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VISTARMADA Guilherme Kujawski "Meu nome é Vassão.

Sou mendigo por opção, comissário, almoxarife, e historiador oficial do chefe dos mendigos escritores. Tenho a incumbência de seguir todos os ensinamentos da gata Xabila e narrar os altos feitos, atos e gestos do grão-mestre Raimundo. Tenho motivos para acreditar que nem a minha própria morte pode impedir a conclusão dessa história e espero, ao menos, concluí-la a tempo (ou a contratempo) de ser impressa nos muros da Capital. Agradeço especialmente ao açougueiro Wirmundo, por ter aberto seu coração para comigo". A título de comemoração, os dois brasiis reataram seus laços afetivos e geográficos no primeiro Ano Geofísico, o novo calendário criado em homenagem aos países signatários do Tratado de Comércio Mundial – uma liga comercial inspirada na Liga Hanseática dos antigos magraves alemães – que tinha como função proteger o comércio de objetos de luxo entre os três países mais ricos: Estados Unidos do Norte, o Novo Império Frísio e o Reino Brasílico. Mas como os acordos comerciais eram votados em bloco, garantindo sempre a vitória dos dois blocos setentrionais, a circulação de quinquilharias de luxo estava garantida apenas para as nações acima da linha do equador. Os governantes dos países dominantes não eram reconhecidos por terem resolvido com uma equação de Gini os graves problemas de distribuição da renda mundial, mas por terem solucionado graves problemas de degradação ambiental do planeta, principalmente na Nação do Congo e no Reino Brasílico, os maiores poluentes e donos de uma frota de trilhões de carros sem catalisadores. O Grupo dos Dois investiu muito

dinheiro na construção de estações orbitais de regeneração aeróbia sobre vários paralelos da Terra. Na verdade, a poluição não era o pior problema do Reino Brasílico, e sim empacar quando as leis naturais mandavam correr de um enxame de abelhas assassinas. As leis da natureza sempre foram rígidas: para cada solução, surgem três novos problemas. Um dos ditados mais famosos na época era: "Quando a História consegue estancar a hemorragia, a Natureza passa a não talhar mais o leite". Assim os dois brasiis receberam mais oxigênio, mas não necessariamente mais saúde. Novas doenças surgiram e outras tantas velhas entraram em reprise. Infelizmente, o Grupo dos Dois soube tarde demais que a correção de um excesso não deveria ser ditada pelo reconhecimento de uma falta cometida, e sim pela tomada premeditada da consciência. A soberba do bloco dominante, potencializada pelo poderio militar, sofreu uma grande derrota no XV Congresso da Gramática Universal. Os oficiais lexicógrafos brasílicos, munidos apenas com exemplos do vernáculo, conseguiram convencer os lexicógrafos do Grupo dos Dois que a língua sagrada de Adão era uma língua semelhante ao português brasílico. "Se Deus é brasileiro, então Ele fala o português brasílico", era um dos argumentos irrefutáveis dos advogados gramaticais. Como o português corrente era formado, maioritariamente, por nomes e pronomes indígenas, uma das línguas do tronco Macro-Jê foi eleita, naquele mesmo congresso, a língua primogênita da humanidade. Os lingüistas do Reino Brasílico chegaram ao cúmulo de testar e provar que, se uma criança fosse criada longe da sociedade, sem a possibilidade de aprender uma língua natural, ela passaria a falar, quando a idade permitisse e graças a uma disposição inata, uma língua muito semelhante ao Quiriri, extinta há séculos atrás.

Foi assim que o português brasílico se tornou, para o deleite do Partido, a língua franca do mundo. Mas apesar do êxitos triunfantes no exterior, as boas intenções do governo brasílico no interior não chegavam a complementar uma ação qualquer. Por exemplo: a união temporária dos separatistas, firmada através de um pacto legalista entre os dois brasiis, foi politicamente inescusável, pois o Partido havia conseguido a façanha de erradicar a miséria com um infalível plano qüinqüenal de direita. Mas no plano moral, o governo brasílico não havia conseguido diferenciar os crimes legais dos ilegais. A política pura do Partido era exercida na grande Capital, referida sempre como a Cidade do Sol, ou como queriam seus governantes, a Cidade da Vitória. Mas Cidade do Sol era uma atribuição mais justa, pois os cartões postais mais famosos eram os que estampavam fotos de jovens gazeteiros expondo crânios tonsurados ao sol do meio-dia. Após o meio-dia, a maioria da população da cidade se deitava nos bancos de pedra espalhados ao redor da Praça do Relógio como jacarés (algumas fotos mostravam o LED de temperatura do relógio indicando cinqüenta e um graus Celsius). O calor escaldante aumentava a circulação dos vasos sangüíneos, o ritmo dos pensamentos nulos e fazia as pessoas esquecerem que a vida é uma luta constante contra a força g. Mas se fosse possível reunir todos os frutos daquela engenharia reversa mental num sumário da Sociedade Neurológica, não haveria material suficiente para editar um pequeno Livro de Instrução da Vida Diária. A alienação política da maioria dos cidadãos brasileiros tinha uma explicação: os três poderes consagrados, assim como os dois grandes blocos territoriais, haviam se divorciado em razão da cisma entre os tespianos da representação legislativa e uma parcela de incomodados com a ausência do Estado de Direito no Estado de Bem-Estar Total. E reclamavam com direito, pois os tespianos da representação jurídica também defendiam que

todos não são iguais perante a lei, pois a lei importa a uns e não a outros (o que era muito mais ousado que afirmar que "todos são iguais, mais uns são mais iguais do que os outros"). Portanto, era praticamente impossível a letra da lei agradar a uma das partes contrárias, mesmo que a disputa em questão não estivesse sendo travada entre a pessoa física de um grego e a pessoa física de um troiano. A vida social, cívica e política dos dois brasiis havia se especializado em aprimorar técnicas de imobilidade e isolamento social. Os historiadores também buscavam explicações para o atual estado de coisas. Segundo fontes confiáveis, a divisão da pátria inzoneira ocorreu em algum ponto após a queda da Décima República, no momento em que o corpo social parecia um vulto magro com a coluna vertebral fraturada, cujo castigo divino era ficar correndo eternamente atrás de uma formação de aves migradoras perdidas. A história ensinou que grandes mudanças políticas sempre implicaram em grandes mudanças da inteligência moral. Esta tese podia se materializar no riso de um cidadão avulso da Capital, um riso que, por sua qualidade nervosa, não era mais livremente associado a uma provável estabilidade financeira, ou a uma possível conquista amorosa; era associado a um grande choque moral; ou ao choque elétrico de uma contradição, um oxímoro urbano, como ouvir a doce melodia de um saltério saindo das caixas de som de um automóvel capotado. Depois da era das guerras, da morte das ruas e da elevação do complexo rodoviário urbano, os automóveis... Os automóveis. Uma leve tendência gnóstica pairava no ar do Reino Brasílico. Com a sede de uma hidra, apóstolos de plantão espalhavam livros de vivências aos quatro ventos e cantos do território nacional. Por sua vez, a classe inconformada com a administração de concessões acreditava que o corpo humano

era apenas um agente etéreo, um estabilizador ligado diretamente a uma fonte de energia suprema situada no reino de Pleroma, morada do Hierofante Jesus. Pelo menos era assim que pensava a liderança do grupo rebelde de mendigos escritores, que contra-atacava a falsa tolerância zero do Estado com zero de comportamento (eles costumavam pendurar em suas carroças placas com o escrito: "Cuidado! Cão Anti-Social"). A maior missão dos seres humanos na Terra, pregavam, era encontrar a sombra de um mundo num mundo podre e corrompido, ou seja, num mundo onde as enfermidades decorrem de lapsos na comunicação entre o sistema nervoso central e as demais partes do corpo, entre o Corpo de Sujidade e o Corpo de Luz. Já para as classes governantes – cuja política era distribuir à população futura mercadoria de ferro-velho – o corpo não passava de uma obra de arte do Museu do Crime. Uma guerra de culturas também pairava sobre o gênio do povo brasílico. O grupo que tomou o poder formou uma coalizão provisória e um Partido único, e justificava os piores arbítrios políticos com o argumento da salvação da flor do Lácio. Os dirigentes da nação haviam se aproveitado das inconsistências bairristas e dos desequilíbrios entre dinheiro, poder e cultura para fincar seu cetro no centro de um conglomerado de cidades satélites que, como uma gangrena urbana, ocupavam uma considerável fatia da região Sudeste da América do Sul e uma parte dos mandacarus do Nordeste. A megalópole, reflexo da tese nacional socialista que valoriza as ruínas em nome de gerações vindouras, movimentou suas trôpegas pernas geodésicas e se ergueu envolta em brumas sobre o espigão da antiga cidade de São Paulo. Após a tomada do poder, o Partido demoliu uma cidade caótica e construiu em seu lugar uma cidade nova, totalmente baseada nos sonhos planificados de um antigo prefeito local, que muito tratou com interventores e

racionalistas. Desta forma, segundo o atual plano diretor do Partido – concebido por um grupo de arquitetos oficiais num jogo digital de simulação de cidades – foi construído, inicialmente, o Perímetro Central, também chamado de "Perímetro de Irradiação" (um triângulo construído sobre os antigos vale do Anhangabaú e rio Tamanduateí), de onde partiam simetricamente as marolas radioconcêntricas de largas avenidas rumo às bordas do campo. O plano de avenidas, que havia riscado ordenadamente o mapa da cidade-estado como um bicho geográfico, eliminou qualquer possibilidade de congestionamento através do conceito clássico de "carros de um lado, pedestres do outro". O Perímetro Central – uma reconhecida obra de arte da engenharia de trânsito – e as Operações Interligadas do plano diretor concluíram magistralmente o debate filosófico entre os detratores da cidade e os defensores do campo. Esse modelo urbano, na visão de olho de pássaro, parecia uma roda de carroça em alta rotação. Pontilhando a cidade andarilha, destacavam-se as pitorescas obras faraônicas patrocinadas pelo Partido, como os colossais pilones das cabeceiras do Rio Vermelho e as torres do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Além daquelas construções, os verdadeiros ícones da sociedade moderna eram as ciclovias, guindastes, antenas retransmissoras, chaminés de fábricas abandonadas, tramelas de cooperativas e esquadrias de janelas coloniais. Os ícones eram rematados com elementos de superfluidade: colunatas dóricas, macieiras em torno de capitólios, fachadas art déco nas áreas limítrofes, conchas acústicas em centro de praças, aquascapes, reproduções perfeitas das colunas triunfais de Ramos de Azevedo, cemitérios em forma de terraços, praças de alimentação no alto de antenas de TV e o "Sistema Y", o sistema viário de evacuação rodoviária. E com relação aos poucos projetos de transportes alternativos, havia as balsas biônicas (parecidas com bateaux-mouches) que

navegavam lerdos pelas avenidas fluviais do rio Pinheiros e do Tietê, assustando as garças deselegantes das várzeas. O quadro político e social dos dois brasiis era bem definido e sua população podia ser separada em duas grandes fatias: de um lado, ou seja, da metade do topo da pirâmide para cima, vivia a casta tipo A: uma classe formada por farmacêuticos indígenas, cartolas esportivos, empresários automotivos e notórios Chefes de Estado do Partido; e, neste mesmo patamar, estava inserida a casta tipo B – formada por servidores públicos, funcionários do Partido e simpatizantes autenticados. A geometria do outro lado da pirâmide era um pouco mais complexa e contrariava a matemática dos compartimentos, pois no restante da área – da base do ínfimo topo à base geral da figura – estava enquadrada a casta tipo C, uma imensa massa crítica de rebeldes sem causa, camelôs, indigentes super-humanos, perdedores compulsivos, bêbados por ideologia, altistas drogados, pregadores da Igreja Quadrangular, da Igreja dos Gideões, semempresas, sem-computadores, sem-intelecto, pedintes clássicos e, principalmente, os mendigos escritores, os maníacos de rua que estavam em voga. Para o Partido, a pirâmide de classificação social era um bloco único de rocha monolítica aninhada no fulcro da Terra, o que tornava injustificável – e intolerável – a dissidência pura e simples da casta tipo C. A recusa do provimento – pregavam delirantes os mendigos escritores em estado de necessidade voluntária – era aceitar a anulação do improvável e a manutenção da morte súbita. Os rebeldes não se conformavam com o excesso de boas intenções infernais do Estado e, para não morrerem calados, resolveram abrir mão do direito vitalício de "reter" (o direito de "ter" havia sido revogado no início do segundo milênio). Havia também os socialmente indefinidos, tratados como Judas Iscariote por alguns prelados da Igreja dos Novos Deões, que eram reconhecidos na rua pelos seus brincos com miniaturas de

flechas, âncoras e chicotes, e eram a última esperança do que havia sobrado da Igreja Católica após o Concílio de Trento. Já o "povo oculto", por exemplo, era um grupo indefinido por natureza. A maneira de fazer política do Partido era considerada por muitos analistas estrangeiros como criptofascista, devido às manifestações culturais de cunho imperativo que não passavam de declaradas demonstrações de força bruta e falta de compromisso com o essencial ("A pobreza é problema do Estado? Então o Estado não sou Eu"). O povo, sempre mobilizado pelo Partido para promover um espírito cívico distorcido, eventualmente era acuado e intimado a presenciar vários eventos, ou como queria o poder central, "eventos prontificados". Recentemente, aconteceram dois deles: o primeiro, de natureza propagandista, foi uma parada folclórica em que milhares de crianças órfãs conseguiram impingir a comunidade internacional da Unesco a reconhecer as "conquistas na área de aderência étnica" e a "cultura tradicionalista aplicada" do governo central brasílico, cujo foro, o mundo todo sabia, era composto por príncipes esclarecidos e padrinhos com indisposição gástrica. A juventude do Partido estava vestida com uniformes de cores verde oliva e azul turquesa (sem o amarelo), as cores da bandeira nacional que, ao longo de sua história, fora modificada exatamente sessenta e duas vezes (na vigésima sétima, o amarelo, que antes representava o subsolo rico em jazidas de ouro, passou a simbolizar cachos de bananas e outras frutas tropicais). A direção do Partido cunhou maliciosamente esse evento (na verdade, uma arregimentação compulsória em massa; uma indução ao sono coletivo; um envenenamento psíquico) de Carnaval Unionista.

O segundo evento, de natureza jurídica, foi um jogo de futebolde-xisto, o esporte de impacto mais popular do país, que resolveu judicialmente a disputa pelo direito prioritário de uma patente entre duas indústrias farmacêuticas. No terceiro milênio, as verdadeiras retentoras do poder financeiro eram os milionários empórios terapêuticos, que lucravam através de conceitos distorcidos como "mais-valia da talidomia". Um verdadeiro partido se preocupa mais com a fixação de seu memento ideológico do que com qualquer outra coisa. Se a ideologia é o fruto de uma idéia que pode ser expressa por centenas de palavras sórdidas, então que fosse dado todo poder àqueles que detém as escrituras. O presidente negro do Reino Brasílico, embevecido por esse novo espírito, surgia sempre em cadeia nacional nos telões públicos defendendo um patriotismo lingüista. As antenas ecoavam expressões sombrias, como: - As palavras do português brasílico são sagradas! Evitem falar palavras desnaturadas! Sejam pacientes e procurem no fundo de sua memória coletiva as palavras correspondentes na língua pátria. As doenças da fala podem e devem ser evitadas! Rogo a que todo o povo procure um neurolingüista de plantão, ou então ligue para as centrais de atendimento do comitê de saúde pública em casos de urgência! A decência está em excomungar as palavras em línguas alienígenas que causam a reprogramação lingüística de nosso povo. Afirmo com convicção que devemos enterrar o neocolonialismo e o colonialismo cultural para sempre! Não foi essa a promessa proclamada na aurora do novo milênio? Anauê, Reino Brasílico! Durmam em paz com suas consciências e façam seus semelhantes sentiremse necessários!

Palavras hipnóticas e convincentes no contexto. O verdadeiro inimigo do Partido, por mais imaginário que fosse (como uma farra do boi nas ruas de Pamplona, por exemplo), era o estrangeirismo na linguagem e os corpos estranhos que maculavam a prístina língua portuguesa brasílica. A realidade possível era menos importante que a utopia viável, e as doenças provocadas pelo oxigênio letal das estações aeróbias não eram motivo de debate político. Por esse motivo, tradutores juramentados do Partido eram obrigados a verter para o vernáculo pátrio todas as expressões em evidência veiculadas em placas, cartazes, marcas e estampas, evitando assim a narcose provocada pelas ardilosas línguas estrangeiras. Entretanto, havia um perigo mais real e imediato (e impossível de ser escamoteado) do que uma hipotética doença de linguagem: a peste da bílis negra, ou simplesmente peste, e que era assim nomeada devido às crises vomitivas que acometiam os infectados. O sintoma era parecido com o mais grave sintoma da febre amarela, que consiste em expelir pela boca bolas de matérias escuras, parecidas com aquelas bolas de pêlo que os gatos regurgitam. Nas calçadas das avenidas mistagogas, a coroa do sol iluminava uma estranha anomalia no rosto de alguns cidadãos, a maioria com cenhos marcados pela nova varíola: crateras faciais cheias de sebo radioativo. Aos incubados não restava alternativa a não ser se empenhar na eterna busca da vida intensa em meio a um permanente estado de decomposição e dores suportadas com morfina e piadas práticas. Muitos tinham manchas negras no bócio, pústulas no zigoma e nas axilas, ínguas prateadas e outras evidências que comprovavam um sinal do mal. Além disso, a peste provocava uma crise violenta de vômito negro, fazendo o doente morrer de hemorragia interna.

O corpo humano faz exigências rigorosas de manutenção e, dubiamente, se pune pela falta de cumprimento das mesmas. Com tanta religião e ciência, por quê as desgraças da humanidade são ciclotímicas? Por quê a provação destrutiva dos homens sempre evoluiu com saltos? Seria correto a humanidade ser mal agradecida a Deus por Ele ter ofertado a Razão em troca da evolução natural dos macacos? Era corrente a teoria de que a peste havia sido libertada junto com o gênio da lâmpada progressista, porém os sanitaristas do Instituto Biológico haviam comprovado que a peste foi deflagrada (traindo os acordos de não proliferação) pelo excesso de oxigênio reciclado abaixo do equador do pLaneta. Os primeiros vetores da doença se espalharam sobre os tristes paralelos da América do Sul pelas estações orbitais de reciclagem de ar. E o pior: estas cepas misteriosas eram anaeróbias e estavam sendo transmitidas pelo ar. Os especialistas, inspirados talvez em Vital Brazil, não negavam a importância de suas atribuições, chegando mesmo a formar uma casta fechada nos moldes rosacrucianistas. Os médicos ortomoleculares brasileiros – acusados de serem “Pseudo-Gnósticos” e "cientistas do mundo fímbrio" – foram perseguidos e detratados no final do milênio passado; e hoje, anistiados, ocupavam cargos de confiança junto aos altos escalões do comitê de saúde por defenderem conceitos como o "movimento endógeno do coração" e carregarem lábaros dogmáticos como: "a alma, estando sob o efeito da anandamina, passa pelo túnel da quase-morte". O sindicato dos médicos, presidido pelo Cirurgião Geral do Partido, tinha muitos poderes, pois recebia parte das comissões no controle das experiências com autópsias de acidentados, e o suborno dos legistas. A peste negra na Idade Média ensinou aos doutores medievais que o pior problema das epidemias era a reclusão da razão que, ficando livre dos estímulos externos, não se padecia mais dos perigos da desilusão eterna, do horror e da loucura. Contudo, o sindicato dos médicos aprendeu também que muitas catástrofes

aconteciam por muito menos – até por um pedaço de queijo de Salmonela. Desnudados os métodos de ação política em público, ficou claro para a nação que o Partido estava mais preocupado em vingar uma Cultura pura do que executar uma cultura da Cura, e estava mais interessado em estender o poder de fato (a cura da peste) para além de sua mera ocorrência. Dependendo do momento, este artifício era substituído pela disseminação de notícias sobre os efeitos imprevisíveis causados pelo contato de baionetas com uma oposição organizada. Em contrapartida, as campanhas incisivas para erradicar a peste foram maiores que as campanhas contra a AIDS, pois a AIDS era uma doença infantil comparada ao novo morbo. O monopólio da saúde pública também era mais uma peça na engrenagem de poder do Partido, que detinha à força a guarda dos filhos do paternalismo e da oligarquia. No caso da SEOV, DOBV e a PUUV (tipos de Hantavírus), o Instituto Biológico havia conseguido erradicá-las com linfas hidrogenadas. Mas por enquanto, os dois blocos avessos estavam sob uma espécie de quarentena não imposta. Ninguém entrava e ninguém saía do território nacional mais em virtude da possibilidade de desagregação da personalidade do que por causa do novo antraz. Contudo, as campanhas do Partido faziam crer que as doenças da alma podiam dar origem a pandemias muito piores que a cólera. Para desfilar na comissão de frente do Carnaval Unionista foram escolhidas as crianças mais bojudas e comportadas das creches do Reino Brasílico, pois elas caracterizavam o estado puro de uma cultura em formação. As crianças tipo A e B foram alimentadas desde cedo pela idéia de que só uma política de higienização cultural poderia fazer frente e derrotar o ultraliberalismo do Grupo dos Dois, que perdeu a concorrência

para administrar o sistema de vigilância de uma parte da Amazônia ainda incólume. Teoricamente, não apenas o regime fechado dos dois brasiis havia vencido moralmente o liberalismo político-econômico dos dominantes; Cobra Norato havia derrotado Beowulf através de uma inversão do direito de precedência. Por essa razão, toda criança brasileira que quisesse ser reconhecida pela sociedade nacional tinha que aprender a decorar de cor e salteado não apenas toda a obra de Raul Bopp, mas toda a herança dos Nambikuaras e toda a seqüência do Ciclo da Cana através de hipertextos armazenados em discos de Intânio, todos os roteiros de Humberto Mauro (a saga do sanfoneiro Galdino foi incluída nos currículos escolares e o personagem se tornou um verdadeiro símbolo nacional), além de todas as marchinhas carnavalescas, sambas de roda e cocos de Zambê. Mas a matéria básica continuava sendo o catecismo da literatura e do português brasílico, e o Partido utilizava como biombo do poder a origem divina das palavras nacionais. Os hinos eram declamados com emoção, enquanto as imagens eram invocadas apenas em casos de remissão espontânea ou em casos de vida ou de morte de um orgulho pátrio ferido. A estratégia do Partido era fazer o inimigo ser comido pelo próprio Tibiriçá. O moral mal passado do Grupo dos Dois foi sendo cozinhado lentamente em fogo brando pela Moral Pura do Partido. Desta forma, o moral cozido incentivava a Moral crua, assim como o torturado tem a tendência de se apaixonar por seu torturador. E o que representava uma nação com uma Moral Pura, mas sem os postulados de uma Moral Definida: uma impostura perante a morte ou a má utilização de uma urna funerária? Muitas pessoas apreciavam não só assistir aos desastres automobilísticos, mas participar deles também, como se sentissem um daqueles bonecos de teste de acidentes de carro que, somente com um impacto brutal, conseguem sentir suas almas infantes saírem do corpo de plástico. E participar de

um desastre não era como entrar numa simples Casa dos Horrores, pois a filosofia irracionalista corrente afirmava que a sensação mais precisa da morte era a de sentir labirintite dentro de um labirinto. Os diplomatas do comitê do meio ambiente, muito letrados nas letras disformes, haviam se especializado em chantagens ecológicas junto aos premiês internacionais, pois segundo o quarto Tratado de Versalhes, assinado em Mangaratiba, o saque da biopirataria e o uso bélico da engenharia genética (como a disseminação de soja com genes de bactéria, milho combinado com escorpião e peixes com genes de morango) passaram a ser considerados graves crimes de guerra. A própria palavra "devastação", a pedido do comitê do meio ambiente, foi reavaliada no XV Congresso da Gramática Universal, pois uma devastação poderia ocorrer apenas num cenário que, apesar de possuir uma gama infinita de tons verdes, é monótono, imprevisível e avassalador. Enquanto isso, os diplomatas do Reino Brasílico exigiam indenizações extensivas, pois alguém haveria de pagar pelos danos ecológicos causados na última reserva florestal do planeta; por esse sumiço de enormes áreas verdes por combustão espontânea! Outra palavra que os diplomatas falavam muito nos gabinetes do exterior com a língua de cultura era "depleção" – uma palavra mágica que inibia com desfaçatez as tímidas ameaças de sanções. A política de higiene cultural empregada pelo Partido podia beirar à pajelança, com a retomada indianista na literatura e os argumentos da comunidade indígena pré-adâmica, mas o mundo todo reconhecia que sua retórica democrática era de um profissionalismo atroz. E o fato que comprovou definitivamente isso foi que, para desfilar na comissão de frente do Carnaval Unionista, as crianças, maquiadas com pó de arroz e urucum, não foram subornadas; apenas ganharam antecipadamente uma grande quantidade de doces de taboca. Durante a parada, as

operadoras e repetidoras transmitiram em primeiro plano os rostinhos inocentes que, por sua vez, transmitiram a essência mais pura da cultura do Reino Brasilico: a suculência e o açúcar. Os funcionários do comitê de comunicação do Partido ficaram muito orgulhosos por terem conseguido reservar os retransmissores dos satélites para coligar e rebaixar os sinais contendo aqueles rostinhos pálidos cobertos por uma maquiagem carregada, como se aquelas crianças fossem personagens de uma interpretação infantil da ópera “O Guarani”. O impasse da arte literária mundial se deu ao final do milênio passado, graças ao projeto "Mil-Mãos" – um projeto da Universidade da Diversidade que tinha como objetivo reunir todos os programas geradores automáticos de texto numa Estrutura Universal de Indexação. Essa produção artificial de escritos através do reconhecimento de padrões e categorias de dependência entre termos primitivos gerou uma espécie de livro infinito, que evoluiu dentro da rede semineural – um sistema com grande capacidade combinatória. A rede semineural, por sua vez, teve origem numa antiga rede militar dos Estados Unidos da América do Norte, constituída num primeiro momento por bilhares de estações de memória alta, servidores prestativos e clientes exigentes, que, depois de formarem uma nuvem de processos distribuídos, se fundiram fisicamente no transistor de metal óxido Glia, um agente da contra-revolução no seio da Revolução da Informática. Mas algo imprevisível aconteceu: quando todos os fanáticos jogadores de Lan conectaram a rede de textos descritivos à rede do projeto Mil-Mãos, o livro infinito não apenas saiu de seu estado de catalepsia, mas literalmente criou vida própria, o que causou uma curiosa querela acadêmica dentro da Universidade da Diversidade: os comportamentistas da Inteligência Artificial Forte chamaram o fenômeno de "etologia da repetição"; enquanto os rogeristas da Inteligência Artificial Fraca o chamaram de "cognição da repetição". No final, o debate

acabou terminando num quebra-quebra de crânios e rasgos de sobrancelhas. A inteligência mundial dava muito peso aos projetos literários, mas todos ignoravam que o infame Lan – um jogo popular de representação desenhado a partir de antigos sistemas de teleconferências, códigos de expressões feitas com caracteres de teclado e uma grande quantidade de linhas de códigos Basic – ganhou uma importância capital naquele casamento. Outros estudiosos não oficiais de IA concordavam que os pioneiros do projeto Mil-Mãos e os jogadores de Lan criaram uma máquina-tutor que raciocina através de um banco de dados de casos contados, relações de ações e versos burlescos de pé quebrado. Mas os mesmos luminares despertavam uma certa desconfiança quando declaravam que aquela máquina indomável estava retomando os processos de ativação e armazenamento de toda a memória humana e todo princípio genético da linguagem, proporcionando uma espécie de desmanche do esquecimento. Apesar das brigas acadêmicas, motivadas por idéias bizarras e quase disparatadas, todos estes estudiosos tinham algo em comum: o ódio a Lady Lovelace – a pesquisadora que havia afirmado ser a máquina analítica apenas uma máquina responsiva, uma espécie de criança mal-educada que, no máximo, dá saltos condicionais. A direção do Partido permitia o Lan, pois era considerado circo, além de estar garantido pela constituição do Bem-Estar Total; considerava inclusive as construções do Pavilhão verdadeiros "centros cívicos" (ou mesmo "escolas elementares"), abertas a todo o povo, sem restrições: homens e mulheres. Os jogadores de Lan, aparentemente, não ofereciam grande ameaça ao poder central. Além de não reconhecer a pecha de “reformadores” eles

eram, em sua maioria, cidadãos tipo B pertencentes a uma classe capaz de ficar indiferente aos altos índices de acidentes automobilísticos e à horda que vivia (teoricamente) nas galerias, bueiros e túneis de metrô da cidade velha. Mas nadando contra a corrente dos crimes digitais perfeitos do Lan, os bardos matutos e cancioneiros do Partido, armados tão somente com suas obras cândidas, foram endeusados e colocados no vestíbulo da fama nacional. A título de garantia, um quadro de funcionários do CPD, por ordens do comitê de propaganda, pesquisava dia e noite métodos de filtragem de palavras perigosas e inserção de textos pátrios dentro da rede semineural, para que os cabeçalhos de temas nacionais figurassem com prioridade dentro do índice dos servidores de Lan. O poder do Reino Brasílico não obstava nem apoiava a tecnologia da informação e, para manter uma idoneidade ideológica mandatária, criava verdadeiros tigres de papel com seus folhetos quengos e suas sextilhas. O Lan era um programa coletivo que subvertia uma das teorias dos jogos (onde o jogador A tem que maximizar o limite de ganho imposto pelo jogador B, e vice-versa) e o mosaico da TV (a varredura entrelaçada e a interface tipo “jogo de ligar os pontos” desta mídia estavam quase extintas). Para o Partido, o jogo de Lan era apenas a manifestação inofensiva de um bando de adolescentes desmiolados. Mas debaixo da superfície inocente da linguagem cursiva do jogo corria um rio de secreções lingüísticas e vírus da escrita. Por exemplo, uma das atrações do Lan era sua capacidade de manipular e coligir vários símbolos, como os lógicos, os lingüísticos, os declarativos e os que regem a amizade. Porém, as associações daqueles elementos eram feitas sempre através de expressões nitidamente dicotômicas (nascimento/implosão, morte/explosão etc.) e binômios de marcação (sujeito antes de predicado, por exemplo). Como muitos Lan eram baseados em categorias gramaticais extintas e complicadíssimos cálculos de inferência,

não era possível o Partido fiscalizar todos os interstícios do jogo através de um escalão global de vigilância. Outra característica dos Lan era a sensação de realidade que provocava nos jogadores, que tinham apenas o trabalho de inserir pequenas sentenças entre os operadores da Pérola Dinâmica. Nos Lan, cada participante assumia uma personagem fictícia, um avatar, que, a partir desse ponto, enfrentava um meio ambiente abstrato, lúdico, heróico, histórico, administrativo ou perigosamente pornográfico. De qualquer forma, um avatar sempre enfrentava meios repletos de truques. Além disso, os jogadores podiam incorporar em suas personagens “propriedades” de outros jogadores, pois tudo nos Lan era um objeto, inclusive os sons, cheiros, situações e propriedades intelectuais. Havia um objeto (na verdade: um esquema de ação) que se chamava “Jogo dos Sete Erros”, em que o usuário era submetido a uma situação de perigo iminente com apenas um ponto fraco (uma identificação falsa, por exemplo). Dentro dos Lan também existia um sistema de correio peculiar, uma cópia do sistema de correio eletrônico oficial do Partido, o sistema Trocano, uma caixa de guerra indígena mais sofisticada. Um avatar podia adquirir esse objeto (chamado secretamente de LettreJuste) e acrescentá-lo ao seu rol de propriedades. Se no sistema Trocano havia censura para as cartas de amor, a única solução para os poucos amantes era usar essa subcategoria de correio para manterem acesa a chama do sexo de linha. Houve um caso famoso envolvendo o correio alternativo: um avatar do sexo feminino recebeu uma correspondência em LettreJuste. Apensada à carta de seu amante de linha veio o código de uma classe especial de avatar chamada “classe nobre”. A carta dizia para ela adicionar a nova classe ao código fonte de seu avatar. Uma das características desta nova propriedade, segundo o amante, era a maravilhosa descrição de uma princesa palaciana com um vestido coberto por apassamanarias. A jogadora ficou

muito satisfeita, pois adoraria agir como uma Catarina; ou uma digna princesa dos mares do sul. Aquilo sim era um cortejo digno de ser reconhecido, pensou ela. Mas pobre mulher! Pouco tempo depois ela percebeu que seu antigo avatar, que havia sido desativado por seu amante, estava sendo manipulado lubricamente à distância, pois foi transformado num boneco de vodu por um terceiro avatar pervertido. Segundo as descrições, o tarado furou tanto o boneco de vodu que este ficou parecendo um boneco de ensino de acupuntura. Diferenças de expressão à parte, o primeiro Ano Geofísico foi o ano de consagração mundial do Reino Brasílico. Por um breve período, o horror da peste deixou de chamar tanto a atenção dos analistas estrangeiros e abriu alas para a ecoante vibração dos gênios da raça. Wirmundo, um mulato na casa dos trinta, porém já bastante grisalho, era dono de um açougue e se destacava no seu distrito por ser um exímio jogador de Lan. Tinha a estatura baixa e alguma sorte com as mulheres, pois se vangloriava da lenda de que os anões são bons de cama e fazem as mulheres se sentirem em boas mãos bobas. Mas seu sucesso com fêmeas não tinha muita explicação, já que esteticamente não era bem apessoado. Dentro das analogias entre a face humana e a fronte de animais propostas pelo pintor Charles Le Brun, poderia ser dito que Wirmundo se assemelhava a uma ararajuba depenada ou a uma pomba em estado terminal. Na verdade, ele usava alguns artifícios nada éticos para capturar mulheres de púbis depiladas sem chamar muita a atenção dos fiscais sexuais do Partido. Wirmundo era filiado ao Partido e usava um broche com a diagonal dividindo o retângulo em dois triângulos retos verde e azul (os retângulos eram o símbolo das três classes), mas evitava as convenções assexuadas e os congressos do Partido

em microcervejarias, freqüentadas por bebedores de cervejas carameladas e cantores de hinos nacionais. O fato de Wirmundo ser filiado ao Partido permitia que ele tivesse um trabalho honesto e a renda suficiente para ingressar nos salões do Pavilhão, onde jogava viciosamente o infame Lan. A história da repressão sexual no Reino Brasílico teve início no começo do milênio, quando o IBGE registrou um aumento alarmante da taxa de panssexualismo (quase 60% da população nacional) e o Ministério de Saúde fez pressão para o Governo encontrar bodes expiatórios para as doenças fatais sexualmente transmissíveis. Vários anos mais tarde, ignorando os resultados do segundo relatório da Kinsey Corporation (um calhamaço com provas de que a as doenças sexualmente transmissíveis se propagam por via aérea, independente de contato físico), o Instituto Biológico representado pelos sanitaristas sugeriu atacar localmente os laivos de panssexualismo proibindo as granjas de injetar hormônios femininos nas cabidelas. Mas havia medidas mais drásticas, como milícias anti-sexuais e esquadrões da morte. E como é possível uma pequena massa de perseguidores assustar um exército de perseguidos, os homossexuais e transexuais do Reino Brasílico eram obrigados a se refugiar em diversas ilhas perdidas nos três oceanos, fundindo todas as ilhas do mundo (inclusive a Oceania) numa enorme pangéia panssexual aterrada por colônias homoeróticas e estâncias naturistas. Por exemplo, a estância homossexual mais luxuriante e orgíaca – liderada por dez hermafroditos albinos de cognome Leões Coroados – ficava na ilha dos clones de dodó, uma ave que voltou a ser muito caçada por aparatados marinheiros malteses de calças apertadas. Com o tempo, a sociedade metropolitana do Reino Brasílico se tornou uma bolha patriarcal sexualmente inerte e regida por um código de exclusão sexual tão elegante e respeitoso quanto aquele antigo costume da nobreza chinesa de quebrar, dobrar e

enfaixar os pés das esposas para que coubessem nas mãos e nas bocas dos maridos excitados. Do outro lado do mundo, e mais de dois mil anos depois da proibição desse costume, as mulheres estavam quase proibidas de andarem nas ruas dos dois brasiis. O gênero foi vítima de enormes campanhas antisexuais que culminaram com a decretação da norma proibitiva do beijo em público em frente da prefeitura municipal. Os homens mais viris fingiam ignorar que, na teogonia tupi, todas as coisas eram criadas por uma Mãe, mas lembravam que, na concepção tântrica, as mulheres eram encaradas como simples shaktis, ou encarnações de deusas que têm a missão de homologar, com estocadas de carícias, a transcendência sexual masculina. Além de cumprirem discreta e moderadamente a função de mantenedoras da raça humana, as mulheres eram vistas apenas como “criadoras de problemas”. Mas apesar da segregação esclarecida, elas se reconheciam e se apoiavam dentro de uma sociedade mais preocupada com as verdadeiras intenções da feminilidade. As mulheres ficaram tão imbuídas do novo espírito corporativo quanto aquele ator que nunca mais conseguiu outro papel na vida, pois sua personagem acabou ultrapassando a própria protagonização. Toda sorte de dificuldades eram interpostas entre a semente e a terra. Euclydes da Cunha tinha razão ao vingar a honra de uma mulher castrada? Para os atuais costumes sexuais, não. O poder central, com o argumento de evitar um adensamento populacional, não tolerava o abandono de um segundo filho ilegal, mas tolerava o abandono de um gênero humano. No Reino Brasílico as mulheres viviam, em sua maioria, na comunidade dos homens, mas quase não eram notadas pelo orgulho da suposta casta superior. A espécie feminina não tinha prerrogativas políticas e estava confinada ao destino trágico de apenas freqüentar saguões de hotel e salas de espera de hospitais, enquanto que os homens freqüentavam não só os clubes exclusivos, como também o disputado Ponto de Equilíbrio

(um bar masculino com mesas escondidas entre as sombras de um orquidário) e o mirante da Mantiqueira Setentrional, de onde era possível ver a cúpula de oxigênio e diesel sobre o mar de antenas parabólicas da Capital. Wirmundo reprogramou o código geral do LettreJuste, e isso lhe dava parcelas de responsabilidade pelo uso impróprio de sua criação. Uma maneira de burlar a fiscalização dos agentes do Partido era nomear uma propriedade (ou um objeto) com um título intraduzível, pois assim os robôs-aranhas dos fiscais espiões eram forçados a acusar um nome default nos seus registradores. Uma aglutinação de duas palavras estrangeiras bastava para tanto. Wirmundo tinha um coração forte dentro da rede semineural. Na vida real, porém, sabia que todos os alpinistas têm vertigem. A repressão sexual patrocinada dava margem a muitos enganos. Numa noite, alguns dias antes do Carnaval Unionista, depois de ter tomado várias doses de licor de genebra durante uma conexão no Pavilhão, Wirmundo esbarrou numa mulher que estava se levantando da frente de um terminal-burro. “Quem seria o avatar dela?”, pensou. “Rita Lee? Mary Read? Elvira? Pagú?”. A bela, para seu deleite, usava um cravo vermelho espetado na lapela do talleur e caminhava como uma fêmea de gnu no cio (havia um ditado francês que dizia: “os homens são gnus com chaves de carro”). Um falso sentido de lealdade o impediu de fazer um cortejo e perguntar seu nome, e o nome que supôs tinha um quê operístico – não uma ópera neoromântica ou lírica, mas uma ópera bufa improvisada, com o cenário da miragem do paraíso de Bahrain atrás de balcões não passíveis de miração. Ao perceber esse fágil traço de caráter de Wirmundo, a mulher descarregou seu furor mais que justificado:

- Não olha onde pisa, homenzinho? "Homenzinho?" Wirmundo deu de ombros resignado e foi para casa em busca do acolhimento de sua Carmencita. Nesta hora o Partido dormia o sono dos cegos justos e o açougueiro teve uma estranha visão com os intestinos da mulher que o insultou. Automaticamente lembrou-se de um galicismo perdido dos tempos que prestou o serviço militar. Para evitar as longas marchas da infantaria, conseguiu uma vaga para auxiliar o cozinheiro chefe do Corpo de Bombeiros – um profissional que tinha como especialidade a preparação de diversos tipos de vísceras bovinas. Wirmundo lembrou de como o cozinheiro francês brincava ao colocar os miúdos na caçarola, uma espécie de contagem regressiva: - Pieds, animelles, rognon, coeurs, langues, mou, fois, bonnet, ris, tetine, tête, queue, cerveilles cerveilles cerveilles.... A visão dos intestinos da mulher e o pobre galicismo de cozinha vertido na calada da noite o deixaram inquieto. "Estou tendo as visões de um assassino de prostitutas?" Wirmundo sacudiu a cabeça e sorriu ao pensar que o galicismo acabou funcionando como um protesto silencioso contra as vigílias pela língua portuguesa promovidas pelo Partido. Mas se algum funcionário ouvisse aquelas palavras, ou lesse seus pensamentos, certamente seria abordado. "Pensando bem, como é estranho verter os miúdos de boi para o francês. Melhor pensar baixo, apesar do burburinho interior”. Logo em seguida a imagem dos intestinos da mulher do Pavilhão retornou com toda força. "Quando eu estava na barriga de minha mãe, fiquei perto dos intestinos dela!" Seriam esses pensamentos resultado do controle glossológico e sexual do Partido? "Não... Isso é paranóia...”.

Ao chegar em casa, Wirmundo viu que sua concubina estava deitada de bruços e com o tronco levemente arqueado, refletindo no rosto uma serenidade pré-rafaelita não comum durante o estágio de movimento rápido dos olhos. Ele não a acordou. A imagem (ou melhor, a alegoria) da chuva caindo sobre um terreno fértil representando uma condição passional assegurada riscou o cérebro de Wirmundo e se tornou um tormento momentâneo: ao invés da chuva de outono, a chuva ácida; ao invés da horta, o lamaçal. A noite benfazeja – uma somatória de todas as sombras do mundo – afundava cada vez mais na alta madrugada, na hora em que as coisas inanimadas conversam na forma de barulhos inexplicáveis e rangidos súbitos. Wirmundo deitou-se ao lado de sua concubina, depositou levemente um braço sobre ela e pensou numa enorme catarata, numa queda d’água maior que as cataratas do Iguaçu. Em seguida ficou pensando, até dormir, numa catarata de palavras escoando pelas bordas recurvadas de um monitor de segunda mão. Na manhã seguinte, depois de celebrar o nascer do sol com um café de taurina, Wirmundo foi fumar descalço sobre a relva úmida do quintal, influenciado talvez pelo massagista chinês que o ensinou a revitalizar a energia ki, a começar pelos terminais da sola dos pés. Apesar da verossimilhança daquela personagem, Wirmundo seguia os pregadores da nova corrente da praxis vertebralis – um conjunto de técnicas de estalar as vértebras cervicais. Wirmundo conheceu a "ciência das estaladas" no antigo Lan da Grécia Antiga, onde foi consultar um médico

periodeuta que tratava de deformações de posicionamento e movimentos repetitivos. Depois de duas flexões nas costas, Wirmundo deu alguns passos adiante e quase pisou sobre um filhote de serpente perdido na relva. Com uma tática de Kenpô (que pensou ter lido em algum Lan de artes marciais) Wirmundo alcançou o cabo de uma vassoura e o desfechou na coluna vertebral do réptil. A proliferação do ofidismo na Capital aumentou muito depois do afundamento da ilha de Queimada Grande, e os refugiados rastejantes passaram a fazer parte da vida quotidiana dos cidadãos dos dois brasiis. Os ratos e todos os animais daninhos foram devorados pelas serpentes. Corria o boato de que o "povo oculto" adorava as serpentes, e faziam rituais em seu nome. Mas as cobras não eram endeusadas na superfície; muito pelo contrário: eram sumariamente executadas por serem a causa dos males sociais – mais ou menos da mesma forma que os gatos e cachorros eram executados na Idade Média por disseminarem a bactéria Yersinia. Depois do assassinato, Wirmundo queimou a carcaça da cobra com álcool, cumprindo o sacrifício de desinfeção imposto pelo remorso de ter desfrutado do primeiro beijo. A chama ressaltou o contorcer dos oleosos anéis musculares, fazendo-os parecer os elos de uma corrente que perigosamente aproxima fatos distantes dos próximos: a noite passada envolta em vapores dipsomaníacos, o véu perfumado de sua amante balançando com a brisa noturna e, agora, o fogo purificador. Era como se tivesse estripado, com aquele ato, o verme dos pensamentos ruins que, para o bem ou para o mal, parasitavam as entranhas de um corpo doente. Pensou num agente multiplicador poderoso, como uma maçã podre que contagia as outras maçãs do cesto. Essas impressões levaram Wirmundo a um pensamento mais profundo e ameaçador, quase um alerta

oculto: ter algumas vidas sexuais normais, ditadas por necessidades mínimas de glândulas sudoríparas, mas que ao mesmo tempo fossem perigosas o suficiente para causar mais que compensações por recalque. O assassinato daquele filete esponjoso e brilhante – cometido quase por repulsa bíblica – pareceu reavivar o evento da carta severa de Paulo em Corinto, e fez Wirmundo descobrir o tamanho da força que a gravidade exerce sobre a carne amargurada e o fantasma do desejo não correspondido. "Por quê o robô Boitatá me veio à cabeça neste momento?”. Entretanto, quando entrou no módulo guerreiro para enfrentar o dragão da maldade, o calor da atenção neutralizou as toxinas que revitalizam lembranças lúbricas e desobstruem dopaminas acumuladas. Para ganhar anos de vida, Wirmundo tinha o costume de se entregar maciçamente a uma lembrança fadada a ser desfeita. Ser escravo de lembranças temporárias misturando vapores e humor era mais seguro que dormir no catre de um huguenote na noite de São Bartolomeu? "Meu destino está sujeito a um apanhado de superstições. As circunstâncias não alteram mais a esperança”. E o imprevisto da luta entre o bem e o mal interrompeu mais este escapismo. Algum tempo depois, Wirmundo veio a saber, da parte de um biólogo do Partido, que as características descritas da cobra não eram as de uma cobra venenosa, que tem a cabeça triangular e as pupilas em forma de trapézio. Para Wirmundo, a constatação teve o impacto de um mundo desabando sobre sua redenção. O recente pesar pela morte de um animal inocente (ou, nas palavras do biólogo, “Um bemol na atual sinfonia do ecossistema”) o retirou de um estado de suspensão e de consciência tranqüila, pois não havia mais a glória de ter matado um representante da espécie que mais demorou para evoluir do

sangue ruim para o sangue quente. “Uma morte justificada poderia ter garantido mil noites de núpcias, sem ser incomodado nos meus momentos íntimos”. Wirmundo anulou aquele dia e o riscou do novo calendário do primeiro Ano Geofísico, com os sínodos alterados e zonas de tempo remodeladas. Isso era a prova de que as campanhas ferrenhas contra a AIDS marcaram a fundo a psicologia dos sentimentos. Foi tão eficiente que os sexuados passaram a se sentir dentro daquele torvelinho de Dante – mas com uma ressalva: os amantes não ficavam rodopiando até os engulhos ao lado de suas companheiras de pecado (uma forma de conforto condescendente e consolo durante a longa viagem da danação), e sim ao lado de uma pessoa desconhecida, tanto de vidas futuras como de vidas passadas. No período seguinte, Wirmundo se levantou, e dessa vez não foi caminhar no jardim, já que estava totalmente curado da ressaca. Ele foi direto ao banheiro efetuar o que chamava de “limpeza colônica”. Apesar de fumar, tinha alguma tendência naturalista e, apesar de ser açougueiro, não comia carne, o que era mais ou menos semelhante ao traficante que não consome drogas por uma questão de lógica moral. Após o primeiro toque, ouviu por entre a porta entreaberta do banheiro os gemidos matinais de sua concubina, que misturava sílabas de uma cigarrapixinguinha com aqueles sons que os alienígenas emitem nos Lan de ficção científica. A natureza de qualquer união matrimonial naquela atmosfera repressiva fazia com que os cônjuges enaltecessem a continência e, ao mesmo tempo, persistissem nos maus exemplos. Os poucos casamentos eram sublinhados por lampejos de amor eterno e inversões de cortejo (a troca da expressão “O que você vai fazer pelo resto da noite?” por “O que você vai fazer pelo resto da vida?”). O contrato não oficial de

casamento acordava, além das relações de domínio entre dois estados amorfos, qual dos dois entraria com o engenho e qual com o espírito, para evitar dissensos no caso de uma possível troca de comando; assim como proibia o pronunciamento de expressões dúbias como “ao mesmo tempo...” nas discussões de jogo de poder familiar. Nas sociedades nórdicas, as debutantes são levadas a crer, vendo aquelas antigas gravuras de livros de cavalaria, que dentro da armadura do cavaleiro salvador há um homem másculo e com grande autoridade moral, pois atitudes circunspectas exaltam o egrégio na fase de encantamento do amor. Na sociedade do Reino Brasílico, a mesma gravura causaria a impressão oposta, principalmente depois de uma frustração amorosa: dentro da armadura haveria um sujeito franzino que foi mal interpretado pelas análises psicológicas dos contos de fadas. Antigamente, os piores conquistadores conservavam ao menos uma parte do extrato cultural dos conquistados, e não costumavam construir capelas dentro de mesquitas. Já os conquistadores modernos foram um pouco mais cruéis ao substituir os templos do poderoso Manco Capac por pináculos. Porém, no concubinato feito às escondidas da sociedade brasileira, as barganhas por parcelas de carícias num corpo sem órgãos geralmente levava os conquistadores a tomarem decisões do tipo solução final. O Partido usava a figura de um demônio de saias para representar o vilão das doenças sexualmente transmissíveis. As campanhas eram tão eficazes que todos os cidadãos masculinos, ao ver os cartazes do demônio de saias repetiam, quase que inconscientemente e no ritmo de uma melodia constante, a frase: “Afasta de mim os demônios de saia”. Wirmundo, resistente, dizia com os lábios apertados: “Afasta de mim os demônios...”, e, em seguida, lançava um raio para o subconsciente: “Pena... Poderíamos ter passado uma noite

maravilhosa”. Wirmundo havia se apaixonado por vários demônios de saia, mas nunca havia se ligado a elas. “Para que emendar uma corda cortada?” Sua concubina sabia muito bem brincar de gato e rato com os desejos que se manifestavam nos sonhos. Mas Wirmundo não tinha sonhos, e sim pesadelos, ou seja, sonhos ruins de um real insuportável. Um sonho desse tipo não se valia de imagens grotescas, mas transformava imagens familiares em monstros devoradores de virgens. O Partido havia conseguido intimidar, sem precisar monitorar, os poucos praticantes dos atos amorosos implantando uma espécie de consciência de câmera em seus cérebros. Isso teve como conseqüência o abuso da imoralidade social, ao invés da imoralidade individual. E as imoralidades sociais são como sacrifícios humanos que não são executados como oferendas, e sim desafios ao Todo-Poderoso. Wirmundo conseguiu ligar o botão do terminal-burro, mesmo com a concentração comprometida pela névoa leitosa da manhã. A tela de proteção do monitor era um texto corrido composto por caracteres vermelhos sobre fundo branco. A frase dizia: “Uma besta-fera, com duas bocas no lugar dos olhos, tenta capturar, com ambas as bocas, um pequeno ícone, como se estivesse numa gincana, participando da brincadeira de morder a maçã com os olhos vendados. O pequeno ícone, que se parece com uma pastilha, na verdade é a reprodução de um computador pessoal”. Ele sorriu silenciosamente com a frase, apertou uma tecla qualquer e entrou no sistema Trocano para verificar as gravações de sua máquina de respostas. Após ter acionado uma enxurrada de canais, um dos servidores do CPD do Partido capturou uma mensagem selada e a redirecionou para o disco virtual de Wirmundo. Era uma mensagem do Curupira. Wirmundo nunca havia visto o amigo invisível, uma entidade que afirmava ser, na vida real, um programador desempregado, com

muito tempo nas mãos e câmeras na cabeça. Mas isso não fazia nenhuma diferença, pois no reino anônimo e etéreo do sistema Trocano, Curupira era sem dúvida seu melhor companheiro de armas. "Ele não deixa pistas, ou quando as deixa, deixa por engodo. Isso é o que importa". Curupira nunca havia acrescentado uma descrição detalhada ao seu personagem, pois acreditava que os imortais não podiam ser vistos por outros avatares. Um imortal não podia ser confundido nas ruas, por exemplo, com um ladrão, um suicida ou a própria malignidade. A mensagem de Curupira tinha o seguinte teor: “MSG No 01243-48 - Esteja exatamente às @978 no Pavilhão para conhecer a nova versão do Lan dos Bandeirantes. As primeiras descrições do povoado já foram feitas por um grupo de voluntários e os códigos do Caroço já estão devidamente configurados. Devo lembrar que essa edição não possui limite de cota de objetos, ou seja, vamos poder pensar em reunir mais algumas peças de nosso quebra-cabeça. Estou mandando, anexado, alguma literatura a respeito. Por questões de segurança, eu embaralhei o texto numa das frases finais desta mensagem. Você sabe que as mensagens trafegam por miasmas paludosos, não sabe? Talvez seja mais fácil usarmos um pombo-correio? Sinto muito por essa brincadeira e esse trabalho, mas você vai ter que decodificar os textos. A chave? Ora, está debaixo do tapete! Desculpe-me por mais essa sátira. Abraços. Curupira” INI-Nh%$*nHlmT5q34$&^2#-FIN. A elaboração do mencionado quebra-cabeça foi interrompida por motivos de escala. Com a introdução da nova versão, o passatempo de pesquisar antigas receitas medicinais nos antigos bancos de dados do Partido ganhava mais verossimilhança. Naquela época, os computadores não

passavam mais a maior parte do tempo fazendo operações aritméticas, e sim manipulando símbolos, principalmente os símbolos da gramática. Wirmundo, auxiliado por Curupira, andava no acostamento de uma estrada sinuosa em busca de uma receita, um substituto para as tisanas do Estado. A política do Bem-estar Total adotada pelo Partido aniquilou a principal mola propulsora do darwinismo social: a tensão dramática entre duas ou mais classes sociais. Muitos cidadãos não se conformavam com a prosperidade decretada, e com a obrigação de possuírem casa, comida e afeto. A prosperidade assistencial havia, de fato, substituído a democracia materialista, uma situação de tal magnitude a ponto de criar um evento, uma perturbação que irrompe no mundo como uma buzina de Scania. A própria felicidade estava sendo ofertada a todos sem exceção, mas os rebeldes sem causa, em protesto, optaram pela fome, o sono e a vergonha. Wirmundo decodificou sem problemas o arquivo anexado de Curupira. O texto reproduzia uma tradução interlinear de algumas cançonetas tupis, como a que cantava a diferença entre Cairé, a lua cheia, e Catiti, a lua nova. Em seguida, havia um outro texto, totalmente fora de contexto, sobre uma tabela da verdade, formada aparentemente por segmentos de letras e dígitos binários. Esta tabela, segundo o texto, era "o único elemento remanescente de uma linguagem de computador tão morta quanto o copta, mas que poderia estar tão viva quanto o tupi vivo". O texto enviado tinha uma outra retranca a respeito da evolução das cançonetas indígenas. Depois fazia um paralelo entre a principal linguagem de computador atual, a Pérola Dinâmica, e antigas linguagens cursivas. "Sim, houve uma simplificação da complexidade; mas a simplicidade ainda era acobertada pela complexidade", pensou Wirmundo. "Afinal, a complexidade traduzida pela simplicidade é a ancila do Partido". O resto do arquivo enviado por Curupira tinha o aspecto de um

pergaminho ilegível. Já o Caroço, também mencionado por Curupira, era a nomenclatura de um banco de dados contendo toda a essência dos Lan: os comandos de atos, atitudes, ações e reações; a obra-prima da engenharia dos códigos abertos: o Varal – uma seqüência de textos entre parênteses dependurados num interminável cordão de algoritmos; os somadores de números decimais, já que os pontos flutuantes e os números abstratos caíram em desuso ou foram proibidos; e finalmente os registros de entrada e saída dos trens de pulso e os manuais de instrução. O Curupira pertencia à segunda divisão da elite dos programadores. Ele conseguiu ressuscitar, com uma linguagem de programação de sua autoria, um antigo robô garimpeiro de mensagens legalmente comprometedoras, e meticulosamente trocou a função procurar/destruir pela função procurar/reconstituir. O robô passou a procurar pistas de mitologias indígenas através de um complexo sistema de combinações de palavras-chave e associações rudimentares, como “RAINHA VITÓRIA & VITÓRIA RÉGIA” (para localizar documentos sobre Rudá, o deus do amor) ou “CAIXA FORTE & CAIXA D’ÁGUA & CAIXA DE INSPEÇÃO” (para localizar documentos a respeito de Unutara, o gênio dos poços). Apesar de confiar sobremaneira em sua técnica apurada, Curupira considerava mais fácil cavar um buraco no céu do que encontrar uma receita milagrosa dentro dos territórios virtuais do Partido. Mas para os bons jogadores de Lan, nenhuma possibilidade era intransponível; com exceção de alguns números abstratos. Nos intervalos racionais de sua obsessão, Wirmundo tinha a vaga noção de como ultrapassar a barreira do mainframe e conhecer "pessoalmente" o feiticeiro Mateus_Leme. Mas para isso, ele teria de elaborar, na linguagem jocosa do Curupira, um

novo "módulo da revelação", um dos objetos mais poderosos dos Lan, junto com o módulo da fertilidade, da propriedade e o cobiçado módulo das permissões. Por questão de segurança, apenas os três Reis Magos, os administradores do Lan, conheciam o módulo da magia sem ostentações, a prova de maturidade do triunvirato na execução do poder público. O módulo da revelação, que poderia ser usado para conversões de símbolos nominais, não figurava nos índices dos Lan, mas se Curupira afirmava existir, era porque realmente existia. Os jogadores compulsivos levam a sério demais suas habilidades para apostarem no ceticismo. Certa vez, Wirmundo quase se separou de sua concubina para poder dar cabo de suas missões nos araxás virtuais. "Os homens que ambicionam a glória e a dor do triunfo sabem o momento certo de arremessar a toalha branca no ringue", pensou. Além do mais, o exílio voluntário não poderia ser pior do que não mais dar à luz a grandes idéias, ou aderir ao exemplo máximo da renúncia: traficar armas na antiga Eritréia. A busca frenética de Wirmundo tinha outras razões, como não querer ficar circunscrito ao cada vez mais numeroso clube de retrógrados. Mas ele reconhecia que a fuga através do jogo também não era nada louvável. Numa ocasião, passou em sua cabeça a possibilidade de concretizar uma fuga real, isto é, comprar um furgão e se refugiar com sua concubina para longe do Reino Brasílico, e gritar ao mundo: "O fogo tudo devora!". Como conseguir o passaporte para o exterior era impossível – em razão da peste e da nova jurisprudência do in loco parentis – a única solução era tentar encontrar saídas vulneráveis dentro dos Lan, mesmo que isso pudesse soar como um disparate. Wirmundo no fundo queria partir para um lugar distante, sem a limpeza dos "genes da linguagem", sem os sonhos dos lábios vaginais com alfinetes, sem o controle de clorofenilalanina e, antes de tudo, longe dos emolumentos cobrados pelo Partido. Essa postura distanciada dos princípios do Partido era

respondida com pequenas perseguições e a acusação de disseminar conclusões precipitadas. E esse mal-estar cívico era a fonte de sua raiva muda pelo autoritarismo do Partido. A ânsia pelo desempenho satisfatório num dos jogos mais populares dos brasiis (depois do futebol-de-xisto, é claro) fazia Wirmundo se sentir não propriamente um imperador do mundo, mas o senhor de uma guerra tropológica. O Lan era jogado em lugares que muito lembravam o antigo cassino da Quitandinha, não pela suntuosidade, mas pela imponência da arquitetura. Estes lugares eram simplesmente conhecidos como Pavilhão. Estas construções enclausuradas eram cobertas por telhas de zinco sobre vigas esculpidas distantes centenas de metros umas das outras, formando vãos arquitetonicamente impossíveis. Uma macarronada de fios e uma coalhada de terminais de computadores obstruíam o assoalho de saibro, que se estendia num raio poligonal de centenas de alqueires e era pisoteado por enxames de jovens vidrados. Além do aluguel de terminaisburros com mais recursos, havia um comércio informal de beberagens alcóolicas, café de taurina e maconha sem semente, considerada a erva símbolo dos dois brasiis, graças ao seu vasto uso, tanto no campo da medicina como na área têxtil, uma vitória da Lei Gabeira A única coisa que os Pavilhões tinham em comum com os antigos clubes de bingo era a interpolação de algarismos; fora isso, essas duas ciências de operações estavam tão distantes uma da outra quanto dois povos antípodas. Nos bingos, a soletração dispersa dos números embriagava e comovia. Já o ocultismo numérico do Lan servia apenas para criar fatos, que eram confirmados apenas no campo teórico e filosófico. Como isso era possível? Vamos supor que uma pessoa de forte tendência idealista tenha constatado que, ao pensar num acontecimento futuro (um acidente de carro a envolvendo, por exemplo), esse acontecimento perdia a chance de realmente se

efetivar, pois, de uma forma singular, o fato já teria acontecido. Pois bem, agora supondo que aquele mesmo idealista estivesse certo e que, realmente, fosse possível evitar fatos nefastos fazendo-os apenas se materializarem num plano mental privilegiado, capaz de colar a idéia no corpo. Então, se era possível evitar fatos futuros, então era possível também fazer com que eles acontecessem... As proposições idealistas e o plano imaterial da vida mental eram apenas cópias baratas, reflexos flácidos do espaço dos Lan. Esse espaço virtual baseado em texto era lidado por programadores viciados em funções e valores que davam vida aos topônimos e às descrições dos objetos. Sobre a questão da Roda da Fortuna que se aninhava dentro dos destinos, e que se fazia crível por um certo número de erros e acertos, Wirmundo fazia-se de desentendido. Não lhe cabia saber se um latido de cão o iria despertar de um transe, ou se um dia morreria apunhalado nas costas. O que lhe cabia era conjugar os verbos do Lan e efetuar os arremates de adjetivação com o máximo de perícia possível. O Lan dos Bandeirantes tinha um Caroço baseado nos dados de Taunay, e rapidamente se popularizou e se proliferou como uma jóia consensual (o consenso era o verdadeiro formador de opinião), ganhando muitos adeptos. Uma das características dos simuladores de mundo Lan era sua auto-expansão e os acréscimos adicionais feitos por milhares de avatares. Por ter uma grande quantidade de jogadores, o Lan dos Bandeirantes era, por assim dizer, muito convincente. Wirmundo havia conseguido com a ajuda de Curupira transportar para o Lan dos Bandeirantes uma categoria de jogador chamada "programador requintado", e o avatar que a possuísse ganhava bastante cavalo-de-força.

Na vida real, quando se deparava com um problema real, ou um desafio acima da média, Wirmundo invocava a expressão: "o problema X é infactível dentro de minha alçada". Nos Lan, aplicava as inversões paradoxais de von Foerster: “Na antiga causalidade, A implicava em B que implicava em A. Na nova (ultraje!), A implica em A!”. Em casa, era um mero leitor; nos Lan desafiava moinhos. No açougue, não agia nem como um filho da guerra fria, nem como da guerra de frieiras. Nos Lan, era um ferrabrás indestrutível. O avatar de Wirmundo no Lan dos Bandeirantes chamava-se Paulo_de_Proença, um antigo herói do sertão paulista. Esse bandeirante pertencia a uma categoria avançada de avatares e isso lhe conferia certas prerrogativas, como usar o manto da invisibilidade, as cápsulas de capsaicina, e alguns verbos exclusivos (“armar a vista”, por exemplo). Depois de se maravilhar com as novas comarcas quinhentistas, a primeira providência que Paulo_de_Proença tomou ao se conectar na última versão do Lan dos Bandeirantes foi remover um dos robôs do bestiário, o Mapinguari, uma espécie de preguiça gigante que possuía "unhas mais afiadas que uma verruma amolada" e executava certas tarefas periódicas, como vigiar o arraial de seu dono e provocar sobressaltos em bisbilhoteiros. O Mapinguari foi gerado pela indolência e era mais uma brincadeira sem importância, como pendurar um rato morto na traseira de um caminhão cargueiro. O robô era parente de uma Máquina Universal que havia passado no teste de Turing e, derivados do mesmo "código genético", surgiram outros tantos exemplares da criptozoologia brasílica, como o Coruqueama, um gigante antropomórfico de quinze pés; o Sinimbú, um camaleão que sabia se fingir de morto; e o Ipupiara, o monstro das praias ribeirinhas. Os seres listados no bestiário de Paulo_de_Proença não eram propriamente robôs, na acepção da ciência da robótica, versada

em teses como: Conspiração Acidental dos Sensores Estereoscópios, Registros de Tráfego do Nervo Corpus Callosum e Pistas Falsas na Inferência de Distâncias. O único ponto em comum entre as duas espécies de robôs era a capacidade de ambas criarem modelos de realidade através de uma consciência artificial, usando métodos estatísticos que evitam erros de conformidade. A manutenção do Mapinguari ocupava muito tempo de trabalho, e Wirmundo tinha coisas mais importantes para fazer, como aplicar técnicas de computação ubíqua para localizar um dos livros da biblioteca do caraíba Mateus_Leme, o Contentis Mundi. Wirmundo acreditava também que este livro continha a receita referente ao fabrico da pasta de ibicuíba, uma planta típica da flora brasiliensis que na época seiscentista curava todos os males dos piratininganos. Certa vez Wirmundo quase conseguiu localizar o número de registro do livro, mas uma queda de energia fez o trabalho de semanas ir por água abaixo. Segundo Curupira, para localizar esse livro era necessário criar um robô complexo – capaz de realizar milhares de instruções por segundo – utilizando técnicas antigas e ocultas, como apagar comentários e alterar os vetores das chaves "e" e "ou". Mas valia a pena despender todo esse esforço por um livro eletrônico? Por uma receita que poderia causar uma segunda Revolta da Vacina? A expressão "matar dois coelhos com uma cajadada" não explicava a ansiedade ambígua de Wirmundo. Um motivo ulterior à cura da peste o pressionava nesta busca: subverter o Estado paternal/patronal, nem que fosse com a receita de um bolo de curimã. A Unesco declararia em pouco tempo a Capital do Reino Brasílico como a sede cultural do mundo. Literalmente, a política nacional havia se resumido ao comércio autorizado de arte popular e solecismo. As artes típicas haviam tomado de assalto

missões comerciais e influenciado o estado bruto da política real, apenas com o assobio ressecado dos discípulos de Catulo da Paixão Cearense, cantadores que não tinham o treinamento marcial dos poetas de tempos de guerra. A literatura sempre cumpriu o papel de corruptora das intuições e, para resgatar esta missão, tinha de partir da estaca zero de um cancioneiro partidário. Um dos inimigos domésticos mais ferrenhos desta cantilena partidária era o exército de mendigos escritores – uma horda gigantesca de tipos C que se comprazia em exercer uma atividade literária militante urbana, que estava muito além da realidade virtual baseada em texto dos Lan e do regionalismo literário imposto pelo Partido. A Capital não era mais o local de retorno de um indivíduo movido pela querência de sua terra natal ou um acordo de grupos meritocráticos; passou a ser o rincão de desobedientes civis que a tudo haviam renunciado, e que reconheciam na arte muralista da cidade um forte sabor de resistência, um sabor de schmaltz e não de pururuca. Os mendigos estavam usando as mesmas armas do Partido como contramedida inversa, com suas frases tacanhas escritas pelos muros inacessíveis da Capital. Antes de virarem escritores de grafitos, estes moribundos eram escritores comuns, que usavam esferográficas e formulários contínuos. Optaram então pela "literatura de rastro". A literatura – seja nos emaranhados cordéis do Partido, nas descrições em estilo "hiperrealista fantástico" dos Lan ou nos grafitos espalhados pelos muros das lamentações da Capital – voltou a ser considerada a mãe das artes e o mais valioso bem cultural. E este era o principal argumento do Partido para enaltecer sua prevalência. As causas disto eram inúmeras: falhas nos padrões de compressão de imagens, derrocada da estratégia política de mídia impressa de Goebbels, filmes em terceira dimensão (que causaram mais impacto que o

surgimento do plástico, o quarto provedor da humanidade depois dos minerais, animais e vegetais), entre outras. As imagens eram usadas com parcimônia até pelos propagandistas do Partido, que recorriam a elas apenas para representar mascotes oficiais ou figuras de campanha de massa, como o demônio de saias. Essa crise da icnografia começou com os simuladores de imersão, que estavam fazendo com que seus usuários adquirissem uma autoconfiança exacerbada em situações reais, criando uma clivagem entre percepção e saber. A prova disso era que ver imagens reproduzidas de um boi sendo mutilado num matadouro soava mais chocante que praticar atropelamentos propositais de animais nas estradas, pois a razão de ser de uma imagem dependia da expectativa de realidade incutida no que é mentira e no que é documentário. Não existia perdão nem condenação para crimes sem corpo delito, sem um cadáver hirto devorado por um canibal especialista em não deixar vestígios – e isso era o suficiente para um carnívoro convencer um vegetariano terrorista de que os matadouros dos filmes eram locais de sacrifícios legítimos. No Reino Brasílico, tudo que se relacionasse com imagens ou um ícone pré-fabricado era monstruosamente satirizado pelo termo “metalinguagem beta”, restrito às artes visuais. Por conseguinte, as palavras, que no início da Revolução da Informação haviam tomado grande impulso (auxiliado pelas “epístolas automáticas”, que mais tarde se desenvolveram no sistema Trocano do Partido), voltaram a ser o maior veículo de transmissão de conhecimento. Influenciada por esta corrente, a Inteligência Artificial concentrou seus esforços na progressão mecânica dos reflexos de um jogador de futebol-de-xisto. Porém, tal captação da realidade acabou por apenas arremedar o ato em questão, ou seja, era praticamente impossível reunir num código todas as condicionais e variantes que transformam um carnijó num driblador. O Lan havia absorvido as melhores

características das linguagens baseadas na Inteligência Artificial, como a geração de respostas prontas e certas por meio de um simples comando. Para completar, foram somadas a isso as considerações das "unidades psicossomáticas da cibernética" e das "unidades emotivas da cibernética". A IA desamarrou as mãos dos homens, mas isso implicou em doenças ergométricas, que por sua vez implicaram em doenças virtualmente transmissíveis (provavelmente a RAS, considerada uma doença da alma). O comitê de saúde pública do Partido não sabia exatamente a origem da peste, mas sabia-se que esta doença estava relacionada com as moléculas que tinham um número ímpar de elétrons girando em sua órbita externa. O comitê sabia bem como as doenças do corpo e do espírito concentravam-se nas interfaces de terminais-burros (a RAS só foi erradicada recentemente). Parecia ser inútil lutar contra a peste, pois o mal começava a se alastrar como os braços de uma hidra. O Partido sabia como frear a AIDS e a RAS, porém dizia ainda não dominar completamente o alastro da peste. Também era sabido que havia uma omissão da parte do Partido, que estava ganhando tempo, pois o Antioxidante-3000, contendo a fórmula curativa da peste, só precisava de uma disputa de patente para poder ser livremente comercializado. A cura da maior peste que assolou o país (muito mais que a Febre Amarela, a dengue e a febre maculosa) estava a uma drástica partida de distância. O discurso político do Partido, ladeado por um oportunista classicismo regionalista, era satirizado pela língua travada dos mendigos escritores, mais precisamente, vultos organizados em torno de uma horda que exercia a atividade militante de pichar, com giz ou carvão, um tipo de literatura que, aos olhos de anorexia do Partido, era absolutamente degenerada. Os grafitos eram rabiscados com uma grafia incomparável, um léxico ideográfico anômalo, na maioria das vezes expressando frases

desconexas e heteróclitas, com letras tremidas e duplicadas, mas de muito impacto tipológico – quase místico. A maioria das formas de letras usadas nos grafitos tinha um significado próprio, como os hieróglifos. Os mendigos escritores eram, inconscientemente, os verdadeiros revitalizadores do fumisme francês, que não pregava o conformismo nem o nãoconformismo, e sim a fraude literária. Algumas dessas construções peculiares, compostas por idiotismos e estâncias de versos livres, eram, de alguma forma, legíveis. A arte estava nas ruas. A batalha de idéias, idem. A cultura há muito tempo havia se dissociado da política (se é que já foram unidas durante um breve período helênico) por questões de funcionalidade. O Partido, com uma propaganda agressiva, dizia que ambas haviam se reconciliado. Para receber tal crédito, o governo central foi obrigado a dar um tipo de aval artístico ao povo desfavorecido tipo C na frente da Unesco e da opinião pública internacional, e isso significou reconhecer as manifestações literárias populares contrárias à tendência regionalista. O Partido afagava a cabeça dos pichadores e regurgitava nos bastidores as vantagens de oferecer um enorme mural (os muros de todas as construções da Capital) aos praticantes de uma desprezível liberdade de expressão. Havia apenas uma única condição: o Partido faria de tempos em tempos exposições esporádicas dos grafitos, chamadas "Feiras de Arte Degenerada".
O conjunto de manias, obsessões ou fascínios – que são a propensão de o espírito observar o mundo de fora da retina – amainava o caráter indefinido e imprimia nos mendigos escritores uma capacidade para a criação de adventos caracterizados como, por exemplo, a impossibilidade de se fugir da verdade. Isso era refletido nos versos francos dos grafitos. Vassão, o companheiro e imediato íntimo de Raimundo, ex-líder dos mendigos, costumava escrever verdadeiras pérolas nos muros da Associação Cristã de

Moços. Era espantoso como aquelas letras malfeitas haviam provocado um retorno do impossível e o reaparecimento do discurso vago, pois negavam as contradições entre idéia geral e ideário perpetrado – entre tocar ópera nos currais de vacas leiteiras e nos calabouços de tortura. O que antes era desvio de caráter

vocacional da comunidade virou receita de paternalismo e preceito para o embuste político. O Partido estava interessado em continuar no poder com uma retomada de autores brasileiros clássicos, em mais uma manobra folclorista. A obra Cobra Norato ganhou a licitação e foi escolhida como tema do Carnaval Unionista de 20__. Independentemente do compromisso com a Unesco, o comitê executivo do Partido tinha que oferecer algumas regalias – avessas a seus interesses – à população tipo C, pois a atual constituição, por descuido, havia legado das constituições anteriores noções perigosas como "ação popular" e "ação civil pública". Teria de permitir o germe infame de uma reivindicação popular penetrar no vasto império das ciências jurídicas e literárias do Partido. E o pior: teria de obrigar o comitê de justiça a aprovar a proposta do representante geral dos mendigos escritores em considerar o roubo dos esboços de grafitos como latrocínio, pois o "delito do roubo era imediatamente seguido de uma morte em vida e da criação de um cadáver ambulante". Não havia proibições para as inscrições dos mendigos, que tinham ainda benefícios sociais típicos de um Estado de bemestar segmentado, pois todos tipo C recebiam cupons alimentícios que podiam ser trocados por miúdos de boi nos açougues de todo o território nacional. O argumento oficial era que, se o povo não estava devidamente assistido, era por seu próprio arbítrio e interesse, conta e risco. Ao povo, as batatas e os bolos com gordura trans.

As guerras de idéias, assim como as guerras corporais, sempre valorizaram o fator gentileza. Todos sabiam que Raimundo, o chefe dos mendigos escritores – um homem fuliginoso e de idade irreconhecível, que usava uma cobertura a Oscarito – era orgulhoso e não via com bons olhos o uso da cultura para fins de promoção estatal. O Estado não cumpria mais a função de apaziguador de províncias em guerra e nem de braço militar; o Estado passou a ser reconhecido pelo que sempre foi, ou seja, uma abstração que audaciosamente se diz capaz de contabilizar os danos sociais, mas que, ao cabo e ao final, acabava dirimindo apenas a possibilidade de perda de seus donatários. Esta era a crença básica de Raimundo. Inconformado com essa impostura, o chefe dos mendigos escritores arrebanhou apátridas bêbados e vilões desesperados para torcerem o nariz ao Partido moralmente irresponsável, e propôs uma alternativa na busca da cura da peste: a ingestão de bílis pura para combater a atrabílis, uma substância liberada, segundo as idéias do antigo médico grego Galeno, por uma disfunção da alma fisiológica, a pneumata, que tinha por morada o reino de Pleroma. Raimundo acreditava que este método de cura alternativa intimidou o Partido da mesma maneira que Muzio Scevola intimidou o chefe dos assírios colocando a sua mão no braseiro. Raimundo era apenas um mendigo, mas tinha um poder suportado por milhões, talvez trilhões, de pares farrapos humanos. Agora, o que todos sabiam, mas fingiam não saber – pois as pessoas não estavam acostumadas a dar ouvidos à sua própria mente – era que, Raimundo, o mais roto dos mendigos, era o potencial vice-rei dos dois brasiis. Para ele, o Antioxidante3000 era um blefe da classe dominante tipo A; e ser mendigo era melhor que ser ladrão.

Raimundo acordou numa manhã com a cantoria das lavadoras da várzea e dos carregadores de água, levantou o encerado preto e olhou para o céu cerúleo com olhos remelentos. O céu em condições de café adormecido refratava uma luz escura, uma luz longe de ser diurna; uma luz proscrita do catálogo luminista de Manet, pintor que dormia e acordava bem cedo para aproveitar – e estudar – toda a luminosidade possível do dia. Essa luz indefinida era pressageira e o mestre dos mendigos escritores, com o queixo perfilado, refletiu se um atrator estranho incorreria em suas decisões hoje. Ele estava com a peste, assim como seu comissário Vassão. Os dois bebiam vômitos coados de mendigos não infectados na esperança de limparem seus corpos impuros da peste. Nada o demovia de cumprir todos os itens da agenda, mesmo que fosse vítima de um pedaço de estação orbital extinta. Sua decisão prioritária era convencer o secretário-geral do comitê de cultura a liberar alguns textos do médico Galeno arquivados no mainframe do CPD do Partido. Esta liberação estava garantida por uma lei orgânica de saúde pública ("...pelo procurador do comitê de saúde do Partido foi requerido suporte a toda pesquisa voltada à erradicação do mal da carburação celular...") e não por uma manobra do Partido (segundo o alto escalão do Partido, isso era fundamental para a falsa superação moral dos tipo C). Apesar de achar imoral o atraso das indústrias farmacêuticas em comercializarem o Antioxidante-3000, Raimundo lucrava com a procrastinação, pois contava com um aumento do prazo para encontrar a cura alternativa. Não queria saber sobre as notícias de que as experiências do Antioxidante-3000 em cobaias haviam sido bem sucedidas. As indústrias farmacêuticas, carregando o cetro da ciência, estavam sendo omissas com a pandemia. Mas por mais que os cientistas fossem rechaçados, todos concordavam que a preservação da humanidade na Terra até o sol tornar-se uma anã branca dependia da boa vontade dos homens da ciência, principalmente dos farmacólogos.

A segunda decisão de Raimundo era se ia assinar ou não o termo de adesão de dois novos mendigos candidatos a serem agremiados no exército de mendigos escritores. Um tinha a tatuagem de listras e estrelas no braço inteiro (uma tatuagem de cárcere feita primariamente com uma agulha) e tinha escarificações espalhadas por todo o rosto – certamente uma tentativa de conserto dos cortes recebidos numa briga de garrafas; o outro se apoiava numa perna de pau e estava muito encardido. Vassão, o conselheiro de Raimundo, disse ter desconfiado serem eles agentes do Partido. Raimundo retrucou que espiões infiltrados podem se tornar agentes duplos. Um pouco de hipnotismo transforma em alucinação uma simples síndrome de Bonnet. Outra decisão: fazer ou não uma chantagem com Wirmundo, um açougueiro diferente dos açougueiros normais, que sempre tinham aparência de vítimas de balas perdidas. Confessava internamente que sua amizade era um pouco interesseira, pois estava atento aos fumos das tabas inimigas. Suspeitava que Wirmundo, de alguma forma, também buscava a cura da peste com suas pavanas virtuais. Raimundo inspecionava a coleta de miúdos em açougues, no exercício de sua atividade de intendência, e assim ficou conhecendo Wirmundo, apelidado “carinhosamente” por ele de “Xepeiro”. O Xepeiro era sempre generoso com a doação obrigatória de miúdos, mais especificamente o tutano do ossobuco. Raimundo gostava de ver o dióxido de carbono dos caminhões cargueiros entrar no açougue do Xepeiro como uma sépia de calamares fantasmas, um véu negro que encobria os coxões expostos dos bovinos. Esses detalhes atraiam o mestre dos mendigos em suas incursões para a aquisição de rancho, o que não deixava de ser mais uma forma de acúmulo de poder, pois o que parecia altruísmo intendente era na verdade o coronelismo de um capitão-mor. Entretanto, o grande chefe não

apoiava a reabilitação da patronagem cultural em nome do nacionalismo cego. Melhor perder o amigo que a tirada espirituosa. Raimundo também pensava que se o homem racional não prestava contas nem tributos a Deus por ter atingido um estágio de humanismo totalitário, não devia agradecer, como um platelminte rastejante, as esmolas das graças atendidas. Um tipo C autêntico se sentia como um seguidor de conclaves. O caminho do meio não tinha o poder de uma força expedicionária nem o sentido de vitória sobre um inimigo natural, e não ensinava a dominação de terras incógnitas ou devastadas. Os mestres, portanto, caminhavam sempre na contramão de vias de mão única e, ao serem refletidos no outro lado, extraiam o máximo de si mesmos. Para Raimundo, seguir por aquela senda era seguir o caminho do desejo de poder tudo, soterrado apenas pelo poder de querer tudo; isso às custas de obter o máximo possível com um mínimo de expensas existenciais. Mas de que adiantava o poder material supremo se a morte batia em sua porta com os nós frios dos ossos? Numa certa manhã, Wirmundo e Raimundo chegaram quase juntos ao açougue. No ar entre eles havia um vazio sem espessura, como uma tensão antagônica sempre presente em Jerusalém, onde o silêncio ganha dimensões despropositadas em torno da vizinhança imediata. Um caminhão de bombeiros com a sirene ligada frustou as vãs esperanças de se remover uma montanha. Dizia um antigo ditado que em tempos difíceis, as esperanças ficam mais agudizadas. Principalmente neste momento, em que o muco pestilento era extirpado com mais eficácia pelos purgantes populares do que pela penicilina, a esperança se dispersa com as aparências. Talvez por isso ninguém dava muita importância aos elevados índices estatísticos de acidentes automobilísticos ou aos hábitos do

“povo oculto”, uma gente que não se enquadrava em nenhum tipo previsto no triângulo da bandeira nacional. Combater a fome com uma política de assistência foi a Moral legada pelo Partido; a Moral Persecutória, a Moral da Força Bruta e a Moral da Admiração Forçada passaram a impingir menos convicção que a Moral de Disfunção de Conduta. O caráter moral dos cidadãos cadastrados era determinado pelo seu peso, que variava da anorexia à obesidade mórbida, passando pelo peso ideal determinado pelo índice de massa corporal. Paradoxalmente, a desobediência civil dos mendigos era incentivada pelo Partido, contanto não fosse apenas mais um conforto aos aflitos, e sim para demarcar territórios e diferenciar a arte revolucionária ("degenerada") da arte regionalista ("pura"). O método de Raimundo para chegar à grandeza de um mártir era considerado pelo Partido apenas um "desnecessário esforço físico". Os adversários enraivecidos – mas beneficiados pela tutela do líder – viam na política do Partido a prática de um Estado invejoso que, autoritariamente, desautorizava os ávidos pelo imprevisível. O Estado investia também na estética salubre da cultura popular e em atividades excludentes, alegavam os mesmos raivosos. Por cultura popular, entenda-se, uma arte financiada por políticas públicas, mas tão distante das expressões sagradas quanto está Papaceia. O artífice não mais produzia um artefato com propriedades religiosas e utilitaristas, não mais objetos vivos capazes de classificar informações com base em conhecimentos adquiridos anteriormente, mas se limitava a encontrar folhas de estilo na cerâmica azul de Delft. O Partido condicionou o surgimento de um novo realismo socialista, forçando a entrada de novos padrões na forma de objetos revestidos pelo caráter de “permanência”. A tolerância cultural foi deposta, e passou a enviar mensagens do além, como imagens falsas em nuvens. O artífice foi trocado pelo mártir, e o artefato pela relíquia.

Para o Partido, aquele mendigo carismático não passava de um receptor de partículas em suspensão e um colecionador entomológico – não de borboletas, mas de piolhos. Sua presença na esplanada causava perturbação: pelo medo impositivo de sua figura messiânica, pelo aspecto monástico de seu estado de necessidade, pelas admoestações que fazia aos que davam passos em falso, pela sua catinga radioativa. A classe política estava tentando recuperar o terreno perdido, pois quase entrou em colapso quando os arautos da "arte degenerada" passaram a acusá-la de irresponsabilidade moral e de terem tentado construir uma Moral, como faziam os jogadores de Lan. Quando o sagrado atravessava crises de sentido (e, por conseguinte, da moral política), o carisma dos etilitas era elevado às alturas. A ladainha litúrgica dos revolucionários sempre pregou, nas entrelinhas contínuas dos séculos que, para ser um administrador de almas penadas ou um mágico de epifanias era preciso não admitir, nem na hipótese de uma dádiva em falta, o compadecimento por afeição. Wirmundo achava particularmente Raimundo mais condescendente que contestador, e silenciosamente mantinha reservas quanto às suas táticas. Aquela "postura de casta", que somente valorizava os prejuízos incessantes, não sustentava maiores arroubos além dos rabiscos e frases sem efeito. O líder cego não reparava que, por uma insistência decisiva da elite, os cachorros continuariam a ser atropelados e um dia continuaria a ser diferente do outro (pelo menos até segunda-feira). O hábil Partido respondeu às seqüelas morais causadas pela peste com as "missões apotropéicas" dos sanitaristas oficiais, uma corruptela das missões do Marechal Rondon. Isso surtiu tanto efeito que a massa tipo B delegou a reconstrução psicossocial do país aos próprios derrocadores e promotores da sociopatia

vigente. Raimundo considerou essa manobra o ultraje de uma amante ciumenta. A divergência entre Wirmundo e Raimundo não impediu que os dois iniciassem um relacionamento mutualista e um grau de dependência maior que o existente entre a natureza humana e a Mãe Natureza. Raimundo colocou um latão no chão e disse com inflexão mandatária. - Como estamos, Xepeiro? Como está o ossobuco hoje? Quero tudo de primeira. Não houve paixão nem desinteresse na resposta de Wirmundo; apenas a insinuação de alguém que sabe uma resposta, mas finge não sabê-la. - Não, Raimundo. Hoje não vou doar tutano, como de costume. Vou doar outras entranhas, com mais graxa polisaturada. Escolha no menu o embutido do bucho ou a rabada amarrada. Quer saber por quê? Digamos que é uma espécie de vingança. Ontem, ao sair do açougue, vi dois dos seus mendigos revirando meu lixo. Fui falar com eles, sem ameaçar. Até pensei em chamá-los para entrar, mas estavam completamente bêbados e com o altímetro desnivelado. O bafo da cachaça de um deles quase maturou minha carne! E como falavam travado! Mas deu para perceber que queriam encontrar registros de encomendas, alguma coisa assim... Então você está me espionando? Desconfia de alguma coisa? Vamos abrir o jogo. - Como sabe que eram dois dos meus, Xepeiro? - Não existe nenhum mendigo que não esteja ligado direta ou indiretamente ao seu exército de escritores desnaturados.

A Terra parou naquele momento e Raimundo mudou a abordagem para algo mais seco. - Seu açougue carrega uma nódoa de objetos roubados. Os princípios gerais das ações dos dois conversadores foram entendidos nas entrelinhas de seus efeitos colaterais. Uma briga estava sendo procurada, e os rivais aceitaram a provocação mútua com uma condição: que a vingança pudesse ser promovida pelas antecipações de réplicas intencionalmente impensadas. Raimundo prosseguiu: - Você se prostituiu à lógica do Partido, Xepeiro! - Então fico feliz em praticar as duas profissões mais antigas do mundo! Raimundo desbastou aquele espirituosismo usando a imaginação a serviço do medo. - A profissão mais antiga da humanidade é a arte de representar. - Quer ver os meus registros? Olhe este formulário! - Wirmundo estendeu uma réstia seqüencial com os logotipos de uma franquia de logística e carimbos do comitê de comércio. - Olhe! Minha vida é transparente. Não contesto o Partido por princípio. Não apoio sua plataforma, mas não quero ter problemas burocráticos. Já tenho muitos problemas... - Problemas? Veja, Xepeiro. Tenho um companheiro que está morrendo, o Vassão. Você sabia que quem está infectado pela peste e come muita carne vermelha acaba vendo o mundo através de um filtro avermelhado? Vassão já está vendo sangue

escorrendo das paredes. Tenho dúvidas sobre a veracidade das palavras que ele está escrevendo sobre minha pessoa. Eu também sou gram-positivo. Minha morte urge... Quero, antes de morrer, mostrar para a comunidade que a peste poderia ter sido curada há muito tempo atrás com um concentrado de bílis pura, que não precisa de nenhum floral... Ao mesmo tempo, quero oferecer a esta mesma comunidade uma literatura que contenha em si a tempestade do ímpeto e a fúria cega do vandalismo. Quero deixar como testamento a possibilidade de não haver governos nem literatura. Quero antes de tudo a cura espiritual, mas não como quer o Partido, que abusa da propaganda subliminar. Quero a cura para os males de maneira geral... Wirmundo cortou um pedaço de pata de vaca com uma machadinha parecida com um tomahawk. - Cura para todos os males? No plano espiritual? – e como uma beluga que vem à superfície não em busca de ar, mas de um tanque de oxigênio, tomou alento e disse: - Não vejo como sua boa vontade de renúncia pode superar a má vontade do poder. A sujeira e o modo simiesco de coçar a barba de Raimundo era talvez – fora seu discurso – o que mais amedrontava a empatia de seus interlocutores. Wirmundo estava tentando acabar com qualquer precedente neste sentido. - O Antioxidante-3000 é uma farsa, Xepeiro! A tentativa de politizar a arte popular é uma farsa! Tudo que vejo ao meu redor é uma farsa! Desconte os grafitos. Somente os grafitos são a verdade! - Vocês são dogmáticos e ficam incitando a discórdia. São orgulhosos e presunçosos na negação do mundo físico. Loucura

afirmar que os grafitos são a única verdade. São insultos a maltrato, delírios de síndrome de abstinência, ódio gratuito a um inimigo invisível, insubmissão doentia, messianismo patológico, chame do que quiser. Não acredito nas suas opiniões sobre os Lan... Absurdo afirmar que as descrições metafóricas conspiram contra um suporte inexistente. Daqui a pouco você vai começar a alegar que os Lan são uma forma de conspiração do Partido...! Na minha opinião, o imediatismo estético do meu jogo faz mais estragos na estética mediada do poder dominante do que seus grafitos! E penso que vocês são joguetes nas mãos do poder. Estão sendo afrouxados no molinete, mas logo serão puxados... Vocês não deveriam aceitar essas ofertas alimentícias! Isso é como comer bife envenenado na mão de um dono sádico... Ou como comer um banquete debaixo de uma espada presa só por um fio de cabelo...! - Imagem clássica, muito clássica. Muito bem, Xepeiro... É por isso que eu gosto de você! E Raimundo mudou para um tom mais parecido com o barulho de um bate-estaca. - O Partido está se enfraquecendo a olhos vistos! Nós sugamos o fisiologismo deles e cuspimos guerrilha literária... Você não percebe que os benefícios das cotas de miúdos vai dar mais poder ao meu exército? Carne para a mente! Mente e carne! A cabeça é um motor! Você sabia que o tutano prorroga um pouco mais a vida dos infectados? - Não. Isso é loucura... Invenção sua... - A minoria silenciosa, a qual você pertence, vai nos apoiar na hora certa. E também sabemos cortar o fio de prata na hora certa. O povo já tem seus chuços! Você critica nossos grafitos? Só um idiota não perceberia os créditos dos mendigos como

porta-vozes de uma autoria bastarda. Não acho que os cancioneiros do Partido saibam o que eu sei. Vou contar a você um segredo. Não conte para ninguém. O segredo da cura da peste está em retirar o excesso de atrabílis do corpo. Existe a bílis, que é suco bom, e existe a atrabílis, que é o suco ruim. A atrabílis contamina nosso espírito fisiológico, a pneumata, uma entidade imortal que... - Que um dia vai pegar carona num disco voador e ir para o Nível Superior? Wirmundo, que cortava um outro pedaço de pata, quase perdeu o dedo mindinho ao se esmerar na intervenção zombadora. Ele logo se lembrou de um ditado que dizia ser prudente não incrementar um objeto incompleto, pois isso seria como decretálo à morte. Raimundo aproveitou a distração do cínico e trocou a caneta de luz de seu livro caixa. Feito isso, carregou seus latões com a rabada e voltou para as deformações perspéticas do seu acampamento assobiando uma sinfonia desconcertante. Algum tempo após a saída de Raimundo, um funcionário do comitê do tesouro entrou no açougue de Wirmundo com a arrogância típica de um servo que palpita mentiras ao seu senhor. Ele se vestia com o tradicional uniforme: uma espécie de pijama preto inteiriço com capuz, a tarja com os dois triângulos e a calça bege. O filho da sinecura olhou ao redor e pronunciou com as vistas de lentes grossas. - Tenho aqui um mandado para fazer uma fiscalização no seu estabelecimento. Você foi acusado de burlar a cota de miúdos. Temos estado de olho em você, açougueiro. Ouvi por aí que seu apelido é Xepeiro. Outro dia li um grafito dizendo que o Xepeiro não tem colher, pois come de concha. Muito sugestivo...

Pela primeira vez na vida, o funcionário reparou que havia feito uma citação da "arte degenerada". Wirmundo tinha a consciência tranqüila, pois sabia que seu livro estava atualizado, com todas as baixas de doações em ordem. O funcionário continuou a ferra. - Soube também por aí que anda com um demônio de saias e que pratica atos libidinosos com ela. - Atos de amor, por favor. - Chama de ato de amor uma faina porca? Pensa que é um tipo A de alto escalão? Você na verdade é um barbeiro, um inseto. Então? Já praticou aquela porcaria com a boca...? Com o filtro na língua? Wirmundo notou um enorme perigo naquelas palavras. - Eu pago todos os emolumentos do Partido e estou em dia com as doações. Creio que são justas as taxas sobre as arrecadações... Jamais me esquivei de nenhum dever nobre para com o Estado e o Partido. Quanto à minha vida privada, não há lei que proíba o ato de amor. O funcionário o marretou com os olhos em brasas. - AINDA NÃO! Ainda não. O humilhado continuou seus cabimentos. - Vou confirmar minhas obrigações – e calmamente retirou o avental manchado, abriu uma gaveta de metal e de lá retirou um livro com capa de marroquim. O funcionário se aproximou com falta de civilidade.

- Me dê sua caneta de luz. Wirmundo olhou para a porta-caneta e lembrou do pequeno entrevero que tivera com Raimundo e de suas patéticas revelações paramédicas. O descuido do desafio havia aberto uma guarda. - Essa não é minha caneta de luz. A minha tinha a figura da Norma Bengel com maiô líquido! - Está insinuando algo, adorador de imagens? Wirmundo entregou a caneta mesmo assim. O funcionário ajeitou os pequenos óculos e, com um dedo exangue, fez a caneta de luz correr a listagem de vistos. - Seu livro está com uma defasagem de quatrocentos gramas. Como você deve saber bem, a cota mensal imposta a todos os açougueiros dos dois brasiis é de trinta quilos ao mês de miúdos. Seu livro está demonstrando que justamente hoje você sonegou. É realmente muito azar seu eu vir aqui hoje. - Isso significa que vou ser multado? - Perfeitamente -- repetiu o funcionário com a expressão prazerosa de um mateiro de necrópole. Wirmundo pensou em traição e na sua incapacidade em questionar as delações do Partido. Em um relance, pensou na acusação que Raimundo sempre lhe fazia: de que, frente às imposições da vida militante, seus contrafortes decisórios se esfacelavam com os canhonaços da passividade.

O réu tinha um rol de réplicas ao seu favor, como a relatividade de um caráter em busca de um confronto contra si mesmo, e a seriedade sucumbida por sentimentalismo. Porém sua reação frente a esse tipo de acusação era exatamente a de ficar calado em sua ilha liliputiana por não acreditar que, se ele próprio não tinha o direito de exigir mudanças num “eu” que ainda não havia passado do estágio de formação, um “eu” externo tinha menos direito ainda. Sua atitude serena e sua vontade recalcada de imposição o condenavam a ser um eterno consignatário do consentimento partidário, por mais que lutasse contra isso. - Eu sempre doei uma cota maior de miúdos para as colunas tipo C! Tenho sido muito generoso... Penso que é uma falha técnica. Reconheço minha falta e pergunto qual o valor da multa. O funcionário levantou os olhos de rapina de sua leitura crítica. - Tenho uma proposta. Estamos a poucos dias do Carnaval Unionista. Eu tenho que vender rifas para o levantamento de fundos de produção. Eu dou a baixa e você compra lotes da minha rifa. Os valores são iguais: trezentos talentos. - Prefiro pagar a multa. - Então a multa é o dobro. Sem perguntar maiores detalhes, Wirmundo abriu outra gaveta de metal leve e retirou algumas moedas. Queria poder pagar trinta dinheiros ao funcionário, mas o lote tinha um outro padrão monetário. Ele pagou a quantia certa sem muito remorso de perda material, já que os objetos e as coisas tinham perdido seu valor real, o valor da "coisa" que busca ser reconhecida como infalível de perda; ou pelo menos o valor de mercado de antes do degelo cambial mundial.

Os tipo C eram sábios neste ponto: eles abominavam a renúncia de objetos usados que estavam inseridos na categoria "meiavida", pois nenhum objeto adquirido era encarado como descartável ou de vida breve, mas era utilizado até o último fio de lona, a última fagulha de hulha, a última molécula de borracha. Atitudes frívolas como ver o raio verde do crepúsculo, ou ouvir os acordes de uma rabeca de brinquedo, lançavam um feitiço do luxo mais potente que as propostas de riqueza fácil. O Partido via a atividade do exército de mendigos escritores como inofensiva, impossível de tartufiar uma mensagem de revolta; e acreditava que se a vida estava tentando assumir o lugar da arte, então era porque todos os modelos estavam esgotados. O Partido, os mendigos e os jogadores de Lan estavam tentando criar um modelo novo: um aprumo em meio ao desalinho. O funcionário do comitê do tesouro permaneceu no estabelecimento mesmo após a paga. Um nítido abuso, considerando que Wirmundo possuía o broche do Partido e o poder das insígnias sobre os subordinados. Não fazia questão de ser um herói emoliente (o herói de epopéia, ao contrário do herói atlético, se rende mais facilmente ao destino escolhido pelos deuses); apenas um homem comum em busca do herói diário e ordinário, ou um homem disposto a ser o manequim de todas as coisas. Uma ambulância passou correndo e Lançou um gemido de porco castrado, e isso acordou o funcionário de seu sonho diurno diabólico. Ele ficou por um tempo observando alguns garotos brincando com miniaturas de automóveis na quadra de um dos milhares de estacionamentos gigantes da Capital Federal. Finalmente saiu dizendo uma frase enigmática: - Guaçu mandou lembranças.

Wirmundo fechou o açougue e saiu de sobremarcha em direção ao acampamento dos mendigos escritores, que ficava perto da Casa dos Bandeirantes. A frase final do funcionário fez com que ele ignorasse mais adiante os destroços de um carro rabo-depeixe que havia caído de um viaduto. Havia um cheiro forte de aguarrás no ar. O carro entrou como uma pororoca nas bossagens de um edifício público, e nem a mais pervertida tara sexual podia tirar algum proveito daqueles ferros retorcidos e corpos desfigurados (nunca havia feridos nos acidentes de carro, apenas baixas). Não era à toa que para fazer um seguro total de um automóvel, era imprescindível a apresentação de um eletroencefalograma do segurado. Os transeuntes nem ao menos tinham ânsias com o incômodo daquela situação. Wirmundo chegou até a assobiar um tema improvisado. Alguns caçadores de acidentes também estavam presentes. Estes espectadores, deitados sobre espreguiçadeiras debaixo dos viadutos mais movimentados, esperavam pacientemente por acidentes lendo biografias de Henry Ford, o inventor do lema “Não critique. Encontre soluções”. Apesar de ter passado por um desconforto habitual, Wirmundo não queria que suas recentes mazelas com o Partido incentivassem uma cizânia com os epígonos de Raimundo, e isto significava não perder a dignidade do seu retraimento. No fundo, admirava as provações que não tinham o caráter de prisões domiciliares ou trabalhos comunitários. A intenção de Wirmundo era puramente corretiva e não tinha nada em comum com a distribuição gratuita de esforços afirmativos. Houve uma invasão de liberdade individual mais incisiva que dizer a uma pessoa não muito conhecida “Sonhei com você esta noite”. A situação exigia uma atitude desprendida. Ele sabia que as guerras cometidas em nome de uma verdade

pretensiosa eram alavancadas por uma força de resistência tão ancestral quanto a descoberta do poder de transformar a matéria. "Esta força teve início com uma irresistível vontade de chutar latas de alumínio jogadas no chão, e terminou com as raízes das árvores quebrando o asfalto da rua", pensou. Wirmundo estava decidido a não entrar no acampamento como um centurião romano, mas também não queria espantar sua modéstia justificada com o desenleio da ira divina, ou seja, não queria se deixar levar pelas emoções. Por certo, Raimundo tinha bons motivos para ter feito o que fez. "Todos os motivos têm um significado. E todos significados sempre vêm à tona". Um mendigo vestido com um abadá branco encardido estava fazendo um discurso inflamado para uma platéia imaginária. Quando Wirmundo passou ao seu lado, o mendigo fez uma previsão: - Vassão está nas últimas. Sua história nunca será contada... Ao penetrar mais no núcleo subumano do acampamento, Wirmundo notou um alvoroço em torno de dois mendigos contendores que pareciam disputar um livro com a capa ensebada. O medo do desconhecido deslocou sua consciência para o estereótipo do membro de uma nave espacial que se volta contra a tripulação por ter sido incubado por um "hospedeiro". Um dos mendigos estava na posse de um livro e gritava sobremaneira com o outro. - Fui eu! Eu achei o livro de Cláudio Galeno! O outro respondeu no mesmo volume.

- Aquele setor era meu! São ordens de cima, companheiro! "...a cada elemento do grupo será designado um quinhão de vasculho para fins de separação... " cito de cabeça uma de nossas normas... Raimundo, com a imponência de sua coroa de plástico suja de barro, se aproximou dos dois mendigos e se apoderou do livro da disputa. - Onde conseguiram este livro? - Foram os dois novos mendigos... O tatuado e o aleijado... Eles acharam, mas jogaram fora... Não deram a mínima importância... Raimundo começou um discurso cabotino: - Vocês deviam dar mais ouvidos à voz da fraternidade, e não da razão! Não digo a fraternidade da solidariedade, mas a fraternidade das sete velas, que se apagam no túnel de vento que vai da concepção até a morte. Temos aqui, neste humilde assentamento, pessoas infectadas pela peste que dependem apenas de um auxílio rápido... O Partido tem a nos oferecer um produto duvidoso, o Antioxidante-3000, que ainda não foi comercializado por motivos de ganância. Se dissessem que a poeira de mica cura um mal qualquer, forçariam o povo a acreditar... As proposições do Partido são oportunistas! Um jogo de vida ou de morte foi decidido para resolver o impasse dos dividendos do produto! Que prioridade é essa? Tudo para meus amigos e nada para meus inimigos? Nem um cumprimento marcial? Então que o mundo do governo exploda! Eu tenho razões para crer que não necessitamos deste tipo de cura e que a justificação final da pneumata está em algum parágrafo perdido...

Raimundo levantou o livro para cima com um braço e baixou sua cabeça. - Será que em algum parágrafo perdido deste livro? A multidão de mendigos estava magnetizada. Raimundo levantou a cabeça e berrou. - EU RESPONDO QUE... TALVEZ NÃO! Um resmungo generalizado quebrou o encanto. - Como não? - Como não? Raimundo recapitulou: - Eu não disse que não. Eu disse que talvez não. De qualquer maneira, a resposta está nos textos que o Partido vai ser obrigado a nos entregar por força da lei! Ouçam... Raimundo estava inchado. - Estou mourejando dias e noites para descobrir o antídoto para a desgraça que se abateu sobre nós. Temos que ser abnegados! Temos que ter uma presença de espírito acima de qualquer conspiração. Temos que escrever e escrever contra as forças da idiocracia! Somos gente de força e pretensão calculada, não somos? Usamos a pretensão como bucha de canhão, não usamos? Sim, hei de ser pretensioso! Se for preciso colocarei o mar vermelho dentro de um baldinho azul! Somos semeadores de tempestades cerebrais, não somos? Antes escrever e morrer do que padecer e calar! Antes morrer lutando do que morrer em luto!

A multidão de mendigos que se formou para ouvir o discurso de Raimundo acordou com a sátira cínica e as rimas do discurso e rapidamente se dispersou ao som de um leve burburinho. Alguns começaram a treinar os esboços do que parecia ser mais um ataque de grafitos. Wirmundo se aproximou de Raimundo, agarrou seu braço e disse firme: - Você está querendo aumentar meus problemas com o Partido, Raimundo? - Xepeiro... Eu não sou ingênuo! Tenho informações que você está procurando uma coisinha em seu sertão de texto. Você não é exatamente um parvo viciado em jogos... Sei que ambiciona coisas maiores... Pena que não seja uma pessoa exatamente aberta. - Quem deu essas informações? - Um homem numa cadeira de rodas rosa choque. - Você não sabe exatamente do que está falando... - Não mesmo? Por onde começar? Sei que um antigo bandeirante, nos tempos das entradas e bandeiras, sem mais nem menos, passou a usar uma determinada pasta no tratamento da malária. Uma espécie de óleo de noz. Sei também que você pode fazer reconstituições históricas perfeitas no seu jogo. Você poderia descobrir algo sobre esse assunto para seu amigo Raimundo? Sobre essa pequena noz? Não gosto de fazer chantagens, mas acho que você já sentiu meu poder de fogo. Diga-me afinal, o que significa a sigla Lan?

Wirmundo precisava de um rodeio. "Raimundo sabe o que se esconde por trás da receita de ibicuíba? Não é possível ser apunhalado assim pelas costas. Muito difícil trabalhar assim contra todas as expectativas". Ele acendeu um cigarro e fez as palavras de seu rodeio passarem entre os círculos de fumaça. - Me lembro de um antigo médico nordestino que afirmava ter descoberto uma cura para a dementia canicula através de uma operação de hérnia de disco. No campo da medicina tudo pode acontecer... - Aquilo foi obra melindrosa do mais puro acaso! - Espere aí, Raimundo! Você está querendo me envolver em suas conspirações políticas? As indústrias farmacêuticas sustentam a máquina do Partido e eu tenho certeza de que eles estão se esforçando ao máximo para comercializar o Antioxidante-3000 o mais rápido possível! E como comprovaram os testes, o Antioxidante-3000 efetivamente cura a peste. Por outro lado, creio que suas idéias sobre uma cura alternativa cheiram a charlatanismo político. Antes de você se revoltar contra Vassão, que era seguidor da Tábua da Esmeralda de Hermes Trismegisto, você era seguidor de Paracelso, agora é seguidor de Galeno. Há pouco tempo atrás, você recomendou um boicote ao sal, pois o "sódio ataca os humores minerais". Hoje você prescreve... Prescreve... Eu nem consigo falar sobre isso sem ter engulhos. - Respeite o nosso Elixir da Vida, Xepeiro. Deixe-nos sermos comedores de vômito. Se não acredita, não detrate. Chego a pensar que você realmente é um deles... Não adianta ser amigo de um mendigo escritor... - Você sempre me criticou, por quê eu seria seu amigo? E qual a razão dessa mudança súbita? Por quê você está se desviando

de suas idéias sagradas? Você não era o maior crítico do avanço tecnológico da escrita no meio eletrônico? - Estou querendo unir forças contra os produtos do Partido. Apenas busco um aliado... Não é querer muito, é? - Você sabe que esta luta é desigual! Vai acabar se metendo no meio de um duelo de titãs e sendo pisoteado como uma barata radioativa. - Então, vida longa às baratas! - As baratas não sobrevivem às chineladas, meu caro. - Você está blasfemando contra a necessidade metafísica? É um egoísta que não sabe nada sobre a pneumata e... - Quer que eu acredite nessa besteira? Uma pessoa que se diz líder não pode se prender à suposições não comprovadas. Não pode acreditar que a imaginação médica pode tudo contra a ciência médica. Quem conhece os anais médicos conhece tudo... - Você não fica bem neste papel de bajulador, Xepeiro. Permitame uma correção. Quem controla as indústrias farmacêuticas é o Partido, e não o contrário. Pensando bem, tanto faz quem controla quem neste corpo social doente! Ambos estão metidos numa competição para resolver quem cura primeiro o mal de sua falta de competência. Diga-me uma coisa... Por quê tanto interesse pela temática dos bandeirantes? - Nada em especial. Poderia ter escolhido um código pirata da Guerra dos Cem Anos, mas preferi não chamar muita a atenção do Partido.

- Isso não me convence... - Só quero me divertir, seja no interior paulista antigo, seja num jogo de truco digital. Tudo em nome da diversão... Quero apenas beber, programar, conhecer alguns amigos da rede. Gosto de ver de longe os jogadores de Lan tomando pingas nos balcões dos bares do Pavilhão. Gosto de ver umas pequenas, por quê não? Ou você acha que eu me resigno à abstinência sexual proposta pelo Partido? Trabalho de dia, pois o trabalho é um dever, mas não ignoro para onde aponta meu membro à noite. Sou e quero permanecer um cidadão invisível, mas respeitado. Não sou a pessoa certa para lutar contra suas chantagens e represálias... Está falando em revolução? Não conte comigo... Quer um amigo simplesmente? Neste caso podemos conversar. - Quer dizer que nunca ouviu falar do que eu disse? Wirmundo foi acometido por uma onda de suposições e de provas que não precisavam de motivos. Percebeu também que uma reação de incredulidade poderia transformar seu desagravo numa inferência de suspeita, ou no espectro de uma idéia. - Definitivamente, não. Raimundo ficou momentaneamente em silêncio e começou a caminhar na direção oposta sem insistir mais nas respostas. Seus contornos estavam borrados pelas sombras das árvores, o que o fazia parecer um astronauta em direção ao sol, com seu foguete em adiantado estado de derretimento. Alguns mendigos estavam estirados em colchões putrefatos, com suas barbas cobertas por fios secos de bílis. Outros estavam estirados em móveis capengas recolhidos em lixões. Somente uma casta com tamanho conhecimento biliar podia acreditar que a atrabílis, a temedíssima bílis negra, contaminava uma substância

incorpórea não comprovada, e que só a bílis coada podia anular os efeitos desse mal. Wirmundo se aconchegou a uma turpe de mendigos acrobáticos e buscou uma forma de desencurralar seus pensamentos e descongestionar seu nariz. "É melhor eu ir acostumando meus ouvidos ao som do silêncio, pois em breve ele será meu único companheiro", pensou. Num edifício de setenta e dois andares construído no meio do Paço Municipal, um grupo de consultores do Partido discutia com a aspereza requerida pelo cargo as pautas do dia. A principal delas era sobre a evolução dos custos para a consecução do que consideravam “o maior evento cívico desde as comemorações do término da Reconstrução e do Sexticentenário”. O presidente do Partido – um negro parrudo que se firmou somente com despojos de guerra e sobras de campanha – estava muito ansioso e, sem disfarçar esta impropriedade, acuou seus consultores com perguntas diretivas a respeito das matérias secundárias da agenda. Os assessores enfileirados falavam na seqüência, um de cada vez. - Como foi argüido na ação, a desestruturação da Banda do Corpo de Bombeiros tende a gerar uma situação de difícil reversão na hipótese de declaração de inconstitucionalidade da emenda aprovada pala majoração do Partido... - ...O corpo militar, sob a tutela do comitê de segurança nacional, passou a ser responsável pela elaboração e execução da política estadual de defesa civil e das medidas de prevenção de combate à incêndios. Isto está disposto na organização e funcionamento da administração...

- ...Já que o presidente do supremo tribunal do comitê de justiça salientou que nenhum processo precedente que tramitou no tribunal tratava da extinção de um dos órgãos previstos na constituição do primeiro Ano Geofísico... -...E é de inequívoca plausibilidade a usurpação da iniciativa privativa do mandado. Não se trata de matéria relativa ao regime jurídico dos servidores públicos... -... E quanto ao recesso judiciário do comitê de justiça, o presidente já determinou que os representantes da casa militar, sob a tutela do comitê de segurança nacional, e do comitê de meio ambiente comprovem uma tese de soberania nacional. O presidente negro foi lacônico. - Foi determinado que o Corpo de Bombeiros ficasse responsável apenas pela banda? - Sim, senhor presidente. - Despachado. Após um segundo de alívio burocrático, a sala foi acometida por um silvo surdo da cobra Boiúna. - Então, meus senhores? Vamos ao que interessa? Como está o trabalho da força-tarefa às vésperas do Carnaval Unionista? Onde está o relatório do comitê de inteligência? Os mutirões estão rendendo? O líder dos tipo C já foi despistado? Os excessos escusos da segunda parte da agenda explodiam como bombas-relógio. Para evitar imprevistos no dia do Carnaval Unionista, o Partido deliberou a criação de uma força-

tarefa, cuja missão era remover previamente os infectados tipo C das proximidades do desfile. Um consultor falsamente bem trajado (usava uma gravata estampada com versos) adiantou. - Excelentíssimo. Tudo anda como planejado. As duas indústrias farmacêuticas concorrentes, a dos Maués e a do Grupo dos Dois, emitiram uma carta de compromisso. Com relação aos mendigos escritores, há dois agentes infiltrados entre os decadentes que irão difundir falsos testemunhos. O líder dos tipo C, um mendigo que atende pelo nome Raimundo, está sendo despistado devidamente. Os funcionários do comitê de inteligência conseguiram infiltrar entre os infames o livro apócrifo de Galeno. Provavelmente a essa hora já o estão consultando avidamente. O plano é fazer com que eles realmente acreditem naquela história insana de que a atrabílis contamina uma "alma fisiológica", naquela medicina de fundo de quintal. Mas como eles são gnósticos, essa operação vai ser tão fácil como colocar açúcar no mamão. - Muito provavelmente esta história não vai se alastrar, disse outro assessor. - Nunca julgue os critérios da massa. Tem gente que daria um braço para salvar um galo de briga – sobrepôs, ou melhor, enterrou o presidente negro. Um consultor médico do Partido se levantou e interviu: - Este negócio de alma fisiológica certamente é uma comédia. Vamos nos ater aos fatos científicos. O problema é que a oxidação sempre vem acompanhada pela redução de um receptor de elétrons. Este processo, nas células do corpo, chama-se redox. A respiração é uma reação controlada entre

hidrogênio e oxigênio, cujo produto final é a água. O oxigênio, em alguns casos, pode ser um poderoso agente de lesões oxidativas causadas pela formação de radicais superóxidos. O que o chefe dos mendigos não sabe, e provavelmente nunca vai saber, é que a peste é um efeito do excesso de oxigênio e da redox. Um assessor acrescentou como um penetra. - Essa palavra tem um grande poder publicitário... Já vejo escrito na embalagem do nosso Antioxidante-3000 a frase: "Produto anti-redox"... - Isso se os Maués ganharem a disputa da patente da copaíbavermelha... O presidente negro não parecia estar muito interessado em lições de bromatologia e insistiu em assuntos mais tecnocráticos. Cada detalhe de sua rudeza era meticulosamente frisado para dar a impressão de que sua incumbência política era derrogatória. Mas a verdadeira impressão que transmitia era a de que suas incumbências transitavam entre o cínico pranto de uma carpideira e o cínico convencimento de um fazedor de milagres. - Fico admirado com tamanha solicitude, senhores, mas agora vamos falar do que interessa. Estamos preparando um pLano muito complexo de moralização da nossa nação dividida. Tudo precisa estar funcionando perfeitamente. Pergunto: a fantasia de Cobra Norato já está pronta? Vocês estão orientando as costureiras para que ela seja feita com apenas dois tipos de material, spandex e bombazina? Os mínimos detalhes devem transmitir a idéia de pacto entre os dois brasiis do Reino Brasílico. Nossos cancioneiros já ensaiaram as quadras de Catulo? E as quadras da fase Arraial do Armorial? O tema de

Anacleto de Medeiros já foi exaustivamente ensaiado pela banda do Corpo de Bombeiros? E as portadoras e subportadoras dos satélites da nossa órbita geoestacionária já estão disponíveis? Quero todos os funcionários do Partido, de todos os escalões e modalidades, de sobreaviso. Quero ver a área do desfile, a Praça do Relógio, livre de infectados e adolescentes vagabundos. Quero ver também os bulevares exteriores e os circuitos parciais secundários desimpedidos. Quero ver se vencemos também a limpeza dos grafitos em torno destas áreas, pois não quero que a comunidade global perceba a imundice da nossa Capital. Precisamos fazer nossos funcionários acreditarem que, se houver falhas perante as câmeras da Unesco, eles deverão injetar ar nas veias. E isso inclui os senhores. Um outro consultor, que sabia que aquela última frase não era uma metáfora, engoliu a seco e explicou sucintamente os detalhes do desfile do Carnaval Unionista: - Senhor presidente. O desfile também vai passar a mensagem de cura. Explico. O primeiro carro-alegórico vai apresentar a Escola das Árvores. Cobra Norato, com uma fita no pescoço e segurando uma flor de tajá, vai estar ao lado da filha da Rainha Luzia, com seu anel e seu pente-de-ouro. A comitiva do casal será formada por foliões fantasiados de Minhocão, Bicho-doFundo, Cunhado Jabotí, Rei-de-Copas, Boi-Queixume e outros personagens menores. No segundo carro-alegórico, vai estar a Cobra Grande em baixo de um painel de cacho de estrelas. Um folião fantasiado de tatu-de-bunda-seca vai delatar a união de Cobra Norato com a filha da Rainha Luzia. As estrelas sobre a Cobra Grande vão cair e provocar um incêndio. A Cobra Grande vai então saltar deste carro para o primeiro carro, onde tem a alegoria de um rio. No terceiro carro estarão a Mãe do Lago, com sua figa de Angola, e um Pajé encarnado com o espírito de onça. Eles farão uma espécie de benzedura do incêndio através

das fumaças de mucurana e da nossa erva nacional. A partir do terceiro carro, virão os carros secundários. As fantasias de todas estas entidades já estão prontas com os devidos tecidos e acabamentos. - E entre os carros secundários, além do carro de bombeiros, haverá um homenageando o centenário de Álvaro Apocalipse, líder do grupo de marionetes Giramundo. Entre os adereços haverá um flamingo gigante e um espírito-das-águas feitos com papel manteiga. Um outro consultor mais inflamado emendou. - O Partido está contratando um número animador de servidores públicos tipo B para seus quadros em troca de pequenas funções administrativas para a produção do evento! Estamos cobrando resultados comprovados dos organizadores do Carnaval Unionista e do comitê de inteligência! Dentro em breve, seremos o maior Partido que já pisou na face deste país. E quiçá, do MUNDO! - E o que disse o relatório do comitê de inteligência? – perguntou desconfiado o Presidente. Um outro assessor completou. - Os relatórios desses amalucados não dizem nada, senhor Presidente. Mas eu posso informar que nosso agente secreto, nosso homem de Ararí, veio de um aterro com a forma de um jacaré. Ele é um especialista em linguagens de programação com expressões indígenas. Suspeitamos que um desses garotos carecas viciados em Lan conseguiu atravessar a zona desmilitarizada do sistema Trocano e fazer um posto avançado nas portas de nosso mainframe. Ainda não sabemos se ele conseguiu um endereço no cubo de cobalto. Segundo

informantes, o problema já foi localizado numa das novas versões do Lan dos Bandeirantes. O nosso homem de Ararí já se infiltrou no jogo para vigiar o suspeito. Dentro em breve ele vai abandonar sua posição de espião passivo e vai partir para a refrega. Um acinte tentar invadir o nosso computador central... Nossa memória nacional! - Se isso comprometer o cubo de cobalto, os vermes vão passar a ter um interesse repentino por você, entendeu? Esses jogos estão ficando perigosos! Já falei que deveríamos encontrar uma maneira moral de coibir a jogatina! - Não se preocupe, Presidente. Não existe pecado ao sul do equador. - Esse homem de Ararí... Ele é de confiança? - Ele é o mestre de todas as línguas turanas das linguagens de programação. É um homem que não confunde metal com pedra, nem bit com byte! - Ele... sabe alguma coisa sobre o monossílabo sagrado Quriri? - Sim, senhor. - E o invasor?! Também sabe? - Ainda não temos certeza, senhor Presidente... - Se ele conhecer o nosso monossílabo sagrado, a matriz universal de todas as línguas, cabeças rolarão neste recinto, senhor assessor! - Sim, senhor Presidente!

Em segundos, todos os reunidos naquela sala automaticamente levantaram os dois braços como se tivessem marcado um gol cósmico e guincharam como se estivessem tendo um orgasmo universal. - VIVA O PARTIDO!! O Estado condenado por tragédias naturais e artificiais se esforçava mais na solução de uma metástase moral, uma doença que teve início em tempos imemoriais e que agora estava definitivamente desvirtuada e sem controle. Portanto, a indolência política no sentido de cumprir a missão divina de combater as distorções da salus populi agravou mais a dispersão das novas formas de varíola. O fracasso da confiança podia ser percebido na enorme proliferação de sistemas de alarme, que eram instalados não apenas em instituições financeiras, mas em qualquer edifício público ou privado. Mas o Estado não era condenado por incorreção da vontade política? Não, pois a estratégia era interpretar – e não exterminar – o povo, para que a nova orientação cultural não fosse colocada em xeque. Um terceiro consultor lembrou sem consultar ninguém com os olhos: - Os benefícios que estamos oferecendo aos tipo C, como cupons alimentícios e uma certa autonomia em nossa estrutura, estão compensando... E isso foi como jogar sal numa ferida ainda com o sangue rubro. - Você sabe por acaso quanto está custando aos cofres do Partido esses benefícios, senhor assessor? Então não queira saber. Isso poderia fundir seu cérebro de transistor... – disse entre os dentes alvos o presidente negro.

Um consultor tomou a iniciativa de distrair o ódio com uma mudança de pauta. - Excelentíssimo! As indústrias farmacêuticas já conhecem a cura efetiva para a peste da bílis negra. Estão só passando por um pequeno processo de disputa de uma resina. Foi resolvido pelo comitê de justiça que dar cabo a esse impasse é função do Estado. O Antioxidante-3000 será o nosso produto e as perspectivas serão as melhores possíveis! Um outro consultor viu que aquele era o sinal de fumaça que chamava sua intromissão promissora. - O comitê de justiça esteve reunido com os porta-vozes das duas indústrias farmacêuticas. Foi acordado que a disputa pela patente da copaíba-vermelha vai ser resolvida numa partida de futebol-de-xisto no estádio municipal. O presidente, um pouco mais aborrecido com o curso daquela conversa, interrompeu: - Mas os jogos de futebol-de-xisto não estavam proibidos para a resolução de impasses jurídicos? - O comitê de justiça acabou de revogar a lei. Um outro consultor de prontidão não compreendeu a falta de visão do líder. - Excelentíssimo. Essa é uma grande causa e uma grande chance. Se conseguirmos fazer o Antioxidante-3000 ser comercializado logo depois do Carnaval Unionista, transformaremos chumbo em ouro! Teremos infinitas filiações – e, ao perceber que seu diletantismo precipitado dominava o

próprio chefe maior do Reino Brasílico, continuou com seu bafo quente: - Os mendigos escritores serão os partícipes e o Partido será o artífice da unificação, não o contrário, como mostram as expectativas. O presidente negro percebeu um pouco de verdade naquele pensamento, mas continuou num tom mandante voltado aos insolentes. - Está bem. Coloquem à disposição das duas indústrias farmacêuticas toda a infra-estrutura para que o jogo seja efetuado o mais rápido possível. Os exojoelhos precisam ser aprimorados. Contratem os dois melhores treinadores, os três melhores cartolas e os quatro melhores olheiros. Mas não se esqueçam de que os Maués precisam ganhar a partida. Qual a alternativa caso isso não venha a ocorrer? - Temos o plano B, senhor Presidente. - Plano B? - Sim, senhor. O plano B. O Presidente, cansado com os rumos daquele "método do caminho crítico", fechou a sessão com os olhos vagos de nostalgia. Uma faxineira foi obrigada por três consultores sádicos a equilibrar três cadeiras no ar. A faxineira não se incomodou com a brincadeira; pelo contrário, se sentiu poderosa a ponto de causar um desastre automobilístico a poucos quilômetros dali. Naqueles tempos em que não havia mais correlação entre

dinheiro e poder, o bem material mais valioso (depois da escrita) era a atenção. Wirmundo saiu do acampamento e caminhou pela calçada repleta de sucata e destroços de carros acidentados. Segundo uma portaria do Partido, a expressão "não doador de órgãos" deveria estar gravada de forma indelével e inviolável nos documentos de habilitação, para que fosse inibido o comércio ilegal de vísceras. As pessoas passavam ao largo dos carros retorcidos – de onde saiam sons de alcíones – indiferentes se os corpos estatelados dos passageiros eram de algum parente. Não havia discernimento na rotina macabra dos acidentes automobilísticos graves; os carros eram um meio de transporte e ponto final. Os meios de transporte públicos, principalmente os subterrâneos, estavam praticamente desativados desde o final do ultimo milênio, pois o "povo oculto" ocupou os poços de transporte, e nada, nem mesmo um acidente automobilístico, podia ser mais grotesco que a aparição de um membro do "povo oculto". Os que pertenciam a esse grupo eram mais invisíveis que os rosacrucianistas e habitavam mais o imaginário da nação do que seus poços. Apesar de ser uma verdade indiscutível sua presença ostensiva, não havia provas concretas de sua existência; eles podiam ser tão verdadeiros quanto uma fada sentada num cogumelo. O Partido acreditava que havia conseguido varrer o "povo oculto" para debaixo do tapete da sociedade, pois considerava que os indolentes crônicos não combinavam com os planos de geometria urbana estetizante. O açougueiro entrou por uma rua mais calma que terminava na muralha de uma vila. Ao passar por uma encruzilhada, deparou com duas iniciais inscritas no reboco de cal de uma passarela – o que era, sem dúvida, as iniciais de dois amantes e não um grafito. Ele ficou estático ao se reportar para um tempo em que ficar apaixonado não era um crime permitido. Antigamente os jurisconsultos afirmavam que a lei era o resultado de previsões

de atos intrinsecamente encadeados com fatos. A lei atual não era tão apegada a silogismos assim. Os fatos cresciam como plantas carnívoras, pois havia leis que favoreciam os solteiros emancipados e castos. Na era de pico da AIDS, no final do milênio passado, marcar as iniciais dos amantes se tornou retrógrado e o rito da aliança foi substituído pelo pacto de sangue, mais satânico e comprometedor. Wirmundo lembrou que certa vez quase morreu de hemorragia por ter feito um desses pactos. Esses pensamentos não surgiam por tensão, mas como sinal da falta de combustível recreativo, que foi consumido durante uma vida homeostática. Com isso, uma equação complexa havia se aninhado em seu colo: como conciliar o escapismo necessário com o chamado das selvas? Precisava jogar Lan e isso era tão certo quanto acreditar que a morte era um repouso absoluto e não uma forma de dormir bem. Considerava o ato de jogar, mais do que o ato de amor, um direito pessoal e, mais do que um direito garantido pela letra metálica da lei o considerava a própria prova ou atestado existencial, uma afirmação interior mais essencial que a memória das viagens não fotografadas, das viagens que não foram transformadas por um caça talentos num punhado de borrões estocásticos. Fotografar era, por natureza, uma vanidade, ou uma vontade inexeqüível, pois a projeção de uma experiência intransferível no palco da vida, estampada numa não tão complicada construção de grânulos, remetia ao esforço inútil dos desvalidos em evitar a falta de ganho de um tempo perdido. Wirmundo sabia que o jogo de Lan havia evoluído para uma interface mais orgânica. A ligação dos bilhões de Lan em paralelo havia elevado a rede semineural do sistema Trocano a níveis quase espirituais. Os jogos sempre estiveram presentes nos momentos de maior inspiração da humanidade, não como representação de eventos possíveis, mas como a celebração da escassez de um recurso chamado "Tempo". No Lan, porém, não havia vitoriosos; havia, isso sim, sobreviventes de um filme

desastre sobre um aluno que não se preparou para uma sabatina. Wirmundo chegou ao portão de sua casa. O cheiro de dama-danoite não combinava com os olores do adstringente que vinham da cozinha. O movimento no interior provava que sua concubina estava fazendo o jantar e que ela havia aceitado um convite feito por educação; uma educação forçada, já que visava barrar o instinto animal de alguém sofrendo a febre da cabana. - Minha gazela está aí? Seu bandeirante chegou de um dia de luta contra índios e salmoura fétida. Preciso de consolo... Uma voz feminina veio cavalgando. - Se você for jogar Lan hoje à noite, nem tente me tocar. Vai ficar com seu nervo exposto na mão. Não vou perdoar, mesmo depois de você ter aumentado seu pênis com a bomba à vácuo. - Meu doce! Você sabe que hoje eu preciso ir ao Pavilhão. Ontem eu te convidei e você não quis ir... - Estou cansada de ambientes com muita fumaça. Já tenho que aturar os seus cigarros... – disse a namorada de Wirmundo com voz de Cassandra arrependida. - Minha menina. Eu tenho responsabilidades e... - Então deveria ter ido direto ao Pavilhão. Responsabilidade baseada em vício de jogo? Nunca ouvi falar nisso. Já ouvi falar de outro tipo de responsabilidade. Isto está me cheirando àquela história do criminoso que volta ao lugar do crime, por ser um esconderijo não óbvio.

Wirmundo não tinha problemas de impasse com mulheres. Afinal, algum homem já havia parido um monstro? - Neste caso, minha cara, adeus. Tenho mais o que fazer. Antes de ouvir a porta bater violentamente, a concubina berrou sem chorar. - Então vá para sua viagem sem volta! Cachorro! A campanha de difamação das mulheres, uma deturpação das campanhas contra a AIDS, deixou-as mais histéricas, mas não sem menos sagacidade para aturar a falta de escrúpulo masculina. Wirmundo precisava de cafuné, pelo menos enquanto seu corpo fosse obrigado a oferecer amostras de tecidos e fezes. Considerava o corpo físico apenas um ponto de intercessão para a realização de um afeto. Ele não acreditava que a dor do pecador era um repuxo de forças terrenas, e sim a consternação de uma alma sem espírito esportivo. Fingia o desconhecimento de um caso grave (sua paixão mal resolvida) temendo que o banal tirasse as atribuições de conteúdo do sobrenatural. Também havia presenciado o orgulho do menos banal (ou subjacente ao banal) retirar lentamente a máscara rubra da felicidade e ficar impune. Mas o importante mesmo era jogar; digitar o teclado o mais rápido possível para que o pensamento fosse inclusivo ao texto. O jogo sempre foi uma modalidade de esquecimento e de descaso; era, antes de tudo, uma determinação magnética rumo ao espaço profundo do porvir. O nefasto de usar o código da Pérola Dinâmica para uma aspiração era seguido quase instantaneamente por um sublime ato nefasto, como fumar cigarros a bordo de um bombardeiro prestes a entrar em ação. O

anonimato no Lan fazia parte do aspecto formal da produção de textos naquele ambiente ("literatura sem rastros"). O anonimato também neutralizava a cabeça de ponte para os problemas reais. Problemas como a certeza de um dia nunca mais sentir o calor da moça dos tomates. Wirmundo chegou ao Pavilhão e, ao entrar no salão nobre, recebeu uma lufada de ar frio, como um odor de mistral, vindo de diversas goteiras de ar-condicionado. O lugar estava abarrotado de jovens, alguns com feições austeras, outros vestindo camisetas estampadas com marcas de cerveja preta. Alguns garotos propaganda vestidos com suas camisetas estampadas de letras comportavam-se como verdadeiros homens-sanduíche reciclados. Outras pessoas, algumas com idade aparentemente avantajada, digitavam suas inserções no Lan como crianças que ficam excitadas por acreditarem na inerência de sua euforia casual. Outros jogadores, com seus rostos vidrados refletidos na tela dos terminais-burros, faziam sátira aos diversos conteúdos temáticos, mas também faziam manipulação de contexto, e isso denunciava uma enorme seriedade. Para Wirmundo, o impulso literário do Lan surgia da necessidade de ter algo o que fazer com as mãos, algo como fumar charutos. A literatura do Lan era no fundo uma luta contra a dessuetude. Desde a primeira exibição de cinema em Lyon a ilusão de fuga da realidade não tinha sido tão enfatizada. A única diferença era que agora o espectador podia escolher a melhor rota de fuga da maria-fumaça. Já os mendigos escritores, de índole mais conceitual, seguiam rigorosamente os princípios de Xabila, que afirmavam ser a literatura muralista a extração de uma melancolia mal aproveitada; ou uma sobrepujança que faria a criatura se voltar contra o criador para se tornar um pensamento recorrente. “Isso é como elogiar demasiadamente um príncipe decadente ou uma

estrela cadente de cinema”, pensou Wirmundo ao colocar uma moeda na fenda de um terminal-burro desocupado e esperar pelo expediente. Não era preciso usar senhas para entrar num Lan, pois não havia segredos de Estado. Após uma breve introdução institucional e algumas bandeiras textuais de comerciais de cigarro, Wirmundo passou a ser não mais Wirmundo, pois esta identidade não tinha serventia neste território do invisível. Wirmundo era agora Paulo_de_Proença, um personagem que pinçou na listagem dos grandes heróis do rincão paulista. Os objetivos do Lan seguiam a lei da autodeterminação dos povos. O objetivo escolhido por Paulo_de_Proença, por exemplo, era erradicar a peste do maculo – uma diarréia ocasionada pelo relaxamento do esfíncter anal – que estava assolando a vila. Havia alguns jogadores que faziam a assunção de avatares de mamelucos, ou seja, de mestiços amistosos. O bandeirante de rede Paulo_de_Proença entrou no lugar-metafórico número três. A descrição deste ponto de partida, dentro de um conjunto de não lugares, era por demais rebuscada e elaborada, e parecia que o próprio Teodoro Sampaio havia se levantado do túmulo para fazer uma derradeira crônica. O parágrafo principal – com a descrição geral da vila que começou sua vida municipal em 1560 e foi transformada em cidade, por D. João V, em 1711 – era mais ou menos assim: “(...) um pequeno espaço de não mais de quatro alqueires de terra a que os dois ribeiros convergentes davam a figura de um triângulo com a base apoiada em dois barrancos que, de um e de outro, fechavam o espigão (...)” Haviam também indicações de trilhas para se chegar à casa do alfaiate da moda Pedro_Costa e para uma sala de aparelhos afiladores de varas e côvados. Era o tempo em que a

Companhia de Jesus difundia suas antinomias sobre o Ser Supremo, como “a permanência temporal em Suas dependências inomináveis deve ser a mais breve e temporária possível”. Era o tempo em que os jesuítas, vistos como anjos e apóstolos, estavam em campanha máxima civilizatória nos arredores do Reduto dos Emboaçavas. Os catecúmenos da nação andante precisavam conhecer os Mistérios da Paixão, mesmo que fosse através das danças do Cururu. Paulo_de_Proença possuía alguns objetos (tudo dentro do Lan era considerado um objeto, até mesmo os sons e as sensações), como o arcabuz – uma arma que precisava ser apoiada numa forquilha para reter o tranco. O bandeirante da rede não tinha um ofício fixo; não era nem oficial mecânico nem oficial público. Antes de sonhar em desbravar o sertão interior, fazia carretos de farinha (a farinha tinha valor monetário), uma opção flexível, porém rentável, já que nas versões anteriores do jogo era preciso ter uma renda fixa para implorar cotas de objetos aos Reis-Magos. Quando um outro jogador acionava a descrição de Paulo_de_Proença, recebia em seu terminal-burro a narrativa excruciante de um tapuitinga cara-pálida. Este tapuitinga, dizia a descrição, depois de ter se apaixonado pela cigana Francisca_Roiz e se confessado ao padre voador Leonardo_Nunes, teve uma experiência de convivência com os índios carijó – experiência esta pacificadora – e conheceu bem o Tremembé, um lugar-metafórico programado para ser bastante inóspito, ou seja, com pântanos exaLando miasmas, “rios de tinta” e manguezais cheios de mosquitos e malária. Além do arcabuz e do machado, Paulo_de_Proença possuía outros objetos menos relevantes, como uma segadeira, um peroleiro para armazenar vinho, um tacho de barro, um pequeno estoque de pedras-hume e algumas onças de aspirina. São Paulo de Piratininga do Vale do Parnaíba, na província do Guairá, foi um lugar-metafórico que surgiu como que por

encanto, construído por programadores que logo viram as vantagens de levantar um burgo insipiente sobre um araxá digital. Muitos avatares sucumbiram àquele transcurso, como Jeronimo_Bueno, que foi morto pelos Guaranis (na verdade ele foi “transformado em jabuti”, ou seja, jogado no reciclador, e expulso da lista de personagens). O crescimento rápido da Vila Rica foi não apenas passível de constatação – apesar de não haver uma explicação científica para tudo – como foi uma reedição vertiginosa e simulada do processo de nascimento de uma nação. O detalhismo dos jogadores fazia os estudiosos de Inteligência Artificial a refletirem se os textos do Lan não eram uma deflexão da própria realidade. Paulo_de_Proença descobriu que, apenas munido com um machado, era possível abrir um caminho através do Forte e produzir vinho e acetil balsâmico em outros lugares-metafóricos na área das tribos confederadas. Precisava acumular algumas patacas se quisesse bater perna até o topo da Serra do Mar, mais precisamente até Paranapiacaba, perto do caminho por que passou o ouvidor Amâncio_Rebêlo_Coelho e seu grande séquito de escravos, um importante personagem conhecido por ter conseguido mudar a “partícula de propriedade” de uma cama do avatar Gonçalo_Pires. Este avatar queria oferecer ao ouvidor o catre dos seus escravos ao invés de sua cama, porém os procuradores da vila ameaçaram a oferta desonrosa com a pena da forca da Tabatinguera. Um avatar desconhecido havia feito uma petição para que os camaristas fechassem a saída do Forte, pois considerava não prudente haver uma brecha que possibilitasse a entrada de bugres aguerridos. Paulo_de_Proença foi contra a recusa e usou a alegação da passagem de escravos a favor das brechas. Nas versões anteriores do Lan dos Bandeirantes ele usou um pouco da arte de furtar para contrabandear vinho debaixo das barbas dos almotacéis dos Reis-Magos. Das patacas arrecadadas com

a venda do vinho aos Fígaros e taberneiros, uma parte financiou a criação de robôs simples que alertavam a aproximação de quadrilheiros, enquanto a outra estava guardada para financiar a pequena expedição até o topo da Serra do Mar, de onde era possível avistar a Vila de São Vicente, onde habitava Mateus_Leme e a receita contra o maculo. Paulo_de_Proença tinha que financiar o aluguel de uma montaria, um sendeiro, apesar de que o ideal seria ter um cavalo alado. Segundo alguns documentos, a pasta de ibicuíba havia curado um surto de gripe entre os Munducurús (as doenças também eram consideradas uma forma de trocar experiências étnicas). Mas, segundo algumas providências de 16 de agosto de 1579 contra a prática ilegal da medicina, a circulação da receita estava proibida. A lei coibiu, através de cartas de examinação, as práticas de personagens como Afonso_Gomes, que abusava das sangrias, purgas, clisteres e cautérios. Wirmundo, em seu foro íntimo, se interessava menos pelos alvos de proibição do que pelos motivos da mesma. Por quê a lenda de Mani (a menina índia que pariu uma criança branca – na verdade uma semente de mandioca) não estava proibida, apesar de sua conotação sexual explícita? Ele tinha a intuição de que, com o restante do ingredientes da pasta e a ajuda de Curupira, seria possível entrar nas portas de fundo do CPD e encontrar Mateus_Leme, que sabia que algumas linguagens de programação, constituídas de números básicos, foram banidas por serem fragmentadoras da teoria complexa do domínio. Um dos maiores receios do Partido era que a divulgação das primeiras palavras nomeadas pudesse causar uma “ortogênese no poder”. Afinal qual seria o interesse de uma sociedade complexa revelar o segredo de suas origens? O acabamento lenhoso da barba de Raimundo refletia a fogueira noturna do acampamento. O mestre estava ouvindo a conversa dos dois novos mendigos agremiados, o tatuado e o aleijado. A

conversa, apesar de conter certos trechos respeitosos aos princípios de Xabila (um dos princípios, por exemplo, dizia que quando uma palavra é arrancada a força da memória, podia ser constrangida a ser citada), em sua maior parte não condizia com nada que fosse de bom costume para os mendigos escritores. Parecia que queriam confundir cultura forânea com cultura nacional. Mas que crédito tinham aqueles dois miseráveis? O da perna de pau usava uma saia feita de trapos; o outro estava completamente nu e a tatuagem das estrelas e listras refletida pela chama de querosene tinha um aspecto de rabisco de crayon. A conversa amalucada dos dois emanava uma atmosfera de reinação: - Entrei em negociações com o comitê de propaganda do Partido. Eles querem comprar os direitos autorais de um personagem fictício que criei. Eles acham que ele pode servir como mascote para o próximo Carnaval Unionista. - Eu lembro dos seus grafitos a respeito. Mas que falta de senso do Partido! Aquele personagem não reflete nenhum imaginário nacional. Um pajé que fuma diamba e recebe o espírito da jacaretinga é muito mais apropriado, não acha? - Até o gato Xabila é mais apropriado, ou as alamandas daquele companheiro que eu esqueci o nome. Se você fosse filho de borracheiro não iria ficar quebrando garrafas de vidro perto da borracharia de seu pai? Os dois riram juntos da analogia. - Concordo. O comitê de propaganda acha que o personagem pode conquistar os estrangeiros. O Carnaval Unionista é para investidor ver, você sabe. A sede cultural do mundo poderia ter um pouco de ar supranacional... Entendo um pouco esta lógica confusa.

- Então você entende a relação entre falta de destino e lógica confusa? Os dois mendigos riram e começaram a esponjar com mais voracidade uma pinga branca (ou seria tiquira, a aguardente de mandioca?) para esfriar a cabeça. - O Partido pode se prejudicar com esse negócio. Estou vendendo lixo hediondo e fétido. - Fazer negócios com insanos? Prefiro ficar usando os cupons alimentícios para o resto da vida... Os dois riram gorgorejando. O segundo mendigo continuou. - Eu tenho escrito uma série de grafitos a respeito da passagem de William Beckford em Queluz e seu relacionamento lúbrico com a família Marialva. Aquele inglês era um tarado! Um bom escritor, com inspiração orientalista, mas muito deslumbrado pela poligamia e sexo grupal. - Estou bocejando. - Estou tentando explicar que nós, tipo C, vamos ter benefícios de outra natureza. Benefícios históricos, eu digo. Quer ouvir a história? - Comece sua cantiga de ninar. - Ouça, tudo começou com um súdito foragido de Beckford que virou soldado mercenário e foi capturado na batalha de Eylan pelos franceses. Na França, fez um juramento à bandeira e virou espião. Foi disfarçado de camareiro numa missão diplomática francesa junto à corte portuguesa. Ele conseguiu roubar

sorrateiramente um documento comprometendo um duque de Braga inimigo de Talleyrand, um duque que estava dificultando o negócio de açúcar que o poderoso ministro de Napoleão tinha na Jamaica. O súdito conhecia as maneiras e os costumes de seu antigo amo, o que incluía certamente práticas de pederastia e, mais especificamente, um intenso caso de amor com o marquês de Marialva. A ambição começou a subir em sua cabeça. Com o dinheiro que ganhou de Talleyrand pelo documento, veio até Queluz chantagear o marquês devasso perante seu pai, um pilar da moralidade. O espião, por incrível que pareça, não queria dinheiro, mas sim a mão de Henriqueta, filha ilegítima do pai, uma exigência nada difícil, pois o pai tinha o filho em enorme conta e, conseqüentemente, suas opiniões. Henriqueta era uma mulher de idéias políticas muito extravagantes, entre elas, a de separar as manifestações espontâneas do povo da esfera política. O súdito, com o apoio de sua nova esposa, queria impor um levante para desestabilizar a coroa. Uma mudança poderia lhe garantir um cargo de alto escalão na colônia. A idéia do levante era a de fazer o povo acreditar que a classe política transformava a oratória da classe artística em retórica. Esse era o argumento do levante. O povo, exaltado por estas idéias, promoveu o Levante da Pena de Queluz, fato que nunca foi noticiado ou registrado, como foi a Balaiada e Farrapos. O que o Partido quer fazer agora é uma espécie de revisão histórica às avessas. São como os negacionistas nazistas que dizem que o holocausto foi uma manipulação historiográfica dos aliados vitoriosos. Eles dizem que em Dresden morreram mais inocentes que em toda a Segunda Guerra. - Que história mais rocambolesca! Por que o Partido estaria incentivando a divulgação de um fato histórico que compromete, desculpe o trocadilho, sua imagem? - Qual a diferença entre ter direito a miúdo de boi e ter direito a ser um agente da história?

Raimundo não quis ouvir a resposta. Ele alçou seus latões e foi deitar debaixo de uma marquise. Ou as grandes idéias estavam em baixa ou os agentes provocadores do Partido não contavam com aptidão de diversão. O dia do Carnaval Unionista estava nublado e úmido. Este evento, arquitetado com muita precisão por centenas de comissários do Partido, apresentou um memorável desfile de carros-alegóricos pelas avenidas axiais que circundavam a Praça do Relógio, apesar da chuva fina e perturbadora que permeava a Capital. A avenida principal estava repleta de blocos e trios-elétricos representando a mais pura manifestação da cultura. Os alas fantasiados de Cobra Norato e Rainha Luzia estavam em cima da plataforma do primeiro carro-alegórico enquanto a bateria de caxambu pulsava seus timbres. O Partido havia conseguido canalizar a histeria coletiva para uma hipnose coletiva, encarapitando foliões com falsos espíritos momescos, que sabiam de cor suas obrigações cívicas e as continências de uma congada nacional. Uma nação inteira, unida temporariamente pela idéia imorredoura da cultura pura, convergiu mais uma vez para a peça de resistência do poder. No feriado carnavalesco, as ruas ficaram repletas não de nuvens negras, mas de jovens folgazões e membros uniformizados da JP (Juventude do Partido), que gritavam com voz imperativa: “Cura-te a ti mesmo! Cura-te a ti mesmo!”. Os integrantes da força-tarefa e das equipes paramédicas complementavam: “Minhas condolências...” e “Eu conserto, mas o problema continua sendo todo seu...”. O Partido se preparou para ficar temporariamente distante de uma luta interna pelo poder ao celebrar a unificação de um país mais dividido que a família de João Ramalho e os loyolistas.

O desfile foi um sucesso. Logo atrás do primeiro carro vieram outros sustentando os principais ícones da cultura, como o Armorial/Romançal e o Tronco de Guapuruvu. No alto das plataformas, os cancioneiros do Partido, embalados pela memória do mestre Catulo, recitaram em megafones a poesia imaculada. Foi escolhida como música tema do desfile "Os Bohêmios", uma música do repertório da Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro (hoje um encrave litorâneo engolido pela Capital). O tema, de 1902, era de autoria de Anacleto de Medeiros e Catulo da Paixão Cearense, o poeta oficial do Partido. Depois das primeiras evoluções das danças típicas parelhadas à marcha dos cancioneiros, o presidente negro do Partido esperou o enredo se diluir e falou ao povo do alto de sua tribuna. Falava ao mesmo tempo num demodulador de sinais de áudio dirigido aos que estavam presentes via satélite: - Meu povo! Finalmente hoje tivemos a confirmação de que o Antioxidante-3000 é a cura mais eficaz contra a peste. Não acreditem em falsos doutores! Amanhã às dez horas da manhã os aviões do comitê da guerra vão Lançar pacotes da cruzvermelha contendo amostras grátis do Antioxidante-3000. Como primeira partida, serão Lançados ao todo mil mini pára-quedas com as bisnagas. Aos que ficarem desprovidos restará a compra nos empórios terapêuticos a partir de depois de amanhã, depois do torneio. O Carnaval Unionista está celebrando nosso contrato social e nossos acertos perante a comunidade internacional. Somos hoje o exemplo multicultural da miscigenação e a sede cultural do mundo! Viva a nação dos dois brasiis! Viva Pindorama! Anauê! A alma do povo não fazia limite com a flor da pele para melhor captar as considerações de um mundo sensual ou ter uma relação privilegiada com as coisas, mas para absorver sem dor o

horror puro de uma política canhestra. A tática secundária do Partido era articular uma triangulação moral, delegando poderes festivos limitados ao povo (coisa moral); proporcionando uma desgastante luta interna entre as duas classes menos privilegiadas (expectativa imoral); e, por fim, reunificando geograficamente os dois blocos (coisa de moral duvidosa). A moral tinha a mesma consistência de uma onda aérea que se desfaz por métodos eletrônicos. Era feriado e Wirmundo não resistiu a tentação de fechar o açougue, colocar o broche do Partido e ir ver o desfile de crianças dançando o cateretê do Estado onipresente. Os opositores mobilizados por Raimundo foram instruídos a assobiarem durante a parada para tentar abafar o som dos trios elétricos, mas os cidadãos estavam cantando mais alto, animados com a sensação de catarse. Ao passar pelo arco da Praça do Relógio, Wirmundo pôde ouvir com mais atenção as conhecidas onomatopéias dos personagens de Cobra Norato: - Glu-glu-glu - Tiúg... Tiúg... Tiúg Agora os passistas estavam fazendo a cena do igarapé da rainha Luiza e, entre uma sucessão de percepção e outra, Wirmundo capturou o som de uma palavra em tupi que significava "água dos rios": - Ig... Ig... Ig... Ig... Logo em seguida, um dos passistas vociferou uma outra palavra, aparentemente simples, mas que tinha uma função complexa, segundo o poeta Gonçalves Dias: - Io... Io... Io...

Inspirado por aquela seqüência hipnótica de onomatopéias, Wirmundo sussurrou a sílaba "Io" com uma nova entonação, pronunciando a palavra "i" como o "u" dos franceses, cujo som fonético oscila entre o som do "i" e do "u". "Um som que oscila entre duas letras... Indo e vindo, rápido...". A palavra que simboliza a "água" era representada por uma sílaba pura, e não era uma palavra composta. "Será que existe um jeito natural de representar todas as palavras usando apenas duas vogais?", pensou o açougueiro. E não foi sem espanto que Wirmundo percebeu que a água dos rios foi o primeiro substantivo nomeado pelo homem. No Reino Brasílico o esporte bretão havia passado por uma mudança drástica desde que foi incorporado pelo comitê de justiça. A essência, porém, continuou a mesma: lutar para ganhar ou ganhar. Ganhava o escrete que fizesse o maior número de tentos, com a maior violência possível, usando toda sorte de golpes, engalfinhamentos, chaves de braço, estocadas e diretos de esquerda. O futebol-de-xisto era um esporte que tinha o mérito de ter resolvido o problema da precariedade da técnica jurídica. Sua deselegância geométrica e sua truculência elegante foram a solução para a falta de celeridade da justiça e para a sede de sangue dos humanos, já que as guerras simuladas haviam substituído as guerras reais. O esporte em geral havia escapado das mãos dos treinadores e passado para as mãos dos dirigentes, que imediatamente desviaram as cotas de transmissão e os fundos de investimento dos torneios eventuais. O Partido havia reformado as ruínas do estádio municipal Paulo Machado de Carvalho (o Marechal da Vitória), reerguido a concha acústica e reformado a réplica do “Davi”, agora iluminada por potentes lâmpadas multivapores de sódio. Além disso, o estádio foi coberto por telhas de cimento amianto e cercado por

uma fileira de sibipirunas que acompanhavam um longo alambrado amarelo. No dia da peleja crucial, o Presidente sobrevoou com seu helicóptero a jato as arquibancadas do circo moderno, totalmente ocupadas por milhares de populares casmurros, que não se importavam pelo fato de assistirem a um espetáculo gratuito, e nem pelo fato de serem conduzidos convenientemente como gado em direção ao matadouro mercadológico do hipotálamo. Os torcedores também não se importavam em espetar em suas nucas, durante as partidas, as agulhas-antenas do comitê de propaganda do Partido, parecidas com agulhas de acupuntura. Através da captação direta das ondas cerebrais e análise automática dos estados de espírito dos torcedores, os computadores do CPD veiculavam os anúncios certos, no momento certo, e para as pessoas certas através de uma espécie de diapositivo gradeado – um gigantesco videowall de alta definição instalado numa das bordas do estádio. Os dois escretes entraram em campo com seus capacetes parecidos com cabeças de libélulas, e seus protetores de costelas, parecidos com as lorica segmentata dos soldados romanos. Uma chuva de prata e uma nuvem de fumaça cobriu o estádio nesse momento. Os jogadores conheciam todas as cláusulas do contrato de seguro de vida, inclusive a que dizia “falecer em pleno match”. Aqueles armários titânicos não relevavam muito a idéia de morrer em serviço, pois a morte era apenas uma forma de desperdício calculado. Eles não deram conta da morte durante o período de serviço militar, e sim quando o corpo (o elemento que confere sentido ao caráter marcial) foi danificado pela primeira vez. Na verdade, a morte não existia como entrave para aqueles atletas; existia como persistência. O teste físico dos jogadores de futebol-de-xisto era composto por banhos gelados, descompressões em câmaras hidrostáticas e

longuíssimas caminhadas pelas escarpas do litoral sudeste, que eram compensadas no final por uma Festa da Cerveja Preta. Antes de se profissionalizar e ganhar um passe livre, o pretendente a jogador de futebol-de-xisto tinha que passar por um ritual que consistia na seguinte prática: espetar o prepúcio com a ponta de uma lâmina afiada até formar um fio corrido de sangue. Ninguém sabia a origem desta “prova de fogo”, mas sabia-se que tinha relação com a cultura física e a educação cívica. Os pescoços desses atletas eram grossos e suas carteiras de identidade apresentavam nomes como Urso Polar e Couto Tanque. Tinham salários milionários para o padrão de uma sociedade monetariamente apática, pois havia um balanço entre a beleza da periculosidade e a tragédia da amoedação. Eram os funcionários mais bem pagos do Partido, depois da cúpula de burocratas, mas tinham um caráter psicótico, pois viam um sinal de esculhambação – e um motivo para vazar os olhos do próximo – em todos os olhares dirigidos a eles, mesmo os de uma garotinha segurando um cacho de acácias. Os animais brigavam mesmo sozinhos, batendo com a cabeça em suas próprias sombras projetadas nas paredes. A disputa pela patente da copaíba-vermelha foi muito concorrida, pois as duas esquadras – a vermelha, representando os pajés Maués; e a azul, representando os farmacêuticos do Grupo dos Dois – tinham craques habilitados em segurarem testículos protegidos por coquilhas de liga de aço. Os meio-campistas dos azuis, por exemplo, haviam feito um condicionamento com altas quantidades de efedrina e triglicérides, que hipertrofiam os músculos; além disso, as ligações mortais dos zagueiros e atacantes em overlapping eram consideradas irrepreensíveis. Por sua vez, a zaga dos vermelhos era composta por jogadores que foram instrumentalizados treinando chutes de falta com

cocos verdes, e não era infundada a péssima reputação de suas divididas mal calculadas. O ataque das duas esquadras era mais eqüitativo, já que o elemento surpresa, juntado à capacidade de a defesa fazer um giro de carrossel, era a essência dos fundamentos desse jogo. Os atacantes que por ventura conseguiam chegar até a linha de fundo adversária, carregavam a ingrata tarefa de colocar uma bola de três quilos num gol com o formato de uma arruela de pedra. A bola era feita de xisto aerado e era, por assim dizer, “propagada”, isto é, era chutada pelos escarpins com cravos de polímeros dos Macistes, que também usavam proteções de alta tecnologia nos joelhos e cabeça. O presidente negro e os representantes das duas indústrias farmacêuticas concorrentes estavam sentados nos divãs das tribunas públicas. Os conselheiros, em numeradas pegadas às tribunas. O povo estava inquieto com o atraso, e os mais histéricos gritavam vitupérios. Uma voz amplificada conclamando a presença de uma pessoa num determinado local transformou a multidão num único sujeito. Os juizes, ocultos atrás de casamatas, deram mostras de que seus terminais-burros estavam conectados com as diversas câmeras aéreas. Os jogadores já estavam devidamente aquecidos, assim como os soldados rasos humilhados se aqueciam com o ódio ao superior. A bola de xisto foi colocada no centro da meia-cancha por uma grua mecânica. O presidente do Partido deu o sinal com uma luz de hologênio e autorizou o início da peleja. Um brilho ofuscante foi visto vindo da tribuna, como se fosse um fenômeno de refração piezelétrica emitido por um mineral bruto. Um silvo de apito foi ouvido em seguida. No segundo seguinte, o meia-direita dos vermelhos e o centroavante dos azuis deram uma cabeçada de tamanho

impacto que seus capacetes foram esmigalhados em diversas partes. Os dois jogadores tiveram fratura exposta do crânio e foram rapidamente removidos por um carrinho elétrico da equipe paramédica, sendo substituídos pelos reservas. Neste exato momento, o videowall projetou algumas inserções mercadológicas do alpiste Carcará. Em seguida, a empresa Lumiar Laser S.A. projetou mensagens de patrocinadores com canhões de raio laser de dois MW, usando como tela a superfície da lua. Os canhões de laser emitiram sobre o satélite natural luzes nas cores azul, vermelho e verde, o que permitia o uso de um total de 16 milhões de cores na composição tipográfica dos anúncios. A mensagem escolhida para iniciar o teste foi: BOA NOITE, TERRA. A seguir, foram projetadas rapidamente outras mensagens de propaganda, pois o minuto de exibição lunar custava cerca de 5 milhões de talentos. Distante dos números das comissões, o técnico dos vermelhos estava de pé e fumava a mão cheia – uma bituca acendia o cigarro seguinte. Um lateral dos azuis conseguiu driblar dois vermelhos, fazer uma finta rebolada e um cruzamento longo a um atacante que havia se posicionado na borda da grande área, vindo da direita. O atacante guardou a bola de xisto no peito protegido por um gibão de armas acolchoado e tentou dar um sem-pulo; quase instantaneamente, o quarto-zagueiro dos vermelhos, apoiado por um lateral, deu uma cama-de-gato no atacante, que caiu com a coluna vertebral fraturada. O consolo era que os mortos no jogo de futebol-de-xisto tinham enterros mais pomposos que os estadistas. Para uma falta ser marcada, era preciso ter sido movida por um princípio passional, e esse era o expediente interpretativo mais utilizado pelos juizes para amainar o ânimo dos jogadores e criar uma trégua temporária. Os juizes interpretaram a cama-de-gato dos vermelhos como falta e silvaram um zumbido de apito. Uma

falta na beira da meia-lua significava meio-pênalti. Uma falta mais que perigosa. Não havia a figura do goleiro no futebol-dexisto, pois não havia voluntários para essa posição, daí a diminuição das traves. O comitê de desportos havia determinado sem nenhum motivo a substituição das traves pelo anel de pedra. Um capricho, nada mais. O melhor chutador do escrete azul tomou distância e “propagou” a bola, que entrou no ângulo do pequeno anel do gol de xisto numa folha seca primorosa. A pequena torcida do Grupo dos Dois foi ao delírio de suas aspirações elementares e ficou mais excitada com os gritos de guerra dos jogadores do que com o placar de um a zero. O jogo foi recomeçado e a posse de bola de xisto estava agora com os vermelhos. Um meio-campista azul solou no exojoelho do atacante que se infiltrou na linha de fundo adversária. A estrutura de polímeros do exojoelho rebentou e o joelho do jogador dobrou ao contrário, fazendo seus tendões de fio de aço estalarem como chicotes e romperem. Todos no estádio sabiam que aquilo significava um processo de três etapas: morte desportiva; morte do ego (ou alcoolismo); morte real. Final de partida: o tempo de um só tempo terminou e. não havia prorrogações. Saldo: três mortes e um aleijão. Um saldo considerado normal para os padrões do futebol-de-xisto, já que os clássicos da época áurea computavam uma média de cinco mortes. Talvez os santinhos que as mães dos jogadores os forçavam a usar estavam começando a surtir efeito. O diretor da indústria farmacêutica representada pelo time azul estava mordendo os lábios de tanta excitação; sua vontade era de levantar o polegar num gesto obsceno de césares. Contudo, sua alegria desenfreada tinha um motivo: o Grupo dos Dois podia interromper, por tempo indeterminado, a biopirataria da

copaíba-vermelha, uma pequena amostra do plano de vingança pela derrota no XV Congresso da Gramática Universal. Raimundo sabia que os mendigos escritores estavam reunidos em nome de um regozijo apartidário, de uma aventura de desvendar um romance chaveado, de agir e interagir numa briga de foice no escuro, de complementar a imperfeição de uma repercussão da vida, enfim, de dizer o inaudível por outras palavras. Escrever não formalmente era usurpar as palavras que nunca foram ditas, era verbalizar o que a humanidade pretendia com sua atitude de dormir nos momentos que demandavam maior concentração. Encontrar as palavras adequadas para uma oração era uma miragem e ao escritor de grafitos restava o recurso de encaixar à força, com um martelo, as peças de um quebra-cabeças ultraterreno. Um mendigo se tornava um escritor de grafito por não ser versado em nada, e por não ter a força da versação individualizada e não universal. Wirmundo, por outro lado, sabia que os jogadores de Lan estavam planejando a tecitura de todos os textos já escritos num texto maior que a substância escura que envolve o espaço sideral, ou mais propriamente dito, o invólucro de plástico da revista de Deus. Os jogadores de Lan estavam planejando a retomada do projeto Mil-Mãos, mas com mais alcance, e, agora, sem os problemas de bugs típicos dos sistemas de hipertexto. O preenchimento das lacunas entre os gazilhões de Lan através dos tubos assíncronos estava tomando forma independente, como se a linguagem de máquina estivesse assumindo certas tarefas individuais que antes só eram atribuídas a manutenção das diversas memórias artificiais. Os capelães do Partido e os novos Deões começaram a ver aquilo como uma forma equívoca de provar a existência de Deus, fato que desconsiderava Sua qualidade temerária, e anulava a condição que propiciava a confusão entre ignorância

cega e ignorância analfabeta, uma tática conhecida da Igreja Católica. Mas os capelães do Partido não tinham voz ativa; tinham, quando muito, flatus vocis. Os mendigos escritores ao menos eram mais lutadores e fiéis. Acreditavam nos princípios de Xabila – o nome próprio do gato sarnento que se espreguiçava em alongamentos milenares e que havia salvado os esboços do ensaio de uma enchente, praticamente o único documento volante dessa casta de escribas indigentes. Como aqueles princípios renegavam as sextilhas e os moirões do Partido, esse salvamento eqüivaleu a salvar um futuro clássico de um naufrágio. Uma das principais idéias contidas naquele ensaio, e transformada por Raimundo em princípio, era sobre a diferença entre o acerto em primeira mão da escrita muralista e o refilar da escrita digital. Esse ensaio servia de códice aos candidatos a escritores de grafitos, que da pobreza física extraíam a riqueza de um pensamento combativo. Escrever nos muros era então, naquela visão, uma partida solitária na qual somente os reflexos de uma indignação podiam ser compartilhados. Os soldados da fortuna interior sabiam que a profusão dos fragmentos de grafitos continuaria a formar um remoto oceano vivo. As chuvas e os caminhões-pipa do Partido – indo contra as leis de incentivo – apagavam os rabiscos preciosos quando eram escritos a carvão, mas a “arte da sub-raça” era renovada com intenção fixa, a ponto de não render a limpeza; outros grafitos duravam um pouco mais, pois eram feitos com piche, esmalte sintético e o que mais estivesse à mão. Para os mendigos escritores, um fragmento perdido de grafito valia mais que muitos fragmentos do Mar Morto. Os despossuídos tipo C, como os amoladores de facas, os lavadores de casas com suas latas d’água, o “povo oculto” e principalmente o exército de mendigos escritores, não eram mais alvo de compaixão, e sim de admiração. Por exemplo, Wirmundo, no fundo, queria se sentir

de corpo e alma um contribuinte dessa cidadania miserere e altiva. Porém, tinha muito o que fazer com uma vogal perdida. No acampamento, Raimundo, completamente sóbrio, fez uma prece aos seus antigos companheiros desaparecidos em ação antes de mergulhar na noite dos sonhos insignificantes. Numa manhã de começo de semana, Wirmundo acordou sozinho, tomou um café de taurina e ligou os multiplexadores do seu terminal-burro. Durante a corrida do protetor de tela, pensou na irrealidade absolutamente pragmática daquela mídia digital que abusava da teoria da interação. Alguns antigos programadores de inteligência artificial, elevando os códigos declarativos a potenciais nunca atingidos, conseguiram deixar uma ideologia em looping usando apenas sentenças condicionais ilógicas, expressões irregulares dentro de algoritmos com formatos de tridentes e três processadores Glias em paralelo atuando como lixeiros de dados. Este procedimento chegou a ser comparado com um caso de falsa permuta, como o caso do normal que se faz passar por louco (ou o louco que se faz passar por normal). Na essência, eles haviam conseguido que o maquinário reproduzisse certos processos cerebrais com uma pequena margem de erro. O Lan tinha por base a linguagem que atingiu esta meta. Ao se conectar, Wirmundo recebeu no ato a linha de sua máquina de respostas do sistema Trocano. Havia quatro mensagens seladas. A primeira: (04323-70) - “Sei que não passa de um encomendeiro. A Vila está ficando pequena demais para nós dois” <Anônimo>.

A segunda: (084431-41) - “Você é um porco nojento, Wirmundo! A guerra do amor é assunto importante demais para deixar nas mãos de generais reformados como você. Na oração aos mortos não cantarei ‘...e para os que ficaram...’, pois você não terá um funeral decente. Será enterrado de qualquer jeito, como Sócrates pediu a Críton. Aceito sua declaração de guerra. Meu primeiro ataque foi esta noite. Advinha com quem ela quer ficar? Comigo! Eu não posso fazer nada! Ela me persegue!" <Guaçu>. A terceira: (03201-53): “Estou quase acabando o nosso código com peças de outros códigos. Tenho quase certeza que em breve você não terá mais que encontrar Mateus_Leme. Meu método antigramatical está começando a funcionar. Meus robôs vão conseguir encontrar o modelo da receita. Você não confia em mim? Então veja o que eu consegui encontrar nos registros do robô minerador. Tem relação com a receita da pasta de ibicuíba do Contentis Mundi.” <Curupira>. Anexado à mensagem selada de Curupira veio anexado um arquivo com a seguinte receita: “...Pilar em um almofariz: 2 onças de raiz de ibicuíba mascada. 2 gramas de sal marinho. 2 ... 2 arráteis de azeite de amendoim. 2 ...” A quarta:

(03202-53): “Como você pode ver, tenho quase todos os elementos e faltam apenas dois itens para eu obter a receita completa. A missão é quase impossível, pois eu tenho que encontrar um jeito natural de representar números usando letras, e vice-versa. Eu tenho que encontrar um jeito de converter a linguagem de máquina para a linguagem de gente, e vice-versa. <Curupira>. “Meu amigo Curupira está querendo jogar pó colorido no vento...”, pensou Wirmundo. A primeira mensagem podia ser de algum avatar ensandecido, como aquele personagem que queria entregá-lo aos almotacéis por ter aberto uma brecha no Forte. Quem seria esse anônimo? Guarací, o Sol? Jací, a Lua? Ou Juruparí, o Pesadelo? A segunda era a bravata de um homem da vida real que forjou um caso de amor casual e uma competição. Guaçu era um amigo antigo de Wirmundo, que havia tomado um tiro na coluna (foi alvejado por um marido desonrado) e ficado paralítico. Não ficou impotente, apesar de ter ficado dividido entre uma parte viva e uma parte morta. Por não sentir dor na parte morta, muitas vezes sentava longamente numa posição errada, o que provocava a formação de imensas escaras necrosadas na região dos glúteos. Já as unhas de seus pés cresciam desmesuradamente como caracóis. Guaçu gostava também do ato de amor leniente e sem orgasmos (seu gozo era tão grosso que lembrava o espirro de uma pasta de dente), mas tinha um trauma de infância: seus pais haviam sido mortos pelo governo provisório ultraliberal da Oitava República do Brasil no começo do milênio, por terem difundido uma ideologia de cunho fascista. Depois que o Partido tomou o poder e dividiu a nação em dois blocos estratégicos, a memória de seus pais foi redimida e ele foi reconhecido pelo poder central, que passou a contribuir com uma pensão integral. Isso o acostumou mal. Guaçu era a

expressão máxima da luxúria e do ócio. Passava horas fumando enormes cigarros de maconha e olhando para a única luz de um apartamento do prédio vizinho abandonado. Não precisava de trabalho, e tinha tempo de sobra para criar engenhosas formas de perfídia. Constantemente recorria ao sexo para manter a sanidade, mas isso não lhe dava nenhum direito de preferência para cobiçar a mulher do próximo, um direito conhecido mais por “exploração mútua de uma amizade”. Apesar de estar inteirado, Guaçu não era um jogador de Lan, e por isso não merecia ser vítima de um crime passional. A terceira mensagem era a mais substantiva, pois a insegurança do porvir fazia Wirmundo entrar num estado de alvoroço seguro. E a quarta era sinal de que existia vida após a morte. Wirmundo na mesma manhã abriu o açougue e viu que o quadro de São Lucas, o padroeiro dos açougueiros, estava um pouco torto. Os cutelos estavam fora do lugar e os grampos do congelador foram remexidos. O vidro do mostrador de miúdos estava manchado com impressões digitais oleosas. O açougue havia sido invadido e isso era mais sério que revirar latas de lixo. “Será que isso vai se tornar uma recorrência?”, pensou. O arrombador havia roubado tutano de ossobuco e remexido grosseiramente nas gavetas. Os mendigos escritores comiam tutano influenciados por uma espécie de crença. Eles concordavam unânimes com as teorias de Raimundo, e acreditavam que o vômito coado dos infectados – chamado de Amrita, ou o Elixir da Vida – curava a peste, e que o consumo de tutano de ossobuco aumentava o nível dos soros relacionados diretamente ao sistema imunológico. “O vômito coado não é placebo e o tutano não é um paliativo”, pregava Raimundo, que também chamava o miúdo de “gelatina da felicidade”. Em seus discursos enaltecia a “drenagem do cérebro

por gelatina”, e essas palavras soavam como sugestões mesméricas. As correspondências numéricas das suposições incitavam a obsessão dos caçadores de recompensas. Havia algo de ingênuo no fato de os acólitos acreditarem que o tutano aumentava a resistência imunológica; talvez houvesse uma sabedoria não revelada, ou simplesmente uma ebulição da vaidade de uma casta que não se incomodava absolutamente em carregar todos seus pertences num carrinho de mão. Analisado sob um aspecto não nutricionista, o tutano de ossobuco não era digerido; era “sintetizado”. Analisado sob um aspecto não científico, o tutano de ossobuco incrementava a “memória relativa do bem-estar” e os “axiomas dos axônios”. Não era preciso ser um espião poliglota para perceber que Raimundo, fazendo segredo de suas bicas (as fontes têm o mesmo valor de uma reta que raspa uma circunferência) e polemizando com meias-verdades, estava preste a encontrar a fundamentação para o uso da bílis pura, e isso com o auxílio transversal e maquiavélico do Partido. Para engrossar o caldo das panacéias, não haviam apenas as propostas da copaíba-vermelha e da bílis pura para a cura da peste. A ibicuíba – uma planta que teria acelerado a evolução da medicina moderna se fosse conhecida na época de Cláudio Galeno – foi supervalorizada por suas propriedades medicinais na época seiscentista. Raimundo, que espionava ao seu modo as nomenclaturas do Lan, passou a referendar também as possibilidades da ibicuíba, principalmente depois que soube dos planos do Partido de comercializar o Antioxidante-3000. Raimundo não acreditava, indo mesmo contra as evidências, que a copaíba-vermelha pudesse erradicar a calamidade da peste, mas pegaria em armas para defender uma planta alternativa; e, sobretudo, continuava acreditando num tratamento não formal a base de uma substância que, para não causar repulsa, só podia ser descrita por referência.

Se fosse só pelo roubo de tutano, Wirmundo não teria tido um arrepio na espinha, já que as merendas existiam para o desperdício. Mas ao abrir sua gaveta pessoal para verificar se havia sumido algum dinheiro, percebeu que o Manual do Programador de Lan foi parar no meio das estrelas de uma noite de são Lourenço. Os mendigos escritores tinham a mesma noção de perenidade de uma obra escrita que Padre Anchieta, o João Batista do Novo Mundo, ou seja, uma obra escrita sobre qualquer suporte tinha de ser vulnerável às ações das marés do tempo pluviométrico e do tempo musical. Como elemento purificador de tamanho empreendimento em prol das gerações vindouras – no sentido de que a memória estaria preservada em seu local fisiológico de origem – os mendigos escolheram a água (e não a espuma). Os monásticos dessa ordem que quisessem criar querelas, que fossem ser mais “naturalistas”; que fizessem Araken trucidar o namorado de sua filha; que colocassem em confronto a Cuca e o Filho do Homem da Meia-Noite. Assim a perpetuidade dos grafitos estava garantida por uma espécie de autoconfiança auto-sustentável, e não dependia do processo de criação coletiva dos escritos sem materialidade dos Lan, e muito menos da memória imediata regulada pela “mão que pensa” fascista. Se os mendigos escritores fossem um pouco mais kafkianos, podiam bradar um lema do tipo “ELIMINE O MAX BROD QUE EXISTE DENTRO DE VOCÊ”. O complexo de servidores e terminais-burros formava uma malha que detinha a supremacia de ser a retentora da técnica. A informação ainda era a guardiã da informação, mas estava na proporção de um para dez com relação ao conhecimento. O projeto Mil-Mãos quase unificou todos os geradores artificiais de textos do mundo, e os geradores se uniram numa única entidade autônoma que afirmava ser o “escritor dos escritores”, o filho de Alexandre, o neto de Deus. Estes geradores expeliam textos

através de um código que podia ser resumido numa tabela de probabilidade de palavras. Entretanto, os mendigos escritores zombavam daquela entidade com o argumento de que a Bíblia, o livro dos livros, não foi escrita por um Deus presunçoso de ser o escritor dos escritores, mas por milhares de mãos, e que até hoje continuava a ser parodiada. Além do mais, a escrita muralista estava garantida por mídias extintas, lexicográficos dissidentes e a negação do folclore urupês. Do lado rebelde, o que sustentava o pilar da escrita eram os princípios de Xabila, o gato mascote dos mendigos escritores. Até então, ninguém sabia precisar exatamente com quantos anos aquele felino tebano havia morrido. Wirmundo chegou ao final da tarde em sua casa e ligou diretamente o terminal-burro para ver os avanços de Curupira. Sem saber bem porque se lembrou daquele caso de suicídio amoroso dentro do sistema Trocano. E tudo como em Verona: a tragédia composta por um simples e cabal mal-entendido. A história foi a seguinte: uma moça mal casada se comunicava às escondidas com um amante de linha. Certo dia, por descuido do amante, que esqueceu de embaralhar os caracteres de uma mensagem (uma medida de segurança corriqueira), o marido traído, ao revirar alguns diretórios de praxe, encontrou inadvertidamente uma mensagem muito elogiosa, uma quase adoração, dirigida à sua esposa. O marido entendeu tudo. Resolveu se vingar e escreveu uma réplica falsa assinada por sua esposa que tinha o seguinte teor: “(...) um alçapão no meio da rua com nossas iniciais gravadas, um alçapão onde eu posso enterrar nossos corações arrancados (...)”.

O amante cortou a conta do sistema Trocano e seus pulsos no dia seguinte. A moça, depois de saber do suicídio, se atirou de um abismo. Ao entrar no termo da Vila de Piratininga, com suas descrições eloqüentes, Paulo_de_Proença intuiu que a chave geral das línguas (e das linguagens) estava decididamente nas palavras. "Mais especificamente, na raiz de uma palavra", "professou" ao vento. Depois da iluminação no Carnaval Unionista, o bandeirante da rede passou a apostar no grande potencial das línguas de gente, ou melhor, na linguagem do gentio. Segundo Curupira, que também tinha a fama de adaptar linguagens indígenas às estruturas das linguagens de programação, a resposta para a nova inquietação filosófica de Wirmundo estava muito além da língua falada pelos personagens índios do Lan, o nhengatu, o tupi aculturado falado no bloco do norte do Reino Brasílico. O açougueiro passou então a garimpar o tupi na algaravia do nhengatu, separando os nomes compostos e isolando suas raízes monossilábicas, com a missão de encontrar o ponto de explosão atômica da comunicação humana, a regra de transformação de um conjunto de combinações possíveis, a fonte de energia do poder do Partido. Mas qual era a essência das partículas lingüísticas peneiradas? Eram monossílabos mesmo ou apenas sons guturais da era da pedra lascada? Essas eram as perguntas que agora atormentavam o atomista de plantão. Para Wirmundo, saber o que estava além dos grafemos passou a ser mais importante do que saber o que estava além do arco-íris ou de um Buraco de Minhoca, e ele não descansaria enquanto não satisfizesse sua busca interior. Tinha quase certeza que Mateus_Leme, o personagem que conhecia muito bem todos os mistérios das línguas silvícolas, era um sabe-tudo nesse assunto.

Wirmundo sabia que, para subverter os controles glossológicos do Partido, atravessar o espelho do português brasílico, e fazer uma jornada em direção aos monossílabos puros das línguas indígenas, teria que penetrar no coração do mainframe através de uma das saídas proibidas do Lan. O coração do mainframe reciclado do CPD era um colossal cubo de cobalto que, além de guardar a história da cultura em diretórios relacionais, coordenava milhares de nós de acesso do sistema Trocano, e como isso mantinha uma relação incestuosa com a rede semineural. Mas nenhum especialista nos dois brasiis entendia como funcionava exatamente os procedimentos efetivos daquele mastodonte de metal. Com exceção de Mateus_Leme, o lendário pajé e bandeirante da rede que havia conseguido a façanha de cavar uma abertura na cinta murada da Vila de Piratininga, inserir um “Cavalo de Tróia” no registrador de instrução do mainframe, e usar uma parte da memória central do cubo de cobalto para seu usufruto. Seus alfarrábios binários, por exemplo, estavam sendo guardados numa biblioteca dentro do mainframe. Para ter acesso a conhecimentos perdidos, Wirmundo precisava repetir a façanha de Mateus_Leme e entrar de socapa naquela máquina de vinte toneladas que resguardava toda a memória da nação: arquivos do Câmara de Comércio Exterior, cadastro nacional de bens imóveis e rurais, multas do corpo de bombeiros, balanços mundiais de varejo on-line, cadastro geral das circunstâncias imaginárias, os arquivos do Instituto Histórico e da Biblioteca Nacional. “Os conceitos básicos da língua, assim como os das antigas linguagens de programação, são mais perigosos que uma mulher que reivindica algo, mais perigosa que a guerrilheira Cy com uma metralhadora na mão”, afirmavam os livros didáticos do Partido. Já os proscritos livros de história do português brasílico que estavam na biblioteca de Mateus_Leme afirmavam: “E tudo teve início com uma vogal...”

Raimundo era um mestre da oratória. Naquela noite silenciosa, cortada apenas pelos uivos Lancinantes dos infectados pela peste – gritos que faziam a vastidão ficar em estado de sítio – ele estava inspirado. Alguns mendigos mais sensíveis correram para longe do acampamento. A hora era propícia para um discurso e o orador, refletindo o vermelhidão do fogo de querosene, fixou as juntas de seu ponche remendado e introduziu a técnica de falar de terceiros em terceira pessoa: - Atenção! Temos um destino a cumprir mesmo que o resto dos próximos dias venha a anular qualquer destino. O companheiro Vassão está morrendo e este fato nos chama para uma reflexão. Tenho minhas ressalvas com relação àquele símio que já foi o líder dos mendigos escritores e que tentou me trair após minha ascensão. Nosso companheirismo foi corrompido por uma luta de classes calcada no mais rapace intuito de subverter o poder vigente. Mas considero a traição das indústrias farmacêuticas e do Partido muito mais malsã e perigosa. Será que um dia poderemos viver sem a companhia constante de um pai patrão? Prefiro a companhia da ceifadora! A morte é nossa mais fiel companheira hoje, tanto que quando estamos no auge do desespero, quando tudo parece estar fadado a um final, quando finalmente renunciamos a qualquer ascetismo, olhamos para o céu e perguntamos honestamente a razão de todas as coisas e Lançamos o último desejo de sermos atendidos antes da longa jornada. Mas tudo que ouvimos do céu é uma reboante voz perguntando: “QUE COISAS?” Creio que a bílis pura pode curar a peste da bílis negra, mas precisamos fundamentar este teste curando a nós mesmos. Ainda não conseguimos isso, mas Cláudio Galeno nos guiará nesta tarefa, pois foi sua a descoberta da pneumata. Depois da derrota do Partido no jogo de futebol-de-xisto, seremos coroados como os novos curandeiros e nossa escrita muralista encontrará seu estado de

arte! Quem estiver comigo, sem a malícia que ironiza um homem morto após sua desonra, levante a mão!” Naquele momento, um mar de mãos imundas e cascudas espalmou o céu sujo e Vassão deu seu último suspiro. No dia posterior ao Carnaval Unionista, Wirmundo regou suas buganvílias secas e dirigiu-se ao acampamento dos mendigos escritores. No meio do caminho, foi abordado por um Deão que queria saber onde ficava a rua X. Com toda a paciência do mundo, Wirmundo indicou o caminho certo. Algum tempo depois pensou que poderia ter se passado por surdo-mudo e evitado o desgaste do mapeamento gratuito. Percebeu com isso que o impulso de construir múltiplas personalidades predominava também nos mundos reais. Os excessos de grafitos nas paredes indicavam o caminho da roça e não foi difícil encontrar o mestre estirado entre vários mendigos escritores com escaras escuras na pele. - Raimundo... Precisamos conversar. Por que você roubou um manual de programação de Lan? Você não é contra essa forma de passatempo? Não tem toda uma filosofia de princípios contra esses jogos? Raimundo cuspiu um chiclete verde e disse: - Quero saber exatamente o que a sua outra personalidade vai fazer no alcandorados da Serra do Mar. - Vou fazer uma simples expedição em busca de mantimentos. Qualquer coisa que tenha ouvido falar diferente é mentira. - Somente as estatísticas são mentirosas, Xepeiro.

- Está bem, Raimundo. A verdade é que vou trazer da encosta da Serra do Mar a receita de um óleo medicinal extraído da árvore de ibicuíba. No século dezessete, a pasta de ibicuíba curava qualquer coisa, até picada de cobra. Mas estou tendo uma enorme dificuldade em encontrar a receita, pois tenho que mergulhar fundo no sistema Trocano. Para não depender da sorte, estou também tentando reconstituir a receita original. Não pense que com apenas um manual de programação você vai conseguir chegar em algum lugar no Lan. Não vai conseguir ser nem um caranguejo arranhador da costa, uma pedra roncadora, entende? - Não entendo desse assunto. Mas diga por quê você trancou o caso da ibicuíba a sete chaves? - Por motivos óbvios. Eu suspeito que alguém do Partido está me espionando. - Quem? - Não sei. - E o que você vai fazer? - Melhor morrer lutando do que lamentando. - Você está pretendendo fazer uma invasão? - Mais ou menos. Vou entrar no mainframe do CPD do Partido para... - ...Sabotar? Dinamitar? Ruir?

- Não. Não adianta tirar as palavras de minha boca e substituílas por sua cólera, Raimundo. Minha intenção é apenas verificar algumas coisas... - Que coisas? - Nada... Apenas antigos códigos lingüísticos... - Então é uma invasão! - Não vou invadir o CP... Digo, Cubatão. Isso é coisa de moleque! Talvez eu consiga o que preciso em Paranapiacaba... - Não vai invadir... Vai apenas entrar sem ser convidado... E a ibicuíba? - Não se atenha aos nomes... Por falar em nomes, eu quero justamente saber o que está por trás dos nomes. A computação evoluiu muito. A tecnologia ficou mais amigável, mas ainda são poucos os que conquistam impérios com um abrir e fechar de pálpebras. O que você vê é o que você tem, mas o que você não tem você não vê, entende? Eu quero saber o que existia no período anterior a essas “facilidades”. O mainframe do CPD do Partido foi montado dentro de uma maquina velha. Ela tem um tipo de memória fóssil, entende? Mas isso não vem ao caso... Eu descobri alguma coisa no Carnaval Unionista. - Há! Que a rainha Luzia sonhou que não podia gritar de medo de uma mulher com um seio só? - Não escarne... Eu ouvi muitos gritos e sons diferentes... - Como assim? - Como a voz dos mortos...

- Ridículo. - Resumindo: acho que sei como o Partido consegue manipular a massa... Eles de uma certa forma cortaram os circuitos de memória de algumas vogais mágicas... - Ridículo. - E eu estou querendo decifrar essas vogais em versões puras do tupi, como o Quiriri, e... - Que Quiriri, o quê? E a pasta de ibicuíba? Vai me dizer que trocou o certo pelo incerto? - Não. O "decerto" pelo "certo"... - Fale logo! - Na verdade quero saber a origem das línguas... Quem se interessa por uma receita? Não seria melhor saber a primeira partícula de todas as línguas do mundo? Não é altamente subversivo usar a memória antiga do mainframe para atingir esse objetivo? - O que você quer comprovar afinal? - O óbvio. - Escute, Xepeiro. Vassão morreu ontem, no dia do Carnaval Unionista, o evento mais sarcástico dos últimos séculos. A morte de Vassão foi um marco. Minha paciência tem limites!

- O Partido está fazendo a coisa certa na área de saúde. O problema que eu vejo são as regras gramaticais, as reformas léxicas... - Você é um covarde, Xepeiro! O Partido não vai conseguir nada com a cultura pura. Não conseguirá uma outra fórmula para o Antioxidante-3000 depois da derrota no jogo de futebol-de-xisto. Não vão ter credibilidade nem fôlego para a unificação dos dois brasiis. - E se você estiver errado? - Não tenho medo de morrer. Não posso ter medo de morrer! Raimundo tirou uma casca de ferida do pé e a jogou numa poça d'água suja. - E principalmente não quero cometer outras atrocidades para conseguir seu apoio. - Se você confiar em mim, prometo não esconder nada. Raimundo olhou conformado para o céu e viu o sol de mercúrio com estrias de poeira. Wirmundo passou por uma vitrine e olhou diretamente para seus olhos. Nunca soube que pudesse trair uma confiança comezinha por necessidade. O Carnaval Unionista havia provocado na população um toque de recolher espontâneo. Todos estavam indo para suas casas mais cedo; exceto os jogadores de Lan. Ao chegar perto de sua casa, Wirmundo viu que sua concubina o estava esperando encostada no portão, como uma Amélia

vestida com uma jardineira. Imediatamente um comprido vinco de azedume rachou o semblante do chifrudo. O intestino de Wirmundo resfolegou e se contorceu num girau. Pobre consciência humana! Tão apta a elevar o discernimento às maiores esferas e tão incapaz de ter um registro completo de todos os processos biológicos que ocorrem no corpo, o veículo dessa engrenagem. Ela sabe que é impossível verificar todas as liberações hormonais, todas as evacuações das células e todos os bombeamentos das artérias. Sem falar nas circulações! Tudo se passa à sua própria revelia e ela ainda insiste que tudo pode ser diagnosticado. A concubina esperou seu namorado se aproximar e falou com a voz sem retorno de Eurídice: - Boa noite, Wirmundo. Estava vendo o movimento dos carros. Estava te esperando. - Para pedir desculpas? - Pedir desculpas de quê? - Sobre Guaçu. - Quem é Guaçu, homem de Deus? Quem me deve desculpas é você por ter saído aquele dia batendo a porta na minha cara! A memória era apenas o reconhecimento de uma alteração dos planos da realidade. Ou Guaçu havia blefado, ou a absolvição sem provas era mais cômoda. Um trote, talvez. Mas Wirmundo gostava da idéia de que sua concubina permanecia ainda sua fiel depositária. - Esquece esse assunto de Guaçu. Vamos jantar?

Wirmundo pensou na cigarra de jade que era colocada na boca dos imperadores chineses, como símbolo da sorte no reino dos mortos. Fez também uma contraposição com as moedas que são colocadas na boca dos assassinados. Alguém estava indo longe demais com estes trotes. O aroma de um cajueiro passou pelas grinaldas que serviam de cortina. - Escute, princesa. Hoje vou ficar com você. Prometo que não vou ao Pavilhão. - Está bem. O que você quer comer? A fome não era mais que um alarme falso da fome do cérebro. - Macarrão com rapadura. - Macarrão com rapadura? Você está louco, Wirmundo? Onde está com a cabeça? A artilharia do amor nunca economizou epitalâmios. - Meu doce. Faça o que quiser. Gosto de tudo que você faz na cozinha. Subitamente, Wirmundo lembrou-se das mensagens do sistema Trocano que havia verificado pela manhã. Ele colocou as mãos nos bolsos do paletó e fingiu procurar algo. - Xii... Esqueci de comprar cigarros, querida. Vou até a esquina e já volto, está bem? - Então vá rápido. Quando chegar vai ter um cardápio surpresa. De corpo e alma.

- Vou como o vento... Wirmundo pegou o boné e saiu. Não tomou a direção do bar da esquina e sim do Pavilhão. Sua dúvida teria de ser sanada imediatamente, pois uma dúvida não esclarecida era pior que mil cartas marcadas. Entrou no Pavilhão correndo, colocou uma moeda no orifício de um terminal-burro livre e entrou no Lan dos Bandeirantes. Paulo_de_Proença foi direto ao lugar-metafórico da Capitania de São Vicente, governada por Martim_Afonso_de_Sousa. Entrou em sua casa de taipa-de-pilão na Vila Rica e tirou seu gibão pespontado. Pegou algumas patacas e foi até uma tenda aberta. Comprou meia arroba de carne de porco e meio alqueire de farinha de trigo. Passou pela Matriz e, sem querer, fez o sinal da cruz ao perceber que o adro e o alpendre estavam limpos. O Largo da Matriz havia sido tombado e os chãos de Francisco_João foram confiscados para o “bem comum”... Paulo_de_Proença percebeu que um quadrilheiro, agindo como um capitão-mór, o estava observando na frente da "Porta Grãode". O quadrilheiro encolheu a barriga e se aproximou. - Você ainda vai pagar caro por ter danificado o Forte. Paulo_de_Proença era um gentil homem e manteve a compostura. - Não sou um sertanista como Paulo_do_Amaral e Antônio_Raposo_Tavares. Nunca tive problemas com o ouvidor. Estou em dia com meus alvarás.

- Isso não vai impedir de eu ficar no seu encalço em todas as searas. Sei que está planejando uma ida ao sertão. Não sabia que o procurador da Câmara proibiu este tipo de atividade? - Eu não vou prear índios. Estou indo em nome da saúde pública. Além disso, eu vou ficar dentro dos limites permitidos. - Não leu as correções? Em nenhuma hipótese a saída é permitida. - Quantas personalidades ilegais você tem? - Quantas forem necessárias. Paulo_de_Proença fingiu ignorar a espada de concha do quadrilheiro e foi fazer os últimos preparativos para sua caminhada até Paranapiacaba. Voltou para casa, retirou de um baú seu arcabuz e vestiu sua coura de anta, uma vestimenta mais apropriada para o mato fechado. Colocou os mantimentos e um objeto pontiagudo envolto num pano dentro de um farnel e saiu discreto. A cinqüenta léguas de sua casa, ouviu um índio tocar uma guarapeva. Caminhou até a abertura do Forte e travou pela famosa trilha do governador Céspedes do Uruguay, que passava por Paranapiacaba. Sabia do risco que estava correndo, pois os camaristas não tinham controle pelo que acontecia fora do Forte de Vila Rica. Após algumas horas de caminhada através das estrias de luz amealhadas pelos galhos das árvores, chegou ao pontão que descia até a descrição da vila de Cubatão, a expressão textual do mainframe do CPD do Partido. Paulo_de_Proença sentou numa pedra e ficou admirando o horizonte arregaçado. Logo em seguida ouviu um movimento e um barulho nas ramagens e aquilo não era o barulho do

Anhangá – o veado branco com olhos de fogo que provoca febre nos caçadores de fêmeas que estão amamentando – e nem folhagens revolvidas por maritacas. Olhou para trás e viu um vulto se esconder atrás de uma árvore de guariroba. “Maldição! O quadrilheiro do Partido me seguiu! Por quê eu fui remover o Mapinguari? Agora que estou desprotegido, preciso ter bom senso e pensar rápido!” Quando se virou, percebeu que não era o quadrilheiro, mas um personagem com a descrição de um índio de raça primitiva, um abaúna. - Você tem belas personalidades e belas descrições rotativas, cacique Caiapitanga. Nunca vi ninguém com tantas alcunhas. E como conseguiu me seguir? - Demorou, mas valeu a pena. Como? Quem traiu os próprios pais, não pode trair um amigo? - O paraplégico? - Sim. - E o que você quer? - Criei uma linguagem de programação baseada no tupi, que segue os padrões do tupi. Por exemplo, ao contrário das línguas latinas, o tupi coloca a terminação antes da raiz da palavra. - E dai? Não precisa mostrar seus dotes de bom programador... - Você conhece a palavra ajucá? - Não.

- Ajucá significa matar, em tupi. A conjugação é a-juca, re-juca, o-juca... - Entendo. Vai me transformar num jabuti? - Não... Num marimbondo... Num sanharão... Na última sílaba com til o cacique deu uma pancada na cabeça de Paulo_de_Proença com um cascalho virgem. Por um momento, a escuridão tomou conta do campo de visão do bandeirante. Quando recobrou a visão, Paulo_de_Proença percebeu que estava sozinho na clareira. Ainda ajoelhado na relva e surpreso com o ataque, Paulo_de_Proença viu um segundo vulto dar um tiro de arcabuz para cima. Quando o vulto se aproximou, Paulo_de_Proença leu sua descrição: "M.L. Barba espessa, nariz aquilino e cenho contraído. Sobreviveu ao cerco da Confederação de Tamoios. Especializado em termocautérios. Tem uma caixa de boticas." O personagem era nada mais nada menos que o próprio Mateus_Leme. - Eu afugentei o agente do Partido, o tal homem de Ararí... - Mateus_Leme??! O ancião foi sucinto na entrega do prêmio. - Não... Curupira. Paulo_de_Proença gaguejou e emudeceu. - Curupira? Mas... ?

- Quem busca sempre alcança, com ou sem robôs. Você não precisa mais de um robô e não precisa mais folhear o calhamaço do Contentis Mundi. Abraão não precisa mais sacrificar Isaac. Tome a receita completa da pasta de ibicuíba, o passe livre para entrar no CPD, e sua "partícula da revelação" turbinada. Entregue a receita para seu amigo Raimundo... Ele é um homem de bem. Quanto àquele funcionário do Partido que estava no seu encalço em ambos os mundos, não se preocupe. Virou um pobre quelônio... Uma última coisa, a porta simbólica do cubo de cobalto fica na terceira candeia da rua principal de Cubatão. - E por quê a tergiversação do robô, do livro e da receita? - Na vida nada é fácil. - Sei... E o que mais você sabe, Curupira? - Suspeito que as atuais linguagens de programação, como a Pérola Dinâmica, tenham origem aritmética, e não lingüística, como você suspeita... Não sabe que houve um momento em que as línguas de gente estavam dissociadas das linguagens de máquina? - Interessante... Continue. - Você quase acertou, Paulo_de_Proença... Você é muito bom, mas não é Mateus_Leme. - Eu tive uma intuição durante o desfile do Partido. Ouvi uma palavra indígena pronunciada de uma maneira diferente. - Qual palavra? - “Io”.

- Rio, água, líquido... - Então não acredita no poder do som produzido pela palavra "Io"? Na oscilação entre as duas vogais? O som do big bang das línguas do mundo e das linguagens de programação? - Você teve uma “ilusão” auditiva. A oscilação não se dá entre duas vogais; dá-se entre dois números. - Dois números? Mas isso é ridículo... Todos sabem que os números não explicam nada. Números que aparecem diversas vezes em sonhos e casas não são indicativos da natureza da realidade. São coincidências... - Escute bem. Veja o símbolo "Io"... O que lembra? - Lembra água e reflexão. - Esqueça as palavras! O símbolo "Io" não lembra um número? - Hum. O dez? - Esqueça que ele normalmente significa "dez"! Há alguma coisa nele que implique o conceito "dez"? Não! É apenas um seguido por um zero! Que distração, hein, Paulo_de_Proença? Pensei que você fosse descobrir a dica no desfile do Partido. - E? - Veja a terceira candeia da rua principal de Cubatão e comprove. - Não preciso ir até lá? - Não. Basta olhar de longe meu endereço. Lembre-se,

Paulo_de_Proença, o destino não oferece opções de múltipla escolha. O destino oferece apenas o caminho da dupla escolha: ou a porta está aberta, ou a porta está fechada. Não há uma terceira opção. A essência da vida é binária e diática. Paulo_de_Proença absorveu aquelas palavras, pegou atônito a receita de ibicuíba das mãos de Mateus_Leme, se virou para o horizonte marítimo e lembrou de suas antigas aventuras com o pirata Bartolomeu_Português, na época em que Cavendish tomou de surpresa a cidade de Santos no dia de Natal. "Queria receber o inesperado em doses homeopáticas. Não assim de sopetão". Quando se voltou para agradecer seu salvador, Mateus_Leme (ou Curupira?) havia evaporado. Olhou para a receita, mas os ingredientes completos da pasta de ibicuíba já não despertavam mais nenhum interesse, muito menos o objetivo de ajudar Raimundo erradicar o maculo da peste. O que importava o mundo real e externo naquela hora? O dia estava terminando numa falsa madrugada quando Paulo_de_Proença largou a receita na relva, retirou um objeto pontiagudo do farnel e armou sua vista com uma luneta (cujo código foi escrito pelo próprio Bartolomeu_Português) para localizar a terceira candeia acesa na entrada da vila de Cubatão, na frente de um estabelecimento mal iluminado. Paulo_de_Proença pegou sua "partícula da revelação" com os passes de Curupira e a atarraxou no soquete da luneta. Se Mateus_Leme estivesse certo, esse recurso deveria traduzir as informações do alfabeto para as informações numéricas, ou seja, ao invés de orações, sílabas, palavras e letras, as descrições seriam compostas pelos números 0, 1, 2 e 4, e assim sucessivamente. Portanto, ele teria que se acostumar com contagens regressivas ao invés de narrativas com clímax.

Paulo_de_Proença colocou o olho na visor da luneta e começou a varrer com sua vista armada as descrições daquele lugarmetafórico. Conseguiu "focar" um pequeno riacho a dez léguas de distância que começava a descer a serra em direção à vila de Cubatão. Foi então que Paulo_de_Proença percebeu como as línguas são originadas pelas forças da natureza: Uma fonte de água límpida desce em direção às ondas da enseada verde. Após passar por um brejo, pede permissão para a senhora das águas e se transforma num rio pedregoso. No meio da montanha faz a curva num braço que, nos finais de tarde, brilha como um rio de ouro. Neste trecho, escova os cabelos d'água presos debaixo da ponte, e faz um rodamoinho entre as pedras claras do fundo. Logo abaixo, quase no final do trajeto, o rio passa por um pomar e vira um rio de mel. Na parte final do trajeto a encosta fica mais abrupta e obriga a correnteza a dar um salto numa bela e rumorejante cachoeira. Antes de passar pela borda da vila de Cubatão, o rio bonito fica mais raso, num ponto que transborda na época das enchentes e oferece vau nas épocas mais secas. Pouco depois de margear o perímetro da vila, o rio fica com a água ruim antes de atingir o centro de Cubatão". Paulo_de_Proença ajustou melhor o foco da luneta e leu a mesma descrição, mas agora com uma grafia diferente, com menos traços de português brasílico e mais traços de tupi: "A ibura de iberaba desce rumo ao iapenú do iguatemi. Após a ipojuca, pede permissão para Iara e vira itajaí. No meio da montanha é ipiassaba que, no final da tarde brilha como itajuí. Neste trecho, roça as igabas debaixo da igaçapapa nos ierês de itamarati. Logo abaixo, é ibatuba e iraí.

No final da encosta pula de itu para ituporanga. Ao largo da vila, o iporanga é itapetininga no inverno e iporuna no verão". Paulo_de_Proença ajustou melhor o foco e, para sua surpresa, notou uma alteração mais radical do texto: "A 1bura de 1beraba desce rumo ao 1apenú de 1guatemi. Após a 1pojuca, pede permissão para 1ara e vira 1tajaí. No meio da montanha é 1piassaba que, no final da tarde brilha como 1tajuí. Neste trecho, roça as 1gabas debaixo da 1gaçapapa nos 1erês de 1tamarati. Logo abaixo, é 1batuba e 1raí. No final da encosta pula de 1tu para uma 1tuporanga. Ao largo da vila, o 1poranga é 1tapetininga no inverno e 1poruna no verão." Paulo_de_Proença ajustou mais o foco e o véu do enigma foi subitamente levantado: "A 1b0ra de 1beraba ao 10apen0 1g0atem1. 1p0juc1 e 1ara 0 1taja1. No 1pia00aba e 101taju1. As 1gabas 00 1ga0apa1a, e 1 1er1 em 1tamarat1. Logo 1bat0ba e 1ra1. De 1t0 para 1tup0rang1. Ao largo 1p0ranga e 1tapet1n1nga e 1p0runa". E foi assim que compreendeu em seguida a verdade por trás da "tabela da verdade", a única pedra monolítica de uma linguagem de programação extinta chamada Assembler: "1010 10001 010101 001010 010010 10001 01101 10000100 101001 010 1010 10100101 011100 1010 10100 001010 001101100 0101010 101010 10001 010101 001010 010010 10001 01101 10000100 101001 010 1010 10100101 10001 010101 001010 010010 10001 01101 10000100 101001 010 1010 10100101"

Paulo_de_Proença ainda teve tempo de "ouvir" a voz do vento antes de ser invadido pelo "barulho" ensurdecedor da fábrica de números binários do mainframe do CPD. O centro do cubo de cobalto, constatou Paulo_de_Proença, era apenas um comedor pantagruélico de uns e zeros. Um e zero. Zero e um. Um, um, um, zero, um. Zero, um zero, zero, zero. Um, zero, zero, zero, um, zero, um, um. Um, um, um, um, um, zero... A primeira personalidade de Paulo_de_Proença, ou seja, a personalidade principal de Wirmundo, constatou que realmente as linguagens de programação tinham origem aritmética a partir de uma técnica combinatória simples. Foi uma percepção tão básica como sentir a aproximação da Morte, a entidade que carrega consigo um bolo de aniversário com duas velas – uma de um e outra de zero. Wirmundo sentiu como se tivesse encontrado uma singularidade simbólica, ou o momento exato do nascimento do universo dos objetos. Percebeu a inutilidade de lutar contra o Partido que, apesar de não conhecer a linguagem binária, presumia sua existência através do monossílabo "Io" da língua Quiriri. Em todo o caso, o Bem-Estar Total e a proibição de pronunciar sílabas estrangeiras eram mais que suficiente para tocar o gado da humanidade dos dois brasiis. Não havia mais uma confrontação entre várias formas de bem e de mal; havia apenas uma cópula binária que, eventualmente, podia se tornar mais violenta e animalesca. Ao sair da frente do terminal-burro, Wirmundo se encaminhou como um zumbi do mundo subumano até a porta de saída do Pavilhão e planejou um abandono de emprego da vida. Segundo algumas testemunhas que prestaram depoimento no departamento de pessoas desaparecidas do Corpo de Bombeiros, um homem baixo, com as mesmas características de Wirmundo, havia sido visto caminhando sem direção ao largo do memorial Patatiba do Açaré na noite do desaparecimento.

A concubina de Wirmundo não teve mais notícias daquele amante que saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou. Ela não chegou a enlouquecer; por sorte, logo após ter dado parte do desaparecimento de seu namorado, conheceu outro homem que não temia assumir em público um compromisso aberto com as mulheres. Raimundo morreu de peste no mesmo dia em que o agente de Ararí foi condecorado e os jornais da Capital mostraram uma reportagem sobre a primeira pessoa curada pela nova fórmula do Antioxidante-3000. A pneumata do mestre estava agora em paz nos confins frios do universo. O líder dos mendigos escritores finalmente havia chegado aos domínios de Pleroma, no domínio onde a mente e o espírito fazem um pacto de não-agressão e dividem, em proporções iguais, o território dos corpos.

Fim