A Luz Que Não Se Apaga

Entrevistas - realizadas, na Índia, Califórnia e Europa

Publicado por

e-mail:zoat@directnet.com.br homesite:http://zoat.us

J. KRISHNAMURTI

A LUZ QUE NÃO SE APAGA

Tradução de HUGO VELOSO

INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI Rua dos Andradas, 29 Sala 1007 Rio de Janeiro - RJ Tel. (021) 2232-2646 Titulo do original: THE URGENCY OF CHANGE Publicado por Victor Gollancz Ltd., Londres Copyright © Krishnamurti Foundation, 1970

1973 - 2004
Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI Rua dos Andradas, 29 Sala 1007 Rio de Janeiro - RJ que se reserva a propriedade desta tradução. Impresso no Brasil - Printed in Brazil

Organizado por MARY LUTYENS

ÍNDICE

A LUZ QUE NÃO SE APAGA
1. PERCEBIMENTO 2. EXISTE DEUS? 3. O MEDO 4. COMO VIVER NESTE MUNDO 5. RELAÇÕES 6. CONFLITO 7. A VIDA RELIGIOSA 8. VER O TODO 9. MORALIDADE 10. SUICÍDIO 11. DISCIPLINA 12. O QUE É 13. O BUSCAR 14. ORGANIZAÇÃO 15. AMOR E SEXO 16. PERCEPÇÃO 17. SOFRIMENTO 18. O CORAÇÃO E A MENTE 19. A BELEZA E O ARTISTA 20. DEPENDÊNCIA

21. A CRENÇA 22. SONHOS 23. TRADIÇÃO 24. CONDICIONAMENTO 25. FELICIDADE 26. APRENDER 27. EXPRESSÃO 28. PAIXÃO 29. ORDEM 30. O INDIVIDUO E A COLETIVIDADE 31. MEDITAÇÃO E ENERGIA 32. CESSAÇÃO DO PENSAMENTO 33. O NOVO ENTE HUMANO

INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI

A LUZ QUE NÃO SE APAGA
1. PERCEBIMENTO

Interrogante:Eu desejava saber o que entendeis por percebimento, porquanto dizeis com freqüência que percebimento é, em verdade, o que estais ensinando. Tenho tentado compreendê-lo, ouvindo vossas palestras e lendo vossos livros, mas parece que não posso ir muito longe. Sei que não é um exercício e compreendo a razão por que tão decididamente repudiais toda espécie de exercício, adestramento, sistema, disciplina ou rotina. Percebo a importância disso, pois, de contrário, o percebimento se torna uma coisa mecânica e o resultado final é a mente tomar-se embotada, entorpecida. Se é possível, eu gostaria de investigar esta questão até o fim, junto convosco. Que é "percebimento"? Aparentemente, atribuís a essa palavra um significado especial, profundo, e, no entanto, a mim se me afigura estarmos sempre cônscios do que se passa. Sei quando me irrito; bem sei quando me entristeço; e sei também quando sou feliz.

Krishnamurti: Estamos realmente cônscios da cólera, da tristeza, da felicidade? Ou delas só nos tornamos cônscios depois de passadas? Comecemos como se nada soubéssemos do assunto - da estaca zero. Não façamos asserções de espécie alguma, dogmáticas ou sutis, mas tratemos de explorar esta questão, pois, se realmente a penetrarmos, esse exame poderá revelar-nos um estado extraordinário que a mente provavelmente jamais atingiu, uma dimensão ainda não alcançada pelo percebimento superficial. Partamos, pois, desse percebimento superficial e daí penetremos até o fim.

Nós vemos com os olhos, percebemos com os sentidos as coisas que nos cercam - a cor da flor, o colibri que sobre ela adeja, a luz deste Sol californiano, os sons inúmeros e de diferentes qualidades e graus de sutileza, as alturas e as profundezas, a sombra da árvore e a própria árvore. De modo idêntico percebemos o nosso corpo - o instrumento dessas diferentes espécies de percepção superficial, sensória. Se tais percepções permanecessem no nível superficial, não haveria confusão nenhuma. Aquela flor, aquele amor-perfeito, aquela rosa, estão ali, diante de nós, pura e simplesmente. Não há preferência, comparação, gostar e não gostar: só aquela coisa à nossa frente, sem nenhuma complicação psicológica. É perfeitamente clara essa percepção sensória, superficial? Ela pode estender-se às estrelas, às profundezas dos oceanos, e ao extremo limite da observação científica, com o auxílio dos instrumentos da moderna tecnologia.

Interrogante:Sim, creio que estou compreendendo.

Krishnamurti: Vedes, pois, que a rosa, e o universo e seus habitantes, e vossa própria esposa, se a tendes, e as estrelas, os mares, as montanhas, os micróbios, os átomos, os nêutrons, esta sala, aquela porta, existem realmente. Agora, o segundo passo: o que pensais ou sentis a respeito dessas coisas é vossa reação psicológica a elas. A essa reação chamamos "pensamento" ou "emoção". Conseqüentemente, o percebimento superficial é uma coisa muito simples: ali está aquela porta. Mas a descrição da porta não é a porta, e quando emocionalmente vos deixais enredar na descrição, não vedes a porta. Essa descrição pode ser uma palavra, ou um tratado científico, ou uma forte reação emocional; nada disso constitui a própria porta. É muito importante compreender isso desde o começo. Se não o compreendermos, tornar-nos-emos cada vez mais confusos. A descrição.nunca é a coisa descrita. Embora neste momento estejamos fazendo uma descrição - não podemos evitá-lo - a coisa que estamos descrevendo não é a descrição que dela estamos fazendo. Peço-vos, pois, ter isto em mente, em toda a duração desta palestra. A palavra nunca é o real, mas facilmente nos deixamos arrebatar ao alcançarmos o segundo grau do percebimento, aquele em que o percebimento se torna pessoal e, por influência da palavra, nos tornamos emocionais.

Temos, pois, o percebimento superficial da árvore, do pássaro, da porta, e temos a reação a esse percebimento, ou seja o pensamento, o sentimento, a emoção. Pois bem; ao nos tornarmos cônscios dessa reação, podemos chamá-la um segundo grau de profundidade do percebimento. Há o percebimento da rosa, e o percebimento da reação à rosa. Muitas vezes, não temos percebimento dessa reação à rosa. Na realidade é o mesmo percebimento que vê a rosa e vê a reação. Trata-se de um só movimento, e é errôneo falar de percebimento externo e percebimento interno. Quando há a percepção visual da árvore, sem nenhuma complicação psicológica, não há divisão nessa relação. Mas, quando há uma reação psicológica à árvore, esta é uma reação condicionada, a reação das lembranças e experiências passadas, sendo essa reação uma divisão na relação. É ela a origem disso que chamamos "eu", em relação com o "não eu". É dessa maneira que vos pondes em relação com o mundo. É assim que se cria o indivíduo e a coletividade. O mundo é percebido, não como é em si, porém em suas

diferentes relações com o "ego" nascido da memória. Essa divisão é a vida e o florescimento disso que chamamos "nosso ser psicológico", e dela procedem todas as contradições e divisões. Estais percebendo isso com toda a clareza? No percebimento da árvore, não há avaliação de espécie alguma. Mas, quando há uma reação à árvore, quando a árvore é julgada com agrado ou desagrado, ocorre, então, nesse percebimento, a divisão em "eu" e "não eu" - sendo o "eu" diferente da coisa observada. Esse "eu" é a reação, nas relações, das lembranças e experiências do passado. Ora, pode haver um percebimento, uma observação da árvore, sem nenhuma espécie de julgamento, e pode haver uma observação da "resposta", das reações, inteiramente isenta de julgamento? Desse modo, erradicamos o princípio da divisão, o princípio do "eu" e "não eu", tanto quando olhamos a árvore, como quando olhamos a nós mesmos.

Interrogante:Estou tentando seguir-vos. Vejamos se compreendi bem. Há o percebimento da árvore; este eu compreendo. Há a reação psicológica à árvore; também esta compreendo. A reação psicológica se constitui das lembranças e experiências passadas; é de agrado e de desagrado; é a divisão em "a árvore" e "eu". Sim, penso que tudo isso compreendo.

Krishnamurti: Está tão claro como a própria árvore, ou é simplesmente a clareza da descrição? Lembrai-vos de que, como já dissemos, a coisa descrita não é a descrição. Que compreendestes, a coisa ou sua descrição?

Interrogante:Acho que compreendi a coisa.

Krishnamurti: Por conseguinte, no ver esse fato não existe "eu", que é a descrição. No ver qualquer fato, não existe "eu". Ou há "eu", ou há "ver": não pode haver os dois ao mesmo tempo. "Eu" é "não ver". O "eu" não pode ver, não pode estar cônscio.

Interrogante:Podemos parar aqui? Creio que apanhei o sentido exato da coisa, mas tenho de deixá-lo "assentar". Posso voltar amanhã?

***

Interrogante:Creio ter compreendido, real e não verbalmente, o que ontem dissestes. Há o percebimento da árvore, a reação condicionada à árvore, e essa reação condicionada é conflito, ação da memória e das experiências passadas, é agrado e desagrado, é preconceito. Compreendo também que essa reação do preconceito é a origem do que chamamos "eu" ou "censor". Vejo claramente que o "ego", o "eu", existe em todas as relações. Mas, existe um "eu" fora das relações?

Krishnamurti: Já vimos o quanto são condicionadas as nossas reações. Se se pergunta se existe um "eu" fora das relações, tal pergunta será puramente especulativa, enquanto não se estiver livre daquelas reações condicionadas. Percebeis? Assim, a primeira questão não é se existe, ou não, um "eu" fora das reações condicionadas, porém, sim, se a mente, que inclui todos os nossos sentimentos, pode libertar-se desse condicionamento, que é o passado. O passado é o "eu". Não há "eu" no presente. Enquanto a

seja o de há dez mil anos. porém um percebimento real do fato. Se não há observador. Se é. está operando em relação ao fato . tal pergunta não pode ser feita.é essa entidade que está fazendo a pergunta. esse percebimento não é uma conclusão verbal. Os franceses têm uma palavra para o percebimento de um fato:constatation . diz ele. O "eu" não a faz. não está atuando em relação a si própria. Existe a árvore e a "reação condicionada" à árvore. porque nele não há conclusões. há tanto tempo vivo em sofrimento. que gostaria de sair desta luta constante. Ao perguntarmos se a mente pode libertar-se do passado. fico desorientado. reação que é o "eu" em relação. há várias coisas implicadas nesta questão. vindo do passado. Como posso apagar o passado em poucos segundos? Krishnamurti: Tenhamos em mente que estamos tratando do percebimento. o percebimento de que a mente é o passado. ou o enfrentamos.esse "eu" que. está perpetuando a si próprio. Quando a estrutura faz a pergunta. tribulação. a reação à árvore. porque percebe a armadilha. seja o passado de alguns dias. ou a pergunta vem por si. é esse "eu". Com efeito. o "eu" que constitui o centro mesmo do conflito. Interrogante:Aqui.mente funciona no passado. ele não faz a pergunta! Percebendo-se isso e todas as suas conseqüências. por fim. ou seja de si próprio. tristeza. a questão de se a mente pode libertar-se do passado. se não é feita pelo "eu". em seguida. perguntamos: Pode a mente libertar-se do ontem? Ora.que é ela própria . Recapitulando: Existe a árvore. ou seja o "censor" ou "eu". . o simples enunciar de tal pergunta já é um ato de fuga. Pois bem. Ao dizermos que a mente é o passado. conforme dissemos. o "eu". existe "eu" e a mente é esse passado. Se faz a pergunta por efeito desse "motivo". faz-se a pergunta: Posso livrar-me de toda esta agitação e agonia? Se é o "eu" quem faz essa pergunta. de que a mente é aquela reação condicionada. não há então nenhuma estrutura do passado. e. Quando não é a estrutura quem faz a pergunta. não é verdade? Primeiro. Pois bem. não? Tratemos de perceber se essa pergunta é. Tudo isso constitui um ato unitário de percebimento.está com medo de si própria e atua com o fim de fugir de si própria. esta pergunta é feita pelo censor. a "resposta" será a de buscar um certo refúgio. e. depois. o percebimento superficial. há então silêncio . um ato de fuga. o percebimento da reação condicionada. é a estrutura mesma do passado? Se a pergunta não vem da estrutura do passado. neste caso ele está tentando fugir do fato. Estamos conversando sobre a questão do percebimento. Não se pode dizer "isto é a mente" e "isto é o passado". Portanto. percebendo isso. a seguir. existe a palavra. por efeito da percepção do fato? Se é o observador quem faz a pergunta. ou não. A palavra e o símbolo representam fuga a ele. memórias e experiências . é esse "eu" quem está fazendo a pergunta? .a negação completa de todo o passado. Estais vendo agora que esse percebimento é todo superficial? É idêntico ao percebimento que vê a árvore. Ou fugimos a um fato. ela é barulho. porque. que é o próprio passado? Interrogante:Pode a mente libertar-se do passado? Krishnamurti: Quem está fazendo essa pergunta? A entidade resultante de inúmeros conflitos.

[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 2. a vida é sem significação. por conseguinte. vejamos com toda a clareza se não estamos fazendo esta pergunta com algum "motivo". é amor. Se há motivo. se não fordes sensível à estrutura e natureza dessas armadilhas construídas pelo homem. não fareis tal pergunta. há a negação de todas as armadilhas. Esse percebimento não está cônscio de "estar cônscio". Trata-se. sejamos cautelosos. está agora vazia. por conseguinte. A divisão e o medo gerado por essas crenças o separaram de seus semelhantes. Essa mente tem uma natureza diferente. com sua estrutura. a mente. e procurar fugir da armadilha é cair noutra armadilha. o homem o inventou mediante crenças e imagens inúmeras. Interrogante:Que ação seria possível. Porque ignoramos. em quaisquer circunstâncias. É a inteligência suprema. Quando o observador está em silêncio. estais fazendo a pergunta deste lado do rio ou vem ela da outra margem? Se vos achais na outra margem. portanto. sua natureza e suas armadilhas. Vazia do "eu" e da armadilha.principalmente eu próprio. Essa nova qualidade de percebimento é a atenção. de um percebimento desta margem. Estais dizendo coisas que parecem verdadeiras. sem o observador. O que vos cumpre fazer é apenas manter-vos cônscio do começo ao fim. nenhuma droga. Podeis dizê-lo de outra maneira? Podeis puxar-me para fora de minha armadilha? Krishnamurti: Ninguém pode puxar-vos para fora da armadilha . e nessa atenção não existe nenhuma barreira levantada pelo "eu". Essa atenção é a mais elevada forma da virtude e. Posso conhecer Deus? Fiz esta pergunta a vários . Desconhecendo Deus. Se não. Interrogante:Deus meu! Isso é difícil demais. Que coisa monótona! O percebimento nos mostrou a natureza da armadilha e. vossa ação provirá daquela margem. Para fugir às penas e aos malefícios dessa divisão. pois. estamos novamente na armadilha da reação condicionada. está então a despontar um percebimento de diferente natureza.Interrogante:Existe outra espécie de percebimento? Existe outra dimensão do percebimento? Krishnamurti: Mais uma vez. que soam como verdadeiras. criou ele mais crenças ainda. nenhum mantra. e não pode haver atenção. uma diferente dimensão de percebimento. que pergunta ou que ação? Krishnamurti: Mais uma vez. EXISTE DEUS? Interrogante:Desejo deveras saber se existe Deus. inclusive eu próprio . mas não foi posto em silêncio. não vos tornardes desatento no meio do caminho. pessoa alguma. se vos achais na outra margem. e a crescente aflição e confusão o engolfaram. cremos.nenhum guru. mas ainda não as alcancei.

Podemos. E vós. pois. A esperança gera a crença e. Pode. jamais O conhecereis". A palavra é também o meio de comunicação. o objeto está diante de vossos olhos. ou uma certa utopia. A palavra. pois. Essa esperança é produto do desespero . e O conhecereis.o desespero de todos os que nos cercam neste mundo. mas. que resta? Interrogante:Apenas "o que é".A palavra "Deus". de modo que cada homem pode criar sua própria imagem da coisa designada por tal palavra. O aprender a respeito da crença é o fim da crença.pois crença e descrença são a mesma coisa. "Crede. levou-nos à ilusão e não a Deus. assim. E vós me estais perguntando se a mente pode libertar-se da palavra . A esposa é a palavra. Interrogante:E vós me estais pedindo que me despoje da palavra? Como posso fazê-lo? A palavra é o passado. o movimento que dá vitalidade à existência. Interrogante:Preciso meditar sobre isso. Toma-se. mas. "No começo. Quando não há esperança. rejeitar de todo a crença. a luta por alcançar a realidade última. se a mente pode libertar-se de sua própria atividade. Krishnamurti: No caso da árvore. então. Após essa rejeição. Vosso nome não é vós. tem então um significado diferente a pergunta "Existe Deus?" . e todos exaltaram a crença. que pensais? Krishnamurti: É necessária a crença para se conhecer Deus? Aprender é muito mais importante do que saber. É a crença ou a descrença que escraviza . A palavra não é o real. tanto na Índia como aqui. Começa. a busca. e o crente e o não crente por suas próprias e diferentes maneiras. e a casa é a palavra. . e a palavra se aplica à árvore. Krishnamurti: Se não há ilusão."santos". as faces opostas da mesma moeda. se não sei vosso nome. de identificação. a mente libertar-se da palavra? Interrogante:Não sei o que isso significa. tem a mente a possibilidade de olhar. Ora. por consenso geral. e a palavra é pensamento. pode-se ver que a palavra não é a coisa real. positiva ou negativa. a esperança. a própria palavra a realidade última. com relação à palavra "Deus" não existe nada a que ela possa aplicar-se. ou um certo livro que ele pensa conter toda a verdade. é memória. a ilusão.quer dizer. não é Deus.o Estado. Do desespero nasce a esperança também as duas faces da mesma moeda. o desejo de descobrir o absoluto. A mente é a palavra. e o medo ao inferno dá-nos a vitalidade da esperança. sem crença. e o descrente cria a ilusão de outro Deus que ele venera . Deus é a ilusão que adoramos. Livre da crença. era o "Verbo". suas implicações intelectuais e sentimentais. O teólogo o faz por uma certa maneira. há o inferno. não posso pedir informações a vosso respeito. o intelectual por outra. o crente e o descrente são idênticos. por conseguinte. com sua soma de tradição e memória. Por isso vos perguntamos se podeis libertar-vos da palavra e de sua ilusão. em seguida. Krishnamurti: A palavra é a tradição.

subtraindo de si próprio. Ele não existe. Quando vós não existis.ou o nome que lhe derdes . leva a muita incompreensão.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 3. e o são o ódio. a pilhagem. Interrogante:Vim ter convosco para descobrir se há Deus. se cada um de nós perceber essa verdade. Interrogante:Se "o que é" é o que há de mais sagrado. criando uma contradição e um conflito? Pode o amor prender-se à roda da mudança? Se pode. Interrogante:O amor é então variável? Se tudo é variação. então amor é ódio. e por causa dessa ilusão estamos prontos a matar-nos mutuamente. não te exaltes" . Quando não há nenhuma ilusão. "O que é" é variação. Esse ver da verdade é transformação. Num dado momento.não viu aquela verdade. por conseguinte. não o perturbes. "O que é é o que há de mais sagrado". "não vindo a ser"? Vemos. olhemos o que realmente é.existe quando vós não existis. ajustando-se. Não havendo ilusão. O MEDO . É fato isso. Pois bem.ou outro nome que se preferir. É "o que é". é sacratíssimo "o que é". porquanto violou uma verdade. Só quando não há ilusão nenhuma. nesse caso ele pode também ser ódio. "o que é" pode ser medo. Isso é um fato. e me tornastes totalmente confuso. Assim. modificando-se. que tanto o observador como a coisa observada variam constantemente. não se mata. a avareza. "o que é" é Deus . Não há então necessidade de falarmos em transformação. e nós respondemos: A palavra leva à ilusão que adoramos. se o amor é variável. O branco que diz ao negro amotinado: "O que é é sagrado. Quando se vê que "o que é" é sagrado. Quando vós existis. não há amor. a desordem. haverá transformação. Krishnamurti: Viestes perguntar se há Deus. "vindo a ser". Deus . ou extremo desespero. Quem praticou tais coisas não tem direito a imunidade. Essas coisas variam constantemente. porque não percebemos a verdade que ela encerra. a dor. Krishnamurti: Isso é amor? Ou quereis dizer que o amor é diferente de sua expressão? Ou estais dando à expressão mais importância do que ao amor e. se a tivesse visto. Krishnamurti: A própria simplicidade desta asserção. Quando há vós. Assim. nesse caso posso amar uma mulher hoje e dormir com outra amanhã. não se espera nada. então a guerra é sacratíssima. não se faz guerra. o que estou fazendo é sagrado". E há também o observador que diz: "Tudo o que me cerca varia. pois. o amor não faz também parte desse movimento? E.Krishnamurti: "O que é" é o que há de mais sagrado. "o que é" é então sacratíssimo. ou passageira alegria. nesse caso todos os assassinos e salteadores e exploradores poderão dizer: "Não me toqueis. existe o amor. Se é sagrado "o que é". acrescentando a si próprio. o negro seria sagrado para ele e não haveria necessidade de exaltação. mas eu permaneço o mesmo". é realmente o que é? Ele também não varia. não se explora. porque.

mas essa luta me põe doente de medo. Mal posso erguer-me do leito. Talvez seja também por causa de vossa pessoa. aqui e no estrangeiro. sinto-me então tranqüilo. da maneira como o sexo é posto em evidência. quando em companhia de amigos íntimos ou em casa de meus pais. Os psiquiatras não podem explicar-me a razão dele. . passo o resto do dia a suar. todas as famílias são terríveis. Porque não o sentis agora? Esta sala tranqüila. para não sentir medo. e o serdes recebido amistosamente . Já consultei não sei quantos analistas e psiquiatras. porque o medo não desapareceu. Já gastei grandes somas de dinheiro e de tempo com análises que. não quero depender de casas bonitas. sentis medo deste mundo brutal? Sois sensível? Interrogante:Sim. sentado aqui. mobiliada com gosto. não posso permanecer aqui para sempre e sei que.é por isso que não tendes medo agora? Interrogante:Em parte. quando visito os meus e há uma certa cordialidade. Aqui estais. quando estou a dirigir o meu carro. perdi repentinamente o medo e agora. uma certa segurança e. quando me for embora. creio que sim. e dizeis que já não sentis medo.o que não significa que eu seja incapaz de lutar para conquistar um lugar para mim também. mas o que eles fazem é só exumar memórias de minha infância. e vamos ao presente. mas sou sensível. mas. Não gosto do barulho. De tudo isso estou farto. vos sentis feliz e mal podeis imaginar aquele medo que estivestes sentindo. não serviram para nada. mas dele já me libertei. disso estou farto. deveras. enquanto percorria o drive(1) e ao dirigir-me à porta. Todavia. com suas atividades insignificantes e isoladas. suas banalidades e hipocrisia.absolutamente. Mas. em casa é terrível. de novo me envolverá a nuvem do medo. da agitação. não conseguindo encontrá-la. por ora. Krishnamurti: Deixemos de parte as memórias da infância e outras futilidades. Ao visitar meus pais. perco este medo. tenho este mesmo sentimento confortante. sinto-me tão feliz que nem sei de que é que estava com tanto medo. da vulgaridade desta existência moderna. Por vezes. Não sinto mais medo nenhum. Posso sorrir e dizer sinceramente: Folgo muito em ver-vos! Mas. necessitais de um certo abrigo. senti medo de ver-vos. e já vos. Ele é como um abismo tenebroso e sem fundo. Talvez não o seja na vossa maneira de entender. desperto paralisado de terror. Chamam-no um "medo flutuante". bem proporcionada. temporariamente livre deste medo.ouvi aqui. de atmosferas acolhedoras e de bons amigos. Quando vinha hoje para cá. e sinto por vós uma certa e profunda amizade. Mas. nervoso. suas brigas. em verdade. hoje em dia. sinto-me. e da competição para obter-se um emprego detestável e insignificante . Já vos ouvi na Suíça. nesta sala aprazível e tranqüila. esse medo se apodera de mim.Interrogante:Tive o hábito de tomar drogas. livre de toda tensão. Eis o problema que estou enfrentando. tenho medo de sair de casa e tenho medo de ficar em casa. feliz. clara. apreensivo e à noite estou completamente exausto. Subitamente. embora isso muito raramente aconteça. Porque tenho tanto medo de tudo? De manhã. em toda parte aonde vamos. Que devo fazer? Krishnamurti: Será que. sendo uma pessoa sensível.

continuemos. Temos de depender disso que se pode chamar "o lado orgânico da sociedade". Consideremos a sensibilidade: Quanto mais sensível a pessoa (a menos que saiba ser sensível sem dependência. E depender de outra pessoa é ter medo de a perder. é aumentado pela dependência. como veremos. Tenho medo de ficar dependendo dele.. e de não haver possibilidade de fazermos alguma coisa a tal respeito. deve ficar-nos bem claro que qualquer forma de dependência psicológica gera inevitavelmente medo. pessoas e crenças. ele é insuficiente. mas eu vim para conversarmos sobre o medo. sem angústia). pois. Se compreendemos o medo. Ou eles a criam para si próprios ou ficam dependendo de outros que lha podem dar . gera medo. Sensibilidade e dependência são duas coisas que. da esposa. Assim. isto é perfeitamente natural e normal. psicologicamente. embora confortante. do marido. o medo continua existente. a questão: Uma pessoa é sensível.nem de deuses. porque. dependendo mais e mais. e o conforto que ele proporciona. Krishnamurti: Examinemos ambas as coisas. compreendemos também a dependência. e o medo cresce proporcionalmente à dependência.dependeis de alguma coisa? Krishnamurti: Decerto. vazio. se tudo isso lhe é retirado? Em si próprio. Fica-se. nem de pessoas. de uma atmosfera cordial. Porque dependemos psicologicamente? Interrogante:Estais agora a falar-me de dependência. e depende de outros para o obter. não é relevante saber se eu sou ou não sou dependente. andam juntas. dessa pobreza e vazio interiores. Agora. por causa desse vazio. ainda que as coisas de que dependemos possam parecer-nos quase indestrutíveis. Portanto. ele depende de posses. do conforto físico. Krishnamurti: Eis. Tenho medo de ter um amigo desses. o marido. saiba ser vulnerável.que é um ente humano. Mas. Podeis sentir-vos tão seguro das coisas de que dependeis que não possais imaginar a possibilidade de perdê-las . muitas vezes.o amor de vossos filhos. estais vendo que temos agora três questões: a sensibilidade. O medo é o percebimento de nosso vazio. não dependo de coisa alguma . Tendes algum amigo desses? Interrogante:Não. sem rumo. amigável. Portanto. Mas. Objetais a que tratemos de ambas? Estávamos falando de dependência . por sua vez. Todavia. nem da moralidade social.Krishnamurti: A maioria das pessoas sensíveis têm necessidade de um refúgio tranqüilo. elas estão relacionadas uma com a outra. isto é bem simples. a dependência e o medo? Três coisas relacionadas entre si.da família.que é dependência? Porque dependemos psicologicamente de outra pessoa? A dependência não é a negação da liberdade? Tirem-se-lhe a casa. de nossa solidão e pobreza interiores. assim. porque é uma reação. fisicamente dependo de alimentação. do amigo. Assim. Um círculo vicioso. Dependemos de pessoas e coisas para nosso bem estar físico e nossa sobrevivência. tanto maior o seu desprazer e a necessidade de libertar-se. e não libertação da dependência. O que nos interessa aqui é só esse medo que gera a dependência e. necessita de um certo abrigo. Portanto. Essa necessidade de liberdade dá mais força ao medo. roupas e morada. para compreendermos o medo. as posses . O medo se origina dessa insuficiência interior. os filhos. etc. a dependência: Quanto mais a pessoa depende. de que tem medo. é indispensável a . tanto mais depende. dependemos também psicologicamente e essa dependência. Já investigastes porque dependeis? Nós dependemos do carteiro. interiormente. mas. Interrogante:E vós . nem de crenças.

E essa fuga de uma coisa. isto é. pois. essa fuga de "o que é" é medo. decerto. Comparo-me com o santo. esse vazio. nem com o entretenimento das igrejas ou das diversões sociais. creio-o possível. Isso significa que ficamos com o vazio. cresce o medo.desse abismo sem fundo que não se pode encher com o vulgar entretenimento das drogas. e aquele homem é. e vemos que ele é o resultado de comparação. Há dependência. é de ultrapassarmos esse vazio. o homem que se "realizou". também. não comparar? Porque.resta-nos então. agora. o vazio. E. insuficiente. sem fugir em direção alguma? Interrogante:Eu enlouqueceria. Assim. o Mestre. E o medo nos impede de compreender esse abismo sem fundo. vos tornais endurecido. não significa tornar-se dependente de si próprio. pois. de sermos "nada". Posso realmente viver uma vida isenta de comparação. E vemos. Este nos impele à dependência. Viver sem dependência. e não o próprio vazio. para descobrirmos. O medo é a fuga a alguma coisa. por último. ou de disfarçarmos permanentemente o nosso vazio. Se o indivíduo é suficientemente sensível. e as coisas se tornaram mais claras. Nessa comparação. Eis-nos. pois. E. a fuga é que é o medo. Temos. sentimos medo. nada o preencherá. torna-se cônscio de sua medonha vacuidade . o grande músico. indiferente e "fechado". então. em conseqüência do medir e comparar. percebermos como ele se origina. unicamente.e acho que chegamos . só de pensar em viver com ele para sempre. vem-nos o horrível sentimento de vacuidade. é a essência mesma da dependência. de medida? Krishnamurti: Naturalmente. Sabendo-se disso. Quero dizer: Posso viver sem comparação psicológica? Krishnamurti: Sabeis o que significa viver sem comparação psicológica. não fugirmos por medo? Sim. é possível não dependermos? Sim. a comparação. por causa da medição e comparação. dependendo de vós mesmo. A questão.sensibilidade. e esta fuga é que poderá enlouquecer-vos. é possível não medir. E. é possível não fugirmos de maneira nenhuma ao vazio. que a dependência e o medo provêm desse vazio. E a fuga a esse vácuo é medo. não tenho talento. quando em toda a vossa vida . a esta dependência torna-nos cada vez mais insensíveis. a dependência. Interrogante:Percorremos uma longa distância nesta nossa palestra. perdeis a sensibilidade. vendo que assim é realmente. já que deixamos de fugir dele por medo? Sim. um círculo vicioso. Interrogante:Porque dizeis que a questão não é de dependermos de nós mesmos? Krishnamurti: Porque. sou inferior. essa solidão. essa solidão? Como surge ele? Ele surge. pois. o vazio. Em seguida o medo. ultrapassar a dependência. o erudito. E uma neurose que de si própria se nutre. acho que é possível. Que é. e não de aprendermos a depender de nós mesmos. Pode a mente enfrentar aquele vazio e com ele viver. a comparação. "O que é" não é o medo. tendes de tirar medidas para colocar um tapete no soalho! Interrogante:Sim. E. não me "realizei". se chegamos até este ponto . possível enfrentar esse vazio. de volta à dependência. também. a medida. o medo. vejo-me incompleto. creio-o possível. eu não sou. Krishnamurti: Todo movimento para nos afastarmos desse vazio é uma fuga.

pacientemente. não há buscar nem indagar. Viver sem comparação! Sabeis o que isso significa? Significa que não há dependermos de outros nem de nós mesmos. não reduzamos a vida a um vasto e complexo problema. quer não. uma barreira à exploração mais penetrante e à compreensão. Eu desejo descobrir como viver neste mundo sem dele fugir. portanto. Pois bem. Portanto.fostes condicionado para comparar . Interrogante:. competições e brutalidade.amar. Perdi a fé em tudo . nele tenho de viver.na escola. devemos começar verificando o que entendeis por viver. porém antes desejo saber viver rodeado de tanta violência. Tenho de ter casa para morar e de ganhar o meu sustento.). senhor. Krishnamurti: Muito folgo que possamos caminhar devagar. E meus vizinhos estão presos a este mundo. significa -. atônito. Quando uma coisa se torna um problema. avidez. embora nela vivendo. INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 4. não podeis começar com uma conclusão. motins. Desejo educar os meus filhos de maneira diferente. que entendeis por "viver"? Interrogante:Nunca tentei expressá-lo em palavras. por conseguinte.Por favor. sem recolher-me a um mosteiro ou dar a volta ao mundo num iate. ou de tentar fugir-lhe. quer queiramos. o amor desconhece o medo. porque a palavra não é a coisa. como viver.[ÍNDICE] (1) Calçada para automóveis. O amor desconhece a comparação e. Há guerra entre os indivíduos e as nações. hipocrisia. não achais? Se em verdade desejais investigar. e todas as ideologias são conclusões. sem saber o que fazer. senhor. na universidade. do T. Por conseguinte. Krishnamurti: Não façamos disso um problema. nos jogos. assim. Se fazeis essa pergunta com o fim de superar a sociedade em que viveis ou de descobrir um substituto para ela. vamos devagar. Nesta sociedade licenciosa tudo se permite -matanças.-(N. ficamos empenhados em achar-lhe a solução e o problema se toma então uma gaiola. meus filhos brincam com os deles e. COMO VIVER NESTE MUNDO Interrogante:Por favor. Esta questão requer também total negação da ideologia.religiões. com a mente e o coração aplicados à investigação. todavia. Vejo-me confuso. porque qualquer interferência pode . filosofias e utopias políticas. no escritório? Tudo é comparação. O amor não tem consciência de si próprio como "amor". nos terrenos baldios de uma propriedade. temos de tomar parte nesta medonha confusão. e ninguém ousa fazer nada. podeis dizer-me como posso viver neste mundo? A ele não quero pertencer e. isso inevitavelmente levará a uma vida contraditória e hipócrita. a cínica opressão de uma nação por outra.

Eu não sei o que ela significa. então. com nós mesmos. sem terdes compreendido a causa desta confusão. dá-nos a impressão de que estamos progredindo. ou vedes os fatores que estão causando este conflito e aflição. Interrogante:Sim. ou compreender a velha vida? Interrogante:Não estou nada certo do que desejo. daí partindo. Krishnamurti: Que é que desejais . Não desejo viver no meio de tamanha confusão. deve ocorrer em mim um renascimento. não é. em conflito. novos olhos.significar guerra mundial. Isto é. com pessoas. sociais e étnicos. Krishnamurti: O que não desejais se baseia em vossa livre compreensão ou no desejo de prazer e de evitar a dor? Estais julgando por causa de vossa revolta. com uma nova mente. Mas. nascida da compreensão da velha vida? Se desejais viver uma vida diferente. e. O que sei é só que desejo viver uma vida de espécie diferente. Vemos divisão em nacionalidades. esse movimento nenhum . não sei de que modo viver. O mundo não é só as coisas que nos rodeiam. uma vida nova. e começo também a ver que o ente humano é por ela responsável. exteriormente. Assim. E isso. e tão fragmentado está. com conceitos. percebo claramente essa fragmentação.não é esta? Antes de o averiguarmos. Isso é o mundo. vos vereis sempre em contradição. estou percebendo que. com pessoas. é também a nossa relação com essas coisas. os rejeitais? Interrogante:Estais a perguntar-me muitas coisas. e com idéias. entes humanos. de modo nenhum. ou a busca do ideal. Vivo conforme eu próprio sou. vejamos o que é este mundo. Mas. Em face de tudo isso. desejais uma vida nova ou uma "continuidade modificada" da velha. não sei porque a estou buscando e. grupos econômicos. E percebo também que isso não aconteceu. aonde chegamos? Krishnamurti: Não chegais a parte alguma. enfim. Krishnamurti: Vós sois o ente humano! Interrogante:Posso. partindo daí! Não há possibilidade de ir a parte alguma. Em verdade. naturalmente. políticos. porque os vedes. se quero viver de uma maneira totalmente diferente. mas começo a ver o que não desejo. o mundo está todo fragmentado. novo coração. O "ir". nossa relação com a corrente de fatos que chamamos "vida". em confusão. o estamos interiormente. e o que sou tornou a vida o que ela é. religiões. como disse. daquilo que pensamos ser melhor. vejo-me completamente desnorteado. viver diferentemente do que eu próprio sou? Subitamente. essa fragmentação exterior é a manifestação da divisão interior dos entes humanos.uma vida diferente ou uma vida nova. como nós. não sei o que fazer. de que estamos em movimento para um mundo melhor. Krishnamurti: Vossa pergunta básica é "como viver neste mundo?" . nossa relação com nossas posses.

Compreendo a bestialidade da guerra. Interrogante:Um momento. senhor. O alvo não está lá. sinceramente falando. gerado pelo que é. do outro lado do muro. O ideal nasceu de minha compreensão de "o que é" e. Quando dizemos que compreendemos uma coisa. não é verdade? Exploramo-la. Nenhuma dessas duas coisas pode ser ensinada por outra pessoa ou por um . confusão. como bem dissestes. Como posso compreendê-la? Como aprender tudo o que diz respeito à desordem e confusão reinantes no mundo e em mim mesmo? Krishnamurti: Por favor. sem emocionalismo. porque o alvo foi projetado de nossa aflição. mas percebo agora que o que estais dizendo é verdadeiro. não compreendo. não estou compreendendo isso. Entretanto. que necessidade tendes do que "deveria ser"? Interrogante:É mesmo assim? Eu compreendo "o que é". então: "Compreendi esta coisa. a qual. movimento nenhum? Krishnamurti: "O que deveria ser" é uma idéia. quando se vêem as coisas tais como são. Interrogante:Porque não? Krishnamurti: O "como" implica que alguém pode dar-vos um método. A sanidade mental só é possível quando há claro percebimento. o mesmo significado à palavra "compreensão"? Interrogante:Antes eu não dava. não é uma fuga. É aqui que se origina a nossa básica confusão e conflito. na realidade. esse alvo. ambição e inveja. a qual. nem sentimentalidade. por essa maneira. que a compreensão não é um fato intelectual. Se compreendeis "o que é". não é mesmo? Só há compreensão quando a mente e o coração estão em perfeita harmonia. e é porque o compreendo que tenho o ideal de não matar. E o amor não pode ser praticado nem ensinado. não useis a palavra "como". a desordem total existente no mundo. criará a compreensão. por conseguinte. mas que a sentimos bem no íntimo do coração. isso implica que aprendemos tudo o que ela tem para dizer-nos. que supomos ser o oposto de "o que é".é o resultado da incompreensão de "o que é"? Quereis dizer que "o que deveria ser" é "o que é". ele cria o conflito entre "o que é" e "o que deveria ser". Dizemos. tendes necessidade do ideal para vos absterdes de matar? Talvez não nos esteja bem clara a palavra "compreensão". a coisa já não tem vitalidade para gerar mais conflito. e descobrimos sua verdade ou falsidade. o começo e o fim estão aqui. e que esse movimento de "o que é" para o que "deveria ser" não é. é minha própria desordem. por favor. uma ficção. nós dois. como é horrível matar. Por conseguinte. também. Estamos dando.o que deveria ser . se a observardes. uma receita. Assim. e para mim ela está acabada". Pode a compreensão ser produzida por um método? Compreensão significa amor e sanidade mental. Quereis dizer que o ideal .movimento é. Implica isso. é em verdade idêntico ao que é. Krishnamurti: Se compreendeis que matar é horrível.

Portanto. Por conseguinte. uma vida de completa segurança e isolamento. De outro modo. da insinceridade e brutalidade deste mundo. Interrogante:Sois persuasivo ou lógico demais. Krishnamurti: Dissestes que não desejais viver no meio da confusão. isso vos dará a compreensão? Far-vos-á sentir que sois o mundo. e o mundo é vós. não sois duas entidades separadas. nestas águas. nesse caso não podeis ver o que se passa. etc. e eu sou o mundo"? Krishnamurti: Mas isso requer explicação? Quereis que eu vos descreva com todos os detalhes o que sois e vos mostre que isso que sois é a mesma coisa que o mundo? Essa descrição irá convencer-vos de que '*vós sois o mundo"? Desejais ser convencido por uma explicação lógica e conseqüente que vos mostre a causa e o efeito? Se fordes convencido por uma explicação detalhada. e na escuridão nada se pode ver. Interrogante:Já não tomo pé. vereis a vós mesmo tal como sois. a competição. temos de negar o mundo. ou o negais porque vedes o que ele é realmente? Interrogante:Penso que o nego porque vejo o que se passa em redor de mim. Naturalmente meus preconceitos e temores entram também em linha de conta. porque o negais? É porque desejais viver uma vida tranqüila. Isso.. à pergunta inicial: Como viver neste mundo? Para vivermos neste mundo. A propaganda que visa a tornar a mente sensível. vereis o mundo tal como é. se me afigura suficientemente claro e não percamos mais tempo com esta questão. em círculos. Estais procurando influenciar-me para ver as coisas como as vedes? Krishnamurti: Deus me livre! A influência. não. ficaremos a rodar e rodar. etc. Porque vós sois o mundo. negar o mundo assim como um estudante que se revolta contra os seus pais negá-lo porque o compreendemos. nós não sentimos essa . explorando juntos: E. Voltemos. Com isso queremos dizer: negar o ideal. porque medo é escuridão. far-vos-á responsável pelo mundo? Parece perfeitamente claro que nossa humana avidez.sistema inventado por vós mesmo ou por outrem. Krishnamurti: Qual dos dois predomina. pois. Vede. Esta compreensão é negação. a fragmentação. Estamos apenas "apontando as coisas". inveja. deveis estar livre tanto de mim como de vossos próprios preconceitos e temores. Mas. a inveja. para explorarmos juntos. a guerra. com que base o negais. Se compreenderdes isso. Trata-se. de uma mistura do que se está passando e de minha própria ansiedade. é destrutiva do amor. uma aceitação "legalizada" do que somos. de modo nenhum estamos tentando influenciar-vos ou persuadir-vos ou tornar-vos dependente. vossa ansiedade ou o verdes o que realmente se passa em torno de vós? Se é o medo que predomina. Interrogante:Podeis explicar mais completamente o que entendeis por "o mundo é eu. pois. em qualquer forma. com efeito. agressividade e violência criaram a sociedade em que estamos vivendo. só poderá torná-la embotada e insensível. alertada. o negais.

inevitavelmente. Assim. Assim. E essa contradição é o que chamo "viver". porém uma investigação. de todas as nossas atividades emanarem do passado. Isso é tudo o que sei. Quero dizer que vejo muito claramente que meu processo de pensar e de agir é o passado a atuar através do presente para o futuro. existe esta separação entre mim e o mundo. muito entusiasmado. Assim. ninguém mais pode fazê-lo. perguntando "como viver neste mundo?". E o futuro é produto desse passado. a menos que ocorra uma mudança nessa estrutura. e a ação que deles vem é a ação positiva do conhecido. Nos olhos lhe luzia o interesse em investigar. Daí vem. de sua ação através do presente. se tiverdes vontade de fazê-lo. a pergunta: Como operar essa mudança? Krishnamurti: Para viver sãmente neste mundo.verdade. Dizeis . mas também expressei uma contradição. com a pergunta "como viver neste mundo?" estou procurando remediar essa contradição. a fim de . ao perguntardes "como viver neste mundo?". Compreendo agora. nós não amamos e.que quando não há ideais ou fugas. passado. no passado. para chegar a perceber a trivialidade dos ideais. a total insignificância dos ideais. os milhares de "ontens" que constituem o "eu". E percebo que. o cérebro é o passado. estais pedindo uma troca de prisões. E esse passado é o que chamamos "viver". e todas as nossas relações resultarem do passado? O viver é essa complexa memória do passado? É só este o viver que conhecemos: o passado a modificar o presente. nada mais conheço. porque ela é a única coisa que conheço. se tudo o que faço é movimento do passado? Só eu posso transformar-me. os sentimentos são o passado. Interrogante:Não é isso o que quero dizer. como ontem dissestes. a ela pertenço.tudo é só passado. e é um fato. não só fiz uma pergunta errônea. Krishnamurti: Então. mas que entendeis por "mudança"? Como posso mudar. nossa questão fica sendo esta: Há necessidades de vivermos sempre. E não percebo o que isso significa . Tive de sustentar uma longa luta. A mente é o passado. Interrogante:Sim. conseqüentemente. modificá-la. nela ficarei aprisionado. Interrogante:Posso voltar amanhã? *** Voltou. no dia seguinte. Portanto. só há o passado. Interrogante:Desejo.mudar. presente e futuro . torna-se necessária uma mudança radical da mente e do coração. porquanto coloquei o mundo e "eu" em oposição um ao outro.não é exato? . Krishnamurti: De modo que a pergunta "como viver neste mundo?" passou a ser "como mudar?" tendo-se em mente que o "como" não significa "método". com a mente e o coração. penetrar mais nesta questão de "como viver neste mundo". Este processo total constitui a vossa vida e todas as relações e atividades que conheceis. justificá-la.

Só ele poderá perceber a trivialidade desse limitado espaço. a violência. estais totalmente imerso. agora já estamos livres da mudança como um movimento disto para aquilo. ele só existe pela comparação. por conseguinte. Essa coisa diferente é apenas um oposto ou pertence a uma ordem inteiramente nova? Se é apenas um oposto. trivial. já há liberdade e. Só ele é importante para nós. Vossa visão é então ampla. então só tendes a violência. uma revolução? Voltemos ao começo. senão vós mesmo. Krishnamurti: Assim. Assim. neste caso não é diferente. podeis ver então que ele é uma coisa trivial. que é o movimento do . e as coisas resultantes de comparação têm diferentes medidas para a mesma qualidade e. são similares.compreender. trata-se de uma ilusão. a inveja. porque lhe darmos importância? Porque se tornou tão importante esse espaço insignificante? Se nele vos vedes inteiramente imerso. para esta investigação. quando estivemos dizendo até agora que o passado e o único problema? Krishnamurti: O passado parece ser o único problema porque é a única coisa que nos está prendendo a mente e o coração. pode responder a esta pergunta. nesse caso nunca desejareis ouvir falar em mudança. Só quando ficais cônscio de que isso não é liberdade. que é que nos interessa agora? É possível promovermos em nós mesmos o nascimento de uma ordem inteiramente nova. então aquiesceis. por conseguinte. é necessária a mudança. Só o homem que não está de todo aprisionado é capaz de escutar. a cólera. senão continuo como antes. o medo. de investigar. que é revolução? Mudança não é um movimento do conhecido para o conhecido. tornamos a perguntar: Que é mudança. obedeceis. O dar-lhe nome fortalece-o e dá-lhe uma continuidade. No próprio ato de fazê-la. Krishnamurti: Está bem claro para vós que essas coisas não podem ser superadas por seus opostos? Se está. como o calor e o frio. Evolver de pecador a santo é passar de uma ilusão para outra. O oposto está contido no outro oposto e é por ele determinado. de indagar. Quando o padrão do passado vos tem firmemente seguro pela garganta. Mudança implica um movimento de "o que é" para alguma coisa diferente. Este dar nome ao sentimento o confirma no velho padrão. quando se manifestarem em mim? Devo soltar-lhes as rédeas? Como proceder em relação a eles? Aí. a avidez. ou vossa cabeça está acima da superfície? Se vossa cabeça está acima da superfície. O sentimento surge em conseqüência de um desafio. Pois bem. depois de se ter verificado uma total transformação. e então se lhe dá um nome. Tendes então a possibilidade de olhar em torno. credes. Ainda que esse movimento para aquilo que parece diferente vos dê a impressão de estardes realmente fazendo alguma coisa. não relacionada com o passado? O passado é irrelevante. Que é "mudança"? É possível alguma mudança? Ou só se pode perguntar se é possível alguma mudança. Interrogante:Dai-me um momento para absorver isso. Mas. Até onde estais mergulhado? Ninguém. Se não lhe dais nome. Assim. então o sentimento é novo e desaparecerá por si. não há medo. seguis. para vermos o que esta palavra significa. aceitais. Não é dessa espécie de mudança que estamos falando. porque é irrelevante para a nova ordem. Interrogante:Como podeis dizer que ele é irrelevante. Assim. Interrogante:Terei compreendido isso realmente? Que me cumpre fazer com a cólera. o alto e o baixo. o que significa que não vos identificais com ele. e todas as revoluções políticas o são. porque todos os opostos são mutuamente dependentes. preso. começais a libertar-vos. a mudança para um oposto não é mudança nenhuma.

Na negação total do movimento de pensamento que se afasta do que é. com tudo. considerar juntos esta questão? Krishnamurti: Procedem todas as relações desse isolamento? Pode haver relações enquanto há separação. Junto a minha mulher. mas também em todos os níveis de nosso ser? Podemos estar segurando a mão de uma pessoa e dela estar a mil léguas de distância. RELAÇÕES Interrogante:Fiz uma longa viagem a fim de ver-vos. divisão? Pode haver relações com outrem. até durante o ato sexual . me condôo dele. Como vedes. esta dualidade. No entanto.que é um ato de separação. do T. e lá me dão comida. noutra aldeia. tal como estou em relação com minha esposa e meus filhos. (Dic. Quando. Assim. como mendicante. não apenas físico. um peculiar sentimento de unidade.[ÍNDICE] (1) Driven into a corner: posto à força numa posição embaraçosa ou difícil. com filhos. Interrogante:Vejo-me empurrado para um canto(1) ao perceber-me tal como sou e ao ver como sou trivial. Embora eu seja casado. estou em relação com a pessoa que a dá. "Mudança" é a negação de mudança. Muito me tem dado o que pensar este complicadíssimo problema das relações. a peregrinar. sou ainda o devoto em relação com o objeto da devoção. Podemos achar-nos . Que vem. dela estou separado. ao mesmo tempo. em todas as relações há esta separação. porque sou seu semelhante e me sinto como ele se sente só. a meditar. neste local sobranceiro àquele vale profundo. e com ele estou em relação. a mudança não é movimento nenhum. e atrás ou através dela ou em redor dela. a meu ver. Ao ver o mendigo. quando não há contato. Quando chego a uma aldeia. Podemos nós. Sinto por ele e com ele a sua existência sem significação. absortos em nossos próprios pensamentos e problemas. Assim. outra vez. faminto. e só agora posso perguntar: Existe mudança? Só se pode fazer esta pergunta quando cessou todo o movimento do pensamento. Ao entrar num templo. e me oferece condução. sinto-me constrangido em sua companhia. estou em relação com a fábrica que as produziu.pensamento. estou só. me dão roupas. com a árvore a cuja sombra me abrigo. doente. está o fim de "o que é". nesta bela manhã. Estou em relação com o chão que piso. mas. separação.(N. Funk & Wagnals) . desesperado. isolado. sinto dor. a seguir? Krishnamurti: Qualquer movimento que se afaste do que sou fortalece o que sou. Passa um homem rico. em seu esplêndido automóvel.) INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 5. tenho meditado nesse estranho fenômeno das relações. porque o pensamento deve ser negado para que surja a beleza da "não mudança". tenho vivido afastado deles.

cada um em seu próprio mundo. Do exterior.esse trabalho nunca terá fim. Jamais poderei penetrar esse isolamento de um outro ser. posso talvez tocá-la. não achais? Não é uma só coisa que a mente está levando. Assim. esse invólucro. de vossos desejos. Por mais que eu ame outra pessoa.como certos analistas dizem fazer . ela não pode me atingir. continuar só. Identicamente. em algum tempo. a outra pessoa na dela. o ente humano. com suas próprias limitações. porém antes uma indagação que poderá abrir-nos a porta. a fim de que a mente se encontre com a mente. sua existência é separada da minha.sendo isso um truque mental para simular a unidade. ou com o céu e o belo pôr do Sol. e este é um estado neurótico. contudo. Às vezes é estreito o intervalo que nos separa. largar essas cargas. está a isolar-se a si própria? E pode em algum tempo haver contato com o que quer que seja. com uma crença e. outras vezes largo. vós na vossa. Identificar-se com uma nação. ponhamos de parte esse impulso a identificar-nos com uma pessoa. idéia ou coisa. O intervalo parece mais largo do que nunca quando com ele nos preocupamos em demasia e procuramos lançar uma ponte sobre ele.mesmo assim o outro permanece dentro de sua própria pele. Teremos de permanecer sempre duas entidades separadas. tão completamente vos identificais com vossa crença. Não é por meio do tempo que se pode destruir essa separação. A outra questão. amor. portanto. a flor. Como podemos libertar-nos do invólucro? Esse "como" não significa método. não achais? Interrogante:Ainda que larguemos todas essas cargas se nos fosse possível largá-las . A identificação com alguma coisa é um dos estados mais hipócritas que há. Assim. porém um feixe inteiro. perguntamos: Pode haver alguma espécie de relação com a árvore. e eu dentro da minha. e a minha será sempre exterior à dela. é esta: Podeis libertar-vos do invólucro. mas sua existência é dela própria. quando a mente. Interrogante:Posso penetrar no invólucro de outrem? E seu invólucro não é a sua própria .num grupo e ao mesmo tempo estar dolorosamente sós. não há harmonia. mas somos sempre duas ilhas separadas. Podemos. com seus pensamentos. é a palavra? Constitui-se esse invólucro de vosso interesse em vós mesmo e do interesse da outra pessoa em si própria. embora digamos que o é. com suas atividades. opostos aos dela? Essa cápsula é o passado? Ë tudo isso junto. o coração com o coração? Eis a questão real. Krishnamurti: Vós podeis identificar-vos com aquele aldeão ou aquela chamejante buganvília . que sois a crença. de maneira que ele deixe de existir? Só então haveria possibilidade de contato total. e o outro a sua. Cada coisa e cada pessoa está "amortalhada" em sua própria existência. dentro da prisão de sua própria consciência? Krishnamurti: Cada um vive dentro de sua própria teia. Haverá alguma possibilidade de nos libertarmos dessa teia? Essa teia. nenhum outro contato pode ser chamado "relação". Ou. essa mortalha. mesmo que a mente não esteja a isolar-se? Interrogante:Cada coisa e cada pessoa tem sua existência própria. Interrogante:Sim. com meus pensamentos. Vós levais vossa própria carga. Ora. unidade. mental ou fisicamente. é uma das maneiras favoritas de enganar a solidão. Krishnamurti: Rasgamos o invólucro pedaço por pedaço ou o rompemos e dele saímos imediatamente? Se o rasgamos pedaço por pedaço .

as batidas de seu coração. continua a ser a ilha cercada de água. ou vós. mas nunca o consegue. não há separação entre ambos. que aconteceria? . portanto. E vós tentais alcançá-lo e ele tenta alcançar-vos.existência. para que não haja conflito em minha vida. e todos os problemas da vida. Nesse caso. não verbalmente. por isso. sois o inteiro movimento da terra e do mar. Aquele que vê que a barreira é ele próprio. não há divisão em "a ilha" e "o mar". porque mantém o seu estado insular. Como pode esse homem alcançar o outro? Impossível. Dissestes que é a mente que fabrica o seu próprio invólucro. não terá mais barreira nenhuma. Mas. não é separado.e nisso ficamos. Interrogante:Quando falais da separação entre o observador e a coisa observada. a outra pessoa. vós sois a terra inteira com o mar. Krishnamurti: Há o espaço entre isso que a mente chama o invólucro por ela criado. da terra e do mar. de compreendê-lo. Só depois de deixá-lo e. Intelectualmente. E possível isso? Sois a ilha cercada pelo mar. vos referis a esses fragmentos de espaço existentes em nosso pensar e em nossas ações diárias? Krishnamurti: Que é esse espaço? Há espaço entre vós e vosso invólucro. Sois. Vedes que sois tanto a ilha como o mar. que não compreende isso. e ela própria. Nesse espaço está toda a nossa existência. Nesses diferentes fragmentos de espaço entre o observador e a coisa observada. mas falta-me a percepção. De que são feitos eles? Como se tornam existentes? Qual a qualidade e natureza desses espaços divididos? Se pudéssemos remover esses espaços fragmentários. ele. Há a separação entre o meu invólucro e o invólucro de outrem. sois o observador e a coisa observada. deveras. posso concordar. A outra pessoa não vê isso. Por conseguinte. poderá haver contato. Há espaço entre o ideal e a ação. Ele tenta alcançar-vos. Krishnamurti: O próprio movimento para penetrardes no outro invólucro. seus sentimentos e lembranças? Krishnamurti: Não sois vós mesmo o invólucro? Interrogante:Sou. e ele também é a ilha cercada pelo mar. se sois bastante desassisado. O outro não percebeu que ele próprio é a barreira e. mantém a crença na sua separação. e há espaço entre os dois invólucros. Todos esses espaços se deparam ao observador. Sinceramente. acham-se todo o conflito e luta. Por conseguinte. e que este invólucro é a mente. não compreendo isso. todas as nossas relações e nossa luta. seu sangue. espaço entre ele (o outro) e o seu invólucro. tentais alcançá-lo. eu gostaria de prosseguir de onde paramos ontem. estar aberto ao movimento do céu. ou estender-se para fora do vosso. em si próprio. Ele é a ilha cercada pelo mar. *** Interrogante:Se possível. o mesmo é ele . é determinado por vosso próprio invólucro: vós sois o invólucro. ou entre as diferentes coisas que ele observa. tenta alcançar-vos. como vós. Eu gostaria. porém senti-lo realmente. Isso é possível? Como pode haver contato entre uni homem livre e outro que está aprisionado? Visto que sois o observador e a coisa observada. o observador do invólucro e sois também o próprio invólucro.

não vos afasteis daí. e senti-o. Não estamos agora tratando do espaço físico. eu e meus pensamentos. o sentimento de que assim é. Como se torna existente esse espaço? É ele fictício. Ficai bem cônscio de que esse limitado espaço. O pensamento sempre divide em fragmentos aquilo que ele observa no espaço . O próprio pensamento é essa distância. que é a divisão. Posso ver que quando há amor. Não apresenteis nenhuma explicação ou causa. Esse espaço se tornou existente por causa do pensamento. a causa e a descrição terão muito pouca significação e nenhum valor. Então. A limitada estrutura da mente deixa de existir. Estamos falando do espaço psicológico existente entre pessoas e o espaço psicológico existente no próprio ente humano. é espaço. lembrando-vos de que a descrição nunca é a coisa. etc. vós e ele deixais de existir e há apenas aquele vasto espaço que jamais pode ser fragmentado. Esse espaço que o pensamento criou entre as coisas que observa. em seus pensamentos e atividades. ficai cônscio dele. Certificai-vos de que sabeis do que estais falando.. Krishnamurti: Só? Interrogante:Então não haveria conflito.Interrogante:Haveria então o verdadeiro contato. como se torna existente esse espaço? Interrogante:Vemos o espaço físico entre as coisas . E há também o espaço entre a idéia e o real. Krishnamurti: Nada mais? Quando esse espaço desaparece de fato . e da palavra. como sugeris. Ele não está sempre a meu lado. porque a mente é fragmentação. mais eu menos limitado e definido. se não o compreenderdes. não consigo apreendê-lo com todo o meu ser. que é o "eu". considerar de que são feitos esses espaços. ide penetrando cuidadosamente. Não se encontra em meu coração. em todos os níveis de nosso ser. embora tenha. como se tornam existentes? Krishnamurti: Certifiquemo-nos de que ambos compreendemos a mesma coisa quando empregamos a palavra "espaço". ou é real? Senti-o. Está sempre a fragmentar-se e a criar divisão. Estamos perguntando como esse espaço se tornou existente. Procura então o pensamento lançar uma ponte sobre essa separação. na esperança de alcançar a unidade. Nessa harmonia.. Ora. essa divisão. pois. se tornou real.não verbal ou intelectualmente. e é esse espaço que separa. vosso e meu. intimamente. ilusório. Interrogante:Sou realmente incapaz de compreender isso. certificai-vos de que não tendes dele apenas uma imagem mental. Vejo-o como através de um vidro embaciado. Tudo isso. porque todo conflito representa as relações através desses espaços. isso acontece realmente. Sinceramente. existe em vós. porém "ficai" com esse espaço. há completa harmonia. iludindo dessa maneira a si próprio. Há o espaço físico entre pessoas e coisas. e há o espaço psicológico entre pessoas e coisas. o físico e o psicológico. porém desaparece realmente. . mas eu não conheço esse amor. Krishnamurti: Não expliqueis nada.em vós e eu. união entre vós e o outro. Poderíamos. essa divisão.

temos. Eu bem gostaria de me ver em perfeita harmonia com as coisas que me rodeiam e comigo mesmo. o espaço limitado deixou de existir.essa harmonia que os vales tumultuosos jamais conhecerão? . não façamos sequer a pergunta. o que quer que eu responda é barulho do pensamento e. A mente se acha agora em perfeita harmonia. a ver que minha relação com outrem é entre pensamento e pensamento. a voar. mas eles logo se separam e se vão. e.existe espaço? Interrogante:É o pensamento que agora acode para responder a essa pergunta. não fragmentada. Krishnamurti: Exatamente! Por conseguinte. essa guerra contra mim mesmo e contra os outros. Krishnamurti: Esse silêncio é a bem-aventurança. Estamos considerando o que na realidade está sucedendo. Quando a mente está de todo quieta. CONFLITO Interrogante:Vejo-me em grande conflito com tudo o que me cerca. criando tanta aflição para outros e para si próprio. o sentimento de que deve haver uma maneira de viver sem essas perpétuas disputas com nós mesmos e com o mundo. o homens parece ser o único animal que viola essa ordem. posto quieto . a todas as horas. e só há espaço. mas.não. não há fugir dela. há a vastidão do espaço e do silêncio. Interrogante:Começo. Quando desperto. por mais veneráveis que sejam. Ao olharmos por esta janela o mar tranqüilo e a luz sobre as águas. . de manhã. percebendo isso.Interrogante:Isso me lembra o velho conceito a respeito do pensamento: Ele é um ladrão disfarçado em policial para pegar o ladrão. o pensamento se torna quieto. Fala-se em ordem divina. ao passo que eu levo dentro de mim. fico em silêncio. tudo está também em conflito.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 6. dentro de mim. Existe realmente harmonia em alguma parte? Ou só há desordem perpétua? Se existe harmonia. Krishnamurti: Não vos deis ao trabalho de citar conceitos. pois. em nosso intimo. vejo de minha janela passarinhos a brigar uns com os outros. Percebendo-se a verdade sobre a natureza do pensamento e de suas atividades. Pergunto a mim próprio se alguma vez poderei ficar em paz comigo mesmo. em que nível pode ela existir? Ou só se encontra ela no alto de alguma montanha. Com o pensamento quieto . a natureza é harmoniosa.

Nesse exame tradicional a mente está ativa. O homem tem analisado a si próprio há milhares de anos e nada produzido senão matéria impressa! Os numerosos santos entorpeceram a si próprios. mas. e ele não leva ninguém muito longe. resolvê-lo.toda a brutal violência dos homens. superá-lo. O problema. analisá-la rigorosamente. Isso é natural? Poderá criar alguma unidade? Não seria melhor considerarmos estes dois fatos: o conflito. Mas isso não põe em ordem meu próprio coração e minha própria mente. Ora. expô-las à luz. eu desejo saber se existe alguma maneira diferente de considerar este problema. Uma e outra são muito complexas. A maneira tradicional de examinar esse fato consiste em analisá-lo. Krishnamurti: Existe o fato . o exame tradicional pela mente cria mais desordem. harmonia. controles. mas. porém. para considerarmos o problema de maneira inteiramente diferente .isto é. A aceitação desta luta e todos os nossos esforços para dela sairmos se tornaram tradicionais. Não há. paz. intentar o seu oposto e lutar para o alcançar. sublimações. Esse o método tradicional. amor? Interrogante:Eu nada sei de harmonia. procurar as causas da desordem existente em nós mesmos e na sociedade. Vejo-a nos espaços. em seus conceitos prisões ideológicas. Podemos examinar esta questão mui cuidadosamente. mas isso me deixa onde realmente estou. a exigir ordem. por enquanto. em verdade. como vemos. A ordem absoluta da matemática não é minha ordem. O mundo poderá ser perfeito daqui a dez mil anos. Krishnamurti: Se admitíssemos isso. inteligente ou ininteligentemente. Interrogante:Não vos estou entendendo. Não há em mim ordem nenhuma só desordem profunda. e talvez ficar crentes que dela podemos libertar a mente. ou dele fugir? Pode a mente fazer isso? . exercícios. procurar descobrir-lhe a causa e superar essa causa. Podemos abandonar completamente esse método. afinal de contas. Isso o homem vem fazendo há milhares e milhares de anos.. da agressão. da avidez. portanto. não é como pôr fim à desordem. sem chegar a parte alguma. talvez não haja mais problema algum. na ordem matemática do universo. sem tentar ultrapassá-lo. do medo. um modo de vida agressivo. repressões.a desordem. também eles têm conflito. ainda. a ordem natural das coisas. teríamos de admitir tudo o que a sociedade defende: as guerras. A esse respeito não há dúvida nenhuma. ou. Esse processo analítico é o que a maioria das pessoas sempre fez. dentro e fora dos seus chamados santuários. Nosso método de exame é todo tradicional.Krishnamurti: Pode-se ir de uma coisa para outra? Pode-se mudar aquilo que é para o que não é? Pode a desarmonia transformar-se em harmonia? Interrogante:O conflito é então necessário? Ele talvez seja. Sei que há diferentes teorias sobre um gradual evolver para a chamada perfeição das utopias políticas e do reino dos céus religioso. soluções. da ambição. e a mente. trata-se de um fato real. A causa de nosso conflito é essa eterna dualidade do desejo: a interminável-galeria dos opostos geradores da inveja. com suas complicadas lutas. etc. beleza. a competição ambiciosa. é para mim um inferno. com suas disciplinas. Krishnamurti: Vemos desordem em nós mesmos e desordem na sociedade. sim. se a mente pode olhá-la libertada da tradição. nas estações do ano. Então.

Trata-se da própria estrutura da mente de todos. o homem tem tentado resolver os seus problemas. assim fazendo. ininteligente. deveis sabê-lo.perceber com um coração e uma mente completamente purificados do passado. Krishnamurti: Não respondais tão prontamente! Esta é uma pergunta importantíssima que vos estou fazendo. ela se tornou então altamente sensível. ao dizerdes que precisais tornar-vos um super-homem. É este o milagre da percepção . com uma simples concordância verbal. Pode agora a mente. Continuais a olhar as coisas com olhos que querem interferir. Isso em geral se chama ação positiva com relação ao problema. porque não conheceis o estado de vossa mente? Porque? Ou vós o abandonastes ou não o abandonastes.. Mas. fechando o caminho a vós mesmo. Só isso.. pela compreensão. O importante. A negação é a ação mais positiva. libertar-se deveras da tradição? Essa maneira tradicional de tratar do conflito não o resolve. Sede simples. ele não só se torna mais forte. Podeis olhar o problema como se fosse pela primeira vez. compreendendo isso não verbalmente. superando-os ou deles fugindo. vossa mente se tornou inocente. fazer alguma coisa a respeito do que vedes. a condenação ou a tradução do problema em termos relativos a prazer e dor. Estamos andando juntos? Interrogante:Estamos. para olhar o problema. Não penseis que tudo isso pode ser afastado facilmente.porque o estado da mente é muito mais importante do que o próprio conflito. que é conflito. Abstende-vos disso. ultrapassando-os. Interrogante:Pedis demais. Krishnamurti: Porque não o sabeis? Se de fato abandonastes o método tradicional. Estais a pedir-me que me torne um super-homem! Krishnamurti: Criais dificuldades para vós mesmo. [ÍNDICE] . por ineficaz. Nada disso. Desde o começo dos tempos. existe algum problema de conflito? Visto que olhais o problema com os olhos velhos. não sei.Interrogante:Talvez. porque o que quer que façais pertence ao método tradicional. E. eu não posso fazer isso. Interrogante:Em verdade. reconhecendo-o. Krishnamurti: Estais vendo então até onde já chegamos? Depois de. Se o fizestes. pois. qual é agora o estado real da vossa mente? . Os olhos novos estão livres das reações condicionadas ao problema.se o olhais com olhos novos ou com olhos velhos. é a maneira como olhais o problema . altamente ordenada e livre. A justificação. Mesmo o "dar nome" ao problema. mas também continua a seguir o seu já muito trilhado caminho. consistente em fazer alguma coisa a respeito dele. Toda a moralidade social e todos os preceitos religiosos são assim. estão compreendidas nesse método tradicional. Se o fizestes. terdes repudiado todos os métodos tradicionais. é abeirar-se dele pela maneira tradicional. quando a mente afasta tudo isso para o lado. porém apenas traz mais conflito: sendo violento. acrescento a esse estado o conflito próprio do tornar-me não violento.

É mundanidade ser patriota. já estou envelhecendo. Venho praticando ioga. mas tão imperiosos eram os seus desejos sexuais que. todavia. Lutei com todas as forças contra meus desejos sexuais.isso leva a uma vida religiosa? É isso. gostaria de saber se poderíamos conversar. lendo muito. Todas fazem distinção entre o que chamam vida religiosa ou espiritual e o que chamam vida mundana. perguntou-me o que podia fazer agora. descobrir o que é vida religiosa? Entretanto. O homem que se fecha num mosteiro. torturam-se a si próprios. nacionalista. idealista. resolveu mandar amputar os seus órgãos sexuais. Disse ele: "Aqui me vedes. Isso é vida religiosa? A negação do prazer ou da beleza pode levar a uma vida religiosa? Negar a beleza do céu e dos montes e das formas humanas . e sempre fui. E aquele que sai a campo para . vegetariano. que o verdadeiro sannyasi deve a todo custo evitar. Morei vários meses em mosteiros. decerto. mas de alguma maneira sinto que tudo isso constitui apenas a orla da coisa real. deformada. ou como o chamem. essa deformação. própria do mundo dos prazeres.INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 7. ergue-se a horas certas com um livro na mão. Assim. que posso fazer? Sei que cometi um erro. Era considerada mundana. hoje. com fortuitos momentos de tristeza e de piedade. é essa tortura. para se tornar de novo normal . Tenho tentado viver uma vida muito simples e inofensiva. Sou. todas as religiões garantem que o único caminho que conduz à realidade ou Deus. tentando controlá-los e. veio visitar-me e. A VIDA RELIGIOSA Interrogante:Eu gostaria de saber o que é uma vida religiosa. porém interiormente. estudando o budismo Zen e seguindo disciplinas religiosas. igrejas e mesquitas. Como vedes. ao templo ou à mesquita. Minha energia acha-se quase esgotada e estou chegando ao fim de minha vida na escuridão. E é também mundano o homem que possui um certo dom e o exerce em benefício da sociedade ou para satisfação própria. sem fazer mal a pessoas ou a animais. Krishnamurti: Há dias. Mas é também mundanidade ir à igreja. naquela pequena sala.não fisicamente. mutilado como estava. pondo em prática esse dom. e passa o tempo a ler e a rezar. e completamente alheio à brutalidade que isso implica. todo entranhado de preconceito e intolerância. mas afinal restabeleceu-se. tendo privado com alguns "santos" em diferentes partes do mundo. Disse-me que fizera voto de celibato e abandonara o mundo para se tornar mendicante. decerto. é também mundano. para rezar. não é só isso o que constitui uma vida religiosa. e só vários anos mais tarde compreendeu claramente o que fizera. Por isso. sobre o que para vós é uma vida religiosa. Pode uma mente torturada. O homem que vive só para o prazer. aos entretenimentos. e mostrava-se triste. meditando. o que crêem quase todos os santos e monges. é decerto um homem mundano. esse homem é também mundano. Esse homem. Durante muitos meses sofreu dores constantes. peregrinar de aldeia em aldeia. cuja vida está dada inteiramente às diversões. um sannyasi veio visitar-me. ainda que seja muito talentoso e erudito e preencha a sua vida com pensamentos alheios ou próprios. aconteceu aquela coisa terrível. por algum tempo. E agora. completamente desorientado e privado de minha virilidade. Freqüentei templos. Com essa crença. Praticara aquilo porque a atividade sexual era considerada contrária à vida religiosa. e ganha fama. Decerto. levando uma vida disciplinada. certa manhã." Tomou da minha mão e ficamos sentados em silêncio. por fim.

que não pertence ao tempo e onde só existe o movimento da liberdade. ou trapaçaria política. condicionada por uma certa gaiola religiosa . tão-só.por mais antiga e venerável que seja tal gaiola? Krishnamurti: Um homem que vive sem demasiado conflito.realizar boas obras. entre prazer e desprazer? Divisão é conflito. ela "cai sobre nós". entre mim e vós. e a mente é esse movimento do passado. como reformador social ou missionário. por conseguinte. Essa compreensão é inteligência. na realidade. Essa reação do passado é involuntária.divisão entre mundano e religioso. O passado. . numa encosta "sagrada". é esta: Como agir religiosamente em relação a todas as coisas da vida? Krishnamurti: Que se entende por "agir religiosamente"? Não se entende uma maneira de vida inteiramente livre de divisão . Essas esperanças e temores são o futuro psicológico: sem eles não há futuro. sem a mulher ou o cavaleiro que passa por nós. A mente de toda essa gente . fazendo aparecer aquele sentimento da verdadeira santidade. Importa não fazer distinção entre o homem mundano e o chamado religioso. não dividir a vida em mundanidade e não mundanidade. Sem a beleza do céu e da árvore solitária no alto do monte. Temos de dar atenção à totalidade do viver: não podemos separar o mundo do chamado espírito. Interrogante:Que entendeis por "estar libertado do passado"? Krishnamurti: O passado são todas as nossas memórias acumuladas. O presente. portanto. O que nos interessa é a totalidade da vida e não uma determinada parte dela. ou a sonhar numa caverna. minha pergunta significa: Como viver sem conflito. entre o que deveria ser e o que não deveria ser. A questão. é a ação do passado. Começamos. Importa. na estrada. competência para exercer uma certa atividade técnica. cria o que chamamos "o futuro". reformadores não difere muito da mente daqueles que só se interessam nas coisas que dão prazer. Uma vida de conflito não é uma vida religiosa. a ver que uma vida religiosa está em relação com o todo e não com a parte. pelo conhecido. Estar libertado do passado significa estar vivendo no agora. não estaríamos aqui. Essa contradição existirá sempre se não nos libertarmos do conhecido. por conseguinte. pois. O conflito só pode cessar ao compreendermos a contradição existente em nós mesmos. não está decerto vivendo a vida religiosa a que nos referimos. A divisão entre vida religiosa e o mundo é a essência mesma da mundanidade. não atingido pelo passado. ou seja do passado. Interrogante:Compreendo o que dizeis. não é chamada nem "convidada". Uma vida religiosa só é possível quando compreendemos a fundo o conflito. considerada religiosa e oposta ao resto. ou sagacidade nos negócios. Requer auto-observação e sensível percebimento tanto das coisas exteriores como das interiores. O que a maioria das pessoas chama inteligência é. numa aldeia. Essas memórias atuam no presente e criam nossas esperanças e temores do futuro.monges. Interrogante:Portanto. não seria possível a vida. atuando no presente. Pôr fim ao conflito é uma coisa sobremodo complexa. Essa inteligência é que atua corretamente. o mundo material. que não é mera piedade sentimental. santos. é tal qual o político em seu interesse pelo mundo. antes de a pressentirmos. Se não fosse a matéria.

Assim. Interrogante:Mas. e sinto que qualquer coisa que eu fizesse seria verdadeira. Observar sem a imagem formada pelo pensamento é uma ação na qual já não existe o passado. não traria conflito nem dor. mesmo quando o conhecido atua onde deve atuar. Essa observação não é movimento do passado. "escutai" o vosso conflito. Quando saio. Pelo contrário. O estado de ver é mais importante do que aquilo que se vê. VER O TODO Interrogante:Quando vos ouço. após as palestras. procuro tenazmente alcançar e conservar esse estado. ação essa que constitui a mente religiosa. com todo o meu ser. e isso se torna uma luta. não apenas verbalmente. a verdade que estais expondo. todo viver é essa mesma ação. Krishnamurti: Estar cônscio disso é achar-se também num estado de inação diante do passado que está atuando. o passado. mas ser diferente. estou inteiramente livre de conflito. Nesse percebimento. vede as causas de vosso conflito. Sinto-me capaz de fazer qualquer coisa. de minha dor. portanto. mas também num nível muito mais profundo. e o ato mesmo de ver as flores. Participo no que estais dizendo. significa não só agir diferentemente. sem nenhuma escolha (porque a escolha é mais um aspecto desse mesmo movimento do passado).[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 8. de maneira nenhuma. parece-me que compreendo o que estais explicando. e ele sempre atua para causar conflito. vosso conflito sois vós mesmo. a verdadeira vida religiosa. Observar a árvore sem pensamento é ação sem o passado. Talvez dure uma ou duas horas." Estou cônscio de meu conflito. as árvores e aquelas montanhas cobertas de neve faz sentir-me como uma parte delas.Interrogante:Nesse caso. A vida religiosa é tal ação. Procuro tornar-me cônscio de mim mesmo. é observar o passado em ação. mas esse percebimento não dissolve. o conhecido. da qual se observa o conhecido. Estar cônscio do passado. A vida libertada do conhecido é. sem escolha. de contradição. enquanto estou a ouvir-vos. Isso não significa apagar o conhecido. mente. de minha tristeza. Nesse percebimento a memória atua desimpedida. porém ingressar numa dimensão totalmente diferente. o estar cônscio delas parece dar-lhes . de que estamos libertados do conhecido. nessa observação sem escolha. como iremos libertar-nos do passado? Krishnamurti: Estar cônscio desse movimento. tudo parece evaporar-se e me vejo na mesma situação de antes. atua mesmo quando não deve atuar. fico a lembrar-me do estado em que me encontrava quando vos ouvia. religião. essas coisas. Essa ação de ver sem escolha é a ação do amor. Observar a ação do passado é também ação livre do passado. Dizeis: "Ficai cônscio de vosso conflito. Ser religioso é estar cônscio. Mas esse estado infelizmente não dura. percebo claramente. e eficazmente. Minha audição se aguça. de minha confusão. vida e amor equivalem a uma só coisa. às vezes.

Apliquei esse percebimento a um certo hábito que tenho. que é essa percepção total? Eu só posso ver o todo por meio de suas partes. . e que preocupar-se com a parte é vedar a percepção total? Mas. pois. separadamente. tal seja o conflito. é esta: Estamos vendo o processo total da vida. quando separamos a parte do todo. em virtude dessa escolha. consistente em escolhermos o de que queremos estar cônscios. tudo o que na vida existe. Interrogante:Como poderei ver tudo isso?! Posso compreender que tudo o que vejo é parcial. perdendo de vista o campo inteiro da vida? Estar cônscio do campo inteiro é também ver a parte. e isso. que meu percebimento é só da parte e.vitalidade e duração. na qual cessou a direção. pois. focalizais a atenção na vossa cólera. compreender a sua relação com o todo. isso é ação da vontade. concentração. portanto. e interessado em pôr fim a essa irritação. e. perdemos completamente o rumo. mas a coisa de que estais cônscio não está sendo avivada ou nutrida. mas quando vedes o todo. decisões e opiniões. compreender a natureza do percebimento: precisamos saber o que estamos dizendo ao empregarmos a palavra "percebimento". não se torna sumamente importante. jamais conseguimos livrar-nos dele. a coisa em que vos concentrais é fortalecida. do qual a cólera constitui uma parte. mas. ou estamos concentrados na parte e. Só nessa relação a parte adquire o seu verdadeiro significado. O percebimento é uma observação. globalmente. Krishnamurti: O percebimento não é um ato de nos prendermos a uma certa coisa. Estais cônscio. Krishnamurti: Digamos assim: Percebeis com vossa mente e vosso coração. também. ouvis. Se estais irritado. porque eu estou a transbordar de escolha. separadamente. de modo que o todo vos escapa e a cólera se torna mais forte. Ou o que estais dizendo é mais ou menos isto: que existe um campo total da existência. esse mesmo percebimento está sempre a olhar se ele desapareceu. Cumpre-nos. não se lhe dá exagerada significação. sentis. esse percebimento total em que a parte é um detalhe? É uma experiência misteriosa. ou dela estar cônscio como parte do todo. e como posso vê-lo? Krishnamurti: O inteiro campo da vida: a mente. Falais em percebimento sem escolha. e isso parece no-lo trazer à lembrança. Ora. Quando o percebimento se foca deliberadamente num determinado objeto. nutrida. ao mesmo tempo. e ele não desapareceu. assim. Quando vos concentrais. E que "todo" tendes em mente? Quereis referir-vos à totalidade da mente. A verdadeira questão. isto é. quando pondes toda a vossa energia e pensamento dentro dos limites que escolhestes. gera em mim outra batalha. podeis estar cônscio de uma coisa. A parte. seja para ler um livro ou para observar a vossa cólera. ou à totalidade da vida? Que todo é esse. em si. a parte gera seus problemas próprios. não fragmentariamente? Interrogante:Não sei o que quereis dizer. fortalece a parte. então a parte está com ele relacionada. Percebimento não é concentração numa coisa. para obtermos um certo resultado. ou vedes. ou à totalidade da existência. portanto. o amor. pensais. Não é um ato volitivo. é sem significação. tanto exterior como interior. Quando estamos cônscios de algum conflito ou tensão. então. e em analisá-lo. Interrogante:Que entendeis por "ver o todo"? Que é essa totalidade de que falais. ou à totalidade de mim mesmo. mística? Se é. Assim.

de diferentes partes de vosso ser. é ver o todo. quando a olho com a totalidade de meu ser? Krishnamurti: Exatamente. e a desatenção é ver a parte. Exato? Krishnamurti: Sim. Interrogante:Então.eis o problema inteiro. vossa mente. com a mente. de fato. com os ouvidos. justificar. Assim. entendeis "vermos com a totalidade de nosso ser". mais uma vez vossa mente intervém. ou estais apenas a verbalizar? Vedes a cólera com vosso coração. O que ouvistes dizer foi dividido e. e da relação entre ambos . como. assim. É atenção integral. Ficar cônscio do todo e da parte. por conseguinte. aumenta o conflito. separadamente. Estou apenas tentando compreender-vos.Krishnamurti: Ouvis uma certa palavra e vossa mente vos diz que é um insulto. por exemplo. O ouvir pode ser fragmentário ou pode efetuar-se com todo o vosso ser. vossos ouvidos e vossos olhos? Ou vedes como uma coisa não relacionada com o resto de vós e. Quando não há separação. a cólera.. o sentimento entra em ação. Assim. vossos sentimentos vos dizem que ela é desagradável. E. ou estais meramente compreendendo as palavras? Que está realmente sucedendo? Isso é muito mais importante do que vossa pergunta. . e não a atenção. portanto. Mas. Interrogante:Mas. a parte. o conflito aumenta e não há solução. de novo. dessa maneira. quando dizeis "ver o todo". um fato provoca uma reação em cadeia. a atenção. muito importante? Quando dais importância ao todo. entendeis "olhá-la apenas com uma parte de nosso ser"? Krishnamurti: Quando olhais a parte com um fragmento de vosso ser. aumenta a separação entre essa parte e o fragmento que a está olhando e. Separamos a parte do resto e queremos dissolvê-la. não vos esqueceis da parte. se vos concentrais num desses fragmentos. no ponto em que a mente se deteve. uma vez que está relacionada com muitas outras coisas. exato. etc. não. vedes totalmente. Interrogante:Assim. tem um significado diferente. perdeis de vista o "processo total" do ouvir aquela palavra. existe cólera? A desatenção é cólera. é uma questão de qualidade e não de quantidade. que sucede à parte. efetuar-se totalmente. à cólera? Krishnamurti: Estais cônscio da cólera com todo o vosso ser? Se estais. Interrogante:Quereis dizer que não há separação entre a cólera e mim. percepção com cada uma dessas coisas. não há conflito. por "percepção do todo" entende-se percepção com os olhos. com o coração. É isso o que realmente estais fazendo. quando dizeis "ver apenas a parte". tal a cólera. com todo o vosso ser. e. para controlar. Interrogante:Vós me perguntastes o que está sucedendo. Nessa atenção. Dessa maneira.

do ajustamento e da obediência. não teremos possibilidade de saber o que é "ser virtuoso". é completamente imoral? A moralidade social se tornou uma coisa respeitável.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 9. Não é o medo a base de nossa moralidade? A menos que estas perguntas nos sejam fundamentalmente respondidas. A moralidade do santo que se ajusta e observa a tradição de santidade firmemente estabelecida. sancionado ou não pela tradição. e a moralidade da revolta da juventude contra a atual moral social se tornará tão imoral e respeitável como a desta sociedade bem estabilizada. É uma moralidade sem moral. Se apenas a desprezais. A moralidade social é nossa moralidade. Se nossa conduta é dirigida pelo ambiente em que vivemos. mas a extrema facilidade com que a abandonamos. podemos realmente dizer que ela não é moral? Porque. na ação. isso tampouco é moralidade. é a crueldade e injustiça da autoridade estabelecida. então essa conduta é mecânica e fortemente condicionada. e podemos pô-la de lado facilmente? A facilidade com que a pomos de lado é o sinal de nossa moralidade. aprovada por sanções religiosas. e do mesmo modo a virtude. que todo ajustamento a um padrão. não representa conduta virtuosa. Mas. sem luta? É ela um fim em si? Krishnamurti: Podemos pôr de parte a moralidade social que. Se viveis uma vida de rotina e satisfação. isso não indica que sois moral: podeis ser meramente um psicopata. ser agressivo. pode-se considerar virtuosa tal ação? Assim. da imitação. é moral? Se vossa ação se baseia no medo à punição e no desejo de recompensa. por ele moldada e controlada. matar. consciente ou inconscientemente. dar ensanchas ao ódio. E se nossa conduta resulta de nossa própria reação condicionada. Como dissemos. MORALIDADE Interrogante:Que é "ser virtuoso"? Que é que nos faz agir virtuosamente? Qual a base da moralidade? Como alcançar a virtude. nós fazemos parte dessa sociedade. Essa compreensão não pode ser aprendida de outrem. vem com a liberdade. a qual é independente de mim? Se realmente percebeis a verdade do que estamos dizendo. Pode uma pessoa libertar-se com toda a facilidade dessa rede que chamamos "moralidade"? A facilidade. . na verdade.Krishnamurti: Estais procurando compreender-me ou estais vendo a verdade do que estamos dizendo. e isso significa: compreender a vós mesmo. Pode-se ver. pois. não o esforço que nos custa o pô-la de lado. Essa moralidade é ir para a guerra. buscar o poder. Só da liberdade pode vir a virtude. não é evidentemente moralidade. a facilidade com que podemos desembaraçar-nos dessa hipocrisia é da máxima importância. cumpre-nos descobrir até que ponto nos emancipamos da moralidade ditada pela autoridade. é virtuosa? Se procedeis virtuosamente em conformidade com um certo conceito ou princípio ideológico. sois então vosso próprio guru e vosso próprio discípulo. não a recompensa ou a punição desse esforço.

não porque haja alguma crise em minha vida ou porque eu tenha alguma razão para suicidar-me.a essência do burguês. sem sentir medo. o vigor e a pureza. Que me cabe fazer? Krishnamurti: Nada podeis fazer senão continuar como sois. deixar de preocupar-se com a virtude. para continuarmos arrastando o que dela resta? Não seria um verdadeiro ato de inteligência reconhecer o momento em que cessou a utilidade da vida? Krishnamurti: Se fosse a inteligência que vos inspirasse a pôr termo à vida. Interrogante:Mas isso não posso fazer. Não podeis "pôr dois proveitos num saco". Por isso.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 10. tenho medo. desejo "a outra coisa"! Vejo-lhe a beleza. Eis o meu verdadeiro e deplorável estado. essa mesma inteligência teria impedido o vosso corpo de deteriorar-se prematuramente. estou sempre a proceder imoralmente. Krishnamurti: Então não há problema algum. suas maneiras elegantes. com aquela inteligência que é facilidade? Assusta-me a simples idéia de ser considerado imoral pela sociedade. Interrogante:Então que me cumpre fazer? Vejo o que é moralidade e. quando ela chega. Krishnamurti: Ou aceitais a moral social ou a rejeitais. e só nessa atenção pode a bondade florescer. mais hipócrita me torno. Não podeis ter as duas coisas . seu conforto. nas pessoas. estar com um pé no inferno e o outro no céu. Quando há liberdade.Interrogante:Posso libertar-me da moralidade social. Quanto mais envelheço. mas porque é um assunto que necessariamente vem à tona quando se considera a tragédia da velhice .a desintegração física. Desprezo a moralidade social e ao mesmo tempo quero suas vantagens. o quebrantamento do corpo. sua segurança psicológica e material. . É muito melhor deixar de tentar ser moral. a perda da verdadeira vida. Virtude é liberdade. SUICÍDIO Interrogante:Desejo conversar sobre o suicídio . e me está na massa do sangue a respeitabilidade . entretanto. O que estou segurando nas mãos é uma coisa sórdida e feia. chefe de família. mas não posso largá-la. há atenção.virtude e respeitabilidade. mas eu sou um homem de meia idade. Há alguma razão para prolongarmos a vida ao atingirmos esse estado. Liberdade não é uma idéia. um conceito. Os jovens podem fazê-lo.

Qualquer forma de conflito é. que é uma coisa condicionada. mas. Eu estava tentando formular a pergunta na base de um problema direto da inteligência. os que são senis. Mas.a atividade sempre egocêntrica. e há o seu desgaste inatural. Felizmente. por conseguinte. a pergunta é motivada pelo pesar de observar a senilidade em outras pessoas. sociológica ou. não há também uma certa ação da inteligência que prevê uma possível derrocada do corpo e indaga se não seria inútil prosseguir vivendo. pois. como reconhecer a aproximação desse momento? Krishnamurti: Precisamos penetrar com certa profundeza nesta questão. uma questão moral. Incessantemente. interiores e exteriores. e não ao que é benéfico para o corpo. podem os médicos ou o governo permitir que um doente se suicide? Interrogante:Esta é. presumivelmente. ou os que estão a observar a senilidade com tristeza. extrema incapacidade. alguns dos fatores básicos. mas.e o prazer que ele proporciona molda e controla as atividades do organismo. creio que estou em condições de encará-lo mais ou menos desapaixonadamente. Há naturalmente.deterioração do corpo. trinta ou oitenta anos. como um . Quando isso acontece. de meu ponto de vista. São estes. não é disso que estamos tratando aqui. Esta é uma parte da questão. Em seguida. e a senilidade gradualmente dele se apodera. esse problema não me defronta. temos a mente que. sem dúvida. da mocidade em diante. amortece-se esse instrumento que deveria ser altamente sensível. do paladar e da negligência. da deterioração. Assim. Ela só conhece contradição e conflito . Nos armazéns vê-se uma enorme variedade de comestíveis. O paladar dita sua vontade -. Quem está fazendo essa pergunta. o desgaste físico do corpo. Perguntais se uma pessoa não deveria suicidar-se. já que. viveu num constante estado de luta e resistência. abusamos do corpo. com seus processos de isolamento. uma questão legal. capaz de funcionar como uma perfeita máquina. ela ainda não começou em mim. por influência do costume. senilidade mental. O corpo perde suas capacidades e memórias. pelo que me respeita pessoalmente. não só na senilidade ou quando se sente a aproximação da senilidade. do organismo. não só uma deformação.emocional ou intelectual. mas traz consigo a destruição. Ela implica várias coisas. é destruída a natural inteligência do corpo. ativo. não há um momento em que nem a inteligência da mente pode impedir a deterioração? O corpo acaba gastando-se. Krishnamurti: Estais perguntando se alguém tem o direito de tirar sua própria vida. durante vinte. convidando aos prazeres do paladar. não? . como outros preferem. tentadoramente coloridos. quando o organismo já não é capaz de vida inteligente? Krishnamurti: Podem os médicos permitir a eutanásia. e não se a sociedade o permitirá. é? O que estamos perguntando é se o indivíduo tem o direito de pôr termo a sua própria vida. mas se é moralmente permissível praticar o suicídio em qualquer tempo? Interrogante:Reluto em imiscuir nisso a moralidade. com desespero e medo de sua própria deterioração? Interrogante:Naturalmente. por enquanto e. tomar um comprimido para morrer.Interrogante:Mas.

tal como a busca de prazer. por fim. Krishnamurti: Estais perguntando se a inteligência permite. isso supõe um tremendo "motivo". com efeito. Krishnamurti: Mas não estais vendo também uma coisa muito real e verdadeira. ou do percebimento da inanidade de uma certa maneira de vida. Não permite. e não numa data futura. dadas certas circunstâncias. com sua atividade egocêntrica. necessário compreender a palavra "inteligência". pode ser ação de um homem inteligente. seja o isolamento de uma nação. etc? Isso é inteligência. do cultivo do paladar. de uma comunidade. A ação imediata. ele não pode voltar atrás e viver de novo a própria vida. . em presença do perigo. Interrogante:Percebo. o suicídio. em alguma circunstância. ou seja que o processo de insulação.não é isso? Interrogante:Ou se o suicídio. por influência do hábito. É inteligência permitir que o corpo se deteriore. ação da inteligência? Interrogante:Não. causado por uma profunda frustração. é um ato de sanidade mental. do prazer. qual é a resposta? Krishnamurti: Estais perguntando se um homem inteligente pode suicidar-se . denota falta de inteligência. ou de um estado de completo desespero. ou de um medo irremediável. mas se o indivíduo chegou a uma certa idade e em sua vida houve. ao suicídio. cujos efeitos ainda não se fazem sentir. decerto. de unia família.mas estou tentando fazer a pergunta fora de qualquer motivação. em certa medida. e pondo-lhe fim imediatamente. tornai-vos cônscio da natureza destrutiva da maneira como estamos vivendo. livre da emoção. e o adiamento. Krishnamurti: É a mesma coisa. afinal de contas. seja o de uma organização religiosa. e é então difícil separar a emoção da inteligência. Estou procurando manter-me nos domínios da inteligência pura. uso ininteligente de seu corpo. se me permitis a interrupção . Interrogante:Porque não? Krishnamurti: É. Krishnamurti: Por conseguinte. Interrogante:Em geral é assim. O suicídio resulta. é uma forma de suicídio? Isolamento é suicídio. do abuso. de inteligência.exercício de inteligência humana. Quando uma pessoa chega ao ponto de desespero. por parte do pensamento. A pessoa já está presa naquela armadilha que leva.

que é um ato de fuga. o que quero perguntar é se o suicídio pode ser outra coisa que não uma reação neurótica. Não pode ser também a reação a um fato que enfrentamos... porque é de supor. prestes a dar o bote.. Interrogante:Mas é também um ato de fuga ao carro. Mas não se pode dizer que há. e eu o evito. para não enfrentar "o que é". que no fim levará ao suicídio? Mas. a inteligência dita uma certa ação. essa fuga é uma forma de suicídio. Os dois termos se contradizem. às vezes. Mas . mas o elemento representado pelo desejo de fuga já existe . uni corolário desse ato de inteligência.e esta é a questão que proponho . em face de uma situação humana insustentável? Krishnamurti: Quando empregais as palavras "inteligência" e "situação insustentável".. Interrogante:Dissestes que em presença de um precipício ou de uma serpente venenosa. Interrogante:Este me parece ser o ponto crucial da questão. que o suicídio é uma fuga. nem todo o mundo se suicida! Krishnamurti: Exato. em noventa e nove por cento dos casos.. Evidentemente o é. há uma contradição.não existirá também uma espécie de suicídio que não seja fuga. pela estrada. Krishnamurti: Isto é um ato de inteligência. Interrogante:. quando a coisa que temos peia frente é insolúvel e mortal? .Interrogante:Estais-vos referindo ao indivíduo ou ao grupo? Krishnamurti: Tanto ao indivíduo como ao grupo. Krishnamurti: Um ato de fuga ou um ato de inteligência? Interrogante:Não podem os dois atos ser. Já estamos aprisionados no padrão. um meio de evitar isso que chamais "o que é"? Pode-se dizer que muitos casos de neurose são formas de suicídio. no viver.. pelo que acabais de dizer. Interrogante:Exatamente. reação da inteligência.fuga para não enfrentar os fatos. Krishnamurti: Mas é ato da inteligência. idênticos? Se um carro vem sobre mim.

o afastar-me dela significa suicídio. É um ato de ininteligência. um ato que significa claramente que chegastes a um ponto em que vos vedes de tal maneira isolado. Krishnamurti: Mas. refletiria sobre o que conviria fazer. você tem de ir vivendo com ele" . Não se trataria de uma questão teórica. categórica e inevitavelmente. Interrogante:Quereis dizer que o ato de suicídio é. Krishnamurti: Existe.que devo fazer. Krishnamurti: Não. que não achais saída alguma. Krishnamurti: Muitas? Mas. pessoalmente. o suicídio é um ato de ininteligência. muito cuidado com o que estais dizendo. para fins de discussão. uma reação neurótica à vida? Krishnamurti: Obviamente. não temos possibilidade de fugir dela.Krishnamurti: Deixai-a. Krishnamurti: Tende cuidado agora. suicidar-me? Interrogante:Talvez. Interrogante:Nesse caso. na vida. de desviar-se da realidade. Iria averiguar qual seria a coisa mais inteligente a fazer. Interrogante:Mas. Se tenho um câncer que me vai matar e o médico me diz: "Bem. Interrogante:Porquê? Krishnamurti: Eu vo-lo estou mostrando. estivesse com câncer. assim como deixais o precipício: afastai-vos dela. Se eu. estamos discutindo este assunto teoricamente. meu amigo. porque insistis em que o suicídio é a única saída? Interrogante:Quando atacados de uma doença fatal. alguma situação. então. há muitas. quero supor uma situação irremediável e que a pessoa não atue com o "motivo" de evitar o sofrimento.(1) nesse caso eu decidiria. relação ou incidente de que não possamos desviar-nos? Interrogante:Naturalmente. .

com efeito. de momento em momento. porém para o médico. é isso precisamente o que estou dizendo. mas só se me acho realmente em tal situação? Krishnamurti: Isso mesmo. Agireis então de acordo com vosso condicionamento. mas não digamos que o suicídio é inevitável.. o suicídio seria unia reação inteligente. se tiverdes vivido uma vida de real inteligência. Podereis conformar-vos. em certas circunstâncias coercivas. de acordo com vossa inteligência. a esposa.Interrogante:Quereis dizer que não se pode fazer esta pergunta teoricamente. compreendendo-a? Interrogante:Por outras palavras. não tem resposta. antes de nos acharmos em tal situação.e fostes seguindo com ela. Se uma pessoa está doente. a vida vos trouxe muitos benefícios . Krishnamurti: Ou podereis não dizê-lo. a filha? Interrogante:Oh! isso. esta é a razão por que considero muito importante enfrentar o fato. se vos virdes atacado de câncer. Agora. em vez de tecer teorias a respeito dele. em tempos de desventuras. uma ação neurótica. Krishnamurti: Não há. uma atividade neurótica.o que é próprio da inteligência. não há resposta para esta pergunta. Igualmente. naturalmente. "vivendo-a". a vida vos deu extraordinária beleza. Mas. de acordo com vossa maneira de vida. fostes seguindo com ela . Interrogante:Ou poderei não dizê-lo. naturalmente. no sentido total desta palavra. dizer: "Irei vivendo os poucos meses ou anos que me restam". Se vossa maneira de vida foi sempre de evitar e de fugir. então. não para um mero observador. acontece que tendes câncer e dizeis: "Não suporto mais esta vida. adotareis. Interrogante:. Krishnamurti: Temos aqui uma coisa extraordinária: a vida vos proporcionou grandes alegrias. ou se tornou completamente senil. irremediavelmente doente de câncer. Mas. enfrentar "o que é". Interrogante:Eu não o disse.. Krishnamurti: Exatamente. perguntei se. e ninguém tem o direito de decidir sobre a vida e a morte de outro ser humano. qual é o ato mais inteligente. .. como eu. então essa inteligência atuará." Porque não "seguis com ela". acompanhando seu movimento. tal um caso de câncer.. porque é um problema que concerne a outro ente humano . preciso pôr-lhe termo. uma atitude neurótica.

nós o fazemos. A tradição o faz. desconfiado. agirá corretamente. ou num laboratório . bem. e e nós destruímos a alerteza do corpo com nossas maneiras antinaturais de viver. se viveu uma vida de amor. . Uns estourariam os miolos. principalmente esta. ao surgir aquela situação. a certo respeito. Mas cumpre investigar o que há atrás dela. Conhecemos um homem que está sempre a ameaçar suicidar-se. não pergunta "posso suicidar-me"? Ele já o está fazendo. Krishnamurti: A única resposta possível. Mas. nesta casa sólida. Graças à ciência médica. Escutai: Descobrimos várias coisas. outros deixar-se-iam ficar a sofrer até morrer. Um homem.se um homem pode ou não praticar o suicídio. Krishnamurti: Sim. se seguimos uma maneira de vida que seja a negação de tudo isso. Interrogante:Estou vendo que vos fiz urna pergunta acerca do suicídio e me destes uma resposta sobre como viver corretamente. esta nossa palestra ficou sem sentido. ávido de poder e de posição. mas parece-me muito antinatural fazê-los viver por tanto tempo. ela deve ser feita . dizer a outro o que deve fazer em tal caso. . essa inteligência. esse homem já praticou o suicídio. uma questão totalmente diferente. essa vida. a constante repressão.aqui sentados. esta é uma questão diferente. que o mais importante é viver inteligentemente. não tem sentido nenhum. Assim. O homem que é obstinado. no ato de saltar de uma ponte. O viver de maneira sumamente inteligente requer extraordinária alerteza da mente e do corpo. esse homem. Mas. de modo nenhum. Todas as tiranias o fazem. Não quer fazer nada e quer que todos o sustentem. é difícil definir o que é uma condição natural. constantes explosões de violência. Se ele é de fato inteligente. muitos doentes são conservados vivos. como hoje se faz. nossa palestra não foi inútil.. a tradição nos manda viver de uma maneira e não de outra. Estamos também destruindo a mente. mas até hoje não o fez porque é um homem extremamente indolente. não se pode fazer esta pergunta. o cérebro. Ao ente humano com mal incurável é que cabe agir de acordo com sua inteligência. é um caso liquidado. Interrogante:E também se está tornando tradição fazer as pessoas viverem além do ponto em que a natureza daria por finda a luta.Krishnamurti: Mas. então. ou a viver de alguma maneira no ínterim. Interrogante:Então. mesmo quando os médicos tenham diagnosticado um mal incurável. Krishnamurti: Não. agirá em conformidade com a inteligência que esteve operando no passado. de sensibilidade e delicadeza. em face de uma doença incurável.se um homem pode ou não suicidar-se. Não se pode. de solicitude. Interrogante:Portanto. com o conflito. porque isto teria de acontecer inevitavelmente: as pessoas agiriam em conformidade com o que tivesse acontecido no passado. o que está inspirando ao homem que a faz o desejo de suicidar-se. Krishnamurti: Ao contrário. A verdadeira questão é se a inteligência pode permitir o suicídio. isto é. perguntarmos nós .

Krishnamurti: Naturalmente. nenhum sentido do tempo? Não digo vivermos de tal maneira que não nos preocupemos com o que amanhã sucederá ou ontem sucedeu. a esperança é o próprio inferno. Porque. não devemos perguntar se é certo ou não uma pessoa suicidar-se.eis a verdadeira questão. outra imagem. Descobri-lo e com ele viver . A esperança é a coisa mais terrível. tendo depositado toda a sua fé numa crença. ó vós que entrais" (no inferno)? Para ele. Isto é também um ato de desespero. Há pessoas que dizem: "Peguem o presente e tirem dele o melhor partido possível". e tal não é possível quando há medo. já se suicidou. Sua voz constitui sua maior proteção e. de seu ambiente.a proteção do suicídio. não é urna coisa que foi ou que será. avidez. Interrogante:A proteção do suicídio! Krishnamurti: Considerai. o paraíso era a esperança. se ele a perde. Interrogante:. de sua ecologia(2).este também. Krishnamurti: Diretamente e inteligentemente.o muro de seu saber.. formação de imagens. O crente se acha. é uma espécie de subsistência. com efeito. está pronto a suicidar-se.Dic. interiormente. por nós mesmos. - . Assim. "Funk & Wagnals"). antes perguntar: Como se torna existente uma vida fora do tempo? Viver fora do tempo é. Já se acham num estado de neurose. que a vida. no limiar do suicídio. conhecer a imensidade do amor. qualquer homem que está vivendo com uma imagem de si próprio. Horrível! Interrogante:Sim. sente medo e está pronto a adotar outra crença. devemos perguntar o que é que produz o estado de espírito em que não há mais esperança alguma . Assim... Vede como vive a maioria das pessoas: atrás de um muro . e essa neurose lhes oferece uma certa espécie de proteção .embora "esperança" seja unia palavra imprópria. por exemplo. é pergunta própria de quem já está parcialmente morto. Deve-se. inveja. de seus desejos. quando não é vivida diretamente . ansiedade. sem nenhum padrão. O que é realmente interessante e verdadeiro é descobrirmos. pelo que dizeis. Interrogante:Quer-me parecer. fora das sombras das imagens. Isso não é viver. Vive atrás de uma muralha de imagens. do condicionamento. ou o viver em isolamento religioso.. ou não. já que a esperança supõe um futuro. pode um homem viver sem imagem alguma. Porque o amor não pertence ao tempo. Em verdade. Não foi Dante que disse: "Deixai toda esperança. Se um homem pode suicidar-se.[ÍNDICE] (1) No original "terminal cancer" (Terminal: Extremidade de um neurão ou fibra nervosa" . positivamente. já está liquidado. a praticar outro suicídio religioso. se essa crença é abalada. Esse isolamento é o que todas as religiões sempre ofereceram. um cantor. seus impulsos ambiciosos. de seu poder político ou de sua religião. uma maneira de vida altamente sensível e inteligente.

duro. Um padrão significa repressão. A disciplina certamente o teria salvo. ter boas maneiras à mesa. secretamente. leviandade. todavia. isso não é aprender acerca de nós mesmos. e não ajustar-se. endurecido. mas.N.por exemplo. não se poderiam perceber as belezas da música. não deve haver acumulação de espécie alguma: se há. Assim. Para aprendermos sobre nós próprios. mas não há dúvida que alguma disciplina é necessária . No aprender não há acumulação. (2) Ecology: divisão da biologia que trata das relações entre os or ganismos e o ambiente (Dic. disciplina é liberdade. impôs certos valores. cheio de banalidades. portanto. "Funk & Wagnals"). controlar meus pensamentos e apetites e a fazer certas coisas a horas certas. falar com reflexão. Saber é acumulação. Vemos um jovem flexível. Não existe uma maneira de viver sem a deformação e a repressão da disciplina. Aprender a respeito de "o que é" é libertar-se de "o que é". que me tornei incapaz de fazer qualquer coisa com facilidade. Esta nega todo ajustamento e controle. . Eu. ao revê-lo. fórmulas. Vendo o que se passa em torno de mim. porém apenas aumentar o conhecimento acumulado a nosso respeito. sentar-se decentemente. Sem disciplina. mas também ensinaram-me a disciplinar. sendo. conclusões. essa beleza bem cedo se esvaecerá e eles se tornarão velhos e velhas um tanto enfadonhos. sordidez. do T. um movimento sem centro. Observo na nova geração a beleza dos jovens. não tendes necessidade de disciplinar-vos para aprender. É trágico. nesta sociedade permissiva .) INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 11. As boas maneiras e a boa educação revelam muitas sutilidades no trato social de cada dia. Não podeis aprender se não sois livre. belo. submetido a estrita disciplina. repressão de "o que é". Esta questão é muito complexa. não apenas na conduta. o ser livre. do T. sem começo nem fim. o ser sensível e o ver a beleza do amor. O resultado é que me vejo tão cercado de restrições.(N. que quase me matei de disciplina. muito respeitável. é a mais elevada forma de disciplina. indiferente. reprimir. ocasionou frustrações e deformações. cada indivíduo interiormente disciplinado? Krishnamurti: Disciplina significa "aprender". liberdade e alegria. embora. o ser austero. indiferença às boas maneiras . O aprender exige inteligência e sensibilidade. alguns anos após. mas o aprender é um movimento constante. porque controle é imitação de padrão. Aprender é a liberdade de perceber. porque nela estão implicadas várias coisas: o aprender. porém. reservado.desordem.sinto-me chocado. A disciplina. O saber difere do aprender. ele se tornou quase irreconhecível-desordenado. de ver. feio. de olhos luminosos e sorriso simpático e. sem disciplina. o próprio ato de aprender é disciplina. sentimental. imitar o padrão que a autoridade consagrada considera nobre. ardoroso. . muitas vezes pergunto a mim mesmo onde se acha o meio termo entre esta sociedade licenciosa e a cultura em que fui criado. DISCIPLINA Interrogante:Fui criado num ambiente muito severo. da literatura ou da pintura. e não há aprender a respeito de "o que é" quando existe uma fórmula do que é bom e do que é mau. Por conseguinte. eu próprio deseje fazer algumas dessas coisas. O aprender.

A disciplina. Se não sois sensível a vós mesmo. controlada. no campo de manobras. e o aprender acerca da austeridade não implica violência a nós mesmos ou a outrem. como dissemos. Para vencer esse conflito. entra em ação a vontade e gera mais conflito. O aprender exige sensibilidade. Para vermos claramente necessitamos de liberdade. Sem essa disciplina. por conseguinte. portanto. Tais conclusões e preconceitos resultam da observação feita pelo centro . O perceber a falsidade disso traz a sua austeridade própria. Perceber isso é inteligência. Interrogante:Não estais simplesmente dizendo que. temos de ser objetivos? Krishnamurti: Sim.o "eu". que quer e que dirige.e isso gera problemas sem conta. ou seja violência. em vós mesmo. pois. à força de brutal disciplinamento. seja no mundo. Forceja o santo por "bater um recorde". há conflito. está no começo e não no fim: o começo é o fim. torturada. O amor tem sua própria disciplina. tão veloz como a luz. O aprender. Se sois sensível a vós mesmo. não podeis deixar de ser sensível ao mundo. por mais que vos disciplineis. Nesse aprender há amor. ou do artista. vos ireis tornando cada vez mais insensível. sem sensibilidade? O sentimentalismo e o emocionalismo negam a sensibilidade. não é o adestramento ministrado pelo sargento. Disciplina. Essa inteligência nunca salta de um extremo ao outro. não é o resultado final da disciplina. A liberdade. Essa fragmentação não produz sensibilidade. em si.A austeridade do sacerdote e do monge é áspera. então. a própria compreensão da liberdade é disciplina. cada vez mais egocêntrico . evita os extremos. tão delicada como a folha primaveril. a mente não pode alcançar muito longe. Não é a sensibilidade de um especialista . tal como o atleta. Ver claramente as coisas é disciplina.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI . como geralmente entendida. para vermos claramente. é ato da vontade. e não de disciplina. porque o mundo exterior é vós. a vossas relações. ou pela vontade. quando se separam. O aprender sobre tudo isso é. Disciplina. Como é possível amar. Esta sensibilidade é a mais alta forma da inteligência. inseparavelmente. portanto. Não estamos falando da crua objetividade do microscópio.do médico. disciplina. O santo representa o triunfo da violência austera. mas a palavra "objetivo" não é suficiente. São duas coisas que andam sempre juntas. Esse aprender requer estejamos livres de todas as conclusões e preconceitos. Em todo o mundo. é aprender. porque são terrivelmente cruéis: são responsáveis pelas guerras. parece ser crença geral que a liberdade é o fruto de uma prolongada disciplina. do cientista. sensibilidade e profundeza. O santo é um ente entorpecido e pretensioso. a vosso ambiente. Eles repelem alguns dos seus apetites. de exercícios e ajustamentos. Perceber isso claramente é aprender. tem sua própria e extraordinária disciplina. A austeridade é geralmente identificada como negação de si mesmo. A liberdade. É gama cadeia sem fim. Inteligência é a sensibilidade que compreende e. se não sois sensível ao que se está passando em derredor de vós. durante todo o dia e durante o sono. Mas isso não é a prudente mediocridade de permanecer no meio termo. seja na cozinha. porém de um estado em que existe compaixão. Aprender é ser sensível a vós mesmo e ao mundo exterior. moldada. mas não repelem outros que o costume sancionou. cuja beleza escapa à mente exercitada.

é virtude. religião e política. matérias essas que. Sabendo isso. sem princípios. a violência. Há anos que desejo viver dessa maneira. Krishnamurti: Após dizerdes tudo isso. A beleza do universo está em "o que é". e em toda parte aonde vou só se me oferecem mais palavras e ações derivadas dessas palavras: conselhos. . crenças. aludem às relações humanas. uma realidade absoluta. me sinto enfarado de tudo isso. a crença. os desafios da vida de cada dia surgem antes de os pressentirmos. mas. afinal de contas. sem esforço. Li também vossos livros. vejo que "o que é" é horrível. pergunto-me a mim mesmo como posso viver corretamente e com amor. em maior ou menor grau. Pois. É-me possível viver com toda a simplicidade. onde o problema? Interrogante:Eu o desejo deveras. tendo-me visto tantas vezes a braços com esses desafios. toda espécie de aberração humana. porém viver. Krishnamurti: Portanto. A nobreza da vida não consiste em praticar nobreza. tudo isso deve ser posto de parte. Estive nadando num oceano de palavras. para não vê-lo. e ideais? Posso viver livremente. por alguma razão. essa relação é vida. Viver com "o que é" é o que chamais virtude. perguntando a mesma coisa que todos perguntam. para a maioria dos que vos têm lido e ouvido. seria muito pior ainda. e rejeitar "o que é" é a origem do conflito. exortações. psicologia. teorias. onde vos achais? Desejais realmente viver com felicidade e amor? Se o desejais. a diretiva. como a águia nos ares. clareza e alegria não forçada. vós mesmo o fizestes. Não quero saber conto viver. Krishnamurti: Ver "o que é" é ver o universo. Interrogante:"O que é" inclui também a confusão. ultrapassar a idéia. Deve haver pessoas para as quais o que dizeis representa algo mais do que palavras. remédios. Interrogante:Mesmo tirando-se o que deveria ser. e viver com "o que é". que se ocupam com o pensamento e as idéias e. é inaceitável. análises. viver o milagre da vida. o que dizeis são só palavras. mas isso não me leva a parte alguma. Naturalmente. Enganar a mim mesmo. Mas isso não é insensibilidade e insânia? A perfeição não consiste simplesmente em abandonar todos os ideais! A própria vida exige que eu a viva com beleza. Eu gostaria de ultrapassar as palavras. a perseguir fantasmas. O QUE É Interrogante:Li muito de filosofia. com muita sutileza e de maneira indireta. Tendes dito que cada um deve ser mestre e discípulo de si próprio.12. embora negueis o ideal. mas não posso. estais. carecendo da beleza total. mas refiro-me aos demais. para viver em relação total com todas as coisas. sabendo que sou escravo do mundo? As crises não nos batem à porta antes de entrarem. o "como" nega o próprio viver real. é o conflito entre "o que é" e o que "deveria ser". promessas.

por outras palavras. continuo a viver sem beleza. vivei-o! Interrogante:Não posso. Tendes percepção de vós mesmo. A própria entidade que critica precisa ser criticada. vivei então em confusão. E viver com "o que é". feito de medida em punho.podeis observar "o que é".Krishnamurti: Então. Olhar sem deformar é amor. sena deformação. Interrogante:Quereis dizer que nosso único defeito é sermos autocríticos? Krishnamurti: Não. sem a deformação produzida pela medida e a idéia. e então "o que é" já não é a mesma coisa. deformação do "olhar": não é olhar. e a ação dessa percepção é a ação da virtude.que só haja percepção. Não ides mais longe em vossa autocrítica. examinada. Viestes aqui a fim de perguntar como viver com beleza e amor. liberta-nos dele. então esse padrão é o ideal. com o que é. de modo nenhum. é avaliação do "olhar". no entanto. Krishnamurti: Vedes fealdade. Krishnamurti: A maneira como percebeis é o que sois. são duas coisas tão diferentes como um pedaço de giz e um pedaço de queijo. se a mente não está sempre comparando e medindo . porém na coisa percebida. Se não há padrão nenhum . e nada mais . Não sois suficientemente crítico. Se o exame é comparativo. Interrogante:Observo-me sem nenhum padrão e. A virtude está em olhar puramente. não batalheis contra ela. isto é. Mas. sem conflito. Krishnamurti: Se não podeis. Krishnamurti: Todo exame requer um padrão. nessa percepção? Interrogante:Não há fealdade na percepção. ou seja com atenção. tal como sois? Interrogante:Tenho. apenas uma absoluta percepção de vós mesmo. Essa . ver. ao contrário. vivei com ela. Conhecendo toda a aflição que ela traz. é possível observar de maneira que só haja observação. A aferição desse "olhar" é interferência. sem a entidade que percebe? Interrogante:Que quereis dizer? Krishnamurti: Há o ato de olhar.

ela existe sempre. examinei-me. Interrogante:Isso é apenas para uns poucos? Ou é para mim também? Não sei realmente o que devo fazer.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 13. O BUSCAR Interrogante:Que é que estou buscando? Em verdade. a única maneira . maravilhosa e inexplicavelmente. modo de pensar a esse respeito. vêm de tais sutilidades são em geral fugidias e sem importância. Isso é viver como a águia nos ares. Todavia.ver-nos. Assim. creio eu. por dizer-me algo. e. o firmamento. averigüemos se nossas mentes e corações são realmente capazes de receber a imensidade..coisa tão fútil. sem que eu a veja. disciplinei-me. essa ânsia de ultrapassar as montanhas e os espaços. ele pode ser extirpado todo inteiro. e com que amor e que beleza? Podem vosso coração e vossa mente receber aquela "coisa"? São ambos sensíveis ao mais leve sussurro de algo que chega inesperadamente? Interrogante:Se se trata de uma coisa tão sutil. Desejo estender a mão e apoderar-me dessa coisa . . Diz-se que. Mas essa coisa talvez esteja diretamente à minha frente. estudei-me. na outra margem. os mares. sem tomar um barco e remar para lá alcançá-la instantaneamente? Essa me parece ser a única maneira de alcançá-la. ao encontro de uma certa coisa. dos santuários e dos sacerdotes. e fazer tudo o que se faz na vida diária. mas há em mim um enorme anseio por algo que seja muito mais do que conforto. Tudo isso eu já tive. que clama por libertar-se. aqui me acho com toda a simplicidade. intacto. como vedes. em silêncio. operando-se com habilidade um tumor.clareza da percepção atuará constantemente no viver. prazer. Isso é possível? Como posso atravessar para a outra margem. Krishnamurti: De fato? Tudo precisa estar escrito no quadro negro? Por favor. e não a mera palavra. eu gostaria de abarcar toda a Terra.embora saiba muito bem que não posso prender o vento na mão. é a beleza viva. Não precisais ensinar-me a olhar: li muitos dos vossos escritos e conheço o vosso. Tenho esse sentimento há muitos anos. mais ou menos inteligentemente. o amor vivo. Krishnamurti: Não sei se sois realmente tão simples como pensais ser! De que profundidade fazeis esta pergunta. viver. Krishnamurti: Sim. agir. Não quero ficar andando de sistema para sistema . e naturalmente há muito me emancipei dos templos. mas essa é uma coisa muito superior a todas . Pela mesma maneira. senhor. e a satisfação do preenchimento. num só movimento e alcançar instantaneamente aquele estado de bem-aventurança. não o sei. que encerra ela de verdadeiro e de real? As sugestões que nos.uma coisa existente numa insondável profundeza. Estive sentado. mas quando o examino não pareço capaz de atingi-la. de lá.

Se realmente acabastes com tudo. Krishnamurti: Sabeis o que significa "estar em comunhão" com o que acabamos de dizer a respeito do amor e da mente? Interrogante:Creio que sim.o amor e a mente vazia de pensamentos . Já fiz. pondo de parte todos os óbvios absurdos do nacionalismo. Mas. se realmente fechastes a porta a todos os absurdos que o homem ajuntou. em sua busca de uma "certa coisa" . mas isso. Krishnamurti: Significa isso que já não estais buscando. não é a ação da boa conduta ou da virtude social. todas as ações virão delas. então. mas. tomo a perguntar-vos o que me cumpre fazer.são então estas duas coisas . de que existe uma "certa coisa" além de todos os montes? Krishnamurti: Não se trata de abandonar coisa alguma. Mas continuo de mãos vazias.essa interminável galeria de ninharias. decerto. após dizê-lo. não posso apreendê-lo com o coração. Se há comunhão com aquelas duas coisas.apenas mais duas palavras. Krishnamurti: Deveras o sabeis? Se há comunhão com aquelas duas coisas. com certa inteligência. de fato. Assim. não o sei. Pode a mente manter-se de todo inativa. sobremodo ativa? O amor não é atividade do pensamento. não diferentes de quaisquer outras idéias? Interrogante:Tenho o sentimento profundo de que não o são. como acabamos de dizer. cansado de tantas atividades. quase tudo o que cumpre fazer. por conseguinte. e sei também que é ela a única coisa. Volto ao meu sentimento inicial de que existe essa coisa chamada amor. Assim.Interrogante:Eu. e. só há estas duas coisas: o amor e a mente vazia de pensamentos. já não estais a segredar a vós mesmo "Preciso alcançar uma certa coisa que se acha além dos montes mais remotos"? Interrogante:Quereis dizer que devo abandonar esse sentimento que há tanto tempo abrigo. Creio possuir a compaixão e creio que minha mente é capaz de apreender as sutilezas da vida. que a inação me parece atraente? Não. que me cumpre fazer ou deixar de fazer? Krishnamurti: Não fazer nada é muito mais importante do que fazer alguma coisa. Como o amor não é cultivável. da religião organizada. . mas falta-me a certeza. e este é meu problema. da crença . então. que está faltando. Será porventura porque meu coração está vazio. por alguma razão. não é suficiente. nada se pode fazer em relação a ele. não há mais nada que dizer. Interrogante:Percebo o que entendeis ao dizerdes que a inação é a mais elevada forma da ação a qual não significa "fazer nada".

ORGANIZAÇÃO Interrogante:Já pertenci a várias organizações -religiosas. Assim. comerciais. depois de ouvir vossas palestras. roupas e morada .não para benefício de uns poucos. não é conflito e desordem? A questão. portanto. É claro que necessitamos de alguma espécie de organização. perguntando qual a relação entre organização e liberdade. quando há tanta fartura. em si.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 14. Esta Terra é de nós todos. A moralidade que o homem até agora tem cultivado conduziu a esta desordem e caos. Mas posso manter essa comunhão? Krishnamurti: O desejo de mantê-la é barulho e. não haveria problema nenhum. Para vivermos felizes.a organização das religiões. racionais e eficientes. na devida ordem. como coisa inteiramente diferente da vida. as organizações são necessárias às comunicações. nas cidades ou nos campos. não estais separando a liberdade da existência diária? Quando a separais dessa maneira. de alguma maneira estou "em comunhão". Milhões padecem fome. com base na liberdade.a todas as atividades atinentes à vida em comum. nesta liberdade? Interrogante:Então. fisicamente. portanto. tenho estado a pensar. produção de alimento. Ora. O ponto essencial de minha pergunta é que a organização que . quando estamos juntos. causadora da desunião e da guerra. Tudo isso precisa estar eficiente e humanitariamente organizado . por isso. isso. existe desordem porque há divisão. não podeis simplesmente organizar as coisas para vós mesmo. a qual porá todas as outras nos devidos lugares. é perdê-la. políticas. sem organização. E há a organização da crença . Eis o real estado do mundo. raças e classes. mas de todo o mundo. E pode não haver necessidade de ir a parte alguma! Interrogante:Posso "estar em comunhão" a todas as horas? Vejo que. E. conflitos. e não vossa ou minha. não há possibilidade de se ir mais longe. sem as divisões de nacionalidades. outros a fazem para ele: o governo e outros indivíduos o mandam para a guerra ou determinam suas ocupações. a vida não poderia continuar e. viagens. Há guerras. e toda espécie de brutalidade. é realmente esta: E possível viver e organizar a vida na base desta liberdade. Onde começa a liberdade e acaba a organização? Qual a relação entre as organizações religiosas e Moksha ou libertação? Krishnamurti: Como os entes humanos vivem numa sociedade muito complexa. Krishnamurti: Sem aquelas duas coisas.Interrogante:O que me perturba é que ainda continuo a pensar que existe uma certa coisa que precisa ser descoberta. sobre a relação que pode haver entre liberdade e organização. há necessidade de organizações sãs. Mas a organização da vida não é feita pelo próprio indivíduo.

Por conseguinte. a sociedade é. Krishnamurti: De modo nenhum. Viver neste mundo em liberdade significa viver com amor. assim. que divide. Eu não quero ir para a guerra. pela sociedade. medrosos. parece que a questão não é de organizar alguma coisa com base na liberdade. enquanto pertencerdes a alguma nacionalidade. . Só os que estão livres delas podem dizer que não criaram esta sociedade. Continuareis responsável pela guerra. com respeito a nossa pergunta original acerca da relação entre liberdade e organização? A organização é sempre imposta pelo ambiente ou dele herdada. Estamos presos nesta armadilha. quer como coletividades. Cabe-nos. se somos avaros. A religião organizada é a causa da divisão. Vós a criastes com vossa nacionalidade. prestai atenção a essas coisas que separam. quer como indivíduos. esta desordem. inveja e ódio. quando não convém cooperar. o juízo. evitando toda forma de divisão. o dever de nos transformar e ajudar outros a se transformarem. e. em qualquer forma. Nascemos numa organização que nos restringe a liberdade. o Estado. causam divisão. Vendo-se em si mesmo dividido. Não o conseguindo. Onde há liberdade.nos é imposta pelo governo. o que nos interessa não é a divisão entre organização e liberdade. Assim. O que somos. há amor. O próprio pensamento é sempre divisor. Não é possível "integrar" dois preconceitos. e não a organização. O pensamento cultiva o preconceito. a sociedade me forçará a ir. Portanto. numa dada reforma sociológica . a sociedade mata animais. a Igreja. e a liberdade vem sempre do interior. também. Interrogante:Aonde nos leva isso. Ou nos submetemos ou nos revoltamos. credo ou raça. espera ele integrar os diversos fragmentos. a opinião. Krishnamurti: Não reconhecemos que nós criamos a sociedade. pois. vossa avidez. que nega a liberdade e o amor. Krishnamurti: De onde partir? Tendes de partir da liberdade. interior e exteriormente. toda ação baseada numa idéia ou ideologia é divisão. essa inteligência cooperará e saberá. E a divisão. Isso não é um ato de escolha. A religião organizada baseia-se na crença e na autoridade. Interrogante:Há diferença entre o indivíduo e a sociedade. A crença. pela moralidade. Interrogante:Isso significa religião organizada. sem violência nem derramamento de sangue. senhor. por mais nobres e promissores que pareçam. enquanto abrigardes tais coisas em vosso coração. cada um de nós é responsável por tudo isso. os ideais. porém se podemos viver neste mundo sem divisão de espécie alguma. Essa liberdade e amor vos mostrará quando convém cooperar e quando não convém cooperar. Havendo liberdade e amor. estas muralhas. não é liberdade. O importante é o movimento do pensamento. exatamente como as nacionalidades e os blocos de potências. por ela sois responsável. A família. A sociedade não difere de nós. são os criadores dessa divisão.[ÍNDICE] . invejosos.que é uma maneira de recomeçar o mesmo e velho ciclo. Quando a organização divide. Eu sou vegetariano. Podeis dizer que essa guerra é obra minha? Krishnamurti: Sim. porque a escolha se origina da confusão. criamos uma sociedade de igual espécie. E se a rejeitarmos nos veremos envolvidos numa revolução. são duas coisas incompatíveis. O amor e a liberdade é inteligência. busca o homem livrar-se dessa divisão. o que naturalmente é impossível. que criam divisão entre os homens. Se vivemos em conflito. leva à guerra.

devemos estabelecer entre nós um estado de comunhão. portanto a causa da divisão. Interrogante:Podeis dizer mais alguma coisa sobre o desejo? Krishnamurti: Vemos uma casa. por mais sutil e hábil que seja. na verdade. Vim.pois assim talvez tenhamos a possibilidade de ver o que ela é. e fui bem sucedido. Interrogante:Que quereis dizer com isto: divisão e separação que causam luta? Krishnamurti: O pensamento. desejo perguntar-vos o que é o amor. Isso precisa ser compreendido. para não nos atermos apenas às palavras. se o permitis. então. Não sou dado a brutalidades ou sentimentos violentos. sinto-me preocupado. o homem se torna sub-humano. Não devemos. é divisório. ver o que ela não é? . mas. Estais perguntando o que é o amor. Mas agora. antes de ser tarde demais. luta e brutalidade. já na meia idade. Tudo isso constitui o centro. não só em relação a minha família. porque na divisão há conflito. Ê. por sua própria natureza. se tratamos meramente de perseguir o positivo. É o pensamento que busca o prazer e o conserva. primeiramente. com a plenitude da mente e do coração. não é amor. talvez eu pudesse tornar minha vida mais digna de ser vivida. as palavras são úteis para a comunicação. separação. . Qualquer coisa produtiva de divisão. Assim. e se pudéssemos explorá-lo juntos. ao falarmos sobre uma coisa que é essencialmente "não verbal". por mais extensa. Vivi um tanto dissipadamente. AMOR E SEXO Interrogante:Sou casado. Como considerarmos essa coisa realmente tão sutil que não pode ser alcançada pela mente? Temos de caminhar com certa cautela. mas também de maneira relativamente civilizada. De contrário. temos a sensação de que é bela. porque não há explicação. Estamos dizendo que poderemos encontrá-lo quando soubermos o que ele não é. mas sempre senti que o amor deve ser uma coisa muito mais vasta. e vem então o desejo de possuí-Ia e dela fruir prazer. mas. que possa abrir o coração à imensidade do amor. financeiramente. deve ficar-nos bem claro que a palavra não é a coisa. Pela negação pode-se chegar ao positivo. com o fim de perguntar-vos: Que é o amor? Krishnamurti: Antes de entrarmos nesta matéria. que são fatores de divisão. nos esforçamos por adquiri-la.O pensamento que cultiva o desejo. em busca do prazer. de modo que ambos sintamos e percebamos a mesma coisa ao mesmo tempo. com vários filhos. a descrição não é a coisa descrita. Esse centro é o sentimento da existência de um "eu". seremos levados a suposições e conclusões. Sem elas. Existe realmente essa coisa? A compaixão deve fazer parte dele.INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 15. e esse centro :é a causa da divisão. estaremos apenas brincando com palavras. mas também em relação à maneira como as coisas estão indo no mundo. e sempre considerei o perdão e a compaixão as coisas mais importantes da vida.

a representação dessa coisa. nem ambição. deveis saber que ele não faz parte desse centro. não há necessidade de complicações a esse respeito. a ação do centro divisor. aos nossos desejos. Intelectual e emocionalmente. O amor não é de um só ou da multidão. pois se trata de uma coisa muito simples. Onde há o centro. nem espírito de competição com o concomitante medo ao fracasso. ele é pessoal e impessoal. da autoridade. não é ódio. Daí se vê que a liberdade é essencial ao amor . O amor não é prazer e dor. pensando naquilo que proporcionou prazer. exceto no ato sexual. não tireis nenhuma conclusão.porque esse mesmo sentimento do "eu é o sentimento de separação. na família. ajustamo-nos. coisa muito diferente do ato sexual. do ajustamento e das prescrições religiosas. torna-se uma paixão e. E a sociedade velha que chama a sociedade nova "licenciosa". Sendo esse ato tão diferente e tão belo. o sexo não seria aquela paixão nem o imenso problema que é hoje. Daí o lhe darmos tão extraordinária importância. ou porque. há divisão e resistência. Assim.que significa também divisão. ou porque nos sentimos "culpados" se nos saciamos. com e sem objeto."eu inferior". nem ciúme. nesse amor a que vos referis não pode haver sexo. E tudo isso é processo do pensamento. com suas atividades se isola a si próprio. Esse ansiar é pensamento. uma nova servidão. o sexo terá seu justo lugar e não será uma paixão insaciável. é luxúria. Interrogante:Portanto. por ser. seguimos. Mas. Pensamento não é amor. cultivando a imagem. Nós estamos investigando. saciando-nos. pela moralidade social. O pensamento. O desejar. porque na nova sociedade o sexo faz parte da vida. Tornamo-lo um problema porque não podemos saciar-nos dele. Qualquer conclusão ou suposição impede o aprofundar da investigação. O pensamento engendra o prazer. porém a liberdade que vem com a compreensão integral da estrutura e natureza do centro. imitamos. já que não pode haver desejo. Há dor e atrito em todas as nossas relações. pelas sanções religiosas . Licenciosidade é servidão. que é o sentimento do "eu". por conseguinte.que só nos resta esta única relação em que há liberdade e intensidade. como dissemos. talvez. O sexo tem um papel importantíssimo em nossa vida. Para responder a essa pergunta.não a liberdade da revolta. Libertando-se a mente da servidão da imitação.. se houvesse liberdade em todos os sentidos. o qual. Essa servidão é a imperiosa necessidade que temos de sua continuação. O que interessa à maioria das pessoas é a paixão da luxúria. nem violência em qualquer forma. antes e depois do ato sexual. explorando. Havendo amor. Não é "amor divino" nem "amor humano . sustenta o prazer. Ele é como o perfume de uma flor. temos também de considerar a energia do pensamento. que pode ser aspirado por um só ou . na comunidade. Interrogante:Pode haver ato sexual se não houver esse desejo nutrido pelo pensamento? Krishnamurti: Isso tendes de descobrir por vós mesmo. quando perguntais o que é o amor. O pensar no ato sexual gera a luxúria. obedecemos. aberta ou secretamente. Vemo-nos de tal maneira cercados de restrições intelectualmente. infringimos as regras estabelecidas pela sociedade. Amor não é ódio. A liberdade é então amor. Ele tem sido chamado "ego" e por outros nomes de toda espécie . a liberdade de fazermos o que nos apraz ou de cedermos. Interrogante:Essa liberdade não é licenciosidade? Krishnamurti: Não. em oposição à idéia de um "eu superior Mas. Krishnamurti: Por favor. mais uma vez. a única experiência profunda e direta que temos.

Quando estais cônscio de que vos achais em.observá-la simplesmente . que entendeis por "perceber". porque nossa mente está a vaguear. Pode-se ver uma coisa totalmente? Não me refiro às coisas físicas ou técnicas. "ver". o perdoar fomenta a divisão. no amor? Krishnamurti: Como podeis fazer tal pergunta? Onde existe um. totalmente. com imagens verbais e psicológicas daquilo que vemos.por todos.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 16. completamente. "compreender". mas também "observar". Mesmo observar a natureza objetivamente é difícil. PERCEPÇÃO Interrogante:Empregais diferentes palavras para designar a percepção. porque olhamos as coisas com preconceitos.. Dizeis às vezes "percepção". Interrogante:Onde entra. sois intolerante. Quando deliberadamente vos propondes amar. pode-se perceber ou compreender uma coisa totalmente? Não fica sempre alguma coisa escondida. em primeiro lugar. E. perdoamos. Se eu pudesse compreender-me totalmente. e não a quem ele pertence. O perdão só vem depois de termos acumulado rancor. O que tem verdadeira importância é o perfume. não há silêncio. Esta questão me parece importante porque talvez nos abra uma porta que poderá revelar-nos muitas coisas da vida. psicologicamente. Interrogante:Que lugar cabe ao medo. Onde não há ferida. o amor não pode existir. mas.silêncio. estais pecando. Suponho que dais a todas estas palavras a mesma significação: ver claramente. em segundo lugar. de modo que só vemos parcialmente? Grato vos seria se examinásseis esta matéria um tanto extensamente. sem nenhum conhecimento de botânica . podeis fazer o que quiserdes. se estais cônscio de que sois tolerante. o outro não existe. ela olha a flor com certas apreciações e descrições verbais que parecem .é bem difícil. porque somos desatentos e. Enquanto houver um observador a dizer "eu sou" ou "eu não sou". É a desatenção que gera o ressentimento e o ódio e. nisso. Assim. fico bastante entusiasmado ante a possibilidade de ultrapassar o meu pequeno mundo. Quando falo a esse respeito. mesmo quando interessada. Se tendes consciência de que estais perdoando. não pode haver perdão. perdoar é ressentimento. Por isso. com seus problemas e agonias. não há necessidade de cura. "ver"? Pode uma pessoa ver a si própria completamente? Krishnamurti: Sempre olhamos as coisas parcialmente. nunca vemos coisa alguma completamente. ao tornar-nos cônscios deles. Isso. Olhar uma flor sem imagem alguma. "estar cônscio de". Quando existe amor. talvez ficassem resolvidos todos os meus problemas e eu me tornasse um ente humano superior e feliz. desinteressada. sois violento. o perdão? Krishnamurti: Quando há amor.

e muitas outras entidades fragmentárias. a percepção intelectual é apenas percepção parcial e. e começo também a compreender a importância de observar a mim mesmo e ao . e reagir inadequadamente a esse desafio é uma crise no viver. não há compreensão parcial ou ação parcial: há ação completa. o técnico. Cada um de nós é. que é experiência e conhecimentos acumulados . Estamos empregando a palavra "vejo" intelectualmente. ou passais a outros o encargo de resolver os vossos problemas. como. são eles realmente indivíduos sobremodo destrutivos. como posso perceber totalmente? Começo a compreender que só posso ver parcialmente. mas também com a mente. existe a possibilidade de nos livrarmos daquilo que observamos. Pensamos que somos nobres ou ignóbeis. Krishnamurti: Estamos a todas as horas em presença dessas crises perigosas.dar ao observador a impressão de que realmente a olhou. Interrogante:Vejo-o claramente. Krishnamurti: Se vedes isso totalmente. Interrogante:Mas. Cada momento é um desafio. nossa mente está sobremodo condicionada. e logo o esquecemos. essa observação é parcial. é óbvio. Olhar deliberadamente não é olhar. Não queremos ver que esses desafios são crises. o perceber com o intelecto parece satisfazer à maioria de nós. o político. ao mesmo tempo. todavia. Vós vos acostumastes com elas ou a elas vos tornastes indiferente. Só quando somos capazes de olhar-nos totalmente. nunca olhamos realmente a flor. o artista. o sacerdote. o homem de negócios. E cada um de nós é também o campo de batalha de todas essas opiniões e julgamentos antagônicos. e esses outros são igualmente cegos e condicionados. Pensamos que devíamos ser isto e não aquilo. o próprio artista . é inegável. o negociante. e não intelectual. Não podemos. e pensamos compreender. então agireis e vivereis uma vida inteiramente diferente. olhar a nós mesmos. Interrogante:Mas não temos de enfrentar crises tão perigosas a cada momento de nossa vida. verbal ou emocionalmente. Mas o observarmos a nós mesmos sem a imagem . e quando o fazemos. pois. De modo que nos tornamos mais cegos e a crise maior ainda. Temos uma imagem acerca de nós mesmos. e porque dizeis que há crise a cada hora? Krishnamurti: A totalidade da vida está em cada momento. O político. Por conseguinte. Uma compreensão fragmentária é a coisa mais perigosa e destrutiva que há. Assim. como posso estar cônscio dessas crises a todas as horas. Olhamo-la através da imagem. Por conseguinte. Nossa percepção não se verifica apenas com os olhos. e. com os sentidos. Como representam um papel muito importante no mundo. por exemplo.que é o passado. quando assistimos a um filme que momentaneamente nos agita as emoções. e fechamos os olhos para evitá-los. o seu percebimento parcial se torna a norma e nesta armadilha fica o homem aprisionado. Interrogante:Mas. Talvez seja relativamente fácil olharmos uma coisa que não nos toca profundamente. Formamos uma idéia prévia de nós mesmos e através dela nos olhamos. o sacerdote.todos só vêem parcialmente. e o que é parcial ou incompleto não traz compreensão. e o vermos o que realmente somos nos deprime ou assusta. Quando se vos depara um perigoso precipício ou um animal feroz. o que está sucedendo no mundo inteiro.é uma coisa que muito raramente acontece. É isso. exatamente.

A incapacidade de enfrentar uma certa coisa faz dela um problema. A idéia pode também atuar. Minha mente é como uma grande jaula cheia de macacos irrequietos. Por conseguinte. ou outro hábito ou problema. e não antes ou depois. fora do tempo.mundo com percebimento completo. que é inteligência. ou não a compreendeis absolutamente. são instantâneos. o quererdes livrar-vos deles é outro problema. porque todos estão relacionados entre si. inteligência? Vós os olhastes parcialmente e.que dele . Interrogante:Mas. mas tanta coisa se passa dentro de mim que é difícil decidir para qual delas olhar. Esse barulho pode ser o desejo de nos livrarmos do problema. para ver. de fugir-lhe. e só a desatenção pode criar problemas. Krishnamurti: Se virdes totalmente um só movimento. Interrogante:Meu problema tem continuidade. De nada serve. e o ver essa verdade liberta a mente do barulho. compreendereis todos os problemas humanos. Só a mente silenciosa pode ver. examinarmos agora a cólera ou o medo. os deixastes durar. de reprimi-lo. perdura num espaço de tempo. ou ver um problema tão completamente que com a própria compreensão dele tenhamos compreendido todos os outros? Esse problema deve ser visto no momento em que se apresenta. Que é que dá ao ciúme. o certo é observá-los quando surgem.e não a idéia de que deveis estar em silêncio. com duração. de vencê-lo. digamos. Não há possibilidade de relação entre o parcial e o total. A verdade é que a mente deve estar em silêncio. Ver é atenção. percebimento sem escolha. além disso. duração? Krishnamurti: Não têm todos eles continuidade porque não os olhastes com sensibilidade. é esta: Podemos compreender. assim. por conseguinte. num instante? Como compreendê-lo de maneira que ele nunca mais volte? Krishnamurti: A que estais dando mais importância. . o ouvir. Temos. ao "nunca mais" ou à compreensão? Se o que tem importância é o "nunca mais". mais um problema. A percepção é instantânea: ou compreendeis uma coisa de imediato. com duração. A percepção. portanto. Interrogante:Como posso estar atento a todas as horas? Isto é impossível. pois. A questão. Não há questão de como conseguir uma mente silenciosa. de perguntar só uma coisa: Como ver o problema de maneira tão completa . e não numa mente cheia de barulho. Dizeis que o ver é instantâneo e. como memória ou como exemplo. fragmentária. como posso vê-lo. está então em ação . o compreender. isso significa que desejais fugir dele permanentemente. E. em sua totalidade. mas sua ação é parcial. portanto. o escutar e o olhar têm duração. insufla-lhe vida. ou de achar para ele um substituto. fiquemos ' livres? A percepção só se torna possível no silêncio. Interrogante:Como posso ter uma mente silenciosa? Krishnamurti: Não estais percebendo a verdade de que só a mente silenciosa pode ver. criando-se. nessa totalidade estarão contidos todos os outros movimentos. O ver. Se compreenderdes completamente um só problema. ver é da maior importância. ou perceber. a parte não pode tomar-se o todo.

O aprender é sempre novo. mais insensível.e não acumulando conhecimentos a seu respeito. decerto. ou amor. Não me estou queixando das circunstâncias. Pode o sofrimento ensinar alguma coisa. fez-vos mais solerte. Minha esposa abandonou-me. quando estais aprendendo. e a não me deixar arrebatar pelos meus sentimentos. mas. é que é da máxima importância. Tive um filho a quem amava extremadamente. não há nada para praticarmos? Krishnamurti: O ouvir. mas desejo compreender o significado do sofrimento. possuidoras de dinheiro suficiente e um emprego fixo. mas por motivo de morte. e não o exercício que ulteriormente praticais. não fisicamente. Diz-se que o sofrimento traz sabedoria. e não "como estar atento a todas as horas". Krishnamurti: Eu gostaria de saber o que aprendestes do sofrimento.. Interrogante:Qual a utilidade de vossas palestras. a não me apegar a pessoas. Não podeis exercitar-vos para terdes beleza. após ouvir-vos.Krishnamurti: Tendes toda a razão.. sua razão de ser. SOFRIMENTO Interrogante:Já sofri muito. Mas. Creio que sou como milhares de outras pessoas da classe média. O exercitar-se é desatenção total. na vida. mas tenho notado exatamente o contrário disso. Morreu num acidente. pelo contrário. O exercitar-se para se tornar atento é desatenção. por alguma razão. O ódio só pode cessar quando lhe prestais toda a atenção. a me manter a certa distância. exceto as óbvias reações de autoproteção? Interrogante:Sempre aceitei o sofrimento como parte de minha vida. é impossível. ele não vos ensinou sabedoria. como dizeis. Quando cessa o ódio. e da total inutilidade de minha existência. da solidão.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 17. Começai com toda a simplicidade. Aprendestes alguma coisa? O que vos ensinou ele? Interrogante:Ensinou-me. causando-me com isso uma grande dor. Ensinou-me a ter muita cautela. se. Não o façais nunca: só cometereis erros. É a avidez que faz esta pergunta: "Como estar atento a todas as horas"? A pessoa se absorve toda no exercitar-se para estar atento. nasce o amor. O ouvir é ação instantânea. para não me deixar ferir de novo. Krishnamurti: Assim. . o estar cônscio de vossa desatenção é da máxima importância. um certo azedume.

Podeis conhecer-vos. e uma pessoa nunca pergunta a si própria se ele pode terminar. ou esperais conhecer-vos após uma longa análise? Pela. Temos medo de nos conhecermos porque nos dividimos ' em fragmentos bons e maus. mas sua semente já se encontra bem no início do apego. de tudo o que se está passando realmente. Krishnamurti: Se amais. e esses fragmentos vivem em guerra uns com os outros. e essa mediocridade talvez seja a maior das tristezas.sinto agora que gostaria de livrar-me dele. Quando há sofrimento. ele continua a existir. causar-lhe dor. ou rendem culto ao sofrimento. num relance de olhos. Isso significa estar cônscio. e vós a abandonais e ela sofre. gera conflito e dor."bom" está sempre a julgar . e essa luz não é acendida por uma só experiência ou um só lampejo de compreensão. Ninguém . O sofrimento não vem apenas quando o apego nos trai. Conhecer a si próprio é pôr fim ao sofrimento. e a "dor do tempo" é a ilusão de que o tempo pode curar e transformar. Mas. Interrogante:Mas eu estou perguntando agora se ele pode terminar.sem conhecimento do que foi. já que os opostos se contêm mutuamente. ela se acende a si própria a todas as horas. sem acumulação. A maioria das pessoas estão na rede dessa ilusão e. Pôr fim ao sofrimento é ver o fato. Só vos conhecereis nas relações. Minha vida é tão sem: sentido e tão vazia. Em tudo isso. o que vedes recebe o colorido do passado. O amor e o sofrimento são incompatíveis. Ignorância é falta de autoconhecimento. que termina o sofrimento? Krishnamurti: Como dissemos. então. Que posso fazer para pôr fim à aflição que há tanto tempo venho suportando? Krishnamurti: A autocompaixão é um dos elementos do sofrimento. só quando nos conhecemos completamente. mesmo quando seja por minha causa? Como é. sem ó oposto . O sofrimento só termina quando há a luz da compreensão.. ignóbeis e nobres. tanto num como noutro caso. O despojar-vos continuamente do passado quando estais vendo a vós mesmo. Percorrer essa galeria de opostos é sofrimento. Essa guerra é o sofrimento. desse vulgar azedume e indiferença. estimulado ou não por vós. Se vos olhais com os olhos do ressentimento ou do rancor. Krishnamurti: Há a dor pessoal e a dor do mundo.o "mau".o ideal . de momento em momento. Outro elemento é estar apegado a alguém . Uma vida de mediocridade. fostes vós ou foi ela própria que criou esse sofrimento? Interrogante:Quereis dizer que eu não sou responsável pelo sofrimento de outrem. não vos conhecereis. totalmente egocêntrica e insignificante. Significa verdes a. puros e impuros. sois vós que a causais ou é ela própria? Se outra pessoa vos tem apego.vós mesmo como sois. "Deus" e "Demônio". O . sem nenhuma escolha. e estimular ou nutrir nessa pessoa apego a vós. e não inventar o seu oposto. ao mesmo tempo. e como? Como posso pôr-lhe fim? Sei que nada adianta fugir dele ou a ele resistir com azedume ou indiferença. é libertar-vos do passado. a "dor da ignorância" e "a dor do tempo". Essa fragmentação da vida em "alto" e "baixo". o mal é a total falta de autoconhecimento. "nobre" e "ignóbil". sem tornar a passar pelas dores do apego. Posso amar uma pessoa e. ou dão explicações para ele. não há amor. Interrogante:Ah! mas o amor pode infligir sofrimento a outrem. análise. termina o sofrimento.

e o "como" de outrem. por sua vez. a separar-se do ambiente. Harmonizá-las. Por conseguinte. já o conheceis e. O CORAÇÃO E A MENTE Interrogante:Por que razão dividiu o homem a sua existência em compartimentos diferentes . E o resultado é uma complicação maior ainda. na qual não haja divisões. aparentemente exterior a ele. juntos. então. essas duas forças motoras são muitas vezes tão contraditórias. cria. além disso. A compreensão de vós mesmo é o fim do sofrimento. E. pois. para harmonizar as contradições. Só há. a expressão de uma entidade total? Essa entidade não é um fragmento. a que chamamos religião. Esse fator de coesão. há uma terceira: o ambiente. de modo que o homem possa atuar como uma entidade total. então. raças e grupos econômicos. afastar de todo essa idéia de "receita" e de resultado? Se podeis definir um resultado. só servem para aumentar o problema. este único problema. o intelecto inventa uma força atuante externa. dentro em nós e entre nós. Assim. Krishnamurti: Estais perguntando "como"? O "como" é o grande erro. mais ainda. inventamos uma superentidade. criará a harmonia. o que se observa no mundo. É o fator segregador. porque todos os agentes exteriores. Mas. nenhum instrutor ou salvador. conteúdo real. . chamada Deus. por conseguinte. sem inventarmos nenhum agente exterior. Podeis. de fato. E. a questão se torna esta: o que poderá criar uma harmonia completa no viver. além dessas duas coisas. nacionais. examiná-lo a fundo.o intelecto e as emoções? Cada um desses compartimentos parece independente do outro. as duas contradições no homem existentes ficam também em oposição à terceira. um estado em que o intelecto e o coração sejam. a coesão. que parecem dilacerar a própria estrutura de nosso ser. não tem. seremos então capazes de investigar se há alguma possibilidade de estabelecer-se um todo harmônico. mas como realizar isso? É essa a harmonia a que o homem sempre aspirou e que sempre buscou em todas as religiões e todas as utopias políticas e sociais. E. É isso. assim esperamos. na vida. e tão vasto. estaríamos investigando verdadeiramente e não a buscar um método para alcançarmos um determinado resultado. uma força atuante que.vo-la pode dar . Se jogarmos fora a "receita". em constante mutação. e chamamos isso "viver". em classes. podemos. mas. Existe o meu "como". Esta é uma situação verdadeiramente complexa: o interior a dividir-se em compartimentos e. foi sempre um dos principais alvos da vida. o vosso "como'.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 18. geográficos. Para vós. existentes no ambiente ou acima do ambiente. Na vida. sim. Diante desse problema tão confuso e contraditório. a que chama "sociedade". ou o estais inventando para termos uma interessante palestra? Se ele foi inventado para fins de discussão. se é um problema real. mais um fator de divisão. se nunca empregássemos essa palavra. assim. a dividir o ambiente. Interrogante:Concordo convosco. trata-se realmente de um problema. Não tendo possibilidade de resolver este problema. nenhum artifício. existentes no próprio homem. ele é condicionado e não livre.nenhum livro. Krishnamurti: Pareceis deixar-vos arrebatar por vossas próprias palavras.

sempre. ele é amor. condicionado para não perceber o perigo. desde o começo. nem separação. imaculado. mas também separa a si própria. ideologia. porém vê-lo realmente. Lembrai-vos disso. é. Temos. portanto.coisas absurdas e "separativas": é um fato. mas. Krishnamurti: Exatamente: o pensar e o sentir são uma só coisa. O pensamento é reação da memória. nem minha. por conseguinte. O ver não é um resultado de condicionamento ou de propaganda. e separa o "nós" do "eles". a mente se torna silenciosa. Pode-se silenciar a mente por meio de drogas e artifícios de toda espécie. nem dualidade. Não. Suas ações são válidas e necessárias no domínio dos fatos. ou como construir melhores utopias. tão-só. O cérebro. com efeito. Toda a atividade do pensamento é de separação. Os muçulmanos e os hinduístas não se crêem separados: sentem-se separados . Porque. é este o ponto que se precisa compreender. precisamente. de alguma maneira. foram uma só coisa.todo ele. só isso. nem impessoal. Ele. então. só unidade. Quando o cérebro está . é a mais elevada forma de inteligência. Krishnamurti: A mente é pensamento. e não apenas um segmento dele. fragmentação. intelecto e ambiente. que não é . Nosso problema. Ela é mais forte ainda nos sentimentos.Em primeiro lugar. Nosso problema é a mente. Anônimo. nem vossa. Esse silêncio é a mais alta forma da inteligência. Se o cérebro está completamente desperto. ele é atenção. ou formar melhores líderes políticos ou novos instrutores religiosos. Para ver o perigo.. não sois então muçulmano. do "vós". ele atuará quando perceber o fato de que a divisão e a fragmentação lhe são perigosas. ver o perigo. Nosso problema é: Porque a mente divide? Interrogante:Sim. Interrogante:Essa divisão não se encontra apenas na mente. Nosso problema não é de como acabarmos. é este. é a mente que inventa o agente exterior. ele é. mas esse mesmo cérebro foi. A natureza desse silêncio é sobremodo importante. assim também o homem que se vê perdido na floresta do mundo deve manter-se sumamente vigilante. tem de "reagir" quando percebe um perigo. A mente e o coração são uma. o ver se verifica com o cérebro inteiro. Isso é inteligência. agora. como "eu". Isto não é uma idéia. Do mesmo modo. é ele integral. não há fragmentação. que é o cérebro. o que estou dizendo. pode ser descrito porque não tem nenhuma qualidade. só um problema: Porque a mente divide? Ela não só divide suas próprias funções em sentimentos e pensamentos. Não o esqueçamos. sim. é a mente que se divide em sentimento.completamente desperto. percebimento. o cérebro deve estar muito desperto e vigilante . Interrogante:Como manter desperto o cérebro inteiro? Krishnamurti: Já dissemos que não há "como". os separa e os faz destruir-se uns aos outros. o Supremo. com as classes. não pertenceis a nenhuma classe ou grupo religioso. e é isso. a compreensão desta mente e deste coração que são uma só coisa. Assim como um homem perdido na floresta deve conservar-se alertado a fim de sobreviver. Chegar a este ponto. não teoricamente. sempre que eu usar a palavra "mente". hinduísta. não é a integração dos diferentes fragmentos. mas tais artifícios geram várias outras formas de ilusão e de contradição. pessoal. princípio ou conceito . é a mente que cria o problema. O cérebro deve estar de todo desperto. porém.e é esse sentimento que.da divisão. judeu ou cristão. para .

Mas.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 19. e o homem religioso identifica o seu "eu" com o que ele considera ser o Sublime. O homem que fabrica belas vestes ou excelentes calçados. da boa escultura. ou por mais algum tempo. O músico identifica o seu "eu" com o que ele considera ser a bela música. se um ente humano . porém. Krishnamurti: O artista. mas. um homem. da boa poesia ou dança.todos parecem trabalhar com beleza. em Paris. a beleza está nas mãos de todos. e a dona de casa prepara uma refeição. O mesmo se pode dizer do escritor ou do pintor ambicioso de fama. as poucas horas de música ou de literatura podem estar em contradição com o resto de sua vida. cada um à sua maneira? No meu sentir. tece belíssimos saris de seda e ouro. sem conflito de espécie alguma? A questão não é de saber quem é artista e quem não é. todos esses. se ele é proficiente em vários desses fragmentos. A ação está na vida. Diz-se que a beleza é a essência mesma da vida. na vida. sim. A BELEZA E O ARTISTA Interrogante:Eu quisera saber o que é um artista.viver completamente. não tem interesse em seu violino.não só quando se está pintando ou escrevendo ou exercendo uma técnica. e o poeta erra solitário pela floresta. é uma expressão dessa essência? Eu muito estimaria que examinásseis esta questão da beleza e do artista. pode um homem viver sem sofrimento. A aptidão pode estar em exercício apenas durante algumas horas do dia. sem atrito. Não são artistas. Averigüemos.os chamados artistas criadores . que ele está apenas a explorar. sentado em pequeno e obscuro aposento. pois. algures. Muitas vezes fico a pensar por que razão o pintor. e um cientista pesquisa em seu laboratório. ao passo que o sapateiro e o cozinheiro são sem importância. sendo o "eu" muito mais importante do que a música. e um técnico monta milhares de peças para um foguete que irá à Lua. o escritor . deixa de ser aptidão. mas quando essa ação gera sofrimento. artista ou não. considerado tão belo. nas margens do Ganges. a aptidão. Todos esses são muito aptos. . o velho e revelho problema do homem e da mulher. é o que realmente faz de um homem um artista. Aptidão e beleza são a mesma coisa? Pode um ente humano. e não fora dela. Esse homem é. no viver. viver com aptidão .pode viver sem torturas e deformações. um artista? O homem que toca violino com arte. Por conseguinte. viver o todo de sua vida com aptidão e beleza? Viver é ação.têm tanta importância no mundo. mas nem todos a conhecem.vós ou outro . que bem provavelmente se acha em desordem e confusão. escrevendo poesias ou pintando quadros. mas o resto do imenso campo da vida é por eles desprezado. como pode um homem viver o todo da vida com aptidão e beleza. a fim de transmitir fielmente a refinada beleza de sua música. o que é atuar com aptidão. é irreverência desfazer ou zombar da boa música. o escultor. a mulher que dispõe aquelas flores sobre a nossa mesa . ao verdadeiro artista. de fato. Decerto. como aqueles grandes homens da Renascença que cultivavam vários meios de expressão. é aquele que atua com aptidão. somos levados a perguntar que lugar cabe. um músico vive com grande austeridade. em engenhosas narrativas. um escritor ilustra. na Índia. sem ciúme e avidez. Lá. o compositor. por certo. e quem é o verdadeiro artista. enquanto um homem está tocando um instrumento. mas com os olhos na fama. Não são estes também criadores? Se prestamos atenção a todas as variedades de expressão consideradas belas. a fim de se tomar famoso. Assim. Aquele edifício que ali vemos. um pintor em seu atelier pinta um quadro que ele espera o tornará famoso. e. em seus respectivos e limitados campos.

arte.estais ainda vivendo . não há arte. portanto . tudo o que pensamos e tudo o que somos resulta de uma causa. Sem amor. Mas. por conseguinte. alguma causa. toda dependência é o fim da aptidão. mas o despertar para ele. O importante não é o condicionamento causado pelo trabalho. Se a relação se baseia em causa. ou abandonarão esse trabalho ou de tal maneira o transformarão. e de tal maneira os asfixia que eles não têm aptidão para nada mais? Não estão eles condicionados pelo trabalho que fazem? Krishnamurti: Estão. Assim. Quando o artista atua com beleza. de desafios. deve estar em exercício a todas as horas e não apenas durante umas poucas horas do dia.. a capacidade artística e a beleza. Mas. há amor e beleza. O que estamos sempre fazendo é descuidar-nos do campo inteiro. ele é beleza. que se pode estar desperto? Ou há um estado em que nos mantemos despertos. Existe a cadeia sem fim da causa e efeito. é arte. se desprezais o campo inteiro da vida para vos concentrardes numa parte insignificante dele -por mais que o "eu" esteja ausente .estamos-nos deixando adormecer. no próprio viver. ou seja a aptidão. nossos ou de outros. não é questão de se saber tocar piano com mestria. Arte é ausência do "eu". alguma circunstância. no campo inteiro da vida. sem dúvida. de algum desastre ou alegria. Toda ação está em relação. Interrogante:E o operário fabril ou o. Krishnamurti: Essa cadeia é sem fim porque o efeito se torna causa e esta causa produz outro efeito. Viver com arte é estar sempre totalmente desperto e. sem nenhuma causa? Se sois despertado por. Nesse atuar está ausente o "eu". O que nos interessa é o campo inteiro. naturalmente. que tem motivo. Este é que é o verdadeiro desafio. e esse campo é a vida. O importante não é o trabalho que se tem de fazer. se despertarem. ficais dependendo dela. empregado de escritório? Nenhum desses é artista? Seu trabalho não lhes veda a aptidão para atuar no campo inteiro. Se vos interessa o piano. Mas. concentrando-nos em fragmentos. atuando com aptidão.isso é ser inepto. isso é beleza. que ação existe fora dessa cadeia? Krishnamurti: Nós só conhecemos a ação que tem causa. há de levar inevitavelmente a outra forma de embotamento. que é livre. mas o despertar. ela é então sagaz adaptação e. sexo. etc. Pode haver algum estado mental que não seja o resultado de alguma causa? Não compreendo isso. Interrogante:Que é esse outro estado que nos mantém despertos sem nenhuma causa? Estais falando de um estado no qual não existe causa nem efeito. não há "eu". O amor é a única coisa que não tem causa. e quando dependemos de uma coisa . É o mesmo que cultivar apenas um cantinho de um campo imenso. porque. Arte é atuar com aptidão. deveis tocá-lo com mestria. etc. o fim da arte.que quereis dizer com isso? Krishnamurti: É só por motivo das circunstâncias. mas isso não basta. Interrogante:Então. é aptidão. que ele se tornará arte. a ação que é um resultado. por conseguinte.uma droga. pintura ou música . Interrogante:"Despertar" .

Interrogante:Sim. meus amigos. territorial ou sexual. naturalmente. apego é resistência. Lá a tradição tem maior importância e raízes mais profundas do que aqui na Europa e. bons vinhos. para nos amparar. e se devemos livrar-nos dela. DEPENDÊNCIA Interrogante:Eu gostaria de compreender a natureza da dependência. interiormente. etc. Assim. não sois um artista da vida.mulheres. tanto maior a dependência. o que dizem os outros. não há nenhuma maneira de exercitá-la. mas têm igualmente suas próprias formas de dependência. resistindo a qualquer espécie de intrusão por parte de outros. interiores. a liberdade da pessoa a quem estou apegado. Estive no Oriente e lá vi como as pessoas dependem do guru e da família. Vejo-me na dependência de tantas coisas . Somos apegados a um certo ambiente. porém. Esta é a aptidão por excelência: viver no campo inteiro da vida. a resistência. um certo país. já não dependo do "entretenimento" religioso. no viver. Daí se origina a dependência e. portanto.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 20. parece que todos nós dependemos de alguma coisa. . Interrogante:Meu Deus! como serei capaz disso? Eu o vejo e o sinto em meu coração. mas dependo dos livros que leio para me estimular e da boa conversação. da dependência. também. realmente. Krishnamurti: Suponho que o que vos interessa são os apegos psicológicos. e isso traz sua aptidão própria. mas também a idéias e a coisas. Limito. e limito minha própria liberdade. Quanto mais apego. A ausência do "eu". Apego. Só há ver. por conseguinte.sem aptidão e. O ver é a maior de todas as artes. é resistência. percebo. é amor e beleza. muito mais ainda. Esse domínio eu protejo. muito mais profundas ainda do que na América. o sentimento de posse é resistência e. Tenho apego a alguma coisa ou a alguma pessoa. diversões. mas como manter essa aptidão? Krishnamurti: Não há nenhuma maneira de mantê-la. por conseguinte. Interrogante:Porque "resistência"? Krishnamurti: O objeto de meu apego é meu domínio. Esse apego é sentimento de posse. Mas. conseqüentemente. talvez não tanto quanto eu. Felizmente. Não há só apego a pessoas. Vejo que os jovens são também dependentes. não há nenhuma maneira de nutri-la. não apenas fisicamente. minha esposa e filhos. eu desejava saber se há alguma possibilidade de nos livrarmos.

Que é ela. para poderdes compreender as vossas rochas. Apego significa "Isto é meu. legal ou psicologicamente. podemos agora perguntar: Porque é que o homem invariavelmente tem apego. meu alvitre. imediatamente ele se converte em apego. O amor "fugiu-nos pela janela". Porque depende uma pessoa? Existir é estar em relação. o que está acontecendo em nossa vida diária. Este não tem nenhuma utilidade para mim. liberdade. a liberdade não é um resultado. antes de se poder examinar esta questão do porque o homem depende ou se deixa cair na armadilha do apego. com sua violência. Encontramo-nos com a beleza e nasce o amor. deveis saber o que é liberdade. e começa a nossa aflição. Deixemos. ou a liberdade com meu . e não teu. pois? Uma abstração ou uma realidade? Krishnamurti: Não é uma abstração.uma infinidade de absurdos tais. Não se pode simplesmente falar de outro rio em que não existem rochas. não abstratamente. Quando há posse. neste rio da vida. Porque temos apego. porém apenas o movimento da água. coisas e idéias. é lícito perguntar porque existe esse apego a pessoas. Vendo-se tudo isso ocorrer em nossa vida diária. resistência e domínio. Nessa liberdade não há rochas. contornando-as ou sobre elas passando. aprisionamento nosso e do objeto de nosso apego. é um estado positivo em que não há dependência nenhuma. e todas as relações estão nessa dependência. Portanto. com efeito. E. então: "Que foi feito de nosso grande amor?" É isso. meu Deus. Ela não é o mesmo rio que aquele onde existem. Interrogante:Eu tenho ainda o meu rio. primeiramente. meu julgamento. Temos. Interrogante:Então. com todas as suas aflições. simplesmente. que é liberdade? Dizeis que ela. Krishnamurti: Está certo. Consideremos tanto a liberdade como o apego. não o toques!".não é a negação ou cessação da dependência. dizeis que não é estar livre de alguma coisa. Eis o que fizemos do mundo. com suas rochas. porém realmente. essa relação é resistência a outros. e não sobre algum outro rio livre de rochas. não só ao que é belo. há necessariamente domínio.e isso é mais uma forma de resistência. porém.Krishnamurti: Qualquer forma de invasão de meus domínios leva à violência. porém. tentamos cultivar um estado de independência . de compreender a liberdade. de parte este símile. Isso precisa ser compreendido bem claramente. e foi sobre ele que vim consultar-vos. Perguntamos. Interrogante:Mas a rocha do apego existe. Mas. É um estado mental em que não existe nenhuma espécie de resistência. minha opinião. assim. apego é violência. minha pátria . Ela não é como o rio que se acomoda às rochas que encontra em seu curso. Interrogante:O meu apego tem alguma coisa que ver com a liberdade. mas também a tudo quanto é ilusão e a tantas fantasias absurdas? A liberdade não é um estado de não dependência. Krishnamurti: Não estamos evitando a rocha ou dizendo que ela não existe. Por conseguinte. Mas. rochas. a liberdade não tem causa. resistência. O mundo inteiro está dividido em "meu" e "vosso".

apego? Krishnamurti: No vosso apego há dor. esperamos. que em nós mesmos somos um deserto. quando a olho sem o observador? Krishnamurti: Porque a árvore não foi criada pelo centro. Nisso há dor e incerteza.estais a olhar a vossa aridez com os olhos da conclusão. Interrogante:Porque é que a solidão desaparece e a árvore não desaparece. com a ajuda de outro. dependentes? Vendo que somos "nada". Mas. naturalmente. continuamos áridos e vazios como dantes. O que vos interessa é saber como ter os prazeres do apego. quando aquela mente . sem as suas aflições. com todas as suas conclusões de agrado e desagrado. pela "mente do eu (the mind of the me). Isso não é possível. desejo de vos libertardes desse vazio. uma forma de resistência. Com sua atividade egocêntrica. No processo da compreensão do apego.que quereis dizer com isso? Krishnamurti: Estais a olhá-lo de um centro. se a olho sem conclusões. Com a ajuda da beleza de outrem. Eis porque importa compreender que liberdade não significa desapego. e não o apego ou o desapego. do amante. e o deserto se torna mais árido do que nunca. se não existe observador. esperamos com a ajuda de outrem encontrar água Vendo-nos vazios. nossa questão agora é esta: Porque são os entes humanos apegados. sem um centro que é o observador? Krishnamurti: A árvore existe. enquanto fugíamos para uma dada forma de apego. não será melhor tornar-nos cônscios do fato. estais a olhá-lo como o observador a olhar a coisa observada. E. E Deus é o supremo amante. Com a ajuda do amor de outrem. esperamos esquecer a nós mesmos. desse sombrio e vazio isolamento? Essa é a única coisa importante. não existe observador. existe então a coisa que é observada como solidão. incompletos. Quereis ficar livre dessa dor e tratais de cultivar o desapego. Podeis olhar o fato sem nenhuma idéia de condenação ou avaliação? Quando o fazeis. em vez de tentarmos a fuga para o apego ou o desapego. e destas dores fugindo para o desapego. de alguma crença fantástica. juízo. sendo isso mais. Naturalmente. sem nada de interessante ou de importante. dessa profunda pobreza e insuficiência interior. pobres. ou sem o observador? Interrogante:"O observador" . No oposto não se encontra nenhuma liberdade. com suas dores. nasce a liberdade. nós é que o estivemos evitando. esperamos alcançar a beleza. . Em todas essas coisas procuramos amparar-nos. ou a estais olhando com olhos completamente límpidos? Quando a olhais com olhos límpidos. vazio. de opinião. desgraçados. Assim. continua a ser o que sempre foi. Estes dois opostos (o apego e o desapego) são idênticos e mutuamente se reforçam. Assim. etc. esperamos cobrir de flores o deserto. aflição? Interrogante:Quereis dizer que aquela árvore não existe. Com a ajuda da' família. Mas. a mente do eu criou esse vazio. ele não se torna nem mais árido nem menos árido. e não na fuga do apego. da nação. esse isolamento. enriquecer-nos.

Naturalmente. mas que podemos verificar. não deve haver mestre nem discípulo. igrejas e mesquitas. Há a crença em fatos que talvez nunca tenhamos visto.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 21. contudo. Há indivíduos que não crêem em Deus e. Tendes seguidores e. física ou psicologicamente. visto que não credes em Deus e. não podeis ser cristão.em que não há centro olha. desejais experimentar isso que se poderia chamar a divindade. a tornar-se escrava da propaganda e de persuasões. e o movimento da dor e do prazer. vivem a matar os seus semelhantes. Como vos tenho ouvido falar contra a crença. hinduísta ou qualquer outra coisa. Quando a mente do "eu" está quieta. pois não? . A crença implica muitas coisas. outra coisa. vemos como a mente do "eu" cria seu próprio deserto e suas próprias fugas. responsabilidades e. Já não existe solidão. qual é vossa verdadeira posição perante esta questão? Porque não credes? Sois ateu? Como sabeis. temos de perguntar a nós mesmos que necessidade há de crermos em alguma coisa . a existência de Nova Iorque ou da Torre Eiffel. entre os cristãos a coisa é diferente: se não credes em Deus. Krishnamurti: Em primeiro lugar. com essa crença. esclareçamos bem este último ponto. vós sois um homem religioso e. e não tenho responsabilidades perante vós ou as pessoas que ouvem minhas palestras. e ele com toda a certeza estará fazendo a mesma coisa. visitando mosteiros. Observando a estrutura do apego e do desapego. alegando que desejam paz. Eu não tenho seguidores. ou sem ela. fazem bem aos outros. não há mais deserto. em pensamento. ser também hinduísta. como os demais. no hinduísmo. Essa crença. Cada um deve ser a luz de si próprio. Mas. Ela poderia ser-lhe infiel em pensamento e ele crer que ela é fiel porque não a vê andar com outro homem. Assim. Crença é uma palavra. tampouco. A mente funciona então em liberdade. A CRENÇA Interrogante:Sou dos que crêem deveras em Deus. e não há fuga. Por conseguinte. provavelmente não credes em Deus. segui um dos grandes santos modernos. realizou lá importantes reformas políticas. não tem validade nenhuma em vossa vida. um pensamento e. mas não amam. religioso ou não. uma pessoa pode ser ateísta ou deísta e. o qual. como. todavia. isso não vem ao caso. Credes na reencarnação. deve haver em vós um certo sentimento do Supremo. que preparam a guerra. nem persuasão. tem? Todos os cristãos crêem que devem amar. por conseguinte. toda a nação palpita em uníssono com Deus. porque. por conseguinte. e "o que é". pela maneira mais enfática. Na Índia. entretanto.embora não haja certeza nenhuma a esse respeito. O caso é que venho aqui com o fim de pedir-vos uma explicação de vossa posição e de sua validade. Mas. Na Índia. Pode um homem também crer que sua esposa lhe é fiel. Pois bem. nem credo. . venho desafiar-vos por esta maneira. assim. sendo um homem religioso. e em toda a parte encontrei essa forte e invencível crença num Deus que molda a vida de cada um de nós. Por conseguinte. por crer em Deus. logo de início. Percorri toda a Índia e várias partes da Europa. embora não o saiba realmente. Não sou. de outro modo. por exemplo. Mas. ou vamos ao encontro um do outro com compreensão. o que aqui se vai dizer não será dogma. crença é uma coisa. termina a atividade egocêntrica.embora isso não signifique negar o sublime mistério da vida. Há os que crêem em Deus e matam os seus semelhantes por causa dessa crença. que credes em Deus e provavelmente. Ora. ela pode estar a enganá-lo todos os dias. dissestes. uma pessoa está sujeita a ser influenciada. Isso deve ficar claramente entendido. porque não pertenço a nenhuns grupo.

e uma fuga de "o que é". e os hinduístas ver divindades semelhantes. mas amo a Deus. Vossa crença em Deus vos proporcionará a experiência da coisa que chamais "Deus". me faz medo. há medo. Krishnamurti: Quereis dizer que sois isento de medo e. O mesmo se pode dizer do muçulmano. portanto. minha crença não se baseia no medo. portanto. A crença separa os homens. a falta de segurança neste mundo em perene mutação? É a insegurança das relações. é a incerteza da vida . A crença nasce do medo e é dentre as coisas a mais destrutiva. de perguntar a nós mesmos porque é que cremos em alguma coisa. O importante não é o que credes. encontra-se a mente numa dimensão de todo diferente. fá-los odiarem-se mutuamente e cultivarem a guerra. porque minha crença e meu amor sempre me ampararam e inspiraram a viver com decência. Cobristes o medo com uma palavra. teríeis alguma crença? Interrogante:Não posso dizer com certeza que tenho medo. opiniões. Krishnamurti: Logo. tal como outro qualquer ideal. do budista. de percepção da Verdade. Essa contestação de minha crença produz-me uma certa sensação de desordem que. do judeu. e nada mais. Temos. assim como vosso nome não é realmente vós. deixai-me perguntar-vos: Se não tivésseis medo nenhum. mas essa mesma crença condiciona a vossa experiência. vossas ou de outro qualquer. Até nem sei se desejo prosseguir esta palestra. involuntariamente. conclusões. em extravagante profusão.portanto. na esperança de dissipar o medo. Esperais que a experiência possa ser a pedra de toque de vossa crença. para mim o medo é inexistente. assim. estais admitindo que o medo gera a crença. Krishnamurti: Pode-se substituir o medo pelo amor? Isso não é um ato do pensamento que. porém o porque credes. ante a imensidade da vida e nossa incapacidade de compreendê-la. Só podeis experimentar aquilo que credes. Os cristãos poderão ver Virgens e anjos e o Cristo. Quando não existe medo. Devemos ser livres do medo e da crença.o medo ao desconhecido. e do comunista . sabeis o que é o amor? Interrogante:Substituí o medo pelo amor e. A crença. Só então se pode perguntar se existe ou não Deus. não é a coisa real. Não é a experiência que acode para provar a crença. antes. cobre o medo com a palavra "amor"? . ou será que. Porque credes? E que influência pode ter em "o que é" o fato de crerdes nisto ou naquilo? Os fatos não podem ser influenciados por nenhuma crença ou descrença. Vive essa mente na ilusão e. é a crença que gera a experiência. porém. O Supremo não está em nenhuma relação com as crenças. E isso invalida a vossa experiência. francamente. e esse amor é que me faz crer n'Ele. não pode alcançar o Supremo. por conseguinte. . e estais começando a descobri-lo por vós mesmo. possa Prová-la a vós mesmo. tendo medo. Qual a base da crença? É o medo. por conseguinte.são todos idênticos. Isso vos perturba. à qual ficastes apegado. A crença condiciona a própria prova de que ela necessita. nos fechamos no refúgio da crença? Assim. A mente toda anuviada pelo medo ou pela crença é incapaz de qualquer espécie de compreensão.mais uma crença. torna-os duros. A libertação da crença é necessária para se enfrentar esse fato que é o medo. pois. De maneira indireta. Interrogante:O que estais dizendo me perturba grandemente.

O amor não é uma palavra. compreende-se. A verdade não se pode medir com palavras. Que é essa compreensão. ao dizerdes "Conheço minha mulher e meu amigo". a compreensão do medo é a cessação do medo. Mas. mas só coisas mortas. não traria maior harmonia ao nosso viver do que o equilíbrio produzido pelos padrões dos sonhos. no entanto. e a mente que diz "Eu sei" está escravizada ao tempo e. vemos o nosso próximo através da imagem que a seu respeito temos. não é uma conclusão. ao contrário. se não é conhecimento? Krishnamurti: São duas coisas completamente diferentes. "saber" é "não saber". nem uma crença. Vossa crença. e não através de imagens. o saber se acha no minúsculo campo do tempo. ou conhecer. isso que chamais Deus não é coisa nenhuma. conclusões . porém de minhas próprias palavras . E. negais a validade do conhecimento.tudo isso símbolos. Só então pode-se descobrir o que é verdadeiro. assim. já não pode ser o fator principal. nem uma coisa que se possa prender e dizer "É minha". Quando perceberdes isso. não tem possibilidade de compreender aquilo que é. . o fator principal é a compreensão do medo. devemos estar livres não só do conhecido.e não vou aqui servir-me de sua terminologia. Ambas essas asserções são blasfemas. Em verdade. necessita-se da liberdade. Sustentam eles . de que tanto falais. por conseguinte. mas também do medo ao conhecido e do medo ao desconhecido. e nós estamos habituados aos símbolos: vemos a árvore através da imagem que é o símbolo da árvore. nos sonhos. por conseguinte. opiniões. Não é a palavra. então "o que é" é verdadeiro. e esta é o passado.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 22. uma das coisas mais difíceis para o ente humano é olhar qualquer coisa diretamente. Aparentemente. está sempre em relação com o passado e. Interrogante:Falais em "compreender o que é" e. Para compreender-se "o que e". Por conseguinte. Portanto. vos prende ao passado. Desejo também perguntar por que razão a linguagem dos sonhos é simbólica. Quando "o que é" não está sendo deformado pelo medo. durante certos períodos do sono. Eu gostaria de saber se essa quietação da mente.Porque não sabeis. Quando se presta toda a atenção. A compreensão. Assim. ninguém pode dizer "Não há Deus" ou "Eu conheço Deus". não é acumulação. SONHOS Interrogante:Disseram-me certos especialistas que o sonhar é tão importante como o pensar e estar ativo durante o dia e que o meti viver diário estaria sujeito a enorme pressão e tensão se eu não sonhasse. já não pensareis nas relações tomando por base o conhecimento. Não podeis conhecer nenhuma coisa viva. não podeis conhecer realmente nenhuma pessoa ou coisa. o que conheceis é apenas a imagem ou a memória. credes.que. por conseguinte. há liberdade. o movimento das pálpebras indica sonhos revigorantes e que estes trazem ao cérebro uma certa claridade. O saber. Compreender é atenção. Sem o amor e a beleza. Não havendo medo. Krishnamurti: A própria linguagem é símbolo. Se escutastes. aprendestes.

mas raramente nas relações e na compreensão entre os homens. Tive sonhos muito perturbadores. e a transmite a outrem em sua própria cifra. que se trata de uma função intrínseca do cérebro. e os sonhos. e assinalastes que nós vivemos sob a influência dos símbolos. Quando vemos qualquer coisa. Este é um ponto muito interessante: a mente não quer ver as coisas diretamente. e a interpretação desses sonhos se efetuava enquanto eles se desenrolavam. Isso nunca me sucedera antes. a seu respeito falamos tão espontaneamente que não reconhecemos que as palavras são também símbolos. podem ser muito enganosos e perigosos. palavras. Somos incapazes de percepção direta e imediata. são simbólicos. Assim fazemos. mas também na vida real de cada dia. A maioria de nossas ações se baseiam na interpretação dos símbolos ou imagens que possuímos. portanto. Há uma "resposta" cifrada da atividade cerebral. cercados de símbolos. Estávamos falando a respeito dos símbolos. os meus sonhos tomaram uma forma peculiar. Interrogante:Está-me parecendo. sois uma coisa separada daquilo que estais vendo e surge. porque. prescindindo de símbolos. Não necessitais de símbolos quando alguém vos bate: isso é comunicação direta. fugas e temores. portanto. os quais deciframos conforme a satisfação que desejamos. após ter conversado convosco. sua fórmula. naturalmente. sem a palavra e o símbolo. Interrogante:Posso voltar noutro dia. o pensamento se identifica com sua conclusão. e não uma realidade.os símbolos representam um papel muito importante e. Os símbolos são um expediente do cérebro para proteger a psique. resistências. . qualquer estado psicológico pode ser modificado. Ora. por esse motivo. O "eu" é um símbolo. A razão disso é também perfeitamente óbvia: é que isso faz parte da atividade egocêntrica. O significado de um sonho nem sempre é claro. que tentamos decifrar. Dizeis que o céu é azul. estais ainda apegado ao símbolo do "eu" que é fictício. inevitável e duradouro. dentro dos próprios sonhos. e os sonhos constituem uma parte desse processo simbólico. Era um processo simultâneo: o sonho ia sendo interpretado pelo sonhador. Tudo isso indica. daí provém toda aflição e sofrimento. Um fato estranho é que. que é a totalidade do processo do pensamento.que pode haver comunicação direta em assuntos técnicos. há dias. a dualidade. pois. Só a profunda e constante necessidade do cérebro de segurança física para o organismo é intrínseca. para prosseguirmos? *** Interrogante:Tivestes a bondade de me permitir voltar. nos sonhos. embora compreendamos que ele se compõe de símbolos. e defende-a. Krishnamurti: "Intrínseco" implica algo que é permanente. e eu gostaria de prosseguir do ponto onde paramos. com suas defesas. somos incapazes de reação ou percepção direta. não quer estar cônscia de si própria. durante as horas em que estamos despertos. Interrogante:Como posso então encontrá-lo? Krishnamurti: Perguntando "como posso encontrá-lo". é nosso comportamento habitual. preconceitos e conclusões. não só em sonhos. não é verdade? . Vivemos. Tendo criado o símbolo do "eu". O ouvinte decifra essa palavra de acordo com seu próprio registro de "azul".

porque então existe? Krishnamurti: O "eu" é o sonhador. assim. de julgar. para o observador que se considera separado. Podemos recapitular isso de maneira diferente? Posso ver que um sonho é produto de minha mente e não está separado dela. Interrogante:Não vejo possibilidade de considerar o sonho pela maneira como o considerais. e nessa própria palavra está presente o processo dualista. de contrário. e o sonhador quer ver a significação do sonho que ele próprio inventou ou "projetou". um e outro são irreais. A divisão em grupos. há sempre o observador diferente da coisa observada. não haveria sonhos. então. um e outro são sonhos. Há alguma coisa para compreender? Quando o observador pensa diferir da coisa observada.que é ele próprio. ocorre a divisão. não há nada para compreender: há só observação. e lá vêm as guerras e outros choques. que necessidade há de interpretar. Dizeis que num sonho há alguma coisa que se precisa compreender. Da mesma maneira. Essa irrealidade se tornou real para o sonhador. Se o sonho não tem significação. O mesmo processo se verifica em seu interior: o observador deseja compreender a coisa observada . mas os sonhos parecem provir de níveis mentais ainda inexplorados e. E muito importante compreender isso. . Pensais que há um "eu" e urna coisa para compreender.Krishnamurti: Durante as horas em que estamos despertos. essas duas entidades são uma só e a mesma coisa. o agente separado de sua ação. Nós separamos a coisa observada do observador. Mas. há o sonhador separado do seu sonho. nacionalidades. Pensa que o sonho está separado de si por isso necessita de interpretação. resultando daí não só o problema da interpretação. raças. todo inteiro. O problema da interpretação dos sonhos resulta. são como sugestões de algo que está vivo na mente. Interrogante:Estou ficando cada vez mais confuso. decerto. Somos entes humanos. Quando os rótulos se tornam mais importantes do que tudo mais. mas também o conflito e os numerosos problemas com ele relacionados. pois. é fictícia. É por acidente que sonho com um certo acontecimento ou uma certa pessoa? Krishnamurti: Consideremos esta questão de maneira diferente. há esforço para se compreender essa coisa existente fora dele próprio. compreender o significado do sonho? Ele deve ter algum significado. de avaliar? Tal necessidade só existiria se o observador fosse diferente da coisa observada. não separados por nomes e rótulos. Interrogante:Como posso. Mas. Por conseguinte. quando o observador é a coisa observada. portanto. dessa separação entre o agente e a ação. ao passo que. dizeis que o sonho é uma sugestão relativa a alguma coisa não esclarecida que precisa ser compreendida. o sonho é separado do sonhador. e há necessidade de interpretá-lo? Quando o observador é a coisa observada. Interrogante:Pode-se dizer que o sonho é a expressão de alguma coisa que está na mente? Krishnamurti: É. a vossa busca de significação para o sonho provém do conflito. Empregais a palavra "compreender". Divisão é ilusão. na realidade.

Assim. um desejo outro desejo. pois. Cada fragmento se expressa de sua maneira própria e contradiz outros fragmentos. então. observai sem o observador. Interrogante:Têm-se trazido fragmentos da Lua a fim de se compreender a composição desse satélite. positivamente. durante o dia. numerosos problemas. A mente vive nesta confusão. a mente não necessita sonhar. em seguida. o observador. todos. Pela mesma maneira tentamos compreender o pensamento humano. abre uma porta pela qual estou vendo muitas coisas. há no ente humano o percebimento do movimento total da vida. uma ação outra ação. porque o observador é sempre limitado. e não como fragmento de um todo. que dão origem aos sonhos. São essas contradições. essas divisões. entre eles os sonhos e a respectiva interpretação. Vedes. Toda divisão é limitação. cada fragmento tem seu observador próprio. Durante as horas em que estais desperto.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 23. a vós mesmo como um todo. Não existindo conflito de espécie alguma. surgem os sonhos. Interrogante:Quereis dizer.Krishnamurti: Não é na vossa mente pessoal que há coisas ocultas. O sonhador perpetua sua própria limitação e. uma ação ou um desejo. A verdadeira questão. e nunca do todo. Interrogante:Isso. sua atividade própria. trazendo fragmentos de nossos sonhos para examinar o que eles expressam. que necessidade há então de sonhos? Esse percebimento total. põe fim à fragmentação e à divisão. que é uma limitação. Uma parte dela diz que precisa compreender uma outra parte -um sonho. por conseguinte. só podeis ver o significado ou valor de um sonho de maneira limitada. porém. um "super-observador" procura juntá-los. sim. que devemos estar cônscios. do inteiro movimento da vida. da contradição. senhor. surge o complexo problema da fragmentação. tem o "eu". Tendo-se dividido em "eu" e "não eu". ou qualquer outro aspecto individual da vida? Krishnamurti: A consciência é o homem inteiro e não pertence a ninguém pessoalmente. o sonhador. Krishnamurti: As expressões da mente são fragmentos da mente. Quando há consciência pessoal. TRADIÇÃO . a percepção de que esses numerosos fragmentos estão contidos no todo. Mas. durante as horas de vigília. em virtude dessa limitação. vossa consciência é a totalidade do homem. essa atenção. Um sonho pode contradizer outro sonho. limitais a sua atividade e. e não simplesmente de nossa vida de família ou nossa vida de negócios. quando a "particularizais" como vossa mente. harmonicamente. Quando. Em qualquer caso. o sonho é sempre a expressão do "incompleto". O "super-observador" é também um fragmento da mente. Vossa mente é a mente humana. da guerra. não é a interpretação ou compreensão de um dado sonho.

Tudo isso é o passado: o transporte do conhecido para o presente. mas minha existência não o é. a ele me acomodar. sois o passado. que forma o futuro.a ação e o pensamento . Interrogante:Quereis dizer que. para poder tornar-me um ente humano novo. quando não estou pensando. quero ser eu mesmo. meu viver e minhas relações . Krishnamurti: Pode-se separar as duas coisas . esse desejo de renascer. a nova entidade que imaginais é uma projeção da velha. mas tenho de fato alguma possibilidade de libertar-me disso que constitui o próprio "fundo" de minha vida? Ou só tenho possibilidade de modificar esse fundo em conformidade com os diferentes desafios e necessidades externas. em vez de me livrar dele? Essa me parece ser uma das coisas mais importantes. mas também de descobrir quem sois. é se o passado pode ser posto de parte ou se continua a haver. Tendes. Pode uma pessoa libertar-se do passado . modificado pelo presente? Interrogante:Minhas ações e pensamentos são-no. quando desejais renascer como uma entidade nova. Não é tradição tudo o que a História nos ensina? Perguntais se uma pessoa pode libertar-se dela. coberta da palavra "nova". minha existência.tudo isso não é a mesma coisa? A fragmentação em "eu" e "não eu" faz parte dessa tradição. Penso que na maioria de nós existe esse sentimento. Eu não desejo ser o passado. e eu gostaria de compreendê-la. E perguntastes se tendes possibilidade de pô-lo de parte e renascer.não apenas do passado recente. o peso do passado. dele não estais separado. minha ação. Não sois o passado? Não sois a continuação do que foi.Interrogante:Pode uma pessoa libertar-se realmente da tradição? Pode alguém ficar livre do que quer que seja? Ou a questão é de nos esquivarmos dela e não nos deixarmos preocupar com ela? Muito tendes falado a respeito do passado e do seu condicionamento. Eu bem gostaria de aliviar-me dele para sempre. unia forma "modificada" de tradição . pois. Antes de mais nada. porque sempre tive o sentimento de que estou levando um fardo. a . A questão. Krishnamurti: Não podeis "tornar-vos novo" pelo simples fato de o desejardes ou de lutardes para ser novo. Mas.da existência? Meu pensamento. porque deseja ela libertar-se? Porque deseja aliviar-se dessa carga? Porquê? Interrogante:Isso me parece bem simples. eu estou completamente apagado. humano. O "vós" é o passado e. mas também do passado imemorial. por baixo. Quero expurgar-me de toda essa tradição. não só de compreender o passado. animal? Vós sois todo ele. Levamos conosco toda a acumulação de conhecimentos e experiências da raça e da família. mas também o peso do pensamento global de um determinado grupo de pessoas que vivem numa determinada cultura e tradição. racial. É possível isso? Krishnamurti: "Tradição" não significa transportar o passado para o presente? O passado não são apenas nossas heranças pessoais. infinitamente. quando o passado não está funcionando. deixei de existir? Krishnamurti: Deixemo-nos de perguntas supérfluas e consideremos o ponto com que iniciamos esta palestra. do passado coletivo.a mudar.

Não posso identificar-me com uma imagem não pertencente ao passado.mas não está. a ação mesma da tradição. Não posso recorrer a outrem.. sem nenhuma reação? Interrogante:Mas. ele não desapareceu-existem ainda os milhares de pensamentos. o observador deveria estar fora dele . Quereis olhar-vos como se fôsseis uma entidade diferente daquela que está olhando.então. e todas as ninharias que. vejo que ainda estou levando o meu passado. sem o barulho produzido pelo pensamento. como isolar o passado. sem desejardes livrar-vos dele. Ora. momentaneamente. O contínuo exame do passado pelo próprio passado perpetua o passado.o passado. um momento atrás. a olhar. vós sois o passado. O passado é a causa. Vejo-me assim numa situação irremediável! Que posso fazer? Não posso rezar. Krishnamurti: Porque dizeis "situação irremediável" e "desespero"? Não estais traduzindo o que vedes como sendo o passado. para observá-lo? Interrogante:Posso observar uma coisa objetivamente. o "vós" que "objetivais" é memória e imaginação . e o presente o efeito. pois o pensamento é o passado. porém sempre o passado. mas. assim. com seus velhos juízos. sem avaliar. e vejo que tudo isso existe ainda.se torna a causa do amanhã. portanto. como posso eu observar o passado. É olhar em silêncio. porque.e vejo que o sou . Como podeis dizer que o passado desapareceu? Poderá ter detido. como temos dito no decurso desta palestra. Em vista de tudo isso. porque essa imagem é igualmente uma projeção minha. o passado desapareceu? Mas. Nesse silêncio. Só podeis "objetivar" a vós mesmo como uma imagem que formastes através dos anos. E apresenta-se. avaliações. Perguntais se pode ser detido esse movimento do ontem para o hoje. não há o observador e a coisa que ele está observando . julgar. com todas as suas tradições. estais novamente fazendo o passado atuar. Pode-se olhar e examinar o passado. sem modificá-lo ou dele fugir. Essa cadeia é a maneira de ser do pensamento. não gostar. numa ansiedade emocional. quando se olha sem avaliação ou julgamento. gostar. etc. assim. Olho.acumular. ficar simplesmente a observá-lo. esta é a ação mesma do passado. tudo o que eu faço para apagar o passado estará aumentando o passado. e hoje . o observador. por não poderdes alcançar um certo resultado? Com isso. A ação do passado está a observar. nunca ficareis livre do passado. pululavam. Interrogante:Quereis dizer que. no fim de minha fuga. porque a invenção de um Deus é também ação do passado. Não posso fugir. que sois o passado. Krishnamurti: Mas vós. E. em relações de toda espécie e. ou isso é completamente impossível? Para olhá-lo. sois o passado que está tentando observar a si próprio. vejo-me numa situação irremediável. se sou o passado? Eu não posso de modo nenhum olhá-lo! Krishnamurti: Podeis olhar a vós mesmo. outro problema: Se o próprio observador é o passado. a memória do passado. que é o passado? Se podeis olhar sem pensar. podeis olhar todo esse movimento do passado. e ações.. o seu . a rejeitar. isso é olhar com olhos não contaminados pelo passado. em diferentes combinações.o efeito de ontem . Interrogante:Que ação é então possível? Se eu sou o passado . sem nenhum movimento do pensamento.o passado. em desespero.e meu desespero. porque esse outro é também uma criação d.

que vivemos. São esses os fatores que nos condicionam. esse silêncio é uma dimensão nova. que não é a energia gerada pelo passado. sem ver que elas próprias fazem parte do fator condicionante que supostamente irão destruir ou substituir. nervosamente. afinal de contas. desejo conversar convosco. por "condicionamento". Assim. e que entendeis por "libertação do condicionamento"? Krishnamurti: Consideremos antes a primeira pergunta. como piamente acreditamos. No silêncio. É isto que importa verdadeiramente: ter essa energia que dissipa tudo o que vem do passado.movimento. sentindo-nos incapazes de nos descondicionarmos. erguemos as mãos para o alto e fugimos de tamanha extravagância! Mas. de teorias ortodoxas sobre tantos assuntos . Vendo-nos condicionados. Nossas reações. religioso e econômico. tendes dedicado vossa vida a esse trabalho. Só essa energia pode apagar o passado. se é. conscientes e inconscientes. porém com profunda seriedade. aceitação. Esse silêncio é infinito.pelo clima em. Isso é realmente possível e. porque a mente tem agora uma energia de qualidade diferente. A linguagem é.. o maior absorve o menor e permanece intacto. O silêncio dissolve essa outra energia. pela cultura em que vivemos. eu vos levo a sério. eu. externos e internos . será instantaneamente dissolvida. exatamente. e sem vermos sequer . que recebe as águas impuras do rio e permanece puro. CONDICIONAMENTO Interrogante:Muito falais sobre condicionamento e dizeis que devemos libertar-nos dessa servidão.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 24. e o passado é limitado. Krishnamurti: Quando a mente está em silêncio. o barulho cessa. Nós estamos condicionados . pela totalidade de nosso ambiente social. que vivo num mundo de hábitos. pela educação e por pressões e influências domésticas. fora ou dentro de nós . Uma tal asserção é verdadeiramente escandalosa e inadmissível! Em geral. tradições. mentalmente . e o novo é esse silêncio. por nossa experiência. emocionais. para ver até que ponto o ente humano pode descondicionar a si próprio.condicionamento. ou temos o barulho do passado. e sabe Deus o que mais! A essas crenças nos apegamos com todas as forças. o condicionamento do passado cai por terra. não como entretenimento. todo pensamento é ação. porque. para não ficarmos aprisionados para sempre. Por essa razão. que significa? Tenho alguma possibilidade.representam a ação do condicionamento. Não sois vós que vos tornais novo. ao ouvirmos uma declaração dessa espécie. Isso é que é importante. aos desafios de nosso ambiente . reação do condicionamento.tenho alguma possibilidade de sacudir de mim esse condicionamento tão profundamente enraizado em mim? Que entendeis. Semelha o mar.como atman. e se alguma ninharia subsistir. o Reino dos Céus interior. pelos alimentos que tomamos. alma. estamos condicionados muito profundamente e.fisicamente. O "transportar" do passado é uma energia de espécie diferente. Na plenitude do silêncio. irá libertar-nos desse estado mecânico. neste mundo. inventamos um agente divino que.intelectuais. Ou temos silêncio.. Cremos na sua existência.

toda ação.com coisas. ou seja no estado de relação. a ação do condicionamento. Que sou eu sem este "eu"? Krishnamurti: Se não há "eu". todavia. Busca o "eu" a segurança e. que constitui todas as camadas claras e ocultas da mente. os especialistas religiosos nos condicionaram. No mito cristão do pecado original e na doutrina oriental de Samsara. rejeitar. em Moksha. em sua necessidade de libertar-se. no Nirvana. a família . quer dizer. o "eu" é sofrimento. Esse condicionamento está em ação em todas as relações . mas também atua no condicionamento. que é o resultado de uma imensa evolução. tais doutrinas e mitos naturalmente não teriam surgido. Tudo isso é o passado. Interrogante:Quereis dizer que o cérebro. estais descondicionado. O "eu" é a essência mesma do passado. nota-se que o fator condicionante foi sentido. Interrogante:Pode o "eu" terminar sem esforço do próprio "eu"? Krishnamurti: O esforço por tornar-se alguma coisa é a reação. se identifica com algo maior do que ele . assim. Essa luta por "vir a ser" é tempo. porquanto sua mente se abebera no reservatório comum de condicionamento.nos condicionou.e condicionando-nos mais ainda. En passant (1). o ideal ou um Deus . Assim. e nela há confusão e avidez de mais e de melhor. ainda que um tanto vagamente. Se o virdes em ação.a nação. é o "eu". Krishnamurti: O verdadeiro fator de condicionamento. e. é falsa a divisão entre indivíduo e comunidade. a ordem social nos condicionou. esforça-se e luta para alcançar. há só condicionamento. toda vontade. Se tivesse sido visto claramente. Interrogante:Como pode deter-se a ação do "eu"? Krishnamurti: Só poderá deter-se se o virdes em atividade. o "eu".que o problema é o condicionamento. é interessante notar que o chamado indivíduo não existe realmente. Interrogante:Tomastes-me tudo. Atualmente os psicólogos estão também lutando para resolver este problema . não a encontrando. todo julgamento é condicionado. o "eu" é tempo. que pensa em função do tempo. o "eu" se esforça por libertar-se de si próprio. esse mesmo "eu" que. com seu infinito condicionamento. sois "nada". pode libertar-se? . no presente e no futuro. no passado. Interrogante:Que me cabe então fazer para me livrar dele? Viver nesse estado mecânico não é viver realmente. a raiz de todo condicionamento é o pensamento. nada posso fazer em relação ao condicionamento. nada que não esteja condicionado! Estou de pés e mãos amarrados. "vir a ser". na esperança de perder sua identidade. não só é uma ação não condicionada.esse mesmo "eu" é o fator de condicionamento. transfere para o Céu o objeto de sua busca. Esse ver. o "eu" que se esforça. esse ver será o fim do "eu". que ela partilha com todas as demais. por conseguinte. assim. pensamos que a liberdade se encontra no céu.que dela faz parte . pessoas e idéias.

que "projetam" o alvo. tão fácil nos convencermos de qualquer coisa! O sentimento de que devemos "ser alguma coisa" é o começo da ilusão e. e só funcionar quando tem de operar tecnologicamente -só funcionar quando se requer a ação do conhecimento. .. quieto. para que não haja deformações ou ilusões. É esse desejo de "mais". Essa experiência. a esperança e o desespero. Qual a causa da ilusão? Um dos fatores é a constante comparação entre "o que é" e "o que deveria ser" ou "poderia ser". pode tornar-se silencioso. para aprender uma língua. nas relações. Nós dizemos que pode . essa insatisfação. Deveis lembrar-vos de que fiz duas perguntas: perguntei o que é condicionamento. Conversei com um amigo sobre o assunto e. essa atitude idealista leva a várias formas de hipocrisia. e surgem as aflições. Desejo. desejo de "mais".Krishnamurti: O cérebro é resultado do tempo. A verdadeira questão é se o cérebro. *** Interrogante:Se o permitis. Como dissestes. vi. guiar um carro. a conclusão que se quer experimentar. de ilusão. Portanto. daí resultando mais uma contradição. o cérebro pode aprender.pelo menos creio que descobri uma brecha na estrutura desse condicionamento. por conseguinte. hoje. comecei a perceber muito claramente o quanto estou condicionado e descobri . a querer mais prazer. que nos faz aceitar qualquer coisa. não nos interessa o "psicológico" ou o "tecnológico". forçosamente.o pensamento que quer melhorar a si próprio. insatisfação. O próprio desejo de esclarecimento também gera. a memória do prazer. uma teoria. considerando certos casos reais de condicionamento. sua violência. ânsia de mudança. como "eu". qual é o estado da mente que se libertou de todo seu condicionamento. sua vontade. desejo perguntar-vos. um condicionamento. adquirir conhecimentos. São o desejo e o medo. a divisão. a ter fé em qualquer coisa. Como se pode ficar completamente livre de toda deformação e ilusão? Que é ilusão? Krishnamurti: É tão fácil enganarmos a nós mesmos. psicologicamente. na tecnologia ou no viver. Depois de :nossa palestra de ontem. queremos apenas saber se essa mente inteira pode ficar silenciosa. assim. por exemplo. Todas as chamadas experiências religiosas seguem esse padrão. e o que é libertação do condicionamento. tudo isso é medição e constitui a essência da ilusão. etc. não tem realidade. com toda a clareza. como. Esse esforço para proteger-se psicologicamente é a confirmação do "eu". o conflito e o sofrimento. ou construir uma casa? Krishnamurti: O perigo que há nisso é a divisão do cérebro em "psicológico" e "tecnológico". ele adquire saber. quão profundamente as nossas ações são por ele envenenadas. e só funcionar quando tem de funcionar. começa então o "eu". a meditação é o esvaziar da mente de todo condicionamento. esse saber se impõe. a aceitação da autoridade que é o contrário de esclarecimento. Interrogante:Pode o cérebro quietar-se. quando. e dissestes que era melhor considerarmos antes a primeira dessas perguntas. prazer.pela compreensão da meditação. ele está condicionado para proteger-se fisicamente. e isso há de levar inevitavelmente a toda espécie de engano. naturalmente. em sua totalidade. com suas experiências. é essa medição entre o "bom" e o "mau" . e "responder" eficientemente só quando tem de fazê-lo. na conclusão. Tecnologicamente. desejo continuar do ponto em que ontem ficamos. mas. Não tivemos tempo de examinar a segunda e. mas quando tenta proteger-se psicologicamente. É esse "eu" que introduz. medo. nas relações.

todo o saber (exceto o saber técnico). uma enorme compreensão. Vejo quanto é belo ser. e que significa estar realmente. educado na maneira comum. Essa imaginação do vazio é medo e. posso negar toda a ilusão humana. um homem comum. nem desejando alterá-lo. por isso. de libertação. todo ensino. todos os princípios. que me falta. há uma luta incessante por se ser livre. só nesse vazio alguma coisa nova pode surgir.. negar toda a tradição.é só quando existe esse vazio que há criação. O pensamento está comparando tudo isso com o que ele considera ser o vazio. vejo-me agora diante de algo que sei ser verdadeiro. não haverá . negar tudo o que dissemos ou concluímos a respeito da realidade. mas. Esse desejo de liberdade se expressa em todas as pessoas. que constitui a essência de "vós mesmo"? Podeis negar a "vós mesmo". Interrogante:Deixai-me tornar a perguntar o que é essa liberdade que tanto desejamos. completamente? Se não puderdes fazê-lo. para ver tudo isso num relance e deixá-lo exposto à luz daquela inteligência de que tendes falado? Tenho minhas dúvidas sobre se sabeis o que isso exige de mim. "Viver com uma coisa" não significa. no mais amável dos entes humanos. que nunca se realiza. o conteúdo total de seu próprio "eu". "nada".. mergulhar numa coisa que se me afigura como um incrível vácuo. minha total incapacidade para fazê-lo me está prendendo. Negar tudo o que consideramos positivo. portanto. estou agora realmente assustado. imediatamente? É realmente possível isso? Não se requer uma enorme capacidade. tampouco. todos os valores e aspirações e padrões. todavia.não tendes realmente nenhuma ilusão a respeito de coisa alguma? Krishnamurti: Eu nunca meço a mim mesmo ou aos outros.vossos apegos. medo é pensamento. negar toda aceitação psicológica da autoridade. tendes tanto medo de deixar o conhecido . Sei que não sou livre. Posso fazê-lo? Nem sei o que significa um tal mergulho.Interrogante:E vós . existe vazio. Medo é o pensamento no desconhecido. consciente e inconsciente. em nós mesmos.. identificar-se com ela. negar toda a moral social. É o mesmo que me mandar transformar-me subitamente no mais belo. pode a mente negar tudo o que conhece. Krishnamurti: É só quando. quer não. a mim. pouco a pouco. por conseguinte. satisfações. a continuidade e a segurança que proporcionam conforto. verdadeiramente livre? Krishnamurti: Talvez isto vos ajude a compreendê-lo: a negação total é essa liberdade. Como posso libertar-me. nesse trabalho me verei empenhado toda a vida e ele próprio se tornará minha servidão. Essa negação é a ação mais positiva e. Interrogante:Se eu quiser apagar tudo isso. negar toda a experiência. negar todas as idéias. preso que estou na armadilha de inúmeros desejos e necessidades. "Viver com uma coisa" não significa aceitação dela: ela é um fato. lembrados ou esquecidos. Só podemos estar livres dessa medição quando estamos vivendo realmente com "o que é". todos os impulsos oriundos de prazeres. mas pode-se dizer que no coração humano há sempre essa profunda ânsia. porém aquele vazio que vem com a total negação de tudo o que "somos" e "devemos ser" e "queremos ser" .. lembranças aprazíveis. nem julgando-o "bom" ou "mau". é liberdade. negar todos os compromissos de atuarmos de determinada maneira. Como vedes. real e totalmente. às vezes por maneiras as mais estúpidas. e. no mais puro. Pode tudo isso esvaecer-se num instante. Mandar-me. não o vazio de uma mente superficial. quer a aceitemos. não da mesma maneira que antes. Voltando à vossa pergunta. todas as teorias.

Eu gostaria de saber o que posso fazer para me sentir real e completamente feliz. tudo vive e existe. Isso é prazer. porque.(N. . êxtase . jamais a encontrei. encontrareis. É sem fronteiras. do T.) INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 25. em distrações e abusos de toda espécie. um simulacro dela. e sem ela como pode haver amor? Nela. quando estamos vivendo inteligentemente? Interrogante:Eu creio que ela é um fim em si. e muitas das coisas que elas fazem me parecem por demais imaturas e pueris. tudo o que se faz é correto. sem esperardes até amanhã? Essa liberdade é eternidade. em relação a quê? Ao conhecido? A liberdade é o bem absoluto e sua ação é a beleza da vida de cada dia. a liberdade vem com a negação total. Tenho certeza de que. Krishnamurti: É exato isso . não? Krishnamurti: Exatamente! Eu gostaria de saber que sentido dais à palavra "bem". Krishnamurti: Credes que a felicidade seja um fim em si? Ou vem ela como uma coisa secundária. Que relação há entre prazer e felicidade? . mas. que bem faz essa liberdade? Estais-me pedindo que morra. provavelmente. [ÍNDICE] (1) "De passagem". Se o fosse. a seu modo. com essa felicidade. por alguma razão. Liberdade não significa estar livre de alguma coisa . Interrogante:Mas. mas eu desejo outra espécie de felicidade. se tornaria uma coisa muito insignificante.pois isso é apenas uma reação. Só na liberdade há viver. Ela está em toda parte e em parte nenhuma. sem atrito. tudo fazemos harmonicamente. sem esforço. ela sempre me fugiu. FELICIDADE Interrogante:Que é felicidade? Sempre andei a buscá-la. Em raros momentos têm-me vindo sugestões de que é possível alcançá-la. Creio que essas pessoas são felizes. ao dizerdes "que bem faz essa liberdade?" "Bem". Pode-se buscar a felicidade? Se o fizerdes. Vejo outras pessoas divertirem-se de muitas maneiras diferentes. Podeis morrer agora para tudo o que conheceis.liberdade. facilmente.a felicidade um fim em si? A virtude não é um fim em si. mas.é amor. por alguma razão. havendo felicidade.

ajudar-vos a libertar-vos de vossa aflição? Ou. mas. Eu desejo ajuda. Krishnamurti: Esta questão de receber ajuda ou dar ajuda envolve muitas coisas. é a felicidade o oposto da infelicidade? Desejais ser feliz porque sois infeliz. porque estais insatisfeito? Tem a felicidade alguma espécie de oposto? Tem o amor algum oposto? Vossa pergunta acerca da felicidade provém de serdes infeliz? Interrogante:Como todos os demais. me vejo agora frente a frente com esta questão: Como posso libertar-me de minha aflição? Krishnamurti: Pode algum agente exterior . Krishnamurti: Logo. sou infeliz e naturalmente não desejo sê-lo. assim como se busca o prazer? Cumpre-nos. ninguém pode ajudar-vos . ficareis com toda uma série de novos problemas. não é a felicidade. sim.porque.mas. decerto. um salvador . de modo que poderíeis ser chamado um "agente exterior". felicidade. Não é este o verdadeiro problema? Perguntais o que é felicidade porque sois infeliz. e consideramos o máximo de prazer como sendo o máximo de felicidade. é como livrar-me da aflição em que me vejo. Em geral pensamos que prazer é felicidade. mas não me destes a resposta que desejo e. O importante. esta existirá sempre talvez encoberta. também. um Mestre. e é isso que me impele a buscar a felicidade. oculta. por isso. e não importa quem ma dá. que acarreta vários outros problemas. compreender a infelicidade ou buscar a felicidade? Se buscais a felicidade. E. para vós. é erroneamente chamado "felicidade". pois. aceito-o.Interrogante:Nunca fiz a mim mesmo essa pergunta. tais como a obediência e o medo. que todos nós buscamos. Se fôsseis feliz. por conseguinte. mas. Assim. e o perguntais sem terdes averiguado se felicidade é o contrário de infelicidade. afinal de contas. desregramento. . Interrogante:Se assim o expressais. estímulo. essa busca é uma fuga da infelicidade e. estareis mais atolado ainda do que nunca. se logo de início estais desejando ajuda. vos vereis aprisionado na armadilha desta ou daquela autoridade. pode-se adquirir a inteligência necessária para compreender a natureza da infelicidade e imediatamente resolver este problema? Interrogante:Vim procurar-vos porque pensava que podíeis ajudar-me. qual é agora vossa questão? Interrogante:O que agora pergunto é: Porque sou infeliz? Vós me apontastes muito claramente o meu estado real. saber se a infelicidade pode terminar. Prazer é satisfação.Deus. Krishnamurti: O prazer. Assim. ver bem claramente se prazer é felicidade. entretenimento. pode-se buscar a. mas sempre presente. Krishnamurti: Que é mais importante. uma droga. felicidade é o oposto de infelicidade. não estaríeis buscando a felicidade. portanto. não só não a obtereis . O que me interessa. Se cegamente aceitais essa ajuda. além disso. a supurar dentro em vós.

Interrogante:Penso que compreendo o que acabais de dizer. Só há ver ou não ver. O ver não é cultivo da inteligência. ver fragmentariamente é falta de inteligência. não se pode desenvolver a inteligência. decerto. como um utensílio. O que o pensamento cria não é real. ou infelicidade. etc. para ver. etc. Interrogante:Que é então esse ver? Krishnamurti: Ver significa compreender que o pensamento cria os opostos. mas será melhor não fazermos tanto caso disso aqui. De que maneira poderei desenvolver a inteligência necessária para resolver. ver totalmente é inteligência. Ver significa compreender a natureza do pensamento. e por isso falamos em felicidade ou infelicidade. é se tenho possibilidade de adquirir essa inteligência. justamente. a fim de resolver o problema da infelicidade e. o problema da infelicidade? Se eu possuísse essa inteligência. infelicidade e inteligência . Krishnamurti: Talvez seja. então. ver tudo isso como um processo total é compreender. não vos estaria pedindo ajuda. alcançar a felicidade. Essas duas coisas (ver e compreender) não são separadas e sucessivas. não se trata de primeiramente adquirir a inteligência. . Interrogante:Isso talvez seja inerente à estrutura da linguagem. na solução do problema. É dessa maneira que vivemos. que ela não está separada da ação de pôr fim à infelicidade ou de adquirir a felicidade. compreendi. primeiro a idéia.são uma unidade indivisível. ódio e amor.felicidade. da memória. afastando-nos do ponto mais importante. O resto . Krishnamurti: Com isso estais dizendo que essa inteligência é separada de sua própria ação. deveis estar vendo que esse ver é inteligência. imediatamente e por meus próprios meios. das idéias. É uma das "doenças" do pensar o dizer-se que primeiro se precisa adquirir a capacidade. Isso é inteligência. A única coisa que se pode fazer é ver. A ação dessa inteligência é o ver e o compreender o próprio problema.que é ver o problema da infelicidade . Isso. Ver é mais importante que inteligência. do conflito. O que agora pergunto. por conseguinte. É fragmentação. depois a aplicação dele. se compreendestes. e aceito-o. Interrogante:Como poderei adquirir essa inteligência? Krishnamurti: Compreendestes o que estivemos dizendo? Interrogante:Sim. é ausência de inteligência e a origem de todos os problemas. Estamos dizendo que a inteligência e a ação dessa inteligência . para depois usá-la. portanto. Krishnamurti: Ora.são meras palavras. ou felicidade. para depois usá-la. Nunca refleti sobre isso a fundo e com clareza. Também. o princípio.

a esperança. matemática. agricultura.ajustar-nos ao ambiente e aos nossos vizinhos.como bem sabemos . Não se pode ver se não há nada para ver. negando a experiência. observar em liberdade.e há o aprender a que nos referimos em nossas palestras. Não percebo bem o que entendeis por isso. nunca vereis. mente. Não sei se estou vendo agora. e vede como o pensamento cria o oposto. Há a acumulação que traz condicionamento . esperando que depois possa ver. aprendemos alguma coisa a respeito da guerra. graças à experiência. Vede o desengano. voar para a Lua. Só se pode ver agora. mas com certeza não é bem isso o que entendeis quando falais a respeito do aprender. tenho de ir devagar. pelo refletirdes sobre o que se disse. é coisa inteiramente diferente. aparentemente. Não sei se apreendi a essência do que dissestes. prestai-lhe toda atenção. mais eficiente. aprendemos tudo o que sabemos. a nossos filhos. porque.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 26. boas maneiras. uma abstração ou idéia. medicina. APRENDER Interrogante:Tendes falado repetidamente sobre o aprender. Somos ensinados na escola e na universidade. Parece que aprendemos de quase tudo o que nos cerca. e a vida também nos ensina muitas coisas . não estais negando a possibilidade de aprender? Afinal de. para ver se compreendi realmente esta questão. Vede-o completamente. Que é que aprendemos por meio da experiência? Aprendemos coisas tais como línguas. Mas. Nós dois já compreendemos o que significa ver. Tendes agora o problema da infelicidade. Interrogante:Continuo confuso. Tudo isso deve ser visto completamente.é acumulação de condicionamento. Desejo fechar os olhos e penetrar em mim mesmo. a nossa esposa ou marido. tanto em matéria técnica como no viver humano de cada dia. jamais o vereis. Esse aprender é observação . e a busca de ajuda para a obtenção da felicidade. e não separada-. Podemos examinar esta questão? Krishnamurti: Aprender por meio da experiência é uma coisa . Mas. Essa observação não é dirigida pelo passado. Krishnamurti: Nesse caso. contas. porque o pensamento impede o ver. Parece-me que compreendo.observar sem acumulação. Dizeis que essa atenção é inteligência e que deve ser imediata. porém um tanto vagamente. não só a respeito de coisas objetivas. Vede tudo agora. fazendo guerra? Aprendemos a tornar a guerra mais mortífera. O que estais dizendo é isto: vede e escutai totalmente. Vede a busca de felicidade. o temor. mas também a respeito de nós mesmos. e aprender constantemente. negais a experiência como mestra.Interrogante:Estou um pouco confuso. como um todo. ou se tenho de ir para casa refletir sobre o que dissestes. mas não . inclusive o vosso desejo de ser feliz. nesse caso resolvi o meu problema. Tenhamos bem claras essas duas coisas. Se a compreendi. Esse ver não é uma essência.

A experiência ensinou-nos a tomar alimentos mais saudáveis. não aprendemos a viver numa relação correta com os outros homens. Interrogante:Estais criando um caso contra o aprender e a experiência. Essa relação correta é o amor. Entretanto. por conseguinte. baseada em nosso condicionamento. não estou de modo nenhum criando um caso desses. como tudo o prova. mas as relações.(2) Entretanto. Dissemos que há duas espécies de aprender: Acumular. e essa é a razão por que as relações não podem florescer quando guiadas pela experiência ou pela memória. ainda. por meio da experiência. e isso se tornou um condicionamento. e a outra. Não aprendemos a ver a estupidez de tudo isso. e a isso chamamos "aprender pela experiência". por meio de condicionamento. a experiência deveria ensinar-nos também que o nacionalismo é uma coisa mortífera. aprendemos que o fogo queima. ele próprio se servia dos modernos meios de transporte. a termos roupas melhores e casas melhores. Krishnamurti: Deixemos de fora outras pessoas. e. Acumulamos. Se uma pessoa atua segundo o que aprendeu sobre comportamento. na Índia. O "egoísmo esclarecido'. mas. E quando. nossas peculiares tendências. que tornam cada vez mais importante o fortalecimento da família. . no domínio tecnológico. como medida de proteção. A experiência me ensina a fortalecer a família. iniciando. separou o homem do homem. porém coisas vivas. outro ponto muito importante: no aprender que é acumulação e experiência. condiciona e torna mais fortes os nossos preconceitos. Nossa experiência em matéria de guerra está pondo em perigo a sobrevivência da humanidade. E há. no próprio ato de viver. se tornarão rotina. o comportamento. há duas espécies de aprender: uma. o movimento a que se deu o nome de "home industries" ou "cottage industries". Não somos contra ela. Como íamos dizendo. Quando o aprender baseado na experiência e na acumulação invade o domínio do comportamento humano. o agir na base da acumulação de conhecimentos e de experiência. aflição e confusão. como unidade oposta à sociedade e às outras famílias. mas não nos ensinou que a injustiça social impede o relacionamento entre o homem e o homem. que é o passado. cada vez mais limitação e especialização. por outro lado é a própria fonte de muitos males. volveremos ao estado selvagem. mas a experiência vos ensinou a viver nobremente em seu interior? Pela experiência. desse modo. isso seria absurdo! Interrogante:Gandhi tentou excluir a máquina da vida. se por um lado é lucrativo. o lucro é o critério que determina a sua eficiência. A experiência. Krishnamurti: Não. também. contra a ciência e todo o saber científico acumulado? Se dermos as costas a essas coisas.(1) Essa acumulação é absolutamente necessária toda vez que se requeira a ação do saber. Isso traz luta e divisão. torna-se inevitavelmente destrutivo. As relações não podem florescer onde há qualquer espécie de interesse egoísta. e sobre elas é necessário aprender a todas as horas. A experiência religiosa. Parece que não nos estamos entendendo bem. nas relações humanas. pois. porém constantemente. Isso denota a inconsistência e a hipocrisia de sua posição. o domínio psicológico. já que ele provoca o isolamento e a divisão.aprendemos a não fazer guerra. e agir na base dessa acumulação. vai continuando indefinidamente o círculo vicioso. Isso é aprender? Podeis construir uma casa melhor. são destruídas essas relações. esse comportamento se tornará mecânico. não são coisas técnicas. e as relações . A primeira espécie é absolutamente necessária em coisas técnicas. opera esse "motivo" de lucro. e nossos dogmas e crenças pessoais. aprender sem acumulação. mas esse aprender acarreta cada vez mais fragmentação. aprendemos a considerar o nacionalismo uma coisa boa.

o desafio é diferente da reação ao desafio? Krishnamurti: O experimentador é a experiência. precisa ser reconhecido como tal por seus seguidores. temporal. facilitando. conforme vossa própria tradição. por conseguinte. do contrário. toda espécie de ilusão e de isolamento. não poderia reconhecer a experiência e chamá-la "uma experiência". significa "passar por uma certa coisa" e acabar com ela.as experiências dos santos e dos gurus. não guardá-la. essa coisa. com o coração repleto de ciúme e ansiedade . inclinação. Assim. a experiência de um experimentador. porém apenas condicionar-vos. Analogamente. quereis dizer que desaparecemos? Krishnamurti: Naturalmente. é. o novo é absorvido pelo velho. a experiência dos filósofos. entendemos exatamente o contrário. se nela refletimos. tanto o guru como o discípulo fazem parte do condicionamento cultural e religioso da sociedade em que vivem. já que determinados pelo experimentador. A chamada experiência religiosa não pode trazer benefícios. quando falamos em experiência. o começo da sabedoria é a compreensão de vós mesmo. o homem que diz que sabe. tendência e desejo. Toda vez que se . baseada no passado. não é atemporal. Por conseguinte. Essa espécie de experiência não nos é benéfica. assim. em nossa ignorância? Krishnamurti: De modo nenhum! O santo precisa ser reconhecido como tal pela sociedade e é obrigado a ajustar-se às noções sociais de "santidade". O "vós" é o passado. há um processo cognitivo de reconhecimento. mas. Assim. é a reação que determina o desafio. não são duas coisas separadas.como pode uma tal entidade compreender aquilo que não tem começo nem fim. o desafio é a reação. O que ele experimenta é o "já conhecido". igualmente. O guru. A palavra "experimentar". não pode existir o imensurável. podeis estar certo de que o que conhecem não é a realidade: é sua própria "projeção". Inerente a todas essas chamadas experiências religiosas. Começai a compreender-vos. com sua mente limitada e superficial. Interrogante:Quereis dizer que não se pode experimentar a realidade? Krishnamurti: O experimentar implica a existência de um experimentador. que é êxtase? Assim. condicionados pela tradição. não o chamariam "santo". antes de ele a reconhecer. a experiência já existe nele.Interrogante:Percebo. o passado está sempre a operar e a reconhecer a si próprio. seus limitados e superficiais conhecimentos e experiência. Assim. Interrogante:O experimentador difere daquilo que ele experimenta. Quando eles afirmam ter tido contato com a realidade e que a conhecem. e o experimentador é a essência de todo condicionamento. e enquanto permanecer o "vós" ou "eu". Só podeis reconhecer uma coisa que conhecestes antes. Interrogante:Que entendeis quando falais de "experimentador"? Se não há experimentador. por conseguinte. vem do passado. são velhos. em coisas de religião . O "eu". mas a experiência religiosa não é diferente? Refiro-me à experiência acumulada e transmitida de geração a geração. do contrário. sem reação não haveria desafio. não sabe. ou a reação a um desafio por parte do experimentador.

) (2) "Indústrias domésticas". Como artista. aprender. Essa "expressão" agrada a certas pessoas. tornam-no um escravo da sociedade para a qual pinta. e há sempre frustração quando a expressão não corresponde ao sentimento profundo. por fim. como um homem expressar o seu amor a urna mulher mediante palavras e gestos. Pergunto-me a mim mesmo se terei alguma vez a possibilidade de libertar-me desta dor . ou de alguma coisa desagradável cuja repetição é temida. os críticos. isto é. a cultivá-la.) INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 27. aqui omitida. mais relevante ainda do que o sentimento. r torna-se mais e mais importante e. fala-se em alguma coisa que foi armazenada e da qual procede a ação. com mais plenitude. "indústrias de cabana". senão me sentiria sufocado e profundamente frustrado. torna-se "moda". Esta é uma parte do processo destrutivo da sociedade . de alguma coisa deleitável que se deseja repetir. o artista ganha dinheiro e fama. e que tem o sofrimento a ver com ela? Não estamos sempre tentando expressar-nos. É tão natural eu me expressar como artista. Um dado artista tem um sentimento forte e até certo ponto genuíno. . Mas há na expressão uma espécie de dor que não compreendo bem. O artista não sofre apenas as conseqüências sociais de ser um artista consagrado. com efeito. essa própria expressão acaba perdendo o seu atrativo. há enorme diferença entre ambos. Conseqüentemente. .(N. a desenvolvê-la. e ficamos alguma vez satisfeitos com o que expressamos? O sentimento profundo e a expressão dele não são a mesma coisa. com mais profusão.ou a expressão é sempre dolorosa? Krishnamurti: Que necessidade há de expressão. Por conseqüência. por já não haver nada para exprimir. e ele se põe a aperfeiçoá-la.fala em experiência. que adquirem os seus trabalhos. este acaba evaporando-se.(N. então. o "mercado". tenho necessidade de expressar-me. e passa o resto da vida a imitar a si próprio. uma palavra sem significação. É esta provavelmente uma das causas do sofrimento do artista: o inadequado da expressão que ele dá ao seu sentimento. Nisso há conflito. e o expressa na tela. vem mais adiante. cada vez mais profundamente.[ÍNDICE] (1) A "segunda espécie de aprender". viver é. do T. e esse conflito é um desperdício de energia.a destruição do bom. do T. O sentimento há muito que morreu e a expressão é uma concha vazia que lhe ficou nas mãos. A expressão faz parte da existência do indivíduo. o "salão". EXPRESSÃO Interrogante:A expressão me parece da maior importância. já não passa de um gesto. Sua expressão chama a atenção do público. Essa expressão se torna "habitual" e estilizada. Creio que a maioria dos artistas concordarão comigo em que há um profundo conflito quando estamos expressando nossos mais íntimos sentimentos pela pintura ou outro meio. . sem o processo de acumulação. os apreciadores. a "galeria".

Interrogante:O sentimento não pode permanecer, em vez de se perder na expressão?

Krishnamurti: Quando a expressão se torna da máxima importância, por ser agradável, satisfatória, lucrativa, abre-se uma brecha entre a expressão e o sentimento. Se o sentimento é a expressão, não há então conflito, porquanto não há contradição. Mas, quando o conflito e o pensamento intervêm, o sentimento se perde por efeito da avidez. A paixão do sentimento é completamente diferente da paixão da expressão, e a maioria das pessoas estão enredadas na paixão da expressão. Há, pois, sempre, essa separação entre o bom e o agradável.

Interrogante:Posso viver sem estar preso a essa corrente da avidez?

Krishnamurti: Quando o importante é o sentimento, nunca se fazem perguntas a respeito da expressão. Ou a pessoa tem o sentimento, ou não o tem. Se faz perguntas sobre a expressão, não as faz por interesse na arte, porém com interesse no lucro. A arte é esta coisa que nunca se leva em conta: o viver.

Interrogante:Que é então "o viver"? Que é existir e ter aquele sentimento que, em si mesmo, é completo? Já compreendi que a expressão está fora de questão.

Krishnamurti: É viver sem conflito.[ÍNDICE]

INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI

28. PAIXÃO

Interrogante:Que é paixão? Sobre ela tendes falado e decerto lhe dais um significado especial. Desconheço esse significado. Como todo homem, tenho a paixão do sexo e paixão por coisas superficiais, como guiar um carro a toda velocidade ou cultivar um belo jardim. A maioria de nós gosta de entregar-se com paixão a alguma espécie de atividade. Falai a um homem sobre sua paixão especial, e vereis os seus olhos cintilarem. Paixão vem de uma palavra grega que significa sofrimento, porém, o sentimento que experimento quando empregais essa palavra não é de sofrimento, mas o de uma força irresistível, qual a do vento que sopra com violência do oeste, impelindo à sua frente as nuvens e a poeira. Como podemos alcançá-la? Paixão por quê? Que é essa paixão de que falais?

Krishnamurti: Cumpre ver claramente que desejo e paixão são duas coisas diferentes. O desejo é sustentado pelo pensamento, impelido pelo pensamento, desenvolve-se e ganha substância do pensamento, até explodir - sexualmente ou, se se trata do desejo de poder, em suas formas próprias e violentas de preenchimento. Paixão é coisa inteiramente diversa; não é produto do pensamento, nem a

lembrança de um fato passado; não é impelida por nenhum "motivo" de preenchimento; não é, tampouco, sofrimento.

Interrogante:A paixão sexual é sempre desejo? A reação sexual nem sempre é resultado do pensamento; pode resultar do contato, como, por exemplo, quando subitamente nos encontramos com alguém cuja beleza nos fascina.

Krishnamurti: Sempre que o pensamento forma a imagem do prazer, há inevitavelmente o desejo, e não a liberdade própria da paixão. Se o principal "motivo" é o prazer, trata-se então do desejo. Se a paixão sexual nasce do prazer, é desejo. Se nasce do amor, não é desejo, ainda que acompanhada de extraordinário deleite. Aqui temos de ver claramente e de descobrir por nós mesmos se o amor exclui o prazer e o deleite. Quando, ao verdes uma nuvem, apreciais sua vastidão e luminosidade, há naturalmente prazer, mas há mais ainda - muito mais - do que prazer. Não estamos de modo nenhum condenando o prazer. Se voltardes constantemente àquela nuvem, em pensamento ou na realidade, para terdes estímulo, estareis então sendo impelido pela imaginação e a fantasia, e aqui, obviamente, o prazer e o pensamento são os incentivos que estão atuando. Ao olhardes pela primeira vez aquela nuvem e verdes sua beleza, não estava em ação nenhum incentivo de prazer. A beleza do sexo é a ausência do "eu", do "ego", mas o pensamento no sexo é afirmação do "ego" e, portanto, prazer. Esse "ego" está constantemente a buscar o prazer e a evitar a dor, a desejar preenchimento e, conseqüentemente, a atrair a frustração. Aí, o sentimento da paixão está sendo cultivado pelo pensamento e, por conseguinte, já não é paixão, mas prazer. A esperança, o cultivo da paixão lembrada, é prazer.

Interrogante:Que é então a paixão?

Krishnamurti: Ela está relacionada com a alegria e o êxtase, que não é prazer. No prazer há sempre unia forma sutil de esforço - um buscar, um esforçar-se, exigir, lutar, por conservá-lo ou por obtê-lo. Na paixão não há exigência e, por conseguinte, não há luta. Na paixão não se encontra a mais leve sombra de preenchimento, por conseguinte não pode haver frustração nem dor. Paixão é o estado livre do "ego", que é o centro de todo preenchimento e dor. A paixão não exige nada, porque ela é (não estou falando sobre uma coisa estática) . Paixão é a austeridade da negação de si mesmo, na qual não existe "vós" nem "eu"; a paixão, por conseguinte, é a essência da vida. Ela é movimento e vida. Mas, quando o pensamento introduz os problemas do ter e do conservar, a paixão deixa de existir. Sem paixão, não é possível criação.

Interrogante:Que entendeis por "criação"?

Krishnamurti: Liberdade.

Interrogante:Que liberdade?

Krishnamurti: Estar livre do "eu", que depende do ambiente -é produto do ambiente; que é formado pela sociedade e pelo pensamento. Essa liberdade é clareza, a luz que não se acende com a chama do

passado. Paixão é só o presente.

Interrogante:Isso acendeu em mim um novo e extraordinário sentimento.

Krishnamurti: Esse sentimento é a "paixão de aprender".

Interrogante:Que ação especial, no meu viver, garantirá que essa paixão se manterá acesa e em função?

Krishnamurti: Nada poderá garanti-lo, senão a atenção do aprender, a qual é ação, e existe no agora. Nela se encontra a beleza da paixão, que é o total abandono do "eu" e do tempo.[ÍNDICE]

INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI

29. ORDEM

Interrogante:Em vosso ensino há inúmeros detalhes. No meu viver, preciso ser capaz de reduzi-los todos a uma só ação; agora - uma ação que influa em tudo o que eu faça, já que, no meu viver, só tenho, diretamente à minha frente, este único momento (o agora) para agir. Que é essa ação que, no viver diário, pode reunir todos os detalhes de vosso ensino num só ponto, qual uma pirâmide invertida sobre seu vértice?

Krishnamurti:... perigosamente!

Interrogante:Ou, por outras palavras, qual a ação que pode focalizar a inteligência total do viver num só instante do presente?

Krishnamurti: Acho que o que se deve perguntar é como viver uma vida realmente inteligente, equilibrada, ativa, em harmoniosas relações com os outros entes humanos, sem confusão, ajustamento e aflição. Que é esse ato único que pode chamar a inteligência a atuar em qualquer coisa que se esteja fazendo? Há neste mundo muita aflição, pobreza e sofrimento. Que podeis vós, como ente humano, fazer, diante de todos esses problemas humanos? Se os aproveitais como uma oportunidade de prestar ajuda a outros, para vosso próprio preenchimento, vossa ação é então exploração e maleficência. Podemos, portanto, pôr isso de parte, logo de início. A questão real é de saber como poderemos viver uma vida altamente inteligente, ordeira, sem nenhuma espécie de esforço. Em geral nos abeiramos deste problema do exterior, perguntando a nós mesmos: "Que devo fazer em presença dos numerosos problemas da humanidade - os problemas econômicos, sociais, humanos-" - Queremos resolvê-los de acordo com as condições exteriores.

para se pôr em ordem. que não é acendida pelo desejo. Dessa maneira. porque o mundo é como agora é. é contraditório? Krishnamurti: Por meio da vigilância. Deve haver ordem durante o dia.aquela virtude que não é imposta de fora. . e isso só é possível quando há ordem completa no cérebro. inocência.religiosas e de outra natureza. em todo o correr do dia e. confusas. Se há desordem. indagar? Krishnamurti: Só se tiverdes morrido completamente para o passado. faz o balanço exato das contas. Isso seria absurdo! O que desejo saber é como viver virtuosamente neste mundo. nestas circunstâncias. tudo está em desordens. Essa ordem não é produto do pensamento. num estado de graça. na realidade. Deve haver. surgem então as diferentes formas de resistência cultivadas pelo pensamento . à autoridade. Krishnamurti: Estais dizendo que desejais ver-vos. imediatamente. decerto. qual é? Interrogante:É o que estou perguntando. à noite. e que vosso atuar proceda desse estado? Interrogante:Isso mesmo. este buscar. diretamente à minha frente. amor. Isso não significa que o cérebro hipnotize a si próprio. e não posso ordenar-lhe que tome outra forma. depois. que não é vossa nem de ninguém mais. Isso é proceder como o contador que. e.Interrogante:Não. É a desordem no cérebro que gera o conflito. exatamente! Krishnamurti: Esse estado não tem nada que ver com realização. como ele é. coordenando-se tudo o que se esteve fazendo durante o dia. uma única maneira de viver. antes de dormir. ansiar. Quando há essa luz interior. tal qual como ele é. Krishnamurti: É ter. Interrogante:Como obterei essa luz agora. dentro em si. Estou perguntando como tornar esse viver uma vida de Dharma (1) . aflitivas. ou seja um estado de grande inteligência. em si mesmo. sem passado ou futuro. dentro e ao redor dele. sem toda esta luta. quando. subitamente. sociais ou políticos do mundo. Tenho de viver agora neste mundo. que não segue nenhum preceito. tudo o que se faz é sempre justo e verdadeiro. resolver todos os problemas do viver. aquela luz que não tem começo nem fim. Interrogante:Como pode ser criada essa ordem num cérebro que se acha em desordem. o cérebro não vai dormir em desordem. que. sucesso ou malogro. O cérebro não tolera a desordem. produto da obediência a um princípio. e ele criará malefícios em si próprio e em torno de si. e recapitular essa ordem antes de dormir é encerrar o dia harmoniosamente. ou a uma certa forma imaginária de bondade. não vos estou perguntando como atacar ou resolver os problemas econômicos. não é cultivada por nenhum pensamento. que desejais ver-vos nesse estado. todas as suas atividades serão contraditórias. para começar o dia seguinte de maneira nova.

do T. minha ou de outro? Se é vossa ou minha. Em todas as sociedades. no viver. Quando há essa bondade. a ação não tem então referência ao indivíduo ou à coletividade. ele. Põem em relevo o indivíduo. conforme a preferência ou o julgamento pessoal de cada um. só que a formulei diferentemente. Como nos falta a bondade. O INDIVIDUO E A COLETIVIDADE Interrogante:Não sei exatamente como formular esta pergunta. despreocupada. do pensamento. mas tenho o forte sentimento de que as relações entre o indivíduo e a coletividade . dividimos o mundo em indivíduo e coletividade. a inteligência vossa. dividindo ainda a coletividade em inumeráveis grupos. Na moderna sociedade-que se tornou tão mecânica e padronizada. Krishnamurti: Pode-se recebê-la imediatamente quando não existe "eu". são separados de outros grupos. a afirmar-se. Ao despertar-se. do amor e da inteligência. Deixa o "eu" de existir quando. da civilização é.[ÍNDICE] (1) Dharma: (hinduísmo) Lei religiosa. por sua vez. a bondade só floresce livre de ambos. a nacionalidade e a classe. tentamos promover a união mediante a formação de novos grupos que. então já não é bondade. afinal de contas. livre de confusão.têm sido. de ânsia ou medo. ou observância dela. O que pergunto é: Que é que está errado em tudo isso? Krishnamurti: A única coisa que realmente importa é que. reconhece que ele precisa acabar. nem amor. Interrogante:Posso receber imediatamente essa luz? Foi esta a pergunta que fiz logo no início. conforme a religião. e o resultado é uma batalha contínua entre ambas as entidades. e coletivamente atuante . a história das relações entre essas duas entidades opostas. o amor pessoal ou impessoal. A bondade é individual ou coletiva. Supõe-se que as grandes religiões existem para promover a . nem bondade. Depois de criarmos essas divisões. .duas entidades opostas . o ver é a luz da compreensão.) INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 30. na manhã seguinte. tem de obedecer e adaptar-se ao padrão que os teóricos determinaram.indo portanto dormir com a mente quieta. É negação da desordem criada pela moralidade em que fomos educados. Essa luz é inteligência e amor. (Dic. haja uma ação proveniente da bondade. Se a bondade é uma coisa relacionada com o indivíduo ou com a coletividade.(N. há aquela luz que não é produto do pensamento ou do prazer. o indivíduo é mais ou menos suprimido. As religiões falam da alma individual como coisa separada da alma coletiva. até hoje. A luta nunca leva a parte alguma. vazia. esse amor e essa inteligência. um longo desfile de males. por si próprio. virtude. O indivíduo está sempre tentando libertar-se desses padrões. a indagar o que é ele. nesse caso não é inteligência. A bondade não se encontra no quintal do indivíduo. A história do mundo. "Webster").o indivíduo anda à procura de sua própria identidade. nem no vasto campo da coletividade.

Toda existência é relação. Estamos sempre tentando reformar o que já se acha corrompido. ou em provar que são entidades diferentes ou idênticas? Quereis dizer que só a bondade. na realidade. a autoridade. Assim. se torna um empecilho. entretanto. para entrarmos na matéria mais profundamente? Krishnamurti: Devemos também deixar de parte a importância que atribuímos à autoridade. Interrogante:Como podem atuar? Krishnamurti: Só podem atuar no estado de relação. De outro modo. é o "eu" que atua. mas de meditação. E a compreensão dele é o seu fim. é nos tornarmos cônscios de nossas relações com todas as coisas e pessoas e vermos como. a impedem. portanto. Não erradicamos a corrupção fundamentalmente mas tratamos. na meditação.fraternidade humana. um obstáculo à liberdade. É o "eu" que separa. Há várias escolas que ensinam percebimento. seguindo o que se disse. Nisso não há liberdade. A experiência do passado poderá . Estar cônscio dele é compreendê-lo. o "eu" nasce e atua. seja de outrem. amor. o ajustamento e a imitação devem ser postos de parte completamente. Interrogante:A verdadeira questão parece ser. Seu findar é bondade. MEDITAÇÃO E ENERGIA Interrogante:Desejo nesta manhã penetrar o significado ou sentido mais profundo da meditação. inclusive um pouco de Zen. qualquer forma de autoridade. seja nossa própria. Interrogante:Quereis dizer que não devemos desperdiçar tempo em intermináveis especulações sobre o indivíduo e a coletividade. não seria melhor deixá-las de parte. e inteligência. então a questão do indivíduo e da coletividade é acadêmica. O principal. de reajustá-la. e isso torna a mente muito embotada e inerte. a bondade e a inteligência atuar no viver de cada dia? Krishnamurti: Se atuam. então: Como podem o amor. ficaremos meramente imitando.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 31. assim. mas todas elas parecem um tanto superficiais. o amor e a inteligência são importantes e se encontram fora da esfera do indivíduo ou da coletividade? Krishnamurti: Exatamente. Pratiquei muitas das for. o "eu" que cria o céu e o inferno. ao novo. porque. Esse "eu" tanto é coletivo como individual. nessas relações. simplesmente. coletivamente ou individualmente.

A energia se dissipa com o conflito. de vossa casa ou de vosso vizinho é naturalmente necessário. mas. Só então é possível penetrar-se nesta coisa tão profunda e importante que se chama "meditação". essa opinião ou preconceito deforma a observação. há uma qualidade de energia que se pode chamar "percebimento" . conseguirei esclarecer-me. Se não houvesse pensamento. de pensamentos desnecessários e atividades sentimentais e emocionais. a percepção direta não tem necessidade do reconhecimento. à medida que formos prosseguindo. Dizeis que todas essas interferências do pensamento são desperdício de energia. estou exposto ao perigo de enganar a mim próprio. são desperdício de energia. o espaço existente entre o observador e a coisa observada. não a estais olhando realmente. melhor. poderia eu reconhecer uma árvore. um carvalho ou uma mangueira. O reconhecimento externo de vossa esposa. condenação ou comparação. dizeis que isso é também um desperdício de energia e causa conflito. no "eu" e "não eu". Depois. apenas. que entendeis pelas palavras "energia" e "meditação"? Krishnamurti: Todo movimento de pensamento. que é o passado. o qual cria dualidade. minha esposa. então o passado está interferindo na observação direta. De fato. O "como" significa sistema. um ver as coisas exatamente como são. que surge na dualidade. Entretanto. como tendes repisado em vossas palestras. Naturalmente. deve ser posta de parte. Interrogante:Sim. observar sem dar nome. julgamento. Essa imagem impede a percepção direta. tanto interior como exteriormente. percebo. uma prática que se torna . a separação ou. Isso é real e logicamente compreensível. Tudo o que fazeis ou pensais requer energia. Da mesma maneira. ainda assim. sem a interferência do pensamento. de condenação. a olhais? Se começais a reconhecê-la. se olhais com lembranças de aborrecimentos ou prazeres. nos olhos. Recomendais observar sem nenhuma forma de reconhecimento. dizeis que é uma árvore ou. é necessário o reconhecimento? Quando olhais aquela árvore.guiar-vos. Krishnamurti: Quando observais uma árvore. na separação entre o observador e a coisa observada. porque o dar nome. meu vizinho? O reconhecimento é necessário. como um olmo. uma atenta observação. entre o pensador 'e o pensamento. método. Interrogante:Isso é muito difícil de compreender. quando dizeis que a meditação é a essência da energia. a condenação.percebimento sem avaliação. A meditação é a essência da energia. mas. mas parece-me dificílimo remover esse espaço. estabelecer a harmonia entre o observador e a coisa observada. Como é possível isso? Krishnamurti: Não há nenhum "como". Acho muito lógico o que dizeis. provavelmente. toda ação exige energia. e essa energia pode dissipar-se por efeito do conflito. essa forma sutil de reconhecimento desfigura o que vemos. Interrogante:Há muitos anos que procuro não me tornar uni escravo da autoridade de alguém ou de algum padrão. o reconhecimento. dirigir-vos ou abrir-vos um novo caminho. temos o segundo ponto. porém estais olhando a imagem que em vossa mente tendes a respeito dela. Quando cessa o desperdício. de julgamento. pois não? quando olhamos uma árvore ou a mulher que mora ao lado. mas porque deve haver interferência do passado. na mente e no coração? Essa interferência não nos impede de ver claramente? Quando condenais uma coisa ou sobre ela tendes uma opinião. quando olhais vossa esposa. de vossos filhos. que é a divisão.

é sua maneira de viver. e dessa dualidade vem conflito. requer extraordinária autodisciplina. precisamos deixar de dar importância à palavra "como". sua experiência acumulada. Espero possamos transcendê-las e. pois. na vida diária. esse "eu". nem autoridade alguma. desperdício de energia. o "eu" que afirma. de seu movimento. é disciplina. interior ou exteriormente. isso é possível? Posso olhar-me tão completa e verdadeiramente. acumular. seus preconceitos. conscientes e inconscientes. resiste. Isso é meditação. de separar-se. de dividir. ou entendeis "aprender a respeito do "eu". não há imitação. Temos de compreender o movimento do observador. não há. Para nos mantermos cônscios do observador. em si. É ele quem afirma que "ele é" e "eu sou". Krishnamurti: Que entendeis por "autodisciplina"? Entendeis "disciplinar o "eu". busca conforto e segurança. Quando essa observação é clara. um lutar para estabelecer a harmonia. . de sua atividade egocêntrica. Interrogante:Essa observação. e não. etc. disciplina. temos de compreender a estrutura e a natureza do observador. senhor. O observador se separa como coisa diferente daquilo que observa. sua herança racial. metê-lo numa camisa de força". Assim. sem nada deformar? Dizeis que quando estou olhando a mim mesmo com essa clareza. suas reações. o sentimento de diferença. quando há o verdadeiro aprender. sem opinião ou julgamento: unicamente a observação desse "eu" em ação? Mas. tem de resistir. Cumpre observá-lo sem nenhuma espécie de avaliação. sem nenhuma tendência para "gostar" ou "não gostar". ele se sente vivo. Temos de examinar o que é o observador: ele é o passado com todas as suas memórias. não se está então livre do observador? Interrogante:Estais dizendo. chamada "conhecimento". Repito. por certo estais livre para aprender. a entidade condicionada. A palavra "disciplina" significa "aprender". domina. E dizeis que isso faz parte da meditação. um esforço. que é ambicioso. Protegendo-se. estais dizendo que o "ego". Interrogante:É isso possível? Sei que a palavra "possível" supõe um futuro. Não estais dizendo que esse "ego". Krishnamurti: Naturalmente. porquanto nessa separação. . na realidade. nas suas relações. observá-lo. e quando há aprender. O observador é. Isso origina uma dualidade. com efeito. deve dissolver-se mediante a observação. Se é isso o que entendeis pela palavra "disciplina".aprender a respeito dele"? O aprender. então. nessa divisão. sua própria atividade. e não cons. sem dúvida. Quando há aprender. suas asserções. suas próprias dimensões. esse aprender cria sua disciplina própria. o "ego". e ele já se acostumou a essa batalha. simplesmente.mecânica. que requer atenção. mas temos de empregar certas palavras. Ela lhe dá vitalidade para resistir. como coisa imposta. enquanto existe. violento. sem "gostar" nem "não gostar". que domina. não há nenhum movimento por parte do "eu". talvez o observador deixe de existir. porque. devemos perceber todos esses movimentos inconscientes que criam o sentimento "separatista". para lutar.o estabelecer a união dos dois. assim. nem ajustamento. pergunto: É possível estabelecer a união entre o observador e a coisa observada? Krishnamurti: O observador está sempre a projetar a sua sombra naquilo que observa. com essa compreensão. que o observador é.

O "eu" pode servir-se do conhecimento tecnológico para conseguir alguma coisa . pelo contrário. por meio da técnica. no campo científico. do "ego". Estais dizendo que a meditação é um "movimento de aprender". ou mesmo fazer a maioria das coisas triviais de cada dia. e o passado invade o presente e. Por outras palavras: enquanto existir meditador. mas aparentemente estais dando a esta palavra um significado todo diferente. Não se pode atravessar de avião o Atlântico ou dirigir um automóvel. dele se está servindo para obter outra coisa. não há a acumulação que se torna "eu". as coisas começam a andar mal. o que lhe interessa é a fama. Não estamos dizendo que devamos lançar fora o conhecimento tecnológico. O que dizemos é que pode haver ação no próprio movimento do aprender. É como o músico que se serve do piano para tornar-se famoso. dizeis que essa própria observação é "aprender". o "eu" pode servir-se desse conhecimento para funcionar. há constante divisão. muito fundo. estais dizendo que aprender é um movimento constante. que se torna "o passado". depois de aprendermos. Muito importa compreender isso. de tudo.. as coisas passam a andar mal. mas se. no que respeita a esse aprender. O "eu" é a própria essência do passado. enfim. por conseguinte. Interrogante:Mas. e não a beleza da música em si própria ou por si própria. Interrogante:Creio que começo a compreender-vos. estamos falando a respeito do campo psicológico. Aprender é um processo de acrescentamento. e não posso acompanhar-vos bem. tanto melhores serão as condições de vida. talvez. há movimento constante. é ação. deve desaparecer. Estais dando um significado e uma dimensão completamente diferentes à palavra "aprender" . atuamos com base no "aprendido". portanto.. Há. senhor. em si próprio. o "eu" está buscando posição. Pelo que compreendi. o "eu" interfere. que aprender é atuar: não é "ter aprendido" e. o "eu" não está interessado apenas no conhecimento. a essência da energia é a meditação. Vejo muito claramente que o "ego". Mas. Krishnamurti: Decerto que não. de comer. separação entre o passado e a ação e. para que não haja conflito algum. ora. Mas. de conduzir um automóvel. Onde há aprender. Se o meditador tenta alcançar um estado descrito por outros.um significado maravilhoso. E exato isso? Pode haver aprender sem acumulação? Krishnamurti: O aprender. esse conhecimento é absolutamente necessário. atuar.Interrogante:Estais-me levando para muito longe e. uma certa e fugaz experiência. Mas. e que nela há liberdade para aprender a respeito de qualquer coisa . Começo a percebê-lo. depois. no aprender há sempre acumulação. ou o nome que preferirdes. mas também a respeito de nossa maneira de viver. porque.um emprego ou prestígio. nesse funcionar. Assim. não haverá meditação. conflito entre o que "deveria ser" e "o que é". no campo tecnológico tem de haver conhecimento acumulado.não só a respeito da meditação. assim que o "eu" começa a utilizar-se dele. O que em geral acontece é que. onde opera o "eu". ou entre "o que foi" e "o que é". na qualidade de observador. . portanto. sem acumulação. quanto mais conhecimento tecnológico houver. porque o "ter aprendido" e o atuar na base dessa acumulação é a essência mesma do "eu". Krishnamurti: Como dissemos. Isso está perfeitamente claro. o futuro. sem esse conhecimento. de falar. Logicamente assim deve ser. Nisso.

como experiência. de modo que aprender e agir são uma só coisa ou um movimento constante? Não sei que palavra empregar. é conflito. estais dizendo que o aprender deve ser constante. do mais sublime pensador ao mais humilde trabalhador. o pensamento é a reação da memória. como acabamos de dizer. a mente não deve estar atravancada de pensamentos. senhor. agir. verifica-se esse movimento do aprender. CESSAÇÃO DO PENSAMENTO Interrogante:Desejo saber o que entendeis por "cessação do pensamento". insensíveis. E. Quando o aprender é claramente compreendido como um movimento harmônico do agir. daí.Interrogante:Se me permitis a interrupção. e por essa razão dizemos que o pensamento deve manter-se quieto. ou sonhando acordados. quando separamos a ação do aprender. Sobre o assunto conversei com um amigo e disse-me ele que isso deve ser alguma extravagância oriental. funcionando apenas quando deve funcionar . e sua beleza reside nela própria e não fora dela. necessita-se de liberdade completa. disputando. Quando o pensamento atua. o próprio sal da vida. todo o desperdício de energia. [ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 32. etc. vegetando. não só conscientemente. do aprender . como um todo harmônico. é um movimento. Percebeis quanto isso é importante? É uma questão que concerne à própria vida. como oportunidade. E. como memória.' então. vivendo. A meditação não é um estado. o passado deve estar ausente. O passado é uma infinidade ou um segundo atrás. assim como a ação é movimento. A vontade é o desejo baseado nesse passado e dirigido para o prazer ou para a -fuga à dor.objetivamente. então. modificando a si próprio e ao presente. meditar. medo. não há desperdício de energia. essa quebra é uma desarmonia. A meditação é realmente uma coisa sagrada. Toda continuidade é pensamento. um fluir. Dessa maneira. Ele criou a civilização e nele estão baseadas todas as relações. estamos pensando. Dizeis que devemos transcender ambas as coisas . mas. do passado. Isso todos nós admitimos. quando há continuidade. eficazmente. e da meditação. como conhecimento. estamos dormindo. mas profundamente. quando despertos. O aprender é muito mais importante do que a meditação ou a ação. e esta é que é a beleza da meditação. No momento em que ocorre uma quebra da continuidade entre o aprender. somos vazios. ele é o passado e. torna-se existente o observador e a coisa observada e. é isso que quereis dizer? Krishnamurti: Sim. mas certamente compreendeis o que quero dizer. Para aprender. Para ele. Que quereis dizer com isso? Krishnamurti: Para dizê-lo com muita simplicidade. prazer. Nessa quebra. ele se torna importante. é isso. não há nada novo na vida e. não há nada novo. interiormente liberdade total. o observador se intromete entre o aprender e a ação. ele se serve da ação e do aprender por motivos outros. Se não estamos pensando. a ação e a meditação. o pensamento é a mais alta forma da inteligência e da ação. Ou . na liberdade. uma coisa indispensável.o pensamento e a vazia inatividade. é o passado que está a atuar. uma linha ininterrupta. pode surgir o novo. estéreis. Quando o pensamento está funcionando. atuando. o passado é que está vivendo no presente. quando se quer descobrir alguma coisa nova. por conseguinte. Só quando a mente se acha desimpedida. São esses os dois únicos estados que conhecemos. não há um viver novo.

na vida. Interrogante:Creio que percebo o que quereis dizer. Deveis morrer! Morrer para o passado. é pensamento. mas é realmente? Interrogante:É um movimento mental que tem significação. e tudo o que sou.é pensamento. o pensamento me diz que o melro está cantando. Estais perguntando como pode o pensamento. Vimos claramente este ponto. a vossa pergunta. para a tradição. O pensamento assassina e o pensamento perdoa. Mas vós não estais perguntando isso. quando percorro a rua. Interrogante:Mas essa compreensão é também pensamento.uma pessoa vive no passado. que. o pensamento deve funcionar eficientemente. toda. Só pode ele terminar quando morremos? Esta é. comunicação é pensamento. terminar. Na vida. mas. Mas a compreensão é um movimento mental com significação? Interrogante:É. esperanças. isto é. resoluções. Tudo o que tem significação.o pensamento a criar prazer e dor. no domínio tecnológico. toda. Como posso transcendê-lo? Não é ainda o pensamento que quer transcender a si próprio? Krishnamurti: Ambos dissemos que. é pensamento . Tudo o que penso e faço. Quando estou desperto. Toda a estrutura de meu ser . Até quando não estou em comunicação com outra pessoa. uma comunicação a nós mesmos. Krishnamurti: A significação da palavra e a compreensão dessa significação é pensamento. Krishnamurti: De fato? Supondes que é pensamento. é ainda o pensamento quem faz esse jogo. "ânsias. Interrogante:Mas. penso. como o entendeis. eis o ponto essencial. de que maneira posso pôr fim ao pensamento? Quando ouço o melro cantar. Krishnamurti: É a pergunta correta. quando durmo. com efeito. Krishnamurti: Se é uma comunicação a nós mesmos. o pensamento me diz que estou percorrendo a rua e me informa de tudo o que vejo e reconheço. apetites. penso. e compreendê-lo claramente é a cessação do pensamento. é o próprio movimento da vida. Suas raízes são muito mais profundas do que sei. não? Interrogante:É. quando me ocupo com a idéia de "não pensar". algo de novo pode existir. como? . conclusões. temores e questões. ou vive de maneira totalmente diferente. quando o pensamento está quieto. compreensão. Ele é necessário. estou em comunicação comigo mesmo.

sãmente. Não estava quieto. com ele vos familiarizar. . toda a minha vida tem sido dedicada à reforma. Vede o que acontece quando o cérebro fica completamente quieto. Interrogante:Naquele espaço (de tempo) havia um melro. em tirania. o som do vento entre as árvores. sua própria vontade e "ímpeto" (momentum). e também observar a si próprio. Por essa razão. Ante a monstruosa injustiça que prevalece no mundo. um obreiro social. um homem a martelar na casa vizinha. Fui comunista. mas. Interrogante:Isso é fácil. a "comunicação em massa" está exercendo uma tremenda pressão na mente. Ultrapassar o pensamento é saber o que ele é. a total quietação do corpo. Isso exige realmente extraordinária vigilância e disciplina. é o desejo de experimentar alguma coisa nova ou é o interesse em investigar? Se é o interesse em investigar.uma coisa mecânica inventada pelo homem . e realizar o potencial que a natureza lhe deu e que ele próprio está sempre destruindo em seus semelhantes. com suas reações e "respostas" imediatas a todo desafio e exigência . se o cérebro pode tornar-se completamente quieto. deveis então investigar toda a atividade do pensamento. o céu azul. Pode o cérebro.parece ter desenvolvido sua personalidade própria. Krishnamurti: Se houve reconhecimento do melro a cantar. Nada mais. durante o dia o pensamento deve funcionar eficientemente. O NOVO ENTE HUMANO Interrogante:Sou reformista. Todavia. afinal. a fim de que o homem possa viver com dignidade. O cérebro é matéria e o pensamento é matéria. e a outros respeitos manter-se quieto? Essa quietude não é a morte física. a verde árvore. que deu. então o cérebro estava ativo. Essa coisa poderosa que é a televisão . mas .[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI 33. não imposta nem criada por vosso próprio e inconsciente desejo de alcançar um resultado ou uma agradável experiência nova. interpretando.Krishnamurti: O cérebro é a fonte do pensamento. conhecer-lhe todos os artifícios e sutilezas. o pulsar de meu próprio coração.como transcendê-lo? Krishnamurti: Quem está fazendo essa pergunta. mas já não posso seguir o caminho do comunismo. Se fizestes isso. mas lá a propaganda e a padronização são muito fortes. sim. Pode ele atuar com o máximo de capacidade quando necessário.pode esse cérebro ficar muito quieto? Não se precisa saber "como' pôr fim ao pensamento. deveis saber que a pergunta "como ultrapassar o pensamento?" é uma pergunta vazia. beleza e liberdade. Na América. observa-se uma certa liberdade. continuo dedicado a reformar a sociedade. e embora. a observação que traz sua disciplina própria.

entre os entes humanos. E s6 esta que nos interessa. por conseguinte. não há planos preestabelecidos.que resta. Assim. e isso é um processo interminável. Deixemos de parte toda idéia de reforma. como se ela fosse a mais importante de todas as ações.talvez nem mesmo algum grupo . também. Isso supõe a autoridade e a aceitação. o qual. pelo contrário. por sua vez. mas não sei por onde começar. e vejamos claramente o que de fato está ocorrendo em todo o mundo. apaixonadamente. Esta é a verdadeira revolução. o governo é fraco. E temos também a fórmula religiosa da ação baseada na crença. Estais propondo uma coisa verdadeiramente inconcebível. E. e bem assim as fórmulas políticas . e. Estamos sempre a falar na ação política. Krishnamurti: Interessai-vos na mudança radical. parece não haver mais esperança de salvação da dignidade do homem e da liberdade.a esteja utilizando deliberadamente para influir na sociedade. . Todas as reformas sociais e econômicas entram nessa categoria. Desejo. que.e já vimos que toda ação política é divisória. corrupto e inepto. e que cumpre fazer? Naturalmente a ordem cívica deve ser mantida. Nessa revolução. Esse trabalho. nem utopias conceptuais. suas tendências estão moldando até as almas de nossos filhos. na observância de uma certa receita considerada "divina". pela própria vida. Se se destruísse a ordem cívica. Na China.provavelmente. que cumpre fazer? Interrogante:É isso mesmo que estou perguntando. Esqueçamos de todo essa idéia de reformar o mundo. tudo teria de ser recomeçado. a obediência e a total negação da liberdade. é preciso haver água nas torneiras. em diferentes graus. Krishnamurti: Toda reforma exige nova reforma. Interrogante:Que estais dizendo? Todas as mudanças históricas se realizaram no tempo. Tudo o que tentardes para realizar a mudança estará sendo modificado e perpetuado pelo ambiente. na revolução total. Krishnamurti: Se necessitais do tempo para efetuar a mudança. em todas as democracias. rejeitadas as receitas religiosas. Ponhamo-la fora de cogitação. durante o tempo necessário para efetuá-la? Não ficará em suspenso. apóiam a guerra. Assim. ninguém . nunca terá fim. supondes que a vida ficará em suspenso. que é temporal. está fora de cogitação. as igrejas sempre assumiram uma certa posição política em tempos de crise e. Cumpre-nos considerar as atuais relações entre os homens e transformá-las radicalmente. Embora preguem a paz sobre a Terra. nem ideologias. fazer alguma coisa nesse sentido. da estaca zero. E o mesmo acontece. porque são um fator de divisão. O tempo. eliminemo-la de nosso sangue. As igrejas nunca negaram realmente a guerra. as religiões contribuem para a desordem. são. na Índia. em verdade. A única revolução é a revolução nas relações entre o homem e o homem. por conseguinte. E ela deve ser imediata. E o mesmo que querer purificar a água de um tanque que se está enchendo constantemente de água suja. no dogmatismo. Acho que toda a injustiça social prevalecente no mundo deve ser radicalmente alterada. portanto. grupos políticos . Os partidos políticos têm sempre um programa limitado. Assim. mas a ação política não constitui a solução correta. não exigir tempo. têm de ser corrigidos. Ela não pode realizar-se por meio da evolução. consideremos a questão de maneira diferente. acarreta males inevitáveis. mesmo que se realize. no idealismo. nenhuma foi imediata.

A única mudança possível é a radical transformação de vós próprio. Se virdes. Cumpre-nos. mas só se o sentir apaixonadamente poderei mudar. e esse conflito resulta da ação da vontade e da determinação. livre da carga do passado. real e apaixonadamente.quer dizer. como posso erradicar completamente. mais profunda. é só a ação da vontade e da determinação que requer mudança. Para mim. de mim mesmo. Interrogante:Existe alguma ação que não seja da vontade e da determinação? Krishnamurti: Em vez de fazermos essa pergunta.[ÍNDICE] INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI A LUZ QUE NAO SE APAGA porJ. Interrogante:Mas. ou o desejo. Este é o novo ente humano. livre do peso do tempo. O que principalmente nos interessa é o conflito. ou a escolha. porque tudo isso faz parte da entidade que queremos modificar. essa contradição. a separação entre a mente e o coração. O homem realmente apaixonado em relação ao mundo e à necessidade de mudança deve estar livre da atividade política. não o vejo com o coração. o problema deixará de existir. este conflito. Vejamos que. esta contradição. dentro em mim. ou a determinação. e não num vago futuro. do conformismo religioso e da tradição . psicológica. Krishnamurti: Se puderdes ver. este condicionamento? Intelectualmente.Ora. Eis a única revolução social. Viver sem essa ação não significa vegetar. porque o único mal existente nas relações é o conflito entre os indivíduos ou dentro dos indivíduos. esta resistência. penetremos muito mais profundamente. que sempre gera conflito. ficarei em conflito com uma outra parte. na realidade. Krishnamurti . agora mesmo. Todos os males sociais que citastes são a projeção desse conflito no coração de cada ente humano. que é que poderá efetuar essa mudança? Não pode ser a vontade. livre da ação da vontade. pois. Se eu tentar agir na base dessa compreensão intelectual. averiguar o que se pode fazer. em todas as vossas relações. em vós mesmo. Mas eu não o sinto apaixonadamente. compreendo o que estais dizendo. esse próprio percebimento será a revolução. prescindindo da ação da vontade e da determinação. isso é uma mera idéia. se a virdes realmente e não apenas a conceberdes teoricamente. e mesmo política.

porque ela excede a descrição mais precisa. a bem dizer. do nosso viver cotidiano. porém. o principal mérito de Krishnamurti é suscitar-nos um novo estado de consciência. e Ignorando o futuro. um dos maiores mentores espirituais da humanidade. Porque esse "ver". inclusive a nós mesmos. em seus diferentes aspectos. tais como realmente somos.Descrição do Livro INEGAVELMENTE. Indicar-nos o caminho. não é seu único intuito propiciar-nos o ensejo de nos libertarmos perenemente do sofrimento? Não é fácil exprimir em palavras a mensagem desse pensador. teremos paz íntima e amor no coração. assim. Mas. será difícil a mudança ou a libertação. juvenil. além do "autoconhecimento". hoje em dia. Sua mensagem ao mundo objetiva tornar os indivíduos seres livres. aquilo que efetivamente somos. porquanto a desventura do homem decorre sempre de não perceber as próprias limitações. tanto ela concorre para tirar-nos da confusão e desordem em que ordinariamente vivemos. por quanto tem feito Krishnamurti a bem da clarificação mental do homem. inteiramente liberta. é a necessidade de morrermos a cada instante para as pretéritas experiências. nós mesmos é que havemos de palmilhá-lo. é ele. habilitando-nos. através do "autoconhecimento". essa atenção . Sem esta preliminar. aptos a sentir a vida em sua grandiosidade. constitui um dos pontos relevantes deste ensino. a saída de nova obra sua é sempre bem acolhida pelo público. indo além de quanto se possa imaginar em matéria de sabedoria e como autêntica arte de viver. Ver tudo "como é". com a mente descondicionada. erros e recalques. viveremos no presente com o espírito renovado. mais despertos. Morrendo psicologicamente para o passado. e não conforme pretendemos ser. conscientes. Deste modo. e a tecla em que atualmente mais toca Krishnamurti. vendo. aberto à realidade. antes. A LUZ QUE NÃO SE APAGA. consistirá nisso apenas a essência do ensino de Krishnamurti? Ou ele nos acena com outras promessas. com róseas perspectivas de que tudo dentro e fora de nós se modificará para melhor? Em verdade. em sua plenitude. esse "escutar". Por isso. eis o propósito desse grande orientador. é a continuação da série de outros livros do mesmo autor já divulgados em nosso idioma pela ICK. a compreendê-los e superá-los. Destarte. se de fato desejamos mudar. para melhor observarmos as nossas falhas. sobretudo por todos que procuram ter da existência profunda compreensão. tornando-nos. boas ou más. Só mesmo no domínio experimental se pode verificar a sua magna importância e utilidade.

DISCIPLINA 12. e muitos. COMO VIVER NESTE MUNDO 5. na prática diária. diversos benefícios nos pode oferecer a leitura desta obra. na época contemporânea. acima de tudo. um meio seguro de sair desse caos espiritual. Passa a humanidade. a sublime chama do Amor. não são poucos os que procuram. nesta fase conturbada e na qual se perdeu o senso dos lídimos valores. terá resolvido todos os problemas e conflitos. nascerá dentro de você a inefável. VER O TODO 9. pois. ZOAT Understandings™ ÍNDICE SOBRE ESTE TÍTULO A LUZ QUE NÃO SE APAGA ÍNDICE A LUZ QUE NÃO SE APAGA 1. Experimentemos ouvir o que nos diz este notável pensador e. a valia do "autodescobrimento". E. A VIDA RELIGIOSA 8. O MEDO 4.natural nos faculta singular acuidade e nos propicia a energia e a força libertadora em todas as situações da vida. O QUE É . nos consultórios dos psiquiatras e analistas. um convite a uma séria reflexão sobre os problemas da humanidade e. de amarguras e contradições.crise de desânimo. possibilita-nos uma completa transformação. EXISTE DEUS? 3. Fazendo-o. SUICÍDIO 11. luz que nos iluminará em todos os momentos da existência. buscam nova inspiração para um viver criador. Com efeito. colocando-nos o autor diante de nosso real e angustioso estado. por uma crise árdua . com ele. CONFLITO 7. Essa transformação significa uma luz nova dentro de cada um de nós. MORALIDADE 10. sua percepção se ampliará. Ela é. RELAÇÕES 6. nomeadamente a juventude. então. de tédio e solitude interior. hoje. Conseguintemente. prezado leitor. PERCEBIMENTO 2. busquemos alcançar. como também a sensibilidade e. lhe surgirá uma rara placidez. de descontentamento.

O CORAÇÃO E A MENTE 19. RJ v1. FELICIDADE 26. DEPENDÊNCIA 21. EXPRESSÃO 28. MEDITAÇÃO E ENERGIA 32. ORGANIZAÇÃO 15. SOFRIMENTO 18.13.5 02-04-2005 Direitos de tradução para a lingua portuguesa adquiridos com exclusividade pela INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI que se reserva a propriedade desta tradução. PAIXÃO 29. O BUSCAR 14. AMOR E SEXO 16. PERCEPÇÃO 17. CONDICIONAMENTO 25.Published in Brazil . SONHOS 23. Londres Copyright © 1970 KFT Copyright © 1973 ICK . CESSAÇÃO DO PENSAMENTO 33. A BELEZA E O ARTISTA 20. O NOVO ENTE HUMANO KRISHNAMURTI ICK Contribuição Anual Contato . Publicado no Brasil . APRENDER 27.Para mais Detalhes ZOAT Understandings™ Titulo do original: THE URGENCY OF CHANGE Publicado por Victor Gollancz Ltd. ORDEM 30. O INDIVIDUO E A COLETIVIDADE 31. TRADIÇÃO 24. A CRENÇA 22.

org.RJ TEL.SALA 1007 20051-000 . quando visitou o Brasil em 1935. 29 .org. / FAX: (021) 2232-2646 ICK INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI FUNDADA por J.br RUA DOS ANDRADAS. Trabalha em cooperação com as Fundações Krishnamurti e demais núcleos de divulgação da obra de J. .Krishnamurti.RIO DE JANEIRO .br e-mail:ick@krishnamurti. Contudo não está associada ou vinculada formalmente a nenhuma outra organização.ICK INSTITUIÇÃO CULTURAL KRISHNAMURTI DIRETORIA Onofre Máximo Gilberto Fugimoto Rachel Fernandes CONSELHO FISCAL Liége Vieira Agnes Jansen http://www. a ICK não tem fins lucrativos. Krishnamurti (K) em todo o mundo.krishnamurti.

material informativo. ou qualquer outra informação.RJ TEL. Esteja certo de que a sua colaboração.Krishnamurti no RJ em 1935 Com sede no Rio de Janeiro. 29 . gratuitamente. diálogos e documentários sobre sua vida e obra. vídeos e áudio-cassetes. Fornece também.SALA 1007 20051-000 . de boletins informativos com novos lançamento e atividades no Brasil no exterior.00. / FAX: (021) 2232-2646 Nota: Os livros de Krishnamurti também podem ser encontrados nas editorasCultrix eTerra sem Caminho . Mas ela não é fixa. para estudo. Você pode enviar quando puder ou desejar. com palestras de K. das 13:00 às 18:00. dispõe de material para venda e consulta. Contribuição Anual Acontribuição média anual é de R$ 150. bem como o funcionamento da biblioteca e videoteca de consulta é feito às quartas-feiras. como livros.RIO DE JANEIRO . nos será extremamente útil. bem como a circulação periódica para sua Mala Direta. E o atendimento direto ao público. A ICK é mantida basicamente por doações e contribuições voluntárias e regulares de uma taxa de manutenção. e de textos de K. escreva para: RUA DOS ANDRADAS. . qualquer que seja. A ICK dispõe de secretária eletrônica e fax para contato permanente. Para receber o material informativo e o boletim da ICK.

DOAÇÕES Banco do Brasil . / FAX: (021) 2232-2646 . não retarde sua remessa.Agência Saara .693. Se você é contribuinte.Mesmo quando você não tem notícias nossas.Para mais Detalhes O atendimento direto ao público. Obrigado. AICKjá está na rede mundial de computadores.Rio de Janeiro . A ICK não tem grandes mantenedores. das 13:00 às 18:00. pondo a obra de Krishnamurti acessível a pessoas interessadas por todo o Brasil.org. material de estudo e oportunidade para que partilhemos de algum modo o processo de aprendizado de Krishnamurti. Somos todos nós.052/000140 AO fazer qualquer depósito para a ICK envie-nos o comprovante bancário (ou xerox) com clara descrição de sua finalidade.krishnamurti. Contato . Anote o nosso endereço eletrônico: http://www. estabelecendo contato entre elas e possibilitando espaço. Sempre é bom lembrar de novo: a ICK não tem situação financeira confortável. que a preservamos ativa. bem como o funcionamento da biblioteca e videoteca de consulta é feito às quartas-feiras. cada um a seu modo.br RUA DOS ANDRADAS.br e-mail:ick@krishnamurti.Nº 0183-X Conta Corrente nº 32263 CNPJ 33.SALA 1007 20051-000 . a ICK está funcionando.org. e pode fazê-lo.RIO DE JANEIRO . 29 . mas ainda não enviou sua ajuda este ano.RJ TEL.

Aqui se publicam essas entrevistas recentemente realizadas na índia. ZOAT Understandings™ .KRISHNAMURTI KRISHNAMURTI viaja por várias partes do mundo a fim de pronunciar palestras sobre as mais sérias questões da vida e da humana felicidade e. recebe visitas de pessoas desejosas de ouvi-lo acerca de seus problemas pessoais. nos momentos livres. na América e na Europa.