RICHARD D. WEBER A PROFECIA VOYNICH: CRIANÇA ÍNDIGO
TRADUÇÃO Johann Heyss Novo Século S ÃO P AULO 2008

SUMÁRIO
PRÓLOGO ........................................................................... Londres............................................................................. A Força Ômega: ............................................................... O Inimigo: ....................................................................... As Crianças Índigo:.......................................................... Os Shelta Thari - Os Pensadores:.................................... 7 7 10 10 10 10

PARTE I Rasputin, Rasputin, o Palhacinho Louco CAPÍTULO 1 ....................................................................... 13 Berlin, 1940................................................................ .. 13 CAPÍTULO 2 ....................................................................... 17 CAPÍTULO 3 ....................................................................... 20 A Bordo do Expresso do Oriente .............................. 20 CAPÍTULO 4 ....................................................................... 23 CAPÍTULO 5 ....................................................................... 26 CAPÍTULO 6 ....................................................................... 29 CAPÍTULO 7 ....................................................................... 34 Istambul...................................................................... 34 PARTE II Babilônia A Ascensão da Babilônia CAPÍTULO 1 ....................................................................... Dias de Hoje: Tell Brak Nagar, Síria ............................... Fronteira Síria-Iraque...................................................... CAPÍTULO 2 ....................................................................... CAPÍTULO 3 ....................................................................... CAPÍTULO 4 ....................................................................... CAPÍTULO 5 ....................................................................... CAPÍTULO 6 ....................................................................... CAPÍTULO 7 ....................................................................... CAPÍTULO 8 ....................................................................... 39 39 41 47 57 66 71 73 77 80

Londres....................................................................... 80 CAPÍTULO 9 ....................................................................... 86 CAPÍTULO 10 ..................................................................... 90 CAPÍTULO 11 ..................................................................... 103 CAPÍTULO 12 ..................................................................... 109 CAPÍTULO 13 ..................................................................... 111 CAPITULO 14 ..................................................................... 118 CAPÍTULO 15 ..................................................................... 123 CAPÍTULO 16 ..................................................................... 125 CAPÍTULO 17 ..................................................................... 130 CAPÍTULO 18 ..................................................................... 144 CAPÍTULO 19 ..................................................................... 147 CAPÍTULO 20 ..................................................................... 150 CAPÍTULO 21 ..................................................................... 158 CAPÍTULO 22 ..................................................................... 162 CAPÍTULO 23 ..................................................................... 167 CAPÍTULO 24 ..................................................................... 171 CAPÍTULO 25 ..................................................................... 174 CAPÍTULO 26 ..................................................................... 181

PARTE III SOMBRAS E NÉVOA CAPÍTULO 1 ....................................................................... CAPÍTULO 2 ....................................................................... CAPÍTULO 3 ....................................................................... CAPÍTULO 4 ....................................................................... 191 194 203 206

CAPÍTULO 5 ....................................................................... CAPÍTULO 6 ....................................................................... CAPÍTULO 7 ....................................................................... CAPÍTULO 8 ....................................................................... CAPÍTULO 9 ....................................................................... CAPÍTULO 10 ..................................................................... CAPÍTULO 11 ..................................................................... CAPÍTULO 12 ..................................................................... CAPÍTULO 13 ..................................................................... PARTE IV Espelho Alice Através do Espelho CAPÍTULO 1 ....................................................................... CAPÍTULO 2 ....................................................................... CAPÍTULO 3 ....................................................................... CAPÍTULO 4 ....................................................................... CAPÍTULO 5 ....................................................................... CAPÍTULO 6 .......................................................................

211 215 217 225 234 239 249 252 257

269 285 290 295 302 316

EPÍLOGO ............................................................................ 323 REFERÊNCIAS ..................................................................... 328 A Conexão Oculta com o Nazismo ................................. 329 O Manuscrito Voynich.................................................... 330

PRÓLOGO Londres
A menina se embrenhou pela porta com o que lhe restava de forças. Foi um prazer sentir a chuvinha renitente enquanto atravessava o telhado com seus passos trôpegos. Ao correr, o frio ar noturno fluiu pulmões adentro. Estou chegando, ela pensou. Em poucos metros estarei livre. Parou subitamente e começou então a rastejar até a beira do telhado. Parou para piscar os olhos por causa da chuva e foi sacolejada pelo vento; esticou os braços na tentativa de manter o equilíbrio. Olhou para baixo e mal conseguiu enxergar o fluxo dos faróis dos canos que deslizavam como pirilampos na escuridão. Acenavam para ela. Alguém lá atrás abriu a porta com uma pancada barulhenta na parede. Acenderam as luzes na escadaria do outro lado do telhado e foram atrás dela. Ela se virou. Um bando de figuras sombrias surgiu pela porta e pararam, projetando suas silhuetas em contraste com a parca iluminação de fundo. Mesmo na penumbra ela conseguiu reconhecer o contorno mais alto, com aqueles cabelos louros claríssimos capturando a escassa luz. Sua estatura e seu jeito de andar eram inconfundíveis; tinha em si a crueldade seca de um chicote

enrolado. Dava quase para ela sentir o aterrorizante vento negro que emanava de Margot Gant. O som familiar de outra voz, vindo de um atalho para o telhado, fez a jovem estremecer de pânico. — Hora de ir para casa, pequena — disse o doutor Craven. Ela não respondeu. Outra figura ao lado do médico deu um passo para a frente. A menina rastejou mais para a beirada. Então Margot esticou o braço, impedindo que o homem continuasse. O clarão ofuscante de uma lanterna queimou-lhe a vista. — Apague isto, seu idiota do inferno — Margot ralhou. Voltou-se para a menina e disse: — Ninguém vai lhe machucar, Wendy — falou suavemente, com um tom de voz brando, a mão deslizando em direção à pistola com tranqüilizante que estava cuidadosamente encaixada no cós da calça às suas costas. Por alguma razão Wendy sentiu que ela estava com a arma; dava para ver o metal negro e frio em sua mente. Mas ela se levantou com os braços ainda estendidos, sentindo como se o vento fosse lhe devolver a sanidade em uma lufada. Começou a cantarolar a cantiga infantil com os lábios entreabertos. — Nana neném, voe alto meu bem. Quando o vento soprar, seu bercinho vai balançar... Wendy deu mais um passo. O vento castigava o telhado, desarrumando-lhe os cabelos. — Quando o galho quebrar... Os olhos de Wendy estavam bem fechados agora, suas pestanas pesadas de memórias que não eram bem memórias,

sonhos que não eram bem sonhos, e ela girava a cabeça de um lado para outro. Ela deu mais um passo. — Não! — Margot gritou ao ver que ela seguia em frente. Silenciosa, graciosa e leve como anjo, a menina de oito anos desapareceu diante de seus olhos. Eles ficaram na beira, olhando para a rua lá embaixo. O médico de rosto pálido ao lado de Margot deu uma olhada nervosa pelo peitoril e disse, balançando a cabeça: — Não dá para enxergar a rua daqui, ja? — deu um passo para trás e suspirou aliviado. — Teve um momento em que até achei que nossa pombinha soubesse mesmo voar. Os olhos de Margot cintilaram de ódio. Ela torceu a bochecha do médico com força e a estapeou com as costas da mão. — Ela sabe voar, seu idiota. Esta é a droga do problema! Para Kelly suas façanhas aprontar Usou o espelho do diabo, uma gema, E ao com ele brincar de nanar Resolveu quase todos os problemas. Versos de Samuel Mordomo no interior de um espelho de obsidiana que está no Museu Britânico e já foi usado pelos astrólogos elisabetanos John Dee e Edward Kelly.

Nem tudo que é bom vem de cima. Lema da Sociedade Vril.

Braxton: ex-advogado-caçador-de-nazistas do Departamento de Justiça Americano. Bill Sorensen: ex-diretor de operações secretas da DIA (Agência de Inteligência de Defesa). Odeio estes caras. Matadora brutal. Margot Gant: mulher misteriosa sem passado. Conners: escocês. indígena americano. Indiana Jones A FORÇA MEGA: Major Brody Devlin: ex-funcionário do Serviço de Proteção e Segurança do Departamento de Estado. Ten. ex-fuzileiro naval e atual agente-líder. Sgto. Madison Dare: doutora em matemática e física pela Universidade de Princeton. . Heinrich Gant: chefe da Sociedade Vril e negociante de armas. Sgto. Clint "Chewie" Raindancer: ex-SEAL (Comando Especial da Marinha Americana). Scout Thompson: ex-hacker. O INIMIGO: Al-Dajjal: assassino e neonazista treinado pela KGB.Nazistas. ex-membro do Esquadrão Macacos da Pesada da Força Aérea Britânica. sádica e masoquista. Machado de Gelo: guarda-costas e matador.

o homem impulsionava seu corpanzil pela íngreme escada do edifício acima. . O Palhacinho Louco CAPÍTULO 1 Berlin. PARTE I Rasputin. THARIOS SHELTA THARI . Olhou ao redor com cautela para ver se fora seguido. Tirou a mão do bolso da capa de chuva e ajeitou a enorme aba do chapéu de feltro preto ao se virar novamente para a rua. Os garotos perdidos: Peter. 1940 Entre um grunhido e outro. Gabriel. A Sociedade Luminosa.AS CRIANÇAS ÍNDIGO: Wendy/Noor E Alam: "Luz do Mundo". Ginny Doolittle: protetora excêntrica do tipo fada madrinha. Johnboy e Raji. Blair Morgan Kelly: arqueóloga e alta sacerdotisa celta.OS PENSADORES: Dra. Uma placa no tijolo adjacente à grande porta vermelha dizia: Der Vril Gesellschaft. Tinha um encontro com um homem morto.

sacudindo de leve quando ela mexia o braço. como sempre. — Senhorita Orstic. Ela usava um robe de cetim vermelho que se ajustava ao seu corpo como uma segunda pele. você continua encantadoramente linda. ele percebeu. Ele ficou de queixo caído e seu monóculo caiu do olho. Debaixo do robe. Os seios grandes ondulavam perto da fresta do robe. à qual estava sentado um homem. suas mãos impecavelmente dobradas sobre o colo. Seus olhos celestes eram claros e ágeis. Quando ela estendeu o braço para indicar a mesa forrada com uma toalha preta. A mulher que o recebeu era espetacular. A curva inclinada dos seios fartos e o pigmento escuro de uma auréola ameaçavam escapar ligeiramente de uma das bordas do decote.Satisfeito de ver que tudo parecia normal na rua. ele entrou. . Um leve rubor coloriu aquele rosto suave como pétala. — Por favor. que bom lhe ver. a mulher deu um sorriso ardiloso e balançou a cabeça. queira se sentar — a sedução pulsava em sedutoras nuances de voz. Ele sentiu o sangue subir ao rosto e desviou o olhar para a mesa. Seus longos cabelos roçavam pela parte de baixo das costas à medida que ela caminhava furtivamente pela sala. Como se lesse seus pensamentos. ela estava nua. Cabelos longos e louros emolduravam o rosto aquilino. o olhar do barão percorreu o decote em V do robe que ela usava. — Barão.

O Barão Rudolf von Sebottendorff estremeceu ao sentir cair a temperatura do ambiente. Seu olhar impiedoso se suavizou à medida que as rugas de um sorriso racharam a expressão pétrea. Apesar de respeitar Eckhart. agarrando-se as mãos com força. sempre tivera um ligeiro medo do mentor de Hitler. Por um momento ficaram sentados em silêncio. velho amigo. A sessão começou. ele deu um jeito de dizer: — Herr Hess — curvou-se elegantemente e seus saltos se encontraram em um clique perceptível. — Como vai? Rudolf Hess levantou-se para saudá-lo. — Eu apelo à Grande Fraternidade Branca. Maria Ostric. ao sentir a mão gelada da médium segurando a sua. rogo por sua ajuda para falar com o espírito de nosso companheiro. Debaixo da testa proeminente em formato de enxada e sobrancelhas negras protuberantes.Lutando para retomar a compostura. seus olhos cinzentos e vazios eram quase como alfinetes. — Faz muito tempo mesmo. Ela convocou os espíritos com voz melodiosa. A médium. acovardado. diminuiu as luzes. Mas vamos dispensar as amenidades e tratar do assunto do dia? Foi com muita dificuldade que consegui fazê-lo voltar incógnito à Alemanha — seu rosto endureceu novamente. Ela fechou os olhos. Sentados à mesa. apenas com o som de suas respirações ecoando por entre as escuras sombras do recinto. Dietrich Eckhart. deram-se as mãos. Por debaixo de seus modos . O barão hesitou.

mais tarde conhecido como Partido Nazista). Eckhart criou o Führer e o NSDAP (Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores. Para ele. não era nenhum charlatão dissimulado. Olhos que detinham a pessoa com o poder de sua intensidade. Sua cabeça caiu para trás.excessivamente graciosos e sorriso de vovô. e Eckhart falava com voz abafada. partira de Himmler. o atarracado do Heinrich Himmler. Os olhos de Maria reviraram-se sob a testa. Pensar nos olhos pequenos e brilhantes e na expressão presunçosa daquele ex-criador de galinhas fez o estômago do barão revirar de acidez. Eckhart era coisa séria. O barão o desprezava. Aquele olhar gelado e resoluto lhe dava nos nervos. Com o apoio financeiro da Sociedade Vril. por pura inveja. Deixou Hitler cercado por um núcleo de criminosos baratos liderados por aquele idiota narcisista. Eckhart ocultava algo de sombrio e visceral. . a ordem para jogá-lo em um campo de concentração e depois deportá-lo para a Turquia. Seu falecimento deixou Hitler nas mãos de gángsteres e carniceiros. capazes de congelar. Seu conhecimento do oculto e seu domínio de oratória impressionaram o jovem Adolf Hitler. A profunda arfada vinda de sua esquerda o arrancou de seu devaneio. o branco dos olhos parecendo flutuar na escuridão. O efeito da combinação era algo como um presságio de uma picareta de gelo no peito.

perplexo. Suave no começo. Hess estava apertando tanto sua mão que suas unhas chegavam a cravar na carne macia da palma. Maria ficou com o corpo mole e sem energia. algo lhe torneava o torso. Uma chuva de fagulhas lhe caiu de leve sobre a cabeça.Seu rosto se contorcia de dor enquanto de algum ponto das profundezas de sua garganta vazou um som grave e gutural. o barão baixou a cabeça. O ligeiro contorno de seus mamilos marcou presença no tecido frio quando ela arqueou as costas O barão ficou olhando. seus gemidos foram crescendo em tom e intensidade. os braços pendurados no corpo. expondo-lhe as panturrilhas bem torneadas e os graciosos contornos das coxas firmes. Seus lábios se entreabriram sedutoramente ao percorrer o lábio superior com a ponta úmida da língua. O barão sentiu o estômago revirar de náusea. Crack! Instintivamente. o tecido do roupão se abriu na altura do busto. Capítulo 2 . Seguiu-se uma série de estalos barulhentos e as pequenas lâmpadas do lustre-candelabro foram queimando uma a uma. As mãos fantasmagóricas foram puxando o robe de seda cada vez mais alto. Choveu vidro do alto. Por debaixo do tecido do robe. achando que era um tiro. Como se ela estivesse sendo atacada por mãos invisíveis.

mas dedos penetrantes rasgam o tecido do robe.. A força maligna aperta sua pegada de morsa no pescoço.. rastejando como uma cobra. Seu corpo entra em convulsões ao sentir mãos grosseiras apalpando-lhe os seios e explorando os contornos de seu corpo jovem e perfeito. o corpo de Maria ser suspenso por mãos invisíveis. ela está dividida entre o enlevo e a vontade de viver. . Eles ficaram olhando. Algo se enrosca em sua garganta. caindo pesadamente sobre as costas. engasgando ao tentar respirar. estupefatos..Maria se sente levada por um transe.. revirar-se violentamente e ser jogado ao outro lado da mesa. Mas então ela sente. Ela fica sufocada.. Tremendo de êxtase. Mãos fortes lhe abrem as coxas. caindo pesadamente sobre as costas. A pressão ao redor da garganta diminui. . Ela se enche de uma sublime mistura de terror e injustificável abandono.. uma presença maligna lhe serpenteando pela pele. apertando cada vez mais forte. Ela se sente sendo suspensa no ar e então arremessada para o alto. A escuridão murmurando. sondando-lhe a pele. Sensações agradáveis fluindo-lhe em um sono sem sonho. então algo lhe adentra bem fundo.

eu lhe ordeno que pare com essa loucura de uma vez e se dirija a mim. Então seu rosto começou a se contorcer como se ela estivesse sendo estrangulada. levantaram de um pulo e caíram novamente em seus assentos com suas pernas moles como borracha. Com sua voz firme e autoritária de barítono. seus olhos faiscaram furiosos. e depois azul. Pelo poder da sabedoria de seu nome. causando um arrepio na nuca do barão. ele disse: — Dietrich Eckhart. — Gott im Himmel! Faça alguma coisa. Uma voz fria e metálica falou. Ele a está matando! O barão respirou fundo e se retesou. começando a ficar vermelho. Suas coxas se abriram e seus quadris começaram a menear ritmicamente. O tecido suave das laterais do pescoço estava marcado por manchas brancas. Algo lhe rasgou o robe. — Hitler vai dançar de acordo com a minha música. O corpo de Maria ficou mole. Hess foi o primeiro a conseguir falar. e então se comprimiram como fendas.Simultaneamente. Enrijeceu o corpo e se levantou da mesa. Quando sua cabeça girou na direção do barão. e ela se esforçava para respirar. expondo seu corpo nu. O ar pareceu estalar com a energia estática. arqueando a cintura de modo não natural. como se fossem de dedos lhe escavando a pele. . Ela arregalou os olhos. como se uma tábua rígida lhe estivesse levantando o torso.

O barão estava sentado no leito de morte de Eckhart quando ele pronunciou as mesmas palavras finais. os olhos fitando o vazio. Visivelmente engolindo em seco. — Doktor Carl Gustav Jung. como se fosse a lâmina de uma faca lhe cortando o peito. — Tem uma pessoa em Zurique que conhece o segredo — disse a voz áspera e desencarnada vinda dos lábios de Maria. Um pequeno traço de sangue escorria do canto da boca e então começou a escoar também do nariz e das orelhas. O barão e Hess trocaram olhares de soslaio e se aproximaram ligeiramente.. Seu corpo oscilou e ela desfaleceu. Eckhart. Hess conseguiu dizer: — O nome. desmoronando sobre a mesa. com certeza. encontra-se a chave do poder do Vril. Um grito estridente saiu dos lábios da médium. Não havia a menor dúvida. O pescoço estava retorcido em um ângulo antinatural. O doutor Carl Gustav Jung abriu caminho cautelosamente por entre a aglomeração na plataforma para pegar o Expresso do . — Seu poder e conhecimento são maiores que os meus. Em seu diário. Dê-nos o nome dele! O rosto de Maria se contorceu em uma careta assustadora.Era a voz de Eckhart. Capítulo 3 A BORDO DO EXPRESSO DO ORIENTE Havia uma multidão na estação de trem de Munique..

seus velhos ossos cansados receberam com prazer aquele luxo. a culinária . fazendo com seu sopro o trem partir.Oriente. A fumaça turva coalhou o ar úmido. — Verzeinhen sie mir. um pouco de tempo para si mesmo e. desapareceram dentro de um vagão de passageiros. A figura sombria de um homem de capa de chuva se materializou detrás do carrinho de bagagem. Ele parou e se virou rapidamente ao subir os degraus do vagão. Algo lhe rebocou os sentidos. Um pouco de paz e tranqüilidade. Os patrocinadores de sua série de palestras lhe providenciaram um vagão de primeira classe. Sentiu uma pontada aguda e penetrante nos joelhos idosos e uma dor pungente na base das costas ao içar as malas para o carregador pela janela do vagão. Jung guardou na mente a capa de chuva e o vestido azul da mulher. pedindo perdão. O funcionário assentiu com a cabeça e abriu um típico sorriso falso. pediu desculpas ao esbarrar na jovem atraente que estava dando um beijo de despedida no namorado. estou terrivelmente atrasado — ele gritou em alemão. Um carregador gritou: — Todos a bordo! Ele percorreu o terminal com os olhos. as rodas da locomotiva começaram a girar. Com um toque estridente de apito e o assovio barulhento do vapor. é claro. Com voz ofegante. Em um instante. Apesar de Jung achar que a extravagância do Expresso do Oriente era um pouco exagerada. Ele empurrava grosseiramente uma bela mulher de vestido azul para dentro do trem. enfim.

diplomatas e donos de indústrias era o disfarce perfeito para um espião. . o Escritório de Serviços Estratégicos. Ele abaixou a cabeça para entrar no compartimento. deram-lhe a missão de fazer algo inédito: o perfil psicológico do pior homem do mundo. Jung sentiu que isto era o mínimo que podia fazer. para fazer duas coisas. Mas havia mais nessa missão. acomodou-se no sofá-cama com um grosso fólio. Ele podia ser olhos e ouvidos da ESS. forçou um sorriso débil para uma velha com cara de ameixa seca acompanhada por uma matrona corcunda que exibia as gengivas em um sorriso lúbrico ao caminhar pesadamente em sua direção. Ao terminar. confraternizando com intelectuais. As iniciais ESS e a palavra SUPERSECRETO em letras vermelhas lhe encaravam. Pegou um documento. Dirigiu-se à porta corrediça.rebuscada do Expresso do Oriente eram prazeres culpados que ele teria de suportar. Devido ao seu histórico de psicanalista mundialmente renomado. Adolf Hitler. deu uma rápida olhada no corredor. Um sorriso excêntrico lhe veio aos lábios ao pensar em sua querida esposa que vivia lhe censurando por pular refeições para ficar trancado em sua torre acastelada de Bolligen. como ele dizia. Fora procurado pelo novo e inexperiente serviço de inteligência americano. As mãos manchadas pela idade tiraram com esforço a fita vermelha do prendedor. para lutar contra as forças das trevas. Poder viajar incólume pela Europa. Abaixou a tela de seda e começou a desarrumar a mala. segurando a porta atrás de si com grande dificuldade e sentindo dor.

Ela dá um sorriso discreto e diz.Lembrou-se da filosofia e da sugestão do Coronel Donavan. Quando ele começou a pegar no sono. Rabiscara umas anotações a partir do material fornecido pela ESS e simpatizantes que ele encontrou. Ao respirar em padrão rítmico controlado. — Quem desconfiaria de um excêntrico como você? Um acadêmico apolítico considerado meio biruta por muitos de seus colegas. doutor Jung. Ora. o senhor se prostrou para os nazistas quando era diretor da Associação Européia de Psiquiatria. Uma pomba branca desce das alturas. Um pequeno sorriso lhe veio aos lábios. Tentou imaginar um espelho negro e vazio sugando-lhe todos os pensamentos incômodos que vinham à mente aos borbotões. uma chance de consertar alguns erros. — Estamos indo. . era mais salutar. Ele estava exausto. o "Bill Maluco". por mais dolorosa que fosse. Donavan era conhecido pelo linguajar tosco e pela franqueza. Ela pára em frente a uma cintilante tábua de esmeraldas. diabos. e aponta para ela com sua mãozinha delicada. Tirou os óculos de arame e massageou seu comprido nariz. Seu rosto angelical irradia inocência. seguido por um sonho. sua mente acabou se aquietando. mas às vezes a verdade. gradualmente se transformando em uma jovem. nem levantou a voz! Jung se retraiu ao ouvir as palavras de Donavan. Quem sabe até uma chamada à ação. Pôs o fólio dentro da bolsa e se esticou no banco. um ronco retumbante tomou conta do compartimento.

Capítulo 4 O som de alguém batendo na porta o despertou de um sono profundo. por favor — disse o turco em alemão passável. — Penso que talvez não seja prudente fechar a porta. Seu chapéu turco balançava para a frente e para trás a medida que ele olhava nervosamente para cima e para baixo do corredor. O suor corria em seu rosto moreno. — Doktor Jung... abrir a divisória corrediça. . Jung o observou por um momento e então abriu a porta. eu lhe garanto que não quero lhe fazer mal. — Warteziet. trôpego. ainda com a visão borrada. Jung tirou as pernas do sofá.. os olhos arregalados e tomados pelo pânico. mas é questão de vida ou morte. por favor. Deu um passo para trás e o homem entrou. Abriu a porta. O homem balançou a cabeça de modo um tanto encabulado e disse: — Ah. tranque a porta. Peço que me perdoe pela ríspida intromissão. Estou indo — ele murmurou. Jung imaginou que fosse turco. meu jovem. pescou os óculos de dentro do bolso do casaco e foi. Um jovem corpulento vestindo um terno amassado estava à porta. mas..

espremendo ardorosamente as mãos. —Muita gentileza do senhor — o turco plantou-se no sofácama. e está nas garras dele. —Por favor. ja? O turco fez que sim. Mas temo que ela esteja nas mãos do demônio em pessoa. —Queira se sentar. prossiga — Jung atiçou. Depois que ela sumiu com aquele capeta. Jung acendeu o cachimbo e soltou uma boa baforada de anéis de fumaça. Jung adorava aplicar suas teorias no mundo real. — Kerim Bey.Então comecemos pelo seu nome. levei seis longos meses. Estou a caminho de Istambul. — Em casos como este é sempre bom começar do começo. Eles a estão usando — ele parou e hesitou brevemente e então .Jung resmungou algo e trancou. doktor. Chegara à conclusão que quando uma pessoa fazia isto com os olhos era sinal de que ela estava inventando ou falseando uma história. e logo o transmitiria aos interrogadores da ESS. Desenvolvera um método simples de detectar quando alguém estava mentindo ou dizendo a verdade. Jung tirou um cachimbo do bolso de dentro do casaco e foi enchendo do fumo de uma bolsinha enquanto falava. O turco esfregou os lábios com as costas da mão. Percebeu que o turco olhava para cima e para a direita ao falar. Não era bom sinal. —Ela se misturou com um grupo maligno chamado Vril. onde moro. mas consegui descobrir que estavam em Berlim e fui atrás deles. — Eu encontrei minha irmã. mas ficou sentado apenas na beira. Ela está a bordo deste trem. Estudou os maneirismos e movimentos de olhos do turco ao falar. .

eles representavam um modelo para a SS. O turco disse parte da verdade. Ele diz que foi adotado por um exilado austríaco pertencente à nobreza. O barão sugerira a Hitler que ele tomasse como exemplo para seu novo regime os Ismailitas Assassinos. Jung pensou. Em outras palavras. Ele estudou no meu país com os dervixes Bektashi.. Com isto eles se protegem do perigo de se consorciar com essas forças demoníacas. mas seu nome de registro é Rudolf Glauer. até mesmo pular de despenhadeiros para a morte ao seu bel-prazer enquanto ele se dopava com haxixe. — E quem é este demônio que seduziu sua irmã? — Ele usa muitos nomes. — Então você acredita em mim? — o turco perguntou. Ele tem passaporte turco.. — Sabe.. e interrompeu. Jung se retesou ao ouvir o nome. Usa o título de Barão Rudolf von Sebottendorff. indicando que estava relembrando fatos reais. E sua irmã servindo de guia espiritual deles. desde criança. Eles praticam atos blasfemos. conhecia sua visão distorcida do mundo. Ouvira falar do barão. Desta vez ele olhou para cima e para a esquerda. a hesitação indicou que estava representando.choramingou. trêmulo. Isto está ficando interessante. Acho que chamam de intuição. Jung deu um sorriso caloroso e tranqüilizador. — Práticas ritualísticas do Vril para invocar espíritos malignos. nascido perto de Dresden. o "Velho da Montanha". que seguiam cegamente os caprichos de seu líder. Mas quando fez uma pausa e soluçou. uma ordem de monges . ela tem um dom. místicos sufis. Jung balançou a cabeça afirmativamente de propósito..

sem dúvida. Se ele confrontar e sse louco e decifrar sua mente doentia. Jung limpou os óculos com um lenço velho. e onde exatamente? CAPÍTULO 5 Foram até o vagão-restaurante. pondo-se a olhar distraidamente para a paisagem que passava.militares fanáticos que seguiam Heinrich Himmler cegamente. Sentado em frente à mulher estava um homem corpulento. O turco balançou a cabeça em direção a uma mesa nos fundos do vagão. Jung decidiu se jogar de cabeça. talvez pudesse usar a informação em seu perfil psicológico de Hitler. feito por encomenda. — Ja. — Ela está usando vestido azul e está de costas para nós. Ele formou um cone com os dedos gordos e com eles pressionou o queixo. Seu terno cinza-escuro era elegante e. O vestido azul lhe acendeu a memória. eu lhe disse. . Seu rosto redondo e gordo se empoleirava sobre um pescoço grosso e gorduroso que sobrava na gola apertada. Jung soltou um grunhido exasperado. colocou-os atrapalhadamente de volta no rosto e deu uma olhada. — No trem. — Onde eles estão agora? O turco levou as mãos à boca. Um monóculo fixo em um dos olhos bulbosos cintilava à luz do Sol. A papada o deixava pavoroso como um buldogue.

. O barão pareceu perplexo. Jung notou seus longos dedos afunilados e seu pulso delicado quando ela levou uma taça de cristal com água aos generosos lábios. — Devo esperar em seu compartimento? Jung respondeu com um aceno de cabeça e seguiu pelo corredor. Não quero causar uma cena. Tenho uma cópia de seu livro Der Talisman des Rosenkreuzers.Ah. O barão observou o cartão e levantou os olhos de pálpebras pesadas. quem sabe pegando o barão desprevenido. Ao chegar à mesa ele inclinou os ombros e pôs um cartão de visitas com a mão trêmula sobre a toalha de linho branco. Seus olhos fotografaram a mulher de azul. É só que não podia deixar passar a oportunidade de encontrar o autor. creio. Olhou para Sebottendorff e depois para Jung novamente. doktor Jung? . ela deu um sorriso fraco e críptico. Jung infiltrou-se à mesa. O turco o observou cautelosamente. Ele queria bancar o velho excêntrico. herr doktor. Levantou e fez uma mesura formal. O vestido justo e sem ombros conduzia sua beleza a um nível clássico. apenas curiosidade de velho.— Acho que é melhor você não dar as caras. meu jovem. mas seu rosto se iluminou. Quando seus olhos se encontraram. — Qual a razão de nos dar o prazer de sua companhia. chamejando um calor predatório. um homem que possui vasto conhecimento sobre os rosacruzes. junte-se a nós — estalou os dedos. Seus olhos castanhos fluidos eram assombrosos. sinalizando para que o atendente trouxesse uma cadeira. e subitamente baixou os olhos. perto do vaso de rosas. — Por favor.

A conversa passou para um dos assuntos favoritos de Jung. que de forma alguma conseguia esconder o roxo. — Diga-me. . — Acho que o senhor está confundindo minhas teorias com as de meu colega. O barão soltou uma risada gélida e logo serviu mais uma dose a todos. O barão pediu uma garrafa grande de Dom Pérignon e caviar de beluga. nem na luz do Sol e nem nas trevas. Você realmente acredita que no final das contas é tudo questão de desejo reprimido? Jung fez uma careta. Devo confessar que a opinião dele sobre meu interesse em misticismo e alquimia causou uma severa tensão em nosso relacionamento. Que não sejamos como crianças tolas. alquimia. Ele me acusa de ter parado em alguma fase da adolescência na qual minha lógica se confunde com o que ele chama de "pensamento mágico". com medo da escuridão. O teatro de bonecos da visão é a Máscara do Demônio. Passaram então a se entreter mutuamente com quintilhas humorísticas de progressivo mau gosto à medida que bebiam.Aos buscadores da iluminação. — Não acredite no olho humano. Ele havia escrito livros sobre o significado subjacente de seus estranhos símbolos e conhecimento oculto. doktor Sigmund Freud. pois nela se encontra a luz! Jung deu um sorriso astuto e levantou os óculos. doktor. apesar de Jung perceber que a dama de azul não havia tocado na primeira. .Os olhos afiados de Jung captaram a maquiagem pesada sob o olho esquerdo.

— Sugiro que continuemos esta conversa em meu compartimento. Por favor. Acho. O que o senhor me diz? Jung arrotou ruidosamente. — Ela provavelmente já está quase chorando de tédio com nossa conversa. —A dama em questão. ela tem seu próprio compartimento. como seu conceito do inconsciente coletivo ao qual todos nós nos conectamos inadvertidamente de vez em quando. Não estou certo se a dama vai gostar disto — o médico respondeu olhando em direção a ela.. Simulou desinteresse.O barão deu uma risada doentia e então subitamente sua expressão ficou absolutamente séria. O barão olhou ao redor. —Bem. para ser bem franco. Possivelmente mais do que o senhor possa imaginar. mas não podia deixar passar a oportunidade de mudar de assunto para falar de Hitler. . que ele sabia a esta altura estar corado por causa do champanhe. — Ademais. Linhas de tensão se formaram ao redor de sua boca enquanto os olhos perfuraram Jung. está correto. O conceito de arquétipos profundamente arraigados é correto. prossiga. Tenho um maravilhoso brandy Luís XIV e diferentes tipos de excelentes charutos. — Por favor.. não é dama nenhuma — o barão lhe lançou um sorriso maldoso e voltouse novamente para Jung. — Conheço seu trabalho. dê-me este prazer. contudo. que o senhor deixou escapar um elemento crucial. A dama de azul ficou de pé e pediu licença. caso ele desse abertura. enfiou o dedo na gola da camisa para afrouxá-la e esfregou a mão pelo rosto. Jung retesou o corpo ao ouvir a reprimenda. Em parte.

. Não seja brincalhão.. Jung deu um tapinha no bolso. — Fiz um estudo cuidadoso sobre o poder do Vril. em troca. querido. me diz algo. Capítulo 6 Sozinho no compartimento privativo do barão. exatamente? Jung pegou um caderno vermelho do bolso e folheou as páginas. — Como a maioria daqueles que buscam o caminho . Jung estava começando a perder todas as esperanças de conseguir qualquer insight da mente perturbada de Sebottendorff. Eu lhe digo algo e o senhor. — O que está oferecendo. Jung pensou ter notado um sinal de alívio lhe fluir pelo rosto.. doktor. herr Jung — ela disse. mas precisa ser quid pro quo. havia o indício de um sorrisinho sagaz.— Até o próximo encontro. — Compartilharei isto com o senhor. — Agora o senhor está caçoando de mim. oferecendo-lhe a mão. Sebottendorff bufou de raiva e a dispensou.. Ela se virou para Sebottendorff. O barão deu um olhar de coruja atônita e se envergou para a frente com as mãos carnudas apoiadas nos joelhos. e sim. Mudou de assunto ao ficar entediado. Jung podia ouvir atrás de si o sussurro e a agitação de seu vestido enquanto ela saía do vagão-restaurante. — Divirta-se enquanto pode. — Palavras mordentes com entonação cáustica.

—Os fins justificam os meios a qualquer preço? O barão deu um sorriso falso. — Vamos lá. o barão perguntou: — Quer dizer um diário mágico? Jung assentiu e riu. a força maior que conduz o universo. Mas primeiro. Lá no vagão-restaurante. pronto para dar o bote. O poder da vontade de um homem. Jung inclinou-se mais para perto. A ciência está dando grandes passos. o senhor me atraiu à sua gruta com a promessa de revelar minhas falhas. pode mudar o mundo. Digamos apenas que concordamos que a base da energia que conduz a alquimia é . — Não vou debater moralidade com o senhor. Coçando o queixo com os dedos dobrados. sua verdadeira vontade e então agir de acordo com ela. — Ah. Quando canalizado adequadamente. —Para o bem e para o mal — Jung acrescentou suavemente. meu caro barão. —Com isto estarei cumprindo minha parte do acordo? —Claro que não. Seria perda de tempo. O senhor desconsiderou o poder maior. se Sigmund Freud ouvisse nossa conversa — ele bateu na coxa e piscou. — O poder do Vril pode ser domado e canalizado. Quem vai dizer qual é qual? O importante é descobrir seu potencial oculto. — Precisamente. mantenho um registro de minhas jornadas e experiências. nosso conhecimento está crescendo com uma rapidez surpreendente. me diga o que foi que eu deixei escapar em meu trabalho. pode chamá-lo assim.da verdade. —Bem e mal? — o barão zombou. doktor. — Muito bem. Creio. que estamos falando da mesma coisa. O barão levantou as mãos.

Jung parou e cravou os olhos nos de Sebottendorff. obscenas demais para mencionar. os Filhos do Sol. — A pureza racial vai gerar uma nova espécie.de fato a libido. a ascensão do .Isto não tem nada a ver com suas teorias racistas de eugenia ou raças inferiores. Jung prosseguiu. — E se eu lhe disser que os Vril-ya estão chegando? Jung usou o termo que ele sabia que seria familiar a Sebottendorff. — Tive visões de chaminés vomitando um fedor oleoso. Receio que o senhor tenha. coisas repugnantes e malignas. libertado um insano. sem querer.Não! Jung o interrompeu . E um brilhante flash de luz que consome uma cidade inteira. — Jung suspirou profundamente. Em meu sonho me foi revelado que um Sol Negro vai lançar sua longa e escura sombra por toda a Europa. — E se eu lhe dissesse que a ciência também abriu outra porta através do estudo de algo a que chamamos de genética? Tive visões de uma mutação evolutiva desenvolvendo uma nova espécie de humanidade. por assim dizer. . Sebottendorff ficou sentado em silêncio. Receio que sejam revelados muito em breve os segredos do vasto poder do átomo. uma alteração cósmica. Um novo começo. pilhas de corpos macilentos. Estou falando de um novo estado de evolução. a alquimia também lida com física e química. um demônio que enlouqueceu com o poder do Vril. — Os Lebensraum ou origem principal da nova raça mestra. Todavia. Vril-ya. detendo-se em cada palavra. Sebottendorff deu um sorriso oleoso.

quero sua análise quanto à maior fraqueza dele. O taciturno aristocrata finalmente se sentou. sim. Acabo de terminar um livro chamado A Alemanha antes de Hitler. seu orgulho e teimosia! Ele se cerca de patetas e lacaios. homens subservientes que alimentam sua . Acho que o senhor chamaria assim.. —Mas energia descontrolada e mal dirigida é uma coisa perigosa. o senhor pergunta? —Seu maldito ego. Não será durante nossas vidas. Dietrich Eckhart e eu plantamos uma semente e ela cresceu. Sebottendorff arregalou os olhos.Éden. Hitler não passa de um títere ambicioso. Mas qual é sua pergunta para mim? . que expressa alguns de meus sinceros pontos de vista. Jung lhe deu tempo de recompor os pensamentos. — ele deixou a frase pelo meio e observou Jung com um novo brilho nos olhos. mas será em breve. O Barão Rudolf von Sebottendorff recuou e pôs-se de pé. Cortou a ponta de um charuto e o acendeu. Parecia ansioso para falar. É irônico que me faça esta pergunta. vou lhe dar uma resposta honesta. Ajeitou com os dedos os cabelos longos e finos e caminhou pelo compartimento. Distorcida pela auto-indulgência e pela egomania.. meu amigo.. — Assim como o senhor. — Eu não acho que somos tão diferentes. O maior defeito dele.Quero sua opinião honesta e bem informada sobre quais seriam as motivações de Adolf Hitler.. muito breve. um dínamo humano de energia. — Aonde eles irão. Deu uma longa tragada e bafejou no rosto de Jung.

Ademais. Ele se deixou obcecar pelo poder. uma raiz de mandrágora. de brincar de espião. Mas haveria perguntas demais. convenceu Hitler que podia lhe garantir boa sorte para sempre. meu velho. ao soar a meia-noite em noite de lua cheia. que consistia no führer. — Apenas um sedativo forte. Juntos fizeram o "Pacto dos Três". Jung encarou. acho que você é um patife mentiroso. Mas receio que o senhor esteja sofrendo do mesmo mal. —Seu astrólogo. Ele está cego a qualquer coisa que sugira cautela e falta de sorte. O führer leva o pacto escrito pendurado no pescoço e guarda a mandrágora trancada em local seguro. a mandrágora soltou um grito ensurdecedor quando Hanussen a arrancou da terra. Mas quanto mais encarou. Não tenho estômago para esses métodos afeminados. Você . Ele traça o rumo do Terceiro Reich pelas estrelas. inflexível. —Acho que você foi muito tolo. No quintal do carniceiro. Não. garanto — Sebottendorff explicou. isto não daria certo mesmo. Não. Erik Jan Hanussen. doktor.Então sua natureza supersticiosa poderia causar sua maior derrocada? — Bem possível. —Não é veneno. mais estranho foi se sentindo. Ficou tonto e pequenas partículas pretas se revolviam nos cantos dos olhos. se não fosse um serviço porco. Hanussen e um amuleto em formato de homem. O barão enfiou a mão em seu terno e tirou uma pistola semi-automática Luger 08 Parabellum. eu poria a boca desta pistola perto da sua têmpora e faria este cérebro fraco e arrogante explodir para fora do seu crânio. .insanidade verborrágica.

arrancando-o de suas mãos. o turco. Perdoe-me.. eu também pertenço a um culto antigo e prestei juramento de combater as forças do mal. Quando Jung voltou a si. peço desculpas por minhas mentiras. Com uma dor de cabeça latejante. Estava cheia de roupas sujas. Dentro havia uma pasta grande que continha páginas amareladas com as margens rasgadas. agora! Como Jung lutou para ficar com o diário. Deixo-lhe de presente um tesouro raro. E então a escuridão se fechou sobre ele. viu que estava sozinho no compartimento. fortes e assemelhados a salsichas. que foram encontradas escondidas no Palácio Imperial de Topkaki em Istambul. como se tivessem sido arrancadas de um livro velho. Dê-me seu diário mágico. Doktor. E vão lhe levar ao local do legendário.sabe corno acelerar o processo. que são as páginas perdidas do manuscrito Voynich. Não era sua. como desencadear o potencial máximo do Vril. Encontrou um fundo falso e rasgou o forro para abrir. Abaixando-se com um joelho. um bilhete escrito à mão caiu no chão. Precisava que você distraísse o Barão Sebottendorff enquanto fugia com minha irmã. Jogou o conteúdo no chão e passou os dedos pelo forro da mala. pegou o caminho de volta para o seu alojamento com pernas bambas. ele a abriu.. . Bateram com força na porta. Então. sentiu os dedos do barão. Presumiu que fosse a valise de Kerim Bey... Elas contém a chave para decifrar o manuscrito. lembrou-se subitamente. Os olhos de Jung notaram uma mala caída no chão. Quando Jung abriu melhor.

. erguendo o olhar sobre o Barão Rudolf von Sebottendorff como se o convocando a uma sepultura aquosa. Na outra mão ele tinha o diário do doutor Jung. Os olhos furiosos de Sebottendorff espocaram.Passaporte. — Maldito Untermenchen! Devolva meu diário. Kerim Bey deu um sorriso seco e sussurrou asperamente: — Essa foi só para chamar sua atenção. Se o que você quer é dinheiro. lutando para tirar a adaga cravada até o punho. por favor — gritaram os funcionários da alfândega. Capítulo 7 ISTAMBUL O reflexo da lua cheia ondulava sobre a superfície escura do rio Bósforo. Um tiro ecoou pela noite e a rótula de seu joelho foi pelos ares.. faça seu preço. Jung rapidamente enfiou o bilhete no bolso do paletó e colocou as páginas do Voynich cuidadosamente dentro de sua bolsa. Ele arranhou o ombro. Ele levantou a vista para encarar os olhos cruéis do homem de chapéu turco que segurava com mão forte uma pistola automática Mauser ainda quente.

PARTE II A Ascensão da Babilônia CAPÍTULO 1 Dias de Hoje: Tell Brak Nagar. Só quero lhe mandar de volta para o inferno.Kerim Bey se aproximou. enchendo as vísceras de Sebottendorff de chumbo quente. Suas mãos desceram ao estômago e ele caiu d e c os t a s nas águas frias. Os olhos do barão inundaram-se de terror. um solo faminto e à espera de ser alimentado. . — Não quero seu dinheiro sujo. mergulhando os olhos naquele homem brutal e ferido. — Isto é por minha irmã! A Mauser latiu duas vezes. Com o maxilar torto. Síria O deserto da Síria é uma terra vulcânica tão infernal que parece o solo da necrópole de algum antigo inimigo. ficou olhando com incredulidade e terror para a ensangüentada frente de sua camisa. O ar parecia espumar com o fedor intenso de suor frio e urina. que é o seu lugar.

Ele se assustou com o rugido de um caminhão se aproximando. agora mesmo. A doutora não respondeu. Quis balançar os braços freneticamente. Os faróis se agigantaram ao chegar mais perto. Allez. doktari — Yousef gritou tropegamente pelas costas do vulto. Yousef quis avisá-los para voltar. se abriu. A porta do passageiro do caminhão. Pare. Quando Yousef chegou à parte de trás do caminhão. pular para cima e para baixo e gritar a plenos pulmões. A luz matinal começava a tingir com um brilho cálido o deserto e as rochas ao redor. uma voz tosca grilou. o vento noturno correu hirto antes do amanhecer.A alvorada deslizava pelo horizonte talhado. tiritando de medo e nervoso. Suave como a ameaça do lobo do deserto. Yousef estava sozinho. O vulto alto pulou para o chão e marchou em direção aos fundos do caminhão. Ponha no chão. mandando os funcionários tomarem cuidado. viera àquele lugar. não. O vento jogou o kafeeyeh do passageiro em seu rosto. Um dos homens resmungou e ficou encarando. — Não. Logo ele e seus soldados iriam encharcar a areia com o sangue dos inocentes. Al-Dajjal. com palavrões e árabe vulgar. sinalizando que a área estava livre. Shaitan em pessoa. Mas ao invés disto. Aquele primeiro. sentindo o bico de uma AK-47 na espinha. que exibia o logotipo incrustado de poeira da Sociedade Arqueológica Britânica. ele balançou a lanterna. certo. não. transformando o lugar no Jardim das Delícias Terrenas do Demônio.As salaam aleeikom. . .

Ela se aprumou e ajeitou o lenço no pescoço. O sorriso de Yousef se desfez rapidamente. Ele está enxotando o mau olhado. Coberta de areia. Furtivamente. quando a doutora Kelly abaixou as costas para soltar os cabelos longos. sugando o ar. Alá esteja convosco.— Filho da puta. — Ele disse que a senhora é a Prostituta da Babilônia. a doutora Kelly parecia pronta para liderar uma expedição às Minas do Rei Salomão. A doutora ficou com um pé escorado no pára-choque. pah-leez. fazendo verdadeiros discursos para os homens que descarregavam os caminhões. como se filtrada por uísque cor de âmbar e filetes de fumaça. — O que há com o mon general aqui? — ela perguntou a Yousef. tropeçou para trás e fez gestos largos e frenéticos para ela com a mão. não ouse ficar me encarando. — Assim. ela disse: — Ah. O soldado com a AK-47 respirou fundo. sua voz tinha um tom rouco e grave que era tão sedutor quanto aliciante. levante junto. olhou para os lados. . como se fossem jóqueis fracassados e enlouquecidos. Yousef sorriu débilmente. fartos e ruivos. Para uma mulher. Ele começou a suar frio e engolir em seco. O homem resmungou consigo mesmo em árabe. Revirando os olhos verde-mar. das botas revestidas de poeira à calça caqui e jaquetão da mesma cor.. a doutora Blair Morgan Kelly tirou o lenço e soltou os cabelos. Rafiq — disse a doutora Kelly. acenando com a cabeça para o perplexo guarda. Deu de ombros.. Com a maioria da carga descarregada.

ou os trocaram por maquetes idiotas como alvos abertos. a missão era similar àquela executada pelas Forças Especiais no começo da operação Tempestade no Deserto. Yousef? O estalo agudo das pistolas automáticas foi sua resposta. Saddam Hussein estava mirando na Arábia Saudita e Israel com mísseis de longo alcance. os grandes lançadores móveis de mísseis não foram expostos. .Iraque Às 4h00. mas dava para ver que a doutora Kelly estava entendendo tudo. como se estivesse escrito em sua testa. Estava tentando disfarçar o medo. Iraque. que ficava a apenas sessenta e cinco quilômetros ao sul de Bagdá.sentindo o perigo eminente. Os iraquianos esconderam os lançadores debaixo de pontes ou em celeiros. dois helicópteros Chinook idênticos levantaram vôo da base de operações no deserto a oeste de Mosul. A despeito dos múltiplos bombardeios. Intrigada. ela perguntou: — O que está havendo. e as agências de inteligência acreditavam que podiam estar equipados com gases como sarin ou travar uma guerra biológica com agentes como antraz. eles estavam criando pânico e terror. partindo em direção à fronteira. Em tese. Apesar de os mísseis serem relativamente ineficientes. Foi tomada a decisão de convocar o Controle Central Iraquiano. SíriaFronteira Síria .

Mas o major Brody Devlin sabia que sua missão era inteiramente diferente. o segundo estabelecia um perímetro de proteção. comandava uma equipe de . O país era a Síria e o homem era conhecido como Al-Dajjal. os Chinooks estavam repletos com dois grupos de operações militares. Já que as descobertas eram de todos. equivalente ao Comando Especial da Marinha Americana. Os britânicos contribuíram com veteranos experientes que não estavam na ativa do SAS — Serviço Aéreo Especial — e das tropas terrestres de contraterrorismo da Força Aérea Britânica.Bem como antes. O primeiro grupo destruía o alvo. Eles estavam tentando forçar uma rendição. que preferia ser chamado de Brody pelos amigos e colegas oficiais. enquanto mulheres e crianças mereceram um fim muito mais humano — uma bala na nuca. os braços amarrados juntos. isto queria dizer que eles estavam fazendo um seqüestro/apreensão sem autorização de cidadão estrangeiro em solo estrangeiro. Em linguagem clara. com direito a fotos de corpos amontoados em covas coletivas como se fossem toras de lenha. Rumores de um genocídio na Síria foram confirmados por fontes locais. Devlin. um implacável agente da KGB que se tornou uma força do governo sírio. Al-Dajjal foi classificado como um criminoso de guerra sanguinário pela articulação confidencial entre o presidente dos Estados Unidos e o primeiro-ministro britânico. O major Devlin viajava no helicóptero-líder. o mesmo valia para os esquadrões. O esquadrão tinha o nome-código Força Tarefa Negra. além de uma equipe do SBS — Serviço Naval Especial —.

Mas a combinação da publicidade excessiva com a usurpação de sua função no Departamento de Estado pela empresa de capital privado BLACKWATER gerou a necessidade de um novo grupo especial de reação: a FORÇA ÔMEGA. simbolizava o último recurso. ou. O grupo era composto por ex-membros das forças especiais e uns poucos cérebros. Eram jovens acadêmicos de várias ciências que trabalhavam sob a cobertura da Divisão do Exército de Sistemas de Combates Futuros. — Devlin ouviu as palavras do piloto pelo fone de ouvido. apesar de ele saber que os israelenses e os soviéticos haviam praticamente dizimado o sistema de defesa iraquiano. Sendo a última letra do alfabeto grego. ÔMEGA era a designação perfeita para esta unidade. major. Como ambos confirmaram. No passado. — ETA para a fronteira. sentiu as vísceras revirando ao cruzar a fronteira. de qualquer agência federal requisitada para a missão. Apesar de Devlin saber que o espaço aéreo iraquiano era tão fácil de penetrar quanto uma mosca varejeira que entra por uma tela protetora rasgada. se estava nervoso. sua equipe também estava. conferindo sistemas e armas — ele berrou ao microfone. um minuto. se for o caso. Devlin concluiu que. as forças DELTA forneceram a mão-de-obra que era assaz necessária tanto para as operações paramilitares públicas quanto para as secretas. . — Esquadrões Alpha e Beta.investigadores de um ramo novo do Departamento de Defesa Americano. os helicópteros estavam voando baixo sob o radar. como eram chamados pelos soldados de infantaria. Como antes.

bigode ralo sobre o lábio superior. Ouvindo a conversa por acaso. Brody? Devlin sorriu e assentiu. cujos dedos voavam pelos teclados de um laptop field. hein. — As imagens de satélite mostram que nosso alvo é fácil. que era o escocês-de-cara-vermelha da unidade. — O que conseguimos com a inteligência? Braxton apontou com a cabeça para seu nerd especialista em comunicações.Que nem nos velhos tempos.. mas se dirigindo ao setor norte como planejado — Scout deslizou os óculos de armação de arame para o lugar certo na ponta do nariz.ele se arrastou até o helicóptero. vinte e tantos anos. interveio. — Pois então. correu para seu lado. um Global Hawk fazendo reconhecimento. Parece que o imbecil gosta de desfilar por aí em uma antiga Mercedes conversível preta enfeitada com bandeiras no párachoque como alguma merda de. — Ouvi falar que ele tem um chicote de cavaleiro e ostenta um lenço de pescoço branco de seda. boa aparência de garotão. conversando amenidades com as tropas e supervisionando o equipamento. um punhado de cabelos ruivos. Ele que é Rommel. cortesia de Langley.. Scout lhe disse: — Estamos de olho no céu. Scout Thompson. — Nazista? — Devlin interrompeu. O tenente Braxton. Scout era o especialista residente da unidade em tecnologia.. que nem o velho general Monty fez com Rommel. o sargento Conner.. a Raposa do Deserto. seu segundo em comando. . . e eles dizem que o alvo está em movimento outra vez. vamos dar um chute naquela droga daquela bunda que ele vai parar em Berlim.

Estou cuidando das minhas coisas. Era um eufemismo engenhoso. iraniana. senhor. Diziam que seu nome verdadeiro era Eric von Raeder. senhor — Conners respondeu. Devlin disse que o fascínio de AlDajjal com o Terceiro Reich tinha base histórica. Seus projetos na verdade incluíam de tudo. e era patrocinado pela KGB. tratando de se concentrar em desmontar sua arma. Gregor e Samira tomaram um vôo para a Rússia onde lhe prometeram diminuir a interferência em sua pesquisa.Devlin abriu um sorriso e então fuzilou o sargento com um olhar severo. E isto era exatamente o que Conners parecia para o major Brody Devlin. . Seu pai era Gregor von Raeder. era arqueóloga respeitada por mérito próprio. um grande macaco peludo. Depois da guerra. Lembrava um gorila. Samira. zoólogo e antropólogo alemão que servia como chefe do infame Deutsches Ahnenerbe (Ahan-ner-ba) ou Sociedade da Herança Ancestral Germânica de Heinrich Himmler. Através de seu relatório. desde bárbaros experimentos médicos com humanos à investigação do ocultismo. com sua abundância de pêlos grossos e negros cobrindo-lhe os antebraços e o peito e sua postura simiesca. — Sim. passando por expedições a cantos remotos do mundo em busca de evidências arqueológicas que confirmassem as teorias de Himmler sobre as origens da Superior Raça Ariana. Sua mãe. Eric von Raeder era dono de uma mente perspicaz e fora educado nas melhores universidades que a Rússia e o Reino Unido tinham a oferecer. Conners veio de uma unidade especial da Força Aérea Britânica chamada "os Macacos da Pesada".

Viajou intensamente pelo mundo com a mãe, visitando muitas escavações arqueológicas em sua expedição. Em uma dessas escavações, sua mãe foi morta durante um ataque de retaliação dos israelenses na Palestina. Desde então, Eric nutre um ódio profundo pelos judeus e, obviamente, por seu mais fiel aliado, os Estados Unidos. Após a morte da mãe, converteu-se ao islamismo e adotou o nome Azrael Al-Dajjal. No começo era um agente secreto da KGB, especializado em Oriente Médio, devido à sua fluência em farsi e árabe. Mas a sedução do dinheiro fez dele um consultor free-lance. Consultor o cacete, Devlin pensou. Verdugo de sangue frio combinava mais. Devlin estava com mau pressentimento em relação a esta missão, e especialmente em relação a seu alvo. O homem era inteligente, mas mesmo assim era um açougueiro brutal e calculista. Até sua escolha de um nome muçulmano fazia gelar o sangue de Devlin. Al-Dajjal era o nome islâmico do demônio, mais especificamente — o anticristo — sua cria. A voz do piloto chiou no fone de Devlin. — Major, preciso de você na dianteira o mais rápido possível. Na cabine de pilotagem do helicóptero, Devlin examinou a tela do radar enquanto o piloto apontava. — Está vendo aquele sistema se mexendo bem na nossa direção? Devlin fez que sim com a cabeça. — Tempestade na frente de batalha? O piloto balançou a cabeça. — Tempestade de areia, das grandes. Surgiu do nada. É realmente estranho, mas esta merda acontece por aqui.

Devlin fechou a cara. — Maldição! O satélite de reconhecimento não devia ter previsto isto? O piloto deu de ombros. Era um cowboy deslocado chamado Tex. Devia, major, sabe como é. Só sei que a tempestade é uma filha da puta das grandes e que faz uns... cento e vinte nós. - Então não podemos ultrapassá-la? - Cês tão pensando que estão num caça-bombardeiro Raptor ou o que? Bem, nós não vamos... esse gordão desse helicóptero é mais devagar que meu ave com diarréia. Vou consertar o... O helicóptero começou a se inclinar e dar guinadas violentas, brigando com o vento forte. Tex gritou para o co-piloto: — Arrume um lugar pra descer e JÁ! — Onde estamos? — Devlin conseguiu perguntar. — Até onde sei, estamos atolados bem no meio da porra de lugar nenhum, ou então no sétimo círculo do inferno. Melhor mandar os garotos apertarem os cintos, que vamos descer com tudo. Uma ofuscante rajada de luz explodiu a cabine de pilotagem. A mão de Devlin lhe voou até os olhos. Quando suas pupilas temporariamente cegas finalmente conseguiram se contrair o bastante para enxergar novamente, ele ficou olhando, atônito. Tentáculos de relâmpagos branco-azulados formavam uma árvore de fogo que serpenteava pela noite em direção ao chão. O céu explodiu outra vez, cuspindo arcos de descargas elétricas exatamente em direção ao mesmo alvo abaixo.

Um jato de luz azul-claro subitamente pulsou do chão, aparentemente onde os raios caíram. Então o jato se voltou para o céu, crescendo em diâmetro e intensidade. — Uau, cara... —Tex gaguejou, os olhos parecendo ver menos quanto mais ele olhava. — Nunca vi nada assim. Veja só aquele babaca. — Vamos ver mais de perto — o co-piloto disse com voz inexpressiva. Uma sensação atemorizante e quase sedutora cresceu dentro do peito de Devlin. Ao dar uma olhada para os pilotos, viu que também estavam sendo afetados. Os raios pulsantes palpitavam como um coração. Eram impressionantes, levavam a mente de reboque como um raio-trator fantasmagórico. A cor era luminosa, hipnótica. Trovões como percussões detonavam pancadas ao redor deles, e Devlin viu que eles pareciam chacoalhar os pilotos, acordando-os de seu transe. Devlin procurou clarear as idéias. Em um borrão de som e movimento, o helicóptero gêmeo passou por eles como uma nuvem, indo diretamente para o feixe azul pulsante. Tex berrou no microfone. — ZEBRA DOIS CHARLIE, do LÍDER DE GRUPOS, recuar. Nenhuma resposta. Apenas o zumbido agudo da estática. — ZEBRA DOIS CHARLIE, responda... recue, não ataque. Repetindo... não ataque! Devlin e os pilotos ficaram olhando, impotentes, enquanto o outro helicóptero desaparecia dentro do cone de luz pulsante.

Capítulo 2
A doutora Blair Morgan Kelly esperou longa e duramente por aquele privilégio. Tell Brak Nagar era a realização de um sonho para uma arqueóloga de trinta e poucos anos como ela. Originalmente descoberto na década de 50, o sítio datava de 6.000 a.C., a última era neolítica, mas culturas sucessivas também foram descobertas: camada sobre camada do segundo, terceiro e quarto milênios. Era um dos maiores sítios considerados pré-acadianos da Antiga Mesopotâmia. Tabletes cuneiformes, que para os leigos deviam lembrar arranhões de galinhas, contavam a história de Tell Brak como cidade dominante. O Tell, ou monte, tinha forma trapezóide e mais de um quilômetro de comprimento. O sítio antecede a cultura assíria, a dinastia babilônica e até mesmo o império de Hammurabi, o dador da lei. Era a época de Sumer e Ur e depois a época da Caldéia, tempo dos sábios magos, da magia, mas também tempo de grandes avanços tecnológicos na ciência, na matemática e na arte. Mas os tabletes cuneiformes também contavam uma grande catástrofe. O evento de Brak. O que Blair Kelly queria descobrir era este evento e o palácio de Narim-Sin, neto do rei sumério Sargon, o Grande. Ao pôr os pés no acampamento, ela teve uma sensação de incômodo. Desconsiderou, atribuindo a um caso de nervos.

Mas agora que ela e Yousef estavam sendo levados por um grupo de criminosos de dentes amarelos que os forçava a caminhar sob a mira de armas, ela se arrependia por não ter aprendido a seguir seus instintos. Aquilo era sua menina-dos-olhos e ela não iria dividir com uns cretinos oportunistas, armados até os dentes ou não. O terreno rochoso era irregular; ela tropeçou mais de uma vez, sendo levantada aos puxões por mãos rudes. Um dos capangas em particular não parava de olhar atravessado para ela, estuprando-a com os olhos. Se a coisa ficar feia para valer, ela pensou, eu mato esse canalha primeiro. Yousef veio em sua defesa, colocando-se entre ela e o capanga de olhar lascivo. — Mantenha suas patas imundas longe dela, ya kalb! — ele gritou em árabe. Ao abrir um amplo sorriso, o guarda revelou um dente frontal de ouro que cintilava à luz do Sol. Deu uma risada que soou como um cacarejo, olhando para Blair da cabeça aos pés. — Vou fazer o que quiser com esta koos. Então ele se virou para Yousef, os lábios descascados como um chacal raivoso. — Vai me chamar de cão imundo... vai? — Ele levou o bico de sua submetralhadora ao plexo solar de Yousef e derrubou o defensor dela com uma coronhada no maxilar. Blair ouviu o osso quebrando e Yousef cair desfalecido. Por reflexo, ela deu um chute com a ponta da bota que lhe atingiu a rótula com força. O capanga gritou de dor. — Ya sharmuta! — Outro guarda veio por trás e prendeu os braços dela. A fera ferida caminhou

mancando até ela. Cuspiu-lhe no rosto e lhe esbofeteou com as costas das mãos, abrindo-lhe o lábio. Blair fez uma careta de dor, mas o encarou diretamente nos olhos. — Beije sua mãe com essa boca, ibn haram! Se me chamar de puta imunda outra vez eu vou dar esse seu saco encarquilhado de comer para os chacais, seu asqueroso desgraçado. Ele chegou mais perto, seu hálito era repugnante. Os olhos pequenos e brilhantes dançavam, o corpo emanava um fedor de bicho morto. —Eu vou lhe mostrar quem é o filho da puta. Mais tarde você me paga por esta. Quando estivermos a sós em minha tenda — o capanga olhou com desprezo e lambeu o contorno dos lábios enquanto passava o dedo sujo na parte de cima de sua blusa, detendo-se em um botão, depois subindo ao pescoço para finalmente lhe dar um tapinha nos lábios machucados. —Waj a zibik! — ela gritou, fitando-o com repulsa. Ele bateu nela mais uma vez, ao que parecia objetando fortemente a alusão de Blair de que ele ia acabar pegando uma boa dose de gonorréia. O gosto salgado do sangue encheu-lhe a boca quando eles a afastaram do corpo franzino de Yousef. Quando alcançaram o topo de um penhasco, ela parou de repente. Dava para ver poucos metros à frente uma longa escavação com um buldôzer estacionado na ponta. Um grupo de homens que usavam túnicas pretas e calças onduladas treinava suas AK-47's em um pequeno grupo de mulheres e crianças em fila no alto da escavação. Blair respirou fundo e lutou contra a bílis quente que lhe subia pela garganta.

Um homem alto estava no meio dos matadores. Tinha porte militar com sua postura grandiosa, suas botas pretas alemãs de cano alto, sua calça e jaqueta de couro, pretas e feitas sob medida. Um lenço de seda branco ajeitado frouxamente em seu pescoço refulgia ao vento. Como se sentisse sua presença, o homem se virou. Ele inclinou a cabeça e deu um sorriso torto. Com os braços abertos como se surpreso, ele os abaixou, batendo na coxa com um chicote enquanto caminhava rapidamente em direção a ela. — Doutora Kelly, eu suponho — ele disse, curvando-se elegantemente. - Acredito que vá... perdoe esta minha pequena intrusão em sua escavação, mas lhe garanto que somos colegas com o mesmo objetivo. O capanga sexomaníaco a empurrou para a frente, fazendo-a cair de joelhos. Quando se levantou, ela cuspiu sangue nos pés do gorila. O sorriso do líder ficou fino como navalha, seus olhos eriçados de raiva. Movendo-se com a velocidade anormal de uma pantera, em segundos estava bem perto do homem tosco. Ficou olho no olho com o brutamontes animalesco. Lenta e metodicamente, tirou uma luva, depois a outra. — Du archgesicht! — Em um gesto anuviado, usou da força, estalando a luva de couro no rosto do capanga. O marginal fez cara feia e levou a mão ao rosto, onde brotou um vermelho vivo. O líder se virou e observou o rosto machucado de Blair. Então, como um falcão, girou a cabeça e ficou cara a cara com o capanga.

— Você é um porco — ele levantou a voz em árabe, chovendo saliva da boca. Mas acabou voltando ao alemão em ato falho. — Esta senhora é nossa convidada. Você me desonra com esse comportamento brutal. Virou-se, concentrando o olhar em Blair, as lentes espelhadas de seus óculos escuros chamejando como o fogo do inferno à luz estridente do Sol do deserto. Tirou os óculos escuros, revelando penetrantes olhos azul-cobalto, e começou a limpálos habilmente com um lenço de seda. Passando para o inglês, disse: — Eu tinha certeza que não seria ferida, doktor Kelly. Minhas sinceras desculpas pela selvageria demonstrada por esse grosseirão. Ela assentiu, agradecendo, e tocou levemente o sangue que deslizava do canto da boca. Sem esperar pela resposta dela, ele deu meia-volta. Aconteceu tão rápido que Blair nem viu o homem pegar a arma. O estrondo quebrou a quietude e um buraco bem aberto apareceu na testa do bandido. A cabeça do imbecil caiu para trás levemente como se ele tivesse levado outro tapa, e ele caiu de joelhos como se fosse um troço. A luz do Sol atingiu a Walther PPK folheada a ouro quando o líder guardou a arma. Como se nada tivesse acontecido, ele penteou com os dedos os cabelos louro-brancos e deu um sorriso indiferente. Caminhou tranqüilamente, tomou-lhe o braço gentilmente e a guiou em direção às mulheres e crianças. — Tem alguém que eu gostaria que a senhora encontrasse, doktor. Blair o observou. O monstro era um típico representante da raça ariana. A mandíbula inferior com aquela fenda no

Ele parecia sentir e cobriu a boca com a mão ao caminhar. teria babado só de ver aquele gostosão ariano de bunda dura.queixo. Um nome principesco. atravessava o lábio. ela lera em algum lugar. — Mas é absolutamente imperdoável de minha parte. aqueles olhos azuis gelados. menos isso.. Respirou fundo o lambeu o lábio machucado. Reichmarschall da Força Aérea de Hitler. fingindo pensar profundamente. doktor.. é claro. no processo de moldá-lo no barro. Era como se algum deus invejoso. Ao lidar com um sociopata é melhor aliciá-lo do que confrontá-lo. Ao parar perto dele. aquela testa inteligente. Não concorda? Procurando desesperadamente não levantar as sobrancelhas. tivesse lhe arranhado o rosto com o dedo. . Sou conhecido como Azrael Al-Dajjal. nome que adotei como muçulmano. — Acho que não fomos devidamente apresentados. notou a cicatriz irregular que avançava pela bochecha. que temos a mesma paixão.A senhora sabe. pervertido enrustido e dado a vestir roupas femininas. . Então ela viu. aliás. Herman Goering. marcando a ele e a seus semelhantes para a eternidade com a marca de Caim. Ela tentou não olhar fixo. o que explicava o sorriso permanentemente torto que parecia emplastrado em seu rosto. Mas aquele nazista de segunda era tudo. Ele enrijeceu. ela sorriu. Ele falava inglês castiço e jogava charme com a bem treinada sutileza e os modos espontaneamente fortuitos de um perfeito cavalheiro inglês.

aquele rumor tolo. —Não. também tem apurado senso de humor. —Eu tento. — Incrível.— É mesmo? E qual seria? Botas de cano alto? Ele soltou uma gargalhada cheia de entusiasmo. Tróia já foi considerada mera lenda até que um amador achou as ruínas da cidade debaixo das areias do deserto. — Ah. pelo que percebo? Chegaram agora às crianças. Mas ela acreditava que todos tinham alguma base histórica concreta. Talvez você já tenha ouvido falar de minha mãe. Samira alBani? Ela fingiu pensar no nome por um momento. O que era mesmo que ela estava procurando? A Fonte da Juventude? Ele apertou os olhos.ele se voltou para as crianças e a conduziu ao seu lado ao passar pela fileira . — Você não compartilha de sua paixão por civilizações perdidas. — Ah. Sou filho de herr von Raeder. Thule.. Digamos apenas que sou um saprófago sofrível. — Vejo que a senhora.. Estudei o trabalho dela sobre as escavações babilônicas quando era estudante de pós-graduação. Ela teve um interesse passageiro por todos os mitos de reinos perdidos. a doutora von Raeder. é claro. além de ser uma mulher linda e inteligente. — Este seria seu nome de casada.. Estava me referindo ao meu amor pela arqueologia. Ele a observou cuidadosamente. — De certa forma. você quer dizer? Ele fez que sim e ela podia jurar que ele corou levemente. Shaballa. Lemúria. olhando para baixo mais por medo do que por respeito. o famoso zoólogo. que estavam encolhidas de medo. certo? ..

a Estrela do Cão. ele lhe segurava o queixo. Ele falou com tal suavidade que por um momento ela pensou não ter ouvido direito. levantando uma asa aqui. e não uma garotinha. até chegar à última. Quando ele lhe levantou o queixo. Como a senhora sabe. Ao passar por cada criança. sabe — ele disse casualmente. Suas idades variavam. passando à próxima criança. Seguiu em frente. — E no meio. levantando o rosto para encará-lo. Ele prosseguiu. ela o encarou com um olhar consciente. ao contrário das outras crianças. há um buraco. Ela calculou que as idades variavam entre seis e quatorze anos. Todo seu ser parecia irradiar uma luz suave. uma menina. metia a mão no bolso e dava um doce.. teria. como nas pirâmides do Egito. — O Templo do Olho do Pecado. Era como se ele estivesse examinando galinhas na feira. . passando então para a próxima. apalpando o peito ali. Seu rosto era do tipo de beleza clássica que adornava pinturas de templos. o faraó olharia pelo buraco. — E rastreando o vetor do buraco de volta a.. — Quase achei.de pequenos rostos. mas intensa. Não. Algo em seus modos a enojava. Olhava atentamente. — sua voz foi diminuindo. Ele parou em frente à última criança.. que se voltava para Sírius. — Desenterramos um grande monólito — ele continuou. um olhar de segurança que só uma mulher madura. Mas a menina não podia ter mais de oito ou nove anos. ela o havia entendido direitinho..

Der Vril-ya. — Não tema. momentaneamente projetando sua longa sombra pela terra estéril que os cercava.ele disse suavemente em árabe. criança.Der Sonnenkinder. Uma nuvem passou pelo Sol.Al-Dajjal disse. . doktor — ele soltou a garota e voltou-se para Blair. . ninguém quer lhe fazer mal . . Profundas e luminosas piscinas de índigo capazes de dominar a pessoa com sua intensidade. A palavra espécime fez Blair sentir a pele arrepiar e uma espécie de dominó de gelo lhe descer a espinha. fingindo que não falava alemão. outro lugar. Tinha que . O futuro do mundo jaz em sua mãozinha.O que disse? — Blair perguntou. contemplando cena estranha e distante. outra época. . a voz alinhavada por entusiasmo. pareceu como se sua mente estivesse a quilômetros e quilômetros de distância. Por um breve segundo. . Eu estava meramente pensando alto que belo espécime ela é. tão única. E apesar de seu tom de pele ser ligeiramente mais escuro. Al-Dajjal parou e virou a cabeça para o céu. perdoe-me. Ele se virou para a garota.Notável.Ah. eu imagino. e pareceram-lhe enxergar a alma. balançando a cabeça com satisfação e lentamente segurandolhe a mão. não é? . Então voltou a falar em alemão sem perceber.De vez em quando começo a falar minha língua materna sem perceber. A sombra passou. a garota tinha cabelos louros. Um hábito excêntrico.Mas foram os olhos da criança que assombraram Blair.

. Alá seja louvado. Um capanga o bloqueou com a coronha de seu rifle. — Tem notícias? — perguntou em árabe. As estrelas polares fascinavam os antigos porque. então não fique aí parado: mão na massa — disse Al-Dajjal. é claro.. este sujeito é do tipo do doutor Josef Mengele. . Lembre-se. apontando para o ponto onde o observador teria de ficar para ver a constelação de. Outro homem com roupas de escavador esfarrapadas e cobertas de pó se arrastou em direção a eles..manter a sutileza. deixando a vista seguir o caminho do raio laser que apontava logo abaixo do buraco. a senhora não vai querer perder o espetáculo. Ela foi para o ponto. Foi até o monólito e deu uma espiada pelo buraco. — A entrada do templo. Olhando para cima. Al-Dajjal virou-se e assentiu. ela percebeu que o buraco focalizava a coxa de Orion. Haviam descido a série de escadas e estavam agora no nível mais baixo da escavação. girando em um eixo central. Nós seguimos o caminho do laser que o senhor instalou e. olhada por sobre o ombro.. ela repreendeu a si mesma. O homem lambeu os lábios secos e rachados. garota. doktor.. a Grande Ursa e o cinturão de Orion pareciam estáveis. a encarnação do anjo da morte. sondando o trabalho. Blair olhou ao redor. lá está! — Bem. ao contrário de outras estrelas que morriam ou afundavam todos os dias. ele chamou: — Vamos. pegando a mão da menininha e seguindo. Droga. Dando uma.. Suas mãos eram paralisadas e um olho estava turvo de catarata.

Guardião dos doze portais. Causava-lhe náuseas. encontramos! — Espere. e ela desceu o mais cuidadosamente que pôde. e é protosemítica. que ainda estava sendo limpa pelos escavadores. uma variação com a qual ela não era familiarizada.. não acha.. Ela sentiu o hálito quente e amargo dele em seu pescoço. — Tem uma inscrição aqui.II. Ela leu em voz alta.ZU. — O Templo do Olho do Pecado... — Segure a luz em um ângulo para fazer mais sombra para as letras. — Importa-se se eu der uma olhada na entrada? Ele se curvou — primeiro as damas.ZU. Ela olhou por sobre o ombro.a Sa. Ela continuou a passar o pincel cuidadosamente até que a inscrição ficasse clara. como daquela vez no Brasil. De trás veio a voz dele. Então lhe ocorreu. tem mais — ela disse. por favor. e os símbolos pularam da superfície. A subida para a entrada ainda consistia em lama atulhada de qualquer jeito.. Parecia uma forma bastarda de escrita cuneiforme suméria. Eram diferentes. áspera e grossa. — Muu. quando uma enorme jibóia se enrolou em seu pescoço. Ele se aproximou — deixe-me segurar a luz. tirando o pó da próxima coluna de símbolos.. zelador da ESTRELA DE FOGO. Pegou um pincel e uma lanterna de sua jaqueta safari e começou a tirar o pó do topo da entrada.. ..— A semelhança com a devoção ao céu egípcio é estranha. Mein Gott.. doktor? Blair soltou um longo assovio e afastou os cabelos do rosto.. Ele fez isto.

ela mudou de posição. A fissura cobriu toda a lateral do penhasco. que então se transformaram em gritos. uma estátua emergiu da névoa como se fosse um demônio levantando da . Primeiro ela sentiu um leve tremor. O canalha havia mandado os capangas executar o resto das crianças e suas mães. Esticou o braço e agarrou a mão da garotinha.Um murmúrio alto vindo de trás dela transformou-se em um coro estridente de choramingo e de uivos. coagulando o ar. e a talha abriu caminho em sua direção. Ela se virou e viu os escavadores saindo às pressas do fosso gritando "Mulla Sa ZU ZU!" enquanto se batiam e arranhavam para subir os degraus como um bando enlouquecido de macacos das árvores. O chão começou a se abrir e uma greta enorme começou a se formar. A superfície de pedra acima rachou e irrompeu uma fissura enorme. Quando a nuvem de poeira levantou. Um lençol de pedras desmoronou à direita da entrada do templo. Ela jurou que o veria apodrecer no inferno por isto. Choveu pó sobre ela. ela meramente reagiu e pulou para a esquerda. ainda agarrando a garota com os braços. As mandíbulas abertas da fenda vinham de baixo com seu olhar perverso. depois o chão sob seus pés começou a se mexer. Esforçou-se para chegar ao solo mais alto. Então subitamente pareceu que seu desejo se concretizaria. puxando-a para seu lado. Sem pensar. Al-Dajjal soltou um palavrão ao ser derrubado. O som então distante de tiros de metralhadora cobriu os gritos dos escavadores.

Da mandíbula escancarada debatia-se um pequeno corpo semi-consumido. uma leveza de ser. testa protuberante e uma boca pavorosa. Estava vagamente consciente da mãozinha da menina. tentando se safar. A superfície do penhasco cedeu outra vez e mais uma parede de pedras desmoronou. Símbolos entalhados em pedra mais embaixo pareciam resplandecer à luz do Sol.cova. Mas não tinha forma humana. Sua cabeça era como a de um lagarto inchado. com olhos grandes e sem pálpebras que encaravam ameaçadoramente. O nariz era grande e achatado. Ficou muda. com maçãs do rosto altas. revelando uma coluna imponente. O ENGOLIDOR DE CADÁVERES. feita de círculos concêntricos. Algo cintilou ao Sol como vidro. cheia de presas afiadas como lâminas. Baixou os olhos e viu seus pés suspensos no ar. A cabeça era bulbosa. lutando para escapar. A rocha se retorceu debaixo dela. . Ela traduziu mentalmente. Ela não se mexeu. Al-Dajjal xingava e já tinha puxado uma adaga comprida. Seus olhos se voltaram novamente para a fissura que crescia abaixo. Começou a escorregar rapidamente para dentro da boca da fenda que rachava o mundo ao meio. e foi inundada por uma leveza de calmaria. com olhos dilatados. O aperto de mão da garota ficou mais forte e então veio uma nova sensação. que perdeu o chão. olhando para um grande crânio de cristal ou provavelmente quartzo. Empurrou a pedra com a adaga repetidas vezes.

minha lindinha laeken. Vamos. Mas o chão estava chegando debaixo delas. lá em baixo. senhorita Luz do Mundo. Ela se virou para a garota. não era fantasmagórico. Juntas flutuaram pela beira do penhasco e lentamente começaram a descer. Blair deu um passo e parou. o verdadeiro demônio do poço. mas perguntou "qual seu nome" em árabe. A sensação que agora a preenchia era como algum tipo de onda estranha. Aterrissaram. uma mão agarrou o punho de uma faca e Al-Dajjal. percebendo que estava subindo em direção a ele. — Não acha que talvez devêssemos voar? Noor E Alam sorriu timidamente e balançou a cabeça. estamos bem longe de casa.. — Eles me chamam de. A menininha respondeu em inglês. Que acha de darmos o fora daqui enquanto estamos no lucro? Noor assentiu e segurou com força sua mão. Ela viu a menina ao seu lado. e rastejou para um lugar seguro. Noor E Alam — suas bochechas fizeram covinhas quando uma risadinha lhe escapou dos lábios.. Blair deu um longo suspiro. fulgurando com uma aura branco-azulada quase transparente. — Muito bem. Não dava medo.Levantou os olhos e viu o céu. voando mais e mais alto. . um enlevo prazeroso que ela desejava que jamais terminasse. lançando mão de todas as reservas de forças de seu ser. Debaixo. e sim reconfortante e agradável. até que as mandíbulas ferozes estivessem longe. — Achei que não. Não soube por que. conseguiu emergir.

Devlin inspecionou o vazio disjunto que os cercava. Ele ficou de pé e foi até o pedestal. Parado do lado de fora do helicóptero com Scout ao seu lado. . Tudo que estamos conseguindo é o radiofarol deles. mas estão avisados da situação. anunciando perigo em alto e bom som.O terremoto se acalmara. soltando-o de suas amarras. — Bem. vamos dar uma olhada e ver o que conseguimos. Com cara de preocupado e deprimido. O pessoal do Comando e Controle também n ã o teve sorte. Claro que não estavam tão longe. seus camaradas. imaginando o que teria acontecido à outra equipe.. —Negativo. A tempestade de areia uivara por sobre os esquadrões. Scout balançou a cabeça. Tex havia subido pela parte de trás. Capítulo 3 Estavam no chão fazia cerca de trinta minutos. Foi a meia hora mais longa que Devlin jamais passou. mas também podiam estar plantados na superfície da Lua. Estendeu o braço e levantou o crânio de cristal. —Não conseguiu ressuscitar o rádio ainda? — Devlin perguntou a Scout. trancado no helicóptero apertado com um grupo de homens agitados. Major.. O tempo clareou. imobilizando-os temporariamente.

Devlin mordeu o lábio inferior e deu uma olhada na cadeia de montanhas. Não iremos a parte alguma por pelo menos uma hora. Nunca os deixe para trás.Vamos direto para esta droga. vestindo uma camisa de brim sem mangas e . Certa vez bastou aquele grito de guerra bestial para fazer um bando de motoqueiros bêbados darem no pé em vez de puxar briga no bar com o pessoal. senhor. Brody e os caras estavam no bar. Ele era um sujeito grande e imponente.Difícil dizer com precisão. apesar de conseguir beber sem se embebedar. O sargento Conner estava de pé ao lado do piloto. chefe? Uma voz profunda ribombou detrás deles. você sinaliza bem a oeste sobre aquele monte? . Tinha o apelido de Chewie porque. .Tex apareceu ao seu lado. o wookiee peludo de Guerra nas Estrelas. — Scout. — Essa areia desgraçada e maldita sujou as turbinas. meu filho. um índio americano com olhos pretos como carvão. presos em um rabo-de-cavalo. — Era Clint "Chewie" Raindancer. Chewie estava encostado ao balcão. dotados de claridade cintilante e de franqueza. Mas esta é minha opinião. só ficava calado e de olhos vermelhos e podia subitamente soltar uma espécie de ronco alto que lembrava Chewbacca. Tinha cabelos negros compridos fora do regulamento. Vamos atrás deles. porque estão perto demais para dar uma posição exata do transmissor. — Situação regiamente enrolada. Suas pronunciadas maçãs do rosto e nariz de falcão lhe davam aparência nobre.

ele fez o motoqueiro girar. quase abrindo caminho. O motoqueiro não teve a esperteza de soltar. — Solte a moça. Chewie recuou e pisou firme. O líder da gangue caminhou lenta e deliberadamente em direção ao bar. Um deles a imobilizou enquanto outro montava sobre ela. Uma corrente de motocicleta balançava em sua mão e oscilava contra a perna da calça jeans imunda. Como um lutador daqueles de arrasar. que olhou com um sorriso escorregadio. parecendo flancos de cavalos. Chewie soltou seu grito de . jogando-a sobre o ombro e depois sobre a mesa de sinuca.desgastada nos ombros. S e m avisar. Uma calmaria gelada se abateu sobre o recinto quando os dois motoqueiros que atacavam levantaram os olhos. A pança de cerveja escapava por debaixo da camiseta. Chewie a enrolou no braço o deu um puxão. seus bíceps aplanavam. Então as coisas ficaram pesadas. sem jamais tirar os olhos de Chewie. Segurando firme a corrente com ambas as mãos e inclinandose para trás. Um motoqueiro barbado a agarrou e a levantou. o motoqueiro pançudo com hálito de onça e suástica tatuada na testa balançou a corrente da Harley Davidson em direção a Chewie. brincando de lhe beliscar o traseiro enquanto ela se enroscava em meio às mesas. De pé com os braços cruzados sobre o peito. Bloqueando a corrente dentada com o antebraço. A voz profunda de Chewie chamou o líder da gangue. assoviando para ela e gritando obscenidades. Quando trouxe o motoqueiro tonto mais para perto. Um grupo de motoqueiros estava brincando de modo meio esdrúxulo com uma garçonete de pernas lindas.

capitão — ele observou o chão por um momento e então levantou os olhos. Instale firme um perímetro e fique de olho bem aberto está certo? —Pode deixar. nós voltamos. Posso sentir em meus velhos ossos. estamos em uma merda de uma tempestade. — OK. — Se os filhotes de Ali Babá mostrarem suas caras feias. — Pronto para ir embora. Devlin disse: — Sintonize o satélite. — Certo. Estes pilotos eram experientes e perder a paciência deste jeito não faz sentido. senhor. Para Scout. Puxando Braxton para o lado. Dá má sorte. — Acha que os caras caíram nessa? . foi suficiente para convencer a gangue a cair fora. sargento Conners. Chewie bateu no peito com a mão que mais parecia uma pata de urso. Devlin sussurrou: — Brax. ponha para funcionar e me mantenha informado. A combinação da imagem do líder da gangue caindo como uma massa amorfa e se borrando todo. mais Chewie arrebentando a corrente da moto ao meio com os dentes. Brody Devlin ficou parado olhando para o grandalhão. coçou o queixo o sorriu.guerra ensurdecedor e deu uma cabeçada das boas no gordo imbecil. você e Tex façam este pássaro sair voando à toda. Devlin balançou a cabeça e se virou. senhor — Conners disse com seu pesado sotaque escocês.

Chegando ao topo. Chewie e eu vamos fazer o reconhecimento do território. Um pequeno Wadi. O Chinook era um touro para levantar materiais e veículos. ou rio. Era um sistema de comunicação . Eles tinham acesso às tecnologias mais recentes de invisibilidade e comunicação. receberam o que havia de mais moderno em hardware e armas. mas o interior era apertado demais para acomodar um Land Rover quando cheio de soldados e equipamentos. A voz parecia vir de dentro da cabeça do soldado. O terreno vinha subindo levemente enquanto Devlin e Chewie caminhavam. conduzindo a um vilarejo aninhado na base de mais colinas estéreis. Parte do material parecia saído diretamente de um livro de ficção científica e ainda era material sigiloso. a transmissão recebida também era conduzida via crânio. de modo que fones de ouvido eram opcionais. ver se conseguimos encontrálos. Apesar de ser perigosa uma missão de resgate com dois homens. Da mesma forma. A voz humana vibrava através do crânio do homem escolhido e convertido em cobertura do teto do capacete através do transmissor. Seus capacetes foram feitos com tecnologia pioneira de indução óssea desenvolvida em pesquisas para capacitar surdos a ouvir. serpeava ao longo. podiam descobrir uma trilha que levasse para o vale. Não era preciso microfone.—Só tem um jeito de descobrir. Mas continue tentando encontrá-los pelo rádio. eles não eram soldados comuns. Como a força ÔMEGA era reforçada pela Divisão do Exército de Sistemas de Combates Futuros.

Chewie balançou a cabeça. Chewie bufou e fez careta. Demarcando ambos os lados da rodovia. O ar fedia a ozônio e algo que não souberam identificar. . Brody — então ele apontou com a cabeça para a beira da estrada. Nada se mexia. mas não havia cadáver. solavanco e levantamento do cano da arma. lança-granadas de 40 mm e lança-mísseis antitanque Milan. assim como à equipe dele. elas eram especialmente projetadas para reduzir o fator pinote. galinhas e gado. . Foram cobertos por um pesado silêncio. Apontou para cima.estritamente viva-voz. as novas metralhadoras automáticas KRISS SUPER V calibre 45. pensando alto. — Guerras químicas e biológicas não fazem isso. viram as carcaças ensangüentadas de bodes. A sombra de um cadáver estava impressa na estrada. Um visor dava uma amostra em tempo real tanto em infravermelho como em imagiologia térmica. Estavam nas cercanias do vilarejo. mas lhes foram distribuídas. mas tinham poder de fogo de 45 a 1100 projéteis por minuto.Armas biológicas? Quem sabe antraz? — Devlin murmurou. Até sua capacidade de fogo era modernizada. Batizadas assim por causa de uma espada indonésia de lâmina flamejante. Os britânicos carregavam sua costumeira arma portátil Sig P226. Devlin tentou conter o calafrio de horror que fez seus braços se arrepiarem quando passaram pelos arredores desertos do vilarejo. capazes de derrubar qualquer um se comparadas a uma 9 mm.

e era como se algo o tivesse derrubado e matado. como se goivados com um cinzel. Brody viu que os diamantes cintilantes eram na verdade as cascas brilhantes de gafanhotos mortos. A paisagem pedregosa pela frente cintilava como se estivesse repleta de cacos de vidro. Olhando diretamente. com tom grave. ele disse: — A morte caminha por aqui.Instantaneamente. Chewie ajoelhou com uma só perna e estendeu o braço para pegar uma planta. Devlin pegou sua faca guardada na bainha do . largando um resíduo parecido com pó de carvão. Chewie aprumou-se repentinamente e apontou com o cano de sua metralhadora. as armas engatilhadas. O que quer que fosse esta praga. Levantou e esfregou a mão na perna da calça. jazendo frouxa e sem vida. com os olhos virando da esquerda para a direita. Chewie virou o homem com o pé. Quando chegaram mais perto. ela esfarelou em seus dedos. Até a vegetação esparsa estava encolhida e murcha. Carne carbonizada e uma língua escurecida que pendia de lábios empolados davam boas-vindas. O rosto que olhava para o nada era pavoroso. parecia que os olhos tinham sido cauterizados. Parado ao lado do cadáver. Devlin sabia que antraz não tostava a vegetação daquele jeito. o primeiro que viram. jazia com o rosto virado para o chão. chegou até a destruir o enxame de insetos em pleno vôo. Apertaram o passo. As roupas não passavam de trapos queimados. Como não havia luvas cirúrgicas. Um corpo. Devlin entendeu o que ele estava querendo dizer. Devlin ajoelhou-se para examinar o homem.

No coração do vilarejo agora. Estava mole como mingau. Devia ter percebido. Identificaram o homem como membro do SAS. O estômago de Devlin revirou. e rápido. digeridos por algo que se alimentava de dentro dele. Como se os aldeões tivessem fugido em pânico. O homem forte e grande estava parado em silêncio. todas as casas estavam com as portas abertas. Devlin procurava pelo outro lado. espiando pela fresta das portas antes de entrar. e saía balançando a cabeça pouco depois.. Sabia que estavam ambos pensando a mesma coisa. com uma expressão aflita no rosto. Um par de placas de identificação cintilou ao Sol chamejante. achando ter ouvido um som.ombro. como se músculos. . como se o metal tivesse protegido de algum tipo de radiação. E. por enquanto. e empurrou gentilmente a ponta da lâmina sobre a pele. Debaixo. Chewie verificava os edifícios à direita. o desconforto de Devlin aumentava à medida que eles procuravam minuciosamente pelas ruas. sinalizando que não havia encontrado ninguém. Encontrar o resto da unidade. Parou em uma porta. expondo o peito do cadáver. não tinham idéia do que era aquilo. tendões e tecidos tivessem sido parcialmente comidos. Usando a faca. Devlin levantou a vista e se deparou com os olhos fixos de Chewie. Com um movimento brusco. a pele tinha cor natural. virou as placas de identificação sobre as costelas do soldado morto. cabo Collins. levantou a camisa tostada. Os olhos de Devlin identificaram as botas militares do homem.. os sobreviventes.

. Devlin juntou as mãos. uma cortina cobria uma porta. Urrando de dor. sem poupar ninguém. O agressor enfiou os dedos duros como aço no pescoço de Devlin e apertou sua faringe com os polegares. Por que não havia moscas infestando os lugares abandonados? Onde estava todo mundo? E como haviam desaparecido tão rápido? As perguntas e as prováveis respostas apontavam todas para um fato: o que quer que tenha acontecido por ali atingira a todos os seres vivos. mantendo empinado o cano de sua KRISS. O cozido de carneiro havia engrossado. Devlin afastou a cortina para o lado com a mão que estava livre. Devlin bateu forte na ponta do nariz dele com as mãos juntas. formando um "V" com os antebraços e levantou os braços. Estava matutando sobre os fatos ao sair da casa. Assim. Quando os braços do maluco foram lançados para os lados. concentrou a força do ataque contra o ponto mais frágil do abraço mortal. A cozinha. Ele sentiu cheiro de comida. Nos fundos da casa. os polegares do agressor. O vulto atacou. o agressor rolou para o lado. Vendo tudo embaçado e com a mente confusa. Subiu os degraus para o segundo andar. derrubando Devlin no chão. Havia no primeiro andar pedaços de móveis gastos. Com cuidado. Estava tão absorto pelo enigma que não viu o agressor chegar. Gritando e xingando como um louco. Havia comida intacta na mesa.Entrou. O homem estava sobre ele. O recinto tinha forte fedor de alho e tabaco.

. batendo com os calcanhares no chão. Deu um passo e de repente caiu no chão. Devlin conseguiu ficar de pé. ainda arfando. O rosto demoniacamente deformado distorcia a aparência do soldado. Ele murmurou algo que soou como um cântico enquanto balançava a cabeça no ritmo das palavras. pelo amor de Deus — gritou Devlin. Devlin foi para seu lado. que ardeu lentamente. retorcendo-se em convulsões. como um epilético. — Não há nada que possamos fazer por ele. Mas o agressor também se levantara. — Carter. Ficaram em posição de defesa. embasbacado. como um cão raivoso. Chewie fez uma careta e se levantou com dificuldade. Carter esticou o braço e procurou pela faca. Quando Chewie esticou o braço para tocar na mão de Carter. Do canto do olho viu Chewie aparecer e se ajoelhar ao lado de Carter. Espumava pela boca.Rolando rapidamente para a direita. Um manto de pequenas chamas azuis carcomeu o tecido das roupas. Lentamente sua cabeça virou e seus olhos retomaram a humanidade. Um grasnado como de gralha saiu de seus lábios trêmulos. Começou a emanar vapor de seu uniforme. Devlin estava olhando nos olhos enlouquecidos de um de seus próprios homens. O corpo dele emitia fedor de carne cozida. Devlin ficou parado. apelando em desespero. a pele se desprendeu em um só pedaço. Mas os olhos de Carter dançavam como os de um maníaco. sou eu.

Devlin seguiu bem na cola de Chewie. A cidade fantasma e suas janelas vazias pareciam rir em silêncio quando eles esbarravam nelas ao passar. Tiros soaram. Chewie correu para a frente. os edifícios e caminhos começaram a parecer os mesmos. Devlin perguntou a ele por que era chamado de Raindancer1.O estóico guerreiro assentiu solenemente. Uma vez. intacto. Chewie deu um sorriso travesso e lhe disse que aquele era o nome que se dava ao bravo guerreiro capaz de correr.) . do Trad. Ficaram em silêncio por um momento. como se as paredes de pedra estivessem se deslocando e girando para criar uma barafunda sem fim. Como em alguma casa de espelhos. por entre os pingos da chuva. Eles se viraram em direção ao som. depois de várias doses de Jack Daniels. Brody fez o que pôde para acompanhar Clint Raindancer. dotado de sexto sentido para encontrar sua presa. 1Dançarino da chuva. Então gritos de pânico irromperam no ar. percebendo que o homem era um rastreador nato. a garra pelada e esfolada que foi um dia a mão de Carter fez um movimento como se os quisesse enxotar. por aqui! Apesar de estar em boa forma. Como se também entendesse seu destino. Ouviu ao longe os gritos atormentados de homens. (N. com o rosto mortificado de emoção contida. gritando — Brody.

Devlin fitou. o campo de fogo. e o penetrante cheiro cúprico de sangue lançou-lhe às vísceras ondas de mal-estar. Uma névoa fina e azulada ainda permanecia. O ar lhe obstruiu os pulmões com o odor de cordite devido ao recente tiroteio. Devlin os viu. Soldados sírios estavam espalhados por toda parte. Um emaranhado de homens e mulheres vestindo trapos chamuscados se encurvava sobre algo. Os gritos agonizantes vinham de trás do helicóptero. Como um lobo sentindo o cheiro de sua presa. horrorizado. seu capacete captando as palavras e as transmitindo a Chewie.Quando viraram uma esquina. e Devlin podia jurar que a mulher estava mesmo farejando o ar. Quando deram a volta pelo helicóptero. a cabeça de uma velha se levantou do emaranhado de corpos. Estava na praça do vilarejo. Como uma pantera. Ele murmurou suavemente. o segundo Chinook surgiu logo em frente. Olhando além do conglomerado de corpos contorcidos. Devlin localizou Chewie. Chewie rastejou em direção ao aglomerado. Devlin foi pela esquerda. empunhando armas com rigor letal. Chewie foi pela direita. A cabeça dela girou em velocidade anormal. e parecia ter aterrissado sem problemas. Sua pele gelou de terror. . O rosto dela estava molhado de sangue. Olhos bravios capturaram os dele.

procurando freneticamente por seus perseguidores. chocados de terror.Capítulo 4 Agarrando com força o volante do Land Rover. —Fui pego de surpresa. a luz do Sol fez brilhar seus óculos de proteção quando ele os ajeitou na . Eu arranquei isto de seus veículos — esticou o braço para baixo e levantou a tampa do distribuidor e um emaranhado de fios. marcando sua rota de fuga. desviaram de uma pedra enorme por pouco. Mas acho que a Raposa do Deserto não estará em nosso encalço. Encontrara Yousef descendo uma colina aos tropeços. um Land Rover apareceu em seu campo de visão. e sorriu. Optando pela velocidade. vindo com tudo pela esquerda. Atrás dela. Ela viu de relance o escudeiro encarapitado detrás da metralhadora. uma nuvem de poeira agitava a paisagem. Com Noor e Yousef ao seu lado. o veículo era jogado de um lado para outro enquanto ela manobrava pelo terreno. abatido. remexendo-se no banco do carro. mas vivo. Quando ela ia falar. Girando o volante com força. pegou emprestado o veículo de um dos guarda-costas de Al-Dajjal. O lustre de suor brilhava em seu rosto. Seus olhos estavam arregalados. Blair praguejava ao sair disparada pelo deserto. — Não podemos ir mais rápido? — Yousef apelou ansiosamente. O volante dava pinotes em suas mãos. —Cuidado! — Yousef gritou.

depois para a esquerda. pegue duas. . puxe o pino e jogue neles! Com as mãos trêmulas. Ao olhar para dentro. — Agora! — Blair gritou. e uma esfera foi alinhavada ao redor do capô. cortando em ziguezague. ela voou diretamente para dentro do ninho do atirador. — Vamos. ele arrancou os dois pinos. O Land Rover girou e os quatro pneus guincharam. Como eu puxo os pinos? — Use os dentes. seus olhos quase pularam. Por pura sorte. A metralhadora . Yousef apertou bem os olhos e jogou a granada.vista. cortantes. O veículo de seus perseguidores passou por eles atirando. cacete! Cuidadosamente. — Eu diria que você negligenciou o cara com a grande metralhadora — Yousef disse sarcasticamente.50 descascou de novo. pegue este saco aos seus pés. Ele lhe lançou um olhar desconfiado e tateou à procura do saco. elas não mordem — Blair olhou para o espelho retrovisor e viu seus perseguidores desviando dela por pouco. Explodiu uma chuva de vidro na estrutura do vidro e banco traseiros. Blair jogou o volante para a direita.. Quando eu frear. Tatuou o chão em frente a eles com o barulho repetitivo de sua metralhadora . — Yousef. Yousef pegou duas granadas e ficou olhando. pisando fundo no freio. — Os babacas desgraçados estão dando a volta para o seu lado. O lado do passageiro do Land Rover foi mastigado por chumbo quente e reduzido a vidro e metal.. Uma segunda rajada de fogo.50.

Blair empurrou Noor para o chão e se jogou sobre ela. enquanto o Land Rover seguiu em frente lentamente. Afastou os cabelos dos olhos enquanto se levantava e começou a tirar o pó de sua jaqueta safári. Blair ligou a máquina e arrancou fazendo os pneus cuspirem pedras e areia.Pule! — Blair gritou. Ocupada com a direção arriscada. usando seu corpo como escudo.O Land Rover dela fez uma curva perfeita de 180 graus e pendeu para o lado. o veículo do bandido entrou em combustão e virou fumaça preta. fazendo uma parada trêmula em uma turva nuvem de poeira. — Agora estamos ferrados. empurrando a porta ao seu lado com o ombro e puxou Noor com ela. Blair não havia percebido. mas estamos bem — ela praguejou e bateu na coxa. A voz suave de Noor quebrou seu mau humor. Foram envolvidos por uma rajada de calor. Yousef engoliu em seco e gaguejou. Após uma explosão estrondosa. Blair levantou a cabeça e virou para ver uma coluna oleosa de fumaça negra formando uma nuvem em direção ao céu. conseguiram se levantar e saíram correndo. . — Deixei cair a outra bomba. Após rastejar um pouco. — Acho que Yousef encontrou alguma coisa! . Devido ao momento em que escapou. rolando para fora do veículo. a segunda granada batera na beira da janela do Land Rover e quicou para o banco traseiro.

vamos. ela pensou.. Ela se manteve onde estava. gesticulando com floreios dignos de um ilusionista de palco que acabou de materializar um elefante. — Aqui. — Alá pode ter levado nosso jipe. Blair subiu com dificuldade. Noor avançou em direção à colina. Blair olhou para baixo. hesitando e franzindo os lábios.. eu tinha razão. Ao parar no topo. com bandeiras de direção do vento nos pólos oscilando à brisa. Como se fosse a voz desencarnada de um espírito. Yousef estava de pé. — Doktari — ele gritou alegremente.. da Segunda Guerra. — Viu. levada pela misteriosa garota. Então seu cérebro registrou a informação e ela se virou para Noor. Garotos e seus brinquedos. por aqui.. Puxando-a pelo braço. Havia uma suástica preta pintada em um campo branco sobre a fuselagem.Yousef! Em sua raiva. pequenininha. procurando encontrar de onde vinha a voz. estava um avião de guerra alemão antigo. —Acho que ele não conseguiu sobreviver. Seguindo aos tropeços.. acabou se esquecendo dele. balançando os braços e sorrindo de orelha a orelha.. Do lado do motor dava para ver um decalque com a imagem da cabeça de um lobo uivando. Aposto que o aspirante a nazista do Al-Dajjal tinha alguns submarinos alemães e uma . ele está nos chamando. mas ele presenteou a este servo com seu cavalo alado! Atrás dele. em uma pista de aterrissagem temporária. incrédula e espantada. a voz de Yousef foi trazida pelo vento vinda de uma elevação próxima. piscando os olhos.

Yousef se levantou. calçou as luvas correspondentes que iam até o cotovelo e colocou os óculos de vôo que Al-Dajjal fez a gentileza de deixar para ela. Ele gaguejou e tossiu. Yousef conseguiu dizer: — Se a senhora pilotar como dirige um carro. pequenininha. com Noor plantada no colo de Yousef no banco de trás. — Pode não ser tão maravilhoso ou elegante quanto antes. Subindo à asa. — Parece que temos mais companhia. colocou o quepe de couro. Noor esticou o braço e deu um leve tapinha na bochecha de Blair. seria quase engraçado. — A não ser que você pense que Alá lhe concedeu nove vidas. é melhor mexer o traseiro e subir aqui. Blair imaginou que devia ter sido um avião de instrução. Percebendo que era um avião de dois lugares. — Lá vêm eles de novo! Sentada na cabine do piloto. ela se agachou e chamou Yousef. cuspindo uma nuvem de fumaça fuliginosa. Devo precisar mesmo de nove vidas. Blair tirou a trava dos freios.. Yousef foi até o avião. virando para ver. cujo suporte estava inclinado para dentro como pernas de mosquitos prontos para decolar. e o puxou para cima. Fazendo corpo duro e reclamando baixinho. Ligou o motor radial. Quando ela pegou em sua mão. Ela ajustou o afogador e ligou de novo. Caminhando por debaixo de uma asa. .. Então levantou Noor. Se não fosse tão doentio. mas vamos voar novamente. trêmula de nervoso.dúzia de mísseis V-2 estocados em algum bunker gigantesco. Blair meneou a cabeça em direção ao redemoinho de poeira que varria a paisagem em direção a eles.

E as hélices do avião se manifestaram e gradualmente começaram a revolver. um tour pelo Vietnã. ao menos saberia aterrissar este torpedo. Como o avião decolou. A série de Land Rovers se aproximava com rapidez. o fizeram aumentar sua . O chão lá embaixo estava cheio de crateras e o avião estalou ao ganhar velocidade. por pouco não acertando o avião de caça. — Porque se eu tivesse tido algumas aulas de pilotagem que fosse.. Os tiros mastigaram o solo. é melhor usá-la agora! Já dava para ela ouvi-lo rezar ardentemente do banco de trás. Blair deu uma olhada para a esquerda e outra para a direita. plainando em direção ao Sol ardente.. deixando uma rachadura das boas em formato de teia de aranha. e viu dois Land Rovers perseguindo-a de ambos os lados. finalmente girando indistintamente. deixando para baixo a pista de decolagem improvisada. O ronco das metralhadoras ecoou em direção a eles. a plenos pulmões. Blair ficou com medo quando outra saraivada de tiros acertou o vidro da capota. Blair gritou para Yousef por sobre o ombro esquerdo: — Se você sabe alguma oração. O avião seguiu aos trancos e barrancos enquanto Blair aliviava o manete. Capítulo 5 Devlin estava acostumado a mortes e massacres. seguido pelo Iraque.O motor rosnou.

Mancando com dificuldade. 45 com tanta força que suas juntas embranqueceram e ficou com câimbra nos pulsos. Ele não estava imaginando coisa nenhuma. Um berro agudo como o de uma águia gigante explodiu de seus lábios purulentos. Ele levantou a KRISS e mirou na primeira coisa-ruim. outros rastejavam. Não obstan te. e de um tipo que ele jamais encontrou.resistência à dor. Ele agarrou sua KRISS. como se um bando de leões vorazes tivesse arrancado a carne dos ossos. seu sexto sentido lhe disse que aquilo era um perigo. vinham em sua direção. Uns vinham de pé. Foi quando se mexeram em direção a ele que ele viu. ou o que restava dele. O corpo de um soldado sírio. As narinas da velha inflaram mesmo quando ela sentiu o cheiro no ar. Um por vez. A dor persistente que resultava do testemunho direto do completo horror da guerra. Com a primeira rajada. demoníaco. fixaram em Devlin seus olhares vazios e vidrados. O dueto de . Os outros se levantaram em uníssono. Era algo que desafiava os limites do mundo real e de suas leis. Encurvada e abalada. Olhando mais de perto. acumulando-se na borda das costas da camisa. O suor lhe corria espinha abaixo. jazia obscenamente no chão. Quando ele se virou ela esticou o braço. ele viu que o cadáver fora rasgado em pedaços. algo talvez de outro mundo. Sua garganta estava seca de apreensão. a cabeça da bruxa velha explodiu em uma chuva de sangue e fragmentos de ossos. apontando diretamente para Devlin. ela se levantou.

O zumbido constante tornado familiar por uma centena de velhos filmes de guerra agora parecia irreal com sua nítida intromissão no mundo real. senhor. Fiz contato uns dez minutos atrás. mas agora não estou conseguindo mais. correram para o helicóptero. ouça. como uma noiva. . Retorcendo o bigode de morsa. —Algo por parte do major Brody? —A resposta é um grande não. um por um. Braxton e Scout o encontraram no meio do caminho. Conners respondeu: — Ela estava podre como uma puta velha. Sargento. — Senhor.. Eles se sacudiam e gritavam como animais feridos ao tombar no chão. Sem falar. Conners se prontificou. Brax balançou a cabeça e se virou para Scout. o som de tiros automáticos crepitou a distância.. a máquina está pronta para partir? — Braxton perguntou. Mas agora está novinha em folha. que estava vermelho de tão corado. — Bem. Capítulo 6 O sargento Conners jogou o último dos parafusos na caixa de ferramentas e foi para o helicóptero. estava mesmo. Antes que Brax pudesse responder.armamento automático soou enquanto ele e Chewie deitaram fogo na turba com suas 45.

não é? O aviãozinho de caça com hélice e com o motor radial mais veloz que a Luftwaffe já produziu.Os olhos deles se voltaram para o céu. . soltando sons guturais animalescos. estou fodido — Conners balançou a cabeça. ficaram parados. Foi quando ouviram a marcha firme de passos arrastados vindos de uma arcada à esquerda em direção a eles. inclinando a asa.. — Mas é foda.. Brody e Chewie viram uma silhueta entrando de cabeça baixa em uma velha mesquita. — Pelo amor de Deus. rapaz. embasbacados demais para se mexer.Não é foda. Por um instante ficaram parados como toras. Primeiro um. olhando e ouvindo. depois uma horda de aldeões como zumbis saindo aos montes da abertura. À distância. Brax entrou na conversa. depois dois. o que é. braços abertos e arranhando o ar enquanto mexiam as mandíbulas.. as mãos protegendo os olhos do árido Sol. é um Focke-Wulf FW 190. Dentro da mesquita. Mas então os olhos de Brody e Chewie se encontram.? A voz aguda de Scout veio em seguida. — Hora do Além da Imaginação — Scout murmurou enquanto o caça alemão passava por cima da sua cabeça. os olhos cheios de desejo por sangue. Coisinha linda. incrédulo. — Corra! .. Chewie balançou a cabeça. Passaram pelo caminho repleto de soldados mortos e ladrões de túmulos. — Bem.

A tosca túnica de lã que pendia dos ombros maduros foi a pista. Os olhos de Brody percorreram a longa barba branca do sufi e seus olhos cintilantes. ao invés de se locomoveram como uma horda de ceguetas mancos. Chewie bateu a porta e passou a trave-mestra. os santos sufis usavam roupas igualmente austeras. — Por aqui! — Brody gritou para Chewie. Um velho emergiu das sombras. recarregando suas armas com munição. Brody reconheceu o homem como sendo um sufi. mas ao contrário dos filmes. Ficaram parados. correndo pelo quarteirão. estes mutantes tinham asas nos pés. Brody localizou a construção mais próxima. um místico islâmico. . com as costas contra a porta. Seus cabelos longos e brancos lhe cobriam os ombros. Entraram aos tropeços no edifício. Lentamente dirigiu-se a eles. Brody sentiu medo. Brody viu um homem de idade gesticulando loucamente. trancando com segurança. Era a mesma figura que antes fez sinais da porta de entrada. arfando descompassadamente. ele transmitia vitalidade e jovialidade. olhos que resplandeciam de compreensão e sabedoria. correndo de costas e atirando com a arma presa na coxa. Chewie se virou. Devido às suas viagens pelo Oriente Médio. Bem ao modo dos m o nges franciscanos que usavam mantos simples e rudimentares como sinal de pobreza. Na entrada.Deram no pé da mesquita. Apesar de o velho religioso estar alquebrado por causa da idade e ter ombros encurvados. pois Suf em árabe quer dizer lã.

esta coisa-ruim.Quando o velho falou. — Foi a Providência Divina quem lhes trouxe aqui. Brody começou a falar. Brody ficou só olhando. O sinistro e conhecido zumbido do motor de um avião de caça passando sobre suas cabeças. A centelha de verdade brilhava com força. falo sua língua. ciente. Vocês foram trazidos para cá com um propósito. — Não tema. Os pássaros vão lhes guiar. Como se lesse os pensamentos de Brody. — Sabe. Esse velho estranho. que põem ovos para serem chocados nos ninhos de outros pássaros. Parecia doido mesmo. Deus manda seus anjos para proteger a gente.. Você precisa ter fé. — Sim. meu filho. sua voz soou forte e profunda. Mas havia algo nos olhos dele que contradizia qualquer idéia de insanidade ou senilidade. falando por meio de charadas. O Criador lhes trouxe aqui. mas não conseguia encontrar as palavras. O destino é como o vai-e-vem das marés em um vasto oceano. prestem atenção às rotas dos cucos. Estão parados lá fora. Por que não vai recebê-los no telhado? . O velho sorriu. Foi quando ouviram.. o sufi olhou para cima e apontou para a escada. Chewie disse: — Há mais deles agora. ela lhes fez dar na minha praia. O velho se aproximou e pôs a mão queimada de Sol no ombro de Brody. — Ele está querendo dizer que vocês presenciaram esta profanação da natureza. seguido pelos disparos de uma metralhadora automática. Surpresos pela fluência em inglês do sufi. fazendo um grande semicírculo. Dando uma olhada pela fenda na porta. Neste caso.

Com a intenção de voar por eles e voltar para trás. como se tivesse agarrado um cabo de alta voltagem. Em um instante. O mutante gritava e se retorcia. arremessando violentamente o agressor ao chão por sobre o ombro. o agressor estava caído a seus pés.Assim. o sufi deu a volta e lentamente se afastou. desaparecendo pelas sombras adentro. ela sobrevoou a elevação em direção ao Vilarejo. rangendo os dentes. o mutante se contraiu em espasmos. Chewie soltou um grito selvagem e se virou rapidamente. Correram para a escada. cravando as garras nos cabelos e no rosto de Chewie. os braços descontrolados. — O que temos a perder? Vamos lá. pisando firme com as botas. Choveram pedaços de vidro dentro do recinto quando um vulto entrou de um pulo pela janela. Ele deu o bote. Chewie agarrou o ombro do homem com sua mão carnuda e bateu com o bico de sua submetralhadora na barriga dele. Sentindo a pancada lhe rasgar por dentro. com fios de baba escorrendo da boca. Finalmente. Chewie deu de ombros. caindo nas costas de Chewie. enquanto subiam a estreita escada. tirando sangue. dois degraus por vez. . caiu duro no chão. Capítulo 7 Blair viu o helicóptero e estava voando baixo o suficiente para perceber que os homens que pontilhavam o chão perto dele eram britânicos ou americanos.

Ela respirou fundo. — Você está nos levando direto para o inferno! Não aterrisse aqui. arrancou o quepe de couro e esfregou os olhos. Ela tirou os óculos de vôo. Blair olhou. Yousef gritou: — Aonde está indo? Aterrisse esta fera. espalhando-se em bandos frenéticos. Ao espiralar para baixo. por favor.. Deu uma volta completa e girou sobre o vilarejo. sugando o ar. Inclinando para a direita e fazendo outra curva ampla. Blair viu a linha de baforadas de poeira alinhavando o caminho pelo chão e adentrando aquele aglomerado de capetas. mas ela ia fazer aquilo parar. tapando os ouvidos de Noor. Aqueles lá embaixo são os demônios Jinn. ela deu a volta. e se preparou. uma multidão lá embaixo cercando um grupo de soldados americanos como se fosse um enxame.Da parte traseira. Procurou e achou o pequeno botão vermelho na coluna de direção. A multidão reagiu. A multidão estava se alimentando dos homens lá embaixo. . salve-nos! Apesar da histeria de Yousef. — Não! — Yousef gritou atrás dela. Não havia como se enganar quanto ao que estava vendo. apertou o botão com o polegar. horrorizada. Ao aplanar. as armas das duas asas se alargaram e bombardearam o solo que ela sobrevoou. Eles vão nos ajudar! Cruzando o vilarejo em baixa altitude. a máquina gritando como um índio.. jogando-os no chão e começando a. e dane-se. Eles estão comendo aqueles homens! Alá. Blair sabia que ele não estava longe de ter razão. Blair sentiu que algo estava fora de controle. seja louvado.

Ela deu meia-volta pela segunda vez. Brody identificou a cabeça gorda de Conner se inclinando para fora de um dos lados do helicóptero atrás de uma metralhadora. onde quer que fossem encontrados. A barulheira abafada de suas metralhadoras era como tecido sendo rasgado. Brax correu em direção a eles. dando um sorriso cheio de dentes e fazendo sinal de positivo com o dedo. Ao passar com o avião. Do alto. Lutando para se manter enquanto o rotor girava com força. Agora no teto. cobriram a vista e levantaram os olhos a tempo de ver seus camaradas. —Parece que vocês se enrolaram direitinho. Brody. Algum sinal de outro esquadrão? Brody e Chewie trocaram olhares sombrios. um novo som lhe atacou os ouvidos: o ruído firme e reconfortante do rotor de um helicóptero. Chewie e Brody observavam a sombra escura do avião de caça sobrevoar o quarteirão abaixo. Saraivadas incendiárias cuspiam munição das asas do avião.Reparou nos caminhões ao sair bombardeando. —Que bela surpresa vocês são — gritou Brody. jogando uma corda do helicóptero para o teto do edifício. uma sombra se espalhou sobre eles. . Lia-se em grandes letras vermelhas: SISTEMAS GENO-DYNE. mas ela conseguiu identificar o logotipo de ambos os lados. Estavam cobertos de pó. traçando o ar e causando explosões de chamas em seus alvos.

eles se viraram. Chewie resmungou algo e piscou para Brody.. Lia-se em um aviso sobre cabine: Somente diplomatas. Ao ouvir o som agudo do avião militar. E macacos me mordam se eu não vi uma ruiva bonita pilotando aquele pássaro que acabou de passar.Respondo ao interrogatório mais tarde. A asa do avião de caça se inclinou de novo ao passar por eles e começou a subir lentamente.Chewie olhou do teto para o massacre lá embaixo. Brody balançou a cabeça. Chewie disse: — Vamos considerá-los desaparecidos e deixar por isso mesmo. luzes esquisitas. e um esquadrão inteiro desaparecido.. assentindo . Capítulo 8 Londres O padre alto e de compleição avermelhada esperava pacientemente detrás da linha verde em frente ao representante da alfândega. Sempre um homem de poucas palavras. tomando a direção leste. . Agora vamos dar o fora daqui. Brax pareceu atônito e se virou para Brody como se estivesse buscando explicação melhor. Então virou-se para Brax com um olhar inexpressivo. Brax distorceu as feições ao dizer: — Aviões de caça nazistas. — Ou quem sabe ela seja um anjo disfarçado.

Noor estudou seu rosto. Noor achou o documento bonito.A mãozinha de Noor segurava bem forte a mão grande do padre. e lembrava uma lua cheia salpicada por crateras. status de diplomata. Quando ele piscou e fez uma cara engraçada. E permita que eu apresente minha jovem protegida. Noor entendeu a dica e fez uma reverência sem jeito. O inspetor da alfândega o analisou. cutucou Noor levemente com o joelho. Os sapatos brilhantes de couro envernizado apertavam-lhe os dedos dos pés. os olhos verdes cintilando sob grossas sobrancelhas vermelhas. Agora era a vez deles. O padre Kelly deu um grande sorriso. senhor. cheia de cicatrizes de acne. e baixou a vista para olhar para ela. agarrando a barra do novo vestido azul-ovo-de-pato e se esforçando para não cair. O padre coçou a bochecha. apertando-a nervosamente para se tranqüilizar enquanto ficava parada ao seu lado. A capa tinha um selo dourado com duas chaves cruzadas sobre ele. as sardas em seu rechonchudo nariz de porco e rosto pareceram dançar. James. com seus brilhantes olhos violeta olhando para ele. ligado ao Vaticano pelo núncio da Corte de St. — Padre Dominic Kelly. Noor viu o sorriso do homem de rosto magro se transformar rapidamente em careta quando ele enterrou o nariz adunco . Pararam em frente à cabine e o homem de rosto magro pegou o passaporte do padre. Era suavemente caseoso e redondo. Quando o padre empurrou o novo passaporte pelo balcão. — Correto.

Tantos carros. Ela não gostou nem um pouco daquele homem. O padre Kelly chegou o corpo mais para a frente como quem vai contar um segredo e murmurou: — Ela é adotada. os olhos pequenos cintilando. tudo parecendo tão limpo e verde comparado com as ruas daquela cidade no Iraque de onde Blair lhe levara. o padre Kelly. Carimbou ambos os passaportes e disse: — Bem-vindos ao Reino Unido.em seu passaporte. e tratou a ela e ao padre Kelly como se fossem príncipe e princesa. de seu sorriso simpático e daquela voz estridente e boba que a fazia dar risada. Sentada no banco de trás de uma reluzente limusine preta. Olhou para a paisagem que passava. O inspetor da alfândega bufou e balançou a cabeça. Riu sozinha ao se lembrar da cara do pobre Yousef quando Blair finalmente . senhor — disse o padre Kelly. — E a pequena senhorita seria Gwendolyn Grace Kelly — disse o velho de rosto magro. pode me chamar de Wendy. Noor ficou com o engraçado chapéu do motorista. Ele estava esperando na calçada. Ela emplastou no rosto um sorriso cheio de dentes e tentou não demonstrar o quanto estava amedrontada na verdade. a voz cheia de desconfiança. mas se lembrou das instruções que recebeu de Blair e de seu irmão. Ela gostou daquele homem. — Minha sobrinha. que respondeu: — Ah. Um sorriso de covinhas se fez no rosto de Noor. Os olhos do aduaneiro foram e voltaram da cabeça grande com cabelos vermelho-fogo e pele pálida e sardenta do padre para os sedosos cabelos louro claros e pele leitosa de Noor. senhor. antes de embarcar no vôo. que tinha no alto uma bolinha vermelha e macia.

Com uma xícara de chocolate quente em frente a si. Noor ficou um pouquinho triste ao pensar em sua família. Ele ia mandar um avião lhes buscar. mas estava viajando por uma cidade chamada Istambul. Blair lhe disse que aquilo se chamava ursinho de pelúcia. aterrissaram inteiros. Ele era um homem importante que morava em um lugar chamado Itália. e agora estava viajando com ele para um estranho mundo novo. Ao ver as lágrimas que fulgiram nos olhos de ambos assim que finalmente se abraçaram no aeroporto de Istambul. apesar de Blair dizer que o avião era uma "grande porcaria". Então Blair pegou um telefone e ligou para o irmão. em um lugar chamado Turquia. com lisos lençóis de seda e tapetes tão grossos no chão que Noor riu ao esfregar neles os dedos dos pés descalços. Passaram a noite em um hotel luxuoso. Então eles rasparam o de palha de uma casinha e. Blair piscou o olho para ela e disse para ela fechar os olhos. Quando ela abriu. Ela não o perdeu de vista. ficou comendo com ele. Noor adorou aquele ursinho de pelúcia macio e o batizou de Mister Muffins. Foram fazer compras e Blair lhe comprou lindas roupas novas. deparou-se com um bicho de pelúcia corde-rosa com botões no lugar dos olhos. Lembrouse do rebanho de bodes espalhados debaixo deles quando o avião estava para pousar com aquelas asas oscilantes que lhe davam dor de barriga. dormindo com ele.aterrissou o avião perto do vilarejo do primo dele. . de alguma forma. Noor percebeu como o padre Kelly e Blair se amavam. Faziam cócegas.

Ele deu um sorriso caloroso. ao pensar em Blair. Ela lhe prometera que padre Kelly também sabia operar milagres. pequenininha? . — Isto é porque foram retratados em muitos álbuns. – Por favor. é tão grande e os edifícios parecem velhos. Ela leu o título: Peter Pan. e ele lhe conseguiu algo chamado passaporte do Vaticano que era como um bilhete mágico. mas diferentes. .Padre Kelly? – ela chamou. — Padre Benjamim. Uma pequena lágrima se acumulou no canto do olho de Noor agora. Ela se remexeu e o assento de couro macio guinchou debaixo de seu bumbum. trouxe aquele livro? — Lá vamos nós — ele disse. como se estivessem em um álbum. Ele se inclinou no banco e falou com o motorista. tenho uma coisa para você. dizendo: — Nunca mais serei capaz de pousar meu querido bumbum em uma cadeira. Espere. Blair se levantou do chão pedregoso depois da aterrissagem forçada e esfregou o traseiro. . Sentia tanta falta dela. Noor achou a palavra tão engraçada quando ouviu Blair dizêla. O padre Kelly pôs o livro no colo de Noor.Sabia que Blair estava a caminho em outro vôo e iria encontrá-los. Que está a c h a n d o de Londres. me chame de Dominic. passando o livro para o banco de trás. Um bilhete que lhe permitiria visitar lugares distantes e ir para a casa de Blair em Londres. morar com ela.Ah.

—Que nem eu? — Noor perguntou. cobertos por batom carmesim profundo. o parrudo sedan Mercedes preto estava bem na cola deles. suas maçãs do rosto altas e seusolhos amplos e pescoço de cisne. — Mas estamos indo para sua casa agora? Estou muito cansada e com fome. — Quer dizer. — Não haverá engano nenhum. Noor torceu o nariz e gaguejou. folheando avidamente o livro. — Sim. Gwen-dalanne? Ele deu uma risada sincera e vigorosa. Seus lábios finos. Quando ela levantou os olhos. Isto deixou Noor intrigada.—É sobre uma menina que sabe voar. eram cruéis. . ela era espetacular. — E o nome dela é que nem seu novo nome de mentirinha. Mas o perfeito tom louro-branco de seus cabelos e a linha dura de seu maxilar exalavam uma brutalidade desumana. mas o apelido é Wendy. A passageira no banco da frente falava ao celular. Ele sorriu. falando ao celular. e longamente. Ela não sabia o que havia de tão engraçado em carneiro com arroz. Quem sabe sua esposa não pode cozinhar um carneiro com arroz para nós? Ambos os padres riram com gosto. Com seus cabelos irreverentes ao estilo dos anos sessenta. estava franzindo a boca nos cantos. os olhos colados na limusine que seguia na sua frente. Seguindo de uma distância discreta. — Estamos exatamente atrás deles agora — ela disse.

Ele apertou a direção com tanta força que as dobras de seus dedos ficaram brancas. . Quando ela se aproximou para soprar em sua orelha. Ela chegou mais perto do motorista. esfregando violentamente. Um sorriso fino se formou em seus lábios. Soltou a fumaça e observou o filtro do cigarro antes de dar mais um trago. Então ela passou o dedo da mão esquerda na costura interna da calça dele. revelando a fenda intumescida. Debaixo de suas sobrancelhas de homem de neandertal. Mantendo os embotados olhos cinza-amarelados fixos no que estava à frente. — Vamos pegar a garota de qualquer jeito. e acendeu um cigarro. Por debaixo do tailleur cinza Armani ela usava uma blusa de seda branca colada ao corpo que acentuava as protuberâncias de seus seios empinados. mais e mais fundo. e seus ombros e bíceps fortes retesaram debaixo das costuras de seu paletó. Fez biquinho e piscou com os longos cílios falsos enquanto roçou a coxa na perna do motorista. os olhos do motorista ficavam indo e voltando para seu peito. Deixem os botões superiores abertos de propósito. deixando a nicotina fluir para dentro de seus pulmões. Ela sentiu que os olhos dele se prolongavam. Ele não esboçou a mínima reação. ele deu um sorriso escorregadio.Ela revirou os grandes olhos de safira ao ouvir. enfiou a ponta do cigarro aceso nas costas daquela mão enorme. Ela massageou com o polegar a concavidade da garganta e suspirou. desligando-o. Fechou o telefone com força.

só de pensar em Noor. seus babuínos. caso alguém estivesse procurando por uma ruiva com uma criança. Tomar vôos separados era uma precaução necessária. Pegou uma Sig Sauer do coldre debaixo de seu paletó e carregou a arma. que esperava por ela em Londres.Du drecksack! Você é muito chato. e então olhou fixamente para a limusine. veremos quem ri por último – ela os avisou. Ela assentiu. Capítulo 9 Blair estava sentada em uma poltrona da classe econômica entre um sujeito que precisava de uma extensão para seu cinto de segurança e uma mulher que insistia em lhe contar a história de sua vida. Foi um longo vôo. ficava mais animada. – Geh fick deine Mutter! E se um de vocês ferrar com tudo. ele limpou indiferentemente com as costas de sua mão volumosa. lambendo o lábio superior com a ponta da língua. Contudo. Os dois grandalhões de pescoço grosso no banco de trás caíram em vociferante e derrisória gargalhada. . desde o começo. ironizando. voltando mal-humorada para seu lado do banco.Ainda insatisfeita. com a voz mesclando simultaneamente uma rouquidão sedutora e uma violência implacável. ela lhe raspou a bochecha com suas longas unhas vermelhas. Quando o sangue começou a escorrer. Ernst — ela disse. .

. era? Estava impressionada com a aura que a garota projetava. tagarelando sobre como suas expedições eram perigosas demais. E de algum ponto do seu âmago mais profundo vinha a sensação de que aquela não havia sido a última vez que encontrava o desgraçado. O padre Dominic Kelly. sabia que Dominic as ajudaria. Noor era. . A força. — Não se pode ter tudo. Um milagreiro ambulante. aquela pequena só podia ser especial. o tipo de caso que ele costumava pegar.. Ele estava sempre batendo na mesma tecla. mesmo. Não.Ela não estava bem certa como seu irmão Dominic reagiria a seu chamado. ficaram mais próximos. Nunca na vida que ela abandonaria aquela pobre criança. Dominic se tornar padre mais tarde foi a realização do sonho da mãe deles. Noor não era exatamente uma criança qualquer. Sentia arrepios só de pensar em Al-Dajjal tocando no queixo de Noor. sem dúvida. mas por outro lado bem que Blair queria que os pais tivessem lhe apoiado mais na carreira que escolheu. que a imprensa chamava de "detetive milagroso do Vaticano" depois do caso da stigmata que ele investigou no Brasil. não é mesmo. A lembrança lhe trouxe um sorriso aos lábios. Blair? — ela ouviu a voz da mãe lhe advertindo pela enésima vez. A calma no rosto diante de sérios perigos. No fundo do coração. Além do que. Desde que seus pais morreram no acidente.

cujos olhos cresciam mais a cada linha. E dar-lhe amor. Convencidos de sua sinceridade e boas intenções. Pensou em sua viagem a Istambul e outras cidades. ele mesmo não havia se deparado com elas pessoalmente em diversas ocasiões7 Acariciou os cabelos sedosos de Noor que dormia profundamente aconchegada em seu colo. Foi pego de surpresa pelo telefonema de Blair. . Ele também acreditava que existiam forças do mal neste mundo.Ela nunca teve a sorte de ter um filho. onde aconteceram coisas estranhas. Pobrezinha. No final teriam de passar pelos procedimentos de praxe. Que ordálio para uma criança. ele pensou. Foi um passo e tanto pedir a Dominic para usar o respaldo do Vaticano para fazer Noor entrar no Reino Unido. Seu pressentimento se confirmou. e ele moveu céu e terra para dar segurança a ela e à menina. Mas o medo em sua voz lhe rasgou o coração. Por Deus. ele conseguiu mexer seus pauzinhos e garantir a viagem da garota. Valendo-se do sistema de nepotismo que existe até mesmo dentro do Vaticano. Os médicos diziam que ela não podia. O padre Kelly estava lendo a história de Peter Pan para Noor. Fazia meses que não sabia dela. Os dervixes estavam com o diário de Jung que ele procurava há tanto tempo. mas a necessidade mais imediata era garantir a segurança de Noor. eles o deixaram levar o diário.

blazer e calça emergiu do lado do passageiro. olhando pela janela de trás. Era pura e simplesmente uma tocaia. laborando na condição de estudante pobre em alguma pequena universidade que lhe desse uma bolsa de estudos. usando óculos de Sol enormes. .Os segredos nele contidos poderiam ser a solução para o longo quebra-cabeça que consumiu uma vida inteira de trabalho do pai. Uma mulher alta. As portas se abriram. Uma Mercedes preta parou. Dominic girou o corpo em direção ao som. magra. Assim que pararam em frente ao caminhão. Ele estava ávido para retornar a Londres e voltar ao seu primeiro amor. e agora a sua também. ele ouviu o rugido do poderoso motor que vinha dos fundos e o rangido de freios. o estudo de velhos códices de alquimia. O Sol lhe prateava os cabelos louro-brancos. Tinha uma pistola na mão. Mas a limusine não era blindada. ele teria seguido de bom grado os passos do pai. A esta altura os outros dois homens se posicionaram na limusine com as armas apontando diretamente para eles. Tivesse sua vida tomado outro rumo. ele concluiu. e dois homens de ternos negros saíram da parte traseira da Mercedes. Mais adiante havia um caminhão parado em um atalho para a rodovia. A Limusine estacionou em uma rua estreita.

Tateando nervosamente para travar as portas. A limusine deu um solavanco para trás. O padre se jogou sobre Noor. Os pára-choques dos carros estavam enganchados. — Cuidado. batendo na grade do radiador da Mercedes. Em seguida veio o latido abafado do tiro. Revirando-se no volante. Mas a parruda limusine estava enraizada. — Bam! Seu lado da janela se esfacelou e choveu vidro sobre ele. Enfiaram a boca do cano de uma pistola com silenciador. Estava se dirigindo ao lado de Dominic na limusine. eles querem pegar a criança! O padre Benjamin puxou a marcha à ré por engano. du arschgesicht! Não machuque a criança! .. O padre Benjamin levou dois tiros no peito. cambaleando no banco do carro ao levar os tiros no tórax e então tombou lentamente. A janela do motorista subitamente explodiu em gotículas de vidro. Benjamin se atrapalhou todo. protegendo-a do ataque iminente. Dominic gritou com o padre Benjamin: — Pé na estrada. Dominic reconheceu um dos homens que empunhavam armas reluzentes com desenvoltura. A porta se abriu.. O grande motor V-8 da limusine uivava enquanto os pneus traseiros faziam barulho e fumaça. Agora ele ouviu a voz rouca da mulher.

esfregando-lhe a orelha enquanto enfiava o cano de sua pistola nas costelas feridas. Capítulo 10 Brody Devlin acenou com a cabeça para o segurança naval com cara de garoto que estava de prontidão ao lado do . — Ele me agrada. liebschien. Ele foi envolvido pelo aroma opressor de perfume que vinha de cima. sentiu seus dedos longos lhe alisando os cabelos. —Agora calma.Dominic foi arrancado da limusine por mãos brutas e jogado no chão. Levantou os olhos e viu os homens puxando Noor para fora do carro. Em meio a uma névoa escura ele a viu se agachar em frente a si. A mulher de pernas longas estava parada bem em frente a ele. E quando seus olhos pedintes encontraram os dele. Sentir dor é gut. Ele sentiu um o s s o quebrando. E l a n ã o tentou resistir. impedindo que ele visse a menina. sem parar. leve este aqui também — ela gritou para o outro agressor. sentiu seu bafo quente no rosto quando ela chegou mais perto. padre — ela disse com toda a calma enquanto lhe bicava cruelmente as costelas com a ponta da bota. ja? — ela murmurou. Grunhiu debilmente. o padre se esforçou para ficar de pé. —Hand. apenas agarrou seu ursinho de pelúcia cor-de-rosa bem firme junto ao peito. — Não se levante.

Seguiram por um estéril corredor branco e iluminado com luz fluorescente para chegar ao centro de comunicações. Igualmente ao corredor. Estantes de equipamentos eletrônicos revestiam as paredes. o recinto era grande. Uma tela LED pendia de uma moldura de metal de uma das cabeceiras da mesa. Era uma versão aumentada da "Gaiola". Perto dela havia um enorme picador de papéis e um saco de documentos que era incinerado diariamente. dava para comer no chão. . O ar gelado. Câmeras acompanhavam seus movimentos e alimentavam a imagem de suas feições em um computador Face-Indent. Cada um deles levantou a palma da mão para a unidade de leitura e deixou a córnea do olho direito ser escaneada por um óculo. a pesada porta corta-fogo se abriu e eles entraram. Após um zumbido agudo. dava ao recinto uma qualidade fria e inumana. que por sua vez era uma área high-tech à prova de som e de violação de confidencialidade.elevador. que por sua vez estava dentro de uma grossa concha de vidro. Cadeiras proporcionalmente espaçadas cercavam uma longa mesa de conferências. Brody e Chewie pegaram o elevador sem identificação e desceram para as entranhas das instalações subterrâneas da Embaixada Americana. O sistema era constantemente vasculhado em busca de falhas e quando estava sendo usado era coberto por uma película descartável. e artificialmente branco e imaculado. combinado ao metal cromado e cintilante e aos computadores industriais.

— O dia está devagar. Um técnico que estava entretido com um manual de códigos de fraude para o último jogo de computador Halo levantou os olhos. Brody sabia que o chefe. hein. O que está rolando? —Reunião de inter-agência. major. — Sorenson está chamando. estava pulando de raiva por causa da merda monumental que ocorreu na Síria. apontando para uma prancheta pendurada no terminal. contramedidas foram tomadas. não está? — o técnico perguntou com um brilho nos olhos que não passava de deliberada tentativa de escapar de levar uma bronca. Foram interrompidos pela voz grave de Chewie. O rapaz de vinte e poucos anos deu de ombros.Alguns riram da idéia de haver um informante bem dentro da embaixada. — Ninguém gosta de babacas petulantes. Sentados de frente para painéis de controle e workstations de computadores. e vamos precisar de uma teleconferência no scrambler. — Faz parte do trabalho. Mas Bill era basicamente um bom líder e um cara equilibrado. mas quando acontecen. Detrás de um grande painel no canto ficava um centro de comando e controle que servia de terminal multi-agência para equipes de vigilância e proteção de dignitários. —Está na agenda bem aqui — ele disse. técnicos se ocupavam de ordenar o tráfego na embaixada. Bill Sorenson. Reynolds? — disse Brody. filho — era evidente que seu . A embaixada era um lugar pequeno e os boatos corriam como fogo na palha.

assentindo. Ele era brutalmente corpulento. O Serviço Secreto de Sua Majestade. Seu olhar transmitia uma inteligência deliberada e brilhante. típico "gravatinha" britânico de um clube conhecido como SSM. Em português claro. Ele tinha um rosto redondo. por trabalhar com eles. tinha o pescoço duro e olhos azuis aguados que abarcavam o recinto inteiro de uma só olhada. que a maioria daqueles diabos se aproximava mais daquilo que outros ramos chamavam de metrossexuais. de expressão monótona e banal. esnobes degenerados que usavam ternos feitos sob medida e vinham de universidades de elite. longe da imagem de Sean Connery no papel de James Bond. Tocaram a campainha da porta e Braxton entrou com dois homens. que engoliu em seco e balançou a cabeça de modo exagerado.olhar gelado enervava o técnico. estendendo-lhe a mão fina e pastosa. O outro cara era baixo. eles eram um bando de escrotos sectaristas que não confiavam em ninguém que não fosse como eles. inspetor-chefe do SO15. pálido. Fazia um estilo mais tradicional. as camadas de banha um tanto disfarçadas pelo corte elegante do terno preto. . Newley foi logo recebê-lo. Brody sabia. antes conhecida como Special Branch. Brody reconheceu um deles como sendo Adam Newley. divisão da Scotland Yard com plenos poderes de prisão e encarregada de lidar com crimes maiores e contraterrorismo. o infame agente do MI-6.

expelindo com força. WHO-HNAU-YEH. Com que você alimenta este homem? Brax interrompeu. que relutantemente estendeu a mão e se apresentou. x a r á . Quando Newley estendeu a mão livre para Chewie. o grandão optou por sua rotina silenciosa de índio. Cummings pareceu intrigado de início. realmente. a sobrancelha arqueada. O canalha acabara de ferrá-lo. — Meu Deus. Que encantador. major Devlin — Cummings disse com um sorriso desrespeitoso. — Major. . hein? Digo. Chewie disse EE-TOH SHNEE. e imóvel. faz muito tempo que a gente não se esbarra.— Meu chapa. — Sua língua nativa. Olhar pétreo. Rosto sem expressão e queixo firme. este é Sir Nigel Cummings. Brody reparou na pasta amarrada ao pulso esquerdo de Newley. —Nossos amigos de Legoland. que curioso. um pele-vermelha americano em carne e osso. — Brody usou o apelido do novo quartel-general do SSM no Tamisa. Brody. cujo design estranho lembrava lajes para construção. O gordo arqueou as sobrancelhas e se recusou a apertar-lhe a mão. Cummings observou o resto do grupo e disse: — Raindancer. vou lhe dizer. Newley olhou para o corpanzil de Chewie de cima a baixo... mas depois a compreensão se fez presente em seu rosto emoldurado pelo queixo duplo. Falando como se Chewie sequer estivesse lá. e respirou fundo. Então Cummings virou-se para Chewie. —O prazer é todo meu. Brody pensou fazendo cara feia. de.

Devlin pediu licença e atendeu. com toda tranqüilidade. parecendo ainda mais intrigado.Brody mordeu o lábio inferior. chefe. ele pescou com os dedos gordos e manicurados uma corrente do colete e abriu seu relógio de bolso de ouro. —E? —Disse ao imbecil para ele e o cavalo que ele monta se ferrarem. — Tranque-nos e abaixe as persianas. Reynolds. o que nos dá exatamente quarenta e oito segundos para começar — ele fechou a tampa do relógio e foi em direção à Gaiola. Chewie o ensinara o suficiente de dacota para ele entender que Chewie acabara de chamá-lo de canalha mentiroso. Chewie estava sorrindo agora enquanto ele resmungava: — Te futueo et equum tuum. indiferente. as mãos elegantement e enfiadas nos bolsos do casaco. Cummings balançou a cabeça. — Creio que a reunião está marcada exatamente para as quinze e trinta. Brody tocou o interfone. Sentado à mesa de conferência. A porta se fechou com um sibilar pneumático e as cortinas desceram. Então aprendi um pouquinho de latim. mas que diabos quer dizer o final? Chewie explicou com um olhar acanhado: — Tenho tentado diminuir o palavreado ultimamente. O telefone scrambler verde soou. . Brody se virou para Chewie e murmurou: — Entendi a primeira parte. Dando de ombros. segurando o riso.

e à sua procura.. Preciso manter o controle disto ou os garotos em Langley vão querer um pouco da ação. Imagens de satélite posteriores mostraram que a força aérea síria bombardeou toda a região. A voz de Sorenson soou na linha. —Devlin. Ele era um cara rígido. o vilarejo era um experimento biogenético que deu terrivelmente errado. senhor. Temos informações que localizam Al-Dajjal na Europa. explore-a.Ótimo. e alguém queria apagar todas as pistas. Negociar com os sírios pela libertação de seus corpos está fora de questão. —Canalha insolente. Brody ouviu a dor na voz de Sorenson. —E nossos convidados não vão querer? . —Aos negócios. . Aquilo cheirava a problema com P maiúsculo. Bill. — As famílias foram. —Vou guardar esta. varrendo tudo da face da terra. e pra valer! Pelo que conseguimos perceber. Tem alguma dica forte de quem seja o contato dele aqui? —Por isto que eu arranjei esta reunião de inter-agência. Não ficamos sabendo mais nada sobre os membros desaparecidos da operação. Não ia querer que fosse de outra forma. esperando.Fechou a cara quando viu que Chewie havia se instalado perto do cabeçudo do Cummings.? — Passadas para nosso pessoal. não vai demorar. não é? —Esta pode ser sua maior fraqueza. A voz de Brody soou travada. mas os outros estão aqui.. estamos no viva-voz? —Não.

nossos dois governantes têm um interesse ardente em Al-Dajjal. Nossas fontes relataram que ele estava atrás de antiguidades. como de costume. — Correto. o Mapa dos . como de costume. Parece que ele estava interessado em um mapa que estava exposto no Museu Palácio Topkaki. você disse? — Cummings perguntou. A voz de Sorenson rangeu no Speaker no centro da mesa. e ambos os lados já pagaram um preço alto demais em baixas de pessoal para parar agora. erguendo a cabeça.. em Istambul. conseguirá ver as coisas com mais clareza.. — Cavalheiros. — Como os senhores sabem. Brody completou o pensamento de Sorenson. Brody lhe lançou um olhar reprovador só de brincadeira. major. Agora me coloque na caixa. — Falou bem. desta vez eu não vou voltar de mãos vazias. Antiguidades. Cabeças viraram quando a porta assobiou e Scout Thompson se esgueirou acanhadamente para dentro do recinto. Atrasado. Infelizmente. E mais uma coisa. perdemos sua pista antes que uma equipe de captura pudesse ser enviada para agarrá-lo. — Senhor. O último informativo de nosso serviço de inteligência o localizou semana passada na Turquia.—Quando você ouvir o relato completo. podemos prosseguir? Breves saudações foram trocadas ao redor da mesa. E. Mas Scout era basicamente um bom garoto. Scout tinha um fraco por mulheres e boates e no momento seus olhos pareciam dois buracos queimados em um cobertor de lã. o Serviço Secreto Turco não cooperou muito.

. destrancando a algema de seu pulso. se acreditarem na lenda. — O que seus caminhões estão fazendo neste vilarejo remoto e abandonado na Síria? Senhor Cummings. gráficos da época de Alexandre. por gentileza? . cavalheiros — prosseguiu Sorenson. Newley assentiu consigo mesmo e pôs uma maleta Zero na mesa. poderia nos resumir os antecedentes da empresa. deram close-up no logotipo: GENO-DYNE SYSTEMS — GENO-DYNE SYSTEMS. Através do zoom.. major Devlin. — Fiz o reconhecimento da área. De qualquer forma.C. É do século XVI. tomando por base o serviço de inteligência que lhe requisitei para compartilhar com minha equipe. mas teria tomado por base. — Contatos em potencial? — perguntou o inspetor Newley. só sabemos que será em breve. dei umas passadas pelo vilarejo.. antes de ser destruído — o chefe prosseguiu. a questão é que um celular da Agência de Segurança Nacional confirmou que ele está indo para Londres. — Queiram todos prestar a atenção na tela agora.. mas não sabemos como nem quando. a quilômetros de lá..Antigos Reis do Mar. Os pixels convergiram na imagem de uma série de caminhões. Os recursos para teleconferências seguras davam a Sorenson os meios para controlar remotamente a imagem digital do que estava acontecendo em Washington D. creio que o senhor já pode imaginar. — Inspetor. o Grande.

— GENO-DYNE vem a ser um conglomerado internacional. contudo. —Gant é natural da Alemanha e imigrou para o Reina Unido depois da guerra. Cummings revirou os olhos. A imagem de Gant apareceu na tela LED. lábios finos como lâminas e dentes pequenos e amarelados. Brody reparou em algo estranho. longos e brancos cabelos. especialmente livros raros. Ele é industrial e acadêmico. Bateu de frente com Werner von Braun . —Combinação perigosa — Newley observou. Cummings voltou a falar. as feições do homem pareciam falsificadas. a voz monótona. por gentileza? Brody observou a imagem de Gant. Olhando mais de perto. — Gant formou-se oficialmente como engenheiro. com seus sedosos. —Durante a guerra. Seu nome verdadeiro é Heinrich Schottendorff vou Gantzinger. ele estava envolvido no futuro projeto bélico da Alemanha. conhecedor autodidata de assuntos como física e filosofia. Heinrich von Gant é o fundador e principal executivo. Ele anglicizou o nome. O homem era tão velho quanto o conceito de pecado. Por alguma razão que Brody não sabia especificar no momento. Tinha testa alta e inteligente. arqueologia e antiguidades. penteados para trás de um rosto que era todo duro de ângulos e planos. e fala seis idiomas fluentemente. Suas paixões são história. cuja matriz fica aqui no Reino Unido. quase como uma máscara. mas é. — Será que posso continuar sem ser interrompido.Cummings limpou a garganta.

Brax trabalhara para o Escritório de Investigações Especiais do Departamento de Justiça. chefiaram as escavações na Síria. antes da guerra. —Ele ajudou a fundar a Ahnenerbe. um desdobramento da infame Sociedade Thule. Seus amigos. o ramo encarregado de localizar . o Departamento Nazista de Ocultismo. — Himmler não enviou expedições ao redor do globo em busca da Arca da Aliança ou coisa assim? — Mais precisamente — Cummings explicou —. ou seja.por causa do valor constante dos programas de mísseis V-l e V-2. a Sociedade Vril. —Mas também há um lado misterioso. Haveria alguma ligação entre a escavação dos nazistas na Síria e os estranhos acontecimentos que ele acabou de testemunhar por lá? O tenente Braxton acrescentou: — É. o que se combina perfeitamente com seu interesse em arqueologia. Mandaram expedições à Noruega. Ele era membro de uma organização ocultista pã-germânica conhecida como Der Vril Geselhchaft. Brody interrompeu. que se pronuncia DHÚ-LÊI. major. ao Tibete e até mesmo à Síria e ao Iraque em mil novecentos e trinta e oito. mas parte do programa deles era de experimentação com seres vivos. A palavra Síria era uma punhalada nas vísceras de Brody. Himmler queria descobrir provas bem definidas da pureza e ancestralidade da raça ariana. Este é o mesmo grupo de intelectuais e aristocratas racistas que financiou Hitler em sua ascensão ao poder. os pais de Al-Dajjal. os pobres prisioneiros judeus dos campos de concentração.

Para estudar o efeito dos ferimentos no corpo humano. Grupos neonazistas e fundamentalistas islâmicos descobriram que compartilham o mesmo ódio pelos judeus. Seu talento de pesquisador. eles simplesmente pegavam algum infeliz e lhe davam um tiro na barriga e ficavam estudando o que acontecia enquanto o pobre desgraçado ficava caído. E por falar na Sociedade Vril. que achavam que ele serviria mel h o r empunhando um lápis e enfiando o nariz em velhos arquivos empoeirados. se me permitem! — Cummings fez cara feia. acho que me lembro ter sido fundada por um sujeito de nome Barão Rudolf von Sebottendorff. As experiências genéticas do doutor Josef Mengele eram parte disto. Brax prosseguiu. para grande desgosto de seus superiores. fluência em alemão e eslavo e mente ágil lhe garantiram um lugar na FORÇA ÔMEGA. e assim acabou desenvolvendo um conhecimento enciclopédico sobre a Segunda Guerra. atiravam neles e colhiam os cérebros para estudos. Heinrich Sebottendorff von Gantzinger? —Cavalheiros.velhos criminosos de guerra. Brax preferiu ser agente de campo. ultimamente se especializando em Veículos e Armamentos Não-Tripulados. também chamado de Gant. e seu objetivo é varrê-los da face da Terra. mas ele tem . Talvez haja laços de sangue com nosso garoto. — Eles os fizeram formar fila e escolheram aqueles cujo crânio parecia interessante. Heinrich von Gantzinger. é mais conhecido como grande comerciante de armas. —Mas vamos voltar aos fatos. Apesar de advogado por profissão. — Esta ideologia pervertida não é apenas uma espécie de pesadelo distante. sangrando.

Bill. — Chewie. — Heinrich von Gantzinger era financiado pelo Reino Unidos e. garantindo-lhe grande influência no sistema bancário internacional e na arena política de muitas nações. jamais pagaram por sua contribuição aos crimes de guerra. Os Estados Unidos. nos principais cientistas e engenheiros da Alemanha. Sorensen prosseguiu. senhor Raindancer. mas Chewie persistiu.instalações de pesquisa que estão explorando as fronteiras da genética. alguns filhos da puta. — Muito bem. Cummings cedeu a vez a Sorenson. — Nosso "bolsista da Universidade de Oxford" residente está fazendo que sim. Quem foi o desgraçado que deixou este Canis filuis entrar no Reino Unido e protegeu seu rabo sujo? Brody contraiu os músculos involuntariamente... — Só uma. tem uma pergunta? Chewie inflou o peito. Chewie fez que sim com a cabeça. Cummings tentou ignorá-lo. ele levantou a mão como se fosse mesmo. E sim. cuja voz veio do speaker. Agora. Chewie havia começado a se remexer na cadeira como um colegial. para usar seu estilo latino. já ouviu falar da Operação Paperclip? Escutando atentamente. E ele também acumulou vasta fortuna. subitamente. os Russos e Churchill estavam ávidos para pôr as mãos nas pesquisas. Lá vem ele com esta palhaçada de latim outra vez. Era um mal necessário. os Estados Unidos também ajudaram a . — Após a guerra foi uma loucura. Brody Devlin balançou a cabeça e respondeu ao grandão idiota. bem.

acho que ele "tá no erro".O Mossad israelense também está na cola dele ultimamente. negociando carregamentos não-autorizados de plutônio para Coréia do Norte e Irã. . seus olhos parecendo fendas e uma expressão condescendente no rosto.. soltar um estrondoso peido que empestou o ar. Isto responde sua pergunta? O olhar de Cummings voltou para Chewie. onde estávamos? Ah.. . Parece que está intermediando negócios com todo tipo de fanático no Oriente Médio. .. Agora. cabeça de bagre! Todos ao redor da mesa caíram na gargalhada. Cummings estava ficando com o rosto vermelho e tenso como um poste de luz. Vocês... Chewie se revirou na cadeira e.financiar sua pesquisa de sistemas avançados de armamentos.. caput steronis. Brody enfiou o rosto nas mãos quando viu Chewie levantar um lado da bunda em direção a Cummings.. O rosto de Cummings ficou moído e ele tapou o nariz com a mão enquanto dizia com voz nasal: — Que lindo.Obrigado. muito maduro e simplesmente. como dizem mesmo? Sim. sim. lindo. . o envolvimento de Gant e seus peculiares antecedentes. Pago para ver. jovens. então Newley ficou de pé. Faz anos que tanto nosso escritório de exportação quanto o controle de exportação dos Estados Unidos estavam tentando pôr as garras em Gant por causa das vendas de tecnologia e armamentos controlados e classificados. senhor Cummings.. Chewie lançou a Cummings seu olhar de "vai encarar?" e disse: — Fabriacate diem.

Ontem a noite seu corpo apareceu boiando no Tâmisa. Lutando com a própria circunferência. um de nossos melhores agentes tentou se infiltrar a GENODYNE.. —A autópsia mostrou que ele sofreu uma prolongada e pavorosa tortura. —Quero que sua equipe se infiltre à paisana na organização de Gant. Ele desapareceu. mas Newley fixou os olhos em Cummings. . — Ah. nós sabemos que AlDajjal está trabalhando para Gant. senhor? — Devlin perguntou secamente. e rápido. Ele suspirou pesadamente. o diabo que o carregue. Precisamos descobrir os podres dele. Cummings ficou de pé e foi para a frente da mesa. O silêncio caiu pesadamente na Gaiola. Sorenson interrompeu. Vou pular os detalhes. Brax interrompeu. ele se tornou um peso morto e uma vergonha para a Coroa. —Qual é o plano.— Em suma.. e tomara que consigamos.. de quebra.. simplesmente desaparecesse? Ninguém falou nada.. deve ter trabalhado este tempo todo. certo de estar expressando os pensamentos de todos sentados ao redor da mesa.. atingir nosso alvo. —Desculpe pela perda — Brody disse. — Parece que seria interessante para todas as partes se o senhor Grant. Enfiou os polegares nos bolsos do colete. Olhares solenes foram trocados no recinto. — Major Devlin.

Tem duas partes. Até parece. um texto alquímico conhecido como o manuscrito Voynich. ele é padre católico.. vai ser sopa no mel. — É. Padre Kelly? E como o encontro? Sorenson deu risada. mas tem doutorado em história. Gant vai comparecer a uma série de mostras e palestras no Museu Britânico. — Deixe-me dizer ao major Devlin a razão pela qual Gant é tão obcecado com o Voynich e com alquimia. Brody pareceu intrigado. será a isca — Sorenson explicou. que guardam a chave para decodificar aquela maldita porcaria inteira. O padre Kelly oferecerá a Gant as páginas que faltam no manuscrito Voynich. A Biblioteca de Yale está excursionando com um velho códice. . Brody pensou. Você vai se passar por um duvidoso comprador de armas. Cummings irrompeu.. sua paixão. Com seu conhecimento de sistemas de combates futuros.. —Seu hobby. — Outro agente secreto lhe fará uma oferta que ele não poderá recusar. Bill? — Com a morte do pai. — Você disse. —E o segundo ataque? — ele perguntou. Quero estar lá para abordá-lo em relação à impostura dos armamentos.. Ele estará dando a palestra.. Brody inclinou-se à mesa e falou com voz suave. — Quem e o que será. Não será difícil encontrá-lo. — Amanhã à tarde. o professor Dominic Patrick Kelly herdou o manto de maior especialista em alquimia do Reino Unido.

— Eu detectei um olhar questionador em seu rosto quando mostrei a foto de Gant na tela. ninguém jamais viu.O que vemos aqui é um protético. Uma mulher atraente que . Brody disse: — O rosto dele parece uma máscara. . —Nós sabemos que ele gastou uma fortuna em cirurgias plásticas. senhor Raindancer. para piorar a situação. major Devlin. A inteligência de Gant só perde para sua vaidade. de acordo com nossas fontes. Ficou terrivelmente desfigurado. . Ele contratou os maiores maquiadores de Hollywood para dar um jeito em seu rosto. Não tem movimento. Algum tempo atrás. Sua única parente viva é a sobrinha. Deixe-me explicar. Você acertou na mosca ao definir Gant como um sociopata furioso e vingativo. por assim dizer. Gant foi severamente ferido em uma explosão em um de seus laboratórios de pesquisa. Margot Gant. Chewie pareceu surpreso. Ele bateu na tecla e a imagem reapareceu. ele não tem herdeiros para continuar o nome da família. Chewie grunhiu e Cummings apertou as narinas. —Precisamente. um pouco de maquiagem. é simétrico demais. não adiantou de nada. do ponto de vista de Gant. Seu filho morreu jovem em um acidente de carro poucos anos atrás.A monstruosidade que jaz debaixo disto. é isso? Muito bem colocado. refletindo.Ele se virou para Brody. contudo. Chewie revirou os olhos e soltou uma gracinha: — Então ele é o Fantasma da Ópera. Agora. Cummings finalmente pareceu gostar de algo que ele disse.

O inspetor-chefe respirou fundo.aparentemente herdou os gostos depravados do tio. Sabemos que ele gastou uma fortuna equivalente tentando prolongar a vida e restaurar os traços faciais. Ela também tem relações diretas com o mito da Fonte da Juventude. fingindo uma deformidade na mão e agitando-a sobre o rosto de Scout. gosta mesmo. Brody deu de ombros e balançou a cabeça. Cummings tomou o comando. major. . nem se os parceiros estão de livre e espontânea vontade — Newley corou ao dizer isto. E não faz muita diferença para ela se seus amantes são garotos ou garotas de programa. Scout finalmente voltou à vida. delicia-se com chicotes e ganchos. podemos? —A despeito do que muitos pensam. Sabemos que Gant patrocinou expedições em Yucatán. garoto — Brax disse.. a alquimia não tem a ver apenas com transformar chumbo em ouro.. — Os rapazes da polícia metropolitana nos disseram que Margot Gant é chegada ao sadomasoquismo. — Eu me ofereço como voluntário para investigar os clubes e me aproximar dela. que a afastou. —Caso já tenhamos todos satisfeito nossos desejos lascivos e fantasias adolescentes. — Chegue muito perto de uma loba como essa e vai acabar se dando mal. — Eu seria capaz de apostar que você se ofereceria. em busca da fonte miraculosa. Como se empurrado por um açoitador de gado. — Ele balançou a cabeça afirmativamente para Newley. no México. vamos continuar com o Voynich.

Brody usava sua camisa social branca favorita debaixo de um blazer feito sob medida.. Apareceu na tela a imagem de um documento amarelado. Ora. Ele estava dentro do personagem. — Como é o alemão dos cavalheiros? Peço que atentem para a data de nascimento na certidão de Heinrich von Gantzinger. A boca de Brax se curvou em um grande sorriso. Chewie acrescentou: — Ou seja. O Rolex Presidencial cintilou por debaixo da manga de seu blazer azul-real quando ele abaixou os braços. diabo. Brax usava um terno azulescuro Brooks Brothers. Ele bem que pode ter alcançado certo êxito em sua busca pela juventude eterna. Como não era de deixar ninguém dar a última palavra. — Isto é impossível. Cummings acentuou cada sílaba. Bancando o advogado e banqueiro. o canalha mais velho do mundo. .— A coisa mais estranha é o seguinte. Cummings fez uma pausa e tocou no teclado mais uma vez. Capítulo 11 A fachada imponente do Museu Britânico se erguia como uma sentinela contra o céu cinzento. — CENTO E TRINTA E OITO ANOS DE IDADE. emanava uma riqueza casual. se for assim ele tem.. Brody e Brax subiram os degraus íngremes e entraram no Grande Pátio. Sua calça cinza combinava com a gravata de seda.

como pontos de referência ancestrais. — Acho que basta a senhorita nos indicar a direção correta e chegaremos lá. — Com licença — Brax disse para a jovem no posto de informações. hein? Brax piscou o olho para ela. — Há alguém com este sobrenome no salão de leitura esta tarde — ela disse. por favor? A moça levantou os olhos da revista que estava lendo. os olhos brilhando de interesse. versões menores da fachada acolunada serviam de entrada para os salões de exposição. olhando demoradamente para ele com olhos de cãozinho carente. que assentiu com a cabeça. As sombras das telhas de vidro em formato de pirâmide ao alto brincavam pelo chão de mármore branco e pelas laterais da rotunda. meu bem? Brody interrompeu.Brody olhou para o teto de vidro que cobria todo o grand foyer e soltou um assovio. — Quer que eu lhe mostre onde fica. exibindo seu sorriso impecável. — Poderia nos dizer como encontrar uma pessoa de sobrenome Kelly. — Americano. Ela ajeitou os cabelos. — Bem impressionante — ele disse a Brax. No meio havia uma grande rotunda cercada por vastas escadarias. baixou os olhos e começou a digitar no teclado do computador. concordando. . Ela corou. De ambos os lados da escadaria central. entalhando um lúgubre padrão geométrico. abriu a expressão fechada com um sorriso caloroso e pareceu encantada com os duros olhos azuis e com a beleza de Brak.

Ela tinha uma beleza sutil. em que posso lhe ajudar? — Desculpe. Eles entraram no cavernoso salão de leitura e se dirigiram à mesa de informações. Seus olhos. é que estou procurando por Dominic Kelly.Ela torceu o nariz. — Limpou a garganta. chamativamente grandes no rosto em formato de coração. sua beleza natural deixou Brody sem fôlego. —Bem. uma sensação aguda de familiaridade lhe veio à mente. mas com certeza já a vira antes em algum lugar. sabe onde posso encontrar Kelly? A mulher virou para ele. Ela lhe lançou um olhar confuso. Brax interrompeu. mas Brody o interrompeu. de costas para eles. Uma mulher de cabelos vermelhos presos em um jeitoso coque estava de pé. Inquieta e nitidamente irritada com a linha de questionamento de Brody. fuzilou-o com os olhos e lhe deu um mapa. — Por que. Não se lembrava de quando nem onde. o padre. por que não disse logo? Você também está à procura dele? — Ela franziu o cenho. Enquanto caminhavam. tigrão. Seus olhos verde-escuros o observaram. Mesmo com os cabelos bem puxados para trás e pouca maquiagem. eram de um verde brilhante e estonteante. Quando ele olhou mais de perto. — Calma. — Senhorita. o que foi que você fez? —Não. com um quê de sobrenatural. eu tenho gravatas mais velhas que ela. Brody deu um sorriso falso para Brax e disse: — Cara. Brax começou a falar. — Sim. esta é comigo. — Não .

Poderia. Blair M.quarenta e cinco minutos. é típico do seu irmão não aparecer para algo como uma palestra sobre o manuscrito Voynich? Ela parou e deu meia-volta. — olhou para o relógio na parede — . e ele ainda não chegou. — Vocês dois estão em forma física boa demais para dois acadêmicos supostamente interessados em uma palestra sobre um códice antigo. — Não sei por que isto seria da sua conta. Kelly. no qual estava escrito Dra. Ela mordeu o lábio inferior e fez que sim com a cabeça. americanos. Onde está o padre Kelly? . . — Você parece preocupada com seu irmão. Brody pensou..Como eu disse. As palavras "meu irmão" finalmente fizeram sentido e Brody entendeu a confusão. Ela começou a virar para o outro lado e Brody voltou à conversa. por gentileza. ela se afastou e disse: — O senhor gosta de afirmar o óbvio. mas simpática. não é? — Senhorita. — Então a senhorita é a doutora Kelly? Ela deu um tapinha no crachá em sua blusa branca. são insistentes demais. Vocês. Meu irmão tem uma palestra para dar daqui a... Ela os observou bem de perto. Sem olhar para trás. ou vocês têm sérias deformidades. e se virou. senhorita. E a julgar pelas saliências debaixo dos braços. hein? — Então sua voz amainou e uma expressão questionadora tomou conta de seu rosto. ou estão escondendo armas. Ele deu um sorriso inócuo e sugeriu: — Existe algum lugar onde possamos ter uma conversa em particular? — A expressão de Brody era séria.. explicar? É importante. isto é exatamente o que eu gostaria de saber no momento.queremos lhe aborrecer. Garota esperta.

Nigel Cummings balançou a cabeça educadamente. o que está faltando? — Ela deu um passo para o lado e o gordo passou por ela com seu passo manco. que relutantemente ficou de pé e foi para detrás da cadeira. Com um olhar de quem estava entendendo o que se passava. — Fantasmas do MI-62 e dois agentes americanos sem educação. ofereceu-lhe o cartão de visitas e mostrou sua credencial. se levantou e foi à porta. ouviram uma batida forte na porta. Cummings olhou ao redor do pequeno escritório e reparou que não havia assento vago. não podem ser da polícia. do trad.. tentando forçar seu amplo traseiro em uma 2Serviço Britânico de Inteligência. Com seu corpanzil preenchendo a entrada da porta. (N. Blair leu o cartão e soltou um longo suspiro. Brody e Brax deram de ombros e se sentaram em duas cadeiras de couro gasto em frente a ela. O rechonchudo lentamente se acomodou na cadeira estreita e se contorceu.— Vamos para o meu escritório. afinal? Antes que Brody pudesse responder.. Quem são vocês. Ela arqueou a sobrancelha.) . Ela destrancou a porta e se jogou sobre uma cadeira detrás de uma escrivaninha entulhada de livros e papéis sem lhes convidar para sentar. Brody a acompanhou com os olhos. ela se debruçou sobre a escrivaninha e disse: — Como vocês são ianques. irritada. Limpou a garganta e olhou feio para Brax.

O lábio inferior de Blair tremeu levemente. Blair retesou os músculos. — Havia um corpo no porta-malas — Cummings acrescentou friamente. Brody torceu para que a cadeira cedesse ao peso. Brody pensou e sentiu um aperto no coração pela mulher. senhorita Kelly.. Que grande imbecil. À medida que ela se controlava para não entrar em pânico. Blair começou a tremer. — À vontade. caro jovem — Cummings disse sarcasticamente. Encontramos a limusine de seu irmão esta manhã em um terreno abandonado. — Lamento dizer que tenho notícias preocupantes. — Não preciso de sua solidariedade condescendente. os olhos zombeteiramente buscando a aprovação de Brody. sua persona de mulher feita de repente deu lugar a uma garotinha indefesa. Como meu irmão foi se misturar com tipos como você. Não era o corpo de seu irmão.posição confortável. senhorita Kelly. mas então viu a expressão de alívio tomar conta do rosto dela.. — virou-se e olhou para Brody — e este americano bobo? Brody reparou que o fogo em seus olhos a deixava ainda mais atraente. os olhos começando a cintilar. . calma. —Se me deixar prosseguir. o padre Benjamin. Era de outro padre. não é? — Blair disse. Brody deu de ombros. —É Dominic. também ligado ao núncio do Vaticano. — Calma.

— Deslizou a . seus olhos cresceram imediatamente. cara jovem. o olhar severo sobre a loto do irmão à mesa.. Ele então continuou a explicar sobre a armadilha que fora armada para Von Gant. Ele prosseguiu. Quando Cummings mencionou Al-Dajjal. reconhecendo o nome. inclusive seu interesse em Al-Dajjal. algo além da compreensível consternação pela segurança do irmão estivesse lhe rasgando o coração. no modo como ela o torcia de vez em quando.— O padre Kelly tem trabalhado conosco — Cummings respondeu secamente. Blair ficou olhando para as mãos por um momento. omitindo a maior parte dos fatos em relação às atuais atividades de Gant e se concentrando em suas razões para ter enorme interesse no manuscrito Voynich. fazendo um pequeno esboço do papel de Brody e do tenente Braxton na história. era como se. Cummings tossiu em um lenço monogramado de seda e assoou o bulboso nariz. — Pode agir na falta de seu irmão? Tornar-se nossa agente secreta e lançar a isca? Você daria uma espiã e tanto. como um tique nervoso. Os olhos de Blair encararam os do rechonchudo homem. e à forma com que o entendimento brotava em seus olhos inteligentes. Reparou no nariz sardento. — Eu estava mesmo preparando algumas anotações para a palestra. Mas também detectou que ela devia estar escondendo algo mais. Brody a observou. — Acho que isto é tudo.. O que evidentemente nos deixa com uma pergunta. ao ouvir aquilo. e Devlin detectou um aumento no batimento cardíaco dela pela pulsação da carótida no belo pescoço.

Brody interrompeu. Cummings suspirou. os olhos fulgurando ligeiramente —. Apareceu à porta a cabeça de um homem de rosto murcho e ombros caídos. mas não é nenhum problema incontornável.. mas está na hora da palestra. doutora Kelly. Quero levar isto até o fim. Cummings apertou i is olhos. Isso é que é garota. — Muito bem. nem meio mais.. porque estarei bem na sua cola. nem do segredo para o enigma do manuscrito Voynich. A expressão no rosto dela finalmente se suavizou. Não vou ficar de fora e confiar que vocês colocarão a segurança de meu irmão em primeiro plano. Faremos de tudo que estiver ao nosso alcance para trazer seu irmão de volta são e salvo. mas terá que. —Isto é lamentável — disse o gordo. — Desculpe. mas logo endureceu. minha cara. Blair se virou para Cummings outra vez. Brody sorriu para si mesmo.mão por sobre a barafunda de papéis espalhados sobre a escrivaninha. — Nem mais. como se ela tivesse flagrado a si mesma baixando a guarda. Ela fustigou o gordo com os olhos. então. o tempo todo. Quero que seja do meu jeito. como assim? —Acho que Dominic não está realmente de posse das páginas que faltam. — Bem-vinda a bordo. — Pode ter certeza que vai. . — Ah. — Só tem um problema. — Tenho algumas condições.

nem morta. Não guardavam traço de engano ou ambigüidade. Reparou nas roupas. ela concluiu. Conteve a vontade de gritar. e tinha queixo forte. mais de metro e oitenta. Estava em boa forma para um homem de meia-idade. Ela observou seu reflexo. Estava com um pijama estampado com cachorros. As paredes eram pintadas em suaves tons de azul e rosa. Torceu o nariz. Deve ser de garoto. imersa em pensamentos. mas não havia janelas. Quanto ao gordo do MI-6. sem dúvida. . Ele era alto. Havia. Ela decidiu que por enquanto não lhes falaria nada sobre Noor. Um barulho metálico a amedrontou. Capítulo 12 Noor acordou assustada. ela não confiava nele. Quem sabe ela pudesse confiar nele. Blair ficou em silêncio. contudo. um espelho ocupando toda a parede. que deviam estar nas mãos daquele maníaco do AlDajjal. Seu visual saudável e cabelos grossos e escuros eram bons de olhar. Ele piscou e lhe deu um sorriso confortador. Ela rastreou o pequeno quarto com os olhos. Seus olhos azul-claros eram simpáticos.Enquanto caminhava junto aos outros pelo corredor. Sua mente girava com imagens de seu irmão e de Noor. Respirou fundo e deu uma rápida olhada de rabo de olho naquele homem chamado Devlin.

Era sinistro. apesar de estar grogue e sentir que a cabeça parecia recheada de algodão. . apertou contra o peito. E é grande demais para mim. o ursinho de pelúcia cor-de-rosa. Lutou para alcançá-lo e finalmente conseguiu tocar a capa com as pontas dos dedos. Em pânico. Levantou e olhou ao redor mais uma vez. viu uma pequena fenda estreita no meio da porta. era gelada ao toque como metal. Puxou o livro para si. E aquela mulher nojenta e pavorosa de cabelos louros. Ela achou que havia alguma espécie de eco no som. A fenda na porta fez um barulho agudo e metálico. Então se lembrou de Mister Muffins. Uma lágrima começou a lhe descer pelo rosto ao se lembrar do sorriso caloroso do padre Dominic e daqueles homens maus. Tinha aqueles mesmos olhos de serpente e a risada maligna do Capitão Gancho da história de Peter Pan. A idéia a fez rir de si mesma. Sentiu a superfície lisa da porta. pegou o ursinho. Ajoelhou-se. Girou as pernas e saiu da cama dupla. O livro! Ela se enfiou debaixo da cama e viu que estava lá. claros como neve. mas não estava alcançando. Debaixo da ponta do estrado da cama ela viu a ponta de uma das orelhas felpudas. Então começou a se lembrar. Não havia maçaneta. olhou para os lados. Fora de seu alcance. Outro barulho forte soou de alguma parte fora do quarto.Levantou o braço e a manga caiu pesadamente sobre seu pulso diminuto. e se abriu. Ela lhe lembrava Al-Dajjal.

as costas iluminadas por potentes luzes fluorescentes cujos raios vindos de trás se espalharam recinto adentro. . Ela fez uma pausa de efeito. — O manuscrito Voynich.. ou o doce enigma. limpando a garganta nervosamente. é cercado por histórias misteriosas. jornalistas e personalidades patrocinadoras do museu.. a doutora Blair Morgan Kelly alisou a saia distraidamente diante do grupo de alunos. O título da exibição aparecia em letras garrafais: Magia e Alquimia. de anjos e de necromancia.apareceu uma imagem do códice enquanto Kelly falava — . cercado por hieróglifos dourados de símbolos mágicos.Um par de olhos negros a encararam. — O manuscrito tem cento e quatro páginas em papel pergaminho. Examinando de perto é possível . Bateu com o dedo no microfone e se aproximou. como alguns o chamam.. —Histórias de feiticeiros e de alquimia. Então ouviu mais uma vez o som metálico e subitamente abriram a porta completamente.. cerca de quinze por vinte centímetros. —Uma história de troca de casais e da busca pela juventude eterna. Detrás dela havia uma enorme e plana tela LED que exibia imagens de vários códices antigos e uma xilogravura de um alquimista em pleno trabalho. escrito em algum alfabeto secreto. Capítulo 13 Em pé no tablado. historiadores. Uma figura tenebrosa e atarracada preencheu o umbral da porta.

ver as partes rasgadas das folhas que faltam. reflete de modo sombrio aquilo que jaz na profundeza dos pensamentos e da alma do observador. Muita gente que estudou o assunto a fundo enlouqueceu. . O Voynich. Eram Heinrich von Gant e sua sobrinha. arregalando os olhos ligeiramente. verde e vermelho. e não por causa de algum tipo de maldição de Tutancâmon. Brody Devlin virou e os viu entrar. e sim devido à vergonha e ao ridículo a que foi exposto. com movimentos felinos. entregues à obsessão de terem descoberto sabe-se lá o quê. declarando se tratar do trabalho de Roger Bacon. aquilo que chamaram de diagramas cosmológicos. o alquimista e monge franciscano do século XIII. Guarda-costas. não se sabe quantas seriam. dizem alguns. então ele morreu. Ele não foi o primeiro e nem o último a se tornar vítima do que parece ser a maldição do Voynich. — Blair sentiu o sangue subindo ao rosto. é como uma sala de espelhos de parque de diversão. Estavam cercados por uma falange de brutamontes. Brody . Ela fez uma pausa e levantou os olhos em direção à parte dos fundos do recinto. — O documento é abundantemente ilustrado com cerca de quatrocentos desenhos misteriosos como plantas. uma mulher alta que caminhava sinuosamente.O Voynich foi uma curiosidade até o momento em que um homem chamado Newbold alegou tê-lo decifrado. Ninguém foi capaz de confirmar as conclusões de Newbold. diagramas zodiacais. Há diagramas de mulheres nuas botando pra quebrar no que parece ser uma intrincada rede de banheiras e corredeiras. e é ricamente colorido em azul.

O homem era alto. negociante americano de livros. estourados debaixo de seus ternos justos. mais alto que ele. Inexplicavelmente. — O MV. Quando ele faleceu. onde agora está catalogado sob o . em 1912 por Wilfred Voynich. Brody percebeu que fora precipitado em seu julgamento. Seu corpo parecia esguio e rígido. O cordão umbilical visual foi cortado quando Gant se sentou e se virou para o tablado. O movimento passaria despercebido por um leigo. inflexível. Sua postura denunciava flexibilidade e tonicidade escondidas. e aquele homem estranho em sua frente parecia ler os pensamentos de Brody e farejar seu medo. Gant olhou para Brody e se sentiu examinado com fria e astuciosa eficiência. monastério jesuíta na Itália. com calculada dignidade. subitamente sentindo um frio na espinha. mas Brody era profissional. vamos abreviar assim. até. sua esposa. Blair limpou a garganta. doou-o para a Universidade de Yale.. julgando por seus físicos anabolizados. Brody se sentiu como se estivesse sendo rebocado. que parecia querer se livrar do documento. Mas quando os funcionários do museu os conduziram a seus assentos. Brody devolveu o olhar e um súbito calafrio lhe correu pelas veias. Depois que eles se sentaram. Brody estremeceu. arrastado por alguma força invisível para dentro de uma armadilha para ursos. Brody ficou impressionado com a aparência de Gant. foi encontrado em um. Gant caminhava rapidamente..concluiu.

cujo rosto reagiu amarrotando-se em um sorriso cheio de dentes. Roger Bacon.. convidando alquimistas de terras longínquas para transformar chumbo em ouro. girassóis e outras novidades botânicas do Novo Mundo que conflitam com a data atribuída ao MV. matemático euclidiano inglês que servia como astrólogo da corte a Elizabeth I. Um universitário de cara jovial na última fileira levantou a mão. o doutor John Dee e Edward Kelly. os Cátaros.. Ele comprou o MV de uma dupla de feiticeiros ingleses. — Entre os supostos autores estão Deus. mas provavelmente não é um texto autêntico de Roger Bacon — disse Blair. entre os tópicos estão: a nebulosa espiral. Os girassóis só chegaram às Américas muitos anos depois. Anthony Askam. contraceptivos. entendendo. de quem caiu nas graças. os Illuminati. — Mas Dee também era um homem de letras e ciências. — Acho que é um texto alquímico. — Existe uma teoria segundo a qual é provável que o mesmo livro tenha aparecido em Praga em 1608. Um professor velho e cambaleante de cavanhaque pontudo e sotaque francês olhou por detrás de óculos de arame e perguntou: — Quem a senhorita acha que escreveu mesmo o documento? Acha mesmo que é um livro de alquimia? Blair sorriu.número 408 e cuja Biblioteca de Livros Raros Beinecke teve a gentileza de nos emprestar para exibição. Rudolph Segundo era obcecado por ocultismo e converteu seu castelo inteiro em laboratório de alquimia. e olhou rapidamente para Gant. suicídio. pimentões. — O doutor John Dee também não era acusado de praticar magia negra? .

— Sim, e é aí que as coisas começam a ficar realmente interessantes. Dee, apesar de talentoso, não tinha nenhuma capacidade mediúnica, de modo que procurou um médium. Bem, ele encontrou. Edward Kelly, um criminoso vagabundo que teve as orelhas arrancadas por falsificação. Kelly se dizia capaz de manter comunicação com anjos e de, através da alquimia, transformar chumbo em ouro. Kelly dizia ter encontrado um manuscrito indecifrável em uma tumba em Wales, junto com uma ampola de pó vermelho que chamava de "elixir da vida", depois do que Kelly ficou versado em divinação — termo antigo para previsão do futuro — na bola de cristal. Blair apontou para o mostruário suspenso perto do tablado. — Senhoras e senhores, a bola de cristal âmbar de John Dee, supostamente entregue a ele pelo arcanjo Gabriel. Ouviu-se um murmúrio velado que logo se desfez. Brax sussurrou na orelha de Brody, apontando com a cabeça. — Dê uma olhada na princesa de gelo — os olhos de Brody se voltaram novamente para as demais pessoas. Sentada ao lado de Gant estava uma mulher estonteante que Brody reconheceu das fotos anexadas ao relatório como sendo Margot Gant, sobrinha do velho esquisito. Ela estava embalada por um justo conjunto Versace branco de calça e terno que acentuava suas formas bem-feitas. Ele tinha de reconhecer que ela era um espetáculo, mas em sentido perigoso. Com seus cabelos louro-brancos, seu rosto leitoso, de porcelana, e seus lábios cruéis, ela era uma "badgirl" dos pés à cabeça. O vermelho profundo de seus lábios parecia para ele a marca de sangue fresco derramado na neve, uma fina

curva de mancha de sangue, tão frígida quanto o gelo ao seu redor. Como se sentisse a atenção que ele lhe dirigia, seu olhar se voltou para Devlin. Ele engoliu em seco. Ela olhou abertamente e então virou, girando o longo pescoço. Brody sentiu um calafrio ao se deparar com aqueles olhos azulclaros. Só os olhos dela eram estranhos à paisagem congelada do rosto; eles eram vivos, quase selvagens. Pulsavam com uma sensualidade desenfreada e crua. Mesmo contra sua vontade, Brody foi atiçado por um doloroso desejo. O som da voz de Blair Kelly o despertou de seu devaneio. — Em estado de transe profundo, Edward Kelly era capaz de fitar o interior da bola de cristal enquanto Dee transcrevia o que seria uma língua angélica chamada de enoquiana, que os rosacruzes e magos cerimoniais usam em seus rituais até hoje. Eis onde entra na história a artimanha da troca de esposas. Kelly disse a Dee que as hostes angelicais ordenaram que ele e Dee compartilhassem tudo, inclusive as esposas. E de acordo com as anotações de Dee, foi o que fizeram. O filho de Dee, John, viria a lembrar que seu pai e Kelly passaram meses envoltos com outro sistema divinatório chamado shew-stone, tentando decifrar um livro misterioso escrito em hieróglifos. Blair foi até o mostruário, levantou a tampa e hasteou um espelho de obsidiana negra. — Isto era uma antiguidade asteca que Dee ganhou de alguém, possivelmente de um ocultista rosa-cruz como Francis Bacon.

Blair cuidadosamente pousou a shew-stone novamente em seu apoio e olhou para os fundos do recinto. Lá estava o gordo, em pé, com suas mãos pastosas e roliças apoiadas em uma bengala. Ela deu um sorriso forçado ao apontar para os fundos. — Senhoras e senhores, temos a honra de contar com a presença de Sil Nigel Cummings, um velho expert em códigos e criptologia do Ministério das Relações Exteriores. Cabeças giraram. Um tanto aturdido, Cummings apunhalou Blair com os olhos. Então, percebendo que todos os olhos se voltaram para ele, sorriu graciosamente e acenou. Brody teve de dar o crédito à mulher. Ela tinha colhões, com certeza. — Sir Nigel... poderia, por gentileza, explicar sobre o envolvimento de Dee com o Serviço Britânico de Inteligência? Cummings endireitou os ombros enquanto caminhava pelo corredor em direção à frente do recinto. — Eu adoraria compartilhar com vocês... — parou, como se surpreso — ... as informações que li. Talvez todos estejam interessados em um pouquinho de cultura inútil. As cabeças da platéia assentiram avidamente. — Há quem diga que John Dee foi o fundador do Serviço Britânico de Inteligência, ou MI-6, como é conhecido publicamente. Ao viajar por toda a Europa, ele estava na verdade repassando clandestinamente informações à Rainha Elizabeth I através de um código secreto, sua língua angélica, chamada enoquiana.

- Sua assinatura era 007, a mesma que Ian Fleming adotou paia James Bond, sua licença para malar. Os zeros representavam os olhos predadores, o sete alongado, o sinal da raiz quadrada, além de ser um número de sorte na numerologia. Alguém perguntou: — Então a magia era um estratagema? Na verdade ele era espião e codificador? — Bem... em se tratando desses tipos excêntricos, arrisco dizer que a verdade jaz em algum ponto no meio. Robert Boyle, famoso biólogo e estimado membro de nossa Academia Real, declarou em uma palestra que tinha certeza que o alfabeto angélico era, na verdade, um código elaborado. Mas por outro lado, no mundo dos espiões e da alquimia nada é o que parece. Boyle, como Sir Isaac Newton, também estudou alquimia e dizem até que ele viajou a Istambul para obter de uma sociedade secreta turca o Livro de Abraão. Alguns dizem que era uma versão anterior do Voynich, e que continha o segredo da fonte da juventude. Brody viu que os olhos de Cummings se voltaram propositalmente para Gant ao terminar, como que para enfatizar a frase. Blair foi para o lado de Cummings. — Há outro mito que envolve uma figura histórica mais recente. Ninguém menos que o doutor Carl Gustav Jung, uma das mentes mais brilhantes de nosso século. Jung também ficou obcecado com alquimia e escreveu vários livros sobre o tema. — Como devem saber, Jung era um tanto místico e profundamente versado em ocultismo. Apesar de a maioria de

seus escritos ter sido publicada, parte de seu espólio se perdeu. — Seu diário mágico desapareceu. Há rumores de que ele teria decifrado o código do Voynich durante um estado de transe, e que a chave para a decodificação estaria em seu diário. Ao que consta, Jung disse aos amigos mais próximos que o MV tem a fórmula da Pedra Filosofal, o segredo da vida eterna. Do canto do olho, Blair viu Gant apertando os olhos como fendas ao se inclinar para a frente na cadeira, o rosto ardendo com o brilho da transpiração. Hora de jogar a isca, ela pensou. - Pode parecer terrivelmente irrelevante, mas um comerciante de antiguidades de Istambul me procurou recentemente dizendo possuir o diário perdido de Jung. O rosto dela foi tomado por um amplo sorriso quando percebeu que o rosto de Gant ficou pétreo de concentração. O professor idoso de chapéu e cavanhaque à la Vandyke levantou a mão repleta de manchas senis e disse: — Mon Dieu! Eu bem que queria um gole desse elixir da vida, doutora Kelly. — Continuou com seu forte sotaque francês, — À vrai dire, adoraria me tornar um jovem mestre Harry Potter, oui? — piscou o olho de modo galante. — Será que Mademoiselle poderia fazer um favor para este velho bobo? Blair riu. — Quem sabe... mas, por outro lado, se me virem daqui a cinqüenta anos, senhoras e senhores, se eu continuar com a mesma aparência e a lei da gravidade não tiver tomado conta... poderão concluir que eu não quis compartilhar a receita. — Risos soaram por todo o recinto.

— E assim concluímos a palestra de hoje — Blair acrescentou, assentindo com a cabeça em direção a Cummings, que a saudou discretamente. — Caso desejem, por favor, visitem a exposição sobre o MV e John Dee. Coquetéis e canapés serão servidos dentro em pouco. Quanto aos membros do booster club , não se esqueçam de levar seus talões de cheque.

CAPÍTULO 14
Noor quase deu risada quando a figura saiu da sombra em direção à parte clara do quarto. Agora não era mais assustador. Era um homem baixinho e troncudo, e para Noor parecia que tinha pele de rato colada na cabeça. Tinha bochechas vermelhas como maçãs, cara de Lua e usava um longo jaleco de médico. Ela tentou desviar o olhar, mas não conseguia tirar os olhos daquele chapéu engraçado. — Acho que ficar olhando fixo assim é um pouco de falta de educação da senhorita, não é? Ou será que nunca viu uma peruca na vida? — o homenzinho explicou. Ele tirou a peruca, revelando a careca lustrosa. — Viu, agora eu pareço um ovo, ja? — seus olhinhos cintilaram jocosamente. — Não tive intenção de ser mal-educada, senhor... — Por favor, pequena senhorita Noor — ele disse, pondo a peruca de novo na cabeça. — Pode me chamar de... bem, que tal doktor Humpty Dumpty? — Não me chame assim! Meu nome é Wendy — ela gaguejou. Noor achou que ele estava brincando e ela não tinha entendido a piada. Apesar de parecer que o doutor Humpty

estava se divertindo pelo jeito com que ele batia palmas animadamente, o rosto corando e passando de rosado a vermelho. — Aliás, falando em ovos, aposto que a pequena senhorita... Wendy, se prefere assim... deve estar querendo tomar o café da manhã, ja? O estômago de Noor roncou ao pensar em comida. Estava faminta. — Poderia ser chocolate quente, e ovos, e pão, e mingau, e manteiga, e sorvete, e...? - Com certeza, mas eu vou ficar de costas enquanto a senhorita veste estas roupas. Não seria elegante se sentar à mesa de pijama — ele lhe entregou uma blusa, calça e sapatos. Apontou para uma pequena pia e um armário no canto. — Por que não se refresca também? Noor ficou olhando para ele, sem entender, e cheirou as axilas. — Não estou limpa? Humpty Dumpty bateu na coxa. — Ah, querida senhorita Wendy, estou me referindo a lavar bem o rosto, e não se esqueça de lavar detrás das orelhas e depois escovar essas pérolas branquinhas e escovar esses cabelos sedosos, ja? — Certo, mas vire para lá e não espie, doutor Humpty. — Sabe o que mais? Vou esperar lá fora, e quando estiver pronta a senhorita me chama, ja? Noor fez que sim e quando a porta se fechou, ela tirou o pijama e foi até a pia. Olhou para o sabonete, levou-o ao nariz e instantaneamente jogou na pia. Eca, tinha cheiro de queijo velho. Abriu a torneira, molhou as pontas dos dedos e esfregou detrás das orelhas. Depois pegou o creme dental. Fez

força para tirar a tampa, e quando conseguiu, apertou o tubo com tanta força que um jato do creme foi projetado sobre o espelho da pia. Ela deu de ombros e passou o dedo na pasta pegajosa e escovou suas "pérolas branquinhas" com o indicador. Ao terminar, olhou para seu reflexo. Com seus pungentes olhos de tom índigo, olhou atentamente para o próprio corpo. Pôs as mãos na cintura e virou, e desvirou. Imaginou se seu peito ficaria estufado como o de Blair. Puxou um fio de sobrancelha, como vira Blair fazer no hotel. Soltou um gemido de dor. Esqueça isto, ela pensou... deixe-as crescer que nem barba de bode. Então pegou a escova de cabelo e começou a passar as cerdas suaves no cabelo sedoso, contando cada escovada, mais uma vez imitando Blair. Do lado de fora, o doutor Cravem, também conhecido como Humpty Dumpty, entrou furtiva e rapidamente na sala adjacente. No recinto parcamente iluminado, ele ficou observando Noor através do espelho falso Mirrorpane, e acendeu um cigarro, os olhos agitados. — Um belo espécime, não é mesmo? O homem alto ao seu lado se virou, agigantando-se sobre ele. Seu rosto não tinha expressão nenhuma. Usava calça caqui, camisa pólo abotoada e mocassins, e seus cabelos estavam agora escuros e ondulados. Al-Dajjal caracterizou se de "americano típico", dissera ao criado depois de passar pela alfândega de um campo de aviação privado perto de Heathrow e entrar em uma Mercedes.

como um machado de gelo de montanhista. a posição correta de guarda-costas. Ernst podia golpear sua vítima com a pesada bola. Ele era certamente tão estúpido quanto um saco de machados. caminhar. o machado era feito sob encomenda. Em vez de ter uma adaga cortante na ponta de um cano. como ele mesmo dizia. ou por não olhá-lo nos olhos. . O machado de gelo era seu instrumento favorito. A ponta reversível era reforçada com uma bola de aço. saía um fio de arame aliado como navalha e a arma se transformava em um verdadeiro garrote. tinha uma lâmina dentada retrátil. um assassino altamente qualificado e brutal. escolhia alguém de quem não gostava por causa do jeito do homem falar. ele não precisava mais ser motorista e cãozinho de estimação de Margot. Agora que Al-Dajjal estava de volta. mas forte.Ernst tomou seu lugar de direito do lado direito da limusine. Para Al-Dajjal. usando-a como um black jack enlaçado ao pulso e antebraço. no olho bom que tinha. Quer dizer. Sentava em um bar. Ernst era conhecido como "Der Eisaxt". em geral derrotando adversários com sua perseverança e sua aparentemente ilimitada resistência à dor. o apelido combinava com o homem. Ao retrair da lâmina. com liga metálica de alumínio leve. Quando ele puxava uma argola na lateral do cano. e não era à toa. Copiado da arma de combate corpo a corpo usada pelo SOE. pois a órbita de vidro era ligeiramente inclinada para dentro. O outro fora arrancado em uma briga de bar e substituído por um olho de vidro amarelado que lhe fazia parecer estrábico. mas servia fielmente como um instrumento implacável. Era o braço direito de Al-Dajjal.

ardia em silenciosa raiva. o sangue jorrando sobre o peito de der Eisaxt e lhe cobrindo o rosto. o que também seria uma afronta equivalente para o sujeito. o homem fez a besteira de partir para cima de der Eisaxt uma segunda vez. deixou uma cratera como assinatura. Cravou fundo na testa do halterofilista. Seu "instrumento" saiu de baixo da manga direto para a mão. ejetou a lâmina do machado com sua superfície dentada cintilante e a apontou. e o outro olhava para o nada. Al-Dajjal sabia que der Eisaxt só tinha uma paixão na vida. sentando sobre ele. Seu olho bom soltava faíscas. o homem lhe deu uma porrada com o extintor de incêndio que havia arrancado da parede do bar. Finalmente. martelando-lhe a mandíbula repetidamente. Com olhos duros e sem esboçar reação.Certa noite um halterofilista musculoso cometeu o erro de olhar para der Eisaxt de cima a baixo em vez de olhar para outro lado. jogando-o no chão. Não satisfeito. enquanto atacava o halterofilista cruelmente. Ele arremessou contra o outro com o próprio corpo. costumava resolver suas necessidades com alguma prostituta de rua que. Então tirou. Começaram a berrar um com o outro e o halterofilista arremessou der Eisaxt sobre uma janela de vidro e ele foi parar na calçada. apagado. a título de coup de Grace. Com uma angulosa virada de pulso. der Eisaxt enxugou o sangue do olho bom e do nariz quebrado. Não ligava muito para as mulheres. ele levantou seu instrumento no ar e baixou em um movimento poderoso e indistinto. por pouco . Der Eisaxt imobilizou o homem. Quando der Eisaxt fiou de pé.

a única coisa de que ele realmente precisava na vida era mutilar. é sinal que a Sonnenkinder chegou mesmo. . Al-Dajjal soltou-lhe a orelha. eu só quis dizer que. Num piscar de olhos Al-Dajjal estendeu a mão e agarrou o médico pela orelha. o homem continuaria fiel e leal como um cão. E enquanto Al-Dajjal satisfizesse sua sede de sangue com regularidade.. Baixando os olhos agora para o médico com cara de bebê. — Verdamnt. bem na hora que Noor terminou de escovar os dentes e escovar os cabelos. herr doktor? O sangue sumiu das bochechas rosadas do médico..dinheiro ou drogas. . ja? — seus olhos pequenos brilharam. O médico foi até a porta de pernas bambas e esfregando a orelha. o que implicava dominação. os testes. como se comer fosse uma necessidade maçante. torcendo com força e puxando mais e mais alto. comece os testes e exames. AlDajjal disse: — Deixe-a tomar o café da manhã com as outras crianças agora. — Certamente que não.Sim. Grunhindo em resposta. du fette schwiennund! Você está tendo a audácia de questionar o que relatei. não ligava muito para comida ou bebida. normalmente se virava com fast-food. Se ela for dotada dessas capacidades peculiares que você diz. que fez careta de dor. e se fosse o caso bebia apenas bebidas baratas. esta tarde. torturar e matar. ficando na ponta dos pés. satisfizesse suas sombrias preferências. O que der Eisaxt precisava. Depois. O doutor Craven desviou os olhos do espelho falso e encarou o olhar fixo e gelado de Al-Dajjal.

. Ernst já estava saindo quando Al-Dajjal acrescentou: — E traga suas ferramentas! CAPÍTULO 15 Chewie puxou a gravata e abriu o colarinho da camisa. Ernst assentiu obedientemente. Chewie selou a amizade ao oferecer a Rolf um pouco de licor Schnapps. — der Eisaxt. motorista de Gant. Rolf relutou. Só precisava começar a reclamar das longas horas de espera. ele ficou de papo furado com outros motoristas e havia acabado de dar um pouco de café fumegante da própria garrafa térmica para Rolf. nem mesmo uma xícara de café. no estacionamento VIP do museu. teve de enfiar seu longo rabo-de-cavalo debaixo do quepe de motorista. Chewie sugeriu que fossem dar uma volta para ver as garotas locais. Já sabendo que motoristas gostavam de tagarelar enquanto esperavam o retorno do chefe por horas a fio. mein herr. imediatamente. mas o uniforme de motorista de limusine era parte do disfarce. explicando que um amigo que trabalhava no museu ficou de ligar para ele quando os convidados começassem a sair. que nunca lhe davam nada para comer. — Ja voll. Para piorar a situação. Lá fora.Al-Dajjal se virou e chamou o monstro taciturno que estava em pé atrás de si. Jamais usava gravata. Chewie não teve dificuldade em fazer amizade com o motorista de Gant. Leve-o para a sala de interrogatórios. vá pegar o padre. mas depois de mais duas doses de Schnapps acabou concordando.

completamente escondido detrás de seus cabelos longos e grossos. A voz de Scout chegou ao fone mínimo que Chewie usava. Vamos voltar. garotão. Fazendo uma cara tensa. Ao seu lado estava Margot. . — Scout voltou para a limusine e abriu seu laptop. ele resmungou: — Preciso soltar um barro. pois Chewie estava com uma escuta escondida. Você e Rolf podem voltar agora. O controle fazia sua mágica. Murmurou em seu microfone na lapela: — A limusine está grampeada. Scout. CAPÍTULO 16 A silhueta esguia de Gant dominava os outros convidados que o rodeavam durante a recepção. Quando viu que a área estava livre. Quando as travas das portas subiram. entrou com toda naturalidade na limusine de Gant. Scout Thompson ouvia a conversa deles. a "perda de tempo de uma criança prodígio". como chamou seu advogado quando ele foi preso por fazer ligação direta em carros.De seu posto em outra limusine. Clicou em um controle remoto universal de alta tecnologia que ele vinha aprimorando desde sua criação na vida passada. que também estava com uniforme de motorista. Chewie virou em direção a Rolf. tentando desesperadamente não demonstrar o quanto estava louca de tédio. ele abriu a porta do motorista e se posicionou ao volante. Em poucos minutos ele plantou as escutas e instalou um sistema GPS para rastrear o carro. procurando pelo sinal. desativando o alarme da limusine e destrancando as portas.

ela observou o rosto de Gant. Blair teve um calafrio de repulsa ao ver aquela carne oca e pelancuda. venenoso como serpente. viu as marcas da idade. e bochechas cavadas que contribuíam para sua aparência cadavérica. Blair forçou um sorriso . Mas quando ela olhou para o pescoço. procurando por uma reação e não encontrando nenhuma. — Apesar de ter que confessar que estamos todos um pouco intrigados. que a considero bem mais agradável aos olhos — ele sorriu. — Ora. e foi desviando das pessoas até chegar a Gant. Era tão animalesco que o colarinho e a gravata não escondiam. seus lábios escabrosos como lixas em sua pele. doktor Kelly. O rosto daquele homem alto era comprido e anguloso. imediatamente interrompendo a conversa com outro convidado. Devo admitir. — Ela estendeu a mão e Gant curvou-se elegantemente e beijou-lhe a mão. Seu nariz era forte como uma ponte. contudo. Ele se virou para cumprimentá-la. Parecia mais jovem do que era e exalava uma força que camuflava sua compleição esquelética. — Mas por quê? — Esperávamos que seu irmão fosse palestrar. um gigolô de trinta e poucos anos. — Sabia do diário de Jung? . Ao chegar mais perto. as maçãs do rosto altas.Motivos de força maior . que palestra excelente.Blair pediu licença a uma matrona desconjuntada que mais parecia um pote de carne e seu acompanhante. Blair viu que Gant tinha olhos escuros como ameixas. O rosto era firme e com poucas rugas.

que percebeu que ela não gostou do fato de Gant não ter se dado ao trabalho de apresentá-las. Blair deu um tapinha no bolso de seu blazer. agindo de forma exagerada e. tocando o antebraço de Gant vez ou outra enquanto conversavam. deu para sentir na nuca o olhar fixo e de congelar da princesa de gelo. sempre estou interessado em antiguidades e não teria como não me interessar por esta — acrescentou estas últimas palavras como se não tivesse pensando nisto antes. Blair notou Margot Gant. cuja expressão altiva se transformou em nojo gelado ao ver o tio dar atenção total a Blair. piscando. Apesar de Blair voltar a olhar para Gant e dar um jeito de ficar de costas para Margot. tentando-o.Balançando a cabeça enfaticamente. Do canto do olho. Blair flertou desavergonhadamente. — Ah. como quem não quer nada. a senhora não tem papas na língua. traindo seu interesse além do casual pelo diário. mas ela conseguiu enxergar além do disfarce. e Blair concluiu que ele estava simulando desinteresse. Como sabe. À sua esquerda estavam Brody . não? — ela deixou as palavras soltas. — Você tem cópias? — sua voz se tingiu de tensão nervosa. — Guardo-as bem perto do coração — ela disse. ele se inclinou como quem fala confidencialmente. Um homem que se apresentou como anexo militar interrompeu a conversa. Gant cresceu os olhos. — Então imagino que estaria interessado em ver algumas das fotocópias do diário que me foram enviadas por um comerciante de Istambul.

Gant pareceu enxergar o interior do outro. mas preciso ir ao toalete.Com licença. e fazia troça do que via. — General Powers. achando graça. o homem apertou mais ainda. cavalheiros. volte. segurou rapidamente. Blair corou apropriadamente. correspondendo em força ao aperto de alicate de outro.Devlin e Brax. mascarando a qualidade autoritária de seu olhar. fazendo pressão de quebrar ossos.Doktor Kelly. cujos olhos escuros cintilavam. sim? — Gant disse com voz sedosa que era quase uma ordem. OK. . Então apresentou Brody e Brax como partes interessadas que representavam um grande comprador de armas. Gant soltou a mão e Brody até pensou ter imaginado a coisa toda. Olhando atentamente. meu velho. . Brody teve de admitir que olhos leigos mal detectariam a prostética e a maquiagem. tentando não olhar nos olhos de Brody e Brax. os olhos agora colados aos de Gant. O militar sorriu e olhou para Blair. Brody se esforçou o quanto pôde para se conter. que a apertou. Gant soltou um pesado suspiro e se virou para o militar. pois não tinha certeza de conseguir manter a seriedade. e deu as costas. Então Brody lembrou que era Gant quem realmente usava máscara. se está querendo brincar. . Gant estendeu a mão a Brody. Quando Brody soltou a mão. De uma só vez. por favor. Por estes breves segundos não houve segredos entre eles. – Blair disse. é muito típico de sua pessoa vir me salvar quando sente que estou a ponto de sucumbir aos truques e encantos de uma bela jovem.

ou quem sabe um exército de raça superior? — Brody devolveu a provocação e ficou em silêncio enquanto Gant primeiro apertou os olhos e depois os arregalou subitamente. senhor Gant. hein? Por que não vão ao campo de testes amanhã à tarde para uma pequena demonstração? . — Tenho certeza que está tudo em ordem. senhor Devlin? — Creio que terei de invocar a quinta emenda constitucional . brinquedos novos. Mas com certeza. sem sequer olhar para elas e gesticulando desdenhosamente. Voltou os olhos novamente para Brody. Está desenvolvendo algum super-soldado por lá. — Será que não podemos determinar desde o começo quem são esses clientes. — Um pouco de humor americano. me pediram que lhe fossem passadas estas cartas de crédito. como os chamo. Gant respondeu jocosamente. Gant pegou a pasta com as cartas das mãos de Brax e as passou para o guarda-costas sem pescoço. — Mas você também sabe das instalações para pesquisa genética da Geno-Dyne..Brody balançou a cabeça. Eu tenho alguns.O militar disse: — O senhor Devlin representa clientes que procuram armamentos automáticos exclusivos. senhor — disse Brody. percebo .. me foi solicitado que não divulgasse suas identidades até termos certeza que o senhor poderá suprir nossas necessidades. — Como conselheiro legal dos clientes envolvidos. assentindo. passando a palavra a Brax. senhor Braxton. Todavia. em meus fundos de guerra — deu uma risada rígida.

o senhor Devlin e acompanhante podiam ser meus convidados amanhã à tarde. Mas para Blair ela tinha uma aparência rígida. Estou dando uma festa para meus protegidos. Ele tem uma escola para crianças abandonadas no interior. — Com licença. — Meu tio é um homem muito generoso.Blair sentou-se furtivamente ao lado de Brody. Blair percebeu como os homens. O tom de subjacente insensibilidade na voz de Margot fez Blair pensar na bruxa da história de João e Maria. olhavam para ela como colegiais apaixonados. Margot. — Ah. A senhorita. Mas tenho uma idéia esplêndida. um por um. com olhos que não piscam. Blair perguntou: — Protegidos. Imaginou os . como se zombasse do evidente deslumbre dos homens pela mulher. senhor Gant? — ela deu seu sorriso mais provocante. estou interrompendo alguma coisa. inclusive Brody. como uma boneca de filme de terror. Os olhos de Margot se voltaram para Blair. permitam-me apresentar minha adorável sobrinha — disse o negociante de armas em tom presunçoso. laqueada. Uma boneca que exalava o calor de uma cabeça humana pronta para ser exposta como um troféu. Parecendo intrigada. de modo que teremos uma festa no jardim para os queridinhos. Nós a chamamos de Éden. Estamos apenas falando de negócios. minha querida. atraindo para si todos os olhos ao passar. — De forma alguma. Cavalheiros. Seu olhar esnobe hipnotizava os homens ao fitar seus rostos. senhor Gant? Margot se aproximou do grupo. Amanhã é o quarto aniversário da escola.

Ela revirou os olhos. tenente. enviar uns cartões postais. Balançaram a cabeça. Blair tapou a boca com uma das mãos e respirou ruidosamente. —Tenham uma ótima noite. Vou dar uma olhada no local. órfãozinha carente — ele disse. Era capaz de apostar uma garrafa de uísque single-malt Macallan que Éden era exatamente para onde levaram Noor. tomando-a pelo braço e levando-a até a saída. senhor gastador? — Pode me chamar de velhote ricaço. mas esta moça aqui precisa de pelo menos umas duas doses. Mas ocorreu-lhe que Margot cometera um ato falho.protegidos de Gant trancados em jaulas suspensas do teto e com Margot gargalhando e forçando os pequenos a comer para o grande assado no qual tocaria fogo na casa de pão-demel. E vai ficar longe daquela garota do posto de informação lá em baixo. virou e piscou o olho. senhoras e senhores. Brody inclinou-se e murmurou na orelha de Blair: — Dou um doce pelos seus pensamentos. assando-os vivos para o jantar. fazer umas palavras cruzadas.Excelente. Quero todos de . Brody respondeu. . — Não sei quanto ao senhor Devlin. E então? — Está me convidando para beber ou tentando me seduzir? — Brody brincou. — Ah. Então se conteve. e vai acompanhar Chewie e Scout. Brax limpou a garganta. Enquanto estudava a imagem de Gant que se retirava com sua entourage. Bem. não ligue para mim. jantar sozinho tranqüilamente. aceitando o convite de Gant. precisamos ir agora — seus olhos espetaram Brody ao se virar. vindo por trás: — Vai mesmo. — Está pagando.

Brody parou e se virou. mas percebeu por que Blair estava recuando. ligue para meu celular. — OK.cabeça limpa e com todo o gás para amanhã. estavam bem longe do museu. Agora seguindo a pé. me chame de Brody. ele disse: — Tem certeza que não estamos perdidos? Parece que o ambiente está ficando meio esquisito. — Estamos em marcha acelerada. — Isto é Londres. e então? — Tem um pub logo na esquina. um pub praticamente em cada esquina. estou faminto e sedento. cortando por ruas estreitas e trocando de condução mais uma vez. doutora. Depois de dar uma olhada ao redor. por favor. Brody viu de relance as figuras de dois guarda-costas engravatados de Gant lhes seguindo. Quando dobraram a esquina. . senhor Devlin.. um vinha por trás e acabou perdendo a pista quando eles deram meiavolta e começaram a andar em direção a ele. garanhão. Blair. enquanto o outro pateta passou por eles em uma rua movimentada. ou tem planos de dar uma parada para descansar em algum momento? Será que tem um pub ou coisa assim por aqui? — Chame-me de Blair.. — Se precisar de mim. Brody não disse nada. Tente não precisar! Capítulo 17 Pegaram um ônibus vermelho de dois andares. depois trocaram duas vezes de condução. se é que me entende. Mas. Escute.

meu bem.Não somos nós.No letreiro estava escrito Ten Bells. Mas eu me misturo. Entraram e sentaram nos duros e implacáveis bancos de madeira. . — Ela se virou e piscou para o grupo de homens sentados no bar. não. — Vem sempre aqui? — ele perguntou sarcasticamente.disse Brody. Você destoa — ela apontou com a cabeça o Rolex de ouro e os mocassins lustrosos. o estripador. na verdade. São assaltantes e trombadinhas. — Ah. valentão.Eu me sinto como se estivéssemos em exposição no zoológico . sensacional. — Aquele pessoal olhando para nós está tentando adivinhar que truque eu estou usando. — Você queria comer. — Claro. meu relógio e meus implantes dentários inteiros. com voz grave e olhos inquietos. Você está comigo. velho reduto de Jack. como se estivesse zombando de Brody. — Isto aqui é armadilha para gringos. Os olhares curiosos dos freqüentadores mal-encarados deixou Brody desconfortável. virando outra dose de um gole só e batendo o copo na mesa. mas gostaria de sair daqui com minha carteira. — E só você quem está na gaiola dos macacos. — Pare de bancar o mariquinha! . bebendo uísque puro com água. Brody entendia de história o suficiente para saber que eles acabaram chegando ao Whitechapel. portanto. Brody — ela disse. . — Truque? — Relaxe.

— Não gosto desse seu risinho de canto de boca nessa cara gorda. tentando esfriar a situação que estava começando a ferver. Tinha uma enorme barriga de cerveja que esticava o tecido da camisa de tal forma que os botões ameaçavam estourar a qualquer momento. pedaço de mau caminho — ela riu com seus olhos verdes. verde de inveja desceu do banco do bar e caminhou com seu corpanzil em direção a eles. Foi quando um sujeito com olhos dementes de deixar Jack. Mas seus braços e ombros eram torneados por músculos. — Não fui com as suas fuças. meu amigo? O grandalhão fechou os punhos. Parou junto à mesa com seu tamanho imponente. cara.A torta Shepherd chegou e Brody tirou uma boa colherada e engoliu. Ele tá te enchendo o saco? Blair respondeu. — Está tudo bem por aqui. . — Por que não deixa este ianque estúpido aqui pagar umas cervejas para você e seus parceiros. Ele percebeu que os amigos do sujeito começaram a descer de seus bancos. Tinha cicatrizes nas dobras dos dedos e suas mãos pareciam martelos. Não estava dando certo. do contrário ela ia acabar bebendo mais do que ele. seus olhares pétreos focalizando nele enquanto se aproximavam cada vez mais. o estripador. de forma deliberadamente lenta. ianque! .Minha mãe gosta disse Brody. pois sabia que precisava de comida. A oferta de Brody não estava dando certo.

fazendo um barulho intenso de algo quebrando. — Tô meio que pensando em arrancar esse teu sorriso idiota da droga da tua cara. Blair levantou. pois só tem metade do cérebro. — Por que tu num dá o fora antes que eu te arraste pelo saco? Por instinto. O grandalhão levantou Brody pelo colarinho como quem levanta um pequeno saco de batatas e o fez cair do banco. Brody girou e se livrou do sujeito. meu chapa? — zombou o fortão. bonitão. exibindo uma cerca de dentes amarelados. pisou com o salto do sapato no peito do pé do sujeito e cravou as pontas dos dedos no pescoço. lutando para respirar. puxando a toalha de mesa que estava pesada com o misturador de cerveja. Brody ficou boquiaberto. Você está "meio pensando" mesmo. . Brody cobriu a virilha com a mão. na altura da garganta. Brody teve a agilidade de pegar da mesa um misturador de cerveja e amarrou com força na toalha da mesa.Com os olhos cravados no homem e concentrando sua atenção. Mas Brody Devlin não era de resistir ao inevitável. O grandão ficou sufocado. tô mesmo — apontou a porta com a cabeça. martelando o maxilar de Brody com o punho. — Droga! Onde está Chewie quando eu preciso dele? — É só isso que tu tem. Piscando os olhos. arremessando-o bem no maxilar do grandalhão. tropeçou para trás. o gigante balançou a cabeça e sorriu. — Você tem razão em relação uma coisa. fazendo-o tropeçar e cair sentado. sem acreditar.

tatuaram o ar. Blair apontou para o bigode de espuma no lábio superior de Brody e riu. cambaleante. Um teve a coragem de dar um passo em direção a ela. As palavras. tomando mais um gole da cerveja amarga e massageando o maxilar dolorido. Acanhadamente. — Chama-se shelta thari. Brody deu um grande gole em sua caneca de cerveja. Blair começou a passar um carão. de volta para os fundos do bar. olhou para os lados depois de beber a primeira e. — Metalistas? . dando-lhe um tapinha nas costas e oferecendo um brinde com uma caneca na outra mão: — Vamos brindar a nossas esposas e namoradas: que elas nunca se encontrem! Outro homem. que agora pareciam perplexos. Pediu duas doses de uísque. relutante. Ela levou dois dedos à boca e deu um assovio agudo. pesado como urso. usada pelos mestres de trabalho em metal. levando-o. mais baixo. a língua dos tinkers e celtas antigos. pôs a segunda em frente ao grandão. Ele então disse. — Que língua era aquela que você falou com eles? — ele perguntou. todos calados. foi ajudar a levantar o grandalhão. Ele franziu o cenho e limpou a boca com as costas da mão.Blair virou para os homens. dois homens corpulentos ajudaram Brody a se levantar e sem cerimônia o soltaram em um banco enquanto outro punha duas canecas de cerveja na mesa em frente a ele. chocados e boquiabertos. pronunciadas em alguma língua estranha que Brody não entendeu.

desenhada em ricos matizes de vermelho e verde e azul. foi? Ela olhou para o lado. Uma rechonchuda garçonete voltou com mais cerveja e comida quente. Ele percebeu que agora Blair parecia taciturna. debaixo do colarinho da blusa. . que se desfazia pescoço abaixo. Alguns os tomam por ciganos. e as orelhas belamente esculpidas.Ela fez que sim com a cabeça. Baixou o garfo e se aproximou. juntou a massa de cabelos vermelhos e jogou para um lado do pescoço. quase como de elfos. — Acho que nos Estados Unidos são chamados de viajantes. Arfou. mas eles falam romani — ela respirou fundo. Deu uma olhadela na linha do cabelo. — Quando você falou sobre Dee e Kelly trocando de esposas isto implicava haver algo mais na alquimia do que dois homens brincando em um laboratório de química com instrumentos defasados? Ela fez que sim. Brody caiu de boca. — Você não foi cem por cento sincera comigo. estendeu a mão e tomou um gole da cerveja dele. Blair o pegou espiando e rapidamente jogou o cabelo novamente no lugar. Era uma cruz celta nodosa. e foi assim que Brody viu a ponta de uma tatuagem. Empinou a cabeça. soltando os cabelos em profusa cascata sobre os ombros. Tirou os grampos que seguravam o coque e sacudiu a cabeça. Brody admirou a curva graciosa do pescoço dela. virando em silêncio.

não podia fazer sozinho. em 1761 eles foram vistos assistindo uma ópera em Paris. shelta. Eu a tenho desde pequena.. bem. — É algum tipo de talismã ou símbolo? — É mais uma marca. precisava de você. um homem e uma mulher.. Às vezes me sinto uma amaldiçoada — olhou para o lado novamente. — Exatamente — Blair deu um sorriso sagaz que logo se desfez. estava com medo que você pensasse mal de mim. Eu. Isto se chama Casamento Alquímico. — Então eles teriam uns quatrocentos anos.— Se seu irmão realmente se meteu a transformar chumbo em ouro. não somos o que você chamaria de típica família irlandesa. é o sinal dos Thari. — Bem.. Mas se estende sobre as omoplatas e segue espinha abaixo. O casal mais famoso era Nicholas e Perenelle Flamel de Paris.. — Não lhe contei tudo. Precisa haver dois. nem escon¬der coisa nenhuma de propósito. Nossa língua. — A tatuagem. até a base das costas. — Tem algo a ver com a tatuagem? Ela deu de ombros.. Por volta de 1382 eles subitamente apareceram com uma fortuna sem explicação e estabeleceram quatorze hospitais e várias igrejas. — É complicado. Diz a lenda que eles nunca morreram.. Ela começa na nuca. Especificamente. certo? Ela corou. é o . que se originam dos antigos Druidas. mas você tem razão.. um leve tremor envolveu sua voz quando ela voltou a falar. — Isto é crendice. Brody balançou a cabeça. — Mas não estou tentando jogar com você. Brody revirou os olhos. Dominic e eu não somos como você. O que você viu foi só a ponta do iceberg.

que os lingüistas chamam de língua interna que evoluiu de uma língua secreta dos menestréis itinerantes. . Ele é uma espécie de alto sacerdote dos thari. — Não fique se preocupando à toa.Brody era todo ouvidos. sacerdotes druidas e magos. detendo se em cada palavra. — Não. Brody ficou olhando para ela. Provavelmente vem da Época do Bronze. Brody suspirou profundamente e a olhou nos olhos. como os thari. — Então está correndo perigo real. Não há cópias. Gant é um louco varrido. Eles. — Isto faz de você alta sacerdotisa? — Que nem minha mãe. Quando nossos pais morreram no acidente.. bardos. não do seu irmão.Meu irmão e eu somos o que resta de uma raça em extinção. — Talvez. Os antigos celtas em geral adoravam à Deusa. senhorita Kelly. Não existe diário nenhum. . . ..Então o padre Kelly não é só padre católico.. Eu inventei isto. sem conseguir acreditar. Brody. Se ele sabe disto é atrás de você que vai. cabeça-de-bagre. eram matriarcais. — Você disse a ele que estava com as cópias? Guardadas com você? Ela riu. os thari nos pegaram e protegeram. mas no momento é mais provável que ele queira as fotocópias do diário de Jung que lhe disse que carrego comigo por razões de segurança. também? Ela deu um sorriso indulgente.

— Sim. senhor Devlin.. — Bem. Tanto seu irmão quanto Al-Dajjal estiveram recentemente em Istambul à procura de antiguidades. o rosto bem sério. Eram missionários. Al-Dajjal matou os dois.. eram. Os olhos dele ficaram mais brandos. — Por que não me disse? — então ele entendeu. Eu a resgatei das garras de Al-Dajjal da Síria.. — Estou ouvindo. bem na frente dela. Ela fez que sim. Noor. Ela estava com meu irmão quando ele foi seqüestrado. — Tem mais coisas que eu não lhe disse.. tem capacidades especiais. — Você não percebe que pintou um alvo na própria testa? Ela ficou tensa. Blair. — Você disse. com um nó na voz. Quem sabe Dominic não encontrou o diário? — fez uma pausa. — Eram? — Brody sondou. — Em uma palavra. e a mãe. — Tem uma menininha.— Não é coisa para se brincar. não? Brody arregalou os olhos. síria. mas me chame de Brody. Tenho certeza disto. era esta a idéia. depois levantou os olhos e engoliu em seco. — Talvez seu irmão tenha levado a melhor. NÃO! Blair ficou olhando para as mãos. Você precisa me ajudar a recuperá-la — ela implorou com os olhos. Síria? . Seu pai era irlandês. — Eu não sabia que aquele nazista desgraçado estava na Turquia. Ela é muito preciosa. por favor.

seguindo o olhar dela. assentindo. discretamente. Blair agarrou o pulso dele. Então foram se esgueirando pelo pub. O sujeito voou. levantando e largando algumas notas de dinheiro sobre a mesa. Temos que cair fora. Um idiota alto os viu. — Eles estão dando uma olhada. — O que estão fazendo? Ela se encurvou.Eu não sabia se podia acreditar em você. — Generosa com as gorjetas. caindo de costas sobre uma mesa. — Sua voz sumiu e ela olhou por sobre o ombro de Brody. Eu cobrirei o prejuízo — ela o puxou pelo braço e foram até o balcão do bar. Mas estão com certeza procurando por nós. — Qual o problema? Brody começou a se virar. — Não. o grandalhão se virou e deu-lhe um soco demolidor. tentando ajustar a vista à pouca luz daqui. — Parem! — ele gritou do outro lado do pub lotado e correu atrás deles. Os capangas de Gant acabaram de entrar. em direção à saída dos fundos. O . e rolou no chão. sondando o pub. hein? — Brody disse. jogando cerveja em um homem musculoso e sua namorada. pegou mais algumas de suas notas e as jogou junto às outras.. Enquanto o capanga abria caminho em direção ao bar do pub.. eu vou distraí-los — ele disse. sorrindo afetadamente. — Não vire. — Corra para a porta dos fundos. cabeçudo. Eu estava em uma escavação quando. Ela murmurou algumas palavras em shelta no ouvido do grandalhão. que balançou a cabeça.

tirou uma arma e encaixou bem na garganta do capanga. um sujeito de boné e camiseta verde com cara de cão. — Está trancada.. fazendo careta.. recue — ele deu uns passos para trás e investiu com o ombro contra a porta. Brody fez força para abrir a porta de trás. O agressor perdeu o chão e caiu de costas.. Não adiantou. Ele olhou para cima.. com olhos atentos. sem ar. Levantou-o poderosamente e o arremessou de volta ao bar. Brody sorriu ao ouvir os sons de briga no bar. . a porta se abriu. — Imagino que você tenha uma varinha mágica e. Enquanto eles abriam caminho pela cozinha. — Já ouvi falar em chave. zero zero sete? Eles caíram na viela. piscando muito sob a forte luz do dia.homem de ombros largos se levantou. onde uma azáfama de pulsos em riste o socaram até cair de joelhos. Viraram à direita e correram para a saída da viela. Com um clique da fechadura. Ele fechou os olhos rapidamente enquanto massageava o ombro doído. passando os dedos no alto da verga da porta. porém forte. foi abafado por gritos e palavreado e vidros quebrando. O barulho de punhos firmes em carne macia. Mais três capangas apareceram e bloquearam o caminho.. Quando um segundo capanga correu em direção ao bar. — Cara — ela disse.. . agarrou o capanga pelas lapelas e o levantou do chão. Aproximou-se na ponta dos pés. magro e pequeno.

Sherlock? — disse Blair. Ele deu um salto e pulou a cerca. Os três matadores caminharam em direção a eles. Mexeu em uma lata de lixo e deu de cara com um gato enorme que sibilou ameaçadoramente e mostrou as garras antes de fugir. Então ele pôs Blair na tampa da lixeira. Brody a fez virar e disse: — Desculpe minhas mãos. viu uma cerca com malha em forma de . um ferro-velho. praticamente um labirinto. Brody sentiu o zunido quente passar raspando na orelha esquerda e outro atingindo a lixeira na altura do pé. Deparou-se com a imponência de fileiras e fileiras de esqueletos de carros. senhorita Alta Sacerdotisa — enquanto plantava as mãos em seu traseiro e grunhia ao projetá-la pelo alto da cerca. — Ótimo. E agora. ao longe. com passos lentos e deliberados. apontando e mirando com suas armas. Era um beco sem saída. pegaram suas pistolas semi-automáticas e nelas acoplaram silenciadores enquanto caminhavam. Um tiro abafado. Brody conferiu a área e viu que era um terreno de desmonte de carros.Os olhos de Brody se viraram para o outro lado. Caíram no chão enlameado do outro lado. só havia um muro de tijolos alto e sujo de fuligem. Ela virou a cabeça e viu os homens correndo a toda velocidade. Mais à frente. muros feitos de carcaças enferrujadas jaziam para todos os lados. Brody agarrou-lhe o pulso e a levou para uma cerca que se estendia para um lado nos fundos da viela. Meteram a mão dentro dos ternos. olhando para os matadores que se aproximavam.

Blair olhou para o cachorro morto a seus pés. Ele então puxou do bolso oculto na altura do ombro sua pistola Beretta Cougar 8045 calibre 45 ACP e empurrou Blair para longe do cachorro.corrente. puxando Blair para trás de si. Brody descarregou dois rounds. ouviram os gritos das vozes distantes e exaltadas dos matadores mandando parar. desviando de pilhas de pára-choques. Por trás. Quando o animal passou por ela. apontando um buldôzer estacionado a uns seis metros. Brody virou a tempo de ver o líder dos cães saltar com rapidez surpreendente fazendo um arco — bem na direção de Blair. virando cambalhota em meio a uma nuvem de pó. Outra besta de quatro patas avançava sobre ela. — Ali! — Brody gritou. O berro agudo do cão confirmou que Brody acertara na mosca. odeio cães de guarda! — Corra! — ele gritou. que enfiou as patas no chão e tropeçou. — Putz. A explosão de tiros lhe chamou a atenção. . Já de pé. pontilhada por calotas de cromo que cintilavam ao Sol. Brody disparou sua pistola de aço contra o peito enorme do cachorro. De mais perto ainda vinham os rosnados guturais e a respiração arfante dos dobermanns e rottweilers. esbarrando em motores velhos. Correram o mais rápido que puderam. Da sua direita Brody ouviu o inconfundível rosnar de cães agressivos correndo e chegando mais perto a cada segundo.

Ela ficou parada.ele gritou para Blair. Ambos se jogaram detrás de uma pilha de carcaças. irmã! — ele gritou. gênio? — ela perguntou. perplexa demais para se mexer.Fique de cabeça baixa! . que estava espiando do alto da pilha. apertou o laser com o polegar e a jogou para Blair. — Acha mesmo que não. dizendo — Tome. . Sem responder. Ela gritou — Ah. e espiou rapidamente do alto da pilha. hein? — ele disse. esbarrou o traseiro no rosto dele. . Brody a empurrou em direção ao buldôzer. eles não ousariam começar um tiroteio bem no coração de Londres. Ela se apoiou nos cotovelos para alcançar o topo da pilha de carcaças de carro. e atirou também. Procurou na perna da calça e puxou do coldre no tornozelo uma pistola SIG-P250. Engatilhou a arma. Você tem quinze rounds. e os ouvidos de Brody zuniram. os olhos queimando de raiva. — Bem-vinda ao mundo do bangue-bangue. Annie Oakley. Ele esperou parar a salva de tiros e voltou a disparar mais dois rounds. Mais rounds atingiram o aço. então pode cair dentro. enquanto os dois agressores de quatro pernas formavam um círculo de destruição. basta mirar o ponto vermelho no alvo e apertar. — Então qual é seu plano. ela ficou de quatro e quando virou. Ouviram o som de tiros abafados atingindo em surdo staccato a superfície da carcaça de carro. equipada com mira a laser.

as costas apoiadas na pilha de ferro-velho. um rugido horroroso. Brody virou. Direcionando-se ao outro lado da pilha de metal velho. Ela acionou um tiro duplo. . Eu faço o resto — ela ordenou. mirando o ponto vermelho de raio laser em um dos dois matadores que apareceram detrás de um abrigo para matar Brody. totalmente boquiaberto. sorriu e disse: — Dois já foram. estendeu-o ao longo de um cano e o movimentou no alto da pilha. O segundo agressor ficou lá parado.Posicionou-se e olhou para Devlin. brilhando sob a áspera luz do dia. o segundo no peito. o belo tecido foi detonado por uma saraivada de tiros. Os tiros pararam. o primeiro formou uma cratera na testa do alvo. ela respirava profunda e ruidosamente. Brody olhou em silêncio. Um jato rosado formou uma auréola em sua cabeça. — Segure o fogo deles. Ela se abaixou. direto no centro da massa. Com o bico da arma empinado. Blair se levantou. Antes que ele pudesse reagir. falta um. apertando a SIG com as duas mãos. pistola na mão. Ele inclinou a cabeça e balançou. paralisado de choque e perplexidade. Instantaneamente. Uma rajada veio de uma pistola 40SW. olhou para os lados. os olhos verdes cuspindo adagas. Ouviram o som vindo de trás. Retomou o fôlego. Durou um segundo e então seu corpo caiu no chão em um só tropeço. ele se livrou do blazer. campeão. Aí já era tarde demais para sequer pensar. Blair mandou outro projétil veloz de ponta oca.

não ficava aí — disse ao bandido. Brody exibiu seu sorriso mais soberbo. Ele saltou. O grito do matador saiu do meio de uma nuvem de pó que se formou com o impacto de duas toneladas e meia de chapas metálicas que se tornaram a lápide do sujeito. derrubando-o e fazendo-o atirar por reflexo. cintilantes.Um dos capangas estava bem atrás deles. O tiro passou de raspão no rosto de Brody e atingiu o metal perto de sua orelha. mirando a pistola diretamente na cabeça de Brody. Brody percebeu. seus lábios arregaçados exibiam os dentes que rangiam. Os dois se levantaram. Brody deu de ombros e zombou fazendo som de beijos. O filho da puta nos pegou pelas costas. Brody olhou mais para cima. Enquanto a besta andava para a frente e para trás sobre os escombros oscilantes. Mas o rugido não vinha do pistoleiro. As narinas de Blair estavam cheias de poeira. — Cale a boca e joguem as armas no chão. Todo o peso da corpulenta besta caiu sobre as costas do matador. apontando a pistola para Blair. agora! — disse o capanga. Quando o matador fez cara de quem não estava entendendo nada. O carro enferrujado rangeu e caiu sobre o cachorro e o matador. os olhos do rotweiller brilharam. lançando faíscas. estava um rotweiller gigantesco. espanando a poeira com as mãos. ouviu-se o rangido de metal. Dos caninos pendiam cordas de baba. Uns seis metros acima do matador. — Se eu fosse você. Seus olhos brilhavam como o fogo do inferno. . empoleirado no capô de um velho carro de duas portas que cambaleava na beira de uma pilha de carcaças de carros.

ele chamou um táxi. Sua boca era quente e úmida. o que tornava mais difícil fazer tudo que sabia que tinha de fazer. Sabia que estava se apaixonando por aquela mulher tão complexa. Blair. não é. Abriu a porta de trás do pequeno táxi preto e ficou parado. observando-a ir embora. — Você podia ao menos oferecer um lenço à moça. Após tricotarem seu caminho de saída do terreno. Brody ficou de pé por um momento. finalmente chegaram ao portão da frente. o perfume dela lhe tomou os sentidos com o aroma de rosas em botão misturado a suor e medo. Ele apalpou os bolsos e disse: — Larguei no pub. esqueceu? Ela fez uma careta e se irritou. — Fique com ela. Ele sorriu e balançou a cabeça. — Vai rir. Blair lhe ofereceu a pistola SIG pelo cabo. Pode precisar. Sem avisar. Do meio-fio. droga? — mas ao falar. — Entre. aproximando-se. Brody tentou segurar o riso. Apesar do rosto sujo e dos cabelos parecendo um ninho de rato. Sirenes uivavam ao longe. . então soltou um guincho abafado e contido. puxou-o para si e o beijou com força nos lábios. mas não conseguiu. ela de repente o agarrou pelas lapelas. Virou e passou pelo portão destrancado. Blair sorriu radiantemente e enfiou a pistola leve semiautomática no bolso do casaco. Então ela o soltou e recuou.Ela não conseguiu espirrar normalmente. um sorriso se abriu em seu rosto.

Vou mandar alguém para ficar de olho em você.Não . Brody ficou olhando por um momento e então entrou no táxi. — Você tem uma garota em cada porto. Desde o começo ficara pouco à vontade com o plano de Cummings de usar Blair como isca para Gant. — Vamos. senhor Devlin. Começou a chuviscar levemente. . soltou um palavrão entre dentes e bateu a porta. mas sabia que estava fazendo a coisa certa. balançando a cabeça acanhadamente. e recuou. O taxista disse: — O taxímetro tá rodando. Ela deu mais um passo para trás.Então o que aconteceu lá. desconcertada. . Aquele beijo foi só por impulso.Brody disse.É por causa do que aconteceu. E agora que viu que estava se apaixonando por ela. . eu lhe deixo no seu apartamento.Ela olhou para ele.. taciturno. não podia correr o risco de envolvê-la . Brody engoliu em seco. né? Brody ficou em silêncio. Você vai voltar para o seu apartamento e passar o ferrolho na porta. o motorista disse: — Probleminha com a patroa. Não fique convencido. Não significa droga nenhuma. não representa nada para você — ela disse. afastando os cabelos dos olhos e olhando para ele com raiva. Brody suspirou fundo. — Vou ficar com você — o tom dela foi incisivo e enfático. — Nós nos separamos aqui. Enquanto dava a partida no carro. recuando involuntariamente do carro. chefia. Ela deu meia-volta e foi caminhando pela calçada. Ele fez um gesto para que ela entrasse. Sentiu-se desprezível. por causa do que eu sinto que sua participação nisto acaba aqui..

senhorita? Ela se ouviu responder — Museu Britânico. . Muito metido. suas bochechas estavam molhadas pela mistura de lágrimas e chuva quente. isso que você é. cê vai ver. Cobriu a fachada do Museu Britânico enquanto Blair chegava de táxi. Ela encolheu os ombros e levantou as lapelas do casaco e pensou "e agora”? Então seus pensamentos se voltaram para o irmão e sentiu um arrepio. Daqui a pouquinho cês tão dando umazinha de novo.ainda mais. as imagens de sua morte brutal. — Melhor dar um tempinho que ela volta. Raios clarearam o céu. — Droga de ianque. Blair parou e deu meia volta. A voz do taxista lhe despertou do devaneio. Levou os dois dedos trêmulos à boca e deu um assovio agudo para o próximo táxi que vinha. e rápido! CAPÍTULO 18 Um grosso cobertor de fog londrino se formou. Ficou olhando para o táxi e para o americano grosso que acabava de pular fora de sua vida. Caminhou batendo os pés. seguidos pelo estrondo de um trovão. Começou a chover a cântaros. Enfiou-se no banco de trás e fechou a porta enquanto o taxista perguntava — Para onde. a lembrança de uma mulher que amava tanto. Ainda eslava fresca em sua mente a dolorosa memória da última vez em que deixou que usassem uma mulher como isca de "operação ferroada". seu corpo sem vida caído em meio a um mar de sangue.

Ficou olhando com os olhos grandes como pires aumentados ainda mais pelos óculos fundo de garrafa. Balançando a cabeça. doutora Kelly. hesitou e virou para olhar. — Pela madrugada.Ela havia pedido para saltar do lado da entrada de funcionários. Os postes de vapor estavam cercados de névoa e seu brilho amarelado tingia tudo com o mesmo tom. Blair sentiu um calafrio que não condizia com a tarde de outubro. ouviu o som claro e áspero de uma respiração arfante vindo do canto e chegando mais perto. Passou o cartão pela máquina leitora e a fechadura fez um clique audível. virou-se para conferir se a porta estava bem trancada. uma figura masculina se movimentou lentamente em direção à entrada. que susto me deu. O estacionamento de funcionários estava quase vazio agora. Ao fisgar seu pass card de dentro da blusa e puxar o cordão no qual ele estava pendurado. Seus passos ecoavam sinistramente enquanto ela seguia pelo saguão em direção ao elevador. Ao chegar a um cruzamento. calidamente receptivo. os corredores ficavam praticamente desertos. Blair ralhou consigo mesma entre dentes dizendo firmemente — Fala sério. . Encoberta por sombras e neblina. Ela se aprumou. quase colidiu com o homem. Àquela hora. O encarquilhado segurança arfou e recuou para o lado com a mão no coração. Instintivamente. vagabundo idiota! Quando dobrou a esquina do corredor. Ela adentrou o edifício.

Acho que esqueci. na frente do enorme envelope de correio aéreo estava carimbado: Istambul. — Deu um tapinha em seu quepe de vigia e se afastou. A maior parte da correspondência era lixo postal que ela deixou de lado. Ela saiu do velho elevador que rangia e tomou o rumo de seu escritório no corredor parcamente iluminado. Jogou-se na cadeira e começou a ler a correspondência à luz da luminária da escrivaninha. Não recebeu a circular? Ela deu de ombros. não? Ao menos achava que sim. exceto um pacote que ela puxou para perto. Mas onde está todo mundo? Não são nem sete horas. . Ela procurou o chaveiro. — Bem. Eu sempre tranco a porta. não demore. arrastando o pé torto. e só então reparou no objeto que lhe fez sentir o coração vir à garganta. ao lado da porta. Ela estava certa. A visão do pacote não só lhe obstruiu a respiração como também lhe encheu de uma súbita sensação de excitação misturada a um terrível perigo. a porta se abriu. Turquia.ele acrescentou em tom severo. — Então vou embora.Acho que nós dois estamos um pouco sobressaltados. Esta noite tem dedetização. mas quando enfiou a chave na fechadura. Havia uma pilha de correspondências no chão. — Não vou demorar. Vamos fechar tudo. .Blair deu um suspiro profundo. senhor Spivey. Eu esperava que tocasse o interfone ao aparecer depois do expediente . doutora.

Observou a capa. tirou o conteúdo e pôs na mesa. Perdida em seus pensamentos. Ela riu sozinha com a ironia da situação. ciente que ela imediatamente o reconheceria e guardaria em segurança. . Aldeia dos Malditos. E agora a lenda havia tecido sua misteriosa teia de modo a enredá-la também. de John Wyndham. Ficou olhando apatetada. teve outra idéia. Como se o diário estivesse mais protegido comigo. Após hesitar por um momento. Dominic havia encontrado o diário mágico de Carl Gustav Jung. Ela pegou o livro e procurou a sinopse. Pegou um punhal em formato de cimitarra da gaveta da escrivaninha e abriu o lacre. Que piada! A lenda alquímica que consumiu a vida de seu pai e agora de seu irmão agora se voltava para ela. simplesmente sem conseguir acreditar. Ela se recostou à cadeira. Pegou o diário e ao reparar na capa suja. Havia dois livros. Seus olhos registraram o livro de capa dura. Não lhe dizia nada. Um diário bem gasto com uma capa vermelha desbotada e um livro de ficção de capa dura. brincou distraidamente com uma mecha de cabelo. Ele devia ter resolvido enviar por correio ao invés de correr o risco de carregá-lo.Olhou para a porta. Levantou e foi até ela. provocava-a. olhou para o corredor em ambas as direções e trancou-a. tirou os sapatos e massageou os pés doloridos e inchados. mas não havia sobrecapa.

Ela cobriu uma toalha de espuma de sabão e esfregou o rosto. abriu as torneiras e deixou a água correr. . Não conseguia deixar de pensar em seus ombros largos. Quando se levantou. as luzes subitamente se apagaram. em vez de voltar para seu apartamento pequeno e vazio. encheu de água as mãos em concha e enxaguou o rosto.. O quarto imergiu na mais completa escuridão. Não conseguia deixar de pensar naquele irlandês-americano que lhe dera a arma. vulnerável e tremendo como uma criança apavorada. seus olhos cinzentos e penetrantes e seus cabelos grossos e escuros. Procurou afastar os pensamentos. Tirou as roupas e pôs as coisas arrumadinhas no braço da poltrona de couro.. Muitas vezes dormia no escritório quando ficava trabalhando até tarde. Capítulo 19 Brody acenou com a cabeça para o porteiro de chapéu alto cinza e casaco comprido de cocheiro do mesmo jeito como se .. Curvou-se.De um pequeno armário no canto do escritório ela pegou uma muda de roupas e foi se refrescar na pia ao lado. observou o rosto no espelho. seminua. Ela ficou rígida. O cheiro de sua colônia. Sentiu o peso da pistola.... imaginando o beijo dele. Não conseguia deixar de se sentir atraída por aquele. aquele burro teimoso. tirou do bolso do casaco e pôs na mesa perto da pia. Passou os dedos nos lábios. Só de calcinha e sutiã.

exaurido e querendo um pouco de gelo para sua bebida.apressou para abrir a porta do Dorchester Hotel enquanto o major se aproximava. No topo do papel de carta havia um brasão em alto relevo e o termo RAVENSCAR atravessado em tinta negra. Europa. Caminhou de um lado para outro no quarto e se jogou na cama. tirou o blazer empoeirado e se livrou do coldre no ombro. Ele tinha de reconhecer que Gant tinha pendor ao melodrama. entregaram lhe um pequeno pires com dois cubos semiderretidos. vá entender. — Ei. abriu o envelope que o balconista lhe entregou e leu o convite para a festa na propriedade rural de Gant. Dentro do quarto. jogando-o na cama junto com o celular. foi pegar o elevador. Belo souvenir. Pegou o celular da cama e discou um número da memória do aparelho. . Scout Thompson atendeu imediatamente. Ao sair em seu andar. tomou um banho quente e encolheu os ombros para vestir um grosso roupão atoalhado com a insígnia de Dorchester no peito. líder destemido. deu um bom gole. levantando com dificuldade o pescoço tomado pela cãibra e tomando mais um gole do líquido com cor de âmbar. virando quase tudo de uma vez. No minibar ele se serviu com um uísque single-malt. Foi ao banheiro. Após parar rapidamente no balcão da frente para conferir se havia algum recado. — Onde ela está agora? — Devlin perguntou. Da última vez em que pediu ao serviço de quarto que trouxesse gelo.

Não disse nenhum sobrenome. É der Eisaxt. — Ele está dando uma barrigada. ironizando. — Ele está falando alemão. senhor CALTECHI (Califórnia Institute of Technology). Que mais ele disse? . a perderemos de vista. Aparecia em um pequeno ponto luminoso na tela de um mapa dinâmico da grande Londres. chefe... Disse que a comida de Limey não lhe caiu bem. Brody colocou em Blair um transmissor GPS.— Parece que ela voltou para o museu. Brody suspirou. — Quer que ele fique vigiando a noite inteira? — E. o Machado de Gelo. Mande Brax dar um pulo lá para dar uma olhada nela e ver se ela está em segurança. diabo. pra valer. Provavelmente é algum tipo de código. Quando se beijaram no portão do ferro-velho. ah. mas se referiu a um "caro Isaac". um aparelho rastreador que permitia que Scoul soubesse exatamente onde ela estava. — Pode pôr Chewie na linha? Pelo celular Brody ouviu resmungos altos ao longe. Se ela trocar de roupa. se ele não estiver ocupado demais passeando ou cantando vagabas. Ele recebeu um telefonema. ficou "p" da vida. claro — Devlin acrescentou. — Quem sabe se ele não tivesse o hábito de engolir o cardápio inteiro de sobremesas sempre que pode. — Acho que ela é uma workaholic. e Scout podia acessar o software pelo laptop. conseguiu pegar algo de interessante da escuta na limusine de Gant? — Não muito.

Em sua mente.. — a voz de Scout sumiu. o Machado de Gelo que se livrasse do pacote onde. e ele pareceu intrigado. Aqui está. Ao puxar o zíper da calça atingiu um pêlo pubiano e levantou a voz. derramando a bebida no colo e soltou uns palavrões ao sentir o uísque caro lhe banhando os ovos. Era enervante a maldade tranqüila da voz de Gant ao se referir a uma pessoa como um pacote e a outra como piranha. Ficou de pé e começou a gritar ordens pelo telefone. E a intuição de Brody lhe dizia que era a Blair Kelly que ele estava se referindo. Aquelas palavras fizeram Devlin sentir um frio no pescoço. Brody mordeu o lábio inferior. considerou que seria melhor tirar Blair de seu campo de visão. — Algo em alemão outra vez.. contendo as lágrimas e se encurvando de dor. Estúpido. Pura estupidez! Capítulo 20 Depois de se empanturrar com um prato cheio de panquecas quentes e salsichas de porco mergulhadas em mel e manteiga . — Toque a gravação para mim.Zum Teufel! Mande der Eisaxt se livrar do pacote no lugar onde das Luder vai pegar a mensagem. Correu para o armário e começou a se vestir às pressas. faça-a entrar.. .. em seu coração. Brody se levantou na cama.— Disse para alguém. Depois que ele testemunhar a reação dela ao seu talento artístico. já! — Achei que você ia dizer isto. acho. escutando atentamente ao som da voz de Gant.

todos vestidos à típica moda colegial britânica: blazer cinza com insígnia da escola e calça curta cinza. na área de recreação. ficou de pé e gritou: — Você me perdeu por mais de um quilômetro. Ele deu de ombros e sumiu porta afora. Um garoto com bico-de-viúva de duende com seus cabelos ruivos lhe cobrindo a testa parou na porta e virou. meias cinza com camisa cinza. Peter. Vira os meninos saindo da cantina bem na hora em que ela entrou. Noor se viu lá fora. mais moreno como Noor. que se afunilavam até um ponto perto das orelhas de elfo em ambos os lados do rosto. Na área de recreação ele se ajoelhou no meio de um pequeno grupo de garotos que estavam brincando com alguma coisa. então olhou para baixo. Quando ele inclinou e girou a cabeça como um papagaio. Olhos de tom profundamente índigo a estudaram com agudo interesse. Ele levantou os olhos e abriu um sorriso desta vez. os olhos profundamente concentrados. gravata listrada branca e cinza e boné escolar com viseira branca e cinza. Noor reparou nas costeletas dele. o rosto amarrado de raiva.e xarope de bordo. Um garoto mais jovem e menor ao lado dele esticou o braço e lhe deu um tapinha nas costas. Mas quando seus olhos se encontraram ele corou. . mais duas tigelas de mingau e uma pilha de torradas de canela e passas ensopadas de manteiga. Tirou seu pequeno boné e jogou no chão. Os meninos eram clones insípidos e sem cor. Raji é o vencedor e campeão! O garoto chamado Peter fechou a cara. e o pó de canela em forma de sardas deu lugar a bochechas rosadas. Outro garoto. mostrando apoio.

O que estão fazendo. Com sua mãozinha apertando com força a de Peter. Os outros acompanharam seu olhar e ficaram assistindo. Engoliu em seco e sorriu com suas covinhas. Peter fez cara feia e os mandou ficarem quietos. mas mesmo assim ela continuava ouvindo. só que vinha de dentro de sua cabeça. os olhos brilhantes. limpando a lama e grama seca dos joelhos. Noor se encolheu. uma quietude caiu sobre os meninos. — Este é Gabriel. caíram no chão. mas vamos lá. Wendy. como se a força misteriosa que os mantinha tivesse sido interrompida. Ele esfregou o nariz com as costas da mão sardenta. — Agora seus lábios não estavam se mexendo. — Me chamam de Wendy. Noor pensou.Quando ela se aproximou. — Meu nome é Peter — ele disse e apontou com a cabeça o irmão gêmeo menor. garotos? Uma risadinha se formou entre a gangue. mas tímidos. Abruptamente. formando um círculo que lembrava uma espécie de miniatura do sistema solar com seus pequenos planetas brilhando aos raios do Sol. Com passos miúdos. o menino mais novo ficou colado a ele. O pequeno de nome Peter ficou de pé. Não vai dar certo. ela foi para o lado dele. O pequeno deu um sorriso tímido e disse alto — Oi. Uma vozinha murmurou — Você é nossa mãe? . e olhou diretamente para ela. Ele fez um gesto para que ela se aproximasse. Bolas de vidro multicoloridas pendiam suspensas no ar a menos de um metro do chão. Era a visão mais estranha e bela com que ela jamais se deparara. Ela olhou por sobre suas cabeças.

Peter disse que Johnboy fazia isto sempre que estava nervoso ou com medo. Enquanto ele e os outros meninos se puseram a catar as bolinhas e guardá-las em bolsas de couro. — Esta é minha atiradora da sorte — ele disse orgulhosamente. E agora ele estava fazendo exatamente assim. Noor entendeu que Peter. Mas Noor reparou que todos tinham algo em comum. . quem sabe tivesse seus cinco ou seis anos. Peter disse a ela que estavam jogando bola de gude. tinha um pomo-de-adão grande e saliente no pescoço. seus cabelos louros cintilavam ao Sol. e tinha o hábito apatetado de respirar sugando o ar e expirar soprando com os lábios fazendo um ruído de motor de lancha. ela pensou. Mas o rosto dele era tão sincero que Noor ficou tocada por dentro. mas era bonito e seu rosto parecia o de um anjo. Raji era o mais moreno. eles tinham olhos de tom profundamente índigo. Um por vez. Johnboy era ligeiramente rechonchudo e usava óculos grossos e arredondados. Como um diamante. Peter apresentou os outros garotos: Michael era magrinho. Michael e Raji tinham uns doze anos. Como ela. com as bochechas enchendo e esvaziando como um fole humano. Peter parou e levantou uma das bolas contra o Sol. capturou a luz solar e as trançando em um arco-íris de cores. com cabelos negros grossos e ondulados e um sorriso resplandecente. por favor? — ela perguntou. ela não estava bem certa.Devo estar imaginando coisas. — Posso segurar. Johnboy devia ter oito e o pequeno Gabriel era o mais novo.

Quando as pontas de seus dedos a tocaram. Acho que eles gostam de mim. Simplesmente seja você mesma. — É muito linda. Era uma sensação estranha. um lugar bom. sussurrou uma vozinha em sua mente. flutuando gradualmente no ar. Quando tentou fazer perguntas a Peter sobre aquele lugar. ocorreu a Noor que ela nunca tinha conversado daquele jeito com garoto nenhum. Ficou sabendo que aquele lugar era uma escola chamada Éden. mas tome — ela disse. ele ficava totalmente quieto e repetia — O Éden é um lugar especial. ela pensou. também. Peter franziu os olhos ao olhar para a mão de Noor. e como ele tinha feito a bolinha flutuar. Ela brincou e riu com a gangue de garotos por um tempo. entregando a bola de gude. mas boa. Enquanto caminhava. Ele disse que seus pais morreram em um acidente de avião. mas sabia que algo havia de errado. depois formigou em sua palma. como quando da primeira vez que ela segurou um filhotinho de carneiro. Noor sentiu uma pequena agitação no peito. conversando. . Peter e seu irmãozinho chegaram lá cerca de quatro anos atrás. mas eram órfãos. calorosa. Primeiro a bolinha ficou mais quente. Os outros meninos vinham de toda parte. Lentamente começou a subir. Finalmente os outros garotos correram para os balanços e ela e Peter ficaram passeando em círculos. Não sabia bem como agir. Ela estava se divertindo. finalmente fazendo clique ao cair dentro da bolsa de Peter.Ele sorriu e gentilmente pôs a bola na mão dela.

Olhou para os lados nervosamente e olhou bem nos olhos e sussurrou – Se você conta. Ficou pensando se algum dia seria como eles. Peter. Raji foi até eles e ficou batendo papo por um tempo.Quando Noor tentou perguntar sobre o cheiro de hospital que ela sentiu quando estava caminhando pelo corredor perto de seu quarto.. mas é uma falsa Terra do Nunca. Será que ao menos queria ser como eles? Então pensou em Blair e sentiu um aperto no coração. vai para o Quarto Escuro e às vezes. Com voz firme. Ele mordeu o lábio inferior por um momento e balançou a cabeça. com um sorriso lhe iluminando o rosto. mas simplesmente lhe escapuliu da boca.. Mas como? Começaram a murmurar. ele encarou fixamente. Não conseguia entender aqueles ingleses. ela disse — Temos que sair daqui. — Quando ele abriu os olhos e se deparou com os de Noor. tentando transmitir . pensativa. desenvolvendo um plano. nunca mais volta. Eles riam das coisas mais esquisitas. — Está falando de Cruela Cruel? — Peter perguntou. Ela soltou um pequeno suspiro. como no livro que o padre Dom me deu. — ele olhou para o relógio de pulso. — Acho que vocês todos são Garotos Perdidos... Wendy. — A bruxa velha vai nos chamar. Isto aqui pode parecer legal e o médico e os professores podem ter caras felizes e sorridentes. Ela tinha muito que aprender naquele estranho mundo novo. Wendy não sabia por que dissera isto. E morro de medo daquela loura. Peter ficou pálido. — Você tem razão. fechando os olhos como se a visualizasse mentalmente — agora mesmo.

cuja fumaça subia em espiral. — Não pise no calo dela. é melhor vir logo. De repente. Ela é uma bruxa velha e má. Noor se lembrou do aviso de Raji. Noor evitou os olhos dela e continuou seguindo em frente. mocinha. senão ela lhe pega.Você aí — disse a bruxa. Mas quando eu lhe chamar. Os olhos de Baylock cintilaram. furiosos. batendo em um grande triângulo de metal com uma vareta. detrás de seus óculos de aro de tartaruga. — Não sou nenhuma medrosa! Mas quando passaram em fila pela senhorita Baylock. Tente ser corajosa. Noor começou a pergunta — Mas como sabe. — Então vamos lá. por isto vou deixar passar desta vez. Apavorada demais para levantar os olhos. Noor cuspiu no chão perto dos pés dele. humildemente. Herr doktor Craven quer vê-la imediatamente. apenas espiando de canto de olho. — Esta é a senhorita Baylock — explicou Peter. — Você é nova aqui. Dedos esqueléticos agarraram Noor pelo ombro e a giraram. chamando Noor. Tentou não olhar nos olhos da mulher. . Noor fez que sim com a cabeça. Wendy. Intrigada. — Ela será má com você. Baylock tinha pendurado nos lábios finos e cruéis um cigarro.. a sombra de Baylock se projetou sobre ela como um abutre. Uma mulher magra com rosto de falcão apareceu perto da entrada da escola. rezando silenciosamente para que a bruxa velha não estivesse falando com ela.? — Um barulho forte de metal batendo chamou a atenção de Noor.. .sua imensa preocupação.

senhorita Wendy? Ela assentiu. Aquele era o Quarto Escuro! Ele fez menção a uma poltroninha acolchoada e Noor se jogou nela. ela se aproximou. Abraçou o próprio corpo e recostou-se. Ele a lembrava sua mãe quando ela mentia com os olhos. Gosta de jogos. relutante. com uma vozinha trêmula — Não! O doutor Craven se levantou e deu a volta pela escrivaninha e clicou em uma caixinha em sua mão. — Senhoritazinha Wendy. como se furasse. Com o coração batendo. Sentada em frente a uma escrivaninha sob um cone de luz estava o doutor Humpty Dumpty. Ela piscou quando uma luz forte veio de repente de cima. fingindo que algo ruim era bom de modo que Noor não ficasse com medo. Parecia o controle . entre. — Vamos fazer um joguinho com você agora. os olhos grandes de apreensão. sinistro. não gosta. Noor olhou ao redor. A porta se abriu com um rangido e a senhorita Baylock empurrou Noor para dentro do recinto.Do canto do olho. O estômago dela deu um nó de medo. Levou tempo para Noor ajustar a visão. Em um lampejo de percepção ela entendeu que. segurando nos braços da poltrona. nauseada de terror. O recinto era escuro como uma tumba. Um sorriso sem forças se abriu em seu rosto pastoso. Mas de repente o rosto dela se contraiu e ela inclinou o corpo para a frente.. As dobras dos dedos ficaram brancas e ela disse.. Sombras se fundiam como sangue coagulado. Noor viu Peter piscando o olho e forçou um sorriso.

. Noor imaginou um rosto redondo e enrugado. . Não se preocupe. Tiras de metal subitamente envolveram os pulsos delicados de Noor.. aponta afiada da agulha cintilou quando ele foi para o lado de Noor. olhos úmidos e gentis.remoto de televisão que Noor vira no hotel.. ja. ja. Sentiu o álcool frio como gelo com que ele lhe esfregou o braço. não foi tão ruim assim. uma voz distante parecia chamar seu nome. Um barulho de apito lhe veio aos ouvidos.. O encosto da poltrona se inclinou para trás e seus pés foram simultaneamente içados ao nível do corpo. Ela ficou dura de terror quando o médico pegou uma seringa do bolso do jaleco. Ela começou a suar frio quando ele levantou a manga de sua camisa e ela sentiu suas mãos viscosas lhe causando calafrios no antebraço. — Pronto. sentiu um nó no estômago que revirou.. Noor ficou atada à excruciante poltrona Barcalounger .? O médico soltou uma alavanca do lado do braço da poltrona. Os thari estão esperando por você. criança. Enquanto ela era levada pelas ondas negras. Foi tomada pela escuridão. Em seu sonho nebuloso. Ela sentiu as pálpebras começando a estremecer e então sua cabeça rolou para o lado.. o mundo ficou todo cor-de-rosa choque. Noor acha que a voz soava maternal e gentil. mais ou menos como uma avó de voz suave e levemente distante. Estamos aqui. Wendy. criança. — ele explicou. Wendy. prendendo-os aos braços da poltrona.. deixando-a enjoada. — Vai sentir uma picadinha..

a voz gradualmente ficou mais clara e reconhecível. Ele é o próprio doutor Doolittle.. outra voz chamou seu nome. Eu consigo mexer as coisas com a mente... Por entre as lágrimas. Não vai demorar. Wendy pensou nas palavras que ele sussurrou antes. A cara branca feito um bicho-de-queijo do médico entrou em foco. Como se tivesse . Lágrimas quentes corriam pelas bochechas macias da menina. a imagem dele tremeluziu e saiu de foco outras vezes. — Ora. Peter riu alegremente. ora. inquietos. trazia entre os dedos um tubo de ensaio. — Pequena senhorita Wendy. Iurru. o Gabrielzinho sabe 1er as mentes das pessoas. Outra voz. Johnboy é o melhor de todos. nós temos poderes especiais. O zumbido começou a fazer estrondo e a voz de Peter foi ficando mais longe. — Ela se virou em direção à voz dele. Do escuro. abra os olhinhos. à moda antiga. Ele fala com os pássaros e insetos e esquilos. distante e difusa. agüente firme. Wendy. Noor deu uma olhada em direção à luz brilhante. Ele se inclinou sobre ela. penetrantes. parecendo recuar. percebendo que não estava mais sonhando. Estranha de início. Ela começou a acordar. Como você disse. chegando mais perto com seus olhos molhados.. flutuou através da estática. na área de recreação.. Suas mãos estavam cobertas por luvas cirúrgicas grossas de borracha. sabe o que vai acontecer nos minutos seguintes. Wendy.. Era a voz de Peter.Um zumbido alto afastou a voz da mulher. Herdou da avó. O doutor Humpty Dumpty não lhe machucou. Raji consegue ver o futuro.

mergulhado o dedo no mais extraordinário chocolate. Olhos fechados. — Vamos ver se dá para encher este tubo. o doutor Craven passou o dedo em uma lágrima e lentamente levou a ponta úmida à língua. vamos? Então seu rosto se transformou em um sorriso doentiamente esperançoso. Ele virou e pôs o tubo de ensaio em um suporte metálico de um carrinho e pegou um bisturi. Fazendo um bico exagerado com os lábios. em coisas tristes. ele enfiou a ponta no olho de Mister Muffins.. . torceu violentamente e arrancou o botãozinho brilhante do tecido. — Delícia. Quando enfim abriu os olhos. querida. Intrigada e confusa.. seus olhos pesados o deixavam parecendo um suíno maldoso. ele acrescentou — Quem sabe a doce senhorita Wendy precise de motivação. a luz cintilou na lâmina afiada como navalha do aço inoxidável. ja? Craven levantou a outra mão e balançou o ursinho de pelúcia dela. Um sorriso se formou nos lábios de Noor quando ela gritou — Mister Muffins! — Tentou desesperadamente pegar Mister Muffins. Ele estava olhando feio para Noor agora. — Pense. ele respirou fundo e suspirou. Subitamente. Noor torceu o nariz. puro néctar de inocência virginal — ele disse baixinho. ele aproximou o bisturi reluzente cada vez mais da cara do ursinho. Ao encará-la novamente. mas ela ainda estava amarrada à poltrona. Em um gesto lento e deliberado. Noor ficou pálida e começou a gritar de terror.

afinal? . jogou o ursinho de pelúcia no chão e pegou o tubo de ensaio. escapou dos lábios de Noor enquanto lágrimas lhe inundavam os olhos. pintando a câmera de vigilâncias. levou o tubo de ensaio ao canto do olho de Noor para colher a profusão de lágrimas.. O velho vigia da noite levantou o dedo longo e ossudo. Caminhava pesadamente e com os sapatos de sola emborrachada guinchando nos ladrinhos muito polidos.A voz dela sufocada de medo. Mais à frente. Já lhes ajudei hoje. — Vocês aí. CAPÍTULO 21 O senhor Spivey fez a última ronda e pegou o corredor em direção à sala do controle de segurança. estava pensando no jantar que a esposa lhe preparara: uma lata de biscoitos recém-assados. — Droga de dedetizadores. — Sacudindo a cabeça de desgosto. vão estragar meu jantar. Um choro baixinho. Craven deu um sorriso imoral e disse com voz cruelmente suave — Boa menina. Zombando dela com sua risada gelada. sob um fraco foco de luz. Estavam de costas para ele.. Um estava com uma lata de spray. voltados para a porta da sala do controle de segurança. como um pardal fétido. o que está pegando agora. um pedaço de carne e uma garrafa térmica com chá quente. Spivey viu dois homens vestindo macacões com as palavras "Dedetizadores Circo de Pulgas" adornadas na altura das omoplatas.

pulou o corpo inerte do velho. aterrorizantes. um palhaço arremessou uma bomba no recinto e recuou para o lado. ele viu mais dois vigias se encolherem de medo em um canto. O senhor Spivey ficou com o rosto ainda mais pálido. ameaçando explodir. Quando o cheiro inconfundível de clorofórmio lhe adentrou os pulmões.Eles se viraram lentamente. os olhos apertados detrás das grossas lentes. o líder disse com voz abafada detrás da mascara de gás — Abra. para o esgar dois incisivos dentes amarelados debaixo do nariz vermelho. Em meio à fumaça. Quando a porta se abriu. Seu coração martelava no peito. e ajustaram os bonés. seus joelhos dobraram. sincronizados. Jogou as chaves para o cúmplice que aguardava. Com um passo largo e gracioso. Duas caras demoníacas e brancas de palhaços se voltaram para ele. e sentiu a mão de alguém vindo por trás e lhe enfiando um pano úmido no rosto. de costas para um grande painel de controle. Um flash luminoso e uma nuvem de poeira se seguiram. O líder dos palhaços dementes puxou um molho de chaves da cintura de Spivey. — Horns & Hoofs em pessoa! — Murmurou o senhor Spivey. com a respiração entrecortada e difícil. e disse — Mas que diabo é isto? A luz flagrou as perucas vermelhas. saindo pela porta em direção ao corredor. crespas. as narinas grandes e infladas. Um dos guardas cuidadosamente tentava pegar um . O vigia olhou da testa grande e enrugada para as negras órbitas dos olhos. O líder entrou na sala do controle de segurança.

. os olhos apavorados e arregalados como a circunferência de um relógio. Ele levou a mão ao pescoço destruído. Ele fez um movimento com a pistola. Respirando pesadamente e trêmula de desejo sexual. O outro round atingiu a garganta do segundo vigia. agora! As luzes diminuíram.. vermelho e quente. Então caiu sem vida no chão. — Ei. Fffftt. o ferimento se transformou em uma névoa vermelha. cravados no invasor. Abriu-se um furo na testa de um dos guardas. Seu corpo firme estava revestido por uma roupa preta de pára-quedista de malha resistente que lhe contornava o corpo . — Acabe com a rede elétrica. Observou o banho de sangue. Mexam estes rabos e destruam os alarmes. Quando a cabeça dele bateu com força no painel de controle. Margot deu uma volta ao redor dos outros dois. Quando o ambiente começou a ficar mais arejado. e se apagaram. Fffftt. bebendo dele com os olhos. Margot saiu de dentro do macacão folgado e o jogou de lado. câmeras. Dois rounds silenciosos sussurraram uma mensagem de morte. ela soltou um gemido profundo. Margot Gant tirou a máscara de gás. fones e gerador de energia — ela pôs a pistola no painel de controle para desocupar as mãos. palhaços. e ele emitiu um som entre o sufocamento e o gargarejo. Estava tendo um orgasmo que vinha da doentia excitação que sentia ao matar.. Uma enorme pistola com silenciador encheu a mão do líder. o sangue jorrando dentre os dedos.. Para Margot. sexo e violência eram a mesma coisa.telefone vermelho. Ela suspirou e levou à palma da mão um computador de bolso.

— Eu sei. Brax sorriu acanhadamente. Eu sei. Após jogar sobre o ombro um saco de lona preta.de modo que mais parecia uma roupa de mergulhador. afastandoo. Encontrou o telefone graças ao azul nebuloso que emanava da tela LED. Detrás das janelas embaçadas do Mini Cooper que chacoalhava no estacionamento do museu. Ele lhe agarrou os quadris. Cindy apontou para o colo dele. Guardou sua Magnum Desert Eagle Mark XIX-44 no coldre de sua roupa de combate atado à coxa musculosa e pôs óculos de visão noturna. Soltando um palavrão. Ele fisgou o aparelho e atendeu. entendeu por que . O grito estridente de Cindy fez Brax deixar cair o telefone. Ao sentar de novo. trazendo-a mais para perto. Seu celular estava vibrando no bolso da calça. Ajeitando o cabelo. puxando a camisa. — Putz! Está vibrando — ela disse num murmúrio aceso. Não vamos parar agora. o tenente Brax já havia passado bastante das preliminares. Margot passou pelos palhaços rumo à escada. Arfando e embrenhado em um emaranhado de pernas e braços no carro apertado. Ela se desvencilhou dos braços dele. Então entendeu. Cindy. Brax sentiu o hálito quente da garota do posto de informação que ofegava em seu pescoço. Também estou todo formigando! — Brax se gabou. — Qual é. ele se abaixou para procurá-lo no piso do carro. babe. Ela se sentou.

achou-as e abriu a mala. — Devlin quer que você fique na cola da doutora Kelly. tapado! Que diabo está acontecendo com você? . Scout berrou ao celular. meu bem. o museu e tudo ao alcance da vista havia mergulhado na mais completa escuridão. e ao passar por uma grande poça d'água deu um banho nele. Procurou nervosamente pelas chaves. Brax perguntou — Alguém se feriu? . Cindy veio cantando os pneus no chão molhado e buzinando. Scout berrava ao telefone — Ei. Comportese e vá para casa agora. Com voz intrigada. ainda com o celular na outra mão. Um apagão. irritada. O estacionamento. Com os olhos examinando a escuridão ao seu redor.Só os atiradores. Scout perguntou — Meu bem? Desde quando você me chama de meu bem? Cindy ficou de cara feia quando Brax saiu de seu Cooper puxando as calças para cima e fechando o cinto enquanto corria pelo estacionamento debaixo de chuva para alcançar o próprio carro. O alarme soou na mente de Brax. Por pouco não o atropelou. Os raios da lua cheia filigranavam levemente a chuva que caía. Mas achamos que Gant pode tentar raptar a doutora Kelly esta noite. Virou-se para Cindy sem baixar o telefone.ela estava apavorada. Ela voltou ao museu. — Tenho que correr. passou a mão na calça molhada e sorriu. Eles foram seguidos por dois capangas do Gant esta tarde e acabaram metendo o dedo no gatilho. Ele ficou olhando as luzes do carro dela desaparecendo na escuridão.

— Parece que algo está acontecendo aqui.Em sua afobação. Com seu sistema luzidio de iluminação azul-fosforoso e uma miríade de . eu sei que você já está no local. Chewie vai pegar Brody e correr para aí. Estou com a imagem do seu GPS na minha tela. Não quero levar fogo amigo. Fale com o inspetor-chefe Newley. — Houve um apagão aqui. Parece que a rede toda caiu. Diga para ele mandar uma equipe da SWAT para o museu. Brody. bateu a mala do carro para fechá-la e correu para o museu com seus sapatos molhados rangendo a cada passo. PRA JÁ! — Ei. Ponha alguma música legal para tocar. O motor V-8 de turbo gêmeo roncou e a traseira do Jaguar deu uma guinada. Capítulo 22 Detrás do volante do Jaguar XF prateado reluzente. Não se esqueça de avisar aos caras do Newley que estou no local à paisana. Chewie sorriu. Brody fez que sim com a cabeça enquanto seus olhos procuravam algo no painel de instrumentos.. Brax esquecera que Scout ainda estava na linha. arrancou o paletó e vestiu um colete à prova de balas. notando o rosto pálido de Brody.. Chewie reabasteceu e pisou no acelerador em direção ao museu. Vou avisar. — Entendido. Mas. Puxou uma maleta Zero. Quem sabe não acalma seus nervos. Brax desligou. — Ei. relaxe.

a poucos segundos do cruzamento. . cujas mãos de urso agarraram com toda a força a direção revestida de couro.Sinal vermelho! . tirar Blair Kelly da cabeça. . Brody arregalou os olhos ao ver o ônibus à direita deles.medidores. . A pavimentação escorregadia pela chuva refletia a floresta cintilante de faróis e lanternas. desisto.. Tentou se concentrar.. Brody Devlin levou um banho da cabeça as pés.Brody gritou para Chewie. parecia mais uma cabina de piloto de jatinho do que um carro. Até que Brody viu o sinal de trânsito. e então veio um ônibus vermelho de dois andares. Ele passou por uma poça das grandes.. graças ao cinto de segurança. espirrando água dos pára-lamas e molhando as janelas dos dois lados. Chewie meteu o pé no freio e o Jaguar girou em alta velocidade para cima e para baixo na rodovia montanhosa. tirando finas pelas esquinas. mas no momento ela era o centro de seus pensamentos. — OK.. os olhos furiosos olhando para a frente. Chewie ficou sentado com o rosto lívido. para os pára-brisas girando de um lado para outro. Onde está o maldito rádio? Chewie balançou a cabeça e apertou o ícone do CD-player na tela LED do painel. Os sons ritmados do Danúbio Azul de Strauss bramiram das caixas de som. transformando a caçada louca de Chewie em uma valsa belamente coreografada enquanto ele zunia afobadamente por entre o trânsito lento.

Brody olhou feio para ele. cara. Você está na droga da mão errada! — Brody gritou. — Seu dedo carnudo tocou o painel de controle outra vez e Born to be Wild.E a valsa continuou em um crescendo quando o Jaguar embicou.. Com o motor uivando. Quando pegaram a próxima lateral. — Motoristas britânicos. e com sua força fez uma curva de quase noventa graus. vertendo jatos d'água enquanto os pneus castigados cantavam. do Steppenwolf. Dando de ombros com a maior naturalidade. o carro se encarapitou sobre um monte e foi projetado para o cruzamento como se arremessado por um estilingue. . foram iluminados por faróis e escutaram uma buzina estridente alertando quando seguiram à toda pela pista do lado direito. qualem biennium. Mais à frente. saiu das caixas de som. metendo os dedos no painel de controle. Chewie piscou e traduziu: — Que incompetentes. não batendo por questão de centímetros. A traseira do Jaguar foi violentamente sacudida. Brody gritou freneticamente — Você tem que pegar a direita. Chewie virou o volante radicalmente. O grandão olhou para o retrovisor quando luzes azuis e brancas penetraram pela janela de trás do Jaguar. o Jaguar passou pela ponta do ônibus. — Acho que arrumamos companhia policial — Chewie disse com um sorriso maldoso — vamos deitar e rolar. Chewie virou o volante e passou para a pista da esquerda. quase ha lendo. Com o rosto desfigurado de raiva. — Pelo amor de Deus.. quase voando.

como diria o sargento Conners com seu sotaque escocês. — Esses meganhas estão pilotando TROJANS.Devlin se virou e contou três BMWs de patrulha policial colados neles. pensando se tinha "cagado na merda da calça".. oitenta e cinco... — Que diabo está fazendo? — Brody contestou. a um triz da van de uma lavanderia de fraldas. noventa. chefia. Esse modelo novo com motor V8 4-2 litro tem potência de 420 cavalos. Revirando-se no assento. BMWs totalmente turbinadas.. Brody engoliu em seco ao tirar os olhos do retrovisor e olhar para a cara de desprezo que Chewie estava fazendo. Ele estava prestes a jogar a merda no ventilador. Chewie piscou para Brody e pisou fundo no acelerador. Brody baixou os olhos em direção ao velocímetro enquanto Chewie foi usando a transmissão semi-automática nas rodas para passar as marchas. .. we can climb so high. Brody conhecia aquela expressão. O grandalhão rebelde detrás do volante limitou-se a sorrir ao cantar com seu vibrato — Like a true mature’s child . I never wanna die . — Sempre quis saber se um Jaguar XF seria capaz de superar a "Suprema Máquina de Dirigir Alemã". Passaram disparados por outro sinal vermelho. Os compressores duplos tragaram ar avidamente e o solavanco fez Brody dar um pinote no banco do carro.... Brody franziu as polpas da bunda. O que significa que estão armados até os dentes. O ponteiro passou para setenta. com as sirenes agudas servindo de acompanhamento uivado ao heavy metal possante que saía das caixas de som.

— Ai. Soltou um palavrão. isto dói — ela gemeu. Foi desviando dos obstáculos no escuro com os braços esticados para a frente. Abriu-a lentamente. Levantou-se com dificuldade. e deu uma topada com o dedão no pé da escrivaninha. . A chama lhe queimou o dedo. Com mãos vacilantes. Ela gemeu de agonia e frustração. Usando a ponta da escrivaninha como referência. era uma caixinha de fósforos. E agora! Através da luz fraca da chama oscilante. Blair conseguiu vestir as roupas e enfiou a pistola SIG no bolso. Ficou animada. — Cacete do inferno. Levou ao nariz para cheirar. fuzilando-o com os olhos. Sim.Brody virou para ele. pulando em um só pé. Sentiu algo com as pontas dos dedos. Foi até a porta. Ainda bem que estão secos. Sentiu uma dor aguda em seu já combalido cóccix. Formato familiar. dando passos miúdos. vou mandar inscreverem "Aqui jaz o índio mais veloz do mundo" em sua lápide! Em seu escritório escuro como breu. e então começou a rir do próprio desajeito. uma lâmina de barbear. Pequeno. O fósforo acendeu na primeira tentativa. encontrou o telefone. A linha estava muda. tropeçando na cadeira no caminho. abriu a porta com dificuldades. Papelão. deu a volta por trás e começou a vasculhar as gavetas. e acabou caindo de bunda no chão. deu uma espiada e foi para o corredor frio e silencioso. — Ótimo! Assim que eu trocar minha fralda. soltou o palito e acendeu outro.

abrindo-a com uma pancada que a fez bater na parede. A uns quatro andares abaixo. Ela se espremeu no canto do patamar. no escuro. para cima ou para baixo? Blocos de concreto. O único som que havia era sua respiração ofegante. Ela então olhou para os elevadores. Sensacional. Hesitando brevemente. E pior ainda. ela pisou na escada. sombras que se agigantavam.. Criou forças e deu um passo. como algo sendo arrastado ou puxado pelo concreto. Um som seco. Não só de medo do desconhecido. ande. Blair. subindo em direção a ela. ar bolorento e frio. espreitando o corrimão do outro lado dos degraus. Empurrou a porta com o ombro. Droga. pensando. Blair.. e depois vinha mais uma lâmpada de luz fraca em outro patamar. O barulho ecoou na caverna oca do vão da escada. Ande. Havia uma única lâmpada acesa ao alto. Deu meia-volta e foi pegar a escada de emergência. Esquecera de calçar os sapatos. Estava morrendo de frio. também estão fora de uso. Estas coisas pareciam persegui-la. o cheiro forte indicava que. e ela lá. À esquerda e à direita havia escadarias para cima e para baixo em meio à mais profunda escuridão. vestiu por engano a mesma roupa suja. mas porque sua blusa estava molhada de suor e colada às costas. sentindo o piso frio sugando-lhe os pés descalços. parada.As luzes de emergência alimentadas a gerador preenchiam o corredor com uma luz fraca. Ela deu uma olhada pela beira do corrimão. Ficou trêmula. uma sombra . Vá passo e passo. Simplesmente sensacional. Ouviu o rangido de uma porta vindo de baixo e uma porta se abriu para a escadaria.

Trancados detrás do vidro estavam o manuscrito Voynich e o espelho asteca de obsidiana de John Dee. flutuando em direção a ela. O ruído oco e contínuo de passos pesados ecoou repetidamente. e uma tabela coberta de cera com impressões de símbolos e hieróglifos estranhos. . CAPÍTULO 23 Margot caminhou pelo salão de exibição com passos fluidos. ela se ajoelhou. tivesse voltado à vida e estivesse agora se arrastando à procura dela. Com as costas imprensadas contra o frio bloco de concreto. À medida que se aproximavam. encolhendo-se no canto. Baixou os olhos para as mãos trêmulas e percebeu que estava cravando as unhas no tecido da calça. O luar entrava com dificuldade pela enorme clarabóia acima. pronta para atacar.se esgueirou pelo patamar anterior. Ela chegou ao fim do Salão de Iluminação e parou em frente à vitrine número 20: Magia. adornando o assoalho. Estava com a garganta seca. Mistério e Ritos. era um corpo. Sentiu um nó de tensão no estômago. A cada batida de seu coração disparado os passos ficavam mais nítidos e próximos. puxando o que parecia ser um saco — não. Foi possuída por um medo irracional que alguma criatura empalhada e escabrosa da exposição. mascarada pelas sombras. ela ouvia mais claramente uma respiração arfante a cada passo. alguma múmia esfarrapada. A chuva caía em ritmo constante sobre o teto acima. ela recuou. Instintivamente.

sensíveis à luz. Tingido pelo tom fantasmagórico de verde causado pelos óculos de visão noturna. Margot pegou um bastão carregado de aço da bolsa e com um golpe incisivo quebrou a vitrine. e depois fechar. Sua visão foi clareando gradualmente. ela viu o rosto pavoroso de Quetzalcoatl. Um totem imenso se agigantava sobre ela. cegando-a. Margot devolveu o olhar enviesado. — Dane-se! — ela provocou. A caveira de cristal captou a luz da lanterna e a refratou como um diamante. Enfiou as peças no saco e foi em frente. Ela fez a luz da lanterna pintar a figura e fez um movimento impetuoso em direção a um crânio de cristal pousado sobre um pedestal de Lucite logo perto. irrompendo em um jato cintilante. pegando-a desprevenida. não era preciso nenhuma finesse. O vidro se dissolveu sob a força do golpe. Como os alarmes foram silenciados. Uma palpitante luz branco-azulada pulsou de dentro da concavidade dos olhos da caveira. Um dos matadores com máscara de palhaço apareceu ao lado dela. o deus-serpente emplumado dos astecas que lhe encarava com olhar atravessado. Ela tirou os óculos de visão noturna. O crânio parecia brilhar por dentro.O tempo estava contra. e esfregou os olhos. Margot piscou os olhos. Ela se encolheu e olhou feio . Precisava agir rapidamente. trocando rapidamente de salão para chegar à outra exposição. Por um momento ela seria capaz de jurar que viu a mandíbula vítrea da caveira se abrir bastante. Os lábios que sorriam cheios de dentes e os lacônicos olhos de serpente pareciam zombar dela.

encaixando-os. — Sheistkopf! Então ela soltou um palavrão baixinho e tirou o crânio de cristal do suporte. — Ótimo. Ele estava no patamar. Onde está ela? O rádio rangeu. virou-se para o palhaço que segurava a maleta e olhou para ele com raiva. agora vamos pegar das Luder. Ela baixou o rádio.para ele. ela os recolheu um de cada vez e assoviou para que seu cúmplice trouxesse a maleta de alumínio escovado. Não está lá. então vamos morder a isca. nos pedestais de vidro inferiores. Ao lado dele. Der Eisaxt. Lá embaixo os passos pararam. Levou o rádio portátil aos lábios e disse — Hans.. Esgueirando-se pelo corrimão. Blair passou para o patamar seguinte.. prendendo a respiração que ameaçava explodir nos pulmões. — Fui ao escritório da vaca. . e soltou um suspiro. apertando-os com prendedores de Velcro para então fechar a pequena tampa. havia mais dois crânios. com seus cabelos louro-brancos luminosos sob o luar mortiço. — Ja. Como se fosse uma menina holandesa colhendo tulipas. tire o padre da van e traga-o aqui dentro. já! Dois cliques agudos do rádio de der Eisaxt sinalizavam que ele havia entendido. Ela acomodou os crânios dentro das formas de espuma prépreparadas. zer gutt! — ela murmurou. e acrescentou o conteúdo da vitrine de John Dee.

Sem perder tempo. o ruído de vidros quebrando. Com todas as forças de seu ser. subitamente. Esquecera de pôr a grade de ventilação no lugar. pulsando em seus ouvidos. Então. mas dava para ela se virar. depois parou. Móveis sendo jogados no chão. Quando se viu no meio do saguão. parou bem em frente ao ponto embaixo de seu escritório e ouviu a barulhada lá em cima. Ele arrastou os pés. O espaço era estreito. ela subiu correndo para o próximo andar. Abriu a porta de emergência e foi para o corredor. Apertando bem os olhos e se concentrando. ela focalizou sua força de vontade no agressor invisível a apenas alguns passos abaixo dela. Ele só pode estar vasculhando meu escritório. Não tem ninguém aqui. e o baque oco da porta batendo. Blair pediu para que o agressor fosse embora de lá. A essa altura ela já tinha removido a grade de ventilação e se enfiado pela rede de condutos. Blair tentou telegrafar mentalmente.O único som que havia era a respiração arfante dele e o coração trovejante dela. Um silêncio assombroso caiu pesadamente no ar gelado da escadaria. Foi engatinhando o mais rápido que podia pelo conduto. Se o desconhecido que estava lhe . Foi quando lhe ocorreu. Após alguns minutos ela chegou a uma curva angulosa e parou. ouviu o rangido alto de alguém abrindo a porta de emergência. Ela segurou a pistola SIC com as duas mãos e encostou a testa no aço frio da arma. vá para o escritório dela.

Ela tirou a mão por instinto e bateu com o cotovelo na lateral. Foi quando algo se mexeu nas costas de uma das mãos. Calculando de cabeça a distância e locação. poderia seguir sua pista. Seguiu-se o som de alguém choramingando. Seu torturado pedido de socorro. Alguém que se agarrando a vida por um fio. se deu conta que era uma voz. seguindo o som pelo labirinto de condutos. Sentiu um gelo na nuca. Amaldiçoou a si mesma por ser tão maricas. além do que o ser humano pode agüentar.perseguindo visse. Seus joelhos estavam doendo e as palmas de suas mãos estavam cobertas de pó e excremento de rato e sabe Deus que mais. Eram os apelos angustiados de alguém que fora levado além dos limites normais de dor. Era pura e simplesmente um declive cego em direção ao teto do recinto abaixo. Um som abafado veio em sua direção. vozes. Mas será que ele se daria ao trabalho? Ela duvidava. mas na verdade passaram-se nada mais que minutos. A voz do irmão veio serpenteando da boca do túnel escuro e infinito à sua frente. Era o padre Dominic. achou que a distância fosse de . Ela apertou o passo. Na verdade. Foi se arrastando como um caranguejo pelo que pareceram horas nos claustrofóbicos confins do conduto. Estrondosas e hostis. Teria reconhecido a voz dele em qualquer lugar. Ao se aproximar.

A imagem luminosa do rastreador GPS em Blair aparecia como um pequeno ponto verde pulsando na tela. Levava pendurado no pescoço um CORNER-SHOT. Agora tudo dependia de ela se arriscar cegamente. evitando todas as fontes de luz que cruzavam os azulejos brancos fulgentes em cones intermitentes de iluminação de emergência. Fabricado pelos israelenses. pegou a maleta Zero e esvaziou.uns seis metros. Levava encaixado à mão um fuzil de assalto APR. Capítulo 24 Brax foi seguindo pelo corredor. Scout tinha feito download dos diagramas esquemáticos da estrutura do museu. podia ser equipado com uma pistola ou fuzil de assalto ou lança-granadas de 40 mm. Agora estava com um computador palmtop LED sobre a mão aberta. Antes ele burlou a fechadura da entrada com uma tira de plástico. permitindo que o atirador colocasse o armamento em um canto ou esquina sem se expor à linha de fogo. Era basicamente um rifle com uma dobradiça no meio e mecanismo de gatilho remoto. A parte perigosa da arma tinha uma microcâmera de vídeo cujas lentes grande-angulares reproduziam imagens em tela pequena de alta resolução. muito provavelmente no Salão de Iluminação. Seu sexto sentido lhe levara àquele ponto. O mecanismo arqueava em ângulos agudos até sessenta graus à direita ou à esquerda. A microcâmera incorporava .

implacável. foco automático e filtro infravermelho. Ele cravou a boca da arma na esquina e observou a pequena tela. O palhaço arregalou os olhos. Usava macacão. que saiu rolando pelos ladrilhos e passou ruidosamente pelo posto de Brax na esquina.centralização. ele soltou a arma. mandou ver dois rounds. Mirando nos joelhos do palhaço através do centralizador da tela LED. Um repugnante palhaço de cara branca com lábios vermelhos como sangue apareceu na tela. quase flutuando na escuridão ao se mover. Após conferir se havia mais alvos sem encontrar nenhum. deixou-o bem . Brax pegou do colete um par de algemas de plástico e. Brax deu a volta pelo canto da parede. Passos pesados vinham na direção do cruzamento à sua direita. Brax puxou o dispositivo frontal e o CORNER-SHOT voltou à posição correta original. pegou a pistola que o outro perdera e foi até ele. Brax entrincheirou-se em uma esquina. O modelo que ele carregava tinha ainda designador a laser na boca da arma de fogo. depois de plantar o joelho profundamente no meio das costas do palhaço. permitindo que o atirador enxergasse à meia-luz. e depois mais dois só para garantir. Definitivamente hostil! O palhaço maligno estava vindo pelo corredor em direção a ele. Uma pistola na mão. Deu um pulo com o que viu. Um gemido estridente ecoou em direção a Brax e ele viu o homem cair de cabeça no chão.

— Estou ouvindo. Ao lado do palhaço que gemia. Brax se levantou e plantou a sola do sapato com força em sua nuca. Juro.. Antes que o sujeito conseguisse terminar seu uivo de misericórdia. semi-automáticas. O homem urrou como um porco ferido. Levantou-se e olhou para o otário amarrado. arfando — Mais quatro. amassando o rosto contra o chão. onde? E as armas. — Quantos são e onde estão? Não houve resposta. Brax disse entre dentes trincados — Última chance. no terceiro andar. Bozo. Brax puxou outro dedo até quebrar. pegou mais um par de algemas do colete tático e atou firmemente os tornozelos do palhaço.. torcendo com força. Torcendo o terceiro dedo. Olhando ao redor ainda com o joelho cravado nas costas do sujeito nefasto. Brax se ajoelhou. Que armas eles têm? — Salão de Iluminação. é isso. Enquanto jogava cuidadosamente seu peso para a perna direita para não perder o equilíbrio. Pegou rudemente o dedo da mão algemada do homem e puxou para trás.. Brax gritou — No terceiro andar. Brax se agachou sobre ele e sussurrou em sua orelha. O Bozo grunhiu e se contorceu. Bozo. O palhaço bateu com os pés no chão. babaca? — o palhaço balançou a cabeça violentamente.algemado. — Quer mais. Brax tirou o pé.. . O Bozo disse com dificuldade.

Abaixando mais. Chegando ao terceiro andar. Como em câmera lenta. hein? Veio um clarão. O atirador mirou ao alto.Brax estudou o Bozo por um momento e então trocou o seletor de sua APR para automático. Foi tomado pelo instinto. Procurando alvos com os olhos enquanto corria. um deles escorregou por dentro do colarinho de Brax. caiu de joelhos com o sangue esguichando dos buracos dos olhos da máscara. cartuchos quentes ficavam suspensos no ar e caíram no chão como chuva. Brax virou e saiu correndo com o notepad na palma da mão. ele parou ao ver mais dois Bozos hostis dobrando a esquina. Ele odiava quando isto acontecia. acho que você está de papo-furado. foi para o corredor. à esquerda. Brax pôs-se de pé. procurando o Salão de Iluminação no visor enquanto corria para pegar as escadas.56mm atingiram o peito do Bozo mais alto. Brax teve certeza que fora atingido. O chumbo dos tiros lhe rasparam o rosto. Ele vacilou. Vieram rápido e o mais alto tinha nas mãos uma espingarda de cano cerrado. . pois queimava para diabo. — Bozo. Brax amordaçou o Bozo com seu lenço. onde os disparos passaram para atingir o cérebro. e o segundo explodiu no rosto do agressor mais baixo. Brax se jogou no chão virando cambalhota e derrapando sentado pelo chão altamente encerado com as pernas dobradas enquanto soltava rajadas de metralhadora. Os rounds de 5. Só revólveres.

Testava o método de escalar chaminés no sentido inverso. Suas panturrilhas e músculos das coxas ardiam de intensa dor. Com os braços esticados e as palmas das mãos empurrando as paredes opostas. espremido debaixo de seu traseiro contra a parede de trás. nervosa. Estava no meio da descida quando não agüentou mais. ainda que intenso. Depois um grito como um choro torturado vindo do salão de exposições. Usando a força contrária. ela caiu pelo túnel em direção à luz nublada lá embaixo. Estava começando a ter espasmos nos braços de tanta força que estava fazendo. era o alpinismo. além de arqueologia. O conduto fez um barulho metálico quando o pé dela escorregou. foi descendo ao alternar a posição das mãos e dos pés. fascinada. Margot quase desfalecia. Margot andava de um lado para outro. pôs o pé direito na altura do joelho na parede do condutor em frente a ela e manteve o outro pé atrás. gemendo de prazer ao observar. Capítulo 25 A paixão de Blair. assolado pela dor.Ouviu um som de marteladas em metal. E agora ela estava testando ao máximo seus talentos. Abraçando a cabeça com as mãos. ultrapassando seu limite de resistência. com interesse indiferente. Der Eisaxt segurava firmemente seu instrumento enquanto cravava pregos grossos na carne macia das mãos do homem. o rosto do padre. A cada golpe. . os olhos ansiosos como flechas atiradas para todos os lados do salão.

Margot se levantou com dificuldade. deixando um rastro pela parede branca e formando uma poça escura no chão abaixo de si. Blair olhou para detrás de Margot e deu um grito. Torcera o tornozelo com o impacto e estava urrando de dor. — Sua puta! Margot continuou cambaleando. engasgada. detendo-a com sua força. — Vocês o crucificaram. Na parede ao fundo. seus canalhas doentes! — Blair gritou. detrás da figura gigantesca de der Eisaxt. Tossindo. Blair rolou pelos ladrilhos frios. suspenso por pregos de três centímetros cravados nas palmas abertas das mãos e nos peitos dos pés descalços. O sangue dele ainda pingava. A cabeça do padre pendia pesadamente sobre o peito. estava seu irmão. e por ouvir sua respiração debilitada e difícil. ela lentamente retomou os sentidos e atacou Blair com seu olhar infernal.Ela parou. Esfregando o tornozelo machucado. os olhos tomados de ódio e instinto assassino. Desorientada. padre Dominic. Blair só soube que ele estava vivo por causa de um leve oscilar do peito. depois para Margot. O corpo de Blair caiu do alto pelo respiradouro e caiu como um saco de bigornas sobre Margot. Os pregos pareciam adentrar a placa de reboco da parede. Jamais imaginou que isto fosse acontecer. Voltou os olhos para der Eisaxt. que ficou sem ar e caiu de joelhos. .

Uma voz flutuou pela escuridão detrás de Ernst. babaca. Ernst sorriu. repugnada. . não acha? Blair a xingou e lentamente levou a mão ao bolso do casaco. Flagrou de relance a expressão de choque no próprio rosto. Eles farão uma entrada pelo teto e nós botamos pra quebrar por aqui com o resto do pessoal do CO19. onde a pistola SIG a esperava. cercado por um verdadeiro nó cego de policiais tensos. onde estão. bateu os calcanhares habilmente e fez uma mesura exagerada. — Uma crítica de arte. Ernst — Margot zombou. Blair virou o rosto. Do lado de fora. — Todos parados aí. — Enquanto ele falava entrou um camburão ARV. As portas se abriram e Newley balançou a cabeça em direção ao veículo. emplastrando o rosto com seu sorriso de anfitriã.— Ernst trabalhou maravilhosamente bem — disse Margot. chamando a atenção de Blair. Newley explicou a Scout — Deve ser um dos nossos garotos do SFO. Scout Thompson estava falando com o inspetor Newley. refletido em um pedestal de vidro. Abaixe esse machado. O cone brilhante formado pelo holofote do helicóptero varreu o chão. Olhando para cima e apontando para o helicóptero que se precipitava. nossa versão de uma equipe da SWAT. O som trovejante de um helicóptero que se aproximava lhe chamou a atenção. indicando que deviam entrar. — Parece uma escultura viva.

— Parece que Chewie arrumou um fã-clube — Scout disse. As viaturas de polícia pararam atrás. seus ianques da porra? Brody Devlin sorriu acanhadamente e virou para Chewie. — Droga! Pelo jeito. . O Jaguar. veículos de reação armada — disse Newley. Estes são TROJANS. que estava sendo perseguido por três BMWs da polícia. apontando com a cabeça as unidades policiais. Devlin e Chewie abriram as portas do Jaguar e pularam para fora. o rosto vermelho de raiva. Situação contornada.Enquanto se dirigiam ao camburão uma cacofonia de sirenes anunciava aos berros a chegada de Brody e Chewie. — Vocês gostam de criar confusão.Chewie ofereceu. avançou pelo meio-fio e seguiu a toda em direção a Scout e o inspetor. — A situação é a seguinte. correndo em direção às viaturas. Braxton. Trouxe o Calvário . balançando a cabeça. A potência do Jaguar foi contida por uma freada a poucos metros de onde estavam Scout e o inspetor. vou ter de resolver isto. Os policiais em perseguição pularam empunhando submetralhadoras HK-MP-5 e Glock-17 e berrando ordens para que os capturados levantassem as mãos e se ajoelhassem. Houve tiros. levantando sua identificação de policial enquanto um policial veterano uniformizado se posicionava entre as armas levantadas e Devlin. Provavelmente é seu homem. Newley se juntou à equipe ÔMEGA no camburão de comando e controle. Newley interveio. né. — Com certeza — Newley respondeu.

— Alguma notícia de Brax desde que ele entrou aí? — Não. — Vamos mandar duas equipes lá dentro. assentiu com a cabeça e interrompeu. — A unidade aérea do SFO vai entrar de repente.. Newley arrancou o fone da cabeça do técnico. ganharam acesso como dedetizadores e renderam o pessoal da segurança. Eu . de modo que meu palpite é que os hostis. Brody balançou a cabeça. — Ele apontou para a tela. nem que armas têm. a equipe Air-One diz que identificaram um segundo helicóptero se aproximando rapidamente ao norte. aqui é o inspetor Newley do S015. Newley assentiu com tristeza. O técnico à mesa de controle pôs a mão no fone de ouvido.. como você os chama.cuidando dos intrusos. aqui e aqui. Já cobrimos todas as saídas por terra. Não sei quantos hostis há lá dentro. Newley apontou para o diagrama com a estrutura interna do museu. — Correto. do teto. — Então estamos literalmente no escuro. demonstrando entender. Em breve teremos a energia elétrica de volta. enfiou na dele e gritou — Air-One. chamando a atenção para a posição dele.. e virou para Scout. Um técnico estava de frente para uma mesa de controle. Brody mordeu o lábio inferior e se virou para Newley. acessando quadros em um monitor de vídeo. — Inspetor. o sinal de seu Corner-Shot foi cortado pouco depois que ele entrou e eu não quis ligar para o celular porque poderia expô-lo a algum risco. Encontramos a van de uma companhia de dedetização estacionada ao lado..

gritando ao fone de ouvido. — Não.. jogando nele a luz do refletor e berrando ordens de um alto-falante. — Algum sinal? — Brody perguntou. parece uma transmissão de tevê. Identifiquem-se e recuem imediatamente! Após várias tentativas.. como um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Pode meter bronca e colocar esses jornaleiros do inferno pra correr! Dentro de segundos Brody viu o Air-One alçar vôo do teto e travar combate com o helicóptero que se aproximava. Newley disse — Air-One. Brody ouviu o Inspetor Newley na van. O Air-One foi atingido bem no rotor traseiro e começou a cair em espiral. Veio um clarão e o jorro flamejante de um projétil cruzou o céu noturno. O helicóptero caiu de bico sobre a grande massa de luzes do Grande Pátio do museu. — Helicóptero se aproximando. Chewie gritou. O espaço aéreo está restrito por ordem policial. seguiu bem na direção do Air-One.não requisitei uma segunda equipe aérea. Será o helicóptero daquele maldito jornaleco? Brody e Chewie trocaram olhares desconfiados e pularam para fora da van. O helicóptero misterioso não diminuiu a velocidade nem mudou de direção. Newley falando. Eles não estão respondendo. espere aí. Em vez disso. suas hélices ainda girando e . — Cacete! Estou vendo projéteis com tanques de gasolina naquele helicóptero! Mande-os recuar. Chewie levou aos olhos um par de binóculos infravermelhos com tecnologia digital que pegara na van.

Fez uma careta ao ver o padre Dominic. o machado desceu em um . Blair acenou a cabeça. onde Newley indicara que estava posicionado o resto da equipe. Mas Dominic precisa ser imediatamente. impotentes. — soltou um gemido agudo ao tentar ficar de pé apoiando-se em um pedestal próximo. Brax passou por Ernst para acudir Blair. cansada. seguida rapidamente pela trepidação ensurdecedora de tiros no teto. Veio então uma explosão de estremecer e uma nuvem de óleo projetou-se para as alturas. Uma combustão incendiou a clarabóia. Blair viu que o homem que saiu das sombras apontando a arma para eles era o tenente Braxton. sacudindo as paredes. esperando para agir.mastigando o teto de vidro e finalmente afundando pelo teto. enquanto o helicóptero atacado se inclinava e caía lentamente no teto. Com o metal cintilando. Uma explosão fez enorme estrondo. tingindo o salão com uma luz quente acendendo o céu noturno acima. . Brody e Chewie observaram. — Está bem. A vibração ensurdecedora de uma chain-gun atacou os ouvidos de Brody enquanto rounds traçantes de vermelho e laranja vindos do helicóptero misterioso cosiam sua rota mortal pelo teto do edifício. Sem tomar cuidado.Vou ficar bem.. doutora Kelly? — Então seus olhos se voltaram para os outros. Momentos antes no museu.. Ele olhou para ela.

A pistola rolou ruidosamente pelo chão. tirando-lhe os pés do chão e arremessando-a do outro lado do salão com força inumana. Blair voou e bateu de costas em uma grande vitrine. Brax deu um bote. . ela já estava a meio caminho antes de Blair meter a mão no bolso. Quando ela começou a perder a consciência. tudo ou nada. Como uma dublê de filme presa por um fio invisível.movimento embaçado que arrancou a arma da mão de Brax. Ernst usou a ferramenta como se fosse um porrete para bater no crânio de Brax impiedosamente. Choveu vidro da clarabóia quebrada e um pano preto estampado foi lançado em uma tentativa final. Cacos como navalhas cravaram nas costas de Blair. até ele cair no chão. levando-o a se encolher de dor. Margot agarrou Blair pelas lapelas. Ela ouviu a batida pesada de hélices turbulentas acima. E foi afundando mais e mais fundo na escuridão. mas Ernst virou a ferramenta e arremessou a bola de aço acoplada no plexo solar de Brax. Blair tirou a pistola SIG do casaco. Agora que Brax estava indefeso. Mas os reflexos de Margot foram rápidos demais. Gritando como um animal raivoso. outro clarão varreu o céu noturno. caída em um monte de madeira e vidro despedaçados. Cordas envolveram Margot. Um violento chute lateral arrancou a pistola das mãos de Blair. um golpe atrás do outro. suspendeu-a no ar.

suas longas antenas parabólicas iluminando os repórteres frenéticos. As luzes no interior do museu subitamente se acenderam. Com Blair no colo. ainda que bem arrumados. Alarmes baliram e luzes vermelhas pulsaram nos corredores. Os elevadores zuniram e foram gradualmente subindo.Tomando Blair nos braços como se fosse uma boneca de pano. Margot foi içada pelo helicóptero em direção aos raios brilhantes do holofote. O corpo de bombeiros estava apagando o inferno que virou o Grande Pátio. Ernst foi o próximo resgatado quando baixaram uma cesta. desapareceu na luz e pelo céu. relatando as notícias para suas redes de tevê. onde o helicóptero rasgara a clarabóia. envolvido por raios brancos e quentes de holofotes enormes e os estroboscópios chispantes de um exército de veículos de emergência. Botas pesadas subiram as escadas. . Margot se ajustou à corda. Brax jazia mole e inconsciente debaixo da figura do padre torturado. Mas no silêncio do salão de exposições. Capítulo 26 A frente do Museu Britânico era um espetáculo de devastação. levando trancado na segurança da maleta em suas mãos o resultado da pilhagem da noite. Fileiras após fileiras de carros de reportagem de tevê fixaram residência atrás das barricadas. Cavaletes e fitas de isolamento fechavam uma das maiores cenas de crime de Londres desde as explosões de bombas terroristas.

inspetor. unidade do departamento de investigação criminal colhiam evidências enquanto sacos eram usados para carregar os restos mortais dos guardas abatidos. — Só o tempo dirá. Newley fez um careta e engoliu em seco. mas se Deus quiser. Com uma voz abatida. da equipe do SFO que estava no teto e dos invasores após devidamente examinados pelos médicos legistas. . Há marcas claras de queimaduras por eletrodos nas coxas e na genitália. — E o padre Kelly? O médico deu um suspiro profundo. Os paramédicos correram para levar o tenente Braxton e o padre Dominic Kelly em macas para os elevadores que aguardavam. talvez dentro de quarenta e oito horas. . Provavelmente aplicados por um aparelho de choque. não ficará com nenhum dano cerebral irreversível — ele mordeu o lábio inferior. — À parte os ferimentos nas mãos e pés. Brody Devlin perguntou ao médico — Algum prognóstico. É difícil para diabo ter certeza em casos assim. — Alguma chance de ele nos dizer quem fez isto com ele? — A não ser por um possível bloqueio psicológico. Sabe. o trauma psicológico afetar mais na recuperação da vítima que os ferimentos físicos em si. O inspetor Newley entrou na conversa. O inspetor-chefe Newley e Bordy Devlin estavam no saguão externo do Salão da Iluminação. encontrei evidências de lesões e fissuras brutais.Lá dentro os técnicos do FISCD. doutor? O médico tirou as luvas de látex e o olhou nos olhos.O tenente Braxton sofreu uma grave concussão.

eu diria que é tamanho 46. cavalheiros — disse o médico. — Apontou com a cabeça a parte do chão perto de uma poça seca de sangue. — Agora é com os senhores.Newley atiçou. Newley e Brody assentiram. Não pare agora. meu velho . que supervisionava a atividade de Chewie com Newley ao seu lado.— Claro — disse o inspetor — obrigado por se esforçar. Eles então se viraram para voltar para o salão de exposições. — Lá está a CORNER-SHOT de Brax. Chewie estava apoiado em um dos joelhos. virando-se para tomar o elevador. . perguntou — O que tem para nós. garotão? Chewie avaliou o recinto com seus olhos de águia. Scout Thompson estava sentando em um canto com o laptop equilibrado sobre os joelhos. provavelmente estava em desvantagem. Pelas marcas no cano da arma eu diria que o agressor de botas a arrancou das mãos de Brax com algum instrumento denteado cortante. Os exames de laboratório dirão exatamente de que se tratava. — Muito bem. explicou — Brax entrou por trás deles. examinando o chão cuidadosamente. Não é de Brax. Equipes de técnicos isolavam a cena do crime. já conferi — Chewie se levantou e movimentou cuidadosamente o corpanzil pelo salão. ele usava um mocassim tamanho 42. Brody. Seus olhos fotografaram o panorama e depois se voltaram para a clarabóia esfacelada acima. — Há uma marca de bota na mancha de sangue. Apontando para o teto.

— Apontou para o pedestal destruído. Newley acenou para um perito. Como pode deduzir que ambas sejam mulheres? E como pode especular que ela tenha sido arremessada por seis metros? Papo-furado! Chewie explicou. E aqui. mas há uma trilha que vem do vidro de onde a mulher foi arrastada. E ela caiu aqui. provavelmente dos joelhos do criminoso. — Há uma marca de palma de mão no chão à direita. onde ele estava originalmente.. tirando a mão do bolso da capa de chuva que usava para apontar o dedo ossudo para Chewie.. Ele estudou o pedestal e olhou para trás. .A segunda criminosa arremessou sua vítima pelo salão.. — Você se referiu a uma criminosa e a uma vítima igualmente mulher. — Meu jovem. e uma mancha de sangue em alguns cacos de vidro. — Alguém caiu por este conduto e caiu em cima do segundo criminoso. . chamando-o para perto de Chewie.. — Agora espere aí. trate de tirar fotos e marcar tudo direitinho. — Não há sinais de luta.? Chewie prosseguiu. meu velho — Newley acautelou. — Mas como diabos.Chewie respirou fundo e expirou com força. duas marcas igualmente distantes. Então Chewie caminhou a passos largos até um pedestal despedaçado. fazendo menção ao assoalho ao redor com gestos exagerados. Apontou para a abertura no teto onde ficava o respiradouro que agora jazia a poucos passos no chão.

sua voz ficou ligeiramente embargada. Vou considerar sua hipótese sobre a ausência de briga. — Mostre a ele. Brody sentiu o pescoço gelar ao ouvir as palavras mecha de cabelo ruivo com sangue.— Ah. subitamente. — A ruiva é a doutora Blair Kelly.. e também um brinco de mulher e. como um cão que sente o cheiro da caça. mas sua conjetura absurda sobre o sexo delas não tem a menor lógica! Chewie se virou para um dos peritos. senhor — levantou um dos sacos plásticos. pois bem.. e uma lasca de unha com esmalte e uma mecha de cabelo ruivo com sangue foi achada em uma lasca de madeira da vitrine. apertando o queixo com as dobras dos dedos. sou capaz de apostar meu salário. — O seu Raindancer aqui achou estes fios de cabelo. seus olhos claros e argutos cintilaram. — levantou o segundo saco — . Ele voltou para o meio do salão... E a ruiva.. Newley assoviou alto... Sabemos que ela estava aqui e não há traço dela. debaixo da clarabóia. Chewie piscou o olhou. Acho que só falta você dizer que perfume usavam e suas medidas. — Não. perto da marca da palma da mão.. .. O perito de pescoço fino e rosto radiante mostrou dois sacos com evidências.. Brody cortou. Visualizou Blair sendo arremessada pelo salão e caindo sobre a vitrine com vidro voando para toda parte. Chewie sorriu levemente e balançou a cabeça. Então.. — Havia folículos louro-brancos por toda parte. mas posso dizer os nomes. Newley ficou boquiaberto. — A loura é Margot Gant..

Chewie virou para Scout. me dê uma pinça. Você ainda tem aquele microscópio minielétron cem-K sei-lá-onome do seu Game Boy? Agachados ao lado de Scout.. inspetor. Tinha um fio colado à sola do sapato de Newley. me dê seu sapato.. protestando veementemente contra a grosseria. senhor CALTECH. Newley procurou manter o equilíbrio. Mas quando Brody se recompôs. Chewie disse rispidamente — Pare aí. agarrou o tornozelo do inspetor e levantou seu pé direito. que diabo é isto? . Brody não conseguiu se segurar. dançando como pequenos microorganismos. Aquela cena de Newley balançando como uma vaca manca com aquele índio grandão lhe agarrando a perna foi demais. Um bem-vindo alívio cômico para a violência daquela noite. Chewie se apoiou em um joelho. — Ei. Chewie colheu o fio cuidadosamente com a pinça e pôs dentro do saco plástico que o perito estava segurando para ele.Parou em frente ao inspetor chefe Newley. olhou mais de perto. — Ei. — O quê? Claro que não. Caiu na gargalhada. — Grande merda! — disse Scout. Chewie gritou para o perito — Rápido. Brody disse — OK. ficaram olhando em silêncio enquanto o perito pôs o fio tirado do sapato de Newley no scanner do laptop. os olhos pulando das órbitas — que gracinha! Na tela LED apareceu a imagem aumentada das tranças do fio. não fique se mexendo.

Mas Brody o segurou pelo Braço. major Devlin. Deve estar orgulhoso. Uma roupa de Super-Homem? — Brody sugeriu. . mas até agora não passa de um sonho. Parou em frente a eles. contendo-o. levantou a cabeça gorda e olhou ao redor do salão. caminhava em direção a eles. Sir Nigel Cummings. Brody olhou para o pescoço gorduroso que se dobrava em camadas sobre o colarinho apertado e para os olhos cinzentos e frios. Uma voz cáustica veio por trás. o tecido nanoaprimorado multiplica a força do sistema muscular de cinco a vinte vezes. — Ora. se não é o Sherlock Holmes e o jovem doutor Watson decifrando a cena do crime para o bobão do inspetor Lestrade enquanto Tonto observa. hein? Chewie foi avançando.. — Bem. Tinha em uma das mãos um livro e uma carta na outra. Quando um soldado flexiona os bíceps ou músculos da perna.Algo em que o sistema de combates futuros vem trabalhando há anos. obeso e petulante como sempre. Vejo que você e suas bravatas de cowboy americano estragaram sua missão mais uma vez. — O conceito é incorporar nanofibras em roupas de combate. Brody virou. O fedor de sangue aqui e no teto . Brody respondeu moderadamente — Posso ter perdido um bom homem aqui hoje. Deu um suspiro e olhou bem nos olhos de Devlin. já trincando os punhos.Para mim isto é nanotecnologia — Chewie disse sensatamente. — Dê um charuto para este homem — disse Scout. — Isto explica como a loura conseguiu arremessar Blair do outro lado como se fosse um saco de serragem.

— Além do que. dobrou o documento cuidadosamente e enfiou no bolso frontal. Newley leu a carta.. ridículo — então deu meia-volta e foi embora. por favor? Do outro lado do corredor externo. O Ministro do Interior decidiu que eu devo consertar esta zona aqui. Então virou a cabeça para Cummings. . seu prepotente inflado. — Major. Seu rosto ficou severo. O inspetor virou e acenou discretamente com a cabeça para a equipe ÔMEGA. inspetor. Sir Cummings. Este caso saiu absurdamente de controle. — Seja como for.ainda está fresco nas minhas narinas. Cummings deu de ombros e riu de chorar. pode me dar licença por um minuto. Cummings fez um sinal desdenhoso com a mão gorducha. Brody ficou parado encarando Cummings. não tive intenção de desrespeitar — virou para o inspetor-chefe Newley e plantou a carta vigorosamente contra o peito. — Major Devlin. Não precisamos mais de seus reles serviços. precisamos deixar nossas rixinhas de colegiais de lado por enquanto. mas o gordo lhe interrompeu. — Aqui está sua notificação formal de demissão. o rosto se contorcendo de raiva.. Tive que suar a camisa para impedir que o superintendente do Serviço Metropolitano de Polícia e o Ministro do Interior lhe arrancassem a pele. sei que esteve envolvido em um tiroteio esta tarde. Brody começou a falar. os olhos apertados. Seu humor depreciativo ofende os bravos homens que deram suas vidas em serviço. Tenso. — Vá para o inferno. longe do tráfego de transeuntes e dos olhos e ouvidos abelhudos.

. deixando Devlin atender a ligação. Langley está encarando o tranco.. Não foi surpresa ouvir a voz furiosa de Bill Sorenson do outro lado.. apontou com a cabeça o celular tilintante. Explicando ao Conselho Nacional de Segurança o bando de descontrolados . — E como você gastou seu maldito tempinho me informando sobre estas travessuras. em meu carro. E agora ela está desaparecida. Devlin! Que diabo aconteceu aí? Por sua causa escutei todo tipo de esporro do Capitólio e da Casa Branca. Era matar ou morrer. . Logo após. E se no final você não tiver sido rebaixado a cabo Devlin. Sugiro que atenda. Cummings. não é? Bem naquele momento. A papada tripla de Cummings sobressaiu ainda mais enquanto ele ficou olhando para Brody em silêncio antes de falar. Sir Nigel Cummings foi conduzindo com dificuldade o traseiro gordo e as coxas pesadas pelo saguão. Provavelmente seqüestrada por Margot Gant. o celular de Devlin tocou. Ele atendeu. se inclinou e sussurrou — .. — Ah! Parece que não teve. — Pelo que sei.. É o carro grande e preto. major. queira ter a gentileza de me encontrar lá embaixo.Pelo amor de Deus. major Devlin. Brody girou o pescoço com câimbra e interrompeu. com um sorriso escorregadio e consciente.— Os capangas de Hunt estavam atrás da garota. não. — enrugou as sobrancelhas grossas. a garota a quem se refere. — Devlin.. — Doutora Blair Kelly. com os vidros escuros. creio que ao menos teve a presciência de manter seus superiores informados.

Brody tentou descartado. meu jovem. — Ele corre risco de dano cerebral permanente. Scout. castelos e fazendas de cavalos. . Interior metido a chique da Inglaterra. Scout correu para o lado de Devlin com cara de cachorro pedinte. e se lembrou do endereço. vá com calma e me substitua.Brax está sob tratamento intensivo — Brody interrompeu.que é a força ÔMEGA. — Vai viajar? — En route. Bill. Preciso expandir a rede para que você possa ver e. — Espere. Thompson tem algo urgente. . Também traremos reforços.. como fora treinado. Temos que resolver esta situação antes que seja tarde demais. Retomando o fôlego. Diga logo onde ela está! — O lugar se chama North Devon. — Pelo amor de Deus. Coloquei um rastreador na doutora Kelly. como dizemos.. Quero começar botando pra quebrar assim que desembarcar em Heathrow. Brody sentiu o coração ficar mais leve e sorriu. Ela está em algum ponto perto da costa. Dev. mas Scout persistiu. Na mente de Devlin a arapuca começou a fazer sentido. Sucinta e concisamente. Lembrou do ornamentado convite para a festinha de Heinrich Gant em RAVENSCAR — sua mansão — que recebera no hotel. Grandes mansões. Scout conseguiu dizer — Você saiu antes que eu pudesse lhe contar. North Devon. diabo! OK. Devlin contou a Sorenson o que havia vazado. barbarizando com os ingleses. — Ah.. O GPS fez uma planilha de seus movimentos.. Bill. e como saímos por Londres pegando pesado.

Pediu-me que o pegasse cedo. mas ele foi requisitado. frustrado. em meio à barafunda de viaturas policiais e caminhões de bombeiros. . — Chewie. O homem de chapéu olhou furtivamente ao redor e assentiu. pegando o livro relutantemente.— Estamos com o novo Intel. Pôs na mão de Devlin um livro de capa dura. Brody se voltou para seus homens. A noite vai ser longa. com Chewie e Scout ao lado. — Sir Nigel me pediu para dizer que lamenta. Desistindo. vá pegar o chefe no aeroporto de Heathrow. dê um pulo no hospital para ver como está Brax disse Devlin. Brody. No andar de baixo. Pediu que informasse que ele está organizando uma batida policial ao amanhecer na mansão de North Devon. — Scout. senhor. Um homenzinho magro com chapéu de feltro e longo sobretudo de tweed cinza com duas fileiras de botões abriu caminho em direção a eles. Devlin. Eu lhe informo quando você chegar. Devlin recuou. assentindo. — Parece que temos companhia. será em Dorchester? Perplexo e sem palavras. E então. senhor? — Você é um dos rapazes misteriosos de Sir Nigel? — Devlin perguntou. Bill. — Major. Brody Devlin apenas balançou a cabeça. Parecia um personagem de filme de espionagem dos anos 40. Devlin procurava encontrar o sedan preto de Cummings. OK? É a solução para encontrar a doutora Kelly. Chewie fez que sim e apontou.

ALDEIA DOS MALDITOS (Novela de ficção científica de John Wyndham (The Midwich Cuckoos. Algo que a doutora Kelly lhe deixou. afinal? — ele gritou. tentando não perder o homenzinho de vista. "Os Cucos de Midwich" em tradução literal). Olhou para o livro e leu a capa. não entendi seu nome.— Muito bem. major. mas seu lábio inferior continuava a tremer ligeiramente. Noor estava toda encolhida. o homem respondeu — Acho que não lhe disse. — Uma leiturazinha leve. camarada. cheio de energia. creio eu. e se retirou. senhor — o homenzinho de chapéu deu meia-volta. com as pernas dobradas e encostadas ao peito. — Qual é a deste livro. PARTE III Sombras e Névoa CAPÍTULO 1 Em seu quarto na Escola Éden. Devlin levantou o livro e gritou pelas costas do sujeito. Olhando por sobre o ombro ao caminhar e ajeitando o chapéu. senhor. Devlin ficou na ponta dos pés. Devlin balançou a cabeça e bufou fortemente. — Ei. olhando por sobre a multidão. Parara de choramingar agora. a voz transbordando confusão. .

Estavam olhando para os pratos como se jamais tivessem visto feijão-de-lima e rosbife na vida. Sentou-se perto de Peter e observou os rostos dos meninos. . fingindo que estava com as pernas moles quando escorregou da cadeira. um elo com Blair. Noor empurrou sua bandeja do carrinho e foi até a mesa onde os Garotos Perdidos estavam sentados. Para ela era uma espécie de pedra de toque mágica. A senhora Baylock estava parada à porta. deixando para trás. E Noor tomou uma decisão. Quando o doutor Craven não estava olhando. a única parte do bichinho de pelúcia que ela conseguiu trazer do Quarto Escuro. Passos ecoaram no corredor. e esfregou o botão entre o polegar e os outros dedos. deitando de costas. — Hora do jantar.Dentro de sua mãozinha ela segurava com força o olho de botão de Mister Muffins. Ouviu um clique na fechadura e a porta se abriu. a perda dos pais e sua vida anterior. Noor pegou o botão do chão frio ao levantar. ficaram em silêncio. Ela fingiu cair. Na sala de jantar. sua figura esquelética iluminada pela forte luz do corredor. senhorita — disse a senhora Baylock. Ela rolou na cama. o nome Noor e todas as memórias ruins associadas a ele. Noor pôs o botão na boca e ficou gelada de medo. aproximando-se e parando subitamente em frente à sua porta. para todo o sempre. sua única ligação com o sentimento de esperança. Evitando os olhos dela. De agora em diante só iria pensar em si mesma como Wendy. de olhos baixos. com seu cigarro aceso esquecido debaixo do nariz aquilino e uma tela de fumaça se enrolando diante dos óculos.

Wendy fungou. triste. Johnboy disse — Arrancaram Michael da sala de tevê. que estava sentado à esquerda de Wendy. relutantemente. Distraída. Ouvi uma conversa deles sobre você. Wendy perguntou — Está falando do doutor Humpty Dumpty? . — Ele nunca perde o jantar. Raji. debruçou. você tem que ir embora esta noite. Wendy? Estávamos preocupados. mas qual é o problema. — Claro. O doutor Craven estava de papo com aquela bruxa da Cruela Cruel. — Coma os legumes. — Oooops! — ele disse. mas depois da experiência no Quarto Escuro não tinha mais apetite. os outros meninos levantaram a cabeça assentindo e confirmando. Peter olhou cuidadosamente para os lados e finalmente falou. Depois que o homem passou. — Você está bem. Eu tive um pressentimento muito ruim quando aconteceu. Peter? Um dos funcionários passou caminhando e Peter se debruçou sobre o prato novamente. — Wendy. aproximando-se. Gabriel fechou a cara e. — Levaram outro garoto para o Quarto Escuro — simultaneamente. Peter voltou-se novamente para Wendy. Peter fez que sim com a cabeça. empurrando com o garfo os feijões no prato. mas se forçou a dar um sorriso corajoso. rindo. enfiou uma colher de feijão em sua boquinha. Intrigada.Wendy olhou para o prato. cuspindo metade da porção na mesa de propósito. Em meio a uma garfada de batatas. não é? — Gabrielzinho perguntou a Peter com uma voz tensa. Quando a senhora Baylock saiu do refeitório. Gabe.

Era uma enorme barata. seus olhos começando a brilhar levemente. Raji explicou que Wendy era diferente das outras crianças. Algo cor de cobre saiu de dentro de sua camisa pelo colarinho. Wendy o observou em silêncio. Margot Gant. mais importante para o médico e para Cruela.. Johnboy e eu vamos fazer um escândalo e Raji vai lhe tirar daqui enquanto isto. Pegou o botão brilhante do bolso em que o enfiara e mostrou a Raji. Apertou com força o olho de Mister Muffins enquanto ouvia. Ela se encolheu de medo. não seja medrosa. Raji pensara que eles tinham dito qualquer coisa sobre Wendy ser a chave.. — Ei. descendo pelo braço. — Ele é mau e machucou o Mister Muffins — Wendy acrescentou.— Velho cara de porco. ele pode prever o que os seguranças vão fazer antes que aconteça. de cara feia. Como Raji consegue ver o que vai acontecer nos minutos seguintes. e porque sabia que ela teria de deixar para trás os Garotos Perdidos. — A senhora Baylock vai para casa toda noite depois que as luzes se apagam. Peter explicou o plano. Johnboy percebeu sua reação e deu uma boa gargalhada. aquela com a visão capaz de abrir a porta. Foi quando a atenção de Wendy se voltou para Johnboy. pois sabia que o que ele estava dizendo era verdade. Quando Raji terminou. Ele é terrível no esconde-esconde. Raji fez uma expressão tensa rosto e seus olhos irradiavam tristeza ao falar. o nome verdadeiro dele é Craven — Raji explicou. Wendy — a barata estava sentada nas .

uma raspagem furiosa. Wendy? — seus grandes olhos azuis e suplicantes a olharam por detrás de uma mecha de cabelo. Sons de gente ocupada e fazendo força: tinidos. Wendy conseguiu dizer — Eu volto para lhe pegar. desembaraçamento. Wendy balançou a cabeça. Ouviu um som esquisito. Então veio um som de ranhura.. Prometo. prontinho. mostrando que compreendia. Wendy andava de um lado para o outro. estalando a língua baixinho. Quer segurá-lo? Wendy deu de ombros e voltou para sua cadeira. vai. Peter prosseguiu. Encostou o ouvido à parede. — Johnboy sabe falar a língua deles.. aparafusamentos.. Oscar é o único bichinho de estimação que ele pode esconder deles. Subitamente.costas da mão dele agora e ele arrulhava para ela.. — Você não vai se esquecer da gente. prendeu a respiração e ouviu. Um barulho de sussurros vinha de dentro da parede. — Você pode se esconder na mala do carro de Baylock até ela chegar ao edifício onde mora. Capítulo 2 Em seu quarto. Gabe. estará livre! Gabrielzinho interrompeu. mas uma barata? Peter deu risada. Com um nó na garganta.. . — O nome dele é Oscar. Adorava todas as criaturas de Deus. A porta se abriu e apareceu o rosto sorridente de Raji. pancadas. e então. alarmes soaram no corredor. Eles lhe tiraram a roupa quando ela voltou do jantar e agora ela vestia uma camisola e chinelos.

Raji apertou o botão para a garagem inferior. Homens em uniformes pretos saíram dele. seguindo na direção oposta. Na sala de controle do centro de segurança da escola. O parafuso estava sendo desenrascado. Agacharam-se juntinhos. Rapidamente.— Vamos! — ele a pegou pela mão e saíram pelo corredor tingido pelas pulsantes luzes vermelhas dos alarmes que soavam. torcendo para não arfar e entregar sua posição. Os pulmões de Wendy ardiam de medo à medida que iam dobrando esquina após esquina. . respiração bem curtinha. Achando que era um defeito de luz. Cravou os olhos no parafuso do respiradouro. Raji e Wendy viraram a esquina devagarzinho e entraram no elevador. Quando chegaram ao elevador. Com as costas coladas à parede. ele piscou os olhos e limpou distraidamente o bigode de maionese do lábio superior com as costas da mão. puxou Wendy para um canto na sombra. achou ter vistos pequenos pontos de luz marrom que pareciam flutuar na escura cavidade detrás da grade. O queixo do segurança caiu. pisando forte com suas botas nos ladrilhos. As pernas curtas de Wendy lutavam para acompanhar as passadas longas das pernas de Raji. A porta do elevador se abriu sibilando. saindo lentamente da superfície do respiradouro. Raji parou e fechou os olhos em profunda concentração. um segurança que estava devorando um sanduíche ouviu um som arranhado vindo do respiradouro. Afastou a mão da boca e se virou em direção ao barulho. Mas quando olhou mais de perto.

entrou no recinto. e dentes diminutos. subindo por suas pernas para alcançar os monitores e o painel de controle. Outro segurança estava apertando botões no circuito fechado de câmeras. rolou pelos ladrinhos e parou em seu pé. Do lado de fora da sala de controle havia um exército de baratas e centopéias saindo aos montes dos respiradouros de todos os corredores. Um oceano de pêlos negros saiu lá de dentro. mas que diabo é isso? Estou com cinco monitores com as telas pretas. afiados como lâminas. e ele uivou de terror.O parafuso pulou. desceu pela parede e veio correndo pelo chão. . começaram a lhe roer as mãos e braços. A grade do respiradouro balançou e ficou dependurada pelo parafuso restante. . caiu no chão. O outro segurança tentou alcançar o botão central de alarme. em uma massa viscosa e cintilante de pernas e corpos em movimento. Bateu no braço ao sentir ondas de ratos sendo cuspidos pelo conduto. — Ratos malditos! — berrou o segurança que mastigava o sanduíche e se levantou da cadeira de um pulo. O segurança gritou quando uma massa de pêlos negros e marrons lhe cobriu o peito e os braços. Tomaram conta dos corredores externos e pintaram de negro as paredes e câmeras.Ei. mas um rato enorme lhe cravou os dentes na mão cheia de carne. forçando-o a soltar sua arma. O outro segurança se virou em direção à praga que atacou de repente.

A pesada porta de aço inoxidável do laboratório se abriu. tentando desesperadamente afugentar as baratas e aranhas enlouquecidas que grudavam nela como abelhas na colméia. seus olhos procurando em meio à pouca luz. Os garotos entraram e seguiram por um labirinto de estações de trabalho e equipamentos de laboratório. Ela tropeçou e caiu. Peter parou e apontou. O mar de insetos que cobria o assoalho abriu caminho para Johnboy passar estalando a língua. gritando e se descabelando. Uma mulher de jaleco saiu correndo. Em sua gaiola havia uma pequena placa onde se lia "FADA SININHO". A ave grasnou outra vez. . Johnboy balançou a cabeça afirmativamente e eles entraram no recinto. Ele e Peter trocaram olhares perplexos. Batia nos ombros. camaradas! — a ave guinchava e grasnava. Johnboy ficou de queixo caído. baixinho. Pederasta surdo. Quebrou o salto do sapato e saiu mancando pelo corredor abaixo com uma crosta cintilante de insetos lhe cobrindo as costas por inteiro.Johnboy e Peter puxaram o último dos alarmes de incêndio e seguiram em direção à área do laboratório. Pássaros de todas as espécies gorjeavam e chilreavam e grasnavam detrás de fileiras e mais fileiras de gaiolas. A placa pendurada na porta dizia "AVIÁRIO". — Caraca. — Acho que ele está falando com você — Peter disse a Johnboy. levantou e tropeçou de novo. — Bichona idiota. Uma arara de plumas luminosas andava nervosamente de um lado para o outro em seu poleiro.

Berrando e casquinando como doidos.Caaaaaaa! — gritou o papagaio ao sair da gaiola dourada. você é tão esperto quanto uma porta. eu sei um segredo. Os garotos passaram por filas de gaiolas habitadas por primatas tristemente neuróticos e outras criaturas que mal dava para reconhecer: um lêmure de rabo . inclinando o pescoço. Du wichser! Os garotos saíram do aviário e foram em direção à um grupo de portas duplas de aço do outro lado do laboratório. — O gato comeu sua língua. aquela — Fada Sininho continuou. — Diga lá. Não precisa ser grosso. Era quase humana. Hau ab. mas por outro lado não era bem humana. — Ah. inflando as bochechas e expirando longamente. vá se ferrar! Abra essas gaiolas e vamos dar o fora! Os garotos foram de gaiola em gaiola abrindo as portas. Hesitantes. os garotos abriram caminho pelas portas e entraram em uma espécie de zoológico de parque de diversões. . De trás das portas vinha uma risada estranha. desempenhando um balé aéreo ao redor. Peter se aproximou. gorjeando freneticamente enquanto voavam. era alta e agitada demais. Fada Sininho se empinou e ruflou as plumas. garoto? — Você fala! —Johnboy gaguejou. os habitantes saudaram os intrusos. Os pássaros presos alçaram vôo. meu Deus. — Que coisa. repetindo sem parar — Margot é uma Zwitter desgraçada! Eu sei um segredo.— A ferramenta mais afiada. Seja educado agora. Os garotos foram até a gaiola de Fada Sininho e abriram cuidadosamente a porta.

Wendy vai soar o alarme e voltar antes de dar tempo de você dizer. Detrás de barras.. olhando ao redor. Não vá bancar o medroso agora. um grande orangotango corcunda coberto de plumas ao invés de pêlo vermelho. um chimpanzé de grandes e profundos olhos azuis espiava com expressão torturada. . atrás da própria cauda pontuda.anelado coberto de escamas caiu pesadamente e se contorceu de costas por alguns segundos. se levantou com as patas de longas unhas e deu uma balançada para o lado. Johnboy disse — Você acha que eles farão isto conosco? Peter envolveu Johnboy com o braço. Seja forte agora. Os olhos do macaco transmitiam uma inteligência enervante que deixou Johnboy apavorado. agachado no canto da gaiola. Tremendo de medo. — Ele parece tão triste — Johnboy disse a Peter com a garganta apertada enquanto olhava para o animal. os garotos passaram para outra gaiola. parecia mais um filhote de avestruz com sua cabeça disforme empoleirada no pescoço comprido e fino do que um macaco. Os olhos do chimpanzé se encheram de lágrimas e um som baixinho que mal se ouvia saiu do fundo de sua garganta. então a criatura. Com passos pequenos. — Acho que eles são mutantes — disse Peter. É uma coisa bestial. Desorientado e lerdo. então ele se virou e abaixou a cabeça tristemente. que mais parecia uma iguana. ele começou a correr em círculos. — Alguém os fez assim. abraçando-o reconfortantemente. meu velho.. Johnboy ficou enjoado só de olhar para eles. satânica.

temendo desmaiar sufocada antes que a senhora Baylock parasse e ela pudesse escapar. respirando curto e ouvindo. lá vou eu e seja o que Deus quiser.. Então foi dada a partida no motor e Wendy sentiu o carro começar a se mover debaixo dela. morrendo de frio com aquela camisola fina de algodão que estava vestindo. contando para marcar o tempo.Rapidinho — Johnboy respondeu. Seus dedos dos pés pareciam ter virado pedaços de gelo. forçando um sorriso desanimado. Wendy. indicando que a senhora Baylock havia saído do sedan. Momentos antes. . Rígida de tensão e mordendo o lábio inferior. Wendy esperou. Ouviu-a abrir e bater a porta do carro. Após o que pareceram horas. que se aproximavam. trezentos e cinqüenta. — Trezentos e quarenta. A viagem foi cheia de solavancos e o ar fedia. Raji arrombou a mala do sedan mofado e ajudou Wendy a entrar. Ela tentou respirar contidamente. — Cinqüenta e cinco.estava nas dependências claustrofóbicas da mala do carro. A porta se abriu e o carro balançou levemente. cinqüenta e seis — ela sussurrou. E agora estava tremendo. Sonhou com céus azuis e a brisa fresca do mar e com Blair. Ouviu o clique oco dos saltos da senhora Baylock contra o concreto duro do estacionamento. prevendo o momento exato da chegada da senhora Baylock. Também estava um pouquinho tonta. Wendy começou a sentir o estômago subir de elevador e sentiu a bílis quente chegar à garganta. o carro começou a diminuir a velocidade e parou.

De trás veio uma voz. Ela saiu correndo da sombra e subiu os degraus da frente. agarrou a maçaneta. seus dedos encontraram a alavanca de emergência da mala do carro. Então ela viu. Ela caminhou mancando até chegar à calçada. Com um leve som de estouro. quase lhe matando de susto. puxou de novo. Começou a garoar. a distância. Ela tentou de novo. ela voltou para dentro da sombra. desta vez mais forte. Sob luz fraca da única lâmpada sobre a porta da frente. Ficou com os braços arrepiados e tremendo sob o úmido ar noturno. Olhou ao redor. . Inalou o doce ar noturno. Trancada. Não saiu do lugar. óculos antiquados de armação de arame e cultivava um cavanhaque bem aparado. as luzes de um carro se aproximando. Wendy olhou para os lados. Puxou. — Pode me ajudar. aproximando-se sinuosamente dela em meio à chuva fina. Sentiu um frio na nuca. Com passos involuntários.Movendo-se rapidamente no escuro. Voltou os olhos para a rua. Usando ambas as mãos. A área estava limpa. a escuridão parecia lhe engolir. Espiando pela abertura da mala. Usava uma boina. mademoiselle! — Ela se virou e deu de cara com o rosto sorridente de um idoso com os braços cheios de sacolas de compras. As luzes estavam se aproximando muito rapidamente. As suas costas havia um enorme edifício residencial de tijolos vermelhos. enchendo os pulmões e clareando as idéias. Daria tudo por uma tocha agora. a mala do carro se abriu. Nada.

Os gritos e batidas frenéticas lhe voltaram a atenção para a porta da frente.Acenou para as chaves penduradas nos dedos de sua mão esquerda que refletiram à luz quando ele as sacudiu. Ela pegou as chaves e tentou enfiar na fechadura. O barulho sólido de portas de carro batendo veio da rua. enfim. Conseguiu. Antes que o velho pudesse virar o rosto para ela novamente. Suas figuras monstruosas tomaram toda a portaria e . bloqueando a rua inteira. O idoso entrou atrás dela. Quando os faróis altos da limusine iluminaram o rosto do velho. Era uma enorme limusine preta. Wendy percebeu que seu rosto era cortado por rugas e frágil como um papel de seda. s'il vous plaît? Os olhos de Wendy registraram o homem que se aproximava de carro. Wendy ouviu o som de freios cantando no meio-fio em frente ao edifício. — Poderia fazer a gentileza de destrancar a porta. ma petite ave. errando o alvo com suas mãozinhas frias e trêmulas. gritando — Minha mãe está me chamando. O velho lentamente se virou em direção ao som e balançou a cabeça em desaprovação. Uma diminuta gota de chuva caiu de seu cavanhaque. Ele deu um sorriso de quem estava entendendo tudo e murmurou com um brilho travesso nos olhos — Voe. Virou-se e viu dois homens de pescoços grossos. Wendy soltou as chaves e correu para as escadas. e pisou na portaria aquecida. O velho ficou olhando enquanto Wendy desaparecia escada acima. — Mon Dieu! Veja só o jeito que ces idiots estacionaram o carro. atrapalhando-se com as sacolas ao bater a porta com o pé. tenho que correr.

Então. fazendo enorme estrondo contra a parede interna. mandando que abrisse a porta. Ficaram pasmados. como se tivesse desaparecido no ar gelado.eles destruíram a luminária externa com socos violentos. Mas segundos depois. — Derrube agora! — gritou o líder dos perseguidores. quebrando vidros que se espalharam em cacos pelo chão. quando dobraram uma esquina. Com um pesado chute de bota na fechadura. Estou chegando. virou-se novamente para a porta e balançou a cabeça. com gestos exagerados. Foi um prazer sentir a chuvinha renitente enquanto atravessava o telhado com seus passos trôpegos. Parou subitamente e começou então a rastejar até a beira do telhado. Eles entraram correndo no edifício. ela pensou. O líder ordenou — Agarre este velho idiota! — quando o idoso desapareceu ao dobrar um corredor. O coroa tinha ido embora. pararam de repente. Dois perseguidores foram atrás dele. deixando marcas de derrapagem das botas no assoalho de ladrinhos claros. ele se aproximou e deu uma olhada. Ele olhou para as escadas. Deu de ombros e lentamente deu meia-volta e foi andando com dificuldade. a porta explodiu para dentro. Em poucos metros estarei livre. A menina se embrenhou pela porta com o que lhe restava de forças. . o frio ar noturno fluiu pulmões adentro. dizendo que não. Ao correr. Suas vozes abafadas gritaram com ele.

O clarão cegante de uma lanterna queimou-lhe a vista. Sua estatura e seu jeito de corpo eram inconfundíveis. Ela não respondeu. O som de outra voz familiar. impedindo que o homem continuasse. du wichser — Margot ralhou. — Apague isto. vindo de um atalho para o telhado. Olhou para baixo e mal conseguiu enxergar o fluxo dos faróis dos canos que deslizavam como pirilampos na escuridão. Alguém lá atrás abriu a porta com uma pancada barulhenta na parede. esticou os braços na tentativa de manter o equilíbrio. Voltou-se para a menina e disse: . Então Margot esticou o braço. pequena — disse o doutor Craven. Acenavam para ela. com aqueles cabelos louros claríssimos capturando a escassa luz. Acenderam as luzes na escadaria do outro lado do telhado e foram atrás dela. fez a jovem estremecer de pânico.Parou para piscar os olhos por causa da chuva e foi sacolejada pelo vento. projetando suas silhuetas em contraste com a parca iluminação de fundo. — Hora de ir para casa. Outra figura ao lado do médico deu um passo para a frente. Ela se virou. Dava quase para ela sentir o aterrorizante vento negro que emanava de Margot Gant. Um bando de figuras sombrias surgiu pela porta e pararam. A menina rastejou mais para a beirada. Mesmo na penumbra ela conseguiu reconhecer o contorno mais alto. tinha em si a crueldade seca de um chicote enrolado.

Os olhos de Wendy estavam bem fechados agora.. Mas ela se levantou com os braços ainda estendidos. Eles ficaram na beira. Ela deu mais um passo. balançando a cabeça: — Não dá para enxergar a rua daqui. — Teve um momento em que até achei que nossa pombinha soubesse mesmo voar. Começou a cantarolar a cantiga infantil com os lábios entreabertos. O médico de rosto pálido ao lado de Margot deu uma olhada nervosa pelo peitoril e disse. O vento castigava o telhado. a mão deslizando em direção à pistola com tranqüilizante que estava cuidadosamente encaixada no cós da calça às suas costas. ja? — deu um passo para trás e suspirou aliviado.— Ninguém vai lhe machucar. suas pestanas pesadas de memórias que não eram bem memórias. — Quando o galho quebrar. a menina de oito anos desapareceu diante de seus olhos. Por alguma razão Wendy sentiu que ela estava com a arma. graciosa e leve como anjo. Wendy — falou suavemente. Nana neném.. . olhando para a rua lá embaixo. Silenciosa. sonhos que não eram bem sonhos. Quando o vento soprar. sentindo como se o vento fosse lhe devolver a sanidade em uma lufada.. inflamando-lhe os cabelos. — Não! — Margot gritou ao ver que ela seguia em frente. voe alto meu bem.. Wendy deu mais um passo. seu bercinho vai balançar. e ela girava a cabeça de um lado para outro. dava para ver o metal negro e frio em sua mente. com um tom de voz brando.

Um arrepio lhe subiu pela espinha quando abriu os olhos. Vieram-lhe imagens em rápidos flashes: o museu. Por favor. Ela foi se levantando lentamente. a língua estava pastosa e colada ao céu da boca. mas não tinha nada no estômago. sentindo a luz gritar em seus olhos. Ela tentou se concentrar. crucificado na parede. beba um pouco de líquido. Uma voz familiar murmurou suavemente — Ora. Sentiu vontade de vomitar. Parecia que sua cabeça tinha sido estufada com algodão. o corpo torturado de seu irmão. a loba loura voando pelo salão em direção a ela. a garganta estava seca. Seu sorriso torto zombava dela. Esta é a droga do problema! Capítulo 3 Blair começou a acordar. O som abafado de vozes murmurantes flutuava ao seu redor. Um odor almiscarado familiar lhe encheu as narinas. Alguém lhe acariciava os cabelos com a mão. e então. doutora Kelly. seu idiota. Mas não estava conseguindo. — Ela sabe voar. sentindo as costas e o pescoço latejando. doendo profundamente. . senhorita Kelly. ora. clarear as idéias. — Nos encontramos novamente. Ergueu um copo com um canudo curvo que levou aos lábios dela..Os olhos de Margot cintilaram de ódio.. — Está desidratada por causa das drogas. senhorita Kelly. Ela torceu a bochecha do médico com força e estapeou com as costas da mão. Al-Dajjal estava debruçado sobre ela.

retorcendo-se com o pouco de forças que lhe restavam. Um emaranhado de fios ligados a eletrodos estavam ligados a aparelhos de monitoramento em vários pontos de seu corpo. seus pulsos tentaram se livrar das amarras de couro. Estava usando um roupão hospitalar. Levantou as costas da mesa. os pés estavam em nível mais baixo que o corpo. Blair olhou para o braço. está com as ferramentas prontos? Assentindo prontamente com a cabeça. Ernst foi para o lado de Al-Dajjal. Uma risada gelada e familiar flutuou sobre ela pela escuridão. senhorita Kelly. Não adianta nada lutar. afastando o copo. Era o homem que estava com o machado no museu. mandei suas roupas para lavar a seco — ele disse a . Instintivamente. olhou ao redor do recinto. Desesperada. Bateu com os pés na mesa. lutando contra as tiras apertadas ao redor dos tornozelos. senão será pior — Al-Dajjal disse. — O doutor Craven lhe colocou no soro. — Calma. Ela estava amarrada a uma mesa cirúrgica inclinada. — Ora. Uma figura saiu das sombras profundas. do olho de vidro virado para dentro.Ela bebeu com os lábios secos no canudo. Então ela entendeu. viu o tubo em sua veia e olhou para o resto do corpo. — Não se preocupe. Al-Dajjal perguntou — Ernst. Ouviu o zumbido de um motor elétrico e a mesa cirúrgica começou a reclinar. Ela se lembrou daquele sorriso traiçoeiro. Não vamos exagerar. com sua luz ofuscante. Seus olhos amarelados dançavam sob a luz clara da lâmpada cirúrgica ao alto.

Blair. Ela tremeu mais de raiva do que de medo. a tela projetou a imagem das costas de Blair.. encaixou em uma. — Infelizmente. — Sabe. pegando um cigarro de uma caixa dourada. você não realizou sua verdadeira vocação — brincou Al-Dajjal. Al-Dajjal fora para a parede ao lado. perdemos um tempo e energia preciosos tentando induzido a nos contar seus segredos. que você não force meu amigo aqui — AlDajjal apontou Ernst com a cabeça — a chegar a tais extremos. seu desgraçado maldito. . o rosto encoberto por uma tela de fumaça. A mente dela começou a dar voltas ao ver aquilo. ou talvez um pouco de ambos. — sua garganta travou e ela teve uma crise de tosse. Quando ele clicou no controle remoto. lamento dizer que precisaremos de sua ajuda para interpretai este intrincado desenho — Al-Dajjal explicou. E infelizmente para seu irmão. — Especialmente esta aqui! — ao clicar o controle remoto. Ernst deu uma risada derrisória e olhou para ela de cima a baixo. — Ernst.. com a elaborada tatuagem capturada em toda sua glória. Era seu corpo nu. eu corto seu. apesar de multo bela de se ver. — Se tocar em mim outra vez. querida dama. a terra foi preenchida por uma montagem de imagens vacilantes. estuprando-a com os olhos. Vamos torcer. capturado de todos os ângulos imagináveis. onde estava pendurada uma grande tela LED. Você viu o resultado desta obstinada tenacidade. estávamos operando sob a falsa premissa que seu irmão tinha a chave. prendeu nos lábios e acendeu. — Que fotos magníficas — voltou os olhos para Blair.

refluindo sobre a pele macia do seu corpo sólido. Um zumbido forte veio em seguida.Blair ouviu o ranger de rodas sem óleo quando o carro cirúrgico foi trazido para seu campo de visão. os lábios arregaçados sobre os dentes amarelados. Ernst passou lenta e deliberadamente os dedos das mãos envolvidas por luvas de látex sobre a luzidia série de ferramentas. fraulein — explicou der Eisaxl. Um cheiro forte e cáustico lhe tomou as narinas. Ernst estava colocando-o do seu lado. tentando controlar o olho de vidro. Ela podia ser vista em qualquer domingo à tarde . Ele estava balançando uma garrafa debaixo de seu nariz e dando um largo sorriso. Ao menos não tão cedo. liebschein. Seus olhos se abriram. ela era multilingue. confusos. — Não vou lhe deixar secar. à direita. Ele ficou ao lado do carro. hesitando um pouco no escalpelo e depois passando para alicates pavorosos e parando então em uma serra cheia de dentes afiados. e ela começou a desmaiar. ja? Capítulo 4 Ginny Doolittle falava a língua dos gatos. O tímpano de Blair pulsou enquanto seu coração furioso enviou torrentes de sangue para as veias. depois galgando um crescendo à medida que vou adentrando as cavidades interiores. — E quase como uma sinfonia que começa devagar. Na verdade. de modo que Blair pudesse ver claramente as ferramentas depositadas cuidadosamente. — Eu me orgulho muito de meu trabalho. Ela se revirou ao ver o falso olho de der Eisaxt sobre ela como um planeta devastado.

acenando para o próximo com seu chapéu de feltro de abas largas enquanto empurrava o carrinho cheio de garrafas e latas de alumínio. eu sei que você está aborrecida demais de tanta preocupação. a não ser que um esquilo cinzento tagarela ou algum pombo chilreante a chamasse. — Bem.. Quando vêem que as plumas estão começando a ficar grisalhas. mas quando ela estava envolvida até a raiz dos cabelos escutando um esquilo tagarela lhe contar alguma fofoca das boas. Claro que a opinião dela sobre os humanos tampouco era das mais abonadoras. Afinal. sempre pulando a cerca com alguma jovenzinha.. E naquela tarde em particular. um poodle francês chegou à mesma conclusão. Ocasionalmente. que sofria de Alzheimer. algum transeunte se sentia desqualificado com sua falta de interação humana. acabou perdendo o rumo de casa. lá vão eles. — Mas os homens são uns canalhas. seus amigos peludos e emplumados não podiam simplesmente entrar no pub da esquina para bater um papo reto com os amigos entre uma cerveja e outra. simplesmente não podia ser perturbada. . A vizinhança a considerava meio doida.passeando vagarosamente pela Cross Road. A senhora Doolittle estava fazendo de tudo para consolar uma pomba cujo companheiro. Uma pessoa que lhe desse uma olhada superficial concluiria que qualquer senhora que usasse uma estola de pele roída por traças em pleno verão seria mesmo um pouquinho esquisita. Ginny Doolittle nunca parava de papaguear. minha pombinha querida — a senhora Doolittle disse com voz suave.

Com força e velocidade que ela não sabe de onde tirou. . ajeitando a aba do chapéu de feltro na cabeça e se levantando. — Oswald. precisamos arcar com as conseqüências. paralisada. — Você não está querendo ver. querida. a senhora Doolittle seguiu na direção de onde vinha o som. Os olhos se abriram. mulheres. a estola peculiar em seu pescoço criou vida. volte aqui agora mesmo! — chamou a senhora Doolittle.A pomba ficou olhando sem expressão. O barulho histérico dá buzina e chiado dos freios selaram o destino de Oswald. Ele nem virou para avaliar o estrago. olhando para o corpo amassado de Oswald. dobrou a esquina e passou por entre os joelhos tortos de Ginny e a derrubou na calçada. Às vezes nós. O sininho que foi arrancado de seu pescoço pela força da colisão saiu rolando lentamente na direção de Ginny e parou aos seus pés. Nem ela nem Oswald viram o caminhão que virava a esquina. Um poodle francês. A senhora Doolittle gritou — Seu francês do inferno. fazendo jus à famosa indelicadeza de conterrâneos. como mágica. não tem educação? De repente. Ginny Doolittle emitiu um som grave e gutural da garganta ao parar. o gato malhado ressuscitado lhe escapuliu do pescoço saiu correndo rua abaixo atrás do francês apressado. dedo em riste. A senhora Doolittle advertiu-lhe.

com um nó na voz. — ele fez uma pausa.. Cuidadosamente.Estupefata e com os olhos turvos de lágrimas. Seu corpinho mole se aninhou em seus braços. — Ao se virar. acrescentou — meu bravo.. sentiu a vibração calorosa e compreensiva que nem mil palavras conseguiriam expressar. pareceria deslocada. valente Sir Oswald. O motorista fez um gesto solene com a cabeça e se afastou.. uma menina de olhos penetrantemente azuis como o céu de junho e pele clara como ar de verão. tia. Oswald. o cabelo era diáfano. sabe? Sou boa nisso.. O motorista de caminhão apareceu ao seu lado. O rosto era angelical. descalça e de camisola. a droga do bichinho simplesmente. mais para si mesma do que para alguém específico — Garoto bobo. curar coisas doentes. ela se inclinou para pegar o sininho. Quando os olhos de Ginny encontraram os dele. — Posso dar um jeito nele. E quantas vezes já disse que você não precisa mais defender minha honra . — A senhora tem um gato malhado que nem. — Eu juro. . Eu lhe avisei. Juntou-se uma pequena multidão. Mesmo que não estivesse de camisola no meio de uma calçada agitada. Ginny a viu. tirando um pano oleoso do bolso e pressionando levemente os olhos. não avisei? Você já não é mais jovem e ligeiro como antes. falou. esticou o braço e o levantou. Então veio de trás uma bela voz de criança. As linhas duras do rosto daquele homem enorme amainaram imediatamente. Quando Ginny se ajoelhou diante do que restou de Oswald.

. vou deixá-lo novinho em folha — disse a garota com voz suave.. Ginny a pegou pelo braço. Eu sei como dar um jeito nele. levando a mão ao peito. Wendy . mas cheia de segurança. Wendy demonstrou estar com medo. pararam. conduzindo-a através do monte de curiosos em direção a um beco. minha querida — deu um tapinha no espaço ao lado.A garota tinha uma aura calma. — Por aqui. e sem saber direito por que.. A senhora Doolittle deu um sorriso desanimado. Esticou os braços. oferecendo-se para pegar o gato. os olhos lançando flechas furtivas.. pode me chamar de Wendy. Ginny não pôde deixar de se impressionar com a natureza incomum do rosto da garota. mas Oswald está nas mãos do Senhor. filha. Parecia visivelmente abalada. Ginny balançou a cabeça involuntariamente. Apesar de a menina ser linda e projetar inocência como a maioria das meninas novinhas. Você tem nome? Pelo jeito. A sirene de um carro de polícia que se aproximava lhe afogou as palavras. mas elegantes. — Lamento. — Wendy. Percebendo a reação da garota. Quando se encontravam em uma distância segura. — Tenho que. a voz ligeira e nervosa. Ginny caiu sentada sobre um caixote. Ginny. minha querida — disse Ginny enquanto se enfiavam no beco. — Meu velho coração não agüenta mais tantas emoções. — Discrição é a alma do negócio. sabe o meu. Ela projetava uma natureza virginal e tranqüila que só se encontra nos grandes trabalhos de arte. — Acredito que sim. a senhora Doolittle pôs Oswald nas mãos pequenas. — Não se preocupe. Hesitando de início. da menina.

Os olhos pequenos e brilhantes de um rato espiaram por uma fresta do caixote. um por um. — Ah. Ginny deu um tapinha na mão de Wendy. começou a alongar os dedos retorcidos. meu jovem — disse Ginny. sorrindo.se sentou. Lentamente. encolhendo as pernas junto ao peito. O rato mexeu o focinho. Ginny olhou para Oswald. olá. Wendy? Wendy mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça. Quando Ginny enfiou a mão na bolsa para pegar um lenço. (Gentilmente pôs Oswald a seus pés. Encarou o gato atentamente enquanto acariciava ternamente seu peito ensangüentado. não é. Tirou a mão da bolsa e levantou em frente ao rosto. mas estamos com um probleminha. percebeu que sentiu um formigamento esquisito e quente na mão. O roedor pulou em seu colo e se acomodou confortavelmente. sem olhar nos olhos. — Espero que não se importe de nos sentarmos sobre você sem sermos convidadas. A menina respondeu pegando a mão trêmula tomada pela artrite da outra.. Logo estava esticando e flexionando . — Ora. além do que não sou muito fã de queijo Limburger. Sons ligeiros vieram de dentro do caixote debaixo delas. observando-a. — Não. Wendy fez uma expressão séria. mamãe está no hospital — ela mentiu. — Acho que não há hospital que possa ajudá-lo agora. — Acho que não podemos chamar seus pais. quanta gentileza de sua parte.. mas já almocei.

ela disse — Você é uma criança especial. depois um "miau" bocejante quebrou o silêncio.É uma palavra celta antiga. Mas no fundo você já sabia. Projetavam-se e giravam em um balé aéreo.os dedos. minha pequenina laeken. Lágrimas quentes de felicidade encheram os olhos da senhora Doolittle. nada contente com a miraculosa recuperação de Oswald. pulou no colo de Ginny e lambeu-lhe o rosto. — Vamos nos livrar desta sua roupa e lhe arrumar algo mais alegre. esticou o corpo e se levantou. não é? . depois se juntaram em formação como se abrindo caminho. Ela ficou olhando em silenciosa perplexidade. saiu do colo de Ginny e desapareceu dentro da segurança de seu caixote. . quer dizer "garota". não é? Wendy fez que sim e a expressão intrigada desapareceu de seu rosto. Ginny baixou os olhos. Oswald levantou lentamente a cabeça. Levantando-se. Nós vamos para uma festa. Enquanto a senhora e a menina caminhavam de mãos dadas para fora do beco. O rato. o som cortante de asas foi enchendo o ar à medida que se aproximou um bando de pombos vindos do alto. Uma . primeiro para a mão e depois para Wendy. Balançou a cabeça. Primeiro ouviu-se um suave ronronar. substituída por um amplo sorriso. Assustada.ela pegou a mão ele Wendy. A dor constante não estava mais lá. — Laeken? — Wendy perguntou.

bebericando uma boa taça de Jack Daniels.pomba totalmente branca pousou no ombro de Wendy. queira transmitir a Sir Nigel minha satisfação por mandar seus companheiros nos receber no aeroporto de Heathrow. Ao lado dele. ela disse — Afastem-se. E ela não era contra usar esse trunfo se a situação requeresse. Ginny viu que mais pombos se enfileiravam nos tetos dos dois lados da rua. Madison também era membro da FORÇA ÔMEGA. Quando dobraram a esquina. meus queridinhos. Capítulo Capítulo 5 Bill Sorenson aninhou-se confortavelmente no banco de trás da limusine. estava Madison Dare. — Por favor. Mas Madison achava que isso era uma vantagem. Sua beleza levava muitos agentes a subestimar sua astúcia e inteligência. arrulhando suavemente. senhor Sorenson. vestindo calça sob medida Anne Klein. E diziam à boca pequena que suas coxas não ficavam atrás. Estamos todos no mesmo time. fitando a paisagem que passava enquanto eles seguiam velozmente pela rodovia. Assim vocês acabam nos entregando. O homem no banco da frente balançou a cabeça e ajeitou o tipicamente britânico chapéu redondo de feltro. saindo do beco. — Fico feliz em servi-lo. e falava seis línguas com fluência. . Olhando para cima e enxotando-os com o chapéu de feltro. Sua mente era aguçadíssima. Convocada pela Agência de Segurança Nacional. detinha graduações avançadas em matemática e física.

de plantão. Esses britânicos sabiam levar a pessoa na valsa e dar uma facada nas costas sem derramar uma gota de suor. mas acabou decidindo o contrário.Fiz reservas para o senhor e a senhora Croft. Sorenson se recostou no banco e deu uma olhada no relógio. — Pope. Se fosse preciso. deu um sorriso contido e acrescentou — e senhor Miles. capazes de sorrir finamente enquanto davam uma porrada na sua avó e apostavam de que lado ela ia cair. que sorriu. Sorenson deu risada pela expressão que ele usou. Madison estava chegando novinha em folha. senhor. isto que eles eram. Creio que as acomodações estão de seu agrado. — Acho que ainda não sei o seu nome — ao olhar para trás. ele podia contar com ela para fazer o trabalho dele. não criaria atrito. Pensou em ligar para Devlin. a seu dispor. senhor — ele apontou o motorista com a cabeça. Coisas demais já haviam dado errado. Sir Nigel Cummings parecia estar com a situação sob controle o não queria fazer mais onda na atual conjuntura. Canalhas elegantes de sangue frio. Mas ao menos por enquanto Sorenson ia fingir que concordava. Sorenson inclinou o tronco para a frente. piscou o olho para Madison. Ademais. O homem de chapéu de feltro virou o pescoço desagradável e olhou para o banco de trás. . com as baterias totalmente recarregadas. Imaginava que um pouquinho de descanso antes de pôr em prática a próxima fase da operação não faria mal a Devlin. Pope explicara que Sir Nigel queria conversar cara a cara com Sorenson sem Devlin de plantão.

Sorenson tossiu violentamente. mas a pistola caiu de sua mão e ele foi envolvido pela escuridão. Sorenson viu Madison pegando sua arma. senhor Pope.Ele deu uma olhada no relógio outra vez e olhou pela janela. a divisão de vidro fume subiu subitamente. Mas o sistema de ventilação começou a soltar gás. Foi direto até Ernst. Madison ser encurvou no banco. Do canto do olho. Na verdade. Instintivamente. — Estou lisonjeado. as balas ricocheteariam neles e as janelas estavam bem fechadas. Aonde exatamente vamos nos encontrar com Sir Nigel? Sem deixar de olhar para a frente. o senhor será o convidado de honra. senhor? — Parece que estamos nos afastando da cidade. — Com licença. não é? Bem no momento em que Sorenson pegou seu celular. coagulando o ar. Ele tentou prender a respiração. Não havia jeito de eles conseguirem explodir as janelas. As portas travaram fazendo um clique barulhento. mas você não respondeu à minha pergunta. — Sim. Pope disse — Sir Nigel preparou uma surpresa especial para o senhor. . A porta da sala de interrogatórios do complexo principal se abriu com estrondo e Margot Gant marchou sala adentro. Sorenson levou as mãos à pistola SIG escondida em um bolso debaixo do ombro. Sorenson revirou os olhos cansados. sentindo o gás tóxico agindo e forçando lágrimas a brotar em seus olhos. xingando a cada passo. mas também foi um gesto vão. A limusine tinha vidros à prova de bala.

fizeram o maior inferno — ela murmurou ao se virar e encarar Al-Dajjal nos olhos. não é. Al-Dajjal retesou os músculos. — Perdemos a pirralha e as crianças da escola fizeram uma operação para desviar a atenção. Margot olhou furiosa e contraiu os lábios. O médico passou por Ernst. — Ela fugiu de você na Síria. Se tivermos que apelar para seus métodos cruéis. ser passado para trás por uma criança de nada. Ela fuzilou Al-Dajjal com os olhos. Al-Dajjal tragou profundamente seu cigarro e acenou com a cabeça para der Eisaxt. Quero experimentar as drogas primeiro. os olhos brilhando ao ver Blair amarrada à mesa de cirurgia. olhando com desgosto para os instrumentos cirúrgicos enquanto colocava a maleta na mesa. que suspirou pesadamente e pôs os alicates de volta na mesa. vamos esperar o queridinho dela chegar primeiro. — Heinrich vai ficar bem desapontado com você. . Blair desmaiou novamente e ficou imóvel. — Não vai aliviar meu lado. Eu não julgaria tão prontamente. — A pirralhinha se escondeu no carro da senhora Baylock. esperando por sua intervenção. Margot? — Al-Dajjal disse sarcasticamente. ja? — ele trazia uma maleta médica preta. querida. Mein brüder. seu palhaço idiota.— Baixe os alicates. — Os hipnóticos do doutor Craven são mais eficazes — tirou as luvas de couro e bateu com elas na coxa. querido brüderlein. — Vejo que minha paciente está esperando. O doutor Craven entrou. Ela se virou para ele. Fiquei sabendo por causa do GPS que Craven implantou no braço dela.

Scout detectou algo na voz do grandão excêntrico. — Sem complicações? Al-Dajjal balançou a cabeça. o que há com você? Todos sabemos que você tem uma queda . — Fale comigo.Ja. enfiou a agulha em um frasco e puxou o líquido para a seringa. ele desligou e se voltou para Margot. Disse que devemos recuar até ele entrar em contato novamente.parando ao lado de Blair. veias saudáveis. — Os pescoçudos esquisitos de Cummings pegaram Sorenson e Madison no aeroporto. — Nossos convidados chegaram. das is gut . Depois de falar rapidamente. ele disse . — Madison está aqui? — Sim. Batendo no antebraço dela com os dedos. Em seguida ele tirou uma seringa da maleta. Seu olhar se voltou para os monitores que mostravam os sinais vitais dela e sorriu. indicando que Chewie estava na linha. Bill falou com Customs. — Ela é uma moça saudável. O celular tocou e Al-Dajjal atendeu. Margot assentiu com a cabeça.. confortáveis? Scout Thompson estava deixando o hospital quando seu celular tocou o tema de Guerra nas Estrelas. — Nenhuma — ele virou para Ernst. — Por que você não providencia para que nossos convidados estejam.. Ele havia programado um toque diferente para cada membro da FORÇA ÔMEGA.um sorriso fino lhe enrugou o rosto ele cera quando encaixou a agulha. grande — disse Scout. — Ei.

sentindo as vísceras virar geléia. Acredito que tenha tido boa noite — a voz irônica e rouca de Heinrich Gant lhe adentrou o ouvido. Seis da manhã. . A voz de Blair. Era voz de mulher.pela Madison. Tateou para pegar o telefone. ele é cheio de merda jorrando pelos poros daquele traseiro nojento. Devlin estava virando e revirando em um sono intermitente quando o telefone tocou. — OK. pode crer — Scout guardou o celular e fez sinal para um táxi. Devlin tirou as pernas de cima da cama e ficou de pé. companheiro. Calma. — Bom dia. Depois veio um choramingo baixinho. Ele reconheceu a voz. esforçou-se para se concentrar. me encontre no hotel. Em meio ao torpor do semi-sono. Uma respiração áspera soou do outro lado da linha. Mas vai ficar fora de combate por um tempo. Capítulo 6 No hotel. Chewie resmungou. que logo você vai se encontrar com ela. senhor Devlin. O padre Kelly saiu do CTI. Ele levantou os lençóis molhados de suor e piscou os olhos olhando para o relógio de cabeceira. Ficou petrificado. — É. — Como vai Brax? — O doutor disse que ele vai sobreviver. Quero falar com Brody. Este Cummings é cheio de bovis sterus.

senhor CALTECH. Inclinou-se pela janela e disse. a linha caiu. — O inglês com chapéu de feltro de ontem à noite? — É. qual é a boa? Scout correu até o Jaguar. mas meu celular está sem bateria. Devlin pegou sua pistola Beretta debaixo do travesseiro e caminhou pelo carpete até a porta. senhor Gant! E a seus amigos também. nua como uma ave predatória. viva. Ele ficou com as costas contra a parede à direita da porta. Chewie chegou no Dorchester Hotel e viram Scout parado na entrada com seu fiel laptop dentro da maleta que ele segurava com firmeza. respirando nervosamente — Acabei de ver Brody saindo. mas dois dos homens de Sir Nigel estavam com ele. senhor Devlin. meu jovem? Antes que ele pudesse responder. Ele se inclinou sobre o banco e gritou — Ei. Ouviu uma batida forte na porta do quarto de hotel. Devlin cerrou os punhos nas laterais. Puxou um dispositivo do Jaguar e baixou a janela do acompanhante. — Se quiser ver a senhorita Kelly. Eu tentei ligar para você. nem com as autoridades. — Sozinho? Para onde ele estava indo? — Não sei. Eles saíram em um Bentley negro poucos minutos atrás. . Não entre em contato com seus associados.— Ponha Blair na linha. o senhor a encontrará muito em breve.40 engatilhada. Está perfeitamente claro. e venha sozinho. Gant! — Ah.. venha imediatamente para RAVENSCAR. com a pistola ..

O Jaguar lustroso cantou os pneus. e uma antiga igreja dava boas-vindas. . se é que compartilharam alguma. Nem o céu nublado cor de ardósia e nem os rostos pálidos e sombrios dos homens do serviço de inteligência ajudaram a consolar Devlin. Devlin percebeu que só teria que rolar os dados. CAPÍTULO 7 Quando o Bentley negro mudou de direção. A estrada serpenteava à esquerda. alargando de súbito. Era uma estrutura cinzenta de pedra com um campanário alto empoleirado em um morro no centro de um pequeno vilarejo. saindo da estrada A39 para pegar uma rodovia estreita. por pouco não atropelando um porteiro. garantindo apenas que haviam dado uma batida na propriedade de Gant. deixando marcas no asfalto e um longo rastro de borracha. Era uma manhã fria e as nuvens pendiam escuras e nefastas no horizonte.— Entre aí! Scout mal entrou no banco do passageiro e Chewie arrancou. A esta altura. Os homens de Sir Nigel compartilharam poucas informações com ele. Brody Devlin ficou espiando pela janela lateral traseira. E o telefonema ameaçador de Gant era besteira nenhuma sobre a história dos homens da inteligência e sobre o ataque-surpresa. e não havia mais necessidade de Devlin se preocupar com nada. a porta se fechou com o ímpeto da virada do carro. batendo na tíbia de Scout.

Os cucos põem seus ovos nos ninhos de outros pássaros para serem chocados. Estou fazendo meu melhor para tomar conta de sua rolinha. Um dia. Dominic Devlin foi lendo o livro rapidamente. Ele levantou os olhos do livro e olhou pela janela para a paisagem que passava. perdendo os sentidos e caindo . de modo que ele fosse capaz de resgatar Blair daquela situação impossível. agarrando-se à esperança desesperada de que alguma chave. Na verdade. Foi o livro que o senhor Pope lhe enfiou na mão na noite anterior. Basicamente. todos os habitantes de Midwich caíram em sono profundo. onde havia uma anotação escrita à mão que dizia: Irmã querida. Deve ter parecido esquisito fazer isso numa hora daquelas. qualquer pessoa que tentasse entrar no vilarejo sucumbia ao mesmo destino. mas em certo sentido a leitura lhe fazia se sentir menos indefeso. o tema da história eram mutantes e o instintivo medo mortal de quem era tão diferente. Voltando ao livro. dadas as circunstâncias. Estavam passando por uma cidadezinha isolada e de aparência serena que o fez pensar na Aldeia de Midwich onde se passava o livro. algum dom mágico se encontrasse dentro dessas capas. ele abriu novamente a capa interna. pegando a essência da história com sua leitura dinâmica. Com amor.Enquanto seguiam de carro ele se ocupou com a leitura de Aldeia dos Malditos.

Devlin jogou o livro no banco traseiro. viúvas — não fazia diferença. Nove meses depois. as crianças alienígenas eram egocêntricas. nenhum sentimento de remorso ou pena. frustrado. de acordo com o livro. só durava vinte e quatro horas. Se ao menos ela tivesse dado mais detalhes sobre a menininha.pesadamente no chão. A enorme casa de campo inglesa cercada por calmos ornados por áreas densamente arborizadas parecia alguma mansão . O "dayout". Se ao menos ele tivesse tido mais tempo junto a Blair. todos aprendiam simultaneamente. solteiras. Será que o padre Kelly estava querendo dizer que as crianças que estavam nas garras de AlDajjal eram algum tipo de "cucos"? Olhou pela janela outra vez. todas as mulheres de Midwich deram à luz. sobre a visão de mundo distorcida de Gant. E sua única motivação era a sobrevivência. Sendo pré-adolescentes. Mas estes pequenos "cucos" que nasceram não eram comuns sob nenhuma perspectiva. um com uma arma. Seus QI's eram extraordinários e tinham capacidades telepáticas desde a infância. Casadas. Sabiam fazer as coisas se mexerem com o poder da mente. um galho nodoso parecendo apontar para pegar a grande mansão acima com sua garra seca. O que um aprendia. Os "cucos" tinham mentes de colméia. contudo. O automóvel começou a diminuir a velocidade. pareciam não ter desenvolvido nenhum tipo de consciência. outro jogando o carro contra um muro de pedras. Uma árvore grotescamente retorcida se erguia ao lado de um pequeno muro de pedra. Mas o pior era que podiam induzir desafetos a cometer suicídio. nenhum conceito de certo e errado.

Ao passarem. ameaçador e perigoso. Quando ele baixou os olhos e deu um passo à frente. Havia muitos carros estacionados no pátio de acesso da mansão. e passou rapidamente por uma cerca viva. Ao entrarem. Devlin pensou quando o carro ganhou velocidade em uma trilha comprida e diminuiu para passar por um enorme portão de ferro que se abriu automaticamente. Quando garoto. Devlin percebeu a guarita de segurança abandonada e um canil. Ao olhar para cima ela viu no teto gárgulas de olhar ameaçador. Detrás da cerca feita de correntes. como num filme de Hitchcock. Devlin olhou ao redor. era mais uma questão de fobia.cinematográfica. bolorenta. Não que ele odiasse cachorros. Cães de ataque! Um neonazista como Gant tinha mesmo de ter um bando de pastores alemães sedentos de sangue. como um choro infantil. . um grande gato negro veio correndo. Devlin contraiu os músculos involuntariamente. pastores alemães musculosos e esguios andavam de um lado para outro em silêncio. fazendo Devlin sentir calafrios gelados. Pope saiu e conduziu Devlin até a porta. Seu melhor amigo em questão era um golden retriever de ar triste chamado Sam. sem jamais desviar dele seus olhares glaciais. miando assustadoramente. O automóvel Bentley parou na entrada. ao vento. Em uma das janelas superiores uma persiana solta balançava. Mas o taciturno mar cor de bronze de canhão em frente à casa gerava um fundo nuvioso. Mau presságio. seu melhor amigo foi atacado até a morte por um grande pastor alemão. mas não se via uma só alma viva em lugar nenhum.

Devlin olhou ao redor e deu de ombros. Mas como ficariam Blair e a garotinha? Adiante. a única coisa que eslava faltando via uni acorde dissonante menor vindo do alto. . Parado no meio do salão de entrada. — Não me ofendi.Foram recebidos na casa por um empregado de cabelos grisalhos cujas feições foram esterilizadas pela idade. Estava terrivelmente preocupado de ter lhe ofendido ontem à noite. Sir Nigel Cummings disse — Que felicidade em lhe ver. Sir Nigel — ele disse. tocado por algum fantasma demente ao órgão. tão rapidamente quanto permitiam suas pernas curtas e grossas. Está tudo tranqüilo demais. e seria boa precaução. por favor. com a voz carregada de desconfiança. — Está tudo sob controle. aceitar minhas desculpas. Sir Nigel vinha descendo uma grande escada dupla. Retomando o fôlego. No final tudo deu certinho. ocorreu a Brody que ele podia dar meia-volta. major. A coisa toda era surreal. enfiar o rabo entre as pernas e voltar a Londres para pedir reforço. e quem sabe trazer uma sacola com crucifixos e estacas de madeira não fosse tão ridículo nem insano. a única indicação de seu sexo era a calça que usava debaixo de um avental negro. Sir Nigel estendeu a mão para cumprimentá-lo com um sorriso gordo na cara suína. garotão. Sir Nigel sorriu com suas fartas bochechas rosadas. Queira.

que maravilha revê-lo. — É mesmo? Onde estão o resto dos homens e onde está Blair? Sir Nigel piscou o olho.. Venha comigo agora. Brody deu uma olhada ao redor do recinto. Havia um rosto familiar e outros desconhecidos. — Ela está ótima. certo? — após dispensar Pop. duvido disto.. — Então você descobriu o que Gant quer. A doutora é um exemplo de saúde perfeita. Vamos levá-lo até a doutora Kelly. — Sinceramente. Mas todos os olhos agora se voltavam para ele. Ao abrir as portas ele fez um gesto de cabeça para que Devlin entrasse. no fim de um corredor. major. Brody Devlin passou pelo solado da porta e encarou os olhos pequenos e irônicos de Heinrich Gant. sim. senhor Gant. Com as flamas crepitando atrás de si. estudando-o atentamente como se ele . . inclinou-se e puxou as alças de metal. o corpo de Gant se transformara em uma silhueta com o contorno tingido de vermelho.Devlin olhou nos olhos dele franzindo o cenho. mas cada coisa a seu tempo. Ele bateu na porta.. o gordo conduziu Devlin pelo cotovelo e o empurrou gentilmente em direção a duas portas grandes de carvalho do outro lado do salão de entrada.Senhor Devlin. Devlin lançou um olhar presunçoso. cansado demais daquela brincadeira de gato e rato para fingir surpresa. a invasão do museu e tudo mais? Sir Nigel piscou o olho novamente e disse — Ah. meu velho. Simplesmente não tenho palavras — Gant estava de frente para uma cavernosa lareira acesa.

— Ora. trajando um elegante terno cinza escuro cujos traços eram quebrados por botas de equitação feitas sob medida. pelo que sei. senhor Devlin. Al-Dajjal acenou com a cabeça. Um homem mais alto.44 Webley de Sir Nigel. soltou o pulso de Al-Dajjal e virou em direção à voz. O braço de Devlin reagiu reflexo. — E não terá — disse Brody. refletindo as chamas adejantes da lareira. Ele se sentiu desconfortável. Devlin ficou imóvel. se aproximou dele estendendo a mão. fuzilando-o com os olhos e de braços cruzados sobre o peito. Azrael al-Dajjal. distraidamente balançando o tornozelo calçado por uma bota. ora. . sem qualquer aviso. que modos são estes? — Gant ralhou. você foi incumbido de matar. Deu de cara com o cano da pistola Bulldog . — Solte-o. — Deixe-me apresentá-lo ao homem que. e então. enfiou a mão no terno de Brody e lhe arrancou a pistola Beretta do esconderijo debaixo do ombro. garotão — disse uma voz familiar detrás dele. — Acho que não tive o prazer de lhe ser apresentado. Reconheceu Margot Gant sentada em um luxuoso sofá de couro preto que contrastava diretamente com a calça de couro branco que se encaixava em seu corpo como uma luva.estivesse sendo exposto na vitrine de algum Armário de Curiosidades. Sua postura era de uma modelo com uma perna cruzada sobre a outra. agarrando o punho do homem como se fosse um tomilho. seguida pelo inconfundível ruído de um revólver sendo engatilhado. Quando ela virou. seu cabelo louro-branco floresceu com luzes vermelho-alaranjadas.

—Já conheço o texto. meu velho. Balançou a cabeça com aprovação para os pastores alemães. apontando para a barriga de Devlin. —Cuidado para onde aponta esta antiguidade. droga. parar! — os cães pararam ao seu lado. Sir Nigel deu um riso nervoso e pareceu aliviado quando Devlin baixou os olhos. sentaram-se arfando e babando. mostrando as presas e rosnando ameaçadoramente. certo? . não! Mais cachorros. com a mão livre detrás de suas amplas costas agarrada à maçaneta. apontando com a cabeça o velho revólver balançando na mão pastosa de Sir Nigel.. O gordo estava tranqüilamente encostado à porta dupla. nada de movimentos súbitos. Devlin olhou com desprezo. Dois pastores alemães robusto e brilhantes estavam encoleirados do outro lado do recinto. Siegfried. Provavelmente tem mais chumbo neste cano do que em você. acrescentou — Observem! Com as cabeças baixas e ombros encolhidos.Devlin sorriu e gargalhou. Devlin deu meia-volta. Conferiu que estava carregada e a levantou. olhando para Devlin como se ele fosse um corte de carne de primeira.. Ah. não! Devlin pensou. Al-Dajjal olhou superficialmente para a pistola Beretta de Devlin. Al-Dajjal soltou um assovio agudo e chamou os cães em alemão — Wotan. olhando para ele. congelando de medo. Um latido raivoso veio da direção de Margot. como se seu corpanzil fosse uma barricada para o caso de Devlin tentar sair correndo. Ignorando os cães completamente.

— Doutor Craven — disse Gant. Gant sorriu com maliciosa satisfação. Agora. Ele está muito à frente de todos os outros. você e seus colegas serão de grande ajuda. senhor Gant. Devlin olhou para os cães. Gant. O criminoso de botas fuzilou Devlin com seu sorriso torto. — De fato. Tenho a mão bem firme. E antes do fim do dia. — Por favor. Se você estivesse pegando fogo. brincando pelo teto alto do recinto. Devlin olhou por sobre o ombro de Al-Dajjal e disse — Estou vendo que o inglês da bunda de porco passou para o seu lado. Os recursos de Sir Nigel foram de grande ajuda. Seus esforços foram de grande ajuda. lançando formas sinistras que jamais paravam. quanto a isto pode ficar descansado. fazendo um gesto em direção ao homenzinho de jeito suíno cuja face brilhava de suor — o bom doktor tem conduzido experiências extraordinárias no campo da genética. Sombras dançavam. ele pegou o diário de Jung do escritório de doktor Kelly no museu. Um homem pequeno e rechonchudo se levantou da cadeira. projetadas pelo fogo crepitante.Os pastores rosnaram. Seus olhos aguados e apertados cintilavam. Mas não seja modesto. major. Devlin retesou os músculos . nada de heroísmo. . tentando engolir com a boca seca. major Devlin. onde está Blair? — Paciência. major. eu não me daria o trabalho de atravessar a rua para mijar em você. major. major.De grande ajuda para você? Vá para o inferno. Enquanto você e os outros estavam distraídos. Sem se virar para incluir Sir Nigel.

O instinto. Com a voz rouca e pingando de provocante sexualidade. — A mutação genética que induzimos teve um efeito colateral não-previsto. Por favor. Eu mesma o levo. cavalheiros. os aldeões zumbificados? — Brody perguntou a Craven. leve o senhor Devlin ao quarto de doktor Kelly. e seus quadris oscilavam ao sabor dos passos das longas pernas como se ela fosse modelo de passarela. A forma com que ela deixou o zíper da roupa de couro aberto logo abaixo da . Os saltos finos de suas botas clicavam sedutoramente no assoalho duro e encerado. —Não. Margot levantou a mão e caminhou lentamente em direção a Devlin com os olhos repletos de satisfação e sem jamais desviar dos dele. e homicidas no momento seguinte.— Imagino que aquilo na Síria tenha sido obra sua. Craven arqueou a sobrancelha de raiva. passou por Craven e parou ao lado de Gant.. Margot Gant lentamente ficou de pé. — Deixe os namorados curtirem o momento. — Que benção para a humanidade e para a ciência. os olhos suaves e brincalhões por um momento. Ele revolucionava o metabolismo dos sujeitos. ela disse — Chega de charadas. Vamos levar o queridinho para ver sua princesinha irlandesa. fazendo um bico com o lábio inferior. Olhou para Devlin. Quando ela se aproximou. a vontade de sobreviver e sua fome cega fizeram tudo dar errado e eles viraram bestas selvagens e carnívoras.. zombando do médico com os olhos e com a voz. Devlin não teve como deixar de reconhecer que ela era espetacular. Ele acenou para Sir Nigel com a cabeça. — Muito bem — Gant concordou.

por favor. Devlin estava desnorteado com a atitude indiferente de Margot Gant.. — Crave. — Que jovem teimoso. Que falta de educação. o senhor Sorenson ainda estiver no mundo dos vivos.divisão dos seios completava a imagem de sexualidade agressiva. Quando Margot e Devlin saíram. Ela se jogou sobre ele como uma tigresa. Com os olhos cravados no gordo e em Al-Dajjal. Capítulo 8 Pegaram o elevador e agora estavam caminhando por um corredor. certo? Craven assentiu brevemente e se retirou. explorando com a língua a cavidade da .. — Se. apertando seus lábios fartos contra os dele. Gant levantou o pescoço. Ela não lhe apontou arma nenhuma. este — de olhos fechados. tenho uma pequena experiência para testar sua bravura e sua resistência à dor. Gant parou e se debruçou sobre a lareira para aquecer as mãos. e Devlin não conseguia imaginar como aquela mulher poderia estar escondendo uma arma debaixo daquela roupa colada ao corpo. Heinrich Gant deu um sorriso fino e bateu palmas. — Mas nós estamos negligenciando os demais convidados. banque o voyeur e fique de olho no senhor Devlin e na putinha irlandesa. Entrou rapidamente atrás dele e fechou a porta. Subitamente ela parou e o empurrou para dentro de um quarto. E ainda fomos deixá-los com aquele bruto degenerado do Ernst — Gant suspirou. girando para aliviar a tensão.

Então. — O que você quer? — Devlin perguntou desaforadamente. quase deslizando em direção a ele. aproximou-se de modo quase imperceptível . expondo os seios fartos e a barriga reta. Ele estava ficando excitado. Ele deu um passo involuntário para trás. Mesmo contra a vontade dele. tirando sangue. Ela estalou a língua e fez biquinho. doçura. Ela se aproximou mais um pouquinho. lambendo lentamente o sangue de Devlin dos lábios.boca de Devlin. — Por que você iria querer fazer isto? — Se nós fôssemos amantes eu poderia convencer Heinrich a confiar em você. Os olhos dela eram ferozes e emanaram escárnio quando ela jogou a cabeça para trás e riu. Homens cruéis são muito atraentes. com os olhos bem abertos. Não sou seu tipo. apalpando e apertando com as mãos seu traseiro atlético e gemendo. — O namoradinho não gosta de brincadeiras pesadas — ela disse. a sensualidade crua daquela mulher atiçou o fogo do desejo em sua virilha. olhando seriamente para ele. — Você me interessa. Ela estava perto dele agora. — Vá sonhando! — Devlin engoliu em seco. — Quem sabe eu lhe ajudo a escapar. Ela começou a mordiscar o lábio dele. Ele deu um grito e a empurrou. ela desceu o zíper da roupa de peça inteira até a altura do cinto. na parte mais baixa da cintura. Subitamente ela mordeu com força o lábio inferior de Devlin. felinos. depois a mastigar de brincadeira. — Acredite no que digo.

enquanto falava. O olhar de Margot era hipnótico, puxando-o para si enquanto ela diminuía a distância e apertava o corpo contra a carne firme do peito dele. Seus olhos azuis claros o fitavam sem piscar, atraindo-o aos pouquinhos, e a cabeça dele começou a se inclinar em direção à dela, os lábios buscando os dela. Margot estava testando sua força de vontade, e ele sabia disso. Seu olhar tenebroso o estava atraindo para um redemoinho ruidoso de luxúria e abandono e devassidão. Ela pegou a mão dele e levou ao seio, e ele segurou com força o seio rijo de mamilo duro e ereto. Então ela deu um pulo, trancando os braços ao redor do pescoço dele e lhe envolvendo bem o corpo com as pernas, apertando as coxas firmes quando os lábios dele encontraram os dela. Devlin cambaleou pelo recinto cegamente com as coxas de ferro de Margot apertando cada vez mais forte quando ela apoiou os quadris no chão. A força esmagadora de suas pernas ao redor de seu torso estava tirando o ar de seus pulmões. Ele não estava conseguindo respirar. Ele tropeçou, conseguiu manter o equilíbrio, se contorceu e revirou e lutou para se soltar. Margot segurou firme, afundando as unhas na nunca de Devlin e tirando sangue. Desesperado, Devlin a fez bater de costas contra a parede repetidamente, até que finalmente ele conseguiu se soltar dela. Ela gemeu sentindo as pernas dormentes e se arrastou por sobre os quadris dele, apoiando os pés no chão.

Devlin a pegou pelos ombros e a imobilizou contra a parede. Seus olhos tremeluziram e se arregalaram. Quando ela deu um sorriso irônico e uma risada de desprezo, Devlin afastou a mão para esbofeteá-la, mas mudou de idéia no meio do caminho. Era contra seus princípios ficar com raiva e bater em mulher. A imagem de seu padrasto bêbado espancando a mulher na cozinha lhe veio à mente num flash. — Isso, bate com força. Bate até arder! — Margot provocou entre gemidos altos, estremecendo de expectativa. Ele se afastou dela, com nojo e repulsa substituindo a dor do desejo. — Você é doente, sua vaca. Os olhos dela cintilaram de ódio e ela esticou o braço de modo mecânico, batendo com a base da palma da mão bem no meio do peito dele. Devlin voou para o outro lado do quarto, batendo com as costas na parede com toda força. Balançando a cabeça, ele avançou, chocado, tossindo e tentando retomar o fôlego. — Mas é uma vaca doente, maluca e forte. Como uma gata selvagem, ela o atacou, diminuindo a distância com um salto. Ele viu o brilho de um punhal na mão dela e deu um passo para a lateral. A ponta do punhal alcançou sua bochecha de raspão. Ele caiu no chão e se encurvou, equilibrando-se nas solas dos pés e nas palmas das mãos. Girou o corpo e deu uma rasteira que derrubou Margot no chão. Ela caiu de costas de um jeito que lhe expulsou o ar dos pulmões; o assoalho foi como um tapa na nuca e seu impacto na parte traseira do crânio causou forte estrondo.

O punhal voou de sua mão e caiu, inútil, no assoalho descoberto. Devlin ficou de pé e pegou a arma. Xingou a si mesmo. Achou ter sentido uma protuberância dura quando Margot encaixou os quadris nele. Agora estava entendendo o que era. Era uma faca afiadíssima escondida no cinto. A fivela servia de guardaespadas e a ponta cortante ficava escondida detrás da lingüeta do cinto. Era mortal se manejada por mãos experientes. Escondida à primeira vista, estava facilmente à mão do usuário. Se Margot tivesse alcançado seu pescoço ele estaria agora mergulhado em uma poça de sangue, retorcendo-se em espasmos, estrebuchando e sangrando. Mas ela não acertou. Ele se endireitou e ficou sobre ela. Ela abriu os olhos rapidamente; um sorriso maldoso lhe encheu o rosto e desapareceu enquanto ela focava os olhos novamente. Devlin baixou os olhos em direção aos seios expostos dela, ondulantes. Debaixo das bordas da roupa de couro, em contraste flagrante com a pele perolada, dava para ver a trama intrincada do tecido escuro. A roupa de nanofibras, é claro. Não admira que ela tenha coxas de Donzela de Ferro. A porta se abriu abruptamente e Pope entrou no quarto com uma sapa nas mãos. O homenzinho tentou bater com a sapa em Devlin, mas ele bloqueou o golpe com o antebraço esquerdo, interveio com o pé direito enganchou o braço direito ao redor e debaixo do antebraço de Pope. Torcendo o braço de Devlin em um ângulo impossível, Devlin agarrou o pulso de Pope com a mão livre e puxou para trás, estalando. Devlin ouviu o ruído típico

dos ossinhos do pulso quebrando enquanto o baixinho musculoso gritava de dor. Pope soltou os dedos da sapa. Mas Devlin estava em desvantagem. Três seguranças de pescoço grosso, mais o senhor Miles, o outro homem do SIS, correram para o quarto e precisaram de apenas três minutos de espancamento para deixá-lo sem sentidos. Devlin recuperou a consciência e piscou os olhos, sentindo a luz áspera da manhã cegá-lo momentaneamente ao penetrar pela janela. Piscou os olhos novamente e começou a enxergar melhor. Olhos verde-garrafa lhe fitavam. Era Blair. Ele tentou se sentar, mas a dor na parte de trás da cabeça latejou e ele caiu de volta. — Ei, devagar aí, Sherlock — a voz tranqüilizante de Blair era como uma espécie de coro angelical para seus ouvidos. Ela estava sentada na cama, com a cabeça dele no colo e pressionando um pano úmido em sua testa. Ela tocou de leve o rosto dele com a ponta do dedo. Ele hesitou e gemeu de dor. — Ei, isto dói. — Que bebê chorão. Que diabo aconteceu com você? Ele fez uma careta e limpou a garganta. Blair pegou um copo da mesa de cabeceira e levantou delicadamente a cabeça dele, levando-lhe o copo aos lábios. Quando ele terminou de beber ela pôs o copo de novo na mesa e começou a limpar o rosto dele com uma toalha limpa. — E então? — ela insistiu. — Pope e os capangas de Gant sapatearam na minha cabeça, presumo.

Ela revirou os olhos. — Imagino que você tenha vindo me salvar? Ele deu um sorriso desanimado e fez que sim. — Maravilha — Blair balançou a cabeça de leve e observou o pescoço dele. - Não sei quem é Pope, mas a não ser que ele seja um travesti com unhas de vinte centímetros, é melhor você se explicar, cavalheiro. Brody levou a mão à nuca e sentiu os arranhões profundos com uma crosta de sangue coagulado. Então se lembrou de Margot e do pequeno entrevero sadomasoquista entre eles. Tentando fazer cara de inocente sem conseguir, ele explicou — Tive um pequeno conflito com Margot Gant, também. Luta como uma gata do inferno. Blair puxou o colarinho dele e balançou a cabeça afirmativamente, apertando os olhos. — Claro, isto explica as manchas de batom no colarinho, seu mentiroso desgraçado! — ela o afastou do colo e ficou de pé. Foi para o outro lado do quarto, fuzilando-o com os olhos. — Você é um deles, não é? Devlin sentou-se com dificuldade. Sentiu-se completamente desprezível. Foi quando ele percebeu que Blair estava usando uma camisola estilo antigo, presumia que do século XVI. Ela estava tão bonita, tão elegante, apesar dos olhos furiosos com que o encarava agora. Mas por detrás daquele gênio irlandês Devlin viu medo em seus olhos. Deus sabe o que ela deve ter passado na mão daqueles lunáticos. Paranóia era uma reação natural de cativos. Arrancados da segurança de sua existência cotidiana, eles logo ficavam desorientados — e às vezes o nojo e o ódio que sentiam por seus seqüestradores se transformava em co-

dependência e até mesmo em romance. Ele tinha de fazer com que ela entendesse que podia confiar nele. — Eu não tive escolha, Blair. Acho que cheguei bem perto de ser espiritualmente estuprado. Ela deu um jeito de enfiar suas garras em meu cérebro. Blair ficou olhando por um momento, incrédula, mas então a expressão de seu rosto se suavizou. Seus olhos começaram a cintilar com lágrimas não derramadas. Ela se ajoelhou, soluçando. Foi quanto ele reparou nos hematomas roxos nos braços, pulsos e tornozelos dela. Brody foi até ela com as pernas bambas e caiu no chão em frente a ela. Ele a pegou nos braços e a beijou delicadamente na testa. Quando ele lhe levantou delicadamente o queixo lágrimas quentes desceram pelo rosto dela. — Blair, eu amo você. Não importa o que aconteceu. Estamos juntos agora, e isto é tudo que importa. — Mas aquele homem fez coisas... Devlin pressionou a ponta dos dedos delicadamente nos lábios dela e balançou a cabeça, o coração destruído só de pensar em Blair sendo torturada, mas sabia que qualquer coisa que dissesse acabaria sendo totalmente inadequada. — Tudo bem, essas pessoas são monstros. Estamos um pouco abalados, mas, ao menos por enquanto, você está em segurança — ele deu um beijo de leve em seu lábio machucado. Então ela começou a rir, apesar de lágrimas furiosas lhe descerem o rosto. Um pequeno sorriso se fez e ela limpou o rosto com as costas da mão. — Acho que somos mesmo uma

dupla e tanto — ela fungou e lhe acariciou o rosto. — Eu odeio você, Brody Devlin. Você é um teimoso. — Não, sou apenas persistente. — E mente mal demais. — Nada, apenas uma mentirinha sem graça e totalmente estúpida de vez em quando. — Típico... homem! — Blair sorriu e lhe beijou longa e fortemente. Então chegou mais perto e sussurrou em sua orelha: — Tenho certeza que há escutas neste quarto. Brody assentiu, concordando. Então tirou um pequeno revólver Derringer do salto falso do sapato, com cuidado para esconder o gesto com os corpos de ambos, e pôs na palma da mão de Blair. Ela arregalou os olhos brevemente e continuou a beijá-lo, encaixando o pequeno revólver por dentro do vestido. Ele recuou e a levantou em seus braços, deitando-a gentilmente na cama. Abaixou-se em direção aos lábios dela que esperavam, e a beijou outra vez. Ela fungou e ele tirou um lenço de dentro do bolso do paletó e limpou o nariz dela. Ela sorriu. — Esta é minha garota - ele disse. Se serve de consolo, seu irmão saiu do CTI e os médicos dizem que a condição dele é estável. Liguei para o hospital a caminho daqui. Ela suspirou pesadamente. — Graças a Deus. Ele saiu da cama. Foi até a janela, olhou para o pátio lá embaixo. Equipes de seguranças com pastores alemães encoleirados patrulhavam os arredores. Deus, por que cães de guarda?

— Está tudo trancado a sete chaves lá em baixo e os vidros são de Plexiglas à prova de bala. Eu tentei — ela apontou para uma cadeira quebrada no canto do quarto. Ele olhou para ela, perplexo, e virou para a porta. Blair revirou os olhos. — Verdade, Brody. Eles têm uma guarda nazista lá fora. Você realmente acha que as mulheres não entendem destas coisas, não é? Para seu governo, eu tive um Land Rover no Iraque que era blindado e com janelas à prova de bala. Satisfeito? Ele deu meia-volta e se jogou na cama ao lado dela. — OK, então no momento estamos ferrados, Mata Hari. Ela torceu o nariz arrebitado. — Ela era holandesa e meio gordinha. Além do que, ela não foi morta por um pelotão de fuzilamento? Brody sorriu e apontou para sua camisola. — Mas ao menos você está vestida de acordo com a ocasião. Como ela, você pode morrer com estilo. Blair fechou a cara. — Muito engraçado. Então, qual é o plano? — Hora das perguntas. Conte tudo que aconteceu. Não deixe nada de fora. Seus olhos se arregalaram e ela murmurou — Mas as paredes têm ouvidos. — Você não vai falar nada do que eles já não saibam, não é? — ele deu um sorriso caloroso e tocou-lhe o pulso. — Por que não começa... — ele fez menção à camisola — ... com o modelito que você está usando? Ela alisou as dobras da camisola com a mão. — Encantador, não é mesmo? Mas, honestamente, eu não faço idéia. Parece

não? Seja como for. mas não acho que uma fogueira seja a resposta. nua. Davy Crockett — ela disse. Com as mãos cheias de artigos de escritório. Chamas lamberam o cesto de lixo e a fumaça começou a subir ao teto. . — Não podemos ficar aqui simplesmente sentados. eu estava apagada. Ele caminhou até o centro e começou a inspecionar as gavetas de uma mesa velha. com seus longos cabelos vermelhos caindo em cascata por sobre os ombros de alabastro. E finalmente contou sobre a garotinha que agora se chamava Wendy. droga! Wendy precisa de mim! Devlin olhou ao redor do recinto. completamente nua debaixo das cobertas. ela se sentou empinando as costas. do homem que eles chamavam de der Eisaxt. ele ajoelhou com um dos joelhos. Devlin correu para o lado dela e puxou para a porta. — Você gostou da idéia. Contou do doutor Craven. enfiou a papelada em um cesto de lixo e pegou um isqueiro do bolso. Louco. — Não se mexa. como se eu já tivesse usado antes. ficou com a voz embargada ao relatar a cena na sala de interrogatórios. Deu um amplo sorriso e acenou para as câmeras escondidas. não é? Seu velho sujo. da fascinação que ele e Al-Dajjal tinham pela tatuagem dela. Era isto ou andar por aí como vim ao mundo.estranhamente familiar. Ao terminar. Ela contou a ele da fuga no museu. Como se lesse seus pensamentos. Devlin a imaginou de pé. — Estou morrendo de frio. Então a tirou da cama e a conduziu em direção à porta. Blair franziu a testa e o repreendeu. A camisola estava jogada na cadeira.

— Há tanta coisa que tenho a lhe dizer. Quase nem conseguiu enxergar nada por entre a densa fumaça.Ele começou a socar a porta e a gritar para o segurança — Ei. Será que tinha alguma coisa queimando? Ele olhou para o fogão elétrico. Mas você está em segurança agora. que estava sendo gravada mesmo. Estava entretido com uma xícara de Earl Grey quentinha e enchendo as bochechas gordas de biscoitos empapados de marmelada. A imagem na tela era uma grossa camada de fumaça. Pegou o controle freneticamente e girou a pequena câmera ao redor do quarto. Entediado com a conversa de Devlin e Blair. Ele engasgou com o pedaço de biscoito que estava engolindo e tropeçou sobre a mesa. Capítulo 9 Ginny Doolittle e Wendy estavam dando a volta na esquina para a rua ao lado. o doutor Craven estava de costas para o monitor de vigilância. ele também tirou os fones de ouvido. Nenhum fio exposto. pequenininha. Fogo! No quarto adjacente. Nada incomum lá. onde ficava o apartamento de Ginny. herr Arschloch. Quando olhou na tela de TV a xícara caiu de seus dedos de salsicha e despedaçou no chão. Está entre amigos. A porta da sala estava totalmente aberta e não estava vendo Devlin nem Blair em parte alguma. Ele torceu o rosto e sentiu o cheiro no ar. .

mas Wendy sim. abriu a porta traseira e fez um gesto para que entrassem. lutando com seu francês e não conseguindo muita coisa. O idoso descansava as mãos em uma bengala preta e brilhante que estava entre seus joelhos. .Bonjer. Wendy se sentiu tão pequena sentada no luxuriante assento de couro. Ambos tinham cabelos brancos como neve e olhos azul-claros. Wendy achou que parecia um conto de fadas. — Amigas. o couro fez um barulho guinchante. Wendy os observou. Eles pareciam ter saído das páginas de um livro de histórias.disse Wendy. Usavam roupas à moda antiga. Mon-swer . e a mulher matinha as mãos pacificamente dobradas sobre o colo. O motorista. Ginny não reparou. Elas entraram na limusine e o motorista fechou a porta. O casal de idosos sentados no banco em frente a ela e Ginny deu risinhos. sinalizou cuidadosamente e pôs o carro na rua habilmente. Ele então retornou à direção. saiu calmamente do comprido veículo. veja. Ela puxou a saia esfarrapada da velha senhora e apontou para a limusine. Quando ela esfregou o traseiro para se acomodar. envergando um uniforme muito bem passado. Ela deu risada. direto de alguma velha fotografia para o mundo moderno. . — Ora.Wendy olhou nos olhos calorosos de Ginny e balançou a cabeça. aqui estão nossos amigos — disse Ginny. Ginny? Um reluzente Rolls-Royce Phantom parou ao lado e estacionou no meio-fio.

— Os Thari são um grupo muito antigo de pessoas sábias e gentis. Ele ajeitou a boina. Tive de mentir ao senhor quando disse que minha mãe estava me chamando. Wendy virou para Ginny. Perenelle. Ele piscou o olho. Os Druidas conheciam os segredos da natureza. minha querida. filha.. Nós sabemos exatamente quem você é.. filha. minha queridinha. deparou-se com o olhar dele.. amigos nunca são demais. de um grupo antigo que chamavam de Druidas. Mas meu nome é Nicholas. acanhada. — Do Thari? — Wendy perguntou. E não precisa se apresentar. Estes são os amigos de quem lhe falei.Os olhos do idoso cintilaram quando seus dedos longos coçaram o cavanhaque. os mistérios do . Eles vêm de anos atrás. — Desculpe. Desconcertada. filha — disse Perenelle. já faz um tempinho que estamos de olho em você. e esta é minha adorável esposa. — Nicholas é meu anjo guardião? — Bem. Você é uma menina muito especial e agora faz parte do Thari. — Pedir desculpas é desnecessário. O idoso se inclinou para frente.. — Hoje em dia. Wendy abaixou a cabecinha. mademoiselle. — Na verdade. — Sim. Apesar de agora ele estar com roupas elegantes. Meu nome. não mesmo. algo do tipo. Wendy o reconheceu como o mesmo senhor com as sacolas de compras que ela ajudou a entrar no edifício marrom. Wendy baixou os olhos e. — Então nos encontramos novamente.

— Às vezes posso ver as coisas em minha mente. a menina não pode ficar andando por aí descalça e de camisola. Minha bailarinazinha. — Os elementos? — Os metais e o poder que mora dentro de todos nós. — Maurice — Nicholas disse ao motorista. Eles eram que nem Ginny. — Bem que eu poderia voar em vez de andar com estes pés inchados. Wendy recebeu a grande caixa de roupas no colo. Wendy ergueu a cabeça. filha — Nicholas persuadiu. E às vezes. — Vá em frente. E eles transmitiram esse conhecimento aos Thari. Wendy levantou a tampa e deixou cair no chão da limusine. Wendy deu de ombros. meio doidinhos. Perenelle abaixou a mão e tirou o sapato de salto alto e começou a massagear o pé.universo. — Nicholas. Arrancou o papel de embalagem e se deparou com um lindo vestido branco e sandálias de cetim no mesmo tom. Perenelle tem olho bom para essas coisas. conhecem os segredos dos elementos. A senhora franziu o cenho e deu um olhar de cima a baixo em Wendy. mas divertidos e gentis. posso voar. Pelo que sei você também tem dons especiais. . Wendy gostava daquela gente. meu Deus.Pezinhos delicados e adoráveis que ela tem. . — Acho que as roupas vão lhe cair como luvas. Os Thari. O homem deu um tapinha no pé da esposa. por favor. — Queira ter a gentileza de entregar aquela caixa para esta jovenzinha. por sua vez. quando fico com muito medo.

E à medida que vocês forem crescendo. um perigo em potencial. você quer dizer que minha cabeça vai inchar que nem um melão gordo? Nicholas sorriu suavemente. Wendy escutou quietinha. mas eu acabei de inutilizá-lo. — O que foi. o homem pegou o braço dela e passou os dedos longos e estreitos. — Mas há. Lembre-se sempre que esses dons trazem uma grande responsabilidade. Gentilmente. Cabeçudo no sentido de vaidoso. O velho senhor se voltou para Wendy.— Parece um vestido de princesa — Wendy disse. contudo. as forças das trevas estão à espreita neste universo de Deus para lhe pegar. — Você é uma boa menina — disse o velho. Você nunca pode se achar melhor que os outros. sorrindo calorosamente. seu tom permaneceu gentil. Porque no momento em que você abrir essa porta. mas ela detectou uma nova seriedade em sua voz. vão aprender a controlar esses dons. Você e os Garotos Perdidos da Escola Éden são Crianças índigo. — Amorosa e de boa índole. — Deus. — Filha. todos igualmente agraciados com dons mágicos. . nem superior em sentido algum. prestando atenção a cada palavra. Ela abaixou o vestido e olhou nos olhos dele. Wendy olhou para o antebraço. . por favor. filha.Não. Perplexa. deixe-me ver seu braço. — Isto basta — ele disse. Já vi alguns índigos ficarem bem cabeçudos ao crescer — Nicholas percebeu o cenho franzido de Wendy. filha? Seus belos olhos irradiavam sinceridade. — Aquelas bestas implantaram um rastreador no braço dela. levantando a camisola.

— Sim. . sinto muito — Wendy disse à senhora. — Ah. uma garrafa térmica com chá para os adultos e para Wendy uma garrafa de leite resfriado em balde de gelo. O recheio do doce caiu no banco do carro. Mas suas más ações as transformaram em um pedaço de carvão. Nicholas apareceu com uma caixa de docinhos. na sua alma. francamente — Perenelle disse ao marido. — Portanto. fazendo uma careta. Pessoas maldosas que só buscam poder e fortuna. meu Deus. que só podia ser vista por almas sensíveis dotadas de sexto sentido. nada de soberba e devo sempre manter minha porta fechada. — Quero dizer a porta de suas emoções que dá no seu coração. Eles conversaram por algum tempo. — Acho que eu sei o que você quer dizer — Wendy disse. minha querida — respondeu Perenelle. Ela deu risada. — Opa! — Querido. — Você está confundindo a pobrezinha — virou para Wendy. Ele disse a ela que essas crianças normalmente tinham maravilhosas capacidades mediúnicas: poderes de telecinésia e telepatia. — Sabe. O homem virou a cabeça e Wendy deslizou para dentro do vestido novo. docinho.A garotinha torceu o nariz. Nicholas explicou que as Crianças índigo tinham esse nome por causa da radiante cor azulada que emanava da aura deles. gente que quer roubar seus dons. certo? Ele balançou a cabeça e sorriu. — Pessoas como o Capitão Gancho ou a senhora Baylock da escola. tem gente muito ruim neste mundo. — Suas almas eram como as nossas quando eles nasceram. brilhantes como diamantes reluzentes.

Afinal de contas. não é? Wendy sentiu a presença de Blair antes de escapar da Escola Éden. A limusine estacionou. — Ah. Maurice vai limpar isto num instantinho. você prometeu que ia voltar para ajudá-los. contudo. — À distância. com o mar negro e feio ao fundo. estava o Solar RAVENSCAR.. a sensação estava forte.. Agora. Maurice — ela disse ao motorista. Não preocupe essa cabecinha linda — a velha senhora calçou o sapato novamente com dificuldade e olhou pela janela. Mas achou que fosse mera esperança. substituído pela autoconfiança de uma garotinha que tinha um bom senso além de sua idade. — Os Flamel não são pessoas maravilhosas? — Ginny disse. não precisa temer. filha — disse a mulher suavemente. onde estamos. — as palavras entalaram em sua garganta. — Santo Deus. uma garotinha que sabia seu propósito na vida. — Já chegamos? — Sim. depois de um bosque de carvalho. .— Ah. apertando com firmeza a mão da velha senhora e acenando com a outra para a limusine que se afastava. Wendy se ajoelhou no banco e espiou pela janela. senhora — respondeu o motorista. Wendy sentiu o sangue fugir do rosto e seu coração bateu tão forte que parecia a ponto de explodir do peito. Wendy parou ao lado de Ginny. E seu medo começou a se dissipar. — Blair e os Garotos Perdidos precisam de nossa ajuda.

Ginny levantou o pescoço. Ficou parada em frente à porta. a velha mendiga foi cambaleando em meio ao bosque tão rápido quanto lhe permitiram suas pernas finas cobertas por meias. — Sim. — E se ele não tivesse aberto a porta? Qual era o plano B? Devlin a puxou para outro corredor. minha pequenininha. — Não tinha plano B. os passos deles soando como trovões no chão de madeira dura. Capítulo 10 Quando o segurança arrombou a porta Devlin estava esperando de um dos lados da porta. — Eu tenho mãos frágeis — Brody explicou. Com a princesinha a reboque.Wendy torceu o nariz. Ginny deu uma risada esfolegada. Como um velho cão sentindo cheiro de guaxinim. . na verdade. O idiota de olhos abobalhados foi direto até Blair. não são? Mais velhos do que parecem. e Devlin pulou e deu uma pancada forte na nuca dele com a base de uma pesada luminária. Eles estavam correndo pelo corredor abaixo quando Blair disse — Pensei que caras como você usassem golpes de karatê. de costas para a parede. Ela quase tropeçou quando dobraram para pegar outro corredor e Devlin a segurou pelo braço para ela não cair. — Lá vamos nós. sentiu o cheiro da brisa fria e virou a cabeça na direção do solar. velhos como a necessidade. Blair havia abaixado a parte de cima da camisola para mostrar bem o colo. meu amor. — Eles são bem velhinhos mesmo.

— Que diabo isto tem a ver? . bem colado à parede. — Dê isto aqui — ela gritou e arrancou a espada das mãos dele. Quando a boca de uma submetralhadora .Mel Gibson sabe dançar. empurrando-o para ficar perto dela. Devlin encolheu os ombros e baixou os olhos em direção à escada. Blair zombou. . No patamar foram recebidos por um cavaleiro de armadura. — Dois pés esquerdos. Arfando. — Sabe. Passos pesados ecoaram no corredor mais à frente. Eles deram meia-volta e pegaram uma escadaria. Aparece aqui sozinho. você é brilhante mesmo. Você sabe.Tem um velho ditado celta que diz "nunca dê uma espada para um tolo que não sabe dançar". com a cabeça encostada à parede.. segurou a espada acima da cabeça... subindo as escadas atrapalhadamente. — Jogue fora esses malditos sapatos de salto alto! — ele disse. Devlin arrancou a espada da mão da imitação de cavaleiro medieval. — Você sabe usar este negócio? — Bem. Ela jogou. Quando chegaram ao próximo andar. Devlin seguiu atrás dela. Blair esticou a mão habilmente e o agarrou pelo colarinho. Tarzan. não relata à sua unidade onde foi. eu vi Coração Valente seis vezes..— Que droga! Calma aí. não notifica as autoridades que eu fui seqüestrada. você sabe? Ouviram o som das botas dos seguranças subindo as escadas atrás deles. Bem.

— Imagino que você também queira isto aqui. Ele caiu desmaiado no chão aos pés dela. Eles os viram e levantaram as armas. Levantou a mão e bateu com força no rosto dele. — Vamos dar o fora. Blair desceu a espada. acertando em dois dos seguranças. esses cretinos gostam mesmo destas metralhadoras. Soltou uma segunda rajada. A parede ao lado de Devlin fora crepitada por saraivadas de tiros e seu cabelo ficou coberto por partículas de argamassas. — Que diabo está fazendo aí embaixo? Levante! Vamos embora! Bufando com as bochechas vermelhas. Devlin pegou a MP-5. — Isto vai dar conta. Ele esfregou a bochecha dolorida. Pularam o corpo desfalecido do segurança e foram seguindo pelo corredor. com licença — ele disse. Fagulhas voaram quando a espada enorme jogou a H&H MP-5 no chão. empurrando Blair para baixo e se ajoelhando em um só joelho para soltar uma rajada de tiros. Ao longe apareceu outra aglomeração de seguranças. Ela içou a Derringer. Eu lhe dou cobertura. Blair foi engatinhando pelo corredor e dobrou em uma curva. — Nossa. De repente. Atônito. Devlin apareceu de pé ao seu lado. e outro agressor caiu duro. — Ah.apareceu no canto. olhando para ela com os olhos esbugalhados e despreparados. o agressor ficou parado. oferecendo a arma a Blair. ela ficou de pé e o cercou. — Por que diabo fez isto? — Eu gostava demais daqueles sapatos! . Blair girou a espada de novo e bateu na cabeça dele com o lado chato da espada.

Sem uma palavra. Os dois homens viraram lentamente. A sala tinha pouca luz e eles foram passando por fontes de luz que abriam um caminho pouco auspicioso no breu. Devlin agarrou o braço de Blair e pararam no piso duro e encerado. Ela se abriu para um segundo vestíbulo. Vozes vinham de trás das portas. antisséptico e pesado ao entrarem na sala. Alcançou-a logo em frente às portas. de costas para eles. . ambos correram em direção às portas duplas. Subitamente um banco de luzes ao alto se acendeu. Devlin ficou parado. As paredes e o chão cintilavam de tão brancos e mais além havia um segundo par de portas de aço inoxidável. inundando o recinto de luz ofuscante. dois vultos do outro lado da sala comprida.Ela caminhou com toda determinação em direção a um par de portas enormes revestidas com couro ornamentado com metal. Ao longe dava para ele enxergar. — Que acha? Blair olhou feio e pôs o ombro na porta. apontando para as costas dos homens. Devlin levantou a MP-5. embora não muito bem. aos berros. olhando para o rebolar daquele belo traseiro. Correndo. Veio um fluxo de ar frio. Piscando e tentando ajustar os olhos à luz intensa. — Não estou gostando disto — disse Devlin. Devlin sentiu que a sala era cavernosa. que se abriram totalmente com um sibilar pneumático quando eles se aproximaram.

seu açougueiro de sangue frio. fechou os olhos e beijoulhe a ponta do nariz. Devlin mirou nele. encostou o nariz aos longos cachos caídos sobre o rosto dela. major Devlin — disse Gant. — Que verve sardônica.. Pendurados em uma passarela de aço logo acima havia uma fila de seguranças com suas metralhadoras automáticas apontadas para Blair e para ele. Ela esticou a mão e fez Devlin baixar a arma. Uma pancada nas panturrilhas fez Devlin cair de joelhos. Al-Dajjal agigantou-se sobre eles. se achasse que você realmente tem coração. Al-Dajjal jogou a cabeça para trás e soltou uma risada gélida. Puxou Blair pelo queixo rudemente e a fez encará-lo. Devlin olhou para cima. — Que gentileza a sua se juntar a nós.Al-Dajjal e Heinrich Gant ficaram olhando atravessado para eles. Do alto veio o som arrepiante de armas sendo engatilhadas por mãos que não se via. Realmente sentirei sua falta. . respirou fundo. vejo que está armado. major. diminuindo a distância. Al-Dajjal deu um passo à frente. Um segurança com cara de touro forçou Blair a se ajoelhar. os braços ao lado do corpo com as palmas estendidas como quem se rende. — Ora. Do canto do olhou. Ele se inclinou. Suponho que gostaria de me dar um tiro bem no coração. certo? — Eu faria isto. — Senhor Devlin.. Devlin viu Blair olhando para cima e depois novamente para ele. Dois seguranças vieram por trás e pegaram a MP-5 que ele segurava.

preparando-se para esbofeteá-la com as costas da mão. virando pescoços e causando revolta de motoristas desavisados... e cuspiu no rosto dele. soltou o queixo de Blair. deu meia-volta em suas botas e saiu marchando. Eles fizeram tudo para que acabássemos exatamente aqui. Brilhante. os passos ecoando na escuridão. — Ah. Blair zombou de Devlin entre dentes enquanto seguiam. O louro grandão levantou a mão. quem precisa deles? Escrotos! — Blair respondeu. . espetando as costas dos dois com as bocas de suas armas à medida que eles cambaleavam adiante. mas Gant falou lenta e vigorosamente — Não marque o rosto dela! Al-Dajjal recuou. Os guardas os levantaram brutalmente e os empurraram para a frente.. realmente brilhante! Presumo que você tinha algum plano melhor. é? Pois digo o mesmo em dobro. repugnada. irmã... Gritou para um guarda — Traga-os! —.Ela recuou. mas achou melhor guardar para si mesma. xingando-o entre dentes. quebrando a nova lei britânica de trânsito enquanto corria disparado pela rodovia interiorana. Homens. não é. Depois de perder o Bentley preso no trânsito. princesa? — Seu idiota teimoso. — Você sabe que nós somos como ratos em um labirinto. Chewie e Scout presumiram que Devlin fora levado para a propriedade de Gant em Devon. Chewie levou o Jaguar ao limite de velocidade.

Ao fazerem a última curva. puxando o freio de emergência com a mão que mais parecia uma pá. Scout engoliu com dificuldade quando o Jaguar passou por um declive na estrada e depois por uma elevação. Do nada. ágil como um tubarão feroz e depois voltando ao meio da ruela estreita. — Caraca! Aqui. Eles frearam cantando os pneus e bloquearam a estrada. rezando orações que achava ter esquecido muito tempo atrás enquanto dava as direções ao índio maníaco detrás do volante. — Cara. eles estão levando essa história de limite de velocidade muito a sério hoje em dia — Chewie conseguiu dizer. . As portas dos dois Land Rovers se abriram e saíram soldados apontando metralhadoras automáticas para o Jaguar. enquanto a outra virava o volante na direção anti-horário até ele travar. Sou novo demais para morrer! Um estouro gutural veio do escapamento duplo e Chewie grunhiu e diminuiu a velocidade. — Quanto falta? — Chewie gritou. Scout estava grudado ao banco. dois enormes Land Rovers com sinalização militar atravessaram os canais e vieram dos dois lados. Chewie. entre nesta estrada lateral! O ágil veículo esporte virou com tudo na curva. os pneus mastigando o asfalto enquanto Chewie executava um perfeito giro de 180 graus. A traseira do Jaguar girou rapidamente. — Maldição do inferno. pegando a estrada com seus grossos pneus enlameados. fazendo o chassi do carro voar momentaneamente e cair na estrada outra vez. quase fazendo o crânio de Scout bater no teto do automóvel. morto de medo.

não vou! — Chewie gritou enquanto afundava o pé tamanho 46 no acelerador. Deus! Não me diga que vamos. as mãos enfiadas nos bolsos da capa de chuva.. — Ah. franzindo o cenho e freando — estou ferrado se tiver de comprar outro Hertz e um Jaguar novinho em folha. — OK. Acho que você não vai acreditar se eu disser que estou com minha esposa grávida quase dando à luz no banco de trás e eu estava correndo para levá-la ao hospital. com seus pequenos tufos de cabelo e as abas da capa de chuva voando sob o impulso das hélices do helicóptero. foi o que eu pensei — Chewie disse enquanto dois soldados o faziam sair do carro sob a mira de armas.. — Este carro é alugado! Scout ficou olhando com olhos grandes como pires enquanto um grande helicóptero preto sobrevoava a estrada em frente a eles. — Em uma só palavra..Ah. o inspetor-chefe Newley correu até eles com dois policiais prontos para atacar logo atrás. fazendo o Jaguar tomar a direção oposta. Uma rajada de metralhadora . diabo — Chewie disse com uma voz triste. mas sob controle. — Scout disse. Os disparos não atingiram a frente do Jaguar por questão de centímetros. afastando-se do bloqueio.50 rasgou o asfalto na direção deles. O helicóptero aterrissou e a porta lateral se abriu. De cabeça baixa. não é? Newley ficou olhando. Chewie abriu a janela do Jaguar e sorriu cheio de dentes para o inspetor. NÃO! — É. — Isto basta! — Chewie disse. .

Scout estava com o estômago na garganta. mas infelizmente sua unidade foi pega de surpresa. bloqueando o caminho. — Caiu fora senão te quebro a. Ouvi dizer que você anda dando muito trabalho. Parece que o motorista de Sir Nigel agarrou seu chefe Bill Sorenson e a senhorita Madison Dare ontem à noite. ansioso — Onde ela está? — Calma. estão sendo mantidos contra a vontade em RAVENSCAR. Um policial do SAS os encontrou e saiu caminhando com Newley. Finalmente. Chewie saiu do carro e começou a seguidos. — É. Newley virou para trás fazendo cara feia. suspeitamos que ela. mais o major Devlin e a doutora Kelly. triste. mando abrir suas algemas. Suicide is Painless. Temos a prova. Newley mandou o policial soltá-los Enquanto Scout massageava os pulsos.S. Era o sargento Conners.H. — Chewie parou no meio da frase. Precisávamos que ele deixasse pistas. pararam.Sentados no banco de trás do Land Rover com as mãos algemadas para trás. enquanto Chewie assoviava o tema de M.. De sua posição à direita da dianteira. meu velho. Chewie perguntou. . Scout ficava balançando a cabeça. Chewie fez que sim.A.. O Land Rover sacolejava pelo campo não-asfaltado enquanto ele falava. Newley explicou — Nós temos ficado de olho em Sir Nigel Cummings já faz um certo tempo. — Agora. mas um policial armado até os dentes parou na frente dele. rapazinho. se os dois camaradas aí prometerem se comportar.

Mas a equipe do SBS. para fazer uma entrada sub-reptícia. contrapartida britânica ao Comando Especial da Marinha Americana. — Quando ele estiver bem pronto. o que significava que eles teriam que resolver a situação com um ataque frontal do SAS. aí que está o problema. Comando Naval Especial. estava no momento. que olhou nos olhos dele com o rosto pétreo e o queixo duro. — São quase dez. Isto exigia uma equipe do SBS. Gant é uma espécie de Professor Pardal maldito em se tratando de projetar novos armamentos. Basicamente. Quando Newley vai entrar? Conners puxou o bigode de leão-marinho e deu um suspiro. — Sargento Conners. O sargento Conners parou perto de uma mesa coberta por mapas e fotos de satélite e começou a mostrar a Chewie e a Scout o esboço da mansão enquanto bebericavam café em copos de isopor. Conners explicou que o reconhecimento do território inimigo mostrou que havia uma caverna no lado litorâneo do solar que dava na praia. rapazinho. . ponha-os a par da situação — e saiu. entretanto. O sargento Conner balançou a cabeça e disse com voz grave É. filho — piscou os olhos nervosamente para Chewie.Newley parou e virou. dois esquadrões do SAS foram convocados. ocupada com outra operação. pois Heinrich Gant era um traficante de armas com acesso a armamentos avançados. — Você faz alguma idéia do que eles vão enfrentar? — Chewie perguntou. Especialmente lindas desgraças automáticas. Scout olhou nervosamente para o relógio de pulso.

O jovem soldado esticou o braço e virou um monitor com vídeo em tempo real da câmera do posto de observação. interrompendo a conversa. — Desembuche. senhor — ele se encolheu como quem espera levar um soco. Conners os conduziu até o inspetor Newley. ele começou — Senhor. rumo à escola. — Está me dizendo que eles localizaram uma aeronave vindo em nossa direção. homem! — Senhor.Scout conhecia aquela cara.. de mãos dadas com uma velha senhora cuja outra mão estava firmemente plantada no alto da cabeça. soldado? O jovem engoliu em seco. como se segurando o chapéu frouxo. O capitão fez cara feia. — Eles dizem que uma criança e uma mendiga velha acabam de voar por sobre a posição deles ao nível da copa das árvores. me perdoe. Limpando a garganta. Queria dizer que Chewie era um fio desencapado e estava a ponto de gerar uma explosão a qualquer momento. Um jovem e pálido oficial do SAS com fones de ouvido virou para seu oficial de comando. . — Não exatamente. A imagem da garota de vestido branco brilhante sob o Sol luminoso. — Ele deu um passo para trás e fechou os olhos.. planando por sobre os carvalhos e cruzando uma campina. que estava com uma unidade de controle de comando e comunicação. o posto de observação seguinte acaba de informar que há uma aeronave não identificada. mas. O capitão soltou uma saraivada de palavrões.

menos Newley. parecendo um robô mortífero. um pedaço enorme de terra cedia e caía enquanto um aparelho metálico surgia debaixo da terra. O sargento Conners riu alto.Ora. Começou a girar com movimentos lentos. Tem visão infravermelha e térmica e alvo a laser. é um Samsung Sentinel. dois homens foram localizados. do ponto de vista do robô-sentinela. Scout explicou. . fotografando o panorama. Em segundos ele atirou a primeira vez emitindo um flash luminoso. Na tela. Lentes grandes em forma de caixa olhavam fria e desumanamente pelas laterais. Funciona como um robô-sentinela. A voz de um narrador coreano explicava de modo bem direto . Uma caixa quadrada marcava o alvo do robô. boquiabertos. Uma luz vermelha piscava no meio da imagem do alvo.. Scout reparou. algo está acontecendo! Como se um buraco gigante tivesse se aberto na superfície. depois mirou no segundo alvo e atirou outra vez. — Senhor. E está equipado com um lançador de mísseis! Newley perguntou — Ah.Os homens ficaram olhando para a tela. As lentes do robô seguiram seus movimentos.. filho? A besta de metal subiu cerca de metro e meio. — Os coreanos desenvolveram essa máquina e colocaram no mercado. aqui. A câmera voltou para o nível do chão e deu closeup. Scout disse em altos brados — Caraca. Todos. se não é a Mary Poppins em pessoa. deixe lhe mostrar — Scout foi ao teclado e abriu em um website. — Aqui tem um vídeo do velhaco em ação. que diabo você disse. sinalizando que a mira estava certa.

com seu inglês ruim que o robô não comia. Ele se virou bem a tempo de ver Chewie detrás do volante de um Land Rover que estava perto.Maldição do inferno! Ah. Depois veio uma demonstração de seu sistema de defesa do solo ao ar. Todos os olhos se voltaram para o vídeo ao vivo assim que o robô mirou seu alvo em direção ao céu. O capitão foi para o lado de Newley. Mas depois de avançar o Land Rover desacelerou violentamente. dando tchauzinho e sorrindo de orelha a orelha enquanto o sargento Conners entrava do outro lado batendo a porta do carona. cantando os pneus e cobrindo o inspetor Newley de lama da cabeça aos pés. — Ah. apontando para o rosto enlameado do homem. olhando pela cerca com malha em forma de corrente ao redor do complexo da Escola Éden. Detrás dele o jovem soldado gritou — Senhor. o robô acabou de lançar um míssil Starstreak! Capítulo 11 Os Garotos Perdidos estavam agachados e agrupados. você não vai fazer isto não. — Desligue esta máquina maldita antes que atirem na menina e na velha! — Newley gritou. não dormia. Cansei das suas estripulias. não precisava descansar. Newley saiu correndo atrás deles e gritou . entregou-lhe seu lenço de bolso. . A atenção de Newley foi atraída pelo urro alto de um motor em funcionamento. meu Deus! — disse Newley. seu índio maluco filho da puta.

Estou vendo um míssil sendo lançado em poucos minutos e ela e a velhinha vão explodir em pedacinhos quando forem atingidas! Gabriel levantou os olhos marejados e apertou o braço de Peter. Peter. Peter baixou os olhos.Gabriel sentiu a presença de Wendy. protegendo os olhos do Sol forte com as mãos. — Estou vendo — Peter disse. Deus. Raji disse em tom grave — Ah. procurando desesperadamente por vislumbre de Wendy. deixando de atingir Wendy e a velha .. querendo participar. — Eu também! — disse Gabrielzinho. o míssil virou abruptamente à direita. — E ela está com a fada-vovó.. Como se guiado por uma força invisível. Como espectadores de um show aéreo. De repente um míssil deixou um rastro pelo céu azul. os Garotos Perdidos levantaram os olhos simultaneamente. com os dedos segurando firmemente os aros da cerca contra a qual apertavam os narizes. — Faça alguma coisa. Peter e Gabriel ficaram parados. Use seus poderes. ela está voando. Wendy está em perigo. então os garotos saíram correndo para o playground. Seus olhos se encontraram e Peter balançou a cabeça. Johnboy gritou e apontou para o céu — Olha! Lá em cima. animado. Johnboy gaguejou — Cara! O míssil está indo bem na direção delas! Peter endireitou e ficou olhando fixo para o míssil. Levou as mãos às têmporas e franziu o cenho em intensa concentração.

meu velho. homicidas. envolvidos por crostas de vespas marrom-amareladas. Dois funcionários a acompanhavam. Deu meia-volta e desceu. Ao se aproximar. Ricocheteou no robô-sentinela fazendo um estrondo ensurdecedor e brilhando forte como um raio. Eles viraram e a viram chegar com seu passo sinistro como um chacal faminto. pulando para cima e para baixo — Você conseguiu! Raji bateu nas costas de Peter e sorriu. — É. encarando com raiva os agressores que se aproximavam. Os Garotos Perdidos deram-se as mãos e estavam lado a lado. você é o maior. Ouviram ao fundo o rangido penetrante da voz da senhora Baylock os chamando. os homens lutaram em vão para espantar o ataque dos insetos. Os funcionários brutamontes seguiram em frente. — Mandou bem. . A cor de seus olhos passou de índigo profundo a branco rezulente. Peter soltou a respiração ruidosamente e balançou a cabeça. Peter — Johnboy acrescentou. Gritando e batendo os braços. Gabriel gritou de alegria. obliterando a máquina por completo.senhora por pouco. os olhos amarelados ardendo. Um som muito agudo encheu o ar e uma nuvem negra de vespas saiu das árvores e atacou os funcionários. — Não tinha certeza se eu conseguiria mexer algo tão grande e tão longe. Baylock ordenou — Pegue estes bastardinhos! Leve todos para o Quarto Escuro. Caíram no chão. um de cada lado.

Baylock estava como uma estátua. apontando o cano do revólver para seu próprio peito. A arma de Baylock começou a sacudir violentamente e o pulso dela virou lentamente. Gabrielzinho. Baylock ficou parada que nem uma estátua. radiantes. os olhos arregalados de terror. seus diabinhos. Peter olhou bem nos olhos da mulher. os olhos arregalados de terror. Em um último esforço para deter o inevitável. Usando do poder de ver segundos à frente do tempo. — Não olhe até eu mandar. — Está certo — disse Gabrielzinho. que ainda estava com os olhos brilhando. Soltou um uivo de frustração e disse — Depois eu lido com vocês. Gabe — ele disse ao irmão menor. disse baixinho — É melhor você nos deixar em paz. mas era como se seu braço estivesse possuído. Baylock agarrou o cano da arma com a mão livre para afastar a arma do corpo. Peter ficou olhando. ele visualizou os rostos dos outros meninos e meninas que a senhora Baylock havia arrastado para o Quarto Escuro para nunca mais voltar. Raji gritou — Ela está armada! Em seguida apareceu um revólver na mão esquelética de Baylock. Em sua mente. sua bruxa velha. Baylock começou a fugir. sem tirar os olhos da mulher. detendo-a com sua força luminosa. Caminhando lentamente para trás com seu olhar apavorado cravado nos Garotos Perdidos. . olhos de fogo e gelo. fechando os olhos e virando a cabeça. seus olhos com um forte brilho brancoazulado.

e o brilho em seus olhos foi lentamente desaparecendo. primeiro lentamente. A luz intensa lhe cegou momentaneamente. Wendy está indo para a casa principal — Raji explicou. — Ela precisa de nós. ela nunca mais vai levar ninguém para o Quarto Escuro — respondeu Peter. Um estampido barulhento ecoou pelo playground quando saiu o tiro. depois tão rápido quando um estrobo de luz pulsante. companheiros. — E lá vamos nós de novo. O rosto da bruxa velha se contorceu em uma careta de horror quando o cano do revólver começou a levantar lentamente. O olhar quente de Peter começou a pulsar. Puxaram-lhe os braços para trás e os amarraram com fortes tiras de plástico no encosto de madeira da cadeira em que estava sentado. — Acabou? — Gabriel perguntou com sua vozinha.imóvel e determinado a encostar a boca do revólver em seu coração. Ele piscou os olhos. Foram levados a uma sala que parecia um vasto depósito. enchendo os pulmões de ar fresco. . e havia dois capangas armados ao seu lado. Capítulo 12 Devlin ainda estava fervendo de ódio por ter sido levado para a armadilha de Gant como se fosse um rato num labirinto. — Sim. Ele olhou ao redor. e a senhora Baylock caiu de costas no chão.

Dizem que você é um gênio. Um grupo de cabos serpenteava em direção ao centro do vasto recinto. Levantou uma pequena gaiola e foi para perto de Devlin. Blair estava sentada em uma cadeira em frente a uma mesa antiga com Al-Dajjal parado atrás dela. Gant. — Que tal minha pequena criação? Devlin sentiu todos os músculos se retesando. Gant deu de ombros e foi até uma mesa com material de laboratório. Devlin disse — Você realmente batalhou muito para conseguir seus intentos. Uma cabeça desfigurada de rato olhou para ele com seus olhos marrons.Andaimes. iluminando a parte escura do recinto bem em frente a ele. Um banco de refletores brilhou ao alto. Percebendo que era melhor ganhar tempo. . Uma língua bifurcada saía da boca da criatura. os seguranças o separaram dela. Mas onde estava Blair? Assim que eles entraram. que não estava iluminado por canhões de luz. major Devlin. — Achei que você gostaria de presenciar minha pequena experiência. Agora sei que você está morrendo de curiosidade. Técnicos com seus compridos jalecos brancos tripulavam equipamentos eletrônicos de aparência sofisticada que cobriam o assoalho encerado. Heinrich Gant resvalou das sombras. parando com a gaiola bem perto de seu rosto. passarelas e passadiços formavam uma torre circular de aço ao seu redor. repousando uma das mãos no ombro exposto dela. Devlin imaginou que os cabos seguiam pelas sombras para se conectar ao que parecia ser algum tipo de aparelho gigantesco.

Seu problema é comigo. foi o destino quem me trouxe a senhorita Kelly — ele virou e foi até a mesa. Nós descobrimos que o DNA pode ser alterado em nível quântico.revelando diminutas fileiras de dentes afiados. Mas a doutora Kelly não tem nada com isto.. — Seu sarcasmo não lhe cai bem. — O cruzamento entre um réptil e um mamífero — Gant explicou. Gant baixou a gaiola e a entregou a um assistente. está a meio caminho de ser. Ao colocar o zigoto de um roedor no raio laser e depois passar este mesmo raio pelo zigoto de uma salamandra nós conseguimos. Gant. major? Estou delirando descontrolado como se fosse algum lunático? Eu juntei uma fortuna enorme. — Para o senhor pareço louco. ou isto tudo é apenas algum delírio meu e seu? Um delírio no qual seu governo está tão interessado que mandou você e esta mulher aqui para roubar meus segredos. se você não é completamente louco. Mas a cabeça estava ligada ao corpo de um lagarto com garras e uma cauda achatada.. — Está jogando seu latim fora. major. Sua pele era viscosa e tinha um tom negro-amarelado. — Ah.. O cruzamento entre espécies não pode ser alcançado por este método. — Você desenvolveu algum método novo para juntar os genes? E dizem que não é possível fazer isto.. Gant. e então . Sabe. Pavoroso. A língua era preta e tinha aparência áspera. — Um rato e uma salamandra. Deixe-a ir embora. quanto a isto você está muito enganado. Devlin interrompeu. — Um monstro pavoroso. Devlin fez uma careta. Eu vim aqui para lhe matar.

Sabe. contudo. A história foi injusta para com . O manuscrito Voynich estava aberto sobre a mesa. revelando um retrato a óleo com moldura dourada. ou a pintura era uma falsificação das boas. trajando uma camisola do século XV idêntica à que estava usando agora. através destes aparatos. Brody percebeu as reveladoras rachaduras no retrato. O rosto de Blair estava no retrato. Ela levantou os olhos para Gant. indicando que das duas uma. Em tom de galhofa. Ao ver mais de perto. Gant tirou o pano. e o lábio inferior tremia ligeiramente. Um assistente apareceu ao lado dele. — Traga o major mais para perto. Você é modesta demais. ou era autêntica. Ela estava com o rosto pálido. — Ah. Os guardas arrancaram Devlin da cadeira e o arrastaram para outra cadeira perto da mesa. disse — Pelo que vejo você trouxe sua coleção de antiguidades roubadas para que eu possa admirá-la. Seus olhos encontraram os de Blair. a clarividência que você herdou que será usada para. é a sua intuição. O espelho asteca de obsidiana do doutor John Dee e uma tabuleta coberta de cera jaziam entre longas e finas velas pretas encaixadas em candelabros de ouro. segurando o que parecia uma imagem envolvida em um pano preto. por favor. Brody não conseguia acreditar em seus olhos. decifrar o manuscrito Voynich e me trará a chave do segredo. senhorita Kelly. Gant disse a Blair — Vejo por sua expressão que você nada sabia de sua amada ancestral. vamos lá. Com um leve movimento de pulso.acenou com a cabeça para o segurança.

na verdade. a Profeta de Mortlake. Alta Sacerdotisa dos Shelta Thari. Era ela quem. Pedestais de vidro adornavam um grande espelho inclinado no centro. Só se referiam a ela ao recontar o episódio da troca de casais. Blair engoliu em seco e então lhe dirigiu um olhar inquisidor. Gant deu risada e fez que sim com a cabeça. lar inglês de Dee.. Era ela quem se comunicava com os anjos. ditava a linguagem dos arcanjos para o doutor John Dee enquanto tirava a shew-stone. a chamaram de charlatã.ela e seu marido. Tipicamente machista da parte das pessoas. mesmerizada. Eles a rotularam de ladra e falsificadora de documentos e moedas. em transe profundo.. não Edward. minha querida. — Está dizendo que esta mulher é. Gant virou e estalou os dedos outra vez. Blair olhou com furiosa perplexidade. — A mulher de Edward Kelly. quase sussurrando. não concorda? Ou talvez fosse para esconder o verdadeiro segredo da Grande Obra Alquímica. era Johanna Cooper Kelly a médium. Sua antepassada. Sabe. Havia um crânio de cristal encarapitado no topo de cada pedestal. explorando as próprias feições enquanto olhava para o retrato. a soror mystica. sem falar de seus verdadeiros talentos. Mas sua mão foi direto ao rosto. A superfície do espelho era polida como um diamante. Mais refletores se acenderam detrás dele. — Os Doze Crânios Perdidos — disse Gant. E ela conseguia fazer isto por ser. como você. os altos adeptos Fraternidade Branca . — As caveiras magicamente fossilizadas dos Mestres Ascencionados.

— Passei por muita coisa e gastei muito para conseguir estes totens sagrados nos recantos mais distantes do planeta. Gant levantou os trincos e abriu a maleta. seu canalha desgraçado! Al-Dajjal agarrou os longos cabelos dela e puxou-lhe a cabeça para trás. minha chave para o outro lado. Blair aliviou a expressão do rosto e acenou para que Gant se aproximasse. Ao virar e encaixar cuidadosamente o crânio na concavidade central de um grande espelho. e assim temos treze. Um verdadeiro coven de caveiras. Foi para o lado de Blair. Não tenho talentos mediúnicos. você precisa cumprir seu destino e me guiar. Quando ele se inclinou por sobre a mesa. Pegou outra caveira de cristal e segurou às vistas de Devlin e Blair. Só você pode traduzir o Voynich com a ajuda daquela linda tatuagem em suas costas. os olhos cintilando de satisfação pelo interesse aparentemente renovado de Blair. ela lhe cuspiu no rosto. portanto. é você quem vai ser minha soror mystica. Foram levados de um monastério tibetano no alto dos Himalaias e escondidos por segurança em lugares temíveis ao redor do mundo.Secreta. O saque de ontem ao museu completou o conjunto. minha querida. — Então ele foi até o centro do círculo onde foi acompanhado pelo doutor Craven. Blair arregalou os olhos. — Pode ir para o inferno. — Então a lenda dos Treze Crânios de Cristal também é verdade? A lenda que diz que quando eles estivessem reunidos em círculo com o décimo-terceiro no centro. inclinou-se e a beijou com . — Mas mesmo assim. que lhe deu uma maleta de metal. ele disse — Pronto. dariam ao dono o poder dos deuses? Gant se aproximou dela.

Al-Dajjal sorriu e limpou o lábio ferido com as costas da mão. arfando. Margot Gant zombava dele com seu sorriso atravessado. Caiu sentado na cadeira e levantou os olhos para sua agressora. Doeu? Espero que sim. — Acho que chega de ficar brincando! — como crianças encabuladas. mas levou uma coronhada de rifle no lado direito do rosto. namoradinho. Blair havia lhe mordido. meu bem.força. vejo que vai precisar de um pouco de motivação — Gant acenou com a . Brody se levantou. Os olhos de Blair arderam de fúria quando ela cuspiu o sangue do canalha. — Senhorita Kelly. Então ele se voltou para Blair. — Isto não é jeito de tratar o homem que lhe deu uma rasteira. enquanto a outra mão continuava puxando os cabelos. eles baixaram as cabeças e deram um passo para trás. mas com a mão livre Al-Dajjal a empurrava sobre a cadeira. Mais tarde continuamos com isto. Balançando a cabeça e suspirando pesadamente. Brody se remexeu na cadeira ao ver que o asqueroso estava tendo um orgasmo. Após imitar sons de beijos com os lábios. Ela apertou os olhos e o esbofeteou com força. mantendoa sentada. Al-Dajjal recuou e Brody viu que o lábio inferior daquele sujeito asqueroso estava sagrando. Brody fez cara feia e a encarou. — Gosto de mulheres fogosas. Gant olhou para Margot e para Al-Dajjal. Você pediu por isto. ela disse — Pobrezinho. sufocada. Blair lutou e se contorceu. fazendo a cabeça dele girar e lhe abrindo o lábio.

recuando bruscamente. — Maldição do inferno! — ele gritou. como eu queria que pudéssemos esperar pela cobertura da noite. mandando fogo.cabeça para o doutor Craven. — Cacete. . Refletores se acenderam em seguida. Newley e Scout estavam firmes detrás de uma ala extra. Uma saraivada de tiros mastigou os tijolos. Tiraram de combate um bom número de seguranças. Estamos todos aqui com o rabo na reta! — Roger — a voz do capitão guinchou pelo rádio. Newley berrou ao rádio — Mande o helicóptero acabar com esses babacas no telhado. borrifando pó em seu rosto e pulverizando seu cabelo com lascas de argamassa e tijolo. CAPÍTULO 13 O esquadrão do SAS já tinha invadido a mansão e estava em meio a um tiroteio com os seguranças de Gant. cujos corpos ficaram caídos ao redor. Os canalhas atiram melhor que a gente e estão por cima. Craven deu um sorriso demoníaco e apertou o botão. Canos de metralhadoras cuspiram bala do telhado da mansão e franco-atiradores mantinham as tropas da SAS rigidamente posicionadas ao redor do pátio Newley espiou pela quina do edifício. Outro esquadrão do SAS estava deitado no chão detrás de um longo muro de pedra à direita deles. E o que Devlin viu fez seu estômago revirar. que estava com um enorme controle remoto na mão pastosa.

Virou em direção ao som. O troço era uma carreta rebaixada e cuneiforme com três tiras excessivamente grandes de cada lado. mergulhando no gramado e nos canteiros de flores abaixo. As tropas saltaram por sobre o muro de pedia quando os outros esquadrões lançavam uma repressora cobertura de tiros. O helicóptero foi atingido em cheio e explodiu em uma bola de fogo e pedaços de projéteis e escombros choveram sobre o jardim. . O pedaço de aço entortava debaixo do peso de um veículo parecido com um tanque. Dentro de segundos. Ao longe viu as portas de um barracão Quonset se abrindo com estrondo.Scout ouviu o zumbido constante dos rotores quando o helicóptero sobrevoou. Rugia em direção a eles. explodindo as janelas de vidro com a série de tiros que vinham do helicóptero. mirando no muro de pedra. Corpos se empilhavam na lateral. Deus! É um míssil Stinger lançado do ombro — Scout gritou. O helicóptero investiu rumo à mansão como uma vespa furiosa com suas armas disparando balas de 20 mm. Os homens do SAS exultaram quando os disparos quentes mastigaram a face da mansão. — Ah. O tiroteio parou momentaneamente. Do telhado veio um míssil a toda velocidade. Scout ouviu o barulho de um motor a diesel. o míssil alcançou seu alvo. Então começaram a disparar contra o teto. Adentrou o muro como se fosse uma maquete de papie mâché.

Parecendo uma fera furiosa.Emergindo da nuvem de pó. O tanque bateu contra o segundo muro logo depois que o último homem do SAS caiu fora. Tomando então um rumo reto. como se tivesse perdido a consciência depois da colisão de cabeça. depois outra para a direita. Scout disse — A gente já era! Newley disse — Olha! Está virando. estremecendo. Scout gritou — Não sei quem está dirigindo esse troço. virou rápido demais e bateu com a traseira em um caminhão. seguiu pelo perímetro externo do pátio. O motor a diesel fez um barulho mais alto. Então bateu precipitadamente em outro veículo. como um lamento. Com o motor ronronando. A torre de canhão fez uma volta de 180 graus e parou. A besta mecânica parou. soltando fumaça pelo cano. Um estrondo ensurdecedor partiu o ar quando o tanque atirou. Sua torre de canhão lentamente se voltou para onde Newley e Scout estavam. Paralisado de medo. Newley gritou para um esquadrão de tropas agachadas detrás de outro muro que bloqueava o caminho do tanque. investiu para a frente e para trás até finalmente se livrar. fez uma curva radical para a esquerda. mas dá para ver que está do nosso lado. afinal. Virou um grande sedã preto. . amassando-o como se fosse lixo triturado. no meio do pátio. o canhão foi levantando de forma constante em direção ao teto. — O troço pirou! Tirem seus rabos da reta! As outras tropas borrifaram o telhado de tiros enquanto o esquadrão ameaçado saiu correndo em busca de lugar seguro. O canhão fotografou o panorama e atirou novamente.

. Estava endireitando a gaveta ao marchar em direção ao tanque com Scout ao seu lado. pareceu lógico. Um homem do SAS estava no topo do tanque com um olhar perplexo no rosto. um ARV. A porta da frente se abriu por completo e saiu um bando de homens de Gant... Scout interrompeu. — O que foi isto? Não consigo escutar droga nenhuma. Os esquadrões do SAS atacaram. — No começo eu não tinha certeza. empunhando suas armas de mãos levantadas. E rápido.. Newley ficou de pé e ajeitou os ombros. descarregando suas armas na gangue e ordenando aos berros que eles se ajoelhassem. mas quando reparei nos movimentos erráticos. — Companheiros — o capitão gritou para outro grupo de homens do SAS. — Verifiquem se há portas nas laterais. Isto é um THOR.. Newley balançou a cabeça e enfiou os dedos nas orelhas e tirou como quem abre uma garrafa de espumante. Dá para ver que é um modelo diferente do nosso e.Ainda abrigado em um ponto seguro. — Acho que não será necessário. O capitão quebrou o gelo para Newley e perguntou ao soldado — Qual é o problema? Ele balançou a cabeça e fez um gesto largo com a mão sobre o topo do veículo. — Esta coisa não tem entrada. — É o quê? — Um veículo de resgate blindado — Scout explicou. bem.

filho. . Serviço Aéreo Especial. não importa. que usava óculos de armação pontuda.. — Eles são do SAS. — Com a voz já pedindo perdão.. seu babaca... Eu esperava que eles também tivessem navios de guerra. — O que é agora. sargento Peters? A área está segura ou não está? Que droga. ele disse — Espero que aquele carro não seja seu. Um garoto mais alto o corrigiu. será que você se importa de me dizer. Peter virou e apontou para uma tropa de garotos sendo conduzidos por dois soldados de caras austeras. Um dos meninos. Perdão. — Você dirigiu o tanque com isto aqui? — ele perguntou. garoto. senhor. Scout se aproximou e pegou o controle remoto da mão do garoto. incrédulo. cara. mas. Peter. O menino olhou acanhado e deu de ombros. O garoto saudou o capitão incisivamente e disse — Johnboy se apresentando para o dever. Os meninos pararam em frente a eles e o queixo de Newley caiu. quem é o desgraçado que está dirigindo esse animal? Um líder de esquadrão do SAS correu para o lado do capitão. examinando o aparelho.O capitão interrompeu Scout. senhor. — Se não for pedir demais. estava sorrindo de orelha a orelha. Segurava na mão um enorme controle remoto com botões de câmbio. — Acho que me empolguei um pouco. O capitão olhou com raiva. almirante. — Ah. — Você fez um belo serviço. Scout riu e deu um tapinha nas costas do menino.

— Nós. Gabrielzinho parou e virou. Nós escapamos da Escola Éden e estamos aqui para salvar Wendy.Agora esperem aí. Fazendo contraste. O garoto mais alto de pele morena chegou mais perto. Engolindo com . veja bem. . é perigoso demais. Os rostos dos Garotos Perdidos ficaram subitamente solenes e todos viraram ao mesmo tempo e foram caminhando em direção à porta da frente da mansão. — Capitão. Ficou olhando diretamente para o inspetor Newley.Radiante. os olhos do capitão ficaram entorpecidos e desfocados. sorrindo. — De que diabo ele está falando agora? — Newley perguntou. — Não podem entrar aí. O olhar do capitão foi do inspetor para Gabriel. mas gaguejou como se tivesse perdido a linha de raciocínio. O inspetor tentou falar. Deixe isto para. Estes meninos podem nos levar diretamente ao major Devlin e a Gant.. meu nome é Raji.. e então piscaram rapidamente. pode crer. como se ele tivesse acabado de ter uma idéia brilhante. mas ela e seus amigos estão correndo grave perigo. Bem melhor que o HALO. Os olhos dele se agitaram e depois ficaram arregalados. Temos de correr. profissionais. garotos — o capitão interrompeu. cujo olhar fixo e sem piscar conteve o capitão com sua intensidade. — De um novo jogo de computador — Scout explicou. o menino disse — Foi maneiro. Não sei explicar como sei disso.Newley gritou. — Senhor. Limpou a garganta e retesou os músculos. rapazes .

Wendy estava olhando atentamente para a cena abaixo. — Agora seus Garotos Perdidos estão aqui. não é. Ela segurou mais firme e olhou para baixo. . — Está na hora de irmos. O galho envergou. que se esforçava para manter o equilíbrio. — Puxou cuidadosamente sua meia elástica. — Pela madrugada. querida? Wendy deu de ombros. Passou a mão livre distraidamente na cabeça. Ginny deu um sorriso caloroso. Wendy segurou na mão de Ginny. Wendy e Ginny estavam aninhadas em segurança nos galhos de um enorme carvalho. — Então sinalizou para suas tropas e gritou — Vamos nessa. Você também os sente. — Estas meias estão simplesmente destruídas. onde decidiram esperar pelo fim do tiroteio. Trêmula. — Céus. Chewie e Conners percorreram rapidamente o perímetro da mansão e abandonaram o Land Rover. inspetor.visível esforço e assentindo desajeitadamente. o capitão disse — Magnífica idéia. eu simplesmente preciso controlar minha ingestão de macarrão. também. Puxou o fio nos galhos quando pousamos aqui. — Parece que eles vieram me salvar. olhando para o teto da mansão lá embaixo. — Que frio maldito faz aqui em cima. sacudindo Ginny. perdi a droga do meu chapéu. Ginny pegou seu xale. O galho em que Ginny estava rangeu e gemeu sob seu peso.Podemos sentir estas coisas. — Ahã. Ginny assentiu. Abriram caminho pelo .

rapazinho — ele disse. fechando a cara e puxando o bigode de leão-marinho. — Será que os filhos-da-mãe deram no pé? Chewie grunhiu e balançou a cabeça. Conners sussurrou — Ouviu isto? O som de um motor auxiliar vinha ao longe. ficando de pé e correndo como uma serpente em direção a uma porta sem guarda. Chewie deu cobertura. . Os tiros que vinham da parte da frente da mansão haviam parado por completo. silenciosa como uma tumba. Com a respiração tensa e o suor correndo pelo rosto. Chewie por baixo e Conner por cima apontaram suas submetralhadoras KRISS no alvo móvel. Foram abrindo caminho dentro da mansão através de uma passagem mal iluminada e deserta. aproximando-se cada vez mais. Uma sombra. Conners deu de ombros. de alguma forma sentindo sua presença e seguindo seu rastro. algo levemente metálico. Chewie avaliou a situação com seu olhar belicoso. os olhos de aço alertas e velozes. passou rapidamente por um corredor de interseção em frente a eles. Era como se algo tivesse balançado ao redor deles. — Está tudo quieto demais. e seus passos penosos eram os únicos sons que ouviam ao seguir.bosque a pé e agora estavam agachados atrás de um muro de pedra na parte de trás do terreno. — E porcaria de guarda nenhum — Conners concordou. — Não tá pegando nada.

O barulho monótono crescia a cada segundo. O barulho de uma pancada atraiu sua atenção. . Chewie fez uma cara amargurada. Os bocais soltaram agora uma espécie de espuma. Um troço robotizado se sacudiu mecanicamente lá perto. O fedor de borracha ardida lhe invadiu as narinas. Ele baixou os olhos e viu que saía fumaça das solas de seus sapatos. Quando levantou o pé viu que estava imobilizado por fios de borracha. como se fosse queijo derretido sobre uma pizza. que estava se esforçando para levantar o pé. se mexer. mas não conseguiu. Olhou para Chewie. arrancando um pedaço ao passar. Temos que tirá-las! Tiraram. parecendo ganhar velocidade.Então ele ouviu o barulho de água corrente. a porta se fechou com força com um sibilar pneumático. Olharam para cima. — E agora? — Conners reclamou — eles vão nos lavar até nos matar? — Espuma antitração — Chewie disse e deu uma risada desanimada. inundando o chão. O motor funcionava a toda. — Armadilha explosiva! E nós caímos nela direitinho. Então o troço se aprumou e foi igual a um zumbi em direção a eles. Atrás deles. — Algum supercáustico. barulhento como . colidindo com a lateral da parede. de repente. como se estivessem sendo comidas por ácido. provavelmente C-plus. está derretendo a borracha de nossas botas. Um líquido oleoso jorrava dos bocais do rodapé. Conners olhou para trás e soltou um palavrão.

— Isto é um robô RAD25 — Chewie explicou com a voz cansada. Quatro metros. o RAD parou. lançando caóticos jatos de luz verde pelo corredor. Raios laser se acenderam em lentes com formato de lanternas instaladas no alto de seu tronco metálico. Os canos das armas ainda soltavam fumacê quando eles interromperam a chuva de chumbo e levantaram as armas.. — Que diabo é isto? — Conners perguntou. e chegando mais perto. Chewie reparou que a espuma só cobria a parte imediatamente ao redor deles. abruptamente. ficando vermelho de raiva. abriram fogo. e se aproximando rapidamente. procurando por eles. — OK. Vamos estourar esse fugitivo do ferrovelho em mil pedacinhos! — Conners disse. os canos das armas tremendo a cada estouro. e um som de ensurdecer dominou aquela parte do corredor. apontando a arma para o troço a caminho. Então.. rapazinho. Chewie segurou bem sua KRISS com a mão suada e piscou os olhos para espantar as gotas de suor que se acumulavam.. Ela continuou em silêncio enigmático. . Estava a cerca de 15 metros. Sem hesitar. como quem está zombando deles.um tanque.. de modo a não inibir o robô de se movimentar. Esse filho da puta do Gant era esperto mesmo. Sete metros. Por um momento o silêncio caiu como uma cortina. Mas seus disparos de 45mm soltaram faíscas que apenas arranharam a parte externa da besta metálica. — Não fez nem cócegas no miserável!— Conners espumou.

Chewie se deu conta que o gás continha um agente psicofísico. expelindo um gás. o RAD soltou um som oco. Conners começou a ficar branco como giz e tropeçar . Alguns diziam que ele era o novo Jim Thorpe. Chewie respirou fundo e viu a névoa esverdeada subir em sua direção.Como se estivesse lhe respondendo. ventosas se abriram na lateral da bola imaculada. ele ficou encostado à parede como morto. E pelos sintomas.com as pálpebras trêmulas — e então se curvou. Conners. vomitou abundantemente e começou a caminhar em círculos lentos. O RAD abruptamente deu meia-volta e saiu à procura de novos alvos. Chewie deu uma olhada. fumava como uma chaminé. parando aos seus pés. além do recorde não-oficial de quem prendia a respiração por mais tempo debaixo d'água. Ele era um ex-SEAL e foi às olimpíadas com a equipe americana de natação. prendendo bem a respiração e sentindo os olhos lacrimejaram devido ao gás. E Chewie viu que o gás já estava começando a fazer efeito nele. Eles haviam esquecido de trazer máscaras de gás. Antes que pudessem reagir. Como se fosse um paciente mentalmente perturbado em um quarto acolchoado. os olhos vazios. por outro lado. Então um projétil rolou. como se fosse uma bola de tênis sendo cuspida por um tubo. A expressão do escocês ficou inerte. e o único sinal de atletismo que tinha era a capacidade de lutar com um urso-pardo com uma das mãos e com a outra segurar uma cerveja Guinness Stout. Batera o recorde de nado de peito. .

cumprimentando educadamente as empregadas que continuaram correndo e não responderam. Após escalar até uma janela que dava para o sótão. . foram abrindo caminho pela mansão. guiadas puramente pelo instinto. Foram subindo andar por andar. provavelmente uma mistura de torazina e benzodiazepina projetada para deixar o invasor nãocombativo e inofensivo como um filhotinho de cachorro. fugindo do solar após o ataque do SAS. Chewie percebeu que estava presenciando os efeitos de um agente sedativo.então foi escorregando lentamente até desmoronar. Ginny balançou a cabeça. Encontraram algumas empregadas correndo de malas na mão. PARTE IV Alice Através do Espelho Capítulo 1 Wendy e Ginny escorregaram e pousaram suavemente em uma saliência. Ginny estava se ocupando em fazer comentários sobre os luxuosos móveis e tapeçarias. Mas isso era ficando sentado sem se mexer no fundo da piscina. percebeu que seria merecedor de uma medalha de ouro se conseguisse carregar o escocês desmaiado antes que a dor nos pulmões o obrigasse a respirar. O recorde de Chewie era de sete minutos e meio sem respirar. Ao jogar Conners sobre o ombro. intoxicado.

senhorita — ela pegou a mão de Wendy — Minhas velhas pernas não agüentam.Quase sem fôlego. Temos que ir rápido. E os outros também. Ginny disse — Que pessoal mais sem educação.. Devlin sentiu um aperto no coração. — E a Blair? — Alguém está machucando Blair. Quando subiram ao patamar seguinte. É melhor voarmos. Wendy subitamente parou e se curvou de dor. — O aparelho se chama Strappado. Ora. Gant fez um gesto em direção a Sorensen. De mãos dadas. Ginny envolveu a garota com seu braço flácido e a abraçou bem forte. Pairava como um anjo ferido. que parecia um pêndulo balançando para lá e para cá. entrando e saindo do foco da luz. Com uma expressão pesada. Eles lhe tiraram a roupa. Era um . voaram escadaria abaixo e fizeram a curva no primeiro andar. eu perguntei àquele mordomo bonitão onde fica o toalete e ele me olhou como se eu fosse louca de pedra. Espanando uma teia de aranha do cabelo.. ela foi tropeçando tão rápido quanto lhe permitiam as pernas finas. e sua pele espancada e cheia de manchas de sangue coagulado parecia uma espécie de sudário. com Wendy lhe puxando pela mão. Incapazes de parar para dizer "oi". Ginny. O corpo torturado de Bill Sorenson balançava ao alto. suspenso por uma comprida corrente. — Bem. então vamos. Wendy se aprumou e respirou fundo.

. Sabe.. senhor Devlin. Fez uma cara de falsa indiferença e disse Você vai queimar no inferno. o que para eles dava no mesmo. Todo mundo faz acordos. Mas isto ainda vai levar muito. sabe. seria empalado pela floresta de farpas afiadas e tostado vivo pelo gás flamejante. Mas como eu ia dizendo. acho que vou.. — apontou para Sorensen e soltou uma risada maligna — . já chegou lá. — As chamas diminuíram. — Ele abaixou a mão e virou uma válvula. Ótimo. vejo que você não perdeu o espírito esportivo. — É bem engenhoso. — É melhor diminuir isto aqui um pouquinho. Brody sentiu vontade de vomitar. ninguém aqui quer apressar a morte de seu amigo. Gant deu risada. Jatos de chamas azuis começaram a cair sobre Sorensen... Gant. o simples peso do corpo está deslocando as . sim.utensílio de tortura muito usado pelos dominicanos durante a Santa Inquisição. muito tempo. — Mas seu amigo aqui. sabe. fiz meu pacto com o demônio.. pois vai precisar dele. Brody disse — Você é realmente um excelente anfitrião. amarravam as mãos nas costas. — No final das contas. Brody olhou mais de perto e viu que os jatos de gás jorravam de uma cama de estacas brutalmente pontudas ao alto. — Pronto. Se Sorensen fosse libertado de sua agonia. — Ah. assim como Fausto. Estou simplesmente negociando meu tempo até chegar minha hora e o demônio requisitar minha alma para o abismo de fogo. acorrentando os pulsos a roldanas. O herege era puxado pelo teto com pesos amarrados aos pés. Eles pegavam o infiel ou judeu. todo mundo tem um preço.

A alavanca era conectada a uma série de engrenagens em ziguezague que controlavam o carretel de uma corrente esticada para cima através de uma roldana. e as correntes chacoalhando e reverberando enquanto a vítima indefesa subia. Os pulsos se abriram. pendendo no mais opaco e doloroso tormento. Solte-o que eu faço o que você quiser. agora com o polegar para baixo. Gant continuou. firmemente contida por AlDajjal.articulações do senhor Sorensen. Tendões se esgarçaram. A mente perde a parede antes que o corpo possa se render. o corpo de Sorenson foi içado com violência. O estômago de Brody foi até a garganta e voltou. as mãos unidas em frente a si como se ele estivesse rezando. o corpo de Sorenson foi puxado cada vez mais alto. Gant disse — Agora vem a melhor parte! Fez mais um sinal. Der Eisaxt torceu a maçaneta da alavanca. não é? É a temerosa ansiedade. Ela estica os limites da sanidade humana. uma a uma. A corrente saiu do cilindro. Mas isso não é nem metade. com um puxão na alavanca. Então de repente. — Você é um veado sádico. . Gant fez um sinal de positivo com o polegar para der Eisaxt. Gant levantou a mão aberta. Com os olhos brilhando. — Agora você está entendendo. que agarrou uma alavanca de metal. cuja outra ponta terminava nos pulsos de Sorenson. Quando der Eisaxt empurrou a alavanca. Repetidamente. o que é muito pior que a agonia em si. sinalizando para parar. Blair se remexeu na cadeira. Sorenson caiu. quase soltando fumaça. Toda vez que subia e descia.

senhorita Kelly . Madison Dare. Estava com o rosto vermelho. não nutra esperanças. . Brody viu outro membro desaparecido da equipe. minha querida. parece que a cavalaria chegou para resgatar nossos convidados. mas espere.O corpo de Bill Sorenson brilhava de suor. a poucos metros do fundo da prisão de vidro. Ela estava de frente para ele e Brody viu perfeitamente a expressão em seu rosto. Ela não parecia nada bem. . O sangue estava correndo para o cérebro sabe Deus por quanto tempo. tenho certeza que você vai cooperar integralmente. Pode conferir se as portas estão bem fechadas? E veja se os robôs da área de negação estão funcionando direito. Ela estava pendurada pelos tornozelos. Gant revirou os olhos e suspirou. — Al-Dajjal. Ele percebeu então que se tratava de uma versão atualizada da infame Câmara de Tortura Chinesa com Água de Houdini. Um segurança correu para o lado de Gant e murmurou em sua orelha. Debaixo do forte jato de luz.Gant disse suavemente. Sua cabeça pendia frouxa. Um barulho estrondoso veio de cima. Agora. o queixo colado ao peito. Vamos ver a garota! Ele estalou os dedos e outra luz se acendeu acima. com os longos cabelos balançando debaixo de si. tem mais. Al-Dajjal balançou a cabeça rapidamente e saiu às pressas. — Madison!— Brody gritou. de cabeça para baixo. Ah. Ela estava presa em um cilindro de vidro de uns quatro metros de altura.Esta sala é impermeável. E eu tenho muitos caminhos secretos por onde escapar. mas outro segurança assumiu sua posição ao lado de Blair.

é você mesmo? . soltando um gemido alto. Com a voz levemente abafada pela câmara de vidro. ela começou a se contorcer. Na outra mão ela tinha um canivete. se sobreviver. tentando alcançar os tornozelos. não acha. — Vá em frente. namoradinho? Está pegando ela. também? Brody começou a dar a volta ao redor dela. para que ele possa enxergar melhor. mas ela apertou o cano da arma incisivamente em suas costas. por favor. Brody ficou parado em silêncio ao lado do cilindro. ela desistiu e se deixou cair. ela disse embotadamente — Deus. Brody. Ele se encolheu. Os olhos azul-coral dela encontram os dele. namoradinho. lutando freneticamente para se levantar. Ela fez um movimento incisivo com a faca e cortou as algemas de plástico. Ele reparou que havia uma série de canos PVC conectados a pontos na base do tubo de vidro gigante. Ela manejou e a longa lâmina chispou. esfregando os pulsos doloridos. Tente fazer isto outra vez e uma bala lhe parte a coluna. E você fica aleijado para o resto da vida. — Acho que ela fica bem sexy assim.Ao ouvir o som da voz dele. Margot puxou Brody. balançando indolentemente. Ela se inclinou e sussurrou na orelha dele com a voz pingando de insinuação erótica. colocando-se ao nível dos olhos de Madison. fazendo-o ficar de pé e lhe espetou o cano de sua pistola MP-5 na coluna. Gant se voltou para Margot. — Traga-o mais para perto. Finalmente. E solte as mãos dele.

— Ja. filha. Você conhece o velho clichê de . suas fantasias sexuais — um sorriso se abriu em seu rosto suíno — e mais importante de tudo. Por acaso parece que estou numa boa. doktor? Craven foi para o lado de Gant. Está numa boa? Madison fez uma careta e lançou um olhar furioso. — Eu estudo o comportamento humano. O que ele precisava era alimentar a adrenalina com raiva. —Ah. Doktor Craven tomou a liberdade de colocar a formosa senhorita Madison em estado de hipnose induzida por drogas. quando criança. mas tão claro quanto o melhor cristal. não é mesmo. todo mundo tem seu preço. — Ele pousou seu olhar pesado sobre Devlin. ela nos confidenciou seus sonhos. — Major Devlin. seus piores pesadelos. Como eu disse. Ela contou tudo. Acontece que. Mas ele conhecia Madison suficientemente bem para entender que palavras de conforto eram inúteis. você tem um dilema em frente a si. E ela também tem um medo mortal de roedores e répteis. porra? Gant se juntou a Devlin perto da câmara de vidro. major. você é hilário. Dois de seus amigos mais próximos estão correndo perigo mortal. Gant foi para perto de Brody.Ele balançou a cabeça afirmativamente e sorriu. Brody. — Agüente aí. E todo mundo tem seus medos mais sombrios. o que serve muito bem a nossos propósitos. a senhorita Madison Dare quase se afogou. — Eu mesmo projetei a câmera de tortura com água — ele bateu no vidro com a dobra do dedo. — É à prova de bala.

para a época de sua concepção. Johanna? Blair respondeu em um antigo e pesado dialeto inglês.. — O ano é 1586.escolher entre a esposa e o filho. Solte-os e eu faço o que você quiser. — Ela vai apagar dentro de poucos segundos — ele disse a Gant.Estou lhe conduzindo de volta ao ventre. Bem. outra época. — Eu vos ouço. Blair se remexeu e gemeu. . Gant balançou a cabeça afirmativamente para Craven. uma vida passada. e agora voltando no tempo mais ainda. Gant começou a induzi-la a um transe hipnótico. Em tom monótono e abafado. Está me ouvindo. seus olhos reviraram. Pare de torturá-los. Seu nome é Johanna Cooper Kelly. você terá a sorte de fazer este tipo de escolha hoje. — Qual é o segredo que abre o código do manuscrito Voynich que está na sua frente? . A voz de Blair se interrompeu. . Algum tempo se passou e então sua voz se levantou o bastante para Brody ouvi-lo.Olhe bem no fundo do espelho negro — Gant ordenou enquanto empurrava o espelho para ela. junto com o manuscrito Voynich. que foi para o lado de Blair. Então ela assentiu rudemente com a cabeça. Ele enfiou uma seringa no ombro dela e recuou. Alta Sacerdotisa dos Shelta Thari. — Chega. A cabeça de Blair começou a pender. As palavras de Gant a transportaram.. Empurrou o espelho de obsidiana para perto de Blair. outro lugar. Gant se sentou à mesa em frente a ela.

O olhar pesado de Blair ficou passeando entre o espelho asteca e o livro. ela disse — Aqui está a chave. São selos ou nomes de anjos e demônios. A chave para a primeira língua. — Eu já li e entendi os símbolos e hieróglifos entalhados na superfície da tabuleta de cera. — Onde está esta chave? Ainda em transe profundo. Então seus olhos se acenderam. Gant empurrou para a frente dela a tabuleta de cera de John Dee. Ela esticou a mão e passou os dedos sobre o texto do manuscrito Voynich enquanto olhava profundamente para o espelho negro. Gant se debruçou sobre a mesa. A língua única falada antes da Torre de Babel. Estarrecido. oferecendo pouco mais que módica proteção ao conjurador que o usa para evocar espíritos. Pegou uma faca do bolso. — Sob o Selo da Verdade está a chave. com sua voz gutural e engasgada de expectativa. os dedos de Blair chegaram à última página do manuscrito. — Eu devia ter pensado nisto! Na época de Roma eles costumam esconder . virou para Craven para explicar.Ela abriu os olhos.. Quando ele começou a raspar furiosamente a cera virgem da tabuleta.. Sua voz era um suave sussurro. Gant esfregou o queixo. — É a Pedra de Roseta. a língua universal. A cabeça dela pendeu ligeiramente. Então. "Uriel me concedeu o segredo do portal". — Suas pálpebras estremeceram e ela acrescentou — O Selo da Verdade esconde a chave que abre o portão. perdido em profundos pensamentos. enquanto seus dedos passeavam pelo livro.

o dourado é a mais preciosa. Ele baixou a tabuleta e cuidadosamente virou as páginas do manuscrito Voynich. E é bem semelhante ao Mapa dos Antigos Reis do Mar que Al-Dajjal conseguiu com os turcos em Istambul — Gant explicou. Dentro da Tomba de Hermes jaz a fonte que flui.. — Sabe. Entre no portão espelhado. Na esfera superior direita estavam desenhados um castelo com torres. O elixir da juventude eterna. — Deixe-me ver a tatuagem! — ele ordenou. e puxou seu vestido para baixo brutalmente. — Passou o dedo comprido pela pele suave. expondo suas costas.. Olhe para as Rosetas para descobrir onde ele fica. Dentre todas as cores do arco-íris. girou-a pelos ombros. Em outra esfera havia um vulcão. fazendo-a ficar de pé. Gant se aproximou dela e segurou o diagrama perto da tatuagem. — A tatuagem é um mapa. esta parte é quase idêntica. ele levantou a tabuleta e leu em voz alta — LUX. excitado. parando na parte sobre cosmologia. Ao terminar. Parece um mapa-múndi medieval. — Sim — ele disse. luz. Ele traçou o contorno . — Ah. deixando uma feia marca vermelha com sua unha comprida e amarelada. Craven levantou Blair.mensagens secretas debaixo do texto normal na forma de textos minimamente entalhados na cera. Parecia um mapa. O diagrama tinha nove esferas que pareciam ilhas conectadas por tubos ou trilhas em meio a terreno lamacento. Esferas lado a lado em forma de T. e Blair tiritou. Abriu uma dobra que se abria em seis páginas. com suas mãos gordurosas. o Diagrama de Roseta — ele disse.

"Não me traga aquele que carece de sabedoria nem os fracos de propósito. eu que fui reverenciado como Thoth pelos faraós. — Veja as cores. Blair disse — Aqui está a sabedoria de Al-Jabir. ela levantou os olhos e ficou olhando para o ar sem piscar. a Tábula Smaragdina. como se estivesse totalmente esgotada. Ele deu uma olhada para Blair e fez cara feia. Ele leu as letras que havia debaixo e deu um sorriso de satisfação. Eu entrei na câmara oculta onde havia um velho sentado em um trono de ouro segurando uma tábua de esmeralda. A cabeça pendeu para a frente e ela balançou na cadeira. Abruptamente. colocando o próprio casaco manchado de suor sobre os ombros dela e fazendo-a se sentar. Craven. E o significado da tabuleta que ele segurava. Craven obedeceu. estava bem debaixo do meu nariz. ficou claro para mim. cubra-a e a ponha sentada de novo. Elas seguem a fórmula alquímica. Blair caiu inerte na cadeira. A primeira passagem era um aviso medonho para aqueles que entrassem na caverna. Com a voz de um homem idoso. Ele tinha a forma de uma pedra. Subitamente. não falo de coisas fictícias e sim do . pois eles são profanos e sofrerão morte terrível". "Eu que venho da terra de Atlantis. — Craven. Foi-me revelado por uma visão que aquela era a Tumba de Hermes.de uma esfera dourada e apontou para a imagem de uma torre se erguendo de dentro de um profundo precipício de um dos lados de uma montanha. Já tenho o que preciso por agora. A inscrição propunha uma charada. Era tão simples.

Este é o caminho da Pedra Filosofal. perto de um grande raio laser. — Não fique aí parado. que ficou parado no meio do círculo de caveiras. é a resposta.. busque a matéria-prima. Gant virou e foi até ela. levada pela água. Preciso que ela fique lúcida e acordada. "Aqueles que seguem o caminho da ambição. da hipocrisia e da imoralidade entrarão. Craven obedeceu a ordem. o Contador do Universo. Minha querida. Ela está em toda parte. e o que está acima é como o que está abaixo. Dê-lhe uma boa dose de anfetamina.que é verdade. pois assim obterá a chama da vida eterna. as crianças brincam com ela. — Lux. eu seria capaz de beijá-la. Blair foi até Gant do outro lado da sala. de modo que todas as coisas são feitas pelo Único através de adaptação." A voz de Blair falhou. as donas de casa a jogam fora. trazida dos céus pelo vento e nutrida pela terra. o famoso alquimista árabe. Com as pernas moles. o que está abaixo é como o que está acima. inventor da álgebra. seu queixo caiu junto ao peito e ela desmaiou. e a obscuridade se afastará. Craven a pôs de pé. Quando ela voltou a si. faça-a voltar. ela canalizou a alma de Al-Jabir. "Como todas as coisas são feitas com a palavra do Único. Ela falou sobre a caverna e sobre a chama da juventude eterna! Ele se voltou para Craven. o Três Vezes Grande. "Ela foi forjada pelo fogo. Aquele cujo pai é o Sol e cuja mãe é a Lua. Ela falou sobre a Tábua de Esmeraldas de Hermes Trismegistus.. . ou luz. — Meu Deus.

ele disse com um tom irônico — Sim. Craveh balançou a cabeça afirmativamente e um sorriso lhe esticou os lábios finos. Mas sua tatuagem e sua canalização de Al-Jabir me esclareceram tudo. meu chapa. Gant. Depois que eu passar pelo portal. Brody reparou na expressão presunçosa de Craven. e eu lhe quebro a fuça. . Solte-os. — É claro que foi só modo de dizer. Gant. e soltou o ar com força.Blair afastou os cabelos dos olhos e fechou a cara. Sem levantar os olhos. — Experimente. dei minha palavra de honra. segmentado por largos anéis feitos de gemas de diferentes cores. Brody gritou — Ei. Você não devia confiar em ninguém que seqüestrou e torturou seu irmão. Gant estava ocupado com o laser. você pode cuidar de nossos convidados. A parte frontal do laser tinha um tubo de latão polido. Gant olhou para cima brevemente e riu. seus olhos brilhando de ódio. Sorensen deu um gemido doído. Craven. Encurvado e fazendo força. Gant girou cuidadosamente um recartilhado de opala como se estivesse focando um telescópio gigante. Ao alto. — Mas eu não tenho honra. Você conseguiu o que queria. querida. Blair bufou. Você prometeu soltar nossos amigos se ela lhe ajudasse. — Escute. Blair acrescentou — Você deu sua palavra de honra. minha querida. Afinal. ajustando seletores e fazendo programações com um teclado. Gant riu com gosto. como um animal ferido preso em uma armadilha.

Os raios de luz retrataram as caveiras. teve a gentileza de achar para nós em Istambul — ele passou os dedos finos pelo tubo comprido com admiração. depois atingiu a terceira. que brilhou em tom verde-esmeralda. Gant se afastou do círculo com Blair a reboque quando a luz da última caveira foi transmitida ao ápice do espelho. Jung o chamava de "Tocha de Órion". G. O projeto lhe veio em sonho. diário este que o querido irmão. Gant ajustou um seletor e o laser emitiu um som pulsante e percussivo. uma por uma. O laser começou a esquentar demais e soltar fumaça. — Jung disse ter lido sobre um aparelho misterioso que incorporava lentes e gemas para amplificar as ondas de luz. . esfregando as palmas das mãos. acendendo uma luz pura e vibrante na décima terceira caveira. e o padrão dodecaédrico formado pelos raios de luz refletido das caveiras diminuiu e se apagou. Então apertou um botão que começou a soltar faíscas. cada uma delas se transformando assustadoramente nas cores do espectro. — Doktor C.— Pronto — Gant disse a Craven. Estremeceu. — Pegou do bolso um livro de capa vermelha de couro e virou-se para Blair. Piscou. padre Kelly. Um fino jato de luz branca saiu e atingiu a primeira caveira que brilhou em tom carmesim. — As lentes estão calibradas com precisão. quase o acariciando. depois a segunda emitiu brilho amarelo. O ar começou a sibilar devido à eletricidade estática. Jung projetou este aparato maravilhoso em seu diário. Pulsou.

Brody olhou para o círculo de caveiras. as lentes negras gigantes começaram a girar e balançar como se fosse . emitia minúsculos fótons de luz que flutuavam no ar e floresciam cada vez maiores e mais largos. Cada vez mais alto. as fagulhas de luz se derramavam cada vez mais velozes. Foi escurecendo cada vez mais. Era como se os fótons estivessem crescendo. a forma de uma superfície negra. Uma trovejante explosão balançou tudo e uma turbulenta coluna de luz começou a girar em um vórtex que se ampliava cada vez mais. transbordantes. Um arrepio subiu pelos braços de Brody. e subitamente sumiram. Fagulhas incandescentes dançaram. pingando grossas gotas de borracha e plástico derretido sobre as pessoas abaixo. Os cabos se soltaram dos enormes transformadores. Então a luz começou a nublar. Os isolamentos das linhas de comunicação começaram a derreter. cuspiu fagulhas sobre as passarelas como fogos de artifício no 4 de Julho. Parecendo fritar. oleosa e elíptica de cerca de quatro metros de diâmetro. Como se manipulado por alguma força invisível. O espelho gigante começou a vibrar. Os técnicos e seguranças largaram suas posições e saíram correndo desordenadamente para se proteger.Uma explosão visível de corrente elétrica correu pelos cabos de força. O equipamento computadorizado do enorme laboratório ficou sobrecarregado. se expandindo com uma elasticidade sobrenatural. Começou a tomar forma definida. serpenteando e chicoteando o chão e soltando arcos de corrente brancoazulada das pontas esfiapadas.

até que ficou ereta. O que momentos antes era um espelho brilhante. apertando seu pulso com sua mão esquelética e torcendo com força. Gant virou em direção ao som. Blair começou a correr em direção à menina. Liso como óleo fundido. não toque nisto! Vá para trás. como se estivesse caindo em um poço profundo. Gant parecia compelido a tocar aquela superfície lisa que parecia suja de tinta. Prendeu-a pelo braço e enfiou a mão que . Mas apesar do medo que demonstrava claramente estar sentindo por dentro. Gant e Graven trocaram olhares e se aproximaram.uma moeda atirada em uma mesa de mármore. Craven passou uma lanterna para Gant e jogaram os intensos raios de luz das lanternas LED simultaneamente no centro do losango negro cintilante. de pé. Enfiou a lanterna no bolso e esticou a mão em direção ao espelho. senhor. por favor. Wendy gritou — Não. A luz de suas lanternas não era refletida. Blair foi em direção a ele. Fascinada e parecendo puxada pelo magnetismo do espelho negro. Parou suspensa no ar. agora era um vácuo de obsidiana. mas Gant a impediu. Gant ficou tremendo. fulgente. Ginny e Wendy adentraram a luz e pararam sobre uma passarela ao alto. parecia antes absorvida. Começou a se endireitar lentamente. Das profundezas das sombras.

— Depois não diga que ninguém lhe avisou. hipocrisia e imoralidade.ela avisou. a purificação da alma. destes suínos que se reproduzem como gado. Olhou para Wendy e gritou — Criança índigo amaldiçoada. Habitantes do novo Éden. lhe dei um teto. Eu lhe dei casa. — Se você entrar aí será condenado . os Vril-ya. simboliza os instintos básicos do homem: ambição. Ele girou a adaga e a lâmina afiada cintilou à luz pungente. Gant estava apertando a faca com tanta força no pescoço de Blair que uma gotinha de sangue começou a descer. Ao rejeitar a buscar por poder e riquezas e fazer o bem. Mas não! Vocês são todos iguais. Ele tocou o pescoço dela com a ponta da lâmina. não sendo . Você tinha de ficar com pena destas almas miseráveis que infestam a terra como vermes. . e agora você me trai. mein sonnenkinder. Eu podia ter ensinado a você e aos garotos. Heinrich Gant.estava livre no bolso do casaco. Seu destino era se tornar a origem de uma nova raça. e que entender o verdadeiro objetivo da Grande Obra Alquímica. Brody tirou os olhos de Gant para olhar para a velha senhora que estava ao lado da garotinha lá em cima. Só os puros de coração podem entrar. sobreviverá aos testes. A mão saiu do bolso segurando uma adaga. Apenas aquele que for justo e correto. — O lixo dos metais. a usar seus poderes. misturando as raças.— Gant olhou para o vasto salão com olhos velozes. o chumbo. na passarela. cintilando de loucura.Tente usar seus poderes contra mim — ele ameaçou Wendy — que eu corto esta piranha irlandesa que nem carne de segunda.

Margot parou. . Enquanto Gant continuava. velha. Blair foi por trás. agarrou-lhe os testículos e puxou com toda força. — Eu não estava em transe. escapou de suas garras e pegou a pistola Derringer que Brody havia lhe dado. Brody gritou — Cuidado! Blair virou a cabeça e desafiou a outra. também — Gant disse olhando nos olhos dela. Mas vá em frente. Veja por si mesmo. Eu li o texto sagrado da tabuleta de cera. Gant foi caminhando de costas em direção ao espelho.desonesto e andando sempre ao lado da verdade. sua amazona imoral. — Está mentindo. Do outro lado deste espelho está a Tumba de Hermes e a vida eterna. — Se você der mais um passo. ouvi a voz de Al-Jabir com meus próprios ouvidos. você transmuta o mal pesado como chumbo que lhe pesa na alma e o transforma no ouro mais puro. Não me encha o saco com suas baboseiras religiosas. e abandonando os desejos mundanos para encontrar o equilíbrio. puxando Blair consigo. Eu só lhe disse metade do aviso na Tábua de Esmeraldas. — Você está blefando. eu enfio uma azeitona preta bem no meio da testa deste lagarto velho. os olhos em combustão de tanta raiva. apontando a arma para Gant. seu veado teimoso. Margot começou a se aproximar de Blair. Enquanto ele urrava de dor. — Você é um otário mesmo — ela disse. Minha força de vontade é maior do que você imagina. Eu menti. — Não.

Ela recuou e apontou bem para o meio do rosto dele. O apetrecho de látex e a maquiagem caíram em sua mão como uma cobra trocando de pele. quase implorando. — Agora você entende por que eu preciso ser curado — Gant disse suavemente. Ele olhou rapidamente para o outro lado e então a encarou com olhos molhados e tristes. O rosto de Gant era uma massa disforme e esbranquiçada de pele repleta de cicatrizes entremeadas a veias vermelhas e roxas.Quando Blair tirou os olhos de Gant. tocando o lado que sangrava. Ele soltou um bramido de raiva e arrancou o que restava de sua máscara. ele viu se abrir uma oportunidade e aproveitou. Mas quando ele se jogou sobre ela. Seus lábios pareciam cortados a navalha. Seu olho esquerdo era deformado. a bala apenas passou de raspão no rosto. Mordendo o lábio inferior e trêmula. Blair demonstrava sentir uma ponta de compaixão pelo demônio demente em frente a si. deixando à mostra fileiras de pequenos dentes que formavam um sorriso sardônico e permanente. . Blair fez uma careta de nojo ao ver o monstro repulsivo que olhava atravessado para ela. com a faca brilhando ao atacar. Gant levou a mão ao rosto. Brody percebeu que ela estava descuidando da segurança quando a Derringer começou a baixar lentamente. parcialmente coberto por um gordo tumor. Gant rangeu os dentes e deu o bote nela.

agarrando-o pelo pescoço. mas Gant enfiou os dedos cruelmente na pele do pulso com uma força desumana. Ela sentiu a mão. Com a mão que se via. Ágil como uma aranha. ela o fisgou. deu meia volta e pulou dentro do espelho imaculadamente negro. tossindo e segurando o pescoço. Quando Gant a puxou para o espelho negro Blair se retorceu para se soltar. exercendo uma pressão desumana. Ele caiu de joelhos. Um corpo arrancado. A escuridão absorveu a primeira metade do corpo dele tão completamente durante a travessia que parecia que ele estava sendo cortado em dois. Ele apertou o pulso dela e a puxou para si. Ela também pareceu momentaneamente segmentada ao escorregar pela superfície oleosa adentro.Brody deu um pulo. Berrou para Craven — Mate todo mundo! —. Blair virou outra vez. distraída pela tentativa fracassada de Brody. Mas ao passar por Margot. no chão de concreto. Mais uma ondulação de tinta negra e ela desapareceu. inofensiva. . Gant deu um tapa na mão de Blair e derrubou a pistola Derringer. sendo envolvida pelo frio que lhe deslizava na pele. metade nesta dimensão e metade na próxima. A arma caiu. depois o braço e o ombro começando a mergulhar nas lentes negras como se eles estivessem mergulhando em uma piscina de água gelada. ele puxou Blair para dentro da areia movediça negra e desapareceu.

. sua mente foi invadida por terrores de ser sufocada. Sentiu uma tontura e ouviu um zunido alto nas orelhas. Era como se tivessem sido colados. Abriu a boca em prece silenciosa e o gosto frio e metálico da areia movediça negra lhe inundou a boca. Então. e flutuou em silêncio mortal. Ela estava engasgando e sufocando. e percebeu que fora completamente devorada pelo espelho. Blair se debateu loucamente e sentiu seu ombro deslizando rapidamente. os olhos. Na fração de segundo anterior à submersão. era sepultada pelas águas opacas. ela sentiu a lambida gelada da areia movediça na nuca. com os pulmões queimando. rastejante. ela não conseguia mais sentir a pressão da mão de Gant lhe agarrando o pulso. Enquanto ela tentava desesperadamente se livrar do líquido de gosto ruim. de ficar cega. Prendeu a respiração bem firme. mas não conseguia abrir os olhos. Cuspiu. mas a gelada insistência começou a lhe abordar os lábios. Sentiu que ia desmaiar. de ser queimada viva em um túmulo de vidro fundido. Sentiu o beijo gelado do espelho cintilante em seu rosto. subitamente. e a testa. Sentiu ligeiras cócegas nos cantos das pálpebras.Devido ao peso que vinha de todos os lados. subindo o couro cabeludo. Ela fechou bem a boca e os olhos. Imediatamente. ela engoliu mais uma última dose de ar. Era como se ela estivesse sendo sugada para o esquecimento por uma onda profunda que dava em alguma praia infernal.

Vou conseguir. todos lá embaixo estavam olhando para cima. pequena laeken. — Wendy fechou os olhos e respirou profundamente. ela também não vai resistir. sacudido sua varinha mágica e desaparecido no espaço. Ginny ficou pálida.Na passarela ao alto. mas a gentil senhora se fora. a menina estava tremendo incontrolavelmente. seu sorriso cálido e olhos gentis . Apesar de Wendy estar tentando ser corajosa. — Não tema. cumprido seu propósito de guia e mentora. Ginny. como uma fada madrinha. minha queridinha. Virou-se para Wendy. — Só você pode salvá-la. Em sua mente. Sua inocência e pureza lhe protegerão. sua voz saiu fininha e embotada. Ela oscilou ligeiramente e. ela pensou. Ginny a consolou. A garota maravilha está aqui. seu cordão umbilical com Blair. Wendy visualizou o rosto levemente enrugado e gentil de Ginny Doolittle. deixe que esta vozinha em sua cabeça lhe guie. Era como se ela tivesse. esforçando-se para manter o equilíbrio. Como que atraídos pela aura da garotinha. Wendy deu uma olhadinha por sobre o ombro à procura de um último olhar encorajador de Ginny. Olhou para baixo. com as mãos caídas nas laterais e o rostinho duro de determinação. Apesar de Blair ser uma boa mulher com muita força de vontade e conhecedora dos caminhos dos Thari. Wendy ficou empoleirada no corrimão. Levava em sua mãozinha apertada o olho de botão de Mister Muffins. Quando Ginny a ajudou a subir no corrimão. — Não se preocupe. Wendy sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Siga seu coração. Sou tão corajosa quanto Wendy Darling e bem mais corajosa que o bobo do Peter Pan.

Capítulo 2 Com os homens do SAS assumindo seus postos. E como um anjo guardião sussurrando em sua orelha. Saiu atirando para toda parte. Jogou os braços para trás como se fosse uma esquiadora saltando em queda livre. atirou a arma na direção dela. Detrás de uma grande . — Por onde agora? — Scout perguntou a Gabrielzinho. Gritou um palavrão e. ela ouviu a voz etérea de Ginny. — Dobrando a esquina tem uma escada escondida. Siga seu coração. siga seu coração.que irradiavam amor. sem fazer o menor esforço. para encontrar o País das Maravilhas ou sei lá o que do outro lado. Foi caindo e ganhando velocidade. num gesto inócuo de raiva. apontando para Wendy. Mas o anjinho o viu e deu uma virada digna de avião de caça quando ele atirou. — Estou indo. Subitamente. Com a graça natural de uma nadadora olímpica. Ela parecia um anjo com aquele vestido branco e chinelos de cetim. ela pulou da passarela. Blair — ela gritou. passou voando por Brody e foi entrando. que voava em círculos sobre ele. Scout e Newley e os Garotos Perdidos foram se embrenhando no solar. Al-Dajjal saiu das sombras com uma pistola automática nas mãos e correu. no espelho negro. que podia sentir a presença de Wendy. errando o alvo e acertando nas vigas mestras dos andaimes. — Estamos quase lá — Gabe respondeu. Wendy virou à esquerda.

espionaram para ele esse tempo todo. O capitão e Newley viraram a cabeça para Raji. concentrando-se. — É. é Main canf ou algo assim. tem que tirar um livrão. Estarrecido. Quando eu me dei conta do que eles estavam fazendo. rapazes. Os homens do SAS continuaram com suas MP-5 apontadas para ele. Raji interrompeu. Scout deu de ombros e disse — Na hora a gente resolve isso. garotos — o capitão avisou ao próximo esquadrão. . tossindo muito. de terno rasgado. aqueles dois — Sir Nigel disse. Acenava com um lenço branco. . Sou um dos reféns. um homem gordo vai dobrar a esquina. — O rapaz disse que tem um raio X vindo em nossa direção.. Não abaixaram. Sir Nigel Cummings dobrou a esquina mancando. usando o termo do SAS para forças inimigas. — Serviço Secreto de Inteligência..estante. Podem abaixar essas armas. — Estou vendo o que vai acontecer — Raji explicou acanhadamente. com o rosto sangrando e machucado. — Graças a Deus vocês estão aqui — Sir Nigel conseguiu dizer ao se aproximar deles. Newley deu um passo à frente. Estou vendo o nome. — Dentro de um segundo. Pope e Miles? .Onde estão seus lacaios. — O garoto franziu o cenho. vim atrás deles.Traidores desgraçados. tossindo no lenço de seda — Eles eram pagos por Gant.

confuso. que ainda operava o Strappado. — Totalmente sozinho. imagino. — Sou hierarquicamente superior a vocês todos. que girou uma válvula. Brody Devlin olhou nervosamente para o assassino. correndo para o lado do cilindro. Margot passou por ele. mas o barulho da água a despertou. Você é carta fora do baralho. Em questão de minutos. Eu tirei você da jogada. ainda piscando os olhos. Ela acenou com a cabeça para Craven. Você ia prendê-los. major — chamou Machado de Gelo. A água estava subindo rapidamente. prenda o inspetor Newley imediatamente! Estou sabendo que ele é outro traidor da Coroa. Brody estava aterrorizado. Madison podia se afogar. Nós do Serviço Secreto lavamos roupa suja em casa. Machado de Gelo deu um tapinha em um interruptor e as chamas se acenderam na direção de Sorensen. — Não seja impertinente. Brody viu o pânico em seus olhos e se encolheu. O gordo se voltou para o capitão do SAS. Capitão. Newley. E você não tem que se meter neste caso. No laboratório lá embaixo. Começou a sair água dos canos nas laterais da câmara de vidro onde Madison Dare estava presa. e destruir o plano de Gant sozinho? Sir Nigel fez uma careta e balançou a cabeça. que continuava pendurado pelas correntes. — Aqui. sem conseguir acreditar que tinha acabado de ver a garotinha voar.Newley deu um sorriso forçado. Ela havia desmaiado. .

inclinando a cabeça para o lado de modo que seu olho de vidro ficou fitando o nada. não fique aí parado. . tique-taque.. que o chamava. Margot zombou — Tique-taque. — Ja. Devlin olhou de novo para Madison. que estava pendurada de pontacabeça na câmara da morte. namoradinho — Margot disse.. Enquanto Devlin olhava de um lado para o outro. que puxou a alavanca e a corrente foi movendo lentamente o guindaste. baixando o corpo torturado de Sorensen em direção às chamas lá embaixo. — Vamos. A arma de aparência maligna derrapou no chão de concreto e parou aos pés de Devlin. A água já subira até as sobrancelhas de Madison. O capitão ficou olhando para Sir Nigel e balançando a cabeça.Craven recuou. namoradinho? Salvar a vaca ou o seu amigo. namoradinho. herr arschgesicht — der eisaxt zombou. não quer me dar outra rasteira? Ernst abriu a lâmina de seu machado de gelo com um peteleco e arremessou em direção a Devlin. —Jogou sua magnum e sua MP-5 longe. antes que ele caia nas chamas e na cama de pregos? — então ela fez um sinal com a cabeça para Ernst. O tempo está passando. de Madison para Sorensen. — Vai fazer o quê. Devlin voltou os olhos para Margot. É melhor escolher logo. desaparecendo em meio às sombras. — Vamos lá. deu meia-volta e saiu correndo. Mostrou as palmas das mãos vazias e acenou. pegue.

— Saia do meu caminho. — Calma aí. . Sir Nigel gaguejou — Não tive escolha. Newley. seu veado mentiroso. seu idiota. Eram eles ou eu. Sir Nigel reagiu gritando — Isto é um ultraje. Vou ligar para o Primeiro Ministro e acabar com a sua raça. já terminou? — Newley perguntou sarcasticamente. Tirou um revólver Webley Bulldog e cheirou o cano. Newley se levantou agilmente. Newley e o capitão dobraram a esquina. O capitão então prendeu Sir Nigel nos pulsos.— Sir Nigel. — Tiros na cabeça. que já se debulhava em lágrimas. meu chapa. quase levantando do chão o homem. Havia dois corpos no chão. Não funcionou. olhou rapidamente para o capitão e soltou o outro. E aposto que depois do exame de balística descobriremos as balas nos crânios deles vieram da sua arma. Sir Nigel inflou o peito e tentou passar pelo capitão. Com o gordo a reboque. Newley foi até eles e se ajoelhou. O capitão pôs a mão no ombro de Newley. marmanjo! Newley esticou o braço e fez o gordo girar. Newley agarrou Sir Nigel pelas lapelas. — Ele virou os corpos. Estarrecido. Eram Pope e Miles. com o rosto explodindo de tão vermelho. Você está cometendo um erro terrível! Então um dos homens do SAS gritou — Temos dois corpos logo ali. — Foi usada recentemente. correu para o lado do gordo e enfiou a mão no bolso do casaco de Sir Nigel.

Sir Nigel deu uma risada condescendente. — Quando vocês os alcançarem. Girou e fechou o cilindro. e apertou bem os olhos. seu gordo arrogante de merda. Eles vão torturar e matar toda a equipe ÔMEGA se você não os detiver. ainda mais na frente de todas estas testemunhas. enfiando o revólver na papada mole e cheia de carne. Pode sair bala. aterrorizado. Até sua sorte acabar e os pedacinhos de seu cérebro se espalharem sobre a parede. Newley lançou-lhe um olhar furioso. Sir Nigel arregalou os olhos e disse — Al-Dajjal e Margot são sádicos. Mas vou puxar o gatilho cada vez que você mentir. Sir Nigel engoliu em seco. Newley ficou com o rosto mais vermelho. mas o capitão o fez parar com um gesto silencioso. Um soldado começou a se mexer. . senão eu vou puxar o gatilho. já não vai restar mais ninguém. — Percebo em seus olhinhos que tem algo que você está me escondendo. Os soldados obedeceram. O gordo tremeu. pode não sair. — Você vai me dizer exatamente o que está querendo dizer com isto. Então enfiou a arma debaixo do queixo de Sir Nigel e engatilhou. — Escrotos! — Ele fez um clique com a arma. — Gosta de jogos. Sir Nigel? O gordo balançou a cabeça. o capitão e seu esquadrão ficaram olhando boquiabertos. Ao redor dele. — Então olhem para o lado. — Você não ousaria. menos uma. Newley abriu calmamente o cilindro do revólver e tirou quase todas as balas. rapazes — Newley disse.

O capitão enfiou o relógio de pulso no rosto de Nigel. Você vai na frente. — Está vendo o livro.Newley ordenou.. Não ganhei minha parte. uns vinte minutos no máximo. Scout procurou nas prateleiras qualquer coisa que soasse como main canf. senhor Scout — Gabriel disse. — Bem. Eu diria que uns dez minutos. Ele ameaçou me entregar. empurrou-o para a frente e gritou — Então é melhor mexer essa bunda gorda. senhor? — O gordo perguntou. O capitão gritou — Quanto tempo temos? — Que hora são. Newley o fez virar. Sir Nigel se urinou. talvez um pouco menos — Sir Nigel desembuchou. e tomara que você conheça algum atalho. Newley cuidadosamente abaixou o revólver. — O que tem eles? — Sumiram. aqueles garotos e o camarada americano. Para acabar com as provas.Quando Newley clicou a arma mais uma vez. seu merda . Capítulo 3 Parado em frente à estante.. . camaradinha? — Sou muito pequeno. — OK. — Abra os olhos. Peter se abaixou e o levantou nos braços. Um Homem do SAS interrompeu. Ele obedeceu e gritou — Eu instalei uma bomba. O calhorda traidor do Gant não me pagou. Clicou a pistola Webley outra vez. — Capitão.

— Esticou o braço e pegou o livro. procurando pelos títulos. que estava agora a poucos metros daquele inferno. O rosto dele estava borrado pelo calor oscilante. Um grito agudo de guerra cortou o silêncio. Scout olhou para o livro. que piscou para outro sensor no painel no interior do elevador. balançou a cabeça e os fez entrar. Devlin olhou para Sorensen. só havia na parede um sensor para ler a palma da mão. Devlin pegou o machado de gelo do chão e correu em direção ao Strappado. Scout foi abrindo caminho e eles foram atrás. Mas não havia botão de chamada. você chegou bem perto. Os únicos sons eram o crepitar das chamas e a água correndo. Scout procurou uma chave de fenda nos bolsos. Até que balançou a cabeça afirmativamente. A enorme estante se abriu para eles. rindo. com línguas de fogo à sua espera. Peter pôs a mão. assim é melhor — Gabe disse. . Olhou para a porta do elevador com os olhos brilhando de tão brancos e a porta subitamente se abriu. — Bem. Pensou que poderia reanimar Madison através de ressuscitação cardiopulmonar. — Mein Kampf— ele disse. Quando as portas se fecharam com um sibilo. mas Sorensen estaria literalmente frito em questão de segundos. o elevador desceu como um foguete. Virou-se para ver Peter. Scout deu de ombros. Encontraram um elevador. — Aquele.— Nossa. no fim. Olhando estarrecido para Peter.

— Longa história. A lâmina cravou fundo na testa de Machado de Gelo. tirando-a de baixo de Sorensen. dando um largo sorriso e correndo para tirar Madison do tubo de vidro. derrubando-a no chão. passando de sorriso seboso para medo em um instante. Ele jogou. agora jogue essa machadinha para mim. Chewie correu até os controles do Strappado e apagou as chamas. a mão treinada de Machado de Gelo puxou uma pistola SIG das costas.Pendurado em um cabo de força inativo. Der Eisaxt. e a expressão do outro mudou. Desceu o arrebentado agente e tirou as correntes. mas ao menos Bill Sorensen estava vivo. Chewie desceu de uma passarela e deu um chute nas costas de Margot com suas botas tamanho 46. . a arma do outro saiu voando pelos ares. Pegou um cano comprido e empurrou a cama de espinhos. caiu no chão. Chewie conferiu o pulso. Chewie já havia puxado o machado como se fosse míssil Tomahawk. golpeado por sua própria arma. Mas os reflexos de Chewie eram afiadíssimos. Quando ele esticou o braço em um movimento suave. a testa esguichando sangue como um chafariz. Estava bem fraco. distanciando-se do índio com cara mais enfezada que ela já devia ter visto na vida. Quando ele estava deitado no chão. seu traste? — Devlin perguntou. Subitamente. Ele começou a andar para trás. pousando entre Devlin e Ernst. Bill abriu os olhos. Chewie agarrou as mãos fortes de Machado de Gelo e torceu. Passou por seu corpo caído e soltou o cabo. — Onde você estava. Apesar de o outro levantar a pistola em sua direção.

Posso fazê-los parar. Devlin viu a água escurecendo com as criações diabólicas de Gant — as salamandras mutantes com cabeça de rato.Inferno! — Devlin gritou olhando para o tanque de vidro. e Madison já estava com a cabeça submersa. Johnboy gaguejou — Meu nome é Johnboy. — Com lágrimas nos olhos. Devlin tinha problemas com a válvula de água do cilindro de vidro.Ao levantar os olhos marejados para Chewie conseguir forçar um sorriso. Pior ainda. Um lagarto mutante estava mordendo o cabelo de Madison. agüente firme! . ele disse — Está duro que nem cimento. Chewie o empurrou de lado. — Apontou para os lagartos mutantes. Com os lábios trêmulos. gritando a plenos pulmões até as articulações das mãos sangrarem. Elas levavam as cabeças à superfície. flexionando os músculos sólidos dos braços e ombros sob a camisa. Não estava virando. Enquanto isto. Agarrou a válvula com as mãos enormes. Horrorizado. nadando e exibindo os dentes famintos. Chewie gritou — Madison. senhor. Chewie correu para o lado do tubo de vidro e começou a socar. Em puro desespero. gemeu de dor e desmaiou outra vez. Chewie puxou uma seringa de sua roupa tática e injetou morfina em Bill Sorensen para aliviar a dor. Não gira. . algo preto e viscoso estava vazando dos orifícios de onde vinha a água e correndo em direção a Madison. Uma vozinha veio de trás. — E o Peter pode resolver o problema da água. Com o rosto brilhando de tão vermelho.

à medida que as levantava mais. a água ia subindo. Ele puxou Chewie para o lado e os dois se afastaram. Quando o vidro começou a rachar. Pelo jeito estava dando certo. Murmurou suavemente. e nadando para a lateral do tanque com seus olhos marrons fixos em Johnboy. A válvula começou a virar lentamente e a água parou de jorrar para dentro do tubo. As rachaduras aumentaram até que finalmente Peter disse — Virem a cabeça. Então Peter virou e concentrou os olhos na água. conversando com os lagartos pelo que Brody pôde entender. vai explodir. Ele piscou os . onde ficou suspensa. mas com um rápido movimento de cabeça Peter os deteve e a água ficou suspensa no ar. um por um. Peter deu um tapinha na lateral do cilindro com o dedo indicador. desafiando a lei da gravidade e passando pela cabeça de Madison. Então Peter. pelo torso até o alto do tanque.Depois de ver uma garotinha voar como uma pássaro. Pequenos estilhaços de vidro explodiram junto com uma torrente de água. Johnboy ficou de joelhos e plantou as palmas das mãos nas laterais do cilindro de vidro. o garoto mais alto. pequenas fissuras como teias de aranha se formaram no ponto que Peter tocou. para que permanecesse naquela posição. Brody Devlin começava a acreditar que qualquer coisa era possível com essas Crianças Índigo. Peter estava com uma das mãos levantada. subiu no tanque e olhou fixamente para a válvula emperrada. Levantou as mãos espalmadas e. comandando assim a água. porque os lagartos mutantes foram se afastando de Madison. Com a mão livre.

Oh. cavalheiros. chefe.olhos e os cacos caíram no chão. — Major Devlin. filho? — Raji. O queixo de Devlin caiu. Está bem ao lado de algumas das principais linhas de gás. Devlin olhou para cima e viu Scout acenando para ele de uma passarela. inofensivos. eu já sabia de Wendy. Mesmo que Peter possa ajudar. Brody. Qual seu nome. Devlin deu uma olhada para Chewie. não tenho raio-x portátil para olhar dentro . Mas estamos com um problemão. — Se está preocupado com sua amiga Wendy. — Aqui em cima. qual é a próxima? Dá para desarmá-la? Peter foi para perto de Devlin. — Com licença.Uma bomba. posso usar minha telecinesia para desarmá-la. enquanto a água caiu como chuva. Nossa. Brody perguntou — Como sabe meu nome? Eu passei algumas informações básicas para os garotos. chefe — Scout gritou. . ela voou para dentro daquele espelho negro ali. se Scout me disser exatamente o que fazer. Mas há um assunto urgente — disse um garoto de pele mais escura. então Devlin respondeu ao garoto. estava falando da bomba. — Este troço está em plena contagem regressiva. que sacudiu os ombros largos e correu para libertar Madison. senhor. Devlin suspirou pesadamente e passou os dedos por entre os cabelos. Ao seu lado estava um garotinho que sorriu e acenou timidamente. Chewie estava ocupado aplicando a ressuscitação cardiopulmonar. fazendo poças a seus pés.

Major Devlin levantou as mãos e disse — Manda ver. cuspiu um pouco de água e vomitou. Scout. camaradinha? — Senhor Scout. não me diga que você fez respiração boca a boca. E assim. Mas fique sabendo. Ela levantou os olhos para o rosto sorridente de Chewie.. . — Oh. não — ela disse com a voz rouca e fraca.. seguido por gritos agudos. e o estrondo ecoou pela vastidão do recinto. meu Deus. Se não consigo ver por dentro. Um fumacê vinha ruidosamente na direção da equipe ÔMEGA oriundo do ponto na passarela onde Scout e os Garotos Perdidos trabalhavam fervorosamente para desarmar a bomba.. Chewie balançou a cabeça afirmativamente e deu um sorriso tímido. Limpou-lhe o queixo com a manga da camisa e então lhe acariciou os cabelos amorosamente. — Por favor. não posso dizer ao garoto o que fazer. Chewie gentilmente limpou sua boca e seu rosto com as costas da mão enorme. eu posso enxergar lá dentro. Madison tossiu. Gabrielzinho puxou a calça de Scout. Que foi. Scout baixou os olhos. estes garotos vão tirar nossos empregos quando crescerem. Madison desmaiou em seus braços.. Capítulo 4 Uma explosão sacudiu o laboratório. depois olhou para a própria blusa desabotoada. E contar a vocês e a Peter o que vejo.desta droga. Estarrecido.

Ela respirou fundo. como se acabasse no centro da Terra. — Perto disto. pelo que sei.Brody Devlin pensou o pior ao olhar para as escadas. — Cuidado. para o torso e então apalpou o peito. Satisfeita por estar inteira. Do outro lado do espelho. doktor. sã e salva. mas a torre é estranha. Podemos continuar agora? — ele começou a caminhar ao redor da borda do barranco. para uma torre que parecia um minarete coberto de ouro que se elevava de um vasto precipício no terreno rochoso. respirando com dificuldade no ar enfumaçado. Blair fechou a cara. Blair e Gant estavam lado a lado. Afinal. o Sol estava de tostar. você não voa como a garota. de aparência meio bizantina e meio islâmica. Parecia sem fundo. A risada irônica de Gant veio por trás e ela se virou. avaliou o cenário ao redor. — . De mãos na cintura. ela se aproximou da beira do precipício e deu uma olhada na borda. diria que é alguma parte do Oriente Médio. minha querida. O chão começou a remexer debaixo dos seus pés e ela recuou. onde o tempo corria mais lentamente. Foram transportando para alguma paisagem distante e estavam no alto de uma montanha. Blair baixou os olhos e olhou para as mãos. soprar a crina ruiva de Blair. zombando dela com seu sorriso torto. — Já faz idéia de onde estamos?— Gant perguntou presunçosamente. Olhavam para cima. achando que Scout e os meninos tinham sido despedaçados. em outra dimensão. Seu coração trovejou no peito ao subir as escadas pulando degraus. A julgar pelo terreno. Apesar da brisa cortante.

Ela foi atrás de Gant. acho que existe uma escadaria entalhada na lateral da rocha bem aqui. No geral. O portal fica lá embaixo. — Você me arrastou para este pesadelo. Depois que a cruzaram. Uma enorme escadaria inclinada se elevava até um zigurate gigante. e o . Ela já havia visitado um daquele em Tallil. Blair observou os arredores. e não fazia idéia do que havia naquele vale lá embaixo. Blair piscou os olhos e parou. Ela não tinha água. De onde estavam antes só conseguiu ver um lado da torre. aterrorizada. e não vou dar nem mais um passo se você não me disser como diabo pretende me levar de volta para o outro lado do espelho. Iraque. Eles já haviam descido a íngreme escada de pedra e chegaram a uma ponte que termina na torre do outro lado. Agora vamos. Suas bordas não eram mais quebradas e sim arredondadas e envelhecidas. Descer a montanha não era uma opção viável. mas. não fazia idéia de onde estava. Mas não havia qualquer sinal de civilização. — Seja uma boa menina e não faça bico. você está esgotando minha paciência. Blair ficou parada. Ele olhou para trás. Daquela altura uma grossa nuvem cercava a montanha e lhe tapava a visão.Se não me falha a memória. — É um pouco complicado. com o lábio inferior saliente. ainda era uma visão e tanto. passaram por uma larga arcada. de braços cruzados. para voltar. Agora ela se deu conta que aquilo era apenas uma fachada que escondia a verdadeira estrutura que havia detrás das paredes. se é que havia alguma coisa. precisamos seguir em frente.

Ele parecia em melhor forma. portais verticais e ligações entre o céu e a Terra. Apesar da advertência da voz sobrenatural. — Enfiou a mão no bolso do paletó. mais corado. Blair sabia que zigurates eram templos considerados eixos cósmicos. e a Terra e o submundo. mas não viu ninguém. Quando chegou ao topo. ela virou e entrou na entrada em forma de boca escancarada. Ela disse — Esta parece levar ao lado externo da estrutura que vai subindo em espiral.zigurate mais antigo de que se tem notícia. Ela o observou. Uma voz etérea chamava — Blair do Shelta Thari.. — Ela virou. Subiu a escadaria aos pulos e logo apareceu ao seu lado. Havia qualquer coisa de diferente nele. A arqueóloga que havia nela estava encantada com aquela descoberta única.. Gant seguiu pela segunda entrada sem olhar para trás e disse — leva para o portal lá embaixo. correu até a escadaria e começou a subir. além de ser o laço horizontal entre as terras da Terra. arfando. . Apesar de seu aspecto decrépito. que fica em Sialik. Ela não precisava ser coagida por Gant. Foram confrontados por duas passagens. A outra. Iran. estava sem fôlego e parou com as mãos nos joelhos. — Não se deixe seduzir pela sede de conhecimento. Gant tinha força e resistência de jovem. mas o que estava vendo agora não se parecia com mais nada. A cor era de um branco e índigo fulgentes que cintilavam quando batia a luz do Sol. tirou uma lanterna e acendeu.

Blair hesitou, suspirou e foi atrás dele. Seguiu o jato de luz oscilante da lanterna. Teve de apertar o passo para acompanhá-lo. Eles entraram por uma passagem estreita onde o chão ia se inclinando gradualmente para baixo. Blair tentou entender as construções em pedra e a arquitetura, pescar alguma dica através do estilo. Algumas partes lembravam a Suméria, outros lembravam o estilo da Babilônia. De qualquer forma, em sua mente ela já visualizava o que lhes esperava: imagens de um submundo de enxofre com piscinas borbulhantes emanando o cheiro pungente de gás sulfúrico; ou quem sabe uma caverna com paredes de cristal que cintilavam nas cores do arco-íris. Quanto mais eles desciam nas entranhas do zigurate, mais íngreme ficava. Finalmente, quando chegaram no que parecia a parte mais baixa, o chão não estava mais íngreme. Uma fraca luz verde e branca vinha do ventre da caverna diante deles. Devlin pegou a passarela e foi na direção de Scout e dos meninos, e o chão de aço furado como colméia ecoava a cada passo que ele dava. Deslizou para o canto de um equipamento grande. Ouviu vozes gritando e jatos de luz cegante girando, caóticos, em meio à grossa fumaça. Algo lhe bateu no peito e ele caiu sentado. Quando olhou para cima viu o cano de um fuzil automático e uma cegante lanterna LED apontados para sua cabeça.

A voz familiar disse — Ele é um ianque, rapazes, baixem as armas. — A arma foi baixando e lhe estenderam a mão. Brody pegou a mão e lhe puxaram para ficar de pé. O inspetor-chefe Newley sorriu para ele. Quando as coisas começaram a se esclarecer, Brody olhou para trás do inspetor. Um monte de homens com Nomex-3 pretas e roupas táticas que ele imaginou serem do SAS estavam garantindo a área próxima, e logo atrás estavam Scout e os meninos. Suspirou aliviado. — Merda! Achei que uma bomba tivesse explodido. Newley balançou a cabeça. — Ah, tivemos que entrar com tudo, major. A explosão foi quando arrombamos a porta e os rapazes jogaram umas granadas por precaução. Brody esfregou o peito. Newley deu de ombros, acanhado. — Lamento que tenham lhe dado uma porrada, major. — Acho que foi sorte minha não ter levado saraivada de balas de 9 mm. Scout e o capitão apareceram ao lado de Newley. O capitão estava com cara de estupor. — A maior desgraça que já vi na vida... Scout levantou um cronômetro LED acoplado à tampa de uma caixa de ferramentas preta. Os números estavam paralisados em 00:04. Brody olhou da caixa para Scout e para a caixa outra vez. Assoviou baixinho. — Por quatro segundos. É perto para cacete. Peter espiou pelo ombro de Scout, então ele desceu sorrindo.

Brody balançou a cabeça afirmativamente para Peter. — Trabalho seu, pelo que entendi. Peter olhou para os sapatos por um momento, então olhou para cima e piscou o olho. Brody virou-se para o capitão. — Tenho dois agentes lá em baixo que precisam de cuidados médicos imediatamente. E um escocês maluco dopado com torazina e esfriando as idéias em algum lugar da mansão. O capitão balançou a cabeça afirmativamente e falou no microfone do fone de ouvido. — Situação dos ianques? — ele perguntou, usando o termo do SAS para reféns. Após um momento, ele respirou fundo e olhou nos olhos de Brody. — Já estão sendo atendidos por dois médicos. Também encontraram o sargento Conners tirando uma soneca em um quarto lá em cima. Brody deu risada, imaginando o grande leão-marinho aninhado em uma montanha de travesseiros como a bela adormecida. Chewie explicou sobre os ataques do robô. Mas então fez uma expressão dura. — Como estão os outros dois? O capitão balançou a cabeça afirmativamente. — A mulher está em bom estado, mas o homem está por um fio. Estamos chamando um helicóptero Medevac e deixando a emergência do hospital de sobreaviso. — Ele pôs a mão no ombro de Devlin. — Anime-se, major. Vamos levá-los daqui o mais rápido possível. Um homem do SAS levou Sir Nigel, com as mãos algemadas nas costas, até eles.

Brody deu risada ao ver o gorducho com o rosto coberto de ferrugem e expressão circunspeta. — Bem, velhinho. Parece que você se deu mal mesmo. Virou para o inspetor Newley. — Ainda mandam os traidores para a execração pública na Torre de London? Newley balançou a cabeça. — Como eu queria que ainda mandassem. Amarrado no pátio com a calça arriada e os corvos bicando seu saquinho até eles se fartarem. O capitão interrompeu. — Major, nós mandamos uma busca atrás dos técnicos e o que restou dos seguranças de Gant, mas pelo jeito não havia sinal do senhor Gant e... Brody interrompeu. Capitão, confie em mim Você não acreditaria se eu dissesse. - No meio daquela confusão, Brody não pensou mais em Blair. Sentiu uma dor aguda nas vísceras ao pensar nela passando pelo espelho negro. - Eu estava para dizer que não há sinal deste tal de Al-Dajjal nem de Margot Gant. Brody virou e se apoiou no corrimão. Viu Chewie ao lado de Madison enquanto um médico do SAS a atendia. Ao lado dela estava deitado Bill Sorensen. Estava recebendo fluidos vitais na veia e uma máscara lhe cobria o rosto. Brody chamou Chewie. — Ei, seu traste. Deixa os caras trabalharem. Margot e Al-Dajjal estão passando a perna na gente. Chewie olhou para cima, ficou de pé e bateu no peito, soltando um grito de guerra de gelar os nervos. Brody virou para Newley e o capitão. Olharam ao mesmo tempo para Sir Nigel, que engoliu em seco e disse — Não olhe para mim. Não

faço a menor idéia de seu paradeiro, sinceramente, cavalheiros. Newley torceu a orelha do gordo meteu a mão no casaco dele e puxou um revólver Webley da cintura. Estarrecido, major Devlin reparou que o rosto do capitão ficou branco quando ele e outros homens do SAS se afastaram. Sir Nigel estremeceu. — Isto não vai ser necessário, inspetor. Tem um aerobarco parado na entrada do solar em frente à praia. Suspeito que enquanto conversamos, eles estejam saindo por lá. — Capitão — Brody gritou. — Tem um helicóptero aí? Um homem do SAS olhou de onde estava e disse — Senhor, tem um helicóptero no teto. Sir Nigel limpou a garganta. — Tem um elevador expresso secreto que vai do térreo ao teto. O inspetor o observou cuidadosamente. — Se você estiver mentindo... Uma vozinha disse — Não é mentira, senhor. Mas é melhor correr, porque a Cruela e aquele mesquinho estão embarcando agora mesmo. Brody baixou os olhos para Gabrielzinho, então deu de ombros e virou-se para Scout. Scout se ajoelhou, encarando o garoto. — Camaradinha, você consegue ler as mentes deles e dizer aonde estão indo? Gabriel fechou os olhos, apertando-os bem por um segundo e então os abriu. — É um barco grande e preto e está debaixo d'água. Os homens trocaram olhares perplexos.

Então Brody, apesar de no fundo já temer o que o garoto tinha a dizer, perguntou devagarzinho — Quer dizer um submarino, homenzinho? — Ahã... e tem uma espécie de cruz torta pintada do lado. Scout se contraiu, surpreso. Então levantou os olhos para Brody Devlin com um olhar petulante de quem diz "eu avisei". Brody balançou a cabeça e levantou a mão aberta. — Nem fale. Com um olhar cretino no rosto, Scout disse mesmo assim — Uma droga de um... submarino com uma suástica pintada na lateral. O inspetor-chefe Newley puxou o gordo pelo cotovelo e balançou a cabeça em direção à saída. — OK, queridão. Lá vamos nós. Enquanto Brody e um grupo de tropas do SAS foram atrás deles, Scout correu para o lado de Brody e enfiou uma arma Taser no bolso do paletó. Brody olhou estarrecido para Scout. O nerd murmurou uma rápida explicação na orelha do major. Sorrindo largo, Brody deu-lhe um tapinha nas costas e disse — Esta vai cortar o barato dela... para valer.

Capítulo 5
Blair e Gant entraram na caverna e chegaram a uma entrada em forma de caixa. — Colunas dóricas — Blair disse. — Aposto que se trata de uma tumba grega ou macedônia

Em ambos os lados ao alto de um pedestal havia um globo verde brilhante. Blair chegou mais perto e aproximou a mão a poucos centímetros do globo. — Não emana calor nenhum — pegou a esfera brilhante e a levantou. Ao passá-la cuidadosamente entre as mãos, ela reparou que dentro havia um líquido iridescente sacudindo de um lado para outro. Ao levantar a esfera em frente a si, brincando com ela como uma criança com um brinquedo novo, ficou impressionada com sua beleza sutil. Em frente a si, uma figura de pedra pareceu gingar ao ser atingida pela luz do globo. Era a estátua de um homem, tamanho real, com barba farta. Seu robe era decorado com símbolos alquímicos: o Sol, a Lua e as estrelas; enxofre, sal e mercúrio. A mão direita estava levantada com a palma aberta em um gesto de advertência, enquanto a mão esquerda os chamava. — Surpreendente — Gant disse — Hermes, o Três Vezes Grande. Blair teve de admitir a si mesma que Gant tinha razão, mas sentiu um arrepio nos pêlos na nuca. Ela olhou para a inscrição em grego e leu lentamente — Portal da Consciência. A jornada começa com o conhecimento, mas termina na fé. V-I-T-R-I-O-L. — Fez uma pausa. — Esta última parte lhe diz alguma coisa, Gant? — Vista Interiora, Terraie, Rectificando, Inveniens Occultum Lapidem - Ele respondeu murmurando suavemente. — "Visite as partes internas da Terra e retificando descobrirá a pedra oculta".

Eles entraram e se viram em um salão de doze lados, sem saída. Representações de um processo alquímico estavam nas laterais de uma alcova dominada por fornalhas e alambiques, frascos e destiladores. Blair baixou os olhos. O chão era feito de um mosaico entrelaçado de por pedras de seis pontas. Cada pedra tinha um dos doze signos do zodíaco entalhada. As pedras, como as paredes ao redor, pareciam cristalinas. Mas em vez de serem claras, eram obnubiladas por traços brancos, como se uma aranha tivesse projetado sua teia sedosa e sido presa dentro de um bloco de gelo. Blair se aproximou alguns centímetros e deu um passo à frente. Subitamente, a pedra debaixo de seu pé começou a mexer, então se soltou e caiu abismo adentro. Gant a puxou pelo braço e o globo caiu da mão dela. A pedra perdida foi deixando um rastro considerável. Blair olhou pela beira da fenda, observando a esfera brilhante desaparecendo ao cair dentro da fenda sem fim, até finalmente sumir. — Isto é uma maluquice! — ela disse. — Quer encontrar o portal ou não quer? Blair respirou fundo e parou para pensar por um momento. — Está claro que a astrologia não é a chave. Será que estes símbolos zodiacais podem representar algo além dos meses do ano? Uma progressão ou ordem distintas que pudéssemos usar como caminho? — Certamente — Gant disse. — A seqüência alquímica. Cada símbolo representa um processo.

— Então seria Áries. Vamos usar essa ordem. Depois veio Leão.. deixando a pedra sobre a qual estavam cerca de meio metro acima das outras. Pisaram juntos na pedra com o signo do carneiro. em seguida Câncer para dissolução. O chão inteiro estremeceu e afundou. . Touro. Depois que passaram pelo resto dos signos do zodíaco a entrada se revelou completamente. como se subindo de volta ao piso atrás deles. O chão estava agora a oito metros e meio abaixo do piso.Blair disse.Está formando uma escada para baixo . destilação e sublimação e Escorpião para separação. então. Blair perguntou — E agora? — Coagulação.Blair virou e o observou. — E não gostei nada do que está escrito acima da porta: O Teste do Caos.. — É a famosa Escadaria do Céu. Pisaram no Touro. — É fabuloso — Gant disse. . Virgem e Libra — digestão. — Ou do. empolgada. deixando Touro a meio caminho entre o chão e Áries mais ao alto. olhando para cima nervosamente. As pedras retumbaram afundando mais meio metro. e o topo de uma entrada aparecia sobre o chão. — OK. Olhando ao redor cuidadosamente. — Calcinação é a primeira — Gant disse. As doze pedras leitosas que foram escolhidas permaneciam em diferentes níveis. Foram em seqüência: Gêmeos para fixação. Inferno — ela disse. Blair olhou para trás.

procurando alguma sutura. minha querida doktor. — O que é este material branco preso à parede? Gant observou à luz da lanterna. é como o que está Abaixo. Quando dobraram para um lado. Bateu com as dobras dos dedos. — Isto me lembra as passagens da Grande Pirâmide — Blair disse a ele. É como se algo tivesse repetidamente desenterrado estas goivas ao longo do tempo. Com a ponta do dedo ela examinou um entalhe na parede. quem sabe? — ele palpitou. depois uma descida. Blair passou as mãos na parede. veio um brilho verde. uma grande aranha rastejou em direção a ela.. depois outra curva. O que está Acima. Ao baixar a lanterna.Ao afastarem as grossas teias de aranha e entrarem. mas parecem ter sido gradualmente aprofundadas. — Há goivas profundas nas paredes. — É uma pirâmide invertida. Curioso. Ele virou a luz da lanterna para o chão e tapou a lente com a mão. não acha? — Marcas de escultores. — Ai — ela disse. — Tem um monte disto no chão também. Ela termina no cume. Tinha uma curva.. Blair reparou algo de incomum no brilho carmesim das paredes. — Parecem relativamente recentes. viram a passagem terminar abruptamente em uma parede sem nada. Foram descendo cada vez mais. . — Sólido — ela olhou mais de perto. As paredes também eram cristalinas e tinham um tom ardido de vermelho alaranjado. Ela abaixou a cabeça e se enfiou em uma longa e estreita passagem.

um frio lhe subindo pelas costas e se instalando no pescoço. Gant procurava freneticamente pelas paredes. fazendo um som aterrorizante de pedra contra pedra. Tem de haver alguma alavanca escondida por aqui. Algum terror desconhecido vinha se arrastando pelo corredor. daí o brilho. avançando centímetro a centímetro. — Silêncio — Gant murmurou e esticou a cabeça. O chão tremeu e revirou. Blair sentiu um arrepio em todos os pêlos do corpo. — Maldito Gant — Blair disse sucintamente e abaixou a cabeça. Então provou do resíduo que ficou nas pontas dos dedos. devido ao teto baixo que se soltava devido à vibração. Voltaram para espiar do canto em que dobraram. — Isto não era para estar acontecendo. alguma coisa. deixando escorrer entre os dedos. olhando para a última esquina em que dobraram. — Cálcio. Um estrondoso rugido veio detrás deles. Uma pedra enorme contornava a passagem. escorrendo por uma espécie de funil no chão. como um relógio de areia.Ele se ajoelhou e pegou com a mão. Fósforo. Eles continuaram imóveis. — Pó de ossos — ela cutucou o monte no chão com os dedos dos pés e ele foi diminuindo de tamanho. . Você não está entendendo? Estamos presos aqui e nossos corpos vão virar pó de ossos e escorrer por este buraco no chão! O som da pedra se arrastando agora era como uma trovoada. Começou a chover pó sobre eles. Eles deram meia-volta.

Chewie pulou para cima e enganchou o braço na tábua de deslizamento modificada. . Ele virou. pegou a direção do canal e do mar revolto. Enquanto voavam ao nível das copas dos carvalhos e elmos. Brody olhava para baixo. o aerobarco disparou de trás de uma ancoreta pedregosa. — Pegue-o — Brody ordenou. um enorme ventilador sugava o ar. procurando por um sinal do aerobarco e de Al-Dajjal. Debaixo do contorno. Brody havia dirigido uma versão menor daquilo no Vietnam. — Levante. — Ali! Newley e Brody viram Chewie escalando uma janela e correndo pelo teto de um nível mais baixo da mansão que estava iluminado por holofotes. Brody Devlin gritou para o piloto pelo fone de ouvido. O helicóptero empinou e desceu. Com Chewie segurando firme. comprimindo-o e fazendo-o explodir . O céu estava sinistro e taciturno e a escuridão começava a cair.O helicóptero decolou do teto de nariz para baixo e sobrevoou o solar. onde costumavam patrulhar o Mekong Delta. o vento golpeava o rabo-de-cavalo do índio. Subitamente. o helicóptero levantou e voou sobre o solar.Pegamos — Brody disse. olhou para cima e acenou loucamente com as mãos. mas jamais vira algo como aquilo. Ao pairar sobre ele. Dois grandes pontões encaixados por um grosso contorno de borracha estavam ligados aos dois lados de uma cabine cuneiforme acima.

dois botes cuneiformes foram lançados da popa. Um segundo helicóptero voou na direção deles. — Nossa! — Brody disse ao olhar pelo binóculo. Em poucos momentos os homens pularam dentro dos barcos. . — E lá vem eles! — Newley gritou no microfone. — Leve-nos mais perto — Brody gritou ao piloto. Brody explicou. — São veículos de superfície não-pilotados. Seu sistema ótico Toplite permite rastrear os alvos automaticamente através de raios laser.debaixo do aerobarco.62 mm. e mortais. chamadas Typhoon-Station. Estão mandando uma equipe do SBS com outro helicóptero. lançando-se atrás da presa. avisou — Já notifiquei a Marinha Real.. O capitão. Brody estimava que estivesse a mais de 70 nós. Ele deslizava sobre um colchão de ar na água enquanto duas hélices propulsionavam a água. barcos-robô de patrulha equipados com metralhadoras automáticas de 7. cujos motores rugiram. — São PROTECTORS! — Desgraça — o capitão disse e avisou o helicóptero do SBS. Dois botes infláveis de borracha motorizados caíram pesadamente sobre a arrebentação. planando sobre as ondas. — Que diabo está dizendo? — Newley perguntou. Foi atrás do barco. que estava sentado perto de Newley. Ele fez isso. seguidos por esquadrões dos SEAL. Mas bem quando os botes estavam alcançando o aerobarco. inclinou-se agudamente e desceu na direção do aerobarco. avançando em direção às equipes do SBS. São rápidos como o diabo.

machucando o ombro. Seu sexto sentido sentiu o ar. Vão destroçar nossos garotos. Veados malditos. Ela virou e viu uma forma . Blair sentiu antes de ouvir: uma presença na passagem estreita. penetrando a passagem escura que descia em espiral cada vez mais profunda. meu Deus — o capitão lamentou. angustiado. Como tubarões famintos. Esticou os braços e mergulhou como um cisne. já — Brody ordenou ao piloto. — Estamos acabando de colocá-los a serviço. Respirou fundo e tomou coragem. logo perto do ombro. Sem parar. ela foi voando por um quebra-cabeça de pedra e subiu mais até achar os degraus íngremes que levam à entrada do zigurate. Wendy caiu do outro lado do espelho como um albatroz. — É nossa única chance. ela estava sendo guiada pelo puro instinto ao voar.— Projetados pelos israelenses. inspetor — o capitão acrescentou. Como um pombo-correio. — Ah. procurando por Blair. Os canos das metralhadoras brilharam e elas fizeram sua saudação às equipes do SBS... pegou impulso para cima e planou sobre o barranco fundo até chegar à torre. — Leve-nos para baixo. mirando a toda velocidade nos barcos de ambos os lados. Levantou-se e sacudiu a poeira. Ela virou e correu para a borda do profundo precipício. Coloque-nos bem sobre a ponte desse corno enquanto os animais estão ocupados atirando nos botes. os PROTECTORS os cercaram e cortaram as ondas.

Começou a tomar forma. O moedor gigante passou bem no canto da esquina. mas infelizmente preciso de você para me levar até e através do portal. — Ao dobrarem a esquina. querida. — Não há ranhuras. Ela retesou os músculos. Menos de um metro. A radiante visão desapareceu. O homem sábio dá boas-vindas a morte. Blair disse a Gant — Se quer viver. Blair. o pilão gigante estava a menos de três metros deles. — Por mim eu lhe diria para ficar à vontade. e continuava a se aproximar.. só os tolos a temem. esfregando as mãos sobre ela. Uma voz gentil de senhora a chamou. por isso fique quieto. Encarar a morte pela frente. siga-me. Blair deu uns passos para trás e examinou a parede atrás da curva fechada. A direita estava o corredor de onde vieram. . — Acho que devemos voltar à parede que fica bem no fim da passagem — Gant argumentou. pulsando com uma aura branco-azulada. — Vamos ficar aqui. — Aqui também não tem pó de ossos. Este é o único ponto onde a pedra não arranhou a parede — examinou o chão. Um metro.sombria. e se aproximando. Era uma velha mendiga. a mesma voz que ouvira antes. Gant mexia-se nervosamente. lagarto velho..

deu uma estremecida e em vez de continuar na direção de antes. suas águas claras e azuladas fluíam por sobre os lábios de conchas que cercavam o jorro central.. — Parece que não foi boa idéia — ela disse. e a superfície arenosa lhe beijou o rosto com lábios de lixa. quase lhe espremendo a vida dos pulmões. Então enfiou o rosto na água radiante e tirou. Emergiram pela passagem. com a água lhe escorrendo pela face. Então o moedor mudou de direção. agora havia uma passagem que descia suavemente. Havia um lago grande e luminoso na frente. Gant correu para a beira do lago e ficou de joelhos. Foi se aproximando mais. Do meio jorrava uma fonte perolada em formato de árvore. virou à esquerda. aliviando a torturante pressão em seus peitos. de modo que a parede atrás deles começou a recuar. Começou a pegar água com as mãos em concha para beber. Uma pedra então lhes abraçou o peito. rumo à parede vazia. A arquitetura era a mesma de um templo grego. Onde antes havia uma parede. mas Blair o agarrou pelo braço. .Meio metro. De algum ponto bem no fundo ela ouviu o som reconfortante de água corrente. Ouviu-se uma barulhenta pancada e algo se encaixou. ela quase engasgou com o ar. que dava em uma sala. e o que começou como leve pressão estava ficando insuportável. Ao virar e olhar para Blair.. Blair sentiu uma brisa fria no pescoço e virou. segurando com força. a pedra lhes roçou as roupas e Gant tentou sair do caminho. Blair virou o rosto.

Do canto do olho. Ele sorriu para ela com o rosto de um homem jovem. E os mansos só vão herdar a ponta da chibata. — Acho que estava — Blair disse. tudo foi curado como por mágica. Ele olhou para ela com desprezo e fez um som com a língua. — Mas será que vale a pena? Toda dor e sofrimento que você causou. Blair viu Wendy do outro lado das águas. Era bonito. Gant virou também. Blair notou um leve tremor na bochecha dele. Ele se levantou e foi até ela. não era mais encurvado. todo o sangue em suas mãos. Sempre foi assim. Blair viu a jovial vitalidade de Gant emergir debaixo da máscara destruída pela idade e pela deformação. não me arrependo de nada. criança insolente. e fechou a cara.. Estava ereto. — Sim..A pele cheia de cicatrizes. eu estava certo o tempo todo. os fins sempre justificam os meios. com cabelos negros ondulados e brilhantes. Ele deu uma risada maligna. — A Fonte da Juventude. a hipocrisia e a imoralidade? — ela perguntou. e sempre será — Então seus deuses ainda são a ambição. com inveja. As águas primordiais da criação. — Eu avisei para ficar longe de mim. — Minha cara. as veias medonhas. os gordos tumores. acompanhando seu olhar. Sabe. de seus vinte e poucos anos. e sua pele pareceu perder seu brilho jovial. . e olhos azulclaros.

Depois vinha o acrônimo: VITRIOL. depois escureceu até ficar parecendo petróleo. esfregou o nariz arrebitado no de Blair e piscou o olho. LIQUOR HEPATIS. A água começou a mudar. Ela pôs Wendy no chão e segurou sua mão. seus olhos tão radiantes e cheios de vida que ela mais parecia um querubim. minha doçura. IMMCISTINANTUR. pulou em seus braços abertos. Quando ele alcançou a metade do lago. Limpou as lágrimas com as costas da mão e disse a Wendy — Você não devia ter vindo. os olhos de Wendy estavam fixos em Blair. Havia uma série de canos parecidos com inscrições correspondentes que diziam: NATRON.. e lágrimas quentes lhe desceram pelo rosto.Ao flutuar sobre o lado. o líquido oleoso estava batendo em seu peito. Chegando mais perto. um consolo de ao se agarrar àquele anjo. se debruçou. Blair sentiu um amor maternal. RED PULVIS SOLARIS . Quando alcançou Blair. O rosto dela estava tão sereno. mais fundo ficava. Não sei se vamos conseguir voltar Wendy passou o dedo no rosto de Blair. Parecia raso. . Uma torrente de líquido viscoso cor de esmeralda estava se misturando às águas. Até que reparou na inscrição com uma palavra em latim em uma placa de pedra do outro lado do lago.. mas quanto mais Gant avançava. ela viu que debaixo da placa havia um cano de boca larga. Gant tinha virado e estava caminhando pela água para atravessar o lago. Sua luminosidade se apagou e o tom claro de azul foi ficando cada vez mais esverdeado. Blair olhou atentamente.

Pequenas chamas azuis começaram a sair dos cantos da piscina de óleo. O vapor se transformara em um gás amarelado que brotava da superfície da água turva. O ar agora cheirava a ovo podre. Pegou Wendy nos braços. que parecia estar em dificuldades.. Sabe onde fica o portal? Wendy torceu o nariz. Você soltou pum que nem os meninos ou algo assim? — Meu amor. . Foram aumentando de tamanho. como se a água tivesse ficado grossa como piche.. Estava escrita em voynichês debaixo das imagens de mulheres nuas se banhando em uma piscina alimentada por múltiplos tubos ou canos. da qual se lembrava de ter canalizado uma vez em transe. É só pegar a direita daquela parede ali. Primeiro foi o cheiro de piche que invadiu as narinas de Blair. isso é moleza. como veio parar aqui? — Ah.Olhou para Gant. Em inglês significava apenas "estão misturados"! A intuição lhe veio com um frio na nuca... E a próxima palavra na placa era.. VITRIOL. As palavras na placa lhe vieram à mente num rompante. isto aqui fede pra valer. Mas então Blair ouviu uma espécie de sibilo alto. Ele levantou os braços e começou a se debater violentamente. IMMCISTINANTUR.. — Temos que sair daqui.. era uma palavra codificada do IMMCISTINANTUR Voynich. Ácido sulfúrico Ela se deu conta que as águas curativas da piscina foram criadas por um processo permanente de combinação de uma série de substâncias químicas letais. as flamas lambendo mais alto e começando a alcançar a superfície. — Ela apontou para o outro lado da piscina em chamas. — Eca. Ácido VITRIOL..

Ela foi até ele e olhou para a superfície. Em vez de seu reflexo. Ao invés do calor de matar que estava esperando. O cheiro de carne tostada lhe revirou o estômago. Ouviram um grito lancinante que vinha de trás. . Olhando mais de perto. Baixou os olhos para Wendy. — Ahã. tossindo. Do outro lado havia um espelho negro idêntico. sussurrando-lhe na orelha. e bateu na parte inferior da parede a toda velocidade. levantaram vôo e sobrevoaram aquele inferno. ela apertou bem os olhos. Ela virou e viu o corpo carbonizado de Gant cambaleando na direção delas. Blair sentiu uma brisa fria ao sobrevoarem as chamas. que ainda estava em seus braços. Tenha fé. Passaram pela abertura. viu homens do SAS andando de um lado para outro. e a parte de cima balançou para dentro e para baixo com a pressão da mão da menina. cobertas por uma pesada nuvem amarela. Wendy projetou a base da palma da mão para a frente. Aquela parte da parede fora construída sobre colunas de sustentação. — Agora vamos lá — ela disse a Wendy. A menina vai lhe conduzir. E pensou ter escutado a voz amável da velha mendiga outra vez. parecendo empurrar algo ao voar. Blair viu a imagem apagada do laboratório de Gant.Mas agora as chamas pulavam da superfície de líquido oleoso. Ainda apertando a garotinha firme contra o peito. — Está pronta? — perguntou.

Do outro lado do espelho. Quando Gant estava bem no meio do caminho o espelho negro começou a se fechar com força ao redor dele. Blair virou e pulou dentro do espelho. a parte superior do torso de Gant se projetou do espelho. com a carne pingando dos dedos como cera pingando de uma vela quando ele sacudia os dedos. ficou com medo. . freneticamente. A parte inferior de seu torso foi cortada como se atingida pela lâmina de uma guilhotina. tentando alcançá-la. Estava totalmente cercado por uma impiedosa escuridão. e as mãos esticadas estavam feridas e da cor do carvão. ele recuou da superfície do espelho com suas mãos tostadas e cheias de bolhas. esforçando-se para chegar à superfície. Seus olhos apavorados giravam de um lado para outro. Seu rosto estava cheio de bolhas e vermelho como um camarão. os cabelos negros ondulados estavam queimados e caíam da cabeça aos tufos. Caiu pela superfície lisa do espelho fazendo um barulho molhado e caindo no chão. Como um verme parcialmente enterrado na maçã. ainda colados à carne. Gant xingou como louco e se jogou no espelho. Usando o que lhe restava de força.Saía fumaça dos farrapos que restavam das roupas. A se dar conta que não conseguia sair. Um estrondo sacudiu a câmara e clarões se acenderam ao redor do espelho. A superfície ondulou quando elas desapareceram pela passagem.

— Oi. — Então ela levou a mão à boca e deu risada.Então ele se deu conta que estava preso na eternidade entre os mundos. Wendy viu que um homem e uma mulher estavam deitados em macas levadas por médicos que agora estavam no pé da escada. um terror enlouquecedor lhe embolou a mente. pessoal. Wendy olhou para Blair com expressão triste e uma pergunta nos olhos. Um coro de vozes chamou do alto. que engoliu muita água. Oi. Senhor Scout contou que Bill. Blair deu a mão ao soldado e o puxou. Wendy foi até eles. debateuse. o cara. Blair e Wendy saíram do espelho gêmeo e rolaram pelo chão duro. está muito ferido. Gabrielzinho. e seus gritos foram engolidos pelo infinito abismo. Wendy ouviu a doce voz de Gabe telegrafando uma mensagem diretamente para dentro de sua mente. Wendy. Sentiram minha falta? — ela respondeu. sorriu e acenou todo animado. Ela deu seu sorriso com covinhas e disse — Perdoe-nos. Acho que devíamos ter olhado para onde íamos. . A Terra do Nada. batendo no pé de um homem do SAS que se assustou e caiu. que espiava por entre as pernas de Peter. Por favor. que estavam na passarela logo acima. Gritou. Ao olhar para o vasto vazio. Do outro lado. Ao se levantar. espiando com os cotovelos apoiados no corrimão e as mãos nos queixos. ajude-o. Ela levantou os olhos e viu os Garotos Perdidos. Wendy estava agora ao seu lado. Blair confirmou com a cabeça solenemente. E ela é a senhorita Madison.

por um breve momento. fecharam os olhos e abaixaram as cabeças. e ela tossiu. precisa demais de sua ajuda. Com o rosto determinado. Somos mais fortes juntos. Já dei jeito em uns dois pássaros. um halo brilhar ao redor da cabeça da garotinha. vou precisar da ajuda de vocês. — Saia agora. inclusive Gabriel. Sua respiração estava curta e difícil. Wendy — Raji gritou. — Meu nome é Scout. . ele abriu os olhos rapidamente e pareceu implorar ao pequeno anjo. Ela olhou para os olhos tristes dele e balançou a cabeça. Então Scout virou para Wendy e deu um sorriso caloroso. Os garotos acham que você pode dar um jeito nele. Pessoal. e eu sei o que estou fazendo. sondando com os olhos. Scout desceu as escadas. Ficou confuso ao ver. Um médico começou a afastar Wendy. meu amigo aqui.Roger.olhou para os meninos. disse — Ei. senhorita. — Quem sabe você não consegue dar jeito em Madison também? — ele apontou a senhorita Dare com a cabeça. mas nunca fiz isto com uma pessoa . Este homem está muito mal. Ficou parado. Ao pegar a mão de Sorensen. . Pôs-se entre o médico e Wendy. Bill. Deixe a garota. Este homem e esta mulher são nossos. Mac. se deram as mãos. Os Garotos Perdidos. com seu som rascante amplificado pela máscara de oxigênio que lhe cobria o nariz e a boca.Um grunhido atraiu a atenção de Wendy para o homem ferido.

Está ardendo em febre. Os dois médicos ficaram tão perplexos com a recuperação total e instantânea de Sorensen que quase deixaram cair a maca. Wendy ouviu alguém arfar profundamente. Quase chorando. Madison limpou a garganta. com uma expressão de surpresa no rosto. Respirou fundo. Olhou dentro dos olhos de Blair. Virou a tempo de ver Blair desmaiar. caindo primeiro de joelhos e deitando no chão. Não tinham mais o tom verde-mar brilhante. Tenho que curá-la. Wendy perguntou a Bill Sorensen — Está se sentindo um pouquinho melhor. Estou conseguindo respirar. o que lhe deu mais força. Wendy foi para o lado dela. A menina . Wendy baixou a cabeça e segurou a mão de Sorensen com toda a força de suas mãozinhas. estavam vazios e embotados. Atrás de si. Ele se apoiou nos cotovelos e olhou ao redor. ela também não vai resistir. Então virou para Madison e pôs as mãos no peito da mulher.Wendy reparou que Blair foi para perto dela. Ainda estarrecido. senhor? — os olhos dele se abriram abruptamente. ele disse — Não sinto mais dor nenhuma. Sentou-se esticando os braços e as costas. Sorriu para Wendy e disse — Meus pulmões não estão mais doendo. Esfregou o ombro. Blair pôs a mão em seu ombro em sinal de apoio. O pequeno anjo tocou a testa de Blair. — Apesar de Blair ser uma boa mulher. Ela lembrou do aviso de Ginny. com muita força de vontade e conhecedora dos caminhos do Thari.

Wendy abriu os olhos. para amarelo. e ela continuava parada. Em sua mente. descendo pelos ombros e fluindo pelas mãos que ela foi passando lentamente sobre o corpo de Blair. . Estava pálida como papel. desejando que ela ficasse boa. para azul e chegando ao coração. embalados pelo acalanto nos braços maternos. Pior ainda. sem vida. Wendy visualizou uma luz vermelha pulsante da base da espinha para cima. passando para alaranjado brilhante. Para consternação de Wendy. Estava respirando com dificuldade. Wendy começou a sentir raiva. fazendo um ruído parecido com um chocalho a cada respiração. mas seus lábios estavam ficando roxos. ao chegar ao ponto entre as sobrancelhas. Blair virou a mão. seu rosto foi ficando vermelho e ela sentiu as lágrimas se formando nos olhos e escorrendo pelas bochechas coradas. Continuo subindo. Wendy visualizou coisas felizes: a luz do Sol. visualizando-a saudável e esbanjando vitalidade. — Não ouse morrer. Começou a se mexer. Blair Kelly! Fechou os olhos outra vez. Deu uma olhada para ela. Ela franziu o cenho em profunda concentração. filhotes de cachorro e um bebê enrolado em cobertas de tom pastel. o tom rosado lhe fugiu do rosto. prados cheios de flores selvagens ondulado à brisa suave. ela examinou Blair de perto.olhou para o peito de Blair. e. Em meio à cerração causada pelas lágrimas. desbotou e se acendeu na mais pura luz branca lhe envolvendo a cabeça. Blair continuava imóvel.

Seu peito começou a oscilar em ritmo suave.Do fundo de sua garganta saiu um suave arrulho. O submarino era uma versão totalmente reprojetada do velho German XXI. Kapitain Gunther Hessler balançou a cabeça afirmativamente. Capítulo 6 A bordo do submarino. Quando Blair abriu os olhos com pálpebras trêmulas e respirou fundo. A cor estava lhe voltando. — Tudo parado — confirmou o tripulante. como um filhote chamando a mãe. falando alemão.Estamos chegando ao ponto combinado. com as mãos nos lemes que operavam os hidroaviões que controlavam a profundidade do submarino. que se tornou sua nova mãe. . Estava melhorando. senhor — ele disse. Wendy a abraçou com vontade de não soltar nunca mais. — Pare tudo. — Aviões e navios — respondeu o superior dentre timoneiros que estavam atados a seus assentos. o obersteurmann. Aviões e navios. virou para o capitão em meio às luzes vermelhas da sala de controle. Ela pôs a mão no rosto de Blair. Agarrou-se à mulher que se tornou sua razão de viver. revestido com uma substância que servia de radar e era a última novidade . ou tripulante contratado. A fortuna de Gant fora usada para criar um navio de corpo elegante e hidrodinâmica.

— Suba o periscópio. — Sonar? — o capitão perguntou baixinho. Outros — as Forças que São — de dentro do Vril também o orientaram para eliminar Al-Dajjal caso sua captura seja iminente. sua sobrinha Margot e Al-Dajjal. — Captando sinal de aerobarco e dois barcos-patrulha PROTECTOR na direção Zero-Quatro-Zero. como botes infláveis. Seu reator nuclear garantia uma velocidade incrível tanto na superfície quanto debaixo d'água. senhor — Zum teufel. maldição! — O capitão Hessler sibilou entre dentes.tecnológica do ramo. — Baixar periscópio — o capitão murmurou. — Deve ser um esquadrão do SAS atrás de AlDajjal. Mas sob nenhuma circunstância ele arriscaria que capturassem sua embarcação. E no momento Hessler não estava gostando do rumo que as coisas . e relaxando então. sir. tem um terceiro sinal. Foi analisando o panorama até mirar perfeitamente no aerobarco. As ordens do capitão Hessler tinham por objetivo proporcionar uma fuga discreta para Gant. — Periscópio para baixo. algo pequeno. A sólida estrutura tubular subiu fazendo um ruído sibilante e Hessler puxou as alavancas para baixo e ajustou os controles digitais. levando o submarino para perto da superfície. Espere aí. Os timoneiros locaram de leve nos lemes que mais pareciam fazer parte de uma aeronave. Motores externos. observando a atmosfera silenciosa do submarino.

Fizeram um gesto firme para o helicóptero. Newley fez um sinal de positivo com o polegar e eles pularam ao mesmo tempo. Devlin sentiu o borrifo gelado do mar e do vento ao ficar de pé. A presença do SAS indicava que as coisas tinham descido pelo ralo.estavam tomando. matar! Como se lesse os pensamentos do outro. Encolheram-se sob o vento que lhes golpeava os rostos e soprava os cabelos. Segurando com firmeza as pistolas SIG que pegaram emprestado do SAS. que estava de pé ao lado dele. Chewie se jogou para a esquerda enquanto Brody rolou para a direita e levantou a pistola. Brody viu de relance Margot . Subitamente a escotilha se abriu. Deu uma olhada para Chewie. Brody e Chewie foram até a porta. O helicóptero deu uma guinada e embicou. Combinaram de pular quando Newley desse o sinal. para que avançassem em direção à porta da cabine. Ele cancelou as instruções de localização do aerobarco e disse — Preparar torpedos! O helicóptero diminuiu a distância e estava sobrevoando a popa do aerobarco. rosnando. Devlin foi descendo do helicóptero do outro lado de Chewie para chegar à defensa do barco. caindo no deque da embarcação abaixo. Quando os dentes de Wotan agarraram sua arma. Um pastor alemão apareceu. Al-Dajjal gritou — Wotan. quase fazendo Devlin perder o chão e cair no mar.

agarrando-o pela nuca. No treinamento era tão fácil. Wotan não reagiu. Ao menos os braços estavam protegidos no treinamento. Os uivos viraram uma série de rosnados pavorosos e Brody precisou usar de todas as reservas de força para agüentar. Brody estava consciente de uma série de coisas — a voz crua de Margot gritando mais alto que os rosnados dos cães.atrás de Al-Dajjal. e o treinador estava por perto para tirar a fera de cima depois que você faz sua parte. Primeiro. e Wotan cravou as mandíbulas e puxou com fúria cega. e o peso do cão — que ainda rosnava cruelmente e balançava a cabeça de um lado para outro. Instintivamente. Além da dor. Mas o desespero deu uma injeção de adrenalina no cão. Mas aquilo era a vida real. Então ele puxou de novo. Brody usou esse breve momento para agarrar o pescoço do bicho. lembrando dos treinamentos. como se tivesse ovos de ferro. e mais um pastor alemão — Siegfried — na coleira. o fedor assassino do bafo de Wotan em seu rosto. Al-Dajjal xingando em alemão. como se quisesse arrancar o braço de Brody do corpo. O rosnado do cão virou um choro. levou a mão livre aos testículos do cão e esmagou com força. e por um segundo ele soltou as mandíbulas do braço de Brody. . e a arma caiu no deque fazendo barulho. Enfiou os dedos na traquéia. pressionando e afundando como se fosse arrancar a laringe do cão. Deu uma gravata no animal. fazendo os dedos da mão direita se abrirem involuntariamente. espremendo com toda a força que tinha. Brody sentiu a dor da mordida de Wotan na parte de baixo do braço.

Aperte sempre com uma só mão. — Devlin. Estava na cara que Chewie não estava disposto a arriscar nem um fio da sobrancelha. enfie a mão na traquéia e puxe o pescoço do bicho por trás com toda sua força — ele agiu. — Siegfried.Dava para sentir a dor se aprofundando na parte do braço que Wotan estava mordendo. — Ele lembrou do sargento Gunny da escola de treinamento tão claramente como se ele estivesse ao lado agora mesmo. . Mas assim como o cão ele sabia que estava lutando pela própria vida e aumentou a pressão dos dedos. O sangue dele. A carne de suas mãos pesadas estava moída e inchada. nunca se enforca o inimigo como se vê no cinema. com as duas mãos. Ainda agarrando Wotan para matar. E depois da arma estava Chewie. os braços machucados e molhados de sangue. caído de costas. pegue-o! — Margot ordenou ao cão aos gritos. e Wotan se debateu loucamente. Ao lutar. a mente de Brody se agarrou àquilo que lhe manteria em ação — Wotan queria sangue. Brody olhou para a direita e via a pistola SIG caída. Vamos lá. fora de alcance por muito pouco. lutando para se soltar. salivando profusamente. e começou a perder as forças. e o barulho e a confusão ao seu redor. pronto para mastigar a garganta do índio se ele não se defendesse. E Siegfried estava pulando sobre ele com as presas à mostra. E o lema de Gunny: Matar ou morrer. sentindo a dor intensamente.

bem acima das costelas. fazendo-o girar. . porque o momento era agora. Então ele foi escorregando pela parede e se esparramou no deque como um peso morto. Brody sabia que era melhor agir como se ainda estivesse lutando com o bicho. fazendo Al-Dajjal e Margot abrirem a guarda o suficiente para lhe dar uma brecha. Brody lutou para controlar a dor de seu braço ferido. rolou outra vez e atirou — dois tiros em Siegfried. Quando ele caiu. outro que pegou Al-Dajjal no ombro de cheio. e seu corpo virou peso morto. Debaixo de tiros. mas virou instintivamente no ultimo segundo pegou o índio que vinha dar o bote. atingindo-o no alto e à esquerda. Esforçou-se para coordenar bem os movimentos antes de agir. jogando-o com força contra o tabique. Escudando-se com o corpo de Wotan. Aproveitando a distração de Margot.Sua atenção se voltou para Wotan. frustração e agonia. Por um segundo Margot baixou a guarda. Brody atirou novamente. pegou a pistola SIG. batendo no corrimão e emitindo um som de ossos quebrados. Chewie se levantou para agarrá-la. que começava a perder a consciência. agarrou o grosso pulso e girou o braço e o empurrou. pois sabia que era sua única chance. Mas não era caso de esperar pelo melhor momento. de modo que o grandão de repente se deu mal e foi arremessado do outro lado do que. AlDajjal soltou um grito sufocado que misturava ódio. Então Wotan revirou os olhos e parou de morder. Rolou para a direita.

E desta vez sem preliminares.. deixava um rastro letal como cartão de visita. mein brüder. senhor. sem jamais desviar seu olhar hipnótico. senhor. queimando como carvão. Margot virou para Brody com olhos fervendo de ódio. — Você é o próximo. Acho que é um torpedo destroyer. Brody teve um insight e entendeu a palavra . a não ser. Brüder! . — Algo novo no sonar? — o capitão perguntou. correndo na direção do aerobarco. — Lançar torpedo número um — Hessler ordenou — depois vamos descer o mais rápido e fundo possível. — Como assim? — Avistando Zero-Seis-Quatro.. — Temos companhia. Gott im Himmell— O operador do sonar parou de repente e um barulho agudo soou nos fones de ouvido. — Nada. namoradinho. Ele perguntou ao operador de rádio — Algum contento de rádio do aerobarco? — Negativo. Localizaram nossa posição e algo está vindo a toda velocidade. Ela começou a se aproximar dele. Ao cortar a água como um tubarão faminto. Corte pedaço por pedaço.. e apareceu uma mancha na tela. O torpedo estava longe.Na ponte do submarino o capitão Hessler espiava pelo periscópio com os braços apoiados em suportes. Al-Dajjal se mexeu e gritou debilmente — Faça-o sofrer. Jogue-o aos tubarões.. O capitão afastou o fone.

Estava sexualmente excitada. Se você aplicar uma carga de alta voltagem. com seu perfume exagerado e enjoativo. do outro lado do deque. Ele virou para o lado e se deparou com o olhar aterrorizado dela. Elas têm efeito colateral mortal. Fiz alguns testes com as nanofibras que encontramos no museu. e o nitrogênio comprimido soltou dois condutores pontudos que saltaram e morderam fundo a roupa de nanofibras de Margot. Ele puxou o gatilho do Firefly outra vez e mais outra.Mas quando Brody levantou a pistola. inútil. e Margot saiu rolando pelo deque. Ela se sentou sobre ele e com suas pernas de aço lhe apertando as laterais do torso. Então. Margot pulou. lembrou das instruções de Scout quando estava pegando o helicóptero. sentindo a vida lhe escapar dos pulmões. os cabelos lourobrancos lhe roçando o rosto. Ela soltou as pernas instantaneamente. Usando o resto de força que tinha. A pistola voou de sua mão e caiu. Cada vez que puxava o gatilho a arma emitia 600. Era a versão de Scout de uma pistola Taser. as nanofibras se contraem como o aperto de um tomilho. Brody pegou o Firefly do bolso onde Scout enfiara antes. quando começava a ver tudo escurecer. ele puxou o gatilho. Seus olhos de fera soltaram faíscas de ódio e luxúria. permitindo que Brody respirasse outra vez o ar frio. espremendo os ossos com força esmagadora.000 . atingindo-o como se fosse um saco de tijolos e puxando-o para o deque. Ela chegou o rosto mais perto. Ele agora se contorceu como o pastor alemão. e tremendo. No limite da consciência.

volts pelas fibras que lhe envolviam o corpo. Ela era homem. Uma transexual que ainda tinha o aparato de homem. mas então viu o torpedo. comprimindo-a como se ela estivesse a milhares de milhas no fundo do oceano. Brody reclamou quando Chewie o empurrou para o corrimão. Margot Gant não era mulher. Quando ela o atacou na mansão. Margot era o irmão gêmeo dele. Chewie o puxou pelo braço e o fez levantar bruscamente. a alta voltagem fazia as nanofibras se contraírem. O rosto de Margot se contorceu em uma repulsiva máscara mortuária. Apesar de ter jurado jamais bater em mulher nenhuma por raiva e sempre ter achado difícil matar mulheres em combate. Pularam. Margot gemeu de agonia sentindo a roupa colada ao corpo lhe esmagar. ele achou na parte masculina de seu corpo uma arma escondida. Quando Al-Dajjal a chamou de irmão. O aerobarco desapareceu em meio a um cegante fogo branco que foi se avermelhando. EPÍLOGO . Brody Devlin olhou sem pena. sem remorso. Ao invés de amplificar a força dos músculos de Margot. ele entendeu tudo. sua cobertura externa se entortando para dentro como se esmagada pelas toneladas de mar ao redor de si. os olhos antes luminosos e claros agora estava turvos — e sua estranha profundidade e magnetismo já não estava mais lá.

Com seu grande chapéu de palha e camisa branca comprida. Madison. tamanhos e cores. Ficaram esperando. Um Range Rover preto estacionou no meio-fio. Costa Rica: DEPOIS QUE O AVIÃO DELES pousou no Aeroporto Internacional Juan Santamaria em San Jose. Chewie diminuiu ligeiramente a velocidade ao passarem pelo Mercado Central com seus camelos torrados de Sol orgulhosamente vendendo suas verduras: pimentas de todos formatos. que estava no banco de trás com Sorensen. Enquanto dirigiam. entraram na receptiva frescura do ar-condicionado do carro e partiram. tomando o rumo do sul em direção ao campo. Uma colcha de retalhes de cultivos que se misturava às florestas densas e verdes. Rapidamente saíram da cidade. com o suor pingando do rosto. as roupas colando nas costas com o clima humedo y caliente de agosto.Cartago. Assim que Blair e Devlin apareceram com as malas. comentou sobre os montes férteis nas fazendas. Blair e Devlin pegaram a bagagem enquanto Madison e Bill Sorensen seguiam até a beira da calçada. . Costa Rica. seria difícil reconhecê-lo se ele não se destacasse dos mestizos locais devido ao seu tamanho. com fileiras e mais fileiras de plantações de café. pilhas verde-amareladas de plátanos e abacates. Puseram as malas no carro. Chewie saiu do Range Rover que alugara ao chegar primeiro e foi até eles.

não é. Wendy e os Garotos Perdidos e os demais já estão lá. Abriram as garrafas e fizeram um brinde. Blair. — Que cheguem todos ao céu. — Qual é. — Salud — Blair brindou. Brody bateu em seu ombro. Madison abriu e pegou cervejas geladas para todos. Iguanas não são perigosas — Brody disse. meia hora antes do demônio perceber que morreram. Blair enfiou a cabeça para fora da janela e acrescentou — Ou então uma manada sedenta de araras vermelhas e um iguana gigante! — A risada de Blair ressoou pelo campo. que cara é essa? . araras e macacos também não. uma pequena cidade a cerca de vinte e quatro quilômetros de San Jose. mas você é mesmo uma mulher misteriosa. — Você não pegou umas geladas. Brody gritou para Sorensen e Madison de dentro do veículo — Não vão longe. Ele esticou um braço e deu um tapinha no ombro de Chewie.Cartago. meu chapa? — Ao dizer isto. a não ser que queiram ser devorados por preguiças de três dentes ou por uma tropa de macacosesquilo. Tarzan. As mordidas do cachorro ainda lhe doíam. Devlin sorriu e disse — Não sei como conseguiu isto. — Ei. ele massageou o braço direito com a mão livre. Blair Kelly. Estacionaram para fazer um pit stop. Ainda estava engessado e pendurado pela faixa. Chewie respondeu apontando com a cabeça o cooler no chão. — Bem.Brody segurou na mão de Blair e perguntou — Para onde estamos indo mesmo? Blair respondeu . Chewie balançou a cabeça e suspirou longamente.

. deixe-me dar um empurrãozinho. que voltava para o Land Rover. — Sério. e para Brody novamente. onde conseguiu o dinheiro? Ela se sentou. meu irmão e eu somos alquimistas. que estava sentado. — Então ele pulou para abrir a porta do acompanhante para Madison e piscou o olho. e para Chewie. Brody fez bico. eles seguiram. Por que não pensei nisso antes? Você transformou chumbo em ouro e.. Ela deu um sorriso de quem estava entendendo e entrou. — Ah — Brody disse acanhadamente —. cantarolando para si mesma. descobriu onde estava enterrado um tesouro cheio de moedas de ouro? Blair riu... — Ah. olhou para Madison. Brody disse — Tem certeza que Wendy e os Garotos Perdidos estão em segurança lá? E como foi que você conseguiu? Deve ter custado uma fortuna. sorrindo e brincando com uma mecha de cabelo. — Não vê que o senhor Raindancer está magoado? — ela apontou Madison com a cabeça. sorrindo como um colegial. companheira. claro. juro que você é o maior cabeça-dura deste lado do Atlântico — Blair disse.. — Sou Alta Sacerdotisa . Finalmente ela disse — Bem. — Brody Devlin. Com Sorensen dormindo no banco de trás e Chewie finalmente arrumando coragem de falar com Madison sobre algo além de conversa fiada. Ela olhou para ele. . você sabe. ou você girou seu compasso mágico sobre um mapa e puf.Chewie deu de ombros. Falando sério por um momento.. não sou nenhuma bruxa do mar.

orquídeas cor de lavanda. O Range Rover parou na plaza e eles saíram. A larga aba do seu chapéu mole lhe cobria parte do rosto. Gabriel ficava puxando o colarinho enquanto Peter se atrapalhava para manter os cabelos penteados. Perto dela estavam o padre Dominic Kelly. que. cadê Wendy? Peter deu um largo sorriso e apontou para o céu. Atrás deles agora. apesar de lindas. Scout. presas nas orelhas..Ela sorriu e piscou o olho. estavam um pouco estranhas vestindo roupas nativas das Bailarinas Criollas: blusas brancas de camponesa. Wendy sobrevoava girando preguiçosamente. de terno e gravata. Lá estava Ginny Doolittle acenando loucamente. com as pelancas do braço balançando como gelatina. mas terrivelmente desconfortáveis. quase escorregando no chão. Conners e o tenente Braxton. Os Garotos Perdidos estavam lado a lado. No alto de seus pilares brancos havia anjos de asas abertas. irlandesas do Shelta Thari. E temos alguns benfeitores bem ricos. Johnboy levou dois dedos aos lábios e assoviou alto. . Guardiões atentos. — Vamos dizer que os Shelta Thari cuidam dos seus. Ginny estava vestida como as outras cinco damas de honra. A luz do Sol refletia em duas janelas rosáceas que ficavam lado a lado na entrada. saias rodadas douradas. Wendy desceu. azuis e verdes presas por grandes cintos vivamente coloridos e Guaria Moradas. Do outro lado do pátio estava a Basílica de Los Anjoes. parecendo pequenos cavalheiros.. Devlin perguntou a Peter — Ei.

chamando a atenção de Brody. Sam. Devlin ficou pasmo com o nome do cachorro e lágrimas lhe brotaram dos olhos. fazendo cara feia. Parou em frente a Blair e a abraçou. Estava com um vestido de seda com um arco-íris bordado. é o Sam. aonde vai com esses tênis? — Blair perguntou. ela saiu correndo pelo pátio de braços abertos. e reencarnara magicamente e agora estava ali de pé. seu melhor amigo. Era seu velho companheiro. Estava de tênis vermelhos de cano alto e desamarrados. — Ah. Blair caiu na risada. Brody saiu correndo e brincando com Sam. — Senhorita Wendy Kelly. em frente a ele. com um Golden Retriever vindo atrás. Ele não é maravilhoso? O senhor Nicholas e a senhora Perenelle me deram de presente. Ela disse que são que nem os chinelos de rubi de Dorothy.Olhando bem nos olhos de Blair. perguntou — E você é quem. Homem típico! Saiu correndo com a droga da loura! Ao ver os pés de Wendy. peludo? Wendy recuou e virou-se para Devlin. Blair ficou olhando com as mãos nos bolsos e balançando a cabeça. Se um dia eu quiser visitá-la. Olhou mais de perto. — São de Ginny. O cão balançou a cauda e lhe lambeu o rosto. Feliz como um garoto comemorando a hora do recreio na escola. Quando Devlin se abaixou para brincar com o cão. que fora morto pelos cães de ataque. a não ser por uma coisa. — Woof — latiu o cão. observando os olhos tristes do cão. só preciso bater os calcanhares três vezes — então o sorriso desapareceu . parecendo uma dama de honra.

Depois ofereceram uma recepção na grande hacienda que seria sua nova casa. e professaram seu amor mútuo. Blair e Devlin trocaram votos. Ela deu um olhar caloroso para ele e suspirou. Não tenho mais que me esconder nem usar aquele nome falso tirado de um livro. — Está certo. Nicholas e Perenelle Flamel lhes doaram uma de suas muitas casas para servir de abrigo para as Crianças Índigo. — Certo. Comandados pelo padre Kelly. ou se separar. renovar por mais um ano. .de seus lábios e ela ficou aborrecida. Então seu nome vai ser Noor Kelly. mas por quê? Ela cutucou o chão com a ponta do tênis e disse — Porque aqui estou em segurança. lhe veio uma compreensão intuitiva. Ao ver a garotinha arrulhando suavemente no colo de Blair. Devlin se afastou da festa e foi procurar Blair na varanda. Durante a cerimônia. Conners tocou sua gaita-de-foles. Ele entendeu por que o padre Kelly queria que a irmã lesse Aldeia dos Malditos. — Já resolvi que não quero me chamar mais Wendy. meu bem. Blair se ajoelhou e a abraçou forte. e então viram. A cerimônia transcorreu perfeitamente. Não foi um casamento tradicional per se e sim um velho costume dos Shelta Thari chamado Casamento Pagão. juraram ficar juntos na alegria e na dor. Madison ficou ao lado de Chewie. Trajando saia escocesa. gentilmente. Ele pegou a mão dela com sua mão enorme. Dali a um ano e um dia eles voltariam lá para renovar seu compromisso e se casar definitivamente.

encontrando os olhos de Devlin. através da transmutação de metais básicos em ouro por meio da lenda da pedra filosofal. Como um pequeno cuco.. que passa a ser a mãe postiça. e com o espiritual. REFERÊNCIAS A alquimia. — Você acha realmente que nós podemos protegê-los. tem iodos os elementos clássicos da busca humana: conhecimento secreto. rituais arcanos e a promessa de poderes e riquezas inimagináveis.Como se por um milagre da evolução. antiga protociência que foi a base da química moderna. Seu sorriso brilhante desvaneceu-se em um olhar tenso e ansioso.. Um filhote separado da mãe no nascimento costuma transferir os laços emocionais para outra. Wendy desenvolvera poderes extraordinários. mas essas histórias . Além de poder voar. como a lenda de Nicholas e Perenelle Flamel. Histórias bem-sucedidas de alquimia são invariavelmente apócrifas. não ao Vril. que tiveram sucesso por terem corações puros. e apertando os lábios. posto em outro ninho para ser criado e nutrido. mas em parte aos seus serviços de segurança de governo e dela. ela tinha outras características dos pássaros. disse — Podemos tentar. este pequeno pássaro encontrou paz e consolo ao se aninhar em meio às asas cálidas e amorosas de sua nova mãe-pássaro. deles? Devlin sabia que ela estava se referindo. Blair olhou de repente para cima. um caminho pelo qual os adeptos buscam purificar suas almas. Blair. É igualmente voltada para a matéria. Ele inclinou-se.

Acreditava-se que o ouro produzido pela pedra filosofal tinha o poder de curar doenças e prolongar a vida. A maior parte do aspecto espiritual da alquimia vem dos gnósticos. que previram uma luta de vida e morte entre os processos alquímicos negativos e positivos. o famoso médico inglês que conseguiu transformar nitrogênio em oxigênio através do uso de alta radioatividade. Alexandria se tornou o centro internacional para o estudo da alquimia. A alquimia virou uma curiosa mistura de religião. O conceito da pedra filosofal vem da China. onde a alquimia foi associada ao taoísmo. O interesse na alquimia foi renovado recentemente neste século por Lord Rutherford. Apesar de as origens da alquimia serem obscuras. cerca de dois mil anos atrás. como o conceito aristotélico dos quatro elementos básicos (terra. bem como a teoria árabe de que todos os metais são compostos de uma mistura de enxofre e mercúrio. devido à . ela tem sido levada a sério por um número surpreendente de praticantes.foram o bastante para atrair gerações de praticantes ao estudo de textos obscuros e a passar longas horas em laboratórios fedorentos. onde os segredos da transmutação de chumbo em ouro estavam cuidadosamente guardados pelos sacerdotes. idéia adotada por alquimistas árabes. Com o fim do estudo institucional da alquimia no século IV. Conceitos de outras filosofias foram assimilados. ar e fogo). Por volta do século II. E apesar de a alquimia parecer coisa de bobo para as mentes de hoje em dia. água. contrariando o que a ciência acreditava até então de que essa transmutação era impossível. parece que ela surgiu ao mesmo tempo no Egito e na China. ciência e crença cultural.

Os adeptos de outra época devem reconhecer também os símbolos de sua pesquisa que foram incorporados à psicologia e ao misticismo moderno. Sua atribuição da alquimia a alguma linhagem ancestral conferiu à alquimia a credibilidade necessária a todas as histórias de buscas e pesquisas. já que parece ter desaparecido dos arquivos da família de Jung. Hermes. . o casamento incestuoso de irmão e irmã. Jung era fascinado pela riqueza do simbolismo alquímico: dragões. Carl G. E nessa riqueza de mitos e metáforas. os destiladores e alambiques são herança dos alquimistas.000 textos alquímicos (cujo maior deles é a Tábua de Esmeraldas) foram atribuídos a Hermes. Os textos alquímicos se tornaram propositalmente obscuros. na verdade. Apesar de os praticantes da Grande Obra usarem os aparelhos usados nos laboratórios modernos. Cerca de 36.destruição da academia e da grande biblioteca de Alexandria. apesar de permanecer em enigmático mistério. O diário mágico — ou Livro Vermelho — do doutor Jung é também um documento histórico. que se encontra a mais duradoura contribuição da alquimia. pelicanos rasgando o próprio peito. os alquimistas entraram na clandestinidade. figura enigmática associada ao deus egípcio Thoth. talvez. Durante a Idade Média e a Renascença. atribuiu-se a invenção da alquimia a Hermes Trismegistus. cobras. aparece sob disfarces tão diferentes que é impossível relacionar todos. enigmáticos e cheios de códigos que só o iniciado conseguiria decifrar.

As sociedades secretas mencionadas existiram mesmo: a Sociedade Vril e a Sociedade Thule. co-conspirador de Hitler durante o levante de Munique. após um sensacional julgamento. talvez seja o mais misterioso manuscrito oculto da história. foram um sonho louco desses grupos. também conhecida como Thule Gesellschaft. Dietrich Eckhart e o Barão Rudolf von Sehottendorff eram os dois líderes mais conhecidos da ordem dos Thule. Tausand foi preso em 1928 por fraude. Em 1931. organizou a Compania 164 para dar apoio aos esforços do alquimista alemão Franz Tausand para fundar o Partido Nazista. ou MV. com objetivo de financiar suas máquinas de guerra. crianças míticas da Raça-Mãe. Tausand foi condenado a quatro anos de prisão. Mas enquanto aguardava o julgamento. Tausand disse que era capaz de fazer ouro sob a supervisão da Casa da Moeda de Munique.A CONEXÃO OCULTA COM O NAZISMO Os nazistas e os fascistas italianos fizeram sérias investigações sobre a transformação de chumbo ou outros materiais em ouro. Ele chamou a atenção da mais secreta organização de . catedráticos e decifradores de códigos. O MANUSCRITO VOYNICH O Voynich. Erich von Ludendorff. Esses grupos praticavam rituais de ocultismo baseados em arquétipos pã-germânicos parecidos com os rituais secretos usados pela infame Ordem da Golden Dawn inglesa. Os Sonnenkinder e Vril-ya. já tendo sido estudado sem sucesso por gerações de videntes.

A história do MV até 1933 é basicamente a apresentada neste livro. . Mas isto. um século antes de eles serem conhecidos do público em geral. assim como a maior parte das afirmações de Newbold. por exemplo. razão pela qual as ilustrações do MV mostravam imagens às quais só se podiam enxergar com microscópios e telescópios. em Yale. Tem valor estimado de cerca de duzentos e cinqüenta a quinhentos milhões de dólares. O manuscrito se encontra desde 1968 no Beinecke Rare Book Room.inteligência dos Estados Unidos. a National Security Agency. o erudito William Newbold chegou às manchetes ao alegar que o manuscrito era fruto do trabalho de Roger Bacon. simplesmente não era verdade. Em 1921.

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é um alfabeto complexo usado até hoje por machistas cerimoniais. que se acredita terem vendido o MV em Praga por volta de 1608.Os ocultistas ingleses John Dee e Edward Kelly. No livro eu faço menção à Página Roseta. vistas pelo microscópio. atualmente no Museu Britânico junto com pequenas quantidades de ouro que. . e a bola de cristal de Dee eram artefatos reais. o Selo da Verdade. A língua dos anjos ou língua enoquiana dos arcanjos. A Shew-Stone. que foi decifrada como sendo um mapa. algas de uma só célula como plânctons. Uma explicação possível é que ela seria de fato a arte final de diatomáceas. de acordo com as histórias. teriam sido produzidas pelos alquimistas ingleses. são também figuras históricas que costumam aparecer em uma curiosa mistura de histórias de charlatanismo e crendices ocultistas. canalizada por Edward Kelly.

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Alguns sugeriram uma ligação entre a Nova Atlântida de Bacon e a Utopia de Thomas Moore. decifrada Eis aqui a imagem da Utopia de Moore. Ambos foram considerados grandes rosa-cruzes e possíveis alquimistas. mas não para as torres. decifrada na página abaixo: . muros e castelos representados dentro das esferas como mencionado no livro.Esta poderia ser uma explicação plausível.

De acordo com ela. através do uso de um .Há uma declaração mais recente que propõe a solução para o enigma do MV.

como todos que a precederam. que implica em usar o Voynich como se fosse uma tabela com um cartão furado para formar palavras. .instrumento chamado Caradon Grille. Para os interessados em leituras mais detalhadas sobre os símbolos e teorias sobre o MV. sugiro The Voynich Manuscript: Na Elegant Enigma. Infelizmente. estudo encomendado pela Agência de Segurança Nacional. De acordo com essa teoria o MV é apenas – se tanto – uma bobagem que parecia mais misteriosa devido à dificuldade de ser decifrado. a senhorita D’Emperio concluiu apenas que o MV permanece um profundo mistério. de Mary D’Emperio. Dee e Kelly poderiam facilmente forjar uma fraude usando modelos com buracos diferentes para formar palavras por meio de números distintos de letras.

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