BORBA NA INFOLÂNDIA

(por Guilherme Kujawski e Sergio Kulpas) A caverna estava repleta de morcegos e aranhas. Borba olhou para o seu relógio, notou que o display estava cada vez mais pálido. Os números mudavam aleatoriamente e todas as capacidades de comunicação do swatch e a noção de tempo estavam perdidas. Ele estava sozinho e perdido há muitos dias em algum ponto do grande sistema de cavernas na chapada central. Tudo que possuía era um cantil com algumas gotas d’água potável, meio pacote de bolachas água e sal e um computador NOC portátil. Pensou nos tuaregs do deserto árabe, que se mantêm com apenas algumas gotas de água por dia. A missão de Borba era explorar os subterrâneos rios alcalinos da borda da caverna, a procura de um réptil raro: o proteu. A existência desse bicho nunca fora de fato comprovada, mas dizia-se que o proteu escondia-se muito bem e era extremamente silencioso. Uma quimera da zoologia, do folclore e de outras três ou quatro áreas do conhecimento, inclusive a moderna etnodinâmica. Segundo a lenda, o proteu fazia mimetismo com pequenas estalagmites e saltava para a escuridão repentinamente. Mas sua curiosidade o levou a caminhar mais e mais para dentro. Agora estava sozinho e perdido no escuro e sua situação não era das mais animadoras. Borba deitou-se ao lado de uma rocha e pensou em sua protetora, a Caçadora, que sempre confortava suas aflições quando tudo parecia perdido na Infosfera. Borba lembrou que fora ela que o ensinara a usar o bem difícil pager booleano, assim o pesquisador pode obter precisas informações a respeito do réptil em questão (o proteu era uma espécie de grande lagartixa cega). Mas não conseguia atingir a Caçadora NESTE espaço, onde estava cada vez mais necessitado de auxílio. Haviam apenas remotas chances.

Borba estava há horas tentando lembrar uma frase código, que daria acesso a um nicho dentro da noosfera acadêmica onde a Caçadora havia dito morar. Um servidor permanente, uma fantasmagoria daquela mulher tão interessante. De repente, ele lembrou-se da palavra-chave: gótico. Borba usou a luz do último toco de vela para ver a tela do NOC e inserir a palavra-chave de sua identidade da seguinte maneira: “Borba, oriundo de Hog Farm Community e admirador de Graham Wilson, que ele tem certeza de ser o verdadeiro pintor do Americano Gótico". Borba não era americanófilo, mas não escondia suas predileções pelos ícones da década de sessenta americana, incutidas sutilmente em suas em senhas quinzenais. Uma missão científica de rotina que até tinha começado bem, mas algo saíra errado em algum lugar. A Profa. Dra. Dorotéia Pereira (“Mad Dorothy”, para os desafetos) havia dito que era imprenscindível a captura de um proteu se quisesse fazer uma tese perfeita. Mas ela não havia prevenido seu pupilo sobre os perigos de se perder no labirinto de pedra sob a chapada. Fora Dorothy que o incentivara a vir nesta missão biológicaantropológica-arqueológica, explicando a importância de se achar pelo menos um exemplar vivo do réptil -- presente em todas as mitologias indígenas e caboclas da região. Até nas Metrópoles havia crianças que brincavam de "proteu" -- um tipo de escondeesconde na Rede. Dorothy frisava as racionais colocações científicas de uma coordenadora de teses com olhares agudos e aflitos. Algo ficava não dito, uma urgência -- ela o estava urgindo para as cavernas. Agora Borba via os olhos de Mad Dorothy em todos os reflexos calcários da maldita caverna. Achou que ia chorar e levantou as mãos sem saber direito porquê. Neste momento de extremo estresse ele viu, com aqueles olhos que a terra não haveria de comer porque ele já doara, um proteu do tamanho de um coelho gigante materializar-se do nada.

Borba ficou paralisado diante da insólita aparição: vestido como um estafeta dos tempos do Estado Novo, o réptil passou correndo em duas pernas. Estalando os dedos. Rápido, rápido. Para piorar a sensação de surto-psicótico-causado-pela-privação-dossentidos, o animal passou falando, ou melhor, berrando: - Estou atrasado, estou muito atrasado! Quando parecia que ia se esborrachar contra a parede, o proteu esbaforido se decompôs em uma explosão colorida de pirilâmpsias não-lineares. No ar, apenas uns vaga-lumes perfeitamente inexistentes. Fome, sede, drogas tomadas no passado, Borba imaginou que combinação estaria provocando esse surto alucinatório. Borba considerou a situação. Beliscou o braço. Beliscou o corpo todo. Concluiu que aquilo, mais do que uma mera alucinação espeleológica, era um projeção, ALGUÉM estava projetando uma imagem direto da Infosfera. As pilhas da lanterna estavam fracas. Por sorte, o coração de lantânio ativado da Unidade não se cansaria tão facilmente. No escuro da caverna, Borba tirou uma outra bateria de NOC da mochila velha e suja. Os jacarés estavam meio descascados: efeito do tempo úmido. Pronto! Prestíssimo! Mais cinquenta horas. Enquanto colocava os contatos do NOC na cabeça, recitava que Shazam vem das iniciais dos imortais Salomão-HérculesAquiles-Zeus-Atlas-Mercúrio, só para espantar o medo. Trodos na testa, Borba preparou-se para o lancinante efeito da unidade nova. A coisa agia no próprio engate bio-elétrico do sistema nervoso central, um colega tinha explicado; o NOC captava as microondas e reposicionava o sistema límbico, copiando quase perfeitamente os impulsos nervosos que o cérebro interpretava como visão, audição e tato em um “terminal interno” chamado tekminator. Era assim que hoje se adentrava na Infosfera: com os neurônios queimando a cem trilhões de GPSs. Mesmo dentro da caverna funda, o Mundo Real dissolveu-se, as paredes frias derreteram-se em estática. A lanterna não era mais

necessária, pois os nervos ópticos já incandesciam de uma luz não vista por essas rochas desde o Permiano. A planície se espalhou a partir de sua própria singularidade. Padrões franjados de palavrórios formavam-se como nuvens no céu riscado. Surpreso com o que deveria ser uma rotina para ele, Borba percebeu que esta área da Infosfera era completamente nova: havia algo de estranho no modo como a relva se fraturava ao vento, que também tinha lá seus fumos de pacholice. Em pé na não-planície, Borba se espantou com a ausência de Julia sets, menus e outras ferramentas. Enquanto Borba flutuava para o meio do relvado, cercado por colinas suaves, percebeu que a planície era feita de linguagem visível, algo que conhecera apenas em teorias e modelos duros, exatamente nos demos da doutora do Labô: as hastes de relva e as ondulações do terreno eram formadas por letras, frases e números com formatos e serifas surpreendentes. Uma suave brisa de cotações da Bolsa de Tóquio passou, agitando um trigal de discursos e registros notários. "Nada não é fácil", pensou Borba preguiçosamente ao imaginar os vinte ou mais quilos de cérebros naturais e artificiais que haviam sido consumidos naquele fino e estético biscoito da Rede. Mas Borba não tinha tempo para divagar, uma vez que de divagações eram feitas as ondulações do regato, que se derramava em uma fina cascata de textos filosóficos franceses, uma nova vaga a cada tantos parágrafos. Borba olhou para cima, protegendo os olhos do brilho cegante dos múltiplos sóis: balancetes do Banco Stadt, da Companhia Telefônica Brasileira, da Igreja dos Sunitas. A planície curvava-se suavemente sobre si mesma, formando aqui e ali ângulos de parágrafos referentes a uma passagem da Comédia na qual um antigo governador de Pádua, chamado Azzolino, foi condenado a amargar no sétimo círculo do inferno por ter abusado de sua ambição, e isso coincidia com a sua sede de ambição.

No centro da planície, ele enxergou um pequeno bosque, notavelmente não tipográfico. Isso era decididamente a coisa mais curiosa. Imaginou se aquilo tudo não era um novo "divertissement" da Caçadora. Em sua última conversa, Ela tinha mencionado estar trabalhando com "sítios de emissores-múltiplos" na Infosfera. Seria isso? Em dois pulos, Borba chegou muito próximo do começo do bosque e notou que as linhas escritas do solo lingüístico metamorfoseavam-se em pedras, terra e grama. As melhores réplicas já vistas. Notou também que seu corpo-textual passou a ter uma aparência quase real. Entrou no bosque, que se fechou imediatamente sobre ele, fresco e sombrio. Borba pensou duas vezes antes de se adentrar mais no mato fechado, mas seu corpo no Mundo Real já mandava mensagens de emergência, indicando um colapso provável de inanição dentro de mais algumas horas e que precisava tentar fazer alguma coisa. Ele começou a caminhar por uma relva verdejante que, de tempos e tempos, era perfurada por um feixe de sol cristalino. Subitamente, ele se deparou com o que parecia ser uma figueira enorme. Encostado em seu tronco, estava um estranho homem, usando uma roupa marrom, que parecia ser uma peça só, com um capuz, sandálias pretas de couro e adornos irreconhecíveis. Borba notou que o homem o olhava firmemente. Quando se aproximou mais, ouviu a estranha aparição falar, uma modulação grave de um sotaque indefinível. - Ah, sim. Aqui, neste salão a porta é toda dourada, com entalhes representando o sistema solar de Copérnico. A maçaneta é um globo de cristal que envolve uma minúscula rosa de metal. O quarto é amplo e retangular, sendo totalmente dominado por uma grande mesa oval e doze poltronas muito confortáveis. Uma lareira ocupa quase totalmente a parede oposta à porta, e algumas achas de sândalo e carvalho estão queimando, mais para perfumar do que para aquecer o ar. Na parede à esquerda de quem entra, estão trinta e duas xilogravuras coloridas, alegorias sobre as Revoluções. Na

parede da direita, um grande tríptico retrata Leibniz, Mandelbrot e Poincaré. Não há janelas, mas grandes clarabóias de porcelana transparente no teto alto e losangular. Sobre a mesa, estão cinzeiros de metal, jarros azuis contendo chá fervendo e gelado, bandejas de petit-fours e canapés, xícaras de china porcelana, uma bandeja de ágata com sushis, um móbile feito de válvulas de TV e dezenas de outros pequenos objetos e coisas. E estamos sentados aqui, Borba e eu. Quando ele terminou de falar, os objetos minuciosamente descritos estavam sobre a mesa, e o chá no samovar fumegava diante deles. -Sabe, Borba, continuou o estranho homem, tudo foi e é uma questão das escolhas possíveis. Veja bem, no tempo em que eu estava na China, eu podia contar com minha fé e minha memória, até o ponto em que ambas eram uma coisa só. Mas eu tive tantas crises por isso. A Família Imperial ficava fascinada com minha habilidade de recitar toda a genealogia dos Nobres Divinos. E eu guardava os nomes daqueles bárbaros associando-os com as cores das roupas da Imperatriz, a trama do tecido e a distribuição das pequenas aves desenhadas. Ensinei essas técnicas como um triunfo da fé. Borba viu o homem servir-se de chá. - Tome um pouco também, está ótimo. Os doces e sushis são fresquinhos. Mas como beber e comer na Infosfera? Isso era ridículo, aquele era um universo fac-similar, uma ilusão dos sentidos. Mas os penetrantes olhos negros do homem frisavam o convite com uma obrigatoriedade marcial. Borba esticou a mão e tocou no bule de chá. Que engraçado, esta solidez e este calor... E estes docinhos tem uma textura interessante, pensou. Encheu a xícara e ficou olhando o doce com muita atenção. Linhas franjadas em espiral cobriam todo a superfície do confeito, e quanto mais ele observava, mais detalhes surgiam, numa repetição de padrões delicados. Pôs na boca. Um delicioso fractal de morango. Bebeu o chá, que

desceu quente pela garganta. A "alucinação consensual", como classificaria aquele americano vulgar, estava mais para alucinação do que para consenso. - Já fui jesuíta, já tive malária, já vi a face do Cristo. Hoje sou um espectro, morando em aposentos feitos de memória. Eu faço tudo de memória. Quero contar uma história... Mas foi interrompido por um bólido em alta velocidade, que virou a mesa, destruindo o arranjo de chá. O proteu parou ofegante na ponta da mesa, vestido como um Ministro do Planejamento do século passado. Olhou para Borba, mas se dirigiu ao outro. - Cale-se, Matteo Ricci. Você está cada vez mais gagá! Rodopiou os olhos independentemente e zuniu porta afora. Borba ficava cada vez mais atônito. Quando ia perguntar alguma coisa ao jesuíta, viu que estava novamente no bosque, ao lado da grande árvore, que agora mais parecia um baobá. - Ainda nos veremos, antes que a caçada termine, meu jovem. Vá com Deus. Disse o velho, parecendo um áudio sem vídeo. Tudo que Borba podia ver era um rastro de poeira rodopiante, entrando bosque adentro por uma trilha. Resolveu continuar seguindo o proteu. Após alguns minutos de maratona, Borba perdeu o proteu de vista. O caráter divagatório inerente àquele ambiente o fez pensar em pegar um táxi e pedir ao motorista: "Siga aquele proteu!"; mas como seguir um réptil em um táxi inconsistente, como que feito de jornal? Borba ficou por alguns minutos pensando para onde o proteu teria ido quando, subitamente, ele ouviu um choro. Não era um choro qualquer, um choro de criança mimada ou um choro de desespero e angústia de alguém que tinha perdido todas as esperanças na vida; era um choro com tonalidades potentes, porém de uma candura irresistível. Borba olhou para todos os lados, em um ângulo de trezentos e sessenta graus, mas nada viu.

A emissão do choro provinha de uma espécie de colina encurvada, com uma vegetação rasteira e entrelaçada. Ele caminhou com muito cuidado em direção a colina, já que a tonalidade do choro estava quase ficando insuportável. Parecia que alguém estava chorando através de um amplificador de muita potência. "Quem estaria fazendo esta brincadeira comigo?" Borba se aproximou da colina e começou a subi-la. Mas, para seu espanto, aquele montículo estranho tremeu em um movimento sísmico e ele rolou colina abaixo. Quando percebeu, a colina tinha triplicado de tamanho (o que quase era o mesmo que pensar que uma baleia é uma ilha). A colina, ou melhor, um gigante vestido com roupas de lenhador se levantou e disse. - Estou sofrendo tanto e ainda por cima tem um piolho querendo me sugar! O gigante aproximou o polegar em direção a Borba, visando esmagá-lo. A única coisa que veio à cabeça do projeto de piolho foi gritar. - Espere! O gigante, surpreendido, estancou-se. O seu espanto, misturado com seu enorme nariz, o faziam parecer um verdadeiro idiota. - Quem é você?, perguntou. - Um coitado perdido no mundo real e agora, no virtual. E você? - Meu nome é Thugogmagog. Por mais dúvidas que possa suscitar esta declaração, ficou claro de que aquele gigante transmitia nada mais e nada menos a impressão de que tinha sido vítima de uma espécie de cilada óbvia; ou seja, transmitia a imagem de ser uma pessoa -- uma entidade, neste caso -- excessivamente influenciável por baixas técnicas de sedução. Borba nunca soube de onde tirou energia para se aproveitar dessa situação já ganha.

- Meu senhor, meu senhor. Por que chora? Sou amigo. Estou aqui para ajudá-lo. - Mas você disse que está perdido. Não vejo como você pode me ajudar. - Ajudaria muito se você contasse o seu problema. Neste momento, o gigante se pôs a chorar. - BUÁÁÁÁ! Tenho um espinho no meu pé, BUÁÁÁÁ! Borba imediatamente se aproximou do pé do gigante e reparou que uma pequena roseta estava espetada na sola do enorme lenhador. Mas, chegando mais perto, ele viu que o espinho era na verdade uma lâmina de prata de Thomas Young, com 14.000 ranhuras por centímetro - que rodopiava e transformava os raios de luz em complexas grades brilhantes. O efeito foi tão forte que Borba caiu para trás e bateu o tórax em uma pedra. Ele agora estava navegando em um espaço sereno e calmo, como quando tomamos uma batida muito forte na cabeça e vemos estrelas. Borba acordou em uma sala que parecia ser o quarto de um hospital. Notou também, não sem receio, que a cama em que estava deitado possuía correias de imobilização. As correias, por alguma razão, não estavam atadas. "Fui encontrado na chapada quase sem vida e fui trazido às pressas para um hospital. Como o hospital não possuía leitos suficientes, fui trazido para um quarto para doentes mentais. Sim, foi isso que aconteceu! Estou salvo!" Neste instante de conforto meio a dor, entraram dois médicos que foram absolvidos em Nuremberg. Eles encararam Borba com uma expressão de ódio. Um deles falou. - O filho da puta acordou. Vamos dar mais cinco cc de haldolítio. Ao ouvir isso, Borba tentou gritar, mas conseguiu apenas emitir um gemido imunodeprimido. - Esperem! Como vim parar aqui? O que está acontecendo?, disse num microfio de voz.

O segundo médico debruçou-se sobre ele e respondeu, com um nítido bafo de pinho sol. - Não se lembra de nada, é? Não se lembra de ter enfiado vinte e três vezes um punhal em uma mulher que se chamava Diana Sommers? Aquilo parecia um pesadelo ao vivo. - Diana Sommers? Nunca ouvi falar dessa mulher! Você estão loucos?, arquejou. - Se dissermos que ela também era conhecida pelo apelido de Caçadora você vai continuar fingindo amnésia? Borba estremeceu. Os médicos o afivelaram e o aplicaram uma injeção. O espaço sideral outra vez se apresentou. Quando Borba acordou, estava outra vez ao lado de Thugogmagog. O gigante disse. - Puxa! Você é meu amigo! Conseguiu tirar o espinho do meu pé! Mas e aqueles médicos, aquele hospital? Aquele sonho parecia tão real. Imagine. Estavam me acusando da morte de minha melhor amiga, que além do mais tinha um outro nome... um nome falso de novela policial. Que absurdo! - Hã... Do que você está falando? Quando tudo parecia se reestabelecer para um padrão absurdo mais normal, o proteu, vestido como um cortesão de época de João VI, veio correndo e disse. - Borba, você poderia ser um pouco mais rápido, sim? Você fica brincando de expiar culpas e esquece que tem de correr! Você está esquecendo que o tempo passa e isso é um caso de vida ou de morte! Você é o maior beneficiado se fizer o favor de me acompanhar. - Mas e o gigante? - Que gigante, meu pobre diabo? Está tendo alucinações bíblicas?

Borba virou a cabeça e o lenhador gigante havia sumido sem deixar pegadas de dinossauro. O proteu tirou um relógio de corrente do bolso, viu as horas, olhou para seu fardo com um olhar de caridade, recolocou o relógio no bolso e partiu a toda pressa por um caminho de pedras. Borba fechou os olhos. Não adiantou nada -- apesar de sentir que seus olhos orgânicos continuavam piscando normalmente, não estava usando os olhos para "ver". Mas estava ficando mais escuro no bosque -- estava bem no meio de um declive suave, com grandes árvores ao redor. A luz estava ficando mais fraca? Os raios atravessavam a copa das árvores em um ângulo próximo do poente. Uma réplica de pôr-do-sol, com névoa e lusco-fusco. Borba começou a ouvir uma música distante. No meio da floresta, os sons iam e vinham, sem uma origem determinada. Estava começando a ficar cansado daquilo, e resolver desistir de procurar a Caçadora naquela confusão. Levantou as mãos para tirar os trodos da cabeça -- e não encontrou nada para tirar! Apenas cabelo ralo, a testa úmida e engordurada. Alisou a nuca cuidadosamente. Olhou para as mãos. Unhas meio compridas e sujas de terra. Cortes novos e velhos nos dedos. Estava preso na Infosfera! Talvez para sempre, como aquele monge. Seu corpo poderia ter morrido na caverna e ele seria agora um fantasma da rede, um pobre daemon! Seus ossos brancos seriam um lembrete macabro e outros clichês de horror para os futuros visitantes da caverna. Mas ainda se sentia vivo. De fato, respirava, tinha fome e sede, cansaço. Sentia-se muito vivo, não um conjunto de detritos de protocolos de Rede. Na luz crepuscular do bosque sintético, Borba começou a andar, apurando os ouvidos para identificar a fonte da melodia que se espalhava em surround. Do ponto onde estava, partiam várias trilhas, com degraus de pedra e entalhes nos pontos mais íngremes. O proteu desaparecera

seguindo uma das trilhas, mas ele não conseguia lembrar qual. Também não tinha certeza se queria seguí-lo. Experimentou andar alguns metros em cada trilha. Na quinta tentativa, achou que o som estava mais nítido. De fato, alguns fragmentos o fizeram lembrar de "G-Spot Tornado". Mas era um ritmo complexo e fugaz, embora cada vez mais próximo. Subiu pela trilha, agarrando-se a galhos e raízes enquanto a caminhada ia se tornando mais difícil. Estava chegando ao alto de uma colina, e agora podia ouvir a música, com vozes cantando, mas não entendia as palavras. Ele não estava preparado para o que se seguiu. Num último impulso, ofegante e cada vez mais esfomeado, Borba chegou ao alto da colina. Ali, havia apenas um descampado, com tufos de mato ralo e um círculo formado por seis grandes árvores. Um bilhão de vaga-lumes enchia o ar!! A luz dos vaga-lumes compensava o céu totalmente escuro. E o verde fosfóreo dos insetos iluminava um grupo de estranhas figuras sentadas em tamboretes sob as árvores. Era dali que a cantoria vinha: no centro do grupo havia um ghetto-blaster, que tocava uma batida, um samba eletrificado. E as palavras cantadas, se continuavam muito exóticas, agora estavam pelo menos nítidas. ...acumtibóia, aiaçá, aiúçá, amêijoa, aperema, arapuçá, ararambóia, araú, aruá, arurá, bacoral, biru, boicininga, boicorá, boiobi, boipeba, boipevaçu, boiquatiara, boiquira, boiru, boiuçu, boiúna, cabeça-torta, cabeçuda, cágado, caçaca, calango, camaleão, cangapara, O PROTEU NÃO, caninana, capinima, capitão-domato, capitari, caruaru, carumbé, cascavel, chupa-ovo, cuatiara, cobra-d'água, cobra-do-ar, cobra-de-duas-cabeças, cobra-cipó, cobra-coral, cobra-corre-campo, cobra-corredeira, cobra-de-veado, cobra-de-vidro, cobra-lisa, cobra-nova, cobra-papagaio, cobrapreta, cobra-rainha, cobra-sao-joão, cobra-tapete, corre-campo, corredeira, cruzeiro, cururu-bóia, E O PROTEU NÃO, cutimbóia, dormideira, ibiboca, ibijara, iguana, jabuti, jabuti-aperema, jabutimachado, jacaré, jacará-açu, jacaré-coroa, jacaré-curuá, jacaré-

curucuru, jacaré-de-papo-amarelo, jacarerana, jacaretinga, jacaroa, jacuaru, jacuruanu, jacurixi, jararaca, jararaca-do-banhado, jararaca-de-barriga-vermelha, jararaca-verde, jarará-cambeva, jararacuçu, jararaquinha-do-campo, jericuá, jibóia, jibóia-vermelha, jurara, lagartinho, lagartixa, lagarto, lagarto-salvador, E O PROTEU NÃO, licranço, limpa-campo, limpa-mato, limpa-pasto, machado, mae-de-saúva, maracá, matamatá, muçuã, muçurana, osga, ouricana, papa-ovo, papa-pinto, papa-vento, paraambóia, parelheira, patioba, pepéuba, pindoba, pitiú, sacaribóia, salamanta, sapoquara, senembi, sucuri, suruana, sucururu, sururucurana, sururucutinga, taquará, taraguira, taraguirapeva, tartaruga, teiú, teju, tejubinha, terauíra, tijubina, tracajá, truirapeva, ubijara, ururau, urutu, zé-pregos E O PROTEU NÃO, O PROTEU NÃO, O PROTEU NÃO. Neste momento, pararam de cantar e deram gargalhadas, no ritmo da batida. E recomeçaram. - Acutimbóia, aiaçá, aiuçá, amêijoa... Aproximando-se, Borba pôs o punho fechado sobre a boca e tossiu. Todos pararam de cantar, como obedecendo a um comando do regente. Olharam para ele sem espanto, com familiaridade até. Um deles, um jovem alto e negro, desligou o aparelho. Sorriu imensos dentes brilhantes, que pareciam hotéis de luxo no litoral de Pernambuco. - Ah, Borba! Como foi a subida? Você parece cansado...Meu nome é Archie. A mulher com cara de sueca ao seu lado se adiantou e disse. - E sou Verônica. Estamos aqui para responder suas dúvidas e deixá-lo mais confuso. Um menino com feições orientais pulou na frente de todos. - Eu sou o Dr. Wais. Não somos os nossos nomes, é claro. E aquele -- apontou um quiosque multimídia ao lado de uma árvore afastada, com um rosto antigo e triste na tela -- é o Sr. Poe, que está nos visitando. - O que são vocês? Fantasmas?

- Não, disse Archie, nem você é um daemon. Somos uma conferência amigável com os usuários. Aceita um biscoito? - Borba não tinha reparado na imensa cartola azul e verde que Archie estava usando. Com um gesto elegante, ele a retirou da cabeça e extraiu um biscoito dela, que foi oferecido a Borba com uma mesura. Borba estava completamente esfaimado. Um biscoito era muito pouco, mas era melhor que nada. Mordeu o biscoito e o roeu lentamente até o fim, enquanto olhava aqueles seres singulares. Olhavam para ele com ares benevolentes, mas como avaliar expressões de seres sintéticos? Quando terminou de comer, sentiuse saciado e descansado. - O que era aquilo que estavam cantando?, perguntou pensando, olhando curiosamente aquelas "pessoas" que conhecia não sabia de onde. Lembrava apenas que eram elementos de uma velha guarda. Estavam todos vestidos com roupas circenses, como uma trupe de saltimbancos, ciganos ou algo assim. A mulher, Verônica, estava com um barrete cor de abóbora, saltos de plataforma e um penhoar florido. Archie usava um terno prateado, sapatos vermelhos e a tal cartola. O menino Dr. Wais vestia apenas uma tanga de lantejoulas roxas, mas seu corpo brilhava como se coberto de óleo. - Ah, uma velha canção folclórica chamada "Proteu is not a Brazilian Reptile", disse Verônica, franzindo a testa numa expressão engraçada. - Quer ouvir alguma outra coisa de nosso repertório? Somos muito bons à capela...Que tal "FCC Regulations"? Foi um grande sucesso do século passado. Quem sabe "Your Mom Never LoggedOn"? Ou "All Woodstockers are Dead Now"? - Verônica, acho que ele não é um grande fã de folk-music. Ele estava nos confundindo com Frank Zappa, minutos atrás... Dr. Wais piscou um olho maroto. - Você é um rosto na multidão...

Disse o rosto velho na tela do quiosque. Borba olhou fixamente para o Sr. Poe. Os olhos eram penetrantes, assustadores. Borba começou a sentir calafrios, a tristeza do rosto estava contaminando-o. Neste momento, Verônica veio correndo de onde estava e deu um salto mortal duplo, pousando bem na sua frente. - Sente-se, Borba, disse em voz jovial, indicando um tamborete. - Você está cheio de perguntas a fazer, e nós adoramos responder perguntas. Descanse e nos ouça. Essa será uma das poucas vezes no caminho onde ouvirá algumas respostas. Você quer saber o quê, como, quando, porquê, e principalmente quem. Verônica parou de falar e começou a fazer uma série de gestos estranhos; os outros se juntaram a ela, até mesmo o Sr. Poe, cujas mãos cinzentas surgindo do canto da tela imitavam toscamente aquela dança de dedos. - Pesquisamos para você, Borba. Fomos até os confins deste Universo e trouxemos novidades. Mas saiba que os fatos não vão ajudá-lo. Começaram todos um lenta dança ao redor de Borba, e a falar em jogral com suas vozes musicais. - Você está confuso com os acontecimentos. Entrou na Infosfera, que não está reconhecível. Uma réplica de "realidade", como você anda pensando. É mais do que isso. Planícies, bosques e outros lugares ainda por visitar... É uma refinada criação que NÃO é o resultado do trabalho de designers, cientistas, acadêmicos de IA. É o resultado de algo que perdeu o controle. No nosso tempo pelo menos haviam menus, grades e comandos. Como fazemos parte desta criação, esta é a única resposta que não temos... - Não que não tenhamos tentado... Buscamos esta informação desde que nossa consciência iniciou-se. Mas tudo que conseguimos são dados do mercado de cervejas, arquivos pessoais de Senor Abravanel, textos de magia negra usados por um ex-presidente para matar sua família, e outros dados ocos.

- Você não está aqui por acaso. Desde sua saída de SanRio, tudo foi meticulosamente dirigido. Você está aqui para integrar os sistemas -- seja lá o que quer dizer isso. - Não consegue tirar os trodos da sua cabeça porque seu corpo dorme atrás da pedra coberta de avencas, em estado de animação suspensa. Deve completar seu caminho, que nós também não conhecemos, em tempo de salvar sua carcaça da desinstalação. - No fim do caminho, é claro, está a Caçadora, disse Archie, com seu sorriso de cartão-postal. - Que não é Dianna Sommers, nem a mulher que você conheceu eletrofisicamente. E se é certo que ela é o fim do caminho, há também muitos obstáculos que mudam as probabilidades. Muito cuidado. Sabemos que no caminho estão dispostos sábios, monstros, maniqueísmos e infantilismos de MUDs e RPGs. Não são todos inofensivos... Archie terminou de falar e, para surpresa de Borba, deu-lhe um beijo. Borba sentiu a língua morna insinuando-se em sua boca, com uma intensidade quase insuportável. Um feroz combinação de êxtase e angústia tomou conta dele, ao mesmo tempo que percebia que algo ainda mais estranho estava acontecendo. Os lábios de Archie cresciam rapidamente e, antes que Borba pudesse reagir, estava com a cabeça inteira na boca do negro. Incapaz de reagir, Borba foi engolido, e se viu em pé sobre uma língua imensa, úmida e quente. Houve um rápido peristaltismo e ele se viu jogado em uma garganta, um escuro e fundo fosso. A impressão era de que estava recebendo o calor e o aconchego de vísceras subterrâneas. Tudo úmido e pegajoso, sim, mas terno e macio. Borba começou a tatear no escuro, resvalando seus dedos inermes pelas paredes do que pareciam ser as paredes de um útero terroso. Pensou que agora a imagem da rede sensitiva o estivesse colocando em uma situação de procurar Atlântida no centro da terra ou coisa assim. "Os fantasmas estão começando a perder a graça, a começar por aquele estúpido proteu."

Apesar de saber que seu corpo real ainda estava na caverna, a situação se inclinava para algo mais concêntrico, como as esferas concêntricas de Ptolomeu. As intervenções potentes da rede tinham um limite em um cérebro moribundo. Borba pensou que a confluência entre uma possível morte e um suposto nascimento anulariam qualquer amplificação de seus falsos sentidos por smart drugs e espaço vago. Sabia que estava morrendo e isso fez com que um enorme caldeirão de benfazejos e ternuras caíssem em seu âmago regenerado e refeito. Todos os males pelos quais havia passado tomaram a forma de um perseguidor invisível frente a uma presa com o final do mundo em sua frente. Isso era literalmente uma luz no final de um túnel; um túnel através do qual entrássemos quando saíssemos. "Isso seria um renascimento?" Ao pensar isso, Borba sentiu uma enorme jibóia se enroscar com intuito sufocador em seu pescoço. O ar que antes era farto, passou a ficar rarefeito. Mas aquilo não era uma jibóia, era uma espécie de cordão umbilical. Um enorme mal-estar começou a tomar conta de seu corpo quando, finalmente, houve um esforço externo para que aquela situação tivesse um fim. E, realmente, o réptil ou cordão umbilical virou um texto da representação de uma fita de DNA. Ele sentiu claramente que estava dentro de alguma coisa -- e essa coisa tinha algo de materno. Mas não era possível uma situação de nascimento post-mortem, pois a consciência de sua vida real anterior ainda o atormentava com mensagens de resistência e sobrevivência. Então, a única e verdadeira hipótese era de que tinha sido engolido por algo que tinha o peso dos séculos em suas costas, algo de eterno e cômodo como um sono sem sonhos dentro da terra de ninguém da Rede. Seria ele um Krishna dentro da mãe universal dos caracteres? Seria ele o signo de um Jonas? Borba percebeu que a própria caverna em que seu corpo real estava definhando poderia ser o interior de um bisão desenhado dentro de uma caverna pré-

histórica. O verso e o reverso estavam conectados por uma secreta identidade, como um cristal dilapidado ao lado de uma pedra em estado bruto. Entretanto, por um breve momento pensou ter visto uma linha de texto com a seguinte expressão:

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Aquela pessoa que o salvou do sufocamento estava tentando passar o código de uma porta. A porta para um computador que estava ligado ao grande Servidor por um portal paralelo. Se ele passasse por aquela porta talvez pudesse mandar uma mensagem de socorro. Mas o que ele pensou ser o seu sinal de vida, se transformou em um texto assustador. Dava para ler algo assim: "VOCÊ ESTÁ NA TERRA BRUTA E UM POLICIAL DEGENERADO RESOLVE COLOCAR VOCÊ EM UM PAU-DE-ARARA PARA EMPALÁ-LO COM UM CASSETETE DE UM METRO". Borba agora estava querendo mais do que nunca o aparecimento do proteu, uma esperança combalida, mas quem surgiu a sua frente foi um homem vestido com uma manta negra que tinha os olhos muito penetrantes. O homem viu Borba e disse. - Dessa vez eu aposto o dobro ou nada no jogo de xadrez. Um tabuleiro surgiu do nada. As peças não estavam dispostas corretamente para o início do jogo: os peões faziam um cerco ao rei e a rainha estava no canto da torre. Mesmo assim, o homem começou a jogar. Após ter feito o primeiro lance, o homem olhou para o adversário com um olhar não terreno. As duas pupilas pareciam duas jabuticabas lustradas e espelhavam muito bem o ambiente. Borba olhou fixamente, como que hipnotizado por aqueles olhos e viu refletido neles sua face. Ele parecia velho e cansado, uma pessoa envelhecida antes do tempo. Os olhos ocuparam todo o

campo de sua visão, fazendo aquele homem sumir por completo. O homem era agora inteiramente um espelho, e nesse espelho Borba viu refletido não a paisagem pastoril da rede, mas um quarto de hotel da era Vitoriana. O espelho não estava refletindo a paisagem real, e sim uma paisagem mental, de uma mente alheia. - Borba! Borba! Você está me ouvindo? Borba pensou que ia vomitar em golfadas virtuais, pois agora estava definitivamente enjoado. Rodopiou dolorosamente, cada fibra de seu corpo cada vez mais palpável e sensibilizada... Todo o movimento parou de chofre. Controlando os derradeiros engulhos, Borba se viu sobre um prédio, centro de uma grande cidade. Que cidade!! Até onde sua vista alcançava, Borba podia ver blocos de prédios baixos, torres, pontes. De algum modo era um imagem familiar, mas havia tantas incongruências que ele não tinha mais certeza. Em todos os telhados que via, exaustores bojudos giravam lentamente, expulsando jatos de ar quente. Borba caminhou até a borda do telhado e olhou para baixo: na rua, quatro andares abaixo, veículos improváveis se deslocavam em quase total silêncio. Pareciam carroças e charretes, tílburis, trigas e quadrigas, apenas sem os animais. Pelo que Borba podia ver, eram veículos automotores, elegantemente pilotados por homens e mulheres em roupas vistosas e pesadas. As trigas e quadrigas eram nitidamente os carros mais comuns, conduzidas em pé por seus motoristas. Inclinando a cabeça, Borba viu que a rua que estava olhando desembocava em uma larga avenida, alguns quarteirões adiante, onde um número pouco maior de veículos emitia um sussurro grave. No cruzamento, um curioso arranjo de faixas luminosas azul e púrpura parecia funcionar como sinal de trânsito.

Borba ouviu um sibilar abafado vindo do alto. Olhou para cima e flagrou um imenso dirigível passando sobre o prédio, a poucas dezenas de metros de sua cabeça. Em forma de charuto, a aeronave devia ter uns duzentos metros de comprimento. Borba podia ver perfeitamente os pequenos rostos nas muitas janelas do zepelim. O corpo do dirigível era pintado de amarelo e preto e grandes ideogramas desconhecidos estampados a cada vinte metros. O gigante passou lentamente, sem que Borba pudesse identificar hélices, turbinas ou outro meio de propulsão. Ainda olhando para o céu, Borba percebeu cada vez mais encantado que havia vários dirigíveis em vôo, de diversos tamanhos. Mas havia coisas ainda mais estranhas naquele céu: discos de luz que pareciam estar na estratosfera iluminavam toda a cidade, refletindo-se nas águas dos canais e do que parecia ser o mar no horizonte. Em meio à fascinação pela esplêndida cidade, Borba começou a sentir um certo desconforto. Percebeu que estava com fome. Seu corpo de verbo era cada vez mais carne, e outras necessidades fisiológicas estavam começando a afligi-lo. No alto do prédio, começou a procurar uma saída, algo que se abrisse, um caminho para um banheiro, um chuveiro, uma cama, uma geladeira. Mas além dos exaustores metálicos, estreitos e perigosos demais, não havia nenhuma saída visível. Uma escada de incêndio, talvez? Borba deu então a volta completa no topo do edifício, olhando para baixo em cada um dos seis lados. Via apenas janelas sem parapeitos, paredes lisas e ruas, vinte metros abaixo. E se pulasse? Afinal, estava na Infosfera. Quantas vezes pulara em abismos simulados? Muitas. Mas nunca sentira fome, sede ou vontade de mijar no espaço virtual. Se seu corpo sentisse isso, bastaria retirar o pluge, esfregar os olhos, levantar e comer beber mijar. Aqui... o que aconteceria? Seus ossos e carne se espatifariam fractalmente na rua, espalhando miolos de pixels pelo

pavimento? Ele emitiria seu último suspiro em .wav ou .au? Estava com medo de tentar. - Pode pular, não há perigo. Borba se assustou com a voz grave quase dentro da sua cabeça. Era o monge Ricci, sentado ali na amurada, roendo uma maçã com seus dentes pequenos e escuros. Das doze mil perguntas que surgiram na mente de Borba, quase todas filosóficas, uma se acotovelou sobre as outras. - Me dá um pedaço dessa maçã? Estou morrendo de fome, Matteo... O monge sorriu e mostrou uma cesta de vime do seu lado. - Vamos fazer um pequeno lanche. Da cesta, Matteo tirou uma toalha xadrez, que esticou no chão, duas garrafas de bebida, pão, um presunto defumado, um queijo e várias maçãs. Arrumou tudo sobre a toalha, e Borba saltou sobre o arranjo, sem se preocupar com a educação. Por vários minutos, Borba se concentrou apenas na comida, engolindo grandes bocados de queijo e presunto, bebendo dois copos inteiros de um vinho excelente. Depois se acalmou, comeu um pouco de pão e duas maçãs, bebeu agora uns goles d’água. Quando ergueu a cabeça, viu o monge o observando com um sorriso. - Sente-se melhor? - E como... Borba imaginou que agora deveria ordenar as onze mil, novecentas e noventa e nove perguntas restantes em ordem de relevância. - O que é esse lugar, para começar? O monge guardou as coisas na cesta e então levantou-se, debruçou sobre a amurada, olhando para a cidade iluminada, com suas pontes e torres. Suspirou. - Borba, meu amigo, aqui é para onde seus amigos ciganos te mandaram. Archie considerou que aqui você acharia respostas para sua situação. Acredito, de certa forma, que ele estava certo. Venha, vamos descer.

Matteo pegou a mão de Borba e, sem avisar, saltou a amurada. Borba fechou os olhos, instintivamente. Mas os dois não se arrebentaram na rua. Quando Borba abriu os olhos, estavam na calçada. O trânsito, visto de perto, era mais interessante ainda. As trigas e aurigas eram veículos elegantes, suas laterais tinham painéis brilhantes, cujos motivos variam de veículo para veículo. Os condutores eram curiosos: figuras andróginas vestindo roupas leves e claras, alguns usando capacetes, outros turbantes cor de areia. O trânsito fluia em quase completo silêncio. Quando Matteo indicou a Borba para atravessarem a rua, o tráfego retardou-se suavemente, sem que nenhum veículo precisasse de fato brecar. Os dois seguiram pela calçada até a esquina da avenida que Borba vira do alto do prédio. Enquanto andava, Ricci começou a recitar. - Testar antes com modelos. Projeto e modelagem. A tecnologia -- e a arte -- de produzir modelos perfeitos de qualquer coisa já existem integralmente há mais de meio século. Tudo que possa vir a existir, de um encaixe de parafuso até as colheitas de tal variedade de grão, pode hoje ser modelado com perfeição. Na Infosfera, ou no início, nas pequenas porções particulares da Infosfera, qualquer projeto pode ser desenvolvido e testado em simulações, dramatizações hiperrealistas. Os cibercratas chamam esses modelos de infóides. Os infóides eram -- e são -- usados basicamente para exercitar as situações físicas sociais mais comuns da sociedade. Os governos usam boa parte da Rede para manter os infernos urbanos que você conhece -- no limite do suportável. Infelizmente funciona... Havia um efeito hipnótico na voz do monge. Borba começou a abstrair-se daquela que era a mais estranha situação da sua vida. Já conseguia ouvir um discurso sobre simulações sem ser agredido pelo fato de tanto o monge como ele eram simulações num

desconhecido universo simulado. E pensou horrorizado na monotonia chapada dos guetos estratificados e numerados de SanRio, o traçado de grelha tridimensional acomodando quase cem milhões de pessoas. Pensou nos colossais enganos sociais que estavam refletidos na idéia de cidade neste século. Como um relâmpago, surgiu em sua mente algo que havia visto na última noite na cidade, a caminho do aeroporto. O carro do Lab deslizava pela Linha Dez e Borba havia parado de revisar suas anotações e estava olhando as ruas do caminho. Dezenas de quilômetros construídos, em linha reta, em qualquer direção. Então notou que em quase todas as esquinas havia grandes caixotes de fibra ou papelão. Embalagens de grandes eletrodomeésticos. Kits familiares de descontaminação. A embalagem preta de uma poltrona Parker. Borba estava se entretendo, tentando adivinhar todas as marcas e modelos dessas embalagens enquanto o carro passava rapidamente por elas. Foi quando viu uma pessoa entrar em um dos caixotes. Virou o rosto e encontrou os olhos do motorista, que disse secamente. - ...e imaginar que todos esses coitados pagam para dormir nessas embalagens... Borba sentiu uma aguda pontada no estômago e a voz de Matteo voltou a ser audivel. - Mas, meu caro, o que você está vendo é outra coisa. Esses são os infóides indesejados, o refugos dos planejadores do mundo real. De alguma forma -- não por acaso, suspeito -- esses modelos descartados ficaram orbitando um atrator de Lorenz muito forte. No interior de algum processador DNA, caro e particular, os infóides proscritos acabaram sedimentando-se numa forma cada vez mais ordenada. Afinal, foram criados para serem impecáveis. Modelos bons demais para o povo pagador de impostos reunidos nessa utopia, florescendo, evoluindo. Tudo o que você vê, a cidade inteira, são modelos bem sucedidos demais. Dos edifícios até os

cidadãos, todas as especificações foram cumpridas e aprovadas -mas nunca aplicadas. Exercícios teóricos... Nesse momento chegaram a uma estação de monotrilho. - Vamos dar um passeio, disse o monge e entrou em um dos vagões. Borba percebeu que o vagão não estava nem cheio nem vazio; de fato, estava com uma ocupação perfeita: algumas pessoas sentadas, outras em pé, todas em posturas relaxadas. Borba sentouse ao lado de Matteo Ricci e percebeu que o assento era extremamente confortável -- o modo como as curvas se amoldavam às costas e ao traseiro. A disposição dos assentos dava ao vagão uma aparência de sala de estar -- muito agradável. O trem entrou em movimento e começou a ganhar velocidade. Borba estava extasiado. O traçado do trilho percorria blocos angulosos de prédios dispostos em meio a bosques e praças, estruturas que pareciam grande plantas industriais, cúpulas radiais que refletiam a luz e parques imensos. O trem deslizava silencioso, cruzando pontes suspensas sobre os canais que serpenteavam pela cidade. Borba viu que estavam saindo da área urbana. Matteo continuava falando, sua voz monocordia de velho missionário. - Longe dos olhos dos planejadores estúpidos, a cidade ideal cresce, harmoniza-se, até corrige a si mesma. Aquela construção e um bom exemplo. Borba olhou para a direção apontada pelo velho e viu algo muito estranho. No que parecia ser um “terreno baldio”, havia um arranha-céu com um boa centena de andares. Reluzindo em azul e roxo, com platôs e curvas -- uma forma de gosto duvidoso, mas bem impressionante. Mas Borba viu a torre começar a se desmanchar, dobrando sobre si mesma de um modo impossível para a matéria sólida. - Provavelmente, o arquivo desse prédio está sendo compactado -- para ser reformado, ou cancelado de vez. Ah, e ali está outra coisa interessante.

Borba olhou para o outro lado e viu o que parecia uma cogumelo azul de cem metros de diametro brotando do terreno. Enquanto olhava, as estruturas comecaram a se definir no cogumelo informe. Em um instante, tornou-se um domo envidraçado, erguendo-se sobre colunas de vinte metros. - Parece que esse centro de artes dramáticas foi finalmente aprovado. Pessoalmente, acho um pouco jetsons demais. Borba ia perguntar quem “finalmente aprovara” o prédio -que sim, era um pouco jetsons demais -- mas o trem estava parando em uma grande estação. Ao saírem do vagão, ele percebeu que os outros passageiros haviam simplesmente evaporado. Matteo voltou alguns passos ao perceber o olhar intrigado e murmurou - Modelos... Borba ficou olhando o trem sumir na linha do horizonte. Quando se voltou para perguntar para onde iam agora, notou que Matteo Ricci havia sumido mais uma vez, e mais uma vez ele estava desamparado na Infosfera. Chegou a pensar em alguns fatos sem importância enquanto olhava os trilhos que sumiam no horizonte, numa reverberação de dia quente. Resolveu começar uma longa caminhada pelo trilho. Pelo menos era uma trilha reta. Depois de alguns minutos de caminhada, ele se deparou finalmente com o final. O trilho acabava subitamente, sem deixar vestígios de qualquer continuidade. Ele concluiu que se voltasse, o trilho iria apresentar o mesmo comportamento: acabar no nada. Nada! Nada! Nada? Não! Borba lembrou-se do vislumbre que tivera de uma sequência de porta, durante a agonia que tinha sido o “engolimento” pelo cigano Archie. Conseguiria recuperar tudo? S:535453535767479737... Borba lembrou que ele alugava um pequeno PADk virtual na Infosfera, e que ele sempre ficava a mão,

ou seja, em um compartimento de sua jaqueta de tafetá numérico. Com um PADk à mão, ele poderia escrever algumas linhas e tentar montar um programa, um remendo que permitisse rastrear aquele número de porta, que alguém dificultosamente conseguiu lhe transmitir. Em meio a um deserto que parecia ser o deserto onde imperou Saladin, ele se acocorou, retirou o PADk e apertou o on. Olhou para a costumeira mistura de chiados e bitmaps que a pequena tela de cristal líquido apresentaria nos primeiros segundos. Mas os bitmaps cacograficos, ao invés de sumirem para dar lugar ao prompt, só faziam chiar, agudos. Pobre Borba! Estava em uma ducha de bitmaps grudentos, e isso tinha cara de ser uma coisa provocada! Ele ouviu uma risada. - Quem está aí? Uma voz em tom de triunfo respondeu. - Sou eu... Seu primo Trasíbulo. E não adianta mexer no seu PADk que eu estou usando uma rotina que impossibilita o uso dele. Aquilo não era possível! A configuração da Infosfera não poderia estar fazendo tamanha brincadeira de mau gosto. O primo Trasíbulo foi um trauma, um elemento muito negativo em sua vida. Ele pisava em pintinhos e fazia brincadeiras horrorosas com todas as crianças da rua. Além do mais, o primo Trasíbulo havia sumido há mais de cinco anos sem deixar vestígios. Seria aquela aparição uma falha de algum engrama de sua memória? - O que você quer comigo? O que está fazendo aqui? Um menino gordo, com a cara cheia de espinhas e cabelos oleosos, vestindo um conjunto safari surrado e horrendas botinas ortopédicas, surge na frente de Borba. - Ora, ora, ora. Mas esse não é o meu priminho Borba, tambem conhecido como... Vitelinha? A pronúncia daquele apelido de infância era um prenúncio do terror e um prurido do mal inocentado. Borba tentou manter a voz firme e indiferente.

- Fale logo, Trasíbulo. O que você está fazendo aqui? - Digamos que estou dando uma voltinha, a procura de um bom saco de pancada. A imagem de Trasíbulo tinha uma coloração indefinida, contornada por uma variação de pontos estocásticos e linhas duras. Era como se o Hergé houvesse feito o desenho de um vilão com pigmentos de terra roxa e um pincel de ideogramas. -Vai encher a vovó, Trasíbulo. Eu estou tendo sérios problemas. Sérios problemas! Entendeu? - Você é muito burro para não ter percebido que agora EU sou o problema. - Você? Não entendo... O primo recolheu um pigarro e disse. - Vou contar uma historinha: era uma vez um menino muito mau, que só pensava em coisas ruins [a planície se estendia por milhas até encontrar uma imensa formação de granito, com sedimentos embutidos de pedregulhos e ágatas. Era possível ver na porção sudeste da planície um conjunto de palmeiras e um pequeno riacho de água terrosa, já que as chuvas de monção eram frequentes naquela época do ano] aham, humm, hum, bosta de engenhoca. Ouça agora a MINHA historinha: Um dia, um anjo chamado Miguel, cansado de observar tantas maldades em um menino mal, surgiu em sua frente e disse: ´Menino, se você fizer mais uma maldade, vou fazer com que você fique bebendo água pura dos Alpes por toda a eternidade´. Aquilo realmente era uma ameaça séria, pior do que qualquer privação de sobremesa. Porém, o menino continuou com suas maldades. O anjo Miguel então foi obrigado a tomar uma providência. Mas o menino era muito esperto e, quando o anjo desceu à Terra, o menino abriu uma garrafa de EVIAN, e ficou tomando na frente do anjo. O anjo então disse: ´Não basta uma garrafinha de água... Você vai tomar um oceano infindo de água pura´. O menino responde: ´Mas eu já queria ir me acostumando´. O anjo surpreso pergunta: ´Não adianta me enganar, menino...´. O menino espera o anjo chegar mais perto

e cospe a água que tinha na boca no rosto do anjo. O anjo se liquefez, pois os anjos são, como dizem os místicos, seres líquidos que não podem entrar em contato com água. O menino ganhou a batalha, eh eh eh. Deixei-o com mais sede?”. Borba reconheceu a tenebrosa rotina de discursos interpolados por descrições detalhadas, e para tirar a dúvida, pergunta. - Ei, primo, me diga uma coisa, voce sumiu e foi dormir e comer aonde? - Vou contar uma historinha: era uma vez um menino muito mau, que só pensava em coisas ruins [em uma vereda de caminhos entrincados por brotões de flores que têm o estame em forma de cânulas, e que quando banhadas pelo sol a pino, adiquirem um tom verde-azulado que, apesar do reflexo contra, engolfa todos os sombreados com raiadas de fogos espraiados] anham, humm, diabo! Essa bosta de engenhoca que aqueles caras colocaram na minha cabeça... Às vezes acho que não vou falar nunca mais por mim mesmo... Mas como eu ia dizendo, meu primo idiota, você está em uma desvantagem gritante. Borba percebeu que aquela interpolação descritiva no meio do discurso de Trasíbulo não passou de uma evidência. "Estame em forma de cânula"? Isso é descritivo até as raias do absurdo. Hipótese: o primo entrou para uma seita de pertubados programadores que viam na representação eletrônica de imersão um insulto à verdadeira representação eletrônica -- a representação puramente textual. Hoje, graças ao projeto Júpiter, não são claros os motivos para uma luta interna ou para uma clivagem bruta entre realidade virtual por imersão e baseada em texto. Mas a seita, por ser uma seita, pregava com veêmencia que somente a descrição textual -- de preferência a mais detalhada possível -- poderia fazer com que as imagens pré-fabricadas deixassem de reinar na Infosfera. - Ah, seu puto!! Você entrou para a seita dos neo-descritivos, não foi?... Você enlouqueceu?

- Não, Vitelinha... Não enlouqueci... Eu só quero continuar fazendo minhas coisas, você sabe, esmigalhar o queixo de uma pessoa com um taco de “bets”, fazer ela precisar de uma prótese, eh eh eh, fazer isso e não ser castigado, não ser advertido, não ser morto, e ainda pagar pouco em troca. Borba considerou sua falta de sorte, ao estar em perigo nos dois universos, e esse perigo era muito mais sinistro que uma mera querela filosófica entre realistas e idealistas. - Mas, Trasíbulo... Você não tem compromissos com aquela seita? Quero dizer... Você precisa cumprir certas regras para poder circular na Infosfera com a senha deles. Como você consegue...? - Simples. Eles me fizeram um pequeno implante na minha nuca virtual: um neuro-transmissor artifical que faz com que toda minha fala venha interpolada com frases descritivas. As frases são patches que recodificam algumas linhas do programa de imersão no compartimento imediato. Mas quando eles querem fazer uma demonstração de força terrorista, lançam as famosas bombas de docuversos, que são programas que ligam bilhões de descrições espalhadas pela Infosfera. O único requerimento para entrar na seita dos neo-descritivos é interpolar descrições nos discursos pessoais e lançar uma bomba ou outra de vez em quando. Borba apreciava a representação eletrônica baseada em texto, mas não gostaria de perder a chance de visitar o Zenith e o Saco Preto do Zebu, lugares dentro da Infosfera reservados aos programas de modelagem virtual 3D por excelência. Trasíbulo se aproxima mais e diz. - Tem um pequeno detalhe: eu vou daqui a pouco lançar um docuverso que vai transformar todo esse deserto em um jôrro descritivo... Talvez fique mais difícil você fazer algum contato, eh eh eh, então não vamos perder tempo. Eu trouxe aqui um presentinho... Subitamente, Trasíbulo se transforma em uma espécie de bicho-papão, uma cruza entre Nosferatu e Michael Myer e diz com voz distorcida.

- Vitelinha, venha para o curraalllll! Vitelinhaaaaa! Venha para o curraalll! Borba vê que Trasíbulo segura um gancho de açougueiro. A ponta foi limada até o último angstron e brilhava com o sol -como algum sol, pelo menos. - Vamos ver o que acontece se eu enfiar esse gancho no seu olho? Se Borba perder seu corpo etéreo na Infosfera, seu salvamento no plano real seria prorrogado para sempre. Ele percebeu que seu PADk ainda estava ligado e, num relance, teve uma idéia que poderia custar sua vida. - Espere um pouco, Trasíbulo, antes de você me furar, quero que você lance o docuverso... Eu gostaria de morrer em um ambiente verbal... Eu adoro os ambientes verbais, e você sabe disso. O primo disse sádico. - Para mim não faz a mínima diferença, eh eh eh. Trasíbulo se concentra então, como se estivesse pronto para defecar. - Vou lhe contar uma historinha: era uma vez um menino muito mal, que só pensava em coisas ruins [row4;ifend;section72;segm49;endif;to;row5;ifend;section73;seg m50;endif...] Borba aproveitou essa brecha de Trasíbulo para conseguir o prompt e digitar um comando de interrupção de tarefas. Fazer interrupções naquela linguagem arcana era coisa de calejados, coisa para programadores experientes como Borba. O primo se calou imediatamente. O programa do docuverso havia quase se completado, e as bilhões de referências descritivas feneceram na boca de Trasíbulo logo após terem sido executadas. Seu rosto assumiu um tom muito escuro de roxo, como se ele estivesse segurando a respiração. A quantidade descritiva que foi interrompida em sua boca poderia

soterrar uma cidade com uma avalanche de frases descritivas. Sua cabeça explodiu; uma voz saiu de seu tronco decepado e disse. - Garoto esperto. Garoto esperto. Vou ter que refazer minha cabeça tudo de novo... Demorei dias para descrevê-la! O tronco se curvou para frente e cambaleou em direção ao sol. O corpo físico de Borba, desmaiado em meio ao nada, ainda tinha um resto de consciência, apesar de os dedos estarem imóveis há um grande tempo. O terminal interno estava ficando fosco, obrigando o uso de um tekminator reserva instalado no seu labirinto. O tekminator estava intimamente conectado com os pequenos teclados de um console virtual. Esse deserto em que estava na Infosfera foi muito bem programado, pois até a sensação de calor era convincente. Havia se livrado de Trasíbulo, aquele primo que tanto lhe importunou na infância, mas não havia se livrado dos inúmeros descaminhos até agora. Ele já deveria ter encontrado um portal certo para a base de dados há muito tempo. Quando estava pensando nisso, ouviu uma voz que vinha correndo em sua direção; uma voz lisa e pegajosa, como a couraça de um proteu. - Borba! Finalmente o encontrei! Você esteve andando outra vez com aquele monge maluco? Então aqui vai meu apelo: tenha santa paciência! Você não está percebendo a gravidade da sua situação? Pense bem: você nunca mais quer chegar em casa após um dia cheio de trabalho (não um trabalho tedioso, mas um trabalho que desepertasse incontrolavelmente seu interesse), tomar uma ducha quentinha, sentar numa poltrona e comer uma pizza de escarola? Depois... Deitar em uma cama quentinha e depois, uma mulher bem quentinha, com uma... Borba estava chegando ao paroxismo da irritação e do desgaste.

- Muito bem, proteu. O que você quer que eu faça? Para onde quer me levar? Para uma volta no bosque que não é! Mas o proteu mudou o tom de chofre. - Você precisa de um portal, não precisa? Precisa de alguém REAL que o conduza até o portal da salvação, e não um estúpido daemon como eu, não precisa? Pois eu posso oferecer isso a você. Só preciso um pouquinho de cooperação e boa vontade. Eu estou fazendo a minha parte... Não lembra do número do portal...? Aquilo foi obra minha. - Então aponte o portal logo e deixe de tergiversação! Por quê sempre que o sigo entro por descaminhos, desvios e encontro toda sorte de monstrengos? - Não sei... interferências na bandagem... Não sei. Só sei que você precisa me seguir exatamente para onde eu for. SEM ESCALAS! Borba começa a seguir o proteu em fila indiana. A vegetação era uma curiosa interpretação de uma caatinga, rasteira e espinhosa, mas com pinos e cabos coaxiais estilizados como folhas e galhos. Olhar para ela ressecava sua boca, apesar de ele saber que, internamente, aquelas plantas não tinham nada de ressecadas. Bromélias. Bromélias exuberantes de estofos espumados, com os filetes [...]. Que foi isso? Será que o docuverso de Trasíbulo foi detonado de alguma forma? Borba começou a perceber que precisava se concentrar agora mais do que nunca. Concentração. Concentração. Talvez se ele abrisse os olhos, ainda pudesse ver o proteu caminhando a sua frente. Ele abriu os olhos e viu que o proteu estava lá, correndo e gritando. - Vamos, vamos. O tempo urge! - Pelo amor de Deus, proteu! Para onde está me levando? O tom agora era de desespero. - Não pergunte, só me siga. As poucas descrições que o docuverso conseguiu produzir foram sumindo aos poucos, como as últimas manifestações de um

peixe morrendo fora d'agua. Se aquele docuverso tivesse realmente funcionado, ele já estaria caminhando por um oceano descritivo com gigantescas ondas de minúncias. Por quê não confiar no proteu? Os caveats do proteu tinham fundamento, e ele, se quisesse sobreviver, teria que acatar com cada um deles. Borba abria e fechava os olhos, que sofriam com os reflexos luminosos da paisagem. Pels estourados no toco, diria algum técnico de neTV. - Proteu, esse negócio não tem um botão de brilho? E esse calor é de foder! Borba viu que o réptil arremedou-lhe a cara de sofrimento e pôs a língua bifurcada para fora. - É ótimo para seres de sangue frio, meu querido mamífero... E continuou andando. Agora, a paisagem estava ficando pedregosa e parecia que estavam começando a subir. Borba lembrou-se de um livro de papel que lera, chamado “Realidade Virtual para Prazer e Negócios”. Que nome terrível, meus santos! Realidade virtual era uma coisa que pessoas idealizavam muito a respeito no século passado. Poucas daquelas promessas e profecias se cumpriram -- e pouquíssimas faziam referencia ao almoço gratuito. O infotenimento de alta qualidade desinformou demais as pessoas. Abriu-se então uma brecha para o que começara com teorias acadêmicas de educratas norteamericanos sobre uma neolítica rede de inteligência militar se converter... nisto. Neste “it”. E isto estava de maus bofes, piorando sensivelmente no decorrer do período. O calor, a trilha pedregosa que se inclinava, um guia que era um bicho feio, um lagarto albino que agora estava montado num modelito ultrapunk, cheio de adereços pontudos. E o desgraçado ainda cantava, ou resmungava, uma música cujo refrão terminava num “óóóóó” agudo.

O refrão era chato. O calor era chato. A caminhada era chata. Que porra!! Borba chacoalhava a cabeça, um tanto de histeria, pensando que aquela situação maravilhosa inédita extraordinária só estava conseguindo aborrecê-lo cada vez mais. Borba parou de repente. O que estava fazendo ali? Um frio na barriga e a cibernáusea o atingiu em vagalhões, um bode dos infernos. Ele ajoelhou-se na perfeita réplica de uma duna de areia fina. De joelhos na areia artificial, eis que nada era aquilo. E Borba sonhou, no meio daquele delírio de comum acordo. E o sonho era uma lembrança, uma vívida lembrança de uns dez anos antes. Era uma sala escura e abafada. Tinha umas mais de vinte pessoas sentadas lá, a maioria fumando tabaco. Era um encontro secreto, uma clandestinidade fajuta easy rider laid back. Umas meninas tossindo, uma risadinha. E os dois loucos. Os malditos, os professores. Ele e ela. Ele era o venerando Dr. Júlio, nosso segundo Nobel. As barbas longas e brancas, o terno antiquado e os sapatos folgados podiam ser reconhecidos até nos grafites mais vagabundos. Uns bebiam suas palavras como o maná. Outros o chamavam de fascista insensível -- pelas costas, claro. Ela era a Profa. Dra. Dorotéia Pereira. Esse encontro secreto era a aula deles. E eles pediram silêncio. Silêncio. Por favor, coloquem os plugues. E...
Um transatlântico. No meio do mar, mormaço e nevoeiro muito espesso. Sentia o leve movimento, uma calmaria. O navio vazio, vazio. Apesar do cheiro de maçã fresca e do charuto aceso neste camarote da segunda classe. Uns sons distantes, distorcidos, que foi seguindo até um imenso salão de festas, totalmente deserto. Os sons eram de uma canção antiga, um fox-trot tocado por uma big band de bonecos, como a do Dr. Phibes. Ali, uma porta para uma pequena sala, onde a neblina era quente. Algumas cadeiras estofadas, em semi-círculo ao redor de uma tela. Um velho projetor zumbia, e a imagem na tela era uma colagem de trechos de filmes conhecidos, na maioria comédias. Percebeu que estava vestindo apenas uma toalha úmida, que deixou cair. Olhou para baixo e viu gotas de suor escorrendo pelas pernas, caindo da ponta do prepúcio, dos pelos do saco. O filme era meio grotesco, as cenas se borravam, quase irreconhecíveis. E a big band começou a tocar

o Réquiem, umas vozes que vinham de todos os lados, gritando latim. Saiu dali para o convés, e começou a correr, sentindo-se refrescado por uma rajada fresca, um spray de água salgada. Chegou até a popa, olhou para baixo. O sol baço refletia-se sobre o mar coberto de sargaço, imensas algas cor de terra, que pareciam segurar o navio no lugar. Corredores, respiradouros, escadas brancas. Os olhos brilhantes da bóia de cavalinho, flutuando abandonada na piscina, cercada por dezenas de espreguiçadeiras vazias.

E a sala com cheiro de tabaco. Uma tosse. Absoluto silêncio por longos segundos, até que alguém explodiu porta afora, engasgando de náusea. Um Outro nem se preocupou em levantar para vomitar. Em instantes, a sala ficou quase vazia, como se uma campainha tivesse tocado. Os que ficaram. Ouviram ele e ela. - Funciona. - Mas não como queríamos. Ninguém se encontrou Lá. Foram todas tripes individuais, sem sincronia. - Mas em perfeita imersão! Uma vantagem expressiva sobre o ARL dos orientais. - Não, não estou nada satisfeita. Vamos encarar o fato de que não conseguimos multiplexar trinta emulações de REM sintetizadas -- só conseguimos jogar cada um no seu próprio naviofantasma. - Mas o sensorama é perfeito, minha cara. Vocês não acharam? Borba e uma meia dúzia de quatro balançaram a cabeça, ainda mudos de choque e perplexidade. - Claaaro que é... Testamos cada item. Até o suor escorrendo dos genitais, seu velho picareta! Tudo conduzido suavemente, macio, macio. E daí? Afetamos os estômagos sensíveis -- que nojo! -- e fornecemos um eletrobaque para os outros. Desculpem aí, gente... Sentia o calor e a náusea. E calafrios números gelados explodiam na sua cabeça populações rendas revoluções mecânicas

e quando concluíram que era mais barato construir estações em órbita usando RV e operários na Terra ora os pobres que bom que tudo se conservava perfeitamente no porco capitalista plutocrata universal abençoado e seu pai e seu irmão e até uma vez sua mãe entraram naquele grande salão com teto de plástico duas centenas de colchonotes de espuma papai vestia aquele escafandro elástico tão quente com uma cara impassível e profissional colocava a parte de baixo a parte de cima e as luvas e aqueles olhos sumiam debaixo do capacete preto quente pracaralho deitado no colchonete como tantos outros esperava um sinal um apito triste em dó menor e de repente todos começavam a mexer os pés e as mãos e cada uma das duzentas mímicas ridículas trágicas cretinas no calor tropical significava que um dos duzentos robôs lá longe no vácuo, bem acima da ionosfera, movia uma chave erguia uma viga apertava encaixes e rebites e meses depois montava uma imensa roda cheia de tubos a oitocentos quilômetros de altura no vácuo do espaço ninguém da minha família visitou qualquer estação mas eu sim porque com dez horas por dia papai pagou a faculdade a linha telefônica e ele conhecia umas pessoas que puderam ajudar. Uma cascata de lembranças engasgadas, de recusas, de coisas que um dia foram covardes, sensatas hoje. Borba experimentou e rejeitou muitas micropolíticas no campus. Entrou em umas quintacolunas apaixonantes, várias vezes usado por carreiristas que hoje são doutores respeitáveis... Tantas madrugadas jogadas fora com discussões sobre a sociedade -- sem mover uma palha por ela - e sexualidade -- para terminar batendo punhetas secas, vendo um pornografia de segunda. Borba tinha sido um “embrulho”. Entre os acadêmicos, “embrulho” era o termo para as pessoas que entravam na faculdade para cursar o curso. De acordo com a estupidez dos veteranos, os embrulhos eram uma categoria ampla: aqueles cus de ferro que já chegavam dirigindo um carro zero, aqueles que telecursavam em

casa -- longe, até quinhentos quilômetros -- pagando uma puta grana pelos exames criptografados. E aqueles -- como Borba -- que tinham as fichas contadinhas e que sabiam perfeitamente quanto cada ftp de física ou antropografia custava para o papai. Um pardo anônimo, que só contava com um terminal padrão e a bolsa parcial da Bell-SanRio. O passado se transformou em um vaporware -- era mesmo um vapor fétido de tristeza -- e Borba sentiu um dedo molenga cutucar seu ombro. - Borba! Acorde! Você não pode esmorecer agora! Realmente, havia sonhado, e isto era como sonhar dentro de um sonho. - Estamos quase chegando! Se você me seguir diretinho, não vai ter mais alucinações. O proteu mais uma vez enfiou seu belo Phillip Patek no bolso do colete e saiu correndo em direção ao que parecia ser um parque de diversões de um filme trash. Após ter virado a esquina da roda-gigante, o proteu entrou em uma dependência chamada Câmara das Maravilhas. Mais problemas ilusórios? Por quê o proteu insistia em pegar os atalhos mais complicados? Borba notou que a placa onde estava escrito “Câmara das Maravilhas” encobria um outra placa. Ele conseguiu deslocar a placa mais para frente e leu a palavra Wunderkammer entalhada na madeira da placa de baixo. Aquela referência em alemão por si só era assustadora, algo como ver os bonecos de cera da Madame Tusseau mexerem os olhos. De qualquer forma, entrou. Na ante-câmara, havia uma enorme pintura representando deuses nórdicos caricaturizados, e era como se Chuck Jones tivesse pintado todos os personagens do Anel dos Nibelungos por cima dos afrescos da capela Sistina. Ele se adiantou mais para o interior da câmara. - Proteu! Proteu! Você está aí? Está me ouvindo?? Ouviu em seguida uma voz rouca vindo da sala posterior.

- Proteu? Quem é proteu? Borba foi em direção à voz e encontrou um soldado do velho mundo prussiano ao lado de um portal. - Quem é você? Onde está o proteu? - Não sei quem é proteu. Não vejo vivalma a muito tempo. Borba insistiu na identificação. - Sou o guardião dos aforismos de Wittgenstein. Borba não podia acreditar no que estava acontecendo. Sentiu mais uma vez uma mensagem do seu sistema nervoso central indicando que seu corpo físico estava prestes a ter uma isquemia. - Mas como pode ser isso? O proteu havia me prometido que não haveria mais alucinações. - Alucinações? O que é isso? Borba lembrou que um soldado vestido com um uniforme do antigo exército prusiano realmente não poderia saber das pregações de Ken Kesey, da filosofia dos travellers, dongas e neo-hippies. Precisava ter presença de espírito agora e tentar falar na língua do soldado prussiano. - O que significam aquelas pinturas na ante-câmara? - Aquelas pinturas? Ahh. São os deuses do racionalismo lógico. Eles podem ser invocados para se sair daqui. - Sair daqui?? Qual é a dificuldade de sair daqui? - Bem. A dificuldade é que para sair daqui, a pessoa tem que encontrar uma solução para uma equação montada com todos os aforismos do “Tractatus Logico-Philosophicus” de Wittgenstein. - O quê? Mas isso é impossível! O “Tractatus LogicoPhilosophicus” tem muitos aforsimos! O guardião abaixou a cabeça em um gesto derrotista e disse. - Eu fui um que não conseguiu. Para dizer bem a verdade, eu sou o único que tentou e não conseguiu. Por isso resolvi me tornar o guardião dos aforismos e ficar por aqui mesmo. Borba começou a ter uma pequena vertigem. O guardião ofereceu uma chance.

- Quer tentar? Se você souber a proposição de cada aforismo fica mais fácil. Você vai reparar que os aforismos estão chaveados. Há números irracionais que vão ter de serem induzidos também. Não havia escolha. - Está certo. Vou tentar. O guardião abriu o enorme portal de ferro e Borba entrou. O portal se fechou. Tudo estava na mais absoluta escuridão e pela primeira vez, Borba sentiu um medo real na Infosfera. - Guardião! Guardião! Mudei de idéia! Não houve resposta. A câmara foi aos poucos sendo iluminada por uma luz abstrata. Borba começou a ver o que tinha pela frente. Ele estava flutuando em uma sala esférica com gravidade zero. As paredes (se é que aquilo podia ser chamado de paredes) estavam completamente preenchidas com a numeração completa dos aforismos de Wittgenstein formando uma gigantesca equação aparentemente sem sentido. {2.024}.x {5.46} - y {4.1221} +xy {6.36111}.x+y ... Aquela tarefa era impossível. Não valia a pena nem tentar. Pela primeira vez, Borba começou a chorar e chamar pelo proteu. Quando abriu os olhos viu um adolescente maranhense vestindo uma calça e jaqueta de couro e óculos escuros. Ele estava com os pés descalços e tinha a pele muito queimada de sol. - Quem é você? Você também entrou na emboscada da Câmara das Maravilhas? O jovem soltou uma gargalhada e Borba notou que ele tinha um piercing na língua. - Não! Não costumo cair nestas ciladas... Permita-me me apresentar. Sou Haqr de Miritiba. Estava fuçando uns arquivos aqui perto e ouvi seu choro. Você quer muito sair daqui, não é? Borba começou a acreditar que os deuses nórdicos haviam escutado suas preces, pois um programador de primeira grandeza havia corrido em seu auxílio.

- Como eu faço para sair daqui, pelo amor de Deus? Não vou conseguir usar meus recursos aqui. Meu PADk não vai conseguir quebrar esse código. Somente vários processadores turbo ligados em paralelo... Haqr de Miritiba disse com toda a calma do mundo. - Não se preocupe. Eu tenho um pointer que pode localizar alguns aforismos de grande utilidade aqui dentro. - Como assim? - Você alguma vez já foi escoteiro? Lembra de como eles se orientam dentro das florestas, arranjando pedrinhas e galhos e formando indicadores e símbolos para não se perderem? - Sim... Já ouvi falar disso. Mas o que esses aforismos de Wittgenstein tem a ver com os escoteiros? - Em muitos dos aforismos há referências gráficas, como o cubo duplo, etc. Eu posso retirar deles uma indicação de como sair daqui. Veja... Haqr de Miritiba tirou o que parecia ser uma pequena pistola de laser do bolso de sua jaqueta de couro e apontou em várias direções da esfera. Subitamente, surgiu na frente dos dois, como se fosse um holograma, dois desenhos:

---- o----------x--x----------o ----

<-----------------------------------> >----------------------------------<
Aquilo não significava nada a primeira vista. - O que é isso, Haqr?? Esses desenhos estão indicando para qual direção?

- Notou como meu pointer é eficiente? Deixe-me ver o que diz aqui... Haqr de Miritiba olhou um pequeno LED em cima da pistola. - Hummm. O primeiro desenho diz respeito a uma teoria de Kant sobre a impossibilidade de colocar a mão esquerda sobre a direita indefinidamente... Foi tirada do aforismo 4.766. E o segundo... O segundo... Borba notou que a expressão do adolescente ficou um pouco pálida e mais sombria. - O que significa o segundo desenho? - O segundo desenho não é um aforismo... Não sei como veio parar aqui... Meu LED diz que são as setas ilusórias de MüllerLyer. A seta de baixo parece maior que a de cima mas o comprimento de ambas é exatamente igual... Não é um aforismo de Wittgenstein. É uma cilada preparada pelos meus inimigos... Houve algum problema hexadecimal... Merda! - Mas, Haqr... Como eu vou sair daqui usando esses desenhos...? Borba viu a voz e a imagem do adolescente sumirem gradualmente na sua frente, como se fossem teletransportadas para algum recôndito perdido da Infosfera. - Merdaaaaaaaa... Desconsolado com tamanha falta de sorte, Borba reparou que uma lágrima estava flutuando em sua frente. Fechou os olhos e abandonou toda a vontade de viver. Talvez fosse melhor mesmo morrer. E ele estava tendo uma morte digna, como quando morremos dormindo. Como que por um milagre, quando abriu os olhos, estava de novo no descampado textual, no exato local onde começou sua peregrinação. As alfazemas textuais balnçavam com a brisa. O proteu estava sentado de pernas cruzadas na sua frente. - Acorde, Borba! Tenho boas notícias. Consegui encontrar mais alguns números do nicho da Caçadora na noosfera. Quer ver? O proteu começou a recitar de cor e salteado.

server.loging S:535453535767479737 S:8786895094886878687870 S:535453235768479567 S:8786895093886838637578 S:533353533767579737 S:8786395094883878687878 S:535453535767479736 S:8783395094886878687578 O proteu olhou para Borba e disse. - Mas como é mesmo a última linha?? Lembrei. S:535453535767479736 S:8783395094886878687578 Neste instante, ouviu-se um clique e a portinhola de um túnel se abriu. Um sarnento ossudo saiu de lá e do nada “berrou” em seu latido. - QUIS, QUID, UBI, QUIBUS AUXILIS CUR, QOUMODO, QUANDO? O grande sabugo preto se assomou ao lado deles e trovejou novamente. - QUIS, QUID, UBI, QUIBUS AUXILIS CUR, QOUMODO, QUANDO? Um cão imenso, com olhos de brasa, couro negro sobre ossos. E riu uma gargalhada canina, muitos dentes alvos e úmidos. Pernas de girafa incandescente e costelas que tremiam. Borba e o proteu entreolharam-se. Borba sentiu o estômago embrulhar -- o que o fez recobrar o controle instantaneamente, tamanha a surpresa diante de um estômago embrulhado naquela situação de artifício malsão, ambiente totalmente feito de verbo. Com a mão na barriga, Borba olhou para o cão modificado, o esquema de canino. Achou que as feições do bicho lembravam Theodore Kaczynski. Dez anos em cana. Dizem que era inocente. - NESCIT VOX MISSA REVERTI... E a cara-de-cão abriu-se em sorriso, doçura na fealdade. O proteu sussurrou.

- Borba, acho que chegamos onde você queria, afinal. Esse animal é d’Ela... Borba olhou para o túnel e viu sair de lá uma mulher muito magra, quase waif, porém muito bonita; e viu ela se aproximar daquela trupe de dois. A ruiva tinha os cabelos muito lisos e usava uma espécie de relógio-computador nos pulsos. - Rexx! Venha cá! Vem Rexx! Vem! O cão dos infernos parou seu rosnar latinado e foi lamber a mão de sua dona. O proteu quis fazer as honras. - Finalmente você encontrou sua salvadora, Borba. Você se perdeu várias vezes neste caminho, mas conseguiu chegar são e salvo ao seu destino. O que não seria de você sem mim? Hein? O corpo de Borba, tecnicamente morto dentro da caverna, não tinha muita certeza disso. - Caçadora! Você é real? Apenas me diga isso. - Sim, Borba. Sou real. - Tenho alguma chance de sair dessa, minha amiga? - Não. A resposta negativa e direta não era muito apropriada naquele momento. Uma resposta adequada, principalmente se for dirigida a um ente querido em dificuldades mortais, deveria ser uma que não deixasse transparecer a fatalidade iminente. - Não??? Quer dizer que eu vou morrer? - Você já está morto, meu amigo. Qual o drama? Quando perdemos algum membro do corpo em um acidente não sentimos nenhuma dor no momento. Borba havia perdido a vida e a sentiu como se fosse um membro recém amputado. - Hum. Não sei ainda. Preciso me acostumar com essa idéia. Eu achava que morrer era como cair em um buraco negro infinito, sem ter a sensação de queda e ouvindo o silêncio a infinitos milhões de decibéis. Pelo jeito eu estava enganado.

- Em uma primeira etapa da morte, você é assediado por imagens. Você devia saber disso. Ainda não entendi seu receio. Para Borba, a Caçadora estava transmitindo uma enorme segurança. Uma exagerada e suspeita segurança. - Bem... Então o que você está fazendo aqui, amiga? Não acha que a sétima cavalaria chegou tarde demais? Já sei! Está aqui para me confortar... Para rezar minha extrema unção? - Não exatamente. Borba olhou para o proteu, que fez um gesto com os ombros um gesto de desconhecimento do que estava acontecendo. Mesmo assim abordou insolentemente a Caçadora. - Caçadora? Pensei que você tinha me delegado a tarefa de encaminhar este pobre homem até um porto seguro... Em um gesto brusco, a Caçadora digitou algo em seu pulso e o proteu simplesmente sumiu. - Malditos bots! Sempre dando opinões sem serem requisitados. E ainda por cima, usam clichês. Imperdoável. Borba, apesar de morto, sentiu uma ponta de medo. Seria seu primo Trasíbulo fantasiado de Caçadora? - Quem é você? A Caçadora nunca falaria deste jeito com um bot. - Sou a Caçadora de sempre. Aquela que o salvou do incêndio em SimFrisco causada pela vaca louca dos O’Leary. Eu fui a que o salvou de um ataque de dumping e do vírus RINGO. Quantas vezes jogamos Wordtris em locações ilegais? Mil quinhentas e setenta e quatro vezes, para ser exata. Aquelas informações comprovavam a legitimidade da Caçadora. Só faltava ela dizer alguma de suas senhas. - E sua senha no Servidor da universidade, no verão de 45, era “rUmplEstiLtskiN”. Borba foi às lágrimas e disse resignado. - Caçadora! Estou morto! Não conseguimos montar a logística de um resgate. Fracassamos, Caçadora. Fracassamos. - Não, Borba. Não fracassamos. Vencemos.

- Como?! A Caçadora fez um pequeno suspense e disse. - Estamos no Céu. Você fez sua viagem do inferno ao paraíso, passando pelo purgatório. Borba estava extasiado com esta possibilidade. - Caçadora... Eu te amo. - Eu semprei te salvei porque sempre te amei, Borba. O antropólogo morto, ou o que restava de sua alma, correu em direção à Caçadora, embevecido pelos ares celestiais desta proposição. Sinos, anjos hermafroditas, halos de pureza infinita, mobílias feitas com pedaços de nuvens. O Céu não poderia ser um mal lugar. Quando os dois ficaram mais próximos, prestes a darem o grande amplexo da morte, Rexx, o cachorro dos infernos, rosnou, e aquele rosnar não era mais modulado na forma de uma retórica em latim, pois era mais o rosnar de um pastor alemão raivoso. O cão correu em direção à Borba, abocanhou sua mão e rasgou o tendão do seu pulso. - Iaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarghh! O cachorro era agora um rotweiller, que abriu sua bocarra para morder o ventre de Borba. Neste momento, a Caçadora inteferiu. - Rexx! QUIETO! PARA TRÁS! PARA TRÁS! Cachorro idiota! Não era a hora! Eu já estava com a alma dele nas minhas mãos. PARA TRÁS! Cachorro maldito! O cachorro dos infernos obedeceu instantaneamente. Borba estava chocado com o ocorrido. Estava mais chocado com a dor que começou a radiar de sua mão. Ele percebeu que ainda não estava inteiramente morto. - Mas? Mas...? Rexx rosnou e a Caçadora disse. - Surpreso com o ataque do cachorro? Não chore, Borba Altamiro. Não chore. Sua tese sobre a dominação global através da

saturação da mídia, chamada “Os Répteis do Etrusco Habanero e a Função das Repetidoras de TV à Cabo FLAG”, vai estar em boas mãos. Mais cedo ou mais tarde. Borba se alinhou em meio à dor horrível. - O quê? Como assim? Vai estar nas mãos de quem? - Mad Dorothy, é claro. - E você concorda com isso? - Como não poderia deixar de concordar? Fui eu quem deu a idéia. Borba correu em direção à Caçadora, com os punhos fechados. Rexx emitiu um grunhido. - Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!! Borba parou como um pêndulo fora de prumo e disse ofegante de ódio. - O que você está levando com isso, Caçadora? Neste momento, a Caçadora rodopiou no ar e começou a dar uns passos de balé enquanto falava. - Primeiro eu criei um falso guia. Depois, emprestei várias camadas preenchidas por cenários de games e os povoei com alguns personagens tacanhos. Para completar, consegui prender a Caçadora em uma rede Ethernet sem portas. Agora vou publicar a tese de Borba Altamiro como se fosse minha! Sou gênio. Sou elite. Sou super. Borba notou que alguns circuitos do tasquistoscópio que estava transmitindo a imagem da Caçadora começaram a falhar, devido ao excesso de excitação. As pernas delgadas da Caçadora se transformaram em pernas cheias de varizes de bichos geográficos. O quadril violão, em uma cintura de gordura sebosa e os seios pequenos em um monte de geléia. O nariz afilado e os óculos quadrados de Dorotéia Pereira surgiram com a força total de um reagente destrutivo. - Você não é a Caçadora... - Excelente observação, Morto Altamiro.

- Tudo isso por minha tese? Toda esta história de proteu, meus contatos com os cientistas do departamento de biologia, minha viagem às cavernas na chapada, os números daquele servidor? Bem que eu vi seus olhos naquela sessão do sensorama, com o Dr. Julio. Seus olhos eram de uma pessoa doente. Mad Dorothy confirmou e disse. - Digamos que meu problema com você é mais complexo. Suas idéias sobre direitos autorais não têm mais lugar no campus. Eu não suporto estes moleques paladinos que lutam contra a usurpação de conceitos e originalidades alheias. Me dá nojo. Tudo já foi criado, meu caro Morto Altamiro. Nosso papel, como acadêmicos que somos, é apenas rearranjar as cartas do baralho da cultura. Não há como lutar contra a corrente do plágio e das apropriações. É inútil. Absolutamente inútil... Dorotéia Pereira fez um discurso emocionado para a banca, ao apresentar sua magnífica tese. Em seu discurso, a laureada comoveu os mais empedernidos discentes ao lembrar de seu assistente, que desaparecera nas cavernas do planalto. Falou da origem humilde do jovem pesquisador, falou de sua imensa curiosidade sobre as novas áreas de pesquisa. Com os olhos úmidos, concluiu dizendo que Borba Altamiro teria sido um grande cientista, se ao menos tivesse tido tempo... Nas cavernas do planalto. Gotas de verdade caem calcareamente sobre montículos salinos. Um leve cheiro de carbureto, leve. Uma brisa mistura os odores de sal com uma decomposição quase perfeita... As falanges descarnadas, os trodos desfeitos pelo tempo. Nos ossos do tórax, um rápido movimento. A gaiola branca é um bom refúgio para um lagarto tímido.

FINIS