A CAÇADA©

(supostamente uma farsa) de Daniel Tendler
PERSONAGENS MORENA (chefe de cozinha) VALÉRIA (advogada) MARIO NEVES (galã do subúrbio) TRIPINHA (morador de rua) COROA (morador de rua) POLICIAL e ALGUNS ESPECTADORES ENCENAÇÃO Caixa preta. Platéia em cena. Os atores e seus badulaques. 1 - RUA Morena está ao volante de seu poderoso carro, quando, do nada, eis que surgem Tripinha e Coroa, que limpam vidros nos sinais. Os dois são afinadíssimos. Um espirra o detergente, o outro vai passando o pequeno rodo enquanto conversam sobre as qualidades do carro abordado. Ela se irrita com a “invasão” dos meninos e grita, buzina, faz de tudo para eles pararem com aquilo, no que é solenemente ignorada. Após a lavagem, Coroa se afasta um pouco e Tripinha se aproxima da janela do motorista, à espera de algum trocado. TRIPINHA – Dá um trocado aí, madame. Morena o ignora. TRIPINHA – Dá um trocado aí, tia Morena o ignora. TRIPINHA – Pô, aí, os vrido tão limpinho. MORENA(lhe responde aos gritos, sem abrir o vidro) – Vocês cagaram o meu carro com esse sabão barato. TRIPINHA – Só um trocado, tia. MORENA – Pára de me chamar de tia, moleque. TRIPINHA – Sou moleque não, tia. MORENA – Tia não. TRIPINHA – Tô com fome. MORENA – Eu não tenho trocado. TRIPINHA – Serve qualquer coisa. MORENA – Já disse que não tenho trocado. TRIPINHA – Pô, qualé, tia. 1

MORENA – ô, moleque abusado. MORENA – Quer parar de repetir isso, menino. TRIPINHA – Dá um trocado aí. MORENA – Se não é sabão, isso aí é o quê? COROA Coroa se aproxima. MORENA – Fique aí. Não se aproxime do meu carro. TRIPINHA – Ih, a lá, a madame ficou bolada contigo. COROA – Sai daí, moleque. Ela não vai te dar nada. TRIPINHA – Pô, qualé, Coroa, tô desenrolando aqui. Morena ri de Tripinha, pega a carteira, vê que o sinal vai abrir, tira uma nota, abre o vidro, dá na mão dele e sai com o carro. Tripinha sai correndo com a nota, Coroa vai atrás dele.

2 - RESTAURANTE Mario Neves, de terno, gravata e valise, entra no restaurante e analisa o ambiente. Morena, vestida com seu uniforme de trabalho, entra. MARIO NEVES – Boa noite, deixe me apresentar/ MORENA – Boa tarde. MARIO NEVES (olha no relógio) – Ah, desculpe-me, tem razão, ainda não são seis horas, não é mesmo? MORENA – O que o senhor deseja? MARIO NEVES (lhe estende a mão) – Mario Neves, muito prazer. MORENA (seca) – Encantada. MARIO NEVES – Qual é a sua graça? MORENA – Não entendi. MARIO NEVES – O nome que papai e mamãe lhe colocaram, qual é? MORENA – Morena. MARIO NEVES – Lindo. MORENA – Sabia, vendedor. Olha, vai ali naquele balcão e pede para chamarem o Custódio, o gerente. Sou apenas a chefe de cozinha. Agora o senhor me dá licença que eu tenho que voltar ao trabalho. MARIO NEVES – Qual é o prato surpresa de hoje? MORENA – é surpresa. MARIO NEVES – Antes de você ir, quero lhe dizer que sou seu fã. MORENA – Obrigada. MARIO NEVES – Venho aqui pelo menos uma vez por semana. MORENA –Me desculpe, sabe como é que é, né? O senhor não imagina a quantidade de/ 2

MARIO NEVES – Pode voltar a me chamar de você. MORENA – Mas é claro, você não é capaz de imaginar o que bate de vendedor aqui. Desde pano de chão, azeite tailandês, até fogão turbinado com não sei quantas bocas e/ MARIO NEVES – Você se importaria de me revelar a receita do seu filé de javali com molho de tâmaras e inhame sueco? MORENA – Ah, isso é segredo de estado, né? MARIO NEVES – Desculpe-me a indiscrição. É que realmente sou apreciador da sua arte. MORENA – Obrigada, novamente. O senhor, você chegou um pouco cedo, ainda não abrimos, mas se quiser, escolha uma mesa/ MARIO NEVES – Não precisa, obrigado. Eu sabia que estaria fechado. Vim com outros propósitos. Vim apenas para conhecê-la. MORENA – Mas que honra. MARIO NEVES – Não me deixe constrangido, por favor. MORENA(tira um cartão do avental) – Olha, especialmente pra você. É uma foto minha autografada, com os meus telefones de contato. Faço jantares, almoços e brunches. Faço/ MARIO NEVES – Você está muito bonita nessa foto. MORENA – Só na foto? MARIO NEVES (ri) – Estou sem graça. MORENA – Não fique. Eu faço isso com todos. MARIO NEVES – Você é bastante espirituosa. MORENA – é a receita do meu sucesso. MARIO NEVES – Uma personalidade forte só poderia produzir pratos definitivos. MORENA – Originais, eu prefiro. MARIO NEVES – Ah, isso é uma longa discussão. Deixemos para uma próxima oportunidade, você deve ter mais o que fazer do que/ MORENA – Realmente, a cozinha me espera. MARIO NEVES – De qualquer forma, foi um prazer. MORENA – Igualmente. MARIO NEVES (mostra o cartão que ela lhe deu) – Estou autorizado a usar as informações contidas nesse documento? MORENA – Não entendi. MARIO NEVES – Tenho um primo, alemão, que está hospedado na minha casa. Será que você não nos daria a honra de preparar um jantar para nós? MORENA – Para quantas pessoas? MARIO NEVES – Duas. MORENA – Pra quando? MARIO NEVES – Quando você puder. MORENA (tira um palm top do bolso do avental) – Deixa eu ver. MARIO NEVES – Temo apenas por um detalhe. MORENA – Quinta que vem tá bom pra você? MARIO NEVES – O meu primo exige que a comida seja preparada nas panelas alemãs que ele trouxe. Me desculpe, mas é que ele trouxe um jogo de panelas de última geração, de aço inox, com revestimento de borracha feito à mão e/ MORENA – Não tem problema, eu/ MARIO NEVES – Panelas alemãs, Rubberstock, se não me engano. Parece que custaram uma fortuna. MORENA – Nunca ouvi falar. 3

MORENA – Pelo menos o seu nome é verdade? MARIO NEVES – Desculpe-me. bonitas elas são. MORENA – Eu posso com isso? MARIO NEVES – O jantar está de pé? MORENA – Que jantar? MARIO NEVES – Pro Fritz. mas posso tentar. 4 .MARIO NEVES – Posso tentar convencê-lo a guardar as panelas para uma próxima ocasião e/ MORENA – Mas que primo fresco. MARIO NEVES – Mais respeito. Mas se por acaso você se interessar (lhe dá um cartão) eu posso tentar dar um jeito de mandar vir um jogo pra você. por favor. MORENA – Você existe mesmo? MARIO NEVES – Cabe a você descobrir. MORENA – Você tá inteirado do ramo de panelas. né? MARIO NEVES – Meu primo não fala em outra coisa. que isso. MORENA – Nove mil euros? MARIO NEVES – Mais taxas e transporte. MARIO NEVES – E num vinhozinho? MORENA (ri) – Tá vendendo vinho também? MARIO NEVES – Não. não entendi. Ai. Acho difícil. Essas panelas são uma febre na Europa Ocidental. Me curvo diante da sua competência. por favor não ofenda a minha. Mas parece que é possível um parcelamento em seis vezes no cartão. parece que é uma série limitada. MARIO NEVES – Se não me engano. leves e resistentes. Produto de primeiro mundo. Morena. MORENA – Vendedor de panelas. MARIO NEVES – Eu faço questão (tira um mostruário de panelas da valise) sorte que o Peter me deu isso. Seis parcelas de seis mil. MORENA – Como assim?! MARIO NEVES – As minhas calças não cabem em mim diante de ti. MARIO NEVES – Não seria melhor se você visse as panelas antes? MORENA – Não se preocupe com as panelas. MORENA – Mas que cara-de-pau. MORENA – Não acredito que ouvi isso. estou pagando. (entrega para ela) São panelas de última geração. Se não me falha a memória. hein? MARIO NEVES – Você está insinuando alguma coisa? MORENA – Não. MORENA – Não. MARIO NEVES – Continuo não entendendo. MORENA – Isso é uma cantada? MARIO NEVES – É um convite. trinta e seis mil reais. MARIO NEVES – Bonitas. que/ MORENA (olha as panelas) – Bem. MARIO NEVES – Devo lhe confessar algo: estou com tesão por você. cala essa boca. meu Deus. MORENA – Devem ter custado uma fortuna. MORENA – Eu cheia de coisa pra fazer e perdendo tempo com um vendedorzinho de panelas. eu não estou interessada nas suas panelas. MARIO NEVES – Sou poeta nas horas vagas. custaram nove mil euros pelo conjunto máster.

5 . TRIPINHA . Isso aqui é cem reais. então? MORENA – Ué. você não ia pagar? 3 .É para tu colar o dinheiro.MORENA – Olha.Tu já tinha visto nota azul? COROA (incrédulo. A lá : um. e segura. moleque. Tripinha toma a metade de Coroa e fica tentando “juntar” as metades. Os dois se embolam.Tá escrito aqui. junta à outra metade.Era só ter deixado eu tomar conta da parada. despeja um pouco de cola em uma metade da nota. MORENA – Ah. Ele entrega a nota para Coroa. COROA . não está à sua altura. COROA .Eu não quero isso! COROA .Tu é muito burro.Deixa que eu guardo. Tripinha pega a garrafa. Olha só o que você fez. Ao final da briga a nota está partida ao meio. TRIPINHA (olha para a nota) . TRIPINHA . COROA . Coroa vai colocar a nota no bolso mas Tripinha parte para cima dele. Tripinha chora. que não deixa. MARIO NEVES – Essa é uma ironia infantil. Eu sou maior que tu. inala um pouco e entrega para Tripinha.É meu! COROA . zero.Sacanagem. TRIPINHA – Como? COROA – Cola aí. Coroa pega a garrafa com cola. TRIPINHA .Calma aí.Rasgou. não vou nem dormir pensando nisso.(tira a nota do bolso) É azul. Nunca vi dinheiro azul. Sacanagem. COROA .RUA Coroa e Tripinha contam os ganhos do dias. olha para a nota) – Caralho! TRIPINHA -Pára de me zoar. É cem! Tripinha tenta tirar a nota da mão de Coroa. Coroa. TRIPINHA -Quem falou? COROA . Cada um segura a sua metade. TRIPINHA – Uma dona me deu uma que não vale nada. é? MARIO NEVES – Dividimos um vinho mais tarde. A gente pode colar. zero.

Mas completamente torta.O dinheiro é meu. Os dois voltam correndo. COROA .Tô cansado de apanhar. TRIPINHA -A culpa é sua. Eu tô com fome. Tripinha levanta-se e sai andando.Peraí.Deixa de frescura.Joga essa porra fora. COROA . Está colada. COROA .Não dá para dormir lá. Tripinha guarda a nota no bolso. COROA .Escroto! (para Tripinha) não te falei? Quase que nós apanha de novo.TRIPINHA . Não tô afim de ser queimado. Coroa levanta-se e os dois saem.Vou no méqui donidi. TRIPINHA (gritando para alguém que o perseguia) -Filho da puta ! COROA (idem) . Tu que rasgou o dinheiro. COROA . COROA . Tripinha sai andando. mané Tripinha sai andando.Desse jeito não vale nada. COROA – Então dá uma bola aí. TRIPINHA – Se eu der uma bola a gente vai comer sopa? 6 . Eu vou também. COROA .Não vou.Tu não tem dinheiro. Tripinha solta a nota. Coroa inala mais um pouco de cola e pega o detergente.Peraí.Vamo trabalhar. COROA . fugindo. COROA . COROA . TRIPINHA – Depois a gente volta.Tu vai tomar é na cabeça. TRIPINHA .Onde é que tu vai? TRIPINHA . Tripinha. Tripinha segura firme as duas metades na esperança de conseguir colar o dinheiro.Vou pro centro comer sopa. TRIPINHA .Tu vem comigo? COROA . COROA .Eu te pago um lanche. TRIPINHA . Onde é que tu vai ? TRIPINHA .Tu vai acabar colando a grana na mão.

VAL .Dormi com Morena. Ela goza e acende um cigarro. 4 – APARTAMENTO Valéria . Vem. sentada ao computador. Ela acabou de acordar e tem uma caneca de café e um prato com um sanduíche ao lado do computador.O que aconteceu? MARIO NEVES . MARIO NEVES . Val.Nossa casa. Morena pega Mario Neves pelo braço e sai com ele. VAL – Você está de cueca! MARIO NEVES . Posso tomar café com você? Ele dá um gole no café dela. MORENA . MORENA .Seria demais para você vestir uma roupa? MARIO NEVES . Vamos para o quarto.vestida apenas com um camisão .Manda esse cara embora daqui. dá uma mordida no sanduíche e um gole no café. por favor? VAL . nem me apresentei. Ele toma o seu café da manhã. Eu tô dormindo. Mario Neves volta. COROA (mija na garrafa de detergente) – Primeiro vamos trabalhar um pouco. MORENA .Que horas são? MARIO NEVES .Nove e quinze. MORENA . se excita. sonolenta.Calma aí.Você não dorme não? MARIO NEVES . VAL .Só depois de mandar esse cara embora da minha casa.Nove e pouco. 7 . muito prazer. MARIO NEVES – Desculpe-me.Primeiro as horas. Val volta trazendo Morena.Nada. VAL . MORENA . Val se levanta e sai.COROA – Vamos. baby.está sozinha em casa.Que horas são. mastiga. teclando com alguém.Quem é você?! MARIO NEVES . Tripinha inala cola. se acaricia.Ele está de cuecas. Agora vestido. VAL . mas que falta de educação. Ela tecla com rapidez e espera as respostas com ansiedade. engole e se masturba ao mesmo tempo em que tecla e lê.Preciso dormir.Às vezes. MARIO NEVES -Muito obrigado. MORENA . Val acaba o cigarro. Ela está numa sala de bate papo na internet. VAL – Você dormiu aqui? MARIO NEVES . Mario Neves.Preciso saber que horas são.Seria demais para você me informar as horas? VAL .

Vou esperar Morena acordar.Por favor desista de me mandar embora. VAL – Não funciona comigo.Isso é frase de novela. Olha só o estado em que eu estou. acolhedora.Sente-se. VAL – Você não pode fazer isso comigo. VAL . Peço para ela te ligar. Por que você não vai para a sua casa? Quando ela acordar eu dou o recado. MARIO NEVES – É realmente preocupante. na minha casa. Estou só passando o tempo. Vamos conversar. não quero me indispor com você. Sei que a Morena te convidou para vir até aqui. VAL – Estou na minha casa. Cabe na boca. VAL (chora convulsivamente) – Eu não agüento mais. MARIO NEVES .Quer parar de rir da minha cara? MARIO NEVES . Ela vai comigo ao jóquei. “Onde é que você está querendo chegar?” Eu não quero chegar a lugar nenhum. VAL . Morena estava me contando ontem sobre o que você anda querendo fazer. MARIO NEVES – Você está com algum problema? VAL – Você. Valéria. Mais duzentos gramas em cada um farão uma diferença considerável. Se bem que eu também gosto assim. Sabia que sou o melhor jogador em raia molhada de todo o jóquei clube? Cresço na adversidade. VAL – Você não está entendendo. MARIO NEVES – Onde é que estão os seus remédios? VAL – Eu não tomo remédios. 8 . MARIO NEVES – Mas deveria. mas acho melhor você esperar por ela em outro lugar. VAL .Onde é que você está querendo chegar? MARIO NEVES . seja educada. MARIO NEVES – Pois então. MARIO NEVES . MARIO NEVES . Me desculpe.Olha. Cabe na mão. Estou na minha casa. mas você está além das minhas possibilidades. Não me leve a mal. É hoje que eu me dou bem. VAL – Do que você está falando? MARIO NEVES – Dos seus seios.Ih! Vai cair água. VAL – Eu não estou me agüentando. Ele ri.Já vai tarde. MARIO NEVES . Você deveria procurar um especialista.Melhor assim? VAL . VAL – Eu sou contra a química.MARIO NEVES . MARIO NEVES – Tenta a homeopatia. Coisa de craque Val chora. Pequenininho. por favor. Barulho de trovão.Concordo contigo.

Gostei das taças. posso avaliá-lo para você. TRIPINHA . por favor. MARIO NEVES . O pior já passou. por favor. é ela! COROA – Qual foi? TRIPINHA . VAL – Me responda com sinceridade.MARIO NEVES – Como é que você não toma nem remédio mas quer colocar silicone? VAL – Não tem nada a ver uma coisa com a outra. TRIPINHA . 5 . MARIO NEVES (olha embaixo de uma das taças). vai embora. O tio Mario Neves não morde não. TRIPINHA -Me solta! 9 . que espera por ela para beber. Mario Neves serve o vinho e entrega uma das taças para ela. MARIO NEVES – O que temos pra beber? VAL – Pára. entrano no táxi.É a mulher que me deu a nota azul. tá? Mario Neves sai e volta com uma garrafa e duas taças. Os dois comem. do início do século passado. olha fixamente para ele. É ela! Tripinha engole a comida toda de uma vez e tenta levantar mas Coroa lhe segura. perplexa.Achei esse vinhozinho na geladeira. Val. o que o senhor quer de mim? MARIO NEVES – Apenas a sua companhia. Eu lembro dela.Segura a onda.Que dona? TRIPINHA . tá? Calminha. COROA – Maior gostosa. por favor.A lá.à nossa.Caralho. calminha. MARIO NEVES – Aí já é manha. Após a “colheita”forram o chão com suas camisas e colocam os restos de comida ali. COROA .É ela sim. Val joga o vinho no rosto dele.Aquela ali. Começa a chover. MARIO NEVES . como vi no armário. se você quiser vende-las (tira um cartão do bolso) aqui está o meu cartão. Tá vendo aquela dona ali? COROA . É um bom conjunto de meia-dúzia.RUA Coroa e Tripinha – encharcados . ó. MARIO NEVES – Beba. De onde são? VAL – Coloque essas taças onde elas estavam. COROA – Pára de falar merda. junto com aquele cara.Louça russa. TRIPINHA . Ela vai pensar que é assalto.vasculham uma lixeira.

MORENA . TRIPINHA . moleque. Tu não vai conseguir chegar nem perto daquela gostosa. saindo do táxi. COROA – Devolve aqui. Eu preciso falar com ela. MARIO NEVES – Tivemos uma bela noite. ela foi embora.Não tá satisfeito. 6 COROA . pequeno.Sai fora..Não! TRIPINHA . MORENA . inutilmente. COROA .. Ela mora ali. 10 . COROA (inala cola) – Quer? Tripinha inala também. TRIPINHA – Eu só quero o que é meu. TRIPINHA . você leva jeito com os cavalinhos. Nois vamo ficá aqui. agora vamos que eu já estou encharcada. Tripinha cai.Foi sem querer.Há muito tempo eu não me divertia tanto. MARIO NEVES .Vou lá. não tá lembrada de mim? A senhora me deu cem reais ontem. ligeiramente bêbados.. Mario Neves segura o guarda-chuva e os dois.Você deu cem reais para ele? MORENA .COROA . ainda tenta o segurar. Ela mora ali.Tem um pivete atrás da gente. andam. garoto? O que você quer? Que eu te dê cem reais todos os dias? MARIO NEVES .A madame! A madame! A madame! COROA (ri) – Tu tá chapado. ó.Tu tem merda na cabeça Tu só pode ter merda na cabeça. Mario Neves lhe dá um pontapé. MARIO NEVES . MARIO NEVES . COROA . Os dois dividem o cigarro. Tripinha sai correndo na direção deles. Coroa. Ela vai voltar. MORENA . hein? MORENA – Foi sorte de principiante. Tripinha inala a cola mais uma vez.Boa notícia. MORENA . TRIPINHA (levanta-se) . Coroa tira um cigarro amassado do bolso e acende. Eu confundi as notas e .Engraçadinho.E tu acha o quê ? Que ela vai te dar outra nota? TRIPINHA – Que merda.Moça.Esquece. mané. Antes de Tripinha falar qualquer coisa.Ali..é .

Vambora. que está caído. TRIPINHA . aí a nota rasgou. COROA . TRIPINHA . MARIO NEVES .Vou esperar o cara sair.APARTAMENTO Morena e Mario Neves entram. tu vai ver. COROA – E vai fazer o quê? Matar o bacana?! Sai fora. Val entra.Tô fora dessa.E tu vai fazer o quê? TRIPINHA . TRIPINHA .Vou arrumar um ferro.Por que você bateu nele? Ele não ia fazer nada com a gente.Vou arrumar um ferro.Os dois saem andando. com a nota na mão. Mario Neves o enxota e sai andando em passos largos. 11 . COROA . mas o Coroa tentou me tomar. aí eu queria que a madame trocasse por outra. Coroa se aproxima de Tripinha. A gente tem que vazar. TRIPINHA .Tu não vai dar golpe nenhum. Ele entrou no prédio da madame. TRIPINHA .O que foi.Eu vou esperar. TRIPINHA . COROA .Eu queria que ela trocasse a nota. Coroa cai na gargalhada.Não ia fazer nada hoje.Por que você não veio me defender? COROA . Essa aqui foi a que ela me deu. pequeno. Morena sai contrariada. Some da minha frente. TRIPINHA . moleque. TRIPINHA . COROA .Vambora. 7 .Somos dois contra um. MARIO NEVES . moleque? Tá querendo apanhar mais? Não tá feliz não? Ganhou cem pratas de bobeira e/ Tripinha tira a nota mal colada do bolso.Não deu tempo. Vai sujar para nós. Sai fora. pequeno.Levanta daí. aí eu tentei pegar de volta. MARIO NEVES .Moça! Mario Neves volta até Tripinha. fica na tua.Isso não vai ficar assim. Deixa de ser ingrato.Ele deve ser marido dela. moleque. MORENA . COROA . eu vou pegar o que é meu.

MORENA . Não quero mais você na minha casa. Vai que os moleques ainda estão lá embaixo.Ah. Mô. MORENA – Problema dele. VAL – Estúpido! MARIO NEVES . Mario Neves. pequeno ? 12 ..Você está me mandando embora? MORENA – Entendeu. COROA .Tá doendo? Ela aperta mais ainda.VAL .RUA TRIPINHA . Ele se contrai de dor. VALÉRIA . Ela pega no pau dele com força. MARIO NEVES . VALÉRIA . Mario Neves tenta ir atrás dela mas é impedido por Valéria.Se você está dizendo .. VAL – Estúpido! Ela sai. MORENA .Vocês não acham que está um pouco tarde para esse tipo de debate? MORENA . (levanta a camisa) Tô trepado. que marra é essa. Rua. MORENA .E daí? VALÉRIA .Ih .São quase cinco da manhã.Como é que tu conseguiu isso? TRIPINHA . São uma quadrilha. MARIO NEVES – Mas que/ VAL (off) – O sofá é todo seu.Ele não te fez nada.Não.Também acho..O que está acontecendo? MORENA – Esse animal agrediu gratuitamente um moleque na esquina. mas os pivete estavam armados? MARIO NEVES – Estavam. VAL . Ela aperta.Sem querer me meter .Vambora. não? MARIO NEVES .Eu tava louca para fazer isso.Não tô gostando do rumo que isso aqui tá tomando. VAL . VALÉRIA . Morena sai. COROA .Babaca.. 8 . MORENA . Estou muito bêbado para comer as duas.O Manco me alugou o berro. Coroa. né? MARIO NEVES . MARIO NEVES ..Deixa ele aí no sofá..Você fica.

vou ter que pagar cem reais para ele. VAL – E o que a gente está fazendo agora? MORENA – Tô pensando em passar um tempo fora. VAL – De novo? MORENA – É. COROA – E eu? TRIPINHA .. bolo. Vê se não demora. Val sai.Tu vai pegar os teus cem reais do bacana e dar para o Manco?! TRIPINHA . Será que aquele canalha não volta mais? MORENA – Quer que eu te faça uns ovos de codorna liquidificados? VAL – Vou pedir alguma coisa pelo telefone mesmo. MARIO NEVES . Mario Neves se irrita.TRIPINHA .. cereal. Que mais. Tudo o que eu não preciso agora é de discutir a relação. Val entra e acorda Mario Neves. VAL . querido. Eu vou pegar o que é meu. Eu vou pegar os meus cem reais e mais cem para o Manco. não. Morena. VAL – Ah. todos os tipos de bolo. hein? Vai. Mô? MORENA – Acabei de tomar café. Dá uma descidinha e compra uns pãezinhos.Você está achando que/ VALÉRIA . né? Pega a minha bolsa lá no quarto. COROA . então quer dizer que ele pôde ficar aqui enquanto te servia. de novo? MORENA – Não. Morena. MORENA – A gente não conversa mais.Tô achando que tá demorando demais. não vou me reciclar. Morena cai na gargalhada. Tô morrendo de fome. VAL (irônica) – Vai se reciclar. Deixa que eu vou pegar a bolsa.. MORENA – Está acontecendo alguma coisa? VAL – Ah. um bom queijo. tá esperando o que? Que eu peça “por favor”? Ele sai. ele não pode me servir também? Você precisa aprender a perder. tem uma delicatessen ali na esquina. VALÉRIA .Pega cem para tu também. Não o suficiente para freqüentar a nossa casa.Tá bom.É .Acho que dá. Vou buscar um sentido VAL – E desde quando precisa sair de casa pra buscar sentido?. pára com essa mania. Tá na poltrona. 9 . de novo. Nunca imaginei que fosse tanto querer ver a cara daquele sujeito. e agora que não te serve mais.APARTAMENTO Morena toma café da manhã. Mario Neves dorme no sofá. pelo amor de Deus. VAL . DR não. MORENA – O que você está falando? VAL – Eu vou ganhar ele de você.Não. 13 . Não. Você tem razão. Val volta e entrega algumas notas para ele. MORENA – Ele não é uma boa pessoa..Querido.

Eu sou sua amiga. Eu posso te ajudar. Eu vou pra academia. E o carrão da tua mulher? MARIO NEVES (ri) – É dela.RUA Mario Neves vem andando carregado de compras para o café da manhã quando é abordado por Tripinha e Coroa. MORENA – Pode sim. MORENA – O que está acontecendo? VAL – Nada. pequeno. Você bem que podia ir comigo.Eu sou duro.Não pára não. MORENA – Pode falar.Calma. que isso aí é perigoso. MARIO NEVES – Peraí/ Tripinha saca a arma COROA . MARIO NEVES – Que dinheiro? TRIPINHA – Quero meus cem real. Continua andando. amiga. Val sai.Segura a onda. MORENA – Eu sabia.Me dá o meu dinheiro.Tá de onda? MARIO NEVES .Vamos com calma. COROA . É um caso muito importante. Tripinha aponta a arma para a barriga de Mario Neves. MARIO NEVES . é o caso da minha vida. MARIO NEVES – Toma. tem dez reais . pequeno. ele deve ter ido pro jóquei gastar os trocados que você deu pra ele. TRIPINHA .Caô. Preciso malhar.Eu sou vendedor de panelas. foi isso. ué. MARIO NEVES . Sou um pobre coitado. MORENA – Pára! VAL – Você perguntou. MORENA – Que merda de defesa é essa. COROA .E esse monte de coisa que tu tá carregando? 14 . Eu tô indo. Valéria? VAL . VAL – Pode ter acontecido alguma coisa. Há quanto tempo você não malha? VAL – Estou suspensa de tudo até terminar a defesa. VAL – Não está acontecendo nada. 10 . Não malhei ontem.MORENA – Ainda bem que ele foi embora. você acha que eu engordei? VAL – Um pouco. MARIO NEVES .Dichava. TRIPINHA . Val. Tamo no meio da rua. MORENA – O que você vai fazer? VAL . COROA .Não fala assim. COROA .Pedir uma pizza e voltar pra minha defesa.

caralho.Cem para o manco. 11 Tripinha. COROA – Segura aí.Agora não é cem. ele tá cagado. com a arma. Tripinha. a gente tá no meio da rua. e Coroa. É trezentos. COROA – Ih. COROA – A gente vai contigo. Agora guarda essa arma. Dichava o ferro. Mario Neves sai correndo para um lado e os meninos para outro. MARIO NEVES .Não é para mim. pequeno. a lá. Ela que é cheia da grana. Coroa segura no seu braço. MARIO NEVES – Tudo bem.O que garante que tu não vai dar a volta na gente? MARIO NEVES – Eu garanto. COROA . Quando ele vai atirar. ESPECTADOR – Me acertaram! Socorro! Porra! O espectador. TRIPINHA . Mario Neves se afasta lentamente. com as sacolas. Já volto. MARIO NEVES – Marca um dez aqui que eu subo lá e descolo os teus cem. Um espectador é atingido. Eu só estou comendo. A sirene se aproxima. correm. O cara é cheio de marra. eu juro. segura a onda aí que eu já volto. cem para mim e os cem do pequeno. Barulho de tiro. 15 . Coroa? COROA .Eu só quero o que é meu. MARIO NEVES .Trezentos? TRIPINHA . eu arrumo os trezentos. COROA – Tu acertou um cara. ensangüentado. COROA – Ih. É para aquela mulher que vocês achavam que era minha. sai do teatro. MARIO NEVES – Me deixem ir que eu trago a grana de vocês. TRIPINHA – Eu só quero o que é meu. é melhor eu ir. Ouve-se uma sirene de polícia ao fundo. MARIO NEVES – Olha. Não é não. mané. porra.MARIO NEVES .Aí. Tripinha vai carregando a arma e Coroa ainda tem tempo de pegar as sacolas com as compras que Mario Neves deixou cair.Tô dando a idéia na moral. pequeno. COROA . COROA – Dichava o ferro. Outra hora a gente se fala. mané. A sirene passa. A sirene está quase lá. TRIPINHA – Me dá o que é meu. TRIPINHA . A sirene está muito próxima. Tá cagado. Mario Neves dá outro passo pra trás. os alemão.É.

pequeno. COROA – Vai dar uma mamada? TRIPINHA – Qualé. COROA – A bala saiu do ferro. TRIPINHA – Tá sem bala. TRIPINHA – O ferro tá sem bala. tu é burro pra caralho. daqui a pouco só se satisfarão com sangue. não vamo arriscar de novo. COROA – Então só pode ter sido os alemão. Mario Neves entra. TRIPINHA – Se demo bem. Tu acertou um cara lá. Posso ter alguns defeitos mas/ VAL – Se retire da minha casa. COROA – Foi tu. Coroa? Coroa ri e lhe passa a “cola”. Tem dois pobrinhos lá fora.. hein? Coroa inala cola. COROA – Já escapamo uma vez. MARIO NEVES (nervoso)– Eu não posso. 12 . Valéria. Eles atiraram. querendo me matar. COROA – Mas é bom dá um tempo aqui. COROA – E o tiro? TRIPINHA – Desse ferro não foi. Com bala o manco queria duzentos. Tem dois pequenos demônios me esperando lá fora. porra? Agora tamo sujo na área. então nós tamo limpo. TRIPINHA (inala a “cola”) – O que dá pra fazer com cem real? COROA – Tira isso da cabeça. mané. dois pivetes entorpecidos. COROA – E a bala que saiu? TRIPINHA – Foi tu. TRIPINHA – Mas não tinha bala. VAL – Cadê a comida? MARIO NEVES – Quase fui assassinado na esquina. COROA – Por que tu atirou. TRIPINHA – Foi tu. Ela – por reflexo – se recompõe e atende à porta sem perguntar quem é. MARIO NEVES – Não fale assim. TRIPINHA – Dá uma bola aí. VAL – Vigarista. TRIPINHA – O bacana é que escapou. cumpadi. Por enquanto eles querem dinheiro.TRIPINHA – Tu que acertou. 16 . COROA – Tá nada.APARTAMENTO Val se masturba ao computador quando toca a campainha. COROA – Foi tu. TRIPINHA – Foi tu. TRIPINHA – Temo que resolver a situação. armados. Tu vai acabar na vala por causa dessa merda. Porra.

Olha. VAL . VAL – Ai. Tripinha sai correndo atrás de Morena. Mas saiu caro. pena. Coroa fica comendo. MARIO NEVES – Os pivetes devem estar lá embaixo. VAL – Com licença. Não sei como. Morena passa. no máximo. não? MARIO NEVES – Vergonha eu até tenho. TRIPINHA – Aí. depois inalando cola. Eu talvez esteja com pena. se lambuzam com o que era para ter sido o café-damanhã no apartamento. MARIO NEVES – Sei que me excedi um pouco com a senhora. distraída. VAL – Se eles são os bandidos. Quer dinheiro pra me esquecer. meu Deus. MARIO NEVES – Eles ficariam presos por um tempo. não quer dizer nada. MARIO NEVES – Você está preparada pros meus vinte centímetros. se quiser tem coca light na geladeira/ MARIO NEVES – Não esquecerei do seu gesto. ué. fui um tolo/ VAL – Por que você está falando difícil? MARIO NEVES – Eles querem dinheiro. aí. depois viriam atrás de mim. mas ele conseguiu rasgar a nota e queria que ela lhe trocasse por outra que valesse. MARIO NEVES – Pode me chamar de você. VAL – Não é possível que um homem de tantas mulheres não tenha nenhuma à uma horas dessas. Isso não te assusta? VAL – Aí embaixo é cheio deles. até o final da cena. Isso não é novidade. se lambuzando de geléia. Coroa fica sozinho em cena. não é mesmo? O senhor vai acabar assassinado na esquina. Ela sai. VAL – Isso tudo é por causa de trezentos reais?! MARIO NEVES – Não tenho a quem recorrer.VAL – Eu não posso acreditar em você. o que eu não tenho é dinheiro.Não que isso queira dizer qualquer coisa. sei que deves estar magoada comigo. Virei o pé no peito dele. Foi um porradão bonito. MARIO NEVES –Preciso de trezentos reais. Depois te devolvo. há muito tempo eu não ria tanto. VAL – O senhor não tem vergonha na cara. VAL – O senhor quer dinheiro. É o tal menino que a Morena deu a nota de cem reais. isso é. Não nasci pra ser assassinado na esquina. Val não se agüenta e cai na gargalhada. pode ligar a televisão. O moleque pirou e está me perseguindo. ouviu? Nada.RUA Tripinha e Coroa. 17 . sentados no meio fio. tens toda a razão. Tripinha alcança Morena. chama a polícia. VAL – Mas que azar. está com problemas pessoais comigo. MARIO NEVES – Me deixe ao menos ficar. fique à vontade. depois fumando. VAL – Por que eles querem te matar? MARIO NEVES – Por nada. 13 .

desculpa. MORENA – Quando é o teu aniversário? TRIPINHA – Eu não faço aniversário. TRIPINHA – Eu não quero lanche. TRIPINHA – Vai encarar? MORENA (o empurra) – Se enxerga. porra. Vamos ali na padaria que eu te pago um lanche. MORENA – E os teus pais moram onde? TRIPINHA – Não tenho pais. TRIPINHA – Tu meu deu cem real! (ele mostra a nota)Eu só quero o que é meu. Eu lembro que eu tenho (faz “4”com as mãos) e o Coroa tem (faz “6”). MORENA – O que é seu? TRIPINHA – É cem pra mim. MORENA – Como não? TRIPINHA – Eu e o Coroa não faz. MORENA – O que você tá falando? Me deixe passar.MORENA – O que foi? (tira um real e dá pra ele) – Toma. vai procurar a tua turma. cem pro Coroa e cem pro manco. MORENA – Bonitinho. neném. TRIPINHA – Eu não tô com fome. TRIPINHA – Foi o Coroa. MORENA – Quantos anos você tem? TRIPINHA – Não sei. MORENA – Não me enche o saco. TRIPINHA – Num conheço. MORENA (ri) –Onde você mora? TRIPINHA – Na rua. TRIPINHA – Tu me deu cem real. TRIPINHA – Eu só quero o que é meu. Tu me deu aí o coroa rasgou aí/ MORENA – Não tenho cem reais aqui.Me conta. Ele grita. TRIPINHA – Você vai me dar o que é meu? MORENA – Você já roubou alguém? TRIPINHA – Não. me conta o que aconteceu. Ela sai andando. MORENA – Não acredito. vê se come alguma coisa. MORENA – Que coisas? TRIPINHA – Eu não peguei a nota. Eu só quero o que é meu. Você está machucado? Aquele nojento te bateu muito. TRIPINHA – Eu não sou todo mundo. 18 . Eu só pego as coisa. MORENA . foi? O que ele te fez? TRIPINHA – Quem? MORENA – O Mario Neves. eu não te reconheci. MORENA (vê a nota remendada) – Desculpa. Ela pára. Como é que você fez isso com o dinheiro. MORENA – Todo mundo tem.

mama? TRIPINHA – Só quando ele não pede. caiu. Não! TRIPINHA (atira) – Tá sem bala. TRIPINHA –Vai dar uma mamada? MORENA – ô. ninguém pára pra ajudar. menino. Você vai me dar o que é meu? MORENA – Pra que você quer cem reais. MORENA (pasma) – Por que você fez isso?! Você quer me matar?! TRIPINHA – Tá sem bala.. alguém me ajude. aí quando eu ficar rico. TRIPINHA – Tô imitano o Coroa. Vou te dar os teus cem reais. MORENA – E você. Aí o Coroa quer cem também porque ele tá comigo. MORENA – Como é que você faz pra tomar banho. Eu guardo tudo escondido. Aí o Coroa falou que tudo dá trezentos. MORENA – Eu vou desmaiar. eu vou guardar tudo até ficar rico. TRIPINHA (engatilha) – Eu sei atirar.. Olha o respeito. 14 Coroa e Tripinha carregam Morena para um lugar menos movimentado. Vou morar num carro. TRIPINHA – Ih. Morena passa mal. comer. não. garoto. vou comprar um carro. MORENA – Acho que eu quero te ajudar. MORENA – Que horror! TRIPINHA – Por quê? MORENA – E você acredita que chegou a passar pela minha cabeça em te levar lá pra casa? Você acredita nisso? Espera aqui que eu vou tirar um dinheiro pra te dar. MORENA – Por quê? TRIPINHA (mostra a arma) –É porque o manco me emprestou o ferro aí eu tenho que dar cem pra ele. tá bom? TRIPINHA – Tem que dar cem pro manco e cem pro Coroa. MORENA – O teu maior sonho é morar dentro de um carro? TRIPINHA – Me dá logo. 19 . menino? O que você vai fazer com esse dinheiro todo? TRIPINHA – Vou guardar. Teve uma vez que eu levei porrada na cabeça e aí/ Morena desmaia. dormir? TRIPINHA – Tu faz muita pergunta. Por favor. socorro! TRIPINHA – Ih.MORENA – Coroa é aquele teu amigo? TRIPINHA – É. você vai ver. MORENA – Você está armado! Tira isso da minha frente. quer ver? MORENA – Pelo amor de Deus. Ele fala assim comigo.

MORENA – O que vocês querem de mim? COROA – O que eu quero tu não vai querer me dar. por favor (para Tripinha) Eu te dou o dinheiro. MORENA – Pára. dona. ela acordou. MORENA – Eu não tenho esse dinheiro aqui. MORENA – Eu tiro no caixa. MORENA (o empurra) – Sai! COROA – Ih. MORENA – Você apontou uma arma pra mim! TRIPINHA – Tu falou que ia me dá o meu dinheiro. Os cara lá iam achá que a gente tava robano. COROA – Tu é a maior gostosa. TRIPINHA – O que tu tem. MORENA – Alguém me ajuda! TRIPINHA – Mas tu falou que ia me dá o dinheiro. Muita calma. eu juro. Tripinha cheira cola. MORENA – Socorro! COROA – Cadê o ferro? Tripinha saca a arma. COROA – A gente não pode ir no caixa. eu fico quieta. COROA – Tira as calça que é melhor. COROA – Tu bem que tava gostando. TRIPINHA (se aproxima) – Tu bateu com a cabeça. COROA – Mas tu disse que tava sem dinheiro. COROA – E o meu e o do manco. eu fico quieta. Coroa? COROA (se aproxima e cheira Morena) – Tu é muito gostosa. TRIPINHA – Mas eu não sei onde é esse caixa. MORENA – Fui seqüestrada! Socorro! COROA – Isso vai dar merda. MORENA – Eu te dou qualquer coisa pra vocês me deixarem ir embora. por favor. Não me mata. qualé? MORENA (pra Tripinha) – Eu te dou o dinheiro. MORENA – O que é isso? COROA – Ih. eu dou o dinheiro. COROA – Tu tá me deixano nervoso. por favor. 20 . TRIPINHA – Tá sem bala. MORENA – Vocês vêm comigo. COROA – Tu dá qualquer coisa mesmo? MORENA – Calma. Me tira daqui. pelo amor de Deus. Eu só preciso ir no caixa. MORENA – Tira a mão de mim. TRIPINHA – Trezentos real. MORENA – Tudo bem.15 Morena acorda com Coroa lhe bolinando os seios. COROA – Ela quer fugir. MORENA – Então vamos marcar em algum lugar pra eu dar o dinheiro pra vocês. Eu juro.

o manco deixou na minha. eu tô na escolta. moleque. Vamo lá pegar o dinheiro. TRIPINHA – O ferro é meu. Eu fico na escolta. Temo que ter um prano pra vagabundo não tomá de nós. Morena quase desmaia novamente. TRIPINHA(mostra a arma) – Tô trepado. TRIPINHA – Pra que tu qué o ferro? COROA – Confia. zelar pela saúde/ Sabrina desliga o computador. 16 . MARIO NEVES – Como é que termina a frase? VAL – Não é da sua conta. Tripinha e Morena saem andando. e não ao Estado. MARIO NEVES – Você é advogada trabalhista. se aproxima e por alguns segundos consegue ler o que ela escreve. eu tô na escolta. COROA – Dá esse ferro aqui. (pra Tripinha) vai com ela. é? VAL – Também.TRIPINHA – Eu vou contigo. dona. MORENA – Não faça isso comigo. TRIPINHA – é meu. Coroa vai logo atrás. MORENA – Tá sem bala mesmo? Tripinha saca a arma. vai. moleque. VAL – Que susto! MARIO NEVES (lê) – Cabe ao empregador. COROA – Tu vai tomá porrada. pequeno. Eu tenho pavor de/ COROA – Deixa o ferro comigo. Dá aqui. MORENA – Não. COROA (pra Morena) – Vai andano na frente. Tripinha lhe entrega a arma. 21 . não é esse o combinado? TRIPINHA – E por que é tu que tem vai ficar com o ferro? COROA – Porra. COROA – Tu vai com a dona no caixa e eu faço a cobertura. COROA – Vambora. tô na escolta. Assim eu não vou. MORENA – Guarda isso.APARTAMENTO Val está escrevendo ao computador. Vamo no caixa. MORENA – Aí depois vocês me deixam ir. aperta o gatilho e nada. sorrateiro. COROA – Trezentos real é muito dinheiro. TRIPINHA (empunhando a arma) – Vamo no caixa. TRIPINHA – Tu tá cheio de marra. pequeno. Tu vai no caixa com a dona e pega os trezentos. Guarda isso aí. Mario Neves.

Não sei se você percebeu. faz um cheque aí. MARIO NEVES – É sério? VAL – Além do meu pai. alimentado os meus sonhos. VAL – Vou processar também a minha mãe. MARIO NEVES . VAL – No começo é assim. não é mesmo? VAL – Repete o que você falou. MARIO NEVES – De quem? VAL – De quem me fez assim. MARIO NEVES – Mas que paranóia. Estou movendo uma série de processos contra todos os responsáveis por eu ter me tornado quem eu sou. hein? VAL – é. tá bom. Você já me fez rir o suficiente. Estou começando a me sentir sufocado aqui dentro. VAL – Acho bom mesmo. por favor. Trezentinho só. Ele explode numa gargalhada. eu estou desempregada. Tem gente que vive disso. eles sempre têm a sua parcela de responsabilidade deixada em aberto.Não era essa a intenção. a minha faculdade. VAL – Fique tranqüilo que eu não vou te processar não. MARIO NEVES – Interessante. meu ex-noivo. MARIO NEVES – Calma. senão eu ia viver de processar meus ex-patrões. sabia? MARIO NEVES – Eu imagino. MARIO NEVES – Tá bom. eu não disse que era você. instaurado ambições e/ou ter me jurado amor em vão. vai. VAL – Não me provoque. Vou processar também o Beto.MARIO NEVES – Pena que eu não consiga ser empregado de ninguém. Vamos fazer o seguinte. VAL – Não é isso. MARIO NEVES – Qual é o telefone da Morena? 22 . fomentado a esperança. depois você se acostuma. mas já que você/ VAL – Estou passando por um momento muito difícil. Desempregada e impedida de sair de casa. VAL – Muito difícil. O que você quis dizer sobre viver de processar os outros? MARIO NEVES – É uma boa maneira de se ganhar a vida. MARIO NEVES – Então o seu cliente é você mesma. E além do mais. Quem você está processando? VAL – O meu ex-patrão. Sou uma refém. MARIO NEVES – O que são trezentos reais para você? VAL – Muito. MARIO NEVES – Qual é a exigência para ser processado por você? VAL – Gerar ou ter me gerado alguma expectativa. da escola onde eu estudei. Depois eu te devolvo. VAL – Sim. MARIO NEVES (ri) – Gostei do seu senso de humor. MARIO NEVES – Eu também. MARIO NEVES – Você pode pelo menos pedir para o porteiro ver se aqueles demônios ainda estão lá? VAL – Não. VAL – Tá rindo do quê? MARIO NEVES(segura o riso) – Nada.

Tu pediu. POLICIAL (engatilha a arma)– Tu não tá facilitano. que cede. Tu matou aquele vagabundo ali. porra. um pé. depois mete a mão no bolso e tira três ou quatro balas (munição). calçado com um coturno. que estão no caixa eletrônico. COROA – Mas eu não/ POLICIAL – De qualquer jeito tu vai ter matado aquele outro. eu não/ POLICIAL – Tu vai ou vai querer ficar que nem ele? (aponta pro corpo) COROA – Eu não/ POLICIAL(lhe aponta a arma).RUA Num pequeno foco de luz. Tu tá pedino. VAL – Ela já deve estar chegando. (aparece o corpo do ESPECTADOR morto) Teje preso. (a sua mão armada aparece) solta o ferro no chão. o que tu tava quereno com esse ferro na mão? COROA – Eu tô na escolta do/ POLICIAL – Mentira. MARIO NEVES – E o que a gente faz enquanto isso? VAL – Eu tenho muito o que fazer.VAL – Ela não vai te dar o dinheiro. COROA (carrega a arma) – Vou metê naquele rabo. tenta ser o mais discreto possível ao sacar a arma. é? VAL – Pára! Ele enfia a língua na boca dela. (Coroa se abaixa e coloca a arma no foco) COROA – Eu não sou bandido. O pé pisa na bala. Responde. MARIO NEVES – O que eu faço contigo? VAL – Nada. solta o ferro. que cai fora do foco de luz.Tu vai ter que decidir o que tu quer. COROA – Não. dona. COROA – Não me mata! POLICIAL – O que tu tava quereno com esse ferro na mão? COROA – Não é meu. MARIO NEVES – Me deixe tentar. 17 . Coroa olha para os lados. 23 . POLICIAL – Perdeu. Vou te fuder. POLICIAL – Tu é muito desaforado. (ele se abaixa pra pegar a bala) vou metê naquele rabo. Quer pagar vivo ou morto? COROA – Puta que o pariu. MARIO NEVES (se aproxima dela) – Eu não consigo. VAL – Não toque em mim. No momento em que Coroa se abaixa. POLICIAL (ri) – Rabo é o que não falta na cadeia. (ele se atrapalha e uma das balas cai no chão) Porra. dona. e eu não meti naquele rabo. MARIO NEVES (a agarra) – Você vai me processar. pisa na bala e dá uma joelhada em Coroa. Vou te queimar. tu tá me deixano nervoso. porra. Coroa está parado sozinho enquanto espera por Morena e Tripinha. porra.

porra. Não sô não. (escolhe um espectador) Perdeu. 24 . Não quero sujar a minha mão contigo. seu filho da puta.Tá pedindo desculpa por quê? Coroa leva outro pontapé e geme de dor. porra. Mataram o filho da puta por um dente. com dificuldades. POLICIAL – Acorda. COROA – Desculpa. Mas o dente é meu. ele está quase se levantando quando cai um dente da sua boca. Teje preso. Eu ia meter no rabo da dona. Coroa. tenta se levantar. COROA – Pra onde? POLICIAL – Vamo pra DP. POLICIAL . A dona tá me dando mole. Coroa. Coroa toma outro pontapé e desmaia. por um dente. eu quero levar. POLICIAL – Então pra quê tu precisa desse ferro? COROA – Não é meu não. COROA – Eu num sô estrupador não.Mas eu não/ Coroa toma uma coronhada. desculpa. POLICIAL – Puta que o pariu.COROA – Isso não é justo. desmaiado. Fragrante consumado. É do/ POLICIAL – Tu vai comigo. cai e leva um chute. COROA – É meu. Esses vagabundos tão tudo louco. porra. Já tô fudido mermo. 18 . porra. POLICIAL – Como é que é? COROA – Pode me levar pra cadeia. POLICIAL – Estrupador? Tu vai virar comida de rato. COROA . Ele vai pegar o dente mas o Pé esmaga a sua mão.RUA Morena entrega o dinheiro para Tripinha. POLICIAL – Tu não vai mais precisar de dente. Mataram o filho da puta por um dente. Coroa toma um chute no rosto mas cai segurando o dente. Tu matou aquele outro e ainda por cima queria enrabar essa tal madame aí. toma um pontapé definitivo e morre O dente cai da sua mão. Levanta daí. POLICIAL – Quem manda aqui sô eu. POLICIAL – Levanta. Tu matou aquele ali. POLICIAL – Cala a boca.

MORENA (ri) – Se você não tivesse me seqüestrado eu te acharia fofo. TRIPINHA – Esse dinheiro não é pra comer. MORENA – Esquece isso. Tem um morto no meio da rua! TRIPINHA – Tem que acendê uma vela pro Coroa num virá fantasma. porra. TRIPINHA – Tô com fome. menino. Tá bom de confusão por hoje. A gente tem que sair daqui. tem que botá vela.MORENA – Pronto. TRIPINHA – Tu vai comprar a vela? MORENA – Deixa essa arma aí. Sacanagem. Vem comigo. não? TRIPINHA – Que confusão? MORENA – Vai ver que é isso. TRIPINHA – Pra onde? MORENA – Vou te dar uma vida digna. (ao telefone) oi. MORENA – Tem que nada. TRIPINHA – A gente combinou que um ia botá vela pro outro. É pra comprar o meu carro. moço. TRIPINHA – Tem que devolver pro manco. MORENA – Alguém faz alguma coisa! TRIPINHA – Por que tu tá gritano? MORENA – Ele está morto! (tenta chamar a atenção da platéia) por favor. e a arma – deles. oi. Eu vou te ajudar. Larga isso aí e vem comigo. TRIPINHA – Sacanagem. MORENA (pega o celular) – Vou ligar pra emergência. mataram um. TRIPINHA – Pra onde tu vai me levá? MORENA – Você só vai se largar essa arma. TRIPINHA (vê Coroa mort. oi. não tá. TRIPINHA – Tu vai embora? MORENA – O que mais você quer de mim? TRIPINHA – Tu é sangue bom. MORENA – Vamos sair daqui. MORENA – Ele foi baleado! Ele foi baleado! TRIPINHA – Sacanagem. Tem um morto no chão. MORENA – Legal mas eu tenho que ir. MORENA – Tem que comprar. Me dá uma vela. O Coroa era sangue bom. MORENA – Calma. (ele chora) sacanagem. MORENA – Bonitinho. MORENA – Com esse dinheiro aí você come por um tempo. tá sem sinal aqui. agora tchau. 25 . TRIPINHA – Tem que devolver pro manco. vamos/ TRIPINHA – Tem que botá vela. Tem que botá uma vela. menino. socorro! TRIPINHA – Eles num si importam. menino.no chão) – Caralho! MORENA (vê) – Socorro! TRIPINHA – Passaram o Coroa. Vem. Não é possível que ninguém faça nada. (ele se abaixa e pega arma) MORENA – Larga isso aí. TRIPINHA – Tu vai comprar vela? MORENA – Larga essa arma. Caiu. Vai ver que é disso que eu preciso. TRIPINHA – Me compra uma vela.

Tripinha lhe entrega a arma. MARIO NEVES – Ele está armado! VALÉRIA – Você está armado?! TRIPINHA – Não. Morena entra empunhando a arma. Os dois – acuados – se encaram. apavorada. 26 . entra. MORENA – Me dá essa arma. Ele vê que tem alguém dormindo no sofá. 19 – APARTAMENTO Mario Neves. TRIPINHA – Tem que botá a vela pro Coroa. né?! Onde mais poderia ser? TRIPINHA – O Girafa tá enterrado ali naquele bueiro. Morena. de cuecas. MORENA – A arma está comigo. o que esse monstro está fazendo aqui?! VALÉRIA – O que você está fazendo aqui? TRIPINHA – Tô aí. não. TRIPINHA – Ih. MARIO NEVES – Valéria. se aproxima e quase cai pra trás ao reconhecer Tripinha. Ele aponta para a própria cabeça. TRIPINHA – Fica com medo. guarda a arma na bolsa. que acorda com o barulho.TRIPINHA – O que é isso? MORENA – No caminho eu te explico. tirano onda. Tá sem bala. TRIPINHA – Aonde? MORENA – No cemitério. MORENA – Deixa a arma aí. MORENA – Nós vamos enterrar o Coroa. TRIPINHA – Dá um esculacho nele. TRIPINHA – Tá sem bala. sonolento.plena – entra. quer ver? MORENA – Não me aponta esse troço de novo. MORENA – Pára! Ele abaixa a arma. Valéria . Não quero ter que pedir de novo. MORENA – Me dá isso aqui. pelo amor de Deus. abre a geladeira e bebe água do gargalo. TRIPINHA – Tem que botá vela. VALÉRIA – Cuidado com isso. dona. a lá. MORENA – Agora vambora daqui. e dá um salto do sofá ao reconhecer Mario Neves. TRIPINHA – Tem que devolver pro manco.

MORENA – Tá sem bala. VALÉRIA – Ele é meu convidado. VALÉRIA – Mas ele é perigoso! MORENA – Só ele? MARIO NEVES – Tem o outro pivete também. ainda não tive tempo de pensar. Tripinha. Morena. Eu também tenho direito. MORENA – A outra vítima morreu. MARIO NEVES – E essa ONG faz o quê? MORENA – Calma. eu tenho o direito. VALÉRIA – Abaixa essa arma. pelo amor de Deus. MARIO NEVES – E o dinheiro? MORENA – Você me deve trezentos reais. VALÉRIA – Pára. Não brinca com essas coisas. seu merdinha. Mario Neves. MORENA – Tá surdo. MORENA (guarda a arma) – Pronto. Morena. Morena liga a televisão e acomoda Tripinha no sofá. MARIO NEVES – Vira isso pra lá. É tudo muito recente. VALÉRIA – Vocês combinaram isso?! MARIO NEVES – Tá de sacanagem. “os caçadores da paz”. MORENA – E o Tripinha é meu convidado. foi mal. MORENA (aponta a arma pra Mario Neves) – Quero ver você dar uma de macho agora. E nós vamos enterrá-lo. dona. os caçadores da paz. Tripinha? TRIPINHA – Três pulinhos. não. MORENA – A gente combinou que isso não podia. VALÉRIA – O que esse pivete está fazendo aqui? MORENA – Eu é que pergunto (olhando para Mario Neves): o que esse vagabundo está fazendo aqui? MARIO NEVES – Vagabundo. Vou fundar uma ONG. MORENA – Tamo. VALÉRIA – Não precisa. MARIO NEVES – Como é que você sabe? TRIPINHA – Mostra pra ele. MARIO NEVES – Os caçadores da paz?! VALÉRIA – O que é isso? MORENA – Será a minha vida daqui pra frente. Mario Neves? Mario Neves dá três pulinhos. VALÉRIA – Nós quem. MORENA – Como é que é. 27 . MORENA – Quer mais? TRIPINHA (para Mario Neves) – Dá uma mamada aqui. você e o Mario Neves já estão quites. Já pensei em tudo.MARIO NEVES – Vem você. pago metade desse aluguel. cara pálida? MORENA – Eu e o Tripinha. certo? TRIPINHA – Valeu. TRIPINHA – Foi mal.

MORENA – De jeito nenhum. MORENA – E qual é a tua causa? VALÉRIA – Eu. MORENA – Não vai. VALÉRIA – Não fale assim com ele. MORENA – Vocês vão ter que me ajudar. TRIPINHA – Quero Méqui Donidi. MORENA – Ele é a minha vida. MARIO NEVES – O pivete vai te engolir. MORENA – Primeiro temos que fazer o enterro . VALÉRIA – Já pra dentro. VALÉRIA – Mas que loucura. MORENA – Não quer porcaria nenhuma. Tripinha foge. MARIO NEVES – Alto lá. hein? MARIO NEVES – Que nada. Vou te fazer um suco de papaia com avelãs chilenas. TRIPINHA – Tô com fome. gente. Você vai ter que ir lá liberar o corpo. MORENA – O que você quer comer? TRIPINHA – Méqui Donidi. MORENA – Cadê o Tripinha? VALÉRIA – Deve ter dado uma saída. TRIPINHA – Tô montado na grana. Valéria. Enquanto eles discutem. Vou no Méqui Donidi. A Morena é esperta. A causa é justa. temos que sentar pra discutir. MORENA – Assunto encerrado. tenho que ajudar a Morena nesse projeto. Morena sai atrás dele. Morena. hein. VALÉRIA – Daqui ele não sai. MARIO NEVES – Ouviu? MORENA – E você não se mete. Essa aí tá gasta. MARIO NEVES – O que já pode gerar alguma repercussão. MORENA (admirada) – Já tá assim. TRIPINHA – Que marra é essa? MORENA – Trate de me obedecer. Estou com umas idéias. TRIPINHA – Eu quero Méqui Donidi. MORENA – Você viu ele fugir e não fez nada?! VALÉRIA – Mas que agonia. VALÉRIA – Cadê o cadáver? MORENA – Tá no IML. menino. MARIO NEVES – Pegou pesado. Mario Neves. VALÉRIA – A minha causa é justa.MARIO NEVES – Por trezentas pratas eu penso nesse projeto contigo. TRIPINHA – Vou. é? VALÉRIA – É. 28 . já pro quarto. Isso é um negócio e tanto. Mario Neves.

VALÉRIA – O que foi. VALÉRIA – Meu amor é o caralho. Morena sai pra pegar toalha. seu filho da puta. VALÉRIA – Dá no mesmo. Tripinha entra nu e todo molhado. MARIO NEVES – Deixa ele. a gente pode se dar bem nessa. MORENA – Eu por mim ia pra rua gritar. MARIO NEVES – Sossega. MORENA – Ele não é produto. Valéria. Ele é um símbolo. MARIO NEVES (a segura) – Vai ser esse o esquema? VALÉRIA – Não tem esquema nenhum. Querem fazer o favor de parar com essa putaria? VALÉRIA – Putaria é o que você faz. MARIO NEVES – Esse pobrinho é um senhor produto. VALÉRIA – Você vai ficar comigo? MARIO NEVES – Você mora no meu coração. MORENA – Que seja. Morena volta. Ela o estapeia. Morena entra “carregando” Tripinha pela orelha. MORENA – Já pro banho. VALÉRIA – Você é um lindo. MARIO NEVES – Os caçadores da paz é uma boa marca. hein? Você tava se cagando de medo do pivete e de uma hora pra outra está achando legal ele ficar aqui? Você tá dando mole pra Morena. menino. MORENA – Esse menino vai dar trabalho. Mario Neves e Valéria estão quase transando no sofá. VALÉRIA – Assim é fácil. Isso aqui tem sentimento. VALÉRIA – Não consigo. Os dois se beijam. MARIO NEVES – Meu amor. VALÉRIA-Jura? MARIO NEVES – Juro. MORENA – Você já ouviu falar em toalha? TRIPINHA – Não. seu galinha. VALÉRIA – Isso não vai dar certo. Dá pra parar? MARIO NEVES – Tudo bem. Vamos pensar no projeto. Morena entra com ele e o coloca no banho. 29 . TRIPINHA – Me solta. MARIO NEVES – Bonito isso. Mas vender camiseta é muito pouco. eu mal te conheço. A noite passada me acordou.

MORENA – Vai botar a tua roupa. Vestido com as roupas dele. vai me esculachar? MARIO NEVES – Pra se dar bem. MORENA – Então vai já pra dentro. qualé. moleque. VALÉRIA – Você bem que podia comprar uma roupinhas novas pra ele. quer? Quer comer lixo? TRIPINHA – Peraí. VALÉRIA – O negócio tá complicado. dona. VALÉRIA – Continuo achando isso tudo uma grande loucura. Deixa ele ir. em estado natural. Tripinha fica olhando pra toalha. hein? 30 . TRIPINHA – Ih. Valéria. MARIO NEVES – Eu?! Morena volta com a toalha. MORENA – Eu não quero ter que mandar de novo. TRIPINHA – Vô visti isso não. TRIPINHA – Tu não manda em mim.TRIPINHA – Quem é que vai dar uma mamada? VALÉRIA – Faz alguma coisa. justiça em causa própria. MARIO NEVES – Essa é uma oportunidade única. Mario Neves. agora se enxuga. Isso é ropa de mulé. Ele é da rua. MORENA – Você quer ir embora? Quer voltar pra rua. MARIO NEVES – Mas então. tu vai ter que se enquadrar. gente. TRIPINHA – Tu vai me dá? Morena dá um tapa na boca de Tripinha. VALÉRIA – É pra se enxugar. MORENA – Nasci pra ser mãe. MORENA – Toma. VALÉRIA – Nu?! MARIO NEVES – Não. MORENA – Exijo respeito. Nós precisamos dele assim. Vai já se vestir. é óbvio! Um dos nossos serviços será oferecer assistência jurídica aos nossos associados interessados em justiça em causa própria. Aqueles trapos não/ MARIO NEVES – De jeito nenhum. é uma nova área do direito. MARIO NEVES – Gostei da moral. MARIO NEVES – Mas é claro. Morena pega a toalha e o enxuga. Valéria. Tripinha obedece e vai se vestir. é/ MORENA – Do que vocês estão falando. VALÉRIA – Mas não em causa dos outros. TRIPINHA – Tu é o maió caô. Só advogo em causa própria. É a tua especialidade.

TRIPINHA – Tô com fome. MORENA – Pretendo fazer um trabalho sério. MORENA – Pra quê? MARIO NEVES – Pro lançamento dos caçadores da paz. MORENA – é porque ele não come. Só por isso. Mario Neves. VALÉRIA – Eu não tenho dinheiro pra dar pra isso. Só sei que vamos pra rua. O que eu faço pro almoço. MARIO NEVES – Vamos lançar a semente da nossa ONG nesse enterro. VALÉRIA – Mas esse menino só pensa em comer. Você entra com força de trabalho. “Lute pela paz ao lado de Tripinha” Tripinha é uma espécie de “Tia Augusta” para viagens à passeatas. VALÉRIA – Você está passando mal? MARIO NEVES .Tô tendo um insight. E ainda oferece serviços como acompanhantes. E o moleque aí é o nosso grande trunfo. MORENA – Quero saber quem é que vai providenciar o enterro. entra. gente? TRIPINHA . MORENA – Como assim? MARIO NEVES – Vamos transformar o enterro do outro pobrinho num marco nessa cidade.APARTAMENTO 31 . “Marche confortável” etc 21 . maquiador. Mario Neves? MARIO NEVES – Nós vamos pra rua. 20 – PROJEÇÃO DE SLIDES Campanha de lançamento dos “caçadores da paz”. TRIPINHA – Tu não ia fazer hamburgui? MORENA – Espera um minuto. vestido. Valéria. MARIO NEVES – Mas também não tem emprego. VALÉRIA – Você vai fazer hambúrger? MORENA – De cordeiro nanico malhado com páprica. Você venceu. Morena.MARIO NEVES – Você não está sentindo o vento soprar? Tripinha. vai ter que entrar com algum capital. VALÉRIA – Mas o que vai ser essa ONG afinal? MORENA – Não sei. Eu entro com as idéias e você. vou fazer hamburger. VALÉRIA – Que cara é essa. é claro. VALÉRIA – Pára de palhaçada. MORENA – Agora sim. MARIO NEVES – Pra entrar nessa eu preciso saber se vocês estão realmente dispostas a mergulhar fundo.Méqui Donidi. MORENA – Ok. MARIO NEVES – Precisamos de uma logomarca. hein. garçons durante os trajetos.

Os quatro almoçam sentados à mesa. 32 . TRIPINHA –Nós vai interrá o Coroa? MORENA – Vai. Tripinha fuma. MORENA – Vou viver pra servir. MARIO NEVES – Tô pensando como é que transformamos esse turbilhão de sentimentos em algo viável.Você precisa ir se acostumando a sair de casa. MORENA – Vai ter tudo: vela. O problema é dele. mas não os clientes daquele restaurante. que por aí é confundida com esperança. MORENA – Você fuma?! TRIPINHA – Dá um trago aí. Você tem que gostar mais do meu. padre. esses pobre coitados. A encomenda chega amassadinha. TRIPINHA – Tem que botá vela. VALÉRIA (acaba de comer e acende um cigarro) – Não contem comigo pra essa loucura. meu filho. Toma. VALÉRIA – Tá vendo? É exatamente sobre isso a minha defesa. MORENA – Não. deliberadamente maquiada de esperança. flores. diferente. MORENA – Mas que desgosto. Meu filho. MORENA – Mas isso está errado. Só querem mandar. Sim. confundida não!. MARIO NEVES – Que nada. VALÉRIA – A encomenda. Vamos rodar o mundo promovendo a paz. TRIPINHA – Dá um trago aí. VALÉRIA – Acho que você exagerou na páprica. (grandiloquente) O enterro será o início de tudo. VALÉRIA – Ah não. MORENA – De jeito nenhum. VALÉRIA (lhe oferece o maço) – Pega um pra você. MARIO NEVES – Dá um trago pro moleque. Ela chega desgastada pela expectativa. Deixa o menino fumar o cigarro. MARIO NEVES . O enterro marcará a primeira aparição pública do nosso troféuzinho aí. tudo o que ele não teve em vida. MORENA –Seu filho. Valéria. MORENA – Gostou. A expectativa. vou viver pra servir os que nunca foram servidos. Valéria. Tripinha? TRIPINHA – Prifiro o Méqui Donidi. MORENA – Mas que raio de processo é esse que não termina nunca? VALÉRIA – É a minha defesa. vai. vai dizer que você está tendo outro insight? MARIO NEVES – Tô e dos bons. MORENA – Se você não for no enterro será uma desfeita comigo. fuma. As pessoas vivem mandando em mim e depois não assumem a responsabilidade por eu estar na merda que estou. fuma. É importante pra mim. VALÉRIA – Tenho que terminar o meu processo. MARIO NEVES – O hambúrguer está divino. não. Ela nunca vem a contento. cansada. Ele tá melhor do que a encomenda. miseráveis. para os humilhados.

Molécula sintetizada. porque a embalagem há de ser do Bem. etiquetado e vendido. VALÉRIA – Mas comigo não! Comigo não! Os caminhos tortuosos provocam no meu ser a leveza do caroneiro. Sobre o caixão está a bandeira dos “caçadores da paz” (a logomarca é um grupo de desesperados correndo atrás de uma pomba branca desesperada) Tripinha está dentro de um cercado de bebê. na final do campeonato mundial de surf. MARIO NEVES . quando torna-se palpável.claro. Contente-se. Esse é o nosso caso. toma conta do menino. Tudo com acompanhamento de personal-trainers. prezados jurados. Mario Neves vende tíquetes que dão direito à uma rápida visita ao cercado de Tripinha. Encomenda versus o Bem. perfeita para a cidade. Daí pra frente os dias são todos iguais. por favor. cheirando cola. Tripinha? 33 . O carnê sai por/ MORENA – Mario Neves. O Bem. Fórum Social. Não pode. nada de novo foi dito. prazos e metas. liberação da maconha em Amsterdã. Eu sou uma caçadora da paz! Valéria “congela”.. E a criatura então se equilibra na esteira rolante do metrô. Os sentidos perdem sua individualidade. Seja igual. Resultado: a equação jamais fica em aberto. MORENA (para Tripinha) – Larga essa cola. Terceira etapa: os sentidos hão de se assemelhar uns aos outros. 22 – CEMITÉRIO-CIRCO (a transição será feita durante a exposição da tese de Valéria – já iniciada no final do capítulo anterior) VALÉRIA (transição) – Fui concebida idéia e nasci pessoa. VALÉRIA – dentes alvos da minha insatisfação/ MARIO NEVES – Pros jovens de cuca fresca nós temos uma pacote ótimo: vá às maiores passeatas do mundo. com orçamento. é o maior barato. estamos diante do nosso caso. é diluído até chegar ao bem. Na maioria dos casos recorre-se aos beliscões. não vai. Você sabe atirar. por sua vez. Tudo é uma coisa só. Parada gay em San Francisco. não dá. Segunda etapa: instalação de uma válvula limitadora no capacitador de fluxo. Até aqui. Uma pasta. Os mauhumor característico dos/ MARIO NEVES – Por dez reais você pode tocar no antigo ser humano. menino. comendo hambúrguer. já é uma tarefa louvável. Foi quando virei projeto. Resigna-se. Do Bem. Quarta etapa: policiamento da inércia. make-up stylist e etecétera. Somente adjetivos. fumando. Falemos pois do Bem. Primeira etapa: respirar é difícil. que eu tenho que ir ao banheiro.Mostra pro nosso público como é que o homem antigo caçava. VALÉRIA (segue na sua tese) – Falamos uma língua absoluta. brincando com o revólver. num de nossos ancestrais diretos/. pra dar uma intelectualizada e termina na Austrália. finalmente o que nos diz respeito veio à tona. Ainda não se têm instrumentos que regulem as três primeiras etapas. O caminho é sempre o mais fácil.

qué vê? A arma dispara. os senhores não acham? MORENA – Você sabe que eu não gosto disso. quer ver? Tripinha aponta a arma para Morena.O FIM 34 . B. TRIPINHA (pra Morena) – Tá sem bala. Mario Neves. MARIO NEVES – Ele é uma gracinha.TRIPINHA – Eu sei atirar.