O caso dos exploradores de caverna: análise.

Quatro réus foram processados e condenados, em primeira instancia, pelo Tribunal do Condado de Stoefield, a pena de morte por enforcamento. Informados da sentença, os réus recorreram. Segue relatório de analise dos Ministros: Ministro Truepenny - Juspositivista Argumentos 1. Lei. 2. Qualquer um que, por vontade própria, tirar a vida de outrem devera ser punido com pena de morte. 3. Justiça deve ser feita sem ofender a letra ou o espirito dos nosso estatutos e sem oferece encorajamento ao desrespeito da lei. Considerações Especificidade do caso Questão da injustiça Ministro Foster – Jusnaturalista Argumentos 1. As leis positivadas não se aplicariam a esta caso, pois os acusados se encontravam em seu “estado natural”. 2. Direito positivo se aplica em vida em sociedade, não naquelas condições, as quais os espeleólogos se encontravam demovidos da ordem legal, graças a perturbação natural do fato. Considerações Em outros momentos o ordenamento jurídico em vigor foi subestimado para livrar os magistrados de cometerem injustiça, assim Foster julgou o assassinato como legitima defesa. Ministro Tatting – Neutro (recusou-se a participar da decisão processual). Argumentos 1. Desconstruiu a argumentação de Foster ao julgar que legitima defesa ocorre sem premeditação.

de que a legitima defesa era valida e os acusados deveriam ser absolvidos. segundo esse ministro. racionalização do delinquente. rechaçou a argumentação do ministro jusnaturalista Foster definindo mais incisivamente a matéria legitima defesa. ao apresentar jurisprudência deu mais suporte a ideia de tipificação de crime e fortaleceu o ministro juspositivista. O clima de comoção popular deveria ser levado em consideração 3.]” “E certo que as promessas devem ser cumpridas. deveria ser interpreta a luz do seu proposito. Considerações Apesar de sua neutralidade.. dentre outras finalidades. Invocou a jurisprudência para reforçar sua argumentação desconfigurando legitima defesa. mas no exame do caso em questão fica difícil apresentar esse efeito preventivo.. O bom senso deveria prevalecer no caso 2. Os direitos positivistas devem prevalecer sobre os direitos naturalistas Ministro Handy Argumentação 1. ou quando estes propósitos fossem passiveis de questionamento: a lei penal tem vários propósitos que foram levantados no relatório de Tatting: prevenção (reconhecido). A lei.” .2. Fortaleceu a tese do ministro jusnaturalista Foster. Ministro Keen Argumentação 1. mas em certos casos o cumprimento das promessas e prejudicial mesmo para aquele a quem foi feita a promessa. resposta racional a instintiva necessidade de retribuição. mas ficava difícil quando a mesma lei tinha vários propósitos. Foster. O paradigma dominante: o direito natural “O direito natural e deliberativo [.

qual a sua objetividade possível”. Alcala. jesuíta. bem como Santo Tomas”. faculdade individual ao direito natural. Roma. Salamanca e Coimbra. O fato de Newgarth ter um Constituição não tirou dos réus o acesso ao direito natural. então B). sobretudo. mas um julgamento por ponderação.“E um julgamento não por imputação pura e simples (se A. Valladolid. em que conforme o peso das circunstâncias pode-se decidir”. professor em Avila. “ius – poder moral que cada um tem sobre o seu o sobre o que se lhe deve – direito subjetivo. colaborou com este conceito Francisco Suarez (1548-1617). “Os juristas põem-se a interpretar o que e o mínimo comum de todo o direito e. . Segovia.

basta observar o código napoleônico. Esse direito. o qual foi fundado em 1804 e nascido de um desejo de Napoleão de unificar tanto territorialmente quanto legislativamente seu pais. que a época soçobrava. ha um direito que e a expressão do justo. O direito natural tem fundamentos universais e imutáveis e que são explicados dogmaticamente. transição para o estado em sociedade acontece de forma voluntariosa em beneficio de sua melhoria. por não ter respostas a todas as questões. a criação de governo civil. paz e liberdade. que tratava do relacionamento humano. dos abusos de poder. que zelara pela segurança. não raramente. o ordenamento jurídico. positivada. E claro que ela não obteve sucesso. o Código de Napoleão. o mesmo individuo no estado de sociedade” (1690. pode. então Locke defende a ideia que o contrato social. justificando a necessidade da criação da Escola da Exegese para interpretar tal código. indica necessidade ou repudio a um ato moral por causa de sua conveniência ou inconveniência face a natureza social ou racional do homem. tornar-se complicado e ambíguo. observa-se que ele trata o estado de natureza do homem com espirito racional e benevolente. Napoleão se autoafirmou imperador e instituiu uma comissão legislativa especial para criar a lei perfeita. devido a tendência inata da natureza do homem de viver em sociedade.108). Os indivíduos maltratados contra todo direito tentara se livrar dos males que se lhes . a lei perfeita. mecanicamente. Diante deste quadro de falência. a Franca.ARGUMENTACAO A FAVOR DO JUSNATURALISMO Além do direito escrito. Para Locke em sua obra. 2002 p. citado por CHEVALIER. cerca de 50 anos. e possível encontrar saídas para as demandas humanas. essa interpretação era feita conforme a própria lei napoleônica. assim importa levantar uma questão: porque o homem abriria mão desse estado? Ora. A evolução histórica mostrou que considerar o direito natural de maneira racional. o qual todos os homens possuem sem precisar recorrer ao judiciário. mas as demandas sociais eram mais profundas e maiores que as previstas pelo código. um direito ideal alcançável e não utópico. Ao passear pela obra de Locke. Porem ai existe ainda um instrumento salvaguardado aos indivíduos no estado de sociedade: a Insurreição. e bem certo que esse estado natural pode ser comprometedor a paz. haja vista o fato de sua duração ter sido curta. O direito positivo. ou positivo. Ensaio sobre o governo civil “e a existência dos direitos naturais do individuo no estado de natureza que vai proteger.

na filosofia kantiana. 2002 p. Os direitos naturais não desaparecem no estado de sociedade. a lei natural. Horca. sua faculdade de constranger aos demais pelo seu próprio arbítrio”. devendo. Diante desse cenário. cada coisa só pertence a cada um enquanto se conseguir conservar a coisa. (FASSO. pela razão. segundo Hobbes. Em todo caso o que se pondera aqui e a importância dada ao direito natural. entende-se que o homem esta sujeito as leis naturais e adapta as suas ações a uma forma de diferente de legislação. (1651. Em Hobbes. eles continuam existindo para que se mantenha a liberdade entre os homens. Para Locke. sua supremacia. (LOCKE. Em sua obra. para dar fundamento jurídico ao estado de sociedade de restringindo outra fonte que não seja a humanidade. de maneira absoluta e coercitiva. no sentido de que em seu estado de natureza não se pode haver propriedade. e de que o homem e violento. pois o senso de sociedade e o direito natural. ter como pressuposto. O contrato social. que se constituiu fundamento da autoridade do legislados. ainda. enquanto ideia. os mesmos homens que farão o contrato social. a fim de saírem do estado de natureza para sua conservação e libertação. ainda que inexistentes na legislação externa. citado por CHEVALIER. 158) Thomas Hobbes. premissa que embasa e justifica o absolutismo.71). p. assim como Locke parte do estado de natureza e defendo a transição para o estado de sociedade pelo contrato social. no seu livro O espirito das leis.impuseram. este contrato seria racional e haveria civilidade. no seu significado mais lato. tese defendida por Hobbes. serve como justificativa racional. Segundo a filosofia de Kant. “As leis naturais. enquanto as leis positivas pressupõem existência de uma legislação efetiva externa. 1690). são relações necessárias que derivam da . citado por Ronaldo Poletti. sem a qual não seriam leis. Guiso. mas com seus semelhantes. Tradução de Jose F. esse contrato seria regido pelo Estado. que “As leis. um pacto voluntario firmado entre eles. são as que a obrigatoriedade pode ser reconhecida a priori. apesar disso o homem também não vive sozinho. Historia de la filosofia del derecho. Montesquieu afirma. Hobbes explicita que o homem possui natureza individualista. mas o estado de natureza. ai esta a sua condição de natureza. autor da obra O leviatã.

apos completada a revolução burguesa. Jose Reinaldo de Lima. a filosofia do Direito e devidamente domestico e explicado dogmaticamente. Sendo assim. 2002. Lon. com especial atenção à Carta Magna e ao Código Penal Brasileiro. Sao Paulo: Quartir Latin do Brasil.AVALIAÇÃO À LUZ DO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO Este ensaio. ou seja. FASSO. Há uma razão primitiva. não se tem a audácia de pretender construir aqui uma argumentação que figure como única e absoluta solução admissível para o tema. Guiso. Fuller da Harvard Law School intitulada O caso dos exploradores de Cavernas. 2011) O jusnaturalismo passa a ser. A historia de la filosofia del derecho.arqnet. e preciso buscar aquilo em que elas põem firmemente ancorar-se. e as leis são as relações que se encontram entre os vários seres. antes pelo contrário. (citado por http://www. Jean-Jacques. que sao comuns a toda a humanidade. As grandes obras politicas de Maquiavel a nossos dias. (LOPES. CHEVALLIER. São Paulo: Atlas. Estas ideias estao de acordo com a existencia de leis universais e imutaveis. inspirado pela magistral obra do Professor Lon L. dado as condições peculiares que a envolvem. 2011. O fictício Caso dos Exploradores de . enquanto as leis podem ser contingentes. favorece argumentações que defendem teses diametralmente opostas. BIBLIOGRAFIA LOPES. O direito na historia: lições introdutórias. e das relações destes seres entre si”.natureza das coisas. O caso dos exploradores de cavernas: a luz do ordenamento penal brasileiro.arnet. Reconhece-se desde já a variedade de filosofias jurídicas trazidas a lume pelo autor para justificar os diferentes votos proferidos pelos juízes do caso. o direito natural”. e traduzida para o português pelo Professor Plauto Faraco de Azevedo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. objetiva analisar o referido caso à luz do ordenamento jurídico pátrio. Reconhece-se que uma situação como esta.pt acesso em 29/03/2012) “O direito natural e o permanente. acesso em 29/03/2012 O CASO DOS EXPLORADORES DE CAVERNAS . FULLER. para valerem de modo racional.pt. Site: www. 2011. Rio de Janeiro: Agir.

tendo notado a ausência deles. Após um intensivo tratamento psicológico e nutricional foram os quatro sobreviventes submetidos ao juri popular acusados pela prática de homicídio. por sugestão de Whetmore. pelo que foi acusado de violar o pacto. dificultavam o salvamento. a sorte caiu sobre o próprio Whetmore que foi morto e serviu de alimento para os encavernados. Informados que dificilmente sobreviveriam com o que dispunham um dos encavernados. antes de realizarem o sorteio. Durante este período os prisioneiros esgotaram as escassas provisões alimentares de que dispunham. Whetmore declarou querer esperar mais uma semana. Quanto a um pronunciamento moral sobre a questão não houve quem se dispusesse a assumir o papel de conselheiro. Recusando-se a lançar os dados o fizeram seus companheiros em seu lugar e. Muito a contragosto o médico da equipe respondeu afirmativamente. todos acordaram em sortear uma vítima através de um lance de dados. A morte aconteceu no vigésimo terceiro dia do cativeiro. em nome do grupo. que provocaram a morte de dez operários. Sensibilizados com o desfecho do caso os jurados enviaram . perguntou se poderiam resistir se sorteassem um dentre eles para matar e comer. avisaram a sociedade e uma equipe de socorro foi enviada ao local. o qual declarou culpados os réus e condenou-os à pena capital.Cavernas se inicia em princípios de maio de 4299 quando cinco membros de uma sociedade amadorística de exploradores penetraram em uma caverna de rocha calcárea no Condado de Stowfield. Eximindo-se os jurados de expedir o veredicto o caso foi resolvido pelo juiz de primeira instância. Descreveram a quantidade de alimentos de que dispunham e perguntaram ao médico da equipe se seria possível sobreviverem com aqueles mantimentos durante os dez dias faltantes. três dias após cessarem as comunicações de rádio. Seus familiares. em obediência aos ditames da lei do país. porém. Descoberto que os exploradores levavam consigo um rádio transistorizado estabeleceu-se a comunicação entre eles e os responsáveis pelo resgate. Embora a equipe trabalhasse constantemente novos deslizamentos. Quando já se encontravam bem distantes da entrada um grande desmoronamento bloqueou-lhes completamente a única saída. Whetmore. Segundo o relato dos quatro sobreviventes [1] dentro da caverna. No trigésimo segundo dia conseguiu a equipe libertar os exploradores. Tendo aqueles questionado sobre o tempo necessário para as equipes os resgatarem foram informados que a desobstrução demoraria pelo menos dez dias. para seu infortúnio. A partir deste momento interrompeu-se a comunicação radiofônica. mas Whetmore tinha já sido morto e servido de alimento a seus companheiros.

Dito isto acredita-se que os sobreviventes do Caso dos Exploradores de Cavernas estariam amparados na legislação brasileira pela excludente de ilicitude prevista no inciso I do artigo 23 e artigo 24.[2] Como todos os Estados Democráticos de Direito. Entretanto. 5°. ocorreu um empate. que prevê pena de reclusão de seis a vinte anos para o autor deste delito. se os sobreviventes do caso que se analisa mataram seu companheiro. então a conduta dos sobreviventes se ajusta ao tipo previsto pela norma penal. caput [3]. Numa primeira análise a solução do caso em tela parece simples: se a norma penal prevê que quem mata pratica conduta típica do homicídio e. eliminar a vida de um ser humano é conduta que se amolda à norma penal incriminadora disposta no art. a República Federativa do Brasil. Dois juízes manifestaram-se pela absolvição. Dentre acontecimentos históricos que se . tem "direito a não ter interrompido o processo vital senão pela morte espontânea e inevitável". É pelo reconhecimento deste direito de continuidade à vida que a legislação penal tipifica e pune os atos atentatórios à existência e à integridade física e moral das pessoas. de Jesus. O chefe do executivo resolveu esperar a decisão da Suprema Corte à qual recorreram os condenados. proclama no art. 121 do Código Penal (homicídio). Assim. a legítima defesa. a conduta típica não basta para que exista crime pois para que este reste configurado faz-se necessário que o ordenamento reprove o comportamento do sujeito. 23 do Código Penal são o estado de necessidade. Os cinco juízes desta Corte proferiram seus votos. fundamentada e orientada pelo princípio da dignidade da pessoa humana. Face a esta circunstância foi confirmada a sentença condenatória de primeira instância. na linha da boa doutrina de Damásio E. considerando o fato como ilícito.uma petição ao chefe do poder executivo para que comutasse a pena de morte em seis meses de prisão. Ao declarar isso quer a Constituição dizer que o indivíduo tem direito a uma continuidade na sua existência como pessoa humana. antijurídico. dois pela condenação e. Geralmente o fato típico também é antijurídico[4]. ambos do Código Penal: o estado de necessidade. e o estrito cumprimento de dever legal ou exercício regular de direito. devido a abstenção de um dos juízes. mantendo-se a condenação dos acusados. da Carta Magna a vida como direito fundamental do indivíduo. salvante os casos em que fica caracterizada uma das causas excludentes da ilicitude (causa de justificação) que. As causas excludentes da ilicitude licitam uma conduta humana que se amoldou à figura típica. Semelhante documento foi elaborado pelo próprio juiz que proferiu a sentença. nos termos do art. quer significar que. nas palavras de José Afonso da Silva.

que mais tarde alegaram estado de necessidade perante o júri. o do alpinista que precipita no abismo o companheiro. A caracterização de um simples perigo eventual não legitima a aplicação da excludente da ilicitude. Para que se configure o estado de a) Atualidade do necessidade a doutrina aponta como requisitos indispensáveis: perigo: consiste na exigência de que o perigo seja atual ou que esteja na iminência de ocorrer. morrendo à fome. isso porque não se pode exigir de ninguém conduta de santo ou mártir a sacrificar bem seu em nome da preservação de bem de outrem frente a perigo para cuja ocorrência não . 147 pessoas ficaram numa enorme jangada e o restante dos passageiros e tripulantes em chalupas que deveriam rebocar a jangada. Também deflui deste requisito que o meio empregado pelo sujeito deve ser o menos nocivo possível. Entretanto os cabos que ligavam as embarcações romperam-se e não foram reatados. em que. A antropofagia foi praticada sobre os corpos dos companheiros mortos. o mais jovem náufrago foi morto pelos companheiros. que aponta como clássicos os casos "do expectador de uma casa de diversões que incendeia e que para se salvar fere ou mata outro expectador. "sem a menor dúvida. compreendidos como estado de necessidade os casos da tábua e dos dois náufragos (tabula unius capax). um equilíbrio entre os direitos em conflito. Dos 147 náufragos.tornaram famosos o direito aponta como típicos do estado de necessidade: (a) o caso da fragata "La Méduse". voluntariamente provocado pelo sujeito. e de antropofagia. devendo existir. Consiste. (b) o caso do iate inglês Mignonette. b) Inevitabilidade do perigo: a situação deve estar de tal forma configurada que não admita outra forma de o sujeito resguardar o bem jurídico sem violar direito alheio. como exemplo. pelo menos. em expedições. O sacrifício de bem jurídico de terceiro inocente só é admitido pelo ordenamento jurídico como recurso último para que o sujeito proteja direito seu ou de teceiro. Depois de vários dias no mar. visto que a corda que os sustenta não suporta o seu peso etc. os expedicionários combinam matar e comer um companheiro". alguns dos quais vieram a morrer depois de hospitalizados [5]. em outras palavras na inexigibilidade de sacrifício do bem ameaçado. c) Que o perigo não tenha sido d) Razoabilidade da conduta do agente: É necessário que não seja razoável se exigir o sacrifício do bem juridicamente tutelado do agente. Ordenado o abandono do navio. Cite-se." e continua afirmando estarem. Magalhães Noronha. que naufragou em julho de 1884. que em 1816 encalhou em um banco de areia na costa africana. Os doutrinadores pátrios também exemplificam casos que configurariam típicos estados de necessidade. salvaram-se 15.

Os sobreviventes seriam absolvidos da acusação de homicídio." Lon L. (d) os bens jurídicos em conflito são a vida de cada um dos exploradores não sendo razoável exigir que um deles sacrificasse a vida para resguardar a dos outros. sem violar o direito tutelado no inc. Lon Fuller. Quando o direito à vida de duas pessoas entram em conflito sem que nenhuma tenha dado causa para que isso ocorresse e sem que haja outra maneira de se resolver a situação não há como a Carta Magna declarar o direito de uma pessoa a viver em detrimento da outra.concorreu. nas palavras de José Afonso da Silva. pelo nosso ordenamento "se reputa legítimo até mesmo tirar a vida a outrem em estado de necessidade de salvação da própria. que (a) o perigo de morte era iminente. (b) a caverna calcárea na qual encontravam-se enclausurados os exploradores não oferecia qualquer forma de alimento que pudesse ser utilizada ao invés da própria carne humana dos próprios exploradores. O bem jurídico que estava em jogo era a vida e ela a Constituição erigiu a patamar de direito fundamental." resta aguardar a solução do conflito para proclamá-la legítima. Speluncean Explorers . A Carta Constitucional não preve solução diversa. que sob o império da legislação penal brasileira o estado de necessidade resta cabal e plenamente configurado no Caso dos Exploradores de Cavernas. incorrendo em explícita contradição. portanto. o Estado não pode intervir.que. 5° do seu próprio texto[6]. salvando um e sacrificando o outro. É porque a Constituição proclama o direito fundamental do indivíduo à vida – pré-requisito para a existência de todos os outros direitos . Presentes estes requisitos configurado está o estado de necessidade a Relativamente ao caso que aqui se estuda nota-se licitar a conduta típica do sujeito. XLI do art. Fuller – O Caso dos Exploradores de Cavernas Enviado por Danilo Christiano Antunes Meira. tendo o próprio médico da equipe de salvamento admitido que eram praticamente inexistentes as chances de sobreviverem os exploradores pelo período mínimo estimado de dez dias para o sucesso das operações de salvamento. Nas palavras de Magalhães Noronha: "Na colisão de dois bens jurídicos igualmente tutelados. em 17 de maio de 2008 Palavras-chave: Exploradores de caverna. Vê-se. Matar um companheiro para da sua carne se alimentar foi o único recurso possível para satisfazer a necessidade vital de alimentação. (c) ao perigo de morte por inanição nenhum dos exploradores tinha dado causa já que a caverna subterrânea em que se encontravam presos teve sua saída bloqueada por um desmoronamento natural.

Lon Fuller. em 1949. os acusados eram membros da Sociedade de Espeleológica. Em meados de maio de 4299 estavam eles em companhia de Roger Whetmore. também presidente da Suprema Corte. Fuller descreve os fatos através do pronunciamento dos cinco juízes da Suprema Corte de Newgarth. Segundo Truepenny. onde os acusados recorreram da decisão. INTRODUÇÃO “THE CASE OF THE SPELUNCEAN EXPLORERS” consiste em um estudo da argumentação jurídica elaborado pelo professor de Jurisprudence da Harvard Law School. Engenheiros. 2. DA ARGUMENTAÇÃO DO JUÍZ TRUEPENNY O primeiro a se pronunciar foi o juiz Truepenny. enviou prontamente uma equipe de socorro. O caso proposto ocorre no ano 4300. onde quatro indivíduos são julgados pelo assassinato de Roger Whetmore. Passando-se alguns dias sem informações. com os dados deixados pelos exploradores sobre a localização da caverna. que cuidou de revisitar o episódio do crime e a sentença condenatória proferida em primeira instância. Foster. da legalidade e da legitimidade das normas. Como temas das argumentações dos juízes Truepenny. Condenados pelo crime em primeira instância no Tribunal do Condado de Stownfield.1. os familiares dos exploradores entraram em contato com o secretário da Sociedade que. frustrado diversas vezes por novos deslizamentos que tolhiam a desobstrução da caverna. Keen e Handy. das atribuições de cada um dos poderes do Estado e algumas outras questões que proporcionam distintas abordagens ao caso. A remota localização da caverna e os custos envolvidos no trabalho de resgate tornavam esta tarefa extremamente difícil. uma organização amadorística de exploração de cavernas. o risco de que morressem de inanição antes de . também membro da Sociedade Espeleológica. Fuller se utiliza das contraposições das correntes jusnaturalista e positivista. Tatting. em uma expedição quando foram surpreendidos por um deslizamento que bloqueou a única saída da caverna em que se encontravam. Sabendo-se que poucos eram os mantimentos levados pelos exploradores e que nenhum alimento poderia ser encontrado no interior da caverna. geólogos e outros técnicos formavam um enorme campo de trabalho. dos métodos hermenêuticos e dogmáticos de interpretação.

o que possibilitou a troca de informação entre estes e a equipe de resgate. Whetmore questionou se seria adequado que se tirasse na sorte o individuo a ser sacrificado. questionou sobre a possibilidade de eles sobreviverem utilizando a carne de um dos membros como alimento. todos os membros concordaram e. sendo estes inicialmente contrários a idéia. dando-lhes como reposta o prazo de dez dias. Contados vinte dias do deslizamento que bloqueou a entrada da caverna. a equipe de resgate foi questionada pelos exploradores sobre o tempo previsto para que se concluísse a operação. Na primeira interação. em um novo contato. Após um intervalo sem se manifestarem. Sendo os relatos dos acusados aceitos como prova pelo júri da primeira instância. recebendo a resposta em sentido afirmativo. em nome dos exploradores. o juiz declarou-os . que por sua vez não se opôs à maneira pela qual os dados foram lançados. Posteriormente. no qual Roger Whetmore. desde que não houvesse novos deslizamentos. Tendo sorte adversa. se soube que os exploradores levavam consigo um rádio comunicador. em vista do prazo previsto de resgate e da falta de provisões. Denunciados os exploradores pelo assassinato. resolvendo esperar por mais uma semana. Concluído o resgate.serem resgatados era evidente. já decididos com a proposta inicial do próprio Whetmore. Todavia. Todos se recusaram a opinar e desde então os exploradores não se comunicaram com a equipe de socorro. o representante do júri solicitou ao juiz que os jurados pudessem emitir um veredicto especial. os exploradores o acusaram de quebrar o acordo e deliberaram que os dados seriam lançados mesmo sem a sua concordância. Depois de alguma discussão. respondendo-lhes que seria uma remota possibilidade. Um dos acusados procedeu no lanço dos dados representando o dissidente. Whetmore foi sacrificado. a equipe médica que acompanhava o resgate foi questionada pelos exploradores sobre a possibilidade de sobrevivência. se soube pelos acusados que Whetmore propôs se escolher pelos dados o indivíduo a ser sacrificado. os exploradores solicitaram um novo contato com a equipe médica. pouco antes de serem os dados lançados. Whetmore revogou sua opinião. mas não recebeu resposta de nenhuma dos presentes. acolhendo ou não as provas e deixando ao juiz decidir se haveria ou não culpabilidade dos réus. Também nesta oportunidade.

separadamente. Todavia. não possibilitavam qualquer exceção de aplicabilidade. mesmo que indesejada. o segundo juiz da Suprema Corte a se pronunciar. onde a preservação de suas vidas só foi possível em detrimento de outra. Em sentido do direito natural. . especificamente o mais relevante ao caso.então como culpados e condenou-os à forca à luz da lei. como aquele em que se achavam os acusados. Assim. Assim como não é possível se aplicar uma lei em casos exclusos dos limites geográficos do Estado. o posicionamento do seu colega Truepenny implicaria não apenas na injusta penalização dos acusados. o juiz sugere que a mesma lógica seja aplicada ao caso dos exploradores. deixando ao executivo a possibilidade de conceder alguma forma de clemência para com os acusados. Truepenny decide manter a acusação e a conseqüente condenação. Justificando seu veredicto favorável à absolvição dos réus. Embora de forma obscura. pois cessante ratione legis. pedidos ao chefe do executivo que comutasse a pena de morte em prisão de seis meses. Foster põe a salvo a validade dos dispositivos legais utilizando-se inicialmente de uma remissão às teorias do jusnaturalismo iluminista e do contratualismo rousseauneano. Truepenny. os jurados e o juiz do Tribunal do Condado optaram pela melhor e única escolha. sob o argumento de preservar a força normativa da lei. 3. e recomenda a mesma postura aos colegas. DA ARGUMENTAÇÃO DO JUÍZ FOSTER Para Foster. visto que os dispositivos legais. De acordo com o entendimento do presidente da Suprema Corte. o direito positivado perde o seu significado. “Quem quer que intencionalmente prive a outrem da vida será punido com a morte”. o juiz afirma que o direito positivo só pode incidir sobre os indivíduos que se encontram em condição de coexistência social. Foster também procura preservar a lei em vista de sua aquiescência para com os acusados invocando o princípio da limitação territorial. consoante com a decisão da primeira instância. Em casos contrários. cessat et ipsa lex. tanto os jurados como o próprio juiz eram contrários à condenação dos acusados. mas também na condenação da própria lei pelo senso comum. dado que estes emitiram. que se encontravam tão distantes da força coercitiva dos dispositivos legais quanto se estivessem milhas distantes do território do Estado.

4. Dividido entre a simpatia para com os acusados e a aversão para com o crime por eles cometido.Do contratualismo. Também. a jurisprudência assim a interpreta. como ocorreu a dez membros da equipe de resgate. a fundamentação do direito e do Estado no período iluminista foi interpretada através de um contrato celebrado pelos homens de acordo com os seus fins e suas circunstâncias. Exposta a questão da relevância interpretativa. J. não sofreu sansões pelo fato de a infração ter sido causada por um evento público que o impediu de mover o seu veículo. Foster. onde seria possível violar a letra da lei sem violar a própria lei. Sobre a argüição jusnaturalista. o juiz utiliza-se da quase totalidade de seu discurso para questionar a validade dos argumentos versados pelo colega J. Tatting. Em sentido exemplificativo. menciona o caso onde o individuo. o terceiro juiz a se pronunciar. onde este último deve prevalecer ao sentido literal. embora hipoteticamente. mas apenas ao teor da lei que permite a interpretação de que ela não é aplicada aos casos de legítima defesa. A segunda linda argumentativa adotada pelo juiz refere-se à questão interpretativa. Foster lembra que embora não se tenha positivamente excluso de culpabilidade os casos de legítima defesa. inicia a justificativa de abstinência de seu voto comentado a dificuldade de se julgar o caso desprovido de qualquer interferência emocional. mostrou como a letra da lei pode ser falha em casos onde questões gramaticais concedam interpretações distintas do teor da lei. o contrato dos exploradores deve ser interpretado como válido na medida em que se fez necessário. Não há como se adequar os casos de legítima defesa à vista da letra da lei. DA ARGUMENTAÇÃO DO JUÍZ TATTING J. Tatting questiona se o estado de . Assim como as normas que regulam as relações de uma sociedade normal não poderiam ser aplicada à vítima e aos acusados enquanto confinados na caverna. embora tenha infringido a lei de trânsito que prescreve o tempo máximo de duas horas como limite para se permanecer estacionado. a trágica circunstância na qual se encontravam os exploradores fez com que estes firmassem um contrato adequado às suas necessidades. dado a tragédia que o caso afigura. Se o contrato firmado entre os homens em uma sociedade normal fundamenta coerções estatais que punem condutas indesejadas até com a privação da vida dos indivíduos bem como permitem que estes coloquem suas vidas em risco. que expressamente não permite exceções. Foster lembra que.

sua estranheza quando se observa as sobreposições dos direitos que nela foram fundamentadas. admite claramente que é . Também sobre o estado de natureza. DA ARGUMENTAÇÃO DO JUÍZ KEEN O juiz Keen. Como cidadão. Da hipótese de exceção na lei em favor dos acusados. Sobre a primeira parte da argumentação de J. Do momento em que este fato realmente ocorreu. dado que esta decisão caberia apenas ao chefe do executivo. Tatting reafirma a incoerência e a irracionalidade dos argumentos de seu colega Foster. assim como não teria autoridade de instaurar um tribunal do direito natural. 5. alem da prevenção. Tatting lembra que outros objetivos. pela fome ou pelo contrato firmado. não submetido ao direito positivado. Foster. no agravamento da fome ou no ato contratual. também são imputados à lei penal. Da segunda linha argumentativa defendida por Foster. em seu discurso. Sobre a hipótese da legítima defesa. J. Finalizando sua argumentação. no sentido de qual seria a data apropriada a considerar. pois embora o critério para se escolher a vítima tenha sido a sorte decidida nos dados. Transcendendo à questão instrumental da argumentação do colega. o juiz questiona qual seria a sua abrangência. Tatting se afirma juiz com o dever de aplicar as leis positivas e não outras. bem com a obrigação do tribunal em julgar o caso baseando-se nesta espécie de direito. mas as dúvidas relacionadas ao caso o impede de se manifestar favorável ou contrário à acusação dos réus. lembra da necessidade de se distinguir as atribuições do executivo e do judiciário. o juiz também exemplifica a inconsistência na argumentação do colega na hipótese de como se deveria proceder no caso de um desses indivíduos ter adquirido a maioridade enquanto no interior da caverna.natureza se deve pelo fato de estarem os exploradores presos na caverna. portanto. passa a questionar a essência do direito natural. questiona se foi à obstrução da entrada na caverna. A partir desta interrogação. Tatting refuta a hipótese de que os acusados encontravam-se à luz do direito natural. Neste sentido. como a debilidade física e a crença. pela qual se entendia que nenhum dos acusados violou os dispositivos legais dado que uma lei deve ser aplicada segundo o seu propósito. assevera que a doutrina sempre a interpretou como um ato involuntário. haveria outras possibilidades de estabelecê-lo. desaprova a menção feita pelo juiz Truepenny no sentido de recomendar a clemência executiva. visto que não é sua matéria.

A interferência nas atribuições do legislativo por parte do judiciário e o decorrente conflito entre o os poderes gerou considerável insegurança. Keen observa que a pretensão de se encontrar um propósito para a lei é ilusória. Neste sentido. Keen justifica novamente sua decisão lembrando que a possibilidade de se seguir a lei criando-se exceções de forma interpretativa. Primeiramente porque a tipificação do assassinato como crime é uma convicção humana de que o assassinato é injusto e que algo deve ocorrer com o assassino. como classificou a maior parte dos argumentos de seus colegas. como prescrevem as atribuições de sua profissão de juiz. segundo este juiz. o propósito da lei. DA ARGUMENTAÇÃO DO JUÍZ HANDY . Utilizando-se do discurso de seu colega Foster. o juiz Keen afirma que a excludente da legítima defesa se aplica apenas aos casos onde o indivíduo tem a sua vida ameaçada de forma agressiva. preencher a lacuna deixada na lei. No entanto. evitando argumentações metafísicas. Se a postura de aplicação fidedigna da lei fosse adotada sempre pelos tribunais. O que é necessário. desrespeitando o princípio da divisão dos poderes. Keen observa que a idéia de que a lei traria em si um propósito que poderia justificar sua própria inobservância. é decorrente de interpretações personalíssimas. dado que os motivos que levaram os legisladores a promulgarem suas leis estão relacionados intimamente no contexto no qual estão inseridos. configuraria um ato legislativo arbitrário do judiciário. seria observada numa revisão legislativa baseada em critérios cientificamente fundamentados. Também. sem distinguir o “bom” do “mau”.favorável à absolvição dos acusados. assim. implicaria problemas futuros. reagindo sem intenção. que não faziam distinção dos aspectos legais e morais. quando desejada pelo tribunal. 6. Ainda versando sobre a questão interpretativa. descobrir se o legislador omitiu algo e. Não sabendo. Este hábito da revisão legislativa é arraigado na tradição profissional dos juízes e consiste em encontrar um único propósito pelo qual se criou a lei. a questão da legítima defesa. a partir de então. portanto. A dificuldade no caso sub judice. deve ele necessariamente promover a observância das leis como são de fato. também não se poderia saber se há lacunas. o hipotético propósito das normas poderia se perder com o tempo e suas conseqüentes mudanças políticas e culturais. é tratar se os acusados são ou não culpados pela letra da lei. Ao concluir o seu voto favorável a condenação. por exemplo. o “justo” do “injusto”.

Como ponto decisivo na resolução do caso sub judice. Diz. Lembra que o povo é governado não pela lei. mas por outros indivíduos e que um bom governo se dá quando os governantes compreendem o sentimento e concepção popular e. sondada pela mídia. não há garantias que tais decisões sejam revestidas apenas pelas formalidades legais. seriam suficientes para julgá-lo harmonicamente com o entendimento dos governados. que o próprio senso comum e a opinião particular dos juízes do tribunal. devem permanecer como regras a serem seguidas. afirma que sua resolução não implicaria maiores dificuldades. Seja quando o representante do ministério público não solicita a instauração do processo. que assuntos referentes à forma do Estado. Admite. encerra sua argumentação relatando saber que a secretária do chefe do executivo o ouviu se . Handy considera que algumas questões sobre o chefe do executivo. procedendo desta forma. manifestadamente contrários à condenação. três são altamente suscetíveis a interferências emocionais e pessoais. mas que em assuntos referentes a outros domínios as formalidades e conceitos abstratos devem ser tratados como instrumentos. aplicando a lógica de seu raciocínio ao caso. de acordo com a opinião pública. Mesmo considerando que informações não-oficiais não sejam adequadas. não estariam desvirtuando a lei mais do que seus predecessores no caso da excludente de legítima defesa. ainda. Das críticas sobre a relevância da opinião pública que propõe ao julgar o caso e dos riscos. por exemplo. para Handy. poderiam fazer com que sua decisão fosse contrária ao confiado pelo tribunal.Handy inicia a justificativa de seu voto contrário à condenação dos acusados versando sobre a problemática de se julgar o caso à luz de teorias abstratas e legalistas ao passo de se julgar pelo conhecimento prático. seja a absolvição pelo júri ou um indulto do executivo. escolhendo o mais adequado à obtenção do resultado pretendido. não se deve condenar os réus. é o judiciário que tem a maior possibilidade de perder o contato com o povo pelas contraposições teóricas que tratam suas questões. A não-conformidade das ações do governo para com seus governantes é. o juiz adverte que das quatro formas de se livrar um individuo culpado por um crime da acusação. entretanto. Neste sentido. dado que a repercussão do caso se deu mundialmente e que. como sua idade avançada e de princípios rígidos. Também. a maior causa do ocaso dos governos. de todos os ramos do governo.

O caso dos exploradores de cavernas. Lon L. Trad. 1976.manifestar contrariamente à absolvição dos réus. Plauto Faraco de Azevedo. BIBLIOGRAFIA FULLER. . Porto Alegre: Fabris.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful