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Transferência na psicose: erotomania
Palavras-chave: Transferência na psicose, erotomania, erotomania de transferência, tratamento possível.

Márcia de Souza Mezêncio

“No que se refere á transferência, repetidamente discutida, tudo indica que ela existe na psicose. Mas, diferentemente das neuroses, onde estas desenvolvem uma neurose de transferência, na psicose se desenvolve uma psicose passional. A este processo denominaremos erotomania de transferência, sendo a erotomania a modalidade do amor de transferência própria da psicose.” (BROCA, 1985)

A psiquiatria é uma referência obrigatória para a psicanálise e não só no campo específico das psicoses. A psicanálise constitui um campo distinto da psiquiatria, de sua tradição e seus laços com a medicina. Seus conceitos, no que se refere à definição das chamadas estruturas clínicas, foram trazidos de uma leitura e interpretação particular das categorias advindas da psiquiatria clássica. Ao definir neurose, psicose, perversão, a psicanálise opera uma apropriação de um saber construído pela psiquiatria. No entanto, não se institui em continuidade com o saber psiquiátrico. Clérambault e as psicoses passionais O conceito de erotomania tem sua origem nas descrições psiquiátricas de um tipo particular de delírio. Tomo como primeira referência o isolamento das “psicoses passionais”, feito por Clérambault na década de 1920. Referidas aos delírios paranóicos na tradição psiquiátrica clássica, serão tomadas por ele como um grupo distinto do grupo das paranóias. Os antecedentes de Clérambault, na escola psiquiátrica francesa, são, de um lado, o trabalho de Sérieux e Capgras ao efetuar a distinção entre “psicose de reivindicação” e “delírio de interpretação”, e, de outro, o de Dide, que isola o grupo dos idealistas

2 “passionais”1. Esses trabalhos introduzem a distinção entre os mecanismos de interpretação e as reações passionais. Esses autores serão referências importantes para o trabalho de Lacan sobre a paranóia2. Sérieux e Capgras, representantes da escola clássica francesa, realizam a adaptação das linhas mestras da concepção de Kraepelin — que, segundo Dide, despedaça a paranóia ao dar-lhe um sentido mais restrito — à preocupação de uma análise clínica e semiológica rigorosa, característica da tradição francesa (BERCHERIE, 1989:204). Descrevem, então, formas particulares de delírio, agrupadas sob a designação de paranóia, assentadas sobre uma constituição paranóica comum. O diagnóstico diferencial entre o delírio de interpretação e o delírio de reivindicação foi sendo construído a partir de 1902, assumindo sua forma final em 1909, com a publicação de Les folies raisonnantes et le délire d’interpretation. As características próprias do delírio de interpretação são: a existência de múltiplas interpretações delirantes, raras ou nenhuma alucinação, persistência da lucidez e da atividade psíquica, com extensão progressiva das interpretações. Já o delírio de reivindicação se organiza em torno de uma idéia primária prevalente, com poucas interpretações, estado de exaltação passional que leva a reações desproporcionais e atos, por vezes, violentos. As concepções delirantes são verossímeis, sem megalomania nem delírio de perseguição. Podem ser de caráter altruísta ou egoísta (BERCHERIE, 1989:200202). Predominam as idéias dos prejuízos sofridos, erotomania, ciúme, idealismo. DIDE (1913:72-73) pretende se afastar do tradicionalismo clássico e pensar uma nosologia que inclua os “idealistas passionais”, apreendidos a partir da autonomia da interpretação passional ou apaixonada, isto é, da sua diferença em relação à interpretação delirante que é, sobretudo, intelectual. A primeira constitui uma sistematização afetiva que, ao lado da integridade da personalidade e da noção de mundo exterior, desenvolve-se em torno de um ideal prévio e imutável. Todo o peso de sua concepção é colocado no ideal, ao qual se reduz toda a vida intelectual e que canaliza toda a atividade. Dide estabelece um quadro diferencial do idealismo passional com o delírio de interpretação, com os estados
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Adotamos a tradução proposta por Sérgio Laia que, em nota de tradução do trabalho de Dide (cf. DIDE, In: Opção Lacaniana, n.13, 1995), esclarece a preferência em traduzir passioné por “passional” e não por “apaixonado”, para preservar o objetivo nosográfico do autor.
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LACAN (1932) situa a sua “paranóia de autopunição”, ao incluí-la na nosologia ao lado da “paranóia de reivindicação”. A referência a Dide é oposta à referência a Clérambault e sua concepção da erotomania. O ponto principal da divergência entre as duas concepções envolve o tema da sexualidade.

inicialmente. As chamadas psicoses passionais. As características seguintes distinguem as duas formas de delírio. 1921:344-345). destacando o platonismo essencial dos erotômanos de Dide. A erotomania tem como ponto de partida o sentimento amor. definidos por Sérieux e Capgras — aos quais acrescenta a patogenia passional —. sendo a querelância ou reivindicação secundária e contingente. contingente em sua própria descrição. que serve à construção do nó central das formações delirantes. O caráter . Os idealistas se dividem em idealistas do amor. somente a paixão.3 exaltados de mania e com algumas manifestações histéricas. há uma localização restrita do delírio no passional. englobam os delírios de reivindicação. Clérambault realiza também a demonstração de que os erotômanos não são nem reivindicadores nem idealistas passionais. como não há delírio passional sem um postulado. Ele adota os critérios diferenciais entre delírio de interpretação e delírio de reivindicação. Quanto à sugestão de Capgras de que os erotômanos deveriam ser considerados como uma forma do idealismo passional. faz-se da reivindicação um caso particular de paixão. sua origem. isto é. da justiça. Dessa maneira. 1923:416). Ele insistirá no interesse de se operar com uma categoria específica correspondendo a um mecanismo particular de construção e instalação do delírio. na vontade e mantido por uma posição ativa do delirante. o mérito de Dide está em afirmar que os idealistas não são interpretativos (CLÉRAMBAULT. do seu ponto de vista. A descrição dos quadros das psicoses passionais por Clérambault se inicia pela separação dos delírios passionais dos delírios interpretativos. 1921:342-343). por seu início. a diferença é de quantidade. é o excesso que pode se tornar patológico. Se o paranóico delira com seu caráter. sua evolução. o passional delira com sua emoção. os delírios de ciúme e os delírios erotomaníacos. Em relação à paixão normal. Para ele. e os aplica na diferenciação entre delírio interpretativo e delírio erotomaníaco (CLÉRAMBAULT. para as quais Clérambault reivindica um lugar especial na nosografia. sua forma amorosa. Não há uma dedução a partir de uma idéia mestra no interpretativo. e uma extensão circular do delírio e de seus temas no paranóico (CLÉRAMBAULT. Essencial. Todos esses conceitos e concepções serão objeto de apaixonado debate entre Clérambault e seus pares. baseado. procedendo assim uma inversão: ao invés de se fazer da paixão um caso particular de reivindicação. Clérambault considera que tais classificações não se sobrepõem. da bondade e idealistas da beleza.

A Erotomania Pura é para nós uma Síndrome Ideo-afetiva. dos atos. Como se vê. d’autre part en thèmes imaginatifs et interprétatifs divers (données relatives aux incidents de la poursuite). a reivindicação é tida como secundária e somente está presente na fase final do delírio. pela inexistência de uma descrição precisa do quadro e de um questionário. A evolução típica se inicia com uma fase de otimismo — que coincide com o estágio da esperança —. se transforma em ódio verdadeiro. que considera acessório e não necessário ou. inicialmente. o que levantava também a questão do risco representado por esses delirantes. Sua descrição é exaustiva e privilegiada. Toda a pesquisa de Clérambault decorre de um problema eminentemente prático: seu trabalho na enfermaria especial da chefatura de polícia colocou-o diante das dificuldades de se distinguir um apaixonado mórbido de um normal. em que predomina a ambigüidade conciliação/vingança — é o estágio do despeito —. seguida de uma fase pessimista caracterizada. de uma parte. então. na qual toda Ideação deriva do que nomeamos o 3 “Les conceptions du délire érotomaniaque se groupent d’une part en un postulat initial et déductions de ce postulat (toutes données relatives à l’objet). (CLÉRAMBAULT. pois sua amostra recai exatamente sobre esses delirantes. por fim. de uma intensidade passional. O delírio se desenvolve em três estágios: estágio da esperança. que coloca em questão as descrições anteriores da erotomania com ênfase no platonismo. que. uma descrição lógica do que ele nomeia “síndrome erotomaníaca” que se desencadeia a partir de um “postulado fundamental”. em um postulado inicial e deduções desse postulado (todos dados relativos ao objeto).” . em temas imaginativos e interpretativos diversos (dados relativos aos incidentes da perseguição). estágio de despeito. acusações e reivindicações — estágio do rancor. mesmo. que passavam ao ato agressivo e criminoso. insatisfeitos. CLÉRAMBAULT (1920) faz. 1921:338)3. por um sentimento misto de ódio. adequado e sistemático. pelo clínico. fruto de observação pouco apurada. uma vez não realizadas suas expectativas. premissa geradora dos raciocínios. As concepções do delírio erotomaníaco se agrupam. de outra parte. estágio de rancor.4 idealista é refutado por ele. de um traço de reticência e dissimulação do doente. que atentavam contra o objeto de sua fabulação. para um delirante que conserva suas capacidades em situações exteriores ao campo afetado pelo delírio. das quimeras. Esse postulado se refere invariavelmente ao amor do objeto pelo sujeito. ou seja.

complet d’emblée. ou um sintoma.5 Postulado. uma entidade mórbida autônoma. da paranóia à demência? Encontramos aqui as formulações de “erotomania associada”. conversas indiretas com ele. visado desde o início de modo fixo. o que o faz reafirmar o caráter contingente do platonismo. o desejo (amor) e a esperança: a chamada “tríade afetiva”.” . dos diagnósticos diferenciais. por fim. Situam-se nessa discussão questões tais como: a erotomania constitui de fato uma síndrome. A única transformação que sofre é aquela do Amor em Despeito e depois em Ódio. “secundária” ou “prodrômica”. dont toute l’Idéation dérive de ce que nous nommons le Postulat. a conduta paradoxal e contraditória do objeto. o objeto é livre. completa desde o início. tônus elevado voltado para a ação. simpatia e interesse de todos pelo romance e. et d’additions que sous forme d’idées ambitieuses et de persécution polarisées. Salienta o fato de que a submissão do objeto é uma submissão sexual. apresentando uma tal coerência que se reproduz em uma forma estereotipada. De grande interesse são as discussões acaloradas que ocorreram na Societé Clinique de Médicine Mentale. (CLÉRAMBAULT. Clérambault acentua a preeminência do orgulho sobre o amor e particularmente a especificidade sexual do orgulho. présentant une telle cohérence qu’il se reproduit dans une forme stéréotypée . ne subissant de transformation que celle de l’Amour en Dépit. Outros temas derivados que se demonstram: vigilância e proteção contínuas do objeto. envisagé dès le début d’une façon fixe. em torno das associações possíveis da síndrome erotomaníaca com outras psicoses. seus recursos fenomenais. Os traços constantes ou discriminantes da síndrome são: o postulado inicial — “Ele (o objeto) me ama: foi ele quem começou” —. acréscimos somente sob a forma de idéias ambiciosas e de perseguição polarizada. puis en Haine. suscetível de uma longa duração. seja pessoal ou socialmente. Entre as deduções evidentes destacam-se: o objeto não pode ser feliz sem o sujeito. 1921:347)4. É incurável. définitif. 4 “L’Érotomanie Pure est pour nous un Syndrome Idéo-Affectif. comportant un hypertonus subcontinu. definitivo. Seu Objeto é único. o objeto não está completo sem o sujeito. reservando-se o diagnóstico de “erotomania pura” para os casos em que se verificam o ponto de partida. dos elementos discriminantes e necessários para uma precisão diagnóstica. de importância capital e sempre presente. et incurable. comportant un Objet unique. uma vez que este é caracteristicamente superior. susceptible d’une très longue durée. iniciativa do objeto. é o que distingue o sujeito: sua superioridade sexual é o que o torna amável e amado pelo objeto. e suas deduções de caráter mais imaginativo que interpretativo. podendo ocorrer em quadros psicóticos variados. sinon chronique dès son principe. d’une intensité passionelle. se não crônica desde seu princípio. Os componentes do sentimento gerador do postulado são o orgulho. extrêmement porté à l’action.

Nos casos secundários ou sintomáticos. adivinhação e eco do pensamento. mas por se tratar de um caso de erotomania pura. As síndromes passionais se caracterizariam por sua patogenia em componentes e mecanismos ideativos. A partir de um processo orgânico. ocorre freqüentemente uma mudança de objeto. no qual o elemento afetivo é uma emoção profunda e duradoura (CLÉRAMBAULT. síndrome do automatismo mental. O fato não é isolado como decorrente da estrutura do enquadramento médico-policial do interrogatório. Os delírios interpretativos se apoiariam num “caráter paranóico”. enfim. são geradas respostas mentais. Utiliza-se de processos psicológicos normais. evidente nesse caso. “idéico” e “ideoverbal”. O médico. então. de produção espontânea. que compromete a personalidade global do sujeito e cujo início não pode ser determinado. superficial em relação às demais psicoses. o pequeno automatismo: intuições abstratas. e mesmo a escolha de objeto não é imposta como por “amor à primeira vista” — coup-de-foudre —. baseadas no automatismo mental5. triplo automatismo – motor. Ele diz. pensamentos impostos. por isso. Inicialmente. 1919-1927) . A surpresa de Clérambault não se deve ao desconhecimento de casos em que o médico é incluído no delírio. Essa chamada mudança de objeto surpreende Clérambault no momento em que ele passa a ser visado pelo delírio de um de seus pacientes. um núcleo lesional neuronal. jamais ter podido imaginar uma tal situação. ela não só é pensável como deve ser pensada. involuntária e mecânica. à adivinhação. 1923:405). de extensão polarizada. variando apenas em grau e intensidade. desconhece as categorias psicanalíticas e não opera com a transferência que é. foi concluída por Clérambault em 1926. Clérambault insiste que não se deve confundir sintomas com mecanismos. A síndrome antecede as alucinações verdadeiras e o delírio. interpretação ou alucinação auditiva. compondo o questionário adequado ao interrogatório desses pacientes. e início constituído por um nó “ideoafetivo”. vazio de pensamento. em sua vertente persecutória. mas está sujeita ao cálculo. um sentimento generalizado de desconfiança. Essa interpretação mecanicista se opunha a qualquer explicação psicológica da psicose. 5 A definição da chamada síndrome S. (CLÉRAMBAULT. 1921:342). impedindo a realização de suas esperanças relativas ao objeto de seu delírio erotomaníaco (CLÉRAMBAULT. de fato. mas atribuído ao “caráter” do paciente a ele submetido.6 concepções e evolução bem definidos tal como descrito no quadro típico a que Clérambault chega. Para esse paciente. no entanto. O mecanismo da erotomania é tido como eminentemente psicológico e. no qual essa substituição não seria pensável. Nos casos mistos. não comprometendo toda a personalidade. o médico ocupa um lugar persecutório. Segue-se o grande automatismo: comentário dos atos. determinada por intuição.

Ou se fará pela transferência do sentimento atual a um outro personagem real e próximo. As referências de Freud à erotomania não a relacionam. qui alors serait déclaré être l’abbé? C’est possible. 1921:355-356. (CLÉRAMBAULT. par exemple le Médicin. Freud opera a partir das categorias nosológicas da psiquiatria de seu tempo. Em 1907. e a de Freud. de dois Objetos. pois o mesmo não chegou a elaborar uma obra de fôlego durante sua vida. e no texto sobre o presidente Schreber. publicados nas revistas médicas francesas. As referências de Freud: delírio paranóico Freud e Clérambault são contemporâneos. Eles foram organizados somente em 1942. haveria fusão de dois sentimentos e subseqüentemente de duas idéias. Como disse anteriormente. haveria a acumulação. et subséquemment de deux idées. levando-o a criar a psicanálise. Aparecem na análise da Gradiva. Freud não era psiquiatra. com sua formulação do conceito de transferência. il y aurait fusion de deux sentiments. em 1934. Delírios e sonhos: a Gradiva de Jensen No primeiro. eram apresentações de pacientes e discussões de casos. Seus textos. en un mot il y aurait cumul. ainda que transitória. Não é certo que ele acompanhasse as discussões que envolveram o trabalho de Clérambault. intitulado Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen e publicado em 1907. pode-se dizer que também conhecemos fatos desse gênero. em absoluto. Nous connaissons des faits de ce genre. Note-se o uso literal da palavra “transferência”. que será então declarado ser o abade? É possível. Fatos que guiam a pesquisa psicanalítica sobre a transferência na psicose.7 A substituição de um novo Objeto ao atual merece ser vislumbrada. por exemplo. grifo nosso)6. Ela se dará novamente à primeira vista? Provavelmente não. em uma palavra. de deux Objets. Seu interesse pela psicologia desviou-o dessa origem médica. et proche. em 1939. após sua morte. debates com os colegas. Se fera-t-elle par transfert du sentiment actuel à un autre personnage réel. ele 6 “La substituition d’un nouvel Objet à l’actuel mérite d’être envisagée. au moins transitoire. com a publicação de um volume editado por seus alunos e que reuniu suas Obras psiquiátricas. Mesmo que não se confunda seu uso com o do conceito psicanalítico homônimo. Nós conhecemos fatos deste gênero. encontramos uma referência irônica e crítica ao procedimento psiquiátrico do diagnóstico.” . mas neurologista de formação. de Jensen. Se fera-t-elle par nouveau coup de foudre? Très probablement non. o Médico.

8 está buscando consolidar sua invenção e fazer escola. o arqueólogo se enreda em uma trama de sonhos. grifo nosso). Em viagem a Pompéia. Freud escolhe claramente o segundo. que. ou mesmo mais. em virtude de seu trabalho e de seu isolamento. Para ele. publicada por Jorge Zahar Editor. mas ao passado infantil do próprio sujeito. sendo que um não pode esquivar-se do outro. O autor relata a história de um jovem arqueólogo alemão. local de origem do relevo. que considera “um precursor da ciência e. também da psicologia científica” (FREUD. o interesse do jovem arqueólogo por pés e posições de pés inevitavelmente passaria por ‘fetichismo’. Contudo. denominado Gradiva: uma fantasia pompeana7. Entre o psiquiatra e o escritor criativo. fora publicado em 1903 e chega até ele através de Jung. no que se refere às psicoses. fantasias e delírios. baseado nos temas patológicos. à saúde e ao encontro amoroso. Norbert Hanold. Freud afirma suas reservas quanto ao diagnóstico puramente fenomenológico e descritivo. A análise do texto literário em questão permite-lhe uma demonstração de sua teoria dos sonhos. não poupará críticas ao psiquiatra: Um psiquiatra talvez incluísse o delírio de Norbert Hanold no vasto grupo da ‘paranóia’. na coleção Transmissão da Psicanálise. as descrições patológicas auxiliam o escritor em sua criação. (FREUD. 1907:50). na busca de ampliar o conhecimento psicanalítico e estendê-lo ao campo das psicoses. que manterá nos próximos anos. a tal moça pertence ao passado. O texto de Jensen. Na realidade. As fórmulas do delírio paranóico no caso Schreber 7 Existe uma tradução no Brasil. classificando-o provavelmente como ‘erotomania fetichista’. 1907:51-52. sendo atraído particularmente pelo modo singular do andar da jovem nele retratada. . a partir do encontro com uma moça que ele vai considerar o fantasma da retratada pela escultura. Se ele considera o texto de Jensen perfeito como exposição imaginativa de um caso e do seu tratamento. Freud se interessa pela pesquisa psiquiátrica. com quem recém iniciara um relacionamento amistoso-científico. todos os sistemas de nomenclatura ou classificação dos diversos tipos de delírio de acordo com seu tema principal são de certa forma precários e estéreis. apontando sua pesquisa. Segue-se um trabalho de “cura pelo amor”. acaba por se apaixonar por um relevo que encontra em suas pesquisas. bem como de sua relação com a formação de delírios. e aos olhos desse psiquiatra. na determinação do mecanismo de defesa próprio e também no mecanismo de formação de sintomas. que tudo tende a ver pelo prisma mais grosseiro. portanto. as descrições da mente humana feita pela literatura ensinam ao psiquiatra tanto quanto. já que seu traço mais saliente era uma paixão por uma escultura. e se encarregará de trazê-lo de volta à realidade.

na erotomania. Uma quarta forma é também apontada. Sua demonstração é no sentido de comprovar sua afirmação sobre a importância do desejo homossexual na paranóia. aí incluído o delírio erotomaníaco. aquela que. não pela natureza dos próprios complexos. delírio de perseguição. Assim. 1911:81. após a negação é acionado o mecanismo da projeção. cujo capítulo III é. porque ela me ama”. O comentário de LACAN (1958:548) sobre esse trecho incide sobre o fato de que as conseqüências lógicas da dedução freudiana são ignoradas por todos e também sobre o fato de que de que o próprio Freud descarta o mecanismo de projeção como insuficiente para . contradiz-se o verbo: “eu não o amo. eu o odeio. porque ele me persegue”. o amo (outro homem)” .9 Essa direção é retomada no trabalho sobre o presidente Schreber. um homem. na forma específica assumida pelos sintomas: e esperamos descobrir que esta é determinada. Ele parte da constatação de que o desejo subjacente à defesa pela doença paranóica deve ser reconhecido como um desejo homossexual latente ou recalcado. delírio de ciúme. ao negar a frase como um todo — “eu não amo ninguém. a negação do sujeito ocorre no delírio de ciúmes. eu a amo. propõe três formas de negação possíveis. sendo as formas do delírio paranóico — erotomania. Em seu primeiro parágrafo. oferece a fórmula do delírio de grandeza ou megalomania. A derivação gramatical responde ao “recalque” do desejo homossexual correspondente à frase: “Eu. incidindo sobre o verbo. Nas duas primeiras formas — perseguição e erotomania —. e o delírio de ciúmes da mulher: “não sou eu que amo as mulheres. sobre o objeto ou sobre o sujeito da frase. em suas duas versões. (FREUD. Freud discute a nosologia existente. a saber. justamente. megalomania — geradas como uma defesa contra esse desejo. com a atribuição ao outro do sentimento percebido internamente. Nesse capítulo. a contradição recai sobre o objeto: “eu não o amo. encontramos um eco da questão precedente: O caráter distintivo da paranóia (ou da dementia paranoides) deve ser procurado alhures. denominado Sobre o mecanismo da paranóia. mas pelo mecanismo mediante o qual dos sintomas são formados ou a repressão é ocasionada. é ele que as ama”. só amo a mim mesmo” —. É nesse contexto que apresenta sua versão da derivação gramatical das formas do delírio paranóico. o diagnóstico do caso Schreber e propõe uma revisão das categorias nosológicas. Freud não fala de erotomania em Schreber. é ela que o ama”. No delírio de perseguição. grifo nosso). o delírio de ciúmes alcoólico: “não sou eu que amo o homem.

” Entendemos “epistemofania” como correspondente à posição de encarnação do saber. de agrupar os delírios de reivindicação. 8 Para Freud. 1932). Aimée: posição erotomaníaca A primeira referência de Lacan à erotomania é “pré-psicanalítica”.10 dar conta do problema8. As referências de Lacan: Aimée e Schreber O interesse de Lacan pela erotomania está presente desde o princípio. Ao localizar. a criação do grupo das paranóias na nosografia psiquiátrica. mas levará dez anos para explicitar o caráter da relação com Flechsig e indicá-la como modelo das relações que o dispositivo analítico introduz entre o psicótico e o analista. não está presente em todas as suas formas. a projeção é secundária. apesar de não ser esse o eixo que Lacan acentua então. segundo MILLER (1996:156). por não ter ainda formulado o conceito de narcisismo. que se refere à retirada da libido do mundo externo e seu retorno sobre o eu. Essa condição é. distinguindo-as das psicoses paranóicas (LACAN. Freud se embaraça. na tese de doutorado em Medicina. uma observação sobre a tentativa. . Mais adiante. os delírios de ciúme e a erotomania sob o nome de psicoses passionais. “efeito da epistemofania sobre o psicotizado — efeito. segundo Lacan. na qual trata do caso Aimée. Com relação a Schreber. por sua vez. Em sua tese de doutorado. as relações da erotomania com a transferência são dedutíveis. teórica e conceitualmente. faz. sem se referir ao nome de Clérambault. o de uma “erotomania mortífera”. Inicialmente. da qual Flechsig se apresenta como exemplo. Lacan percebe a natureza erotomaníaca da relação com Deus no momento do seminário em que toma o caso para demonstrar as estruturas freudianas da psicose. além de não ser exclusiva da paranóia. de paranoização: quem se oferece como suporte da epistemofania torna-se um objeto erotomaníaco. Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade. “de modo bastante estranho”. Lacan apresenta um exaustivo inventário das concepções psiquiátricas acerca da paranóia. apesar de anunciá-lo através da discussão sobre o mecanismo de recalque próprio à psicose. LACAN (1958:573) nos adverte de que Freud falta ao seu próprio princípio — não sustentar a origem do delírio a partir de seus temas — ao relacionar o homossexualismo à idéia de grandeza.

em outro contexto. Ressalta a importância de distinguir interpretação apaixonada de interpretação delirante.11 Algumas páginas adiante. o nome de sua posição erotomaníaca”. no entanto. Aimée traduz-se por amada. Lacan retomará o argumento e a discussão de Clérambault. à base de interpretações com tendências megalomaníacas e substrato erotomaníaco” (LACAN. 1932:150). Ela havia sido internada. “o nome é por si um diagnóstico. à sua capacidade de observação e descrição. aos 38 anos. após ter sido presa por haver cometido uma agressão e atentado contra a vida de uma famosa atriz de teatro. O próprio fato de Clérambault admitir as formas mistas e associadas e a evolução da psicose passional para quadros polimorfos fornece o argumento a Lacan. como a expressão do caráter exterior da linguagem e do automatismo do significante. será colocado em posição central na teoria lacaniana da psicose. concordando com Capgras na proposição de que o quadro. Contesta. no qual Lacan prestará homenagem ao agudo olhar clínico de seu mestre. uma paranóia. Lacan a acompanhou por cerca de um ano e meio. 1955-1956). O reconhecimento dele como seu “único mestre em psiquiatria” somente se dará muitos anos mais tarde. o caso Aimée 9. sendo. O perito concluiu que ela sofria de “delírio sistematizado de perseguição. se incluiria perfeitamente nas categorias de interpretativos e reivindicadores. Lacan se opõe ao mecanicismo de Clérambault. na oportunidade em que Lacan rompe com as categorias jaspersianas da compreensão e sustenta que não existe psicogênese em psicanálise. bem como o seu determinismo psicológico. no Asilo de Sainte-Anne. O automatismo mental será percebido. Seu delírio de perseguição organizava-se em torno do temor de que algo acontecesse a seu filho e das dificuldades que lhe eram impostas em seu desejo de tornar-se escritora. reconhecia fatos de sua 9 Lacan se utiliza do nome de um dos personagens de um romance escrito por essa paciente. dito passional. concordar com o isolamento das psicoses passionais. Mesmo o automatismo mental. mérito que atribui a Clérambault. Nesse momento. rejeitado nesse primeiro momento. . O caso relatado e comentado por Lacan em sua tese. Encontrava ameaças publicadas nos jornais. traz em sua própria denominação o traço distintivo da erotomania. como uma metáfora. portanto. Conforme MILLER (1991:15). sem. tal como Freud. seu modo exaustivo de interrogar e fazer falar o doente (LACAN. evidenciando a reação passional como um mecanismo de formação do delírio. que se deva classificar as doenças mentais pelo conteúdo do delírio. no entanto. então.

considerará “bizarro” e excessivo em sua lógica de dedução do mal a partir de sua cura (LACAN. Lacan reconhece que “a técnica psicanalítica conveniente para esses casos ainda não está. É interessante notar que Lacan utiliza a teoria freudiana para fundamentar sua proposta diagnóstica. 11 Nesse momento. que. Isso não significa que ignore ou despreze os traços manifestamente erotomaníacos de Aimée. em relação ao qual Lacan acredita que o delírio teria sido inicialmente de natureza erotomaníaca. os temas e as fórmulas delirantes de sua paciente. 1932:265). a de paranóia de autopunição10. Lacan abona a tese freudiana de que a causa ativadora da paranóia é uma defesa contra a homossexualidade. a partir da fórmula da erotomania homossexual. forjando uma outra denominação. 1932: 55). Lacan atribuirá o diagnóstico de erotomania a Aimée. Não considera que o sentimento gerador do delírio fosse o orgulho sexual. 1932:263-264). criticando seu próprio diagnóstico de paranóia de autopunição. . então. Para ele. Ainda uma observação e um recurso à psicanálise se referem à questão da cura e da curabilidade das psicoses e de seu tratamento. a dedução gramatical freudiana seria perfeitamente aplicável ao caso particular (LACAN. mais que fórmulas gerais e até anedóticas. O objeto de sua escolha erotomaníaca era o Príncipe de Gales. mas somente que não os enquadra na descrição de Clérambault. segundo o testemunho dos mestres. falando aos norte-americanos sobre sua entrada na psicanálise. Recorre também ao fragmento da análise do caso Schreber para derivar. Acentua suas características “clássicas”. mas um interesse homossexual11 ou “inversão psíquica”. Lacan acrescenta que “suas relações com seu médico não estão isentas de um eretismo de imaginação vagamente erotomaníaco” (LACAN. fazendo uma aproximação da teoria da libido com a concepção de personalidade que defende em seu argumento. apresentando a psicanálise como indicação terapêutica em primeiro plano. fará referência ao caso paradigmático de sua tese. “expressão do voto inconsciente da não-realização sexual e da satisfação obtida num platonismo radical” (LACAN. a teoria da libido e suas fixações evolutivas oferecem um substrato científico ao que as teorias psicológicas somente descrevem. madura”. demonstrando que.12 própria vida descritos nos romances de um conhecido escritor. passando ao estado de despeito. mas que 10 A posteriori. inexistente nos quadros clássicos. Em 1975. 1976:9-10). Lacan não se utiliza desse diagnóstico para o caso. tais como o platonismo e a situação superior do objeto escolhido. ao qual enviou cartas e dedicou seus romances. Uma vez que recusa a erotomania como entidade autônoma.

Lacan . ao comentário do caso Schreber. a reação agressiva se dirige com muita freqüência contra o próprio psicanalista. o dificílimo problema posto pela técnica atual ao psicanalista é o seguinte: urge corrigir as tendências narcísicas do sujeito por uma transferência tão prolongada quanto possível. ou seja.13 casos foram analisados e descritos com bons resultados (LACAN. que se destaca o tema da erotomania. 1932:282). a relação com o médico — seja de caráter persecutório ou erotomaníaco — que substitui o sintoma. constituindo o material primordial do tratamento: o sintoma analítico. deixando-se entrever o futuro desse conceito na prática clínica com psicóticos. Mas em nossos casos. (LACAN. a transferência para o analista. e da análise que Freud fez dele. Lacan anuncia que o objetivo daquele ano de trabalho é concluí-lo com a discussão do tratamento possível do psicótico. grifo do autor). Penso que podem se localizar aqui as “pedras de espera” que. tal como Lacan aponta na obra de Freud como as suas intuições geniais. 1932:282-283. Ele o faz retomando as coordenadas freudianas e elaborando seus próprios conceitos e operadores. Pois a construção de um tratamento possível para a psicose vai se dar em torno desses pontos já assinalados por Lacan no trecho acima: as relações da transferência com o desencadeamento. dois anos depois. a transferência e as dificuldades de seu manejo. O mínimo que pode acontecer é o abandono rápido do tratamento pelo paciente. tende a produzir nesses sujeitos um recalcamento no qual a própria doutrina nos mostra o mecanismo maior do desencadeamento da psicose. Apesar de abrir o seminário com essa advertência. mesmo após a redução dos sintomas importantes. atualiza o tema no ponto em que Freud o havia deixado: pelo questionamento da inexistência de transferência do psicótico. Esse fato pode colocar o analista numa postura delicada. despertando a pulsão homossexual. É do caso. Ele indica o ponto central do problema: a transferência. e para espanto do próprio doente. e pode persistir por muito tempo ainda. Na Questão preliminar. Ao iniciar o Seminário III: As psicoses. Assim. Por outro lado. texto de 1958. Erotomania: questão preliminar Lacan dedica um de seus seminários — o de 1955-1956 sobre as psicoses — e um de seus Escritos: De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. são também localizáveis em seu próprio trabalho. Lacan adverte que não se poderia falar rigorosamente de tratamento da psicose em Freud. apontando para a dificuldade de seu manejo.

definir um novo campo conceitual. A alucinação do dedo cortado.. não é a ele que eu amo. mas que Lacan retira do caso do Homem dos lobos. Foi necessário. que só se reconcilia com elas na configuração final do delírio e na figura maior do pai que é Deus. a referência fálica e a relação com o pai. no seminário. com todas as particularidades do deus de Schreber. é um outro. o qual “pode ser considerado como uma perturbação da relação com o outro. A solução pelo delírio permite ao sujeito uma reconciliação com esse desejo pela via de um delírio megalomaníaco de redenção. noção que Freud utiliza já em 1894. 1955-1956:350). deduzidos de Freud. e ele está portanto ligado ao mecanismo transferencial” (LACAN. 1955-1956:348). que acarreta ao sujeito os maiores sofrimentos. incidia sobre a estrutura do delírio. dos quais Freud não abre mão. onde opera com os registros do real. A análise de Freud da derivação gramatical da fórmula da homossexualidade masculina é retomada e a conclusão para o caso de Schreber deduzida: “..” (LACAN. O delírio de Schreber está ligado à irrupção de um desejo homossexual. 1955-1956:349). Freud relaciona a intensidade da defesa ao temor narcísico da perda implicada na prática homossexual. a marca de sua virilidade” (LACAN. pois deus é seu objeto. se inverte em ele me ama. não são conceitos estritamente freudianos. Lacan ressalta a prevalência em Freud das figuras paternas presentes no caso Schreber. para Lacan. Os problemas são.14 critica o “inventário” das manifestações transferenciais e se preocupa em isolar o fenômeno “em referência às funções e à estrutura da palavra falada”. no relato de um episódio alucinatório ocorrido na infância do paciente. um grande Ele. Erotomania divina. a castração. é uma defesa contra ele. o próprio Deus. é um . Diz que seu objetivo. O conceito de forclusão é forjado a partir de uma tradução interpretativa de rejeição (Verwerfung). Lacan faz um resumo da posição de Freud. O principal conceito para a clínica das psicoses será a “forclusão do Nome-do-Pai”. do simbólico e do imaginário. então. liberando “esse mecanismo transferencial de não sei que confusas e difusas relações de objeto”. É uma defesa bastante intensa. Os operadores lacanianos. “O sujeito que se torna o objeto do amor do ser supremo pode por conseqüência abandonar o que lhe parecia à primeira vista o mais precioso do que ele devia salvar. como em toda erotomania. a saber. que Freud interpreta como uma rejeição da castração.

Nesse sentido. como abolição simbólica. É o que dá sentido retroativo à formulação freudiana do mecanismo da psicose nos termos de que “aquilo que foi internamente abolido retorna desde fora” (FREUD. sugerindo um mecanismo próprio para essa modalidade de não querer saber (LACAN. organiza o campo da linguagem e faculta ao sujeito a neurose. como um significante que substitui o significante do Desejo da Mãe. apresentada na Questão preliminar. institui o campo da simbolização e corresponde ao recalque primário. Isso introduz um problema: como o gozo se torna significante? Como o gozo da mãe — velado sob o significante Desejo da Mãe — se torna significação fálica e fornece o ordenador para o gozo do sujeito? O problema subjacente à metáfora paterna é o de juntar libido e significante. na forma dos fenômenos elementares da psicose. as duas vertentes freudianas: a técnica do deciframento. O Nome-do-Pai é deduzido do Édipo e atesta a passagem do sujeito pela castração. 1955-1956:174). pois o contexto de articulação lógica do juízo de atribuição anterior ao juízo de existência o exige. Lacan explicita que considera justificada sua dedução. “rejeição de um significante primordial em trevas exteriores” (LACAN. o retorno se dá no real. A metáfora paterna. Outra referência freudiana que Lacan utiliza para justificar seu conceito é o artigo A negativa (Die Verneinung) de 1925. produz a significação fálica. o campo de exterioridade ao eu institui-se a partir da expulsão daquilo que é mau (Ausstossung). da interpretação (significante) e a economia libidinal. Por não haver sido simbolizado. que passará da referência ao modelo da neurose e da estabilização para o modelo da psicose e da suplência. a Questão preliminar prepara a mudança de perspectiva do ensino de Lacan. Em contrapartida. No quadro de referência da primeira clínica. 1911:95). A Behajung.15 não querer saber nada disso. A Verwerfung é definida por Lacan como uma não Behajung. Também Lacan trabalha o caso Schreber do ponto de vista edípico. Lacan introduz também a noção de desencadeamento para designar a forma de irrupção . introdução do bom no eu. além mesmo do sentido do recalque. 198-). O Nome-do-Pai. pensa a psicose do ponto de vista da neurose. da satisfação (vertente do gozo). sustentada pela forclusão do Nome-doPai. afirmação primordial. Pensado a partir da categoria do simbólico. que inclui o registro do gozo e os fenômenos de corpo na concepção da cura (ALEMÁN LAVIGNE. dá conta de uma tentativa de Lacan de articular as teorias freudianas do complexo de Édipo e da castração. 1955-1956:22).

portanto. Divergia da concepção de Freud quanto à inexistência de transferência na psicose e publicou suas idéias divergentes também quanto . pois reforçavam as indicações de prudência por identificar os riscos implicados no tratamento de psicóticos. em 1966. Com essas indicações. mesmo que as publicações só viessem a surgir após a morte dele. com a estrutura que a separa da neurose. (LACAN. decorre da estrutura e da lógica da relação analítica e tem conexão com a modalidade de transferência na psicose. na forclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro. implicado como “sujeito-suposto-saber no sintoma”. Lacan adverte o clínico. essas articulações não tiveram incidência imediata na clínica. psicanalista vienense. Paul Federn12. tem-se a introdução da oposição entre sujeito do significante e sujeito do gozo. Atuou também nos Estados Unidos. que acarretará conseqüências para a clínica da psicose. mas explicá-la é a condição de receber e tratar o psicótico. nem muito menos de alguma abertura efusiva à vivência do doente. Entre os alunos mais próximos de Freud. pois falta a ela o significante do Nomedo-Pai que é o seu ordenador. A erotomania. Nessa Apresentação da tradução francesa das Memórias do Presidente Schreber. Flechsig. que apontamos a falha que confere à psicose sua condição essencial. mas possibilita a abertura de uma questão sobre o manejo desse laço e a colocação em perspectiva da saída transferencial como uma solução possível. no pequeno texto de apresentação. As tentativas de explicação têm uma história quase tão longa quanto a história da psicanálise. publica somente em 1943 os relatos dos tratamentos por ele 12 Paul Federn (1871-1950). perguntando: “quem explicará a transferência do psicótico?” Sua existência não é mais questionada. O que se rompe é a cadeia simbólica. Lacan se refere à relação de Schreber com seu médico. Apesar de organizar teoricamente o campo da pesquisa sobre as psicoses. 1966:23). O caráter mortífero é paradigmático. que algo semelhante ocorre no laço do psicótico com o médico. por ocasião da publicação da tradução francesa das Memórias. É num acidente desse registro (simbólico) e do que nele se realiza. em termos de uma “espécie de erotomania mortífera” e que “não se trata de nenhuma ascese mística. É assim que MILLER (1996:149) encerra seu comentário sobre as apresentações de pacientes de Lacan.16 da psicose. mas de uma posição à qual apenas a lógica da cura introduz” (LACAN. por exemplo. encaminha-se a pesquisa sobre a estrutura da transferência na clínica da psicose. Dez anos mais tarde. e no fracasso da metáfora paterna. os tratamentos de psicóticos não deixaram de ocorrer. 1958:582).

e a percepção fusional da relação com o analista. 2002:324-325). cujos enunciados principais são holófrases e que é capaz de ao eu e à economia do investimento libidinal nas psicoses após a morte de Freud. todas elas posteriores a 1964. estabelecer a diferença estrutural entre neurose e psicose implica a recusa de um conceito como o de “psicose de transferência”. A psicose é tomada segundo o modelo da neurose grave ou do postulado de um núcleo psicótico comum (MALEVAL. articulado em um delírio que arrisca situar esse Outro em lugar de perseguidor. No fundamental. que vai ser largamente utilizada nos anos 50 pelos analistas da IPA. não fenomênica. Em geral o conceito descreve a emergência. mas não deixa de ser problemática. 1955-1956:287). que implica “a abolição do sujeito” submetido a um Outro radicalmente heterogêneo (LACAN. mas em uma axiomática do gozo: assim situa o psicótico como um sujeito fora de discurso. A erotomania responde por uma relação específica com o Outro. apesar de não corresponder ao conceito original de Federn e mesmo adotar acepções diferentes segundo os autores e as escolas. da relação do psicótico com o médico. invadido por um gozo desordenado. no tratamento. Para Lacan. O amor na psicose é o “amor morto”. como vimos. não em uma lógica significante. uma vez que se trata de uma erotomania mortífera e que pode levar ao desencadeamento. Por isso. A erotomania de transferência é a dedução necessária. trata-se de uma apreensão estrutural. ainda que tendo em comum uma concepção do tratamento orientada pelo imaginário. Tirar as conseqüências terapêuticas dessa erotomania de transferência exige que se prossiga a investigação e que se estabeleça o que Lacan chamou de “outro centramento”. é um conceito forjado como uma extensão da neurose de transferência para o campo da psicose. Afinal.17 conduzidos desde 1905. não é novamente um motivo para contra-indicar o tratamento? Longe de fornecer uma solução. de sentimentos extremos e ambivalentes. Também as formas de abordar essa “psicose de transferência” serão bastante variadas. Foi ele quem introduziu a expressão “psicose de transferência”. O conceito que permite operar essa diferenciação é a forclusão do Nome-do-Pai. Lacan assenta progressivamente as bases deste último mediante indicações dispersas. A concepção a ser formada do manejo da transferência recomendada por Lacan é a questão preliminar ao tratamento do psicótico. fundadas. não seria antes um obstáculo? O que a articulação desse conceito permite é a diferenciação radical entre o amor de transferência neurótico e o amor mortificante do psicótico. .

mas de saber o que ocorre com o fenômeno transferencial na entrada em análise do psicótico. 2002:371372)13.18 desenvolver uma ‘erotomania de transferência’. que deve ser destacado pela operação da função fálica. Os elementos necessários para a direção da pesquisa e do tratamento estão aí indicados. Divisão pelo significante. Segundo Broca. todas ellas posteriores a 1964. mas recai sobre a invasão de gozo. A desregulação do gozo psicótico deve-se ao fato que o psicótico tem o objeto a no bolso e esse se presentifica na alucinação. como propõe BROCA (1985:128). A conseqüência da tese de que a invasão de gozo produz o sofrimento do sujeito leva a propor a direção do tratamento pela via da regulação deste. A partir de então. y que es capaz de desarrollar una “erotomania de transferencia”. posicionandose de forma a evitar que ela se torne uma psicose passional e resulte em uma passagem ao ato. Sabe-se que ele realiza grande parte do trabalho sozinho. trata-se de acolher a erotomania. cuyos enunciados principales son holofrases. Não se está orientando por um puro otimismo terapêutico. Demandas que Michel Silvestre define em dois tempos: primeiro. o que se buscará. sitúa al psicótico como un sujeto fuera del discurso. mas pelo imperativo ético de acolher as demandas que chegam ao analista. A ênfase deixa de estar no desencadeamento do significante. então. no enquadramento do tratamento e da transferência. A divisão do sujeito é necessária para que ele não seja louco. Trata-se de ser útil ao esvaziamento de gozo buscado pelo psicótico. . A questão que repercute é a de saber qual o lugar do analista no trabalho de reconstrução do psicótico. que é a função que permite o limite do gozo. será oferecer ao psicótico um destinatário para seu delírio. um anteparo para um desencadeamento controlado. mas também pelo objeto. A tarefa do analista é possibilitar ao sujeito essas regras. apenas indicar que a ênfase inicial no registro simbólico será deslocada para o registro real com a formulação dos conceitos de objeto a e gozo. demanda de significantes para organizar o mundo. nos sentimento de ser vigiado etc. (MALEVAL. Não vou me estender aqui na definição dos conceitos forjados por Lacan no prosseguimento de seu ensino. demanda de regras 13 “Lacan sienta progresivamente las bases de este último mediante indicaciones dispersas. que é a modalidade do amor de transferência próprio da psicose. fundadas. ou. invadido por un goce desordenado. segundo. o que faz. no ya en una lógica del significante. uma psicose sob transferência. com que o analista possa ser-lhe útil? Penso que não se trata mais de discutir a existência da transferência na psicose. sino en una axiomática del goce: así.

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