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A Pedagogia do Oprimido e a Teologia da Libertação: As Contribuições de Paulo Freire e Leonardo Boff.

Jairo Cardoso da Costa* João Batista de Albuquerque Figueiredo**

Introdução
“Libertação é libertação do oprimido. Por isso, a teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” Leonardo Boff. “A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí. E tem que ter nos próprios oprimidos, que se saibam ou cometam criticamente a saber-se oprimidos, um dos seus sujeitos.” Paulo Freire

O objetivo deste artigo é apresentar dois dos paradigmas que defenderam as classes populares e suas manifestações culturais: A pedagogia do Oprimido e a Teologia da Libertação. Paulo Freire e Leonardo Boff, respectivamente, são os autores sobre os quais pretendo, neste trabalho, tecer comentários. Durante meados do século XX, numa perspectiva sócio-econômica e política, grande parte dos países latino-americanos e caribenhos, sofria sob o peso da ditadura militar. A pedagogia do oprimido surgiu como resultado da efervescência dos movimentos populares nos meados da década de 60, quando Freire foi exilado em virtude desse momento político. Sua tese teve forte influência sobre a Teologia da Libertação ao mostrar o outro lado da história, o lado dos oprimidos. Ela corroborou para a educação e a participação política da classe oprimida.

(*) Graduado em Pedagogia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) Bacharelando em Teologia pelo Seminário de Teologia da Assembléia de Deus no Estado do Ceará (STADEC). Agente de Leitura pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (SECULT). (**) Professor Adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), vinculado ao programa de Pós-graduação em Educação Brasileira, na Linha de Pesquisa de Movimentos Sociais, Educação Popular e Escola, no eixo de Educação Ambiental, Espiritualidade, Juventude, Arte e Escola. Doutorou-se em Ciências (Ecologia Educação Ambiental) pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Para Freire. Ela passa a ser fonte de libertação e de esperança para o homem. Engels e Lênin e de autores marxistas como. gera libertação de um povo humilhado. A Pedagogia do Oprimido Em 1968 nascia uma obra que iria revolucionar o modo de ver a educação: a educação popular. 1980. Esta teologia caracteriza-se pela valorização da ação de Deus na história. desta forma. A religião não mais se apresenta como “ópio do povo”. nesse período. também não é mais fonte de discursos etéreos. gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos.A teologia da libertação tem como seu grande expoente. é não estar sob o jugo da lei alheia. p. ela quer mostrar que Deus encarna-se na história. Com a gênese da teologia da libertação na América Latina. então. A Teologia da Libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica. por exemplo. das massas e dos excluídos. Propunha uma alfabetização política num contexto em que. no período que antecede 1964. e impacta a Teologia da Libertação que surgia primariamente na América Latina. Leonardo Boff. A Pedagogia do Oprimido tem suas raízes empíricas nas experiências desenvolvidas. nosso país tinha um índice descomedido de analfabetos. “a religião passa a ser um fator de mobilização e não do freio” (BOFF. não se reduz a uma ideologia que mantém o status quo social e político. era avaliado como principal fator que impedia o desenvolvimento do país. A religião. agente norteador do discurso teológico latino-americano. e as raízes epistemológicas constituídas na história da formação social. mas. naquela época (década de 1950 e 1960). Gramsci e no movimento do Humanismo Cristão. nas idéias de Marx. é toda “ação que visa criar espaço para a liberdade” (BOFF. 1980. como fonte de libertação social. Comunicações do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação 2 . Tal análise gerava um enorme preconceito contra o analfabeto. A libertação. O analfabetismo. p. no Brasil. esta teologia enfatiza o papel do ser humano como sujeito na luta permanente contra a opressão e a injustiça social e pela criação do Reino de Deus na Terra. econômica e política brasileira. é poder construir-se autonomamente. 102). neste sentido. 87). Ser livre. O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação.

Foi quase uma revolução coperniana. em nosso país. o adulto não-escolarizado era percebido como um ser imaturo e ignorante. que deveria ser atualizado com os mesmos conteúdos formais da escola primária. Os governos de Jânio-Jango favoreceram a efervescência deste clima. ele partia do seguinte pressuposto: “Todo mundo sabe”. no Nordeste. “há cerca de 15 milhões de analfabetos para uma população de 25 milhões de habitantes” (IBGE. Por meio desta nova metodologia de ensino. os alfabetizandos não eram ouvidos. (ações e características da educação infantil). lançou um novo paradigma teórico de educação. houve uma educação de adultos antes e depois dele. É possível inclusive proferir que. Comunicações do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação 3 . eram considerados como uma tabula rasa. percepção esta que reforçava ainda mais o preconceito contra o analfabeto como está supracitado. a educação de adultos ia além das preocupações existentes com os aspectos pedagógicos do processo de ensinoaprendizagem. Com a Pedagogia do Oprimido era preciso ouvir a voz de quem vai à escola e ensinar a partir da realidade deles. Deste modo. Naquele momento. Com o aparecimento de Freire no cenário educacional brasileiro. por isso. esta realidade ainda é nefanda. Intensa movimentação política dos setores médios e de parte das camadas populares. para romper com a idéia de que o analfabetismo era a causa da pobreza e do nãodesenvolvimento do país. extremamente preocupado com os índices de analfabetismo no país. Em pleno século XXI. Desse total. “Não há saber maior ou saber menor. Freire incentivava os oprimidos a pensar e refletir criticamente. ampliavam-se as manifestações populares. Só para termos noção de dados. ou seja. Ou seja.Podemos dizer que Paulo Freire revolucionou o processo pedagógico. o que há são saberes diferentes”. onde os alfabetizadores depositavam o conteúdo a ser aprendido. a incapacidade de se compreender um texto escrito. Esse quadro de renovação pedagógica deve ser considerado dentro das condições gerais de turbulência do processo político daquele momento histórico. Segundo o último levantamento feito pelo IBGE. pois até então. 326 mil são jovens entre 8 e 29 anos. Destarte. Paulo Freire. esse quadro mudou radicalmente. 2000). o Estado enfrenta também o analfabetismo funcional. Foi dentro dessa conjuntura que os diversos trabalhos educacionais com alfabetização de adultos passaram a ganhar presença relevante. mais de 1. que marcou o início dos anos 1960. compromissado com as classes populares e.7 milhões de cearenses não sabem ler nem escrever. Além do analfabetismo absoluto.

Comunicações do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação 4 . Sabendo que através do diálogo compartilhamos nossas experiências de vida. mediados por saberes e movidos por um compromisso com as transformações pessoais e coletivas. problematizadora. meros pacientes. e epistemológico levado pela curiosidade de distinguir as coisas. pensar certo é contextualizar o que lemos com a realidade vivenciada pelo sujeito. sem segundas intenções e sem interesse próprio. Convêm ter amor pelo que fazemos. somente assim a vida terá um sentido. Jesus Cristo (O Mestre dos Mestres). Este mesmo sentimento que. com que viva a certeza de que faz parte de sua tarefa docente não apenas os conteúdos. estabelecer uma relação entre o que lemos e o que ocorre em país. isto é. neste ponto. no nosso bairro. aquele que é capaz. uma paixão potencializa a condução do trabalho durante toda nossa vida. Para saber se colocar no lugar do outro precisa primeiro vê-lo. o educador deve ter pelo educando. Eu me refiro à virtude da empatia. Ao compartilharmos do mesmo sentimento. na nossa cidade. Somente o amor nos coloca no lugar do outro. que a partir de si próprio constrói a história e transforma o mundo. acreditamos. A nossa práxis pedagógica deve ter. ou narrar. considerando-o como um ser em potencial. Com isto o papel do educador na perspectiva de Freire é. e ao ensinar temos que pensar no educando. mas um ato cognoscente. ou de transferir. temos um mestre que nos ensina por excelência. à maneira da educação “bancária”. Nossa fundamentação se consolida com o amor.Freire elabora sua tese. num estudo antropológico do ser humano. de forma que o educador aprenda ao ensinar e o discente ensina ao ser educado. com respeito ao mérito da paz. Neste sentido. mas também ensinar a pensar certo. Na visão de Freire. em nosso pensar. e assim poderá se tornar uma pessoa que tem consciência de sua ação no mundo. Estimando em seu discurso a dialogicidade na relação de sujeitos cognoscentes. sabe aonde quer chegar. o afeto pelo que nos leva a ensinar. valorizando seu aspecto ontológico em ser mais. como princípio a coerência de tudo que falamos e propagamos. enxergá-lo sem preconceito. ou de transmitir “conhecimentos” e valores aos educandos. ou seja. a Pedagogia do Oprimido expressa uma educação libertadora. já não pode ser um ato de depositar. A pedagogia do oprimido valoriza o educando como um sujeito de seu próprio conhecimento. uma razão de viver e de sonhar.

e excluídos de certos direitos básicos de sobrevivência. O termo libertação foi cunhado a partir da realidade cultural. Entenda-se que dialogar sobre espiritualidade na educação não significa injetar ensinos religiosos no currículo. assumiram a libertação como paradigma de todo fazer teológico. O genitivo que aparece supracitada no título . raciais. a Pedagogia do Oprimido é a pedagogia do amor que realizada na escola abre espaços para diversidade (diferenças étnicas. nem muito menos utilizar a avaliação como reafirmação deste ato infame contra o educando. a Teologia da Libertação torna-se força geradora de ações que viabilizam uma práxis libertadora. religiosas e sociais).DA LIBERTAÇÃO . Uma educação que tem como princípio o amor não deve dar lugar ao autoritarismo.Assim. Comunicações do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação 5 . pelo ser mais que transcende o pragmatismo da modernidade. Então conforme. mostra-nos que o Deus do discurso é fonte de libertação. católicos e protestantes.mostra-nos que a libertação é o horizonte regulador do discurso acerca de Deus. Ele se manifesta concretamente nos diversos momentos do processo histórico de um povo. estes termos significam o estudo a respeito de Deus. A Teologia da Libertação Etimologicamente a palavra Teologia tem origem em duas palavras gregas: Téos e Lógos. Os teólogos deste período. econômica e política sob a qual se encontrava a América Latina. Requisita a presença de um valor que assegura o respeito e a convivência entre diferentes: a paz e a espiritualidade. O que acontece é que foram tolhidos os seus direitos. a bem da verdade. Conseqüentemente. a partir das décadas de 60/70 do último século. Nem muito menos desvalorizá-lo por ser pobre ou incapaz quando. segundo as necessidades advindas das diversas circunstâncias sob as quais um povo está submetido. Assim sendo. pelo diálogo e pela criatividade. o filósofo Alexandre Cabral (1997). significa incentivar os estudantes a envolver seu mundo com um sentimento de encanto pela vida. ao mesmo tempo. e. social. todos são capazes. Téos significada Deus e Logos estudo.

o valor e o reconhecimento do outro como autor e construtor de seu conhecimento. dentre outros. Considera a dimensão ecológica levando em consideração o ambiente no qual vivemos. pois abarca dimensões axiológicas que caracterizam o respeito a diversidade e a paz.] Faltaram traços de humanidade mínimos no projeto neoliberal e na economia de mercado. a flora e a fauna. 2008b). Atualmente ela leva em consideração os aspectos epistemológicos e ecológicos. previsível e inevitável. construído pela humanidade. No dizer de Boff. (Boff. A Terra. sentimos hoje a urgência de estabelecermos uma paz perene com a Terra. se aquenta de pé: a confiança e a verdade. além de seu aspecto político. ao considerar o acesso ao saber historicamente. Comunicações do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação 6 . podendo ser um fator orientador de novo começo para uma sociedade harmônica e igualitária onde a desigualdade e a pobreza possam fazer parte apenas de um passado nefando e esquecido. (Boff 2008a). Neste ínterim. Hoje. A espiritualidade é um relevante aspecto que é levado em consideração na TL. Nos dias de hoje a Teologia da Libertação está abrangendo outras dimensões. que remete a uma crise mais profunda.. 2008c). se não salvarmos a sustentabilidade da terra. Epistemológicos. (Boff. inclusive o popular. A razão segundo. vivemos a crise econômico-financeira. Finalmente a TL é um caminho para paz entre os conflitos gerados pelo preconceito e o egoísmo humano. os saberes diversos. sem os quais nenhuma instituição. Outra categoria que a TL utiliza é a da alteridade. Na visão de Boff a solução da crise econômico-financeira passa pelo encaminhamento da crise ecológica geral e do aquecimento global. a médio e longo prazo. trata-se de uma crise de humanidade.. Boff reside no fato de que a atual crise se instaurou no seio de outras crises ainda mais graves: a do aquecimento global que vai produzir dimensões catastróficas para milhões de humanidade e a insustentabilidade da terra em conseqüência da virulência produtivista e consumista. [. a crise pode ser uma grande oportunidade para a invenção de outro paradigma de produção e de consumo.Atualmente. não haverá base para o projeto do capital em propósito de crescimento. Conforme Boff.

30. CABRAL. Fortaleza 17 de outubro de 2008a.Referências Bibliográficas BÍBLIA SAGRADA. 1997. Artigo. ______________. FREIRE. ______________. Ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil. Teologia do cativeiro e da libertação. _____________. Alexandre Marques. Mundo. ______________. Teologia da Libertação: A teologia a favor dos excluídos. Quando começou nosso erro? O Povo. Pedagogia do Oprimido. Mundo. BOFF. 2005. O Povo. Mundo. Fortaleza 04 de novembro de 2008c.30. Fortaleza 04 de novembro de 2008b. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários a prática educativa. 2007. O pior da crise ainda está por vir? O Povo. 1969. p. 36ª edição – São Paulo: Paz e Terra. Crise de humanidade. 43ª edição – Rio de Janeiro: Paz e Terra. Comunicações do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação 7 .30. Petrópolis: Vozes. Leonardo. p. 1980. p. Paulo. revista e atualizada.