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Os movimentos sociais da cibercultura.

Precisamente no instante em que se descobriu a imensidão do espaço terrestre, começou o famoso apequenamento do globo, até que, em nosso mundo (...), cada homem é tanto habitante da Terra como habitante do seu país. ... Antes que aprendêssemos a dar a volta ao mundo, a circunscrever em dias e horas a esfera da morada humana, já havíamos trazido o globo à nossa sala de estar, para tocá-lo com as mãos e fazê-lo girar diante dos olhos1

Em O Mal-Estar na Civilização, publicado pela primeira vez em 1930, o Sigmund Freud, médico neurologista e criador da psicanálise, ressalta que o homem, nos primórdios da humanidade, formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses, a quem atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido, transformando-os em ideais culturais. Buscando aproximar-se cada vez mais deste ideal, esse homem começou a criar instrumentos e, através de cada um deles, passou a recriar seus próprios órgãos, motores ou sensoriais, e ampliar os limites de seu funcionamento, tornando-se ele próprio quase que um deus, uma espécie de “Deus de prótese”, tornando-se verdadeiramente magnífico [FREUD, 1996, Vol. XXI: 97-98]. Ainda antes de Freud, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche em O nascimento da tragédia [1992: 143], já via o homem como a encarnação da dissonância e que, por isso, precisava “a fim de poder viver, de uma ilusão magnífica que cobrisse com um véu de beleza a sua própria essência... [Ilusões] que, a cada instante, tornam de algum modo a existência digna de ser
1 ARENDT, Hannah. A condição humana. 9a. edição, 1999, 262-263.

vivida e impelem a viver o momento seguinte”. Em busca dessa ilusão magnífica, “da realização efetiva de todos – ou quase todos – os desejos de contos de fada”, ainda nas palavras de Freud, os “seres indefesos chamados humanos”, agora dotados de lucidez e razão, aprenderam também a construir casas com tijolos endurecidos pelo sol e a usar a madeira, foram instruídos sobre a ciência básica da elevação e do crepúsculo dos astros e sobre a ciência dos números e das letras, aprenderam a subjugar as bestas e a atrelar os carros aos cavalos, a construir navios e a usar as folhas e frutos que serviriam como alimentos, remédios e bálsamos e adquiriram conhecimento sobre as artes divinatórias, os presságios e sobre os sonhos2. Pari passu aos atos primordiais, os homens descobriram o poder da comunidade e, com o tempo, que suas tecnologias intervinham em suas comunicações vitais, coletivas e culturais. Perceberam, desde as mais antigas formas de comunicação gestual, que era sua capacidade de produzir, armazenar e fazer circular a informação a força motriz de sua evolução como espécie humana. Da era dos símbolos e sinais, passando pelas eras da fala e da Linguagem, da escrita, da impressão e da comunicação de massa3, o homem chegou à era do virtual, uma era em que todo o conjunto de elementos sociais, concretos e abstratos se encontra profundamente entrelaçado por sistemas de redes midiáticas que desempenham todos os papéis. Ao integrar o mundo em redes globais as novas tecnologias da informação4 estão alterando e remodelando a base material da sociedade em ritmo acelerado, assim como nossa forma de pensar, a natureza da nossa sexualidade, a organização das nossas comunidades e até mesmo a nossa
2 ÉSQUILO, Prometeu acorrentado. 1993: 35-36. 3 Essa classificação é defendida por Melvin L. DeFleur e Sandra Ball-Rokeach em Teorias da comunicação de massa, 1993. 4 A tecnologia da informação pode ser entendida como a aplicação de diferentes ramos da tecnologia no processamento de informações, ou seja, é o meio pelo qual os dados são transformados e organizados para o uso das pessoas. De forma geral, entre essas tecnologias destacam-se todo o conjunto convergente de tecnologias em microeletrônica, computação, telecomunicações/radiodifusão e optoeletrônica. Manuel Castells inclui nesta relação a engenharia genética, uma vez que esta trabalha com a decodificação, manipulação e conseqüente reprogramação dos códigos de informação da matéria viva [CASTELLS, 1999: 49, Vol I].

identidade, uma questão primaz da sociedade informacional. Ao provocar a erosão das fronteiras entre o real e o virtual, o animado e o inanimado, o eu unitário e o eu múltiplo, tanto nos domínios da investigação científica de ponta como nos padrões da vida cotidiana [TURKLE, 1997: 12], essas tecnologias terminam por estruturar a sociedade em uma oposição bipolar entre a Rede e o Ser, conforme enfatiza Manuel Castells [1999: 23, Vol. 1]. Sabemos todos que a sociedade contemporânea está cada vez mais organizada em torno de redes, mas, alguns podem estar se perguntando, como isso veio a acontecer? Recordemos rapidamente que, ainda antes do advento da imprensa, na segunda metade do século XV, existiram quatro tipos de redes de comunicação: a estabelecida e controlada pela Igreja Católica; a constituída pelas autoridades políticas dos estados e principados; aquela organizada pela comunidade de negócios e entre os maiores centros comerciais e bancários, e, por fim, a rede formada por comerciantes, mascates e entretenedores ambulantes. Com o estabelecimento de serviços postais regulares ao público em geral e o aumento significativo no uso da imprensa na produção e disseminação de notícias, essas redes, ao longo dos séculos seguintes, foram sofrendo alterações. No transcorrer do século XIX tornava-se cada vez mais evidente que os meios de comunicação poderiam atuar como fatores de integração das sociedades e de gerenciamento das multidões humanas, principalmente daquelas que irrompiam nos grandes centros urbanos. É importante que lembremos também que o progresso dos meios de comunicação está intimamente ligado ao progresso dos meios de transporte. Pierre Lévy chama a atenção para o fato de que

“A navegação de longo curso e a imprensa nascem juntas. O desenvolvimento dos correios estimula e utiliza a eficiência e a segurança das redes viárias. O telégrafo expande-se ao mesmo tempo que as ferrovias. O automóvel e o telefone avançam em paralelo. O rádio e a televisão são contemporâneos do desenvolvimento da aviação e da exploração espacial. Os

satélites lançados pelos foguetes estão a serviço das comunicações. A aventura dos computadores e do ciberespaço acompanha a banalização das viagens e do turismo, o desenvolvimento dos transportes aéreos, a extensão das autoestradas e das linhas de trem de grande velocidade. O telefone móvel, o computador portátil, a conexão sem fio à Internet, em breve generalizados, mostram que o crescimento da mobilidade física é indissociável do aperfeiçoamento das comunicações”.[1998: 3. In Revista Famecos, nº 9].

Vemos, então, que após a invenção da imprensa, para nos determos apenas nos meios de comunicação, vieram o telégrafo, o rádio, o telefone, a televisão, etc. A “aventura dos computadores”, ou melhor, a aventura dos computadores em rede começou em 1945, com um texto escrito pelo físico e matemático americano Vannevar Bush. Naquele ano, Bush, então diretor do Office of Scientific Research and Development, publicou no jornal The Atlantic Monthly5 o seu hoje célebre artigo As We May Think6 [Como nós pensamos]. Neste artigo, o autor chama a atenção para a necessidade de se criar um dispositivo prático e funcional, onde grandes quantidades de informação possam ser guardadas e interligadas, de forma a que a sua consulta se faça eficaz e rapidamente. Confrontado com o enorme aumento de pesquisas em todos os campos e áreas do saber, Bush tomou consciência que o número de publicações já se estendia muito além da capacidade dos investigadores para fazer uso delas. Segundo ele, o principal problema prendia-se ao acesso à informação, devido, principalmente, às deficientes condições em que esta é armazenada, organizada e catalogada. Os sistemas de indexação por ordenação alfabética ou numérica revestem-se de uma lógica altamente artificial. Para chegar a determinada informação, tem que se percorrer todo um caminho de classes e subclasses que não estão interligadas. Este percurso não é eficaz nem funcional, visto que a mente não pensa desta maneira, mas numa base de livre
5 www.theatlantic.com 6 In www.theatlantic.com/unbound/flashbks/computer/bushf.htm

associação de idéias. Para fazer face à rigidez e à dificuldade de acesso impostas pelas formas analógicas de veiculação e armazenamento de informação, impõe-se a necessidade de criação de um dispositivo que melhor se ajuste à maneira como a mente pensa. Buscando atender a essa necessidade, Bush propôs uma máquina que trabalharia em analogia com o funcionamento do cérebro, por um processo de associação de idéias, que libertaria os pesquisadores das dificuldades resultantes daqueles sistemas de classificação e permitiriam seguir um processo natural de investigação por associação. A máquina, denominada Memex (Memory Extended), seria um dispositivo mecânico no qual o indivíduo armazenaria os seus livros, registros e comunicações, de maneira a que poderiam ser consultados de uma forma extremamente rápida e flexível, constituindo um suplemento precioso da memória.

Desenho do Memex7.

Esse dispositivo era uma secretária com monitores translúcidos, alavancas e motores, que permitiria uma pesquisa rápida dos documentos nela
7 In http://www.kerryr.net/pioneers/gallery/bush.htm

armazenados, interligando os assuntos e articulando a informação em rede, através do princípio de associação de idéias. Além da pesquisa de informação, esse dispositivo também possibilitaria ao leitor acrescentar comentários e textos seus. Adotando o princípio do associacionismo na concepção da sua máquina, o que Bush na verdade estava propondo era fundamentalmente um conceito de rede para ligar unidades de informação, que seria seguido, no início da década de 60, por dois outros pioneiros no campo da interação homem-computador: Douglas Engelbart com o projeto NLS/Augment8, apresentado em 1968 e considerado o primeiro sistema hipertextual, e Ted Nelson, em 1965, com o projeto Xanadu9, sendo este o criador do termo hipertexto, que, no âmbito do seu projeto, significava a expansão da memória humana, permitindo ao utilizador estabelecer interligações entre unidades de texto não relacionadas. Considerado um dos mais influentes pensadores na história do computador pessoal, Engelbart foi um dos principais responsáveis por um dos projetos mais ambiciosos da ARPA (Advanced Research Projects Agency) nos anos 60: o desenvolvimento de um ambiente em rede que suportasse a colaboração interativa entre pessoas que usavam computadores. Esse primeiro protótipo, desenvolvido no Augmentation Research Center (ARC), do Stanford Research Institute10, foi chamado de NLS, oNLine System11, e foi apresentado em 1968 no Fall Joint Computer Conference, em São Francisco. Entre o projeto não concretizado do Memex, de Bush, e o oNLine System, de Engelbart, Theodor Holm Nelson, profundamente influenciado pelas idéias do primeiro, inventou e cunhou, em 1965, o termo hipertexto para exprimir a idéia de escritura/leitura não linear em um sistema de informática. O termo apareceu pela primeira vez em seu projeto Xanadu, local existente na Mongólia e que foi descrito no poema "Kubla Kahn", de Samuel Taylor Coleridge12.
8 http://sloan.stanford.edu/mousesite/Archive/ResearchCenter1968/ResearchCenter1968.html 9 http://xanadu.com/ 10 www.sri.com 11 A palestra de Engelbart, A research center for augmenting human intellect, pode ser encontrada em
http://sloan.stanford.edu/mousesite/Archive/ResearchCenter1968/ResearchCenter1968.html 12 In Xanadu did Kubla Khan/ A stately Pleasure Dome decree, ... In http://www.xanadu.net/xuhistory.html

Na história do projeto, que foi publicado em 1967, Ted Nelson descreve que o poema também se refere à memória e a trabalhos perdidos e que escolheu esse nome, com todas as suas conotações, por entender que ele representava um lugar mágico de memória literária e liberdade onde nada seria esquecido. O projeto Xanadu representa o sonho de Nelson de uma imensa rede de informações, acessível em tempo real e em sistema de hipertexto, onde as pessoas, localizadas em qualquer parte do mundo, poderiam estabelecer conexão e interagir com um imenso banco de dados que armazenaria os tesouros literários e científicos do mundo. A constituição desse universo virtual de documentos interconectados, que Nelson chamou de docuverse, só foi possível com o hipertexto, que, na definição de Lévy, é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas inteiras, imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras13 ou outros hipertextos. Esses itens não são ligados de forma linear e sim de modo reticular, estendendo duas conexões em forma de estrela [LÉVY, 1993: 33]. É possível dizer que as idéias de Bush, Engelbart e Nelson foram praticamente concretizadas quando Tim Berners-Lee14, engenheiro do European Laboratory for Particle Physics – CERN15, Genebra, Suíça, sugeriu um projeto que pudesse unir a estrutura da Internet, a idéia do hipertexto e os elementos multimídia. O protótipo do projeto foi nomeado como World Wide Web16, uma teia de informações de alcance mundial que entrou em funcionamento no CERN em 1991. Ao criar os códigos do protocolo de transferência de hipertextos – HTTP (HyperText Transfer Protocol), e a Linguagem de Marcação de Hipertexto – HTML (HyperText Markup Language), Berners-Lee possibilitou que a Rede se transformasse num espaço comum e universal de informação. Até 1993, a interface baseada em texto restringia o acesso de muitos
13 Ao entrar em um espaço interativo e reticular de manipulação, de associação e de leitura, a imagem e o som adquirem um estatuto de quase-textos [Lévy, 1993: 33]. 14 http://www.w3.org/People/Berners-Lee/ 15 http://www.cern.ch 16 Também conhecida como www, w3, web, internet, rede ou, simplesmente, net.

neófitos, uma vez que era necessário conhecimento dos códigos ASCII para manipular dados e informações. Esse problema deixou de existir quando Marc Andreessen, programador no NCSA - National Center for Supercomputing Applications17, da Universidade de Illinois, lançou o Mosaic, o primeiro programa-navegador (browser) que permitiu visualizar as páginas escritas em HTML, linguagem necessária para navegar na Web. Logo em seu lançamento, cerca de 10 mil pessoas passaram a usá-lo18. A partir daí, as comunidades constituídas basicamente por militares e pesquisadores começaram a se difundir dando origem, como analisa Sherry Turkle, a uma verdadeira cultura pós-moderna da simulação, cultura essa que afeta as nossas idéias acerca da mente, do corpo, do eu e da máquina, uma cultura que erode as fronteiras entre o real e o virtual, o animado e o inanimado, o eu unitário e o eu múltiplo, uma cultura que altera a forma como pensamos, a natureza da nossa sexualidade, a organização das nossas comunidades e até mesmo a nossa identidade [1997: 11-12]. Turkle entende que os efeitos subjetivos provocados pelos

computadores devem-se ao fato de que estes não se limitam a fazer coisas por nós, mas fazem coisas a nós e as pessoas os utilizam em busca de experiências que possam alterar as suas maneiras de pensar ou afetar a sua vida social e emocional. O que vemos nos monitores são os novos cenários para as nossas fantasias, tanto eróticas como intelectuais [Idem, 37]. Com a Internet e, principalmente, com a Web, a ferramenta computador começa a deixar de ser apenas uma simples, ainda que sofisticada, máquina de calcular para se transformar numa máquina social, dando os primeiros passos na constituição de uma nova forma de vida, uma espécie de macrovida em escala planetária, conforme Joel de Rosnay. Para ele,
essa vida híbrida – simultaneamente, biológica, mecânica e eletrônica – está em vias de nascer à nossa frente. Somos suas células. De forma ainda inconsciente, contribuímos para a invenção de seu metabolismo, sua circulação, seu sistema nervoso (...), trata-se de órgãos e de sistemas vitais de um
17 www.ncsa.uiuc.edu 18 Marc Andreessen. Revista Wired, 14/02/2003. http://busca.terra.com.br/wired/cultura/03/02/14/cul_1.html.

superorganismo em vias de emergir. Irá modificar o futuro da humanidade e condicionar seu desenvolvimento no decorrer do próximo milênio [Rosnay, 1997: 17].