AÇÕES EDUCATIVAS: O MUSEU COMO ESPAÇO DE FORMAÇÃO ARTÍSTICO CULTURAL

Rosane dos Santos Cantanhede Kaplan rosanecantanhede@gmail.com Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), Campus São Gonçalo.

GT1: Ambientes de Cultura e o Ensino da Arte

Palavras-chave: Educação, Cultura, Artes Visuais.

RESUMO: O presente projeto de pesquisa encontra-se em andamento, tendo sido contemplado com duas bolsas pelo Programa Institucional de Iniciação Científica e Tecnológica (PIBIC JUNIOR 2011-2012) da Pró-reitoria de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação (PROPPI), do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ). Tem como foco de investigação, a contribuição dos museus e centros culturais como um espaço afetivo e democrático, promotores de operações de inclusão, significados simbólicos e trocas culturais. Para tal, estão sendo pesquisadas instituições culturais presentes nos municípios Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo, e suas respectivas atividades, no âmbito das artes visuais, tais como: exposições e mostras. A pesquisa tem como objetivo o incentivo à visitação a estes espaços através de Ações Educativas, no sentido de explorar o potencial que os bens preservados oferecem como recursos educacionais, no desenvolvimento das habilidades de observação, análise, atribuição de sentidos, contextualização e valorização do patrimônio, como parte do processo de iniciação no conhecimento, na fruição e na comunicação com o 1

mundo da arte. Além disso, pretende contribuir para a inserção ao circuito cultural destes municípios, e acesso às diferentes modalidades de artes visuais: pintura, escultura, fotografia, gravura, desenho, performance, instalações, arte digital, vídeo arte, design. O resultado do material pesquisado servirá de base para o desenvolvimento de material pedagógico a partir das atividades culturais, sendo divulgado através de um blog na internet, com vistas a abertura de um canal de interação com a comunidade interna do IFRJ, Campus São Gonçalo, e com o público em geral.

1. O MUSEU DE PORTAS ABERTAS

Popularmente conhecido como espaço depositório do antigo, o museu atual abre suas portas, reconfigurando-se não apenas no sentido de um local destinado à preservação, pesquisa e exposição, como também revelando sua potência no estímulo a apreciação cultural que se baseia tanto no convívio do público com esse espaço, como na abertura à experimentação para a arte contemporânea; “ponto afetivo dos habitantes, os museus passaram a desempenhar importante papel estratégico de inclusão social, criação de cidadania e perspectiva da melhoria do ambiente.” (CAVALCANTI, L. 2005:59) Essas mudanças se refletiram no perfil das exposições e na oferta de uma programação variada objetivando um público maior que busca no museu um espaço de cultura e lazer. Na visão de Rosane Maria Rocha de Carvalho:
“os museus mudaram, ampliaram as opções culturais para atrair um público sedento de informações e lazer ao mesmo tempo (...) abriram salas de cinema e teatro, restaurantes, livrarias, lojas de design e incluíram nas suas exposições novas tecnologias que atraem o público jovem, como CD-ROM, multimídia e elementos interativos que estimulam a participação dos visitantes.” (1998/99:163)

Dentro desse contexto artístico cultural, o estado do Rio de Janeiro inclui os centros culturais, que entram na disputa com os museus por um público leigo e interessado em arte e cultura. 2

Como espaço interdisciplinar, os centros culturais orientam-se na perspectiva de promoção, difusão e mediação das diferentes expressões artísticas: literatura, teatro, música, dança, cinema e artes visuais; sendo que não atuam na área de preservação e acervo como os museus. Observa-se assim, que a partir da década de 1980 surgem a cada ano novos centros culturais nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo, expondo um quadro ampliado das novas linguagens artísticas. Podemos destacar o pioneiro Paço Imperial, considerado um dos mais importantes monumentos da história pré-republicana brasileira, que vem atuando desde 1985 como Centro Cultural de Patrimônio e Arte Contemporânea. O Paço Imperial possui um rico espaço multicultural com programação diversificada de artes plásticas, cinema, teatro, música, biblioteca, atividades educativas, seminários e serviços de lojas e restaurantes, e ao longo das últimas décadas, constituiu-se em um espaço afetivo e democrático, promovendo operações de inclusão, significados simbólicos e trocas culturais. Para Lauro Cavalcanti, atual diretor do Paço Imperial, nesse processo de transformação, o museu assume o papel de abrigar a arte contemporânea e as novas linguagens, além de integrar as produções de acervos e coleções de patrimônio artístico-cultural. (2005:61)

1.1 Entre o Museu e a Escola

Em um cenário internacional, o Metropolitan Musem of Art de Nova York, vem realizando há quase quatro décadas, atividades artístico-pedagógicas através do seu Departamento de Educação, no intuito de criar um processo autônomo de compreensão e leitura dos objetos de arte, busca desenvolver uma alfabetização visual em jovens e adultos que o visitam. Para Randy Williams, a ideia de alfabetização visual para a leitura de um quadro é semelhante à ideia da leitura de um livro, “quando ensinamos a ler um livro, por exemplo, estamos capacitando o aluno a ler, e ele poderá, em seguida, escolher o que gosta.” (1998/99:82)

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Seguindo esse viés pedagógico, a maioria dos museus e centros culturais do município do Rio de Janeiro, como Centro Cultural Banco do Brasil, Casa França Brasil, Museu Nacional de Belas Artes dentre outros, programaram ações educativas destinadas a uma “alfabetização patrimonial”, para atender ao público em geral, alunos e professores da rede pública e particular.

Figura 1: Visita guiada com alunos da rede pública. Setor Educativo, MNBA, Rio de Janeiro. Fonte: Site oficial do MNBA.

O termo “educação patrimonial” surgiu há cerca de 30 anos no Brasil, “como síntese de uma proposta metodológica para uso educacional dos museus e monumentos; o ponto de partida dessa proposição é o conhecimento direto dos bens culturais, visando sua apropriação sensorial, intelectual e afetiva por parte

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dos indivíduos – crianças ou adultos – como instrumento de inserção e ação crítica no meio social.” (HORTA, L. M. P. 2005:221)

“O Museu Nacional de Belas Artes através de uma programação direcionada às escolas da rede pública e privada, grupos da sociedade organizados e ao público em geral, realiza suas visitas guiadas nas galerias do museu e atividades de interação e criatividade voltadas para uma ação educacional em Arte e Patrimônio Cultural”. (2011)

No sentido de suprir uma demanda crescente de visitantes, as instituições do circuito cultural do estado do Rio de Janeiro, buscam diminuir a distância entre o publico e as diferentes expressões em Artes Visuais, por meio das atividades pedagógicas integradas aos projetos das exposições. Elaboram projetos educativos no sentido de despertar junto ao público visitante a sensibilidade e a reflexão, assim como, uma maior compreensão dos processos e etapas que envolvem as produções artísticas. Deste modo, as ações educativas também visam contribuir para a formação complementar dos alunos que visitam o espaço museológico, travando um contato direto com o objeto ou obra de arte; em adição, facilitam aos professores o desenvolvimento de material didático a partir das exposições, para as atividades em sala de aula.

1.2 A Didática Expositiva

A norte-americana Discipline Based Art Education – DBAE desenvolveu nos anos 1980 uma abordagem que considera que o envolvimento com a arte, não se dá apenas através da elaboração dos objetos artísticos, mas pela aquisição de conhecimento da história da arte e pela capacidade de realizar julgamento crítico e estético. Seguindo essas teorias, Ana Mae Barbosa, considera que a história da arte e a apreciação artística, isto é, o ensinar a ver, não são mais encaradas na escola como um desvirginamento da expressão infantil, mas 5

como um dos modos de iniciá-la no conhecimento, na fruição e na comunicação do e com o mundo. (GRINSPUM, D. apud BARBOSA, A.M.1984:59) No sentido de decodificar esses códigos ao público leigo, inúmeras teorias foram desenvolvidas desde os anos 1980 criando metodologias aplicadas a perspectiva museológica. São teorias que se pautam no conhecimento sobre a teoria da compreensão estética (Abgail Housen) e apreciação estética (Housen, 1983; Ott, 1988; Parsons, 1992; Rossi, 1997), cuja dinâmica concentra-se na observação, analise, interpretação, contextualização e ressignificação do objeto artístico, e que se aplicam tanto ao espaço expositivo como à sala de aula, sendo que a diferença entre esses dois espaços reside na experiência, no contato direto com a obra. Nessa perspectiva, Maria de Lourdes Parreira Horta vem trabalhando com os princípios de educação patrimonial, e de uma metodologia que visa explorar e utilizar todo o potencial que os bens preservados oferecem como recursos educacionais, desenvolvendo as habilidades de observação, análise, atribuição de sentidos, contextualização e valorização do patrimônio. (GRISPUN, D. 2005:92)

1.3 O Cenário na Arte

Paralelamente à aplicação das novas pedagogias patrimoniais, observa-se a transformação dos espaços expositivos nos museus e centros culturais da cidade do Rio de Janeiro, voltados a atenderem as políticas de inclusão sociocultural. Executam exposições cenográficas, que partem de projetos desenvolvidos no intuito de levarem o grande público a uma experiência corporal, vivenciando o tema da exposição a partir de uma ambientação onde a obra se instala em um espaço que a seu turno busca expressar a própria obra. Esse ambiente projetado permite ao público visitante uma viajem através do tempo, travando contato sensorial com os conceitos subjacentes à expressão

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artística exposta. Visam desta forma, atrair um público cada vez maior ávido por novidades e entretenimento.

“Um bom exemplo disso foi a exposição das esculturas de Rodin no MNBA, em 1995, que em dois meses atraiu mais de 150 mil pessoas. Um recorde! Outra exposição que conseguiu o feito de atrair o maior número de visitantes ao Museu da República foi Fala Getúlio, que mostrou um amplo panorama das realizações do ex-presidente através de telões com multivisão, gravações de marchinhas, programas radiofônicos da época e muitos recursos de ambientação com acentuada iluminação teatral, que aumentava o poder de atração de objetos e documentos.” (CARVALHO, R.M.R. 1998/99:163)

Observamos que atualmente são raras as exposições nos moldes do “cubo branco”, o qual cria um ambiente que privilegia as paredes brancas, iluminação discreta e piso neutro, dando destaque à obra de arte. Grandes recursos são gastos com as equipes que participam do corpo curatorial na era das exposições e as montagens em formato “caixa preta”. “A arte transforma-se assim ao final do século XX, num show business, onde os museus passam a promover as mega exposições temáticas, seguindo o modelo dos espetáculos, num alto nível técnico e baixo conteúdo.” (BELTING, H. 2006:19). As mega exposições temáticas promovidas pelos grandes centros culturais e museus são vistas com reservas por alguns teóricos do meio artístico; entretanto, apresentam uma ferramenta metodológica que vem auxiliando o programa educativo a introduzir ao público em geral, os conteúdos teóricos das exposições. Certamente pode implicar em excessos, especialmente em casos onde o ambiente se sobrepõe à obra apresentada, causando confusões na analise do objeto artístico. Podemos citar a exposição “O mundo mágico de Escher”, no CCBB, Rio de Janeiro, entre janeiro e março de 2011, reunindo aproximadamente 92 obras do artista, além de documentários, vídeos e instalações interativas que requisitavam a participação dos visitantes ao universo ótico do artista. O centro cultural Banco do Brasil atraiu um fluxo intenso de visitantes, sendo que o excesso de público e os exageros decorativos dificultaram a fruição com

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as obras originais, impedindo uma análise contemplativa das gravuras e desenhos em pequeno formato.

Figura: Fila para entrar no CCBB, exposição "O mundo mágico de Escher", 2011. Fonte: Site oglobo.globo.com

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em um diagnostico parcial da pesquisa, percebemos um aprimoramento teórico e técnico por parte das equipes dos programas educativos destes três municípios; com destaque para os museus e centros culturais do Rio de Janeiro, pioneiros neste setor. O atendimento nestes locais aos visitantes e estudantes busca, de uma maneira geral, ampliar não somente o conhecimento artístico cultural, como

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revelar ao publico em geral a possibilidade de participação e pertencimento, na promoção das trocas sociais e inclusão sociocultural. Constatamos a importância deste setor responsável pelo serviço de mediação junto aos projetos das exposições, ressaltando a necessidade de investimentos em pesquisa, formação e treinamento aos profissionais dessa área. Apesar dos desníveis metodológicos e didáticos, no atendimento ao publico visitante, consideramos pertinente a educação patrimonial para o processo de formação artístico cultural extraclasse.

BIBLIOGRAFIA:

_ BARBOSA, A.M., COUTINHO, R. G. Arte/Educação como Mediação Cultural e Social. São Paulo: Editora UNESP. 2008. _BELTING, H. O fim da história da arte: uma revisão dez anos depois. São Paulo: Cosac & Naif, 2006. _ CARVALHO, Rosane Maria Rocha de Carvalho. O público invade os museus – é uma febre que se propaga? In: Cadernos de Memória Cultural. Rio de Janeiro: Museu da República, n. 4, 1998/99, p. 163-167. _ CASTILLO, Sonia Salcedo del. Cenário da Arquitetura da arte: montagens e espaços de exposições. São Paulo: Martins, 2008. _ CAVALCANTI, Lauro. O Quarteto Antropofágico: da Redescoberta ao Moderno e ao Contemporâneo, In: Museus, Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, N. 31, Brasília: MEC/IPHAN. 2005, p 59-73. _ DANTO, Arthur. Após o fim da Arte: A Arte Contemporânea e os Limites da História. Trad. Saulo Krieger. São Paulo: Odisseus Editora, 2006, p.162. ______________A Transfiguração do Lugar Comum. São Paulo: Cosac & Naif, 2005. _ O GLOBO (Rio de Janeiro). Oglobo.globo.com. Fila para entrar no CCBB para exposição "O mundo mágico de Escher". Figura 2. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/fotos/2011/03/27/27_PHG_RIO_FILA_NO_CCBB_ESCHE R.JPG>. Acesso em: 13 nov. 2011.

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_ GRINSPUM, Denise. Política Educacional do Museu Lasar Segal: Construções Poéticas e Inexauríveis. In: Museus, Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, N. 31, Brasília: MEC/IPHAN. 2005:89-99. _ JACOB, Mary Jane. Transformando exposição de arte em espaço público. In: Cadernos de Memória Cultural. Rio de Janeiro: Museu da República, n. 4, 1998/99, p. 22-27. _ JULIÃO, L. Apontamentos sobre a História do Museu. In: Caderno de Diretrizes Museológicas. 2a. Edição. Brasília: Iphan/ Secretaria de estado da Cultura de Minas Gerais. 2006. Disponível em: <http://www.museus.gov.br/sbm/publicacoes_caderno.htm > _ MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES (Rio de Janeiro) (Org.). Seção Educativa. Figura 1. Disponível em: <http://www.mnba.gov.br/>. Acesso em: 13 nov. 2011. _ WILLIAMS, Randy. Educação nos museus de arte. In: Cadernos de Memória Cultural. Rio de Janeiro: Museu da República, n. 4, 1998/99, p. 82.

MINICURRÍCULO: Rosane dos Santos Cantanhede Kaplan

Mestranda em Ciência da Arte pela UFF e bolsista da CAPES; graduada em Licenciatura em Educação Artística, com habilitação em Artes Plásticas, pelo Centro Universitário Metodista Bennett (2005). Atualmente é professora do ensino médio técnico do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, IFRJ, atuando na coordenação de extensão, em conselhos, grupos de trabalho e comissões desta instituição. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Artes Visuais, atuando na elaboração de projetos pedagógicos para exposições em museus e centros culturais, seus interesses de pesquisa são: história da arte moderna e contemporânea, estéticas e poéticas contemporâneas. Atua também como artista, exprimindo-se por meio de pinturas, fotografias e instalações.

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