Perspectivas e Tendências da Autogestão Social

Núcleo de Pesquisa Marxista

NPM

Perspectivas e Tendências da Autogestão Social

Realização:
Núcleo de Pesquisa Marxista (NPM / UEG)

Apoio:
Grupo de Pesquisa Dialética e Sociedade (GPDS / UFG)

ISSN:

Diagramação:
Mateus Vieira Orio

Capa:
Adriana Mendonça

De 9 a 11 de junho de 2010 Universidade Federal de Goiás - Campus II

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I Simpósio Nacional Marxismo Libertário

Comissão Organizadora:
Cleito Pereira dos Santos Diego Marques Pereira dos Anjos Edmilson Ferreira Marques Hugo Leonardo Cassimiro Jaciara Reis Veiga José Santana da Silva Lisandro Braga Lucas Maia Marcos Augusto Marques Ataídes Nildo Viana Veralucia Pinheiro

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Sumário

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Apresentação................................................................................................ 5 Programação geral ........................................................................................6 Comunicações .............................................................................................. 7 Índice de Comunicações.......................................................................... 260

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I Simpósio Nacional Marxismo Libertário

Apresentação
O NPM - Núcleo de Pesquisa Marxista, da Universidade Estadual de Goiás, promove o I Simpósio Nacional Marxismo Libertário, cuja temática central será “Perspectivas e Tendências da Autogestão Social”, objetivando articular pesquisadores, estudantes, militantes e outros interessados em desenvolver a teoria marxista e trabalhar seu caráter libertário e emancipador, indissoluvelmente ligado ao processo de luta pela libertação humana e instituição de uma sociedade radicalmente diferente, fundada na autogestão social. Neste sentido, o Simpósio, que será o primeiro de uma série, elegeu o tema "Perspectivas e Tendências da Autogestão Social", objetivando focalizar a contribuição do marxismo libertário para a realização da aspiração humana, a realização da utopia autogestionária. O Simpósio contará com Conferências, Mesas Redondas e Sessões de Comunicações. Será realizado em Goiânia, nos dias 09, 10 e 11 de junho de 2010, nas dependências da Faculdade de Ciências Sociais que se localiza no Campus II (Samambaia) da UFG, no setor Itatiaia.

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Programação
Dia 09: 08:00 - 11:00: Conferência de Abertura: Marx e a Autoemancipação Proletária Dra. Lúcia Bruno/USP. 14:00 - 17:00: Seminários Temáticos.

Dia 10:

08:00 - 11:00: Mesa Redonda: Tendências do Marxismo Libertário Rosa Luxemburgo e a Espontaneidade Revolucionária Gabriel Vitullo/UFRN. Comunismo de Conselhos e Revolução Proletária Nildo Viana/UFG. Os Situacionistas e a Revolução Total Cláudio R. Duarte/USP. 14:00-17:00 Seminários Temáticos.

Dia 11:

08:00-11:00: Mesa Redonda: Experiências Libertárias e Perspectivas da Autogestão Conselhos Operários nas Revoluções Russa e Alemã Cláudio Nascimento. O Movimento Piquetero e as lutas na Argentina em 2001: Autogestão Proletária, Contradições e Limites Lucas Maia dos Santos/UEG. Conselhos Operários e Maio de 1968 José Carlos Aguiar Brito. 14:00 Confraternização

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A mercantilização da música e suas consequências para o artista
Anderson Lucas Novaes1 andersonln@uol.com.br Resumo: A música popular no âmbito da indústria cultural, é produto a ser comercializado, e para que esse comércio seja rentável as grandes indústrias da música realizam políticas de lucros cada vez mais distintas, acentuando a perca de autonomia do músico compositor. O músico contemporâneo, inserido na dinâmica da divisão social do trabalho, encontra-se cada vez mais na situação de mero intérprete da música axiológica. A partir dessas constatações que buscaremos analisar o atual panorama da música e de seus realizadores, desde o músico compositor e/ou intérprete às grandes empresas fonográficas. Palavras-chave: música popular; indústria cultural; padronização e mercantilização.

O presente trabalho tem por objetivo analisar o processo da produção musical popular contemporânea, visto que as classes dominantes buscam a naturalização dos seus valores, fazendo com que sejam reproduzidos em grande escala. A música como instrumento cultural inserido na dinâmica capitalista, figura-se como mera mercadoria. Com isso, as grandes empresas do setor musical buscam formas que possibilitem a mercantilização de seus produtos, sendo que, a industrialização dos processos de produção, se torna a forma mais rentável para a divulgação de seus valores. Com o desenvolvimento do capitalismo e o surgimento do que Theodor Adorno classificou como “indústria cultural”, a música passa a ser monopólio das

Anderson Lucas Novaes é graduando em História e integrante do Núcleo de Pesquisa Marxista pela Universidade Estadual de Goiás.

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empresas especializadas na sua produção, as grandes gravadoras. Assim então se justifica a padronização da música, que se dá “através da especialização e do tipo de técnicas empregada na produção de uma música” (MARQUES, 2007, p.70). A criação dessas novas técnicas, elaboradas por especialistas e técnicos musicais, com o fim de padronizar a música para ser comercializada, é o que vai garantir de acordo com os valores axiológicos2 a qualidade musical. Em conseqüência dessa padronização e da produção em série, há no mercado uma extensão de músicas com grande qualidade técnica, mas, ao mesmo tempo, sem nenhuma qualidade crítica.

“Ao relegar a qualidade a segundo plano, a produção artística capitalista, mais uma vez, demonstra sua hostilidade para com a arte, pois esta passa a ter sua existência determinada pela produção mercantil e por suas contradições e, tanto por um motivo quanto pelo outro, a qualidade e a especificidade da produção artística é subordinada aos ditames do capital e da burguesia.” (VIANA, 2007a, p.25)

Portanto, percebe-se que a técnica é expressão dos valores dominantes, e conseqüentemente as músicas que a utilizam passam a ser valoradas pelos que a produzem e pelos meios difusores, marginalizando a música de cunho crítico. O resultado disto é o fato do predomínio de músicas atuais serem desprovidas de conteúdo crítico, limitando-se apenas aos atributos estéticos. A racionalização, conceito muito utilizado por Max Weber, é outro fator importante para a compreensão da música inserida no sistema capitalista. Para Weber, há uma crescente racionalização da música, caracterizado na especialização das esferas que possuem lógica própria e se fundamentam na calculabilidade de seus fatores técnicos. O artista profissional é quem emprega esta racionalidade em sua lógica própria, sendo ele o suporte do desenvolvimento musical. “Desta forma, podemos perceber que o processo de racionalização da música ocidental ocorre de acordo com a concepção weberiana de autonomização das esferas que passam a ter uma lógica própria e que é impulsionada pelos sujeitos da ação racional da esfera.”

A concepção de valores axiológicos, aqui utilizado é a desenvolvida por Nildo Viana, na qual se caracteriza o conceito axiologia como o padrão de valores determinantes numa sociedade. (Ver, VIANA, Nildo. “Os Valores na sociedade moderna”. Brasília, Thesaurus, 2007. p.33).

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(VIANA, 2007a, p.39 e 40). Os músicos possuem diversos valores “e por conviver num contexto onde se fundem e existem valores antagônicos, eles vão expressar esses mesmos valores nas músicas que produzir, hora, distante, hora próximo de seus valores autênticos.” (MARQUES, 2007, p.64). Nota-se no músico contemporâneo, a marginalização de sua perspectiva axionômica3, esse processo se dá pela divisão social do trabalho, que no âmbito musical, torna o músico um profissional, que inserido em um processo de produção rígido e autoritário, ditado pelas indústrias fonográficas, constrange o músico a produzir músicas de baixo conteúdo crítico, pois só com essas mesmas composições se faz possível o único sucesso, não mais artístico e sim profissional.

“Para Marx, é com o processo de expansão capitalista da divisão social do trabalho que surge a arte 'enquanto tal'. A arte sofre um processo de autonomização, surgindo o então chamado artista profissional, ou seja, surge uma camada de especialistas na produção de arte. Disto também decorre o surgimento da ideologia de uma arte 'pura' 'autônoma'.” (VIANA, 2007a, p.63).

Cabe-nos discutir, então, quem integra essa camada de especialistas da produção da arte, mais especificamente da música. Na música popular os responsáveis pela sua padronização e comercialização são as grandes indústrias fonográficas, que já possuem mais de um século de história e transformações na suas bases de produção. Após o advento do gramofone a indústria fonográfica apresentará uma mutação constante nos seus modos de difusão da música, atingindo o rádio, o cinema e a televisão, sem constar suas transformações no mecanismo responsável pela sua reprodução, do vinil ao armazenamento digital. Porém cabe-nos aqui discutir apenas brevemente essas mudanças, pois o objetivo desse trabalho se dá especificamente em discutir o processo de produção. O processo de produção da música também vem se alterando constantemente

A perspectiva axionômica é aquela que não se pauta em reproduzir os valores dominantes, e tenha por finalidade produzir uma expressão da classe explorada. (Ver, VIANA, Nildo. “Os Valores na sociedade moderna”. Brasília, Thesaurus, 2007).

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assim como seus mecanismos de reprodução, segundo Adorno “o processo de produção organizado e dirigido segundo o modelo industrial ocupou o campo inteiro do consumo musical, substituindo o que a idéia da produção artística tencionava” (In: DIAS, 2000, p.30). Podemos afirmar que, após o processo de padronização da música, tornando-a mercadoria de consumo estético, a música popular deixa de adquirir valores artísticos, folclóricos e intrínsecos aos artistas compositores sendo substituídos por esquematismos, planejamentos e técnicas industriais que fornecem ao público consumidor produtos praticamente idênticos, que são garantia de lucros extraordinários às majors4 da indústria fonográfica. O músico compositor perde espaço na indústria fonográfica para os intérpretes, os mesmos possuem pouca ou quase nenhuma qualidade técnica. Fato que se justifica devido ao critério de seleção desses intérpretes, a escolha do intérprete se dá através do julgamento puramente estético na maioria dos casos, para Adorno esses intérpretes da indústria cultural, “são aqueles que falam os jargões com facilidade, espontaneidade e alegria como se fosse à linguagem que ele, no entanto, há muito reduziu ao silêncio. Eis aí o ideal do natural neste ramo.” (Adorno & Horkheimer, 1985, p.120). A representação desses intérpretes é fundamental para a indústria fonográfica, pois os mesmos reproduzem a imagem de um modelo ideal, que vai da voz ao vestuário, fazendo com que a indústria da música se alie com outros setores da indústria cultural aumentando seus faturamentos, que vão de direitos autorais aos de imagem. A utilização desses intérpretes acentua as péssimas condições de trabalho do músico compositor, que além de ter que se aliciar a uma grande gravadora para reproduzir suas músicas, tendo que em muitos casos dividir ou dar todos os seus direitos de autoria sobre a música, agora não possui nem se quer os ganhos de imagem nos meios difusores. A partir dessa divisão do trabalho na música notamos a profissionalização de uma categoria na produção musical, à de músico compositor, ou seja, aquele que apenas compõe as músicas sobre os padrões culturais préestabelecidos, para que outro contratado, o intérprete, também conhecido como

Termo utilizado por Márcia Tosta Dias para caracterizar as grandes empresas da indústria musical. Ver, DIAS, 2000.

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astro ou ídolo possa reproduzir. Para melhor entendermos o processo de produção da música popular e no quanto essa produção retira do músico sua capacidade de produção artística, temos um trecho de Márcia Tosta Dias, onde, ela demonstra a cadeia produtiva da música popular brasileira nos anos 70:

“Reservada à transnacional ou às empresas nacionais de grande porte, essa linha de produção continha as seguintes etapas: concepção e planejamento do produto; preparação do artista, do repertório e da gravação; gravação em estúdio; mixagem, preparação da fita master; confecção da matriz, prensagem/ fabricação; controle de qualidade; capa/embalagem; distribuição; marketing/divulgação e difusão.” (DIAS, 2000, p. 65).

Notamos nesse trecho a nula participação do músico-artista, temos a clara concepção de produto industrializado nas palavras de Márcia Tosta Dias, toda a produção de um álbum musical fica reservada a setores de produção, sendo eles, econômicos, artísticos, de execução e difusão. Cabe ao músico contemporâneo especializar-se em uma dessas áreas e ser constrangido ao trabalho remunerado por uma grande gravadora ou empresa do setor musical, sua essencialidade como artista é substituída pela sua “mão-de-obra qualificada”, sendo seu serviço, então, terceirizado pela indústria fonográfica:

“O artista não tem lugar na empresa; o cast não existe espacialmente nela. Apesar de conferir a necessária essencialidade ao processo, o artista, paradoxalmente, não faz parte da indústria. Ela passa por ela, negocia, grava o seu disco, trabalha muitas vezes arduamente na divulgação do produto. Oferece gratuitamente seu savoir faire, seu talento, sua personalidade artística, seu nome, sua imagem, até quando o negócio se mantenha interessante para todas as partes envolvidas, caso contrário, será substituído.” (DIAS, 2000, p.72)

Analisamos até aqui as relações de trabalho na dinâmica da produção da música popular gerida pelas majors da indústria musical, porém há um campo crescente de oposição ao modelo industrial fornecido por essas majors, são as

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produções alternativas ou independentes. As grandes produções de softwares de gravação, aliadas ao aumento do acesso a internet e um grande público insatisfeito com os produtos musicais, nos últimos anos vêm proporcionando um novo panorama para a produção musical, as indústrias fonográficas, que, como já havíamos citado, geria a produção e reprodução da música popular, produziram novas tecnologias de gravação mais rentáveis, que, articuladas à maior acessibilidade a internet vem ocasionando uma renovação no cenário musical, podendo abrir espaço para as produções que venham contrapor à música mercantil. “Além de prospectar seu espaço num mercado fechado a novas mercadorias, a produção independente sempre ofereceu ao músico a possibilidade de, se não extinguir, ao menos minimizar o controle técnico sobre o trabalho na música.” (DIAS, 2000, p.140). A música alternativa vem se configurando no cenário contemporâneo como uma forma de refúgio ao músico, que mesmo dependendo dos hardwares e softwares produzidos pelas grandes indústrias no processo de produção, não dependem da grande gravadora nos processos de pré-produção – intervindo no que, ou em como será gravado – e divulgação. A internet possui papel fundamental na divulgação, os meios difusores clássicos, rádio e televisão, são conhecidos por serem os meros divulgadores da música das majors que, por sua vez, financiam a manutenção desses meios através do jabá5. O músico independente, ou seja, aquele que não depende diretamente das grandes gravadoras para produzir e reproduzir seu trabalho possui atualmente grande parte da produção musical, forçando com que até mesmo a televisão, meio clássico de difusão da música industrial ceda um espaço – ainda que pequeno – de sua programação para a divulgação do cenário independente. Intitulado de indie6, pelos meios de comunicação. É cada vez mais freqüente nas matérias televisivas a aparição dessa produção indie, essas aparições acarretam alguns problemas ao cenário alternativo, muitos desses artistas acabam seduzidos por contratos de produção e
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Jabá ou Jabaculé, designa a oferta de favores financeiros em troca de promoção e divulgação. (SHUKER, 1999, p.180)

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divulgação das empresas fonográficas causando um retrocesso no processo de autonomia produtiva, tornando a música novamente dependente dos grandes oligopólios da música. Se analisarmos com atenção esse processo de terceirização do músico popular para com esses oligopólios, percebemos que a indústria fonográfica acaba aumentando seus lucros, pois a mesma não precisa custear encargos do processo de produção, que é feito totalmente pelo músico, apenas cabem às empresas da música o papel da divulgação do produto que mais lhe convir. Podemos afirmar que cabe ao músico independente, emancipar-se em todos os campos: da produção à divulgação. Para isso o músico independente já conta com alguns dos fatores essenciais à sua existência, que são os meios de produção e divulgação a um público que busca algo diferenciado do que é apresentado cotidianamente pelos oligopólios culturais. Notamos assim, que a música enquanto manifestação artística e cultural, só pode ser isenta dos valores axiológicos se produzidas na perspectiva independente dos meios e atributos da música mercantil, sendo que, alguns dos fatores que dão existência a essa música contestatória já estão em vigor, cabendo aos músicos assimilar esses fatores e utilizá-los para uma emancipação social e revolucionária, contrapondo-se a perspectiva individualista na busca por sucesso profissional.

Bibliografia ADORNO, Theodor. HORKHEIMER. Max. A dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. DIAS, Márcia Tosta. Os donos da voz: Indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura. São Paulo: Boitempo, 2000. SHUKER, Roy. Vocabulário de música pop. Tradução de Carlos Szlak. São Paulo:

Termo utilizado pelos meios de comunicação para designar a música independente, ou seja, a que não depende de uma gravadora no processo de produção.

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Hedra, 1999. VIANA, Nildo. A Esfera Artística: Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. Porto Alegre: Zouk, 2007. VIANA, Nildo (org) Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2007. VIANA, Nildo. Os Valores na sociedade moderna. Brasília, Thesaurus, 2007.

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I Simpósio Nacional Marxismo Libertário Mundialização do capital e a (de)formação do trabalho em Goiás1
Angelo Rafael Nascimento Nunes Graduando em Ciências Econômicas/UEG/PVICUEG/angelo_mmm@hotmail.com Eliezer da Silva Freitas Graduando em Ciências Econômicas/UEG/PBICUEG/elieconomista@hotmail.com Resumo: O presente trabalho propõe-se contribuir a discussão e reflexão entre formação humana e (des)qualificação no mundo do trabalho, ao analisar o profundo processo de desencadeamento da reestruturação produtiva, sobretudo nas últimas três décadas, sob o título de “Mundializaçao do Capital”2. Frente às transformações, evidencia um intenso processo de flexibilização/precarização das relações de trabalho e tendem a iludir qualquer promessa integradora a uma nova “morfologia da classe trabalhadora”3 no sistema produtivo. Assim, a partir das contribuições de Marx e outros autores de formações marxistas para a compreensão e crítica, busca-se elucidar que a classe trabalhadora passa por mutações e cada vez mais se afasta de articulações do saber técnico/científico, tornando-se apêndice4 no sistema produtivo. Palavras-chave: Trabalho, qualificação, autonomia, subordinação. Abstract: This paper aims to contribute to discussion and reflection between human development and (dis)qualification in the world of work, considering the profound process of triggering the restructuring process, especially in the last three decades, under the title "Mundialization of Capital . Forward to change, shows an

O presente trabalho possui como pontos de partida as Pesquisas “Efeitos da mundialização no desenvolvimento regional no Brasil: a construção do Território de Acumulação de Trabalho de Goiás e a (re) afirmação do subdesenvolvimento brasileiro(concluída) e “Anápolis no contexto de acumulação territorial do trabalho em Goiás”, realizadas na Universidade Estadual de Goiás/UEG Unidade de Ciências Socioeconômicas e Humanas/CSEH, através do Núcleo de Estudos e Pesquisas Econômicas/NEPE. 2 Sobre este assunto ver: CHESNAIS (1996 e 2005). 3 Conceito de Ricardo Antunes (1995 e 1999) 4 Esse processo esta bem mais caracterizado nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" de 1844 (ver Marx, 1994, 201-210 e 1970).

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intense process of relaxation / precariousness of labor relations and tend to evade any promise integrating a new "morphology of the working class" in the productive system. Thus, from the contributions of Marx and other authors of Marxist formations for understanding and criticism, seeks to clarify that working class goes through changes and increasingly moves away from the joints of the technical / scientific knowledge, becoming in Appendix production system. Keywords: Work, qualification, independence, subordination.

Introdução O presente trabalho propõe-se contribuir a respeito das novas exigências no mundo do trabalho no concerne da qualificação profissional e suas relações no profundo processo de desencadeamento da reestruturação produtiva, sobretudo nas últimas três décadas, tais reflexos geraram modificações econômicas, sociais e, sobretudo geográficas, sob o título, “Mundialização do capital” Chesnais(1994, p13), a uma “ nova configuração do capitalismo mundial e nos mecanismos que comandam seu desempenho de regulação”, assim como a formação que, baseado no desencadeamento repulsão e atração da força de trabalho, Perroux (1977), proporcionando, a formação de territórios econômicos de Haesbaert (2006), e uma tendência a um desenvolvimento desigual do espaço, em Harvey (2004). Estas transformações alteraram o padrão de atuação dos governos e a formação de um intenso processo de precarização das relações de trabalho, constituindo novas formas de racionalização no mundo do trabalho coerente às relações de comando do oligopólio mundial, assim como, estabelecendo formas segmentadas, estratificadas, hierarquizadas e muitos menos a garantia de políticas de pleno emprego. O ponto principal que perpetua na pauta de discussão dos governos, é que o desemprego possui ligação com a incapacidade adaptativa do trabalho, diante das intensas transformações, por isso, é uma das dificuldades de comparação devido à natureza e diversidade das sociedades, decorrente do grau de pluralidade ou de outras formas de desenvolvimento alcançado por eles, designado pelos diferentes períodos

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de sua evolução. Talvez por isso, reproduziu as diferentes teorias e/ou abordagens, que proporcionam maior ou menor grau de explicação referente ao mercado de trabalho. Com base no exposto, são definidos, nesta versão, os postulados da análise marxista perante as questões do mundo do trabalho, buscando o seguinte questionamento: A qualificação dos trabalhadores garante a inserção no mercado de trabalho e permanência nele?

1- Mutações do trabalho: A emergência de novos perfis profissionais no Brasil As alternativas que foram buscadas no Brasil, baseados nos preceitos do Consenso de Washington, refletiram o baixo crescimento econômico e o alargamento do mercado de trabalho fragmentado, em torno de suas estruturas, principalmente o crescente contingente de desempregados. Sendo assim, o aumento das terceirizações e outras formas de relações da força de trabalho, trouxeram impactos de precarização sem precedentes, dotado pelo resultado da forte pressão de flexibilização dos trabalhadores e as suas remunerações. No Brasil, havia assim uma bifurcação, de um lado, o padrão de desenvolvimento com os processos de exclusão do outro lado, traçado por fortes características de segregação social. Este contingente amplia a tendência de pauperização da classe trabalhadora, tendo assim, precondições aos processos de submissão do trabalho mediante as relações de expansão e espoliação capitalista. Para Marx, o fator importante era evidenciar a pauperização relativa da classe trabalhadora, uma vez que, o aumento do nível salarial não cresce na mesma na mesma proporção do que as riquezas de produção capitalista. A análise de Marx é, essencialmente, ao fator do “salário relativo”5.

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As formas como estes processos se restabeleceram a lógica mundializada, propagou uma das preocupações de parte dos capitais de que, a reintegração de atividades, o emprego e a qualificação da mão-de-obra era fundamental ao desenvolvimento da força de trabalho mais valorizada e diversificada. Assim, Angela Amaral (2005), explica que, a qualificação profissional reaparece no ímpeto de recompor o capital, bem como, uma necessidade da força de trabalho, ao analisar o campo histórico, abriga a bandeira de reintegração da educação como estratégia para o enfrentamento do desemprego. A incoerência entre a educação e trabalho, sob a lógica da Mundialização do Capital, designa o mecanismo de alienação do trabalhador. A conexão entre o conhecimento produzido socialmente e os processos de produção da essência no contexto das relações sociais capitalistas é guiada principalmente pelo aspecto da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, deste modo, o conhecimento é apresentado a serviço das classes dominantes economicamente. Sendo assim, o que se apresenta da classe dominante é, segundo Paiva (2001), mensurar a educação como fonte de crescimento econômico, mas de obter formas de aprendizagem adaptativas em um mundo cada vez mais complexo. Neste sentido, na década de 90 até hoje, observou-se que o enfrentamento à adaptação da força de trabalho ligado às novas exigências da produção, principalmente impulsionada pela competitividade e produtividade no Brasil, foram implementadas diversas políticas de qualificação profissional. O documento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), evidencia os processos de formação do trabalhador contemporâneo de acordo as demandas específicas no mercado de trabalho:

A categoria salário relativo prescrita por Marx, em 1847. A importância desta categoria foi descoberta por Marx a partir da leitura dos textos de David Ricardo. “Um dos grandes méritos de Ricardo é ter examinado, fixado como categoria, o salário relativo ou proporcional. Até então, o salário sempre fora considerado algo simples, e o trabalhador, em conseqüência, um animal”. Karl Marx, Teorias da mais-valia: história crítica do pensamento econômico, p.850. Volume II. São Paulo: Difel, 1980.

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O setor produtivo requer trabalhadores cada vez mais capacitados e qualificados. Disso decorre a necessidade de identificar quais as competências dos perfis profissionais desenhados para atender às novas demandas da indústria. O processo não é estanque, mas de grande sinergia: assim como a educação contribui para o avanço da indústria, esta, por sua vez, retribui provocando mudanças no ambiente educativo. (CNI, 2007, p.8)

A partir deste entendimento, os setores produtivos incorporam como frente dominante para a atribuição de ocupações de acordo com a lógica capitalista, evidenciando o crescimento econômico. Em conjunto, tais características leva a afirmar as colocações de Braverman (1977), acerca da quais, a qualificação profissional se acentua como característica decrescente, quando relaciona à inserção de um agregado maior de conhecimento cientifico ao processo de trabalho, possuindo intensa desconexão entre execução do trabalho e concepção, sendo assim, o autor discute, se o conteúdo cientifico e “educado”, nas relações do trabalho, tendem para um plano mediano ou para a polarização. Dessa forma, o autor salienta que, quanto maior o incremento da ciência no processo do trabalho, menor o entendimento nos processo de produção. Dessa forma, as mudanças ocorridas sob uma nova lógica de produção e reprodução Mundializado, ao disseminar “[...] uma maneira de nomear essa necessidade do ajustamento do trabalhador moderno à sua tarefa” (CASTEL, 1998, p. 517), emerge a classe trabalhadora com perfil diferenciado, coerente de um “novo homem”, disposto a submeter às condições de trabalho impostas diante do contexto produtivo. (HARVEY, 1993).
Antunes (1999) em sua analise, descreve que o trabalho multifuncional, polivalente6, principalmente em uma estrutura mais horizontalizada, de base integradora entre empresas, incluindo as empresas terceirizadas, tem como propósito a

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redução do tempo de trabalho. De fato, o modelo de qualificação apresentados pelas próprias corporações empresariais, buscam garantir a confiança dos trabalhadores, que atendem em uma economia flexível. Portanto:

“Um processo de organização do trabalho cuja finalidade essencial, real, é a intensificação das condições de exploração da força de trabalho, reduzindo muito ou eliminando tanto o trabalho improdutivo, que não cria valor, quanto suas formas assemelhadas, especialmente nas atividades de manutenção, acompanhamento, e inspeção de qualidade, funções que passaram a ser diretamente incorporadas ao trabalho produtivo”. (ANTUNES 1999, p.53).

A nova concepção de inserção da classe trabalhadora define-se de um esforço individual, instituindo a flexibilização como padrão dominante do capitalismo, para enquadrar as ações transformadoras. Frente a esta situação, os capitais e os governos tendem a destruir os direitos do trabalho e rebaixar cada vez mais os trabalhadores que não se enquadram aos requisitos, ao passo que, o contingente “qualificado” é uniformizado e desvalorizado pelas forças capitalistas.

2 – Considerações sobre o mercado de trabalho formal em Goiás Na seção anterior observamos que os processos educacionais no contexto dos fenômenos socioeconômicos, associados com a acumulação de capital e as relações de poder existentes, representam o caráter predatório na forma de atuação, nas demais seções iremos analisar que Goiás, assim como Anápolis, indica um cenário de conflitos e contradições nas relações de capital e trabalho, produzindo um processo

É necessário colocar as diferenciações quanto ao uso dos termos do trabalhador polivalente do trabalhador multifuncional. Enquanto o primeiro é submetido a maior número de rotinas/tarefas em adição às que realiza, sem que com isso ocorra maior intelectualização do trabalho, o segundo é exposto a situações complexas, que requerem maior atuação cognitiva (Salermo, 1996).

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de enfeixamento, há uma “nova” funcionalidade nas relações capitalistas. O cenário de Goiás apresenta sinais de dinamismo na indústria, no que se trata a geração de empregos, porém, voltados para as ocupações de baixo teor técnicocientifico, legitimando o processo de desindustrialização precoce7 vivido no país, ao mesmo tempo, amputando Goiás a uma dinâmica de geração de empregos da força de trabalho voltados para os setores que “compensam” a atividade industrial8. Paralelamente a este quadro, de centralização, fragmentação e outras formas que ressurgem no mercado de trabalho, tendem à ineficácia de Goiás superar as condições de “atraso” técnico-científico em relação ao centro dinâmico do país, leiase o Sudeste. Nota-se, tal situação em que se encontra o mundo do trabalho goiano, este não difere do cenário atual evidenciado, também, no centro dinâmico do país, quando relacionada à geração de ocupações voltadas para o setor de Serviços e seus subsetores de atividade9, onde se verifica sua importância para a geração de empregos, bem como a evolução da contratação atípica ou flexível, onde tal instrumento, muito utilizado em todas as escalas do espaço de produção capitalista, intensifica o uso da força de trabalho, alterando o caráter inclusivo do mercado de trabalho, tornando-o um ambiente criador/gerador de incertezas e de intensificação da redundância do Trabalho. Com o intuito de discutir alguns destes elementos, a próxima seção busca alimentar a discussão sobre o mercado de trabalho de Anápolis frente ao cenário exposto.

Ver RICUPERO (2007) Ver MOREIRA et.alli. (2008) 9 Sobre esta discussão, ver POCHMANN (2001)
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3 – Considerações sobre o mercado de trabalho formal Anápolis Sendo assim, de acordo com os dados da RAIS/ MTE, para o período 20002008, o município apresenta dificuldades em manter um ritmo crescente na captação de novos trabalhadores, indicando uma tendência à manutenção dos atuais nos postos de trabalho gerados. Ou seja, não há dificuldade em se gerar empregos formais, já que no período em questão houve um acréscimo de cerca de 75%, mas as características desta dinâmica de geração de emprego é, no mínimo, interessante. Uma das informações que contribui para a análise dessa afirmação é a variável “Tipo de Admissão”. Verifica-se que houve um aumento de 42% na categoria “Admissão no Primeiro Emprego”, enquanto que as categorias “Reemprego” (que significa admissão de empregado com emprego anterior) e “Não admitido no ano” (que significa que os trabalhadores já estavam presentes na empresa, quando da informação para a RAIS), aumentaram em 100% e 71%, respectivamente. Em termos de participação destas categorias no total dos postos de trabalho formais gerados no município, os dados mostram que enquanto no ano de 2000, “Admissão no Primeiro Emprego” representava 8,9% do total dos postos de trabalho, em 2008 esta categoria passa a representar 7,1%; enquanto que as duas outras categorias que representavam 27% e 62%, respectivamente, em 2000, passam a representar 30,7% e 60,5% do total gerado no município em 2008. Ou seja, o mercado de trabalho de Anápolis é pouco dinâmico no que se refere à aquisição de novos trabalhadores. O que acontece de fato é a manutenção dos postos com rotatividade e/ou manutenção de trabalhadores, entende-se não criação de empregos, mas uma mera alternância de ocupações dos trabalhadores propriamente dita. O que se observa a articulação dos vínculos empregatícios representados por contratos com prazo/tempo determinados. O gráfico 1 mostra a evolução dos contratos atípicos e/ou flexíveis e dos contratos com prazo/tempo indeterminados (típicos) em Anápolis.

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Gráfico 1 – Anápolis - Evolução dos tipos de vínculos – 2000 a 2008 – em %

410 360 310 260 210 160 110 60 10 TÍPICOS FLEXÍVEIS (ATÍPICOS) 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 1 1 9,1 16,5 16,1 14,1 21,8 34,8 39,1 48,9 65,3

75,6 161,0 161,9 227,6 309,2 279,9 390,4 TÍPICOS FLEXÍVEIS (ATÍPICOS)

Fonte: RAIS/MTE Elaboração: Centro de Estudos sobre Trabalho, Território e Desenvolvimento/CeTTeD-CSEH/UEG Observação: Ano de 2000 representa a base = 100.

Observa-se no gráfico 1 que, o vínculos de trabalhadores atípicos e/ou flexíveis, cresce de forma expressiva, frente as mesmas características dos municípios expressivos no Brasil, é neste sentido, o mercado de trabalho anapolino se expressa em um processo de precarização sem precedentes da força de trabalho. O ponto de partido então é que, a intensa formação de trabalhadores inseridos no mercado de trabalho com contratos de prazo determinado, gera reflexos diretos nos rendimentos, assim, observa-se que em Anápolis 73,5% dos trabalhadores formais recebem entre 1 a 3 salários mínimos, em 2008. No período 2008-2000, houve um aumento de 79,7% no número de trabalhadores situados nesta faixa e de 85,8% no número de trabalhadores situados na faixa de “0,5 a 3,0 salários mínimos”. A faixa de rendimentos médios que vai de “3,01 a 7,0 salários mínimos” que em 2000 representava 18% do total dos empregos formais gerados, em 2008 concentrava 14,5% do total dos trabalhadores formais. Queda também verificada na faixa de rendimentos médios de “7,01 a 20,0 salários mínimos”: de uma representação de 6% do total dos postos de trabalho gerados em 2000, para 4,9% em 2008. Defini-se então, com a expansão de contratos de curto prazo e uso redundante da força de trabalho, representado pela baixa oxigenação dos postos de trabalho (baixa inserção de novos trabalhadores), ocorre uma concentração de trabalhadores

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recebendo baixos salários. De acordo com os dados da RAIS, no município de Anápolis, haviam 22.102 empregados formais em 2003 e, 36.248 no ano de 2008, perfazendo um saldo de 14.146 empregados formais no referido período, significando um aumento de 64% no número de trabalhadores nessas ocupações. Além disso, a participação das ocupações passou de 46,3 % para 51,7 % em relação ao total de empregos gerados no município. Quanto à escolaridade, verifica-se que houve uma evolução nítida na participação de trabalhadores dos serviços com ensino médio de 24%, e uma leve evolução nas demais ocupações com essa escolaridade.
Gr á fic o 7 - A n á p o lis - P r in c ip a is o c u p a ç õ e s c o m e n s in o m é d io c o m p le to 2 0 0 3 a 2 0 0 8 - % e m r e la ç ã o a o to ta l 2 0 ,0 0 1 8 ,0 0 1 6 ,0 0 1 4 ,0 0 1 2 ,0 0 1 0 ,0 0 8 ,0 0 6 ,0 0 4 ,0 0 2 ,0 0 0 ,0 0 2003 2004 E s c ritu rá rio s T ra b a l h a d o re s d o s s e rvi ç o s T ra b a l h a d o re s d e fu n ç õ e s tra n s ve rs a is Ve n d e d o re s e p re s ta d o re s d e s e rviç o s d o c o m é rc io 2005 2006 2007 2008 1 ,2 1 3 ,3 3 3 ,7 0 1 ,5 6 3 ,7 3 1 ,9 1 5 ,1 6 5 ,3 2 5 ,5 4 5 ,8 8 3 ,9 2 2 ,4 3 5 ,7 9 4 ,0 9 2 ,8 0 5 ,7 5 4 ,2 8 3 ,5 9 1 5 ,2 2 1 7 ,1 6 1 5 ,5 6 1 7 ,5 9 1 7 ,6 9 1 8 ,8 2

Fonte: RAIS/MTE Elaboração: Centro de Estudos sobre Trabalho, Território e Desenvolvimento/CeTTeD-CSEH/UEG

Segundo os dados da RAIS, houve uma redução no número de trabalhadores com ensino fundamental completo nas principais ocupações. Elevou-se o número de trabalhadores com maior grau de instrução, no caso de trabalhadores com ensino superior completo, passou de 955, em 2003, para 2.956 em 2008, ou seja, um aumento de 209,5%.

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Considerações Finais Esta discussão bastante difundida, no viés da qualificação e as competências, colocam como uma das principais preocupações para a inserção do indivíduo no mercado de trabalho e a permanência nele. A inserção de tecnologias e os processos de Mundialização do Capital tendem impor novas formas de racionalização no mercado de trabalho, diante das intensas transformações e reformulações no setor de serviços e industriais. É de fato notar que, a lógica nesta dinâmica de ascensão profissional torna-se como fator culminante de enfeixamento de processo. A combinação frente a nova “morfologia da classe trabalhadora” evidenciam para uma realidade complexa e multifacetada. Tais características conduzem a reafirmação das limitações para melhorias de salários, pelo resultado do profundo desencadeamento de reestruturação em escala global, em consolidação de hegemonia neoliberal, cujos resultados na maior parte dos trabalhadores foram o aumento da instabilidade do trabalho, redução dos salários, precarização do trabalho e dos vínculos de emprego, bem como a elevação das desigualdades e da exclusão social. Assim, há de se verificar que mesmo os países subdesenvolvidos, no caso o Brasil, adquirissem o padrão de qualificação difundido, o sistema capitalista não daria conta de absorver todo este contingente de trabalhadores, pois o mercado de trabalho não é para todos, evidenciando a afirmação da oferta ilimitada de mão de obra, uma vez que este processo tendem a achatar os salários e inibir que o trabalho se contraponha de maneira organizada ao capital.Nestes termos, o mercado de trabalho goiano, em especial Anápolis, reside de uma funcionalidade dos contratos atípicos, e a afirmação de que: as relações interativas entre a melhoria nas condições de vida e o aumento do nível de escolaridade não são fatores determinantes. O que se observa também, é que a escolaridade pouco influencia nas essências dos salários e das ocupações dos trabalhadores, entendendo-se que, os campos educacionais se adéquam à acumulação do Capital, via o aumento da exploração do trabalho, nos termos aqui apresentados.

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A escolarização como mecanismo central na constituição do capitalismo

A escolarização passou a ser pensada como mecanismo central na constituição da nova ordem mundial, ela se tornou um dos mecanismos de controle e hierarquização dessa nova ordem social. Assim, vão se criando espaços especializados onde o sujeito vai ser educado sob a tutela do Estado, tendo então uma educação sistematizada e disciplinada de acordo com o interesse fabril, ou seja, a limitação da autonomia da criatividade e de uma imposição cultural. Permanecendo a escola como instrumento repressivo e mediador entre Estado moderno, a burguesia e a classe trabalhadora. A escolarização pós-revolução e instalação da sociedade burguesa industrial emergente surgem de forma mais intensa no processo de industrialização, principalmente na segunda fase da revolução industrial na qual o conhecimento científico passa a ser fundamental para obter inovações técnicas necessárias ao desenvolvimento industrial capitalista. Na primeira fase da revolução industrial a Inglaterra ainda estava à frente da grande expansão econômica por que parte das inovações técnicas não dependiam de conhecimento cientifico avançado, o momento histórico ainda permitia que homens práticos, experientes e de bom senso estivessem à frente da grande expansão econômica, que se caracterizava com produtos como o carvão e o ferro e o seu símbolo maior era a construção da estrada de ferro. A construção dessas estradas permitiu uma ligação geográfica e possibilitou que o progresso industrial emergente se espalhasse por outros países o que não impediu uma desigualdade na industrialização e uma crescente taxa de emprego e migração, o que traria enormes problemas para os países devido a grande concentração de pessoas no espaço urbano e as duras jornadas de trabalho essas condições permitem uma crescente acumulação do capital nas mãos dos grandes homens de negócios.

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Mas, a partir do momento histórico em que o processo de industrialização apresenta uma nova e revolucionária tecnologia, ocorrendo então a segunda fase da revolução industrial baseada na indústria química e elétrica o mundo verá novas e grandes transformações como, por exemplo, a indústria de corantes artificiais que nasceu de um laboratório dentro de uma fábrica assim como os explosivos e a fotografia que mais tarde irão criar uma estreita relação com o laboratório de pesquisa onde o professor será um elemento importante, vinculando historicamente indústria e sistema educacional, pois o poderio industrial irá direcionar o sistema educacional de acordo com as suas necessidades e pretensões. Nos Estados Unidos o laboratório comercial já surgia juntamente com as indústrias telegráficas e se tornariam famosos através de Thomas Alva Edison. Os norte-americanos percebem então a importância do investimento na escolarização em massa para a formação de engenheiros, dessa forma produziam engenheiros de acordo com as necessidades reais. Já os alemães valorizavam as escolas secundarias, fugindo então da escola clássica e criando a escola técnica. Os franceses apostavam numa escolarização elitizada de alto nível. Com a descoberta de novas matérias-primas encontradas fora da Europa, Inglaterra e Bélgica são golpeadas na corrida de modernização industrial, os norteamericanos já conseguem novos usos para o petróleo através do processamento químico, e foram exatamente os norte-americanos que propiciaram o avanço na engenharia de produção em massa, como a máquina de costura, os matadouros de Cincinnati e Chicago, dessa forma ficava evidente a superioridade tecnológica dos norte-americanos na produção em massa. Países como a Inglaterra e Bélgica que não tinham um sistema educacional avançado passaram a ter dificuldades em se sustentarem como uma economia moderna, os países pobres como a Suécia, mas que tinham um bom sistema educacional passaram a encontrar maior facilidade para iniciar o desenvolvimento industrial. A educação escolarizada, sistematizada, passa a ser fundamental para essa nova ordem burguesa que utilizará o princípio de que a educação é direito de todos e

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dever do estado, e foi a partir da capacidade de melhoria e aperfeiçoamento do sistema educacional que o mundo passou a vivenciar grandes transformações, o que se buscava a partir de então não era a originalidade científica, mas a capacidade de compreender e manipular a ciência. O que mais interessava naquele momento de efervescência industrial e grande expansão econômica acelerada pelo ferro e carvão era mais desenvolvimento e menos pesquisa, assim as inovações com o auxilio da tecnologia vão se convertendo facilmente em maquinaria o que se tornou numa das maiores inovações industrial, a produção em massa de maquinaria e a maior parte desse avanço, nesse novo modelo de produção veio dos Estados Unidos demonstrando a sua superioridade em produção de massa. A escolarização passou a ser pensada como mecanismo central na constituição da nova ordem mundial, ela se tornou um dos mecanismos de controle e hierarquização dessa nova ordem social, da qual o sujeito social e político é aquele que venceu a ignorância, a barbárie, é aquele que aprendeu a nova racionalidade esse terá se feito homem moderno. Assim vão se criando espaços especializados onde o sujeito vai ser educado sob a tutela do Estado. Nesses espaços o sujeito terá então uma educação sistematizada e disciplinada de acordo com o interesse fabril, ou seja, a limitação da autonomia da criatividade e de uma imposição cultural, a escola permanecerá como instrumento repressivo e mediador entre Estado moderno, a burguesia e a classe trabalhadora. Assim, os chamados sistemas nacionais de ensino serão organizados em meados do século XIX, consolidando os ideais da burguesia de liberdade e igualdade entre os homens e inculcando na nova sociedade em formação, os seus princípios e valores. A escola cumpre historicamente a função social de perpetuar e manter valores, moral e a ideologia de uma classe sobre as demais. Para tanto se utiliza de um instrumento, o professor. Instrumento por que em todo esse processo educacional de enculcamentos e privações, o professor é alienado e desumanizado do seu trabalho.

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Educar passa a ser fundamental para o estado, assim, o princípio de que a educação é direito de todos e dever do estado é parte afirmativa dos interesses da nova classe que se instala no poder: a burguesia, para atender aos interesses dessa nova classe, que rompe com o antigo regime de servidão, e precisa da organização e estruturação de uma nova pedagogia, a pedagogia liberal burguesa, irá ajudar a consolidar a sociedade democrática, na qual os homens, antigos súditos, agora serão transformados em cidadãos. É necessário então romper com a ignorância e transformar os homens em indivíduos livres e esclarecidos. Frente a essa nova condição, o professor terá o papel de mediador entre a classe dominante e entre as classes dominadas, utilizando como meio de dominação o conhecimento sistematizado historicamente produzido pela humanidade e quão importante é para a sociedade democrática burguesa que esse professor inicie o enquadramento de valores, moral e ideologia já nos primeiros anos escolares. Assim, os professores têm si consolidado como o elemento de mediação na hierarquização da dominação político e cultural. Nessa perspectiva é compreensível o desempenhar da função professor na instituição escolar, tendo em vista que a escola se constitui em uma instituição com o objetivo de preparar, formar e ofertar mão-deobra qualificada ao mercado de trabalho capitalista, e ao mesmo tempo assegurar a mobilidade social necessária em uma sociedade de classes e supostamente de direitos. As práticas e teorias pedagógicas vêm contribuindo para legitimar e ocultar os pólos antagônicos na base das sociedades capitalistas. Podemos observar que desde a Revolução burguesa industrial continua sendo maior o numero dos que estão à margem da sociedade, do que os eleitos, os educados e civilizados. Nos últimos anos a escola tem sido alvo de constantes críticas por parte de vários segmentos da sociedade, mas para entender a lógica de funcionamento da escola, é necessária a compreensão do processo histórico que a envolve, desde um tempo mais remoto, quando a burguesia ascende ao poder e se estrutura enquanto

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classe dominante. Essa nova classe sente a necessidade de organizar um espaço onde primeiramente seus filhos possam receber instrução, posteriormente os filhos dos trabalhadores, para que se tornem trabalhadores qualificados, atendendo a nova demanda de mercado de trabalho, consolidando a sociedade capitalista. Todas essas grandes mudanças e transformações advindas com o avanço industrial e a crescente urbanização ainda não são suficientes para se ter uma idéia do avanço do capitalismo. Com a instalação da nova ordem econômica e política, é certo que não a lugar para todos na lógica do sistema que precisa de uma constante expansão e de novos mercados consumidores. Nas cidades, a pobreza torna-se uma ameaça pública devido as suas grandes concentrações em um mesmo espaço de ocupação territorial. O surgimento de bairros populosos e as condições mínimas de sobrevivência obrigam os administradores de cidades a pensar em formas de contensão de possíveis distúrbios, pois o pobre urbano não pertencia a esse mundo industrial. Assim, o pobre urbano perdia até mesmo as suas antigas tradições e práticas, que haviam trazido do campo ou da cidade pré-industrial, no novo ordenamento urbano essas práticas e tradições já não tinham relevância. Referências Bibliográficas HOBSBAWM, Eric. A Era do Capital. São Paulo: Paz e Terra, 1988. SAVIANI, Demerval. Escola e Democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 33.ª ed. revisada. Campinas: Autores Associados, 2000.

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Limites da experiência do zapatismo
Diego Marques

Entre a rejeição e a negação do estado: a experiência do EZLN Este trabalho se utilizará da distinção entre rejeição da tomada do poder do Estado e negação do poder do Estado para tentar entender as experiências do EZLN. Partiremos do pressuposto, resssaltado pelo EZLN, de que o movimento não tem por objetivo tomar o poder do Estado, mas sim o de lutar por determinadas reivindicações que se expressam genericamente nas idéias de democracia, liberdade e justiça; mas não nos deteremos neste ponto, pois se a revolução social é obra dos próprios trabalhadores e de que esta se baseia na construção da autogestão social, iniciando com o dominio da produção, mas se estendendo ao domínio da totalidade da organização social, implicando a necessária destruição do Estado, como instrumento que é para as relações de produção baseada em classes sociais, especialmente a importância que tem na sociedade capitalista. Nesse sentido pretendemos analisar a experiência do EZLN apartir dessa dinâmica entre rejeição e negação do poder do estado para entendermos possíveis contribuições do movimento à transformação radical da sociedade capitalista. No dia 1º de janeiro de 1994, um levante armado coloca em cena o EZLN com uma estratégia que aparentemente é ambígua: primeiramente eles recorrem à Constituição Mexicana que diz: “A soberania nacional reside essencial e originalmente no povo. Todo poder público emana do povo e se institui em benefício dele. Em qualquer tempo, o povo tem o inalienável direito de alterar ou modificar a forma de seu governo” para justificar a ação que tomarão: a declaração de guerra ao “exército federal que hoje tem Carlos Salinas de Gortari como chefe máximo e ilegítimo” (1º DECLARAÇÃO). No seu comunicado de aparecimento eles fazem uma crítica à situação degradante das comunidades do Estado de Chiapas; e também uma crítica ao sistema político mexicano baseando-se na diferenciação entre relações reais, onde predomina o “ditador”, das relações formais, ideológicas que pregam que o poder

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emana do povo. Esta crítica e a ação de se sublevar situam o EZLN dentro dos debates a respeito da transformação da sociedade. Gande parte deste debate está construído sobre uma separação entre partido e vanguarda política, de um lado, e os sujeitos históricos reais do outro (que são as classes sociais), assumindo o estado o papel de importante instrumento para uma eventual revolução social e construção de uma futura sociedade comunista. Esta era a fórmula hegemônica e salvadora no debate da esquerda, a que se dizia “vanguarda do proletariado”. No entanto, uma questão ficava em evidência na estratégia política do EZLN e logo se tornou ponto central nas análises sobre o movimento. Ante esse consenso sobre estratégia política, surge o EZLN como uma nova força social que se diferenciaria das outras tanto por seu conteúdo (camponês indígena), quanto por suas novas proposições de estratégia politica. O diferencial do EZLN seria que ele propõe a não tomada do poder do estado mexicano. Mas propõe a não tomada do poder do estado para atingir que objetivo? A revolução comunista não é, pois tal grupo jamais se definiu como comunista. Nossa hipotesse aqui será a de que eles pretendem um retorno do estado nacional forte e desenvolvimentista sob a signa do “nacionalismo revolucionário” dos anos 30, 40 e 50; porém com alguns elementos novos, sendo o principal deles trazer para o debate político noções como de democracia, diversidade, participação popular, que se expressa na trasformação, que eles almejam, no que chamam de “sistema político de partido único” (2º Declaração) que seria o grande causador da “pobreza mexicana”.

A recusa do estado e novas estratégias políticas Desde a primeira Declaração da Selva Lacandona até os mais recentes documentos, o EZLN jamais se colocou como objetivo político a tomada do poder do Estado como momento necessário para se realizar qualquer mudança na sociedade Mexicana. Como alternativa, e que seria uma inovação nas formas de estratégia e organização dos movimentos sociais, propunha em todos os seus discursos trazer para o debate a importância da democracia como forma de organização tanto do movimento quanto um dos principais remédios para a nação Mexicana. Caberia ao EZLN, juntamente com outros grupos da sociedade Mexicana articular

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“Uma força política que possa organizar as demandas e propostas dos cidadãos para que quem mande, mande obedecendo. Uma força política que possa organizar os problemas coletivos, mesmo sem a intervenção dos partidos políticos e do governo. Não necessitamos pedir permissão para sermos livres. A função do governo é prerrogativa da sociedade e é seu direito exercer esta função. Uma força política que lute contra a concentração da riqueza em poucas mãos e contra a centralização do poder. Uma força política cujos integrantes tenham como único privilégio a satisfação do dever cumprido” (4ºDECLARAÇÃO)

O principal papel da democracia seria o de separar o joio do trigo, assim, os grupos que praticam a “destruição total da nação” seriam marginalizados das decisões dos governos que ficariam a cargo dos interessados na “reconstrução do país”. Objetiva-se com isso trazer a iniciativa política a todos os cidadãos mexicanos que devem se ater às eleições, mas não somente nelas, mas participarem de todos os momentos que influenciam na elaboração das decisões políticas. Ao lado da participação intensa dos cidadãos, o EZLN propõe que a existência dos partidos políticos deve ser limitada a aqueles que tenham uma base real, os cidadãos participantes. O EZLN deixa claro que suas concepções políticas e organizativas não os levam a participar diretamente da política “partidária”, mas tambem não quer dizer que suas concepções sejam “sinônimo de antipartido, não é eleitoral, mas também não é antieleitoral” (MARCOS APUD HILSENBECK, 2007, pg. 170). Os partidos complementariam a participação democrática, criando assim uma nova forma de relação política
Uma nova política cuja base não seja o embate entre organizações políticas e sim o embate de suas propostas políticas com as diferentes classes sociais, pois o exercício da titularidade do poder político dependerá do seu apoio real. Dentro desta nova relação política, as diferentes propostas de rumo e de sistema (socialismo, capitalismo, social democracia, liberalismo, democracia cristã, etc.) deverão convencer a maioria da Nação de que sua proposta é a melhor para o país (2º Declaração).

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O próprio movimento fez grandiosas campanhas para a aprovação de algumas leis no Congresso, principalmente na época da elaboração das leis sobre direitos indígenas, que, contudo, só passaram quando os pontos mais importantes foram negados, tais como a questão das autonomias. Portanto, no âmbito da elaboração de leis o EZLN também não faz nenhuma objeção ao seu caráter, desde o primeiro momento se mostraram “de acordo com que se faça uma nova Constituição” e que nela se “incorpore as principais demandas dos mexicanos e garanta o cumprimento do Artigo 39” (4º DELCARAÇÃO). Em decorrência disso tudo (democracia, defesa das leis, partidos) o EZLN carrega um forte apelo nacionalista, se identificando mesmo com todos os “heróis da nação” que ao longo da história combateram e morreram em defesa da pátria, na verdade a luta pela democracia necessariamente deve envolver a figura mítica dos heróis nacionais, resgatando os ideais por quais eles lutaram: “Hoy en las calles da la ciudad de México desfilan las tropas de la usurpación. Pretenden engañar al pueblo de México presentándose como un ejército popular, como el Ejército Mexicano. Aquí el único ejército mexicano es el EZLN” (DOCUMENTOS Y COMUNICADOS, p. 41) Apesar de defenderem veementemente a nação mexicana, o que implica a defesa de certos padrões que são nacionalmente reconhecidos, o EZLN se utiliza como um dos pontos básicos de suas reivindicações a defesa da diversidade, da multiplicidade de manifestações, de opressões e de lutas que existem na sociedade Mexicana; seria este outro ponto de ruptura com as antigas práticas políticas dos movimentos sociais que teríam neligenciado outras formas de opressão que não fossem a opressão levada contra o trabalhador pelo capital. Para Di Felice o movimento é fundamentalmente marcado pela “heterogênese e a multiplicidade” (DI FELICE, 2002, pg. 31); respondendo a uma reportagem sobre a verdadeira indentidade de Marcos o porta-voz do movimento afirma ser um
Gay em San Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, chicano em San Isidoro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, chavo banda em Neza, rockeiro na CU [campus da UNAM], judeu na Alemanha, ombudsman na Sedena [ministério da

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Defesa], feminista nos partidos políticos, comunista na pós guerra fria, preso em Cintalapa, pacifista na Bósnia, mapuche nos Andes, professor na CNTE, artista sem galeria nem portifólios, dona de casa num sábado à noite em qualquer bairro em qualquer cidade de qualquer México (...) Tudo o que incomoda o poder e às boas consciências, isso é Marcos. (MARCOS apud FIGUEIREDO, 2003, pg. 206/7).

Resumindo, é censo comum que a decisão pela não tomada do poder do estado se torna então a grande contribuição que o EZLN traria para a prática política e para a
transformação social, assim
Os zapatistas defendem uma clara recusa à forma de política enfocada no poder Estadocêntrico e, deste modo, eles se deslocam do paradigma que entendia a conquista do poder estatal como condição sine qua non para uma mudança radical da sociedade (...) Os zapatistas abandonam a concepção de vanguarda em que as massas estão, eternamente, presas aos seus interesses imediatos e não conseguem universalizá-los, sendo dependentes do “esclarecimento” de uma camada dirigente (HILSENBECK, 2007, pg.171/2)

Jhon Holloway afirma que essa recusa da tomada do poder seria o foco das inovações que o EZLN traz para as luta dos movimentos sociais, abandonando o nacionalismo, a canalização da revolta, reprodução da lógica do poder, hierarquização e disciplinamento dos projetos (HOLLOWAY, 2003); estas seriam características das antigas formas de lutas guiadas pelos partidos, sindicatos, pequenos grupos conspiratórios que tinham como objetivo a tomada do poder estatal.

Apontamentos para abolição do Estado Porém não devemos nos deter na recusa de tomada do poder do estado para compreendermos as experiências do EZLN. Pelo que expusemos fica claro que o EZLN faz uma defesa de certas relações sociais que se assentaram com o domínio das

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relações de produção capitalistas, tais como a nação, democracia, partidos, constituição e se formos além veremos que em nenhum momento desde o levante o EZLN se definiu como um grupo que luta pela transformação radical da sociedade e que se baseie no projeto de reconstrução comunista. Nesse sentido uma afirmação do EZLN é esclarecedora: “O problema do poder não é saber quem será o titular do cargo e sim quem o exerce. Se o poder é exercido pela maioria, os partidos políticos se verão obrigados a confrontar-se com esta maioria e não entre si” (2º declaração). Apesar de considerarmos uma tarefa difícil, não nos reportaremos aqui às bases sociais que dão legitimidade a este poder; pelos limites do nosso trabalho nos concentraremos na problemática do estado: em seu caráter e em como este interfere nas ações do EZLN. O desenvolvimento das relações de produção teve no Estado Mexicano um forte instrumento, na medida em que este conseguiu subordinar diversos grupos e classes sociais em torno de um projeto nacional de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção capitalistas (MARTÍNEZ, 2009; BUSTOS, 2008), contudo, tal processo teve como ponto de partida a própria sociedade mexicana, na formação das classes sociais que queriam a implantação das relações de produção capitalistas em seu país, e que o conseguiram na forma de um capitalismo subordinado aos países imperialistas, que desenvolvia o país ao mesmo tempo em que tirava suas principais riquezas, tendo assim no Estado e nas elites mexicanas um forte aliado. Ao tempo em que amadurecia estas relações de produção foram surgindo contrapartidas dos grupos sociais atingidos por este processo, as primeiras manifestações contra este processo aconteceram já em fins do século XIX, nas minas e fábricas urbanas, e perpassaram toda a história mexicana no desenrolar do século XX, com os camponeses, operários urbanos, estudantes e indígenas. Estas manifestações foram acompanhadas por uma intensa campanha repressiva por parte dos grupos que desejavam o avanço destas relações de produção, primeiramente se armaram e foram eles próprios os defensores destas relações, os antecedentes e o próprio desenrolar da denominada Revolução Mexicana de 1910 nos provam isso, com os intensos e duradouros massacres de camponeses, indígenas, estudantes e operários realizados pelos famosos caudilhos, apoiados inclusive por forças estrangeiras, também como quando o exército norte-americano foi utilizado na repressão às manifestações dos mineiros e quando deu seu apoio a Carranza na tomada do poder. E quando o Estado Mexicano estava suficientemente instrumentalizado para reprimir e reproduzir as

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relações de prodeção capitalistas passou a fazer isto com destreza única, comprovada pelo desenvolvimento mexicano posterior (com as duradouras repressões aos movimentos camponeses durante os trinta anos precedentes ao levante do EZLN (MONTEMAYOR, 1997), o massacre na Praça de Tlatelolco em 1968, as investidas contra os movimentos dos trabalhadores ferroviários, somente citando os mais conhecidos e representativos exemplos da força repressiva do Estado Mexicano. Contudo, como qualquer outro Estado, ele não teve a eficácia de ser sua ação somente medida pelo seu potencial repressor, foi ao mesmo tempo ideológico, pois tentou se transformar em grande eficácia em condutor do desenvolvimento nacional (BUSTOS, 2008), articulador da identidade mexicana e seu culto ao indígena imaginário (MONTEMAYOR, 1997). Por isso tudo não compreendemos a afirmação de Ceceña que segundo qual para os atuais movimentos latino-americanos
La nación en esa vertiente de intelección es el equivalente de la comunidad grande, pero una comunidad política, resultado de la lucha. Es una construcción de la resistencia, no de la sumisión. Por lo tanto, sus límites son expandibles. No es una comunidad cercenadora sino potenciadora, que puede a la vez reclamar las fronteras para protegerse de los intentos colonizadores y disolverlas para articularse con otros pueblos en lucha (CECEÑA, 2008, 55)

Assim, acreditamos que esta seja uma concepção ideológica de nação, dado que por mais que houvesse representações das lutas dos grupos oprimidos na formação da nação Mexicana (e o próprio caráter de nação subjugada contribui para isso em favor de um sentimento nacional, melhor manipulável pelas elites locais) estas representações foram apropriações das classes dominantes, não correspondendo à subordinação real, e que na verdade dá motivo de ser das próprias resistências (destruição das comunidades, repressões aos movimentos contestadores, políticas voltadas aos interesses das classes dominantes, etc.).
Como vimos a nação é uma forte referência no discurso do EZLN. A nosso ver

isto ocorre por dois motivos. Primeiramente: seu levante teve como determinação

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fundamental as transformações pelas quais estavam passando a sociedade mexicana com a instauração do regime de acumulação integral; Se antes existia um discurso de que haveriam alguns espaços para os trabalhadores hoje já não existe mais; as políticas integracionistas foram totalmente abandonadas; o capitalismo transnacional está devorando algumas frações da burguesia e economia nacionais, embora algumas frações tenham ganhado muito com o sucateamento da economia mexicana; e a militarização das questões sociais é evidente. No caso específico de Chiapas o regime de acumulação integral coloca em curso um processo de intensificação da exploração que se baseia na reatualização da legislação penal com relação à criminalização dos movimentos sociais (HILSENBECK, 2007), retirada de direitos conquistados (como o acesso às terras ejidais) e garantia às empresas multinacionais o controle sobre as terras de Chiapas e de investimentos (MORFÍN, 2000). Ou seja, todo o referencial sobre o qual se assentou a sociedade mexicana durante quase todo o século XX foi abandonado; a aparente diminuição do papel do Estado significaria mesmo a diluição da nação; daí o forte apoio que recebeu o EZLN da pequena burguesia mexicana, afinal seriam eles a resposta da nação à agressão do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, em inglês). Em segundo lugar, trata-se de um movimento camponês que reivindica que suas terras não sejam tomadas pelas grandes empresas (estrangeiras e nacionais) e que estes mantenham os direitos tradicionais sobre elas, baseando-se no artigo 39 da constituição Mexicana que garantia a posse às comunidades das terras tradicionais, ejidos. A invasão sobre as terras tradicionais é expressa como sendo um atentado contra as lutas dos heróis da nação, que garantiram os domínios dessas terras desde a campanha pela Independência, passando pela revolução de 1910 e se afirmando com o Estado integracionista dos anos 30, 40 e 50. Por isso os zapatistas são produto de 500 anos de resistência. É nesse sentido que compreendemos que para o EZLN o importante é levar adiante uma luta contra o neoliberalismo, que está destruindo nação, e não propriamente contra o capitalismo “[...] los zapatistas piensan que, en México la recuperación y defensa de la soberanía nacional es parte de una revolución antineoliberal […] piensan que es necesaria la defensa del Estado nacional frente a la globalización” (MARCOS, APUD HILSEBBECK, p. 174). Na análise de um grupo

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Mexicano que se autodenomina “grupo socialismo libertário” (GSL) o EZLN confunde neoliberalismo com capitalismo, e assim sua crítica ao neoliberalismo tem como principal consequência um resgate do estado integracionista pois
se lleva adelante un discurso patriotero, que conduce, junto con la errónea equiparación del antineoliberalismo como anticapitalismo, a la conclusión de que la lucha debe ser por la “soberanía nacional” y no por la emancipación de la clase trabajadora. Conclusión que lleva al programa zapatista a la defensa de la burguesía nacional, añorando el viejo “nacionalismo revolucionario” de los años 30´s 40´s y 50´s. (GSL, p. 9)

Acreditamos que essa prática é resultante da estratégia do EZLN em se pautar somente na recusa da tomada do poder do estado, sem ter uma contrapartida que se baseia na destruição do seu poder: obviamente, agindo de tal forma não se pode chegar na negação das relações sociais (baseadas na propriedade privada) sobre a qual o Estado se assenta, pois o Estado surge como uma das organizações construídas pela classe dominante para auxiliá-la na manutenção das relações sociais que tem no poder político:
Uma relação social de dominação de classe com a mediação da burocracia (organização e classe social). Por isso o poder político surge com o aparecimento da sociedade de classes. O estado (poder político) não é um fim em si mesmo (embora procure ser) mas sim um meio para atingir determinado fim: manter e reproduzir as relações de produção dominantes (VIANA, 2003, pg. 15).

No âmbito do Estado os grupos oprimidos não possuem poder de decisão, somente podem reivindicar certas demandas, que a depender da luta de classes, podem ser atendidas ou não. Esta estrutura do Estado se reproduz nos partido políticos, que como vimos não são rechaçados por completo pelo EZLN, que reproduzem em “miniatura” a forma hierárquica das relações sociais desenvolvidas no interior do estado (TRAGTEMBERG, 2006) Analisando a sexta declaração e a Outra campanha empreendida pelos

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zapatistas o GSL destacam as seguintes afirmativas do EZLN sobre a) O Estado: “el Estado mexicano ha abandonado su deber” de cuidar do bem comum (MARCOS APUD GSL, p. 8) b) Constituição: “que reconozca los derechos y libertades del pueblo, y defienda al débil frente al poderoso” (MARCOS APUD GSL, p. 7) c) Capital nacional: “(…) algunas de las bases económicas de nuestro México, que eran el campo y la industria y el comercio nacionales, están bien destruidas y apenas quedan unos pocos escombros que seguro también van a vender” (MARCOS APUD GSL, p. 5) d) As forças militares: “El pacto de Chapultepec significa convertir al Estado mexicano en un Estado policiaco, donde incluso el ejército, el ejército federal mexicano va a asumir las condiciones de una policía interna, se acabó la soberanía nacional si ganan ellos, los ejércitos ya no van a servir para defender al país en caso de una invasión externa, van a servir para defender a los ricos de la gente pobre” (MARCOS APUD GSL, p. 8) e) E sobre um projeto político vitorioso: “(…) una parte de esta historia singular es la del imperdonable pueblo cubano, el último en independizarse y el primero en ser libre en nuestro continente” (MARCOS APUD GSL, p. 9) E concluem que tais proposições não passam de uma teoria burguesa do Estado. Um pouco diferenciada das outras formas de Estado burguês, mas não evoluem para além de uma outra forma de estado burguês, que contemple uma alternativa real para a emancipação humana; ficam atônitos entre o leninismoestalinismo e uma concepção democrático-liberal, se tornam reformistas.

Considerações finais Ceceña pontua que os projetos de autonomia desenvolvidos pelo EZLN são

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respostas das ineficiências do Estado paternalista Mexicano (CECEÑA, 2008), ou seja, não é uma resposta negadora da existência do Estado, mas surge como uma tentativa de sanar os problemas que não são resolvidos pelo Estado. É neste ponto o limite do EZLN. Como decorrência da estratégia de não se abolir o poder do estado (somente rejeitá-lo) é que não se cria um pólo de poder negativo ao estado, tal como as manifestações antiglobalização; não se pauta em reconstruir um poder de baixo em negação ao outro, o poder do estado, a partir da dominação dos meios de produção e transformação das relações de produção: se somente há encontros, passeatas, reuniões, manifestações e “fiesta de la diversidad” (CECEÑA, 2008, p.56) e se não se quer destruir o estado e construir novas formas de relação política então se torna compactuante com as atuais relações sociais; só as questiona e pressiona para aperfeiçoamento das políticas públicas, menos opressão, garantia a certos direitos. Assim, organização assume caráter reivindicativo e não revolucionário: “En vez de un“repertorio” de formas de organización y de lucha, lo que yo encuentro en estos movimientos es una avalancha cambiante de todas las formas combinadas que dificulta la acción de los dominadores por su alto grado de inventiva y de imprevisibilidad” (CECEÑA, 2008, 53), isto é, desenvolve-se as lutas, mas sem um objetivo claramente definido, daí as ambiguidades. Tal como fez Emiliano Zapata quando se sentou na cadeira da presidência, juntamente com Pancho Vila, a atitude do ezln é de recusa do poder; mas tal recusa (seguida pela não estratégia de abolição do poder central) abriu espaço para uma reação das classes dominantes, dando novo fôlego para a instauração e concretização das relações de produção capitalistas no México; repetindo tal estratégia não conseguirá o ezln nada mais do que ajudar na manutenção das relações de produção capitalistas, abalada com a radicalização da luta de classes após as transformações geradas pelo regime de acumulação integral (retirada de direitos dos trabalhadores, aumento da corrupção, liberalização da economia aos capitais estrangeiros, aumento da repressão militar, etc.). O EZLN tem duas saídas: aprofundar as transformações (decisões políticas pela assembléia, tentativa de quebra com o personalismo, recusar tomar o poder para si, respeito às diversidades, etc) que colocou na luta, ou se manter na defesa de um estado nacional burguês; com a radicalização da luta de classes estas

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duas opções se tornam contraditórias entre si, ou melhor, a opção pelo estado nacional se mostra claramente conservadora.

Referências BRIGE, Marco; DI FELICE, Massimo (ORGS). VOTÁN-ZAPATA: A marcha indígena e a sublevação temporária. São Paulo: Xamã, 2002. BUSTOS, Rodolfo; MEDINA, Rafael; LOZA, Marco. Revolução Mexicana: antecedentes, desenvolvimento, conseqüências. São Paulo: Expressão Popular, 2008. CECEÑA, A. E. Hegemonia, emancipaciones y politicas de seguridad en América Latina: dominación, epistemologias insurgentes, territorio y descolonización. Lima: programa democracia y tranformaçion global, 2008. EZLN. Documentos y Comunicados. México: Ediciones Era, 1995. GENNARI, Emílio. “Terra e Liberdade!” O grito de Zapata corre o mundo Seleção de textos e comunicados do Exército Zapatista de Libertação Nacional 1994 – 1998. Disponibilizado pelo projeto Xojobil. Grupo Socialismo Libertário. La sexta declaración y la otra campaña: Un programa y un proyecto para la continuidad del capitalismo. Retirado do sítio
librepensamiento.wordpress.com

HILSENBECK, Alexander. Abaixo e à Esquerda: uma Análise Histórico-Social da Práxis do Exército Zapatista de Libertação Nacional. São Paulo, 2007, dissertação de mestrado em Ciências Sociais - Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Campus de Marília. HOLLOWAY, John. Mudar o mundo sem tomar o poder: o significado da revolução hoje. São Paulo: Viramundo, 2003. MARTÍNEZ, Ricardo. Sobre la nueva fase zapatista: La Sexta, ética y horizonte histórico; retirado deste sitio http://www.rebelion.org/noticia.php?id=19636 dia 27/07/2009 ás 18:58 MONTEMAYOR, Carlos. Chiapas La rebelión indígena de México. México: Editorial Joaquín Mortiz, 1997

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MORFÍN, Elizabeth. El capital nacional y extranjero en Chiapas. In: Chiapas, nº 9, México: Era, 2000, México TRAGTENBERG, Maurício. Reflexões sobre o Socialismo. São Paulo: editora Unesp, 2006 VIANA, Nildo. Estado, democracia e cidadania: a dinâmica da política institucional no capitalismo. Rio de Janeiro: Achiamé, 2003.

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Lênin: em defesa do partido
La comprensión plena y completa del marxismo no es posible más que en relación con una práctica revolucionaria (Anton Pannekoek) Diego Marques Indiscutivelmente a figura de Lênin marcou o desenvolvimento histórico do século XX: suas estratégias políticas foram utilizadas por pequenos grupos conspiratórios em quase todos os países em que o capitalismo ía se desenvolvendo; porém, é necessário irmos além do herói idolatrado por grupos que encaixam sua fórmula política na realidade da luta de classes, e de igual modo, da identificação automática (que é feita por certos grupos como forma de deslegitmar as lutas dos trabalhadores revolucionários sob a pecha de totalitarismo leninista) desta estratégia política como sendo a única forma possível dos trabalhadores revolucionários se organizarem e lutarem por seus interesses. Por estratégia política leninista entendemos: a) Uma concepção de organização interna que se baseia na separação entre dirigentes e dirigidos, expressa no ideal de vangurada; b) Ter em mente o objetivo central de tomada do poder estatal; Tal estratégia política foi resumida assim:
Educando o partido operário, o marxismo forma a vanguarda do proletariado, capaz de tomar o poder e de conduzir todo o povo ao socialismo, capaz de dirigir e de organizar um novo regime, de ser o instrutor, o chefe e o guia de todos os trabalhadores, de todos os exploradores, para a criação de uma sociedade sem burguesia, e isto contra a burguesia (LÊNIN, 2007, p. 44/5)

Mais adiante discutiremos quais foram os reais objetivos desta estratégia política1; no momento nos ateremos ao objetivo central do texto: que é o de

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demonstrar os vínculos entre esta estratégia política (e ao longo prazo seus objetivos reais) e as formulações filosóficas de Lênin.

Uma força estranha determina nossa consciência: o materialismo (burguês) de Lênin No livro Materialismo e Empiriocriticismo Lênin tenta desenvolver uma idéia fundamental: a de que a “concepção materialista” se baseia no predomínio da matéria, do mundo exterior, sobre a consciência, a idéia, o espírito. Tal concepção seria a grande rival histórica do idealismo, que segundo Lênin reivindica a determinação da consciência sobre as coisas externas, sendo a “idéia a geradora do mundo” ou os “complexos de sensações” que dariam significado ao existente, dependendo da terminologia utilizada pelo seguidor. Resgatando Engels, diz Lênin, que em matéria de filosofia somente há “dois campos: os materialistas e os idealistas” sendo que a diferença fundamental entre estas concepções reside no fato de que “para os materialistas a natureza é o primário e o espírito é o secundário, e para os idealistas é o inverso” (ENGELS, APUD LÊNIN, 1982, p. 25). Esta é a idéia central do texto de Lênin, que ele a repetirá das mais variadas maneiras, porém sem jamais aprofundar suas análises, no sentido de que vale mais deslegitimar as idéias expostas pelos alvos da crítica; e quando tenta aprofundar suas análises o faz introduzindo as contribuições que as ciências da natureza dariam para o entendimento da realidade, posto que sendo a matéria que possui a primazia sobre o espírito é sobre ela que devemos focar nossa análise. A respeito da ação do éter sobre os nossos nervos, que dependendo de sua disposição no espaço produzem a sensação desta ou daquela cor, diz Lênin que a teoria do conhecimento materialista se baseia na investigação sobre a ação das matérias que provoca sobre nós determinadas sensações:

Como foi se evidenciando com o desenvolvimento histórico tal estratégia este intimamente ligada às necessidades históricas e peculiaridades russas para o desenvolvimento do capitalismo nesse país.

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E isto é o materialismo: a matéria, agindo sobre os nossos órgãos dos sentidos, produz a sensação. A sensação depende do cérebro, dos nervos, da retina, etc..., Isto é, da matéria organizada de determianda maneira. A existência da matéria não depende das sensações. A matéria é o primário. A sensação, o pensamento, a consciência são o produto mais elevado da matéria organizada de uma maneira particular. Tais são os pontos de vista do materialismo em geral, e de Marx-Engels em particular (LÊNIN, IDEM, p. 41/2)

Mais adiante veremos se essa é realmente a concepção de materialismo histórico para Marx. O que nos importa neste momento é fazermos uma consideração sobre um elemento que fica claro nesta citação de Lênin, o papel que cabe às ciências da natureza na teoria do conhecimento marxista. Sendo a sensação “as imagens ou reflexos das coisas” (LÊNIN, IDEM, p. 31) cabe ao materialismo, baseado nas afirmações das ciências da natureza (que adotou “espontaneamente” o materialismo), descobrir a “verdade absoluta”, existente independentemente dos seres humanos. Como consequência, Lênin realiza uma deformação tal no pensamento de Marx, e no materialismo histórico e dialético, que a categoria de absoluto passa a existir, na medida em que a humanidade vai tomando contato com 2 ela, através das leis que vai descobrindo :
O pensamento humano é, pela sua natureza, capaz de nos dar, e dá, a verdade absoluta, que se compõe da soma de verdades relativas. Cada degrau, no desenvolvimento da ciência acrescenta novos grãos a esta soma de verdade absoluta (LÊNIN, IDEM, p. 101)

Lênin tenta inserir a noção de prática como elemento fundamental para a teoria do conhecimento, mas o faz de forma extremamente vaga, utilizando-se de termos como “ação”, necessidade de manutenção da “vida”; porém, não demonstra

Viana (2007) explica que em Marx a noção de lei é diferenciada do seu uso nas ciências da natureza; trata-se antes de tendências, de que algo ocorra, pois a ação humana pode evitar, retardar, precipitar o deenvolvimento.

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como concretamente se realiza essa prática, quais são as relações sociais em que se desenvolvem e que é somente no seu interior onde é possível a reprodução de determinadas práticas. Na verdade, para Lênin a prática é também reflexo das verdades objetivas na medida em que o êxito da prática humana somente pode acontecer se houver “correspondência das nossas representações com a natureza objetiva das coisas que percebermos” (LÊNIN, IDEM, p. 105). Ou seja, a “atividade sensível humana” (práxis), como criadora do mundo social é jogada de lado, substituída por uma atividade contemplativa do “mundo exterior”; Lênin retrocede algumas centenas de anos no debate sobre a relação entre ser e cosnciência3, e dá de ombros aos postulados básicos que Marx articula para o materialismo histórico e dialético, em contraposição ao materialismo burguês, no distante ano de 1845, nas famosas teses sobre Feuerbach: “A realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a forma do objecto [des Objekts] ou da contemplação [Anschauung]; mas não como atividade sensível humana, práxis, não subjectivamente” (MARX, INTERNET). O que podemos verificar é que o objetivo de Lênin com tais idéias é antes se manifestar contra o absolutismo do Estado Kzarista e a ideologia religiosa que lhe dá sustento; contra as forças que gerariam o pensamento religioso (abstração, espírito, idealismo) Lênin acha necessário inverter a relação: agora é a matéria o sujeito gerador do mundo, ela mesma é “anterior” ao seres humanos, portanto, lhe dá as condições de existência. A força que Lênin pretende combater não está tanto na sociedade Russa, mas no mundo extraterreno e se personifica no Kzar. Pela simplicidade das argumentações de Lênin, isto para não entrarmos nos termos de Korsch a respeito do texto de Lênin: “fárrago de despropósito, de incomprensión y de atraso en general”; não precisamos nos debruçar em prolongados debates a respeito do verdadeiro caráter do materialismo histórico e dialético. Na pequena citação anterior de Marx podemos compreender os princípios do método materialista; a atividade sensível humana é a criadora de todas as relações sociais, coisas, fenômenos e tudo o que envolva a sociedade. Não estamos previamente

Holloway (2003) demonstra que Lênin tinha sim contato com as principais obras teóricas produzidas no Ocidente e que, portanto, deve ser minimizado o peso das condições históricas e sociais da Rússia no seu pensamento.

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condicionados por qualquer força que não seja as relações sociais concretas, apartir da práxis transformamos a natureza e a nós mesmos, ou seja, toda a atividade humana se desdobra por causas que são exclusivamente terrenas: o “mundo sensível” é a “atividade humana sensível prática” (MARX, INTERNET) A práxis humana é que constrói relações sociais que se baseiam em classes sociais, que são relações sociais onde determinados grupos se apropriam do trabalho e do produto do trabalho de outros grupos e que têm no Estado uma fonte de reprodução dessas relações sociais, dado o caráter conflitivo que assume essas sociedades. A partir da análise histórica construímos algumas categorias de análise do real, para as sociedades classistas as pricipais são: forças produtivas que englobam a “força de trabalho, meios de produção e meios de distribuição” (VIANA, 2007b, pg. 79); relações sociais de produção que correspondem às “relações de trabalho e de distribuição” (VIANA, idem, pg. 80); e as formas de regularização que “são determinadas relações sociais reais realizadas por indivíduos reais que utilizam determinados meios materiais com o objetivo de reproduzir as relações de produção dominantes e que são engendradas pelo modo de produção dominante” (VIANA, idem, pg. 76). Em nenhum momento do trabalho de Lênin encontramos tal metodolgia de análise, isto é, partir da dinâmica das classes e da luta entre essas classes; ao contrário, encontramos uma análise passiva que registra e relata o que é certo ou errado, do ponto de vista do materialismo burguês que prega. Ao analisar as obras sem correlacionar quem as produziu com a classe a que se vincula (permitindo assim descobrirmos interesses, valores, etc do autor) Lênin se torna exemplo perfeito a respeito do que Marx escreve sobre o materialismo burguês: O máximo que o materialismo contemplativo [der anschauende Materialismus] consegue, isto é, o materialismo que não compreende o mundo sensível como atividade prática, é a visão [Anschauung] dos indivíduos isolados na "sociedade civil" (MARX, INTERNET).

Das dores às promessas de redenção: o comunismo como legitimação do capitalismo O que fica claro é a inexistência da compreensão, para Lênin, do mundo como totalidade; os homens não entram em relação somente com a natureza, com o mundo

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externo, mas principalmente entre si e nessas relações transformam a si e igualmente a natureza; De tal forma que podemos dizer que tanto matéria como espírito são partes integrantes da totalidade
Los fenómenos espirituales y materiales, es decir, la materia y el espíritu reunidos, constituyen el mundo real en su integridad, entidad dotada de cohesión en la que la materia "determina" el espíritu, y el espíritu, por medio de la actividad humana, "determina" la materia. El mundo en su integridad es una unidad en el sentido de que cada parte no existe más que en tanto que parte de la totalidad y es determinada enteramente por la acción de ésta; las cualidades de esta parte, su naturaleza particular, están formadas, pues, por sus relaciones con el resto del mundo. El espíritu, es decir, el conjunto de las cosas espirituales, es una parte de la totalidad del universo, y su naturaleza consiste en el conjunto de sus relaciones con la totalidad del mundo. (PANNEKOEK, INTERNET, PG. 18)

E não duas dimensões separadas como queria Lênin; mas esta compreensão tem uma razão de ser. Separar sujeito e objeto (ou ser e consciência) foi a forma encontrada por Lênin para legitimar a ação do partido sobre as classes operárias. Na Rússia de inícios do século passado dominava o poder absolutista do Kzar, explorando a grande massa da população Russa que era formada por camponeses, com o apoio da ideologia religiosa; as relações de assalariamento eram extremamente débeis, as poucas indústrias tinham sido importadas da Europa Ocidental, fator este que contribuiu para o aumento da exploração dos camponeses. Diante dessa situação surgiu um forte apelo nacional em favor de um desenvolvimento capitalista interno com fins de liberar a nação do julgo externo (PANNEKOEK, INTERNET). Como o prórpio Lênin deixa claro, as principais classes exploradoras do capitalismo eram incapazes de se desvincilhar do poder do Kzar; para a grande burguesia, para os grandes proprietários rurais e para os fabricantes “a propriedade privada, o capital, a terra são para seus pés um grilhão muito pesado para que eles possam se empenhar em uma luta decisiva” (LÊNIN, FLORESTAN, p. 79) Assim, coube à intelectualidade progressista o papel de propagador e de futura dirigente das transformações capitalistas da Rússia. É nessa situação histórica que surge a figura de

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Lênin, como um dos membros da intelectualidade progressista que se infiltram nas organizações da única classe revolucionária na Rússia, a nascente classe de operários, buscando tornarem-se os porta-vozes do movimento (PANNEKOEK, INTERNET); como consequência, é necessária a utilização de uma linguagem que aparenta ser marxista, mas prontamente fazendo as alterações necessárias para a transformação que se queria. Enquanto os narodniks4 pregavam a possibilidade de ultrapassagem do atual estado de desenvolvimento da sociedade Russa diretamente para uma sociedade comunista, esta intelecutalidade se agarrou na interpretação economicista de que era necessária a instauração da sociedade capitalista, para, apartir de então, criar as condições necessárias para o desenvolvimento das forças sociais que levaríam ao comunismo, ou seja, o amadurecimento do operariado (KORSCH, INTERNET). Era a criação do paraíso leninista: a promessa de uma sociedade igualitária futura, depois das dores e sofrimentos necessários para a criação das condições objetivas para o comunismo. O foço entre o movimento real e a ideologia leninista é consequência dos objetivos que esta se impõe: a transformação burguesa da sociedade Russa; enquanto Lênin via a necessidade de “desenvolvimento inevitável do capitalismo” para a futura revolução comunista (LÊNIN, 1978, p. 71) Marx já percebia, décadas antes da destruição das comunidades camponesas pelos bolcheviques no poder, a potencialidade revolucionária presente nas comunidades camponesas russas ante o desenvolvimento da propriedade burguesa da terra; e sobre a possibilidade de transformação comunista da sociedade russa diz Marx
La única respuesta que, en el momento actual, puede darse a ese problema, es que si la revolución rusa da la señal para una revolución proletaria en Occidente, y ambas se complementan, la actual propiedad colectiva de Rusia puede servir de punto de partida para una evolución comunista (MARX, APUD KORSCH, P. 195).

Narodniks (populistas) eram integrantes dos estamentos médios e instruídos da Rússia que acreditavam que os camponeses, apartir da sociabilidade criada nas comunidades (mir), poderíam acabar o autoritarismo do regime Kzarista.

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Como observamos a análise de Marx se baseia no desenvolvimento social, a dinâmica da luta de classes é que determina o surgimento de dado fenômeno, no caso se pode a sociedade Russa desenvolver formas de organização social comunista sem a necessidade de passar pelo capitalismo; assim é que Marx antever a possibilidade revolucionária das comunidades camponesas. Consequentemente, a análise de Marx é uma análise social, que tem nas dinâmicas das sociedades sua fonte de consciência; Já Lênin constrói toda sua concepção filosofica de maneira oposta. Como vimos, para Lênin a base do materialismo são as ciências da natureza, é ela que permite descobrirmos a verdade objetiva que esconde a matéria, por isso não encontramos no seu trabalho nenhuma referência à dinâmica da luta de classes, o materialismo burguês não pode se prestar a reflexões perigosas. Pannekoek analisa essa opção de Lênin como intimamente vinculada aos seus objetivos, a transformação burguesa da sociedade russa; este é o princípio da produção ideológica de Lênin pois este se utiliza dos mesmos recursos que utilizou a burguesia na época de sua ascenção, portanto, terá sempre uma concepção deformada da realidade, que no seu caso expressa de igual modo uma prática política errada, do ponto de vista do proletariado:
Para Lenin y el partido bolchevique la tarea vital era el aplastamiento del zarismo y la desaparición del sistema social bárbaro y atrasado de Rusia. La Iglesia y la religión eran los fundamentos teóricos del sistema; la ideología y la glorificación del absolutismo eran la expresión y el símbolo de la esclavitud de las masas. Por tanto, había que combatirlas sin tregua: la lucha contra la religión estaba en el centro del pensamiento teórico de Lenin, toda concesión al "fideísmo", por mínima que fuese, era un ataque directo a la vida misma del movimiento. Combate contra el absolutismo, la gran propiedad de la tierra y el clero, esta lucha era semejante a la llevada en otros tiempos por la burguesía y los intelectuales de Europa occidental; y no es sorprendente que las concepciones fundamentales de Lenin sean análogas a las ideas propagadas por el materialismo burgués y que él haya tenido simpatías declaradas por sus portavoces (PANNEKOEK, INTERNET, p. 56)

O desenrolar dos processos históricos confirmou a práxis leninista. Aos desavisados a NEP pareceu uma pequena pedra no caminho ao socialismo, mas não era; na verdade era um momento necessário (que se juntou a outros inúmeros

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momentos necessários, tais como a repressão ao verdadeiro movimento revolucionário dos trabalhadores) para a afirmação do capitalismo de Estado na Rússia. Considerações finais Em nenhum momento do seu trabalho Lênin faz alusão à produção filosófica em ligação com as classes sociais; mesmo os alvos de suas críticas (Mach, Avenarius, etc) não são relacionados com determinadas classes, interesses, concepção de mundo. A crítica se desdobra em crítica ao conteúdo das obras analisadas, o desenvolvimento histórico e social da sociedade em que os debates estão inseridos fica de fora, ou seja, trata-se de abstratações filosóficas; contudo, se analizarmos como fez Pannekoek veremos mais que abstrações filosóficas e entenderemos quais são os interesses de Lênin neste debate, que era o de reprimir a oposição “machista” representada por Bogdanov no interior do partido. Nesse caso específico vemos como se deu a utilização do materialismo burguês nas concepções filosóficas de Lênin; porém, quando relacionamos sua filosofia à luta de classes no âmbito da sociedade Russa da época (isto é, para além dos conflitos partidários) compreendemos que a utilização do materialismo burguês estava ligada aos interesses de Lênin na realização de uma revolução burguesa na Rússia, as transformações deveriam seguir um caminho, o mesmo trilhado pela Europa Ocidental, será uma “ditadura democrática. Não poderá tocar (..) nos fundamentos do capitalismo” (LÊNIN, 1978, p. 78). Além das consequências naquele momento histórico a experiência da estratégia política leninista guarda importantes contribuições para a luta dos trabalhadores e para o desenvolvimento das suas manifestações teóricas, embora não da forma como querem os leninistas. A grande contribuição leninista para a atualidade é a respeito de como se dá o conhecimento da realidade e como se conjuga este conhecimento com a prática. A experiência lelininista somente veio a comprovar a idéia de Marx de que a consciência é fruto do ser social; ao contrário do que propunha Lênin, o proletariado organizado como movimento revolucionário pode sim ultrapassar (como tantas vezes ultrapassou) a consciência meramente sindical, isto porque é nas relações

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sociais concretas, na luta de classes que o movimento revolucionário vai tomando consiência das suas necessidades, dos combates que deve realizar, das formas de organização que melhor satisfazem e se correlacionam com seus objetivos, que é o da emancipação humana. A estratégia política e filosofia leninistas são expressões de uma classe social que se viu obrigada a tomar a direção do desenvolvimento do capitalismo na Rússia; mas em plano mundial, cabe também à inteletualidade assumir o poder e trazer para junto de si parte da burguesia interessada na planificação da economia e no capitalismo de Estado, sendo assim, não representa senão outra forma de exploração dos trabalhadores, e como tal deve ser combatida. Ao movimento revolucionário dos trabalhadores cabe tanto a reflexão autônoma, isto é, analisar a realidade a partir de sua perspectiva, que é a do proletariado; quanto também transformar a realidade por suas próprias ações, sem precisar de qualquer mediação externa aos trabalhadores para a construção da sociedade comunista. Marx define o movimento do comunismo como uma construção que se dá pelos próprios trabalhadores e sem etapismo “Para nosotros el comunismo no es un estado que haya que crear, ni un ideal por al que deba amoldarse la realidad. Llamamos comunismo al movimiento real que suprime las condiciones existentes” (MARX, APUD KORSCH, p. 194), isto é, a autogestão social tanto no plano da reflexão teórica, quanto no plano da práxis revolucinária. Referências FERNANDES, F. LÊNIN: Política; coleção grandes cientistas sociais. São Paulo: ática: 1978 HOLLOWAY, J. Mudar o Mundo Sem tomar o Poder. São Paulo: viramundo, 2003 KORSCH, K. La Ideología Marxista En Rusia; in Karl Korsch Su Visión del Marxismo. CICA; retirado do sítio http://www.geocities.com/cica_web in 4/06/2010 LÊNIN, V.I. Materialismo e Empiriocriticismo: edições avante, 1982 LÊNIN, V.I. O Estado e a Revolução. São Paulo: expressão popular, 2007.

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Mantendo o “espírito” do marxismo, Derrida assombra o mundo
Eduardo Gusmão de Quadros Professor de história da Universidade Estadual de Goiás Resumo: O pensador argelino Jacques Derrida tem sido considerado um pensador irracionalista e pós-moderno. Em muitas obras acerca da atualidade do pensamento de Marx, ele é visto com alguém a ser combatido. Entretanto, ele mesmo afirmou ser herdeiro direto do marxismo, em 1993, num momento onde o pensamento hegemônico celebrava a derrocada do socialismo real. Sua identificação, mesmo tendo assombrado a muitos, acabou caindo no esquecimento, pouco contribuindo para (re)interpretação de suas obras. É o que faremos aqui, buscando averiguar como e por que o “filósofo da desconstrução” se coloca como um propagador do comunismo. Palavras-chave: Marxismo, Derrida, Pós-modernidade

Há muitos enfoques sobre o pós-modernismo. A pluralidade de definições, abordagens e teorias não deve, todavia, nos inquietar. Primeiramente, tal pluralidade confirma que algo novo está acontecendo com o mundo nas últimas décadas. O prefixo “pós” pode até ser questionável, mas os autores que propõem outros conceitos1 não deixam de notar um conjunto de transformações recentes em diversos campos sociais. Em segundo lugar, percebe-se na riqueza dessa problemática o intermitente desafio de conferir certa coerência aos processos históricos do mundo contemporâneo. Quando tais mudanças começaram a ser apontadas? A palavra em si tem

Pode-se optar desde as metáforas “liquidas” de Baumann (1998 e 2001) até as caracterizações de sociedade “pós-tradicional” e “reflexiva” de Giddens (1990 e 1997). A nosso ver, mais importante que os nomes dados, é a compreensão deste conjunto de processos relativamente articulados de ruptura com certas tendências herdadas do mundo moderno e aprofundamento de outras. Notamos uma resistência dos autores marxistas em adotarem o conceito, exemplificado por Jameson (1997).

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origem um pouco mais antiga2, assumindo o sentido atual na década de setenta. O termo foi aprofundado numa serie de conferencias proferidas pelo filósofo JeanFrançois Lyotard (1986) naquele período. Ele indica com o termo pós-modernismo: a) o conjunto de transformações ocorridas na sociedade, na ciência e nas artes início do século XX;

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b) a crise da metafísica no pensamento ocidental, passando os valores para conteúdos de teor técnico; c) a mercantilização do saber, tornando-se “a principal força de produção” (1986, p.5) da sociedade pós-industrial; d) a crise das legitimações institucionais, ou seja, do poder estatal, eclesiástico e escolar para ditar normas e prescrições aceitas socialmente; e) o fim das crenças nas metanarrativas, tanto as especulativas quanto as emancipatórias (1986, p.69). Jacques Derrida tem sido considerado no Brasil, certamente por influência da apropriação norte-americana, um pensador pós-moderno. Além de não ter utilizado o termo, ele se insurge contra essas características. A obra que escreveu sobre Marx, por sinal, é uma prova concreta de que as metanarrativas estão em plena vivacidade hoje, propiciando uma escatologia socialmente aceita. Por outro lado, sua abordagem do pensamento marxiano ressalta justamente a viabilidade da esperança emancipatória.

A crítica da crítica O pensador argelino também tem sido chamado de “filósofo da

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A expressão veio da arquitetura dos anos Trinta e depois foi aplicada a outras áreas.

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desconstrução”. Este foi um conceito que formulou ainda no início de sua carreira de professor na França, durante os anos sessenta. Não diríamos que é seu conceito mais importante, porém podemos considerá-lo um conceito-chave de seu pensamento. Certamente, tem sido um dos mais debatidos. Se ocorre tal debate, é porque não se trata de um conceito de fácil compreensão ou aplicabilidade. Primeiramente, portanto, devemos afastá-lo da simples destruição. Foi tentando traduzir para a língua francesa o conceito heideggeriano de destruktion, por sinal, que ele chegou ao termo. Esse problema da traduzibilidade o acompanha, pois a desconstrução não remete a modelos pré-construidos. Em certo sentido, rompe com as estruturas, sejam elas lingüísticas ou semânticas, o que dificulta sua apreensão. No fundo, ela simplesmente acontece, cotidianamente, na história (DERRIDA, 2004, p.307). Numa ocasião, Derrida dissera ser a desconstrução “o impossível que acontece” (2001a, p.78). Dá para traduzir o impossível? Foi justamente tratando da sua dificil tradução que o filósofo teceu interessantes comentários acerca do conceito formulado3. Mas ele não é uma fórmula, nem pretende ser um conceito, no sentido filosófico da palavra. Por isso, toda “definição” pode ser imediatamente desconstruída. “Toda afirmação a desconstrução é X, carece a priori de toda pertinência”, escreveu (DERRIDA, 1997, p.26). O trabalho (do) negativo é uma via melhor para a compreensão, ou para a tradução, ou para a percepção, ou para os três. O negativo está na palavra através do “des”. Esse não implica a resistência, a força de fuga das tentativas de apreensão. Descontruir é uma tarefa, um trabalho, sem ser necessariamente um ato, pois não está diretamente relacionada a um sujeito. Igualmente, “não é uma análise, nem uma crítica, (...) não é um método” (1997, p.24). Está na ocorrência singular de cada situação enfrentada.

O texto chama-se “Carta a um amigo japonês” (1997), ajudando um filósofo daquele país a traduzir os textos de Derrida para a língua nipônica.

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O pensador brasileiro Silavano Santiago, portanto, acerta quando afirma que a desconstrução visa o desmonte dos “alicerces logo-fono-etnocêntricos dos conceitos” (1976, p.17), ou seja, identificar as fissuras das bases metafísicas do ocidente. Porém, desconstruir não é apenas “descoser” (id., p.19). A construção também faz parte do termo, também é uma tarefa afirmativa nunca terminada. Conforme Derrida, “é antes de tudo a reafirmação de um 'sim' originário” (2004, p.350). Ambos os lados, o “não” e o “sim”, trazem o trabalho desconstrutivo para o âmbito da política. Bennington, por sinal, comenta dos constrangimentos surgidos na recepção anglo-saxonica da obra derridadiana quando a ênfase no afirmativo fora percebida (1996, p.138). Enquanto se confundia com um método crítico, a desconstrução com a demolição, tudo parecia academicamente confortável. Isso é relativamente fácil, confundindo-se com o próprio papel do intelectual. Mas a crítica da crítica, sua superação dialética, torna-se um problema. Des-construir é o problema, sem resposta e sem definição.

Apropiações impróprias

Indefinido, porque não tem fim. Os processos desconstruivos acontecem interpelando o pensamento e a ação. Pro-vocam a responsabilidade política dos chamados intelectuais convidando-os para o que não se pode responder. A resposta responsável é infinita. Claro, que ela é de todos, pois cuidar da fala, da reflexão e da intervenção pertence ao humano, lutando-se contra a atuação do antiintelectualismo vigente nos tempos atuais. Para Derrida,
O intelectual se qualifica com tal, e justifica sua inteligência presumida, unicamente no instante do engajamento inventivo: na transação que suspende, mas também está apto a - inteligentemente – analisar, criticar, desconstruir (essa é uma competência que se cultiva) os horizontes e os critérios garantidos, as normas e as regras existentes, entretanto sem deixar o lugar vazio.... Portanto, inventando ou propondo novas figuras (conceituais, normativas, criteriológicas) de acordo com novas singularidades (DERRIDA, 2004, p.212-3).

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Note-se a ênfase na abertura, convidando ao fascínio pela instabilidade. Isso é importante para perceber o estilo de leitura a que Derrida submete os textos, inclusive o de Marx. Os sentidos nunca são dados, mas perseguidos no labirinto das palavras, na confusão das letras e espaços em branco. Nesse jogo de ausências e presenças, a escritura vai sendo decifrada pelo olho, pelo corpo, pelo sonho, pela dura realidade. Sim, há uma negociação na leitura correspondente à economia escriturária em que estamos inseridos. Texto e real, tão distintos, surgem como se estivessem unificados. Quem nos ensinou esta operação de costura epistemológica? Não importa, sendo mais relevante demarcar sua reprodução em diversas áreas. A desconstrução denuncia toda e qualquer lógica reprodutiva, rompe com sua imposição sistêmica, aponta suas falhas. Concomitantemente, demonstra que por trás da reprodução estão formas de apropriação, operações que transformam coisas e idéias em propriedade. Foi isso que ele aprendera com seu grande mestre Althusser, o perigo de cair na contaminação do cálculo que apropria e reapropria manipulatoriamente (DERRIDA, 1990). Podemos, nesse sentido, repensar o materialismo advindo do capitalismo. Marx não denunciara que o sistema capitalista corrói todas as esferas da vida social? Não somente isso, mas o capitalismo produz, dentre outras coisas, uma metafísica envolvente. O pensador argelino construiu suas teorias combatendo exatamente as modalidades disfarçadas sob as quais tal metafísica se apresenta. Existe a possibilidade de um materialismo fora do capitalista, além do idealista, afirma:
... Existe outro materialismo que subscreveria com mais prazer e que me levaria a materialismos pré-platônicos ou pré-socráticos, que ainda não estavam imbuidos de metafísica. Estaria ligado a Demócrito4 e a certo pensamento do azar, da sorte. A teoria do texto, como a entendo, é materialista, se por matéria não se entende uma presença substancial, mas que resiste à reapropriação, sempre idealista... (DERRIDA, 1986, p.3)

Essa alternativa foi a que ele, de algum modo, tentou oferecer quando tomou o texto do Manifesto Comunista como tema de suas conferências na Universidade da Precisamos lembrar que foi sobre o pensamento de Demócrito que Marx escreveu sua tese de doutorado em filosofia?
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Califórnia, em 1993. O mundo intelectual norte-americano, onde Derrida fez tanto sucesso, ficou asssombrado com sua participação em um simpósio marxista. Não tinham notado que a política nunca esteve ausente de suas reflexões. Indo mais longe ainda, o mundo parecia não entender como um pensador tão crítico e questionador podia tomar com seriedade um assunto que já estava em seus últimos suspiros devido ao fim dos socialismos.

Referências BAUMANN, Zygmunt. O mal estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. BAUMANN, Zygmunt. Modernidade liquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. ______. A escritura e a diferença. Trad. Maria B. N. e Silva. São Paulo: Perspectiva, 1971. ______. Positions. Paris: Editións de Minuit, 1972a. ______. Dissémination. Paris: Editións Du Seuil, 1972b. ______. Gramatologia. Trad. Miriam Schnaiderman e Renato J. Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 1973. ______. Do materialismo não dialético. Revista Culturas, 69, 3 de agosto de 1986, pp.34. ______. Loius Althusser. Les Lettres Françaises, num.4, 1990. ______. Donner le Temps. Paris: Galilée, 1991. ______. Acts of literature (ed. Derek Attridge). New York: Routledge, 1992. ______. Spectres de Marx. Paris: Galileé, 1993. ______. Paixões. Trad. Loris Machado. Campinas, SP: Papirus, 1995. ______. Carta a un amigo japonês. In: El tiempo de una tesis: desconstrucción y implicaciones conceptuales. Barcelona: Proyectos A Ediciones, 1997, pp.23-27.

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______. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Trad. Claudia M. Rego. São Paulo: Relume Dumará, 2001. ______. A universidade sem condição. Trad. Evandro Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. ______. Papel-máquina. Trad. Evandro Nascimento. São Paulo: Estação liberdade, 2004a. DERRIDA, Jacques e ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã... Diálogo. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004b. GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Editora da UNESP, 1991. GIDDENS, Anthony. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: GIDDENS, A; BECK, U.; LASH, S. Modernização reflexiva. São Paulo: Editora da UNESP, 1997. JAMESON, Frederic. Pós-modernismo – A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Editora Ática, 1997. LYOTARD, Jean-françois. O pós-modernismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. SANTIAGO, Silvano. Glossário de Derrida. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

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A esquerda pecebista de 1940-64: o partido como comitê dos intelectuais.
Gustavo dos Santos Cintra Lima1 Resumo: O presente estudo faz parte da pesquisa monográfica que estou desenvolvendo como trabalho de conclusão de meu curso de graduação em ciências sociais pela Universidade Federal de Uberlândia. A esquerda brasileira se encontrava no inicio dos anos 60 envolta em uma crise que chacoalhava internamente o PCB até então a mais representativa organização dos comunistas brasileiros. Analisaremos de forma breve a trajetória tortuosa do PCB entre os anos de 1940 a 1964 focando a separação entre o “Partido” e a classe trabalhadora, tentando levantar elementos para caracterizar uma leitura equivocada do papel da vanguarda política. Palavras-chave: Esquerda brasileira, PCB, Revisionismo, Intelectuais.

Breve panorama da esquerda “Pecebista” de 1940 até o golpe civil-militar de 1964. Rememoremos alguns fatos importantes dos anos que antecedem a crise dos PCs a nível mundial acarretada pelas críticas apresentadas em 1956 por Nikita Krushev no XX Congresso do PCUS em Moscou ao período stalinista, trazendo a tona no interior da esquerda os limites da política de Stálin para a manutenção e ampliação do socialismo em outras regiões do globo. Somos levados a reter a atenção no período ainda da 2ª guerra mundial, em agosto de 1941 a Alemanha de Hitler tenta uma ofensiva sobre a URSS, os comunistas a nível mundial são conclamados a defender o “baluarte revolucionário” que se encontrava na experiência soviética nessa fase já degenerado em relação ao que fora

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Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia.

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nos subseqüentes a revolução de outubro de 1917. Os comunistas do mundo inteiro se juntam em torno de uma postura política contrária a ideologia nazista e fascista que vinha ganhando força desde a década de 1930 em muitas regiões do mundo inclusive no Brasil manifestado em especial pelos Integralistas assumidamente uma organização de direita e com profundas inspirações fascistas. O Brasil entra em 1942 na guerra ao lado dos EUA e da URSS, depois de ter por muito tempo cultivado relações com a Alemanha nazista, estamos ainda nos limites temporais do Governo Golpista de Vargas, o chamado “Estado Novo” (1937-45). No mesmo ano de 1942 militantes comunistas brasileiros se reúnem em Buenos Aires para uma série de conferências para discutir a reorganização do PCB, e retirar uma posição antifascista de apoio a Governo Vargas. Lembrando que o PCB fora posto na clandestinidade pelo próprio Vargas nos anos 30, em 1943 numa conferência clandestina realizada próxima a Serra da Mantiqueira é consolidada a linha de apoio incondicional a Vargas na guerra contra o fascismo. Podemos ver a constelação de contradições que vão permeando as linhas políticas adotadas pelo PCB nos tumultuados anos 1940. Essa mesma conferência em que vence a linha apoiada por Maurício Grabóis, Pedro Pomar e João Amazonas, elege Luís Prestes ainda no cárcere do “Estado Novo” preso em 1935 no episódio frustrado do levante planejado por comunista de vários países com apoio de Moscou. Com fim da 2ª guerra e a vitória dos “Aliados” representados contraditoriamente pelos EUA, agora já a maior potência capitalista, e a URSS liderada por Stálin realizam acordos a fim de estabelecer uma divisão mundial por zonas de influência do bloco capitalista e do bloco soviético. Surge nessa época a política de “coexistência pacífica” defendida por Stálin. Os comunistas acreditavam que após a derrota fascista chegara o tempo de um desenvolvimento pacífico e uma política de cordialidade entre o bloco capitalista

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“democrático” representado pelos EUA e bloco “socialista” manifesto na figura da URSS. O Brasil é arrebatado por um clima “positivo” a campanha pela anistia toma força, Vargas começa a libertar os presos políticos, inclusive Prestes. Em maio de 1945 o PCB é legalizado e Prestes apresenta as orientações do Partido, que tem como mote a implantação do “Programa de União Nacional” de forma pacífica e progressiva, dentro da legalidade política do Estado burguês, “aliançando” operários, patrões progressistas, camponeses e fazendeiros democráticos, intelectuais e militares. Esse ponto demonstra mais um passo da direção do PCB rumo a uma equivocada e contraditória análise de conjuntura, que avança na perspectiva de afastamento das massas populares, percebendo-as com meros instrumentos políticos da “revolução”. Essa linha recupera de forma oportunista os princípios da política populista que marcava o governo Vargas. A organização mais tradicional da esquerda brasileira tinha em sua política traços profundos da continuação do modelo de administração do “Estado Varguista”. “Essa plataforma não pede a expropriação dos latifúndios, desde que sejam “explorados com métodos modernos”, nem das empresas nacionalistas.” (Silva, sd, p.70) Essa perspectiva denúncia a postura de defesa por parte do PCB do desenvolvimento nacional assentado nas velhas bases que o próprio partido já tinha sido oposição, podemos chamar essa política de “nacionalismo subordinado ou dependente”. Em que o PCB toma a iniciativa de estimular a cooperação das classes sociais nacionais antagônicas e coexistência com a interferência do capital imperialista no país em boa medida. Citando Prestes sobre a conivência da exploração imperialista no país, “o capital estrangeiro pode ser depois das históricas decisões de Teerã e da Criméia, um dos colaboradores mais eficazes do progresso e da prosperidade dos povos atrasados”. (Prestes, in: Silva, sd, p. 70-71)

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Observamos a profunda contradição ideológica em que o PCB se encontrava, chegando ao ponto de desconsiderar praticamente a primazia da luta de classes como fator dinâmico da história num sentido lato. Em que próprio desenvolvimento técnico do gênero humano está ainda restrito ao nível maior ou menor de contradição entre as classes, a lei histórica da dinâmica das sociedades de classe e que essa contradição só pode ser resolvida na luta entre as classes, na superação da sociedade dividida em classes antagônicas e com conseqüente supressão e destruição do Estado capitalista. Nesse ponto podemos perceber uma influência ideológica burguesa, uma leitura liberal e idealista do processo brasileiro apresentada pela a direção do PCB nos anos subseqüentes a 2ª guerra mundial. Os intelectuais do partido (PCB) se guiam por uma leitura elitista, onde pode até se dispensar a classe na dinâmica política e social. Mas isso encontra uma ressonância mundial dentro da esquerda, a postura “revisionista” que já era adotada por alguns intelectuais de esquerda na primeira década do séc. XX (posição hegemônica da II Internacional 1889), ela consistia numa espécie de “revisão” da obra de Marx proposta como forma de manter a validade histórica como teoria social. Lênin e Rosa Luxemburgo2 já combateriam essa vertente desenvolvida dentro do marxismo desde o início. Podemos encontrar esse combate desde Marx e Engels no séc. XIX, para comprovar o desvio de caminho que os comunistas brasileiros na década de 1940-50 estavam tomando citemos Marx no manifesto: “O objetivo imediato dos comunistas é o mesmo de todos os demais partidos proletário: formação do proletariado em classe, derrubada da dominação burguesa, conquista do poder político pelo proletariado.” (Marx & Engels, 2001, p. 47) Nessa perspectiva adotada profundamente pelo PCB podemos notar claramente a renegação dos princípios teóricos da teoria de Marx, essa negação vem vinculada com o abandono da relação orgânica do Partido com a classe.
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Para mais informações sobre a polêmica travada por Rosa Luxemburgo com os revionistas alemães, veja: LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução. 5ª ed. Expressão Popular, São Paulo, 2008.

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Podemos ainda recorrer a Marx em sua crítica ao “socialismo utópico de Proudhon” onde ele vai desmontar o idealismo do pensamento proudhoniano. Marx afirma com todo vigor analítico a questão da luta econômica constante entre as classes na moderna sociedade capitalista. Como ela guarda uma profunda dimensão política, e somente quando a classe trabalhadora toma consciência dessa natureza da luta é que ele pode levá-la até as últimas conseqüências para a superação da ordem burguesa e da sociedade de classes.
“As condições econômicas tinham transformado a princípio as massas do país em trabalhadores. A dominação do capital criou a essas massas uma situação comum, interesses comuns. Assim, esta massa já é uma classe em presença do capital, mas não ainda para si mesma. Na luta de que assinalamos algumas fases, está massa reúne-se, constituindo-se em classe para si mesma. Os interesses que defende tornam-se interesses de classe. Mas a luta de classe com classe é uma luta política.” (Marx, 1990, p. 190-191)

Voltemos após demonstrar com algumas citações retiradas diretamente de Marx como o PCB se afastava politicamente da classe a que historicamente se dizia ser instrumento político superior. O partido passa a ser ocupado por as mais variadas orientações políticas e morais, o partido na legalidade havia sofrido uma transformação silenciosa. Afastarase da classe trabalhadora, agora era como uma “grande repartição pública burguesa”, não era mais um instrumento da luta de classe dos trabalhadores, era quase uma extensão do Estado populista que reinara no Brasil. Vargas na tentativa de se manter no poder, cria dois partidos o PSD, que seria governista e prestaria apoio ao general Dutra, e o PTB composto por sindicalistas aparelhados ao Estado (governo) e por elementos do Ministério do Trabalho, o PTB tinha a intenção de manter as amplas massas trabalhistas sob a tutela de Vargas. O PCB “oferece” uma ajuda aparecendo ao lado do PTB, onde se forma a força política pró-Vargas, sob a bandeira do “Queremismo”.

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Notando as manobras getulistas a UDN (direita) clássico partido de oposição a Vargas junto a frações das forças armadas obrigam a renúncia de Getúlio. Esse período é marcado por uma postura muito peculiar do PCB, a “coexistência pacífica”, “união nacional”, apelo para os trabalhadores se alinharem aos sindicatos, não entrarem em greve se mantendo sob o guarda chuva do Estado. A política de aceitação tácita dos trabalhadores oferecida pelo PCB em defesa da “institucionalidade” é rejeitada pelos operários. O PCB na cegueira ideológica a que estava imerso lança o Estatuto 13, defendia o combate aos trotskistas, clara orientação recebida da cúpula soviética dirigida por Stálin. A calmaria relativa em que o PCB se encontrava nos breves dois anos de legalidade (1945-47) é interrompida, o movimento de perseguição e declaração de guerra ao comunismo é reativado pelo governo dos EUA e pelo governo britânico. Através da política chamada de “cordão sanitário”, acusando ideologicamente de ser o comunismo uma corrente anti-humanista e que coloca em risco a sociedade humana e por isso deve ser combatido até pela força. No final de 1947 o PCB retorna a ilegalidade, o partido que até então apoiava Dutra rompe com a aliança e o acusada de forma ressentida de “traidor da nação” e a serviço do imperialismo. Cabe ressaltar a clareza da falta de solidez política do PCB, servindo de instrumento “esquerdista” da política do Estado brasileiro, a falta de autonomia política de seus intelectuais em relação ao PCUS e ao Estado brasileiro. Numa atitude de baixo nível crítico propõem reiteradamente a defesa da indústria nacional e dos pequenos e médios empresários, como se fosse a defesa das riquezas e da potencialidade nacional “a-classista”, o PCB insistia numa postura política “burguesa”, acreditando na direção burguesa da revolução brasileira. Em 1950 o PCB lança seu “Manifesto de Agosto”, que marca uma virada a esquerda fundamentando uma autocrítica a postura assumida até o momento pelo partido. Surge a proposta de criação da “Frente Democrática de Libertação Nacional” que deveria constituir-se em “Exército de Libertação Popular”, com claro apelo nos seus dizeres às massas populares.

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Mas essa guinada a esquerda ocorrida mais pelo fato de se ter perdido seu conforto político com a declaração de sua ilegalidade pelo governo do general Dutra, logo demonstra seus limites. Quando o PCB insiste em assinalar o “protagonismo” de uma possível “burguesia nacional” compromissada em levar adiante uma “revolução de caráter democrático e nacionalista” em combate direto ao “sistema feudalimperialista” que se alojava no seio da sociedade brasileira. O objetivo de tal empreitada dantesca anunciada pelo PCB, agora arauto da “burguesia nacional revolucionária” era conjugar todas as classes sociais inspiradas pelos valores patrióticos e nacionais a formar um “governo legitimamente revolucionário” apoiado num “bloco poli-classista”, movimento esse liderado pelo proletariado, mas em dependência da burguesia nacional. No entanto a classe trabalhadora não espera as previsões pecebistas para agir exercendo sua condição política de classe, começa apesar da repressão do governo Dutra uma seqüência de greves entre 1947-50. Em 1950 nas eleições para presidente Vargas volta ao poder com um programa político que manifesta as intenções de estimular o desenvolvimento econômico nacional combatendo a influência imperialista, promessa de justiça social e liberdade sindical. Vargas assume uma postura explicitamente de massas, realizando mobilizações, comícios e discursos em rádio a fim de manter a massa popular centralizada na sua política, ele utiliza de todo o aparato estatal implantado desde a década de 1930 para aproximar os interesses das classes dominadas dos interesses dominantes via nacionalismo. Uma espécie de bonapartismo3 (Estado de massas e Estado de compromisso como diz Weffort)4 , um governo acima da “sociedade civil”,
Para uma análise sobre o conceito de bonapartismo ver: MARX, Karl. A revolução antes da revolução. 1ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008; e para sua aplicação a análise da política brasileira ver: MARINI, Ruy. Contradicciones y Conflictos en el Brasil Contemporâneo – Revista Arauco, Chile, 1966. 4 Ver: FURTADO, Celso (coord.), Brasil: Tempos Modernos. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2ª ed. 1997, p. 49-75.
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um “Estado suspenso no ar”. O governo de Vargas será marcado pela pressão feita por todos os lados, a classe trabalhadora que desenvolvera relativa autonomia na organização política, apesar de majoritariamente sua luta estar restrita as condições de trabalho (aumento salarial, direitos trabalhistas), a pressão se faz sentir cada vez mais patente. As classes dominantes também se encontram insatisfeitas com a política varguista de concessão de direitos aos populares. O PCB mantém uma postura oposicionista a Vargas, faz frente à assinatura do presidente para envio de tropas brasileiras para lutar junto ao exército “ianque” na Ásia mantendo suas acusações de cunho “moral” ao governo. No ano de 1954 o acirramento das classes em torno da contradição política do governo Vargas claramente detectada pela direita e pela esquerda, a pressão dos trabalhadores realizando seguidas greves em especial pela aplicação do aumento de 100% dos salários prometida por Vargas desgasta por dentro as bases políticas do governo. A UDN junto com setores militares à direita prepara um golpe contra o presidente para forçar sua renúncia, mas antes disso Vargas acelera o processo e se mata. Ele realiza seu último ato como presidente inaugurando seu “status de mito” populista. No fim de 1954 o PCB recua suas críticas a Vargas observando a comoção popular em torno de sua morte e realiza o IV Congresso onde reitera a tese da revolução por etapas de caráter nacionalista e democrático. Apoiando em seu programa o desenvolvimento da burguesia industrial nacional contra o imperialismo de rapina e o latifúndio. Nas eleições presidenciais de 1956, Juscelino assume sob pressão de golpe, a sua posse é assegurada pelo general Henrique Lott que mobiliza as tropas que estavam sob sua direção ocupando vários prédios públicos da capital federal que fazia sede no Rio de Janeiro, era a manifestação concreta “contra-golpista”. Assim JK assume a presidência iniciando uma política profundamente desenvolvimentista, que vai acarretar uma rápida industrialização no setor bens de consumo duráveis, automóveis e eletrodomésticos, tendo como contra peso a

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contração de uma dependência tecnológica, econômica e política do Brasil em relação ao capital-estrangeiro. As empresas multinacionais aqui instaladas sob vários benefícios concedidos pelo governo JK realizam a política de remessas de lucro para seus países de origem, encontrando uma massa de força de trabalho de baixo valor a ser explorada, seria o aprofundamento da dependência econômica e política em relação ao imperialismo “ianque”.

Elementos para caracterizar a apreciação populista do PCB antes do golpe de 1964: revisionismo e/ou reformismo, fundamentos prático-teóricos da cisão partido/classe. Após o final da 2ª guerra imperialista (1939-45), a derrota do nazismo pelos aliados representados pelos EUA e pela URSS liderada por Stálin, é firmada uma política de “coexistência pacífica” reiterada pelo PCUS irradiando para os demais PCs mundo afora. O PCB que havia sofrido a perseguição do Governo Vargas e estava até então na clandestinidade volta à legalidade institucional com a anistia política “concedida” pelo chamado “Estado Novo”, passando a adotar uma postura “populista de esquerda” manifesta na posição política alinhada a ideologia da “coexistência pacífica” proposta pelo PCUS. Em termos nacionais isso se reflete na postura de se estimular uma união nacional ampla expressa no “Programa União Nacional” proposto por Prestes então dirigente máximo do PCB, que consistia no trabalho de se formar uma aliança entre operários e patrões, camponeses e latifundiários progressistas, intelectuais e militares comprometidos com a democracia e os valores nacionais. Essa é uma primeira fase da adaptação populista do PCB à dinâmica política brasileira, ela expressa em linhas iniciais uma leitura do processo político brasileiro por parte do partido permeado por uma ideologia reformista e liberal.

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A postura política assumida pelo PCB nessa fase demonstra uma timidez combativa, pois suas propostas se encaixam mais aos interesses das classes dominantes brasileiras e de certa maneira não rivalizam com a influência do capital imperialista. Essa perspectiva denúncia a postura de defesa por parte do PCB do desenvolvimento nacional assentado nas velhas bases que o próprio partido já tinha sido oposição, podemos chamar essa política de “nacionalismo subordinado ou dependente”, em que o PCB toma a iniciativa de estimular a cooperação das classes sociais nacionais antagônicas e coexistência com a interferência do capital imperialista no país. Alimentando a “crença” de que hora o outro o desenvolvimento capitalista nacional sinalizaria suas fraquezas per si, sem a necessidade de se fazer a oposição de classe. Podemos estender a análise de Lênin que combatendo os “marxistas” da corrente reviosionista da II Internacional Comunista sobre o papel do Estado diz: “Para Marx, o Estado é um órgão de dominação de classe, é um órgão de submissão de uma classe por outra; é a criação de uma “ordem” que legalize e consolide essa submissão, amortecendo a colisão das classes” (Lênin, 2007, p. 25) Seguindo a perspectiva política de Lênin, podemos dizer sobre a postura “reviosionista” do PCB alinhado a perspectiva populista (bonapartismo) desenvolvida no Brasil pela política institucional do Governo Vargas:
“De um lado os ideólogos burgueses e, sobretudo, os da pequena burguesia, obrigados, sobre pressão de fatos históricos incontestáveis, a reconhecer que o Estado não existe senão onde existem as contradições e a lutas de classes, “corrigem” Marx de maneira a fazê-lo dizer que o Estado é órgão da conciliação das classes”. (Lênin, 2007, p. 25)

Embasados em Lênin e em Marx podemos afirmar que o PCB alimentava no centro de sua política elementos do que Marx chamaria de “socialismo burguês” que tomaria expressão social na postura “humanista” ante a totalidade social, da atitude beneficente e filantrópica que setores da burguesia se prestam a fazer para promoção de sua imagem frente a comunidade, com a finalidade de dar peso a sua ideologia de

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classe. A direção pecebista sofre uma espécie de cooptação ao pensamento “progressista da burguesia”, que mesmo podendo ter um caráter progressista transita dentro dos limites concretos do direito e da forma de propriedade burguesa não podendo concretamente defender nada para além desses valores. Ouçamos Marx sobre tal postura:
“Uma parte da burguesia deseja remediar as anomalias sociais, a fim de garantir a manutenção da sociedade burguesa. Pertencem a essa fração: economistas, filantropos, humanitários, agentes melhoradores da situação das classes trabalhadoras, organizadores de obras beneficentes, protetores dos animais, fundadores de ligas antialcoólicas, reformadores ocasionais os mais diversos. ”(Marx & Engles, 2001, p. 74-75)

A Marx continua discorrendo sobre essa forma de socialismo fundamentada numa visão de mundo ligada as condições materiais da fração social que a sustenta:
“Uma segunda forma, menos sistemática e mais prática, desse socialismo procurou inspirar à classe operária desdém por todo movimento revolucionário, demonstrando-lhe que aquilo que lhe pode ser útil não é esta ou aquela mudança política, mas somente uma mudança das condições materiais de vida, das condições econômicas. Mas por mudanças econômicas esse socialismo não entende, de forma alguma, a supressão das relações burguesas de produção – que só é possível pela via revolucionária -, mas reformas administrativas...” (Marx & Engles, 2001, p. 75)

A primeira citação vai ao encontro de algumas características da política institucional brasileira começada por Vargas em 1930 e preservadas até o golpe civilmilitar que depôs “Jango” em abril de 1964. A segunda referência ilustra muito bem a postura de adesão do PCB à política populista do Estado brasileiro no período anterior ao golpe militar, denunciando uma postura de conciliação de classes adotadas pelo

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PCB, afastando-se dos trabalhadores objetivamente e da teoria revolucionária de Marx e alguns marxistas. A única que assume realmente o compromisso e se engendra na própria dinâmica da luta de classes.

Considerações Finais: Comprovando que o afastamento dos princípios explicativos da dialética marxiana resultou em um conjunto de equívocos, que comprometeria a possibilidade de ação efetiva frente o golpe civil-militar, ficando de mãos atadas imergindo em um período de crise de perspectiva gerando brechas para o surgimento de dezenas de organizações de esquerda carentes de uma direção política mais solidamente combativa. Através dessa breve reflexão tentamos resgatar alguns elementos que compuseram a prática política pecebista no período sublinhado, percebemos uma relação estreita que a direção do PCB estabeleceu com a política desenvolvida pelo Estado brasileiro nos anos que antecederam o golpe civil-militar, e mesmo após o golpe o “partidão” mantém uma perspectiva reformista de crédito ao caráter nacionalista e democrático da revolução brasileira. O PCB na nossa leitura teve um papel mais de promover a conciliação do proletariado e dos camponeses, resumindo, de orientar as classes populares a se “aliançarem” às classes dominantes, acreditando que haveria um setor nacionalista entre as frações da classe dominante. Dessa forma o “partidão” atuou na contramão da necessidade de se estabelecer uma autonomia política das classes populares (proletários e camponeses) em relação às classes dominantes e o Estado burguês brasileiro, reforçando assim a ideologia de “paz social” do modelo político populista desenvolvido no Brasil nesse período avaliado. O PCB realizou-se enquanto organização da trabalhadora um partido apartado de sua expressão de classe a que teoricamente se vinculava, ficando restrita sua reflexão política da realidade brasileira limitada a sua prática política elitista (a direção partidária bastava-se a si mesma) uma postura em si, o partido assume

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autonomia em relação à classe que declara no seu programa representar. Podemos apontar essas características que Lênin já havia detectado no interior da esquerda russa em 1905-1907 manifesta na polêmica com Martov, líder menchevique ou da ala moderada dos “Iskristas”, que tinha uma concepção de partido abstrata e não organizada. Para Lênin o “partido revolucionário”, instrumento máximo da classe trabalhadora deveria ser composto por uma vanguarda de “revolucionários profissionais”, aplicar o centralismo democrático, a minoria submete-se à maioria, e se colocar clandestino, pois o partido revolucionário não pode se constituir nos moldes de funcionamento dos partidos tradicionais (burgueses) assumindo perspectivas idealistas sobre a dinâmica da luta de classes.

Bibliografia: MARX, Karl. A Miséria da Filosofia. Editora Mandacaru, São Paulo, 1990. MARX, Karl & Friederich Engels. O manifesto do partido comunista -1848. 1ª ed. Porto Alegre: L&PM, 2001. LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução. 1ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2007. REIS FILHO, Daniel Aarão & Sá, Jair (orgs.). Imagens da Revolução. Documentos das Organizações Clandestinas de Esquerda dos anos de 1961-1971. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2006. SILVA, Antonio Ozai. História das Tendências no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Dag Gráfica e Editorial, sd.

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O processo de trabalho em perspectiva: mudanças que repercutem na vida social
Leonardo César Pereira
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Resumo: Este artigo busca compreender as transformações por que vem passando o processo de trabalho ao longo da história, a partir da análise da centralidade do trabalho na vida social inserido em modos de produção, o que engendra um modo de vida condizente. Passando pela análise das formas “primitivas” de trabalho, modo de produção asiático, feudal e capitalista, se busca compreender o significado do caráter atual do trabalho e suas perspectivas futuras. É utilizado como referencial teórico e metodológico os instrumentos heurísticos do materialismo histórico dialético, a partir de Marx e algumas contribuições do marxismo. Palavra-chave: Trabalho, modo de produção, mudança social e marxismo.

Introdução Neste estudo se busca compreender o desenvolvimento histórico e as formas assumidas pelo processo de trabalho e suas condições materiais, ou seja, tanto dos meios materiais quanto a organização social condizente aos objetivos da produção. Tem como objetivo traçar um panorama histórico da organização do processo de trabalho, suas modificações ao longo do tempo e do espaço, bem como as conseqüências sociais para as relações sociais de produção contemporânea, que emergem de sucessivas e diversificadas reestruturações produtivas. Para tanto, alguns aspectos serão tratados de forma apenas introdutória, visto que este estudo ainda não é conclusivo, pois faz parte de minha iniciação aos estudos sobre a sociologia do trabalho, desenvolvido desde a época da graduação. Utilizando material bibliográfico disponível, abordaremos o tema deste artigo partindo do materialismo histórico-dialético, principalmente em Marx e Engels, e

1 Graduado em ciências sociais e mestrando em sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

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algumas contribuições relevantes do pensamento marxista. A perspectiva do método dialético tem por objetivo descobrir a tendência dos fenômenos sociais, fundamentalmente sua modificação, seu desenvolvimento e transição de uma forma para outra. Entendendo essas tendências condizentes com cada período histórico particular, “o método dialético busca esclarecer as leis específicas que regulam nascimento, existência, desenvolvimento e morte de um organismo social e sua substituição por outro” (Viana, 2007a, p. 95).

Trabalho e sua centralidade histórica Na (re)produção dos seus meios de vida, com a finalidade da sobrevivência inicialmente, os homens recriam suas próprias relações com os meios de existência, o que, no decurso de diversos processos históricos, se deu socialmente. Pois é sua condição de ser social que subordina seu trabalho ao processo analisado por Marx (1978) de produção social da própria vida. Ao buscar suprir suas necessidades básicas a humanidade, restrita a condições históricas e sociais específicas, vem se deparando com novas necessidades, dando origem ao desenvolvimento da complexificação da vida social. É nesse sentido que o processo de trabalho ganha centralidade na história da existência humana, pois é através dele que se busca reproduzir e transformar os meios de existência, adequados às necessidades humanas que estão sempre em transformações. Portanto, a centralidade do trabalho é antes uma necessidade histórica e social do que uma categoria analítica ou conceito teórico, tornando relevante para a intelectualidade muito recentemente na história da humanidade. Entretanto, é com Marx que a temática do trabalho adquire relevância compreensiva na análise da configuração social. Para ele, o processo de trabalho sob a forma de um modo de produção específico engendra um modo de vida, ou seja, como os indivíduos manifestam suas vidas:
A maneira como os homens produzem seus meios de existência depende, antes de mais nada, da natureza dos meios de existência já encontrados e que eles precisam reproduzir. Não se deve considerar esse modo de

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produção sob esse único ponto de vista, ou seja, enquanto reprodução da existência física dos indivíduos. Ao contrário, ele representa, já, um modo determinado da atividade desses indivíduos, uma maneira determinada de manifestar sua vida, um modo de vida2 determinado. A maneira como os indivíduos manifestam sua vida reflete exatamente o que eles são. O que eles são coincide, pois, com sua produção, isto é, tanto com o que eles produzem quanto com a maneira como produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais da sua produção. Essa produção só aparece com o aumento da população. Esta pressupõe, por sua vez, o intercâmbio dos indivíduos entre si. A forma desse intercâmbio se acha por sua vez, condicionada pela produção. (MARX, 2002, p. 11)

Em O Capital, especificamente n'O Processo de Trabalho ou o Processo de Produzir Valores de Uso, Marx (1968) se propõe a analisar a natureza do processo de trabalho como sendo equivalente a agregação de valor de uso3 ao produto desse trabalho e, a partir daí, compreender a forma social deste assumida no capitalismo, mas que nos serve como fio condutor da genealogia do trabalho, guardada as devidas especificidades de cada contexto histórico. Para ele o trabalho é igual à efetivação das potencialidades da força de trabalho, que mesmo sob o controle do capitalista (e das demais classes dominantes de outros períodos), não perde sua natureza geral, sua ontologia, posto que também as mercadorias contem trabalho socialmente útil na forma de valor de uso. O trabalho aqui é entendido como processo de regulação da relação material entre o homem e a natureza que, na transformação desta última, se modifica a natureza interna do homem quando busca alguma utilidade através do trabalho, principalmente quanto à melhoria das condições de vida (contemporaneamente classificada como “qualidade de vida”). No processo de trabalho o homem subordina sua vontade, seu projeto inicial, às determinações que seu modo de operar apresenta. Dito de outra forma, o processo de trabalho determina a produção social da vida, a relação entre os homens e entre estes com a natureza, de acordo com as condições materiais de produção.

Nas citações seguem os destaques dos autores, presentes nas edições aqui utilizadas.
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Utilidade social do produto, objetivada através do trabalho humano (Marx, 1968).

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Na composição do processo de trabalho estão presente: a) o trabalho, como atividade adequada a um fim; b) objeto de trabalho, onde se aplica o trabalho (terra e água – objeto universal do trabalho – e outras matérias prima que são resultado de trabalho anterior); e c) meios de trabalho (instrumentos), que exerce a função de mediação entre a vontade humana e seu objeto de trabalho4. O desenvolvimento do processo de trabalho exige a elaboração prévia de meios de trabalho, dando origem a complexificação do processo de trabalho que, por este modo, permite a diferenciação de épocas econômicas na forma como se trabalha, com que meios se trabalha e para quem se trabalha. É no movimento entre as condições materiais de produção apresentadas historicamente e as possibilidades potenciais projetadas no trabalho que o “ser” do homem (sua humanidade) se realiza. O trabalho vivo transforma as possibilidades (potencialidades) dos valores de uso em valores de uso reais e efetivos quando empregadas no processo de trabalho. A efetivação dessas potencialidades humanas do trabalho, inserido numa forma específica de organização social, produzem um reconhecimento social condizente ao contexto da produção. A identidade social do trabalho está estreitamente vinculada ao modo de vida do trabalhador, de modo que quando o trabalho é praticado na efetivação das potencialidades humanas, na busca da superação das necessidades, ao trabalho é agregado um caráter positivo de satisfação e importância social; quando os objetivos da produção não se voltam às potencialidades humanas, mas sim a (re)produção da dominação e exploração de um grupo ou classe sobre outras (exploração do homem pelo homem), o trabalho se torna um peso na vida do trabalhador, afetando seu modo de vida, ou seja, sua sociabilidade e, conseqüentemente, suas aspirações e perspectivas. Esse caráter negativo do trabalho acompanha sempre uma organização do processo de trabalho estranhado, precarizado e intensificado, tornando o trabalho, além de objetivação de utilidade social, em um meio de enriquecimento e subordinação por parte dos grupos e classes dominantes. Essa condição negativa só é possível a partir do desenvolvimento da divisão social do trabalho, principalmente daquela divisão entre trabalho manual

Para Marx, a mediação através de meios de trabalho só está presente em processos de produção tipicamente humana, mesmo estando “em germe em certas espécies de animais”(Cf. Marx, 1968, p. 204).

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(produtores diretos) e trabalho intelectual (função de organização, direção, disciplinarização e “espiritualização” social). Nota-se a importância das relações sociais de produção na definição das condições do trabalho e, conseqüentemente, no caráter social do trabalho, produtor de marginalização e/ou reconhecimento social.

Os rumos do trabalho Tendo sua origem em condições sociais comunitárias, onde não havia ainda uma divisão social complexificada, o trabalho se insere em um modo de produção, ou seja, condições materiais de produção, ou simplificando, como se produz os meios de vida. Essas condições materiais incluem desde condições físicas dos locais, objetos do trabalho (“matérias primas”) e dos instrumentais, até as disposições sociais de indivíduos concretos que travam entre si intercâmbios, através da cooperação e dos produtos do seu trabalho, que na origem era de propriedade coletiva. É importante salientar que, apesar de muitas vezes negligenciadas por muitos ditos “marxistas”, as relações sociais também constituem parte importante das condições materiais de produção. Ora, não podemos nos esquecer ao analisar os modos de produção presentes na história, que na definição e execução do quê, do como e do por que se produz estão presentes os indivíduos reais que relacionam entre si, de forma nem sempre coesa e harmônica, fato decisivo e fundamental para a mudança de um modo de produção para outro. O que quero demonstrar aqui é a centralidade das práticas humanas em detrimento da centralidade dos instrumentos e tecnologias para o desenvolvimento social. Para Marx (1978), a mudança social se efetiva quando as forças produtivas entram em contradição com as relações sociais de produção. Ao excluir das forças produtivas a força de trabalho, se negligencia dessa forma as condições sociais da luta de classes.

Formas “primitivas” de trabalho As formas ditas “primitivas” de produção têm como base a produção de uma economia natural, e como condição inicial a sedentarização do homem à terra que possibilitou uma maior produtividade na agricultura sistemática e da criação seletiva

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de animais voltados para a alimentação do grupo. Os historiadores classificam esse período de Neolítico, última fase das formações sociais sem classes, onde o poder político ainda não está plenamente desenvolvido (Oliveira, 2006). Segundo Oliveira, a reprodução dos grupos tribais se caracteriza da seguinte forma:
O avanço das forças produtivas não permite pensar uma economia de subsistência ou de auto-suficiência absoluta, uma economia doméstica fechada, uma vez que a produção de valores de uso, resultantes da exploração comum do solo, resulta numa produção de excedentes destinada ao “funcionamento das estruturas sociais e às formas de troca que acompanham esse funcionamento” (Goldelier, 1978). A produção de excedentes e determinadas formas de troca significam o avanço das forças produtivas no interior das comunidades tribais, uma espécie de divisão do trabalho que propõe o domínio de relações não tão simplificadas que não se possa observar aí o embrião da desagregação das relações comunitárias absolutas. [...]O trabalho é organizado pela combinação simples da apropriação e das necessidades sociais. Nesse caso, o avanço das forças produtivas ocorre em condições de desenvolvimento muito limitadas, e o processo de distribuição do produto, realizado não pelo que cada trabalhador produz, é determinado pelas relações sociais de produção. O produto do trabalho, seja ele necessário ou excedente, é propriedade coletiva (OLIVEIRA, 2006, p. 11).

Podemos fazer algumas conclusões sobre esse período a partir do exposto até aqui. Em seu desenvolvimento, o trabalho foi deixando cada vez mais de ser uma atividade particular (voltada para o consumo individual) e se transformando em trabalho coletivo, de modo diversificado e heterogêneo. Em decorrência desse caráter social do trabalho, foi possível a produção de excedentes, desenvolvendo a divisão do trabalho. Essa divisão do trabalho produziu uma desregulamentação e desintegração da vida comunitária, baseada na posse coletiva da terra e do produto do trabalho, à medida que as relações de troca se intensificaram e diversificaram a produção. Outro elemento característico desse período é o conjunto da vida social em função da produção, onde o tempo de lazer não se configura em tempo de não trabalho, pois as práticas fora do trabalho tinham a intenção de melhoria das condições de trabalho, aumento da produtividade, enfim, estavam voltadas às necessidades da produção e do trabalho.

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Do modo de produção asiático ao capitalismo Junto à produção de excedentes se cria a necessidade de forjar uma estrutura de distribuição e redistribuição desses excedentes. Essa é a condição inicial da formação de grupos superiores legitimados e sustentados juridicamente e militarmente pelo estado (Oliveira, 2006). A diferenciação das funções produtivas (divisão social do trabalho) cria condições para a imposição de interesses políticos e econômicos de um grupo sobre o outro, originando a distinção entre concepção e execução do trabalho. Esta é a origem das formações sociais de classes. A propriedade da terra é controlada e apropriada pelo estado que regulamenta toda a vida social, mas, principalmente, a produção e circulação dos produtos. Para isso, formas jurídicas, políticas, econômicas, morais e religiosas são criadas com o intuito de preservar a coesão social necessária aos interesses produtivos das elites (classes detentoras da propriedade ou posse dos meios de produção), ou seja, manter uma classe de produtores diretos que é dominada e expropriada oficialmente para o enriquecimento das classes não produtoras. Oliveira (2006), analisando a formação do chamado modo de produção asiático, como característico desse processo que se inicia com a formação do estado, aponta a origem de elementos importantes para a compreensão da sociedade contemporânea, como a figura do rei e o aparecimento da propriedade estatal da terra:
[...]É graças a essa forma de exploração que surge a figura do rei, o déspota oriental, representante hereditário da função dominante e determinante da função da comunidade superior e marco da prevalência do símbolo de imposição da cooperação entre as comunidades inferiores para a realização do trabalho e da produção. Este mecanismo faz converter o poder de função em poder de exploração. Como as terras são públicas, a sua exploração é uma concessão do Estado. A comunidade aldeã age na unidade produtiva correspondente através do indivíduo, que recebe as terras com direito de exploração, mas com o dever de repartir o produto com o Estado, sob a forma de impostos in natura. A exploração do individuo via comunidade inferior é realizada sob a forma compulsória, o que permite à comunidade superior apropriar-se do excedente de produção e do excedente de trabalho para a consecução das obras públicas. Sob a forma de cooperação, o trabalho compulsório é realizado nas obras hidráulicas (dessecação e irrigação) e nas grandes

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construções (OLIVEIRA, 2006, p. 17).

Semelhante, mas não idêntico, ao modo de produção asiático, nas formações feudais se articulam o aumento do intercâmbio entre os indivíduos através das trocas dos excedentes e a intensificação do caráter social do trabalho, concomitantemente à exploração da força de trabalho, fazendo surgir à necessidade da regulação dessas relações de produção, que encontra na figura do estado o agente defensor dos interesses das classes dominantes no controle e exploração da produção. O surgimento do estado também esta presente na Europa antiga (Grécia e Roma, por exemplo), a partir da criação das cidades comerciais, que mantinham um forte vínculo com o campo. Neste contexto se expande, com o advento da vida urbana, a divisão social do trabalho que, mais uma vez, modifica as condições de produção. Com o desenvolvimento das relações de produção pré-feudal, a aristocracia se forma a partir do critério de hereditariedade que tem sua origem nos clãs dos grupos tribais que assumem a propriedade da terra, como concessão do estado. Marx (1968), em A chamada acumulação primitiva, também n'o capital, analisa esse período desde sua origem, mas principalmente na transição para o capitalismo. Neste texto, Marx analisa a acumulação primitiva de capital, que se constituiu na expropriação e afastamento do produtor direto em relação à propriedade dos meios de produção, criando condições para o assalariamento, pressuposto da produção do tipo capitalista. As condições necessárias para a acumulação capitalista era a transformação das relações sociais de produção que, no feudalismo, era caracterizada numa relação de dependência, servidão e coerção corporativa, onde o trabalhador se encontrava obrigado (jurídica e moralmente) aos mestres de ofício. A expansão dos mercados de troca representou a “liberdade” dos trabalhadores frente essa estrutura econômica feudal, mas também a expropriação dos meios de produção, das garantias feudais, por meio da violência. A sujeição do trabalhador ao capitalista e à condição de assalariamento está presente desde o século XIV com uma diversidade de manifestações, mas a formação clássica se deu na Inglaterra, no século XVI com a expropriação dos produtores rurais (camponeses), dando origem do proletariado (Marx, 1968). Neste processo, Marx destaca os seguintes pontos:

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a) O processo de reforma agrária (dissolução das vassalagens, usurpação de terras comum, expulsão dos camponeses), com finalidade de estabelecer e garantir a propriedade privada como condição da liberdade humana, servia a necessidade de força de trabalho em condição de assalariamento nas nascentes cidades em expansão. Diversas propriedades da igreja e da coroa foram comercializadas, como a transformação de lavouras em pastagens por ser mais lucrativa aos arrendatários5 dessas terras e, por conseqüência, a criação de uma massa de trabalhadores sem as antigas proteções e regulação das relações de trabalho. Esta situação beneficiava a burguesia e a nova aristocracia e “bancocracia” que auxiliavam a burguesia em questões aduaneiras e bancária. b) Já nas cidades os trabalhadores encontraram forte reação por parte dos reguladores sociais (legisladores) quando não podiam ser absorvidos como força de trabalho por incompatibilidade com as novas condições da produção manufatureira. A saída encontrada pelo capitalismo variou desde o escravizamento ou açoite seguido de morte (Inglaterra, p. ex.) até a imposição de suas exigências por meio da educação, tradição e costumes. A legislação do estado procurou regular o salário, a jornada de trabalho, a manutenção da dependência do trabalho ao capital, proibiu as associações dos trabalhadores como necessidade para o rompimento com as corporações de ofício (ideologia da “liberdade” individual). A origem da classe capitalista está no surgimento do arrendatário que detinham a propriedade privada da terra. Para o proprietário da terra (senhor feudal ou chefe do clã) se tornou mais produtivo o arrendamento da terra para pastagem do que a lavoura, e com menor necessidade de força de trabalho. Essa força de trabalho que foi expropriada de seus meios de produção se converteu em consumidores de meios de subsistência ou capital no mercado interno capitalista. Essas são as condições iniciais de expansão do capital industrial, que absorvia da agricultura sua

Marx elucida a formação dessa classe social com o exemplo da Escócia, onde uma “limpeza das propriedades” transformou os chefes dos clãs (landeslord), representantes jurídicos de terras comunais, em proprietários privados de suas terras por meio do emprego direto da violência e a exportação de “rebeldes” à cidades industriais.

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matéria prima. A origem do capitalismo industrial aparece na transformação dos mestres de corporação e alguns poucos assalariados em capitalistas rudimentares localizados próximos aos portos marítimos, com comércio de exportação facilitado, mas os elementos fundamentais da acumulação primitiva de capital estão na exploração de ouro e prata na América (que decorreu no extermínio e escravização dos índios), a conquista e pilhagem nas Índias Orientais e as caçadas lucrativas na África. Os métodos de acumulação ingleses, no século XVII, foram a extração de matéria prima e de força de trabalho escravista do sistema colonial, o crescimento da dividia pública (com o favorecimento financeiro para a burguesia e os intermediários financeiros, estimulou o sistema internacional de crédito e renovou antigas dívidas), o moderno regime tributário favorável ao modo de produção capitalista que onerou os meios de subsistência, caracterizando um ataque à classe trabalhadora, e o protecionismo estatal que garantiu a transição para o modo de produção capitalista.

Especificidades do capitalismo A especificidade do capitalismo, em relação ao processo de trabalho, se manifesta no consumo da força de trabalho como mercadoria por parte do capitalista e o consumo dos instrumentos de trabalho alheio (de propriedade do capitalista) pelo trabalhador ou produtor direto. Marx (1968) afirma que, no início, o capitalista adquire o trabalho como este se apresenta no mercado (ainda feudal), e depois submete o trabalho à dinâmica do capital, modificando sua forma, seu processo de trabalho, fazendo com que tanto os meios de produção quanto a força de trabalho (ambas mercadorias), bem como o produto do trabalho, sejam propriedades (privada) do seu comprador: o capitalista. É esta relação social que caracteriza o modo de produção capitalista, a propriedade privada (expropriação) e a “mercadorização” dos meios de produção e do produto do trabalho. Essa relação econômica tende a obscurecer a relação política entre trabalho e capital, tendo como legitimação e regulação coercitiva o estado. Nessa relação conflituosa estão presentes interesses de classe, que se materializam cotidianamente em questões políticas, econômicas, culturais e psíquicas. Em decorrência da competição entre os capitalistas e da luta da classe trabalhadora contra a dominação e

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exploração burguesa, o capital se vê obrigado a lançar mão de estratégias para ampliar a extração da mais valia e, ao mesmo tempo, tenta driblar a tendência de queda da taxa de lucro. É nesse contexto que a produtividade do processo de trabalho se torna foco principal da estratégia capitalista, manifesta no taylorismo, fordismo e toyotismo. É com a obra de Taylor (1978) que se inicia uma maior racionalização sobre o processo de trabalho. Para a organização científica da produção se efetiva um maior aproveitamento do tempo e do espaço do processo de trabalho, que só foi possível por meio de um maior controle sobre a força de trabalho, onde a busca pela eficiência e controle do trabalho visavam uma maior produtividade. Segundo Braverman (1987), antes da obra de Taylor o controle sobre o trabalho se restringia a fixação de tarefas e menos sobre a execução. É com o taylorismo que o trabalhador se distancia das decisões de como executar as tarefas. O fordismo representou uma massificação desse controle “científico” sobre o processo de trabalho. Agora o controle e a eficiência não se restringem ao caráter individual do trabalho, buscando um controle sobre toda a vida social, desde uma maior concentração da força de trabalho em grandes fábricas, crescente produção de bens duráveis que buscava uma ampliação do consumo - principalmente pelos aumentos dos níveis salariais -, até a regulação do modo de vida da classe trabalhadora (como a concentração de trabalhadores em vilas operárias e o “americanismo”), além do caráter mecanizado e fetichizado do processo de trabalho (Neto, 1989; Navarro e Padilha, 2007; Viana, 2007b). A chamada reestruturação produtiva reúne diversas formas de organização do trabalho, onde o toyotismo foi predominante (Coriat, 1994). No toyotismo se busca a diversificação de mercadorias produzidas pelos trabalhadores, atendendo a demanda consumidora, o que implica numa mudança nas condições de trabalho que acarreta uma maior intensificação do trabalho, pois exige tarefas diversificadas (vide “f lexibilização” da produção, robotização, terceirização, just in time, “multiprofissionalismo”, maior envolvimento no processo de trabalho, etc.), numa jornada prolongada, intensificada e desregulamentada (Pereira, 2009). Dessa forma, as mudanças no mundo do trabalho, em decorrência da reestruturação produtiva, acarretaram transformações no modo como o trabalhador

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manifesta sua vida. A subordinação do trabalho ao capital se materializa no aprofundamento da precarização do trabalho e nas condições de vida da classe trabalhadora; na utilização da inteligência e das capacidades do trabalhador para aumentar a produtividade; e na corrosão da solidariedade de classe, em decorrência da competição do mercado de trabalho.

O presente e o futuro do trabalho O custo da ampliação da interdependência entre os homens, em escala mundial, do aumento da produtividade do trabalho e da produção, da ampliação e desenvolvimento das forças produtivas, implementados pelo capital, é a acentuação da exploração da força de trabalho em processo de intensificação, inserido num modo de produção “que faz com que o trabalhador perca a unidade de suas práticas que lhe dão significado, ou seja, a totalidade da sua vida social se restringe ao do processo produtivo” (Pereira, 2009, p 41). Pode-se constatar ao analisar o processo de trabalho em seu desenvolvimento histórico um modo de intensificação do trabalho, que tem como motivações a busca de maior produtividade e diminuição dos custos da produção, visando à valorização e acumulação do capital. E encontra suas condições históricas num mercado de trabalho cada vez mais competitivo e disciplinador, onde a concorrência entre os trabalhadores parece ser a saída mais usual de burlar o medo do desemprego, fruto, entre outros fatores, da substituição do trabalho vivo por trabalho morto. A vida urbana no capitalismo é de tal forma transformadora que:
A análise do cotidiano urbano da cidade permite-nos concluir sobre a tendência do modo de vida no capitalismo, que afeta as relações sociais e a reprodução social da vida. Viver a urbanidade vem acarretando um encurtamento virtual do espaço e a intensificação do tempo sob forte aceleração do cotidiano. A reprodução do tempo e do espaço na medida em que se reproduz socialmente a vida humana, vem sendo pressionada pelo consumismo mercantilizado do cotidiano, degradando as relações sociais, empobrecendo seus significados, provocando a fragmentação e falta de sentidos da totalidade da vida social. To r n a - s e c a ra c t e r í s t i co d o a t u a l p r o ce s s o d e industrialização/urbanização capitalista, que transforma, “flexibiliza” e

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“reestrutura” constantemente o processo produtivo e as relações sociais de produção, vem impondo a lógica “integral” do capital, ou seja, vem implementando seu projeto social de valorização do capital como modo de vida (PEREIRA, 2009, p. 45).

A dinâmica social contemporânea vem acirrando as contradições entre capital e trabalho, incitando conflitos de gerações (com sobreposição de competências e reconhecimento social dos “jovens” sobre os “velhos”) (Cf. Beaud e Pialoux, 2009), acarretando inseguranças em relação ao futuro das pessoas. Mas vem também proporcionando iniciativas que buscam alternativas ou “apenas” procuram resistir às pressões do capital. As greves e paralisações continuam presente no cotidiano do trabalho, bem como as tentativas de autogestão cooperativa do processo de trabalho. Se ainda incipientes, apresentam em sua essência a protoforma de um processo de trabalho que tem como meio e finalidade a produção e apropriação coletiva do produto do trabalho, humanizando a produção social da vida. Contradições políticas (internas e externas) e econômicas (viabilidade e condições de expansão) precisam ser enfrentadas, mas essas iniciativas, num contexto de mundialização da produção (caráter cada vez mais social do trabalho) e aperfeiçoamento das tecnologias que busquem reduzir a necessidade de tempo de trabalho, podem manifestar a tendência do processo de trabalho, ainda que de forma embrionária, não plenamente desenvolvida, como um processo de trabalho voltado não só para a valorização do capital privado (ou monopolista/estatal), mas para as necessidades verdadeiramente humanas, onde o trabalhador tenha condições de realizar suas potencialidades enquanto ser social, enquanto humano genérico, nas palavras de Marx.

Bibliografia BEAUD, Stéphane e PIALOUX, Michel. Retorno à Condição Operária: investigação em fábricas da Peugeot na França. São Paulo: Boitempo, 2009. BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. CORIAT, Benjamin. Pensar Pelo Avesso. Rio de Janeiro: EDUFRJ/Revan, 1994. MARX, Karl. Para a Crítica da Economia Política. In. Manuscritos Econômico-

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Filosóficos e Outros Textos Escolhidos. 2ª. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. __________. O Capital – crítica da economia política. L. I, v. I e II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. __________. ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002. NAVARRO, Vera Lúcia e PADILHA, Valquíria. Dilemas do Trabalho no Capitalismo Contemporâneo. In. Psicologia & Sociedade. N° 19, 2007. NETO, Benedito M. Marx, Taylor, Ford. São Paulo: Brasiliense, 1989. OLIVEIRA, Carlos Roberto de. História do Trabalho. 5ª. Ed. São Paulo: Ática, 2006. TAYLOR, F.W. Princípios da Administração Científica. 7ª. Ed. São Paulo: Atlas, 1978. VIANA, Nildo. Escritos Metodológicos de Marx. Goiânia: Editora Alternativa, 2007a. ____________. O capitalismo na era da acumulação integral. Barba Ruiva, 2007b. PEREIRA, Leonardo César. A Intensificação do Trabalho e a Reprodução da Vida Cotidiana. 2009. 49f. Monografia (Graduação em Ciências Sociais) – Faculdade de Ciências Sociais, Universidade Federal de Goiás, Goiânia.

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I Simpósio Nacional Marxismo Libertário Marxismo e a visão de mundo dos intelectuais1
Leonardo Venicius Parreira Proto2 “A nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade” (SARTRE, 1978, p. 07).

O presente texto pretende fazer uma reflexão a respeito da relação entre o marxismo e os intelectuais. Relação esta que pauta-se pela visão de mundo desses intelectuais. Por essa razão desenvolveremos um raciocínio que tende a conceituar marxismo, visão de mundo e intelectuais num primeiro movimento do texto, ao passo que num segundo movimento tentaremos correlacionar esses três elementos na perspectiva de compreendê-los dentro de uma totalidade concreta. Nesse primeiro momento vamos aos conceitos. O que é marxismo? Visão de mundo? Intelectuais, e como categorizá-los? O marxismo, e aqui emprestamos às palavras de Karl Korsh (2008, p. 32), é a “expressão teórica do movimento revolucionário do proletariado”. Com essa concepção inicial podemos já “concluir” que não há marxismo se não considerarmos um elemento fundamental: o proletariado revolucionário. Korsh (2008) está a combater com essa visão/concepção as negligências teóricas da social democracia no que tange ao problema da questão da ditadura do proletariado, preocupado com a restauração da “concepção dialética revolucionário do marxismo original” (p. 47).

O texto foi apresentado no Iº Simpósio Nacional Marxismo Libertário, no simpósio temático: Universo Psíquico e Reprodução do Capital, no Campus II da Universidade Federal de Goiás em junho de 2010. 2 Licenciado e bacharel em História pela PUC-GO, especializado em adolescência e juventude no mundo contemporâneo pela Faculdade Jesuíta (FAJE-MG), professor do curso de história da UEG/UnU Iporá , mestrando em História pela UFG, bolsista da CAPES-CNPq, militando do Movimento Autogestionário (MOVAUT) e do grupo de estudo Juventude e Marxismo.

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Para Nildo Viana (2007), o marxismo é uma “teoria da classe revolucionária que busca a transformação social e por isso é incompatível com a ideologia dominante, com a cultura burguesa” (p.12). O marxismo precisa ser considerado como uma práxis (unidade dialética entre pensamento e ação) no movimento histórico. Aqui, vale considerar o que para Marx é história: “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” (1986, p. 17). Na perspectiva de sujeitos históricos, os indivíduos fazem história sob múltiplas determinações e é aí que se trava uma luta de classes, pois as necessidades históricas são diferenciadas e os interesses não são comuns entre as classes. O marxismo, nessa situação, responde por uma concepção de mundo ou visão do proletariado que nega a visão hegemônica da classe dominante e propugna uma filosofia: a práxis. A filosofia da práxis para Gramsci (1987, p. 18) é “uma atitude crítica e polêmica, como superação da maneira de pensar precedente e do pensamento concreto existente (ou mesmo cultural existente)”. Ainda em Gramsci (1987) uma determinada filosofia nada mais é do que expressão da concepção de mundo de dado grupo social (por esse motivo elabora conceitos como hegemonia, bloco histórico, intelectuais tradicionais e orgânicos). Assim, podemos também definir com os pressupostos da relação entre filosofia e concepção de mundo (relação gramsciana) o que vem a ser visão de mundo (?). Para Goldmann (1979, p. 20) “uma visão de mundo é precisamente esse conjunto de aspirações, de sentimentos e de idéias que reúne os membros de um grupo (mais freqüentemente, de uma classe social) e os opõem aos outros grupos”. Nesse conceito é importante ressaltar os interesse e valores fundamentais que são construídos historicamente pelos indivíduos em suas relações sociais. Portanto, os conteúdos fundamentais expressados e produzidos por determinada visão de mundo não são isentos dos interesses de classe. Essa mesma classe que ao opor-se à outra estabelece o que Gramsci chamou de hegemonia (visão dirigida pelo bloco histórico

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preponderante), ou aquilo ao qual Marx denominou como ideologia: falsa consciência da realidade. A supremacia da visão de mundo nessas abordagens (Gramsci-Marx) tanto se daria por processos de homogeneização dos valores e hábitos culturais como estariam submetidos ao ocultamento da verdade objetiva, negando, por exemplo, o processo de exploração no qual o trabalhador está imerso na atual realidade do mundo contemporâneo. Voltando a Goldmann (1979) a visão de mundo depende ou resulta da inserção concreta dos grupos e das classes no “decurso” da história. A noção de realidade concreta é fundamental para dar a visão de mundo uma dimensão de historicidade, de totalidade a partir das múltiplas determinações (MARX, 1983; VIANA, 2007) de uma dada sociedade. A visão de mundo é nesse caso a formulação de pensamentos antagônicos devido a formação e manutenção da sociedade de classes, pois cada classe (burguesia e trabalhadora) produz em suas condições materiais o seu ethos. É importante “situarmos” essa reflexão a partir de um dos grupos sociais que produzem com bastante “freqüência” as visões de mundo. Estamos falando dos intelectuais. O que são? O que produzem? Que papéis desempenham? Quais são seus interesses e a quem estão ligados? Tomo uma definição inicial, feita por Löwy (1979), que considera os intelectuais não como uma classe e sim como uma categoria social, “definida por seu papel ideológico, produtores diretos da esfera ideológica, criadores de produtos ideológico-culturais” (p. 01). Para este, os intelectuais gozam de relativa autonomia relacionados às classes. Ao fazer uma análise sobre o que Lúkacs, nos idos de 1920, reportou-se a intelligentsia, Löwy (1979, p. 05) expõe que os intelectuais como categoria social são “definidos em relação à superestrutura ideológica – compreensível uma evolução para o socialismo devido à mediações ético-culturais e político morais”. Explica-se pelo fato de os intelectuais, na abordagem de Lúkacs estarem ligados a valores qualitativos e não quantitativos, expressando ou formulando nessa categoria social

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uma espécie de anticapitalismo romântico da intelligentsia centro-européia em fins do século XIX e início do XX3. A posição de Löwy (1979) é bastante diferente de um dos seus contemporâneos, Antonio Gramsci (1987), que via o intelectual como sujeito importante na elaboração da concepção de mundo de determinada classe e elemento imprescindível na coexistência e manutenção do bloco histórico (estruturasuperestrutura) e de sua hegemonia político-cultural. Em Gramsci,
“o intelectual nunca é autônomo em relação ao grupo dominante. É definido como representante da hegemonia, funcionário da superestrutura, o que assegura consenso ideológico (comando + hegemonia)” (MACCIOCCHI, 1979, p. 188).

Essa é uma definição, diríamos, conservadora na leitura de Gramsci. Na perspectiva gramsciana, outra abordagem pode ser transformadora, da sua concepção de intelectual. O sujeito-intelectual orgânico do proletariado, ou seja, a negação e a ruptura em relação ao outro tipo de intelectual, pois este assume uma postura militante, de engajamento, e com a qual se liga à classe revolucionária por um pensamento comum (MACCIOCCHI, 1979). O intelectual orgânico representa nesse universo uma nova concepção de mundo = ser/sujeito político, engajado na ação histórica, intelectual militante, colaborando a partir da filosofia da práxis em elevar culturalmente às massas e daí “contribuir” para a formação de um novo bloco histórico, tendo como sujeitos o proletariado revolucionário. Outra análise interessante e com uma visão (de mundo) crítica sobre a intelligentsia é feita pelo polonês Makhaïsky (1866-1926). Sua posição é contrária a social-democracia de Kautsky, tendo ele feito críticas fundamentais ao bolchevismo, considerado como um partido que produziu uma ideologia dos intelectuais (produzindo os ideólogos). Para Makhaïsky, o bolchevismo complexificou e aprofundou a diferença entre trabalho material e intelectual. Para ele, mesmo não

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sendo os intelectuais uma classe possuidora, aproximou-se bastante da vida burguesa. A mais-valia extorquida pelos capitalistas garante segundo sua crítica, uma vida parasitária (MAKHAÏSKY, 1900). A transferência dos meios de produção ao Estado é o ideal dos intelectuais, formando uma burocracia. Em seu texto A Ciência Socialista: nova religião dos intelectuais (1905) pede abolição entre trabalho manual e intelectual, pois não basta abolir a propriedade privada, é necessário também dissipar a divisão entre quem pensa e quem faz. Em outro texto, A Conspiração Operária (1905), fundamenta que o valor de troca é uma motivação para o intelectual para o intelectual vender sua “habilidade” para o capitalista, corroborando no gerenciamento da exploração do operário. “Makhaïsky observa que, sob o bolchevismo, o poder passou dos capitalistas para a intelligentsia na medida em que ela é uma “capitalista do saber” (TRAGTENBERG, 1981, p. 79-80). Nesses textos de Makhaïsky, o intelectual está a serviço da produção da ideologia dominante e da manutenção da estrutura de classes no capitalismo de Estado na Rússia, apresentado sobre a forma da “revolução” bolchevique. A intelligentsia auxilia no processo de dominação, o que para Viana (2006) constitui historicamente como uma classe auxiliar da classe dominante, com uma característica particular na divisão social do trabalho, ao poder dedicar com exclusividade ao trabalho intelectual. O intelectual produz ideologia (ligado aos interesses da classe à qual está vinculado) e não possuem autonomia, pois seus interesses estão diretamente projetados, comprometidos, para manter privilégios próprios e da classe que representa.

A idéia de um anticapitalismo romântico dos intelectuais e a relação entre quantitativo-qualitativo encontra explicação na dimensão dos valores, pois para os intelectuais desse período, o mais importante eram os valores e ideais do humanismo burguês, então, valorizava entre a intelligentsia o valor de uso (por exemplo, no valor moral dado a uma obra de arte) e negava-se o valor de troca, expressado nos valores quantitativos inerentes a formação de valores capitalistas, devido ao modo de produção (LÖWY, 1979).

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Segundo Viana (2006), outra perspectiva para os intelectuais também é elaborada, a luta pela transformação social, que é o motivo fundamental do engajamento dos intelectuais para estabelecer junto à classe trabalhadora um projeto de emancipação humana. Isso só é possível com a luta revolucionária que vem a partir do proletariado. Por último, como correlacionar marxismo com a visão de mundo dos intelectuais? Para Rubim (1988), qualquer análise sobre o marxismo (sua visão) não pode abstrair a unidade entre teoria e prática, compósito e político. Traz uma discussão feita por Gramsci de que todos são intelectuais, mas apenas alguns exercem as funções de intelectuais, na dinâmica da divisão social do trabalho. O próprio marxismo é uma visão de mundo compartilhada pelos intelectuais ditos marxista se os mesmos a considerarem em sua práxis:
“a consciência teórica da história da humanidade ou a concepção materialista da história da humanidade como uma totalidade complexa que possui como determinação fundamental o modo de produção” (VIANA, 2007, p. 79).

A intelectualidade, no caso do marxismo, tem como papel primordial no conjunto da luta de classes, a co-responsabilidade na formulação de uma visão de mundo voltada para a formação de um projeto coletivo revolucionário, na luta pela auto-realização dos sujeitos históricos, incentivando o desenvolvimento da potencialidade dos indivíduos no âmbito da totalidade social.

Referências GOLDMANN, Lucien. Dialética e cultura. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

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_______________. A concepção dialética da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987. KORSCH, Karl. Marxismo e filosofia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008. LÖWY, Michael. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários: a evolução política de Luckács. São Paulo: LECH, 1979.

MACCIOCCHI, Maria-Antonietta. A favor de Gramsci. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. MAKHAÏSKY, J. W. O socialismo de Estado. In: Marxismo heterodoxo. São Paulo: Brasiliense, 1981. _______________. A ciência socialista: nova religião dos intelectuais. In: Marxismo heterodoxo. São Paulo: Brasiliense, 1981. _______________. A conspiração operária. In: Marxismo heterodoxo. São Paulo: Brasiliense, 1981. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro, 2002. SARTE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1978. VIANA, Nildo. A intelectualidade como classe social. REA, nº 63, agosto de 2006, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/063/63esp__viana.htm VIANA, Nildo. A consciência da história: ensaios sobre o materialismo históricodialético. 2 ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.

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Conselhismo e Bordiguismo: contribuições, limites e contradições
Lucas Maia
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Resumo: Este texto objetiva discutir a relação entre bordiguismo e conselhismo, procurando determinar onde estas tendências confluem e onde se distanciam. Para tanto, foi necessário realizar uma análise histórica no sentido de apresentar os principais elementos constituintes de ambas as tendências. Após a leitura da constituição do bordiguismo e do conselhismo, demonstramos os fundamentos teóricos norteadores de ambas as perspectivas apontando onde cada uma contribui com a luta do proletariado, bem como demonstrando onde principalmente a perspectiva bordiguista prejudica a luta autônoma do proletariado. Entendemos que o bordiguismo, dependendo do contexto histórico, ora se aproxima, ora se distancia da perspectiva conselhista. Demonstrar estas nuances de ambas as tendências é importante pois clareia, em certa medida, as confusões que pairam nos debates em torno desta questão. Esta pesquisa foi realizada a partir de pesquisa bibliográfica em textos especializados na matéria. Palavras-chave: Marxismo; Comunismo de Conselhos; Bordiguismo. Este texto objetiva discutir a relação entre bordiguismo e conselhismo, procurando determinar onde estas tendências confluem e onde se distanciam. Para tanto, foi necessário realizar uma análise histórica no sentido de apresentar os principais elementos constituintes de ambas as tendências. Após a leitura da constituição do bordiguismo e do conselhismo, demonstramos os fundamentos teóricos norteadores de ambas as perspectivas apontando onde cada uma contribui com a luta do proletariado, bem como demonstrando onde principalmente a perspectiva bordiguista prejudica a luta autônoma do proletariado. Entendemos que o bordiguismo, dependendo do contexto histórico, ora se aproxima, ora se distancia da perspectiva conselhista. Demonstrar estas nuances de ambas as tendências é
Prof. do Instituto Federal de Goiás. Membro da Associação dos Geógrafos Brasileiro – Seção Goiânia. Militante do Movimento Autogestionário. E-mail: maiaslucas@yahoo.com.br.
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importante pois clareia, em certa medida, as confusões que pairam nos debates em torno desta questão. A tendência bordiguista constrói-se em torno da militância teórica e prática de Amadeu Bordiga. Bordiga entra no Partido Socialista Italiano – PSI – em 1910. Considerando que o partido estava abandonando sua posição socialista, funda uma ala denominada “marxistas intransigentes”. Sempre em oposição ao que denominava de direita do partido, Bordiga desenvolve sua militância num clima de oposição, mas ao mesmo tempo de busca em evitar ao máximo a criação de fração dentro do partido. Isto não impediu, contudo, que em 1912, um conjunto considerável que estava em torno dele saísse em bloco do PSI. Criou por esta época O “Círculo Socialista Karl Marx”. O curioso é que a ala reformista em 1914 sai em bloco do partido e ele retorna assumindo cargos de direção. Em 1918, a tendência “marxismo intransigente” de Bordiga une-se à tendência “comunista abstencionista”, formando uma importante ala dentro do partido. Em 1921 funda-se o Partido Comunista Italiano – PCI, como seção da III Internacional. Bordiga irá exercer grande influência no desenrolar das atividades e concepções do PCI. Como membro do partido dentro da Internacional Comunista, Bordiga defendia a todo custo a permanência do partido dentro do seio da Internacional, pois acreditava que a única forma de articulação internacional do movimento revolucionário do proletariado passava por ali. Não concebia um movimento revolucionário sem partido e nem sua articulação mundial sem a Internacional2. Bordiga defendeu o partido durante toda sua vida como a única organização capaz de conduzir o proletariado rumo à revolução: “O verdadeiro instrumento da luta de libertação do proletariado, e primordialmente da conquista do poder político, é o partido de classe comunista” (Bordiga, 1981, p, 185a) (grifos no original). Como defensor de várias teses de Lênin, foi um caloroso crítico de Lênin quando este buscava impor suas concepções acerca da revolução russa para outros países, principalmente na Europa. Foi criticado no panfleto “O Esquerdismo: doença infantil do comunismo” de Lênin, pois defendia o abstencionismo. Procurou a todo custo diferenciar-se tanto dos autores que vinham na esteira da organização

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conselhista dos trabalhadores na Alemanha, Holanda e na própria Itália, como também dos anarquistas em sua crítica ao parlamentarismo. Afirmou na sua polêmica com Lênin no II Congresso da III Internacional:
Enfim, desde que se reconheceu as teses por mim propostas apóiam-se em princípios puramente marxistas e não têm nada em comum com os argumentos anarquistas e sindicalistas contra o parlamentarismo, espero que sejam votadas pelos companheiros antiparlamentaristas que as aceitam em bloco e no seu espírito, endossando as considerações marxistas que lhes servem de base (Bordiga, 1981, p. 198b)

Nestes dois pontos vemos as aproximações e distanciamentos profundos entre os conselhistas e as posições de Bordiga. Se Bordiga era abstencionista, os conselhistas também o eram. Ambos viam no parlamento burguês nada mais que a representação do poder burguês. Tanto para fins de transformação como defendia a social-democracia, como para fins de propaganda como defendia o bolchevismo, a atuação no parlamento era essencialmente contra-revolucionária. Diria Bordiga, sobre a constituinte:
É uma assembléia nacional, eleita, se quisermos, por ampla margem de votos, que, como tem função legislativa, é chamada a discutir e estabelecer uma nova constituição política do estado. Trata-se da ampliação máxima do conceito burguês de soberania popular (Bordiga, 1981, p. 178a) (Grifos meus).

A posição dos conselhistas com relação ao parlamentarismo é bastante clara, visto que estes o vêem como única e exclusivamente um palco da luta política burguesa, devendo ser, portanto, completamente rejeitado pelo proletariado quando em luta. Nos alongaremos um pouco mais sobre esta questão mais adiante. De qualquer forma, há neste aspecto uma confluência entre a posição de Bordiga e dos conselhistas. Com relação ao segundo aspecto, o partido político, há um total antagonismo entre as duas concepções. Bordiga o defendeu até o fim de sua militância, os conselhistas se constituíram enquanto tal negando completamente os partidos: social-democratas, bolcheviques e todos os outros.

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Para uma análise da constituição do bordiguismo cf. (Bourrinet, [1980], 1998).

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O relacionamento entre Bordiga e a esquerda germano-holandesa (Otto Rhüle, Anton Pannekoek, Herman Gorter etc.) se dará em torno fundamentalmente deste debate. Veja por exemplo a avaliação que Bordiga faz do KAPD3 em 1920:
El partido politico, según la oposición, no tiene una importancia preponderante en la lucha revolucionaria. Esta deve desarrolarsse en el terreno económico, sin dirección centralizada... (esta tendencia) niega toda importancia a la acción politica y a la del partido em general, es decir, (niega el) partido politico como instrumento central de la lucha revolcuionaria y de la dictadura del proletariado (Bordiga citado por Bourrinet, [1980], 1998, p. 37).

Outra divergência de fundo que aparece não mais somente com relação a Bordiga, que abandona sua militância em 1926 só retornando em 1944, mas com os bordiguistas propriamente ditos, ou seja, aqueles que eram partidários de todas ou de algumas teses deste autor, diz respeito à apreciação com relação à revolução russa. Dois grupos: “Réveil Communiste” e “L´Ouvrier Communiste”, no final dos anos de 1920 e início da década de 1930 apresentaram algumas semelhanças com relação à esquerda germano-holandesa: crítica dos partidos, do parlamento, defesa dos conselhos operários etc., mas divergiram quanto à natureza do processo que se deu na Rússia, principalmente a partir de outubro de 1917, quando os bolcheviques deram o golpe de estado. Para os conselhistas, a revolução russa após outubro de 1917 foi uma ação blanquista, jacobina, burguesa, visto caracterizar-se primordialmente pela tomada do poder de estado pelos bolcheviques via golpe de estado. A partir deste momento, criou-se as condições para que o Partido Comunista criasse forças institucionais para paulatinamente tomar todo o poder dos soviets ou conselhos operários. Os bordiguistas italianos viam ainda o caráter proletário da revolução russa, só identificando a contra-revolução após a publicação da Nova Política Econômica – NEP no décimo Congresso do Partido Comunista Russo ocorrido em 1921. Estes dois grupos, muito influenciados pela esquerda germano-holandesa, não passavam de uma pequena minoria que se aglutinou em torno de Papalardi e realizaram uma certa atividade de 1927 a 1931. Posteriormente, a esquerda italiana afirma cada vez mais suas divergências com estes grupos, articulando-se em torno de

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Otorrino Perrone e Hardt Michell, que aprofundam as teses de Bordiga. O desenvolvimento desta esquerda acompanha naturalmente o desenrolar das lutas de classes em escala internacional. A emergência do fascismo em vários países europeus representa um grave recuo das organizações operárias, ficando estas reduzidas a pequenos grupúsculos. A esquerda italiana foi um destes. Isto não impediu, contudo, que os anos de 1930 e 1940 significassem um período de balanço e discussões teóricas sobre o prosseguimento das lutas de classes, as possibilidades revolucionárias, o desenvolvimento capitalista etc. É justamente nestas décadas que a esquerda bordiguista italiana publica alguns periódicos que ilustram bem esta característica. São eles: Prometeo, Bilan, Communisme e Octubre. Estes periódicos são a expressão clara da perspectiva bordiguista até a segunda guerra mundial. Em que pese não tenham tido polêmicas diretas com os conselhistas, suas teses divergem em vários aspectos das concepções defendidas por estes autores. Vamos destacar aqui a questão do partido, dos sindicatos e da revolução russa. Com relação ao partido, não há muito o que dizer, já que a posição que estes bordiguistas defendem é a mesma de Bordiga. Tal como afirma Bourrinet: “Para la izquierda italiana, sin partido revolcionario no podia haber revolución” (Bourrinet, [1980], 1998, p. 140). Em que pese a noção de partido fosse leninista, os bordiguistas não pouparam críticas à política leninista dentro da III Internacional com a idéia de bolchevização, criação de células do partido, criticaram o centralismo democrático etc. Defendiam a idéia de centralismo orgânico, segundo a qual não haveria na Internacional uma federação de partidos comunistas, mas sim um único partido comunista internacional com ramificações em vários países do mundo. Mas o que é central aqui é assinalar a profunda divergência entre a tendência bordiguista e a conselhista, neste período, no que se refere ao partido político.

KAPD – Partido Comunista Operário Alemão. Dissidência do KPD – Partido Comunista Alemão. Este é dissidência do USPD – Partido Social Democrata Independente da Alemanha, que por sua vez é dissidência do SPD – Partido Social-Democrata da Alemanha. Está nas declarações de fundação do KAPD que ele não é um “partido no sentido tradicional do termo”, ou seja, embora tenha mantido o uso da palavra partido, suas práticas e concepções em nada se aproximam de um partido político. Para mais informações sobre a formação da esquerda germano-holandesa Cf. (Authier, 1975).

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Com relação aos sindicatos, a posição dos bordiguistas já não é tão unívoca quanto com relação ao partido. Seu posicionamento oscilou entre a aceitação da participação nestes organismos, mesmo reconhecendo suas limitações, à total recusa da organização sindical, identificando-a como mera organização burguesa. A primeira perspectiva defende a idéia segundo a qual os sindicatos são organizações importantes para a luta de classes do proletariado na medida em que se encarrega das lutas cotidianas, de reivindicações econômicas. Ou seja, a partir dos sindicatos, o proletariado jamais chegaria a uma prática revolucionária, tal como defende o anarco-sindicalismo. Esta se daria somente por intermédio do partido. A segunda defende a tese segundo a qual os sindicatos são meras organizações burguesas e não têm nenhum valor na luta do proletariado em busca da sua emancipação. Esta leitura dentro da tendência bordiguista veio principalmente da fração belga da esquerda italiana, pois de acordo com Bourrinet esta sofreu um pouco de influência da esquerda germano-holandesa no que se refere à questão sindical. Deste modo, a posição da tendência bordiguista neste período, no que se refere à questão sindical não é unitária, aproximando-se e afastando-se simultaneamente dos conselhistas, que viam nos sindicatos nada mais nada menos do que uma organização completamente enquadrada dentro dos limites e condições de reprodução burguesas. Não são outra coisa senão os responsáveis por negociar o valor da força de trabalho, reproduzem a relação dirigentes/dirigidos, são compostos por uma burocracia que se apropria de parte da mais valia produzida pelo proletariado etc. Com relação à avaliação da revolução russa, como já notamos, os grupos “Réveil Communiste” e “L´Ouvrier Communiste” chegaram, pela grande influência que tinham da esquerda germano-holandesa à idéia de que a revolução russa havia chegado ao fim em 1921 com a publicação da NEP. Entretanto, para a esquerda subseqüente, nos anos de 1920 e 1930, a identificação da Rússia como sendo um país capitalista de estado era mais complicado. Não podia conceber que a Rússia fosse capitalista, pois isto colocaria em cheque o partido bolchevique e o “estado operário”. Não admitia que na Rússia houvesse uma classe dominante, a burocracia era no máximo uma classe parasitária. Para a esquerda italiana, os desvios burocráticos da

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URSS deviam-se não a existência de um capitalismo de estado, mas sim ao fato de a contra-revolução mundial impedir o avanço da revolução que se instalou na Rússia. É claro que este é um subterfúgio para não reconhecer o caráter contra-revolucionário do bolchevismo. Mas era inevitável não considerar os acontecimentos internos à Rússia para explicar seu desenvolvimento em direção ao capitalismo de estado. Foi de fato o caminho que percorreu a esquerda italiana. Afirmam em seu periódico Octubre em 1939: “la industria estatal muy bien puede metamorfosearse en capitalismo de estado, en una negación brutal de la classe obrera, sin que por ello sea necessario reafirmar el régimen burgués de la propriedad privada” (Octubre citado por Bourrinet, [1980], 1998, p. 151). Os conselhistas, como já assinalamos, apontam o caráter burguês da revolução russa desde 1920, quando Pannekoek a qualificou de blanquista. Todos os outros conselhistas dirigiram várias críticas ao regime que se estabeleceu na Rússia após o golpe de estado de outubro de 1917. A perspectiva bordiguista desenvolveu-se, mas mantendo sempre alguns de seus princípios. Dentre eles o principal foi sua interpretação com relação ao modo de produção capitalista: sua dinâmica e sua superação. Com relação à análise dos partidos, sindicatos etc. as interpretações variam. Ora defendem a participação nos sindicatos, ora não; ora concordam que o partido é a única forma de se chegar à revolução proletária, ora são críticos ardorosos desta organização etc. Agora, com relação à leitura da transformação capitalista no modo de produção comunista, entendem que este emerge da “crise final” do capital, como falava Bordiga ou da “caducidade do valor” como fala Barrot (Viana, 2001). O bordiguismo centra sua análise no movimento do capital. Centra sua leitura no maisvalor e na reprodução ampliada do capital e suas contradições. Identifica que o capitalismo tende a se auto-diluir, ou seja, vê a destruição do capitalismo, mas não consegue enxergar a construção do comunismo ou da autogestão social. De acordo com Viana: “com o bordiguismo corremos o risco de compreender o movimento do capital, mas não o engendramento do comunismo” (Viana, 2001, p. 33).

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Neste âmbito, a relação dos bordiguistas com os conselhistas é polêmica. Authier (1975) afirma que:
O movimento comunista alemão limitou-se à afirmação e à análise das suas tácticas, assim como à defesa de formas de organização que considerariam e deveriam necessariamente considerar o movimento revolucionário proletário situado nas condições do capitalismo de então, cuja expressão dominante (do ponto de vista do revestimento técnico que envolve as diferentes fases de desenvolvimento da relação social capital) era a grande empresa, o capital produtivo e o seu ciclo (Authier, 1975, p. 14).

E acrescenta logo em seguida:
(...) a ideologia do conselhismo de autogestão, a qual se limita a adorar a idéia dos conselhos e não pensa libertar o proletariado da sua condição proletária, impondo-lhe apenas o trabalho suplementar de gerir a sua própria miséria (Authier, 1975, p. 15).

E encerra sua concepção: “A reafirmação do conteúdo do comunismo constitui a tarefa do momento atual. O conselhismo e a autogestão tornaram-se hoje a ideologia dos capitalistas conscientes” (Authier, 1975, p. 15). O grande problema é que em momento algum consegue dizer que conteúdo é este. O bordiguismo na sua variante moderna mais crítica não consegue sair do aspecto de crítica do capitalismo. Na verdade, a afirmação do conteúdo do comunismo é somente a afirmação da crítica do capitalismo. Isto é tão verdadeiro que vemos em (Barrot & Martin, 1997) a seguinte afirmação tratando da obra de Bordiga: “em 1960, ele afirmou que toda a obra de Marx era uma descrição do comunismo. Este é, indubitavelmente, o comentário mais profundo feito sobre Marx” (Barrot & Martin, 1997, p. 154). Se Marx afirmou que o comunismo é o movimento que abole a sociedade capitalista, ou seja, define-o através de uma negação, também afirmou que a Comuna é forma historicamente encontrada pelo proletariado no sentido da constituição do “autogoverno dos produtores”, ou seja, definiu o comunismo através de uma afirmação positiva. O que os bordiguistas vêem no movimento comunista é simplesmente, o que não é pouco, o caráter de negação comunista da sociedade capitalista. Entretanto, não conseguem vislumbrar positivamente o processo de

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engendramento do comunismo. É precisamente neste aspecto que a perspectiva conselhista só pode se estabelecer em polêmica com o bordiguismo. Os conselhos operários não são uma forma de “gerir a sociedade capitalista”, tal como Barrot e Martin afirmam, nem muito menos são para o proletariado um “trabalho suplementar de gerir a sua própria miséria”, como afirma Authier. Muito pelo contrário, os conselhos operários são simultaneamente a negação da sociedade capitalista e a afirmação positiva do comunismo; em outras palavras, são os órgãos de luta do proletariado no processo de destruição do capitalismo e os embriões dos órgãos de gestão coletiva da sociedade comunista ou autogerida. É claro que não se trata aqui de fazer uma exaltação da forma-conselho, pois tal como Pannekoek já havia alertado, os conselhos operários não são uma forma pronta e cristalizada, que só precisaria de alguns acertos para melhorar, trata-se na verdade de um princípio e este é o da autogestão social, ou seja, o domínio da vida como um todo pelos produtores livremente associados. Se os conselhos se corrompem, tal como ocorreu com vários deles durante a revolução alemã de 1918 a 1921 ou se se burocratizam, como ocorreu com os sovietes russos etc. devem ser duramente combatidos. Deste modo, quando falamos em conselhos operários, não apresentamos uma fórmula pronta e acabada, mas sim um princípio segundo o qual os trabalhadores em luta tomam em suas mãos seu destino e se auto-educam no sentido de se tornarem seres conscientes para a organização da vida em sua totalidade e plenitude na sociedade futura.

Referências AUTHIER, Denis. Para a história do movimento comunista na Alemanha de 1918 1921. In: ______ (org.). A esquerda alemã (1918-1921). Porto: Afrontamento, 1975. BARROT, Jean & MARTIN, François. Eclipse e re-emergência do movimento comunista. Disponível em: http://geocities.com/autonomia.abvr, acesso em 10/05/2006. BORDIGA, Amadeo. A constituinte?. In: TRAGTEMBERG, Maurício. Marxismo

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heterodoxo. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 177-180 ______. Réplica a Lênin sobre o problema do abstencionismo, no segundo congresso mundial. In: TRAGTEMBERG, Maurício. Marxismo heterodoxo. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 197-198 BOURRINET, Philippe. La izquierda comunista de Itália (1919-1999): historia de la corriente “bordiguista”. Disponível em: http://www.left-dis.nl, acesso em 15/11/2007. VIANA, Nildo. Bordiguismo, conselhismo e nós. Revista Ruptura, Goiânia, ano 8, nº 07, p. 32-41, ago. 2001. 12

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Alienação como antítese da emancipação humana
Lucas Morato Dias Cardeal1 Resumo: Retomar e aprofundar o debate sobre a problemática da alienação ou estranhamento é de fundamental importância para compreendermos qual é o sustentáculo e quais as conseqüências das relações sociais de produção capitalistas, ou seja, do imperativo do capital que procura sempre valorizar-se, do trabalho assalariado e da propriedade privada. Nesse artigo retomamos a construção do conceito de alienação em Marx a partir dos Manuscritos de 1844, de seu refinamento conceitual presente na Ideologia Alemã e no O Capital, com o intuito de desmistificar o trabalho como mero processo natural, simples metabolismo entre homem e natureza, situando que, no capitalismo, é trabalho alienado ou estranhado que reifica (coisifica) o homem, desvirtuando as características humanas do próprio trabalho. Resgatado o conceito de alienação em Marx percebemos que dado o atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas e o aprofundamento do processo de alienação humana, mais do que nunca se faz necessária a organização política da classe trabalhadora, cuja síntese é o partido, campo de gestação de uma reforma intelectual e moral para uma nova cultura, a emancipação humana, a superação da alienação em todas as suas facetas. E para isso o programa de reforma intelectual e moral deve estar organicamente ligado ao programa de reforma econômica, pois este é exatamente o modo pelo qual se objetivará a reforma intelectual e moral. Palavras chaves: Alienação, emancipação humana, reforma intelectual e moral, partido.

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Graduando em Ciências Sociais na Universidade Federal de Uberlândia.

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1. Um Breve resgate da categoria alienação em Marx 1.1. Alienação e estranhamento Julgamos importante esclarecer que, para melhor compreensão do debate sobre alienação em Marx, utilizamos a diferenciação entre alienação e estranhamento proposta por Ranieri em seu livro A Câmara escura. O autor defende o posicionamento, e aqui concordamos com ele, de que a noção que Marx tem de alienação (Entäusserung) é distinta da de estranhamento (Entfremdung). Pois a palavra alemã Entäusserung está vinculada a noção de “atividade, objetivação, exteriorização histórica do ser humano”; já Entfremdung está em oposição à alienação, expressa os “obstáculos sociais que impedem que a primeira [Entäusserung] se realize em conformidade com as potencialidades do homem”, e que “dadas as formas históricas de apropriação e organização do trabalho por meio da propriedade privada, a alienação apareça como um elemento concêntrico ao estranhamento”. Ranieri acrescenta que o estranhamento é formado a partir do momento em que um determinado segmento social, o que não produz, se apropria da produção, daquele que produz; e isso “na medida em que este conflito entre apropriação e expropriação é aquele que funda a distinção socioeconômica e também política entre as classes” (Ranieri, 2001, p.7-8). Para melhor compreender o lugar de cada um dos termos, alienação e estranhamento, na teoria marxiana, Ranieri resgata sua etimologia:
Entäusserung tem o significado de remissão para fora, extrusão, passagem de um estado a outro qualitativamente diferente, despojamento, realização de uma ação de transferência. Nesse sentido, Entäusserung carrega o significado de exteriorização, um dos momentos da objetivação do homem que se realiza através do trabalho num produto de sua criação. Por outro lado, Entfremdung tem o significado de real objeção social à realização humana, na medida em que historicamente veio a determinar o conteúdo das exteriorizações (Entäusserunge) por meio tanto da apropriação do trabalho como da determinação desta apropriação pelo surgimento da propriedade privada (idem, p.24).

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Usaremos essa diferenciação ao longo de todo o presente artigo, com o intuito de melhor compreendermos a teoria marxiana. Faremos um breve resgate do debate da alienação nos Manuscritos econômico-filosóficos, em seguida algumas ponderações presentes na Ideologia Alemã e sua sistematização mais refinada presente no O Capital. 1.2. Os Manuscritos de Paris Os Manuscritos econômico-filosóficos, Manuscritos de Paris, ou simplesmente Manuscritos de 18442 compõe um importante momento no desenvolvimento do pensamento de Marx. Pois demarcam seu primeiro contato aprofundado com a economia política, que ele critica utilizando suas categorias lógico-filosóficas antes utilizadas apenas em suas críticas políticas. Giuseppe Bedeschi destaca que
“[...] é nesse texto que se estabelece o método de Marx, que consiste em interpretar e decifrar as estruturas e os problemas da sociedade moderna à luz de algumas categorias lógico-filosóficas (contradição dialética, objetivação/alienação, negação da negação, etc.). [...] constituem documento precioso para os que se interessam pela gênese da concepção marxiana e, uma vez nela introduzidos, pela investigação científica mediante a crítica ético-política, pela análise econômica mediante a teoria revolucionária. É uma mútua implicação que caracteriza todas as obras maduras de Marx [...]” (BEDESCHI, 1989, p.41-42).

Os Manuscritos possuem contribuições muito vastas, orientados pela crítica ético-polítco-econômica de Marx ao modo de produção capitalista, e nesse artigo não temos a pretensão de explorar todas elas, então optamos por resgatar, breve e sucintamente, algumas das contribuições que Marx nos deixou a respeito da condição de estranhamento, sua conexão com a propriedade privada, o salário e sua possível superação como emancipação humana universal. Não é possível compreendermos o fundamento do trabalho estranhado se
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Os Manuscritos foram escritos em Paris entre março e setembro de 1844.

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ocultarmos as relações antagônicas entre as duas principais classe que compõe a sociedade capitalista, ou seja, o trabalhador, que nada possuir para trocar além de sua força de trabalho, e o burguês, que é dono dos meios de produção e de dinheiro para comprar a força de trabalho de outrem, e assim ser dono do produto do seu trabalho. Quando o trabalhador vende sua força de trabalho no mercado a vende como mercadoria, diz Marx
“[...] o trabalhador baixa à condição de mercadoria e à de mais miserável mercadoria, que a miséria do trabalhador põe-se em relação inversa à potência (Macht) e à grandeza (Grösse) da sua produção, que o resultado necessário da concorrência é a acumulação do monopólio, que no fim a diferença entre o capitalista e o rentista fundiário (Grundrentner) desaparece, assim como entre o agricultor e o trabalhador em manufatura, e que, no final das contas, toda a sociedade tem de decompor-se em duas classes dos proprietários e dos trabalhadores sem propriedade.” (Marx, 2009, p.79)

Quanto mais riqueza o trabalhador produz mais pobre ele se faz, pois sua força de trabalho objetivada, exteriorizada (alienada), gera um produto que não lhe pertence como se lhe fosse independente, estranho a ele, que lhe defronta. A objetivação do trabalho se faz, então, “perda do objeto e servidão ao objeto, a apropriação como estranhamento (Entfremdung), como alienação (Entäusserung)” (idem, p.80). Com a valorização do mundo das coisas cada vez mais se desvaloriza o mundo dos homens. A objetivação do trabalho não tem como único resultado a produção de mercadorias, ela é o modo pelo qual a lógica do capital se reproduz, pois produz tanto a si mesma quanto ao trabalhador como uma mercadoria, na medida em que cria, de fato, mercadorias em geral, isto é com o objetivo de obter lucro, e não de atender as necessidades do trabalhador. “[...] quanto mais o trabalhador se desgasta trabalhando (ausarbeitet), tanto mais poderoso se torna o mundo objetivo, alheio (fremd) que ele cria diante de si, tanto mais pobre se torna ele próprio” (idem, p.81). Marx continua sua análise introduzindo um segundo elemento, que é mesmo

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anterior ao que foi exposto.
“[...] o estranhamento não se mostra somente no resultado, mas também, e principalmente, no ato da produção, dentro da própria atividade produtiva. Como poderia o trabalhador defrontar-se alheio (fremd) ao produto da sua atividade se no ato mesmo da produção ele não se estranhasse a si mesmo? O produto é, sim, somente o resumo (Resumé) da atividade, da produção. Se, portanto, o produto do trabalho é a exteriorização, então a produção mesma tem de ser a exteriorização ativa, a exteriorização da atividade, a atividade da exteriorização.” (idem, p. 82)

Para que o trabalhador não se identifique com o produto do seu próprio trabalho ele já se encontra estranhado de si no próprio ato da produção. Quando ele põe a venda sua força de trabalho como uma mercadoria, ele alheia sua capacidade de trabalho para outrem, como se ela não o pertencesse mais durante o período de sua jornada de trabalho. O que se materializa no fato de ele não produz para satisfazer uma necessidade pessoal, mas para satisfazer necessidades externas a ele. O trabalho é trabalho forçado, não voluntário, “[...] não é uma feliz confirmação de si, desenvolvimento de uma livre energia física e espiritual, [...] A conseqüência é uma profunda degeneração nos modos do comportamento humano” (BEDESCHI, 1989, p.47).
“chega-se, por conseguinte, ao resultado de que o homem (o trabalhador) só se sente como [ser] livre e ativo em suas funções animais, comer, beber e procriar, quando muito ainda habitação, adornos etc., e em suas funções humanas só [se sente] como animal. O animal se torna humano, e o humano, animal” (Marx, 2009, p.83).

Se sente como animal pois sua própria atividade vital, o trabalho, lhe é estranho, possui fins determinados que lhe são impostos externamente e cada vez mais perde a consciência (o domínio) do processo produtivo. O trabalho estranhado produz o estranhamento do homem de si mesmo e da natureza, pois o trabalhador não identifica a natureza enquanto parte de seu próprio corpo, enquanto corpo inorgânico, ele vive dela tanto como fonte de alimento direto como de meio de

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trabalho, mas ela não pertence a ele e sim a um proprietário (a outro homem). O que é uma grande vantagem do homem sobre os animais – poder fazer de toda a natureza extra-humana seu corpo inorgânico na medida em que ele mesmo se faz universal – volta-se contra ele, pois cada vez mais, com o desenvolvimento universal do trabalho capitalista, a natureza escapa ao trabalhador e é apropriado pela classe que não trabalha.
“Na medida em que o trabalho estranhado 1) estranha do homem a natureza, 2) [e o homem] de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade vital; ela [3] estranha do homem o gênero [humano]. Faz-lhe da vida genérica apenas um meio da vida individual. [...] A vida mesma aparece só como meio de vida.” (idem, p. 84)

O homem não percebe a si mesmo como um ser que pertence a um gênero, está confinado em sua individualidade, também seu corpo lhe é estranho, suas faculdades espirituais, assim como toda natureza fora dele. A mediação fundamental entre homem e natureza, o trabalho, é a mesma para a relação entre os homens, e se ela possui como fundamento o trabalho estranhado, é porque os homens impuseram isso uns aos outros. Nos termos de Marx, “o ser estranho ao qual pertence o trabalho e o produto do trabalho, para o qual o trabalho está a serviço e para a fruição do qual [está] o produto do trabalho, só pode ser o homem mesmo” (idem, p. 86). Não são os deuses, uma fatalidade da natureza, ou qualquer força externa ao mundo humano que impõe esse modo de trabalho aos homens, são eles mesmos; é produto de um desenvolvimento histórico específico, e justamente por isso há possibilidade de superação, de transcendência do auto-estranhamento do trabalho, o que só pode ocorrer através de uma intervenção consciente na história. Como conseqüência do trabalho estranhado surge a propriedade privada, do ser que confinado em sua individualidade, estranho ao seu próprio gênero, toma como sendo sua propriedade tanto a natureza como o trabalho de outros homens.
“A propriedade privada, como a expressão material, resumida, do trabalho exteriorizado, abarca as duas relações, a relação do trabalhador com o trabalho e com o produto do seu trabalho e com o não-trabalhador, e a

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relação do não-trabalhador com o trabalhador e [com] o produto do trabalho deste último.” (idem, p. 90)

A propriedade privada não é fundamento do trabalho estranhado, como muitos economistas supuseram, mas antes uma conseqüência do mesmo. O que mais tarde se transforma em ação recíproca, que se auto perpetua, mas apenas depois de já consolidado o trabalho estranhado. Marx chega a essa compreensão do trabalho como trabalho estranhado, e assim do auto-estranhamento do homem, a partir das condições objetivas, precárias e desumanas, que a classe trabalhadora – das minas de carvão, das fábricas, etc. – estava submetida já em sua época. O que queremos ressaltar é que a categoria lógicofilosófica da alienação e estranhamento assume um papel essencial na teoria marxiana, não é apenas um recurso estilístico ou retórico (BEDESCHI, 1989, p. 49). Entendemos que dado o atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas em que o capital continua regendo a dinâmica de produção e reprodução da vida material e espiritual dos homens, a categoria alienação cunhada por Marx é importante instrumento para que possamos captar a essência das relações de produção capitalistas. 1.3 A Ideologia Alemã e O Capital Neste tópico nos reteremos a um breve resgate de duas importantes 3 4 contribuições que Marx elabora em suas obras, A Ideologia Alemã e no O capital . Reconhecemos que as contribuições dessas duas obras são muito vastas para o tema explorado por esse artigo, e escolhemos apenas essas duas breves passagens com o intuito de introduzir o debate para posteriores aprofundamentos. Na Ideologia Alemã Marx sistematiza sua apreensão do trabalho estranhado também como fonte da divisão do trabalho. Compreendemos que a partir de certo grau de complexificação das forças produtivas e do crescimento da população, a

Quando nos reportarmos a Marx que fique considerado também a Engels como autor da Ideologia Alemã e como influência fundamental nas obras de Marx. 4 Restringindo-nos aqui ao livro 1, volume 1 e 2.

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divisão do trabalho se faz necessária, porém devemos qualificar tal termo para não nos perdemos no labirinto das concepções que naturalizam a dinâmica social, e assim ocultam a luz dos processos históricos. Ou seja, no modo de produção capitalista – que é produto de um desenvolvimento histórico específico –, diz Marx, a divisão do trabalho
“[...] torna-se realmente divisão apenas a partir do momento em que surge uma divisão entre o trabalho material e o espiritual. A partir deste momento, a consciência pode realmente imaginar ser algo diferente da consciência da praxis existente, representar realmente algo sem representar algo real” (Marx, 1991, p.44-45).

No capitalismo, cujo trabalho5 é trabalho estranhado, há uma cisão no interior do processo de produção, que divide o trabalhador, pois a partir do momento em que vende sua força de trabalho como mercadoria ela não mais lhe pertence, não mais atende a suas necessidades espirituais de livre desenvolvimento e realização, tem suas possibilidades submetidas às necessidades de outrem, seu trabalho é restrito à sua atividade material. Não poderia ter outro resultado senão que sua consciência não se identifica com sua atividade material, que lhe é estranha. Tal contradição só pode ser superada, quando for superado o modo de produzir, que é regido pelo trabalho estranhado, com isso cairá também a propriedade privada. O trecho abaixo esclarece qual a concepção de Marx a respeito da divisão do trabalho na sociedade capitalista e traz seu contraponto em uma sociedade comunista:
“[...] desde que, [...], a atividade está dividida não voluntariamente, mas de modo natural, a própria ação do homem converte-se num poder estranho e a ele oposto, que o subjuga ao invés de ser por ele dominado. [...] cada um

Entendendo aqui que o trabalho não é simples metabolismo entre homem e natureza, é atividade física e espiritual, na medida em que para a objetivação de qualquer atividade o homem movimenta tanto seus músculos, nervos etc., como sua mente, que lhe comanda as ações e que tem consciência do que faz e para o que faz.

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dispõe de uma esfera de atividade exclusiva e determinada, que lhe é imposta e da qual não pode sair; o homem é caçador, pescador, pastor ou crítico crítico, e aí deve permanecer se não quiser perder seus meios de vida – ao passo que na sociedade comunista, onde cada um não tem uma esfera de atividade exclusiva, mas pode aperfeiçoar-se no ramo que lhe apraz, a sociedade regula a produção geral, dando-me assim a possibilidade de hoje fazer tal coisa, amanhã outra, caçar pela manhã, pescar à tarde, criar animais ao anoitecer, criticar após o jantar, segundo o meu desejo, sem jamais tornar-me caçador, pescador, pastor ou crítico” (Marx, 1991, p.47).

Para concluir esse breve resgate da categoria alienação e estranhamento, nos reportaremos agora à contribuição que Marx elabora no Capital, com especial atenção ao capítulo IV e XXI do livro 1. Se entendemos a lógica de funcionamento da sociedade capitalista, como a lógica da obtenção de lucro, do capital que sempre procura valorizar-se, as relações sociais de produção de tal sociedade possuem a peculiaridade histórica de serem regidas pela propriedade privada e pelo regime de trabalho assalariado. No modo de produção capitalista o trabalho estranhado assume sua centralidade na medida em que é a causa da propriedade privada e do trabalho assalariado, sendo igualmente reproduzido através deles. Ou seja, a força de trabalho assume para o trabalhador a forma de uma mercadoria, a única que ele possui, e que para sobreviver a vende a custo de um salário, “[...] só a partir desse instante se universaliza a forma mercadoria dos produtos do trabalho” (Marx, 1983, p.141). Sendo a força de trabalho a única 6 mercadoria capaz de gerar valor , pois seu consumo é a própria objetivação do trabalho, será, pois através de sua compra que o possuidor de dinheiro conseguirá valorizar seu capital. Para que o dinheiro se transforme em capital não basta que se produzam mercadorias e que haja circulação. Duas condições precisam ser supridas; primeira, que se tenha igualdade jurídica de possuir mercadorias, no caso do trabalhador, a força de trabalho. Ser livre para estabelecer contrato e vender sua força de trabalho;
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Cujo próprio valor de uso é fonte de valor.

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segunda, que o trabalhador seja expropriado de todos os meios de produção, lhe restando apenas a força de trabalho a ser vendida. Uma relação entre dois indivíduos que se defrontam, de um lado os possuidores de dinheiro, e de outro possuidores da substância criadora de valor. “A separação entre o produto do trabalho e o próprio trabalho, era a base realmente dada, o ponto de partida do processo de produção capitalista” (Marx, 1985, p. 156 grifo meu).
“Mas o que era, no princípio, apenas ponto de partida, é produzido e perpetuado sempre de novo, por meio da mera continuidade do processo, da reprodução simples, como resultado próprio da produção capitalista. Por um lado, o processo de produção transforma continuamente a riqueza material em capital, em meios de valorização e de satisfação para o capitalista. Por outro, o trabalhador sai do processo sempre como nele entrou – fonte pessoal de riqueza, mas despojado de todos os meios, para tornar essa riqueza realidade para si. Como, ao entrar no processo, seu próprio trabalho já está alienado dele, apropriado pelo capital e incorporado ao capital, este se objetiva, durante o processo, continuamente em produto alheio. Como o processo de produção é, ao mesmo tempo, o processo de consumo da força de trabalho pelo capitalista, o produto do trabalho transformar-se continuamente não só em mercadoria, mas em capital, em valor que explora a força criadora de valor, em meios de subsistência que compram pessoas, em meios de produção que empregam o produtor. O próprio trabalhador produz, por isso, constantemente a riqueza objetiva como capital, como poder estranhado, que o domina e explora, e o capitalista produz de forma igualmente contínua a força de trabalho como fonte subjetiva de riqueza, separada de seus próprios meios de objetivação e realização, abstrata, existente na mera corporalidade do trabalhador, numa só palavra, o trabalhador como trabalhador assalariado. Essa constante reprodução ou perpetuação do trabalhador é a condição sine qua non [indispensável] da produção capitalista” (idem, p. 156, grifo meu).

2. A Reforma Intelectual e moral, o partido e sua função na superação da alienação, a contribuição gramsciana.

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Nosso objetivo nessa seção será retomar alguns elementos que Gramsci utiliza para captar a necessidade imperativa da reforma intelectual e moral, ou da consolidação da hegemonia ético-política da classe trabalhadora. Em seguida estabelecer a função do partido como campo gestação de tal reforma. Todo homem possui alguma concepção de mundo – estando consciente ou não dela –, que o liga a um determinado grupo que compartilha desse mesmo modo de pensar e agir. O que o faz sempre homem-massa ou homem-coletivo, um “conformista de um conformismo” (GRAMSCI, 1978, p.22). O que é preciso perceber é de qual tipo histórico é o conformismo, qual a concepção de mundo que rege as ações e pensamentos desse homem-massa. Pois quando essa concepção de mundo não é crítica, mas desagregada e esparsa, a personalidade desse homem-massa é resultado de uma miscelânea de elementos “dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e avançada, preconceitos de todas as fases históricas passadas, miseravelmente particularistas [...]” (idem, p.22). A necessidade de criticar a própria concepção de mundo, e toda a filosofia até agora existente, é fundamental para tornála unitária e coerente. Como só é possível criticar algo que se tem consciência, o início da elaboração crítica é a consciência daquilo que se é realmente, como produto de todo o processo histórico que o precedeu.
“[...] não se pode ser filósofo, isto é, ter uma concepção do mundo criticamente coerente, sem a consciência de sua historicidade, da fase de desenvolvimento por ela representada e do fato que ela está em contradição com outras concepções e com elementos de outras concepções” (idem, p. 22).

Quando Gramsci pensa a necessidade da reforma intelectual e moral para a criação de uma nova culta, entende que é necessário socializar e difundir criticamente as verdades já descobertas pela humanidade, para que estas sejam bases reais para a reorganização da sociedade, para a reforma intelectual e moral. Sabendo que não existe de fato apenas uma filosofia ou uma concepção de mundo, é importante entendermos como é feita a escolha entre elas. Se se restringe

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apenas a um fato intelectual ou a uma norma de comportamento, e se há contradição entre elas como é resolvida? Ou seja, a concepção de mundo é aquela afirmada logicamente ou a que está implícita em cada agir? Dado que todo agir é agir político, compreendemos que a “filosofia real de cada um está toda ela contida na sua política” (idem, p.23). A contradição e coexistência de duas visões de mundo, uma expressa pelo falar e outra pelo agir, não pode ser resumida em simples hipocrisia ou “má fé”. Quando se verifica essa contradição no interior de grandes massas, apreendemos que é expressão da contradição de toda a uma ordem histórico-social (idem, p.23). “A compreensão crítica de si mesmo advém, portanto, através de uma luta de 'hegemonias' políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, para chegar a uma elaboração superior da própria concepção do real” (idem, p.29). Quando os homens conseguem se situar em qual força hegemônica fazem parte, finalmente podem aprofundar no processo de autoconsciência, na unificação de teoria e prática. O partido, o “moderno príncipe7”, é campo fundamental para a consolidação de uma força hegemônica que atenda aos interesses da classe trabalhadora, e assim da sociedade como um todo; o partido executa a função unificar a classe, dar corpo a uma vontade coletiva nacional-popular, e a partir da base econômica8 histórico-material de existência de tal classe, estabelecer a crítica de suas instituições e de toda a ideologia9 dominante. Não pode ser partido de vanguarda, pois senão reproduziria a cisão entre teoria e prática, ao contrário ele atua como campo de formação intelectual de toda a classe, em um movimento constante que fará de cada membro, sujeito

“O moderno príncipe, o mito-príncipe, não pode ser uma pessoal real, um indivíduo concreto; só pode ser um organismo; um elemento complexo da sociedade no qual já tenha se iniciado a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e fundamentada parcialmente na ação. Este organismo já determinado pelo desenvolvimento histórico, é o partido político: a primeira célula na qual se aglomeram germes de vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais.” (GRAMSCI, 1980, p.6) 8 “[...] o programa de reforma econômica é exatamente o modo concreto através do qual se apresenta toda a reforma intelectual e moral” (GRAMSCI, 1980, p.9). 9 Aqui entendemos ideologia como “[...] concepção do mundo que se manifesta implicitamente na arte, no direito, na atividade econômica, em todas as manifestações de vida individuais e coletivas [...]” (idem, p.25). Cimenta e unifica os diversos blocos sociais. É uma premissa teórica implícita que está contida na religião, na fé, no movimento cultural das sociedades, etc. É uma filosofia que se consolida como hegemônica. (GRAMSCI, 1978, p. 24-25).

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histórico consciente. “A organicidade do pensamento e a solidez cultural” só podem ser atingidos quando a unidade entre os intelectuais e os simples for a mesma que entre teoria e prática. Os intelectuais orgânicos são fundamentais no processo de constituição e desenvolvimento de uma nova hegemonia dentro do partido, mas somente enquanto se mantiverem organicamente vinculados aos desafios históricos da classe que representam (idem, p.26-27). Nosso objetivo foi estabelecer uma breve síntese de algum dos elementos fundamentas para o entendimento do que Gramsci elabora como reforma intelectual e moral e sua síntese e efetivação através do partido, tendo com sua plena satisfação o estabelecimento de uma nova cultura. Entendemos que os elementos aqui expostos contribuem para a crítica que desenvolvemos no primeiro tópico deste artigo, pois nos propiciam a reflexão a respeito de como, e sobre quais fundamentos, a classe trabalhadora deve se organizar, se seu intuito for a superação do modo de produção capitalista, o que equivale dizer a superação do trabalho estranhado e todas sua implicações – como o estranhamento político, filosófico e econômico. Muitas conexões podem ser estabelecidas nesse debate, e esse nosso artigo tem o intuito de suscitá-las para que possamos ter mais consciência e assim ação histórica crítica e consciente.

Referências BEDESCHI, G. Marx. Lisboa: Edições 70, 1989. GRAMSCI, A. Maquiavel, a política e estado moderno. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileiro, 1980. ______. Obras escolhidas. São Paulo: Martins Fontes, 1978. MARX, K. O capital: Crítica da economia política. Vol. 1 tomo 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983. ______. O Capital. Crítica da economia política. 2. ed. Vol. 1 tomo 2. São Paulo: Nova Cultura, 1985.

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______. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009. ______. A Ideologia Alemã. 8. ed. São Paulo: Editorial Hucitec, 1991. MÉSZÁROS, I. A teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo Editorial, 2006. RANIERI, J. A câmara escura. Alienação e estranhamento em Marx. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001. SAID, A. M. Uma estratégia para o Ocidente: o conceito de democracia em Gramsci e o PCB. Uberlândia: Edufu, 2009.

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Os povos tradicionais e a transformação social
Luiz Felippe de Castro Henning Graduando do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná As formulações mais difundidas a respeito dos “Povos Tradicionais” situados no campo do socialismo, apontam para este como um sujeito determinado por aspectos econômicos e históricos, que não permitem a eles nenhuma probabilidade de contribuir para tais processos de emancipação da dominação capitalista. Buscando é refutar este tipo de leitura e posicionar de forma, mais adequada o sujeito presente no contexto dos povos tradicionais é que escrevo este. Contrariando tais tradições teóricas que se prendem a conceitos etnocêntricos e evolucionistas, Pierre Clastres (1974) traz em seu texto uma perspectiva diferenciada a respeito de certas categorias (Estado, história, mercado) que supostamente estariam faltando no contexto de povos “selvagens”, os quais neste texto fez-se a opção por qualificar-los junto aos ditos “povos tradicionais”. Na análise de Clastres é que ao contrário de outros autores, que partem do pressuposto de ausência destas categorias como um indício de “atraso histórico”, ou ainda de que estas se tratam de estágios “pré-civilizatórios”, tais análises enfatizam no que estas sociedades estariam “privadas”, quando colocadas em comparação as civilizações modernas, seriam “incompletas”. Como bem se observa a interpretação está profundamente influenciada por aspectos do pensamento etnocêntrico “[...] reconhece-se aqui a outra face do etnocentrismo, a convicção complementar de que a história tem um sentido único, de que toda sociedade está condenada a inscrever-se nessa história e a percorrer as suas etapas que, a partir da selvageria conduz a civilização.” (Clastres,1974, ) O que Clastres constata a partir dos preconceitos em relação a estes tipos de civilizações é que o postulado evolucionista ainda se encontra em voga. O autor quer elucidar é que justamente o que damos por falta de certas categorias sociais, essenciais a uma sociedade ao nosso modo de “ver o mundo”, corresponde a elementos que não fazem sentido nestes contextos, deslocados por juízos de valores que não são pertinente aquele meio. O que Clastres destaca, a exemplo disto, que não

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é só uma questão destas sociedades não necessitarem de Estado, o que notamos é que estas criam sistematicamente instrumentos que destruam qualquer esboço de relações sociais que possam dar origem ao Estado, entendidas como uma forma de alienar o poder da sociedade em favor de chefias e direções. Tais populações buscam manter o poder diluído no seio da coletividade. Por isto, o autor avalia que estas sociedades não seriam sem Estado, mas “Sociedades contra o Estado” . O que o autor nos demonstra é que não se pode compreender estes grupos em relação ao que é lógico a vivência social “Ocidental”, muito menos entendê-los como um resquício do passado ou uma etapa anterior da história das sociedades “modernas”. É importante esclarecer que aqueles sujeitos que estamos nos referindo como “tradicionais”, não são assim denominados por serem estáticos culturalmente, mas sim por portarem uma “herança” cultural relacionada as “sociedades tradicionais”. Muitas destas, atualmente se encontram integradas, nem sempre de forma pacífica, ao sistema global capitalista mantendo mais ou menos seus aspectos “tradicionais”. Passaremos agora a localizar o espaço que estes grupos ocupam na atual sociedade capitalista, e mais, posicioná-los dentro de um espectro revolucionário, apontando para algumas possíveis formas de participação que estes possam ter na transformação do sistema capitalista em um sistema desenhado conforme as idéias que portam a perspectiva socialista libertária. Primeiro tratemos de refutar as formulações mais difundidas a respeito dos “Povos Tradicionais” situados no campo do socialismo, tais leituras as quais nos referimos dão um parecer negativo a cerca de qualquer participação destes grupos na transformação social, que são as idéias que correspondem a matriz teórico ideológico identificada pelo socialista português João Bernardo como “marxismo ortodoxo” ou “marxismo das forças produtivas”. “Segundo Karl Marx, o capitalismo articularia contraditoriamente a desorganização do mercado e a organização fabril e seria esta ultima que, desenvolvendo-se, constituiria a base a passagem ao modo de produção futuro, o socialismo.”(Bernardo,1991,p.409 ). Desta forma por meio de um determinado recorte da obra de Marx, é bom destacar-se que o marxismo não é um conceito que se remete a algo homogêneo, o já citado “marxismo ortodoxo”, que compreende que somente da contradição interna a

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própria economia capitalista é que poderia surgir o sistema socialista, como resultado do simples desenvolvimento “histórico” das 'bases produtivas” capitalistas, podendo até mesmo ser entendido como um processo “evolutivo”, onde o capitalismo aparece como uma etapa inexorável da história que ruma ao socialismo. Assim, neste esquema teórico, os povos tradicionais aparecem de duas formas, em que ambas o excluem de qualquer projeção futura ao socialismo: 1) Uma primeira em que estes correspondem a sistemas econômicos “arcaicos”, como Clastres (1974) classifica de “subsistência” (sem produção de excedente e sem mercado), ou seja, fazem parte de sistemas econômicos anteriores ao capitalismo. Logo, pertencem a um passado e lá devem permanecer, em nome do “avanço das forças produtivas”. 2) Enquadram estas populações em esquemas teóricos que não correspondem ao seu contexto social, ou seja, os “encaixam” em alguma das diferentes classes que existem ou existiram em outras fases da economia - portanto, também devem ficar no passado. Devido a algum traço que possa aparecer neste grupo e em sua economia que o aproxima de uma classes social que já pré-existia enquanto categoria teórica em seu instrumento analítico, pois, apenas qualificam o objeto de acordo com categorias que talvez não sejam válidas neste outro sistema social. Uma forma de absolutização de conceitos que podem dar conta de qualquer análise “a priori”. Nestas duas formas de classificar os “povos tradicionais” podemos concluir que estes sujeitos sociais estão fadados ao desaparecimento, pois sua resistência significa uma sobrevivência de um passado que deve ser superado, estes representam a tentativa de rodar a roda da história para trás, não só não podem cumprir um papel revolucionário como na natureza de suas formas produtivas se encontra um elemento essencialmente reacionário. É eminente o postulado do determinismo econômico e do etnocentrismo neste tipo de análise, constatado isto, é necessário que recorramos a instrumentos metodológicos que possam dar uma visão mais exata do sujeito que aqui resolvemos abordar. Devemos trazer a luz uma apreciação destes que não busque apenas situá-los em esquemas pré-definidos ou determiná-los um lugar estático, e ainda não correlacioná-los a nossa própria história, ou seja, vê-lo como uma etapa anterior do nosso modelo de sociedade. Cabe fazer algumas observações antes de iniciar à apreciação que busca dar um outro parecer que não os condene a um determinismo histórico, que

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proporcionem leituras que não definam o sujeito por um viés abstrato, assim permitindo que os “Povos Tradicionais” possam integrar o patamar de classe potencialmente revolucionária, como agentes que possam integrar processos de transformação social. Primeiramente colocar que se trata de dar um possível sentido positivo, não de exaltar estas populações os atribuindo um sentido intrinsecamente revolucionário, o que traria ao debate um determinismo da mesma espécie daquele que estamos buscando desconstruir. É justamente do contrário que se trata este presente excerto, de desnaturalizar um determinado papel social destes sujeitos. É neste sentido, que devido o preconceito experimentado pelas comunidades tradicionais em referência ao “marxismo ortodoxo”, que os coloca numa condição contra-revolucionária a priori. O que nos esforçaremos em fazer é destacar algumas das características que existem nestas civilizações que possam ser potencializadas, em uma direção Socialista Libertária, claro que com as devidas mediações e que com especificidades próprias, que são originárias de suas diferentes formações sócioculturais que ao interagirem com os tipos clássicos de socialismo devem ter como resultado formulações peculiares de teorias que possam ser colocadas no campo do que se entende por socialismo. Para realizar esta tarefa de formular uma análise que possa incorporar os “Povos Tradicionais” nesta perspectiva de “sujeito revolucionário”, ao menos em potencialidade, lançaremos mão de instrumentos analíticos elaborados por Rudolf de Jong, cientista político de origem holandesa, presente em sua obra intitulada “A Concepção Libertária da Transformação Social Revolucionária”. A escolha deste autor é ancorada em dois motivos, primeiro porque este estabelece uma comparação entre os modelos libertários com os modelos de transformação social referentes ao já referenciado “marxismo ortodoxo”, em especial o autor foca-se na tradição do pensamento “leninista” e seus métodos de transformação, a doutrina inspirada por Vladimir Ilich Lênin. O outro motivo ao qual me referi é a respeito do modelo de análise que Rudolf estabelece em sua obra, tal modelo é inspirado nas formulações clássicas do anarquismo, denominado de modelos de “centro-periferia”. Rudolf de Jong se debruça em seu escrito a discorrer a respeito dos movimentos intitulados “pré-políticos”, podemos até mesmo fazer um paralelo com a problemática levantada por Pierre Clastres, a respeito do que seriam as sociedades

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“selvagens”, ambas as qualificações são taxativas empregadas por um agente que se coloca como mais avançado por ter esta ou aquela característica, que os grupos em questão não tenham quando colocados em comparação:
Quando nos referimos aos “movimentos pré-políticos”, nosso quadro de referência não é a própria área periférica, mas um centro. O termo “áreas periféricas” implica a existência de um centro e/ou sistemas centrais que dominam tais áreas. O que é “pré político” aos olhos de um centro é, em geral, puramente político sendo, como é, baseado no senso comum e nas consideradas experiências diárias observadas a partir do ponto de vista das “áreas periféricas”. O que é considerado pelo centro como um processo político “normal” muitas vezes é experimentado como opressão pelos habitantes das áreas periféricas.(Jong,1978,p.33 )

É importante explicitar o que o autor entende por áreas periférica. “Quando uso a palavra “área” refiro-me a um conceito social e não um conceito geográfico”( ), o que aparece em debate mais uma vez é a postura etnocêntrica frente à alteridade, onde a periferia somente pode existir em relação ao centro, em que “o caráter periférico de uma área depende de sua relações com outras áreas.”( Jong, 1978, p.35 ). O autor explica ainda, sua escolha no enfoque da tradição teórica do anarquismo: “Neste documento, concentrarei minha atenção na tradição anarquista, porque o anarquismo é uma ideologia que se recusa a criar novos sistemas centrais com novas áreas periféricas” (p.40 ), característica esta que o autor vê em oposição às formas de organização “marxistas ortodoxas”, vejamos quando se refere a estas coloca “Seu modelo é sempre um centro; Estado, partido, exército.”(Jong, 1978, p.40). Partindo da análise “centro-periferia” observa até mesmo que o postulado que elege o sujeito revolucionário parindo de um ponto de vista “marxismo ortodoxo” é fruto de uma premissa centralista, pois somente o sujeito central pode cumprir tal papel . Todas as outras classes e categorias que se encontram no papel de dominados, ou papeis “periféricos” bem como aponta Rudolf de Jong são excluídos, justamente por partir da perspetiva do “centro” . Ao buscar compreender o papel destes grupos periféricos Rudolf de Jong está justamente a desconstruir esta perspectiva “centralista” de sujeito revolucionário, construção teórica esta que “privilegia” um sujeito social, isto é nesta concepção cria-se um novo “centro”, outros conceitos “marxistas ortodoxos” estão

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impregnados desta perspectiva de “centro” como “ditadura do proletariado” e até mesmo “socialismo científico”. A resposta que a matriz teórica que parte do postulado centralista, na interpretação de Jong do “centro” em relação a periferia é uma qualificação que a exclua por meio de alguma taxação que não passa de um emprego de valor do centro a seu respeito, a exemplo a qualificação “pré-político” ou “selvagem” O que Rudolf de Jong propõe com esta nova proposta analítica é alargar o conceito de “classe com potencial revolucionário” a outras classes que também aparecem como subjugadas no sistema capitalista, mas que não tem espaço no esquema “marxista ortodoxo” justamente por sua perspectiva “evolucionista” dos meios de produção que elege um sujeito histórico a realizar o processo de transformação social. Mas, o que poderia caracterizar certa unidade a estas classes com características tão peculiares entre si, é que “Resumindo, podemos dizer que as áreas periférica são áreas dominadas por um centro. É o centro que cria esta relação. Movimentos pré-políticos e políticos em tais áreas têm como objetivo transformar esta posição subordinada. ”(JONG, 1978, P.37 ) Rudolf de Jong busca concretizar uma classificação de possíveis “grupos periféricos” (que ele mesmo aponta como uma tentativa que não visa à possibilidade de esgotar número e o tipo de “grupos periféricos”). Para o presente escrito é interessante destacar o tópico B de sua classificação, justamente por se referir aos “Povos Tradicionais”, sujeitos que decidimos estudar neste.
B-Áreas periféricas relacionadas a um centro, que pertencem a suas estruturas políticas e sócio-econômicas e que tentam, ao mesmo tempo, defender e manter suas identidades. São dominadas pelo centro, ameaçadas em sua existência por sua expressão econômica. Pelos padrões do centro são atrasados, subdesenvolvidas e defasadas. As comunidades indígenas do México e dos países andinos são bons exemplos. Outros exemplos nesta categoria- talvez devêssemos falar de um subgrupo B.1-

são pequenos produtores, trabalhadores especializados e camponeses ameaçados em sua existência econômica e social pelo progresso do centro e que ainda lutam pela sua independência. (Jong, 1978p36)

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Tal passagem contribuiu para a reflexão a respeito de a revolução ser um desenvolvimento das forças produtivas. Primeiro que esta percepção de desenvolvimento esta altamente influenciada por aspectos da ideologia burguesa, a idéia de progresso, pois em momento nenhum expõem este “marxismo ortodoxo” bem como João Bernardo apontou uma crítica à técnica, logo pode levar a entender que esta é neutra. Este trecho do texto de Rudolf de Jong mostra o quanto esta é uma idéia equívoca em dois sentidos, um pela técnica e o progresso não serem agentes neutros, mas sim fazerem parte do sistema de dominação, principalmente no que tange o domínio da técnica para imposição da alienação do trabalho, logo, de sua submissão. E também mostra a não constatação prática que a revolução socialista é conseqüência do desenvolvimento produtivo, pois nesta perspectiva a luta é por resistir a este “progresso”, que na verdade não passa da expansão da dominação capitalista e se configura como um movimento que faz parte da esfera da luta de classes, da luta pela apropriação dos meios de produção, com uma variável a mais que é a identidade cultural que resulta na luta pela auto-determinação cultural dos povos tradicionais. Rudolf de Jong ainda da um exemplo histórico de um episódio onde se materializou o ponto B da sua classificação:
O centro da Revolução Zapatista foi Morelos, que naquela época era o cenário de uma forte expansão de orientação capitalista das propriedade açucareiras. Mas não foram os trabalhadores das propriedade açucareiras do setores capitalista que se revoltaram; foi a população indígena das antigas comunidade, cuja a existência se via ameaçada pela expropriação capitalista de sua terra e pela violação de seus direitos, que se torno sua força social por trás do movimento de Zapata.(Jong,1978, p.68 )

Como bem ressalta o historiador Alexandre Samis, muito mais que uma luta econômica, os costumes alimentavam a luta pela manutenção de uma forma de vida, o direito a existir enquanto povo e resguardar sua identidade cultural e forma de viver. O que se confronta diretamente com capitalismo na medida em que impedia a apropriação privada de faixas territoriais ocupadas por indígenas.
Para os resistentes não se tratava apenas de uma guerra por sobrevivência,

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uma vez que estava asseguradas com a submissão ao invasor, nem uma questão de afirmação do controle de certas territoriais. A questão central era autodeterminação de povos que queriam continuar existindo a partir de códigos de conduta alheios a qualquer paradigma de funcionamento.(Samis, 2003, p.09 )

Neste sentido certas tradições do socialismo, em especial o libertário, mais identificado como a ideologia anarquista, aliadas com os princípios de propriedade comunal, que podem ser entendidos como uma expressão de gestão direta comunitária, formas de liderança não verticais e a vontade de resistir destes povos que podemos identificar como “tradicionais” constituíram um movimento de orientação radical. Para entender estas expressões do socialismo podemos contar com a contribuição do historiador anarquista Pier Francesco Zarcone: “Magonismo e Zapatismo são as respostas “específicas” da experiência indígena depois do impacto com o colonialismo ocidental”( Zarcone, 2006, p.63 ). Mas da onde surgem estas tradições? “Magonismo”, se remete a Ricardo Flores Magón este que foi fundador com seus irmãos Henrique e Jesus do periódico de orientação libertária “Regeneración”, o qual em sua páginas podemos encontrar em várias passagens a defesa destes “Povos Tradicionais” e sua auto-determinação e sobretudo seu direito a posse dos territórios que ocupam. Além disso, Ricardo foi um dos principais animadores do PLM (Partido Liberal Mexicano), o qual inicia seus trabalhos com um programa liberal radical, mas sob orientação de Ricardo com o tempo passa a deslocar a esquerda e assumir um programa radical de orientação anarquista, cabe observar que este era um partido anti-eleitoral e que atuava na ilegalidade, chegando a organizar grupos de guerrilhas. Um fato de pouco conhecimento mesmo da esquerda socialista é o fato de o PLM ter liderado em 1911 a ocupação do território da Baixa Califórnia ali declarando a primeira República socialista, esta dura cerca de 5 meses e sucumbe frente ao poder do exército americano e mexicano. O “Zapatismo” é mais uma expressão prática da revolta liderada por Emiliano Zapata contra o governo mexicano em um estado ao sul do México, Morelos, nos territórios ocupados pelos Zapatistas também tínhamos a implementação de posse

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coletiva da terra, isto é, a posse da terra era devolvida a comunidade. Os elementos que comprovam a ascendência libertária do movimento Zapatista é que o próprio Emiliano Zapata não era muito mais que um coordenador das lutas, ao invés de um chefe propriamente dito. Na definição de Pierre Clastres, um “chefe sem poder”, ou na definição dos novos Zapatistas alguém que “manda obedecendo”. Nestas comunidades, a propriedade era coletiva e os cargos públicos rotativos. Zapata inicia sua escalada revolucionária em 1910 e morre em 1919. Podemos identificar nestes dois exemplos que se remetem a Revolução mexicana exemplos claros de autogestão social, exemplos de rupturas com o sistema capitalista, ambos sustentados sobre bases “tradicionais”, não só de existência cultural como no nível de produção econômica, o que em nada prejudicou a prática de princípios socialistas, é claro se o compreendermos este como a luta política contra a alienação em todos os níveis da vida o social, econômico e político. Os conflitos entre o “desenvolvimentismo” e a resistência indígena ocorridas na Revolução Mexicana que se inicia em 1910 e renderam experiências de ruptura radical com o capitalismo, em nada havia um caráter reacionário por se tratarem de um pensamento fundado em meio a formas “tradicionais” de vida, muito pelo contrário tinham em si uma radicalidade jamais vista em nenhum outro setor da sociedade mexicana. Se a Revolução não foi vencedora em sua totalidade, não podemos afirmar que foi pura e simplesmente o fim de uma “utopia”, afinal esta garantiu uma série de direitos aos indígenas, camponeses a sociedade civil mexicana. No balanço geral a Revolução foi derrotada, mas as classes dominantes mexicanas estiveram obrigadas a fazerem certas concessões. Um dos resquícios que ainda datavam deste período foi o direito a autonomia aos “eijidos”, nome dado as comunidades indígenas que viviam em regime de propriedade coletiva da terra. Porém, na década de 90 o governo mexicano por pressão do Tratado de Livre Comércio Internacional o NAFTA, via nos indígenas, que estavam alocados em certas territorialidades, um entrave ao “progresso”, desta forma tenta transformar as áreas dos “eijidos” em terras mercantilizáveis. Os crescentes ataques que as populações pobres sofrem dos governos de orientação neoliberal, somando-se a outorgamento do direito de comercialização

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das terras comunais indígenas em 06 de janeiro de 1992, desencadeia um processo de organização da revolta indígena que se inicia em 1 de janeiro de 1994 e tem sua continuidade até os tempos atuais. Neste contexto, surge o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional), nome escolhido em homenagem ao líder da luta indígena, Emiliano Zapata. Como Zapata o EZLN também lutam pela autodeterminação dos povos indígena, estes também são animados pela bandeiras dos direitos indígenas e pelas lutas que daí surgem. Vejamos a observação de Emilio Gennari em sua obra “EZLN Passos de Uma Rebeldia”: “(...) mesmo antes da chegada do Zapatismo, os povoados indígenas garantiam sobrevivência através da propriedade coletiva da terra, do trabalho pensado e realizado a partir das necessidade e do envolvimento de todos, das decisões tomadas por consenso em assembléias comunitárias, de uma longa tradição de luta e resistência.” (Gennari, 2005, p.57) É com ímpeto de resistir e manter a existência desta forma de viver que surge o que podemos chamar de neo-Zapatismo, movimento de transformação social que ocupa de forma autônoma o território da região do Estado de Chiapas no México. Atualmente, eles continuam fazendo esta resistência, mesmo com as ações de repressão que sofrem por parte do Estado e das guerrilhas para-militares bancadas por setores “progressistas”, os quais tem interesses no território ocupados pelos indígenas. Ao observar estes dois movimentos em distintos momentos históricos no México, percebe-se que o agente da transformação social se encontra na contra mão do progresso, diferente do que preconizavam as linhas de pensamento “marxista ortodoxas”. Isto quando compreendidas a transformação social no sentido da luta pelo igualitarismo econômico, político e social, genericamente definidas estas propostas por socialismo. Recordando Pierre Clastres é importante ressaltar que sendo o Estado o pilar que constitui e dá vida a sociedade de classes possibilitando pelo emprego da força que o trabalho ganhe forma que conhecemos presente no regime capitalista, hoje ainda dominado por uma classe , que ao invés de constituir a fonte de produção para a subsistência da sociedade está em função da acumulação e produção de excedente, gerando o que Marx denominou “alienação do trabalhado”. Sendo assim, vale lembrar a passagem de Clastres “A história dos povos que tem uma história é, diz-se, a história da luta de classes. A História dos povos sem história é, dir-se-á como ao menos tanta

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verdade, a história da sua luta contra o Estado.” (Clastres, 1974, p.26) Logo, podemos constatar o equívoco dos “ortodoxos” de acreditarem que os agentes revolucionários são “escolhidos” pela história e que outros estão fadados ao aniquilamento devido ao seu atraso. Ressaltamos por diversas vezes o quanto estas considerações são de cunho etnocêntrico e evolucionista. Por entender que não se trata de descobrir e determinar os caminhos que “deve” percorrer o processo revolucionário que se lembra uma passagem de uma das histórias do Subcomandante Marcos “O que sabia é que tínhamos que fazer o caminho juntos. E assim o fizemos. Assim chegamos onde queríamos. Tivemos que fazer o caminho. Ele não estava lá.”(in Genari, 2005, p.82) . Porque existe um longo caminho a ser feito que espero ter contribuído, tentando vislumbrar e estender um pouco mais estes caminhos que nos levam as nossas utopias.

Referências BERNARDO, J. Economia dos processos revolucionários in Economia dos conflitos sociais.2. ed. São Paulo: expressão Popular, 2009. GENNARI, E. EZLN : passos de uma rebeldia.2. ed. São Paulo: Expressão Popular,2005.159p. JONG, R. de. A concepção libertária da transformação social.1. ed. . São Paulo: Faísca, 2008. 103 p. MAGÓN, R. F. A revolução mexicana.1. ed. São Paulo: Imaginário.2003.102 p. ZARCONE, P. F. Os anarquistas na revolução mexicana. 1. ed. Tradução Felipe Corrêa. São Paulo : Faísca. 68 p.

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Pierre Naville, Walter Benjamin e o debate sobre o Surrealismo Marcelo Mari1
Resumo: Os ensaios de Walter Benjamin sobre as vanguardas artísticas do início do século XX centram-se na tentativa de estabelecer uma compreensão do movimento histórico desvinculada da fé positivista no progresso inequívoco. Por sua vez, o debate entre Naville e Breton foi fundamental para o Surrealismo. Isso é justamente o ponto que se deve averiguar (Trotski e Benjamin diziam) que a crítica anti-burguesa da arte moderna não conseguira efetivamente se apresentar como aproximação com o proletariado. Isso se fazia de maneira indireta dada pelas próprias condições de formação dos movimentos de vanguarda na Europa.

Palavras-chave: Benjamin, Naville, Surrealismo, arte burguesa Os ensaios de Walter Benjamin sobre as Vanguardas Européias do início do século XX centram-se na tentativa de estabelecer uma compreensão das artes e do movimento histórico desvinculados da fé positivista no progresso inequívoco. A crítica do progresso inequívoco da História é facilmente observável no pensamento de Benjamin, o mesmo não se pode dizer de sua compreensão dialética da história que parece partir de um marco zero de inauguração e realização de algo que ainda não se tem como horizonte seguro. A compreensão de Benjamin da História passa pela interpretação alegórica do processo histórico com referência ao Angelus Novus de Paul Klee, a saber: o anjo que é arrebatado por um movimento inexorável dos acontecimentos, um impulso sempre para frente em direção ao futuro; o anjo olha para trás aterrorizado e vê apenas destruição e escombros de civilizações sobre civilizações (Cf. Benjamin, 1994, p. 226). O que se tem ainda agora é o movimento de uma Pré-História da Humanidade e a História como possibilidade de redenção, como processo de recondução do homem como centro de suas próprias determinações e como realização de seu próprio destino.

Professor de Teoria e História da Arte da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás.

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A crítica que Benjamin fazia à social democracia da época era justamente a da crença inequívoca no progresso, embasada na legitimação do discurso cientificista. A moral derivava daí como grande problemática referente à natureza das decisões humanas, já que a ciência era tomada como uma benesse em si mesma e o mau como uma condição moral do homem. Tratava-se de mostrar que tanto a ciência como a moral estão condicionadas pela liberdade humana. Não há nada de absoluto. O surrealismo era visto por Benjamin como a crítica das ilusões produzidas pela sociedade burguesa, embora a aproximação entre a arte e a revolução fosse um tema difícil, pois o surrealismo não conseguia ampliar sua crítica da moralidade burguesa sem incorrer em um distanciamento crítico legitimamente burguês. Benjamin dizia que a crítica anti-burguesa da arte moderna não conseguira, até aquele momento, se apresentar como um movimento resoluto de aproximação do proletariado. Isso se fazia de maneira indireta, levando em conta as condições de formação dos movimentos de vanguarda na Europa, pois as limitações eram dadas pelo dilema entre convicções pessoais, momento histórico-social vivido e as forças necessárias de transformação social. Benjamin encontrou na tomada de posição de Pierre Naville, a condição de aproximação efetiva entre surrealistas e a Revolução Russa. Acontece que essa aproximação se daria pela característica legitimamente negativa encontrada nos movimentos de Vanguarda e principalmente no surrealismo por Naville, a saber: a desconfiança em tudo o que parece ser irremediável, seja a certeza na revolução seja a certeza na realização da liberdade humana. Para Benjamin, o surrealismo, com seu cadavre esquis e com a reunião de elementos díspares que constituíam partes do sentido atribuído à realidade, produzia uma abertura para o significado do mundo, minava as velhas certezas e promovia movimento de ação desalienadora. Em seu ensaio sobre o surrealismo de 1929, Benjamin não deixa de citar Trotski, que já esse havia enunciado, em seu livro Literatura e revolução, o caráter transitório e ao mesmo tempo sugestivo da utopia social produzido até o momento pelas vanguardas russas. Se a arte tinha autonomia para produção das experiências e dos sentidos próprios da nova realidade, não cabia apenas a ela a transformação do mundo. Essas considerações sobre as vanguardas não subtraíam do surrealismo seu lugar privilegiado na análise de Benjamin, que via na poética desse movimento a possibilidade de construção de um sentido outro de mundo. Arte e política

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aproximar-se-iam na atividade dos surrealistas. Daí a contrapartida necessária da poética surrealista revelada no interesse que Benjamin demonstrou pelo posicionamento de Pierre Naville diante da tentativa de aproximar surrealistas e revolução comunista. Pierre Naville tomara a decisão de se afastar do surrealismo por acreditar que o interesse do movimento artístico pela transformação da sociedade revertia-se menos no empenho político verdadeiro do que em uma intenção exclusivamente poética. A partir daí, sua relação com os surrealistas torna-se cada vez mais conflituosa. O ponto alto da ruptura com o movimento ocorreu em abril de 1925. Naville, então diretor da revista Revolução Surrealista, decepcionado com a tendência mais e mais acentuada das pesquisas criativas calcadas no modelo interior, concluía que os procedimentos do automatismo, a referência ao sonho e às fantasias imaginativas desqualificavam toda iniciativa de se encontrar uma expressão válida para a pintura surrealista. Logo em seguida, deixava a direção da revista a Breton que publicaria o ensaio Surrealismo e pintura em defesa dos pintores ligados ao movimento, como Max Ernest e André Masson. No livro, “A revolução e os intelectuais” (1926), ainda sob a forte influência de sua ligação com o Partido Comunista Francês, Naville apresenta seu principal argumento sobre a adesão definitiva dos surrealistas à prática política. Para ele, toda a crítica feroz dos surrealistas ao racionalismo burguês e ao nacionalismo não significava um posicionamento político coerente, ainda que representasse uma intenção de mudança dessa situação. Esse dilema ou falta de um controle completo da situação, que enredava os surrealistas, exigia também deles uma tomada decisiva de posição. Diz Naville:
“Esta necessidade interna que moveu o surrealismo, e o sentido de sua ação que se afirmou na seqüência, não lhe deixaram mais dúvida. À parte aqueles que viam dos acontecimentos apenas seus lados episódicos e nacionais (literários e outros), a maior parte deu-se conta do movimento revolucionário implícito que ameaçava de se encontrar com as

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outras forças que se apresentavam como adversárias decididas da burguesia.” (Naville, 1927, pp. 94-95.).

As raízes do encontro decisivo dos surrealistas com o movimento revolucionário social era parte de sua interação necessária com as questões de seu tempo. Isso se explicava pela conotação diversa que o surrealismo ganha em relação ao DADA de onde provieram alguns de seus membros mais importantes. Ao espírito puro de pessimismo e anarquia daquele movimento, os surrealistas acrescentam logo em seu início a via da responsabilidade. Tratava-se para Naville de uma via espontânea e não ainda uma via consciente de responsabilidade social. Se bem que a atividade artística tivesse como alvo preciso a ruína de toda a mentalidade burguesa, seu trabalho de destruição mantinha na força de “certas camadas mentais” um aspecto de construção. Tínhamos, por isso, uma busca de motivações comuns para a criação ligadas por um mesmo processo de “especulação teórica sobre os dados da experiência interna e de certa experiência dos objetos e acontecimentos exteriores.” (Idem, ibidem, p. 104). Essa cristalização do procedimento surrealista, com frases potentes e idéias isoladas constituía sua verdadeira essência. Os surrealistas acreditavam na superação da realidade e da mentalidade burguesas através de uma ação deliberada que se valia do expediente de contradição e de ruptura do significado único do mundo a partir da reunião de elementos díspares ou juntados pelo processo de automatismo psíquico. Esses expedientes revelavam a obstinação dos surrealistas “na recusa de considerar como adquiridas as produções espontâneas de seu espírito” e seu contato com a produção burguesa. Se era legítima a defesa metafísica da espontaneidade das idéias (no sentido benjaminiano de materialismo antropológico), do ponto de vista dialético era um erro, a falta de um lastro específico com os acontecimentos de seu tempo. Conclui Naville:
“Desde então, o pensamento surrealista, afirmando-se dialético em sua essência, e na investigação de seus processos internos, acha-se reportado ao contato do mundo, ao mesmo tempo pelo desejo de aplicação e pelas diferentes oposições exteriores que aniquilam a

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investigação desses processos, e se expõe em uma forma conceitual claramente metafísica. Como conseqüência natural desse contato, as idéias de liberdade, de burguesia, ou ainda de espírito, se isolam sobre o plano metafísico” (Naville, 1927, p. 90)

O isolamento do intelectual, do poeta e do artista devia-se menos à atitude crítica para com a burguesia que a raiz abstrata de suas idéias. Sua responsabilidade social viria do esforço para o estabelecimento de um vínculo entre a idéia e a realidade. Mas, o grande choque causado pelos surrealistas no mundo burguês foi justamente esse sentimento extremo de liberdade, que coagia a uma luta por uma mudança de todos os fundamentos sociais. Isso levaria a uma relação entre conquistas sociais e espirituais temerária para a burguesia e que caracteriza todos os períodos revolucionários, definida por Naville como “a ligação ativa dos movimentos de liberação social com a liberdade total de movimentos.” (Idem, ibidem, p. 94). Sendo clara a relação crescente de encontro dos surrealistas com a realidade, nem por isso ela deixava de ser ambígua e errava por não definir os limites da consciência sobre a realidade como parte única do processo de transformação das condições sociais. Para Naville, a exigência de uma consciência mais ampla da realidade não poderia se justificar sem a consciência da transformação das condições da sociedade. Somente dessa maneira, voltava-se ao vínculo substancial deixado sem explicação pelos surrealistas, que era a compreensão de que a atividade espiritual do indivíduo estava intimamente ligada com a realidade social. Assim, a ambigüidade dos surrealistas encontrava-se na crença falsa de uma natureza dupla da atividade intelectual, de um lado autônoma da realidade e por outro mantendo ligação com essa mesma realidade que ela supunha efetivamente. Disto Naville conclui duas direções possíveis para o movimento surrealista: “Ou bem preservar em uma atitude negativa de ordem anárquica, atitude falsa a priori porque ela não justifica a idéia de revolução que ela reclama para si (...) ou bem se engajar resolutamente na via revolucionária, a única via revolucionária: a via marxista” (Naville, 1927, p. 105). Como se sabe, Breton mantinha contato com o Partido Comunista Francês em 1926 e escreveu um opúsculo intitulado Legítima Defesa no qual manifestava sua adesão ao Partido. Essa adesão se fez com a ressalva de que os interesses materiais não

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deveriam ser aporte único para a revolução. Essa era sua principal preocupação. Se a descrição de Naville caracterizou bem a filiação do pensamento de Breton a certo misticismo intelectual, quando esse falava da ampliação da consciência com referência a uma realidade misteriosa, ou quando citava o estado de contemplação cultivado pelo pensamento oriental como alternativa ao pensamento ocidental e à exaltação da máquina, também a preocupação de Breton era justa, sobretudo se pensarmos na alternativa apresentada por Naville, para o desenvolvimento da cultura apenas depois de realizada a revolução social ou ainda na crença de que a verdadeira depositária da cultura era a classe trabalhadora. Apesar das críticas de Naville, muitos surrealistas estabeleceram e mantiveram ligação com o Partido Comunista, que seria marcada por vários altos e baixos e até rupturas definitivas. Em 1933, André Breton e Paul Eluard são expulsos do Partido depois de apoiarem as críticas de Ferndinand Alquié sobre a 'cretinização' do regime soviético. No mesmo ano, Breton aproxima-se da Oposição Internacional de Esquerda. Os antecedentes de luta em favor de Trotski foram a moção contra sua expulsão da URSS, em 1929, e a campanha de asilo político que ajudou a realizar e que conseguiu a permanência provisória de Trotski na França pelo período de dois anos, entre 1933 e 1935. Além disso, Breton foi co-autor de um manifesto contra a expulsão de Trotski, intitulado “Planeta sem passaporte” e publicado na imprensa francesa em vinte e quatro de abril de 1934. Esse Manifesto contou com cerca de vinte e uma assinaturas de intelectuais, poetas, artistas - entre as quais a do próprio Breton, de Paul Éluard, de Benjamin Péret, de Yves Tanguy -, além de outras personalidades francesas e estrangeiras. Já, em primeiro de abril de 1935, convidado por Vitezslav Nezval e Karel Telge para uma conferência em Praga, Breton questionava o estreitamento entre a política comunista e a mensagem artística com a seguinte pergunta: “Rigorosamente falando, existe, ou não, uma arte de esquerda capaz de se defender, ou seja, apta a justificar sua técnica 'avançada' pelo simples fato de se achar a serviço de um estado de espírito de esquerda?”(Breton, 2001, p. 251). Para ele, não era possível indicar o caráter de uma nova manifestação artística pela sua adequação ao ideal revolucionário, nos termos de uma expressão necessária e explícita. Com isso, tínhamos a defesa da autonomia do surrealismo. Ao contrário de uma validação da arte através da simples transposição

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dos assuntos de sua época, a atualidade crítica da arte poderia ser encontrada somente em uma análise aprofundada e em uma elucidação analítica de seus recursos, que se levasse ao conhecimento da predileção do artista pelo desenvolvimento de uma técnica e não de outra. Essas razões internas e ao mesmo tempo objetivadas de forma sistemática nos forneceriam o vínculo que se quer existente entre a arte moderna e a revolução. Breton rompia com o Partido Comunista da URSS e da França, sem que isso implicasse uma ruptura com a Revolução. A arte expressava, através de seus meios e no desenvolvimento da técnica segundo a vontade de cada artista, seu tempo. Desse modo, ela fazia parte da empreita na formação de um novo homem e, por conseguinte, de um novo mundo. Seu desenvolvimento, sem a predestinação de uma idéia e sem qualquer barreira, na forma da técnica empregada pelo artista era, para Breton, a possibilidade ambicionada ou não de se “traduzir o mundo numa linguagem nova, que essa ambição tentou, ao longo do caminho, submeter todas as demais, e não podemos impedir-nos de ver aí a razão da influência única no mundo que, no plano poético e talvez no plano moral, esta obra exerce, do brilho excepcional que ela continua a desfrutar. (Cf. Idem, ibidem, p. 257). Com justeza, a técnica empregada pelo artista dá a chave para se entender o alcance de sua obra e é nessa preocupação exclusiva com a ordem técnica que teremos capacidade de avaliar a contribuição do artista para a transformação do mundo. Assim, a técnica ganha em força aquilo que a arte perde em relação ao seu passado. Para Breton, não se tratava da perda de contato da arte com os temas universais concernentes à necessidade de manifestação da essência primordial do humano nem tão pouco do ofuscamento da individualidade do artista e da sua obra, mas de uma libertação dos compromissos que a mantinha presa com determinados grupos sociais. A contrapartida do valor da técnica é dada pela circunstância específica em que nasceu a arte moderna e uma grande mudança histórica permite a liberação da arte e seu encontro renovado, por meios próprios, com os ideais da revolução. Em contrapartida à sua liberdade em relação aos ideais da revolução está sua origem histórica como possibilidade de libertação. Diz Breton:

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“Vê-se que o estabelecimento e, em seguida, a cessação do estado de fato profundamente excitante para o espírito, que constitui, por exemplo, a vida da Comuna de Paris, deixaram praticamente a arte em face de seus problemas próprios e que, depois como antes, os grandes temas que sempre se propuseram ao poeta, ao artista, continuaram a ser a fuga das estações, a natureza, a mulher, o amor, o sonho, a vida e a morte.”(Breton, 2001, p. 257).

Breton arremata, quando se refere ao compromisso inequívoco do artista no período da revolução comunista, com a conclusão de que o exercício de liberdade da arte “é que ela apareça como que desligada de todo círculo determinado de idéias e de formas” (Idem, ibidem, p. 257). Aqui, fugia-se da idéia de que o primeiro passo para a manifestação plena da arte estava condicionada à solução imediata da crise social. Esse pressuposto falso autorizava uma diferenciação entre “a idéia teórica e a idéia prática” ou entre o que a sociedade deveria ser e o que ela era. A solução que imagina mudar o poder para depois transformá-lo constituía-se em um verdadeiro perigo, apenas a garantia de realização dos anseios profundos do homem seria a indicação do rumo certo a ser seguido:
“É importante que, do lado de cá da Europa, haja alguns como nós que mantenham este desejo em condições de recriar-se sem cessar, centrado, como deve em relação aos desejos humanos eternos se, prisioneiro de seu próprio rigor, ele não quer encaminhar-se na direção de seu empobrecimento. Vivente, este desejo não deve fazer com que todas as questões não permaneçam colocadas, com que a necessidade de saber em tudo não siga seu curso. (...). Para a Revolução, também isto é um meio de proclamar sua vitória.”(Breton, 2001, pp. 261-262).

Encontra-se aqui a solução para o problema dialético do movimento surrealista, onde se passa da negação interna do pensamento burguês para a positividade do apoio à Revolução, mas com a variante da luta para a ampliação da consciência. Em outras palavras, a solução encontrada por Breton, para adequar arte e

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revolução, ou para não prescindir da coesão entre idéia prática e idéia teórica, foi evidenciar aquele compromisso do surrealismo com a palavra de ordem de Marx, mais consciência. Sua escolha marca o elemento diferencial das práticas artísticas surrealistas como meio de conhecimento. Não se tratava de identificar a consciência social e a psicológica, mas mostrar de que maneira o viés psicológico contribuía para renovar ou construir a nova sensibilidade humana. Diz Breton:
“Não sei se estes são problemas pós-revolucionários; o que eu sei é que a arte, coagida há séculos a mal se afastar dos caminhos batidos do ego e do superego, não pode senão mostrar-se ávida de explorar, em todos os sentidos, as terras imensas e quase virgens do id. Ela já está demasiado embrenhada nessa vereda para renunciar a essa expedição longínqua e nada vejo de temerário no antecipar, a essa luz, um julgamento sobre sua evolução futura.” (Breton, 2001, p. 273).

A capacidade antecipadora da arte na formação de uma nova consciência, de uma consciência mais ampla da qual ela faz parte e nos ilumina o verdadeiro sentido de sua realização na sociedade sem classes. Essa é sua contribuição para a consciência social atual e ao mesmo tempo para uma nova consciência futura. Para Breton, o refúgio no elemento psicológico não impedia e nem era contrário à aquisição da consciência social. Ambos faziam parte de um mesmo processo, que seria descrito como uma tentativa obstinada de evitar o desvio dos surrealistas “no plano apolítico, no qual perderia todo seu sentido histórico, ou engajar-se no plano político, onde ele não conseguiria fazer mais que um pleonasmo” (Idem, ibidem, p. 274). É nessa atitude de formação de uma nova consciência para além dos referenciais burgueses que estaria depositada tanto a esperança efetiva no desenvolvimento do surrealismo como também seu problema fundamental de desvio para uma atitude contemplativa em relação à Revolução. Por um lado, o ímpeto pessimista dos surrealistas, nos anos vinte, traduzia-se em desconfiança sobre o destino da liberdade e da própria arte burguesa. Esse pessimismo, que se voltava contra a sociedade burguesa, manteve-se como ponto nevrálgico da atitude dos

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surrealistas após a publicação do Segundo Manifesto dos surrealistas. Por outro lado, questionava-se ainda - sob o suporte do estudo apresentado por Naville em 1926 e 1927 - a colaboração efetiva da introdução das técnicas surrealistas e do acesso ao inconsciente como meios legítimos de enfrentamento político. Essa crítica baseava-se em dois pontos de vista para a descrição do surrealismo: um, considerava que o movimento não deveria seguir de perto o processo de revolução social sem apresentar-se ligado às formas políticas, outro, não exigia uma colaboração direta com as formas políticas, mas um vínculo entre o espaço da ação política e a linguagem artística. Se a primeira posição sugeria uma adequação da arte à necessidade de evidenciar os ideais e motivações da revolução proletária, já a segunda partia da simples constatação daqueles ideais para uma contribuição efetiva. Não se versava sobre a posição da arte como testemunha da história, mas como modo de contribuir para a consciência das relações concretas e superação da realidade existente. Para Naville e para outros críticos, o problema enfrentado pelos surrealistas era ultrapassar essa ambigüidade inerente ao movimento, que se traduzia, na atitude ora contemplativa, ora ligada a práxis. Se a aproximação com o comunismo levava à conclusão precipitada do comprometimento dos surrealistas na formação de consciência, não se pode esquecer que a referência à criação de um “mito coletivo”, constituía a verdadeira tarefa atribuída ao Surrealismo em favor da Revolução. Essa ênfase concomitante sobre o aspecto antropológico e religioso denotava a ambigüidade do movimento, mesmo que Breton não deixasse de entender bem de que maneira dava-se o vínculo existente entre arte e política:
“Desde já não padece dúvida que as obras surrealistas terão, nisto, o mesmo destino que as obras anteriores situadas historicamente. (...) Hitler e seus acólitos, infelizmente, compreenderam muito bem que, para jugular, mesmo que só por algum tempo, o pensamento de esquerda, era preciso não só perseguir os marxistas, mas também interditou toda arte de vanguarda. A nós, nos cabe opor-lhe esta força invencível, que é a do dever-se, que é a do devir humano.” (Breton, 2001, p. 274).

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Não era possível reclamar uma elaboração antecipada da consciência comunista nem o advento dos verdadeiros artistas comunistas. Daí, a conclusão de Trotski, em “Literatura e revolução”, de que os novos artistas surgirão depois de vitoriosa a Revolução. É justamente nesse processo que se pode vislumbrar o surrealismo como a potencialidade de ultrapassar a mera crítica da moral vigente. Tratava-se da negatividade aludida por Naville em seu ensaio sobre a revolução e os surrealistas. O ensaio de Benjamin foi escrito em 1929, a situação encontrava-se indefinida e o alerta sobre a posição de Trotski sobre as vanguardas é muito significativo da indicação do lugar preciso da arte de vanguarda nos países capitalista naquela época. Benjamin situa sua crítica no horizonte de se estabelecer uma leitura dialética da história e nesse sentido a desconfiança dos surrealistas frente à moral de época serve como parâmetro de descondicionamento do comportamento burguês e da social democracia com sua fé espúria no progresso em termos morais, pois o surrealismo solapa a intenção burguesa de tudo mediar segundo diretrizes cristãs e a fé no progresso da humanidade. Em 1934, quando Benjamin escreve o ensaio O autor como produtor é justamente a idéia de montagem que balizará sua compreensão da arte de Vanguarda. Uma das principais questões de época era justamente discernir qual a função do artista na sociedade e qual era sua contribuição para as transformações candentes de sua época. O caráter realista da arte era uma das características fundamentais da arte que se aproximava dos problemas sociais de seu tempo. É dentro dessa perspectiva que Benjamin fará a declaração de um estudo sobre a autonomia da arte em um sentido de transcendência maior que o regime da arte pela arte, haja vista que este regime será enfaticamente contestado por Benjamin. Se no ensaio sobre o surrealismo Benjamin parece consentir com a perda de eficácia artística para aproximação da arte com os problemas sociais e de representação de sua época. O ensaio sobre o autor como produtor vai além das condições determinantes das relações de produção do capitalismo e justamente na contramão da defesa de uma arte para agitprop, procurará inserir o problema do posicionamento político do artista a partir da ótica da relação que ele tem com o sistema produtivo como um todo. Se no ensaio sobre o surrealismo Benjamin fala da ênfase no tema revolucionário em prejuízo da linguagem artística, no texto de 1934, Benjamin vai justamente rediscutir o tema da função social do artista moderno, ligado ou não à revolução. É justamente o

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problema da autonomia que se coloca no ensaio de 1934. Para Benjamin, o artista deveria situar-se de acordo com a tendência de transformação social sem abrir mão da qualidade de seu trabalho: “Essa fórmula é atualmente insuficiente, na medida em que ao conhecemos a verdadeira relação existente entre os dois fatores: tendência e qualidade” (Benjamin, 1994, p. 121). Não obstante a relação não seja de fácil determinação, Benjamin a julgava fundamental para se precisar o caráter verdadeiramente transformador da revolução social e da arte. Tanto a revolução social como a arte se estabelecem como arte de um processo crítico de constituição da nova realidade. Isso significa em outros termos que “uma obra caracterizada pela tendência justa deve ter necessariamente todas as outras qualidades” (Idem, ibidem, p. 121). Considerar a obra de arte do ponto de vista exclusivo de sua tendência política não leva em conta a orientação da arte para fins que não são específicos de sua mensagem, de sua orientação para a realização plena do homem. A arte que se aproxima da instrumentalização perde sua verdadeira contribuição para a revolução social. Benjamin inverteu os termos de debate da época sem se esquecer da relação arte e política. Não se trata de a arte orientar-se pela política correta, mas da política correta (de esquerda) contar com uma tendência literária. Mas a arte só pode operar de modo revolucionário a partir de condições sociais novas. Esse ainda é o dilema de nossa época.

Referências BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994. BRETON, A. Manifestos do surrealismo. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2001. __________. Oeuvres complètes. Paris: Gallimard, 1988. __________. Surrealisme et la peinture. New York: Brentano, 1945. BRETON, A & TROTSKY, L. Por uma arte revolucionária. São Paulo: Paz e Terra, 1985. NAVILLE, P. La révolution et les intellectuels. Paris: Librarie Gallimard, 1927.

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TROTSKI, L. En Defensa del marxismo. Buenos Aires: El Yunque Editora, 1975. ___________. Literatura e revolução. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980. WOOD, P. et alii. Modernismo em disputa: a arte desde os anos quarenta. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 1998.

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Socialistas libertários e a luta pela moradia no rio de janeiro (1987-2010)
Mariana Affonso Penna1 Resumo: As últimas catástrofes climáticas no Rio de Janeiro lançaram luz para um problema comum às metrópoles do chamado Terceiro Mundo: a precariedade ou mesmo a ausência de moradia para significativa parcela da população. Movimentos sociais e organizações políticas de matriz socialista libertária no Rio de Janeiro, por mais de vinte anos, vêm atuando ativamente sobre essa questão, tanto realizando novas ocupações como apoiando politicamente ocupações já existentes, com destaque para aquelas ameaçadas de despejo. Dessa maneira, este artigo visa focar nas experiências de luta dos socialistas libertários pela moradia digna. Além disso, serão apontados também os principais embates entre os defensores da moradia e aqueles voltados para a manutenção da propriedade privada, e por conseqüência pela manutenção da ordem social em vigor. Especialmente no atual contexto de “reforma urbana” e “choque de ordem” tais embates se intensificaram, revelando interesses e projetos antagônicos. Palavras-chave: 1. Movimento social. 2. Autogestão. 3. Invasão urbana. 4. Rio de Janeiro.

Socialistas libertários e a luta pela moradia no rio de janeiro (1987-2010) O início deste ano, 2010, o Rio de Janeiro foi marcado por tragédias fruto das chuvas torrenciais que contribuíram para o desabamento de diversas casas, e inclusive para a “implosão” do Morro do Bumba desalojando ou mesmo matando mais 70 famílias em Niterói, no dia 7 de abril de 2010. Essa tragédia evidenciou como é

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Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense.

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precária a condição de habitação de significativa parcela da população. No que diz respeito às soluções apresentadas para esse problema, estas são logicamente distoantes, assim como são distoantes os interesses de classe envolvidos. O assim chamado poder público, diretamente comprometido com os que possuem poder econômico, utiliza o discurso da precariedade para a política de expulsão da pobreza das áreas com potencial econômico para áreas de periferia. Mas essas áreas que estão sendo valorizadas, com destaque para o centro da cidade, possuem uma enorme quantidade de imóveis que até então estavam abandonados, sem qualquer função social e foram sendo ocupados, de maneira organizada ou não, pela população pobre carioca. Os socialistas libertários abraçaram há pelo menos duas décadas essa luta, e, privilegiando a dignidade humana em oposição à propriedade privada, passaram a apoiar e até mesmo a promover ocupações urbanas. Mas antes de abordarmos a atuação específica dos socialistas libertários na luta pela moradia, faz-se necessário esclarecer o que entendemos por socialismo libertário. Em geral, tal termo tem sido mais comumente associado ao anarquismo, principalmente ao anarquismo social, no entanto não é nesse sentido que aqui o empregamos. A opção é por uma designação mais abrangente, que não se limite ao pensamento e prática política auto-designados anarquistas, mas também inclua aqueles grupos que reivindicam outras nomenclaturas, como por exemplo os marxistas libertários, zapatistas, autonomistas, dentre outros. Nesse sentido, o critério básico para a definição de socialismo libertário é a defesa da autogestão social em oposição à burocracia. Dessa maneira, o socialismo libertário é entendido como um campo do socialismo que se distingue dos demais pois seus adeptos:
são contrários à manutenção da lógica de representação baseada em uma hierarquia inerente ao Estado, e defendem a construção imediata de espaços de poder com participação direta e horizontal de todos os envolvidos, com delegações temporárias e subordinadas às decisões da coletividade (Penna, 2010, p. 14).

A partir então dessa definição, nos voltamos para uma das principais formas de inserção social dos socialistas libertários tanto a nível nacional, como, mundialmente. Trata-se da prática da ocupação, com destaque para a ocupação

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urbana. Percebemos que socialistas libertários em diversas regiões do globo possuem como prática a tomada de espaços privados, normalmente abandonados, para servirem a seus objetivos. Assim surgem ocupações com objetivos diversos, de acordo com as demandas e nível de organização locais. É notável, por exemplo, a tendência de as ocupações no chamado Primeiro Mundo serem preponderantemente organizadas para servirem como centros culturais enquanto que no terceiro mundo prevalece a ocupação voltada para atender à demanda urgente de moradia para pessoas sem-teto. É nesse contexto terceiromundista que se insere a luta pela moradia no Rio de Janeiro. Em minha dissertação de mestrado foquei nas experiências de ocupações urbanas a partir de 1987. Nessa época ocorreu, possivelmente, a primeira grande ocupação organizada, após o período da chamada redemocratização, em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. No entanto, a organização a frente dessa ocupação, que ficou conhecida por Ocupação Nossa Senhora das Graças, não era ainda socialista libertária, tratava-se do Coletivo Gregório Bezerra (CGB), dissidência do PCB. No entanto, consideramos que uma parcela dos ativistas oriundos desse coletivo, “na experiência de atuação direta nos movimentos sociais percebeu paulatinamente as limitações do papel politizador da vanguarda”. (Penna, 2010, p.30) Dessa maneira, cada vez mais

Assumiram como prioridade a atuação junto aos movimentos sociais de base, e essa opção política aliada à decepção frente à tendência constante do descolamento das direções frente às bases dos partidos, contribuiu para a edificação de uma perspectiva cada vez mais horizontal de atuação política. (Penna, 2010, p.30)

Essa tendência tornou-se cada vez mais explícita, e assim, paulatinamente, esse grupo foi se aproximando de indivíduos e coletivos que já se referenciavam na busca da autogestão social, culminando na formação da Frente de Luta Popular (FLP) em 2000, no contexto da crítica à comemoração dos 500 anos do “Descobrimento”. Mas antes do surgimento da FLP, uma das organizações que mais se atuou na luta pela moradia, o Grupo Mutirão, um coletivo anarquista

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se envolveu diretamente na realização de uma ocupação, que se deu em 19 de dezembro de 1997 na Avenida Mem de Sá, 261, no centro do Rio de Janeiro, em um prédio abandonado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). (Penna, 2010, p.78)

Vitoriosa esta ocupação, passaram sete anos até que em 2004 a Frente de Luta Popular organizou a sua primeira ocupação, a Ocupação Chiquinha Gonzaga no prédio de 13 andares do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA):
Tal ocupação ocorreu na madrugada do dia 24 de julho de 2004 e se deu de maneira um tanto quanto tranqüila. Foi a primeira das grandes ocupações urbanas atualmente realizadas na cidade do Rio de Janeiro e por isso atraiu muitos simpatizantes. Militantes de várias organizações, em especial as socialistas libertárias, prestaram solidariedade. Anarcopunks e muitos ativistas libertários que prestaram apoio ou passaram a residir no local logo no início do processo, conferiram toda uma estética contra-hegemônica, afixando cartazes com dizeres e imagens referenciados na cultura punk e anarquista. O símbolo anarquista estava em todo canto, assim como dizeres feministas e que valorizavam a auto-organização dos trabalhadores. (Penna, 2010, p.81)

Após esta ocupação seguiram-se outras, a Zumbi dos Palmares em 25 de abril de 2005, na Avenida Venezuela, 53; a Quilombo das Guerreiras, que após o fracasso de uma tentativa em que estava aliada parte da FLP e a Frente Internacionalista dos Sem Teto, conseguiu enfim em outubro de 2006 ocupar o prédio nº. 49 da Avenida Francisco Bicalho, e, por fim, em novembro de 2008, quando já haviam decidido por encerrar a organização, ocuparam o prédio nº. 111 da Rua da Gamboa, centro do Rio de Janeiro. Todas essas ocupações eram antecedidas por reuniões de formação com os aspirantes a moradores e assim buscavam prepará-los para tocar a ocupação de

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maneira autogestionária, algo que logicamente nunca esteve isento de dificuldades e contradições, mas que fazia com que, ao menos nos momentos iniciais, princípios como a horizontalidade das decisões, e por consequência a valorização do “Coletivo” em detrimento de lideranças pessoais. Sobre o “Coletivo” é importante lembrar que esse termo passou a ser usado, principalmente a partir da Ocupação Chiquinha Gonzaga em 2004.
Os ocupantes da Chiquinha Gonzaga voltaram-se para a construção de um espaço horizontal de poder, o qual passou a ser denominado por Coletivo, composto por todos os indivíduos que participam da ocupação e desejam influir nos rumos dela. O espaço privilegiado de atuação desse coletivo é justamente a Assembléia Geral da Ocupação, na qual todos podem discutir e deliberar em pé de igualdade. Dessa maneira a Ocupação Chiquinha Gonzaga desenvolveu uma cultura de organização totalmente distinta da que é atualmente hegemônica na sociedade brasileira. Um dos primeiros desdobramentos da noção de Coletivo é a negação do personalismo e da autoridade, não há nenhum chefe, nenhum manda-chuva a quem obedecer, quem decide é o Coletivo, ou seja, as regras estabelecidas coletivamente é que precisam ser respeitadas. Isso demonstra um imenso avanço frente ao atual quadro alienante da democracia representativa, e principalmente da democracia representativa tal como ela existe no Brasil, altamente personalista, repleta de herança clientelista. (Penna, 2010, p.83)

Assim, percebemos que o “Coletivo” tal como ficou reconhecido o sujeito e a prática política privilegiada naquelas ocupações, é uma manifestação da autogestão, uma tentativa de construí-la, algo que os socialistas libertários buscam edificar nos seus espaços de atuação. Mas, logicamente as ocupações são um terreno em disputa, como todo e qualquer espaço político. Se os socialistas libertários defendem a autoorganização dos moradores, partidos políticos buscam influenciar no sentido de criar uma burocracia com poder sobre a ocupação, é o que ocorre na citada Ocupação Chiquinha Gonzaga:
No entanto, há hoje na Ocupação Chiquinha Gonzaga uma disputa

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interna em torno do projeto de organização do espaço. Em Assembléia Geral, os moradores em comum acordo deliberaram por criar uma associação de moradores, não para que esta se sobrepusesse hierarquicamente ao Coletivo, mas sim por questões jurídicas, para agilizar a regularização da ocupação. No entanto, era necessário que a associação fosse, ao menos formalmente, constituída com a mesma estrutura nos moldes dominantes, com hierarquias tais como presidente, vice-presidente, tesoureiro, dentre outros. Ocupantes que fazem parte do Partido dos Trabalhadores (PT), por se identificarem com este modelo, se propuseram a ocupar esses cargos e foram escolhidos para assumir a direção dessa associação. Uma vez como representantes da associação, esses militantes vêem tentando sobrepôla ao Coletivo como espaço de deliberação. Isso ocorreu algumas vezes através do desrespeito às posições tiradas em assembléia geral pelos membros da associação. Ou seja, trata-se da tentativa de novamente alienar através da lógica da representação e assim criar uma cúpula para decidir pelos demais. (Penna, 2010, p.83)

Dessa maneira percebemos como a ocupação está permeada de disputas de projetos, de interesses, assim como a sociedade de um modo geral. Mas para além desses casos mais explícitos de disputa política, a mera aceitação “das coisas como elas são”, é também uma postura política e que, consequentemente disputa espaço nas ocupações. Esse problema é ainda maior no caso de ocupações não-organizadas, aquelas que são meramente motivadas pela necessidade de obter um local para residir e não há organização política envolvida na sua realização. Essas ocupações são normalmente as que possuem as mais precárias situações de sobrevivência tanto pela péssima estrutura do local habitado como pelos conflitos internos e violência gerada por uma convivência desorganizada em meio à miséria em sentido lato, pautada muitas das vezes na lei do mais forte. Mas mesmo essas ocupações, principalmente em momentos de crise e ameaça de despejo, passam a reconhecer a necessidade de se organizarem e buscar apoio para isso, para permitir sua própria sobrevivência.

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Foi, em geral, nesse tipo de ocupação que a Frente Internacionalista dos Sem Teto focou (e foca) sua atuação. Tal frente surgiu da aproximação da Liga dos Comunistas Sem-Partido à Federação Anarquista do Rio de Janeiro, a primeira sendo um coletivo que contava também com membros egressos do Coletivo Gregório Bezerra2, e a segunda uma organização especifista anarquista (FARJ, 2009). Dessa articulação surgiu a Frente Internacionalista dos Sem-teto. Nesta frente os socialistas libertários atuavam principalmente estimulando a auto-organização daqueles engajados nas ocupações, através da organização de assembléias autogestionárias. O outro setor da FIST, composto principalmente por advogados, centrava-se na defesa jurídica das ocupações. Após divergências por considerar insuficiente a preocupação daquele setor com a formação política e edificação da autogestão, a FARJ rompeu com a FIST. Mas enquanto atuaram juntos, várias foram as ocupações nos quais se inseriram na luta contra o despejo, e chegaram, inclusive, a promover uma ocupação no Largo do Boticário, local turístico no Catete, Rio de Janeiro, e esta foi
(...) uma das mais polêmicas e mais estigmatizadas ocupações ocorridas nos últimos anos. A sua localização em área extremamente valorizada pelo mercado imobiliário no Cosme Velho, aliado ao interesse turístico trouxe por conseqüência enorme visibilidade na mídia para aquela iniciativa, mas também atraiu a incisiva reação de setores mais privilegiados da sociedade. (Penna, 2010, p. 91)

Mesmo depois da saída da FIST, os ativistas vinculados à FARJ, após entrarem para o MTD (Movimento dos Trabalhadores Desempregados) ainda atuaram em mais uma ocupação, a Guerreiro do 510, na Rua Frei Caneca, nº. 510 na Lapa no ano de 2009. Após serem despejados em 22 de maio de 2009, muitos dos moradores romperam com o Movimento dos Trabalhadores Desempregados e se aproximaram de antigos ativistas da extinta FLP, assim ocuparam o prédio nº. 234 da Avenida Mem de Sá, também na Lapa, mas novamente foram despejados.

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Mas que não aderiu a uma proposta autogestionária de atuação.

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O insucesso dessas ocupações está diretamente relacionado a alterações na atual conjuntura, pois o Rio de Janeiro passa por uma
política de “limpeza” das áreas centrais da cidade que está sendo promovida pela atual prefeitura através de operações chamadas “Choque de ordem” implementadas pelo prefeito Eduardo Paes, e levadas a cabo pelo secretário municipal de Ordem Pública, Rodrigo Bethlem. Essa política de verdadeira criminalização e remoção da pobreza tem por objetivo afastar a miséria, e os miseráveis, dos espaços freqüentados pela burguesia carioca, ou permitir a “liberação” de áreas e imóveis para a exploração imobiliária. (Penna, 2010, p.100)

Dessa maneira, os despejos se tornaram cada vez mais frequentes e a possibilidade de organizar novas ocupações se reduziu significativamente. Atualmente presenciamos no Rio de Janeiro incêndios “misteriosos” “justificarem” a remoção de camêlos da Central do Brasil, de ocupantes de prédios abandonados ou mesmo de moradores de favelas. Mesmo as chuvas avassaladoras que assolaram o estado nos primeiros meses de 2010, por mais que evidenciem o problema da precariedade ou mesmo a ausência de moradia para significativa parcela da população, também foram utilizadas para justificar o projeto de desalojo sistemático da população mais pauperizada para a periferia. Mas os movimentos, mesmo que em uma situação preponderantemente defensiva continuam a se organizar, e se por um lado a repressão aumentou, aumentou também a necessidade de articulação entre os movimentos. E assim surgiu o Re-unindo Retalhos, uma frente de articulação entre vários grupos socialistas libertários no Rio de Janeiro, que aos poucos vêm crescendo em atuação e criando a possibilidade de unificar e fortalecer a luta pela autogestão social. Referências FARJ. Anarquismo Social e Organização. São Paulo, Faísca, 2009. Penna, Mariana Affonso. Socialistas Libertários e lutas sociais no Rio de Janeiro (1985-2009). Niterói, 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Departamento de História, Universidade Federal Fluminense. P. 14.

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Educação Libertária: a Instrução Integral em Mikhail Bakunin
MATEUS, J.G.F. 2 SOUSA, Wanderson J. SADDI, Rafael3
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Resumo: O presente texto tem como objetivo apresentar a noção de instrução integral nos escritos de Mikhail Bakunin no periódico L'Egalité no ano de 1869. Para o anarquista russo, todos os progressos da ciência sempre serviram para aumentar a riqueza das classes privilegiadas e o poder dos Estados. A diferença de classes gera a diferença de instrução e a diferença de instrução perpetua a diferença de classes. Neste sentido, enquanto houver dois ou mais graus de instrução, haverá classes, isto é, privilégios econômicos, políticos e sociais para uma minoria e miséria e escravidão para as massas populares. Partindo dessa premissa, os progressos da ciência, da indústria e do comércio foram causa da ignorância relativa e miséria relativa das classes populares e só através da revolução social seria possível a emancipação das massas. Dessa forma, a Instrução Integral é inviável sem a abolição das classes e do Estado Burguês. Palavras-chave: anarquismo, educação libertária, instrução integral, Bakunin O pensamento de Mikhail Bakunin foi esquecido por militantes políticos e por intelectuais acadêmicos. Seu esquecimento se deve menos à força de suas idéias do que ao domínio dos instrumentos de produção do passado por seus adversários. Adversário mal compreendido de Marx na Associação Internacional dos Trabalhadores, crítico ferrenho das autoridades infalíveis e da noção de ditadura do proletariado, o anarquista russo teve seus escritos e sua história sistematicamente condenados pelos ideólogos das ditaduras vermelhas. Resgatar os escritos de

Graduando em História, IFG – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás. Graduando em História, IFG – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás. 3 Doutor em História, professor da UFG – Universidade Federal de Goiás.
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Bakunin sobre Instrução Integral é trazer à tona um pensamento revolucionário radical que era capaz de perceber o modo como retiraram dos trabalhadores os seus meios de produção, os seus meios de administração e os seus meios intelectuais. Para analisarmos a Instrução Integral, dividimos este texto em três momentos. Primeiro, analisamos o método materialista do anarquista russo. Depois, abordamos a sua crítica à ciência burguesa. E, por último, buscamos sua concepção de instrução integral.

1) O Materialismo Para Bakunin, o homem nada mais é do que um produto da matéria. Mas, o que é essa matéria? É o real, tudo o que existe de fato, tanto forças físicas, químicas quanto forças inteligentes.
(...) a matéria da qual falam os materialistas, matéria espontaneamente, eternamente móvel, ativa, produtiva, a matéria química ou organicamente determinada e manifesta pelas propriedades ou pelas forças mecânicas, físicas, animais, inteligentes, que lhe são forçosamente inerentes, esta matéria nada tem de comum com a vil matéria dos idealistas. (Bakunin, 2000, p. 13).

Neste sentido, os fatos têm primazia sobre as idéias e as condições materiais de existência constituem a raiz da vida intelectual, moral e política.
Sim, os fatos têm primazia sobre as idéias; sim, o ideal, como disse Proudhon, nada mais é do que uma flor, cujas condições materiais de existência constituem a raiz. Sim, toda a história intelectual e moral política e social da humanidade é um reflexo de sua história econômica. (idem, p. 14).

Esta perspectiva de determinação fundamental econômica não deve ser confundida, entretanto, com uma causalidade de mão única. As esferas da vida humana estão ligadas em um sistema infinito de influências mútuas. Do mesmo modo como a esfera econômica cria a esfera política e intelectual à sua imagem e semelhança, estas outras esferas também influenciam a primeira e se influenciam entre si. Bakunin pensa em uma multicausalidade.

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Tudo o que existe, os seres que constituem o conjunto indefinido do Universo, todas as coisas existentes no mundo, qualquer que seja sua natureza, sob o aspecto da qualidade como da quantidade, (...), exercem, sem o querer e sem mesmo poder pensar nisso, umas sobre as outras e cada uma sobre todas, seja imediatamente, seja por transição, uma ação e uma reação perpétuas que, combinando-se num único movimento, constituem o que chamamos de solidariedade, vida e causalidade universais. (Bakunin, 1988, p. 57).

É através deste materialismo multicausal que Bakunin vai defender a supressão da propriedade privada, do Estado e do domínio intelectual. Para ele, não há igualdade sem socialismo. Isto é, enquanto não se abolir a exploração econômica, eliminando a propriedade privada e socializando os meios de produção, toda igualdade política é uma mera ficção. Como afirmou:
(...) a pobreza é a escravidão, é a necessidade de vender o trabalho, e com seu trabalho sua pessoa, ao capitalista que vos dá o meio de não morrer de fome. É preciso ter realmente o espírito interessado na mentira dos Senhores burgueses para ousar falar da liberdade política das massas operárias! Bela liberdade essa que os escraviza aos caprichos do capital e os acorrenta, à vontade do capitalista, pela fome! (...) enquanto o capital permanecer de um lado, e o trabalho do outro, o trabalho será escravo do capital, e os trabalhadores, os governados dos Senhores burgueses, que vos dão por irrisão todos os direitos políticos, todas as aparências da liberdade, para conservar a realidade desta liberdade exclusivamente para eles mesmos. (Bakunin, s/d., p. 30).

Da mesma forma, não há socialismo sem liberdade. Enquanto houver dominação política, isto é, o Estado, não haverá igualdade. Neste sentido, de nada

Existem várias interpretações sobre os escritos de Marx. Não acreditamos que Marx apresenta este economicismo criticado por Bakunin. Suas reflexões vão além de uma mera determinação da economia sobre as outras esferas. O que há no materialismo de Marx é uma percepção de que toda consciência é a consciência do ser social. Neste sentido, as idéias, a política, o direito, o Estado devem ser pensados a partir da sua relação com as condições materiais de existência. Isto não significa dizer que a economia de uma forma simples e esquemática determina as idéias, a política, a moral, etc. O certo é que grande parte das críticas de Bakunin a Marx são frutos de fraco entendimento. Assim como várias críticas de Marx a Bakunin também. Sobre as confusões que ambos cometeram em relação ao conceito de Estado, ler o artigo: SADDI, Rafael. Ditadura do Proletariado ou Abolição do Estado? O Conflito Conceitual entre Anarquistas e Marxistas. In: REVISTA ENFRENTAMENTO. Ano 04, no 06, Jan./Jun. de 2009. In:

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adianta suprimir a propriedade privada e manter o Estado, pois este reconstruirá a exploração econômica. Em uma crítica ao suposto economicismo em Marx4, Bakunin afirmava:
O Estado político de todo país, diz ele (Marx), é sempre o produto e a expressão fiel de sua situação econômica, para mudar o primeiro, basta transformar este último. Todo o segredo das evoluções históricas segundo o Sr. Marx, está aí. Ele não leva em consideração nenhum outro elemento da história (...) Ele diz: “a miséria produz a escravidão política, o Estado”, mas não permite inverter esta frase e dizer: A escravidão política, o Estado, por sua vez, reproduz e conserva a miséria, como uma condição de sua existência; assim, para destruir a miséria é preciso destruir o Estado. (Bakunin, 2001, p. 39).

É com o mesmo critério que Bakunin pensa o domínio intelectual. Se todas as esferas estão interligadas e se influenciam mutuamente, abolir o Estado e a propriedade privada e manter uma instrução diferenciada é propor que os mais instruídos reconstruam um sistema de privilégios, restabelecendo o Estado e a exploração econômica sobre os menos instruídos. É neste sentido que precisamos entender sua percepção de Instrução Integral. Mas, para tanto, analisaremos sua posição em relação à Ciência.

2) A Ciência Burguesa Bakunin parte do seu materialismo para analisar a Ciência. Ela deve assim ser entendida em relação com as condições materiais de existência. Numa sociedade classes, a quem serve a Ciência? A todos os homens? Para Bakunin, a Ciência e seus progressos servem à classe burguesa e é responsável pela miséria relativa da classe trabalhadora. Primeiro, porque a instrução e a ciência só são acessíveis aos que detêm privilégios econômicos e políticos. Segundo, porque toda a ciência desenvolvida vai estar a serviço do capital e do Estado, isto é, da exploração e da dominação. A desigualdade de condições exclui de forma completa o desenvolvimento das qualidades físicas, intelectuais e morais. A diferença entre o trabalho das classes

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abastadas e aquele dos operários estabelece uma proporção infinitamente excludente, deixando uma distância enorme entre quem pensa e quem executa. Bakunin (1979) afirma que a maior crítica dos socialistas democratas perante a ciência e as artes é que elas, na forma de seus benefícios, atendem apenas a uma porção mínima da sociedade e exclui a maioria. Sendo assim, seus progressos são exclusivos. O grau de ciência ou instrução que cada um dispõe é determinado pelo maior grau e menor grau de riqueza do estrato social em que vive. (Bakunin, 1979, p. 36). Como afirma Bakunin:
(...) os burgueses andaram mais depressa na estrada da civilização do que os proletários, não por que sua inteligência fosse naturalmente maior que a destes, mas por que a organização econômica e política da sociedade foi tal, até agir, que só os burgueses se podiam instruir que a ciência só existiu para eles, que o proletariado se viu condenado a uma ignorância forçada. (Bakunin, 1979, p. 37).

Desta forma, o grau de conhecimento depende dos privilégios de classe. O abismo intelectual entre a burguesia e o proletariado só acaba com a destruição dos privilégios que o geram. Mas, o contrário também é verdadeiro. Acabar com a divisão de classes sem acabar com a divisão de instrução é voltar a construir uma dominação de classes. É esta dialética de mútua determinação que vai guiar o pensamento bakuninista a respeito da instrução integral. Desta forma, enquanto houver dois ou mais graus de instrução, haverá classes, ou seja, privilégios econômicos e políticos para uma minoria; a escravidão e a miséria para a maioria. Enquanto os indivíduos não alcançarem o mesmo grau de instrução, não haverá igualdade. Como afirmou Bakunin:
Aquele que sabe mais dominará naturalmente aquele que sabe menos; e se existir entre duas classes apenas esta diferença de educação e de instrução, esta diferença produzirá em pouco tempo todas as outras, o mundo humano voltará ao seu estado atual, isto é, será dividido de novo numa massa de escravos e num pequeno número de dominadores, os primeiros trabalhando, como hoje, para os segundos. (idem, p. 32).

É por isto que, “Devemos rejeitar e combater esta ciência burguesa, do mesmo

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modo que devemos rejeitar e combater a riqueza da burguesia.” (idem, p. 38). Assim, tanto quanto o mundo econômico impõe uma divisão de graus de instrução e de acesso à ciência, todo este conhecimento científico produzido é utilizado para aumentar a exploração e a dominação sobre a classe trabalhadora. No âmbito da dominação, a ciência é vista por Bakunin como uma arma fabulosa. Ela faz com que o operário se cale perante o burguês, “não pela inteligência que possui, mas pela instrução, de que o operário foi privado”. (idem, p. 34). A educação imposta pela classe burguesa faz dos cidadãos homens disciplinados, conformados, e, sobre esses princípios, a ciência oprime em vez de libertar. A ciência constitui a principal força dos Estados. No pensamento bakuninista, o Estado foi, em toda a história, patrimônio de qualquer classe privilegiada, seja ela sacerdotal, monárquica, republicana, burguesa. Assim, há sempre uma classe privilegiada por trás da sua existência e um interesse por parte desta em sua manutenção, o que significa a negação de reais interesses de todo o povo. Para Bakunin o Estado é
Uma abstração devoradora da vida popular (...). Um imenso cemitério onde, à sombra e sob o pretexto dessa abstração, vêm generosamente, beatificamente, deixar-se imolar e humilhar todas as aspirações reais e todas as forças vivas de um país. (Bakunin, 1986, p.10)

Ainda,
É o altar onde a liberdade real e o bem-estar dos povos são imolados à grandeza política e quanto mais esta imolação é completa, tanto mais o Estado é perfeito. (idem, p. 37)

A ciência, através de um conjunto de idéias e práticas, indica os caminhos mais prósperos para a classe dominante. O conhecimento é expropriado das classes exploradas e é organizado em sistemas fundamentados em métodos e técnicas que asseguram o seu controle. Os resultados dos processos de conhecimento beneficiam fundamentalmente a classe dominante. É assim que podemos entender a ciência da administração, a ciência de governo, a ciência militar, isto é, todo um conjunto de técnicas dispostas a

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(...) tosquiar os rebanhos populares sem os fazer gritar demasiado, de os manter constantemente numa salutar ignorância, a fim de que jamais possam, pela solidariedade e pela união dos seus esforços, criar uma força capaz de os derrubar. (Bakunin, 1979, p. 36).

Mas a ciência se coloca tão à disposição da dominação política do proletariado quanto de sua exploração econômica. Desta forma, todo o conhecimento produzido é utilizado para aumentar a riqueza da burguesia e a pobreza do proletariado. As máquinas são para Bakunin um exemplo claro de como a burguesia se utiliza da ciência para explorar ainda mais o trabalhador. Os progressos da ciência sem dúvida foram imensos, mas imensos também foram à ruína e à opressão do povo pela classe burguesa. É assim que Bakunin entende que da mesma forma que os progressos na indústria e no comércio geraram a miséria relativa da classe trabalhadora, os progressos da ciência geraram a ignorância relativa do proletariado. Disto, só se resulta uma alternativa:
(...) rejeitar e combater esta ciência burguesa, do mesmo modo que devemos rejeitar e combater a riqueza da burguesia. Combatê-las e rejeitálas no sentido de, ao destruir a ordem social que delas faz patrimônio de uma ou de várias classes, as reivindicar como bem comum de todo mundo.” (idem, p. 38).

3) A Instrução Integral Diferentemente do que é corrente nos meios de comunicação e no meio acadêmico-escolar, a instrução integral difere grandemente da educação em tempo integral, que é a tônica dos modelos educacionais atualmente. Como dissemos, para Bakunin, não adianta abolir as classes e o Estado e manter a diferença de graus de instrução entre os diferentes estratos da sociedade, posto que ela tenderá a reconstruir a divisão de classes e o Estado. Assim, para alcançar uma sociedade igualitária, além da abolição da propriedade privada e do Estado, se faz necessária a instrução integral.

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Por definição, a instrução é integral “(...) quando prepara os homens tanto para a vida do espírito como do trabalho, a fim de que todos se possam tornar pessoas completas”. (Bakunin, 1979, p. 43). A instrução integral está baseada, portanto, na abolição da divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual. Neste sentido, “toda a gente deve trabalhar e toda a gente deve receber instrução”. (idem, p. 38). Desta forma, o homem seria vivo e completo, pois desenvolveria igualmente suas atividades musculares e nervosas, atividades que se apoiariam mutuamente, uma reforçando e alargando a outra. (idem). Desta forma, não haverá mais operários e sábios, mas apenas homens (idem, p.38). Para Bakunin,
(...) a ciência do sábio se tornará mais fecunda, mais útil e mais vasta quando o sábio deixar de ignorar o trabalho manual, e o trabalho do operário instruído será mais inteligente e, por conseguinte mais produtivo do que o do operário ignorante. (idem, p.38).

Haverá desta forma, uma humanização dos sábios e dos operários: os sábios se tornando homens através do trabalho, e os operários se tornando homens através da ciência. Portanto, a ciência (alienada do trabalhador pela divisão do trabalho) e o trabalho (alienado do sábio pelo mesmo motivo) retornarão ao homem, como atividades a serem desenvolvidas por todos. Ocorrerá, assim, uma “reconciliação da ciência e da vida”. (idem, p. 49). Não haverá tantos sábios ilustres, mas ao mesmo tempo, haverá muito menos ignorantes. “Deixará de haver homens que tocam os céus, mas, em contrapartida, milhões de homens hoje aviltados, esmagados, caminharão humanamente na terra: nem semideuses, nem escravos”. (idem, p. 39). Estarão eliminados o endeusamento e o desprezo. Mas, como deverá ser esta instrução integral? Para Bakunin, o ensino deverá dividir-se em científico ou teórico e industrial ou prático. O científico terá por base o conhecimento da natureza e a sociologia e também será dividido em duas partes: uma geral e uma específica.

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A geral, obrigatória para todas as crianças, constituirá no conhecimento geral dos principais elementos de todas as ciências, já que “(...) não há inteligência, seja ela qual for, que possa abarcar na especialidade todas as ciências, e que, por outro lado, é absolutamente necessário ao completo desenvolvimento do espírito, um conhecimento geral de todas elas.” (idem, p. 43). A específica será o estudo verticalizado e profundo sobre uma das diferentes especialidades científicas. Na adolescência, cada um escolherá “com perfeito conhecimento de causa a faculdade que melhor convirá às suas aptidões e gostos particulares”. (idem, p. 43). Paralelo a este ensino científico ou teórico, ocorrerá o ensino industrial ou prático. Este ensino também será dividido em duas partes: conhecimentos gerais e específicos. Os gerais “darão às crianças as idéias gerais e o próprio conhecimento prático de todas as indústrias, que constituem a civilização no aspecto material, a totalidade do trabalho humano”. A parte específica será “dividida em grupos de indústrias mais especificamente ligadas entre si”. (idem, p. 44). Assim como no ensino científico, os adolescentes escolherão após o estudo dos conhecimentos gerais das indústrias, “a indústria em particular de que mais gostam.”. (idem, p. 45). Com este tipo de instrução integral para todos os homens, não haverá mais uma divisão entre os que possuem o conhecimento e os que estão afastados do mesmo. Ao fazer isto tornarão todos os homens idênticos? Pelo contrário, em uma sociedade igualitária, continuará, para Bakunin, existindo diferenças individuais. Para ele, “Existe uma verdade do passado, em provérbio, e que provavelmente nunca deixará de ser verdade: não há árvore que tenha duas folhas iguais. Com muito mais razão será verdade para os homens que são muito mais complexos do que as folhas.” (idem, p. 41). Entretanto, esta diversidade, longe de contrariar a necessidade da igualdade, é um argumento a favor da mesma. É somente em uma sociedade igualitária, tanto econômica, quanto político, quanto intelectual, que os homens poderão desenvolver todas as suas potencialidades individuais e coletivas.

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As liberdade individuais, não privilegiadas mas humanas, as capacidades reais dos indivíduos só poderão ser plenamente desenvolvidas em igualdade completa. Só quando houver igualdade desde o início para todos os homens em cima da terra, só então – salvaguardando os superiores direitos da solidariedade, que é e continuará a ser a principal base de toda a vida social: inteligência humana e bens materiais – se poderá dizer que todo o indivíduo é fruto do seu próprio esforço. (idem, p. 40).

A Instrução Integral nessa sociedade capitalista é, assim, impossível: “os burgueses não compreendem que seus filhos se tornem trabalhadores, e os trabalhadores estão privados de todos os meios para dar a seus filhos uma instrução científica.” (idem, p. 92) A vida será valorizada quando excluirmos da realidade os mantenedores da opressão. Isso será obra unicamente da classe explorada e não dos exploradores. Assim podemos dizer, sem hesitação, que, transformar não é reformar.

Referências BAKUNIN, Mikhail. A instrução integral. In; O Socialismo Libertário. Trad. Olinto Beckermam, São Paulo: Ed. Global, p.32-52, 1979. (Coleção bases, nº22) ______. A Instrução Integral. Trad. Luiz Roberto Malta. São Paulo: Editora Imaginário, 2003. ______. Federalismo, Socialismo e Antiteologismo. São Paulo: Cortez, 1988. ______. O Estado: Alienação e Natureza. In: O anarquismo e a democracia burguesa. Trad. Roberto Goldkorn. São Paulo: Global Editora, 3ª Edição, 1986. ______. Deus e o Estado. São Paulo: Ed. Imaginário, 2000. ______. Socialismo e Liberdade. São Paulo: Coletivo Editorial Luta Libertária, s.d. ______. Escritos contra Marx. São Paulo: Imaginário, 2001. Coletivo Pró-Organização Anarquista em Goiás. Anarquismo Coletivista – O Bakuninismo. Goiânia, 2005. (Impresso por meio eletrônico). Disponível em: http://www.anarkismo.net/article/2215. Acesso em Maio 2010.

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SADDI, Rafael. Ditadura do Proletariado ou Abolição do Estado? O Conflito Conceitual entre Anarquistas e Marxistas. In: REVISTA ENFRENTAMENTO. Ano 04, no 06, Jan./Jun. de 2009. In: http://api.ning.com/files/GJ82mJhiUhgA3Ov36*P6oaBbpt91T*nKJpHFEeLj9mcyE8A w8iqUhKPhHR2cPieXW6XG*DUBSJNlnnpDPeaj74kxqgFum0c/Enfrentamento06.pdf

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I Simpósio Nacional Marxismo Libertário Contradições nas Reivindicações Populares*
Mateus Vieira Ório
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Os movimentos de intervenção social encontram diversas dificuldades em empreender reivindicações que representem mudanças sociais efetivas no que diz respeito a romper com a dominação imposta pela burguesia aos explorados. Estas dificuldades possuem várias origens, desde a disputa de interesses entre as classes sociais, as dificuldades impostas por intelectuais que insistem em conter a radicalização, o poder de imposição que se encontra nas mãos da burocracia, as dificuldades das classes exploradas em ter participação política ativa e o fetiche em torno dos partidos. A incorporação, por parte dos explorados, da ideologia neoliberal, juntamente com os ditames da classe dominante e suas classes auxiliares, atuam no condicionamento de interesses das classes exploradas que passam a defender ou legitimar de maneira ideologizada as imposições da burguesia. A teoria marxista, iniciada com Marx e Engels, se desenvolve num processo resultante de novas experiências diversas da luta de classes. Porém avançou para um grau de elaboração cada vez mais alto, não estando diretamente ligada à práxis do movimento operário que lhe era contemporâneo. Teoria e práxis evoluem lado a lado, mas de modo relativamente independente. Assim Karl Korsch (2008) explica o nível elevado da teoria marxista e a impossibilidade de adesão efetiva por parte do movimento operário a esta teoria tão desenvolvida. Compreendendo as dificuldades do movimento operário em adotar estratégias que lhe proporcionem maior êxito, dadas as diversas experiências
Trabalho escrito para comunicação no I Simpósio Nacional Marxismo Libertário: Perspectivas e Tendências da Autogestão Social a se realizar nos dias 9, 10 e 11 de junho de 2010 na Universidade Federal de Goiás no seminário temático 06, dia 09 de junho de 2010, “Os intelectuais e Organizações Sociais nas Sociedades Capitalistas”. O título anterior foi modificado (Anacronismo nas Reivindicações Populares) em decorrência de sugestões recebidas durante a exposição, principalmente por José Santana da Silva, que atentaram ao emprego do termo “anacronismo”, que devido a sua significação, que remete a acontecimentos em desconformidade com a época em que ocorrem, causava dificuldades de compreensão em de relação ao conteúdo do texto.
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Estudante do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

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realizadas no desenvolvimento do modo de produção capitalista, o progressivo aumento da exploração e as artimanhas adotadas pela burguesia para conter a luta operária, falamos então nestas contradições nas reivindicações populares tratando das incoerências das manifestações e as constantes retaliações que sobrepõem os valores ideológicos desta sociedade desigual, enfatizando uma pseudo-liberdade, aos anseios de uma sociedade igualitária onde a liberdade de alguns não implique na escravidão de muitos outros. No modo de produção capitalista enquanto alguns trabalham outros desfrutam. A riqueza expressa no “produto nacional líquido” de um país dissimula a fonte deste lucro que são os trabalhadores (Makhaïsky, 1981). Enquanto aparece uma produção como comum a todos os habitantes de um país alguns não têm parte na produção, apenas no consumo. Conforme a modernização do modo de produção capitalista que, através da incorporação de novas tecnologias e da constante divisão e racionalização do trabalho, aumenta a produtividade individual dos trabalhadores, de maneira que o tempo, que no advento da sociedade moderna – onde as condições de trabalho eram bastante piores no que diz respeito à segurança e qualidade de vida dos trabalhadores – um trabalhador produzia determinada quantidade de mercadorias, hoje, com este mesmo tempo, um trabalhador produz muito mais mercadorias. Conclui-se então que o lucro que o capitalista obtém de cada trabalhador passa a ser então bem maior conforme o crescimento das forças produtivas. E isto significa que atualmente os proletários estão sendo mais explorados, pois mesmo recebendo salários maiores ou ampliando seus direitos (como férias, aposentadoria, limite de horas de trabalho, etc.) o salário ganho atualmente é proporcionalmente menor em relação à quantidade de capital que o trabalhador produz. Então se antes ele produzia, por exemplo, 100 mercadorias por mês e seu salário mensal equivalia ao valor de 10 mercadorias (10%), hoje ele produz 1000 mercadorias e recebe o valor equivalente a 30 mercadorias que é um valor superior ao anterior, porém proporcionalmente inferior (3%). Ao invés do aumento das forças de produção resultar em um consumo maior

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para toda a sociedade de forma a distribuir o lucro, este mostra-se como um fundo de consumo das classes privilegiadas. O crescimento da exploração proporciona então uma melhor manutenção da chamada sociedade cultivada. Esta sociedade cultivada, nos termos de Makhaïsky, compreende os consumidores do “lucro nacional líquido”, que são indivíduos das classes privilegiadas, trabalhadores improdutivos no sentido de que não produzem mais-valor (professores, médicos, juízes, etc.). Estas classes privilegiadas então se apropriam do excedente de mais-valor que é extraído da atividade produtiva daqueles que, na sociedade, produzem as mercadorias, que são elementares no modo capitalista de produção (Marx, 1985). Deste modo os membros da sociedade cultivada não são também explorados como afirmam muitos defensores da ideologia da vanguarda presente em vários teóricos ditos marxistas. Aqueles que pregam que os intelectuais vivem somente de sua produção intelectual ignoram o fato de que esta classe não produz mais-valor e, neste sentido, não contribui para o sustento da humanidade, é, portanto, uma classe exploradora. O fato de um determinado trabalho ser considerado “penoso” ou “útil” não quer dizer que o respectivo trabalhador esteja sendo explorado, que dele esteja sendo extraído lucro. O avanço do capitalismo mostra-se inseparável do crescimento da sociedade cultivada. Se a contradição entre a modernização das forças de produção e a pouca abrangência do consumo não leva à ruína o modo de produção capitalista é porque satisfaz interesses reais dos indivíduos destas classes sociais que passam então a ter um nível de vida burguês. (Makhaïsky, 1981) A intelectualidade historicamente foi uma posição de status na sociedade. Os intelectuais podem ser entendidos como uma “classe social composta pelos indivíduos dedicados exclusivamente ao trabalho intelectual”. Esta classe que surge com a separação entre trabalho manual e trabalho intelectual, sempre obteve rendimentos acima da classe explorada e sempre esteve ao lado da classe dominante. (Viana, 2006) O saber funcional acumulado, que é maior nas classes privilegiadas, é um instrumento de manipulação poderoso e confere maior eficácia ao discurso. O status

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dos intelectuais emprega a eles certa autoridade no sentido de que são tidos como indivíduos que possuem um conhecimento mais próximo da verdade o que lhes dá o poder de hegemonia. (Viana, 2003 e 2006). Segundo Marx (citado por Viana, 2006) “os intelectuais passam a se dedicar ao trabalho intelectual e o produto do seu trabalho é a ideologia”. Uma vez produzida, a ideologia passa a legitimar as relações sociais existentes, naturalizando-as. A luta do intelectual se dá num sentido de uma partilha “mais justa” do lucro nacional em benefício da sociedade cultivada, exprimindo os privilégios destas classes. Nestes termos, enquanto o proletariado considerar a classe de intelectuais como aliada, a dominação só poderá ser percebida dentro dos limites dos interesses desta classe. E estes interesses se dão no sentido de manter a contradição entre produção e consumo, mantendo os privilégios da sociedade cultivada com o argumento de que alguns indivíduos possuem “melhor disposição” para o trabalho científico, artístico, administrativo, etc. restando aos outros o trabalho manual. (Makhaïski, 1981) Os intelectuais se empreendem em uma luta para uma espécie de redistribuição “mais justa” do que é produzido, mas a este interesse está intrínseco o modo capitalista de produção. A modificação na distribuição como é proposto por alguns ditos socialistas é nada mais que uma transferência das atribuições que hoje cabem ao mercado para um Estado soberano onde persistem a propriedade individual e a estratificação social em classes, ou seja, reproduz a dominação. (Makhaïski, 1981) O objetivo da luta proletária é o fim desta dominação. Para o movimento operário isso é um ideal e um interesse de classe, uma luta contra a servidão em favor da igualdade e da inexistência de classes objetivando a emancipação do ser humano como um todo. E, desta forma, o ideal socialista proletário é oposto a este “socialismo” reproduzido por alguns intelectuais que pretendem apenas transformar um capital privado em capital estatal. Organizações institucionais como sindicatos, partidos políticos, ONGs, entidades de representação estudantil, etc. se caracterizam de imediato por sua

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burocratização em que a complexidade dos regimentos, a formalidade e, muitas vezes, a existência de algum constrangimento financeiro (como taxa de mensalidade ou mesmo investimento em formação intelectual) constituem obstáculos para a participação ativa dos proletários. Organizações burocráticas tem como característica a hierarquização, um legado do sistema capitalista nelas reproduzido, ou seja, há a distinção entre dirigentes e dirigidos. A burocratização advém da idéia de eficiência, uma necessidade das organizações com pretensões políticas nesta democracia. Há um presidente ou um núcleo diretor que compreende indivíduos com condições de atuar de maneira mais ativa e, consequentemente, condições de ter hegemonia. Além do quê, o indivíduo proletário, devido ao cansaço, falta de tempo e à menor formação intelectual, acaba tendo menos condições de participar ativamente de uma organização política. Outro fator determinante para os objetivos destas organizações é a origem dos recursos que as financiam, podendo ser de empresários, igrejas, ou do próprio governo, o que ocasiona em uma convergência para os objetivos do patrocinador. (Viana, 2003) Os indivíduos das classes exploradas, que não possuem condições de se inserir no núcleo de decisão, acabam auxiliando as diretorias destas organizações a alcançarem seus interesses, pois os proletários tendo interesses condicionados pelos interesses dos diretores acabam legitimando as decisões impostas de cima. A aglomeração de pessoas favorece aos interesses do grupo intelectual que as está “guiando” por conferir a eles maior legitimidade. Os governantes são, deste modo, indivíduos em possibilidade de exercer seus interesses legitimados pelo voto popular. (Viana, 2003) Os indivíduos que, dentro de uma organização, conseguem status por demonstrarem maior saber funcional acabam se distanciando dos demais e, ao atingirem cargos distintivos dentro da organização, assumem a posição de burocratas. A crescente burocratização institui vínculos formais e imperativos que criam novas relações sociais estabelecendo a burocracia como uma classe social. Os dirigentes das organizações institucionalizadas acabam possuindo interesses divergentes aos dos demais integrantes do grupo pelo fato de estarem situados na burocracia e assim conservando os interesses referentes a esta classe.

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Quando um candidato assume o poder ou quando um indivíduo adquire um cargo da burocracia estatal por meio de concurso este sujeito passa a constituir a classe dos burocratas e, por este motivo, ele representa esta classe. Por isso é uma ilusão acreditar que um candidato eleito irá representar os interesses de operários, camponeses ou outra classe que não a dominante, dado que a burocracia é uma classe auxiliar à classe dominante e os imperativos desta posição se fazem valer pela constante reafirmação da eficiência e pela imposição empresarial. Um representante da burocracia estatal é incumbido de reproduzir as relações hierárquicas que se supõem serem mais eficientes ao desenvolvimento econômico esperado. A referida ilusão constitui a ideologia da representação (Viana, 2003) que motiva os diversos partidos políticos a adotarem discursos que preguem a defesa dos interesses da pluralidade de classes sociais. À maneira da Revolução Francesa – quando a burguesia que, tendo conquistado seus interesses, torna-se reacionária (por temer a radicalização do movimento proletário) e alia-se a nobreza (Hobsbawm, 1988) – assim também, em um movimento de intervenção social, os intelectuais e burocratas ao terem conquistado seus interesses – na maioria das vezes meramente reformistas dada sua posição de classe – tendem a conter as reivindicações temendo a radicalização do movimento, que significaria por em risco os privilégios de sua posição distintiva. Para um gerente de produção é mais interessante que o movimento operário ganhe somente um aumento salarial ao invés de ocupar a fábrica e promover uma autogestão, pois isto o colocaria no nível dos trabalhadores comuns. Isso faz com que aqueles que possuem algum privilégio proclamem, desde o início, objetivos limitados. Estes objetivos podem ser a conquista de alguma melhoria subsidiária, alguma melhoria para a classe ou um grupo específico de indivíduos, pode ser simplesmente um interesse de divulgação eleitoral, ou ainda, os interesses, quaisquer que sejam, podem ser também suprimidos pelo recuo da movimentação em prol do ganho ou perda de indivíduos que por ventura receberam ou perceberam alguma proposta que os motiva a recuar, por exemplo: o aumento do salário ou promoção de alguma liderança do movimento ou mesmo a ameaça de demissão ou corte de salário.

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Na mesma linha de condicionamento de interesses estão as várias palestras motivacionais, proferidas por intelectuais nas empresas, que já são comuns no dia-adia do operário e tem o objetivo de destituí-lo de ideias que contrariem os interesses do patrão, incentivando os trabalhadores a serem “racionais” de acordo com os valores neoliberais. Estas palestras, bem como os inúmeros livros de autoajuda estampados nas fachadas das livrarias, tem o objetivo de manter o foco dos trabalhadores apenas no trabalho obstinado, idealizando este como meio único de chegar à felicidade que representa a ascensão social, melhor poder aquisitivo; abrindo portas para melhores relações sociais, maiores oportunidades; enfatizando até mesmo que um indivíduo que trabalha “duro” tem a possibilidade de trabalhar mais tranquilamente no futuro e até de ter empregados em decorrência do novo leque de possibilidades que a sociedade moderna neoliberal possibilita a todos aqueles que são esforçados em atingir seus objetivos. Estes indivíduos obstinados passam então a incorporar a ideologia do neoliberalismo e não se reconhecem como indivíduos de uma classe que é explorada por este sistema. Seus objetivos passam a ser então a mobilidade de classe, o acesso a algum lugar privilegiado em que não haja sofrimento. E com isso a conduta revolucionária aparece como um desvio da conduta obstinada caracterizando-se como perda do foco principal que é a ascensão social. Inúmeras dificuldades dos movimentos surgem devido a incorporação da ideologia do neoliberalismo e da fetichização dos partidos. Em primeiro lugar, os indivíduos percebem suas motivações e possibilidades dentro dos valores neoliberais, ou seja, ao invés de fazer a crítica eles incorporam estes valores e a partir deles constroem seus objetivos. O neoliberalismo aparece então como uma camisa de força ideológica que possui a função de condicionar os interesses dos indivíduos. Em segundo lugar os indivíduos apenas vêem possibilidades de participação política através dos partidos: quando se pensa em empreender algum movimento político pensa-se automaticamente em fazer isso via partido político institucionalizado. Então muitas pessoas procuram os partidos políticos buscando a efetivação de seus interesses. Porém o partido tem seus próprios interesses que são

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expressão dos interesses dos dirigentes dos partidos. Tanto partidos políticos como sindicatos, entidades de representação estudantil, ONGs, etc. atuam como aglutinadores de indivíduos interessados na mudança social. Porém isto acaba beneficiando a instituição em nome de seus dirigentes. (Viana, 2003) A transformação para Marx advém da autogestão social. O partido que atrapalha deve ser combatido, pois é impossível caminhar com pessoas que tendam a suprimir a luta de classes. As organizações institucionais acabam por dirigir o movimento ao invés de desenvolvê-lo. (Viana, 2003). “O objetivo da luta proletária internacional é a supressão da base de dominação moderna [...]” (Makhaïski) e muitas organizações caem no erro de assumirem uma perspectiva que não a do proletariado e neste sentido é uma perspectiva limitada, não revolucionária e, no máximo, paliativa. A organização em instituições apenas reforça o regime capitalista, pois as instituições caminham nas regras por ele formadas e assim ajudam a legitimá-lo. Então quando um movimento de esquerda conquista algum cargo da burocracia estatal por meio de partido político a tendência é o desencanto de seus membros com a mudança social, pois são obrigados a se enquadrar às regras impostas pelo sistema. A perspectiva do proletariado, que é uma perspectiva anti-ideologizante, vai contra a perspectiva dos intelectuais de redistribuição porque a esta está intrínseco a ideologia hierarquizante do talento, que confere legitimidade à dominação daqueles que possuem o saber funcional. A emancipação da classe explorada então, já dizia Marx (citado por Viana, 2003), só pode ser obra da própria classe explorada, que nos termos aqui expostos é o conjunto de trabalhadores produtores de mais-valor. As contradições existentes em meio às manifestações populares só podem ser superadas por meio do avanço da luta de classes. Os intelectuais que, contrariando os imperativos de sua classe, ultrapassam a barreira dos interesses individuais assumindo uma postura crítica na perspectiva revolucionária, podem desenvolver teoricamente a consciência de classe do proletariado articulando-a num universo conceitual, acrescentando novos conceitos e relações conforme o desenvolvimento de novas experiências de luta. Sendo todas as diversas concepções políticas perpassadas pelo caráter de classe, o marxismo é (e deve ser unicamente) “a expressão

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teórica do movimento operário” (Korsch 2008). (Viana, 2008)

Referências HOBSBAWM, Eric J. “A Revolução Francesa” in: A Era das Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. KORSCH, Karl. “Estado Atual do Problema (Anticrítica)” in: Marxismo e Filosofia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2008.
MAKHAÏSKY, Jan W. “O Socialismo de Estado” in: TRAGTENBERG, M. (org.). Marxismo

Heterodoxo. São Paulo: Brasiliense, 1981. Marx, Karl. “A Mercadoria” in: O Capital, livro 1, v.1. São Paulo: Nova Cultural. 1985. VIANA, Nildo S. “A Intelectualidade como Classe Social” in: Espaço Acadêmico. n. 63. Sine loco, 2006. _____________. O Que É Marxismo. Rio de Janeiro: Elo, 2008. _____________. O Que São Partidos Políticos? Goiânia: Germinal, 2003.

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Intelectual: Pertencimento de classe e autonomia individual
Nildo Viana O presente artigo visa discutir o intelectual enquanto indivíduo. A partir de uma discussão sobre a intelectualidade como classe social conservadora, é necessário explicar a possibilidade de um intelectual que supere sua condição de classe e consiga ultrapassar os limites que esta lhe impõe. Desta forma, a discussão sobre o caráter de classe da intelectualidade, bem como a formação de suas ideologias, é o ponto de partida para a discussão sobre o intelectual como indivíduo e sua relação com a classe. Após isto, a relação entre indivíduo e classe é uma discussão necessária, para, finalmente, entrar no caso específico do intelectual como indivíduo e sua relação com a classe de pertencimento.

Intelectualidade: Categoria ou Classe Social? Antes de qualquer coisa é necessário retomar a questão da intelectualidade. A sociedade moderna expande a divisão social do trabalho como nenhuma outra sociedade anterior, na qual além das classes sociais e suas subdivisões (frações de classe) são acompanhadas por novas divisões (categorias profissionais, grupos de interesse, etc.). Neste contexto, a intelectualidade às vezes é considerada uma categoria social, às vezes uma classe social, entre outras possibilidades. Por uma questão de espaço, não poderemos discutir estas concepções, mas tão-somente apresentar nossa posição diante desta questão. Mas antes disso devemos questionar a ideia de que a intelectualidade é uma categoria social. Esta é a posição de Michael Löwy:
“Que é um intelectual? Trata-se sem dúvida de um ser bizarro e difícil de classificar. A primeira evidência é que o intelectual pode ser recrutado em todas as classes e camadas da sociedade: pode ser aristocrata (Tolstoi), industrial (Owen), professor (Hegel) ou artesão (Proudhon). Em outros termos, os intelectuais não são uma classe, mas uma categoria social; não se definem por seu lugar no processo de produção, mas por sua relação com as instâncias extra-econômicas da estrutura social; do mesmo modo que os burocratas e os militares se definem por sua relação com o político, os

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intelectuais situam-se por sua relação com a superestrutura ideológica. Quer dizer: os intelectuais são uma categoria social definida por seu papel ideológico: eles são os produtores diretos da esfera ideológica, os criadores de produtos ideológico-culturais. Ocupam, então, um lugar específico naquilo que se poderia chamar de processo de produção ideológica, o lugar dos produtores imediato, que se distingue daquele do empresário, do administrador ou do distribuidor de bens culturais. Os intelectuais assim definidos compreendem grupos como os de escritores, artistas, poetas, filósofos, sábios, pesquisadores, publicistas, teólogos, certos tipos de jornalistas, certos tipos de professores e estudantes, etc. Eles constituem o setor 'criador' de uma massa mais ampla de 'trabalhadores intelectuais' (por oposição aos 'trabalhadores manuais') que inclui as profissões liberais, os empregados, os técnicos, etc. São também o setor desta mais distante da produção econômica” (Löwy, 1979, p. 1).

Esta definição é que é bizarra, além de ser inexata e sua fundamentação demasiada fraca para ser convincente. Em primeiro lugar, a discussão é superficial e busca em apenas uma página resolver o problema da posição do intelectual na divisão social do trabalho. Em segundo lugar, confunde condição social e origem social (ou, em nossos termos, origem de classe e condição de classe), ao colocar que o intelectual pode ser recrutado em qualquer classe ou “camada”. Aqui se revela a confusão entre o produtor de ideias e o profissional do trabalho intelectual, sendo que Gramsci já havia feito a distinção entre intelectuais profissionais e produtores de ideias1. Em terceiro lugar, apresenta uma concepção limitada de classes sociais (“não se definem por seu

“Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais” (Gramsci, 1982, p. 7). Gramsci está correto ao postular que todos produzem uma “visão de mundo”. Porém, mais do que isso, potencialmente todos podem produzir um saber complexo sobre a realidade, embora isto seja limitado por determinadas relações sociais e condições de classe. Agora, a função de intelectuais é a de uma categoria profissional, segundo Gramsci, ou seja, atividade profissional específica. Desta forma, qualquer operário ou camponês produz ideias e alguns indivíduos destas classes podem produzir concepções filosóficas de mundo ou teorias desenvolvidas, graças a situações específicas destes indivíduos e nem por isso se tornam “intelectuais”, no sentido social do termo, que, para nós, remete a uma condição de classe. Daqui podemos derivar algumas conclusões: todos os seres humanos são seres conscientes, possuem e desenvolvem sua consciência, de forma mais ou menos complexa, mais ou menos ampla, etc. Porém, alguns produzem um saber relativamente complexo sobre a realidade (seja sob a forma de filosofia, teologia, ciência, literatura, etc.), mas nem todos dentre estes se dedicam exclusivamente ao trabalho intelectual e pertencem à intelectualidade como classe social. Aqui temos que distinguir entre pensadores, produtores de ideias relativamente desenvolvidas e complexas sem ser um profissional do trabalho intelectual, e intelectuais, profissionais, especialistas do trabalho intelectual, pertencentes a uma classe social específica, a intelectualidade. A confusão entre estes dois tipos (pensadores e intelectuais) é um dos grandes obstáculos para a compreensão da intelectualidade e serviu para transformar um profissional (o intelectual) em algo ideal (o pensador). Obviamente que é com o desenvolvimento do capitalismo que começa a haver uma separação entre pensador e intelectual, com a diminuição do primeiro e aumento do segundo, embora também ocorra o caso de um pensador se tornar intelectual.

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lugar no processo de produção”), que nem sequer é discutida e aprofundada. Em quinto lugar, a discussão sobre “categoria social” não é desenvolvida, apenas se coloca que são grupos ligados à superestrutura (ao “político” ou “ideológico”)2. Esta concepção é questionável pelo seu caráter a-histórico, pois não compreende o processo histórico de gênese da intelectualidade como classe social (e por isso os exemplos de intelectuais de “várias classes ou camadas” são de séculos passados ou países de capitalismo incipiente). Difícil seria dar exemplos atuais de “intelectuais” em todos estes grupos e classes e, mais ainda, no sentido exato de intelectuais por profissão e não por apenas produzir ideias. A intelectualidade, na sociedade capitalista3, é uma classe social. Isto significa, entre outras coisas, que ocupa um determinado lugar na divisão social do trabalho. Obviamente não há espaço aqui para discutir de forma aprofundada o conceito de classe social e por isso nos limitaremos a alguns breves apontamentos. As classes sociais são originadas da divisão social do trabalho, sendo que do modo de produção dominante emerge as duas classes fundamentais, a classe exploradora/dominante e a classe explorada/produtora. Além das classes constituídas no modo de produção dominante, há também as classes geradas pelos modos de produção subordinados, quando estes existem, e de modos de produção pré-existentes, sendo que estas tendem a diminuir progressivamente com o avanço do modo de produção dominante. Além destas classes oriundas da divisão social do trabalho na esfera da
Löwy não indica nenhuma bibliografia de aprofundamento da questão, o que revela mais uma vez a superficialidade de sua análise. Podemos remontar esta concepção seja na tradição leninista seja na tradição estruturalista, que, no fundo, é um desdobramento academicista da primeira. A sua definição de “categoria social” é semelhante à de Poulantzas (1977) e de Cueva (1974), representantes do estruturalismo e leninismo, respectivamente. 3 Isto significa que o termo “intelectualidade” encontra setores com atividades semelhantes na divisão social do trabalho em sociedades pré-capitalistas, e não iremos tratar aqui de tais setores. Obviamente que, em que pese existam semelhanças, também existem inúmeras diferenças. A questão é se é possível usar o mesmo termo para qualificar esses agrupamentos. A princípio, isso pode dar impressão de continuidade histórica e que esta classe é a-histórica (tal como a burocracia e o campesinato, quando definidos de forma ampla). Daí se poderia distinguir entre intelectualidade antiga, medieval e moderna, o que é um recurso problemático. No atual momento, julgamos importante reconhecer a historicidade da intelectualidade sua localização na sociedade moderna, enquanto que os demais setores com atividades semelhantes na divisão social do trabalho em sociedades pré-capitalistas devem receber denominação adequada e, se possível, que recebiam na sua época. Não nos propomos a fazer isto no presente texto, o que deixamos para outra
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produção, existem as classes aquarteladas nas formas de regularização das relações sociais, que são grandes agrupamentos de indivíduos que exercem determinadas atividades voltadas para auxiliar a classe dominante no processo de dominação ou exercendo atividades manuais ou subordinadas nas formas de regularização (Viana, 2007; Viana, 2006a). Estes dois setores, os auxiliares e os subalternos, são todos “funcionários das formas de regularização”, mas não possuem uma unidade, pois exercem atividades diferenciadas e possuem posições sociais diferentes. A sua unidade, no primeiro caso, pode ser expressa na ideia de que são classes auxiliares e sua diferença em suas atividades específicas, se destacando a burocracia e a intelectualidade, no caso da sociedade moderna. A unidade, no segundo caso, se encontra no fato de formarem a classe dos trabalhadores de serviços, apesar das atividades variadas e outras diversas diferenças e subdivisões, que, no entanto, não são suficientes para constituir mais de uma classe social, sendo apenas uma. Após esta breve apresentação do conceito de classes sociais, então definimos a intelectualidade como uma classe social (Viana, 2006b) e não como categoria social. É uma classe auxiliar da burguesia, tanto pelas atividades que executa, quanto pelas relações, interesses e rendimentos que recebe. Logo, é uma classe conservadora, responsável pela produção de ideologias, saber técnico, tecnologias, e outros elementos voltados para a reprodução da sociedade capitalista e, por conseguinte, os interesses da classe dominante. É uma classe social formada por trabalhadores assalariados improdutivos, isto é, que não produz mais-valor, e sua renda é advinda do mais-valor global oriunda da exploração do proletariado, cujo pagamento é mediado principalmente, mas não unicamente, pela classe capitalista ou pelo Estado burguês. Por sua posição social e atividades específicas, é uma classe extremamente próxima da burocracia e a passagem do pertencimento da intelectualidade para a burocracia é algo relativamente fácil, principalmente em determinadas atividades e instituições. Sua aliança com a burocracia também é bastante conhecida (Viana, 2006b). Ela também mantém proximidade com a burguesia, principalmente seus estratos mais elevados. Uma cumplicidade cultural (científica, artística, etc.) se manifesta na relação entre burguesia e intelectualidade em seus estratos superiores.

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Sendo uma classe social, a intelectualidade produz, com base em seu modo de vida e interesses, valores e concepções próprias, ideologias que legitimam seus rendimentos superiores e privilégios e que busca sua autovaloração e de suas atividades. Os trabalhadores intelectuais realizam a valoração da sua atividade, que passa a ser considera “superior”. Isso legitima sua existência, rendimentos, status social, etc.4.

A “função” do intelectual: ou sua auto-imagem ideológica Desde a emergência da sociedade moderna, os intelectuais passaram a discutir sua “função”, “papel”. “compromisso”, “missão”, “vocação”. Sob estas palavras que apontam para discutir a finalidade (e legitimidade, por conseguinte) do intelectual, o que se produziu foi uma auto-imagem ideológica do intelectual e sua suposta “função”: “funcionário do universal” (Hegel, Fichte, iluminismo). Fichte, por exemplo, tratou da “vocação” (ou “missão”, dependendo da tradução) do sábio (Fichte, 1999)5, no qual afirma, no espírito da revolução burguesa, a vocação universalista do intelectual, representante dos direitos humanos. Trata-se, sem dúvida, do que Sartre (1994) denominou “o universal burguês”, no qual a classe burguesa diz representar todo o terceiro estado, transformando seus interesses particulares de classe em interesses universais da população, visando se tornar nova classe dominante (Marx, 2010). Assim, os intelectuais desta época expressam o humanismo burguês. Esta auto-imagem ideológica universalista do intelectual vai ser abalada no século 19, especialmente após o chamado “caso Dreyfus”. Ao lado do intelectual que insiste em sua vocação pseudouniversalista, emergem duas novas ideologias disputando a primazia na definição do papel do intelectual. A fissura do “papel do intelectual” fez emergir dois campos que disputam o direcionamento da orientação

Uma das críticas mais contundentes à intelectualidade foi a realizada por Makhaïsky (1981), que, por questão de espaço, não poderemos apresentar aqui. 5 Trata-se de Lições sobre a Vocação do Sábio (1999), que teve seu capítulo mais importante traduzido como “A Missão do Sábio” (apud. Bastos e Rego, 1999).

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do intelectual: o intelectual conservador, representante da nação, povo ou raça (o exemplo francês de Barrès; o caso dos intelectuais e nazismo, bem como Heidegger, etc.) e o intelectual representante da “justiça universal”, da “humanidade”, expresso pelos chamados intelectuais progressistas, como Emile Zola, caso exemplar. Na verdade, a vocação universalista continua existindo e se manifesta, por exemplo, no livro de Julien Benda, A Traição dos Intelectuais. Benda condena todos os intelectuais que cedem às “paixões laicas” (nacionais, raciais, classistas ou partidárias) e retoma a vocação pseudouniversalista. O intelectual deve se devotar aos “valores universais”, e serem “clérigos” e não “laicos”, mostrando que a vocação aqui se torna semi-religiosa, tal como se vê na linguagem utilizada (Benda, 2007)6. Porém, estas diferenças são, na verdade, variações da mesma ideologia. Todos os intelectuais, conservadores ou progressistas, acalentam a vocação universalista, mas colocam um compromisso secundário para o intelectual (a nação, a raça, para os conservadores; o partido ou a classe, para os progressistas, ou, em termos mais abstratos, a reprodução da tradição e da moral ou a responsabilidade social). O terceiro tipo é o que manifesta sua crença numa suposta vocação universalista, não assumindo nenhum compromisso, seja com a classe dominante, seja com as classes exploradas. O terceiro tipo é uma manifestação modernizada da vocação pseudouniversalista do intelectual. Assim, na França, mais especificamente, há os intelectuais do tipo Barrès, do tipo Zola e do tipo Benda, exemplos das três tendências acima aludidas. A ideologia da vocação universalista acaba desembocando na ideologia da autonomia do intelectual. Esta se expressa, no mundo científico, sob a forma do discurso da neutralidade e autonomia, da qual Weber (1992) e Durkheim (1974) são alguns dos grandes ideólogos. Uma posição diferenciada é a de Mannheim, que aceita a ligação com as classes sociais, mas postula que os intelectuais são um “grupo intelectual relativamente descomprometido” (Mannheim, 1982). O que na esfera
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O principal capítulo desta obra foi traduzido e incluído em Bastos e Rêgo (1999), que possui o mesmo título do livro

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científica aparece como “neutralidade”, na esfera artística irá aparecer através do discurso da “arte pela arte” ou “autonomia da arte” (Viana, 2007). No entanto, quem expressa a realidade nesse caso é Sartre. Para ele, não existe intelectual “neutro”: “Ainda que fôssemos mudos e quietos como pedregulhos, nossa passividade seria uma ação”; “Cada palavra tem repercussão. Cada silêncio também” (Sartre, 1999). A suposta neutralidade da intelectualidade, ou “autonomia”, ou “vocação universalista” não passa de uma ideologia criada pelos próprios intelectuais para se legitimar e autovalorar, além de se colocar acima dos conflitos de classes (mesmo sendo parte da luta de classes e interferindo nela, fazendo-se de pedregulho...). Obviamente que aqui não poderemos realizar uma tipologia dos intelectuais e suas diversas formas de manifestação e nem esgotar as formas ideológicas de legitimação e autovaloração, apesar de ter colocado sua base em linhas gerais. Um quadro mais completo deveria assumir um caráter de análise histórica desde a emergência da intelectualidade, apresentar as diversas modalidades existentes e a renovação da ideologia da intelectualidade7. A íntima relação entre intelectuais e burocracia, por sua vez, não pode ser esquecida. A proximidade social, inclusive a mobilidade relativamente fácil de uma para outra cria compromissos e alianças, bem como ideologias. Nesse caso, de Lassale, passando por Kautsky até chegar a Lênin e Gramsci, temos uma união entre

Nesse caso, as metamorfoses das formas de auto-imagem ideológica dos intelectuais estão ligadas às mudanças sociais e divisões internas entre os intelectuais e sua posição geral de classe na sociedade. Recentemente, um novo tipo de ideologia de intelectuais emergiu, que podemos denominar de cínicos. Os cínicos são diferentes dos hipócritas. Os hipócritas são aqueles que “pregam, mas não cumprem”, são os dissimulados, os moralistas que rompem na prática com sua moral exposta no discurso. Enfim, eles afirmam uma moral/conduta no discurso e a negam na prática (“façam o que eu falo, mas não façam o que eu faço”). Os cínicos são aqueles que negam uma moral/conduta no discurso e a realizam na prática. Obviamente que todos os indivíduos e intelectuais são perpassados por contradições, pressões, etc. (não se trata de uma “crítica moralista” e limitada, partindo de um cânone abstrato e sim análise de práticas e discursos reais num contexto social preciso e com objetivos e valores que apontam para a emancipação humana) e por isso não se trata de pequenas contradições, de atos produzidos por constrangimentos externos ou discurso que nem sempre pode se concretizar na prática e sim um ethos, um modo de ser. O intelectual cínico é aquele que se torna bastante comum com a emergência do pós-estruturalismo (Viana, 2009), tal como no caso de intelectuais que negam a teoria através da teoria (Foucault) ou revela as mesquinhas disputas e objetivos no “campo científico” e as reproduz (Bourdieu). Os intelectuais

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intelectuais e burocratas no âmbito ideológico. Os burocratas são legitimados pela ideologia da necessidade de dirigentes e muitas vezes estes se legitimam por serem considerados “portadores do saber técnico”, “da consciência revolucionária”, etc. Daí a “ideologia da vanguarda”, na qual os intelectuais burgueses e pequeno-burgueses irão produzir a “consciência revolucionária” (Lênin, 1978) e não os proletários de carne e osso. Sempre se renova esse tipo de ideologia, como se vê de Daniel Bell a Toni Negri e Maurizzio Lazzarato, sendo que para estes últimos o trabalho imaterial se tornou o novo produtor de riqueza8. Essa discussão sobre a auto-imagem ideológica não tem apenas o interesse de saber da consciência e do nebuloso mundo das ideologias produzidas pelos intelectuais. Toda auto-imagem produz ou legitima práticas, ela antecede ou sucede práticas concretas, modos de agir e ser, no cotidiano, nas relações de trabalho e nas ações políticas, bem como nas demais produções intelectuais. Nesse sentido, a autoimagem dos intelectuais possui um caráter mobilizador. Entender a intelectualidade significa entender sua condição de classe e os interesses, valores, concepções, que derivam dela e que a reproduz e reforça. A crítica da intelectualidade e a luta por desvincular indivíduo e classe intelectual passa pela crítica da sua auto-imagem ideológica. Tarefa fundamental e que aqui nos limitamos a expor sua necessidade e que em outras oportunidades e momentos devem ser desenvolvidos.

Indivíduo e classe: intelectualidade e intelectuais Ao constatar que a intelectualidade, como classe auxiliar da burguesia, é conservadora e perceber, através de uma olhada pela história da sociedade capitalista, que alguns intelectuais podem romper com sua classe e expressar outra, tal como Pannekoek, Korsch, Sartre, entre outros, então fica a questão: como isso é possível? Para entender isso é necessário discutir, mesmo que brevemente, a relação entre indivíduo e classe social. O pertencimento de classe de um indivíduo é uma determinação fundamental de seus interesses, ações, concepções, valores, etc. O
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Para uma crítica de Negri e Lazzaratto e a ideologia do trabalho imaterial, cf. Viana, 2009.

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indivíduo é um ser que manifesta sua classe social. O conceito de socialização assume importância fundamental para entender o processo de formação social do indivíduo, que possui um caráter universal e ao mesmo tempo histórico-particular. No processo de socialização o ser humano se torna ser social, que é o aspecto universal, mas, ao mesmo tempo, é socializado para viver e reproduzir determinadas relações sociais, que são as da sociedade na qual ele nasceu e para o grupo social no qual ele pertence, uma determinada classe social, entre outras determinações (Viana, 2006a). No caso específico da intelectualidade, na sociedade atual, um grande contingente de intelectuais tem sua origem na própria classe. Ou seja, filhos de intelectuais geralmente se tornam também intelectuais (variando de estrato, etc.), devido ao saber funcional acumulado transmitido via família, ou ao que Bourdieu chamou “capital cultural” (Bourdieu e Passeron, 1982). Porém, como o processo de integração na intelectualidade é garantido não via herança e sim via processo educacional, parte dos seus integrantes é oriundo de indivíduos provenientes de outras classes sociais (proletariado, campesinato, pequena burguesia, burocracia, etc.). Esse processo de socialização é continuado através da ressocialização efetivada durante a juventude, que é quando ocorre a tendência de definição de pertencimento de classe dos indivíduos, sendo que em grande parte dos casos há a reprodução da condição de classe já existente. Isto, no entanto, não anula as diferenças entre os diversos setores da intelectualidade (por estrato, status, profissão, etc.). No entanto, além das diferenças oriundas das escolhas profissionais, condição de classe, entre outras, há também a singularidade psíquica de cada indivíduo, proporcionada pelo seu processo histórico de vida e pelas relações sociais travadas durante esse processo e no qual ele vai formando sua mentalidade (Viana, 2006a). Devido a isto, o indivíduo possui uma autonomia relativa e através dela faz suas escolhas e delimita seu campo de pensamento e ação, bem como vínculos sociais. No caso da divergência entre pertencimento e identificação de classe, ou seja, quando um indivíduo pertence a uma classe social e se identifica com outra, aí a discrepância é maior e ocorre mais raramente no caso de serem classes antagônicas (burguesia-proletariado) ou de conjunto de classes opostas (classes privilegiadas e

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classes desprivilegiadas) no sentido de cima para baixo (da burguesia e classes privilegiadas em geral para as classes desprivilegiadas). No sentido contrário, é mais fácil alguém do proletariado se identificar com a burguesia do que o contrário, tendo em vista a mentalidade dominante e, da mesma forma, no caso geral das classes desprivilegiadas. Essa dificuldade também é menor em caso de classes com situação social semelhante – tal como o caso da burocracia e intelectualidade, pois um indivíduo pode se identificar com a outra com relativa facilidade e sem grandes conflitos (sociais ou pessoais). É comum a ideia de que a intelectualidade tende a identificar com os “menos favorecidos” e até se cunhou, através de um samba, a imagem de quem gosta de miséria é intelectual. Sem dúvida, entre as classes privilegiadas, é muito mais fácil ao intelectual (do que a burguês ou um grande burocrata), se aproximar, mesmo que discursivamente, das classes exploradas. Porém, isso, na maioria das vezes, é ilusório. Em parte isso é exagerado porque a crítica é oriunda dos setores mais reacionários da sociedade, e por isso o mero estudo e pesquisa sobre setores desfavorecidos e críticas superficiais a governos ou políticas públicas aparece como sendo de “esquerda”. A intelectualidade é aliada da classe dominante e apresenta, devido suas pesquisas, necessidade de estar acima dos preconceitos mais cotidianos, entrelaçamento com a política, e por isso é mais cautelosa do que membros de outras classes sociais. Alguns setores da intelectualidade (seus estratos mais baixos, os que disputam espaços já dominados por outros e precisam de alianças de outras classes ou grupos, integrantes de partidos ditos de “esquerda”, etc.) tendem a assumir um discurso mais progressista. Porém, muitos intelectuais dizem que são adeptos das lutas dos trabalhadores. Isso sendo verdade, então seriam trânsfugas de classe, ou seja, seriam intelectuais por pertencimento de classe, mas sua identificação seria com o proletariado ou outra classe explorada. Sem dúvida, devido ao marxismo, e de certa forma ao leninismo, bem como devido ao movimento operário, determinados partidos (socialdemocratas, comunistas, etc.) e intelectuais fazem questão de mostrar seu compromisso com a classe operária. Isto, no entanto, é mero discurso em muitos casos. Há aqueles que realizam uma ruptura parcial com seu pertencimento de classe e diz estar ao lado do movimento operário. Estes se enquadram no que Erich Fromm

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(1986) denominou “caráter rebelde”, são pessoas insatisfeitas com sua posição social e por isso questionam e contestam o poder, as autoridades, mas tão-logo conseguem melhorias individuais, se aliam ao poder e autoridades que antes combatiam (Fromm, 1986). Alguns mantêm uma certa ambigüidade, devido não conseguir superar totalmente seu pertencimento de classe e assim mesclam valores e ideias correspondentes à sua classe com a do proletariado ou demais classes desprivilegiadas e grupos oprimidos. A ruptura total com o pertencimento de classe só ocorre, no seio da intelectualidade, em casos mais raros, e isto forma o intelectual revolucionário. Por questão de espaço, não será possível aqui aprofundar o processo de análise da formação concreta do intelectual revolucionário9, mas é preciso deixar claro que essa formação remete ao processo histórico de vida do indivíduo em questão, tal como suas origens de classe, valores, relações afetivas, formação intelectual e suas possibilidades, acesso a cultura contestadora, insatisfação com a profissão e sociedade atuais, as lutas sociais e sua radicalização, etc. É claro que, em determinados momentos de ascensão das lutas proletárias há a tendência de um número maior de intelectuais se aproximar do movimento operário. Essa aproximação pode se tornar permanente ou fugaz após o refluxo do movimento dependendo das outras determinações que o indivíduo possui, ligadas ao seu processo histórico de vida. É por isso que durante as tentativas de revoluções proletárias nos anos 1920 muitos intelectuais se aproximaram do movimento revolucionário do proletariado, tal como Lukács, Gramsci, entre outros, e tão logo o movimento perdeu sua força e foi derrotado em alguns países ou hegemonizado pela burocracia em outros, eles acabaram capitulando diante da burocracia ou da burguesia. Outros, no entanto, mantiveram a nova posição assumida (Korsch, por exemplo), mesmo que com menor radicalidade devido ao novo contexto histórico. Desta forma, alguns intelectuais são revolucionários momentaneamente, coincidindo com a ascensão das lutas

Entenda-se por intelectual revolucionário um indivíduo pertencente à intelectualidade como classe e que é efetivamente revolucionário e não qualquer intelectual que o diga ou qualquer produtor de ideias que não pertença à classe dos intelectuais.

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revolucionárias do proletariado, e outros são permanentemente (alguns, inclusive, antes da ascensão de tais lutas, tal como no caso de Marx, embora sua classificação como membro da intelectualidade seja um tanto quanto inexato). Aqui se revela a autonomia relativa do indíviduo diante sua classe de pertencimento, derivada de suas relações sociais específicas e sua singularidade psíquica, promovendo seu compromisso com a emancipação humana. Outra forma de autonomia individual revela em suas ideologias e inserção específica, mas que aqui não nos interessa, já que o foco é apenas uma forma assumida por determinados indivíduos, dos que se engajam na luta pela transformação social num sentido revolucionário.

A Práxis do Intelectual Revolucionário É comum a discussão sobre o “papel do intelectual”. Porém, quando se trata do intelectual revolucionário, ao invés do construto “papel”, mais válido é o uso do conceito de práxis, atividade teleológica consciente, o que significa, nesse caso, expor os objetivos conscientes do intelectual. O ethos do intelectual revolucionário difere do ethos do intelectual não-revolucionário, pois além das concepções e práticas diferenciadas no que se refere à questão política, também há diferenças em outros aspectos, inclusive na própria prática intelectual (ou seja, no exercício da atividade profissional e na sua produção cultural). Sartre oferece uma excelente contribuição para pensar a práxis do intelectual revolucionário. Ele distingue entre o intelectual conservador, técnico/especialista do saber prático, que é um especialista preocupado com seu papel intelectual e humanista burguês e o intelectual “moral” (ideal), que aqui chamamos de intelectual revolucionário. Claro que Sartre não denomina este segundo tipo de intelectual como “moral” ou “ideal” e nem revolucionário, e sim como simplesmente intelectual. Porém, no fundo, ele distingue o intelectual profissional, pertencente à intelectualidade como classe, do intelectual que é o nível mais elevado do produtor de ideias e com compromissos mais amplos do que os meramente profissionais. Sartre coloca a necessidade de superação do particularismo de classe (intelectualidade) e luta pela universalização (que, seria, segundo Sartre, um

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componente da própria prática do trabalho do intelectual e remete ao método dialético. Claro é que aqui Sartre realiza uma confusão. O intelectual não tem nada de universalista, nem em sua prática intelectual, que é, aliás, cada vez mais técnica e especializada. Sartre aqui cede aos encantos da ideologia dominante, apesar disso não retirar seu mérito na análise geral e em suas propostas, apenas mostra certa ilusão quanto à intelectualidade. Outros elementos que Sartre considera importante na ação do intelectual é a luta constante contra a ideologia, a autocrítica perpétua (consciência, por parte do intelectual, da sua situação de classe e de suas contradições e opção pelas classes exploradas), associação concreta e sem reservas com as classes exploradas. Estes itens são importantes e expressam a necessidade de vínculo teórico e prático com o movimento revolucionário, o caráter crítico que deve revestir a produção cultural no sentido de demolir as ideologias e a autocrítica perpétua, no qual o intelectual se reconhece como membro da classe dos intelectuais e vê suas próprias contradições e as resolve se aliando ao proletariado e outros setores desfavorecidos da sociedade. Sartre também aponta quais são as características do trabalho do intelectual nessa perspectiva: a) lutar contra a reprodução da ideologia nas classes exploradas (“herói positivo”, “culto da personalidade/autoridade”; “magnificação do proletariado”); b) usar o saber acumulado para elevar as classes exploradas a uma cultura universal; c) formar técnicos do saber prático nas classes exploradas, como “intelectuais orgânicos“; d) recuperar sua “finalidade”: universalidade do saber, liberdade de pensamento, verdade; e) radicalizar a ação em curso: ir além dos objetivos imediatos e mostrar os objetivos a longo prazo, a universalização como fim histórico das “classes trabalhadoras”; f) lutar contra todo o poder, inclusive contra os partidos de massas e aparelho da classe operária, sendo guardião dos objetivos históricos e por isso defender a unidade entre meios e fins. A luta contra as ideologias (e não só sua reprodução no interior das classes exploradas) é fundamental, bem como buscar ampliar o arsenal cultural da população e reforçar a produção de pensadores no proletariado. Também é inquestionável a necessidade de colocar os interesses históricos do proletariado indo além das questões imediatas, o que já está no Manifesto Comunista (Marx e Engels,

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1988) e faz parte da estratégia revolucionária não só da ação de intelectuais mas de todos que lutam pela emancipação humana (Viana, 2008) e lutar contra todo o poder. O único elemento questionável nesses pontos levantados por Sartre é a ideia de que o intelectual deve recuperar sua “finalidade”: universalidade do saber, liberdade de pensamento, verdade, pois embora estes princípios estejam de acordo com os objetivos revolucionários, o problema é o pressuposto que isto está contido nos intelectuais e que remete a resquícios de ilusão de Sartre com os intelectuais. Assim, é necessário apresentar os limites de Sartre. O seu texto sobre intelectuais é uma das melhores já escritas, porém, padece do problema da abstração metafísica oriunda da filosofia, o que gera imprecisão e uma análise que contrapõe o intelectual real e um intelectual ideal sem aprofundar as condições de possibilidade do segundo. Outro problema é a falta de uma ruptura total com os partidos e a burocracia, pois em alguns momentos acaba recuando na crítica dos mesmos. Devido seu pertencimento de classe e formação social, Sartre mantém a crença de que a profissão do intelectual tem caráter universal, o que é uma concessão à auto-imagem ideológica dos intelectuais. Por isso, Sartre ainda raciocina a partir da intelectualidade e sua pretensa universalização, superando parcialmente isto ao ir além e mostrar os limites dos intelectuais e os objetivos que deveriam buscar concretizar. Por fim, para discutir a práxis do intelectual revolucionário, é importante retomar Marx. Sem dúvida, é possível fazer como Sartre e aplicar ao intelectual o mesmo que Marx abordou em relação aos comunistas: não forma uma posição à parte do proletariado, defende seus interesses históricos e gerais, etc. No caso, um elemento fundamental na práxis do intelectual revolucionário é partir da perspectiva do proletariado na produção intelectual e prática política. E basta lembrar que, segundo Marx, “o proletariado é revolucionário ou não é nada”. Neste sentido, cabe ao intelectual revolucionário ser “expressão teórica do movimento revolucionário do proletariado”, tal como Korsch qualificou o marxismo (Korsch, 2009). Porém, isto é tarefa não apenas do intelectual revolucionário, mas também de todo pensador e militante. Há, obviamente, uma especificidade na condição de classe do intelectual revolucionário que gera tarefas específicas para ele. A isso Sartre

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denominou “autocrítica perpétua”. O intelectual revolucionário deve manter um tipo de relação com sua profissão diferenciada dos demais intelectuais, bem como sua classe. O primeiro elemento é a não-identificação de classe, sua auto-imagem e suas instituições. O intelectual revolucionário pertence à intelectualidade como classe, devido suas atividades profissionais específicas e tudo que é derivado daí (rendimentos, local de trabalho, relações sociais involuntárias, etc.). Porém, ao não se identificar com sua condição de classe, pode realizar a crítica da intelectualidade como classe auxiliar da burguesia. Ao fazer isso, também deve romper com a autoimagem ideológica produzida pela intelectualidade durante toda a sua história, denunciar o seu falso universalismo e mostrar seus vínculos com a classe dominante. Também deve realizar a crítica das instituições nas quais trabalha e executar práticas diferenciadas no seu interior, na medida do possível. A crítica das ideologias e das instituições de reprodução do capitalismo deve gerar a crítica das ideologias legitimadoras dos intelectuais e de suas instituições. Nenhum intelectual é “neutro” e por isso ninguém deve ser poupado; é necessária a “crítica desapiedada do existente”. Tal como o proletário, o intelectual deve negar sua classe, mas, ao contrário do proletário, essa negação não é imanente e sim transcendente. Ou seja, o proletariado nega a si mesmo devido sua condição de classe e interesses históricos, o que faz o proletário realizar o mesmo processo. A intelectualidade tem como interesses imediatos e históricos o seu fortalecimento e reprodução, devido sua condição de classe, o que gera o conservadorismo do intelectual10. É por isso que não se trata de pensar que a intelectualidade se tornará, em seu conjunto, revolucionária, mas tão-somente alguns indivíduos desta classe. Tal como colocou o jovem Lukács: “Porém, os intelectuais podem converter-se em revolucionários só como indivíduos; podem abandonar sua classe para poder participar na luta de classe do proletariado” (Lukács, 1978, p. 12). Neste sentido, o intelectual tem que romper com sua identificação com a intelectualidade e expressar os interesses históricos do proletariado, o que significa transcender sua condição e interesses de classe de pertencimento e tornar seus os interesses históricos do

“A classe dos intelectuais, hoje, não é revolucionária como classe, e não pode ser revolucionária, enquanto que o proletariado, justamente como classe, é revolucionário” (Lukács, p. 12)

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proletariado.

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Capitalismo e Neurose
Nildo Viana O presente ensaio visa discutir uma questão fundamental para a sociedade contemporânea: a relação entre neurose e sociedade capitalista. Os estudos psicanalíticos de Freud e dos demais psicanalistas abriram caminho para se pensar tal relação e isto abre espaço para pensarmos o papel da neurose no processo das lutas de classes. A primeira questão consiste em definir o que é a neurose e ver suas condições de possibilidade, ou seja, como ela é produzida. Existem várias definições de neurose e, segundo algumas dessas, há vários tipos de neurose. Freud, por exemplo, distinguia psiconeuroses de defesa, neurose de angústia etc. No entanto, ele não define neurose de forma clara, bem como a maioria dos psicanalistas posteriores. Iremos aqui, inspirando em Karen Horney, mas diferenciando-nos dela, definir neurose como um problema psíquico específico, caracterizado por uma insegurança estrutural do indivíduo diante da sociedade, o que gera dois mecanismos de defesa principais e complementares: a fuga e a hostilidade. A fuga promove o isolamento, restrição de contatos e amizades, inibição. A hostilidade gera agressividade e complementa o quadro anterior. O indivíduo neurótico resolve o seu problema de insegurança estrutural fugindo e hostilizando as pessoas, o que mantém, por um lado, um círculo de pessoas (geralmente a família e poucas amizades) que servem de refúgio do contato com outros e a hostilidade para os estranhos e não-eleitos em geral. Sem dúvida, a hostilidade também ocorre junto ao círculo mais restrito de contatos, mas apenas para complementar a necessidade de segurança através do controle, o que gera conflitos e agressividade. Isto também promove um terceiro elemento que é uma certa rigidez psíquica, voltada para a fuga, a agressividade, a rispidez cotidiana, a busca de ordem e que tudo seja organizado e coerente com o seu costume, o que lhe dá a sensação de segurança. Por conseguinte, esta insegurança estrutural do indivíduo que caracteriza a neurose é entendida e manifesta através do medo, o que faz com alguns pesquisadores

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focalizem este aspecto da neurose (Horney, 1984). A insegurança estrutural promove no indivíduo uma vontade de fuga, de “volta ao útero”, para escapar do mundo, criando uma necessidade exagerada de segurança. Isto promove dificuldade de amar, relacionar, desconfiança exagerada, isolamento, agressividade, rigidez, possessividade. Também, devido à necessidade exagerada de segurança, também promove uma preocupação excessiva com a ordem e promove comportamentos irracionais e restritivos de relacionamentos, nos quais a família e pessoas próximas, são eleitas como suficientes e o afastamento de desconhecidos ou pessoas não “confiáveis”, segundo os critérios restritos produzidos na situação acima são os mais importantes. No que se refere ao mundo afetivo, acaba gerando laços afetivos restritos, afinal isto é “mais seguro”. Da mesma forma, a possessividade garante maior segurança e a irracionalidade do comportamento e pensamento sofre o processo que psicanaliticamente foi denominado racionalização. Isto cria não somente conflitos com as demais pessoas, mas também conflitos interiores, pois o desejo de relação afetiva (no sentido amplo da palavra) e a dificuldade em concretizar isso, devido a busca de segurança, cria uma seletividade restritiva. Essa seletividade, para garantir confiança e controle, acaba elegendo pessoas mais subservientes, recatadas, menos intelectualizadas ou questionadoras (ou seja, menos ameaçadoras), se não em geral, pelo menos em relação ao indivíduo neurótico. No que se refere ao processo intelectual, promove uma inibição intelectual (o que gera uma certa segurança ao evitar exposição), o que também produz restrição na produção intelectual, já que isso evita conflito e permite uma confiança ilusória. Desta forma, a iniciativa e capacidade crítica e criativa acabam sendo prejudicadas e diminuídas1. A dificuldade de iniciativa e desenvolvimento da criatividade, necessidades radicais de todo ser humano, acaba piorando a situação do indivíduo neurótico. A capacidade crítica é obliterada, pela insegurança geral e pelos conflitos que isso pode gerar2. Isso gera também um pensamento rígido sobre questões

Isso, por sua vez, significa que a manifestação de algumas potencialidades são dificultadas para estes indivíduos e mais uma fonte de insegurança, reforçando o processo já instituído de formação da neurose.

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cotidianas, afetivas, familiares. Esta situação acaba também afetando os valores do indivíduo neurótico. Alguns valores acabam sendo bastante evidentes nesse caso: família, autoridade, subserviência, ordem. Em casos concretos, obviamente, pode haver conflitos de valores nestes indivíduos, principalmente dependendo de outras determinações, como consciência, sentimentos, outros valores, etc., que são mais fortes quando derivado de pessoas significativas para tal indivíduo. Isto se deve ao complexo problema da formação dos valores nos indivíduos concretos (Viana, 2007) e ao processo de informação e formação intelectual do indivíduo, entre outras determinações. Assim, o indivíduo neurótico sempre está próximo ou manifesta autoritarismo, possessividade, controle das pessoas próximas, agressividade, e, quando se trata de relações fora deste círculo, a hostilidade é a resposta para garantir a segurança diante do mundo ameaçador, ou então a submissão e subserviência que solicita dos outros e, em situação desfavorável, pode fazê-lo para se sentir seguro diante das autoridades e pessoas vistas como “ameaçadoras”. Em casos de indivíduos concretos, a solução da submissão e subserviência pode ser mais constante devido sua situação nas relações sociais, entre outras determinações. Porém, é preciso ter em vista que a neurose está ligada a uma insegurança estrutural e não qualquer insegurança, que todos os indivíduos possuem, em maior ou menor grau, com mais ou menos intensidade dependendo do contexto, etc. uma certa insegurança3. Trata-se de uma insegurança estrutural, que perpassa a “personalidade” total do indivíduo. Neste sentido, é possível se pensar, como faz

A crítica traz sempre um ser que é criticado, seja um ser humano ou algo (uma obra de arte, por exemplo), sempre vinculado ou defendido por alguém, colocando em evidência a possibilidade de conflito. 3 É por isso que Horney relaciona medo e ansiedade com neurose, tal como outros autores. Tanto o medo quanto a ansiedade são normais em determinadas situações, mas quando se torna exagerada e sem motivo real, então já se torna traço neurótico e que é expressão da insegurança estrutural do indivíduo. Análise semelhante, embora com muitas diferenças em outros aspectos, é fornecida por Alfred Adler, que relaciona neurose e sentimento de inferioridade, que gera suscetibilidade e luta pela superioridade (Adler, 1955).

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Horney (1984), numa “personalidade neurótica”. Algumas pessoas neuróticas são tão agressivas que podem desviar a percepção de sua grande insegurança, pois assim passam a falsa sensação de que são seguras e racionalizam o seu comportamento agressivo sem admitir sua raiz ligada à sua insegurança estrutural, sendo que alguns destes indivíduos nem sequer possuem uma consciência clara disso. O que gera a neurose? Esta é uma questão importante para entender a questão da relação desse problema psíquico com a transformação social. A formação da neurose está ligada ao processo de socialização repressiva-coercitiva, que promove a repressão de determinadas potencialidades humanas, principalmente durante a infância e juventude4, aliado com uma forte coerção, ou seja, produção de comportamentos, ideias, sentimentos, etc. A socialização repressiva impede a manifestação de potencialidades humanas e isso, durante a infância, pode ser extremamente prejudicial psiquicamente. Quando a repressão é muito forte, quando é uma mais-repressão (Viana, 2008), tende a provocar problemas psíquicos. O caráter coercitivo da socialização pode reforçar este processo e, no caso da neurose, assume um papel complementar e fundamental. No caso da sociedade capitalista, a socialização impõe valores e busca instituir uma mentalidade burguesa nos indivíduos, nos quais a competição, a busca do sucesso, riqueza, poder, etc., se tornam fundamentais. Para conseguir realizar isto, é necessário disciplina, estudos, dedicação e isto se sobreporá, numa socialização comandada pela sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa, a liberdade e a criatividade. Em síntese, a coerção sendo forte, a repressão também será, pois para se dedicar intensivamente ao trabalho (alienado) é necessário o abandono de outras atividades e necessidades. A família acaba tendo um papel fundamental nesse processo, já que é a principal instância de socialização. Se os valores dos pais apontam para este processo de

Alguns julgam que os traumas seriam a determinação da neurose, o que é correto em alguns casos individuais. Porém, determinados indivíduos que vivem situação traumática na infância, dependendo de outras condições sociais e históricas concretas de sua vida, poderão superar e evitar neurose. Porém, aqueles que já possuem um processo de socialização intensamente repressivo, não possuem estrutura para superar esta situação.

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reprodução da mentalidade burguesa, então constitui num elemento importante para se pensar o processo de produção de um indivíduo neurótico. A repressão existente nesse caso não produz, necessariamente e em todos os casos, neurose nos indivíduos submetidos a ela. Mas se isto for acompanhada por algumas outras determinações, isto se torna cada vez mais provável. Se a mentalidade burguesa dos pais é excessiva, então um alto grau de cobrança familiar existirá (maior grau de coerção). Os estudos deverão sobrepor à brincadeira e a criatividade, por exemplo. Só serão valoradas as atividades que são manifestações diretas dos valores dominantes, e as outras serão desvaloradas. Isso tende a ser mais forte ainda se os laços afetivos no interior da família são frios e ocorre a depreciação dos filhos. Assim, a afetividade, a realização sentimental, é reprimida. A depreciação e desconsideração do filho/a tende a gerar uma forte insegurança. O neurótico geralmente aceita os valores dominantes, pelo menos parcialmente, e nesse sentido assume para si metas que são tipicamente as da sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa, promovendo um anseio por ascensão social, riqueza e poder:
“Sem descer a minúcias, as linhas gerais do círculo vicioso que surge do anelo neurótico por poder, prestígio e posses podem ser, aproximadamente indicadas da seguinte forma: ansiedade, hostilidade, respeito próprio abalado; anelo pelo poder e coisas semelhantes; aumento da hostilidade e de ansiedade; tendência para esquivar-se à competição (associada a tendências para subestimar-se); fracassos e discrepâncias entre potencialidades e realizações (acompanhados de inveja); incremento das idéias de grandeza (com medo da inveja); sensibilidade exacerbada (com tendência renovada para retrair-se); aumento da hostilidade e da ansiedade, que reinicia, novamente, todo o ciclo” (Horney, 1984, p. 165)5.

Isto tudo pode ser reforçado pela educação escolar, que pela sua estrutura já tende a um processo de reprodução da mentalidade e sociabilidade dominantes. Porém, quando isto é mais intenso, ou seja, quando a escola reforça em demasia a

Claro que há diferenças em casos individuais diferentes e que as afirmações acima parecem entrar em contradição, seja com passagens anteriores do livro, no qual fala da “competição neurótica”, seja pelo próprio significa do anelo por poder, posses e prestígio, pois ambos entram em contradição com a ideia de “esquivar-se da competição”. Porém, essa fuga da competição ocorre ao mesmo tempo em que se reproduz a luta competitiva, embora nem sempre explícita. O indivíduo neurótico sempre cai em contradições, tal como sua relação com autoridade e pessoas subservientes, no qual se torna subserviente no primeiro caso e autoritário no segundo.

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competição, os valores dominantes, etc., tal como ocorre na educação mais tradicional, autoritária e burocrática, a tendência para formação de indivíduos neuróticos aumenta ainda mais. A singularidade individual também pode reforçar esta possibilidade. Esta possibilidade se concretiza quando ocorre algum trauma, por exemplo. Também pode ocorrer devido determinadas características físicas (naturais ou acidentais, por elas mesmas ou pela percepção social das mesmas, tal como o preconceito, etc.) ou, ainda, determinados acontecimentos, amizades, etc., atuam no sentido de reforçar as suas bases. Em síntese, quando a socialização é extremamente repressiva e coercitiva, há a tendência de produzir indivíduos neuróticos. Se esse processo é muito intenso e marcado por valores burgueses e não se cria nenhuma outra possibilidade de superação parcial desse quadro6, então a formação da neurose no indivíduo é o que ocorre. A neurose é produzida nos indivíduos que, devido a mais-repressão a que são submetidas, acabam possuindo uma sombra, energia destrutiva, bastante poderosa7. Porém, isso ocorre quando o indivíduo não consegue desenvolver sua persona, energia construtiva, seja se destacando em atividades intelectuais, artísticas, etc. Obviamente que a mais-repressão tende a inibir tal desenvolvimento nestas pessoas, porém, devido outras determinações é possível que o indivíduo consiga superar esta tendência. Desta forma, a mais-repressão, aliada a outras determinações, especialmente
Tal como no caso do indivíduo de família que reproduz a mentalidade burguesa e sociabilidade capitalista, mas mantém relações afetivas fortes, então a insegurança do indivíduo não se torna, necessariamente, estrutural, o que lhe permite evitar a neurose, ou então quando conhece pessoas que apontam para outras perspectivas e mantém relações afetivas, ou consegue manifestar criatividade e desenvolver algumas potencialidades apesar do ambiente hostil. 7 “A sombra é a energia destrutiva que está na origem dos problemas psíquicos e da agressividade, duas faces da mesma moeda. A formação da sombra, no entanto, ocorre quando existe um alto grau de repressão tanto no sentido quantitativo (quantum de potencialidades reprimidas) quanto qualitativa (intensidade). Porém, numa sociedade repressiva (dividida em classes sociais), todos os indivíduos possuem em seu universo psíquico um certo quantum de sombra, só que em proporções insignificantes nas pessoas que possuem um baixo grau de recalcamento ou uma persona forte, ou, ainda, consegue se satisfazer parcialmente com as satisfações substitutas produzidas pela sociedade” (Viana, 2002, p. 61).
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uma forte coerção, tende a promover a formação de indivíduos neuróticos. Devido aos processos sociais acima aludidos relacionados existem certos setores da sociedade mais propícios para desenvolvimento da neurose. Este é o caso das classes auxiliares da burguesia (burocracia, intelectualidade, etc.) e as mulheres. Segundo Schneider:
“Já que a posição social na família de classe média baseia-se em geral no status profissional (especialmente entre funcionários de qualquer espécie, empregados de alto nível e 'profissionais liberais') e não em propriedade geradora de capital, esse status só pode ser mantido através de qualificações similares entre as crianças” (Schneider, 1977, p. 246).

As mulheres já são mais tendenciosamente expostas à neurose devido ao processo de opressão da mulher e sua repressão ser maior, bem como a coerção (que pode ser tanto no sentido da competição social como na reclusão para atividades domésticas e cuidado dos filhos, sendo que este último caso só tende a fortalecer a formação da neurose, se houver uma recusa ou falsa aceitação destas atividades e/ou pouca relação afetiva com os filhos). No caso das classes exploradas, o que ocorre é que as situações de maisrepressão tendem a gerar, tendencialmente, psicose e não neurose.
“De fato, Langner e Michael conseguiram provar que as perturbações psicóticas e as características da personalidade patológica são significativamente mais freqüentes entre as classes baixas, mas que as perturbações neuróticas, por outro lado, são significativamente mais freqüentes nas classes média e alta (da sociedade americana). O “Estudo de New Haven”, de Holligshead e Redlich, demonstra também que nas classes alta e média as neuroses predominam, enquanto que nas classes proletárias a psicose é claramente dominante” (Schneider, 1977, p. 245).

Obviamente que não é possível concordar com a explicação que Schneider oferece para esse quadro de repartição tendencial de problemas psíquicos pelas classes sociais. Sua tese de que a explicação disto está no fato de que existe uma educação mais rígida das famílias proletárias e educação mais permissiva nas classes privilegiadas é bastante questionável. Afinal, muitas famílias das classes privilegiadas, devido à competição social e ambição, promovem um processo

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educativo altamente repressivo e rígido, enquanto que muitas famílias proletárias são menos rígidas. Porém, existem outras determinações, tal como a afetividade, a maior ou menor facilidade de atingir as metas educativas ou sociais, o tipo de escola e relação familiar, etc. Na verdade, a neurose é uma tendência mais forte nas classes privilegiadas porque nestas há um maior número de famílias comandadas totalmente pela mentalidade burguesa e pela dinâmica da competição desenfreada, o que provoca várias tendências que apontam para a formação de neuroses nos filhos: laços frios ou distantes devido ao tempo dedicado ao trabalho8; exigências e cobranças excessivas, visando preparar os filhos para a competição social. Assim, existe um alto grau de repressão e coerção no caso das classes privilegiadas, que incentiva a formação de pessoas neuróticas. No caso das famílias das classes exploradas, a realidade cotidiana sofrível, a falta de perspectiva de ganhar a competição social, entre outras determinações, promovem uma recusa e fuga desta realidade. A grande questão é que grande parte da repressão não é produzida via família e sim devido a condições sociais externas (renda baixa, por exemplo). Isso possibilita uma mais-repressão que, no entanto, não convive com uma coerção familiar ou outras tão intensas. A baixa coercitividade tende a não gerar uma insegurança tão intensa e sim uma insatisfação devido ao confronto entre desejos e necessidades e sua não realização, criando um confronto do indivíduo com sua situação social e, por conseguinte, com sua percepção da realidade. Assim, somente em famílias de classes exploradas marcadas por um forte domínio da mentalidade burguesa, que gera praticamente uma forte coerção, é que – junto com outras determinações que remete a casos concretos – pode promover a formação de neuroses. Porém, é preciso reconhecer que existe uma relação entre classes sociais e problemas psíquicos. Há uma tendência entre as classes privilegiadas de desenvolver neuroses e entre as classes exploradas em desenvolver psicoses, quando ocorre situação de mais-repressão. Nesse aspecto, Schneider está correto. Essa tendência dos indivíduos das classes privilegiadas desenvolverem neurose em situação de mais-

Isso é expresso com muita freqüência nos filmes norte-americanos que buscam revalorar a família (O Mentiroso; Click, etc.)

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repressão, pode ser explicitada pelo fato de que se trata de um problema psíquico que tem como efeito uma adaptação (problemática, mas aceitável) à sociedade tal como ela se organiza. A psicose, por sua vez, já é problema psíquico que revela inadaptação. Na concepção freudiana, o conflito entre id e ego se resolve de forma diferente na neurose e psicose:
“Segundo Freud, na neurose o 'id' está em conflito com o 'ego', isto é, o superego, que reprime o desejo instintivo em nome da realidade frustrante. (...). Na psicose, ao contrário, o ego encontra-se a serviço do id, o desejo instintivo, isto é, renuncia à realidade frustrante de modo a substituí-la por sua realidade ilusória” (Schneider, 1977, p. 244).

Em termos freudianos, a neurose se pende para o superego e a psicose para o id (Schneider, 1977; Freud, 1976a). Desta forma, fica evidente que a psicose tende a ocorrer de forma mais freqüente nas classes exploradas e a neurose nas classes privilegiadas. A neurose se forma quando há uma mais-repressão e não há criação, em um indivíduo concreto, de satisfação substituta ou persona forte e a psicose ocorre da mesma forma. A diferença é que, no caso da neurose, a repressão é reforçada pela coerção, isto é, além do impedimento de manifestação e desenvolvimento de determinadas necessidades-potencialidades, há um processo de constrangimento para o desenvolvimento de determinados comportamentos, atividades, valores, sentimentos, etc., que o indivíduo não consegue materializar. No caso da psicose, o processo de insatisfação gera uma remodelação da realidade, na qual parte da 9 realidade existente é substituída por uma imaginária . O indivíduo psicótico é aquele que apresenta uma insatisfação profunda com a sua situação e as relações sociais, mas não possui mecanismos de negação, porquanto não compactua com os objetivos e valores postos pela mentalidade burguesa, tornando-se inapto socialmente. A psicose produz como mecanismo de defesa a recusa da realidade e sua remodelação imaginária. Sendo assim, a mais-repressão gera problemas psíquicos e estes assumem

“Na neurose, um fragmento da realidade é evitado por uma espécie de fuga, ao passo que na psicose ele é remodelado” (Freud, 1976b, p. 231).

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características diferentes dependendo de outras determinações existentes10. A situação de classe e outras determinações sociais acabam proporcionando maior tendência ao desenvolvimento de neurose ou psicose. Agora que já definimos neurose e seu processo de formação, é necessário observar suas relações com a sociedade capitalista e com as lutas sociais. A relação entre capitalismo e neurose é evidente a partir das considerações sobre o processo de gênese deste fenômeno psíquico. A base geral da neurose é a sociedade repressivacoercitiva que exerce mais-repressão e um alto grau de coerção. Obviamente que casos de neurose existiram em sociedades pré-capitalistas, tal como o caso descrito por Freud de “neurose demoníaca”, no período de transição do feudalismo para o capitalismo (Freud, 1976b), mas devido a processos sociais bem diferentes e em muito menor grau. Os indivíduos neuróticos, tal como colocamos anteriormente, possuem processos de inibição e dificuldades em relações afetivas, produção intelectual, etc. No que se refere ao posicionamento político dos indivíduos a questão da consciência e seus limites nos indivíduos neuróticos assume papel importante.
“O mundo externo não pode recusar impulsos se não for através do ego. Porém, as percepções externas podem ser recusadas, quem sabe, com o que poderia tomar parte de um conflito neurótico. Ao ocuparmos das neuroses
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Claro que a sociedade capitalista é repressiva e coercitiva e, por isso, todo indivíduo tem um quantum de sombra e todos possuem dificuldades psíquicas, desde os menores até os mais graves problemas psíquicos. A grande diferença entre psiquismo relativamente equilibrado (sem problemas psíquicos graves) e desequilibrado (ou seja, quando existem problemas psíquicos graves, como neurose, psicose, etc.) é de grau. A suscetibilidade, irritabilidade, entre outros sintomas de neurose, são comuns em pessoas não-neuróticas. Adler afirmou que “muitos desses aspectos [da neurose – NV] são, com efeito, exatos e podem ser tomados em conta para explicar certos fenômenos parciais mais ou menos importantes da neurose. A maior parte deles se observam até em pessoas que não sofrem neurose nenhuma” (Adler, 1955, p. 159). Por isso, alguns elementos semelhantes ao que ocorre em casos de neurose e psicose se encontram em pessoas sem problemas psíquicos. A fantasia, por exemplo, também tem ligação com o processo de insatisfação com a realidade, mas não em termos psicóticos. Também devemos deixar claro que existem outros tipos de problemas psíquicos e que, ao contrário de alguns, não consideramos a esquizofrenia como um tipo de psicose – nem tipo de neurose, como pensa Fenichel (1966) – e sim outro tipo de problema psíquico. Além disso, a psicose e a neurose podem assumir maior ou menor gravidade dependendo de suas origens e situação social do indivíduo neurótico ou psicótico.

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traumáticas fica demonstrado, pelo fenômeno do desmaio e o bloqueio de percepções exteriores, que o mundo externo (as percepções) pode ser recusado. Nas psiconeuroses ocorre um fenômeno similar: há alucinações negativas que representam a rejeição de certa porção do mundo externo. Existe o esquecimento ou a má interpretação de fatos externos devido objetivo de alcançar a satisfação de um desejo; há toda classe de erros em uma “prova pela realidade”, que se produzem sob a pressão de derivados de desejos ou temores inconscientes. Sempre que um estímulo faz surgir sensações dolorosas, se produz uma tendência não só a rejeitar as sensações, mas também o estímulo” (Fenichel, 1966, p. 156).

Assim, a personalidade neurótica tem limitações para reconhecer a realidade tal como ela é, e isso é reforçado se percebermos, como colocamos anteriormente, que este problema psíquico atinge principalmente as classes auxiliares da burguesia, que possuem valores dominantes e sua reprodução da mentalidade burguesa é um dos fortes incentivos para a formação de neurose. A consciência do neurótico tende a reproduzir sua insegurança básica, o que provoca rigidez no pensamento e inibição em produção intelectual. Além disso, tende a provocar um excessivo temor do que é tido como desconhecido ou estrangeiro, tanto no sentido espacial quanto temporal (medo do outro e medo da mudança), e isto promove o desejo de controle rígido e hostilidade para quem escapa do controle. Nesse sentido, a pessoa neurótica tende a 11 aderir ao pensamento conservador . Um dos grandes problemas é o processo de produção capitalista que tende a produzir um grande número de pessoas neuróticas, o que significa que os problemas individuais do neurótico possuem conseqüências sociais e políticas e que se torna mais intenso quando isto atinge muitas pessoas e mais ainda em determinados momentos históricos. A ascensão do nazismo na Alemanha, por exemplo, teve como base inicial pessoas neuróticas. O pensamento nazista assume nítidas características 12 neuróticas. O próprio Hitler tinha uma personalidade neurótica , embora em grau

É uma tendência e, portanto, não é uma “lei”, pois em certos casos individuais concretos, devido origem de classe, relações pessoais, valores conflituosos, etc., determinados indivíduos neuróticos podem se aproximar do pensamento contestador ou revolucionário, com certas limitações, e sempre mais próximo do que Erich Fromm denominou “caráter rebelde”, muito mais do que o “caráter revolucionário” (Fromm, 1986).

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bastante elevado e acima da média de um neurótico comum. A própria prática nazista mostra semelhança com as características neuróticas: insegurança (nacional, medo dos “judeus” e “bolchevistas”); hostilidade (internamente e externamente) principalmente com os “inimigos imaginários” produzidos (Viana, 2007), luta por superioridade (a arte nazista, o exército nazista, “superiores”, assim como a ideologia da raça ariana superior, que era complementada pela destruição da arte moderna, “degenerada”, pela eutanásia e eugenia dos judeus, deficientes, etc.), posição autoritária e/ou subserviente, inclusive no plano intelectual. A base de apoio do nazismo se encontrava, especialmente em seu início, justamente nas classes auxiliares da burguesia (“classes médias” ou “pequena burguesia”, segundo linguagem ideológica dominante). Reich defende a tese de que o movimento fascista expressa uma união da “pequena burguesia” e relaciona isso com a “psicologia de massa”:
“Encontramos a resposta a essa pergunta na posição dos funcionários e dos pequenos e médios empregados. O empregado médio está numa situação econômica mais desvantajosa que o operário médio qualificado; essa situação mais desvantajosa é em parte compensada pela perspectiva mínima de uma carreira, mas sobretudo, para o funcionário, pelo fato do seu futuro estar garantido para o resto da vida. Estando assim nessa situação de dependência em relação às autoridades estabelecidas, formase igualmente nessa camada uma atitude psicológica de concorrência em relação aos colegas, que se opõe ao desenvolvimento de solidariedade de classe. A consciência social do funcionário não se caracteriza pela consciência de comunidade de destino com os seus colegas de trabalho, mas pela sua posição em relação à autoridade pública e á 'nação'. Essa posição consiste numa completa identificação com o poder de estado, no empregado consiste numa identificação com a empresa que serve. É tão explorado quanto o operário. Por que razão não desenvolve como este um sentimento de solidariedade? Devido à sua posição intermediária entre a autoridade e o proletariado. Subalterno em relação ao topo, é frente à base o representante dessa autoridade e, enquanto tal, goza de uma certa proteção moral (não material). Encontramos nos sub-oficiais dos diferentes exércitos a formação perfeita desse tipo psicológico de massa” (Reich, 1974, p. 47).

Os estudos de Fromm (1975) e Reich (1974) mostram os problemas psíquicos de Hitler, embora sem maior precisão conceitual quanto ao seu caráter neurótico, mostram algumas características típicas dos neuróticos, porém em grau extremamente exagerado, derivado de seu processo histórico de vida que lhe tornou um “necrófilo”, para usar expressão de Fromm (1975).

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O que Reich descreve acima é a posição social das classes auxiliares, a sociabilidade capitalista e sua expressão na mentalidade burguesa. Sem dúvida, isso expressa os valores dominantes e sua introjeção em indivíduos pertencentes às classes auxiliares, mas é vivido e experenciado de forma diferente por parte de indivíduos neuróticos que sustentam a mesma posição. Nos indivíduos neuróticos, 13 isso se manifesta de forma mais intensa e fornece a “vanguarda” da prática nazista . Sem dúvida, os médicos e artistas que aderiram à medicina e arte nazistas logo de início, tendiam a ser neuróticos, e por isso o fato de compartilhar com as práticas nazistas sem maior remorso ou resistência, o que muitos indivíduos das classes auxiliares fariam e alguns efetivamente fizeram, mesmo reproduzindo os valores dominantes. O mais importante é que não só Hitler era neurótico, como também grande parte do núcleo original do nazismo era composto por indivíduos neuróticos que ganharam apoio de outros indivíduos neuróticos e de setores não-neuróticos das classes privilegiadas, devido ao temor social de revolução, do bolchevismo russo, da crise, e da falta de outra solução, devido ao fracasso da social-democracia e competição social generalizada. Em síntese, o capitalismo produz neurose em grande parcela da população e esta assume posições predominantemente conservadoras, reproduzindo a mentalidade dominante. Em momentos de crise, indivíduos não-neuróticos são acometidos por maior insegurança e assumem comportamento semelhante ao dos neuróticos e estes, nesta situação, agravam mais ainda seu conservadorismo, hostilidade e relação simbiótica com a autoridade (autoritarismo e subserviência). Em casos raros o neurótico pode se alinhar com as forças revolucionárias ou que se dizem “progressistas”. Muitos conseguem, nesse processo, avançar e até mesmo superar os traços mais fortes da neurose, seus sintomas mais explícitos. Porém, esses Basta ver a composição social dos neonazistas nos Estados Unidos e Alemanha, principalmente, para ver a base fundada nas classes auxiliares da burguesia, principalmente devido às dificuldades de vencer a competição social e pressionando (coercitivamente) os indivíduos reprimidos a lutar para vencer com poucas possibilidades disso ocorrer, aumentando, portanto, as condições sociais para aumento de indivíduos neuróticos.
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casos são mais exceção, pois para a superação da neurose através da prática revolucionária (a reformista não permite isso, pois logo se caracteriza como oportunismo e forma de competição social) só ocorre quando o indivíduo consegue superar em grande parte os valores dominantes (o que dificilmente ocorre totalmente, mesmo se tratando de revolucionários autênticos e mais dedicados), abandonar vários sentimentos, pensamentos, típicos da sociedade moderna ou das classes auxiliares. Na maioria dos casos, porém, o que ocorre é a formação do que Fromm chama “caráter rebelde” (que não é necessariamente neurótico, pois muitos são assim devido a outras determinações, como valores, etc., sem ter problemas psíquicos, mas isto sendo mais consciente):
“Defino o rebelde como a pessoa profundamente ressentida contra a autoridade por não ser apreciada, amada, aceita. O rebelde deseja derrubar a autoridade devido ao seu ressentimento e, em conseqüência, constituirse na autoridade, em substituição à derrubada. Muito freqüentemente, no momento mesmo em que atinge tal objetivo, torna-se amigo da própria autoridade que combatia tão acerbamente, antes” (Fromm, 1986, p. 116).

Assim, a neurose é um grave problema social e político, e mais ainda a existência de um grande número de neuróticos, principalmente na perspectiva da emancipação humana, pois é um obstáculo para ela. Sem dúvida, nestes casos a terapia psicanalítica ameniza e não cumpre um papel totalmente conservador, mesmo porque atinge as classes privilegiadas principalmente. Porém, a terapia psicanalítica não é suficiente para resolver o problema da neurose individual e apesar de amenizar e “apaziguar” indivíduos neuróticos e diminuir sua hostilidade e capacidade destrutiva, não apresenta uma alternativa real ao não questionar os valores dominantes e a mentalidade dominante, não reforçar a contestação da socialização repressiva e coercitiva (familiar, escolar, etc.), não apontar para a realização das verdadeiras necessidades-potencialidades humanas e seus reais obstáculos ao invés 14 de propor mera sublimação e reforço da persona . Nesse sentido, o movimento revolucionário (claro que esse não é o caso da pseudo-esquerda comandada por setores das classes auxiliares da burguesia,

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Sobre conceito de persona, cf. Viana, 2002.

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especialmente a burocracia, que reproduz tudo o que está na base da formação neurótica) é uma alternativa que pode apontar para uma superação das bases neurotizantes da sociedade capitalista – e também da situação de classe que reforça este processo – apesar das dificuldades neste sentido, que reside nos conflitos interiores das pessoas neuróticas. Mas além dessa ação prática derivada da adesão que alguns indivíduos podem fazer, existem outras ações – que não são específicas para este caso – como o combate aos valores dominantes, a crítica das ideologias, a denúncia e recusa das organizações burocráticas, apresentação de um projeto autogestionário de sociedade, etc., e ações mais específicas, como a produção teórica para esclarecer as bases sociais e capitalistas da neurose moderna, o esclarecimento do sofrimento psíquico individual e sua impossibilidade de resolução total no interior da atual sociedade, entre outras ações, que podem afetar a tendência neurotizante da sociedade moderna, que é parte da luta mais geral pela emancipação humana. O desenvolvimento da luta operária marca, em seu próprio processo de estabelecimento, bases para uma nova forma de sociabilidade, não fundada na competição e sim na solidariedade, não buscando realização de necessidades socialmente fabricadas e futilidades e sim necessidades autênticas e essenciais, superando o processo de intensa repressão e coerção (em que pese isto não desapareça de imediato, pois resquícios e o combate com a classe dominante e suas classes auxiliares pode exigir certas ações, decididas, no entanto, coletivamente, e não por dirigentes destacados da luta, o que significa que mesmo quando isso ocorre é sob outras relações sociais e sem autoritarismo e determinados tipos de conflitos). No processo de luta, os valores dominantes, os sentimentos predominantes, e tudo o que constitui a mentalidade burguesa é solapada pela hegemonia proletária, que aponta para valores autênticos, novas relações sociais, renovação dos sentimentos, etc. A autonomização do proletariado e a instituição desta nova sociabilidade e formas de consciência e organização, tendem a romper com as bases neurotizantes da sociedade capitalista. Isto, uma vez ocorrendo, abre espaço para a superação da neurose e psicose, entre outros problemas psíquicos. Este é um passo fundamental para a abolição da neurose.

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A superação da neurose em determinados indivíduos é algo bastante difícil, mas não impossível, principalmente nos casos menos graves. A superação da neurose, como fenômeno coletivo emerge com o processo de autonomização do proletariado e com a autogestão das lutas sociais. A superação total da neurose pressupõe a abolição da sociedade que gera a neurose.

Referências
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de Janeiro, Imago, 1976a. Sigmund. Uma Neurose Demoníaca do Século XVI. In: Obras Escolhidas Completas. Vol. XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1976c.
FROMM, Erich. Anatomia da Destrutividade Humana. Rio de Janeiro, Zahar, 1975. FROMM, Erich. O Dogma de Cristo. 5ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1986. HORNEY, Karen. A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo. 10ª edição, São Paulo, Difel, 1984. REICH, Wilhelm. Psicologia de Massa do Fascismo. Porto, Publicações Escorpião, FREUD,

1974. Michael. Neurose e Classes Sociais. Uma Síntese Freudiano-Marxista. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
VIANA, Nildo. A Invenção do Inimigo Imaginário. Revista Antítese, v. 2, num. 4, p. SCHNEIDER,

95-111, 2007.
VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia, Edições Germinal, 2003. VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007.

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VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios FreudoMarxistas. São Paulo, Escuta, 2008.

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A bolsa universitária da OVG e a privatização do ensino superior de Goiânia
Renato Regis do Carmo¹.

O Programa Bolsa Universitária (PBU), criado em Goiás em 25 de março de 1999, na gestão do governador Marconi Perillo, por intermédio do Decreto n. 5.028, regulamentado pela Portaria n. 142, gerido por uma entidade privada sem fins lucrativos, a Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), se destina, segundo seus mentores, a auxiliar financeiramente estudantes de classes baixas que não tem recursos para frequentarem um curso superior. A despeito da versão oficial, o Programa Bolsa Universitária (PBU) se adequou perfeitamente ao receituário neoliberal, que vê a educação, assim como demais serviços públicos (segurança, transporte, saúde) que deveriam ser oferecidos pelo Estado, como mais um produto sujeito aos joguetes e leis do mercado. O estado de Goiás, e mais especificamente a cidade de Goiânia, não ficou imune à política para a educação do governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), cujo um dos traços principais foi a mercantilização da educação. Entre os anos de 1999 e 2006 houve um crescimento espantoso das instituições de ensino superior (IES) privadas na cidade de Goiânia, impulsionados em grande parte pela inserção cada vez maior de alunos bolsistas do PBU. No fim da década de 1990, existiam basicamente três instituições privadas de ensino superior em Goiânia: Universidade Católica de Goiás (que atua como entidade filantrópica), Universidade Salgado Oliveira (UNIVERSO) e Uni-Anhanguera. Em um período curto de tempo, novas IES surgiram e cresceram de forma surpreendente, dobrando, triplicando o número de estudantes a cada novo vestibular. Um exemplo típico foi a Faculdade Padrão, que originalmente instalada em uma sede modesta no Jardim Vila Boa, região sudoeste de Goiânia, abriu um campus em sede provisória no bairro de Campinas e logo em seguida construiu dois campus próprios, o primeiro no setor Rodoviário e o outro no Jardim Luz, divisa de Goiânia com Aparecida. Tudo isso em um prazo de

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Graduado em História pela UCG e professor efetivo da SEE e SME de Goiânia.

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apenas oito anos, desde sua criação em 1998 até a inauguração do campus mais recente em 2006. Podemos citar outras IES privadas, cujas trajetórias são semelhantes. A Faculdade Cambury, cuja matriz, se assim podemos dizer, está localizada em uma área no Setor Sol Nascente, construiu, depois da rápida expansão um campus imponente no Jardim Goiás, que em 2006 foi inteiramente vendido para a Universidade Católica de Goiás em uma transação financeira milionária que poucos analistas apostavam. Destacam-se ainda a Faculdade Alves Faria (ALFA), localizada na região norte de Goiânia, assim como a Universidade Paulista (UNIP), cuja sede está localizada no perímetro urbano da BR 153. Em sua dissertação de mestrado defendida no ano de 2002, a pesquisadora Maria Antônia Gomes apontou número bens sugestivos para ilustrar o rápido crescimento das IES em Goiânia. Segundo ela, a Faculdade Padrão , entre 1998 e 2001, triplicou o número de cursos e aumentou suas vagas em 410%; a Faculdade ALFA, entre 2000 e 2001, mais que triplicou o número de cursos e incrementou suas vagas com um percentual na faixa de 260%; e a Faculdade Cambury, entre 1998 e 2001, dobrou o número de cursos e triplicou o número de vagas. Para ter-se uma noção da influência que o PBU teve sobre esses números, podemos utilizar os dados da própria OVG sobre o número de bolsistas matriculados em cada IES privadas de Goiânia.

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BOLSISTAS UNIVERSITÁRIOS OVG – 1999/2003

Todas as instituições que são citadas no quadro, exceto a Faculdade Araguaia e a FacLions que são mais recentes, receberam uma grande leva de estudantes do PBU, principalmente a Faculdade Padrão que passou de 14 estudantes bolsistas em 1999 para o incrível número de 1253 estudantes em 2003, um crescimento até difícil de se calcular em porcentagem. Com essa ajuda providencial e generosa do governo estadual, os empresários não perderam tempo em investir no ramo do ensino superior, visto que os estudantes, na visão mercadológica, clientes, já eram disponibilizados pelo próprio governo estadual. Nota-se que “quando o capitalista amplia as oportunidades escolar, em nome da democratização, o que ele tem em mente são adicionais de excedente dos quais se apropria (ROSSI, 1978, p. 149)”.

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Se por um lado, as IES privadas cresceram e se estruturaram ás custas do dinheiro público, o mesmo não se pode dizer da UEG. Desde que foi criada, ou melhor aglutinada, no fim da década de 90, a Universidade vem enfrentando várias dificuldades para seu pleno funcionamento assim como é objeto de manifestações e protestos regulares por parte de estudantes e professores. As principais reivindicações do Fórum de Defesa da UEG, grupo criado por funcionários e estudantes, dizem respeito à realização de concursos públicos, a melhoria na estrutura (ampliação de bibliotecas, laboratórios, etc.), a votação direta para reitor e a democratização do acesso aos cargos da instituição.. Diante das constatações acima, pode-se levantar uma objeção óbvia: se o governo de Goiás dispunha de verbas para investimento no ensino superior por que não o fez na UEG, cujo patrimônio vem se dilapidando nos últimos anos, ao invés de fazê-lo em instituições privadas, onde principal objetivo em suas atuações é o lucro? O que leva um governante a deixar de investir na própria estruturação do estado para beneficiar particulares? Em novembro de 2005, já no apagar das luzes de seu mandato, o então governador Marconi Perillo, pai do PBU, se reuniu com membros da Associação das Mantenedoras do Ensino Superior em Goiás (Amesg) onde firmou compromisso de beneficiar mais 4 mil estudantes com bolsas universitárias. Décio Corrêa Lima, vicepresidente da Amesg, justificou a medida na época, explicando que “Em cinco, dez anos, essas pessoas que são hoje beneficiadas pela bolsa contribuirão para o crescimento de Goiás, porque estarão capacitadas para o mercado e para gerar riquezas (Diário da Manhã, 24/11/2005, p. 6)”. Nota-se na fala de Décio a tradicional ladainha neoliberal que as estatísticas atuais já trataram de derrubar por terra. Pois contra a afirmação do empresário de que os bolsistas no futuro estarão capacitados para o mercado, ergue-se as recentes notas dadas pelo MEC aos cursos de Instituições de Ensino Superior de todo país, cujo topo da lista é ocupado por instituições públicas e a rabeira por instituições privadas. Essa realidade não é nova. Ainda na década de 80, Bárbara Freitag já dizia que
a rede particular de ensino superior absorve os excedentes

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expelidos pela rede oficial e forma excedentes profissionais que, por não poderem competir com seus colegas das universidades oficiais passam a ser profissionais de segunda categoria (FREITAG, 1980, p. 135).

A reunião do governador e o compromisso assumido com os empresários é a resposta clara e direta aos questionamentos colocados linhas atrás. Esse episódio corrobora com a fala de Marx, segundo a qual o Estado é a sucursal das classes dominantes. O governo de Marconi Perillo estava extremamente comprometido com o receituário neoliberal, que resguarda para o Estado o discreto papel de observador da dinâmica do mercado, já que este, tem suas próprias mãos invisíveis.. Outro apontamento importante que podemos levantar é em relação ao tipo de educação que o PBU financia. O ensino ministrado nas IES privadas é inteiramente voltado para o mercado de trabalho, já que a receptividade dos estudantes por parte do primeiro funciona como um termômetro que influencia de forma favorável ou contrária na imagem das mesmas. Se a aceitação dos estudantes pelo mercado for positiva , a instituição se beneficiará com um incremento no número de estudantes matriculados e abertura de novas turmas, mas se por outro lado, a aceitação for negativa, as conseqüências podem ser a perda de prestígio e credibilidade e, consequentemente, de alunos matriculados. Para se adequar às necessidades do mercado, as grades curriculares das IES são dominadas por uma visão essencialmente funcional que buscam formar o profissional, seja ele administrador, advogado, contabilista, etc. Preparar aqui significa contratar professores que estejam em atuação no mercado de trabalho e possam “adestrar” os estudantes no caminho correto para conseguir sobreviver no meio da selvageria que é a busca por um emprego. Os valores humanos são relegados ao segundo plano, já que nessa disputa saem vitoriosos os mais “espertos”, que conseguem dissimular seus pensamentos, disciplinar seu estômago, manejar com habilidade os desejos humanos em prol de seus próprios objetivos. Mas a função da universidade não é formar profissionais, em áreas diversas, pode inquirir um atento leitor. Sim, mas não é a única. Pois na medida em que se privilegia apenas as habilidades profissionais do estudante, a sua formação moral e

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ética – a dimensão social e política do ser – fica a reboque de seus interesses financeiros e materiais. Essa divisão do ensino porém não é um fenômeno recente. Ao analisar a crise da escola tradicional italiana, Gramsci faz algumas observações valiosas. Ainda que se trate de outro contexto histórico e de um objeto de estudo que não é exatamente o mesmo, as considerações do teórico italiano são pertinentes. Segundo ele,
Na escola atual, em função da crise profunda da tradição cultural e da concepção de vida e do homem, verifica-se um processo de progressiva degenerescência: as escolas de tipo profissional, isto é, preocupadas em satisfazer interesses práticos imediatos, predominam sobre a escola formativa, imediatamente desinteressada. O aspecto mais paradoxal reside em que este novo tipo de escola aprece e é louvado como democrático, quando, na realidade, não só é destinado a perpetuar as diferenças sociais, como ainda a cristalizá-las em formas chinesas (GRAMSCI, 2004, p. 49).

Uma conseqüência direta dessa modalidade de ensino que pode ser facilmente constatada é a total inoperância de atividades políticas por parte dos estudantes das IES privadas. Em Goiânia, salvo a UCG, cuja tradição do movimento estudantil vem desde a época da ditadura militar, a Uni-Anhanguera e a Universo, onde existem DCE´s formados, ainda que costumam promover apenas, festas, jogos, etc. não existe qualquer organização estudantil atuante politicamente. Para o governo de Goiás, foi muito mais estratégico e vantajoso manter estudantes freqüentando universidades e faculdades onde não há qualquer mobilização política, e ainda ter por parte destes gratidão devido ao beneficio concedido, no caso a Bolsa Universitária, do que abrir mais vagas na UEG, onde as agremiações estudantis costumam ser mais atuantes, cujo Fórum de Defesa da UEG, formado não só por estudantes como também por professores e demais funcionários da Universidade, é um exemplo. Já nas IES privadas, há uma tendência geral de aceitação por parte dos estudantes do despotismo e abusos cometidos pela direção das instituições somados ainda ao silêncio total por parte de professores e

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funcionários que convivem sob a ameaça constante de perder o emprego. Segundo esse raciocínio, nota-se que o governo de Goiás utilizou o PBU como um mecanismo eleitoral. No lugar de criar vagas na UEG, ocupadas por estudantes que venceram um processo seletivo bastante concorrido, sentindo-se auto-premiado pelo esforço despendido em várias horas de estudo em cursos pré-vestibulares, a lógica política optou por criar essas vagas em IES privadas e repassá-las a estudantes que, teoricamente são originários de classes sociais menos favorecidas. Os estudantes beneficiados, agradecidos com a dádiva que representa a Bolsa, tornaramse automaticamente cabos eleitorais do governo, já que a cada eleição pairava a incerteza e ameaça da interrupção do PBU caso o atual governo fosse derrotado nas urnas. É inegável que essa situação teve um papel considerável na decisão política de vários bolsistas, de seus parentes e de estudantes que estavam na expectativa de serem agraciados com o benefício. O uso eleitoreiro do PBU relembrou os anos auges da Primeira República brasileira, também conhecida por República Velha, República do Café-com-leite ou República dos Coronéis. O PBU se transformou em elemento de uma espécie de clientelismo moderno, ligando diretamente os beneficiários a obrigações eleitorais com “o maior dos coronéis”, de forma semelhante ao que acontecia no início do século passado onde os coronéis barganhavam votos por botas, dentaduras, óculos, entre outros objetos de toda natureza possível. A cada nova eleição, uma nova lista de beneficiados anunciada pelo governo. DADOS NUMÉRICOS – BOLSA UNIVERSITÁRIA

Analisando os dados acima, nota-se um detalhe interessante: nos anos

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ímpares, há um aumento considerado (exceto 2006 para 2007) no número de contemplados com a Bolsa Universitária (200% do ano 2000 para o ano 2001; 200% do ano de 2002 para 2003; e 100% do ano de 2004 para 2005). Como explicar essa constatação? Existem várias suspeitas, não comprovadas juridicamente, que é reservada uma quota de bolsas para políticos aliados do governo distribuírem em seus currais eleitorais. O que se pode afirmar seguramente é o fato de ser comum que vários bolsistas pagam sua contrapartida (40 horas mensais de trabalho voluntário a uma entidade credenciada) em gabinetes de vereadores e deputados, um despropósito visto que tais políticos já contam com verba destinada a gastos com gabinete e com funcionários que são colocados a sua disposição pelo poder executivo. Outro ponto que podemos questionar é o processo de seleção para novos bolsistas, realizado de forma individual pela OVG, utilizando critérios, a primeira vista justos, que definem o perfil do virtual beneficiado. Esse processo se dá sem qualquer fiscalização efetiva dos órgãos competentes como o Ministério Público, abrindo espaço para que o PBU torne-se potencialmente um programa que não atinja seu propósito programático e ainda mais injusto do que o vestibular, já que por mais perverso que este se apresenta, a medida que coloca em enfrentamento estudantes de escolas públicas sucateadas com estudantes de escolas particulares de ponta, há ao menos a justificativa que a prova será a mesma para ambos. Já no processo seletivo do PBU existem várias brechas para que o contemplado seja realmente aquele que mais carece do benefício. Acima dos critérios técnicos (econômicos e sociais) utilizados pela OVG para definir os contemplados com a Bolsa Universitária estão os interesses financeiros e eleitoreiros da classe política. Classe, que por sua vez, reproduz como ninguém a velha e tradicional cultura do jeitinho brasileiro, do mais esperto, do tráfico de influências, etc. De status de programa social, o PBU se metamorfoseia, de forma intencional e proposital, em mais um perverso mecanismo que reforça a exclusão, injustiça e desigualdade social, que por sinal são marcas características, inerentes e indeléveis de um sistema irracional que somente pela estupidez é tolerado pelo ser humano: o neoliberalismo.

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Referências BIANCHETTI, Roberto Geraldo. O modelo neoliberal e as políticas educacionais. São Paulo: Cortez, 1999. BORGES, L. Dez mil vagas a universitários. Diário da Manhã. Goiânia, 24 novembro 2003, cidades, p. 3. FREITAG, Bárbara. Escola, Estado e Sociedade. São Paulo: Moraes, 1980. 4a ed. GOMES, M. A. A expansão e a reconfiguração do ensino superior privado nos anos 90. O caso do município de Goiânia. Dissertação de Mestrado: FE/UFG, Goiânia, 2002. GRAMSCI, Antônio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. MARRACH, Sônia Alem. Neoliberalismo e educação. São Paulo: Cortez, 2002. NETO, Abrão Amisy. A bolsa de estudos universitários em Goiás: privatização do público ou publicização do privado? Dissertação de Mestrado. Goiânia: UCG, 2003. ROSSI, Wagner Gonçalves. Capitalismo e educação. São Paulo: Cortez, 1978.

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Manifestações do individual e do universal no modo de produção capitalista
Roberto Pereira Furtado1 Introdução O sujeito tanto em seu aspecto individual quanto universal é uma ilusão necessária ao modo de produção capitalista. O indivíduo livre, autônomo e independente não passa de um fenômeno ilusório. Porém, é ao mesmo tempo imprescindível ao modo de produção capitalista. O sujeito genérico ou universal também é, nesta sociedade, igualmente ilusório e necessário. O objetivo deste artigo é expor como Marx (2004) compreende o ser social no modo de produção capitalista e sua desintegração em sujeito individual e sujeito universal. Para Marx:
A desintegração do homem em judeu e cidadão, protestante e cidadão, homem religioso e cidadão, não é uma fraude praticada contra o sistema político, nem sequer um subterfúgio da emancipação política. É a própria emancipação política, o modo político de se emancipar da religião (MARX, 2004, p. 24).

Para Marx (2004), universalidade e individualidade estão ontologicamente integradas no ser social. Porém, o modo de produção capitalista, com a sua divisão em sociedade política e sociedade civil, produz a desintegração do ser social. Para desenvolver a análise foram selecionados os escritos presentes nos chamados Manuscritos econômico-filosóficos. Para tanto, foi utilizada como principal fonte a tradução de Alex Marins, presente na publicação da editora Martin Claret. Posteriormente foi realizada uma comparação com a tradução de Artur Morão, publicada pela editora Edições 70, para verificar se haveria diferenças

Doutorando em Educação pela Universidade Federal de Goiás. Professor Assistente da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Goiás.

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significativas nas traduções no que diz respeito ao objeto de análise deste artigo.

1- Evidências da individualidade e da universalidade Marx não traz uma definição ou conceito de sujeito nos referidos escritos do período de 1843 a 1845 que foram posteriormente organizados e publicados em forma de livro, não por ele, mas apenas após a sua morte. Por isso, a proposta é apreender o significado de sujeito nesses textos escritos em sua juventude. Na verdade a palavra sujeito nem mesmo aparece em nenhuma das duas traduções consultadas. Marx se refere sempre ao homem, ao indivíduo, ao ser, ao ser genérico, ao ser social, ou as esferas, raças, classes, ou demais divisões da população, tais como os judeus, a nobreza, os proletários, a classe média, os protestantes, os alemães, os franceses, etc. Marx mostra em seus manuscritos a existência de grupos distintos uns dos outros, povos distintos. Esses grupos possuem “características peculiares”, “próprio preconceito”, como se refere aos judeus, em a questão judaica. Também se refere a outras esferas, divisões ou diferenciações entre indivíduos e grupos. A relação particular-universal está presente durante todo o manuscrito publicado na obra referida. Para evidenciar como o autor percebe, para além da universalidade do sujeito, particularidades que são agrupadas em classes, esferas, raças e até mesmo se distinguem entre nações e são constituídas a partir de semelhanças entre os indivíduos que as compõem, as passagens seguintes são emblemáticas: “Que espetáculo! A sociedade encontra-se infinitamente dividida nas mais diversas raças, que se defrontam umas com as outras com suas mesquinhas antipatias, má consciência e grosseira mediocridade” (MARX, 2004, p. 48). E ainda:
O cerne da moralidade e da honra alemã, tanto nas classes como nos indivíduos, é um egoísmo modesto que ostenta, e permite que os outros revelem a sua própria mesquinhez. A relação entre as diferentes esferas da sociedade alemã não é, portanto, dramática, mas épica. Cada uma destas esferas começa por saber de si e por estabelecer-se ao lado das outras, não a partir do momento em que é oprimida, mas desde o momento em que as

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condições da época, sem qualquer ação da sua parte, originam uma nova esfera que ela por sua vez pode oprimir. Mesmo o sentimento de si moral da classe média alemã só tem como base a consciência de ser o representante da mediocridade mesquinha e limitada de todas as outras classes. Por isso não são apenas os reis alemães que sobem ao trono. Cada esfera da sociedade civil sofre uma derrota antes de alcançar a vitória (Marx, 2004, p. 56-57).

Estes são trechos que mostram a compreensão do sujeito para além da universalidade. Porém, em uma das passagens quando se refere aos judeus, Marx (2004, p. 14) afirma: “mas vocês não são homens, como também não são aqueles a quem recorrem” (p. 14). No mesmo sentido, já na contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel, afirma que apenas com a emancipação os alemães se tornarão homens. Ao dizer que os judeus ou alemães que constituem um grupo específico e com características peculiares não são homens e que, ao mesmo tempo, também não são homens aqueles que constituem outros grupos com características peculiares, ele indica, ao contrário, a impossibilidade de existência do sujeito fora de sua forma universal. A individualidade ou qualquer forma de desintegração da universalidade não é uma característica ontológica do ser humano. Mas a existência de sujeito para além da universalidade está posta por Marx (2004) quando afirma, por exemplo, que “um povo tem anseios próprios” (p.26). Portanto, são anseios não universais. Ou ainda, quando mostra a existência da “multidão de esferas particulares, formadas e determinadas ao acaso, diferenciadas uma das outras pelos respectivos interesses, paixões e preconceitos específicos, adquirindo como privilégio a permissão de mutuamente se isolarem” (MARX, 2004, p.26). Há, portanto, particularidades distintas que devem ser entendidas como resultado da forma distinta de assimilação dos diferentes estágios do desenvolvimento humano. Os “diferentes estágios no desenvolvimento do espírito humano” (MARX, 2004, p. 15) é o que permite a existência de diferentes grupos. Por exemplo, “o espírito religioso só pode se realizar se o mesmo estágio evolutivo do espírito humano, de que ele é expressão religiosa, se manifesta e constitui na sua

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forma secular” (MARX, 2004, p. 27-28). O desenvolvimento do espírito humano possui estágios particulares que acompanham os estágios de desenvolvimento material da humanidade. Em uma mesma sociedade alienada alguns desses estágios podem aparecer e existir simultaneamente. Ao contrário da ilusória vida religiosa, o mundo real é insuficiente e contraditório. “A insuficiência secular” (MARX, 2004, p. 19) é expressa pela condição de alienação a qual o homem está submetido e que faz emergir as distinções de grupos, povos e indivíduos.

2. O Estado democrático e a desintegração do ser social É possível perceber em Marx (2004) como o sujeito universal está dividido em diversas particularidades e estas por sua vez em indivíduos que as compõem. Cada indivíduo possui uma esfera íntima própria. Esfera essa que vai atrair o foco daquilo que o modo de produção capitalista com seu Estado democrático necessita retirar da vida comum ou da comunidade. Isso significa que a diferenciação dos indivíduos absorve o que a o Estado não pode assumir. É o espetáculo da divisão ao qual Marx se referia de forma irônica em passagem anteriormente citada. “Desta maneira, o Estado pode ser emancipado da religião, embora a imensa maioria continue a ser religiosa. E a imensa maioria não deixa de ser religiosa pelo fato de o ser na intimidade” (MARX, 2004, p. 20). O Estado democrático foi a forma encontrada pelo modo de produção capitalista para livrar-se do “entrave entre as diferentes divisões da população” (MARX, 2004, p. 33). A diferença existe, mas o Estado suprassume a diferença e a deixa confinada apenas como livre expressão da esfera individual. No Estado de direito, ou seja, com a emancipação política, para Marx (2004) há uma dupla manifestação da forma da alienação: na sociedade política o homem vive como ser comunitário (celeste), é o sujeito universal; na sociedade civil ele é considerado como ser privado (terrestre), é o sujeito individual. Tal como uma ilusão religiosa a universalidade do sujeito está situada no âmbito da sociedade política enquanto que o direito atribui uma ilusória existência individual na sociedade civil.

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O homem aparece na sociedade civil como indivíduo real, a si mesmo e aos outros, porém, esse é um fenômeno ilusório. Por outro lado, é na esfera do Estado ou da sociedade política que se manifesta a universalidade do sujeito também como ilusão necessária. Para Marx (2004), no Estado, o homem é o ser ilusório despojado de sua vida real individual. Em ambas as situações o homem vive em uma ilusão. Pois em uma situação vive na individualidade desprovida de vida genérica e em outra, vive na vida genérica desprovido de vida individual.
Aprimorado, o Estado político é, por vocação, a vida genérica do homem em oposição a sua vida material. Continuam a existir todas as implicações da vida egoísta da sociedade civil, fora da esfera política, como propriedade da sociedade civil. Onde o Estado político atingiu o pleno desenvolvimento, o homem leva, não só no pensamento ou na consciência, mas na realidade, na vida, uma dupla essência – celestial e terrestre. Ele vive na sociedade política, em cujo seio é considerado como ser comunitário, e na sociedade civil, onde age como simples indivíduo privado, tratando os outros homens como meios, aviltando-se a si mesmo em seu meio e tornando-se joguete de poderes estranhos. Em relação à sociedade civil, o Estado político é verdadeiramente tão espiritual como o céu em relação à terra. Mantém-se em idêntica oposição à sociedade civil, vence-a, da mesma maneira que a religião supera a estreiteza do mundo profano; isto é, tem sempre de reconhecê-la de novo, de restabelecê-la e de permitir que por ela seja dominado. Na sua realidade mais íntima, o homem na sociedade civil é um ser profano. Mais especificamente aqui, onde aparece a si mesmo e aos outros como indivíduo real, surge como fenômeno ilusório. Em oposição, no Estado, onde é olhado como ser genérico, o homem é o membro ilusório de uma soberania imaginária, despojado da sua vida real individual, e dotado de universalidade irreal (MARX, 2004, p. 21-22).

O indivíduo outras diferentes expressões da desintegração do ser social, postas pelo próprio autor, tais como raças, classes, esferas, enfim, diferentes divisões da população, que são resultado da apropriação de diferentes estágios do desenvolvimento do espírito humano, possuem na sociedade civil o espaço de estímulo a sua realização. O sujeito universal ou homem genérico, por outro lado, tem no Estado ou na sociedade política o espaço de sua realização. Porém, ambos são falsos, ilusórios, abstrações necessárias ao modo de produção capitalista. Marx (2004) mostra que a contradição não está na oposição entre sujeito universal e sujeito individual, mas sim na compreensão que o sujeito é o ser social. Isoladamente na universalidade ou na individualidade, o sujeito é necessariamente

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abstrato ou ilusório. A vida genérica do ser social está obstacularizada no modo de produção capitalista. O sujeito universal é o que aparece ocupando o espaço da vida genérica do ser social e o lugar de sua manifestação é a sociedade política. A sociedade política e o sujeito universal abafam seus próprios pressupostos, ou seja, a realidade material e o ser social. Mas esse ato é contrário à própria expressão da materialidade. A materialidade por ser a existência real está compelida a escapar, porque a sociedade política só existe pela realidade material que a sustenta e a faz necessária. Por isso, a ilusão da existência do sujeito universal e individual é necessária ao modo de produção capitalista, tanto quanto a violência. Marx (2004), portanto, entende esse modo de produção como o sistema da revolução permanente. Pois necessita da ilusão e da violência para se manter. Nas palavras do autor:
A vida política procura abafar os próprios pressupostos – a sociedade civil e os seus elementos – e estabelecer-se como a genuína e harmoniosa vida genérica do homem, somente nos momentos da sua especial autoconsciência. Por outro lado, só conseguirá isso através da contradição violenta com as próprias contradições de existência, declarando a revolução como permanente (MARX, 2004, p. 24).

Nesse processo, ocorre uma inversão. O falso ser social, genérico, autoconsciente e a comunidade política se transformam num meio para satisfazer a realização do indivíduo que aparece também como falso ser social, livre para expressar suas particularidades.
A liberdade do homem individualista surge e o reconhecimento desta liberdade surge mais exatamente como o reconhecimento do movimento impaciente dos elementos culturais e materiais, que formam a essência de sua vida. Concluímos que o homem não se emancipou da religião, mas sim recebeu a liberdade religiosa. Não ficou livre da propriedade; recebeu a liberdade de propriedade. Não foi libertado do egoísmo do comércio; recebeu a liberdade para se empenhar no comércio. A constituição do Estado político e a dissolução da sociedade civil em indivíduos independentes cujas relações são regulamentadas por lei, da mesma maneira, que as relações entre os homens nas ordens e guildas eram reguladas por privilégio, cumprem-se num só e mesmo ato. O homem, como membro da sociedade civil – o homem apolítico – surge obrigatoriamente como homem natural (...) porque a atividade autoconsciente se concentra na ação política. A revolução política dissolve a sociedade civil nos seus componentes sem os revolucionar e os submeter

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à crítica. O homem egoísta é o resultado passivo, apenas dado, da dissolução da sociedade, objeto de certeza imediata e, consequentemente, um objeto natural (...). Finalmente, o homem como membro da sociedade civil é identificado como o homem autêntico, o homme como distinto do citoyen, porque é o homem na sua existência sensível, individual e imediata, ao passo que o homem político é unicamente o homem abstrato, artificial, o homem como pessoa alegórica, moral. Assim, o homem tal como é na realidade reconhece-se apenas na forma do homem egoísta, e o homem verdadeiro, unicamente na forma do citoyen abstrato (MARX, 2004, p. 36).

3. A emancipação e o ser social Marx (2004) entende que a maneira para se resolver uma contradição é tornando-a inviável. A dissolução da contradição entre o singular e o universal é, portanto, tornar essa contradição inviável. Isso só é possível com a emancipação humana, com o fim da alienação.
Qualquer emancipação constitui uma restituição do mundo humano e das relações humanas ao próprio homem (...). Só será plena a emancipação humana quando o homem real e individual tiver em si o cidadão abstrato; quando como homem individual, na sua vida empírica, no trabalho e nas suas relações individuais, se tiver tornado um ser genérico; e quando tiver reconhecido e organizado as suas próprias forças como forças sociais, de maneira a nunca mais separar de si esta força social como força política (MARX, 2004, p. 37).

Para promover a emancipação, a única forma é tornar inviável a contradição indivíduo e universalidade, reintegrando o que foi desintegrado pela alienação. Dessa forma, é recolocado o ser social, genérico em oposição ao sujeito como abstração, seja em sua forma universal ou singular. Diferente de Hegel, a dissolução desta contradição não está na autoconsciência que vai ser expressa no Estado democrático, na sociedade política como o lugar da realização do sujeito universal ou o ser genérico. Ao contrário, para Marx (2004, p. 58) “a dissolução da sociedade como classe particular é o proletariado (...). No momento em que o proletariado proclama a dissolução da ordem social existente, apenas afirma o mistério da sua própria existência, desta forma é a efetiva dissolução dessa ordem”.

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As contribuições da filosofia hegeliana não são negadas por Marx, ao contrário, ele reconhece a importância da filosofia, mas da filosofia mais desenvolvida que corresponde ao estágio mais desenvolvido do espírito da humanidade.
Da mesma forma como a filosofia identifica as armas materiais no proletariado, o proletariado tem as suas armas intelectuais na filosofia (...). A filosofia é a cabeça desta emancipação e o proletariado o seu coração. A filosofia não pode realizar-se sem a exaltação do proletariado, o proletariado não pode exaltar-se sem a realização da filosofia (MARX, 2004, p. 58-59).

A universalidade do homem compreende que toda a natureza coexiste neste ser social, tanto no seu desenvolvimento espiritual quanto no seu desenvolvimento corporal. “A universalidade do homem aparece praticamente na universalidade que faz de toda a natureza o seu corpo inorgânico” (MARX, 2004, p. 116). A universalidade do homem, portanto, está para além do sujeito universal. O sujeito universal separado do objeto não passa de uma abstração. A universalidade do homem está na sua relação com a natureza, sendo esta entendida como “o mundo externo sensível” (MARX, 2004, p. 112). O mundo externo sensível permite o desenvolvimento corporal e espiritual do homem, sendo assim, a universalidade do homem compreende esse próprio mundo. A integralidade do ser social não corresponde apenas à integração do ser sensível individual e do ser genérico, mas também, à integração com o próprio mundo externo sensível como um todo.
Afirmar que a vida física e espiritual do homem e a natureza são interdependentes significa apenas que a natureza se inter-relaciona consigo mesma, já que o homem é uma parte da natureza. Já que o trabalho alienado aliena a natureza do homem, aliena o homem de si mesmo, o seu papel ativo, a sua atividade fundamental, aliena do mesmo modo o homem a respeito da espécie; transforma a vida genérica em meio da vida individual. Primeiramente, aliena a vida genérica e a vida individual; depois, muda esta última na sua abstração em objetivo da primeira, portanto, na sua forma abstrata e alienada (MARX, 2004, p. 116).

A alienação promove a desintegração do ser social. Com ela, os homens se separam uns dos outros, formam classes distintas. Separam-se da natureza ou de todo o mundo externo sensível. A existência individual justifica-se por si mesma e a atividade humana se transforma numa atividade com sentido imediato para a

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satisfação dessa existência. A universalidade do homem deixa de ser o próprio ser genérico compreendendo a natureza e os outros homens como o próprio corpo inorgânico do homem. Mas, ao contrário, a universalidade se transforma em meio para a produção. Tanto os outros homens quanto a própria natureza se transformam apenas em meios de produção da vida individual. A alienação, assim, promove a abstração do sujeito desintegrado do objeto.
No tipo de atividade vital está todo o caráter de uma espécie, o seu caráter genérico; e a atividade livre, consciente, constitui o caráter genérico do homem (...). A edificação pratica de um mundo objetivo, a manipulação da natureza inorgânica, é a ratificação do homem como ser genérico lúcido, ou seja, um ser que avalia a espécie como seu próprio ser ou se tem a si como ser genérico (...) É exatamente na atuação sobre o mundo objetivo que o homem se manifesta como verdadeira ser genérico. Esta produção é a sua vida genérica ativa. Por meio dela a natureza nasce como sua obra e a sua realidade. Em conseqüência, o elemento do trabalho é a objetivação da vida genérica do homem: ao não se reproduzir somente intelectualmente, como na consciência, mas ativamente, ele se duplica de modo real e percebe a sua própria imagem num mundo por ele criado. Na medida em que o trabalho alienado tira do homem o elemento da sua produção, rouba-lhe do mesmo modo a sua vida genérica, a sua objetividade real como ser genérico, e transforma em desvantagem a vantagem sobre o animal, então lhe é arrebantada a natureza, o seu corpo inorgânico (...). A consciência que o homem tem da própria espécie altera-se por meio da alienação, de modo que a vida genérica se transforma para ele em meio (MARX, 2004, p. 117).

A propriedade privada dos meios de produção, que não é nada mais que a expressão da universalidade do ser social desintegrada, é origem e resultado da alienação. O caráter genérico do homem está no tipo de sua atividade vital, ou seja, na sua ação que produz a sua condição de existência como ser. A característica da atividade vital humana é ser livre e consciente na atuação sobre o mundo objetivo. A alienação estabelecida pela propriedade privada transforma essa atividade vital em uma deliberação imediata e independente de sua consciência. Por isso, a integração entre indivíduo e ser social depende da abolição da propriedade privada. A dissolução da contradição indivíduo e ser social ou indivíduo e sociedade, para Marx (2004) está em tornar inviável essa contradição, que significa a abolição da propriedade privada.
A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e parciais que um objeto só é nosso quando o temos, quando existe para nós como capital ou quando por nós é diretamente possuído, comido, bebido, transportado no corpo, habitado, etc., ou melhor, quando é utilizado (...) Portanto, todos os

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sentidos físicos e intelectuais foram substituídos pela simples alienação de todos os sentidos, pelo sentido do ter (...) A supressão da propriedade privada constitui, desse modo, a emancipação total de todos os sentidos e qualidades humanas (MARX, 2002, p. 142).

Os problemas teóricos existentes no estágio do desenvolvimento do espírito da humanidade correspondente ao contexto de alienação apenas podem ser superados pela práxis. A contradição entre individual e universal é um desses problemas teóricos. Sua resolução enquanto contradição teórica é possível apenas “por intermédio dos meios práticos, por meio da energia prática do homem. Por isso, a sua resolução não constitui de modo algum apenas um problema de conhecimento, mas é um problema real da vida, que a filosofia não conseguiu resolver” (MARX, 2004, p. 144). O comunismo é “o retorno do homem a si mesmo como ser social (...) É a verdadeira solução do conflito entre existência e a essência, entre a objetivação e a auto-afirmação, entre a liberdade e a necessidade, entre o indivíduo e a espécie.” (MARX, 2004, p. 138). O ser social não é um sujeito individual nem universal porque para Marx, a “consciência universal constitui apenas a forma teórica daquilo cuja forma viva é a comunidade real, a entidade social, embora atualmente a consciência universal seja uma abstração da vida real, e como tal, se lhe oponha com hostilidade” (MARX, 2004, p. 140). É apenas com o ser social que a natureza e o homem, indivíduo e sociedade, diferença e comunidade, estão integrados. Apenas o ser social possui os sentidos humanos físicos e intelectuais integrados à realidade objetiva de tal forma que um objeto ou os demais homens são o próprio ser social na medida em que o compõe como natureza inorgânica espiritual e como corpo inorgânico. A universalidade do ser social é o mundo exterior como componente de seu próprio ser. Por isso, “é importante evitar que a sociedade se considere novamente como uma abstração em antagonismo com o indivíduo. O indivíduo é o ser social (...). A vida individual e a vida genérica do homem não são diferentes” (MARX, 2004, p. 140).

Considerações Finais A contradição entre sujeito individual e sujeito universal ou entre individuo e

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sociedade é fundamental na obra marxiana, principalmente nos escritos de sua juventude quando o autor travava embates dialéticos com Hegel e os jovens hegelianos. A compreensão do sujeito como uma abstração é fundamental para proporcionar a clareza da centralidade do ser social no pensamento de Marx. O ser social é concreto enquanto que o sujeito é uma abstração. Como tal, a contradição entre sujeito individual e universal foi tomada pelo presente estudo apenas como ponto de partida da análise. A análise permitiu a compreensão do papel do Estado democrático e da alienação no desenvolvimento da contradição entre indivíduo e sociedade ou indivíduo e ser social que significa o mesmo. Permitiu também a compreensão de que a resolução desta contradição apenas pode ser possível eliminando aquilo que a desenvolve, ou seja, o Estado democrático e a alienação. Marx (2004) mostra que a abolição da propriedade privada é fundamental neste processo, pois assim a atividade vital do homem será livre, consciente e dotada dos sentidos humanos que permitem a apropriação do mundo exterior sensível (natureza) como seu próprio ser em sentido universal. Permite que o indivíduo seja o próprio ser social de forma integrada e não contraditória. A análise aqui desenvolvida precisa ser complementada com o estudo de outros escritos da juventude de Marx, tal como A ideologia alemã . Além disso, uma leitura mais rigorosa se faz necessária comparando expressões da língua alemã utilizadas por Marx com as traduções para a língua portuguesa.

Referências MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2004. ______. Manuscritos econômicos e filosóficos. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1963.

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Reflexões sobre a contra-revolução burocrática na Rússia (1917-1921)
Rodolfo Fernandes Martins
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Resumo: O trabalho tem como objetivo analisar os anos iniciais do processo da Revolução Russa, anos estes marcados por um grande acirramento da luta de classes (burguesia, burocracia, campesinato, proletariado), e mais precisamente pela disputa de projetos de sociedade entre o proletariado e a burocracia. Estas disputas (luta de classes) se deram em diversos momentos e aspectos: na forma como se organizaria o “Estado” (ou a “extinção” deste através dos Conselhos Operários), como se organizaria o Exército, etc., e fundamentalmente na forma como se organizaria a produção. A partir da análise das diversas propostas para cada um destes pontos, da análise da forma como estas questões foram resolvidas e das conseqüências destas decisões para a revolução proletária, pode-se chegar às conclusões sobre as determinações que contribuíram para a derrota da revolução proletária e vitória da contra-revolução burocrática e instauração do capitalismo de estado na Rússia (URSS após o ano de 1922). Palavras-chave: Revolução Russa; Soviets; Contra-revolução burocrática; Burocracia

Introdução: Antes de iniciar a análise histórico-concreta da luta de classes na Rússia no período de 1917-1921 farei alguns apontamentos teórico-metodológicos que servirão de “fio condutor” do texto. Utilizarei como referencial metodológico o materialismo histórico-dialético tal como desenvolvido por Marx e Engels (Marx e Engels, 2006; Marx 1983), Korsch (Korsch, 2008) e Viana (Viana, 2007a; Viana 2007b; Viana 2005). Para estes autores o conceito fundamental para se entender a sociedade e a sua

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Graduando em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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dinâmica é o de modo de produção. Sendo este constituído pelas forças produtivas (meios de produção e força de trabalho) e, fundamentalmente, pelas relações de produção, que são “as relações sociais instituídas pelos seres humanos no processo de produção (...)” (Viana, 2005, p.10). Apesar da determinação fundamental da sociedade ser o modo de produção, ela não se limita ao modo de produção. Também são partes constitutivas da sociedade as formas de regularização das relações sociais (“superestrutura” para Marx e Korsch), que são:
(...) o estado, as instituições estatais e privadas (escolas, igrejas, partidos, sindicatos etc.), as normas legais (leis, direito etc.), a sociabilidade, as ideologias e a cultura em geral etc. E buscam regularizar não só as relações de produção, como também o conjunto de relações sociais derivadas do modo de produção, ou seja, a si mesmas” (Viana, 2007b, p.74).

Por fim, cabe adicionar o movimento, a transformação, a historicidade a este “tabuleiro” social. Mas o que gera a transformação social, qual é o “motor” da História? Para Marx e Engels (2001, p. 9), “a história de todas as sociedades que já existiram2 é a história da luta de classes”. Tratarei, portanto, a luta de classes como central na análise concreta dos anos iniciais da Revolução. Na Rússia Czarista do início do Século XX a burguesia nacional era muito frágil para realizar uma revolução burguesa, e preocupada com a possibilidade de que um processo de transformação abrisse caminho para que o projeto de sociedade do proletariado (pequeno em número relativo, porém concentrado) se instaurasse, a burguesia russa tornou-se então uma classe conservadora. No processo revolucionário, como um todo, ela desempenhou um papel secundário. As duas classes sociais que foram mais atuantes no processo revolucionário, no sentido de disputa de projeto, foram o proletariado e a burocracia (“burguesia de Estado”).

Marx e Engels, neste período (1848) desconheciam a existência, no passado, da propriedade coletiva da terra, que depois foi chamado de “modo de produção primitivo”, onde não existiam classes sociais.

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Centrarei, na primeira parte do trabalho, a análise na luta de classes na produção. Na segunda parte focarei na luta de classes em torno da principal forma de regularização das relações sociais: o Estado. Na seqüência tratarei das principais determinações que contribuíram para a derrota da revolução proletária e vitória da contra-revolução burocrática.

Luta de classes na produção: A luta de classes na produção foi marcada, de um lado, pela tentativa do proletariado em instaurar o modo de produção comunista, ou seja, instaurar relações de produção baseadas na autogestão, e de outro lado, pela tentativa da burocracia de manter as relações de produção capitalista, baseadas no trabalho assalariado e na exploração de mais-valia, então predominante na indústria Russa. A situação do proletariado na Rússia do início do Século XX era, como é típico do início dos processos de industrialização3, de grande exploração e dominação: longas jornadas de trabalho, péssimas condições de trabalho, baixos salários, “despotismo fabril” etc. Contra esta condição, que havia se agravado pela participação imperialista da Rússia na Primeira Guerra Mundial, o proletariado organizou grandes greves e manifestações4. A nível das fábricas, o proletariado se organizou em comitês de fábrica, que era composto por delegados eleitos diretamente pelos trabalhadores e revogáveis a qualquer momento. Inicialmente os comitês se organizaram para gerir as fábricas onde os patrões haviam fugido (lock-out), mas logo estas instituições se generalizaram e passaram a lutar não somente pelas demandas “econômicas” (aumento salarial, diminuição da jornada de trabalho para 8 horas semanais etc.), mas também por demandas “políticas”: contra o governo provisório, pela própria gestão do processo produtivo como um todo etc. O governo provisório, a burguesia nacional e internacional, os partidos liberais e os “socialistas moderados”

No caso russo soma-se a isto o fato do país possuir uma economia subordinada aos países capitalistas centrais, o que tem por conseqüência uma maior exploração do proletariado. 4 No processo revolucionário russo o campesinato também desempenhou um importante papel na queda do regime czarista. No entanto, neste trabalho, tratarei somente dos trabalhadores urbano/industriais.

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(mencheviques e socialistas revolucionários) logo se colocaram contra esta forma de organização.
O horário das 8 horas por dia foi rapidamente imposto pelos operários em Petrogrado, ora com o consentimento relutante dos patrões ora unilateralmente. O “reconhecimento” dos Comitês de Fábrica foi muito mais difícil de impor, pois tanto os patrões como o Estado reconheciam a ameaça inerente a essa forma de organização. (Brinton, 1975, p.41).

Esta forma de organização dos trabalhadores produtivos se mostrou (e se mostra) como uma “ameaça” para a classe da burguesia e da burocracia porque através dela é possível instaurar as relações de produção autogestionárias, acabando com a exploração, que é sagrada e intocável para as classes dominantes, pois estas “vivem graças a ela”. A relação do partido bolchevique com os comitês de fábrica variou de acordo com o contexto. De Fevereiro a Outubro, quando os bolcheviques estavam na oposição, apoiaram o seu desenvolvimento. Mas a partir de Outubro, quando o partido “se apropriou da maquinaria do Estado” ele passou a ser voltar “violentamente contra eles (...) tentando integrá-los em novas estruturas sindicais, o que era o melhor meio de castrá-los” (Brinton, 1975, p.26). Como Brinton mostra de forma bastante clara e fundamentada, a partir de Outubro o partido bolchevique, através do Estado, inicia sua cruzada contra os comitês de fábrica através de inúmeras ações. Isto porque a concepção de revolução hegemônica do partido bolchevique era a de uma revolução burocrática: a participação dos trabalhadores na gestão da produção era vista somente no controle operário5, e este era entendido como uma forma de fiscalizar e vigiar as ações dos patrões, impedindo principalmente ações de sabotagem patronal. Como se pode ver, os bolcheviques não acreditavam na própria ação ativa e positiva do proletariado na

Cabe aqui diferir Controle operário de Gestão operária (autogestão): O controle operário significa que os operários irão supervisionar, ou seja, fiscalizar as decisões tomadas em “instâncias exteriores” a si próprios. Já gestão operária significa que os operários irão gerir o processo produtivo como um todo.

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construção da nova sociedade, pelo contrário, acreditava que esta ação deveria ser realizada pela vanguarda da classe (leia-se o partido) ao invés de pela totalidade da classe. As instâncias políticas onde se tomaram as decisões sobre o processo produtivo seriam nos anos seguintes retirados dos comitês de fábrica e passados para o Estado. A palavra de ordem nas fábricas passou a ser a de “disciplina no trabalho”. Os bolcheviques organizaram a produção segundo o que havia de “mais moderno” na técnica capitalista, o taylorismo: implementaram a gestão unipessoal nas empresas (em contraposição a direção colegiada), e pouco tempo depois o diretor passou a ser indicado pelo partido, e não eleito pelos próprios trabalhadores6; instituíram o salário por peça, uma forma de aumentar a exploração do trabalho; impediram os trabalhadores de se organizarem fora das instituições permitidas por lei, uma forma de controle da força de trabalho, que mantendo os trabalhadores de forma atomizadas impede os mesmos de se contraporem ao processo de exploração e dominação, etc. Chegou até mesmo a ser proposto, e realizado em alguns setores da economia mais diretamente ligados a questão militar, a idéia, defendida principalmente por Trotsky, de militarização do trabalho, que nada mais era do que a incorporação do ethos militar (hierarquia e disciplina) no processo de produção. (Trotsky,1969) Estas questões eram tratadas primeiramente na instância do partido bolchevique, e se aprovadas eram colocadas para aprovação “a toque de caixa” nos “soviets” já controlados pelo partido. Em um segundo momento da luta, nos anos de 1920 e 1921, quando os comitês de fábrica já não mais possuíam a força que tinham nos anos iniciais da luta, a centralização no Estado não terminou, ela avançou então sobre os sindicatos, na tentativa de subordiná-los à estrutura estatal. (Brinton, 1975). Todas estas medidas anti-proletárias implementadas pelo partido bolchevique não ocorreram sem resistências dos trabalhadores, e mesmo de frações
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Em alguns casos o diretor era o mesmo que dirigia a fábrica durante o czarismo.

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internas do partido bolchevique. Além das inúmeras resistências individuais passivas (alcoolismo, absenteísmo, etc.) e ativas (sabotagem), que em sua singularidade escapam ao registro da História, ocorreram também resistências coletivas, principalmente em forma de greve7. As divergências em torno da organização da economia, ou melhor, do modo de produção, foram travadas não só em debates e discussões, tanto a nível partidário quanto a nível de Congressos dos diversos Soviets, foi travado também através das armas, das tentativas de sublevação da ordem exploradora de um lado, e por meio da repressão estatal, através do Exército Vermelho e da Tcheka8 do outro. Aqui, grosso modo, há uma escala: quanto mais próximo do ano de 1917 há mais debate público e disputa de projeto e menos repressão, quanto mais distante, mais repressão e menos debate. Isto expressa o fim do processo revolucionário e o surgimento da ordem burocrática, que futuramente se estabilizaria com a consolidação do capitalismo de Estado9. No geral, estas oposições10 às práticas bolcheviques se colocavam no sentido de desenvolver a socialização dos meios de produção, e sua gestão pelos produtores diretos, em contraposição à estatização dos meios de produção.

Luta de classes nas formas de regularização das relações sociais: A luta de classes entre o proletariado e a burguesia se deu, concomitantemente à luta na produção, na disputa da forma como o Estado iria se organizar, ou melhor, se se organizaria um Estado propriamente dito ou um “Estado em extinção”. O proletariado já na sua experiência de luta na Comuna de Paris em 1871 havia

A insurreição de Kronstadt em 1921 (ou terceira revolução russa) ocorreu em apoio aos operários em greve na cidade de Petrogrado. 8 Trataremos especificamente deste aspecto na segunda parte do artigo. 9 Neste trabalho, me limitarei até o ano de 1921, ano de implementação da Nova Política Econômica. Segundo João Bernardo, e concordo com ele, é só durante a NEP que o capitalismo de estado se instaura propriamente dito, e a ambigüidade do período do “comunismo de guerra” se revolve em favor da burocracia. (Bernardo, 1975). 10 Estas oposições foram diversas, sendo algumas ambíguas e contraditórias. Para uma exposição das mesmas com maior desenvolvimento dos argumentos e profundidade, ver Viana 2007c.

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organizado o poder político de forma a acabar com os “especialistas da política”: ao invés de representantes foram escolhidos delegados, que poderiam ser revogados a qualquer momento e recebiam salários iguais a de um operário médio; eleições inclusive para os magistrados; união entre o poder legislativo e executivo; dissolução da polícia e do exército etc. Era o fim da separação do político e do econômico, ou em outras palavras, era a “forma política, finalmente descoberta, com a qual realiza a emancipação econômica do trabalho” (Marx, 2008, p.406). O próprio Lênin, no seu livro O Estado e a Revolução, apesar de muitas ambigüidades, defendeu a estruturação do Estado no pós-revolução como um Estado do tipo Comuna11. No caso russo, a forma que este “Estado em extinção” assumiu foi a forma de Conselhos Operários. Os conselhos operários surgiram na Rússia durante a Revolução de 1905, mas não tiveram forças para derrubar o Czarismo e logo foram desmantelado pelo Estado. Ressurgiram em Fevereiro de 1917, logo após a queda do imperador. Neste período se organizou também o Governo Provisório, composto por parlamentares da última Duma, representando o projeto burguês de sociedade. Estava instaurada a “dualidade de poderes”. De Fevereiro a Outubro de 1917 a composição do Soviet de Petrogrado era de maioria dos “socialistas moderados”, o que teve como conseqüência uma política de coalizão com o Governo Provisório12. No entanto, com o passar do tempo o Governo Provisório não realizou algumas medidas que os trabalhadores russos almejavam: distribuir as terras aos camponeses, melhorar as condições de trabalho nas indústrias e, principalmente, a saída da Rússia da Primeira Guerra Mundial. Diante deste descontentamento, a influência dos bolcheviques entre os trabalhadores foi aumentando, e em Outubro eles já eram maioria nos Soviets. O que na História oficial soviética é visto como a Revolução de Outubro, na
As poucas vezes que Lênin defendeu posições próximas que digam respeito ao projeto proletário, como por exemplo, a defesa do Estado tipo Comuna e a abolição do exército e sua substituição por milícias populares, ele o fez por taticismo, em momentos de grande radicalidade do processo revolucionário, para não ser superado pelo movimento. Acabando por não colocá-las em prática quando assumiu o poder. 12 Neste período, o Governo Provisório não tinha poder para governar sem o apoio dos Soviets, já que estes controlavam de fato grande parte dos serviços da cidade de Petrogrado.
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verdade foi a resolução da dualidade de poderes entre o Governo Provisório e os Soviets e a instauração de outra dualidade de poderes, desta vez entre o Estado bolchevique e os Soviets, ou, nas palavras de Castoriadis: entre o “partido bolchevique e o que sobreviveu como atividade autônoma das massas”. (Castoriadis, 1979, p.29). O Estado Bolchevique era o Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkom)13 , que foi criado pelo Congresso dos Soviets (que tinha maioria bolchevique). O Sovnarkom inicialmente era subordinado ao Comitê Central Executivo dos Soviets de Toda a Rússia (VTsIK), instância máxima de poder. Mas já em:
30 de Outubro de 1917, o Sovnarkom expediu um decreto pelo qual atribuía a si mesmo a função legislativa. Em princípio, esse dispositivo legal só devia ser válido até a data da convocação da Assembléia Constituinte, mas permaneceu em vigor após a dissolução desta. No momento em que a constituição da RSFSR é adotada, a situação está bem definida: o Sovnarkom sobrepõe-se ao VtsIK” (Bettelheim, 1976, p.103).

A resolução da contradição da “dualidade de poderes” em favor do Estado bolchevique não se deu sem a resistência dos setores conscientes do proletariado, mas a coalizão política da burocracia partidária dos bolcheviques com a antiga burocracia do estado czarista, e o contexto de guerra civil que em breve se iniciaria na Rússia fez com que a luta de classes tendesse para a vitória do projeto burocrático. Parafraseando Marx (2008), o partido bolchevique não destruiu o Estado, mas “se apossou da maquinaria do Estado já pronta e a fez funcionar para os seus interesses”. Isto se deu também no que diz respeito aos aparelhos repressivos de Estado. Numa sociedade dividida em classes, os aparelhos repressivos de Estado possuem uma grande importância para a reprodução da vida social.

“Comissário do Povo” foi a palavra proposta por Trotsky e aceita pelos bolcheviques para substituir a palavra burguesa “ministro”. Os primeiros comissários do povo foram indicados pelo partido bolchevique.

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No período Czarista existia a Okhrana, uma polícia política que tinha por função controlar e desarticular (leia-se: prender e/ou assassinar) os movimentos e partidos de oposição à ordem. Os bolcheviques após tomar o poder de estado organizaram a Tcheka para a mesma função. Já em 1918 a Tcheka agira reprimindo e dissolvendo movimentos e organizações “contra-revolucionárias” (contrárias a contra-revolução burocrática), isto incluía não somente movimentos monarquistas e liberais como também movimentos e organizações anarquistas. (Brinton, 1975, p.109). Diante da iminente Guerra Civil, travada contra os generais brancos com o apoio da burguesia nacional e internacional, o partido bolchevique organizou também um Exército14, estruturado tal qual o exército czarista: Centralização de comando, disciplina draconiana, recrutamento obrigatório. Além de suprimir os comitês revolucionários dos soldados. Neste sentido, Trotsky diz:
Enquanto o poder pertencia à classe inimiga, enquanto os quadros do exército eram instrumentos dessa classe, nós tínhamos de romper pela elegibilidade dos chefes, a resistência do comando. Hoje, porém, o poder está nas mãos da classe operária, no interior da qual o exército é recrutado. Nestas condições – digo-lhes com toda a franqueza – a elegibilidade dos chefes já não tem utilidade política, é tecnicamente inadequada e, de fato, já foi eliminada por um decreto. (grifos meus) (apud Serge, 2007, p.266).

O projeto bolchevique de exército, mantendo a separação burocrática entre dirigentes e dirigidos, ao se concretizar, ofereceu a burocracia estatal um importante instrumento de repressão, que não tardaria a ser usado, tal como os Czares, tanto no exterior para a expansão imperialista, quanto no interior para o esmagamento de revoltas camponesas e proletárias, como ocorreu, por exemplo, no episódio de Kronstadt em 1921.

Não necessariamente entendo o Exército como uma instituição burocratizada, já que há casos, como do Exército Insurgente Revolucionário da Ucrânia (EIRU) onde se manteve os comitês de soldados. Diferencio Exército de Milícia no sentido de que no primeiro há um distanciamento da produção por parte dos integrantes do mesmo, enquanto no segundo não. Este distanciamento pode ser temporário, como no caso do EIRU, ou permanente.

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Na questão militar, a oposição, tanto externa quanto interna ao partido15, se colocou contrária a este projeto centralizador, fundamentalmente no que se refere à supressão dos comitês revolucionários dos soldados, através dos quais deveriam ser eleitos os “oficiais” (que desta forma não seriam oficiais propriamente dito). Na região camponesa da Ucrânia, onde o movimento tinha uma maior influência anarquista, se formou o Exército Insurgente Revolucionário da Ucrânia, baseado no alistamento voluntário, no principio eleitoral para escolha dos comandantes, e na autodisciplina. Após este resistir aos ataques dos Brancos e vencêlos, foi esmagado pelo Exército Vermelho, como narra Arshinoff no Historia del Movimiento Machnovista.

Conclusão: Por fim, cabe algumas considerações sobre outras determinações que dificultaram a implementação da autogestão e contribuíram para a derrota do projeto proletário de sociedade. Primeiramente, a não expansão para outros países das relações sociais de autogestão se colocou como uma barreira para a efetivação e consolidação das relações autogestionárias em solo russo. Não é possível que apenas uma região ou um país (ainda mais no caso da Rússia, um país atrasado do ponto de vista econômico) consiga manter o processo revolucionário sem que este se generalize. Mesmo desconsiderando a reação militar dos países capitalistas, o modo de produção autogestionário não conseguiria sobreviver frente ao peso do mercado mundial. Neste sentido, as derrotas sofridas pelo proletariado em outros países, principalmente para a burocracia reformista associada à burguesia na Alemanha,

Neste caso, assim como nos outros, a “memória” da oposição interna ao partido, a oposição militar, foi mais bem preservada. Isto se deve, entre outros motivos, a possibilidade de maior debate dentro do partido do que fora, devido à repressão à oposição externa ao partido. A partir de 1921, com a aprovação no X Congresso do partido da ilegalidade de se formar fração, a repressão se intensifica também dentro do partido bolchevique.

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dificultaram enormemente a luta do proletariado russo contra a burocracia. O proletariado teve que enfrentar também as conseqüências da Guerra Civil: esvaziamento das cidades, morte de militantes ativos no processo, acentuamento da crise econômica, necessidade de militarização das relações sociais, etc. As forças produtivas do país, que já era atrasada em relação às potencias capitalistas do ocidente, foram destruídas pelas guerras. A produção de alimentos e de insumos para as indústrias caiu a níveis abaixo do início do Século. Muitas fábricas tiveram que fechar as portas devido à falta de material para a produção. Um alto grau de desenvolvimento das forças produtivas é um pressuposto para a autogestão, já que do contrário poderia haver apenas a “socialização da miséria”. Esta questão poderia ser remediada mediante uma revolução a nível internacional e a conseqüente cooperação entre os trabalhadores (compartilhamento de tecnologia, insumos, etc...). Marx e Engels, no prefácio de 1882 à segunda edição do Manifesto Comunista, tendo analisado o caso russo do atraso das forças produtivas e da existência em algumas regiões da propriedade comum de terra dos camponeses (Mir) responde a questão da possibilidade de uma Revolução na Rússia ter o caráter comunista da seguinte forma:
Hoje em dia, a única resposta possível é a seguinte: se a revolução russa constituir-se no sinal de uma revolução proletária no Ocidente, de modo que uma complemente a outra, a atual propriedade comum da terra na Rússia poderá servir de ponto de partida para uma evolução comunista.

Estas determinações (isolamento da revolução, atraso das forças produtivas, entre outras) não podem ser esquecidas se se quer analisar as determinações que levaram à derrota do projeto autogestionário no processo da Revolução Russa. Da mesma maneira que não se pode deixar de analisar as ações burocratizantes do partido bolchevique como constituidoras da derrota do projeto proletário e vitória da contra-revolução burocrática em solo russo. Para concluir, a revolução proletária não foi derrotada pela contra-revolução

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burocrática apesar do partido bolchevique, como querem os historiadores bolcheviques. O partido foi a instituição central na qual a burocracia se organizou, e após se apropriar do Estado, organizou a produção e a sociedade de modo a garantir os seus privilégios em cima da exploração do proletariado, sendo fundamental no processo de constituição do Capitalismo de Estado. Como bem resumiu Guy Debord, em sua tese 103 do livro Sociedade do Espetáculo:
Todas as condições da liquidação do czarismo, encaradas no debate teórico sempre insatisfatório das diversas tendências da social-democracia russa, havia vinte anos — fraqueza da burguesia, peso da maioria camponesa, papel decisivo de um proletariado concentrado e combativo, mas extremamente minoritário no país — revelaram, afinal, na prática a sua solução, através de um dado que não estava presente nas hipóteses: a burocracia revolucionária que dirigia o proletariado, ao apoderar-se do Estado, deu à sociedade uma nova dominação de classe.

Referências ARSHINOFF, Pedro. Historia del movimiento machnovista. In: http://www.antorcha.net/biblioteca_virtual/historia/archinoff/indice.html. Acessado em Maio de 2010. BERNARDO, João. Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista. Porto: Edições Afrontamento, 1975. BETTELHEIM, Charles. A Luta de Classes na União Soviética: primeiro período (1917-1923). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. BRINTON, Maurice. Os Bolcheviques e o Controle Operário. Porto: Afrontamento, 1975. CASTORIADIS, Cornelius. Socialismo x Burocracia. In: Vários autores. Antologia do Socialismo Libertário 1. Rio de Janeiro: Edições Mundo Livre, 1979. DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. In:

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http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/socespetaculo.pdf. Acessado em Maio de 2010. KORSCH, Karl. Marxismo e Filosofia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008. LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2007. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. 7. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martin Claret, 2006 MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 1983. MARX, Karl. A Guerra Civil na França. In: Marx, K. A Revolução antes da revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2008. SERGE, Victor. O Ano I da Revolução Russa. São Paulo: Boitempo, 2007. TROTSKY, Leon. Terrorismo e Comunismo: o anti Kautsky. Rio de Janeiro: Editora Saga, 1969. VIANA, Nildo. Escritos Metodológicos de Marx. Goiânia: Editora Alternativa, 2007a. VIANA, Nildo. A Consciência da História: Ensaios sobre o Materialismo HistóricoDialético. 2. ed. revista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2007b. VIANA, Nildo. A esquerda dissidente e a revolução Russa (1900-1923). In: David Maciel, Cláudio Maia e Antônio Henrique Lemos (orgs.). Revolução Russa: processos, personagens e influências. Goiânia: CEPEC, 2007c VIANA, Nildo. Marx: História e Transformação Social. In: Revista Possibilidades. Anápolis-Go, ano 02, n. 05, Jul/Set. 2005 . (http://possibilidades.teoros.net/possibilidades5.pdf)

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Uma análise sobre a obra de Élisée Reclus: uma geografia anarquista?
Rodolfo Ferreira Alves Pena Resumo: Essa exposição busca apresentar um estudo circundado nos aportes do geógrafo Élisée Reclus, destacar a atualidade de seu pensamento e discorrer sobre como o anarquismo não se firmou enquanto paradigma ou forma de pensamento na ciência geográfica, a exemplo do que se valeu o marxismo com a denominação “Geografia Crítica” ou a fenomenologia com cognato de “Geografia Humanista”. Para tal entendimento, partir-se-á da (re)leitura das clássicas contribuições de Reclus, com um especial destaque para a obra Evolução, Revolução e Ideal Anarquista. Vale sempre a consideração de que esse ensejo não se trata de uma proposição metodológica e tão pouco de uma pretensa superação do anarquismo, mas sim uma reflexão acerca de um autor, cuja forma de pensamento fora ignorada pela Geografia por um significativo período. Palavras-chave: Anarquismo, Geografia, Élisée Reclus.

Considerações iniciais O anarquismo é encarado por seus teóricos como uma ideologia que nasceu da luta do proletariado europeu contra a ascensão do capitalismo e a conseqüente exploração do trabalho, mas precisamente no século XIX (SCHMIDT e WALT, 2009), (SAMIS, 2009).
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Graduando do curso de Geografia da Universidade Estadual de Goiás – UEG; pesquisador de iniciação científica do Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas – CieAA. Orientado pela Profa. Mary Anne Vieira Silva. 2 Nunca é demais esclarecer que o conceito de ideologia é encarado pelos anarquistas não como sendo uma “falsa consciência da realidade”, como fazem os marxistas, mas sim como sendo um conjunto de valores e idéias compartilhados pela sociedade que orientam comportamentos políticos coletivos (BOBBIO, p.585, 2004).

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A definição de anarquismo, entretanto, não é consensual nem entre os próprios anarquistas, sendo que as principais discordâncias centram-se na sua forma de ação, de forma que o seu conceito variou muito ao longo da história. Entretanto, não cabe aqui nessa reflexão superar todas as definições e concepções anarquistas; trabalhar-se-á apenas uma visão geral. Toledo esmiúça a origem da palavra anarquia e propõe um conceito de anarquismo ligado à forma de luta anti-estatal, para ela
anarquia, etimologicamente, significa sem governo, ou seja, o anarquismo é a doutrina política que prega que o Estado é nocivo e desnecessário, existindo alternativas viáveis de organização social voluntária. Anarquista era – e é – quem, por meio da livre experimentação, se propõe a criar uma sociedade sem Estado, modificando-a pouco a pouco, cuja base são comunidades autogeridas, em que haja o máximo de liberdade com o máximo de solidariedade e fraternidade (TOLEDO, 2004, p.12).

Esta definição, apesar de possuir uma direta afinidade com o anarquismo, cai no erro de confundir ideologia com estratégia e generaliza as estratégias do anarquismo, ao mesmo tempo em que o limita apenas à oposição ao Estado. É fato, porém, que a definição considerada mais proeminente acerca do anarquismo é a de Kropotkin na Enciclopédia Britânica, por se apresentar completa e abarcar não tão somente o ato revolucionário em si e a concepção antiestatista, mas também os ideais que permeiam o pensamento anarquista. Essa conceituação é assim apresentada:
[Anarquismo] É o nome dado ao princípio ou teoria de vida e conduta em que a sociedade é concebida sem governo – a harmonia em tal sociedade é obtida, não pela submissão a leis, ou pela obediência a alguma autoridade, mas pela livre concordância estabelecida entre vários grupos, territoriais e profissionais, livremente constituídos em favor da produção e do consumo, e também para a satisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado. Em uma sociedade desenvolvida nessas linhas, as associações voluntárias que estarão presentes em todos os campos da atividade humana se estenderão de tal forma que substituirão o estado em todas suas funções. Elas constituirão uma rede composta por uma variedade infinita de grupos e federações de todos os tamanhos e graus, locais, regionais, nacionais e internacionais temporárias ou mais ou menos permanentes – para todos os possíveis propósitos: produção, consumo e troca, comunicações, arranjos sanitários, educação, proteção mútua, defesa do território, e assim por diante; e, por outro lado, para a satisfação de um número crescente de necessidades científicas, artísticas, literárias e sociais. (KROPOTKIN, 1910, apud NOGUEIRA, 2009, p.02)

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Mickail Bakunin talvez seja um dos maiores nomes dentro do anarquismo, não pela sua obra, mas sim pela sua práxis social. Seus escritos, na maioria das vezes, são interrompidos ao longo do corpo do texto de forma abrupta; suas principais obras são, na verdade, cartas destinadas a companheiros de revolução, como o próprio Reclus. Bakunin analisa a essência da justiça e do bem, encarando essa moralidade natural do ser como 'respeito humano', e a partir desta definição ele é levado a admitir os direitos e a dignidade do indivíduo e considerar o pensamento anarquista como próprio da essência humana. Tal noção é parte do vocabulário humanista do anarquismo. Dentro da Geografia, a existência do anarquismo é evidente a partir do reconhecimento de dois dos seus principais militantes no final do século XIX, o francês Èlisée Reclus e o russo Piotr Kropotkin. Logo, a inserção do pensamento anarquista no âmbito da ciência geográfica acontece a partir das contribuições desses geógrafos, uma vez que os trabalhos acadêmicos dos mesmos, no campo geográfico, estavam profundamente influenciados pelas idéias políticas anarquistas. Nesse estudo, o recorte de análise se desvelará em torno dos escritos reclusianos.

A geografia na época de Reclus Élisée Reclus pautou sua ação na ambivalência política-ciência, em que na primeira agiu na militância anarquista e na segunda atuou em busca de um avanço do pensamento geográfico. Portanto, para que se faça uma análise acerca de sua obra, é necessário ambientar o seu pensamento dentro do momento que a Geografia vivia em sua época, na segunda metade do século XIX. Como se sabe, Reclus, juntamente com Friedrich Ratzel, foi aluno de Karl Ritter (ANDRADE, 1985). Ritter foi um dos grandes precursores da Geografia na fase de sistematização da ciência moderna, juntamente com Alexander Von Humboldt. Na trajetória do pensamento da ciência geográfica durante os séculos

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XVIII e XIX, Humboldt – geólogo e botânico – destaca-se com sua abordagem naturalista. Pautava-se no empirismo raciocinado, método que se configurava na observação seguida de uma intuição. Com base nessa premissa, ele realizou inúmeros estudos em suas viagens pelo mundo. Para Humboldt a Geografia é a ciência que contempla a universalidade das coisas e que reconhece a unidade dos fenômenos, analisando-os a partir das observações e pelo livre exercício do pensamento (MORAES, 1987, p.48). Em vista disso, Humboldt realizou trabalhos considerados puramente descritivos. Outro teórico que ganha centralidade no pensamento moderno dessa ciência é Karl Ritter – filósofo e historiador –, esse pensava a Geografia como um estudo dos lugares, preocupando-se em estabelecer uma abordagem acerca do conceito de “sistema natural”, que, para ele, era uma área delimitada dotada de certa individualidade; a Geografia deveria estudar estes arranjos individuais, e comparálos. Cada arranjo abarcaria um conjunto de elementos, representando uma totalidade, na qual o homem seria o principal elemento. (MORAES, 1987, p. 48-49). As obras de Ritter e Humboldt compõem aquilo que veio a ser denominado de “Geografia Clássica”, sendo que parte significativa das obras subseqüentes dentro da ciência geográfica surgiu a partir da influência dos estudos desses dois pensadores. Já no século XIX, Ratzel com o projeto de sistematização da ciência, pautou-se em suas preocupações em torno da antropologia e dos estudos sobre o homem. Entre muitas outras contribuições, Ratzel é considerado também o pioneiro do ambientalismo dentro da Geografia. Para ele, os fatores naturais são quem predominavam sobre o homem, teoria fundada em uma forte corrente denominada determinismo geográfico (ANDRADE, 1985) (RAFFESTIN & LAWRENCE, 1990). Tal ideologia deu espaço para a emergência de teses sobre o espaço geográfico como o Darwinismo Social e o Malthusianismo. Vemos aí um forte positivismo se configurando a serviço do capital dentro da ciência geográfica. Manoel Correia de Andrade destaca a influência darwinista sobre o pensamento humano de Ratzel e como isso serviu a ideologia capitalista emergente

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em sua época:
Para justificar suas posições, Ratzel lançou mão de toda uma filosofia e de um conhecimento cientifico então em voga, distorcendo às vezes o pensamento de alguns escritores. Assim, transpôs para o social as idéias de Charles Darwin, que explicavam a evolução biológica como conseqüência da luta entre os seres vivos, uns contra os outros e contra as condições do meio natural, concluindo que as espécies menos capazes, menos aptas, eram sacrificadas e desapareceriam, em favor das espécies mais capazes e com maior poder de adaptação às condições da natureza. Se na natureza os vencedores, os sobreviventes, eram os mais capazes, os mais aptos, por que na vida em sociedade não ocorreria a mesma coisa, cabendo aos mais capazes o domínio da sociedade, tanto no plano individual como no político? – Uma justificativa para legitimar o sistema capitalista em expansão. (ANDRADE, 1985, p.10)

Nesse mesmo período, Vidal de La Blache, na França, procura criticar o pensamento determinista de Ratzel, afirmando que o homem faz parte da transformação da paisagem, interferindo na natureza e modificando-a. Outra crítica que La Blache faz a Ratzel refere-se à politização no discurso deste, afirmando que na Geografia não caberiam teses políticas abertas, assegurando que essa postura comprometia a “neutralidade” do pensamento científico. Tal crítica se fazia graças à recíproca influência das obras de Ratzel para com o Estado alemão (MORAES, 1987, p. 65). Apesar dessas críticas, as obras de La Blache também possuem pleno vínculo com a ideologia política francesa, colonizadora, expansionista e, sobretudo, imperialista. Mas talvez a principal crítica feita a Ratzel pelo geógrafo francês se refere à forma mecanicista empregada pelo alemão. La Blache propunha a relativização da Geografia, afirmando que as diversas análises configuravam-se em inúmeras possibilidades. Tal afirmação foi fielmente empreendida pelos seus seguidores, o que fez com a que escola geográfica francesa recebesse a denominação de “Geografia Possibilista” (GOMES, 1996, p. 203). É notável, porém, que, apesar dessas críticas, La Blache não rompeu totalmente com o pensamento ratzeliano, conservando, entre outros fatos, o método positivista então vigente.

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Sobre isso, Milton Santos aplica uma crítica em relação à uma divugada rivalidade entre as duas escolas de pensamento geográfico mencionadas:
A disputa entre “deterministas e possibilistas”, estabelecida em pressuposto viciado na base, mostrou-se falsa [...]. Estes dizendo-se alunos de Vidal de La Blache, arrogando-se o privilégio de incluir a ação do homem como um fator a considerar e admitindo que os “deterministas” (denominação que os “possibilistas” atribuíram a Ratzel e seus discípulos) davam prioridade aos fatores naturais cuja causalidade é considerada como irrecusável. Isto significa esquecer que não existem apenas determinações naturais, mas também determinações sociais, que atingem homem e natureza igualmente. (SANTOS, 1978, p.25-26).

Esta é, resumidamente, a Geografia até a época que Élisée Reclus viveu: anterior ao advento da Geografia Crítica Marxista e da Humanista Fenomenológica. Todas as escolas de pensamento estavam atreladas aos Estados Nacionais, servindo ao capital e aos interesses bélicos das potências européias que se firmavam na fase inicial do capitalismo. Lacoste (1929), posteriormente destacou também o poderio bélico ao qual a Geografia se encontrava subordinada, quando, em sua conhecida obra, “A Geografia – Isso Serve, Em Primeiro Lugar, Para Fazer a Guerra”, destaca que
Foi apenas de alguns anos para cá que um certo número de geógrafos começou a tornar consciência dos problemas que coloca a geografia. Disso resultou uma seqüência de reflexões sobre sua disciplina, mas todas camuflaram, até agora, o papel da Geografia como instrumento do poder político e militar. (LACOSTE, 1988, p.96)

É importante frisar, por fim, a forma com que esses geógrafos pregavam uma determinada neutralidade política, mas se desfaziam dessa neutralidade quase que completamente no momento em que suas contribuições legitimavam as ações dos Estados imperialistas e, sobretudo, pelo discurso lançado a partir de uma falsa imagem interna que camuflava as intensas desigualdades produzidas pelo sistema autoritário burguês que se encontrava em plena expansão.

A obra do geógrafo Élisée Reclus

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Ao se analisar a obra Evolução, Revolução e o Ideal Anarquista¸ percebemos claramente o posicionamento político de Reclus diante da sociedade de sua época. Na verdade, esse é a sua única de cunho puramente político – uma vez que suas publicações construídas no cunho anarquista foram limitadas devido à censura imposta pelas editoras da época. Essa obra, na verdade, é um resultado de um discurso pronunciado em Genebra e é aqui nesse trabalho considerada a representação maior da oposição que Reclus fazia à Geografia colonial, imperialista e capitalista de sua época, antes mesmo das críticas promovidas por Yves Lacoste décadas mais tarde. Nessa obra, Reclus trabalha em torno dos conceitos de Evolução e Revolução, sendo que o primeiro se configuraria em um “movimento infinito de tudo o que existe, a transformação incessante do Universo e de todas as suas partes desde as origens eternas e durante o infinito dos tempos” (RECLUS, 2002, p.21). Quanto ao tema Revolução, Reclus trabalha sua relação em consonância com a própria Evolução, afirmando que a primeira é uma oposição à segunda, alcunhada por ele como “coisa assustadora” (RECLUS, 2002, p.22). Para esse autor, não há revolução que se realize sem uma prévia evolução social, não creditando confiança na violência e no que ele denomina “o acaso das balas”, quando o povo oprimido se limita na condição de expectador das revoluções palacianas e propõe que é preciso retornar ao indivíduo: a seiva que faz a árvore. Salienta, entretanto, que os defensores do privilégio nunca cederão de boa vontade à pressão popular – fazendo uma referência aos que estão no poder, ou seja, o Estado. Ao partimos para as demais obras do autor, vemos grandes enciclopédias e obras vastas: La Terre, L'Homme et la Terre, Nouvelle Géographie universelle e até mesmo uma obra sobre o Brasil – Estados Unidos do Brasil: geographia, ethnographia, estatística. Nelas, Reclus demonstra a sua forma de pensar a Geografia, evidenciada em sua famosa frase: “O Homem é a Natureza tomando consciência de si mesma”, título de seu prefácio em L'Homme et La Terre. Afirma que o homem é suficientemente poderoso para dominar a natureza e destaca que ele não pode esquecer as leis da mesma, a não ser em detrimento delas. Sobre esse poder humano sobre a natureza, em sua conclusão de O Homem e a Terra, Reclus ironiza assim a

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ideologia do super-homem, esses “aristocratas do pensamento” ou da riqueza. Talvez hoje, esse discurso pareça deveras comum, mas no pensamento científico do final do século XIX, temos uma visão ainda pouco enunciada, sobretudo na Geografia. Vejamos como Reclus discorre sobre isso em sua obra La Terre:
Cada ponto da Terra em que plantas úteis ao homem, tais como os cereais e as árvores frutíferas, substituíram os vegetais derrubados pelo machado ou pelo fogo, se tornou um centro em torno do qual as culturas se estenderam cada vez mais, e agora, graças às centenas de milhões de homens que trabalham sem descanso para incitar as forças produtivas do solo, imensos territórios perderam completamente sua fisionomia original [...]. A agricultura, outrora praticada quase ao acaso, tende cada vez mais a se tornar uma indústria científica; ela o será totalmente quando as leis da química, da física, da meteorologia e da história natural forem perfeitamente conhecidas. (RECLUS, 1881, p.671-672)

As críticas também se direcionaram ao Malthusianismo ainda forte na ideologia das ciências sociais, afirmando que esse pensamento buscava legitimar a miséria existente como um fato inexorável. A causa da situação lamentável em que vivia a maior parte da população deixava de ser social para ser apresentada como uma causa natural, explicável matematicamente, fazendo que com que a sociedade deixasse de crer que toda a miséria e sofrimento existentes eram produtos das desigualdades promovidas pelo capital (DUARTE, 2006, p.15). Ora, tendo noção dos ideais reclusianos, não é difícil perceber a intensa dicotomia estabelecida entre a obra de Reclus e as obras dos demais geógrafos destacados de sua época. Também não é difícil imaginar a forma com que a França acolheu os seus ideais. Rui Moreira destaca muito bem a maneira como geografia francesa negligenciou o seu pensamento e resume basicamente a forma com que Reclus foi expulso da França:
“Como num processo de expurgo, não haverá na França lugar para outra forma de pensamento geográfico além da lablacheana. Élisée Reclus (18301905) é um ilustre representante dos expurgados. Dentre os geógrafos mais conhecidos da França à época, Reclus não será aceito pelas academias sob a argumentação de que personificava a geografia descritiva e “utilitária” que a modernização da geografia, sob La Blache, estava superando. Em realidade, fez-se coro ao veto do Estado francês à própria permanência de Reclus em solo francês. Anarquista, engajado no movimento socialista [sic]

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desde sua juventude, Reclus amargará um exílio de seis anos, de 1851 a 1857, junto a outros franceses que reagiram ao golpe de estado de 1851 com que a burguesia respondera às revoltas operárias de 1848. Volta à França em 1857, para ser banido definitivamente em 1871. Membro ativo da I Internacional, estará entre os organizadores da Comuna de Paris. Morrerá no exílio, na Bélgica, colado à sua terra natal, em 1905, deixando uma obra tão vasta como a de La Blache.” (MOREIRA, 1987, p.35-36)

O comportamento do Estado francês não é diferente do comportamento de qualquer estado-nação, impondo suas filosofias e excluindo qualquer forma de pensamento e ação que entrem em desacordo com a sua ideologia, que, por sua vez, obedece todo o ideal burguês capitalista. Élisée Reclus declarava: “sou geógrafo, mas acima de tudo sou anarquista” e comenta que “assim como sua geografia era necessária ao seu anarquismo, também seu anarquismo enriquecia sua geografia”; não podemos entender Reclus se olharmos um sem o outro (DUNBAR, 1981, p. 12), nesse sentido percebe-se que, mesmo com a dificuldade de se produzir ideais libertários que rompam com a opressão estatal numa época em que o Estado tinha uma grande atuação e força – e ainda possui –, a obra de Reclus é deveras extensa e plenamente contributiva à episteme de uma ciência então marcada por valores conservadores e burgueses; outra constatação que se faz foi o quão caro se tornou para a Geografia o esquecimento das obras reclusianas, retomadas apenas na segunda metade do século XX.

Considerações finais

Não foi ocasionalmente que o Anarquismo não se configurou enquanto paradigma geográfico, uma vez que as principais obras libertárias dentro da Geografia – escritas por Reclus e Kropotkin – foram quase suprimidas pelo Estado burguês do século XIX e início do século XX, em que a intenção maior deste para as ciências sociais em geral, era o atendimento de seus interesses, como foi destacado aqui nesse trabalho.

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Outra observação que se faz é a atualidade do pensamento de Reclus, marcado pela constatação do pensamento desigual entre os indivíduos; a divisão de classes, que só sofreria impacto com a luta entre dominadores e dominados; e a análise histórica que indica claramente que nenhuma evolução de fato se realiza sem o esforço individual (o retorno ao indivíduo) e perfeição do homem como pessoa.

É destacável, também, a forma com que a Geografia reclusiana encarava o âmbito social e humano que não se desvencilhava do espaço natural, onde ele enfatizava a recíproca relação entre ambos, nos permitindo dizer o quanto é problemática essa visão dual de Geografia Física e Geografia Humana separadas da Geografia Regional. Reclus via uma única geografia, que abarcava a totalidade e que empreendia uma análise sobre os fenômenos sem se prender a interesses políticos, mas sem cair no erro de acreditar na existência de uma falaciosa neutralidade científica.

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A Organização Operária em Anton Pannekoek
Lisandro Braga Nascido na Holanda em 1873, Pannekoek iniciou, ainda jovem, seus estudos em ciências naturais se especializando em astronomia. Filiou-se ao Partido Operário Social Democrático da Holanda e desde cedo se posicionou ao lado da sua ala esquerda junto à Herman Gorter e Frank van der Goes. Juntamente com Gorter fundaram um jornal que expressava suas concepções esquerdistas que passava a implementar críticas aos dirigentes de partidos oportunistas. Posteriormente rompem com esse partido e formam o Partido Social Democrata que tão logo se alinhara às diretrizes bolcheviques levou Pannekoek a romper de uma vez por todas com as instituições partidárias, rejeitando o parlamentarismo como instrumento de transformação social. Em meados de 1905/1906 Pannekoek transfere-se para a Alemanha onde atuará diretamente nas lutas sociais locais proferindo conferências, palestras, produzindo diversos artigos e ministrando cursos na escola do SPD para os melhores estudantes oriundos dos quadros dos partidos e sindicatos que se formariam para assumir a direção de tais organizações. Devido à radicalidade de sua concepção, logo Pannekoek viria a incomodar a ala reformista dos partidos e sindicatos locais, assim como a polícia prussiana que decide interromper o curso sob a alegação de que Pannekoek não era de nacionalidade alemã. Após tal proibição Pannekoek passa a garantir sua sobrevivência e a da sua família escrevendo para vários jornais socialistas alemães, tal como o Neue Zeit. Na cidade de Bremen Pannekoek organizou ações junto à classe trabalhadora com o intuito de contribuir com sua educação teórica e política, porém mais uma vez a radicalidade de seu pensamento, a defesa da greve geral como uma das principais armas do proletariado e o crescimento da sua credibilidade junto às instituições operárias locais volta a gerar conf litos com os dirigentes sindicais. Consequentemente, esse período possibilitou
uma sólida e constante radicalização do pensamento de Pannekoek que

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passou a exercer marcada influência não apenas sobre o partido local, mas sobre parcelas expressivas da social-democracia alemã e internacional [...] Cada vez mais impressionado pela iniciativa operária – que freqüentemente com ações inesperadas ultrapassava as instâncias do partido e dos sindicatos – desde meados de 1910 ele escreveu vários artigos na Bremer Bürgerzeitung sobre as questões do método e do modelo revolucionário, nos quais sempre sustentou a necessidade do uso da greve geral. Este posicionamento deixou-o mal visto junto a muitos no interior do partido, em especial sindicalistas e defensores da concepção segundo a qual a social-democracia deveria ampliar sua influência nas instituições e na sociedade alemãs de forma 'responsável' (Mendonça, 2009, p. 37).

Daí para frente, a ruptura de Pannekoek com a social-democracia tornava-se inevitável. As ações autônomas e espontâneas do operariado alemão influenciaram definitivamente o pensamento de Pannekoek que passava a ver nas ações coletivas da classe o caminho para a construção da nova sociedade. Diante do inevitável conflito bélico que as disputas imperialistas coagiam as nações capitalistas européias a enfrentarem, Pannekoek assume uma postura antibelicista. O apoio da social-democracia à guerra serviu para unir os vários grupos oposicionistas. Na Alemanha os oposicionistas se aglutinam em torno de Rosa Luxemburgo e Karl Liebneckt formando a Liga Spartacus que, posteriormente, junto com os comunistas internacionalistas formariam o Partido Comunista Alemão; na Holanda os oposicionistas à guerra imperialista se aglutinam em torno de Pannekoek, Gorter, Holand-Host. Nessa mesma época eclode a Revolução Russa e ao contrário da maioria dos comunistas desse período, Pannekoek, assim como Rosa Luxemburgo, não ofereceram apoio incondicional e acrítico a esse episódio histórico, demonstrando, assim, algumas discordâncias com a forma como ocorreu esse acontecimento e não deixando se levar pela euforia que atingiram vários militantes de esquerda que
possuem uma necessidade inconsciente de se agarrar a experiências e movimentos em outros países para se sentirem 'do lado do desenvolvimento histórico', o que demonstra a insegurança psíquica de muitos revolucionários, que assim apelam para o modelo soviético, cubano ou 'guevarista', ou qualquer outro (VIANA, 2007, p. 10-11).

A Revolução Russa foi encarada inicialmente como uma experiência

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revolucionária do proletariado, por isso saudada e apoiada pelos radicais alemães e holandeses, apesar das profundas discordâncias com os leninistas. Na prisão Rosa Luxemburgo já alertava para os riscos do autoritarismo bolchevique que irá se confirmar com as práticas de Lênin ao chegar ao poder em 1917, silenciando todo o movimento operário radical que firmava suas práticas na auto-organização da produção independente das imposições do partido bolchevique. Para Lênin era inaceitável o desenvolvimento de um movimento operário autônomo ao partido bolchevique. As práticas repressivas e contra-revolucionárias dos bolcheviques, juntamente com o desenvolvimento da consciência operária em direção à necessidade de ruptura completa com as instituições ditas representativas do operariado (partidos e sindicatos) possibilitarão a vários comunistas, tal como Anton Pannekoek, revisar teoricamente as práticas operárias que passavam a construir uma nova forma de produção material da vida através de organizações verdadeiramente democráticas no interior das fábricas: Os sovietes (conselhos operários). A partir das experiências dos sovietes na Rússia (1905), na primeira fase da Revolução Russa (fevereiro de 1917) e na Revolução Alemã (1917- 1921), Anton Pannekoek abstraiu do movimento operário a essência da sua prática revolucionária, ou seja, a auto-organização da luta operária contra a opressão do capitalismo e a construção de novas formas sociais a partir da autogestão da produção. Passava a concordar na íntegra com a máxima de Marx em relação à ação do sujeito histórico potencialmente revolucionário (proletariado) que assim afirmava: “A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”. No período que vai de 1920 a 1940 Anton Pannekoek realizou diversas atividades e produções intelectuais, porém todas elas completamente desligadas de qualquer atividade política “homogeneizada por Moscou”. Sistematizou inúmeras críticas ao reformismo kautskiano afirmando que tal ideologia foi responsável por dar ao marxismo uma forma mecanicista na qual sustentava que o socialismo seria atingido pela via pacífica e parlamentar. Escreveu diversos artigos de cunho epistemológico e, especificamente nos anos 20, dedicou-se às pesquisas científicas e às aulas de astronomia e física nas quais resultaram em trabalhos de surpreendente

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nível técnico-científico. A partir de 1927 volta a se preocupar com uma produção teórica e política que buscasse melhor compreender o movimento operário, suas tendências e contra tendências. Nessa época consolida uma crítica sistematizada ao bolchevismo e escreve uma de suas principais obras intitulada Lênin filósofo (1938)1. Outra importantíssima obra de Pannekoek foi publicada em 1947 intitulada De arbeidersraden (Os Conselhos Operários). Essa obra foi produzida em um contexto de intensa adversidade para Pannekoek e sua família visto que a Holanda nesse período encontrava-se sob ocupação nazista, tornando-se um lugar extremamente miserável e com grande taxa de mortalidade, tanto por conta dos bombardeios quanto pela fome e pelo penoso frio do inverno de 1943/44. Segundo Mendonça,
Mazelas de tamanha profundidade não deixaram os Pannekoek incólumes. Durante o último inverno da guerra, à exceção de sua filha Anneke que estava nos EUA com o marido, sua mulher Anna adoeceu e foi internada num hospital, seu filho Antoine Johannes – que havia se tornado um dos maiores geólogos holandeses – foi preso pelas tropas japonesas na Indonésia enquanto lá trabalhava e colocado num campo de concentração tendo sido libertado somente depois da rendição do Japão. E o próprio Anton, então com setenta anos, teria morrido de fome e frio sozinho em sua própria casa se não fosse encontrado moribundo por um colega professor da universidade que foi visitá-lo e o socorreu, tratou e assistiu até a recuperação de Anna (2009, p. 72)

Enfim, Anton Pannekoek e todo o seu desenvolvimento teórico estão intimamente ligados ao processo histórico de desenvolvimento do movimento operário europeu e da luta de classes desencadeada por ele em alguns países europeus nas primeiras décadas do século XX. Esse período é marcado pela radicalização das lutas operárias que avançavam em direção à construção do comunismo, entendido

De acordo com Malandrino em sua obra Scienza e socialismo: Anton Pannekoek (1873-1960), citado por Mendonça, a obra Lênin filósofo foi “escrita a partir do momento em que o holandês tomou conhecimento da obra de Lênin 'Materialismo e empiriocriticismo' (...) Em suas memórias, Pannekoek afirma que as razões que o levaram a escrever este livro foram: ter percebido que Lênin se colocou no campo do materialismo burguês e a conexão de tal posição filosófica com a Revolução Russa. Ele considerou necessário publicá-lo mesmo que, por causa da escassez de recursos financeiros, poucos exemplares pudessem ser impressos 'para fazer emergir o verdadeiro caráter do partido comunista russo e para aprofundar as bases do marxismo” (Malandrino Apud Mendonça, 2009, p. 68).

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como a autogestão social. Conforme afirmou Paul Mattick – teórico conselhista –
a vida de Anton Pannekoek coincide quase inteiramente com a história do movimento operário. Conheceu o seu aparecimento enquanto movimento de protesto social, a sua transformação em movimento de reforma social, o seu eclipse como movimento de classe independente no mundo contemporâneo. Mas Pannekoek conheceu igualmente as suas possibilidades revolucionárias nas sublevações espontâneas que, de tempos a tempos, interrompem o curso tranqüilo da evolução social (MATTICK, 1960).

A partir disso é possível perceber que Pannekoek, assim como Marx e outros marxistas autênticos, não partiram de idéias pré-concebidas para explicar o real, mas pelo contrário, visualizava no desenvolvimento das lutas operárias em seu estágio autogestionário, no qual o proletariado emancipa-se das instituições burocráticas tais como sindicatos e partidos políticos, criando organizações auto-geridas como os conselhos operários, o embrião da sociedade comunista. Portanto, “o comunismo não é
para nós [comunistas – LB] um estado de coisas que deva ser estabelecido, um ideal pelo qual a realidade terá que regular. Chamamos comunismo ao movimento real que supera o atual estado de coisas” (Marx & Engels, 1984, p. 42). Assim, Pannekoek torna-se um dos

grandes expoentes do marxismo revolucionário: O Comunismo de Conselhos. A questão da organização, ao contrário do que muitos pensam, é uma das questões fundamentais do pensamento de Pannekoek, ao lado da questão da consciência. Isto, no entanto, também pode gerar mal entendidos e por isso iremos colocar alguns elementos aqui que esclarecem esta questão. A afirmação segundo a qual a questão da organização é fundamental para Pannekoek pode gerar a idéia de que ele poderia pensar os conselhos operários de forma fetichista. No entanto, não é este o caso. A questão das organizações recebeu tratamento diferenciado por Pannekoek, dependendo da época em que escrevia e do tipo de organização. Lembrando que o pensamento de Pannekoek atravessou algumas fases e que nestas algumas idéias permaneceram, algumas foram abandonadas e novas foram gestadas, é preciso compreender a concepção de organização em Pannekoek vinculado a este processo. Em primeiro lugar, as reflexões iniciais de Pannekoek sobre organização se

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deu no bojo de sua participação – crítica e dissidente – dentro da social-democracia, que apenas enxerga as duas formas tradicionais de organização integradas no capitalismo: os sindicatos e partidos. Estas organizações, que nasceram das lutas operárias, como bem demonstraram Marx e Pannekoek, passam de órgãos da luta proletária para órgãos de reprodução do capitalismo com seu processo de crescente burocratização. Esse processo não ocorre de uma só vez, imediatamente. Em primeiro lugar, surgem os partidos e sindicatos como produtos das lutas dos trabalhadores, com a repressão e recusa da burguesia e do Estado capitalista. É o seu momento heróico. A luta avança e partidos e sindicatos são legalizados e aceitos pela burguesia ao instaurar um novo regime de acumulação, o regime de acumulação intensivo, que instaura a democracia partidária e o Estado liberal-democrático em substituição à democracia censitária e Estado liberal (VIANA, 2003). Porém, o que a burguesia oferece com a mão esquerda, retira com a mão direita. A burguesia legaliza e aceita partidos e sindicatos, mas o próprio processo de legalização significa a imposição da legislação burguesa sobre estas organizações, além das necessidades financeiras impostas, bem como pelo novo papel que elas ganham (os partidos passam a poder eleger candidatos e disputar cargos e governos; os sindicatos se reduzem a representação da força de trabalho com limites legais). Além disso, partidos e sindicatos se integram cada vez mais na sociedade burguesa, por estarem cercados por ela e também por, nesse processo, criar a sua burocracia própria, uma camada de dirigentes que passa a constituir interesses próprios. Neste contexto, partidos e sindicatos legalizados são o primeiro passo para a burocratização. Esse processo de burocratização vai crescendo paulatinamente. Os Partidos Social-Democratas, quanto mais o tempo passava, mais cresciam: aumentavam militantes, recursos, e, com o crescimento eleitoral, aumentava os cargos, o poder financeiro, e a burocracia partidária, com seus intereresses próprios e recursos crescentes (MICHELS, 1982). Porém, a base ainda era formada em grande parte por trabalhadores (operários, camponeses, etc.) e o seu discurso nasceu do marxismo e de outras tendências socialistas e assim ainda mantinha uma fraseologia revolucionária cada vez mais distante da prática e dos interesses reais. Os sindicatos seguiram um percurso análogo e aumentaram cada vez mais sua burocracia e poder financeiro. Nada mais natural, portanto, que este processo se torna-se cada vez mais visível e mais conflitos fosse gerado no interior destas organizações. Neste contexto, Pannekoek

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(assim como Gorter, Rosa Luxemburgo, Parvus e muitos outros) eram expressão do descontentamento dos setores que negavam este caminho, mas ainda não tinham uma percepção mais clara do que estava em jogo e por qual motivo. Foi necessário o aprofundamento da burocratização para que se tornasse perceptível isso e uma demonstração que acabasse com todas as ilusões sobre partidos e sindicatos. No caso dos partidos, isso ocorreu com a prática do Partido Social-Democrata Alemão, ao aprovar os créditos de guerra. Porém, a dissidência interna passou a ser externa provocando cisões e novos partidos, que logo tiveram o mesmo triste e frio destino burocrático. Apesar disso, o movimento revolucionário do proletariado eclodiu e colocou em xeque as burocracias partidárias e sindicais, mostrando seu caráter contra-revolucionário. O caso russo deixou isto ainda mais claro, pois mesmo sendo comandado por uma burocracia radicalizada e sem as mesmas bases que a burocracia partidária dos gigantes e poderosos partidos socialdemocratas da Europa, acabou realizando a contra-revolução burocrática na Rússia e instaurando um capitalismo estatal. Isto, para aqueles que tinham vínculos reais com o movimento revolucionário do proletariado, só podia significar uma nova cisão, mas agora mais profunda, uma ruptura não com determinadas direções partidárias/sindicais ou formas de organização do partido ou sindicatos e sim com toda e qualquer forma de partido e sindicatos. Esse foi o trajeto do movimento operário e que foi seguido por Pannekoek (e por vários outros, como Rühle, Wagner, etc.). Pannekoek passou de uma época na qual criticava as influências das ideologias e camadas pequeno-burguesas em partidos e sindicatos para uma outra na qual se questionava não apenas isso mas também as relações internas nestas organizações, até chegar o momento da ruptura final, quando o caráter contra-revolucionário destas organizações ficou evidente. Ao mesmo tempo que partidos e sindicatos revelaram seu verdadeiro papel no processo de lutas operárias, emergiram novas formas de organização gestadas e geridas pelos próprios trabalhadores, os conselhos operários. Os militantes e teóricos que buscam expressar teórica e politicamente o movimento revolucionário do proletariado logo perceberam a importância e o significado histórico dos conselhos operários e Pannekoek, bem como o conjunto dos chamados “comunistas de conselhos” (Gorter, Rühle, Mattick e outros), foram os primeiros a perceber e

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reconhecer isso. É nesse período que amadurece o pensamento de Pannekoek sobre a questão da organização, a recusa de partidos e sindicatos é completada pela defesa dos conselhos operários como órgãos da revolução social e da gestão da sociedade futura. Neste contexto, a autogestão social pelos conselhos operários é a expressão do comunismo. Isto, porém, não faz de Pannekoek um fetichista dos conselhos operários, como alguns erroneamente pensam. Em primeiro lugar, Pannekoek pensava que os conselhos operários são mais um princípio organizativo do que uma determinada forma organizacional e que, portanto, poderia assumir formas diferentes. Em segundo lugar, Pannekoek pensava os conselhos operários como sendo órgãos da revolução social e não como organizações que deveriam, por exemplo, funcionar no interior do capitalismo e que, portanto, seriam deformados e estes devem ser combatidos. Em terceiro lugar, ao invés de enfatizar o tipo de organização que constitui os conselhos, Pannekoek estava mais preocupado em analisar as lutas operárias e como elas engendram os conselhos de trabalhadores. Assim, Pannekoek mantém a sua preocupação fundamental com o processo de organização dos trabalhadores, mas o desloca de partidos e sindicatos para os conselhos operários, embriões do comunismo. Por isso Pannekoek se tornou o grande teórico dos conselhos operários e um dos pontos altos como manifestação teórica do movimento revolucionário do proletariado. Um questionamento pode ser feito ao terminar esta breve análise sobre a questão da organização em Pannekoek: como fica a questão das organizações dos revolucionários? Eis que Pannekoek não dedicou nenhum escrito mais aprofundado sobre esta questão. Após abandonar a ideia de partido – embora algumas vezes utilize a palavra “partido” –, Pannekoek oscilou entre a concepção de Otto Rühle de “organização unitária” e a da necessidade de uma organização de revolucionários sob a forma de grupos de discussão e propaganda, chegando a postular, em alguns momentos, o papel de “direção espiritual” do proletariado (ao contrário das concepções burocráticas que querem a direção prática do movimento operário).

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Índice de comunicações
Anderson Lucas Novaes - A mercantilização da música e suas consequências para o artista ......................................................................................................... 7 Angelo Rafael Nascimento Nunes e Eliezer da Silva Freitas - Mundialização do capital e a (de)formação do trabalho em goiás ................................................15 A escolarização como mecanismo central na constituição do capitalismo .................................................................................................................................27 Diego Marques – Limites da experiência do zapatismo ............................... 32 Diego Marques – Lênin: em defesa do partido ..............................................45 Eduardo Gusmão de Quadros – Mantendo o “espírito” do marxismo, Derrida assombra o mundo .................................................................................... 55 Gustavo dos Santos Cintra Lima - A esquerda pecebista de 1940-64: o partido como comitê dos intelectuais ............................................................................62 Leonardo César Pereira - O processo de trabalho em perspectiva: mudanças que repercutem na vida social ..........................................................................75 Leonardo Venicius Parreira Proto - Marxismo e a visão de mundo dos intelectuais ................................................................................................................... 89 Lucas Maia - Conselhismo e Bordiguismo: contribuições, limites e contradições ..............................................................................................96 Lucas Morato Dias Cardeal - Alienação como antítese da emancipação humana ................................................................................................................... 106 Luiz Felippe de Castro Henning - Os povos tradicionais e a transformação social ................................................................................................................... 120 Marcelo Mari - Pierre Naville, Walter Benjamin e o debate sobre o Surrealismo ................................................................................................................... 131 Mariana Affonso Penna - Socialistas libertários e a luta pela moradia no rio de

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I Simpósio Nacional Marxismo Libertário

janeiro (1987-2010) ..................................................................................... 144 Mateus, Sousa e Saddi - Educação Libertária: a Instrução Integral em Mikhail Bakunin .....................................................................................................152 Mateus Vieira Ório - Contradições nas Reivindicações Populares ............... 163 Nildo Viana - Intelectual: Pertencimento de classe e autonomia individual ................................................................................................................... 172 Nildo Viana – Capitalismo e neurose ...........................................................189 Renato Regis do Carmo - A bolsa universitária da OVG e a privatização do ensino superior de Goiânia ................................................................................... 206 Roberto Pereira Furtado - Manifestações do individual e do universal no modo de produção capitalista ................................................................................................. 215 Rodolfo Fernandes Martins - Reflexões sobre a contra-revolução burocrática na Rússia (1917-1921) ................................................................................................... 226 Rodolfo Ferreira Alves Pena - Uma análise sobre a obra de Élisée Reclus: uma geografia anarquista? .............................................................................................. 239 Lisandro Braga - A Organização Operária em Anton Pannekoek .......................... 251

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De 9 a 11 de junho de 2010 Universidade Federal de Goiás - Campus II

Núcleo de Pesquisa Marxista

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