Dona Gracia Nasi A Europa renascentista do séc.

16, os horrores da Inquisição e o poderio do Império Otomano são o pano de fundo Para a vida de Doña Gracia Nasi. nascida em portugal, O destino a coloca, ainda jovem, à frente do império dos Mendes, família das mais ricas e poderosas da Europa renascentista. "La Señora", como também era chamada, foi uma mulher extraordinária que marcou de forma profunda a história dos judeus sefaraditas. Doña Gracia tanto era respeitada e admirada por seu poder financeiro, cultura e elegância quanto pela firmeza de caráter e compaixão que a distinguiam. Estava sempre pronta a ajudar seu povo e a assegurar a sobrevivência "dos remanescentes de Israel". Desempenhou também relevante papel na vida econômica e política de vários países. Destemida, enfrentou reis e rainhas, não se deixando intimidar por ser mulher nem por seu "sangue judeu". La Señora viveu em uma época turbulenta e perigosa para os judeus, na Península Ibérica. Sua expulsão da Espanha, em 1492, e a conversão forçada, em Portugal, em 1497, haviam desencadeado um período de muito sofrimento. Os Mendes, assim como milhares de outros judeus, escolheram o exílio à conversão, na Espanha de 1492. Mas, quando pensavam ter encontrado refúgio em Portugal, foram brutalmente forçados a aceitar o batismo, tornandose "conversos" - anusim, em hebraico. Também chamados de cristãos novos ou, de forma pejorativa, "marranos", os recém-convertidos eram cristãos na aparência, mas judeus fiéis às Leis de Moisés no coração. Em 1535, após a repentina morte do marido, D. Gracia, além da imensa fortuna dos Mendes, herda a missão de proteger os conversos. Passa a dedicar a vida e grande parte de seu patrimônio a seu povo. Suas vicissitudes se entrelaçam com a dos "remanescentes de Israel", dos quais se torna líder e fonte de orgulho. Enquanto permaneceu na Europa, sua vida foi uma constante fuga e ela só encontra um abrigo seguro quando se estabelece no Império Otomano, onde assume abertamente a fé ancestral de seu povo. Afirmar que La Señora salvou a vida de milhares de judeus das garras da Inquisição é subestimar seu vital papel. Samuel Uísque, famoso cronista judeu, na obra Consolação às Tribulações de Israel, a chama de "coração" de seu povo. No entanto, apesar de seu povo se ter apaixonado por ela, seu nome esteve praticamente esquecido pelas grandes massas, durante séculos. Nem se tem uma imagem de D. Gracia. A única efígie que se acreditava ser dela, cunhada em uma moeda da época, não lhe pertence - trata-se de sua sobrinha, também chamada de Gracia Nasi. Apenas os acadêmicos conheciam sua vida até que, em 1948, Cecil Roth publica o livro Doña Gracia, of the House of Nasi. Em 2002, uma biografia publicada pela jornalista e escritora Andrée A. Brooks, especialista em História Sefaradita, revelou novos fatos sobre a vida da grande dama e da época em que viveu. Durante seis anos, a autora pesquisou milhares de documentos, em sete países. O resultado foi uma rica biografia intitulada The Woman who Defied Kings, a mulher que desafiou reis. Infância em Portugal

faziam parte do grupo de seiscentas famílias abastadas de judeus espanhóis que obtiveram permissão para entrar e se estabelecer em Portugal. Gracia recebeu o nome cristão de Beatrice de Luna. procurando preservar sua religião e identidade. Documentos emitidos por cortes judaicas se referem a Francisco e a Diogo como "Rabis Anusim". era um rico comerciante. Tendo filiais em Lisboa e Antuérpia. onde este último se fixara. casa-se com um dos irmãos de sua mãe. Usaria este nome só na intimidade. a "Casa dos Mendes". uma das mais poderosas da Europa renascentista. . como era costume entre os conversos. em Portugal. Brianda. La Señora tinha grande apego ao judaísmo e o fato de ser uma conversa norteou toda sua vida. E era em prol destes que os irmãos trabalhavam.A organização. almejava viver em lugar onde não precisasse manter sua condição judaica em segredo. pois tinham profundo senso de responsabilidade por seu povo. Doña Gracia dá o primeiro passo em direção ao lugar central que ocuparia na história judaica. rei de Portugal. A família Mendes nunca abandonou as Leis de Moisés. os que conduziam as orações entre os conversos. "ha-Guiveret". em 1512. que era obrigada a usar para o mundo exterior e que consta na maioria dos documentos oficiais da época. Uma verdadeira rainha. por 20 anos. A "Casa dos Mendes" Em 1528. não foram encontrados relatos diretos de seus primeiros anos. Extremamente inteligente. entre os quais o Imperador Carlos V. a vida dos recém-convertidos. Manuel prometera não devassar. seu tio materno e um dos homens mais poderosos de Portugal. Diogo. Em 1492. assim como a irmã. os Benevistes. recebeu o nome judaico de Gracia. extensão e complexidade das operações coordenadas pelos irmãos Mendes e outros conversos contradizem a noção de que os judeus da época não se organizaram para lutar contra as perseguições. no seio de proeminente família de conversos. apesar da perseguição constante. Seu pai. Gracia. Mas. da Inglaterra. Não suportando o fingimento que era imposto a seu povo. por ocasião da conversão forçada. Filipa. seus modos eram impecáveis. Gracia recebera sólida educação e provavelmente também boa formação judaica. Álvaro. juntamente com o irmão. Seu rei. e Henrique VIII. como seu povo a chamava. a família paterna de Gracia adotou o sobrenome cristão "de Luna". 44). enquanto os Benevistes optam pelo nome "Mendes". durante os terríveis acontecimentos de 1497 (ver artigo pág. ao se casar com Francisco Mendes. E assim como milhares de outros conversos. A história das duas famílias se entrelaça. até chegar às terras otomanas e voltar abertamente ao judaísmo. um sentimento que não media desafios ou perigos. Francisco constituíra um império comercial e financeiro. Elegante e sofisticada. Apesar de haver milhares de documentos sobre sua vida adulta. Concedia também vultosos empréstimos a governantes. A mãe. pertencia à outra poderosa família de conversos. Pois. tinha interesses econômicos em vários países. Convertidos à força. Durante anos lideraram os esforços para tentar impedir a instalação da Inquisição em Portugal. passaram a viver como judeus secretos. Ao ser batizada. D. em meados de 1510.Doña Gracia nasceu em Lisboa. por tempo indeterminado.

Ajudavam seus irmãos de corpo e alma. Rabi Yeoshua Soncino. pois. acompanhada da irmã Brianda. erudito do século 16. chega à Antuérpia. tenta levar Reyna para a Corte para casá-la com um cristão-velho e. faz o primeiro contato diplomático com Doña Gracia para convencê-la a viver em seus domínios. visando apoderar-se da riqueza dos conversos. Reyna. à medida que aumentava a pressão da Inquisição. A jovem viúva tornava-se. e em várias ocasiões. Aos 27 anos. responsável não apenas pelos negócios da família. Gracia passa a trabalhar com o cunhado Diogo. montaram e financiaram . decide não voltar a se casar. ela faz uma exigência: qualquer converso que se estabelecesse em Ferrara teria permissão de voltar à sua fé.a partir de 1531 até meados de 1555 . Em 1538. cientes de que esta acabaria sendo instalada. onde chegava. Francisco morre. a simples idéia de apodrecer nas prisões portuguesas ou morrer nas fogueiras inquisitoriais fazia milhares de pessoas optarem pela fuga. o duque ..rotas de fuga para os que quisessem viver em regiões mais tolerantes. deixando sua parte na incalculável fortuna dos Mendes para Doña Gracia e sua única filha. Como a Inquisição somente podia ser estabelecida através de bula papal. consegue do Rei a permissão de sair de Portugal. Deste privilégio não irá mais abrir mão e. D. no futuro. onde é recebida de braços abertos. Em 1536. Seu cunhado Diogo organiza a fuga. conhecida por seu nome hebraico. um ano após sua chegada na Antuérpia. Samuel Nasi). repentinamente. Apesar dos perigos que teriam que enfrentar. querendo apoderar-se da fortuna dos Mendes.. em Portugal. foi vista como uma oportunidade de ouro. Em 1535. usou esta arma para salvar a vida de milhares de judeus. apesar de sua juventude e solidão. pôr as mãos na herança da jovem. Ansioso em ter a riqueza e conhecimentos dos judeus ibéricos em seus domínios. torna-se uma hábil mulher de negócios e aprende sobre as rotas de fuga. com garantias de não enfrentar a Inquisição. Durante toda sua vida. altas somas eram periodicamente enviadas à Cúria romana pelos judeus convertidos.. Duque de Ferrara. ela própria era um chamariz para que outros conversos. Ercole II. Doña Gracia podia também conceder vultosos empréstimos a governantes e poderosos. que a haviam subornado. próspero centro comercial. ricos e talentosos.. passa a tomar suas próprias decisões. Seria a primeira de muitas. assim. o Vaticano autoriza a instalação da Inquisição. Mas. assim.Na Antuérpia. que integrava os domínios do Imperador Carlos V. Não era segredo. Alegando ter negócios na Antuérpia. em Portugal. Joseph e D. mas também pelo prosseguimento das atividades clandestinas do marido. Dona de seu destino. Antes de considerar a proposta. A primeira fuga: de Lisboa para Antuérpia Dois acontecimentos fazem-na ver que chegara a hora de deixar Lisboa.afundado em dívidas. da filha Reyna e de Juan e Bernardo Micas (nomes cristãos de D. entendendo ser maior a mitzvá de favorecer os demais do que a de salvar a própria vida". Some-se a isso o fato de o Rei português. além de todos os negócios que levava consigo. Em pouco tempo. cada vez mais essenciais. Anna. Gracia não perde tempo. pedira ao Vaticano sua instalação. a seguissem. fez a seguinte afirmação sobre os Mendes: ".

deixa a cidade com a filha. arquiteta casar a jovem Reyna com um nobre cristão. após a morte de Diogo. A própria Doña Gracia só iria para Ferrara dez anos mais tarde.isto é. no final de 1545. mas ele acaba falecendo. em 1548. Na Antuérpia. O destino. a irmã. em 1543. na Europa cristã. Em 1544. Brianda estava decidida a ter acesso à herança do marido e não queria viver com a irmã no Império Otomano. Logo a seguir. O que importava era o inestimável valor comercial e financeiro que a presença de Doña Gracia trazia à cidade. Mas. como os Mendes mantinham a aparência de cristãos. Diogo a nomeia. os conversos seguissem as Leis de Moisés. Doña Gracia e sua comitiva chegam a Veneza.concorda. Na época. em momento algum lhes foi sugerido viver no gueto ou usar roupas especiais. em testamento. Apesar da relativa tolerância dos venezianos. de sua força de caráter e comprometimento com a causa dos conversos. Em 1548. desde 1516 os judeus eram obrigados a viver dentro do gueto. Habilmente consegue impedir o confisco dos bens do cunhado pelo Imperador Carlos V e pela rainha Marie. A vida na Itália Após uma viagem longa e difícil pelas estradas da Europa. indignada afirma que não haveria casamento algum. endividado. Para ela. viviam na cidade cerca de 1. até a morte de Ercole II. Apesar de saber que sua recusa teria graves conseqüências. Doña Gracia inicia os planos para sua ida para o Império Otomano. Quando Doña Gracia é convocada pela rainha para tratar da boda. De fato. Aos 33 anos. naquela época. Mas. filha sua não se casaria fora de sua fé. Gracia Mendes assume o comando de uma das maiores fortunas da Europa renascentista. torna-se mais intensa a perseguição aos conversos e La Señora consegue convencer Diogo a deixar a cidade. o único refúgio seguro. não partiu sem antes conseguir a libertação de todos os conversos presos e reaver a alta soma que fora obrigada a emprestar à Coroa. tutora da filha e responsável pela administração de seu patrimônio. no ano seguinte. Preferia "morta e afogada a filha do que casada com um cristão". contanto que se mantivessem as aparências. Conhecedor das habilidades da cunhada. recrudesce a perseguição aos conversos e Doña Gracia decide deixar para sempre a Antuérpia. este fato iria provocar graves desavenças entre ela e a irmã Brianda. Mas. na intimidade. Por seu lado. Tinha melhor uso para o dinheiro do que deixá-lo nas mãos de governantes cristãos. a rivalidade entre as irmãs Gracia e Brianda torna-se briga declarada. No futuro.300 judeus. Ferrara torna-se. Don José e Don Samuel e seus auxiliares todos conversos. quando uma relutante Veneza cede às pressões papais e a Inquisição se instala na cidade. a sobrinha. assim. Veneza. . pouco importava aos líderes da Sereníssima que. o imperador não pretendia desistir da fortuna dos Mendes e. talvez tenha sido a primeira vez em que teve contato com judeus que seguiam abertamente sua fé. onde os conversos podiam voltar à sua fé sem temer represálias . Entretanto. esposa de Diogo.

Sua proteção se tornaria um fator determinante para a futura segurança da família Mendes. Deixa-as para trás. o ódio em relação aos judeus e conversos. não conseguira cumprir os desejos de Diogo. sem dúvida. no outono de 1552. com esta. os conhecimentos necessários para enriquecer a alma. Só consegue seguir viagem com sua filha Reyna. No entanto. até então relativamente tolerante. que pretendia estabelecer-se no Império Otomano. conhecendo os hábitos perdulários da irmã e sua falta de comprometimento com a missão da família. Revela-lhes que ela era judaizante .editar livros. toma a terrível decisão de denunciar a irmã ao Senado veneziano. para Ferrara. preservar o judaísmo para uma geração que perdera contato com sua história. publicada em1552. a ser usado para ajudar o seu povo. Não consegue levar consigo a irmã Brianda nem a sobrinha. às futuras gerações. e. como se não bastasse. informa ao sultão Suleiman. tornara-se credora da gratidão de todos os judeus portugueses". e. Ademais.Gracia considerava a fortuna dos Mendes um legado sagrado. nos séculos 16 e 17. Queria. não a quer próxima à fortuna. Volta por um breve período a Veneza. levando consigo toda a sua fortuna. onde retrata os trágicos acontecimentos que se abateram sobre os judeus da Península Ibérica e a dedica "àquela que. por sua benevolência. sua intenção de viver no Império Otomano. a Inquisição se alastra com mais força por toda a Europa. Brianda. Ao mesmo tempo. Além de ter que abandonar tudo o que conhecia para viver em terras estranhas e enfrentar uma viagem perigosa. Mesmo a Itália. apenas a caminho do Império Otomano. o Senado a obrigara a entregar à Brianda parte da .o papa Julio III ordenara que todos os livros em hebraico fossem queimados e estava sendo atendido mesmo em Veneza e Ferrara. Uma é a famosa Bíblia Hebraica. Gracia. foi lá que D. por todos aqueles que não sabiam ler hebraico. Mas. a obra vai ser utilizada. Quatro importantes obras publicadas na cidade levam dedicatórias pessoais à sua pessoa. Ao sultão agradava a idéia de ter uma banqueira com tamanha fama internacional em seus domínios. o Magnífico (1520-1566). Mais uma vez Doña Gracia demonstra estar sempre um passo à frente de seus inimigos. Devem ter sido momentos difíceis para La Señora. em meio a grandes perigos. que enviara um representante pessoal à Sereníssima com a ordem de acompanhar a comitiva até terras turcas. Brooks desmentem a versão. os documentos pesquisados por Andrée A. Em Roma. Historiadores têm levantado a hipótese de ter sido em Ferrara que Doña Gracia voltou abertamente ao judaísmo. tornara-se perigosa. Estava determinada a transmitir. cultura e tradições. La Chica. Em 1553. em 1548. A partir de 1552. conhecida como Bíblia de Ferrara. com isso. Traduzida para o ladino. Não espera para ser convocada perante o Senado e foge.acusação gravíssima à época e. Samuel Uísque publica Consolação às Atribulações de Israel. Doña Gracia sabia que chegara a hora de deixar o continente europeu. Gracia se torna uma grande mecenas. para sempre. então. graças à intervenção pessoal do sultão Suleiman. realizando sua antiga paixão .

Do momento em que apeou de sua carruagem. adotando o de José Nasi. Curiosamente não adota o sobrenome Benevistes. atraídos pela tolerância turca. a entrada de Doña Gracia em Istambul. Suleiman atendera uma série de exigências que Gracia impusera. posição jamais ocupada por uma mulher .fortuna da família . em Istambul. tinha uma missão muito mais nobre. cujo significado é o de líder secular e político. de líder absoluto. em 1553. foi assumir abertamente o judaísmo. O sultão Suleiman.muito menos. No início de 1554. Fontes judaicas da época se referem a Doña Gracia. entre as quais a permissão de se vestir como desejasse. seu braço direito. Seus negócios prosperaram na Turquia e Gracia se torna líder da comunidade empresarial local. chega a Istambul D. em seu entender. haviam encontrado refúgio no Império Otomano. Em pouco tempo. chamados de levantinos. o Magnífico.Além disso. devido ao profundo conhecimento dos assuntos ligados à Europa pelas informações que recebia de seus agentes. uma conversa. Fundou . Na época.aquele legado que. Muitos fizeram de Istambul seu lar. No ano seguinte. Um dos primeiros atos da Señora. somavam aproximadamente 15 mil. em 1553. Istambul já era um importante centro judaico..quarenta cavalos e quatro carruagens cheias de criados e damas espanholas". viviam na cidade apenas mil judeus. mas sim Nasi. bairro perto do Bósforo. Abandona o nome de Beatrice e passa a usar Gracia. pois tinha consciência dos benefícios econômicos e financeiros em que o fato implicava. Esta extraordinária concessão foi estendida a todos os integrantes de sua comitiva. ele desposa Reyna. o status de rainha. além de sustentar. este povo era uma talentosa minoria. um dos grandes perigos enfrentados por todos os que cruzavam os mares. nesse período. e não como a lei muçulmana obrigava os outros judeus a se vestir. habitado por judeus e europeus. exultava com sua vinda. Antes de 1492. José. Sua benevolência e amor pelo judaísmo pareciam não ter limites. como haGuiveret. É circuncidado e abandona o nome de Juan Micas. ocupa entre os judeus do Império Otomano. sempre acudindo aqueles em perigo ou necessidade. D. seu nome judaico. Um dos maiores sonhos de Doña Gracia se realizava . foi majestosa: ". torna-se influente na corte turca. Doña Gracia Nasi no Império Otomano Segundo um cronista da época.. assumindo papel cada vez mais importante nos assuntos internos turcos e na vida dos judeus. que também retorna abertamente ao judaísmo. José torna-se amigo e conselheiro do sultão.casara a filha segundo as Leis de Moisés. milhares de refugiados ibéricos. Em seu suntuoso palácio alimentava diariamente cerca de 80 judeus carentes. Para os turcos. um lar para os pobres e doentes. Significativas eram as somas que doava para pagar o resgate de judeus capturados pelos piratas. Doña Gracia se instala em uma suntuosa mansão no Gálata.

enfrenta Paulo IV . em 1555. para libertar os conversos. acusandoos de serem judaizantes e apóstatas.ser enterrado em Jerusalém. Não querendo ver a sobrinha. de volta para Ferrara para com ela se casar. Caraffa odiava os judeus e via todo converso como um apóstata. os motivos financeiros atrás desta manobra eram fortes. é elevado ao Papado. Em 1556. Tragédia em Ancona Apesar de viver longe. seu sobrinho. Atendendo o pedido. D. pois esta permitiria que o papa e Carlos Caraffa. estimulou a educação judaica e subsidiou a publicação de livros. José. recusa o pedido de clemência. além de fundar sinagogas e ieshivot nas cidades mais importantes do Império. Gracia pede pessoalmente ao sultão Suleiman para intervir.escolas em todo o Império Otomano. chamada "La Sinyora". a Inquisição prende 90 prósperos mercadores conversos. é abalada pela notícia da morte de Brianda. surpreendentemente. Nenhum apelo feito por cidadãos de Ancona ao papa. em Ferrara. Em 1556. 65 prisioneiros conseguem fugir. Só no final de 1559 o casal se muda para Istambul. Determinada a enfrentar o Papa Caraffa. foi aceito.em Ancona. colocassem as mãos nas riquezas dos conversos. tenha sido cunhada por ocasião do casamento. o cardeal Caraffa. ela manda D. Samuel. os presos foram cruelmente torturados. em uma atitude sem precedentes. De todas as sinagogas que fundou. enterrando-os no Monte das Oliveiras. Gracia. Tornou-se patrona da vida religiosa de Istambul. importante porto italiano. responsável por transformar a moderada Inquisição italiana em um instrumento de terror. Um dos mais atuantes e determinados líderes do movimento é justamente Gracia. apesar de não ser a idealizadora do boicote . apesar de sua estrutura ter sido reconstruída. Quando. fogem da cidade. Segundo um observador da época. Segundo Andrée A. Traz da Europa os restos mortais do marido e dos pais. Se não houvesse "arrependimento". Desta vez. Brooks. porém. 24 conversos são queimados e um se suicida. Como resultado das prisões. ignorando todos os privilégios outorgados pelos papas anteriores. La Chica. judeus e conversos da Europa sabiam que grande sofrimento os aguardava. Antes que algo pudesse ser feito. com medo da Inquisição. Em 1554 cumpre o pedido que Francisco lhe fizera em seu leito de morte . Além dos problemas econômicos criados pelo confisco dos bens dos presos. Historiadores acreditam que a famosa medalha com o retrato de Gracia. o caos financeiro se apodera de Ancona. mas nenhum esforço consegue salvar os 25 restantes. ha-Guiveret jamais esqueceu os conversos que ainda estavam na Europa. Nesse ínterim. irmão mais velho de D. em Ancona. só a de Ismir. Um de seus primeiros atos foi a criação do gueto compulsório. os judeus estavam prontos para revidar e decidem boicotar o porto de Ancona. a pena para tal acusação era a fogueira. funciona até hoje de forma ininterrupta. Em junho de 1557. La Chica.como vários . o sultão intercede junto ao Papa que. casada com um cristão. outros conversos. indo para Pesaro.um dos papas mais antisemitas da história . Dois anos mais tarde.

posto político que implicava em uma infinidade de direitos legais.documentos mostram que ela foi um de seus grandes vetores. devido à violência. Assim. Foi imediatamente atendida. apesar do local estar. Em 1560.historiadores chegaram a acreditar . pois na época já estava muito doente. a idéia se tornara plausível. Durante séculos os historiadores acreditavam que a alma do projeto havia sido D. uma mulher rara. E. A Señora escolhe Tiberíades para seu projeto. sob a responsabilidade e a autoridade de Doña Gracia. Gracia apresenta ao sultão Suleiman um pedido formal para o arrendamento do local. José. Alguns historiadores acreditam que não. com idéias anos-luz à frente de seu tempo. a cidade entrou em um rápido processo de decadência. Há somente elogios fúnebres por rabinos e poetas por ocasião de seu falecimento. Não há muitas informações sobre a morte de Doña Gracia ou sobre o local onde foi enterrada. Concordando em pagar pelo arrendamento mil ducados de ouro ao ano. Não poupou esforços para convencer outros judeus da necessidade de aderir e respeitar o boicote. mas documentos recém descobertos revelam que ela o encabeçara.criar um "Estado Judaico". The Woman who Defied Kings: The Life and Times of Doña Gracia Nasi . Sob seu auspícios a cidade voltou a florescer. é nomeada "cobradora de impostos" . Segundo Uísque. "deserto e em ruínas". segundo o relato de visitantes. alertando-os sobre as conseqüências de um possível fracasso.Não se sabe se ela chegou a viver em Tiberíades. Ela reabriu e sustentou uma antiga sinagoga perto do lago e uma ieshivá. onde os judeus poderiam estabelecer-se e viver em segurança. Tiberíades tinha o potencial de se tornar uma província judaica semi-autônoma. Seu senso de responsabilidade ia além de sua própria salvação. Vivência em Tiberíades No final de sua vida. Com sua morte. como relatara em 1547 um viajante judeu. o boicote não foi bemsucedido. "o deserto dera lugar a um verdadeiro Jardim do Éden". já que os judeus não apresentaram uma frente unida. Doña Gracia era. Suleiman via o projeto com bons olhos. Provavelmente. ela "era a mão estendida que resgata os cansados e alimenta os famintos. os judeus mais proeminentes foram deixando a cidade. Doña Gracia tenta realizar um sonho acalentado há mais de uma década . "arriscando sua própria vida para salvar a de seus irmãos". Como a Terra Santa era então parte do Império Otomano. Apesar da oposição das autoridades turcas locais. de fato. Bibliografia Brooks. um local seguro que servisse de refúgio para todos os judeus. por um núcleo judaico. Andrée. Infelizmente. que foi reconstruída somente em 1740. a fonte de coragem e de estímulo para os pobres e enfraquecidos".