GROOSLAND, de Maguy Marin

MAGUY MARIN, de onde veio e o que é o seu trabalho

Maguy Marin nasceu em Toulouse, em França, no dia 2 de Julho de 1951. Foi lá que começou o seu percurso na dança, tendo estudado ballet clássico no conservatório de Toulouse. Apesar de ter entrado no Ballet de Estrasburgo, Marin resolveu mudar um pouco a direcção da sua vida. Assim, entre 1970 e 1973 estudou na Mudra, escola recentemente estabelecida por Maurice Béjart, tendo-se juntado ao Ballet de Béjart – Béjart’s Ballet du XXième Siècle – como bailarina em 1972. O seu trabalho como coreógrafa começou em 1976, data em que criou a primeira coreografia para a companhia. Dois anos depois, e juntamente com Daniel Ambash, criou a sua própria companhia, Le Ballet Théâtre de l’Arche, que, mais tarde, foi renomeada, passando a Compagnie Maguy Marin. É considerada por muitos a “resposta francesa ao universo da dança-teatro”, principalmente devido ao facto de as suas peças serem marcados por elementos um tanto “alheios” à própria dança em si, como os visuais, vocais e/ou até ambientais. Se fizermos uma avaliação geral do trabalho da coreógrafa, podemos reparar que, ao longo dos anos, há uma constante mudança nos seus princípios artísticos, o que lhe permite abordar a dança através de diferentes ângulos e experimentar diferentes formas de expressão. Nos seus primeiros trabalhos, para além do vocabulário de movimento proveniente de uma combinação entre dança clássica e técnicas contemporâneas, as suas escolhas em termos de assunto reflectem a sua experiência como membro da Mudra e do Ballet de Béjart. É o caso de “May B.”, coreografia inspirada particularmente em algumas das mais significativas peças de Samuel Beckett1, com o objectivo de explorar e retractar os caminhos tortuosos das relações humanas, e que confirmou a sua eminência na dança contemporânea europeia. Também temos o exemplo de “Babel Babel”, já mais direccionado para os temas da religião/terrorismo, que lida com o contraste entre a linguagem simples de um mundo idealizado e original e as convenções restritivas e, por vezes, absurdas dos vários idiomas criados pelo Homem durante as diferentes eras da civilização. É ainda de ser lembrado que a junção de elementos teatrais com dança era, também, uma das características das performances de Béjart. Mais recentemente, Maguy Marin parece
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Samuel Barclay Beckett (13 de abril de 1906 - 22 Dezembro 1989). Romancista de vanguarda irlandês, dramaturgo, director teatral e poeta. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1969.

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No entanto.”. ligeiramente inapropriada. indubitavelmente. à crueldade inata das crianças e à sua visão de amor e paternidade. Marin encontrou o pretexto ideal para uma investigação psicológica sobre o mundo de uma criança. dependendo da sua compatibilidade com temas em particular ou com determinados momentos da acção. Se o seu vocabulário de dança é constante. o uso de movimentos rápidos e neuróticos reflectem a escrita de Samuel Beckett. musical ou culturar. estilo este que nasceu da combinação de técnica contemporânea e ballet moderno. Por sua vez. nomeadamente a sua capacidade de criar imagens tanto alegóricas como metafóricas e de conferir simbolismo aos seus projectos. são os diferentes tipos de gesto que representam as variantes que distinguem casa trabalho. há elementos que são recorrentes nas suas criações. os seus outros meios de expressão são usados apenas ocasionalmente. analisados a partir de uma perspectiva feminista. esse simbolismo não é de todo obscuro. Apesar do seu vocabulário de movimento variar consoante o contexto dramático. pois enquanto a linguagem da dança é comum a todos os seus projectos. na minha opinião. em “Babel Babel”. No que diz respeito a “Coppélia”. Por exemplo. “Coppélia” e. ao redescobrir o ballet – parte fundamental da sua formação e aprendizagem enquanto bailarina . tanto a nível técnica como em termos de estilo. são retratados vários estados da história da humanidade. mas constantes elementos que resulta uma complexa combinação de diferentes meios de expressão. intercalado com alguns movimentos angulares contrastantes e um uso predominante de gestos. Por exemplo. em “May B. mais importante ainda – pelo menos para este trabalho – “Groosland”. como também se passa no ecrã. um movimento importante no seu trabalho. Vários críticos de dança têm considerado Maguy Marin como sendo mais ”realizadora” do que propriamente coreógrafa. essa definição é. que para muitos pode ser apenas uma “versão gorda” do bailado “Cinderella”. O gesto é. a acção não só se passa no palco. em “Coppélia”. reflectindo apenas o alargado leque de temas que afectam/preocupam a artista. a coreógrafa pretende explorar os contrastes dos ideais eróticos masculinos. apesar de toda a diversidade de temas e de trabalhos. devido à presença de diversas vertentes do teatro no seu trabalho.em peças como “Cendrillon”. em “Cendrillon”. pois são somente uma adaptação pessoal daqueles que aprendeu e adquiriu na Mudra. o uso de máscaras tem como principal objectivo tentar transcender os limites da pantomima tradicional. fazendo referência. não é difícil reconhecer os princípios do estilo de Marin. enquanto em “Cendrillon” os gestos 2 .ter “voltado às origens”. Em “Cendrillon”. É a partir desses diferentes. No entanto. por exemplo. O seu movimento é sempre suave e fluído.

mais bonita era considerada. ainda. GROOSLAND.proporcionaram um retrato estilizado do comportamento físico das crianças. 3 . se és gorda. de extremos. no seguimento do lançamento da colecção do estilista Christian Dior. tens sucesso. É até ele que determina a imagem que temos de nós próprios e. nos anos 60. Os gestos. no entanto. és feia. se és gorda. saias 2 Modelo inglesa dos anos 60. é o equilíbrio entre os diversos elementos que forma a fórmula do sucesso das peças de Marin e que revela o seu profundo conhecimento das artes teatrais. se calhar. principalmente num mundo que cada vez mais se rege por estereótipos. a sua “versão gorda” do bailado “Cinderella”. mais dificilmente alcançarás alguma coisa na vida. aquilo que não podemos fazer. cuja figura dita que todas as mulheres sejam extremamente magras. É ele que decide aquilo que podemos fazer. com curvas. Não me lembro de quando é que o aspecto físico começou a definir aquilo que somos ou aquilo que conseguimos fazer. Como não podia deixar de ser. Em 1947. Se és magra.formas. em 1989. Ou. o padrão de beleza clássico regressa: mulheres belas. no fim da década de 80. o ideal de beleza feminino foi exigindo formas cada vez mais frágeis e estreitas. uma coreografia dançada por 18 bailarinos em fatos de formas corporais de pessoas gordas – ou seja. o ideal volta a incluir .embora a fineza da cintura se mantenha . nunca começou. Como o próprio ciclo da História indica. surge “Groosland”. nunca acabou. mas com um corpo de aparência saudável e. por vezes acusada de promover um ideal de corpo pouco saudável para as mulheres. O figurino inicial dos bailarinos consiste num fato de corpo obeso vestido num fato azul. aquilo que ele nos permite ou não fazer. numa altura em que Maguy Marin parecia gostar de trabalhar com distorções corporais 4. o que é e como nasceu O corpo é o nosso instrumento principal. que. a partir daí. a imagem que os outros têm de nós. não se tornam redundantes nem confusos. Afecta a nossa vida das mais variadas maneiras. Pelo contrário. Ou. 4 Lembremos “Cendrillon”. com lenços. 1985. Se até ao século 17 quanto mais “cheiinha” a mulher fosse. É neste cenário de exagero. Se és magra. também. surge Kate Moss3. se calhar. conhecida pela sua figura magra e sem formas. és bonita. A verdade é que é algo rotativo. bem maiores que as suas -. chapéus. tendo como referência o corpo de Marilyn Monroe. no entanto. 3 Modelo inglesa conhecida pela sua figura extremamente magra e estreita nos anos 90. no início dos anos 90. a magreza da modelo Twiggy2 volta a contrariar e a reinstalar a moda de um corpo sem curvas e com os seios pequenos.

depois uma meia. deixando o homem sozinho em palco. a meu ver. eles estão realmente a dançar dentro de corpos gordos. aparece o elenco na íntegra para o fim da peça. reconhecer a função da indumentária utilizada. apesar do volume. No entanto. Apesar de todo o mérito que a coreógrafa e os bailarinos merecem. até que fica apenas em cuecas (cheia de corações vermelhos. a mais directa e de pura natureza técnica: o figurino. na sua simplicidade e naturalidade. as suas curvas e todos os contornos do seu corpo obeso são revelados. Confere uma qualidade bem mais real. está realmente relacionado com o movimento. porque a mensagem é autêntica.curtas e suspensórios a segurar as calças ligeiramente curtas. acabando por deixar o público com um estado de espírito um tanto leve. Quando vi a coreografia pela primeira vez. De repente. O figurino. por outro lado. porque se encontra na origem de toda esta peça. uma das coisas que realmente mais me fascina neste trabalho. É inevitável relacionar – ou pelo menos tentar relacionar – um 4 . Segue-se um pas de deux. Assim. a saia. A segunda questão é provavelmente a mais profunda. pega nas roupas que estão espalhadas pelo chão e afasta-se. alguns deles tinham que ser assistidos e arrefecidos devido ao calor do fato. Assim. nomeadamente nesta peça. levantam-se duas questões fundamentais. o homem vai removendo as roupas da mulher: um sapato. Posto isto. o mesmo já não se pode dizer da temperatura que resulta não só do movimento. e pretende retratar o estereótipo de classe média e trabalhadora do Sul de França. a mulher tornase reservada. mais do que nunca. Mulheres de um lado. é fundamental. note-se). dão uma sensação de que estão a voar. nem todas as nuances próprias de um bailarino profissional são escondidas pelo volume do mesmo. é mesmo o nível técnico de cada um dos intérpretes. Finalmente. encontram-se agora sem roupa – apenas com o fato do corpo obeso – e executam sequências rápidas que atravessam o palco e que. onde. Sendo o tamanho do fato substancialmente maior do que o dos bailarinos que o vestem. que seria completamente diferente se quem dança não o tivesse vestido. associei o volume dos fatos a peso. homens do outro. Segundo depoimentos de bailarinos que fizeram parte da peça. Numa primeira fase. o peso é aquilo que menos afecta os intérpretes. que consegue fazer-se notar mesmo debaixo de todo o “material” e de todas as condições iminentes ao figurino. O que começa de uma forma tímida e acanhada depressa adquire um tom brincalhão. mas também do material de que o figurino é feito. apesar do fato e do que ele implica no que diz respeito ao movimento de quem o veste. é inevitável falar nas alterações de movimento que daí provêm e até que ponto isso afecta a performance dos bailarinos. o sutiã. lentamente. Os bailarinos executam os movimentos padrão de um bailarino europeu e.

e não me surpreenderia de todo que “Groosland” fosse o resultado de uma atitude de pura irreverência. e há aqueles que não conseguem definir uma só reacção. 5 .acontecimento com a época em que ele está inserido. afinal de contas. de certeza. muitas vezes. e não à procura de confronto? A verdade é que. Porquê Bach6? Porquê repertório clássico? Será mais uma provocação? Uma alusão ao corpo ideal da bailarina clássica. desta falta de esclarecimento que nasce a tão grande variedade de críticas feitas à mesma. uma coreografia a fazer pouco deles. até polémicos. Como não tenho respostas. demonstrar que as pessoas com peso a mais têm tanto direito a expressar-se quanto aquelas que têm o tal corpo “ideal”. Mais uma vez. face ao corpo gordo presente na coreografia. 2 e 3. como poderia interpretá-lo como sendo uma paródia aos obesos. já era hábito no reportório de Marin a presença e a escolha de temas bastante actuais e. Talvez seja esta abertura. há aqueles que não reagem tão bem. Uma tentativa de transmitir a ideia de que. eu tanto poderia pensar que o objectivo era oferecer possibilidades para corpos grandes e redondos. e que acabam por considerá-la uma “mistura de enjoo e alegria”. Há aqueles que reagem bem e a adjectivam como sendo “divertida” ou “engraçada. e as coreografias não são excepção. esta certa “ignorância” do espectador que torna. a peça tão cativante. estas suposições podem não passar disso mesmo: suposições. ao assistir a este trabalho. relembro o ambiente extremista que se tinha instalado no final da década de 80. Quem sabe se Maguy Marin traçou este caminho rumo ao puro entretenimento. mas a nível cultural… Ou devia dizer corporal? Outro aspecto que me fez pensar mais um bocadinho foi a escolha musical. 5 6 Ver página 3. principalmente no que tocava às formas do corpo ideal da mulher. Na sequência do que escrevi sobre a situação cultural que se vivia na altura em que esta coreografia surgiu5. é quase imperativo que se ponha a hipótese de todo este trabalho ter nascido de um impulso crítico e irreverente da parte da artista. limito-me a fazer perguntas e a tentar formular as minhas próprias explicações. Assim como é. “sem gosto” e até “perturbadora”. Para além disso. não só a nível coreográfico. um obeso também pode dançar ballet clássico…? No entanto. e a consideram “ofensiva”. A música é “Brandenburg” Concertos Nos. também. Não seria território novo para a artista usar a arte como confronto.

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