REVISTA DA ESCOLA PAULISTA DA MAGISTRATURA

Ano 7 - Número 2 - Julho/Dezembro - 2006

Diretor DESEMBARGADOR MARCUS VINICIUS DOS SANTOS ANDRADE Vice-Diretor DESEMBARGADOR ANTONIO RULLI JÚNIOR Comissão Editorial e Executiva da Revista Jurídica DESEMBARGADOR ADEMIR DE CARVALHO BENEDITO DESEMBARGADOR ALBERTO SILVA FRANCO DESEMBARGADOR ANTONIO CARLOS MALHEIROS DESEMBARGADOR ANTONIO CARLOS VIANA SANTOS DESEMBARGADOR AROLDO MENDES VIOTTI DESEMBARGADOR CAIO EDUARDO CANGUÇU DE ALMEIDA JUIZ CARLOS DIAS MOTTA DESEMBARGADOR CARLOS EDUARDO DE CARVALHO DESEMBARGADOR CELSO LUIZ LIMONGI JUÍZA CLÁUDIA GRIECO TABOSA PESSOA MINISTRO ENRIQUE RICARDO LEWANDOWSKI DESEMBARGADOR FRANCISCO DE ASSIS VASCONCELOS PEREIRA DA SILVA DESEMBARGADOR GILBERTO PASSOS DE FREITAS JUIZ FÁBIO GUIDI TABOSA PESSOA DESEMBARGADOR ITAMAR GAINO DESEMBARGADOR KIOITSI CHICUTA DESEMBARGADOR LUIZ CARLOS RIBEIRO DOS SANTOS MINISTRO MASSAMI UYEDA DESEMBARGADOR SIDNEI AGOSTINHO BENETI DESEMBARGADOR SÉRGIO MARCOS DE MORAES PITOMBO ex-coordenador da Revista - (in memorian)

REVISTA DA ESCOLA PAULISTA DA MAGISTRATURA

ISSN 1980-2374 Revista da Escola Paulista da Magistratura, ano 7, nº 2, p. 1-176, julho/dezembro - 2006

2 (1-2) 2002. I.São Paulo .gov. v.sp. v.483 . Escola Paulista da Magistratura.epm. v.sp. 2º e 3º andares 01301-100 . 5 (1-2) 2005.1º. Ano I. 4 (1-2) 2004. 3 (1-2) 2003. v. SP: Escola Paulista da Magistratura Semestral 2001.2) 1. São Paulo.br — imprensaepm@tj.: (11) 3255-0815 / 3257-8954 www.SP Tels. 7 (1. 1. Direito. (1993). 6 (1) 2006.gov. ISSN 1980-2374 Escola Paulista da Magistratura Rua da Consolação. v.Revista da Escola Paulista da Magistratura / Escola Paulista da Magistratura.br . v.

............ 23 A declaração de inconstitucionalidade pelo STF da progressão de regime prisional previsto na Lei dos Crimes Hediondos: reflexos da prevalência da dogmática constitucional-penal do Estado Democrático de Direito Mirian Cristina Generoso Ribeiro Crispin ............................................... 475-J do Código de Processso Civil Rogerio Bellentani Zavarize ................ de 22 de dezembro de 2005 Carlos Eduardo Siqueira Abrão .......................................................... requisito de validade e outros aspectos Luis Manuel Fonseca Pires ....... O sistema neozelandês e a experiência escandinava Marco Fábio Morsello .... 71 O princípio constitucional da tutela jurisdicional sem dilações indevidas e o julgamento antecipadíssimo da lide Fernando da Fonseca Gajardoni .............................................................................. ética e jurisdição Antonio Rulli Junior ............................................232................232/2005 Fabio Guidi Tabosa Pessoa .... 13 Notas sobre o art........ 7 A responsabilidade civil e a socialização dos riscos....................................... 137 ....................................... 35 A auto-executoriedade do ato administrativo: condições de existência.... 103 O título executivo declaratório na Lei 11........Sumário Autoridade. 47 Algumas considerações sobre a Lei 11..........................................................................................................

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Autoridade vem de autoria e o poder político é sempre caracterizado pela autoridade de mando do magistrado: autor do poder político. I . ano 7. No processo. Qualquer tipo de Estado tem uma autoridade. p.Autoridade s civilizações antigas se formaram em torno da autoridade.Ética – III . autoridade de chefe. promovido pela Escola Paulista da Magistratura. O réu sabe individualizar quem o chama e tem consciência de que o chamamento decorre de um poder. para os juízes aprovados no 177º Concurso de Ingresso na Magistratura. 7-11. que é a individualização do poder político.2006 . em 22 de setembro de 2006. o autor é aquele que chama o réu para o processo.Jurisdição – IV . ética e jurisdição1 Antonio Rulli Junior2 DESEMBARGADOR DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO SUMÁRIO: I .7 Autoridade. julho/dezembro . autoridade do sacerdote etc. nº 2. Vice-diretor da Escola Paulista da Magistratura. O gênero (autoridade) era a maior característica da autoridade: autoridade familiar. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Mas para nós a autoridade é basicamente a fonte do poder. A 1 2 Palestra proferida no Curso de Iniciação Funcional.Autoridade – II .Bibliografia.

A ética exige a separação das funções. 7-11. O Espírito das Leis. esboça-se o princípio da separação das funções dos órgãos do poder. Revista da Escola Paulista da Magistratura. pois a garantia maior será a liberdade do indivíduo e maior eficiência do próprio Estado. Qual a razão de afastarmos o autoritarismo? Será sempre a de evitar o arbítrio e a injustiça. com isto garantindo a ética. executiva e judiciária? Haveria o perigo do governo dos juízes. objetiva e eficaz do direito ao caso concreto. a possibilidade de uma justiça célere. de 1748. p. então. Na obra de Montesquieu. julho/dezembro . Imagine-se um magistrado com poderes de autoridade legislativa. cairíamos no autoritarismo.2006 . da autoridade para tudo o que pretendemos realizar. ou com a injustiça. caso contrário. O apanágio do viver honestamente (honeste vivere). mas daquela que tem como razão do poder político a ética. porque a sua honorabilidade é o seu maior apanágio. a palmatória do mundo. Não podemos pensar em autoridade sem ética. A autoridade do magistrado não se afina com o autoritarismo ou o arbítrio. O juiz seria. não é de qualquer organização que falamos. A realização dos nossos atos decorre dessa autoridade que tudo organiza. com a inversão da própria autoridade e seu poder político. Nós dependemos. a cidadania e a democracia. legislativa e judiciária. disciplina e ordena. A autoridade é a autoridade do Estado ramificada em funções.8 ANTONIO RULLI JUNIOR O Estado é a base de uma organização hierarquizada e disciplinada com poder. Entretanto. ano 7. a cidadania e a democracia. Não teríamos. pois esse se torna uno e indivisível. Esta “separação de poderes” vai evitar a concentração de todo o poder em uma só autoridade. assim. com autoridade. como nós conhecemos hoje: executiva. nº 2. evitando a justiça tardia e a negação da justiça e criando a natureza da imparcialidade como condição do exercício da judicatura. porque garante a própria autoridade da função jurisdicional do juiz. nem mesmo. pois.

7-11. atributo da personalidade que indica independência e responsabilidade social. respeito ao cidadão e aos Direitos Humanos. Outros entenderão que aquela mesma circunstância pode ser contornada. por sua vez.Ética A ética exige da autoridade do juiz a isenção. O homem. julho/dezembro .: no Curso de Iniciação Funcional. Revista da Escola Paulista da Magistratura. A inteligência emocional decorre da natureza social do homem. Mas a independência do juiz não é aquela meramente formal e que decorre da Carta Política. A imparcialidade decorre da independência que nada mais é do que a garantia posta na Constituição como condição primeira para o exercício da jurisdição. a responsabilidade e a crença nos valores humanos. p.2006 . ÉTICA E JURISDIÇÃO 9 II . A ética significa a imparcialidade do juiz. a imparcialidade. evitando-se a prisão em flagrante. Entre muitos magistrados. tornando variável o relacionamento humano. porque sem esta o Judiciário. A postura da imparcialidade exige do juiz equilíbrio emocional. vocação. a probidade. Ela exige coragem e segurança nas decisões. É natural querer saber se o comportamento inconveniente do advogado é passível de prisão em flagrante ou não. A independência do poder jurisdicional é para garantir aos jurisdicionados a imparcialidade. é ministrado conhecimento sobre os eventuais contratempos das audiências. perde a sua própria razão de ser. é dotado de inteligência e vontade. poderá entender-se que de pronto cabe a prisão em flagrante. Cada ser humano reage de forma diferente. sensibilidade e intuição. nº 2. São dados os parâmetros que justificam ou não a prisão em flagrante. a independência. com isenção que leva à imparcialidade. moldada pela isenção. ano 7. Ex. o que o torna individualizado e marcado pelas diferenças individuais. como função especializada do poder político.AUTORIDADE.

a jurisdição é poder nacional. A nossa jurisdição tem uma abrangência de fins e escopos: os fins últimos (distribuir a Justiça) são a base da pretensão de legitimidade da jurisdição. ao que é imparcial. a terceira fase do sistema de Justiça em Roma. E sem essa ética não haverá autoridade. dando firmeza e coragem nas decisões. 7-11. do que é imparcial. exigindo reflexão diante de fatos que dizem respeito ao que é justo. pelo sistema de jurisdição romana. no período da “extraordinária cognítico”. É o lado interno da soberania e. tem a natureza de universal (art. ano 7.Jurisdição O Código de Hamurabi e as Leis de Manu concebem a justiça dentro do sistema do que é justo. pois gera postura de imparcialidade. nº 2. confundindo-se com a atividade legislativa. A finalidade social da jurisdição é a pacificação social. A intuição tem relação direta com a sensibilidade que aflora do equilíbrio emocional. A ética é o principal equilíbrio da atuação do magistrado. social e jurídica. a motivação do magistrado. III . p.10 ANTONIO RULLI JUNIOR É difícil saber entre os magistrados quem tem pavio curto e quem não tem pavio curto. que se torna o fundamento da autoridade do juiz. A finalidade política torna evidente que a justiça faz parte da política: a maior virtude da política é a justiça e é a afirmação da capacidade estatal de decidir imperativamente (alterum non laedere). 5º. em nosso sistema. A ética e a autoridade são o fundamento da jurisdição e se apresenta com três fins distintos: finalidade política. No Direito Brasileiro. O sistema influencia o Ocidente com a ética do próprio direito natural. CF). O equilíbrio emocional é importante e tem muito a ver com a vocação. julho/dezembro . XXXV. entre particulares: período das Legis actiones e do período do Processo Formular. Revista da Escola Paulista da Magistratura. por ser este o escopo fundamental de ambas (suum cuique tribuere). precedido de meios de soluções de lides dentro de uma justiça de sistema privado. inc.2006 . É passado para o Ocidente.

Sociedade e Jurisdição . ano 7. com as questões à espera do sine die. Série Nacional.AUTORIDADE. IV . mas. . nº 2. São Paulo. “Jurisdição e Reforma do Poder Judiciário”. o Juiz e o Próximo Milênio. 25 de fevereiro de 2000. acima de tudo. Aula inaugural da Escola Superior da Magistratura do Estado de Mato Grosso do Sul. A jurisdição. ou dar a cada um o que é seu (suum cuique tribuere). ÉTICA E JURISDIÇÃO 11 A finalidade jurídica é a atuação da vontade concreta do direito. Editora Juarez de Oliveira Mendes.————.RULLI JUNIOR. Palestra proferida na OAB – Subsecção de Marília.————. 16 de março de 2000. Revista da Faculdade de Direito das FMU. nº 17. Direito. não podendo perpetuar-se no tempo. a maior virtude na aplicação da Justiça pelo magistrado é viver honestamente.2006 . 7-11. 1998.————.————. p. exigem brevidade suficiente para a maturidade das decisões. e não tardio. o suficiente para amadurecer a convicção daquele que julga. fundamento de toda ética e de toda a autoridade. Ano 10. que é diferente do tempo do executivo e do tempo do legislativo. A jurisdição tem seu tempo. . in Revista da Escola da Magistratura de Rondônia. “A função política do magistrado”. Portanto. . A ética e a autoridade da jurisdição não estão somente em não lesar a ninguém (neminem laedere ou allterum nom laedere). . EMERON 1999. julho/dezembro . Antonio. Revista da Escola Paulista da Magistratura.Bibliografia . Não nos esqueçamos de que os atos do poder político têm o mesmo fundamento ético e. como tal. 1996. virtudes evidentes do poder político do Estado. a ética e a autoridade têm o seu maior fundamento no viver honestamente (honeste vivere). Universalidade da Jurisdição. O tempo da jurisdição deve ser célere. nº 6. Porto Velho.Perspectivas para o IIIº Milênio.

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Novas tendências.2006 A . 1. os influxos (inputs) provenientes do sistema social exigiram que referido instituto pudesse desempenhar. ao longo da História. Introdução. julho/dezembro . Com efeito. O sistema neozelandês. A evolução da responsabilidade civil importância da responsabilidade civil. sociais e políticas. 2. A evolução da responsabilidade civil. Introdução. notadamente a Suécia. Apreciações críticas e considerações conclusivas. com a justa compensação à vítima. ano 7. a contento. O alegado declínio da responsabilidade individual. 1. O sistema neozelandês e a experiência escandinava Marco Fábio Morsello JUIZ DE DIREITO DO ESTADO DE SÃO PAULO Sumário. Socialização dos riscos. A experiência dos países escandinavos. p. 3. denotou ampliação condizente com as mudanças econômicas.13 A responsabilidade civil e a socialização dos riscos. A importância do seguro. sem prejuízo da função de retribuição Revista da Escola Paulista da Magistratura. 13-22. O risco do spreading. Bibliografia. sua função de reparação. nº 2. cuja complexidade crescente é inquestionável no mundo contemporâneo.

4. Cf. a denominada função preventiva da responsabilidade civil. v. p.2006 . Le Déclin de la Responsabilité Individuelle. 13-22. No mesmo sentido: Karl Larenz.. München: Ch. com a correlata proeminência da denominada socialização dos riscos. p. 2. afirmou-se que o Estado deveria fixar mecanismos de reparação célere e integral. 1998. de inspiração germânica. nº 2. bem como do denominado maquinismo.La responsabilità civile. parágrafo 3. O risco do spreading. 1 – Introduction à la Responsabilité. deslocando o papel central desempenhado pela culpa até o final do século XIX. p. julho/dezembro . 4 . 1.. tem recebido influência do denominado princípio da precaução (Vorsorgeprinzip). Paris: Dalloz. na qual utiliza a nomenclatura Präventionsgedanken. 3. op. p. Québec (Canada): Ed. o que. em famosa monografia. tendo em vista o temor legítimo das sanções pecuniárias impostas. 2. op.. Patrice Jourdain. 1965. Ibid. procedendo à análise acurada dos fenômenos advindos da organização social moderna. 2.. notadamente a Suécia.5 1 2 3 4 5 Droit de la Responsabilité. Les Principes de la Responsabilité Civile. Geneviève Viney. como observam Philippe Le Tourneau e Loïc Cadiet.3 A par das funções desempenhadas pela responsabilidade civil. alcunha a função preventiva como efetiva deterrence e a reparação como efetiva compensação à vítima). 423. Id. parágrafo 3. p. Apreciações críticas e considerações conclusivas. no período contemporâneo. O alegado declínio da responsabilidade individual. Paris: LGDJ. 2ª ed. Socialização dos riscos. Allgemeiner Teil. outrossim. A importância do seguro. aliás. Novas tendências. p. p. publicada em 1965. La Responsabilité Civile. A experiência dos países escandinavos. Paris: LGDJ. O sistema neozelandês. cit. Yvon Blais. como bem prelecionam mencionados autores. preconizou. p. ano 7. teria o condão de mitigar o instituto da responsabilidade civil. Geneviève Viney. 1998. é curial que atualmente a indenização do dano é considerada o objetivo essencial daquela. parágrafo 2. aliás. Milano: Giuffrè. v. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 132 (referido autor. 2. 1987. 1999.1 No entanto. o denominado declínio da responsabilidade individual. Erster Band. emerge. 58. 14ª ed. 1-8. Geneviève Viney. 2. 4ª ed. Traité de Droit Civil. 1. no âmbito do Direito Comunitário da União Européia.2 Referida função. Lehrbuch des Schuldrechts. Le Tourneau e Cadiet. p. o que examinaremos a seguir.14 MARCO FÁBIO MORSELLO ao causador do dano-evento. em última análise. 2. 5ª ed.4 Desse modo. Trattato di Diritto Civile. 1998. 1995. p.. cit. Nesse sentido. Beck Verlag. Dalloz: Paris. Guido Alpa. 2.. 64. Jean Louis Baudouin e Patrice Deslauriers. v. parágrafo 36. pp. 2.

nas influências perpetradas pelo sistema social. a organização do corpo social. ano 7.g. pp. 46-47. no âmbito do sistema jurídico.. que robusteceram os princípios de solidariedade social. p. 2ª ed.. ou em ex-colônias que tenham recebido fluxo migratório imbuído dos valores de solidariedade social e organização de grupos de reivindicação coletiva (e. pois. p. apontada por muitos como a solução natural e exclusiva das problemáticas engendradas pela responsabilidade civil. que o fenômeno do maquinismo e criação de grandes grupos empresariais impôs. na perspectiva histórica. Trad. o seguro passou a desempenhar. posteriormente. cit.9 Observa-se. 56-57. notadamente em sociedades européias.. pp. p. Le Déclin de la Responsabilité individuelle. recebendo os influxos (inputs) daquele. Manuel Vivas Díaz-Berrio. do denominado seguro de responsabilidade civil e escopo da denominada socialização dos riscos. com as críticas e correções supervenientes. importância primordial. Revista da Escola Paulista da Magistratura. mitigaram sobremaneira a denominada função de prevenção ínsita à responsabilidade civil. 15-19. que entrou em vigor. diante da insuficiência de critérios escudados na responsabilidade individual. 1.2006 . como examinaremos a seguir. ensejando considerações conclusivas diante de correntes doutrinárias que apóiam a socialização dos 6 7 8 9 Geneviève Viney. julho/dezembro . razão pela qual. Ibid. procederemos à análise das causas históricas que culminaram na edição do Accident Compensation Act. Madrid: Editorial Mapfre. nesse aspecto. na obra Seguro de Responsabilidad Civil. Traité de Droit Civil. conjuntamente com a criação dos denominados Welfare States.6 coincidindo. Tecidas referidas ponderações.8 Desse modo... nº 2. fulcrou-se. v. A iniciativa mais ousada. com o status de sistema de segunda ordem ou subsistema deste último. 2. 13-22. 4. como assevera Geneviève Viney. ademais. 1979. em seu arquétipo contemporâneo. que a criação do denominado Estado de Bem-Estar Social culminou. justamente. corretamente. Chatered Insurance Institute.A RESPONSABILIDADE CIVIL E A SOCIALIZAÇÃO DOS RISCOS. 15 Para tanto. Id.. No entanto. referida conduta deu azo a problemáticas que.. Nesse sentido: Id. sindicais). cit. 5-8. em muitos países. Ibid. na edição de diplomas legais caracterizadores da denominada socialização dos riscos. proveio da Nova Zelândia. com evolução da teoria do risco e. nesta seara. em algumas nações desenvolvidas.7 Cumpre asseverar. em 1º de abril de 1974. é curial que a edição de mecanismos de socialização dos riscos emergiu como conseqüência lógica.. pp.

nº 2. teve por escopo principal a justa indenização das vítimas de acidentes. julho/dezembro . no entanto. It abolishes the common 10 No que concerne aos aspectos históricos gerais da Nova Zelândia. que. bem como dos meios de produção e de consumo. nos anos 1970. 13-22. não se impediu a consecução de contratos. a partir do início do século XX. há a obra de Cláudia Orange. referida tributação progressiva atrelou-se à criação de sistema de socialização de riscos. Assim. Considerando. foram a mola propulsora para a criação de efetivo Welfare State. Disponível em: <http://www. 2000. a edição do Accident Compensation Act pelo Parlamento da Nova Zelândia. em 1841. 2006. por meio do qual os colonos ingleses passaram a controlar integralmente o país. Especificamente quanto ao Tratado de Waitangi. analisando seus aspectos controvertidos. 2006 e 31 jul. Auckland. despicienda a aferição da conduta dos causadores do dano. cabendo ao Estado velar pela indenização das vítimas. considerado o mais avançado do mundo. Blower.nz>. em 1972. imbuídos de ideais socialistas e que pertenciam a Sindicatos proscritos. com tributação progressiva da renda. Auckland: Penguin Books. consoante análise à época. em 1929.10 Sucede que. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Estas. não resultando na denominada justa compensação. no site NZHISTORY. com entrada em vigor em 1974. até o fim dos anos 1990. Bellich. Com efeito. Marshall. sem a necessidade de que fossem instauradas lides processuais. seguindo estritamente o modelo britânico escudado em Constituição não escrita. considerados essenciais ao próprio sistema. estimulando as iniciativas capitalistas e a autonomia privada por ocasião da celebração de contratos. aliás.net. pois. A Nova Zelândia. também. tornando-se. impôs à civilização maori o Tratado de Waitangi. 14 jul. disponível. ano 7. máxime após os efeitos nefastos advindos com a crise da Bolsa de Wall Street.NZ. com utilização dos preceitos da common law. por outro lado.16 MARCO FÁBIO MORSELLO riscos como tábua de salvação final do instituto da responsabilidade civil. Acessos em: 24 jan. representavam altos custos. vide J. A History of the New Zealanders from the 1880s to the Year 2000. 2002. a herança do pragmatismo britânico. Nesse sentido foram as declarações de J. como observa Bradley H.NET. via internet. vários imigrantes provindos do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Treaty of Waitangi.2006 .R.Nzhistory. ministro do Trabalho à época: “It changes a basic concept of law by removing the element of fault as a ground for the payment of compensation for injuries received as a result of accident. iniciou-se política dirigista em termos macroeconômicos. Observa-se. p. Auckland Press.

. Revista da Escola Paulista da Magistratura. qual seja The Accident Rehabilitation and Compensation Insurance Act. bem como se suprimiram o pagamento à vista por incapacidade parcial e permanente e o dano moral. máxime tendo em vista a necessidade de escala competitiva no âmbito da economia globalizada. pp. p. abarcando sistema amplo de compensação a toda pessoa no território neozelandês. a jurisprudência neozelandesa. o amplo alcance da lei. revelando efetiva solidariedade social. observa-se que. op. portanto. cumpre ressaltar que. deu azo ao pronunciamento da Court of Appeal em Donselaar v. 442-470. No entanto.2006 . no transporte aéreo. Já em 1982. 17 law action for damages for personal injuries to the extent that compensation is provided under this Bill”. New Zealand Law Review. 316.. “Order or chaos: air carriers’ liability in the South Pacific’. já que os déficits se tornavam intoleráveis. Blower. Auckland. ano 7. na seara de acidentes que tivessem resultado em ferimentos ou morte. nº 2. “Torts and accident compensation”. Joanna Manning. Auckland. escudadas nos denominados exemplary damages. vide: Margaret A McGregor Vennell.. 1996. inclusive. Referida lei suprimiu o direito de o lesado ou os dependentes da vítima fatal ajuizarem ação de reparação por perdas e danos. New Zealand Law Review. New Zealand Law Review. aumentando ainda mais os encargos sobre o corpo social. julho/dezembro .12 O advento do Accident Compensation Act. em inequívoco spreading. No mesmo sentido. p. levou em conta referida circunstância. analisando os efeitos da referida lei no sistema da responsabilidade civil. Auckland. ínsita ao sistema da responsabilidade civil.A RESPONSABILIDADE CIVIL E A SOCIALIZAÇÃO DOS RISCOS. sob o constante influxo de influência norte-americana. 12 Nesse sentido. 314. fosse ou não residente permanente ou proprietário. editou-se nova lei. já que referido precedente abrira a caixa de Pandora. 1998.11 Destacou-se. Em 1992. em 1982. por meio do qual se restringiu o alcance do termo accident. 13-22. na Nova Zelândia. Donselaar. se. Referida realidade fática propiciou estudos visando restringir a amplitude do sistema. embora o escopo inicial da iniciativa fosse louvável. cit. Bradley H. pp. p. Tecidas referidas considerações. 1998. asseverando que referida lei não excluía a viabilidade de ajuizamento de ações pessoais. em primeiro plano. houve mitigação pronunciada da função de prevenção. o sistema da socialização dos riscos apresentou problemáticas agravadoras 11 “Exemplary damages: applying natural justice to ensure fundamental fairness”. muito embora tivesse aconselhado aos magistrados o uso de “rédea curta” (“keep a tight rein on actions”). 358-363. na aceitação do instituto.

neste último período. a par da viabilidade de escolha pelos empregadores. formou classe média de grandes proporções. Deveras. jungido à subsistência de alta tributação. Paris: Economica. em 1999. limitando-se seu alcance. a integração da maioria branca com a minoria maori (8. apesar de referidas circunstâncias favoráveis. com espeque na inexistência de freio à adoção de condutas de risco. por derradeiro. propiciou o advento de Lei uniforme em 1964. embora sem a completude determinada pela Accident Compensation Act. com acesso restrito. houve edição de leis com escopo análogo ao da Nova Zelândia. Mas. A par da teoria do risco. conforme preceitua André Tunc.13 De fato. via WEB. nos países escandinavos.14 13 Cumpre esclarecer. p. a Nova Zelândia apresentou índices de estagnação na década de 1980 e metade dos anos 1990. nº 2. o fundamento da lei sueca promulgada em 1972. os princípios da prevenção e precaução (Direito Ambiental) já evidenciavam efetivo nascedouro. de amplo leque de seguradores. ano 7. nações detentoras de índices socioeconômicos invejáveis. por meio do The Economist Intelligence Unit (EIU). paulatinamente. incluindo a denominada responsabilidade do Estado. sem prejuízo de fixação de patamar-limite indenizável. Ademais. O nível educacional elevado. Referida lei foi ratificada pela Noruega em 1969 e constitui. Noruega e Dinamarca. a uma política de liberalização. 14 La Responsabilité Civile. julho/dezembro . por oportuno. na própria Nova Zelândia. dando início. 13-22. consoante o periódico The Economist. fixando a responsabilidade por fato de outrem. 88. o instituto da responsabilidade civil passou a ter caráter complementar.2006 . mitigando a função de prevenção adrede descrita. 1981. p. de modo a fomentar a competição mercadológica e conseqüente redução de custos. justamente. população sem grandes problemas raciais. houve ulterior alteração no sistema de socialização de riscos neozelandês. o Sistema de Bem-Estar Social desenvolvido por Suécia. observa-se que. publicado para assinantes. nos vários Annual Reports apresentou. que. a Nova Zelândia. índices de corrupção entre os mais baixos do mundo. invariavelmente. Revista da Escola Paulista da Magistratura. que. desenvolvendo-se.5% da população). Cumpre mencionar. diante dos constantes desafios representados pela realidade competitiva mundial. dificilmente referido sistema apresentaria êxito em outras sociedades.18 MARCO FÁBIO MORSELLO do déficit governamental. a contento. também. tendo em vista as problemáticas derivadas do Accident Compensation Act. de concepção avançada para a época. assaz relevante.

a partir da metade dos anos 1980.9-19. tout court. sem qualquer limitação prévia.16 Afigura-se necessário. cit. p. dos agentes criadores de risco. 1996. a Suécia editou. 489-495. VII a XI). 13-22. cit. comporta exame. 16 Nesse sentido.A RESPONSABILIDADE CIVIL E A SOCIALIZAÇÃO DOS RISCOS. dessumindo-se em linhas gerais que. La Nuova Responsabilità Civile.2006 .. portanto. Madrid: Montecorvo. redigido por Guido Calabresi (p. propiciaria às vítimas a manutenção da dignidade humana em patamar adequado de seguro obrigatório. 392. 1997.. em 15 de dezembro de 1975. em 217 páginas. No mesmo sentido. sendo premente.t. possa propiciar a manutenção da dignidade humana às vítimas. do Parlamento sueco (Sveriges Riksdag). . pp. referente ao “Costo degli incidenti”. a viabilização de mecanismos facilitadores do ajuizamento de ação regressiva em face do causador do evento. em detrimento da tendência pretérita de ampla socialização dos riscos. na parte introdutória referente à responsabilidade civil. Guido Alpa. 88. que a socialização dos riscos. 456-458. 1993. julho/dezembro . Revista da Escola Paulista da Magistratura. sob o papel interventor do Estado. Infere-se. pp. Interpretazione Giuridica e Analisi Economica. op. de modo a propiciar subsistência à responsabilidade civil e suas funções modernas de precaução e prevenção. 19 Na esteira da tentativa de ampla socialização dos riscos. Stockholm. Carlo Castronovo. cum grano salis. No que tange ao texto traduzido para a língua inglesa da Constituição Sueca e Carta de Direitos Fundamentais. pp. não impedindo o ajuizamento de demandas escudadas em pretensões ressarcitórias que superem o referido limite. o que não elide o ajuizamento de demandas. e no Prefácio da obra. analisando as repercussões econômicas na seara da responsabilidade civil.1.15 Embora referidas leis tenham ampliado o leque de proteção aos cidadãos. a par de não obstaculizar as vantagens econômicas competitivas. no item 3. celeremente. visando à obtenção de valor a maior. a criação de fundos contributivos geridos pelo Estado.17 15 Nesse sentido. Stefano Rodotà e Franco Romani. 17 La Responsabilidad Civil: Derecho Sustantivo y Derecho Procesal. Referido entendimento é robustecido por Jaime Santos Briz.. como instituto exclusivo.. geraria inequívoco risco de spreading no âmbito da relação custo/preço. aferir o ponto de equilíbrio em cada sociedade. principalmente na Suécia. em detrimento do consumidor final. os déficits provocados pelo Estado de Bem-Estar Social implicaram recessão e desvalorização pronunciada da moeda local. da lavra de Stefano Rodotà. lei que assegurou indenização a todas as vítimas de acidentes de trânsito. ano 7.. advindos. Milano: Giuffrè. nº 2. p. p.g. Doutra banda. e. há a publicação. 7ª ed. ou de seu segurador privado. fixando-se seguro obrigatório em patamar que. Francesco Pulitini. portanto.

Milano: Giuffrè. 18 Nesse sentido. Guido. . 2000. 1982. a coexistência das responsabilidades objetiva. emerge efetiva preocupação com a proteção à pessoa e a seus direitos. não se poderá carrear somente ao Estado referido ônus. Yvon Blais. DESLAURIERS. Patrice. impondo ao causador do dano indenização ampla. os seguros sociais estariam fulcrados em patamar-limite. como já se preconizou. Interpretazione Giuridica e Analisi Economica. PULITINI. A History of the New Zealanders from the 1880s to the Year 2000. Auckland: Penguin Books. pp. La Responsabilité Civile. ROMANI. 1998. subjetiva e da socialização dos riscos. . no âmbito da ordem pública de proteção.BELLICH.————. destarte.18 Tecidas referidas considerações. por normas robustecedoras do princípio da prevenção. se nota que o ônus exclusivo do Estado e. . Revista da Escola Paulista da Magistratura. Francesco. podendo-se afirmar.BAUDOUIN.20 MARCO FÁBIO MORSELLO Depreende-se. Deveras. sob o denominado paradigma pós-moderno. Francesco. que onerarão o corpo social.2006 . 21-26. 4 . portanto. a insubsistência prática do sistema da ampla e exclusiva socialização dos riscos. ou. com espeque em eventual insolvência. 13-22. 1999. RODOTÀ. depreende-se que o instituto da responsabilidade civil não se encaminha para a extinção. que a socialização integral dos riscos gera problemas de escala competitiva na sociedade globalizada. quando não for possível. p. Québec (Canada): Ed.. incentivar a utilização de mecanismos prévios de seguro privado. Trattato di Diritto Civile.La responsabilità civile. pois. Stefano. não obstante restem válidos os valores de solidariedade social e garantia de tutela da dignidade humana. cit.. na seara atual. Jean Louis. de modo que. nº 2. sem suprimir. a responsabilidade civil e suas funções preventiva e compensatória. ano 7. por via de conseqüência. cabendo ao Estado velar. Patente. mesmo no rol dos países do “Primeiro Mundo”. 5ª ed. da sociedade. dá azo ao aumento de sinistros. 3 . máxime tendo em vista que. v. na medida em que o indivíduo não vislumbra sérias conseqüências patrimoniais advindas de sua conduta.Bibliografia . op. julho/dezembro . J. ainda que em caráter complementar quanto ao último aspecto.ALPA. Milano: Giuffrè. Patrice Jourdain. Em última análise.

Milano: Giuffrè. Auckland. pp. ALPA. Madrid: Montecorvo. Revista da Escola Paulista da Magistratura.PULITINI. 1995. Treaty of Waitangi.SANTOS BRIZ. PULITINI. . .).ROMANI. Milano: Giuffrè.. ALPA. 2002. 13-22. André. . Cláudia.nz>.RODOTÀ..VENNELL. Francesco. ano 7.. (Dir. 14ª ed. Francesco. Loïc. Franco. Jaime.————.CASTRONOVO. La Responsabilité Civile. . CADIET. Disponível em: <http://www. New Zealand Law Review. .A RESPONSABILIDADE CIVIL E A SOCIALIZAÇÃO DOS RISCOS. . Pulitini.ORANGE. Auckland. Philippe. La Nuova Responsabilità Civile. 1996. .VIVAS DÍAZ-BERRIO. “Order or chaos: air carriers’ liability in the South Pacific”. Paris: LGDJ.2006 . . Karl. 1982. Guido. . Stefano. Interpretazione Giuridica e Analisi Economica. Franco.. com texto traduzido para a língua inglesa.Nzhistory. McGregor.. “Exemplary damages: applying natural justice to ensure fundamental fairness”. Stockholm. 4ª ed. 442-470.. Paris: Dalloz. 2006 e 31 jul. 1982. Joanna. “Torts and accident compensation”.BLOWER. Patrice. . 313-344. Allgemeiner Teil. Acessos em 24 jan. 1981. ROMANI. Guido. pp.LARENZ.net. . Auckland. 1998. Beck Verlag. Stefano. pp. Francesco. 1982. . Franco. Interpretazione Giuridica e Analisi Economica.LE TOURNEAU. 1965. Guido. 2ª ed. “Auckland: Auckland Press”.. 1998. Droit de la Responsabilité.. 2ª ed. v. Paris: LGDJ.VINEY.SVERIGES RIKSDAG. 1979. julho/dezembro .MANNING. 1997. Jacques Ghestin). Publicação do Parlamento sueco. München: Ch. Margaret A. 7ª ed. 1 – Introduction à la responsabilité. RODOTÀ. 1993. Seguro de Responsabilidad Civil. ALPA. Madrid: Editorial Mapfre. Milano: Giuffrè. ROMANI. 1982.JOURDAIN. Francesco. Manuel. Bradley H. RODOTÀ. 1996. 21 . .TUNC. . ROMANI. 2ª ed. 14 jul. 2006. In: ALPA. da Constituição sueca e Carta dos Direitos Fundamentais. 1998. p. Guido. Interpretazione Giuridica e Analisi Economica. . Dalloz: Paris. Paris: Economica. Guido. RODOTÀ. Stefano. Lehrbuch des Schuldrechts. Interpretazione Giuridica e Analisi Economica. Traité de Droit Civil. Stefano. Erster Band. Les Principes de la Responsabilité civile. t. nº 2. Carlo. Geneviève. PULITINI. . Le Déclin de la Responsabilité Individuelle. 1987. New Zealand Law Review. Costo degli incidenti (Prefácio). 1 e 2. Milano: Giuffrè. 345369. . Milano: Giuffrè. La Responsabilidad Civil: Derecho Sustantivo y Derecho Procesal. New Zealand Law Review. 1998. Franco (coords.CALABRESI.

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A multa não tem finalidade de evitar recursos .8. Bibliografia. e.11. continuaram. modificando determinadas disposições. as reformas pontuais no Código de Processo Civil. A indicação de bens pelo credor . p.6.5. nº 2. em se tratando da execução de título judicial. Introdução C om a Emenda Constitucional nº 45/2004. As dificuldades de aprovação de um novo código levaram os responsáveis a adotar diversas leis esparsas.7.4. julho/dezembro . a lei anuncia que altera o Código de Processo Civil para “estabelecer a fase de cumprimento das sentenças no processo de conhecimento e revogar dispositivos relativos à execução fundada em título judicial”. O auto (§ 1º) não será sempre de penhora e avaliação .23 Notas sobre o art. 475-J do Código de Processo Civil Rogerio Bellentani Zavarize JUIZ DE DIREITO DO ESTADO DE SÃO PAULO SUMÁRIO: 1. Introdução . 23-34. foi promulgada a Lei nº 11.232/05.10. Momentos distintos para pagamento e para apresentação do demonstrativo pelo credor . Em sua ementa. A execução continua dependendo de requerimento .3. O arquivamento . que tratou da Reforma do Judiciário.2. 1. A multa só incide com o trânsito em julgado .2006 . ano 7. O termo inicial do prazo de quinze dias para incidência da multa . e com maior ênfase. O sujeito da intimação da penhora . já incorrendo Revista da Escola Paulista da Magistratura.9.

eis que. expedir-se-á mandado de penhora e avaliação. p. p. Caso o devedor. em síntese. ainda que se altere o nomen iuris. Tanto que o caput do art. o juiz. o montante da condenação será acrescido de multa no percentual de dez por cento e. A imprecisão terminológica já provocou reações de doutrina especializada. o cumprimento se faz “por execução. 2006. José Carlos. nº 41. podendo oferecer impugnação. por depender de conhecimentos especializados. para cumprimento da sentença. em seu requerimento. 23-34. pois não se pode aceitar a idéia do desaparecimento da execução do título judicial. § 3º O exeqüente poderá. ou pessoalmente. por mandado ou pelo correio. 475-J. e trouxe inovações no desenrolar inicial do procedimento. v. 1 BARBOSA MOREIRA. inciso II. ano 7. o seu representante legal. nosso estudo se focalizará no art.1 Sem pretensão de esgotamento. Revista da Escola Paulista da Magistratura. nomeará avaliador. assinando-lhe breve prazo para a entrega do laudo.24 ROGERIO BELLENTANI ZAVARIZE em certo equívoco. criou multa ao devedor que não cumprir sua obrigação. inserido pela nova lei. querendo. Revista IOB de Direito Civil e Processual Civil. dispõe que. tratando-se de obrigação por quantia certa. condenado ao pagamento de quantia certa ou já fixada em liquidação. de imediato. O texto literal do dispositivo em foco é assim redigido: “Art. no prazo de quinze dias.. 614. também acrescido pela lei.2006 . 53. “A nova definição de sentença”. considerando-se que continua a haver execução. sempre haverá execução. Tendo em vista as variadas opiniões até aqui colhidas com os colegas. § 2º Caso o oficial de justiça não possa proceder à avaliação. ou. a requerimento do credor e observado o disposto no art. nº 2. maio/jun. se a sentença proferida na ação cognitiva não for suficiente para prestar integralmente a tutela pleiteada. que. 236 e 237). 475-J. 7. buscando evitar divagações estéreis e tentando definir como se aplica na prática a nova sistemática. na falta deste. 475-I. na pessoa de seu advogado (arts. Porto Alegre: Síntese. indicar desde logo os bens a serem penhorados. nos termos dos demais artigos deste Capítulo”. ousamos apresentar sugestões para extrair o sentido da norma. desta Lei. julho/dezembro . § 1º Do auto de penhora e de avaliação será de imediato intimado o executado. não o efetue no prazo de quinze dias.

É vedada ao juiz a determinação. 614. o juiz mandará arquivar os autos. 23-34. II: Leis 11. desta lei. 475-J: “Caso o devedor. Tereza Arruda Alvim.2 Tal iniciativa não se confunde com a multa processual prevista no mesmo artigo. necessita apenas da ocorrência do trânsito em julgado e do decurso do prazo de quinze dias sem o pagamento para incidir. inciso II. somente com a iniciativa do credor é que será possível efetivamente incluí-la no cálculo para os atos executórios propriamente ditos. que. 11.187/2005. Portanto. que embora a penalidade se torne exigível apenas com o decurso do prazo. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil. § 5º Não sendo requerida a execução no prazo de seis meses.2006 . São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Óbvio.NOTAS SOBRE O ART. de atos de expropriação sobre o patrimônio do devedor. expedir-se-á mandado de penhora e avaliação”.232/2005. de natureza processual. 475-J DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 25 § 4º Efetuado o pagamento parcial no prazo previsto no caput deste artigo. nº 2. 146. contudo. p. ano 7. 475-J dispõe. de ofício. A multa só incide com o trânsito em julgado O dispositivo em exame trouxe novidade para incentivar o cumprimento voluntário da obrigação de pagar quantia certa. WAMBIER. que foi a instituição de uma multa. in verbis: “a requerimento do credor e observado o disposto no art. p.277/2006 e 11. A iniciativa do credor continua sendo necessária para que se inicie o procedimento executivo. sem prejuízo de seu desarquivamento a pedido da parte. José Miguel Garcia. e MEDINA. Dispõe a primeira parte do novo art.280/ 2006. 3. eis que permanece intacto o chamado princípio dispositivo. a multa de dez por cento incidirá sobre o restante. condenado ao pagamento de quantia certa ou já fixada em liquidação.” 2. não o efetue no prazo 2 WAMBIER.276/2006. independentemente de requerimento (maiores detalhes no próximo item). julho/dezembro . Luiz Rodrigues. 2006. para sua incidência. 11. 11. A execução continua dependendo de requerimento A segunda parte do caput do art.

sem a qual não é correto exigir a multa. com ressalva expressa de sua inaplicabilidade caso se trate de execução provisória. primeiramente. A terminologia empregada no texto do dispositivo (devedor condenado ao pagamento) impõe o trânsito em julgado para a certeza desta condenação. e da ampla defesa e contraditório. que a Constituição Federal é a primeira fonte do direito processual. 144. do trânsito em julgado. O termo inicial do prazo de quinze dias 4. quando da instituição da ação monitória. A garantia de 3 THEODORO JÚNIOR. As Novas Reformas do Código de Processo Civil. a interpretação parece relativamente simples. julho/dezembro . lembrando.” É uma medida que visa incentivar.102-C. nº 2. o montante da condenação será acrescido de multa no percentual de dez por cento. antes de se iniciar o procedimento executivo propriamente dito. O momento em que “a sentença se torna exeqüível” já foi referido como sendo premissa necessária para a incidência da multa. para a incidência da multa. o pagamento do débito.3 4. Até aqui. A interpretação da nova lei deve atentar aos princípios constitucionais do devido processo legal. Entendemos que há. para incidência da multa Fixamos o entendimento da necessidade de se operar o trânsito em julgado para a incidência da multa legal. uma vez transitada em julgado a sentença que impõe condenação ao pagamento de quantia certa. 2006. ou não. Humberto. sim. Revista da Escola Paulista da Magistratura. ano 7. necessidade de ocorrência deste momento. 1. de forma indireta. § 1°. Questiona-se sobre a necessidade. Mas. prevendo a lei que. p. se o mandado de pagamento ou de entrega de coisa for cumprido. 23-34. Medida desta espécie já havia sido introduzida em nosso ordenamento. Rio de Janeiro: Forense.26 ROGERIO BELLENTANI ZAVARIZE de quinze dias. p. o devedor ficará isento dos honorários advocatícios e das custas (art.2006 . o termo inicial para a contagem da quinzena correrá automaticamente do trânsito em julgado ou da ciência à parte que houve o trânsito em julgado? A resposta a tal indagação deve ser encontrada por meio de uma interpretação sistemática do ordenamento jurídico. do Código de Processo Civil).

Aricê Moacyr Amaral. 40. p.. rev. certamente existentes caso se entenda que o prazo se inicia no dia seguinte ao do efetivo trânsito em julgado. p. Humberto. concluir que o devedor deixou escoar o prazo para o cumprimento. 2000. Não 4 5 6 7 8 NÉRY JUNIOR... ano 7. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. Campinas. ARAGÃO. 242. de acordo com o art. Moacyr Amaral. o respeito ao direito de defesa e o contraditório são apontados como manifestações do due process of law. Por meio da intimação. 165. se procede à cientificação dos atos do processo. Iberê de Castro. que é fundamental ao processo moderno”. Rio de Janeiro: Forense. 2. 22ª ed. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. São Paulo: Saraiva. Campinas. José Frederico. vol. v. rev. 154-269. 2002. MARQUES. a garantia do jus actionis.5 E somente se dispensa a intimação caso haja inequívoca ciência da decisão judicial. referindo-se a uma intimação posterior à sentença: “Observe-se que. 23-34. SANTOS.NOTAS SOBRE O ART. rev. Nelson. surgem surpresas indevidas às partes..7 A intimação é um mecanismo necessário à progressão dos atos processuais e é “instrumento para dar efetividade ao sistema de preclusão. sem excluir o art. 240 do Código de Processo Civil. Rio de Janeiro: Forense. I. em especial. sem ela. segundo se infere do disposto no dispositivo legal. para que faça ou deixe de fazer alguma coisa”). DIAS. mas simplesmente para cumprir a obrigação. 475-J DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 27 igualdade das partes. Vol. a quem deva tomar conhecimento. p. 2001. II. 2005. THEODORO JÚNIOR. é correto que se dê ciência aos contendores (e. de forma a determinar o começo da fluência do prazo para determinado ato. SP: Millennium. vol. e atual. p. o executado não é intimado para pagar ou nomear bens à penhora. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 9ª ed. 187.4 Uma vez transitada em julgado a sentença condenatória. Há valiosos conceitos doutrinários que levam a tal interpretação. Curso de Direito Processual Civil. julho/dezembro . via de regra. 457. Processo Civil. 232.8 ficando claro que a intimação assegura à parte devedora a ciência sobre a ocorrência do fato gerador da incidência da multa (o trânsito em julgado). nº 2. ao devedor) desta definitividade. Egas Dirceu Moniz de. independentemente de nova ciência. e a partir desta ciência é que a multa se torna exigível. p. 1ª ed. e atual. e atual. 1998.2006 .6 já que. é a intimação que fixa o dies a quo dos prazos processuais. Comentários ao Código de Processo Civil. 6ª ed. II: Arts. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. ampl. 1999. por SANTOS. não sendo lícito. p. Instituições de Direito Processual Civil. II. SP: Millennium Editora.. p. que serve de intercâmbio processual. Observe-se que os dispositivos da nova execução devem ser interpretados em harmonia com o restante do Código de Processo Civil. Não sendo assim. vol. 234 (“Intimação é o ato pelo qual se dá ciência a alguém dos atos e termos do processo.

11. A multa não é cumulativa. não faz sentido imaginar que o devedor não o poderia. porque. à evidência.232/2005. 2006. Providencie a parte credora.28 ROGERIO BELLENTANI ZAVARIZE cumprindo a obrigação a que foi condenado. a requerimento do credor. não é de exigir que o credor apresente o demonstrativo e inicie a execução antes do decurso daquele prazo. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. nº 2. p. 11. Salvo.276/2006.280/ 2006.” 9 Uma idéia de decisão possível. ano 7. p. Portanto. 475-J do Código de Processo Civil. e se aplica uma só vez. 11. WAMBIER. se não houver pagamento no referido prazo. José Miguel Garcia. realizar-se-ão atos executivos de expropriação. observando-se os parágrafos do art. que. tradicionalmente. A multa não tem finalidade de evitar recursos O intuito do legislador. a fim de que se proceda à chamada execução indireta. é a seguinte: “Ciência à parte devedora que. 23-34. o montante da condenação será acrescido de multa de dez por cento. para apresentação do demonstrativo pelo credor A multa incide. no cumprimento. na oportunidade. Pretendendo se ver livre da obrigação. incidirá a multa e. a inércia do devedor. sem a incidência da multa. e MEDINA. Grifo nosso. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil. II: Leis 11.187/2005. se o próprio credor pode efetuar os cálculos. mesmo havendo cálculos a se efetivarem? É correto o raciocínio. 146. antes de o credor apresentar seu demonstrativo de cálculo. A medida nada tem a 9 WAMBIER. Luiz Rodrigues. ficava a esperar o movimento do procedimento às expensas únicas do credor. Revista da Escola Paulista da Magistratura. julho/dezembro . aqui. 6. se não efetuado o pagamento em quinze dias. Não se privilegia. a lei presume que o devedor saiba quanto deve.277/2006 e 11. Então. o cálculo do débito e demais providências necessárias ao início da fase executiva.2006 . expeça-se mandado de penhora e avaliação. Momentos distintos para pagamento e 5. se renunciar ao recebimento do valor correspondente. ao instituir a multa processual. foi o de incentivar a imediata quitação do débito.” 5. então. Tereza Arruda Alvim. é claro que deverá apresentar o valor e efetuar o pagamento.

nomeará avaliador. é condicionada à existência de conhecimentos suficientes do oficial de Justiça. como para alguns possa parecer. na forma da lei. Não se confunde com a acertada idéia da criação da sucumbência a cada provimento rejeitado.. por depender de conhecimentos especializados. sendo que o ato deve aperfeiçoar-se com a regular intimação do devedor. 2003. Técnicas de Aceleração do Processo. Já ouvimos comentários sobre a impossibilidade de iniciar a contagem do prazo para impugnação. eis que o dispositivo prevê a intimação também em relação à avaliação (“§ 1º. O dispositivo menciona auto de penhora e de avaliação. a previsão de que o oficial de Justiça efetuará penhora e avaliação. nem sempre reúne condições para o ato contínuo (a avaliação). julho/dezembro .)”). Fernando da Fonseca. o juiz. no que diz respeito ao segundo ato. O parágrafo seguinte permite melhor compreensão. com os chamados encargos processuais progressivos. Conclusão assim não deve prevalecer. eis que o oficial de Justiça. p. de imediato. Logo. 23-34. como se não fosse possível existir neste auto apenas a penhora. São Paulo: Lemos & Cruz. O auto (§ 1º) não será sempre de penhora e avaliação O § 1º do art. oportuno esclarecer melhor o assunto. 195. sempre competente para lavratura do auto de penhora. 475-J faz referência a dois atos. nº 2. já ouvimos comentários em tal sentido. Dispõe o § 2º: “Caso o oficial de justiça não possa proceder à avaliação. p.” Logo. 475-J DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 29 ver com a evitabilidade de recursos protelatórios.. como parte integrante de um mesmo auto (“Do auto de penhora e de avaliação (. Isto não implica impossibilidade de efetivação da penhora. A multa incide apenas uma vez.10 7. sem a avaliação. que desestimulam o desmedido emprego da jurisdição e incentivam a autocomposição. Do auto de penhora e de avaliação será de imediato 10 GAJARDONI. Revista da Escola Paulista da Magistratura. ano 7. para que a avaliação se faça com um mínimo de garantia. e não é progressiva. Embora a questão pareça bem clara. assinando-lhe breve prazo para a entrega do laudo.NOTAS SOBRE O ART.2006 .

no âmbito judicial e administrativo.”).) será de imediato intimado (. são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”). LXXVIII: “a todos. neste sentido. de posse do mandado. que se efetue a penhora. após a reforma do Judiciário. Revista da Escola Paulista da Magistratura. se retomaria o ato para intimação do executado. sem a avaliação. abrindo margem a inúmeras fraudes: o oficial de Justiça. A intimação será do auto (que pode não conter a avaliação). p. Nada impede. devolveria o auto para que o juiz nomeasse o avaliador. nº 2. e não complicá-lo ainda mais. querendo. efetuaria o auto de penhora. em vez de intimar o devedor. Logo. quando ocorrer a avaliação. e desde logo se proceda à intimação. ou. assim. iniciando-se. como já se viu. querendo. se assegurará o contraditório. o que se busca é agilizar o procedimento. provoque maior protelação. 23-34. então. 236 e 237). podendo oferecer impugnação. O texto legal. Quem opera com ações executivas sabe imaginar que. e. a essa altura. somente então se aperfeiçoando a penhora e iniciando-se o prazo de defesa. na pessoa de seu advogado (arts. neste caso. por mandado ou pelo correio. somente após. no prazo de quinze dias”).2006 . o prazo para o incidente de impugnação. 5°. a partir de então. ou se a avaliação é necessária para que se possa intimar o executado. E será dele a contagem do prazo para a impugnação. na falta deste. Posteriormente. e.... Entendimento contrário levaria a uma incongruente complicação na ordem dos atos. não será mais possível acolher modificação legislativa que ao invés de agilizar o processo. e não da penhora e da avaliação. Lembre-se que. sendo.30 ROGERIO BELLENTANI ZAVARIZE intimado o executado.) podendo oferecer impugnação. aquele auto de que trata o dispositivo poderá se resumir à penhora. permite que se desdobrem em dois momentos a penhora (efetivada conforme auto do oficial de Justiça) e a avaliação (efetivada por perito).. A norma legal menciona que do auto de penhora e de avaliação haverá a intimação. o seu representante legal. A interpretação que leve ao absurdo é vedada por princípios básicos de hermenêutica. porque é neste sentido a redação da lei (“Do auto de penhora e (. particularmente. ato contínuo. se o prazo se iniciará sem a avaliação. no prazo de quinze dias. julho/dezembro . e. ou pessoalmente. não se encontraria mais o objeto da penhora. em que se consagrou o princípio da celeridade processual (art. dando-se oportunidade ao devedor para se manifestar. consignando não ter conhecimento técnico para a avaliação. Indaga-se. ano 7.

23-34. ou. 2005. a avaliação) e não faria a intimação na pessoa do devedor. o seu representante legal. em face do princípio de orientação às normas infraconstitucionais. Dispõe o texto da norma que. se proceda à tentativa de intimação do executado na pessoa do seu advogado. na ausência do advogado. O sujeito da intimação da penhora Os últimos argumentos devem também ser considerados para resolução de um problema redacional do § 1º do art. 782. [et al. Não é crível aceitar uma interpretação desta natureza. julho/dezembro . porque se frustra. p. LXXVIII.2006 . se o próprio dispositivo prevê uma intimação “de imediato”. O dispositivo parece ter criado uma ordem de preferência para referida intimação. o devedor será intimado por seu representante ou pessoalmente. por mandado ou pelo correio”. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. nº 2. na pessoa de seu advogado (arts. ano 7. 236 e 237). Prevê a norma que. a respeito da intimação. do auto. eis que continua a prevalecer o disposto no art. 475-J. o dispositivo deve ser visto como permissivo de intimação do devedor. Reforma do Judiciário: Primeiros Ensaios Críticos Sobre a EC nº 45/2004. in WAMBIER. 475-J DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 31 considerada inconstitucional. Na realidade. observando-se os arts. “Celeridade Processual – A garantia constitucional pré-existente à EC 45 – alcance da ‘nova’ norma (art.NOTAS SOBRE O ART. coord. novamente. no ato da lavratura do auto de penhora. 236 e 237 do Código de Processo Civil. intimar-se-á o devedor para embargar a execução no prazo de dez dias. na pessoa do advogado. ou pessoalmente. A lograr êxito tal leitura.11 8. o texto parece exigir que. a tentativa de agilização do procedimento..]. o oficial de Justiça realizaria a penhora (e. Revista da Escola Paulista da Magistratura. primeiramente.” Agora. em se tratando de execução de título extrajudicial.. Com efeito. sem estabelecimento de ordem cronológica de preferência. da CF)”. a fim de que a serventia proceda sua juntada e posteriormente intime o executado. 669: “Feita a penhora. 5°. para devolver o mandado aos autos. na falta deste. nada há de razoável na interpretação que exija a obediência estrita àquela ordem. Teresa Arruda Alvim. 11 PALHARINI JR Sidney. p. eventualmente. será de imediato intimado “o executado. tanto na pessoa do advogado como pessoalmente. Ao contrário da possibilidade de intimação ao próprio devedor. expressamente referidos. que já está à sua frente.

03. pedindo a sua substituição ou o reforço de penhora.232/2005. na falta deste. artigo 655 — O credor.2005.12 E. no sentido de que a ordem ali estabelecida não é sempre absoluta e comporta relativização. A regra não revogou o art. afasta a incidência do art. Revista da Escola Paulista da Magistratura. nº 602. Luiz Rodrigues. ficando referida norma regulamentando exclusivamente a execução de título extrajudicial. na petição na qual o credor requeria o início da execução. A ordem de nomeação.32 ROGERIO BELLENTANI ZAVARIZE Entende-se que a nova lei autoriza a intimação do auto: (1) ao executado. se não for razoável a nomeação do credor13.Penhora . 147.. assim que encerrada a lavratura do auto. rel. REsp. WAMBIER. referida indicação. j. 475-J. A regra. caput. 236 e 237). 23-34. quando se tratar de execução de título judicial (“o devedor será citado para. sempre de acordo com a exigência do caso concreto. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. ou. José Miguel Garcia.CPC. ministra Eliana Calmon. 13 WAMBIER. antes mesmo da adoção da regra expressa. que desde logo o mandado de penhora e de avaliação também contenha a ordem para a imediata intimação do devedor. segundo indicação do devedor (“Incumbe ao devedor. Tereza Arruda Alvim. constante do artigo 655. I. e é possível que a nomeação feita por este último seja aceita. 9. indicar desde logo os bens a serem penhorados”. ao seu representante legal. 2006.Possibilidade de relativização da ordem de nomeação . 11. na pessoa de seu advogado (arts.280/ 2006. 12 “Execução .2005). por mandado ou pelo correio. CPC embora seja taxativa. ao fazer a nomeação de bens.Recusa pelo credor . 652. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil.382. DJ 09. no prazo de vinte e quatro (24) horas. que dispõe sobre a ordem de preferência dos bens penhorados. (2) ou pessoalmente. portanto. Já era comum. observar a seguinte ordem:”).276/2006. ano 7. p. nº 2. em se tratando de petição inicial em execução de título extrajudicial. julho/dezembro . MG. 11. Também é comum. 2ª T. 655 do Código de Processo Civil.187/2005. 11. “o exeqüente poderá. e tão pouco modifica a interpretação já bem assentada de tal norma. poderá haver indicação de bens diversos por parte do credor e do devedor. pagar ou nomear bens à penhora”). agora expressa. e MEDINA. Nada obsta. poderá vir a recusá-lo. p. O requerimento ali mencionado é aquele formulado para o início da fase executiva e algum outro. com efeito.2006 . eventualmente formulado em qualquer fase do processo. dispensa por parte do intérprete maior flexibilidade para se adaptar às circunstâncias fáticas” (STJ. após aceitar a oferta do bem dado em garantia. A indicação de bens pelo credor Conforme dispõe o § 3º do art.277/2006 e 11.05. em seu requerimento. 22. II: Leis 11.

DIAS. II: Arts. ante à notória falta de espaço de nossos ofícios judiciais. neste período. São Paulo: Lemos & Cruz.NOTAS SOBRE O ART. ano 7. 1999. maio/jun. 475-J DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 33 10.. no caso de ausência de requerimento do credor. Assim deve ocorrer quando se verifica inércia do credor após o início da fase executiva. 1998. à evidência. poderá ocorrer o início da fase executiva. sem prejuízo de seu desarquivamento a pedido da parte”. Porto Alegre: Síntese. antes do arquivamento — seis meses — é exagerado. 23-34. 7. caso o credor não o faça logo após o trânsito em julgado. Revista IOB de Direito Civil e Processual Civil. 11. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. . vol. rev. como um mês. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Campinas. 154-269. II.GAJARDONI. 2006. Campinas. v.MARQUES. José Carlos. julho/dezembro . 2. vol. Fernando da Fonseca. os autos ficarão em cartório. v.. . Instituições de Direito Processual Civil. Nelson. 9ª ed.BARBOSA MOREIRA. . e atual.. 2003. nº 2. Seria oportuno que se aguardasse por um prazo menor. mas. Bibliografia . rev. Iberê de Castro. Técnicas de Aceleração do Processo. SP: Millennium.. José Frederico. Egas Dirceu Moniz de. p. ampl.NÉRY JUNIOR. “A nova definição de sentença”. A qualquer tempo. nos termos do § 5º do artigo em exame: “Não sendo requerida a execução no prazo de seis meses. como o depósito de honorários de perito avaliador ou qualquer outra causa que impeça o regular andamento do feito e que não seja causa de extinção. Comentários ao Código de Processo Civil. 1ª ed. o juiz mandará arquivar os autos.. prejudicando o manuseio de outros autos. respeitado o prazo prescricional respectivo. pois.. SP: Millennium Editora. O arquivamento Foi institucionalizada a hipótese de arquivamento dos autos. 2005. em se tratando de providências que ele deve cumprir. por aplicação analógica da norma. Processo Civil. . 6ª ed.2006 . portanto. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. O prazo previsto para que se aguardem as providências do credor. 2000. se não houver interesse na execução. Há uma hipótese em que deve ser admitido o arquivamento provisório dos autos. nº 41. e atual.ARAGÃO. . Rio de Janeiro: Forense.

Sidney. Rio de Janeiro: Forense. ano 7. e MEDINA. Curso de Direito Processual Civil. in WAMBIER. 11. vol.THEODORO JÚNIOR. WAMBIER. 2005.————. da CF)”.WAMBIER. julho/dezembro . . 11. São Paulo: Saraiva.280/2006. 2006. Aricê Moacyr Amaral. rev. Luiz Rodrigues.34 ROGERIO BELLENTANI ZAVARIZE . São Paulo: Editora Revista dos Tribunais.SANTOS.. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. 11. Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais.277/2006 e 11. José Miguel Garcia. Moacyr Amaral.. 2002. 23-34. Reforma do Judiciário: Primeiros Ensaios Críticos Sobre a EC nº 45/2004. I. Teresa Arruda Alvim.2006 . . [et al. 22ª ed. 2006. e atual. Tereza Arruda Alvim. 5°.]. .232/2005. “Celeridade processual – A garantia constitucional pré-existente à EC 45 – alcance da ‘nova’ norma (art. II. . As Novas Reformas do Código de Processo Civil. II: Leis 11. Revista da Escola Paulista da Magistratura. por SANTOS. coord.187/2005. LXXVIII. Humberto. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil.276/2006. nº 2. p. 2001.PALHARINI JR. vol.

3. p. a vedação de progressão de regime prisional dos crimes hediondos. Bibliografia RESUMO: Análise crítico-jurídica acerca da decisão do Supremo Tribunal Federal em que o Pleno. julgou inconstitucional.2.2006 . Intróito . 35-45. levaram a sociedade a um grau de inquietação e insegurança que. ano 7.072/90 .4.2006.35 A declaração de inconstitucionalidade pelo STF da progressão de regime prisional previsto na Lei dos Crimes Hediondos: reflexos da prevalência da dogmática constitucional-penal do Estado Democrático de Direito Mirian Cristina Generoso Ribeiro Crispin ASSISTENTE JURÍDICO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO E PROFESSORA DE DIREITO SUMÁRIO: 1. prevista na Lei nº 8. julho/dezembro . A histórica decisão do STF pela inconstitucionalidade da vedação de progressão de regime. Intróito O s sucessivos registros dos índices que noticiam o aumento da violência urbana.02. 1. reunido no dia 23. nº 2. notadamente no fim da década de 80. acompanhado do Revista da Escola Paulista da Magistratura. Sinopse conclusiva . por seis votos contra cinco.

ano 7.072. de 25. Revista da Escola Paulista da Magistratura.603. Neste diapasão. como dizem alguns. por óbvio. o Movimento da Lei e da Ordem ganhou adeptos. quando provocado para dizer sobre a harmonização e conseqüente inconstitucionalidade da lex ferenda. Tecidas essas considerações prefaciais. por seis votos contra cinco. na figura dos governantes. oportunidade em que. em 23. que seria mais longa e severa. não se harmoniza com criminalidade. ficaram vencidos os ministros Marco Aurélio e Sepúlveda Pertence. uma pena-castigo. do Plenário do Supremo Tribunal Federal a concessão da ordem de Habeas Corpus. usadas como escudo para imputar nos espíritos dos criminosos. na parte relativa à proibição de progressão de regime. doutrinários e jurisprudenciais.1990. 35-45. p. desenhando-se. no julgamento do Habeas Corpus nº 69. mesmo após quinze anos de sua edição. A questão. O período em testilha foi marcado por grandes movimentos políticos que desaguaram no direito penal e serviram de trampolim para a edição de muitas leis penais. uma atitude que lhe trouxesse uma “pseudo” tranqüilidade que. inflacionando-os. impulsionando o surgimento da necessidade da criação de novos tipos penais. julho/dezembro . nunca deixou de ser fruto de incansáveis debates sociais.02.07. nº 2. A sociedade buscava. e tantas outras que a ela se seguiram. argüindo a inconstitucionalidade da Lei nº 8. intitulada Lei dos Crimes Hediondos. a exemplo da Lei nº 8.2006 . voltou ao plenário do Supremo. cerceando dos condenados benefícios objetivos e subjetivos.072. um “estereótipo criminal”. preso em São Paulo e condenado pela prática do crime hediondo de atentado violento ao pudor. na medida em que se colocou a violência como responsável por todas as mazelas de ordem social.36 MIRIAN CRISTINA GENEROSO RIBEIRO CRISPIN papel que a mídia desempenhou.1990. O Supremo Tribunal Federal. emoldurado restou o momento político-social que deu azo à Lei dos Crimes Hediondos. em 1992. ele obteve. em razão de Habeas Corpus (HC nº 82.2006.959) em que o paciente. serviu como pano de fundo para que se chegasse à política legislativo-penal hoje alcançada em relação a determinados tipos de condutas ilícitas. ainda que putativamente. 5º da Constituição Federal. pediu a progressão de regime. de 25. acadêmicos. conquanto nesse lapso temporal tenha sempre estado presente na Suprema Corte brasileira. por assim ser. neste contexto. sob o manto de que pelo poder constituinte originário foi outorgada ao poder legislativo ordinário irrestrita liberdade para disciplinar a individualização da pena prevista no inciso XLVI.07. do art. inclinou-se por sua constitucionalidade. que.

da lavra do ministro Carlos Ayres Britto. Contra a progressão. p. Gilmar Mendes. do art. Tenha-se presente que os princípios constitucionais e. a demonstração de que não se combate o crime legislando.072/90. 2. ano 7. incriminando condutas e endurecendo penas. com fins. prevista na Lei nº 8. são estas normas que fixam os princípios basilares para quaisquer outras normas jurídicas. aprioristicamente. além de Ellen Gracie.. vedação de progressão de regime. Eros Grau e Sepúlveda Pertence. repousam no fato de que a dogmática penal do fragmento declarado inconstitucional.072/90 As vigas mestras do voto vencedor. versado no § 1º. Revista da Escola Paulista da Magistratura. não se permitindo. Remonta a Kelsen a idéia de que o Direito constitui um todo dentro do sistema das normas jurídicas. dando origem à hierarquia das normas jurídicas. denota-se que o silogismo lógico e a construção mental que se formaram para que o relator proferisse seu voto. Dessa forma. nº 2. devem ser observados por qualquer diploma legal dentro de um Estado Democrático de Direito. A histórica decisão do STF pela inconstitucionalidade da 2. 2º da Lei nº 8.2006 . os concernentes ao direito penal. Na esfera constitucional. Celso de Mello e Nelson Jobim). Joaquim Barbosa. mormente as afetas à principiologia do Direito Penal. de somente satisfazer a prevenção geral. previsto na Lei nº 8.A DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE PELO STF DA PROGRESSÃO DE REGIME PRISIONAL. A perfunctória análise do julgado em comento reclama o sublinhar do que ficou evidenciado nesses quinze anos em que se teve como constitucional a vedação da progressão de regime da Lei nº 8. ou seja. in casu. que são colocadas em posição de subordinação e de coordenação. julho/dezembro . dentro do sistema legal brasileiro. estava desconforme com aquelas arraigadas na ciência penal. assim como os demais ministros que a ele anuíram.. já que a Lei dos Crimes Hediondos enfraqueceu princípios garantistas.072/90 (os ministros que votaram pela inconstitucionalidade da regra foram: Marco Aurélio.072/90. foram edificadas na garantia constitucional da dignidade do ser humano e na necessidade de reabilitação social do preso condenado pela prática de crime hediondo. 37 diante de a maioria dos ministros terem julgado inconstitucional o regime integralmente fechado. votaram Carlos Velloso. 35-45. Carlos Ayres Britto. Cezar Peluso. sequer o efeito de minimizar a importância das normas ditadas pela Carta Maior.

sua não-dessocialização por completo. garantistas. para a discussão que o tema embute (inciso XLVI. assim como a política criminal que foi desenhada pelo legislador constituinte. possibilitando sua integração social ou. com a obra do Marquês de Beccaria e de Feuerbach. ano 7. b) de caráter perpétuo.2006 . as fases de individualização da pena e os mandamentos constitucionais. b) perda de bens. Os princípios constitucionais-penais são. c) multa. O humanitário segue o caminho trilhado na Carta das Nações Unidas. entre outras. Pacto Revista da Escola Paulista da Magistratura. a individualização da pena diz respeito às modificações que podem advir durante seu cumprimento.”). Os princípios já descritos relativos à pena somam-se a outros que também ganharam status constitucional.” A individualização da pena deve ser técnica e científica. A Carta da República preocupou-se em assegurar a todos os indivíduos os direitos fundamentais como invioláveis e indisponíveis. Declaração Universal dos Direitos do Homem. Dentre tantos princípios constitucionais-penais que poderiam ser emoldurados.38 MIRIAN CRISTINA GENEROSO RIBEIRO CRISPIN A garantia do direito de liberdade encontra guarida. de modo que todo o processo de individualização da pena deve ser pautado por essas normas. desde muito. o que representa. d) de banimento. num outro falar. mais propriamente. de tal sorte que. XIX. O inciso XLVII acrescenta: “Não haverá penas: a) de morte. nº 2. d) prestação social alternativa. é o que acaba dando maior sustentáculo jurídico. do artigo 5º. por abraçar os princípios da personalidade e da proporcionalidade. no âmbito da execução penal. julho/dezembro . o da individualização da pena. no princípio da reserva legal. salvo em caso de guerra declarada. 84. tem-se que está ela estritamente ligada aos princípios e garantias constitucionais. como forma de tradução das garantias do Estado Democrático de Direito. sem desprestígio da necessária interpretação sistêmica. Focando o Direito Penal e. e) suspensão ou interdição de direitos. 35-45. p. por excelência. Este princípio teve seu ápice enquanto acepção política durante o Iluminismo. entende-se que. para a análise do decisum do Supremo Tribunal Federal. a garantia da dignidade da pessoa humana. c) de trabalhos forçados. e) cruéis. dando a cada preso as oportunidades a que tem direito como ser individual. no mínimo. da Constituição da República: “A lei regulará a individualização da pena e adotará. como o princípio humanitário e o do interesse público. as seguintes: a) privação ou restrição de liberdade. nos termos do art.

. desenvolvimento. estampada no inciso III. ainda. 101). como valores supremos de uma sociedade fraterna. o sentimento de vingança da vítima deu lugar ao interesse público. cit. Declaração Americana sobre Direitos Humanos entre outras.A DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE PELO STF DA PROGRESSÃO DE REGIME PRISIONAL. p. 35-45.2006 . Do contrário. restando bem sintetizado seu pensamento quando preleciona: “Essa postura. unida aos fins atribuídos à pena no Estado de direito. Prossegue a ilustre procuradora de Estado em destaque discorrendo que toda a problemática da política criminal de um Estado se subsume à Constituição Federal. ilegítima Revista da Escola Paulista da Magistratura. igualdade e a justiça. leva à evidente conclusão de que na medida da pena só podem ser consideradas razões de prevenção quando constituírem meio de proteção subsidiária de bens jurídicos. O princípio do interesse público foi conferido à pena tendo em vista o significado que esta tem dentro do âmbito do Direito Público. sua medida. que o aferimento e a quantificação da culpa exteriorizada é que é o cerne da individualização da pena no processo de conhecimento. há que ser valorada de acordo com a culpabilidade aferida na conduta do réu. dos valores constantes no Preâmbulo Constitucional. sem que seja afetado o patrimônio moral do condenado. ano 7. Assevera que a pena. A partir do momento em que o Estado passou a deter o monopólio do direito de punir o delinqüente. 39 Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. julho/dezembro . Carta da Organização dos Estados Americanos.. p. liberdade. 23). legal e útil à sociedade. esta não poderá desvincular-se do princípio humanitário. São Paulo: Revista dos Tribunais. segurança. não se divorciando. com Carmen Silvia de Moraes Barros (A Individualização da Pena na Execução Penal. Essa é a sua finalidade. quais sejam: exercício dos direitos sociais e individuais.. de modo que os ordenamentos penais devem estar circunscritos dentro do quadro de valores nela inseridos. demonstrando-se em perfeita harmonia com a dignidade da pessoa humana. conclui-se. É a pena a resposta jurídica a uma conduta delituosa. bemestar.).. a busca se dá para o precípuo fim de efetivar a mínima dessocialização possível. 2001. p. Conquanto tenha a Constituição remetido a fixação das penas à legislação ordinária. nº 2. proteção contra penas desmesuradas. proteção contra a violência da sociedade e do poder punitivo estatal e proteção contra o efeito dessocializador da pena. no processo de execução. Nesse passo.. (. a pena somente deve ser aplicada quando for legítima. ao passo que.” (ob. Por assim ser. vedadas que estão quaisquer penas que afetem a dignidade do homem. artigo 1º da Carta Política. pluralista e sem preconceitos.

o princípio da proporcionalidade stricto sensu. 2ª ed. a proporcionalidade. portanto. pelo Plenário da Corte Constitucional brasileira. cuja passagem se mostra importante registrar: “O interesse geral não se funda apenas em que sejam praticados poucos crimes. Eis aí a importância do julgamento do STF ao considerar inconstitucional a proibição de progressão de regime tal como estampada na Lei dos Crimes Hediondos. Beccaria. haver proporção entre os crimes e os castigos. nº 2. qual seja. Os meios de que se utiliza a legislação para obstar os crimes devem. Neste diapasão. Com a direção agora adotada pela jurisprudência firmada. julho/dezembro . porém ainda que os crimes mais prejudiciais à sociedade sejam o menos comuns. seria necessário buscar e estabelecer uma progressão de penas que corresponda à progressão dos delitos.2006 . Este foi também erigido sob a forma de princípio constitucional. complementando os princípios da adequação e da necessidade. em sua histórica obra Dos Delitos e das Penas. em sentido estrito.. um juízo de adequação e necessidade não é suficiente para determinar a justiça da medida restritiva adotada em uma determinada situação. Brasília: Brasília Jurídica. convém trazer à baila o pensamento de Suzana de Toledo Barros (O Princípio da Proporcionalidade e o Controle de Constitucionalidade das Leis Restritivas de Direitos Fundamentais. acrescentando que também o princípio da proporcionalidade. ano 7. alude à proporcionalidade na ordem punitiva. Assim. precisamente porque dela pode resultar uma sobrecarga ao atingido que não se compadece com a idéia de justa medida. Se os cálculos exatos pudessem ser aplicados a todas as combinações obscuras que levam os homens a agir. O quadro dessas Revista da Escola Paulista da Magistratura. ser mais fortes à proporção que o crime é mais contrário ao bem público e pode tornar-se mais freqüente. Deve. clarificada fica a idéia de que o aplicador da pena não estará colidindo-se com uma das idéias jurídicas fundantes da atual Carta da República.40 MIRIAN CRISTINA GENEROSO RIBEIRO CRISPIN seria a lei penal na exata medida em que se confronta com os princípios constitucionais. objetivando a respectiva proteção de direitos fundamentais sob a roupagem de garantia especial... portanto. é de suma importância para indicar se o meio utilizado encontra-se em razoável proporção com o fim perseguido. 2000) sobre o princípio da proporcionalidade: “Muitas vezes. p. 35-45. sofre arranhões de toda ordem quando a aplicação da pena é utilizada para prestar-se como modelo a ser seguido pela sociedade e como forma de prevenção geral às eventuais e futuras condutas delitivas. A idéia de equilíbrio entre valores e bens é exalçada”.

um clima de insegurança que impulsiona a massificação da ideologia da repressão. é mundial o aumento da criminalidade. desde a guerra do Vietnã. 35-45. a política criminal seguida pelos Estados Unidos. a título de exemplo. o que culmina por provocar na população. quer do ponto de vista aparente. com o respeito à dignidade da pessoa humana.2006 . julho/dezembro . o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins. Bastará. foi o Movimento da Lei e da Ordem — “Law and Order”. 3. com a restrição. com a elevação das penas e a supressão do sistema de Revista da Escola Paulista da Magistratura. 41 duas progressões seria a medida da liberdade ou da escravidão da humanidade ou da maldade de cada país (. o terrorismo e os definidos como crimes hediondos”). assim como a Lei de Segurança e Liberdade da França. representa uma verdadeira ruptura com toda a sistemática penal e processual penal que o Brasil vinha adotando. significativo de uma resposta dura ao fenômeno da criminalidade e seus registros históricos. pois. em termos de política criminal. ano 7.. O supedâneo no qual se baseou o legislador constituinte. podendo ser citado. como forma de melhor arrematar a importância jurídico-constitucional que tem o Habeas Corpus que afastou a constitucionalidade da vedação de progressão de regime para os praticantes de crimes definidos como hediondos. Sinopse conclusiva A Lei dos Crimes Hediondos. nº 2. direitos e garantias fundamentais do cidadão declinadas pelo legislador constituinte originário (“considerará inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura. com a individualização da pena e com a figura da culpabilidade. fundada no regime punitivo-retributivo e estão presentes na quase totalidade dos países. com a intervenção mínima. de 2 de fevereiro de 1981.. quer do ponto de vista real. Focando-se na natureza jurídica da Lei dos Crimes Hediondos. sistematicamente analisada. momento em que mais claramente foram emoldurados os compromissos com o Estado Democrático de Direito.. que o legislador sábio estabeleça divisões principais na distribuição das penalidades proporcionadas aos crimes e que.).A DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE PELO STF DA PROGRESSÃO DE REGIME PRISIONAL. importa reavivar que sua nascente foi a previsão contida no inciso XLVII do artigo 5º da Constituição Federal. notadamente após a reforma penal. não aplique os menores castigos aos maiores delitos”. em face da propaganda que se faz. especialmente. acenando para o fato de que. p.. Buscou-se.

até mesmo porque nunca se teve um sistema legislativo com tantos comandos. A experiência que pode ser trazida de países que conseguiram. nada traz de novo. que. hipótese esta que não vem sendo observada no Estado brasileiro. os fatos e os números estatísticos depõem contra a eficácia da Lei dos Crimes Hediondos. É sabido que. demonstra um elevado índice de reincidência. utilizada. dar uma rápida resposta aos anseios da sociedade. o que contribui para demonstrar. Dizer que. até mesmo porque os ensinamentos de Beccaria já canalizavam para esta conclusão: inobservância da lei. relativamente à teoria da pena. e sim a certeza de seu cumprimento. apenas servindo para nele reforçar os valores ético-morais. com êxito. Esta é. nº 2. se não foram decisivos. arcabouço que se mostra totalmente incompatível com a exegese da Lei dos Crimes Hediondos.2006 . 35-45. buscava. nesses quinze anos de vigência da Lei dos Crimes Hediondos. ano 7. Todavia. que o sistema penitenciário tradicional não tem o condão de reabilitar o delinqüente. a política adotada por Nova Iorque para implementação do programa de “tolerância zero”. a qualquer custo. A fórmula.42 MIRIAN CRISTINA GENEROSO RIBEIRO CRISPIN progressão do regime prisional. o restabelecimento da lei e da ordem. aliás. que a Lei dos Crimes Hediondos nada mais representa Revista da Escola Paulista da Magistratura. falta de sua aplicação e falta de rigor no cumprimento das penas que já existem. pois. O sistema prisional. apenas e tão-somente. p. O que influi de maneira positiva para diminuir a criminalidade não é a pena. perplexa frente à crescente onda de criminalidade. que não se coaduna com violência e criminalidade. falido tal como se encontra nos dias atuais. julho/dezembro . que. Conclui-se. pois a grande problemática da criminalidade e da violência brasileira não está circunscrita à ausência ou defeito da lei. se contabilizaram índices demonstrativos de inibição da violência seria a negação do óbvio. como uma necessidade estatal em adoção de uma política repressiva. gravita a idéia de que ela não atua afastando os homens do delito. antijurídico e culpável praticado. antiga tal como é. se não combater. contribuíram fortemente para tal resultado do fato típico. de maneira inquestionável. ao menos reduzir bastante as taxas de criminalidade está baseada na velha fórmula: rigor no cumprimento das leis já existentes.

Tanto parece razoável assim pensar. quase sempre. Visto que todo regime penitenciário de cumprimento da sanção penal deve operar como verdadeiro espelho de cristal..” Revista da Escola Paulista da Magistratura. E se digo ‘seqüenciar’. que atinge as raias da ofensa à dignidade da pessoa humana.) 9.A DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE PELO STF DA PROGRESSÃO DE REGIME PRISIONAL. A conclusão lógica a que se chega é que não se combate o crime legislando. sobretudo em razão das condições do ambiente carcerário.) 6. além da desumanização existente. é pelo fato de que tal garantia não se exaure com a sua primeira e necessária aplicação. julho/dezembro . já havia determinado que ‘ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante’ (inciso III). É neste ponto que o regime das execuções penais. tanto o princípio da dignidade da pessoa humana e a garantia da individualização da pena dão mostras de continuar na escolta do encarcerado que a Constituição mesma determina que ‘a pena será cumprida em estabelecimentos distintos. assim entendido como meio estigmatizante e segregador e. Sem deixar de imediatamente complementar essa proteção individual com a regra de que ‘é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral’ (inciso XLIX). tem que seqüenciar a conhecida garantia da individualização da pena. que é o momento sentencial da dosimetria da reprimenda que venha a ser imposta ao sujeito condenado em ação penal.. 35-45.. (.. p. 10.. antes. Por este ângulo de visada. ano 7. encarcerado) temperamento e caráter. o personalizado modo como o prisioneiro passa a responder às normas intramuros que lhe são impostas. então. Raciocínio — ainda uma vez enfatize-se — extraído do ineliminável caráter educativo da pena. a refletir. anti-social. nº 2. elevando penas e criminalizando novas condutas. Com a redução do seu potencial de periculosidade. de acordo com a natureza do delito. sem distorção.. 43 do que uma lei que optou por não valorar dogmas constitucionais-penais.2006 . 5º). motivos pelos quais devem ser ovacionadas as conclusões exteriorizadas pelo ministro Carlos Ayres quando consignou ao proclamar seu voto no Habeas Corpus em comento: “(. tudo sugere ter-se por inconstitucional um regime carcerário que não reduza o seu teor de severidade à medida que o prisioneiro vá respondendo às normas de disciplina interna com a melhoria do seu próprio (dele. a idade e o sexo do apenado’ (inciso XLVIII do art. traduzido no empenho estatal e do próprio condenado para que o regime prisional não deixe de cumprir esta função que é própria de toda penitência: franquear ao penitente a possibilidade de fazer do modus operandi da reprimenda que lhe é infligida uma oportunidade de superação do animus delinquendi a que não resistiu quando do cometimento do crime pelo qual veio a ser definitivamente condenado. por fatores das mais diversas vertentes. mas que não conseguiu atingir o fim perseguido. para permanecer fiel àquela inspiração constitucional da dignidade da pessoa humana. sob o pretexto de estancar uma anomalia social. quando.

6ª ed. . revista e atualizada. “O regime progressivo em face das leis nº 8072/90 e 9455/97”. Sociedade e Estado”. “Violência e Crime. nº 16. Dos delitos e das Penas.CINTRA JÚNIOR. 5ª ed. .2006 . Damásio Evangelista. Alberto Silva. Tradução de Raquel Ramalhete. “O regime progressivo em face das leis nº 8072/90 e 9455/97”. São Paulo. . 1987.DELMANTO. e ampl. Petrópolis: Vozes.. 1990.COSTA JÚNIOR. “O judiciário brasileiro em face dos direitos humanos”. Internet: http://www. set. ver. nº 2. 1. Boletim IBCCRIM. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 2. 2000. 04. 35-45. . São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Cesare Bonesana. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. atual. Bibliografia .072/90. Dyrceu de Aguiar Dias.————.44 MIRIAN CRISTINA GENEROSO RIBEIRO CRISPIN 4. 2000. rev. 1997. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. COSTA JR...————. 8... São Paulo. . 1990. Manual de Direito Penal: Parte Geral. 3ª ed.————. Tradução Lucia Guidicini.. Brasília: Brasília Jurídica. p. Revista Justiça e Democracia nº 2. Alessandro Berti Contessa. 2000. Paulo José. Carmen Silvia de Moraes. 2.FRANCO. Código Penal Comentado.ibccrim. Cezar Roberto. 1997 (clássicos). .CERNICHIARO. Edição Especial.AMARAL. nº 58. Alberto Silva. A Individualização da Pena na Execução Penal. Luiz Otavio de O. Falência da Pena de Prisão . Al]. nº 58. 2ª ed.Causas e Alternativas.04. p. . São Paulo: Saraiva. 1995. “Crimes hediondos: uma alteração inútil”. . .FRANCO. Cezar Roberto. .BITENCOURT.FOUCAULT. set. . São Paulo: Editora RT. . . Celso. 5ª ed. p. julho/dezembro . Revista da Escola Paulista da Magistratura. p. 288 (do original em francês: Surveiller et Punir). . Rio de Janeiro: Renovar. Crimes Hediondos: Anotações Sistemáticas à Lei 8. Edição Especial.. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. O Princípio da Proporcionalidade e o Controle de Constitucionalidade das Leis Restritivas de Direitos Fundamentais. Luiz Vicente. ampl. São Paulo: Saraiva. [et. São Paulo: Saraiva. [et. 2000. vol. e atual. 4ª ed. atual.BARROS.BECCARIA. Comentários ao Código Penal.br. e ampl. Boletim IBCCRIM. . p. Direito Penal na Constituição. 1987. Al]. Maio 1994. e ampl. Paulo José. . São Paulo: Martins Fontes.. 1997. 2001.BARROS. São Paulo.JESUS. Boletim IBCCRIM.org. Michel. 1993. Código Penal e sua Interpretação Jurisprudencial.2002. ano 7..————. São Paulo: Associação de Juízes para a Democracia. Suzana de Toledo. Código Penal Anotado.

julho/dezembro .LUISI.MORAES. Boletim IBCCRIM. “Princípio da Legalidade”. . . Alberto Zacarias. 2001. p. . revista. “A inconstitucionalidade do regime integral fechado à luz do princípio da igualdade”. 2002. José Carlos Gobbis. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 16. São Paulo. “O princípio da legalidade no moderno Direito Penal”.. Alexandre. p. José Afonso da.TORON. Antonio Lopes.SANTOS. .12. ano 7. São Paulo: Malheiros Editores. Fábio Henrique Prado de. nº 48. . 7-8. 31ª edição. Sérgio Mazina. 7.2006 .T. Boletim de Informações Técnico-Jurídicas. São Paulo: Saraiva. . 1995. 5ª ed.jul/set. Direito Penal Moderno: Parte Geral. Elementos de Direito Constitucional. 1. 1999. p. Boletim IBCCRIM. revista e atualizada por Adalberto José Q. Crimes Hediondos. 35-45. 1996. de Camargo Aranha. José Amado. Curso de Direito Constitucional Positivo. 2001. 45 . de 14. .MORAES. Paulo. 6ª ed. 6º ed.MONTEIRO. Michel. Magalhães. “Dos crimes hediondos aos crimes de especial gravidade”.MARTINS.. Walter Pinto. MILANI.NORONHA.PAGLIUCA. SMANIO. 17ª ed. . Boletim IBCCRIM. 1997. Direito Constitucional. 1996.. ampliada e atualizada com a EC 22/99.JURICIC. São Paulo: Saraiva. Legislação Penal Especial. Porto Alegre. Marcelo de Camargo.NASCIMENTO. 1995. São Paulo: Atlas.TEMER. Lycurgo de Castro. julho/ agosto 1998. 15 . set. “Aspectos jurisdicionais da progressão de regime prisional”. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. Alexandre de. revista e atualizada nos termos da Reforma Constitucional até a Emenda Constitucional nº 31. São Paulo: Atlas. Revista da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul. Luiz. São Paulo: Malheiros Editores. FONSECA FILHO. . São Paulo. nº 2. nº 60. São Paulo. nov. E. . nº 33. O Crime de Tortura. Direito Penal. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. . Ministério Público do Estado de Sergipe. julho-1999. . Revista Brasileira de Ciências Criminais. pp.A DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE PELO STF DA PROGRESSÃO DE REGIME PRISIONAL. nov. 1999. “Um novo conceito de legalidade penal”. v. 19ª ed.2000.TOLEDO. vol. 2002 (Coleção Temas Jurídicos). . Gianpaolo Poggio. revista e atualizada.SILVA. 1999.

46 .

III. Bibliografia. julho/dezembro .V. Requisito de validade: o princípio da razoabilidade — em especial.I. Definição do conceito .VI. ano 7.VIII.II. A necessidade de autorização expressa em lei ou de uma situação de urgência na qual não haja tempo hábil para buscar uma tutela jurisdicional . 2. O fundamento jurídico da auto-executoriedade: o princípio da legalidade .V.VII. a relação com os outros atributos e o conceito de auto-executoriedade . Atos que comportam a auto-executoriedade . nº 2.47 A auto-executoriedade do ato administrativo: condições de existência. requisito de validade e outros aspectos Luis Manuel Fonseca Pires JUIZ DE DIREITO DO ESTADO DE SÃO PAULO E PROFESSOR DE DIREITO SUMÁRIO: Introdução: importância do tema.V. Proteção dos administrados . a necessidade da auto-executoriedade . Revista da Escola Paulista da Magistratura. A autoexecutoriedade “imprópria” . p. A auto-executoriedade e os atos inválidos . 47-69. Condições de existência da auto-executoriedade .IV.2006 . 1.

em relação aos seus destinatários. enquanto a Administração reclama 1 Celso Antonio Bandeira de Mello. com significados diferentes. nº 2. 47-69. 384. Revista da Escola Paulista da Magistratura. define-se como “(. sem dúvida. utilizar meios indiretos de cobrança de suas pretensões.1 I. o de mais pungente atuação em relação à órbita de direitos dos administrados. enquanto. Curso de Direito Administrativo. os administrados.48 LUIS MANUEL FONSECA PIRES Introdução: importância do tema. julho/dezembro .) a qualidade pela qual o Poder Público pode compelir ‘materialmente’ o administrado. de apenas agir com legitimidade se o ato auto-executório for praticado em conformidade com o ordenamento jurídico. este atributo continua (mesmo quando se age com legitimidade) sendo uma medida invasiva. Definição do conceito O ato administrativo que contém este atributo — e veremos oportunamente quais os atos que gozam deste privilégio — faculta à Administração Pública constranger. o atributo da tipicidade conceitua-se como a correspondência que o ato deve observar em relação ao seu tipo hipoteticamente definido em lei. p. Em exemplos arquitetados pelo mestre Celso Antonio Bandeira de Mello.2006 . a relação com os outros Introdução: atributos e o conceito de auto-executoriedade D e todos os atributos do ato administrativo o da auto-executoriedade é. ou se abster de praticar. sem antes obter do Poder Judiciário qualquer título. Assim o é porque. à revelia da aquiescência do administrado. enfim. sem precisar de buscar previamente as vias judiciais. por sua vez. coagir o administrado a fisicamente realizar. p. ao cumprimento da obrigação”. ano 7. impelir. esses atributos. representam efeitos de uma relação entre o Poder Público e o administrado sem a interferência material no seu âmbito de direitos. o atributo da auto-executoriedade. enquanto o atributo da presunção de legitimidade e veracidade significa que os atos administrativos se presumem de acordo com o direito e fiéis quanto aos fatos que anunciam. um ato ou uma tarefa.. o atributo da exigibilidade quer dizer que a Administração pode. mas isso não impede que se reconheça que.. o atributo da imperatividade implica imposição unilateral de uma obrigação. ao se valer deste atributo. Não se descura a Administração.

independentemente do consentimento do destinatário: é a obrigatoriedade do ato. é dizer. assevera o jurista. 385. p. se a Administração interdita uma fábrica..3 Da lavra de Carlos Ari Sundfeld: “A exigibilidade é o atributo de impor-se à obediência. p. ou apreende medicamentos com a validade vencida. constranger fisicamente”. mesma página). como nos parece que restou esclarecida. No entanto. sem intervenção judicial. porque são os que mais intensas reverberações produzem junto à esfera jurídica dos administrados e não poucas vezes são confundidos. 384. no entanto. ano 7.. apossa-se. 143).4 As variações terminológicas não se encerram. contém o ato que intima o particular a fazer a calçada sob pena de multa o atributo da exigibilidade. deve mesmo ser enfatizada: “(. com o mesmo sentido que remete ao atributo 2 3 4 5 Op... cit. p. Celso Antonio Bandeira de Mello. p. 49 do administrado que construa a calçada em frente à sua casa ou terreno sob pena de multa. mas concordamos com Hely Lopes Meirelles “(. sinaliza a adoção de termos diversos na doutrina como a executividade e a executoriedade. mas.5 Neste jaez é que Bartolomé A. e então ínsita a qualquer ato administrativo. Juan Carlos Cassagne. mas. adotada por parcela da doutrina. julho/dezembro .. p. 83. ibidem.) um título processual que as normas estabelecem para a realização judicial do ato administrativo” e ainda menciona a executividade. nº 2. pela Administração. pela executoriedade pode-se compelir. A executoriedade é a condição de admitir o uso. II. de bens dos particulares em caso de urgência ou calamidade pública. da coação para fazê-lo cumprir”.2 O emparelhamento. 47-69. op. Revista da Escola Paulista da Magistratura. cit.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. O atributo da auto-executoriedade também é encontrado na doutrina com a denominação de “executoriedade” (Celso Antonio Bandeira de Mello. utiliza-se de um meio indireto de coação.. p. dos dois atributos é importante. e a segunda no sentido por nós adotado como coação direta. a primeira com o sentido equivalente a eficácia em geral. então ela interfere fisicamente na liberdade ou na propriedade do administrado: aí se tem o atributo da auto-executoriedade .. esta com a concepção de Cassagne e aqui tratada como auto-executoriedade. Fiorini fala em execução e executoriedade. a distinção. nos mencionados exemplos. no cotejo com os outros atributos já estudados. Direito Administrativo Ordenador. aquela entendida como “(. Derecho Administrativo. 232. v.) pela exigibilidade pode-se induzir à obediência. administrativista argentino. incidente na liberdade ou nos bens do administrado..2006 ..) porque o prefixo ‘auto’ é que indica a condição de o ato ser executável pela própria Administração” (Direito administrativo brasileiro. por requisição.

tal como na doutrina de Eduardo García de Enterría e Tomás-Ramon Fernandez8 é considerada. em outros meios de manifestação externa da Administração.7 E sobre esta Dromi a aponta. que sufraga a mesma idéia por nós adotada. É o que acontece quando condiciona a expedição do alvará de construção solicitado pelo adminsitrado à demonstração de estar ele em dia com o pagamento do imposto predial relativo ao respectivo terreno. como um típico caso de autotutela: manifestação característica da função administrativa em que o ordenamento jurídico habilita o Poder Público à realização imediata e unilateral dos atos administrativos. nº 2. 47-69. do comportamento ou operações materiais. cit. p. p. 385.50 LUIS MANUEL FONSECA PIRES da exigibilidade. deverá interpor ação judicial. A Administração não pode. por sua vez.. ano 7. pode-se ter a imposição do Poder Público Municipal de o administrado respeitar os limites sonoros que o seu 6 7 8 Manual de Derecho Administrativo. 497 e segs. Eduardo García de Enterría e TomásRamon Fernandez desenvolvem. p.2006 . há exigibilidade mas não há auto-executoriedade” (Curso de Direito Administrativo. por meios próprios compelir o administrado a pagar o imposto devido. I. como um passo adiante da autotutela declarativa — considerada como uma declaração —. p. 12 Istituzioni di Diritto Amministrativo.9 Com propriedade. concretamente o uso da coação física frente a terceiros”. como exemplo. os efeitos do provimento administrativo. 781. como a coação administrativa. diz ele: “Por outro lado. p. p.6 Também na exposição de Roberto Dromi encontra-se a referência à executividade e a executoriedade. atribuído à autoridade administrativa.) supõe um passo no terreno dos fatos. 386 a 387). a executiva “(. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 10 Op. Um bom exemplo são os impostos. que. No caso de não-pagamento. ou até apresentar estes dois últimos atributos. coativamente. Massimo Severo Gianninni também denomina autotutela ao poder.11 Na Itália.. p. poderá exigir. ou executável..12 Nota-se. 386. 11 Ibidem. realmente. Entretanto. 9 Op.. de forma indireta. 298. pp. se necessário coativamente. v. Na doutrina nacional. nem todos os atos dotados de exigibilidade são auto-executórios.10 Mas este atributo é ainda abordado. sob a denominação de autotutela executiva. a primeira como sinônimo do atributo de exigibilidade e relacionada com a eficácia do ato e a segunda tal como aqui definimos a auto-executoriedade. Como se vê. uma das formas de exteriorização deste atributo. de realizar.13 Um ato presumidamente legítimo e imperativo pode ou não ser exigível. remetemos ao entendimento de Celso Ribeiro Bastos. para quem a executoriedade pressupõe a exigibilidade (por ele denominada como executividade). 318. que não há necessariamente uma relação com o atributo da exigibilidade. 104). no entanto. Derecho Administrativo.. 13 Não é este o entendimento de Roberto Dromi. o cumprimento dessa obrigação. na doutrina dos mestres espanhóis. pp. julho/dezembro . cit. com estas considerações. tem por pressuposto a presunção de legitimidade (Derecho administrativo. 522. p. Curso de Derecho Administrativo.

mais expressiva e esperada do que nos atos sujeitos ao Direito Privado. I e II. nº 2. 1º. ou o desforço imediato (art.. o privilégio de a Administração Pública coagir o particular no cumprimento de uma obrigação mediante a autotutela. o emprego da Revista da Escola Paulista da Magistratura. Já no âmbito do Direito Público. existem critérios a serem seguidos para que o ato administrativo contenha o atributo da auto-executoriedade. de forma restritiva e em caráter extraordinário. porque cuidam os atos administrativos de um interesse público.2006 .283 do Código Civil). ou a possibilidade de o proprietário do terreno invadido pelas raízes e ramos de árvore que ultrapassarem o limite cortá-los até o plano vertical divisório (art. II.210. a nota característica deste atributo é a dispensa ao titular da pretensão — a Administração ou quem a substitui — de possuir previamente um provimento jurisdicional que impulsione e confira concreção à sua intenção. sobre a liberdade ou a propriedade de contra quem se dirige. 1.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. p. Sem dúvida. sob pena de multa na primeira infração — o que caracteriza a exigibilidade: um meio indireto de coagir o administrado a cumprir uma obrigação — e de fechamento do estabelecimento em caso de reincidência — exemplo típico de auto-executoriedade: um meio direito de coação. então. o atributo da auto-executoriedade é o privilège d’ action d’ office: o privilégio da ação de ofício. d. mas são circunstâncias em que o sistema jurídico confere. o princípio da legalidade O fundamento jurídico da auto-executoriedade repousa no princípio da legalidade. isto é.. 47-69. 51 restaurante pode produzir à noite. mas a permissividade do ordenamento jurídico a que um ato contenha esta força — a auto-executoriedade: a possibilidade de agir sobre os administrados sem necessitar de um prévio pronunciamento judicial — é. Excepcionalmente. Como leciona Oswaldo Aranha Bandeira de Mello. julho/dezembro . como a legítima defesa e o estado de necessidade (art. não se encontra no ato administrativo. encontra-se este atributo nas práticas sujeitas ao Direito Civil. do Código Civil). a possibilidade de uma parte agir sobre a outra ou sobre os seus bens. do Código Civil). 1. como característica ínsita à declaração emitida. não é mesmo tão esporádico e insólito a Administração Pública intervir na livre locomoção ou nos bens dos administrados. com efeito. O fundamento jurídico da auto-executoriedade: II. é dizer. Portanto. ano 7. 188.

sem a necessidade de um provimento jurisdicional. recorramos agora a Eduardo García de Enterría e Tomás-Ramon Fernandez. p. 47-69. II. p. como novamente na França. o conceito de ato administrativo desenvolveu-se como expressão prática do princípio de separação entre a Administração e a Justiça. de criação do Direito Administrativo francês e que se estendeu por todo o Continente Europeu e América Latina. na França. que a construção da idéia de poder auto-executório. E como tal. sobre a liberdade e os bens dos administrados. julho/dezembro . v. nº 2. concepção esta defendida ainda hoje na Itália por Pietro Virga. que. 609. nas lições de Hauriou. submeter-se-ia apenas à Administração. na doutrina de Otto Mayer. é um arquétipo que se externa não apenas sob a denominação de atributo da autoexecutoriedade. ao investigarem a origem do conceito de ato administrativo. mas como informe essencial do regime jurídico administrativo que permeia o conceito de todo o instituto do ato administrativo. pois o ato administrativo seria um ato jurídico isento do poder jurisdicional por ser ato de autoridade administrativa. pois a idéia 14 15 16 Princípios Gerais de Direito Administrativo. apontam duas orientações do desenvolvimento do seu significado: num sentido. Um privilégio. Eduardo García de Enterría e Tomás-Ramon Fernandez. I. Revista da Escola Paulista da Magistratura. é dizer. o ato administrativo caracterizou-se essencialmente por conter a nota de autotutela. Confere-se. junto ao autor italiano citado.2006 . 102. ano 7.15 noutra direção. ou em melhor expressão cunhada pela doutrina consentânea às garantias e direitos fundamentais. p. então. Diritto Amministrativo. de Mello e dos espanhóis Eduardo García de Enterría e TomásRamon Fernandez —. o que ganhou corpo tanto na Alemanha. ao se entreterem as doutrinas dos referidos juristas — Oswaldo A. v. que prevalecem hodiernamente para definir o ato administrativo como uma “decisão executória”. portanto.. op.52 LUIS MANUEL FONSECA PIRES força pública sem a intervenção do Poder Judiciário. e em razão do princípio da legalidade que comanda e legitima o comportamento da Administração Pública num Estado Democrático de Direito. acreditamos ser este — o princípio da legalidade — o crucial fundamento jurídico deste atributo. um dever-poder. segundo as lições do citado jurista. Confira-se. B. tanto num vínculo especial (como um contrato ou uma relação de emprego) ou mesmo geral (simplesmente em razão da supremacia estatal). de intervenção direta da Administração. cit. pp.16 Percebe-se. um poder. 547 a 548. que o atributo da auto-executoriedade representa um instrumento.14 Pondo ao lado essas anotações.

. III. o da auto-executoriedade é expressão. pela execução. reside na presunção de legitimidade dos atos administrativos19 — o que nos parece dar-nos razão ao sustentarmos ser o princípio da legalidade. independente da ingerência 17 18 19 Curso de Direito Administrativo. Tal como os outros atributos. é feliz a análise produzida por Lúcia Valle Figueiredo: “A executoriedade. de ordem política.. Um destes meios. mas a eficácia. de natureza jurídica. o primeiro e mais relevante fundamento jurídico deste atributo porque o fundamento da presunção de legitimidade e veracidade é o princípio da legalidade.) quando compete à Administração Pública formar o título jurídico exigível. em última análise. enfatiza que o poder é apenas um instrumental ao dever maior que impera nas relações de Direito Público: o de realizar o bem comum. 183. Derecho Administrativo.2006 . A auto-executoriedade “imprópria” Classificação procedida pela doutrina e que deve ser por nós anotada é a distinção que se faz entre a auto-executoriedade própria ou integral da imprópria ou parcial. 53 de dever. El Acto Administrativo. que não pode ser livremente disposto. e o outro. deste mesmo interesse público. 385.. e a posição de supremacia só se perfaz com a atribuição ao Poder Público de mecanismos eficazes de cumprir o interesse coletivo.. Revista da Escola Paulista da Magistratura.17 E com esta mesma percepção encontramos em Roberto Dromi o seu apontamento sobre o fundamento. é feita perante a autoridade judiciária”. ano 7. fundamento da execução do ato. p. através da autotutela. a sua execução. julho/dezembro . p. pauta-se em a necessidade de satisfação dos interesses públicos não ser afetada pela manifestação contrária dos particulares. nº 2.18 Manuel Maria Diez assinala dois fundamentos da executoriedade: um. concretização do regime jurídico administrativo. mormente em posição prévia na expressão. como proceder ela própria. é elemento essencial à função administrativa”.) quando compete à Administração Pública não só formar o título. por isso. p. e aquela “(.. pela Administração. 47-69. são os atributos do ato administrativo. sem dúvida.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. ‘quando desempenhada dentro das comportas augustas em que se deve desenvolver’.. sendo esta a que ocorre “(. 267. um regime que se notabiliza pela adoção de dois princípios basilares: a supremacia do interesse público sobre o privado e o da indisponibilidade. p.

é porque não há. Juan Carlos Cassagne: “Em nossa opinião. pois a essência da executoriedade provém do poder público e de forma alguma é um atributo particular de certos atos administrativos” (Manual de Derecho Administrativo. p. Revista da Escola Paulista da Magistratura.21 Bartolome A. os atos administrativos são executórios sem necessidade de que uma lei expressamente os autorize. p. já que. no sentido de que a sua execução deve ser decidida pelos juízes. 220. o atributo da executoriedade. sob os mesmos conceitos. p.23 Héctor Jorge Escola24 e Roberto Dromi. 26 Derecho Administrativo. 388. Para nós. 99. 512. 300).20 Desta distinção também tratam. julho/dezembro .27 20 21 22 Oswaldo Aranha Bandeira de Mello. 269. 24 Compendio de Derecho Administrativo. pp. ano 7. 299 a 300.” 26 É que a construção doutrinária que sustenta estas espécies — execução própria e imprópria — parte do pressuposto. pp. não há sentido em querer mantê-lo artificialmente sob o rótulo de “imprópria” ou “parcial”. devendo acudir-se ao órgão Judicial para obter seu cumprimento. de compreender a executoriedade como componente inerente ao conceito de ato administrativo. nº 2. p. 27 Note-se o pressuposto da doutrina de Bartolome A. A lógica indica que se um sistema postula que certos atos da Administração carecem de executoriedade. os mestres argentinos Rafael Bielsa. mesmo formal”. que o atributo é uma qualidade contingente do ato administrativo. p. em nosso entendimento. a chamada ‘executoriedade imprópria’ é precisamente a negação da executoriedade. v. II. se ao ato falece o atributo da auto-executoriedade.2006 . v. a executoriedade surgirá da sentença judicial e não do ato administrativo. como acima foi visto nos apontamentos de Eduardo García de Enterría e Tomás-Ramon Fernandez. em tais casos. Fiorini: “A executoriedade é a substância jurídica estatal dos atos administrativos. p. Princípios de Derecho Administrativo. o ato carece em sede administrativa de força executória. p. I. Princípios Gerais de Direito Administrativo.22 Manuel Maria Diez. Fiorini. Em precisas palavras. se é preciso um provimento jurisdicional para a concretude de uma pretensão da Administração Pública.25 Não acolhemos esta distinção porque. não há necessidade de sustentálo de forma fictícia mesmo quando evidente a ausência desta característica. são as críticas de outro argentino. ao se referirem à origem do ato administrativo. 23 El Acto Administrativo. 611 a 613. 47-69. Manual de Derecho Administrativo. não pode sustentar ao mesmo tempo que estes atos gozam de executoriedade imprópria pois. 25 Derecho Administrativo. naquele ato administrativo. Assim como as leis são obrigatórias. em tal caso.54 LUIS MANUEL FONSECA PIRES do Poder Judiciário.

por exemplo. que toma proporções vultosas e reclama a imediata intervenção. é possível. 625. p. 55 IV. pp. é intuitivo perceber que apenas os atos que impõem alguma obrigação aos administrados têm razão de eventualmente se revestir desta característica. portanto. como chama a atenção o publicista Pietro Virga. em certos casos..28 ao afirmar que. que qualquer espécie de obrigação — dar. v. como ocorre com a dissolução de reunião não autorizada. que conferem direitos aos administrados não necessitam de qualquer força executória. a auto-executoriedade na forma de “coação pessoal”.. p. Percebe-se. sim. a imposição de multa. o que significa dizer.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO.2006 . porque os atos que são simples enunciados. Diritto Amministrativo. o que pode induzi-los ao cumprimento é algum meio indireto de coação. não há maneira de constrangê-los fisicamente a adotarem os procedimentos pertinentes. o instrumento producente é o que transmite um meio indireto de coação. assim. 47-69.29 28 29 Princípios Gerais de Direito Administrativo. não apregoamos a inaptidão do atributo da auto-executoriedade toda vez que a obrigação revestir-se desta natureza. nº 2. Neste sentido. que certificam fatos ou atos. julho/dezembro . Apenas quanto às obrigações infungíveis é preciso ponderar a pertinência deste atributo. se mostra adequado a induzir ao cumprimento das obrigações personalíssimas é o da exigibilidade. II. Tome-se em exemplo a requisição de serviço de profissionais da área da saúde em determinada cidade por conta de uma grave epidemia. nas obrigações infungíveis. poderá haver situações em que se mostra inócua qualquer medida de coação direta. Primeiro. Mas perceba-se que esta reflexão acerca das obrigações personalíssimas não é absoluta. pois. A eventual recusa dos profissionais requisitados não tem como ser resolvida com a coação direta. que o atributo que. de acordo com o estudo aqui desenvolvido. ano 7. porque dependem do cumprimento da obrigação por parte de pessoa individualizada. Atos que comportam a auto-executoriedade Interessa ainda saber que atos são passíveis de comportar este atributo. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 102 a 103. fazer e não-fazer — é sujeita a ser objeto de um ato administrativo com o atributo da auto-executoriedade. como. a internação coativa de doente mental etc. entrevê com sagacidade Oswaldo Aranha Bandeira de Mello. não se admite a transferência do dever a terceiro.

O porquê é naturalmente percebido: apenas o ato que se presume de acordo com o Direito e sincero na reprodução dos fatos poderá. pois. que a Administração atue diretamente — leia-se: intervenha fisicamente — a ponto de constranger o administrado a atender ao preceito. p. se não atendida a prescrição imposta. por conseguinte. é preciso que o ato seja válido ou. 47-69. a presunção de legitimidade justifica-se perante os atos anuláveis. 1. para conter a presunção de legitimidade e veracidade. e. e ainda aos inexistentes.2006 . os nulos e os inexistentes). E. 2 a 4. é a doutrina dos argentinos Roberto Dromi. impor-se unilateralmente ao administrado. julho/dezembro . além dos atos válidos. V. El Acto Administrativo. com estas considerações. portanto. V. nº 2. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Concordamos. ainda. o ato anulável pode ser saneado. pressupõe que o ato administrativo se revista de dois outros atributos: o da presunção de legitimidade e veracidade e o da imperatividade. sustenta que a presunção de legitimidade só se justifica com relação aos atos anuláveis — isso. a auto-executoriedade. Derecho Administrativo.30 De fato. afirma que os atos válidos e os atos anuláveis são considerados regulares e que se opõem aos atos nulos. e só então é que se justificará. pp. é claro. cap. enquanto o ato nulo deve ser declarado inválido pela Administração Pública. que são os atos com vícios grosseiros. mas nunca contenha uma pecha de nulidade absoluta (ato nulo) ou que se trate de ato inexistente. ano 7. com o argentino Augustin Gordillo quando. se comportar algum vício.56 LUIS MANUEL FONSECA PIRES V. após pontuar que há três categorias de nulidade do ato administrativo (os anuláveis. que seja anulável. chamados pelo autor de irregulares porque possuem vícios graves.31 30 31 Tratado de Derecho Administrativo. A auto-executoriedade e os atos inválidos Impende sublinhar que este atributo. Neste sentido. Condições de existência da auto-executoriedade A seguir veremos quais as condições para a existência da auto-executoriedade no ato administrativo. pp. 380 a 381. concorde ele ou não.

p.2006 . v. p. e. 384. 5º.34 Sustentam Roberto Dromi35 e Augustín Gordillo36 que. p. I. pode ser ativa ou passiva e caracteriza-se então como a resistência ou contraposição à lei ou ato de autoridade 32 33 34 Fundamentos de Derecho Administrativo. por isto mesmo.) não há garantia de um direito à resistência. da Constituição Federal). como é possível ao administrado desobedecer ao ato. pois a qualificação do ato como inválido perante o Direito Positivo só vai ser definida ‘a posteriori’. El Acto Administrativo. Celso Antonio Bandeira de Mello posiciona-se: “(. cap. por descumprimento. contra atos que ‘poderão vir a ser declarados inválidos’. como se disse.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. 294 a 295. nº 2. único que possui competência para dizer em definitivo se o ato era ou não inválido. 585. diante de um ato nulo ou inexistente. Quando um particular desatende a um ato administrativo o faz.. A resistência ‘passiva’ perante um ato administrativo ‘válido’ ou ‘inválido’ (quando ‘nulo’ ou ‘anulável’) do ponto de vista jurídico ‘tem o mesmo caráter no momento em que esteja ocorrendo’. não só se derriba a presunção. Na doutrina nacional. Manual de Derecho Administrativo. a resistência manu militari a atos ‘nulos’ ou ‘anuláveis’ é. isto é. V. por sua conta e risco. pp. Revista da Escola Paulista da Magistratura. p. 441. 47-69. 57 Juan Francisco Linares. Também não há uma sanção pela resistência ‘passiva’ a atos que ‘vierem a ser declarados inválidos’..32 Juan Carlos Cassagne e ainda Bartolome Fiorini. A diferença de conseqüências jurídicas só vai surgir depois: quando houver invalidação do ato pela própria Administração ou decisão judicial que declare a invalidade do ato a que se resistiu. um elemento de perturbação da ordem e da paz social. ano 7. 37 Curso de Direito Administrativo. 15. quando houver um pronunciamento do órgão jurisdicional.. 226 a 230. para quem a desobediência civil é um direito fundamental com respaldo no exercício da cidadania como participação no poder político (art. d. julho/dezembro . pp. em si mesma. Entretanto. 36 Tratado de Derecho Administrativo. ilegítima. Curso de Derecho Administrativo. p.33 além dos espanhóis Eduardo García de Enterría e Tomás-Ramón Fernández.” 37 Deste entendimento parece-nos ser divergente a doutrina esposada por Maria Garcia. 2º. 35 Derecho Administrativo..

desta consideração decorre que as razões para processar o indivíduo são relativamente fracas e o caminho da eqüidade. isto é. sem ter de aguardar o recurso à via contenciosa. em nossa interpretação. p. julho/dezembro . algumas conclusões preliminares a respeito: a primeira é que. representa o “ato de autoridade” da Administração em sua mais intensa plenitude. Neste sentido. só se encontra na tolerância (Levando os Direitos a Sério. e “ato não definitivo” o que não contenha resolução final ou que não defina situações jurídicas (ibidem. tem o poder (a ‘competência’) atribuído pela Constituição de impedir essa intervenção.) à resolução final que define a situação jurídica da pessoa cujo órgão se pronunciou ou de outra que com ela está ou pretende estar em relação administrativa”. Na doutrina estrangeira. signifique o mesmo que desacato à lei. 293 a 302. 315 a 330). 47-69. e formula. a inutilização prática do Direito. por conseguinte. tempo hábil para buscar uma tutela jurisdicional Em Portugal. quando a lei é incerta no sentido de admitir a defesa razoável de dois pontos de vista opostos. 39 Manual de Direito Administrativo. 2. liberdades e garantias. que.39 38 Desobediência Civil. ainda. a atuo-tutela da Administração confronta-se aí com a autotutela dos direitos do particular. p. evitando. pp. quando presente em companhia do ato definitivo. Revista da Escola Paulista da Magistratura. enaltece-se a auto-executoriedade como um atributo segundo o qual. quando ofensivos à ordem constitucional ou aos direitos e garantias fundamentais. encontra-se Ronald Dworkin que reprocha a idéia de que a desobediência civil. 2. o fato de um cidadão seguir o seu próprio discernimento não implica comportamento esvaído de eqüidade. 464.58 LUIS MANUEL FONSECA PIRES (como pode ser o ato administrativo). nº 2. o assunto também é encontrado em labor monográfico da lavra de Maria da Assunção Andrade Esteves: “Com efeito. ano 7.” V. pp.2006 . na doutrina de Marcello Caetano. assim. com o objetivo de propugnar por sua revogação ou anulação. A necessidade de autorização expressa em lei V.. Por “ato definitivo” entende o autor “(.. é que para a mencionada jurista deve-se repudiar a possibilidade de sanção ao administrado quando não reconhecida a procedência de sua petição ao Poder Público na qual se declara em desobediência civil e postula a exclusão dos efeitos de uma lei ou ato que entende em conflito com a ordem constitucional. 2. após o desenvolvimento de seu pensamento. v. em face de uma intervenção lesiva de um ou mais dos seus direitos. a desobediência por razões de consciência. ou de uma situação de urgência na qual não haja V. 443). p.38 E o que mais de contundente se difere do pensamento de Celso Antonio Bandeira de Mello. I.

portanto. portanto. p. uma positiva e uma negativa. pois a lei pode submeter certos atos administrativos a um prévio controle de legalidade. Revista da Escola Paulista da Magistratura.42 Outro doutrinador que acede a este posicionamento é Bartolome A. julho/dezembro . o atributo da auto-executoriedade.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. salvo situações excepcionais em que haja a possibilidade de um dano irreparável ou de lesão grave. I. embora sempre sujeita a duas inafastáveis condicionantes. 99. a menos que a própria decisão difira a sua execução a um termo certo ou ao implemento de uma condição. propriedade essencial. 47-69. p. 59 No Direito argentino. 43 Manual de Derecho Administrativo. direitos fundamentais especialmente tutelados.41 Textualmente. pp. segundo defende. Fiorini que assevera ser esta característica — a auto-executoriedade — verdadeira “(. 259 a 260. a regra da execução administrativa. nessas hipóteses excepcionais. pois só o ato exeqüível se torna executório. 298.40 Para ele.. A condicionante positiva é o pressuposto da exeqüibilidade. 40 41 42 Compendio de Derecho Administrativo.. 44 El Acto Administrativo. que. como ainda sustenta ser de caráter excepcional qualquer medida com o objetivo de sustar a execução — quando se divisa um dano gravemente irreparável. assim. e que. declara-se Manuel Maria Diez que não apenas defende ser a auto-executoriedade uma propriedade ínsita ao ato administrativo. a diferença essencial entre o ato jurídico privado e o ato administrativo é mesmo a auto-execução deste último. apenas excepcionalmente poderá ser suspenso. A condicionante negativa é a inexistência de exceção legal.. esta é a posição sufragada por Diogo de Figueiredo Moreira Neto.2006 . que apregoa que: “A executoriedade é. a prerrogativa de alcançar. 37. ainda. Princípios de Derecho Administrativo. Na mesma orientação.) conseqüência lógica do ato presumivelmente legítimo (.)”.. 101.. chega mesmo a apregoar que.43 para ele. basta reconhecer as condições para a presunção de legitimidade e veracidade do ato administrativo para daí conter. transferindo. Princípios de Derecho Administrativo..44 No Brasil. ao Poder Judiciário. entre a declaração (a decisão do ato) e a execução não há solução de continuidade. qualquer recurso interposto deve ser recebido apenas no efeito devolutivo. este entendimento é defendido por Rafael Bielsa. p. nº 2. sem ela se afetaria a ‘eficácia’ da atividade administrativa”. p. v. diz: “A chamada executoriedade do ato administrativo é. p. naturalmente. ano 7.

) ela se realiza em princípio. p. exige-se texto legal explícito outorgando a auto-executoriedade (denomina-se. estas construções doutrinárias estreitam-se profundamente com a própria origem do conceito de ato administrativo. 616 a 618.46 explana o professor sobre as abordagens distintas que este atributo tomou sob a influência de diversas escolas — o que deve ser considerado de acordo com o tempo em que o mencionado jurista fez suas pesquisas: nos idos da década de setenta —: no Direito Administrativo do Continente Europeu e da América Latina. Revista da Escola Paulista da Magistratura. nº 2. modificada pela lei 4 de 13 de janeiro de 1999.47 Decerto.60 LUIS MANUEL FONSECA PIRES como a incolumidade da pessoa. II. p. 48 Derecho Administrativo. 95 da Lei de Regime Jurídico das Administrações Públicas e do Procedimento Administrativo. sua dignidade e a garantia de seu patrimônio. Princípios Gerais de Direito Administrativo. no Direito Administrativo anglo-americano. nesta escola. de summary power o privilégio de execução direta). apenas se houver norma expressa a respeito ou se padecer da presunção de legitimidade por que se eiva a declaração de nulidade manifesta. nas palavras de Eduardo García de Enterría e Tomás-Ramon Fernandez. uma vez que a ausência deste atributo é encarada como medida de exceção. ao defender que a “(. 221. julho/dezembro . a 45 46 47 Curso de Direito Administrativo.. ao serem declinadas as lições de Eduardo García de Enterría e Tomás-Ramón Fernández. como o faz o argentino Juan Carlos Cassagne. que formula. o que implica dizer que há o atributo independentemente de expressa disposição legal. por conta do art. desde que não haja proibição legal. p.2006 . pp. ano 7. de 26 de novembro de 1992. Princípios Gerais de Direito Administrativo. nos casos em que ela seja efetivamente necessária (. direta ou indireta.. prevalece o princípio da auto-executoriedade como inerente a todos os provimentos administrativos que prescrevem deveres e limitações às atividades dos particulares.48 Na Espanha.. 621.. já. na interposição de um recurso administrativo. 139.” 45 E ainda pelo mestre Oswaldo Aranha Bandeira de Mello. um “princípio geral de autotutela coativa com fins de execução forçosa”.) auto-executoriedade é a regra. ao admitir a suspensão dos efeitos auto-executórios do ato administrativo. 47-69. Conseqüência desta senda doutrinária é a dificuldade em esquadrinhar os limites desta prerrogativa. p. como salientado”. como linhas acima anotamos. v.

El Acto Administrativo. nº 2. p. v. Augustín Gordillo. pp.51 para quem só se admite a auto-executoriedade do ato administrativo em uma das seguintes situações: a) quando a lei a prevê expressamente. p. o que por tal se entende “(.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. A Constitucionalização do Direito de Resistência.) nos casos ‘em que a medida é urgente e não há via jurídica de igual eficácia à disposição da Administração para atingir o fim tutelado pelo Direito. b) quando necessária. 82. Juan Francisco Linares e Ernest Forsthoff. II. p. ano 7. Sustenta o doutrinador referido que os atos administrativos que impõem uma obrigação de dar devem. p. 234.. V.. Derecho Administrativo. cap. 388 a 389. é construção doutrinária originária da França e Itália. salvo se a lei exigir um prévio pronunciamento judicial — o oposto. e é esposada. I. Diógenes Gasparini. 102. como abaixo veremos.49 Entre este entendimento e o que veremos a seguir. Jean Rivero. pp. conforme ainda os mesmos doutrinadores. p. 119 a 121. pp. Tratado de Derecho Administrativo. Direito Administrativo. p. Carlos Ari Sundfeld. pp. dentre outros. pp.2006 . Lúcia Valle Figueiredo.. pp. 104. 386. mas. e.52 Quer-nos parecer que a doutrina perfilada por estes autores é mais 49 50 51 Curso de Derecho Administrativo. em razão de sua amplitude. Direito Administrativo. comungamos com a doutrina mais restritiva do reconhecimento deste atributo nos atos administrativos. julho/dezembro . 52 Celso Antonio Bandeira de Mello. aguardar a tramitação de uma medida judicial”. 47-69. pena de frustração dele. 25. p. no Direito estrangeiro. p. p. Direito Administrativo. Respectivamente: Curso de Direito Administrativo. Direito Administrativo. Direito Administrativo Ordenador. conter expressa previsão legal. à realização do interesse público. Derecho Administrativo. nos atos que prescrevem uma obrigação de não fazer ou de fazer.50 Contudo. 386. sendo impossível. há o que nos parece ser uma posição intermediária e encontra-se bem exposta nas lições do italiano Pietro Virga. a auto-executoriedade. pp. pelos mestres Celso Antonio Bandeira de Mello. 193 a 194.. como condição insopitável. para gozar do atributo da auto-executoriedade. no qual se busca coarctar os atos do Poder Público ao princípio da legalidade. Tratado de Derecho Administrativo. diz ele. 76. 61 auto-executoriedade. Georges Vedel. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Curso de Direito Administrativo. Maria da Assunção Andrade Esteves. v. Diritto Amministrativo. p. 169 a 170. lembramos Roberto Dromi. 438 a 441. legitima a possibilidade permanente deste atributo. Curso de Direito Administrativo. Curso de Direito Administrativo. Maria Sylvia Zanella di Pietro. 405 a 406. porque nos parece ser mais consentânea com os direitos e garantias fundamentais de um Estado Democrático de Direito. 784 a 785. do que encampamos e. 183. é reconhecida independentemente de uma lei que expressamente a preveja. Celso Ribeiro Bastos.

Revista da Escola Paulista da Magistratura. uma vez mais. 31. isto é. Irrelevância.. extrai-se a mesma intelecção: “Ato administrativo.53 posição diversa.56 O que quiçá possa incomodar neste discurso que encetamos após apontar 53 54 55 Tratado de Derecho Administrativo. julho/dezembro . cap. como bem percebeu e externou Augustín Gordillo. nº 2. Necessária previsão de prejuízo iminente... Autorização nos casos expressamente previstos em lei ou quando existir urgência. nos casos em que se desdobra uma situação urgente na qual não há tempo de obter um provimento jurisdicional sem que pereça o interesse público que se pretende preservar. p. p. Auto-executoriedade. mesmo que a doutrina ou a legislação logo tencionassem impor limites a este poder genérico.” 55 A auto-executoriedade não existe como um elemento inerente à manifestação do Estado na realização da função administrativa. p. Augustín Gordillo. mas sim uma competência especial outorgada pela lei à Administração”. Depende. 25. diz o autor e aderimos à sua doutrina.) a possibilidade de usar a força pública por própria decisão administrativa (e não mediante a intervenção judicial. El Acto Administrativo. Esta é a condição normal. Inadmissibilidade. Princípio da proporcionalidade dos meios aos fins. Exercício do poder de polícia. levaria a um verdadeiro Estado de Polícia. V. El Acto Administrativo. 56 Ibidem.) não é senão a aplicação do princípio de que quando uma norma não outorga à Administração determinada faculdade. RT 807/374. 36.54 Do seguinte julgado. p. ano 7. 34. de que uma norma atribua um feixe de competências no qual se preveja a possibilidade de o Estado agir sem necessitar de prévio deferimento por meio de um provimento judicial que avalize a conduta que se intente praticar. 47-69. há de interpretar-se que não a tem (interpretação restritiva da competência. V. p. Tratado de Derecho Administrativo. “(. pelo procedimento que seja) ‘não é um atributo próprio do ato administrativo’. o exercício da função.62 LUIS MANUEL FONSECA PIRES emparelhada aos ideais democráticos e ao princípio da legalidade porque. negar a potestade de execução coativa quando a norma não a confere. Como bem percebe.2006 . de forma expressa ou razoavelmente implícita. diferente da interpretação extensiva da capacidade de Direito Privado)”. cap. A exceção admitida — a atuação ao largo de prescrição expressa (explícita ou implícita) — apenas pode ser consentida à guisa de exceção.. “(.

ainda assim. como é normal num Estado Democrático de Direito. que a absoluta e objetiva constatação de impossibilidade de a Administração obter um provimento jurisdicional para atuar é uma outra hipótese a legitimar a auto-executoriedade. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. sem. não há um direito supra-estatal que legitime o Poder Público atuar com a auto-executoriedade. não se encontra fora da Constituição Federal o fundamento para esta medida. nas palavras do professor da Faculdade de Direito de Coimbra. ano 7. sem se encontrar uma prescrição normativa no seio da Carta Magna do país. ou deixar de fazer. e na correspondência do que adiantamos no parágrafo acima.. o que a lei prevê? Decerto que a situação de urgência não é qualquer derrogação de postulados jurídicos. Encontramo-la — a resposta — no direito de necessidade constitucional. julho/dezembro . Legalidade esta em sua abrangente concepção: como normas — regras e princípios — constitucionais. exigem o recurso a meios excepcionais”. Pois.57 E com o acréscimo. Gomes Canotilho. sem um provimento do Judiciário.085. e ainda quando ausente a expressa anunciação de uma lei. não é o princípio da legalidade o fundamento primeiro e principal da auto-executoriedade. afinal. percebe-se que. Portanto. p. Revista da Escola Paulista da Magistratura. nº 2. J. assim entendido como a “(.) previsão e delimitação normativo-constitucional de instituições e medidas necessárias para a defesa da ordem constitucional em caso de situação de anormalidade que. Mas qual.2006 . 1. 63 estas duas condições para a existência da auto-executoriedade — a sua previsão em lei ou por uma situação de urgência na qual sequer há tempo de obter um provimento jurisdicional prévio — é justamente a segunda delas: a premente reação que a Administração deve ter no caso concreto que facultaria que agisse por ela própria.. p. ou quais direitos prescritos na Constituição Federal podem então escorar a ação da Administração de intervenção na esfera da liberdade ou no patrimônio do administrado.. não podendo ser eliminadas ou combatidas pelos meios normais previstos na Constituição. o fundamento desta situação é ainda e mais uma vez — tal como a primeira: a da previsão expressa em lei — o princípio da legalidade. é questão que precisa ser respondida. de que o 57 J. na medida em que a Administração só pode fazer. 47-69..A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. amparar-se numa ordem judicial. mesmo ao se dizer que a situação de urgência.

como a retenção e a remoção do veículo e o recolhimento da carteira nacional de habilitação. 35. da Lei nº 8. instituto previsto no art. ano 7. Nesta linha se pronuncia Augustín Gordillo (Tratado de Derecho Administrativo. Da segunda situação — em caso de urgência e sendo o aguardo de prévio pronunciamento judicial comprometedor da consecução do interesse público – tem-se como exemplo a orientação do trânsito.086. ou a encampação. p.64 LUIS MANUEL FONSECA PIRES “(. ou ainda as medidas administrativas previstas no Código de Trânsito Brasileiro. que a auto-executoriedade decorra até de um ato verbal. II. prescritas no art. mas sim um ‘regime extraordinário’ incorporado na Constituição e válido para situações de anormalidade constitucional. cap. 80. 269 e especificadas para infrações tipificadas no artigo 161 e seguintes. nº 2..2006 .. ou a demolição de um prédio comprometido estruturalmente que se precipita sobre outras casas no entorno. Nota-se que a contingência que se exsurge e reclama uma resposta célere do administrador permite-lhe. conforme artigos 111. por parte da Administração. julho/dezembro . porque cabos de alta voltagem se partiram e urge serem reparados. São exemplos da primeira situação — a decorrência do atributo da autoexecutoriedade de expressa disposição legal — a imediata assunção do objeto do contrato administrativo.261. ou a intervenção do poder concedente. mas um direito normativo-constitucionalmente conformado. por parte dos funcionários de uma concessionária de rodovia estadual. 47-69.666. prevista no art. ainda. de 26 de outubro de 1968 — Estatuto dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo —. por um concessionário de energia elétrica. El Acto Administrativo. ou ainda a limitação de acesso a uma rua. 246 e 248 da Lei nº 10.59 58 59 Ibidem. 37). de 13 de fevereiro de 1995.” 58 Fixados estes apontamentos sobre as situações possíveis de encontrar-se a auto-executoriedade. cremos ser de grande valia exemplificá-las. p. 1. ou ainda os casos de desconto do vencimento do funcionário público. de 21 de junho de 1993. V. 32 do mesmo diploma. em razão de um acidente. O regime das ‘situações de excepção’ não significa ‘suspensão da Constituição’ ou ‘exclusão da Constituição’ (excepção de Constituição).) direito de necessidade constitucional não é um direito fora da Constituição. em razão da rescisão prevista no art. Revista da Escola Paulista da Magistratura.987. p. da Lei nº 8. I.

ou mesmo com a intimação de que a reincidência implicará cassação da licença. Nas singelas. Inexistência de direito líquido e certo. Ato administrativo. Considere-se a situação exemplificativa de um administrado que atua na exploração de um restaurante e que.. Mas é sobretudo o segundo que.2006 . b) necessidade ou exigibilidade e c) proporcionalidade em sentido estrito. p. Auto-executoriedade dos atos administrativos. deve ser ele. 47-69. Inteligência do art. Controle Jurisdicional da Administração Pública. resolve liminarmente embargar a atividade. e não qualquer outro. Revista da Escola Paulista da Magistratura. o meio eleito a ser meneado. 66. em determinada noite. A Administração. vale dizer. Alegação de afronta ao direito prévio de defesa e contraditório regular. ainda. em vez de autuá-lo com a imposição de uma multa. queremos encarecer. faz-se mister escolher o menor”. citado por Paulo Magalhães da Costa Coelho. p. Requisito de validade: o princípio da razoabilidade VI. mas judiciosas. LV. palavras do publicista francês Xavier Philippe. considerando que é a primeira vez que comete esta infração. Preponderância do interesse público pela não-disseminação da praga. 65 Ilustramos. Havia outros meios menos gravosos para 60 61 RT 692/77. Ordem denegada.” 60 VI. a necessidade da auto-executoriedade É requisito de validade do ato administrativo que contém o atributo da auto-executoriedade que o seu exercício ocorra de acordo com o princípio da razoabilidade. A necessidade ou exigibilidade é compreendida como a exigência de que o meio escolhido para o alcance do fim objetivado deve ser o menos gravoso possível para os cidadãos. da CF.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. nº 2. nos limites deste artigo. Interdição e destruição de viveiro de mudas de café infestadas por parasitas.61 esse requisito pode assim ser sintetizado: “de dois males.. Costumam ser assinalados como critérios objetivos a compor este princípio: a) adequação. ano 7. — em especial. com o seguinte precedente: “Mandado de Segurança. resolve promover música ao vivo em altura que realmente compromete o sossego dos vizinhos. se houver outro instrumento apto a atingir o mesmo desiderato. julho/dezembro . 5º. mas que cause menor gravame aos administrados.

Manuel Maria Diez. que sustenta que este atributo é incompatível com o princípio do contraditório e da ampla defesa. nº 2. para conhecer da legitimidade do ato. 47-69.” 63 Acompanha-os. o dever de obedecer e só lhes permite. cujas lições. o órgão jurisdicional deve ser acionado. p. 615. o instante no qual a autoexecutoriedade se manifesta. No caso de este atributo decorrer de expressa previsão legal deve a Administração realizar. aos administrados destinatários da ação. Proteção jurídica dos administrados Não se olvide que abusos de qualquer natureza que se perpetrem sob o pretexto subvertido do rótulo da auto-executoriedade podem ser reparados mediante a propositura. ou mesmo do Ministério Público se o fato for de proporção a conter interesses difusos. habeas corpus. Princípios Gerais de Direito Administrativo. são por nós reiteradamente referidas e encampadas. é muito bem acompanhado pelas idéias professadas por Oswaldo Aranha Bandeira de Mello. ainda. 74.. julho/dezembro . entre elas.2006 . recorrer. por assim dizer. como preliminar. apenas posteriormente à sua execução. antes da prática de qualquer ato. que defende a aplicação do princípio solve et repete. isto é. Ousamos não concordar com Diógenes Gasparini. por falta de necessidade da medida utilizada.66 LUIS MANUEL FONSECA PIRES alcançar o mesmo resultado com eficiência e a frustração no uso destes mecanismos implica violação ao princípio da razoabilidade. um procedimento que dê ciência.62 não é o único a assim se situar. ação civil pública etc. VII. ao contrário. em geral. p. Revista da Escola Paulista da Magistratura. de ações judiciais como o mandado de segurança. por parte do administrado. ao asseverar que o “(.. p. ano 7. posteriormente.64 É preciso distinguir as situações e. El Acto Administrativo.) princípio da auto-executoriedade dos atos administrativos impõe aos particulares. Faz parte com que não haja. ação popular. ‘solução de continuidade’ entre a determinação administrativa e a sua execução. 273. p. 62 63 64 Direito Administrativo.

Genaro José Baroni Borges. 65 Derecho Administrativo. Oportunidade de defesa ao interessado. Mandado de Segurança. não desmerece e nem diminui seus atributos. sob a denominação de “aspecto processual”: a observância de um processo administrativo prévio e regrado. Esta posição é retratada no seguinte precedente: “Apelação. que levam à pretensão de o Poder Público intervir diretamente em caso de resistência. rel. como ato punitivo que é. VIII. Rio de Janeiro: Editora Forense.. de oportunidade de defesa e de produção de provas —. 1989. pois há a necessidade.2006 . Curso de Direito Administrativo. II.. ou melhor. Mas. 2ª ed. ainda. impõe que todo este processo seja então diferido para realização imediata à execução do ato. a possibilitar defesa do interessado. posteriormente. nº 70006120976. dos princípios que regem a atuação da Administração Pública. p. Cív. Bibliografia . ano 7. 23/06/04). v. caso a própria Administração apure. 67 dos motivos. des. deverá proceder à indenização dos lesados. A interdição administrativa de atividade ou estabelecimento insere-se no poder de polícia. A violação de direitos fundamentais dos cidadãos. E. nº 2. dentre os quais o da autoexecutoriedade. Interdição de estabelecimento comercial. 2 v.A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. de que se permita aos sujeitos potencialmente sujeitos à ação que se manifestem e que produzam. ser incorreta sua atuação.. Maria da Assunção.. p. Sentença confirmada em reexame necessário” (Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. é preciso assegurar o contraditório e a ampla defesa. de fato e de direito. mas não impede. 7ª ed. no que não contrasta. e não apenas o conhecimento dos desideratos do administrador será suficiente. 66 Curso de Derecho Administrativo. . 47-69.66 são circunstâncias que exigem da Administração a recomposição de eventuais prejuízos. ou mesmo do princípio da proporcionalidade. Lisboa: Associação Acadêmica da Faculdade de Direito de Lisboa. A Constitucionalização do Direito de Resistência.BANDEIRA DE MELLO.65 No que tange à situação de urgência e à premência de uma reação imediata do Poder Público sob pena de perecimento de um interesse coletivo. São Paulo: Malheiros Editores Ltda.ANDRADE ESTEVES. julho/dezembro . 801. caso queiram. 1979. Princípios Gerais de Direito Administrativo. como os enaltecem Eduardo García de Enterría e Tomás-Ramon Fernandez. 389. 2001.BANDEIRA DE MELLO. há de ser precedido de processo regular e do auto circunstanciado das irregularidades. as provas que entendem pertinentes — enfim. Celso Antonio. . é certo que não haverá tempo hábil para este procedimento — de ciência do administrado. É o que Roberto Dromi destaca. Revista da Escola Paulista da Magistratura. p.. Oswaldo Aranha. numa linha. Ap. Apelo desprovido.

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LUIS MANUEL FONSECA PIRES

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A AUTO-EXECUTORIEDADE DO ATO ADMINISTRATIVO...

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232. do caput e § 1º do artigo 475-J. Uma delas se deu mediante o advento da Lei nº 11. O artigo 475-J e seu parágrafo 1º Na busca por uma prestação jurisdicional mais célere e efetiva. todos incluído no Código e Rito por intermédio da nova lei. Trataremos. 1.232. Artigo 475-J caput e § 1º. p. O presente artigo tem a finalidade de abordar alguns aspectos relevantes das inovações trazidas na execução por título judicial. julho/dezembro . § 1º. especificamente. A impugnação do devedor e o controle de constitucionalidade. bem como do artigo 475-L. de 22 de dezembro de 2005. § 1º. ano 7. que entrou em vigor em 22 de junho de 2006.232. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 71-101. nº 2. Artigo 475-L.71 Algumas considerações sobre a Lei 11. Código de Processo Civil. de 22 de dezembro de 2005. o nosso sistema processual civil tem sido objeto de várias “mini-reformas”.232 de 22 de dezembro de 2005. de 22 de dezembro de 2005 Carlos Eduardo Siqueira Abrão ADVOGADO EM SÃO PAULO E PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS EMENTA: Lei nº 11. O princípio do impulso oficial como norteador da fase executiva. inseridas no Código de Processo Civil pela Lei nº 11.2006 .

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CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO

que cuidou de alterar a forma pela qual se dá a execução de títulos judiciais. Todavia, como sempre acontece, a introdução de novas regras no sistema jurídico sempre apanha perplexos os operadores do Direito, até que a doutrina e a jurisprudência possam trilhar um caminho seguro da aplicação da lei, com o que, modestamente, gostaríamos de contribuir, principalmente porque, em razão da militância, vislumbramos alguns problemas que terão de ser enfrentados no foro, mas, e principalmente, por causa do crescimento da responsabilidade dos advogados em função do que foi alterado pela lei em referência. Isso se dá, desde logo, no primeiro dos artigos que nos propomos a enfrentar, o caput e o § 1º do art. 475-J, que dispõe:
“Caso o devedor, condenado ao pagamento de quantia certa já fixada em liquidação, não o efetue no prazo de 15 dias, o montante da condenação será acrescido de multa no percentual de dez por cento e, a requerimento do credor e observado o disposto do art. 614, inciso II, desta lei, expedir-se-á mandado de penhora e avaliação. § 1º Do auto de penhora e avaliação será de imediato intimado o executado na pessoa de seu advogado (arts. 236 e 237), ou, na falta deste, o seu representante legal, ou pessoalmente, por mandado ou pelo correio, podendo oferecer impugnação, se quiser, no prazo de quinze dias.”

Ou seja, o artigo em comento traz importantes inovações ao Código de Processo Civil, pretendendo, com isso, agilizar o pagamento do credor, a uma, determinando desde logo multa sobre o montante a ser pago se não observado determinado interregno (quinze dias) e, a duas, facilitando a intimação da penhora que, consoante a lei revogada, deveria ser feita pessoalmente por oficial de justiça, o que atrasava sobremaneira os atos executórios. Logo de início, percebe-se que as responsabilidades dos procuradores, notadamente os representantes dos vencidos, cresceram sobremaneira. Isso porque caberá ao advogado informar ao seu cliente que ele é devedor de quantia certa e que deve pagar o montante devido, sob pena de aplicação de multa que acrescerá o montante da condenação em dez por cento do valor original. O problema é: qual o dies a quo para o início do cômputo desse prazo? A princípio, a resposta adequada seria o dia em que certificado o trânsito em
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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11.232, DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005

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julgado da decisão, posto que, nesse exato momento, a dívida seria líquida e certa. Assim escreveu Athos de Gusmão Carneiro:
“Assim, na sentença condenatória por quantia líquida (ou na decisão de liquidação de sentença), a lei alerta para o tempus iudicati de quinze dias, concedido para que o devedor cumpra voluntariamente sua obrigação. Tal prazo passa automaticamente a fluir, independente de qualquer intimação, da data em que a sentença (ou acórdão, CPC, art. 512) se torne exeqüível, quer por haver transitado em julgado, quer porque interposto recurso sem efeito suspensivo.” 1

Entretanto, em que pese a autoridade do autor citado, essa não nos parece ser a resposta mais adequada à prática forense. Isso porque o trânsito em julgado é certificado pela secretaria do juízo no qual a causa foi exaurida. E, além disso, o trânsito em julgado é ato de cartório cujo teor não é publicado no Diário Oficial, carecendo os advogados de intimação desse importante ato processual. A conseqüência disso é que, possivelmente, os devedores arcarão com a multa (que é impositiva), querendo ou não liquidar com a obrigação estampada no título judicial no prazo correto. Analisemos essas questões mais detidamente. Dissemos linhas atrás que a responsabilidade pela certificação do trânsito em julgado é da secretaria em cujo juízo o processo se exauriu. Suponhamos que o processo tenha sido objeto de Recurso Especial ou Extraordinário. O trânsito em julgado será certificado pela secretaria de um desses E. Tribunais Superiores, mas o advogado não será intimado desse ato. Até que o processo retorne à Vara de origem, não é absurdo imaginar que passarão os quinze dias de prazo para o pagamento do título judicial. Na letra da lei, incidirá na multa. Ou seja, como ficará a maior parte da população brasileira que não tem recursos para arcar com as custas de viagem para acompanhamento de processos nos Tribunais Superiores de Brasília? A mesma hipótese pode-se
1

“Do ‘cumprimento da sentença’, conforme a Lei nº 11.232/2005. Parcial Retorno ao Medievalismo? Por que não?”, in Revista do Advogado, ano XXVI, nº 85, maio de 2006, p. 33, grifamos.

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estabelecer para os advogados que militam nos interiores de seus Estados: como diligenciar junto à Capital nos processos que estejam nos Tribunais de Justiça ou Tribunais Regionais?2 Os modernos poderão afirmar que, com as inovações tecnológicas, um processo pode ser acompanhado pela Internet. Entretanto, essa solução também, ao menos por hora, não se faz adequada, e por uma série de razões. A uma, porque, como bem noticiam as páginas eletrônicas dos tribunais, as informações ali contidas não têm caráter oficial. A duas, porque, muitas vezes, as secretarias, a míngua de servidores que dêem conta do enorme número de processos em trâmite, não atualizam em tempo real os andamentos dispostos na Internet e, finalmente, pois, a condenação deve ser atualizada e calculada em toda a sua extensão, sob pena de que a multa incida sobre a parte restante (§ 4º do art. 475-J). Nada melhor para a efetivação de todos os cálculos, como atualização monetária, juros, sucumbência, do que ter em mãos o processo. Mas, então, como proceder? Porque se esperada a baixa dos autos e a determinação de que o juízo da execução intime o credor a apresentar os valores que entende devidos, não haverá qualquer mudança no sentido de agilizarem-se os atos processuais. Isso, pois, nessa hipótese, parece-nos óbvio que o dia para se contar a aplicação da multa será aquele em que o devedor, intimado pelo Diário Oficial, deverá se manifestar sobre os cálculos apresentados pelo credor. Mantido esse entendimento, ainda que se mudem os nomes para fase executória (e não mais processo de execução) e impugnação (e não mais embargos à execução), na prática, tudo continuaria como antes. Todavia, as alterações propostas no Código de Processo Civil, para além dos artigos em comento, pode-nos dar uma solução mais segura, efetiva e que venha de encontro ao espírito da nova lei. Ora, a lei em análise tem um espírito diferente, o espírito do impulso oficial dos atos executivos. Isso se dá em razão da alteração verificada no § 1º do art. 162, que anteriormente dispunha que o juiz terminava o ofício jurisdicional mediante a prolação de sentença, o que não mais ocorre, uma vez
2

Esses últimos ainda têm o gravame de, não poucas vezes, estarem situados em Estados da Federação diferentes daquele onde se propôs a causa. Confira-se o exemplo do E. Tribunal Regional Federal da 3ª Região, cuja competência abrange o Estado de São Paulo e o Estado de Mato Grosso do Sul.

Revista da Escola Paulista da Magistratura, ano 7, nº 2, p. 71-101, julho/dezembro - 2006

caberá. que se pode ter dado em local distante. p. então. mas sim. com a fase de cumprimento do julgado. com a consagração dos atos executórios. E o dia inicial do cômputo dos quinze dias seria a publicação no Diário Oficial da intimação do devedor para que satisfaça o débito contido no título judicial. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 71-101. ano XXVI. contudo. se o juiz não exauriu a prestação jurisdicional ao prolatar a sentença e se o credor não precisa mais ingressar com a execução. e também “Manifeste-se o credor em termos de prosseguimento”. o juiz não intimaria mais o credor para dar início à execução. aplicar-se-ia a multa prevista no caput do art. ao magistrado intimar. julho/dezembro . no final da execução (CPC.2006 . Parcial Retorno ao Medievalismo? Por que não?”. Na legislação passada. o juiz costumava determinar o “Cumpra-se o V. 162 § 1º. a data inicial para a aplicação da multa dar-se-ia com o início do procedimento executório. Nesse sentido. art. o dia inicial do cômputo da multa não seria o do trânsito em julgado. a sentença não mais põe termo ao processo (como estava no art. com o retorno dos autos. Dessa forma. Cumpria. o devedor para que pague ou impugne o título executivo judicial no prazo de quinze dias. pois o processo prosseguirá — sempre ‘o mesmo’ processo. conforme a Lei nº 11.232. 162 § 1º). maio de 2006. 475-J.232/2005. Atualmente. tratando-se de um mesmo processo. E isso poderia ser providenciado de forma simples. o devedor. redação anterior). via Diário Oficial. ou ainda. 33. nº 85. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 75 que não temos mais um processo de execução por título judicial independente. Nesse entendimento. acreditamos que ela se dê por impulso oficial.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11." 3 Portanto. ingressar com o processo de execução. Decorrido tal prazo. p. “Ciência às partes do retorno dos autos”. in Revista do Advogado. Dessa forma. a lição de Athos de Gusmão Carneiro: “Com efeito. mas o do início da nova fase processual. os atos se davam da seguinte maneira: retornado o processo à vara de origem. ano 7. e tendo em vista que o juiz não mais esgota a função jurisdicional na prolação de sentença. Acórdão”. nº 2. devendo o processo prosseguir até o termo final. ao credor. 3 “Do ‘cumprimento da sentença’.

em seu bojo. considera-se também inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal. realizar os cálculos dos valores devidos com o fito de pagar a obrigação e. 475-L. expressamente. dentre as formas de impugnação do título executivo. A impugnação somente poderá versar sobre: (Incluído pela Lei nº 11. § 1º Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo. veio atingir os atos executórios que necessitavam mesmo de uma revisão legislativa. Dessa forma. com segurança. em razão da multa.232. ano 7. 475-N. 71-101. 2.2006 . ainda. em função da distância física do processo. impugnar — se for o caso — a execução. de 2005). evitaria que.). (omissis. Essa providência simples. Verifiquemos os termos da lei: “Art. 475-J não estipula. nº 2. em bom tempo.. com base em lei ou ato normativo declarados 2. de 2005 – in verbis. uma série de vantagens: não violaria a nova lei.. ou fundado em aplicação ou interpretação da lei ou ato normativo tidas pelo Supremo Tribunal Federal como incompatíveis com a Constituição Federal” (incluído pela Lei nº 11. o dia em que se inicia o cômputo dos quinze dias. se pertinentes as suas alegações. p. em nosso entender. não atrasaria a execução. uma vez que o art. Athos de Gusmão Carneiro tece as seguintes considerações sobre o mencionado artigo: Revista da Escola Paulista da Magistratura. a obrigação contida no título passaria a ser inexigível. § 1º determina que. permitindo a salvaguarda da ampla defesa e do devido processo legal.76 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO Tal sistema traria. sem descuidar da necessária celeridade que. é possível ao devedor alegar que a lei na qual a sentença exeqüenda teve supedâneo foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. sem que se sinta pressionado a pagar. inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal Já o art. julho/dezembro . O artigo 475-L e a impugnação de sentença prolatada 2.232. grifamos). o devedor possa.

Brasília. Revista da Escola Paulista da Magistratura. conforme a Lei nº 11. para que possamos nos fazer entender sobre tal aspecto. para efeitos de retirar a eficácia do título judicial. 2005. Objetamos de tal orientação. deveria ter sido declarada pelo Pretório Excelso em ´ação direita de inconstitucionalidade’. o qual considerou bastante ser a sentença ´contrária à disposição da constituição ou estar fundada em lei ou ato normativo inconstitucional’ (estudo publicado em Doutrina. p. ou seja. 9ª ed. mesmo porque as partes deveriam tê-la suscitado quando do contraditório. nº 2. Saraiva. 2005). RT. Manifestou críticas. 1996. embora não tenha adotado a proposta do IBDP. 260). necessário se faz uma breve explanação sobre como vemos o controle de constitucionalidade no Brasil. Jurídica.1 – O controle de constitucionalidade e suas formas de expressão O controle de constitucionalidade permite que se exerça uma limitação 4 “Do ‘cumprimento da sentença’.232. com eficácia erga omnes (Gilmar Ferreira Mendes. Parcial Retorno ao Medievalismo? Por que não?”. 26. mas tal declaração pode ter ocorrido tanto em ação de controle concentrado como em sede de controle difuso de constitucionalidade. impõe-se que a inconstitucionalidade da lei ou ato normativo. a nova legislação.. Todavia.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11." 4 Novamente ousamos discordar do citado mestre. p. Jurisdição Constitucional.232/2005. a execução de norma (Araken de Assis. nº 85. ano XXVI. in Revista do Advogado. nesta etapa processual.232 veio a adotar (com felicidade. p. mestre Humberto Theodoro Júnior.2006 . uma renovada e ampla querela sobre a controvérsia constitucional. já haja sido declarada pelo Supremo Tribunal Federal. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 77 “O anteprojeto encaminhado ao executivo pelo IBDP era no sentido de que a eiva de inconstitucionalidade. Ao que nos parece. coletânea comemorativa dos 15 anos do Superior Tribunal de Justiça. 1. ano 7. 2. 71-101. pelo controle concentrado e constitucionalidade. A Lei nº 11. Manual da Execução. parece-nos) solução intermédia: para considerar ‘inexigível’ a sentença. neste segundo caso após suspensa pelo Senado – CF art. 52. que serviu como fundamento (maior e suficiente) do decisum. X. p.066). a esse respeito. maio de 2006. suscitando a inconveniência de permitir. julho/dezembro . terá o mesmo efeito.

A Constituição.78 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO do exercício do poder. ganha grande importância a forma pela qual será esta compreendida e aplicada..” 6 No entanto. 2ª ed. nessa medida. venha a atingi-la.5 ou.8 E o controle jurisdicional pode ser ainda subdividido entre controle incidental ou concentrado. Tribunal e Jurisdição Constitucional. impedindo que esse mesmo poder. A Fiscalização Abstrata da Constitucionalidade no Direito Brasileiro. pode. exerce uma outra sorte de influência. São Paulo: Celso Bastos Editor. que a ela devem obediência. “Se as primeiras demandam um procedimento especial. p. para a sua alteração. A Inconstitucionalidade das Leis – Vícios e Sanção. Há ainda a possibilidade de classificação do controle pela sanção imposta (nulidade ou anulabilidade). julho/dezembro . posto tratar-se simplesmente de poderes que foram por ela mesmo constituídos e. 6/7. 1998. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Editora Saraiva. que não poderá contra ela conflitar ou contrapor-se validamente. 31. 265. p. São Paulo: Malheiros Editores. seus fundamentos basilares. as flexíveis. além de pairar acima de qualquer outra norma jurídica escrita. ano 7. outrossim. 71-101. Curso de Direito Constitucional. numa Lei Maior. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Nesse sentido. ao contrário.2006 .” 7 O controle de constitucionalidade das normas. 1994. 2000. passim. é possível afirmar que os sistemas constitucionais que possuam um controle de constitucionalidade dão primazia ao Poder Constituinte em detrimento dos Poderes Constituídos. além do aspecto formal e material. 12ª ed. Elival da Silva Ramos. 5 6 7 8 Paulo Bonavides. André Ramos Tavares. essa supremacia só é possível nos sistemas constitucionais que adotam Constituições rígidas. pp. não reclamam mais do que o procedimento apropriado para a conclusão das leis comuns para sofrerem mudanças. Clèmerson Merlin Clève informa que coube a Lord Bryce diferenciar constituições rígidas e flexíveis. já que igualmente se encontra ela acima de todos os poderes do Estado. nº 2. como bem situa André Ramos Tavares: “A partir do momento que a comunidade fixa seus princípios. oriundo dos comandos da Magna Carta. ou pela forma de exercício (incidental ou concreto). em regra oneroso e complexo. pela natureza jurídica do órgão controlador. ser classificado pela sua expressão no tempo. p..

se dão sempre perante o Poder Judiciário. podem-se distinguir. aquele em que o poder de controle pertence a todos os órgãos judiciários de um lado do ordenamento jurídico. que controvertem o princípio de que a Constituição deve ser considerada. como diz o próprio nome. “Controle de Constitucionalidade na CF/88”. Mauro Cappelletti. ao contrário. 11 Hamilton. O Controle Judicial de Constitucionalidade. em que o poder de controle se concentra. 71-101. as formas incidental e concentrada. apenas. no sistema pátrio. 2. é atribuído a um órgão ou aos órgãos do Poder Judiciário.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. p. abordando. O Federalista. na Corte. ao aspecto ‘subjetivo’ ou ‘orgânico’.232. em um único órgão judiciário. julho/dezembro . 2ª ed. como um Direito supremo. e b) o ‘sistema concentrado’. então.2006 . segundo uma terminologia já bem conhecida. 51. analisaremos exclusivamente as modalidades judiciais de controle de constitucionalidade..].” 11 Como ensina Celso Agrícola Barbi: 9 Carlos Mário da Silva Velloso. portanto. Madison e Jay. que o exercitam incidentalmente. isto é. Revista de Direito Público nº 92. nº 2. p. na ocasião da decisão das causas de sua competência. são levados à necessidade de provar o fato de que os Tribunais devem fechar seus olhos sobre a Constituição e ver apenas a lei." 10 Atribui-se o início do controle jurisdicional de constitucionalidade à célebre decisão do juiz Marshall. 1999. 10 Revista da Escola Paulista da Magistratura. dois grandes tipos de sistemas de controle judicial da legitimidade constitucional das leis: a) o ‘sistema difuso’. 67/68.2 – O controle jurisdicional de constitucionalidade O controle jurisdicional dos atos normativos infraconstitucionais. pp. ano 7. p. as quais.” 9 “No que concerne. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor. Brasília: Editora Universidade de Brasília [s. da qual destacamos a seguinte passagem: “Aqueles. “O controle jurisdicional será difuso – quando qualquer órgão do Judiciário o praticar – ou concentrado – quando apenas um órgão do Judiciário o exercitar. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 79 Para fins do presente estudo. 46.d.

Se o fizermos. Revista de Direito Público nº 4. não se pode admitir a validade de lei ordinária contrária à Constituição. ano 7. há de ser ressaltado que a chamada divisão de poderes não se confunde. se instaurado um processo. Todavia. 35.) os argumentos favoráveis ao controle da constitucionalidade das leis são irrespondíveis apesar de sua simplicidade: se a Constituição é lei fundamental. “Jurisdição Constitucional e Princípio da Divisão de Poderes”. com uma divisão de poder do Estado. Revista de Direito Público nº 92. como formas de expressão de um poder uno. Otto Kimminich auxilia o correto entendimento desse raciocínio: “No Estado de Direito liberal e democrático.. julho/dezembro . a partir do momento em que se constata a existência da “separação de poderes”. a divisão de poderes não constitui princípio meramente formal. “Evolução do Controle de Constitucionalidade das Leis no Brasil”.2006 . Muito se discutiu sobre a legitimidade do Poder Judiciário para a realização do controle de constitucionalidade. p. porém.14 é correto afirmar que os critérios que legitimam esse tipo de controle de constitucionalidade estão preenchidos. ou seja. essa legitimidade é possível. pp. Por ele. de categoria mais alta.80 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO “(. 13 Revista da Escola Paulista da Magistratura. 71-101. se o Poder Estatal é uno. Revista de Direito Público nº 92. O seu conteúdo material pode ser inferido da própria noção de Estado de Direito (Rechtsstaatlichkeit). e negando a supremacia constitucional. apenas como “distribuição de funções estatais entre órgãos diferenciados e independentes entre si”. e a divisão se identifica. sobretudo no Estado de Direito democrático. na verdade. 22. p. e a ela deve subordinar-se o legislador ordinário. 14 Otto Kimminich. uma organização jurídica baseada em princípios diferenciados.” 12 A decisão do juiz Marshall iniciou o controle de constitucionalidade pela chamada via difusa ou de exceção. nº 2. Antes. 22/23. p. “Jurisdição Constitucional e Princípio da Divisão de Poderes”. 12 Celso Agrícola Barbi. Otto Kimminich. qualquer juiz ou tribunal estaria apto a reconhecer a inconstitucionalidade de uma norma. o poder estatal.. Uma fragmentação do poder estatal. afigura-se inimaginável.” 13 Portanto. estaríamos admitindo a reforma da Constituição fora do procedimento estabelecido para isto.

979 e segs. p." 15 Nessa forma de controle. 2. estadunidense) tem. A noção jusnaturalista de higher law transfere-se para a Constituição e daí que a soberania do órgão legislativo ordinário (absolute and without control. difuso ou “americano” (assim chamado equivocadamente em razão de ter-se iniciado com a decisão do juiz Marshall — deveria se chamar.2006 . ano 7. Como escreve Canotilho: “A associação do sistema difuso ao constitucionalismo americano é justificada. Revista da Escola Paulista da Magistratura. The ‘Higher Law background of American Constitutional Law’. Corwin. ‘Não pode o soberano escreve Corowin — um corpo criador de direito que está subordinado a outro corpo criador de direito’. a faculdade judicial de controle da inconstitucionalidade das leis. Cfr. pp.1 – concreto. O Poder Judiciário tem a competência de fiscalizar a constitucionalidade de uma lei.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11.232. É a evolução que se concretiza. Madison. Op. cit. 2. Não bastava. Foi aí que. com a sentença do juiz Marshall no caso Marbury v. 1928 (4ª reimp. julho/dezembro . o controle é atribuído aos diversos órgãos do Poder 15 José Gomes Canotilho. divergentemente da doutrina britânica da soberania do Parlamento. rejeitando sua aplicação em um determinado caso concreto. 71-101. finalmente. a função judicial é fiscalizadora. difuso ou “americano” O controle de constitucionalidade concreto.1 – Controle de constitucionalidade incidental.2.2.. porém. precisamente. “Pelo sistema difuso. Analisemos essas formas de controle mais detidamente.. afirmar a superioridade da Constituição perante a lei: era necessário reconhecer a judicial review.. competência atribuída a qualquer juiz para conhecer da inconstitucionalidade das normas. portanto. se desenvolveu a idéia do higher law como background do Direito Constitucional americano. nº 2. afirmava Blackstone) tivesse de desaparecer. 1961). como característica principal. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 81 O controle jurisdicional de constitucionalidade pode ser incidental ou concreto. ou seja.

ao contrário. são eles os competentes para dizer qual lei deve ser aplicada. mas. uma das regras mais óbvias da interpretação das leis é aquela segundo a qual. ao caso concreto que lhe for submetido. quando duas disposições legislativas estejam em contraste entre si.” 16 O raciocínio é. se a lei ou ato normativo contrasta com a Constituição. quando seja ‘rígida’ e não ‘flexível’. muito coerente e de extrema simplicidade: ela foi precisada com grande clareza. a prevalente será indicada pelos usuais e tradicionais critérios lex posteriori derogat legi priori. já na motivação da famosa sentença de 1803. evidentemente. do mesmo modo que a lei ordinária prevalece.2006 . as Gesetze prevalecem sobre as Verordnungen.. Assim. 71-101. sobre o regulamento. julho/dezembro . tinha sido limpidamente formulada por Alexandre Hamilton. o óbvio critério lex superior derogat legi inferiori — quando o contraste seja entre disposições de diversa força normativa: a norma constitucional. prevalece sempre sobre a norma ordinária contrastante.82 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO Judiciário. quando a repute viciada de inconstitucionalidade. nº 2. aplica-se essa em detrimento daquele. observando-se o critério de verticalidade das normas. Sendo os juízes os responsáveis pela aplicação das leis aos casos concretos (função jurisdicional). encontrando-se no dever de decidir 16 André Ramos Tavares. redigida pelo John Marshall. uma determinada norma jurídica. no caso Marbury x Madison. “Pois bem. a fim de aplicá-las aos casos concretos de vez em vez submetidos a seu julgamento. bastante simples. ou seja. ainda antes. tratando-se de disposições de igual força normativa. e. 13. com certeza. a doutrina que está na base do mecanismo do controle judicial ‘difuso’ de constitucionalidade das leis é. Tribunal e Jurisdição Constitucional. em seu lugar. lex speciallis derogat legi generali etc. p. Logo. na Itália assim como França. pelo qual cada magistrado pode deixar de aplicar. ano 7. p. o juiz deve aplicar a prevalente. estes critérios não valem mais — e vale. conclui-se que qualquer juiz. Raciocina-se em última análise deste modo: a função de todos os juízes é a de interpretar as leis. a primeira vista. Revista da Escola Paulista da Magistratura. na terminologia alemã.

232. nem na aparência. O Processo em sua Unidade – II. após resolvê-la. ao se defender em Juízo.) enquanto no sistema difuso temos uma questão prejudicial. ou seja. Ada Pellegrini Grinover. julho/dezembro . pp. pp. ano 7. como ocorreria se o juiz julgasse a lei. a separação de poderes. alega a inexistência da obrigação por não ser válida a lei que a fundamenta. a adequação do ato normativo à Constituição. o devedor desta obrigação. esta não tem por objetivo senão a existência ou não de uma obrigação. a segunda. embora o reconhecimento da constitucionalidade ou inconstitucionalidade da lei decorra da decisão judicial. uma questão prévia. questão prévia que o juiz deverá apreciar antes da questão principal. ou melhor.. portanto. Revista da Escola Paulista da Magistratura. O Controle Judicial das Leis no Direito Comparado. pelo juiz que. Manoel Gonçalves Ferreira Filho. p. 145. ou não. pois. Rio de Janeiro: Editora Forense. que será suscitada no processo pelo interessado e deverá ser enfrentada pelo juiz em seu raciocínio.2006 .. Tal sutileza preserva a suscetibilidade do legislador e não fere. julga o pedido (aplicando a lei se a entender constitucional ou aplicando a Constituição se considerar inconstitucional a lei). 1984. exatamente para verificar se a alegada constitucionalidade existe. deve não aplicar a primeira e aplicar. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 83 um caso em que seja ‘relevante’ uma norma legislativa ordinária contrastante com a norma constitucional.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. 71-101. uma “questão prévia”.. Ada Pellegrini Grinover escreve que: “(. nº 2. 32/33. é conhecida e discutida na exata medida em que seja relevante para a solução do litígio. p. Curso de Direito Constitucional." 17 O controle por via incidental se caracteriza pelo fato de a questão constitucional ser um “incidente” processual.” 18 A questão constitucional. “(. 75/76..) exigida a satisfação de obrigação imposta por lei suspeita de inconstitucionalidade. Tal exceção é apreciada como preliminar ou incidente da ação. ao invés. que diz respeito à outra relação jurídica. Essa modalidade de controle é chamada de incidental.” 19 17 18 19 Mauro Cappelletti.

como objeto principal de uma demanda. nas ações propostas com a finalidade de que seja exercido o controle difuso de constitucionalidade. 82 Manoel Gonçalves Ferreira Filho. como bem esclarecido por Manoel Gonçalves Ferreira Filho — supra. 24.. o juiz sequer poderia fazer essa declaração.” 20 Assim. sem a apreciação da questão prévia de inconstitucionalidade.. uma vez que. então.” 21 Os efeitos do controle de constitucionalidade difuso. portanto. O juiz não invalida a lei. p. Revista da Escola Paulista da Magistratura. mas tão somente para o caso apresentado em juízo. A decisão de afastá-la tem efeitos inter partes e não erga omnes. como superficialmente mencionado. mas certamente do magistrado. deixando de aplicá-la no caso concreto. apenas não a aplica ao caso concreto e faz prevalecer a lei mais alta.) a inconstitucionalidade não se deduz como alvo da acção. esta permanece vigente e eficaz e apenas no caso decidido deixa de ser aplicada. entre a Constituição. mas apenas como subsídio da justificação do direito. mas aplica a Magna Carta. ele não julga a lei ordinária. nada será decidido. Rio de Janeiro: Capital Federal Companhia Impressora. p. Não se verifica. nota 19). “O Poder Judiciário na Constituição de 1988. julho/dezembro . Como não nulifica a lei ordinária. 20 21 Os Actos Inconstitucionaes do Congresso e do Executivo ante a Justiça Federal. em detrimento do ato normativo. A razão disso se dá porque o juiz verifica que há uma inconstitucionalidade pré-existente da norma. operam-se inter partes. eventualmente da petição. o que. 71-101. não é necessário o pedido expresso de declaração de inconstitucionalidade da norma (aliás. ano 7. no controle difuso. pois. cuja reivindicação se discute. se aplica aquela. Revista da Procuradoria-Geral do Município de São Paulo.84 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO Visa-se. Isso fará parte do raciocínio lógico. por meio dessa modalidade de controle. Rui Barbosa resolve a questão: “(. Judicialização da Política e Politização da Justiça”. 1995. a declaração de inconstitucionalidade da lei.2006 . “Estritamente. p. ao afastamento da lei para o caso sub judice. que é hierarquicamente superior. nº 2. satisfaria a pretensão buscada em juízo. e o ato normativo discutido. não a invalida. por decorrência.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. no caso concreto. Dessas premissas já surge uma conclusão bastante óbvia: o reconhecimento incidental de inconstitucionalidade. Todavia. Anna Candida da Cunha Ferraz. Portanto. in casu ou ‘concreto’.2006 . p. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada.232. obviamente. não poderá beneficiar o devedor em sua impugnação. julho/dezembro . 33. suscitada e obtida por terceiro estranho à lide.” 22 “O controle de constitucionalidade neste modelo é dito ‘difuso’. entendemos que. o qual determina que a sentença proposta em ação de caráter coletivo “abrangerá apenas os substituídos que tenham. Revista da Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo. se o processo é resolvido." 23 De fato. na data da propositura da ação. Curso de Direito Constitucional. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 85 “Convém observar que o controle incidental tem efeito apenas para as parte litigantes. nessa hipótese. É o chamado efeito particular. deverá aplicar esta e recusar aquela. por isso que baseado no poder normal do juiz (e de todo e qualquer juiz) de recusar aplicar leis inconstitucionais. p. Isso porque o efeito da declaração é inter partes e a norma continua vigendo e obrigando todos os demais que não a tenham questionado e. se aprovada a resolução suspensiva pelo Senado Federal. o efeito do reconhecimento da inconstitucionalidade se dará a partir da resolução. dez/1999. A decisão nesse caso apenas terá efeitos erga omnes no Direito brasileiro. 29. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 71-101. A decisão que afasta o ato inconstitucional não beneficia quem não for parte na demanda em que se reconheceu a inconstitucionalidade.494 de 19 de setembro de 1997. por inconstitucional. se a lei não é aplicada a um determinado caso concreto. como na hipótese de substituição processual (artigo 42 § 3º do Código de Processo Civil) ou na defesa de direitos difusos e coletivos. ela continua vigendo e obrigando aos demais que não tenham obtido idêntica decisão judicial. se a resolução do Senado for 22 23 Manoel Gonçalves Ferreira Filho.24 Ora. entre aplicar uma lei contrária à Constituição ou aplicar a Constituição. mas apenas deixe de aplicá-la ao caso concreto. 24 Salientamos que “entre as partes” pode ter seu conceito abrangido. não beneficiando nem prejudicando terceiros (artigo 472 do Código de Processo Civil). verifique-se o efeito da sentença em relação a ações propostas por entidade associativa. domicílio no âmbito da competência territorial do órgão prolator”. ou inter partes. A esse respeito. ano 7. nº 2. Assim. consoante a determinação do artigo 2º da Lei nº 9. p. “Apontamentos Sobre o Controle de Constitucionalidade”. a única beneficiada será a parte. obtido a declaração de inconstitucionalidade (incidental) nas vias judiciais. devendo o juiz decidir. nos limites da lide sem que o juiz declare a inconstitucionalidade da norma.

aprovar súmula com efeito vinculante. os países de tradição jurídica baseada na civil law não contavam com instrumento jurídico de grande valia. Por isso mesmo. Desenvolveremos melhor esse raciocínio ao abordarmos os efeitos da declaração da inconstitucionalidade no tempo.26 Mas esse sistema não era considerado compatível com os países seguidores da civil law. se desobedecida. 26 Paulo Bonavides.2. Revista da Escola Paulista da Magistratura.86 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO expedida e publicada em momento posterior ao trânsito em julgado da sentença. p. nesse diapasão. Seria necessário. julho/dezembro . Curso de Direito Constitucional. De fato. após reiteradas decisões sobre matéria constitucional. 2. Ou seja. em seu aspecto temporal. geralmente denominado Corte ou Tribunal Constitucional. Mauro Cappelletti equaciona o problema com bastante precisão: “Se queriam chegar a este ou a semelhante resultado. evitando-se. é conhecido como controle concentrado: o poder de examinar a constitucionalidade das leis concentra-se em tal órgão. a qual. 2. portanto. pela inconstitucionalidade da norma na qual se fundamentou. 71-101. com o advento da Emenda Constitucional no 45 de 08 de dezembro de 2004. como nos Estados Unidos: o stare decisis. os demais juízes de instâncias inferiores estão a ele vinculados. 281. sendo-lhes impossível decidir em contrário.2 – O Controle de constitucionalidade concentrado. alhures. Há um motivo para essa “concentração”. a inconstitucionalidade da norma não poderá fulminar o título executivo. achar-se uma solução alternativa à proposição do controle incidental de constitucionalidade. nº 2. os países da Europa 25 O Brasil passou a ter um instrumento jurídico similar ao stare decisis estadunidense. De fato. abstrato ou “austríaco” O controle concentrado de constitucionalidade caracteriza-se pelo fato de apenas um órgão ser competente para julgar a inconstitucionalidade das leis. ano 7. foi acrescentado à Constituição Federal o artigo 103A. cria a possibilidade de proposição de reclamação constitucional.2006 . que permite ao Supremo Tribunal Federal. p.25 O stare decisis pode ser definido como uma “vinculação aos precedentes” judiciais exarados pela Suprema Corte estadunidense. que as decisões se confrontassem entre si.2 – objetivo. a partir do momento em que a Suprema Corte daquele país chega a um entendimento.2. Isso porque a sentença não foi abrangida.

a pedido do governo. é comum que. Colocados diante desta exigência. criou-se órgão autônomo cuja competência é a de efetivar a verificação da constitucionalidade das normas. Nesse sentido. a “composição de conflitos entre certos órgãos do Estado”. a verificação da constitucionalidade das leis é de competência única e exclusiva do “Tribunal Constitucional” (o que impede os demais juízes e tribunais de se manifestarem sobre o tema). Hans Kelsen. o Tribunal Constitucional também esteja impedido de se manifestar sobre outros temas que não a eventual inconstitucionalidade (ou constitucionalidade) das leis. com eficácia erga omnes e. o arquétipo foi posto em prática pela Constituição austríaca de 1º de outubro de 1920 (chamada Orktoberverfassung). encontrar um adequado substituto da Supreme Court norteamericana. p. isto é. uma especial Corte Constitucional. um Verfassungsgerichtshof. 27 28 Mauro Cappelletti. 82/83. O Controle Judicial de Constitucionalidade das Leis no Direito Comparado. julho/dezembro .”28 Se.. Revista da Escola Paulista da Magistratura.232. no texto da Emenda de 1929. e posta de novo em vigor na Áustria. nº 2. 68. sem que.29 Mas se. dentre outras competências. obviamente.” O Controle Judicial das Leis no Direito Comparado. redigida com base em um projeto elaborado. 71-101.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. por outro lado. no último pós-guerra. p. por isto. de um lado. De fato. operar com instrumentos jurídicos bem diversos daqueles adotados no sistema estadunidense e em outros sistemas da common law. que tinha sofrido notáveis modificações exatamente em matéria de justiça constitucional. o sistema ‘concentrado’ poderia também ser designado como tipo ‘austríaco’ de controle. de que se falou antes. A esse respeito.). os países a cuja tradição jurídica é estranho o princípio da stare decisis. de um lado. isto é. Essa é a razão de por que tal modalidade de controle de constitucionalidade também é conhecida por “modelo austríaco. e teve sua aplicação na Constituição austríaca de 1920. Hans Kelsen.” 27 Assim. p. citando o exemplo austríaco. 84. Tornava-se. ano 7. (. todavia. 29 Mauro Cappelletti exemplifica. como. é possível afirmar que o controle concentrado de constitucionalidade foi concebido pelo mestre de Viena. pelo Mestre da ‘escola jurídica de Viena’. pp. em síntese. Mauro Cappelletti escreve que: “Analogamente. confira-se O Controle Judicial de Constitucionalidade das Leis no Direito Comparado. necessário naqueles países. salvo nas hipóteses em que outras competências são a ele designadas.2006 . nesse tipo de controle. da possibilidade de o Tribunal Constitucional daquele país exercer funções além do controle normativo.. encontrar um órgão judiciário a que se pudesse confiar a função de decidir sobre as questões de constitucionalidade das leis. deviam. por exemplo. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 87 Continental e. os ‘pais’ da Constituição austríaca julgaram dever criar um órgão judiciário adequado. de modo tal a evitar aquele perigo de conflitos e de caótica incerteza do direito. em geral. ou pelo menos oportuno.

Nunca é demais repetir que o efeito erga omnes da decisão do controle concentrado de constitucionalidade é o fato manjedoura do próprio instituto jurídico. Revista da Escola Paulista da Magistratura. uma questão prévia que independe de suscitação pela parte. como vimos. uma vez que. Zeno Veloso. mediante processo judicial autônomo. mas a validade da norma. independe de um conflito em caso concreto”. repita-se: constitucionalidade) terá como pedido principal o expurgo da lei do universo jurídico. Interessante a observação de Zeno Veloso. Controle Jurisdicional de Constitucionalidade. justamente para que seja obtida uma decisão de efeitos erga omnes. no controle por via incidental.” 31 Ou seja. uma situação particularizada. Revista PGE/SP. p.88 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO esse mesmo órgão possa se manifestar sobre outras questões legais. isto é.2006 . em si mesma. julho/dezembro . sem considerar sua aplicação a um caso concreto. Ou seja. a inexistência da stare decisis nos países adotantes do sistema da civil law foi fator determinante para a sua concepção. principal. Portanto. 71-101. se caracteriza como um incidente ou. in abstrato.30 A característica principal do controle sob exame é o fato de que o pedido de inconstitucionalidade (ou constitucionalidade) da norma se dá a título principal. de que forma a questão de inconstitucionalidade poderia ser verificada em um caso concreto? A resposta é simples. nº 2. p. em virtude do confronto com a Constituição. ano 7. no controle por via principal. vinculado à ação direta de inconstitucionalidade: “Na ação direta de inconstitucionalidade não se estará julgando uma relação jurídica específica. 61. 1990. esse tipo de controle é utilizado. para o achaque de uma lei em tese que venha a malferir a Constituição ou “a fiscalização de constitucionalidade é abstrata. se a questão constitucional. ao dissertar sobre o tema. como acima visto. 30. Ao contrário do controle incidental. 30 31 Anna Candida da Cunha Ferraz. tem por objeto a regra jurídica. haja vista que o juiz pode conhecê-la de ofício. o controle concentrado de constitucionalidade não necessita de um caso concreto para se fazer valer. dez. a declaração de inconstitucionalidade (ou. “Apontamentos Sobre o Controle de Constitucionalidade”. p. justamente.

36 Paulo Bonavides. Chipre. profundamente. p. em decorrência do princípio da supremacia constitucional. cit.232. Assim. nº 2. Curso de Direito Constitucional. representa uma anomalia alarmante. p. Mauro Cappelletti. 71-101. Essa é outra opção bastante clara quando se trata de controle concentrado de constitucionalidade. Op. Paulo Bonavides. p. Não é possível exercer o controle concentrado de constitucionalidade. por “qualquer um do povo”. “o fato de estar vigorando uma lei que contraria a Constituição. 62..2006 . como acentuou Cappelletti. a quem cabia a iniciativa do processo por via de ação”. a Corte de Justiça Constitucional da Áustria “somente se pronunciava sobre a constitucionalidade das leis federais quando provocada pelo Governo Federal. 35 Mauro Cappelletti. reclamando providência expedita e drástica para eliminação do preceito violador” . Curso de Direito Constitucional.34 Anota o mesmo autor que esse sistema foi também adotado na Itália.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. p. p. geralmente. em sua modalidade concentrada. p. ano 7. 83. Alemanha. O Controle Judicial das Leis no Direito Comparado. Turquia e na antiga Iugoslávia. foi inspiração de Hans Kelsen e adotado na Constituição Austríaca de 1º de outubro de 1920. afrontando o postulado da hierarquia constitucional.32 Justifica-se: o controle por via principal visa assegurar ao cidadão e ao próprio Estado a ordem constitucional. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 89 Isso porque.. como diz Paulo Bonavides: “Consente aos governados e com mais freqüência a certas autoridades públicas a iniciativa de promover o ataque imediato e ofensivo ao texto eivado de inconstitucionalidade. senão por “pessoas” ou “entidades” descritas expressamente a quem se atribui a “aptidão” de ser legitimado a ingressar com o processo perante o Tribunal Constitucional.” 33 O controle de constitucionalidade. os quais. cit. são países que adotam o sistema da civil law. Ou. a ordem jurídica. É proposta por terceira pessoa. um fator de insegurança que fere. A legitimidade ativa é expressa e reduzida. desestabilizando o sistema normativo. Op. muitas vezes estranha à pertinência temática suscitada pela norma inconstitucional. Espalhou-se rapidamente pelos países da Europa continental. 73. 279. 277. a ação direta não é intentada pelo interessado final.36 32 33 34 Zeno Veloso. Revista da Escola Paulista da Magistratura. julho/dezembro .35 Por ocasião da criação do controle concreto de constitucionalidade.

talvez pelo fato de tal sistema cercear a defesa de direitos fundamentais38. determinando. declaratórias e ex tunc. se fazia necessário um “pedido especial” (Antrag). até agora. p. acreditamos que deixamos claro que o controle de constitucionalidade incidental emana decisões de caráter inter partes..37 É perceptível. Foi dito acima que o controle de constitucionalidade poderia ser observado sob várias óticas diferenciadas. Ou seja. 71-101. 104. que. e ao menos em princípio. para o exercício do controle. Op. nº 2. pressupõe que os efeitos da decisão que apregoa a inconstitucionalidade sejam verificados a partir de então. dentre tais. pelos efeitos de suas decisões. neste apertado escorço histórico que. outrossim. julho/dezembro . ano 7. via de conseqüência. ainda que na via difusa.2006 . p. 86. A Inconstitucionalidade das Leis: Vícios e Sanção. O Controle Judicial das Leis no Direito Comparado. Assim é porquanto o Tribunal Constitucional não declara uma nulidade pré-existente. portanto. outros órgãos passaram a ser aptos para suscitar o conflito de constitucionalidade. o contraponto com a doutrina de Marshall era total: apenas órgãos políticos eram legitimados a exercer o controle de constitucionalidade. Falemos um pouco sobre o caráter de suas decisões. Ele julga a norma inconstitucional com efeitos erga omnes. E. Elival da Silva Ramos. cit. No que concerne aos efeitos da decisão do controle de constitucionalidade concentrado. possibilita que as decisões não retroajam. Paulo Bonavides.90 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO A Constituição austríaca de 1920 criou uma Corte especial. Em outras palavras. que operem efeitos ex nunc. p. por sua vez. que é constitutivo. Revista da Escola Paulista da Magistratura. o tipo de controle exercido está diretamente ligado ao efeito da sanção no tempo. até o nascedouro da possibilidade de um recurso constitucional direto. ao menos no que diz respeito às suas origens. O controle concentrado de constitucionalidade. Quanto a esse aspecto. Esse é um ponto claro de diferença entre ambos os institutos: 37 38 39 Mauro Cappelletti. Com o passar dos anos. a princípio. a decisão é de natureza constitutiva. o Verfassungsgerichtshof. p. propondo a ação direta. A sanção de inconstitucionalidade39 está diretamente ligada ao tipo de controle exercido. pudemos verificar que se caracteriza por ser erga omnes. o que. por parte de alguns órgãos políticos. 279.

Não é só: mas — coisa ainda mais notável — a Corte Constitucional austríaca tem.232. 71-101. ano 7. cit. nº 2. de anulação) do pronunciamento de inconstitucionalidade opera ex nunc ou. o caráter de um controle constitutivo de invalidade e da conseqüente ineficácia das leis que contrastam com a Constituição. ao contrário. a eficácia (constitutiva. a Corte constitucional não declara uma nulidade. contanto que este diferimento da eficácia constitutiva do seu pronunciamento não seja superior a um ano." 41 A Corte Constitucional austríaca. nos últimos decênios sofreu notáveis oscilações e variações. além de exarar sentenças de caráter constitutivo.. a partir do 40 41 Mauro Cappelletti. com toda a certeza. ao contrário. e disto. julho/dezembro . Mauro Cappelletti. o sistema austríaco assume. p. posto que inconstitucional. faz-se possível concluir que a decisão pela inconstitucionalidade anula a norma. de fato. p. ou seja. Mauro Cappelletti esclarece com objetividade. em princípio. retroativamente — trata-se. ainda pode protrair a decisão no tempo. §4) — o caráter de um controle meramente declarativo. Revista da Escola Paulista da Magistratura. de resto. O Controle Judicial de Constitucionalidade das Leis no Direito Comparado. o que também é possível no Direito Constitucional brasileiro. com eficácia ex nunc. é válida e eficaz. de mero acertamento de uma préexistente nulidade absoluta — no sistema austríaco. 117. ainda. afirmando que: “No sistema austríaco. pro futuro. repito. ex tunc. que. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 91 “Resumindo então: enquanto o sistema norte-americano de controle judicial de legitimidade de leis tem — pelo menos segundo a concepção tradicional que. o poder discricionário de dispor que a anulação da lei se opere somente a partir de data posterior à publicação (Kundmachung) de seu pronunciamento. mas anula. significa dizer que operou seus efeitos até a data da anulação: esses efeitos permanecem válidos no passado. não se admitindo qualquer retroatividade da eficácia da anulação. como voltaremos a ver (infra. no entanto. cassa (‘aufhebt’) uma lei que. 116.2006 . Op. p.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. Se a norma é anulada. até o momento em que o pronunciamento do Corte não seja publicado. com total coerência. enquanto o primeiro sistema a eficácia (meramente declarativa) opera. deriva.” 40 Dessa forma. ao invés.

Revista da Escola Paulista da Magistratura. tem de ser considerada como válida. Se a afirmação corrente de que uma lei é inconstitucional há de ter um sentido jurídico possível. enquanto for válida. e. p. previsto pela Constituição. pode ser revogada não só pelo processo usual. não pode ser inconstitucional. Aliás. A construção teórica de Kelsen se deu em função da peremptória nãoaceitação da forma de controle de constitucionalidade instituída nos Estados Unidos. não for revogada. de acordo com a Constituição. como diz 42 Teoria Pura do Direito. pois uma lei inválida não é sequer uma lei. portanto. O seu significado pode ser o de que a lei em questão. por uma outra lei. 71-101. Pois. 1999. O raciocínio parece um contra-senso. Senão. 300. não é passível acerca dela qualquer afirmação jurídica. se é inadmissível que uma lei inserida no contexto do Direito positivo seja inconstitucional.868. o fundamento de sua validade tem que residir na Constituição. p. nº 2. ano 7. e. Enquanto. toda a teoria do controle concentrado de constitucionalidade tem por fundamento a anulação da norma e a operação de efeitos ex nunc. não deve ser tomada ao pé da letra. pois uma lei somente pode ser válida com fundamento na Constituição. De uma lei inválida não se pode afirmar que ela é contrária à Constituição. uma vez que seria inadmissível entender que uma lei inserida no ordenamento jurídico fosse inconstitucional. O jurista de Viena jamais se conformou com a possibilidade de se verificar nula uma lei. Voltaremos a esse assunto. se a norma estivesse em contradição com a Constituição.2006 . julho/dezembro .” 42 Essa construção teórica aponta que o rechaço da lei em tese deve operar a partir da decisão. porém. mas também através de um processo especial. vejamos: “A afirmação de que uma lei válida é ‘contrária à Constituição’ (anticonstitucional) é uma contradictio in adjecto.92 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO advento da Lei nº 9. porque não é juridicamente existente e. de 10 de novembro de 1999 (artigo 27). segundo o princípio lex posteriori derrogat priori. Quando se tem fundamento para aceitar a validade de uma lei. São Paulo: Editora Martins Fontes. quer dizer.

julho/dezembro . a princípio. É de notar. parece óbvio que a retirada do mundo jurídico do hipotético ato inconstitucional deveria operar efeitos ex tunc.43 tal ato pode ser tudo menos uma lei. que: “Nessa hipótese. pela presunção de legitimidade dos atos legislativos cujo fundamento de validade está inserido na própria Constituição. Teoria Pura do Direito. à prolação de ato sancionatório. no que concerne à produção dos efeitos legais. A decisão judicial (como é usual) que aplica a sanção in concreto possui natureza indubitavelmente constitutiva. até a ocasião em que a lei começou a produzir efeitos. 90. que é automática. Se não há como admitir efeitos de uma lei inconstitucional. Revista da Escola Paulista da Magistratura. comina o ordenamento a invalidade do ato contraventor. todavia. Elival da Silva Ramos. uma lei não pode ser considerada inconstitucional a partir do momento em que ingressa no ordenamento jurídico. ou melhor. pelo fato de ser impossível. p. a decisão não tem o objetivo de verificar uma pré-existente nulidade. pois. a decisão apenas opera pro-futuro. da sanção de nulidade. não existe confronto com a Constituição. Todavia. 300. se a nulidade. declarando-a apenas. condicionando-a. Nesse viés. p. mas será efetivamente inválido somente a posteriori. ou seja. p. acompanhando o raciocínio de Elival da Silva Gomes. pelo entendimento de Hans Kelsen. Ao contrário. se a inconstitucionalidade é pré-existente. ela deve operar efeitos até o momento em que seja ordenada sua retirada do mundo jurídico. 300.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. Se existe a lei. Ora. Mas o paradoxo é apenas aparente. a sanção de anulabilidade é apenas potencial: o ato sancionado é potencialmente inválido. possa ser inconstitucional. ano 7.” 45 43 44 45 Idem. caracterizado o vício de inconstitucionalidade.232. A retroatividade da decisão. nº 2. como essa lei surtiria efeitos? Como esse conflito é inadmissível. a decisão é constitutiva e seus efeitos serão apenas sentidos quando tal decisão for exarada. ao mesmo tempo. p. é curioso imaginar como geraria efeitos. após o ato (sancionador) de anulação. Seguindo o raciocínio de Kelsen. Ou seja. A Inconstitucionalidade das Leis: Vícios e Sanção.2006 . 71-101.44 que uma lei que exista e. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 93 Kelsen. seria o mesmo que admitir que uma lei inconstitucional impusesse obediência.

) a lei continuará sendo aplicada em relação às situações de direitos consumadas antes da anulação. 86. Revista da Escola Paulista da Magistratura.2006 . pelo reconhecimento de sua inconstitucionalidade. informa que: “(. o ato impugnado na via direta opera seus regulares efeitos. ano 7. “Como se percebe. Os efeitos da declaração de inconstitucionalidade no tempo Para fins de estabelecermos nossa premissa. em outros sistemas.47 Essa. p. até o eventual expurgo do mundo jurídico. dado origem à decisão.3. 119. os que adotam o controle concentrado. no entanto. o controle é o conjunto de instrumentos predispostos a assegurar a efetividade da sanção. De fato.94 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO Dessa forma. que. as sanções de vício. as decisões emanadas pelas cortes Constitucionais operam. na Alemanha e na Itália. 134.” 48 46 47 48 Alexandre de Moraes. Mauro Cappelletti. 71-101.. fugindo da regra e da construção teórica própria desse tipo de controle de constitucionalidade. até o advento da Lei nº 9. eventualmente. geralmente. Controle Judicial de Constitucionalidade das Leis no Direito Comparado. A Inconstitucionalidade das Leis: Vícios e Sanção. exceto àquela que tenha. nº 2.” 46 É curioso notar. 1994. Jurisdição Constitucional e Tribunais Constitucionais. p. p. São Paulo: Editora Saraiva. O vício é a desconformidade entre a lei e a Constituição. julho/dezembro .. como é fato público e notório. ao escrever sobre os efeitos da decisão do Tribunal Constitucional austríaco. 2. as decisões das suas Cortes Constitucionais operam efeitos ex tunc. de 10 de novembro de 1999.2. p.868. notadamente sobre os efeitos vinculantes da decisão. podem ser de nulidade ou anulabilidade. ou. Os efeitos do controle de constitucionalidade. a sanção é o desdobramento previsto pelo sistema para o vício de inconstitucionalidade. sempre foi a tradição no Direito brasileiro. que adotaram o controle concentrado de constitucionalidade. a sanção de inconstitucionalidade está a meio caminho em relação ao vício e ao controle. como assevera Elival da Silva Ramos. resta verificarmos os efeitos da decisão do controle incidental de constitucionalidade no tempo. Alexandre de Moraes. efeitos ex tunc. como vimos na nossa breve análise do sistema de constitucionalidade na Áustria.

Todavia. cit. os efeitos da decisão retroagirão no tempo. não anula. ou seja. pelo que o juiz. federais ou estaduais. O que se denomina por “doutrina clássica”. ano 7. Dinamarca. em suma — todos os órgãos judiciários. essa forma de controle de constitucionalidade não está imune a críticas. afirma que: “No primeiro destes dois sistemas. que exerce o poder de controle. acredita que qualquer decisão que verificar a inconstitucionalidade de uma norma tem efeitos retroativos. O comentário de Anna Candida da Cunha Ferraz é bastante explicativo nesse sentido: “Assim.. Mauro Cappelletti expõe as principais vicissitudes dessa modalidade de controle de constitucionalidade: “No método de controle ‘difuso’ de constitucionalidade — no denominado método ‘americano’. ou seja. de resto. têm. em relação ao controle difuso de constitucionalidade. como hipótese de trabalho — uma hipótese que. Se a reconhece sua nulidade (ou sua nulidade préexistente). do método Revista da Escola Paulista da Magistratura.51 49 50 51 Anna Candida da Cunha Ferraz. 71-101." 49 Mauro Cappelletti. Op. inferiores ou superiores. mais em geral. de derivação romanística. ao dissertar sobre os efeitos da decisão que julga o contraste de uma lei com a Constituição no tempo. Alemanha e na Itália — a introdução deste método ‘difuso’ de controle nos sistemas jurídicos da Europa continental e. julho/dezembro . o ato inconstitucional é nulo e írrito. Suécia. em alguns países.232. meramente. Suíça. como já se referiu. uma vez que temos como premissa que o juiz constata uma nulidade pré-existente da norma. cuja origem está na decisão de John Marshall. o juiz reconhece a norma como nula de pleno direito ao analisar um caso concreto. Experimentemos então imaginar. ineficaz. na Noruega. Não obriga. p. a lei inconstitucional. porque contrária a uma norma superior. segundo a concepção mais tradicional. p. nº 2. O Controle Judicial das Leis no Direito Comparado. declara uma (pré-existente) nulidade da lei inconstitucional. em que não existe o princípio típico dos sistemas de common law. pp. mas. Não produz efeitos. é considerada absolutamente nula (null and void) e. Mauro Cappelletti.2006 . O Judiciário apenas ‘declara’ a nulidade. 115/116. 29. na doutrina clássica construída a partir dessa decisão.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. os efeitos da decisão retroagem. nos sistemas denominados de civil law. como foi dito. por isto." 50 Se a “declaração” (ou questão prévia) de inconstitucionalidade é incidental e difusa. A nulidade fulmina a norma ex tunc. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 95 Com relação ao controle incidental das leis. foi tornada realidade. o poder e o dever de não aplicar as leis inconstitucionais aos casos concretos submetidos a seu julgamento.

situação perniciosa quer para os indivíduos como para coletividade e o Estado. certamente. esse sistema de “retroação” da decisão no tempo era francamente utilizado tanto no controle difuso e incidental. nos sistemas conhecidos de controle de constitucionalidade. em função do efeito inter partes. mesmo reiterada. Dissemos que. o primeiro efeito deriva do modo de controle incidental de constitucionalidade. menos ligados a um certo passado. de uma lei por parte do órgão supremo da justiça poderia impedir o comportamento contrário de qualquer outro órgão do ordenamento judiciário. portanto. Revista da Escola Paulista da Magistratura. p.868 de 1999 que a situação começou a mudar. Na outra ponta. ao contrário. por exemplo. um novo caso em juízo”. ao invés. compostos usualmente de juízes mais jovens e. uma mudança de opinião do órgão supremo”. “Poderiam. se verificou com notoriedade na Itália. como. qualquer sujeito interessado na não aplicação da mesma lei. 71-101. Todavia. pelo que leio. bem como. Foi com a Lei nº 9. “Mas não basta. a julgar válidas. poderia acontecer que o mesmo órgão judiciário que. o sistema do controle difuso de constitucionalidade pode trazer (como traz) uma série de inconvenientes. porque concretizado em ordenamentos jurídicos que não acolhem o princípio da stare decisis. por alguns juízes. julho/dezembro . mesmo depois de uma primeira não aplicação ou de uma série de não aplicações de uma determinada lei por parte das Cortes.“ “Demais. de tudo isto. a declarar a inconstitucionalidade de leis que os juízes superiores (e mais velhos) tendem. com o aparecimento do controle concentrado de constitucionalidade. formar-se verdadeiros ‘contrastes de tendências’ entre órgãos judiciários de tipo diverso — que se manifestaram. por outros . como no controle concentrado e objetivo de inconstitucionalidade em nosso país. Ensina Elival da Silva Ramos que: ‘americano’ de controle. ontem. porque não julgada em contraste com a Constituição. dentre eles o Brasil. muito menos. uma verdadeira enxurrada de ações. não tinha aplicado uma determinada lei. de maneira impressionante no Japão”. levaria à conseqüência de que uma mesma lei ou disposição de lei poderia não ser aplicada. A norma tida por inconstitucional é afastada do juiz no caso concreto. Ulteriores inconvenientes do método ‘difuso’ de controle. em perigosos contrastes entre órgãos da justiça ordinária e da justiça administrativa — ou entre órgãos judiciários de diverso grau: por exemplo. ano 7. porque julgada inconstitucional. proponha. e como.2006 . no período de 1948-1956. poderia ser uma grave situação de conflito entre órgãos e incerteza do direito. nº 2. ser aplicada. por sua vez. uma maior inclinação dos órgãos judiciários inferiores.96 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO Em resumo: para os sistemas jurídicos de tradição romanística. como já alertamos. enquanto poderia. exatamente. tendo mudado de opinião sobre o problema de sua legitimidade constitucional”. Tampouco a não aplicação. como a insegurança jurídica pelo fato de tribunais diversos entenderem a questão de forma diferente. duas são as formas de efeitos no tempo com relação a um ato tido por inconstitucional ex tunc (ou seja. efeitos retroativos) ou ex nunc — a partir do momento da decisão em diante. nem. são os que derivam da necessidade de que. surge a possibilidade de que o ato tido por inconstitucional apenas perca seus efeitos a partir da decisão do Tribunal Constitucional. “A conseqüência extremamente perigosa. a aplique hoje. continua a se verificar. Como vimos. ao contrário.

a tese não recebeu acolhida no plenário do Supremo Tribunal Federal. também.54 E continua o jurista: “Afirmava-se.343. min.343-BA. p.232. 275. nº 2. 91. 279. 275. que: “Acertado se me afigura.53 Para Gilmar Ferreira Mendes. a lei viciada por inconstitucionalidade produz efeitos até a sua invalidação por sentença. Op. p. qualquer ato tido por 52 53 Elival da Silva Ramos. seja na modalidade difusa. o que é possível graças à validade provisória que se lhe atribui. o entendimento de que se não deve ter como nulo ab initio ato legislativo. rel. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 97 “Nos sistemas constitucionais que adotam a sanção de anulabilidade.365-MT. ano 7. impondo-se. “O dogma da nulidade da lei inconstitucional é uma verdadeira tradição do Direito brasileiro”. quase sem contestação.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. portanto. Aspectos Jurídicos e Políticos. 56 RExt. nº 93.” 52 Estabelecidas as diferenças. p. 55 Idem. não obstante já nele prevista (potencialmente).. Representação nº 971-RJ. em razão disso. Leitão de Abreu. min. 791 (793). Cf. o Supremo Tribunal Federal sempre determinou que a declaração de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo inconstitucional produzisse efeitos ex tunc. A Inconstitucionalidade das Leis – Vícios e Sanção.. seja na modalidade concentrada. p. 71-101. 57 por ocasião daquele voto. cit.55 Acreditamos que a única dissonância de tal posição encontrava amparo no voto do ministro Leitão de Abreu. min. munido de presunção de validade. enquanto não declarado inconstitucional à obediência pelos destinatários dos seus comandos. RExt. Djaci Falcão. podemos afirmar que. no julgamento do Recurso Extraordinário nº 79. Assim.2006 . RTJ 87 (758). rel. Revista da Escola Paulista da Magistratura.329). rel. que entrou no mundo jurídico. como lembra Gilmar Ferreira Mendes. Controle de Constitucionalidade. 54 Gilmar Ferreira Mendes. Afirmou o ministro. a esse respeito. segundo esse entendimento pretoriano. Leitão de Abreu. p. julho/dezembro . RTJ 97 (1. nº 79. RTJ nº 82.” 56 Mas. A decisão provoca mudança no plano do Direito material. naquela ocasião. 57 Gilmar Ferreira Mendes. que a declaração de inconstitucionalidade importava na nulidade da lei”.

Contudo. Já foi explanado aqui que o controle concentrado de constitucionalidade. Pois bem.868.2006 . Sobre tal assunto. e muito. § 1º do Código de Processo Civil. ano 7. se caracteriza pela determinação de anulabilidade da norma impugnada.98 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO inconstitucional. Tudo isso influi. como na via concentrada. 27 da lei em comento: “Ao declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo. que trouxe inovações profundas no sistema de controle de constitucionalidade concentrado no Brasil. das decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade. poderá o Supremo Tribunal Federal. tenha valia no julgamento abstrato de normas. Revista da Escola Paulista da Magistratura. no controle concentrado.868. de 10 de dezembro de 1999. Mais do que isso: prevê ainda que o Senado Federal atribua efeitos erga omnes para as decisões exaradas pelo Supremo Tribunal Federal no exercício do controle difuso. E. deixava de operar efeitos desde sua publicação. tão logo essa inconstitucionalidade fosse verificada. na impugnação do executado com base no art. ao regular as ações direta e declaratória de constitucionalidade. A partir da Lei nº 9. restringir os efeitos daquela declaração ou decidir que ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito em julgado ou de outro momento que venha a ser fixado”. de 10 de novembro de 1999. por maioria de dois terços de seus membros. a Lei nº 9. 475-L. passou a permitir a chamada “modulação dos efeitos”. motivo pelo qual os efeitos da decisão são ex nunc. na sua visão mais ortodoxa. Confira-se o art. como que tal ato possa ser expurgado do mundo jurídico a partir da decisão do Supremo Tribunal Federal (efeitos ex nunc da decisão). passaremos a dissertar. p. o sistema brasileiro de controle de constitucionalidade passou a prever uma possibilidade de que esse sistema. julho/dezembro . o sistema pátrio permite que o ato tido por inconstitucional seja considerado nulo e írrito (efeitos ex tunc da decisão). Nosso sistema de controle jurisdicional de constitucionalidade prevê tanto a possibilidade de ingresso na via difusa. 71-101. além disso. e tendo em vista razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse social. nº 2. como originalmente projetado.

com base no art. linhas atrás. vejamos. julho/dezembro . determinando que a conseqüência da determinação opere a partir de então. DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 99 3. quanto a sentença também foi exarada e fez coisa julgada sob a égide da lei considerada válida no passado. nº 2.2006 . § 1º poderá proceder. Ainda que o Senado Federal determine a expedição de resolução que atribua efeitos erga omnes à decisão do Pretório Excelso em controle incidental de constitucionalidade. a decisão judicial transita em julgado e apta à execução não será atingida pelos efeitos da resolução do Senado Federal no tempo. 475-L. a sentença exeqüenda também não será atingida pela eiva de inconstitucionalidade. terá o mesmo efeito que a redação do anteprojeto. As modalidades de controle de constitucionalidade 3. Em primeiro lugar. Dessa forma.232. utilizando-se de decisão judicial que reconheceu inconstitucionalidade de lei em processo no qual não integrou a lide. 71-101. no art.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. Se. As longas considerações sobre controle de constitucionalidade acima alinhavadas permitemnos chegar a essa conclusão. sendo que apenas em uma a impugnação com base no art. § 1º. Assim. Isso porque os efeitos da referida resolução são ex nunc. a teor do art. uma vez que tanto a obrigação a ser cumprida (ou o ato ilícito causador de dano patrimonial) ocorreu enquanto a lei era válida. o Supremo Tribunal Federal julgar a lei ou ato normativo inconstitucional. mas modular os efeitos da decisão. ano 7. o controle incidental de constitucionalidade opera efeitos apenas inter partes. embora não tenha acatado a sugestão entabulada pelo IBDP. o devedor ou executado não poderá se eximir de cumprir a obrigação estabelecida no título judicial. Em relação ao controle concentrado de constitucionalidade. que os efeitos da modificação legislativa contida no art. 472 do CPC) terceiros estranhos à lide. 475-L. Dessa forma. brasileiras e a impugnação do executado com base 3. Senão. na via concentrada. p. Dessa forma. duas hipóteses poderão ocorrer. o devedor executado não se beneficiará de tal resolução. § 1º do Código de Processo Civil Dissemos. a decisão judicial não abrangerá (e nem poderá alcançar. 475-L.868/99. 27 da Lei nº 9. resta ao devedor executado impugnar o título executivo Revista da Escola Paulista da Magistratura.

. São Paulo. Os Actos Inconstitucionaes do Congresso e do Executivo Ante a Justiça Federal. J.CAPPELLETTI. pp. 71-101. O Controle Judicial de Constitucionalidade das Leis no Direito Comparado. São Paulo: Martins Fontes.KIMMINICH. julho/dezembro .KELSEN. Revista de Direito Público nº 92. 1984.]. pp. [s. 1992. Curso de Direito Constitucional. 2000. Ada Pellegrini. . São Paulo: Revista dos Tribunais.FERRAZ. . eles jamais produziram efeitos e a sentença que originou o título executivo é passível de impugnação. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor. 1995. 21/41. O Processo em sua Unidade – II. São Paulo: Saraiva. 2ª ed. Teoria Pura do Direito. Clèmerson Merlin. Ana Cândida da Cunha.CLÈVE. São Paulo: Saraiva. 1990. apenas e tão somente na hipótese em que o Supremo Tribunal Federal.————. 475-L § 1º do CPC. Gomes. . Otto.. Curso de Direito Constitucional. J. . . Rio de Janeiro: Capital Federal Companhia Impressora. Controle de Constitucionalidade: Aspectos Jurídicos e Políticos. .MENDES. “O Poder Judiciário na Constituição de 1998 – Judicialização da Política e Politização da Justiça”. nº 2. Gilmar Ferreira. ano XXVI. “Do ‘cumprimento da sentença’. . 2ª ed. .GRINOVER. nº 85... Coimbra: Livraria Almedina. 12ª ed. Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. 1999.100 CARLOS EDUARDO SIQUEIRA ABRÃO judicial com base no art. Revista da Procuradoria Geral do Município de São Paulo. 26ª ed. posto que nula. Rio de Janeiro: Forense.. Mauro. ano 7. p. . 2002. A Fiscalização Abstrata da Constitucionalidade no Direito Brasileiro. in Revista do Advogado. conforme a Lei nº 11. 1990. Paulo. .FERREIRA FILHO. 1839.HAMILTON MADSON E JAY.CARNEIRO.232/2005. 1999. nulo e írrito (efeitos ex tunc da decisão). Brasília: Universidade de Brasília. Bibliografia . julgar inconstitucional a lei ou o ato normativo considerando-o. . 1999. “Jurisdição constitucional e princípio da separação de poderes”. . Rui.BONAVIDES. 18/27.d. Manoel Gonçalves. Hans.BARBOSA. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Direito Constitucional. em controle concentrado de constitucionalidade. maio de 2006. Athos de Gusmão. Parcial retorno ao medievalismo? Por que não?”. “Apontamentos sobre o controle de constitucionalidade”. no entanto. O Federalista. Sendo assim. São Paulo: Malheiros.CANOTILHO.2006 .

ano 7. Controle Jurisdicional de Constitucionalidade. . 71-101. Elival da Silva. Revista de Direito Público nº 92. 18/27. . São Paulo: Celso Bastos Editor. Carlos Mário da Silva. Revista da Escola Paulista da Magistratura.MORAES.VELOSO.RAMOS.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 11. . “Controle de constitucionalidade na constituição brasileira de 1988”. . Alexandre. nº 2. 2000. p.232. julho/dezembro . DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 101 . André Ramos. 1994. A Inconstitucionalidade das Leis: Vícios e Sanção.TAVARES. São Paulo: Editora Saraiva. 2000. pp. 1998. Tribunal e Jurisdição Constitucional. 1ª ed.. Jurisdição Constitucional e Tribunais Constitucionais.VELOSO.2006 . São Paulo: Atlas. Belo Horizonte: Del Rey. Zeno.

102 .

5. da CF) .5.5. Reprodução do teor da sentença prolatada no caso paradigma 5.8.4.7.10. A tomada de súmula do STJ ou do STF como caso paradigma . Sentença proferida no caso paradigma de total improcedência . juízo de retratação.2.2006 .5. LVXXVIII.1. p. Dispensa da citação do réu e isenção do autor vencido nos honorários do advogado .5. Necessidade de a sentença do caso paradigma estar de conformidade com a jurisprudência dominante .5. Decisões do mesmo juízo . 103-136.5. O dilema entre celeridade e segurança . nº 2. A garantia da tutela jurisdicional tempestiva (art.5.5.4. O tempo no Direito Processual Civil 2.11. Recurso da improcedência liminar.5.6. 5º. 285-A do CPC) .5.103 O princípio constitucional da tutela jurisdicional sem dilações indevidas e o julgamento antecipadíssimo da lide Fernando da Fonseca Gajardoni JUIZ DE DIREITO DO ESTADO DE SÃO PAULO E PROFESSOR DE DIREITO SUMÁRIO: 1.3. Casos idênticos? .5. O julgamento antecipadíssimo da lide (art. Matéria unicamente de Direito . A celeridade como pressuposto de um processo justo . §§ 1º e Revista da Escola Paulista da Magistratura.9. A constitucionalidade do dispositivo . citação do réu para respondê-lo. efeitos da citação e conteúdo e natureza das contra-razões (285.3. Institutos de mesma natureza precursores do julgamento antecipadíssimo da lide . ano 7. julho/dezembro .

grande parcela da doutrina brasileira sempre encarou a questão do tempo no processo — a sua duração — como algo de menor importância. sobretudo.6.1 A necessidade de aprofundamento dos estudos sobre o tempo do processo diz respeito. Infelizmente. Uma análise profunda do custo e da duração dos processos impõe o estudo e o emprego de metodologia de pesquisa de natureza econômica e estatística bastante complexa e. Nesse sentido. por não serem propriamente científicos”. pois este não pode deixar de influir sobre a elaboração dogmática preocupada com a construção do processo justo ou com aquele destinado a realizar concretamente os valores e os princípios contidos na Constituição da República”. p. Contudo.104 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI 2º) . inacreditavelmente. 4ª ed. preclusão. nº 2. vítima principal desse fator. p. Vincenzo Vigoriti. v. 11. 1 A 2 3 Luiz Guilherme Marinoni. São Paulo. O tempo no Direito Processual Civil par de assuntos eminentemente processuais. 1986).. LXXVIII. entre outros). Julgamento do recurso e sucumbência . tradução de Teresa Celina de Arruda Alvim. ação monitória.5. o estudioso que imagina que a questão da duração do processo é irrelevante e não tem importância científica não só é alheio ao mundo em que vive. cit.12. ano 7... julho/dezembro . prescrição. como também não tem a capacidade de perceber que o tempo do processo é fundamento dogmático de vários importantes temas do processo contemporâneo (tutela antecipada. Tutela Antecipatória. 5º. encara os problemas relacionados ao custo e à duração dos processos como algo de — se não propriamente irrelevante e incidente — pelo menos importância marcadamente secundária. exceções.. p.5.5. São Paulo: RT. ainda.. como prazos. o que se tem registrado até agora é a “mais desoladora indiferença por parte da doutrina. portanto. impugnação ao valor da causa e à justiça gratuita . estranha à cultura jurídica” (“Notas sobre o curso e a duração do processo civil na Itália”.14. Bibliografia. 19.3 Este é o espírito do novo art. jul. Julgamento Antecipado e Execução Imediata da Sentença.2 É chegado o momento de o tempo do processo “tomar o seu efetivo lugar dentro da ciência processual. Juizados Especiais. Luiz Guilherme Marinoni. 16. p. 2000. nº 43. da Constituição Federal Brasileira (Emenda Constitucional nº 45/2004). que.13. para quem “a razão principal deste posicionamento é de natureza cultural. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Aplicação da norma e direito intertemporal . Reconvenção. 142. 103-136. e sob o fundamento de não se tratar de um tema propriamente jurídico./set. 1.2006 . Revista de Processo. Tutela Antecipatória. ao processo civil.

como instrumento destinado à atuação do Direito material. Revista de Processo. atuando internamente no procedimento. p. 6. Em razão disso. os direitos e a prever tutelas que. 103-136.187/2005. nº 23. sendo destinado a desenvolver-se no tempo. contém. 6 Cf. Tutela Antecipatória. 2. Luiz Guilherme Marinoni. 5 Revista da Escola Paulista da Magistratura.. Cedam. 4 Vincenzo Vigoriti. São Paulo. in Cândido Rangel Dinamarco.5 Nesse sentido. Semeia-se. 11.. Ada Pellegrini Grinover. julho/dezembro . O processo dura.6 O processo.2006 . “É indispensável se ter paciência. nº 2. de forma efetiva. normalmente não se perfazem de modo instantâneo. 253-254..277/2006 e 11.. impossível que propicie prontamente tutela definitiva. ação monitória). 1996. O dilema entre celeridade e segurança O processo é um instituto essencialmente dinâmico e. que anda na boca dos políticos inexperientes. 11. 1981 e “Conciliación e proceso”.. 320-325. mas imprescindível em todo processo. não exaure o seu ciclo vital em um único momento. 110. 11.277/ 2006). 285-A.. permitam uma racional distribuição do tempo do processo.232/2005.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. até mesmo por uma exigência lógica. não se pode fazer tudo de uma única vez. v. São Paulo: Revista dos Tribunais. não prescinde da aferição das reais circunstâncias da lesão ocorrida para o restabelecimento das coisas em seu status quo ante.4 O legislador infraconstitucional está obrigado a construir procedimentos que tutelem. “El tiempo y el proceso”./set. cit. p. como faz o camponês. O tempo constitui elemento não só necessário. pp. adequada e tempestiva. bem como as recentes leis da nominada 3ª fase de reforma do CPC (Leis nºs 11. pp.). “Costo e durata de processo civile: spunti per uma riflessione”. O slogan da justiça rápida e segura. Rivista di Diritto Civile. Adolfo Gelsi Bidart. ano 7. 1988. 18. Kazuo Watanabe. basta ver as reformas do Código de Processo Civil brasileiro do final do século passado (tutela antecipada. Padova.280/2006) — entre as quais chamo em destaque (como veremos abaixo) o novo art. mas também a própria atividade legislativa. p. até em homenagem a um elementar postulado de segurança jurídica..276/2006. do CPC (Lei nº 11. que cuida do julgamento liminar das ações repetitivas — todas inspiradas pelo propósito acelerador. desenrolam-se em várias etapas ou fases. sim. jul. Embora os atos processuais tenham uma certa ocasião para ser realizados. Participação e Processo. 105 Por isso. e é preciso esperar para se colher (.. mas. o fator tempo no processo — ao lado do seu custo — deve condicionar não somente a condução do processo.

2). Nápoles: Morano. uma decisão segura8 — com a entrega do bem da vida perseguido a quem de direito —. v. São Paulo: Revista dos Tribunais. 14 Cf. Nesse sentido. mesmo que se tenha. v. infelicidade pessoal e angústia e reduz as expectativas de uma vida mais feliz (ou menos infeliz)” (Tutela Antecipatória. 1. 9 Na conhecida expressão talhada por Ítalo Andolina (Cognizione ed Ezecuzione Forzata nel Sistema della Tutela Giurisdizionale. já que as possibilidades de erro se multiplicam consideravelmente. Rio de Janeiro: Forense. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Milano: Giufrrè. Rio de Janeiro: Forense.106 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI lamentavelmente. o afogadilho. o grande desafio do processo civil contemporâneo reside no equacionamento desses dois valores: tempo e segurança. 1982. 1974. O acerto da decisão prima sobre a sua presteza. “mas sempre cuidando que não se mutilem as garantias. Certamente.13 Segurança não pode ser confundida com eternização. quer de respeito aos direitos subjetivos das partes ou de terceiros. 2. a um processo muito rápido corresponde geralmente a restrição na defesa do direito por parte do réu. o nosso Técnicas de Aceleração do Processo. mas tem de evitar o açodamento. inconteste dano marginal. em seu discurso de posse como desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo” (“O desabafo de um juiz paulista”. p. Parte I. A Instrumentalidade do Processo. julho/dezembro .. Diritto Processo. p. Mas deve respeitar também as garantias da defesa (due process of law). 100). 2ª ed. As sucessivas reformas processuais têm sempre o objetivo de encontrar o ponto de equilíbrio. no mínimo.. 9ª ed. quase sempre. Franca/SP: Lemos e Cruz.14 Já se colocou que o valor do tempo no processo é imenso e. ao final. p. 10 Observa Luiz Guilherme Marinoni que “se o tempo é a dimensão fundamental da vida humana e se o bem perseguido no processo interfere na felicidade do litigante que o reivindica. p. São Paulo: Malheiros. o de rapidez e o de certeza. Cad. principalmente no vencedor da demanda. também. v. 154 (tradução nossa). O juiz deve buscar a rápida solução do litígio.7 Por outro lado. o distanciamento do outro. uma contradição in adjecto: se a justiça é segura não é rápida. gera. Cf. 382). não é segura”. nas partes litigantes.9 Trata-se de um fator depreciativo. 2001. de faceta emocional e material. 23 out.. 11 Para Egas Dirceu Moniz de Aragão. a sofreguidão. cit. 1994. sem as quais não haverá decisão segura.. 1996. é certo que a demora no processo gera. p. oscila o processo” (Comentários ao Código de Processo Civil. 5ª ed. 103-136.2006 . e a uma garantia muito desenvolvida dessa defesa corresponde um processo moroso. 12 Celso Agrícola Barbi aponta que “o aumento da intensidade nas medidas para alcançar um desses objetivos implica. “entre dois ideais. A observância rigorosa das formas e prazos legais é a melhor receita para conciliar rapidez e segurança” (Comentários ao Código de Processo Civil. p. 20).. p.. Cândido Rangel Dinamarco. 1976. na medida em que transcorre o tempo entre a ocorrência do fato a ser investigado em juízo e a sua declaração através da sentença. É preciso que a ligeireza não se converta em leviandade. sem ser pior que o vagaroso. “Não é possível esquecer-se de que a demora pode afetar a qualidade do serviço do juiz. 13 Ensina-nos Hélio Tornaghi que o órgão judicial é responsável pela celeridade do processo. 17). nº 2. p. quer de observância do direito objetivo.. 1. DOE. em que a celeridade desejável não provoque o enfraquecimento de defesa do direito de cada um” (Comentários ao Código de Processo Civil. que a pressa não acarrete a irreflexão.11 A decisão judicial tem que compor o litígio no menor tempo possível. se é rápida. 2003. a excessiva demora do processo. independentemente de fatores de compensação (juros e correção monetária). 232..12 Celeridade não pode ser confundida com precipitação. 1958. Deve ser destro. ano 7. 1. 515). ver José Roberto dos Santos Bedaque. p. Poder Judiciário. em grande 7 8 Francesco Carnelutti.10 do objeto que deveria ser prontamente tutelado pelo processo.

” 15 Contudo. Diário de um Século. girava em torno de quatro anos a duração média dos processos em primeiro grau de jurisdição (órgãos de competência comum). 1958. na primeira instância. ano 7. José Carlos Barbosa Moreira. 73. em 1998. 18 Cf. a ponto de satisfazer plenamente os jurisdicionados. Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Revista da Escola Paulista da Magistratura. v. julho/dezembro .2006 . adotando-se um Código de Processo Civil. O certo. não era raro que um feito civil se arrastasse por alguns anos. São Paulo. muito mais marcado pelo empirismo. no ano de 1998. Norberto Bobbio. há relatos de que. para os casos cíveis. Talvez por isso é que nesse país o fenômeno da alternative dispute resolution (ADR) tenha encontrado “máxima florescência”. de três a cinco anos. na Itália. entre 1991 a 1997. Cf. em vários traços assemelhados ao modelo continental europeu. com prazos bem fixados (e bem descumpridos). desconhecido. p. p. p. nº 23. 126. não podemos olvidar que a única arma que possui o juiz nessa guerra é o processo. a despeito de não contar com a produção científica do Direito europeu” (“Tutela jurisdicional cautelar”. o procedimento médio.17 Segundo dados constantes do relatório sobre administração da Justiça. até a presente data. o descontentamento com a morosidade da Justiça Civil é tamanha que. Não há relatos. um sistema jurídico processual plenamente eficaz em termos do equacionamento da almejada harmonização entre segurança. em média. o nosso papel é mediar esse constante conflito.. 243. um feito de itinerário completo (até o trial) chega a durar. 103-136. na França. chega a nove meses. Nos Estados Unidos. é que o sistema processual anglo-americano. impossível de ser defendida sem a competente elucidação dos fatos. a humanidade está perdendo essa batalha. Revista da Escola Paulista da Magistratura. e levasse mais de dez anos até decisão da Corte Suprema. Nápoles: Morano. ano 1. apesar de portentosa produção científica que apresenta. porém. não produziu. antes da entrada em vigor do novo código. ultrapassando os 15 15 16 17 Francesco Carnelutti. e que sua bandeira é a aplicação correta da vontade concreta da lei. Talvez o vezo cartesiano de partir de princípios para se chegar às soluções adequadas à praxis seja um dos responsáveis por essa situação. Brevidade e segurança são forças antagônicas que têm de conviver. “Não seria arriscado comparar o tempo a um inimigo. de um só sistema16 que tenha conciliado tão bem essas forças (celeridade x segurança). perante um tribunal de primeira instância. da melhor maneira possível. jun. em muitos lugares. São Paulo.. rapidez e eficácia. 354. Mas. 2. nº 2. Na Inglaterra. em abril de 1999. p.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL.18 E. apresenta melhores soluções nesse sentido. São Paulo: Campos. p. Donaldo Armelin ensina-nos que “o Direito Processual europeu. 1985). se rompeu a multissecular tradição da common law. fazer com que essas forças se conciliem. Como operadores do Direito. 107 parte. contra o qual o juiz luta sem descanso. No Japão. 1998. “O futuro da Justiça: alguns mitos”. Diritto Processo. ainda.

A celeridade como pressuposto de um processo justo O escopo primordial do processo.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao. em grau de apelação. La Eficacia Temporal del Proceso: El Juicio sin Dilaciones Indebidas. Mas. Jehanne Collard.21 Tudo está a evidenciar. são seguramente hoje as cortes mais lentas do país. p. p.gov. Rio de Janeiro: Forense.br (acesso em 02. julho/dezembro .2006). quanto mais distante da ocasião tecnicamente propícia for proferida a sentença. Nessa obra. como instituição. acesso em 02.000 processos por ano. 1997. p.planalto. 20 Fonte: www. p.. é a satisfação dos interesses das partes. 23 Cf.htm. ano 7. Para os dados atuais da situação do Judiciário brasileiro ver A Justiça em números (https://www. em benefício da rapidez das decisões. Para que o processo cumpra com eficácia o fim social para que concebido.08. em média.Juizados Especiais Cíveis e Ação Civil Pública. Paulo César Pinheiro Carneiro. tribunais mais lentos. 81. ao lado da efetividade do resultado. p. e outros. jan-jun.108 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI meses. que o dilema de ontem. analisado como instrumento de pacificação social. No mesmo país.08.20 O Tribunal de Justiça de São Paulo. entre segurança e a celeridade. 141 e segs. portanto.000 recursos para cada um dos seus 33 ministros. com estimativa temporal de julgamento de um recurso de apelação (sem prioridade legal ou regimental) para mais de cinco anos. 22 Cf. São Paulo: Revista dos Tribunais. cabendo a apreciação de mais de 6. o que consome inegável tempo. nº 1. é preciso que se desenvolva em um período razoável. o nosso “A qualidade do tempo no direito processual civil” (Revista da Escola Paulista da Magistratura. 1997. 16-17. que levam.22 3. deve ser repensado.2006 . é indispensável.2006). 2ª ed. 21 Cf. Cristina Riba Trepat.. sem dúvida. a respectiva eficácia será 19 Cf. da prioridade que deve ser dada à celeridade dos processos. se prolonga demasiadamente no tempo. nº 2. 103-136.stj. Tempo e Processo. pp. Acesso à Justiça . o autor faz um interessante relato de casos ocorridos perante os tribunais franceses. 21 meses para julgar em primeira instância (Pointe-à-Pitre). 2000. ainda. Revista da Escola Paulista da Magistratura.19 No Brasil. É inegável “que. 91. não haveria de ser diferente. 20 meses para a apelação (Aix-en-Provence). O STJ recebe mais de 200. onde os jurisdicionados sentiram na pele o amargor da lentidão judicial.gov. propiciando não só satisfação jurídica. Barcelona: Bosch. Victimes: Les Oubliés de la Justice.23 Com efeito./2003. 59-80). apud José Rogério Cruz e Tucci. mas também efetiva. imperioso é também que a decisão do processo seja tempestiva. a qual não é obtida se ele. Segurança. há. hoje. onde são ofertados todos os dados sobre a qualidade temporal do processo brasileiro e europeu no início deste século. nada impede que algumas garantias sejam arranhadas. Paris: 1997. ano 4. ao lado do Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

não é necessário que atue equivocadamente.2006 . lhe colhe os frutos. Garantias Constitucionais do Processo Civil. “A Babel da Justiça”. Por isso. pois “um julgamento tardio irá perdendo progressivamente seu sentido reparador. São Paulo: Revista dos Tribunais. no longo decorrer do processo. p. Sabido que organismos internacionais (Banco Mundicial. v. A manutenção do direito demandado.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. primordial é o “fator Judiciário”. menores os investimentos no país. 235-236. Revista da Escola Paulista da Magistratura. ano 7. 103-136. de modo inexorável. na medida em que se postergue o momento do reconhecimento judicial dos direito. 109 proporcionalmente mais fraca e ilusória”. O réu que não tem razão lucra com a demora pois. pois a lentidão beneficia. 1998. 88. a parte mais forte (rica). julho/dezembro . analisado tanto sob o prisma da coerência da decisões. in José Rogério Cruz e Tucci (org. pp. 29. 3. Diálogos & Debates da Escola Paulista da Magistratura. no mais das vezes. em poder daquele que está errado (em detrimento do verdadeiro tutelado pelo Direito). Turim: Giappichelli. representa. não poucos jurisdicionados buscam outros meios para a solução de seus litígios (heterocomposição extrajudicial). homenagem aos 10 anos da Constituição Federal de 1988. para que a Justiça seja injusta. p. principalmente os da América Latina. 1990. Um processo lento pode se tornar uma perigosa arma na mão dos mais ricos. 2002. a intempestividade da tutela jurisdicional propicia indiscutível desigualdade social. o maior contra-senso do sistema.25 Já no aspecto econômico. E quanto maiores as dúvidas. quanto mais lento o processo.24 Conforme se assinala diuturnamente. que pode esperar longos anos pela decisão. set. transcorrido o tempo razoável para resolver a causa. Como se isso já não fosse o bastante. nº 2.26 24 José Rogério Cruz e Tucci. nº 1. qualquer solução será. por maior que seja o mérito científico do conteúdo da decisão”.. injusta.. tudo a fim de evitar o dano maior que terão (material e emocional) com os longos anos de espera por uma decisão. seguramente. 25 Cf. Giuseppe Vignera. quando não renunciam aos seus próprios direitos. além de permanecer indevidamente em poder da coisa. BID) mensalmente divulgam índices de risco dos mais diversos países do mundo. “Garantia do processo sem dilações indevidas”. No que se refere às partes. em troca da pronta cessão. maiores as incertezas. Italo Andolina. Il Modelo Constituzionale del Processo Civile Italiano. em posse de bens e rendas alheias. 26 Cf. quanto sob o da tempestividade da tutela. São Paulo.). No cálculo desses índices. e. podem oferecer. os quais. apenas parcela do indevidamente apropriado. Basta que não julgue quando deva. a demora na obtenção da tutela sempre beneficia o réu que não tem razão. p.

em prazo razoável. mesmo antes do atual art.11. 29 De acordo com o artigo 6. que o direito de acesso à Justiça. A garantia da tutela jurisdicional tempestiva 4. bem como a possibilidade de a fazer executar”. O Código de Processo Civil português prevê. que decidirá sobre seus direitos e obrigações civis ou sobre o fundamento de qualquer acusação em matéria penal contra ela dirigida (. além de compreendida. tudo contribui para um menor grau de qualidade da tutela prestada intempestivamente.110 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI Até no aspecto antagônico à celeridade. LVXXVIII. em 4.28 na esteira do que já ocorria em inúmeros ordenamentos jurídicos estrangeiros.. LVXXIII. (art. Todos sabem. a segurança da decisão. 28 Revista da Escola Paulista da Magistratura. Quanto mais tempo se passa entre o fato a ser apurado e a data do julgamento. por um tribunal independente e imparcial instituído por lei. com força de caso julgado. nº 2. 2-1) que “a protecção jurídica através dos tribunais implica o direito de obter. de modo que a tutela do tempo do processo não necessitava merecer previsão expressa na Carta Constitucional Castelhana).1 da Convenção Européia para Salvaguarda dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais. para boa parte da doutrina entre os denominados direitos humanos.. encontra hoje suporte explícito na Constituição Federal Brasileira (art. 2001.. não quer dizer apenas que todos têm direito de ir a juízo.)”. aquele que não vê reconhecido o seu direito em decorrência de um provimento injusto — e injusto considera-se.2 da Constituição espanhola. e. 72. XXXV. 18). não interessa ao Estado”. o fator tempo é preponderante.. “toda pessoa tem direito a que sua causa seja examinada eqüitativa e publicamente num prazo razoável. menos condições tem o órgão julgador de solucionar com segurança e justiça o litígio. p. a um processo público sem dilação indevida e com todas as garantias” (sendo que o artigo 96. aumenta a tensão social o que.. Poderes Instrutórios do Juiz. são direitos constitucionalmente tutelados. 5º. “o direito à defesa.29 27 José Roberto dos Santos Bedaque.2006 . da Constituição Federal. Lúcida é a observação de Luiz Guilherme Marinoni.. com redação pela Emenda Constitucional n. da Constituição da República. posteriormente. p. a ser informado da acusação contra si deduzida. aduz que “todos têm direito ao juiz ordinário previamente determinado por lei. 3ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. de fato. o provimento oferecido a destempo — passa a não crer mais na justiça. adequada e tempestiva” (Tutela Antecipada. julho/dezembro .27 4. uma decisão judicial que aprecie. Além disso. LVXXVIII. E. p. expressamente (art. para quem. ratificada por quase todos os países da Europa. de 1978. 5º. O artigo 24. a pretensão regularmente deduzida em juízo. evidentemente. As circunstâncias do caso que se consomem. mas também quer significar que todos têm direito à adequada tutela jurisdicional ou à tutela jurisdicional efetiva. subscrita em Roma. ano 7.1 deste Estatuto incorpora ao ordenamento jurídico interno a Convenção Européia dos Direitos Humanos.1950.. as modificações fáticas e jurídicas (conflito de leis no tempo) da controvérsia. “na medida em que essas frustrações se repetem. 5º. 103-136. garantido pelo artigo 5º. também. à defesa e à assistência de advogado. da Constituição Federal) A garantia da tutela jurisdicional tempestiva. assim como o direito à tempestividade da tutela jurisdicional. cit. 45/2004).

5º. agasalha dispositivo de dupla dimensão. ano 7. p. sem prejuízo. já tive oportunidade de sustentar o cabimento de mandado de segurança contra a letárgica omissão institucional. de 22.11.32 O art. Revista da Escola Paulista da Magistratura.2.31 De acordo com o art. ao Ministério Público e à Defensoria Pública prazos especiais.. no âmbito judicial e administrativo. de eventual reparação a ser obtida contra o Estado pelo mau funcionamento de seu sistema judicial. já estava incorporado ao nosso ordenamento por força do Pacto de São José da Costa Rica (Convenção Americana dos Direito Humanos. quando aprovado pela comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal (PEC 29/2000). na defesa de qualquer acusação penal contra ele formulada.2006 . da Constituição Federal). Na dimensão subjetiva. cit. os meios necessários para que tal desiderato seja alcançado.736-5/São Paulo.. contudo. pp. ainda. 8. vejam-se os seguintes julgados: TJ/SP. longe de ser novidade no sistema jurídico brasileiro. de 06. 30 O direito à tempestividade da tutela jurisdicional. na forma da lei” (o grifo representa a parte excluída do projeto original). 57-60).. são assegurados a razoável duração do processo. rel.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL.11. julho/dezembro .)”. da Constituição Federal. 33 Em outra ocasião tivemos oportunidade de discorrer sobre o conceito de tutela jurisdicional tempestiva. por óbvio. concluindo que ela o é “quando os prazos legalmente prefixados para o trâmite e instrução do processo..33 assegurados. é certo afirmar que a garantia da tutela jurisdicional tempestiva concede a todo e qualquer jurisdicionado o direito de ver seu processo se desenvolver em tempo razoável.. e STF. como direito público subjetivo. são cumpridos pelas partes e pelo órgão jurisdicional” (Técnicas de Aceleração do Processo.34 30 O projeto de emenda constitucional que acabou se convertendo na Emenda Constitucional nº 45/2004 trazia. op. no âmbito judicial e administrativo. 5º. do direito a ser protegido. 198 do CPC). 8. independente e imparcial..u. v.1992 (nos termos do art. são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. integrado à ordem jurídica brasileira desde a edição do Decreto nº 678. 103-136. p. Sérgio Pitombo. prevê o citado dispositivo que “a todos. LVXXXIII. trabalhista fiscal ou de qualquer outra natureza (. Agravo de Instrumento nº 88. nº 2. 111 Com efeito. 7ª Câmara de Direito Público.1999. concebidos em vista das circunstâncias de fato da demanda. redação um pouco distinta. RT 748/152. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (redação primitiva. 56. 32 No sentido da incorporação do Pacto de São José da Costa Rica ao ordenamento jurídico brasileiro. § 2º. ou para a determinação de seus direitos e obrigações de ordem civil. 31 “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e princípios por ela adotados. instituído por lei anterior. sendo assegurado à Fazenda Pública.1969). 34 Ibidem. Além de medidas correicionais contra os violadores da garantia (art. mas de mesmo teor: “a todos.1 “toda pessoa tem direito a ser ouvida com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável por um juiz ou tribunal competente. do contraditório e da ampla defesa. e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. anterior à Emenda Constitucional nº 45/2004).

do CPC (Lei nº 11. posteriormente o encaminhando para a instância superior. 11. mesmo antes da citação da parte ex adversa. Caso contrário. no momento de elaborar a legislação processual aplicável. 344 e segs. 285-A. os meios postos à sua disposição. Descortina-se nítido o propósito da nova norma de permitir ao magistrado que. do CPC). com a prolação da sentença. 285-A do CPC) Como já afirmado acima. bem como cumprir rigorosamente os prazos processuais. Ao Poder Legislativo é exigida uma especial atenção ao elemento temporal. permitindo ao juiz “quando a matéria controvertida for unicamente de direito e no juízo já houver sido proferida sentença de total improcedência em outros casos idênticos”. mas sim uma autêntica norma programática.35 5. 5º. finalmente. 11. cit. que cuida do julgamento liminar das ações repetitivas — foram todas editadas à luz da garantia da tutela jurisdicional tempestiva. Francisco Ramos Mendez. pp.277/ 2006 e 11. da CF (EC nº 45/2004). 11. julho/dezembro .232/2005. ainda. atento à dimensão objetiva do art. julgue improcedente 35 Cf..276/2006. se o autor apelar do julgamento liminar da ação repetida. Tutela Antecipatória. nº 2. Derecho Procesal Civil. criou poderoso instrumento de contenção da demanda e de célere solução das controvérsias.187/2005. p. caput. “reproduzindo-se o teor da anteriormente prolatada” (art. é facultado ao juiz decidir no prazo de cinco dias por não manter a sentença. Barcelona: Bosch.. a dispensa da citação.. 5ª ed. p. ano 7. O julgamento antecipadíssimo da lide (art. E. 103-136. 1992. deverá ordenar a citação do réu para responder ao recurso. 285-A. O legislador. as recentes leis da nominada 3ª fase de reforma do CPC (Leis nºs 11. Ao Poder Executivo.280/2006) — entre as quais ora chamo em destaque o novo art. cujo mandamento deve ser cumprido por todos os Poderes do Estado. tem-se que a garantia do processo sem dilações indevidas não é uma mera declaração de intenções dirigida ao Judiciário. De acordo.2006 . 1.112 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI Já na dimensão objetiva... v.277/2006). Revista da Escola Paulista da Magistratura. Luiz Guilherme Marinoni. LVXXVIII. ao Poder Judiciário incumbe utilizar. a tarefa de articular a estrutura orgânica e material necessária para a função jurisdicional e dar apoio completo na execução dos julgados. 18.. determinando o prosseguimento da demanda. com o §§ 1º e 2º do citado dispositivo. de forma eficiente.

previdenciária e habitacional — onde preponderam discussões nitidamente de direito cuja solução independe da produção de provas — estejam em condições de assim serem julgadas.2006 (29. § 1º-A. nominar o instituto de julgamento antecipadíssimo da lide (já que ocorre muito antes da fase postulatória). pois tramitaria somente para autorizar o juiz a expedir decisão cujo conteúdo foi definido no primeiro processo” (“O julgamento liminar das ações repetitivas e a súmula impeditiva de recursos”. Estima-se. até para compatibilizar o art. já que o pretendido desafogamento do primeiro grau implicará sobrecarga nos tribunais. A constitucionalidade do dispositivo A Ordem dos Advogados do Brasil. 285-A. que mais de 50% dos feitos de matéria tributária. que terão de “cumprir. o papel do juízo de primeiro grau. É racional que o processo que objetiva decisão acerca da matéria de direito. 2006.03. apontando o dispositivo como “visão eloqüente e lamentável da tentativa de resolver os problemas do país (inclusive do processo) pela via de negativa de fruição das garantias constitucionais”. porque partem os autores. evitando gasto de energia para a obtenção da decisão a respeito de ‘caso idêntico’ ao já solucionado. porque a aplicação racional das garantias. ano 7. sobre a qual o juiz já firmou posição. da equivocada premissa de que as cortes de 2º grau desempenharão papel de reforma das decisões proferidas com base no art. O processo repetitivo constituiria formalismo desnecessário.2006 . rel. 518. assim. 285-A com a súmula impeditiva de recursos (art.br). São Paulo: RT. ajuizou perante o Supremo Tribunal Federal uma ação declaratória de inconstitucionalidade do art. em paralelo ao art. 37 Já em visão otimista sobre a norma.com. 285-A do CPC. E segundo.2006). 330 do CPC (que cuida do julgamento antecipado da lide finda a fase postulatória). 103-136. julho/dezembro . 557. pp. §§.02. 113 (e não procedente) a demanda quando a tese jurídica (causa de pedir) já lhe seja conhecida. algo que podia ser evitado com o simples julgamento antecipado da lide (Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil 2. onde são apontadas cinco inconstitucionalidades no dispositivo. min. de 08. antecipando. nº 2. in www.36-37 5. Luiz Guilherme Marinoni bem aponta que “o novo instituto constitui importante arma para a racionalização do serviço jurisdicional. ao meu ver. principalmente na Justiça Federal.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. quando eles mesmos. o que lhe permite.professormarinoni. o julgamento da causa. Não me convence a crítica. Revista da Escola Paulista da Magistratura. do CPC) e com o julgamento monocrático dos recursos improcedentes (art.695/DF. em especial compatibilizadas com outras de idêntico status (como a da duração razoável do processo). Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina. na hipótese de o réu oferecer suas contra-razões”. dias após a publicação da Lei nº 11. Primeiro. do CPC (ADIN nº 3. com nítido ganho temporal tanto no próprio feito. de certo modo. em determinada passagem da citada obra. Cézar Peluso). quanto nos demais que não admitem aplicação da norma (que terão sua apreciação acelerada pela desobstrução das vias judiciais). não nega vigência à Constituição Federal. 63/64). Assevera a OAB — escondendo o verdadeiro móvel da ação (reserva de 36 Revelando visão pessimista sobre o instituto se colocam Luis Rodrigues Wambier. p. com acerto apontam que a sentença a ser repetida deve estar em consonância com a jurisprudência dominante.277.. seja desde logo encerrado. tendo sido afastada em outros feitos.1. do CPC)..

vem ao encontro dos anseios 38 Cf. ano 7. já que o requerido não poderá debater e convencer o juízo do acerto de sua tese. cujos argumentos abaixo sintetizados e parcialmente acrescidos bem afastam os óbices constitucionais levantados pela autora da Adin. 4) o contraditório. pois. do CPC. 2) a segurança jurídica. Revista da Escola Paulista da Magistratura. em petição subscrita pelo associado Cássio Scarpinella Bueno — especialista no tema38 —. LVXXVIII. 3) ao direito constitucional de ação (na verdade petição). 285-A. o Instituto Brasileiro de Direito Processual. da CF). Amicus Curiae no Processo Civil Brasileiro – Um Terceiro Enigmático. pois não há lesão ao vencedor da ação pelo fato de não ter podido convencer o juiz. para aplicar o art.2006 . pois. pois este já é exercitado com o simples acesso ao Judiciário. 2006. quando ele próprio já está convencido. julho/dezembro . na qualidade de amicus curiae. deverá demonstrar fundamentadamente a similitude do caso em apreço com outro julgado anteriormente. de qualquer forma. 5º. 4) ao contraditório. e 5) o devido processo legal. Não há violação: 1) à isonomia constitucional. efetuado o julgamento liminar das ações repetitivas. São Paulo: Saraiva. quando o réu — pretensamente lesionado pela falta de citação —. cabendo recurso contra a má aplicação do dispositivo. pois o magistrado. por meio da prévia apreciação de casos similares. 285A ter sido precedida de regular processo legislativo. de que o réu não citado já tem razão. visto como o feixe de direitos e garantias condutoras do processo de seu começo ao fim. eventuais divergências de entendimento entre juízes de varas distintas serão solucionadas pelas instâncias superiores. Na obra o autor vê esta intrigante e nova figura do Direito pátrio como portador ao juízo dos interesses institucionais. porque a repetição da sentença dada em outro caso — da qual terceiros não têm ciência dos argumentos e da analogia com o caso que é apresentado — torna ilegítima a atuação jurisdicional. 103-136. 2) à segurança jurídica.114 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI mercado da advocacia. pois os entendimentos diversos dos vários juízos acarretarão processos com curso normal e outros com curso abreviado (para as varas onde já haja entendimento consolidado pela improcedência do pedido). p. preterido pelo súbito bloqueio da regular formação da relação jurídica processual. 3) o direito de ação. por estar em conformidade com o novel princípio da tempestividade da tutela jurisdicional (art. e 5) ao devido processo legal. Ingressou neste processo. nº 2. sai vencedor da ação. além de a edição do art. abalado pela dispensa de contratação de advogado pelo réu vencedor da ação não apelada) — que o dispositivo viola: 1) a isonomia constitucional. a aplicação do dispositivo. e o autor terá sua pretensão analisada fundamentadamente.

nº 135. como sempre foi tradição no Direito brasileiro. de modo que o prognóstico que se faz de seu resultado é o da declaração de constitucionalidade da Lei nº 11. 194). do julgamento antecipadíssimo da lide Tenho ouvido de certos comentaristas da Lei nº 11. 219.2006 . 39 Sem razão. permite ao juiz o indeferimento da inicial pelo advento da prescrição ou da decadência. ao advogar. que admitia o reconhecimento da prescrição — mesmo a tutelante de direitos patrimoniais — em favor de absolutamente incapaz (art. Revista de Processo. IV. era vedado o reconhecimento de ofício da prescrição para questões patrimoniais (o que acabava contemplando praticamente todas as suas hipóteses). Tal informação. como veremos.277/2006 a inverídica afirmação de que o novo art. 152-160). que. já há parecer do procurador-geral da República pela improcedência do pedido.277/2006.2. 103-136. Revista da Escola Paulista da Magistratura.925/73).O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. nº 2.277/2006. ano 7. antes mesmo da Lei nº 11. Institutos de mesma natureza precursores 5. as mesmas inconstitucionalidades aduzidas pela sua entidade e autora da ADIN (“Sentença emprestada: uma nova figura processual“. Paulo Roberto Gouvêa Medina. pp. do CPC. E isso porque já havia no sistema. com o advento do CC/2002. maio/2006. 285-A do CPC contempla novidade no cenário jurídico brasileiro. combinado com o art. dois dispositivos que permitiam (e ainda permitem) ao juiz o liminar julgamento de improcedência da ação. É certo que tal dispositivo — ao menos no tocante à prescrição — era de quase nenhum utilidade prática.280/2006. 39 A referida Adin aguarda julgamento. pois. não procede no seu todo. 269.. in Revista dos Tribunais nº 744/723. 40 Cf. 115 por justiça célere. por isto. e mais recentemente com a alteração do art. 5. do mesmo diploma (com redação pela Lei nº 5. mas além da intervenção do IBDP em favor da constitucionalidade da norma. julho/dezembro . p. 295.2. IV. que. O primeiro deles é o art. São Paulo.40 Mas. ou seja.. “Critério científico para distinguir a prescrição da decadência e para identificar as ações imprescritíveis”. Agnelo Amorim Filho. como conselheiro federal da OAB. que é uma das facetas do princípio acoimado de violado (conformação da regra às aspirações sociais e proporcionalidade). com afastamento da pretensão do autor (julgamento de mérito). § 5º. do Código de Processo Civil pela Lei nº 11.

por sua vez — excetuada a convencional — sempre pode ser reconhecida de ofício pelo juiz (art. o juiz pode. algo que não era atípico. especialmente nas ações fundadas no Código de Defesa do Consumidor (art. 295 do CPC).116 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI revogando a norma de Direito material citada. entretanto. 17 da Lei nº 8. A outra hipótese de julgamento liminar de improcedência da ação é fruto da Medida Provisória nº 2. é a generalização de sua aplicação para todas as ações cíveis (incluindo aqui as trabalhistas) que. 26 da Lei nº 8. 5. de se reconhecer o fortalecimento da hipótese de julgamento liminar da improcedência da ação. se há algo novo no art.225-45/2001 (ainda em vigor por força da Emenda Constitucional nº 32). receberá a petição inicial e determinará a citação do demandado (§ 9º) — em decisão agravável (§ 9º) — quando então se completará a formação da relação jurídica processual. ano 7. 285-A do CPC.3.2006 . Caso o juiz. desde que convencido da inexistência do ato de improbidade pelos elementos trazidos aos autos (inclusive os de fato!). ajuizada a ação e ofertada ao acusado a possibilidade de oferecer uma defesa preliminar (§ 7º). julho/dezembro . para seu deslinde.429/ 92 (Lei de Improbidade Administrativa) inúmeros parágrafos. 283 c/c art. aplica-se às ações de improbidade administrativa uma fase de defesa prévia muito cara aos crimes praticados por funcionários públicos (art. 210 e 211 do CC). 103-136. entenda presentes elementos suficientes para o processamento da ação. além do indeferimento da inicial pela inadequação da via eleita ou vícios formais (art.078/90). De acordo com o rito imprimido pela citada MP. razão pela qual. independam da produção de provas. que acrescentou ao art. p. 513 a 518 do Código de Processo Penal). Por isso. 285-A do CPC menciona textualmente que a improcedência de plano só pode ser aplicada quando a matéria controvertida for unicamente Revista da Escola Paulista da Magistratura. Note-se que em ambos os casos citados (prescrição/decadência e improbidade administrativa) o sistema já admitia o julgamento liminar da improcedência da ação. julgar a ação improcedente de plano (mérito). admitiu o reconhecimento de qualquer natureza de prescrição de ofício (patrimonial ou não). nº 2. A decadência. Matéria unicamente de Direito O novo art.

2006 . Prevê o art. 22 do CDC). 330 e o art. consistente no adimplemento das contas. 285-A. já sendo possível ao magistrado. p. vislumbrar a identidade com outros casos já desacolhidos. preenchidas as demais condições do art. quando a questão for unicamente de Direito (como na redação do art. 285-A do CPC). 285-A do CPC. a decretação da súbita improcedência violaria. do CPC. LV. nº 2. Como o art. ao nosso ver a improcedência liminar da ação também pode ser decretada quando. 117 de Direito.. 330. Como entendo ser plenamente possível a interrupção do fornecimento pela falta de pagamento das faturas de energia elétrica. entretanto. vistos eles como o poder (no caso do autor da ação) de convencer provando (art. ano 7. 285-A.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. com base nos elementos de fato trazidos junto com a inicial (documentos). que é lícito ao magistrado efetuar o julgamento antecipado do mérito. o princípio constitucional da ação e do contraditório. sendo a questão de fato e de direito. ambos do CPC. plenamente possível o julgamento liminar. de se fazer uma interpretação mais abrangente do dispositivo. não vejo óbice algum na aplicação do art. não houver necessidade de produzir prova em audiência. sem necessidade de maiores comentários. Em outros termos. cuja solução da demanda. 5º.. Fico eu a imaginar uma ação de obrigação de não fazer para evitar interrupção no fornecimento de energia elétrica. além de necessariamente ter de enfrentar a questão de direito referente à impossibilidade de interrupção de serviço essencial (art. da Constituição Federal). Há ao nosso ver. Revista da Escola Paulista da Magistratura. seja quando determina ao autor ou ao próprio posto de atendimento da concessionária de energia elétrica a apresentação de tais documentos antes do processamento da demanda. ou cuja apresentação seja determinada ao autor ou a terceiro antes mesmo da citação do réu. E não podia ser mesmo diferente. pois demandando a solução da controvérsia dilação probatória. única capaz de lhe dar maior utilidade prática e adequá-lo à mens legis. I. 103-136. têm a mesma razão de ser (o julgamento da demanda sem a necessidade de outras provas). julho/dezembro . e também quando. também tenha que cuidar de questão de fato. do Código de Processo Civil. a matéria controvertida depender de questão de fato que só se prove por documento já apresentado na petição inicial ou cuja apresentação possa ser determinada (ao autor da ação ou terceiro). seja quando o autor da ação já traz na inicial as faturas inadimplidas.

2006 . nº 2. 5. O que não se admite é que o juiz substituto ou designado. com base na sentença prolatada por outro juízo ou tribunal. 285-A do CPC usando como paradigma a sentença do juiz titular. Diga-se o mesmo sobre juiz de outra Vara que esteja acumulando as funções no juízo da ação repetida. se. tenham entendimento diverso sobre o mesmo tema (o que não é recomendável exatamente pela falta de previsibilidade do que se decide naquele Revista da Escola Paulista da Magistratura. julho/dezembro . o que quebra a previsibilidade dantes referida. além de desencorajar o ajuizamento de ações repetitivas e com teses já devidamente apreciadas e renegadas pelo juízo. isto é. permitindo ao jurisdicionado. Mesmo se a solução da demanda também depender da apreciação de matéria fática. Questão interessante se estabelecerá nas varas (juízos) onde haja mais de um juiz fixo (titular e auxiliar). em virtude do princípio do livre convencimento motivado (art. 285-A do CPC.118 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI Enfim. a improcedência da pretensão. não há de se limitar às questões unicamente de direito a aplicação do dispositivo. dá segurança à comunidade local sobre a legalidade de certas condutas já dantes judicialmente contestadas. por seus advogados. ano 7. Obviamente. 103-136. na esteira de casos idênticos do juízo. Decisões do mesmo juízo Exige-se para o julgamento atencipadíssimo da lide que as decisões paradigmas tenham sido proferidas no mesmo juízo. embora seja mesmo nelas que esteja a maior utilidade da norma. A disposição. na mesma Vara onde tramite a nova ação. p. 285-A. Assim. utilizando-se de precedente previamente firmado em outro juízo no qual atua ou atuou. se utilize da regra do art.4. Nada impede que os julgadores. longe de mera formalidade. aplicar o art. 131 do CPC). objetiva dar racionalidade e certa previsibilidade à sistemática implantada. na Vara onde houver determinado entendimento. A conseqüência da dicção legal é que não pode o magistrado. haverá espaço para o julgamento liminar quando os próprios elementos trazidos na inicial ou liminarmente colhidos já revelarem. o prévio conhecimento do entendimento que naquela unidade judicial vem sendo adotado sobre determinado tema. estiver judicando juiz substituto. do CPC. ou ainda com base em sentença que proferiu quando em exercício em outra vara (juízo). ele pode aplicar o art.

LV.. Sentença proferida no caso paradigma 5. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil 2. julho/dezembro . em que a sentença paradigma foi de parcial procedência — isto é.. 2006. 269. 5. 5º. e outros.2006 . já são o suficiente. com alguns casos sendo julgado. não vemos razão alguma.5.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. Para os casos em que o jurisdicionado necessita de provimento imediato total ou parcial. na esteira dos dispositivos de mesma natureza que o precederam (art. receba a sentença de improcedência liminar. só tem cabimento nos casos de desacolhimento da pretensão. 41 Luis Rodrigues Wambier.5. da Constituição Federal). 103-136. Entendimento contrário violaria por completo a previsibilidade de entendimento a respeito do qual nos referimos anteriormente. melhor que não se permita a aplicação do dispositivo. sem oitiva da parte contrária. Parece-me que o legislador. IV. com base no art. com contraditório diferido e cognição sumária. 285-A do CPC por um dos juízes. pois isso implicaria inconteste violação ao princípio do contraditório e da ampla defesa (art. 71. ano 7. p. na mesma vara. 285-A do CPC diz mais. nº 2. 5º. não. do CPC e art. disse menos do que queria (minus dixit quam voluit). com o acolhimento de apenas um dos pedidos cumulados —. com não há. 17 da Lei nº 8. Nestes casos.41 para não permitir que um novo caso submetido ao juízo. as liminares antecipatórias e cautelares. caput. um entendimento do juízo. apesar do desejo de alguns comentaristas em restringir a aplicabilidade da norma. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Pois certamente há casos em que a sentença prolatada no caso paradigma foi proferida em processo em que existiam pedidos cumulados.429/92). Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina. a veicular somente o pedido e os fundamentos primitivamente desacolhidos na ação com pedidos cumulados (sem o outro parcialmente acolhido). de total improcedência O julgamento antecipadíssimo da lide. até para evitar a quebra do princípio constitucional da isonomia (art. Mas o art. digamos. p. 119 juízo). da Constituição Federal). Nestes casos. ao vincular o julgamento liminar à existência de sentença de total improcedência em casos idênticos. ao efetuar tal condicionamento. sem citação da parte contrária. o pedido ser acolhido ou parcialmente acolhido de forma definitiva (cognição plenária). São Paulo: RT. Não há possibilidade alguma de.

uma liminar para rejeição do pedido idêntico. sem utilização do julgamento atencipadíssimo da lide. em que se tenha acolhido.2006 . teremos de admitir um julgamento seccionado e um processo com duas sentenças. com citação do demandado e demais trâmites. p. nada impedindo que cada qual dos pedidos cumulados tivesse sido efetuado em demanda autônoma. reproduzindo a parte da sentença que rejeitou este pedido. em que haja o mesmo pedido e fundamentos das decisões anteriormente prolatadas pelo juízo. impossível o julgamento de plano. 103-136. Então. utilizando-se do paradigma na ação já formulada com pedidos cumulados. pelo óbvio motivo de que. se o objetivo da norma foi acelerar o julgamento da demanda. E isto. não há razão lógica para se vedar que o juízo. por exemplo.120 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI Imaginemos. pronuncie liminarmente a improcedência. pedido para correção monetária de créditos do ICMS para fins de abatimento na operação sucessiva. casos em que não haveria qualquer controvérsia sobre a possibilidade de a improcedência do pedido ser utilizada como paradigma para o julgamento liminar. apenas. Havendo decisões de total improcedência de dado pedido e respectivos fundamentos. outra. julho/dezembro . assim. Revista da Escola Paulista da Magistratura. várias ações repetidas no juízo de parcial procedência da ação. a vedação do “cálculo por dentro” do ICMS. impossível que uma nova ação. Recebendo uma nova ação em que se pede. O que não se pode admitir é o raciocínio inverso. não vejo como se negar a possibilidade do julgamento de plano quando o paradigma tenha sido emitido em casos em que tenha havido parcial procedência. permitindo pronta solução para casos idênticos. o processamento da demanda deverá se dar nos moldes tradicionais. já que a sentença paradigma é de procedência deste pedido. só que agora em cúmulo objetivo com outros pedidos e fundamentos a respeito dos quais o juízo não tenha entendimento prévio (ou que demandem dilação probatória). caso a ação repetida neste mesmo juízo contenha apenas o pedido de correção monetária de créditos do ICMS para fins de abatimento na operação sucessiva. Lembremos que a cumulação objetiva representa concurso de demandas. para tanto. mas desacolhido um outro pedido cumulado para vedar no nominado “cálculo por dentro” do tributo. seja julgada com base no art. mas com rejeição total do pedido repetido. ano 7. Obviamente. para o julgamento do outro pedido cumulado. nº 2. 285-A do CPC. Para estes casos de pedidos cumulados.

“deve o juiz optar por evitar a reprodução de sentenças que adotem orientação contrária àquela exarada pelo órgão jurisdicional hierarquicamente superior. com muita propriedade. Necessidade de a sentença do caso paradigma 5. Todos os comentaristas da norma. em especial do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal.2006 . conclui que “não há qualquer lógica em admitir que o juiz possa julgar conforme o que decidiu em casos idênticos quando o tribunal ao qual é vinculado já firmou jurisprudência predominante ou editou súmula em sentido contrário. tal conduta constitui falta de compromisso com o Judiciário. p.6. a rejeição liminar somente poderá observar a orientação do tribunal”. Luiz Guilherme Marinoni.. 285-A do CPC. com a efetividade e a tempestividade da distribuição da justiça. assevera constituir grave equívoco afirmar que o juiz tem o direito de julgar de forma diferente aos tribunais superiores. até para que o instituto atenda aos seus propósitos de desburocratização e celeridade.6. aduzem que “uma orientação que permitisse a reiteração da própria jurisprudência do juízo. Por fim. que deve estar preocupado. ainda que contrária à orientação fixada nos tribunais superiores. estar de conformidade com a jurisprudência dominante Em nenhum momento a norma em comento faz a exigência de que o julgado já prolatado e reproduzido por força do novo instituto esteja em consonância com o julgamento dos tribunais. vêm condicionando a prolação da sentença repetida a esta exigência. 121 5. Por isso. qual é a racionalidade de se proferir uma decisão que lhe seja contrária? Responde à indagação concluindo que. não se coaduna com os valores que justificam a adoção do sistema de súmulas vinculantes em um sistema jurídico: segurança e previsibilidade”. concluem que. 103-136.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL.. no caso em que o tribunal consolidou entendimento sobre a improcedência das demandas idênticas. se o Superior Tribunal de Justiça é quem dá a ultima palavra à interpretação da lei federal (e o STF à norma constitucional).br) Revista da Escola Paulista da Magistratura. ano 7. após discorrer sobre a eficácia persuasiva dos julgados. em especial do STF e o STJ” e que 42 O julgamento liminar das ações repetitivas e a súmula impeditiva de recursos (in www.42 Wambier. dentro de seu sistema de produção de decisões. na aplicação do art.com. nº 2. entretanto. longe de perda de poder ou ofensa à consciência do magistrado. no mesmo sentido.professormarinoni. julho/dezembro . Teresa Arruda Alvim Wambier e Medina. pois.

que tenham os mesmos fundamentos de fato e de direito (causa de pedir). seja dos tribunais superiores. pp.43 E J. a mesma causa de pedir e o mesmo pedido. § 1º. como sendo casos semelhantes. ainda que o pedido seja diverso. São Paulo: RT. nº 2.E. é sinônima de ações. haja sido rejeitada em ação com pedido de compensação (pedido primitivo). julho/dezembro . nos termos do art.2006 . § 2º. Isso porque a palavra casos.7. 2006. 81.122 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI “a coincidência da orientação adotada pelo juiz de primeiro grau com o entendimento manifestado pelo tribunal que lhe seja hierarquicamente superior é. Por exemplo. por isso. 301. do Código de Processo Civil. pressuposto fundamental para a incidência do art. A expressão casos idênticos deve ser interpretada. Alterações do Código de Processo Civil. se o juiz vier julgado totalmente improcedente a ação em casos idênticos. 267. 301.44 5. concluindo o pensamento de todos os demais. V. em sentido processual. assim. do CPC). A conseqüência de dois casos (ações) serem idênticos é a ocorrência do fenômeno da litispendência (art. seja de apelação. sendo as sentenças reformadas pelo tribunal. não tem o lugar o julgamento antecipado inaudita altera pars”. 103-136. 2006. 43 44 Luis Rodrigues Wambier. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil 2. 285-A”. 2ª ed. 66/67. Isso porque.. quando idêntica tese jurídica. Rio de Janeiro: Impetus. p. quando têm as mesmas partes. do CPC). isto é. nada impede a aplicação do dispositivo para julgar improcedente de plano pretensão que veicule tese sobre a inconstitucionalidade de determinado tributo ou contribuição (causa de pedir) para fins de repetição do indébito (pedido da nova ação). Casos idênticos? Extremamente infeliz a redação do dispositivo nesta parte do enunciado. Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina. ou pelos tribunais superiores. ano 7. e duas ações são idênticas. que acarreta a extinção do segundo processo (art. p. com a invocação dos mesmos fundamentos. Carreira Alvim. Revista da Escola Paulista da Magistratura. ao condicionar o julgamento liminar à improcedência previamente decretada pelo juízo em casos idênticos. e não o julgamento de plano da improcedência dele. enuncia ser preciso que “estas decisões padronizadas tenham tido o respaldo da jurisprudência.

deverá. apesar da crítica de alguns. Agora. v. extintiva 45 Em sentido contrário cf. caso a inconstitucionalidade fosse invocada sob um novo fundamento jurídico. Tal raciocínio se justifica até porque competia ao demandado. ao aplicar o art. Entendimento diverso.979-2). além de gerar espaço para fugir da aplicação do dispositivo com a simples alteração de um argumento ou acréscimo de poucas frases a mais na petição inicial da ação repetida (o que certamente não é desejo da norma). 2006. sob a tese de ofensa ao princípio da legalidade. caso pretendesse mesmo o reconhecimento da causa modificativa. É que. reproduzir o teor da primitiva sentença (ou parte nas ações com pedidos cumulados).. O juiz. que o juiz não está obrigado a responder a todos os argumentos e alegações apresentadas pelas partes quando já tem motivos suficientes para fundamentar a decisão (TJ/SP. reina. 123 A identidade de fundamentos das ações (e não do pedido). São Paulo: RT. É evidente que.45 Aferindo a improcedência de plano do caso idêntico. tornaria letra morta o dispositivo. p. caso seja introduzida tese jurídica nova. isto é.. todavia. p. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil 2. a inserção de um novo argumento em favor da inconstitucionalidade por violação ao princípio da anterioridade não impediria a aplicação da sentença repetida (salvo se o juiz mudasse seu posicionamento por força deste novo argumento). Luis Rodrigues Wambier. julho/dezembro . para a prolação da sentença nos casos idênticos. impossível seria a aplicação da sentença paradigma anterior. Apelação Cível nº 167. empecilho para a aplicação do art 285-A do CPC quando houver introdução à tese jurídica já rechaçada pela sentença paradigma de novos argumentos. nº 2. de forma mansa pacífica em nossas cortes. faz-se essencial. conforme veremos. 103-136. porque o juiz. 285-A do CPC. ano 7. a sentença paradigma não poderá ser repetida por não se subsumir à integralidade dos fundamentos jurídicos apresentados.. das teses jurídicas apresentadas pela parte. 69 Revista da Escola Paulista da Magistratura. No nosso exemplo sobre a inconstitucionalidade do tributo para fins de repetição ou compensação. ainda.g. Não há. independentemente de supor se o demandado ofertaria defesa de mérito direta ou indireta.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. já que nenhuma ação poderia ser considerada idêntica. Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina.2006 . não deve preocupar-se com o suposto teor da defesa que será ofertada pelo demandado. deve pronunciá-la.

com respaldo na súmula 283 do STJ. julgar improcedente de plano a demanda ressarcitória. aquelas aprovadas pelo STJ e pelo STF (estas sem o quórum qualificado do art. com redação pela Lei nº 11. isto é. Independentemente da existência de anterior precedente no juízo sobre o tema. parece-me razoável que o juízo possa. como o art. 285-A do CPC. Tal entendimento está em conformidade com o novo modelo constitucional de processo. da Constituição Federal (inserido pela Emenda Constitucional nº 45) — que são mesmo de aplicação obrigatória tanto pela Administração Pública. no terceiro. §§. 285-A do CPC faz menção à existência de casos idênticos (plural) e não caso idêntico (singular).2006 / . as emitidas com base no art. nº 2. se possa aplicar o novo instituto. isto é. Com efeito. do CPC). p. utilizar como paradigma súmula do STJ ou do STF.276/2006) e para o seu julgamento monocrático pelas instâncias superiores (art. 5. cujas decisões sobre as questões eminentemente jurídicas Revista da Escola Paulista da Magistratura. parece-me plenamente possível ao juízo. imaginemos uma ação ajuizada por consumidor em que exclusivamente negue a legalidade do percentual de juros cobrados por administradora de cartão de crédito. ano 7. pretendo utilizar como paradigma para a improcedência de plano das súmulas comuns. 103-136. 103A. de convirmos que se exige pelo menos dois outros casos no juízo para que. que é motivo hoje para o não-recebimento do recurso (art. 103-A da Constituição Federal) e que espelham os repetidos julgamentos daquelas cortes em determinado sentido. a provocação prévia do Judiciário via ação autônoma. para fins de julgamento antecipadíssimo da lide.124 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI ou impeditiva do direito do autor (defesa de mérito indireta). se é admitida a improcedência de plano com base no simples entendimento do juízo.8. 557. 518. Assim. com muito mais razão há de se admitir o julgamento liminar quando a pretensão contrarie dispositivo de súmula dos Tribunais Superiores. § 1º-A. Além das súmulas vinculantes. A tomada de súmula do STJ ou do STF como caso paradigma Apesar da omissão do novo art. Por fim. quanto pelo Judiciário —. do CPC. julho/dezembro . sob sua ótica limitados pela Lei de Usura por não constituir a ré instituição financeira.

não precisará apresentar argumentos e provas em favor de sua tese. quando o juízo está convencido de que a súmula está correta e merece. do CPC). Revista da Escola Paulista da Magistratura. da CF). 5. que então a parte convença o juízo de primeiro grau — e nada impede que o faça logo na sua petição inicial — e sucessivamente aos seus superiores hierárquicos. tão cara ao nosso ofício. sem maiores delongas. do autor vencido nos honorários do advogado Como a sentença a ser prolatada é de improcedência do pedido. o sistema prefere mesmo o julgamento de improcedência de plano. do CPC). § 1º-A do CPC. 103-136. ano 7. Se a súmula é injusta ou pode ser abalada por nova tese jurídica. Assim. e 557. § 3º. que. 5º. com dispêndio de esforços inúteis. se o objetivo é limitar a proliferação de demandas com teses repetidas tantas vezes. será dispensada. já rechaçadas pelos tribunais. nº 2. E nenhuma irregularidade há nisso.. p. a utilização das súmulas como paradigma representa interpretação conforme o princípio da tutela jurisdicional sem dilações indevidas (art. §§. 213 do CPC). além de permitir o julgamento da improcedência inaudita altera pars. admite que o juiz não receba a eventual apelação oposta (art. assim. e eventual agravo da decisão que não recebeu a apelação seja desacolhido monocraticamente e de plano (art. Basta passar os olhos pelos já citados artigos 518. à revisão da súmula. 125 estão concentradas nas cortes superiores. do CPC). Caso não consiga fazê-lo.9. obviamente não há de se falar em citação. e ainda pelo art. LXXVIII. Para que se permitir o processamento da demanda. da injustiça do enunciado. portanto. 475. como ato de chamamento do réu ao processo para se defender (art. 475. Dispensa da citação do réu e isenção 5.9. § 3º. levando. em primeiro grau. 515. já que o requerido não precisará se defender. 557. julho/dezembro . §§.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL..2006 . imediata aplicação? É interessante notar que o sistema tanto quer a preservação dos enunciados de súmulas de jurisprudência dominante — pelo seu manifesto predicado de previsibilidade — que. E nem se alegue que o referido entendimento engessa a evolução jurisprudencial. ao menos nesta fase. do mesmo diploma (desnecessidade de reexame necessário quando a decisão estiver em conformidade com súmula dos Tribunais Superiores). não interponha reexame necessário (art. § 1º-A.

Revista de Processo. Como o demandado não constituirá advogado neste primeiro momento. Daí porque condenação em honorários em matéria de julgamento antecipadíssimo da lide. supra). Nenhuma sentença é igual à outra. 5. Revista da Escola Paulista da Magistratura. até por terem sido proferidas em ações com elementos distintos (ao menos. entre a prova emprestada e a sentença emprestada. O movel da norma é dar conhecimento à parte dos fundamentos do rechaçamento do seu pedido.2006 . 152-160). na fundamentação.13). com referência numérica a. deverão ser reproduzidos os fundamentos do julgado paradigma. também. ano 7. 103-136. embora a norma seja silente a este respeito. Por isso. Reprodução do teor da sentença prolatada 5.126 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI visto ter sido considerado antecipadamente vencedor da demanda.5. que. p. faltou técnica ao legislador ao exigir a reprodução da sentença anteriormente prolatada. que esta reprodução poderá ser parcial nas situações em que a sentença do caso paradigma contemplar procedência parcial em pedidos cumulados (item 5. nº 135.46 Já vimos. para a possibilidade de reprodução dos fundamentos que desacolheram um dos pedidos cumulados na parcial procedência. no caso paradigma O caput do dispositivo comentado é claro ao dispor que a sentença prolatada no caso paradigma deve ser reproduzida no julgamento antecipadíssimo da lide.10. por que influir na decisão do juiz. embora totalmente emprestados de outro caso idêntico. quando então será citado para contraarrazoar. defendendo-se. servem perfeitamente para o novo caso. pelo menos. julho/dezembro . obviamente não há espaço para que o autor seja condenado ao pagamento de honorários advocatícios da parte ex adversa. não tendo. dois casos que já tiveram curso no juízo 46 Bastante interessante é o paralelo traçado. Deverá ser elaborado relatório do caso apresentado e logo após. as partes). Sobre isso discorreremos um pouco mais adiante (item 5. pp. como regra. São Paulo. maio/2006. só se dará em grau de recurso de apelação. o que serve de justificativa. também.10. Interprete-se a norma com reprodução dos fundamentos da sentença anteriormente prolatada. nomenclatura que empresta ao art. nº 2. 285-A do CPC (“Sentença emprestada: uma nova figura processual”. portanto. por Paulo Gouvêa Medina. O requerido somente precisará contratar advogado caso o autor recorra da sentença de improcedência de plano.

quando.11. 5.. do CPC). caso novamente seja demandado. até então sequer ciente da existência da demanda. possa alegar a existência de coisa julgada (art. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Questão interessante que merece destaque é a do julgamento com base em súmula do STJ e do STF (item 5.11. 219. 127 e foram desacolhidos. que será reproduzida logo na seqüência.2006 . a fim de que a parte possa tomar conhecimento de seu teor (STF. são facilmente acessáveis os precedentes que culminaram na elaboração da súmula. do CPC. se relevarmos que. o réu. aliás.8). conteúdo e natureza das contra-razões (285. 269. efeitos da citação e 5. de leitura dos acórdãos aí prolatados em seu inteiro teor. por analogia). 5. sobre o real desacolhimento dos pleitos pelo juízo em casos anteriores idênticos. ano 7. cabem embargos de declaração. bastará ao juízo emitir pronunciamento de que o pedido formulado vai de encontro à súmula de jurisprudência dominante. livro de registro de feitos. Já se decidiu. citação do réu para respondê-lo. A não-citação pelo juízo dos dados dos casos paradigmas (ao menos o número do feito) enseja o cabimento de embargos de declaração (art. julho/dezembro . no julgamento da ação. sem maiores delongas. juízo de retratação. A referência numérica se faz necessária para que a parte possa ter controle. 103-136. O desconhecimento sobre os fundamentos do desacolhimento do pedido com base na súmula — única tese que poderia ser levantada para obstar o juízo a utilizá-las como paradigma para os fins do art. ainda. com possibilidade. deverá ser intimado da sentença. o juiz mencionar. I. § 6º.47 47 Transitada em julgado a sentença que julgou liminarmente improcedente a ação. a existência de outro julgado de mesmo teor. na fundamentação. até para que no futuro. com as justificativas da similitude da situação posta em debate com o enunciado utilizado como paradigma. Nestes casos. Basta isso para que se dê.. §§ 1º e 2º) Tendo a decisão proferida com fundamento no art. conforme preceitua o § 1º do próprio dispositivo. a fim de que se faça juntar aos autos cópia do referido julgado.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. nº 2. 285-A do CPC — é óbice facilmente superado hoje em dia. Recurso da improcedência liminar. ela desafia recurso de apelação. o julgamento da improcedência de plano. nos sites dos Tribunais Superiores. ou pela consulta dos próprios autos dos casos citados.11. após o relatório. 285-A do CPC conteúdo de sentença (art. que. RT 670/167). 535 do CPC). com base no sistema informatizado do juízo. p.

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No mesmo sentido do que já era previsto para a hipótese de indeferimento da inicial (art. 296 do CPC), também aqui a norma permite ao juízo se retratar após o recebimento do recurso, determinando o prosseguimento da ação em seus regulares termos (v.g., quando o juiz verificar que o caso não podia ser objeto de julgamento antecipadíssimo, seja pela existência de matéria de fato a ser provada, seja pela diversidade com o caso paradigma). Diferentemente, entretanto, do art. 296 do CPC, mantida a sentença de improcedência liminar, será determinada a citação do réu para responder ao recurso (art. 285-A, § 2º, do CPC), na esteira do que a jurisprudência já entendia ser de rigor nos casos de indeferimento da inicial pela prescrição ou decadência (art. 295, IV, c/c art. 269, IV, do CPC). Tal disposição, ao meu ver acertadíssima,48 assegura ao demandado vencedor a plenitude de defesa, pois, tendo sido julgado liminarmente o feito com resolução do mérito, eventual manutenção da decisão pela superior instância terá seus efeitos imutabilizados pela coisa julgada. Assim, diversamente dos casos de indeferimento da inicial sem resolução do mérito (art. 296 do CPC) — em que eventual manutenção da sentença não obstará o reajuizamento da ação e, portanto, de qualquer modo, o réu voltará a ser importunado no futuro —, na improcedência de plano, tanto quanto no acolhimento liminar da prescrição ou decadência, manifesto o interesse do acusado de acompanhar o julgamento da apelação e lutar pela manutenção da decisão, que pode sepultar definitivamente (e não temporariamente) a pretensão do autor da ação. A utilização da expressão citação não foi equívoca. De fato, tendo o conteúdo do art. 213 do CPC (chamamento do réu ao juízo para se defender), melhor nomenclatura não podia haver, trazendo tal ato consigo parte dos efeitos processuais e materiais do art. 219 do CPC (fazer a coisa litigiosa e constituir o devedor em mora). Parte porque a litispendência e a prevenção (pouco importando aqui a competência territorial dos juízos), neste atípico caso em que a prolação de sentença antecede a citação, se dará pela sua publicação, que como tal inaugura e encerra, no mesmo ato, a fase de conhecimento da ação (Lei nº 11.232/2005). Assim, a partir desta citação para apresentação de contra-razões, eventual
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Em sentido contrário, J.E.Carreira Alvim. Alterações do Código de Processo Civil. 2ª ed., Rio de Janeiro: Impetus, 2006, p. 82.

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alienação do bem litigioso pelo demandado pode constituir fraude à execução (art. 593 do CPC); em caso de anulação da sentença liminar pelo Tribunal o devedor, já estará o réu a dever juros de mora desde a citação etc. E, a partir do julgamento antecipadíssimo da lide, antes mesmo de citação do réu, eventuais outras ações com os mesmos elementos (art. 301, §§ 1º e 2º do CPC) deverão ser extintas pela litispendência (art. 267, V, do CPC). Rememore-se que a prescrição, de acordo com art. 202 do CC/2002, tem seu marco inicial no despacho positivo do juiz, desde que o interessado promova a citação na forma da lei processual (art. 219 §§, do CPC), estando, portanto, revogado o art. 219, caput, nesta parte.49 Entenda-se por despacho positivo do juiz na improcedência de plano — visto inexistir prévia citação do réu (285-A, caput, do CPC) — como sendo aquele que julga de plano o processo (e, portanto, reconhece a existência dos pressupostos processuais e condições da ação, julgando-a negativamente pelo mérito). Fácil perceber que, a partir do momento em que for citado para responder ao recurso, o réu deverá contratar advogado para representá-lo, o que, ao meu ver, afasta o receio em que alguns operadores estão na redução do mercado de trabalho dos advogados (já que ninguém, em nosso país, deixa de recorrer das sentenças de 1º grau!). Tão fácil não é, entretanto, a definição da natureza jurídica da resposta que o réu citado apresentará. Entendemos que as contra-razões ao recurso de apelação, neste caso, terão natureza jurídica de contestação, devendo, portanto, seguir todo o seu regime. Deverá o réu, portanto, antecipar sua defesa de direito para este momento (princípio da eventualidade), com a reserva de oportunamente impugnar e provar matéria fática nos casos em que o tribunal a entender necessária, com anulação da sentença liminar indevidamente proferida. Também é nesta fase que poderão ser juntados documentos com o propósito de corroborar o entendimento do juízo sobre o caso (julgados no mesmo sentido, documentos a confirmar a impressão já obtida pelo magistrado com a análise dos documentos liminarmente apresentados pelo autor etc.). Só tendo a resposta ao recurso como contestação, conseguimos vislumbrar a possibilidade de o tribunal — sem violação do princípio do contraditório
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Fredie Didier Júnior. Regras Processuais no Novo Código Civil, São Paulo: Saraiva, 2004, p. 10.

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(como veremos a seguir) — reformar, em certos casos, a sentença prolatada pelo juízo de 1º grau, julgando procedente a ação proposta (item 5.13). Tendo natureza de contestação, urge esclarecer que a falta de apresentação de resposta ao recurso, no prazo legal, implica revelia do demandado, mas não presunção de veracidade dos fatos alegados na inicial (art. 319 do CPC). Com efeito, a presunção só recai sobre fatos, e o julgamento liminar se dá em regra quando a matéria for unicamente de direito (item 5.3.), o que afasta a presunção legal. Haverá, entretanto, a incidência do efeito secundário da revelia, ou seja, o réu contumaz não será intimado dos posteriores atos processuais em 2º grau enquanto não intervier no feito (art. 322 do CPC). Caso a sentença liminar seja cassada pelo tribunal por impossibilidade de utilização do art. 285-A do CPC, a citação para as contra-razões, por ser ato subseqüente à sentença neste novo regime, automaticamente restará prejudicada (art. 248 do CPC). Assim, com os autos devolvidos à origem, nova citação do réu deverá ser efetuada, agora para que apresente defesa em sua plenitude (contestação tanto com a matéria de direito, quanto de fato, exceções, reconvenção, etc.). Interessante notar que a nulidade da citação decorrente da nulidade da sentença proferida fora dos casos do art. 285-A do CPC não implicará: a) volta do curso do prazo prescricional, pois, como já vimos, a interrupção do lapso se dá com o despacho positivo (o que reconheceu os pressupostos processuais e condições da ação, julgando o mérito do processo), e não com a citação anulada; ademais, nos termos do art. 202, I, do CC, a interrupção da prescrição só ocorre uma vez; e b) ineficácia dos efeitos da citação anterior (fazer a coisa litigiosa e constituir o devedor em mora) ou da publicação da decisão anulada (litispendência e prevenção); nestes casos, porque o erro da decisão do órgão judicial estaria a prejudicar o autor que não deu causa ao retardamento, há de se admitir que o ato nulo tenha efeitos. Mesmo que se tenha quedado revel no processamento do recurso da sentença que julgou liminarmente a ação, com sua anulação (e da citação), o réu novamente deverá ser citado para se defender (art. 213 do CPC). Da mesma forma que nada impede a apresentação de defesa nesta oportunidade, também nada impede que, não contestando, torne a ser revel (nestes casos, como há possibilidade de que matéria de fato seja aventada, com possível incidência dos efeitos da revelia, art. 319 do CPC). Ao final, lembre-se que, nos termos do art. 518, §§ do CPC (com redação
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ao valor da causa e à justiça gratuita Como não haverá citação para o processamento da demanda em 1º grau (que foi julgada de plano). o demandado não sofre prejuízo algum (pelo contrário. não há espaço para que o autor excepcione. Também não se cogita de impugnação ao valor da causa caso não haja recurso do autor vencido. Vale aqui a máxima de que sem prejuízo não há nulidade (art. exceções. também impossível será a utilização das demais modalidades de respostas (reconvenção. parece-me possível que a impugnação seja apresentada 50 Para plena compreensão da utilização da técnica processual em favor do máximo aproveitamento do processo. cf. com a designação de outro juiz (que poderá novamente aplicar o art.2006 .12. já que nada impede o demandado de veicular sua pretensão autonomamente. e não gerando a violação de regras de competência relativa nulidade absoluta.50 Caso o juiz que tenha julgado liminarmente a ação seja suspeito ou impedido. como serão arbitrados honorários em favor do réu citado nas hipóteses de manutenção da sentença.). Reconvenção.12. já que. 2006. impugnação 5. do CPC). impugnação aos benefícios da Justiça gratuita etc. portanto. 285-A do CPC). caso a sentença liminar apelada esteja de conformidade com súmula do Superior Tribunal de Justiça ou do Supremo Tribunal Federal. Revista da Escola Paulista da Magistratura. não há interesse do réu sequer citado em impugná-lo). § 3º. só tem benefício pela súbita improcedência). p. nº 2. sendo ganhador da ação. impugnação ao valor da causa. Não há prejuízo pela não-apresentação de reconvenção. Exceção de incompetência também não é conveniente ao réu caso não haja anulação da sentença liminarmente prolatada. o recurso não será recebido (novo pressuposto recursal objetivo). em regra. Caso haja recurso. pois ele não será condenado em honorários (e..O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. 131 pela Lei nº 11.. São Paulo: Malheiros. Efetividade do Processo e Técnica Processual.276/2006). com redução das hipóteses de nulidade exclusivamente aos casos em que haja prejuízo efetivo. ano 7. 5. do CPC). José Roberto dos Santos Bedaque. 20. com base no valor dado à causa (art. cujo acolhimento (inclusive da suspeição) ensejará a nulidade do julgado. pois não há mais tempo hábil para que o magistrado seja afastado do processo (pois até já o julgou). julho/dezembro . 103-136. Aqui deverá ser admitida a argüição das causas dos artigos 134 e 135 do Código de Processo Civil no próprio recurso de apelação. exceções. 243 e segs.

ano 7. tendo o réu sido citado e tendo apresentado defesa por advogado (caso contrário não se imporá tal verba). pois não haverá condenação em honorários. incide o disposto no art. condenando o autor da ação ao pagamento das verbas sucumbenciais. se o julgado.2006 . §§ do CPC. 5. não é suficiente para a anulação da sentença de primeiro grau. só a anulação da sentença prolatada soluciona a violação da regra do art. Não há inconstitucionalidade Revista da Escola Paulista da Magistratura. julho/dezembro . entretanto.060/50). Não tendo havido recurso. Julgamento do recurso e sucumbência Tendo havido recurso da sentença de improcedência liminar.13. descortinam-se as seguintes possibilidades para o tribunal no julgamento do apelo: a) Poderá manter integralmente a sentença de improcedência liminar. p. 20. Nestes casos. com base na simples matéria de Direito aventada pelo autor. inclusive honorários do advogado. 2) havia tese jurídica nova não constante do caso paradigma. Idêntico raciocínio se aplica à impugnação das benesses da justiça gratuita (art. devendo os autos tornarem ao primeiro grau para processamento da demanda nos moldes tradicionais. e 3) o caso não era exclusivamente de direito. portanto. não permitia a reprodução da mesma sentença. impeditivos ou extintivos do direito do autor). Oportunizada defesa ao autor/apelante. lícito ao réu/apelado impugnar o benefício concedido. haja recurso. pode ser mantido. dependendo a sorte do autor de dilação probatória. antes mesmo da subida dos autos ao tribunal (com determinação do pagamento das custas recursais em caso de acolhimento). nº 2. Caso. e diante de inúmeros casos repetidos.132 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI concomitantemente às contra-razões de apelação. b) Poderá aferir que houve má aplicação do art. será o incidente julgado pelo juízo de primeiro grau. ou a alegação de defesa de mérito indireta (fatos modificativos. 285-A do CPC pelo juiz de primeiro grau. A simples pretensão do réu indicada em contra-razões de apelação de produzir prova para demonstração de seu direito. 7º da Lei nº 1. cabendo ao 1º grau de jurisdição — assegurado o contraditório — dirimi-la antes mesmo da subida dos autos ao Tribunal (com determinação para recolhimento de eventuais custas iniciais e recursais acrescidas). 285-A do CPC. já que. não há razão para o réu sequer citado impugnar o benefício deferido ao autor. seja porque: 1) o caso paradigma não era idêntico. 103-136. o que.

Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina. Efetividade do Processo e Técnica Processual. crendo na nulidade da sentença de 1º grau nas hipóteses em que réu esboce simples pretensão em produzir provas ou oferte defesa de mérito indireta.54 Importante notar que não há nulidade alguma em tal proceder.2006 . i. independentemente de ter requerido isso nas contra-razões (pois esta não era mesmo a oportunidade para fazê-lo). 2. 133 alguma na restrição à ânsia probatória do réu quando ele. São Paulo: RT. Nestas hipóteses — quando não há necessidade de produção de outras provas para o acolhimento do pedido do autor — o tribunal. 2006. julgando total ou parcialmente procedente a ação. 53 Em sentido contrário. 52 Cf. neste caso.e.Carreira Alvim. 2ª ed. J.E. pp.. Terceira Fase da Reforma do Código de Processo Civil. São Paulo: Método. 70/71. o provimento do recurso pelo tribunal violaria frontalmente o princípio do 51 Em sentido absolutamente contrário. pelo mérito. conforme outros precedentes da própria Câmara ou Turma Julgadora (que. 515. A questão ganha outros contornos quando a responsabilização do réu depender da produção de provas que lhe foram negadas pelo súbito julgamento da ação. 54 No mesmo sentido. p. Luis Rodrigues Wambier. 103-136. cf. v. mas em sentido contrário ao decidido na sentença. p. José Roberto dos Santos Bedaque. não há imposição de verbas de sucumbência. funciona como se fosse o juízo) ou súmulas aplicadas em casos idênticos. § 3º. Gustavo Filipe Barbosa Garcia. devidamente citado para a apresentação de defesa. 2006..O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. 39. já exerceu contraditório pleno nas contra-razões do recurso. pois o juízo de primeiro grau já se pronunciou pela improcedência do pedido. julho/dezembro . que pode ser aplicado analogicamente. visto que o réu. nº 2. ano 7. Rio de Janeiro: Impetus. dá provimento ao recurso. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 2006. Nestes casos.53 c) Poderá aferir que o caso era mesmo de julgamento antecipadíssimo da lide — pois a matéria controvertida era unicamente de direito —. Tampouco há supressão de instância.. do CPC (julgamento pelo tribunal da causa madura extinta sem apreciação do mérito pela primeira instância). p. crendo na imposição de verba de sucumbência no caso de provimento do apelo. O caso aqui é até de mais fácil assimilação do que a autorização legal contida no art. 83. Alterações do Código de Processo Civil. pelo resultado do processo. então. São Paulo: Malheiros. 2006.51-52 Anulada a sentença. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil 2. condenando o réu/apelado (dantes vencedor) ao pagamento das verbas de sucumbência. não sofreu prejuízo algum com a limitação. estas a serem oportunamente fixadas quando do novo julgamento da ação em 1º grau.

099/95 e 10. . nº 2. julho/dezembro . “Tutela jurisdicional cautelar”.2006 . Rio de Janeiro: Forense.ANDOLINA. § 1º. também.ARMELIN. razão pela qual só a anulação da sentença. Aplicação da norma e direito intertemporal Não há incompatibilidade alguma na aplicação do novo art. . Italo e VIGNERA. 1985. v. Milano: Giufrrè. tampouco na Justiça do Trabalho ou em sede de Juizados Especiais (Leis nºs 9.05.277/2006 entrou em vigor no dia 09.134 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI contraditório e da ampla defesa (art. 5. . 1994. 3º. 5º. José Carlos. da CF). 6. Il Modelo Constituzionale del Processo Civile Italiano. 1999.14.. Giuseppe. c/c art. Aliás. “Efetividade do processo e técnica Revista da Escola Paulista da Magistratura.BARBI. 103-136. mas desde que o réu ainda não tenha sido citado.259/2001).2006 (art. com a oportunização de provas ao demandado em primeiro grau. se torna viável. São Paulo. 285-A do CPC nos processos de conhecimento de competência originária dos tribunais. ano 7. A Lei nº 11. Francisco Fernandes. p. 9ª ed.ANDOLINA. 1990. nº 23. Pode ser aplicada a processos ajuizados antes de sua vigência (aplicabilidade imediata).ARAÚJO. 111-138. Comentários ao Código de Processo Civil. da Lei Complementar nº 107/2001). LV. pp. .BARBOSA MOREIRA. 1. Bibliografia . desde que veiculem matéria exclusivamente de direito (o que também não é incomum em sede tributária). onde são comuns ações repetidas para discutir a aplicação de índices de correção de benefícios tantas vezes já afastados pelos Tribunais Superiores. Lícito aos magistrados a utilização como paradigmas das sentenças que prolataram antes da entrada em vigor da lei. Campinas: Copola. . a aplicação do julgamento liminar nos embargos à execução. Cognizione ed Ezecuzione Forzata nel Sistema della Tutela Giurisdizionale. 1982. 8º. Donaldo. Ítalo. Cabível. jun. vislumbra-se grande utilidade do dispositivo em sede previdenciária. Turim: Giappichelli. Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. Responsabilidade Objetiva do Estado pela Morosidade da Justiça. Celso Agrícola.

E. in José Rogério Cruz e Tucci (org. 103-136. Maria Sylvia Zanella. Tempo e Processo. Fredie. Regras Processuais no Novo Código Civil. Rio de Janeiro: Impetus. d.. Cássio Scarpinella. pp. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Revista dos Tribunais. Napoles: Morano. Revista da Escola Paulista da Magistratura. nº 1. 85-96. Mauro. CARREIRA ALVIM. Amicus Curiae no Processo Civil Brasileiro – Um Terceiro Enigmático. São Paulo: Saraiva. p. CAPPELLETTI. 72. ano 4. 2006. 1996. ————. jan-jun. ————. J. São Paulo. 2ª ed. “Dano moral decorrente da excessiva duração do processo”. São Paulo: Saraiva. 17-29.Juizados Especiais Cíveis e Ação Civil Pública. ano 7. BOBBIO. Revista da Escola Paulista da Magistratura. São Paulo: Malheiros. “Atuais reformas do processo civil italiano e brasileiro: contrastes e confrontos”. 2006. ————. Fernando da Fonseca.). São Paulo: Campos. Franca/SP: Lemos e Cruz. 234-262. ————. São Paulo: Saraiva. 135 - - - - processual”. CARNEIRO.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA TUTELA JURISDICIONAL. Ideologias. Acesso à Justiça . pp. José Roberto dos Santos. 1997.. 1998. BUENO. 1997. Proceso. “Responsabilidade do Estado por atos jurisdicionais”. Diritto Processo. nº 2. 1995 GAJARDONI. p. 3ª ed. Francesco. 2ª ed. “A autocomposição como catalisadora da prestação jurisdicio- Revista da Escola Paulista da Magistratura. Responsabilidade Civil do Estado-Juiz: Estado e Juízes Constitucionalmente Responsáveis. Paulo César. julho/dezembro . 2000. São Paulo: Saraiva. DIDIER JÚNIOR. 1998. Diário de um Século. DINAMARCO. 841-868. 5ª ed. Norberto.. São Paulo: Malheiros. pp. ano 1. in Sálvio de Figueiredo Teixeira (coord. Reforma do Código de Processo Civil. “A qualidade do tempo no Direito Processual Civil”. v. 71-84. in Temas Polêmicos de Processo Civil. CRUZ E TUCCI. 2.. s. DI PIETRO. nº 198. 2001. 1958. Rio de Janeiro: Forense. José Rogério.. Curitiba: Juruá. in Temas de Direito Processual. ————. BEDAQUE. Efetividade do Processo e Técnica Processual. Poderes Instrutórios do Juiz. 1990. tradução de Santiago Sentis Mellendo y Tomás e A. 1996. pp. 2004. 2003. 59-80. CARNELUTTI..2006 ./2003. São Paulo: Saraiva. ————. 1994. pp. Técnicas de Aceleração do Processo. Buenos Aires: Ediciones Juridicas Europa-America. homenagem aos 10 anos da Constituição Federal de 1988. ————. “O futuro da Justiça: alguns mitos”. pp. Alterações do Código de Processo Civil. 2006. Banzhaf. Garantias Constitucionais do Processo Civil. Joel Dias.). Sociedad. 96-103. “Garantia do processo sem dilações indevidas”. Cândido Rangel. A Instrumentalidade do Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais. 6ª série. pp. Revista de Direito Administrativo. FIGUEIRA JÚNIOR.

ano 7. RAMOS MENDEZ.. nº 2-3. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1. Indenização do Erro Judiciário e Danos em Geral Decorrentes do Serviço Judiciário. Rivista di Diritto Civile. 1986. São Paulo: Leud. Kazuo. ————. 329-338. 1986. 2ª ed. 2006. VIGORITI. Separata Legalità e Giustizia. p. Nicòlo. 2. Barcelona: Bosch. jul. 1992. v. Julgamento Antecipado e Execução Imediata da Sentença. 2000. Cedam. J. Adolfo. São Paulo: RT. 1982. El Sistema Judicial Español. São Paulo: RT. 2ª ed. São Paulo: Livraria dos advogados. nº 4. Luiz Guilherme. GARCIA. 253-262. WAMBIER. Paulo Roberto Gouvêa./set. 39. pp. in Dos Direitos Humanos aos Direitos Fundamentais. v. nº 4. Padova. 103-136. v. SILVA. HENTZ.. Tutela Antecipatória. Comentários ao Código de Processo Civil. 2. Barcelona: Bosch. pp. MARINONI. ————. 1996. pp. v. Participação e Processo. 5ª ed. 1995. Ada Pellegrini Grinover. São Paulo. 115-125. Vincenzo. 1981. nº 43. Cadernos Jurídicos da Escola Paulista da Magistratura. La Eficacia Temporal del Proceso: El Juicio Sin Dilaciones Indebidas. Luis Soares Antonio. 2006. MEDINA. p.. 320-325./set. São Paulo: Revista dos Tribunais. Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil 2. nº 23. 1988. jul. pp. 34. 1. Rio de Janeiro: Forense. Barcelona: Bosch. “Conciliación e proceso”. TROCKER. julho/dezembro . p. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 19. São Paulo. 2. Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile. São Paulo. Egas Dirceu. 1997. Revista de Processo. Madrid: Justicia. V.136 FERNANDO DA FONSECA GAJARDONI - - - - - nal”. in Cândido Rangel Dinamarco. “Costo e durata de processo civile: spunti per uma riflessione”. “Notas sobre o curso e a duração do processo civil na Itália”. 6. GRINOVER. El Derecho a un Proceso Sin Dilaciones Indebidas. 142-148. 1974. São Paulo. 152-160. “El tiempo y el proceso”. José Miguel Garcia. Francisco. pp. Comentários ao Código de Processo Civil. 1995. 100-121. 1976. GIMENO SENDRA. MONIZ DE ARAGÃO. nº 135. MEDINA. ————. RIBA TREPAT. “Sentença emprestada: uma nova figura processual”. Revista de Processo. Teresa Arruda Alvim. pp. pp. Terceira Fase da Reforma do Código de Processo Civil. v. GELSI BIDART. Hélio. Cristina. 1283-1322. Derecho Procesal Civil. p. 4ª ed. v. 109. pp. p. maio/2006. Kazuo Watanabe. Revista de Processo.. 2001. nº 2. Gustavo Felipe Barbosa.2006 . “La responsabilitá del giudice”. Edizioni Scientifiche Italiane. 11. v. WAMBIER. 1. Clarissa Sampaio. Ada Pellegrini e WATANABE. “Durata media dei processi di giurisdizione ordinaria nello stato di San Paolo del Brasile”. tradução de Teresa Celina de Arruda Alvim. Luis Rodrigues. São Paulo: Método. 1997.283. v. TORNAGHI. “A efetividade do processo como um direito fundamental: o papel das tutelas cautelar e antecipatória”.

São Paulo: RT. da Lei Complementar nº 95/98. 475N.232/2005. IV – A sugestão de inconveniência da tutela executiva declaratória.232/2005 Fabio Guidi Tabosa Pessoa JUIZ DE DIREITO DO ESTADO DE SÃO PAULO E PROFESSOR DE DIREITO SUMÁRIO: I. do CPC.Introdução. VI – Compatibilização com o sistema da Lei 11.Introdução 1. se considerado o sistema do Código de 1973 — inspiração no passado.2006 . I. com vacância prevista de 6 (seis). Cf.137 O título executivo declaratório na Lei 11.232/2005. do Código Civil.232/2005 (coord. p. Teresa Arruda Alvim Wambier). Revista da Escola Paulista da Magistratura. nº 2. Dentre as inúmeras modificações promovidas pela recente Lei 11. em se tratando de prazo de meses. A lei foi publicada no Diário Oficial da União de 23 de dezembro de 2005. III . I . iniciando-se a vigência legal no dia posterior a tal exaurimento. 51-53.Sentença declaratória. Parcial retorno ao medievalismo? Por que não?”. julho/dezembro .Direito intertemporal. com a redação dada pela Lei Complementar nº 107/2001.2 Outras. V – Limites naturais e reflexos procedimentais. ano 7. § 1º. 137-174.232/05. 8. representam efetivo rompimento para com a tradição 1 2 Art. conforme a Lei 11. o último dia da contagem recaiu em 23 de junho de 2006. II – O alcance do art. § 3º.1 no processo civil brasileiro. “Do ‘cumprimento da sentença’. diversamente. 2006. Natureza e eficácia executiva secundária. in Aspectos polêmicos da nova execução de títulos judiciais – Lei 11. e art. Athos Gusmão Carneiro. em vigor desde 24 de junho de 2006. Antecedentes no processo civil brasileiro. 132. pp. algumas trazem confessadamente — não obstante o caráter inovatório. VII .

97126.3 equivalente do agora revogado art. I. como em princípio se extrai da redação do art. in Processo de Execução Civil. de par com os inevitáveis questionamentos sobre a oportunidade. 475-N. por que não dizer.. p. Carta Forense nº 38. defende mais adiante a idéia de que provimentos declaratórios ou constitutivos também comportariam atos executivos. “Impacto da Lei 11. 475-N – São títulos executivos judiciais: I – a sentença proferida no processo civil que reconheça a existência de obrigação de fazer. “Lei 11. 2006.. esp. cit.. 119-124). não fazer. São Paulo: RT. no mesmo artigo. coord. Luiz Rodrigues Wambier (Sentença Civil: Liquidação e Cumprimento. culminando com a apreciação das implicações de direito intertemporal. O dissenso doutrinário começa pela aceitação da própria realidade da mudança.5 3 4 5 “Art. entregar coisa ou pagar quantia. “A sentença declaratória como título executivo – considerações sobre o art. do CPC 2. tão somente. 475-N. Se. pp. 4244). 137-174. Flavio Luiz Yarshell. pela forma como promovida e. Evaristo Aragão Santos (“Breves notas sobre o ‘novo’ regime de cumprimento da sentença”. Referido autor. cit. Pelo impacto da modificação na dinâmica da atividade jurisdicional. 2006.232/2005. nº 2.. p.4 parte da doutrina resiste à idéia. a intenção do legislador em abarcar as sentenças declaratórias dentre os títulos executivos judiciais se afigura clara. do CPC. pp. II . Há. p. suscitam discussão por vezes mais intensa. pp. em boa parte por isso. I. 40). técnica e coerência sistemática do diploma renovador.2006 . das sentenças condenatórias. É o caso da atribuição às sentenças civis meramente declaratórias da força executiva antes privativa. quem considere que a modificação do texto legal teria sido “puramente semântica” e que as sentenças mencionadas na nova redação continuariam sendo as condenatórias. parece-nos oportuna uma investigação específica em torno de aspectos como o significado da novidade. José Miguel Garcia Medina. (omissis). in Processo de Execução Civil – Modificações da Lei nº 11. São Paulo: Quartier Latin.232/05: extensão das normas sobre cumprimento a todos os títulos judiciais?”. 475-N. Leonardo Ferres da Silva Ribeiro. para alguns autores. p. I do CPC”. 584 do mesmo diploma. sua viabilidade técnico-científica. 136. seus reflexos práticos e as previsíveis dificuldades que se apresentarão ao aplicador do direito por força do laconismo do texto legal.O alcance do art.” Por exemplo. in Processo de Execução Civil.232/05 no tema da eficácia da sentença”. julho/dezembro . no âmbito do chamado processo de conhecimento. 6.. citando o exemplo da tutela antecipada e Revista da Escola Paulista da Magistratura. Paulo Hoffman e Leonardo Ferres da Silva Ribeiro. por exemplo. ano 7. inc.138 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA do direito pátrio e. pela controvérsia que já suscita.

O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. alheia à idéia de cumprimento. Não se pode deixar de observar. desbordando pois do tema aqui examinado. nessa medida. diversa daquela presa à noção de título executivo.2006 . pp.” Cumprimento da Sentença. por já entregar ao vitorioso o bem da vida desejado (v. nº 2. a certeza). somente se compatibilizando com a sentença genuinamente condenatória ou com a parcela condenatória em honorários advocatícios e custas acaso existente em sentenças declaratórias ou constitutivas. acena-se ainda com a natureza da sentença declaratória. não à “declaração e/ou constituição em si mesma considerada” (pp. outorgasse tutela condenatória a despeito da errônea denominação da ação como declaratória. nesse sentido. 204-205. do CPC. Rio de Janeiro: Forense. Carlos Alberto Alvaro de Oliveira. apta. quando muito. 4º do CPC. p. O ‘”reconhecer’ contido na disposição legal”. outrossim. entretanto. que a idéia vem reconhecidamente associada a uma acepção mais elástica do termo execução. ainda que limitada tal “execução” aos “efeitos”.232/2005 139 Nessa mesma linha. in Reforma do CPC. incorre-se em erro crasso. segundo esse raciocínio. pressupondo necessariamente o reconhecimento da existência de inadimplemento e. Glauco Gumerato Ramos. ano 7. o órgão judiciário ‘declarou’ que Pedro deve ‘x’ a João —. De outra parte. 139-140). 2006. nos limites do pedido da parte. dispensando execução de qualquer espécie. olvidando que nenhum provimento é ‘puro’ e. iria além da declaração. julho/dezembro . o juiz foi além da simples declaração. tornando a questão merachegando a sustentar a aplicabilidade do raciocínio também aos provimentos finais.7 A referência a essa suposta característica da sentença de “reconhecimento da obrigação” é adotada. igualmente excetuando o aspecto relativo aos encargos sucumbenciais. 475-N. representando efetiva condenação do réu. a executividade está ligada aos efeitos da sentença. que. São palavras textuais desse autor: “Quando se afirma que há execução baseada em sentença declaratória — por exemplo. por isso. argumenta não comportar o provimento meramente declarativo execução. no exemplo aventado. a satisfazer integralmente a pretensão da parte no plano material e. ressalva que a referência ao reconhecimento da existência de obrigação.g. 137-174. Nesse sentido.. e não ao seu conteúdo. conforme a natureza da obrigação”. dizendo respeito à própria “tutela condenatória. por si mesma. O “reconhecimento” mencionado pelo novo dispositivo legal como pressuposto formador de título executivo. por outro respeitado autor gaúcho. constante no art. 256-258. mesmo em termos de sentença condenatória e de execução em sentido estrito. mandamental ou executiva lato sensu. poderia permitir que o juiz. 6 7 Revista da Escola Paulista da Magistratura. São Paulo: RT. I.6 A inocorrência de alteração substancial vem também enfatizada por Araken de Assis. “Título Executivo Judicial”. emitindo pronunciamento condenatório. para quem a declaração do novo artigo seria distinta da mera declaração objeto do art. se afeiçoaria melhor “a um juízo de reprovação emanado na fase de conhecimento”. envolveria necessariamente a aplicação de sanção ao devedor inadimplente na própria sentença. pp.

não foi propriamente desejada pelos artífices do anteprojeto que resultou na Lei 11.253/2004. São Paulo: Associação dos Advogados de São Paulo.140 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA mente terminológica e trazendo. outrossim. de autoria dos ex-ministros do STJ Athos Gusmão Carneiro e Sálvio de Figueiredo Teixeira. julho/dezembro . A alteração.2006 . maio de 2006. e não de conteúdo. não pode ser menosprezado o teor da emenda. 475-N. 584. como título executivo judicial. I. mantendo. alterada apenas na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal (Projeto de Lei 52/ 2004). o elemento nuclear do tipo legal) que dispensava qualquer correção — por representar forma perfeitamente adequada de expressão do objeto da previsão normativa e estar ademais incorporada à tradição 8 9 “Tutela declaratória executiva?”.8 3. entretanto. portanto. vindo a ser. onde o Projeto de Lei recebeu o número 3. nº 2. diga-se de passagem. do CPC. Na Câmara dos Deputados. e em que medida se justifica a conclusão. cumpre ressaltar. advertir que o rótulo técnico aposto a tal emenda. a modificação tenha sido apenas de forma. I. não basta para assegurar que. nº 85. parece conveniente. a força que lhe seria própria (sic) nos casos de equivocada denominação da demanda de declaratória e de formulação de pedido declaratório. p. para assumir a configuração atual. Com o que. E. pp. 137-174. qual a conseqüência prática do que disse). Diante desse quadro. executiva ou mandamental. voltada especificamente a promover a substituição de palavra (não por acaso.9 É necessário. ano 7. “a sentença condenatória proferida no processo civil”. Revista do Advogado (Novas Reformas do Código de Processo Civil). acerca da elevação das sentenças meramente declaratórias à categoria de título executivo judicial (sobre as divergências de fundo se falará em tópico posterior). investigar o que efetivamente quis dizer o legislador (a par disso. nesse sentido. a redação do então art. Revista da Escola Paulista da Magistratura. evitou-se o retorno do projeto à Câmara dos Deputados. a possibilidade de atribuição pelo juiz à sentença condenatória. como benefício. já adiantada nas considerações introdutórias deste estudo. com as conseqüências daí advindas ao processo legislativo correspondente. na essência. o texto encaminhado ao Congresso Nacional pela Presidência da República e elaborado pelo IBDP — Instituto Brasileiro de Direito Processual —. antes de mais nada. 39-42.232. a redação foi mantida. definia expressamente no art. ali justificada como emenda meramente redacional.

é certo. uma determinação (e. p.11 do processo de execução autônomo fundado em título judicial para pagamento de quantia. nº 2.10 Não bastasse a profundidade das alterações já previstas no próprio projeto de lei. Revista da Escola Paulista da Magistratura. transportando os atos correspondentes para o âmbito de um processo de conhecimento. poderia o legislador. optou por preservar. Com efeito. 204-205). tentar entender o fato a partir de possível hesitação terminológica do legislador. tomar esse reconhecimento em sua estrita literalidade (pois que. em tais casos. com uma situação de notória confusão conceitual na doutrina.953/94 e 10. adverte ainda que a redação dada ao art.. bem como ao texto então vigente —. não fazer e entrega de coisa) e sobretudo da errônea aplicação 10 Araken de Assis. quanto a essas formas de execução. declarar. caput. julho/dezembro . 733 do CPC. alterações na mesma linha estrutural das execuções para pagamento de quantia em geral.2006 . na prática. identificando-se na emenda o propósito de efetiva ampliação do rol de títulos executivos. vale dizer. 11 E não na generalidade deles. ano 7. reservando “cumprimento” aos pronunciamentos mandamental e executivo”.232/2005 141 jurídica. já que muitos dispositivos que regulavam procedimentos executivos característicos pela qualidade de uma das partes ou pela natureza do direito de crédito foram mantidos intactos em sua sede natural. bem ou mal. na esteira do pensamento de Liebman. de qualquer forma. como parece defluir de algumas impressões que vêm sendo manifestadas sobre a novidade. de um lado. como se tem relativamente à execução contra a Fazenda Pública ou à execução de pensão alimentícia pelo rito especial do art. 475-N deve ser interpretada sistematicamente à luz do art. do ponto de vista dos atos do juiz. por outra de significado totalmente diverso. nos moldes até aqui observados. justamente nessa linha de pensamento. durante sua tramitação.444/ 2002 (que criaram novo sistema para os atos executórios relativos a obrigações de fazer. pp. aí. 475-I. se chegaria ao absurdo de dizer que somente as sentenças declaratórias formariam título executivo judicial. a despeito das peculiaridades procedimentais aí existentes. a inequívoca imposição de uma conduta. Se não o fez é porque. na esfera civil. com a abolição. Parece inquestionável que. enquanto o verbo condenar traduz. admitir como certo. promover. que o intuito do legislador tenha sido apenas o de adotar termo sinônimo. do mesmo Código de Processo Civil (Cumprimento da Sentença. reconhecer também tem significado isento de dúvidas e equivale a afirmar. 137-174.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. limitar “o campo de incidência da execução. com razoável margem de segurança. cit. entende que se quis. o Livro II do Código de Processo Civil. Seria possível. não as condenatórias). deparou-se o novo diploma. representando claramente um minus pela limitação do provimento à enunciação do resultado do juízo crítico. os aspectos referidos permitem excluir. um processo de execução autônomo. se assim o quisesse. a aplicação de uma sanção). já agora de natureza híbrida. decorrente das modificações anteriormente introduzidas pelas Leis 8. em boa parte dos casos. Se não se pode.

processo de execução específico para a consecução dos fins práticos por elas almejados. Se. qualquer conteúdo condenatório. acerca do suposto caráter mandamental das sentenças sobre obrigações de fazer e não fazer. bem como de José Ignacio Botelho de Mesquita. nesse contexto. pelo simples fato de as primeiras serem limitadas às hipóteses de execução forçada. foi agregada a locução lato sensu. segundo entendemos. de forma simplista. por exemplo na redação dada ao art. 2. passíveis de alcance mediante a prática de atos singelos e em prolongamento ao próprio processo de conhecimento. de todo modo. São Paulo: RT. “A sentença mandamental. observada na tradição do direito brasileiro e em boa parte dos ordenamentos europeus. p. Desbordando da classificação trinária de sentença. nº 114. 429). na realidade têm características próprias que refogem à singela indagação quanto à necessidade ou não de processo autônomo para fazer valer preceitos condenatórios. vol. seria o caso então de passar a cogitar da qualificação de “executivas lato sensu”. 475I do CPC pela Lei nº 11. Arenhart chegam a distinguir as sentenças condenatórias das mandamentais. pela ampliação do sistema às de entrega de coisa.2006 . São Paulo: RT. 13 Embora disso não vá ocupar-se o presente trabalho. São Paulo: RT. ao contrário das segundas. 2206. agora também para as sentenças impondo obrigação de pagar. das sentenças referentes a obrigações de fazer e não fazer. não corresponde ao modelo pontiano. A explicação. de qualquer modo. sem embargo da relativamente (por vezes bastante) complexa gama de atos executórios que se seguem a elas. a verdade é que simplesmente não apresentam. março-abril de 2004. 475-J). 2005. que na realidade são. 251-264). e “Sentença executiva?” (Revista de Processo. ano 7. constitutivas e condenatórias. 137-174. se o que se pretendia era destacar a distinção entre os modos 12 Essa hesitação parece vir refletida. não diretamente em torno da definição das sentenças. como passaram a ser consideradas as sentenças determinativas de entrega de coisa. o que. e no mesmo processo. A diferenciação entre as chamadas executivas e as condenatórias tradicionais acabou. pp. a justificativa para sua diferenciação em relação às sentenças condenatórias. Da Alemanha ao Brasil” (Revista de Processo. pelo senso comum. o detalhe isolado da dispensa de processo executivo. notadamente as sentenças de despejo e de reintegração de posse. 168-184). no tratamento das variedades de execuções a elas associadas. sendo definida pela circunstância de dispensarem as primeiras. como no art. é preciso notar que os exemplos de sentenças executivas tradicionalmente citados pela doutrina a partir de Pontes de Miranda. não seria admissível o critério fundado nos posteriores atos de execução (mesmo porque estranho à sentença e sua configuração o tema da forma de sua implementação).142 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA da classificação quinária proposta por Pontes de Miranda. 461 e 461-A. pp. posteriormente seguidas. com o início das reformas processuais. essas decisões. ostentando ordem ou imperium e ainda o elemento coercitivo da vontade do obrigado (Manual do Processo de Conhecimento. vale a consulta aos excelentes estudos de José Carlos Barbosa Moreira. o certo é que. vinculado aos arts. todavia. 147-162). ou mesmo a distinção entre essas e as ditas executivas lato sensu. Não bastasse isso.12-13 poderia então o legislador. já as mandamentais seriam caracterizadas por “dirigir uma ordem para coagir o réu”. todavia. julho/dezembro . pois não se destinam a qualquer modificação no mundo jurídico. mas. Marinoni e Sérgio C. não empregada para esse fim por Pontes). com desnecessária criação de espécies derivadas do gênero “cumprimento da sentença”: o cumprimento em sentido estrito. nº 97. A respeito do assunto. se passou a difundir a visão dessas decisões como algo diferentes das sentenças condenatórias. pp. por extensão. Sem pretender discutir a generalização. p. “A sentença mandamental” (Teses. e.232/2005. partindo do pressuposto de que o juiz não poderia “interferir na esfera jurídica do indivíduo”. nº 2. São Paulo: RT. não faria sentido diante dos caminhos concretamente adotados e não se prestaria a justificar o ponto de vista contrário ao título executivo declaratório. mediante a alusão também a sentenças mandamentais e executivas (termo ao qual aleatoriamente. Revista da Escola Paulista da Magistratura. janeiro-março de 2000. inseriu o legislador a modalidade de execução simplificada. com divisão delas em declatórias (ou meramente declaratórias). e a execução propriamente dita. Estudos e Pareceres de Processo Civil. por alguns feita. como bem demonstrado por José Carlos Barbosa Moreira em Sentenças Executivas?. Com efeito. a nosso ver. e nisso reside. não podendo tampouco ser classificadas como constitutivas. parte da doutrina abraçou a divisão quinária proposta por Pontes de Miranda. tomado. a confusão se agravou ainda mais quando. reservada aos casos de obrigação de pagar quantia. inevitável uma rápida abordagem do problema. ter preferido evitar o supostamente equívoco termo condenação (muito embora o tenha empregado em outros momentos.

232/2005 143 de efetivação das sentenças (e sem que se discuta aqui a pertinência ou necessidade dessa distinção). conforme a natureza da obrigação substancial nelas contemplada. na medida em que. A partir desse critério unitário. jamais preestabelecido e difícil de prever. 475-I. conspira a favor da admissão do título executivo declaratório o aspecto teleológico. de qualquer modo. objeto do dispositivo que se comenta. se deduziria quanto muito o sentido desta. 2002. de toda forma. E. Rio de Janeiro: Forense. não foi por algum aspecto ligado ao conteúdo substancial das sentenças. naturalmente aplicável a todas as sentenças mencionadas no inciso I. julho/dezembro . uma vez mais. p. denominada “execução”. Revista da Escola Paulista da Magistratura. e prevê um “cumprimento de sentença” em sentido estrito. mas por motivos ligados à própria idéia de condenação (o que. no tocante à definição dos títulos executivos. 137-174. se se abandonou a expressão. sem ser de forma alguma contrária à natureza das sentenças declaratórias (do que se cuidará mais adiante). Cabe de toda forma ponderar que. isso se conseguiu por meio da pitoresca redação do art. reforça o propósito ampliativo que ora defendemos). de fato. 15 Hermenêutica e Aplicação do Direito. ainda se da pesquisa da mens legis se chegasse em princípio a resultado diverso. não haveria por que temer o termo “condenatória”.”15 Ora. adequada. título dado ao capítulo ali iniciado. nº 2. com a utilização de termo mais amplo que o anteriormente empregado.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. p. na medida em que alterada a dicção da lei. aparentemente criadora da norma. ter-se-á. que se referia genericamente à “sentença proferida no processo civil” — deixar explícito haver título executivo nas decisões relativas a cada uma das espécies de obrigação ali mencionadas. enfim. nem por isso estaria encerrada a tarefa interpretativa.14 como também deu a elas tratamento uniforme nessa órbita. e não o respectivo alcance. espécie daquele. ao lado de outra espécie. Por outro lado. nenhuma importância acaba por revelar a diversidade dos meios de efetivação. a idéia amolda-se perfeitamente ao declarado propósito das sucessivas mini-reformas 14 Note-se que a emenda do Senado fez questão também de — ao contrário da redação do projeto. e restrita às obrigações por quantia certa. a seus fins e às necessidades do meio social em que lançada. Vale a lembrança da lição de Carlos Maximiliano: “Da vontade primitiva. que parte do gênero “cumprimento de sentença”.2006 . ano 7. não só porque o texto legal acabou por enfatizar a inserção de todas essas sentenças em tal categoria. 36. aberto ensejo a uma interpretação mais elástica de seu alcance.

Dizer. por meio de precatório. e definem que o contribuinte beneficiado por sentença declaratória do indébito. Todos os julgados dizem respeito a um tema específico. outrossim. 17 Do “cumprimento da sentença”. EREsp nº 502. 359..618/RS. REsp nº 413.2006 . 17/2/2005. p. acabou rendendo-se às evidências. ano 7. Revista da Escola Paulista da Magistratura. nem sequer faria sentido. é utilizar o óbvio fora de contexto e desviar o foco da discussão. DJU 14/3/2005. 10/2/2004. João Otávio de Noronha. Teori Albino Zavascki. REsp nº 526. min. nº 2. em primeiro lugar.. até onde se tem conhecimento. p. projeta. passou a admitir. força executiva a determinadas sentenças declaratórias. mas reconhecendo o significado da modificação havida e inclusive exaltando o resultado. por sua Primeira Seção. pp. 2ª T. no tocante às custas e honorários advocatícios. DJU 1º/7/2005. com efeito. sob o prisma mencionado. para fins de compensação fiscal. j. Francisco Peçanha Martins. percebe-se que mais refletem preocupação com o que o legislador estaria em tese autorizado a fazer do que com o que realmente fez. todavia. p. min. min. 1ª Seção. que já está consolidado na Primeira e Segunda Turmas (v. Luiz Fux. pode optar entre essa via ou a execução em dinheiro. DJU 3/10/2005. 1ª T. pois. baseando-se diversamente no conteúdo da sentença em relação ao conflito de direito material). contrários a essa linha interpretativa. p.968/SC. 123. por fim. reiterando o propósito originário em sentido diverso do anteprojeto. A sucumbência. rel. cit. a que chegou o novo texto. não é levada em conta na classificação das sentenças em declaratórias e condenatórias (que. não só não autoriza que se exclua a existência. a restituição de tributos pagos indevidamente. 200. a visão a ser dada pela jurisprudência. os argumentos antes mencionados.17 4. sobre possibilitar por mais um ângulo investigar o sentido literal do novo texto. que não haja provimentos puros e que mesmo as sentenças declaratórias apresentem uma parcela condenatória. Mais do que isso.. rel. julho/dezembro . p. in LexSTJ 188/106. DJU 25/2/ 2004. j. pelo acórdão proferido no julgamento do REsp nº 588.. de provimentos 16 O entendimento.655/SC. Pode não ser mera coincidência. ex. j.. seja no plano temporal. 78-79. Se tomados. É certo que ostenta natureza condenatória a parte da sentença que impõe à parte vencida os encargos da sucumbência. seja no plano operacional. 137-174. 8/6/2005. a seu ver vantajoso. O próprio contexto histórico em que situada a lei. foi capitaneado.202/PR. rel.16 O próprio Athos Gusmão Carneiro. rel.. p. ainda à luz do sistema anterior.144 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA pelas quais vem passando o processo civil brasileiro de busca de maior efetividade à tutela jurisdicional.. pela índole processual dessa verba. do contrário. j. 1ª T. 164). 9/8/2005. o dado de a modificação redacional ter ocorrido justamente quando o Superior Tribunal de Justiça. com razoável margem de segurança.

nesse sentido. uma vez identificado em uma sentença declaratória. e a duas. parágrafo único. pretextando razões de ordem prática e à guisa de fungibilidade. afigurando-se o nomen iuris dado pela parte totalmente irrelevante para tal fim. da existência de título executivo nos casos em que equivocadamente nominada a ação como declaratória busca. em concreto. justamente por isso. transmudada em condenatória (inversamente. a referência ao art. na verdade. portanto. julho/dezembro . já no sistema antigo. decorrente dos artigos 128 e 460 do CPC. ano 7. Assim. 137-174. mas com pedido claramente condenatório. do Código de Processo Civil). dar utilidade ao novo texto legal a partir de um falso problema. em termos inaceitáveis — é pretender que o “reconhecimento” mencionado pela lei permita qualificar como essencialmente condenatórias as sentenças em atenção a pedidos “equivocadamente” postos como declaratórios. requerer tutela meramente declaratória. segue a natureza desse e. simplesmente não pode o juiz.18 coisa diversa da pedida. outrossim. que seja ela. desde que se entenda só haver tal juízo. não havendo nisso. Revista da Escola Paulista da Magistratura. qualquer concessão ao novo regime. sim. a sentença respectiva ensejaria execução. a uma. A admissão. enfim. Ação rotulada como declaratória. mas nas quais venham perfeitamente delimitados os elementos da relação obrigacional e atestado o inadimplemento.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. Tampouco resolve a questão vislumbrar na sentença que declara a existência de um débito um juízo de reprovação. mesmo diante da possibilidade de pleito condenatório. abstraídas as razões de ordem estratégica (e de conveniência) que levam alguém a. por não permitir. estará fora de questão enxergá-lo nas sentenças 18 Como ocorre com os interditos possessórios. 4º. no Direito brasileiro. Diferente disso — e aqui. nas sentenças tipicamente condenatórias. como menos ainda permite o raciocínio reflexo de ver na sentença de reconhecimento da obrigação uma carga condenatória necessária. pois o que define o objeto da ação é o pedido. fora dos casos excepcionais previstos na própria lei.2006 . nº 2. por não ser esse juízo a rigor exclusivo das sentenças condenatórias. tão-somente por isso. seja porque ainda vige. é nesses limites que deve ser apreciado seu pedido. p. dar à parte.232/2005 145 simplesmente declaratórios. o princípio da congruência. Seja porque a violação do direito a uma prestação não é óbice a pedido meramente declaratório (e basta.

se pudessem tomar tais modelos decisórios como fonte de títulos executivos. com o devido respeito aos doutos defensores do entendimento contrário. parágrafo único. mas desde sempre. por tudo. 102. embutida mesmo. p. Cássio Scarpinella Bueno. 475-J do CPC na redação da Lei 11. que. alertando ele para a postura dos defensores dessa corrente no sentido da progressiva e inevitável ampliação do próprio conceito de condenação. do juízo impositivo próprio das últimas).1. comporta dita eficácia executiva. I.146 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA formalmente declaratórias — ainda quando apreciem e reconheçam o inadimplemento —. in Aspectos polêmicos da nova execução. Revista da Escola Paulista da Magistratura. ali qualificou como inadimplente o devedor 19 Interessante é a posição de outro insigne processualista. 1999. julho/dezembro . diga-se que não se presta a embasar interpretação restritiva a confrontação do art. nº 2. embora manifestando seu apoio à idéia de execução fundada em decisões declaratórias. Na prática. é a extração dos benefícios da executividade da tutela declaratória sem renegar o dogma do título executivo condenatório. Para que não se tenha por omitido o exame de outro possível argumento contrário. São Paulo: RT. 20 A idéia de dogma.19-20 A questão. não se resume em fingir que a sentença declaratória é condenatória para que se possa executá-la. era utilizada por Teori Albino Zavascki em torno da executividade restrita à sentença condenatória. Segue na mesma linha a pretensão de extrair das sentenças que contenham reconhecimento expresso de um débito.2006 . (Título Executivo e Liquidação. 2006. mas em verificar se. ignorando a clara e clássica distinção entre declarar e condenar. do Código de Processo Civil. 580. o que se parece aí buscar.” (“Variações sobre a multa do caput do art. a partir daí. ano 7.232/2005”. considerando razoável entender que “há uma ordem contida. com o art. 136. Ao tratar a lei do conceito de inadimplência como requisito ao início de qualquer execução. mesmo sendo puramente declaratória. com efeito. 4. Destaque-se. 137-174. a ponto de se definir como sentença condenatória “aquela que propicia a formação de título executivo”. São Paulo: RT. e apenas por isso. incide no mesmo desvio de perspectiva. apesar dos julgamentos de lege ferenda. se teve a coragem de identificar as próprias sentenças declaratórias como títulos executivos. em que. para. p. no reconhecimento (declaração) judicial de que alguém deve alguma prestação a outrem. questionar sua essência). a postura adotada pelo Superior Tribunal de Justiça nas decisões antes mencionadas. bem como a ausência. um elemento implícito determinante de seu enquadramento na categoria das condenatórias (como se não apenas agora. 475-N. em última análise. já bem antes da revisão legislativa. ainda vigente com sua redação originária. nas sentenças do primeiro tipo. quanto a isso. p.

ou a obrigação. haveria de ser interpretado sistematicamente à luz do dispositivo principal. o termo “reconhecimento”. coincidindo com o sentido que preconizamos para a expressão da Lei nº 11. 1987. 137-174.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11.2006 . Alcides de Mendonça Lima. a que a lei atribuir a eficácia de título executivo”.232/2005 147 “que não satisfaz espontaneamente o direito reconhecido pela sentença. em substituição ao verbo “condenar”. e. Ainda. portanto. vol. mas aquele cuja obrigação esteja materializada em título executivo. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 580. referir-se ao reconhecimento por meio de sentença condenatória. O principal foco de resistência. 225-230). o significado do termo antes reforça que exclui a linha interpretativa aqui defendida.21 Na verdade. no caso daqueles. gravita em torno da suposta inaptidão das sentenças declaratórias à formação de título executivo. judicial ou extrajudicial. pp. é que. nesse caso. depois de proferida sentença condenatória”.232/2005. em outras passagens. 584. III . que asseverou. julho/dezembro . no art. em tal medida. o mesmo verbo reconhecer. o resultado não será diverso. Antecedentes no processo civil brasileiro 5. 580. a seu tempo geralmente vinculado pela doutrina à idéia de condenação. Referida visão. reforça essa idéia. ano 7. nessa passagem. Rio de Janeiro: Forense. contudo. abrangendo. cabe ver que. quanto ao direito reconhecido pela sentença. concentrando-se. parte do equívoco de tentar compreender a 21 Veja-se. Usa-se. sentenças condenatórias e nãocondenatórias. nº 2. que se admita para efeito de argumentação que o legislador de 1973 tenha querido mesmo. não é bem assim. Natureza e eficácia executiva III . em que a palavra veio posta no próprio núcleo do dispositivo definidor dos títulos executivos emergentes das sentenças no processo civil. p. tendo em vista seu conteúdo limitado à própria declaração e infenso a qualquer atividade complementar. Coisa bem distinta é o que ocorre agora. não produzindo efeito outro que não a própria eliminação da incerteza em torno da relação jurídica discutida. a referência foi genérica a todas as modalidades de título então elencadas no art. todavia. Associada a primeira parte da redação aos títulos executivos judiciais e a segunda aos extrajudiciais. fora daí restando ao credor obter sentença condenatória em regular processo de conhecimento (Comentários ao Código de Processo Civil. contudo.secundária. tratar-se daquele verificado “ao término do processo de conhecimento. dizendo não poder qualquer devedor ser considerado inadimplente para o fim previsto no art. parágrafo único. O mesmo autor. posto em norma secundária relativamente à outra. 584. como se percebe. portanto.Sentença declaratória. no inciso I do art. por todos. que agora se encontra no centro das discussões. VI.

Ocorre que a modificação legislativa não pretende — nem precisa —. trazendo igualmente uma declaração (que naquelas é implícita) sobre o direito e a ela acrescendo algo. parando na 22 23 Quando muito ficando na dependência de atos complementares de cunho administrativo. julho/dezembro . enfim. no plano dos fatos. efeito que lhe é próprio. constitutivas e condenatórias. que. ano 7. o implemento desse comando da colaboração do devedor. proporcionando. quando não é esse o caminho adequado para a compreensão do fenômeno. o autor.22 A executividade da sentença condenatória23. que lhe outorgam de imediato e plenamente. não se está dizendo que deixarão de se limitar a uma declaração com fins de eliminação de uma situação de incerteza objetiva. ou que irão agregar alguma espécie de comando voltado ao réu — com o que restaria nesses casos eliminada a fronteira entre elas e as sentenças condenatórias —. Se considerada a divisão das sentenças em declaratórias. voltada ao réu.148 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA eficácia executiva desse tipo de decisão a partir da estrutura da sentença condenatória e adotando o mesmo critério distintivo das sentenças empregado na classificação trinária. de cumprimento da obrigação pendente e satisfação do direito do autor. p. se não ao adimplemento em si mesmo. quer no efeito primário das sentenças declaratórias. não há mesmo como imaginar que a sentença declaratória possa dar causa à formação de um título e fique na dependência de atos executivos de pressão psicológica sobre a pessoa do devedor ou de afetação de seu patrimônio. Revista da Escola Paulista da Magistratura. precedendo ao próprio cumprimento da determinação por parte do obrigado. então. que toma por base o conteúdo da manifestação judicial no tocante à relação material litigiosa. a satisfação em tese assegurada pela sentença. todavia. Por depender. advém. a efeitos práticos que lhe equivalham. ao contrário das outras duas (mesmo a constitutiva). Sob tal prisma. interferir quer no conteúdo. é certo dizer que as condenatórias e constitutivas apresentam um plus em relação às declaratórias. 137-174. nº 2. da necessidade de dotar o autor de um instrumental capaz de levar. 6. Que somente por uma superafetação do efeito correspondente pode ser vista como objetivo principal dessa modalidade de tutela. é uma determinação. nem muito menos sugerindo que. não é apta a sentença condenatória a satisfazer. destinados ora a dar publicidade. o resultado final objeto da pretensão.2006 . por si só. no caso das condenatórias. por conta de seus efeitos naturais. muito pelo contrário. ora a registrar para fins outros o conteúdo da decisão.

julho/dezembro . quanto a eles.24 em decorrência direta da vontade da lei. sobre a disciplina legal. sem que. por isso. repete exatamente a técnica mesma utilizada para os títulos extrajudiciais.232/2005 149 singela declaração. a circunstância de vir referida conseqüência jurídica prevista e disciplinada em lei não afeta a distinção. a ciência e mesmo concordância ou expectativa das partes quanto aos efeitos legais acaso previstos quanto a determinada conduta não lhes altera a característica... A atribuição de executividade à sentença declaratória.. Mas não é necessário recorrer a esse exemplo para justificar o modelo 24 25 Nesse sentido...O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. o conteúdo e natureza da sentença declaratória. mas como opção legislativa. cit. p. em sua inteireza. o fim buscado com o ato. a partir de agora. cit. 137-174. Sentença civil. p. externa ao próprio ato e acrescentada pela lei”. São Paulo: Malheiros. aí. de atos complementares para satisfazer a pretensão por meio delas exercida pelo autor da demanda — o que seria contrário à natureza das coisas e ofensivo à lógica. que confere eficácia executiva a um ato ou fato jurídico qualificado como título executivo. no tocante à sentença condenatória. bem como seu efeito precípuo. esse efeito não se oferece como conseqüência jurídica natural do ato. ano 7... A idéia é que a formação do título e a conseqüente eficácia executiva surjam como efeito secundário da declaração. de resto. A sentença declaratória como título executivo. 7. Revista da Escola Paulista da Magistratura. caracterizada como efeito secundário do ato jurídico (Execução Civil. 121. nas sentenças de condenação. nº 2.25 Preservam-se. sendo aliás o que ocorre na generalidade dos casos (e não só no processo) com os atos jurídicos. precisariam. enquanto a declaratória é fato jurídico. já que a conduta não tem como objeto natural a produção daqueles efeitos. e não a vontade das partes. José Miguel Garcia Medina. e não como efeito imediato e querido do ato. distinguindo ele “a eficácia programada pelo agente e a outra eficácia. 43. p. em relação aos fatos jurídicos. pp. Adverte com razão Cândido Dinamarco ser a lei. Ocioso dizer que. no caso das sentenças declaratórias. Se. portanto. é no tocante à formação do título ato jurídico. gere qualquer perplexidade o fato de autorizarem a prática de atos executivos independentemente do comando impositivo próprio de sentença condenatória. 474-475). A sentença condenatória. a constituição de título executivo é desde logo desejada pelo autor da ação (para o caso de persistência do inadimplemento)..2006 . importa. integrandose no objeto do ato judicial que decide a causa e dele decorrendo como efeito primário. do mesmo modo que. Luiz Rodrigues Wambier.

do mesmo Código. neste caso. a partir de sentença condenatória do fornecedor. O art. 899 – (omissis) § 2º . mas. 103. ano 7. em termos igualmente ou ainda mais claros. II. no plano individual. nº 2. por crime contra as relações de consumo. o simples exame do hoje revogado art. Seria muito mais simples. repete a fórmula. 137-174. o montante devido. O sistema processual brasileiro conta com diversos casos de executividade de sentenças não-condenatórias que desmistificam o fenômeno e esvaziam a resistência ora oferecida. dada a inexorabilidade desse efeito no tocante às sentenças condenatórias. 91. que nem mesmo pode ser considerado novo (senão quanto ao caráter mais amplo e genérico agora conferido).” Há quem considere mero equívoco redacional o termo “declarará” aí utilizado. conforme o caso. Podem ser lembrados. do CPC. 27 Revista da Escola Paulista da Magistratura. o que. A idéia desse julgamento. 584. o direito do evicto. a espelhar a imposição. por exemplo. na autorizada lição de José Ignácio Botelho de Mesquita.” 30 Na mesma linha antes examinada.32 26 “Art. em seu art. ao acusado.28 quanto ao julgamento de improcedência da ação consignatória por insuficiência do depósito. 584 do CPC se encarrega de reforçar a lista. mas ainda. da indenização devida às vítimas e sucessores. sempre que possível. 899. II.150 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA legal. limitando-se a palavra “condenação”. e o art. da sanção penal. aí. in A coisa julgada. uma coisa é certa: não existe.” 28 “Art. envolve um julgamento implícito acerca da matéria31. 918 – O saldo credor declarado na sentença poderá ser cobrado em execução forçada.. 2005. no bojo da sentença criminal. prevendo a liquidação e executoriedade. não faria sentido a expressão “valerá como título executivo” que se segue. em que o título judicial independe mesmo de sentença. uma efetiva condenação em termos civis. Rio de Janeiro: Forense. facultado ao credor promover-lhe a execução nos mesmos autos”. 29 “Art. 76 do CPC.. Ainda que se questione a natureza puramente declaratória30 da sentença nos três primeiros casos citados. valerá como título executivo. e. o art. ou a responsabilidade por perdas e danos. com efeito. Tome-se. para os que considerem ser ela efeito puramente legal. simplesmente dizer que “o juiz condenará. valendo como título executivo. de caráter dúplice. § 4º. a mais adequada a explicar a certeza a que se refere o texto legal. de natureza civil. do Código Penal enumera dentre os efeitos extrapenais genéricos da sentença condenatória criminal o “tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime”. sustentando que o objetivo do legislador teria sido mesmo dizer “condenará”.A sentença que concluir pela insuficiência do depósito determinará.27 o art. 46-49 32 O Código de Defesa do Consumidor. 31 “Da autoridade civil da coisa julgada penal”. das contas apresentadas em ação para sua prestação. parece. 918. com redação mantida pelo art. p. declarará. em tal seara. nesse caso.26 no tocante à relação entre denunciante e denunciado. do CPC). 76 – A sentença. que julgar procedente a ação. I. a sentença penal condenatória (art. isso sem pensar no caso extremo da tutela monitória. que soaria redundante. julho/dezembro . de vislumbrar aí uma “condenação” implícita. 475-N. § 2º. se assim fosse.2006 . pp.29 relativo ao julgamento. na sentença em questão.

não alterada pela Lei nº 7. VI.1. 36 V. o art.. é forçoso considerar que a repercussão civil prevista vem posta em termos meramente declaratórios. As sentenças homologatórias de conciliação ou transação (art. ex. 584 do CPC/73. do CPC). não bastaria para se cogitasse de qualquer eficácia executiva. nº 2. 63 – Transitada em julgado a sentença condenatória.. agora correspondente ao art.” 35 Dispositivo inspirado no art. julho/dezembro . não apenas para fins executivos.209/84. o que não impede que sirvam tais documentos de título idôneo às pessoas ali mencionadas para reclamar os bens a elas destinados. primeiro pelo art. 475-N. III. do CPC). entretanto complementada.2006 . do CPC). 475-N. III. V. de qualquer elemento condenatório. No tocante à sentença estrangeira homologada pelo órgão competente (art. importa destacar que o Código. é bem de ver. no bojo da transação ou acordo. 475-N. relegando-se aqueles temas para o processo de liquidação. V35). afigura-se clara a inexistência. “Art. 137-174. 57 da Lei nº 9. a cargo de qualquer das partes. para efeito de reparação do dano. 7. por sua vez. for prevista obrigação. o legislador limitaria os efeitos práticos da norma ao terreno da coisa julgada.232/2005 151 Em tais condições. 584. 7. atual ou futura. na sentença que julga a partilha. poderão promover-lhe a execução.2. parando por aí. 33 34 Que não tem relação necessária. igualmente nada têm de condenatórias. 584. agora convertido no art. não sendo tecnicamente inviável que exigisse da vítima a constituição de um título executivo. que. 584. seu representante legal ou herdeiros. para adquirir dada executividade. reproduziu texto de igual teor presente na Lei dos Juizados de Pequenas Causas.099/95. Também. p. é bem de ver. mas de qualquer forma o elemento impositivo advém do ajuste de vontades.36 É intuitivo que somente faz sentido cogitar da existência de título quando. Foi a regra do Código Penal. no juízo cível. bem como de acordo extrajudicial de qualquer natureza (art. ano 7. por meio de ação condenatória civil. correspondendo ao reconhecimento da obrigação de reparar o eventual prejuízo33 causado à vítima. 842 do Código Civil. p. 63 do Código de Processo Penal34 e depois pelo próprio art. não do ato judicial.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. Revista da Escola Paulista da Magistratura. Isso. para discussão da efetiva existência do dano e de sua extensão. com o simples fato do reconhecimento do crime. quanto ao formal e à certidão de partilha (art. IV/475-N. limitando-se a confirmar os termos de tais negócios jurídicos e a dar-lhes força de sentença. VII. o ofendido.

por critérios de política legislativa. IV. quanto à decisão proferida por árbitro. pela Lei 10. 137-174. critério repetido pelo art. ano 7. por outro lado. a existência de uma relação jurídica capaz de embasar futura pretensão ao cumprimento forçado. como não exigia. Finalmente. Diante das peculiaridades da tutela executiva e da forma como se projeta sobre a esfera jurídica do indivíduo. com alusão genérica à sentença arbitral. não exige. cit. Mesmo com a consciência da necessidade de tomar cum granus salis a distinção formal entre decisões arbitrais. mesmo a título de declaração estrita. o próprio rol desses é limitado. com a redação dada pela Lei 11. nº 2. constituindo numerus clausus e somente por lei podendo ser definido. A respeito.307/96 rotula como título executivo judicial apenas a sentença condenatória. a modificação legislativa parece claramente voltada a um propósito ampliativo. 31 da Lei 9. além de ficar a execução restrita às hipóteses de existência de título executivo (princípio nulla executio sine titulo).232/2005. A limitação é ditada. referindo-se apenas genericamente à decisão de autoridade judiciária estrangeira. A pensar-se diferentemente. 454-457. p. pp. 7. daí falar-se em tipicidade do título executivo.358/ 2001. de maior ou menor flexibilidade nesse campo. Execução Civil. 8. veja-se.3. Cândido Dinamarco. Revista da Escola Paulista da Magistratura. mais que tudo. por todos. como já antes dele. uma certa discricionariedade ao legislador no tocante à criação de novas modalidades de títulos e à definição. possível a rigor a cobrança em via executiva de crédito simplesmente declarado por sentença no exterior. é certo que o art. teria que ser submetida a decisão arbitral a um processo judicial com o fito de prolação de sentença condenatória acerca da questão já decidida. Não pode. após a recepção do ato pelo Judiciário brasileiro e presentes que estejam os requisitos do art. após isso. para incluir o inciso VI.2006 . de modo a abranger qualquer decisão em que definida. passar despercebido o fato de que.152 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA agora ou na redação do artigo revogado. a ser buscada 37 O qual nem mesmo pela vontade do obrigado pode ser ampliado para além dos modelos legalmente fixados. E não poderia mesmo ser de outra forma. 584 do CPC. 586. 475-N.. por uma questão de razoabilidade. Tal enquadramento permite dizer que.37 Reconhece-se. que se trate de sentença condenatória. julho/dezembro . entretanto. foi alterada a redação do art. no sistema atual. para apenas então se cogitar da prática de atos satisfativos do crédito correspondente.

in Revista do Advogado (Homenagem ao Professor José Ignacio Botelho de Mesquita). que não vêm precedidos de qualquer atividade judicial cognitiva. consta da lição de ambos a exigibilidade como parte dessa identificação. Relevante. cit.2006 . por exemplo. do que respeitosamente discordamos.. agora sim com específica determinação judicial de cumprimento da obrigação. A diferença entre um e outro reside no exame eventual do inadimplemento. p. 9. agora com intuito satisfativo específico. 741. 101-106) e Paulo Henrique dos Santos Lucon (“Coisa julgada. São Paulo: Associação dos Advogados de São Paulo. se é verdade que o provimento declaratório. pp. permanecerá. conforme a conduta do devedor. pendente e potencialmente apta a motivar novo ingresso em juízo. não menos verdade é que a relação obrigacional declarada existente. efeitos da sentença. apenas com o escopo de obter outra sentença. é bem de ver. além da mera defesa da revisão legislativa. precise percorrer nova via cognitiva. Merece enfim nosso aplauso a orientação doutrinária que antecipou os rumos da transformação legislativa agora consumada. p. insuscetível de rediscussão —. considerando. Em contrapartida.38 estando a tutela 38 Cf. já de posse do reconhecimento judicial de seu direito à prestação. ambos os autores foram. não há necessariamente diversidade entre os provimentos declaratório e condenatório. parágrafo único”. possível a opção pela via executiva ao portador de sentença declaratória com reconhecimento e completa definição da norma jurídica. E. De qualquer forma. dezembro de 2005. Revista da Escola Paulista da Magistratura. ‘coisa julgada inconstitucional’ e embargos à execução do art. desde antes. Por outro lado. satisfaça o interesse imediato que o motiva — que é a obtenção de certeza jurídica —. afigura-se um imperativo de ordem prática e de sensatez evitar que a parte. 137-174. portanto. que na realidade não constitui fator imprescindível ao conceito de título executivo. a contribuição proporcionada pela revisão conceitual operada. o que reputamos desnecessário. em termos de agilização e sobretudo racionalização da prestação jurisdicional. julho/dezembro . No plano cognitivo. como se verá no item seguinte. nº 84. nº 2. a cautela exigida nesse terreno diz respeito sobretudo aos títulos extrajudiciais. A bem da verdade.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. nesse sentido. de teor praticamente idêntico — mais que isso. enquanto tal.232/2005 153 mediante a aferição do grau de certeza que possa proporcionar um determinado ato ou fato jurídico em torno do crédito por ele encampado. Teori Albino Zavascki (Título Executivo e Liquidação. ano 7. a seu tempo. Parece ocioso ponderar que a sentença declaratória não atente contra esse critério de segurança jurídica. para somente depois poder satisfazê-la coercitivamente. já inadimplida ou não.

dos problemas aventados. nº 2. pela ausência de situação de incerteza jurídica a resolver. limitando-se o problema ao inadimplemento. por outro lado. IV . A primeira objeção diz respeito ao fato de a sentença meramente declaratória não se voltar à discussão do inadimplemento. cit. e da própria natureza da sentença declaratória. a ver. Tutela Declaratória Executiva?. de qualquer modo. pp.A sugestão de inconveniência da tutela executiva declaratória 10.39 merecem ser examinados mais de perto. desapareceria na prática a distinção entre sentenças declaratórias e condenatórias — o que. se fosse real. portanto. não haverá. afigurando-se solução natural aí o manejo de ação declaratória. julho/dezembro . outrossim. 475-N. interesse para a declaratória.2006 . Cada espécie de sentença seguirá conservando um campo de atuação que lhe é próprio. do CPC. 11. antes do inadimplemento normalmente não haverá interesse para o requerimento de tutela condenatória. na realidade.. por um lado. conformado às peculiaridades do caso em discussão e às necessidades específicas da parte que ingressa em juízo.154 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA executiva declaratória longe de constituir a aberração jurídica a que nela se chegou. Dir-se-á eventualmente que. deixando em aberto essa questão e. já chegou a doutrina a esboçar resistência também por razões que dizem com o próprio critério de oportunidade da inovação legislativa e que acenam para possíveis incoerências e malefícios que a implantação de tutela executiva em tais moldes poderia trazer. Sem dúvida real quanto à existência da obrigação. Dois desses argumentos. a existência de múltiplas variantes de ações declaratórias. mas. Revista da Escola Paulista da Magistratura. com a abertura de tal leque. De outra parte. não reunindo os requisitos necessários à implementação de tutela 39 Carlos Alberto Alvaro de Oliveira. I. com evidente precipitação. 39-41. sem prejuízo de. Basta ver. apresentar-se ao interessado a possibilidade de opção. À parte os questionamentos resultantes da análise textual do art. não é. nem sempre voltadas ao reconhecimento de obrigação (ou ao menos em condições que lhe permitam adquirir eficácia executiva). vez ou outra. o legislador não estaria impedido de fazer. ano 7. de modo a que fique demonstrada a inexistência. pela autoridade de quem os enunciou. p. 137-174.

e sua adequação. isso em função da diversidade dos títulos admissíveis e das situações materiais. cabe relembrar o exemplo antes citado.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. p. não há “uma ordem invariável de precedência cronológica”. a exigibilidade da obrigação. é de tutela jurisdicional em termos genéricos.42 ao passo que o requisito da exigibilidade. 4º. escapa ao “conceito e configuração do título executivo”. se verificadas posteriormente à sentença. vista sob o prisma restrito da relação substancial. embora de acordo com o raciocínio. que admite a propositura de ação declaratória mesmo após a violação do direito. em relação às condenatórias. somente possibilitando a discussão de possíveis causas extintivas da obrigação. Antes de mais nada. já que a idéia de “reconhecimento” traria. ano 7. é que em regra o inadimplemento pressupõe obrigação já exigível. não se pode dizer que o inadimplemento esteja sempre fora do foco das discussões no caso das ações meramente declaratórias. por exemplo.43 Adverte ainda o insigne processualista que. Por outro lado. julho/dezembro . em se tratando de título judicial.2006 . por outro lado. a necessidade aí. com a devida vênia.40 e inversamente presente em relação às sentenças condenatórias. Abstrai-se aqui a hipótese de ato culposo do obrigado que torne impossível a prestação antes mesmo da exigibilidade legal ou convencionalmente prevista. 11. 44 Idem. Além disso. parágrafo único. não se pode olvidar que o tema do adimplemento pode ser a causa direta da situação de incerteza em torno da existência atual da obrigação (vale dizer. condicionada à existência de título executivo. 137-174. Revista da Escola Paulista da Magistratura. como o pagamento. de sua sobrevivência) — o que se dá. do CPC. 417. correspondente ao art. há que se pensar nos exemplos41 das condenações condicionais ou para o futuro. entre a necessidade da execução. tolhido nesse contexto da possibilidade de argüir fatores extintivos anteriores ao próprio julgamento. em torno da matéria argüível pelo incidente de impugnação. todavia. seguiria a regra limitativa do art. ditada pela exigibilidade da obrigação. 475-L. exigindo operação intelectual do juiz também quanto à sua transgressão. conforme acertadamente ensina Cândido Dinamarco. como pressuposto inafastável. cabe apenas a ressalva de que não se pode falar propriamente em necessidade da execução quando ainda não haja título. 483. 43 Execução Civil. o que cercearia inevitavelmente a amplitude da defesa do réu. do CPC. quando se discute a existência material ou a idoneidade de um suposto pagamento ou de outro possível fato extintivo. p.232/2005 155 executiva.44 40 41 42 Às quais por alguns autores conferida índole preventiva. p. O mais importante. Admitidos pelo próprio Carlos Alberto Alvaro de Oliveira.1. De nossa parte. VI. nº 2. Não nos parece seja assim.

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Em outras palavras, é perfeitamente possível dar-se a formação do título executivo sem que a obrigação seja ainda exigível,45 o que exclui o óbice antes referido, atinente às hipóteses de declaração (“reconhecimento”), que tenha por objeto dívida ainda não vencida. A confirmação desse raciocínio não é difícil, seja se tomado o exemplo (mais raro) das sentenças condenatórias sujeitas a condição, retromencionado, seja o corriqueiro exemplo dos títulos executivos extrajudiciais. Também, no que diz respeito às sentenças homologatórias de transação (que já se viu não serem condenatórias), é comum encamparem a previsão de pagamentos futuros, sem que se vejam questionamentos de relevo à sua viabilidade como título executivo. De se notar que, no caso das sentenças declaratórias, a exigibilidade pode advir naturalmente do simples advento do termo para o cumprimento da obrigação reconhecida como também pode ser obtida por qualquer ato formal de constituição do devedor em mora, nada impedindo que o credor se valha de eventual interpelação como ato preparatório ao requerimento de execução. 11.2. Na verdade, o raciocínio segundo o qual a existência e proclamação da transgressão ao direito sejam pressupostos da sentença de reconhecimento do direito, tal qual agora mencionada pelo legislador, trai, uma vez mais, uma tentativa de entendimento da tutela declaratória executiva sob a perspectiva da tutela condenatória. Na ação que tenha por objeto uma condenação, o inadimplemento terá, via de regra, de ser efetivamente alegado pelo credor, como condição à obtenção de um comando sentencial que imponha ao devedor o respectivo cumprimento. Já no âmbito de ação declaratória de existência de relação jurídica obrigacional, simplesmente não é preciso que o autor o faça. Obrigação existe antes mesmo de sua exigibilidade e pode nesse contexto ser proclamada, sem prejuízo do posterior exame pelo juiz, ao início de subseqüente execução, do potencial inadimplemento; mesmo quanto à obrigação já vencida e que se preste, em hipótese mais remota, a fundamentar ação meramente declaratória, não há, ao menos no plano lógico, necessidade de que o autor invoque o inadimplemento como pressuposto ao acolhimeneto de seu pedido.
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Alertando para o fato de que pressuposto para a execução não é somente o título executivo, mas também, a par dele, o inadimplemento, veja-se também Sérgio Shimura, Título Executivo. São Paulo: Saraiva, 1997.

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O que ocorre, ao fim e ao cabo, é que, na generalidade das ações condenatórias, o tema do inadimplemento deve ser necessariamente introduzido pelo autor; nas declaratórias, o adimplemento é que será, quando o caso, tema de defesa. 11.3. E justamente a esse respeito que o segundo aspecto referido pelo ilustre processualista gaúcho, quanto ao contraditório, constitui um falso problema. Como se sabe, a diferença clássica existente entre os anteriores embargos à execução por título judicial da fase autonomista46 e os embargos à execução por título extrajudicial residia na amplitude da resistência facultada ao obrigado. Enquanto nessa última modalidade de execução, que, em caráter originário, põe a pretensão do credor perante o Judiciário, pode o executado argüir qualquer matéria alegável como defesa no processo de conhecimento, na execução por título judicial esse questionamento ficava afastado com a prolação da sentença e o julgamento da causa; justamente por isso, os fatos impeditivos, modificativos ou extintivos da obrigação alegáveis eram somente aqueles posteriores à sentença, situação que persiste com o novo incidente de impugnação (objeto do art. 475-L do CPC, o qual, na essência, reproduziu o art. 741 do mesmo Código, anteriormente aplicável à generalidade dos casos). Pretende a doutrina analisada, diante desse quadro, que, se admitida a formação de título executivo a partir de ação meramente declaratória, não haveria espaço, por exemplo, para a argüição de pagamento anterior à sentença pelo réu. Não é bem assim, contudo. Se para fatos modificativos, extintivos ou impeditivos posteriores à sentença não se discute inexistir diferença entre as execuções fundadas em títulos declaratórios ou condenatórios, não ficando o devedor que pague após a decisão do juiz impedido de argüir o fato em execução, bem analisada a questão, percebe-se que a situação também é idêntica em relação a fatos anteriores à sentença. Ocorre que a circunstância de o inadimplemento eventualmente não ser aventado pelo autor não afasta em relação ao réu, como já dito, o ônus de alegá-lo se o caso, assim como a qualquer outro fato modificativo, impeditivo ou extintivo da obrigação, capaz de influir no julgamento do mérito. Basta
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Sobreviventes no âmbito da execução contra a Fazenda Pública.

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pensar que dívida paga é dívida extinta, não mais existente, e que a ação declaratória porventura voltada ao reconhecimento da obrigação terá de ser, nessa hipótese, julgada improcedente, desde que o réu traga o fato extintivo ao conhecimento do juiz. Assim, ocorrendo o fato extintivo antes do ajuizamento da ação ou quando muito até a contestação, cabe ao réu alegá-lo na defesa, de modo a impedir o acolhimento do pedido do autor, sob pena de ser considerado implicitamente rejeitado e ficar atingido pelo efeito preclusivo da coisa julgada (art. 474 do CPC). Sendo o evento concomitante ao processamento, do mesmo modo cabe ao réu, interessado em seu conhecimento, levá-lo ao juiz na condição de fato superveniente (art. 462 do CPC), ou no máximo argüir o fato novo, com justificação de possível força maior, nas razões de apelação (art. 517 do CPC). Não há, portanto, qualquer restrição ao réu no tocante à proteção de sua esfera jurídica, dispondo ele rigorosamente dos mesmos instrumentos que o réu de ação de cobrança com pedido condenatório. 12. A segunda objeção à conveniência da tutela declaratória executiva diz respeito ao tema de prescrição, em que temido o possível esvaziamento do instituto e a conseqüente geração de insegurança jurídica por força da idéia de imprescritibilidade da ação declaratória. Segundo se cogita, a equivalência, nesse caso, entre a pretensão declaratória e a pretensão de execução correspondente, levaria a hipóteses absurdas (e de fato seriam, se admissível o raciocínio) como a pretensão de declaração da obrigação de entregar bem ou pagar quantia 20 ou 30 anos após a lesão do direito; radicalizando-se a projeção de inércia do titular para momento posterior à decisão declaratória, imagina-se o exercício, 100 anos depois da lesão, da pretensão de realização prática do julgado.47 Em suma, o titular do direito a uma prestação poderia contornar a inevitável proclamação da prescrição em ação condenatória valendo-se de ação declaratória, imprescritível, para a qualquer tempo obter a formação de título executivo, por si e também por força de sua origem passível de efetivação a qualquer tempo. Uma vez mais, todavia, o problema não existe. Quanto ao tempo para o exercício dos atos executivos, posteriormente ao reconhecimento da obrigação, não haveria diferença alguma ditada pela
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Tutela Declaratória Executiva?, cit, pp. 40-41.

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na linha dos direitos sem exigibilidade.50 48 Agnelo Amorim Filho. não fazendo sentido cogitar aí de idêntico prazo extintivo. I. 475-L. São Paulo: RT. 137-174.. quanto à prescrição. Está. distingue dívida de obrigação. diferentemente das ações condenatórias. que não repercuta de outra forma. t. ex. acertada. in Revista dos Tribunais. envolve a afetação. nº 2. entretanto. p. concomitantemente à extinção da pretensão (ou da ação). em linhas gerais. diferentemente da decadência. Tratado de Direito Privado. Cf. ficando apenas despojado o credor da possibilidade de exigir a satisfação. outubro de 1997. p. e passou a falar nos arts. portanto. senão ao reconhecimento de uma realidade jurídica. A pretensão estaria. afirmando poder haver o dever de adimplir sem existir a correspondente obrigação e sustentando que a pretensão é a arma do crédito: “Crédito sem pretensão é crédito mutilado. julho/dezembro . Rio de Janeiro: Forense. Registre-se. p. v. 50 Agnelo Amorim Filho. de que. outrossim. nesse sentido. 1982. e. 30). Existe o crédito. “Critério científico para distinguir a prescrição da decadência e para identificar as ações imprescritíveis”. lembrar que a doutrina se divide. por razões de segurança jurídica e em face da inércia prolongada do titular de um direito. merece correto enquadramento o tema da imprescritibilidade. neste passo. p. pp. Cf. na órbita das mesmas ações declaratórias.. da pretensão em sentido material a ele vinculada (vale dizer. sujeita à mesma disciplina aplicável aos títulos executivos oriundos de condenação. cit. seria passível de ensejar o reconhecimento da prescrição superveniente à sentença. abandonou a referência à prescrição da ação. a partir da formação daquele. do interesse na sujeição de obrigado à satisfação do direito violado. ano 7. constante no diploma de 1916. 189 e seguintes em prescrição da pretensão).49 e a corrente que argumenta subsistirem o crédito e a dívida nos correspondentes patrimônios jurídicos. entre os que sustentam o desaparecimento do próprio direito. O instituto da prescrição. 26. VI. I. porém não se pode exigir”. 5. Isso não quer dizer.48 Nessa linha.232/2005 159 natureza do título.102. que Pontes de Miranda. 725-750. que se prende ao exercício de direitos potestativos. 744. o Código Civil de 2002. 435-436) e Antônio Luís da Câmara Leal (Da Prescrição e da Decadência. conforme ensina autorizada doutrina. ligado aos direitos que têm por objeto uma prestação. § 3. do Código de Processo Civil. Caio Mário da Silva Pereira (Instituições de Direito Privado. o fato de ter sido atingida pela prescrição a pretensão relativa ao direito cujo reconhecimento se pretende. a teor do novo art. o entendimento jurisprudencial e doutrinário que se consolidou em torno da imprescritibilidade das ações declaratórias partiu da premissa. pp. É preciso. Já em relação à consumação do lapso prescricional anteriormente à ação. não se destinariam elas ao exercício de uma pretensão voltada à satisfação do direito. arqueiro sem arco. vol.2006 . Critérios Científicos.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. 49 Revista da Escola Paulista da Magistratura.

ocorrida a desconformidade entre estado de fato e estado de direito. cit. Já sob a perspectiva de subsistência estática do crédito no patrimônio do credor. bastando que se pense. 144. sendo por oportuno que se examinem os limites em que isso se fará possível. sejam elas voltadas à 51 52 Agnelo Amorim Filho. p. 14/12/2004.51 tendo sido exatamente essa a tônica seguida pelo Superior Tribunal de Justiça (que aceita em tese a idéia da imprescritibilidade das ações declaratórias). 115.. baseado em que (a) a prescrição tem como pressuposto necessário a existência de um estado de fato contrário e lesivo ao direito e em que (b) tal pressuposto é inexistente e incompatível com a ação declaratória. quando ainda não transgredido o direito. a adquirir tal eficácia. min. nº 2. em recentíssimo julgamento sobre a matéria. 164. o destino de ação declaratória que se proponha ao reconhecimento da existência da obrigação será. inevitável e intuitivamente. em idêntico sentido. assim. A doutrina processual clássica é que assentou o entendimento.. in DJU 14/2/2005. todavia. de Chiovenda e Ferrara. ano 7. que a ação declaratória (a) não está sujeita a prazo prescricional quando seu objeto for. Teori Albino Zavascki. Diferentemente das sentenças condenatórias.160 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA Desde que se entenda restar extinto também o direito.348/MG. por evidente. nem todas as sentenças declaratórias estarão aptas. cuja natureza é eminentemente preventiva. rel.Limites naturais e reflexos procedimentais 13. o julgamento de improcedência.52 Não há portanto o risco de se chegar à formação de um título executivo imune à prescrição pelo manejo de ação declaratória. Ainda que assim não seja. 137-174. antes de mais nada. (b) não há interesse jurídico em obter tutela declaratória quando. simplesmente. AgRg no REsp nº 613. com todas as suas implicações — não seria desarrazoado enxergar aí também hipótese para julgamento de improcedência. com citação da orientação.2006 . está assim redigida: “Não há. por natureza destinadas à constituição de títulos executivos.Entende-se. no exemplo óbvio das declarações negativas. no que interessa para o aspecto aqui examinado.. A ementa. p. p. p. j. V . qualquer disposição normativa assegurando a imprescritibilidade da ação declaratória. 1ª Turma.. O quanto até aqui se expôs em torno da viabilidade jurídica e das vantagens da inovação legislativa não implica por óbvio a generalização das sentenças declaratórias como título executivo. em nosso direito. no caso. juízo de certeza sobre a relação jurídica. como chega a propor a doutrina. Critérios Científicos. o fato de se dirigir o provimento declaratório a rigor ao reconhecimento de uma relação jurídica — o que.” Revista da Escola Paulista da Magistratura. seria quando menos o caso de se reconhecer a carência de ação por falta de interesse de agir. 741. julho/dezembro . RDDT v. já se encontra prescrita a ação destinada a obter a correspondente tutela reparatória. remeteria a uma relação obrigacional.

com a amplitude que lhe é própria e vinculativa inclusive de terceiros.. p. sejam dirigidas. contudo. diante de equivocadas sugestões doutrinárias que já vão aparecendo. De outra parte. a sentença vai além da declaração negativa de inexistência de obrigação tributária por parte do contribuinte. só a produz a sentença de procedência. quando o juiz julga procedente uma ação.2006 . nas sentenças correspondentes. da inexistência de relação jurídica. distintos do mero plano de existência). cit. se limita a declarar que o autor não tinha o direito à tutela requerida. 137-174..54 Como superiormente demonstra José Ignácio Botelho de Mesquita. e que implica a criação de certeza jurídica em torno da relação litigiosa. 55 “Coisa julgada – efeito preclusivo”. Essa certeza (que. in A Coisa Julgada.. cit. 474 do Código de Processo Civil. quanto à hipótese de ação declaratória negativa de existência de obrigação julgada improcedente. cit. mais restritamente. 44) e José Miguel Garcia Medina (A Sentença Declaratória como Título Executivo. acresça-se. inexistente no caso. ano 7. Por um lado. enquanto a de improcedência. p. mesmo de improcedência. destaca o respeitado processualista a distinção entre o elemento declaratório.. cumpre ressalvar.53 Uma importante ressalva deve. verdadeiro reconhecimento. no sentido de enxergar.. 81-85. nº 2. ainda na esteira da lição do mesmo autor. em termos amplos. consideram-se implicitamente rejeitados todos os argumentos de que o 53 No caso de declaração de indébito tributário. Revista da Escola Paulista da Magistratura. p. conquanto em termos definitivos. com reflexos no mundo material. disciplinados no art. neste particular.55 não bastasse não terem as ações declaratórias natureza dúplice. Por conta dos chamados efeitos preclusivos da coisa julgada. assumindo feição positiva quanto ao reconhecimento do excesso pago. apto a também constituir título executivo. desde que o juiz expressamente declare a existência da obrigação. à discussão da nulidade ou ineficácia de negócios jurídicos.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. e o efeito declaratório próprio do acolhimento de ação de tal natureza. presente em qualquer sentença de mérito. no todo ou em parte (aspectos.. ser feita. pp. 54 Nesse sentido. a qual dependeria de expressa previsão legal. mostra-se incompatível com os limites e efeitos das sentenças nelas proferidas pretender equiparar a rejeição de pedido voltado a declarar a inexistência de uma relação jurídica com a afirmação inversa de sua existência. está na base da admissibilidade do título executivo declaratório). é preciso lembrar que o julgamento de improcedência de uma ação declaratória negativa não esgota as possibilidades de discussão acerca da relação jurídica dela objeto. julho/dezembro . como sabido. Luiz Rodrigues Wambier (Sentença Civil: Liquidação e Cumprimento.232/2005 161 proclamação. 122).

. a qualquer 56 Como acertadamente lembra Flavio Luiz Yarshell. de modo a se ter por perfeitamente individuada aquela). aí. 13. 137-174. Já quando o julgamento é de improcedência. implica dizer que o autor não tenha direito ao objeto de seu pedido tal qual posta a demanda. “Lei 11.162 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA réu se poderia valer em ordem à rejeição do pedido. de definir o que pode e deve ser enquadrado no conceito de reconhecimento de obrigação. Nesse sentido. ano 7. ademais.56 não bastando referi-la incidentalmente. embora o mesmo art. mas demandará especial atenção o problema dos elementos objetivos e respectivos contornos. por força dessa limitação. qualquer que tenha sido o fundamento alegado. e não que não o tenha sob qualquer outro ângulo. em princípio não haverá maiores dificuldades.1. capazes de constituir causa de pedir distinta. mostra-se inteiramente adequada a linha de raciocínio esboçada nos julgamentos que já antes da reforma se antecipavam no reconhecimento da executividade da tutela declaratória. aludindo à necessidade de perfeita delimitação dos elementos da obrigação (quanto aos elementos subjetivos. A improcedência. Revista da Escola Paulista da Magistratura. do mesmo modo não se consideram implicitamente repelidos fundamentos que não a integrem. cit.”. afasta a criação de certeza jurídica em favor do réu quanto ao respectivo interesse. naquilo que interessa ao presente estudo. que o julgamento diga respeito especificamente à existência da obrigação. 475-N do CPC. “Alegações”. Mister. exauriente e elimina todo o universo de possibilidades contrárias (vale dizer. julho/dezembro . abrange o pedido e a causa petendi). por tudo. 474 repute deduzidas e repelidas todas as alegações que o autor poderia fazer para o acolhimento do pedido. à míngua de um critério legal objetivo. tendo em conta os limites objetivos do julgado civil. assim como o juiz não poderia. de negação dessa mesma assertiva). o dispositivo deve ser analisado de par com a regra do art. 128 do CPC..2006 . a eficácia executiva ficará restrita ao reconhecimento no próprio dispositivo da sentença. que impõe o julgamento nos limites da lide (o que. é termo que não deve ser entendido no sentido de fundamentos autônomos. a declaração que na sentença esteja implícita ou que constitua seu objeto central é. p. acolher o pedido por fundamento estranho à causa de pedir. o que. senão como argumentos possíveis à vista da causa de pedir concretamente formulada. como é cediço. persiste a necessidade. a que agora alude o legislador no inciso I do art. outrossim.232/05: extensão das normas. No universo das declarações positivas. em si mesma. não bastando que isso conste apenas da correspondente motivação. nº 2.

não será suficiente para que se cogite da executividade da dívida em sua totalidade. a ele fazendo alusão e bem assim ao crédito dele resultante. Todavia. Igualmente insuficiente que a obrigação. a validade da disposição acessória. nada obsta na verdade que essa fixação quantitativa. o fato de a sentença levar em conta. para fim de oportuna execução.232/2005 163 pretexto. à guisa de liquidação. em relação a essa. sem maiores dificuldades. a necessidade de que se tenha obrigação perfeitamente delimitada. poderia sugerir incompatibilidade com essa hipótese. se se pedir a declaração de nulidade da cláusula sobre juros de um determinado contrato bancário. 13. por exemplo. inexistir qualquer julgamento civil prévio sobre a simples existência ou extensão dos danos. Exemplificando. 137-174. quanto a ela ou às obrigações nela porventura contidas. p. em si. em sua fundamentação. a indagação sobre o cabimento do procedimento de liquidação em relação a eventual sentença declaratória. se forme título executivo algum. restando ao credor a via executiva apenas no caso de existência de título extrajudicial. seja alcançada em torno do quantum posteriormente à sentença. em que se reconheça a idoneidade desse. seja mero conteúdo de relação jurídica mais ampla e de complexidade variável. O objeto da decisão será.2. se a declaração tomar por referência o negócio como um todo. desde que essa claramente se preste ao reconhecimento do an debeatur e fixe os critérios de apuração a serem observados (suposta também a admissibilidade no caso do pedido declaratório genérico). Diretamente ligada ao problema da delimitação da obrigação está. O fato de esse documento servir eventualmente de suporte a determinada relação jurídica não fará que. se busque um grau de especificidade que fuja aos limites da sentença. outrossim. pois nesse caso não terá havido discussão alguma sobre o aspecto obrigacional. Não haverá. ano 7. de modo a lhe conferir Revista da Escola Paulista da Magistratura. por outro lado. nas obrigações de pagar. tão somente. mesmo contratualmente delimitada. Em princípio. nº 2. Outra questão interessante diz respeito à hipótese de ação declaratória acerca da autenticidade ou falsidade material de documento. Caberá apenas evitar que. sobre a qual concretamente incida o provimento declaratório. admissível. título executivo judicial quanto às obrigações diversas previstas no âmbito de um negócio qualquer.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. quanto à sentença penal condenatória pelo fato de. a respeito do qual surja incerteza quanto à existência ou validade. julho/dezembro . a existência do negócio.2006 . nos termos antes expostos.

cumpre admitir que a modificação não se fez acompanhar de normas que poderiam facilitar sua inserção sistemática e evitar alguns problemas. caso a exigibilidade da obrigação declarada se projete para momento posterior. em seu conteúdo. na sentença declaratória. infringindo ademais o art. senão resolvendo situação de incerteza. a determinação de adimplemento de uma prestação. entretanto. ao objeto das ações correspondentes —. como visto. nº 2. sem que. outrossim. como efeito imediato. efeito meramente secundário das sentenças declaratórias — estranho. não há como dizer. de qualquer carga impositiva no tocante ao réu. a formação do título. “jogada” em um arcabouço legal que não foi originariamente concebido para recebê-la e que. VI – Compatibilização com o sistema da Lei 11. 475-G (que reproduz o teor do revogado art. de tutela antecipada executiva. de aguardar o trânsito em julgado para tal fim. pondera-se que. inclusive. à Revista da Escola Paulista da Magistratura.232/2005 14. inclusive no tocante ao novo regime instituído pelo próprio diploma no qual prevista. Não trazendo. quanto a elas. lhe oferece aqui e ali alguma resistência (alguns desses problemas.1.3. isso sem prejuízo de espera maior para o início propriamente dito da execução.164 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA artificialmente uma executividade que não teria. por assim dizer. p. julho/dezembro . 610 do CPC). tal qual ocorre com a sentença penal condenatória.2006 . a nosso ver. Promoveu a esmo uma alteração redacional no tocante ao projeto de lei e no mais deixou a execução fundada em título declaratório. enfim. ao contrário da sentença condenatória. sendo a eficácia executiva ora estudada. ano 7. não há que se cogitar. Do mesmo modo. o espectro dos títulos executivos judiciais. afigura-se inviável falar de execução provisória dessas sentenças. Sem embargo da tese. A primeira dificuldade diz respeito à inexistência. tendo em vista seu conteúdo próprio (sobre o que já se falou no item III). não são privilégio dessa nova modalidade de título executivo). parece não se ter preocupado. 137-174. acerca do reconhecimento de obrigação legalmente instituído. 14. haja qualquer determinação ao réu de cumprimento da obrigação e sem que delas decorra. A verdade é que o legislador. na forma aqui abordada. será o caso. com os reflexos de seu ato. 13. admitindo-se que tenha efetivamente tido o objetivo de ampliar. Por derradeiro. aqui sustentada. por isso mesmo.

no âmbito desse sistema. se assim é. da sentença arbitral e da sentença estrangeira homologada (as duas últimas. não se pode pensar nela. parágrafo único. o Código de Processo Civil. p. como simples fase. deve tramitar pelo procedimento inerente ao sistema de “cumprimento” ou recai necessariamente no sistema antigo? Um indicativo é dado pelo art. Não sendo a execução.2006 . 475-J. à luz do novo regime legal. enquanto o 461-A trata da ação destinada à entrega de coisa. 475-I) aos arts. ao tratar especificamente da execução de obrigação por quantia certa.57 a par disso. a satisfação do direito desde o início almejada pelo autor da ação condenatória. do CPC. mais que tudo.232/2005 165 vista de eventual inércia do obrigado. no art. começa por se referir. na perspectiva de dotar a sentença que condena de maior efetividade. ao devedor “condenado ao pagamento de quantia certa ou já fixada em liquidação”. Mas. ano 7. nesse caso. como mera fase do processo. 137-174. a partir de agora. que iniludivelmente se caracterizam como provimentos condenatórios.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. a despeito da autonomia. julho/dezembro . apenas por questão de praticidade (considerada a dose de certeza já existente e a falta de razoabilidade de novo processo de conhecimento sobre a mesma matéria. permite-se diversamente. O ideário da Lei 11. nº 2. Revista da Escola Paulista da Magistratura. quando imponham 57 O art. por seu turno. mas ainda como processo autônomo. também por coerência não se faz possível entender a existência desse sincretismo para os processos relativos a ações declaratórias puras. logo em seguida. desdobramento natural do provimento cognitivo e instrumento para a produção de seus resultados práticos. faz alusão (art. a execução do direito reconhecido. em continuação à fase cognitiva. não por ser da natureza do ato judicial a necessidade de atos complementares satisfativos. 461 e 461-A. A questão passa a ser então: essa execução. assenta-se. ao iniciar o capítulo intitulado “Do Cumprimento da Sentença”. 475-N. destinada a proporcionar.232/2005. Coerentemente de resto com esse raciocínio. ao tratar da sentença penal condenatória. como já se disse). mediante a extração dos efeitos práticos previstos em seu comando dentro do mesmo processo (agora dito pela doutrina sincrético) e de forma mais simplificada. que a sentença esteja sendo “descumprida” ou que não esteja produzindo seu efeito natural. 461 menciona as ações que tenham por objeto o cumprimento de obrigação de fazer e não fazer. Entende-se a execução. subentende-se.

Carreira Alvim considera que não chega a haver. no silêncio. São Paulo: RT. não chega a haver qualquer citação. seja de execução. “Variações sobre a multa.232/2005 (coord. Outra conseqüência derivada do conteúdo da sentença declaratória e das características da execução correspondente é a inaplicabilidade.2006 . O procedimento de “cumprimento”. de toda forma. da ordem de citação do devedor “para liquidação ou execução. Deixando-se de lado esse aspecto. a partir do momento em que se torna exigível o crédito objeto da condenação ou do momento em que concluída a liquidação.”.. prosseguindo-se com a imediata penhora. como já se sustentou. não obstante. no caso das sentenças condenatórias. corre.. percebe-se que o legislador tampouco diz em que termos deve ser citado o réu. cit.166 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA prestação de pagamento de quantia).. não da liquidação. o legislador sinaliza claramente para a adoção do novo sistema ao mencionar expressamente o art. 132 e 136. 59 Yarshell. especialmente relevante. automaticamente. pp. um novo problema.232/2005:60 fala a lei da inclusão. em todos esses casos.”. 475-J. quando é certo que esse mandado trata apenas da execução.58 E. julho/dezembro . in Aspectos polêmicos da nova execução de títulos judiciais – Lei 11. pp. com a expedição de mandado de penhora e avaliação.59 pretender aí aplicar um regime executivo a rigor não mais existente. no “mandado inicial” do art. sendo certo. Cássio Scarpinella Bueno.g. da multa instituída pela Lei 11. 61 Nesse sentido. motivado(s) pela inexistência de processo civil anterior no âmbito do qual originado o título. e parece mais lógico destiná-lo também à execução fundada em sentença declaratória. fruto de mais uma das muitas lacunas da Lei 11. há processo(s) autônomo(s). mas simples procedimento executivo. não se mostra incompatível com um processo autônomo.61 14. no tocante à execução. seja de liquidação. conforme o caso”. no mesmo processo. 137-174. Coloca-se aí. e abstraídas suas incoerências. Cf. Esse prazo. Uma saída possível. Teresa Arruda Alvim Wambier). com algumas adaptações. 60 Problema que. e. notadamente o prazo que terá para adotar a conduta que dele se espera (v. contudo.2. pagar). não parece razoável. Revista da Escola Paulista da Magistratura. “Lei 11..232/05: extensão das normas.. quanto ao devedor. diga-se. arbitral e estrangeira”.232/2005. ano 7. processo de execução propriamente dito. 335-338. p. E. nº 2. nesse caso. nesses casos. Sem que seja necessário 58 Apesar da citação exigida. na tentativa de dar um significado ao texto legal. como se vem entendendo. de fato. começando a execução. J. atinge do mesmo modo todas as execuções autônomas relativas a títulos judiciais. 475-J. 2006. “Execução de sentenças penal.. cit. é imaginar a citação para pagamento do débito no prazo de quinze dias.

do CPC já com inclusão no demonstrativo da própria multa. 62 Que de qualquer modo parece guardar distância para com a multa diária objeto dos arts. p. do comando sentencial em torno do cumprimento da obrigação.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. o processamento perante juízo diverso daquele em que tramitou a causa no primeiro grau de jurisdição. Cássio Scarpinella Bueno. cit. mas com mera diferença de enfoque.3. que traem a proclamada opção legislativa pela supressão da autonomia da execução. seja em quantia certa seja obtida mediante liquidação. é que o credor requererá o início da fase de execução. incompatíveis. para as execuções fundadas em título judicial. vale notar que vem ela fixada em percentual fixo. 461 do CPC. apresenta dois lapsos. Impende também verificar que a multa. Pode-se até ver nela algum efeito coercitivo indireto. vale dizer. não se aplicando já no âmbito das medidas executivas mas antecedendo-as. nº 2. não havendo o pagamento. convém registrar. um meramente terminológico e o outro de fundo. Dentre outras coisas. a par da formação do título executivo.. que. pela persistência do inadimplemento mesmo após a determinação judicial de pagamento. a critério do credor (visando a maior facilidade em função do atual domicílio do devedor ou da localização dos bens expropriáveis). II. no prazo de lei. Revista da Escola Paulista da Magistratura. fator ausente. qualquer sanção pecuniária tem. finalmente. aliás. tal qual disposta. O dispositivo. 137. p. Em matéria de competência. julho/dezembro . o art. inova ao possibilitar. incide. por força de lei. A redação do art. parágrafo único. Essa distinção é importante para reforçar o entendimento aqui exposto: fosse o encargo elemento interno à execução. 475-N do CPC. cumprindo o art. afigurando-se como um efeito secundário. ao contrário das astreintes. de ferramenta específica empregada para compelir o devedor ao cumprimento da obrigação. e incidente sobre o valor do próprio débito. vendo aí uma função de incentivo ao cumprimento da obrigação prevista na sentença. 14. O primeiro diz respeito às denominações exeqüente e executado empregadas em sua redação. pretende justamente evitar a necessidade de execução e com ela não se confunde. é clara ao vincular o acréscimo à hipótese de condenação. 475-P. mas não se trata de um instrumento de execução indireta. 461 e 461-A. inevitavelmente seria aplicável às execuções decorrentes de sentenças declaratórias. inalterável a critério do juiz. 614. Por essa razão.232/2005 167 aprofundar neste passo o exame da natureza do encargo. 63 Também colocando-a fora do âmbito da execução. de resto. nos termos do art. parece-nos vir ela colocada como uma sanção legal de caráter punitivo. do CPC. são ajustáveis a critério judicial na medida do necessário para servir como instrumento de pressão psicológica. de desestímulo ao inadimplemento.62-63 parece fora de dúvida estar ligado ao desatendimento. perdoe-se a insistência. ano 7. a sanção e apenas aí. que.2006 . ob. à vista do provimento meramente declaratório. 137-174. inerente à condenação em si.

por demais tênue enxergar em mera comodidade (embora se reconheça que a solução implique. a hipótese de permitir-se a esse juízo distinto proferir decisão sobre argüição de inexigibilidade do título exeqüendo à luz do art.66 já que aí envolveria o estabelecimento de regra originária de competência para esse processo específico.168 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA segundo entendemos. do CPC) motivação que permita invocar legitimamente os fins últimos da jurisdição. com quebra inclusive da prevenção do juízo e reflexos nessa parte sobre o alcance da regra do art. ano 7. Que venham a ter eficácia executiva as sentenças objeto de ações meramente declaratórias iniciadas após a vigência da Lei 11. decorrendo da singela aplicação da lei processual vigente na data da propositura da ação. por regras como a do art.232 como um todo. nº 2. parágrafo único (que. relativizada. caput. 137-174. que poderiam ser provocados pela prolação de decisões contraditórias. Mais grave ainda seria. todavia. A questão fundamental neste campo diz respeito ao tratamento a ser conferido a situações pendentes ou já consumadas no confronto com a inovação legislativa relativa às sentenças declaratórias. 65 O processamento da execução perante juízo distinto. obedece ao interesse superior de preservar a utilidade da prestação jurisdicional. reputamos inconstitucionais). maior facilidade para o credor. 65 Não se presta a justificá-la eventual comparação com a modificação de competência possibilitada pelas regras sobre conexão. já que. 659. evitando conflitos por vezes insuperáveis. do mesmo Código de Processo Civil. das inconveniências mencionadas na nota 60. em outros. outrossim. julho/dezembro . § 5º. em alguns casos. outrossim. há o dado objetivo da existência de um ou mais feitos com idêntica causa de pedir ou pedido e a reunião. o segundo se refere ao estranho e duvidoso poder conferido a uma das partes quanto à alteração da competência em meio a esse processo único. com a ressalva. ou 741. “Algumas considerações sobre o cumprimento da sentença condenatória”. E. o detalhe de a relação jurídica objeto do pedido declaratório e acerca 64 Nesse sentido.Direito intertemporal 15. ademais. como já dissemos.232/2005 é matéria que não oferece maiores dificuldades. 475-L.2006 . notadamente a falta ou nulidade da citação. in Revista do Advogado (Novas reformas do Código de Processo Civil). VII . a regra acaba a ele sendo aplicável sem maiores dificuldades. § 2º. de argüições relativas a vícios do processo de conhecimento. maio de 2006. por outro juízo de mesmo grau. de outra parte. nº 85. com o ambiente de unificação processual instituído 64. Revista da Escola Paulista da Magistratura. neste caso. p. 219. 66 Embora também aqui não ficasse infenso a problemas. pela possibilidade que abriria de apreciação. seria assimilável sob a perspectiva da autonomia da execução. na medida em que propusemos deva ser esse o caminho para a execução do título executivo declaratório. em análise da Lei nº 11. nem envolve propriamente conflito de leis no tempo. Nenhuma influência tem aqui. Parece. de todo modo. sujeita ao crivo judicial. São Paulo: Associação dos Advogados de São Paulo. José Roberto dos Santos Bedaque.

ao passo que a de 1934 passou a mencionar diretamente o direito adquirido. é possível agregar a elas a força executiva introduzida pelo novo diploma? Há alguma diferença.232/2005 169 da qual se pretende a certificação oficial ser acaso anterior à citada lei. como a retroatividade benéfica do 67 Importa neste passo lembrar que. a seguir. com duas esferas jurídicas distintas (ainda que complementares). ante a perspectiva de dar maior amplitude à modificação legal e de permitir a imediata produção de resultados práticos. (omissis)”. com exceção da de 1937. presente na generalidade dos ordenamentos e também no brasileiro (art.67 Como ficam.2006 . mas ainda não julgadas? Importa de alguma forma a circunstância de a pretensão ter sido exercida mirando uma sentença declaratória então despojada da roupagem executiva? E quanto às sentenças já proferidas no momento da vigência da Lei 11. nº 2. diga-se.A lei em vigor terá efeito imediato e geral. todavia.637/42). com a redação dada pela Lei 3. Com efeito. dentro dos limites permitidos pelo objeto do presente estudo. o juiz lida. essa corresponde. que o resultado será o mesmo em ambos os casos. 137-174. a de direito substancial e a de direito processual propriamente dito. ano 7. a matéria esteve tratada em praticamente todas as Cartas desde a de 1824. minoritário em escala mundial. Entre nós. 6º . para o processo. já o tempo da situação conflitiva.232. É o que se procurará examinar brevemente. da Lei de Introdução ao Código Civil). preferindo a generalidade dos ordenamentos relegar o tema para a legislação infraconstitucional.69 Essa disciplina se aplica. respeitados o ato jurídico perfeito. não bastam para assegurar o respeito à regra da irretroatividade ou para conferir embasamento científico ao procedimento. no tocante à lei aplicável. substanciais e processuais. 68 Critério. a par da consagração da regra da irretroatividade em sede constitucional. diferença que se justifica pelos distintos momentos históricos a considerar. no plano da legislação ordinária. de outra parte. se limitaram a vedar genericamente a retroatividade. aspectos que. o direito adquirido e a coisa julgada. por meio de norma que prestigia a eficácia imediata e geral da lei nova. que nada dispôs sobre o direito intertemporal. entre as transitadas em julgado e aquelas ainda pendentes de recurso? É intuitivo que se verifique um movimento interpretativo em prol da imediata e geral aplicação da novidade. que é necessariamente anterior ao processo. à do momento da formação e desenvolvimento da própria relação processual. ainda que regidos o processo e a situação jurídica litigiosa pela lei de seu tempo. enquanto as regras de processo determinam a disciplina desse e definem seu modo de ser. a todos os ramos do direito — ressalvadas as peculiaridades de cada qual. p. em princípio. a um só tempo. por meio do art. Revista da Escola Paulista da Magistratura. 69 “Art. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.68 trata. A ambas. em termos gerais do direito intertemporal. A incidência de princípio comum não significa. julho/dezembro . corresponde ao momento em que verificados os fatos determinantes do litígio. entretanto. para esse fim. por seu turno. a par dos limites da atuação jurisdicional. as ações já iniciadas.238/57. O direito brasileiro. as Constituições de 1824 e 1891. orientação que persiste no texto vigente. 6º. no exercício da atividade jurisdicional. as de direito material permitem que se chegue a uma solução para o litígio em si e apontam a vontade da lei a ser reconhecida/atuada no caso concreto.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. 6º da Lei de Introdução ao Código Civil (Decreto-lei 4. aplica-se a regra tempus regit actum.

as situações jurídicas definitivamente constituídas e a execução do ato jurídico perfeito. tecnicamente mais adequada. se aplica dentro do que for possível desde logo. em princípio. Trata-se. especialmente pp. O raciocínio é facilmente compreensível. regendo os atos ainda pendentes e mesmo determinados efeitos pendentes de atos passados. e a teoria objetivista (desenvolvida com especial destaque por Roubier). Não atingirá entretanto.. que fica dispensado sob certas condições o relatório). rezava: “A lei em vigor terá efeito imediato e geral. cit. feito por Galeno Lacerda quando da entrada em vigor do Código de Processo Civil de 1973: O Novo Direito Processual Civil e os Feitos Pendentes. pp. com enfoque objetivista. alterados os aspectos legais relativos a um ato como a sentença. veja-se ainda o abrangente estudo.70 Ambos os enfoques são complementares e levam em tese aos mesmos resultados. julho/dezembro . 1974. 45-53. conforme o caso.637/42. representa. uma síntese entre a teoria subjetivista (cujo maior expoente doutrinário é Gabba). de toda forma.. pode-se dizer que também as leis processuais têm efeito imediato. Não se apresenta tal dificuldade. por exemplo. também ao processo civil. A redação originária do Decreto-lei nº 4. um direito adquirido à imutabilidade dos atos processuais e à organização desta ou daquela maneira do processo.. como também procuramos expor. em contrapartida. Revista da Escola Paulista da Magistratura. quando examinada a atribuição de eficácia executiva à sentença declaratória. 72 A respeito.170 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA Direito Penal — e. que gravita em torno do efeito imediato das leis e da noção de situações jurídicas. de modo que. não obstante as dificuldades que também implica.”.” 71 “Elementos para uma teoria. portanto. pp. 61-62. nº 2. de um efeito secundário agora acrescido a esse tipo de sentença. ficam atingidos pela mudança os processos pendentes nos quais ainda não proferida essa decisão. ditado por lei e que em nada afeta o conteúdo do ato 70 Elementos para uma Teoria do Direito Intertemporal no Processo Civil. centrada na figura do direito adquirido. embora possa um ou outro. por meio do procedimento. afigura-se a teoria de Roubier mais abrangente e. salvo disposição em contrário. não há. De todo modo. como procuramos demonstrar mais aprofundadamente em estudo específico sobre o assunto. ano 7. se tomados em conta elementos ligados aos requisitos de forma do ato (pode a lei dispor. 137-174. proporcionar melhor visualização do problema.2006 . e pode. 54-62. Rio de Janeiro: Forense. envolver maiores dificuldades direcionado-se à modificação do próprio conteúdo do ato decisório. Isso significa que.72 Pelo enfoque subjetivista. sobrevindo lei modificativa. como já visto. com clara e inequívoca adesão à teoria de Roubier.71 A partir de seus termos. p. de modo que se aplicam aos processos em curso.

efeitos de atos passados ainda não produzidos. p. de determinadas conseqüências jurídicas a todos quantos se encontrem numa determinada situação. contudo. A lei. daí em diante. e. podem ser normalmente agregados (bem como retirados) a fatos da vida. independentemente do trânsito em julgado ou não no caso concreto. é preciso avançar um pouco mais.2006 . Segundo ela. uma situação jurídica anteriormente constituída. a esta altura. Não é assim. Assim. ainda que as situações que servem de pressuposto a esses efeitos tenham completado sua formação no passado.73 Isso. nesse caso. na noção de efeito imediato da lei. 137-174. e que envolve o exame da natureza desses efeitos e de seu grau de vinculação com a essência do ato gerador. Não pode atingir a essência de um ato ou fato já verificado.232/2005. não fica privada de alcançá-las. nº 2. de outra parte. decorrentes exclusivamente da lei. regular os atos ou fatos futuros relativos a uma situação complexa (como o processo) e mesmo disciplinar. a lei nova. poderia gerar a impressão de retroatividade. ficam desde logo respondidas as duas primeiras indagações anteriormente formuladas. A solução reside em considerar que determinados efeitos. nesse caso. o que cabe examinar no tocante à sentença é esse ato. mas o presente. ao prever a produção. a partir de sua vigência. embora em termos sucintos. modificando-lhe o conteúdo ou a qualificação jurídica. Um pouco mais complexa se torna a questão no que diz respeito às decisões proferidas anteriormente à vigência da Lei 11. de qualquer modo. julho/dezembro . por lei posterior.232/2005 171 judicial a ser praticado. ano 7. no tocante às situações pendentes. ou sua congruência para com a pretensão inicialmente formulada. semelhante reconhecimento. nem pode desconsiderar os efeitos já produzidos ou alterar-lhes a feição. na medida em que afetada. não está regendo o passado. transitadas em julgado ou não.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. mesmo se pendente um processo em grau de recurso. em si mesmo. que terá de ser visto como um fato consumado. já que. pode. Como as sentenças. em certa medida. foram proferidas em um momento no qual não lhes era atribuída por lei eficácia executiva. 73 Aqui sobrevém um complicador que não se faz necessário examinar. não resolve o problema proposto. Revista da Escola Paulista da Magistratura. no tocante à definição de quais os efeitos que podem ou não ser alcançados. possibilitando a imediata aplicação às decisões posteriores à vigência da lei. para que se compreenda a questão.

São Paulo: RT.ARENHART. . Bastaria pensar. (revista. Revista do Advogado (Novas reformas do Código de Processo Civil). que a espécie de tutela jurisdicional adequada para a proteção de um determinado direito é a cabível no momento do ingresso em juízo. julho/dezembro . nº 2. a partir de determinado momento. poder-se-ia chegar a esse resultado quer pela perspectiva do ato judicial. Estabelecida a base científica. Rio de Janeiro: Forense. 137-174. 5ª ed. A Coisa Julgada. São Paulo: RT. nº 85. pois. São Paulo: RT. Cumprimento da Sentença. José Ignacio. a ter acesso imediato à via executiva. às indagações faltantes no sentido de que poderão ser utilizadas como título executivo as sentenças declaratórias proferidas anteriormente à Lei 11. Responde-se. Revista de Processo. outubro de 1997. bastando pensar nos credores que passam. Agnelo. 2ª tir. nº 97.172 FABIO GUIDI TABOSA PESSOA Em matéria de títulos executivos extrajudiciais a visualização é ainda mais fácil. o que aproveita ao crédito judicialmente confirmado. p. maio de 2006. 2005. Da Alemanha ao Brasil”. a ser tida por suficiente para o imediato acesso à via executiva. mediante a atribuição ao ato originário de seu crédito da condição de título executivo. inexistente quando de sua ocorrência.————.BOTELHO DE MESQUITA. Rio de Janeiro: Forense. como se fez. 2006.232/2005. e MARINONI. nº 114. . . janeiro-março de 2000.AMORIM FILHO.BARBOSA MOREIRA. Luiz Guilherme. abstraído o respectivo trânsito em julgado ou não no momento da entrada em vigor desse diploma.BEDAQUE.. Revista de Processo. José Roberto dos Santos. quer pela ótica da própria relação material obrigacional. março-abril de 2004. . Revista da Escola Paulista da Magistratura. ano 7. Bibliografia . “Algumas considerações sobre o cumprimento da sentença condenatória”. v. atualizada e ampliada). desde que essa confirmação passe. . 2006. “A sentença mandamental. Araken de. Revista dos Tribunais. José Carlos. São Paulo: Associação dos Advogados de São Paulo. Manual do Processo de Conhecimento. 744. “Sentença executiva?”. . São Paulo: RT. 1ª ed.ASSIS. “Critério científico para distinguir a prescrição da decadência e para identificar as ações imprescritíveis’. em determinado momento.2006 . aqui. Sérgio Cruz.

Alcides de Mendonça. 1982 (atualização de José de Aguiar Dias). 2. Rodrigo et al. “Coisa julgada. Teses. Da Prescrição e da Decadência. . .LACERDA. 19ª ed. Athos Gusmão.————. ..MAXIMILIANO. VI. São Paulo: Associação dos Advogados de São Paulo. Parcial retorno ao medievalismo? Por que não?”. 2005.232/2005. . Antônio Luís da. Cândido Rangel. II. Execução Civil.232/2005. 2006. .).MEDINA.DINAMARCO. Reforma do CPC. nº 2. São Paulo: RT. São Paulo: RT. Comentários ao Código de Processo Civil. Hermenêutica e Aplicação do Direito.HOFFMAN. Rio de Janeiro: Forense. . . p.232/2005”. 4ª ed. “Tutela declaratória executiva?”. 2006. 4ª ed. Carlos. . 1994. Ed. 1996. 2006. José Ignacio Botelho de Mesquita).OLIVEIRA. .232/2005. Instituições de Direito Civil.FREIRE. I do CPC”.O TÍTULO EXECUTIVO DECLARATÓRIO NA LEI 11. 2006. São Paulo: RT. Reforma do CPC. 15ª ed. 475-N. . 1974. 2006. Aspectos Polêmicos da Nova Execução de Títulos Judiciais – Lei 11. São Paulo: RT.232/2005 173 . Estudos e Pareceres de Processo Civil. São Paulo: Quartier Latin. 2002. vol. . 2006. Paulo Henrique dos Santos. 5ª ed. vol. inc. e RIBEIRO. . Carlos Alberto Alvaro de. São Paulo. José Miguel Garcia. 137-174.MAZZEI. .CARNEIRO. Rodrigo da Cunha Lima et al. São Paulo: Malheiros. maio de 2006. efeitos da sentença.LUCON.CÂMARA LEAL. São Paulo: Associação dos Advogados de São Paulo. Revista do Advogado (Homenagem ao Prof. . . Aspectos Polêmicos da Nova Execução de Títulos Judiciais – Lei 11. Rio de Janeiro: Forense. julho/dezembro . Processo de Execução Civil – Modificações da Lei 11. nº 85.. Cássio Scarpinella. 475-J do CPC na redação da Lei 11. Daniel Amorim Assumpção et al. Paulo. “Cumprimento da sentença conforme a Lei 11. ‘coisa julgada inconstitucional’ e embargos à execução do art. Galeno. Revista dos Tribunais. parágrafo único”. vol. Revista da Escola Paulista da Magistratura..BUENO. Rio de Janeiro: Forense. ano 7. 2006. 1987..PEREIRA. Reforma do CPC.NEVES. Rio de Janeiro: Forense. Leonardo Ferres da Silva (coord.2006 . Caio Mário da Silva. Processo de Execução Civil – Modificações da Lei 11. O Novo Direito Processual Civil e os Feitos Pendentes. Revista do Advogado (Novas reformas do Código de Processo Civil).. Rio de Janeiro: Forense. nº 84. 741.232/2005. São Paulo: Quartier Latin. “Variações sobre a multa do caput do art.LIMA. dezembro de 2005.232/2005. São Paulo: RT. “A sentença declaratória como título executivo – Considerações sobre o art.

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costurados e colados .175 Coordenação Geral Des. Antonio Carlos Malheiros Coordenação Editorial Marcelo Alexandre Barbosa Capa Escola Paulista da Magistratura Diagramação Ameruso Artes Gráficas Revisão Onélia Salum Andrade Formato Fechado 150 x 210 mm Tipologia AGaramond.brochura Tiragem 3.000 exemplares Impressão Copypress Dezembro de 2006 . Frutiger Papel Capa: Cartão Revestido 250g/m2 Miolo: Offset Branco 90g/m2 Acabamento Cadernos de 16pp.

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