®r… Guru-Gaurā‰gau Jayataƒ

BHAKTI-TATTVABHAKTI-TATTVA-VIVEKA

VERDADE SOBRE BHAKTI
®RŸLA BHAKTIVINODA µHšKURA Traduzido da edição em hindi compilada por ®r… ®r…mad Bhaktivedānta NārāyaŠa Mahārājá

PUBLICACÕES GAUDIYA VEDANTA Copyright © 1997 by Sri Gau…ya Vedānta Samiti 81-86737-07ISBN 81-86737-07-3

Título Original em Inglês: Bhakti - Tattva - Viveka Traduzido graciosamente por Satyarāja dāsa. Outros títulos de ®r…la NārāyaŠa Mahārāja (a serem traduzidos)

The Nectar of Govinda-l…lā Their Lasting Relation Going Beyond VaikuŠ˜ha Nectar Sprinkles on Australia ®r… Bhakti-rasāmta-sindhu-bindu Pinnacle of Devotion Bhakti-rasāyana ®r… Prabandhāval… ®r… Sikātaka Venu-g…tā ®r… Navadv…pa-maŠala-parikramā ®r… Vraja-maŠala-parikramā ®r… Manaƒ-ikā ®r… Upadeāmta Jaiva dharma
Disponíveis em Inglês com: Sri Keshavaji Gaudiya Math Mathura (U.P.) 281001 INDIA Convidamos os leitores interessados no assunto deste livro a se corresponderem com os editores: Publicações Gau…ya Vedānta Rua Floriano Peixoto, 46 _ Conj. 08 Vicente de Carvalho _ Guarujá, SP Cep 11.450-000 ÍNDICE Prefácio 4 Ma‰galācaraŠa 10

Capítulo I
A Natureza Intrínseca da Devoção 12

Capíttulo II
BhaktiUma Análise de Bhakti-ābhāsa ou a Semelhança de Bhakti 33

Capítulo III
Bhakti Uma Análise dos Atributos Naturais de Bhakti 52

Capítulo IV

Uma Análise da Qualificação para Bhakti 67

PREFÁCIO As ilimitadas glórias de bhagavad-bhakti são visíveis nos PurāŠas, rutis, smtis, Mahābhārata e RāmāyaŠa, bem como na obra literária dos famosos ācāryas vaiŠavas. Ao compreendermos svar™pa, ou a natureza constitucional de uddha-bhakti, ou serviço devocional imaculado, e ao nos dedicarmos a ele na prática, podemos atravessar facilmente o oceano da ignorância e alcançar a meta definitiva da vida que é kŠa-prema. Para não falar da prática genuína de uddha-bhakti, até mesmo o alcance de uma mera semelhança de bhakti pode permitir que alcancemos as bênçãos quádruplas de artha (desenvolvimento econômico), dharma (religiosidade), kāma (gratificação dos sentidos) e moka (liberação). Portanto, as pessoas em geral se tornam atraídas pelo cultivo de bhakti. Mas por serem ignorantes sobre a verdadeira natureza de uddhabhakti, elas casualmente entram em contato com devotos pretensiosos que só desejam riqueza, mulheres, fama, e sob sua influência, acabam praticando a falsa devoção ou adotam sentimentos devocionais que são contrários aos princípios da devoção pura, imaginando o tempo todo que estas coisas são bhakti pura. Ficando sob a influência daqueles que desejam a liberação impessoal, elas praticam uma sombra, ou reflexo do verdadeiro bhakti, e se iludem. Desta maneira elas não alcançam o verdadeiro fruto de bhakti. Assim sendo, o muito misericordioso bhakti-rasācārya ®r…la R™pa Gosvām… explicou em seu livro ®r… Bhakti-rasāmta-sindhu a verdadeira natureza de uddha-bhakti com base nas evidências das escrituras. Além disso, ele descreveu a natureza de chala-bhakti (devoção pretensiosa), ābhāsa-bhakti (uma semelhança de devoção), pratibimba-bhakti (um reflexo de devoção), karma-mira-bhakti (devoção misturada com atividade fruitiva), jñāna-mirabhakti (devoção misturada com conhecimento impessoal), aropa-siddhā-bhakti (esforços que são dotados indiretamente com a qualidade da devoção), sa‰gasiddha-bhakti (esforços associados com/ou favoráveis ao cultivo da devoção) e assim por diante. No campo da devoção o Bhakti-rasāmta-sindhu é aceito com unanimidade como a obra literária mais autorizada, mas foi composta em sânscrito. Desta maneira, para o benefício das pessoas em geral, no seu Bhaktitattva-viveka, ®r…la Bhaktivinoda µhākura apresentou as sérias e profundas concepções do Bƒakti-rasāmta-sindhu na língua bengali de uma maneira bem direta e facilmente compreensível. ®r…la Bhaktivinoda µhākura é um associado íntimo eterno do salvador das massas na era de Kali, ®ac…nandana ®r… Caitanya Mahāprabhu. Depois que os associados de ®r… Gaurahari, tais como os seis Gosvām…s, ®r… KŠadāsa Kavirāja, ®r… Narottama µhākura e ®r…la Vivanātha Cakravart… µhākura, deixaram este mundo e entraram nos passatempos imanifestos, os cem anos seguintes foram considerados um período negro para a linha Gau…ya VaiŠava. Neste período não houve nenhum ācārya poderoso na linha Gau…ya

que reunisse condições para levar adiante os ensinamentos de ®r…man Mahāprabhu na forma pura como foi feito anteriormente. Como resultado, num curto lapso de tempo, sob o pretexto de seguir e de pregar o prema-dharma ensinado por ®r…man Mahāprabhu, surgiram inúmeras seitas falsas com šul, Bāul, Kartā-bhāja, Neā-ned…, Sā…, Sahajiyā, Sakh…-bhekh…, Smārta e Jāti-gosā…, que se dedicaram a provocar grande confusão, com mal comportamento, pregando seus próprios princípios imaginários e motivados materialmente. Eles difamaram o Gau…ya VaiŠavismo em tamanha extensão que as pessoas educadas e respeitáveis começaram a vê-lo com maus olhos. Gradualmente a concepção de devoção Gau…ya começou a desaparecer. Nesta época, no ano de 1838, apareceu auspiciosamente ®r…la Saccidānanda Bhaktivinoda µhākura, numa família culta e bem educada, na vila de V…ranagara que fica perto de ®r… Navadv…pa-dhāma, na Bengala Ocidental. Por compilar aproximadamente cem livros competentes sobre a ciência de bhakti em sânscrito, bengali, hindi, inglês e inúmeras outras línguas, ele fez surgir uma nova era para a linha Gau…ya-vaiŠava e restabeleceu a glória perdida. Por este esforço grandioso, o Gau…ya-vaiŠavismo estará eternamente endividado com ele. Na era moderna, ®r…la Bhaktivinoda µhākura mais uma vez pôs em movimento o bhakti-bhāg…ratƒi (o Ganges de bhakti), ou o rio fluente da devoção pura e por isso ele é famoso como o Sétimo Gosvām…. Este Bhakti-tattva-viveka é uma coletânea de quatro ensaios que ele compôs originalmente em bengali versando sobre os princípios devocionais. A primeira edição em hindi deste material foi feita em fascículos, do quarto ao quinto ano de publicação (1958-59) da ®r… Bhāgavat Pratikā, uma revista espiritual publicada mensalmente, em hindi, pela ®r… Keavaj… Gau…ya Ma˜há, em Mathurā. A pedido dos nossos leitores fervorosos e sob inspiração do atual ācārya da ®r… Gau…ya Vedānta Samiti, ®r… ®r…mad Bhaktivedānta Vāmana Mahārāja, estes ensaios foram apresentados na forma atual de um livro no ano de 1990. Esta atual edição inglesa é uma tradução direta da edição em hindi. AmalakŠa dāsa fez a versão original em inglês. Prema-vilāsa dāsa editou o livro, o layout e o design, e supervisionou todos os aspectos da publicação do livro. Navadv…pa dāsa serviu como editor de sânscrito e ofereceu inúmeras sugestões valiosas que propiciaram a clareza da publicação. T…rthapāda dāsa, Yaoda-gop… dās… e Vicitra dās… fizeram a leitura de prova e inúmeras sugestões úteis. Oro para que a misericórdia de ®r… ®r… Guru-Gaurā‰ga e de ®r… ®r… Rādhā Vinodabihār… se estenda a todos estes devotos pelos seus esforços sinceros. Pela misericórdia imotivada do fundador da ®r… Gau…ya Vedānta Samiti e de seus ramos subordinados da Gau…ya Ma˜ha em toda a Índia, o mais adorável ācārya-kear… jagad-guru oˆ viŠupāda a˜ottara-ata ®r… ®r…mad Bhakti Prajñāna Keava Gosvām… Mahārāja, a literatura devocional tem sido publicada pela Gau…ya Vedānta Samiti. Na auspiciosa ocasião do dia do seu

aparecimento, está sendo apresentada esta edição como uma oferenda posta em suas mãos de lótus. Sendo uma grande corporificação da afeição e da compaixão, que ele possa transmitir a potência da sua misericórdia para o âmago de nossos corações para que possamos prestar o máximo de serviço para o seu desejo mais íntimo. Esta é a nossa humilde oração aos seus pés de lótus. Finalmente, peço humildemente aos fiéis leitores que meditem nesta obra com grande concentração. Por compreender a verdadeira natureza de uddhabhakti, podemos saborear a meta definitiva de todas as escrituras, o puro néctar de kŠa-prema como foi exibido e pregado por ®r… Caitanya Mahāprabhu. Um aspirante por uma partícula da misericórdia de ®r… Guru e dos vaiŠavas, TridaŠi-bhiku ®r… Bhaktivedānta NārāyaŠa. ®r… Keavaj… Gau…ya Ma˜ha, Mathurā. 24 de fevereiro de 1997.

®r… ®r…mad Bhaktivedānta NārāyaŠa Mahārāja

®RŸLA BHAKTIVINODA µHšKURA

MA¥GALšCARA¦A

namaƒ oˆ viŠupādāya ācārya-siˆha-r™pine r…-r…mad-bhakti prajñāna keava iti nāmine (1) atimartya-caritrāya svā-ritānāŠca-pāline j…va-duƒkhe sadārttāya r…-nāma-prema-dāyine (2)
Ofereço praŠāma ao leonino ācārya, jagad-guru oˆ viŠupāda a˜ottara-ata ®r… ®r…mad Bhakti Prajñāna Keava Gosvām…, que é uma personalidade totalmente transcendental, que sustém com grande afeição aqueles que se refugiam nele, que está sempre triste ao ver o sofrimento das almas que são inimigas de KŠa e que concede amor pelo santo nome.

namo bhaktivinodāya saccidānanda-nāmine gaura-akti-svar™pāya r™pānuga-varāya te
Ofereço praŠāma para Saccidānanda ®r… Bhaktivinoda que é o principal devoto r™pānuga e que é a corporificação da akti de ®r… Caitanya Mahāprabhu.

ānanda-l…lāmaya-vigrahāya hemābha-divyac-chavi-sandarāya

tasmai mahā-prema-rasa-pradāya caitanya-candrāya namo namas te
Ofereço praŠāma para ®r… Caitanya-candra cuja forma é a corporificação dos bem-aventurados passatempos transcendentais, cuja compleição dourada é divinamente maravilhosa e que concede néctar ilimitado nas doçuras de prema.

jayatāˆ suratau pa‰gor mama manda-mater gat… mat-sarvasva-padāmbhojau rādhā-madana-mohanau
Todas as glórias aos supremamente misericordiosos ®r… Rādhā Madanamohana! Apesar de eu ser inválido e tolo, Eles são o meu refúgio e os Seus pés de lótus são tudo para mim.

r…-kŠa-caitanya prabhu nityānanda r…-advaita gadādhara r…vāsādi-gaura-bhakta-vnda hare kŠa hare kŠa kŠa kŠa hare hare hare rāma hare rāma rāˆa rāma hare hare

CAPÍTULO I
A NATUREZA INTRÍNSECA DA DEVOÇÃO
yugapada rājate yasmin bhedābheda vicitratā vande taˆ kŠa-caitanyaˆ pañca-tattvānvitaˆ svataƒ (1) praŠamya gauracandrasya sevakān uddha-vaiŠavān `bhakti-tattva viveka' khyaˆ astrāˆ vakyāmi yatnataƒ (2) viva-vaiŠava dāsasya kudrasyākiñcanasya me etasminn udyame hy ekaˆ balaˆ bhāgavati kamā (3)

"Ofereço praŠāma a ®r… KŠa Caitanya que é naturalmente manifesto no pañcatattva e que nele as qualidades contrastantes de unidade (abheda) e distinção (bheda) existem simultaneamente. Depois de oferecer praŠāma aos servos de ®r… Gauracandra, que são todos vaiŠavas puros, assumi com o maior cuidado a redação deste livro conhecido como Bhakti-tattva-viveka. Sendo um servo destituído e insignificante de todos os vaiŠavas do mundo (viva-vaiŠava dāsa), neste meu empenho, solicito as suas desculpas divinas, pois esta é a minha única aptidão."

Veneráveis vaiŠavas! Nosso único objetivo é saborear e propagar o néctar de uddha-bhakti ao Senhor Hari. Portanto, nosso dever principal é de compreender a verdadeira natureza de uddha-bhakti. Esta compreensão nos beneficiará de duas maneiras. Primeiro, conhecendo a verdadeira natureza de uddha-bhakti a nossa ignorância no que diz respeito ao tópico de bhakti será eliminada e desta maneira tornaremos nossa vida humana bem-sucedida ao nos permitirmos saborear o néctar que provém da dedicação a uddha-bhakti em sua forma pura. Segundo, ela nos capacitará a nos protegermos das concepções poluídas e misturadas que costumam existir com o nome de uddha-bhakti. Infelizmente, na sociedade dos dias de hoje, em nome de uddha-bhakti vários tipos de devoção mista tais como karma-mira (devoção misturada com atividades fruitivas), jñāna-mira (devoção misturada com conhecimento especulativo) e yoga-mira (devoção misturada com vários tipos de processos de yoga), bem como várias concepções poluídas e imaginárias se propagam por todo lado como os germes de uma praga. As pessoas em geral consideram estas concepções poluídas e misturadas como bhakti, as respeitam como tal e desta maneira se mantêm privadas de uddha-bhakti. Estes conceitos poluídos e misturados são os nossos grandes inimigos. Algumas pessoas dizem que não existe valor em bhakti, que Deus é apenas um sentimento imaginário que o homem meramente criou a imagem de um Deus em sua imaginação e que bhakti é apenas um estado doentio da consciência que não pode nos beneficiar de nenhuma maneira. Este tipo de gente, apesar de oposta a bhakti, não pode nos fazer muito mal porque podemos identificá-las facilmente e evitá-las. Mas aqueles que propagam que bhagavad-bhakti é o dharma mais elevado e no entanto se comportam de maneira contrária aos princípios de uddha-bhakti e que também instruem os outros contra os princípios de uddha-bhakti é que podem nos ser especialmente maléficos. Em nome de bhakti eles nos instruem contra os verdadeiros princípios de bhakti e acabam nos conduzindo a um caminho que é totalmente oposto ao de bhagavad-bhakti. Portanto, com grande esforço os nossos ācāryas anteriores definiram a svar™pa, ou a natureza intrínseca de bhakti e têm nos acautelado repetidamente para que nos mantenhamos afastados dos conceitos poluídos e misturados. A seguir iremos deliberar sobre as instruções deles. Eles compilaram uma vasta literatura para estabelecer a svar™pa de bhakti, e dentre toda esta obra, o Bhakti-rasāmta-sindhu é a mais benéfica. Ao definir as características gerais de uddha-bhakti, ®r…la R™pa Gosvām… escreveu lá (verso 1.1.11):

anyābhilāita-™nyaˆ jñāna-karmādy anāvtam ānuk™lyena kŠānu…lanāˆ bhaktir uttamā
"O cultivo de atividades que se destinam unicamente ao prazer de ®r… KŠa, ou em outras palavras o fluxo ininterrupto de serviço a ®r… KŠa, realizado através de todos os esforços do corpo, da mente e da fala a através da expressão dos

vários sentimentos espirituais (bhāvas), que não podem ser encobertos por jñāna (o conhecimento que visa a liberação impessoal) e karma (atividades que visam recompensas) e que é desprovido de todos os desejos que não sejam a aspiração de promover a felicidade de ®r… KŠa, é chamado uttamā-bhakti, ou serviço devocional puro." No verso acima, cada uma das palavras têm que ser analisadas; caso contrário não poderemos compreender os atributos de bhakti. Neste verso qual é o significado das palavras `uttamā-bhakti'? Será que a frase uttamā-bhakti ou devoção mais elevada também implica na existência de adhama, ou bhakti inferior? Ou ela pode ter algum outro significado? Uttamā-bhakti significa o estágio onde a trepadeira devocional está em sua forma completamente pura ou não-contaminada. Por exemplo, água não-contaminada significa água pura, ou aquela que não tem cor, cheiro ou adulteração de qualquer tipo provocada pela adição de outra substância. Analogamente, a frase uttamā-bhakti se refere ao bhakti que é destituído de qualquer contaminação, adulteração ou apego pelas posses materiais e que é realizado de uma maneira exclusiva. O uso destes adjetivos qualificativos aqui nos ensina que não devemos aceitar qualquer sentimento que seja oposto a bhakti. A negação dos sentimentos que são opostos a bhakti inevitavelmente nos conduzem à própria natureza pura de bhakti. Talvez por usar simplesmente a palavra bhakti este significado esteja indicado, uma vez que a palavra bhakti já contém em si mesma toda esta adjetivação. Então será que o bhakti-ācārya ®r…la R™pa Gosvām… empregou especificamente o adjetivo qualificativo uttamā (mais elevado) sem nenhum motivo? Não — assim como quando as pessoas ao desejarem beber água geralmente perguntam: "Esta água não está contaminada?" Analogamente, para poder descrever os atributos de uttamā-bhakti, nossos ācāryas anteriores consideram ser necessário indicar que a maioria das pessoas pratica mirabhakti, ou devoção mista. Na realidade, o rasācārya ®r…la R™pa Gosvām… está pretendendo descrever os atributos de kevalā-bhakti, ou devoção exclusiva. Chala-bhakti, pratibimba-bhakti, chāyā-bhakti (uma sombra de devoção), karma-mira-bhakti, jñāna-mira-bhakti e assim por diante, não são uddhabhakti. Mais tarde examinaremos cada uma delas. Quais são os svar™pa-lakana, ou atributos intrínsecos, de bhakti? Para responder a esta pergunta diz-se que bhakti é anuk™lyena kŠānu…lana, o cultivo de atividades que se destinam exclusivamente para o prazer de KŠa. No seu comentário Durgama-sa‰gaman… sobre o Bhakti-rasāmta-sindhu, ®r…la J…va Gosvām… explicou que a palavra anu…lanam tem dois significados. Primeiro, ela significa cultivo através dos esforços para dedicar e não dedicar o nosso corpo, mente e palavras. Segundo, ela significa cultivo do objeto de nossa pr…ti, ou afeição através de manasi-bhāva, os sentimentos do coração e da mente. Apesar de anuilana ser de dois tipos, o cultivo através de manasi-bhāva está incluído no por ce˜a, ou nossas atividades. Por isso, nossas atividades ou esforços (ce˜a) e nossos sentimentos interiores (bhāva) são mutuamente interdependentes e no fim é ce˜a que acaba sendo a única característica de

cultivo. Somente quando as atividades do nosso corpo, mente e palavras forem executadas favoravelmente para o prazer de KŠa, isso será chamado bhakti. Kaˆsa e ®iupāla estavam sempre se dedicando a KŠa com seus corpos, mentes e palavras, mas suas atividades não podem ser aceitas como bhakti, pois estes esforços eram desfavoráveis a kŠa-pr…ti ou para o prazer de KŠa. Esforços desfavoráveis não podem ser chamados de bhakti. A palavra bhakti deriva da raiz verbal `bhaj". Isso é falado no Garua PurāŠa (P™rva-khaŠa 231.3):

bhaj ityea vai dhātuƒ sevāyāˆ parik…rtitaƒ tasmāt sevā budhaiƒ proktā bhaktiƒ sādhana-bh™yas…
"A raiz verbal bhaj significa prestar serviço. Portanto, os sādhakas inteligentes devem se dedicar ao serviço a ®r… KŠa com grande empenho, pois é apenas com este serviço que bhakti é gerado." De acordo com este verso, kŠa-sevā, ou serviço devocional amoroso a KŠa é chamado bhakti. Este serviço é o atributo intrínseco de bhakti. No verso principal foi usada a palavra kŠānu…lanam . O significado disso é que Svayam Bhagavān ®r… KŠa é o único objetivo final indicado pelo termo kevalā-bhakti (devoção exclusiva). A palavra bhakti é também usada para NārāyaŠa e para várias outras expansões de KŠa, mas os sentimentos completos de bhakti não podem ser reciprocados com as outras formas. Este ponto pode ser analisado em detalhes noutra ocasião quando o tema for mais adequado para isso. Por agora é necessário compreender que bhagavad-tattva é o único objetivo de bhakti. Apesar da Suprema Verdade Absoluta (para-tattva) ser uma só, Ela se manifesta em três aspectos, que são brahma-tattva, paramātmatattva e bhagavat-tattva. Aqueles que tentam reconhecer a Verdade Absoluta através do cultivo de jñāna não podem realizar nada além de brahmatattva. Através deste empenho espiritual eles tentam atravessar a existência material pela negação das qualidades do mundo material (neti-neti); desta maneira eles imaginam o Brahman como sendo inconcebível, imanifesto, destituído de forma e imutável. Mas meramente imaginar a ausência de qualidades materiais não garante a ninguém a verdadeira realização da Verdade Absoluta. Tais espiritualistas pensam que porque os nomes, formas, qualidades e atividades no mundo material são temporários e dolorosos, o Brahman que existe além da contaminação material não pode possuir nomes, formas, qualidades, passatempos e outros atributos eternos. Eles argumentam com base na evidência dos rutis, que enfatizam a ausência de atributos materiais no Supremo, que a Verdade Absoluta está além do alcance da mente e das palavras e que portanto Ele não tem ouvidos, partes corpóreas, etc. Estes argumentos têm o seu mérito, mas podem ser acomodados com a declaração de Advaita šcārya encontrada no ®r… Caitanya-candrodaya-nā˜akam (6.67) escrito por Kavi KarŠap™ra:

yā yā rutir jalpati nirvieaˆ

sā sāvidhatte savieam eva vicārayoge sati hanta tāsāˆ prāyo bal…yaƒ savieam eva
Em todas as declarações dos rutis onde está indicada a tattva impessoal, na mesma declaração também está mencionada a tattva pessoal. Por analisar cuidadosamente todas as declarações dos rutis como um todo, podemos ver que a tattva pessoal é mais enfatizada. Por exemplo, um ruti diz que a Verdade Absoluta não tem mãos, nem pernas e nem olhos, mas compreendemos que Ele realiza tudo, viaja para todo lugar e ouve tudo. A compreensão pura desta declaração é que Ele não tem mãos, pernas ou outros membros materiais como os das almas condicionadas. Sua forma é transcendental, o que significa que Ele está além dos vinte e quatro elementos da natureza material e que é puramente espiritual. Pelo cultivo de jñāna, o Brahman impessoal aparecerá como a tattva suprema. A sutileza aqui é que o próprio jñāna é material, o que significa que no mundo material todo o conhecimento que adquirimos, ou qualquer princípio (siddhānta) que estabelecemos, é feito dependendo unicamente de atributos materiais. Portanto, quer o princípio seja material, ou quer por aplicar o processo de negação dos atributos materiais (vyatireka), estaremos concebendo um princípio que é o oposto da matéria grosseira, mas por este método não podemos alcançar a verdadeira tattva suprema. Em seu Bhakti-sandarbha, ®r…la J…va Gosvām… delineou a tattva que é alcançada por aqueles que seguem o caminho do jñāna impessoal da seguinte maneira:

prathamataƒ rotŠām hi vivekastāvān eva, yāvatā jaātiriktaˆ cinmātraˆ vast™pasthitaˆ bhavat. Tasmiñ cinmātre 'pi vastuni ye vieāƒ svar™pa-bh™taakti-siddhāƒ bhagavattādi-r™pa varttante tāˆs te vivektuˆ na kamante. Yathā rajan…-khaŠini jyotii jyotir mātratve pi ye maŠalāntar bahi ca divyavimānādi-paraspara-pthag-bh™ta-rami-paramāŠu-r™pa vieās tāˆ carmacaku na kamanta ity anvayaƒ tad vat. P™rvavac ca yadi mahat-kpā-vieeŠa divya d˜itā bhavati tadā vieopalabdhi ca bhavet na ca nirviea canmātrabrahmānubhavena tal l…na eva bhavati (214) idam eva (G…tā 8.3) "svabhāvo `dhyātmam ucyate" ity anena r…-g…tās ™ktam. svasya uddhaasyātmano bhāvo bhāvanā ātmany adhiktya vartaˆānatvād adhyātma-abdenocyate ity arthaƒ. (216)
"No início é necessário que os estudantes que estão seguindo o caminho de jñāna tenham discriminação suficiente para compreender a existência de uma entidade transcendental (ciŠmaya-vastu) que está além da contaminação da matéria grosseira. Apesar dos atributos específicos do Supremo, estabelecidos pelas potências inerentes à própria natureza do Senhor, estarem intrinsecamente presentes nesta entidade transcendental, os seguidores do caminho de jñāna são incapazes de percebê-los. Por exemplo, o sol é uma luminária que dissipa a escuridão da noite. Apesar de sua qualidade luminosa ser compreendida facilmente, os trabalhos interiores e exteriores do planeta sol,

a diferença que existe entre as partículas individuais de luz e os aspectos distintos específicos das inúmeras partículas atômicas de luz são todos imperceptíveis aos olhos humanos. Analogamente, aqueles que observam a entidade transcendental através dos olhos do jñāna impessoal são incapazes de perceber os atributos divinos pessoais do Senhor. Se, como descrito anteriormente, adquire-se visão transcendental pela misericórdia especial dos grandes devotos, poder-se-á reconhecer diretamente os atributos pessoais do Senhor. De outro modo, pela realização da existência impessoal do Brahman, alcançar-se-á apenas o estado de imersão neste Brahman."(Anuccheda 214) "Este conhecimento está descrito no Bhagavad-g…tā (8.3): svabhāvo `dhyātman ucyate —`A natureza inerente da entidade viva é conhecida como o eu.' Os significados das palavras svabhāva e adhyātma são os seguintes: Sva se refere ao uddha-ātmā, ou o eu puro e a palavra bhāva se refere à determinação. Conseqüentemente a determinação da entidade viva pura como um indivíduo singular, eternamente relacionado com o Supremo, é conhecida como svabhāva. Quando o ātmā, o eu, se torna o principal sujeito em foco e assim recebe o poder de agir em sua função própria, ele é conhecido como adhyātma." (Anuccheda 216) O significado disso é que quando o conhecimento espiritual é adquirido através do processo de negação (neti-neti), a Verdade Absoluta, que é transcendental a māyā, só é realizada parcialmente. O aspecto diversificado da transcendência, que é muito mais profundo, não é realizado. Se alguém que segue este processo encontra um personalista, um guru vaiŠava autorealizado, só então esta pessoa poderá se livrar do anartha do impersonalismo. Aqueles que seguem o caminho de yoga, no final só chegam à realização do paramātmā todo-penetrante. Eles não podem ter a realização de uddhabhagavat-tattva. Paramātmā, Ÿvara, o ViŠu pessoal e assim por diante são os objetivos da busca através do processo de yoga. Neste processo podemos encontrar alguns poucos atributos de bhakti, mas não é uddha-bhakti. Geralmente os princípios religiosos neste mundo que passam por bhagavatdharma são todos meramente processos de yoga que visam a realização do aspecto de paramātmā. Não podemos esperar que no fim todos eles nos conduzam a bhagavat-dharma, porque no processo de meditação existem inúmeros obstáculos antes que alguém finalmente realize a Verdade Absoluta. Além disso, depois de praticar tanto yoga quanto meditação, depois de algum tempo a pessoa imagina que "eu sou Brahman" (aha‰grahopāsanā), e aí ocorre a maior possibilidade de ela cair na armadilha do jñāna impessoal espiritual. Neste processo não é possível a realização da forma eterna de Bhagavān e das características diversificadas da transcendência. A forma que é imaginada na hora de upāsanā, ou adoração meditacional — quer seja o virā˜ (a forma gigantesca do Senhor concebida na forma do Universo), quer seja a forma de quatro braços situada dentro do coração — não é eterna. Este processo é chamado paramātma-darana, ou realização da Superalma. Apesar de este

processo ser superior ao do cultivo do jñāna impessoal, ele não é o processo perfeito e completamente prazeroso. A˜ā‰ga-yoga, ha˜ha-yoga, karma-yoga e todas as outras práticas de yoga estão incluídas neste processo. Apesar de rājayoga ou adhyātma-yoga seguir este processo até certo ponto, na maioria dos casos eles estão meramente incluídos no processo de jñāna. A siddhānta, ou conclusão filosófica, é que paramātma-darana não pode ser chamado de uddha-bhakti. A este respeito o Bhakti-sandarbha declara: antaryāmitvamayamāyā-akti-pracura-cic chaktyaa viitaˆ paramātmeti —"depois da criação do Universo, a expansão do Senhor Supremo que entra nele como o controlador da natureza material e que está situado como o mantenedor da criação é conhecido como Jagad…vara ou Paramātmā todo-penetrante. Sua função está mais relacionada com a exibição da potência externa do que com a potência interna. Portanto, esta tattva é naturalmente inferior à suprema e eterna bhagavat-tattva. A Verdade Absoluta realizada exclusivamente através do processo de bhakti é chamada Bhagavān. No Bhakti-sandarbha, as características de bhagavattattva são descritas como pari-p™rŠa-sarva-akti-viita-bhagavān iti — "a Verdade Absoluta completa dotada de todas as potências transcendentais é chamada Bhagavān." Depois da criação do Universo, Bhagavān entra nele através da Sua expansão parcial como Paramātmā: como Garbhodakaāy…, Ele está situado como a Superalma de todo o Universo (virāt-antar-yām…) e como K…rodakaāy…, Ele está situado como a Superalma nos corações das entidades vivas. E novamente, numa distinção direta dos mundos materiais manifestos, Bhaga vān aparece como a brahma-svar™pa-tattva impessoal. Por isso, Bhagavān é a tattva original e a Suprema Verdade Absoluta. A Sua svar™pavigraha, ou forma intrínseca é transcendental. A bem-aventurança espiritual completa reside nEle. Suas potências são inconcebíveis e estão além de qualquer racionalização. Ele não pode ser sondado por nenhum processo fabricado pelo conhecimento da j…va infinitesimal. Pela influência da Sua potência inconcebível, o Universo inteiro e todas as entidades vivas residentes nele se manifestaram. As j…vas que se manifestam da ta˜astha-akti, ou potência marginal de Bhagavān, só alcançam o sucesso ao seguirem o dharma de se dedicarem exclusivamente ao Seu serviço amoroso transcendental. Então, pela prática de nāma-bhajana podemos realizar através dos olhos transcendentais a incomparável beleza de Bhagavān. O processo de jñāna e yoga são incapazes de se aproximarem de Bhagavān. Por combinar bhagavat-tattva com jñāna, a tattva aparece como o Brahman sem forma, refulgente e impessoal e se Ele é visto através do processo de yoga, Ele surge como Paramātmā investido nesta criação material. Bhakti é supremamente pura. É muito doloroso para Bhakti-dev…, a personificação de bhakti, ver a Personalidade Suprema em Suas manifestações inferiores. Se ela vê alguma delas, ela não pode tolerá-la. Dentre estas três manifestações da Verdade Absoluta, apenas a manifestação da forma pessoal de Bhagavān é que é o objetivo de bhakti. Mas mesmo dentro da manifestação pessoal de Bhagavān há uma distinção importante. Onde a

potência interna (svār™pa-akti) exibe a sua opulência completa (aivarya), ali Bhagavān aparece como VaikuŠ˜hanātha NārāyaŠa, e onde a potência interna exibe a sua doçura suprema (mādhurya), ali Bhagavān surge como ®r… KŠa. Apesar de ser predominante em quase todos os locais, aivarya perde o seu encanto na presença de mādhurya. No mundo material não podemos esboçar nenhum tipo de comparação; nenhum exemplo semelhante é visível em lugar algum. No mundo material aivarya é mais influente do que mādhurya, mas no mundo espiritual ocorre o contrário. Lá, mādhurya é superior e mais influente do que aivarya. Oh meus queridos devotos! Vocês devem deliberar um pouco sobre aivarya e depois disso despertar os amorosos sentimentos de mādhurya em seus corações. Ao procederem assim vocês serão capazes de compreender esta verdade. Assim como no mundo material quando o sol desponta, ele consome a luz da lua, analogamente quando o gosto da doçura de mādhurya surge no coração do devoto, ele já não sente gosto em aivarya. ®r…la R™pa Gosvām… escreveu no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.2.59):

siddhāntatas tv abhede `pi r…a-kŠa svar™payoƒ rasenotkyate kŠa-r™pam ea rasa-sthitiƒ
Apesar de, sob o aspecto de siddhānta, NārāyaŠa e KŠa serem nãodiferentes, KŠa é superior por possuir mais rasa. Esta é a glória de rasa-tattva. Esta tattva ficará mais clara no decorrer desta apresentação. Mas por hora é essencial compreender que o cultivo favorável de atividades que visam satisfazer a ®r… KŠa (ānuk™lyena-anu…lanaˆ) é a única característica intrínseca (svar™pa-lakaŠa) de bhakti. Portanto, isso confirma a mesma declaração do verso principal. Permanecer tanto livre de desejos separados do desejo de servir a ®r… KŠa (anayābhilāitā) quanto livre das contaminações de jñāna e karma (jñānakarmādy-anāvtam ) é a ta˜astha-lakana, ou característica marginal de bhakti. ViŠu-bhakti pravakyāˆi yayā sarvam avāpyate — nesta metade de verso do Bhakti-sandarbha as características marginais de bhakti são revistas. O seu significado é que através da prática citada de viŠu-bhakti a j…va pode alcançar tudo. O desejo de alcançar algo é chamado abhilāitā. Da palavra abhilāitā não podemos derivar o significado que o desejo de progredir em bhakti e de finalmente alcançar o seu estágio perfeito também deva ser rejeitado. "Através de minha prática de sādhana-bhakti um dia alcançarei o estágio de bhāva" — é altamente recomendável que o devoto tenha um desejo assim, mas além deste desejo todos os outros tipos de desejos devem ser rejeitados. Existem dois tipos de desejos separados: o desejo de gratificação dos sentidos (bhukti) e o desejo de liberação (mukti). ®r…la R™pa Gosvām… diz no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.2. 22):

bhukti-mukti-sphā yāvat piac… hdi varttate tāvat bhakti-sukhāsyātra katham abhyudayo bhavet

Enquanto as duas bruxas dos desejos de bhukti e mukti permanecerem no coração do devoto, não surgirá nem mesmo uma fração da felicidade pura derivada de svār™pa-siddhā-bhakti (*).
(*) Todos os esforços favoráveis (ce˜a) tais como ravaŠa, k…rtana, smaraŠa e assim por diante, bem como a manifestação dos sentimentos espirituais que ocorrem a partir do estágio de bhāva, que são completamente desprovidos de todos os desejos separados de

Tanto o desfrute corpóreo quanto o mental são considerados bhukti. Fazer um esforço extremo para permanecer livre de doença, desejar pratos saborosos, poder e força, riqueza, seguidores, esposa, filhos e filhas, fama e vitória são considerados bhukti. Desejar nascer numa família de brāhmaŠas na próxima vida ou numa família real, ir morar num planeta celestial ou em Brahmaloka, ou obter qualquer outro tipo de felicidade na próxima vida também é considerado bhukti. Praticar o sistema óctuplo de yoga e desejar obter oito ou as dezoito variedades de perfeições místicas também são categorizados como bhukti. A ambição por bhukti força a j…va a se tornar subordinada aos seis inimigos liderados pela luxúria e pela ira. A inveja se instala no coração da j…va com facilidade e o governa. Por isso, para se alcançar uddha-bhakti devemos permanecer completamente alheios ao desejo de bhukti. Ao abandonar o desejo de bhukti, a alma condicionada não precisa rejeitar os objetos dos sentidos indo residir na floresta. O fato de meramente ir morar na floresta ou de aceitar as vestes de um sannyās… não a livrará do desejo de bhukti. Se bhakti reside no coração do devoto, então mesmo que ele viva em meio aos objetos dos sentidos, ele será capaz de permanecer desapegado deles e será capaz de abandonar o desejo de bhukti. Portanto, ®r…la R™pa Gosvām… diz no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.2.254-256):

rucim udvahatas tatra janasya bhajane hareƒ viayeu gari˜ho `pi rāgaƒ prāyo vil…yate anāsaktasya viayān yathārham upayuñjataƒ nirbandhaƒ kŠa-sambandhe yuktaˆ vairāgyam ucyate prāpañcikatayā buddhyā hari sambandhi vastunaƒ mumukubhiƒ parityāgo vairāgyaˆ phalgu kathyate

®r… KŠa e que estão livres da contaminação de jñāna e karma são conhecidos como svar™pa-siddhā-bhakti. Em outras palavras todos os esforços realizados com o corpo, palavras e mente que são relacionados com ®r… KŠa e que são realizados exclusiva e diretamente para o Seu prazer sem nenhuma intervenção são chamados svar™pasiddhā-bhakti.

Quando a j…va desenvolve um gosto por kŠa-bhajana, nesta ocasião o seu apego excessivo pelos objetos dos sentidos começa gradualmente a esvanecer. Então, com espírito de desapego, ele aceita os objetos dos sentidos apenas de acordo com suas necessidades, sabendo que estes objetos estão relacionados com KŠa e se comporta de maneira harmônica. Isso é chamado yuktavairāgya. A renúncia destas duas coisas — desejo de liberação da matéria e a rejeição dos objetos dos sentidos por considerá-los ilusórios — é chamada phalgu, ou inútil. Não é possível a uma j…va corporificada renunciar completamente aos objetos dos sentidos, mas a mudança da tendência de desfrutar deles mantendo uma compreensão do relacionamento que eles têm com KŠa não pode ser chamada de gratificação dos sentidos. R™pa (forma), rasa (gosto), gandha (aroma), spara (tato) e abda (som) são os objetos dos sentidos. Devemos tentar perceber o mundo de maneira tal que tudo pareça estar relacionado com KŠa, o que significa que devemos ver todas as j…vas como servos e servas de KŠa. Devemos ver os jardins e os rios como locais para os prazerosos divertimentos de KŠa. Devemos ver que todos os tipos de comestíveis devem ser usados como uma oferta ao Seu prazer. Em todos os tipos de aromas, percebemos o aroma de kŠa-prasāda. E da mesma maneira, devemos ver que todos os tipos de gostos se destinam a ser desfrutados por KŠa, ver que todos os elementos do tato estão relacionados com KŠa e ouvir apenas hari-kathā ou narrativas descrevendo as atividades de grandes devotos de KŠa. Quando um devoto desenvolve esta perspectiva, então ele não mais verá os objetos dos sentidos como estando separados do próprio Bhagavān. A tendência de desfrutar da felicidade obtida pela gratificação dos sentidos intensifica o desejo por bhukti no coração de um devoto e acaba desviando-o do caminho de bhakti. Por outro lado, ao aceitar todos os objetos deste mundo como instrumentos a serem empregados no serviço a KŠa, o desejo de bhukti é completamente erradicado do coração, permitindo assim que uddha-bhakti ali se manifeste. Assim como é imperativo abandonar o desejo de bhukti, é igualmente importante abandonar o desejo de mukti. Existem algumas concepções e princípios muito profundos a respeito de mukti. As escrituras mencionam cinco tipos de mukti:

sālokya-sār˜i-sām…pya-sār™pyaikatvam apy uta d…yamānaˆ na ghŠanti vinā mat-sevanaˆ janāƒ ®r…mad-Bhāgavatam (3.29.13)
®r… Kapiladeva disse: "Ó minha querida mãe! Apesar de lhes serem oferecidos os cinco tipos de liberação conhecidos como sālokya, sār˜i, sār™pya, sām…pya e ekatva, meus devotos puros não os aceitam. Eles só aceitam o meu serviço transcendental amoroso."

Atravéz de sālokya-mukti se alcança a residência na morada de Bhagavān. Alcançar opulência igual a de Bhagavān chama-se sār˜i-mukti. Alcançar uma posição próxima a Bhagavān é chamado sām…pya-mukti. Obter a forma de quatro braços igual à de Bhagavān ViŠu é chamado sār™pya-mukti. Alcançar sāyujya-mukti (imersão) é chamado ekatva. Esta sāyujya-mukti é de dois tipos: brahma-sāyujya e …vara-sāyujya. O cultivo de brahma-jñāna ou conhecimento impessoal conduz ao brahma-sāyujya. E também por se seguir o método prescrito pelas escrituras espirituais alcança-se o brahma-sāyujya. Por observar adequadamente o sistema de yoga de Pātañjali, alcança-se a liberação conhecida como …vara-sāyujya, ou a imersão na forma do Senhor. Para os devotos os dois tipos de sāyujya-mukti são rejeitados. Aqueles que desejam alcançar sāyujya como o estado de perfeição também podem seguir o processo de bhakti, mas para eles bhakti é temporário e fraudulento. Eles não aceitam que bhakti seja uma ocupação eterna e a consideram meramente como um meio para se alcançar o Brahman. A concepção deles é que depois de alcançar o Brahman, bhakti não mais existe. Portanto, o bhakti de um devoto sincero se deteriora na associação destes espiritualistas. ®uddhabhakti nunca reside nos corações daqueles que consideram sāyujya-mukti como sendo a perfeição definitiva. Ao considerar as outras muktis, ®r…la R™pa Gosvām… explica no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.2.55-57):

atra tyājyatayaivoktā muktiƒ pañca-vidhāpi cet sālokyādis tathāpy atra bhaktyā nāti virudhyate sukhaivaryottarā seyaˆ prema-sevottarety api sālokyādir-dvidhā tatra nādyā sevājuāˆ matā kintu premaika-mādhurya-jua ekāntini'harau naivā‰g… kurvate jātu muktiˆ pañca-vidhām api
Apesar dos cinco tipos de mukti citados serem rejeitadas pelos devotos, os tipos chamados de sālokya, sām…pya, sār™pya e sār˜i não são completamente contrários a bhakti. De acordo com a diferença na elegibilidade de um determinado devoto em recebê-las, estes quatro tipos de mukti assumem duas formas: sva-sukha-aivarya pradānakār… (aquela que concede felicidade e opulência transcendentais) e prema-sevā-pradānakār… (aquela que concede o serviço amoroso transcendental a Bhagavān). Aqueles que alcançam os planetas VaikuŠ˜ha através destes quatro tipos de liberação obtêm o fruto da felicidade e opulência transcendental. Os serviçais ou devotos do Senhor nunca aceitam esta liberação em nenhuma circunstância, e os prem…-bhaktas ou devotos amorosos nunca aceitam nenhuma das cinco variedades de mukti. Portanto, entre os devotos puros não existe o desejo de liberação. Desta maneira, manter-se livre do desejo de mukti é anyābhilāitā-unya , estar desprovido de qualquer desejo que não seja o de satisfazer a ®r… KŠa. Esta é uma das ta˜astha-lakaŠa ou características marginais de bhakti.

Permanecer livre e descontaminado das tendências de jñāna e karma é outra característica marginal de bhakti. Na frase `jñāna-karmādi', a palavra `adi', significando `e tudo mais', se refere à prática de a˜a‰ga-yoga, vairāgya, sāŠkhya-yoga e deveres ocupacionais correspondentes à casta ou credo pessoal. Já foi mencionado que o cultivo favorável de atividades que satisfazem a ®r… KŠa é chamado bhakti. A entidade viva é transcendental, KŠa é transcendental, e a bhakti-vtti ou a tendência pela devoção imaculada através da qual a entidade viva estabelece um relacionamento eterno com KŠa, também é transcendental. Quando a j…va está situada em seu estado puro, é só então que age a svar™pa-lakaŠa, ou atributo intrínseco de bhakti. Nesta condição não há oportunidade para a ação da ta˜astha-lakaŠa de bhakti. Quando a j…va está condicionada e situada no mundo material, juntamente com sua svar™pa, ou identidade constitucional, existem mais duas identidades marginais: os corpos grosseiro e sutis. Através destes corpos a entidade viva se esforça para satisfazer os seus vários desejos enquanto reside no mundo material. Portanto, quando introduzimos alguém no conceito de uddha-bhakti devemos informá-lo do conceito de anyābhilāitā-unya ; ou seja, da importância de se estar desprovido de quaisquer outros desejos que não sejam o de satisfazer a KŠa. No mundo transcendental não se requer este tipo de identificação. Depois de ficar enredada no oceano da existência material, a j…va se torna absorta em vários tipos de atividades externas e portanto atacada por uma doença chamada "esquecimento de KŠa." Como a j…va sofre com as severas misérias provocadas por esta doença, ocorre-lhe o desejo de ser liberada do oceano da ignorância material. Nesta ocasião em sua mente ela se condena, dizendo: "Ora! Como sou desafortunada! Caí no intransponível oceano da existência material, e vivo sendo arremessada de um lugar para o outro pelas ondas violentas dos meus desejos maléficos. Vivo sendo atacada pelos crocodilos e outras criaturas violentas da luxúria, ira e tudo mais. Choro desesperadamente nesta minha condição miserável mas não vejo nenhuma esperança de continuar sobrevivendo. O que devo fazer? Será que não tenho nenhum bem-querente? Será que existe uma maneira de eu ser resgatada? Ora! O que devo fazer? Como serei liberada? Não vejo nenhuma solução para este meu dilema. Ora! Ora! Como sou desafortunada!" Neste estado de aflição e desespero, a j…va fica exausta e se queda silenciosa. Ao ver a j…va nesta condição, o muito compassivo ®r… KŠa então misericordiosamente implanta a bhakti-latā-b…ja, ou a semente da trepadeira do serviço devocional dentro do coração dela. Esta semente é conhecida como raddhā, ou fé, e contém dentro dela a manifestação de bhāva ainda não desenvolvida, ou do primeiro broto do amor divino por Bhagavān. Nutrida pela água do cultivo das atividades devocionais, que são lideradas pelo ouvir e cantar, esta semente primeiro germina, então surgem as folhas e finalmente as flores à medida que ela vai assumindo a plena forma de uma trepadeira. Quando afinal a boa fortuna cai sobre a j…va, a bhakti-latā dá o fruto de prema.

Agora vou explicar o desenvolvimento gradual de bhakti começando da forma de semente de raddhā. Devemos compreender claramente que assim que a semente de raddhā é plantada no coração, imediatamente Bhakti-dev… aparece ali. Bhakti no estágio de raddhā é muito delicada, é como uma menininha recém-nascida. Logo no início do seu aparecimento no coração do devoto ela tem que ser mantida com extremo cuidado, numa condição saudável. Assim como um chefe de família protege sua filhinha recém-nascida do sol, do frio, das criaturas maléficas, da fome e da sede, analogamente a criancinha na forma de ®raddhā-dev… deve ser protegida dos vários tipos de inauspiciosidade. Caso contrário a associação indesejável de jñāna, karma, yoga, apego pelos objetos materiais, renúncia proibicionista e tudo mais não permitirão que ela gradualmente desabroche em uttamā-bhakti e ao invés disso fará com que ela se desenvolva de uma maneira diferente. Em outras palavras, a raddhā acabará não se desenvolvendo em bhakti, mas meramente assumirá a forma dos anarthas. O perigo da doença permanece até que a tenra ®raddhādev… fique livre da influência dos anarthas e se transforme em ni˜ha por ter sido nutrida pela afeição materna da associação com os devotos genuínos e por tomar o remédio de bhajana. Uma vez que ela tenha alcançado o estágio de ni˜hā, nenhum tipo de anartha poderá prejudicá-la seriamente. Se ®raddhā-dev… não for nutrida adequadamente com o maior carinho, ela ficará poluída por germes, cupins, mosquitos do meio insalubre de jñāna, concepções impersonalistas, sā‰khya e tudo mais. No estado condicionado, jñāna, vairāgya, etc. são inevitáveis para a j…va, mas se jñāna for de um tipo que é desfavorável a bhakti, ele pode arruinar bhakti. Por isso, de acordo com ®r…la J…va Gosvām… a palavra `jñāna' aqui se refere ao conhecimento que visa alcançar o Brahman impessoal. Jñāna é de dois tipos: conhecimento espiritual que visa alcançar mukti e bhagavat-tattva-jñāna que surge simultaneamente com bhakti dentro do coração da j…va. O primeiro tipo de jñāna é diretamente oposto a bhakti e é essencial ficar longe dele. Algumas pessoas dizem que bhakti só surge depois do cultivo deste tipo de conhecimento espiritual, mas esta declaração é completamente errada. Bhakti na verdade tende a definhar com este tipo de conhecimento. Por outro lado, a tattva-jñāna relativa ao relacionamento mútuo (sambandha) entre …vara, a j…va e māyā, que desperta no coração da j…va através do cultivo fervoroso das atividades devocionais, auxilia bhakti. Este conhecimento é chamado ahaituka-jñāna ou conhecimento que é desprovido de motivação diferente de bhakti. S™ta Gosvām… diz no ®r…mad Bhāgavatam (1.2.7):

vāsudeve bhagavati bhakti-yogaƒ prayojitaƒ janayatyāu vairāgyaˆ jñānaˆ ca yad ahaitukam
"Bhakti-yoga, que é realizada para a satisfação de Bhagavān Vāsudeva, leva ao desapego das coisas que não estão relacionadas com Ele e faz surgir o conhecimento puro que está livre de qualquer desejo de liberação e que é dirigido exclusivamente para o propósito de alcançá-lO."

Agora, ao recordarmos todas as declarações anteriores, podemos compreender que permanecer incontaminado por jñāna, karma, etc. — o que significa aceitá-las como entidades subservientes — e a dedicação ao cultivo de atividades que visam a satisfação de KŠa desprovidas de quaisquer outros desejos, é o que se chama uttamā-bhakti. Bhakti é o único meio pelo qual a j…va pode alcançar a bem-aventurança transcendental. Além de bhakti todos os outros métodos são externos. Com a assistência de bhakti, às vezes karma é identificado como āropa-siddhā-bhakti, ou esforços que estão indiretamente atribuídos com a qualidade da devoção e às vezes jñāna é identificado como sa‰ga-siddha-bhakti, ou esforços associados com/ou favoráveis ao cultivo da devoção. Mas eles nunca podem ser aceitos como svar™pa-siddhā-bhakti, ou bhakti em seu estágio constitucional perfeito. Svar™pa-siddhā-bhakti é kaitava™nya ou livre de qualquer falsidade e pleno de bem-aventurança imotivada por natureza, o que significa que ele é desprovido de quaisquer desejos de desfrute celestial e de alcançar a liberação. Mas em āropa-siddhā-bhakti os desejos por bhukti e mukti permanecem numa posição oculta. Portanto, isso também é chamado de sakaitava-bhakti, ou bhakti fraudulento. Ó meus queridos vaiŠavas! Devido à sua natureza constitucional vocês estão sendo atraídos por svar™pa-siddhā-bhakti e não sentem prazer em āropa-siddhābhakti ou em sa‰ga-siddhā-bhakti. Apesar destes dois tipos de devoção não serem realmente bhakti por sua constituição, algumas pessoas se referem a estes dois tipos de atividades como bhakti. Na verdade eles não são bhakti, mas sim bhakti-ābhāsa, ou a semelhança do verdadeiro bhakti. Se por alguma boa fortuna através da prática de bhakti-ābhāsa alguém desenvolve raddhā pela verdadeira natureza de bhakti, só então é que esta prática se transforma em uddhā-bhakti. Mas isso não ocorre facilmente, porque pela prática de bhaktiābhāsa existe toda a possibilidade de permanecermos desprovidos de uddhabhakti. Portanto, em todas as escrituras a instrução é seguir svar™pa-siddhābhakti. Neste pequeno artigo foi explicada a natureza intrínseca de uddha-bhakti. Depois de rever cuidadosamente todas as instruções dos nossos ācāryas anteriores, apresentamos de forma resumida os seus sentimentos mais profundos no seguinte verso:

p™rŠa cidātmake kŠe j…vasyāŠu cidātmanaƒ upādhi-rahitā ce˜ā bhaktiƒ svabhāvik… matā
®r… KŠa é completo, a consciência todo-penetrante que sempre possui todas as potências e a j…va é uma entidade com consciência infinitesimal que é comparada a uma simples partícula de luz situada dentro de um raio do ilimitado sol espiritual. O esforço natural e inadulterado da consciência infinitesimal para atingir a consciência completa é chamado bhakti. A persistência da j…va em anyābhilāa (agir para a satisfação de outros desejos além do desejo de satisfazer a ®r… KŠa), jñāna e karma é chamada "aquisição

de designação material." Devemos compreender que o esforço natural inerente da j…va só pode ser o de cultivar atividades favoráveis à satisfação de ®r… KŠa.

CAPÍTULO II
BHAKTISEMELHANÇA UMA ANÁLISE DE BHAKTI-šBHšSA OU A SEMELHANÇA DE BHAKTI

yad bhaktyābhāsa-leo `pi dadāti phalam uttamam tamānanda-nidhiˆ kŠa-caitanyaˆ samupāsmahe
"Adoramos a ®r… KŠa Caitanya, que é um oceano de bem-aventurança transcendental. Até mesmo o mais tênue traço de devoção a Ele concede o resultado mais elevado." Meus queridos devotos! No capítulo anterior discutimos a natureza intrínseca (svār™pa) e as características extrínsecas (ta˜astha-lakana) de bhakti. Neste capítulo iremos falar sobre bhakti-ābhāsa ou a semelhança de bhakti. Já falamos um pouco sobre bhakti-ābhāsa ao recordarmos a ta˜astha-lakana de bhakti, e que de fato, bhakti-ābhāsa está na verdade incluído na categoria de ta˜astha-lakana de bhakti. Mas uma vez que não é muito adequado que bhaktiābhāsa seja completamente analisado na seção onde se descrevem tanto a svar™pa quanto a ta˜astha-lakana de bhakti, tornou-se necessário escrever um capítulo separado sobre o tópico de bhakti-ābhāsa. Esperamos que este artigo sirva para esclarecer o tema do capítulo anterior. Já dissemos que o esforço natural e inadulterado da consciência infinitesimal, a j…va, em direção à consciência completa, KŠa, é chamado bhakti. As j…vas estão situadas em dois estágios: o liberado e o condicionado. No estágio liberado a j…va está livre de todo tipo de relacionamento material e está situada na sua condição constitucional pura. Neste estágio a j…va permanece livre de qualquer designação material e portanto não há oportunidade de existirem as características marginais de bhakti. No estágio condicionado, a j…va se esquece da sua identidade constitucional assim que a sua inteligência espiritual é iludida pelas coberturas dos corpos grosseiro e sutis. Neste estágio a j…va adquire várias designações materiais. Quando um espelho está livre da poeira, ele dá um reflexo claro do objeto, mas quando está encoberto pela poeira, ele não dá um reflexo claro. Em tal condição podemos dizer que o espelho adquiriu uma designação. Quando alguma coisa encobre a svabhāva, ou natureza de um objeto, então esta cobertura é chamada a designação do objeto. A natureza material encobre a natureza constitucional pura da j…va e esta cobertura é a designação da j…va. O ®r…mad Bhāgavatam diz que (11.2.37):

bhayaˆ dvit…yābhiniveataƒ syād iād apetasya viparyayo `smtiƒ tan-māyāyāto budha ābhajet taˆ bhaktyaikayeaˆ guru-devatātma
A tendência inata da j…va de devoção imaculada pela consciência completa, Bhagavān ®r… KŠa, é a sua nitya-dharma ou dever ocupacional eterno. Quando a mesma j…va se torna contrária a Bhagavān, então ela é agarrada pelo medo e sua inteligência é perdida. Māyā é a aparā-akti ou potência externa de Bhagavān. Considerando a existência deste mundo material, que se manifestou da potência externa, como sendo um elemento independente de Bhagavān, a j…va desafortunada cai na existência material. As pessoas inteligentes aceitam o abrigo dos pés de lótus de um sad-guru, e se dedicam exclusivamente ao bhajana de parama-deva, o Senhor Supremo, ®r… Hari. Do verso acima podemos concluir que a māyābhinivea da j…va , ou a absorção na energia material impõe sobre ela uma falsa designação. Neste estado adulterado, a bhakti da j…va se deteriora facilmente e aparece como bhakti-ābhāsa. Aqueles não têm outro desejo além de entrar em uddha-bhakti devem superar completamente bhakti-ābhāsa e se abrigarem em kevalā-bhakti, ou devoção exclusiva e ininterrupta. Por esta razão estamos revendo o tópico de bhakti-ābhāsa detalhadamente. Esta análise profunda de bhakti-ābhāsa é extremamente confidencial; apenas os devotos íntimos estão qualificados para ouvi-la. Isso porque aqueles que consideram bhakti-ābhāsa como sendo bhakti nunca ficarão satisfeitos ao lerem este livro até que eles se tornem realmente bem-afortunados. Estou sentido um prazer imenso ao apresentar este tópico aos devotos íntimos. ®r…la R™pa Gosvām… não fez uma análise separada de bhakti-ābhāsa em seu Bhakti-rasāmta-sindhu. Na primeira metade do verso `anyābhilāitā-unyam jñāna-karmādy anāvtaˆ' ele deu uma explanação completa, ainda que oculta, de bhakti-ābhāsa. Ao discutir o tópico de rati-ābhāsa, o da semelhança de rati, em sua explanação sobre rati-tattva, ®r…la R™pa Gosvām… explicou bhaktiābhāsa maravilhosamente. Estou apresentando esta deliberação sobre bhaktiābhāsa baseando-me na concepção do rasācārya ®r…la R™pa Gosvām…. Bhaktiābhāsa existe antes do estágio de uddha-bhakti. De bhakti-ābhāsa aparecem, em seqüência, os estágios de uddha-bhakti e de rati em uddha-bhakti. ®r…la R™pa Gosvām… diz no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.3.45): pratibimbas tathā chāyā ratyābhāso dvidhā mataƒ. Existem dois tipos de bhakti-ābhāsa: pratibimbabhakti-ābhāsa e chāyā-bhakti-ābhāsa. A diferença entre os dois é que pratibimba permanece à parte do objeto original e aparece como uma outra entidade separada, enquanto que chāyā é completamente dependente do objeto original e de uma posição próxima parece ser uma manifestação parcial do objeto original.

Quando uma árvore é refletida na água, a árvore que é visível na água é chamada de pratibimba, ou reflexo da árvore original. O reflexo nunca é tocado pelo objeto original. A existência do reflexo só é devida à existência do objeto original; no entanto, o reflexo é aceito como uma entidade separada. A forma que aparece devido ao bloqueio que a árvore faz ao percurso da luz que se assemelha à forma da árvore é chamado chāyā, ou sombra. A existência de chāyā é inteiramente dependente do objeto original. ®r…la J…va Gosvām… diz:

tasmān nirupādhitvam eva rater mukhya-svar™patvāˆ sopādhitvam ābhāātvāˆ tattva gauŠyā vttyā pravarttamānatvam iti. O que significa que quando bhakti está inadulterada, ela é svar™pa-bhakti, ou devoção em seu estado intrínseco, mas quando ela é adulterada, então ela é chamada bhaktiābhāsa. Bhakti-ābhāsa é manifestada pela gauŠ…-vtti, ou inclinação secundária da j…va. A inclinação intrínseca da j…va é chamada mukhya-vtti e a inclinação que é obstruída ou encoberta é chamada de gauŠ…-vtti. Pratibimba-bhaktiābhāsa e chāyā-bhakti-ābhāsa são ambas categorizadas como gauŠ…-vtti, ou tendências secundárias. Quando bhakti alcança sua forma pura, ela fica completamente livre das tendências de pratibimba e chāyā. Neste momento
apenas o próprio objeto original, a devoção pura e espontânea, se manifesta.

bhaktiPratibimba bhakti-ābhāsa
Pratibimba-bhakti-ābhāsa pode ser dividida em três categorias: (1) nirvieajñānāvta-bhakti-ābhāsa , (2) bahirmukha-karmāvta-bhakti-ābhāsa , e (3) vipar…ta vastu me bhakti-buddhi-janita bhakti-ābhāsa.
(1) Em nirviea-jñānāvta-bhakti-ābhāsa , bhakti permanece oculta por uma cobertura de conhecimento impessoal. Neste momento existe uma cortina de conhecimento impessoal entre o sādhaka e svar™pa-siddhā-bhakti, tornado impossível a realização direta de svar™pa-bhakti. A concepção de jñāna impessoal é que na cit-tattva, ou transcendência, não existem os nomes, formas, qualidades, passatempos e outros atributos. De acordo com esta filosofia, estes atributos só existem no mundo material e quando a j…va se libera da existência material, ela imerge no Brahman indiferenciado. Onde quer que exista este nirviea-jñāna, uddha-bhakti não pode se manifestar. KŠānu…lana é chamada uddha-bhakti. Mas as atividades de bhakti não são possíveis no estágio de nirviea porque nem KŠa, nem a j…va-kŠa-dāsa e nem os esforços devocionais estão presentes. Se alguém acredita que quando o estágio de perfeição da liberação é alcançado, bhakti não existe mais devido à destruição da mente, corpo e falso ego, mas simultaneamente continua a seguir o processo de bhakti para atingir esta perfeição, então como a sua kŠa-bhakti pode ser chamada eterna e livre de falsidade? Quem faz isso tenta satisfazer a KŠa durante algum tempo e depois tenta extinguir a existência de KŠa. Foi exatamente desta maneira que Vkāsura satisfez a ®iva com a sua adoração e depois de ter recebido uma bênção de ®iva (que ele poderia matar qualquer pessoa que ele colocasse a mão

na cabeça) tentou matar o próprio ®iva. A devoção de uma pessoa assim é falsa e temporária devido à sua ignorância da natureza intrínseca de nitya-siddhābhakti. No Bhakti-rasāmta-sindhu (1.3.44-46), ®r…la R™pa Gosvām… descreveu os atributos desta bhakti fraudulenta:

kintu bāla-camatkāra-kāri tac-cihna v…kayā abhijñena subodho'yaˆ ratyābhāsaƒ prak…rtitaƒ aramābh…ta-nirvāh… rati-lakaŠa lakitaƒ bhogāpavarga-saukhyāˆa-vyañjakaƒ pratibimbakaƒ
Ao observar os sintomas de derramar lágrimas e tremores em pessoas que desejam desfrute material e liberação, pode parecer que elas desenvolveram kŠa-rati, ou excessivo apego por KŠa. Mas só as pessoas tolas, que são facilmente influenciadas por uma exibição de sintomas externos, irão considerar genuíno este tipo de rati. As pessoas que têm discernimento irão reconhecer isso como rati-ābhāsa. O tremor e o lacrimejamento de tais indivíduos ocorrem por dois motivos. O primeiro é que eles anseiam pela liberação impessoal ao se lembrarem que apenas KŠa é quem pode conceder mukti, os indivíduos sentem um grande prazer. Este prazer é a causa do seu lacrimejamento e tremor; isso não se deve ao amor espontâneo por KŠa. O segundo motivo para esta sintomatologia é a felicidade derivada de pensar que simplesmente com a realização deste bhakti-ābhāas, seus desejos ocultos de desfrute material serão satisfeitos facilmente.

vārāŠas…-nivās… kacid ayaˆ vyāharam harecaritam yati-go˜hyāmutpulakaƒ siñcati gaŠadvay…masraiƒ
Uma vez na cidade de VārāŠas…, um sannyās… estava cantando os nomes de Hari numa assembléia de sannyās…s e começou a tremer e as lágrimas começaram a cair dos seus olhos. Enquanto cantava harināma ele pensava: "Ah! Com este processo simples eu alcançarei a liberação impessoal." ®r…la R™pa Gosvām… descreve a causa desta condição no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.3.4748):

daivāt sad-bhakta-sa‰gena k…rtanādyanusāriŠām prāyaƒ prasanna-manasāˆ bhogo mokādi-rāgiŠām keāñcidhdi bhāvendoƒ pratibimba udañcati tad-bhakta hnabhaƒsthasya tat saˆsarga-prabhāvataƒ
A exibição de tais tremores e lacrimejamento não é fácil para um impersonalista porque jñāna e vairāgya endurecem o coração e eliminam todos os sintomas de bhakti, que têm a natureza muito tenra. Mesmo imaginando que no processo de ravaŠa e k…rtana conduzido pelos impersonalistas exista a doença dos desejos de gratificação dos sentidos e de liberação, ainda assim eles

sentem pequeno prazer em seus corações em sua realização de ravaŠa e k…rtana. Se nesta ocasião por alguma boa fortuna eles obtêm a associação de um devoto puro de Bhagavān, então pelo efeito desta associação a bhāva, que desponta como a lua no céu dos corações dos devotos puros, é refletida até mesmo em seus corações que estão contaminados com a concepção impessoal. Uma ocorrência desta às vezes pode causar um pequeno êxtase e o derramamento de lágrimas. Mas quando eles perdem novamente a associação de um devoto assim, eles consideram as lágrimas e tremores dos seus próprios discípulos como fraudulentos ou enganadores. Por isso, bhakti nunca pode aparecer no coração coberto pelo jñāna impessoal, mas às vezes há o aparecimento de bhakti-ābhāsa. (2) Em bahirmukha-karmāvta-bhakti-ābhāsa , um bloqueio que consiste de uma cobertura externa de karma ou de atividades fruitivas é produzido pela gauŠa-vtti ou tendência secundária de bhakti. É como se existisse uma cortina de atividades fruitivas entre quem saboreia e aquilo que tem de ser saboreado, bhakti. Esta cortina cobre a svar™pa, ou natureza intrínseca de bhakti. VarŠadharma, ārama-dharma e a˜a‰ga-yoga são classificados como karma. O karma é de dois tipos: nitya e naimittika. Todas as atividades que resultam em piedade são consideradas karma. Uma explicação detalhada sobre karma neste momento iria aumentar muito esta apresentação. Aqueles que desejam especificamente compreender karma-tattva podem ler as páginas iniciais do meu livro ®r… Caitanya-ikāmta. O processo de karma delineado nos livros dos smārta-brāhmaŠas é totalmente karma externo. As sandhya-vandana, ou preces a serem recitadas diariamente nas junções do dia, que são adequadas para a execução apropriada dos deveres do varŠārama e que estão mencionadas nos livros dos smārtas são chamadas nitya-karma, ou atividades diárias de rotina. Os smārtas consideram estas atividades nitya-karma como sendo bhakti. No entanto, uma análise mais profunda destas atividades irá revelar que elas também são externas. Os sintomas de bhakti que são visíveis nelas são devidos meramente a pratibimba-bhakti-ābhāsa e não à verdadeira bhakti. Isso porque o fruto desejado destas atividades é tanto alcançar a liberação impessoal quanto os prazeres deste mundo ou dos planetas celestiais. Algumas pessoas consideram as divisões de bhakti-tattva, tais como ravaŠa e k…rtana como sendo karma e o ravaŠa e k…rtana de karma-tattva como sendo bhakti. Estas concepções equivocadas são causadas pela ignorância da tattva apropriada. Apesar de externamente elas parecerem muito semelhantes, karma e sādhana-bhakti possuem uma diferença fundamental entre si. Toda atividade que é realizada para se alcançar felicidade mundana neste mundo ou nos mundos celestiais é chamada karma. Esta felicidade está classificada tanto como gratificação dos sentidos quanto como alívio do sofrimento na forma da liberação impessoal. Por outro lado, bhakti é a atividade realizada com absorção naqueles sentimentos que só ajudam a incrementar a nossa inclinação natural inata para alcançar kŠa-rati e na qual o agente não tem nenhum outro desejo. Apesar de

resultarem alguns outros frutos devido à realização desta atividade, o agente considera estes frutos como sendo muito insignificantes. As atividades que sustentam uddha-bhakti também são consideradas bhakti porque apenas bhakti é a matriz de bhakti; jñāna e karma nunca são capazes de gerar bhakti. Meus queridos devotos! Vocês não poderão satisfazer as pessoas que se dedicam a atividades grosseiras ao instruí-las sobre estas diferenças sutis entre karma e bhakti. Apenas quando a fé que elas têm em karma e jñāna vai declinando devido ao acúmulo de grande quantidade de atividades piedosas e por efeito da associação com devotos puros de Bhagavān é que a semente de bhakti em sua forma ainda imatura aparece em seus corações na forma de raddhā. A menos que possua esta raddhā, ninguém pode compreender a diferença sutil entre karma e bhakti. Devemos compreender que se alguém imagina que bhakti é simplesmente outra forma de karma, então ele não será capaz de saborear os sentimentos transcendentais de uddha-bhakti em seu coração. A diferença entre o amargo e o doce só pode ser definida ao saboreálos, nunca pelo raciocínio. Depois de realmente saboreá-los, fica mais fácil considerá-los e determinar qual dos dois é superior. As pessoas que têm inclinação por karma às vezes dançam, tremem e derramam lágrimas ao cantarem harināma, mas tudo isso é pratibimba-bhakti, e não uddha-bhakti e é o resultado de sua boa fortuna de terem se associado a devotos da forma prescrita pelos versos que já citamos como "sat-bhakta-sa‰gena." O tremor e lacrimejamento destas pessoas é apenas bhoga-saukhyāˆa-vyañjaka, ou sintomas produzidos pelo prazer sensual e são considerados apenas pratibimba. Nestas ocasiões elas costumam estar imersas no pensamento dos prazeres celestiais ou absortas num oceano imaginário de prazer derivado da liberação. Isso é pratibimba-bhakti-ābhāsa. (3) Agora podemos destacar facilmente vipar…ta vastu me bhakti-buddhijanita bhakti-ābhāsa que é produzido pela visualização de bhakti nas atividades que na realidade são contrárias a bhakti e que prevalecem em pañcopāsaŠa e em …vara-praŠidhāna, ou na concentração sobre o …avara com o processo de yoga. Aqueles que são conhecidos como pañcopāsanās consideram que há cinco sampradāyas — ®aiva (adoradores de ®iva), ®ākta (adoradores de Durgā), Gānapatya (adoradores de GaŠea), Saura (adoradores de S™rya) e VaiŠava (adoradores de ViŠu). Estas cinco linhas são impersonalistas. A linha vaiŠava mencionada aqui não é a linha vaiŠava que segue os princípios genuínos de bhakti. As quatro sampradāyas vaiŠavas genuínas não estão incluídas na pañcopāsanā-sampradaya vaiŠava mencionada aqui. ®r… Rāmānujācārya, ®r… Madhvācārya, ®r… ViŠusvām… e ®r… Nimbāditya são os quatro ācāryas das samprādayas fidedignas de uddha-bhakti que são descritas no verso r…brahma-rudra-sanakācatvāraƒ sampradāyinaƒ. Para indicar estas quatro sampradāyas, as escrituras se referem a "sampradāya-vih…nā ye mantrās te niphala matāƒ," o que significa que os mantras que são aceitos de uma sampradāya que não esteja incluída numa destas quatro não conferem quaisquer resultados.

Os vaiŠavas que pertencem à seção pañcopāsanā são basicamente impersonalistas, e não devotos puros. Todos os pañcopāsakas acreditam que as m™rtis de suas cinco Deidades adoráveis acabam sendo imaginárias. Em outras palavras, eles acreditam que o Brahman não tem forma e que estas formas são concebidas apenas como uma conveniência para adoração enquanto houver o conceito corpóreo de vida. De acordo com o conceito deles, quando a adoração se torna perfeita eles imergem no Brahman impessoal e a devoção oferecida a estas m™rtis "imaginárias", que eles consideram como sendo …vara, não é eterna. Esta atividade é simplesmente jñānāvta-bhakti-ābhāsa . Ninguém pode alcançar uddha-bhakti enquanto acreditar que esta jñānāvta-bhakti-ābhāsa é bhakti verdadeira. Se os sintomas de bhakti, tais como tremores e lacrimejamento forem detectados nos realizadores deste tipo de bhakti-ābhāsa, eles devem ser considerados apenas como sintomas produzidos pelo prazer sensual e mera pratibimba, ou reflexos dos sintomas genuínos. Assim como os pañcopāsakas exibem bhakti-ābhāsa por suas m™rtis "imaginárias" de semideuses, analogamente os yog…s também exibem tremores e lacrimejamento por suas m™rtis "imaginárias" da Superalma. Estes são exemplos de pratibimbabhakti-ābhāsa. O conceito de que pratibimba-bhakti-ābhāsa irá se desenvolver gradualmente e acabará se transformando em uddha-bhakti é completamente falso, por que ao rejeitar a meditação impessoal e os benefícios advindos das atividades fruitivas desta tattva, a bhakti-ābhāsa desaparece completamente. Não existe a menor possibilidade dos praticantes de pratibimba-bhakti-ābhāsa serem realmente beneficiados a menos que eles purifiquem completamente suas consciências desde a base. Impersonalistas como os quatro Kumāras e o eminente jñān… ®ukadeva Gosvām… só puderam iniciar uma vida nova e mais elevada quando renunciaram completamente às suas crenças anteriores e aceitaram o caminho de bhakti. Pelo poder de suas novas e elevadas vidas eles alcançaram o padrão de nossos ācāryas. Ao considerar pratibimba-bhaktiābhāsa, ®r…la R™pa Gosvāˆi diz no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.3.42-43):

vimuktākhila tarair yā muktair api vimgyate yā kŠenātigopyāu bhajadbhyo `pi na d…yate sā bhukti-mukti-kāmatvāc chuddhāˆ bhakti akurvatām hdaye sambhavaty eāˆ kathaˆ bhāgavat… ratiƒ
"Como é possível aparecer no coração de quem deseja a gratificação sensorial ou a liberação impessoal a rara bhagavat-rati, ou intenso apego por Bhagavān, no estágio de bhāva quando esta rati é desejada ardentemente pelas almas liberadas que renunciaram completamente a todo tipo de desejos materiais e se ela não é facilmente concedida por ®r… KŠa para aqueles que vivem se dedicando ao Seu bhajana exclusivo?" É imperativo mencionar aqui que aqueles que consideram o prazer derivado da associação ilícita com mulheres e da intoxicação como sendo bhagavat-rati são pessoas poluídas e que também podem poluir os outros.

Chāyā-bhakti-ābhāas Chāyā-bhakti-ābhāas
É muito importante que o sādhaka compreenda chāyā-bhakti-ābhāsa. Diferentemente de pratibimba-bhakti-ābhāsa, chāyā-bhakti-ābhāsa não é algo pervertido e nocivo; ele tem simplicidade e virtude. ®r…la R™pa Gosvām… escreveu o seguinte sobre chāyā-bhakti-ābhāsa (Bhakti-rasāmta-sindhu, 1.3.4953):

kudra kaut™halamay… cañcala duƒkha-hāriŠ… rate chāyā bhavet kiñcit tat-sādyāvalambin… hari-priya-kriyā-kāla-dea-pātrādi-sa‰gamāt apy ānua‰gikādea kvacid ajñevap…kyate kintu bhāgyaˆ vinā nāsau bhāvac chāyāpy udañcati yad abhyudayataƒ kemaˆ tatra syād uttarottaram hari-priya-janasyaiva prasādabhara-lābhataƒ bhāvābhāso `pi sahasā bhāvatvam upagacchati tasminn evāparādhena bhāvābhāso `py anuttamaƒ krameŠa kayam āpnoti khastha p™rŠa-a… yathā
Existem algumas semelhanças entre chāyā-bhakti e uddha-bhakti, mas por natureza o praticante de chāyā-bhakti-ābhāsa sente uma discreta curiosidade quanto ao fruto que será atingido por seguir este processo, sua mente está inquieta e algumas das suas aflições materiais são erradicadas. Chāyā-bhaktiābhāsa às vezes é visível mesmo em uma pessoa carente de conhecimento espiritual apenas devido à influência da pessoa ter entrado em contato com ocasiões, locais e devotos que estão relacionados com Bhagavān. Quer seja um pañcopāsaka ou um devoto vindo de uma sampradāya fidedigna, ninguém pode alcançar o estágio de chāyā-bhakti-ābhāsa sem receber alguma boa fortuna especial que desponta nele devido à sombra de bhāva que tenha surgido apenas uma vez — no grau mínimo que possa ser — ela certamente irá crescer e resultar num benefício progressivo para o sādhaka. Ao obter a misericórdia de um vaiŠava puro, a bhāvābhāsa pode repentinamente progredir para o estágio de bhāva. Mas por outro lado, se a pessoa comete uma ofensa aos pés de um vaiŠava puro, até mesmo a mais elevada bhāvābhāsa se deteriora gradativamente, assim como o minguar gradual da lua em kŠapaka, a quinzena mensal da lua minguante. Chāyābhakti-ābhāsa é de dois tipos: (1) svar™pa-jñānābhāva-janita-bhakti -ābhāsa, ou a bhakti-ābhāsa que aparece na ausência do conhecimento da identidade inerente, e (2) bhakti-udd…paka-vastu-akti-janita-bhakti-ābhāsa , ou a bhaktiābhāsa em que o estímulo para bhakti é causado pela influência de ter entrado

em contato com objetos como ocasião, local e circunstância relacionada com Bhagavān. (1) A svar™pa-jñāna, ou conhecimento intrínseco relativo ao sādhaka (o praticante), sādhana (a prática) e sādhya (a meta a ser alcançada) é nãodiferente da svar™pa de uddha-bhakti. Quando esta svar™pa-jñāna ainda não despertou dentro do sādhaka mas o desejo de atravessar o oceano da existência material já está dentro dele, então quaisquer sintomas de bhakti que sejam visíveis nele nesta condição são meramente bhakti-ābhāsa. Este bhakti-ābhāsa se transforma em uddha-bhakti quando ele obtém svar™pa-jñāna. Até mesmo os vaiŠavas que foram devidamente iniciados numa sampradāya genuína, o vastu-prabhā, ou iluminação da sua identidade eterna que desponta do dikamantra que ele recebeu do seu dika-guru, não irá aparecer até que ele receba esta svar™pa-jñāna por misericórdia de um sika-guru. Devido à ignorância de svar™pa-jñāna, svar™pa-siddhā-bhakti se mantém encoberta e por isso apenas bhakti-ābhāsa é visível. A devoção dos pañcopāsakas que se mantêm à parte dos ensinamentos do impersonalismo e que realizam a adoração de sua Deidade favorita por considerá-lA uma expansão direta de Bhagavān e a meta suprema, também é chāyā-bhakti-ābhāsa. No entanto há uma grande diferença entre os vaiŠavas pañcopāsakas e os vaiŠavas sampradāyikas. A ni˜ha, ou fé firme, dos vaiŠavas sampradāyikas no aspecto pessoal de Bhagavān é mais forte do que a fé dos vaiŠavas pañcopāsakas. Por receber a instrução apropriada de tattva, um vaiŠava sampradāyika permanece esperançoso em atingir um estágio muito elevado de vaiŠavismo uddha . Mas um pañcopāsaka não pode ter esta esperança de alcançar um estágio elevado de vaiŠavismo por receber instrução sobre tattva de acordo com o costume de sua tradição. A possibilidade de se associar com devotos puros é muito maior para os vaiŠavas sāmpradāyikas do que para os pañcopāsakas. Se, por muita sorte, os pañcopāsakas obtêm a associação de devotos e simultaneamente se mantêm livres da associação com impersonalistas, então eles podem ser refinados pelo sistema sāmpradāyika e então começam a percorrer o caminho de uddhabhakti. Aqui vamos citar duas evidências das escrituras que são citadas no Bhakti-sandarbha. No Skanda PurāŠa está confirmado que os vaiŠavas sāmpradāyikas alcançam o resultado desejado até mesmo por praticarem chāyā-bhakti-ābhāsa. ®r… Mahādeva diz (Hari-bhakti-vilāsa 11.200):

d…kā-mātreŠa kŠasya narā mokaˆ labhanti vai kiˆ punar ye sadā bhaktyā p™jayanty acyutaˆ narāƒ
"Se, apenas por receber a iniciação no kŠa-mantra, a pessoa pode obter mukti, então como calcular o que a pessoa pode alcançar por realizar bhagavadbhakti?" No que diz respeito aos pañcopāsakas que permanecem livres de pratibimba-bhakti-ābhāsa e que desenvolveram chāyā-bhakti-ābhāsa, o šdivarāha PurāŠa (211.85) diz:

janmāntara-sahasreu samārādhya vadhvajam vaiŠavatvaˆ labhet kacit sarva-pāpakaye sati
"Se alguém adora GaŠea por mil nascimentos e se livra de todos os pecados, então é possível que ele entre na plataforma do vaiŠavismo." A conclusão das escrituras é que os aktas, ou adoradores da deusa Durgā são gradualmente elevados a bhakti, tanto pessoal quanto impessoal, ao se tornarem primeiro adoradores do deus do sol, depois adoradores de GaŠea, depois adoradores de ®iva, então vaiŠavas pañcopāsakas e finalmente vaiŠavas sāmpradāyikas. Por analisar cuidadosamente as palavras das escrituras compreende-se que, por influência da associação com devotos puros, chāyā-bhakti-ābhāsa se transforma em uddha-bhakti. (2) Nas escrituras existem inúmeros exemplos de bhakti-udd…paka vastuakti janita bhakti-ābhāsa. A planta de tulas…, mahā-prasāda, vaiŠava-prasāda, os dias de observância devocional como ekāsa…, a Deidade de Bhagavān, os dhāmas sagrados, o Ga‰gā, a poeira dos pés dos vaiŠavas, etc. são os vários objetos que atuam como bhakti-udd…paka, ou estímulo para bhakti. A j…va recebe imenso benefício mesmo ao entrar em contato com estes objetos desprevenidamente. Às vezes o benefício ocorre até mesmo quando a j…va inocente sem o saber comete uma ofensa contra eles. Entrar em contato com estes objetos desta maneira também é bhakti-ābhāsa. Os devotos não devem ficar atônitos ao presenciarem estes incríveis resultados de bhakti-ābhāsa; todos eles são devidos apenas ao poder imenso de uddha-bhakti. Se o processo de jñāna e yoga não são executados com pureza e se eles não são mantidos por bhakti-ābhāsa, então eles são incapazes de conceder qualquer resultado. Por outro lado, Bhakti-dev… é completamente independente; a despeito de quaisquer motivos pelos quais alguém se abrigue nela, ela satisfaz os desejos mais íntimos. Apesar destes resultados serem visíveis em bhakti-ābhāsa, esta não é a conduta prescrita. O nosso único dever é a execução de uddha-bhakti. Aqueles que desejam o sucesso absoluto não devem dar espaço em seus corações a pratibimba-bhakti-ābhāsa em nenhuma circunstância. Pelo poder do bhajana executado sob a direção de vaiŠavas puros, eles superam chāyā-bhakti-ābhāsa e buscam refúgio exclusivamente nos pés de lótus de Bhakti-dev…. Portanto, tenham a bondade de aceitar o seguinte princípio apresentado por VivavaiŠava dāsa:

pratibimbas tathā chāyā bhedāttatva-vicārataƒ bhaktyābhāso dvidhā so `pi varjan…yaƒ rasārthibhiƒ
Aqueles que desejam desfrutar a bhakti-rasa devem sempre permanecer distantes dos dois tipos de bhakti-ābhāsa. Ao rever a tattva, conclui-se que bhakti-ābhāsa é de dois tipos: pratibimba-bhakti-ābhāsa e chāyā-bhakti-ābhāsa. Pratibimba-bhakti-ābhāsa tem a tendência de fazer a j…va cometer ofensas,

enquanto que chāyā-bhakti-ābhāsa é por si mesma incompleta. A única atividade recomendada para a j…va é a execução de uddha-bhakti.

Ofensas contra Bhakti
Este é um item muito perigoso. Executamos muitas divisões de bhakti, tais como a aceitação de dika-mantra de um guru fidedigno, a aplicação de tilaka diariamente em doze diferentes partes do corpo, realização de adoração à Deidade, a observação do voto de ekāda…, o cantar de harināma e a lembrança de KŠa de acordo com a nossa habilidade, a visitação de locais sagrados como Vndāvana, etc. Mas infelizmente não tentamos nos esforçar em não cometer ofensas aos pés de Bhakti-dev…. Dando o exemplo das atividades de Mukunda, ®r…man Mahāprabhu iluminou Seus devotos exibindo os vários sintomas de ofensa contra bhakti (®r… Caitanya-bhāvavat, Madhya-l…lā, 10.185, 188-190, 192):

kaŠe dante tŠa laya, kaŠe jāth… māre o khaa-jā˜hiyā — be˜ā nā dekhibe more prabhu bole — `o be˜ā jakhana yathā jāya se… mata kathā kahi tathāya misāya vāi˜ha paaye jabe advaitera sa‰ge bhakti-yoge nāce gāya tŠa kari dante anya sampradāye giyā jakhana sāmbhāya nāhi māne bhakti jā˜hi māraye sadāya bhakti-sthāne uhāra haila aparādha eteke uhāra haila darasana-bāda'

Mahāprabhu disse: "Jamais poderei conceder a Minha misericórdia a Mukunda porque às vezes ele exibe a sua humildade colocando uma palha entre os dentes e outras vezes Me ataca; em outras palavras, ele põe uma mão nos Meus pés (exibindo humildade) e a outra no Meu pescoço (Me atacando). De acordo com sua própria conveniência, às vezes ele se comporta como Meu seguidor e outras vezes Me critica. Por isso, não posso recompensá-lo. Onde quer que ele vá, atrás do seu próprio benefício, ele se apresenta conforme a situação que encontra e se mistura com as pessoas. Às vezes ele mantém a doutrina māyāvāda recitando o livro Yoga-vāithā que destaca a filosofia Advaita e outras vezes ele exibe sua fé abandonando o conceito impessoal e cultivando kŠa-bhakti por se tornar meigo e humilde, dançar e realizar k…rtana. Quando ele entra na seita dos impersonalistas, ele rejeita a eternidade de bhakti e condena os devotos com a arma do argumento e da lógica. Desta maneira ele cometeu uma ofensa aos pés de Bhakti-dev…. Portanto, não posso dar-lhe o Meu darana."

Mukunda Datta é um associado eterno do Senhor, portanto tudo o que Mahāprabhu disse a ele a este respeito é apenas uma l…lā ou passatempo. Mas os objetivos de Mahāprabhu são muito sérios, portanto deve haver uma razão extremamente confidencial para estas Suas declarações. Sua instrução confidencial é que não podemos satisfazer a KŠa apenas por aceitar dika e por executarmos os vários processos de bhakti. Apenas aqueles que têm fé inabalável na devoção exclusiva podem satisfazê-lO. Aqueles que desenvolveram esta fé aceitam o caminho de uddha-bhakti com grande determinação. Eles não visitam locais onde se discutem doutrinas que não têm relação com uddha-bhakti. Eles vão a locais onde se discute o tema de uddhabhakti e ouvem com grande interesse. Simplicidade, determinação e desejo exclusivo de bhakti são as características naturais destes devotos imaculados. Eles nunca aprovam declarações ou atividades que são opostas aos princípios de bhakti meramente para ganhar popularidade; os devotos puros sempre permanecem indiferentes a estas coisas. Atualmente a maioria das pessoas não tenta evitar estas ofensas que mencionei. Quando vêem os devotos ouvindo o bhagavat-kathā eles exibem sintomas de aparente êxtase espiritual como tremores e lacrimejamento, e na assembléia sustentam a filosofia espiritual, mas dali a pouco estão novamente enlouquecidas atrás de gratificação sensorial. Portanto, meus caros leitores, o que dizer da dita ni˜hā destas pessoas que exibem estes sentimentos falsos? Compreendemos que elas só exibem estes sintomas para alcançar fama entre os devotos. Cheios de cobiça em adquirir fama e outros benefícios materiais, eles exibem variações deste tipo de conduta. É muito triste que este tipo de gente não apenas cometa uma ofensa aos pés de Bhakti-dev… por propagarem filosofias ilusórias em nome de bhakti, como também arruinem completamente as vidas espirituais das j…vas deste mundo. Queridos leitores! Devemos tomar muito cuidado em não cometer qualquer ofensa aos pés de Bhakti-dev…. Primeiro de tudo devemos fazer o voto de realizar bhakti enquanto permanecemos indiferentes a tudo mais. Não devemos jamais fazer algo ou dizer algo que seja contrário a bhakti só para ganhar popularidade ou arregimentar seguidores. Devemos permanecer simples e decididos em nossas atividades. Não deve haver qualquer diferença entre as nossas palavras e as nossas atividades. Jamais devemos tentar receber favores daqueles que são indiferentes a bhakti exibindo sintomas artificiais de devoção avançada. Devemos sempre permanecer fiéis aos princípios de uddha-bhakti e nunca sustentar qualquer outra doutrina. Nossa conduta externa e nossos sentimentos devem estar em harmonia.

CAPÍTULO III
UMA ANÁLISE DOS ATRIBUTOS NATURAIS DE BHAKTI

uddha-bhakti-svabhāvasya prabhāvān yat-padārayāt sadaiva labhate j…vastaˆ caitanyam ahaˆ bhaje
"Adoro ®r… Caitanya Mahāprabhu. Por se refugiar em Seus pés, a j…va obtém para sempre a potência resultante da própria natureza de uddha-bhakti."

®uddha-bhakti se manifesta juntamente com seis sintomas: (1) kleaghn… — ela alivia imediatamente todos os tipos de aflições materiais, (2) ubhadā — ela traz toda auspiciosidade, (3) moka-laghutākta — a liberação se torna insignificante diante dela , (4) sudurlabhā — ela é raramente alcançada, (5) sāndrānandavieātmā — ela garante intenso prazer transcendental, e (6) kŠākariŠ… — ela é o único meio de atrair KŠa. No estágio de sādhana-bhakti só aparecem os dois primeiros sintomas, no estágio de bhāva aparecem os primeiros quatro sintomas e no estágio de prema aparecem todos os seis sintomas. Agora iremos
discutir sistematicamente estes seis sintomas. (1) Kleaghin… — Bhakti-dev… remove completamente toda klea, ou aflição daqueles que se refugiam em uddha-bhakti. Klea pode ser de três tipos: pāpa ou pecado, pāpa-b…ja ou pecados em suas formas de sementes, e avidyā ou ignorância. Devido aos pecados cometidos pela j…va em inúmeras vidas passadas, ou aos pecados que foram cometidos nesta vida, ou nas vidas futuras, ela tem que sofrer vários tipos de aflições. Os pecados mais proeminentes foram discutidos na quinta onda do segundo aguaceiro do ®r… Caitanya-ikāmta. Estes pecados também podem ser divididos em duas categorias: prārabdha e aprārabdha. Os pecados prārabdha são aqueles que a j…va deve sofrer as reações nesta vida atual. Os pecados cujas reações serão sofridas na próxima vida são chamados apārabdha. Os pecados cometidos pela j…va em inúmeras vidas são acrescidos às séries de pecados aprārabdha anteriores e em seu próximo nascimento frutificarão como pecados prārabdha. Por isso, pela jurisdição da lei eterna, a j…va é obrigada a sofrer as reações dos pecados que ela cometeu em inúmeras outras vidas. O nascimento em uma família de brāhmaŠa, numa família muçulmana, numa família rica, ou numa família pobre, ou ter aspecto pessoal maravilhoso, ou ser feio, são resultados de prārabdha-karma. Nascer numa família de yavanas ou de intocáveis é devido a pecados prārabdha. ®uddha-bhakti destrói ambos os tipos de pecados: prārabdha e aprārabdha. Se o caminho de jñāna for seguido apropriadamente ele destrói o aprārabdhakarma. Mas de acordo com as escrituras dos jñān…s, deve-se sofrer as reações do prārabdha-karma. Mas bhakti destrói o prārabdha-karma:

yan-nāmadheya-ravaŠānuk…rttanād yat-prahvaŠād yat smaraŠād api kvacit vādo `pi sadyaƒ savanāya kalpate kutaƒ punas tre bhagavan nu daranāt

(®r…mad Bhāgavatam, 3.33.6) "Ó meu querido Senhor! Por ouvir e cantar os Seus santos nomes, por prestarLhe reverências e por lembrar de Você, até uma pessoa nascida numa família de comedores de cães obtém imediatamente o direito de realizar sacrifícios védicos; em outras palavras, ela adquire a posição de um brāhmaŠa. O que dizer então do benefício que alguém pode alcançar por receber o Seu darana direto?" Este verso ilumina como bhakti destrói facilmente o pecado prārabdha de ter nascido numa família de classe baixa. Agora vejamos como bhakti também destrói os pecados aprārabdha:

aprārabdha-phalaˆ pāpaˆ k™t˜aˆ b…jaˆ phalonmukham krameŠaiva pral…yeta viŠu-bhakti-ratātmanām (Padma PurāŠa e Bhakti-rasāmta-sindhu 1.1.23)
"Para aqueles que têm apego exclusivo e indesviável por viŠu-bhakti, o seu (I) aprārabdha, ou montante de pecados acumulados que estão numa condição dormente, (II) k™˜a, ou pecados que estão na situação de produzir sementes, o que quer dizer que eles estão começando a assumir a forma de desejos pecaminosos, (III) b…ja, ou sementes que já se estabeleceram como desejos pecaminosos, e (IV) prārabdha ou pecados que já frutificaram, são todos destruídos em seqüência." O significado é que para a destruição dos seus pecados, os devotos não precisam realizar nenhum ato separado de expiação, quer de karma, quer de jñāna. Os desejos de cometer atividades pecaminosas que estão situados no coração da j…va são chamados pāpa-b…ja, ou sementes de pecado. Pāpa-b…ja só pode ser destruída por bhakti:

tais tāny aghāni p™yante tapo-dāna-vratādibhiƒ nādharmajaˆ tad-dhdayaˆ tad ap…ā‰ghri-sevayā (®r…mad Bhāgavatam, 6.2.17 e Bhakti-rasāmta-sindhu, 1.1.24)
Os métodos sistemáticos para a expiação de pecados que são prescritos pelas escrituras, tais como a realização de votos difíceis como candrāyaŠa e outras atividades no caminho do karma comum, bem como a realização de austeridades e de dar caridade, destróem apenas os pecados para os quais são especificamente prescritos. Estas expiações não destróem as sementes do pecado, em outras palavras os desejos pecaminosos que surgem devido a ignorância. Os desejos pecaminosos só podem ser removidos por se dedicar ao serviço a KŠa, significando que além de bhakti não há outro meio de eliminar os desejos pecaminosos do coração. Assim que Bhakti-dev… aparece no coração, todos os desejos pecaminosos, bem como quaisquer desejos meritórios são

destruídos pela raiz. No Padma PurāŠa e no ®r…mad Bhāgavatam está descrito como bhakti erradica avidyā:

ktānuyātrā vidyābhir hari-bhaktir anuttamā avidyāˆ nirdahaty āu dāvajvāleva pannag…m (Padma PurāŠa e Bhakti-rasāmta-sindhu 1.1.26)
"Quando hari-bhakti aparece no coração, ela é seguida por vidyā-akti que dissipa imediatamente a ignorância situada dentro do coração da j…va, assim como uma serpente é consumida pelo fogo abrasante da floresta."

yat-pāda-pañkaja-palāsa-vilāsa-bhaktyā karmāayaˆ grathitam udgrathayanti santaƒ tadvan na rikta-matayo yatayo `pi ruddhasroto-gaŠās tam araŠaˆ bhaja vāsudevam (®r…mad Bhāgavatam 4.22.23 e Bhakti-rasāmta-sindhu 1.1.25)
"Os ascetas que desapegaram as suas mentes dos objetos dos sentidos por manterem os seus sentidos afastados de seus respectivos objetos, não podem desatar facilmente o nó do falso ego de seus corações, enquanto que os devotos que se dedicam exclusivamente ao serviço transcendental amoroso aos pé de lótus de ®r… KŠa podem desatar este nó rapidamente. Por isso, devemos nos dedicar ao bhajana de ®r… KŠa, o refúgio supremo." Através do cultivo de jñāna podemos dissipar avidyā até um certo ponto, mas sem o refúgio de bhakti um sādhaka certamente deverá cair:

ye `nye `ravindāka vimukta-māninas tvayy asta-bhāvād aviuddha-buddhayaƒ āruhya kcchreŠa paraˆ padaˆ tataƒ patanty adho `nādta-yusmad-a‰ghrayaƒ (®r…mad Bhāgavatam, 10.2.32) "Ó Senhor de olhos de lótus! Os não-devotos cultivam neti-neti, ou o princípio
da negação, se esforçam em alcançar algo diferente da matéria grosseira e se considerarem liberados, mas apesar disso a sua inteligência é impura. Eles atravessam o oceano de ignorância com muita dificuldade para alcançar o estágio de Brahman, mas como eles não se abrigam permanentemente em Seus pés de lótus, eles acabam caindo deste estágio." Ó prezados devotos! Como vocês já ouviram falar a palavra "avidyā" em outras ocasiões, vocês devem estar ansiosos em conhecer a sua natureza intrínseca. Portanto, irei explicar alguns pontos sobre este tema. ®r… KŠa possui uma variedade ilimitada de aktis, ou potências. Dentre elas, cit-akti, j…va-akti e māyā-akti são as mais proeminentes. Cit-akti exibe o dhāma de Bhagavān, ou a morada e toda a parafernália necessária para a Sua l…lā. Outro nome da cit-akti é svar™pa-akti. A j…va-akti produz inúmeras j…vas. Por sua

natureza as j…vas são puramente cit-tattva, ou espirituais, mas devido a sua constituição incompleta elas podem ser vítimas de māyā. Por abrigarem desejos egoístas elas se tornam contrárias a KŠa e são capturadas por māyā e por desejarem se voltar para KŠa elas se livram de māyā e se dedicam ao Seu serviço. Esta é a diferença entre as j…vas liberadas e condicionadas. Māyā age de duas maneiras sobre a natureza intrínseca das j…vas condicionadas: através da potência avidyā e através da potência vidyā. Através do seu aspecto avidyā, māyā encobre o ego puro constitucional da j…va, e assim cria um ego falso ou ego distorcido, com o qual a j…va passa a se identificar com a matéria grosseira. Esta algema de avidyā é a causa do estado condicionado da j…va. Ao se livrar de avidyā e ao ficar desprovida de designações falsas, a j…va alcança o estágio liberado. Portanto avidyā não é nada mais do que uma potência especial de māyā, que faz a j…va se esquecer de sua posição original. Avidyā provoca na j…va o karma-vāsanā, ou o desejo de realizar atividades fruitivas. Estes desejos iniciam o processo de pecado e piedade. Esta avidyā é a causa base de todas as dificuldades experimentadas pela j…va. Além de bhakti não existe outro processo capaz de eliminar esta avidyā. Karma só pode destruir os pecados e jñāna pode destruir pela raiz os desejos que causam tanto os pecados quanto os atos meritórios. Mas bhakti erradica totalmente, pela raiz, os pecados, os desejos de realizar atividades pecaminosas e piedosas e a causa primária destes desejos, avidyā. (2) Bhakti é auspiciosa por natureza. ®r…la R™pa Gosvām… diz no Bhaktirasāmta-sindhu (1.1.27):

ubhāni pr…Šanaˆ sarva-jagatām anuraktatā sad-guŠāƒ sukham ityād…nyākhyātāni man…ibhiƒ
"Os eruditos definem ubha, ou a verdadeira auspiciosidade, como sendo o sentimento de amor por todas as entidades vivas e em se tornar o objeto de afeição de todas as entidades vivas, bem como possuir todas as boas qualidades, felicidade e todas as outras realizações auspiciosas semelhantes." O Padma PurāŠa explica qual é o significado de possuir amor por todas as entidades vivas e ser o objeto de afeição de todas as entidades vivas (Bhaktirasāmta-sindhu, 1.1.28):

yenārcito haris tena tarpitāni jaganty api rajyanti jantavas tatra ja‰gamāƒ sthāvarā api
"Aqueles que têm adorado ®r… Hari têm satisfeito o Universo inteiro. Portanto, todas as entidades vivas, tanto animadas quanto inanimadas, os amam." O significado é que aqueles que são devotados exclusivamente a haribhajana amam a todos sem nenhuma inveja; portanto, os outros também os amam.

Nos devotos todas as variedades de boas qualidades se desenvolvem naturalmente. Isso é facilmente verificado examinando as vidas dos devotos. Isso é referido no ®r…mad Bhāgavatam (5.18.12) e também no Bhakti-rasāmtasindhu (1.1.29):

yasyāsti bhaktir-bhagavaty-akiñcanā sarvair guŠais tatra samāsate surāƒ harāvabhaktasya kuto mahad-guŠā manorathenāsati dhāvato bahiƒ
Aqueles que possuem bhakti exclusiva e indesviável por Bhagavān tornamse a residência de todos os semideuses e de todas as boas qualidades. Como estas boas qualidades podem existir em não-devotos cujos desejos ilícitos os compelem a correr atrás da gratificação dos sentidos? As qualidades de compaixão, veracidade, humildade, desapego, consciência espiritual, etc. aparecem apenas nos corações em que bhakti despontou. Mesmo a despeito de inúmeros esforços, estas qualidades não aparecem nos corações que vivem ocupados com os desejos de gratificação dos sentidos. Apesar de felicidade estar incluída em auspiciosidade, ela é avaliada separadamente. Por natureza bhakti concede toda a auspiciosidade. ®r…la R™pa Gosvām… escreveu que a felicidade da alma condicionada pode ser dividida em três categorias: vaiayika-sukha, brahma-sukha e aivarasukha. Vaiayika-sukha é toda a variedade de prazeres mundanos que são encontrados neste mundo material. Os dezoito tipos de perfeições místicas e o desfrute celestial também são considerados vaiayika-sukha. Ao realizar que os prazeres mundanos acabam em sofrimento e que são temporários, a entidade viva se esforça em erradicá-los através do processo de neti-neti, que é chamado vyatireka, ou o princípio da negação. O prazer impessoal derivado desta vyatireka, onde se eliminam todos os sentimentos mundanos e ocorre a imaginação de identidade com o Brahman imutável é chamado brahma-sukha. A felicidade derivada de se refugiar permanentemente em Bhagavān, que possui todas as opulências é chamada aivara-sukha. Por natureza hari-bhakti concede todos os tipos de felicidade. De acordo com a nossa qualificação específica e conforme os nossos desejos, ela pode conceder tanto vaiayikasukha, quanto brahma-sukha ou aivara-sukha.

siddhayaƒ paramācaryā bhukti-mukti ca āvat… nityaˆ ca paramānandaˆ bhaved govinda bhaktitaƒ Bhakti-rasāmta-sindhu 1.1.31
"AŠimā, mahimā, laghimā, prāpti, …itā, vaitva, prākāmya e kāmavasāyitā — estes oito tipos de perfeições, todas as variedades de desfrute material, brahmasukha e paramānanda, ou a suprema bem-aventurança, podem ser alcançadas ao se realizar bhakti para ®r… Govinda."

Está escrito no ®r… Hari-bhakti-sudhodaya e no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.1.32):

bh™yo `pi yāce devea tvayi bhakti-ddhāstu me yā mokānta-caturvarga-phaladā sukhadā latā
"Ó Senhor dos semideuses! Imploro repetidamente pela bênção de alcançar a devoção exclusiva a Você, pela qual, de acordo com as suas qualificações específicas, alguns devotos obtêm os frutos de riqueza, religiosidade, gratificação dos sentidos e liberação, enquanto que outros obtêm o fruto da felicidade de possuir prema por Você." O significado é que bhakti é capaz de conceder todo tipo de felicidade, mas os devotos puros, considerando que o prazer derivado da gratificação dos sentidos e de brahma-sukha são insignificantes, procuram exclusivamente por prema-sukha. Sem a ajuda de bhakti, os caminhos de jñāna e karma são incapazes de conceder quaisquer resultados. Por isso, em qualquer condição, a felicidade não pode ser obtida sem bhakti. (3) Moka-laghutākta: Por natureza bhakti faz com que a concepção de mukti se torne insignificante. É comentado no Nārada-pañcarātra e no Bhaktirasāmta-sindhu (1.1.34) que:

hari-bhakti mahādevyāƒ sarvā muktyādi siddhayaƒ bhuktaya cādbhutās tasyā ce˜ikāvad anuvratāƒ
"Os vários tipos de perfeições lideradas por mukti e todos os prazeres mundanos seguem atrás da deusa de hari-bhakti, Bhakti-dev…, como se fossem suas servas." ®r…la R™pa Gosvām… também disse este verso maravilhoso (Bhakti-rasāmtasindhu 1.1.33):

manāg eva prar™hāyāˆ hdaye bhagavad ratau puruārthās tu catvāras tŠāyante samantataƒ
"Somente quando compreendemos que as quatro metas — desenvolvimento econômico, religiosidade, gratificação dos sentidos e liberação — são muito insignificantes, é que pode-se dizer que uddha-bhakti está aparecendo dentro de nós." (4) Alcançar hari-bhakti é extremamente raro, sudurlabhā. ®r…la R™pa Gosvām… escreve sobre a extrema raridade de bhakti (Bhakti-rasāmta-sindhu, 1.1.35):

sādhanaughair anāsa‰gair alabhyā s™cirād api hariŠā cāsv adeyeti dvidhā sā syāt sudurlabhā
Existem dois motivos para que hari-bhakti seja tão raro. Primeiro, ele não pode ser alcançado, apesar da dedicação a vários tipos de sādhana por um longo período de tempo, enquanto que não tenhamos uma fé inabalável e uma persistência inquebrantável. Segundo, ®r… Hari não concede Seu bhakti mesmo que estejamos dedicados ao āsa‰ga-yukta-sādhana ou sādhana realizado com grande apego e determinação. A palavra `āsa‰ga' implica perícia em bhajana. Sem perícia em bhajana, nenhum tipo de sādhana pode garantir hari-bhakti. Por executar sādhana com perícia em bhajana por um longo período de tempo e depois que nāmāparādha e vaiŠavāparādha tiverem sido eliminadas, por misericórdia de Bhagavān, uddha-bhakti, que nos estabelece no conhecimento de nossa identidade espiritual, se estabelece em nossos corações.

jñānataƒ sulabhā muktir bhuktir yajñādi punyataƒ seyaˆ sādhana-sāhasrair hari-bhaktiƒ sudurlabhā Bhakti-rasāmta-sindhu, 1.1.36
"Pelo cultivo de jñāna podemos obter mukti com facilidade e pela realização de sacrifícios e de outras atividades piedosas também podemos obter bhukti com muita facilidade, mas apesar de realizarmos inúmeros sādhanas não podemos alcançar hari-bhakti tão facilmente." Bhagavān não concede Seu bhakti com facilidade, como está confirmado pelo ®r…mad Bhāgavatam (5.6.18) e pelo Bhakti-rasāmta-sindhu (1.1.37):

rājan patir gurur alaˆ bhavatāˆ yad™nāˆ daivaˆ priyaƒ kula-patiƒ kva ca ki‰karo vaƒ astv evam a‰ga bhajatāˆ bhagavān mukundo muktiˆ dadāti karhicit sma na bhakti-yogam
"Meu querido rei Par…kit! O próprio Senhor Mukunda foi o protetor, guru, i˜adeva (Deidade adorável), bem-querente e kula pati (chefe da dinastia) dos PāŠavas e da dinastia Yadu. Às vezes Ele até se comportava como um serviçal obediente. Isso é causa de grande fortuna porque Bhagavān concede mukti facilmente para aqueles que se dedicam ao Seu bhajana, mas Ele não concede facilmente o Seu prema, que é muito superior a mukti." Em seu comentário deste verso, ®r…la J…va Gosvām… diz: tasmād āsa‰enāpi

kte sādhana-bh™te sākād bhakti-yoge sati yāvat phala-bh™te bhakti-yoge gāhāsaktir na jāyate tāvan na dadāt…ty arthaƒ: "Aqueles que se dedicam a bhagavad-bhajana por executar os nove processos de bhakti não conseguem obter uddha-bhakti por Bhagavān até que desenvolvam um forte apego por
rati-tattva, que é o fruto da percepção da nossa identidade eterna. Até que chegue esta ocasião, nosso bhakti permanece na forma de chāyā-bhakti-ābhāsa."

(5) Sāndrānanda-vieātmā: Bhakti é por natureza dotado de uma ānanda, ou prazer transcendental, muito intenso. Já mencionamos que Bhagavān é a completa sat-cid-ānanda-svar™pa e a j…va é anucidānanda, ou uma partícula infinitesimal de bem-aventurança espiritual que está ligada a uma única partícula de luz situada num raio do ilimitado sol espiritual. Por isso, cit e ānanda também estão presentes dentro da j…va numa quantidade diminuta. As pessoas geralmente entendem a palavra ānanda como significando prazer mundano, mas todo prazer que pode ser obtido dos prazeres materiais reunidos é extremamente negligenciável quando comparados a ānanda-tattva. O prazer material é extremamente débil e momentâneo, enquanto que cidānanada, o prazer transcendental, é extremamente intenso. Bhakti é o prazer transcendental intenso e o prazer intrínseco das j…vas. O brahmānanda é negligenciável diante de bhakti. O brahmānanda não é a bem-aventurança eterna da j…va; ele é o alegado prazer obtido pela negação da matéria e das atividades materiais. ®r…la R™pa Gosvām… disse no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.1.38):

brahmānando bhaved ea parārddha-guŠ…-ktaƒ naiti bhakti-sukhāmbhodheƒ paramāŠu-tulām api
"Até se o brahmānanda experimentado pelos impersonalistas for multiplicado por dez milhões de vezes, o ānanda resultante não será igual a sequer uma gota do oceano de prazer derivado de bhakti." O significado é que simplesmente imaginando, podemos expandir brahmānanda a uma extensão incalculável, mas na realidade o prazer que ele produz não pode nem chegar perto do prazer intrínseco da j…va, e o que dizer de igualá-lo. O prazer constitucional da j…va é inato e portanto natural. Brahmānanda não é natural, pois ele surge dos esforços distorcidos da j…va em alcançá-lo por meios artificiais, e por isso é temporário. Está declarado no Haribhakti-sudho-daya e no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.1.39):

tvat-sākāt-karaŠāhlāda-viuddhābdhi-sthitasya me sukhāni gospadāyante brāhmāŠy api jagad-guro
"Ó Bhagavān! Por obter o Seu darana, agora estou estabilizado no oceano de bem-aventurança pura. O que dizer do prazer material, se agora até mesmo o brahma-sukha parece tão insignificante quanto a água contida na pegada de um bezerro." Existem inúmeras declarações semelhantes nas escrituras. (6) KŠākariŠ… : Bhakti é a única maneira de atrair KŠa. Como ®r…la R™pa Gosvām… escreveu no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.1.41):

ktva hariˆ prema-bhājaˆ priya-varga-samanvitam bhaktir va…-karot…ti r…-kŠākariŠ… matā
"®uddha-bhakti enche de prema ®r… KŠa e todos os Seus associados mais queridos; esta habilidade em atrair ®r… KŠa é na verdade a natureza inerente de Bhakti-dev…." O significado disso é que no estágio de sāddhana-bhakti, enquanto uddhabhakti ainda não despontou no coração, o sādhaka está realizando bhaktiābhāsa. Alcançar uddha-bhakti neste estágio é muito raro. Mas quando uddha-bhakti aparece no coração — mesmo no estágio de sādhana — um pouco do esplendor dos processos de bhajana começa a florescer. Nesta ocasião a realização da identidade eterna da j…va e a realização da natureza intrínseca de bhagavat-tattva é acesa por meio deste esplendor. Subseqüentemente, se desenvolve no coração do devoto uma poderosa agitação na forma de um profundo apego por bhakti. Desta maneira, o aparecimento deste estágio de bhajana faz com que o uddha-bhakti-sādhana evolua rapidamente para o estágio de rati, ou bhāva e acabe finalmente florescendo em prema. No estágio de bhāva, bhakti atrai ®r… KŠa juntamente com os Seus companheiros mais queridos, mas no estágio de prema, bhakti faz do sādhaka um instrumento da l…lā de ®r… KŠa e assim o induz a saborear a rasa mais elevada. Este tema será explicado mais detalhadamente a seguir. Viva-vaiŠava dāsa comenta este tema nos seguintes cinco versos:

kleaghn… uddha-bhaktir yadā sā sādhanātmikā hdaye baddha-j…vanāˆ ta˜astha-lakaŠānvitā (1) kleaghn… ubhadā mokā-laghutākt sudurlabhā sā bhaktir bhāva-r™pena yāvat ti˜hati cetasi (2) prema-r™pa yadā bhaktis tada tat-tad-guŠānvitā sāndrānanda-vieātmā r…-kŠākaran… ca sā (3) muktānām eva sā avat svar™pānandā-r™piŠ… sambhandha-svar™pa nityam rājate j…va-kŠayoƒ (4) bhaktyābhāsena yā labhyā muktir māyā nikntan… sā kathaˆ bhagavad-bhakteƒ sāmyaˆ kā‰kati ce˜ikā (5)
"Existem três estágios de bhakti: sādhana, bhāva e prema. Bhakti no estágio de sādhana assume dois aspectos: kleaghnatva, o que significa que ele destrói todos os tipos de aflições materiais, e ubhadatva, o que significa que ele oferece a auspiciosidade suprema. No estágio de bhāva são visíveis quatro aspectos de bhakti: kleaghnatva, ubhadatva, moka-laghutākātitva, o que significa que ele revela ao praticante a

insignificância da liberação, e sudurlabhatva, o que significa que ele é extremamente raro. No estágio de prema, além destes quatro atributos, são visíveis mais dois aspectos: sāndrānanda-vieātmā , o que significa que ele garante um prazer transcendental extremamente intenso, e r… kŠākariŠ… , o que significa que ele é o único meio de atrair ®r… KŠa. No estágio condicionado da j…va, estes três atributos intrínsecos de bhakti — sāndrānanda-svar™patva, r… kŠākaratva e sudurlabhatva — permanecem misturados com suas três características marginais — kleaghnatva, udhadatva e moka-laghutākāritva. No estágio liberado, a bhakti da j…va atua entre a j…va e KŠa como serviço amoroso eterno num relacionamento particular e como o prazer intrínseco transcendental da j…va. A mukti que dissipa a cobertura de māyā pode ser obtida simplesmente por se realizar bhakti-ābhāsa. Uma vez que esta mukti é apenas uma das criadas comuns entre as inúmeras criadas de Bhakti-dev…, como ela pode desejar ser igual a Bhakti-dev…?"

"Somente quando compreendemos que as quatro metas — desenvolvimento econômico, religiosidade, gratificação dos sentidos e liberação — são muito insignificantes, é que pode-se dizer que uddha-bhakti está aparecendo dentro de nós."

CAPÍTULO IV
UMA ANÁLISE DA QUALIFICAÇÃO PARA BHAKTI
karma-jñāna virāgādi-ce˜aˆ hitvā samantataƒ raddhāvān bhajate yaˆ r…-caitanyam ahaˆ bhaje
"Adoro ®r… Caitanya Mahāprabhu, que é sempre servido por devotos fervorosos que abandonaram completamente seguir karma, jñāna e renúncia proibitiva." No primeiro capítulo discutimos a natureza intrínseca de uddha-bhakti, no segundo capítulo discutimos a natureza intrínseca de bhakti-ābhāsa, ou aquilo que aparenta ser bhakti mas que na realidade não é, e no terceiro capítulo discutimos os atributos naturais de uddha-bhakti. Neste capítulo iremos discutir a adhikāra, ou qualificação para uddha-bhakti. Ninguém adquire nada

sem possuir elegibilidade para tal. Esta elegibilidade ou qualificação é a própria base do sucesso. Quando um devoto compreende completamente isso, ele não mais permanecerá em dúvida quanto ao alcance da meta definitiva. Muitos devotos podem pensar: "Por muito tempo fui completamente rendido ao meu guru, aceitei dele o dika-mantra, estou me dedicando a ravaŠa e k…rtana, mas ainda não experimentei o resultado desejado. Qual a razão disso?" Gradualmente eles vão se desinteressando pelo bhajana e no fim eles acabam completamente sem fé. Um conhecimento sólido da qualificação apropriada para bhakti pode nos proteger facilmente deste tipo de dúvida. Deve ser analisado cuidadosamente que a realização de atividades devocionais tais como ravaŠa e k…rtana e o resultante aparecimento de sintomas como o derramamento de lágrimas e tremores não devem ser aceitos como bhakti verdadeira para qualquer um e para todo mundo. Por isso, para poder buscar refúgio em uddha-bhakti é compulsório analisar a qualificação para isso. O hari-bhajana realizado pelos karmādhikār…s e jñānādhikār…s, ou aqueles que são elegíveis para realizar karma e cultivar jñāna, usualmente se tornam uma parte do mero karma e jñāna. Portanto, estas pessoas não obtém o fruto auspicioso que é esperado pela realização de bhajana. O hari-bhajana do devoto só se torna puro quando ele obtém o adhikāra apropriado, ou a qualificação para uddha-bhakti, e quando isso acontece, seu bhajana rapidamente dará o fruto na forma de bhāva. Por esta razão agora vamos analisar este tópico de suma importância. Os eruditos citam o seguinte verso do ®r…mad Bhagavad-g…tā (7.16):

catur vidhā bhajante māˆ janāƒ suktino `rjuna ārto jijŠāsur arthārth… jñānā ca bharatarabha
"Meu querido Arjuna! Como resultado do acúmulo de atividades piedosas em inúmeras vidas, quatro tipos de pessoas se dedicam ao Meu bhajana: ārta, ou aqueles que estão aflitos, jijñāsu, ou aqueles que são curiosos, arthārth…, ou aqueles que desejam riquezas e jñān…, ou aqueles que possuem conhecimento espiritual. Estes quatro tipos de pessoas virtuosas estão qualificadas para realizar o Meu bhajana." Aqueles que estão muito ansiosos em erradicar as suas aflições são chamados ārta. Aqueles que estão inquisitivos para compreender a Verdade Absoluta são chamados jijñāsu. Aqueles que desejam alcançar a felicidade material são chamados arthārth… e aqueles que estão realizando a verdade espiritual a cada momento são chamados jñān…s. Apesar de alguém poder ser ārta, jijñāsu, arthārth… ou jñān…, a menos que tenha sukti, ou mérito piedoso acumulado, ele não se sentirá inclinado a fazer bhajana. ®r…la J…va Gosvām… definiu sukti como "aquelas atividades em conexão com personalidades transcendentais que fazem surgir um desejo intenso de realizar bhakti." Podem existir dúvidas a respeito da existência de sukti nos ārtas, jijñāsus e arthārth…s, mas em relação aos jñān…s não existem tais dúvidas. É verdade que os jñān…s certamente se dedicam ao

bhajana depois de acumularem bastante sukti. ®r…la R™pa Gosvām… escreveu no Bhakti-rasāmta-sindhu 1.2.20-21): tatra g…tādi™ktānāˆ caturŠām adhikāriŠām madhye yasmin bhagavataƒ kpā syāt tat priyasya vā sa k…Ša-tat-tad-bhāvaƒ syāc chudha-bhakti adhikāravān yathebhaƒ unakādi ca dhruvaƒ sa ca catuƒ-sanaƒ
"Quando os quatro tipos de pessoas que são elegíveis para se dedicarem a bhakti como as citadas no G…tā e em outras escrituras recebem a misericórdia de Bhagavān ou dos Seus devotos, elas se liberam das suas motivações pessoais, que são respectivamente, o desejo de se liberarem da aflição, o desejo de terem satisfeita a sua curiosidade, o desejo de obterem dinheiro e o apego a jñāna. Então elas se tornam adhikār…s, ou candidatos legítimos para uddha-bhakti. Isso é claramente visível a partir dos exemplos de Gajendra, dos is liderados por ®aunaka, de Dhruva Mahārāja e dos quatro Kumāras." Quando Gajendra foi agarrado pelo crocodilo e foi incapaz de se livrar dele a despeito dos inúmeros esforços que realizou, orou a Bhagavān fervorosamente. Então, Bhagavān, o salvador dos aflitos, apareceu e liberou Gajendra, matando o crocodilo. Pela misericórdia de Bhagavān, a aflição de Gajendra foi removida e ele se tornou qualificado para realizar uddha-bhakti. ®aunaka e os outros is ficaram extremamente apreensivos com a chegada da Kali-yuga. Eles compreenderam que karma, ou o processo das atividades fruitivas seria incapaz de conceder quaisquer benefícios, então, se aproximaram do grande devoto S™ta Gosvām… e lhe perguntaram como as pessoas desta era poderiam alcançar o benefício último. S™ta Gosvām…, em resposta, instruiu-os sobre uddha-bhakti, e o resultado dele ter concedido a sua misericórdia àqueles sábios, foi que eles alcançaram uddha-bhakti. Dhruva Mahārāja adorou Bhagavān motivado pelo desejo de alcançar um reino opulento. Mas, quando Bhagavān apareceu diante dele, pela misericórdia de Bhagavān o seu desejo de obter um reino acabou e ele se tornou qualificado para uddha-bhakti. Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanat-kumāra são os quatro Kumāras. Anteriormente eles eram nirviea-jñān…s, ou impersonalistas, mas depois, pela misericórdia de Bhagavān e dos Seus devotos, eles rejeitaram completamente a concepção impersonalista e alcançaram adhikāra para uddha-bhakti. O significado é que enquanto eles abrigavam desejos em seus corações quer para o alívio de suas aflições, quer para satisfazer a sua curiosidade, quer para obter riquezas, quer por estarem apegados à concepção impessoal da Verdade Absoluta, eles eram inelegíveis para praticar uddha-bhakti. Portanto, em relação à adhikara para uddha-bhakti, ®r…la R™pa Gosvām… escreveu no Bhaktirasāmta-sindhu (1.2.14):

yaƒ kenāpy ati-bhāgyena jāta-raddho ya sevane nātisakto na vairāgyabhāg asyām adhikāry asau
"Quando uma pessoa não está apegada ou desapegada a este mundo material e por alguma boa fortuna desenvolve fé no serviço devocional aos pés de lótus de KŠa, ela é considerada possuidora de adhikāra para uddha-bhakti." O significado é que quando uma pessoa mundana realiza a inutilidade da existência material depois de se afligir com os vários tipos de misérias e por sofrer pela ausência de seus objetos desejados, ela começa a viver sua vida num humor de desapego do mundo material. Se por alguma boa fortuna nesta ocasião ela recebe a associação dos devotos de Bhagavān, ela indaga a eles e acaba compreendendo que não existe um destino superior ao de alcançar Bhagavān. Ela vai gradualmente desenvolvendo firme fé nisso e acaba se dedicando ao bhajana. Nesta oportunidade pode-se dizer que ela desenvolve raddhā em kŠa-bhakti. Esta raddhā é a causa principal da elegibilidade para uddha-bhakti, como confirmado pela explicação de ®r…la J…va Gosvām… (encontrada no Bhakti-sandarbha, Anuccheda 172) destes versos do ®r…mad Bhāgavatam (11.20.27-28): jāta-raddho mat-kathāsu nirviŠŠaƒ sarva-karmasu

veda duƒkhātmakān kāmān parityāge `py an…varaƒ tato bhajeta māˆ pr…taƒ raddhālur dha-nicayaƒ juamāŠa ca tān kāmān duƒkhodarkāˆ ca garhayan
®r… KŠa diz: "Meus devotos que desenvolveram fé em ouvir as narrativas dos Meus passatempos permanecem desapegados das atividades fruitivas e tentam aceitar os objetos dos sentidos apenas de maneira suficiente para poderem manter as suas vidas, sabendo muito bem que este desfrute sensorial conduz a um resultado miserável. E ainda sofrendo as reações do seu karma passado e se esforçando para serem liberados do ciclo de prazer e sofrimento que resulta destas atividades, eles sinceramente rejeitam estas atividades fruitivas e as condenam silenciosamente. Eles simplesmente toleram as reações destas atividades enquanto que simultaneamente permanecem dedicados ao Meu bhajana com fé firme e determinação." Ao explicar estes versos que descrevem como um devoto fervoroso realiza bhajana, ®r…la J…va Gosvām… comentou no Bhakti-sandarbha: tad-evam-

anaya-bhakti-adhikāre hetuˆ raddhā-mātram uktvā sa yathā bhajeta tathā ikayati. O que significa que raddhā é a única causa que leva da adhikāra de realizar uddha-bhakti. ®r…la J…va Gosvām… também menciona: raddhā hi āstrārtha-vivāsaƒ āstram ca tad aaraŠasya bhayaˆ tac charaŠāsyābhayaˆ vadati ato jātāyāƒ raddhāyās tat araŠāpattir eva li‰gam iti. O que significa fé nas escrituras do mundo é chamado raddhā. As escrituras mencionam que

aqueles que se abrigaram nos pés de lótus de Bhagavān não têm nada a temer, mas aqueles que não o fizeram permanecem temerosos. Desta maneira, pode-se compreender através dos sintomas de araŠāpatti se raddhā se desenvolveu ou não dentro de uma pessoa. O que é araŠāpatti? ®r…la J…va Gosvām… escreveu: jātāyāˆ raddhāyām sadā tad anurvrtti-cetaiva syāt e karma-patityāgo vidh…yate. O que significa que ao aparecer raddhā, kŠānuvtti-ce˜ā , ou o esforço constante em servir a KŠa está sempre visível no comportamento de uma pessoa e a tendência de realizar atividades fruitivas, ou karma, é eliminado. Isto é araŠāpatti. No ®r…mad Bhagavad-g…tā (18.66), depois de ter dado elaboradas explicações sobre karma, jñāna e bhakti, numa declaração muito confidencial Bhagavān deu a instrução de araŠapatti:

sarva-dharmān parityaya mām ekaˆ araŠaˆ vraja ahaˆ tvāˆ sarva-pāpebhyo mokayisyāmi mā ucaƒ
Devemos compreender que as palavras "sarva-dharma" neste verso significam os dharmas que são obstáculos para araŠāpatti, tais como a dedicação aos deveres ocupacionais dentro do sistema varŠārama e a adoração de semideuses. ®r… KŠa está dizendo: "Rejeitando todas estas coisas, as pessoas devem fazer araŠāpatti por Mim, significando que a pessoa deve desenvolver raddhā exclusiva em se dedicar em Meu bhajana. Não tenha medo das reações advindas dos pecados cometidos ao se rejeitar os deveres ocupacionais. Eu lhes asseguro que lhes livrarei de todas as reações de todos os pecados." Pode surgir a dúvida se a palavra raddhā, significando fé, realmente aqui está sendo usada neste sentido. Os caminhos de karma, jñāna, etc. também requerem raddhā. Portanto raddhā não é apenas a causa de bhakti, mas de karma e jñāna também. O princípio filosófico é que a palavra raddhā realmente significa sentimentos de fé nas injunções das escrituras e inclui neste sentimento outro sentimento que certamente existe e é chamado ruci, ou gosto. A despeito de possuir fé, alguém pode não desejar participar de uma determinada atividade a menos que tenha desenvolvido ruci, ou gosto por ela. ®raddhā nos caminhos de karma e jñāna está sempre misturada com uma partícula de bhakti na forma de ruci. É apenas pela influência desta partícula de bhakti que os caminhos de karma e jñāna são capazes de conferir algum resultado. Analogamente, a rāddhā que se desenvolve por bhakti está dotada de ruci, e esta raddhā não é senão a semente de bhakti-latā, ou a trepadeira da devoção, que foi semeada no coração da j…va. ®raddhā nos caminhos de karma e jñāna está misturada com ruci pelas atividades de karma e jñāna respectivamente, mas a natureza desta raddhā é diferente. Apenas a raddhā que está dotada com ruci para bhakti culmina nos sintomas de bhakti. Isso é chamado araŠāpatti. Apenas quando o ruci por bhakti avança pelos estágios progressivos de sadhu-sa‰ga, de realização de bhajana, de anartha-nivtti e finalmente assume a forma de ni˜ha é que ele se torna uddha-ruci. Desta maneira, raddhā é uma tattva separada, ou uma entidade de bhakti. ®r…la J…va

Gosvām… escreveu no Bhakti-sandarbha: tasmāc chraddhā na bhakti a‰gaˆ

kintu karmaŠy asamartha vidvat tāvad ananyatākhyāyāˆ bhaktāv adhikārivieaŠam eva. Por isso, raddhā não é um membro de bhakti, mas sim um atributo para o adhikāra alcançar uddha-bhakti como resultado dele ter se tornado indiferente às atividades de karma-kaŠa. Está declarado no ®r…mad Bhāgavatam (11.20.9): tāvat karmāŠi kurv…ta na nirvidyeta yāvatā mat-kathā-ravaŠādau vā raddhā yāvan na jāyate
®r… KŠa diz: "A pessoa deve continuar realizando os deveres ocupacionais enquanto ela ainda não se tornou indiferente a eles e ainda não desenvolveu raddhā em ouvir as narrativas sobre os Meus passatempos." O significado é que estamos qualificados a renunciar os nossos deveres ocupacionais apenas quando desenvolvemos raddhā em ouvir as narrativas sobre os passatempos de KŠa. Esta é a conclusão das escrituras. Para esclarecer qualquer dúvida a este respeito, devemos salientar que

raddhā, que é a própria causa da qualificação para uddha-bhakti, não é por si mesma um dos processos de bhakti, então como jñāna e vairāgya, que em alguns casos se manifestam antes de raddhā, podem ser considerados processos de bhakti? No Bhakti-rasāmta-sindhu (1.2.248), ®r…la R™pa Gosvām…
diz:

jñāna-vairāgyor bhakti-praveāyopayogitā …at prathamam eveti nā‰gatvam ucitaˆ tayoƒ
"Em alguns casos especiais jñāna e vairāgya podem ser úteis enquanto o devoto está nos estágios iniciais de ingresso em bhakti-tattva, mas nunca pode-se dizer que elas são processos de bhakti." Por isso, é um fato estabelecido que apenas esta raddhā que está dotada com os sintomas de araŠāpatti é a causa da qualificação para uddha-bhakti. Às vezes ouve-se dizer que esta fé em ouvir narrativas sobre os passatempos de KŠa se desenvolve através da realização estrita dos deveres ocupacionais, ou então através do cultivo de jñāna e outros a desenvolvem através da renúncia aos objetos dos sentidos. Mas estas afirmativas estão erradas. É possível que o processo tenha sido cultivado imediatamente antes do aparecimento de raddhā, mas uma análise mais detalhada deixa claro que de uma maneira ou de outra deve ter ocorrido alguma sat-sa‰ga, ou associação com os devotos, bem entre os dois exemplos; isto é, entre o cultivo dos processos citados e o aparecimento de raddhā. Neste contexto devemos salientar o seguinte verso do ®r…mad Bhāgavatam (10.51.53):

bhavāpavargo bhramato yadā bhavej

janasya tarhy acyuta sat-samāgamaƒ sat-sa‰gamo yarhi tadaiva sad-gatau parāvaree tvayi jāyate matiƒ
"Ó meu querido Senhor infalível! Ao se tornar contrária a Você a entidade viva às vezes alcança prazeres sensoriais ao seguir o caminho de karma e às vezes alcança a liberação através do cultivo de jñāna. Desta maneira ela se enreda no ciclo repetitivo de nascimentos e mortes. Se ao vagar por este caminho a j…va de alguma maneira tem a boa fortuna de receber a associação com os Seus devotos, ela fixa a sua inteligência em Seus pés de lótus com grande determinação, compreendendo que Você é o único refúgio das pessoas santas, a origem de toda a criação, tanto material quanto espiritual e a meta definitiva."

A única causa do aparecimento de raddhā é a associação de um sādhu que tenha um profundo amor pelas narrativas dos passatempos de KŠa.
Portanto karma, jñāna, vairāgya, etc. nunca podem ser a causa do aparecimento de raddhā; somente sat-sa‰ga pode ser a causa do aparecimento de raddhā. ®r…la R™pa Gosvām… escreveu a este respeito: yaƒ kenāpy atibhāgyena jāta-raddho `sya sevane. Desta maneira apenas as pessoas dotadas de raddha são as adhikār…s, ou candidatas apropriadas para uddha-bhakti. Aqui existe outra consideração. Sādhana-bhakti é de dois tipos: vaidh…-sādhanabhakti e rāgānugā-sādhana-bhakti, como está confirmado no verso 1.2.5 do Bhakti-rasāmta-sindhu: vaidh… rāgānugā ceti sā dvidhā sādhanābhidhā. É essencial compreender a diferença entre vaidh…-sādhana-bhakti e rāgānugāsādhana-bhakti porque sem esta compreensão podem permanecer muitas dúvidas que podem prejudicar o desenvolvimento de bhakti. No que se refere a vaidh…-bhakti, ®r…la R™pa Gosvām… escreveu (Bhakti-rasāmta-sindu, 1.2.6):

yatra rāgānavāptatvāt pravttir ™pajāyate āanenaiva āstrasya sā vaidh… bhaktir ucyate Bhakti é a inclinação natural da j…va e a ocupação inseparável de sua natureza intrínseca. No estágio condicionado, a j…va é contrária a Bhagavān e se torna atraída pelos desfrutes mundanos apresentados pela energia ilusória. Conforme a j…va vai ficando imersa nos prazeres mundanos, sua inclinação natural em prestar serviço devocional amoroso a KŠa vai ficando adormecida. A j…va fica completamente satisfeita apenas quando por alguma boa fortuna a sua rāga intrínseca, ou o forte apego amoroso por KŠa é redespertado, seja qual for a maneira como isso ocorra. Quando aparece prema, rāga naturalmente surge junto com ele. Mas o rāga, ou apego pelos objetos dos sentidos materiais que é visível na alma condicionada é o rāga distorcido, e não o uddha-rāga. Neste estágio o rāga inerente da j…va permanece encoberto ou dormente. Para despertar o rāga inerente, a aceitação de instrução espiritual éessencial. Os Vedas e a literatura a eles subordinada são os reservatórios destas instruções. A

bhakti que é realizada fundamentada nestas instruções das escrituras é chamado vaidh…-bhakti.
Agora vou dar novamente um sumário do que é rāgānugā-bhakti. ®r…la J…va Gosvām… escreveu no Bhakti-sandarbha: tatra viayiŠaƒ svābhāvik… viaya-

saˆsargecchātiaya-mayaƒ premā rāgaƒ yathā cakur ād…nāˆ saundaryādau, tada evātra bhaktasya r…-bhagavaty api rāga ity ucyate. A poderosa afeição
amorosa que se desenvolve naturalmente numa pessoa materialista devido a sua filiação com os objetos do prazer sensorial é chamada rāga. Assim como os olhos ficam excitados ao verem uma forma maravilhosa, a inclinação similar que um devoto sente por KŠa também é chamada rāga. O sabor que se desenvolve por seguir os passos de uma personalidade que possui ruci natural, ou sabor por este rāga é chamado rāgānugā-bhakti. No que diz respeito à qualificação para rāgānugā-bhakti, ®r…la R™pa Gosvām… escreveu no Bhaktirasāmta-sindhu (1.2.291-292):

rāgātmikaika-ni˜hā ye vraja-vāsi-janādayaƒ teāˆ bhāvāptaye ludbho bhaved atradhikāravān tat-tat-bhāvādi-mādhurye rute dh…ryad apekate nātra āstraˆ na yuktiˆ ca tal lobhotpatti-lakaŠam
"Os sentimentos dos vrajabasis por KŠa são os exemplos mais elevados e excepcionais de rāgātmikā-bhakti. Estes sentimentos não podem, ser vistos em nenhum outro lugar a não ser em Vraja. A alma afortunada que desenvolve um anseio em alcançar sentimentos por KŠa como aqueles exibidos pelos vrajabasis é a adhikār…, ou candidata legítima para rāgānugā-bhakti. Apesar de ter ouvido falar sobre a doçura destes sentimentos, ninguém pode senti-los até que se torne "ávido" por eles. A única causa para a qualificação para a prática de rāgānugā-bhakti é a avidez espiritual, e não o estudo cuidadoso das escrituras e a habilidade no uso da lógica." Portanto devemos compreender que assim como raddhā é a única causa para a adhikāra de vaidh…-bhakti, da mesma maneira a avidez é a única causa para a adhikāra para rāgānugā-bhakti. Aqui pode surgir uma dúvida se é ou não completa a raddha que foi anteriormente estabelecida como a causa da elegibilidade para uddha-bhakti. Se raddhā é a causa da elegibilidade para apenas um tipo de bhakti, então por que foi dito que ela é a causa para a elegibilidade de todos os tipos de bhakti? Para dissipar esta dúvida, destacamos novamente que esta raddhā é a única causa para a adhikāra para uddhabhakti. Na ausência de raddhā, não pode aparecer nenhuma variedade de uddhā-bhakti. A conclusão é que esta āstra-vivāmay…-raddhā , ou raddhā derivada da fé nas injunções das escrituras é a única causa da adhikāra para vaidh…-bhakti e que bhāva-mādhurya-lobhamay…-raddhā , ou a raddhā derivada do desejo intenso em experimentar os doces sentimentos dos vrajabasis é a única causa de adhikāra para rāgānugā-bhakti.

Apenas raddhā — quer ela seja vivāsamay…, quer seja lobhamay… — é a causa para a elegibilidade de ambos os tipos de uddha-bhakti. Existem três tipos de adhikār…s, ou candidatos legítimos para vaidh…-bhakti: uttama, madhyama e kani˜ha, conforme confirma ®r…la R™pa Gosvām… no Bhakti-rasāmta-sindhu (1.2.16): uttamo madhyama ca syāt kani˜ha-ceti sa tridhā. Os sintomas de um uttama-adhikār… em vaidh…-bhakti são (Bhakti-rasāmtasindhu, 1.2.17):

āstre yuktau ca nipuŠaƒ sarvathā dha-nicayaƒ prauha raddho `dhikār… yaƒ sa bhaktāv uttamo mataƒ
"Quem é versado nas escrituras, perito em todo tipo de lógica e possui uma determinação inabalável é o uttama-adhikār…, ou aquele que possui firme raddhā." Os sintomas do madhyama-adhikār… em vaidh…-bhakti são (Bhakti-rasāmtasindhu, 1.2.19):

yaƒ āstrādiv anipuŠaƒ raddhāvān sa tu madhyamaƒ
"Quem não é tão perito em compreender as escrituras e no entanto possui fé é um madhyama-adhikār…; em outras palavras, quando ele se defronta com argumentos difíceis ele é incapaz de respondê-los, mas sua mente permanece com fé firme em seus princípios." O Bhakti-rasāmta-sindhu 1.2.19 descreve os sintomas do kani˜ha-adhikār…:

yo bhavet komala-raddhaƒ sa kani˜ho nigadyate
"Os devotos kani˜has têm muito pouca habilidade em compreender as escrituras e sua raddhā é muito delicada e imatura. Sua raddhā pode ser mudada pelos argumentos e pela lógica de outras pessoas." Aqui devemos realçar que a raddhā que é visível nestes dois tipos de pessoas fervorosas é caracterizada pela fé nas injunções das escrituras e por estar misturada com evidências lógicas que dependem das escrituras. De acordo com o grau de avidez que os candidatos legítimos possuem por rāgānugā-bhakti, eles também podem ser divididos em três categorias de uttama, madhyama e kan…˜ha. A conclusão é que todo ser humano tem direito de realizar bhakti. BrāhmaŠas, katriyas, vaiyas, ™dras e antyajas (intocáveis), ghastas,

brahmacār…s, vānaprasthas e sannyās…s — todos podem se qualificar para bhakti se tiverem fé nas injunções das escrituras e nas instruções do sādhu e do guru.
Quer uma pessoa educada no estudo das escrituras, quer uma pessoa que não seja educada nas escrituras, por ouvir os princípios das escrituras na associação com devotos, desenvolve raddhā quando realiza a supremacia de bhakti como ela é descrita nas escrituras. Alternativamente, quando alguém desenvolve lobhamay…-raddhā por ouvir continuamente as narrativas dos passatempos de Bhagavān em associação com os devotos e passa desejar seguir os passos dos devotos rāgātmikā de Vraja, então pode-se dizer que ele adquiriu adhikāra para realizar uddha-bhakti. A adhikāra para uddha-bhakti não pode ser alcançada pelo processo de jñāna, vairāgya, análise filosófica, discurso religioso, auto-controle ou meditação. A despeito de ter recebido sampradāyika-dika, ou iniciação de um mestre espiritual ligado a uma sucessão discipular fidedigna ninguém pode entrar no uttamā-bhakti que descrevemos sem que se torne um uttama-adhikār…. Até que isso ocorra a bhakti do aspirante pode ser considerada bhakti-ābhāsa. É muito necessário se esforçar seriamente para alcançar o estágio de uttamaadhikār…. Isso só é possível quando nos dedicamos a ravaŠa e k…rtana na associação de devotos. Não devemos nunca pensar que alguém pode se tornar um uttama-adhikār… simplesmente por praticar diligentemente ravaŠa e k…rtana e então exibir os sintomas de derramar lágrimas, tremer e dançar, porque estes sintomas também podem ser manifestação de bhakti-ābhāsa. Qualquer pequena suavização do coração e determinação de realizarmos a nossa identidade inerente que sejam visíveis nos estágios iniciais de uddhabhakti são muito superiores à exibição de sintomas como cair inconsciente e tudo mais, que vão surgindo como resultado de seguirmos o caminho de bhakti-ābhāsa. Portanto, devemos nos esforçar sinceramente para alcançar uddhā-bhakti com o maior cuidado. Devemos fazer um esforço especial para seguir o método apropriado para alcançar a qualificação de bhakti; caso contrário não há possibilidade de alcançar a associação eterna de Bhagavān. Viva-vaiŠava dāsa apresenta os seguintes versos:

raddhā lobhātmakā yā sā vivāsa-r™piŠ… yada jāyate `tra tadā bhaktau mmātrasyādhikāritā (1) nā sā‰khyaˆ na ca vairāgyaˆ na dharmo na bahujñatā kevalaˆ sādhu-sa‰go ýaˆ hetuƒ raddhodaye dhruvam (2) ravaŠādi-vidhānena sādhu-sa‰ga-balena ca anarthāpagame …ghraˆ raddhā ni˜hātmikā bhaver (3) ni˜hāpi rucitāˆ prāptā uddha-bhaktyadhikāritām dadāti sādhake nityam eā prathā sanātano (4) asat-sa‰go `thavā bhaktāv aparādhe kte sati

raddhāpi vilayaˆ yāti kathaˆ syāc chuddha-bhaktarā (5) ataƒ raddhāvatā kāryaˆ sāvadhānaˆ phalāptaye anyathā na bhaved bhaktiƒ raddhā prema-phalātmikā (6)
Quando raddhā, que pode tanto estar fundamentada nas injunções das escrituras quanto na avidez em seguir um bhakta rāgātmikā aparece no coração, a pessoa alcança a adhikāra para uddha-bhakti. Sā‰khya, vairāgya, varŠārama-dharma ou tornar-se um erudito não provocam o aparecimento de raddhā. A única causa do aparecimento de raddhā é a associação de um sādhu que tenha um profundo amor pelas narrativas dos passatempos de KŠa. Quando raddhā aparece, então a pessoa se torna um kani˜ha-adhikār…. Quando ela passa a excetuar os processos de sādhana-bhakti tais como ravaŠa, e quando pela influência de sādhu-sa‰ga ela se livra dos anarthas e sua raddhā se torna mais intensa e se transforma em ni˜ha, ela chega ao estágio de madhyama-adhikāra, ou a qualificação intermediária para uddha-bhakti. Por continuar seguindo os processos de sādhana-bhakti tais como ravaŠa e pela influência da associação com devotos que estão mais avançados do que ela, então a ni˜ha se intensifica e assume a forma de ruci. Então o sādhaka em que ruci se desenvolveu é chamado uttama-adhikār…. Um uttama-adhikār… alcança uddha-bhakti. Este é o processo eterno para se alcançar uddha-bhakti. Mas se durante a execução deste processo gradual de sādhana a pessoa se mantém na má associação daqueles que estão apegados aos prazeres sensoriais, ou na associação daqueles que possuem uma concepção impessoal da Verdade Absoluta, ou se desrespeita um devoto puro ou comete qualquer outra ofensa contra ele, a raddhā ao nível de kani˜ha, bem como ao nível de madhyama secará até a raiz e o sādhaka será incapaz de alcançar uddha-bhakti. Nesta condição o sādhana ou é enredado por chāyā-bhakti-ābhāsa ou, no caso das ofensas serem muito numerosas, ele desce até pratibimba-bhakti-ābhāsa. Portanto, até que se alcance o estágio de uttama-adhikāra, o sādhaka fervoroso e sincero deve sempre tomar muito cuidado. De outra maneira será muito difícil alcançar uddha-bhakti que finalmente concede o fruto de prema.

®r…-kŠārpaŠam astu — que este tratado seja uma oferenda ao Senhor ®r…
KŠa.

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