A medicina evoluiu?

-A importância da atividade físicaJá dizia Hipócrates há aproximados 2500 anos atrás: “As partes do corpo que tem função, se usadas com moderação e exercitadas nas funções que estão adaptadas, tornam-se desenvolvidas e envelhecem lentamente. Quando inúteis, tornam-se mais predispostas a doenças, crescem com defeitos e envelhecem rapidamente”. Porém, em meio às inebriantes inovações tecnológicas, a nossa atual sociedade “moderna” ainda não conseguiu perceber e incorporar tamanha profundidade e importância de tais dizeres. Sendo assim, com os holofotes da medicina moderna voltados cada vez mais para setores de desenvolvimento de novas e mais potentes medicações, exames ultra sofisticados e cirurgias para os mais variados propósitos, temos uma medicina com gastos de proporções astronômicas, com característica altamente curativa e irrisóriamente preventiva. Uma quantidade infinitamente menor de investimentos em tempo e dinheiro são destinados aos fatores preventivos da saúde, tendo seu potencial de abrangência universal na promoção da saúde tristemente subutilizado. Não me recordo, em minha formação médica, de nenhuma explanação sobre tais aspectos preventivos, de como promover saúde através de dieta adequada e atividade física por exemplo. Quando por mim questionados, alguns “diretores” de importantes disciplinas revogaram o mérito de tal assunto aos profissionais de Educação Física e Nutrição. Porém, creio que tais conhecimentos básicos não deveriam se ausentar da, por muitos julgada, mais importante profissão da área da saúde. Uma boa notícia é que nem tudo está perdido! Ainda que sejamos pequenos pássaros tentando jogar água em um grande incêndio (recordando a fábula que em meio a um grande incêndio apresenta duas situações distintas entre um leão que apenas observa, em meio ao caos, zomba dos pequenos pássaros dizendo que os mesmos não iriam apagar o incêndio sozinhos.E que em orgulhosa resposta é dito ao rei da floresta que eles pelo menos estavam fazendo a parte deles). Estudos científicos recentes sobre as complicações da ATEROSCLEROSE, principais causas de morte em nosso meio, apontaram para interessantes aspectos com relação à atividade física. A aterosclerose é a degeneração da parede das artérias de médio e grande calibre, com formação e acúmulo de sustâncias que irão culminar em diminuição ou obstrução do fluxo sanguíneo para regiões adiante do local acometido, com sofrimento ou morte de células, tecidos e órgãos por deficiência de oxigênio. Estes estudos apontaram a importante relação de custo e benefício da atividade física comparada às técnicas cirúrgicas modernas no tratamento e prevenção das doenças vasculares (que acometem territórios cardíaco, cerebral e periférico). Nas doenças cardíacas, a atividade física foi responsável por redução em 30% do risco de aparecimento. Uma comparação foi feita entre dois grupos distintos, os que realizaram angioplastia com colocação de “stent” (anel dilatador da luz arterial colocado por cirurgia minimamente invasiva), e os que realizaram um ano de atividade física. O grupo de atividade física foi superior em 18% em promover menores índices de acometimento cardíaco súbito, e em 16% por aumentar a capacidade de exercício. Tudo isso com uma economia de custo no total do tratamento de 50%. Nas doenças arteriais periféricas, o grupo de atividade física que foi comparado com a angioplastia já se mostrava superior a partir dos 6 primeiros meses, sem notificações de eventos adversos e com economia de também 50% do custo total do tratamento.

Em território cerebral, para as doenças isquêmicas (ausência de sangue) e hemorrágicas (extravasamento de sangue) as pessoas que eram ativas apresentaram um risco 25% menor de acometimento, com economia sugerida de 250 milhões de euros para a saúde. Só a economia financeira total que foi citada acima, já seria suficiente para se pensar na inatividade física como uma questão de saúde pública. Soma-se ainda o trágico fato de que menos de 5% da população mundial é fisicamente ativa. Ainda dentro da questão saúde pública, o aumento da expectativa de vida média (com mudanças na pirâmide etária), se associa a um aumento da incidência preocupante de inativos já na infância.Sendo assim, teremos um preocupante quadro de crescimento de uma população no futuro muito idosa, e muito inativa. Portanto, o dinheiro mal empregado, o sedentarismo e o envelhecimento nos faz visionar um fracasso iminente dos sistemas de saúde em proporcionar assistência a essa população progressivamente mais doente e incapaz fisicamente, conseqüentemente mais dependente e onerosa. Vivemos em um período portanto que urge por mudanças, não só por parte dos nossos dirigentes, mas por nós mesmos. É hora de reflexão, de pensar se a medicina realmente está evoluindo no sentido que deveria. Sem menosprezar sua real importância, a medicina “curativa” atual precisa de novos horizontes. Comecemos portanto a literalmente nos MEXER, para que no futuro possamos levantar a nossa cabeça hoje baixa, pensativa e envergonhada que não cansa de nos dizer: “Então, Hipócrates...ainda temos muito o que aprender!” (Diálogo semelhante foi utilizado previamente pelo Prof. Dr. Wilson Jacob Filho em seu recente livro, ver bibliografia)

Bibliografia:
HAMBRECHT, R. ; WALTHER, C, ; MÖBIUSWINKLER. ; et al. Percutaneous coronary angioplasty compared with exercise training in patients with stable coronary artery disease: a randomized trial. Circulation. 2004 Mar 23;109(11):1371-8. Epub 2004 Mar 8. AMBROSETTI, M. ; SALERNO, N. ; BONI, S. ; et al. Economic evaluation of a short-course intensive rehabilitation program in patients with intermittent claudication. Int Angiol. 2004 Jun;23(2):108-13. LENG, GC. ; FOWLER, B. ; ERNST, E. Exercise for intermittent claudication. Cochrane Database Syst Rev. 2000;(2). Review. WENDEL-VOS, GCW. ; SHUIT, AJ. ; FESKENS, EJM. ; et al. Physical activity and stroke. A meta-analysis of observational data. Int J Epidemiol. 2004 Aug;33(4):787-98. Epub 2004 May 27. Review. JACOB-FILHO, W. ; FLÓ, C. ; SANTARÉM, JM. ; et al. Atividade Física e Envelhecimento Saudável. São Paulo. Ed. Atheneu, 2006.

Dr. Lucas Caseri Câmara Pós-graduado em Fisiologia do Exercício na Saúde, na Doença e no Envelhecimento – CECAFI FMUSP. Pós-graduando em Clínica Médica FCMS – UNILUS.

Natação - Hidroginástica – Musculação – Spinning – Ginástica – Natação Bebê Condicionamento físico para grupos especiais e fortalecimento muscular para idosos. R. Alexandre Herculano, 115. F. 13 3223-1036 Santos - SP