FELIZMENTE HÁ LUAR!

Bertolt Brecht
(Augsburgo, 1898 - Berlim, 1956) Escritor e dramaturgo alemão. Adere desde muito cedo ao expressionismo e vê-se obrigado a fugir da Alemanha em 1933, após escrever a Lenda do Soldado Morto, obra pacifista que provoca a sua perseguição pelos nazis. Ao iniciar-se a Segunda Guerra Mundial começa uma longa peregrinação por diversos países. Em 1947, perseguido pelo seu comunismo militante, vai para os Estados Unidos. A partir de 1949, e até à sua morte, dirige na Alemanha Oriental uma companhia teatral chamada do Berliner Ensemble. A produção teatral de Brecht é abundante. No conjunto das suas obras tenta lançar um olhar lúcido sobre o mundo moderno. Bertolt Brecht é, além de dramaturgo, um importante teórico teatral. Nos seus Estudos sobre Teatro expõe a sua concepção cénica, baseada na necessidade de estabelecer uma distância entre o espectador e os personagens, a fim de que o ponto de vista crítico do autor desperte no espectador uma tomada de consciência. Destaca-se também na poesia, de forte conteúdo social.

Características do Teatro Brechtiano Principal Objetivo: fazer com que o público reflicta e analise criticamente os dados que lhe são fornecidos.

Procura na História, no passado, um acontecimento que apresente pontos de contacto com o presente, e dramatiza-o de forma épica. Ao relatar determinados eventos pretende-se envolver o espectador que se torna uma testemunha ativa. Ser activo implica tomar uma posição, julgar não apenas aquilo que está a ser representado, mas a sociedade em que o espectador se insere. Pelo desmontar minucioso do passado, convida-se o espectador a assumir uma postura crítica relativamente ao presente.

mas antes que se mantenha distante pela força do raciocínio. vê de fora a sua própria situação social reflectida no palco. para que. projeções. este tipo de teatro não pede ao espectador que se emocione com o ator. assim. levando o público a tomar consciência de que tudo pode e deve ser modificado. o público do caso narrado. possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado. O teatro épico tem incontestavelmente uma função social. etc. de uma forma mais real e autêntica. O distanciamento causa uma «espécie de alienação». Logo. Embora nem sempre o processo teatral consiga evitar uma certa adesão sentimental entre personagens em palco e público. Estuda-se o comportamento humano em determinadas situações. •utilização de cenários e montagens simples. •uso de máscaras. que conduz o espectador a uma apreciação crítica não apenas do que está a ser representado mas também da sociedade em que se insere. exigindo dele a tomada de decisões. Técnicas que contribuem para o efeito de distanciamento: •substituição da representação pela narração.Técnica do Distanciamento Histórico – Propõe um afastamento entre o ator e a personagem e entre o espectador e a história narrada. letreiros. . uma vez não identificado com o mundo cénico. desviando.

nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar. o que parece habitual. .Há homens que lutam um dia. de arbitrariedade consciente. pois em tempo de desordem sangrenta. E examinai. e são bons. Há aqueles que lutam muitos anos. de humanidade desumanizada. e são muito bons. na aparência singelo. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural. sobretudo. Porém há os que lutam toda a vida Estes são os imprescindíveis Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem Nada é impossível de mudar Desconfiai do mais trivial. e são melhores. de confusão organizada. Há outros que lutam um ano.

Peça em dois atos • Publicada em1961 – Grande Prémio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores – censurada. . • 1ª Representação – Paris – 1969. • 1962– tentativa do Teatro Experimental do Porto – sem resultado. • Representação em Portugal – 1978– Teatro Nacional. • 2001– Teatro Experimental do Porto.

• Instabilidade social.Contexto da ação da peça(período pós invasões francesas) • Napoleão – Imperador dos franceses. •Perseguições políticas constantes reprimindo: a liberdade de expressão. • Aliança de Portugal com a Inglaterra. a circulação de ideias e as tentativas para implementar o liberalismo. • Partida da corte portuguesa para o Brasil. … . •Condenação à morte de Gomes Freire de Andrade. •Administração do Reino entregue a uma Junta Provisória.

(Situação análoga nos dois períodos) . medo e analfabetismo.Péssimas condições de vida: oprimido e resignado. 1961  Regime Político Absolutismo  Ditadura do Estado Novo (Salazar)  Sociedade . clero e burguesia) e classe explorada (povo). reprimido e explorado.  Fortes desigualdades sociais: classe exploradora (ricos) e classe explorada (pobres). 1817  Século XX. a “miséria.  Povo .Paralelismo histórico-metafórico Tempo da História/Tempo da escrita  Época: Século XIX. o medo e a ignorância”. miséria.Hierarquia social: classes privilegiadas e exploradoras (nobreza.

símbolo da consciência popular. . Constituídas. Militantes antifascistas sublevam-se contra o regime ditatorial. Muitíssimos foram os chamados “bufos”. Censura. para derrubar o poder vigente. denunciantes que ajudaram a manter o regime de Salazar. pela PIDE. Censura nos dois períodos. ANDRADE CORVO e MORAIS SARMENTO são símbolos dos denunciantes hipócritas contra o GENERAL. eram.Conspiração MANUEL. mas são logo sufocados. liderada pelo GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE. sem dúvida. sobretudo. Forças Policiais: Dois polícias contribuem para sustentar o regime. Denúncias: VICENTE. o sustentáculo do regime. tenta participar na conspiração.

no 25 de Abril de 1974. Processos: Há processos de condenação sem provas. Representadas pelas forças estrangeiras (Inglaterra). mas… Felizmente… Felizmente há luar! Estimula futuras rebeliões e. com a vitória da DEMOCRACIA. pelos monopólios e pela Igreja. MIGUEL FORJAZ (a nobreza). . mas em 1965 executar-se-ia o General Humberto Delgado. o LIBERALISMO triunfa.Classes dominantes São representadas por BERESFORD (a força inglesa). PRINCIPAL SOUSA (o clero) e D. em 1834. o “General sem Medo”. Estimula futuras rebeliões que culminarão. um general sem medo. Muitíssimos foram os processos de condenação sem provas. mas… Felizmente… Felizmente há luar! As execuções foram muitas. Execuções: Executa-se o GENERAL GOMES FREIRE DE ANDRADE.

exprime a revolta contra o poder e a convicção de que é necessário mostrar o mundo e o homem em constante mudança. de Luís de Sttau Monteiro. é um “drama narrativo”. dentro dos princípios de teatro épico. Defende as capacidades do ser humano que tem o direito e o dever de transformar o mundo em que vive. . Faz então uma análise critica da sociedade. procurando mostrar a realidade em vez de a representar. Existe um paralelismo entre a ação do presente e os contextos ideológicos de país. de carácter social. Na linha do teatro de Bertolt Brecht.Felizmente há luar!.

usando-as como pretexto para falar do presente. Esta é uma obra intemporal que nos remete para a luta do ser humano contra a tirania. uma vez que a obra funciona como “disfarce” para que se possa tirar o exemplo de presente ditatorial (repressão salazarista). pois Luís de Sttau Monteiro evoca situações e personagens do passado. . é entendida como uma alegoria política. a injustiça e todas as formas de perseguição.A obra Felizmente Há Luar!.

com o surgimento de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem. Denúncia da ausência de moral. . Alerta para a necessidade de uma superação. Luta contra a miséria e a alienação.Preocupação com o homem e o seu destino.

.Mundividências: .» Teatro épico: oferece-nos uma análise crítica da sociedade. .Narrativo: . O espectador não é apenas uma testemunha da acção.«O teatro não pode impor emoções aos espectadores (como o “drama aristotélico”). procurando mostrar a realidade em vez de a representar. na peça Teatro Épico – B.INFLUÊNCIAS em Sttau Monteiro. há que despertar-lhe a atividade e exigir-lhe decisões. para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar uma posição. O espectador é posto perante qualquer tipo de situação. Brecht (influências marxista) . deve fazer com que eles pensem. .

Argumento: . Tensão crescente. . O espectador está defronte. . . .. . As sensações são elevadas ao nível do conhecimento. O homem como realidade em processo. . O homem é susceptível de ser modificado e de modificar. analisa. . ao longo da ação. O homem é objeto de uma análise. O ser social determina o pensamento.

a peça pretende representar o mundo e o homem em constante evolução. . como também na sociedade em que se insere. definidos por Brecht. apelando à reflexão do espectador / leitor. inspirada na teoria marxista. De acordo com os princípios do “teatro épico”.Alegoria e personagens A peça «Felizmente Há Luar!» é uma peça épica. não só no quadro da representação. que pretendia despertar emoções. Estas características afastam-se da conceção do teatro aristotélico. de acordo com as relações sociais. levando o espectador a identificar-se com o herói.

como preocupação fundamental levar os espectadores/leitores a pensar. então. Surge. assim.O teatro moderno tem. a refletir sobre os acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se insere. . a técnica do distanciamento que propõe um afastamento entre o ator e a personagem e entre o espectador/ leitor e a história contada. para que. possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado. de uma forma mais real e autêntica.

Luís de Sttau Monteiro pretende.denúncia da hipocrisia da sociedade. envolver o espectador/leitor no julgamento da sociedade. . Deste modo.defesa intransigente da justiça social. .personagens psicologicamente densas e vivas. . . através da distanciação.comentários irónicos e mordazes. tomando contacto com o sofrimento dos outros. o espectador deve possuir um olhar crítico para melhor se aperceber de todas as formas de injustiças e opressões. .

enúncia Li erdade .

“o mais consciente dos populares”. .Estrutura Externa e Interna de Felizmente Há Luar! A peça tem dois atos que não estão divididos em cenas. Rita. Os atos são iniciados pelas falas de Manuel. Antigo Soldado e vários outros populares sem nome – veem no General o seu herói. o único homem que será capaz de os libertar da opressão. 1º Ato: Gomes Freire de Andrade encontra-se na sua casa “para os lados do Rato donde não há qualquer referência que tenha saído”. O 1º núcleo de personagens do povo – de que fazem parte Manuel. da miséria e do terror em que vivem.

O 2º núcleo de personagens do povo – constituído por Vicente. da traição e da força das armas. através da denúncia.É neste quadro que se insere a frase reticente de Manuel «se ele quisesse…» (pág. 21) o que significa que depositam nele expectativas e esperanças no sentido de ser ele quem poderá libertá-los da tirania da regência e da exploração dos ingleses de que são alvo. Andrade Corvo e Morais Sarmento e os dois polícias – vão contribuir. . para a prisão de Gomes Freire de Andrade e para a sua ulterior execução.

. Morais Sarmento e Andrade Corvo. revelação do nome do chefe dos conjurados. apresentação das situações. Beresford e Principal Sousa). Incómodo para os Governadores do Reino (D. Antigo Soldado e populares. mas sempre presente). informações trazidas pelos espiões.. Um herói para Manuel. Rita. . reunião dos três espiões.. . .Ato I – processo de incriminação. prisão dos incriminados. .. Objeto de denúncia para Vicente. Miguel. General Gomes Freire de Andrade (personagem ausente..

pois tem a coragem de dizer o que realmente quer. o herói (no entanto. MIGUEL FORJAZ: primo de Gomes Freire. prepotente. Acredita na justiça e luta pela liberdade.O pano de fundo permanente GOMES FREIRE: protagonista. autoritário. ainda consegue ser minimamente franco e honesto. a Portugal e à sua situação. frio e calculista. vingativo. odeia os franceses. idolatrado pelo povo. ao contrário dos dois governadores portugueses. assustado com as transformações que não deseja. estrangeirado. preocupa-se somente com a sua carreira e com dinheiro. embora nunca apareça. corrompido pelo poder. é distorcido pelo fanatismo religioso. é evocado através da esperança do povo. símbolo de esperança de liberdade. interesseiro. É apresentado como o defensor do povo oprimido. corrompido pelo poder eclesiástico. autoritário.PERSONAGENS Vários populares . mas é bom militar. PRINCIPAL SOUSA: defende o obscurantismo. É poderoso. das perseguições dos governadores e da revolta da sua mulher e amigos. desonesto. BERESFORD: demonstra cinismo em relação aos portugueses. sarcástico… . soldado brilhante. servil (porque se rebaixa aos outros). D. É acusado de ser o grão-mestre da maçonaria. trocista. o herói falhado). oportunista. ele acaba como o anti-herói. calculista.

despreza e renega a sua origem e o seu passado. ora se revolta. exprime romanticamente o seu amor. como pelo ódio. tem discursos tanto marcados pelo amor. MANUEL: denuncia a opressão a que o povo está sujeito. hipócrita. numa situação crítica como esta. . desleal. porque está revoltado com a sua condição social (só desse modo pode ascender socialmente. MATILDE DE MELO: corajosa.PERSONAGENS VICENTE: sarcástico. sincera. mas luta sempre! Representa uma denúncia da hipocrisia do mundo e dos interesses que se instalam em volta do poder (faceta/discurso social). é corajoso. ora se enfurece. traidor. acaba por ser um delator. que. movido pelo interesse da recompensa material. demagogo. por outro lado. reage violentamente perante o ódio e as injustiças. É o mais consciente dos populares. ora se desanima. que é o que o move). falso humanista. apresenta-se como mulher dedicada de Gomes Freire.

Representa a amizade e a fidelidade. Para eles. a execução à noite. assume as mesmas ideias que Gomes Freire. é o único amigo de Gomes Freire de Andrade que aparece na peça. constituía uma forma de avisar e dissuadir os outros revoltosos. oportunistas. Delatores: mesquinhos. BERESFORD e PRINCIPAL SOUSA perseguem.PERSONAGENS SOUSA FALCÃO: inseparável amigo. ele representa os poucos amigos que são capazes de lutar por uma causa e por um amigo nos momentos difíceis. Frei Diogo: homem sério. representante do clero. mas não teve a coragem do general. hipócritas. honesto – é o contraposto do Principal Sousa. sofre junto de Matilde. . prendem e mandam executar o General e restantes conspiradores na fogueira. MIGUEL FORJAZ. mas para MATILDE era uma luz a seguir na luta pela liberdade.

à fertilidade e à esperança. pois Matilde. e por Matilde. a saia é uma peça eminentemente feminina e o verde encontra-se destinado à esperança de que um dia se reponha a justiça. associando-se à força. inserido nas falas das personagens (por D. comunica aos outros esperança através desta simples peça de vestuário. que salienta o efeito dissuasor das execuções.OS SÍMBOLOS Saia verde: A saia encontra-se associada à felicidade e foi comprada numa terra de liberdade: Paris. Título: duas vezes mencionado. cujas palavras remetem para um estímulo para que o povo se revolte). com o dinheiro da venda de duas medalhas. O verde é a cor predominante na natureza e dos campos na Primavera. "alegria no reencontro". vencendo aparentemente a dor e revolta iniciais. . no Inverno. Miguel. Sinal do amor verdadeiro e transformador.

Se a luz se encontra associada à vida. na dependência do Sol e por atravessar fases.OS SÍMBOLOS A luz: como metáfora do conhecimento dos valores do futuro (igualdade. símbolo do obscurantismo… Lua: simbolicamente. também se associa à renovação. a perdição e a morte. a infelicidade. o castigo. vencendo a escuridão da noite (opressão. a noite e as trevas relacionam-se com o mal. se relaciona com a crença na vida para além da morte. morte. A luz da lua. representa: dependência. castigo. A luz do luar é a força extraordinária que permite o conhecimento e a lua poderá simbolizar a passagem da vida para a morte e vice-versa. à saúde e à felicidade. o que aliás. . falta de liberdade e de esclarecimento). Ambas são a certeza de que o bem e a justiça triunfarão. mudando de forma. por estar privada de luz própria. Noite: mal. que possibilita o progresso do mundo. advém quer da fogueira quer do luar. periodicidade. não obstante todo o sofrimento inerente a eles. fraternidade e liberdade). devido aos ciclos lunares. A luz representa a esperança num momento trágico.

relacionar-se-á com esperança e liberdade. Tambores – símbolo da repressão sempre presente.OS SÍMBOLOS Luar: d u a s c o n o t a ç õ e s : para os opressores. mais pessoas ficarão avisadas. mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade. no futuro. Matilde – a chama mantém-se viva e a liberdade há-de chegar. Miguel Forjaz – ensinamento ao povo. Se. sendo a purificação pela água complementada pela do fogo. . Fogueira: D. e. a fogueira se relaciona com a tristeza e escuridão. contrariando os mandamentos de Deus. para os oprimidos. Moeda de cinco reis – símbolo do desrespeito que os mais poderosos mantinham para com o próximo. no presente. O fogo é um elemento destruidor e ao mesmo tempo purificador e regenerador.

ironia. esperança. gestos.") em oposição à luz ("Desaparece o clarão da fogueira. com o desenlace trágico). o murmúrio da multidão…) e efeitos de luz (o contraste entre a escuridão e a luz. “galhofa”. bajulação. o murmúrio de vozes. posições."). escárnio. a voz que fala antes de entrar no palco. de acordo. o silêncio. desânimo – relacionadas com as personagens oprimidas). vestuário. irritação – normalmente relacionadas com os opressores. um sino que toca a rebate. o toque de uma campainha. sons (o som dos tambores. a escuridão não é total. os dois atos terminam em sombra. no entanto. De realçar que a peça termina ao som de fanfarra ("Ouve-se ao longe uma fanfarronada que vai num crescendo de intensidade até cair o pano. . desprezo.AS DIDASCÁLIAS A peça é rica em referências concretas (sarcasmo. aliás. cenários. medo. indiferença. tristeza. porque "felizmente há luar". As marcações são abundantes: tons de voz. movimentos.

foi descoberta e reprimida com muita severidade: os conspiradores.Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60: denúncia da violência Felizmente Há Luar! tem como cenário o ambiente político dos inícios do século XIX: em 1817. precisamente sob a ditadura de Salazar. Luís de Sttau Monteiro marca uma posição. que pretendia o regresso do Brasil do rei D. João VI e que se manifestava contrária à presença inglesa. uma conspiração. foram queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir. encabeçada por Gomes Freire de Andrade. . pelo conteúdo fortemente ideológico. e denuncia a opressão vivida na época em que escreve a obra. em 1961. acusados de traição à pátria.

Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60: denúncia da violência O recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no século XIX em que decorre a ação permitiu-lhe. Em Felizmente Há Luar! percebe-se. resistiu e levou à implantação da democracia. facilmente. também ele perseguido pela PIDE. colocar também em destaque as injustiças do seu tempo e a necessidade de lutar pela liberdade. também a oposição ao regime vigente nos anos 60. do século XX. durante o regime de Salazar. interpretando as condições históricas que mais tarde contribuíram para a Revolução dos Cravos. em 25 de Abril de 1974. em vez de desaparecer com medo dos opressores permitiu o triunfo do liberalismo. Sttau Monteiro. denuncia assim a situação portuguesa. em vez de ceder perante a ameaça e a mordaça. . que a História serve de pretexto para uma reflexão sobre os anos 60. assim. Tal como a conspiração de 1817.

Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60 .

encabeçada por Gomes Freire de Andrade. e a falta de perspectivas para o futuro. muitas vezes organizados em sociedades secretas. as Invasões Francesas. interpretando as condições da sociedade portuguesa no início do século XIX e a revolta dos mais esclarecidos. na pessoa de Beresford. Coloca-se em destaque ao longo de toda a peça a situação do povo oprimido. a "protecção" britânica. Como afirma Luciana Stegagno Picchio. e à ausência da corte no Brasil. ."Trágica apoteose" da história do movimento liberal oitocentista Felizmente Há Luar! é uma "trágica apoteose" da história do movimento liberal oitocentista. que se manifestava contrária à presença inglesa ("Manuel – Vê-se a gente livre dos Franceses e zás!. iniciada após a retirada do rei D. João VI para o Brasil. contra o poder absolutista e tirânico dos governadores e do generalíssimo Beresford. cai na mão dos Ingleses!"). é retratada a conspiração.

"Trágica apoteose" da história do movimento liberal oitocentista Para que o movimento liberal se concretize. "companheira de todas as horas" do general Gomes Freire. que. dos seus companheiros e também de muitos outros portugueses. são os grandes heróis de que o povo necessita para reclamar a justiça. é necessária a morte de Gomes Freire. são sacrificados pela pátria. que sentem os seus privilégios ameaçados. as suas mortes. Conspiradores e traidores para o poder e para as classes dominantes. em vez de amedrontar. Por isso. Na altura da execução. . tornam-se num estímulo. são de coragem e estímulo para que o Povo se revolte contra a tirania dos governantes: ("Matilde – Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! / Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim…/ (Pausa) Felizmente – felizmente há luar!"). torna-se na luz para que os oprimidos e injustiçados lutem pela liberdade. A fogueira acesa na noite para queimar Gomes Freire. que os governadores querem que seja dissuasora. as últimas palavras de Matilde. em nome dos seus ideais.

. . a injustiça e todas as formas de perseguição.alerta para a necessidade de uma superação com o surgimento de uma sociedade solidária que permitia a verdadeira realização do homem.personagens psicologicamente densas e vivas.intemporalidade da peça remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania.preocupação com o homem e o seu destino.luta contra a miséria e a alienação.CARACTERÍSTICAS DA OBRA .defesa intransigente (inabalável) da justiça social. .teatro épico: oferece-nos uma análise crítica da sociedade. . procurando mostrar a realidade em vez de a representar. . . .denúncia a ausência de moral. a traição. .comentários irónicos e mordazes. .denúncia da hipocrisia da sociedade. a opressão. . para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar uma posição.

injustiça e todas as formas de perseguição. cenários. . a luta contra a miséria e a alienação. palavras e didascálias. Drama narrativo. os comentários irónicos e mordazes e denuncia-se a hipocrisia da sociedade. de carácter social. com o objectivo de levar o espectador a reagir criticamente). para que se possam fazer juízos de valor. a preocupação com o Homem e o seu destino. as personagens. BRECHT ("Estudos Sobre o Teatro"): propõe um afastamento entre o ator e a personagem e entre o espectador e a história narrada. O dramaturgo através dos gestos. opressão. leva o público a entender de forma clara a mensagem. o homem tem o direito e o dever de transformar a sociedade em que vive. Luta contra a tirania. na linha de Brecht (exprime a revolta contra o poder. traição. Em FELIZMENTE HÁ LUAR!.CARACTERÍSTICAS DA OBRA As personagens são psicologicamente densas. o espaço e o tempo são trabalhados para que a "distanciação se concretize".

procura a sua conivência (cumplicidade) ou participação testemunhal. . frases incompletas por hesitação ou interrupção. marcas características do discurso oral e recurso frequente à ironia e sarcasmo. sobretudo. mas.LINGUAGEM Natural. frases em latim com conotação irónica. viva e maleável. Como drama narrativo. pressupõe uma acção apresentada ao espectador e com possibilidade de ser vivida por ele.

que evoca situações e personagens do passado.CARACTERÍSTICAS DA OBRA O carácter narrativo é sinónimo de épico. Assim. reflectidos e julgados pelo espectador. podendo assim como pessoas reais fazerem os respectivos juízos ou criticas de forma precisa e consciente sobre o que se passa em palco. usando-as como pretexto para falar do presente. o teatro moderno. Luís de Sttau Monteiro. pretende levar o espectador a ter um olhar crítico para que se aperceber e criticar as injustiças e opressões. de tal modo que ambos se distanciam da historia narrada. para tal é usada uma técnica realista/influencia de Brecht – DISTANCIAÇÃO HISTÓRICA – isto é: . tem como preocupação fundamental levar os espectadores a pensar.o ator deve conseguir "afastar-se“ da personagem . do qual faz parte esta obra. Observando Felizmente há Luar. verificamos que são estes os objectivos de Luís de Sttau Monteiro. enquanto elemento da sociedade. através desta técnica.o espectador deve conseguir "afastar-se" da historia narrada Esta técnica acaba por aproximar o actor e o espectador. a refletir sobre acontecimentos passados e a tomar posições na sociedade em que se inserem. ao contar determinados acontecimentos que devem ser interpretados. .

mas não há nas indicações cénicas referência a cenários diferentes espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens. distinguindo-se uns dos outros pelo vestuário e pela linguagem das várias personagens. havendo vários espaços sociais. exteriores e interiores. época dos conflitos entre a oposição e o regime salazarista c) tempo da representação: 1h30m/2h d) tempo da ação dramática: a acção está concentrada em 2 dias e) tempo da narração: informações respeitantes a eventos não dramatizados.TEMPO a) tempo histórico: século XIX b) tempo da escrita: 1961. (Adaptado da Internet. ESPAÇO espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais. porf200) . ocorridos no passado. mas importantes para o desenrolar da ação.

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