Fugindo do Armagedom A rua estava cheia de gente, como no Carnaval; mas em vez de dançar, as pessoas estavam pegando fogo

e caindo em um abismo. Algumas pessoas derretiam. Outras viam suas línguas caírem em chamas. O fogo descia do céu e as testemunhas de Jeová contemplavam os ímpios sendo destruídos sem sentir nenhum dó. Era assim que Débora (nome fictício) imaginava o final Armagedom, descrito pela sua mãe quando era menina. A grande guerra acabaria com o mundo em 1975, quando a moça tivesse 20 anos. Cristo venceria a guerra; depois o fogo exterminaria quem não fosse testemunha de Jeová. - Mas mãe, o Moacir não é testemunha de jeová, mas é tão bonzinho. Ele vai ser destruído e a gente não vai ter dó dele? Nem a senhora que é mãe dele? - A Bíblia diz que não. As outras pessoas tiveram tempo para servir a Jeová e não quiseram! Moacir nunca aceitou ser testemunha de Jeová. Quando ia para o salão, virava de costas para quem falava. A mãe ameaçava: - Eu não vou lavar sua roupa. - Eu lavo. - Você não vai comer. - Eu não como. Débora acalmava o horror do Armagedom pensando no Paraíso futuro. Lá seria bom: ninguém mais ficaria velho ou doente; o cacho de uvas seria tão grande que dois homens não conseguiriam carregá-lo. A menina descansaria da rotina de cultos e trabalho na vizinhança. - Você vai ter muita coisa para fazer no Paraíso, Débora. Nós teremos que enterrar os mortos da guerra que não forem comidos pelos urubus. ------Tuc! Paf! Puf! Débora voltava do salão do reino das testemunhas de jeová levando coques, beliscões e puxões de orelha da mãe. A menina, com cinco anos em 1960, achava justo. Não conseguia ficar quieta na reunião: entrava no culto atrasada, ficava olhando para os lados, sorria, balançava as pernas, levantava para ir ao banheiro, sentava no chão. Os anciãos reclamavam. A menina cresceu testemunha de Jeová, em um cômodo onde moravam onze pessoas; ela tinha vindo de navio, junto com a carga para São Paulo e passaria os primeiros 20 anos da vida caminhando cinco vezes por semana até o salão do reino no bairro do Jardim Peri Alto, em São Paulo, onde morava. A mãe não a deixava conversar com ninguém fora do circuito salão- escolacampo de pregação.

Quando atendeu. Acabou indo para a diretoria e passou a mexer a boca toda manhã. Além de ter medo do Armagedom. A mãe espancava a filha barriguda. dentro do possível. ele aceitou. Além disso. a Débora não afanava dinheiro da mãe. -Essas revistas são suas por tanto – foi tudo o que conseguiu dizer. expulsava de casa e ela voltava para pedir ajuda. Se os médicos conseguirem fazer você aguentar um pouco. contado. sustentada pelo marido. A ausência generalizada de homens na religião e o jeito reservado do marido fizeram-no ser promovido a ancião em menos de um ano. E quando eles compraram um fusca e um sobrado em uma rua asfaltada. ia pregar de porta em porta até as 11h da manhã. ficar calada e sair sem conversar com ninguém. Pelo mesmo motivo. como todo desassociado: chegar pouco antes da cerimônia. Marinho. ele era um ancião. não cantava o hino nacional quando ia para o Ginásio. Agora ela poderia deixar de trabalahr para realizar um sonho: ser divulgadora da religião. Débora temia ser desassociada. sábado e domingo. Levava para a casa. passava por um castigo. A diversão era visitar outros salões.Para evitar. Em 1972. Não sabia entendia aquilo. Para sua surpresa. Débora quis fugir. Todos os dias Débora via aquele jovem de terno no começo da fila do ônibus. Fazia questão de afrontar a professora. grávida de homens diferentes. só raramente e com os jovens da religião. Quarta a noite deveria ter aulas no Salão do Reino. o salário dava. Cumpria obdecer. Os anciãos faziam longas visitas: . ou um pouquinho de dinheiro. a própria destruição. anos mais tarde. nem sabia o que era sexo: em casa não havia palavrão. A moça sabia que aquele não era TJ. A barriga inchava. “Jeová vai ver se eu roubar!”. O cunhado abusava dela – atraia com um doce. Débora fazia o que ele pedia. . que fora remarcado para XXX. mostrando que não tinha compromisso com o país nem sua ditadura militar. Estamos em 1972. você vai passar com vida para o Paraíso! O jovem morreu antes. Recebemos informações de que em 1975 o Armagedom não vai começar: nós já estaremos na Nova Ordem. cheia de água: aquilo não tinha cura. A mãe não acreditava nela. dizia para as outras crianças. Ir ao cinema. Tudo o que precisava era esperar o Armagedom. Débora casaria com o jovem um ano depois – queria mesmo fugir da casa da mãe. Para ser aceita na congregação. Uma de suas irmãs foi dissociada três vezes. Encaixava nesse intervalo o tempo para se cuidar e arrumar a casa. não era homem para ela.Aguenta um pouco. manhã. Aos 15 anos. o irmão caçula pegou cirrose. Um dia acabou pregando e tocando a campainha do rapaz. um líder da comunidade. Débora começou a trabalhar em uma fábrica de tecidos. para comer. Às 19 estava ao salão. fingindo que cantava.

Todos os dias levantava cedo. Em menos de uma semana a mãe arrumou as malas e foi morar em um espaço alugado: não queria ficar com quem não ia mais ao salão do reino. . decorava o salão para os congressos. Seu telefone tocava muito.Nossa. com 28 anos. --- . Débora”. já que ninguém mais conseguiria desepenhar a parte deles.É tudo ou nada. E todas as pessoas importantes. Débora: ou continuamos a ir ou deixamos de ir. Em outra reunião.Foram para a congregação do Peri Alto. Ela interrompeu aos prantos a reunião de anciãos. os irmãos. dizendo que tinha sido chamada de velha. até que eles se desculpem. os amigos do salão. eu sou mais nova que você. Pediu revisão do caso por um uma autoridade. limpar o lugar. O marido discordou. As suas amigas entraram na reunião. a diarista. Começou a ouvir comentários nas rodinhas em que se envolvia: “Por que você não arruma essas unhas? Para de roer. Propôs então uma estratégia ao marido: ficar um tempo sem ir ao salão até que sentissem falta. Débora achava que os anciãos tinham sido injustos. Os homens retiraram o marido de Débora da reunião e decidiram ali o destino: ela seria advertida e ficaria seis meses sem poder responder ás perguntas didáticas dos estudos bíblicos. Débora chorava o dia todo. que coisa feia!” “Para de mascar chiclete. Ele nunca mais poderia participar de congressos. querendo comentar. era mais jovem que as outras mulheres. em Ribeirão Pires. Hábil e sempre disponível. virou uma faz-tudo: agendava ônibus. Foi ignorada. Débora escolheu a segunda opção. O telefone e a campainha não tocavam. as mulheres estavam esperando a reunião de anciãos terminar. levantou a mão umas vinte vezes. colocava o filho na escola. Mas não ficaram até o final. deixaram de falar com ela: a costureira. Escreveu para a central das Testemunhas de Jeová no Brasil. arrumava a casa e o almoço. “Por que você balança tanto as pernas?” Um mês depois de entrar no salão. Foi a vez de Débora chorar e implorar: eles estavam ensaiando há quatro meses o próximo congresso. quando as pessoas faltam em reuniões é dever dos anciãos procurar por elas. Débora. O casal participou. Nada. Lá. Débora era esposa de ancião e tinha mais responsabilidades. com excessão do marido. Débora perguntou a idade de uma senhora que estava se convertendo. O comentário doeu fundo na mulher. Foi ignorada. . Além de se destacar. Afinal. regia estudos bíblicos.

Tarefa difícil de obter sem contar do trabalho. A portuguesa cuidava também do Conselho da Comunidade Portuguesa. Progrediu lá por 20 anos: organizou a inauguração do Monumento a Cabral na frente da assembleia legislativa paulista. não acreditava mais naquela religião cheia de incongruências.Durou três meses até que alguém telefonasse: oferecia emprego. Caso contrário. A portuguesa ofereceu a ela o emprego de organizadora do Conselho. Naquele dia.Vocês vão me desassociar por livre e espontânea vontade no dia e hora em que o salão estiver mais cheio. Eles se recusaram: não conheciam motivos para isso. Maria da Conceição. luz e telefone da mãe. Débora quer apagar da agenda os contatos dos Testemunhas de Jeová a quem ainda dirige a palavra. a conta de água. quando organizou a chegada da santa pela segunda vez. Hoje. a conciência de Débora doia um pouco. Ela então retirou do bolso da blusa um gravador e exigiu para os homens. estou instruída a processá-los. Estudou. saiu pela barulhenta porta da frente. uma instituição folclórica que fazia jantares em homenagens a autoridades e festas para os santos. Mas desconfia que a mãe só fez isso para juntar dinheiro e voltar a morar na periferia. Estava vindo ao Brasil um figurão. um mês. resolveu se dissociar antes que a expulssassem. Está feliz porque a velhinha de 95 anos veio passar um tempo em sua casa. Débora era querida no trabalho. com outra irmã. Débora permite que a mãe seja levada ao salão. dia. Um dia. Por isso. conheceu primeiros-ministros e empresários. Débora vestiu um terninho. que permaneceu Testemunha de Jeová. precisava de ajuda para preparar o jantar comemorativo. Ficou perto da saída do salão. Ela marcou uma reuniu com os anciãos e pediu a desassociação voluntária. mas nunca vai lá –fica com enxaqueca e dores até acamada. que tremiam de medo: . e foi bem maquiada. Nossa Senhora de Fátima. Débora paga sozinha o plano de saúde. Quando a carta terminou. D. Débora poderia ser desassociada. virou fã do São Paulo. viajou o Brasil. que Débora executou. o advogado da comunidade deu uma ideia. ganhou medalha. então arrumou-se com esmero. uma senhora de 60 anos que cuidava da Câmara de Comércio Brasil-Portugal. Já ganhava melhor. uma semana. . O almoço teve sucesso e Débora chamou a atenção. O emprego de metade de um dia passou a durar dois. arranjou emprego e vagas em hospital para muitas testemunhas de Jeová. A cada homenagem. Porém. Sorriu largo ao ouvir os anciãos lerem sua desassociação. A Torre de Vigia não permite colocar homens ou santos no centro das atenções. Quando a mãe fechar os olhos para sempre. “Eles foram substituídos por pessoas com amor incondicional”. o governador da Ilha dos Açores e pré-candidato à presidência de Portugal. A primeira festa que organizou foi a chegada da padroeira. enquadrada nos pecados de idolatria e apostasia. entrou na faculdade.

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