O CONDE D´EU, O PRÍNCIPE INJUSTIÇADO Vasco Mariz Desde jovem ao estudar o segundo Império e a guerra do Paraguai sempre senti

uma especial curiosidade pelo Conde d´Eu. As referências eram contraditórias, mais negativas do que positivas, mas nunca cheguei a aprofundar o estudo do personagem. Em 2002, fui designado por Arno Wehling, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, para representar a entidade em uma conferência interamericana de institutos históricos em Assunção do Paraguai. Lá pronunciei um discurso sobre a formação da fronteira do Mato Grosso, pesando bem as palavras para não sensibilizar os donos de casa. Creio que agradei, mas ao comparecer a um almoço na residência do presidente do Instituto Histórico Paraguaio, ocorreu um fato extraordinário que me surpreendeu muito. De acordo com a minha prática diplomática, fui o primeiro a chegar e ao entrar no salão principal da residência encontrei várias crianças brincando. Quase ao mesmo tempo ingressou na sala uma senhora que se dirigiu às crianças aos gritos, dizendo-lhes mais ou menos o seguinte: “Parem ! Basta! Vão brincar lá fora no jardim, senão mando chamar o Conde d´Eu !” Ante essa ameaça terrível as crianças fugiram imediatamente e a senhora se desculpou pela balburdia. Confesso que fiquei paralisado de surpresa, mas depois aproveitei para conversar com colegas paraguaios presentes ao congresso sobre a cena que havia presenciado. Todos me confirmaram: o Conde d´Eu é o brasileiro mais detestado no Paraguai e é, até hoje, o bicho-papão das crianças paraguaias. Apressei-me a esclarecer-lhes que o conde era francês, neto do rei de França Luís Felipe e genro do imperador, mas ouvi frases agressivas contra o comandante-em-chefe das tropas da Tríplice Aliança na última etapa da guerra do Paraguai. Admirei-me de que nenhum dos meus interlocutores lembrou Caxias, Osório, Tamandaré, Barroso ou outros ilustres militares brasileiros que participaram da guerra. Aquela cena em Assunção ficou nos meus ouvidos e ao regressar ao Rio de Janeiro troquei idéias com vários historiadores, que acharam graça na minha historieta. Em 2009, Mary del Priore pronunciou interessante palestra no seminário francês do IHGB sobre os dois consortes franceses das filhas de D.Pedro II e conheci assim mais pormenores sobre a vida do Conde d´Eu, pouco lisonjeiros aliás, o que me aguçou a curiosidade sobre a personalidade do príncipe. Também no famoso livro de Mary, O Príncipe Maldito, há referências interessantes sobre o Conde d´Eu. Aqui estou a contarlhes o resultado das minhas pesquisas e leituras sobre o controvertido personagem e

o que condicionou Gastão a não apreciar mais tarde a vida fútil das côrtes carioca e parisiense. mas que foi tão mal compreendido pelos brasileiros. Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orleans. Os irmãos fizeram o high school em Edimburgo. a boa educação habitual de um neto de monarca.confesso que agora escrevo estas linhas com mais simpatia pelo príncipe francês. Aliás devemos registrar que ele se saiu muito bem nas refregas militares na África e regressara a Madri com uma pequena reputação de glória. o príncipe de Joinville. As negociações progrediram e outras regras foram preestabelecidas: em caso de viuvez sem filhos. história e geografia. Este é um pormenor que deve ser guardado.com relação ao ambiente nada intelectual em que viveria na côrte do Rio de Janeiro. que seria útil a Gastão quando estudou na escola militar de Segóvia e mais tarde serviu no exercito espanhol. o que era afinal uma remota possibilidade. além de diversas línguas. a 28 de abril de 1842. a princesa Isabel. Escócia. o Conde d´Eu. . Filho do Duque de Nemours e neto do rei de França Luís Filipe. prosa e poesia. mas depois empacou em virtude das exigências do imperador. mas . Curiosamente. Gastão era descrito como “bom. que tanto gostava do Brasil. Com filhos. deposto pela revolução de 1848. só poderia deixar o Brasil após a maioridade deles. Na correspondência das negociações. amigável e inteligente”. gramática. Gastão serviu no Marrocos como oficial na patente de capitão e lá participou de diversas batalhas mais ou menos importantes. Isabel e Leopoldina: eram Gusty de Saxe-Coburgo e Gastão d´Orleans. Gastão teve excelentes mestres e com seu irmão Ferdinand estudaram a antiguidade greco-romana. ou o menos rico. tais como a obrigação de fixar residência no Brasil e renunciar à eventual pretensão ao trono francês. hoje bairro aristocrático de Paris. Gastão teria liberdade completa. A iniciativa agradou. A família se exilou para a Inglaterra e só puderam regressar à pátria vinte anos depois.Pedro II. o que de certo modo foi uma preparação psicológica e tática para a sua participação na guerra do Paraguai poucos anos depois. dos filhos do rei de França e passou com a família uma vida severa e sem luxo. nasceu em Neuillysur-Seine. Tiveram também rigorosa educação física. interessou-se pela carreira dos sobrinhos e consultou Nemours sobre a possibilidade de um de seus filhos vir a casar-se com a herdeira do trono brasileiro. Enfim. o cunhado de D. O Duque de Nemours era o mais pobre. e receberam depois aprendizado militar no exército espanhol. Afinal dois primos-irmãos foram escolhidos para casar-se com as princesas brasileiras.

Gastão foi nomeado Comandante Geral da Artilharia e presidente da Comissão de Melhoramentos do Exército em 1865 Guardemos esses pormenores para depois fazermos uma projeção à sua participação na guerra do Paraguai. mas esta tinha um gênio muito voluntarioso. enquanto os cunhados Saxe-Coburgo tinham um filho por ano. página 278..” Gastão escreveu a sua irmã na Inglaterra: “Ela nada tem de bonito no rosto. Além do fracasso da paternidade. Deus e os nossos corações decidiram diferentemente”. No dia do seu casamento houve uma tempestade com chuva de pedras que causou grandes estragos na região. O casal demorou dez anos para produzir filhos. em 1869. e o Conde d´Eu à sua irmã mais nova. A 2 de setembro de 1864 chegaram ao Rio de Janeiro e lá “pensava-se no Conde d´Eu para minha irmã e o Duque de Saxe para mim.. gracioso”. Rio de Janeiro. mas acabou cedendo e trocaram os consortes. D.como escreveu Mary del Priore. Foi elevado a marechal do exército. com o titulo de almirante honorário. de 18 anos. 1 DEL PRIORE. o Visconde de Taunay nos recorda que o Duque de Saxe estava destinado à herdeira do trono. encantou-se pelo Duque. passou o tempo todo a pedir licenças ou prorrogação de licenças para ir à Europa e lá permanecer. na revista do IHGB nº 444. A côrte e o povo aguardavam ansiosamente o tão esperado herdeiro do trono. Com apenas 23 anos. Mary – Consortes nos trópicos: dois príncipes da casa de França no Brasil. julho-setembro de 2009. bateu o pé e não quis desistir de sua preferência.Pedro II tergiversou. Mas em sua estada aqui no Brasil não revelou as qualidades de zelo e de consciencioso estudo do Brasil que se manifestaram no conde (. mas o conjunto é A 15 de outubro de 1864 Isabel casava-se com Gastão com toda a pompa na capital do império brasileiro. Em seu agradável livro de memórias. quatro anos depois. o que foi um salto para o jovem capitão do exército espanhol no Marrocos. escreveu Isabel no seu diário. o que afinal de contas era a principal obrigação da herdeira do trono brasileiro. ou seria a princesa infértil ? O “reprodutor” francês não A tensão foi aumentando. funcionava. Diz Taunay: “O duque de Saxe tinha de fato melhor presença e maneiras muito mais agradáveis do que o Conde d´Eu. “petites histoires não faltam”. . Era um mau presságio.) O duque em sua permanência no Rio de Janeiro.1 Consta que durante a viagem no navio “Paraná” os primos teriam disputado as noivas em jogos de cartas e até em dados. modos mais de príncipe. Gastão tinha 22 anos e Gusty 19 e parecia normal que o jovem Nemours esposasse Isabel.

dando por encerrada sua participação. escreveu que “Gaston iria se prestar ao papel que Caxias recusara e que Isabel chamou de “capítão-domato”.. segundo nos relata Mary del Priore: “. Na França. “ os filhos de Leopoldina constituíam uma ameaça. Murmurava. abandonaria o cargo de comandante-geral da artilharia. (. D.Pedro II julgava que a guerra só poderia terminar com a morte de Solano Lopez.. não se pensava ainda que uma mulher pudesse ser estéril. Queria ser visto não como um simples consorte.. Se não era capaz de insuflar vida.. página 283. e devia. ser tratado de igual para igual. Papel de coveiro”. Eram os prováveis usurpadores do trono”..ele fizera de tudo para demonstrar ao sogro que podia. mas a opinião publica não via com bons olhos um francês no comando de tropas brasileiras. atrás de López. cit. Um dos argumentos em seu favor era que Gastão falava bem o espanhol e. Mary – op. Ele que antes recusara nomeá-lo apenas um dos assessores de Caxias. na época. é provável que quisesse compensar sua frustração nos campos de batalha. . A guerra do Paraguai se aproximava do final e Caxias regressara ao Rio de Janeiro.Pedro II. que fugira para as montanhas – seria uma etapa despida de glórias. agora propôs seu nome para Comandante-em-Chefe dos três exércitos e disselhe por carta que confiava ”em seu patriotismo e iniciativa”. O culpado talvez não fosse ele e sim a princesa.. Sua insistência chegou a irritar o imperador”2 Mais adiante a ilustre historiadora foi até maldosa: “Fragilizado na cama. portanto. agora solicitava a sua colaboração. mas como alguém com habilidades bastantes para governar o país. poderia se entender bem com os chefes militares argentinos e uruguaios. Como escreveu mais adiante Mary. que havia combatido quase dois anos com brilhantismo no Marrocos como oficial subalterno espanhol. se rebelava. o que hoje em dia é bastante corriqueiro. Começava porém o período mais inglório da guerra. que antes recusara vários pedidos de Gastão para participar da guerra. ! Afinal chegou o grande momento para o príncipe de Orleans. a caça a Solano López. D. podia semear a morte”.) Ameaçava: se não o deixassem partir sob as ordens do marquês de Caxias. Tampouco à princesa Isabel agradava a idéia de que seu maridinho arriscasse a vida em conflito tão sangrento e 2 DEL PRIORE. sempre cáustica. Pobre Gastão. solicitara ao ilustre sogro a nomeação para combater. o jovem Conde d´Eu. Aqui me parece oportuno fazer o comentário de que. Mary del Priore. protestava. o marido de uma imperatriz era um imperador e não um adorno.outros problemas foram aparecendo já no primeiro ano do matrimônio. Desde o começo da guerra do Paraguai.

enquanto o Duque de Saxe “não mostrava senão desprezo e indiferença pelo que se passava”. paciente e discreto. causou boa impressão entre a população e a imprensa. não dançava bem. 3 Seu sotaque áspero e desagradável. 398. São Paulo. salientou que o Conde d ´Eu. deselegante. vestia-se mal. em seu livro sobre D.Pedro II. excelente pai de família. Gaston d´Orleans era estudioso. pouco propenso a aceitar bajulações. antes de relatar os principais episódios da campanha. logo ao assumir seu importante posto. falava várias línguas.pg. O Visconde de Taunay já o conhecera bastante bem anteriormente. Francisco – Maldita Guerra. Taunay diz-nos que “a nomeação a Comandante-em-Chefe das forças de operações da Tríplice Aliança no Paraguai encheu de exaltação e orgulho o coração do Conde d´Eu”. tinha um narigão temível. de um modo geral. que se mostrara interessado em tudo. - . como aconteceu ao final da campanha no Paraguai. de uma fidelidade conjugal intangível. preciosas qualidades de administração e bravura que justificaram plenamente a escolha do imperador e seu governo” A responsabilidade era grande. por vezes demasiado DORATIOTO. bom católico. não gostava de intrigas. Era desajeitado. ocupada pelos paraguaios. desde que os genros do Imperador o acompanharam a Uruguaiana para a rendição daquela cidade gaúcha. era simples. e comentou: “O conde d´Eu não se preocupou com as dificuldades de sua missão. Entre os defeitos. Assim o Conde passava de capitão do exército espanhol a general em chefe dos exércitos dos três países aliados e isso aos 27 anos de idade”. Soube desenvolver a serviço do país que o adotara e lhe confiara a sorte de seu exército. O decreto dessa nomeação foi assinado pelo Imperador a 22 de março de 1869 e a designação. modesto. com suas qualidades e defeitos. indagava e colhia informações sobre o que se passava. 2002. meio surdo. frequentemente despenteado. embora não fossem mais esperados sérios combates militares. instável no trato diário. O historiador Francisco Doratioto apreciou a sua nomeação como “um meio de reerguer o moral da tropa e demonstrar que o imperador estava disposto a por fim à guerra por meio de uma vitória militar”3 O Barão do Rio Branco. pois começou por nos oferecer um perfeito retrato do príncipe.penoso. Taunay foi meticuloso em suas memórias. pressionou o governo paraguaio pela abolição da escravatura no Paraguai. Companhia das Letras. Taunay ficara bem impressionado com o príncipe. avarento e propenso ao desânimo e à depressão. Taunay salientava que embora ele tivesse uma bela estampa (era mais alto ainda do que o Imperador).

seriamente minimizado na saúde. como os brasileiros que lá serviram” Desenvolveu extraordinária atividade em vários momentos delicados da campanha final e. a delicada posição de príncipe consorte. Júlio José – Genocídio Americano: a guerra do Paraguai. 6 CHIAVENATO. Na batalha de AcostaÑu correu grandes riscos”. desagradava. Gastão foi acusado de haver ordenado a morte inglória do coronel Pedro Caballero e do político paraguaio Patrício Marecos. “Brindo o senhor Conde d´Eu. Ele soube o seu lugar na corte. campanha”. 1995. Taunay encerrou seus comentários dizendo que o conde d´Eu “foi vítima de muitas calúnias totalmente infundadas”. e sem dúvida representou bem o papel que lhe competia”. autor de verdadeiros crimes de guerra”6 “criminoso de guerra”. mais de uma Taunay se surpreendeu porque “o viu por vezes dar bolachas e pão aos soldados que montavam a guarda de sua grande barraca de TAUNAY. Gastão fez uma bonita proclamação inicial e. página 310.Op. São Paulo. em condições difíceis. 4 . visconde de . editora Melhoramentos. 5 TAUNAY. indiscutível coragem e sangue-frio. Depoimento que me parece irrefutável sobre o comportamento do conde d´Eu no Paraguai foram as palavras do general Osório no grande banquete de 25 de maio de 1877. vez. mostrou-se incansável nos múltiplos trabalhos de um comandante supremo.acentuado. No entanto. como escreveu o Visconde de Taunay. editora . Gastão não foi bem tratado por outros Doratioto o considerou quase um historiadores que abordaram a guerra do Paraguai. Brindo-o porque no Paraguai deu sempre provas de amar o Brasil e se devotou d´alma ao seu serviço. 2ª.. Entretanto. pela sua coragem e pela justiça com que administrou o exército. Já o general Osório. . Foi hábil no trato com as personalidades dos três paises que estavam sob seu comando e todos previram que ele daria boa conta do cargo. cit. Aos 27 anos tinha generais famosos sob suas ordens. edição. Julio José Chiavenato o acusa de “sanguinário.. como quem aliás se deu muito bem. visconde de . meu companheiro d´armas..4 O Conde d´Eu saíra do Rio de Janeiro com “ardores militares esfriados” e assumiu em Luque a 14 de abril de 1869. 1979. portanto sete anos depois do termo da guerra. paciência de um experimentado capitão.Memórias . página 380.5 Taunay nos conta que o conde revelou “grande habilidade estratégica. seguiu mais para elevar o moral da tropa por sua fama. correu sério risco de vida. como Osório. pelo seu valor..

sócio correspondente do IHGB na Argentina. não foi proposital e sim “consequência dos bombardeios aliados no início da batalha. D. e La guerra del Paraguay. cometendo violências condenáveis. em nenhum dos dois livros houve condena. de 2008. editorial El Lector. Assunção. que causou a morte de centenas de pessoas. reveló instintos sanguinários. fueron también immolados por orden del Conde d´Eu” 7 Já o historiador brasileiro Reginaldo Bacchi afirma o contrário. página 305 Wikipedia – vide longa e informativa biografia do Conde d´Eu. Gaston chegou até a pedir ao imperador licença de três meses. Ruiz Moreno foi porém muito duro com o marquês de Caxias ao publicar em seu livro uma carta veemente do presidente Mitre ao Comandante-em-Chefe brasileiro reclamando dele por não haver impedido que os soldados brasileiros saqueassem e pilhassem a cidade de Assunção. em consequência das terríveis condições da campanha. tomo 4. que mal herido habia caído prisionero con otros quinientos más. O famoso incêndio do hospital. de Isidoro Ruiz Moreno.. ao Conde d´Eu por suas supostas violências. a mais importante da etapa final da guerra. Comentando a batalha de Peribebuy. e 306. que sufrieron igual suerte” (. os historiadores argentinos não teriam perdido oportunidade para denegri-lo. se eram verídicas aquelas acusações paraguaias ao Conde d´Eu.8 Recentemente estive na Argentina e fui à belíssima livraria El Ateneo. Efraim – El Paraguay Independiente. Aliás. de nosso conhecido Miguel Angel de Marco. repleto de heridos. ou apenas censura. em todos os níveis. mas os acontecimentos se precipitaram e ele seguiu em frente. o historiador paraguaio Efraim Cardozo.. em busca de obras de autores argentinos sobre a guerra da Tríplice Aliança. que mandó personalmente el asalto. assim escreveu: “El Conde d´Eu.Houve também momentos em que o príncipe francês caiu em depressão. Curiosamente. Embora meio relutante. Por su orden fué incendiado el hospital. Foi uma surpresa. y degollado el comandante Caballero.. de 2010.) Los pocos que quedaron con vida. o que era sua missão principal. 8 . de Buenos Aires. Gastão perseguiu López tenazmente até o fim. Ora. mal heridos.Pedro II era um deprimido também. direcionados às fortificações paraguaias”. pois somente dois livros sobre o assunto estão disponíveis no mercado no momento: Campañas militares. 7 CARDOZO. fato que eu considero compreensível e que também deve ter acontecido com outros chefes militares durante a guerra do Paraguai.

e por isso devemos medir bem as palavras para também não sermos injustos e cair na infeliz patriotada que azedou a vida diária do casal até a sua partida para a Europa..10 DORATIOTO. A verdade sobre o cortiço é que o príncipe arrendou uns terrenos seus. CASCUDO. No ano anterior nascera uma menina. Felizmente para o casal. diretor da Biblioteca Nacional. Luís da Câmara – O Conde d´Eu. Nos últimos anos de sua permanência no Rio de Janeiro. ou localizar um desses espoliados moradores de tão fácil encontro”. Gastão nada pôde fazer de especial e ocupou-se sobretudo em educar seus três filhos. viu a luz o terceiro filho do casal. sem desfile. Companhia Editora Nacional. Todas essas lendas desaparecem no momento de realizar uma prova. Luís. 1936. 10 9 . D. quando o marido chegou aos 31 anos. Isabel deu a luz em 15 de outubro de 1875 a D. o reprodutor francês funcionara bem. (. Em 1878 nasceu o segundo filho varão do casal. São Paulo. Afinal. D. e em 1881.) O Conde passava a ter cortiços e a explorálos como meio de renda. até novembro de 1889. cit. em Paris.Pedro de Alcântara. E aqui chegamos ao período tão delicado dos últimos anos de Gastão e Isabel no Brasil.. Toda a imprensa anos e anos martelou essa tecla sentimental.Antônio. nos relata o historiador Doratioto em seu interessante livro Maldita Guerra. De regresso à capital. tal como ele recebera do Duque de Nemours.Gastão escolheu o doutor Ramiz Galvão. o Conde d´Eu foi recebido como um herói. foi recebido com grande manifestação popular promovida pelos liberais com vistas a ferir Caxias. “O príncipe consorte voltou à corte sem os regimentos. que falecera por complicações de parto.. página 455. como preceptor dos três filhos do casal. Mas. Cito o ilustre sociólogo Luís da Câmara Cascudo : “Não é possível enumerar todas as lendas que impopularizavam o Conde d´Eu.. de todo modo. onde foram construídas casinhas para operários de uma pedreira. insistindo porém em uma educação simples e sem preconceitos. Apresentaram o conde d´Eu e Osório como os vencedores da guerra e assim cometia-se uma injustiça com Caxias”9 Após aqueles momentos de glória ao regresso do Paraguai. logo após a proclamação da República. com todos os inconvenientes já relatados acima. a vida do Conde d´Eu voltou a entrar na antiga e monótona rotina da corte. o Conde d´Eu partiu de Assunção a 19 de abril de 1870 e chegou ao Rio de Janeiro a 29 do mesmo mês. Nenhum jornal em melhor reportagem pôde identificar esses cortiços. Francisco – Op. Elas foram lançadas para efeitos políticos e os jornalistas republicanos deram curso forçado a essa moeda falsa da calúnia. sem as bandeiras que ele desejara. páginas 110-111.Ao final da guerra.

seria fortemente influenciada pelo marido. São Paulo. Roderick – Op. Ela foi também uma filha obediente para D. Gastão permitiu que seus filhos frequentassem a escola do padre Moreira em Petrópolis e depois na capital o colégio Pedro II. ao assumir o trono. Lilia Schwarcz observou com argúcia que BARMAN. ao invés de angariar simpatia pela sua simplicidade. “Todos acreditavam que seria ele e não ela quem governaria o país após a morte de D.Pedro II e o Conde d´Eu por cima e ela por baixo. Ronaldo Vainfas esclarece que o Conde d´Eu sofreu calúnias absurdas como as de que se envolvia na exploração de imóveis em cortiços no Rio de Janeiro. 2005. editora da UNESP. Os brasileiros não queriam um francês governando o país e. Diziam até que Gastão cobrava pessoalmente os aluguéis a seus inquilinos.12 Ele estudou minuciosamente no Museu Imperial de Petrópolis a correspondência tanto de Isabel quanto de seu marido e seus comentários me parecem válidos .Pedro II”11 Aqui nos valemos do excelente livro sobre a princesa Isabel do historiador inglês Roderick Barman para nos dar um retrato preciso da redentora. nunca abriu mão do pátrio poder sobre ela.A princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX.Pedro II tratando de emasculá-lo para que não viesse a ser um concorrente. quadro meio ridículo que não concorria para o seu prestígio. D. que desde o começo precisou de apoio e compreensão. Ele era detestado por quase todos e parecia evidente que a princesa Isabel. que como era habitual entre os pais no século XIX.156 12 BARMAN.. ostensivamente responsabilizado por tudo. As tensões cresceram entre os dois homens: Gastão procurando afirmar seu poder no Brasil e D. cit. Isabel apaixonou-se profundamente pelo marido e esse amor permaneceu constante até o fim de sua vida. O casal fugia da vida social e política e Gastão procurava agir como uma pessoa comum e isso. de casaca e cartola. era alvo de mais ataques ainda. Também foi esposa dedicada para Gastão de Orleans. 11 .Isabel se viu apanhada num triângulo tanto físico quanto cultural entre ambos: D.Pedro II.Já se escreveu que o Conde d´Eu foi o responsável indireto pela proclamação da República. muito menos. Roderick . um francês antipatizado. Heitor Lyra conta que Gastão era visto nas ruas da cidade. sem na realidade ter voz nem influência” Até Rui Barbosa contribuiu para a sua impopularidade na capital do império. página . página 323. seguindo um carrinho puxado por carneiros com as três crianças. tanto que escreveu a seu pai dizendo: “Estou cansado de ser usado aqui como bode expiatório pela imprensa. Ela ficava entre dois fogos” O próprio Gastão estava consciente do problema.

D. página 433. o Imperador abandonava seus projetos iniciais de sucessão..“D. Pedro II. da melhor família da Europa. Desprezava ele tanto a sua própria filha e seu genro ? Gastão chegou a escrever uma carta a seu pai. 2006. porque detestavam Caxias. nem pelo próprio imperador”.Pedro ter o neto do rei de França como genro. recebera uma educação certamente muito superior à da maior parte dos integrantes da côrte de D. São Paulo. erroneamente. . Consta que quando D. o Conde d´Eu foi erroneamente acusado pela anistia aos bispos condenados. mas a sina dos Braganças se fazia presente com sinais de insanidade mental. mas depois do êxito no Paraguai sua significação cresceu desmesuradamente e tornou-se importante personagem da política nacional. o monarco foi diretamente conversar com os membros do gabinete. dizendo que “nem ele nem sua esposa . Os jornais o responsabilizavam por quase tudo de negativo que ocorria no Brasil. Era uma distinção para o Brasil e para D. antes de abraçar e ouvir a sua própria filha Isabel e seu genro sobre os principais temas políticos em pauta. e os liberais o viam com bons olhos. o que deixou o povo feliz. Afinal Isabel acabara de abolir a escravidão no país. que destruíram a sua imagem. de mais de ano e meio. parece-me um despropósito e não enaltece a memória do imperador como administrador. Ora. neto do rei de França. o príncipe Pedro Augusto. perdeu contatos preciosos com os militares e os políticos que lhe poderiam ser úteis e acabou alvo da campanha cerrada de boatos muito negativos a seu respeito. tinha boa aceitação entre os militares. Se é verídica.Pedro II parece não haver se dado conta disso e não se preocupava em satisfazer os anseios dos militares. Lembro que antes da guerra. Mas. Com essa decepção. Se Gastão tivesse mantido boas relações com a cúpula militar e cultivado os próceres do Partido Liberal. eram levados em conta nem pelos políticos. o Duque de Nemours. ele se retraiu por completo. Lilia . todos homens. fato da mais alta importância para o futuro do Brasil..Pedro pensava em preparar a sucessão para seu neto. podemos especular que ele não teria sido tão atacado pela imprensa como foi e teria talvez até aberto o caminho para o 3º Reinado. Pedro regressou de sua longa viagem ao exterior. Ao regressar do front. aumentando o receio geral de um Terceiro Reinado nas mãos de um estrangeiro”13 Durante a grave “questão religiosa”. Companhia das Letras. Isabel estivera no poder aquele longo período e tomara decisões graves. Três herdeiros haviam nascido. o exército brasileiro tinha pequeno peso político. Logo após o casamento. tal notícia. Gastão era bastante popular.As barbas do Imperador. Gastão tudo fez para ser consultado e ouvido pelo 13 SCHWARCZ. Gaston d´Orleans.

o Brasil deposita suas mais caras esperanças. valente e e simpático príncipe estivesse fadado a fracassar. Em 1869. ao regressar Caxias ao Brasil. Sir Richard – Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai. 14 BURTON. cada um de nós cumprirá o seu dever. Ele coroará novamente os nossos esforços e aqueles de nossos leais Aliados. com apenas 23 anos. de tanta perseverança. mas não foi assim. Com tais objetivos sagrados presentes em nossas mentes. por que ele pouco depois foi nomeado para cargos importantes ? Logo no início da guerra do Paraguai. publicado no livro de Burton . a plena finalidade que colocou em armas a nação brasileira. ” 14 A título de curiosidade reproduzo o texto de sua proclamação de 17 de abril de 1869. maduro e competente para confiar-lhe o importantíssimo cargo de Comandante-em-Chefe dos três exércitos aliados. mas foi tudo em vão. vitoriosos. 2001. Inúmeras provas de bravura e sofrimento. página 399. Rio de Janeiro.imperador. já ao final da guerra da Tríplice Aliança. que apenas quatro anos antes conhecera as agruras da guerra no Marrocos como capitão do exército espanhol. Ele já tinha bastante experiência bélica e podia realmente ser útil. Muito estranha essa súbita mudança de parecer sobre a competência de Gastão. Mas se pouco valiam suas opiniões. “Tendo sido designado por um decreto imperial de 22 de março de último Comandante-em-Chefe de todas forças brasileiras operando contra o governo do Paraguai. Sobre as tropas heróicas hoje unidas sob meu comando. com aquele devotamento aos interesses de seu país de adoção que sempre lhe caracterizou a carreira. Como explicar tal decisão ? Três anos antes ele recusara que Gastão fosse apenas um dos colaboradores de Caxias. no Paraguai. sejam em vão. prontificou-se voluntariamente a prestar serviços. assumo neste dia a árdua tarefa. . publicou em seu interessante livro Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai que “Sua Alteza Imperial o Conde d´Eu. ao assumir o seu cargo de Comandante-em-Chefe no quartel general de Luque. D. realizastes em face do inimigo uma das mais ousadas operações militares. Gastão tentou convencer o sogro a deixá-lo combater sob as ordens de Caxias. pela Marinha e pelos Voluntários derramam glória imorredoura sobre as armas brasileiras. edição da Biblioteca do Exédrcito. Sir Richard Burton. sem resultados. Muitos acreditavam que o jovem. e era natural que D. e restaurar para nosso amado país a paz e a segurança indispensáveis ao completo desenvolvimento de sua prosperidade.Pedro o tenha considerado ainda bastante imaturo. Hoje é o aniversario do dia em que conduzidos por um general de indescritível heroísmo. É verdade que ele era ainda muito jovem.Pedro subitamente mudou de opinião e passou a julgar o genro bastante apto. O Deus dos Exércitos não permitirá que que os frutos de tantos sacrifícios. e. veremos novamente o céu maravilhoso de nossa terra natal. curioso personagem da época. Cabe-nos alcançar através de uim esforço supremo. Um triunfo final assegurará a quatro nações os benefícios da paz e da liberdade. demonstradas antes e depois daquela data sempre lembrada pelo Exército.

Pedro II estava envelhecido prematuramente. Viva a Nação brasileira ! Viva o Imperador ! Viva nossos Alliados !” (Assinado) Gastão d´Orleans. o Conde d´Eu pediu uma audiência privada ao imperador na qual se manifestou contrário à dissolução. É possível que o Visconde de Tuanay. não era especialmente inteligente. em março de 1889. Nessa altura Gastão deveria estar sendo intensamente informado e preparado para auxiliá-la para que ela não se transformasse em joguete nas mãos de políticos menos escrupulosos.Pedro II para a sucessão. Osório e outros generais ilustres e sublinhou seu devotamento ao Brasil. quando menos esperava por isso. a tomar o lugar de generais cuja experiência os guiou através das provações de uma guerra prolongada. considerando que D. Gastão tentou assumir um papel nos negócios públicos por ocasião da uma epidemia de febre amarela em Santos.” Eu diria que o texto expressa uma certa humildade. Barman relata que. Pedro Augusto o chamado Príncipe Maldito. Urgia portanto preparar sua sucessora. sua principal responsabilidade. Mary del Priore acredita que seu neto. mas lhe falta talvez “alma e originalidade” e que o apelo ao Deus dos Exércitos é “uma pratica antiquada. Gastão contou que o imperador o deixou falar durante uma meia hora sem dizer 15 BURTON. já que Isabel tinha cultura limitada. fez cumprimentos a Caxias. Sir Richard – Op. Vosso apoio me possibilitará cumprir com todas as exigências da árdua missão que me foi imposta pelo meu profundo devotamento à grandeza do Brasil. o que é inexplicável. O Conde d ´Eu levou para lá uma missão médica para socorrer os doentes. Em carta posterior à condessa de Barral. quando o gabinete caiu. cheio de achaques. seu secretário particular e excelente escritor. Nem Isabel nem Gastão eram consultados para nada.Camaradas ! Havereis de me encontrar sempre pronto a advogar perante os poderes do Estado vossos legítimos interesses. e não podia durar muito. O que teria ocorrido para que Gastão se tornasse depois tão desprezível ? Nasceram os três herdeiros do trono. páginas 400/401. . mas com o aparecimento da grave enfermidade do rapaz era impensável apresentar o nome dele à nação. confio em receber de cada um e de todos vós a mais cordial cooperação. por ocasião da crise que levou à dissolução da legislatura. era o preferido de D. mas nem assim o imperador o chamou de volta ao seu convívio mais intimo. Obrigado.15 Richard Burton comenta em seu livro que o texto demonstra as melhores intenções do Conde d´Eu. nem tinha forte personalidade. O “Jornal do Comercio” aplaudiu: “Em boa hora lembrou-se o conde d´Eu de ir para Santos demonstrar interesse pelo povo” O mesmo autor relata que. Após a guerra o conde d´Eu foi recebido de volta como um herói e a opinião pública nacional o ovacionou. tenha colaborado na redação do texto acima. Cit. Comandante-em-Chefe.

Roderick – Op. logo após proclamar a República. deu um “Viva a sua Majestade Imperial D. julgava o imperador que. o completo isolamento em que ficou o casal depois do regresso de D. Julgava ele que a má imagem popular do genro impediria a filha de governar ? São perguntas que ficam no ar e que explicam. Mas o imperador estava cansado de governar. porque o resto do Brasil não chegou a ser consultado. cit. a cúpula militar que tão descontente estava por motivos variados.Pedro II da viagem aos EUA e à Europa e isso apesar de Isabel haver proclamado o final da escravidão. optou pelo golpe. Pedro continuava muito querido. soltou a princesa imperial. que ocorreram depois da guerra do Paraguai. página261. Atravessou o salão com a herdeira do trono pelo braço. D.Pedro II”. disse que ia pensar no assunto. a República seria proclamada ? Seria trabalho inútil preparar a sua filha e seu genro para algum dia. em parte. D. Um golpe carioca apenas. Depois de ouvi-lo algum tempo.Pedro. cit. já próximo. Ao primeiro pretexto. cit. honra de manifesta raridade”. Em verdade. lamentou-se o nobre francês. Parou ante André Rebouças e.nada. Mesmo naquela fase final de seu reinado. parecendo um pouco contrariado. faltava bem pouco para a queda da monarquia. . muito menos com uma mulher” 17 Ou já previa D. Se D. Luís da Câmara Cascudo nos relata em seu livro sobre o Conde d´Eu um episódio curioso que parece definir bem o caráter e a generosidade do personagem: “Uma noite de baile imperial. ele poderia ter revertido a situação. Barman confirma: “ O imperador manteve a filha e o genro totalmente excluídos das subsequentes manobras políticas. algo espantoso para quem estava derrubando um império. governarem ? Essa parece ser a única explicação pelo total desinteresse em preparar o casal para o poder. O orgulhoso Orleans notou. E o recusado sábio dançou com D. tanto que o marechal Deodoro. Luis da Câmara – Op. página 155.Isabel . tivesse descido a serra e enfrentado o golpe. CASCUDO. 16 “Essa foi a primeira vez que conversei formalmente com o imperador sobre política”. bem pouco sério. em breve. André Rebouças foi sucessivamente recusado a dançar por várias senhoras : o mestre inesquecível era escuro. que estava em Petrópolis.Pedro não admitia partilhar a sua autoridade com ninguém.Pedro que o império terminaria com a sua morte ? Ao meio de tantas crises políticas sucessivas. página 261. 18 16 17 18 BARMAN. com graça e distinção. Rodeick – Op. BARMAN..

“conseguiu recuperar para eles e seus descendentes a possibilidade de se casarem com outros nobres. foi organizado um Conselho de Estado. em nome da família imperial.cit. o casal instalou-se em três residências: na Normandia. foi intransigente: Gaston se havia naturalizado brasileiro e renunciado a todas as ligações com a família paterna. em seu livro Relembrando. Mary – Op. Gastão publicou um pequeno livro. Gastão tentou recuperar sua posição na família real francesa. Max Fleuiss. então colônia inglesa. Max – Relembrando – revista do IHGB. no qual foram integrados como “membros extranumerários” a princesa imperial e o príncipe Conde d ´Eu”. 19 Esta informação bem demonstra a confusão que reinava nos primeiros dias da República. Isso o excluiu definitivamente da Casa da França. O governo compreendia os inconvenientes de uma partida inesperada e desejava facilitar a vida de todos. D. Após a proclamação da República. em 1909. fato inapelável. D. O duque de Nemours ajudou bastante o filho. a discussão entre o imperador e Gastão de Orleans continuou em termos bastante vivos.Por ocasião da partida da família para a Europa ocorreu outra cena desagradável entre o Imperador e sua filha e genro. lembrando que tinha três filhos adolescentes. Journal d´une promenade autour du monde en 110 jours. relata que “quando se estabeleceu a República. então com apenas 45 anos. 19 20 20 Em 1920 o presidente Epitácio Pessoa revogou o decreto inicial da República que bania a família FLEUISS. China. que nada aceitaria do governo republicano. Egito e a Terra Santa. Ceilão. com os filhos já maiores. Índia. página 98. 3º volume. mas o Conde d´Eu se rebelou contra a sua decisão e disse que aceitava em nome de sua família. O casal educou os rapazes na Europa nos melhores colégios e. sem o ser morganaticamente”.Pedro II o recebeu e se surpreendeu com as palavras do porta-voz republicano: ele vinha oferecer ao Imperador e à sua família uma substancial quantia em dinheiro para as primeiras despesas da família em sua instalação na Europa. Curiosamente. Japão. o casal viajou bastante: visitaram os EUA.Pedro porém cortou–lhe a palavra e afirmou enfaticamente. em 1890. . Consta que depois da partida do emissário republicano.Pedro não hesitou e recusou imediatamente. no castelo d´Eu e em uma bela vila em Boulogne-sur-mer. página 287. Ambos tinham suas razões. D. mas o Conde de Paris. a instalar-se. ao chegarem à Europa. Já estavam todos a bordo se instalando em suas respectivas cabines quando subiu ao navio inesperadamente um emissário do governo provisório. DEL PRIORE. Depois da morte do imperador. o chefe da Casa de França.

secretário do Instituto Histórico. Pouco depois. aos 80 anos.Antônio foi piloto de combate da aviação francesa. D. Só o tempo teve o dom de limpar tantas névoas densas acumuladas sobre fatos ilustres e feitos valorosos. O Conde d´Eu e Isabel viajaram no navio de guerra brasileiro e no Rio de Janeiro o Conde d Éu. em seu livro CAMARA CASCUDO. da acusação e da mentira. Petrópolis. D. Relembrando. 1936. Luis da . Por carta de 19 de janeiro de 1918. dizendo: “nem a princesa consentiria em separarse dessas lembranças do seu amado pai. nem isso seria atualmente possível. aqui chegando a 8 de janeiro de 1921. . Dois de seus filhos participaram da 1ª Guerra Mundial e tiveram mortes honrosas: D. Ao todo Gaston viveu 25 anos no Brasil e morreu a bordo do navio “Massilia”. A reabilitação de sua vida pública depois se fez contínua e claramente. aos 65 anos de idade.Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança só desapareceria em 1940.O Conde d´Eu. Companhia Editora Nacional. Seu avião caiu perto de Edmonton. recebeu a Military Cross e a Croix de Guerre francesa. págna 155. pois não estão esses papeis de qualquer modo classificados”.reinante do território brasileiro e o couraçado “São Paulo” trouxe os despojos dos imperadores para o Brasil. O herdeiro imperial do Brasil. A princesa estava adoentada e pediu para regressarem à Europa. completa a informação: “Quando o consorte de Isabel deu-me a honra de vir à minha casa no dia 16 de janeiro de 1921. ela faleceu aos 75 anos de idade. Seu maior erro foi não aliar-se às correntes partidárias que dividiram o império”. a 4 de novembro de 1921. Faleceu em 1918. onde veio a falecer no hospital militar em 1920. capitão do exército inglês. São Paulo. insisti no pedido no que me pareceu merecer-lhe o assunto maior 21 O historiador. a 28 de agosto de 1922. navegando a caminho do Brasil para festejar o centenário da Independência. quis trazer para o Brasil os arquivos do Imperador que estavam no castelo d´Eu. o Conde recusou-se a atendê–lo. decano dos sócios e presidente honorário do IHGB. Para terminar lembro frases do ilustre sociólogo Luis da Camara Cascudo em seu livro sobre o Conde d´Eu: “Sobre a nobre figura do Conde d´Eu desabaram todas as tempestades do ódio. lá foi recebido oficialmente com todas as honras em sessão especial a 12 de fevereiro de 1921.Luís. . foi condecorado com a British War Medal.21 Isabel e Gastão também descansam na catedral de * * * Em 1917 Max Fleuiss.

necessárias para assegurar-lhe paz honrosa e firme. como nas labutações em tempos mais tranquilos. o castelo d´Eu foi ocupado pelo exército alemão e Max Fleuiss voltou a ocupar-se do assunto. Na referida sessão do IHGB de 12 de fevereiro de 1921. por outro ao auxílio dos chefes ilustres. O presidente Getúlio Vargas criou o Museu Imperial em Petrópolis. onde finalmente foram reunidos todos os objetos e arquivos existentes. e Ramiz Galvão. e foi atendido. nada poderia negar” O Instituto realizou uma sessão especial em homenagem ao Conde d´Eu. o Conde d´Eu assim agradeceu a homenagem que lhe prestavam. em novembro de 1889: “Dos elogios que ora me são prodigalizados. já programou uma sessão em sua homenagem por ocasião do 90º aniversário de seu falecimento. Si me coube a fortuna de ser bem sucedido naquele empenho e de vencer as dificuldades acumuladas pela resistência obstinada de tenaz inimigo. do qual se orgulhava de ser o mais antigo presidente honorário. . vieram em muitas ocasiões suprir com seus conselhos a inexperiência da minha mocidade. Página 655. no dia 12 de fevereiro de 1921. De todos eles guardo profundo e nunca esquecido reconhecimento”22 Em agosto de 2012. Resposta do Conde d´Eu aos discursos de saudação do Conde Afonso Celso e do Dr.Ramiz Galvão. Um pesquisador com maior fôlego do que eu poderá descobrir ainda muitas informações interessantes na correspondência do Conde d´Eu nos arquivos da Europa e o que está no Museu Imperial de Petrópolis. tantos anos depois que deixara o Brasil com o Imperador. Roderick Barman já fez uma primeira 22 Revista do IHGB de 1921. só me é lícito aceitar os que comprovam o meu amor ao Brasil e a boa vontade com que a ele me dediquei.consideração. que havia sido preceptor dos filhos do príncipe. alguns dos quais me haviam precedido no comando. e que não hesitando contudo em aceitar a minha autoridade em circunstâncias imprevistas. falando o seu presidente. depois das saudações de Afonso Celso e de Ramiz Galvão. entrevistando-se com o embaixador alemão no Rio de Janeiro. Por um lado a valentia do soldado brasileiro. servindo-o não só nas operações militares. dizendo que ao IHGB. à sua resignação nas provações por vezes duras de uma campanha em regiões inóspitas. Pediu-lhe que solicitasse às autoridades alemãs todas as cautelas com os arquivos imperiais. o qual agradeceu “com a eloqüência da sinceridade”. cumpre-me referir o mérito do êxito feliz aos meus comandados. conde de Afonso Celso. o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Por ocasião da 2ª Guerra Mundial. do qual Gastão foi presidente honorário. cuja coadjuvação dedicada nunca me faltou. Os papeis do imperador continuaram no castelo d´Eu quase inacessíveis por muitos e muitos anos.

. CARDOZO.O Príncipe Maldito. 290 páginas. Companhia Editora Nacional. 1902. Efraim – El Paraguay Independiente.Viagem militar ao Rio Grande do Sul (com 22 cartas do autor comentadas por Max Fleuiss). Companhia Editora Nacional. (Palestra proferida no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio no dia 29 de março de 2011) BIBLIOGRAFIA BARMAN. SR Books. Tipografia Econômica. J. 1979.Consortes nos trópicos: dois príncipes da Casa de França no Brasil. Júlio José – Genocídio Americano: a guerra do Paraguai. Roderick – Princess Isabel of Brazil : gender and power in the Nineteenth century . Wilmington. BRÍGIDO. mas muito mais pode ser revelado. 2005.. DEL PRIORE. Então será possível justificar a ausência do personagem nos livros de história do Brasil sobre a época. CASCUDO. nº 444. São Paulo. in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Luís da CÂMARA .A princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX. São Paulo. Mary del Priore certamente irá mais fundo agora em seu já contratado livro de 2013 sobre o casal imperial. BURTON.O Conde d´Eu: seu caráter e sua viagem ao Ceará. CHIAVENATO. 1936. São Paulo. editora da UNESP. Rio e Janeiro. da CONDE D´EU . editora Objetiva. 1936. Mary . Biblioteca do Exército Editora. ------------------------. Delaware. -------------------------. 1997. 2006. editora UNESP. . editorial El Lector. São Paulo. Rio de Janeiro. . Fortaleza. EUA. Coleção Brasiliana. 1996.excelente pesquisa em profundidade. . Sir Richard – Cartas dos campos de batalha do Paraguai. Assunção.O Conde d´Eu. Seminário França-Brasil. junho de 2010. Rio de Janeiro. um dos erros da nossa historiografia . Excelente livro de brasilianista inglês que focaliza o casal. 2002.

As barbas do Imperador. PIMPETERRE. São Paulo. . Editora Melhoramentos. DE MARCO. Heitor – A História de D.Gastão de Orleans. RUIZ MORENO.Relembrando. LYRA. Ronaldo – Dicionário do Brasil Imperial. editora Objetiva. 1935. 2008.1979. SCHWARCZ. Alberto . Companhia Editora Nacional.A condessa de Barral. Lilia Moritz .Memórias. tomo 4. TAUNAY. Rio de Janeiro. Miguel Angel – La Guerra del Paraguay. a 9 d setembro de 1922. Isidoro – Campañas Militares. 1942. 2002. Cônego Benedito . editora Dentu. 1869. Buenos Aires. São Paulo. Companhia das Letras.________________ . Companhia das Letras. São Paulo. Buenos Aires. 2005. na revista do IHGB. editora da UNESP. Rio de Janeiro. Alfredo Escragnolle . Rio de Janeiro. DORATIOTO. FLEUISS.Pedro II -.Oração Fúnebre no enterro do Conde d´Eu. MARINHO. Evariste – Le Comte d´Eu et la France Nouvelle en Amérique du Sud. Editora Claridad. 2ª. Max . RANGEL. 2008. Francisco – Maldita Guerra. o ultimo Conde d´Eu. editora Booket. igreja da Candelária. Paris. Rio de Janeiro. São Paulo. 2002. São Paulo. 2010. VAINFAS. editora Objetiva 2002.edição. 1995.

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