NOVAS TECNOLOGIAS E A PRÁTICA DOCENTE: ENCONTROS E DESENCONTROS Verônica Maria Elias Kamel (Universidade Federal do Acre

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Introdução Com o surgimento de novas tecnologias, representadas principalmente pelo uso do computador, surgem também novas formas de leitura que sinalizam para um trabalho diferente com o texto em sala de aula. Consideramos que hoje o professor não pode ficar alheio a essa nova realidade, que exige mudanças nas práticas de ensino da leitura no espaço escolar. Sendo assim, o presente trabalho objetiva apresentar resultados preliminares do projeto intitulado Práticas de leitura nas aulas de Língua portuguesa no ensino fundamental 1 Essa pesquisa está sendo desenvolvida em uma escola pública de ensino fundamental, do município de Rio Branco-AC e tem o intuito de investigar os modos de ler e de falar sobre a leitura na escola, enquanto práticas desenvolvidas pelos sujeitos da educação (alunos e professores). Pretendemos investigar como os recursos tecnológicos estão influenciando as práticas de ensino de leitura na escola, se o uso das novas tecnologias está, de fato, contribuindo para a formação de leitores. Do ponto de vista teórico-analítico, utilizaremos os pressupostos da Análise de Discurso de inspiração francesa, particularmente as ideias de Bakhtin. Quanto aos aspectos metodológicos, além das entrevistas, realizamos, também, gravações de algumas aulas da disciplina de Língua Portuguesa. No entanto, nosso foco de análise no presente momento são as entrevistas realizadas com alunos do 5º ano e com o professor da disciplina de Língua Portuguesa, questionando-os acerca do uso das tecnologias em sala de aula. Levaremos em conta também as anotações feitas nas observações das aulas. Vale ressaltar que, na escola visitada, verificamos a existência de recursos tecnológicos, dentre os quais um laboratório de informática, dos quais o professor poderá dispor. Contudo, partimos da hipótese de que, apesar de o professor dispor, na escola, de recursos tecnológicos, há um distanciamento entre as novas tecnologias e a prática docente, a qual revela que o professor continua desenvolvendo métodos para o ensino de leitura que desconsideram o uso desses recursos. Adotamos a concepção de linguagem enquanto atividade dialógica, como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social, já que seguimos, nessa pesquisa, os princípios teóricos de correntes lingüísticas de abordagens enunciativo-discursivas que, no geral, assumem a linguagem como espaço de interlocução entre sujeitos socialmente localizados num tempo e num lugar determinados. Assim, construiremos nossa análise, escutando o discurso do professor e dos alunos sobre a utilização de novas tecnologias como meio de facilitar o processo de ensino/aprendizagem de leitura, refletindo como essas práticas são desenvolvidas e se contribuem para a formação de leitores ativos e críticos. Buscaremos compreender o que esses discursos revelam acerca das práticas de leitura no computador, especialmente o uso da internet. 1. Reflexões bakhtinianas: a natureza social da enunciação
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Pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Análise de Discurso e Ensino de Línguas – GEADEL/UFAC, acerca das práticas de leitura nas aulas de língua portuguesa do ensino fundamental, por mim coordenada, com a relevante participação de professores e alunos do Curso de Letras

ao direcionar a palavra para o interlocutor. forçosamente a produz: o ouvinte torna-se o locutor. o locutor já antecipa uma resposta. vivo. p. Essa forma de diálogo. 290). Considera ainda que a relação entre enunciados é característica do princípio dialógico. Essa troca de papéis entre o locutor e o interlocutor constitui as fronteiras do enunciado. está também diretamente ligada às estruturas sociais. esse autor destaca o caráter ideológico do signo linguístico e a relação necessária existente entre os interlocutores. elegendo o enunciado – “unidade real da comunicação verbal” (BAKHTIN. pois. 2000. o autor concebe a linguagem como um processo de interação verbal entre indivíduos socialmente situados e. p.. pela relação com enunciados que o precedem e/ou com enunciados que ele antecipa ou projeta. refletirmos acerca das ideias de Bakhtin. p.Antes de lançarmos o olhar sobre o discurso do professor e dos alunos da escola observada. Dessa forma. p. enquanto unidades linguísticas. A palavra é. pois “cada enunciado é um elo da cadeia muito complexa de outros enunciados” (BAKHTIN. dá lugar de destaque à enunciação. se contrapõe à compreensão passiva (decodificação) do ouvinte. 291). que só adquire sentido em uma situação concreta de comunicação verbal. Sob essa perspectiva. espera uma “compreensão responsiva ativa”. o enunciado é constituído pelo contexto da enunciação. que são determinadas justamente por essa alternância dos sujeitos falantes. A esse respeito. as palavras.. completa.. à de signo ideológico. vê-se marcado pelo horizonte social de uma época e de um grupo 2 Conforme Bakhtin (1992. “[. também signo linguístico. todo signo é ideológico e. adapta.] toda compreensão é prenhe de resposta e.112) a concebe como “o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados”. de natureza social. p. 2000. Para Bakhtin (2000). é o lugar onde se entrecruzam e se confrontam valores sociais contraditórios. p. 2000. não pertencem a ninguém. foco da nossa análise. a forma linguística é apenas uma parte do enunciado.113). dinâmico. adquirindo sentido somente no enunciado. apronta-se para executar. própria da análise da língua como sistema sincrônico e abstrato.. Sendo a enunciação de natureza social. Nas palavras de Bakhtin (1992.. uma atitude responsiva ativa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente). mesmo que sumariamente. é de natureza dialógica e ideológica.. portanto. Da noção de signo linguístico como sinal2 inerte. enquanto realidade da linguagem. 287) – como objeto de estudo. [. em sua obra. Dessa maneira. Bakhtin (1992. p. Bakhtin (2000) argumenta que. para com este discurso. (BAKHTIN. um diálogo em que esse interlocutor contrapõe a sua palavra a do locutor. faz-se necessário. a palavra. a interação verbal entre indivíduos realiza-se através de enunciados. etc. de uma forma ou de outra. pois é produto da interação verbal entre um locutor e um ouvinte. em uma situação real de comunicação verbal.. ao enfatizar a natureza social da enunciação. Segundo Bakhtin (2000. assim. No que se refere à enunciação. o lugar privilegiado para a manifestação da ideologia. passa-se a uma outra compreensão de signo. 93). “o sinal não pertence ao domínio da ideologia”. enquanto signo linguístico e social. [. o autor estabelece uma mudança na perspectiva de se olhar a linguagem. em seus estudos. entre os sujeitos. Em outras palavras. No início e no fim de todo enunciado – “desde a breve réplica até o romance ou o tratado científico – há os enunciados-respostas dos outros”. Toda palavra é direcionada para um interlocutor determinado ou potencialmente constituído no discurso. Sendo assim. .] realizando-se no processo de relação social.] o ouvinte que recebe e compreende a significação (lingüística) de um discurso adota simultaneamente. 294) Desse modo. têm significado neutro.

2000. citação) é um acontecimento novo. 2. Segundo Bakhtin (1993. p. palavras sobre palavras. podemos reafirmar que a base da concepção de linguagem para Bakhtin (1993) é a interação. irreproduzível na vida do texto. Assim. Sendo assim. irreproduzível. por trás dos quais estão as revelações divinas ou humanas (leis dos poderosos. o texto como enunciado é um acontecimento único. mandamentos dos antepassados. Para o autor. (BAKHTIN. numa relação dialógica. sofrendo as influências impostas por esta.] em todos os seus caminhos até o objeto. enquanto acontecimentos singulares. por exemplo.. é um novo elo na cadeia histórica da comunicação verbal” (BAKHTIN. Nesse sentido. ditados anônimos). Após essas reflexões. a imagem que faz de si. 331) –. só é possível a reprodução mecânica de um texto. pressupõe alguém que fala ou que escreve. o autor considera o texto como enunciado. na medida em que os discursos são construídos a partir de outros discursos.. individual. enquanto pensamento. Segundo Bakhtin (2000). que cria. manifesta-se na situação e na cadeia dos textos. a concepção de linguagem proposta por ele. revela claramente as relações que vinculam a linguagem à ideologia. tecendo comentários). enquanto interação verbal e social. explícita ou implicitamente. Ele afirma que: No campo das ciências humanas. novas formas de leituras Bakhtin (2000) discute o problema do texto na linguística. sua expressão. corresponde a “tudo quanto é repetitivo e reproduzível” (BAKHTIN. na medida em que se constitui nas “relações dialógicas intertextuais e intratextuais”. no interior e no limite de uma determinada formação social. em todas as direções. todo discurso é constituído de múltiplas vozes sociais. nasce no pensamento do outro que manifesta sua vontade. que reproduz (parafraseando. por outro lado. na filologia e em outras ciências humanas. uma emoção que nasce de outras. do outro e do referente. “[. nova execução. parodiando. por conseguinte. como ponto de partida de qualquer estudo. “mas a reprodução do texto pelo sujeito (volta ao texto. condição de existência de todo discurso. todo texto retoma. pois o seu dizer é determinado no momento específico de sua produção. Enunciação digital: novos textos. Logo. como a reimpressão. 332). sua presença. 2000. outros textos. o discurso se encontra com outros no próprio objeto. não lança mão apenas dos mecanismos linguísticos. no texto. p. o sujeito. já que considera o texto como a manifestação do pensamento que brota de outros pensamentos. as condições de produção. também. . analisando-o bipolarmente: de um lado. devendo-se levar em conta a relação que se estabelece entre os interlocutores. o discurso se encontra com o discurso de outrem e não pode deixar de participar. a partir de um texto. as interações. 329-330) Para Bakhtin (2000). um segundo autor – o sujeito que lê. p. textos sobre textos. o texto. Todo texto tem um sujeito-autor. o pensamento. Além desse primeiro autor. outro texto. se dão num contexto social e histórico mais amplo. seus signos. constituída pelo seu caráter dialógico – dialogismo –. p. todo texto pressupõe uma língua. com ele. ele é constitutivamente heterogêneo. quando elabora seus discursos. ou seja. o texto tem. Todo texto se constitui na interação entre os interlocutores e no vínculo de um texto com outro. Sob essa perspectiva. sob a perspectiva do dialogismo. releitura. 88). um sistema – que. ou seja. de uma interação viva e tensa”. 2000.social determinados”.

279). refazer etc. inclusive com a utilização de práticas integradas com a tecnologia: computador. com atividades de sala de aula que privilegiem práticas de leitura e escrita a partir de enunciados/textos de gêneros diversos.Com o advento da informática. “[…] mas o texto continua sendo instância enunciativa. representadas. “[…] a revolução do texto eletrônico é. As novas tecnologias e o discurso do professor Atualmente. p. conforme Chartier (1999. o leitor pode copiar. inseridos em práticas sociais. 1999. 68). o que muda são as formas de manifestação. etc. uma revolução da técnica de produção dos textos. “pois são os modos de organização. os gêneros são “tipos relativamente estáveis de enunciados” que estabilizam a produção do discurso. De acordo com Nogueira (2007. 98). 3. A visão do texto como um produto não acabado foi acentuada. a escola não pode ignorar os textos eletrônicos que circulam entre os membros da sociedade. 2002. texto. anotar. O norte é trabalhar com a língua em funcionamento numa relação de interação verbal entre sujeitos que. na medida em que. principalmente. apesar dessas mudanças ocasionadas pelo texto eletrônico. p. em consequência. vale ressaltar que. p. recepção e circulação de textos através de um novo suporte os aparelhos eletrônicos como: computador. seja de leitura ou de escrita do texto. No entanto. atualmente.. conceber a linguagem enquanto discurso é entendê-la como uma prática social e historicamente contextualizada. assim. dando lugar a uma produtividade contínua em que o leitor passa de um mero consumidor para um produtor de significações. abrindo caminhos para mudança de atitudes e inovação das metodologias de trabalho. a noção de texto enquanto processo de interação entre autor e leitor permanece. celular. as relações dialógicas tanto entre os discursos quanto entre os interlocutores se modificaram. uma revolução do suporte do escrito e uma revolução das práticas de leitura” (CHARTIER. num texto em tela. constuindo-se coautor do texto no ato de leitura. pelo uso do computador. contrato entre autor e leitor” (COSCARELLI. É a era da revolução tecnológica que modificou o processo de produção. de estruturação. modificando o olhar sobre o texto. a instituição escolar encontra-se inserida em um contexto social em que o texto eletrônico predomina em relação ao texto impresso. vislumbra-se um ensino de Língua Portuguesa. transmissão e recepção do escrito. tem transformado nossas relações com o texto. mas também as estruturas e as próprias formas de suporte que o comunica aos seus leitores”. palmtop. em que as informações são rapidamente substituídas por outras. ao mesmo tempo. Estamos passando pela “revolução do texto eletrônico” que coloca a nossa disposição uma gama de informações . A consequência dessa migração do texto para a tela passou a exigir do professor uma nova postura nas práticas de ensino. Essa revolução tecnológica é. numa perspectiva mais inovadora. internet etc. Dessa forma. leitor se transformou radicalmente. p. 2003.97). revolucionando o modo de produção e recepção do texto que circula em um novo suporte e exige novas formas de leitura marcadas por características como a variedade de recursos gráficos e as múltiplas conexões que ocasionam a quebra da linearidade e abrem portas para uma multiplicidade de percursos. O atual avanço e disseminação das novas tecnologias. Visto que o texto eletrônico possibilita ao leitor várias operações que modificam sua primeira escrita.113). p 1).. determinam os gêneros discursivos. a relação autor. surgem novos gêneros discursivos. de fato. de consulta ao suporte do escrito que se modificaram” (CHARTIER. Segundo Bakhtin (2000. Sendo assim. recortar. afetando as modalidades de produção. Seguindo ainda Chartier. notebook. “[…] uma revolução mais importante que a de Gutenberg [pois] ela não somente modifica a técnica de reprodução do texto.

retro-projetor. em outras palavras. entre a constituição do sentido e sua formulação”. vídeo cassete. o não dito. data show. a partir de uma situação – o contexto escolar. Assim. Assim. Diante disso. parece que . buscaremos apreender outros discursos que se fazem presentes no discurso desses sujeitos. principalmente. percebe-se a partir das outras respostas dadas pelo professor que ele. Você acredita que seus alunos fazem um uso correto da internet como meio de pesquisa? Por quê? Resposta: “Sim.textuais que ampliam e modificam nossos modos de conceber um texto. compreendemos que o dizer está sempre determinado pelo dizível. “há uma relação entre o já-dito e o que se está dizendo que é a que existe entre o interdiscurso e o intradiscurso ou. e etc”. data show. buscaremos compreender nesses discursos o efeito de sentido que provoca. a formulação do sentido (intradiscurso – o dito) é determinada pela sua constituição (interdiscurso – o não dito). a “revolução do texto eletrônico” possibilita novos modos de interações verbais e sociais. inclusive. vídeo cassete. o interdiscurso está inscrito no intradiscurso. p. sem muita clareza ou conhecimento do assunto. responde de forma evasiva e confusa. Que importância você atribui a estes instrumentos tecnológicos como meio de facilitar o processo de ensino/aprendizagem? Resposta: “Ajudam na contextualização de determinados assuntos. esse discurso do professor pode indicar que ele não tem muita habilidade com o uso do computador como ferramenta que auxilie o processo de ensino. acreditamos que o professor não pode ficar alheio a esta nova realidade. 32). e é através dessa relação que o que se diz faz sentido. ou seja. Quais os recursos audiovisuais disponíveis na escola? Resposta: “televisão. porque até o momento não notei algo indiferente (sic) com relação ao uso da internet. DVD. conforme. interrogamos os sujeitos da educação (professor e alunos) acerca da utilização de novas tecnologias no ambiente escolar. Através desses discursos. Esquece. observemos o que o professor diz: Questão 1. sendo assim. Ao ser interrogado sobre as questões que seguem. Conforme Orlandi (2000. DVD. resposta 3. Dessa forma. Enfim. analisaremos esses discursos a partir de suas condições de produção: o professor e os alunos falam do lugar social que ocupam – de professor e alunos. Logo. bem como na aprendizagem diversificada dos alunos” Questão 4. retro-projetor. bem diferente do diálogo com o impresso na construção de sentido. e etc” Questão 2. é bom lembrar que os alunos são acompanhados pelos professores na sala de informática” Ressaltemos inicialmente que o professor reconhece a existência de diferentes mídias eletrônicas na escola: “televisão. o diálogo com o texto eletrônico é outro. surge um novo olhar sobre o texto tanto em contextos institucionais como não institucionais. só se posicionando a esse respeito quando interrogado na questão 4. verificaremos a relação que se estabelece entre os discursos. Contudo. Do ponto de vista analítico. ou seja. apesar de atribuir um valor positivo aos instrumentos tecnológicos como auxiliares no processo de ensino/aprendizagem. Em outras palavras. de dizer que na escola tem uma sala de informática. Você utiliza esses recursos para auxiliá-lo no processo de ensino/aprendizagem? Resposta: “Sim” Questão 3.

permite ao aluno uma interconexão com outros textos. haja vista que só iniciamos essa questão. possibilita que o aluno tenha mais liberdade tanto na leitura quanto na escrita.. Em função do que constatamos. particularmente da questão 2. antes arbitraria e imposta pelo autor do texto impresso. com toda essa liberdade. esperávamos. . Não percebemos. não notei algo indiferente (sic) com relação ao uso da internet. como um mapeamento das informações transmitidas pelo autor ou a concepção de Leitura como pretexto para o ensino da gramática e de outras atividades. que a maioria diz não usar o laboratório de informática da escola. o aluno “viaje”. no mínimo. Nos resultados da pesquisa dos anos anteriores. podemos depreender que ao professor faltam conhecimentos básicos para utilização de textos da internet como ferramenta que possibilite a criação de novas condições de produção. “Sim só 1 vez”. que exige novas formas de leitura. Para tanto. em que o ato de ler torna-se apenas um trabalho de identificação das palavras do texto. disseram que já foram a esta sala e os que responderam disseram que só foram uma vez. p. pois pouquíssimos alunos.. cabe questionar: Será que o professor está habilitado a operar instrumentos tecnológicos? O professor está habilitado a orientar esse novo gênero discursivo – o hipertexto.. Ora. Com que freqüência você acessa a internet? 2. Seguiremos nossa discussão verificando o que o aluno diz sobre o uso das novas tecnologias. o processo de leitura do hipertexto oferece várias possibilidades de ligação entre os textos. “a flexibilização das fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento. respondendo a essa questão. que o professor dissesse: a) como direciona a pesquisa que os alunos fazem.36). Você faz uso do laboratório de informática da sua escola? 3. se “desconecte” e adquira um conhecimento superficial ou fragmentado do assunto pesquisado. 2002). como ferramenta auxiliar no desenvolvimento de atividades dos conteúdos de ensino? É isso que verificaremos no andamento da pesquisa desse projeto. a liberdade do aluno dialogar com outras áreas temáticas. Apesar de na escola existir uma sala de informática. na prática docente da escola pesquisada. Assim. o ensino de leitura como processo de interação entre autor/texto/leitor ou a concepção de leitura enquanto processo que “considera o ato de ler como um processo discursivo no qual se inserem os sujeitos produtores de sentido – autor e leitor –. interrogamos os alunos através das seguintes questões: 1. Como vimos. o perigo é que. Outros responderam que “as vezes”. percebemos que o professor ainda adota a concepção de Leitura enquanto decodificação. b) que metodologia usa para orientar os alunos a desenvolver pesquisa na internet. possibilitando melhor compreensão do assunto pesquisado. já que sabemos que ao utilizar esse tipo de pesquisa o sujeito se depara com outro gênero discursivo: o hipertexto. ambos sócio-historicamente determinados e ideologicamente constituídos” (CORACINI. Que tipos de textos você gosta de ler na tela do computador? 4. dificultar a capitação da coerência global dos temas”.. por exigência dele ou do conteúdo de ensino. como a não linearidade. estamos oferecendo um curso de extensão acerca de teorias sobre leitura para os professores dessa escola. “Fomos ao laboratório um vez”. Vejamos: “Fomos uma vez”.] pode descentrar a atenção do leitor. além de servir de suporte para a materialidade linguística (o texto). Quais os sites que você mais acessa? Depreendemos das respostas dos alunos. o computador. através do texto eletrônico. pois o hipertexto tem características próprias.. recepção e interação com os conteúdos de ensino.acompanha os alunos à sala de informática. Esse novo instrumento tecnológico. esta é pouco usada. Segundo Gregolin (2000. diferente do texto impresso. [. como podemos comprovar com esse trecho da fala do professor: “. apenas para “vigiá-los”. Diante do exposto. que exige novas formas de leitura.”. Essa nova forma de leitura.

permite ao professor desenvolver e proporcionar ao aluno um ensino/aprendizagem de leitura de maneira lúdica e criativa. p. “Fomos uma vez”) para a mesma questão refletem que o professor não leva seus alunos ao laboratório de informática com frequência. Esse gênero discursivo utilizado.br.. o principal é a desigualdade socioeconômica. p.com. a maioria dos alunos diz que não freqüentam essa sala. a inclusão digital é a democratização do acesso às tecnologias da informação. ou lido na tela do computador.As diferentes respostas (“não. à era da informatização. de modo a permitir a inserção de todos nas novas tecnologias.kaka. A exclusão digital consiste em não ter acesso à era digital em virtude de uma serie de fatores em que. ao sabor das escolinhas de informática que faturam quanto querem em decorrência do fracasso das escolas públicas nessa área”. despertando-lhes o prazer de ler e construir sentidos na leitura. em sala de aula. na maior parte das vezes. Embora saibamos que o texto eletrônico está cada vez mais presente no cotidiano das pessoas e aqueles que não utilizam essas novas tecnologias são socialmente excluídos. Desse modo.com.” . do computador. sim. (SILVA. mas não sabe operar: “Daí. às vezes”. Percebemos que há uma incoerência entre o discurso do professor e o dos alunos quanto ao uso do laboratório de informática: enquanto o professor diz que “os alunos são acompanhados pelos professores na sala de informática”.. constitutiva do texto. às vezes o sujeito tem acesso a instrumentos tecnológicos. Há também um problema grave. portanto o trabalho com o gênero discursivo hipertexto não é desenvolvido a contento na escola. o professor poderia explorar esse gênero HQ para desenvolver sua prática de leitura com essa turma do 5º ano.br” “www. haja vista que a escola pesquisada está situada em um bairro da periferia da cidade. observemos algumas respostas: “Acesso site evangélico de Ana paula e André Valadão” “Acesso de desenhos bíblicos” “www. ou que raramente freqüentam. Foi seguindo as orientações dos PCN do ensino fundamental que sugere o ensino centrado na diversidade de textos que elaboramos a questão 3 “Que tipos de textos você gosta de ler na tela do computador?” Os textos organizam-se sempre dentro de certas restrições de natureza temática. a meu ver. que os caracterizam como pertencentes a este ou àquele gênero. se a opção do aluno é por esse tipo de texto.orkut. como é a preferência dos alunos. composicional e estilística. Quanto à questão 4 – “Quais os sites que você mais acessa?” –. a exemplo. 55) Por outro lado. a aprendizagem do manejo da mídia ser feita fora da escola.site de fofoca” “eu gosto de acessar os meus Orkut eu gosto de entrar no meu MSN eu gosto tabem de entra em lenda flocoria etc. precisa ser tomada como objeto de ensino (PCN. 2008. 23) Obtivemos como maior número de respostas a opção por Historias em Quadrinhos (gibi): “gosto de ler istorias em quadrimhos” (sic). “As histórias em quadrinhos no computador” Ora.” “jogos” “ofuxico . com textos mais próximos da realidade dos alunos. a noção de gênero.

ed. que eles fazem parte de comunidade de leitores bem específicos que usam a internet para estabelecer diálogos com outros leitores em busca de interesses comuns. In: A ordem dos livros. O jogo discursivo na aula da leitura: língua materna e língua estrangeira. ed. Do códex à tela: as trajetórias do escrito.São Paulo: Editora UNESP. BAKHTIN. Parece que seria tarefa da escola. REFERÊNCIAS BRASIL. Brasília. na medida em que este já se revela como usuário do computador que domina essa linguagem. Estética da Criação Verbal. Mikhail. (2000). dentre as quais a existência de computadores. Roger. (1992). Do ponto dos alunos. ed. CORACINI. Marxismo e filosofia da linguagem. Campinas. a teoria do romance. em muito.. São Paulo: Hucitec. para a melhoria da educação brasileira. por ter me transformado num usuário do computador e por ter estabelecido uma relação produtiva com os oceanos da internet. Os desafios da escrita. Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa – 3º e 4º ciclos. Brasília: Editora Universidade de Brasília. conforme Silva. para a formação dos professores e dos estudantes. fazer com que os alunos e professores estabeleçam “relação produtiva com os oceanos da internet”. CHARTIER. 6. _____. podemos afirmar que pode haver uma parceria entre o professor e o aluno. Ministério da Educação e do Desporto. 2ª ed. São Paulo: Hucitec. O impossível que precisa ser transformado em difícil e realizável diz respeito à formação adequada do professor para lidar com essas novas tecnologias enquanto recursos didáticos. (2002). A questão. (2002) . _____. Considerações finais Gostaria de iniciar essa conclusão dialogando com o pesquisador Ezequiel Theodoro da Silva (2008. diríamos que as condições materiais para a utilização dos recursos das novas tecnologias. estou convencido de que as conquistas feitas e que estão velozmente se fazendo pra o mundo virtual podem contribuir. _____. 3. já se apresenta como o realizável a que se refere Ezequiel. pela própria linguagem utilizada. 3.Essas são algumas das respostas apresentadas as quais já revelam uma diversidade de interesse por parte dos alunos e demonstram. (1993). . 55) quando afirma que: Por ter conseguido dominar um pouco das linguagens computacionais. Questões de literatura e de estética. (1999). Maria José (org. (1998). São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Pontes.). Considerando os dados preliminares dessa pesquisa. em parte. parece-me. é como transformar o impossível no difícil e o difícil no realizável.

(2008). Maria do Rosário Valencise. novas formas de leitura.COSCARELLI. (2003). (2000). São Paulo: Anhembi Morumbi. (2000). Luciana de Medeiros. . GREGOLIN. NOGUEIRA. A leitura nos oceanos da internet. 2 ed. Campinas: Pontes. São Paulo: Cortez. Anais do I Simposio Nacional de Leitura-SINALE.). Novas tecnologias. Ezequiel Theodoro (coord. SILVA. Revista de Comunicação e Educação. João Pessoa-PB ORLANDI. Novas tecnologias. In: Nexos. Carla Viana (org. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Da tela à teia do jornal online. Belo Horizonte: Autêntica. (2007). novos textos. 2ª ed. novas formas de pensar.. Eni Pulcinelli.).