INTERESSSE, RACIONALIDADE E CULTURA

Löic J. D. Wacquant e Craig Jackson Calhoun
In: http://www.anpocs.org.br/portal/content/view/127/54; acessado em 23 de abril de 2012

A discussão que opôs recentemente, nas páginas do American Journal of Sociology,(1) o sociólogo James Coleman, inspirado na economia neoclássica, ao historiador-sociólogo William H. Sewell, influenciado pela antropologia cultural de Geertz, é um indício da escalada, ou do vigoroso retorno, de duas correntes influentes no campo sociológico americano: a teoria dita “da ação racional” (Rational Action Theory, ou RAT) e a sociologia histórica e cultural. Para além dos homens, são de fato dois pólos epistemológicos e duas concepções da ação e da ciência social que se confrontam.

Coleman e a ofensiva do homo oeconomicus

A RAT que Coleman defende em seu artigo-manifesto não constitui propriamente um movimento teórico original nas ciências sociais dos Estados Unidos. Trata-se de uma aplicação ampliada e modernizada da “abordagem econômica” dos fenômenos sociais, cujas raízes históricas remontam à filosofia individualista do utilitarismo anglo-saxão. (2) O postulado fundador deste último foi assim enunciado por Gary Becker (1976, p.14): “Todo comportamento humano pode ser concebido como pondo em jogo participantes que maximizam sua utilidade a partir de um conjunto estável de preferências e acumulam a quantidade ótima de informações e outros intrants sobre uma variedade de mercados.” Sob as diferentes denominações de rational choice, (3) problema da ação coletiva, (4)pesquisa de “microfundamentos” (5) ou individualismo metodológico, essa abordagem goza hoje nos Estados Unidos de uma preferência sem precedentes, que se explica pela conjunção de vários fatores. Primeiro fator favorável: a “revolta microssociológica”, ou “construtivista”, que pôs fim à hegemonia funcionalista nos anos 60. A explosão paradigmática da sociologia americana que se lhe seguiu efetuou-se sobretudo no modo “interpretativo” ou cognitivo, com o interacionismo simbólico de Blumer e Goffman, a etnometodologia de Garfinkel e Cicourel, a sociologia fenomenológica inspirada em Schutz e a análise da conversação de Sacks e Schegloff (6); compreendeu também uma variante “instrumentalista”, ou racional, representada pelo behaviorismo de George Caspar Homans e a teoria econômica da troca de Peter Blau. Esse deslocamento do centro de gravidade do

campo sociológico para o pólo subjetivista combina-se hoje com uma nítida renovação do interesse pela teoria, até mesmo pela “Grande Teoria”, de tal modo que estão criadas condições particularmente propicias à propagação da RAT, em que não é de todo absurdo discernir uma espécie de retorno do que fora relegado na sociologia utilitarista que se dissipara pouco a pouco ao longo dos anos 70.(7) A teoria, nos últimos anos, reconquistou os favores da sociologia americana. Atestam isso a multiplicação de livros, (8) artigos e colóquios que lhe são dedicados e o sucesso de público das confrontações entre grandes “teóricos” do momento. Em agosto de 1987, para surpresa tanto dos organizadores quanto dos oradores, a sessão do 82º Congresso Anual da Associação Americana de Sociologia dedicada à “teorização cumulativa em sociologia” (Turner, 1989) atraiu tal multidão (avaliada em mais de 500 pessoas) que foi preciso transferi-la para uma sala mais ampla quando os debates já estavam em pleno curso. Outros indícios dessa retomada: o aumento da seção de “Teoria” da Associação Americana de Sociologia (que contava menos de 400 membros em 1983, contra mais de 550 em 1989) e o bem-sucedido lançamento, em 1982, da Sociological Theory, a primeira revista oficial da ASA, inteiramente dedicada à teoria, e, em 1985, da série “Key Issues in Sociological Theory” pela Sage Publications. Nem mesmo uma tentativa parcialmente abortada de reabilitação do parsonianismo, empreendida por um punhado de “neofuncionalistas” apoiados pela velha guarda estruturalfuncionalista - impensável uma década atrás -, deixa de ser hoje parte integrante da paisagem intelectual oficial. A tal ponto que um de seus promotores não hesita, nesse clima que voltou a ser nitidamente mais clemente em relação às reivindicações ao magistério conceituai, em inclui-Ia na vanguarda do “novo movimento teórico”. (9) Entre todos os assuntos que excitam hoje a inclinação teórica da profissão, nenhum supera o famoso “vinculo micro-macro”, recentemente instituído como problema canônico da disciplina, e que todo sociólogo com um mínimo de ambição teórica deve enfrentar, ainda que ritualmente. (10) Não é por acaso, portanto, que o artigo de Coleman atribui à RAT a missão e a capacidade de lançar finalmente uma sólida ponte teórica entre os níveis de análise micro e macro, entre as condutas individuais e seus efeitos sistêmicos. (11) Segundo fator: um ataque sistemático dos economistas e seus aliados do interior à cidadela sociológica. Adam Przeworski observa que “as ciências sociais são hoje o alvo de uma ofensiva sem precedentes desde os anos 1890: um ataque deliberado visando a impor o monopólio do método econômico sobre todo estudo da sociedade (...) E essa ofensiva foi em grande parte vitoriosa”. (12) Mesmo que não se aceite esse diagnóstico interessado e um tanto precipitado no tocante ao desfecho da batalha, não se pode deixar de estar de acordo quanto à constatação de uma rápida proliferação dos modelos econômicos na ciência social americana. (13) Isso ocorreu especialmente na sociologia das organizações, em que os trabalhos de economistas estiveram na origem de

desenvolvimentos importantes, como a abordagem dos custos de transação ou a teoria das relações “comitente-preposto” (principal agent theory), (14) mas também no estudo dos movimentos sociais da família e da escola, bem como nesse conjunto disperso de pesquisas e técnicas analíticas agrupadas sob o rótulo de network theory. (15) Os discípulos confessos da RAT continuam, por certo, relativamente pouco numerosos entre os sociólogos - em contraste com os politólogos, sobretudo – e a intrusão do método econômico no terreno do social não deixou de suscitar um vigoroso contra-ataque. Assim, o conceito neoclássico de mercado, se não está hoje desacreditado, é pelo menos vigorosamente contestado pelos trabalhos de Granovetter, Powell, Zelizer e White. A rápida expansão da sociologia econômica nos últimos anos faz pensar que o questionamento sociológico das noções do senso comum “científico” da economia ortodoxa está apenas no começo. (16) Ainda assim – reforçado pela filosofia social do “individualismo voluntarista”, que impregna a sociologia americana desde a origem, e pelo positivismo social que faz dos êxitos (sociais, senão científicos) da economia neoclássica o modelo acabado da cientificidade –, (17)o esquema da ação racional passou a ser, pelo menos implicitamente, a base de bom número de setores de pesquisa aparentemente “ateóricos”. Seja com for, a ofensiva econômica revela-se ameaçadora o suficiente para que certos sociólogos se perturbem e alertem os colegas para os perigos de ceder com demasiada facilidade a uma fusão das disciplinas irmãs sob a égide do conceito redutor de escolha racional: a sociologia nada teria a ganhar com a troca de seu sentido da variedade e da complexidade do real pela “propriedade irrealista” dos modelos econômicos. (18) Tomemos dois exemplos, entre outros, dessa supervalorização das pretensões epistemológicas dos economistas. Por ocasião de um simpósio sobre “Os paradigmas nas ciências sociais”, realizado em 1986 no campus da Universidade de Chicago, quartel-general dos RATs, se existe algum, (19)o prêmio Nobel de economia James Buchanan não hesitou em proclamar que “os que preferem pesquisar as relações entre classes, Estados e organizações como tais, sem se dar ao trabalho de reduzir a análise aos comportamentos dos indivíduos que nelas participam, não merecem sequer, a meu ver, a qualificação de social scientist, se ainda atribuirmos algum sentido a este termo” (citado por Hirsch et al., p. 317, grifo nosso). Em 1983, também na Universidade de Chicago, numa conferência sobre teoria sociológica, seu colega Mancur Olson respondeu nos seguintes termos – em que a condescendência rivaliza com a ignorância – a Joseph Gusfield, o qual defendera a bandeira da sociologia interpretativa (humanistic science) ao fim de uma comunicação sobre a construção social da noção de “ameaça pública”, como a embriaguês ao volante: “Gostei desta exposição, pareceu-me até agradável. Quando terminou, fiquei pensando porque gostara tanto (...). Finalmente entendi o motivo: foi como um magnífico sermão. Não seria o caso de passarem então a falar de abordagem teológica em ciências sociais, em vez de abordagem humanista?” (Olson, in

clãs. Ao fim de um severo escrutínio de vários casos – grupos parlamentares. a saber.Lindenberg. nega qualquer papel às identidades e aos sentimentos coletivos. sem nenhuma cerimônia. foi um dos discípulos mais destacados de Immanuel Wallerstein na Universidade de Colúmbia). pois contém apenas grupos formais eletivos: quid de todos os coletivos. associações de crédito rotativo. Ao cabo de um processo sumário. de saída. grupos sexuais ou de idade?) – o autor chega a essa notável descoberta. oferece uma imagem arquetípica desse economicismo expansionista. Coleman e Nowak. 202. ex-adepto da teoria neomarxista do sistema-mundo (em outras épocas. classes. e tendo condenado sem direito a recurso as abordagens “normativista. o empobrecimento conceitua) produzido por tal conversão: indivíduos “portadores de um conjunto de preferências especificas. como família. “conjuntos de regras que constrangem eficazmente o comportamento individual segundo diversas modalidades”. p.. e “produtos coletivos” resultantes da combinação das condutas individuais (pp. comunidades raciais ou étnicas. o livro de Michael Hechter. não ambíguas. plena de bom senso utilitarista: um grupo é tanto mais solidário quanto mais estreitamente seus membros dependem dele e quanto mais amplas são suas capacidades de controle formal e sanção. discretas. deliberada e consciente. oferecem hoje a melhor esperança de fundir os níveis de análise individual e estrutural num todo coerente. capaz de produzir proposições empíricas passíveis de refutação” (pp. estruturalista e funcionalista” (1987. Ao concluir. Pergunta: por que os indivíduos criam grupos ou ingressam neles? Resposta: para poder consumir os bens exclusivos e imanentes que só eles são capazes de produzir. instituições. permanece inteiramente muda sobre a variável causal que presumivelmente comandaria todo 0 modelo.) Juntas. 20-29). mercados de trabalho internos às empresas e comuns (uma amostra muito particular. que “longe de serem incompatíveis. e transitivas”. propôs substituí-las por uma teoria racional da coesão dos grupos. pp. 30-31). Principies of Group Solidarity. recém-convertido à RAT.183-184). grifo nosso). ou seja. de afirmar. Hechter. mostra-se inapta a esclarecer a dinâmica do desenvolvimento institucional e os rompantes de ação coletiva que se desencadeiam na ausência de qualquer mecanismo formal de controle ou de retribuição. que simplificou à vontade para seus fins. Quanto aos sociólogos. contudo. 8 e 186). Hechter admite que a RAT sofre de carências no mínimo alarmantes: é incapaz de explicar por que tal tipo de grupo emerge em vez de tal outro para saciar essa mesma sede inextinguível de “bens coletivos imanentes” que atormenta incessantemente os indivíduos maximizadores. em que o pertencimento não decorre da lógica da escolha individual. por fim. Isto não o impede. a formação das preferências individuais (pp. 1986. Em suma. Essa teoria se articula em torno de três elementos de base que revelam. nações. embora fundadas numa filosofia social individualista profundamente conservadora .. a sociologia e a racional choice são mutuamente complementares (. e sobretudo.

científicos. De fato. continuamente “interpelado” por aparelhos ideológicos dotados de capacidades mistificadoras . ou ainda de racional choice marxism). o historiador Robert Brenner e Norman Geras) – ambiciona retomar os problemas do marxismo com o auxílio da metodologia neoclássica. Um de seus principais porta-vozes não hesita em erigir a filosofia analítica em sine qua non do método científico. conflito de classes. prima daquela que funda o subjetivismo sartreano – (20) que faz da estrutura das relações sociais o produto da agregação compósita e não intencional das escolhas deliberadas de indivíduos. no esquema parsoniano. o marxismo analítico é o homólogo. ‘que lança mão de uma mistura de Karl Marx e John Stuart Mill. para adotar uma expressão que destaca o barbarismo conceitua). essencialmente. Essa nova “escola” de pensamento – cujo núcleo se compõe dos filósofos Gerald Cohen e Jon Elster. por isso muito visível). no campo do “marxismo professoral”. (22) Seus membros se distinguem de seus predecessores. 1961) – assim também o hipersubjetivismo racionalista e intencionalista do marxismo analítico se define numa reação ao “anti-humanismo” exacerbado do marxismo althusseriano. (25) da teoria da escolha racional de Coleman na sociologia ortodoxa: assim como a RAT colemaniana não pode ser compreendida fora de sua relação de oposição ao funcionalismo e à sua concepção “hipersocializada” da ação – que. associa-se pois à RAT sociológica para fazer da escolha racional do indivíduo o ponto de Arquimedes da teoria social. faz do agente o servo passivo de normas culturais consensuais todo-poderosas (Wrong. forjou o projeto de dar enfim ao marxismo os fundamentos lógicos e racionais (em suma. em que o agente é rebaixado à categoria de suporte das estruturas reificadas e quase-antropomorfizadas. sobretudo estruturalistas (alguns são trânsfugas arrependidos do marxismo althusseriano) pelo fato de aplicarem tranqüilamente. num sentido que não contrariaria em absoluto o Circulo de Viena) que ainda lhe faltariam. transição para o socialismo – “os métodos mais avançados dá filosofia analítica e da ciência social ‘positivista’”. à primeira vista. às questões tradicionais do marxismo – teoria da história. a teoria dos jogos. em todos os pontos. exploração. a modelização matemática e os conceitos de equilíbrio e mercado da economia neoclássica. dos politólogos Adam Przeworski e Robert Van Parijs. Isto sobre a base de uma filosofia da ação – de fato uma verdadeira ontologia social.– ou até organicamente ligada a uma forma de capitalismo liberal. que maximizam seus interesses no curso de interações estratégicas limitadas pela distribuição dos recursos eficientes. (21) Essa rede heterogênea e pouco numerosa (mas extraordinariamente ativa e coesa. (24) Esse “materialismo histórico marginalista”. um século após a morte do autor do Capital. pareceria dever torná-la antitética a uma ciência social critica – as proposições teóricas da RAT sociológica viram-se consideravelmente reforçadas “à sua esquerda” pela emergência paralela do “marxismo analítico” (também conhecido pelo nome de game-theoretic marxism. do economista John Roemer e do (único) sociólogo Eric Olin Wright (em cuja periferia podemos situar os filósofos Andrew Levine e Allen Wood. (23) a saber. que.

por necessidade. um Marx precursor involuntário da RAT e da metodologia do racionalismo individualista: em suma. vindo reforçar a idéia de que. senão do incesto intelectual. no mínimo. divididas. reinventa. os modelos marginalistas da economia neoclássica acabariam por se sobrepor tanto aos “preconceitos ideológicos” como ao modo de pensamento estruturalista ou relacional.infinitas. Não cabe examinar aqui se o marxismo analítico tem condições de efetuar a revolução copernicana de que já se vangloria. (26) O que nos interessa sublinhar aqui é que a “invenção” do marxismo analítico muito contribuiu para aumentar a credibilidade cientifica da conservadora RAT. posição que Przeworski “combate há 30 anos” e que Elster decreta sociologicamente improvável. formam a ossatura cientifica do marxismo. em Making Sense of Marx. pelo menos de uma contradictio in adjecto que impede de saída qualquer esperança de êxito. o tom deliberadamente autocelebrador e o fechamento conceitual e temático de seus discursos podem dar aos marxistas analíticos a aparência de uma “sociedade de admiração mútua”. De fato. é bastante difícil dizer o que os “marxistas neoclássicos” têm em comum. Coleman não se priva de remeter com muita habilidade. Contentemo-nos em observar que as opiniões sobre este ponto são. à Wertfreiheit e à “neutralidade política”. Afora a hipótese de racionalidade subjetiva da ação. da lógica formal e das “recriações matemáticas” do individualismo utilitarista provém. (29)remetendo para a inominável esfera da “ideologia” ou do pré- . (27) Este. tudo o mais. em favor de um “anti-reducionismo metodológico” moderado. Wright crê na existência das classes como grupos reais integralmente determinados na objetividade. pois tende a apoiar as pretensões desta à objetividade pura. Przeworski considera “estéril” a aparelhagem técnica da teoria dos jogos que Elster valoriza acima de todas as outras. por duas vezes. valer-se das aquisições “cientificas” do paradigma neoclássico em economia e dos avanços da RAT em sociologia para pôr em relevo o caráter decididamente “não dogmático” de sua démarche. rejeita o exagerado individualismo metodológico de Elster e Przeworski. Se a taxa de citações mútuas. suas discordâncias internas são de fato tão numerosas como profundas: assim. enquanto Wright e Levine assumem uma posição dissidente. Cohen. excepcionalmente elevada. por sua vez. baseados apenas na força da verdade. que lhe é sugerido por esse monstro lógico que é o “coletivismo metodológico”. ou se a combinação do marxismo. e assim por diante. tanto seus leitores como Sewell à interpretação revisionista do opus marxiano recentemente proposta por Elster. segundo Cohen. de sua parte. enquanto este decreta falaciosas e logicamente inaceitáveis as explicações funcionalistas que. tudo o que é bom em Marx e deve ser cuidadosamente conservado se revela decorrente de seu individualismo metodológico inconsciente e de seu lado racional choice. os marxistas analíticos podem. reciprocamente. é “desastroso” e deve ser relegado aos museus das idéias ultrapassadas a título de curiosa intelectuais. (28) E.

sugere várias maneiras de enriquecer e complexificar o modelo econômico. (30) A corrente da RAT não é hoje nem suficientemente extensa. introduzindo nele. (33) ilustra de maneira paradigmática esse ataque maciço do homo oeconomicus ao coração do campo sociológico nos Estados Unidos. lhe faziam uma falta atroz. finalmente. como teoria. (32) é suficiente para lhe dar uma visibilidade e uma força de atração social desproporcional à sua influência intelectual real no seio da comunidade sociológica americana. lançou- . ligando-a à obra de Parsons. É nesse triplo contexto – ressurgência da microssociologia e da teoria (dai o debate micromacro). (34) Assim. único meio. O sociólogo de Chicago não se contenta. enuncia um diagnóstico original das raízes do crescente divórcio entre teoria e empiria. George Homans. ainda que ao preço de uma reinterpretação duvidosa da história do pensamento sociológico nos Estados Unidos. o imperialismo dos politólogos seduzidos pelos encantos da teoria dos jogos e pela problemática da public choice. nem seus sucessores. recriando para ele uma genealogia intelectual que o associa a essa figura totêmica da teoria que é Talcott Parsons nos Estados Unidos. Seja como for. continha muitas promessas de uma teoria “voluntarista” da ação. de afirmar a própria respeitabilidade acadêmica quando se invoca o pai do Capital. para pretender atingir um público amplo entre os sociólogos (31) e é muito cedo para prever se continuará a se expandir ou se. sua afinidade eletiva com a visão do mundo social que subentende a demanda política de tecnologias sociais. o prestigio social da ciência econômica e da modelização matemática.lógico todos os outros marxismos. por sua vez. que reduz a explicação das condutas sociais à previsão adequada de seus resultados. (35) nem ele. entrará numa fase de refluxo. Incapaz de associar finalidades subjetivas do indivíduo e instituições. nem suficientemente homogênea. desde Durkheim. invasão dos modelos econômicos e invenção do marxismo analítico – que se inscreve o artigo de Coleman. que lhe falta. em The Structure of Social Action. Verdadeira proclamação de um “estado de urgência teórica” em prol do individualismo utilitarista. sob diversas formas. a noção de estrutura social. souberam realizá-las. seu positivismo paradoxalmente desprovida de empiria. contudo. na universidade americana. sua apologia da RAT se abre com uma evocação histórica das promessas não cumpridas da teoria sociológica americana: se o programa científico anunciado em 1937 por Parsons. O primeiro objetivo de Coleman é dotar o individualismo utilitarista de títulos de nobreza sociológica que. nem seus rivais. com uma mera repetição dos postulados da análise econômica: procura dar à RAT uma filiação teórica nobre. somando-se ao capital acadêmico assegurado pela extraordinária concentração de expoentes num punhado de campi prestigiosos e pela direção de coleções exclusivas nas editoras mais cotadas. a autoproclamação de um marxismo subitamente convertido às virtudes dos modelos marginalistas e do raciocínio hipotético-dedutivo tudo isto. o próprio Parsons refugiou-se muito depressa no estudo do sistema social e de suas condições prévias de funcionamento. ao contrário.

no momento em que o indivíduo – ou. (36) Tão logo os fins que os funcionalistas atribuem equivocadamente ao sistema social tenham sido reintroduzidos no nível do ator racional. das grandes empresas e das burocracias. faz dele sua nova unidade de observação. como veremos. que reforçaram a tendenciosidade individualista e causal (no sentido da causalidade estatística) da pesquisa e frearam a elaboração dos fundamentos racionais da teoria sociológica. e. do ponto de vista da teoria sociológica preconizada por Coleman: embora individualista. uma mudança efetiva da estrutura social veio agravar essa divergência entre teoria e empiria. Primeiro: como se combinam as condutas intencionais dos atores para . Coleman propõe restituir essas finalidades ao indivíduo e importar para a sociologia os princípios antropológicos que fundam a microeconomia neoclássica. a survey research põe em jogo um modo de explicação determinista e behaviorista. Essa transformação das relações sociais. à maneira de Skinner. absolveu parcialmente o funcionalismo do pecado original da teleologia. que Coleman considera. por isso. Sob o efeito do crescimento exponencial dos mercados. Pois. a noção de escolha deliberada como modus operandi das práticas individuais. perdendo inteiramente de vista estrutura social e intencionalidade. por sua vez. mas não se tornou capaz. de dar à ação social os “microfundamentos” racionais que lhe faltam. consubstancia) a uma teoria da ação – mais ou menos desaparece da teoria. a pesquisa empírica. Daí a expansão dos estudos de mercado e da policy research (cf. Esse tipo de pesquisa apresenta duas lacunas. no nível teórico. dos meios de comunicação de massa. levou a pesquisa por um caminho diametralmente oposto ao que tomaram. acabou por reduzir a sociologia da ação a uma análise behaviorista da troca. mais precisamente. por isso. tanto os funcionalistas como seus rivais da escola dita “do conflito”.se na direção oposta. Para remediar esse divórcio crescente entre uma empiria centrada num indivíduo abstrato desprovido de intenções e uma teoria que opera exclusivamente no nível de um sistema artificialmente dotado de finalidades próprias. Merton. 1978). por sua vez. o princípio de estruturação do social deslocou-se da comunidade local para a sociedade nacional. reforçado por toda a tradição demográfica que reduz a análise da causalidade social a uma simples manipulação de índices matemáticos. incapaz de retornar do indivíduo ao “comportamento” do sistema social. Coleman. determinou uma mutação da demanda social de ciência social. Além desse desenvolvimento acelerado das técnicas estatísticas. por fim. mostra-se. e nãointencional e estratégico. A revolução das técnicas de observação e de análise estatística que se operou logo no início do pós-guerra. e que viu os levantamentos por sondagem a partir de amostras de indivíduos abstraídos de seus contextos sociais e culturais suplantarem os estudos de comunidade (no estilo do Middletown dos Lynds). Dessa carência teórica nasceu uma cisão crescente entre teoria e empina. a teoria sociológica pode se resumir à elucidação de dois enigmas.

subjacente a Making Sense of Marx. “O problema intelectual central das . O próprio conceito de ação racional é uma concepção da ação que é ‘compreensível’ [?]. uma ação a cujo respeito nenhuma questão se coloca mais. 442) observava. Coleman supõe resolvida a questão da lógica da ação social. Ou ainda à antropologia filosófica. numa resenha recente. 1. Em outras palavras. ele próprio. óbvio.. 362-363): “o principal desafio teórico [que se apresenta à sociologia] é mostrar como ações individuais se combinam para gerar um produto social. 253. ele inicia sua coletânea de artigos Individual Interests and Collective Action (Coleman. É impressionante constatar a que ponto Coleman toma a filosofia subjetivista da ação racional como um dado evidente. que não exige a mínima prova. p. ele pode afirmar (1986b.. Assim. simples datum brutum. O necessário em teoria social é um aparelho conceitual para descrever essa tradução”. Coleman pressupõe estar resolvida a questão da natureza e da lógica imanente das condutas sociais. o grifo é nosso) com esta afirmação. (38) Podemos assimilar essa afirmação à de John Roemer. p. de Elster. de qualquer condicionamento econômico e social. p.1982b. Ela é concebida como um encadeamento refletido de decisões conscientes de um ator econômico livre. modeladas por pressões resultantes do funcionamento desse sistema? (37) Mas. que “ele introduz de fato o individualismo metodológico como uma premissa que não tivesse nenhuma necessidade de ser defendida”. tomada como estabelecida sub specie aeternitatis: “A ação racional dos indivíduos exerce uma atração única sobre a teoria sociológica. sobre quem Hindess (1986.produzir conseqüências sistêmicas? Segundo: como essas ações economicamente orientadas para fins se vêem. a teoria social pode tomar o indivíduo orientado para um fim como ponto de partida. embora a psicologia possa. por sua vez. querer explorar esse sistema a fim descobrir o que torna sua ação coerente ou ‘intencional’”. ao focalizar o olhar teórico na combinação das condutas individuais autônomas. para quem o postulado da nacionalidade individual pertence igualmente ao domínio do auto-evidente: “O individualismo metodológico é um método dedutivo que busca deduzir observações históricas a partir de postulados de base sobre o comportamento individual que são suficientemente fundamentais para serem considerados evidentes em si” (Roemer. há aí um paradoxo considerável: a adoção. da filosofia do subjetivismo utilitarista impede a teoria da ação de Coleman de pôr em questão aquilo mesmo que se presume constituir seu objeto. o grifo é nosso). sem exame crítico. pp. 1986c. Por isso. Assim. em contrapartida. Podemos dizer que explicamos uma instituição ou um processo social se e somente se a justificamos a partir da ação racional dos indivíduos. É preciso que existam na realidade instituições sociais (tais como o mercado ou os sistemas eleitorais) que traduzam os gostos e as propriedades (endowments) individuais num conjunto de preços e numa distribuição de bens ou numa decisão coletiva. Tendo aceito como plenamente verificada a filosofia utilitarista e individualista que constitui o inconsciente antropológico da ciência econômica liberal.

. por causa da estrutura social. p. as hierarquias ou sistemas de relações de autoridade ou de relações contratuais e os sistemas normativos. as relações de tipo 4 (macro-macro) seriam a síntese do raciocínio falacioso em ciência social. e nem todos obedecem ao principio de conservação. no caso. e acrescentar ao mercado uma pluralidade de outras estruturas.ciências sociais (.. 1984. 1986. como é proposto pelos modelos econômicos relativamente grosseiros de Gary Becker. “parece-me que a sociologia poderia tomar um aspecto da teoria microeconômica. a teoria sociológica deve adotar. entretanto.) é o seguinte: compreendemos e sabemos modelar o comportamento individual. Segundo Coleman. 88. podem ser analisados da mesma maneira em termos de interesse individual. 1978b. através das quais produtos sociais são gerados” (Coleman in Lindenberg et al. e. em conseqüência. sem efeitos externos. nesse caso. 157-158). p. Em razão disso. que um sistema walrasiano ignora” (Coleman. em parte. embora ele perca seu valor. aos olhos de Coleman. (39) Todos. a passagem do micro ao macro pode efetuar-se não pela via exclusiva do mercado. o modelo comportamental da escolha racional. cujos “efeitos secundários negativos” os afetam. o de ir além das hipóteses excessivamente . constituindo-se seu cerne. mas por três grandes tipos de mecanismos: os mercados. o sociólogo americano prossegue: “O exemplo mais bem-sucedido de modelação dessa transição é o modelo do mercado puro e perfeito da teoria econômica neoclássica” (Coleman. Coleman evoca também o papel da confiança e das redes de comunicação. retorno do micro ao macro. (40) A figura reproduzida abaixo ilustra a estrutura que. Tampouco as normas escapam à tentativa do sociólogo de Chicago de tudo explicar como resultante da ação racional de agentes em busca de regular eficazmente as condutas de terceiros. em parte porque nem todos os bens sociais [social goods] são divisíveis. 1986b. pp. 124). os primeiros grifos são nossos). 364). mas raramente somos capazes de efetuar uma passagem apropriada desse nível ao do comportamento do sistema formado por esses mesmos indivíduos” (Coleman. Ou ainda: “Creio que o paradigma que convém à sociologia deriva da teoria walrasiana do equilíbrio. p. (41) O mérito de James Coleman é. pela relação de tipo 3. Em outro texto.

uma nova geração de jovens pesquisadores encontrou no método histórico e comparativo o meio não apenas de neutralizar. há cerca de quinze anos. (50) a história do poder ou do sistema capitalista mundial (51) e. Essa geração se precipitou na trilha dos trabalhos pioneiros de Barrington Moore. para quem a estrutura se reduz a um conjunto de “jogos” (dilema do prisioneiro. Charles Tilly. ou estrutural à la Marion Levy e Walt W. (48) as revoluções e as insurreições populares. pelo reconhecimento da existência de outros mecanismos de “tradução” micro-macro além do simples mercado. isto é. (49) as profissões liberais. Finalmente. denunciada já em 1959 por C. Wright Mills (1977). ainda que racional. (43) Mas essas contribuições só são possíveis a partir de premissas não analisadas e de uma antropologia truncada. tornando visíveis. uma expansão sem paralelo nos Estados Unidos. Rostow) e ao evolucionismo funcionalista de Parsons e Eisenstadt. jogo de confiança. inseparavelmente cientifico e político. dá cá”. os vezos ideológicos e etnocêntricos da disciplina. Sewell e a “idade de ouro” da sociologia histórica na América Não surpreende que a resposta a Coleman tenha sido dada por um historiador de formação. mas também de escapar à oposição estéril da “teoria suprema” e do “empirismo abstrato”. que nos parece salutar. etc.simplificadoras de um Becker.). Reinhard Beridix. em última análise. que até então reinavam absolutos sobre a macrossociologia anglo-americana. “toma lá. que as transformações do pós-guerra e os conflitos sociopolíticos dos anos 60 infligiram às teorias da modernização (versão psicológica à la Inkeles. (42)Coleman evita igualmente certas aporias que minam a démarche de Elster. Formulando claramente a necessidade de articular a “teoria da ação”. e não um sociólogo “puro” (44) A sociologia histórica e comparativa experimenta. cujos custos proibitivos Sewell vai se apressar em pôr em dia. Gerhard Lenski e Immanuel Wallerstein. sua constatação do fosso profundo que separa atualmente a teoria e a pesquisa empírica contém uma critica implícita. (47) passando pela formação das classes operárias. a uma série atemporal de intenções individuais planejadas sob a ação de pressões especificadas ex ante. Weber e Tocqueville. Desde então. atualmente. Observadores tão diversos quanto o behaviorista George Caspar Homans (1986) e o weberiano Randall Collins estão de acordo em ver nela um dos avanços mais promissores da ciência social americana. (45) Essa ressurgência da sociologia histórica teve origem no descrédito. batalha dos sexos. . a uma teoria da estrutura social. (46) Encorajaria pela reabilitação da tradição de Marx. a sociologia histórica passou a abarcar um universo de objetos cada vez mais amplo e variado: das relações étnicas à emergência dos Welfare States e suas políticas sociais. McLelland e Lerner. ao fetichismo metodológico da sociologia ortodoxa americana.

Requiescat in Pace”) dá uma boa medida da relação de forças entre esses dois paradigmas. realizado em São Francisco em 1975. (53) formem hoje um subcampo relativamente autônomo e claramente reconhecido como tal no espaço da produção sociológica americana – a tal ponto que alguns sociólogos dessa linha temem se ver isolados. criada tardiamente em 1983. bem como pela formação de associações interdisciplinares que criaram centros de diálogo entre sociólogos e historiadores. Finalmente. em especial aquelas inspiradas na Escola dos Anais. hoje. que adotam abertamente essa perspectiva.D.a cultura. Essa cristalização institucional da sociologia histórica foi grandemente facilitada por revistas como Comparative Studies in Society and History. apenas quebrado por algumas piadinhas. tornando-se uma “especialidade” entre tantas outras. pai de toda a recente teoria do “sistema-mundo”. Foi um golpe de misericórdia: o público de várias centenas de pessoas cobriu Wallerstein de aplausos. travou um combate singular com Alex Inkeles. tratados e manuais de síntese destinados ao ensino. The Journal of Interdisciplinary History e The Journal of Modern History. formados por esses métodos e disputam acirradamente às figuras de proa dessa “especialidade”. que eram em geral obra de produtores isolados até o início dos anos 70. a ponto de lhe permitir afirmar-se. (54) pela crescente atenção dada à reflexo e à codificação metodológicas. como um dos setores intelectualmente mais dinâmicos da sociologia americana (ainda que permaneça socialmente menos poderoso que a RAT). representante da velha ortodoxia modernizadora. indício que não engana. como a Social Science History Association (56) Além disso. ter sido atribuída a obras de tipo histórico e comparativo. Também nisso. pode-se situar a passagem do bastão dos adeptos da “teoria da modernização” para a nova geração dos sociólogos historicizantes no Congresso da Associação Americana de Sociologia. Numa sessão agitada. Immanuel Wallerstein. pelo fato de a maioria absoluta dos prestigiosos Prêmios Sorokin concedidos pela ASA. pela avalanche de obras e artigos publicados em revistas importantes. (52) já não há um plano da realidade social que lhe seja alheio. segundo a lógica própria de funcionamento do campo. o alto preço alcançado pelos “sociólogos históricos” no mercado de trabalho acadêmico: há alguns anos. deixando Inkeles ler seu texto sob um silêncio indiferente. ela se viu muito ampliada pelo ressurgimento da dimensão histórica no campo da antropologia. que se traduz na proliferação dos manifestos. no curso da última década. a influência crescente da abordagem histórica pode ser medida por diversos indicadores: antes de mais nada. Para clarear os espíritos. já tinha quase 500 membros inscritos cinco anos depois. os grandes departamentos buscam atrair os novos Ph. O titulo da comunicação de Wallerstein (“Modernization Theory. (57) . que. (55) pelo aumento regular dos efetivos da seção de “sociologia histórica e comparativa” na American Sociological Association. É significativo que os trabalhos de tipo histórico.

DiMaggio. e. reproduz-se no interior da própria macrossociologia. em 1987. Harrison White. ao passo que a outra é antes “culturalista” e revela tanto o impacto de Geertz (60) e da antropologia simbólica. afirma Sewell. homóloga à que separa a RAT da sociologia histórica. as abordagens institucionalistas. neste caso. Ron Burt. Peterson. Nela. apenas porque nenhuma ideologia particular. entre outros. (59) Essa série de oposições homotéticas entre racionalidade e normas. associável a um coletivo definido. por outro. causa impessoal e significação percebida. Mas só elogia para melhor censurá-la. publicado no Journal of Modern History. entre.1979). por Michel Foucault. Pierre Bourdieu. encontra-se uma clivagem. também esta em expansão recente (e igualmente marcada pela criação. O erro de Skocpol. etc. capaz de integrar a dimensão cultural e histórica das condutas sem por isso recorrer a uma teoria que pressupõe agentes individuais perseguindo conscientemente seu interesse. sob esse ângulo. Kitsuse. fundada numa concepção semiológica da prática do “outro” (Peter e Bennett BeSger. (1985b) e Theda Skocpol (1985) sobre o papel da ideologia na Revolução Francesa.A popularidade da abordagem cultural em sociologia histórica ainda decorre da popularidade que desfruta a sociologia cultural. sem cair no erro inverso da idiografia fácil e estéril da pura narrativa. instituição e agente. que tendem a uma visão instrumental da ação (por exemplo. Procura se posicionar como o defensor de um método de análise mais sofisticado que o do adversário. Contra essa visão “ingenuamente voluntarista”. Gusfield. Jürgen Habermas e pelos trabalhos do Center for Cultural Studies de Birmingham. A argumentação desenvolvida por Sewell é a mesma de sua discussão com Coleman. Sewell toma. Sewell abre a discussão louvando Skocpol por ter sabido. evitar as simplificações do determinismo monista que faz das revoluções a conseqüência de uma causa única e invariável (a luta de classes). é ter descartado sumariamente a ideologia. por um lado. o partido de uma abordagem histórica guiada pela antropologia cultural geertziana e pelas teorias “pós-estruturalistas”. em seu livro principal. sistema e ator. Norbert Elias. O debate entre William H. logo depois. como a influência persistente da tradição hermenêutica e interacionista. plenamente compreendido. por não ter incluído a ideologia entre os fatores que participam dessa “causalidade mútua” explicativa da trajetória única da Revolução Francesa. de uma seção de Sociologia da Cultura no interior da ASA). nascida em Chicago nos anos 60. impulsionada.). os adeptos de uma sociologia de orientação fenomenológica. (58) Nessa linha. permitia prever o curso da revolução. States and Social Revolution (Skocpol. Jr. Mayhew. estrutura e cultura. . podemos distinguir grosseiramente duas perspectivas: uma é estrutural e se liga em parte à corrente do “estruturalismo” americano (associado aos nomes de Blau. fornece uma síntese exemplar dessa oposição. Ann Swidler e Judith Blau). por exemplo). desta vez em face de uma representante da análise “estrutural” nua e crua. Sewell. Denzin e Gary Fine. Sewell propõe conceber a ideologia como um conjunto de formas discursivas.

Geertz e Raymond Williams). de uma sociologia “sem ator” – que assume. pois se Coleman e a RAT representam uma força maior da sociologia americana ortodoxa (mainstream sociology. dotada de temporalidade e efeitos próprios. e os “idiomas culturais” dotados “de uma existência mais longa. ponha assim em evidência as fragilidades e ambigüidades da abordagem histórico-cultural de Geertz e Sewell. Skocpol. e que se levem a sério as tarefas essencialmente políticas que buscam realizar” (ibid. especialmente militares. entre os quais a configuração das relações de classe. à custa de um trabalho simbólico e organizacional próprio. um momento-chave na eclosão de uma ideologia especifica da revolução. ao mesmo tempo em que reconhece ter subestimado o fator ideológico em States and Social Revolutions (ponto a que ela retorna mais longamente num artigo dedicado à revolução iraniana. 94). a forma do Estado e a posição do país nas relações internacionais. 1982). 91). Sewell vê na própria idéia de “revolução social” – a crença na possibilidade de reestruturar por completo. Para além da dinâmica política e social da Revolução Francesa. O que “exige que se examine de maneira muito concreta a consciência e o discurso dos grupos em ação especificamente situados.1985. que Skocpol considera simples produto lógico da sublevação camponesa. ironicamente. Assim. criticando a fluidez holística que envolve a posição de Sewell. cf. Sewell distingue. ela estabelece uma distinção entre a ideologia. em quem a ideologia se toma mais ou menos sinônimo da cultura em sua totalidade. mais anônima e menos engajada que as ideologias” (Skocpol. cujos trabalhos deram até agora tão pouco lugar à cultura e à ação intencional. Tentando equilibrar-se numa posição intermediária entre Skocpol e Furet. no . Mas sustenta que o resultado dessas lutas é inteiramente determinado por fatores estruturais. p. é Skocpol – símbolo.cognitivas e emocionais. uma sociedade – uma invenção ideológica da Revolução Francesa. não precisando absolutamente ser privilegiado na análise. que redefine estritamente como “sistemas de idéias desenvolvidos como argumentos políticos explícitos por atores políticos identificáveis”. p. ao contrário. que demanda explicação (cf. Para evitar essa derrapagem conceitual. impessoais e anônimas (recorre aqui a Althusser. Em sua resposta. a noite de 4 de agosto. Foucault. Skocpol. marca para Sewell. para muitos. sugere que a critica de Sewell se baseia numa interpretação equivocada do que ela entende por causalidade estrutural. Por exemplo. É um tanto paradoxal que Skocpol.. uma dinâmica simbólica relativamente autônoma. nos quais os agentes se abastecem a fim de fabricar ideologias. que não tem necessidade alguma de ser veiculado por um grupo identificável para exercer sua eficácia sobre a ação. nesse caso. a defesa de uma concepção muito “acionalista” da ideologia. Skocpol aceita a idéia de que as lutas sociais são o produto ativo e inventivo de agentes reais cujas estratégias são guiadas por formas simbólicas historicamente dadas. cuja expressão exacerbada será o Terror. Hunt [1984] para o desenvolvimento sistemático desta tese). Mas isto é muito conveniente. então. politicamente.

nem mesmo conceitualizada. Sewell destaca o caráter simplificador e unilateral do modelo colemaniano e empenha-se em recolocar em questão a distinção entre os níveis de análise micro e macro que é seu pivô. ao contrário. em especial. sem que se dê previamente o quadro macrossociológico. Sua critica atinge. submetendo-as a uma leitura interna que culmina numa celebração de sua sistematicidade e autonomia. Portanto. dada fora da história e da sociedade. igualmente central. sugere. que não basta postular ex cathedra a existência de interesses. quando não foi inteiramente abandonada aos antropólogos. e. preferências e metas individuais para elucidar os efeitos do nível dito “macro” sobre o comportamento dos agentes (relação de tipo 2). quer se aceite ou não a posição de Sewell.vocabulário indígena). a rigor. Foucault. as preferências ou as metas dos indivíduos podem ser deduzidos sem dificuldade de sua posição social ou econômica” (62) Apoiando-se nos trabalhos de Geertz. Por um outro lado. que Coleman tende a apresentar como evidente em si mesma. Sewell traça as grandes linhas de uma teoria da ação atenta à localização espacial e temporal concreta dos processos estudados. seja. Bourdieu e Hochschild. das quais Coleman pretende extraí-Ia por um golpe de força teórico. E os sociólogos americanos que passaram há pouco a considerá-la com renovada atenção continuam sendo. Therborn. não pode ser captada. Sewell apresenta o argumento de que a relação micro-micro (tipo 1 no esquema acima). Antes de mais nada. as relações entre as condutas individuais passam pelo sistema completo das relações sociais pertinentes e não são passíveis de uma análise “individualista”. Em outras palavras. Pois o indivíduo e seus valores não poderiam ser eles próprios hipostasiados e . os três principais tipos de relações identificados por Coleman. e supõe que “os interesses. Essa interpretação culturalista do método histórico está na base das críticas e contrapropostas de Sewell (1987) em sua resposta a Coleman. (61) Sewell assinala em seguida que a RAT de Coleman repousa sobre uma concepção hobbesiana do indivíduo como entidade autônoma. no sentido de que pretendem explicar as formas culturais. por comodidade epistemológica ou acadêmica. É que a cultura sempre ocupou um lugar periférico no campo sociológico americano. suas discussões com Coleman e Skocpol têm omérito de revelar a incapacidade comum a ambos de integrar a dimensão cultural em seus modelos. um por um. Contra as abstrações do esquema individualista do rational choice. Skocpol e os macrossociólogos “estruturais” representam uma outra. Apenas ele a define e determina. em sua grande maioria. à maneira de Sewell. e inteiramente impregnada da preocupação com a variação e a especificidade históricas. centrada no jogo dialético das ações significantes e de seus contextos estruturais. “estruturalistas” impenitentes. ainda que mais dispersa. seja referindo-as diretamente a fatores sociais e organizacionais externos. ela só tem sentido em função da totalidade das relações de tipo 2 e 3. a importância exorbitante que este último atribui à simples passagem micro-macro.

que. E Sewell faz a observação pertinente de que o célebre “problema hobbesiano” da ordem social. os agentes nunca criam um sistema social ex nihilo e todos os edifícios teóricos fundados sobre essas “robinsonadas”. a teoria sociológica americana adquiriu a bom preço uma (falsa) consciência tranqüila filosófica – não passa de um problema “présociológico ou não sociológico”. exige uma análise sociológica. Sewell lembra que a passagem micro-macro (relação de tipo 3). sob condições variáveis. a nosso ver. as ações de indivíduos que perseguem seu próprio interesse se acumulam para produzir diversas conseqüências sociais” (Sewell. mais simples. se encontra inserido. A pessoa social se constitui efetivamente na e pela totalidade dos laços sociais e culturais em que o indivíduo biológico. E é a história desses campos – tal como se especifica através do filtro da trajetória individual e coletiva dos agentes que nela se investem – que define o habitus como sistema gerador das preferências que a RAT declara. sob muitos aspectos. 169). 1987. que constitui. não há escolha senão a de retornar ao modelo a-histórico e mutilado (e. Coleman se impede de ver no indivíduo uma construção social e histórica. Omitindo a questão das condições sociais de formação desses interesses. mais estreita e muito menos interessante de saber como. práticas e representações dos . o próprio ponto de partida do modelo de Coleman é problemático: postulando um estado natural pré-social. para Sewell. (64) Fica claro que. e portanto o interesse. Para substituir essa problemática neohobbesiana.reduzidos a variáveis exógenas com referência a essa relação. que nunca é individual. p. formulado por Parsons – pelo qual. que é seu “suporte”. segundo Coleman. de hierarquias ou de pressões normativas – de ações individuais. o “núcleo duro” (como diria Lakatos) da teoria sociológica. como exteriores à ação e à estrutura sociais. também ela. desde então. o valor como escassez específica. A partir disso. (63) O mesmo se aplica às “preferências” dos agentes: é apenas no sistema completo das relações objetivas constitutivas de um campo que nasce a illusio. Na realidade. Sewell esboça um programa de pesquisas sociológicas inspirado na história e na antropologia interpretativa e fundada nos seguintes postulados: 1) As disposições. todas uniformemente orientadas para a maximização de um interesse já constituído fora de qualquer contexto histórico e social. estreitamente “americanocêntrico”) de um homo oeconomicus que perseguiria indefinidamente um interesse trans-histórico abstrato e imutável. estão fadados a produzir conclusões tão falsas e irreais quanto suas hipóteses. Por fim. mas resulta de processos sócio-históricos precisos. pára falar como Marx. mesmo quando se “personaliza”. A individualidade não é um atributo natural a-histórico. por força de decreto metodológico. não poderia também se limitar à agregação ou à composição – seja através de trocas. ele “reduz o problema da ação em sua realidade dialética – como atores estruturalmente constituídos agem de modo a que o efeito combinado de suas ações transforme as próprias estruturas que os constituem – à questão linear.

ele teria que pôr em questão os postulados implícitos do esquema da escolha racional. para ele. dar-se ao trabalho de elaborar uma verdadeira teoria ‘da ação social. É verdade que. A ilusão racionalista do “individualismo mitológico” Como se vê. Coleman (1987a) sustenta com firmeza suas posições. 2) Toda sociedade encerra em si conflitos e tensões que culminam em mudanças estruturais que. como diria Habermas.agentes são o produto de condições culturais e históricas especificas. podemos caracterizar assim o debate: de um lado. diferem daquelas deliberadamente perseguidas pelos agentes. 4) Os agentes sociais são capazes de reflexividade na medida em que tendem a ajustar seus hábitos. Sewell (1987. p. de sua parte. De maneira rápida e simplificada. que são de ordem ontológica. 3) Essas conseqüências sistêmicas. dependem não apenas da constelação das metas e dos recursos dos partidos implicados. são os dois erros cardeais de toda teoria sociológica: deixar de descer ao nível dos atos individuais e de sua conduta (racional). buscaria captar no modo narrativo fenômenos ou encadeamentos de fenômenos particulares. Abrigando-se sob essa dicotomia perene entre nomotetese e idiografia. seus desejos e sua visão de mundo às transformações objetivas. na maioria das vezes. (65) Não se dispõe a ver nas críticas que lhe são dirigidas nada além da expressão de uma diferença de “interesse e conhecimento”. que. e não de dados transhistóricos. entre o sociólogo. Coleman limita-se a reiterar o que. que concebe a ordem social como a agregação. representando um confronto paradigmático de dois pólos epistemológicos cuja força de atração cresce atualmente no campo das ciências sociais americanas. simples ou compósita. intencionais ou não. o interesse desse debate Coleman-Sewell supera de muito o de um simples intercâmbio entre dois autores. a sociologia faria melhor esforçando-se por especificar com maior rigor teórico e empírico os processos dialéticos complexos pelos quais os sistemas sociais reais são transformados por atores historicamente datados e situados.” Em sua resposta a Sewel. o pólo individualista e nacionalista. em vez de se limitar a uma teoria da combinação de condutas individuais racionalmente reconstruídas. e o historiador. – ou até metafísica – em outras palavras. que ambicionaria estabelecer relações gerais entre variáveis. para encarar de frente as objeções e questões levantadas por Sewell. 171) encerra assim sua critica com uma breve defesa de uma sociologia decididamente histórica: “Em lugar de renunciar à história em benefício das histórias à maneira do ‘como se’. pondo em jogo agentes que buscam deliberadamente maximizar sua utilidade . mas também de sua articulação temporal própria. concentrar-se na articulação macro-micro em detrimento do movimento inverso. de ações individuais.

pelo ajustamento instrumental dos meios disponíveis a fins claramente dados e ordenados. pelo recurso à noção de “preferência revelada”. isentas de ambigüidade e não passíveis de variações intersubjetivas. supondo-se que este possui informações suficientes para proceder a uma escolha inteligente (se necessário. do outro. O que está em oposição aqui são sem dúvida duas concepções da ação social e da ciência dessa ação: homo rationalis vs. ciência dura contra ciência mole. essa premissa de nacionalidade pode certamente ser diluída à vontade. ou totalmente irrealistas -. que fundam deduções de caráter preditivo. na linguagem de Martin Hollis (1977). E esses dois pólos puxam em direções opostas: enquanto Coleman convida à aproximação de uma economia menos sociológica. transitivas. ou. eficazmente orientadas para a satisfação dos interesses do agente. que privilegia a indução e a compreensão do sentido que o agente dá à sua conduta. nada desprezível. Sewell conclama a sociologia para o lado de uma história mais antropológica e. o pólo histórico e culturalista. (67) ou à sua dificuldade em evitar a confusão entre preferências e razões. é necessário e suficiente lembrar o que ela precisa reprimir constantemente para poder manter suas pretensões à hegemonia paradigmática. hierarquizadas. com a vantagem. do grau em que suas hipóteses iniciais estão efetivamente realizadas na prática. Coleman recorre sem maiores justificações à noção de nacionalidade. De um lado. que busca compreender a lógica dessas mesmas ações. O mesmo se aplica à notória incapacidade da RAT de explicar as crenças. A mais importante delas propõe que as forças pertinentes são indivíduos dotados de interesses ou preferências preexistentes coerentes. desvendando sua significação subjetiva e contextual.para não dizer grosseiramente simplistas. o Homem autônomo contra o Homem plástico. uma “leitura” interpretativa da realidade como “texto”. mais “anticientífica”. na maioria matemáticos. descobrindo a lógica da constituição dos agentes e de seus fins e retraçando seus efeitos recíprocos no tempo. métodos quantitativos contra procedimentos qualitativos. de fato. Esses postulados tornam o esquema da ação racional particularmente aplicável aos contextos sociais em que os agentes são ao mesmo . erguidos sobre postulados deliberadamente simplificadores . quando este conceito é hoje muito discutido no próprio campo do nacionalismo metodológico. Mas terá Sewell ido bastante longe em sua crítica ao utilitarismo nacionalista defendido por Coleman? Temos o direito de pensar que não. as preferências e as convenções culturais que regem as práticas. A utilidade da teoria da “escolha racional” depende. do outro. De que nacionalidade ele se vale exatamente: perfeita ou imperfeita? Total (maximização) ou seletiva (satisfação)? Bayesiana ou não bayesiana? Paramétrica ou estratégica? (66) São questões a que o sociólogo de Chicago não dá resposta alguma. uma preferência pelos modelos formais. homo culturalis. sob certos aspectos. isto é. Erklären contra Verstehen. (68) Para circunscrever mais precisamente o campo de validade da RAT. pelo qual as condutas individuais são racionais. Desse postulado decorre um segundo. isto é. suas condições sociais e econômicas de possibilidade. de tornar as “demonstrações” da RAT inteiramente tautológicas).

completa e confrontável com critérios de decisão unívocos. A análise causal das condutas consiste então em mostrar como a cultura fornece aos atores os “elementos pré-fabricados” a partir dos quais eles elaboram suas estratégias. e onde as comparações entre alternativas são imediatas em virtude de uma informação pouco dispendiosa. Como observa o antropólogo Jerome Davis (1973) em sua crítica à teoria economicista da troca. rituais e visões de mundo que as pessoas podem utilizar segundo diversas configurações para resolver diferentes tipos de problemas”. Resta o espinhoso debate referente à validade transcultural da noção de nacionalidade. debate até aqui eludido pelos RATs de todos os matizes. culmina num relativismo que torna muito . histórias. 1984. já que tende a reduzir a cultura a um simples meio de ação. não há dúvida de que o universalismo ingênuo da RAT baseia-se numa projeção etnocêntrica dos pressupostos culturais do analista. e que constitui também um perigo considerável para uma sociologia histórica de inspiração culturalista.1980. Essas “estratégias sem autor”. reconceitualizando-a como “um arsenal de símbolos. (69) Por um lado. Não basta. levado ao extremo de sua lógica. em vez de fazer dela um fator constitutivo ou estruturante das práticas.tempo muito individualizados e bem definidos culturalmente. Para evitar essa armadilha normativista. são. transubjetivas e já estão inscritas. o argumento particularista. p. “injetar” na RAT um pouco de cultural ou de simbólico para escapar às suas ilusões. contudo. Ann Swidler parece não perceber que a noção de estratégia cultural que este põe em jogo não pressupõe a intencionalidade consciente e a razão calculadora. sugeridas pela relação biunívoca entre o habitus e o campo. como potencialidades materiais e simbólicas. Ann Swindler (1986. se é aceitável generalizar o paradigma da loja de departamentos numa “concepção da sociedade como lanchonete” (Worsley. invocável freqüentemente de modo circular para explicar todo e qualquer tipo de comportamento observado. como revelou a controvérsia provocada pela tese neo-wittgensteiniana de Peter Winch em The Idea of A Social Science. portanto. no sistema das relações de força objetivas. Sabe-se que uma análise realizada segundo o modelo parsoniano. por definição. Trata-se de saber. que lhe impede qualquer acesso a uma compreensão adequada das culturas estrangeiras. 273) sugere conferir à análise da cultura uma dimensão estratégica. o universalismo da RAT e o particularismo cultural e histórico convergem para tornar impraticável qualquer ciência social. Inversamente. bem como o desdobramento de estratégias individuais (Bourdieu. é igualmente pouco esclarecedora. tal abordagem não nos permite escapar dos impasses do individualismo instrumentalista da RAT. Levados ao limite. nos quais eles coincidem quanto a seus interesses. Embora recorra aos trabalhos de Bourdieu. que faz da cultura o quadro dos valores e das normas determinantes dos objetivos das ações. 246) ou como um gigantesco jogo de Monopólio. Malgrado suas intenções.1988). a situação que melhor corresponde à RAT é a do consumidor fazendo suas compras no supermercado. p.

que não seja. alguns apressaram-se em abraçar esse tipo de hiper-relativismo e em deduzir de seu caráter pretensamente incontornável a necessidade de abandonar o próprio projeto de uma ciência da sociedade. impede-se de discernir as nacionalidades múltiplas – e freqüentemente irracionais do ponto de vista da economia stricto sensu – que regem os diversos . pp. capaz de levar a sério a especificidade da cultura e dos atores – entre os quais a do analista – sem nela se perder. segundo a expressão recente de Michael Burawoy. projeta sobre o conjunto do social a imagem da economia de mercado capitalista engendrada pela teoria neoclássica. cap. para sanar as carências teóricas da RAT. tanto em sua versão sociológica como em sua variante marxista. ao invés de realizar-se através de uma correspondência estática entre conceitos e referências lingüísticas. pois não basta “historicizar” e “atribuir gênero” à noção de indivíduo. a compreensão intercultural se efetua mediante um processo de aprendizagem mútua que transforma os dois registros conceituais de origem. Isto abre caminho para uma ciência social reflexiva. Mas. a própria possibilidade de compreensão intercultural desaparece. quando se conhece o pouco caso com que a economia trata a pesquisa empírica. em suma.problemática a noção de saber social: se todo conhecimento depende inteiramente de seu contexto imediato (“indéxico”. (73) Universalizando o caso particular das economias liberais marcadas por elevado grau de racionalização objetiva. (74) Ao fazê-lo. a RAT. 1975). fazendo explodir a idéia um “ator” sem gênero. recentemente. as recentes investidas da teoria feminista derrubaram o pressuposto da indiferenciação sexual inscrito no universalismo etnocêntrico da RAT. podemos indagar se a economia oferece os meios de preencher o fosso entre teoria e empiria que Coleman deplora com razão. nem extrair critérios unívocos e universais de nacionalidade. Admitindo as premissas utilitaristas e individualistas da concepção colemaniana da ação. Deixando-se levar pela onda pósmodernista que recolocou em moda. uma ciência retardatária e imatura – não passa de uma ilusão positivista (Hollis e Nell. O que precisa ser questionado é o próprio modelo de ciência que ela propõe. um “individualismo mitológico” (71) Mas isto não é tudo. De maneira similar. como dizem os etnometodólogos) e é inseparável do “jogo de linguagem” original em que é formulado. capaz de servir de modelo à sociologia. como Charles Taylor bem viu (1985. (70)Tais problemas conduzem à indagação sobre a existência um individualismo metodológico que não tome obrigatoriamente como ponto de partida os “homens num estado de isolamento e rigidez fantástico” de que zomba Marx (1967.subjaz à sua representação como ciência “avançada”. Sem contar que é no mínimo paradoxal convidar os sociólogos a adotar os esquemas econômicos neoclássicos no exato momento em que seu simplismo e irrealismo fazem deles objetos de um novo requestionamento radical no próprio interior de sua disciplina-mãe. à força de testes empíricos de hipóteses deduzidas logicamente da RAT – idéia que. 4). 47-48). a crítica niilista da ciência. (72) A idéia de que a ciência econômica evoluiria passo a passo.

a RAT se priva dos meios de formular adequadamente a questão central de toda teoria da ação. (75)Tocando simultaneamente nos registros do modelo e nos de uma realidade “desrealizada”.. sobretudo na França. a maneira mais pertinente de analisar e expor todas as relações significativas irracionais do comportamento. disfarçada em heurística ou em teoria.. da ação e das reivindicações coletivas. (. que é ao mesmo tempo uma verdadeira negação savante do social. a da lógica imanente das condutas. na . O que bem percebeu Weber – a quem alguns RATs. O interesse assim definido é o produto de uma categoria determinada de condições sociais: construção histórica. a saber. expost.campos sociais. entender esse procedimento como um preconceito nacionalista que envolveria a sociologia. deslizando insensivelmente do analítico para o antropológico. não hesitam em invocar regularmente e quase ritualmente em auxilio à sua causa –. raciocínio racional. construído com base na pura nacionalidade com relação aos fins. quase ao infinito. a noção de estratégia intencional. na sua especificação histórica. Assim.1987. mas interesses. Todos esses pressupostos e pontos cegos fazem com que a teoria da ação racional não forneça uma base sólida e rigorosa para uma teoria geral da sociedade. p. por conseqüência. é uma instituição arbitrária. não se poderia de modo algum dizer até que ponto. 125). uma ontologia atomística do social. que o método da sociologia ‘compreensiva’ é ‘racionalista’. mas apenas como um recurso metodológico. Não há um interesse. como aliás tampouco não o faz a economia. dos movimentos sociais e dos possíveis políticos ameaçadores de que estes são portadores.) É nessa medida.e unicamente por essas razões de conveniência metodológica. A RAT não seria tão nefasta ao desenvolvimento da sociologia da ação se não transportasse em segredo. portanto. escolha planejada e refletida e de “razão raciocinaste” (em oposição à razão prática) – leva a projetar sobre a realidade o modelo que supostamente lhe confere razão e a atribuir aos próprios agentes a postura contemplativa e o olhar “racional” do analista. e. consiste em considerá-las como ‘desvios’ [Ablenkungen] de um desdobramento da atividade em questão. Não se deve. como diz Marx em A ideologia alemã. orientada pela pesquisa eficiente do interesse exclusivo da “economia econômica” – com tudo que ela envolve de decisão deliberada. variáveis conforme as épocas e os lugares. cálculo consciente. condicionadas pela afetividade e que exercem uma influência sobre a atividade. e não deduzido a priori de uma natureza transhistórica” (Bourdieu.. (76) quando insistia no abismo intransponível que separa a lógica prática da ação da lógica do modelo que o cientista constrói para seus fins analíticos: “Para o estudo cientifico que constrói tipos [typenbildende]. não se deveria interpretá-lo incorretamente como uma crença na predominância efetiva do racional na vida humana. atribuindo aos agentes a relação intelectualizada com a prática que é própria do acadêmica. ele só pode ser entendido pelo conhecimento histórico. Pois “longe de ser uma espécie de dado antropológico natural. transformando a prática numa “atividade imaginária de sujeitos imaginários”.. o interesse. De fato. evidentemente. empiricamente.

Essa filiação filosófica é ativamente reivindicada por Coleman (1986a. Psathas. mais exatamente. Sewell. Jr. 93(1).Ver Knorr-Cetins (1981) e Wiley (1985. o número de maio de 1986 da American Journal of Sociology contém mais dois artigos sobre “O estado atual da sociologia” (isto é. “Social Theory. and a Theory of Action”. cf.realidade. Peter Blau (1977a. 1987. numa linha antropológica. que vê nesta última um caso particular do behaviorismo que tem combatido incansavelmente ao longo das três últimas décadas. à representação truncada e nitidamente “presentista” que a sociologia americana fez dos utilitaristas (Hume. O desenvolvimento dessa “tradição microinteracionista” própria da ciência social americana é recapitulado por Randall Collins (1983.Hardin (1982). p. entretanto. pp. “Marxism and utopias: evolving ideologies” e R. Borges Notas * A propósito de recente debate sobre a “teoria da ação”. 1329). p. 1309-1335. é que a teoria da ação racional deve seu êxito social no interior da comunidade cientifica americana. 1987) e Friedman e Hechter (1988). “A esse truque teórico. American Journal of Sociology. em grande parte sob a influência de Parsons. Este vínculo entre a RAT de Coleman e a teoria da troca é explicitamente estabelecido por Homans (1987. espec. 1977b). Bentham e Adam Smith).Por exemplo Hechter (1983. . que aderiu ao “macro total” com Inequality and heterogeneity. compilado por David D. que o perigo de interpretações nacionalistas ilegítimas continua a subsistir. 166-172. “Theory of Action. que consiste em fazer um modelo teórico (aliás bastante simplista) passar por um esquema prático que consiste em constituir uma prática generalizada da economia no lugar onde seria necessária uma economia generalizada das práticas. é na sociologia das emoções que se registram os desenvolvimentos mais vigorosos (como o atesta a criação. Dialectic. 3 . Denzin (1987x). 1. como infelizmente confirma sem cessar a experiência. American Journal of Sociology. 7 . (77) É ainda Max Weber (ibid. O texto de Collins suscitou também um vivo debate. Adler e Fontana (1987) e Atkinson (1988). 172-175. como o mostra Charles Camic (1979).Cf. “Looking forward of looking back? Reply to Denzin”. Mill. W.Ou. “Is 1980s sociology in the doldrums?”. 8. Franks. 4 . and History: Comment on Coleman”. teoria legal e filosofia moral (cf.g. 1986. Lofland (1985) e o número da revista Symbolic Interaction do outono de 1985 (vol. 1988). Shott (1979) Hochschild (1979. de A. ibid. Collins (1986a). cf. que vê na “compatibilidade [da RAT] com os fundamentos conceituais subjacentes a boa parte do pensamento social desde os filósofos políticos do direito natural no século XVII” um dos principais méritos desse paradigma e o instrumento de uma aproximação que julga necessária e benéfica entre teoria sociológica. Wallerstein (1986). 2). Heritage. N.K. S. 5 . Coleman. bem como à afinidade que mantém com a visão dominante da ordem social (como simples agregado de escolhas individuais livremente consentidas) e à função de exorcismo do espectro da ação coletiva. a sociologia americana): I. de Mancur Olson (1965). as avaliações racionais com relação aos fins determinam ou não a atividade efetiva. pp. 2 . n.” Tradução de Maria Luiza X. em 1987. inteiramente dedicado à “sociologia da emoção”. As referencias completas aparecem na bibliografia. J. 3° parte). Social Research.. e J.Ela fora oficialmente renegada por um de seus fundadores.Além do texto de Coleman. 7) quem nos põe de sobreaviso. Coleman. 91(6). Denzin (1984). Ver também a guinada representada por seu Prefácio à reedição de Exchange and pawer in social life (Blau. 1985). 1986). Uma visão de conjunto dos principais trabalhos recentes em microssociologia é encontrada em Adler. Além da análise da conversação (e. “The death of sociology in the 1980s: comment on Collins”. de uma seção da Associação Americana de Sociologia dedicada a essa especialidade). Coleman. American Journal of Sociology. 1979. 1974a). Kemper (1978). 1983). com um notável senso de antecipação: “Não negaremos. e Collins (1987). 6 . 189-195). Heath (1976) e os textos reunidos em Elster (1986). pp. Lutz (1988). “Actors and Action in Social History and Social Theory: Reply to Sewell”.. pp. Oliver (1980) e o clássico de gênero. Por exemplo.S.H.

White (1988) e Charles Tilly (1985). e Popkin (1979). Jon Elster e Adam Przeworski inter alia). “Is ‘neofunctionalism’ really functional?”. Na mesma série foram publicados Jon Elster. sempre influentes. Ninkle (1980). Adam Przeworski. 1981). O “monumento” da teoria racional da família é. 17 . p. também Tilly (1984b. 20 . 233) e de Bernard Barber (1977). nq 78.Num prolongamento de seus artigos anteriores. aquém de seu objeto próprio .as estruturas de relações observáveis entre posições sociais ou organizacionais -. Turner (1988). e a opinião mais ambivalente de Oberschall e Leifer (1985. Barry (1978) e os trabalhos anteriores. onde são debatidos os trabalhos dos melhores representantes do subjetivismo utilitarista de todos os continentes. 1988b). desse “movimento” feita por Charles Camic (1986) em “The return of the funcionalists” e. Radnitzky e Bernholz (1987). Bryant (1985. 1974) e o artigo “Economic action and social structure: the problem of embededness” (Granovetter. Pode-se também ler a crítica.8 . numa linha mais idiossincrática. duas tardes por mês. e Michael Taylor (org. Uma tentativa interessante de superar essa antinomia é feita por James W. friends and fitms and the organi7ation of exchange”. Collins (1986b e o manual Theoretical sociology. Fireman e Gamson (1979). editado por Christopher Winship (sociólogo quantitativista) e Sherwin Rosen (economista da Escola de Chicago) sob o tituloOrganizations and institutions: sociological and economic approaches to lhe analysis of social structures (1988). na expressão de Kenneth Boulding (1969). inegavelmente. ver também Plott (1976). Berg (1981). Ver também o artigo. pp. e o artigo publicado em Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales. que reúne.Sobre a renovação da teoria na sociologia de língua inglesa. 5. aliás. sobre Oliver. Roemer.Alexander (1988c). Burt (1983). 18 . p. Gordon Tullok e Kenneth Anrow. Wellman e Berkowitz (1988). em julho 1989. Para uma excelente síntese dessas correntes. Para uma amostra desse debate. 1988b. põem em jogo. o ghotta dos RATs dos departamentos de sociologia. 1986b). de Ben-Porath (1980). 1981). dirigida por James Coleman e destinada a promover o individualismo metodológico e o racionalismo dedutivista. Perrow (1986) e Francis. James Buchanan. os tratados técnicos ultramatematizados de John E. É também a opinião de Anthony Oberschall e Eric M. Os outros livros importantes do marxismo analítico são G. 15 . Tilly (1978. espec. Stark (1986). 1983. Powell (1985). seu departamento de sociologia é o único do país a oferecer a uma formação de doutorado em RAT. e. Giddens e Turner (1987). 13 -Cf.Cf. Becker. 14 . 10 . com uma bateria de cursos especialmente composta para sistematizar e difundir seu ensino. o positivismo racionalista tem por cabeças William H. Olson (1982). Moe (1984). 379). cap. 1988x. Riker e Peter C. sobre Mancur Olson). foi lançado o primeiro número de uma nova revista Rationalism and Society.A melhor introdução de conjunto a essa corrente é a coletânea de textos apresentada por John E. mais ou menos explicitamente. Roemer (1986) sob o título Analytical marxism. Sciulli e Gerstein (1985). 16 . Ifimmelstrand e Brulin (1987).1987. Sobre a emergência da sociologia econômica como problemática autônoma. sublinhando a oposição entre os modelos racionais e os modelos histórico-culturais ou “identitários”. Granovetter (1973. (1987). Jon Elster. Alexander (1985) e Münch (1987).1988a). James Coleman e Gary Becker conduzem ali um seminário fechado anual sobre “Os modelos racionais nas ciências sociais”. 375-409). sobre as teorias do mercado como construção moral e cultural). pp. Making sense of Marx (1985). 1987). constata essa interpenetração crescente da economia e da sociologia ortodoxas nos Estados Unidos. Em sociologia política. Ordeshook (1973). Analytical foundations of marxian economic theory (1981) e A general theory of exploitation and class (1982x). Stinchcombe (1983). ver KnorrCetina e Ciccourel (1981).Hirsch. 1989. Para uma amostra dos trabalhos recentes em “teoria das redes”. George Stigler. Zald (1987. Sabel (1984). Wiley (1988) e os ensaios reunidos in Alexander et al. Karl Marx’s theory of history: a defense (1978). Pratt e Zeckhauser (1985). cf. por sua vez. ver Brut (1982). “Rational choice theory and macrosociological analysis” (Coleman 1979) e “Micro foundations and macrosocial theory” (Coleman. Did they jump or were they pushed? (1987). p.Sobre a abordagem racionalista na análise dos movimentos sociais. 9 .Williamson (1975. Turner e Maryanski (1988). 1984. Entre os economistas. dirige o novíssimo Centro de Estudos sobre a Ética. num registro positivo. Williamson) e Zelizer (1988. ver Swedberg. 24-37). Leifer (1986. que. Jean Cohen (1985) traz uma sinopse analítica das controvérsias atuais nesse domínio de investigação. 12 . Fama (1980). e o manual de vulgarização destinado ao mercado dos estudantes . Giddens (1979. O último suplemento doAmerican Jownal of Sociology. “The Fconnection: families. o tema oficial do congresso anual da Associação Americana de Sociologia. Rochberg-Halton (1986) e Rule (1988). A treatise on the family (1981). que se realizou em São Francisco em outubro de 1989. Gary S. Laumann e Knoke (1987). a obra de Gary S. Alexander (1982-83. Jenkins (1983). que fez mais que qualquer outra para legitimar o “imperialismo econômico”. Collins (1981.O enigma constituído pela relação “micro-macro” foi. uma concepção racional ou utilitarista da ação. Turk e Willtnan (1983). de título revelador. 19 -A Universidade de Chicago abriga a elite da Rational Action Theory: além de reunir em seu compus vários dos seus mais eminentes representantes (James Coleman. que não é possível repertoriar exaustivamente.) Rationality and revolution (1988). ver Wardell e Turner (1986). Capitalism and social democracy (1985b). sucinta mas fustigante.Przeworski (1985 a. contém uma síntese das pretensões das RAT em sociologia da educação. cf. sobre o “posi tivismo instrumental” na sociologia americana. espec. famoso no país inteiro. ciência política e economia. bem como os artigos reunidos por Zukin e DiMaggio (1986). Sobre o “neofuncionalismo” (que é de fato um neoparsonismo).Sobre o “nominalismo voluntarista”. Leifer (1985). ver Hirschleifer (1985) e Frank (1987). Cohen. Becker. os trabalhos de Harrison White (1970. Michaels e Friedman (1987). Levine (1985). 251). Lewis e Smith (1980). a Racionalidade e a Sociedade. O livro de Diego Gambetta. Há pouco. Obershall (1973). de Anthony Downs. 1985). 11 .A.

11. pp. mostra muito pouco zelo em se exercer sobre os dogmas da microeconomia neoclássica Como se esta já não tivesse nada em comum com essa “ciência moral” de que. 1988). outra de Levine. Hindness (1984. Sober e Wright (1987) (estaria a New Left Review. Cohen.) já revelam toda a grandeza intelectual que estes atribuem à sua empresa coletiva: “Por seu livro rigoroso. o conhecimento da filosofia analítica torna-se doravante indispensável” (Elster. cujos interesses são sistematicamente dissimulados sob o véu da neutralidade associada à busca científica”. mas nele se vê claro e longe” (ibid. de modo a permitir que seja mais firmemente estalecido o que é verdadeiro e importante no marxismo.. 69) observa a este respeito que “a prática teórica [dos marxistas analíticos] justifica hoje uma ciência rigorosa em oposição ao radicalismo político. Em Boudon (1986) reencontra-se esse personagem bipartido de um Marx que. uma total. e de um equilíbrio moldado pelos interesses dessa universidade. 756). de título sugestivo: “Marxism without Marx”. ainda não faz muito tempo. 1987 sobre Wright e o artigo. a RAT ainda não ingressou no rol das taxinomias científicas reconhecidas do . que fecha esta nota crítica de Elster sobre a leitura analítica de Marx proposta por G.A. 26 . ver a celebração da teoria das classes de Roemer e Wright por Van Parijs (1986-87) num artigo intitulado. p. Mais adiante: “Buscando dar ao comportamento os microfundamentos que os marxistas julgam característicos. Dois debates em torno das teses dos marxistas analíticos aparecem no vol. raro/comum. o desacordo entre Elster e outros sobre a presença ou ausência do individualismo metodológico em Marx. A calma política permitiu aos marxistas derivarem em busca de um novo equilíbrio dentro da universidade liberal. 1988). “A revolution in class theory”. O ar que aí se respira já não é a atmosfera estagnada das intermináveis discussões escolásticas que quase arruinaram o marxismo. p. Free to lose: an introduction to marxist economic philo sophy (Roemer. Cito como exemplo disto. ng 3 de 1982. usando instrumentos da ciência social e da filosofia não marxista. 2). examinarão e desenvolverão a teoria inaugurada por Marx à luz da experiência histórica acumulada desde então. Espera-se assim libertar o pensamento marxista dos métodos e pressupostos cada vez mais desacreditados que muitos ainda lhe consideram essenciais. sempre que Marx se mostrar um autor suficientemente prolixo para suportar interpretações opostas. destinados a criar uma impressão de inovação radical. funcionalismo e teoria dos jogos) e 5. e cujos únicos participantes eram John Elster. de 1986 (sobre a transição para o socialismo) de Theory and Society. as mais penetrantes são as de Michael Burawoy (1986 e 1989 sobre Elster. p. O que importa é a coerência da idéia”. como se o marxismo contemporâneo se resumisse inteiramente à sua ala analítica. n. e cujos esquemas metafóricos (ar puro/estagnado.secundaristas. no campos da Universidade de Chicago em abril de 1986 sobre o tema eclético “O marxismo hoje”.Roemer (1986. p. produz análises autenticamente científicas com base num racionalismo individualista 29 . Evolutionary explanation in the social sciences (1981x). Os que trabalham nessa tradição não se interessam particularmente pelo que Marx escreveu ou disse. do capitalismo. em especial. é rarefeito. 15. de Politics and Society (sobre a teoria da exploração de Roemer). noprelo). por um lado incide nos erros e abusos do coletivismo metodológico e. Duas defesas recentes. 11. nº 4 de 1982 (sobre marxismo. Cohen. “Marxism without micro-foudations: Przeworski’s critique of social democracy”.A. por muito tempo bastião dos marxistas estruturalistas. em que cada página merece receber comentários apaixonados.). por outro. e no vol. 22 . alto/baixo. outra parcial.” 23 . 31. p. curiosamente. [CohenJ nos faz penetrar numa paisagem que ignorávamos. publicada pela Cambridge University Press e a Maison des Sciences de 1’Homme se apresenta nos seguintes termos: “Os livros desta coleção têm por finalidade exemplificar um novo paradigma no estudo da teoria social marxista.Prova disto foi a conferência organizada.Ji Review.Entre as discussões críticas do marxismo analítico. vol. etc. a teoria dos jogos e o arsenal das técnicas de modelização desenvolvidas pela economia neoclássica” (ibid. 24 . Em lugar de adotar uma abordagem dogmática ou puramente exegética. finalmente. p. G.175): “Não tenho qualquer pretensão a ser um expert em Marx e me submeterei à opinião de Sewell. que marcam muitos comentários com que os praticantes do marxismo analítico se brindam mútua e regularmente.A. 2-3). 30 .Ler Burawoy (1986) para uma crítica meticulosa que revela os determinantes sociais de tal reinterpretação ultraintelectualista de Mam e que deveria ser estendida à análise de suas funções sociais e simbólicas no campo acadêmico. Philippe Van Parijs. sem cerimônia. a estrutura da ação intencional ou a da interação social. E claro que se trata de um antidogmatismo limitado ao aspecto puramente lógico do marxismo e que. Lebowitz (1988). em via de se tornar. É o ar das montanhas. 1310. penso que os instrumentos por excelência são os modelos fundados na escolha racional: a teoria do equilíbrio geral. Taylor (1980) e a nota crítica de Weldes e Duvall (1987). A passagem seguinte. vida/morte. apareceram na New Le. Kieve (1986).A coleção “Estudos de marxismo e de teoria social” dirigida por G. espécie de Jano a contragosto. 2 e 1987x. Burawoy (1987. Erik Olin Wright. uma das características distintivas do marxismo analítico residiria em sua “abordagem antidogmática do marxismo (. dá uma idéia da hipérbole e dos efeitos retóricos.. por um efeito particularmente vigoroso de retomo do contrapeso. Classes (1985). Brewer (1987).Em parte por um efeito de hysteresis.Segundo John Roemer (1986. Cohen. Kenneth Boulding (1969) nos recomendava que desconfiássemos. Ver também Lash e Urry (1984). p. 27 -Coleman (1986x. o órgão dos marxistas individualistas?). 192). Para um outro exemplo. X). Jon Elster e John Roemer. como sempre. uma de Carling (1986). 25 .“Para compreender o que é uma explicação científica ou a noção de causalidade. 746). Adam Przeworski e John Roemer.Tomamos esta designação de Frank Parkins (T979. A profissionalização ameaça reduzir o marxismo a uma ideologia de intelectuais. 1981.” 28 . p.

Numa comunicação feita numa conferência de economia e administração sobre as deficiências do modelo utilitarista da ação (e publicada no Journal of Business com o título de “Psychological structure and social structure in economic models”.1984): “Não é abandonando a concepção da ação racional dos indivíduos” que se . Boudon (1979. 32 . Alexander 1988c) e Jonathan Turnet. está agora empenhado em reacender a chama. Public and private high schools: the impact of communities (Coleman e Hoffer.que separa teoria e empiria nos Estados Unidos. Individual interests and collective action (1986c.reunidos em J. a que chama de “utilitarismo rústico” (p.Coleman (1986x. por um processo imaginário de projeção sobre o passado. entre os quais The adolescent society (1961). 1986). Robert H.Num artigo anterior (“Microfoundations and macrosocial theory”. por mais de um aspecto. 40.mais de um terço dos quais em obras ou revistas de economia .g. mais recentemente. apresentando-a antes como uma continuidade. está ausente como tal da coleção reunida por Giddens e Turner [1987]. sob a batuta dos politólogos Brian Barry. a referência cardeal. não deixa de lembrar a estratégia de legitimação empregada meio século antes pelo próprio Parsons em sua interpretação de Durkheim e Weber. O exemplo reproduzido acima toma como modelo a tese de Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo. embora aparente. pois sabe-se que o “voluntarismo” que o mestre de Harvard punha no epicentro de sua sociologia se define precisamente par uma oposição irredutível ao utilitarismo. Roemer e Elster.Além da coleção dirigida por Cohen.312 e 1986b..g.fará avançar a ciência social. cf. Coleman propõe uma tipologia ligeiramente diferente dos mecanismos de agregação. pp. 360-363). lembremos que esta consistia em apresentar sua própria teoria. Coleman.Ver seus artigos “social structure and the emergente of norms among racional actors” e “Norms as social capital” (Colerrian 1986a e 1987c). da Cambridge University Press. como vimos. Coleman exorta os participantes a concentrar esforços na passagem micro-macro. 1986d). tenha sido celebrado com grande pompa por ocasião do congresso anual da Associação Americana de Sociologia de 1987. Social theory today). que o cinqüentenário da publicação de sua primeira obra. The asymmetric society (1982). e especialmente da representação da primeira como “especialidade” autônoma. 1986b). além dos mercados. . autor de uma obra considerável. confundindo o voluntarism parsoniano com a purposiveness benthamniana. O fato de Coleman não destacar essa antinomia. “mas modificando os postulados organizacionais que traduzem a ação individual em ação coletiva ou sistemática. para todos que desejarem garantir às suas proposições o estatuto de discurso acadêmico. pode-se assinalar a série “Estudos sobre a racionalidade e a mudança social”. e a “California Series on Social Choice and Political Economy”. 347. Popkin. é um forte indício do caráter tático da referência discursiva a Parsons (ainda que apenas inconsciente). que esteve na origem da política federal de desagregação racial dos estabelecimentos escolares (Coleman et ai.Em virtude da cunha . 34 . 41-Para diversas variantes deste esquema básico. 38 .Esse artigo representa ao mesmo tempo o fecho de seus trabalhos anteriores (como atesta a série de textos publicados de 1964 a 1983 . que compreende quase 150 artigos e cerca de vinte livros. p. ainda que este último tente distinguir a versão francesa da RAT de sua irmã mais velha americana. as “regras de escolha social” (e. espec. 35 . Os leitores franceses reconhecerão facilmente a problemática do “individualismo metodológico” hexagonal. Não surpreende. 42 . 36 .. que o satisfazem: “São as falhas no aparelho que efetua a passagem do nível do ator individual para o do comportamento do sistema que trazem esperanças de maior progresso” para a teoria econômica.Pode parecer paradoxal que Coleman busque em Parsons as “origens promissoras” da teoria utilitarista da ação que pretende desenvolver. portanto.. Trata-se de um paradoxo que. publicada pela University of California Press. 210). solução do eterno “problema hobbesiano” da ordem social. lembrava um ritual totêmico. 33 . de 1937. “Introducing social structure into economic analysis” (Coleman. Harold Garfinkel (ambos alunos de Parsons em Harvard). e. e. as organizações autoritárias e as normas. e não a revisão do esquema da ação racional que lhe é subjacente. contra ventos e marés.universo das teorias sociológicas na América e na Grã-Bretanha (e. Bates e Samuel L. Jeffrey Alexander (que. Coleman (1987b). mencionada na nota 22. dirigida por Jon Elster e Gudmund Hemes. cf. The structure of social action. no campo sociológico americano. sua “reinvenção” do conceito de “capital social” em “Social capital in the creation of human capital” (Coleman.Cf. os sistemas eleitorais) e os comportamentos coletivos (como os pânicos ou os boatos). The mathematics of collective action (1973). o famoso Relatório Coleman sobre a igualdade das oportunidades nas escolas americanas.” 39 . 1. na série “Estudos sobre a racionalidade e a mudança social” de Jon Elster) e a introdução programática de um livro a ser brevemente publicado sob o título Foundations of social theory. em vez de perder tempo em complexificar os “microfundamentos da purposive action”.g. que compreende.. 1966). É dispensável fazer uma apresentação de James Coleman. Ver também sua conferência plenária no congresso anual da Associação Americana de Economia.inserida tanto nas instituições quanto nos cérebros . o pós-escrito) e Padioleau (1986). numa sessão que. 37 . Sen (1977) faz uma exposição sucinta e uma crítica estimulante desses pressupostos antropológicos em seu artigo “Rational fools: a critique of the behavioral foundations of economics”. essencialmente pertencente ao domínio da exegese conceitua) pura (o que é expresso pelo termo local theorizing). e de que participaram Betnard Baber. Pawer and the structure of society (1974b).Amartya K. como a explicitação e sistematização de uma convergência involuntária e desapercebida entre os dois autores no sentido de uma concepção normativa da ação. Parsons permanece.

ler o livro de Stanley Lieberson (1985). 46 . 44 . p. Arninzade (1981). Moore (1978). 56 . mas sobretudo sob a liderança dos historiadores. Calhoun (1982). Ragin (1987) e Skocpol (1984. de Nova Iorque. Trimbetger (1978). Hechter (1975). W. pp. e a coleção póstuma de ensaios do historiador Herbert G. Entre as obras recentes mais marcantes. ver Wallerstein (1987) e Chirot e Hall (1982). Levine (1984).Entre outros. Evans (1978). Sewell. Pode-se acompanhar o progresso desse setor de pesquisas pelo boletim informativo trimestral States and Social structures Newsletter. Paige (1975). Zelizer (1985). 50 . MacNall (1988) e Haydu (1988). Abrams (1982).J. Patterson (1984). em que um dos principais praticantes dos métodos canônicos de análise multivariada os submete a uma aguda crítica metodológica. A tese de doutorado em história de Sewell Jr na Universidade da Califórnia (Berkeley). assim como a série anual “Political Economy of World System”. e “Uneven development. 392-403). 53 . Ilunt (1984). foi há pouco conduzido à direção do Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard. Sobre a classe operária americana atualmente.Em sociologia cultural-histórica. podemos citar Sabe) (1984). Griswold (1986).As principais obras de caráter metodológico e programático recentes da corrente histórica são Stinchcombe (1978). 1984. ver Skocpol (1988) para uma análise mais “biográfica”. tratava da “Estrutura da classe operária em Marselha em meados do século XIX” e foi publicada sob o título Strticture and mobility: the men and women of Marseille.Uma longa lista indicativa é apresentada em T. Ver também os quatro artigos de sociologia histórica publicados lado a lado no número de junho de 1988 da American Sociological Review. Lieberson (1980) e Morawska (1985) sobre as relações étnicas e raciais. Aage Sorensen. and the formation of the french working class. onde se observa igual florescência da sociologia histórica (atestada pelo recente lançamento da revista Historical Sociology). considerar a existência de sua sociedade como um pressuposto.346). p. Abecrombie et ai. Quadagno (1988). Burawoy (1985). Entre suas mais importantes publicações destacam-se “Social change and the cise of working class politics in Nineteenth-Century Marseille” (Sewell.R. 51 .1988x). the autonomy of politics. Wilentz (1984). 1. 4). pelo menos até os anos 60.” 54 . corps and ordre: some notes on the social vocabulary of the french Old Regime” (1974b).Em especial Sarfatti-Larson (1977).Wallerstein (1974. Work and revolution in France: the language of labor from the Old Regime to 1848 (1980). 357 segs.1976. fosse economista. Zaret (1986). Orloff e Skocpol (1988). 1820-1870. ver a útil sinopse de Roy (1984). Laitin (1986). Skocpol (1979). Mann (1986). ler Sewell 1988). para uma apresentação sintética e uma revisão de conjunto da teoria “do sistema-mundo”. respectivamente. Hall (1985). Weir. também Poggi (1978). numa busca desesperada de legitimidade hard. publicado pelo Social Science Research Council. Jr. pois seu protegido e herdeiro. Tilly (1985) e Burke (1988). objeto de um debate no volume de 1987 de Sociological Methodology. antes ocupada por Charles Tilly na Universidade de Michigan. Hunt (1984).Sobre os trabalhos anglo-americanos em sociologia histórica das classes. e o artigo “Free riders and zealots: the role of social networks” (Coleman. “Artisans. ocupa hoje a prestigiada cátedra mista de sociologia e história. 1974x). “Etats. Bonnell (1983). 52 . factory workers. William H. 1979 e 1984). Skocpol (1987) e o conjunto desse número da revista Social science history dedicado a um . em 1971. 45 . seguidos de outros três no número de agosto -coisa caríssima até poucos anos atrás. sobre a carteira de Sewell pai. sociólogo ultraquantitativista da Escola de Winsconsin e um dos iniciadores da status attainment research (cuja influência se faz sentir muito depois de sua aposentadoria. and the dockworkers of Nineteenth-Century Marseille” (1988). Katznelson e Zolberg (1986). “La confratetnité des prolétaires: consciente de classe sous la Monarchie de Juillet” (1981). Starr (1982). Rueschemeyer (1973 e 1986). Tilly (1981 e 1984a). pode-se mencionar. podia. e as observações de Sztompka (1986) em “The renaissance of historical orientation in suciology”. Skocpol. 43 . Wilson (1980). com seu pai. Katznélson (1981). que contém uma excelente bibliografia comentada pp.H. Gutman. Block (1977).Portes (1976) oferece uma visão de conjunto do subcampo da macrossociologia do desenvolvimento por volta dessa época. Sewell. 1798-1848” (1986). Gerson (1984). considerando apenas as principais obras do período recente. 55 . politólogo ou sociólogo. esse viés anti-histórico não era uma idiossincrasia da sociologia. 1988b). a obra organizada por Rueschemeyer. sobre o Estado. 48 . Sewell. mas uma característica da divisão do trabalho científico no conjunto das ciências da sociedade: “O especialista americano das ciência sociais. em Ann Arbor. Evans e Skocpol (1985) marca a expansão da abordagem neoinstitucionalista (ou das “teorias centradas no Estado” em oposição às “teorias centradas na sociedade” ).Como nota um observador estrangeiro (Clarck. Tilly e Tilly (1975).Para prolongá-la. pode-se ler Davis (1986) e Fantasia (1988). (1980). Appadurai (1986).). Ver Calhoun (1987) para uma comparação com a Inglaterra. “Corporations républicaines: the revolutionary idiom of Parisian workers in 1848” (1979). Traugott (1985). Chirot (1976). publicada pela Sage sob a direção de Wallerstein.Ver Schwartz (1987). Jr. Power and culture (1987). “Emergent agendas and tecurnent strategies” (in Skocpol.Collins (1986. W.Não confundir William H. Corrigan e Sayer (1985). Sennett (1977). 47 . 49 -Tilly. O problema de explicar como [essa sociedade] chegara até ali podia ser relegado aos historiadores.

é que nela os sujeitos. 70) admite que esta pressupõe logicamente indivíduos “desculturados. p. “uma crítica mais geral que pode ser oposta à análise de Olson .A influência da concepção semiológica da cultura de Geertz (e. 59. 9-13 e 296-303) e Bourdieu. p. “Culture-as-text in lhe work of Clifford Geertz”. Sobre a corrente “interpretativa” de modo mais geral. a convite de Geertz Sob o impacto da antropologia simbólica deste sobre a pesquisa histórica nos Estados Unidos.em especial o postulado de ‘indivíduos’ indiferenciados. do feminismo e da historiografia. A este respeito. está a persuasão”. 1974) sobre Sewell remonta ao longo período em que estiveram juntos na Universidade de Chicago. DiMaggio (1986). (1985). Becker (1982). Douglas (1986. nos anos 80 foi a vez da antropologia. pp. sobretudo no ensino. Walters (1980). desde o estudo clássico de C. 1988). no seu caso. John Comaroff (1982). essencialmente. Meaning and method in the social sciences: a case for methodological pluralism (1987). Rosaldo (1980). conferencia proferida na Universidade de IIarvard em 1988. Rabinow e Sullivan (1979). Wolf (1982). se são os indivíduos que tomam as decisões.. 66 . observar que.Winch (1958). imutáveis e sem relações uns com os outros . pp. Macpherson.e a uma boa parte da teoria da decisão econômica em geral .Gilligan (1982). Ver também Zunz (1985) para uma outra discussão.. Worsley (1984).Sewell (1987). são desprovidos de história”. Deve-se contudo. Ronaldo (1980) e Walace (1978. são as instituições que definem as classificações entre as quais eles escolhem. Burawoy. Collins e I_ukes (1985).Em especial Hall e Jefferson (1976). mais da metade dos artigos publicados na American Economic Review entre 1977 e 1981 apóiam-se em modelos matemáticos puros.Van Parijs (1981b.não representam “teorias” ou posições fixas que este ou aquele autor citado adotaria em bloco. Bennett Berger (1981).Sua reação deve ser comparada com as severas críticas que formula em outros textos à abordagem interacionista de Gusfield e ao método comparativo empregado por Skocpol e Orloff (Coleman.Podemoscitaraqui Wuthnowet ai (1984). Benhabib e Cornell (1987). Adepto moderado da RAT. 60 . 1987).Esta é uma das teses desenvolvidas por Goffman (1974) em sua crítica ao interacionismo e à etnometodologia. 1987. em seu artigo “Difficulties with lhe notion of economic rationality” (1983. seja como for. Judith Blau (1988). sem restrições. Denzin (1987b) e Desan.M. 330-331). n. uma quimera” Assim também. sem conter qualquer dado de observação. como atestam Cohn (1980. p. E claro que as tendências que identificamos . 61 . fazendo justiça a Coleman. Fine (1987). e no artigo de Schneider (1987). Sabe-se ainda. Uma discussão crítica dos espinhosos problemas metodológicos e teóricos colocados pela thick description geertziana pode ser vista em Rosebetry (1982). Sobre o Rationalitãstreit na filosofia das ciências. ainda que eficazes e com freqüência engenhosos. cf. Crapanzano (1986). e em que se destaca o recente livro de Joan Scott (1988). através da noção de frame-analysis. Anthony Giddens (1977) mostrou que. L. Ferguson e Griswold (1989). Wuthnow (1987). despolitizados e dessociali lados”. 67 . 57 . Sahlins (1981. p.são indefensáveis”. Comaroff e Comaroff (1986). The political theory of possessive individualism: Hobbes and Locke (1962). 382) reconhece que “os postulados ontológicos do modelo da escolha racional .aqui como em outras passagens .Ver Van Parijs (1981b) para uma exposição condensada dessas distinções. Elias (1973). mas linhas de força que atravessam um campi de pesquisas e desenham a estrutura subjacente do espaço das tomadas de posição possíveis e prováveis em sociologia da cultura. 4b5): “A nacionalidade individual que está pretensamente na base das explicaçõe$ econômicas no nível societal é. 68 . Russel Hardin vai ao ponto de concluir. Hebdige (1979) e Willis (1977). Roth. “Mythological individualism”. Abercrombie et ai. p. Em seguida.Sewell (1987. p. Peterson (1979). o “problema hobbesiano” nunca ocupou no pensamento dos pais fundadores o lugar central que a teoria ortodoxa americana lhe atribui. 65 . por ocasião de um simpósio em homenagem a Parsons.102) admite que. 69 . Foucault (1975. lambém Darnton (1984. 168).Como demonstram. não se verifica~tal desproporção entre esforço teórico e observação empírica. Os principais momentos dessa longa controvérsia que se prolonga até hoje estão reunidos nos dois volumes organizados por Wilson (197) e Ilollis e Lukes (1982). 72 . Roy. ao contrário do que ocorre entre os marxistas analíticos (com . (1986).Se a sociologia redescobriu a história nos anos 70.debate sobre as relações entre sociologia histórica e história social. 79). muito citados e utilizados.g. Sewell passou vários anos no Conter for Advanced Studies de Princeton. no início dos anos 70.Segundo um estudo do prêmio Nobel Wassily Leontief (reportado por I Iirsch et ai. Para Albert Hirschman (1982. Gusfield (1981). 63 . L. Cornell e William G. e a imensa literatura que cresceu em velocidade exponencial nestes últimos anos na interseção da teoria crítica. 62 . para quem “na ponta das razões. 1986) Jean Comaroff (1985). 1976). ao passo que menos de 0. p. 2).. Carrnthers. 64 . Timothy Luke (1985. é proveitosa a leitura de Paul A. 58. 71 . 169. Bellah et ai. desistorizados. espec.Hollis (1987). que os pressupostos políticos e sociais da visão “hobbesiana” da ordem social têm origem mais na organização econômica e social do mercantilismo inglês do século XVII que num hipotético “estado de natureza”. E poderíamos citar aqui Wittgenstein (1965). Shankman (1984). O próprio Adam Przeworski (1985a. p.B.59’o dos autores tinham se empenhado em apresentar dados novos. com Oliver Zunz. entre outros. Charrier e Darnton (1985). Gender and lhe politics of history. 312). 70 . 1986b).

em última análise.Por exemplo. A estrutura social e o Estado resultam constantemente do processo vital de indivíduos determinados. revelada ou reivindicada por muitos autores. Parece-me plausível que.exceção de Przeworski e Wright). p. encontrando ali sólidas razões pelas quais essas ações coletivas dos anos 60. p. 34. I_ieberstein (1976 e 1979. 1968. pp. o grifo é nosso). na verdade.. 75 . cap. paradoxalmente. 493-496 sobre os problemas suscitados pelo postulado de maximização). 4)). nenhuma concepção não normativa da nacionalidade é filosoficamente sustentável. Sen e Williams (1982).Weber (1971. Depois que estes se encerraram. mas desses indivíduos não como podem aparecer a si mesmos em sua própria representação ou aparecer na de outrem. p. Bibliografia . p. afetada por essa aguda contradição. não se repetiriam mais. isto é. tal como operam e produzem materialmente. que vê em Morgenstern e Weber os dois mestres da teoria racional. 1967. eram talvez menos reais do que parecia [isto faz pensar em la révolution introuvable] e. 31) e Van Parijs (1981a. a obra lucrou com ela. o “programa de pesquisa” da microeconomia neoclássica ingressou já há bastante tempo no que Lakatos chama de fase de degenerescência. mas também Jon Elster (1979). o grifo é nosso). jamais deveriam se ter produzido. 62 acima. proveniente da zona a mais clássica e a mais retrógrada [backwards] da ciência econômica contemporânea” 74 . 1957. em cada caso isolado. 73 . portanto. Collins (1986a. mas tal como são na realidade. Bell e Kristoi (1981). o sucesso do livro de Olson tenha se devido em parte ao desmentido que os acontecimentos lhe infligiram em seguida. Sobre os múltiplos sentidos dos conceitos de nacionalidade e de racionalização em Weber.). 98). 305). A função de negação política da RAT foi notada com perspicácia por Arbert Hirschman: “Convém lembrar aqui que. pp. e Miller e Williams (1982). em suma. p. que recomendava expressamente. Segundo Spiro Latsis (1972). como Luke (1985. Downs (para quem a RAT politológica “ocupa uma zona de claro-escuro entre os modelos normativos e os modelos prescritivos”. tal como agem. 35-75) demonstram melhor que qualquer discurso que a via social seria simplesmente intolerável e impossível se os agentes sociais se comportassem efetivamente à maneira dos afores racionais da RAT. 1985. p. 6. as muitas pessoas que os tinham considerado profundamente incômodos puderam retomar a lógica da ação coletiva e se reconfortar. 77). da RAT. ao que tudo indicava. Engels. o vínculo entre a estrutura social e política e a produção. em A ideologia alemã: “É preciso que. o mundo ocidental estava prestes a se ver quase inteiramente submerso por uma onda sem precedentes de movimentos públicos (. cujos breaching experiments (Garfinkel. que recentemente submeteu a preferência de Weber pela nacionalidade a um exame aprofundado. Ver também a observação de Przeworski citada na n. 125-159) e retomada e elaborada por Garfinkel e os etnometodólogos. fazendo um grande sucesso junto aos que julgavam os acontecimentos recentes intoleráveis e totalmente aberrantes”. ver Brubaker (1984) e Sica (1988). ou mesmo prescritiva.352) observa ainda que “o modelo da escolha racional é uma intrusão imperialista da economia no seio da sociologia. 76 . É a essa função de desrealização do social que corresponde à dimensão normativa. Sen (1977). Boudon (1984). 77 .Lash e Urry (1984) mostram claramente que o postulado do individualismo e a teoria dos jogos desempenham em Elster o papel de uma ontologia do social e não simplesmente de uma metodologia. 1. especialmente pp. A distinção weberiana entre modelo e realidade teve um prolongamento frutífero na oposição entre “nacionalidade científica” e “nacionalidade de senso comum” estabelecida por Alfred Schutz (1953 e 1970. Thurow (1983). a observação empírica mostre nos fatos. em bases e em condições e limites materiais determinados e independentes de sua vontade” (Mane.. sem nenhuma especulação ou mistificação. p. Isto em violação aos princípios formulados por Marx. no momento em que Mancur Olson proclamava a impossibilidade de uma ação coletiva de grandes grupos (tal como Daniel Bell o ‘fim da ideologia’). longe de ser. sobre os quais o mínimo que se pode dizer é que não se atrapalham com dados de observação.Ver Hirschman (1986. Assim. espec.“A teoria da escolha racional pode muito bem não passar de uma ‘ideologia’ que se contenta em retranscrever na linguagem teórica mais aceitável da decisão individual do mercado a crua realidade das decisões impostas por via administrativa” (Luke. Gibson (1977) chega a afirmar que.

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