A cibercultura como novo espaço antropológico.

Introdução
Comecemos por definir o que vem a ser um espaço antropológico. Para o filósofo da informação Pierre Lévy, um espaço antropológico é um sistema de proximidade (espaço) próprio do mundo humano (antropológico), e, portanto, dependente de técnicas, de significações, da linguagem, da cultura, das convenções, das representações e das emoções humanas. Em seu livro A inteligência coletiva. Por uma antropologia do ciberespaço [1998]1, Lévy propõe, inicialmente, a existência de três espaços antropológicos: • a Terra, que foi o primeiro grande espaço de significação aberto à nossa espécie e que repousa sobre três características primordiais: a linguagem, a técnica e as formas complexas de organização social. Os modos de conhecimento nesse espaço eram os mitos e os ritos e o ponto central da existência era o cosmo; • o Território, foi inventado a partir do período Neolítico com a agricultura, a cidade, o Estado e a escrita., que dá início à história e ao desenvolvimento dos saberes de tipo sistemático, teórico e hermenêutico. O centro da existência agora é o vínculo com uma entidade territorial definida por suas fronteiras; • o espaço das mercadorias, começou a desenvolver-se no século XVI, com a a conquista da América pelos europeus. Este espaço não suprime os anteriores, mas supera-os em velocidade. A inauguração do mercado mundial deu início ao grande movimento de desterritorialização, que subverte e subordina os territórios aos fluxos econômicos. Com o ininterrupto avanço da tecnologia concentrada nas tecnologias da
1 Os dados completos sobre os títulos das obras e autores citados estão em Referências bibliográficas .

informação, que vem alterando e remodelando as bases de nossa sociedade, o autor propõe a criação de um quarto espaço antropológico: o da inteligência e do saber coletivos. Um espaço que, quando definitivamente consolidado, estará apto a comandar os espaços anteriores, uma vez que “é das capacidades de aprendizado rápido e da imaginação coletiva dos seres humanos que os habitam que dependem tanto as redes econômicas como as potências territoriais”. [Op. Cit.:
24].

Lévy define este novo espaço como “Espaço do saber” por três razões: a velocidade da evolução dos saberes: “jamais a evolução das ciências e das técnicas foi tão rápida, com tantas conseqüências diretas sobre a vida cotidiana, o trabalho, os modos de comunicação, a relação com o corpo, com o espaço, etc.”; à massa de pessoas convocadas a aprender e produzir novos conhecimentos, visto ser impossível reservar o conhecimento, até mesmo seu movimento, a classes de especialistas; e, por fim, o surgimento das novas ferramentas disponíveis e disponibilizadas no ciberespaço, que são os instrumentos institucionais, técnicos e conceituais que permitem que cada um possa orientar-se e reconhecer os outros em função dos interesses, competências, projetos, meios, identidades recíprocos neste novo espaço. Chamaremos a este novo espaço antropológico de cibercultura, que, enquanto neologismo, especifica o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço [Lévy, 1999: 17]. Enquanto processo social em formação expressa um novo conjunto de símbolos, de atributos, de interação e de inter-relação que se pretende pensar histórica, filosófica e antropologicamente.a partir do sujeito e do objeto que o constitui. Em palavras concisas, a cibercultura é o novo ambiente comunicacional sustentado por aparatos tecnológicos digitais, conectados em rede. Para compreendermos o advento e a expansão constante da cibercultura,

iniciaremos nosso curso com um breve histórico dos meios de comunicação, uma vez que devemos sempre ter em mente que os velhos e novos meios (mídias) coexistem, competem e se complementam e, acima de tudo, são partes de um sistema em contínua mudança, no qual elementos diversos desempenham papéis de maior ou menor destaque em nossa história social e cultural.

Módulo 1. Algumas palavras iniciais.

3

Para mais de uma geração é impossível imaginar que exista alguém que nunca tenha assistido a um programa de televisão, lido um jornal ou revista, ouvido notícias ou músicas no rádio, ido ao cinema ou assistido a um vídeo, assim como é quase inimaginável uma pessoa que não tenha ouvido falar ou tenha usado computadores ou a Internet. Obviamente, como todos nós sabemos, existem milhares, senão milhões, de pessoas em várias partes do mundo que nunca tiveram acesso a esses meios de comunicação, mas, mesmo assim, para nós que vivemos em grandes e médios centros urbanos, é muito difícil conceber tal situação. Hoje em dia vivemos no que se convencionou chamar de sociedade midiática, ou seja, numa sociedade onde as relações sociais são mediatizadas, são mediadas, pela mídia, ou seja, pelo conjunto dos meios de comunicação, tais como jornal, rádio, televisão, Internet, cinema, outdoors, propagandas, etc.. Se procurarmos no Dicionário Aurélio, veremos que a palavra mídia vem do latim medium, que significa meio, centro, e é, normalmente, classificada em quatro grupos: - mídia alternativa – uma mídia de menor custo que se utiliza de veículos de recurso e de alcance restritos, como os painéis que encontramos em mobiliários urbanos, em cartazes no metrô e pontos de ônibus, em luminosos de táxis, em filipetas, etc.; - mídia digital – aquela baseada na tecnologia digital, como a Internet e a TV digital, e que utiliza a gravação digital de dados, como disquetes, CD-ROMs, fita DAT, etc.; - mídia eletrônica – mídia que inclui, especialmente, o rádio e a televisão, sendo que também podem ser incluídos nessa categoria o cinema e outros recursos audiovisuais; e, - mídia impressa – jornais, revistas, catálogos, folders, mala-direta, etc.

No livro Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet [2004], os historiadores Asa Briggs e Peter Burke, baseados no Oxford English Dictionary, explicam que foi somente na década de 1920 que as pessoas começaram a falar de “mídia” e menções sobre uma “revolução da comunicação” só apareceram a partir dos anos 50. Para esses autores, entretanto, o interesse sobre os meios de comunicação é mais antigo, remontando à Grécia e à Roma antigas, com seus estudos sobre a retórica. Mas, se pensarmos na comunicação apenas como o ato de emitir, transmitir e receber mensagens, vamos descobrir sua importância mesmo entre os mais primitivos animais, incluindo nossos remotíssimos ancestrais, os primatas superiores. O que estamos querendo dizer, e que veremos a seguir, é que a comunicação precede o uso da palavra articulada ou escrita como meio de expressão, ou seja, o ato da comunicação antecede, de muito, a linguagem. Melvin L. DeFleur e Sandra Ball-Rokeach, professores e teóricos da comunicação, defendem que a história da existência humana deve ser explicada em função das etapas distintas no desenvolvimento da comunicação humana: a era dos símbolos e sinais, a era da fala e da linguagem, a era da escrita, a era da impressão e a era da comunicação de massa [1993]. Por sua vez, Lucia Santaella [2003], pesquisadora brasileira em mídias digitais, acrescenta entre essas eras, que ela prefere chamar de formações culturais, a cultura das mídias e a cultura digital. È importante lembrar que quando falamos em eras, em divisões temporais, não estamos dizendo que esses são períodos lineares, onde uma era desaparece para dar lugar a seguinte. Como enfatiza Santaella, e todos os teóricos que trabalham com datação cultural, há sempre um processo cumulativo de complexificação, onde uma forma de comunicação vai se integrando na anterior, provocando nela reajustamentos e refuncionalizações. Isso quer dizer que, ao

5

contrário do que pregam os apocalípticos, uma nova tecnologia não determina a morte da que a antecedeu, ela faz com que esta se aperfeiçoe. Dessa forma, a fotografia não matou a pintura, assim como o cinema não matou o teatro ou a televisão e a Internet não mataram o livro ou a mídia impressa. Neste curso iremos fazer uma viagem através da história da comunicação humana, desde os seus primórdios até o surgimento do ciberespaço, para que possamos compreender nossa evolução como espécie, para que possamos encarar de forma consciente e participar ativamente dessa sociedade da informação onde vivemos cada vez mais entre a rede e o ser, como analisa Manuel Castells.

1. No princípio eram somente sons....

E também o gesto, as expressões faciais e corporais, o olhar, o cheiro, o tato. No alvorecer da espécie humana não havia a linguagem, nem a falada e tampouco a escrita. Nossos mais remotos ancestrais, conhecidos como primatas superiores comunicavam-se entre si por meio de gritos, urros, grunhidos, rosnados, uivos, e expressões corporais e faciais que mostravam a necessidade de comer, de acasalar, de brincar, a dor, o imperativo de lutar ou alertas de perigo. Difícil de acreditar, não é? Mas, para que possamos entender melhor, façamos um pequeno exercício de imaginação. Vamos fantasiar que estamos vivendo em alguma região do continente africano há mais ou menos cinco ou quatro milhões de anos. Naquela ocasião, segundo a paleoantropologia, ainda não éramos classificados como humanos e sim como membros de uma das 180 espécies da ordem dos primatas que, na realidade, surgiu há, pelo menos, 70 milhões de anos, quando os grandes répteis foram extintos. Esses primatas eram classificados como inferiores e superiores, sendo os primeiros denominados de prossímios e os segundo de antropóides, ou símios. Dentro da ordem dos primatas encontramos uma grande família, a Hominidae, dividida em duas subfamílias, a dos pongídeos e a dos hominídeos, sendo esta a que, no momento, nos interessa mais de perto. Os hominídeos evoluíram por milhões de anos e compreenderam diversos

géneros, como Australopithecus, Paranthropus, Telanthropus, Zinjanthropus, etc. Conforme aqueles seres primitivos iam evoluindo morfologicamente, como
resultado de extensa rede de modificações e experimentações funcionais testadas pela natureza ao longo de milênios, iam, naturalmente, gerando padrões comportamentais cada vez mais complexos e sofisticados. Dentre essas transformações merece destaque a substituição de uma vida arborícola por uma gradativa adaptação ao solo, que propiciou o desenvolvimento de uma postura

7

bípede, libertando os membros, principalmente as mãos, para novas atividades locomotoras, como a coleta de alimentos e confecção de objetos e a exploração mais ampla do ambiente que os circundava. A alteração nos hábitos alimentares gerou modificações no aparelho mastigatório que, por sua vez, proporcionou novas transformações nos ossos do crânio, particularmente na mandíbula, órbita e osso temporal. Para o neuropsiquiatra Roberto Godofredo Fabri Ferreira2, as inovações comportamentais a partir da "libertação" da mão de suas funções eminentemente locomotoras e o aumento de sua atividade exploratória irão permitir, ao longo da evolução, ganhos funcionais que influenciarão de forma marcante na gênese da linguagem. Tais modificações passam a se tornar cada vez mais evidentes a partir do surgimento do Homo habilis, há cerca de 2,5 milhões de anos. Não há consenso entre os cientistas se o Homo habilis pode ser considerado como o mais antigo espécime do gênero Homo, principalmente por suas características – já uma forma bípede, mas ainda com os braços muito longos, as características faciais mais próximas das dos Australopithecus, ou Australopitecos, e uma cavidade craniana menor do que a do Homo erectus. Apesar disso, uma grande parte dos especialistas defende que sua inteligência e sua rudimentar organização social eram bem mais sofisticadas que as de seus antecessores, podendo, por isso, ser considerado o ancestral mais remoto do homem moderno. O nome Homo habilis, que significa homem habilidoso, que possui habilidades manuais, deve-se ao fato de terem sido encontrados entre seus fósseis vestígios de ferramentas confeccionadas com fragmentos de pedras. Esses vestígios e o fato de possuírem algum tipo de organização social nos leva a acreditar que esses hominídeos já faziam uso da palavra articulada, mesmo que de forma ainda muito rudimentar. Talvez tenha se originado aqui o primeiro elo de uma cadeia de códigos, signos, símbolos, sinais que compõe o processo
2 A filogênese da linguagem: novas abordagens de antigas questões. In www.scielo.br/pdf/anp/v58n1/1279.pdf.
Consultado em 24/10/2006.

comunicacional. Somente o uso de algum tipo de código padronizado, articulado e eficiente explica o fabrico crescente e variado de ferramentas, de utensílios e adornos e sua conseqüente transmissão por seguidas gerações. Outro fator que apóia tal proposição é o processo migratório iniciado talvez pelo Homo erectus, da África para a Ásia e Europa. Os arqueólogos descobriram inúmeros artefatos fabricados por estes ancestrais, em distintos sítios arqueológicos dos três continentes, apresentando bastante semelhança entre si. Para Fabri Ferreira, a presença de uma indústria de armas, ferramentas e outros utensílios de uso cotidiano, obedecendo a características comuns nos três continentes e mantendo-se por centenas de milhares de anos, indica um padrão artesanal estável e comprova a presença de uma linguagem transmissora de tais conhecimentos. Ainda segundo o professor, antropólogos e neurofisiologistas defendem a hipótese de um desenvolvimento concomitante dos processos lingüísticos e motores, ou seja, tanto as áreas anatômicas da expressão da linguagem quanto os centros de planejamento motor e dos movimentos faciais e das mãos, encontram-se em estreita associação evolutiva [Op. Cit.]. Essa caminhada de milhões de anos culminará, finalmente, com o surgimento da estirpe do Homo sapiens, ou Homo sapiens sapiens, entre 100.000 e 35.000 anos atrás.

Embora não seja da alçada deste curso discussões paleoantropológicas, é interessante saber, mesmo que só por curiosidade, que a comunidade especializada divide-se em relação ao conceito de Homo sapiens. De um lado, há

9

os que defendem que o Homo sapiens teria surgido na África, há cerca de 1 milhão de anos, e de lá, movido pela necessidade de abrigo e comida, teria migrado para outros continentes, sendo o antecessor direto do homem moderno. Do outro lado, estão os que, baseados em pesquisas genéticas mais recentes, são favoráveis à hipótese de que o Homo sapiens passou por uma mudança genética brusca e teria se transformado no Homo sapiens sapiens, isso entre 300 mil e 50 mil anos, sendo este o nosso antepassado, já que, melhores preparados, haviam provocado a extinção do Homo sapiens. Em relação à migração da África para os demais continentes, também não há um consenso. Enquanto alguns estudiosos defendem a hipótese da radiação, da África para o mundo, outros defendem a evolução multiregional, ou seja, várias populações regionais foram evoluindo lentamente e se espalharam por miscigenação, ou fluxo gênico, que significa a transferência de genes de uma população para outra). Artísticamente

1.1 E, então, finalmente, fez-se o verbo.

Se somos descendentes do Homo sapiens ou Homo sapiens sapiens, não importa tanto agora. O que nos interessa é que um de nossos antepassados, conhecido como homem de Cro-Magnon, já havia trocado a pedra lascada pelo sílex, havia aprendido a polir a pedra produzindo lâminas de corte, machados e serras, entre outros instrumentos, já utilizava a cerâmica para a produção de jarros, potes, vasos e panelas em que pudesse armazenar, conservar e cozinhar alimentos, assim como de ossos e outros materiais para a concepção de adornos, de fibras vegetais e pêlos de animais para a criação de roupas, etc.. Esse homem ainda pré-histórico já havia aprendido a exprimir suas idéias, sentimentos e crenças desenhando nas paredes e tetos de grutas e cavernas, assim como em superfícies rochosas ao ar livre, símbolos e figuras que representavam suas necessidades cotidianas e situações mágico-religiosas.

Essas pinturas, conhecidas como pinturas rupestres ou parietais, foram encontradas principalmente na França, na caverna de Lascaux, e na Espanha, na caverna de Altamira. Além da pintura, também se dedicavam à gravura e à escultura, sendo a mais antiga delas, até o momento, a Vênus de Willendorf, uma estatueta de 11.1 cm de altura encontrada nas proximidades de Willendorf, na Áustria, em 1908. Além da Vênus de Willendorf, foram encontradas outras estatuetas femininas, como a Dame de Sireuil (França), a Mulher com corno de Bisonte (relevo na rocha, França), a Vénus de Vĕstonice (República Checa) e aquela que é considerada a mais antiga representação de uma face humana, a estatueta de Kostienki, encontrada na Rússia. São figuras que mostram deformações significativas, seios grandes e enormes ventres e nádegas, que procuravam, provavelmente, simbolizar a fertilidade, a fecundidade e a abundância nutricional. Essas estatuetas são conhecidas entre os especialistas como Vênus Esteatopígeas (SAIBA MAIS – Esteatopigia é o acúmulo excessivo de gordura nas
nádegas). (ATIVIDADE: Seria interessante que vocês procurassem em livros de História da Arte ou na Internet imagens dessas estatuetas).

Essas estatuetas, utensílios domésticos e sítios de arte rupestre, ou parietal, por representarem a referência mais antiga da atividade cultural humana, de seu cotidiano, de suas crenças, de sua sensibilidade, são patrimônios da humanidade, não apenas em seu valor histórico, mas também em seu valor estético. Esses primeiros acontecimentos datam do período denominado paleolítico. No final dessa era, passando pelo período mesolítico, e chegando ao neolítico, que significa Idade da Pedra Polida, a terra atravessou o fim da última era glacial, provocando mudanças profundas, tanto climáticas quanto em relação à fauna e à flora. A alteração climática, a escassez de alimentos e as hordas que chegavam à Europa e Ásia modificaram de maneira intensa o modo de viver dos vários grupos

11

espalhados pelas várias regiões do globo. De caçadores nômades e coletores, começaram a construir habitações de junco, peles de animais, madeira e barro e dedicar-se ao cultivo de cereais, tubérculos, frutas e hortaliças, à domesticação de animais e ao pastoreio, que lhes propiciava leite e carne, vestuário e a possibilidade de puxar objetos pesados e arar a terra. Esse período é historicamente designado como revolução neolítica. Com o sedentarismo, a produção e aperfeiçoamento de artefatos e o desenvolvimento da agricultura e do pastoreio é natural o processo de acumulação de bens e, logo, a comercialização dos mesmos entre os vários grupos agora espalhados pela Europa, Oriente Médio, África e Ásia. Mas, vocês devem estar se perguntando, se esses povos estavam vivendo em regiões tão distintas e distantes, como eles se comunicavam na hora de comercializar seus produtos? Seria possível que todos falassem uma mesma e única língua? Aqui existe, ainda hoje, uma outra grande interrogação. Como os lingüistas ou cientistas da linguagem trabalham com documentos, escritos e/ou falados, considera-se que não passa de mera especulação a defesa de um monogenismo lingüístico, ou seja, a existência de uma língua original comum a todos os povos, já que não existem quaisquer registros de como os homens pré-históricos falavam. Por outro lado, se ousarmos ingressar na área da narrativa mítica, única maneira que todas as sociedades possuem para explicar a origem da linguagem e a diversidade das línguas, segundo o lingüista José Luiz Fiorin [2002], descobriremos que tudo não passou de um castigo de Deus. Para Fiorin,
“As línguas e a linguagem inscrevem-se num espaço real, num tempo histórico e são faladas por seres situados nesse espaço e nesse tempo. No entanto suas origens se dão num tempo mítico, num mundo desaparecido e os protagonistas de seu aparecimento são os heróis fundadores”.

No caso das civilizações judaico-cristãs encontramos seus protagonistas

nos relatos de Moisés sobre a Criação, o Dilúvio e sobre o Começo das Nações e dos Idiomas, eventos citados no livro do Gênesis, o primeiro dos cinco livros bíblicos que compõem o Pentateuco. No capítulo 1 do Gênesis, que, como vocês sabem, significa Origem, Nascimento, lemos que no princípio de tudo a terra era sem forma e vazia e, nesse momento, Deus cria o mundo falando. “Deus disse: haja luz. E houve luz. Viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas”. Por ser a linguagem um atributo da divindade, ao mesmo tempo em que Deus vai fazendo as coisas, vai também nomeando-as: “E Deus chamou à luz dia, e às trevas noite. E foi a tarde e a manhă, o dia primeiro”. (SAIBA MAIS - Caso vocês se
interessem pela leitura da Bíblia, e não a tenham impressa, sugerimos dois endereços na rede Internet que têm a edição do Antigo e do Novo Testamento on-line. O Bíblia Católica Online, em www.bibliacatolica.com.br e o Bíblia Sagrada - Introdução e comentários tradução protestante, em http://protestantes.renascebrasil.com.br/bibliaonline/)

Nos capítulos seguintes vamos entendendo a criação do primeiro homem, Adão, e de seus descendentes, a procedência das nações e das línguas. Tudo começou no sexto dia. Depois de criar os animais e os répteis, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. E o homem foi feito, modelado com o pó da terra e com o sopro divino, que o transformou numa alma vivente. Deus atribui ao homem o dom da linguagem, já que é ele quem nomeará todas as coisas viventes, inclusive a mulher que havia sido feita de sua costela: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; ela será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada”. Expulsos do Jardim do Éden por terem comido o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão e Eva foram lavrar a terra e, de seus descendentes, nascerão Sem, Cam e Jafé, filhos de Noé, que depois do dilúvio, gerarão suas famílias, que serão responsáveis pelo povoamento da terra, dando origem às nações e às línguas, finalizando o predomínio da linguagem primordial, a língua adâmica.

13

No capítulo 11 Moisés narra que até então a terra tinha uma só língua e um só idioma e que os descendentes de Sem haviam se deslocado para a região de Sinar, no extremo sul da Mesopotâmia, nome dado pela Bíblia à Suméria. Ali eles começaram a edificar uma cidade e uma torre “cujo cume toque no céu, e façamonos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra”. Ao ver a cidade e a torre Deus entendeu que, se os filhos do homem continuassem, não haveria restrições para suas pretensões. Decidiu ali mesmo chamar a cidade de Babel e confundir aquela linguagem até então única. Deus disse “Que sejam confundidos”. A partir desse instante os homens deixaram de se entender e, espalhando-se pelo mundo, deram origem às primeiras famílias lingüísticas, que foram denominadas a partir dos nomes dos três filhos de Noé. A família de Sem suscitou as línguas semíticas, da linhagem de Cam nasceram as línguas camíticas, enquanto os descendentes de Jafé fomentaram as línguas jaféticas. Precisamos lembrar que estamos aqui falando de um dos infinitos mitos
[SAIBA MAIS – Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa, como a origem dos astros, da Terra, dos homens, etc.] que envolvem os primórdios da história

humana, ou seja, da palavra que narra a origem dos deuses, do mundo, dos homens, das técnicas, como o fogo e a agricultura, e da vida do grupo social ou da comunidade. Para a filósofa Marilena Chauí [2000: 137-138],
“pronunciados em momentos especiais – os momentos sagrados ou de relação com o sagrado – os mitos são mais do que uma simples narrativa; são a maneira pela qual, através das palavras, os seres humanos organizam a realidade e a interpretam. O mito tem o poder de fazer com que as coisas sejam tais como são ditas ou pronunciadas”.

Falamos a pouco sobre a criação das famílias lingüísticas, mas, o que vem a ser isso? Uma família lingüística é um grupo de línguas que derivam de um ancestral comum, a proto-língua, como, por exemplo, a família indo-européia, a

sino-tibetana e a afro-asiática. Hoje em dia existem centenas de famílias lingüísticas, sendo que os maiores grupos são os das famílias Níger-Congo, Austronésia, Trans-Nova Guineense, Indo-européia, Sino-tibetana e Afro-asiática, conforme dados coletados por Raymond Gordon Jr, editor do Ethnologue: Languages of the World3, em 2005.
(SAIBA MAIS - Existem línguas que não possuem parentesco com nenhuma língua conhecida, como, por exemplo, a língua basca e a língua suméria. Essas línguas são denominadas como línguas isoladas. Existem também as línguas planejadas, como o esperanto, e as línguas artificiais, conhecidas como conlangs, do inglês constructed language, língua construída, como, por exemplo, as criadas por J.R.R. Tolkien, autor dos livros da série O Senhor dos Anéis).

Ao explicarmos o que é uma família lingüística, devemos, naturalmente, esclarecer o que vem a ser a própria língua. Todos sabemos que anatomicamente a língua é um órgão muscular alongado, móvel, situado na cavidade bucal, a cuja parede inferior está preso pela base, e que serve para a degustação e para a deglutição, e desempenha papel importante na articulação de sons. Por outro lado, é o conjunto das palavras e expressões usadas por um povo e o conjunto de regras da sua gramática. É o idioma que falamos. Para os lingüistas, é um sistema de signos que permite a comunicação entre os indivíduos, sendo que esses signos são convencionais, isto é, surgem de condições históricas, geográficas, econômicas e políticas determinadas. Agora vocês devem estar se perguntando o que são esses signos, uma vez que vocês já deduziram que não estamos falando aqui daqueles doze signos da Astrologia. Um signo é uma unidade lingüística que possui um significado, aquilo que uma língua expressa acerca do mundo em que vivemos ou acerca de um mundo possível, e um significante, a expressão oral de uma língua. Enquanto o significado corresponde ao conceito, o significante corresponde à forma. Um signo também é, em termos semiológicos, todo objeto, forma ou fenômeno que representa algo distinto de si mesmo, como, por exemplo, a cruz 3 Em www.ethnologue.com/. Consulta realizada em 10/2006. 15

significando ‘cristianismo’; a cor vermelha significando ‘pare’ (código de trânsito); uma pegada indicando a ‘passagem’ de alguém, etc.. Em termos correntes, entretanto, o termo signo significa a palavra, aquela mesma palavra que os gregos chamavam de mythos, em contraposição à palavra logos, que exprime a faculdade de raciocinar. É o discurso, a razão, a verdade. Colocados numa mesma dimensão, o mythos e o logos constituem o que chamamos de linguagem. E o que é a linguagem? No Novo Dicionário Aurélio lemos que linguagem é o uso da palavra articulada ou escrita como meio de expressão e de comunicação entre pessoas; é a forma de expressão própria de um indivíduo, de um grupo; é o vocabulário específico usado numa ciência, numa arte, numa profissão; é tudo quanto serve para expressar idéias, sentimentos, modos de comportamento, como, por exemplo, a linguagem musical; é o vocabulário; é todo sistema de signos que serve de meio de comunicação entre indivíduos e pode ser percebido pelos diversos órgãos dos sentidos, o que leva a distinguir-se uma linguagem visual, uma linguagem auditiva, uma linguagem tátil, etc., ou, ainda, outras mais complexas, constituídas, ao mesmo tempo, de elementos diversos; é, por fim, a faculdade humana da fala, uma vez que os humanos nascem com uma aparelhagem física, anatômica, nervosa e cerebral que lhes permite expressaremse, naturalmente, pela palavra, e é essa capacidade de expressão natural que distingue o homem dos demais animais. Para Aristóteles, filósofo grego nascido em 384 a.C., o homem é um animal político porque é dotado de linguagem, porque possui a palavra (logos), enquanto os demais animais possuem apenas voz (phone). Enquanto essa permite expressar dor e prazer, aquela exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir valores comuns é o que torna possível a vida social e política. Voltando aos nossos primitivos ancestrais vimos que eles já haviam

alcançado esse estágio cultural, ou seja, eles já dominavam a linguagem falada e estavam a um passo de sair da pré-história para entrar na história. Adivinharam o que falta?

1.2 O nascimento da escrita.

Vimos

anteriormente

que

nossos

ancestrais,

em

seu

processo

evolucionário, começaram a representar pictoricamente figuras representativas para seus rituais mágico-simpáticos, assim como para seus adornos e armas. Com a instauração da agricultura, o crescimento da atividade comercial e o intercâmbio entre grandes áreas geográficas foi necessário desenvolver uma sistematização de signos de fixação simbólica que representassem os objetos e seres comercializados, dando origem aos primeiros vocabulários, que, segundo Câmara Cascudo, são relações de colheitas e de objetos comerciais, rol de dádivas ou prestações ao templo que seriam vendidas posteriormente. Nas palavras do autor, “o homem anotou seu interesse comercial antes dos hinos aos deuses ou exaltações aos soberanos dominadores” [Op. Cit.: 465]. Segundo os pesquisadores Philippe Breton e Serge Proulx [2002: 18], a história da invenção da escrita, como técnica de transcrição da língua falada, se realiza em duas grandes ondas sucessivas, correspondentes a dois modos de escrita materialmente diferentes: a escrita ideográfica e a escrita alfabética. No princípio de sua atividade comercial, os homens pré-históricos controlavam os volumes negociados por meio da utilização de seixos de vários tamanhos. Com o tempo os seixos passaram a ser substituídos por marcações gravadas em pedras de argila e, a seguir, por figuras que representavam os animais e os objetos negociados, assim como suas quantidades. De fácil compreensão entre todos os povos, esse sistema, com o aumento das transações, apresentou dois graves problemas: o volume excessivo dos símbolos, que ia

17

aumentando em conformidade com o avanço social, econômico e cultural das civilizações (calcula-se que existiam mais de 2000), e o volume e peso do suporte. O primeiro povo a usar esse sistema pictográfico de escrita foi o sumério, que habitava a região sul da Mesopotâmia, em torno de 3400 a.C.. Considerados os construtores da mais antiga das civilizações, os sumérios também foram os primeiros a estilizar seus desenhos para que estes perdessem a conotação direta com as coisas representadas e os primeiros a tentarem representar os sons da linguagem falada, passando de uma escrita pictórica para uma escrita ideográfica, mais abstrata que a anterior e que possibilitava a representação não apenas de animais, objetos ou idéias, mas também dos sons com que tais animais, objetos e idéias eram nomeados no respectivo idioma. Essa técnica é conhecida como rébus, ou seja, é o ideograma no estágio em que deixa de significar diretamente o objeto que representa para indicar o fonograma correspondente ao nome desse objeto, conforme podemos ler no Dicionário Aurélio. Para que você possa entender melhor a diferença entre essas duas formas de escrita vamos imaginar que você viveu na Suméria naquela época e negociou um camaleão com o seu vizinho. Na época da escrita pictográfica você simplesmente pegaria uma tábua de argila e desenharia o camaleão exatamente como você o via. No caso da escrita ideográfica, a palavra camaleão seria designada por intermédio do desenho de uma cama e de um leão. O passo seguinte foi a tentativa de representar os sons da linguagem falada, que culminou com a instauração da escrita silábica, uma forma de escrita totalmente abstrata, composta de uma série de marcas na forma de cunhas e com um número muito menor de caracteres. Esta forma de escrita ficou conhecida como cuneiforme (do grego, em forma de cunha) e era escrita em tabletes de argila molhada, usando-se uma espécie de caneta de madeira, com a ponta na forma de cunha, que eram postas para secar ao sol ou cozidas numa espécie de forno, garantindo sua durabilidade e longevidade. (SAIBA MAIS – Inicialmente os

sumérios registravam suas informações em seqüências verticais e descobriram que podiam rotacionar aqueles ideogramas, passando a escrevê-los horizontalmente).
[Imagem 1 – Exemplo de uma tabuleta sumeriana. In

http://i-

cias.com/e.o/cuneiform_img.htm] Além de armazenarem contratos legais, vendas e transferências de terras, animais e objetos, inventários, registros e contabilidade dos templos, essas placas de argila com sua escrita cuneiforme permitiram a preservação de hinos, de textos divinatórios e das primeiras obras-primas da literatura [SAIBA MAIS – Como
exemplo, podemos destacar o Épico de Gilgamesh, poema lírico sumério escrito na primeira metade do segundo milênio antes de Cristo, que conta a história de um tirânico e poderoso rei de Uruk, Gilgamesh, que saiu em busca da imortalidade a fim de se transformar num ser mais completo. Foram encontrados traços desse poema na Odisséia de Homero e no Antigo Testamento (In GONTIJO, Silvana, 2001: 36)] , como deram

origem a um sistema postal na região. Naturalmente o sistema de escrita cuneiforme envolveu várias culturas e línguas e, durante aproximadamente 3.000 anos, foi o mais difundido e importante sistema de escrita no antigo Oriente Próximo, permitindo, como dito anteriormente, armazenar a memória da história, ciência e literatura da biblioteca da Babilônia. Podemos dizer que esse sistema foi o primeiro meio de comunicação gráfico internacional da história. A escrita pictográfica era utilizada também pelos egípcios que, em torno de 3100 a.C. desenvolveram a sua hierós glyphós, ou “escrita sagrada”, como os gregos a chamavam. Era uma escrita criada a partir de desenhos estilizados de cabeças humanas, pássaros, animais, plantas e flores que permitiam o registro quase completo da língua falada, cujos temas variavam da agricultura, leis, educação até preces religiosas, histórias e peças literárias. A escrita hieroglífica além de constituída por pictogramas também era

19

composta por fonogramas – sinais gráficos que representam um ou mais sons, num sistema semelhante ao rébus dos sumérios, e por signos determinativos, signos usados para indicar qual categoria de objetos ou seres está em questão. A criação desses sinais determinativos aconteceu porque, muitas vezes, um mesmo som era utilizado em várias palavras, provocando interpretações confusas de um determinado desenho. Para resolver tal problema, os egípcios introduziram mais dois sinais, sendo um para indicar como elas deveriam ser lidas e outro para lhes dar um sentido geral. Vamos dar um exemplo com a palavra ra, que significava sol para os egípcios. Essa única palavra contém dois fonogramas, r e a, onde r significava uma boca aberta e o a simbolizava um antebraço estendido. Então, a união dos dois fonogramas não significava absolutamente que tinha alguém de boca aberta com o antebraço estendido, expressava, como dito anteriormente, o sol.
[Imagem 2 – Uma tábua com os hieróglifos e seus correspondentes em nosso alfabeto. In

http://www.jimloy.com/hiero/yourname.htm] Os hieróglifos eram escritos em vários sentidos, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda ou mesmo de cima para baixo. A colocação das palavras, do ponto de vista gramatical, era seqüencial, primeiro o verbo, seguido pelo sujeito e pelos objetos direto e indireto. A escrita hieroglífica era monumental e religiosa, uma vez que era utilizada principalmente para inscrições formais nas paredes de templos e túmulos e para registrar os acontecimentos mais importantes do império. Para o uso cotidiano, os egípcios desenvolveram mais dois tipos de escrita: a hierática, por volta de 2400 a.C., escrita cursiva utilizada na maior parte dos textos literários, administrativos e jurídicos, e o demótico, a escrita do povo, por volta de 500 anos antes de nossa era. A escrita demótica era uma simplificação da escrita hierática, que, por sua vez, era uma redução da hieroglífica.

[Imagem 3 – A pedra de Roseta , no Museu Britânico. In http://i-cias.com/e.o/index.htm]

4

Além de escreverem nas paredes dos templos e túmulos, os egípcios também utilizavam pedras, madeira e couro. Mas, um dos grandes legados da cultura egípcia, segundo Melvin L. DeFleur e Sandra Ball-Rokeach [1993], foi a criação da primeira mídia portátil: o papiro. A utilização da pedra como suporte de registro tinha a capacidade da durabilidade, mas não a da transportabilidade através do espaço, o que exigiu dos povos antigos a necessidade de desenvolver novos meios com os quais a escrita pudesse ser transportada mais facilmente. Por volta de 2500 a 2200 a.C. os egípcios descobriram que podiam utilizar as películas da parte exterior da haste da planta aquática papiro como suporte para seus registros. Primeiro eles cortavam as películas em lâminas muito finas e as colavam formando uma espécie de compensado de folhas. Essas folhas eram superpostas com as fibras cruzadas para aumentar a espessura e a resistência do produto, eram polidas com óleo, colocadas para secar e comprimidas com uma pedra lisa.
[Imagem 4 – Papyrus of Nes-Min. In

http://www.dia.org/collections/ancient/egypt/1988.10.13larger.html] Como suporte de escrita o papiro foi adotado pelos gregos, romanos, bizantinos e árabes, provocando uma mudança significativa na organização social e cultural da sociedade. Segundo o economista canadense Harold Innis, em sua obra Empire and Communications, o uso dos materiais mais pesados para a comunicação, aqueles relativamente duráveis, levou as sociedades a adotarem um viés cultural com relação ao tempo e às organizações religiosas, enquanto os
4 A pedra de Roseta foi descoberta em 1799 pelos soldados de Napoleăo na cidade de Rashid (Roseta), a leste de Alexandria.e tem gravado um decreto de Ptolomeu V, datado de 196 A.C., registrado em caracteres hieróglifos, em caracteres demóticos e em caracteres gregos. A pedra foi decifrada pelo francês Jean François Champollion em dois anos, de 1822 a1824.

21

materiais mais leves, como o papiro, podiam ser transportados rapidamente a distâncias maiores, resultando em uma tendência relacionada a espaço e organizações políticas [Apud BRIGGS, Asa & BURKE, Peter, 2004: 18]. Destacamos aqui apenas as escritas suméria e egípcia, mas outros povos, como os chineses, os hindus e os maias também já utilizavam a linguagem escrita. Dentre os vários povos existentes então, havia um que se destacou pela constituição de um extenso império de navegação, comércio e construção de portos em volta de todo o Mediterrâneo: eram os fenícios, que viveram ao longo da costa da Síria e do Líbano, que, apesar de não terem uma entidade política unificada, possuíam uma língua em comum, próxima do hebreu ou do árabe. Apesar de adotarem o sistema cuneiforme, acabaram por inventar sua própria escrita, um silabário constituído de 22 consoantes, tornando a escrita mais ágil e mais acessível ao aprendizado, uma vez que as palavras eram formadas pela combinação de um número reduzido de signos, conforme Silvana Gontijo [2001: 45].

Embora os fenícios sejam considerados os criadores do alfabeto, em 1905 de nossa era, em Serabit el Khadim, na península do Sinai, arqueólogos descobriram 30, ou 31, inscrições, de 1600 a.C., que mostram tanto signos hieroglíficos quanto sinais da língua semítica ocidental. Esses pesquisadores nomearam essa escrita como proto-sinaítica e a consideram como o sistema precursor do primeiro alfabeto consonantal, uma vez que conseguiram identificar de maneira inequívoca as letras B, H, L, M, N, Q, T e dois sons hebraicos, aleph e ayin. Para nós, ocidentais, é quase, se não de todo, impossível compreender como é plausível falar ou escrever somente com consoantes. Mas, para todos os

sistemas

de

escrita

derivados

da

escrita

fenícia

as

vogais

não

são

necessariamente transcritas, mas basicamente memorizadas, ou melhor, o som das vogais, poucas nas línguas semíticas, deveria ser memorizado. O alfabeto consonantal, apesar do enorme avanço em relação às escritas cuneiforme e hieroglífica, ainda dava margem a muitas ambigüidades. Mas, em decorrência de sua forte inclinação para o comércio, os fenícios mantiveram por muito tempo um extenso contato com um povo que habitava a Ásia Menor e algumas ilhas do Mediterrâneo Oriental, os gregos, estes “que ainda nos governam de além dos próprios túmulos desfeitos”, como dizia o grande poeta português Fernando Pessoa. Ao contrário das línguas semíticas, as línguas faladas nas cidades gregas possuíam uma variedade de sons vocálicos fundamentais para suas flexões. O método de escrita constituída só de consoantes mostrava-se inconveniente para os gregos, por isso resolveram adaptar alguns dos caracteres fenícios para representar algumas das vogais gregas. Inicialmente foram cinco sinais verdadeiramente vocálicos, mais tarde introduziram alguns caracteres suplementares para figurar outros sons vocálicos e também sinais vocálicos, inteligentemente combinados aos pares, para formar ditongos como ai, ei, oi, ou, etc. Criaram também outros caracteres para representar determinados sons consonânticos peculiares à sua língua.
[Imagem 4 – Tabela do alfabeto grego com os vários tipos de sinais usados pelas diferentes polis. In

http://victorian.fortunecity.com/vangogh/555/Spell/Gk-alph2.gif]. O alfabeto, palavra formada pelas duas primeiras letras do alfabeto grego alfa (α) e beta (β) -, desenvolveu-se de maneiras um tanto diferentes em diversas regiões da Grécia antiga, predominando, com o passar dos tempos, o alfabeto oriental e o alfabeto ocidental. O primeiro, o mais antigo dos dois, veio a ser o alfabeto do ramo jônico do povo grego, usado primeiro nas ilhas do Mar Egeu e em muitas cidades gregas da costa da Ásia Menor, e, mais tarde, no continente

23

grego. Depois da guerra do Peloponeso, tornou-se o alfabeto da antiga Atenas, substituindo uma forma ática primitiva. O alfabeto grego ocidental é importante para nós, porque entrou na Itália e ai se tornou o precursor do alfabeto que utilizamos atualmente. A maior parte dos seus caracteres eram os mesmos do alfabeto oriental, embora alguns tivessem mudado completamente de forma e posição. Os gregos não nos propiciaram apenas um dos maiores fenômenos da história humana. Além do alfabeto eles nos legaram toda a base simbólica, religiosa e histórico-literária da cultura ocidental através de sua mitologia. Em seu livro A origem da tragédia, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche defende que “Foram eles que tornaram inteligível ao pensador o sentido profundo e oculto da concepção artística, não por meio de concepções abstratas, mas com o auxílio das figuras altamente significativas do mundo dos seus deuses”. Se o deus Apolo, para Nietzsche, representa as artes plásticas, Dioníso, o deus Baco para os romanos, era o protetor das artes cênicas e musicais. O teatro tornou-se uma das formas mais relevantes de comunicação entre os gregos, visto que uma mensagem era transmitida para várias pessoas ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Para Silvana Gontijo [2001: 58] o teatro grego não era “nada diferente das pantomimas do homem préhistórico ou dos cultos e rituais religiosos dos sumérios e dos egípcios, se considerarmos apenas meio e mensagem. O que difere os gregos das outras civilizações é que lá peças forma escritas para serem encenadas e gêneros foram sendo tipificados, como a tragédia, a comédia e a farsa”. ,

Dos cantores dos tempos lendários, ainda segundo Gontijo, vem uma das correntes de força que levaram ao nascimento da tragédia; a outra provém dos cultos da fertilidade dos sátiros dançantes, cultos esses que eram consagrados a Dioniso. As tragédias eram apresentadas ao público nas Grandes Dionisíacas, festivais realizados em Atenas para celebrar a primavera e o retorno da fertilidade da terra após o inverno. Segundo Aristóteles, foi este culto que deu origem ao teatro como arte [Idem] Motivo de deslumbramento para quase todos, a descoberta e uso do alfabeto grego não agradou àquele que talvez seja, ainda, o mais famoso de todos os gregos, o filósofo Sócrates. Para ele, o uso da escrita tinha o poder de produzir o esquecimento nas almas, fazendo-as negligenciar a memória, assim como a retórica, a técnica de comunicação própria da Antiguidade, segundo Breton e Proulx. A retórica é a persuasão através da argumentação, excluindo o uso da força. Ao contrário das dúvidas em relação à origem da linguagem articulada, das várias línguas, das escritas antigas e do alfabeto, sabe-se, com certeza, que a retórica nasceu em Siracusa, na Magna Grécia, no século V a.C. e teve sua origem relacionada às novas relações sociais advindas do surgimento da polis, a Cidade, entendida entre os gregos como a comunidade organizada por leis e instituições e constituída pelos cidadãos, os homens nascidos no solo da Cidade, livres e iguais, portadores de dois direitos inquestionáveis, a isonomia (igualdade perante a lei) e a isegoria (o direito de expor e discutir em público opiniões sobre ações que a Cidade deve ou não deve realizar), conforme definição de Marilena Chauí (Op. Cit., 371) [SAIBA MAIS – Nas cidades antigas reconhecia-se como cidadão
todo o homem que tomava parte no culto dos deuses da cidade, e por eles combatiam, e era esta participação obrigatória que lhe garantia todos os seus direitos civis e políticos].

Os professores precursores desta nova disciplina foram o filósofo grego pré-socrático Empédocles de Agrigento, o primeiro a desenvolver um estudo sistematizado sobre o poder da linguagem como instrumento de persuasão [SAIBA

25

MAIS – Vamos nos lembrar aqui que até a pouco tempo, dentro do contexto de nosso curso, todas as coisas existentes eram explicadas através do mito. Entretanto, entre o final do século VII e início do século VI antes de Cristo, os gregos, com uma originalidade excepcional, transformaram de forma surpreendente a sabedoria e a cultura das regiões mais avançadas do Oriente, como a persa, a egípcia, a babilônica, a cretense e a micênica, entre outras, e criaram um modo de pensar e exprimir os pensamentos sobre a origem, causas e transformações da realidade natural e humana de maneira racional, lógica e sistemática. A essa nova forma de pensar e de se expressar o filósofo grego Pitágoras de Samos, que viveu no século V antes de Cristo, chamou filosofia. A Filosofia grega conheceu quatro grandes períodos: o pré-socrático ou cosmológico, o socrático ou antropológico, o período sistemático e, por fim, o período helenístico ou greco-romano. Sua importância reside no fato de que, por razões históricas e políticas, tornou-se o modo de pensar e de se exprimir predominante da cultura européia ocidental, da qual nós, brasileiros, em decorrência da colonização portuguesa, também fazemos parte. Para aqueles e aquelas que, como nós, são apaixonado(a)s pela filosofia sugerimos a leitura do livro de Marilena Chauí, Convite à filosofia.], Corax, seu aluno, e Tísias, sendo de

autoria dos dois últimos o primeiro tratado de retórica, escrito em 465 a.C.. Esse tratado defendia vítimas dos arbítrios de expropriação, deportação e transferência de pessoas cometidos por dois dos tiranos de Siracusa, o que nos mostra que a retórica nasceu em conseqüência de processos de propriedades. O pleno desenvolvimento da retórica só aconteceu após a consolidação da democracia ateniense, que, como é sabido por todos nós, mais do que permitia, exigia a participação direta de todos os cidadãos atenienses nas assembléias populares, sendo que essas possuíam funções legislativas, executivas e judiciárias. Segundo Breton e Proulx (Op.Cit., 28), um dos prováveis fatores da difusão da retórica foi a exigência da justiça grega de que os requerentes se defendessem pessoalmente. Naturalmente, como nem todos os cidadãos tinham a habilidade de raciocinar, falar e argumentar corretamente diante de um tribunal aconteceu uma demanda por peritos ou professores com formação jurídica suficiente para escrever todos os tipos de discursos, sendo que Corax e Tísias deram início à sistemática de se cobrar por essas aulas.

É importante ressaltar que a arte da retórica não pode ser confundida com o “falar bem” em uma conversa entre amigos ou entre familiares. Para os gregos, a primeira era um ato político, só cabível na esfera pública, ou seja, aos cidadãos enquanto exercendo suas funções na polis; a segunda pertencia à esfera privada, à vida em família, doméstica, cotidiana [SAIBA MAIS - Não há espaço neste curso
para uma discussão sobre as esferas pública e privada, mas, para aqueles que quiserem se aprofundar no assunto, há o belíssimo, e clássico, livro da filósofa e pensadora política alemã Hannah Arendt, A condição humana].

Lembremos que,

como dito

anteriormente, a retórica era a técnica de comunicação por excelência na Antiguidade e não apenas, como pejorativamente ficou conhecida, uma técnica sofística. Retórica, falar bem, em público ou no privado, não importa. O que merece destaque nesse momento é que “a civilização grega era um reflexo da palavra falada”, segundo Innis, ou, conforme Milman Parry, “a antiga cultura grega foi moldada pelo domínio da comunicação oral” [Apud BRIGGS, Asa & BURKE, Peter, 2004: 18-19]. Uma comunicação feita através de discursos nas Assembléias, de peças teatrais, canções e histórias. Era, de maneira geral, uma criação coletiva, no sentido de que o que se ouvia de uns era adotado e adaptado por outros. É importante destacar que, embora predominantemente oral, a civilização grega ergueu uma das maiores bibliotecas do mundo: a biblioteca de Alexandria, na cidade do mesmo nome, no Egito. Criada provavelmente por Ptolomeu II, no século III a.C., essa biblioteca chegou a ter entre meio milhão e um milhão de manuscritos. Acompanhando Briggs e Burke, outras formas de comunicação e de propaganda importantes durante toda a Antiguidade e Idade Média foram as imagens, que eram tanto um meio de transmitir informação como de persuasão, os rituais, os sermões e as leituras públicas. Em relação às primeiras, citando

27

o historiador de arte francês Emile Mâle, os autores destacam o didatismo da arte na Idade Média: as pessoas aprendiam com as imagens tudo o que era necessário saber – a história do mundo desde a criação, os dogmas da religião, os exemplos dos santos, a hierarquia das virtudes, o âmbito das ciências, artes e ofícios: tudo era ensinado pelas janelas das igrejas ou estátuas dos pórticos. Em relação aos rituais, entendidos como uma forma superior de publicidade, os sermões e as leituras deve-se entender sua importância pelo baixo índice de letramento da época. O que não podia ser anotado devia ser lembrado, e o que devia ser lembrado devia ser apresentado de maneira fácil de apreender. Foi somente a partir do século XI que a escrita passou a ser gradualmente empregada, provocando alterações importantes na sociedade medieval.

Em paralelo à evolução das formas escritas, o desenvolvimento de outras técnicas também foi fundamental nesse processo de emancipação. Podemos resumir esse longo período histórico parafraseando Ésquilo, em Prometeu acorrentado: os “seres indefesos chamados humanos”, agora dotados de lucidez e razão, aprenderam também a construir casas com tijolos endurecidos pelo sol e a usar a madeira, foram instruídos sobre a ciência básica da elevação e do crepúsculo dos astros e sobre a ciência dos números e das letras, aprenderam a subjugar as bestas e a atrelar os carros aos cavalos, a construir navios e a usar as folhas e frutos que serviriam como alimentos, remédios e bálsamos e adquiriram conhecimento sobre as artes divinatórias, os presságios e sobre os sonhos.
(SAIBA MAIS – Ésquilo é um dos maiores autores trágicos da Grécia antiga e é considerado o fundador da tragédia. Os historiadores acreditam que ele tenha escrito entre 79 e 90 tragédias, das quais sobreviveram apenas sete: Os persas, Os sete contra Tebas, As suplicantes, Prometeu acorrentado e a trilogia que compõe a Oréstia – Agamêmnon, Coéforas e Eumênides.).

Descobriram também que era sua capacidade de produzir, armazenar e

fazer circular a informação a força motriz de sua evolução e sobrevivência como espécie humana.

As informações começam a circular.

Os primeiros registros de um serviço postal datam de aproximadamente 2000 a.C., e foi utilizado primeiro pelos egípcios. Eram basicamente despachos governamentais levados por cavaleiros de uma região a outra. Os persas, os chineses e os gregos usavam o mesmo sistema e, em casos de longa distância, utilizavam-se de um sistema de revezamento. A cada número de quilômetros, o mensageiro parava em um posto para trocar de cavalo ou para passar a correspondência a outro emissário que a levaria adiante daí o nome de serviço postal. Foram os romanos que desenvolveram o mais eficiente, seguro e duradouro serviço postal da antiguidade, o cursus publicus. Seus mensageiros chegavam a percorrer, por dia, 70 quilômetros a pé ou 200 quilômetros a cavalo. Havia, ainda, um sistema de inspeção constante para prevenir seu uso abusivo pra propósitos privados. Breton e Proulx [Op. Cit.: 30-38] defendem a idéia de que Roma, tanto na República quanto no Império, foi, por excelência, uma sociedade de comunicação e nela tudo se organizava em torno da vontade de fazer da comunicação social uma das figuras centrais da vida cotidiana. Tanto assim que difundiram e universalizaram, no tempo e no espaço, a cultura latina e foi o pragmatismo de sua língua que permitiu o nascimento da idéia de informação, ou seja, de um conhecimento que se pode elaborar, sustentar, e, sobretudo, de um conhecimento transmissível, notadamente por meio do ensino. A palavra latina informatio designa, de um lado, a ação de moldar, de dar

29

forma. De outro, significa, de acordo com o contexto, ensino e instrução, ou idéia, noção, representação. A coexistência desses dois sentidos, segundo os autores, indica que, ao contrário da cultura grega, a cultura romana não dissociava a técnica do conhecimento, fazendo deste o objeto de uma construção, de uma formação.

Por essa altura, o rolo de papiro já havia sido substituído pelo pergaminho, produto feito geralmente com peles de gado, antílopes, cabras e ovelhas, especialmente animais recém-nascidos, por este ser mais flexível possibilitando a dobra de suas folhas para a montagem de cadernos, conhecidos como códices ou manuscritos. Os primeiros livros foram escritos em pergaminho, como, por exemplo, os livros do antigo testamento, a Ilíada e a Odisséia e as primeiras tragédias gregas. Embora o papel tenha sido inventado na China, no ano 105, por Ts'ai Lun, um alto funcionário da corte do imperador Chien-Ch'u, da dinastia Han (206 a.C. a 202 da era cristã) contemporânea do reinado de Trajano em Roma, só em 1150, através dos árabes, chegou à Espanha, onde foi criada a primeira indústria de papel da Europa. Ainda como códice o livro começou a ser um suporte de comunicação e, segundo Pierre Grimal, “Em Roma, as livrarias, como as salas de declamação, eram o ponto de encontro dos connaisseurs, que debatiam problemas literários: os jovens escutavam, os antigos clientes peroravam, em meio aos livros cujos rolos, cuidadosamente reproduzidos, alinhavam-se acima deles. A porta da loja era coberta de inscrições que anunciavam as obras à venda. (...) A publicidade estendia-se nos pilares vizinhos. Essas lojas de livreiros situavam-se, naturalmente, nas vizinhanças do fórum”5. Foi em Roma, também, que surgiu o primeiro verdadeiro jornal, os Acta diurna, uma publicação gravada em tábuas de pedra e afixada nos espaços
5 Apud BRETO, Philippe & Prouxl, Serge.

públicos, criada em 59 a.C. por ordem de Júlio César, que registrava trabalhos do Senado, fatos administrativos, notícias militares, obituários, crônicas esportivas, e vários outros assuntos. No final do Império Romano, e antes do advento da imprensa, já haviam sido estabelecidos pelo menos quatro tipos de redes de comunicação, segundo estima John B. Thompson [1998]: A primeira era a estabelecida e controlada pela Igreja Católica; a segunda, aquelas mantidas pelas autoridades políticas dos estados e principados, que operavam tanto dentro dos territórios particulares de cada estado quanto entre os estados que mantinham relações diplomáticas; a terceira rede estava ligada à expansão da atividade comercial; e, finalmente, a última, que era constituída por comerciantes, mascates e entretenedores ambulantes. Esses disseminavam as informações nas reuniões em mercados ou em encontros nas tabernas.

Segundo Thompson, ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, essas redes de comunicação foram submetidas a dois desenvolvimentos-chave. Em primeiro lugar, alguns estados começaram a estabelecer serviços postais regulares que rapidamente cresceram em disponibilidade para uso geral, e, em segundo, foi o uso da imprensa na produção e disseminação de notícias.

Dos incunábulos ao Le Journal de Paris.

[Imagem. 5 - Summa de vitiis et virtutibus – 1270 - Guilelmus Peraldus. In www.dartmouth.edu/~speccoll/westmss/003104.shtml]
[Imagem 6 - Book of hours, use of Paris. Paris: Phillippe Pigouchet for Simon Vostre, 25 April 1500. Printed on vellum. In http://www.grolierclub.org/incunabula.htm]

Os códices, tal como os rolos de papiro e pergaminho, eram, naturalmente, 31

escritos à mão, daí serem denominados manuscritos, e sua confecção, principalmente na Idade Média, entre os séculos VII a XIII, tornou-se uma atividade essencialmente monástica, principalmente pelo alto custo do suporte e da cópia, pela lentidão em sua confecção – um bom copista trabalhava em média duas folhas e meia por dia – e para evitar a disseminação do conhecimento entre os homens comuns.