You are on page 1of 17

Revista Brasileira de Ensino de F´ ısica, v. 27, n. 1, p. 157 - 173, (2005) www.sbfisica.org.

br

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o S´culo XXI e
(100 years of cosmology and new challenges for the 21st century)

Ioav Waga1
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de F´ ısica, Rio de Janeiro, RJ, Brasil O objetivo deste artigo ´ contar um pouco da hist´ria da cosmologia nesses ultimos 100 anos, descrever de e o ´ forma sucinta seus maiores avan¸os e apresentar suas principais quest˜es que ainda est˜o em aberto nesse in´ c o a ıcio de s´culo. e Palavras-chave: cosmologia, mat´ria escura, energia escura, expans˜o do universo, nucleos´ e a ıntese primordial, radia¸ao c´smica de fundo, modelos inflacion´rios do universo. c˜ o a Empty The goal of this article is to present a brief history of Cosmology in the past 100 years, reviewing its main progress and highlighting its main open questions in the beginning of this century. Keywords: cosmology, dark matter, dark energy, primordial nucleosynthesis, cosmic microwave background, cosmological inflation.

1.

Introdu¸˜o ca
“The less one knows about the universe, the easier it is to explain.” L. Brunschvicg.

H´ cem anos desconhec´ a ıamos a existˆncia de e gal´xias e acredit´vamos que o universo era est´tico. a a a Tampouco conhec´ ıamos o mecanismo pelo qual a energia ´ gerada nas estrelas, e a idade do universo era estie mada em apenas alguns milh˜es de anos. Hoje sabemos o que vivemos em um universo em expans˜o, com bilh˜es a o de gal´xias dentro de nosso horizonte, que iniciaram a seu processo de forma¸˜o h´ mais de 10 bilh˜es de ca a o anos. Os avan¸os alcan¸ados nesses ultimos cem anos c c ´ s˜o enormes. Dispomos hoje de um quadro consistente, a o chamado modelo padr˜o da cosmologia (MPC) que a ´, sem d´vida alguma, um grande patrimˆnio cient´ e u o ıfico e cultural da humanidade. Fundamental para o seu desenvolvimento tem sido avan¸os em f´ c ısica atˆmica, o quˆntica, nuclear, de part´ a ıculas elementares e gravitacional. Esse modelo, baseado na relatividade geral de Einstein, em combina¸˜o com f´ ca ısica fundamental, nos permite entender a evolu¸˜o do universo desde as ca primeiras fra¸˜es de segundo at´ hoje, aproximadaco e mente 14 bilh˜es de anos depois. o Ao mesmo tempo em que celebramos essas conquistas da cosmologia, ´ importante reconhecer que algue
1 E-mail:

mas grandes quest˜es permanecem em aberto. Por o exemplo, a natureza da mat´ria escura fria, uma come ponente com press˜o nula respons´vel pela forma¸˜o a a ca de estruturas como gal´xias e seus aglomerados, pera manece um mist´rio. N˜o se sabe ainda, com grande e a precis˜o, sua densidade. Embora o chamado modelo a de mat´ria escura fria seja muito bem sucedido em ese cala cosmol´gica, ele encontra dificuldades em escalas o gal´cticas, prevendo, via simula¸˜es num´ricas, um a co e n´mero significativamente maior de gal´xias sat´lites u a e do que o observado. Desconhecemos igualmente se a energia escura, uma componente uniformemente distribu´ com press˜o suficientemente negativa (e, porıda a tanto, gravitacionalmente repulsiva) ´ uma constante e cosmol´gica ou um campo escalar dinˆmico (quino a tessˆncia). H´ ainda a possibilidade te´rica de que a e a o acelera¸˜o c´smica seja conseq¨ˆncia de uma teoria de ca o ue gravita¸˜o alternativa ou da existˆncia de dimens˜es exca e o tras. Na verdade, n˜o estamos completamente seguros a se a mat´ria e a energia escuras constituem, de fato, e duas substˆncias distintas: atualmente tˆm sido sugea e ridas propostas para sua unifica¸˜o (quartessˆncia). ca e Este artigo est´ organizado da seguinte forma: na a se¸˜o 2 apresentamos um resumo dos primeiros anos da ca cosmologia relativista. Nas se¸˜es 3, 4 e 5 descrevemos co as descobertas que constituem os pilares sobre os quais o MPC est´ estruturado, que s˜o: a) a expans˜o do a a a

ioav@if.ufrj.br.

Copyright by the Sociedade Brasileira de F´ ısica. Printed in Brazil.

158 universo; b) a abundˆncia de elementos leves; e c) a a existˆncia de uma radia¸˜o c´smica de fundo. No final e ca o da d´cada de 70, do s´culo passado, ficou claro que o e e modelo padr˜o da cosmologia necessitava de condi¸˜es a co iniciais muito especiais para explicar o alto grau de isotropia observado na radia¸˜o c´smica de fundo. O ca o chamado cen´rio inflacion´rio do universo, que ´ uma a a e modifica¸˜o do MPC nos instantes primordiais de sua ca evolu¸˜o, foi ent˜o proposto para resolver esta e outras ca a dificuldades do modelo padr˜o. Na se¸˜o 6 s˜o discua ca a tidos os cen´rios inflacion´rios. Em 1998, observa¸˜es a a co de supernovas indicaram, surpreendentemente, que a expans˜o do universo est´ acelerando. Na se¸˜o 7 s˜o a a ca a discutidas algumas implica¸˜es dessa descoberta, bem co como as poss´ ıveis explica¸˜es para o que pode estar co causando a acelera¸˜o c´smica. ca o

Waga

2.

Os primeiros anos da cosmologia relativ´ ıstica
“I shall speak of the theoretical work of Einstein of Germany, de Sitter of Holland, Lemaˆ ıtre of Belgium. For observational data I turn to the Americans Slipher, Hubble, Humason, recalling however that the vitally important datum of distance is found by a method which we owe to Hertzsprung of Denmark. ... My subject disperses the galaxies, but it unites the earth. May no “cosmical repulsion” intervene to sunder us” Arthur Eddington na abertura da palestra p´ blica proferida no encontro da “Uni˜o Asu a tronˆmica Internacional”, realizada em setemo bro de 1932, em Cambridge (Massachusetts).

A cosmologia moderna iniciou-se com Einstein, em 1917, pouco tempo ap´s ele haver publicado seu trabao lho sobre a teoria do campo gravitacional, a relatividade geral. O primeiro modelo cosmol´gico reo lativista proposto por ele, al´m de espacialmente hoe mogˆneo, isotr´pico e finito (com curvatura espacial e o constante e positiva), possui a propriedade de ser est´tico. Acreditava-se naquela ´poca ser esta uma a e caracter´ ıstica do universo. Sendo a gravita¸˜o atraca tiva, para obter um universo est´tico, Einstein modifia cou as suas equa¸˜es originais do campo gravitacional co introduzindo um termo repulsivo, a chamada constante cosmol´gica (Λ). Einstein acreditava que seu modelo o possu´ as seguintes virtudes: 1) podia relacionar a ıa massa do universo com a constante cosmol´gica, o que o estava em acordo com o princ´ ıpio de Mach; 2) mostrou ser poss´ ıvel construir um modelo cosmol´gico consiso tente com a relatividade geral; 3) acreditava ser este o unico modelo com essas caracter´ ´ ısticas. Nesse mesmo ano, o astrˆnomo holandes Willem o de Sitter publicou trˆs trabalhos nos quais obteve uma e

nova solu¸˜o da relatividade geral, com constante cosca mol´gica, estacion´ria, por´m sem mat´ria. Por estao a e e cion´ria entende-se uma solu¸˜o cujas propriedades a ca n˜o dependem do tempo. De Sitter mostrou que em a seu universo a velocidade de afastamento de objetos (part´ ıculas teste) aleatoriamente espalhados aumentaria com a distˆncia. Esta propriedade, que passou a a ser conhecida como “efeito de Sitter”, podia explicar o desvio no espectro de nebulosas espirais observado pelo astrˆnomo americano Vesto M. Slipher alguns anos o antes. Einstein n˜o apreciava muito a solu¸˜o de de Sita ca ter, entre outras raz˜es, por ela apresentar um horizonte o de evento, isto ´, uma distˆncia al´m da qual raios lue a e minosos n˜o poderiam chegar ao observador. O fato a de o universo de de Sitter ser desprovido de mat´ria ´ e e tamb´m uma caracter´ e ıstica n˜o desej´vel desse modelo. a a Contudo, isso n˜o impediu que ele fosse investigado, ` a a ´poca, como uma poss´ e ıvel descri¸˜o do universo real. ca Como a densidade do universo ´ baixa, a solu¸˜o de e ca de Sitter era considerada como uma aproxima¸˜o de ca densidade zero. Essa era a situa¸˜o em 1917, quando a rec´m criada ca e teoria da relatividade geral ainda n˜o era muito aceita. a A relatividade geral ganhou notoriedade internacional somente ap´s os resultados de medidas do desvio da o luz, observadas durante o eclipse solar de 1919 pelas expedi¸˜es britˆnicas ` ilha de Pr´ co a a ıncipe (Guin´) e Sobral e (Brasil). Nessa ´poca a existˆncia de gal´xias ainda n˜o e e a a era conhecida. Estas s´ foram descobertas com Hubble, o um pouco mais tarde, em 1923 (veja a pr´xima se¸˜o). o ca Sabia-se que a velocidade t´ ıpica de estrelas ´ baixa e e ´ este fato sustentava a id´ia de um universo est´tico. E e a interessante salientar que, n˜o apenas Einstein, como a tamb´m de Sitter n˜o acreditavam em um universo em e a expans˜o. A velocidade de afastamento de objetos (e o a consequente desvio espectral para o vermelho) em um universo de de Sitter, acima mencionado, era por ele considerada um efeito esp´rio, conseq¨ˆncia do sistema u ue de coordenadas usado e n˜o decorrente da expans˜o do a a espa¸o. c A possibildade te´rica de um universo em expans˜o o a s´ surgiu em 1922 com Friedmann. Filho de artistas (o o pai era bailarino e a m˜e pianista), Aleksandr Aleka sandrovich Friedmann, nasceu em junho de 1888 na cidade de S˜o Petersburgo e desde cedo mostrou um a grande talento para a matem´tica. Em 1906, ele ingresa sou na Universidade de S˜o Petersburgo para estudar a matem´tica pura e aplicada. Nesse mesmo ano publicou a seu primeiro trabalho cient´ ıfico. Ap´s formar-se, iniciou o uma p´s-gradua¸˜o em meteorologia em Leipzig (Aleo ca manha). Durante a primeira guerra serviu como piloto e esteve envolvido em miss˜es na frenta austr´ o ıaca. Ap´s o a guerra foi transferido para a Esta¸˜o Aeron´utica ca a Central de Kiev e um ano depois conseguiu uma posi¸˜o ca na Universidade de Perm. Nessa ´poca a R´ssia estava e u mergulhada em uma guerra civil. Em 1920, quando a revolu¸˜o russa ainda n˜o havia terminado, ele retornou ca a

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o s´culo XXI e

159

a S˜o Petersburgo para trabalhar em hidrodinˆmica no a a Observat´rio Geof´ o ısico de Main. Foi nesse per´ ıodo que surgiu o seu interesse pela relatividade geral (que devido ` guerra e ` revolu¸˜o era pouco conhecida na a a ca Russia). Possivelmente a confirma¸˜o do valor previsto ca pela relatividade geral para o desvio da luz provocado pelo campo gravitacional do Sol, obtida ap´s o eclipse o de 1919, estimulou esse interesse. Em 1925, Friedman j´ era considerado um dos principais f´ a ısicos te´ricos o de Leningrado (como era ent˜o chamada S˜o Petersa a burgo). Nesse mesmo ano, realizou um vˆo de bal˜o o a para estudar a alta atmosfera que atingiu 7400 m, recorde sovi´tico da ´poca. Poucos meses depois cone e traiu tifo e faleceu, precocemente, aos 37 anos. Apesar de haver publicado seu artigo de 1922 na prestigiosa revista “Zeitschrift f¨r Physik”, o trabalho u de Friedmann n˜o recebeu a devida aten¸˜o. Nesse ara ca tigo em que considerou espa¸os com curvatura consc tante e positiva, Friedmann obteve pela primeira vez solu¸˜es expansionistas (com e sem constante cosco ´ mol´gica) das equa¸˜es de Einstein. E curioso que Edo co dington, em suas palavras reproduzidas no in´ desta ıcio ´ se¸˜o, n˜o tenha se referido a ele. E dif´ entender ca a ıcil essa omiss˜o a n˜o ser pelo pouco interesse despera a tado, ` ´poca, pelo trabalho de Friedmann na comua e nidade de f´ ısicos e astrˆnomos. Uma poss´ explica¸˜o o ıvel ca talvez seja a abordagem eminentemente matem´tica a por ele empregada nesse artigo e no seguinte, publicado em 1924 na mesma revista, onde ele analisa os espa¸os com curvatura espacial constante e negativa. De c fato, nesses trabalhos ele extraiu poucas conseq¨ˆncias ue f´ ısicas de suas solu¸˜es. Analisou a possibilidade de co solu¸˜es expansionistas da mesma forma que considerou co tamb´m solu¸˜es com densidade de energia negativa e co (que possuem apenas interesse matem´tico). As proa priedades f´ ısicas de suas solu¸˜es foram pouco discuco tidas. Por exemplo, em nenhum momento ele fez referˆncia ` quest˜o do desvio para o vermelho, que ´ e a a e uma propriedade fundamental desses modelos. Assim, tendemos a concordar com os que afirmam que Friedmann descobriu a possibilidade de um universo em ex´ pans˜o, mas n˜o a expans˜o do universo. E interessante a a a que essa possibilidade tenha sido questionada inicialmente por Einstein, que chegou a publicar uma nota em 1922 onde afirmava que o trabalho de Friedmann estava matematicamente incorreto. Contudo, um ano depois admitiu seu erro e reconheceu a existˆncia de e solu¸˜es vari´veis no tempo, como defendido no traco a balho de Friedmann. O universo descrito pelo modelo de Friedmann, al´m de expansionista, ´ espaciale e mente homogˆneo, isotr´pico em rela¸˜o a qualquer e o ca ponto, e possui uma origem no passado em que a densidade de mat´ria diverge. Esse modelo tornou-se a base e ´ do modelo padr˜o da cosmologia. E lament´vel que a a a morte prematura de Friedmann nos tenha privado de novas e importantes contribui¸˜es que ele provavelco mente faria ao desenvolvimento da cosmologia.

Outra contribui¸˜o not´vel para o desenvolvimento ca a da cosmologia nesse per´ ıodo inicial, foi dada pelo f´ ısico ´ e astrˆnomo Georges Edouard Lemaˆ o ıtre. Lemaˆ ıtre nasceu em Charleroi, na B´lgica. Em 1914, aos vinte e anos, ingressou na Universidade de Louvain para estudar engenharia, mas n˜o chegou a concluir o curso, a interrompido devido a eclos˜o da Primeira Guerra a Mundial. Lemaˆ alistou-se no ex´rcito belga quando ıtre e a Alemanha invadiu a B´lgica e, ap´s a guerra, ree o cebeu diversas condecora¸˜es pelos servi¸os prestados. co c Em 1919, na mesma Universidade de Louvain, reiniciou seus estudos, mas agora seu interesse voltara-se para a F´ ısica e a Matem´tica. Em 1920 iniciou estua dos em teologia e em 1923 foi ordenado padre. Nesse mesmo ano seguiu para Cambridge (Inglaterra) onde permaneceu durante um ano como estudante de Eddington. No ano seguinte foi para os Estados Unidos, onde trabalhou com o astrˆnomo Shapley e estabeleu o contato tamb´m com Slipher e Hubble. Nessa ´poca e e Lemaˆ ıtre j´ demonstrava um grande interesse pelos a modelos expansionistas. Em 1925, ap´s concluir o o doutorado no Instituto Tecnol´gico de Massachusetts o (MIT), retornou ` B´lgica e iniciou a prepara¸˜o do a e ca trabalho que viria lhe trazer notoriedade internacional. Esse trabalho foi publicado em 1927 nos Anais da Sociedade Cient´ ıfica de Bruxelas, um peri´dico relativao mente obscuro. Lemaˆ ıtre obteve, de forma independente, equa¸˜es equivalentes `s anteriormente obtidas co a por Friedmann. A rela¸˜o linear entre velocidade e ca distˆncia j´ encontrava-se nesse trabalho, antes mesmo a a ´ que Hubble a tornasse famosa. E curioso, mas somente em 1927, em uma conversa com Einstein, ele tomou conhecimento do trabalho de Friedmann. H´ a contudo uma diferen¸a de abordagem entre ele e Friedc mann. Lemaˆ ıtre procurou ir al´m de uma formula¸˜o e ca matem´tica, buscando sempre usar a f´ a ısica e a astronomia conhecidas na ´poca para descrever o universo. e Embora Friedmann o tenha precedido na descoberta de solu¸˜es expansionistas das equa¸˜es de Einstein, co co Lemaˆ teve o m´rito de conseguir despertar a aten¸˜o ıtre e ca da comunidade de f´ ısicos e astrˆnomos para as cono seq¨ˆncias f´ ue ısicas dessa descoberta, possivelmente por ter desenvolvido tamb´m uma forma¸˜o em astronomia. e ca Podemos considerar Lemaˆ um dos pais da cosmoloıtre gia f´ ısica, tendo ele desempenhado um papel fundamental, principalmente na d´cada de 30, no desenvolvimeto e de nossa compreens˜o do significado f´ a ısico de um universo em expans˜o. a

3.

Hubble e a expans˜o do universo1 a
“Years and decades have passed since Hubble´s classical work. There is no question that he was the greatest observational astronomer since Copernicus. The three enormously important things he did were: he discovered galaxies, he showed that they were characteristic of the

160

Waga

large-scale structure of the universe, and then he found the expansion. Any one of this is monumental and would secure his place in history.” Alan Sandage, sobre Edwin Hubble.

Uma quest˜o chave da astronomia no in´ a ıcio do s´culo passado era saber a natureza das nebulosas espie rais. Alguns astrˆnomos argumentavam que elas eram o um sistema de estrelas que nos circundam, enquanto outros defendiam a tese de que eram, sistemas semelhantes ` nossa pr´pria gal´xia por´m situadas bem a o a e mais distantes que as estrelas usuais. Em abril de 1920 houve um debate entre dois grandes astrˆnomos da ´poca, Herbert Curtis e Harlow o e Shapley, que entrou para a hist´ria da cosmologia. Uma o das quest˜es do debate era a natureza das nebulosas. o Curtis defendia o ponto de vista de que as nebulosas espirais s˜o gal´xias individuais, compar´veis em dia a a mens˜o e n´mero de componentes individuais ` nossa a u a pr´pria gal´xia. Shapley defendia o ponto de vista o a oposto, de que as nebulosas espirais s˜o simplesmente a objetos nebulosos, situados em nossa gal´xia. A disa puta n˜o foi resolvida naquele momento pois faltavam a dados precisos sobre nossa distˆncia `s nebulosas. a a Em 1923, ap´s uma s´rie de observa¸˜es de o e co Andrˆmeda, Edwin P. Hubble, o famoso astrˆnomo o o americano, observa nesta nebulosa espiral uma estrela vari´vel bem tˆnue que ele conclui tratar-se de uma a e estrela do tipo Cefeida. Em 1912, Henrietta Leavitt, astrˆnoma do Harvard College Observatory, mostrou o existir uma correla¸˜o entre a luminosidade absoluta ca m´dia de estrelas vari´veis Cefeidas e o per´ e a ıodo de oscila¸˜o da intensidade da luz vinda delas. A corca rela¸˜o ´ no sentido de que quanto maior o per´ ca e ıodo entre dois m´ximos (variando de alguns dias at´ algumas sea e manas) maior a luminosidade absoluta. Observando-se o per´ ıodo de varia¸˜o de uma estrela Cefeida, os reca sultados de Leavitt permitem inferir sua luminosidade absoluta. Assim, como a intensidade da luz cai com o inverso do quadrado da distˆncia, podemos determia nar a distˆncia de uma estrela Cefeida medindo sua a luminosidade aparente e estimando sua luminosidade absoluta atrav´s da observa¸˜o do per´ e ca ıodo. Usando a t´cnica desenvolvida por Leavitt, Hubble pode detere minar a distˆncia ` Andrˆmeda e concluir que esta ´ a a o e bem maior que o raio da Via L´ctea. Ele pode cona cluir, portanto, que Andrˆmeda ´ uma gal´xia espiral o e a semelhante ` nossa gal´xia e que, como sabemos hoje, a a encontra-se a uma distˆncia aproximada de 2 milh˜es a o de anos luz (o raio da gal´xia ´ de aproximadamente a e 50.000 anos luz). Em 1901, Vesto M. Slipher, um jovem astrˆnomo o ent˜o com 25 anos, foi contratado para trabalhar no a Observat´rio Lowell no Arizona (EUA). Durante mais o de 10 anos Slipher analisou o espectro da luz vinda

de estrelas e nebulosas. Em 1912 ele percebeu que as linhas espectrais de Andrˆmeda estavam no lugar ero rado, deslocadas para o azul, isto ´, para a regi˜o do e a espectro de menores comprimentos de onda. Medindo o deslocamento espectral ele conseguiu determinar a velocidade de Andrˆmeda em rela¸˜o ` Terra. Isso foi o ca a poss´ devido ao fenˆmeno denominado efeito Doppler ıvel o - nome dado em homenagem a Christian Doppler, cientista austr´ ıaco que o descobriu.em 1842. O efeito Doppler ´ aquele que permite um radar parado na e estrada determinar a velocidade dos carros que passam. O efeito ocorre n˜o apenas com ondas sonoras a mas tamb´m com ondas eletromagn´ticas (como a luz e e vinda de uma gal´xia). A distˆncia entre duas cristas a a de uma onda (comprimento de onda) medida por um observador ´ menor (deslocamento para o azul - som e agudo) quando a fonte emissora aproxima-se do observador do que quando a fonte est´ parada. Quando a a fonte afasta-se do observador o comprimento de onda medido por ele ´ maior (deslocamento para o vermelho e - som grave). Para a radia¸˜o eletromagn´tica temos ca e (ve << c): z= λobservado − λemitido ve = , λemitido c (1)

na qual c ´ a velocidade da luz, λobservado ´ o come e primento de onda observado, λemitido ´ o comprimento e de onda no referencial da fonte, ve ´ a velocidade da e fonte (em rela¸˜o ao observador) e z ´ o deslocamento ca e para o vermelho (“redshift”). Velocidades positivas indicam afastamento da fonte em rela¸˜o ao observador ca e correspondem a z positivo. A velocidade de Andrˆmeda estimada por Slipher o foi da ordem de 300 km/s. Em 1915 ele j´ tinha 40 mea didas de espectro de nebulosas com 15 velocidades radiais estimadas, n´mero que sobe para 25 em 1917. Conu trariamente ao observado para Andrˆmeda, a grande o maioria apresentava velocidades positivas. Por exemplo, das 41 nebulosas com redshift medido em 1923, apenas 5 (incluindo Andrˆmeda) aproximavam-se da o Terra. A velocidade das nebulosas era considerada muito alta, em m´dia mais de 20 vezes as velocidades e t´ ıpicas encontradas para estrelas. Os valores obtidos estavam compreendidos entre 200 e 1.100 km/s. Em 1929, usando medidas de “redshifts” feitas por Milton Humason, Hubble observou a existˆncia de uma e rela¸˜o linear entre o desvio para o vermelho e a ca distˆncia, isto ´, cz = H0 d, onde H0 ´ a chamada consa e e tante de Hubble. A rela¸˜o acima s´ ´ v´lida para peca oe a quenas distˆncias ou pequenos desvios para o vermelho. a No c´lebre trabalho de Hubble de 1929 as gal´xias mais e a afastadas distavam aproximadamente quatro milh˜es o de anos luz. Para essas distˆncias, ou mesmo para as a maiores, a lei acima ´ perfeitamente v´lida. Usando e a ent˜o a Eq. (1) que relaciona velocidade e desvio para a

1 Esta se¸ao baseia-se no artigo “A expans˜o do universo” de I. Waga, ao qual nos referimos para uma descri¸˜o mais detalhada sobre c˜ a ca o tema.

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o s´culo XXI e

161

o vermelho (v´lida para baixas velocidades), ve = cz, a chegamos a rela¸˜o: ca ve = H0 d. (2)

Quando verificamos os dados usados por Hubble em 1929, percebemos que n˜o era claro que a rela¸˜o ena ca tre o desvio para o vermelho (velocidade) e a distˆncia a fosse, de fato, uma rela¸˜o linear. Esses dados n˜o ca a permitiam excluir, por exemplo, a possibilidade de que esta rela¸˜o fosse quadr´tica. Contudo, esses mesmos ca a dados permitiam concluir que havia um aumento sistem´tico da velocidade de afastamento com a distˆncia, a a o que sugere a expans˜o do universo. Em um universo a est´tico dever´ a ıamos esperar, estatisticamente, que houvesse tanto velocidades de afastamento como de aproxima¸˜o, isto ´, deveria-se medir desvios para o vermelho ca e ´ com valores negativos e positivos. E claro que quando nos referimos a um universo est´tico estamos pensando a em um universo que em m´dia ´ est´tico, e n˜o um que e e a a ´ totalmente, ou rigorosamente, est´tico. Assim, emboe a ra a possibilidade te´rica de um universo em expans˜o o a tivesse sido considerada pela primeira vez por Friedmann, foi Hubble quem nos mostrou ser a expans˜o a uma propriedade do universo real. A rela¸˜o entre velocidade e distˆncia, como ca a definida acima, s´ ´ v´lida para baixas velocidades ou oe a pequenas distˆncias. A Lei de Hubble, por outro lado, a escrita como: v(t) = H(t) d(t) ´ sempre v´lida. Ela ´ conseq¨ˆncia da homogeneie a e ue dade e isotropia do universo. Homogeneidade significa a equivalˆncia de todos os pontos do espa¸o e isotropia e c a igualdade, em um determinado ponto, de todas as dire¸˜es. Mas se todos os pontos s˜o equivalentes, isso co a implica na igualdade de todas as dire¸˜es em qualquer co ponto. Assim, n˜o podemos apontar para uma dire¸˜o a ca e dizer que l´ encontra-se o centro do universo. Tama pouco estamos no centro do universo. A verdade ´ que e n˜o h´ centro do universo, ou melhor todos os pontos a a s˜o centrais. Talvez a id´ia de que o universo possua a e um centro tenha sua origem na imagem que fazemos ´ do big-bang. E comum pensarmos na grande explos˜o a como uma granada que explode no ar e cujos fragmentos espalham-se no espa¸o. Essa imagem, na verdade, c possui alguns aspectos corretos e outros n˜o. a Voltando ` quest˜o anterior. Como podem todos a a os pontos ser centrais? Se recorrermos a imagem de um bal˜o sendo inflado podemos supor que as gal´xias a a sejam pequenas moedas uniformemente distribu´ ıdas e coladas na superf´ desse bal˜o. Nesse exemplo ´ preıcie a e ciso desprezar a espessura das moedas e supor que o universo esteja restrito ` superf´ a ıcie bidimensional do bal˜o,ou seja, somos seres bidimensionais vivendo na a superf´ do bal˜o. Ao inflarmos o bal˜o, as moedas ıcie a a (gal´xias) se afastam umas das outras, mas como est˜o a a

uniformemente distribu´ ıdas em sua super´ ıcie, podemos nos situar sobre qualquer uma delas que veremos sempre o mesmo quadro. Isto ´, todas as moedas s˜o equie a valentes (homogeneidade) e sendo o bal˜o esf´rico, toa e das as dire¸˜es s˜o equivalentes (isotropia) em qualquer co a ponto. Al´m disso, qualquer moeda pode ser tomada e como centro, pois a distribui¸˜o das outras moedas em ca torno dela ´ esfericamente sim´trica. e e Outro aspecto ilustrativo do exemplo acima ´ que e embora as moedas afastem-se umas das outras devido a ` expans˜o do bal˜o, como s˜o feitas de metal n˜o aua a a a mentam de tamanho. O mesmo ocorre com as gal´xias a ou, em uma escala menor, com o pr´prio sistema solar. o A Terra ou os planetas n˜o se afastam do Sol por conta a da expans˜o do universo e nem os ´tomos ou as c´lulas a a e do nosso corpo. Em todos esses casos h´ outras for¸as a c envolvidas que tornam o efeito da expans˜o do universo, a nessas escalas, totalmente desprez´ ıvel. Sob esta ´tica ´ o e correta a imagem do universo como fragmentos de uma granada afastando-se uns dos outros. Os fragmentos mantˆm a forma. No exemplo da granada, h´ contudo, e a uma diferen¸a importante com rela¸˜o ao universo, j´ c ca a que a “expans˜o” (o aumento da distˆncia entre os fraga a mentos) acontece dentro de um espa¸o vazio e est´tico, c a ou seja, ao se “expandir” os fragmentos ocupam uma regi˜o cada vez maior do espa¸o tri-dimensional que os a c cont´m. Isso n˜o ocorre com o universo. O universo ´ a e a e totalidade e portanto n˜o est´ se expandindo dentro de a a um espa¸o vazio e est´tico que o cont´m. Nesse sentido c a e nos parece inadequada a pergunta: “para onde est´ o a universo se expandindo?”. Embora bastante comum ela ´ inadequada pois pressup˜e que exista algo externo ao e o universo. A interpreta¸˜o dos resultados de Hubble de que ca o universo est´ em expans˜o, foi prontamente aceita a a pela maioria dos cientistas. Contudo, algumas interpreta¸˜es alternativas, como as baseadas na chamada co “hip´tese da luz cansada”, foram tamb´m propostas. o e Por exemplo, Fritz Zwicky, astrˆnomo sui¸o, nascido o c na Bulg´ria em 1898, propˆs, ainda em 1929, ap´s a a o o publica¸˜o do trabalho de Hubble, um novo mecanismo ca de arrasto gravitacional, pelo qual f´tons (part´ o ıculas de luz), n˜o seriam apenas defletidos mas tamb´m, perdea e riam energia e momentum para o meio material gerador do campo gravitacional. Zwicky sugeriu que o desvio para o vermelho da luz das gal´xias n˜o seria causado a a pela expans˜o do universo e sim, uma conseq¨ˆncia a ue desse arrasto, que geraria uma diminui¸˜o na frequˆncia ca e (ou aumento do comprimento de onda) dos f´tons ` o a medida que eles viajassem das gal´xias distantes at´ a e n´s. Quanto mais distante a gal´xia maior a perda de o a energia, e portanto maior o desvio para o vermelho, de tal forma que, segundo ele, a lei distˆncia vs. desvio a para o vermelho poderia ser explicada atrav´s desse e mecanismo. Uma conseq¨ˆncia dessa teoria ´ que a ue e varia¸˜o da largura das linhas de emiss˜o e absor¸˜o ca a ca com a distˆncia seriam bem distintas, o que n˜o foi a a

162 comprovado. Assim, essa proposta, bem como outras alternativas surgidas ` ´poca, mostraram-se artificiais a e e foram abandonadas. Embora incorreto em rela¸˜o ` expans˜o do unica a a verso, Zwicky fez uma descoberta important´ ıssima no in´ ıcio da d´cada de 30. Em 1933, ele mostrou que e a mat´ria vis´ e ıvel como a luz emitida pelas estrelas, constitui uma fra¸˜o muito pequena de toda a mat´ria ca e do universo. Ao medir as velocidades radiais (vr ) de oito gal´xias no aglomerado de Coma e estimar a disa pers˜o de velocidade2 , σr = a (vr − vr )
2

Waga

, obteve

de palestras intituladas “Fundamentos Matem´ticos a da Teoria da Relatividade”, na Universidade de S˜o a Petersburgo, um jovem de vinte anos sentou-se nas primeiras filas e assistiu as palestras com m´xima a aten¸˜o. Era George Antonovich Gamow, que anos ca mais tarde ofereceria contribui¸˜es t˜o fundamentais co a a ` cosmologia que o tornaram, assim como Friedmann e Lemaˆ ıtre, um dos “pais” do modelo padr˜o da a cosmologia3 . Um fato curioso ´ que Gamow planee jara ter Friedmann como seu orientador, o que acabou n˜o ocorrendo devido ` inesperada morte de Friedmann a a em setembro de 1925. Gamow nasceu em Odessa (Russia) e bem cedo teve seu interesse despertado pela astronomia. Contudo, n˜o foi como astrˆnomo que deu sua maior contribui¸˜o a o ca a ` cosmologia, e sim como f´ ısico nuclear. Gamow deixou a Uni˜o Sovi´tica em 1934, estebelecendo-se nos Estaa e dos Unidos, indo para a Universidade George Washington. Gamow e seus colaboradores, especialmente Ralph Asher Alpher e Robert Herman, centraram o foco de sua pesquisa em como descrever os est´gios iniciais de a evolu¸˜o do universo. Buscaram estudar o universo prica mordial usando f´ ısica nuclear de alta energia. A partir da d´cada de 30, com as descobertas do nˆutron (n), e e do deut´rio (D) (um is´topo pesado do hidrogˆnio que e o e consiste de um pr´ton e um nˆutron) e do p´sitron (a o e o anti-part´ ıcula do el´tron), a f´ e ısica nuclear obteve um grande desenvolvimento. Progressos importantes foram realizados por Gamow e seu grupo no final da d´cada de e 40 e in´ dos anos 50, na busca de uma solu¸˜o para ıcio ca um problema que guarda sua origem na d´cada de 20. e Nessa ´poca, uma das quest˜es centrais em astrof´ e o ısica era saber como se formaram os elementos qu´ ımicos. O modelo sugerido por Gamow e seus colaboradores para o universo primordial ´ simples. Ap´s o bige o bang, ou seja, ap´s um instante inicial explosivo, o unio verso seria constituido de uma mat´ria que eles denoe minaram “ylem” (derivado de“hylo” que em grego significa substˆncia). Nos primeiros modelos, o “ylem” a consistiria de nˆutrons e f´tons de alta energia (neue o trinos foram depois incorporados). Supondo uma alta taxa de intera¸˜o dos f´tons com a mat´ria (quando ca o e comparada com a taxa de expans˜o do universo), o a equil´ ıbrio poderia ser mantido. Assim seria poss´ ıvel fazer inferˆncias sobre a densidade da mat´ria e a teme e peratura do universo nessa fase inicial de sua evolu¸˜o. ca Os nˆutrons inicialmente decaem (decaimento β) em e pr´tons (p), el´trons e anti-neutrinos. Os pr´tons, em o e o

´ um valor surpreendentemente elevado. E curioso que o resultado obtido por Zwicky nessa amostra, seja bastante semelhante aos valores modernos, algo em torno de 1.000 km/s. Com este valor para σr ele concluiu que a densidade m´dia de mat´ria no aglomerado de e e Coma ´ 400 vezes maior do que a densidade estimada e atrav´s da observa¸˜o de mat´ria luminosa. Na vere ca e dade, Zwicky usou em seus c´lculos o valor aceito na a ´poca para a constante de Hubble (H0 ), aproximadae mente oito vezes maior que o valor atualmente aceito. De qualquer forma, mesmo que tivesse usado o valor atual de H0 , ele teria obtido para a densidade m´dia de e mat´ria um valor 50 vezes (e n˜o 400) maior do que a e a densidade m´dia de mat´ria luminosa. Assim, ele pˆde e e o concluir que a mat´ria luminosa por si s´ n˜o ´ capaz de e o a e manter o aglomerado de Coma como um sistema gravitacionalmente ligado, o que significa que existe nesse aglomerado, uma grande quantidade de mat´ria n˜o e a luminosa (que Zwicky chamou de “dunkle materie”). Essa foi a primeira evidˆncia da existˆncia de mat´ria e e e escura. Alguns anos mais tarde, em 1936, ao estudar o aglomerado de Virgo, Sinclair Smith confirmou os resultados obtidos por Zwicky. Como veremos a seguir, a maior parte dessa mat´ria escura n˜o pode ser constie a tuida de b´rions (pr´tons e nˆutrons) e deve ter uma a o e natureza ex´tica. o

4.

A forma¸˜o dos elementos leves ca
“Gamow was fantastic in his ideas. He was right, he was wrong. More often wrong than right. Always interesting; ... and when his idea was not wrong it was not only right, it was new.” Edward Teller, sobre George Gamow

Em 1924, quando Friedmann apresentou uma s´rie e
2 Aqui 3O

o s´ ımbolo ... representa o valor m´dio da quantidade. e modelo padr˜o da cosmologia ´ tamb´m, com frequˆncia, chamado de modelo do big-bang. H´ uma raz˜o hist´rica para isso. a e e e a a o Entre 1940 e 1965, existiu uma grande rivalidade entre duas teorias cosmol´gicas; a chamada teoria do “Estado Estacion´rio” e a o a chamada teoria do big-bang. Segundo a teoria do “Estado Estacion´rio” n˜o h´ uma evolu¸˜o global do universo nem tampouco um a a a ca instante inicial de cria¸˜o. Bondi, Hoyle, Narlikar e outros defensores dessa teoria, advogavam a id´ia de um universo frio, que sempre ca e foi e sempre ser´ o mesmo. Eles eram partid´rios do chamado “Princ´ a a ıpio Cosmol´gico Perfeito”, segundo o qual o universo n˜o seria o a homogˆneo apenas espacialmente, mas tamb´m no tempo. Por outro lado, a teoria do big-bang, da qual Gamow foi um dos principais e e art´ ıfices, defendia que o universo teve uma fase inicial muito densa e quente. Com o tempo, a chamada teoria do big-bang mostrou-se superior, sendo hoje considerada o “Modelo Padr˜o da Cosmologia”. Contudo, preferimos aqui n˜o usar a terminologia “teoria do a a big-bang” ou “modelo do big-bang”, pois sugerem um in´ ıcio explosivo para o universo o que n˜o ´, necessariamente, verdadeiro. a e

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o s´culo XXI e

163

um processo de captura radiativa, ent˜o se fundiriam a com os nˆutrons remanescentes no “ylem”, formando e deut´rio. Uma vez tendo deut´rio, h´lio (3 He - 2 e e e pr´tons e 1 nˆutron; 4 He - 2 pr´tons e 2 nˆutrons) o e o e seria formado atrav´s de uma sequˆncia de processos. e e Tipicamente ter´ ıamos: D + D → 3 He + n, seguido por 3 4 He+D → He+p. A id´ia era que, atrav´s de procese e sos sucessivos de fus˜o e decaimento, semelhantes ao a descrito acima, todos os elementos qu´ ımicos mais pesados poderiam ser formados. Ocorre, contudo, que n˜o a h´ n´cleos atˆmicos est´veis com n´mero de massa4 a u o a u cinco e oito e, apesar das diversas tentativas de Gamow e seu grupo em contornar essa lacuna, o esquema falha. Na verdade, no caso de estrelas, esse tipo de dificuldade para a forma¸˜o de elementos mais pesados que o ca h´lio j´ havia sido mencionada por Hans Bethe, em seu e a famosos trabalho de 1939, sobre a produ¸˜o de energia ca em estrelas. Na d´cada de 50 observa¸oes mostraram que a e c˜ abundˆncia de elementos pesados ´ significativamente a e maior em estrelas velhas, o que estimulou novos estudos sobre esse problema. Importantes contribui¸˜es foram co dadas por Edwin E. Salpeter, Geoffrey e Margaret Burbidge, William Fowler e Fred Hoyle. Hoje sabemos que a forma¸˜o dos elementos qu´ ca ımicos ocorre em dois est´gios. No universo primordial formaram-se apenas a elementos leves, essencialmente hidrogˆnio, h´lio e um e e pouco de l´ ıtio. Os elementos mais pesados formaramse no interior das estrelas ou em explos˜es de supero novas. Os dados observacionais indicam que em torno de 75% da mat´ria bariˆnica do universo est´ na forma e o a de hidrogˆnio; h´lio constitui, aproximadamente, 25% e e desta mat´ria e os outros elementos qu´ e ımicos menos do que 1%. Quando somos informados desse fato pela primeira vez, em geral, ficamos muito surpresos, pois n˜o ´ esta a propor¸˜o a que estamos acostumados em a e ca nosso cotidiano. Sabemos hoje que o modelo proposto por Gamow e colaboradores n˜o ´ correto em detalhes significativos. a e Por exemplo, o universo n˜o come¸ou em um estado em a c que s´ haviam nˆutrons. Em altas energias o n´mero o e u de pr´tons e nˆutrons ´ o mesmo. Al´m disso, nˆutrons o e e e e convertem-se em pr´tons (e esses em nˆutrons) n˜o o e a apenas via decaimento, mas principalmente atrav´s da e intera¸˜o com el´trons, p´sitrons, neutrinos e antica e o neutrinos. V´rios f´ a ısicos foram respons´veis por proa gressos importantes desvendando como ocorreu a nucleos´ ıntese primordial. Entre eles destacamos: C. Hayashi (Jap˜o), R.A. Alpher, R. Herman e J.W. Follin a (Estados Unidos), Ya B. Zeldovich (Russia), F. Hoyle e R.J. Tayler (Inglaterra) e P.J.E. Peebles (Estados Unidos). A partir do trabalho pioneiro de Gamow
4 N´ mero u 5 Para

esses autores, e outros que os seguiram (D.N. Schramm, G. Steigman e M.S. Turner), mostraram que a nucleos´ ıntese primordial constitui um dos grandes sucessos da cosmologia padr˜o. a A id´ia de que o universo primordial foi dominado e pela radia¸˜o (f´tons, neutrinos e outras esp´cies reca o e lativ´ ısticas), s´ surgiu em 1948 em um trabalho de o Gamow e Alpher. Base do modelo padr˜o da cosmoloa gia essa importante descoberta implica que o universo primordial era quente e que esfriou devido ` expans˜o. a a A densidade de energia da radia¸˜o ´ proporcioanal a ca e temperatura elevada ` quarta potˆncia. Grosso modo, a e no intervalo de tempo em que uma escala cosmol´gica o dobra de tamanho devido ` expans˜o, a temperatura a a ´ da radia¸˜o diminui para a metade de seu valor. E ca claro que para extrairmos conclus˜es confi´veis sobre o a eventos ocorridos no universo primitivo ´ necess´rio ter e a dispon´ ıvel uma f´ ısica que seja v´lida em altas enera gias (ou temperaturas). Resultados de experimentos em grandes aceleradores de part´ ıculas indicam que at´ e energias da ordem de 1 GeV (um giga eletrons-volt ou 109 eV; ´ a energia que adquire um el´tron ao ser acelee e rado por uma diferen¸a de potencial de um bilh˜o de c a volts), que corresponde a uma temperatura aproximada de 1, 16 × 1013 graus Kelvin, a f´ ısica ´ bem conhecida. e Para energias entre 1 GeV e 100 GeV, podemos dizer que a f´ ısica ´ razoavelmente conhecida. Para energias e acima de 100 GeV as previs˜es dependem do modelo de o f´ ısica de part´ ıculas adotado e acima de 1015 GeV s˜o a muito especulativas. Para energias acima de 1019 GeV a pr´pria gravita¸˜o precisa ser quantizada, mas ainda o ca n˜o h´ teoria para isso. a a A seguir apresentaremos, de forma simplificada, um esquema de como ocorreu a nucleos´ ıntese primordial5 de acordo com o MPC. As energias de liga¸˜o dos ca quatro primeiros n´cleos leves, deut´rio, tr´ u e ıtio (3 H) (1 pr´ton e 2 nˆutrons), 3 He e 4 He, s˜o, respectivao e a mente, 2,22 MeV (MeV, um milh˜o de eletrons-volt), a 6,92 MeV, 7,72 MeV e 28,3 MeV. Assim, quando a temperatura6 do universo atingiu esses valores deve-se esperar que a forma¸˜o desses n´cleos foi favorecida. Na ca u verdade, devido ao fato de que a raz˜o entre a densia dade num´rica de b´rions (nb ) e a densidade num´rica e a e de f´tons (nγ ) no universo ´ muito pequena (η ≡ o e nb /nγ ∼ 10−9 ) a forma¸˜o desses elementos ocorreu a ca uma temperatura (TN ) um pouco mais baixa (TN 109 graus Kelvin, ou energias m´dias de 0,1 MeV). Como o e n´mero de f´tons ´ muito grande, mesmo que seja eneru o e geticamente poss´ formar n´cleos de deut´rio (que ´ ıvel u e e necess´rio para formar h´lio) para T a e 2, 22 × 1010 graus Kelvin (energias m´dias de 2,22 MeV), muitos e f´tons ainda ter˜o energia suficiente para desassociao a

total de nucleons, isto ´, o n´ mero de pr´tons mais o n´ mero de nˆutrons. e u o u e uma descri¸˜o detalhada sugerimos, o excelente livro de Steven Weinberg, Os Trˆs Primeiros Minutos. ca e 6 A seguir suporemos que a constante de Boltzman (k ) ´ igual a unidade, de tal forma que um grau Kelvin ´, aproximadamente, e B e igual a 8.62 × 10−5 eV . Suporemos ainda que a velocidade da luz c ´ tamb´m igual a unidade, de tal forma que tanto massa como e e temperatura podem ser expressas em unidade de energia.

164 los. Temos ainda que: 1) a temperatura em que ocorreu a nucleos´ ıntese ´ bem menor que 1 GeV e pore tanto estamos em uma faixa de energia em que a f´ ısica ´ bem conhecida; 2) Os f´tons s˜o dominantes nessa e o a ´poca. Embora a massa do pr´ton (mp 1000 MeV), e o seja um pouco menor do que a massa do nˆutron (mn ) e (Q = mn −mp = 1, 293 MeV), como os f´tons s˜o muito o a mais numerosos (η ∼ 10−9 ), eles dominavam, apesar de possuirem uma energia m´dia menor que a massa dos e b´rions. a Quando a temperatura do universo era da ordem de 5 × 1011 graus Kelvin (energias m´dias de 50 MeV), e sabemos que estavam presentes as seguintes part´ ıculas: nˆutrons, pr´tons, f´tons, el´trons, p´sitrons, neutrie o o e o nos do el´tron e do m´on e suas anti-part´ e u ıculas. Essas part´ ıculas mantinham equil´ ıbrio atrav´s das intera¸˜es e co fraca e eletromagn´tica. A essa temperatura a raz˜o e a entre a densidade num´rica de nˆutrons (nn ) e a de e e pr´tons (np ), nn /np = exp[−Q/T ], era da ordem da o unidade. S´ foi poss´ o ıvel manter essas densidades de equil´ ıbrio, atrav´s da intera¸˜o fraca, at´ uma teme ca e peratura da ordem de Tc 1010 graus Kelvin (energias m´dias de e 1 MeV). Ap´s a temperatura do o universo chegar a Tc , a raz˜o nn /np , que era ent˜o a a aproximadamente igual a 1/6, foi congelada e s´ pˆde o o ser alterada devido ao decaimento do nˆutron. A nue cleos´ ıntese ocorreu muito rapidamente quando o universo atingiu a temperatura TN 109 graus Kelvin e, a esta temperatura, devido ao decaimento do nˆutron, a e raz˜o entre o n´mero de nˆutrons e o n´mero de pr´tons a u e u o tinha diminuido para o valor nn /np = 1/7. Nessa temperatura deut´rio pode ser formado rapidamente, assim e como tr´ e 3 He. Grande parte do deut´rio e de 3 He ıtio e converteu-se em 4 He. Supondo que a grande maioria dos nˆutrons terminaram em 4 He, e como cada n´cleo e u de 4 He possui dois nˆutrons, n˜o ´ dif´ concluir que e a e ıcil 2nn /np a fra¸˜o da massa total de 4 He ´ igual a Y = 1+nn /np . ca e Assim, com nn /np = 1/7, obtemos que Y = 0, 25, que significa que aproximadamente 25% da mat´ria e bariˆnica no universo est´ na forma de h´lio. A medida o a e que as rea¸˜es que convertem deut´rio e tr´ em h´lio co e ıtio e prosseguem a fra¸˜o da massa total dessas quantidades ca diminui, o que leva a taxa dessas rea¸˜es a ficarem peco quenas de tal forma que a abundˆncia desse elementos a congela em aproximadamante 10−5 (deut´rio) e 10−4 e (tr´ ıtio). Como vimos acima, a produ¸˜o de elemenca tos mais pesados que o 4 He, envolvendo, por exemplo, dois n´cleos de h´lio ou h´lio e hidrogˆnio, ´ suprimida u e e e e pois n˜o h´ is´topos est´veis com n´mero de massa 5 a a o a u ou 8. Al´m disso, rea¸˜es do tipo 4 He +4 He +4 He e co →12 C s˜o pouco prov´veis. Pequenas quantidades a a (10−10 − 10−9 ) de l´ 7 (7 Li, 3 pr´tons e 4 nˆutrons) ıtio o e s˜o ainda produzidas, por exemplo, atrav´s da rea¸˜o a e ca
7 Em

Waga

He +3 H →7 Li. Vimos acima que a abundˆncia de 4 He depende crua cialmente da raz˜o nn /np quando a temperatura do a universo era igual TN 109 graus Kelvin. Esta raz˜o, a por sua vez, depende de dois fatores: 1) do valor de nn /np em Tc , temperatura da radia¸˜o no instante em ca que a intera¸˜o fraca n˜o foi mais capaz de manter o ca a equil´ ıbrio; 2) da meia vida do nˆutron. O equil´ e ıbrio deixa de existir quando a taxa de rea¸˜o (Γ ∝ T 5 ), resca pons´vel pela inter-convers˜o entre nˆutrons e pr´tons, a a e o e que diminui a medida que o universo expande, ´ igual e a taxa de expans˜o (H ∝ KT 2 - onde K depende do a n´mero de part´ u ıculas relativ´ ısticas que contribuem para a densidade de energia da radia¸˜o). Havendo, nessa ca ´poca, um n´mero maior de esp´cies relativ´ e u e ısticas, a temperatura Tc seria mais elevada e, consequentemente, maior o valor da taxa de expans˜o do universo (e, pora tanto, da raz˜o nn /np ) quando ele se encontrava a esta a temperatura. Assim, o universo atinge a temperatura TN mais rapidamente, e, portanto, o nˆutron ter´ e a menos tempo para decair, implicando em um aumento da raz˜o nn /np em TN e, consequentemente, uma maior a abundˆncia de 4 He. Este resultado ´ importante pois a e a princ´ ıpio nos permite impor limites ao n´mero de u fam´ ılias (tipos) de neutrinos (ou de outra esp´cie relae tiv´ ıstica). Portanto, vemos que a importˆncia da nua cleos´ ıntese primordial n˜o se restringe apenas ` cosa a mologia, pois ela tamb´m ´ capaz de impor restri¸˜es ` e e co a pr´pria f´ o ısica de part´ ıculas elementares. Como argumentamos, al´m de 4 He, a nucleos´ e ıntese primordial permite, atrav´s de c´digos computacionais e o elaborados, quantificar tamb´m as abundˆncias de D, e a 3 He e 7 Li. Os resultados dependem, essencialmente, de um unico parˆmetro: a quantidade de b´rions no uni´ a a verso ou, de forma equivalente, do parˆmetro η, definido a acima. Ao compararmos as observa¸˜es com as preco vis˜es te´ricas, ´ preciso considerar que as abundˆncias o o e a primordiais desses elementos podem ter sido alteradas pela produ¸˜o (ou destrui¸˜o) dos mesmos em procesca ca sos astrof´ ısicos ocorridos ap´s a nucleos´ o ıntese primordial (em estrelas, por exemplo). Acredita-se que as abundˆncias de elementos leves em regi˜es no unia o verso de baixa metalicidade (regi˜es pobres em caro bono, nitrogˆnio, oxigˆnio etc) s˜o representativas das e e a abundˆncias primordiais. Existe uma concordˆncia ena a tre teoria e observa¸˜es se a raz˜o entre o n´mero de co a u b´rions e o n´mero de f´tons estiver compreendida ena u o tre 3.4 × 10−10 < η < 6.9 × 10−10 . Isso implica o limite, 0.02 Ωb 0.05.7 , para o parˆmetro de densia dade dos b´rions Os b´rions no universo encontram-se a a hoje, principalmente, sob a forma de g´s em aglomea rados de gal´xias e em estrelas. Os resultados da a nucleos´ ıntese primordial indicam que os b´rions cona tribuem, no m´ximo, com 5% da densidade cr´ a ıtica
2

4

cosmologia ´ comum expressarmos a densidade de energia do universo em unidades de uma densidade cr´ e ıtica, ρc = 3H0 ∼ 8πG −29 h2 g/cm3 , onde G ´ a constante universal da gravita¸ao e h ´ aqui a constante de Hubble em unidades de 100 km/s 1, 88 × 10 e c˜ e −1 . Aqui Ω = ρb , ´ a raz˜o entre a densidade de b´rions e a densidade cr´ Mpc e a a ıtica. b ρ
c

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o s´culo XXI e

165

(ρc ). Como mencionado na se¸˜o anterior, desde a ca d´cada de 30 com Zwicky, h´ indica¸˜es de que exise a co te uma grande quantidade de mat´ria n˜o luminosa e a na escala de gal´xias e aglomerados. Diferentes tipos a de observa¸oes convergem para um valor em torno de c˜ 30% de ρc para a densidade dessa mat´ria escura. Cone cordˆncia com a nucleos´ a ıntese primordial implica, portanto, que a maior parte da mat´ria escura n˜o ´ constie a e tuida de b´rions e, consequentemente, possui uma naa tureza ex´tica. Entender qual ´ a natureza da mat´ria o e e escura n˜o bariˆnica ´ um das quest˜es em aberto da a o e o cosmologia atual.

obtendo resultados que variaram entre 5 graus Kelvin e 50 graus Kelvin. Entretanto, em nenhum dos trabalhos desse per´ ıodo foi sugerido observar essa radia¸˜o ca e nem fica claro que ela poderia ser observada. Alpher e Herman afirmaram posteriormente que na ´poca eles e foram informados por r´dio astrˆnomos que n˜o exisa o a tiam condi¸˜es t´cnicas para detect´-la. Entretanto, co e a segundo alguns autores, essas condi¸˜es existiam e o co intrigante ´ ent˜o entender porque passaram-se quase e a vinte anos para sua observa¸˜o. ca A caracter´ ıstica principal da RCF ´ que ela ´ e e uma radia¸˜o de corpo negro9 , cuja temperatura ´ ca e 2, 725 graus Kelvin. Embora altamente isotr´pica, a o RCF possui pequenas anisotropias intr´ ınsecas e uma anisotropia dipolar. Essa anisotropia dipolar, da ordem de ∆T /T ∼ 10−3 , decorre do movimento da Terra (v ∼ 370 km/s) em rela¸˜o ao referencial no qual a RCF ca seria isotr´pica. Das anisotropias intr´ o ınsecas da RCF, que s˜o da ordem de ∆T /T ∼ 10−5 , muita informa¸˜o a ca pode ser extraida. ´ E claro que, se o universo se expande, no passado as gal´xias estavam mais pr´ximas umas das outras do a o que elas est˜o hoje. As distˆncias no universo dimia a nuem quando voltamos no tempo, a sua densidade aumenta e ele torna-se mais quente. Poder´ ıamos voltar no tempo at´ uma ´poca em que as part´ e e ıculas que constituem o universo estivessem t˜o pr´ximas umas das a o outras que a pr´pria no¸˜o de gal´xia perderia sentido. o ca a Voltemos ent˜o at´ a ´poca em que a mat´ria no unia e e e verso estava sob a forma de um plasma de hidrogˆnio, e isto ´, havia el´trons, pr´tons, alguns n´cleos leves mas e e o u n˜o ´tomos de hidrogˆnio. Havia tamb´m f´tons que a a e e o interagiam fortemente com os el´trons atrav´s do espae e lhamento Compton. O livre caminho m´dio dos f´tons e o era muito pequeno, de tal forma que se pud´ssemos e olhar o universo naquela ´poca, seria como se ese tiv´ssemos olhando-o atrav´s de uma densa neblina. Os e e el´trons quando tentavam combinar-se com os pr´tons e o para formar ´tomos de hidrogˆnio eram sempre ima e pedidos por f´tons de energia superior ` energia de o a liga¸˜o do ´tomo de hidrogˆnio (13, 6 eV). Quando a ca a e temperatura do universo, que ca´ devido a expans˜o, ıa a chegou a aproximadamente 3.000 graus Kelvin, isto ´, e quando a idade do universo era de 300.000 anos, os f´tons n˜o possu´ o a ıam mais energia suficiente para manter o hidrogˆnio ionizado. Formaram-se ent˜o ´tomos e a a neutros e os f´tons seguiram a partir da´ livres, sem ino ı teragir com a mat´ria. Essa ´poca ´ chamada de recome e e bina¸˜o, e a regi˜o a partir da qual os f´tons seguiram ca a o livres ´ chamada de superf´ de ultimo espalhamento. e ıcie ´

5.

A radia¸˜o c´smica de fundo8 ca o
“Arno and I of course were happy to have any sort of answer to our dilemma. Any reasonable explanation would have probably made us happy. In fact, I do not think that either of us took the cosmology very seriously at first. ... So I thought that we should report our result as a simple measurement: the measurement might be true after the cosmology was no longer true” Robert W. Wilson, “Discovery of the cosmic microwave background”

Como vimos, em 1948 Gamow e Alpher sugeriram a id´ia de que o universo primordial foi dominado por e radia¸˜o. Uma componente remanescente dessa raca dia¸˜o ´ constituida de f´tons, que formam hoje o que ca e o chamamos de radia¸˜o c´smica de fundo (RCF) de mica o croondas. Esta radia¸˜o foi descoberta acidentalmente ca em 1964 pelos r´dio-astrˆnomos americanos Arno Allan a o Penzias e Robert Woodrow Wilson, dos Laborat´rios o Bell. Publicaram no Astrophysical Journal seus resultados e no mesmo volume seus compatriotas R.H. Dicke, P.J.E. Peebles , P.G. Roll e D.T. Wilkison, que estavam montando uma antena para detectar essa radia¸˜o, apresentaram a interpreta¸˜o correta do obserca ca vado, isto ´, a de que Penzias e Wilson haviam detece tado uma radia¸ao remanescente do in´ do universo. c˜ ıcio A existˆncia da RCF j´ havia sido prevista no final da e a d´cada de quarenta por Gamow e seu grupo. Em 1948, e Alpher e Herman calcularam pela primeira vez a temperatura que essa radia¸˜o teria hoje. O valor obtido, 5 ca graus Kelvin, ´ bastante pr´ximo ao valor aceito atuale o mente ( 3 graus Kelvin). At´ meados da d´cada de 50, e e tanto Gamow como Alpher e Herman fizeram algumas estimativas da temperatura dessa radia¸˜o de fundo ca
8 Parte 9 Chama-se

desta se¸˜o basia-se no artigo “A expans˜o do universo” de I. Waga. ca a radia¸˜o de corpo negro aquela produzida em uma cavidade fechada, isolada e que se encontra a uma temperatura unica forme T. As paredes da cavidade e a radia¸˜o est˜o em equil´ ca a ıbrio e ambas est˜o a essa mesma temperatura. As propriedades da radi¸˜o a ca dependem apenas da temperatura, e a distribui¸˜o de sua intensidade como fun¸˜o do comprimento de onda ´ chamada de distribui¸˜o ca ca e ca de Planck. Embora a forma dessa distribui¸˜o seja sempre a mesma, o pico depende da temperatura. Quanto maior a temperatura ca menor o comprimento de onda onde ocorre o pico da distribui¸ao. Uma estrela como o Sol, por exemplo, pode ser modelada por um c˜ corpo negro. Sendo a temperatura superficial do Sol aproximadamente igual a 5500 graus Kelvin, o pico de sua radi¸˜o ocorrer´ para ca a um comprimento de onda de ∼ 5300 angstrom. Por isso ´ que vemos o Sol amarelo. e

166 Esses f´tons, que seguiram praticamente livres ap´s a o o recombina¸ao, ´ que constituem a RCF detectada por c˜ e Penzias e Wilson. O importante ´ que os f´tons, el´trons e pr´tons, e o e o antes da recombina¸˜o, estavam fortemente acoplados ca formando portanto, efetivamente, um unico fluido. As´ sim, os f´tons ap´s desacoplarem carregam com eles o o a informa¸˜o de como era o universo `quela ´poca. ca a e A existˆncia de inomogeneidades no fluido c´smico e o naquela ´poca, ir´ imprimir pequenas anisotropias na e a RCF, isto ´, ela n˜o ser´ perfeitamente uniforme, mas e a a existir˜o pequenas varia¸˜es em sua temperatura. De a co l´ para c´ a RCF apenas esfria devido ` expans˜o do a a a a universo, mas, se nenhum outro efeito as apagou, as anisotropias permanecem10 . A coleta, processamento e an´lise dessas anisotropias ´ um trabalho de grande a e dificuldade e que envolve hoje centenas de pessoas em todo o mundo. Esse trabalho tem nos dado informa¸˜es co preciosas sobre diversos parˆmetros cosmol´gicos. Um a o dos parˆmetros sobre o qual recai grande aten¸˜o ´ a a ca e curvatura espacial do universo. Como a RCF pode nos dar essa informa¸˜o? Em ca geral uma flutua¸˜o no espa¸o, como a da temperatura ca c da RCF, pode ser descrita atrav´s de uma superposi¸˜o e ca de modos normais. No espa¸o plano, podemos decomc por a flutua¸ao em ondas planas, tendo cada qual um c comprimento de onda λ. Como as flutua¸˜es de tempeco ratura s˜o muito pequenas (∆T /T ∼ 10−5 ), mostra-se a que os modos evoluem de forma independente uns dos outros e podem ser estudados separadamente. Os modos com grandes λ evoluem pouco. Isso se d´ porque a a microf´ ısica s´ pode atuar em escalas menores que o o horizonte de part´ ıcula11 . Assim, quando se observam anisotropias em grandes escalas angulares, de fato se est´ observando as anisotropias primordiais, isto ´ a e aquelas originadas bem no in´ do universo e sobre as ıcio quais a a¸˜o de processos f´ ca ısicos ainda n˜o se fez prea sente. J´ as escalas menores que o horizonte ` ´poca a a e da recombina¸ao sofrem a a¸˜o de duas for¸as. Por um c˜ ca c lado, a gravidade que tende a aumentar a flutua¸˜o, e ca por outro, a press˜o da radia¸˜o que se op˜e a isso. O a ca o resultado ´ que a flutua¸˜o oscila. Cada modo (comprie ca mento de onda) entra no horizonte em instantes distintos, e portanto inicia a oscila¸˜o em instantes diferentes. ca Al´m disso, a fase e o per´ e ıodo de oscila¸˜o s˜o distinca a tos tamb´m. No instante da recombina¸˜o, o modo que e ca atingir o m´ximo de sua amplitude contribuir´ para a a uma m´xima anisotropia. Um outro modo que ainda a n˜o chegou ao m´ximo ou cujo m´ximo tenha ocorrido a a a um pouco antes, dar´ uma contribui¸˜o menor. Assim, a ca o espectro da perturba¸˜o como fun¸˜o da escala anguca ca lar (θ comprimento de onda dividido pela distˆncia a a ` superf´ ıcie de ultimo espalhamento) apresentar´ um ´ a conjunto de m´ximos e m´ a ınimos. Mostra-se que o valor
10 Na 11 Horizonte

Waga

do comprimento de onda do modo cuja contribui¸˜o ´ ca e m´xima ´ independente de modelo cosmol´gico. Essena e o cialmente ele s´ depende da velocidade do som no fluo ido c´smico na ´poca da recombina¸˜o. Contudo, a o e ca distˆncia ` superf´ de ultimo espalhamento depende a a ıcie ´ da curvatura espacial. Por exemplo, essa curvatura nos modelos com curvatura espacial negativa tende a convergir as trajet´rias dos f´tons que deixam a superf´ o o ıcie de ultimo espalhamento em seu caminho at´ n´s. As´ e o sim, veremos o m´ximo das anisotropias em uma esa cala angular menor do que em um universo sem curvatura espacial. Portanto, a localiza¸˜o do primeiro ca pico do espectro nos d´ informa¸˜o sobre a curvatura a ca espacial do universo. Medidas recentes de anisotropias da RCF, realizadas com o sat´lite Wilkinson Microwave e Anisotropy Probe (WMAP), confirmaram observa¸˜es co anteriores indicando que o universo ´ aproximadamente e chato (sem curvatura espacial). Esse resultado possui um significado extraordin´rio pois, entre outras a coisas, confirma uma previs˜o do chamado cen´rio ina a flacion´rio do universo. a

6.

A infla¸˜o e as condi¸˜es iniciais no ca co universo primitivo
“At this point the focus of my career was very far from cosmology. ... Cosmology is for the most part a subfield of astrophysics, with the added drawback of being less developed than most branches of science. How much can we know, I asked my self, about the first seconds of the existence of the universe? At that time, cosmology seemed to me to be the kind of subject about which you could say anything you like – how could anyone prove you wrong?” Alan H. Guth, “The Inflationary Universe - The Quest for a New Theory of Cosmic Origins”

A d´cada de 70 para a f´ e ısica de part´ ıculas elementares, e a de 80 para a cosmologia foram marcadas por grandes desenvolvimentos. Esses dois campos da f´ ısica, antes quase desconexos, tornaram-se, a partir da d´cada de 80, cada vez mais interdepene dentes. Progressos em uma ´rea passaram a influena ciar diretamente a outra, trazendo como conseq¨ˆncia ue uma prof´ ıcua intera¸˜o entre cosm´logos e f´ ca o ısicos de part´ ıculas. Pelo lado da f´ ısica de part´ ıculas, as experiˆncias parecem confirmar que seu modelo padr˜o e a (SU (3)C ⊗ SU (2)L ⊗ U (1)Y ) descreve adequadamente as intera¸˜es at´ energias da ordem de 100 GeV. Seco e gundo o modelo padr˜o da f´ a ısica de part´ ıculas existem trˆs tipos de part´ e ıculas fundamentais: l´ptons (el´tron, e e m´on, tau e seus neutrinos), quarks e b´sons de gauge u o (f´ton, gl´ons, e as part´ o u ıculas W e Z). H´ tamb´m a a e

realidade algumas anisotropias na RCF s˜o tamb´m geradas ap´s o desacoplamento. a e o de part´ ıcula ´ a m´xima distˆncia, em um determinado instante, em que ´ poss´ e a a e ıvel existir conex˜o causal. Em geral a a distˆncia de horizonte ´ da ordem do chamado raio de Hubble c H −1 , onde H −1 ´ da ordem da idade do universo, naquele instante. a e e

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o s´culo XXI e

167

possibilidade de existir um quarto tipo de part´ ıcula, de spin zero, denominada Higgs, mas que ainda n˜o foi a observada. Os quarks e os gl´ons interagem atrav´s da u e intera¸˜o forte enquanto que os l´ptons, f´tons, W e Z ca e o (e os quarks tamb´m), interagem atrav´s de uma come e bina¸˜o das intera¸˜es fraca e eletromagn´tica. Apesar ca co e de bem sucedido, poucos f´ ısicos acreditam que o modelo padr˜o da f´ a ısica de part´ ıculas seja definitivo. Embora correto para as energias hoje acess´ ıveis, ele ´ bastante e complicado e, de certa forma, arbitr´rio. Por exema plo, em seu modelo mais simples, existem cerca de 20 parˆmetros livres! a A insatisfa¸˜o dos f´ ca ısicos de part´ ıculas levou-os a incorporar seu modelo padr˜o em esquemas mais sima ples, por´m mais amplos. Este ´ o caso das chamadas e e teorias de grande unifica¸˜o (TGU). A mais simples ca dessas teorias foi proposta em 1974 por H.M. Georgi e S.L. Glashow, ambos da Universidade de Harvard. A id´ia b´sica das TGU ´ que, acima de uma certa escala e a e de energia, as for¸as forte, fraca e eletromagn´tica esc e tariam unificadas em uma unica for¸a. Segundo essas ´ c teorias, existe um grupo de simetria que, em alt´ ıssimas energias, relaciona essas for¸as, de tal forma que quarks c podem transformar-se em l´ptons e vice-versa. Al´m e e disso, h´ ingredientes nessas teorias que permitem exa plicar porque no universo temos mais mat´ria do que e anti-mat´ria. Como no presente as intera¸˜es forte e e co eletro-fraca s˜o distintas, essa simetria foi quebrada em a algum instante da evolu¸˜o do universo. Assim, uma ca das conseq¨ˆncias das TGU ´ que o universo, ao esue e friar devido ` expans˜o, sofreu uma s´rie de transi¸˜es a a e co de fase. Outro aspecto que deve ser salientado ´ que as e TGU envolvem energias (≈ 1015 GeV) bem maiores que as obtidas nos modernos aceleradores. Um laborat´rio o natural para testar as predi¸˜es dessas teorias ´ o unico e verso primitivo no qual colis˜es com energias extremao mente elevadas ocorriam com frequˆncia. Esta tem e sido uma forte motiva¸˜o para os f´ ca ısicos de part´ ıculas voltarem-se para a cosmologia. Vimos nas se¸oes anteriores que o modelo padr˜o da c˜ a cosmologia ´ muito bem sucedido ao explicar o deslocae mento espectral para o vermelho da luz de gal´xias disa tantes, a existˆncia de uma radia¸˜o c´smica de fundo e e ca o a abundˆncia de elementos leves. Em todos esses casos, a os observ´veis e/ou processos f´ a ısicos envolvidos tiveram origem em uma ´poca em que a idade do universo era e superior a um segundo e sua temperatura inferior a 1010 graus Kelvin. Embora por si s´ este sucesso j´ seja eso a petacular, os desenvolvimentos em f´ ısica de part´ ıculas acima mencionados permitiram que f´ ısicos e cosm´logos o procurassem descrever as propriedades do universo para alt´ ıssimas escalas de energia ou instantes bem primordiais de sua evolu¸˜o (t ca 1s). O cen´rio inflacion´rio a a ´ um exemplo dessa busca. e Embora simples, o modelo padr˜o da cosmologia a apresenta tamb´m alguns “mist´rios”, ou ainda, como e e encontramos na literatura, “problemas cosmol´gicos”. o

Alan Guth, f´ ısico americano, atualmente no MIT, ao sugerir em 1979 o mecanismo para uma poss´ solu¸˜o ıvel ca para esses “enigmas” deu uma contribui¸˜o te´rica marca o cante ` cosmologia. O cen´rio inflacion´rio, como ficou a a a conhecida a proposta de Guth, de certa forma revolucionou o pensamento na cosmologia. Logo ficou claro que o cen´rio inflacion´rio original de Guth, apresena a tava dificuldades de implementa¸˜o. Novos modelos ca foram sugeridos por v´rios autores, entre eles Andrei a D. Linde (ent˜o na Instituto F´ a ısico Lebedev) e Paul J. Steinhardt (` ´poca na Universidade da Pensilvˆnia). ae a De acordo com o MPC, para descrever a fase inicial de evolu¸˜o do universo algumas hip´teses s˜o consideca o a radas. Por exemplo, admite-se homogeneidade espacial e isotropia, e que a gravita¸˜o ´ bem descrita pela ca e teoria da relatividade geral. Al´m disso, sup˜e-se que e o o universo primordial pode ser descrito como um g´s a quente em equil´ ıbrio t´rmico e que toda transforma¸˜o e ca no estado da mat´ria e da radia¸˜o ocorreu suavemente, e ca n˜o tendo um impacto significativo na hist´ria t´rmica a o e do universo. Em outras palavras, esta ultima hip´tese ´ o quer dizer que a expans˜o do universo ´ adiab´tica a e a (isentr´pica), isto ´, a entropia do universo n˜o ´ alo e a e terada significativamente por nenhum processo durante sua evolu¸˜o. Como veremos, esta hip´tese ´ drasticaca o e mente modificada pelo cen´rio inflacion´rio. a a O primeiro enigma do MPC ´ conhecido como o e problema da chateza (ou problema da entropia) do universo. Ele foi apresentado pela primeira vez por R.H. Dicke e P.J.E. Peebles, ambos da Universidade de Princeton, em 1979. Segundo o modelo padr˜o da cosmologia, o universo a possui curvatura espacial constante, que pode ser nula, positiva ou negativa. Como exposto anteriormente, em cosmologia ´ comum expressarmos a densidade de enere gia de qualquer componente existente no universo em unidades de uma densidade cr´ ıtica (ρc ). A raz˜o entre a a densidade de energia de uma componente (“i”) qualquer e a densidade cr´ ıtica ´ chamada de parˆmentro e a de densidade. Para denotar essa quantidade usamos ˆ a letra grega Omega ( Ωi = i / c ). Denotamos por ΩT OT AL , a soma do parˆmetro de densidade de toa das as componentes existentes no universo. Temos um universo espacialmente chato (curvatura nula) se ΩT OT AL = 1. Em um universo com curvatura espacial positiva temos ΩT OT AL > 1, e a curvatura espacial ´ e negativa se ΩT OT AL < 1. Em geral, a quantidade ΩT OT AL ´ uma fun¸˜o e ca do tempo. Por exemplo, se em um instante inicial arbitr´rio da evolu¸˜o c´smica temos ΩT OT AL > 1, a ca o mostra-se que, com o passar do tempo, o valor de ΩT OT AL aumenta, ou seja, a diferen¸a desta quantidade c para a unidade ´ sempre positiva e cada vez maior. No e caso em que o universo inicia com ΩT OT AL < 1, temos a situa¸˜o inversa, isto ´, ΩT OT AL diminui com o pasca e sar do tempo tendendo ao valor zero assintoticamente. Somente no caso em que ΩT OT AL ´ exatamente igual a e

168 unidade, esta quantidade n˜o varia com o tempo. Asa sim, ΩT OT AL = 1 representa um estado de equil´ ıbrio inst´vel, j´ que a existˆncia de qualquer pequeno desvio a a e do valor unit´rio tende a aumentar, em valor absoluto, a com o tempo. Mas qual ´ o valor de ΩT OT AL hoje? Sendo base tante conservadores, podemos dizer que o valor atual de ΩT OT AL est´ compreendido entre 0, 01 < ΩT OT AL < 2. a Considerando este intervalo, podemos ent˜o perguna tar qual era o valor de ΩT OT AL no in´ do universo? ıcio Um c´lculo simples mostra que quando a temperatura a do universo era, aproximadamente, igual a 1010 graus Kelvin (idade do universo da ordem de um segundo), ΩT OT AL era igual a unidade com uma precis˜o de a 15 casas decimais. Se formos mais para o in´ ıcio da evolu¸˜o c´smica, por exemplo, quando consideramos ca o uma idade para o universo de apenas 10−28 segundos, obtemos que ΩT OT AL era igual a unidade com uma precis˜o de 49 casas decimais! Entender porque o unia verso inciou sua evolu¸˜o com um valor para ΩT OT AL ca t˜o finamente ajustado ` unidade ´ justamente resolver a a e o problema da chateza do universo. Mostra-se ainda que resolver esse problema ´ equivalente a resolver o e chamado problema da entropia do universo, que consiste em responder a pergunta de porque a entropia (S) do universo, que segundo o MPC ´ constante, ´ t˜o e e a elevada (S > 1087 )! O segundo problema do MPC ´ conhecido como e o problema do horizonte, ou o problema da isotropia. O horizonte (de part´ ıcula) pode ser pensado como a m´xima distˆncia com a qual um observador, em um dea a terminado instante, pode ter conex˜o causal. De acordo a com a relatividade especial, sabemos que a m´xima vea locidade com que uma informa¸˜o pode se propagar ´ ca e a velocidade da luz. Suponhamos ent˜o que a idade do a universo seja 14 bilh˜es de anos e admitamos tamb´m, o e ´ para efeito de racioc´ ınio, que ele seja est´tico. E claro a que um f´ton que tenha sa´ em t = 0, em nossa o ıdo dire¸˜o, de uma regi˜o do universo que diste da Terra ca a mais do que 14 bilh˜es de anos luz, n˜o ter´ tido tempo o a a de chegar at´ n´s. Neste exemplo, a distˆncia de horie o a zonte ´ igual a 14 bilh˜es de anos luz e significa que n˜o e o a podemos ter acesso a nenhum tipo de informa¸˜o vinda ca de regi˜es mais distantes. Caso n˜o trabalh´ssemos o a a com a hip´tese de um universo est´tico e tiv´ssemos o a e levado em conta a expans˜o, o horizonte seria maior, a pois enquanto o f´ton viaja at´ n´s, a distˆncia que ele o e o a j´ percorreu, devido ` expans˜o do espa¸o, aumenta. a a a c Contudo, mesmo considerando a expans˜o, a distˆncia a a de horizonte n˜o ser´ muito maior do que o valor estia a mado no caso est´tico. a Na se¸˜o anterior vimos que a radia¸˜o c´smica de ca ca o fundo sofreu seu ultimo espalhamento quando a idade ´ do universo era de aproximadamente 300.000 anos.

Waga

Mostra-se que a distˆncia de horizonte, nesta ´poca, era a e da ordem de 600.000 anos luz. Vimos tamb´m, na se¸˜o e ca anterior, que a radia¸˜o c´smica de fundo ´ altamente ca o e isotr´pica, isto ´, a menos de pequenas inomogeneio e dades, sua temperatura ´ da ordem de 3 graus Kelvin e qualquer que seja a dire¸˜o apontada pela antena que ca a detecta. Acontece que, dois f´tons vindos de dire¸˜es o co opostas, sa´ ıram de regi˜es, na superf´ de ultimo eso ıcie ´ palhamento, que estavam separadas por uma distˆncia a cem vezes maior que a distˆncia de horizonte na ´poca! a e Isto significa que, no quadro usual do MPC, essas regi˜es ainda n˜o tinham tido tempo de se comunicar. o a O problema da isotropia ou do horizonte, ´ ent˜o ene a tender como regi˜es sem conex˜o causal naquela ´poca o a e poderiam gerar o que hoje nos chega com o mesmo tipo de informa¸˜o. Observe que os f´tons foram emitidos a ca o partir dessas regi˜es e seguiram livres, apenas esfriaram o devido ` expans˜o. Para ilustrar esse problema, supoa a nhamos que em uma sala de aula cheia de estudantes um professor pedisse que cada aluno, sem se comunicar com nenhum outro colega, escrevesse um n´mero qualu quer em um papel. Ap´s os pap´is serem entregues, o e ´ ele constata que todos os n´meros s˜o iguais. E dif´ u a ıcil ´ entender essa coincidˆncia! E mais razo´vel pensar que e a os estudantes estabeleceram alguma forma de comunica¸˜o antes de entrarem na sala. De forma an´loga, ca a no ˆmbito do MPC n˜o h´ uma explica¸˜o dinˆmica a a a ca a para a isotropia da radia¸˜o c´smica de fundo. ca o O terceiro problema do MPC que abordaremos ´ sue til e envolve alguns aspectos mais t´cnicos. Uma antiga e quest˜o da cosmologia ´ entender como as gal´xias (e a e a outra estruturas, como aglomerados de gal´xias) se fora maram. Desejamos saber, por exemplo, qual ´ a origem e das perturba¸˜es na mat´ria que posteriormente, por co e instabilidade gravitacional12 , cresceram e geraram essas estruturas. No ˆmbito do modelo padr˜o n˜o h´ uma a a a a explica¸˜o para a origem dessas perturba¸˜es na denca co sidade de energia. Esse problema torna-se mais agudo quando observamos que o espectro de flutua¸˜es de denco sidade precisa ter caracter´ ısticas especiais. Mas o que ´ exatamente esse espectro de flutua¸˜es de densidade? e co Para entender melhor o significado dessa quantidade, vamos denotar por ρ + δρ a densidade de energia em um ponto arbitr´rio do espa¸o. Aqui ρ ´ a densidade a c e m´dia de energia (fun¸˜o apenas do tempo) e δρ uma e ca pequena perturba¸˜o que varia de ponto a ponto. Tanto ca ρ como δρ, decrescem com o tempo devido ` expans˜o. a a Contudo, o contraste de densidade, que ´ a raz˜o δρ/ρ, e a em geral, cresce com o tempo. Da mesma forma que podemos decompor uma onda sonora (ou luminosa) em uma soma de ondas de forma conhecida, cada qual com um determinado comprimento de onda (λ), podemos decompor o contraste de densidade em uma soma de ondas planas, cada onda possuindo um certo valor para

12 A gravita¸˜o amplifica as inomogeneidades na distribui¸ao de mat´ria. Isto significa que se uma determinada regi˜o possui um ca c˜ e a densidade um pouco maior do que a m´dia, o campo gravitacional gerado por ela tende a atrair mais e mais massa para a regi˜o, e a aumentando a inomogeneidade.

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o s´culo XXI e

169

λ. O que chamamos de espectro de flutua¸˜es de denco sidade ´ a intensidade com que cada componente, com e comprimento de onda definido, contribui na soma que gera a perturba¸ao. Na d´cada de 70, antes do surgic˜ e mento da id´ia de infla¸˜o, Edward Harrison da Univere ca sidade de Massachusetts e o famoso f´ ısico russo Yakov B. Zeldovich, de forma independente, mostraram que o mais simples espectro de perturba¸˜es em acordo com co as observa¸˜es cosmol´gicas possui a caracter´ co o ıstica de ser invariante de escala. Este ´ um termo t´cnico que e e signifca que a contribui¸˜o de cada escala ´ a mesma, ou ca e de forma mais precisa, ´ a mesma quando a escala (come primeto de onda) ´ do tamanho do raio de Hubble13 . e Na literatura ´ comum encontrarmos um outro e problema do MPC que pode ser resolvido pelo cen´rio a ´ inflacion´rio. E o chamado problema da super-abundˆna a cia de monopolos magn´ticos. Esses monopolos s˜o e a previstos surgir se certos tipos de transi¸˜o de fase ca de grande unifica¸˜o ocorreram no universo primica tivo. Argumentos de causalidade imp˜em um limite o inferior para a densidade num´rica dessas part´ e ıculas. Mesmo considerando a dilui¸˜o desses objetos, devica do ao processo de aniquila¸˜o monopolo-antimonopolo, ca o resultado obtido est´ muito distante do que seria a aceit´vel pelas observa¸˜es. a co A seguir procuraremos descrever, de forma qualitativa, como o cen´rio inflacion´rio pode resolver os a a problemas cosmol´gicos acima mencionados. Uma o abordagem mais quantitativa e detalhada exigiria que entr´ssemos em aspectos t´cnicos que est˜o fora do esa e a copo deste texto. Alan Guth, no final da d´cada de 70, observou que e os problemas cosmol´gicos poderiam ser resolvidos se o a hip´tese de adiabaticidade da expans˜o do universo o a estivesse incorreta. Ele sugeriu um quadro no qual h´ a uma grande produ¸˜o de entropia logo ap´s a transi¸˜o ca o ca de fase de grande unifica¸˜o. Semelhante ao que obca servamos quando fervemos uma panela com ´gua, essa a transi¸˜o de fase ocorreria pela nuclea¸˜o e crescimento ca ca de bolhas da nova fase (fase de simetria quebrada) dentro da velha. Existe uma temperatura cr´ ıtica (que corresponde a energias da ordem de 1014 GeV) em que essa transi¸˜o sucederia. Contudo, ´ preciso que ca e este processo de transi¸˜o de fase seja lento para que ca os problemas cosmol´gicos possam ser resolvidos. Seo gundo o modelo de Guth, antes da transi¸˜o de fase, ca o universo entraria em uma fase de super-esfriamento e de expans˜o acelerada (infla¸˜o), na qual haveria um a ca crescimento exponencial de todas as distˆncias. Para a resolver os problemas cosmol´gico ´ necess´rio um fao e a tor de crescimento das distˆncias de pelo menos 28 ora dens de magnitude (1028 ). Nessa fase a temperatura do universo decresceria tamb´m exponencialmente, pelo e mesmo fator, e toda a mat´ria existente seria dilue ida. Finalmente a transi¸˜o de fase se completaria com ca

uma r´pida termaliza¸˜o do calor latente (energia do a ca v´cuo acumulada na parede das bolhas), e o universo a seria reaquecido a uma temperatura pr´xima ` temo a peratura cr´ ıtica. Ap´s a infla¸˜o o universo entraria na o ca fase de expans˜o usual desacelerada. A gera¸˜o de ena ca tropia ocorreria com o reaquecimento do universo e o problema da chateza seria tamb´m resolvido. Observae mos que, com o crescimento exponencial das distˆncias a na fase inflacion´ria, qualquer curvatura existente seria a tremendamente suprimida. O problema de horizonte (ou isotropia) seria tamb´m resolvido, pois a regi˜o que e a constituiria hoje o universo observ´vel, adviria de uma a regi˜o bem menor que o horizonte naquela ´poca e, pora e tanto, poderia estar causalmente conectada. O cen´rio inflacion´rio como proposto por Guth dea a pende para o seu sucesso de dois fatos. Em primeiro lugar ´ preciso que o universo infle por um intervalo e de tempo de pelo menos 10−32 segundos. Para isso, a taxa de nuclea¸˜o de bolhas deve ser inicialmente ca pequena. Caso contr´rio, a transi¸˜o de fase se coma ca pletaria rapidamente e n˜o daria tempo para que os a problemas cosmol´gicos fossem resolvidos. Em segundo o lugar, ´ necess´rio que ap´s o universo ter inflado sue a o ficientemente, a transi¸˜o de fase ocorra subitamente ca com uma r´pida termaliza¸˜o da energia. Infelizmente a ca essas duas condi¸˜es s˜o incompat´ co a ıveis. Mostra-se que existe um valor assint´tico para o raio da bolha da nova o fase que depende do instante em que ela ´ formada. e Quanto mais tarde ela se forma menor ´ esse raio. Ase sim, o intervalo de tempo necess´rio para resolver os a problemas cosmol´gicos impede que a transi¸˜o de fase o ca complete-se adequadamente. T´cnicamente diz-se que e n˜o h´ percola¸˜o, isto ´, ao final do processo, n˜o h´ a a ca e a a uma regi˜o finita consider´vel na fase de simetria quea a brada (nova fase), que pudesse constituir o que hoje ´ e o universo observado. O problema do cen´rio original descrito acima, de a uma volta bem sucedida ao est´gio de expans˜o dea a sacelerada, levou Linde e posteriormente Steinhardt e Andreas Albrecht a sugerirem um novo cen´rio inflaa cion´rio. Esses autores observaram que, sob certas a condi¸˜es especiais, a infla¸˜o poderia acontecer ap´s co ca o a transi¸˜o de fase. Nesse novo quadro, o universo ca teria emergido de uma unica bolha ou, mais exata´ mente, de uma unica regi˜o de flutua¸˜o. Tanto no ´ a ca cen´rio original como no novo cen´rio inflacion´rio, o a a a campo que dirige e gera a infla¸˜o ´ o campo de Higgs, ca e que ´ tamb´m respons´vel pela transi¸˜o de fase de e e a ca grande unifica¸˜o. Mostra-se, contudo, que para funca cionar o novo cen´rio inflacion´rio necessita que esse a a campo tenha intera¸˜es extremamente fracas, o que n˜o co a ´ natural nessas teorias. Assim, a principal cr´ e ıtica a esses modelos, ´ que estariamos simplesmente transe ferindo um ajuste fino na cosmologia para um ajuste fino na f´ ısica de part´ ıculas. Sem uma s´lida motiva¸˜o o ca

13 O raio de Hubble ´ um comprimento que varia com tempo e que ´ igual a velocidade da luz (c) dividida pelo parˆmetro de Hubble e e a (H).

170 na f´ ısica de part´ ıculas, os cen´rios inflacion´rios pera a dem grande parte de seu apelo. Os atuais modelos inflacion´rios, em geral, fazem uso de um campo escalar a cuja unica fun¸˜o ´ gerar a infla¸˜o. Embora n˜o exis´ ca e ca a ta um modelo inflacion´rio que possamos chamar de a “modelo inflacion´rio padr˜o”, a id´ia e o mecanismo a a e atrav´s do qual os problemas cosmol´gicos s˜o resolvie o a dos permanecem v´lidos. Acreditamos que no futuro, a com novos desenvolvimentos na f´ ısica de part´ ıculas de altas energia, seja poss´ encontrar um cen´rio inflaıvel a cion´rio satisfat´rio e bem motivado. a o

Waga

7.

A acelera¸˜o c´smica14 ca o
“A scientist commonly professes to base his beliefs on observations, not theories. Theories, it is said, are useful in suggesting new ideas and new lines of investigation for the experimenter; but “hard facts” are the only proper ground for conclusions. I have never come across anyone who carries this profession into practice – certainly not the hard-headed experimentalist, who is the more swayed by his theories because he is less accustomed to scrutinise them. Observation is not sufficient. We do not believe our eyes unless we are first convinced that what they appear to tell us is credible”. Arthur Eddington, “The Expanding Universe”

Uma quest˜o relevante que continua recebendo a grande aten¸˜o dos cosm´logos nesses ultimos anos, ´ ca o ´ e a quest˜o da acelera¸˜o c´smica. Isto ´, saber se a vea ca o e locidade de recess˜o das gal´xias est´ aumentando ou a a a diminuindo com o tempo. Observa¸˜es de supernovas co distantes sugerem que a expans˜o est´ acelerando. Isso a a n˜o significa contudo que a expans˜o do universo foi a a sempre acelerada. Na verdade o que as observa¸˜es co indicam ´ que o universo entrou em uma fase de acelee ra¸˜o mais recentemente e que no passado remoto a ca expans˜o era desacelerada. a Uma supernova ´ a explos˜o de uma estrela em uma e a fase final de evolu¸˜o. Existem alguns tipos distintos ca de supernovas, classificadas de acordo com as caracter´ ısticas do espectro da luz que emitem. As supernovas do tipo I s˜o aquelas que n˜o apresentam linhas a a de hidrogˆnio em seu espectro. Elas s˜o ditas do tipo e a Ia quando h´ fortes linhas de sil´ a ıcio. As supernovas do tipo Ia (SN Ia) s˜o ferramentas muito uteis em cosa ´ mologia: constituem o que costuma-se chamar de “vela padr˜o”. a Em termos de evolu¸˜o estelar, as SN Ia come¸am ca c em um tipo de estrela chamada “an˜ branca”. Uma a ´ an˜ branca ´ uma estrela muito densa. E como se toda a e a massa do Sol estivesse confinada em uma regi˜o do a tamanho da Terra. A estabilidade de uma an˜ branca a

´ resultado de um balan¸o entre a for¸a gravitacional e c c atrativa e uma for¸a repulsiva de origem quˆntica, que c a decorre do princ´ de exclus˜o de Pauli entre el´trons. ıpio a e Por conta disso uma an˜ branca n˜o pode ter qualquer a a massa. Existe um limite de massa, denominado “limite de Chandrasekhar” (que ´ igual a aproximadamente 1,4 e massas solares), acima do qual a repuls˜o quˆntica n˜o a a a consegue mais contrabalan¸ar a atra¸˜o gravitacional. c ca Em geral uma an˜ branca vai lentamente esfriandoa se e apagando. No entanto se ela fizer parte de um sistema bin´rio, pode come¸ar a acretar massa provea c niente de sua companheira tornando-se mais e mais densa. Esse ac´mulo de massa n˜o se mant´m inu a e definidamente: quando a estrela atinge o limite de Chandrasekhar, ela come¸a a colapsar violentamente. c Com o colapso o centro da estrela atinge temperaturas extremamente elevadas o que provoca o gatilho da cadeia de rea¸˜es termonucleares. Uma explos˜o terco a monuclear tem ent˜o in´ a ıcio e o material da estrela ´ e violentamente lan¸ado no espa¸o, chegando a atingir c c velocidades da ordem de 10.000 km/s. Temos ent˜o a uma SN Ia, que em seu referencial pode levar algumas semanas para atingir o m´ximo e alguns meses para a terminar. A principal caracter´ ıstica das SN Ia que as torna de grande importˆncia em cosmologia ´ a sua homogeneia e dade. Como elas sempre surgem devido a acre¸˜o de ca massa de an˜s brancas em sistemas bin´rios, essa homoa a geneidade ´ esperada. Outra caracter´ e ıstica importante das SN Ia ´ sua alta luminosidade. No pico ela atinge e cerca de dez bilh˜es de vezes a luminosidade do Sol. o Uma gal´xia como a nossa possui 100 bilh˜es de estrea o las, e portanto, o brilho de uma SN Ia ´ compar´vel ao e a de uma gal´xia. Essa propriedade, de ser muito lumia nosa, permite que possamos observar SN Ia a grandes distˆncias. As SN Ia apresentam tamb´m algumas dia e ficuldades. Por exemplo, as supernovas do tipo Ia s˜o a muito raras. Elas ocorrem a uma taxa de aproximadamente uma a cada 400 anos por gal´xia. Assim, para a observ´-las com uma certa frequˆncia, foi desenvolvida a e uma estrat´gia onde h´ o monitoramento de aproxie a madamente 100 campos de gal´xias, cada qual com mil a gal´xias. Al´m disso, supernovas n˜o s˜o propriamente a e a a objetos e sim eventos que ocorrem muito rapidamente. ´ E como um fogo de artif´ (como um sinal de localiıcio za¸˜o) que sobe ao c´u, brilha e que aos poucos apaga. ca e Uma SN Ia com desvio para o vermelho z ∼ 0.5, vista aqui na Terra, atinge o m´ximo em poucos dias e ap´s a o algumas semanas j´ n˜o ´ mais poss´ detect´-la nem a a e ıvel a com o mais potente telesc´pio. o Mas como ´ que as SN Ia podem nos indicar que o e universo est´ em expans˜o acelerada? A raz˜o ´ sima a a e ples. As distˆncias em um universo em expans˜o acelea a rada s˜o maiores do que em um universo que desacelera a ou expande-se com velocidade constante. Assim, se o

14 Parte desta se¸˜o basia-se no artigo “A Expans˜o do universo” de I. Waga, ao qual nos referimos para uma descri¸˜o mais detalhada ca a ca sobre o tema.

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o s´culo XXI e

171

universo estiver em expans˜o acelerada, supernovas disa tantes parecer˜o menos luminosas do que pareceriam se a a expans˜o do universo estivesse desacelerando-se. a Resumindo: o que medimos de uma supernova ´ o seu desvio para o vermelho e a sua luminosie dade aparente. A luminosidade intr´ ınseca ´ estimada e observando-se supernovas pr´ximas cujas distˆncias seo a jam conhecidas, por exemplo, atrav´s da observa¸˜o de e ca Cefeidas nas gal´xias onde essas supernovas aparecea ram. Observe que aqui a hip´tese de que as SN Ia foro mam um conjunto homogˆneo ´ crucial; caso contr´rio e e a n˜o poder´ a ıamos inferir a luminosidade intr´ ınseca das supernovas distantes usando supernovas pr´ximas. Nos o ultimos anos, dois grupos envolvidos na observa¸˜o e ´ ca an´lise de SN Ia, ap´s an´lise cuidadosa de amostras a o a com mais de duas centenas de supernovas observadas, chegaram a uma mesma conclus˜o. Estatisticamente a as supernovas distantes s˜o menos brilhosas do que se a esperaria em um universo expandindo-se, por exemplo, com velocidade constante. Esse resultado ´ extremae mente importante, ´ a primeira evidˆncia direta de que e e o universo est´ em expans˜o acelerada. No pr´ximo a a o par´grafo, descreveremos de forma sucinta uma cona firma¸˜o, totalmente independente, desse resultado e ca que constitui a segunda evidˆncia direta da acelera¸˜o e ca c´smica. o Alguns anos ap´s Hubble descobrir que as nebuo losas espirais eram de fato gal´xias, ficou claro que elas a n˜o se distribuem aleatoriamente no espa¸o, mas aprea c sentam uma tendˆncia ` aglomera¸˜o. Existem atue a ca almente mais de quatro mil aglomerados de gal´xias a catalogados. Esses aglomerados podem ser bem pequenos, como o nosso grupo local de gal´xias (que a possui ∼ 30 gal´xias), ou grandes, como os chamaa dos aglomerados ricos, que podem conter milhares de gal´xias. Nos ultimos anos, um esfor¸o consider´vel a ´ c a tem sido feito no sentido de determinar, de forma precisa, o conte´do material dos grandes aglomerados de u gal´xias. Esses aglomerados, s˜o as estruturas em a a grande escala que se formaram mais recentemente e os maiores sistemas gravitacionalmente ligados. A determina¸˜o do conte´do material desses aglomerados ca u ´ muito importante, pois suas propriedades devem se e assemelhar `s do universo como um todo. Tipicamente a a massa total de um aglomerado rico ´ da ordem de e 1014 − 1015 massas solares e, grosso modo, 80% dessa massa est´ na forma de mat´ria escura n˜o bariˆnica. O a e a o g´s quente que existe no meio intra-aglomerado, deteca tado atrav´s da emiss˜o em raios X, domina o conte´do e a u bariˆnico da massa do aglomerado. Ele possui seis o a sete vezes mais massa bariˆnica do que a encono trada nas gal´xias. Recentemente, pesquisadores da a Universidade de Cambridge na Inglaterra, obtiveram Mgas medidas precisas da fra¸˜o de g´s (fgas = Mtotal ) ca a em vinte e seis aglomerados em equil´ ıbrio, usando o sat´lite Chandra. Combinando as medidas de fgas com e estimativas do parˆmetro de densidade dos b´rions, a a

advindas da nucleos´ ıntese primordial, ´ poss´ e ıvel determinar o parˆmetro de densidade total da mat´ria. a e Na pr´tica, ao medir-se fgas adota-se um modelo cosa mol´gico como referˆncia. Tanto a teoria como as simuo e la¸˜es num´ricas, indicam que fgas n˜o deve depender co e a do desvio para o vermelho do aglomerado considerado. Como fgas depende da distˆncia e, como a distˆncia a a depende dos parˆmetros cosmol´gicos, se o modelo cosa o mol´gico de referˆncia for incorreto, o resultado das o e medidas indicar´ uma dependˆncia (varia¸˜o aparente) a e ca de fgas com o desvio para o vermelho. Steve Allen e colaboradores, do Instituto de Astronomia de Cambridge, usaram essa propriedade e confirmaram, de forma independente, os resultados obtidos com supernovas. O universo est´ em expans˜o acelerada. a a Mas o que pode estar causando a acelera¸˜o da exca pans˜o do universo? Essa ´ uma quest˜o crucial para a e a a qual ainda n˜o temos resposta. Na verdade temos a algumas respostas poss´ ıveis, mas as observa¸˜es atuco ais ainda n˜o permitem definir qual delas (ou quem a sabe alguma outra) ´ a adequada. Podemos dividir as e diversas possibilidades consideradas at´ agora em dois e grandes grupos. A alternativa mais radical ´ admitir e que a teoria de gravita¸˜o que usamos para analisar as ca observa¸˜es cosmol´gicas est´ incorreta ou incompleta. co o a Nesse grupo h´ ainda duas possibilidades. A primeira a modifica a teoria da gravita¸˜o de Einstein, acrescenca tando um novo termo que s´ seria relevante quando a o curvatura do espa¸o-tempo ´ suficientemente pequena, c e isto ´, mais recentemente na evolu¸˜o c´smica. A see ca o gunda possibilidade admite tamb´m uma modifica¸˜o e ca da gravita¸˜o, mas de uma forma mais extrema. Seca gundo essa teoria a acelera¸˜o c´smica ´ a manifesta¸˜o ca o e ca da existˆncia de uma dimens˜o espacial extra. Ame a bas possibilidades tem sido investigadas intensamente e embora existam dificuldades nessas teorias, elas claramente n˜o podem ser descartadas. a A alternativa mais conservadora ´ manter v´lida a e a relatividade geral de Einstein, mas admitir que exista uma componente ex´tica no universo que causa a aceleo ra¸˜o c´smica. A gravidade decorrente da mat´ria orca o e din´ria (pr´tons, el´trons, f´tons etc) ´ atrativa e pora o e o e tanto ela desacelera a expans˜o. Assim, ´ preciso uma a e outra for¸a ou alguma mat´ria com propriedades bem c e distintas da mat´ria usual para explicar esse fenˆmeno. e o A constante cosmol´gica (Λ), introduzida por Einstein o em seu primeiro modelo cosmol´gico, ´ o candidato o e mais popular capaz de gerar essa repuls˜o c´smica. a o Como vimos, ela foi introduzida nas equa¸˜es de campo co da relatividade geral para compatibiliz´-las com a id´ia a e de um universo est´tico. Mas como Λ pode gerar uma a expans˜o acelerada? Segundo a teoria Newtoniana da a gravita¸˜o a massa ´ a fonte de gravidade, e como esta ca e ´ positiva, a for¸a gravita¸ional ´ sempre atrativa. Para e c c e um fluido, por exemplo, o limite Newtoniano deixa de valer quando a press˜o ´ relativamente alta. Isso ocorre a e para fluidos cuja press˜o ´ da ordem da densidade de a e

172 energia. Nesses casos ´ preciso usar a teoria da relae tividade. Para a relatividade geral toda energia ´ fonte e de gravita¸˜o. De uma forma mais precisa, a “massa ca efetiva” que gera gravita¸˜o ´ proporcional a densidade ca e de energia mais trˆs vezes a press˜o. Assim, existindo e a uma mat´ria ex´tica com uma press˜o suficientemente e o a negativa, a “massa efetiva”, que gera gravita¸˜o ser´ ca a negativa e teremos repuls˜o gravitacional. A constante a cosmol´gica possui essa propriedade. o V´rias vezes na hist´ria da cosmologia moderna Λ a o foi introduzida quando havia uma discrepˆncia entre a teoria e observa¸˜es. Posteriormente, com a obten¸˜o co ca de melhores dados observacionais ou quando novas interpreta¸˜es surgiam essa constante era descartada por co uma quest˜o de simplicidade. N˜o ´ imposs´ que isso a a e ıvel ocorra novamente. Contudo h´ agora algo novo, que a precisa ser explicado, e que torna a quest˜o da consa tante cosmol´gica um dos problemas mais importantes o (e complicados) da f´ ısica de part´ ıculas e campos. Tratase da quest˜o da energia do v´cuo. a a Quando pensamos em v´cuo, a maioria de n´s assoa o cia essa id´ia ao espa¸o vazio, isto ´, a de um espa¸o dese c e c provido de qualquer mat´ria. Contudo, para o f´ e ısico de part´ ıculas a palavra “v´cuo” possui um significado disa tinto. Para ele v´cuo significa o estado de m´ a ınima energia de um sistema. Mas como pode o espa¸o vazio ter c energia? Segundo a mecˆnica quˆntica, todas as quana a tidades f´ ısicas tendem a flutuar, particularmente isso ocorre tamb´m com o estado de v´cuo. A teoria indica e a que, no estado de v´cuo, part´ a ıculas e antipart´ ıculas virtuais aparecem e desaparecem no espa¸o, contribuindo c assim para a sua energia. Em geral, fora da relatividade geral a energia do v´cuo n˜o ´ importante, pois podemos redefini-la a a e atrav´s de uma constante aditiva. Contudo, isso n˜o ´ e a e poss´ quando lidamos com a gravita¸˜o. Segundo a ıvel ca relatividade geral a gravita¸˜o ´ sens´ a toda forma ca e ıvel ´ de energia, inclusive a do v´cuo. E apenas no cona texto da gravita¸˜o descrita pela relatividade geral que ca podemos atribuir um valor ou significado absoluto ` a energia do v´cuo. Pode-se mostrar que a condi¸˜o a ca de que o estado de v´cuo seja independente do obsera vador inercial, implica que a sua contribui¸˜o ` gravica a dade tenha a mesma forma que a de uma constante cosmol´gica. Assim, a constante cosmol´gica efetiva, o o isto ´ o Λ que pode ser observado pelos testes cose mol´gicos, ´ a soma de dois termos. O primeiro termo o e ´ a chamada constante cosmol´gica nua, ou seja, um e o termo nas equa¸˜es, como o introduzido por Einstein co A segunda contribui¸˜o ´ a advinda da densidade de ca e energia do v´cuo. O problema ´ que essa contribui¸˜o a e ca ´ muito, mas muito maior que o limite observacional. e H´ uma discrepˆncia entre as estimativas te´ricas e a a o as observa¸˜es de um fator da ordem de 10120 , ou na co melhor das hip´teses de 1050 ! Sem d´vida, essa ´ a o u e maior divergˆncia conhecida entre teoria e observa¸˜o. e ca Isso pode significar que: 1) Existe uma esp´cie de cane

Waga

celamento (ou quase cancelamento) milagroso entre a constante cosmol´gica nua e a densidade de energia do o v´cuo. Esse extremo ajuste fino ´ inaceit´vel e precisaa e a ria ser explicado. 2)Existe alguma simetria ou mecanismo, que ainda n˜o conhecemos, e que leva a um cancea lamento da densidade de energia do v´cuo. Nesse caso, a como as observa¸˜es indicam uma expans˜o acelerada, co a alguma outra componente desempenharia o papel de Λ. Essa componente ´ chamada, genericamente, de energia e escura (ou quintessˆncia) e sua caracter´ e ıstica principal ´ apresentar uma press˜o efetiva negativa. e a Quando admitimos a existˆncia de uma componente e ex´tica respons´vel pela acelera¸˜o c´smica (e que pode o a ca o ou n˜o depender do tempo), nos deparamos com mais a duas quest˜es que precisam ser explicadas. A primeira o ´ conhecida como o problema da coincidˆncia c´smica e e o e consiste em entender porque o universo come¸ou a c se expandir de forma acelerada s´ mais recentemente. o Dito de outra forma; porque a densidade de energia da mat´ria escura e a densidade de energia da energia ese cura s˜o da mesma ordem de magnitude? Caso o valor a de Λ fosse dez vezes maior que a sua estimativa atual, o universo j´ teria iniciado a acelera¸˜o h´ muito a ca a mais tempo atr´s. Mostra-se, que nesse caso, n˜o havea a ria tempo para formar estruturas como gal´xias e seus a aglomerados. Caso Λ fosse dez vezes menor, n´s n˜o o a observar´ ıamos a acelera¸˜o c´smica e esta s´ poderia ca o o ser detectada em um futuro bem distante. No caso em que a componente ex´tica ´ uma constante cosmol´gica, o e o o problema da coincidˆncia c´smica confunde-se com o e o chamado problema das condi¸˜es iniciais. Isto ´, foram co e necess´rias condi¸˜es iniciais muito especiais no in´ a co ıcio do universo para que Λ come¸asse a dominar a dinˆmica c a da expans˜o s´ mais recentemente. Mostra-se que em a o certos modelos em que a energia escura ´ dinˆmica, h´ e a a solu¸˜es atratoras (chamadas de “tracking”) em que o co problema das condi¸˜es iniciais ´ reduzido. Contudo, co e isto s´ ocorre `s custas de ajustes de parˆmetros do o a a modelo, o que n˜o ´ o ideal. O problema da coincidˆncia a e e c´smica tamb´m pode ser aliviado admitindo-se uma o e intera¸˜o entre a energia escura e a mat´ria escura ou, ca e de uma forma mais radical, supondo que a mat´ria ese cura e energia escura s˜o manifesta¸˜es distintas de a co uma mesma componente (chamada de quartessˆncia). e Contudo para funcionar adequadamente, aqui tamb´m e ´ necess´rio introduzir-se no modelo uma escala de e a massa (ou energia). O desej´vel ´ que tiv´ssemos uma a e e teoria fundamental a partir da qual essa escala surgisse naturalmente. Nesse in´ ıcio de s´culo, a id´ia dominante entre os e e cosm´logos ´ que vivemos em um universo com curo e vatura espacial aproximadamente nula e com baixa densidade de mat´ria (Ωm ∼ 0, 3). Apenas ∼ 15% dessa e mat´ria ´ bariˆnica. H´ evidˆncias tamb´m, de que e e o a e e o universo possui uma componente com press˜o negaa tiva, uniformemente distribu´ e que contribui com ıda ∼ 70% para a densidade total de energia. Pouco sabe-

Cem anos de descobertas em cosmologia e novos desafios para o s´culo XXI e

173

mos sobre a natureza dessa componente. Na verdade, alguns cosm´logos questionam sua pr´pria existˆncia e o o e exploram a possibilidade de que a acelera¸˜o c´smica ca o ´ fruto de uma nova teoria de gravita¸˜o. H´ entre e ca a os cosm´logos um consenso de que futuros avan¸os deo c pendem de novas observa¸˜es bem como de uma comco preens˜o mais profunda de f´ a ısica fundamental. Na fase atual da cosmologia ´ importante continuar buse cando alternativas te´ricas capazes de explicar a aceleo ra¸˜o c´smica, por mais estranhas ou ex´ticas que elas ca o o possam parecer. No aspecto observacional ´ impore tante combinar diferentes testes e m´todos. Diferentes e testes cosmol´gicos est˜o sujeitos a diferentes erros siso a tem´ticos e podem vincular distintas regi˜es do espa¸o a o c de parˆmetros, combina-los ´ fundamental! As persa e pectivas s˜o boas de que, ainda nessa d´cada, grandes a e avan¸os ser˜o alcan¸ados no entendimento da natureza c a c da energia escura ou, de uma forma mais ampla, do que gera a acelera¸˜o c´smica. ca o

[4] J. Berenstein, Introduction to Cosmology (Prentice Hall, Englewood Cliffs, 1985). [5] B. Ryden, Introduction to Cosmology (Addison Wesley, San Francisco, 2003). [6] T.F. Jordan, astro-ph/0309756. [7] S. Weinberg, The First Three Minutes (Perseus Books, New York, 1993). [8] C.J. Hogan, The Little Book of the Big Bang: A Cosmic Primer (Springer Verlag, New York, 1998). [9] Cosmological Constants: Papers in Modern Cosmology, edited by Jeremy Bernstein and Gerald Feinberg (Columbia University Press, New York, 1986). [10] A.S. Sharov and I.D. Novikov, Edwin Hubble the Discoverer of the Big Bang (Cambridge University Press, Cambridge, 2003). [11] J. Silk, A Short History of the Universe (Scientific American Library, New York, 1994). [12] I. Waga, Revista Brasileira de Ensino de F´ ısica 22, 163 (2000). [13] L. Abbot, The Mystery of the Cosmological Constant, Scientific American, maio de 1988. [14] A. Guth, O Universo Inflacion´rio (Editora Campus, a Rio de Janeiro, 1997). [15] C.J. Hogan, R.P. Kirshner e N.B. Suntzeff, Surveying Space-Time with Supernovae, Scientific American, janeiro de 1999. [16] L.M. Krauss, Cosmological Antigravity, Scientific American, janeiro de 1999. [17] Ann K. Finkbeiner, Cosmic Yardsticks Sky and Telescope, setembro de 1998. [18] N.A. Bahcall, J.P. Ostriker, S. Perlmutter and P.J. Steinhardt, Science 284, 1481 (1999). [19] Ya B. Zel’dovich, Sov. Phys. Usp. 24, 216 (1981). [20] R.J. Adler, B. Casey and O.C. Jacob, Am. J. Phys. 63, 620 (1995). [21] S. Dodelson, astro-ph/9912470. [22] E. Chaisson and S. McMillan, Astronomy Today, 3rd edition (Prentice Hall, Upper Saddle River, 1999).

Agradecimentos
Gostaria de agradecer ao Vicente Pleitez pelo convite feito para que eu escrevesse essas notas. Agrade¸oc o tamb´m pela leitura cr´ e ıtica do manuscrito, pelas v´rias sugest˜es feitas e pela infinita paciˆncia com a o e os in´meros adiamentos na entrega final do texto. u Gostaria de agradecer ao Maur´ O. Calv˜o pelas suıcio a gest˜es e corre¸˜es feitas. Agrade¸o o CNPq pelo apoio o co c financeiro.

Referˆncias e
[1] E.R. Harrisson, Cosmology: The Science of the Universe, second edition (Cambridge University Press, Cambridge, 2000). [2] H. Kragh, Cosmology and Controversy: The Historical Development of Two Theories of the Universe (Princeton University Press, Princeton, 1996). [3] S.V.D. Bergh, astro-ph/9904251.