou para o exército. nem pelo campesinato. mas é tão importante quanto foi esta justiça na separação que a burguesia introduziu e manteve entre proletariado e plebe. Mas o que nós tentamos ver é como funciona a justiça. cit. a propriedade. a luta contra o aparelho judiciário é uma luta importante . o poder esforçou-se por introduzir em seu seio elementos que um dia fugiam com o cofre. In Microfísica do Poder. Isso não quer dizer no entanto que a plebe não proletarizada se manteve tal e qual. a esta plebe. O mapa informe do diagrama se atualiza no arquivo. não conceber a lei como manifestação ao mesmo tempo essencial e ideal do poder. em um certo sentido. em que o poder procedia por extração de riquezas. por confiscação de bens. corpos. as afecções de força materializam-se através das formações históricas e discursivas de saber. a gênese inconfessável das tecnologias de saber. os dispositivos. 54-56. os meios utilizados. Michel. isso é natural. manifestando-se em discursos. pp. FOUCAULT. de minúsculos e horríveis maquiavelismos (enquanto os sindicatos não possuíram personalidade jurídica.) Estou completamente de acordo com você em dizer que é preciso distinguir a plebe tal como a vê a burguesia e a plebe que existe realmente. o crime. Este sistema é. do campesinato e da plebe.. valendo-se do saber ou do conhecimento como peças estratégicas essenciais de controle. entre outras coisas. Aliás. tal como efetivamente se dava nas sociedades clássicas de soberania. do produto do trabalho dos servos. constituídas em rede. O genealogista-arqueologista utiliza-se pragmaticamente do direito para mostrar. a lei sob a letra). como um instrumento tático importante no jogo de divisões que ela queria introduzir. era impossível aos sindicatos prestar queixa.não digo uma luta fundamental. mesmo se as relações fundamentais e o processo real não são vistos pela burguesia". difusas. Os efeitos sobre o proletariado são também reais. Estes efeitos ideológicos sobre a plebe foram reais e profundos. das estratégias de constituição dos sujeitos de saber. nem pelo proletariado. desdobrando-se sobre a totalidade do corpo social. desmascarando a ideologia do direito como aquilo que representa e delimita formalmente o exercício do poder. é um fato feliz. daí a reação de ódio contra os ladrões. instáveis. etc. 196 . "Sobre a Justiça Popular".. ou vai para a prisão ou para as colônias. muito sutil e sustenta-se relativamente muito bem.Marcello Neves M.. Raposo imanente a uma relação de forças. práticas. A justiça penal não foi produzida nem pela plebe. Ed.) Se o que se disse é verdade. Este aparelho judiciário teve efeitos ideológicos específicos sobre cada uma das classes dominadas. foi nacionalista. De modo que a plebe não proletarizada foi racista quando foi colonizadora. ou vai para a prisão ou entre para a polícia. (. pois que. chauvinista quando foi militar. houve alguns muito vastos (como a moral da escola primária..

vem inventando inúmeras tecnologias de poder que escapam à forma do direito. permanentemente os corpos. o cidadão em relação ao Estado.. as "necessidades". minuciosamente. parece-me que o modelo 'exclusão dos leprosos'. as atitudes. centrado exclusivamente no enunciado da lei e no funcionamento da interdição. Esse modelo é quase tão antigo quanto o da exclusão do leproso. a mulher e os filhos em relação ao Pai.9 enquadrando exaustivamente. outra coisa. o outro é o modelo da inclusão do pestífero. Michel.) Numa sociedade como a nossa. seus rituais tão visíveis. sem dúvida. Lês Anourmaux. 55. 2001. aproximando-se muito mais do tipo histórico do "pestífero" que do "leprosário".início do século XVIII. o Ocidente só teve dois grandes modelos: um é o da exclusão do leproso. o modelo tradicional da interdição e da alienação representados pela concepção jurídica do poder: o súdito em relação ao Rei. comparando os diagramas da peste e da lepra. E creio que a substituição. Devemos reconhecer o fato de que nossas sociedades. Martins Fontes. acabou desaparecendo. ao efeito de obediência. pelo menos em nossa sociedade. p. Graal. infinitesimais de normalização. grosso modo. Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saber excluindo. conclui: "Afinal de contas. no fundo. 1999. 10 FOUCAULT. Por que. reprimindo. São Paulo: Ed. Os Anormais. p. no funcionamento estratégico de seus dispositivos. Michel. I: A Vontade de Saber. onde os aparelhos do poder são tão numerosos.^ Veremos de que forma o biopoder. Rio de Janeiro: Ed. no que diz respeito ao controle dos indivíduos. ern fins do século XVII . como puro limite traçado á liberdade. 197 .. no interior de relações complexas. submissão. a anátomo-política do corpo (disciplinas) pressupõem. desde o século XVII. os alunos e aprendizes em relação ao Mestre não constituem tão-somente formas imaginárias do social-his- 9 No curso proferido em 1974. "Enfim. o modelo do indivíduo expulso para purificar a comunidade. sujeição se reduziriam. é a forma geral de sua aceitabilidade". finalmente. 83. muito mais do que enquadrando. e seus instrumentos tão seguros. as formas de vida. como modelo de controle. por que essa tendência a só reconhecê-lo sob a forma negativa e desencarnada da interdição? Nesse ponto Foucault é incisivo: (. pergunta-se Foucault.. É o problema da peste e do policiamento da cidade empesteada. outro modelo foi não estabelecido. afinal. Em compensação. (. foi mais inventiva do que qualquer outra em mecanismos de poder sutis e delicados..Poder. se aceita tão facilmente essa concepção jurídica dopoder? (..) é somente mascarando uma parte importante de si mesmo que o poder é tolerável. em que os sujeitos se vêm atravessados por dispositivos de ortopedia social em suas próprias "subjetividades". os gestos. porque é um poder cujo modelo seria essencialmente jurídico. vol. nessa sociedade que. Parece-me que. mas reativado. todos os modos de dominação.. Seu sucesso está na proporção daquilo que consegue ocultar dentre seus mecanismos. da exclusão do leproso pela inclusão do pestífero é um dos grandes fenômenos ocorridos no século XVIII".) O poder. FOUCAULT. História da Sexualidade. os comportamentos.

então a sexualidade. o que 11 Sobre a interdição universal do incesto como coroação da hipótese repressiva. A lei é sempre uma composição de ilegalismos.11 Talvez uma das maiores originalidade s da concepção de Foucault sobre o direito.entre eles a intensificação afetiva do espaço familiar . Pois este é o paradoxo da sociedade que. As leis. entre tantos benefícios. mesmo na nova mecânica de poder. desde tempos imemoriais. em que o ilícito é definido negativamente. 39. instaurado numa "legitimidade" fixada na necessidade de ordem. Com isso. ocupa um lugar central. o incesto..Marcello Neves M. cujos efeitos estranhos começavam a ser manipulados . a interdição do incesto seja uma regra funcionalmente indispensável. desejo e interdição social do incesto. pp. Ed. permitindo uns. as exigências desta última que mantêm e prolongam sua existência.não pudesse escapar ao grande e velho sistema da aliança. que ela diferencia ao formalizar". Para Deleuze. a lei como puro limite do desejo.. nas sociedades onde predominam os dispositivos de aliança. não contra um desejo incestuoso mas contra a extensão e as implicações desse dispositivo de sexualidade posto em ação. tolerando outros como compensação às classes dominadas. tornando-os possíveis ou inventando-os como privilégio da classe dominante. está sob o signo da lei e do direito". Em outras palavras. Gilles. Raposo tórico. era o de ignorar as leis e as formas jurídicas da aliança. 12 Deleuze prossegue dizendo que "Basta considerarmos o Direito das sociedades comerciais para vermos que as leis não se opõem globalmente à ilegalidade. talvez fosse porque encontrava um meio de se defender. 103-104. o direito. entre o permitido e o proibido. está na necessidade de não mais ordenarmos idealmente o direito segundo uma dicotomia primária entre o lícito e o ilícito.)". por exclusão. por demais grosseira. com concordância quase total viu nele um universal social e um dos pontos de passagem obrigatórios para a cultura. mistério temido e segredo indispensável. Afirmar que toda sociedade. numa sociedade como a nossa. p. cit. as práticas jurídicas normativas não devem ser reportadas ao continente puro da licitude ou da legalidade/ilegalidade. (. (. A lei é uma gestão dos ilegalismos. lei-ilegalidade por uma correlação final ilegalismos-lei (grifo do autor). por motivos inteiramente diferentes. ibidem. ou seja. na garantia e na tutela das liberdades fundamentais. desde o século XVIII.. onde a família é o foco mais ativo da sexualidade e onde são. e de modo inteiramente diverso. se. 198 . está submetida a essa regra das regras. mas que umas organizam explicitamente o meio de não cumprir as outras. Mas. O funcionamento complexo do poder em nossas sociedades erigiu o direito e o Estado como o conjunto reunido e organizado de um poder essencialmente negativo. como pretende Castoriadis: são estratégias inerentes aos dispositivos de poder que o tornam aceitável aos que lhe são submetidos. Se se admitir que o limiar de toda cultura é o incesto interdito. objeto de obsessão e de apelo. colocada como condição de possibilidade universal das verdadeiras civilizações. e cujo inconveniente. sem dúvida. o Ocidente mostrou tanto interesse na interdição do incesto. O coroamento da hipótese repressorã será produzido pela psicanálise no final do século XIX.12 Nesse sentido. garantia que tal dispositivo da sexualidade. Foucault acrescenta que "Pode ser muito bem que. DELEUZE. ao estabelecer uma correlação essencial entre a lei. inventou tantas tecnologias de poder estranhas ao direito: ela teme seus efeitos e proliferações e tenta recodificá-los nas formas do direito..) Se. os ordenamentos. Idem. os decretos. é continuamente solicitado e recusado. o direito não passa de uma gestão das ilegalidades. segundo Deleuze. "um dos temas mais profundos do livro de Foucault consiste em substituir a oposição. durante mais de um século. Fbucault. estaria a salvo.. qualquer que seja. e por conseguinte a nossa.

todas as práticas populares que se classificavam. p. uma nova tecnologia penal. seja numa forma silenciosa. dos saques. da totalização histórica ou da antropologia iluminista. salvo em alguns pontos. mais eficaz e econômica. Numa entrevista com militantes maoístas. seja numa forma violenta. como aqueles. 80. a abolição dos castigos-suplícios. tolerada. por exemplo. Sem recusar o princípio de seu funcionamento ideológico como representação dos interesses de uma classe dominante. historicamente. ibidem. e que lhe seja infligido um castigo de que ela não poderá escapar. promove não somente uma nova mecânica do poder de punir. que nessa massa de irregularidades toleradas e sancionadas de maneira descontínua com ostentação sem igual seja determinado o que é infração intolerável. dos aspectos produtivos. 200 . A forma sem precedentes pela qual a riqueza vai ser investida em mercadorias armazenadas. A microfísica do poder não deve ser vista como negação das análises marxistas da dominação de classes. etc. pressupõe uma intolerância cada vez maior sobre as ilegalidades das pilhagens. os mecanismos. nesse movimento que vai de uma sociedade da apropriação jurídico-política a uma sociedade da apropriação dos meios e produtos do trabalho". na ilegalidade dos direitos. os efeitos de suas formas de dominação. são desviadas à força para a ilegalidade dos bens. trata-se agora de localizar. "É portanto necessário controlar e codificar todas essas práticas ilícitas. na dinâmica das relações de poder.14 Dado o fato incontestável de que o direito se apresenta como instrumento de dominação. o crescimento demográfico dessa época desloca o foco das ilegalidades dos direitos para as ilegalidades relativas aos bens. Sobre a Justiça Popular. que proclamava a necessidade de humanização das penas. o funcionamento. o que se deve fazer é recolocar a ordem dessa dominação ideológica em contextos históricos específicos formados pelas grades complexas dos dispositivos. Raposo A reforma penal da segunda metade do século XVIII. Com as novas formas de acumulação de capital.Marcello Neves M. não mais descontínua mas permanente ao nível das representações que elabora. mas também uma nova economia das ilegalidades. na medida em que o aumento geral da riqueza. os deslocamentos. Foucault 14 Idem. É preciso que as infrações sejam bem definidas e punidas com segurança. O roubo tende a tornar-se a primeira das grandes escapatórias à legalidade. de relações de produção e de estatuto jurídico da propriedade. máquinas de produção industrial nas indústrias. cotidiana. uma redistribuição das ilicitudes toleradas. dos roubos. mais essenciais relativamente aos "mecanismos".

reforçando. 2001. mais ou menos a partir do fim das guerras de religião. Porque. Em Defesa da Sociedade. Martins Fontes. epistemologicamente. FOUCAULT. a gênese ideal do Estado a partir do problema da lei e da soberania. "onanista". pedagogos. Michel.. etc. 1999. Foucault diz: "Como vocês podem compreender. para poder existir. médicos. antropologicamente. segundo a expressão de Mareio Alves da Fonseca. os estudos críticos de Foucault desenvolveram-se em torno dos procedimentos não reconhecidos de poder. da soberania. à espera do "filósofo-intérprete" (filósofo-juiz) em busca do "significado" histórico do texto. FOUCAULT. de suas prerrogativas jurídicas e políticas. cada vez mais. havia ao mesmo tempo pouquíssima e muitíssima coisa a dizer sobre esse gênero de discurso. Adotando essa perspectiva. segundo a expressão de Paul Rabinow. em que juizes. pessoas qualificadas para falar sobre a pessoa do criminoso. deve situar-se longe da posição universal ocupada pelo sujeito que fala no discurso hobbesiano. O "intérprete". os 202 . são constituídos no interior de uma norma "científica". os exames. Pufendorf ou Hobbes. mas a "correção". completamente diverso ou mesmo em oposição ao discurso füosófico-jurídico da lei. "Normalização" é um conceito criado para dar conta desses procedimentos. No curso do ano anterior (74/75). numa sociedade como a nossa. Martins Fontes.Marcello Neves M. a "normalização". de um conjunto de práticas organizadas para normalizar os indivíduos e as populações (práticas penais). normais ou loucos. Foucault nos dá um belo exemplo do que significa tratar genealogicamente o discurso como um acontecimento. São Paulo: Ed. Este seria. trocam de papéis quando se trata de "corrigir". Ele mostra que nessa época. a eliminação do diferente. do novo. A repartição que entre eles se opera entre saudáveis e doentes. gerando efeitos de poder pela multiplicação do "comentário" sobre a "obra". "indivíduo incorrigível". a filosofia verdadeiramente crítica não se dá como filosofia de instituição. na verdade são raros. surgiu um tipo de discurso voltado para a análise das instituições do Estado. os laudos de peritos. a partir deías. Nos anos setenta. entendemos que as formas de discurso desenvolvidas pela filosofia clássica do Direito moderno. pois é capaz de se distanciar historicamente. um direito "normalizado-normalizador". de categorias "científicas" como "monstro humano". os estudos realizados por cientistas. ou seja. do contrato. tal como é formulada por Grotius. Cf. Foucault mostra brilhantemente que o objetivo não seria tanto a punição. Lês Anormaux. Michel. categoria eminentemente jurídica. etc. afinal de contas. bem comportados ou criminosos. de sua loucura. dos discursos e das práticas da medicina-legal para. Foucault desenvolve uma genealogia dos "anormais". estudar seu desenvolvimento no interior de um complexo institucional. São Paulo: Ed. II Faut Défendre Ia Société. pelos juristas-filósofo s que buscavam situar o momento lógico.16 16 Cf. intervir sobre o comportamento dos "anormais". realizando uma verdadeira "antropologia da razão". Os Anormais. não podem ser pensados meramente como discursos dotados de pretensão de validade. a partir do final do século XVI e sobretudo no decorrer do século XVII. dos mecanismos mediante os quais os indivíduos são inseridos.Comentando as práticas judiciárias. lockeano. Para Foucault. Raposo Discurso Filosófico-Jurídico e o Discurso Histórico-Político: No curso proferido em 1975. a filosofia do direito natural (jusnaturalismo racionalista). é inseparável de procedimentos de normalização que em si mesmos não remetem ao direito. Em Vigiar e Punir. psiquiatras. etc. do estado de natureza.

dos normandos sobre os saxões.Poder. Portanto são discursos que têm. sob o equilíbrio da justiça. uma decisão de justiça que diz respeito. Esse discurso. no interior de urna instituição cientifica. Alegam estarem discursos que possuem a uma só vez três propriedades. O que funda a legitimidade ou ilegitimidade do direito aqui serão os grandes episódios de guerra que fixaram. mas eles o detêm também do fato de que funcionam na instituição judiciária como discursos de verdade. à liberdade ou à detenção de um homem. dos Levellers. Esse discurso. discursos de verdade e discursos (. é um discurso que faz valerem o direito e a verdade. mas apenas na medida em que puder valer como arma. no fim das contas. Idem. etc. por volta de 1630. reportando-as à grande invasão. Sem dúvida. A primeira é poder determinar. talvez. a imposição absoluta do bem. das expedições. Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saber O sujeito que fala nesse discurso não é. ou como discursos formulados. das cidades destruídas e das raças conquistadas ou conquistadoras. direta ou indiretamente. corno táticas que contribuem para manter a dominação. diz mais ou menos o seguinte: por detrás das instituições estabelecidas. situar-se no centro e acima dos adversários. Jonh Lilburne. Dever-se-ia procurar.. nos esquecimentos estratégicos da história. no século XI. p. uma lei geral. no limite. Faz valer a inteligibilidade da razão e da justiça contra aquela que é a da guerra permanente. a dominação e a sujeição dos vencidos. que denunciavam as instituições vigentes como sendo de importação normanda. a dissimetria das forças. através de historiadores como Coke. o infinito histórico sem lei que marca o ruidoso espetáculo das batalhas. revelando uma "verdade" histórica que denuncia como armadilha. sob a soberania da lei. que nunca o menciona.. o sangue que secou nos códigos.) que fazem rir". absolutamente. das concessões roubadas. desmascarando as "verdades universais" do discurso adversário como armadilhas. 203 . que funda uma ordem. das traições. e não uma racionalidade universal. ao contrário do tipo anterior. Discursos que podem matar. O sujeito universal do discurso filosófico-jurídico busca desempenhar um papel que é o de Sólon e o de Kant. do justo e do racional por natureza sobre a confusão incerta de seu próprio estado. discursos de verdade porque discursos com estatuto científico. uma espécie de contraponto estratégico ao discurso universal do jurista. constitutiva. as invasões e as derrotas triunfantes das raças. um poder de vida e de morte. ao mesmo tempo que reconcilia. ou seja. impor-lhes um armistício. ibidem. as relações de forças entre nações hostis. 8. das conjurações fracassadas. de forma aparentemente irreversível. nas reivindicações populares ou pequeno-burguês as dos puritanos. No limite (e veremos alguns desses casos). da ordem civil que proclama a paz como seu fundamento. surgiu primeiramente na Inglaterra. Segunda propriedade: de onde lhes vem esse poder? Da instituição judiciária. das conquistas. à vida e à morte. devemos sempre encontrar a guerra. o sujeito universal do jurista ou do filósofo. das leis e dos códigos que enunciam leis gerais e impessoais. e formulados exclusivamente por pessoas qualificadas. como esquecimento. que pode ser lido como um adversário oculto.

pp. Petrópolis: Ed... Rio de Janeiro: Ed. 1992..) Político. sem dúvida.Marcello Neves M. 19 "O político pode extrair sua força dos mais variados setores da vida humana . no mesmo momento em que provoca tal agrupamento. à genealogia do racismo. se estiver presente. ele é sempre o agrupamento humano determinante. são para Foucault filósofos da paz". as reversões estratégicas de forças na Inglaterra e na França. esse discurso será reencontrado na França. tendo sua formulação mais rigorosa em Boulanvilliers. de uma aristocracia francesa decadente que busca restituir seu poder contra o rei e seus conluios contranatureza com os burgueses gauleses-romanos. sempre é o agrupamento que se orienta na perspectiva da eventualidade séria. nacional (no sentido étnico ou cultural). será sempre a unidade normativa e 'soberana'.18 no período que vai do final do século XVI até a Revolução Francesa. 18 "Foucault parte da inversão da célebre fórmula de Clausewitz. por definição. como Carl Schmitt.e de contraposições religiosas. p. como veremos. coloca em segundo plano seus motivos e critérios até então 'puramente' religiosos. 204 . cit. portanto. Foucault desenvolvia uma concepção de poder baseada no modelo guerreiro de Nietzsche. como discurso histórico-político sobre a sociedade frente frente ao discurso filosófico-jurídico do Direito moderno. In Origens do Tbtalitarismo: 50 anos depois. pertencem tradicionalmente ao que conhecemos como filosofia do direito.i? A genealogia histórica de Foucault sobre as práticas. não podendo ser convenientemente resumida num trabalho como esse. é muito rica de considerações. com Max Weber. SCHMITT. cujos motivos podem ser de cunho religioso. como podemos combinar arqueologia e genealogia num pragmatismo crítico relativamente a temas que. criador 317 Para um estudo mais aprofundado. das teorias da soberania e dos contratos sociais. Vozes. 'puramente' econômicos.. Relume Dumará. em especial Hobbes. Carl. Por isso. O Conceito do Político. econômico ou outro. tomando como base arqueológica os grandes discursos que puderam ser formulados pelos historiadores e juristas da época. Pouco tempo depois. segundo a qual a guerra é a continuação da política por outros meios. como filigrana da paz: O discurso da guerra como história herética da teoria política moderna. e a unidade política. em todo caso. mas apenas o grau de intensidade de uma associação ou dissociação entre os homens. resolver o caso decidido. no sentido de que a ela caberá sempre. Ele não designa um âmbito próprio. Ed.19 para a quem a unidade do político deveria ser buscada no elemento virtual e concreto do conflito. Os autores tradicionalmente filiados a esse discurso da guerra. mesmo que seja um caso excepcional".. 76. 2001. 49-285. ou 'puramente' culturais. (. O real agrupamento amigo-inimigo é ontologicamente tão forte e decisivo que a contraposição não-política. pp. no reinado de Luís XIV. Raposo vivendo sob uma imposição político-j uri dica por parte dos normandos. Francisco. Michel. Pode ser comparado com outros pensadores. "Racismo e Eiopolítica". econômicas. Desta vez. a história será contada não mais em nome dos vencidos. 64-65. e que em diferentes épocas provocam diferentes ligações e separações. Nesse momento. (. através desse exemplo. Tratar-se-ia de localizar a guerra como fundamento da sociedade civil. submetendo-os às condições e conseqüências totalmente novas. morais e outras. FOUCAULT. cuja reversibilidade procura-se agora efetuar. que nos faz acreditar que a paz é outra coisa que uma guerra ssilenciosa e contínua. mas dos vencedores. Vemos. ORTEGA.) A genealogia do discurso histórico-político corresponde. cf. Em Defesa da Sociedade.

21 "Esquecendo a teoria das visibilidades. na medida em que ambos propõem uma nova relação entre as palavras e as coisas. através de condição política.20 Deleuze. Gilles. as idéias. cit. pp. se destacarmos em Wittgenstein uma relação original do visível e do enunciável". pp. para quem o sujeito apenas se constitui na medida em que é capaz de ação política.. Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saber de uma verdadeira sociologia das formas sociais de dominação. Faz-se dele uma variante da filosofia analítica atual. Hannah. a concepção que ele elabora sobre o pensamento. sintonizado com as novas concepções dos historiadores.dzôon poliükón e dzôon lógon ékhon. 20 205 . Para a autora. com Hannah Arendt. Ele. uma nova explicação que busca clarificar o modo pelo qual acreditamos falar daquilo que vemos. Contra o fundo dessas definições esquemáticas.Entre o Passado e o Futuro. maneira nova e que dá nova vida à História". e ele será tanto mais legítimo na medida em que for bem-sucedido em refletir essa capacidade humana essencial voltada para a ação. Mas a História só responde porque Foucault soube inventar. esquematicamente falando. Perspectiva. politicamente muito bem controlada. Ed. 22 "O que Foucault espera da História é esta determinação dos visíveis e dos enunciáveis em cada época. com a qual ele não tem muito em comum. comparando-o com Wittgenstein. pp. a capacidade humana para a ação começou a dominar todas os outras . potencializa-se na medida em que é capaz de produzir algo novo. afirma que sua filosofia estabelece uma disjunção entre o enunciável e o visível. em seu trabalho sobre Foucault. o homem era primariamente concebido como homo f&ber até que. mas é a constelação que ordena seu mútuo relacionamento o que pode mudar e muda historicamente. pois essa capacidade parece ter-se tornado o centro de todas as demais faculdades humanas". DELEUZE. ARENDT.a capacidade para o espanto e o pensamento contemplativo não menos que as faculdades do homo íaber e do animal laborans humano. que ultrapassa os comportamentos e as mentalidades. 94-95. uma maneira propriamente filosófica de interrogar. nos estágios iniciais da Idade Moderna. com o último Heidegger. entre os sistemas de enunciados e os regimes de luz. de promover uma ruptura com o existente. portanto. 1997. Gilles. mutila-se a concepção que Foucault tem da história.. devendo ser. na famosa definição dupla de Aristóteles. (. ibidem. Idem. o vir-a-ser do homem não se constitui fora do político. de gerar formas e possibilidades novas de existência. a Antigüidade grega concordava em que a mais alta forma de vida humana era despendida em uma polis e em que a suprema capacidade humana era a fala .Poder. exceto talvez com Wittgenstein.) Não são as capacidades do homem. DELEUZE. Assim. no século XIX. O espaço público moderno representaria a anulação. 59-60. o homem foi interpretado como anima/ laborans cujo metabolismo com a natureza geraria a mais alta produtividade de que a vida humana é capaz. seria adequado para o mundo em que vivemos definir o homem como um ser capaz de ação. 58-59. pela primeira vez em nossa história. transportar a impredizibilidade humana para um domínio onde nos defrontamos com forças elementares que talvez jamais sejamos capazes de controlar com segurança já é suficientemente perigoso. mas se mutila também seu pensamento. tornando-as possíveis.. Foucault. a negação dessa ontologia política fundamental. Ainda mais perigoso seria ignorar que. a Filosofia medieval e romana definia o homem como animal rationale. São Paulo: Ed.21 Como se constitui historicamente o caligrama que une as linhas do dizível com as formas de visibilidade que ele apresenta?22 Esse plano só faz sentido com o abandono do elemento especulativo universal e "Agir na natureza. .

ele não o diz. mas. de efetuar a ligação hermenêutica entre o horizonte do autor com o do intérprete. É preciso. denunciando os ideais filosóficos tradicionais da "paz". da "justiça". Foucault não se contenta em dizer que é preciso repensar certas noções. Raposo sua substituição pelos limites. a postura crítica de um "positivismo feliz". é essa concepção organizacional do partido que se faz justificar por essa teoria do poder. historicamente ordenado pelo problema da guerra. Assumir. dirigia seu discurso contra um adversário político claramente definido no momento: um tipo de discurso "antifilosófico". por parte do intelectual crítico-específico. 40. ele o faz. estrategicamente situado em relação aos seus adversários. deveríamos evitar a "falácia" do auditório universal de Perelman cjuando se trata de submeter os discursos canônicos da filosofia do direito aos pressupostos de uma crítica histórica arqueológica e genealógica das práticas jurídicas. uma mudança de atitude. enfim. "filósofo do direito". com práticas penais cada vez mais menos "jurídicas" e mais normalizadoras (pune-se menos a infração do que o "ato" criminoso. a assim propõe novas coordenadas para a prática. verdadeiramente. numa outra escala. ele efetivamente a realiza. inversamente. ibidem. das insubmissões à lei. diante de seu objeto jurídico. Deleuze comenta dizendo: "E como se. ao invés de interpretálos. consistente no problema do sujeito como produto de seu próprio saber.) O privilégio teórico que se dá ao Estado como aparelho de poder leva. pelos interstícios que nos faz pensar no Iluminismo como "nosso mais recente passado". nem tampouco desenvolvido teoricamente por uma crítica procedimentalista do direito. outra prática . demonstra que o direito não pode mais ser pensado simplesmente como "objeto" de uma ciência ou de uma teoria geral da justiça. ordenadas pela questão fundamental. a população é objetivada como conjunto de seres governáveis. 206 . do mesmo que. ou utilizadas somente na medida em que puderem valer como arma no interior de um discurso historicamente consciente. DELEUZE.. consistente em silenciar o discurso histórico-político das guerras. maciço e primeiro da invasão. de suas próprias práticas políticas e científicas de dominação. juridicamente antijurídico. pelas fronteiras históricas. centralizador. 23 Sobre os métodos desenvolvidos por Foucault em sua analítica do poder. Gilles. para submetê-los à ficção abstrata da guerra de todos contra todos. para Foucault. à concepção prática cie um partido dirigente. pelo fato decisivo.. o genealogista é capaz de descrever a estratégia de Hobbes. algo de novo surgisse depois de Marx. Ao tratar os discursos como "acontecimentos" históricos. de certa forma. antes de tudo. procedendo à conquista do poder de Estado. p. É como se uma cumplicidade era torno do Estado fosse rompida.Marcello Neves M. fingindo dirigir-se a uma assembléia ideal de ouvintes racionais. Outra teoria. A identificação do problema da norma. a "pessoa" do criminoso. Idem. da "ordem". Hobbes. Foucault não postula simplesmente a necessidade de uma nova filosofia do direito. suas articulações normalizadoras com o direito.23 Para Foucault.é esta a aposta do livro de Fbucault. como armadilhas a ser evitadas. inseridos em sistemas controlados de intervenção). (.

72. em verdade. ou no ato de 25 Idem. de uma guerra idealizada. No curso desse ano (1975). na sua especificidade. mas a partir da própria relação. Hobbes não nos remete às guerras efetivamente históricas. 71. Trata-se. melhor do que procurar a forma única. segundo. nesse tipo de discurso "histórico-político"? Foucault não faz uma interrogação do tipo filosófico-tradicional. ao contrário. mais do que conceder um privilégio à lei como manifestação de poder. não fala do interior das batalhas que tiveram lugar. eles se encontram naquela condição a que se chama guerra. 207 . p. Seria preciso tentar estudar o poder não a partir dos termos primitivos da relação. é preciso primeiro deixá-las aparecer na sua multiplicidade. Esse. a glória.) Com isto torna-se manifesto que. a competição. Do mesmo modo. Michel. pressupõe o indivíduo como sujeito de direitos naturais ou de poderes primitivos. que agem através de cálculos de força. Primeiro. durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito..24 O que está em jogo. perguntando-se se a guerra deve ser considerada como um estado de coisas fundamental. "De modo que na natureza do homem três causas principais de discórdia..Poder. em relação ao qual todos os fenômenos de dominação. é preciso procurar saber como as relações de sujeição podem fabricar sujeitos. de fato. mas sim de um estado26 permanente de guerra: a guerra de todos contra todos. na sua reversibilidade: estudá-las. ontologicamente primeiro. enfim. libertamo-nos do que ele chama de falsas paternidades relativamente aos discursos da guerra. segundo Foucault. faz da lei a manifestação fundamental do poder. (. se opõem e tendem a se anular. o ponto central de onde todas as fórmulas do poder derivariam. a desconfiança. diferenciação e hierarquização social devem ser remetidos à guisa de derivação ou conseqüência. travada entre sujeitos não menos ideais. por via de conseqüência ou de desenvolvimento. tem como objetivo dar conta da gênese ideal do Estado. e terceiro. que um discurso emergiu afirmando que "a ordem civil é fundamentalmente uma ordem de batalha"?25 Seria necessário. Enfim. uma vez que é ela que determina os elementos dos quais trata: mais do que perguntar a sujeitos ideais o que puderam ceder deles mesmos ou de seus poderes para se deixar sujeitar. "é preciso abandonar o modelo jurídico da soberania. Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Microrrelações Produtivas do Poder/Saber Para analisarmos as relações de poder. como relações de força que se entrecruzam. p. a partir de que momento passou-se a imaginar que é a guerra que funciona nas relações de poder. . e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. que remetem umas às outras. sua interrogação era a seguinte: desde quando. portanto. convergem ou.Resumo dos Cursos do CoIIège de France (1970-1982). 24 26 FOUCAULT. nas suas diferenças. ibidem. Pois a guerra não consiste apenas na batalha. é melhor tentar determinar as diferentes técnicas de coerção que opera".

Seu discurso estabelece um jogo entre cálculos e representações que se entrecruzam no elemento de uma igualdade primordial entre os sujeitos. é o efeito de uma igualdade primordial entre os indivíduos. ao que se dirige essa eliminação da guerra. Melhor dizendo. Portanto. São Paulo: Ed. a guerra. Raposo de representações que se é capaz de fazer sobre a força de outro. Thomas.Marcello Neves M. o que Hobbes quei eliminar é a conquista. é a "não-guerra" que funda o Estado para Hobbes. etc. pois o que funda o Estado é um cálculo que os sujeitos estabelecem.. buscando a segurança e a sobrevivência. a enorme silhueta que se destaca na vinheta que abre o Leviatã e que representa o rei com a espada erguida e o báculo na mão. Abril Cultural. falando da guerra o tempo todo.) O que Hobbes queria. Hobbes se dirige quando. col. as relações de força seriam fixadas logo de saída em benefício do mais forte. de qualquer forma. ou ainda a utilização. "Daí o problema: a quem. o que se procura elidir da filosofia política e jurídica é a própria guerra como problema. 1983.27 lutar. no fundo. não refutar mas tornar impossível. 112-113. no discurso histórico e na prática política. as representações que cada sujeito faz de si mesmo (de suas forças) e dos outros. em todo um estrato. em que a constituição racional da soberania surge como necessidade antropológica. portanto. mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida". (. ele repete obstinadamente: mas. não importa. O que funda jurídica e politicamente o Estado não é. 75. do Estado soberano. nunca a guerra havia desempenhado esse papel que Hobbes lhe recusa com teimosia? A que adversário. Michel. p. pp. onde eles se representam suas forças e as dos demais. e sim os cálculos. pois se houvesse uma dissimetria muito grande. Os Pensadores. Foucault prossegue. O estado ideal de guerra em Hobbes. era uma certa maneira de fazer o saber histórico funcionar na luta política. dizendo que "Esse enorme homem artificial que tanto fez estremecer todos os partidários da ordem estabelecida do direito e da filosofia. no fundo. o ogro estatal. no fundo ele pen208 .. não tem importância que haja ou não uma guerra. reativando essa categoria fundamental e primeira da guerra existente nos discursos histórico-políticos. se a soberania política se constitui por "instituição" (pacto social) ou por "aquisição" (conquista). nas teorias jurídicas do poder anteriormente formuladas. esse vis-à-vis estratégico. forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil.. em toda uma linha. não é de guerra que se trata na constituição das soberanias. desse problema que é o da conquista". existente e constitutivo não somente do estado de natureza. (. 27 FOUCAULT. Em Defesa da Sociedade.) Numa palavra. sobre sua disposição ou vontade de lutar. mas que permanece mesmo após a constituição da sociedade civil. HOBBES. Assim. ficando entendido que nunca.. Leviatã ou Matéria. em toda uma frente de seu discurso. de uma não-diferença existente entre eles. pois.

Uma Teoria da Justiça. Numa perspectiva foucaultiana. ao mesmo tempo. Herbert L.. ibidem.28 Os discursos clássicos do contratualismo racionalista criaram um edifício jurídico de legitimação do poder centrado sob o princípio da soberania. 1997. mesmo os filósofos que tanto o censuraram. tomou a mesma forma e estruturas gerais..30 Luta. Para fazer isso. formula-se. que seja. de a filosofia do direito ter dado depois. 28 Idem. antes. especificam o tipo de cooperação social que se podem assumir e as formas de governo que se podem estabelecer. a despeito de muitas variações em diferentes culturas e ern diferentes tempos. Lisboa: Ed. aceitariam numa posição inicial de igualdade como definidores dos termos fundamentais de sua associação. em Locke. de seu monopólio sobre a representação do poder. Geral. "Daí o fato. 1994. embora se tenham acumulado à volta dela numerosos mal-entendidos e mitos obscurecedores que apelam à clarificação. 29 Sobre a idéia principal de sua "teoria da justiça". na medida em que é moralmente neutro e não tem propósitos de justificações. Foi Hobbes". nesse sentido. O meu relato é descritivo. pois este representa a dissolução do universal. deve-se destituir o direito. John Ralws afirma que "Meu objetivo é apresentar uma concepção da justiça que generaliza e leva a um plano superior de abstração a conhecida teoria do contrato social como se lê. a Hobbes o título senatorial de pai da filosofia política. no sentido de que não está ligada a nenhum sistema ou cultura jurídicos concretos. como recompensa. Esta instituição. é claro. Martins Fontes. o amam. Deveríamos.A. O Conceito de Direito. justo o contrário". Parecendo proclamar a guerra em toda parte. 209 . 12.) atribuo a qualquer homem educado. São esses princípios que pessoas livres e racionais. finalmente. Idem. mas procura dar um relato explicativo e clarificador do direito como instituição social e política complexa. E é por isso que. geral e descritiva. A filosofia contemporânea do direito. a idéia norteadora é que os princípios da justiça para a estrutura básica da sociedade são objeto do consenso original. situá-lo no sava bem. enfim. Esses princípios devem regular todos os acordos subseqüentes. ora seus aliados. Rosseau e Kant. da necessidade legal de obediência. não devemos pensar no contrato original como um contrato que introduz uma sociedade particular ou que estabelece uma forma particular de governo. na realidade.29 busca a formulação precisa de um "Conceito de Direito". no fundo. 114. p. com uma vertente regida por regras (e. o discurso de Hobbes dizia. do início até o fim. p. digamos. em termos de uma "teoria da justiça". ibidem. ora seus inimigos. 'preocupadas em promover seus próprios interesses'.Poder. RAWLS. esse discurso que estabelece um contínuo histórico-político entre os conflitos. as instituições e os governantes. em seus aspectos mais tradicionais. 113. p. por exemplo. Pelo contrário. O ponto de partida para esta tarefa de clarificação é o conhecimento comum e difundido dos aspectos salientes de um moderno sistema jurídico interno que (. um ganso despertou os filósofos que dormiam. São Paulo: Ed. A essa maneira de considerar os princípios da justiça eu chamarei de justiça como eqüidade". pelo menos no nível em que ele poder ser pensado filosoficamente. John. Fundação Calouste Gulbenkian. contra o pragmatismo. é por isso que seu cinismo encantou mesmo os mais timoratos. Direito e Verdade: O Direito como "Máscara" do Funcionamento Efetivo das Micronelações Produtivas do Poder/Saber O discurso inimigo de Hobbes é o das lutas que dividiam a Inglaterra naquele momento. 'normativa'). Quando o capitólio do Estado foi ameaçado. as conquistas. (síc!)" HART. 30 "O meu objetivo neste livro foi o de fornecer uma teoria sobre o que é o direito. Os juristas eram ora servidores do rei. Foi preciso que Hobbes aparecesse para repor o contrato no lugar da guerra e com isso salvar a teoria do Estado.

laurus. leva a declarar que é absurdo tentar compreendê-lo em termos de normatividade. o movimento de maio de 68 foi muito significativo. segundo o esquema clássico de uma oposição política: ao poder e sua opressão teriam respondido a revolta e sua vontade de liberação. tendo como denominador comum a recusa de toda totalizaçáo. de modo mais geral. se pôs a reivindicar sua particularidade sob a forma de direitos não-universalizáveis: direitos da mulher. 1984. caricaturando o universo jurídico. In O Dossier: Últimas entrevistas. retomar Ewald. p. Como podemos conceber uma afirmação ou uma interpretação como a de Simone Goyard-Fabre. pretendia destinar a cada um seu lugar e sua identidade. e em particular do pós-guerra. para quem o Direito só poderia existir no elemento do universal. de dinâmica e mesmo de funcionalidade: em suma. ainda que se visse aí uma 'revolução cultural'. do "consenso". declarado privado de qualquer estrutura normativa. Simone Goyard-. EWALD. de dever-sei ou. São Paulo: Ed. foi este programa filosófico que. 32 No que tange a esta transformação importante na história do pensamento. Assim desfigurado. "Interpretou-se o movimento de maio de 68. de valor".Marcello Neves M. Rio de Janeiro: Ed. que outras maneiras de se compreender os fenômenos de dominação se busca eliminar com a redução de todos os fenômenos políticos ao momento lógico e fundacional do "contrato". Esta crise do universal. resumindo. em nome de uma consciência da racionalidade econômica das sociedades. Segundo Ewald. de "vitalismo com pretensão antijuridista". Martins Fontes. para quem Foucault é ape210 . A interpretação é bem estática. Maio de 68 pode também se interpretar como acontecimento filosófico que não tem sentido senão sob o ponto de vista da história do século XX. efetua uma extrapolação que. do laço voluntário entre cidadãos? Estaria a Jurisprudência filosófica prisioneira nos dilemas de uma dualidade do tipo "normativismo-voluntarísmo"? Essa é uma das razões que explicam a extrema má vontade. 93. esta vontade de uma nova composição do todo e de cada um. quando diz que: "guando Fbucault fala de direito. Segundo Habermas. Os Fundamentos da Ordem Jurídica. o repúdio que os juristas e filósofos tradicionais experimentam pelo que foi chamado de "vias redutoras do pragmatismo ético-social". Que tipo de saber. tecnicista e totalizante. direitos dos homossexuais. lhe permite denunciá-lo como desprovido de significação. Raposo interior de estratégias de dominação que se ocultam por detrás da universalidade de seu discurso. sem dúvida. direito das minorias nacionais. 193. p. a despeito do Homem da Declaração de 1789. jamais será expressa melhor do que no slogan fetiche do movimento de maio: 'Somos todos judeus alemães". então. que eram as do marxismo. numa consciência sempre confusa e nas categorias disponíveis na época. Muito elucidativo para o debate Habermas-Foucault é o exame atento das colocações de ambos os pensadores a respeito do movimento de maio de 68. "O fim de um mundo". direito à diferença. 2002. se opuseram toda uma série de razões particulares.32 Dentro 31 FABRE. François. No exercício da opressão de uma razão erudita. afirmar que ele é um corpo morto. Cada um. o universo do direito.31 Devemos. ao criticar a crítica dos juristas. que ordem de conhecimentos. do "acordo". O que foi contestado.

Jacques. O argumento. São Paulo. também. é puramente retórico. 67.. das invasões e suas memórias.Mazcello Neves M. Tanto mais que ousa enunciar que. interrogarmo-nos sobre as suas condições de possibilidade. NORA. novas abordagens. como é o caso de Hobbes. "Uma experiência foucaultiana: os princípios gerais do direito". a história. História: novos problemas. do contrato e da lei. 212 .34 Ewald assim coloca a questão referente às relações da história com o direito tal como é praticado por nossas sociedades: "Haveria. Mais. retranscrevendo-os. incompatibilidade de essência entre direito e história. Deste modo. ibidem. enfim. A História Nova. v. Não seria possível haver filosofia dos direitos do homem a não ser aquela que os 'fundasse' no próprio homem. necessariamente. realinhando as turbulências. não há certamente nada de sólido para fundar sobre ele. sem dúvida. particulariza. Pierre. Rio de Janeiro: Ed. eqüivaleria a destruí-las. GOFF. a sua filosofia. novos objetos. com efeito. GOFF. que confere à história a função crítica. recusar-se-á que se possa extrair de Foucault uma filosofia do direito. Tem o mesmo estatuto que aqueles que os sofistas lançavam na discussão: que não é possível mentir ou que Aquiles nunca alcançaria a tartaruga. cf. Idem. Martins Fontes. Com tal argumento. seria destruidora do direito. preocupada com a multiplicação dos acontecimentos. as dissimetrias sob a ordem das decisões refletidas. 34 Para uma discussão sobre a chamada "História Nova". 35 EWALD. sendo o homem. se na época clássica os discursos filosóficos do contrato e de teoria do estado buscaram eliminar o problema político do conflito. François. das transformações de suas escalas.^ Assim. as diferenciações. no cerne de uma genealogia das práticas jurídicas que não pode funcionar sem uma arqueologia de seus discursos. em função das especificidades do objeto considerado. em 1789. Jacques Lê. Francisco Alves. Raposo reconhecermos a necessidade de uma nova história do direito. na opinião de alguns. situar a Declaração dos Direitos do Homem. menos um alicerce do que um produto. os juristas de hoje se rebelam contra a possibilidade de um pragmatismo crítico na filosofia do direito. 1998. ora. Ed. p. Não haveria direito senão no universal. ainda que se valendo do expediente de uma guerra ideal. num discurso que é o da soberania. de suas cronologias. Ele coloca um interdito lógico que se pretende tanto mais constrangedor quanto a prática não deixa de o anular". das rupturas. do equilíbrio permanente da justiça correlata ao elemento de uma igualdade primordial. independentemente de toda a situação histórica particular. 1976.

se por um lado a defesa da democracia cosmopolita permanece em um nível guasi-utópico. Todavia. por um modelo kantiano de governança global. baseado no eojailíbrio de poder entre Estados. No entanto. a paz mundial através da democratização das relações internacionais. liberais construtivistas ressaltavam tendências em direção à superação do modelo hobbesiano de política internacional. associados à aceleração dos processos de globalização. Doutoranda na NYU School of Law e Professora do Departamento de Direito da PUC-Rio. apostando na possibilidade de uma democracia de dimensões cosmopolitas e de uma esfera pública global. A expansão da democracia formal ao redor do mundo não levou à democratização das relações internacionais. Introdução O fim da Guerra Fria e as subseqüentes revoluções democratizantes do leste europeu na década de 80. Ainda que não estivéssemos diante do "fim da História". tais previsões otimistas não se traduziram em realidade ao longo dos anos 90. a política externa da Superpotência e dos seus aliados após 11 de setembro de 2001 parece sepultar definitivamente qualquer chance de uma democracia global. Todavia. foram interpretados por muitos como sendo o início de uma nova era nas relações internacionais. por outro lado. estas novas arenas de discussão têm implicações normativas importantes para a consolidação da democracia dentro das fronteiras de democracias recentes. Por fim. onde o poder permanece determinante e a desigualdade ainda é estrutural. a existência de esferas públicas transnacionais se impõe como realidade. A consolidação destas esferas transnacionais não transformou como se esperava o modelo de tomada de decisão no nível global nem alterou de forma significativa a agenda internacional. De acordo com esta vertente. enfim.Esferas Públicas Transnacionais e Inclusão Política: Implicações Domésticas de Novas Configurações Transnacionais Márcia Nina Bernardes* 1. que constituía uma necessidade normativa. 213 . mesmo que ainda deficientes. condições empíricas propícias à sua efetivação. encontrava.

a segunda crítica (seções 3 e 4) e a terceira reconstrutiva (seções 5 e 6).onde não apenas interesses globais são discutidos mas também agendas domésticas . no Tratado da União Européia e no regime internacional de proteção aos direitos humanos. ver o artigo de Joseph Weiler. Sobre sociedade de risco. Ulrich. apresentado no Colóquio "Globalization and its discontents". Em seguida. o reconhecimento de valores universais (consubstanciado na Carta da ONU. London. na próxima seção. apresento rapidamente (sem nenhuma pretensão de justificação) o conceito de esfera pública discursiva como central à concepção democrática de Jürgen Habermas.Márcia Nina Bernardes Este artigo se estrutura em torno de duas teses. Na seção 4. segundo. Nesta empreitada. apresento e critico os pressupostos institucionais do conceito. e mais importante. Com relação à primeira preocupação. A fim de esclarecer as vantagens desta concepção. GIDDENS & LASH. Sage. 1992. para quem deveríamos adotar uma metodologia geológica na análise do direito internacional e perceber diversas "camadas" sobrepostas concernentes ao processo de elaboração do direito internacional e aos mecanismos que asseguram a sua efetividade. apesar de ainda conectadas a estruturas domésticas. 1994. é a de que a transformação quantitativa e qualitativa da participação da sociedade civil na esfera pública transnacional . por exemplo) e. Tradition and Aesthetics in the Modem Social Order. A segunda tese. Sobre a análise geológica do direito internacional. Seguindo esta estrutura. de democracia. com eles. realizado na NYU School of Law na primavera de 2001. o gerenciamento mais eficiente de desafios transnacionais que hoje enfrentamos como membros de uma sociedade involuntária de riscos compartilhados (como finanças globais. justificando porque neste artigo abandono o projeto cosmopolita e me dedico à analise de implicações domésticas da globalização política. mesmo defendendo a transnacionalização da esfera pública. comércio internacional e meio ambiente). normativos e empíricos. Reflexive Modernlzation: Politics. Risk Society: towards a new modernity. procedo em três etapas: a primeira dogmático-descritiva (seção 2). 214 . o adensamento das camadas constitucional e administrativa se refere a transformações no processo de formação de normas internacionais associadas a duas preocupações recentes: primeiro. na seção 3. a própria teoria da esfera pública. Stanford: Stanford University Press. cotejo-a com outros modelos. As últimas partes deste artigo são dedicadas à discussão sobre a consolidação de esferas públicas transnacionais e suas implicações normativas através de uma reconstrução do debate acerca da globalização à luz da teoria discursiva de esfera pública. critico as propostas de democracia cosmopolita. and BECK. A primeira é a de que o adensamento das camadas constitucional e regulatória do direito internacional. l Faço uso aqui da terminologia de Joseph Weiter. mostrando que diante da aceleração dos processos de globalização eles precisam ser revistos e.1 a emergência de novos atores no plano supranacional (organizações intergovernamentais e sociedade civil) e o desenvolvimento da tecnologia de comunicação são circunstâncias que possibilitaram a existência de esferas públicas transnacionais.tem implicações normativas importantes para a relação entre cidadão e Estado no contexto doméstico de democracias recentes como os países da América Latina. ver BECK.

cit. e não questões relativas a status e poder. portanto. Direito e Democracia. estarei me referindo principalmente ao Habermas do final da década de 80 até o fim da década de 90 e apenas indiretamente ao seu livro sobre esfera pública. O conceito de esfera pública: vantagens normativas e institucionais do modelo discursivo Diante da complexidade das nossas sociedades contemporâneas. Todavia. Jurgen. Direito e Democracia. Ver Habermas.2 o lugar par excellence de deliberação política e autodeterminação democrática desloca-se do Estado . vol. Esferas públicas.entendido como um aparato administrativo e burocratizado . a noção de esfera pública.4 O processo de formação da vontade política.. teve o mérito. pode ser entendido.formado pela interpenetração de tradições culturais. até tomarem a forma de opiniões públicas capazes de atingir as instâncias decisórias do sistema. e as coletâneas de artigos A inclusão do outro (1996) e Constelação pós-nacionaí (1998). 92. 42. Pode ser entendida como o pano de fundo . A democracia se apresenta como única possibilidade de justificação normativa da coação estatal e a categoria de esfera pública assume importância decisiva. em que a força do melhor argumento. Segundo o filósofo alemão. assume uma dupla dimensão: é um conceito crítico-norma- 2 3 4 5 O tema da esfera pública recebeu a atenção de Habermas cedo em sua trajetória acadêmica. grosso modo. designam toei não-estatais de deliberação acerca de questões públicas. Jurgen. p. onde a solidariedade emerge como força de integração social. As obras referenciais aqui serão Direito e Democracia: entre faticidade e validade (1992). A modernização seletiva.Esferas Públicas Transnacionais e Inclusão Política: Implicações Domésticas de Novas Configurações Transnacionais 2. op.5 Situada no campo de tensão entre a faticidade e a validade das ordens políticas contemporâneas. HABERMAS. pressupõe a existência destas arenas onde se desenrolam processos de negociação marcados. II. Mudança estruturai na es/era pública. mas também por formas de argumentação orientadas pela possiblidade de entendimento entre os participantes do diálogo público. sua tese de habilitation publicada em 196MI. então. a legitimidade política não pode mais ser encontrada na metafísica nem na tradição..para a esfera pública. de introduzir a categoria na discussão da teoria política e social. influenciando a tomada de decisões políticas públicas. Mundo da vida. op. cit. Sistema. Um dos pilares da teoria do discurso de Jurgen Habermas é o seu conceito dual de sociedade. II. ordens sociais e identidades pessoais . Jessé. Neste artigo. elaborado inicialmente em Teoria da açào comunica ti vá. por questões de poder e por operações sistêmicas. 215 .que permite o entendimento entre atores. tal como formulada pela teoria discursiva. p. por outro lado. e SOUZA. Direito e Democracia. Jurgen. entre outros. é possível distinguir-se analiticamente duas dimensões sociais: sistema e mundo da vida. sem que a inspiração inicial fosse alterada. será decisiva. diz respeito a dimensões da vida social autoreferenciadas que se estruturam e se reproduzem através de processos autônomos orientados pela racionalidade instrumental do custo-benefício. funcionam como uma caixas de ressonância onde inputs gerados no mundo da vida^ são discutidos e tematizados. p. HABERMAS. 92. o conceito sofreu importantes modificações ao longo destes 40 anos. composto dos subsistemas Estado e Economia. vol. certamente. Na concepção discursiva de democracia de Jurgen Habermas. como aquela dimensão em que a interação intencional e espontânea entre indivíduos é possível.

Direito e Democracia. 1996. o conceito de esfera pública é indispensável na medida em que constitui categoria central para o modelo discursivo de democracia. Cambridge: MIT Press. quando não se leva em conta a dimensão de validade do direito e a força legitimadora da gênese democrática do direito. CALHOUN. cit. concordo com Nancy Fraser que "algo como a esfera pública de Habermas é indispensável à teoria crítica social e à prática política democrática". E tal procedimento (.) uma sociologia reconstrutiva da democracia tem que escolher seus conceitos básicos de tá! modo que estes permitam identificar nas práticas políticas fragmentos e partículas de uma 'razão existente'. pp. Craig Calhoun salienta que. Jürgen. como veremos a seguir. Na mesma página. In: C. Habermas and the Public Sphere. "esfera pública discursiva" designa um padrão normativo a partir do qual se critica e avalia as democracias reais. "Não pretendo desdobrar esta questão [das condições da gênese e da legitimação do direito através da deliberação pública] seguindo o modelo da contraposição entre ideal e realidade.6 Ao situar sua discussão no campo de tensão entre faticidade e validade.) está inserido parcialmente na faticidade social dos próprios processos políticos observáveis ". supera as deficiências de outros modelos normativos e empíricos de democracia. Habermas se coloca a seguinte pergunta: "what are the social conditions for a rational-critical debate about public issues conducted by private persons willing to let arguments and not statuses determine their decisions? This is an inquiry at once into norrnative ideais and actual history". a normatividade do conceito é descoberta nas práticas da sociedade. "(.. 111. com relação à faticidade e à validade da esfera pública. cit. pois o conteúdo normativo (.) se apoia unicamente na premissa segundo a qual o modo de operar de um sistema político. 1). HABERMAS.7 Esta estratégia permite tanto a identificação de bases sociais sobre as quais o ideal pode ser parcialmente realizado.9 Oscilando entre validade e faticidade. quanto a crítica de outras. CALHOUN (org. II. 1996. Cambridge: MIT Press. que devem ser reformadas. In: C. Direito e Democracia.Márcia Nina Bernardes tivo mas também empírico-institucional. p. FRASER. Craig. (p. Por outro lado.. Nancy. Nesta primeira página deste artigo. "Introduction". ele continua. Ela pretende descobrir na faticidade da vida social padrões de normatividade que detenham potenciais emancipatórios. buscando as "pontes que permitem passar dos modelos normativos da democracia para os das teorias sociais da democracia e vice-versa". Por um lado.. op. a teoria do discurso explicita sua herança hegeliana. 9. HABERMAS. mesmo que distorcida. não pode ser descrito adequadamente nem mesmo em um nível empírico.-. op. p. 39-40. Tal modelo. p.. por sua vez. 10. II. vol.) Habermas and the Public Sphere. Calhoun (org). vol. 216 . Jürgen.. constituído pelo Estado de Direito.. "Rethinking the Public Sphere: a Contribution to the Critique of Actually Existing Democracy". mesmo que de forma deficiente e incompleta.8 Ainda que o ideal de esfera pública nunca tenha se realizado historicamente na sua plenitude.

ao se utilizar de uma concepção intersubjetiva de racionalidade. marcadas pelo secularismo. no jargão habermasiano). 1996.liberal. Jürgen. (. através da distinção conceituai entre esfera pública e Estado.^2 Na dimensão institucional. 11 Principio D: São válidas as normas de ação às quais todos os possíveis atingidos poderiam dar seus assentimento. o conceito discursivo de esfera pública também se mostra vantajoso na medida em que consegue recuperar a possibilidade de soberania popular em sociedades de massa. É no debate público que se pode definir. consegue per- 10 Para uma comparação dos três modelos . na verdade. cit. In The Inclusion of the Other.checar páginas 18 a 24 do volume II de Direito e Democracia.) Habermas and the Public Sphere. 239-242) e "On the Internai Relation Between Rule of LawandDemocracy" (pp. cannot be imposed on this practice as an externai constraint. A teoria do discurso. 1996): "Three Normative Modets of Democracy" (pp. 217 . republicano e discursivo . a qualidade do próprio debate democrático. 253-264). superando as alternativas oferecidas pelas tradições liberal e republicana... respectivamente. I. Ver também o artigo de Seyla Benhabib "Models of Public Sphere". o modelo discursivo. 142). violações ao princípio da igualdade. 12 HABERMAS. which make the exercise of popular sovereignty legally possible. op. p. apenas pode ser compreendido se atualizado no contexto democrático.. o sentido dos direitos humanos. 259. descrevendo um argumento circular. tais como igualdade e liberdade. Por outro lado. Cambridge: MIT Press. p.Esferas Publicas Transnacionais e Inclusão Política: Implicações Domésticas de Novas Configurações Transnacionais Com relação a outros modelos normativos de democracia. bem como dois artigos de Habermas reunidos na coletânea The Inclusion of the Other {Cambridge: MIT Press. centrado na noção de esfera pública. In: C. consegue vislumbrar formas de poder político geradas na interação discursiva e. "On the internai relation between Law and Democracy".11 Tal garantia pressupõe a noção de direitos humanos. ao contrário. por exemplo. CALHOUN (org.10 Para a teoria discursiva. bem como a pretensão de racionalidade dos seus resultados apenas podem ser asseguradas se todos os possíveis atingidos pelas prováveis conseqüências da norma em questão tiverem livre acesso à esfera pública. onde direitos humanos e soberania popular são deontológicos e mutuamente dependentes. Enabling conditions cannot be confused with such constraints. na qualidade de participantes de discursos racionais (vol. Human rights. se medidas como as de ação afirmativa são exigências ou.) the desired internai relation between human rights and popular sovereignty consists in this: human rights themselves are what satisfy the requirement that a civic practice of the public use of communicative freedom be legally institutionalized. apresenta a vantagem de demonstrar a co-originalidade das noções de direitos humanos e soberania popular {ou autonomia privada e pública. onde o recurso republicano a mecanismos diretos de gestão da polis não é mais viável. A teoria de Habermas está. pluralismo e pós-convencionalismo.

o poder político comunicativo.. 218 . irracionais. importada da economia. 15 O'Donnel reconhece parcialmente a importância da mobilização política da sociedade civil na esfera pública. 2002. De acordo com este paradigma. passa a ser atributo de procedimentos comunicativos e não de sujeitos individuais ou coletivos. contrasta com modelos empíricos de democracia de acordo com os quais os procedimentos formais das democracias representativas contemporâneas constituem meros mecanismos de seleção entre elites políticas que. A moralidade da Democracia e o livro de Andiew Arato Civil Society. as massas. Rupturas e continuidade políticas são explicadas a partir de arranjos de poder entre as elites que seguem esta lógica de mercado.Márcia Nina Bernardes ceber foros de autodeterminação democrática fora da burocracia estatal. Direito e Democracia. vol. ela permanece marginal e dependente do jogo político das elites políticas. governam sem qualquer constrangimento decorrente das noções normativas de soberania popular ou bem comum.13 Soberania popular passa a ser interpretada intersubjetivamente. após eleitas. se exercita na deliberação na esfera pública. Neste sentido. chegam às instâncias decisórias do sistema e podem orientar o poder administrativo em direção a políticas públicas condizentes com a vontade da população. nesse sentido. para eles. o elitismo democrático14 estabelece uma clivagem básica na sociedade: de um lado. em Habermas ela é "absorvida pelas formas de comunicação destituídas de sujeito". Com efeito. a disputa política se limita à disputa pelo controle do aparato administrativo estatal. op. Democracy and the Public Space in Latin America. 23. assim. é uma potencialidade segundo Habermas e. p. 14 Para uma critica ao elistimo democrático e à teoria da escolha racional. as elites políticas que competem por poder. Ver AVRITZER. para o povo (ou para a vontade unificada do povo). II. Soberania popular. de outro. Revolution and Constitution. Mas. detentor do monopólio da coação. Assim como em Rousseau a noção de soberania é deslocada do Estado. e. através de um modelo de comportas. De fato. produzindo opiniões públicas que. Jürgen. Neste marco individualista de racionalidade. distingue-se das idéias reguladoras de 13 HABERMAS. mas também comunicativa e salvaguardando as possibilidade de democracia nas sociedades modernas hipercomplexas. cit. Leonardo. ver o livro de Leonardo Avritzer. que surge como uma categoria distinta do poder estatal administrativo através do uso da razão comunicativa na esfera pública em condições propícias. ressaltando a dualidade da política como dimensão sistêmica. a fim de colocá-lo a serviço dos interesses da elite que detém o poder. Stanford Press. torna-se impossível reconhecer o tipo de poder político comunicativo exaltado pela teoria do discurso. Tbda atividade política (ou toda atividade política significativa15) se dá dentro do Estado e está marcada por uma concepção de racionalidade estritamente individual.

Estas instituições fornecem repostas a perguntas fundamentais com relação à importância deste tipo específico de comunicação capaz de gerar legitimidade política. No entanto. O conceito de esfera pública: os pressupostos institucionais e os desafios da globalização Para que os fluxos comunicacionais gerados na esfera pública tomem a forma de opiniões públicas válidas. ancorada em uma identidade nacional excludente. em sociedades altamente plurais e diferenciadas. Jessé. A modernização seletiva. Razão comunicativa é específica do mundo moderno e desencantado. É antes uma atitude do que um conteúdo". dotadas de poder político capaz de influenciar as instâncias decisórias do sistema. Quem são os sujeitos desta comunicação e quem são os destinatários? Sobre o que se comunicam? Através de que meios? De acordo com este modelo. originalmente pensado no contexto nacional.Esferas Públicas Transnacionais e Inclusão Política: Implicações Domésticas de Novas Configurações Iransnacionais Kant. uma série de instituições precisam estar presentes. ao lado do secularismo. sendo meramente procedural e refletindo uma forma de lidar com reivindicações valorativas.através da distinção conceituai entre Estado e esfera pública. Contudo. Segundo Jessé Souza: "O grau em que esta potencialidade pode tornar-se real é uma questão empírica e reflete o jogo das forças políticas em ação. o poder comunicativo pode não se traduzir em realidade devido a diferentes circunstâncias empíricas. que se reconhecem mutuamente como membros de uma mesma coletividade. contexto pós-tradicional. tal conceito de esfera pública vem carregado de pressupostos institucionais que foram originalmente pensados dentro dos limites do Estado territorial. que negligenciam a importância da faticidade. A seguir. trato desses pressupostos. o modelo deliberativo de democracia oferece o melhor fundamento para a legitimidade política do Estado em uma era pó s-metafísica e pós-tradicional. 17 Importante atentar que não me refiro aqui a nenhuma concepção substancial e particularista de cidadania. p.16 Em suma.centrais à autocompreensão moderna . 3. Habermas mostra em "Cidadania e identidade nacional" como que historicamente o nacionalismo significou fonte de solidarieda 219 . 2000. 71. mostrando como a globalização problematiza cada um deles e se constitui.17 debatem na esfera pública acerca de interes16 Souza. os cidadãos nacionais. Brasília: UnB. do pluralismo e do pós-convencionalismo. como mais um elemento caracterizador inafastável das sociedades modernas. mesmo sendo uma potencialidade. Consegue resguardar. forçando uma revisão da teoria da esfera pública. a normatividade de noções como soberania popular e direitos humanos .

todos estes pressupostos precisam ser revistos e. submetida à regulação estatal. principalmente no que se refere às assimétricas relações entre Norte e Sul. (c) cidadania. o elo entre nacionalismo e Estado (explicitado no termo Estado-Nação) é puramente contigente e não conceituai. Ademais a própria identidade nacional é construída socialmente e pode ser manipulada com fins estratégicos. tanto Estados centrais quanto periféricos. de maneira controversa. está claro que ao longo das últimas décadas as suas bases nacionais se tornaram altamente precárias. (e) literatura nacional. (b) economia. cit. sou devedora da descrição feita por Nancy fraser do modelo e das dinâmicas da esfera pública. Em sociedades de massa. geralmente articulados em torno de questões econômicas. op. 249-278). (In Direito e Democracia. A noção de soberania absoluta. basilar do sistema interestatal moderno. com eles. a própria teoria da esfera pública. Para eles. ambiental e de e de integração social. Immagined Communities. Ver KINGSBURY. militar. para uma identidade nacional.Márcia Nina Bernardes sés comuns. por isso. Habermas propõe a substituição do conceito substancial de nacionalismo pela noção estritamente política (e. Em democracias vibrantes. "Sovereignty and Inequality". Mesmo admitindo-se. desta maneira. racionalizando a dominação política e domesticando a economia. finalmente. que resida em um território nacional e possua interesses comuns. com o mínimo possível de manipulação e deturpação. 20 Alguns autores defendem a necessidade do resgate normativo do princípio da soberania absoluta como um escudo contra as ameaças da globalização. Em Mudança Estruturai da Esfera Pública. no seu artigo '"Iransnationalizing the Public Sphere". Estado Nacional soberano. inclusiva) de "patriotismo constitucional". em diferentes graus. vol. Benedict. precisam cooperar em nível supranacional nas mais diversas áreas: econômica. 19 Ver ANDERSON. Habermas elenca seis pressupostos institucionais da noção de esfera pública:18 (a) Estado. que para os Estados norte-atlânticos estes pressupostos já se configuraram empiricamente no passado. de modo a se garantir a consonância entre políticas pública e interesses comuns. mimeo. pp. perde relevância para explicar a realidade política contemporânea. Tbdavia. (f) infra-estrutura de comunicação: imprensa e mídia televisiva. diante da globalização. Benedict. O principal destinatário desta comunicação é o Estado.20 De fato. (d) língua nacional.. que constitui o médium para a formação e reprodução de uma orientação (nacional) para uma comunidade imaginada19 e. espera-se que este poder comunicativo seja capaz de atingir as instâncias sistêmicas do Estado e da Economia. a soberania e o princípio da não-intervenção funcionam como as principais defesas de países periféricos contra as ingerências do Norte. Vejamos cada um deles: (a) O primeiro pressuposto. 18 Nesta seção. Contudo. está no centro das discussões sobre governança no mundo pó s-Vê stfalia. contribuindo para a consolidação de uma noção ativa de cidadania. que detenha poder soberano sobre um território delimitado e sobre seus habitantes. 220 . e. II. a interação face-a-face típica da pois grega não é mais possível e este debate precisa ser mediado pela imprensa. bem como do impacto da globalização sobre seus pressupostos institucionais.

economia nacional. quanto internacionais. em maio de 2003.. 21 Junto com Cohen e Arato. que é substituída por outra mais fragmentada que reflita a realidade da pluralidade de grupos políticos que atuam no cenário doméstico em defesa de interesses muito díspares.22 Cohen e Arato lembram ainda que há uma enorme variedade de instituições sub e supranacionais (OMC. em tempos globalizados. Ministros. o capital sempre foi internacional e. No entanto. Ver J. Com o avanço do capitalismo e das tecnologias de comunicação. ao lado das já conhecidas ações em rede por parte de organizações da sociedade civil. nem foi relativizada. que percebe a necessidade de revisão do modelo de ordem mundial e da concepção clássica de soberania. Soberania não é mais absoluta. é atacada a partir destas novas "lentes" através das quais percebemos a existência de diversas redes. prescindindo do Estado nacional na geração de soft lawl3 (b) O segundo pressuposto. que permanece sendo um indispensável ator político. c/t. 2. UE. operando no espaço supranacional. associações de comércio internacionais. a crítica aqui se dirige à visão unitária de Estado. Arato. entre assuntos domésticos e assuntos internacionais. como seu principal elemento caracterizador. 221 . 23 J. se a política algum dia já foi local ou nacional. ou.21 Comprova-se apenas que a concepção de soberania. Arato.. Cohen & A. A distinção entre assuntos domésticos e assuntos internacionais já não pode mais ser feita de maneira clara e os Estados territoriais não são autônomos no estabelecimento de políticas públicas. artigo apresentado em palestra na PUC-Rio e no IUPERJ. ela agora está desagregada. mas que não sustenta a superação do Estado-Nação como um dos principais atores internacionais. verticais e horizontais. p. é igualmente problemático. subscrevo aqui a "tese fraca" da globalização. juizes e prefeitos. terá que ser revisto. ela não pode mais ser encontrada em um único locus institucional. Neste sentido. que operam em diferentes níveis (sub e supranacionais). Na verdade. entre outros. cada vez mais se articulam supranacionalmente.Esferas Públicas Iransnacionais e Inclusão Política: Implicações Domésticas de Novas Configurações Iransnacionais saúde. FMI. Foi delegada a diferentes agências e órgãos. ver o artigo de Anne-Marie Slaughter "A New World Architecture: disaggregated states and government networks". não há nenhuma indicação de que a crise do sistema interestatal moderno significará o fim do Estado territorial. 22 Sobre soberania desagregada. Anne-Marie Slaughter ressalta que. as transações econômicas e financeiras tendem cada vez mais a se transnacionalizar e a escapar à possibilidade de regulação estatal. parlamentares.) que exercitam alguma forma de regulação e autoregulação. apresentado no Workshop sobre Governança. cresce a relevância das ações em rede de funcionários do Estado. com a aceleração da globalização. tanto internas. Cohen & A. Com efeito. "Civil Society and Post-Modern City: Rethinking our Categories in the Context of Globalization". entre outras. a possibilidade de sua "domesticação" através de mecanismos democráticos nacionais torna-se ainda mais remota. Legitimidade e Democracia na NYU School of Law nos dias 3 e 4 de outubro de 2002. A clássica distinção de Vestfália.

Virtualmente todos os Estados se tornam multiculturais e abrigam não-nacionais dentro de suas fronteiras. fala-se em uma "literatura mundial". (f) Por fim. residências múltiplas são cada vez mais intensos e freqüentes. da mesma maneira que toda nacionalidade está geograficamente dispersa no globo. Nessa medida. diásporas. A noção de "público" (publics) e "contrapúblico" (counterpublics) é indispensável aqui e não respeita fronteiras nacionais. dupla cidadania. Fenômenos como migração. "Moral Universalism and the priorities of social Justice" e HURREL. tentando ao máximo minorar seus efeitos nocivos no nível doméstico. definida e delimitada geograficamente. É grande o número de países que adotam mais de uma língua oficial (como a índia ou África do Sul) e talvez ainda maior o de países que. O crescente multiculturalismo da maior parte das sociedades dificulta a afirmação de uma língua nacional . nacionalidade e território. Nenhuma dessas formas de manifestação cultural pode ser compreendida a partir de um marco exclusivamente nacional e ressaltam o caráter cada vez mais plural das sociedades. sua população de facto fala diversos idiomas. em maior ou menor escala. Tampouco esta dimensão de uma cultura nacional. o resultado de uma combinação de decisões tomadas pelos setores hegemônicos na Europa e Estados-Unidos. Além de um crescente hibridismo de influências e da difusão de formas americanizadas de entretenimento de massa. Contudo. desenvolvido ou em desenvolvimento. (d) A esta dispersão podemos justapor a dispersão lingüística. como um todo.um corpo de literatura nacional na verdade refere-se a todas manifestações culturais que têm o condão de criar uma "comunidade imaginada" e uma identidade coletiva (nacional) capazes de gerar solidariedade social. esta constatação não implica a afirmação da inexorabilidade dos processos que têm marcado a globalização corporativa.24 (c) Também a noção de cidadania ancorada na nacionalidade deve ser repensada. Andrew. Thomas. apesar de somente reconhecerem um como oficial. 222 . o centro norte-atlântico. 24 Ver POGGE. (e) O quinto pressuposto institucional . não há coincidência necessária entre cidadão. É certo que nenhum Estado territorial.o quarto pressuposto da noção de esfera pública. consegue gerir de modo autônomo sua vida econômica e financeira. ainda tem controle e responsabilidade por um modelo imposto ao resto do mundo que não tem outra alternativa realista a não ser se acomodar à "nova ordem econômica mundial".Márcia Nina Bernardes Importante aqui fazer uma ressalva. pode ser garantida na atualidade. que também se fortalece. Artigos apresentados no colóquio "Globalization and its Discontents" realizado na NYU School of Law entre janeiro e maio de 2002. na verdade. a infra-estrutura nacional de comunicação deve ser confrontada com a profusão de mídias alternativas. Como resultado. que podem ser simultaneamente sub e supranacionais. O que se apresenta à periferia como um "imperativo da globalização" é.

determinados em função do alcance do tema em debate. 26 Sobre níveis de governança. 25 Ver HABERMAS. nesse esforço. novembro 1995. a teoria da democracia cosmopolita. Apostam na criação de mecanismos democráticos através dos quais cidadãos do mundo (que continuam sendo simultaneamente cidadãos nacionais) e organizações da sociedade civil global deliberariam acerca de questões (transnacionais) de interesse comum e atingiriam as instâncias decisórias de um arranjo institucional (fluido e descentralizado. em escala transnacional. do local ao global. 223 . 1995. de um aparato burocrático coercitivo. ver HELD. O reconhecimento de tendências democratizantes não é suficiente para se afirmar a viabilidade desta proposta ambiciosa. Este equivalente funcional do Estado-Nação no contexto global seria dotado. profundamente incômodo àqueles que querem defender a herança republicana do Estado. na 43. O passado e o futuro da soberania e da cidadania" in: Novos Estudos Cebrap.25 Tal déficit democrático decorre da crescente dissociação entre os centros de decisão política e o círculo daqueles afetados pelas prováveis conseqüências das normas em questão. advogam a necessidade de se estabelecer supranacionalmente a estrutura institucional que caracterizava o Estado territorial. ainda que partilhando das premissas normativas da teoria do discurso.26 Todavia. a democracia cosmopolita não faz jus à inspiração hegeliana de manter-se entre a dimensão da validade e a da faticidade. 4. Sobre a faticidade dos projetos de democracia deliberativa cosmopolita: objeções quase-realistas Todas estas circunstâncias apontam para uma necessidade de se repensar. tentam replicar no nível supranacional o modelo de comportas desenhado para o contexto doméstico e. David. O respeito às diferenças culturais e peculiaridades locais e regionais estaria resguardado pela definição de distintos níveis de governança. teóricos desta vertente. inspirados no tratado bicentenário de Kant sobre a paz perpétua. a categoria do espaço público. De um modo geral. tal como o seu correspondente nacional. Cambridge: Polity Press. De fato.Esferas Públicas Transnacionais e Inclusão Política: Implicações Domésticas de Novas Configurações Transnacionais O resultado destes ataques às bases institucionais nacionais da esfera pública é a constatação de um enorme déficit democrático nacional. Está cada vez mais distante a possibilidade de identificação entre o autores e o destinatários de normas que regulam assuntos de vital importância. talvez) que faça as vezes de um Estado global. "O Estado-Naçâo europeu frente aos desafios da globalização. Jurgen. Tal desconforto tem motivado a defesa de diversos projetos de democracia deliberativa no plano global. Democracy and the Global Order. que estaria legitimado por este modelo de democracia cosmopolita.

talvez ainda tenha um papel importante como barreira contra imposição unilateral de padrões do centro e deva ser recuperado ainda que na sua forma desagregada. para aqueles que detêm poder efetivo no cenário internacional. Do ponto de vista da estrita Razão de Estado. poderia representar uma possibilidade de maior acesso ao processo decisório mundial. quem poderia imaginar no segundo pós-Guerra que a União Européia e o Euro seriam possíveis? 224 . p.27 permanece como um ideal normativo a ser perseguido. a assimetria que marca as relações internacionais tem inviabilizado. quais sejam. em um cenário ideal. In: A Paz Perpétua e outros opúsculos. No contexto hegemônico (talvez neo-imperialista) mundial. do artigo definitivo. tais desafios não são novos para Estados marcados por uma história de dependência externa desde a época colonial. não interessa a governo e sociedades em países centrais levar a cabo as transformações necessárias para a viabilização da democracia cosmopolita. mas também temidas pelos países norteatlânticos. importante ressaltar que a História já demonstrou que a crítica à excessiva idealidade da proposta de uma república global deve ser relativiaada. o vocabulário da "soberania" e "governo". que Kant vai propor sob os moldes de uma federação de Estados. para ele. "Paz perpétua: um tratado filosófico". Emanuel. os pressupostos institucionais relacionados à soberania e à economia são ainda mais problemáticos para Estados que permanecem à margem do processo decisório internacional. Do ponto de vista do cidadão nacional de países centrais. que vem sendo gradativamente substituído pelo de "governança" global. os indivíduos progridam em direção à perfeição moral. como perfeição cultural da humanidade. a criação de jurisdições supranacionais (regionais e globais) afasta ainda mais do seu controle direto o centro de decisão com relação a questões importantes. é um dever exeqüível no mundo fenomênico. soluções democráticas para os problemas coletivos globais são necessárias. 48. poder e desigualdade. Os países periféricos. a democratização e a definição clara de distintos níveis de governança podem significar perda de capacidade de conduzir a política internacional. Em uma perspectiva estritamente prudencial.Márcia Nina Bernardes assim como a federação de povos kantiana. De fato. Os dilemas atuais de sociedade e governo em países centrais e em países periféricos são substancialmente diferentes. mas a necessidade de alguma forma de ordem jurídica obrigatória internacionalmente. Todavia. por sua vez. Neste contexto. No entanto. as 27 Kant. apesar de terem origens comuns nos processos de globalização e multiculturalismo. que têm economias frágeis e que precisam se adequar a políticas estabelecidas em locais distantes. a idéia de um todo moral articulado globalmente sob a forma de uma República global só pode funcionar como um princípio regulador. e continuará inviabilizando. são afetados pela globalização de maneira muito distinta. Afinal. mas perde em potencial crítico na medida em que não dá conta de aspectos estruturais das relações internacionais. e a democratização das relações internacionais. ao menos em um futuro próximo. Lisboa: Edições 70. O filósofo espera que a partir do dever jurídico de constituição de uma ordem pacífica. Por outro lado. Por um lado.

in the broader social process by which new norms emerge and find their way onto the international agenda. third. Organizações internacionais constituem novas arenas de deliberação que podem representar novas possibilidades para atores mais fracos.) tornou mais oneroso e difícil o 28 A percepção gradual de que a "sociedade de riscos" de que nos falou Ulrich Beck se espraiou para além das fronteiras nacionais está intimamente relacionada à crescente relevância da sociedade civil e das organizações intergovernamentais. standard-setting. 38. saúde. In Metaphilosophy. January 2001. conectadas ou não a alguma organização internacional. vol.relativos ao meio ambiente. redes informáticas e etc. de acordo com a "ability to use the institutional platforms and to exploit already established patterns of legal argument to promote new and often far-reaching rules and institutions". in direct participation in many government activities (disbursing an increasing próportion of offícial aid. a infra-estrutura física de uma economia cada vez mais interdependente (no que se refere a transportes e comunicação) aliada a novas tecnologias (satélites.. 226 . tráfico. 32. p. leading efforts at promoting democracy or post-conflict social and política! reconstruction) ". Oxford. 29 HURRELL. In Metaphilosophy. 1992. Andrew Hurrel explicita o papel que ela já vem assumindo: "(. London: Sage. finanças. ver BECK. 30 Ver Hurrell. 32. De fato. o número cada vez maior de instituições supranacionais. engaging in large-scale humanitarian relief.28 Com relação à sociedade civil. vol. and finally. 31 Hurrell. "Global Inequality and Imernational Institutions". Andrew. in the detailed functioning of many international institutions and in the process of implementation and compliance. Andrew. Por fim.. Ulrich.) fírst. entre outras questões . criou regimes internacionais que visam administrar diferentes áreas da nossa vida internacional. p. São importantes para a difusão de normas e de padrões de socialização e internalização de novas normas.31 Instituições internacionais ajudam a explicar como novas normas emergem e são difundidas no sistema internacional.que só podem ser tratados adequadamente através de uma cooperação supranacional gerou uma nova forma de solidariedade a partir da qual se pode pensar a cidadania global e apontou para a necessidade de se criar regimes jurídicos internacionais para lidar com estas questões. second. nas 1-2. January 2001. a constatação de que somos todos parte de uma sociedade global de riscos compartilhados . Oxford. and norm development. Sobre a distopia moderna da sociedade risco. in the formalprocess of norm creation.29 Da mesma maneira. Risk Society: towards a new modernity. "Global Inequality and International Institutions".3o O desenvolvimento de tais regimes alteram o equilíbrio de poder supranacional na medida em que promovem uma espécie de legalidade nas relações internacionais. noa 1-2.Márcia Nina Bernardes Estados vestfaliana. 37.

desta vez ern favor do governo canadense. ainda não totalmente superada em países com passados autoritários. Curiosamente. Pode-se esperar que a mobilização da opinião pública global pode gerar um tipo de coerção moral que seja forte o suficiente para compelir as elites à inclusão de determinados assuntos na agenda política nacional. ressalta-se a que as instituições intergovernamentais. sustentando que o Canadá estava subsidiando a indústria de produtos florestais no país ao não reconhecer os títulos de propriedade aborígenes das florestas. possibilitando uma real transição democrática no pais.Márcia Nina Bernardes mento político. organização canadense que representa outras nações indígenas igualmente afetadas pela disputa. Seja qual for o resultado da disputa. que se insurgiu contra a decisão dos EUA. alianças com certos setores internacionais podem fortalecer causas que ainda enfretam enorme resistência por parte das elites políticas domésticas. Em segundo lugar. demanda antiga dos movimentos de direitos humanos no país. A disputa acabou sendo levada à OMC pelo Canadá. quanto os desdobramentos deste episódio no Chile. que criam algo próximo ao rule oflaw na vida internacional. O governo americano concordou com o argumento de que este subsídio viola os princípios de comércio livre estabelecidos tanto pelo NAFTA quanto pela OMC. 34 A organização canadense interior Alliance oflndigenous Nations iniciou urn procedimento junto ao Departamento de Comércio Americano. A repercussão deste caso teve como conseqüência direta a promulgação da Emenda Constitucional nQ 35/2001. também ofereceu memoriais. o que julgo 228 . Como ilustração. A situação paradigmática aqui seria o caso Pinochet: tanto o debate global deflagrado pela detenção do general em Londres. Outro exemplo neste mesmo sentido é o caso Mareia Barbosa levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. em Washington. Em terceiro lugar. criaram um clima político em que o passado ditatorial chileno pudesse ser revisitado. a Meactow Lake Tribal Council. que alterou as disposições relativas à imunidade parlamentar no Brasil. Estendo aqui para as organizações não-governamentais e movimentos sociais o argumento de Andrew Hurrel com relação a países em desenvolvimento. podem ser úteis à sociedade civil.34 33 Repertório de ações é um conceito que Leonardo Avritzer buscou em Charles Tilly e explica no seu livro A moralidade da democracia. pressionado pela criação de normas que lhes sejam mais benéficas. expandindo seus "repertórios de ação"33 e promovendo a consolidação de uma cultura democrática nacional em detrimento de uma outra não-democrática. que derivou de iniciativas tomadas por uma coligação de povos indígenas no Canadá e vem forçando o governo canadense a resolver uma querela antiga acerca dos títulos de propriedade de terras indígenas. em defesa dos Estados Unidos. mencionado na seção anterior: estes atores podem usar as plataformas já estabelecidas pelos setores hegemônicos de maneiras originais. A Interior Alliance foi aceita como amicus curíae pelo painel da OMC em abril de 2002. menciono a disputa na OMC entre Estados Unidos e Canadá acerca da exportação de madeiras (caso So/twood Lumfaer).

promoveu um novo fórum para a discussão de uma questão fundamental para povos indígenas. mas na possibilidade de representarem mais um fórum para a promoção de inclusão política dentro das fronteiras territoriais. sob esta ótica. 7. Assim. liberando vozes que não conseguiam se fazer ouvidas pelo sistema político doméstico. A legitimidade das esferas públicas transnacionais. ainda que não tenha promovido uma real democratização das relações internacionais. interessante neste caso é o fato de que o direito econômico internacional. que não vinha sendo tratada satisfatoriamente pelas instâncias domésticas. 229 . não reside na capacidade de influenciar os mecanismos de governança global. pressionando-o s a uma reorientação de suas políticas domésticas. abandonando-se a visão unitária de Estado em favor de uma desagregada. Conclusão As estratégias referidas na seção 6 sustentam o argumento de que o recurso às esferas públicas transnacionais pode ter implicações normativas relevantes para a política doméstica. de forma a não colaborarem com a violação de direitos humanos em outra partes do globo. uma maior abertura dos processos decisórios internacionais à participação formal ou indireta de atores antes negligenciados pode ter ao menos um impacto normativo significativo na política doméstica de certos países. através da participação supranacional pode-se esperar atingir as esferas públicas domésticas de países centrais.Esferas Públicas Tcansnacionais e Inclusão Política: Implicações Domésticas de Novas Configurações Transnacionais Por fim. Realmente. vemos que forças exógenas podem alterar a configuração de poder dentro das fronteiras nacionais. O boicote internacional à África do Sul durante o apartheid é um bom exemplo desta possibilidade. involuntariamente.

a partir de suas raízes judaico-cristãs" {Marramao. que porta em si todo o peso da cisão e do dualismo entre Céu e Terra" (Marramao. Giacomo Marramao. o termo secularização "ascendeu gradualmente ao status de categoria genealógica capaz de sintetizar ou expressar unitariamente o desenvolvimento histórico da sociedade ocidental moderna. A despeito de. 1997: 15). Professor de Sociologia do Direito do Departamento de Direito da Puc/RJ. Thamy Progrebinschi e Carolina de Campos Melo na Puc/RJ. devido à sua natureza metamórfica. depois. havia observado que a própria raiz do termo já consistia numa metamorfose. Explica que "ela é a tradução protocrístã da natureza 'seminal' e generativa de saecuJum (termo que . Embora os deslocamentos do conceito de secularização indiquem uma ampliação de acepções em vários campos do conhecimento. Villas Boas Castelo Branco" Introdução O conceito de secularização é uma chave imprescindível para compreensão do mundo moderno ocidental. 1997: 10). Tal categoria do tempo contém uma profusão de significados que se estende a várias áreas do saber. a história. Não se incorreria numa veleidade ao afirmar que é justamente a amplitude semântica alcançada pelo termo. a teologia e a sociologia. Supõe-se que a expressão tenha surgido. salienta que Santo Mazarino.origínariamente significa justamente ' geração'.2 que permite falar numa categoria indispensável para compreensão do mundo moderno ocidental.etimologicamente associado ao verbo saro: 'seminai'. plantar. em sentido metafórico. o conceito de secularização ter se elevado à categoria do tempo cujo traço principal é sua potencial capacidade de explicar o surgimento da moderna sociedade ocidental. Mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela PUC/RJ. o conceito se vê enredado em suas próprias antinomias. entre o sagrado e o profano. tais como a filosofia. 'procríar' . primeiramente. non ventas facit legem Pedro H. dando margem à controvérsia e à indefinição quanto à diversidade de significados que assume. estendendo-se. historiador do mundo clássico italiano. de um tempo que 'cresce') em polaridade profana contraposta ao eterno. paulatinamente. cuja raiz se encontra no intrincado jogo de disputas entre o espiritual e o tem- Este artigo foi desenvolvido durante minha dissertação de mestrado e discutido no seminário Movas Perspectivas Atuais da Filosofia do Direito organizado por Antônio Maia. ao perscrutar a raiz do termo secularização. implicando por isso a idéia de duração. ou. no âmbito jurídico-político. entre o eterno e o secular. Revela em si a estrutura dualística entre o espiritual e o temporal. a outras áreas. 231 .Auctoritas.

É justamente neste quadro de instabilidade. da responsabilidade do agir humano no mundo" (Marramao. leva à reviravolta da ordem tradicional. que sintetiza as idéias de Hobbes no que respeita à relação entre poder espiritual e poder temporal e. comandada pela Reforma protestante.seja na corrente analítica. levado ao extremo pelas guerras civis religiosas do século XVII. "no âmbito ético-político é usualmente utilizada para denotar a perda dos modelos tradicionais de valor e de autoridade. Tal distinção tem de ser proscrita. enfim. cidades-Estado.Pedro H. 1983: 337). o Leviatã" (Romano. entre outras acepções que lhe são atribuídas. A crise desencadeada pela Reforma transforma as relações entre reinos. exposta no Leviatã. entre auctorítas e potestas. que pretendo focalizar neste artigo. non ventas fadt legem. É por isso que a categoria da secularização. Villas Boas Castelo Branco poral. 1997). ela figura . 1997: 10). Para tanto focalizo a expressão auctoritas. Creio que ao se investir da idéias de unia filosofia da história e da expropriação de bens eclesiásticos para mãos seculares a categoria manifesta o sentido de desgaste de modelos tradicionais de fé e autoridade. entre a Igreja e o Estado. o fenômeno sociocultural de vasta dimensão que a partir da Reforma protestante consistiu na ruptura do monopólio da interpretação. o sentido assumido pela categoria secularização é compreendido na indivisibilidade do poder de um corpo político. entre Igreja e Estado e direito e moral. abarca os outros significados assumidos pela categoria de secularização. cuja origem remonta à "pluralisagão da Ecclesia Sancta". conseqüentemente. isto é. 232 .3 atribuído ao conceito de secularização. a alma ou soberania do Estado reside na impossibilidade de se distinguir entre poder espiritual e poder temporal (Hobbes. seja na hermenêutica . Já no debate filosófico. que se abre a perspectiva da emancipação da vontade e do agir político humano no mundo. Na Europa. entre a moral e o direito. a perda da unidade da Igreja romana. portanto. de infortúnios e contingências. A força secularizante da doutrina política do autor é identificada na luta contra a especiosa distinção entre um poder espiritual e um poder secular. governantes e governados num turbulento cenário de incerteza e imprevisibüidade. em certa medida. isto é. pois destrói o Estado e sem ele a humaniÉ importante não perder de vista que o referido sentido. Trata-se de proceder a uma investigação cuja finalidade é descortinar o significado da secularização na obra que para alguns é "o maior texto secularizante do Ocidente.como sinônimo da progressiva erosão dos fundamentos teológico-metafísicos e da abertura à 'contingência': e. abertura à dimensão da escolha. É justamente este último sentido. entre a moral e a política.1 O Estado e a Igreja Na filosofia política de Hobbes. 1.

1965: 555). numa dimensão política do agir humano (que somente pode residir na mundaneidade). Denunciar a distinção entre poder espiritual e o poder temporal ou civil significa dizer que não pode haver distinção entre o poder do Estado e o poder da Igreja. atua como se fosse um outro Estado: um Estado que se intitula Estado espiritual em oposição a um Estado temporal (Hobbes. e fundará um Estado espiritual. 233 . a não ser que consideremos um Estado os pregadores que têm a missão de ensinar e preparar os homens para sua recepção no Reino de Cristo quando da ressurreição. Tal asserção eqüivale a dizer que Hobbes quer "explicar o Direito e o Estado sem transcender o plano do simplesmente humano" (Reale. "Mas não existe neste mundo Estado espiritual algum. Mas existirá no outro mundo. o que já provei não ser um Estado" (Hobbes. já que fundar o Direito e o Estado num plano estritamente secular ou simplesmente humano significa romper com a idéia de fundar o poder de dirigir a ação de homens num plano teológico-metafísico.Auctorítas. reside no caráter arbitrário da vontade humana e não em leis eternas e universais. isto é. ao se arrogar o poder da jurisdição temporal e disputar com o Estado civil a administração da ação humana neste mundo. 1983: 337). pois neste mundo não há outro reino senão o secular. 1983: 338). causa principal da guerra civil religiosa. Não se deve perder de vista que o autor somente consegue emancipar um domínio temporal a partir do momento em que reconhece a distinção entre poder espiritual e poder temporal. não existe outro poder a não ser o temporal. Não importa se o soberano do governo secular é um líder temporal ou espiritual. o autor desvela a possibilidade de planejar a vida. a salvação. enfim do poder. A construção política de uma soberania absoluta é a resposta dada por Hobbes à distinção entre o poder espiritual e o poder temporal ou civil. Entretanto. quando da ressurreição. do direito. A Igreja. Ao contrário de um aliciante plano de vida voltado para transcendência comandado por autoridades espirituais. e vencerá seus adversários. Hobbes se refere à constituição do Estado. A explicação do Estado. A referida afirmação ressalta o caráter secularizante da teoria do Estado de Hobbes. conforme o próprio o autor. na qual predomina a intermitente possibilidade real de um conflito violento. non veritas íacit legem dade é reduzida a sua condição natural. produto da vontade humana e não de leis divinas. E será então que nosso Salvador julgará o mundo. na sua introdução ao Leviatã. quando os que viveram justamente e acreditaram que ele era o Cristo se erguerem (apesar de terem morrido como corpos naturais) como corpos espirituais. isto é. dado não existirem à face da terra homens cujos corpos sejam espirituais. já que neste mundo. do qual ele mesmo disse não ser deste mundo. como obra de arte. não pode haver qualquer Estado espiritual entre os homens que ainda existem carnalmente. se é autoridade soberana representativa de um Estado civil ou cristão. pois isso é a mesma coisa que o Reino de Cristo.

O reino de homens cujos corpos existam carnalmente é sempre um reino temporal. "é destas Escrituras que vou extrair os princípios de meu discurso. As doutrinas que propugnavam pela primazia do poder espiritual em relação ao civil Hobbes rechaçava com princípios teológicos tirados da Bíblia. se à face deste inundo ou da terra não existem homens com corpos espirituais. 1983: 336). e recusou exercer ele mesmo as funções de juiz" (Hobbes. Villas Boas Castelo Branco Não resta a menor dúvida. 1983: 286). pois como "o . "nosso Salvador veio a este mundo para ser rei e juiz no mundo vindouro" (Hobbes. Seu esforço é no sentido de suprimir a usurpação da jurisdição secular por parte de autoridades eclesiásticas. Portanto. em seguida. Conforme informa Hobbes.Reino que reclamava só viria num outro mundo". no Tributo Leo Strauss. Leviathan (1651) e De eive (1642). e o de dispor de suas temporalidades" (Hobbes. como também se aproveita de textos sagrados para emancipar um domínio secular da tutela da Igreja. como bom agnóstico. Para tanto fundamenta suas idéias com argumentos extraídos da própria Bíblia Sagrada. a respeito dos direitos dos gue são na terra os supremos governantes dos Estados cristãos. como entre outros papas. não nega em nenhuma passagem do Leviatã a existência de um poder espiritual. E com esse fim vou falar no capítulo seguinte dos livros. autores. Exatamente como Spinoza fez mais tarde. logo não pode haver poder espiritual ou Estado espiritual neste mundo. extraí princípios sob quais funda sua teoria dos direitos de quem governa e deveres de quem obedece. Permitiu-lhes que dessem a César o seu tributo. 36). a fim de abalar a autoridade das próprias Escrituras" (Strauss. o detentor do supremo poder espiritual tem o direito de mando sobre todos os príncipes temporais. À improcedência da referida interpretação Hobbes responde mediante a hermenêutica das Escrituras Sagradas5 com a exposição de fatos bíblicos que lhe permitem demonstrar que Jesus Cristo nunca exortou os homens a desobedecerem seus soberanos civis. Fazia precisamente o contrário. Se utilizava freqüentemente do que fora narrado no Velho e Novo Testamento para invalidar as interpretações consideradas idiossincráticas. A pretensa declaração de Jesus que comprova a falta de jurisdição do poder espiritual para tratar de assuntos temporais revela-se. Hobbes não somente se utiliza das Escrituras Sagradas para refutar teses que propugnam pela monarquia universal da Igreja num âmbito temporal. 1979: 86).Pedro H. ser denominadas de tratados teológicos políticos. precisamente. ao referir-se às obras Elements (1640). 1983: 224). O poder espiritual tem jurisdição num mundo que está por vir. Repare-se que Hobbes. 234 . com um pouco menos de justiça que o trabalho de Spinoza. 1983: 287). e dos deveres dos súditos cristãos para com seus soberanos. era a do papa Belarmino que defendia: "Opoder civil está sujeito ao poder espiritual. comenta que "as três apresentações da filosofia política de Hobbes podem. Hobbes com dupla intenção torna-se um intérprete da Bíblia.4 O mais persuasivo de todos se repete em inúmeras passagens ao longo do Leviatã e é atribuído a Jesus: "O meu reino não é deste inundo" (João 18. Portanto. em primeiro lugar a fim de usar a autoridade das Escrituras a favor de sua teoria. alcance e autoridade da Bíblia" (Hobbes. decidiu ensinar "todos os homens a entretanto obedecerem aos que sentavam na cadeira de Moisés. e particularmente. Para tanto.

capaz de obstar seu direito político de orientar a ação no mundo. o autor submete a Igreja ao poder estatal. implica em retorno à antiga atitude cristã de dar 'a César o que é de César e a Deus o que é de Deus'. 1983: 287). eles se individualizaram. "monarcas procuravam extinguir ou neutralizar todas instituições autônomas (mesmo o mercantilismo enquanto sistema econômico está submetido ao planejamento e à condução estatal). Também as questões relativas à religião e à Igreja foram tratadas em função de sua utilidade. entre religião e política. embora Hobtaes separe o espiritual do temporal . a secularização significa apenas a separação entre Igreja e Estado. religiosa ou de qualquer outra espécie . deve-se salientar que. "mesmo que admitíssemos que a era moderna teve inicio com um súbito e inexplicável eclipse da transcendência. indagava: "Como podiam então suas palavras ou ações serem sediciosas. ao invés de se tornarem mais satisfeitos na relação com o mundo e outros homens. Refutando interpretações. non veritas facit legem de César. da crença de uma vida após a morte. o Reino das Trevas do Reino das Luzes. fosse num âmbito de uma igreja de Estado ou de uma tolerância oportuna" (Koselleck. No que respeita à teoria do Estado de Hobbes.pois o espiritual trata de assuntos pertinentes a um mundo vindouro -. a Civitas Dei da Civitas hominis. em outras palavras. e não uma perda da fé e transcendência ou um novo e enfático interesse nas coisas deste mundo". pois.Auctoritas. 1987: 265-266). aduzida no Lê via tá. Ao definir a secularização como separação entre Igreja e Estado. A respeito dos dizeres de Jesus Cristo. do ponto de vista religioso. o poder invisível (espiritual) do poder visível (temporal). o Estado da Igreja. Hobbes queria provar que Jesus Cristo "nacía fez de contrário às leis de César" e tampouco às leis de qualquer autoridade temporal. isto é. de imediato. seu direito de resolver qualquer espécie de litígio ou conflito que ameace a paz intestina do corpo político. Hobbes lança mão de princípios teológicos para secularizar o Estado. 1999: 20). Na esfera pública compete à autoridade soberana representativa do Estado determinar qual religião deve ser adotada pelos Para Hannah Arendt. 25). De fato. como a do Papa Belarmino. O Estado absolutista de Hobbes suprime qualquer forma de poder ou instituição autônoma . e isto. "Dai. a César o que é de César e a Deus o gue é de Deus" (Lucas 21. ou tenderem para derrubada do governo civil então existente?" (Hobbes. as questões atinentes à religião e à Igreja não foram tratadas no âmbito de uma tolerância oportuna e sim no âmbito de uma Igreja de Estado. Para dar cabo à disputa política do Estado e da Igreja. "como evento histórico tangível. a separação proposta tem um caráter peculiar. 235 .6 E ao proceder desta forma está separando o Reino de Deus do Reino dos Homens. ponderava o uso que Papas faziam das palavras de Jesus. isto não significa que esta perda houvesse lançado os homens de volta a este mundo. se alienaram do mundo. Demonstrando com tal passagem que a Bíblia sempre exigiu obediência do povo aos senhores seculares em seus domínios. no âmbito político.seja econômica. Mas. Diz Arendt. mas para dentro de si mesmos" (Arendt. a autora observa que tal separação não significou a perda da fé e sequer trouxe os homens de volta a este rnundo.

Mas por que atribui-se a tal separação um caráter peculiar? Porque para separar a Igreja do Estado. contrariamente à unidade e defesa do Estado" (Hobbes. Hobbes. denunciava Hobbes.9 arte mediante A divisão da Igreja romana esmoreceu a quase inabalável autoridade Papista. pelo Salvador a pesca. cuja jurisdição é de Deus. Villas Boas Castelo Branco cidadãos. 1983: 293-294). o poder de persuasão da Igreja requer um con236 . pois conduzi-la sob ameaça consistiria na caça. as funções dos representantes de Deus na Terra. revela que a tarefa que lhes compete consiste na persuasão. O inimigo principal do Leviatã eram homens pertencentes a igrejas e seitas. ejus religio (a religião é de quem é a região). Repare-se que. isto é. mas pela persuasão". não há espaço para tolerância oportuna. de acordo com as Sagradas Escrituras. o autor separa o que é de César. religiosa. política. incréus. conforme o autor. porque " quem não tem reino não pode fazer leis" (Hobbes. ao explicitar. e sim pescadores de homens" (Hobbes. monges.Pedro H. tal como a evangelização de São João Batista era uma preparação para a primeira vinda". quem não tem reino não pode ordenar a conduta humana. não de um suposto poder coercitivo concedido pelo Salvador para punirem. mas para "ganhar os homens para obediência. Hobbes não pode isolar a Igreja. a esfera temporal. na filosofia política de Hobbes. não só neste mundo. o que abriu caminho para que alguns líderes seculares usurpassem a autoridade eclesiástica de determinar em seus domínios qual seria a religião oficial do reino. neste mundo. e pertence a outro mundo. não se pode dizer que haja qualquer culto público. 1983: 217). exatamente de acordo com o princípio secularizante cujus regio. papas. nem que o Estado tenha qualquer religião" (Hobbes. não pela coerçâo e pela punição. o que constituía uma ameaça à unidade e segurança do Estado. o que eqüivale ao poder de ordenar o culto público. 1983: 257). Conduzir a persuasão de tal maneira é comparado. 1983:309). ensinava Hobbes que "é preciso ser-se muito circunspecto e cuidadoso ao obedecer à voz de homens que pretendem ser profetas e exigem que obedeçamos a Deus da maneira que eles. Portanto. Trata-se da sedução ou persuasão. em nome de Deus. uma vez que não deviam obediência ao soberano civil. 1983: 256). a proclamação de Cristo e a preparação de sua segundo vinda. Conseqüentemente. "eles estão negando receber do Estado civil sua autoridade. Agindo desta forma. representantes do poder espiritual na terra. Daí advém a necessidade da autoridade do corpo político indicar com precisão a religião7 de seu domínio e ordenar aos particulares que a ostentem publicamente num só culto. isto é. Portanto. nem tampouco deter o monopólio acerca da crença dos súditos. pastores derivavam seu poder. isto é. estão sub-repticiamente tirando a coleira de sua sujeição civil. da esfera espiritual. de acordo com o autor. O autor está ciente de que a Igreja detém um dos maiores poderes. A fim de enfrentá-los. nos dizem ser o caminho da felicidade" {Hobbes. resultantes das diferentes religiões dos particulares. pois "guando são permitidas muitas espécies de cultos. O escopo da persuasão de ministros cristãos reside na "evangelização. 1983: 319). direitos e funções da imediata autoridade de Deus. bispos. como também num mundo vindouro. uma vez que os representantes do Reino de Deus não são "caçadores de homens. cujo um dos problemas principais residia no fato de se pretenderem profetas^ de Deus (Hobbes. Ao alertar para o perigo dos pretensos profetas. Profetas. cabe ao comando estatal determinar o que é necessário à salvação.

um pastor. A autoridade representante da soberania temporal é um soberano civil e. na instituição de um Estado. A emancipação de um domínio estritamente secular das rédeas do poder da Igreja implica subordinar a Igreja ao Estado. se porventura julgar conveniente à ordem do Estado. dirigi-los e reinar sobre eles. Daí advém o poder absoluto. non ventas facit legem a qual a Igreja consegue obter o monopólio da crença de um povo e governar suas ações neste mundo por meio de promessas de salvação num mundo vindouro. portanto isso merece ser suspeito de ambição e impostura. Para elidir a distinção entre o poder espiritual e o poder temporal. Na sua teoria da indivisibilidade do poder Hobbes relega a atuação da Igreja como Estado a um outro mundo. A Igreja passa a ser mais um instrumento a serviço dos interesses políticos do Estado. um Deus mortal (1983:106). Assim. 1983: 257). proclama que "quem pretende ensinar aos homens o caminho para tão grande felicidade pretende governá-los. pois a autoridade soberana também é chefe da Igreja do Estado. ao alertar para o perigo das promessas de salvação em outro mundo. "em todo Estado cristão o soberano civil é o supremo pastor. Hobbes submete o primeiro ao segundo. quando o profeta é o soberano civil. 1983: 256). investir-se das funções de um profeta ou um 'Vice-rei de Deus na terra" (Hobbes. tal pretensão deve ser examinada por todos. quer dizer. por isto a partir do conceito de soberania absoluta do autor dificilmente se vislumbraria direito de resistência dos súditos diante do representante do Estado. ao mesmo tempo. ficam inseparáveis o direito de regu- trole. sem tribunal. "a partir daí. Os Tribunais religiosos da Santa Inquisição constituem a maior prova disso. Nisto reside a possibilidade do governante. Em outras palavras. sem poder coercitivo. A Igreja com pretensões políticas é um Estado sem reino. uma vez que se utilizando deste poder a Igreja chegou a exercer neste mundo seu pretenso direito de caça ou juspuniendi sob argumento de punir quem quer que transgredisse as leis de Deus. o autor subordina a Igreja ao Estado e a transforma num instrumento de poder político secular. que tem a seu cargo todo o rebanho de seus súditos" (Hobbes. antes de lhe prestarem obediência. mas os unifica nas mãos do domínio secular. Neutralizar os conflitos que põem em risco à incolumidade de um corpo político significa que não haja poder senão o poder do Estado. portanto. Com o intuito de dirimir o problema da especiosa distinção entre espiritual e secular. conseqüentemente. convertendo a instituição espiritual num instrumento de controle da ordem interna do Estado.Auctorjtas. a não ser que tal já lhes tenha sido prestada. 1983: 318). ou é autorizado pelo soberano civil" (Hobbes. o autor não separa poderes. o autor para separar o poder da Igreja do poder do Estado incorpora a Igreja ao Estado. 237 . portanto tem de ser absorvida pela esfera temporal para evitar a desobediência dos súditos. pois é uma coisa que todos homens naturalmente desejam. Portanto. Hobbes.

a religião não é estranha à política. Como neste artigo pretende-se buscar compreender as idéias de Hobbes de acordo com seus próprios termos. Villas Boas Castelo Branco lar quer a política. cumpre esclarecer que referirse à secularização como separação entre Estado e Igreja é inadequado. 1983: 263). principalmente. Enquanto o que é de Deus não vem. a quem devem obediência em troca de proteção. mas divulgados como ditames de algum deus era técnica de dominação utilizada pelos "primeiros fundadores e legisladores de Estados entre os gentios. Talvez esta seja umas das passagens mais importantes do Leviatã de Hobbes. o seu efetivo governo. Hobbes não menciona a palavra separação. A Igreja está separada do Estado em face do exercício de seu poder pertencer a mundo vindouro. na medida em que não se constitui mais como poder visível. aguardando sua soberania que a outro mundo pertence. a autoridade dos soberanos terrenos em seus domínios é plena e o governo da religião faz parte do governo da política. entregue a autoridade temporal o poder de regular a política. portanto. em outras palavras. ou em discursos herméticos. Portanto. pois "nosso Salvador veio a este mundo para poder ser rei juiz num mundo vindouro" (Hobbes. constitui-se num eficaz instrumento político de dominação. Conforme Hobbes. ofuscando a compreensão quanto a quem os governa. 1983: 282). O ato de incutir na mente do povo a crença em preceitos da religião inventados por homens. como. 1983: 298). bem como a religião. muitas vezes. Na teoria constitucional do Estado de Hobbes a Igreja está separada deste. são aqueles proferidos pelos profetas da deusa economia.Pedro H. 1983: 70). tudo a César. Não representa mais nenhuma ameaça aos interesses políticos do soberano deste mundo. 238 . Conclui-se "que a autoridade dos soberanos terrenos não deverá ser derrubada antes do dia do juízo" (Hobbes. deve-se dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Nela se percebe como é indispensável à arte de governar o monopólio da crença do povo e como o governante deve tirar partido da tendência do gênero humano à irracionalidade da credulidade em poderes invisíveis (Hobbes. pois a distinção representa a disputa política de representantes de distintos poderes que confundem os homens. nos dias de hoje. isto é. pois não somente a integra. seu reino e seu poder de judicatura estão separados. cujo objetivo era manter o povo em obediência e paz". deste mundo. E o que é de Deus não pertence a este mundo. Ao discorrer sobre a relação entre Estado e Igreja. isto é. 1983: 286). pois. enquanto o dia do juízo final não vem. E para o autor a religião como arma política indispensável na arte mediante a qual se constitui e mantém um corpo político não era novidade na história das civilizações. como. Refere-se a uma distinção entre poder espiritual e poder temporal que em sua teoria política é identificada à ruína do Estado. e. fazendo como que "suas leis fossem mais facilmente aceitas" (Hobbes. quer a religião" (Hobbes. daí.

Sujeição. de tomar contato com o velho e misterioso mito do Leviatã. Ele quer na verdade que não haja outro poder a não ser o do Estado e que a religião seja reduzida a um serviço"H (Bobbio. já que a crença nos poderes invisíves ou espirituais não é legada aos homens por um Deus ou poder superior. indicando os vários temas da obra que depois atuaram na formação do Estado moderno" (Bobbio. para apresentar um balanço global do mesmo. Se o poder e o direito constituem-se em acidentes de pessoas. pois. como pode um poder espiritual. 12 O monopólio da decisão política inclui o monopólio da religião do súditos. "verificando que só nos homens encontramos sinais ou frutos da religião. cujo traço principal reside na indivisibilidade do poder. pois encobre a dimensão política do agir humano. propõe eliminar o conflito entre as várias igrejas ou confissões eliminando a causa mais profunda do conflito. isto é. Se para Hobbes o monopólio da decisão política pertence à autoridade soberana do Estado. 1991: 193). non ventas facit íegem Bobbio. Bobbio destaca três livros sobre Hobbes. mas são homens que lutam para governar homens. são fatores derivados da vontade humana. 11 No mesmo sentido constata Leo Strauss que "atitude pessoal de Hobbes em relação à religião positiva sempre foi a mesma: a religião deve servir ao Estado e será prezada ou desprezada de acordo com os serviços ou desserviços prestados ao Estado" {Strauss. Não é Deus e nem tampouco anjos ou demônios que governam este mundo. não há motivo para duvidar de que a semente da religião se encontra também apenas no homem. Sobre o primeiro deles. 1983: 336).12 Na teoria da indivisibilidade do poder 10 No final de seu livro Thomas Hobbes. a distinção entre o poder do Estado e o poder da Igreja. 1979: 89). a religião é inseparável. influenciado10 pela interpretação de Carl Schmitt livro The Leviathan in the state theory of Thomas Hobbes: meaning and failure ofpolitical symbol. não é de se estranhar que o governo da religião esteja consolidado ao referido monopólio. mando. proveniente da vontade divina.. mas existe nos próprios homens.Auctorítas. da autoria Carl Schrnitt. direito e poder não são acidentes de poderes. direito e poder são elementos constitutivos da disputa política que homens não podem travar senão num âmbito secular. mando. realizada por u/n dos juristas mais cultos e originais que vivem atualmente na Alemanha. 1995: 37). pois "é impossível entender que um poder tenha poder sobre um outro poder. causa principal da guerra civil religiosa. relata corretamente. que autor forja seu conceito de soberania. 239 . para Hobbes. pois a política consiste na esfera arbitrária e falível do agir humano (secular) da qual. procurar sujeitar o poder temporal do homens? O poder espiritual que pretende manifestar-se na terra consiste numa ficção. ou que um poder possa ter direito de mando sobre outro. ao reagir à anarquia provocada pelas guerras civis de religião . Não se deve perder de vista que é justamente o reconhecimento da distinção entre o poder espiritual e poder temporal que permite a Hobbes diluir o poder da Igreja unindo-a ao Estado.. e sim de pessoas" (Hobbes. viu corretamente que "Hobbes. é a partir da referida distinção. visto que sujeição. isto é. Como se viu. observa que "esse novo ensaio soJbre Hobbes pode precisamente ser considerado uma tentativa inteligente.

Se o governo da religião. uma vez que ambas matérias são da competência da autoridade soberana do Estado. tanto em política como em religião. "dada esta consolidação do direito político e eclesiástico nos soberanos cristãos. Portanto. pois o Estado e a Igreja são os mesmos homens" (Hobbes. tal pessoa denomina-se Estado. promulgando leis que orientam a ação externa de súditos.da mesma coisa. e de Igreja enquanto consta de cristãos'. como Igreja e Estado são a mesma coisa. A Igreja transforma-se num instrumento do qual dispõe o governante do Estado. Villas Boas Castelo Branco de Hobbes não há espaço para qualquer instituição ou homens unidos numa pessoa com autonomia que não seja o próprio Estado. fica evidente que eles têm sobre seus súditos toda espécie de poder que pode ser conferido a um homem. 1991: 56). representados pela autoridade de uma assembléia soberana ou de um único soberano. 240 . O monopólio da decisão política do governante do Estado inclui o controle das manifestações externas das crenças religiosas dos governados. não é possível secularizar o Estado.Pedro H. ordem. pelas sedutoras promessas de salvação. ela é a mesma coisa que um Estado cristão. entre religião e política. desemboca numa total conversão da Igreja em instituição do Estado. 1983: 321). Se há homens unidos numa pessoa. Daí o autor professar que. bem como na afirmação sem atenuantes . proteção e obediência no interior de um corpo político. a teoria da indivisibilidade do poder. capaz de manifestar sua vontade. A partir do que acima foi mencionado.da religião de Estado" (Bobbio. Se a Igreja for uma pessoa dotada de autoridade. cujo o traço principal consiste em atribuir significado ao ininteligível. Por isso. Conclui-se que na teoria do Estado de Hobbes não há separação entre Igreja e Estado. tendo a denominação de Estado 'enquanto consta de homens. isto é. o direito ao controle da política inclui o direito de determinar qualquer questão pertinente à manifestação externa das crenças religiosas dos súditos. passa a ser uma instituição a serviço dos interesses da autoridade soberana. fica claro que a tão comentada distinção entre o poder espiritual e o poder temporal tem de ser eliminada para que se alcance paz. manifestar uma devoção pelos poderes invisíveis que se teme. tanto na medida em que eles são o Estado como na medida em que eles são a Igreja. O monopólio da decisão política nas mãos do soberano do Estado pressupõe a consolidação do direito político e eclesiástico. para governo das ações externas dos homens. pelas profecias. o governo espiritual não estiver consolidado ao governo da política. Desse modo. isto é. o monopólio estatal da crença religiosa significa um indispensável mecanismo de controle das paixões de homens. fundada na convicção de que o poder soberano ou é o único ou não é soberano. fica claro que na teoria constitucional do autor "não só não há separação entre Igreja e Estado. são 'dois nomes diferentes' diz Hobbes . Na teoria política de Hobbes. e que podem fazer as leis que melhor lhe afigurarem para o governo de seus súditos.

entre o cristão e o homem" (Hobbes. 1983: 230). E o que é mais ainda. 1999: nota 3 da página 253). 1985: 223). entre a espada da justiça e o escudo da fé. isto é. numa paixão: o medo ou temor da morte violenta. "não há um poder visível capaz de os manter em reverente temor" e não como aparece na referida tradução para português "não há um poder visível capaz de os manter em respeito" (Hobbes.seria necessário seguir o método que indicasse as causas da guerra e da paz. por exemplo. editada pela Penguin Group. 1983). no capitulo XVII. Na versão original do Leviathan. isto é. árdua missão da qual se investira em sua teoria política.imprescindível à garantia de uma paz duradoura no interior de um corpo político . Esse governante tem que ser um só. Daí o autor não tergiversar de uma das principais questões que desencadeavam os conflitos religiosos: "É uma questão muito disputada entre as diversas seitas da religião cristã de onde as Escrituras tiram sua autoridade" (Hobbes.2. caso contrário segue-se necessariamente a facção e a guerra civil no país entre Igreja e o Estado. 1. Abril. A fim de forjar seu conceito político de soberania absoluta do Estado . sobretudo.Auctoritas. dizia: "a política é dos dois estudos o mais difícil" (Hobbes. e. ao comparar ambas áreas do saber. 'manter todos em respeito'. rnas também no da política. 1998) à tradução do Leviatã para o português. ao mesmo tempo. debilita essa paixão" (Janine. non verítas racif legem pois retorna-se às disputas entre espiritualistas e temporalistas. proclama Hobbes que "there is no visible Power to Keep them in awe" (Hobbes.13 Ao exteriorizar a pluralidade de suas respectivas crenças. Renato Janine observa que Hobbes não menciona "um poder comum capaz de manter a todos em respeito". mas. sim. 1983: 277). os homens radicalizavam suas ações. trocar temor por respeito significa dar uma dimensão inadequada à paixão mais importante na gênese do Estado moderno. o que representa um retorno à guerra civil religiosa. O problema residia na dificuldade em fundamentar e constituir uma autoridade capaz de governar ações provenientes da multiplicidade de crenças existentes entre os homens que viviam sem um poder visível ou comum capaz de os manter em respeito. 241 . "uma guerra cie todos contra todos" em 13 Importante salientar que a despeito dos elogios (Apresentação ín Do Cidadão. que passavam a ser ditadas pela constante tensão de uma Bellum omniurn contra omnes. Logo. 1983: 209). "um poder comum capaz de manter a todos em reverente temor". 1983: 103). entre outras passagens. Por esta razão "não é legítimo que qualquer súdito ensine doutrinas proibidas pelo governante de Estado e da religião. Tal comentário justificase na medida em que a referida tradução pode levar a uma interpretação equívoca das idéias de Hobbes. realizada por João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza Silva (Ed. entre os espiritualistas e os temporalistas. E tal comentário não era trivial. sobretudo religiosas. aludindo aos homens. Embora ressaltasse a importância do método. pois o fundamento do Estado reside. não só no estudo da geometria. já que "a tradução usual de Keep aíl in awe. no próprio coração de cada homem. Direito e Moral Hobbes não era ingênuo quanto à ambiciosa.

Dizia. 242 . não é possível dar uma resposta geral válida para todos" (Hobbes. bem como leis bíblicas ou divinas. 1983: 75). inaugurando o positivismo jurídico. 1983: 78). Na tentativa de lograr uma resposta. 1983: 95).Pedro H. ou lei de natureza. acuradamente. o formula da seguinte maneira: através de que autoridade as crenças se tornam leis? Ou então como dizia o próprio autor ao se referir às crenças nas Escrituras Sagradas: "A formulação correta da questão é por que autoridade elas são tornadas leis" (Hobbes. filósofos da moral e juristas constitucionais 14 Constata-se. consistem em preceitos morais. 1983: 231). A definição que confere àjus naturalis ou direito de natureza nos ajuda a compreender o que o autor entende por lex naturalis. isto é. paulatinamente. através da quais "se proíbe a um homem fazer tudo o que possa destruir sua vida ou privá-lo dos meios necessários para preservála. 1983: 231). impõe um dever ser sem amparo externo. Hobbes discernia. para Hobbes. dado que uns são levados a acreditar por uma razão e outros por outras diferentes. 1983: 231). A questão é crucial na medida em que. através de que autoridade a crença nas Escrituras se tornam leis. não podem aí ter lugar (Hobbes. Proclama que. Direito de natureza consiste na liberdade que cada homem possui de utilizar seu poder de fazer ou deixar tudo aquilo que julgar necessário à preservação de sua própria natureza. "todos os teólogos. nos indicam as regras do bem e do mau. ao passo que a lei obriga ou determina uma dessas coisas" (Hobbes. a partir da referida questão. Repare-se que a fim de compreender como Hobbes resolve o problema acima mencionado. as leis das Escrituras Sagradas não diferem das leis da natureza14 (Hobbes. não são leis. "quando se levanta a questão de nossa crença. para o autor. 1983: 342). De acordo com Koselleck. e. Decidido a resolver o problema. Já as leis de natureza são compreendidas como regras morais. ou omitir aquilo que pense poder contribuir melhor para preservá-la". determinadas pela razão. ao concluir sua distinção entre direito e lei. 1983: 172). Em outras palavras. é fundamental ater-se à definição que o autor tem de leis de natureza ou leis naturais. tal direito permite adequar qualquer meio que a razão de cada um julgar necessário ao fim da autopreservação. como a secularização consiste numa chave imprescindível para se perceber como Hobbes vai se distanciando da doutrina jusnaturalista. Pois direito consiste na liberdade de fazer ou de omitir. "pois sendo as leis naturais eternas e universais são todas elas divinas" (Hobbes. ''embora os que têm tratado deste assunto costumem confundir jus e lex. justiça e injustiça. repreende autores provavelmente pertencentes a uma tradição jusnaturalista de pensamento. Vülas Boas Castelo Branco "que as noções de bem e mal. é necessário distingui-los um do outro. Mas leis de natureza. enquanto não forem reconhecidas por uma autoridade. "as leis de Deus portanto nada mais são do que as leis de natureza" (Hobbes. o problema. o direito e a lei. Em outras palavras. virtudes morais e vícios imorais (Hobbes. Em seguida.

Por isso a finalidade da instituição do Estado não é senão "a paz e a defesa de todos" {Hobbes. 16 Note-se como a noção de consciência pública poder traduzida pela idéia de razão de Estado. non ventas facit legem teriam falhado. "pois tocíos os homens concordam que paz é uma boa coisa". de certo modo. 1983: 109). portanto. Se porventura se lograr alcançá-la. submetem-se à consciência pública. Hobbes parece convencido de que a paz está acima do interesse pessoal de cada um. 15 Hobbes.15 Assim. Ora. As convicções internas de cada súdito só podem ser exteriorizadas na medida em que não entrem em conflito com vontade do soberano. Podem ser escritas. em vez de ensinar um direito que estivesse acima dos partidos" (Koselleck. independentemente das crenças ou consciência de cada um. capaz de ser fundada no consenso. "composto paios poderes de vários homens. consciências privadas dos súditos. pois suas doutrinas apoiavam os direitos de determinados partidos e. cujo caráter é irrevogável. 1983: 53). natural ou civil. Assim. em oposição àqueles que defendiam formas de governo fundadas em leis sobrenaturais ou naturais. O autor procura justificar a paz como um ditame da razão. mas quem buscou a paz pela paz" (Koselleck. partido ou religião. pois. todas as crenças. na sua teoria do Estado. manifestada e garantida através de leis positivas. introduz um moderno conceito de legitimidade. 1983: 94). o autor propugnava pelo maior dos poderes humanos. durante a guerra civil religiosa "no vaivém dos perseguidores e perseguidos. e. tais leis se opõem às leis de natureza ou às sobrenaturais. daí a importância da força coercitiva do soberano para fazer valer o cumprimento da palavra dada pelos súditos. 243 . 1999: 23). ao propugnar por paz duradoura no interior de um corpo político e elegê-la como ponto de partida incondicional ou premissa de sua doutrina política. adquire-se o status de um agrupamento de homens unidos na figura de uma pessoa representante da vontade de todos. que tem o uso de todos os seus poderes na dependência de sus vontade: é o caso do poder de um Estado" {Hobbes. Aqui interessa salientar que Hobbes não deriva o seu direito constitucional do Estado da vontade divina ou de leis naturais eternas e universais. 1999: 26). isto é. como uma regra geral passível de validade. Hobbes. ou então dadas a conhecer aos homens por outro argumento da vontade de seu legislador" (Hobbes. 1983: 171). Aliás.Auctoritas. e foram tornadas leis pela vontade daqueles que tiveram o poder soberano sobre os outros. não a justifica através de alguma seita. Aliás. independentemente da pluralidade de crenças de cada um (Hobbes. mas do consentimento dos homens. portanto. que trocavam constantemente os papéis de vítima e de carrasco não sobreviveu quem se manteve fiel à sua crença. incitavam à guerra civil. unidos por consentimento numa só pessoa. pois "não existem desde toda eternidade. poder-se-ia declarar que Hobbes eleva-se acima dos interesses partidários de seu tempo. representativa da moral pública. como possibilidade de obter amparo externo de urna única autoridade ou da autoridade de uma assembléia soberana constituída.16 representada pela exclusiva vontade de quem detém o poder soberano.

2000: 653). ou com respeito aos fatos" (Hobtaes. Isto ocorre em virtude da lei somente possuir o poder de obrigar a fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Proclama que toda lei que obriga apenas no âmbito do foro íntimo. parece-me que o afã em se atribuir rótulos às idéias de autores é temerário. precisamente. tratando-se. Ao passo que lei em sentido próprio é a palavra daquele que tem direito de mando sobre outros" (Hobbes. distingue. portanto mais de meio século antes de Thomasius. Conforme o autor. quer dizer. aliás o "direito de todos os soberanos deriva originariamente do consentimento de cada um dos que irão ser governados" (Hobbes. também. quer seja na inconformidade da ação à lei moral.. isto é. é bom salientar que Hobbes (1588-1679). não só entre foro íntimo e foro externo. mas também "pertence ao poder soberano a autoridade judicial. Ora. Pois eles são apenas conclusões ou teoremas relativos ao que contribui para defesa de cada um. Portanto. já que. não apenas por um fato contrário à lei. E tal se justifica porque na teoria do Estado de Hobbes não só "pertence á soberania o poder de prescrever as regras". mas in foro externo. mas também por um fato 17 Aqui cabe desfazer equívoco de interpretação histórica. 1983: 335). fundamenta Júris Waturae et Centium. Hobbes prefere chamar as leis de natureza de regras morais ou teoremas estabelecidos pelos ditames da razão. notadamente em sua obra capital. quer seja na conformidade da ação à lei moral ou natural. em primeiro lugar. as leis naturais ou de natureza. como se verá neste artigo. moralmente. o autor considera inadequada a designação de leis de natureza. no Leviatã.l? interior de exterior. mas entre direito e moral. Em segundo lugar. o que se deve atribuir aos méritos de Thomaisus (1655-1728) . de 1651. Maquiavel e Thomaisius estão enredadados na esteira dos autores que buscam distinguir não só entre política e religião. o direito de ouvir e julgar todas as controvérsias que possam surgir com respeito às leis. impondo um desejo de pô-las em prática. caso contrário a lei de natureza ou lei natural referese apenas às intenções e não às ações do indivíduo. Vülas Boas Castelo Branco No que respeita às leis de natureza. embora lance mão da terminologia comum à sua época. 1983: 110).. na verdade. como Hugo Grotius. nem sempre obrigam" (Hobbes. tanto Hobbes.Pedro H. somente "obrigam in foro interno. entre outros. típica de uma tradição jusnaturalista de pensamento.. Conforme relata o próprio autor. quer dizer. Tem sido trivial assegurar que "foi na última fase da Escola do Direito Natural que surgiu a primeira doutrina explícita e deliberada sobre os critérios distintivos entre o mundo jurídico e o mundo moral. tanto civis quanto naturais. de regras morais acerca do bem e do mal. Deve-se lembrar que direito de mando sobre os outros deriva do consentimento dos governados e não das leis naturais ou divinas. mas impropriamente. entre direito e moral. publicada em 1705" (Reale. poder ser violada. 1983: 94). 1983: 95). Eis a questão fundamental: Hobbes distingue foro íntimo de foro externo. porque a "estes ditames da razão os homens costumam dar o nome de leis. 244 . impõem o desejo de que sejam cumpridas. a partir do momento em que alguma autoridade soberana a reconheça e tenha o poder de exigir seu cumprimento. mas. consciência ou intenção de ação. "as íeis de natureza que obrigam in foro interno podem ser violadas. isto é.

agora. não é de se surpreender que. via reinarem conflitos violentos em virtude da luta pela supremacia das crenças de cada partido. no livro Lições preliminares de direito. Nesta passagem Hobbes nos revela que as leis naturais. se exterioriza. pois são visíveis e podem ser objeto do mundo do direito. cujo titulo é Direito e Morai. proclamando que "encontramo-nos. no caso de seu autor considerá-lo contrário. Hobbes tece argumentos para distinguir a moral do direito. do foro íntimo. Daí o autor esclarecer que só é possível julgar a conduta humana a partir de ações externas. o foro competente para julgá-la denomina-se direito. seita e igreja. Ao fazê-lo. o crime do pecado. 18 Miguel Reale. plano através do qual a ação se projeta no mundo e se torna passível de julgamento por terceiros. isto é. abre o capítulo V. em razão da pluralidade de crenças proveniente da natureza humana. isto é. 1983: 94). Tal passagem nos revela que Hobbes distinguia na conduta humana dois planos distintos: o interno. seus objetos de paixão. enfim a fé da confissão. o autor já estava discernindo entre moral e direito. portanto. 1983: 303). Se cada indivíduo invocava ou exteriorizava o seu foro íntimo para defender seus valores. Mas qual é a sua finalidade? De que modo tais distinções se conectam ao problema que o autor busca solucionar. diante de um dos problemas mais difíceis e também dos mais belos da Filosofia do Jurídica. isto é. Cada homem invocava sua consciência para lutar pela sua religião. ações estas que só podem tornarse ilegítimas quando são contrárias à lei do Estado" (Hobbes.Auctoritas. o público do privado. cada um é juiz de sua própria conduta e tal julgamento se desenrola no campo da moral privada. morais dizem sempre respeito às intenções e por isso podem sempre ser violadas mesmo em situações em que ação seja conforme à lei.18 Enquanto a ação tramita no âmbito da intenção. pela a supremacia de seu juízo em relação a todas matérias. o interior do exterior. o da diferença entre a Moral e o Direito" (Reale. 1979: 41). 245 . isto é. através de que autoridade as crenças nas Escrituras Sagradas se tornam leis? Hobbes. As leis morais levam os homens a julgarem suas ações somente no âmbito da intenção e não do efeito que delas possa advir. non ventas facit tegem conforme a ela. Torna-se patente que somente "se pode julgar a conduta através de ações externas. precisamente. durante a guerra religiosa de seu tempo. sua intenção é contrária à lei. o que constitui uma violação quando a obrigação é ín foro íntimo" {Hobbes. o da consciência e o externo. Por outro lado. no momento em que a conduta não se limita ao âmbito da moral e. predominasse a discórdia. seus valores morais. pois não há como exercer um controle externo da consciência ou das intenções. cuja existência depende da constituição de uma vontade soberana dotada de poder coercitivo. Pois embora neste caso sua ação seja conforme à lei.

há diversidade de convicções privadas . não só externamente. precisamente porque cada um é juiz em causa própria e suas crenças. cada um vive isolado ou atomizado em função de estar projetado dentro de seu mundo interior ou imaginário e por isso o cenário do estado de natureza. e não havia um poder comum. em meio ao conflito religioso que marcava seu tempo. ao exteriorizar sua consciência privada. o outro homem também busca o reconhecimento de sua convicções de foro íntimo. sobretudo sua religião. 246 . ao se exteriorizarem. quando não há uma consciência pública representada pela vontade soberana do Estado.como onde quer que haja homens. sua crença. 1983: 111). Hobbes queria instituir um poder comum suficientemente forte. Porém. Todavia. A problemática da teoria do Estado de Hobbes consistia em estabelecer limites externos às distintas ações provenientes de uma pluralidade crenças. deve-se destruir o inimigo. no momento em que desce do pedestal de seu solitário mundo imaginário. no qual não há poder comum capaz de manter a todos em reverente temor. mas também internamente" (Koselleck. ao invocar suas convicção de foro íntimo. que nada mais é do que a consciência de cada um (Hobbes. cada homem atuava como um juiz em causa própria. Daí se infere que "as convicções levavam a ações cada vez mais radicais. da discórdia das vontades sem limites. aversões e desejos. busca que outro homem reconheça seu valor. principalmente sua religião. isto é. Creio que a relevância do comentário do autor reside no fato de Hobbes transladar para o estado de natureza as paixões de homens que lutavam na guerra civil-religiosa para defender suas convicções de foro íntimo. Na batalha que se travava entre as razões ou consciências privadas. e como se viu. capaz de impedir o conflito das convicções de cada um. dão origem a emulação e ao conflito (Hobbes. como o objetivo de aniquilar o inimigo.Pedro H. Villas Boas Castelo Branco Ao discorrer sobre a condição natural da humanidade. busca reconhecimento e respeito de outro homem. cujo traço primordial. somente as ações externas pertencem ao mundo jurídico e são passíveis de punição. respeito e sequer reconhecimento. é composto de homens. Hobbes retrata a psicologia.portanto. devem ser reconhecidas por todos. se porventura não o for. Na filosofia política do autor. neste encontro. 49). predomina o tribunal da lei natural. mas uso da força privada ditado pelo direito natural de autopreservação. os distintos temperamentos do homem fanático religioso19 que se comporta como lobo diante de outro. Como se vê. ocasionado pelo constelação de razões ou consciências privadas. não há entendimento. Ibdavia. O encontro de homens ávidos em invocar ou exteriorizar sem limites suas convicções os pode levar à ignomínia de um violento conflito corporal. seu valor ou seus valores . consiste na pluralidade de consciências privadas que. cada homem queria expor 19 Observa Hume "gue a história nos ensina que houve fanáticos religiosos desta espécie ria Inglaterra nas guerras civis" (Hume. 1999: 29). pois. sua religião. 1983: 210). Para tanto distingue o direito da moral. o homem.

isto é. "pela vontade daquele ou daqueles que têm o soberano poder" {Hobbes. uma vez que no âmbito político e jurídico. o conteúdo moral das decisões de cada homem que repercutem nas suas ações externas é transferido à vontade soberana do Estado. Os valores morais. se for de foro externo. isto é. Hobbes. 1983: 264). isto é. Estas obtêm sua legitimidade através de um processo legislativo que. está submetendo as consciências privadas à consciência pública. se já lhe demos um poder para fazer tudo quanto necessário para nossa paz e defesa" (Hobbes. são verdade ou mentira. às leis. E sem dúvida já o escolhemos como juiz. as crenças. Habermas. que tira dos indivíduos os motivos que os levam a orientar suas 247 . que garantem liberdades negativas. mas sim a autoridade. aceitar sua razão particular como medida do bem e do mau no que respeita a suas ações externas. Aqui deve-se fazer uma breve digressão. "nenhum de nós deve aceitar como juiz sua razão ou consciência privada. Porém. no ímpeto de reconfigurar o mundo moral e fundar o Estado. Hobbes. A consciência de cada um está sujeita à consciência do soberano. Hobbes soluciona o problema da seguinte forma: auctoritas. 1997: 114). Assim. ainda hoje. sua vontade é a lei. que é vontade política do soberano vestida com força de lei. agora quem tem o direito de decidir é soberano. a consciência deve ser escamoteada. argumenta que "o direito moderno tira dos indivíduos o fardo das normas morais e as transfere para as leis que garantem as compatibilidade das liberdades de ação. mas a razão pública. se apoia no princípio da soberania do povo" (Habermas. Portanto. Veja que os vivos princípios da doutrina do Estado de poder absolutista de Hobbes preocupam Habermas. a razão do supremo lugar-tenente de Deus. as verdades de cada homem. trata-se de um problema de foro íntimo. Se a crença em milagres. isto é. non ventas facit legem suas verdades religiosas fundamentando-as como fatos milagrosos. 1983: 217). não são as verdades provenientes de crenças que fazem a lei. uma vez que encontram eco. procura despir as consciências privadas de repercussão política. Assim. da esfera pública. Em outras palavras. por sua vez. não têm nenhuma aplicação na realização das leis. pois elas são feitas. isto é. disputavam a veracidade de suas crenças religiosas que se confundiam com sua leis naturais ou morais. exclusivamente. Na sua teoria do Estado. non ventas facit legem. As decisões políticas não pertencem mais ao juízo particular proveniente da consciência de cada um. as crenças e as verdades de cada um devem ser relegadas a um plano secreto. ao declarar que nenhum homem deve aceitar como juiz sua consciência privada. que através da manifestação da sua vontade a torna pública. no âmbito das ações externas. isto é. isto é. nas Escrituras Sagradas ou nas leis morais da consciência. ao tecer reflexões sobre o direito moderno dos referidos Estados. no processo legislativo democrático.Auctoritas. suas consciências. a moral. deve-se atentar como até hoje a teoria do Estado de Hobbes repercute no direito moderno dos denominados Estados democráticos do mundo ocidental.

em sua função de destinatárias. deve-se salientar que ambos autores vivem em momentos históricos inteiramente distintos. jamais se poderia pensar em democracia radical. seus critérios do que é justo ou injusto. E se Habermas se sente inquieto e ávido a propor o seu projeto político de democracia radical. O esforço de Habermas para alcançar o seu ideal de uma democracia radical que transforme destinatários de direitos em autores de leis com a capacidade de definir. 1999: 35). que vivenciou a torpeza da guerra religiosa. e quando esperam um bom 248 . pois é cônscio de que "os pensamentos secretos de cada homem percorrem todas as coisas. é possível dizer que sem uma época de política inteiramente secularizada não há Estado de direito e. A construção da teoria do Estado de Hobbes tem como finalidade impedir que indivíduos invoquem sua consciência. representa uma utopia que se esquece do caráter "estatal do Estado" (Koselleck. através de mútuo entendimento. 1983: 44). sagradas ou profanas. que é voltada ao estado de natureza. pois "em épocas de desgraça tendem a invocá-las. as fantasias de seu foro íntimo. Voltando à teoria constitucional do Estado de Hobbes. numa época de política inteiramente secularizada. uma vez que são relativos e ao se exteriorizarem levam à discórdia e terminam com a guerra.desejam invocar. sem vergonha ou censura" (Hobbes. O próprio Habermas parece reconhecer tal contribuição. Invertendo os dizeres de Habermas. portanto. porque ele próprio extrai sua força legitimadora do processo de um entendimento dos cidadãos sobre regras de sua convivência" (Habermas. A razão de Estado de Hobbes surge justamente para submeter as razões privadas. seus critérios de justiça ou injustiça. já que sua "inquietação possui uma razão mais profunda: ela deriva do pressentimento de que. isto é. exteriorizar.Pedro H.cuja tendência à credulidade no ininteligível evidenciada por Hobbes . o deve à teoria política de Hobbes. "o processo legislativo democrático precisa confrontar seus participantes com as expectativas normativas das orientações do bem da comunidade. que sem amparo externo descambam para violência das ações. Hobbes. limpas ou obcenas. Todo problema consiste quando os homens . pois o autor contribui para secularização da política ao elaborar seu conceito de Estado absolutista. 1997: 13). cumpre esclarecer que o autor reconhece a liberdade de pensamento em foro íntimo. sérias ou frívolas. cujo maior benefício foi a idéia de neutralizar os violentos conflitos religiosos e garantir a paz e a ordem no interior de um corpo político. Todavia. salienta Habermas. Villas Boas Castelo Branco ações em sociedades complexas. 1997: 14). o poder de definição dos critérios de julgamento do que é justo e do que é injusto" (Habermas. não se pode manter um Estado de direito sem democracia radical" (Habermas. No intuito de restruturar as engrenagens do sistema de direitos. 1997: 151). jamais concordaria com Habermas quanto ao projeto político de modificar "o sistema jurídico (que) tira das pessoas jurídicas.

quer dizer. Aproximando-se dos filósofos morais. isto é. non ventas facit legem sucesso tendem a agradecer-lhes. isto é. de qualquer significado. independente dos modelos tradicionais de fé e autoridade. moral e direito. na conservação da sociedade humana". divergem também quanto ao que é ou 249 . em seu foro íntimo. ao lugar-tenente de Deus" (Hobbes. submeter as consciências privadas à consciência pública. no esforço para emancipar um domínio político incólume. 1983: 193). E os homens diversos não divergem apenas. cuja característica é ser regida pelo interesse da autoridade estatal. não deixou de reconhecer a liberdade de pensamento no âmbito do foro íntimo. as leis naturais aparentemente eternas e universais não têm validade quando se arrogam pretensões políticas. ou seja. "um particular tem sempre a liberdade (visto que o pensamento é livre) de acreditar ou não acreditar. É necessário esmiuçar os desdobramentos da referida máxima. 1983: 264). Hobbes destitui leis naturais ou divinas. quando pretendem validade na esfera pública. Todavia.Auctoritas. pois "o bem e o mal são nomes que significam nossos apetites e aversões. aparentemente. na luta para secularizar o Estado. as revelações das vontades de Deus. o autor nega que possam ser eternas e universais. A reviravolta do caos da guerra civil religiosa conduziu as reflexões políticas de Hobbes à distinção entre fé e confissão pública. Tal distinção abriu a perspectiva para o autor também delinear as diferenças entre política e religião. leis fundadas na experiência e observação de precedentes. concorde com os filósofos morais de seu tempo quanto ao caráter eterno e universal das leis de natureza. Aliás. Hobbes também as esvazia de conteúdo.. moral e direito. ou até mesmo das correntes do pensamento jusnaturalista de seu tempo. Como dizia. o autor chega a explicar que a ciência das leis naturais "é a verdadeira filosofia moral. O epítome da passagem acima é retratado pela já comentada expressão auctoritas.. o autor ao forjar seu conceito de razão de Estado. a lei que orienta a ação no interior de um Estado (Hobbes. e por fim culminam com as prímícias do positivismo jurídico. me parece que. costumes e doutrinas dos homens. muito estudo e observação. enfim. a jurisprudência. conforme veja qual o benefício que sua crença pode acarretar para os fins que afirmam ou negam e conjecturando daí se eles são milagres ou mentiras. de repercussão política. em seu julgamento . nos fatos que lhe forem apresentados como milagres. 1983: 64). sobretudo. Embora o autor se utilize de leis naturais na construção de sua teoria do Estado e. religião. os quais são diferentes conforme os diferentes temperamentos. Mas quando se trata da profissão pública dessa fé a razão privada deve submeter-se à razão pública. Porque a filosofia moral não é mais do que a ciência do que é bom e do mau. logo em seguida. transformando em seus deuses as criaturas de sua própria fantasia" (Hobbes. non veritas facit legem. isto é. As verdades que derivam do conhecimento prudencial alcançado. pois estendem-se às relações entre política.

Não importa se vontade soberana do Estado é justa ou injusta. ainda que se disponha de muita memória. que o Estado fez. 1999: 31). Aqui Hobbes sustenta a primazia do direito positivo ou statute law. diverge de si mesmo. auctoritas e potestas. de indivíduos particulares ou juizes particulares" (Hobbes. Refutava "aquelas opiniões que se encontram no livro de eminentes juristas de vários Estados. no que respeita ao conhecimento prudencial era mais ainda.que ameaçavam o poder absoluto do Estado. 1983. poder espiritual e poder religioso. isto é. o monarca de Hobbes "está acima do direito e é sua fonte. ao soberano representante. às vezes louvando. da vontade do representante" (Hobbes. o conhecimento tirado da experiência de fatos passados para solução de casos presentes é falível. do direito posto pela vontade soberana. Daqui procedem desculpas. 1983: 73) . isto é. "o soberano não está sujeito àquelas leis que ele próprio. Villas BÔas Castelo Branco desagradável à razão. Para o autor. isto é. Ao argumentar que as leis tiram sua força e autoridade da vontade soberana do Estado. Hobbes rejeita a elaboração de leis provenientes de qualquer razão privada. o que não é sujeição. chamando bom àquilo mesmo que outras vezes despreza e a que chama mau. em relação ao direito comum "gue surge diretamente das relações sociais e é acolhido por juizes nomeados pelo Rei. mercadores. isto é. isto é. "as lei escritas ou não recebem toda sua força e autoridade da vontade do Estado. Como diz o próprio Hobbes. isto é. Mais. ao mesmo tempo. outros 250 . "os sinais da ciência são uns certos e infalíveis. 1983: 194). ele decide o que é justo ou injusto. ele se torna direito de elaboração judiciária" (Bobbio. para o autor. si próprio. verdadeira ou falsa. Pois estar sujeito a leis é estar sujeito ao Estado. ou melhor. numa segunda fase. mas liberdade em relação às leis" {Hobbes. o autor não crê que se possa extrair conseqüências de fatos passados para aplicação de casos presentes ou futuros. ninguém senão a autoridade suprema do Estado tem poder de pôr normas. A citação acima mencionada revela que não há leis naturais.não só às doutrinas de católicos e daquela "Igreja que mais presumiu de Reforma" (Hobbes. isto é. juizes. 163). 1983: 163). estudo e observação. Hobtaes está igualando autoridade e poder. Ao negar as referidas opiniões. seja de representantes espirituais. Além do mais. que somente são jurídicas em face do monopólio da força física. em momento diferentes. do poder coercitivo. 1983: 94). 1995: 32). é. Mas Hobbes também se opõem a outras doutrinas . O quadro de miséria cognitiva inerente à antropologia elaborada por Hobbes impede qualquer espécie de conhecimento seguro. divinas ou morais capazes de orientar à conduta humana. Se Hobbes já era cético com relação às conseqüências extraídas da ciência. enfim. legislador e juiz" (Koselleck. quer dizer. segundo as quais o poder legislativo depende diretamente ou por conseqüência. o autor entra em polêmica com as idéias do eminente jurista Sir Edward Coke. o mesmo homem. Por isso. nas ações da vida cotidiana. controvérsias e finalmente a guerra" (Hobbes. Como se viu.Pedro H.

Hobbes retoma a discussão com o jurista no livro A Dialogue between a Philosopher and a Student of the Common Laws ofEngland. de eliminar a contradição. ou sabedoria dos juizes subordinados. Para Hobbes. isto é. O referido capítulo do Leviatã consiste numa síntese de uma discussão que se estende e aprofunda no outro livro. do Leviatã. e é injusta" (Hobbes. Sua concepção de justiça tem mero caráter formal. o Estado. A decisão é justa na medida em que sua fonte for a vontade soberana da pessoa representativa do Estado. em seu representante. para representar o papel de um discípulo das idéias de Sir Edward Coke. pois não importa qual é o conteúdo da decisão da autoridade representativa do Estado. De imediato é necessário focalizar que Hobbes esvazia a noção de justiça de qualquer conteúdo. Estruturado em forma de diálogo. porque observar pela experiência e lembrar todas as circunstâncias que podem alterar o sucesso é impossível" {Hobbes. dedicado às leis civis. Em todos os tribunais de justiça quem julga é o soberano (que é a pessoa do Estado). 1999: 31). Hobbes compreende que não é o conhecimento de espécie alguma que faz a lei. mas sim a autoridade de quem tem o poder coercitivo. No Leviatã. por interpretação ou alteração. dois anos após a morte do autor. a jurisprudência não é fonte de lei. para que sua sentença seja conforme a esta. Hobbes responde à teoria de Coke argumentando que não é a perfeição da razão artificial. O Juiz subordinado deve levar em conta a razão que levou o soberano a fazer determinada lei. cuja vontade pode dominar qualquer outra vontade sobre a terra" (Habermas. e quando tal acontece a mesma razão é capaz. obtida através de muita observação e experiência (como era a dele)". 1983: 31). e nesse caso a sentença é uma sentença do soberano. pois a decisão política do príncipe tem força de lei" (Koselleck. não é fácil surgir qualquer contradição nas leis. non veritas facit legem incertos". das razões expostas é corolário dizer que as leis não provêm "de nenhuma razão privada. uma só pessoa. Embora somente na referida passagem faça breve menção ao juiz Sir Edward Coke. pois justiça é sentenciar de acordo com a vontade do soberano. aquele representante do Estado que tem o poder de fazer a guerra e estabelecer a paz.Auctoritas. Nem tampouco (como pretende Sir Edward Coke) de uma perfeição artificial da razão. a legalidade ou validade das leis não reside em seu 251 . porque nesse haveria tantas contradições nas leis como há nas Escolas. Antes de prosseguir. o mencionado livro retrata uma disputa entre o filósofo que é próprio Hobbes e um estudante direito comum. Assim. Já "os sinais da prudência são todos incertos. "portanto o que faz a lei não é aquela júris prudentía. caso contrário é dele mesmo. obtida através do conhecimento fundado na experiência que faz a lei. Na teoria do Estado absoluto do autor. criado pelo autor. mas a razão deste nosso homem artificial. 1983: 164). mas sim o "poder fático de mando de um soberano. deve-se salientar que a referida passagem é retirada do capítulo XXVI. publicado em 1681. ela está desconectada de qualquer princípio moral ou religioso. 1997: 175).

independente de juízos morais ou religiosos. moral de direito. creio.Pedro H. o traço arbitrário e realista do poder não guarda nenhuma relação com as leis naturais ou morais. os mesmos dizeres aparecem para contestar as teorias de um personagem que seria o discípulo de Edward Coke. but Authority that mahes the law" (Hobbes. A construção de um Estado neutro. tanto que pode ser considerado o precursor do positivismo jurídico" (Bobbio. non veritas facit legem. Embora Bobbio corretamente reconheça que a principal finalidade da doutrina política de Hobbes é lutar contra o poder eclesiástico. Hobbes salienta que "It is not wisdom. Portanto. provavelmente. mas na sua função de garantir a ordem e tranqüilidade no interior de um Estado. o valor da lei. proveniente da vontade soberana do Estado. Aliás. levou ao positivismo jurídico. No seu conceito de lei formal não importa o conteúdo. mas pela razão do homem artificial. de lei formal. Assim. Nesse sentido o processo de laicizaçâo e sistematização do Direito terminou por confluir com o fenômeno da crescente positivação do Direito pelo Estado. Conclusão A resposta de Hobbes à guerra civil religiosa foi a secularização de um domínio estritamente político. O direito é compreendido como um instrumento a serviço de quem tem o poder fático de mando. Hobbes descortina o caráter arbitrário das relações de poder que os homens travam entre si. Villas Boas Castelo Branco conteúdo religioso ou político. isto é. ela deriva de quem tem o poder legislativo. descortinam as primícias do positivismo jurídico. O conceito de legalidade das leis. No livro A Dialogue between a Philosopher and a Student of the Common Laws of England. A passagem acima mencionada em que Hobbes professa que a lei não é feita pela jurisprudência ou sabedoria dos juizes subordinados. isto é. representada pelo soberano. acima de qualquer partido político ou seitas religiosas. as idéias do autor se aproximam muito mais do positivismo jurídico do que jusnaturalista. 1995: 34). "aquilo que Hobbes diz para justificar sua posição contra o direito comum é muito importante. A lei não deriva sua validade do conhecimento ou sapiência de quem quer que seja. é incômoda. independentemente de qualquer juízo sobre a conformidade desta vontade com a razão. Assim. com verdades tiradas de conhecimento provenientes de Deus ou dos ditames da razão. ao distinguir consciência interior da ação exterior. "o fundamento do Direito deixou de ser buscado nos ditames da razão e passou a afirmar-se na vontade do legislador. pois alerta para o caráter arbitrário do poder de mando que homens exercem sobre homens. eqüivale a mais um dos desdobramentos da máxima auctoritas. 252 . Ao secularizar o Estado. Aliás. 1991: 39). Exige que a lei seja proveniente de autoridade competente dotada de poder coercitivo. A teoria política de Hobbes. 1971: 55). que é outro processo característico da experiência jurídica no mundo moderno" (Lafer.

Dicionário de Política . Claretiana. non ventas facit legem procura eliminar os conflitos violentos que ocorriam no interior de um Estado. Norbero. Ao leitor sem medo: Hobbes escrevendo contra seu tempo. Chicago: The University of Chicago Press. Stephen. 1990. UFMG. março/1990. São Paulo: Ed. São Paulo: Ed. 1978. Direito e Democracia: entre facticidade e validade volume I. Bibliografia ARENDT. Thomas Hobbes. . sem poder comum suficientemente forte para manter a paz. Do Cidadão. 1995. or the long parliament. no seu interior adquire-se status de cidadão e "o homem é um deus para o homem" (Hobbes. Campinas: Ed. Assim. HABERMAS. Hannah. HOLMES. Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. 1999. A condição humana. 1998: 3). Tempo Brasileiro. no interior de um corpo político. 1946. Ed. Unicamp (incompleto). Universidade de Brasília. 1994. Rio de Janeiro: Ed. Limited. Rio de Janeiro: Ed. Renato. HOBBES. David.homem é lobo do homem". BOBEIO. São Paulo: Ed. A Marca Do Leviatã.Auctoritas. A Dialogue Between a Philosofer and a Student of The Commom Laws ofEngland. 1983. Chicago: The University of Chicago Press. Brasília: Ed. . Universidade de Brasília. 1991. Ao transformar o Leviatã em arma política voltada para a secularização do Estado. Da Revolução. . Thomas. São Paulo. 1971. London: Mowbray & Co. março/1997. HUME. Forense-Universitária. Abril Cultural. . 1997. 1985. Chicago: The University of Chicago Press. o Estado passa a representar uma "mútua reJação de proteção e obediência" (Hobbes. Leviathan. . Ática. ícone. . et alii. . Campus. JANINE. Jürgen. Belo Horizonte: 2. Leviatã ou Matéria. Uma investigação sobre os princípios da moral. _. 1990. BÍBLIA SAGRADA. ns 47. 1988. Brasília: Ed. Soberania popular como procedimento: um conceito normativo de espaço público in Novos Estudos Cebrap. 1983: 410) necessária à condição da natureza humana. 1957. Uma conversa sobre questões da teoria política in Novos Estudos Cebrap. Martins Fontes. O Positivismo Jurídico. 253 . . Behemoth. Rio de Janeiro: Ed. Leviathan or The Matter. or the long parliament. Se fora do Estado "o . 1987. Forme and Power of a Common Wealth Ecclesiatical and Civil. . . London: Published by the Penguin Group. Hobbes busca a salvação dos homens neste mundo. 1998.volumes l e 2. Introduction in Behemoth. São Paulo: Ed. Ed.

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que influencia e organiza as ações e interpretações humanas. A identificação nacional é hoje parte fundamental da complexa teia de significações que constituem o sujeito.1 Ou seja. 255 . ou seja. mas que mergulhe fundo na busca das fontes morais que determinam tais padrões. mas com a qual estamos comprometidos.1999. com contribuições vindas da filosofia. para Taylor. A noção de pertencer a uma pátria. a identidade pessoal está intimamente vinculada ao sentimento de pertencer ou não a determinado local ou determinada cultura. O tema é instigante e escorregadio.Considerações sobre a Identidade Nacional Rachel Nigro Este breve ensaio buscará. Ver a respeito. de destino final. A noção de identidade moderna é. TAYLOR. que justificam as escolhas dos imperativos morais.e os discursos que decretam seu Esta questão é analisada por Charles Taylor na obra Fontes do Self. Problematizar ainda mais o complexo de significados envolvidos na expressão Identidade.a construção da Identidade Moderna. levantar questões. No entanto. um discurso que fornece sentidos. e não respondê-las. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. 1989. Stuart. ou seja. Loyola. benevolência e valorização da vida cotidiana. mesmo quando negamos diversos de seus aspectos. possivelmente. As Fontes do Self. abre um enorme leque de possibilidades de aproximação e envolve diversas áreas das humanidades. uma das transformações mais marcantes atribuídas à "pós-modernidade" consiste exatamente no descentramento do sujeito. uma complexa teia de conceitos. encontrou na figura do Estado-nação a sua expressão moderna. no sentido de construir uma consciência de pertença nacional. Rio de Janeiro: DP&A ed. dos bens constitutivos que fornecem o sentido. em relação a si mesmo e à sua posição no mundo. de pertencer a um determinado local de origem e. O enfoque aqui será eclético. muitas vezes implícitos. São Paulo: Ed. antes de tudo. da transformação em texto de um pensamento ainda incompleto é por si valioso. no deslocamento de seu eixo normal ou atual. ou seja. Charles. A organização política e ideológica do Estado nacional mostrou-se como um dos processos mais significativos e bem-sucedidos da modernidade. onde o autor busca montai um quadro da identidade moderna que não se limite a explicitar os padrões morais que marcam a cultura contemporânea. da psicologia e da sociologia e ainda carecendo de um desenvolvimento mais aprofundado. cujas fontes tendem a manterse ocultas. HALL. como a noção de liberdade. Mas parto do pressuposto de que o esforço da escrita.2 Toda a problemática envolvida com a chamada "crise do Estado-nação" . compreendido na noção de se//.

são os autóctones. 2000. aquele que não se pode captar. a "crise de identidade do sujeito moderno". Charles Taylor apresenta tal "crise da identidade" como uma forma aguda de desorientação dos indivíduos. O Universo. Os Homens.pode ser compreendida como uma das facetas de uma crise mais ampla. igreja.Rachel Nigro fim próximo . mas tem pretensões de reconhecimento em Tebas. impõe a aceitação de sua presença em todos os lugares. o que vem de longe. é o deus mais inacessível e misterioso. Ao mesmo tempo. Como já articulado por diversos pensadores. o avô materno de Dionisio) e personagens surgidos do solo.4 Dionisio é um deus à parte. mantém com eles uma relação cara a cara. São Paulo. que não se pode enquadrar em nenhuma definição. do sagrado ou das Idéias. do que é diferente. Os sujeitos estão fragmentados internamente e as paisagens externas que proporcionavam identificações seguras estão se dissolvendo como a idéia de Estado-nação. O início do reino de Tebas é uma interessante combinação entre identidade e alteridade. com a perda do sentido da existência. desnorteante. Os semeados de Tebas brotaram da terra. É o Mesmo e o Outro. um estrangeiro (Cadmo. É um deus de lugar nenhum e de todo lugar. presente e ausente. exige pleno reconhecimento de sua alteridade. representa o equilíbrio e a união entre um personagem que vem de longe. que tem a terra de Tebas colada na sola de suas sandálias. VERNANT. com a perda da unidade expressiva. 256 . expressa na forma de uma incerteza radical acerca da posição em que se colocam. Os Deuses. comunidade -. É interessante perceber a relação intrínseca entre a identidade e o lugar de nascimento. Jean-Pierre. Abruptamente. entre a alteridade e aquilo que não pertence ao solo natal. desconcertante. filósofos e poetas. estrangeiro e autóctone. ou seja. Dionisio é o estrangeiro. para ser visto simplesmente como um domínio neutro de meios potenciais para nossas finalidades. exige também pertencer. Cia das Letras. terra de sua mãe e onde pretende ser reconhecido como rei. de ressonância e de substância do ambiente humano e suas relações. são os legítimos pertencentes do lugar. Sua história confunde-se com a de Tebas. família. a questão da identidade e da alteridade pode ser explorada através do deus Dionisio. Segundo Jean-Pierre Vernant. as questões envolvidas com o desencantamento do mundo. os semeados. visto que o mundo deixou de ser o iocus da magia. É um deus próximo dos homens. e não apenas quanto a saber quem são.3 Permitam-me um ligeiro desvio: Na Mitologia grega. A um só tempo vagabundo e sedentário ele representa a figura do outro. Taylor relaciona tal crise da identidade com a perda de significado da vida contemporânea. o que leva os indivíduos a uma profunda desorientação espacial.

assentado em pressupostos comunicativos. uma cultura política liberal é o denominador comum de um patriotismo constitucional capaz de respeitar tanto os direitos humanos quanto a integridade de diferentes formas de vida de uma sociedade multicultural. os problemas aqui analisados serão separados em 3 seções distintas. Podemos arriscar afirmar que o Brasil possui características de uma sociedade pós-convencional e pré-convencional ao mesmo tempo. Desta forma. Não podemos falar numa "cultura política libertária" compartilhada e reconhecida como genuíno produto de uma vontade política comum. No entanto.Considerações sobre a Identidade Nacional Voltando ao tema central.5 na idéia de nações sem nacionalismo? Ou em um "nacionalismo procedimental" expresso na noção habermasiana de "patriotismo constitucional"?6 Na busca de um mínimo de sistematização neste universo de questões. Habermas defende a aplicação de sua formulação de espaço público e princípio discursivo à teoria deliberativa da democracia. farei um 5 6 KRISTEVA. coesa. Rio de Janeiro: Ttempo Brasileiro. Zigmunt. O patriotismo constitucional proposto por Habermas busca oferecer um mecanismo pós-convencionaí de conformação de identidade coletiva. língua e/ou cultura comum. em última análise. mas não consegue se apartar totalmente de uma cultura política compartilhada que. os Estados Unidos e o Brasil. podemos dizer que desde a Modernidade pertencemos a determinados Estados Nacionais. Seu objetivo é encontrar nos princípios e no sistema de direitos constitucionais a estabilidade para as sociedades pós-convencionais. sem discutir conteúdos nem fazer considerações de ordem subjetiva sobre a capacidade racional dos participantes. "Cidadania e Identidade Nacional". com a chamada crise do Estado-nação. Desta forma. Em Busca da Política. New York: Columbia University Press. Hoje. o patriotismo constitucional busca desvincular-se das identidades culturais. nas pessoas. 1997. HABERMAS. BAUMAN. Direito e Democracia II. como a Suíça. 257 7 . buscarei algumas pistas na psicanálise e na filosofia heideggeriana que inspira Zigmunt Bauman. o compromisso dos cidadãos com estes princípios e direitos apenas se estabelece no "contexto de uma cultura política acostumada à liberdade". junto com Julia Kristeva. Seriam elas apenas construções arbitrárias? Ou temos a necessidade de pertencer a um determinado local? As identidades nacionais estão se esfacelando com a globalização? Podemos pensar. Como o modelo de democracia elaborado por Habermas reclama um papel procedimental. O autor acredita na esfera pública como categoria capaz de mobilizar politicamente e regular racionalmente os conflitos intersubjetivos. mister se faz uma análise crítica de como a sociedade brasileira. se isto é possível. o sentimento de pertencimento a um determinado solo. Em primeiro lugar. é possível construir uma cultura política sobre princípios constitucionais. como um substituto do nacionalismo enquanto fator de integração social. lalvez nenhuma idéia tenha gerado tantas guerras e desentendimentos quanto o nacionalismo.. Julia. Para Habermas. 1993. é particular. mesmo em sociedades multiculturais. algumas questões fundamentais: o que entendemos por Identidade? Existe uma "essência identitária" nas coisas. voltamos a questionar as identidades nacionais. ou seja. que não dependem necessariamente de uma origem étnica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. entendida como uma associação democrática lastreada e legitimada pela cidadania ativa. Para tanto. 2000. incorpora a institucionalidade democrática e faz uso da deliberação pública.7 Na segunda seção busco destacar o papel central das relações intersubjetivas para a formação da identidade pessoal e cultural. hierárquica e desigual. lingüística ou cultural comum a todos os cidadãos. Nations without Nationalism. nas culturas? Podemos falar de uma identidade única. irredutível? Sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto.

onde o autor trabalha a noção de 'Disrespect'. na maioria dos casos. 9 Utilizo aqui a noção de ontologia tal corno entendida por Charles Taylor. o ser humano é. a consolidação dos Estados nacionais modernos e a necessidade de forjar uma identidade nacional coesa para garantir a participação política e a legitimidade das decisões. desde a colonização européia.10 1. termo traduzido pela expressão "falso reconhecimento" ou falha no devido reconhec'mento. a contribuição do trabalho de Axel Hormeth The Struggle for Recognition. tal como vem se desenvolvendo através do filósofo canadense Charles Taylor e seus cornentadores. guardadas as devidas diferenças históricas. 1996. 10 Merece destaque. passando pelo massacre dos povos indígenas e pela escravidão negra. Certamente. A Modernização Seletiva . os projetos de unificação nacional. Explicações Fundamentais Falar em Identidade envolve. implicaram o uso de violência e opressão. nas suas relações de afeto e amor com sua família. Envolve. a ontologia moral subjacente que articula o fundamento que pressupomos e ao qual recorremos em todas as reivindicações de correção. seja no âmbito político ou do direito. ern outras palavras. antes de tudo. um animal inteligente e egoísta que contrata para sobreviver. ou seja. Desde a mitologia grega. E importante ressaltar que a matriz filosófica subjacente a tais interpretações vai de encontro à ontologia dominante. ou seja. um ser que busca reconhecimento. falar em Alteridade. Cambridge: MIT Press. as pretensões de reconhecimento de determinados grupos culturais não-hegemônico s com destaque para a dimensão moral dos conflitos sociais. onde pretende ser tratado com igual respeito. em grande medida. a tradição moderna individualista entende o ser humano como um agente em busca de autopreservação. The Struggle for Recognition . o quadro da nossa natureza e condição espirituais que fornece o sentido das nossas respostas morais. Por isso. Mas Hegel opôs ao modelo hobbesiano um agente humano que busca auto-realização. passando pela dialética do senhor e do escravo de 8 SOUZA. uma explicação teísta que invoca a condição comum aos homens de filhos de Deus. como a ontologia moral subjacente às concepções morais que permanece. como o professor Jessé Souza e sua análise do caso brasileiro. UnB. O termo em alemão usado por Honneth é 'MiBachtung'. Alex.9 Desde Hobbes.Rachel Nigro breve esboço da política de reconhecimento. Jessé. nesse sentido. A terceira ordem de questões que pretendo levantar pertence à esfera da política e implica o uso das expressões identitárias com alguma finalidade específica. que busca reconhecimento e não apenas sobrevivência.uma reinterpretação do dilema brasileiro. 258 . Seja na vida privada. 2000. Brasília: Ed. que busca ser valorizado e estimado por aqueles que lhe importam. especialmente. Taylor buscará examinar o pano de fundo (background). seja na comunidade a que pertence e de onde retira o substrato cultural que dá sentido à sua existência. HONNETH. ou. implícita.8 O foco de tal perspectiva teórica é a questão das relações de mútuo reconhecimento que moldam as identidades. automaticamente.The Moral Grammar of Social Conflicts. Tal articulação é bastante controversa e envolve.

comparativamente pequeno. Desde os primeiros momentos da nossa vida. Envolve lutar pelo quinhão de respeito e reconhecimento a que todos almejamos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1998. onde o autor polonês traduz as preocupações freudianas para a realidade 'pós-moderna'. Uma chave de interpretação para o fenômeno da Identidade nacional pode ser encontrada em Freud. ou seja. participa da sua autopercepção. Irnago. concedendo a esse instinto um escoadouro sob a forma de hostilidade contra intrusos. permite minha construção como um dado estável. explica como se dá a construção do Eu na identificação com o Outro. Ed. A vantagem que um grupo cultural. uma maneira de satisfazer nossa inclinação para a agressão através da hostilidade contra intrusos. por sua vez. É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor.. podemos dizer que parte da nossa identidade está no olhar do outro. dialeticamente. especialmente nas complexas negociações psíquicas da primeira infância. ao menos dentro das comunidades de sentido a que pertencemos. xenofobia. (. até a filosofia contemporânea e o destaque do vínculo essencial entre identidade e linguagem. racismo. O Malestar na Civilização. Segundo Freud. uma das formas para manter coesa uma comunidade seria o uso de um apoio psicológico específico: a exclusão do outro. a delimitação do espaço virtual onde os membros se reconhecem enquanto grupo e rechaçam o diferente que. 1969. intolerância. eles não se sentem confortáveis. através da qual a coesão entre os membros da comunidade é tomada mais fácil". a questão do saber quem eu sou envolve saber quem é o outro e o que ele pensa sobre mim. O Mal-estar da pós-modernidade. com enorme freqüência. especialmente no texto O Mal-estar na Civilização. esta seria uma forma de "narcisismo das pequenas diferenças". temos a consciência de estar na presença de outros. o orgulho ou a vergonha.. De certa forma. justamente por ser "objetivado" para minha consciência. Nosso autoconhecimento está assim em íntima conexão com a necessidade de ser reconhecido pelos outros. através do conceito do espelho. FREUD. Assim. Sem ela. não é nada desprezível. Lacan. ou melhor. Desde cedo convivemos com a inevitável percepção e preocupação com a nossa aparência no espaço público. de nos encontrarmos num espaço público que pode trazer potencialmente o respeito ou o desprezo. Zigniunt. A imagem do self é algo criado e aprendido pela criança ao longo de sua vida.) Dei a esse fenômeno o nome de 'narcisismo das pequenas diferenças'. O que valorizo é esse eu-mesmo-à-distância que. uma concepção mimética que situa a origem do acesso ao outro em minha própria imagem redobrada. Agora podemos ver que se trata de uma satisfação conveniente e relativamente inócua da inclinação para a agressão.Considerações sobre a Identidade Nacional Hegel. E nessa dialogicidade essencial as tensões dominam. Ver também BAUMAN.'1'1 onde o pai da psicanálise identifica a necessidade de auto-afirmação do indivíduo através da estigmatização do outro. oferece. 259 . na representação que eu faço do olhar do outro. pois pautar a afirmação da identidade sobre a negação da diferença significa. enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade. 11 "Não é fácil aos homens abandonar a satisfação da inclinação para a agressão.

segura e coerente é uma fantasia.13 Segundo Bauman. Representa uma estratégia heterônoma por excelência. os homens têm consciência de sua finitude. ele vivência sua própria identidade como unificada. a identidade plenamente unificada. 2000. de imaginário sobre a unidade da identidade do self. em processo de formação. a conexão entre essas duas formas de existência é frágil. ela permanece sempre em construção. Além disso. é a atividade que busca respostas às questões referidas e que tenta tornar suportável a vida à sombra da morte. completa. existe sempre algo de fantasioso. Nesta obra. por exemplo. já que este mundo temporal representa apenas um mero átimo da eternidade infinita. Mas com a secularização e o fim do universalismo cristão. Apesar da impossibilidade de desenvolver aqui tal crítica ao humanismo. Com a promessa da eternidade. o autor apresenta uma análise interessante sobre algumas das conseqüências da aceleração do tempo no novo capitalismo. passando por Bataille. tal estratégia perde força. SENNETT. limitarei a questionar algumas de suas implicações como as apresentadas. Foucault e Derrida e que. A modernidade exige novas formas que combinem heteronomia e autonomia. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos. 13 BAUMAN. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. Zigmunt. 260 . Assim. mas podem e precisam imaginar a eternidade. Essa é a origem contraditória da identidade.. que impliquem um mínimo de escolha. sempre vulnerável e assombrada pelas questões fundamentais: de onde venho? Qual o sentido da minha vida? O que acontece após a morte? A inventiva cultural humana. o problema do sentido desta vida adia-se indefinidamente. Assim. 1999. por Richard Sermett no livro A Corrosão do Caráter. com sua densa rede de explicações e consolos. No entanto.Rachel Migro Embora o sujeito seja um ente "dividido" (por conta dos sentimentos contraditórios que o acompanham). a experiência do tempo desconjuntado ameaçando a capacidade das pessoas transformarem seus caracteres em narrativas sustentadas. mas sim possíveis identificações no decorrer da vida do indivíduo. de formas distintas. A estratégia cultural de maior sucesso assumiu a forma religiosa e resolve a questão da finitude com a promessa da vida eterna após a morte.12 Uma segunda pista na nossa tentativa de entender o fenômeno da identidade aparece na obra Em Busca da Política do pensador Zygmunt Bauman. mas com inúmeras vantagens. existe toda uma literatura de "fuga do se//" que vai desde Nietzsche. Assim. Em Busca da Política. A Corrosão do Caráter. as condições de tempo do novo capitalismo criam um conflito entre caráter e experiência. entre elas a corrosão da confiança e do compromisso mútuo e a impossibilidade do ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos. o que nos leva a concluir que não existe "a identidade". A família e a nação surgem então como totalidades mais amplas e duradouras capazes de incluir as vidas individuais transitórias numa cadeia de ser que preexiste a elas e as ultrapas12 Como salienta Taylor. uma confortadora "narrativa do eu". Richard. Record. buscam transcender o self e criticar o ideal do agente independente e desprendido da modernidade.

§ 32. aparece como uma estratégia de doação de sentido para a vida dos indivíduos desencantados da modernidade. O reconhecimento no modelo liberal volta-se para o indivíduo. Seguindo tal raciocínio. da idéia de nação como "pátria mãe" acima de qualquer outra identificação é apenas mais uma das estratégias modernas de doação de sentido. No entanto. em primeiro lugar. a questão do reconhecimento é expressa na categoria da inclusão. Heidegger substitui o conceito de morte corno acontecimento no futuro. autônomo. Suas exigências não se restringem à igualdade jurídica e política. duração e transitoriedade. O fim comparece em cada momento e não está somente lá. um remédio para suportar a angústia de estar lançado no mundo. como fim à distância. pela idéia da morte como uma experiência de antecipação. podemos concluir que a construção de uma cultura nacional. A luta central dos grupos que buscam reconhecimento é. HEIDEGGER. de matriz heideggeriana. Tradução de Márcia de Sá Cavalcante. no fim da linha. enquanto construção moderna que combina necessidade e opção.Considerações sobre a Identidade Nacional sa. Assim. serem reconhecidos enquanto grupo.14 A nacionalidade oferece aos seres mortais a oportunidade de sobreviver à sua morte individual e entrar na eternidade. por uma inclusão seletiva cujas bases são claras: liberalismo e individualismo. "é existindo que o Dasein morre de fato". eles buscam afirmar as diferenças. as singularidades esmagadas pela hegemonia cultural ocidental centrada no indivíduo. burguês. entende o ser humano como Dasein. como algo simplesmente dado. Sem reduzir a complexidade da filosofia de Heidegger. podemos dizer que o Dasein é o ser para a morte. mas. 261 . 7a ed. As questões hoje envolvidas sob o rótulo de multiculturalismo ultrapassam a mera inclusão. 2000. para tentar alcançar um sentido para a experiência trágica da existência. empreendedor. ou ainda "o Dasein já é sempre seu fim". a aceitação das diferenças nesse caso deve-se dar dentro de um padrão hegemônico. Uma experiência que marca o Dasein em todos os momentos de sua existência. p. 2. 204. pertencer a uma comunidade que nos transcende. Ser e Tempo. o que torna a morte presente a todo e cada momento. a nação. racional. Caracteriza-se. sobretudo. mais uma pequena farsa que encobre nossa condição vulnerável e finita. 14 Tal perspectiva. predeterminado. Identidade e Reconhecimento Na linguagem dos sociólogos. ser lançado no mundo cujo fim é a morte. para o sujeito moderno. Assim. visto que o homem é a única criatura viva que tem consciência de sua finitude. E não há outra maneira de aproveitar essa oportunidade senão dedicando a própria vida à sobrevivência e bem-estar da nação. representa um consolo. Petrópolis: Vozes. Martin. Não se vislumbra no horizonte liberal o grupo ao qual pertence o indivíduo. mas está sempre aqui presente enquanto se vive. ou seja. "para morrer basta estar vivo". Reconhecer determinados grupos seria lutar pela sua inclusão no seio da cultura dominante. Fazer parte de algo maior. que permanecerá após nossa morte. pelo contrário.

um paralisador ódio de si mesmas que. é instigante a análise feita por Darcy Ribeiro sobre o drama dos mamelucos paulistas (ou brasilíndios) que sofreram duas rejeições básicas: a dos pais brancos com os quais queriam identificar-se. Na prática. maiores são as dificuldades para que um grupo se afirme enquanto coletividade criadora. Quando um grupo ou pessoa é objeto de um falso reconhecimento. de sua própria gente. existe um liame estrutural entre o desenvolvimento do individualismo e a reivindicação multicultural. que não valorizava a descendência da mãe. Todo indivíduo faz um julgamento sobre a identidade do outro e é objeto. pois é na interação com o outro que o sujeito se constitui.15 O falso reconhecimento induz a uma autodepreciação dos grupos. sobre nossa reflexão sobre nós mesmos. não tendo referências ancestrais. e que exerce poderosa influência sobre o pensamento social. se transforma em um dos mais poderosos instrumentos de sua própria opressão. Segundo Andréa Semprini. a tendência é a internalização de uma imagem distorcida. Andréa. O termo originalmente se referia a uma casta de escravos que os árabes tomavam de seus pais para criar e adestrar em suas casas-criatórios. esta dinâmica intersubjetiva pode afetar profundamente os personagens da interação. Portanto. personalismo e patrimonialismo. a intersubjetividade ocupa um papel-chave na constituição do eu. ele se torna caçador e escravizador de índios. *6 Assim. afetando pesadamente sua auto-estima que acaba sendo interiorizada e instalada no âmago de sua identidade. Taylor argumenta que. 16 A formação da consciência nacional no Brasil é um brilhante exemplo de falso reconhecimento. mas que os viam como impuros filhos da terra.Rachel Nigro A luta pelo reconhecimento envolve também uma dimensão psicológica. a interpretação dominante dos brasileiros sobre si mesmos está permeada por uma "sociologia da inautenticidade". Mu/tJcuJturaíísmo. No momento de formação do brasileiro. Como filho de índia. Ser reconhecido ou não implica a internalização de uma consciência de si determinante. dos quais somente aproveitavam o trabalho. Assim. No entanto. nenhuma designação poderia ser mais apropriada. o mameluco cairá na terra de ninguém. ao contrário. pejorativa de si mesmo. parte significativa da identidade de um indivíduo ou grupo está no olhar do outro. 15 SEMPRINI. 1999. Os brasilíndios foram chamados de mamelucos pelos jesuítas espanhóis horrorizados com a bruteza e desumanidade dessa gente castigadora de seu gentio materno. Uma vez internalizada a imagem depreciada. ao final. a interação pode provocar uma depreciação sistemática do indivíduo ou grupo. e a rejeição do gentio materno. por sua vez. pois o reconhecimento pode ser distorcido e descaracterizar a singularidade dos agentes. a primeira tarefa para a emancipação consiste na libertação desta identidade construída de modo depreciativo. Não identificando-se nem com os brancos e nem com os índios. onde 262 . enfrentando as críticas que alertam para o perigo da anulação do indivíduo no interior do grupo. um sistema inter-relacionado que engloba os conceitos de herança ibérica. Isto porque a identidade do indivíduo vai se constituindo pelo contato com o outro e através de uma troca contínua que permite ao self estruturar-se e definir-se pela comparação e pela diferença. a partir da qual construirá sua identidade brasileira. São Paulo: Edusc. Para Darcy. Como destaca Jessé Souza. ou seja. portanto. de um julgamento análogo.

a formação e consolidação de uma consciência nacional não mereceu a devida atenção. apesar da existência de uma certa nostalgia do desenvolviam o talento que acaso tivessem. destacando-se. Para uma definição satisfatória é imprescindível a referência às configurações morais. capazes de nos compreender e de definir nossa identidade pessoal. O Povo Brasileiro. no interior da comunidade lingüística e das redes de interlocução onde somos capazes de auto-interpretação e de formação de sentido.17 As pessoas não adquirem as linguagens de que precisam para se autodefnirem por si mesmas.Ou seja.Considerações sobre a Identidade Nacional A exigência moral de reconhecimento na qual se baseia a política de reconhecimento defendida por Taylor encontra sua fundamentação na obra As Fbntes do Self . o processo de identificação nacional pode ser analisada sob dois ângulos: i) internamente. a elite intelectual do país envergonhava-se de seu povo. Apesar de um disfarce de "democracia racial".não se restringe apenas a termos de nome e genealogia. Chicago. Self and Society. 107. de noções morais.a construção da identidade moderna. somos apresentados a essas linguagens por meio das outras pessoas. Mind. ou seja. Tal relação perdura indefinidamente. influências essenciais na formação do povo brasileiro. na verdade. A gênese da identidade é dialógica. estar orientado no espaço moral a que se pertence. Somos apresentados a esta linguagem por meio da interação com outras pessoas que têm importância para nós. RIBEIRO. 17 Expressão cunhada por George Herbert Mead ín MEAD. um modelo de dominação em que o oprimido identifica-se com seu opressor. intuições valorativas auto-interpretáveis. sofreu (e ainda sofre) o olhar distorcido das sociedades ditas civilizadas o que em muito contribui para a auto-depreciação e a baixa auto-estima do povo brasileiro. São Paulo: Ed. Assim. ou seja. covardes ou castrados para servirem de eunucos nos haréns. p. Somente possuímos um self na medida em que nos movemos num certo espaço de indagações em que buscamos uma orientação para o Bem. Darcy. de articular nosso self. Assim. Argumentos Füosóficos. cit. Loyola. formação e sentido do Brasil. Nesse trabalho. Somente podemos nos constituir em agentes humanos plenos. Assim.quem eu sou? . ao horizonte de sentido dentro do qual tomo posições e decido sobre questões relevantes. Este processo de socialização que produz a individuação é contínuo. Taylor defende a tese de que é impossível à pessoa humana prescindir de configurações. não se restringindo ao momento de aprendizagem da linguagem. Possuir uma identidade é. A definição de nossa identidade depende de um diálogo constante com o que os "outros significativos" desejam ver em nós ou em oposição a tais expectativas. op. no Brasil. desta forma.. os "outros significativos". através das linguagens humanas. Poderiam ser cavaleiros de guerra. Ver também TAYLOR. no intercâmbio de falantes. ii) do ponto de vista externo. 263 . Em vez disso. Mas poderiam também alcançar a alta condição de mamelucos se revelassem talento para exercer o mando e a suserania islâmica sobre a gente de que foram tirados. 1934. a resposta à questão da identidade . a existência de um reconhecimento distorcido das nações indígenas e da cultura negra e "mestiça". o self forma-se no meio de outros. de nossos modos de expressão em geral. 2000.

Assim. com a mesma economia emocional. "Rousseau sabe que depende do julgamento do público. à esfera pública universal de um mundo justo. "Individuação através de Socialização". autocontrole.18 No entanto. de fidelidade ao particular modo de ser de cada um. o agente desprendido da modernidade. para que ele fizesse sentido para nós hoje. uma voz interior única. Uma segunda mudança significativa corresponde a uma nova compreensão da identidade individual que surge no final do século XVIII. assim como em suas Confissões. O conceito de autenticidade desenvolve-se a partir de um deslocamento do acento moral dessa voz interior: de meio para agir com retidão para uma necessidade independente e decisiva de estar em contato com nossos sentimentos para sermos plenamente seres humanos. enquanto uma identidade individualizada. Em outros termos. É o início do reinado da razão instrumental que modelará o self pontual. ou seja. No entanto. em grande parte. Cf. Rousseau apresenta seu desejo de autenticidade. Em primeiro lugar. nos Devaneios do Caminhante Solitário. HABERMAS. A moralidade ganha. Estado e Mercado remodelam o indivíduo. Esta nova forma de interioridade representa um giro subjetivo característico da cultura moderna: uma fonte interna (autoconsciência. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 264 . ou seja. algumas transformações históricas ocorreram. 18 Rousseau pode ser considerado o pai de tal visão romântica de interioridade autônoma. uma pretensão de sinceridade radical que se destina. a auto-escolha radical careceria de confirmação". enfim. uma voz interior. finalmente. in Pensamento Pós-Metafisico. sem este. ou seja.Rachel Nigro "ideal monológico". Ele quer conquistar seu reconhecimento. uma hierarquia intrinsecamente ligada à diferenciação e a desigualdades. as hierarquias se remodelam e o fundamento implícito do igualitarismo implica o compartilhamento de certos modelos políticos e institucionais. um sentido intuitivo que nos possibilita distinguir o bem e o mal e nos permite agir com retidão. Nas cartas que escreve ao Senhor von Maiherbes. o mais profundo do nosso ser) no lugar da idéia de Deus como sendo essencial para nossa plenitude. singular e que aflora junto a um ideal de autenticidade. como destaca Habermas. como na sociedade de corte do Ancién Regime. disciplina moral. na verdade. ao desenvolvimento da noção moderna de dignidade igualitária que surge com as revoluções modernas. para chegarmos a compreender este discurso que vincula identidade e reconhecimento. 1990. A base do reconhecimento deixa de ser a hierarquia aristocrática e passa a concentrar-se no trabalho e na produção. dessa forma. mais tarde nos Diálogos e. Taylor identifica o ponto de partida para o moderno conceito de identidade como autenticidade na idéia de que os seres humanos foram dotados de uma voz moral interior. do desejo de libertação dos condicionamentos externos rumo a uma completa autonomização individual. Tal destronamento da honra enquanto critério hierárquico deveu-se. o colapso das hierarquias sociais com base na honra. o indivíduo racional com sentido de interioridade.

ii) aos povos que transmitem sua cultura a outros povos. à sua matriz de valores. ainda que não colocado nestes termos. Taylor destaca que Herder aplicou seu "princípio de originalidade" em dois níveis: i) na pessoa individual em sua relação com os demais.. Assim como os indivíduos.contemporâneo e leitor de Rousseau . apesar das perigosas pressões em favor da conformidade externa. Para o filósofo. 20 Como para Rousseau a salvação individual está vinculada à salvação do estado. Rousseau articula uma forte crítica à idéia de honra hierárquica. da comunidade a qual o indivíduo pertence. Esta é a interpretação central do moderno ideal de autenticidade e seus objetivos de auto-realização e plenitude pessoal. "(. São Paulo: Edição da Martins Fontes.Considerações sobre a Identidade Nacional Segundo Taylor. Brasília: UnB. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. E ao articulá-la e descobri-la ele realiza sua potencialidade. a corrupção e a injustiça: o momento em que as pessoas começam a desejar uma estima preferencial2° A idéia de autenticidade também encontra um forte interlocutor na figura de Johann Gottfried Herder. podemos encontrar em Rousseau um dos pontos de origem do ideal moderno de autenticidade e algumas das idéias seminais sobre a dignidade dos cidadãos e o reconhecimento universal. 1986. esta conexão essencial deveria ser mais importante para nossa formação que a opinião moral externa.. baseada em preferências e distinções convencionais nascidas com a sociedade civil.)". todos fazem parte do "self comum". bastaria para tornar esta existência cara e doce (. Rousseau indica o momento inicial em que a sociedade se inclina para a decadência moral. Para o pensador alemão . No Discurso sobre a Desigualdade entre os Homens. 265 . É tarefa do indivíduo a descoberta e a articulação de sua própria originalidade. o ideal de igualdade enquanto reciprocidade somente pode se realizar em um ambiente onde predomine a ausência de diferenciação.) despojado de qualquer outro apego. nossa salvação moral dependia da recuperação de um contato autêntico com nosso interior. Rousseau muito contribuiu nessa mudança apresentando a questão da moral como sendo a atenção c[ue prestamos à nossa voz interior como uma forma de contato com nossa natureza. Não podemos encontrar um modelo de vida a seguir fora de nós mesmos.. pois tal sentimento.cada indivíduo possui um modo original de ser e devemos fidelidade ao que somos. onde a estima pública seja igualmente distribuída entre todos os cidadãos. ou seja. o pensamento inaugural de uma nova concepção de interioridade é devido a Jean-Jacques Rousseau. os povos devem ser fiéis à sua própria cultura. Disso depende nossa originalidade: cada uma de nossas vozes tem algo único a dizer. O nome de tal contato íntimo. todos participam da formulação da Vontade Geral. desse "sentimento precioso de contentamento e de paz" é o "sentiment de l'existence".. Esta concepção pode ser considerada a idéia seminal do nacionalismo moderno que aju19 ROUSSEAU. Assim. Os devaneios do caminhante solitário. ROUSSEAU.w Para Rousseau. ou seja. urna vez que todos os cidadãos devem ser honrados. 1993.

por hipótese. Hegel propõe a única solução satisfatória para as relações de reconhecimento: a reciprocidade. Assim. o reconhecimento não é valioso. percebe que esta condição só é possível numa sociedade dotada de um propósito comum. Contrário ao antigo discurso dos malefícios do orgulho. uma política de reconhecimento igualitário não é apenas um pressuposto para uma democracia sã. Chicago Press. o self forma-se em con21 HEGEL. e um "eu" que é um "nós". 266 .21 A concepção ordinária da honra de base hierárquica é crucialmente errônea para Hegel porque não atende à necessidade primeira embutida na busca pelo reconhecimento. visto que obtêm o reconhecimento dos perdedores. a luta pelo reconhecimento só pode encontrar uma solução satisfatória: um regime de reconhecimento recíproco entre iguais. mas uma necessidade humana vital. mas também a sua ausência pode constituirse numa forma de opressão e causar sérios danos aos grupos rechaçados. já que os perdedores deixaram de ser sujeitos livres e equivalentes aos vencedores. A nova crítica do orgulho que conduz a uma política da dignidade igualitária elaborada por Rousseau será apreendida por Hegel e reformulada. Nesse caso. portanto. 22 STRAUSS.22 Assim. Assim como Rousseau. pois mesmo aqueles agraciados pela honra de base hierárquica ficam sutilmente frustrados por obterem tal reconhecimento dos perdedores.Rachei Nigro dou a superar a antiga idéia predominante nas sociedades hierárquicas. ii) na esfera social. E. Fenomenologia do Espírito. do reconhecimento necessário ao ideal de autenticidade e que ocorre em dois planos: i) na esfera íntima estamos conscientes (ou deveríamos estar) de como a nossa identidade pode ser bem ou mal formada no curso de nossas relações com os outros significantes (através do reconhecimento que os outros nos outorgam ou não). ou seja. portanto. nossa identidade depende de forma crucial das relações dialógicas com os demais e. Petrópolis: Vozes. Tal concepção não satisfaz as necessidades do autêntico reconhecimento. o que é. numa sociedade na qual exista um "nós" que é um "eu". o discurso do reconhecimento tornou-se familiar em dois níveis: na esfera íntima. Segundo Taylor. não realmente valioso. mesmo aqueles que são reconhecidos com base nesse tipo de honra acabam frustrados. Leo e CROPSEYi Joseph. Assim. a compreensão final que nos chega a respeito da relação entre identidade e reconhecimento. Hegel julga fundamental o fato de que só podemos florescer na medida em que somos reconhecidos. 1987. Hegel segue Rousseau na formulação de sua célebre dialética do senhor e do escravo. 1999. Hegel critica o conceito tradicional de honra enquanto uma virtude hierárquica. Third edition. porque não derivado de uma luta entre iguais. Toda consciência busca o reconhecimento de outra consciência e tal fato não significa uma falta de virtude. tal como Rousseau. parte I. onde a diferença entre os homens era justificada pela posição social. Assim. Hístory of Política) PMosophy. Esta é.

emancipada para o desempenho de funções econômicas". A combinação entre Estado-nação e economia nacional constituiu-se num fator central da transformação histórica. Mesmo nos países do Terceiro Mundo. "Cidadania e Identidade Nacional". A consciência nacional constitui manifestação especificamente moderna de integração cultural. 267 . O fenômeno do nacionalismo no século XIX era encarado como o principal vetor do desenvolvimento histórico. 3. Tal ideologia universalista. que monopoliza os meios legítimos de violência e obedece a uma peculiar divisão de trabalho com uma sociedade de mercado. "Soberania do povo como Processo". onde a modelagem teórica do nacionalismo europeu encontrou uma situação real completamente diferente. na esfera pública.25 haver se tornado o mais eficiente instrumento para a modernização social acelerada. A ideologia do Estado territorial surgiu no início da modernidade na Europa ocidental e configurou-se como modelo ideal de organização social e política. Como destaca Taylor.24 O imenso sucesso histórico do Estado-nação é explicado por Habermas pelo fato de o Estado moderno. Habermas ressalta que sua contribuição maior foi a invenção do Estado Nacional como uma nova forma de integração social. 25 Segundo uma leitura sociológica proposta por Habermas. segundo Habermas. O Estado democrático de direito e seu núcleo universalista de direitos constitucionalmente protegidos pode ser considerado o legado da Revolução Francesa que ainda subsiste. 1995. Rio de Janeiro.23 o que explica sua influência até mesmo em territórios tão distantes como o Brasil colonial e imperial. na 43. apesar de já apagada a chama de uma autêntica "consciência revolucionária". Direito e Democracia II. constituído pelo acoplamento entre burocracia e capitalismo. mas hoje nos parece claro que a compreensão da identidade e da autenticidade introduziu uma nova dimensão na política do reconhecimento igualitário. 23 HABERMAS. Foi somente no século XVIII que dois componentes distintos. fundiramse para formar o Estado-nação. Tempo Brasileiro. Tempo Brasileiro. o Estado territorial e a idéia moderna de nação.Considerações sobre a Identidade Nacional tínuo e ininterrupto diálogo e luta com os "outros significativos". Rio de Janeiro. 1997. in "O Estado-nação europeu frente aos desafios da globalização". manteve sua vitalidade nos países do Terceiro Mundo. desemboca na política de reconhecimento. São Paulo. podemos debater se esse fator foi um pouco exagerado ou não. Nacionalismo Político Discorrendo sobre a atualidade da Revolução Francesa. Direito e Democracia II. 1997. "o núcleo institucional do Estado moderno é formado por um aparato administrativo legalmente constituído e altamente diferenciado. Revista Novos Estudos Cebrap. 24 HABERMAS. especialmente após a democratização produzida pela Revolução Francesa.

"Cidadania e Identidade Nacional" e "O Estado-nação europeu frente aos desafios da globalização". Este conceito surge entre os romanos para designar aqueles povos que ainda não se organizaram em associações políticas. o território comum. Segundo esse uso "clássico". A evolução da palavra direcionou-se para o destaque do território de origem (como na França) e/ou para o sentido de etnicidade ou grupo de ascendência comum (como na Holanda). como aponta Hobsbawn. Todos os Estado s-nação que emergiram foram tipicamente unificadoras e emancipatórios. Entretanto. op. nenhum critério satisfatório pode ser achado para decidir quais das muitas coletividades humanas deveriam ser rotuladas desse modo.2? Entretanto.Rachel Nigro os nacionalismos foram mais semelhantes ao nacionalismo europeu da era liberal do que diferentes. Nations and Nationalism since 1780. 29 HABERMAS. apesar de toda a literatura acerca da questão "o que é uma nação?". Desta forma. Canto. a palavra se desenvolveu para descrever grandes grupos fechados. cit. freqüentemente foram feitas com base em critérios simples como a língua ou a etnia ou uma combinação de critérios ambíguos. 268 . Nations and Nationalism. que não estão integradas politicamente através de uma organização estatal. e da alegação básica de que ela é fundamental para a existência social de seus membros e para sua identificação individual. a história comum. 28 Segundo Hobsbawn. as nações são comunidades que têm a mesma origem e estão integradas geograficamente e culturalmente através da linguagem. não há meio de informar o observador como distinguir a príorí uma nação de outras entidades.26 Hobsbawn considera a idéia de "nação" e seus derivados (como o fenômeno do nacionalismo e suas variadas versões) como um elemento central para a compreensão dos últimos séculos da história humana. esta é a realidade de entidades historicamente novas. os traços culturais comuns e outros. Como exemplo.28 O dois sentidos de "nação" A palavra "nação" é de origem romana. As tentativas de se estabelecerem critérios objetivos sobre a existência da nacionalidade. 1997. os estudantes das universidades medievais eram separados em nações. dependendo das regiões de onde proviessem. Na Idade média. emergentes e mutáveis como o conceito de nação. dos costumes e de tradições comuns. apesar do alargamento de sua cono26 HOBSBAWN. ou seja. Mas. ou de explicar por que certos grupos se tornam "nações" e outros não. cit. a origem nacional atribuída a alguém pelas demais pessoas encontrava-se vinculada a uma demarcação depreciativa. 27 HOBSBAWN. op. Esta pluralidade de critérios mostrou-se extremamente conveniente para propósitos propagandísticos e pragmáticos e não para fins descritivos. como guildas e outras corporações.29 Como sugere a filologia. opacos como a língua. que necessitavam ser diferenciados de outros com os quais coexistiam. o primeiro significado da palavra "nação" indica origem e descendência.

p. a despeito do significado preciso do termo. essa idéia arrebatou a imaginação das massas ao longo do século XIX. Após a Revolução Francesa. a nobreza e o clero respectivamente) que consideram o Estado como seu patrimônio. Grande teórico da Revolução Francesa. John Stuart. as reais forças sociais estão nele contidas.30 Este novo sentido começa a operar durante a "Era das Revoluções". o elemento da cidadania e da escolha ou participação de massa. Utilitarianism. Antes. de um país ou de um reino" e também "um estrangeiro". op. Após 1884 era dada como "um Estado ou corpo político o^ie reconhece um centro supremo de governo comum". ou exclusivamente de uma porção deles". qualquer que seja o significado original do termo. a maioria dos Estados europeus não eram homogêneos e não poderiam ser simplesmente eqüalizados como nações. a "nação" era o corpo de cidadãos cuja soberania coletiva os constituía como um Estado concebido como sua expressão política. apud Hobsbawn. Nations and Nationalism. Este sentido político de nação começa a ser formulado e incorporado mentalmente pela população em geral por inspiração do trabalho de acadêmicos e intelectuais. op. pois em termos étnicos. a palavra nacion significava simplesmente "o agregado de habitantes de uma província. Tendo em vista que o Terceiro Estado é tudo. Sieyès defende que os votos sejam emitido "por cabeça e não por ordem". MILL.31 Assim. Enfim. O sentido de nação formulado por John Stuart Mill insere-se num contexto maior. Segundo Habermas. não possuam nenhuma espécie de privilégio) e que seus deputados sejam em número igual ao da nobreza e do clero. a propaganda nacionalista desencadeou uma mobilização política nas classes médias urbanas instruídas e. quando seu significado fundamental passa a ser político. Liberty and Representativa Government. paulatinamente. Nations and Nationalism. deixando para o terceiro estado apenas o trabalho penoso. ou seja. Considerações preliminares sobre o que é o Terceiro Estado. Hobsbawn. mas brevemente dentro do contexto de sua teoria da democracia. nação e língua no sentido moderno antes de sua edição de 1884. O sentido moderno de nação não é mais velho que o século XVIII. o Dicionário da Real Academia Espanhola não usa a terminologia de Estado. Mill define uma nação pela posse do sentimento de nacionalidade por parte de seus membros que "desejam que seja um governo deles próprios. especialmente por sua obra O que é o Terceiro Estado? Sieyès denuncia a ilegitimidade das classes privilegiadas (primeiro e segundo estado. Assim considerada. o sentido de nação como titular da soberania32 transforma-se na característica constitutiva da identidade política dos membros 30 Segundo Hobsbawn. Somente em 1884 sua conotação moderna é incluída em um dicionário do mundo ibérico. 32 Sieyès pode ser considerado o pai da idéia de Nação como titular absoluta da soberania. conclama o Terceiro Estado a se reunir separadamente e formar a Assembléia Nacional que então representará toda a nação francesa (pois ficarão excluídos apenas duzentas mil cabeças num universo de 25 milhões de cidadãos). Enfim. cít. Os representantes do Terceiro Estado são os verdadeiros depositários da vontade nacional e toda nação tem direito a autodeterminação política. SIEYÈS. Desta forma. no seu tratado sobre democracia. 269 . lingüísticos e outros. 31 Mill.Considerações sobre a Identidade Nacional tação. além do sentimento de nacionalidade. Considerações sobre o Governo Representativo. ele é claramente diferente de seu significado moderno.. 14. cít. Nesta obra. uma "nação moderna" deveria incluir. Mill não discute a questão da nacionalidade em si mesma. nada sugere sua futura correlação com o Estado moderno. que os representantes do terceiro Estado sejam escolhidos apenas entre os cidadãos que realmente pertençam à Burguesia (ou seja. ou seja.

Wations and Nationalism. op.34 Sobre a relação Nação/Estado/Povo A equação nação/ Estado/ povo (nation = state = people) vinculou indubitavelmente a nação ao território. étnicas ou qualquer outro critério que permita o reconhecimento coletivo do pertencimento de grupo. a nação entendida como comunidade de mesma origem.36 Nesse contexto um tanto confuso. tornando-o presa fácil do abuso e da manipulação através de elites políticas". Do ponto de vista revolucionário. op. Para Habermas. cit. Ele surge entre o público erudito e espalha-se pelos canais da moderna comunicação de massas. o que efetivamente constitui "um povo" continuou sem uma resposta razoável. cit. Nations and Nationalism.33 Para Habermas. 19..Rachel Nigio de uma comunidade democrática. pois a estrutura e a definição dos Estados eram agora territoriais. Essa soberania é inalienável".35 Entretanto. Dai que. o novo conceito político de nação trouxe consigo conotações do sentido pré-politico. p. na teoria. na prática. "a consciência política da pertença nacional surge de uma dinâmica que só atingiu a população a partir do momento que esta foi mobilizada e individualizada através do processo de modernização econômica e social que a libertaram dos laços sociais corporativos. op. cit. a identidade de uma nação de cidadãos deixa de se constituir por características étnico-culturais comuns e passa a residir na prática de pessoas que exercitam ativamente seus direitos democráticos de participação e comunicação. Assim. No entanto. filtrada pela reflexão e pela historiografia.. p 34 270 . O nacionalismo pode ser tido como uma formação da consciência que pressupõe a apropriação de tradições culturais. qualquer que seja o número de indivíduos que o compõem e a extensão do território que ocupa. 36 Hobsbawn ressalta que a Revolução Francesa foi ideologicamente estranha ao principio e ao sentimento de nacionalidade. mas sim a disposição de adotar a língua francesa e as condições da cidadania francesa. No entanto. identifica-se dois conceitos distintos de nação moderna: o revolucionário-democrático e o nacionalista. cit. étnicas ou religiosas. ou seja. Tanto a mediação literária como a propaganda da mídia conferem ao nacionalismo características artificiais. op. mesmo o conceito moderno de nação encontra-se ainda associado à xenofobia. HOBSBAWN. HOBSBAWN. "O Estado-nação europeu frente aos desafios da globalização". não era o uso nativo da lingua francesa que fazia de uma pessoa um francês. ao menosprezo pelas demais nações e à exclusão de minorias nacionais. Não havia uma conexão lógica entre o corpo de cidadãos de um Estado territorial. 35 Como proclama a Declaração de Direitos francesa de 1795: "Cada povo é independente e soberano. o que caracterizava o povo-nação era o fato de ele representar o interesse comum contra os interesses particulares e o bem comum contra o privilégio. "Cidadania e Identidade Nacional". 34 HAEERMAS. Para esta última. de uma parte. o critério etnolingüístico da nacionalidade era freqüentemente adotado. a inclusão do povo na criação de entidades políticas derivava da exis33 HABERMAS. e a identificação de uma "nação" em bases lingüísticas.

eles se encontram à sombra do nacionalismo". emergiu um novo nível de solidariedade legalmente mediada entre os cidadãos: a cidadania. cj"t. a morte do nacionalismo foi anunciada por uma tripla causa: a globalização da economia e a internacionalização das instituições políticas. o vigor ou a debilidade das culturas políticas liberais depende de cada contexto. urbanização e moder- 271 . No caso brasileiro. Já para a concepção revolucionária-democrática o conceito central era o de soberania do povo/cidadão.Considerações sobre a Identidade Nacional tenda anterior de comunidades distintas. O novo tipo de identidade nacional permitiu a passagem do status de súditos particulares para o de cidadãos. a construção de uma identidade com base na nacionalidade vem sendo considerada pela teoria política uma tendência histórica derrotada ou em vias de extinção. tendo em vista a variedade de padrões exibidos pelas respectivas histórias nacionais de cada Estado.39 As 37 HABERMAS. pela educação. os regimes democráticos se mostraram mais estáveis nos países onde a identidade nacional se desenvolveu em ligação estreita com as lutas revolucionárias por liberdades civis.37 A autoconsciência nacional do povo proporcionou o contexto cultural que facilitou a ativação política dos cidadãos. o universalismo de uma cultura compartilhada.. nem uma coisa nem outra. enquanto nas nações que Habermas chama de "tardias" Itália e Alemanha . Segundo Habermas. alfabetização. principalmente. particulares. Segundo a análise c^ie Habermas faz dos países europeus. No entanto. dentro de Estados territoriais já existentes.38 Nacionalismo As culturas nacionais em que nascemos constituem uma das principais fontes de identidade cultural. op. 38 Os Estados-nação clássicos do oeste e do norte da Europa desenvolveram-se no interior de Estados territoriais já existentes.. ofereceu a garantia para um espaço individual livre do Estado e. 391 Segundo Castells. difundida pela mídia eletrônica.) A democracia e o Estado nacional cresceram como irmãos gêmeos da Revolução Francesa.o Estado constitucional . "Cidadania e Identidade Nacional". Entretanto. ultimamente. culturas e histórias comuns. o "Estado Nacional configurou a estrutura para uma administração disciplinada pelo direito.a consciência nacional O Estado-nação disparou o processo de ativação política do povo. o Estado nacional resolveu dois problemas de uma só vez: estabeleceu um modelo democrático de legitimação . Desse modo. No curso desse processo de extensão dos direitos civis e políticos à população como um todo. Por isso.a formação do Estado apenas acompanhou os rastros de uma consciência nacional cristalizada em torno de línguas. do ponto de vista cultural.com uma base mais ampla e abstrata de integração social . criou a base para a homogeneidade cultural e étnica (.

e os ataques desfechados por acadêmicos contra o conceito de nações e seus conseqüentes fenômenos nacionalistas. cit. constróem identidades. ou seja. A construção dos estados nacionais modernos constituíram-se. ANDERSON. além de instituições culturais. assim. Verso. o ensino massificado da língua pátria. 41 GELLNER. obteve sucesso enquanto mecanismo de integração social. Enquanto um discurso que constrói sentidos. Paz e Terra. 1999. ao construir sentidos sobre "a nação". 272 . A identificação quase mística com a "mãe-pátria". Stuart. 1983. de fato.40 As nações também foram consideradas "criações históricas arbitrárias". Mas que isso viesse a perecer tão obviamente verdadeiro é. assim como deve ter um nariz e duas orelhas. N. CASTELLS. como formulado por Gellner em sua obra Nations and Nationalism. a identidade nacional mostrou-se como urna das respostas modernas mais poderosas na manutenção. Imagined Communities. um aspecto. onde o autor insere o nacionalismo dentro da organização industrial e sugere que os movimentos nacionalistas serviram como racionalizadores de interesses de uma determinada elite em seu projeto de estabelecimento do Estado-nação moderno. e ainda influenciam sobremaneira a nossa autopercepção e a nossa forma de interpretar o mundo. talvez o mais central. que examina os processos de criação dos mecanismos de identificação pátria. como a associação entre capitalismo e imprensa. como sugere o título da obra de Benedict Anderson. Ter uma nação não é um atributo inerente da humanidade. Gellner ressalta a importância do sentimento de identificação nacional para o sujeito moderno: "A idéia de um homem sem uma nação parece impor uma grande tensão à imaginação moderna. York Cornell University Press. A Identidade Cultural na Pós-Modemidade. O Poder da Identidade. embora. do problema do nacionalismo. toda a propaganda investida na formação da identidade nacional. op. numa narrativa repleta de símbolos e representações que influenciaram. Entretanto. Um homem deve ter uma nacionalidade. acima das diferenças locais.Rachel Nigro nações foram consideradas como "comunidades imaginadas". nização. Nations and Nationalism. um modo de construir sentidos que influencia e organiza nossas ações e nossa autopercepção.41 Por mais arbitrárias que possam parecer. São Paulo. As culturas nacionais. Tudo isso parece óbvio. Assim. 40 HALL. como tal". não seja verdade. percebese que as culturas nacionais são compostas. de símbolos e representações. Ernest. como um ente aglutinador mais amplo. sentidos com os quais podemos nos identificar. 1983. mas parece. Uma cultura nacional é um discurso. agora. as culturas nacionais constituem uma das principais fontes de identificação cultural. legitimação e extensão do Estado. sinto. enfim.

um sistema de representação cultural. geradora de sentido e engajamento cívico. as nações modernas não são artefatos puramente ideológicos. o sentimento de pertencimento político a um Estado. 273 . é preciso a existência ou a invenção de um "nós" capaz de se auto-influenciar e de manter a saúde das sociedades ditas "autogovernadas". idioma. Com a globalização e a tensão dialética entre homogeneização e fragmentação. Os mecanismos de identificação e internalização dependem da existência de uma rede de sentimentos e crenças morais compartilhadas pelos indivíduos que integram a comunidade. religião. capazes de atuar nos espaços públicos democráticos. elas participam da idéia de uma nação tal como representada pela sua cultura nacional. a nação é um forte instrumento de geração de identidade e lealdade. Ou seja. a idéia de uma consciência nacional encontra-se desafiada interna e externamente. pela ameaça da homogeneização cultural conduzida pela intensificação do processo de globalização. construídos por meio de manipulações arbitrárias de mitos históricos em prol dos interesses das elites socioeconômicas. não são suficientes para construir nações e incentivar o nacionalismo.a adesão às normas que dão coesão à comunidade . As pessoas não são apenas cidadãos legais de um país. enfim.Considerações sobre a Identidade Nacional Assim. da constituição de uma rede de sentimentos morais baseada na necessidade psicológica de cada um de obter a aprovação favorável de terceiros (identificação) e também baseada numa reflexão ética (internalização). ou seja.depende. A moralidade cívica . No interior das fronteiras do Estado-nação. É certo também que etnia. em larga medida. pelo pluralismo e pela política da diferença que busca desmascarar a violência embutida na construção e afirmação do Estado-nação moderno e. Como comunidade simbólica. território. Tais são as condições para uma identificação saudável dos cidadãos com a nação a qual pertencem. No entanto. A formação de uma consciência nacional pode ser compreendida como o componente subjetivo imprescindível para a formação de urna cultura política democrática. Os cidadãos democráticos devem saber atuar com tolerância à diferença. per se. a experiência de compartilhar uma determinada cultura política facilita a participação popular e garante elevados graus de transparência na administração dos assuntos públicos. para a formação de cidadãos responsáveis. devem possuir o desejo de participação política e de controle das autoridades para a promoção do bem público. a nação é uma entidade política que produz sentidos. Certamente. além das fronteiras dos territórios nacionais. devem ter consciência da necessidade de autolimitação frente às imposições comunitárias e ecológicas. devem exercitar sua liberdade pública e sentir-se participantes das instituições públicas e da vida política de seu Estado. na auto-imposição de certas limitações imprescindíveis para um boa vida em sociedade.

Nesse ponto. A identidade de cada pessoa é formada pela posição em que ela se coloca dentro do espaço moral a que pertence e pelo intercâmbio na linguagem. ou seja. a ausência de espaço conceituai para a noção de bem como o objeto de nosso amor ou lealdade. sugerindo algumas pistas. O pensamento de Heidegger surge aí com grande força: o Dasein é um ser de compreensão que antecipa a experiência da morte e por isso é obrigado a buscar respostas ou estratégias para suportar a perda de sentido existencial. pragmático americano a quem foi atribuída a noção de gênese social do self. Taylor defende a posição de que a Identidade moderna é rica em fontes morais. para suportar a vida à sombra da morte. Taylor ressalta que o fato do self ser constituído pelo intercâmbio com os outros significantes não nos oferece garantia alguma contra a perda de significado e a fragmentação. ou seja. O agente não se constitui monologicamente. pelo intercâmbio entre agentes. Taylor insere a ética procedimentalista ou a "concepção procedimental do certo" que não consegue alcançar as questões que envolvem legítimas disputas em torno de bens constitutivos. uma vez que. Taylor considera que boa parte 42 Taylor concorda com Habermaa em sua crítica à "teoria da consciência" da filosofia tradicional. os bens constitutivos ocupam um lugar central na sua constituição. cuja relação escapa ao modelo sujeito/objeto. destaquei a noção de identidade como algo eminentemente relacionai e profundamente entrelaçado com a moralidade subjacente. Toda a ideologia envolvida na formação do Estado-nação expressa a necessidade humana de inventar sentidos num mundo desencantado. 274 . Dentro do que chamei de "questões fundamentais" resgatei a interpretação freudiana da hostilidade ao outro como manifestação de nosso instinto de agressividade. No entanto. Para o autor. pois privilegia o que é certo fazer (right) em detrimento de uma compreensão moral mais alargada que inclua também o que é bom ser (good). para tais correntes. os sentidos atribuídos ao self são inextricavelmente relacionados com as concepções morais predominantes. Assim. Com Bauman. nossas intuições morais e espirituais são simples instintos cujas variações decorrem da diversidade cultural. 43 Entre elas. a concepção filosófica dominante tem uma visão truncada e restrita da moralidade. inclusive.Rachel Nigro Possíveis Conclusões Como procurei argumentar.42 Taylor se opõem ao que chama de "filosofia moral contemporânea". acrescenta-se a noção de artificialidade ao processo de identificação. portanto. Já com Taylor. Taylor ressalta. a individualização somente se processa através da socialização. as questões envolvidas sob o rótulo da "Identidade" são inúmeras e complexas. ou seja. freqüentemente identificada com a "consciência naturalista moderna" e toda concepção filosófica que rejeite qualquer forma de ontologia moral.43 Segundo o autor. como foco privilegiado de nossa vontade. Habermas toma enorme contribuição de George Herbert Mead. tais concepções obscurecem o vínculo indissociável entre a Identidade e o Bem.

Naturalizou-s e também como o depositário de uma forte identificação simbólica de sua população. Ele é vivenciado. a questão hoje se complica: como amalgamar diferentes culturas dentro de um mesmo ideal de nação? Como forjar um sentimento de per44 A noção de "background" é central na análise de Tàylor juntamente com a noção de "framewoiks" (configurações). No entanto. 275 . enquanto espaço moral onde ele se posiciona e enquanto linguagem fixada ou. o self se constitui nas "redes de interlocução". sentido e internalizado antes que racionalizado. chegando até a descartá-las como confusas e irrelevantes. não há como escapar do fenômeno fundamental para a experiência humana do pertencimento. veículo de transcendência individual.44 essa dimensão crucial de nossa consciência e crenças morais. a identidade moderna e suas várias facetas estão difundidas no nosso imaginário e nos envolve profundamente. hoje temos consciência de toda a violência e opressão envolvidos no projeto moderno de afirmação da soberania estatal. Taylor busca uma ampliação de nosso espectro de descrições morais legítimas através de um exame das linguagens subjacentes em c-ue assentamos os alicerces e o sentido das obrigações morais que reconhecemos. Na verdade. Como procurei mostrar. fonte de sentido para o indivíduo finito. a determinadas raízes de onde extraímos nossos valores e fundamentamos nossas respostas. O self é constituído por suas relações com o local. Com a globalização e o processo de redefinição de identidades. apesar da influência das teorias iconoclastas. O sentimento ou a noção de naturalmente nascer em determinada comunidade de sentido aparece como um processo de identificação mais forte e essencial que qualquer outra conquista ou identificação posterior. determinando nossas escolhas. uma das primeiras experiências de identificação e formação identitária encontra-se fortemente vinculada com o sentimento de pertencer a um determinado solo. e até mesmo por isso. uma questão prática e bastante atual: o nacionalismo como estratégia moderna de homogeneização cultural. Durante a modernidade o Estado nacional foi se consolidando como a forma institucional mais adequada para o incremento do capitalismo e o desenvolvimento socioeconômico de grande parte do mundo ocidental. Assim. a questão da Identidade nacional deve ser redimensionada. Tal processo não admite construções aleatórias. Na última seção. Apesar de nos parecer natural. Assim. A idéia da nação firmou-se como um ente maior. como tarefa preliminar. nas palavras de Taylor. uma vez que baseado no critério de pertencimento e não de realização. que ressaltam o componente funcional do nacionalismo. No entanto. não podemos obrigar o cidadão a assumir uma identificação com seu país.Considerações sobre a Identidade Nacional da filosofia contemporânea tem ignorado por inteiro esse "pano de fundo".

Charles. a invasão capitalista. 1871. devora canibalisticamente o tempo que o precede. In SANTOS. exatamente porque ela é parte essencial do processo de socialização do indivíduo. e a sacrificar-se pelo bem comum.46 45 Boaventura de Sousa Santos considera a questão por um ângulo bastante interessante: quem reclama por identidade. que nos permita definir o "nós" que responderá pelas escolhas públicas sem. uma certa "obsessão" geralmente presente em agentes subordinados. triunfaria sobre a maioria das outras tribos. cita a figura de Oswaíd de Andrade e sua proposta de "começo radical" que.Rachel Nigro tencimento a um mesmo grupo social e político e garantir assim a coesão e a participação necessárias à democracia? Entendo que a importância da identificação nacional não diminuiu. A questão da identidade cultural é indelével. por reconhecimento. não expansionista. apagar as diferenças. inseguros e oprimidos. com que propósito e contra quem? Para Boaventura. que estivessem sempre prontos a ajudar uns aos outros. obediência. Boaventura. em vez de excluir. Gostaria de encerrar citando um estrangeiro. um estranho que fala de outra posição. a desvalorização do nacional. geralmente encontra-se em posição de carência e subordinação. Modernidade. mas só vem à tona de tempos em tempos. fidelidade. de formação do self e de estruturação da comunidade. conclui que a questão da identidade é. a tentativa de pensar um nacionalismo reflexivo. Entre os dois extremos.45 A tênue separação entre uma identificação nacional saudável e produtora de bons cidadãos e um Patriotismo chauvínista e insensato faz dessa cjuestão um labirinto escorregadio. Com tal linha de argumentação. 276 . "seminecessária e sernifictícia" e importa sobretudo a determinação das circunstâncias envolvidas: quem pergunta pela identidade. São Paulo: Cortez. possuindo em alto grau espírito de patriotismo. a abertura total para a globalização econômica. uma resposta >exitosa à questão da identidade geralmente se traduz numa reinterpretação fundadora. portanto. no entanto. e isso seria seleção natural". a perda das raízes. a necessidade de afirmação da própria identidade revela a necessidade de reconhecimento do outro. de outro lado. em que condições. apenas se complexificou. identidade e a Cultura de Fronteira. coragem e compaixão. The Descent ofMan. carentes. De um lado. voltado para a integração social e que busque uma reavaliação das tradições através de uma recuperação seletiva de nosso passado que nos permita construir uma auto-interpretação saudável de nós mesmos. 1997. bem diferente do enfoque culturalista deste ensaio: Charles Darwin: "Uma tribo com muitos membros que. No caso brasileiro. in Pela mão de Alice. o perigo de um ufanismo acrítico e ingênuo e de um fechamento idiotico. um outro Dionísio. Assim. seja ele nativo ou eurocêntrico. 46 DARWIN.

FILOSOFIA DO DIREITO E TEORIA JURÍDICA .

La investigación científica (Su estratégia y su filosofia). 1. pp. o que mais importa é explicitar seu uso nos muitos e diversificados contextos em que é empregada. por isso. o leitor deverá ser capaz de: 1) Compreender que "direito" antes de tudo é um termo ambíguo. Nosso objetivo aqui é expor algumas razões para tamanha dificuldade. Mario. Daí que toda vez que se afirma que uma palavra é ambígua isso significa que pode ser entendida de muitas maneiras na linguagem comum ou ordinária. com o que há dificuldade de delimitação entre o que está incluído e o que está excluído no mesmo.O Significado de "Direito". e. nesse sentido. há palavras que são utilizadas basicamente para expressar estados de ânimo.1 Além do mais. Alguns usos da Palavra Direito Quando uma mesma palavra ou expressão vem sendo utilizada para indicar dois objetos ou fenômenos distintos. diz-se que a palavra é vaga ou apresenta vagueza quando falta precisão no seu significado. de tal modo onie. uma palavra oca quando considerada isoladamente. se assim for. mas sim um uso determinante do seu significado. BUNGE. O Vocábulo "X". 2) Perceber que não há uma essência nas palavras. e. Porque ainda que seja correto que calvo designa "aquele que não tem cabelo" sempre é possível perguntar se aquele que tem um pouco de cabelo pode ser chamado de calvo ou não. Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa Adrían Sgarbi* Introdução Parece ser a angústia de muitos teóricos fornecer uma única e cabal definição de direito que desde logo satisfaça a toda e qualquer dissensão. Exemplo comum de vagueza é representado pelo vocábulo "calvo". diz-se haver ambigüidade. qual não é a surpresa ao perceberem que o universo dos problemas que a expressão suscita pouco se resolve com tal empreendimento. 1973. vago. ao fim. 84-92. e propenso à carga emotiva. 279 . Todavia. Doutor em Direito pela USE Professor de Direito Constitucional e Teoria do Direito da FDPUC-Rio. Barcelona: Ariel. quanto de cabelo é necessário possuir para não ser calvo. Por sua vez. 3) Notar que a palavra "direito" é.

46-53. (c) "Estou estudando direito". também há uma posição emocional envolvida. Os jusnaturalistas. deixam de reconhecer haver direito. no artigo 345 do Código Penal. A palavra "direito" pode estar tanto 2 3 280 STEVENSON. 1962.Adrian Sgarbi como dor. WELZEL. Na primeira construção frasal.3 Na terceira frase. aliás. Ética y lenguaje. Diritto naturale e giustizia materiale.utiliza-se para expressar dor. "Tenho o direito de ser feliz!". Na segunda frase. O significado emotivo é um significado cuja resposta (do ponto de vista da pessoa que escuta) ou o estímulo (do ponto de vista da pessoa que fala) corresponde a um tipo específico de emoções. conforme a construção frasal. ou. ("Aí!" . 63. (b) "Não há direito em uma comunidade que convive com tantas diferenças sociais". mas "direito" aparece como sinônimo de "justiça". . um direito que deva ser considerado. (e) "Os cidadãos têm o direito de reunir-se pacificamente e sem armas". muito menos com o que os operadores da ordem jurídica reconhecem como elemento de manipulação normativa. 1973. sabe-se que. não está vinculada às normas produzidas pelo Estado. dizem que "ius" (direito) é igual a "iustum" (justo). Charles L. (d) "O direito brasileiro proíbe. quando emitida. o termo "direito" está sendo utilizado de modo problemático. "Viva!" -para expressar júbilo). Observem-se agora esses grupos de frases: (a) "Tenho o direito de ser feliz!". em nenhuma das frases é mantida a mesma significação. contudo. Tal é o que se extrai do termo democracia. ao menos. A isso se atribui o nome de significado emotivo dos termos. "direito" está a expressar uma posição emocional que se pretende justificada pelo falante. Milano: Giuffrè Editore. a palavra democracia pretende provocar sentimentos de adesão dos seus destinatários exatamente pelo modo de decisão a que remete como processo de deliberação política. Buenos Aires: Paidos. (f) "Entende-se por direito o ramo do conhecimento que analisa o fenômeno jurídico". Esta posição emocional. "Nossa!" -para expressar surpresa. a justiça pelas próprias mãos". Hans. "Estou estudando direito". "Não há direito em uma comunidade que convive com tantas diferenças sociais". felicidade. quando assim não é. melancolia. embora haja a presença da palavra "direito". etc.2 Deve-se perceber que tanto existem palavras que possuem notável conotação emotiva como se pode empregar. pp. se por um lado o termo se refere a um regime político (o regime político democrático). emotivamente uma palavra. Em todos os usos acima.

Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa designando alguma matéria do conhecimento jurídico. "Direito" refere-se. etc. corresponde a "direitos". de atributos deferidos pela ordem jurídica aos indivíduos. a um certo conjunto de regras ou normas de um Estado. ou seja. 148. como. a comandos elaborados ou regrados pelos diversos Estados. E mesmo assim. uma decisão que não pode ser alterada. nesta outra acepção. a adequação dos esforços de estudo. 147-148. "direito de- GUASTINI. para não se confundir uma e outra situação. corresponde a "ordenamentos jurídicos" e. aqui. um direito subjetivo . produzida com atenção a certo procedimento e por pessoas com qualificação para ditá-las. nesta acepção. capacidades. que no primeiro caso apenas há "direito afirmado pelos sujeitos" (ou "direito pretendido") e. competências. "Os cidadãos têm o direito de reunir-se pacificamente e sem armas".tal como representado pela formulação canônica "X tem direito a p" . Não é por outra razão que o plural de "direito". (plano extensional da palavra). Giappichelli Editore. se há direito nas ditas sociedades primitivas. pp. também. Nesses termos. relativos porque alguém pode ter certo direito (posição normativa subjetiva) em dada ordem jurídica de um país e não desfrutar de mesma posição em outro país. obrigações.5 Em termos elementares. tais "direitos" são claramente relativos.4 Na quinta construção. Distinguendo (Studi di teoria e metateoria dei diritto). certas formalidades. Torino: G. Mas atente-se que não se pode confundir "direito" no sentido de direito subjetivo com "direito" no sentido de decisão definitiva. pode perguntar-se se o que o caracteriza é a coatividade. etc. (plano intensional da palavra). o canônico. assim. no segundo. posição que pode ser traduzida na possibilidade de exigir (um crédito) de um e o dever de atender (pagamento) de outro suportado por uma norma (direito objetivo). p. ou seja.remete a confrontação de sujeitos que mantêm posições contrapostas. Idem. 281 . Tal se diz porque o direito afirmado como "direito subjetivo" pode não ser logrado numa decisão judicial ou mesmo se o for pode esta ainda ser modificada enquanto couber a possibilidade de se recorrer a outra instância de apreciação.O Significado de "Direito". Não é por outra razão que o plural de "direito". etc. Essas posições normativas normalmente são nomeadas como "direito subjetivo". ainda que se assimile a palavra direito como matéria do conhecimento jurídico. a justiça pelas próprias mãos". tais como são também exemplos as pretensões. o que se usa chamar de "direito objetivo". Por isso poder-se afirmar. se a adequação com algum valor superior. no artigo 345 do Código Penal. ibidem. 1996. Riccardo. "direito" remete à idéia de posições ou situações jurídicas subjetivas. Na quarta construção. "direito" remete a compreensão de uma norma posta. ou bem se este abrange o direito internacional. "O direito brasileiro proíbe.

In: Djctíonaire encyclopédique de théorie et de sociologie du drojt. o material jurídico. Torino: G. Na sexta frase. os teóricos. Dogmatíque juridique. confiável. o "estudo do direito". Importa destacar que sendo isso correto toda ciência do direito implica a explicitação de uma metodologia jurídica. "filosofia do direito". 9-41. embora não desconheçam os AARNIO. Deve-se perceber. mas ainda não definitivo. Giappichelli Editore. pp. "Entende-se por direito o ramo do conhecimento que analisa o fenômeno jurídico".Adrian Sgarbi finitivo" (ou direito como uma decisão estatal que não caiba mais recurso). 282 . "teoria do direito". Tercio Sampaio. Algunos modelos metodológicos de "ciência" jurídica. Freqüentemente dois empreendimentos são lembrados: o empreendimento normativista (cujo objeto são as normas) e o empreendimento realista (cujo objeto são determinados fatos sociais constatáveis). Com respeito a isso.. Interessa observar que como é possível haver a afirmação de um direito deduzido em juízo. Eleitoral. como para designar a pretensão de se elaborar uma Ciência do Direito.6 Já no comum da linguagem dos juristas. Paris: PUF. se entenda por isso. 1993. freqüentemente mantêm focos de atenção distintos. ou seja. ou melhor. embora não haja uniformidade de compreensão entre os diversos autores sobre os setores específicos de análise de cada uma delas. o correto seria embregar "saber jurídico". "direito" se refere a uma investigação específica.7 Embora esta dualidade seja comum. De fato. no mais das. "ciência do direito". não no último. na especificidade do recorte teórico que venha a proceder. unicidade de compreensão de qual seja o objeto "jurídico" a ser descrito. Direito Comercial.).vezes. Penal. etc. Desses focos de atenção distintos advêm as referências diferenciadas "dogmática jurídica". pode-se a ele referir como "direito subjudice" ou "direito sob apreciação judicial". assim. Observe-se que uma das razões do emprego indiscriminado da expressão "ciência do direito" consiste no fato de que há apego subjetivo à palavra "ciência". Carlos S. a construção terminológica dogmática jurídica tanto é empregada para designar o estudo doutrinai do direito pedagogicamente dividido pelas Faculdades de Direito (Por ex. certo conhecimento acerca de um objeto. entendida como um conjunto de expedientes intelectuais que permite uma compreensão da realidade indagada mediante incursões de algum modo testáveis. seja lá o que. etc. que.: o Direito Constitucional. "sociologia jurídica". 1998. o Direito Tributário. aqui também não há unicidade designativa. Função social da dogmática jurídica. Aulis. Trabalhista. O' que redunda na crença de ser um conhecimento veraz. Norberto. pois tem-se por cientifico o conhecimento seguro em suas asserções dada a testabilidade.8 Assim os "cientistas do direito". . São Paulo: Max Limonad. o Direito Civil. 1979. BOBEIO. FERRAZ JR. NINO.. Teoria delia scienza giurídica. Processual Civil. em razão do campo de interesse. esta. 1947. Por Ciência do Direito iremos identificar o empreendimento descritivo (de normas ou de fatos) que objetiva explicar o fenômeno normativo sendo de algum modo controlável e que permita alguma margem de predição (prognóstico). BÉFDp México: ITAM. apenas utilizaremos "dogmática jurídica" no primeiro sentido.

9 Realmente. pp. é dizer. Enrico. a uma discussão do universalismo e o particularismo do jurídico (ontologia jurídica). Mas é necessário pontuar que ainda que esta seja a sua principal tarefa. Não é por outra razão que específico setor do que aqui se intitula "ciência do direito" tem se ocupado do papel que desempenha a lógica nas atividades dos juristas. portanto. a teoria do direito se apropriou de alguns temas que antes eram cuidados pelos manuais de filosofia do direito. sempre e sempre. A filosofia do direito é. Lezioni di filosofia dei diritto. a "teoria do direito" tem sido considerada parte da "filosofia do direito". Michel. mantêm-se adstritos na investigação das normas válidas enquanto promulgadas e não expressamente revogadas com o fito de estabelecerem afirmações sobre suas conseqüências prováveis. etc. 28-30. 283 .. Uníversidad Complutense de Madrid. em síntese. Rodríguez. quais são os procedimentos de harmonização das diferentes regras. portanto. Ptiüosophie du droit. Não obstante. o caráter crítico diante das possibilidades do direito vigente e o envoltório que esse caráter está a implicar parecem remanescer intocados. 10 OPOCHER. 1993. tem sido contemporaneamente a marca da filosofia do direito. exatamente em razão desses 9 MOLIHERO. se há ou não uma lógica jurídica com características específicas. 339. Contudo. da articulação possível desse justo idealizado com os sujeitos que agem em comunidade). pp. e antes de tudo. In: Anuario de derechoshumano.O Significado de "Direito". não se pode deixar de considerar que a filosofia do direito não se esgota na formulação de uma teoria da justiça e numa teoria dos valores jurídicos (axiologia jurídica). eficácia e legitimidade das normas.!0 A filosofia do direito. mas. com o que suas tintas fortes estão localizadas na elaboração e reflexão sobre as possibilidades e os limites de um direito justo (tanto sob a perspectiva de seus aspectos de apreensão dos valores como também do aspecto da experiência. há os que entendem que essas disciplinas não podem ser consideradas como gênero e espécie e que a teoria do direito ou bem pretende substituir a filosofia do direito ou usurpar-lhe grande parte de seu conteúdo. Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa níveis de validade. Segundo um modo muito comum de concebê-la. M. uma teoria (filosófica) da justiça. vem mantendo a abertura de tipo deontológico em suas considerações. Milano: CEDAM. assim. 3-22. 11 VILLEY. dos fins e dos fundamentos do direito. Paris: Dalloz.11 Aliás. e a própria teorização da justiça. ou seja. Com isso. 1986-1987. a confrontação de visões de mundo que informa a teoria da justiça. com atenção a uma possível elaboração de um conhecimento seguro e. pretensamente confiável em suas asserções. a determinação da parte que diz respeito propriamente à teoria do direito provoca ainda discordâncias. remetendo. além de ocupar-se da reflexão crítica relativa a como cabe discutir o conhecimento verdadeiro do direito ou qual o estatuto jurídico de tal conhecimento (epistemologia jurídica). 1975. Teoria dei derecho como complemento en sustitución de Ia filosofia dei derecho. p. com isso. Todavia.

classes. positivista. 1993.localizase entre a dogmática jurídica e a filosofia do direito. Madrid: làurus.com a concepção do justo.). etc. Por fim. nela. etc. e do quanto se disse da ciência do direito. a palavra "direito" serve também para 12 DWORK3N.de modo referencial . quer estejam revogadas ou não. porque. pois ela exige do teórico um esforço de junção da dogmática com as ocupações da filosofia do direito. Elias. eficácia. isso. por outro. Portanto. tais como aplicação.12 De todo modo. resultando disso a tradução possível da teoria da decisão jurídica nas seguintes ocupações: teoria da legislação. na sociedade. interpretação. se possa analisar os comportamentos. 61-69. 1986. São Paulo: Martins Fontes. de maneira que. se a ciência do direito mantém laços com o direito positivo válido e não revogado. juiz. Dessa forma. se a dogmática remete às leituras segmentadas em matérias. como teoria da decisão jurídica. realista. legitimidade. Ronald. O império do direito. o campo de atenção elementar da teoria do direito consiste na abordagem do direito sob duas perspectivas básicas: por um lado. etc. influentes. coerência. Por essa razão que a teoria do direito . ainda que ambos mantenham correlações importantes. problema da unidade. etc. características. as concepções de direito informam as pretensões de definição do direito. 13 DÍAZ.13 Dois pontos devem ser claramente percebidos a partir do que se disse. quer estejam concordando ou não com a validade ou com certo valor de justiça. operadores em geral da ordem jurídica). o que promove reflexos em sua compreensão designativa. que não é correto confundir o "conceito de direito" (a definição de direito e seus problemas) com "concepções de direito" (jusnaturalista. a sociologia do direito analisa as normas que. Ambigüidade porque. além da possibilidade de empregos tão diversos quanto os das frases a) e c). se a teoria do direito procura compreender o campo operacional do material jurídico. mas de uma teoria da decisão jurídica. 284 . pp.Adrian Sgarbi dois últimos pontos de atividade da filosofia do direito. a teoria do direito. Sociologia y filosofia dei derecho. completude. se triparte conforme a intensidade da preocupação (legislador. pp. e em termos elementares.}. se a filosofia do direito . os problemas atinentes à norma jurídica (estrutura. o vocábulo "direito" apresenta tanto ambigüidade quanto vagueza e emotividade. fatos e fatores sociais correlacionados e. Acresce o fato de que esses planos centrais não são excludentes de considerações de realização do direito. o ordenamento jurídico (formação. pode-se afirmar que a sociologia jurídica se ocupa das relações entre direito e sociedade (fenomenologia jurídica). Em primeiro lugar. obviamente.se é que se pode assim referir . com isso. 86-89. sejam socialmente relevantes para dada comunidade. com vistas à elaboração não apenas de uma teoria da norma e do ordenamento.). teoria da decisão judicial e teoria da retórica jurídica. pois atuantes em seu modus organizativo.

1974. Enquanto a dogmática jurídica está preocupada com as características perceptíveis como gerais de uma ordem jurídica considerada.O Significado de "Direito". a sociologia jurídica com sua observância ou inobservância e razões para ditas ocorrências ou inocorrências. 2. a teoria do direito com o campo operacional. usi. enunciati. a ciência do direito estará preocupada em destacar uma certa metodologia. E emotividade porque tanto as frases contidas em a) e em b) fornecem à expressão "direito" forte presença emocional. "lei" e "norma". ainda que isso seja tecnicamente deplorável. pode tanto significar direito objetivo. em filandês "oikeus". Victoria Iturralde. 285 . tem sido comum a utilização indistinta de "direito". Tal se diz porque nem sempre se apresenta o termo "direito" como a uma única palavra para determinar todas essas suas possibilidades semânticas. em grego "dikaion" (que tem originariamente valor de adjetivo). o traço forte atribuído à definição de direito também muda de ênfase. já a palavra "Lei" é "Gesetz" que indica aquilo que é posto pelo Estado. dependendo da disciplina que se esteja a tratar. ambas em oposição: como ao tentarmos acessar os quadros do pensa14 SESMA. Definições essencialistas e definições convencionalistas Constitui parte da historiografia da linguagem o prestar-se a duas ilusões. 1995. com maior acuidade. como em russo. Nas línguas eslavas. 15 G. e assim sucessivamente. Vagueza porque na frase c) o termo direito apresenta tanto dificuldades de determinação de intenção (que aspecto do direito está sendo evidenciado) quanto de extensão (o que o direito abrange enquanto tal). 10. El precedente en ei common law. quanto ao estudo do objeto. aliás. esses não são os únicos problemas da definição de "direito". Principalmente porque "lei" corresponde a uma espécie normativa ao passo que norma remete a todas as espécies normativas ou. Madrid: Civitas. Em segundo lugar. que. "jurispruclence" para designar "ciência do direito". E tudo mais se complica quando se não tem a percepção que "direito". permite entrever a mesma palavra foi utilizada tanto para fazer referência ao objeto de estudo. o compromisso com certos valores.14 Na Itália não há faculdade de "dmtto". mas em estoniano é "oigus". 15 No Brasil. "ríght" para expressar direito subjetivo. Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa referências próximas como nas frases d) e e). ou um dado objeto de estudo. Não obstante. mas de "giurisprudenza". p. Em alemão "Recht" traduz "direito" tanto no sentido objetivo como no subjetivo. frase d). TARELLO. e "statute law" para designar a legislação (principal) de um parlamento ou outro órgão legislativo. a filosofia do direito. dependendo da frase. Por exemplo: o idioma inglês possui o termo "Jaw" para expressar direito objetivo. subjetivo. o contexto em que "direito" é empregado como regra ou norma o termo é "prawo". Dirítti. o que. frase f). são textos normativos interpretados. Bologna: II Mulino.

pensa a respeito: a correção dos nomes consiste na convenção (thesei] e no acordo.Adrian Sgaibi mento realizamos apoderações de categorias da língua. 286 . mas também é imaginável que como as palavras são designativas do que se pensa. dado que facilmente se pode constatar que os nomes mudam quando se designa uma mesma coisa (isso. Além disso. quando se considera a diversidade das culturas). concepção de Crátilo. seguimento 383 a-b. há uma óbvia dificuldade na posição convencional de Hermógenes: se para se explicar a origem de alguma coisa esta não pode existir anteriormente ao momento de explicação. Segundo Crátilo. a de Hermógenes também: ainda que a primeira asserção e a terceira sejam compatíveis (a de que a correção dos nomes consiste na convenção e no acordo e a de que os nomes se referem às coisas). ou se a atribuição dos nomes as coisas é apenas decorrência de nomeação arbitrária e. por vezes. portanto. No segmento 384 c-d e 385 d-e. se as palavras nomeiam as coisas mercê de um acordo natural (teoria do naturalismo lingüístico). auto-suficiente.e que para muitos inicia . temos. parece que ambas não coadunam com a segunda (a de que qualquer nome que se atribua a uma coisa é correto). se a posição de Crátilo é problemática.. se situa num argumento que é circular por16 PLATÃO. por isso. agora. concepção de Hermógenes. de um contrato lingüístico (teoria do contratualismo lingüístico). os nomes não são decorrências de convenções estabelecidas por um certo grupo que resolve por bem nomear os objetos por meio de uma emissão vocal. para dizer o que ele. Daí haver entre nome e coisa um vínculo natural e independente do arbítrio humano. PLATÃO inicia diálogo que marca . individual. Hermógenes. 383 c-d. qualquer nome que se atribua a uma coisa é o correto. o problema da segunda concepção. Hermógenes e Sócrates. porque se qualquer nome que se atribua a uma coisa é correto não seria possível alcançar-se a justeza do designado. mas em virtude do costume e do hábito entre os falantes. No Crátilo. 383 a-b.16 Assim.a filosofia da linguagem. i. Presentes como personagens centrais Crátilo. PLATÁO traz Hermógenes. a impressão de que a língua é apenas um intermediário desse pensamento: livre.e. os nomes se referem às coisas não em razão da natureza. 385 d-e. consiste no fato de que este ignora a natureza simbólica da linguagem (o que não permite que ele explique a mudança das palavras de localidade para localidade. é comum pensarmos que para as coisas há uma natureza fixa a qual os nomes designam. como explicar um acordo lingüístico se não existia algum tipo de língua natural anterior? Enquanto o problema da primeira concepção. ainda que se esteja designando a mesma coisa). principalmente. Crátilo. estabelece-se discussão sobre a justeza e exatidão dos nomes. o que afeta a possibilidade de comunicação. há para todas as coisas uma correção natural (physei) para os nomes.

mas o deixa confuso quando. deve-se admitir também que há a possibilidade de erro ao se nomear as coisas. Livro IV XXI. para comunicar nossos pensamentos mutuamente. caso contrário. nem situada em nenhum lugar. de algum modo. as palavras são usadas para tornar conhecidas as idéias ou pensamentos da pessoa que fala. aqui intervém necessariamente um tanto de convenção. assim como para registrá-los para nosso próprio uso. Declara literalmente que "a cena das idéias que formam o pensamento não pode estar inteiramente aberta à inédita visão de outrem. a explicação contratual da linguagem pressupõe (necessariamente) uma linguagem existente para que. Ensaio sobre o entendimento humano. Sócrates é chamado e procura aclarar a questão. ao fornecer exemplos. John. as pessoas se comuniquem assentando o convencionado (a mesma linguagem da qual se almeja explicar a origem não tem como explicar a origem fundamental.17 Por essa afirmação de LOCKE que se tem ácei17 LOCKE. e portanto geralmente os usam. Afirma que como muitos nomes têm letras que não possuem semelhanças com a coisa representada no estabelecimento da significação. mas se o nome é uma imitação de um objeto. 4. se presta à análise da etimologia das palavras e sobre o significado de certos sons ou letras com o fim de alcançar a conclusão de que todos se ajustam naturalmente à coisa representada. não naturais. e não o próprio objeto. Iniciadas suas considerações sobre a posição de Crátilo. já que ela. sinais de nossas idéias são necessários. Sócrates explica que. deveria estar presente nessa convenção inicial. deve-se admitir que em havendo artistas mais ou menos hábeis existirão nomes mais ou menos justos. Sócrates assim não chega a oferecer solução ao caráter dilemático do discutido. Continuando com o debate. a linguagem e significação de palavras são convencionais. sendo a formação dos nomes uma arte. Daí entender que as palavras são sinais voluntários feitos para significar as marcas das idéias de nossas mentes. a partir dela. 287 . e no mesmo diálogo. que os homens descobriram serem mais convenientes.O Significado de "Direito". estes. a não ser em sua memória a qual não constitui um guardião muito seguro. Depois de ter escutado os argumentos de Hermógenes. são sons articulados". Segundo LOCKE. Na avaliação de LOCKE. embora se refira a Deus logo no primeiro parágrafo do capítulo I do Livro III para afirmar ser um dom por natureza do homem ter órgãos talhados e equipados para emitirem sons. não haveria elementos para se estabelecer o acordo). Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa que se explicar a origem de qualquer coisa pressupõe que essa coisa não exista precedentemente. Sócrates segue novamente a análise etimológica que utilizou para rebater as ponderações de Hermógenes agora com o objetivo de atingir os argumentos de Crátilo. Sócrates o leva a concordar que as coisas possuem uma certa realidade independente do homem.

etc. e servindo para referir às coisas. lilás. ao passo que a essência nominal é relativa às idéias abstratas expressas pelos nomes. sempre provisórias e passíveis de revisão: a concepção da constituição real seria assim inacessível. consoante temos ocasião de as dividir em espécies. Por outro lado. Contudo. aquilo por que ele é o que é". John. 19 LOCKE.). Todavia. p.18 Porque.P. frio. Para LOCKE. seria possível escapar do enclausuramento mental dado que 18 ALSTON.) ou reflexões (como as expressas quando se duvida. paradoxalmente nós precisaríamos ter urna idéia da idéia do interlocutor antes de fazer uso de uma palavra para corresponder a ela. III. Ensaio sobre o entendimento humano. É claro que uma das questões que se põe. Porque. que é o entendimento como materiais da razão. Livro III. haveria uma ordem no mundo de tal modo que cada ente teria uma essência constituída por certas características intrínsecas. as palavras representam a apropriada e imediata significação das idéias quando pronunciadas. é como se originam as idéias no entendimento. Depois de definir essência como "o próprio ser de qualquer coisa. 288 . 1972. já que cada idéia estaria legada ao interno das esferas de representação dos falantes.Adrian Sgaibi tado a ponderação de que está presente em seu pensamento uma teoria "ideacional" da linguagem. Não é por outro motivo que manifesta a convicção de que muito mais racional seria "conceber que embora todas as coisas da natureza têm uma constituição real incognoscível das suas partes imperceptíveis. LOCKE precisou recorrer à distinção entre a essência real e à essência nominal. A partir disso. 45. W. se ela for correta. a afirmação contundente de LOCKE é que a ordem do mundo em sua inteireza não é alcançável pelo conhecimento humano. sendo que sua única fonte é a experiência. 17. com o que nomear um objeto e pensar o objeto seria a mesma coisa. Filosofia da linguagem. Por um lado. 19 Dessa forma. etc. e conforme a concepção b). raciocina. e b) a concepção da constituição real. haveria a possibilidade de se nomear os entes por aquilo que são. crê. sob denominações genéricas". Para escapar do isolamento de um pensar "do eu solitário" possibilitando o acesso do outro ao que se pensa. em LOCKE. avalia que a essência real pode corresponder a duas concepções distintas da realidade: a) a concepção "a priori" das realidades substanciais. cálido. as idéias aparecem no "papel em branco". as de reflexão das experiências internas. Tais idéias podem ser de sensações (como as informadas quando se diz amarelo. a partir delas decorrem essas qualidades sensíveis que nos servem para distinguir umas das outras. e conforme a concepção a). a função de referir às coisas. essa teoria não está livre de problemas. Rio de Janeiro: Zahar. As idéias de sensação decorrem da experiência externa. as palavras teriam uma outra função. nesse contexto. explica que a essência real é relativa à constituição das coisas. já que temos apenas as nossas experiências.

E é exatamente em razão dessa guinada que se costuma chamar o Wittgenstein da teoria figurativa de Witgensteín l." de LOCKE. e o problema de Hermógenes encontraria alguma saída. nome que seria fornecido a partir de demonstrações: "Essa sensação ou idéia X eu chamo de 'cavalo'". mas. consistia numa versão clara da visão agostiniána da linguagem que. conhecida como a "teoria figurativa do significado". sim. 21 Esta a passagem: "Quando eíes (os rneus pais) diziam o nome de um objeto e. Mas foi Ludwig WITTGENSTEIN quem marcou o campo reativo do século XX. Dentre os primeiros. WITTGENSTEIN põe fim ao rumo de seu próprio pensamento presente em outro escrito famoso.20 Esta construção. o "Tractatus LogicoPhilosophicus". difusão e aplicação de suas teorias. expressão do seu uso na multiplicidade de práticas que vão compor a linguagem.. Tracíatus Logico-Philosophicus. uma idéia). em seguida.202. rejeitar ou evitar uma coisa qualquer. o olhar. A sua intenção era revelada pelos movimentos do corpo.21 Expressivamente. ao ouvir palavras repetidamente empregues nos seus devidos lugares em diversas frases. dentre os últimos. que exprime o estado de espírito ao desejar. WITTGENSTEIN rejeita nas suas "Investigações Filosóficas" (de agora IF). faz questão de demonstrar essa mudança de rumo transcrevendo trecho representativo das "Confissões" de Sto. refutá-lo. com seus "Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano". quando o queriam mostrar ostensivamente. como se estes fossem a linguagem natural de todos os povos: a expressão facial. WITTGENSTEIN afirma que o significado não consiste num vínculo direto de significação (sem sentidos derivativos ou figurados) que um nome estabelece com um objeto da realidade (ou seja. logo. concebe uma resposta detalhada aos "Ensaios. Ludwig. Por isso que em suas "Investigações Filosóficas". LEIBNÍZ que.O Significado de "Direito". depois. exemplo expressivo pode ser encontrado entre os enciclopedistas.. destaca-se G. tanto que despertou não apenas ânimos de aceitação. Agostinho. Insiste. os movimentos das outras partes do corpo e o tom da voz.W. para. A influência de LOCKE sobre a filosofia do século XVIII foi considerável. mas também despertou ânimo reativo de rechaço. ter. acabei por compreender que objetos é que estas palavras designavam. Assim. eu obseivava-os e compreendia que o objeto era designado pelo som que eles faziam. 3. como diz LOCKE. E depois de ter habituado a minha boca a articular estes sons. 289 . Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa as coisas poderiam ser nomeadas. usava-os para exprimir rneus próprios desejos". desse modo. Um dos pontos cruciais atacados por WITTGENSTEIN remete à compreensão de que cada sensação corresponde a um nome (ou. numa relação figurativa entre proposições e fatos). que não se deve dar atenção ao significado pro- 20 WITTGENSTEIN. embora antes já tenha havido antecipação crítica à semântica ideacional com BERKELEY "Princípios do Conhecimento Humano". e o Wittgensteín que a rejeita de Wittgenstein 2. obra considerada por muitos como o seu trabalho maduro. se moviam na sua direção. Aliás. o qual possui como um dos pontos salientes o entendimento de que os nomes "significam" objetos.

60. mas ao modo com que as utilizamos conforme as regras socialmente convencionadas.. Por isso que investiga a própria noção de "entender" e "compreender" ao que afirma: "O que chamamos de "entendimento" é um fenômeno psicológico que tem uma ligação especial com os fenômenos do aprender e do usar a nossa linguagem humana". Ludwig. prop. as muitas possíveis atividades de uso da linguagem em que nos envolvemos. em suas linhas gerais. anos de 1933-1934. OJ/vroazui.. Ou. seriam conhecidos como "O Livro Castanho". manuscrito que foi apenas publicado em 1969. também "a expressão jogo de linguagem deve realçar o fato de que falar uma língua é uma parte de uma rt 22 WITTGENSTEIN. 23 WITTGENSTEIN.Adiian Sgaibi priamente dito das palavras. Gramática filosófica. prop. Gramática filosófica. Indícios desse desenvolvimento já podiam ser percebidos na "Gramática Filosófica". também. Habilidade que adquirimos como membros de uma comunidade. um período. Numa palavra: compreender uma frase significa compreender uma linguagem". 62. de jogo de linguagem.". 24 WITTGENSTEIN.. muitas formas de "compreender" (uma palavra). em substituição a essa idéia vê-se a afirmação de que compreender a linguagem é uma "habilidade".24 Com a expressão "jogos de linguagem" WITTGENSTEIN expressa. de transição em seu pensamento. Ludwig. se perguntamos "Como você usa a palavra. 290 . afirma WITTGENSTEIN. e nas notas 1934-1935 que. Transição essa que igualmente é perceptível nas notas que WITTGENSTEIN ditou aos seus alunos e que receberia o nome de "O Livro Azul". pp. e que. da linguagem à qual pertence. dessa forma. O signo (a frase) obtém seu significado do sistema de signos.isso nos dirá como você a entende". pelas mesmas razões. mas que marca os esforços de WITTGENSTEIN dos anos 1932 e 1934.). por assim dizer. Em todos eles pode-se perceber grande parte do material que apareceria como as IF.23 Não é por outro argumento que se percebe que se há muitos usos possíveis de uma palavra há.. particularmente. graças à cor de sua encadernação. Ludwig. o que você faz com ela. A chave para essa nova concepção de WITTGENSTEIN é precisamente a noção de jogo e. mas fazemo-lo corno se ele fosse um objeto coexistente com o signo (. 30-31.22 Nesse sentido. expressam a refutação da tese de que se "aprende um significado" como se este fosse um processo. como já havia afirmado WITTGENSTEIN anos antes: "O erro que estamos sujeitos a cometer pode ser descrito do seguinte modo: procuramos o uso do signo. Daí que "compreender" consiste em saber como determinada expressão é utilizada em uma variedade de jogos de linguagem em que ela aparece.. ".. Porque se o termo "jogo" é invocativo dos lances possíveis que dependem da situação na qual as pessoas estão inseridas.

e a minha pá entorta-se. Ludwig. funcionam como um pano de fundo para as nossas práticas. Por sua vez. WITTGENSTEIN. Investigações filosóficas. Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa atividade ou de uma forma de vida". não escolho. como sucede nos jogos em geral. % 23. seguir uma regra não é interpretá-la. as proposições que descrevem as regras de nossos "jogos de linguagem" WITTGENSTEIN as chama de "proposições gramaticais".e. § 219. Ludwig. de "imagem do mundo". os jogos de linguagem se definem como uma série de conjuntos de práticas lingüísticas e não-lingüísticas regidas por regras. e não uma entidade abstrata. 291 . por assim dizer. Diz WITTGENSTEIN: '"Seguir uma regra' é uma 'praxis'". entendido por uso a sua utilização e. tocamos o fundo 25 26 27 28 29 WITTGENSTEIN. é porque já estou a escavar a rocha. Sendo assim.). Ludwig. § 202.O Significado de "Direito". governam nosso atuar. e estas não podem ser verdadeiras ou falsas porque expressam regras que são os fundamentos de toda verdade e falsidade. Ludwig. carecendo de sentido perguntar pelo fundamento último da regra porque todo uso significativo da linguagem pressupõe que se está seguindo uma regra.26 Por essa razão que tanto a explanação e justificação não precisam e muito menos podem ir além de um gesto em direção à forma de vida. Estou então inclinado a dizer: 'Eu procedo assim'". regras que. pois como afirma: "Se esgotei as justificações. nem a um estado mental. WITTGENSTEIN. em DC.27 Ou seja. i. visão. a estas crenças não se deve de modo algum entendêlas como algum tipo de estado psicológico. onde as peças do jogo resultam do próprio contexto do jogo em que aparecem. WITTGENSTEIN. olfato. Interessa observar que em "Da certeza" (de agora DC) WITTGENSTEIN altera sutilmente sua filosofia ao agregar o conceito de "crenças" para denominar as certezas práticas que. a sua utilidade.28 Atente-se que o que está em questão é que sobre as regras se assentam o sentido. Eu sigo a regra como se fosse cego".25 Com isso. a um costume. investigações füosóficas. formando um sistema. § 95. § 217.29 E quando alcançamos esse ponto. tato. não. Da Certeza. então. Ludwig. Mas o que é uma regra? WITTGENSTEIN responde a essa pergunta da maneira seguinte: seguir uma regra é uma atividade que nos remete a um uso estável. seguir uma regra é uma prática que nos remete a um hábito ou costume: "Quando eu sigo a regra. Já é muito conhecida assim a tese de WITTGENSTEIN segundo a qual o significado de uma palavra não é outra coisa que não o seu uso. Uma regra não corresponde nem a um estado físico. a verdade e a falsidade das proposições empíricas (as que dependem da percepção de nossos sentidos: paladar. E é exatamente o conjunto de crenças que forma o que WITTGENSTEIN denominou. do mesmo modo na linguagem a função dos termos permite determinar o próprio sentido dos mesmos. Investigações filosóficas.. Nesses termos. etc. investigações filosóficas. isso porque são algo compartilhado. Não podemos dar razões a elas porque são os fundamentos da nossa razão. WITTGENSTEIN.

mas olha. etc. a um alicate.. e em grande quantidade. Porém. Ludwig.20 para explicar isso WITTGENSTEIN reafirma a analogia com a idéia de jogo e pergunta: "Que características comuns apresentam os jogos de tabuleiro. O que é que é comum a todos eles? Não respondas: "Tem de haver alguma coisa em comum. os jogos de bola. mas verás semelhanças. caráter. as palavras. 32 WITTGENSTEIN. Investigações filosóficas.. Investigações füosóficas. 292 . senão não se chamariam jogos" . Ludwig. Sem dúvida que um dos problemas que atrapalham nessa percepção quando estamos a tratar de palavras é que elas. (. os jogos de linguagem colocam em destaque que a linguagem é uma prática humana que está imersa em uma forma de vida: "Mas quantas espécies há? Talvez asserção. segundo WITTGENSTEIN.. E o mesmo sucede com as palavras: captar o papel de uma expressão não supõe algo como aceder a sua virtualidade denominativa.. (. Ludwig.Adrian Sgarbi porque nos deparamos com o dado. outros quanto às suas feições.31 Essa similaridade. Investigações filosóficas. § 23. etc. Mas o que importa é percebermos que elas são ferramentas e que embora não tão claramente quanto a função que possamos atribuir a um martelo. etc. pergunta e ordem? Há um número incontável de espécies: incontáveis espécies diferentes da aplicação daquilo a que chamamos 'símbolos'.Porque. pois o que é relevante é a percepção concreta de sua função.. quando você olhar para eles não verás de fato o que todos têm em comum. §11. freqüentemente apresentam semelhanças quando escritas. os jogos de cartas. Como se pode perceber. o que pode induzir erroneamente à idéia de haver uma identidade (como em "manga" de camisa e "manga" fruta). sua estatura. desaparece este aspecto.) Nos jogos de bola há perder e ganhar.32 Eviden- 30 WITTGENSTEIN. uma serra.. mas quando uma criança atira a bola à parede e depois a apanha.) E quão diferente é a habilidade no xadrez e a habilidade no tênis". para ver se tem alguma coisa em comum. estes traços comuns não são compartilhados de igual forma por todos os membros da família. . § 66. uma chave de parafusos.. 31 WITTGENSTEIN. (. elas assumem variadas funções apesar da aparente identidade quando as ouvimos ditas ou as encontramos escritas ou impressas. 'proposições'". as formas de vida as quais não são outra coisa que o conjunto de práticas sobre as quais a linguagem pertence. parentescos. Por esse motivo uma definição não pode funcionar se não conhecemos antes o uso ou função da sua expressão.) E o resultado da investigação é o seguinte: vemos um a rede complicada de semelhanças que se cruzam e sobrepõem umas às outras". 'palavras'. quer dizer que há características comuns a estes jogos como é possível se encontrar entre os membros de uma família: uns são semelhantes na cor dos cabelos.

cit. 34 BUNGE. de uma prática vivenciada com vistas ao próprio fim da interação. na definição desses símbolos. de colocar em manifesto a sua essência. Ob. aistórica. L 'evoluzione nel diritto. e. pois ou bem as definições são reais ou bem as definições ingressam no grupo das nominais. Torino: G. por assim dizer. Por definição real (também conhecida como essencialista) entende-se a expressão por meio ou através da qual se indica o que é uma coisa ou o fenômeno a que se exprime. 1998.) Atentando para o primeiro grupo. essa divisão consiste na "grande divisão" das definições. com a etimologia. não se trata. Atribuição de sentido porque definir é representar um objeto abstrato ou concreto. Em latim este estado é afetado pelo duplo estatuto que aca- 33 WITTGENSTEIN. Uma definição pode ser retratada da seguinte maneira: "X se define como Y".no sentido de decorrente da "natureza das coisas". seu núcleo imutável. Giappichelli Editore. Investigações filosóficas. 140. revelar esse sentido "real".1. porém deve-se advertir que esse é um dentre muitos jogos em que se pode empregar uma expressão. resultante de uma espontânea ação humana. A palavra indo-européia *yus significa "o estado de regularidade. portanto.. quanto à sua modalidade (a técnica a qual se recorre para se proceder à definição). 3. p. refletir. O "se define como" é expressão que aparece para estabelecer a equivalência. muito menos artificial . Mario. O professor Émile BENVENISTE. Daí que alguns não se privam de afirmar: "Por 'direito1 deve-se entender 'isto1 ou ' '". podem ser classificadas segundo critérios distintos. remontamos à pré-história do latim ius. (3. Sendo que "X" é o termo definido ou o defíniendum (em latim: aquilo que vai definido) e "Y" é a expressão definidora ou defínens (em latim: o que serve para definir). 35 BARBERIS. procurando destacar. que não comete este erro. de todo modo. a curiosidade pelo étimo: "Graças ao iraniano e ao védico. à sua função (aos efeitos da definição). senão pôr em evidência as condições em que se emprega o termo. 293 . e.35 Elas podem ser catalogadas quanto: ao seu objeto (a coisa a qual se refere). De fato.33 Portanto. mas cultural. recolher.3í* As definições. Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa temente que este jogo pode consistir em nomear um objeto. que a distingue das outras coisas ou fenômenos. por último. temos as definições reais e nominais.O Significado de "Direito". Não é por outra razão que alguns intentam. de normalidade que é exigido por regras rituais". Algumas teorias por detrás dos significados da palavra Não se deixe passar despercebido que definir consiste em uma atribuição de sentido. sacia. Ludwig. Mauro. p.no sentido de fruto de um "contrato intencional" -. Daí poder-se pensar a linguagem não como um fenômeno natural . § 38.

Aqui. 115-116. pp. "esposa legítima". GUIBOURG. pelo que a (b) é incorreta. introdução à lógica. pois informa sobre um uso integrante de certo campo que está sob atenção. R. temos as definições verbais. 112-119.) No segundo grupo.A. ao se procurar defí-1 36 BENVENISTE. Já as definições nominais (também conhecidas como conceitualístas) são aquelas que fornecem o significado de um termo. Elas são chamadas de verbais (de lexicais. E como foi já assinalado. de tal modo que é a operação que evidencia o que se quer definir.36 Q problema é que há quem pretenda com isso resolver a questão do que se deve entender pela palavra "direito" em seu sentido "real". 1953. essas são as definições ostensivas. R. e as persuasivas. "casamento legítimo". "em conformidade com o estado de ius". 55-57. A noção ius admite essas duas condições. as definições ostensivas. informativas. as definições estipulativas. braços. palavras ou símbolos. seu discurso não se sustenta porque uma tal definição implica ter-se que delimitar essa essência. Buenos Aires: EUDEBA. 294 . prescrevendo aquilo a que se deve conformidade. Esse é o caso quando.2. lexicográficas. ius significa "a fórmula da normalidade". isto é.cit. (3. pp. SP: Editora dal UNICAMR 1995. O vocaJbuJário cias instituições i/ido-européías. pp. São Paulo: Mestre Jou. our ainda. Campinas.VJ Jntroducción ai conocimiento científico. algumas vezes. esta definição não é correta.M. 1985. Daí poder dizer-se que se se afirma que por "direito objetivo" entende-se "o estudo das técnicas decisórias dos juizes". 37 COPI. 194-211. com um encosto e. Sabe-se que apenas a definição (a) integra a definição de cadeira considerando o comum emprego na língua portuguesa. Tal é o fundamento da noção de "direito" em Roma".37 De todas elas certamente as mais comuns são as chamadas definições verbais. pp. nome. Mais um exemplo: (a) Cadeira: peça de mobília que é um assento apoiado sobre pés. Irving M. Deve-se perceber que esta definição não consiste numa inovação do vocabulário jurídico. iusta uxor. (b) Cadeira: animal bípede que sai para se alimentar durante o anoitecer. Uma é a situação de fato marcada pelo derivado iustus nas expressões legais: iustae nuptiae.Adrian Sgarbi bamos de distinguir em indo-iraniano. de descritivas) porque comunicam o significado de uma palavra utilizando-se de outras palavras com vistas a elucidar como ela tem sido utilizada. Ob. A outra é assinalada pela expressão ius dicere. Emile./GHIGLIANI.. STEVEWSONj Charles L. o que não passa de empreendimento subjetivo. A. Por isso ser descritiva. Expressão desse tipo de definição pode-se encontrar nas obras jurídicas quando se afirma que "direito" em sentido objetivo significa "um conjunto de normas produzidas por certo aparato institucional"./GUARINOWI. Outra forma de definir algo é dizer o que esse algo é mediante exempíificações.

o melhor a se fazer é utilizar apenas definições verbais. 2. vol. Mas é possível que não se queira saber o que um termo significa. Direito: Conjunto das normas obrigatórias que determinam as relações sociais impostas a todo momento pelo grupo ao qual se pertence. vontade essa cujo conteúdo é determinado. Milano: CEDAM.A. Paris: PUF1 1989. Tudo isso pode nos levar a crer que. É essa definição que é chamada. E isso se deve ao fato de que uma definição estipulativa consiste numa proposta de uso. por não reconhecer o vocábulo "direito". A questão central é que as definições verbais também possuem lá seus inconvenientes. orientada pelo Partido Comunista. p.39 Def. Teoria geral Marxista-Leninista do Estado e do Direito. In: Dioit (Revue française de théorie juridique). 11-14. 119. pp. é necessário delimitar os confins do significado do vocábulo em sua nova versão. mas formular uma nova definição para um termo que já possui inúmeras acepções. percebe que seu problema apenas se agrava diante das muitas possibilidades listadas no dicionário. longe de ter sua dúvida solucionada. com freqüência. estipulativa porque prescreve um certo uso que uma palavra deve ter. Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa nir papel. ele. Definir lê droit/1. Isso porque. Portugal: Amadora. no fim de contas. clara ou obscura. Essai d 'une définition stipulative du droit. Não é por outro motivo que poucos se arrogam a chamar esse tipo de procedimento de uma "definição". p. 40 ALEXANDROV. 1961. estes nem sempre esclarecedores. Direito: Conjunto de normas que exprimem a vontade da classe operária. ao lermos um verbete. 295 . II problema deüa definizione e il concetto di díritto. E esse ponto tanto mais se acentua quanto maior é o distanciamento de um mínimo de noção do que estamos a procurar. útil ou inútil ao quanto se objetiva.38 Como estipulação. André-Jean. Diante das muitas possibilidades de sentido. 10. 1. uso este que o seu enunciador estabelece. 39 LEVI-BRUHL. Uberto. 1974. Daí poder-se estipular o significado de "direito" para atender aos propósitos de um certo estudo ou concepção: Def. o estrangeiro. Neste caso. de definição estipulativa. 52. se diz "a página de um livro é um papel". O problema desse modo de definir é que ele possui pouca precisão caso se a compare com a definição verbal. pelas condições de sua existência material. Imagine-se um estrangeiro que. diga-se. N. precisa ou imprecisa. São Paulo: Martins Fontes. Uma definição estipulativa informa como o termo deverá (ou deveria) ser utilizado de certo momento em diante. então. ela não é verdadeira nem falsa. Sociologia do Direito. ARNAUD. tenha recorrido a um dicionário técnico-jurídico em português. apenas encontramos uma variada disposição de sentidos. 20. apenas é vantajosa ou desvantajosa.40 38 SCARPELLI. e a dos outros trabalhadores liderados por aqueles. p.O Significado de "Direito".

já que qualquer definição. Nessa perspectiva. ainda. dada a comoção subjetiva que intenta produzir. portanto.41 É comum fazer-se menção. não parece isso reduzir o grau de dificuldade em se definir em termos apaziguadores o termo "direito". São conotativas. quando o material normativo figurado for uma norma punitiva. 3. pode ser empregada com o objetivo de suscitar tanto reações de atração como de repulsa. as definições ostensivas.3. ou seja. Por exemplo: afirma-se que as normas dotadas de sanção (conseqüência) negativa (o emprego da força) são "direito". em que pese o fato de os teóricos do Direito continuarem a 41 REALE. para uma definição ser persuasiva. Filosofia do Direito. tudo isso é "direito". um específico núcleo de significado que destaca o ente. ou se estará diante de um material genuinamente jurídico. as definições persuasivas estão vinculadas à função que exercem e não propriamente a um específico modo de ser construída ou elaborada. Desse modo. Por essa razão que quando se denota um vocábulo este é concebido de modo que compreenda tudo aquilo a que o termo se estende. tudo aquilo que segue recoberto por sua área ou campo de significado. apesar das concepções e das técnicas distintas de se definir um vocábulo. algumas conotativas. Mas. Vimos que o vocábulo "direito" é ambíguo. apenas haverá direito. as definições verbais e as estipulativas. outras denotativas. sua inclusão aqui significa que esse catálogo comporta sobreposição. E vimos também que concepções distintas servem de pontos de partida para os teóricos do direito. Miguel. por antonomásia. às definições persuasivas. Sendo assim. Com isso deve-se observar que. direito "positivo". São conotativas as definições quando se quer indicar uma característica ou propriedade comum a todas as coisas chamadas com o mesmo nome. São Paulo: Saraiva. Direito: Realidade histórico-cultural ordenada de forma bilateral atributiva segundo valores de convivência.Adrian Sgarbi Def. 697. mas uma classe ou coisas a que se atribui o mesmo nome. vago e certamente propenso à carga emotiva. direito "internacional". o que produz como resultado uma série de definições. em tese. basta ser enunciada em linguagem emotiva ou em linguagem de cujo propósito retórico seja influenciar pessoas. pode-se fornecer tanto uma definição conotativa quanto uma definição denotativa. por antonomásia. são denotativas. direito "antigo". ao se estabelecer o significado de uma palavra (corno "direito"). O propósito deste tipo de definição consiste em influenciar atitudes.) No terceiro grupo encontram-se as definições conotativas e denotativas. Diz-se assim que direito "natural". 296 . p. São denotativas as definições quando se indica não uma característica ou propriedade comum. 1953. Daí que quando se conota um vocábulo este é concebido de modo que compreenda tudo aquilo que o termo intencionalmente abrange. e que. (3.

Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. e cada vez mais. Porque o vocábulo "direito" não passa de uma palavra oca quando isoladamente atinada. ostensivas. sempre com reverberações nas definições propostas. ou nominais. "normas escritas". outros identificaram o jurídico com as decisões dos juizes na resolução de determinado universo de casos. uma definição que seja considerada aceitável para todos os pontos de vista. do como está sendo empregada nas diversas incidências da palavra. estranhas e paradoxais como a pergunta "o que é o direito?". persuasivas. tais como. se para se pensar em alguma religião pode haver certa convergência . Como isso é possível? Faz mais de quatro décadas que o Professor Herbert A. 297 . Embora seja provável que quando se está na presença de todos esses "elementos" (independentemente. "Estado". "culto". p. L. como numa síntese para todo o saber jurídico. é muito provável (ou mesmo certo) que se discuta o significado dos elementos caracterizadores da "religião" (ou freqüentemente considerados como seus pontos salientes).histórica quanto à característica de possuir uma "divindade". e "igreja". conjuntamente. com as práticas rotineiras e temporalmente esquecidas em seu surgimento. também parece ser correto ou pos- 42 HART. O conceito de direito. com as regras que coincidissem com uma idéia hipotética de um direito natural. Observações a respeito de uma Pergunta Embaraçosa produzir. Herbert L. sejam elas pretensamente reais. por exemplo. Desse modo. e assimilado o que foi dito até aqui (sobretudo no item 2). mas sentidas como obrigatórias pelo grupo. são de fato necessários para se ter uma religião (no caso do "direito". dos significados que se lhes atribua) não se tenha dúvida de que se está diante de um fenômeno religioso (ou de um fenômeno jurídico). "divindade". uma indeterminação insuportável do campo de análise? Quando se faz menção ao termo "religião". Não haveria. e se todos eles.. definições de "direito". 1961. ainda. etc. com a efetiva observância dos membros de determinada comunidade a certos comandos. um "culto" e uma "igreja" (condição conjuntamente suficiente). repita-se. com isso. estipulativas. etc.O Significado de "Direito". quem sabe. "punição". ou. 5. com o que a sua determinação é um problema de análise da linguagem. verbais. não parece ser possível encontrar "a" definição de direito. HART afirmou que "Poucas perguntas referentes à sociedade humana têm sido formuladas com tanta persistência e respondidas por pensadores sérios de maneiras tão diversas.A. também é provável que na falta de algum elemento mesmo assim haja quem diga que é uma religião (ou que é "direito"). Enquanto alguns teóricos reduziram o âmbito do jurídico ao material produzido pelo legislativo.42 Dada essa circunstância. e se todos eles são necessários para haver algo que eu possa chamar de "direito"). Diante disso pode-se novamente questionar como é possível estudar algo cuja conceituação é tão difícil e variada.

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fragmentado. De fato. Cf. a instabilidade. Comelius. As encruzilhadas do labirinto III: o mundo . Presumivelmente. não por acaso as deficiências. certeza e segurança. de forma nunca antes divisada em crualquer outro período histórico. Daniel Bell designa com este vocábulo aquelas sociedades que operaram o deslocamento axial da atividade econômica do setor manufatureiro para o setor de serviços. 9 e ss. O surgimento de uma ciência jurídica autônoma elevaria gradativamente essas premissas empíricas tradicionais a níveis de sofisticação e construção dogmática formidáveis. La société post-industrielle. contemporaneamente o mundo jurídico enfrenta desafios adaptativos excepcionais. Castoriadis. O modelo de direito racional-legal vigente e hegemônico na modernidade ocidental se vê como nunca confrontado com o aparecimento de elementos ectópicos originários do impasse civilizatório cultural e social em que vivemos. ao passo que a sociedade pré-indus301 . 130. o direito enquanto instrumento de controle social sempre esteve afeto a idéias muito caras como previsibilidade. catalizado pelas tecnologias informacionais de ponta. A função social do direito1 em múltiplos contextos reproduzia a expectativa geral de controle da previsão de resultados.O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno: Perspectivas e Desafios Antônio Carlos de Almeida Diniz* 1. a indeterminação e o risco * 1 2 Professor da UCAM-Centro e Mestre em Direito pela PUC-Rio. da garantia de estabilidade institucional e de pacificação dos conflitos de interesses. Tburaine. pp. Em sua obra "O advento da sociedade pós-industrial" (The coming of post-industrial society). p. Alain. e induzem a uma profunda reflexão sobre o fato social do direito à luz das novas exigências e tendências derivadas de sociedades crescentemente complexas. insuficiências e aporias do sistema jurídico têm se evidenciado a cada dia com tal monta e insistência. a sociedade do tipo industrial se organizava em torno do eixo da produção e da maquinaria objetivando a fabricação de bens e utilidades. De acordo com Bell. Herdeiro direto de noções da cultura européia que se perpetuaram como dogmas na esfera jurídica ao longo dos séculos. e uma certeza fundamental: o aumento crescente da incerteza. Considerações iniciais Historicamente.2 a incerteza. hoje defronta-se com movimentos de forças sociais desconcertantes que desafiam reiteradamente a dogmática jurídica tradicional. em sociedades capitalistas avançadas pós-industriais. Não obstante. Cf.

e a aptidão técnico-. 11). 218. do direito concretizado.ue a desenvolve em termos epístemológicos. mas através de rupturas e revoluções. valores. difícil de enquadrar e apreender em modelos normativos convencionais. o texto da norma aos casos concretos a ele submetidos.notadamente depois do fim da Segunda Grande Guerra . lingüística do legislador de juridificar as condutas reputadas imperativas. o que parecia certo e seguro. através do sistema ensaio-e-erro.sob o paradigma3 teórico jusposi- trial tinha como distintivo a dependência da força bruta de trabalho e do extrativismo das matérias-primas naturais. uma mudança no eixo da abstração. nas modalidades de conhecimento.). pois. cf. Esta nova configuração societária seria particularmente indicativa do "aparecimento de novas estruturas e princípios axiais: uma sociedade produtora de bens transformada em sociedade de informação. em maior ou menor grau. Verificado o descompasso entre a realidade altamente cambiante. definindo-o como uma "constelação de crenças. 531). a ciência não se desenvolveria linearmente por acumulação de dados. ou seja. epicentro da cultura jurídica européia continental desde o século XVIII. das condições de vida e relações sociais na atualidade. p. XX . na comteporaneidade. partilhadas pelos membros de uma comunidade [científica] determinada ". é uma manifestação da lógica da organização socioeconômica e uma modificação no caráter do conhecimento" (O advento da sociedade pós-industria!. técnicas. p. Como. Ainda de acordo com Kuhn. 538) A noção de paradigma aqui adotada converge com a de Thomas Kuhn. Selected studies in scientific tradition and change..". resta ao intérprete a árdua tarefa de compatibilizar. assistimos no curso do séc. a chamada sociedade pós-industrial "representa uma transformação crescente não planejada. com o intuito de dirigir as inovações e a formulação das Unhas de ação". O momento atual de crise de degenerescência e contestação da orientação de índole juspositivista dominante parece apontar para a eclosão de uma virada rumo a um novo modelo de direito consentàneo com o mapeamento da realidade típico de sociedades hipercomplexas. no orbe jurídico de um movimento mais amplo de mutação paradigmática constatado e anun302 . cabe ressaltar que a idéia de ruptura com o paradigma teórico positivista sinalizaria para uma repercussão. para a teoria e codificação do conhecimento teórico. então.(introdução a uma ciência pós-moderna. Por sua vez. etc. operantes segundo lógicas e contextos históricos assaz diferenciados. no caráter da sociedade.ao deslocamento cêntrico rumo ao fortalecimento da figura do intérprete.. Após o império da lei e da instituição parlamentar. p. e mesmo moderno.convenientes ou oportunas.Antônio Carlos de Almeida Diniz constituem a tônica dominante da ordem dos dias. Nessa medida. válidos e eficazes sob aqueles parâmetros. Segundo o diagnóstico de Boaventura de Souza Santos. também do mesmo autor The essential tension. (Idem. o. "a época em o^ie vivemos deve ser considerada uma época de transição entre o paradigma da ciência moderna e um novo paradigma. conciliar a eventual antinomia de paradigmas tão dicotômicos. à luz dos instrumentais hermenêuticos de que dispõe. de cuja emergência vão se acumulando os sinais. e. que passa do empirismo ou improvisação. ou erudita. 293 e s. p. com pretensões de validade surgidas segundo múltiplas configurações de demandas e impositivos sociais? Num contexto situacional pré-moderno. o valor exsurgido da jurisprudência. Em não poucos casos. o próprio rigor e preciosismo formal de muitas legislações na descrição das condutas normalizadas faz com que nunca se consiga . p. Cresce de importância. parece cediço a um novo comportamento fugidio e mutante. por mudanças de paradigma.(A estrutura das rero^uções cientificas.

e se consolida como movimento cultural entre os anos 70 e 80 do último século principalmente através da obra de pensadores como Jean-FVançois Lyotard. p. da época da cultura européia que. Pós-modernísmo. uma reacção contra as tendências generalizadoras e racionalizadoras da 'modernidade'. cit. Harvey. arquitetura.O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno: Perspectivas e Desafios Ativista atual . A condição pós-moderna. em geral. sociologia. Não por acaso muitas dessas mutações se evidenciam. As antigas pretensões universalizantes de validade e eficácia dos enunciados normativos. aptos a gerar incerteza quanto ao seu desenlace e a desafiar até mesmo as tipologias hermenêuticas jurídicas mais elásticas. O fim do social e o surgimento das massas. Georges Bataille.5 Depois de perpassar campos tão diversos como história.. mormente no campo do Direito Constitucional. "O fim da filosofia e a tarefa do pensamento". Frederic.niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. em detalhe Santos. Como preleciona Antônio M. op. Vattimo. pp. Bell. de influxo iluminista. À sombra das maiorias silenciosas. David. Pós-modernismo. em virtude de seu privilegiado grau de permeabilidade aos inputs dos sistemas político e econômico e das demandas mediatizadas da sociedade civil. a propósito Jameson. In: Conferências e escritos filosóficos. Daniel. que o nível mais adequado para conhecer e organizar é o geral. sob este título se abrigam múltiplas correntes doutrinárias e filosóficas. A condição pósmodema. Jameson. "Os Pensadores". esse conhecimento e essa organização são progressivos e aditivos. assume ares de relevo crescente tanto a figura do intérprete-julgador quanto das técnicas de hermenêutica jurídica. O advento da sociedade pós-industrial. até o cientismo triunfante (no domínio das ciências duras e no domínio das ciências sociais) da nossa época. o global. 303 . Martin. op. Introdução a uma ciência pós-moderna. cit. Gianni.. Hespanha. Postmodernity and its discontents. Zygmunt. A lógica cultural do capitalismo tardio. Neste vácuo social de exigência progressiva por novos quanta de concreção normativa. "o pós-modernismo representa. por outro lado. Uma tentativa de previsão social. Sobre a temática "pós-modema" cf. Col.)Cf. Frederic. desde o Iluminismo. antropologia. 64-81.4 Como é de se supor. Jürgen. Jacques Derrida. este movimento adquire densidade crítica e filosófica. emerge nas últimas décadas uma mobilização cultural alternativa e ambiciosa qualificada de "atitude pós-moderna" . 13 e ss. crê. Bauman. Habermas. Jean.. Na esteira da idéia de modernidade como projeto "civilizatório" e marco epocal. Introduçãoa uma ciênciapós-moderna. O fim da modernidade . cedem lugar a um formidável espectro de variáveis e conteúdos concretos fortemente indeterminados. pp. Heidegger. O discurso filosófico da modernidade. [o sistemático] e que. por um lado.acompanhar satisfatoriamente a velocidade vertiginosa dos potenciais de conflito e de solução de controvérsias nos mais diferentes campos relacionais. é mister reconhecer. Jean-François. como alternativas aptas a enfrentar em alguma medida os novos desafios materiais e funcionais desenhados no horizonte do direito. especialmente: Lyotard. Michel Foucault e Gianni ciado nos domínios das ciências duras e sociais (cf. Santos. Jean Baudrillard. A lógica cultural do capitalismo tardio. ou seja. Boaventura de Sousa. representando vitórias sucessivas sobre a irracionalidade e a desordem" (Panorama histórico da cuítura jurídica européia. BaudiillaEd. pp. Boaventura de Sousa. 11 e ss. 246). via esfera da opinião pública e meios de comunicação de massa.

define a virada paradigmática. das utopias. Otília Fiori e Arantes.* ambiciosos programas de superação. p. o corte ou distanciamento crítico para com os valores. In Arantes. Canotilho. com os erros dos.6 O cântico entoado pelos mentores da atitude pós-moderna celebra o fim da história. há pensadores de nomeada como J. Paulo (orgs. a despeito das aporias nas. pp.1. ("Modernidade . o seu mundo apresentava. sobre urn sentido seguro da história. as evidências de "que a modernidade como projeto universalista de 'civilização' estabelecido sobre o otimismo de um progresso tecnológico inelutável. a despeito de seu notável fôlego intelectual que os colocava em muitos aspectos à frente de seu próprio tempo. da razão instrumental. J. J. na 9. 11-19. Arnaud. 44). Nesse sentido. 1990. não acredita que a fonte do.um projeto inacabado".l c-uais desembocaram historicamente em suas tentativas de concretização.impulso moderno tenha se esgotado. uma conformação bastante simplificada. Habermas. Conquanto o vocábulo "pós-moderno" esteja distante de uma acepção consensual. do progresso e da emancipação. ponto cego no projeto moderno de Jürgen Habermas. após um balanço panorâmico. potenciais emancipadores contidos nos ideais iluministas clássicos. Ulrich Beck e Albrecht Wellmer que defendem sua continuidade e. e considera até mesmo viável o resgate contemporâneo dos. "O que é o Iluminismo?" In "A paz perpétua e outros opúsculos". 304 .Antônio Carlos de Almeida Diniz Vattimo. 197-198. enquanto marco histórico e categoria de época. p. A emergência e consolidação do discurso pós-modernista se firmam à custa de um diagnóstico cético e pessimista relativamente aos projetos e ideais modernos herdados da Ilustração7 européia. pp. sobre um domínio racional e democrático de um real entregue a diferentes utopias revolucionárias de um futuro emancipado. O Direito na era da complexidade e da contingência Os principais mentores da Ilustração européia. Habermas. "O Direito Constitucional entre o moderno e o pós-moderno". ao invés de dar por perdidos a própria modernidade e seu projeto". e quiçá •. fórmulas e modelos tributários do Zeitgeist moderno.á aprendizado com "os desacertos cjue acompanharam o projeto da modernidade. desde que se processe o. conquistas. aceitavam o fato de que a tarefa do homem Cf. pode-se citai como denominador comum entre os diferentes discursos sobre a pós-modernidade.).. p. No contrafluxo dos apologistas do discurso pósmoderno celebratório do fim do programa da modernidade. Em maior ou menor grau. André-Jean. 78. tempos de reavaliação e desconstrução (unmaking) das velhas formas. frente ao nosso. mal poderiam imaginar o mundo no qual vivemos hoje. Uma delimitação clássica do significado do Iluminismo pode ser encontrada no texto de Kant. Revista Brasileira de Direito Comparado. Anthony Giddens. pertinência. En tomo a Ia posmodemidad. promessas e concepções inerentes à autocompreensão da modernidade. 118). Os seus apologetas anunciam quase profeticamente a chegada de "novos tempos". com algumas variações. dos custos e benefícios hauridos do legado da modernidade. De fato. o "pós" de "pós-modernidade".s 2. O Direito ante a complexidade das sociedades pósindustriais 2. haja entrado em crise nos anos 70" (Christine Buci-GIucksmann apud Inãki Urdanibia In Vattimo. Gianni et alü. por exemplo. provisório. Direito entre modernidade e globalização. Gomes.

e. Zygmunt. E nada mais justo que aumentando a coletividade humana o seu conhecimento sobre o mundo. tanto mais poderia controlá-lo e direcioná-lo em seu próprio proveito. num cenário social (te)matizado pelos riscos. that tomorrow's present .and só there is little the individual can do today to make sure that the results he or she wishea to hold tomorrow will be achieved". 'domesticated' and 'tarned' part) does not bind the future. ou em outros. parece associar-se muito mais a uma possibilidade concorrente com outras de que algo aconteça ou se verifique de uma forma e não de outras. Tbdavia. sujeitaria à dominação humana o que outrora fora o domínio de outras influências". muitas fronteiras ainda restavam por ser desbravadas em domínios ainda desconhecidos da sociedade e da natureza. Postmodemity and its discontents. painful and sickening feeling of perpetuai uncertainly in everything regarding the future. vide Brüseke. The fast and continuously accelerating pace of change makes one thing certain: that the future will not be like the present. o simples excluir de possibilidades não assegura a certeza do que se espera. cambiantes e complexos vê-se marcada por alto grau de contingência e indeterminação. assim. De fato. confiança.10 A certeza já não é mais a segurança proporcionada pela expectativa em torno da obtenção de uma resultante predefinida. a expectativa de acerto implica uma escolha entre várias possibilidades. 192. In Modernização reflexiva: política. 10 Bauman sustenta com particular sagacidade que "the torments are many. 305 . but they ali boil down to the noxious. a incerteza. pp. vivemos numa inserção de época em que a certeza é uma variável em meio a outras. a vida em contextos sociais altamente diferenciados. a consciência da certeza e da congruência na reprodução e ordenação do modus vivendi humano era o standard. Anthony. agora opera-se um movimento contrário sinalizante para a consciência da contingência e indeterminação como regra. o que antes parecia certo agora se torna incerto. diante de múltiplos cenários de concretização.O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno: Perspectivas e Desafios era dominar e domesticar as forças da natureza. A técnica e os riscos da modernidade. 219. tradição e estética na ordem social moderna. e até bem pouco tempo. A certeza mais do que nunca se torna indissociável do seu "outro". A certeza num certo sentido. Assim. De outra forma.11 poder-se-ia dizer que as certezas daquela visão simplificadora e reducionista da alta modernidade transmudam-se nas incertezas da pós-modernidade.beyond reasonable doubt . p. portanto. But the quick succession of futures dissolving into a sucession of presents also teaches as well . Pranz J. {Bauman. Giddens. 9 Cf. p. Afinal.9 Posteriormente. de fato. 13-55. colocando-as a seu serviço.) 11 Para uma visão panorâmica da discussão em tomo da teoria dos riscos e suas implicações filosóficas e sociais.that today' s presents {at least its subjectively mastered. "Risco. Nos anos setecentos e oitocentos. a progressão do conhecimento humano haveria de demonstrar o quanto a realidade seria mais complexa do que supõe este modo de pensar. reflexividade". De tal modo que a ampliação do conhecimento produzido acerca das esferas social e natural resultaria em maior certeza sobre a forma de conduzir a vida humana "e. Enquanto na pré-modernidade.

mutações. se substituem os 'resultados seguros' de uma investigação por mais uma eventualidade. Um cético poderia perguntar: não há nada novo aqui? A vida humana não foi sempre marcada pela contingência? O futuro não foi sempre incerto e problemático? A resposta para cada uma dessas perguntas é 'sim'. mais. "atualmente. uma possibilidade ou um ponto de vista. por assim dizer. complexo e multividente. sem descurar obviamente da preservação dos recursos intrínsecos e da própria identidade normativa do sistema jurídico. "à medida que crescem os horizontes do saber. a explosão populacional desmedida. cresce. Maria Celina Bodin de. 13 Modernização reflexiva. a um approach ulterior plurívoco. do desconhecimento e. na mesma proporção. não haverá mais tempo hábil para transformar a enorme massa de dados que já se encontram à disposição em conhecimento e. Logo. a característica de nossas vidas é o que se poderia chamar de 'incerteza fabricada'. 98). Isto ocorre tanto nas nossas vidas individuais quanto na da humanidade como um todo. é imperioso reconhecer que. p. cartesiano e monocausal cede lugar. O diagnóstico de um real não mais encarado como linear. op. Neste particular. com notável propriedade Anthony Giddens acentua que. generalizações. Por outro. Com facilidade. 220. quase em toda parte enxergamos a possibilidade de catástrofe. assim. imperativo adotar-se novas interfaces epistemológicas multividentes ou multirreferenciadas. portanto. Não é que atualmente nossas circunstâncias de vida tenham se tornado menos previsíveis do que costumavam ser. a qual gera. Por um lado. podemos facilmente discernir muitas novas oportunidades que potencialmente nos libertam das limitações do passado. cit. o leque das questões sem solução. o que mudou foram as origens da imprevisibílidade. em informações passíveis de dominação ou de certeza" (Moraes. muitos aspectos de nossas vidas tornaram-se abertamente organizados apenas em termos de 'suposições de cenário'. paradoxos e indeterminações oferecidas pela complexidade do sistema social contemporâneo. Muitas incertezas com que nos defrontamos hoje foram criadas pelo próprio desenvolvimento do conhecimento humano". E em muitos momentos é difícil dizer com qualquer grau de segurança que direção as coisas vão tomar. por outra parte.113 Inelutavelmente. a construção 'como se' dos possíveis resultados futuros. se incrementa a consciência da própria ignorância. 12 Em decorrência de tais fluxos e influxos cognoscitivoa excepcionais característicos deste Zeitgeist. e. novas incertezas. De repente. Constituição e Direito Civil: tendências. 306 . de sorte a lidar com a torrencialidade de variáveis. p..Antônio Carlos de Almeida Diniz O acúmulo e expansão exponenciais de conhecimento humanoi2 em quase todas as áreas. ensejariam relativamente ao mundo de dois séculos atrás um fabuloso aumento da contingência.

. embora de caráter abrangente e variável. ib. 307 .. em contrapartida. anomalias e riscos a serem enfrentados não apenas individualmente.) No mundo pré-moderno todos podiam imaginar como ." (Modernidade e ambivalência.. onde o nível de complexidade. Diante de um quadro marcado pela perplexidade crescente ante cenários socioculturais fugidios. de determinação. comporta notadamente: "(1) os perigos (conhecidos e desconhecidos) gerados pela moderna tecnologia.. previsibilidade e equilíbrio se faça na mesma proporção. homens e mulheres têm pouca clareza do resultado de suas ações (. Por outro lado. significa ter em mente que "não há nenhuma saída certa para a incerteza. fundado sob uma lógica causal-identitária. corporações. classe.336). 1. grupos de nações. como nações. "ao lado de categorias e conceitos jurídicos como contrato. direito subjectivo. de recursos.. viver sob o influxo de uma consciência pós-moderna. Bauman. Viver na incerteza é traumático. Tanto que do ponto de vista da consciência moderna "a passagem da incerteza para a certeza.). mas por coletividades inteiras. indeterminação e variabilidade aumenta em gênero. não há como deixar de concordar com Agnes Heller que "em função da rapidez do processo de transformação. Hoje.. Viver na incerteza de significados e de valores é ainda mais". 15 A modernidade sempre lidou com a incerteza como "uma aflição temporária". de conhecimento". número e grau sem que necessariamente a contrapartida de estabilização. p. nenhum de nós sabe grande coisa.O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno: Perspectivas e Desafios Como já insinuamos. pela contingência que se recusa a ir embora. (3) as potencialidades do domínio tecnológico da natureza e da pessoa. A vida contemporânea nestes âmbitos sociais. indivíduo. traz consigo urna série de novos desafios. de que a fuga à contingência é tão contingente quanto a condição da qual se busca fugir. capital. 250) 16 Conforme acentua Canotilho. 21. no entender de Z. integração. a própria configuração complexa das sociedades pó s-industriais induz acentuadas metamorfoses em alguns dos parâmetros habituais de comportamento e de valores mais caros às estruturas modernas tradicionais. Se considerarmos a 14 Helier. trabalho. não se faz para muitos sem um certo mal-estar.viveriam e o que fariam. da ambivalência para a transparência. p. parecia ser uma questão de tempo.15 Não obstante. associações comunais etc. Agnes. Uma crise global da civilização: os desafios futuros.. p. o aumento do risco16 e da incerteza nos ambientes coletivos insta por novas formas de racionalidade regulatória compatíveis com o acentuado e peculiar dinamismo das mutações em curso. O conceito de risco. racionalização.14 A anunciada falência de um certo tipo de racionalismo determinista ancorado em regras e princípios mais ou menos lineares. O desconforto que tal consciência produz é a fonte de mal-estares especificamente pósmodernos: o mal-estar pela condição repleta de ambivalência. (2) as ameaças de toda a civilização planetária (Beck). (4) os desafios colocados às comunidades humanas no plano da segurança e previsibilidade perante eventuais catástrofes provocadas pela técnica e pela ciência" (/d. o conceito de risco parece cristalizar as experiências fundamentais das sociedades altamente industrializadas" (Direito Constitucional e Teoria da Constituição. consoante o juspublicista lusitano..

18 Significando aqui o "estado de um conjunto diversificado que desafia as possibilidades de compreensão ou de gestão em razão da multiplicidade e da variedade de seus elementos constitutivos e de suas mter-relações"(-Dj'cj'onário enciclopédico de te0n'a e de-sociologia do direito. O método vigente de racionalidade do direito eminentemente formal e aplicável a hipóteses presumíveis. 112). confrontado com sua perda gradativa de operacionalidade e eficácia das decisões junto às tessituras do corpo social. o novo status sociocultural alcançado pelas sociedades pós-industriais pede por uma mudança epistemológica em cadeia. a própria noção de "complexidade"i8 soa antipática19 aos positivistas tradicionais. Edgar & Lê Moigne. previsibilidade de condutas e de mecanismos de controle social parecem se esvanecer ante o aumento do risco e da contingência. Kaufmann. Sintomas da mutação paradigmática pós-moderna na esfera jurídica Num compasso mais tardio. ainda que timidamente. 308 . Jean-Louis "Sobre a modelização da complexidade". 219. ou cognitiva-instrumental como prefere Boaventura Santos. não será difícil perceber por que a crise desta última no domínio das demais ciências acaba repercutindo direta ou reflexamente. no modus operandi do direito. em se considerando que a matriz dogmática do sistema jurídico opera sob um forte acento positivista-legalista. E. Atthur. linear e hierárquico. Não por outro motivo. o fato da transdisciplinaridade induz ressonâncias para além do círculo epistêmico de cada ramo do saber autonomamente considerado. A eterna busca de segurança. relativizando dogmas jurídicos antes tido por inquestionáveis. Lê Moigne. Jean-Louis. Todavia.2. dá claros sinais de esgotamento. mais ou menos tarde. com um misto de desconfiança e resistência. La filosofia dei derecho en Já poamcderoidatí. condicionados por um paradigma epistemológico essencialmente causai. Fato compreensível.17 Evidentemente. dos das ciências naturais. p.Antônio Carlos de Almeida Diniz racionalidade jurídica em sua vertente dogmática positivista como um derivado da racionalidade formal. como tal. pp. e mormente. 2. massiva e não apenas em loci científicos autônomos. 15 e ss. Não por acaso. tais for- 17 Cf. o direito se ampara sob critérios de justificação diversos não apenas das demais ciências sociais com as quais é fronteiriço como também. e não por acaso. e incitando a seu turno uma crise paradigmática no sistema jurídico. por meio de ilações e operações lógicas elementares de subsunção do texto normativo aos casos específicos. o Direito tem sido alvo de renovadas contribuições provenientes das concepções pós-modernas. A inteiigência da complexidade. p. 19 Cí. In Morin. As incertezas reinantes num meio social marcadamente permeado pelo aumento do risco e da contingência abalam os alicerces das teses positivistas tradicionais.

M. diz Kuhn. Ost. Esta estrutura tensional de pensamento. Autopoíese do Direito na sociedade pós-moderna.O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno.2i Mesmo porque. 226). também o Direito deve adaptar-se às situações fáticas desusuais e 20 Cf. André-Jean e Dulce. Doxa. "Tbdo o trabalho científico". Wíllis Santiago. p. cujo desenvolvimento é ditado em grande parte pelos novos paradoxos. só se renova eliminando o seu passado. J. Sousa. na 189-1998. Hercules. Farinas. sociologia e filosofia jurídicas. A propósito desses marcos significativos no 309 . p. 23. da real procedência dos reclamos sociais por renovação e oxigenação das formas jurídicas dominantes e mesmo da ideologia a elas subjacente não segue-se necessariamente o diagnóstico da atual crise paradigmática do Direito como uma crise de ruptura total com a herança jurídica ilurninistamoderna e mesmo pré-moderna. "A crise cientifica do Direito na pós-modernidade e seus reflexos na pesquisa". da mitologia romana. "se caracteriza por ter alguma divergência e as divergências gigantescas estão no próprio cerne dos episódios mais significativos do progresso cientifico" (The essential tension.quiçá em decorrência de sua natureza mais aberta e fronteiriça . pp. 22 Inspiro-me aqui na conhecida alegoria referida por Ihering em seu clássico A luta pelo Direito. J. n° 14-1993. não apenas o próprio moto de que se alimentam usualmente as investigações cientificas como ainda fornece o terreno fértil para a eclosão. 21 Cf. introdução à análise sociológica dos sistemas jurídicos.20 Áreas que . Dulce. Para tanto. Cláudia Lima. Amaud. La filosofia dei derecho en ia posmodernidad. que devora seus próprios filhos. Guerra Filho. no quadro traçado por Kuhn. a filosofia e a teoria política.g. Los derecfios humanos: desde Já perspectiva sociológico-jurídica a Ia "actitud posímoderna ". entretanto. numa escala maior. Malgrado opiniões em contrário. B. Arnaud. Marciues. André-Jean. Arthur. O pensamento divergente implica a liberdade de enveredar por caminhos diferentes e desusuais. nesse sentido v. não partilhamos do discurso "desconstrutivista" radical de que o Direito. André-Jean. daqueles momentos de crise e renovação paradigmática. O Direito entre modernidade e globalização. "Júpiter. Perspectivas e Desafios mulações têm aportado e permeado pioneiramente o Direito via contribuição de estudiosos engajados com os domínios da teoria. que o sistema jurídico sofre repercussões de determinadas concepções teóricas pós-modernas (epistêmê pós-moderna). Santos. Farinas. M. O Direito entre modernidade e globalização.22 Como as demais ciências. dilemas e tensões entre diferentes formas de pensamento2^ com que se defrontam no curso dos séculos. sem necessariamente assumir tal condição per se ou admitir explicitamente o seu ingresso na fase pós-moderna. representa. Deve-se destacar. 23 Nota Thomas Kuhn com pertinência que a tensão entre pensamento convergente e pensamento divergente é essencial para o avanço científico. Arquivos do Ministério da Justiça. a liberdade de contestar os fatos ou os conceitos mais "auto-evidentes" requer dos pesquisadores a ausência de pré-conceitos e a abertura para novas e improváveis possibilidades. como a sociologia. direta ou indiretamente. Hermes: três modelos de juez". à maneira do deus Saturno. François. rejeitando antigas soluções apontadas por uma tradição científica anterior e propondo novas. entre distintas formas de se encarar e mapear a realidade. Arnaud. 197 e ss. Critica da razão indolente.guardam precisamente maiores pontos de aderência e imbricação com os influxos teóricos emanados de disciplinas afins ou conexas. nos quais as velhas crenças e técnicas são descartadas e substituídas por ouUas novas. Kaufmann.

Tempos conducentes "a maior maleabilidade na jurisprudência. seja discursivamente. (Id.. por isso. 53). Neste sentido. crises que atravessam todas as disciplinas. 24 No caso brasileiro. a pós-modernidade configura "uma tentativa de descrever o grande ceticismo.. Sousa Santos. Autopoiese do Direito na sociedade pós-modema. no modelo de Estado. do direito à diferença. institucional. pelo prazer. e mesmo nas ciências duras. pela razão ou somente pelos valores que apresentam"... nas formas de economia. A autora em comento considera os "tempos pós-modernos" assaz desafiadores para os rumos subseqüentes do direito como um todo." (op. Para uma abordagem da pós-modernidade em associação com recursos da teoria sistêmica da sociedade. 16. renovando-se. nos princípios e valores de nossos povos. esculpidos pela revolução burguesa e substituídos por muitas quase rnetanarrativas simultâneas e contraditórias. de olhar o mundo e de exercer a ciência em favor de uma outra abordagem de sua disciplina.) de comunicação irrestrita. o fim do racionalismo.. 23). ("Igualdade entre filhos no direito brasileiro atual . ainda que de modo desigual. e não necessária 310 . a cultura e as ciências em geral acabam por ecoar e influir sobre a própria autocurso do desenvolvimento das ciências. E disto resulta o enorme valor por elas assumido para efeito de otimizar a auto e heterocompreensão da mudança paradigmática em processamento.Antônio Carlos de Almeida Diniz complexas permanentemente trazidas à baila. uma de suas mais sistemáticas estudiosas no campo do direito privado (cf. Wiílis S. cit. tempos de urn individualismo necessário. "A crise científica do Direito na pós-modernidade e seus reflexos na pesquisa".. sem se descaracterizar ou perder sua identidade normativa de fundo.direito pós-modemo?" Revista da Faculdade de Direito da UFRGS.. guardam pontos de convergência e afinidades eletivas com o sistema jurídico. na ciência. Arquivos do Ministério da Justiça.. seja ideologicamente. e que as atravessam a um nível mais profundo. pelo consenso momentâneo. tende a ser enviesada no sentido de considerar o conhecimento científico corno uma prática de saber entre outras. não nos ocuparemos das controvérsias doutrinárias acerca do significado da pós-modernidade. Neste estudo. Nestas crises. nos valores e visões por ela consolidadas. Muitas dessas neotendências paradigmáticas verificadas em outras ciências humanas. 25 Consoante B. v. A sintomatologia da crise paradigmáticas5 contemporânea que atravessa as artes.. ibid.). Significam o pôr em causa a própria forma de inteligibilidade do real que um dado paradigma proporciona e não apenas os instrumentos metodológicos e conceptuais que lhe dão acesso. pela parceria consciente e limitada. "as crises de degenerescència são crises do paradigma. Segundo sustenta. na 189. a insegurança jurídica que se observam efetivamente na sociedade. de todo oportuna a referência às pesquisas de Cláudia Lima Marques. (.a reflexão epistemológica é a consciência teórica da precariedade das construções assentes no paradigma em crise e. 1999. decisões e normas legitimadas não mais pela lógica. p.24 nos interessará mais de perto examinar algumas das principais perspectivas e indicativos que se inserem no orbe jurídico em razão do contato com neotendências filosóficas e culturais alternativas ao paradigma positivista de direito amplamente dominante nas sociedades ocidentais. quanto à capacidade da ciência do direito de dar respostas adequadas e gerais aos problemas que perturbam a sociedade atual e modificam-se com uma velocidade assustadora". "Tempos de ceticismo quanto ao positivismo. o vazio teórico. normalmente incompatível". vide Guerra Filho. de legitimação peia linguagem. (.. outrora venerada.) de um ceticismo sobre o geral. de informatização. Kuhn assinala que as revoluções ou mudanças de paradigma evidenciam precisamente aqueles "episódios em que uma comunidade científica abandona uma forma. a temática da pós-modernidade e suas implicações na órbita jurídica carece de ser explorada com maior vigor analítico. Tempo de solução tópica. p. da perda de valores modernos.1998).

.. Nestes termos. os profissionais do Direito..O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno: Perspectivas e Desafios compreensão do sistema jurídico. O fosso abismai entre teoria e praxis.. Esses dados aparecem inevitavelmente contraditórios. mas mormente estruturais. massificação. Uma crise cujo mérito principal parece residir em criar um novo potencial adaptativo para o direito ante a evidência de conflitos e riscos cada vez menos simplistas e lineares. (Arnaud. segundo os parâmetros tradicionais. como responder às demandas de regulação diante das situações cada vez mais ininteligíveis.) 26 Realmente. 27 Neste sentido. 253). submisso ao determinismo. 252-253). pode-se distinguir como uma das principais evidências da atuação do novo paradigma o desencantamento com as insuficiências do positivismo legalista ainda reinante em muitos círculos jurídicos. p. cit. os da era das grandes codificações e seus sucessores. suas conexões imbricam-se... pp. caras aos que nos legaram essa concepção de direito. Fortes indícios e sinalizações surgidas desde algumas décadas no meio jurídico.." (Op. não podem permitir resolver situações complexas como as com que nós lidamos. temos a necessidade de nos abrir a uma outra compreensão dos fenômenos complexos". correspondiam a uma concepção de um universo simples. quase inexplicáveis. cit. já não sabem. vertiginosa progressão infotecnológica. aumento das desigualdades sociais.. AndréJean. a nova vaga de demandas sociais capitaneada por fatores conexos como pluralismo.(. entre o texto da norma positivada e sua concretização decisória à base de critérios de mente a melhor. 18. a mundialização da economia. catalisadas principalmente por elementos extra-sistêmicos. a crítica epistemológica elaborada nos períodos de crise de degenerescência não pode deixar de ser também uma crítica da epistemologia elaborada nos períodos de crise de crescimento".26 além de apontar para o imperativo do desenvolvimento de recursos e métodos aptos a enfrentar antigos e novos desafios emergentes em nível micro e macrossocial. p. a uma ordem programada.) Como esses dados já não nos satisfazem.. "as fórmulas simples a que nos tinham habituado os legisladores 'modernos'. baralham-se. A clareza e a simplicidade. Introdução à análisB sociológica dos sistemas jurídicos. 311 . globalização.. alcançando inclusive a própria identidade normativa de fundo do sistema jurídico. insta por uma nova configuração do sistema jurídico apta a responder à altura as exigências não apenas do presente (que já não são poucas).. O legislador. a aceleração das mutações culturais concorrem para ampliar esse fenômeno da complexidade. apontam para a necessidade de mudanças não meramente conjunturais ou paliativas. mas sobretudo de um futuro presumivelmente mais complexo27 e indeterminado. hoje. Como indicativos sintomáticos dessas mutações paradigmáticas em curso podemos mencionar: 1) Na esfera do direito.(.. Um olhar maniqueísta sobre a sociedade já não permite dar soluções puramente ideais a crises advindas de uma conjuntura complexa. op. entre muitos outros. muitas vezes. Com efeito. atrapalham-se. (Introdução a uma ciência pós-moderna.) As coisas tornam-se muito difíceis de serem apreendidas. ameaças naturais e artificiais à sobrevivência da espécie humana. o magistrado. pondera André-Jean Arnaud que a conjugação de fatores tais como "o desenvolvimento recente das tecnologias da informação.

J. "O Direito Constitucional entre o moderno.. p. precisa se antecipar. p. De tal sorte que a velocidade e o dinamismo das variáveis em curso precipitam a urgência transfiguradora do paradigma de direito dominante na modernidade.29 tendencialmente fluido. embora conheça variações contextuaís de um ordenamento nacional para outro.entre outros temas . aperfeiçoando-a e adaptando-a aos novos desígnios e reclamos típicos de sociedades pós-industriais. pp. Calsamiglia. Neste sentido. de refluxo da regulação jurídica na sociedade contemporânea. linear. a seu ver progressiva.. que. cit. seguida da virtual substituição do modelo de direito rígido. ou ao menos acompanhar o fluxo e refluxo dos novos impositivos sociais trazidos no bojo do devir civilizatório.questões relacionadas com a pretensão de correção moral do direito. a agenda dos teóricos identificados com o pós-positivismo prioriza . op.) 29 Cf. na 14-1993. a indeterminaçao jurídica e as relações entre direito e política. 312 . não raro demonstra ser o principal indicador das insuficiências e aporias do paradigma positivista. Ainda segundo este autor. Canotilho. (Cf. Hercules. ante o aumento da contingência e da complexidade já aludidas. 28 Para Alberto Calsamiglia. 88. alemães sobretudo. vislumbra-se indicadores da renovação. assume paradigmaticamente três grandes vertentes:30 a) desoficialização. na medida em que o processo de anacronização das formas jurídicas tradicionais açoda a perda de efetividade e de legitimidade do próprio direito. Doxa. ". podem ser denominadas de pós-positivistas as teorias que se insurgem contra as duas teses axiais do positivismo conceituai: a tese das fontes sociais do direito e a da inexistência de necessária conexão entre o direito e a moral. ao invés de esquemas puramente formalístícos. Após as tragédias da Segunda Guerra. "Júpiter. que se reflete na flexibilização da supremacia hierárquica das fontes formais do direito posto pelo Estado em favor de estruturas e mecanismos regulatórios de conciliação e solução de controvérsias mais indiretos e informais. 30 Cf. Doxa. Gomes. hierárquico e determinado da modernidade por um direito "mercurial". 187. "Postpositivismo". seja no sentido de superação radical da teoria positivista. na 21-1/1998. François.. formal. um direito que.28 ou por uma via moderada crendo possível levar a efeito uma correção de seus defeitos e limitações.Antônio Carlos de Almeida Diniz correção e justiça. Canotilho associa o aumento da informalidade no direito com uma tendência. Em decorrência desta nova compreensão seguiu-se uma série de contribuições de diversos especialistas. num primeiro momento. J. dos limites de um modelo de ciência jurídica calcado sob o juspositivismo. 209 e ss. Ost. de preferência a ver-se por eles avassalado. informal e adaptável. disseminou-se unia crescente percepção entre os juristas. Hermes: três modelos de juez".

como fator associado temos os enormes desafios adaptativos colocados ante um sistema jurídico às voltas com o espetacular e vertiginoso desenvolvimento científico e tecnológico dos últimos decênios. mudança de hábitos distópicos. a reprodução assistida. a responsabilidade pelos impactos sociais nocivos de certas decisões judiciais. 2) Por outro lado. Uma série de questões cruciais estão sendo trazidas à baila dos debates jurídicos em torno da ameaça potencial e ativa que representam para a segurança e estabilidade das relações sociais . Com efeito.31 3) Em conseqüência dos macrodesafios. Arnaud.O Direito entre o Moderno e o Pós-Modetno: Perspectivas e Desafios b) descodifícaçao: perda de espaço das grandes codificações como locus privilegiado das pretensões de inclusividade. a função específica do direito consiste em amortecer parcialmente os riscos associados ao descontrolado desenvolvimento tecnocientífico nos casos a ele submetidos mediante normalização e devido processo. a fim de viabilizar o construtivismo judicial nos casos difíceis (hard cases) submetidos ao Judiciário. nesse sentido. a sociedade civil deve encontrar recursivamente canais paralelos de minimalização destes riscos potenciais e ativos por seus próprios meios tais como campanhas socioeducativas. debates públicos conscientizadores. pp. O Direito entre globalização e modernidade. não é o único. formulação de políticas públicas preventivas.caso não se encontre uma resposta regulatória à altura sob a base de critérios ético-jurídicos . André-Jean. as questões atinentes à geração de inteligência artificial. Neste particular. estabelecendo limites definidos a um (sub)sistema social como o da ciência e tecnologia.. Mesmo porque embora o Direito funcione como o meio regulatório/pacificador par excelence dos conflitos sociais decorrentes destas variáveis. os danos ambientais de médio e longo prazo. cit. o perigo nuclear. homogeneidade e coerência de ramos inteiros do ordenamento jurídico.tematizações tão diversas como sejam as manipulações genéticas. Não que se tenha a ilusão de que o Direito per se seja panacéia universal para deter ou remediar os riscos potenciais e efetivos daí decorrentes. sempre que sua auto-regulação seja inexistente ou insatisfatória. op. como aqueles esboçados no item anterior. por maior abertura conceituai dos enuncia- 31 Cf. 313 . c) deslegalização: reversão de áreas de incidência normativa direta estatal em favor de sua auto-regulação por parte de indivíduos e grupos. as questões de gênero. Seus defensores pugnam. 225-226. é de se discernir uma tendência crescente para o emprego na técnica legislativa de cláusulas abertas e conceitos jurídicos indeterminados.

Tfeoría general dei derecho. p. dogmatismo e formulismo legal-procedimental em níveis estritamente indispensáveis à preservação da legitimidade e credibilidade das decisões. p. cibernética. resultando na eliminação de todo centro de produção jurídica que não fosse o próprio Estado". Certos autores associam o enfraquecimento da tendência tradicional de identificar o direito com o direito positivado pelo Estado como um correlato da crise na noção política clássica do sumiria potestas (poder supremo) típico dos Estados Nacionais.32 Em outras palavras. o aumento gradativo do espaço regulativo autônomo conferido aos juizes decorreria mormente da própria inaptidão funcional do legislador em prever e enquadrar satisfatoriamente sob a forma de normas cerradas ou muito específicas as condutas sociais a serem reguladas. a proximidade dos magistrados com os destinatários imediatos das normas e sujeitos de direitos subjetivos confere àqueles a enorme vantagem da interação com as peculiaridades e repercussões originárias dos litígios. 314 . "ocorre paralelamente à formação de um poder coativo cada vez mais centralizado e. Por outro lado. cit. 215. Norberto. à supressão gradual dos centros de poder inferiores e superiores ao Estado. "A formação do Estado moderno". Postpositivismo. sem um espaço regulativo autônomo adequado para ser preenchido pelo intérprete em seu contato direto com as variáveis do caso concreto. 33 Bobbio. descreve Bobbio.Antônio Carlos de Almeida Diniz dos normativos.. cada vez mais repletas de variáveis e contingências em franca mutação.33 Entretanto. uma tendência auto-afirmante no sentido de se deslocar a ênfase do direito legislado para o direito construído judicialmente. a ciência. portanto. redução-flexibilização do formalismo. resgate do valor hermenêutico da principiologia jurídica. desde fins da Segunda Grande Guerra. 4) O Estado moderno se formou e se firmou à base da concentração estrutural de todo o poder normativo e coativo derivado da pluralidade de ordenamentos jurídicos coexistentes (em regime de oposição ou integração) na sociedade medieval. a idéia de um direito identificado exclusivamente com a produção jurídica estatal vem perdendo força. op. Com a ampliação da indeterminação provocada pelo aumento da contingência em diversos setores como a economia. e 32 Cf. com o surgimento de entidades supranacionais governamentais e não-governamentais. portanto. 21 (tradução livre do espanhol). relações familiares e seus interstícios. as prescrições legislativas tornam-se rapidamente caducas e ineficazes. ante o fenômeno da fragmentação das soberanias nacionais decorrente de mecanismos da globalização: de um lado. Isso demarca. Calsamiglia. Alberto. a ecologia.

analogamente ao que se passa no domínio político. 381 e ss. M. e que hoje tem se revelado não raro ineficaz e despropositada. Tais modos ou espaços regulatórios emancipados do controle normativo oficial atuam frente às estratégias centralizadoras. temos setores em que a presença estratégica do Estado em outros tempos seria não só desejável como considerada indispensável.34 Constatado o fato da pulverização do poder característica da época atual. Ernesto. O diagnóstico cartográ315 . cit. p. operando no circuito social como seus equivalentes funcionais. op. 37 A questão da convivência e interseção entre os diversos âmbitos de incidência regulatória jurídica é particularmente desenvolvida no pensamento de Boaventura de Sousa Santos através de conceitos-chaves e correlatos como pluralismo jurídico e interlegalidade. André-Jean e Dulce.. J. nos quais a ausência ou o mínimo de interferência estatal é encarada como uma condição sine qua non para se desenvolverem e se propagarem exitosamente. ou por ambas. dirigistas e planificadoras do regulacionismo jurídico estatal.37 O fenômeno da policentricidade regulatória traz ainda em seu bojo uma reviravolta profunda nas concep34 Cf. 35 O termo é tomado de empréstimo a Arnaud. Farinas. Por conseqüência. cit.. ternos a de s legalização e desregulamentação de determinados setores da economia. o Estado se abstém de regular oficialmente determinados âmbitos de relações sociais potencialmente conflitivas. corporações e associações da sociedade civil. "O Direito Constitucional entre o moderno. Gomes.36 gerados no âmbito daqueles entes autônomos institucionais. onde se verifica uma forte inclinação à minimalização do contencioso judicial em favor da livre negociação entre as partes envolvidas nos conflitos decorrentes das relações de trabalho. Canotilho fala de um refluxo do direito positivado pelo Estado em favor de um direito sem Estado.". passando então a ser normatizado por critérios estabelecidos por grupos. qualificado pelo que chama de "modos de regulação da reserva normativa da sociedade civil". opera-se um traslado axial do topos regulatório estatal concentrado rumo a uma divisão de poder em função da policentricidade resultante da autonomização de nichos regulatórios alternativos.^ Convém assinalar que. p. pp. Grün. 36 Canotilho. este espaço regulatório se autonomiza relativamente ao controle estatal direto. cit. a policentricidade no âmbito do direito também faz eco e repercute de maneira a debilitar gradualmente o monocentrismo da produção normativa legítima estatal. Em um ou outro caso. assistindo a uma neotendência à informalidade. 81. De um lado.O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno: Perspectivas e Desafios do outro. J. op. 172. a exemplo da intervenção estatal na resolução judicial dos dissídios trabalhistas. sob o influxo das "forças do mercado". com o aparecimento e fortalecimento de centros de poder infraestatais.. alguns analistas fazem menção ao fenômeno da policentricidade. constata-se a formação e consolidação de espaços reguladores autônomos no seio da sociedade civil. De outro. op. J. Introdução á análise sociológica dos sistemas jurídicos. Por inépcia ou conveniência...

(org. "A crise científica do direito na pós-modernidade. Revista Brasileira de Ciências Criminais ns 131996. Santos. do obscurantismo a que foi relegado pela ideologia sistêmica oficial.. 253-277) Grün.Antônio Carlos de Almeida Diniz ções monopolistas clássicas da jurisdição estatal. O autor evidencia ainda o relevo e propriedade de se resgatar o senso comum jurídico. e/t. do problemático. entre múltiplos códigos geoespaciais de representação e de simbolização jurídicos demonstra solarmente a necessidade de se romper com o agrilhoamento tradicional ao dogma do monopólio estatal do direito. op. pp. No mesmo sentido.40 A aplicação da abordagem tópico-retórica41 surgida nos anos 50 assume especial relevo para a dogmática e hermenêutica jurídicas. "Uma cartografia simbólica das representações sociais: proíegómenos a uma concepção pós-moderna do Direito". a exemplo da busca de soluções via arbitragem e mecanismos de conciliação informal. (Cf.também na esfera jurídica. que apontam para uma individualização crescente das decisões. B. Cf. pp. nem sempre tão óbvias.. como os tribunais. do razoável. Hermenêutica e argumentação. através de mecanismos alternativos para a solução de conflitos como a negociação. para 'minimizar-se' e quiçá bifurcar-se. no que se refere ao plus de valorização do construtivismo judicial na era da complexidade e do risco. especialmente Maia. observa-se .". cit.39 uma (re)valorização do tópico. Cf. In 1988-1998: Uma década de Constituição. Hermenêutica e argumentação. Margarida L. Margarida L. enquanto forma de conhecimento válido em um contexto cientifico pós-moderno. p. do fragmentário. "Notas sobre Direito. 131 e ss. Margarida L. op. dentro de um movimento ampliado de virada metodológica pós-positivista. pondera Ernesto Grün: "O Direito começa a deixar de ser uma estrutura monolítica de grandes conjuntos de normas gerais legisladas por distintos órgãos e de aparatos genéricos para administrar a justiça. tradução livre do espanhol. pp. Marques. a arbitragem. nesse sentido Calsamiglia. Cláudia Lima. legisladores)".. Cf.).. pp. op. e Camargo. c/t. Postpositivismo. antes adotadas desde uma posição hierárquica (juizes. de Sousa. Antônio C. Carmargo. a propósito. 395-430. Ernesto. op. e se relaciona de perto com o tema abordado no item 3. Alberto.. argumentação e democracia". do pontual. 316 . 54.^ 5) No contrafluxo das cosmovisões (Weltanschaaung) sistemático-integradoras típicas da modernidade. A idéia de uma nova hermenêutica jurídica comprometida com a realização do direito a partir do resgate da dimensão tópico-problemática e retórico-negociai liga-se fundamentalmente à necessidade de se proporcionar ao intérprete instru- 38 39 40 41 fico do direito pós-moderno efetuado por Santos em termos da interação e mistura. a mediação e outros. 175. p. 131-156 e 185-252.no rastro da pósmodernidade filosófica . c/t. em favor de uma neoconcepção ampliada do fenômeno jurídico para recepcionar e estudar o direito infra e extra-estatal.. Camargo. em prol do encontro e descoberta de novos espaços regulativos de legitimação decisória emancipados do controle oficial.

44 Arnaud. voí. Obviamente. com o legado filosófico da antiga Grécia. Tome-se por ilustrativo a enorme dívida de Nietzsche e Heidegger. delimitado e transparente em sua autoconsciência.45 A idéia de uma racionalidade intersubjetiva parte da constata42 Cf. mas também. na i. In Dados . J. a propósito. A verdade e as formas jurídicas. Discurso filosófico da modernidade. 9-10. e sobretudo. pp. José Maurício.. In Discurso filosófico da modernidade. O Direito entre modernidade e globalização. e por via de conseqüência no centro do direito. 58-59. isto não é exatamente uma novidade à luz da percepção de que muito daquilo incluído sob o amplo "guarda-chuva" da condição pós-moderna é tributário de concepções e crenças remontantes à pré-modernidade. "Sistemas sociais e subjetividade coletiva".44 Entrementes.. especialmente Habermas. Albrecht. The persistence of modemity. em cuja fonte ambos beberam à saciedade. Domingues. and postmodernism. p. ethics. Entretanto. e descontando a crítica avassaladora desta concepção moderna de sujeito levada a cabo pelos pós-estruturalistas. 1996.Jean.razão comunicativa vs. 39. Michel. se levarmos em conta o fato de que a abordagem tópico-retórica remonta sua matriz inspirativa à antigüidade clássica. Habermas. 16. o descreve como auto-suficiente. cie. conferir maior legitimidade e eficácia no tratamento de situações fáticas complexas atuais e suposições de cenários futuros que requerem respostas convincentes e criativas. op. sob o influxo iluminista da "filosofia da consciência". 6} A concepção ainda amplamente difundida e dominante de sujeito42 na modernidade ocidental. O retorno à dimensão persuasiva dos embates dialético-argumentativos em busca de legitimidade na esfera decisória judicial aponta nitidamente {no sentido do item 3) para urna neoconscientização das insuficiências das construções hermenêuticas lógico-formais tradicionais no trato com a hipercomplexidade das controvérsias judiciais típicas de sociedades pósindustriais. Essays on aesthetics. 411-453. o forte acento subjetivista moderno posiciona o sujeito no centro do mundo (axís mundi). "Uma outra via para sair da filosofia do sujeito . De tal sorte que "a noção de sujeito se torna o conceito central da compreensão e da constituição de todo o sistema político e jurídico". André. 412 e ss. 317 .Revista de Ciências Sociais (Teoria e Sociedade). pp. pp. principalmente aos textos aristotélicos. J. p. 45 Ver. poder-se-á objetar que a ruptura com o moderno representaria paradoxalmente na verdade um retorno ao pré-moderno. considerados alguns dos principais inspiradores da atitude pós-moderna. pp.O Direito entre o Moderno e o Pós-Moderno: Perspectivas e Desafios mentais mais maleáveis ao seu exercício funcional. 43 Cf. novas perspectivas filosóficas pugnam pela superação desse enfoque auto-referente da subjetividade em prol de uma racionalidade intersubjetiva. razão centrada no sujeito". Wellmer. Foucault.43 Com efeito. 205. Rio de Janeiro. descentrada do sujeito.

Sinteticamente.4^ A concepção de sujeito hegemônica no mundo jurídico é. das ações afirmativas de direitos de minorias. Bibliografia APEL. O Direito entre modernidade e globalização: cinco lições de filosofia do direito. através de novos mecanismos normativos no âmbito do Direito Ambiental.. 1989. com vistas a uma relação mais equilibrada de forças entre liberalismo e democracia. ns 23. Identificando-se. ARNAUD. a impossibilidade de sobreviver impunemente à destruição da biodiversidade e ao esgotamento completo dos recursos estratégicos do planeta. "O desafio da crítica total da razão e o programa de uma teoria filosófica dos tipos de racionalidade". André-Jean. 318 . Rio de Janeiro: Renovar. inclusive. da garantia dos direitos de convivência pacífica intercultural e inter-étnica. Rio de Janeiro: Renovar. de reconhecimento gradativo de uma quase-subjetividade na natureza. apesar de esboçante na dogmática jurídica.Antônio Carlos de Almeida Diniz cão inevitável do caráter relacionai da própria conformação do sujeito. 2000. regulando temas de enorme significado e impacto como a proteção especial de ecossistemas ameaçados e de espécies em extinção. J. apropriação e transformação. op. M. cit. Maria José Farinas. ou seja. 46 Domingues. O que sinaliza para uma tendência a reduzir a ênfase nos direitos individuais-subjetivos em favor de uma concepção voltada para os direitos sociais-coletivos. 17. dá mostras de disseminação a partir de alguns ramos do direito. do reconhecimento de "quanto ele depende de interações sociais para sua constituição e continuidade". introdução à análise sociológica dos sistemas jurídicos. Novos Estudos Cebrap. uma tendência doutrinai. constata-se uma demanda crescente por reconhecimento e tutela de interesses difusos e coletivos. restrição da caça e pesca predatórias. até então mero objeto de conhecimento. queimadas etc. O postulado do descentramento do subjectum. DULCE. Descobrindo a espécie humana. a perspectiva descentradora do sujeito induz uma opção preferencial pelo "direito da solidariedade". inicia também nesta esfera um movimento de descentramento rumo ao reconhecimento da "alteridade" da natureza. 1999. do controle dos níveis de poluição. ainda que tardiamente. Não por acaso. p. Karl-Otto. fora de dúvidas. herdeira direta da subjetividade iluminista. no rastro da onda ecológica dos anos 80. ainda aquela vigente em muitos outros setores da vida moderna.

São Paulo: Brasiliense. 2001. As encruzilhadas do labirinto. s. 319 . . 1977.d. 1999. 1992. Agnes et alii. Joaquim José Gomes. Rio de Janeiro: Renovar. A verdade e as formas jurídicas. 1998. HARVEY. São Paulo: Cultrix. Madri: Dykinson.). Maria José Farinas. São Paulo: Loyola. FOUCAULT. Jean. 39. 1992. 1998. "Uma crise global da civilização: os desafios futuros". GUERRA FILHO. Alicante. DULCE. HABERMAS. Zygmunt. São Paulo: Martins Fontes. 2a ed. Ernesto. ed. Dados. vol. Paulo (orgs. Jürgen. 1999. Lisboa: Europa-América. A condição pós-moderna. 1992. Agnes. 1993. 1997. "Sistemas sociais e subjetividade coletiva". Direito Constitucional e Teoria da Constituição. n^ l. Willis Santiago. CANOTILHO. Modernidade e ambivalência. Los derechos humanos: desde Ia perspectiva sociológico-jurídica a Ia "actitudpostmoderna". O fim do social e o surgimento das massas. Um ponto cego no projeto moderno de Jürgen Habermas. 1999. A crise dos paradigmas em Ciências Sociais e os desafios para o século XXL Rio de Janeiro: Contraponto. Panorama histórico da cultura jurídica européia.d. HESPANHA. 1990. CASTORIADIS. Espanha. KANT. David. III: o mundo fragmentado. Rio de Janeiro. New York: New York Press. 5. s. Michel. O advento da sociedade pós-industrial. 1996. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Florianópolis. 2000. Rio de Janeiro: Nau Editora. Margarida Lacombe. "El derecho posmoderno: um sistema lejos dei equilibrio". José Maurício. BELL. Immanuel. Doxa 21-11. 1996. A técnica e os riscos da modernidade. Discurso filosófico da modernidade. Franz Josef. DOMINGUES.O Direito entre o Moderno e o Pós-Modemo: Perspectivas e Desafios BAUDRILLARD. À sombra das maiorias silenciosas. Hermenêutica e argumentação. A paz perpétua e outros opúsculos. Introdução a uma teoria social sistêmica. In ARANTES. 1997. 1997. BRÜSEKE. "Modernidade . Rio de Janeiro: Paz e Terra. Editora da UFSC. HELLER. São Paulo: Brasiliense. Revista Brasileira de Direito Comparado.AutopoJese do direito na sociedade pósmoderna. Post-modernism and its discontents. Lisboa: Edições 70. Lãs consecuencias perversas de Ia modernidad. 1999. et alli. Cornelius. Otília Fiori e ARANTES.um projeto inacabado". Antônio M. BAUMAN. In Heller. Barcelona: Anthropos. "O Direito Constitucional entre o moderno e o pós-moderno". GRÜN. Rio de Janeiro. Daniel. CAMARGO. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. nQ 9. Coimbra: Almedina.

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Introdução Este artigo propõe-se a estudar a nova retórica de Perelman. Do segundo. consistindo numa teoria da argumentação jurídica. ou seja. explicando os fatores que condicionam o raciocínio. 2. que estuda o resultado do raciocínio independente de suas condições de elaboração (fixando-se no estabelecimento das premissas e da conclusão.) a metodologia do raciocínio apropriado a um Estado democrático. a uma sociedade pluralista para a qual os valores são irredutíveis a um valor único e onde a arte do diálogo e da controvérsia prevalece sobre as soluções de violência". cabe diferenciar a Nova Retórica ou Teoria da Argumentação da Lógica Jurídica.. Griffin-Collart 1. Do primeiro. O raciocínio jurídico para Perelman: uma alternativa ao positivismo jurídico De início. ocupa-se a lógica. Também se estudará a perspectiva de Perelman em seu aspecto político. levando a certas decisões.A Concepção Retórica do Direito e a Perspectiva Pluralista de Perelman Eduardo Pessanha Cavalcanti "A nova retórica apresenta (. Para que o estudo se volte para o projeto filosófico que se encontra por trás da proposta de uma lógica jurídica.. enfatizando dois aspectos: o raciocínio jurídico que apresenta como alternativo ao do positivismo jurídico tradicional e a filosofia ou a concepção de razão prática na qual se fundamenta este raciocínio alternativo. deve-se observar que Perelman distingue dois sentidos diferentes na palavra raciocínio: a atividade mental e o resultado desta atividade. a Sociologia e a Antropologia. como uma metodologia comprometida com o funcionamento de um regime democrático e uma sociedade pluralista. que é uma aplicação da Nova Retórica no estudo do Direito. ocupam-se a Psicologia. É em relação ao segundo sentido de raciocínio que Perelman pretende 321 . na validade da inferência. nas regras empregadas).

Hans. a partir dos princípios da Retórica. segundo a qual a vida social é produto da força. Teorias da argumentação jurídica. "dizer que uma norma é imediatamente evidente significa que ela é dada na razão. uma vez que a decisão não é tomada a partir das normas legais previamente postas. Millôr. com a razão.Eduardo Pessanha Cavalcanti desenvolver uma lógica jurídica. mas através de normas ocultas. Teoria Pura do Direito.5 E possível que. um juiz decidiu a favor da alimentação à força. (KELSEN. em pleno regime militar brasileiro: "acha que a violência contra os contestadores não se justifica.. p.6 mas isto não anula a necessidade de justificar a decisão. 3 BOBEIO. Rio de Janeiro: Nórdica. e inclusive que a decisão seja fruto de juízos não racionais. Num célebre caso em que presos dos Grupos Antifascistas Primero Octubre (GRAPO) declararam-se em greve de fome como meio de conseguir melhorias em suas condições carcerárias. p. o que haveria previamente seria o texto da norma. As razões do direito. O conceito de uma norma imediatamente evidente pressupõe o conceito de uma ra2ào prática. 5 ATIENZA. 4 Na filosofia da ciência. Teorias da argumentação jurídica. 99). de Philosophie et de Culture Juridiques.2 Trata-se de uma idéia desenvolvida por Pareto. 2000. apontando a inadequação do silogismo para descrever o raciocínio judicial. ob. segundo ele. o processo mental dos juizes vá da conclusão às premissas.1 Seguindo a tese de Ross. mas se explica". 1981. trad. Teor "as da argumentação jurídica. cit. Martins Fbntes. de fato. 25. pois.Revue francaise de Théorie. Segundo Kelsen. enquanto dizer que a decisão se baseou numa determinada interpretação do art.. de uma razão legisladora. Norberto. pp. Tbdo íiomem é minha caça. depois. Em seu lugar defende o modelo do entimema. cit.. quer dizer. nem torna esta tarefa impossível. 26. A própria idéia de normas gerais prévias é questionada. ob. 6 É o que afirma Adeodato.7 1 2 ATIENZA. p. Atienza explica que a postura do decisionismo (englobando o voluntarismo de Kelsen) entende que os juizes não justificam nem poderiam justificar propriamente suas decisões. Manuel. (FEPJSTANDES. tal diferenciação reporta-se à diferença entre descobrir ou enunciar uma teoria (contexto de descoberta) e confrontá-la com fatos e com o método cientifico a fim de lhe dar validade. Por isso. ob. Dizer que o juiz tomou esta decisão devido a suas fortes crenças religiosas significa enunciar uma razão explicativa. pois a função da razão é conhecer e não querer. Manuel. 15 da Constituição significa uma razão justificadora. as submetem a um processo de racionalização. possibilitando uma razão prática.3 Segundo Atienza. cit. não a norma propriamente dita (ADEODATO. p. cit.4 Atienza esclarece a distinção com um exemplo.insustentável. não pode haver qualquer norma imediatamente evidente". 173. A distinção entre os dois conceitos é tão sutil que já despertou a ironia de Millôr Fernandes ao apontar a hipocrisia daquele que. As razões do direito. São Paulo: Ed. mime o). "Perelman et Kelsen" j'n Droits. 218). Kelsen considera que a razão prática é apenas um meio de justificar a posterior! escolhas irracionais.como se mostrará . 21-22. "O silogismo retórico (entimema) na argumentação judicial". 7 ATIENZA.. p. o erro destes autores é confundir uma explicação com uma justificação. e este conceito é . João Maurício. ou sem a participação da razão e. João Batista Machado. As razões do direito. e o estabelecimento de normas é um ato de vontade. mas sim as adotam de forma irracional. Manuel. ob. 322 .

A Concepção Retórica do Direito e a Perspectiva Pluralista de Perelman Com a idéia de razoabilidade Atienza explica que Perelman pretende abrir uma via intermediária entre o racional (quer dizer. aquela que se apoia na argumentação mais convincente. mas também de descentralização de poder político e democratização. Uma filosofia do razoável A Retórica tem uma tradição que já aponta sua importância em relação ao Direito. 243 PERELMAN citado em ATIENZA.. 323 . absolutistas. abertas. "o que é desarrazoado não é de Direito". dedutivas. 7. 118 PERELMAN. dialógicas e pluralistas . 480..13 José Américo Motta Pessanha assinala que as filosofias primeiras. Assim. PERELMAN. São Paulo: Martins Fontes. "teorias da argumentação jurídica. embora seu exercício não seja arbitrário. As razões do direito.. prosperam em épocas de centralização de poder e estabilidade. como afirma Perelman. monológicas. cit. mas apenas inclinando para a decisão mais bem justificada. Manuel. ob. a argumentação apela para a liberdade espiritual. ideal que a razão prática se propõe em Moral. constringentes) e o irracional (o arbitrário) entre uma concepção unilateralmente racionalista e uma concepção unilateralmente voluntarista do direito (como a de Kelsen). Vide REBOUL. Teorias c/a argumentação jurídica. ob.10 E claro que não se aponta o que é razoável de modo evidente. "O raciocínio jurídico" in Ética e Direito. Assim. Olivier. The realm ofrhetoric. que generalizou o papel da evidência. as razões necessárias. Graças a ela pode ser concebido um uso razoável da liberdade. a evidência racional do cartesianismo e a evidência sensível do empirismo. podendo-se acrescentar a de Perelman .9 O razoável marca os limites do jurídico. Já as filosofias regressivas. introdução á Retórica. A Grécia antiga é um exemplo disso. A queda da Retórica levou a uma negação da razão prática. Chaim. University of Notre Dame Press. de instabilidade e crise. em Política e em Direito. p.n 3. caps. à redução dos problemas da ação a problemas de conhecimento. pois. p. cit. cit. Indiana.8 A idéia de razoabilidade é vinculada ao senso comum. de ruptura com a tradição. ao que é aceitável em dada comunidade. coagindo a vontade. ob.são características de épocas de transformações profundas.como a de Bachelard. a evidência pessoal do protestantismo. ob. As razões do direito. p. como de verdade ou probabilidade. cit. a valorização ou desvalo- 8 9 10 11 12 13 BOBEIO citado em ATIENZA. progressistas. I e II. 1982. p. à Política e à Filosofia. 118 PERELMAN. 2000. "As concepções concreta e abstrata da razão e da justiça" (A propósito da Theory of Justice de John Rawls)" ín Ética e Direito.12 O declínio da Retórica desde o firn do século XVI deveu-se à ascensão do pensamento burguês europeu. ou mesmo considerando-os irrelevantes para a razão. p.

está condicionada por fatores culturais e políticos. é através da análise das motivações e das justificações apresentadas pelos homens em relação a suas ações. pois se um tivesse dela uma visão clara e nítida poderia expô-la a seu adversário de tal modo que acabaria por forçar sua convicção". ela se mostra através das decisões e respectivas motivações. É por isso que Perelman afirma que "é a justiça que é a característica do homem razoável". ou seja.16 Da evidência se deduz a afirmação de Descartes de considerar tudo aquilo que for apenas provável como falso. a razão prática não resulta de uma simples aplicação de um modelo de razão a príorí. p. 58. Campinas: Papirus. que tal racionalidade é possível. p. 1993. Não é a partir de um modelo de razão a ser aplicado aos assuntos práticos. Não porque seja possível alcançar uma comunidade efetiva universal. Rui Alexandre. Ou seja. tal como o racionalismo aplica o modelo matemático à Filosofia.17 Por não haver um critério a priori como a evidência do método cartesiano. Para a elaboração de uma filosofia do razoável é necessário o desenvolvimento de um conceito de imparcialidade. ob. 4. que se poderá alcançar uma razão prática. São Paulo: Martins Fontes. o que dá força e eficácia prática ao discurso é o consenso que provoca.14 A evidência é o principal critério do método cartesiano. p. 2. Há mais. Pelo contrário.Eduardo Pessanha Cavalcanti rização da Retórica.. É a partir do que é considerado como justo que se pode apreciar a influência da razão na ação. "A teoria da argumentação ou nova retórica" m Paradigmas filosóficos da atualidade. da Dialogia. 1989. mas. à verdade eterna ou à verdade histórica. Edições Asa. ob. "Introdução" in Tratado da Argumentação. Numa sociedade democrática. "Introdução" in Tratado da Argumentação.15 "A evidência é concebida". 1996. 17 PERELMAN apuei GRACIO. cit. José Américo Motta. pois esta se refere àqueles domínios em que o pensamento e a ação estão intimamente ligados. a razão prática só existe a posteriori. Apartado. a razão prática deve se orientar em relação ao auditório a que visa convencer. cit. Rui Alexandre.18 O discurso filosófico caracteriza-se pela sua intenção de universalidade. 16 PERELMAN. 15 DESCARTES citado em PERELMAN.. Chaím. inversamente. os mesmos que sustentam a tendência ao monismo ou ao pluralismo. 18 GRACIO. Chaím. da Argumentação. p. segundo Perelman. é certo que um dos dois se engana. nenhum deles possui a verdade. pois. 324 . pois é a 14 PESSANHA. 107. "como a força à qual toda mente normal tem de ceder e como sinal de verdade daquilo que se impõe por ser evidente". Racionalidade Argumentativa. segundo Descartes: "Todas as vezes que dois homens formulam sobre a mesma coisa um juízo contrário. O auditório universal não é uma "realidade social concreta". Racionalidade Argumentativa.

mas busca a adesão dos ouvintes ou leitores. volume 11. Campinas. Na Retórica antiga. assim. p. cit. na qual o argumento não é impessoal. Perelman ao focalizar as premissas.25 O estudo da argumentação também se amplia muito por envolver a discussão com um único interlocutor ou mesmo a deliberação íntima. o argumento de que uma medida diminui a tensão social persuade somente aqueles que querem a paz social. Papirus. "Tratado da Argumentação". para um auditório. p. José Américo Motta Pessanha afirma que "Perelman altera decisivamente a noção de auditor ou auditório. Já a nova Retórica amplia extraordinariamente o alcance da argumentação. um argumento contra. "A propósito da regra de direito. "Argumentação". A diferenciação entre os dois tipos de auditório leva o professor de Bruxelas a uma distinção entre o conManuel. cit. cit.29 Com base nesta idéia. 2000. p. Chaim. integrada numa teoria geral da argumentação ". ob. São Paulo: Martins Fontes. a ser atingido pela palavra viva: retórica e eloqüência. Teorias da argumentação jurídica. 237. "Tratado da Argumentação".. os valores são objetos de acordo relativos ao preferível na medida em que pressupõem uma atitude sobre a realidade. Perelman propõe inicialmente um estudo descritivo. evoca o aspecto do raciocínio prático que vai além da lógica.27 é em função do auditório que toda argumentação deve se organizar para ser eficaz.. PERELMAN. As razões do direito.23 A noção de auditório é essencial em qualquer perspectiva retórica. ob. Lisboa. A mesma afirmação pode ser. p. 1989. Chaim. José Américo Motta. que parte de como os homens efetivamente argumentam para assim construir sua teoria: "A análise das decisões judiciárias fornece.. 23 24 25 26 27 28 29 326 . Chaim. 7. PERELMAN. PESSANHA. ob. Chaim. 236. Esclarecendo a confusão. 1987. A justificação interna é a lógica formal. o qual denomina de justificação externa. "A teoria da argumentação ou nova retórica" in Paradigmas filosóficos da atualidade.Casa da Moeda. Imprensa Nacional . p. PERELMAN.2^ De acordo com o princípio da adaptação do discurso ao auditório.. "Argumentação" in Enciclopédia Einaudi. 22. 27. Reflexões sobre o método" jn Ética e Direito. Assim. porém não os que desejam a confrontação. p.2'* O auditório é o conjunto daqueles a que se dirige o orador buscando adesão. é que a teoria de Perelman desenvolve no seu aspecto normativo a caracterização de um auditório cuja adesão somente pode ser obtida através de argumentos racionais. Nos auditórios particulares.. 128). 620. ' PERELMAN. Atienza explica que é o problema da fundamentação das premissas. Chaim. cuja decisão é critério de racionalidade e de objetividade da argumentação. "Tratado da Argumentação". p. PERELMAN. para outro.Eduardo Pessanha Cavalcanti Para traçar os princípios do raciocínio prático. 237. pensava-se sempre num auditório presente. cit. p. ao entender o auditor como sendo também o leitor". De qualquer modo. Trata-se do auditório universal. um excelente material para a constituição de uma lógica de juízos de valor. um argumento a favor de uma tese do orador e. cit. retórica e oratória se identificavam. ob.28 É a qualidade do auditório que determina a da argumentação. ob. PERELMAN. Chaim.

p. observa-se que um auditório particular caracteriza-se não somente pelos valores que admite. É um instrumento da ação social e seu domínio é o da deliberação. São Paulo: Martins Fontes. prefere aproximá-la apenas da Retórica por duas razões. Olivier. que podem realizar-se. não a dispensa dos afetivos. 6. 89. dependendo. Além disso. Olivier. 2000. ao menos em parte. enquanto a retórica não é um jogo. e o logos. aproxima-se da Dialética. 5. que são de ordem afetiva.. que é racional.saber se a neve é branca. Não se delibera sobre o que é evidente . cit. que é o do verossímil. ob. As razões do direito. por trabalhar apenas com a razão. a Retórica é uma "aplicação" da Dialética. Perelman. pp. p. assim.33 Inicialmente. ob. desde suas teorias antigas. Olivier. pode-se concluir que somente a persuasão é compatível. próprio dos auditórios particulares.. mesmo que seja apenas aparência. ob. ob. Assim. 47. paixões e sentimentos que o orador deve suscitar no auditório com seu discurso. a cura de um doente. "teorias da argumentação jurídica. introdução à retórica. pela confusão que o termo dialética pode gerar. p. cit. cit. 36-37. Tal instrumento. por envolver a emoção e os valores. cit. Chaim. Aristóteles reconhecia três tipos de argumentos ou instrumentos da persuasão: o etos. na Filosofia. é um jogo especulativo. Reboul conclui que. que..35 30 31 32 33 34 35 REBOUL. p.si O logos é o uso da razão. também a teoria da argumentação poderia ser relacionada à Dialética. por exemplo mas sobre fatos incertos. Manuel. cit. Examinando a retórica de Aristóteles a partir dos conceitos de convencimento e persuasão de Perelman. O patos é o conjunto de emoções. entre outros). Introdução à retórica. 327 . e o de convencimento. pois explica que a análise da teoria da argumentação refere-se à arte de raciocinar a partir de opiniões geralmente aceitas. que a Tópica é um aspecto da Retórica para Perelman.. no entanto. uma vez que assumiu um sentido muito diferente. Percebe-se. 48.A Concepção Retórica do Direito e a Perspectiva Pluralista de Perelman ceito de persuasão. REBOUL. utilizando-a como instrumento intelectual da persuasão. "Tratado da Argumentação". Isto é uma decorrência do fato de que a Retórica Antiga sempre trabalhou com auditórios presentes e concretos e não um auditório ideal. o patos. todavia. desde Hegel. de quem delibera (a vitória numa guerra. Uma forma de organizá-los é pelos lugares da argumentação ou tópicos. Chaim. REBOUL. mas também pela maneira como os hierarquiza. para Aristóteles.30 O etos é o caráter moral que o orador deve buscar assumir diante do público. Introdução à retórica.34 Voltando à análise da retórica de Perelman. Quando a Retórica emprega o logos. ob. foi a Retórica que..32 Perelman reconhece esta relação da Retórica com a Dialética. ATIENZA. próprio do auditório universal. todavia. Em relação à obtenção da persuasão. p. enfatizou que é em função de um auditório que qualquer argumentação se desenvolve. PERELMAN. "TYatado da Argumentação". PERELMAN.

não se deve equiparar..37 Neste sentido. 328 . p. 36. Rio de Janeiro: Forense. é questionada por Lutimman. aos profissionais do Direito envolvidos. pode ser mencionado o método a posteriori de Frege. o público.. seus colegas. ob. mas não se atreva a fazê-lo. a posteriori. a que método de raciocínio deve recorrer. cit. "Direito. no caso do Direito. define as técnicas argumentativas. lançando mão dos meios de prova efetivamente utilizados pelos matemáticos. pois. O juiz deve se decidir visando a convencer tal auditório. que dissimula um cometimento do tipo: eu lhe garanto o direito de questionar-me. pp 172 e ss. então. p. estudando os raciocínios utilizados na vida prática (no Direito. aos tribunais superiores e à opinião pública esclarecida. jurídica. Cláudia Servilha. a retórica de Perelman. na verdade isto é um engodo. pois. 2000. são construídos os princípios do raciocínio lógico. Chaim. o que é justo conforme ao direito ao que parece justo a um indivíduo. legitimando-se o sistema normativo à medida em que esta ilusão é garantida (FERRAZ JR. pois um dos constituintes da legitimidade estaria justamente na ficção de que esta possibilidade exista. de que julga de forma eqüitativa". que. restringir ou estender o seu alcance. a legitimidade estaria. mesmo da parte vencida. pois ilude o endereçado. leva ao direito como forma de comunicação. pois bastam as regras de procedimento legal como premissas legitimadoras. quando. pura e simplesmente. Para fundar uma decisão. 38 PERELMAN. que. Rio de Janeiro: Lumen Júris. pelo contrário. 99 A idéia de que a decisão do juiz deve buscar a "adesão dos jurisdicionados". basta que se contorne a incerteza de qual decisão (materialmente falando) ocorrerá. Como exceção a esta postura positivista. sendo a função da decisão absorver insegurança. que esconde regras reais.) só será estabelecida quando ele houver convencido as partes.. assim. Tercio Sampaio. cit. ou específica. Teoria da Argumentação Jurídica e Nova Retórica. lógica e epistemologia" in Ética e Direito. forma pervertida de comunicação. para este autor. ob.Eduardo Pessanha Cavalcanti A razoabilidade também se define em função do auditório. 2001. p. que nenhum sistema jurídico pode indicar a priorí. na Política etc). funcionalmente nenhum sentido. ainda que seja de valores. ou seja. baseada numa certa crença na legalidade. mas não seja realizada. O Direito torna-se então um instrumento de controle e de manipulação e. em última análise. Chaim. introduzidas pelo emissores por ele dissimuladas. que não possua tais critérios. já que o juiz deriva sua autoridade do Estado que lhe confere poder. que reduz a legitimidade a procedimentos decisórios. Perelman concorda com Esser. Lógica Jurídica y Nueva Retórica. pois "seu papel é estabelecer a paz judiciária [ que j (. Teoria da norma Jurídica. por associar a lógica ao domínio das formas. 37 MONTEIRO. se deve aplicar a lei literalmente ou.).36 Esta ausência de critérios a príori para a definição do razoável também entra em choque com a concepção positivista que. Assim. seus superiores. mas propor fundamentos para esta crença não teria. 527. considera sem sentido uma "lógica". refere-se às partes em conflito.38 36 PERELMAN. Isto faz com que Luhmman conceba a legitimidade das normas com uma ilusão funcionalmente necessária. Esta tese decisionista de Luhmman. É esta busca de adesão do auditório que evita que a decisão seja arbitrária. daquilo que existe a príori. ao dar-lhe a impressão de que o discurso obedece às regras situacionais de fundamentação..

105. Perelman opôs a do primado do pensamento sobre a força "Duvidar. Há quem afirme que. de um confronto de pontos de vista opostos". proibindo o uso da violência. cit. Perelman considera a teoria de Kelsen monista.. típica da Matemática. Democracia e pluralismo na filosofia de Perelman Contrariamente ao método cartesiano. mas de grau. ob. Uma visão de mundo relativista leva à tolerância no âmbito de um ordenamento jurídico positivo. de outro. p. GRÁCIO. acabam por favorecer o uso da violência na tentativa de proteção de seus fundamentos" {MONTEIRO. todavia. atualmente. Perelman vai mais longe. obedecer. p. São Paulo: Martins Fontes. 2001. O professor da Universidade Livre de Bruxelas elabora uma filosofia de pluralismo que se opõe a qualquer espécie de monismo. O que é justiça?. ob. 113. combater". Perelman promove uma reabilitação da opinião. Ambos partem da premissa de que não existe a verdade absoluta almejada pelo absolutismo e seus dogmatismos. Racionalidade argumentativa. Racionalidade argumentativa. 30). pois admite a existência de um pluralismo de valores incompatíveis.39 Contra a máxima do Fascismo "crer. 97. 329 39 40 41 42 . considerando que..A Concepção Retórica do Direito e a Perspectiva Pluralista de Perelman 4. 24. o pluralismo é a regra.42 Esta formulação teórica gera-se através da redução à unidade. "ao reduzirem todos os conflitos a uma única solução. GRÁCIO. afirmar isto do monismo. p. embora a fundamente na relatividade dos valores. p. Ética ou Direito. Atienza afirma que a filosofia de Perelman é uma filosofia do pluralismo. Assim. elaborada em função de um único critério. Teoria da Argumentação Jurídica e Nova Retórica. resultantes de um diálogo permanente.40 Kelsen e Perelman convergem na rejeição ao absolutismo tanto filosófico como político. decidir-se e convencer". O absolutismo filosófico é que favorece concepção totalitárias que estimulam a violência. percebe-se que. 43 KELSEN. um pensamento fechado sobre a necessidade teórica das suas inferências. é exceção no conhecimento. O monismo tem com traço distintivo seu caráter reducionista da realidade. Daí a necessidade de compromissos razoáveis. que a redução à evidência. Hans. Rio de Janeiro: Lumen Júris. 2001. Rui Alexandre. Pode a democracia continuar tolerante se pre- PERELMAN citado em ATIENZA.. Considera que seu ceticismo moral favorece o regime democrático. prevalece o entendimento. Cláudia Servilha. Tal fechamento não significa intolerância ou dogmatismo. Kelsen defende a tolerância. Não é correto. de um lado situa-se o absolutismo e. cit. ob. p. porém não restringindo a manifestação pacífica de opiniões. Rui Alexandre. entre verdade e opinião não há mais diferença de natureza. o qual "renuncia a uma ordem perfeita. Em todos campos. Religião ou Filosofia. o relativismo e o pluralismo. rejeitando também o critério da evidência. tratando-se de uma racionalidade argumentativa.43 A democracia é uma forma de governo justa por significar liberdade e liberdade significar tolerância.41 Assim. cit.

. são iguais. in Doxa . Hans. 47 KELSEN.. no entanto. 25. 348. que Kelsen "foi um defensor. logo é relativo. cit.48 Para evitar isto. por ser mais um problema lógicoconceitual do que filosófico-político. no campo dos valores e da política. Departamento de Filosofia dei Derecho . 1986. 51 Esta disciplina exige que o estudioso relativize suas crenças culturais para compreender as outras culturas. n° 3. São Paulo: Martins Fontes. Hans. p.Cuadernos de Filosofia dei Derecho. A democracia. 45 KELSEN. Hans. Celso. é possível relatívizá-lo sem destruir a perspectiva antropológica? 330 . 2000. ob. 48 KELSEN. 1999. "Sobre Ia teoria general de Ias normas". p. 50 CALSAMIGLIA.4? Não a apresenta como pluralista por considerar que isto significaria admitir a existência de tantos mundos quanto sujeitos de conhecimento.Um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. permitindo a intolerância. p. enquanto sujeitos do conhecimento. A possibilidade de manter a democracia depende da possibilidade de encontrar tal limite. A questão é a seguinte: tomando-se o relativismo como uma crença cultural.. Ob.45 Não é rigorosamente adequado afirmar. p. supõe que os indivíduos. E nessa tolerância que reside a diferença entre democracia e autocracia. reprimir com violência tentativas de derrubálo com uso da violência. por só reconhecer verdade e valores relativos. ainda que sua teoria não seja capaz de assegurar a existência objetiva de um único e mesmo mundo para todos os sujeitos. p. Pode parecer difícil traçar um limite claro entre a propagação de certas idéias e a preparação para uma insurreição violenta. Acirrando a polêmica.Universidad de Alicante. 46 LAFER. p. 349. de que não se pode deduzir da relatividade dos valores a tolerância.49 Acrescenta ainda que quase todos os grandes representantes da Filosofia relativista foram politicamente favoráveis à democracia. cit-. como Celso Lafer.46 A ressalva refere-se ao último termo.51 44 KELSEN. 49 KELSEN. cit. da democracia e do pluralismo". Ob. Esta aparente contradição oferece o mesmo desafio que a discussão sobre a possibilidade de relativização da postura relativista nas ciências sociais. E possível que tal delimitação contenha certo perigo. p. É da natureza e da honra da democracia arcar com tal perigo. cit. 102.50 Não se deve aceitar esta objeção. E direito de todo governo. O gue é justiça?. Hans. principalmente na Antropologia. cabe lembrar a objeção de Calsamiglia a Kelsen. São Paulo: Companhia das Letras. pois esta também é um juízo de valor. Kelsen apresenta sua filosofia como relativista.44 A democracia não poderá se defender se isso implicar desistir de si própria. A reconstrução dos direitos humanos . 14. 24. Albert. ob. não reprimindo demonstrações pacíficas de opiniões antidemocráticas. mesmo democrático. Hans. 349.Eduardo Pessanha Cavalcanti cisar se defender de intrigas antidemocráticas? Pode.

331 . deixando em aberto o problema da solidariedade.. sin duda. enfim. 1993. concluir com Manuel Atienza que "Ia concepción dei derecho de Kelsen está ligada. sob pena de destruírem a viabilidade social da própria democracia. observar. e possibilita uma prática política pluralista.). mas. é preciso renunciar à eficácia que um sistema de governo. através do auditório universal. 53 GRACIO. mais fraco que um regime autoritário. 104-105. O discurso filosófico caracteriza-se pela sua intenção de universalidade. O auditório universal não é uma realidade social concreta. É ele que cuida do sentido comunitário a que as divergências políticas não se devem nunca sobrepor. portanto. 2001. que: "Um regime democrático que respeita outros valores e permite a procura de outros fins (. que. observa-se que este não parte do relativismo.A Concepção Retórica do Direito e a Perspectiva Pluralista de Perelman Deve-se. mas acredita na possibilidade de universalização dos valores. Esta não é um regime político apenas. não se preocupa com as inferências teóricas. desta forma. mas um regime social que se presta a. todo ele virado para um fim único. Rui Alexandre. toda ordem implica um certo constrangimento na medida que nos atemos a certas liberdades.52 Uma discussão que permanece é o questionamento da tolerância que o relativismo promove. a Ia defensa dei Estado democrático y de los valores de tolerância y libertad. El sentido dei derecho.. Racionalidade Argumentativa. Apartado: Edições Asa. Conclusão Cabe. Além disso. 291. Resulta que é sempre um regime ameaçado. A democracia é um regime menos eficaz. Voltando-se às diferenças entre Kelsen e Perelman. como Perelman. Barcelona: Editorial Ariel. a su vez. ao contrário. que impõe a si mesmo regras e entraves na sua ação.53 52 ATIENZA. Isto não significa que seja possível alcançar uma comunidade universal. A pretensão de universalidade dimensiona socialmente o discurso como o discurso forte da regulação democrática. p. todo ele orientado para um máximo de eficácia. necessário para o funcionamento de uma democracia. se apoyan en ei relativismo ético". pp. sempre precário e que é preciso sempre defender". acarreta. 5. se não se trataria de indiferença. uma forma de exercício do poder ou um esquema de governo adaptável a uma sociedade. Manuel. Toda liberdade implica uma certa desordem. defende o primado do prático sobre o teórico. é necessariamente mais fraco que um regime totalitário.

ob. promove estes dois ideais políticos. 95. Rui Alexandre. 2001. As razões do direito. a nova Retórica é mais ousada. Rui Alexandre. n^ 33. 54 GRACIO. p. Norberto". Paris: Presses Universitaire de France.Revue Française de Théorie. 55 MONTEIRO. Tfeoria da Argumentação Jurídica e Nova Retórica. São Paulo: Landy. Apartado. de Direito da PUC-Rio. 332 .55 Este fato explica o pluralismo filosófico e justifica a tolerância em Filosofia para Perelman. 6. FERRAZ JR. Cláudia Servilha. É a partir do reconhecimento da razoabilidade de várias opções que se entende o pluralismo filosófico e a obrigação de justificá-las. Racionalidade Argumentativa. marcada tanto pela personalidade do filósofo quanto pelos seus valores.Eduardo Pessanha Cavalcanti O dever de universalidade e o auditório universal como idéia reguladora de racionalidade argumentativa podem ser compreendidos à luz de urna eficácia social aferida no quadro desse regime democrático em que a maioria é determinante da validade do Direito e em que a maioria dita o compromisso com um consenso. 29. in CadernosPET-JUR. Rio de Janeiro: Lumen Júris. as aspirações e crenças em meio às quais ele nasceu. 2000 GRACIO. na 3. Teoria cia norma Jurídica. 1997. Forense. o princípio lógico da nãocontradição não encontra razão de ser quando se trata de Filosofia prática. fornecendo uma concepção de razão prática que promove o diálogo como forma de resolução de conflitos. no entanto. Tercio Sampaio. Albert.54 o que caracteriza a idéia de verdade é que é regida pelo princípio da não-contradição. cit. o qual.. "Chaim Perelman". 2001.Perelman et Kelsen" in Droits . mas são a expressão de uma escolha pensada. Edições Asa.56 As concepções de Perelman e Kelsen convergem na defesa da democracia. Manuel. Perelman aposta numa filosofia da ação.Universidad de Alicante. in Doxa Cuadernos de Filosofia dei Derecho. 56 MEYER. 1986. Racionalidade Argumentativa. Michel. p. na qual várias decisões podem ser igualmente razoáveis. além de pressupor o pluralismo e a democracia. Barcelona: Editorial Ariel. El sentido dei derecho. CALSAMIGLIA. nem de uma decisão arbitrária. mas. uma filosofia prática. Manuel. 2000. Bibliografia Básica ATIENZA. n? l. p. 18. Departamento de Filosofia dei Derecho . Rio de Janeiro. BOBEIO. "Sobre Ia teoria general de Ias normas". 2001. Tborias da argumentação jurídica. uma vez que não resultam nem de uma intuição evidente. diferentemente do relativismo de Kelsen. 1993. Rio de Janeiro: Depto. Assim. ATIENZA. de Phüosophie et de Culture Juridiques.

São Paulo: Martins Fontes. . de Direito da PUC-Rio. 2001. MONTEIRO. Lógica Jurídica y Nueva Retórica. Retóricas. São Paulo: Martins Fontes. 1999. Introdução à . "Chaim Perelman". Madrid: Editorial Civitas. 2000. TYatado da Argumentação. Indiana: University of Notre Dame Press. n^ l. "Argumentação" in Enciclopédia Einaudi. 1987. Ética e Direito. Michel. Olivier. REBOUL. 1997. A Nova Retórica. volume 11. Danilo. PESSANHA. Rio de Janeiro: Jorge Zahar MEYER. São Paulo. Rio de Janeiro: Depto. 1997. Lisboa. .Retórica. São Paulo: Martins Fontes. The realm ofrhetoríc. São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo: Martins Fontes. Teoria cia Argumentação Jurídica e Nova Retórica.Um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. "A teoria da argumentação ou nova retórica" in Paradigmas filosóficos da atualidade. . 1989.A Concepção Retórica do Direito e a Perspectiva Pluralista de Peielman KELSEN. 1979. Imprensa Nacional Casa da Moeda. 1996. Cláudia Servilha. A democracia. . PERELMAN. MARCONDES. Celso. Chaim. 2000. in Cadernos PET-JUR. José Américo Motta. Rio de Janeiro: Lumen Júris. Hans. . A reconstrução dos direitos humanos . Campinas: Papirus. 1982. São Paulo: Martins Fontes. . O que é justiça?. Textos básicos de Filosofia. 2000. 2001. Martins Fontes. LAFER. 333 .

) Law's attitude is constructive: it aims. Dworkin foi nomeado sucessor de H. Moore. Raz. 1990.) It is an interpretive. pp.: "Metaphysica. onde leciona nos semestres de outono. Law's Empíre. what law is for us: for the people we want to be and the community we aim to have. Florença (Itália)].L.i 1.: The defence of Natural Law. a jurisprudência contemporânea e a "terceira via" O mote escrito no brasão do império de direito proclamado pelo jusfilósofo norte-americano . Epistemology and Legal Theory". ele é simplesmente um jusnaturalista mais ou menos disfarçado. a Inglaterra. self-reflective atti* tude addressed to politics in the broadest sense (..A. anyway. Ch.3 para outros. keeping the right faith with the past (.4 e para outros outros ele chega a se