Construção identitaria do malandro e do trabalhador em “A morte e a morte de Quincas Berro D’Agua” de Jorge Amado e nas músicas de Chico Buarque

. Mariana Goldman Jorge Amado escreve o romance A morte e a morte de Quincas Berro D’Agua em 1961. Nesse romance, Jorge Amado conta a história de Joaquim Soares da Cunha e de sua dupla, o talvez tripla, morte. Joaquim Soares da Cunha era um funcionário exemplar, pai, esposo e cidadão de bem. Depois de 25 anos na Mesa de Rendas, quando Joaquim se jubilar, decide largar tudo e mudar sua vida. Para desgosto da família, ele vai a zona de meretrício de Salvador para se juntar à malandragem da cidade e torna-se Quincas, o “cachaceiro-mor”, o “rei dos vagabundos da Bahia”. Para a família essa é a primeira morte de Joaquim: a morte moral, a morte do verdadeiro Joaquim que morreu quando caiu na vida dissoluta da capital baiana. A segunda morte é sua morte natural no leito pobre de um cortiço da ladeira do Tabuão... o seria sua verdadeira morte aquela que ele escolheu, quando fora embarcado para o outro mundo algumas horas depois, no mar da Bahia, onde sempre desejara ser sepultado? No romance nos podemos ver duas representações do homem brasileiro opostas e complementárias: o trabalhador e o malandro. Vamos analisar estas representações no romance o nas músicas doutro artista que retrata a cultura popular: Chico Buarque. A construção da identidade nacional foi objeto de uma obra fundamental das ciências sociais no Brasil: Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, o pai de Chico. Nessa obra, o autor aborda aspectos centrais da história da cultura brasileira. O livro consiste em uma macro-interpretação do processo de formação dessa sociedade e uma reflexão sobre sua plasticidade identitária. No capítulo dois, Sergio Buarque analisa dois tipos de homens que fundaram a identidade brasileira: o aventureiro e o trabalhador.
O português vinha para a colônia buscar riqueza sem muito trabalho, além disso, eles preferiam a vida aventureira ao trabalho agrícola. Nesse contexto, a mão-de-obra escrava apareceu como elemento fundamental em nossa economia. O Brasil não conhece outro tipo de trabalho que não seja o escravo. O trabalho mecânico era desprezado no Brasil. A moral da senzala era a preguiça. (Sergio Buarque, Raízes de Brasil) Video: Raízes de Brasil. 8.19 a 10.05

Sergio Buarque define o trabalhador como
“...aquele que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar. O esforço lento, pouco compensador e persistente, que, no entanto, mede todas as possibilidades de esperdício e sabe tirar o máximo proveito do insignificante, tem sentido bem nítido para ele. Seu campo visual é naturalmente restrito. A parte maior do que o todo” (1984, p.13).

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Na música Pedro Pedreiro o protagonista também espera que sua realidade mude. Um cidadão respeitável : “Joaquim Soares da Cunha. 2 . aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços. trabalhadores. Vanda era mocinha. Gente distinta. Ao analisar a letra de Cotidiano.. correto funcionário da Mesa de Rendas Estadual.Nesta categoria de trabalhador podemos ver Joaquim Soares de Cunha que trabalha todos dias na Mesa de Rendas. vagabundos. ele resiste à idéia. de cachaça caseira e comedida. irmãos. apertava as mãos. Assim. como existe uma ética da aventura.” (A morte. genro. em que o marido trabalhador é o narrador que descreve a sua rotina. "Todo dia eu só penso em poder parar/ meio-dia eu só penso em dizer não/ depois penso na vida pra levar/ e me calo com a boca de feijão". Entretanto. Chico. Capítulo 2) “O santeiro informava em voz baixa: – É a filha. carece de esperar também/ para o bem de quem tem bem/ de quem não tem vintém" Por quê o trabalhador não abandona em geral sua vida onde ele é visto como um indivíduo e uma peça na engrenagem econômica do lucro e do capital? Para Sérgio Buarque de Holanda (1984) o que mantém ao trabalhador numa vida de sacrifício e sua ética. Tinha filha. pícaros. jamais visto num botequim. esposo modelar.” (A morte. começava a namorar. A casa cheia de gente. exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual. por exemplo. ouvido com respeito pelos vizinhos. explora também os processos de formação da sociedade brasileira com os distintos estereótipos que aparecem em suas músicas: malandros. de boa família. Nesse dia quem estourava de contentamento era Otacília. Casa de primeira. recebia a caneta sem demonstrar entusiasmo.” O filho do Sergio Buarque. cerveja e uma caneta-tinteiro oferecida ao funcionário. "macunaímas". A filha “Recordava também a homenagem que amigos e colegas lhe prestaram. Como se aquilo o enfastiasse e não lhe sobrasse coragem para dizê-lo. de passo medido. O genro é funcionário. Joaquim ouvia os discursos. mais ele não faz outra cosa que esperar: Ele está "esperando o trem/ manhã. parece. ao mesmo tempo em que pontua seu dia-a-dia com a presença de sua mulher. Parece um homem diferente daquele que será o patriarca do baixo meretrício. Vanda recorda seu pai no capítulo seis como alguém que “raramente sorria”. Existe uma ética do trabalho. pasta sob o braço. com discursos. opinando sobre o tempo e a política. paletó negro de alpaca. positivo às ações as que sente ânimo de praticar e.. mora em Itapagipe. no meio do grupo formado na sala. Capítulo 3) Mais Joaquim Soares da Cunha. barba escanhoada. ao ser Joaquim promovido na Mesa de Rendas. a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão não desejava seguir nessa vida. o indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor moral. Numa de suas músicas reflexiona sobre um personagem parecido ao Joaquim que ouvia os discursos: o protagonista da música Cotidiano também não tem coragem para abandonar uma vida dura e desgastante. pode-se notar seu desejo de abandonar esta "vida dura de trabalho". Parecia ela a homenageada. operários. repetitiva e desgastante.

característica desse tipo (op.” O rompimento ocorre quando sua filha. abandonar a família. cit. uma reprodução fiel do estilo de vida de Joaquim. naquele dia absurdo. o operário não vê outra saída para sua vida de trabalho repetitivo. capítulo 6) Para Vanda e Otacília. sua integração à comunidade. p. dormir em um catre miserável?” A resposta pode ser o que o narrador diz nesse mesmo capítulo: “A verdade é que Joaquim só começara a contar em suas vidas quando. com a maior tranqüilidade desse mundo.” (A morte. freqüentar o meretrício. Os contatos estabelecidos. imprevidência. a casa. pois o indivíduo tende a defender sua existência e sua visibilidade social. anuncia o casamento com Leonardo Barreto. para vagabundear pelas ruas. bem como as trocas provenientes desse contato serão exatamente a base para a edificação das identidades dos indivíduos. ao mesmo tempo em que ele se valoriza e busca sua própria coerência” (Lipianski in Ruano-Borbalan. beber nos botequins baratos. desgastante. os conhecidos antigos. fitou a ela e a Otacília e soltou-lhes na cara. em seu ensaio Construção identitária e discurso literário em A morte e a morte de Quincas Berro D’Agua: “Construir a própria identidade é um permanente desafio no sentido de encontrar o equilíbrio entre aquilo que se é e o que os outros esperam que se seja.inversamente. Apresentado o rapaz.13) Numa outra música de Chico Buarque. os hábitos de toda uma vida. terá por imorais e detestáveis as qualidades próprias do aventureiro . p.vagabundagem -tudo. foi-se embora e não voltou. Joaquim só adquire visibilidade quando começa a exercer sua vontade: “. irresponsabilidade. que a morte: Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho seu como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Mais o protagonista do romance de Jorge Amado junta coragem e um dia abandona sua casa e muda sua vida para construir a identidade que ele quer para si mesmo.. Joaquim qualifica-o como um “coitado”. alienante. morar em infame pocilga. depois de ter tachado Leonardo de bestalhão. aos cinqüenta anos. viver sujo e barbado. instabilidade. Vanda pergunta a seu mesma por quê seu pai havia mudado sua vida assim a sua idade: “Como pode um homem. Vanda.1998.audácia. 3 . enfim. como se estivesse a realizar o menor e mais banal dos atos. inesperadamente: – Jararacas! E.. Como diz Medeiros de Oliveras et al. fato este que comprova a importância da alteridade na construção do sujeito. quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo.144).. Construção.

Continuara aquele sorriso de Quincas Berro Dágua e. Ria com os lábios e com os olhos. o instaurador do "jeitinho" brasileiro. assim como é possível associá-lo ao submundo dos jogos e cabarés. esquecera de recomendar-lhes.” (Travancas. alargando. esquecida num canto pelos homens da funerária. Temos diversas definições do termo “malandro”: “A primeira associa o malandro à ociosidade. diante desse sorriso de mofa e gozo. de que adiantavam sapatos novos – novos em folha. pelo menos aos olhos de uma sociedade moralista. barba feita. que aos poucos ressoava na pocilga imunda. De Pedro Pedreiro ao Barão da Raléo trabalhador e o malandro na música de Chico Buarque de Holanda. cabelo engomado. mas encontra sua felicidade em meio à gente da classe baixa. op. à falta de trabalho levando-o à vagabundagem e à criminalidade. ligado ao futebol e ao samba. camisa alva.estiveram muito associados a este modelo de malandragem.. O sorriso não havia mudado. O sorriso de Quincas Berro Dágua. sem laços afetivos ou sem espaço físico e social. de pedir uma fisionomia mais a caráter. pela segunda vez.” (Travancas.e os sambistas. Assim com Quincas. com sua vida boêmia e desregrada. Como em A morte. sem controle. Em Malandro quando morre Chico diz que "malandro quando morre/ vira samba". Sorriso cínico. transforma-se no Quincas Berro D’água.. Vindo da classe alta e identificando-se com o baixo estrato. Decai socialmente.Ao sair de casa. mãos postas em oração? Porque Quincas ria daquilo tudo. olhos a fitarem o monte de roupa suja e remendada. capoeiristas.cit. Enquanto. prostitutas. acaba-se tornando o “pai da gente”. como marinheiros.) Moça chorando/ que o verdadeiro amor sempre é o que morre". um riso que se ia ampliando. “É possível visualizar o andar do malandro de Chico Buarque.) Quincas é um malandro boêmio: não é um criminal mais ele tem características do malandro que está mas perto da lógica do prazer e da busca da felicidade. em particular. É o malandro visto como marginal. Gostaria de lembrar ainda como os próprios músicos.) Em Malandro quando morre Chico Buarque descreve a cena de sua morte com o pai e sua namorada. por obrigação e só para guardar as formas sociais. resquícios de uma sociedade escravista. contra ele nada tinham obtido os especialistas da funerária. que tem uma ojeriza ao trabalho “e uma intensa recusa a ser “engolido” pelo sistema que lhe oferece uma vida sacrificada e miserável. Transforma-se em um malandro. mais de acordo com a solenidade da morte. E ao afirmar que "o malandro é o barão da ralé" ele 4 . meia-sola nos seus –.. enquanto o pobre Leonardo tinha de mandar botar. cuja morte é uma festa. imoral..cit. Mas o malandro de Buarque é chorado pela família "Velho chorando/ malandro do morro era seu filho/(. Também ela. em A morte a filha choraria “si houvesse mais pessoas no velório”. A outra imagem relaciona o malandro ao indivíduo bem humorado. Vanda. de quem se divertia. O que morreu é Joaquim Viu o sorriso. ameaçador da ordem social e perigoso para a esfera pública que preza o trabalho como valor estruturante.op. este malandro não é anônimo. de que adiantavam roupa negra.

O compositor dá voz ao protagonista que diz: Deus me deu mão de veludo Prá fazer carícia Deus me deu muita saudade E muita preguiça Deus me deu perna cumprida E muita malícia Prá correr atrás de bola E fugir da polícia Um dia ainda sou notícia A última música que vamos analisar em relação com o romance de Jorge Amado é Vai trabalhar vagabundo. sobretudo a ela própria e a Otacília. (Travancas. onde por vezes sua sórdida fotografia era estampada. o personagem Leonardo de Memórias de um sargento de milícias e de outro para Macunaíma. op. ridicularizando-a ao exagero. tipo de rua citado em crônicas de literatos ávidos de fácil pitoresco. Capítulo 6) Em 1972 Chico Buarque compôs Partido alto. O que sentem culpa e humilhação são os parentes que não podem entender a ética do malandro: “(Vanda) Sentia-se vingada de tudo quanto Quincas fizera a família sofrer. Prepara o teu documento Carimba o teu coração Não perde nem um momento Perde a razão Pode esquecer a mulata 5 . Quincas Berro Dágua. Esta letra pode apontar para as duas referências mencionadas. o filósofo esfarrapado da rampa do Mercado. salpicando-a com a lama daquela inconfessável celebridade. cit. Ralé significando a camada mais baixa da sociedade. Aquela humilhação de anos e anos.reúne aristocracia e marginalidade em um mesmo tipo social. Rei dos vagabundos da Bahia. Quincas acaba-se tornando o “pai da gente”. dez anos envergonhando a família. música bastante irreverente. a não ser a repressão exterior". O cachaceiro-mor de Salvador. No romance de Jorge Amado surgem alguns elementos destacados por Antonio Candido na Dialética de Malandragem e no romance de Manuel Antonio de Almeida. Meu Deus!. a escória”. escreviam sobre ele nas colunas policiais das gazetas. o senador das gafieiras. Quincas é um verdadeiro barão de ralé. eis como o tratavam nos jornais. como a subversão da ordem e a ausência de culpa que "criam um universo que parece liberto do peso do erro e do pecado. Um universo sem culpabilidade e mesmo sem repressão. De um lado. Memória de um sargento de milícias.) Vindo da classe alta e identificando-se com o baixo estrato. que utiliza uma linguagem extremamente coloquial. o vagabundo por excelência. Dez anos levara Joaquim essa vida absurda. na qual alguns termos foram censurados e onde ironiza a identidade nacional. quanto pode uma filha sofrer no mundo quando o destino lhe reserva a cruz de um pai sem consciência de seus deveres” (A morte.

este o despreza. Ao contrário do que acontece com as que tratam do malandro que possuem um ritmo mais rápido. As letras que têm o trabalhador como tema são mais tristes. Não há apenas o malandro e o trabalhador. Como destacou Ianni (2001) são muitos os tipos enraizados na formação sociocultural e político-econômica do Brasil. 6 . angustiadas e até agressivas. tudo o que irá sufocá-lo. mais do que se transformarem em mitos. ora como indesejáveis .” O personagem de Quincas Berro D’Agua também é uma metáfora da dialética do trabalhador e do malandro que ajuda a imaginar a sociedade baiana e a sociedade brasileira das cidades dos anos trinta é esse e um dos grandes méritos do autor Jorge Amado.” Isabel Travancas acha que “ a música de Chico Buarque expressa o jogo dialético presente na própria sociedade brasileira que oscila entre esses dois modelos .mas que não são excludentes. mas "macunaíma" e o próprio "homem cordial" de Sergio Buarque de Holanda. uma melodia mais alegre.que ora aparecem como idéias. Assim como o trabalhador repudia o malandro. enfatizando a monotonia e repetição em seu ritmo. “Vale ressaltar que as letras e também as melodias acompanham as características dos tipos sociais. eles devem ser vistos como metáforas que ajudam a compreender a sociedade brasileira em suas múltiplas perspectivas. de enfrentar a fila da previdência. assim como o trabalho e a rotina familiar sufocou a Joaquim Soares da Cunha ao ponto de deixar todas suas propriedades e as “comodidades” da classe media.Pode esquecer o bilhar Pode apertar a gravata Vai te enforcar Vai te entregar Vai te estragar Vai trabalhar Seu título é uma ordem imperativa como se mandasse o indivíduo sair dessa vida vadia e ociosa e buscasse trabalho. de economizar. Entretanto. onde a ironia tem destaque. Ridiculariza o trabalho e a rotina do trabalhador que tem necessidade de documentos. ao mesmo tempo em que no desenrolar da narrativa ironiza com esta opção. valorizando a esperteza e astúcia para garantir sua sobrevivência.

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