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AULA Nº 16 2.3.2.

Decomposição da austenite residual durante o revenido Não é obrigatório que os aços tenham elevadas quantidades de elementos de liga para que a sua austenite fique retida à temperatura ambiente. Basta para que tal aconteça que a temperatura Mf do aço se torne inferior à temperatura ambiente, por exemplo devido ao elevado teor em carbono. Entre os factores que contribuem para para a retenção da austenite, os elementos de liga são de facto o mais importante - todos à excepção do Co deslocam Ms e Mf para temperaturas inferiores. Apesar de ser relativamente delicado apresentar um tratamento quantitativo universal desta influência, há algum consenso em reconhecer que, na lista dos elementos que mais fazem descer os valores de Ms e Mf, aparece à cabeça o C, seguido do Mn, vindo logo de seguida o Cr e o Ni; os próximos da lista são o Si, Mo e W. A austenite pode igualmente “estabilizar-se” (isto é, o seu Ms e Mf podem descer) se o seu tamanho de grão for aumentado. Um estágio, sem transformação, a temperaturas superiores a Ms ou entre Ms e Mf provoca também uma “estabilização” da austenite. Vários argumentos podem ser avançados para justificar a desvantagem da ocorrência de austenite residual na composição microestrutural de um aço: i) a austenite residual, sendo um constituinte macio, não permitirá que o aço adquira a dureza máxima pretendida; ii) a transformação da austenite residual provoca tensões que podem por sua vez originar distorções, fissurações ou mesmo fracturas (dado o aumento de volume que lhe está associado ser suportado por uma microestrutura pouco dúctil). É pois importante estudar em detalhe a decomposição da austenite residual de modo a garantir o uso de procedimentos que tornem desprezável a sua fracção volúmica quando da entrada das peças em serviço. Esta austenite residual é semelhante à obtida após austenitização do aço, sendo por isso legítimo apreciar a sua tendência a transformar-se à custa de um diagrama TTT; apenas haverá que contar com uma estabilidade suplementar devida à passagem pela temperatura ambiente; assim, a sua curva TTT estará deslocada para a direita na escala dos tempos (alguns autores avançam como justificação para a estabilização da austenite a dissolução, à temperatura ambiente, dos núcleos martensíticos formados no arrefecimento). Há basicamente três vias para a transformação da austenite residual: i) transformação induzida por solicitações mecânicas; ii) tratamento sub-zero; iii) revenido (geralmente duplo).

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a bibliografia refere que o trabalho mecânico aplicado à superfície do aço gera deslocações. as quais irão criar falhas de empilhamento que actuarão como germes de martensite. 1 / 16 . passando a sua dureza de 220 para 600 HB.Pág. consiste em arrefecer o aço até à temperatura ambiente (desde a temperatura de austenitização). Este arrefecimento não é feito numa única etapa para se evitarem choques térmicos exagerados. a do tratamento pelo frio. Thelning. The Butterworth Group.Aumento de dureza de um aço Hadfield provocado por detonação de uma pasta explosiva (a) e por granalhagem com partículas de aço com 3 mm de diâmetro (b) (cf. o domínio bainítico está geralmente tão deslocado . No caso referido em a) a transformação da austenite residual é do tipo da reacção bainítica. vai estabilizar a austenite. havendo porém que ter em atenção a eventual fragilização que se pode introduzir na martensite ao executar o respectivo revenido a estas temperaturas. b) temperaturas de revenido no domínio ferrítico. este aço é completamente austenítico quando arrefecido rapidamente desde 1000 ou 1100°C. K.2C-13Mn). Para a explicação deste fenómeno.74. ao ser submetido a esforços mecânicos. Nos aços fortemente ligados. pág. A terceira via enunciada. entre os 300 e os 400°C os tempos são relativamente curtos (da ordem de vários minutos). Claro que o estágio à temperatura ambiente. Para a sua análise em pormenor. seguindose um arrefecimento suplementar até várias dezenas de graus abaixo de zero (a temperatura atingida deve ser inferior ao Mf da austenite residual. Fig. "Steel and its heat treatment". fig. é a mais vulgarmente usada na prática. A segunda via enunciada. um modo menos drástico consiste em submeter a peça a uma granalhagem por partículas de aço (ver figura 1 / 16). ela ocorrerá tanto mais rapidamente quanto mais elevada a temperatura do revenido. a temperaturas próximas da ambiente leva geralmente alguns meses (ou anos). convém distinguir os dois casos seguintes: a) temperaturas de revenido no domínio bainítico. Uma alternativa para o endurecimento do aço Hadfield consiste na explosão de uma pasta colocada à superfície da peça. a sua austenite transforma-se em martensite. 5. se se pretende a sua eliminação total). que poderiam danificar irremediavelmente a peça. 2 / Aula no 16 - . a da decomposição por revenido. ainda que curto.A primeira via indicada é útil no caso do chamado aço Hadfield (1. 250). 1975. o efeito estabilizador aumenta com a temperatura e o tempo de permanência prévios ao tratamento sub-zero.

Pág. iii) fragilização dos aços inoxidáveis ferríticos (400 a 550°C). normalmente a uma temperatura cerca de 25°C inferior à do primeiro. em condições próximas do equilíbrio. apesar de menos ligada. Os casos de fragilização por revenido mais importantes são os seguintes: i) fragilização ao azul (260 a 370°C). 2. a austenite residual sem liga e de baixo carbono rapidamente se transforma em ferrite. 3 / Aula no 16 - . sendo pois obrigatório passar para o domínio ferrítico. elevando-se os seus pontos de transformação (Ms e Mf). fica ainda com estabilidade suficiente para que o tempo de transformação à temperatura de revenido seja longo. O caso referido em b1) apenas acontece a temperaturas elevadas (sempre superiores a 600°C). b2) destabilização da austenite por precipitação de carbonetos que a empobrecem em carbono e em elementos de liga. a austenite residual. ele sofre uma série de alterações estruturais. a saber: b1) transformação em ferrite e carbonetos. No caso referido em b) podem distinguir-se duas possibilidades diferentes para a transformação da austenite residual. Daqui a necessidade de executar um segundo revenido. ii) fragilização Krupp (400 a 570°C). afectando não só a sua dureza mas também a resistência ao choque. . será apenas no arrefecimento que ela se vai transformar em martensite. independentemente do teor em carbono.para a direita na escala dos tempos que se torna impraticável transformar a austenite neste domínio. a designação justifica-se pela cor azul da superfície rectificada dos aços revenidos na gama de temperaturas referida (a cor da superfície após revenido resulta da natureza e espessura dos óxidos formados durante o tratamento térmico e estas são função da temperatura atingida). sendo iniciado por uma precipitação de carbonetos nos limites de grão da austenite. No caso b2) a precipitação vai acontecer de acordo com um dos dois mecanismos enunciados a propósito do endurecimento secundário. deste modo. iv) fragilização dos aços rápidos (500 a 570°C). Fragilização por revenido Quando um aço é revenido. é conduzido a uma temperatura inferior à do primeiro para garantir a manutenção do valor da dureza. A queda do valor desta propriedade para algumas gamas de temperatura de revenido é designada por fragilização por revenido.3.3. o objectivo deste segundo revenido é obviamente o aumento da resistência ao choque da martensite fresca formada anteriormente. A figura 2 / 16 ilustra um caso de fragilização ao azul. A fragilização ao azul verifica-se para aços sem liga e fracamente ligados.

"Steel and its heat treatment".55C-1Cr-3Ni-0. 246).Variação da dureza e resistência ao choque com a temperatura de revenido para um aço com 0. embora . tendo-se detectado que o desenvolvimento desta fragilização é função da temperatura e do tempo. O elemento mais pernicioso no que diz respeito à susceptibilidade a este tipo de fragilização é o P. 2 / 16 . É de registar que há elementos de liga cuja presença eleva a temperatura de ocorrência deste tipo de fragilização . 1975. outros entendem que a causa estará antes na formação de cementite à custa do carboneto ε. K. Alguns autores identificam na etapa da transformação da austenite residual em bainite a causa da perda súbita de resistência ao choque. desloca a gama de temperaturas susceptíveis de fragilizarem o aço por revenido para 300 a 500°C. para teores entre 0. observações em microscopia electrónica de transmissão mostram que a cementite envolve as agulhas de martensite.3Mo (cf. A susceptibilidade é agravada pela presença do Ni. este fica fragilizado. provavelmente). se um revenido for efectuado a temperaturas superiores a 575°C e concluído por um arrefecimento lento.71. sendo ainda mais intenso o seu efeito quando se apresentam simultaneamente em teores não inferiores a 1%. 4 / Aula no 16 - .Fig. porém e ao contrário do caso anterior. The Butterworth Group. 5. o Cr e Mn também apresentam uma influência desfavorável. às quais é difícil impôr um arrefecimento répido após estágio de revenido. A manifestação desta fragilização dá-se para revenidos entre 400 e 575°C.por exemplo o silício. que permita uma permanência considerável do aço na zona crítica. Não foi detectada fragilização ao azul em experiências sobre aços com teores anormalmente baixos em P e N. sempre que em teores superiores a 0. Thelning. o que leva a admitir que estes elementos tomam parte no mecanismo de fragilização (segregando-se para as fronteiras de grão. para este nível de P.5 e 2%. o que justifica o aumento da fragilidade (esta causa é a mais vulgarmente invocada). A figura 3 / 16 ilustra o fenómeno da doença de Krupp. daí que os aços para molas sejam frequentemente ligados ao silício.Pág.015%. apesar de contornável à custa de um arrefecimento em água ou em óleo no caso de peças finas. fig. permitindo assim a execução de revenidos para obtenção de valores de limites elásticos elevados. este o motivo pelo qual esta fragilização é muito crítica para peças espessas. pág. O segundo caso de fragilização enunciado (tipo de fragilização por revenido que normalmente se designa por doença de Krupp) ocorre nos aços de construção.

1990. inibindo pois a fragilização. Krauss. sendo a precipitação mais próxima do equilíbrio. O Mo. pág. A susceptibilidade à fragilização pode ser atenuada pelo Mo.Heat treatment and processing principles". por outro lado.Pág. assim. por um lado. a verificação prática de que o Mo em teores até 0. o Mo presente na região das juntas de grão (dissolvido substitucionalmente na martensite revenida) atrasa a difusão e acumulação de P. para teores em Cr superiores a 25%.27. A fragilização dos aços inoxidáveis ferríticos e semi-ferríticos ao Cr aparece na zona dos 400 a 550°C. fig.50%. 237).15 e 0. sendo máxima a 475°C.esta questão voltará a ser abordada. a sua precipitação no interior dos grãos vai empobrecer a região das fronteiras em Mo e a fragilização irá ocorrer. após estudo do diagrama Fe-C-Cr. para teores entre 0. A literatura justifica esta fragilização pela segregação do P para as juntas de grão. impedindo ou minimizando o aumento do teor em P nesses locais) e. devido à precipitação de carbonetos complexos muito finos. permitindo a difusão do P para estas regiões.5 por cento). o que permite a constância do teor médio em Mo na microestrutura. no intervalo de temperaturas considerado.este elemento por si só não apresente efeitos prejudiciais. 8. ASM International. com estequiometria (MoFe)2C.7Cr (cf. Esta explicação é coerente com o facto de. a redistribuição do P por difusão verifica-se em consequência da precipitação dos elementos de liga carburígenos ter lugar preferencialmente no interior dos grãos.3Ni-0. dissolve-se na matriz ou entra na composição da cementite [(FeMnCrMo)3C]. G. Esta precipitação origina um aumento de dureza mas um decréscimo simultâneo . se o teor em Mo for elevado (superior a 0. No revenido entre 500 e 570°C dos aços rápidos e aços para trabalho a quente (materiais muito ricos em elementos carburígenos) ocorre o fenómeno do endurecimento secundário.4C-1. esta precipitação de carbonetos ricos em elementos de liga provoca um empobrecimento em elementos carburígenos junto às fronteiras de grão. o fenómeno de fragilização se não se verificar a temperaturas superiores a 575°C (neste caso. Fig.Desvio da temperatura de transição provocado pela fragilização Krupp num aço com 0. como se viu anteriormente. para baixos teores. 5 / Aula no 16 - . pode ocorrer ao fim de apenas alguns minutos a 475°C e desaparece se o aço for aquecido a temperaturas superiores a 600°C . o teor em elementos de liga nas fronteiras de grão é mais elevado. "Steels . 3 / 16 .5 por cento inibe a fragilização. sendo o teor em Mo desta cementite semelhante ao da matriz. ele irá formar um carboneto rico em Mo. substituindo átomos de ferro.

Esta fórmula evidencia uma relação linear entre 1/T e log t para valores de dureza constante.73. pág. 1975.0Cr1. por esta razão. K. 1975. pode fornecer indicações úteis sobre como executar o revenido. para o equipamento utilizado. é útil dispor das condições de equivalência entre a temperatura de revenido e a sua duração. sendo aconselhável determinar experimentalmente. T é a temperatura absoluta de revenido e t o tempo de tratamento expresso em horas.0V (cf. fig.5Mo-1. a iguais valores do parâmetro de revenido correspondem iguais valores de dureza. em que se preconizam aquecimentos lentos. estes aços costumam ser revenidos a cerca de 200°C ou a temperaturas superiores às que originam o máximo de dureza. durações de aquecimento para diferentes peças-tipo e diferentes temperaturas de revenido. dado que as temperaturas utilizadas são relativamente baixas.35C-5. K. após o ensaio Jominy clássico. 4 / 16 .5Mo-1. Thelning. Também o revenido de um provete Jominy. A figura 5 / 16 indica algumas curvas de revenido com o tempo como parâmetro. The Butterworth Group. 249). no intuito de promover resistências ao choque elevadas. 241). geralmente traçada para tempos de uma hora.de resistência ao choque.Variação da dureza e resistência ao choque com a temperatura de revenido para um aço com 0. Fig.3.0V. The Butterworth Group. como se observa na figura 4 / 16. exceptuam-se os casos de peças com geometrias complicadas. .Curvas de revenido para um aço com 0. 2.4. Para temperaturas superiores a 400°C existe uma fórmula empírica que relaciona estes dois parâmetros: P = T x (20 + log t) onde P é o parâmetro de revenido (por vezes designado como parâmetro de Larsen Miller).Pág. "Steel and its heat treatment". não sendo recomendáveis temperaturas intermédias. é necessário ter em conta que o aquecimento das peças pode ser demorado.35C-5Cr-1. A duração do revenido deve ser contada a partir do momento em que a peça atinge a temperatura de tratamento pretendida. Por vezes. 5 / 16 . O aquecimento em geral é feito com o forno à temperatura de tratamento. Fig. 5. pág. Equivalência entre temperatura e tempo de revenido A indicação mais simples normalmente usada para a determinação das condições de revenido é a curva de revenido do aço em causa: curva de evolução da dureza com a temperatura de revenido. Thelning. 6 / Aula no 16 - . 5. "Steel and its heat treatment". fig. com a duração de revenido como parâmetro (cf.66.

3.A definição do parâmetro de revenido permite simplificar a informação relativa às curvas de revenido. pág. a martensite que se forma a temperaturas inferiores a 75°C pode induzir fissuração nas peças.5.67. 241). Aspectos práticos relativos à execução do revenido O revenido deve ser realizado imediatamente após a têmpera. 5. 1975. The Butterworth Group. Fig. "Steel and its heat treatment". 6 / 16 . de facto.Pág. concentrando-a numa única curva. 7 / Aula no 16 - . fig. K. no entanto. como se pode ver na figura 6 / 16. de preferência com o aço ainda a temperatura superior à ambiente (entre 50 e 75°C). na medida em que provoca um aumento da quantidade de austenite residual. . se se interromper o arrefecimento. Thelning.Curvas de dureza após revenido em função do parâmetro de revenido (cf. 2. tal facto deverá ser tido em conta.