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Ao longo da minha carreira como autora de romances de suspense, ouvi frequentemente o comentário: "Parece tão simpática para alguém

que escreve livros tão tortuosos." Por uma vez, gostava de concordar. Sou, de facto, uma pessoa apagada e vulgar que leva uma vida apagada e vulgar. A minha única experiência real é como consultora fiscal e, embora ache que as personagens podiam morrer devido a esforços completamente frustrados de reengenharia, ignoro se alguém, salvo os entusiastas de Dilbert, iria gostar. Recorri, por conseguinte, à ajuda dos seguintes peritos para darem à minha trama desvios particularmente tortuosos e às minhas personagens finais particularmente diabólicos. Tomem, por favor, em consideração que estas pessoas responderam, com paciência e precisão, a todas as minhas perguntas. Tal não significa, porém, que eu tenha usado essa informação de uma forma paciente e precisa. Sou uma crente convicta na liberdade imaginativa, além de possuir uma mente sinuosa. Todos temos os nossos talentos. Posto isto, a minha mais profunda gratidão e admiração a: Dr. Greg Moffatt, professor de Psicologia na Universidade Cristã de

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Atlanta, por responder generosamente ao meu enorme fluxo de perguntas e proporcionar análises tão fantásticas da mente assassina. Phil Agrue, detective privado, da Agrue Associates, Portland, OR, que me convenceu, em três horas, que quero ser uma investigadora de defesa quando crescer. Gary Vencill, Investigação de Consultoria Legal, Johnson, Clifton, Larson Carson, cujo prazer em criar um cenário com um homicídio e um acidente de viação só é igualado pela sua prontidão em mostrar-me pessoalmente como se alteram cintos de segurança. 5 Dr. Stan Stojkovic, professor de Justiça Criminal, Universidade de Wisconsin-Milwaukee, pela sua informação sobre funcionamento prisional e comunicação. Dr. Robert Johnson, American University, que teve a cortesia de me deixar usar a sua honesta investigação académica como modelo para a realização de vários tipos de actos criminosos. Larry Jachrimo, perito em revólveres, cuja constante ajuda sobre pormenores de armas de fogo e técnicas de balística me permite ser mais diabólica do que alguma vez esperei. Fornece-me informações preciosas; cometo alguns erros. Mark Bouton, ex-instrutor do FBI de armas de fogo e companheiro de escrita, por me ajudar a transportar os meus agentes do FBI para o novo milénio. Célia MacDonell e Margaret Charpentier, farmacêuticas espantosas, que têm igualmente um futuro promissor como envenenadoras. Nada de pessoal, mas a partir de agora, levo a minha comida. Mark Smerznak, engenheiro químico, grande amigo e um cozinheiro extraordinário. Heather Sharer, amigo maravilhoso, entusiasta de jazz e um ombro onde chorar. Rob, Julie e a minha mãe, pela volta por Pearl District e a quantidade de cafés. Kate Miciak, uma editora extraordinária, que melhorou indubitavelmente este livro. Damaris Rowland e Steve Axelrod, agentes fantásticos, que sempre me encorajam a escrever o livro do meu coração e, melhor ainda, me permitem pagar a minha hipoteca enquanto o faço. E, por fim, ao meu marido, Anthony, pelo fornecimento de trufas de champanhe com chocolate de fabrico caseiro e bolo de chocolate. Sabes como manter uma escritora motivada e amo-te. PRÓLOGO Virgínia A boca dele aflorou-lhe o pescoço. Gostava de sentir o beijo, leve, desafiador. Deixou descair a cabeça para trás. Ouviu o seu próprio riso. Ele prendeu-lhe o lóbulo da orelha entre os lábios e o riso transformou-se

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num gemido de prazer. Céus! Como gostava quando ele lhe tocava. Os dedos dele ergueram-lhe a pesada cabeleira. Dançaram sobre a nuca e deslizaram pelos ombros nus. - Bonita, Mandy - sussurrou ele. - Tão sensual, Mandy. Soltou mais uma risada. O riso transformou-se em gargalhada e depois sentiu o gosto do sal nos lábios e apercebeu-se de que chorava. Ele virou-a de barriga para baixo em cima da cama. Ela não protestou. As mãos dele percorreram-lhe a coluna vertebral até se deterem na cintura. - Gosto desta curva aqui - murmurou, enterrando um dedo na concavidade ao fundo das costas. - Perfeita para sorver champanhe. Que os seios e as coxas fiquem para os outros homens. Eu só quero este sítio aqui. Posso tê-lo, Mandy? Dás-mo? Talvez ela dissesse que sim. Talvez apenas gemesse. Já não sabia. Uma garrafa de champanhe vazia em cima da cama. Outra semivazia. A boca dela era um formigueiro de sabor proibido e continuou a dizer para consigo que tudo estava bem. Era apenas champanhe e estavam a celebrar... Ele acabava de encontrar um novo emprego, o GRANDE emprego, que era muito longe. Mas haveria visitas de fim-de-semana, talvez algumas cartas, telefonemas... Estavam a celebrar, e a carpir... Era uma foda de despedida, e de qualquer maneira o sexo com champanhe não contava para o seu simpático grupo dos Alcoólicos Anónimos. Ele derramou a garrafa aberta de espumante sobre os seus ombros. O líquido frio e borbulhante escorreu em cascata pelo pescoço, formando uma pequena poça no lençol de cetim branco. Ela tentou desesperadamente sorver algumas gotas. - Assim mesmo, miúda - murmurou ele. - Minha doce e apetitosa miúda... Abre-te para mim, querida. Deixa-me entrar em ti. Ela afastou as pernas. Arqueou as costas, ao mesmo tempo que todo o seu ser se focava lá em baixo, no lugar entre as pernas, onde a dor se formara e agora só ele podia apaziguá-la. Só ele podia salvá-la. Entra em mim. Enche-me toda. - Bonita, Mandy. Sensual e apetitosa, Mandy. - Por... por... favor.... Ele afundou-se nela, que arqueou as ancas. Teve a sensação de que a espinha se fundia sob as suas mãos e abandonou-se-lhe. Enche-me. Enche-me toda! Sal nas faces dela. Champanhe na língua. Porque não conseguia deixar de chorar? Enterrou a cabeça nos lençóis e sorveu o champanhe, ao mesmo tempo que o quarto girava e sentia a cabeça à roda. De súbito, a cama desapareceu. Estavam lá fora. Junto à garagem. Roupas vestidas, faces secas. O champanhe desaparecera, mas não a sede. Há seis meses que se mantivera sem beber. Agora, ansiava terrivelmente por mais uma bebida. Uma garrafa de champanhe ainda intacta. Talvez conseguisse

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que ele lha desse para o regresso a casa. Uma bebida para o caminho. Não vás... - Estás bem, miúda? - Sim - murmurou com uma voz pastosa. - Talvez não devesses conduzir. Talvez devesses passar cá a noite... ( Estou bem - repetiu. ; Não podia ficar e ambos o sabiam. As ocasiões boas iam e vinham.; Se agora tentasse insistir, apenas contribuiria para piorar as coisas. No entanto, ele hesitava. Fitava-a com aqueles olhos profundos e preocupados, que formavam pequenas rugas nos cantos. Um detalhe que adorara quando o tinha visto pela primeira vez. A forma como os olhos dele se encarquilhavam como se estivesse a estudá-la intensa e verdadeiramente, a vê-la como era na verdade. Uma fracção de segundo depois sorrira, como se o simples facto de a descobrir o tivesse feito tão feliz. Nunca até ali um homem lhe sorrira daquela maneira. Como se ela fosse alguém especial. Oh, Deus do céu. Não vás... E depois: Terceira garrafa de champanhe. Todas cheias. Mais uma pelos velhos tempos. Mais uma para o caminho. O amante tomou-lhe suavemente o rosto entre as mãos e acariciou-lhe as faces com os polegares. - Mandy... - sussurrou ternamente. - Se soubesses até que ponto adoro a curva dos teus rins... Ela já não foi capaz de responder. As lágrimas sufocavam-na. - Espera aí, querida - disse ele subitamente. - Tenho uma ideia. 10 Conduzia, obrigada a concentrar-se porque a estrada estreita era extremamente sinuosa. com a estranha impressão de que um abismo separava os seus pensamentos das suas reacções. Ele ia sentado ao lado, no banco do passageiro. Queria certificar-se de que ela chegava a casa em segurança; depois apanharia um táxi. Talvez fosse ela que devesse apanhar um táxi. Talvez não estivesse em condições de conduzir. Mas se ele insistira em acompanhá-la, por que razão era ela que ia ao volante? Tantas perguntas para as quais Mandy já não tinha força para encontrar as respostas. - Abranda - preveniu ele. - A estrada aqui é perigosa. Ela assentiu com a cabeça, franzindo o sobrolho e tentando concentrar-se. O volante parecia-lhe estranho nas mãos. Redondo. Uf.. Carregou no travão. Em vez disso premiu o acelerador e o jipe deu um solavanco para a frente. - Desculpa -murmurou. O mundo rodopiava cada vez mais depressa à sua volta. Não se sentia bem. Como se estivesse prestes a vomitar ou a desmaiar. Talvez as duas coisas. Se ao menos pudesse fechar os olhos...

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. sozinha.Eu sei. Ela anuiu com a cabeça.. sozinha noite após noite.. Mandy. Puxou.ouviu a sua própria voz dizer. será a minha vez. Céus. Nunca irás esquecer-me. papá! Doce. Mandy . Hoje.. agarrou na fivela. . Nem mesmo sentirás a minha falta.. Agora só falta uma menina a cantar: "Amanhã. Ela fitou-o estupidificada e detectou-lhe um brilho estranho nos olhos. Tão só. Tão só. Sei que estás. O dique rompeu-se e as lágrimas correram-lhe pelas faces. Sal nas faces dela.respondeu ele e estendeu o braço ternamente na direcção dela. Procurou a correia às apalpadelas.Sem mim. O cinto de segurança esticou-se sem se fixar. pousando a mão no volante. Sozinha. há sempre um amanhã. Não passas de uma bêbeda. Mandy. Mandy. querida. Preciso de mandar arranjá-lo.continuou ele. . O abismo negro.Nunca encontrarás ninguém como eu .prosseguiu. enquanto o Ford Explorer guinava de um lado ao outro da estrada e o brilho ardia no olhar dele. . amanhã. É verdade. Mas eu vou ajudar-te.repetiu ele no banco do passageiro. É isso. Soluçou. Ela soluçou com mais força. . . E restarás apenas tu.Enfrenta isso.Acelera. não és nada.Estás magoada. champanhe nos lábios.. Mandy.A estrada deslizava sob os pneus e o carro dançava perigosamente no asfalto.Amo-te . o céu começando a clarear..Um leve toque no acelerador e nunca mais voltarás a estar só.Eu sei . Mandy . 11 . depois os telefonemas. .sussurrou ele. . As visitas de fim-de-semana acabarão. Acelera. Enche-me toda! Tão só. Um dia. As estrelas girando. e sensual Mandy Enche-me. A curva da estrada a aproximar-se. Partido. Um brilho divertido cujo motivo lhe escapava. sozinha. O pé dela. Em breve. Sal nas suas faces. estou 5 . Cinto de segurança. . não é? Não é? Ela tentou abanar a cabeça. . .. num tom suave. impiedoso. Acabou por assentir. O pé carregando no acelerador. Socorro.És tão doce.Há uma curva apertada aí à frente." . tão sensual. desesperada. Porque é que o papá não veio a casa para o meu aniversário? Preciso tanto de ti. . Nunca soubeste prender um homem. Deus do céu! Estamos prestes a separar-nos para sempre e apenas consegues pensar naquela terceira garrafa de champanhe. Preciso de pôr o cinto de segurança. eu sei. Champanhe nos lábios..O teu próprio pai abandonou-te.Abranda .

O jipe imobilizou-se. O cinto segurou-lhe o peito. não te esqueças de dar os meus cumprimentos ao teu pai. cuja estrutura metálica lhe esmagou o cérebro. Mandy ergueu os olhos sem compreender para o rosto que amava. Viu o cinto de segurança bem apertado sobre o forte e largo peito dele. Desapertou o cinto de segurança. O tempo parou. O pescoço deu um esticão. Ele também. Amanda Jane Quincy guinou freneticamente o volante e tentou desviar-se do homem. Arquejou. que continuava ilesa. Fizera o trabalho de casa e não estava preocupado com impressões digitais. Mandy. Uma estrada rural ao amanhecer. puxando-o contra o assento. no preciso instante em que pensou que tudo estava bem. depois ainda mais surpreendido ao vê-lo avançar na sua direcção. Após um ano e meio de esforços. que continuavam ilesos. . 6 . Decorreriam dez. Sob a violência do impacte. voou do banco do condutor contra o pára-brisas. E o corpo dela. Mandy não teve tempo de gritar. era demasiado tarde. Virar! Virar! Tenho de virar!. Tão pouco lhe importava a hora. bloqueado pelo punho enérgico do amante sentado ao lado dela. cortando-lhe momentaneamente a respiração. . Os pulmões esvaziaram-se de um golpe.. sem cinto. O pé dela a fazer força. doce Mandy. Quando chegares ao inferno. Acelera. mesmo quando a parte da frente do Explarer se amachucou. Apesar de todos os seus esforços.Adeus. segundos depois.. O carro seguiu em frente. O Explorer atingiu o homem. E. Um barulho surdo.cansada!.Vá lá. parecendo sobressaltado por ver um veículo àquela hora da manhã. Quando o avistou. A passear o cão. Estava salvo. Embora o corpo estivesse a travar uma derradeira luta. vinte. recebia finalmente a recompensa: a satisfação de saber que Amanda Jane Quincy morrera aterrorizada. o párachoques baixou e a traseira subiu quase na vertical. o volante recusou mover-se. Um homem na curva apertada da estrada rural. 12 O passageiro não teve problemas. trinta minutos antes que alguém passasse por acaso. Um pequeno grito. O Explorer embateu no grosso poste de madeira a sessenta quilómetros à hora. . Ainda tinha uma leve pulsação. o poste telefónico surgiu da escuridão. Inspeccionou a bela e sensual Mandy. E ouviu-o dizer: . mas a maior parte do cérebro esmagara-se contra o pára-brisas. o cérebro nunca mais iria recuperar. a pressão dissipou-se. com os olhos desorbitados e. Viu a noite fechar-se atrás dela através do vidro da janela.

Tecnicamente falando. Rainie tinha ar condicionado no sótão. sem que por tal baixasse a temperatura. E. por fim. a detective particular Lorraine Conner estava sentada à secretária pejada de papéis. estava sentada no moderno sótão daquele bairro elegante. Maldito computador. Sentia-o agora colado à pele. e os cotovelos deixavam manchas redondas de vapor condensado no tampo da secretária. recompensada com uma ligeira brisa. um bairro famoso pelas geladarias chiques. usufruindo de um fantástico ar condicionado.confusa. tentando decidir o que era mais importante: gastar os dólares que lhe restavam na 7 . Se o tempo aquecesse mais. maldito calor. para lhe aplicar a necessária pancada dupla e foi. Aquele tempo estava a dar cabo dela. após o que franziu o sobrolho ante os resultados indicados no ecrã. A nova Lorraine Conner. Um método ineficaz. que lhe permitia beneficiar da poluição devida à canícula. Contudo. mas já era um começo. enquanto tentavam decidir-se entre um Chat gelado ou um café moca. um sol capaz de derreter o alcatrão abatia-se sobre a cidade e não ficaria surpreendida ao saber que acabava de se bater um novo recorde de calor em Portland. como parte do seu programa de "apertar o cinto". Eram três da tarde. Preferia não pensar em todos os yuppies das redondezas que a essa hora deviam estar tranquilamente sentados nos Starbucks. em teoria.. Carregou furiosamente nas teclas do seu velho computador portátil. Pordand beneficiava de um clima mais temperado do que as grandes metrópoles da costa leste. mas. pensou o homem. Rainie há muito que trocara a T-shirt por um top de algodão branco. Não era o caso de Rainie. O momento fora mal escolhido para fazer economia na electricidade. obteve os mesmos desastrosos resultados e brindou-os com a mesma expressão sombria. Alinhou novas colunas de números. cheia de boas intenções. 14 onde se servia café gelado em quase todas as esquinas das ruas. refrescava o seu amplo apartamento de uma divisão à maneira antiga: abrira as janelas e ligara uma pequena ventoinha de secretária. pensou. nesse momento. Lá fora. Maldito orçamento. Parou. 13 1 Catorze meses depois Porúand. Oregon Na segunda à tarde. e de coração despedaçado. também não atingia a humidade dos estados do Sul. Céus. E maldita ventoinha que tinha comprado na semana anterior e se recusava permanentemente a funcionar. levaria o computador portátil para debaixo do duche. A situação era ainda mais frustrante pois vivia desde há pouco no centro de Pearl District. o orçamento não se deixou intimidar.. As contas entre ele e Pierce Quincy ainda não estavam saldadas. excepto se lhe desse duas pancadas no cimo. Mas o clima parecia ter-se esquecido disso nos últimos tempos.

Dedicara esse dia para tratar da papelada e não achara necessário arranjar-se. com a mão na garganta. de olhos fixos no rosto do visitante. surpreendida. Depois. Tinha as feições duras e austeras de um homem que passara muito tempo a lidar com a morte. ou num carburador novo para a sua campana de quinze anos. não? . Soou o intercomunicador. Há quase oito meses que não o via. Experimentou uma nova rodada de cálculos. nem dos calções de ganga. ergueu os olhos para a câmara. analisou Quincy com um ar pensativo. aguardava pacientemente do lado de fora da porta da frente. O mesmo fato de corte impecável. Ainda não se habituara ao cabelo curto e o calor tornava-o espetado como um esfregão cor de avelã escuro. Por outro. oferecendo os seus serviços aos advogados de defesa da região. 8 . e diabos a levassem se tal não lhe agradara nele. Não havia ninguém como Quincy. teria posto desodorizante nessa manhã? Na verdade. estava um forno ali e já não tinha nenhumas certezas.. e há seis que não lhe ouvia a voz ao telefone. Rainie tinha acabado de obter a sua licença de detective particular do Conselho do Oregon. cuspiu os mesmos resultados negativos. só que ele não queria saber disso. roupas limpas causavam sempre uma boa impressão ao conhecer um novo cliente.lavandaria. A testa continuava marcada por fundos sulcos. Suspirou.. amarrotado e ensopado de suor. agente especial supervisor. Virou-se para o ecrã do sistema de segurança instalado no vestíbulo de entrada. No âmbito das más notícias. Enquanto o observava. se não tivesse um meio de locomoção. de cabelo grisalho. O mesmo rosto impenetrável. ele voltou a carregar no botão do intercomunicador. mas tal não a impedia de detectar a intensidade dos profundos olhos azuis.resmungou na direcção do computador. Nesse dia. passando uma das mãos desanimadamente pelo cabelo.Mas tenho o direito a comer. Rainie endireitou-se. No âmbito das boas notícias. esfiados. de nada lhe servia arranjar casos novos. Acrescidos dos novecentos de seguro obrigatório. tal significava que passara a ter o direito de vestir a pele de Paul Drake para os Peny Mason locais. Mas o computador. a licença de dois anos custara-lhe setecentos dólares. 15 A qualidade da imagem do pequeno monitor estava longe da perfeição. Sem falar do top. Era a última pessoa que esperava ver nesse dia e sentiu-se completamente alterada. Os olhos ainda formavam rugas nos cantos. O agente especial supervisor Pierce Quincy do FBI continuava de olhos fixos na câmara de segurança instalada por cima da porta de entrada. . Detalhes. Ele não mudara. apenas detalhes. pouco compreensivo. Mil e seiscentos dólares que haviam largamente reduzido o magro pecúlio das Investigações Conner. Por um lado. Ficou petrificada. O coração de Rainie ameaçou sair-lhe pela boca. Um homem elegante. não esperava clientes. ao mesmo tempo que piscava os olhos duas vezes. coçados e nada profissionais. Passou mecanicamente a mão pelo cabelo.

Era moderno. que a nova Lorraine Conner seria influenciada pela graciosidade daquele lugar. Não queria voltar a pensar em tudo isso. À excepção dela. e sabia perfeitamente que ele não esperava encontrar um apartamento tão bonito. Ela tivera tempo de pôr desodorizante. Rainie. Gastara a maior parte das suas economias com aquele sótão há uns quatro meses. sem dúvida. dando para a rua. que foi Quincy o primeiro a romper o silêncio. Abriu a porta com um ar falsamente descontraído.Nem mesmo os bons conseguem estar sempre a trabalhar.saudou-o lacónica. inteiramente 16 pintado em tons rústicos de ocre e castanho dourado. . quarto. chique. . e achara mais prudente não tocar em nada. Rainie esboçou um sorriso involuntário. espaçoso e soalheiro. sala e escritório.Nada mal! . num tom seco que lhe provocou uma incontestável nostalgia. soubera que era a casa dos seus sonhos.respondeu em seguida. em estilo art déco. Imaginara. 9 . Oito andares depois. Duvidava que Quincy desejasse algum envolvimento pessoal.Olá. satisfeita. com os tectos a quatro metros de altura. Quando queria verdadeiramente algo. Tinham tentado. Rainie perscrutou-lhe o rosto para tentar saber se ele estava a ser sincero e depois resmungou um agradecimento entre dentes.Ele carregou no botão pela terceira vez. ele bateu-lhe à porta da frente. . em simultâneo sofisticado e sóbrio.observou Quincy finalmente. Quincy não começou a falar de imediato.Receei que pudesses ter saído para tratar de qualquer caso retorquiu. Abriu um pouco mais a porta e deixou-o entrar. mas.Olá . A proprietária anterior revestira a entrada com tijolos vermelhos cor de ferrugem que davam um toque de calor ao resto do apartamento. Um antigo armazém. elegante. Pôs-se a percorrer o sótão com um ar casual. mas Rainie não se deixou enganar. O sótão quase a levara à bancarrota. Ela ficou à espera. O resultado cifrouse na aparência sobriamente chique sobre a qual Rainie lera nas revistas. Premiu o portão para o deixar entrar. mas nada neste mundo poderia salvar-lhe o cabelo. A vida era assim.. Quincy ergueu uma sobrancelha. Quincy raramente desistia. .. Tudo iluminado por soberbas janelas envidraçadas de alto a baixo. Rainie abanou a cabeça. . Não se ia embora. desanimada. de mão na anca.A quem o dizes . dispondo apenas de um balcão de cozinha e oito pilares gigantes para delimitar quatro simples espaços: cozinha. . A pausa prolongou-se e verificou. tinham falhado. no preciso momento em que Rainie o vira.

O pesadelo terminara.Sempre soube que recursos não te faltavam. Rainie fora obrigada a pedir a demissão do seu lugar de ajudante do xerife. levara-o ao local do crime e ficara de imediato impressionada pelo seu sangue-frio e aparente impassibilidade diante dos contornos desenhados a giz dos corpos de duas rapariguinhas. depois de um caso particularmente brutal. devido a uma acusação de homicídio ligada a um crime cometido catorze anos antes.retomou Quincy. Rainie nunca tocara no assunto. ficou à espera que ele se decidisse a continuar. apoiara-a nos momentos difíceis e. .Não sabia que tinhas talentos ocultos de decoradora . indicando que continuava a aguardar uma resposta à pergunta. no Oregon. Há seis anos. onde se dedicou a pesquisar futuras práticas de homicídio e a dar aulas em Quantico. Apoiada à secretária e. à medida. pedira transferência para o Departamento de Ciências Comportamentais. no final do caso.Ah! Fez um belo trabalho. Por outro lado. dado conhecer perfeitamente Quincy. sem qualquer aviso ou explicação. Rainie tinha-o conhecido há um ano. Mudaste de penteado? . quando um assassínio em massa numa escola devastara a sua antiga comunidade e requisitara a atenção de Quincy. se vira pessoalmente envolvida 17 nesse caso sinistro. numa altura em que ainda existia o Departamento de Psicologia Criminal e não tardara a adquirir fama. à polícia local. Pierce Quincv. Passara quatro meses à espera do dia de se apresentar em tribunal.E tu arranjas sempre maneira de tornear uma pergunta. O advogado de Rainie dera-lhe a entender que alguém poderia haver intercedido a favor dela. um dos melhores agentes especiais do FBI.Vejo que continuas a ser muito directa . O agente especial superior Pierce Quincy iniciara a sua carreira no FBI como especialista em perfis psicológicos.Fui obrigada a vender as minhas longas tranças para comprar este cantinho paradisíaco! . quase nascera algo mais entre os dois. A própria Rainie levara vários dias a aceitar o horror do drama. E. mas sempre suspeitara que essa pessoa era Quincy.. Desde o início que Quincy se revelara um aliado fiel. a nível de organização deixas muito a desejar.Um a zero a teu favor. . a julgar pelo estado da tua secretária. na sua cidade natal de Bakersville. Rainie pertencia. capturara os tristemente célebres Jim Beckett e Henry Hawkins e constava que estava 10 . Depois. No dia da chegada de Quincy.O que te trouxe aqui? Quincy fez uma pausa e depois esboçou um arremedo de sorriso. . Há oito meses. tal acabara por afastá-los completamente.É tudo obra da anterior proprietária. Rainie arqueou uma sobrancelha. Por um conjunto de circunstâncias ficara encarregada do caso. que no decurso da investigação. . longe de os juntar. então. . . as acusações contra ela tinham sido retiradas.declarou.

Nunca imaginei. Dás-me um copo de água? Rainie franziu o sobrolho. Quincy assentiu com a cabeça. . No hospital fora imediatamente ligada ao ventilador.Desta vez é diferente.. escura.. após o que cerrou os punhos antes que fizesse algo inoportuno. 18 Conhecia a história que se encontrava por detrás do acidente de carro de Mandy. Bethie. . A Bethie acabou por dar permissão? .O FBI já não te serve? . embora só com o objectivo de aguentar os órgãos o tempo suficiente para se obter a permissão de desligar a máquina. após uma hesitação. Quincy e Bethie tinham discutido.O quê? . As mudanças recentes na vida de Rainie não eram más. pelo contrário.a mãe embriagada.. . Quincy. . A mãe.Sabes bem que não tens vida privada. uma coisa privada .reagiu Rainie instintivamente. a mãe erguendo o punho e batendo-lhe. o que lhe causara danos irreversíveis no cérebro e mutilara o rosto. que acabara tragicamente com a cabeça semidesfeita por um tiro de caçadeira. com um alpendre nas traseiras. .Tenho um trabalho para ti . Nem um som de sirene ou de boémios nocturnos.É. Quincv aproveitara para se instalar no seu sofá estofado de riscas azuis. No meu pensamento.. Apenas noites intermináveis a abarrotar de recordações .A minha filha. simplesmente Lorraine Conner. A tua vida privada é o FBI.retorquiu Rainie. . . um sindicalista cujo desaparecimento misterioso fora primeira página dos jornais em 1975. a ex-mulher de Quincy. Quincy bebeu um longo gole de água. preparou dois copos de água com muito gelo e depois foi juntar-se-lhe na sala. uma decisão que ainda descontrolara mais a ex-mulher. como estender os braços para ele. vivera numa pequena casa de estilo rústico.Oh. um dos poucos restos da sua vida em Bakersville. Rainie era. rodeada de altos pinheiros e o ar cheio dos pios lúgubres de mochos.bem informado sobre a morte de Jimmy Hoffa. Quincy! Lamento! . Dirigiu-se à cozinha. A tira de cabedal do coldre ressaltava. Enterrámos a Mandy no mês passado..indagou Rainie. intrigada. Quincy abandonara a vigília nocturna para voltar ao trabalho. Em Abril. Infelizmente. sobre a camisa branca.explicou ele. Depois despiu o casaco e dobrou-o cuidadosamente sobre o braço do sofá.disparou Quincy. Por fim.. há mais de um ano que a Mandy 11 . A poltrona estava velha e no fio. Lá. tinha confundido manter a vida com a própria vida e recusou que se desligasse a máquina. uma ex-polícia de um buraco do Oregon e ainda lhe faltava um longo caminho a percorrer para encarrilar a vida. .. a filha de vinte e três anos de Quincy embatera de frente contra um poste telefónico na Virgínia. erguendo a voz..

Rainie ficou demasiado estupefacta para conseguir falar.E depois metia-se novamente no carro para ir onde? . Quincy leu-lhe o pensamento.Não foram encontradas garrafas no carro.Embriagada.A Amanda bateu com o carro a mais de vinte quilómetros de casa dela. a Mary Olsen. . Quero que te certifiques de que foi um acidente.. mordendo o lábio superior. Para eliminar pistas. garante que a Amanda passou a maior parte da noite em casa dela.aquiesceu ele. Mas parece que a Amanda se juntara a um grupo de Alcoólicos Anónimos seis meses antes do acidente e deixara de beber.Talvez as tivesse adquirido antes de chegar à casa da amiga e depois deitado fora as garrafas vazias no caminho de regresso. portanto não poderia ter comprado nada nessa noite.. Há bastante tempo que eu não falava com a Mandy.anuiu Rainie. . Conheci algumas das suas amigas no funeral e uma delas. tentando controlarse. 12 . Tu.Estava só? .Porquê? .Sim.. mal saiu da festa.O hospital confirmou que tinha uma taxa de alcoolemia duas vezes superior ao limite legal.. . mas o que me preocupa é como se embriagou. .estava morta. tu sabes que não mantínhamos uma relação muito íntima. . Final da história.apressou-se a acrescentar.Talvez tivesse uma garrara no carro e começasse a beber. longe da casa da Mary Olsen.Surgiram elementos novos .Tratava-se da tua filha. .Quero que os investigues. . não. .De acordo . naquele momento em que pareciam novamente velhos amigos. .perguntou Rainie involuntariamente e franzindo o sobrolho..ripostou Rainie. .Talvez tivesse conduzido até casa e se embriagasse lá. nem no apartamento.Pode ter querido conduzir para aclarar ideias. . . numa estrada secundária perdida no campo. . todos os bares estão fechados. A essa hora. Nunca pensei que fosse assim tão difícil.Quero que investigues o acidente da minha filha. 19 . . .esclareceu.Rainie. Além disso.Quero contratar-te . . E a Amanda só se foi embora às duas e meia da manhã..Dava a sensação de que ia acrescentar qualquer coisa.Passou-se algo de estranho durante o jogo de cartas? .Segundo a Mary Olsen.Julguei que ela estava embriagada . todas as lojas de bebidas estavam fechadas. . . .Algo que a transtornou e a fez pegar no carro e ir direita a um bar? . atropelou um homem. a jogar às cartas e a beber Coca-Cola. Seria estranho se fosse fácil. . um cão e chocou com um poste telefónico. Depois o momento passou e ele abanou a cabeça. As amigas sentiam-se muito orgulhosas dela. sim .Estava embriagada.

.. 20 . . A minha filha. o seu passado de caçador de cabeças. Tinha um passado de bebida.Já pensei nisso. segundo parece. que a apoiava muito.Não foi ao funeral. de um indivíduo muito simpático. . rejeição. mas saíram-lhe áridas e Quincy retesou-se de imediato..na sua última noite juntos . . é impossível contactá-lo. .Estou a pedir-te que 13 . Falaram bastante de ti nos jornais. Rainie também já lhe conhecera essa faceta.. tentando que as peças se encaixassem. . A Mandy decerto mencionou o pai.Embriagada. sem uma gota de álcool no carro? .. Rainie tentou pronunciar as palavras suavemente. e no funeral? .. era igualmente um homem de acção.Não achas que se tratou de um acidente.redarguiu Rainie. . E como ninguém sabe o nome dele. nesta altura já te teria encontrado. Estava perturbada. gostava de encontrar esse tipo e ouvir a sua versão da história. Rainie.compreendeu Rainie. pois não? ..Mas nunca conheceste esse famoso tipo? . . Os lábios formaram um esgar. acabando a frase. Isso não faz sentido. . O teu problema é que não consegues fazer o luto pela tua filha. . Os olhos escureceram e as feições tornaram-se mais duras.lera-lhe no peito. Sim.Então.. olhando fixamente Quincy -. Quincy era um pragmático. mas sei que a Amanda teve de qualquer forma acesso ao álcool entre as duas e meia e as cinco e meia da manhã e isso custou-lhe a vida.retorquiu.Achas que a culpa foi desse tal Príncipe Encantado. finalmente.Não. Ele deve ter ido ao funeral. por fim. .declarou. Ainda não fora apresentado a nenhuma das amigas da Amanda. Embebedou a tua menina e depois deixou-a conduzir até casa.Falas como um polícia. às cinco e meia da manhã. Ainda estás na fase da. Rainie não respondeu de imediato.Nenhuma.Se ele é assim tão fantástico . propenso a encarar o mundo como um quebra-cabeças que devia ser analisado e resolvido. A Mary confiou-me que a Amanda tinha conhecido um homem há uns meses.Podia ter ido a casa de alguém depois de sair de junto da Mary . Contudo.Mas nem sombra do Príncipe Encantado. Quincy. Continuou a avaliar os factos mentalmente.redarguiu Quincy. Uma vez . mas tratava-se.Não. pondo a cabeça de lado. não? .Quero descobrir o que aconteceu na última noite de vida da minha filha pronunciou Quincy num tom firme e inabalável.declarou Quincy num tom calmo -. .. .É uma hipótese.. além de que não és propriamente um desconhecido. Por norma.O que ele fez não sei . a Amanda confessou mesmo à Mary que achava que estava apaixonada. . sob forma de cicatrizes.

Muito bem.É um casO Rainie. Aceitarei o teu caso. mas. abanando a cabeça com uma expressão de surpresa. . que não entendo nada de investigação sobre acidentes de carro e. desejou não o ter feito. Em seguida.. não venhas acusar-me mais tarde de falta de experiência. desejara.Aceitarei o teu caso. Talvez os meus cofegas tenham tacto suficiente para não me dizerem que me encontro na fase da rejeição. mais despesas. .Pediste ao dekgado do Ministério Público que retirasse as acusações contra mim! . pois ele tinha o maxilar retesado e os punhos cerrados e ela gostava dele quando o via assim.O quê? . e há algo aqui que cheira mal. Quatrocentos dólares por dia.Basta que carregue numa tecla de computador para que toda a gente fique a par dos meus pequenos segredos de família.Uma ova! É mais uma migalha que estás a atirar-me e ambos o sabemos.O quê? .investigues.Claro que não . Não sei rigorosamente nada disso.exclamou Rainie.. Então? Aceitas o caso ou não? . sem falar dos bancos de dados informáticos nem dos meios gigantescos de que o FBI dispõe. Olha-me nos olhos e diz-me que estou errado. 21 . Raime.respondeu Quincy. . num tom amargo. Mas sou o pai dela.Não te preocupes com o meu charme. tal como tu. . Ela desejava aquele homem.acrescentou em seguida.Suponho que foste tu que pediste ao delegado do Ministério Público que retirasse as acusações contra mim? .A Rainie numa das suas grandes ofensivas de charme.. Porque é que havia de interferir? .. . mas tal não os impedirá de me julgarem. O teu trabalho dá-te acesso aos laboratórios mais sofisticados da América. . Pelo menos.indagou.Ora! Por amor de Deus! . Rainie deteve-se.Só quis dizer-te. portanto. . e disposto a pagar-te honorários. também sou um investigador treinado. que era provavelmente a melhor forma de exorcizares os demónios do teu passado. com mil diabos! O resto do mundo podia ficar com o Pierce Quincy rígido e profissional. vai custar-te quatrocentos dólares por dia. mesmo assim. Contudo. Fitou-o bem de frente com uma expressão de desafio. lembra-te de que fui eu que te aconselhei a ires por diante com o julgamento.Sabes que te ajudarei e sabes que não quero o teu maldito dinheiro . Aprendo depressa. Acrescento desde já que nunca fui à Virgínia.. levantando-se repentinamente da cadeira e percorrendo várias vezes a sala para não explodir. . . . num tom rouco. raios! Claro que me é difícil aceitar a morte da minha filha. por fim.Rainie..Sei muito bem o que quiseste dizer-me e sei que tens razão. Os dois 14 . Um simples caso e não me deves nada. .

mas daí até poder chamar-lhe interessante. de onde tirou um envelope que pousou na mesinha de café em vidro. Agora.Tens aí o relato do acidente. Quincy! Não devias ter lido isso. E já que pagas. . um pouco 15 . Falaram um pouco. Portland As velhas recordações apenas precisavam de um pretexto para vir à superfície. vamos a um sítio caro. tento reconstituir a cena do crime. . ou quê? . Aqui faz um calor dos diabos.. vem.Só por isso.Parece interessante.uma Bud Light. Número quinhentos e vinte e um.sem a beber .declarou bruscamente. Inclui o nome do agente encarregado do inquérito. . quando tinham esgotado as banalidades. atum marinado e enchiladas com molho de manteiga.Então que tal o negócio de investigação? . .Bem. sirvo-me do passe para rebuscar os arquivos da Polícia do estado de Oregon. É o mínimo que posso fazer por ela. mas depois controlou-se.perguntou Quincy a meio da sobremesa. Céus! Como era bom vê-lo novamente. Mas trabalho sobretudo para os advogados de defesa. Foram eles que me convenceram a pedir a licença.troçou Rainie.Combinado . porque num sítio tão selecto como o Obas se sentia demasiado embaraçada para efectuar o seu pequeno ritual de encomendar . no site do Departamento de Justiça do Oregon. Tudo concorria para tal: a chegada inesperada de Quincy e um jantar num dos restaurantes de luxo da cidade com uma ementa de camarão dos trópicos. Quiseste meter o dedo na ferida.Deus do céu. Nos dias mais excitantes. mas sempre é melhor do que andar atrás do marido ou da mulher infiel.Parece chato! . . Também tenho muito trabalho de secretária. . . . vou assim vestida para o jantar. Quincy bebeu dois daiquiris. Não digo que seja um trabalho idiota. Rainie optou por água. . Estou certo de que vais querer começar por ele.sabemos que aprendo depressa . e precisas de mudar de roupa.Tens trabalho privado? . após o que pegou no casaco. .Pagas o quê? . . servidos em copos de martini gelados.A minha filha morreu por causa deste acidente. Falaram muito. Agora. Pior para ti. Rainie. 22 2 Pearl District. Sou eu que pago.. Acabei de conseguir a minha licença. .vincou num tom mais brusco do que pretendera.Algum.O jantar.arguiu Quincy. investigo o passado de algumas testemunhas. analiso em detalhe os relatórios da polícia.Passo o tempo na Internet. sou eu. Õ rosto de Quincy quase se suavizou. Rainie.Também passo muito tempo a ler relatórios . ao Oba s.

Alguém que tivesse os mesmos pais e pudesse dizer se a nossa mãe estava mesmo louca.A Kimberly precisa de espaço. as linhas da testa de Quincy atenuaram-se. .respondeu Rainie. abanando a cabeça com uma expressão descrente. seis meses.Como vão as coisas em Bakersville? . Sentia um grande orgulho na sua filha mais nova. . . . 16 .Sempre desejei ter uma irmã .Bem. Rainie? 23 Ela desviou o olhar. franzindo o sobrolho. . . ou se tudo não passava de imaginação.Não sei.Acabou de se formar em Psicologia. . Acho que o acidente da irmã a afectou mais do que a todos nós.O Shep e a Sandy? . alguém com quem discutir. tivesse uma garrafa de Bua Light à mão. .perguntou. .A Bethie odeia que eu o diga. o que se lia no rosto. . esquivando-se à resposta. Rainie! .Ela continua a estudar criminologia? . mas a Kim dará uma polícia fantástica um dia. a autêntica diplomata.. A cidade encontra-se em boas mãos. ou revoltada contigo e com a Bethie? . a Mandy era a irmã mais velha. ao menos.Exacto.Óptimo para ela.Como está a Kimberly? . .Esforço-me pôr ser coerente. A Sandy anda muito empenhada numa associação que trata de problemas de delinquência juvenil. Para a Kimberley.na defensiva.Revoltada com a Amanda. na medida do possível.Sentes assim tanto a falta do trabalho prático. o elemento perturbador. Sente-se revoltada e não me parece que o tenha aceite.indagou.Enquanto a Kimberly era a filha modelo.O Shep trabalha para uma companhia de segurança em Salem. . Fui visitá-lo há uns cinco. Alguém com quem brincar. Mas viajas muito. em vez disso.Está a dar-se bastante bem no seu novo cargo de xerife. E o Luke Hayes? . não sei. .Continuam juntos .Que tacto o teu. optando por mudar de assunto. segundo me diz.Nunca pensei que regressasses lá tão depressa. . . falas com todo o tipo de pessoas e chegas ao local do crime quando o sangue ainda está fresco. Era. . Agora. não me parece que a Mandy tenha sido uma aliada da Kimberly. .De acordo. a que monopolizava a atenção dos pais. . quer fazer o mestrado em Criminologia. assentindo com a cabeça.Para ser honesto. depois de um drama como o do ano passado. Contudo.. mudando de assunto. Por momentos. .Alguém do meu sangue que estivesse sempre ao meu lado.Julguei que te entendias bem com a tua filha mais nova redarguiu Rainie. Se. a rebelde. .replicou Rainie.

deixava-lhes recordações indeléveis. Alguns dos proprietários apanhavam o fresco nos pequenos jardins que pontilhavam cada uma das portas de entrada.surpreendeu-se Quincy. noutro sítio. optou mesmo assim por me falar do assunto. . um salão de chá. mas recuou no último instante. com um tiro de caçadeira que lhe desfizera a cabeça. E. tentando encontrá-la. tal como nos velhos tempos. . começava a ficar mais fresco e o seu amor-próprio espicaçava-a como sempre. por fim. A mãe de Rainie fora assassinada havia quinze anos. só para marcar posição. .brincou Quincy. Apareceu um tipo qualquer na cidade. depois de se certificar de que ele estava limpo.decidiu-se. Contudo.Andou a fazer umas investigações sobre a minha mãe . Nada mal para uma rapariga de uma cidade como Bakersville. -E. pouco depois do drama com pedaços de cérebro a escorrerem-lhe dos cabelos. Vejam só o lugar onde moro. pensou Rainie. Conduziu-o ao longo de uma série de armazéns transformados em apartamentos de luxo. Olhem bem para mim. O empregado trouxe a conta. Quincy pagou. aguardando que ela se explicasse.24 .A tua mãe? . Rainie fingiu achar o gesto normal. Pearl District. Num determinado lugar. tanto mais que ela fora vista a sair da casa. já que esse tipo não a esqueceu passados trinta anos . baixou os olhos para os calções coçados e o top amarrotado e 17 . ao que parece. A minha mãe sabia escolhê-los a dedo redarguiu Rainie com um sorriso amargo.Sim. Muitos dos habitantes de Bakersville achavam que tinha sido Rainie a puxar o gatilho. depois de cumprir trinta anos por homicídio qualificado. 25 Em seguida. Quincy aparecera inesperadamente para lhe propor uma investigação de que ela tanto precisava e tinham jantado juntos.O Luke contou-lhe o que se passara. uma loja de antiguidades com um Porsche num local de estacionamento proibido. Quincy fitou-a demoradamente. Decidiu mostrar-lhe o bairro. . Talvez o mais sensato tivesse sido ficarem por ali. enquanto ainda era senhora da situação. Rainie com um encolher de ombros. eram apenas sete horas da tarde. o salão de exposição de um criador de móveis em voga.O tipo acabara de sair da prisão.Porquê depois de todos estes anos? . . Rainie achou que ele ia fazer qualquer comentário. Raime sabia que devia ficar por ali. com as fachadas pintadas em tons de creme e tijolo e casas dúplex de preços proibitivos. Contudo. O rosto de Quincy denotava novamente uma expressão estranha. uma galeria de arte.O Luke tinha umas coisas a dizer-me. Outros passeavam os seus labradores pretos com um ar descontraído e roupas desportivas de marca. O Luke achou que devia pôr-me ao corrente. depois de assentes os pormenores.

um bar local da época em que o bairro ainda era um refugio para estudantes. Contudo. Rainie entregou a carta de condução e algumas moedas ao homem que dirigia o bar e recebeu em troca dois tacos. deixou-se ficar um bocado junto da mesa a observar e depois afastou-se com um encolher de ombros. surpreendendo Rainie. deixa-te de tretas e começa. . com grande espanto de Quincy que acabou por ir atrás dela.Vamos lá então. Durante os raros momentos que haviam passado juntos. eles conhecem bem a profissão.Aqui. despiu o casaco.Não está mal . O Touché era o ponto de encontro dos "tubarões" de snooker da cidade e já vira melhor. Era muito provável que o Touché continuasse ali quando os yuppies se cansassem dos sótãos e emigrassem para sítios mais verdes. Tal como ela. mas a fama do local devia-se sobretudo ao salão de snooker instalado no andar de cima. em seguida. . sentia o olhar de Quincy nos seus braços nus. Aos trinta e dois anos. intrigado. o barman. Leonard. Adrenalina nas veias e um zumbido agradável nos ouvidos. . um conjunto de bolas e uas Bud Light. Ele desapertara o colarinho da camisa. algo que simultaneamente a irritava e atraía. que pagavam um aluguer baixo nos velhos armazéns de Pearl District. Era ali o peixe fora de água e tinha essa consciência. Quincy meteu duas bolas e continuou a jogar até falhar a sétima. no meio de meia dúzia de motoqueiros e duas dúzias de estudantes.A branca não conta e. enrolara as mangas e o pedaço de giz que segurava na mão deixara-lhe uma mancha azulada na face. Rainie avançou com um ar confiante. se tocares na oitava à primeira tacada. ainda não lhe descobrira o ponto fraco.Um joguinho de oito? . Aquele mundo de sonho atraía-a e repugnava-a em simultâneo. O rés-do-chão era um restaurante bastante aceitável. Uns minutos depois chegaram ao Touché. perdes a vez.comentou ele. Dobrada sobre a mesa.propôs Rainie. Quincy.replicou Quincy num tom calmo. . 26 18 . a alcatifa usada e o lugar já conhecera melhores dias. ainda não sabia quem era ou o que desejava fazer da sua vida. Parou bruscamente e deu meia volta. Sorriu. Rainie juntou as bolas no meio da mesa com a ajuda do triângulo e estendeu-lhe um taco. há quatro meses que Rainie estava a viver em Pearl District e o Touché continuava a ser o único sítio onde se sentia à vontade. . que não esperava um especialista.Conheço as regras .caiu das nuvens. . Era o único homem com fato completo na sala mal iluminada. Quincy fê-lo rolar na mesa para o testar. Rainie já compreendera que Quincy seria um adversário à sua altura. Um ressentimento virado sobretudo contra si própria. franziu o sobrolho e. Agora. As mesas estavam gastas pelos anos.

. cada vez mais agressivo.observou ele no meio de uma série de quatro.Que se lixe Chicago! .Rainie.Não sei se alguma coisa mudou. detendo-se no exterior. .É um lugar simpático . tens de ir a Chicago. . . Passeou demoradamente o olhar pela decoração gasta.Porque não aqui? Compreendo o que aconteceu naquela última noite. Rainie.Além de que nada mudou.Qual é o programa seguinte? . então. . Talvez tivesse sido um tanto desajeitado. ele surpreendeu-a. dos anos 50. Depois.Rainie saboreou o terreno perigoso que agora pisavam. . passando bruscamente a coisas sérias.exclamou.Gosto disto aqui.Dás-te por vencido? .Amanhã espera-me um longo dia de trabalho. conseguindo executar as jogadas que lhe haviam custado as duas primeiras derrotas e dando algo que pensar à natureza meticulosa de Quincy. .disse. em Bakersville. As leves gotas de suor que se lhe formavam na testa contrariavam a aparente desenvoltura com que se expressava e estava visivelmente mais concentrado do que no início. . Ela dirigiu-lhe um largo sorriso e retomou o seu lugar junto à mesa. Só que estás sempre demasiado ocupada para me ver quando 19 .Estou só a aquecer. e Rainie percebeu a segunda intenção da pergunta. o que tornava tudo mais interessante. perdida no meio dos altos pinheiros que tanta falta lhe faziam. Nunca soube. tal como ela. -Tens praticado muito .anunciou.quis saber Quincy. .Aqui não. está bem? 27 . ergueu o rosto para Quincy. mas estava disposto a tentar novamente.concordou ele.Mas se queres jogar snooker a sério. .. não é verdade? Sabe-lo tão bem como eu. . Pensou na sua velha casa. o que me reprovas. a atmosfera tornara-se pesada. Não vale a pena estarmos com rodeios. ..Tens razão. Rainie ganhou as três seguintes. Era tarde.Buraco do canto . Na sexta partida. aliás. Queria.Acho que vou para casa . quis forçar demasiado a sorte. juntando as bolas na mesa forrada de feltro. Rainie. trocando parte do habitual requinte pela força. . com a respiração ofegante. apimentar um pouco a noite. Jogaram durante três horas. onde as luzes da rua emitiam um brilho forte. Na sala. Quincy ganhou a primeira partida quando ela falhou uma tacada mais audaciosa e depois a segunda num momento em que o adversário. Contudo. Quincy falhou a oitava bola e Rainie fitou-o com um arzinho de satisfação. Venceu-a na sexta partida e resolveram desempatar com mais uma. . Pensou no seu belo e luxuoso sótão.

Lá vens tu com a história da pena.Corre. Vastas extensões desertas devastadas por uma seca horrível. E. 28 Rainie seguiu-o através do deserto.venho à cidade e nem sequer respondes às mensagens que deixo no atendedor de chamadas. ergueu-se desajeitadamente nas patas.. bebé. depois de ter tentado mamar em vão. .Tens razão . O elefante bebé órfão soltava pequenos gemidos enquanto procurava comida e companhia. Rainie! Sei perfeitamente o que passaste. pois a violência física era algo que ela teria compreendido melhor e ambos o sabiam. Depois pensou naquele dia trágico. forçando-se visivelmente a contar até dez para resistir ao impulso de a estrangular.declarou ele. tomou um duche frio.ouviu Rainie a sua própria voz enquanto observava a cena de longe. . mas ainda lhe faltavam tantos obstáculos a superar. Voltou a pensar em Bakersville. . Teve uma noite cheia de pesadelos.Não é por tentar compreender-te que tenho pena de ti. Havia uma certa ironia na atitude. em tempo real. Quincy dissera-lhe um dia que ela se libertaria.repetiu ele.. Rainie regressou a casa sozinha. Reconheceu o lugar por já o ter visto uma noite no Canal Discovery. quinze anos antes. Vivera durante todo esse tempo com a verdade brutal da sua adolescência.Acho que vou para casa. "O paquiderme recém-nascido confunde o tronco de árvore com as patas 20 . foi provavelmente esse o motivo por que vim aqui oferecer-te trabalho. acabado de sair do ventre da mãe. desesperadamente só. no momento em que a mãe expirou. Um ano mais tarde. Céus.Passaram oito meses e ainda sinto a tua falta. Rainie tinha perfeita consciência de que estava a esticar a corda.. ainda não estava assim tão certa. Rainie! As palavras ficaram suspensas no ar. Acendeu as luzes do sótão. Sei que a tua vida não é um mar de rosas. por fim. Encontrava-se num deserto nas profundezas de África. na floresta que adorava. sim.disse mais uma vez. .Eu sabia! . quase palpável. as cenas do documentário misturavam-se com as da sua realidade. na noite trágica que se seguira e sabia que também ele devia estar a pensar no mesmo. se contasse a verdade. na casa de madeira onde crescera. . A cria acabou por se afastar penosamente da mãe. ainda pegajoso. O calor era intenso.Um dia vou acabar por me cansar. .. e a terra fendida estalava sob os seus pés. No seu sonho.. lavou os dentes e meteu-se na cama.. . Um elefante bebé. Ao chegar junto de um bosque de árvores semimortas esfregou o corpo num tronco. Só. .Anda lá muito perto! Quincy fechou os olhos. mas.Sinto imenso a tua falta . corre . ... sem poder ajudar e sem saber porque sentia aquele medo instintivo. .

Deitaram-no ao chão duro e fendido. bebé. Demasiado preocupados em sustentar os seus próprios membros. estes elefantes não podem acolher mais nenhum. Sangrava da cabeça e as moscas já voavam em redor da carne ensanguentada. Quando a manada parou." Rainie queria correr para junto da cria. Lançaram-no ao chão. A cria de nove horas de vida aterrou com força no chão. Por fim.Corre. bebé. corre . dizia a voz do comentador. a cria mexeu-se.sussurrou Rainie. corre . Abanou a cabeça e.da mãe". o recém-nascido perdido constitui uma ameaça para a sobrevivência da manada e age segundo essa perspectiva. bebé.Corre. À medida que as horas passavam. Um jovem elefante virou-se e deu uma patada maldosa na cabeça da pequena cria. A manada aproximou-se mais e a cria correu na sua direcção. comentou novamente o narrador. Rainie sentiu-se aliviada." . "Em pleno deserto.sussurrou novamente Rainie. "O elefantezinho precisa absolutamente de encontrar água". "O comportamento agressivo que acabaram de observar deve-se à extrema secura da savana. a água é a única diferença entre a vida e a morte. os bebés aproveitaram para mamar. Tinha um olho inchado. voltando a levantarse mal recuperava algumas forças. semicerrado. uma manada de elefantes recortou-se no horizonte. apelou às forças que lhe restavam e pôs-se novamente a caminho. mas o deserto formava uma barreira intransponível ao seu redor. pôs-se de pé. continua a sua busca de comida e de água através da savana ressequida. "Esfrega-se contra ele para assinalar a sua presença e procurar conforto. O elefante chefe avançou de imediato. O pequeno elefante correu para eles e voltou a ser brutalmente repelido. Esgotado. "Não é raro uma manada de elefantes adoptar um órfão". A cria voltou a levantar-se penosamente. As patas tremiam-lhe. que caiu gemendo. Rainie julgou que ele voltaria a cair. Aproximaram-se e Rainie não tardou a avistar pequenas crias que avançavam prudentemente à sombra das mães.Corre. 29 . . Ainda acabara de nascer e já se via confrontado com a 21 . Depois viraram-se e afastaram-se pesadamente." De súbito. rompendo em soluços. A manada ainda continuava à vista e a cria precipitou-se atrás dela. A cria prosseguiu caminho.incitou. Outros elefantes tinham aparecido e o pequeno órfão estaria salvo. mas o pequeno elefante baixou a cabeça. com dificuldade. avançava cada vez com mais dificuldade e caía frequentemente. acariciados pelas trombas das mães. agarrou no elefante bebé com a tromba e atirou-o brutalmente para longe. A cena repetiu-se e dois outros elefantes machos aproximaram-se. onde permaneceu imóvel. prosseguiu o narrador num tom monótono. corre! . Para o chefe. Ele pôs-se de novo em pé.

Eram três horas e a noite reinava. O sótão estava silencioso. crescera a fazer equitação todos os fins-de-semana. Rainie acordou sobressaltada. penteado impecável. Três horas depois. Os paquidermes aproximaram-se da água lodosa. As mãos tremiam-lhe e tinha a sensação de que o próprio corpo não lhe pertencia. Aliás. Foi nesse preciso momento que avistou os chacais. 30 3 South Street. a fim de evitar que o maltratassem. Sem esquecer o uso diário do fio dental. os paquidermes podiam agora ajudar o órfão. Os gemidos dilacerantes da cria moribunda ainda lhe soavam aos ouvidos e as lágrimas corriam-lhe pelas faces. De acordo com o narrador. a manada encontrou um charco.. Num abrir e fechar de olhos precipitaram-se sobre o pequeno elefante e despedaçaram-no sob o olhar indiferente dos outros elefantes. ele merecia ser aceite pela manada. por fim. antes de os enrolar com bigudis e a servir-se do ferro de engomar para os alisar. Tinham-lhe ensinado desde muito jovem que uma mulher devia cuidar-se. sobrancelhas depiladas. Elizabeth seguira todos estes preceitos à letra. O enigmático Pierce Quincy era natural de Nova Inglaterra. Seguiu a manada sem gemer nem se aproximar. Filha de uma família nobre dos arredores de Pittsburgh. Insistira em frequentar a universidade. Deu um passo e depois mais outro.. Levantou-se pesadamente da cama e atravessou o sótão às escuras até à cozinha. Tranquilizados pela presença da água. Também aprendera a molhar os bonitos cabelos castanhos com cerveja. As jovens de hoje censuravam a frivolidade da sua geração.tragédia da vida. Aos dezoito anos dançava O Lago dos Cisnes com tanta graciosidade como fazia panos de tabuleiro em croché. Rainie respirou. Desejava que Quíncy estivesse ali. Estava convencida de que a cria se salvara. rosto tratado. o órfão recémnascido esperava que eles se saciassem até chegar a sua vez. E desejava. praticando assiduamente os saltos de obstáculos. 22 . Depilava-se. mais calma. As bactérias alojadas nas gengivas eram o símbolo personificado da negligência e do declínio. A prova terminara e o conto podia ter um final feliz. Contudo. o que agradara à mãe de Elizabeth. penteava-se e cuidava do rosto. Devido à sua coragem e persistência. Filadélfia Elizabeth Ann Quincy envelhecera bem. contrariando a vontade da mãe. mas iriam ver se um dia tentassem alisar os cabelos numa tábua de engomar. escura e densa. Elizabeth não era uma figurinha de porcelana. Vestia-se com elegância até mesmo para ir às compras e nunca usava ténis senão nos locais onde se praticava esse jogo. Elizabeth orgulhava-se muito desta sua postura. onde bebeu um enorme copo de água fresca. Fora aí que conhecera um rapaz muito diferente dos do seu meio.

Era. decerto não tardaria a conseguir uma boa situação. Elizabeth sentia uma secreta atracção por esse lado obscuro da sua profissão. a normalidade não passava pela sua vida familiar. Na verdade. antes de perceber que. Era um pensamento que repetia com frequência nos últimos tempos. Uma vez terminados os estudos. Amanda e Kimberly precisavam de estabilidade. Elizabeth quebrara a tradição familiar ao pedir o divórcio. Quincy precisava e vivia apenas para o seu trabalho e ela e as duas filhas desempenhavam um papel secundário no seu quotidiano. Qual era a origem de uma personalidade distorcida? Porquê e como cometiam o primeiro crime? Como impedi-los de recomeçar? Tantas perguntas que haviam sido tema de outras tantas conversas entre Pierce e Elizabeth. Pelo menos no começo. decerto abriria um consultório privado e. Não compreendia porque é que apenas via o pai quando os psicopatas faziam uma pausa. Fora sobretudo Amanda quem tivera mais dificuldade em aceitar a carreira do pai.. mas também um homem de acção e Elizabeth orgulhava-se disso. Quincy sentira-se de facto atraído pelas mentes perturbadas. Devido aos vários anos passados na polícia de Chicago. os gestos das mãos quando ele falava de um certo psicopata ou sádico. de corpo e alma às duas filhas. uma pessoa calma e bemeducada e possuía uma capacidade surpreendente de se meter na pele de um assassino em série e analisá-lo. longe de um pai mais interessado em cadáveres do que em jogos de futebol. com todas as mentes perturbadas que caracterizavam a época. além disso. Quincy estava a preparar um doutoramento em Psicologia. A mãe de Elizabeth via com muito bons olhos a entrada para a família de um genro universitário.. mas pelo trabalho. mas Elizabeth provara uma vez mais a sua forte personalidade e insistira na decisão. imaginando os dedos crispados numa arma. pelo contrário. para um homem como Pierce. Pierce era um teórico brilhante. a paixão com que se expressava. No começo. mas o pai possuía vários hectares de terra em Rhode Island. tinha decidido especializar-se 31 em criminologia. Elizabeth dedicara-se. fascinada. Ele fascinava-a com o seu espírito lógico e clareza de raciocínio. aconselhando-a a evitar esse procedimento. de uma vida tranquila. Observava-lhe. A mãe tentara chamá-la à razão. quando ainda pensava que iriam casar e levar uma vida de família normal. Mesmo quando desligarei a maquinal 23 . a fim de educar sozinha as duas filhas. Sentia-se mais fascinado pela psicologia das mentes criminosas do que pelas armas de fogo e a testosterona inerente à profissão de polícia.Quem sabe se não descenderia dos primeiros imigrantes do Mayflowerl Talvez não tivesse antepassados ingleses nobres. como que para se convencer a si própria.

mas não me conhece. em frente da televisão. Apressou-se a debitar os agradecimentos habituais.. um cinto Gucci e sapatos Armani completavam a toilette.. Como era possível que soubesse o seu nome? Tinha a certeza de que era a primeira vez que o via. Ter-se-ia estatelado ao comprido na rua. conheço-a. Tinha um ar. Nessa segunda-feira à noite.Lá estou eu a armar confusão.Como sabe o meu nome? .Caminhava sem olhar. não viu o homem que saía da loja de especiarias a tempo de evitar a colisão.desculpou-se ele. Mas está bem. olhos de um azul profundo que emanavam um brilho divertido. madeixas grisalhas pintalgando os caracóis pretos junto as têmporas. Imersa nos seus pensamentos. a Elizabeth! Elizabeth Quincy! .Aos quarenta e sete anos. não peça desculpa. Bethie avançava sem se preocupar com os odores circundantes. evitando olhar para um telefone que nunca tocava. . De facto. de paredes cor de linho cru e sofás forrados de seda. Elizabeth apercebeu-se subitamente de que ele ainda não lhe largara o braço.. se ele não tivesse tido a presença de espírito suficiente para lhe agarrar no braço. mas.retorquiu. Umas calças beges impecavelmente vincadas. Culta.. Por favor. Ultrapassou sem os ver três adolescentes com enormes tatuagens e evitou maquinalmente uma comprida limusina preta. Traços denotando uma origem europeia. proveniente da transpiração e do pronto-a-comer. absorta nos meus pensamentos. . ao mesmo tempo que ignorava aplicadamente os demais transeuntes. . O homem em causa tinha um rosto muito marcante.Mas a senhora é.. quedou-se a meio da frase. Elizabeth assentiu com a cabeça.balbuciou. não está? Se a tivesse magoado. nunca me perdoaria. Devia andar na casa dos cinquenta e vestia uma camisa de linho branco de colarinho aberto.. ela descia a South Street com um passo firme. 24 . . elegante e terrivelmente só.Desculpe . revelando o pescoço distinto e a leve penugem grisalha do peito.. . Ignorava que postura adoptar. .A culpa foi minha. em Filadélfia. Passar mais uma noite só. muito atraente.redarguiu ele de imediato. ainda atordoada. Elizabeth Ann Quincy era uma mulher muito bonita. voltando a perscrutá-lo e muito perturbada pelo aparecimento inesperado daquele homem na sua vida. . . indiferente à alegre multidão que deambulava em frente da estranha mistura de lojas chiques e sex-shops.. ao observar as feições do desconhecido que lhe dera o encontrão. As caleches para os turistas tinham saído em força nessa noite e um forte cheiro a estrume misturava-se com o habitual. 32 Tinha uma única ideia em mente: regressar o mais depressa possível ao calmo conforto da sua bela casa em Society Hill.Ultimamente não sei onde ando com a cabeça.Lamento muito .

se me deixar. abraçou-o como se esse gesto pudesse devolver-lhe Mandy. mas já que o mal está feito. Emitiu um pequeno grito que a trouxe de volta à realidade. na Virgínia. Não se apercebera.Calma! Calma! Isso vai passar . A cicatriz. Ficaria reduzida a um fino traço num tronco robusto e bronzeado. Tristan Shandling. E ela pedira que desligassem a máquina. Acabara por se resignar a aceitar o inaceitável e tinham-lhe levado a filha para sempre. Estendeu maquinalmente a mão trémula e tocou na cicatriz. Estou aqui. primeiro de uma forma desajeitada. .gaguejou com uma expressão atrapalhada que lhe acentuava o encanto. como se chama? .Não o conheço mesmo . Se ele a tinha visto no hospital. Fechou os olhos e engoliu em seco. Limitou-se a soltar a camisa de tecido fino do cinto das calças para lhe mostrar o lado direito. depois com mais firmeza. .. Mister Shandling? Como já esperava. No hospital.. 34 4 Pearl District. o corpo petrificou-se. ele manteve-se em silêncio.Não sei bem como lhe explicar.A situação está a tornar-se cada vez mais difícil .anuiu Bethie com a máxima honestidade. Vi-a o mês passado.. Abraçou-o com a mesma força com que costumava abraçar a filha. . como 33 que para se proteger. que ele corava.. tomando bruscamente consciência de que percorria com os dedos a pele do dorso de um desconhecido e agora as pessoas paravam a observar. a cintura daquele homem que vivia doravante com o rim de Mandy.declarou Tristan Shandling num tom calmo. . de um vermelho-escuro. Tomarei conta de si.. dali a um ou dois meses acabaria por desaparecer e o inchaço diminuiria.dizia. Nunca devia ter dado a entender que a conhecia. Pestanejou. Contudo. Tristan Shandling enlaçou delicadamente Elizabeth. Envolveu.Tristan. indicando uma operação recente. De súbito.. Ali. no meio de toda aquela multidão que enchia South Street.. Elizabeth Quincy perdeu o controlo da situação. dava-lhe pancadinhas no ombro. Uma mãe nunca deveria sobreviver a um filho. Elizabeth demorou uns segundos a relacionar os factos. baixando os olhos para a mão que continuava pousada no seu braço. tentando apaziguar-lhe a dor.A sua filha salvou-me a vida . nem pronunciado o nome. . .Como. Portland 25 . media uns escassos centímetros. É muito simples. Bethie começou a chorar. surpreendida. Bethie. empalideceu e pôs os braços à volta do peito..Pode dizer-me exactamente como me conhece.. O indivíduo largou-a de imediato e Bethie verificou. mas as lágrimas tinham-lhe saltado dos olhos e rolavam pelas faces. Julgou perceber e o sangue gelou-lhe nas veias.

e a testemunha. reservando um lugar de última hora por dois mil dólares. desertos. esqui. montanhas. dado a maioria dos organismos públicos da Virgínia exigir uma licença local aos detectives particulares antes de responder às suas perguntas. enquanto se interrogava como seria a vida na Virgínia. O telefonema fora registado às cinco e cinquenta e dois minutos. Agarrou na lista telefónica classificada e ligou ao acaso para uma agência privada da Virgínia. até então. contara que tinha parado ao avistar um corpo inanimado à beira da estrada. Rainie tinha um "sócio". achou mais prudente juntar o seu Glock. mas a ocasião nunca se apresentara e agora. muito emocionada. tomou um duche gelado. no meio das moitas. qual a vantagem de visitar outros estados? Saiu do duche. um imenso estado que proporcionava aos seus habitantes uma incrível diversidade de praias. limpou-se e optou por escolher roupas leves de algodão para o avião. O corpo era o de um homem de idade que lhe pareceu morto.. vela. Rainie não conhecia nada dos EUA. O primeiro polícia a chegar ao local do crime pertencia à brigada de trânsito. fechou a porta do sótão. lagos. marcha. Para martirizar o corpo e correr os seus dez quilómetros diários sob um calor já tórrido àquela hora e noventa por cento de humidade. descobrira um Ford Explorer 26 . Para seu espanto. sem falar dos casinos. Um quarto de hora mais tarde. Em caso de necessidade. depois de ter indicado o número da sua licença no Oregon e explicado a sua missão ao interlocutor. A ocasião sonhada por Rainie para justificar os mil e seiscentos dólares que lhe custara a licença. dado o último caso que vivera com Quincy. O carro que alugara na agência foi mais um buraco no orçamento. Estava longe de constituir uma excepção no Oregon. quarenta minutos mais tarde. metrópoles modernas e pequenas cidades fronteiriças. O avião atingira a velocidade de cruzeiro quando Rainie decidiu finalmente desapertar o cinto de segurança. golfe. Mergulhou na leitura do relatório oficial da morte de Amanda Jane Quincy. E podia fazer-se de tudo um pouco ou quase: surfe. ao lado dele jazia um cãozinho. A questão seguinte era como trabalhar fora do estado. Dadas as circunstâncias. pesca. saíra do estado do Oregon. 35 Meteu rapidamente coisas para três dias num saco de viagem e. não morreu.Rainie saiu penosamente da cama às cinco da manhã. Uns instantes mais tarde. escalada. De regresso a casa. aos trinta e dois anos. equitação. Nunca.. respondendo a uma chamada do telemóvel de um camionista que dera o alerta. abençoado pelo crédito do American Express. Por uma ou duas vezes pensara viajar até Seattle. Um pouco mais adiante. após o que assumiu oficialmente o seu novo trabalho. Phil de Beers teria todo o prazer em efectuar os passos oficiais no seu lugar a troco de um montante razoável.

enfiado num poste telefónico. Apressara-se a comunicar com a central pedindo o envio de uma ambulância. Poucas hipóteses de sobreviver. o cinto estava "inoperacional". infelizmente para Mandy. A "condutora responsável" nunca recuperara a consciência. Na altura do embate. Rainie sentiu um calafrio. Como o polícia chegara antes dos socorros. a condutora não levava o cinto de segurança posto. O camionista ainda se encontrava no local do acidente quando o polícia aparecera. bem como a posição do veículo contra o poste. Não lhe tocara nem a deslocara. Nem sinais de embate na traseira ou nos lados do Explorer que assinalassem a presença de outro veículo no local." Nas urgências. Pôs o dossiê de lado e observou novamente as fotografias: o pobre homem 27 . Rainie ignorava o que tal significava e não encontrou mais nenhuma alusão ao facto no relatório. Segundo uma nota do polícia. Rainie sabia por experiência que nada melhor do que os bombeiros e os condutores de ambulância para darem cabo das pistas em caso de crime ou acidente. portanto não fora acusada e morrera um ano mais tarde. No Oregon. pois sabia que nunca se devia mexer no corpo de um acidentado antes da chegada dos socorros. pelo menos. após ter forçado a porta da frente. indicando que a condutora não tivera tempo de travar. três anos antes. Condutora responsável pela perda de controlo do veículo. o relatório era extremamente pormenorizado. Era um modelo vulgar sem direcção assistida e. o polícia.20 g 1. não observara qualquer marca de pneus na curva. ou não se julgara necessário chamá-la. Ainda saía fumo do capo amachucado. enquanto o camionista virava as costas e vomitava ao dar-se conta do estado da jovem mulher. Proceder a testes de despistagem de álcool ou droga na vítima. Condutora responsável gravemente ferida na cabeça." O dossiê não continha mais nada. O polícia fizera. Caso encerrado. Tratava-se de um Ford Explorer verde de 1994. registado no nome de Amanda Jane Quincy e comprado em segunda mão. a vítima fora submetida a uma análise de sangue e o polícia pudera concluir o relatório: "As análises ao sangue confirmam uma taxa de alcoolemia de 2. Ou na Virgínia não havia nenhuma. também sem airbag. Observou demoradamente as polaróides e os esboços que mostravam onde o peão e o cão haviam sido encontrados. Aproximaram-se depois do Explorer. um bom trabalho. O camionista tentara em vão reanimar verbalmente a condutora. 36 A conclusão do polícia era inequívoca: "Acidente envolvendo um único carro. a brigada de trânsito possui uma unidade especial encarregada de estudar e analisar os acidentes de viação. tomara o pulso da condutora e verificara que ela ainda estava viva. Tinha-o levado até junto do corpo do velhote e o agente constatou que ele estava morto.

a frente destruída do Exflorer. contagiosas. A fauna habitual de residentes do bairro circulava com roupa moderna e óculos escuros à John Lennon. Nenhum rasto de qualquer outro veículo implicado. Greenwich Village. no coração da cidade universitária 37 nova-iorquina. onde se via um molde macabro do rosto de Amanda Quincy. Encontrava-se na esquina de Washington Square. Por fim. Ofegava. Kimberly sentia dificuldade em respirar. Nem sequer sabia para onde se dirigia. Mudava continuamente a mochila de um ombro para o outro. Soltou um fundo suspiro. . Restava. o agente tirara vários instantâneos do párabrisas. evitando a toda a gente o horror dessas imagens. dado que a maioria dos condutores em estado de embriaguez perde a capacidade de travar frente a um obstáculo inesperado. aparentemente.que andava a passear o cão de manhã. porém. Contudo.murmurou Rainie. com um sol radioso e o céu de um azul profundo. Rainie tinha de concordar. Um dia perfeito. até mesmo segundo os padrões de Nova Iorque. quando as amigas afirmavam tê-la visto sóbria três horas antes. 28 . pois também já não se sentia muito convencida. nesse ponto. compreender por que razão Mandy se encontrava numa estrada rural às cinco e meia da manhã. E havia também o cinto de segurança "inoperacional".Um caso sem nada de especial . o pequeno fox terrier sem uma trela com o comprimento suficiente. Uma bela tarde de Julho. Nova Iorque Kimberly August Quincy voltara a ter uma das suas crises. embriagada. Um homem de fato completo que caminhava com um passo decidido pelo seu passeio olhou-a casualmente e depois parou. que transformara um banal acidente numa tragédia. amachucado pelo impacte. Alguns estudantes em calções de ganga e T-shirt aproveitavam o bom tempo para trabalhar ou dormir a sesta. perguntando se ela se sentia bem. A equipa do Serviço de Emergência Médica transportara Mandy para as urgências antes da chegada do fotógrafo. O relatório não lhe dava esperança de descobrir algo de novo. O polícia da brigada de trânsito redigira o seu relatório de uma forma clara e circunstancial e. mas as suspeitas de Quincy eram. incluindo um grande plano da parte superior esquerda do vidro estilhaçado. O suor escorria-lhe pelas faces. Quincy estudara estas fotos e Rainie interrogou-se sobre quanto tempo demorara a desviar os olhos. Rainie não podia esquecer o homem mistério por quem Amanda Quincy estava apaixonada e que ninguém dos seus conhecimentos alguma vez vira. Nenhum traço de uma terceira pessoa no local do acidente. A relva à volta do arco no meio da praça formava uma serena mancha verde. Um sítio seguro e encantador. Até a ausência de travagem não tinha nada de anormal.

Sem um motivo real. alguém que lhe escapava à vista. Acabava de passar o ano na Universidade de Nova Iorque. conseguirá aos vinte e dois. As duas irmãs estavam excitadíssimas com a ideia de passarem uma tarde 29 . com a desagradável impressão de que alguém a observava. a sua relação com a mãe não era fácil e sabe-se lá o que ia na cabeça do pai.Precisa de repousar. Os ataques de pânico de Kimberly desapareciam tão rapidamente como apareciam. os dois sabiam que ela não abrandaria o ritmo. sem aviso. tudo correra na perfeição. sem dúvida. Perdera a irmã. cada vez mais assustadoras. semanas mesmo. ... Devia ter uns oito anos e fora a uma feira local com Mandy e o pai. . Tem a vida pela frente.Desande! . um calafrio que lhe percorria a espinha. uma impressão na nuca.. Os ataques de pânico começavam em regra por uma sensação estranha. . já lhe disse! O homem afastou-se. De um momento para o outro. o seu professor de Criminologia que atribuíra as crises ao stresse. Não era o seu estilo. Marcus Andrews. pois.. Parava no meio da rua para olhar em volta. Kimberly não estava doida. ou então virava-se bruscamente no metropolitano a abarrotar para perscrutar o rosto dos outros passageiros. Agora. Durante dias.. Tal como a mãe gostava de dizer com uma certa amargura. Há meses que era vítima dessas crises. mas Kimberly era uma pessoa hiperactiva. Tinha consultado o Dr. Uma constatação que apenas dificultava mais as coisas. Contudo. Ainda não. abanando a cabeça e. No fundo de si própria. Kimberly parecia-se demasiado com o pai. que saía de casa às seis e quarenta e cinco da manha e raramente voltava antes das dez da noite.aconselhara-a. Os ataques sucediam-se quase de hora a hora antes de a deixarem em paz dois ou três dias. O que não consegue aos vinte e um. Assistira a um número bastante de aulas de Psicologia para saber que estava a ter um ataque de pânico. entrava no metropolitano e o seu universo ruía de novo. por conseguinte. com que se ocupar. até à crise seguinte. tal como o pai. sem falar no seu trabalho de voluntariado num lar de sem-abrigo. a respiração acalmava e tudo corria bem durante uns dias.Desande. arrependido por ter querido ajudar o próximo numa cidade de doidos como era Nova Iorque. nada era como dantes. frequentara dois seminários nesse Verão e tivera a sorte de ser aceite como estagiária pelo seu professor de Criminologia. A situação piorara desde o funeral da irmã. Tinha. Kimberly nunca sentira medo em toda a sua vida. Ô coração retomava a batida normal. conseguia racionalizar o medo.Abrande um pouco . 38 Explicações lógicas não lhe faltavam. uns meses...Miss.

mas não resistirá muito tempo. O desconhecido tinha uma máquina a tiracolo de que se servia para fotografar as crianças que andavam no carrossel. Em Setembro. afastem-se logo. As miúdas tinham-se enchido de caramelos. Vão de imediato à cabine de segurança mais próxima ou. Isso vai acalmá-lo. Este ficara desolado com a atitude da filha mais velha. com fotografias de todas estas crianças que gostariam de possuir. insistiram com o pai para prosseguirem a aventura.É um pedófilo .Começam sempre da mesma maneira.murmurara subitamente o pai. Kimberly fitara-a sem compreender. Mandy pusera-se a chorar. . dizendo: "Ufa! Que cheirete!" Depois. Andaram juntos na roda gigante.Se alguma vez avistarem um indivíduo deste género. de que foram as crianças que o desviaram. refugiem-se atrás de uma mulher que ande a passear com os filhos. Quando acabar por ceder à sua depravação. Este ainda não passou à acção. Há uns minutos que observava atentamente um homem encostado a uma das colunas do carrossel. de olhos brilhantes. pipocas e regado tudo com Coca-Cola gelada. caso contrário. Depois. Se vir que ele não abandona o local. Mandy encontrava-se ao lado de Kimberly e esta vira como a irmã se alterava. mas jamais dera o braço a torcer. Fitava o estranho homem de máquina fotográfica a tiracolo e o lábio inferior começou a tremer-lhe. fará tudo para se convencer de que não teve culpa. ao passo que Kimberly nunca o fazia. voltarei aqui amanhã e nos dias seguintes. Um dia 30 . Kimberly respondera que o pai era o Super-Homem. Kimberly não o censurava. . Quincy parecia distraído. se acharem que está demasiado longe.inteira com um pai raramente disponível. Contudo.vou dar os sinais dele à segurança. As outras crianças tinham troçado dela o ano inteiro. e Kimberly lembravase perfeitamente de que a irmã tapara o nariz. O homem tinha vestido um sobretudo comprido e sujo. antes de se virar para o pai. sem falar do algodão-doce e das voltas no carrossel. o pai fizera-lhes sinal para que se calassem e bastara-lhes um olhar para perceberem que ele não estava a brincar. dizendo que queria voltar para casa. Sob o efeito do açúcar e da cafeína. antes de visitarem o castelo fantasma e subirem à montanha-russa. Mandy chorava por tudo e por nada. Confiem sempre nos vossos instintos. Ele partirá do princípio de que é a vossa mãe e deixar-vos-á em paz. . . papá? . meninas continuou o pai -.perguntara Kimberly. arranjarei forma de o prender. Nesse mesmo momento. 39 . O pai protegia as crianças das garras de terríveis desconhecidos.O que vais fazer. não se interessaria por crianças vestidas. quando o novo professor perguntara a cada uma das alunas a profissão dos pais.

Excepto naquela tarde. cada vez mais quentes.Pronto. Um segundo calafrio percorreu-a da cabeça aos pés. 40 5 Quantico. levava o carro para distâncias pequenas. Deixou de sentir os pêlos da nuca arrepiados. desatou a correr como se o diabo a perseguisse. Quincy abrandou ao chegar ao posto de controlo do FBI e parou diante do segurança. por vezes. Quincy estacionou próximo do campo de tiro e. O céu ficou novamente azul. pronto . Andrews sugerira-lhe que tentasse exercícios de biofeedback: fê-lo nesse momento. evitando olhá-lo de frente. Por outro lado.seria como ele. O nevoeiro dissipou-se aos poucos. Julgou que as coisas seriam diferentes depois do acidente de Mandy. a fim de apanhar um voo directo para Seattle. de intimidar. a relva verde e as ruas cheias de vida. percorreu a pé o caminho que o separava das traseiras do edifício. embora fizesse um calor incrível. A morte acidental de uma filha era motivo bastante para mexer com as emoções das pessoas em qualquer 31 . . mas não se ressentiu por não ser correspondido. Há mais de um mês que era assim e Quincy já nem ligava. Quincy tinha-se levantado às três da manhã. fixando as mãos e imaginando-as quentes. Os gabinetes reservados ao Departamento de Ciências Comportamentais situavam-se no segundo piso do subsolo. Quincy acenou-lhe. conduzir e. pensou que era sempre um começo promissor do dia. Passara tantos anos a viajar pelo país de um lado para o outro que não suportava as paragens inúteis e regressava a casa assim que podia. Virgínia. O suor secou na testa. já há uns anos.Todos caminham normalmente pela rua. . Tudo na tua cabeça. em seguida.disse para consigo. Passou o cartão pelo controlo electrónico e a porta abriu-se. O Dr. não há nada a temer. Esperou até o agente ver o autocolante de identificação colado no pára-brisas e assentiu com a cabeça quando ele lhe fez sinal para avançar. Kimberly diminuiu a força com que agarrava a mochila e deu lentamente uma volta sobre si própria para retomar a sensação de realidade. Sabia que os indivíduos da segurança não podem sorrir e têm mesmo. voltou a parar. Ao descer as escadas. Kimmy. a respiração acalmasse e as manchas diante dos olhos desaparecessem. Preferia. como se nada se passasse. ao chegar ao cruzamento seguinte. O agente especial Deacon correspondeu. Retomou a marcha. em que apenas desejava que a pulsação abrandasse. Está tudo na tua cabeça. cruzou-se com um colega e esboçou-lhe um aceno de cabeça. aliás. Como não precisava de dormir muito. mas. Ninguém está a observar. mas tal não aconteceu. De nada lhe valeu repetir em voz baixa que tudo aquilo era um absurdo e que era tão forte como o pai.

A mudança não lhe desagradava. Ao contrário das imagens dadas por Hollywood. Tanto os teóricos como os práticos na área do crime haviam recorrido aos seus serviços. em relação ao qual nenhum dos lados tinha uma opinião solidamente formada. no subsolo. Ninguém se atrevera a dizer-lho abertamente. com o risco de abalar as certezas dos colegas. Empurrou a porta metálica anti-incêndio e entrou nas instalações do Departamento de Ciências Comportamentais. mesmo por baixo das salas de tiro. Há um mês. até mesmo nas fileiras de uma instituição como o FBI. O Departamento de Ciências Comportamentais orgulhava-se de possuir uma sala de reuniões ultramoderna.ambiente profissional. Aos olhos dos colegas. 41 Quincy soubera mesmo que. Fazia parte dos poucos agentes que tinham fugido às regras da instituição e recebido aulas na unidade afecta aos raptores de crianças e assassinos em série. em que a sala da guarda fica no meio das celas dos detidos mais perigosos. as instalações do FBI em Quantico eram puramente funcionais. Ainda não falara do assunto a ninguém. O gabinete do responsável pelo departamento situava-se no centro. Uma disposição curiosa que Quincy sempre havia associado à das prisões de alta segurança. mas fazia tenção de voltar a abalar as tradições. com quase cinquenta anos voltaria a trabalhar no próprio terreno. O FBI tinha as suas prioridades! Quincy nem sempre trabalhara para aquele departamento. Depois de anos de teoria. As do seu departamento. Quincy não dera importância. rodeado pelos dos adjuntos. alguns o censuravam por ter começado a trabalhar logo a seguir ao enterro da filha. No início. transformando-o num caso à parte. Quincy chegava a divertir-se com o contraste entre a simplicidade do seu espaço de trabalho e a sofisticação dos meios de comunicação ao dispor. constituídas por blocos de cimento pintados de branco e sem janelas. nas suas costas. A sua aparente frieza chocara os colegas. Quincy era a prova de que a morte escolhia as suas vítimas às cegas. nem mesmo a Rainie. mas aquele tipo de drama ainda parecia mais intenso num meio em que as pessoas lutavam para prevenir as tragédias. talvez ainda o fossem mais do que as restantes. sentia a falta da prática. mas reprovavam-lhe em parte o facto de continuar a aparecer no trabalho como se nada se tivesse passado. a direcção do FBI tinha-o sondado para integrar o Centro Nacional de Análise Criminal na qualidade de especialista em perfis psicológicos. Talvez as cabeças pensadoras do FBI imaginassem que esse ambiente ajudaria os agentes a penetrarem melhor na mente dos criminosos. Quincy considerava o seu trabalho para o FBI como um sacerdócio. semelhante a um estúdio de televisão para a organização de videoconferências. Ao cabo de dois anos lucrativos (o que não desagradara a 32 . Cada pessoa tem a sua própria forma de reagir à morte de alguém chegado.

mas tinha descoberto que lhe faltava o trabalho de detective. com trágicas consequências. com os anos. mas também lhe acontecera negligenciar pistas. estabelecera a ligação entre três crimes do mesmo assassino e que se julgara tratar-se de casos isolados. Quando esse caso chegou ao fim. no final. mas tal não o impedira de obter resultados concretos na sua profissão. resolveu que chegara a altura de mudar. Quincy esgotara praticamente as forças. esperava pelo menos acompanhá-las na adolescência. salvara vidas humanas. gostava do desafio e. uma manhã. interessantes. O homem que tantas vezes testemunhara em processos relativos a custódia de filhos fora o último a dar-se conta da situação. Dava aulas em Quantico e pôde. não levou muito tempo a decidir-se. interessara-se por crimes de assassinos em série que nunca haviam sido resolvidos. 42 Num abrir e fechar de olhos. e também reabrir alguns dossiês . O tempo causara desgostos a Quincy. depois de custar a vida a vários colegas que apreciava e respeitava. ninguém pensaria em negálo. a fim de alimentar o banco de dados do FBI. do peso reconfortante da arma. Quando deixara a polícia para estudar. enquanto ajudava Kimberly a escolher o curso que queria tirar. Quincy viu-se com uma média de cento e vinte casos por ano. as filhas cresceram e o seu casamento desabou. esforçara-se por melhorar a nível pessoal. No ano em que Mandy acabou o liceu. assistir aos jogos de futebol e peças de teatro em que as filhas participavam. Já que não as vira crescer. lhe telefonaram de um hospital na Virgínia para lhe anunciar que a filha mais velha estava à beira da morte. citando apenas um exemplo. um ano antes. mas também o ensinara a ser honesto.Bethie) e. Chegava a visitar quatro cidades diferentes em cinco dias. como outros a de contabilistas. E. como psicólogo particular. assim. A transferência para o Departamento de Ciências Comportamentais tinhalhe permitido limitar as deslocações e consagrar mais tempo às filhas. Sentiu uma verdadeira saudade da emoção da caçada. criara um sistema de avaliação que permitia detectar potenciais assassinos em série. Entretanto. tinha a sensação do dever cumprido. Era bom no que fazia. Mais tarde. degolando dois guardas. fora sobretudo para compreender melhor a psicologia criminal. Graças à sua intuição. Ao ser contactado por um amigo do FBI. No dia em que Jim Beckett se evadira de uma prisão no Massachusetts. nem o pai que gostaria de ter sido. um tristemente célebre assassino de crianças -. Foi nessa altura que. Quincy sempre fora um excelente profissional. munido de uma pasta a abarrotar de fotografias dos mais bárbaros crimes. Não fora um marido ideal. advogados ou funcionários públicos. todavia.em particular o de Russell Lee Holmes. da camaradagem muito especial que reina na polícia. Antes do 33 . mas simplesmente para desempenhar a sua profissão de investigador. desejara passar a algo mais concreto. Acabara por compreender que não viera à terra para salvar o mundo.

continuava a ser difícil dormir só. Dado não ter tocado na amostra de refeição que lhe haviam servido durante o voo. dirigiu-se à agência de aluguer onde escolheu um carro económico. passara mesmo uma tarde inteira com o pai de oitenta anos. enquanto Quincy tentava recordar alguns momentos que haviam partilhado. com um pouco de sorte. que estava internado num lar em Rhode Island e sofria de Alzheimer. Pegou no saco de viagem e. nem sequer reconhecera o filho e mandara-o embora. o agente encarregado da investigação. não quis correr o risco de chegar à sede da polícia depois da mudança de turnos. e o trânsito era intenso. Por fim. mas. embora o tempo fosse passando. apanhou Amity no momento em que ele ia a sair. Quincy amara verdadeiramente Mandy. Rainie acusara-o de ser demasiado brando. Virgínia Quando o avião aterrou no Aeroporto Nacional Ronald Reagan. Embora tivesse fama de nunca se mostrar simpática em serviço. Rainie sentiu-se um pouco perdida. Abraham Quincy deixara de protestar e 43 tinham passado várias horas sentados um em frente do outro. pois o agente Amity retrocedeu. Respondera-lhe que o mundo já era suficientemente duro para que contribuísse com mais agressividade e estava a ser sincero.Agente Vince Amity? . como já eram quatro da tarde. que a sua familiaridade com a morte dos outros não o tinha verdadeiramente preparado para a morte da sua própria filha e que. Vince Amity. pescoço de touro e um maxilar decidido. O polícia virou-se e constatou. sem dúvida de origem escandinava e um praticante ferrenho de futebol. fizera tudo para se dar bem com Mandy e tentara não se afastar de Kimberly. mas ele ficara. nos últimos tempos. Rainie aproveitou para o brindar com um sorriso encantador. embora esta se mostrasse rebelde. o estômago começou a dar sinal. Um dia. Um mês antes. interessado. Dirigiu-se à esquadra da polícia que figurava no dossiê de Mandy.acidente. pois sabia que o pai não seria capaz. depois de ter recolhido no tapete rolante a mala que continha a sua Glock. que a mulher que lhe acenava era jovem e bonita. Era um indivíduo com mais de um metro e noventa. Para a sua primeira viagem longe de casa não estava a sair-se nada mal. Quincy aprendera à sua custa que o isolamento e a solidão são biombos frágeis. o resultado foi animador. Teria todo o tempo para comer mais tarde. Uma hora e meia de engarrafamento depois. ombros largos. O seu maior desgosto era que ela nunca o soube.gritou à alta silhueta que o oficial de plantão acabara de lhe indicar. . 34 . ainda lá estaria.

minha senhora? . Como mulher. Um acidente com um único carro. antes que os pais dessem autorização para a desligar da máquina. Rainie assentiu com a cabeça.Ouça.O pai da rapariga era polícia federal. Amity continuava a fitá-la com a mesma expressão severa. . mas. . Tenho comigo uma cópia do relatório do inquérito. Cinco minutos mais tarde.Não sei se sabe.A condutora morreu no hospital. O agente Amity franziu o sobrolho. Amity manteve-se em silêncio. A sua presença decerto bastaria para que as pessoas com qualquer peso na consciência levantassem de imediato os braços. Os civis não podem andar nos carros-patrulha.limitou-se Amity a responder. .especificou Rainie.resmungou entre dentes. . . Vim propositadamente de Pordand para fazer-lhe umas perguntas. Acompanho-o . há umas semanas. com um suspiro. fechando os olhos para se recordar melhor.Dia vinte e oito de Abril . . Rainie cruzou pacientemente os braços e esperou. 44 O rosto de Amity ensombrou-se. a expressão severa funcionava perfeitamente. Abriu uma 35 . não é verdade? .Bem me parecia . embora lhe mostrasse de imediato o distintivo de detective particular. estavam sentados um em frente do outro à secretária dele. Depois do acidente. . O jipe atingiu o homem e o cão e foi destruído pelo poste. vou avisar a central . ela permaneceu em coma durante meses. Ele acabou por ceder. mas a família encarregou-me de esclarecer alguns pontos. .Tenho umas perguntas a fazer-lhe sobre um acidente na estrada explicou Rainie.Posso ajudá-la.Tenho de sair em patrulha .. dada a sua experiência. É demasiado arriscado. preferiu seguilo até à central para evitar que ele escapasse por qualquer saída das traseiras. . Amanda Jane Quincy. Quanto mais depressa responder. pois não estava ali para engatar. minha senhora.. Na maioria dos casos.No ano passado. ..bom.inquiriu o gigante com um leve sotaque sulista que agradou a Rainie.Encontramo-nos no meu gabinete.com uma rapariga ao volante? .Garanto-lhe que não faço tenção de o processar. Rainie não usufruía dessa vantagem.Ocorreu há mais de um ano e foi você que redigiu o relatório de inquérito. . tivera de lutar para manter a ordem. . . .Receio que não seja possível. . mais depressa se verá livre de mim. . um jipe que atropelou um homem que passeava um cão antes de se esmagar contra um poste telefónico.prosseguiu ela.Não há problema. minha senhora.retorquiu Amity. ambos com chávenas de café na mão.Sim.Exacto. .declarou com um suspiro.O caso está encerrado . Dada a sua altura.

Porque é que não funcionava? . No Oregon.Não faço a mínima ideia . abanando a cabeça -.O peão estava morto. . Não conheço os procedimentos no Oregon. Rainie deu-lhe tempo para reavivar a memória. não é verdade? . 45 .retorquiu Amity com ar displicente.No momento em que tomei o pulso à condutora para verificar se ainda estava viva . isso é considerado no mínimo um homicídio por negligência e recorre-se automaticamente a investigadores especializados. .exclamou Rainie com uma leve excitação na voz. mas era apenas uma questão de tempo. não acha? 36 . com a crise.Fale-me um pouco do cinto de segurança . embora os acidentes de trânsito sejam a primeira causa de mortalidade para a polícia. . bem acima dos homicídios.Cortes orçamentais . estudando a interlocutora com curiosidade. antes de atacar a fundo. .pediu Rainie. .Ora então.Sim. Em que sentido? Amity franziu o sobrolho e coçou a cabeça. Amity fitou-a surpreendido e aquiesceu com um aceno de cabeça vagaroso. .replicou Amity. vejamos! .Era o único agente no local. aproveitando para retomar o assunto que lhe interessava.A condutora ainda estava com vida. a condutora encontrava-se em estado crítico. com um ar entendido. na Virgínia. a condutora não levava cinto de segurança e foi esmagar-se contra o pára-brisas. O universo da polícia não difere em muito do resto da sociedade. . verificara-se a morte de um homem e tudo indicava que a rapariga não conduzia no seu estado normal. .gaveta da secretária de onde tirou uma agenda de lombada em espiral e com a data do ano anterior e pôs-se a folheá-la.No seu relatório afirma que o cinto estava "inoperacional". Sabe tão bem como eu que esse cinto podia ter salvo a vida da Amanda Quincy. as equipas das brigadas de trânsito nas estradas foram as primeiras a sofrer cortes orçamentais. . mas. . não é costume fazer inquéritos quando o condutor responsável fica feito em papa.Disse apenas que não funcionava. nada que justificasse o pedido de reforços. Como se a morte fosse mais aceitável quando a responsabilidade cabe à estrada. antes de começar a folhear de novo a sua agenda.indagou em seguida. .Quer dizer que o cinto estava estragado? . Era algo merecedor de atenção.com o devido respeito . Além disso.Quer dizer que não verificou? Não brinque comigo. .Ela não o levava posto.Porquê? . toquei com o braço no cinto e ele caiu. Talvez não estivesse morta.comentou Rainie. onde ficou metade do cérebro. como se o encaixe estivesse partido.precisou -.

como se tivesse um peso na consciência.Suponho que o papá deva ter achado estranho. minha senhora.Algum motivo para pensar que ele teve qualquer coisa a ver com o caso? .Quando era esse dia? .De qualquer maneira. Se o nosso trabalho fosse apenas esse e o dinheiro 46 corresse a rodos. .continuou Amity com a mesma expressão imperturbável. Por outro lado. Portanto. mas num tom mais surdo. . no estado em que as coisas estão.Um tal Oliver Jenkins que vivia a menos de dois quilómetros do local do acidente. mas. mas. mordendo o lábio inferior com uma expressão preocupada.Sim. não? Uma rapariga anda sem cinto de segurança durante um mês e uma noite pega no volante. se o cinto não estivesse estragado. Não me agradava o facto de que talvez não lhe tivesse acontecido nada. ela tinha um parafuso a menos. costumava passear o cão na berma da estrada e ela sempre lhe dissera que era perigoso. Não sei o que acha.inquiriu Rainie. teria examinado o cinto de segurança. . O que não impede que esta história do cinto "inoperacional" não me agrade .redarguiu Rainie. fiz um telefonema . . estou convencido de que passaríamos o tempo a verificar esse género de pormenor. não me parece que fosse o alvo de uma conspiração internacional.Mais ou menos. liguei para a garagem que fazia a revisão do Explorer.A garagem informou acerca do motivo? .quis saber Rainie.Uma semana antes do acidente.Mister Jenkins era um antigo combatente da Guerra da Coreia. . Não. . . reflectiu como já o fizera antes. contentamo-nos em cumprir a nossa função.Acerca do cinto? . o que já não é nada mau. acho que o cão tinha o mau hábito de roer os sapatos dos vizinhos 37 . na minha opinião. E o velho que andava a passear o cão? . mudando bruscamente de assunto. Ali estava a diferença entre o que se aprendia nas escolas de polícia e a realidade no terreno. .Ela telefonou a preveni-los de que surgira um imprevisto e marcaria outro dia em breve .. não? . Parece que o cinto não estava em condições há pelo menos um mês. baixando igualmente a voz. Rainie pestanejou e depois voltou a franzir o sobrolho ao detectar o sarcasmo sob o sorriso amistoso.sublinhou Amity com um encolher de ombros.ironizou Amity. . .Pois. Vivia de uma pequena reforma e adorava gelado de noz. A condutora marcara um dia para ir repará-lo. Se tivesse sido confrontada com um acidente como o de Mandy quando era polícia em Bakersville. Segundo a mulher.Um cinto de segurança defeituoso pertence ao âmbito civil e não ao criminal. minha senhora. completamente embriagada.Está a ver o quadro. mas nunca apareceu. .

. Acompanhou obviamente o caso. algo o perturbou e continua a perturbá-lo.Porque havia de procurar impressões digitais? ..Sim. . inclinando-se um pouco para diante.A porta abria normalmente. maçanetas de portas ou o volante.Não estou a pedir-lhe uma resposta oficial.Nunca vi um condutor embriagado com tempo para travar. . Você é um polícia modelo. têm demasiado trabalho deste género e não deixam nada ao acaso.indagou. .Na verdade. pois compreendera onde ela queria chegar.Eu sei.O que vou dizer-lhe não passa de uma impressão.Primeiro. Rainie começava a sentir-se agastada com a desenvoltura de Amity. e não havia sinal de uma segunda pessoa no local do acidente. após um prolongado silêncio. Permita que lhe recorde que o procedimento habitual de inquérito. minha senhora. mesmo depois de saber que a condutora estava moribunda.Não tentou por mero acaso abrir a porta do lado do passageiro? . Nenhuma marca de pneus ou qualquer outro indício na estrada. . Os olhos de Amity estreitaram-se.Rainie sorriu. não? . 38 . eu sei. 47 . . . . Rainie interrogou-se sobre se todos os sulistas teriam um humor tão requintado ou se apenas lhe saíra um espécime raro.Não sei mesmo. . Segundo. basta-lhe examinar as fotografias do acidente.E se houvesse outra pessoa no veículo? Um passageiro? . deu-se ao trabalho de verificar. . sem largar as suspeitas. Portanto.. mesmo assim. o melhor de todos.Olhei para o lado do passageiro e posso garantir-lhe que não havia ninguém.Impressões digitais? . . Quase me sinto disposta a apostar que a minha visita não o surpreende. Não se via nada. nunca ficam no plástico do painel.Mas.disse Amity.A relva era demasiado espessa.arguiu Amity. . tais como fivelas de cintos de segurança. .Ocorreu-lhe verificar se não havia pegadas? .Não havia o mínimo vestígio de tinta ou um arranhão no jipe.precisou Amity com um ar impassível. Ainda há um instante me confessou que vocês. .Não havia sinal de travagem ... . não é verdade? Porquê? .. os polícias de trânsito.E se o Explorer tivesse sido abalroado por um outro carro? sugeriu ela.retomou.Vejo que estamos finalmente de acordo. . minha senhora. Se me permite.Verificou? .Não vi ninguém. revirando os olhos. .Não sei . foram tocadas por tanta gente que nunca se chega a nenhuma conclusão.hesitou. . . as superfícies lisas.

replicou Rainie com uma expressão sombria. o cemitério de automóveis deve. .Ainda conservámos realmente o Explorer uns tempos.Julgo que não se pode voltar a utilizar os cintos de segurança depois de um acidente. .anuiu Amity.. .Aproximei-me do jipe e examinava a pobre rapariga enquanto o camionista vomitava nas minhas costas quando. . Olhei à volta.insistiu com um sorriso. Convém acrescentar que o bom samaritano não me ajudou muito. atirou subitamente: 48 . 49 6 Society Hill.. -Alguém a rir? Mas quem? .Se é que. .O quê?! Premiu os lábios e as palavras seguintes saíram-lhe de rajada: . mas não vi nada de anormal e. mas Vince Amity há muito que não acreditava no Pai Natal e limitou-se a abanar a cabeça.Quero examinar o carro. Levaram-no há uns meses e a carroçaria deve estar em qualquer cemitério de automóveis.Boa sorte.Fui polícia numa pequena cidade.Vá lá! Não se arme em mau. .vou arriscar.Que já foi polícia.Quando lá cheguei. não os deitaram no lixo. entretanto. Onde é esse cemitério? . tive a impressão de que não estava só. pelo menos. iria jurar que ouvi alguém a rir.Talvez possa telefonar a informar-me. foi tudo impressão minha. mas só até os problemas com o seguro ficarem resolvidos.E então? . .Sou bom em adivinhas.Então. Apenas uma espreitadela ao depósito de carros confiscados da polícia.. . Filadélfia 39 .Merda! ..Vá lá .deixou escapar. Rainie esboçou um sorriso ainda mais encantador. .Foi o que me pareceu . É a companhia de seguros que trata de tudo.. .praguejou Rainie entre dentes. . ter conservado os cintos de segurança. . Surpreende-me que tenha adivinhado.O quê? . . mordendo novamente o lábio em busca de uma solução. Os cantoneiros só raramente desbastam as bermas e qualquer pessoa podia esconder-se nesta selva. .Amity não respondeu. provavelmente. mas.. quando Rainie julgou que ia continuar a fazerse difícil.Não sei. . . .. . O Sol ainda não se tinha levantado e estas pequenas estradas rurais estão cheias de vegetação. Quase me vomitou em cima.Devia tê-lo dito logo ..Não faço a mínima ideia. com um grunhido. Talvez se passasse tudo na minha cabeça. .

Era muito mais apropriado. sobretudo com a sua idade. Céus! Tinha de mudar-se dos pés à cabeça e já estava atrasada. Shandling marcara-lhe encontro no Zanzibar Blue. a fim de poder retirar-se quando quiser. Por que razão aceitara? E aqueles brincos condiziam com o vestido? Talvez fossem demasiado chiques. e Bethie nem sequer queria saber se ele dizia a verdade ou fantasiava. Levara tanto tempo a aprender a viver sozinha que não desejava correr o risco de mudar novamente de hábitos. Estava em Filadélfia de passagem. um jantar não era um compromisso e ela acabara por ceder. Era o tipo de pessoa que se gosta de ouvir e agradava-lhe a maneira como os 50 olhos azuis se estreitavam. Por que razão os homens tinham tendência a envelhecer melhor do que as mulheres?. Despiu o vestido preto e enfiou um camiseiro de cetim azul-escuro e uma saia preta até abaixo dos joelhos. apenas uma semana. Tudo começara quando ele a tinha convidado a tomar um café no dia anterior. Que mal havia em mostrá-las um pouco por compensação com os quilos a mais que tinha noutras partes do corpo? Bethie ainda era uma mulher bonita. Tudo estava a acontecer tão rapidamente. mas no seu primeiro encontro em mais de dois anos não conseguiu deixar de pôr em causa alguns estragos causados pela idade. no mínimo. de um primeiro encontro. Começar a aprender a conhecer melhor o outro antes 40 . Bethie orgulhava-se da barriga das pernas. Aquele jantar com Tristan Shandling fora. Ele mostrara-se muito convincente. as estadias de mergulho nas zonas de coral australianas e a procura de pedras preciosas nos bairros de Hong Kong. à Inglaterra e à Áustria.. tinha hesitado e fizera-se um bocado difícil. ela deixou de olhar de lado e pôs-se mesmo a escutar as narrativas das viagens que ele fizera à Irlanda. Tal como o vestido. sobretudo a morada. Quando a convidara para jantar no dia seguinte. Tinha lido artigos suficientes na Cosmopolitan para saber que a mulher se desloca sempre pelos seus próprios meios. Passado um momento. Ele possuía uma bela voz de barítono. afinal. como se Deus o tivesse enviado à terra a fim de lhe devolver a felicidade. Decidiu manter as sandálias de salto alto. Bethie agarrou no primeiro par em ouro que lhe foi parar à mão e dirigiu-se à porta de entrada. perfeita para aquele tipo de histórias. Bethie não era propriamente uma mulher inexperiente. Queria fazer-se perdoar a qualquer preço pela sua atitude desastrada e ela não resistira. Gostava da sua forma de olhar. Levara-a a um dos pequenos cafés de South Street onde lhe mandara servir um cappuccino antes de contar todo o tipo de histórias que acabaram por provocar-lhe um sorriso. Nunca divulgar pormenores pessoais em excesso. mas tratava-se.. no primeiro encontro. inesperado.Bethie sentia-se nervosa. sempre que ele sorria. um famoso clube de jazz e um dos restaurantes preferidos de Bethie. Restava o problema dos brincos.

sem mesmo se dar conta.exclamou. . Bethie correspondeu com um sorriso.Muito pelo contrário . De mãos nos bolsos e as pernas cruzadas.sussurrou-lhe ao ouvido. . Alisou a saia. 51 . antes de sair do táxi. Bastaria perguntar a Pierce.Round Midnight. Como o tempo estava quente e húmido.Elizabeth! . optara por dispensar o casaco. . . Aquele homem precisava de uma mulher loura e jovem ao seu lado e não de uma quarentona à beira da menopausa.Elizabeth! Imagino que vamos passar uma noite inesquecível! redarguiu ele com entusiasmo. Tristan Shandling esperava-a galantemente à porta do clube. o seu ex-marido.A sério? Prefere Miles ou Coltrane? . de onde se escapavam notas de trompete. .Que bom ter vindo! De pé. Bethie lamentou de imediato não ter posto o vestido preto que a teria feito parecer mais nova. Bethie não sabia o que responder. que se precipitou ao seu encontro. Era a primeira vez desde há muitos meses que Elizabeth dava livre curso às suas emoções.. Bethie fez sinal a um táxi e indicou a morada do Zanzibar. .Ah! Mal a vi.Não sei. Vestia umas calças pretas com uma camisa cor de ameixa e uma gravata em tons de prata e turquesa num fundo colorido. Tenho a noite toda para me decidir. com bolsinha preta na mão. claro.Também adoro. ao mesmo tempo que a conduzia até à porta do Zanzibar. Ele deu-lhe o braço e o coração saltou-lhe no peito.Miles Davis. no passeio. depois de ter pago ao motorista. 41 . Shandling continuava a sorrir e fitava-a com uma infinda delicadeza. .desculpou-se.Sou um fã de jazz . . Bethie percebeu que ele estava a dar o seu melhor para a fazer sentir-se à vontade. soube logo que era uma mulher de gostos requintados.de lhe fazer confidências. Um sorriso estampou-se de imediato no rosto de Tristan. incomodada. Só porque um indivíduo é encantador e veste bem não significa que mereça confiança. era um modelo de elegância e descontracção. Ele deu-lhe uma palmadinha na mão. a inspirar-lhe confiança.Não há nenhuma regra que impeça de se gostar do mar e da montanha retorquiu. .Mentiria se dissesse que não o desejo.Round Midnight ou Kind of Blué! . .Engano-me. .retorquiu.Espero que não a incomode. . ou acabou de me insultar? .Cheguei atrasada . E óbvio que depois aceitou sair comigo e a minha teoria caiu por terra acrescentou com uma piscadela cúmplice. . bem-humorada. Tudo depende de o colocar do lado do mar ou da montanha..

Ignoro como é que Deus dá uma segunda oportunidade a bandidos como eu. É tudo. . tudo é possível. . não tive muita coragem de soltar as emoções e dar sinal de vida. tinha eu dezoito anos e o segundo começou a falhar no ano passado. mas.Sem dúvida.Mas como se sente? .retorquiu.Sabe. Os dedos envolveram vagarosamente o copo de vinho.. . mas é uma mulher muito perspicaz.Não fale assim. . .. Nessa altura era jovem e estúpido e não reagi como ela desejava.Sim. Sou um velho urso solitário. 52 Não faz mal. Encontrar esse seu filho. Fiz hemodiálise durante dezasseis longos meses.Imagino a satisfação da sua família! Ele voltou a sorrir.Um irmão mais velho que não vejo há muito. . o que não é propriamente uma maravilha.pronunciou finalmente -. diante de um prato de mexilhão com massa.ironizou. . Cometi erros como toda a gente.Um pouco mais tarde. ela fez finalmente a pergunta que lhe queimava os lábios. . minha querida.quis saber. . É sinal de que isso o preocupa. por exemplo. . vivo nas nuvens.Tal como no amor.Há. agora já é muito melhor .Muito simplesmente por ter falado no assunto com uma perfeita desconhecida.Porquê? . desde a operação. Mas tomo todos os meus medicamentos como um bom soldadinho e nunca me esqueço de fazer as orações antes de me deitar. dirigindo os olhos para o seu lado direito. Bethie .desculpou-se Bethie. Conseguiu chegar até aqui e estou convencida de que a vida ainda lhe reserva boas surpresas.Não era minha intenção entristecê-lo. Shandling não respondeu logo. assentindo com a cabeça. Em contrapartida. mas não me queixo.Ignoro se já o referi. 42 . . o género que raramente dá um bom pai. Contudo.. regado com um óptimo bordo.Não tenho muita família. lambi as feridas. . Provavelmente ligado a uma máquina de hemodiálise . É doloroso? .O bom Deus presenteou-me com dois rins defeituosos. Quando me informaram de que precisava do transplante de um rim.Acha mesmo que isso será possível? .Sou mãe.Lamento .Diga-me. mas desta vez Bethie julgou detectar uma ponta de nostalgia no olhar. Tudo é preferível ao tédio de uma vida tranquila. há algum risco de rejeição? . .Sorriu-lhe. . . Tristan. Uma mulher que amei e me anunciou que esperava um filho meu.Há uns tempos que deixei de ter picadas. Elizabeth . Pertenço à raça dos que morrem de pé. cá vou indo... .. . O primeiro deixou de funcionar.respondeu ele.

. não entendi logo o que me acontecia. Curiosamente.E nunca mais nada foi como dantes.começou.A Kimberly partiu. uma mulher já de bastante idade. a sorrir ao lado do meu marido. Bethie concluiu que era fácil abrir-se com ele. sobretudo depois de tudo o que me contou.O que faz na vida.Sou especializado em pequenos negócios. Mando vir tudo em contentores e a quantidade é importante.E depois. obviamente. E a ser..Só que elas cresceram. para a universidade há três anos prosseguiu Bethie num tom abafado. .Tenho este mau hábito de falar sem pensar. Ela baixou os olhos. .. Passo a maior parte do tempo a correr mundo e não me parece ter o perfil do pai ideal.redarguiu com uma gargalhada.Venho de uma família da alta sociedade em que as raparigas são educadas para se tornarem esposas modelo . . . recostando-se na cadeira. Na altura pareceu-me natural. Tristan aquiesceu com uma expressão grave.. mas Bethie retraiu-se.. . Muito mais fácil do que pensara. Pensava sobretudo no destino da Kimberly e da Amanda. 53 Shandling assentiu com a cabeça.Nem sei se é um rapaz ou uma rapariga e muito menos se essa criança é realmente minha. divorciei-me. Apenas experiência e intuição. incapaz de o fitar de frente. depois... .interessou-se Bethie.Pequenos negócios? . Caixas de madeira da Tailândia. . Precisavam de atenção e foi o que lhes dei. .Ensinaram-me a ter uma bela casa. Mas fale-me um pouco de si. Procuro sempre mudar. evocava o amor reencontrado 43 . . Não tenho mesmo emenda e não devia ter cometido a mínima indiscrição...Desculpe . Foi uma pergunta muito natural..começou. não. A pergunta surgia na sequência de ele ter abordado a sua vida privada. Em vez de ser a sombra submissa do meu marido.Corro o mundo à procura de coisas fora do comum e baratas. A orquestra tocava blues e a cantora.Há que ter visão para uma profissão assim. . uma mãe ideal para perpetuar a tradição.. fazendo bom dinheiro. objectos de laca preta de Singapura.Não. Tudo isso que encontra nas lojas de presentes sou eu que importo.Não. a receber bem. .Nem sei. .É assim que ganha a vida? .disse de imediato. . o que foge à regra.balbuciou Bethie.Sim . . .. se quer saber. de facto. não é isso . . incitando-a a prosseguir e fitando-a com os seus cândidos olhos azuis. papagaios de papel fabricados na China. mas. tornei-me a das minhas filhas. . .. Tristan? . e a sua reacção não escapou a Shandling. que não tinham tido uma infância muito feliz. com um ar divertido. .E muito bem. levando o copo aos lábios e bebendo um pequeno gole.Sei que atravessa um momento particularmente difícil.Não. .

Lá fora. Reviu sobretudo o buraco negro.Como? .perguntou Tristan num tom suave. as cores perdem intensidade e as formas se suavizam. . Diz-se que quando se recebe o órgão de uma pessoa. Bethie? . Ela ergueu o rosto e deparou com o seu olhar grave. 54 . Bediie sempre gostara daquela hora do dia em que o mundo se tranquiliza. acordando no dia seguinte ao do transplante. . acho que seria preciso muito para me ofender. Bethie entrelaçou os dedos nos dele. . Aos quarenta e sete anos já não sabia quem era.Força . Tristan estendeu a mão e entrelaçou os seus dedos nos de Bethie. sem rumo determinado. porque me apetece imenso beijá-la. envolta num silêncio que o telefone só raras vezes quebrava. tentando fugir à humidade ambiente. se me vir com esses olhos. 44 . onde desaparecera para sempre uma parte de si própria. O crepúsculo confortava-a.com uma surda nostalgia.. mas a noite tem corrido tão bem. A velha cantora continuava a celebrar um amor impossível e o tempo parecia ter parado.Não é só por causa do rim da sua filha que se encontrou comigo esta noite? Sei que a pergunta pode parecer rude. e longe de mim querer perturbá-la.Não é só por causa do meu rim? .disse Tristan.. A sua casa desesperadamente vazia. Lembra-te de que és pó. mas o Sol não tardaria a pôr-se. se recebe também um pouco da sua alma. Tristan parou no meio do passeio e obrigou-a suavemente a virar-se de frente para ele.Depois de dois copos de vinho. cavado na erva demasiado verde. . Aos quarenta e sete anos deixara de ser a mulher de Quincy e a mãe de Mandy. Caminharam em silêncio. surgiulhe uma imagem dele. Os quadros pendurados nas paredes. Elizabeth Quincy. consciente de que Tristan a observava.Não quer passear um pouco. testemunhas silenciosas dos rostos dos que amara e nunca mais voltaria a ver.É a minha vez de lhe fazer uma pergunta . os ruídos ficam mais abafados. Bethie sentia um nó na garganta. Reviu mentalmente a sua bela casa. . o ar estava quente e húmido. Foi o único motivo que a levou a aceitar jantar comigo esta noite? Para encontrar a sua filha por procuração? Coloco-lhe a questão apressou-se a acrescentar -. na direcção de Rittenhouse Square. que alargara o nó da gravata e enrolara as mangas da camisa.incitou-o com um ar de desafio. e não deveria fazê-lo. Por um instante.. sem ninguém ao lado que lhe agarrasse a mão.Mas primeiro tem de prometer que não se ofende.. que preciso de saber. Só ele podia compreender. disse para consigo.

É muito diferente de se cruzar com alguém num evento social. Acha que me pareço com uma jovem de vinte e três anos? .. no sítio exacto onde a camisa dissimulava uma pequena cicatriz rosada. .Caramba! . Iam retomar o passeio quando ela se atraiçoou.Porque os médicos me disseram . só depois de ter visto alguém três ou quatro vezes é que consigo ligar o rosto à pessoa.O seu diminutivo? .exclamou bruscamente. Tenho um negócio próprio. claro que não! Isso é perfeitamente ridículo! Não acredito nessas histórias. .Não.Tenho cinquenta e dois anos.Fizemos mal . Largou a mão de Tristan e pôs-se a brincar mecanicamente com a gola do camiseiro. Deus do céu! Voltou a pegar-lhe no braço com um gesto autoritário antes de acrescentar: . .. embora só me tivesse visto uma vez e de longe .Outra coisa? Mas o quê? A voz de Tristan deixou transparecer uma genuína preocupação. Adoro comer carne e Glenftddich é a minha bebida favorita. Por um momento.Encontrámo-nos por acaso e. de olhos semicerrados. Quantas Elizabeth conhece que as tratem por Bethie? 55 Shandling ficou muito pálido. Nunca Liz ou Beth. . soube logo quem eu era. A noite estava quente e húmida. Tristan esboçou um aceno de satisfação. 45 . . ela quase desejou não ter feito o comentário.Sei muito bem.Não. no entanto. A noite fora perfeita e Bethie já se sentia arrependida das suas próximas palavras.Desculpe? .Há outra coisa. . ..Não se esqueça de que me salvou a vida.Sim! .Bethie sentia-se aturdida.Sabia o meu diminutivo. São pura superstição! .Mas sente-se...Como é que sabe a idade da Amanda? . . tenho a certeza. Deus é minha testemunha. Os olhos de ambos fixaram-se em simultâneo no lado direito dele. sente-se exactamente como antes? .respondeu por fim.. Desde o início que me chamou Bethie. Contudo.Não sou a sua filha. Bethie sentiu um calafrio. gosto de carros velozes e de barcos de corrida e compro regularmente a Playboy sem ser pelos artigos. Bethie. . mas esfregou os braços para se aquecer. Elizabeth..murmurou. . .Mas claro que não. . Não acha estranho? Quando vou a qualquer festa.justificou rapidamente. nunca lhe disse que era esse o meu diminutivo.. ao indagar: .Bethie.

largando-lhe o braço. Precisei de chegar aos cinquenta e dois anos e ter feito uma cirurgia de risco para o saber. claro que sim. mas num tom suave. Parvoíce minha! . .A Mandy era uma pessoa extremamente sensível . Bethie! Repito o que lhe disse antes. 46 . Bethie continuava em busca de respostas. .anuiu Tristan. .continuou Bethie.Sim. Mas há males que vêm por bem.. No entanto. . tinha até medo dos pássaros desde que viu o filme do Hitchcock. Até aos doze anos dormiu sempre com uma luz de vigia acesa. . Queria para ela tudo o que eu nunca fui. . . agora já sem a descontracção que mostrara ao jantar. alguém permitiu-me que vivesse.Não deve culpar-se pelo que lhe aconteceu .murmurou Bethie.. Não gostava de insectos.Fez-lhes perguntas sobre ela? . culpo o meu marido.Bethie. minha querida.Queria tanto que ela se sentisse bem.Por causa da sua profissão. esboçou um pequeno sorriso.Oh.Há seis meses que tinha ingressado num grupo de Alcoólicos Anónimos e estou certa de que ia conseguir.Sei que ela tinha bebido. . .Sim. Suponho que o seu trabalho era importante. sorrindo também. Não sou a sua filha.É possível que alguém no hospital me tenha chamado Bethie.prosseguiu Bediie.Não tem que se desculpar . Ele não respondeu. mas compreendi a lição.Está mesmo aqui só por uma semana? . se é o que quer saber.Fico-lhe muito grata por me ter ouvido . Em vez disso. Desde muito pequena. mas posso perfeitamente voltar. . Entrou para o FBI quando as filhas eram pequenas e nunca o víamos. nem sequer o fantasma dela. Nada meda medo à Kimberly. Ao morrer. . Há muito tempo que não passava uma noite tão agradável.retorquiu Tristan. Há noites em que não consigo dormir a pensar nisso. Deve ter sido isso .Porquê? . . 56 . mas a expressão do rosto suavizou-se. Bethie manteve-se longo tempo imersa nos seus pensamentos e depois assentiu com a cabeça. . o escorrega da escola aterrorizava-a. . reservada.Falaram-lhe sobre o acidente? . Acariciou-lhe o queixo com o polegar. . mas a minha Mandy foi sempre diferente. mas sempre achei que as nossas filhas estariam em primeiro lugar.ripostou. Sou apenas um homem grato.Deve ter-se preocupado muito com ela. nunca se soube porquê.É o que tento dizer a mim própria . Quando era miúda..Quando penso nos progressos que ela já fizera .Ao tomar consciência da amargura com que se expressava. Puxou-lhe suavemente uma madeixa para trás da orelha e os dedos demoraram na nuca. que fosse forte e independente. Era tímida.Desculpe estar para aqui a confessar-lhe tudo isto.declarou com um sorriso tímido.

aliás. antes de os lábios se unirem.sussurrou ele. Nunca se acostumou ao silêncio. sentado em frente do pai. Os armários eram de madeira de carvalho e os balcões em granito preto.. com a porta de novo fechada à chave. Fez malabarismos com a pasta do computador portátil. Virgínia Passava das dez da noite quando Quincy regressou finalmente a casa. como habitualmente. que estava mergulhada na obscuridade. a que se sobrepunha um frigorífico gigante e de aço inoxidável. corando. . Bethie baixou a cabeça.. Afastou-se do balcão e começou a percorrer a casa de um lado para o outro. Quincy passava a maior parte do tempo a viajar. Abraham levantava-se ao nascer do Sol e raramente voltava 47 . A cozinha era espaçosa e moderna. Era. sem pronunciarem uma palavra. Tristan apercebeu-se e ergueu-lhe o rosto. o único objecto de valor na sua casa. um peixe-vermelho. 58 Ainda se recordava das noites da sua infância. doce lar. antes de encontrar a chave. Podia dispensar facilmente móveis nas divisões e quadros nas paredes. .Para tratar de negócios? . e nunca se habituara ao conforto.. Quincy não era muito exigente no seu quotidiano. Transpôs a ombreira e marcou mecanicamente o código sem sequer olhar para as teclas. Lar. Fechou a porta e encheu um copo com água da torneira que bebeu em pequenos goles.E se amanhã fôssemos dar um passeio pelo campo? 57 7 Casa de Quincy. e a casa revelava isso. partilhando uma refeição simples.. um papagaio. chegando-se mais a ela. à. abriu o frigorífico. Mas o silêncio. Um minuto depois. Depois. o sistema de segurança disparou o sinal de alarme. reactivou os sensores exteriores. encostado ao lava-louça. Quincy tinha um orgulho enorme no seu sistema de alarme. Quando comprara a casa. qualquer coisa. falar com quem? Talvez devesse comprar um animal: um gato. deixando os interiores desligados. Inclinou-se para diante. o agente imobiliário explicara-me que a cozinha fora concebida para organizar recepções: cinco anos mais tarde. Mal abriu a porta. o recanto junto às janelas de sacada continuava à espera de uma mesa..Bethie . Bethie sentiu-lhe o calor do corpo e soube que ia beijá-la.. O trabalho na herdade exigia um grande esforço físico. Fora um longo dia. velha mesa de pinho da cozinha. o telemóvel e um caixote cheio de dossiês. Tinha o chão de madeira de carvalho e um grande fogão em aço inoxidável com uma tampa enorme. embora sabendo que ele não se enchera sozinho durante a sua ausência.. Entrou na cozinha e pousou a pasta e o caixote com os dossiês no balcão. E mais um regresso a casa para. Ainda era jovem quando a mãe morreu.Se é assim que quer chamar-lhe.

antes do anoitecer. Comiam, ficavam uns minutos em frente à televisão e liam muito. Pai e filho sentavam-se todas as noites, cada um na sua poltrona, mergulhando num romance que os transportava a universos diferentes. Quincy abanou a cabeça. Abraham educara o seu filho único da melhor maneira que sabia. Trabalhara arduamente para que não faltasse nada a Quincy e fora ele que lhe inculcara o gosto pela leitura. Quincy ficar-lhe-ia eternamente reconhecido. Se lhe tivessem feito a pergunta um mês atrás, Quincy teria respondido que se sentia em paz consigo próprio, mas o desgosto é um veneno lento de efeitos perniciosos. A morte de Mandy, as dúvidas sobre as circunstâncias em que se dera o acidente haviam-no abalado profundamente, e as peregrinações que efectuava com regularidade ao túmulo da filha no Cemitério de Arlington em nada contribuíam para melhorar as coisas. Tão-pouco os olhares de viés dos colegas que lhe punham os nervos à flor da pele. Quincy não estava habituado a viver dessa maneira, roído pela dúvida e a incerteza, convencido de que a qualquer momento podia mergulhar no abismo. Acordava a meio da noite, o coração a bater-lhe com força no peito, desejando poder telefonar a Kimberly para se certificar de que ela estava bem, mas também para se convencer de que ainda tinha uma filha viva. Também lhe acontecia sentir necessidade de telefonar a Bethie porque, embora soubesse que ela o desprezava profundamente, fora alguém que amara Mandy. Um dos poucos laços que ainda o ligavam à filha. Quincy nunca imaginara que fosse tão difícil. Contudo, enquanto psicólogo, sabia o que era o luto. Conhecia tudo, pelo menos em teoria. Na sua profissão, acontecera-lhe muitas vezes ter de anunciar a alguém a morte de um ente próximo. Nesses casos, recomenda-se uma alimentação saudável, exercício e nem uma gota de álcool. Sugere-se que se pense no defunto com a maior objectividade, sem nunca ceder à histeria. Contudo, Quincy era igual aos demais, convencido de que o destino nunca viria bater-lhe à porta. Esquecia-se de fazer uma alimentação adequada, revelava-se incapaz de pensar serenamente na filha e havia dias em que ansiava, com desespero, beber para esquecer. O grande agente especial supervisor Pierce Quincy. O melhor entre os memores de Quantico. Como pode ser grande a queda dos poderosos!, reflectia, perturbado com o seu egocentrismo, mesmo tratando-se da morte da filha. Se, ao menos, Rainie lhe telefonasse. Surpreendia-o que ela ainda não lhe tivesse dado notícias. Massajou as têmporas devagar, com a esperança 59 de diminuir a dor de cabeça que há alguns dias não o abandonava. Nesse mesmo momento tocou o telefone pousado em cima do balcão da cozinha. - Até que enfim! - murmurou Quincy, pegando no auscultador - Está?

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Obteve o silêncio como única resposta. Um silêncio ritmado por barulhos estranhos ao fundo, como se alguém batesse instrumentos metálicos uns nos outros. - Ora, ora, ora! - soou uma voz masculina. - A grande individualidade em pessoa. Quincy franziu o sobrolho. Aquela voz trazia-lhe vagas recordações. - Quem fala? - Não te recordas de mim? Fico muito desiludido, amigo. Eu que pensava que era o teu tarado favorito. Têm a memória assim tão curta no FBI? Quincy lembrou-se imediatamente de um nome. - Quem lhe deu este número? - indagou num tom tenso. Sentiu as palmas das mãos suadas e olhou de relance para o sistema de alarme, a certificar-se de que estava ligado. - Não vais, por acaso, dizer-me que ainda não sabes? - Quem lhe deu este número? - Calma, amigo. Só queria ter uma conversinha contigo, recordando velhos tempos. - Vai-te foder! O insulto saíra-lhe sem pensar. Quincy era uma pessoa que só muito raramente dizia palavrões e lamentou de imediato a frase quando o interlocutor reagiu com uma gargalhada. - Ora, Quincy, meu amigo. Precisas de um pouco mais de imaginação, se queres aprender a falar à maneira. Não somos meninos de coro, meu. Podias tentar "Que se foda a puta da tua mãe." Ou: "vou ao cu da tua mãe e sem vaselina." Esta é boa. Sobretudo porque tem variantes - precisou o homem num tom abjecto. - O que dirias de: "vou enrabar a puta da tua filha no cabrão do seu túmulo com a puta da cruz branca." Tenho a certeza de que te agrada, não? Os dedos de Quincy crisparam-se no auscultador, ao mesmo tempo que uma onda de ódio o percorria. Teve vontade de esmagar o telefone contra o balcão da cozinha ou o duro chão de madeira. Apetecia-lhe sobretudo partir a cara àquele verme, Miguel Sanchez, o condenado à morte de trinta e quatro anos que ria do outro lado da linha. Quincy nunca atingira um estado assim. Tinha o corpo rígido de raiva e era como se as têmporas fossem explodir a qualquer momento. Pousou subitamente os olhos no atendedor. A luz vermelha piscava, indicando que havia mensagens e o ecrã digital mostrava-lhe o número: 56. Cinquenta e. seis mensagens, embora o seu número fosse confidencial! - Ouve-me bem, Sanchez - pronunciou, surpreendido com o tom calmo e pausado da própria voz. - Um telefonema meu bastá para 60 que te ponham na solitária. E sabendo como eu sei o pavor que tens ao isolamento...

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- Isso quer dizer que não te agrada falar da tua filha, amigo? Da tua filhinha linda, com um nome tão bonito. - Pensa bem. Várias semanas no buraco sem teres com quem falar, sem poderes abrir o bico, sem ninguém para violares no duche quando perceberes que nunca mais vais tocar numa mulher, Sanchez. - Olha, polícia de merda. Quando ouvires a gravação desta conversinha, pensa na tua filha da minha parte. E não te esqueças de dar um beijo por mim à mais nova. Um dia, vou encontrar maneira de sair da puta desta choldra e já estou teso só de pensar que ainda te resta uma filha. - Pela última vez, Sanchez. Quem te deu o meu número confidencial? - Confidencial? Já foi, amigo - gargalhou Sanchez. Quincy acabara de desligar, quando o telefone tocou de novo. - Está? - perguntou bruscamente ao levantar o auscultador. Após uns segundos de silêncio, reconheceu a voz da sua ex-mulher. - Pierce? Quincy fechou os olhos, consciente de que precisava de recompor-se. Estava prestes a perder o controlo. - Sim, Elizabeth. - Queria que me fizesses um pequeno favor - murmurou Bethie. - Nada de complicado. Apenas que me verifiques uma coisa. - Mais um pedido do teu pai? Quincy agarrava o auscultador com tanta força que sentiu a mão dormente. Tentou diminuir a pressão e respirou fundo. No ano anterior, o ex-sogro mandara aumentar a casa e pedira à filha que telefonasse a Quincy para que ele se inteirasse da honestidade dos operários. - Desta vez, não. Queria que te informasses sobre uma pessoa de nome Shandling. Tristan Shandling. Quincy pegou num pedaço de papel e anotou o nome. Sentia-se um pouco melhor. O ritmo cardíaco começara a voltar ao normal, deixara de ver estrelas diante dos olhos e acalmava aos poucos. O contador digital do atendedor continuava a piscar insolentemente. Cinquenta e seis mensagens. Devia haver qualquer problema. Trataria do assunto, como sempre fizera. Tudo a seu tempo. - É urgente? - perguntou a Bethie. - Não propriamente. Quando puderes. Penso que mora na Virgínia, se isso te ajuda. - Tudo bem, Bethie. Dá-me uns dias. - Obrigada, Pierce - agradeceu num tom que pela primeira vez lhe pareceu sincero. Quincy não desligou logo o telefone. Ela também não. 61 - Tens... tens tido notícias da Kimberly? - Não, mas julguei que tu tivesses - retorquiu, visivelmente apanhada de surpresa. - Ah! O que significa que anda a evitar-nos aos dois. - Talvez tenha tentado ligar na tua ausência - sugeriu Bethie e apressou-se

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a acrescentar: - Não é a primeira vez que te telefono esta semana, mas ninguém respondeu e não quis deixar mensagem. - Estive em Portland. Fui visitar uma velha amiga. Ignorava o que o levara a dar a explicação e arrependeu-se, mal pronunciou as palavras. Uma velha amiga? A quem é que queria enganar? - Achas que devia ir ver a Kimberly? - retomou, porém, Bethie, sem parecer irritada ou tensa. - Estou a uma hora de carro e posso dizer que tinha que fazer em Nova Iorque. Já passou um mês. Quincy esteve quase a responder que não, mas controlou-se. Rainie censurara-o por tomar sempre as decisões pelos outros no trabalho, o que se repetia na sua vida privada. - Talvez a Kimberly precise de um pouco de espaço - redarguiu num tom neutro. - Não percebo porquê. Somos a única família que lhe resta. Para te falar com toda a franqueza, julguei que ia aproximar-se de nós e não o contrário. - Sei como te sentes triste, Bethie - disse, massajando as fontes. - Também eu me sinto. - Pára de me falar como se eu tivesse cinco anos, Pierce! - Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance por ela. Sei que nem sempre concordámos sobre a educação das nossas filhas, mas ninguém pode acusar-nos de não termos amado a Mandy. Tanto eu como tu queríamos que ela fosse feliz. Estávamos dispostos... dispostos a dar-lhe tudo. E o que fez ela? Recomeçou a beber, pegou no carro e provocou um acidente que matou um homem inocente. Se soubesses até que ponto a amo e como sinto a falta dela... Há momentos em que me apetece partir tudo. Voltou a pensar no telefonema de Sanchez, na onda de raiva que o invadira. Uma raiva inquietante, persistente, de que talvez levasse anos a libertar-se. - Bethie - prosseguiu. - Queria saber se também te sentes enraivecida? Elizabeth não respondeu logo. Quando acabou por retomar a palavra, fê-lo num tom estranho: - Pierce, achas que se herda uma parte da personalidade de alguém quando se recebe um dos seus órgãos? - Claro que não. Um transplante é apenas uma operação. - Tinha a certeza de que me darias essa resposta. - Voltando à Kimberly... - Ela sente-se infeliz, precisa de estar sozinha, eu sei. Entendi, Pierce. Não sou assim tão estúpida. 62 - Bethie... Tarde de mais. Ela desligara. Quincy pousou o auscultador lentamente. E pensar que aquele telefonema fora um dos momentos mais calmos do dia! Uns minutos mais tarde, Quincy sentou-se ao balcão da cozinha com um caderno e três canetas. Afastou o pedaço de papel onde estava escrito o

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nome de Tristan Shandling e carregou no botão do atendedor. Cinquenta e seis mensagens mais tarde, tinha na frente uma lista impressionante de assassinos perigosos. Segundo parecia, todos tinham telefonado para o seu número confidencial para me deixar ameaças de morte. A luz do painel do sistema de segurança piscava, indicando que tudo estava em ordem. Fitou-a demoradamente e pensou em Kimberly e em Mandy. Pouco depois, levantou-se e dirigiu-se ao escritório. Remexeu numa série de dossiês em que se lia "Criminologia. Teorias Elementares", até encontrar uma cassete com a inscrição: "Miguel Sanchez. Oitava vítima". A gravação original encontrava-se num departamento do FBI, na Califórnia; aquela era apenas uma cópia de que Quincy se servira em algumas das aulas. Colocou a cassete num velho gravador, que pôs a funcionar antes de se sentar. O escritório estava mergulhado na penumbra e as paredes ressoaram com os gritos desesperados de Amanda Johnson, de quinze anos, a oito longas horas da morte. - Nãã...ãããÕãõoooo - gritava ela. - Nãã...ãããããõoooo Quincy apoiou a cabeça entre as mãos, consciente do longo percurso que ainda tinha pela frente: um mês depois de haver enterrado a filha, continuava incapaz de chorar. 63 8 Motel 6, Virgínia - Quem é esse Miguel Sanchez? - perguntou Rainie uma hora mais tarde. Estendida na cama, com as costas apoiadas à parede de cor indefinida do quarto, acabara por decidir telefonar a Quincy, depois de ter substituído o jantar por uns crepes de mirtilo num pronto-a-comer. Avistara a tabuleta do Motel 6 na auto-estrada e parecera-lhe um lugar tão bom para dormir como qualquer outro. A cinquenta dólares por noite, ninguém questionaria a factura. E como havia aquele pronto-a-comer tão peno... Jantara sozinha, reflectindo no que Vince Amity lhe dissera sobre as circunstâncias do acidente. Comidos os crepes, passara o tempo a observar os outros clientes. Eram na maioria operários que tinham levado a namorada a comer, mas também havia algumas famílias. Embora fosse a primeira vez que se encontrava a cinco mil quilómetros de casa, nada lhe parecia muito diferente. Por fim, regressara ao motel, decidida a ligar a Quincy. Mas em vez de lhe telefonar a relatar-lhe o dia, ligara a televisão e fizera zapping pelos cinquenta e sete canais sem encontrar nenhum programa interessante. Afinal, quase não tinha nada que contar a Quincy e não queria sobretudo dar-lhe a impressão de que sentia a falta dele. Estava apenas a fazer uma investigação para Quincy. Ponto final.

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acabara por telefonar e dera-se imediatamente conta de que o devia ter feito mais cedo.Praticava sevícias na Califórnia em meados da década de oitenta juntamente com o primo.comentou Rainie. O Miguel não é propriamente subtil. .O Miguel Sanchez foi o primeiro tipo que apanhei . O Sanchez gostava de gravar os gritos das suas vítimas. . A maioria destes estabelecimentos vigia os telefonemas feitos pelos presos. Numa destas prisões. Dois sádicos que violavam e torturavam prostitutas adolescentes. Quincy respondera com uma voz cansada. encontraram-no no duche da prisão. motivo para tal.Mais fácil de dizer do que fazer. Apresentei à polícia um plano que permitiu apanhá-lo. mas em alguns casos têm necessidade de saciar as pulsões na presença de um comparsa..prosseguiu num tom de novo agressivo. O Richard idolatrava esse seu primo mais velho e também sentia muito medo dele.Ao todo. na parede do duche. desligando a televisão com o comando. Foi assim que o Richard entregou o Miguel. . .explicou.Quincy.Quincy. Uma vez identificados os dois suspeitos. suponho. que era indubitavelmente o mais perigoso dos dois. avisando que o meu número de telefone circulava actualmente nas suas instituições escrito em pedaços de papel e embalagens de cigarros. 64 . sugeri aos investigadores que atacassem o mais fraco dos dois. . com o pénis cortado e metido na boca. aliás.. Recebi igualmente oito chamadas de vários directores de penitenciárias. Então. por conseguinte. Nunca lhe ouvira aquele tom. . .Sim.Não te preocupes .Ele e mais quarenta e sete dos companheiros. . até serem apanhados. . já se sabia que estávamos a lidar com um assassino muito especial. Tal como expliquei nessa altura aos investigadores da polícia de Los Angeles.. a sofrer as 53 . desprovida de emoção. Os membros do meu clube de fãs arriscam-se. como se quisessem audiência. a troco de uma redução de pena. Uma testemunha tinha visto dois homens a transportarem a oitava vítima numa carrinha branca vinte e quatro horas antes de se descobrir o seu corpo mutilado na berma da auto-estrada.. que o levassem a denunciar o cúmplice. . Que maravilha! . Mataram oito. encontraram mesmo o meu número gravado com uma faca. Seis meses mais tarde. um tal Richard Millos.E foste tu o responsável pela prisão do Sanchez? Sim. os psicopatas raramente recorrem a cúmplices.Depois de todo aquele tempo embrutecida diante do televisor. Tinha.E foi esse encantador espécime de Homo sapiens que te telefonou hoje para a tua linha privada? . antes de as assassinarem. recebi chamadas de detidos de vinte e uma penitenciárias diferentes e parece que isto não vai parar.

não se contentou em pôr a circular o meu número privado.Como assim? .Talvez. após um longo momento. como ele tão bondosamente fizera com ela outrora.perguntou ela. Era a primeira vez que Rainie o via deixar-se abater.murmurou. . quase de uma forma palpável. . Ouvia-se. A minha linha vai ser posta sob escuta e 65 isso fará ondas. Não te parece estranho 54 . . Ao falar da minha filha. . Sou apenas um homem paciente. Devia estar a abraçá-lo. é isso? . Castigos mais que suficientes para fazerem reflectir os que estão a pensar divertir-se à custa de um agente federal. mas não é certo. Pode ser igualmente obra de um estudante de informática que resolveu divertir-se a piratear os ficheiros da companhia dos telefones. Penso mesmo que o engraçadinho não vai parar por aqui.Exacto.Basta mudares o número.Estás à espera que um desses tarados acabe por te dizer de onde partiu tudo isto. Acho que se trata de algo pessoal.E não estou. . Imaginou uma cruz branca e sentiu um murro no estômago. o Sanchez mencionou a "puta da cruz branca". Apercebeu-se de que não devia estar naquele motel idiota. O Cemitério de Arlington. Do outro lado da linha. Quincy precisava de dissimular emoções por trás de uma máscara de serenidade. nem para ali sentada a pensar que negócios eram só negócios. Devia estar na casa de Quincy. . Tal como ela. . facto que também a magoava.Não sejas ridículo. . Quincy! . Encarregou-se também de informar esse sádico psicopara de que a minha filha está enterrada em Arlington. voltou a pensar na corrida inútil do elefante bebé do seu sonho.Achas que há qualquer ligação? . Quem fez isto.Arlington .Faço tenção de participar o incidente ao FBI amanhã.Não me pareces muito seguro. e eles não costumam deixar-se intimidar.De forma alguma.consequências mediante sanções disciplinares ou medidas de isolamento. Sem saber porquê. .Tens alguma ideia de quem fez isto? Trata-se obviamente de alguém que conheces.Ainda não! . .Entre esses telefonemas e o acidente da Mandy. O cabrão! Rainie ficou a aguardar que Quincy recuperasse a calma. Talvez o Miguel Sanchez ouça falar de mim nos próximos tempos. Porquê uma cruz branca? Rainie fechou os olhos. os esforços que ele fazia para voltar a agir como o agente especial ponderado que tanto se orgulhava de ser. que acabara por se precipitar irremediavelmente em direcção aos chacais. a respiração foi-se normalizando. .

.A Mandy percebeu que o cinto de segurança estava estragado um mês antes do acidente . . com a infância que tivera. 66 . desesperada. .Falei com o agente que se encontrava no local do acidente disse.E o cinto de segurança? . . mas cancelou-a à última hora.retomou num fio de voz.Assim parece. Não é a primeira vez que isso acontece a um agente do FBI.Queres dizer que há um mês que ela conduzia sem cinto? . mas deteve-se. mas. esta história não me cheira bem . . . . catorze meses depois.Não sei. preferindo optar por regressar ao campo profissional.Eu sei. pensou Rainie..Quero saber o que aconteceu ao cinto. e estou a dar o meu melhor.ripostou Rainie secamente. Também tenciono informar-me junto dos membros do seu grupo de Alcoólicos Anónimos. chocada com a própria frieza. por mais que tentassem.A condutora. 55 . Acho que. Era incrível o quanto ainda tinha para aprender aos trinta e dois anos. Nunca conseguiriam entender-se. Nunca conseguiriam. faltava-lhe experiência nessa matéria. O polícia da brigada de trânsito. Basta que um deles tivesse ouvido dizer que a minha filha morreu e resolvesse divertir-se um pouco. . . será difícil.Sinto que deve haver uma relação entre estes acontecimentos.exclamou indignado.Não sei . . Eles devem saber alguma coisa. . incapaz de encontrar palavras que lhe levantassem o moral.Porque é que estava estragado? .O Sanchez referiu a Mandy no telefonema e não acredito em coincidências. Rainie. Tenho um encontro com a Mary Olsen. . tenho a impressão de que estou a ser paranóico.começou. . .É um tipo sério que não deixou nada ao acaso. vai ajudarme a encontrar a carroçaria do Explorer. Rainie manteve-se em silêncio. O jipe da Mandy já deve estar num cemitério de salvados.E ninguém a apanhou? Julguei que o uso do cinto de segurança era obrigatório neste país! .. Quincy permaneceu calado e um silêncio denso instalou-se entre ambos..Ainda não sei.repetiu Quincy num tom cansado. . mas. neste momento não sou eu próprio.receberes ameaças telefónicas no momento em que contratas alguém para investigar a morte da tua filha? . Fiz muitos inimigos ao longo da minha carreira. Não sei. .Tratarei disso logo de manhã.Conseguiste saber mais sobre o tipo com quem supostamente andava? .De qualquer maneira.Fez uma marcação na garagem para o mandar consertar.prosseguiu Quincy..O que aconteceu ao cinto? . Talvez seja um mero acaso. um tal Amity. Espero que ela possa ajudar-me. ao fazer uma análise de cabeça fria. Quincy. Rainie optou pelo silêncio.

As coisas começam a ganhar forma e sei que precisas de respostas.Mas a piedade não é para aqui chamada! . . Necessito sobretudo de fazer uma pequena investigação sobre todos os tipos que me ligaram. o despertador do motel tocou. . Àquela hora. .Everett? . Embora estivessem a pouca distância um do outro... desfasada devido à diferença horária. . detective Conner. Rainie saiu da cama penosamente.murmurou.Imaginas talvez que podes resolver tudo. fez a sua corrida matinal de cerca de trinta minutos pela faixa alcatroada à volta da zona comercial onde se encontrava o seu motel.concluiu Quincy. nessa noite.Não estou muito longe. se me puseres debaixo da tua asa? Julguei que a piedade era algo que te repugnava. A Coca-Cola com que começou o dia não chegou para lhe aclarar as ideias. Quincy. .. Desligou mal acabou de pronunciar estas palavras. Preciso de avisá-lo acerca destes telefonemas. menos denso agora. Seis horas mais tarde. . a costumada fauna de homens de meia-idade vestidos com 56 . ele andaria muito tempo às voltas pela casa...Rainie. .Quincy. Posso chegar aí em menos de uma hora. Rainie olhou para o despertador pousado em cima da mesa-de-cabeceira. Pouco passava da meia-noite. . Para não perder os bons hábitos. . 67 Voltou a instalar-se o silêncio. ouvindo o ruído dos automóveis que circulavam na auto-estrada próxima. não costumam revelar os pequenos segredos dos seus membros. .O meu chefe no FBI. . . sim? Lembras-te de como reagiste quando me ofereci para te ir ver? Desculpa! Estava a esquecer-me de que não sabes estabelecer a diferença entre piedade e generosidade. havia um fosso a separá-los. Rainie interrogou-se sobre se ele estaria às escuras. Rainie premiu os lábios. embora se conhecessem tão bem.. Interrogou-se sobretudo sobre o facto de terem tanta dificuldade em comunicar. Sinto-me bem.Quincy.Obrigado pelo seu relatório. Boa noite. se é que já não está ao corrente.Não te preocupes comigo.O meu caso era diferente .Ah.Usarei o meu charme.Não te preocupes. Interrogou-se sobre se.Preciso de telefonar ao Everett muito cedo.Os Alcoólicos Anónimos. antes de mergulhar num sono pesado. Apenas obteve o silêncio como resposta. . vou consegui-las. se se esquecera de jantar como também ela se esquecera de almoçar depois de ter apanhado o avião de estômago vazio. como o nome indica. .. abanou a cabeça e pousou lentamente o auscultador.Tenho de ir deitar-me .

Um dia fatigante em perspectiva. Sentia-se cheia de energia e esperteza e ainda não era meio-dia. após uma ligeira hesitação. Ouviu as mensagens do atendedor de casa. As duas primeiras mensagens eram de clientes que queriam actualizações dos seus casos. Se não tinham deixado mensagem. evitando condutores descuidados e antecipadamente cansados pelo trajecto que tinham de fazer. 69 9 Quantico. Avistava um pouco mais longe elevados áceres e magnólias. Ofuscada pelo sol.O primeiro telefonema ficou registado às duas e meia da tarde de terçafeira. Tomou um duche rápido. Teria de lhes telefonar. Lá fora. A última era de um advogado de quem nunca ouvira falar e que queria saber o seu tarifário. Depois. não iria preocupar-se. Nas instalações no subsolo do Departamento de Ciências Comportamentais. enquanto se calçava. piscou os olhos ao abrir a porta e dirigiu-se ao pequeno carro de aluguer que devia estar a escaldar. decidiu levar a arma. pensou. Eram sete da manhã quando pegou nos apontamentos e saiu do quarto. Pegou no bloco de apontamentos e na caneta fornecidos pelo motel.fatos amarrotados saía do motel e já havia uma fila de veículos junto ao McDonald s. e a madressilva selvagem crescia junto às barreiras de cimento à volta dos estacionamentos. Virgínia . Rainie acabou de apertar os sapatos e. O que não daria por uns calções e sandálias! Ficou surpreendida ao ver que tinha seis novas mensagens. Rainie correu através dos parques de estacionamento. ao pensar nas paisagens verdejantes e na brisa marítima de Bakersville. Na expectativa de mais um longo dia. enfiou um par de calças de ganga coçadas e uma T-shirt branca. Olhou de relance para o relógio e calculou que seriam quatro da manhã na costa do Pacífico. deixou o número do Motel 6 na eventualidade de o advogado pretender uma resposta mais rápida. Mesmo naquela selva urbana. o calor já era asfixiante. o uniforme oficial de uma aspirante a detective particular. Debaixo do casaco preto e metida no coldre. a natureza parecia decidida a 68 reivindicar os seus direitos. Aproveitou para ligar para o escritório do advogado e informar que a sua secretária enviaria as informações requisitadas. Um recorde para uma agência nova como a sua. As três mensagens seguintes eram todas não identificadas e feitas com uma hora de intervalo. secou os cabelos curtos com uma toalha e penteou-os com gel. Rainie tossia devido aos fumos dos tubos de escape e retomou o caminho do Motel 6 com urn aperto no coração. a Glock não se via. Quincy fazia um relatório exacto dos acontecimentos da 57 .

véspera ao seu responsável, o agente especial Chad Everett. Este contentou-se em assentir com a cabeça, denotando uma expressão preocupada. Por cima da sua cabeça, o zunido da lâmpada de néon parecia acentuar a gravidade da situação. - Às dez e dezoito minutos, atendi pessoalmente o Miguel Sanchez. Seguiram-se outras chamadas, mas, dadas as circunstâncias, preferi que ficassem registadas no atendedor. Quincy distribuiu cópias do dossiê que elaborara aos colegas reunidos à volta da mesa. Todos tinham escutado em silêncio com rostos atentos. - Encontrarão neste dossiê a lista completa dos autores dos telefonemas e das penitenciárias a que pertencem - prosseguiu Quincy. Como podem verificar, oito dos responsáveis por estes estabelecimentos contactaram-me pessoalmente. Na maioria dos casos, queriam prevenir-me de que o meu número de telefone particular circulava entre os detidos. Outros dois avisaram-me de que a informação fora divulgada sob a forma de um pequeno anúncio publicado nos boletins internos. Num deles, sou indicado como um produtor à procura de entrevistar detidos para um documentário sobre o universo prisional. As pessoas interessadas são convidadas a telefonar-me directamente para o número mencionado no anúncio. No outro, ando simplesmente à procura de um correspondente. Quincy esboçou um pequeno sorriso, antes de retomar a palavra. - Estou à espera de mais alguns telefonemas, mas parece que pequenos anúncios deste género foram publicados em, pelo menos, mais seis jornais internos, a saber: Companheiros de Cela, Liberdade para Todos e o meu favorito, O Jornal das Prisões, com uma distribuição mensal de mais de três mil exemplares. Sem falar dos sites na Internet como "correspondenciadeprisao.com" 70 que foram pagos para enviar o meu anúncio por e-mail a todos os detidos à procura de um "amigo". Ainda não sabiam - ironizou -, mas tenho um dos clubes de fãs mais activos deste país. Quincy fechou o dossiê e sentou-se com uma expressão sombria. Todos os rostos continuavam virados para ele, mas nada mais tinha a acrescentar. A sua vida fora violada por essas dezenas de mensagens de morte que não lhe tinham saído da cabeça durante toda a noite. Podia pelo menos reconfortar-se com o pensamento de que o FBI encarava o assunto muito a sério. Everett tinha convocado imediatamente uma chamada "célula de crise" composta por vários especialistas: o agente especial Randy Jackson, um homem novo com uma cabeleira castanhoclara pertencente aos serviços técnicos e encarregado da escuta telefónica; a agente especial Glenda Rodman, do Centro Nacional de Análise Criminal, uma mulher de idade indefinida e com uma maneira de vestir austera; e, por fim, o agente especial Albert Montgomery, cujos olhos injectados de sangue e as feições de buldogue tinham posto Quincy pouco à vontade. Ou regressava de uma missão longínqua e não dormira no avião, ou tinha bebido. Talvez as

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duas coisas. Quincy censurou-se pela sua dureza; depois da noite que acabara de passar, decerto não estaria com muito melhor aspecto do que Montgomery. - Consegue precisar-nos de memória quem tem normalmente acesso ao seu número privado? - perguntou Everett, ao mesmo tempo que a agente especial Rodman se endireitava na cadeira, pronta a tomar notas. - A minha família - apressou-se Quincy a responder -, bem como colegas daqui e de vários organismos da polícia. Alguns amigos, também. Incluí uma lista o mais completa possível no dossiê. Na verdade, há cinco anos que tenho esse número e confesso que eu próprio me admirei com a quantidade de pessoas que o conhecem. - Verifiquei nos arquivos da polícia que trabalhaste activamente em duzentos e noventa e seis casos - precisou Glenda. Quincy assentiu com a cabeça, um tanto surpreendido. Pensava que seriam mais, dado os especialistas em perfis psicológicos como ele serem chamados a intervir como conselheiros em centenas de casos. - São outras tantas pessoas que se acham com direito a querer-te mal. - Partindo do princípio de que conheciam o meu envolvimento - anuiu Quincy. - Sabes tão bem como eu, Glenda, que, na grande maioria dos casos, somos contactados por telefone, ou recebemos um dossiê pelo correio, bastando-nos enviar o nosso relatório por faxe. Em todos estes casos, só com muita dificuldade vejo o culpado a querer mal a outros para além dos investigadores locais. - De acordo. Pondo esses casos de lado, quantos suspeitos restam? 71 - Diria uns cinquenta presos - respondeu Quincy, após um rápido cálculo de cabeça. - E os casos em aberto? - Há seis anos que deixei de trabalhar directamente no terreno. - Excepto no ano passado - retorquiu Glenda. - O Henry Hawkins está morto. Montgomery inclinou-se para a frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos. A luz de néon dava-lhe um tom amarelado à pele e Quincy voltou a interrogar-se sobre o que poderia fazer o seu colega naquela reunião. Montgomery tinha um ar sombrio, quase como se estivesse ali contrariado. A sua atitude hostil era tanto mais inexplicável quanto os agentes do FBI têm fama de se mostrar muito solidários sempre que se toca num deles. - Não estaremos a pôr a carroça à frente dos bois? - resmungou Montgomery. - O Quincy recebeu umas ameaças por telefone. Não me parece que seja assim um assunto tão sério! - Para mim, o simples facto de ver circular por uma vintena de instituições prisionais o número privado de um dos meus agentes é efectivamente um assunto muito sério e não faço tenção de cruzar os braços - replicou secamente Everett. Humilhado, Montgomery virou-se para o chefe. Quincy pensou que tudo

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ficaria por ali, mas enganava-se. - Tudo isto é pura treta! - ripostou Montgomery, surpreendendo todos. - Se se tratasse de algo pessoal, se fosse uma coisa séria, quem o fez não se contentaria em dar o número do Quincy a um bando de presos frustrados. Iria directamente a casa dele ou arranjaria forma de mandar alguém no seu lugar. Faz-me rir com essas ameaças no atendedor. O rosto de Everett ensombrou-se. Tinha trinta anos de serviço e pertencia à velha escola. Desde que era responsável, sempre exigira um mínimo de compostura por parte dos seus agentes, reagindo mal a discursos grosseiros e fatos amarrotados. -Montgomery... - Um momento - interferiu Quincy, erguendo o braço e salvandoMontgomery de uma prelecção que não seria benéfica para a sua carreira. - Podes repetir o que acabas de dizer? - Telefonemas - redarguiuMontgomery com um encolher de ombros. - O problema não está em saber quem, mas saber por que razão se servem da tua linha privada para te atingir. Glenda Rodman recostou-se na cadeira e assentiu com a cabeça. - OMontgomery tem razão - observou Randy Jackson, o especialista dos serviços técnicos. - Se esse tipo conseguiu o número privado do Quincy pirateando os ficheiros da companhia dos telefones, teria toda a facilidade em descobrir a sua morada pessoal. E se o número lhe foi parar às mãos por qualquer indiscrição, seria uma brincadeira de criança telefonar para as informações e obter a morada. Em qualquer dos casos, uma coisa é certa: ele sabe onde o Quincy mora. 72 - Óptimo! - comentou este último. O raciocínio era elementar, mas não o fizera. Mais uma prova de que deixara de ser quem era desde a morte de Mandy. A dor de cabeça não lhe dava descanso, uma espécie de ressaca de que não conseguia livrar-se. Porquê telefonemas! A resposta óbvia era que alguém lhe queria mal, provavelmente um criminoso por cuja prisão ele era responsável. Os psicopatas assemelham-se aos tubarões. Atraído pela morte da filha como se fosse sangue, o seu misterioso inimigo estava pronto a atacar. Mas se era esse na verdade o caso, por que razão não dava cabo dele directamente, num momento em que se encontrava tão vulnerável? Talvez fosse esse o motivo porque se dirigira a Rainie, com medo de não se mostrar à altura. Rainie não era mulher para se deixar ir abaixo, mesmo quando a situação parecia desesperada. Tudo isso não lhe indicava por que razão o desconhecido divulgara o seu número de telefone a metade da população prisional do país. - Estou convencido de que nos encontramos na presença de um caso muito grave - retomou Everett. Peço-vos que investiguem imediatamente os boletins internos e sites na Net para se saber de onde provêm estes pequenos anúncios. É preciso também determinar com precisão o número de detidos actualmente na

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posse deste número de telefone. Acabaremos por descobrir alguma coisa. - Equivale a procurar uma agulha num palheiro - murmurou Quincy. Certamente ele pôs o anúncio em dezenas de boletins internos e sites na Net e precisaríamos de um tempo infinito... Quincy deteve-se a meio da frase, de olhos muito abertos. Acabara de compreender. - Uma manobra de diversão! - exclamou. - O que quer dizer, Quincy? - Uma manobra de diversão - repetiuMontgomery entre dentes. - Sim. Talvez tenhas razão - anuiu, contrariado. Suponhamos que o tipo tem a tua morada particular, o que é provavelmente o caso. Se te fizer a folha amanhã, acabaremos por descobrir-lhe a identidade através da análise mais pormenorizada dos teus casos. Mas se ele der o teu número a dezenas de criminosos que se encarregam de o passar entre eles, complica-nos a tarefa. Se vier a matar-te, corremos o risco de ainda andar atrás dele anos depois do teu funeral. - Uma perspectiva encantadora! - ironizou Quincy. - OMontgomery tem razão - interferiu Glenda num tom visivelmente mais preocupado do que o do colega. - Psicopatas é o que não falta nas prisões e, se te acontecesse alguma coisa, não saberíamos por onde começar. Qualquer um podia ser culpado: um neonazi que odeia agentes federais, um gângster pronto a tudo para ganhar fama, um assassino em série por uma questão de tédio. Bem vistas as coisas, é uma estratégia brilhante. 73 - Trata-se de um assunto muito sério - repetiu Everett. Desde a véspera que Quincy tinha essa convicção. - Alguns destes boletins internos são mais conceituados do que outros observou Glenda, folheando o dossiê preparado por Quincy. - Para publicarem o anúncio, receberam o texto e o dinheiro pelo correio. Se não deitaram fora o envelope e a carta, temos uma pequena oportunidade. O carimbo do correio indicar-nos-á o local de envio, podemos procurar impressões digitais e fazer testes de ADN. Por outro lado... - Glenda hesitou, lançando um olhar de desculpa a Quincy, antes de prosseguir: - Por outro lado, estes boletins são redigidos por voluntários e o processo pode levar semanas... Não precisou de acabar a frase. Todos compreenderam. O inquérito tinha poucas hipóteses de resultar. Nos anos sessenta, os maços de cigarros enviados aos presos do exterior serviam para pôr a informação a circular. A fim de reduzir o tráfico de droga, as autoridades penitenciárias haviam acabado por proibir todo o tipo de encomendas. A partir de então, os detidos apenas tinham direito a receber dinheiro que lhes permitia comprar tabaco dentro da instituição. O sistema não acabara com os problemas de droga, mas limitara a circulação de informação. Nos anos noventa, com base no artigo primeiro da Constituição que garante a liberdade de expressão, os detidos tinham conseguido o direito

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Não é porque um louco furioso assassinou oito pessoas que perde o direito de se expressar ou é proibido de arranjar uma bela correspondente na Net. . permitindo a qualquer um a comunicação com o exterior a troco de uns dólares. uma linguagem grosseira pela segunda vez nos últimos dias.Mandar vigiar a campa da tua filha.concordou Quincy.sugeriu Glenda. Glenda . Everett voltou a aprovar com a cabeça. os seus sistemas informáticos.Posso telefonar à companhia dos telefones .aquiesceu Everett com um aceno de cabeça. Os olhinhos negros lembravam os de uma ave de rapina.Ninguém se daria a tanto trabalho. a não ser para evitar inquéritos como este. . .Perfeito .Enganei-me.Duvido que se consiga encontrar o envelope e a carta. Uma pessoa que monta uma operação 74 desta envergadura não se esquece de uma coisa tão simples como impressões digitais no envelope ou saliva no selo.começouMontgomery. . Sem falar dos sites da Internet especializados que apresentavam a vantagem suplementar de serem gratuitos.Que se foda o processo! . . duvido que guardem o correio que lhes enviam. então. quando investigava um crime. . . Monrgomery levantou-se pesadamente. Se se mostrarem dispostos a admiti-lo. . . . fitando-a.Infelizmente tens razão.Mas ainda há pouco afirmaste que o Sanchez parecia saber onde a tua filha está enterrada .retorquiu Quincy.Suspirou.de se servirem de computadores para publicar boletins especializados.Mas é um processo normal. O nosso 62 . ao aparecimento dos pequenos anúncios codificados.Nem pensar! . Quanto aos outros..É a minha filha e recuso que se utilize a sua campa como uma armadilha. para me certificar de que ninguém pirateou. nos últimos tempos.ripostouMontgomery. . contra seu hábito.Pareces pensar que se trata de um ajuste de contas pessoal comentou Glenda. difundidos em larga escala por alguns. se assim não fosse . não haverá ADN nem impressões digitais.sugeriuMontgomery. Quem quer que procureflios é muito mais esperto. .E mesmo que seja esse o caso.. Quincy interrogou-se sobre se seria aquela a imagem que dava aos familiares da vítima.ofereceu-se Jackson -. .replicou Quincy num tom frio e utilizando.Uma ova! O Sanchez sabe perfeitamente onde ela está enterrada. visivelmente satisfeito. . Assistira-se.insurgiu-se Quincy. mas Quincy mostrava-se mais vacilante. . .Há uma outra hipótese . massajando as fontes. .Mesmo assim podemos tentar a sorte com O Jornal das Prisões .Muitos destes boletins funcionam de uma forma artesanal. . . .

Não preciso. . mas Mandy começara a chorar.. Excepcionalmente. Como Glenda e Jackson não pareciam partilhar a sua indignação. veiolhe uma recordação à memória. elas tinham querido algodão-doce. Quincy virou-se para Everett.Não quero câmaras escondidas junto à campa da minha filha! explodiu Quincy. com o coração a bater-lhe com força no peito. O tipo deve calcular que vamos vigiar a tua casa e pode dar-se o caso de se dirigir ao túmulo da tua filha e rir nas tuas costas.Talvez devesse tirar uns dias de férias. Quincy sentiu uma vertigem. Quincy não transmitiu a convicção desejada.desconhecido deu-lhe essa informação. 75 Kímberly assentira gravemente com a cabeça. quase se mostrara brutal para com elas. a verdade abateu-se sobre ele como um raio. ao detectar a manobra do pedófilo. Passara-lhe uma nuvem pela cabeça.Nem pensar .. Voltou a ver-se com as duas filhas numa feira.Não quero câmaras escondidas no cemitério. De súbito. como nesse momento. Quincy humedeceu os lábios com a língua. de tranças louras. uma vez passara a tarde com Mandy e Kimberly. Este fitou-o com um ar compreensivo. . . De repente. proporcionando-lhes as voltas de carrossel que conseguissem aguentar. sonhando que o homem da máquina fotográfica queria raptá-la. Claro! Era exactamente o que o desconhecido pretendia! Não se contentara em pôr a circular o seu número privado. e sem um motivo palpável. . Se desobedecerem às minhas ordens. .sugeriu finalmente Everett. Durante várias semanas tivera pesadelos. O seu objectivo consistia em por o dedo na ferida. Dava-se perfeitamente conta de que estava no limite das suas forças e ninguém ali era idiota. tentando mais uma vez 63 . explicara-lhes que aquele homem de aparência inofensiva era perigoso e que não deviam hesitar em fugir. caso alguém do seu tipo se aproximasse delas algum dia. De súbito. . mas também se deixara convencer pelo raciocínio deMontgomery. mas contava também divertir-se à sua custa. mando transladar o corpo da minha filha. Quincy. Fora então que avistara um homem a fotografar crianças.repetiu num tom rouco. o que significa que está interessado na campa dela. postado com a máquina fotográfica a dois passos das crianças sorridentes e só conseguiu pensar que as suas filhinhas. registando as suas informações com um ar concentrado. se encontravam a pouca distância. A certa altura. vários anos antes. Os colegas fitavam Quincy com um ar preocupado. obrigado! Contudo.

. Uma equipa vigiará a sua casa e preveni-lo-emos imediatamente se houver qualquer problema. O mínimo deslize pode revelar-se perigoso para todos nós. Apercebeu-se. O Quincy está descontrolado. . peço-lhe que. Quincy sabia muito bem o que lhes ia no pensamento.exclamou Glenda Rodman. .rematou Everett.Excelente. . mas com um olhar compreensivo.Por outras palavras.E porque não? Não é nada que não tenhas pedido às famílias das vítimas. Quando Mandy morrera.agradeceu ele num tom seco. não sabes a ponta de um como acrescentouMontgomery com a sua delicadeza habitual. Quero que descanse uns dias.Quincy! A intervenção de Everett bastou para chamar Quincy à realidade.Ouçam! Não se trata da minha filha. jurara não se deixar abater. . sugiro-lhe que alugue um quarto de hotel ou passe algum tempo com a sua família.Não. Nunca devia ter regressado tão depressa ao trabalho depois de perder a filha.Ouça. de que tinha o dedo estendido na direcção deMontgomery. não sei quem ele é. Quincy? Quincy preferiu não responder.recuperar o sangue-frio.retomou Everett -..Há quanto tempo não dorme.Tenho consciência de que está a atravessar uma fase difícil .. por fim. Só faz tudo isto para me atingir. juntamente com oMontgomery. . . mas faço uma pequena ideia da forma como actua.Muito bem! . como se quisesse trespassá-lo. Em muitos aspectos.prometeu a Quincy num tom profissional..Pensa o que quiseres.Mando-te relatórios diários . . .Temos a situação sob controlo . Pelo caminho. pensou Quincy.Não se preocupe.articulou.. Glenda . . .Só preciso de meter umas coisas num saco e vou para um hotel. mas apelo ao seu sentido de responsabilidade. mas a realidade era outra. fitou demoradamente as paredes de cimento e 64 .Montgomery. . Glenda. monte vigilância à casa do Quincy.Filho-da-mãe. Quincy limitou-se a assentir com a cabeça e depois levantou-se e dirigiu-se ao gabinete. . . 76 Os colegas continuavam a fitá-lo.. pronta a eliminar os mais fracos para garantir a sua sobrevivência. . Esse tipo está-se nas tintas para a minha filha.Falas dele como se o conhecesses! . Tinha papos por baixo dos olhos e emagrecera tanto que o fato lhe dançava no corpo. Entretanto. Tudo correrá bem. mas não transformarás a campa da minha filha numa tenda de circo. . o FBI era uma matilha de animais selvagens. com alguma surpresa. . . . Quincy.Obrigado.

Tal não a impedia de caminhar num passo tão rápido que até parecia correr. Curiosamente. Contudo. ainda por cima. não se sentia mal. não sem ter observado demoradamente os outros passageiros. Andrews ordenara-lhe que tirasse o resto da semana de férias. mesmo que alguém tentasse atacá-la. para a sua aula semanal de tiro. subiu para o comboio e sentou-se. essa quarta-feira era diferente das outras. pensou. não tinha de ir trabalhar. fechou a porta e pegou no auscultador para telefonar à única pessoa capaz de ajudá-lo a proteger Mandy dos predadores que tencionavam profanar-lhe o repouso. as primeiras desde a morte de Mandy. Há algum tempo que o que tinha começado como um simples passatempo acabara por se tornar uma espécie de terapia. a respiração acelerada. uma campainha soou demoradamente sem resposta: Bethie não atendeu. Estava tão cansada e nervosa que. Quando chegou ao gabinete. de todo o tempo do mundo. por regra. E. Desejava pensar que tudo estava normal. Gente que lia revistas ou 65 . como Andrews lhe recomendara. Algures. os cabelos louros presos num rabo-de-cavalo. decidira levar a sua Glock de calibre quarenta carregada e pronta a disparar. Dispunha. pois. de nada valia. Avançava rapidamente sob o ar carregado dos gases dos tubos de escape. Tal não a impedia de querer chegar sã e salva a Penn Station. Concluiu que nenhum parecia interessado nela. Momentos depois. Levantara-se cedo. na véspera. Contra todas as regras de segurança. armada. sem qualquer impressão de ansiedade. o Dr.interrogou-se sobre como era possível alguém passar a vida metido num piso do subsolo. 10 Greenwich Village. dirigiu-se à estação para apanhar o comboio de ligação a Nova Jérsia. Nenhum dos sintomas que. que aquela era uma quarta-feira igual a todas as outras. e contava aproveitá-lo bem. anunciavam os seus ataques de pânico. Nova Iorque Kimberly afastou-se de casa com um passo rápido. Por muito que tentasse raciocinar e repetir de si para si que não havia motivo para ter medo. Nada de calafrios na espinha. O tempo estava bom e a quantidade de transeuntes que a rodeavam chegava para que se sentisse segura. olhando constantemente por cima do ombro. Antes do mais. como todas as quartas-feiras. Vestida com calças de ganga e T-shirt. nem os pêlos da nuca eriçados. em Filadélfia. estava preparada para se defender e.

como seria de esperar. mas os pais. mas o pai. o pai colocara-se atrás dela. A sua paixão pelas armas de fogo não era recente. dirigiu um enorme sorriso ao vizinho. embora Nova Jérsia não fosse. Há muito tempo que Kimberly não se sentia tão bem. Nova Iorque parecia-lhe distante. Tinha apenas oito anos quando pedira pela primeira vez aos pais que a autorizassem a inscreverse num clube de tiro. reajustou a pistola e encaminhou-se para o clube de tiro com um passo mais sereno. Ensinara-lhe depois a apontar a arma. vai lá brincar aos cowboys. já que não queres dar-me ouvidos. mais preocupada com a sua pequena vida do que com Kimberly Quincy. abafada pelo capacete de protecção. O pai. No momento em que o comboio abrandou antes de parar. com a sua fleuma habitual. a carregá-la apenas no momento de disparar. Espalham a morte e a desolação. respondera que nem pensar em tal coisa. Kimberly não era do género de contentar-se com uma recusa.As armas são violentas e orutais. explicando-lhe. de acordo por uma vez. mandou-a falar com a mie e esta. haviam-se oposto. A irmã também pedira permissão. a proteger devidamente os olhos e os ouvidos. Nunca soubera o que o pai pensava. À força de acompanhar o pai aos treinos e de atazanar a mãe. Mostrara-lhe como desmontar uma Chiefs Special de calibre trinta e oito e como limpar as diversas partes. encarregara-se de moderar o seu 66 . antes de voltar a montá-la.És mesmo paranóica . Uma vez assimiladas essas regras. de facto. a fim de a ajudar a ajustar a arma antes de disparar contra um alvo em cartão com a arma descarregada. Andrews gostava sempre de dizer que a normalidade era um termo relativo. mas talvez também ele estivesse. a obedecer às ordens do instrutor. como seria de esperar. O Dr. mas sentia-se muito mais descontraída ali. Desceu do comboio com um passo ligeiro e foi de imediato atacada pela pesada humidade. Contudo. em pormenor. filha. mais segura do que Greenwich Village.olhava pela janela. o que lhe valeu um olhar do passageiro sentado ao seu lado.murmurou entres dentes. Depois de duas horas de recomendações e exercícios. ficara impaciente por passar à prática. . 78 Pensou em dizer-lhe que estava armada. Quem é que conseguia alguma vez saber o que o pai pensava? Quando das primeiras lições. A situação não desagradara a Kimberly que. subitamente. que baixou rapidamente os olhos. e Mandy fizera uma cena. . esta acabara por ceder quando ela fizera doze anos. Kimberly ignorava o motivo. ele insistira nas regras de prudência e segurança elementares. passara a usufruir da companhia do pai uma tarde por semana. Mas. Ainda se recordava da voz surda do pai junto ao ouvido. uma vez que se dirigiam a Nova Jérsia. como manejar uma arma. Bem-vinda a Nova Jérsia! Remexeu no interior da mochila.

quando os quatro ainda eram uma família. Talvez as lágrimas lhe tivessem assomado aos olhos. És tu que lhe dás o seu poder ofensivo e.De qualquer maneira. . é um objecto inanimado. a expressão dele suavizara-se. Até Mandy a imitara: durante algumas semanas. como se acabasse de receber um soco no estômago. querida.Mas sabes. como também que o pai podia ser um idiota.. Ao cabo de duas aulas. . ...explodira. que era uma espécie de segredo. . recomecemos tudo. deves mostrar-te responsável. Invadiu-a uma estranha sensação de mal-estar. a mãe achara por bem inscrevê-la num curso de bailado. uma espécie de peso que não a deixava respirar. Para ela.Que se foda o bailado! .. quatro delas no centro.Nunca largues a arma dessa maneira! . Até então. . 67 . tens de travá-la e afastar-te da linha de tiro. Apenas se lembrava da curiosa transformação que o rosto do pai sofrera. Ao vê-la tão desiludida. aprendera a servir-se sucessivamente de uma Chiefs Special de calibre trinta e oito. portanto. Kimberly . Enquanto não lhe pegares. . Não só sabia disparar. mas nunca lamentara a atitude.entusiasmo.Quero que me comprem uma arma! Esta linguagem valera-lhe a boca lavada com sabão e a proibição de ver televisão durante uma semana. se ela disparar sozinha. Em resumo..Muito bem. um estranho e delicioso mês. .Corres o risco de ferir ou matar alguém. Levara quatro sessões. Sob a tutela do pai. às vezes o teu pai porta-se como um idiota. estiveste muito bem. com a esperança de que ela perdesse o gosto pelas armas de fogo. esta sessão marcara o início de uma verdadeira paixão. Partilhava um segredo com ele. Este pequeno sermão assemelhara-se a um duche frio. a irmã mais velha repetia "que se foda!" por tudo e por nada e as duas haviam recebido o mesmo castigo. Lembra-te de que tens de mostrar-te responsável sempre que usas uma arma.. nunca ouvira o pai atribuir a si próprio qualquer epíteto negativo.Consegui. Kimberly regressara a casa. furiosa. Não se lembrava. Kimberly não sabia porque lhe ocorriam todas estas recordações agora. Apercebera-se subitamente de que aquela pequena conversa devia ficar entre os dois. Quem é responsável pela tua arma? 79 . Agora.dissera. . sempre que a usares. de uma Magnum 357 e de uma semiautomática de nove milímetros. Kimberly sentira-se tão feliz que largara a arma e tirara os óculos de protecção para abraçar o pai. Ele colocara o alvo a cinco metros e ela atingira-o com seis balas. antes de conseguir permissão para disparar com balas verdadeiras. Primeiro. .Uma arma não é um brinquedo.Eu.elogiou. papá! Consegui! Quincy moderara-lhe imediatamente o entusiasmo.

aliás. dando provas de uma paciência de santo. é ela que me influencia. nunca consegui influenciar a Mandy. contentandose em deixar mensagens preocupadas. passara. Além de que Doug James poderia ter sido seu pai e era casado. o seu novo monitor de tiro. a pele bronzeada e os ombros largos. Só restava uma cruz branca no famoso Cemitério de Arlington. empurrou a porta de madeira e foi acolhida por uma lufada de ar fresco ao penetrar na sala de entrada mal iluminada. Não podias ter passado o volante a alguém? Claro que é difícil deixar de beber. Ainda não se sentia preparada. 80 Kimberly tivera muita dificuldade em controlar-se durante o enterro. manter-te afastada da estrada! O bailado fora para o diabo. Bem gostaria de se convencer do contrário. nem. O pai mantivera-se impassível. Corriam boatos de que conquistara inúmeras vitórias nos mais prestigiados concursos. talvez. nem aos da mãe. Envergonhava-se dos seus ataques de pânico e receava que o pai se apercebesse imediatamente do seu mal-estar. Contrariamente a Mandy. Há algum tempo que Quincy telefonava regularmente à filha. E também diferente da mãe que. Tinha uma forma muito própria de a olhar e de a escutar como se estivesse verdadeiramente interessado em tudo o que ela dizia.Raios. mas era um pouco por causa dele que viera tão cedo. Achava que a ironia do destino iria enlouquecê-la e decerto a mãe não aguentaria se ela começasse a rir histericamente no meio da cerimónia. No entanto. caso lhe falasse ao telefone. Doug James já fizera estragos entre as alunas desde a sua chegada há seis meses. aos de ninguém. Manifestava sobretudo uma maneira muito especial de se lhe dirigir. E era. pelo menos. Ela nunca atendia nem respondia aos seus telefonemas. que era a mais forte. Kimberly não tinha esse género de ligação com os homens. adivinhando-lhe 68 . de a receber em todas as aulas.. Sabes uma coisa. Tratava-se sobretudo de um instrutor que lhe ensinara muita coisa. sempre pronta a atirar-se ao pescoço do primeiro que aparecesse. como tudo o mais. E agora. só existira através dos olhos do marido. durante muito tempo. Que sorte a tua. Kimberly procurou com o olhar Doug James. ao lado dos túmulos dos heróis da nação. assim. com o espesso cabelo castanho grisalho nas fontes e os olhos muito azuis com rugas nos cantos. Mandy. obviamente. um atirador de primeira. como se apenas a presença dela contasse. mas podias. o tempo todo de lábios premidos. com a expressão impenetrável de sempre. sempre que praticava com ela. Àquela hora ainda estava vazia. Sem reparar no sofá puído nem nas altas montras cheias de medalhas e trofeus de animais que decoravam as paredes. teres tido duas filhas tão cobardes! Quando chegou ao clube de tiro.. Mais tarde. graças à família de Bethie que estava ligada ao exército. Era cedo de mais. papá? Eu.

. Não precisava dele. da solidão que a asfixiava desde a morte da irmã. o capacete. Mas. 69 .Tentou telefonar-te para tua casa. de repente.. abandonada por todos? Tirou a arma da mochila. pulverizando corações de cartão. Para dominar a impaciência. Ponto final. . . quase corria e. o responsável pelo clube. sempre dona de si própria. E a situação era estranha porque Kimberly. Kimberly parecia aparvalhada e Fred acabou por levantar os olhos da sua papelada. cabeças de cartão. Esperava diante da sua bonita casa de tijolo em Society Hill. da impressão de abandono que sentia desde a separação dos pais. 81 . . sem que alguma vez precisasse de falar-lhe dos seus pesadelos.Mas.anunciou.balbuciou Kimberly. numa soalheira manhã de quarta-feira. .. Ou melhor. como se isso a tornasse mais forte. onde a cabeça de Fred Eagon.respondeu Fred.O Doug não pôde vir hoje. entrou na sala de tiro e começou a preparar-se: os óculos de protecção. porque lhe tremiam as mãos? E por que razão. nunca precisara de ninguém. alisou o vestido de seda com um padrão de florinhas púrpuras. uma caixa de munições. . Kimberly tinha frio. Na próxima semana .os pensamentos.. folheando os documentos que assinava ao fundo. Quando saiu do clube uns minutos depois.. se sentia só no mundo. Society Hill.Mas..Suponho que foi uma coisa repentina. Viera ali porque precisava de uma presença. Filadélfia Bethie sentia-se nervosa. aquele cheiro a pólvora com que crescera. .Claro. Doug era apenas o seu instrutor de tiro. E. nesse caso. retirando um fio imaginário. Dar-te-á a aula na próxima semana. Ele estava doente. Afinal. Não havia motivo para fazer um drama. Só ele parecia capaz de entender a sua necessidade de disparar contra alvos de cartão. não há nada a fazer. . Está doente . no ar. tinha a cabeça a andar à roda.. Depressa se apercebeu de que aquela sessão de tiro solitário não chegaria para lhe dissipar a angústia. Se alguém adoece. Aliás. se debruçava sobre uma pilha de papéis. Optara por alvos à distância de vinte metros que destruiu conscientemente. apesar do calor intenso. Estava tudo em ordem. Bem. tentando recompor-se. Aproximou-se do balcão.Tenho uma aula com o Doug . mas já tinhas saído. não precisava de ninguém. Inspeccionou depois as unhas dos pés acabadas de pintar para se certificar de que o verniz não estalara e fez o mesmo com as mãos. o peso reconfortante do aço inoxidável na mão. as duas coisas.murmurou.Ouve.

esquecer por um momento que era divorciada. : . Sentia-se impaciente por vê-lo. fora a primeira vez desde há meses que não sentira a mínima dificuldade em sair da cama. Sentia-se cada vez mais nervosa. Na noite anterior. Não era fácil.perguntou a Tristan. com ar seguro de si e sorridente. Bethie ergueu o rosto e avistou um pequeno descapotável vermelho com a matrícula de Nova Iorque a dobrar a esquina para se deter junto dela com um ruído de travões. E se ele não aparecesse? Estava a tirar conclusões precipitadas. afastar-se o mais longe possível daquela casa grande de mais. daquela cidade cheia de recordações dolorosas. Curiosamente. 82 Decidira levar o seu bonito cesto de vime de piquenique. Há algum tempo que andava a negligenciar-se.Um modelo largamente inspirado no célebre Porsche Boxter dos anos cinquenta. não? Abriu a porta do lado dele e saltou lestamente para fora. uvas e caviar. Bonitinho. chegara com vinte minutos de atraso ao encontro no restaurante. Tinha duas horas pela frente e mergulhara com deleite num banho de espuma. dando a volta pela frente e aproximando-se para a saudar.Preparei um piquenique . mas ficou fascinada pelos olhos onde brilhava um sorriso. sentir-se mais nova. ao regressar do seu primeiro encontro com um homem desde há anos. . pensara logo nesse cesto quando Tristan lhe propusera um passeio no campo. orgulhoso. resolvera deixar-se levar pelo curso da vida.Levantara-se às cinco da manhã. Consultou o relógio. . . uma baguete de pão fresco e uma garrafa de champanhe... mas tinha levado uns vinte minutos a encontrá-lo. Queria sentir a carícia do sol no rosto. Ela própria. : Bethie segurava o cesto. Uma leve buzinadela arrancou-a às suas reflexões.Incrível! É uma maravilha! .Deus do céu! O que é isto? .começou. entusiasmada com a perspectiva de passar aquele bonito dia na companhia de Tristan. mas chegara a altura de reagir. na véspera. . numa altura em que ainda sonhava com fins-de-semana ao sol na companhia do marido e das filhas. Enchera-o com tostas de queijo. mas sentiu-se uma idiota 70 . permita que lhe apresente o novo Audi TT Duzentos e Vinte e Cinco . enfiado no fundo de uma prateleira da despensa. antes de tratar dos pés e das mãos.A sua carruagem. Comprara-o há uns anos. minha senhora. Passavam dez minutos das sete.Minha querida Bethie. Queria sentar-se ao lado dele no banco do carro.anunciou. pensando que deveria fazer um comentário oportuno. Tristan era um homem de gostos requintados e não queria desiludi-lo.

não. apesar dos protestos dela. . . como a lâmina 71 .Carregue.perguntou.Oh. de linhas arredondadas e cheio de pretos e cromados no interior. .Adulador! .exclamou subitamente. Num abrir e fechar de olhos. quando ele se afastou uns momentos mais tarde com o cesto na mão. indicando um pequeno botão debaixo do porta-chaves. acariciando-lhe a mão. . minha querida Bethie? . E você? .Adoro champanhe. Bethie nem sequer o olhou.Perfeito! Tristan fechou o porta-bagagem e regressou para lhe abrir a porta. Bethie achou-o particularmente sedutor nessa manhã. Ela obedeceu e a chave de ignição saltou do porta-chaves. A pequena viatura vermelha reluzia ao sol.. Espero que goste . mas Tristan pegou-lhe na mão e ajudou-a a sentar-se no banco baixo de cabedal preto. De acordo? . antes de agarrar na alavanca das mudanças e Tristan aproveitou para se instalar ao seu lado.ante uma afirmação tão óbvia. Bethie corou. já se apaixonara por aquele pequeno carro. Observou demoradamente os mostradores cromados. Bethie tinha o porta-chaves na mão e um sorriso aparvalhado nos lábios. Antes mesmo de arrancar. .. Uma fragrância com um misto de limão e madeira de sândalo. . e apressou-se a dar-lhe os pormenores sobre o conteúdo do cesto. caviar e queijo . . Estava ansioso por vê-la. Tristan mantinha-se muito próximo 83 dela e respirou discretamente o seu perfume. obrigou-a a dar a volta ao descapotável e colocou-a atrás do volante. Pratiquei durante todo o caminho brincou. . vestido com as calças bejes e a camisola azul-escura. abrindo o porta-bagagem. pegando no cesto.Não consegui dormir.É você que vai conduzir.. Um descapotável de filme de Hollywood. Eu não. Em seguida.Se soubesse o quanto preciso de distrair-me. e vamos passar um dia maravilhoso.A sério que nunca me senti tão impaciente por encontrar alguém . beijou-a na boca. quase embaraçada. . antes de acrescentar com um sorriso: . e sem lhe dar tempo para responder. Um carro digno de Marilyn Monroe ou de James Dean.Tenho uma ideia! . Ajudou-a a sair novamente.Dormiu bem.Claro que vai. .vou levá-la a um bonito lugar.confiou-lhe. .Muito bem. Bethie.perguntou Tristan.Trouxe champanhe. . caviar e queijo.Está a ver o botãozinho prateado? .respondeu ele. . Todos devemos conduzir um carro desportivo pelo menos uma vez na vida.Tomo-o como um cumprimento.disse. Bethie hesitou em entrar.. Bethie ainda se sentia estonteada. .Genial! Assentiu com a cabeça.

Como podia ter esquecido. céus! Tristan observava-a atentamente. sem pensar em dizer-lhe que "tartaruga com travão" era uma das expressões favoritas de Mandy. Quando o segundo turbo entrou em funcionamento.Segue à velocidade de uma tartaruga com travão. . segunda. Sinto-me tão feliz. Aqui. quase a deixou cair e depois soltou uma gargalhada. É uma surpresa para si.. . . a vida era bela. Virou a esquina com um arranhar das mudanças.pediu por fim. Tristan fez rodar um painel prateado. ficaram colados aos assentos. Aquela aventura inesperada colocou-a num perfeito estado de euforia. mas.encorajou-a Tristan.. Tristan tinha razão. pensou. aqui os limpa-párabrisas e aqui o travão de mão! Vamos lá. pensou.Já vi que entendeu as manobras. O pequeno descapotável agradava-lhe. a companhia também.Muito bem! . Bethie sorriu. Ela soltou uma gargalhada e acelerou. . 84 Bethie meteu a primeira. . . são as luzes.Lembrou-se. Primeira. . sem que Tristan parecesse minimamente preocupado. 11 72 . Bethie. O Audi deslizava pela auto-estrada com a suavidade da seda. Fale-me da Kimberly.Fantástico. terceira. Não tenha medo. . de dominar a estrada. Bethie foi-se habituando gradualmente as mudanças e o pequeno descapotável ronronava de prazer.Queria que me falasse da sua filha mais nova. Agora. Oitenta. Carregou em dois deles e a melodia de Round Midnight de Miles Davis soou através de dois pequenos altifalantes discretamente incrustados. revelando um rádio com uma miríade de botões. os cabelos ao vento e a cabeça erguida para que o sol lhe queimasse bem o rosto. mas depressa recuperou os antigos reflexos e invadiu-a a sensação de conduzir um puro-sangue. cento e trinta à hora.Ouça isto. Deve-se conduzir um carro daqueles pelo menos uma vez na vida.Bethie . Coragem. arranhou ao passar para a segunda e acabou por encontrar o ponto certo. Desde os seus tempos de estudante que não tocava num carro com mudanças manuais. carregou no acelerador e atingiu os cento e sessenta. O ponteiro do conta-rotações tocava na zona vermelha.de uma navalha de ponta e mola. Bethie. . mesmo assim. Surpreendida. basta meter a chave na ignição. eficaz. Meteu pelo acesso da Auto-Estrada 76. Nunca tinha visto uma coisa assim.. Amote. Vá em frente. .. Bethie? Ao ritmo do trompete de Miles Davis. querida. sentindo bem o carro.Mais um brinquedo da moda. Bethie. Calçara um par de luvas de cabedal preto e acariciou-lhe suavemente a face com um dos dedos. A estrada pertence-lhe. noventa.

com a sua roupa de baixo preço. .Residência dos Olsen. nem longos caracóis presos com uma fita. Se o tipo estiver à procura de uma amante. Rainie divertiu-se a tentar adivinhar o preço certo do que a rodeava. nada abaixo de quinze mil dólares e apenas no átrio de entrada. Nem uma saia de balão.Aceita um café? 86 A voz chegou-lhe de cima. Rainie ergueu os olhos e avistou uma silhueta no cimo da escadaria em caracol. com um banqueiro. O banqueiro revelou-se um neurocirurgião. como Rainie não tardou a saber pela própria Mary após ter decidido bater à porta da imponente mansão. Na primeira vez nem sequer havia dado pelo estreito caminho de acesso através dos bosques. azul e amarelo. O Dr. À terceira passagem decidira-se finalmente a seguir pelo mesmo: ao ver uma imensa mansão. enquanto ia chamar Mrs. mas deparou-se de imediato com um retrato a óleo do avô pendurado no átrio. reparara no caminho. e a voz ecoou no mármore do átrio. Rainie sentia-se completamente deslocada. folheando apressadamente as notas. À quarta.Mas o sítio é mesmo este! Uma criada de mesa desempregada de vinte e cinco anos a viver numa casa destas? Deita-se. Virgínia Rainie fizera quatro tentativas antes de encontrar a casa de Mary Olsen. vinte mil dólares. talvez trinta mil dólares. Cortinados de veludo cor de pêssego com pompons e cordões dourados? Vinte mil. .Normal ou descafeinado? 73 . debruçada sobre a balaustrada dourada. Nessa altura da situação quase estava à espera de deparar com Scarlett O Hara e ficou desiludida ao descobrir uma Mary Olsen vestida com muita simplicidade. no mínimo. a fim de verificar a morada. Para passar o tempo.Um café seria bem-vindo . . acabou por estacionar na berma da estrada. Na segunda.Devo ter-me enganado .pronunciou em voz alta. desceu do carro e aproximou-se com prudência da caixa de correio preta colocada numa coluna de ferro forjado. De qualquer maneira. e imaginara que se tratava de qualquer atalho da floresta. . não precisa de ir mais longe. a fim de verificar o nome do proprietário.respondeu Rainie. . até onde um mordomo a conduzira. Olsen já saíra para a clínica. mas não na casa. Olsen. fez imediatamente marcha atrás com medo de que qualquer mordomo soltasse os cães atrás dela. mas uma jovem mulher com um modelo Laura Ashley. Era mesmo um mordomo que a deixou a admirar o local. Uma consola em madeira de bordo com um friso em nogueira preta e uns pés de fazer inveja a Luis XIV? Provavelmente uns quinze mil. Uma enorme mesa de cristal encimada por um candeeiro de Lalique? Por baixo.

Finalmente.Como lhe disse ao telefone .O café . Rainie teve uma segunda surpresa ao notar que a jovem era uns bons dez centímetros mais alta do que ela e tinha os olhos negros e as feições delicadas de uma modelo. erguendo a mão.Estaremos mais confortáveis no salão . Mary Olsen esboçou um pequeno sorriso forçado que mal dissimulava o nervosismo. mas obviamente ainda não se habituara.começou Rainie -. tentando equilibrar a chávena em cima do joelho e interrogando-se sobre o que poria a anfitriã tão nervosa. Estava explicado o interesse do neurocirurgião pela jovem mulher. Por outro lado. . . tenho umas pequenas perguntas a fazer-lhe sobre a Amanda Quincy.Trabalha muitas horas? . Talvez pudesse contentar-se com aquela dose. um pormenor que levou Rainie a concluir que a ex-empregada de mesa estava a viver numa mansão. . Enquadrava-se tão bem no cenário que dir-se-ia uma poltrona decorada com uma cabeça humana. . assim evitava problemas com o mordomo ou o motorista. onde estavam pousadas uma cafeteira e duas chávenas minúsculas de uma porcelana quase transparente. Olsen não estava muito à vontade.Siga-me. A chávena não devia conter mais de três goles e.Claro. Quando se tinha um corpo daqueles. o seu marido é cirurgião? .aventurou-se Rainie.Tem uma bonita casa .interrompeu Mary. A jovem Mrs. o que não desagradou de todo a Rainie. Rainie pestanejou. É um dos mais famosos neurocirurgiões dos Estados Unidos e 74 . portanto. . Rainie obedeceu. devia usar-se um vestido escarlate com um decote cavado. apanhada de surpresa. Mary desceu a escada. . pensou Rainie. seria obrigada a voltar a servir-se da pesada cafeteira em prata se quisesse mais.sugeriu Mary num tom de voz propositadamente neutro. 87 . . Mary sentou-se num sofá entre duas almofadas de flores a condizer com o vestido. Colocou devagar a bandeja com movimentos estudados numa mesinha e encarregou-se de encher uma chávena. alguém que tinha medo dela.Se bem entendi. A divisão era maior do que o sótão inteiro de Raime e estava a abarrotar de móveis franceses antigos num fundo de paredes em tons de azul e bege.Há várias gerações que esta propriedade pertence à família do meu marido. que estendeu cerimoniosamente a Rainie.Confesso que nunca percebi o interesse do café sem cafeína.Sim.. e percebeu que o mordomo aguardava pacientemente atrás dela com uma bandeja de prata na mão. O conjunto Laura Ashley não condizia em nada com o seu género de beleza. Quando Mary chegou ao fundo da escada. agarrando o corrimão com as duas mãos.

Qual é o problema? . ele falou-me disso. deixei de ter problemas de horários.Trabalhávamos todos no mesmo restaurante antes de eu conhecer o Mark. informou o pai da Mandy de que ela estivera consigo para um jogo de cartas. tanto mais que o acidente ocorreu há mais de um ano.interrompeu Mary.Mera curiosidade . . Jogaram.Davam-se há muito tempo? . . portanto. Longe de mim querer ofendê-la. .Voltando a essa noite.Não foi propriamente uma festa. portanto.Tinham-me dito que fazia um café muito bom e como vinha a passar por perto. . Só havia Coca-Cola.Jogaram. . Visivelmente. Pareceu a Rainie que detectava uma ponta de amargura na voz de Mary. ainda na defensiva.A Mandy. bem pelo contrário.. Que bonito! Deve ficar bem nos cartões de boas-festas. Estava a desviar-me do tema. Nove ou dex da noite. Não foi a primeira vez. às cartas. suponho. nem tudo corria pelo melhor entre a Cinderela e o Príncipe Encantado. . A que horas começou a vossa pequena festa? .prosseguiu Rainie. .O Mark é um marido fantástico . corada ante o insulto.Não leve a mal.Julguei que queria falar-me do acidente da Mandy..Na casa dos quarenta.. . Jogávamos todas as quartas-feiras. quem? . Mas porquê todas estas perguntas? . .. o Tommy.Costumavam reunir-se assim tão tarde em noites de semana? .Mark e Mary. como já disse a Mister Quincy. . .Tem razão. Quando a Sue acabou o turno no restaurante. A partir de que horas? . .Não compreendo muito bem o motivo da sua entrevista.redarguiu Rainie com um ar desprendido. às cartas e beberam CocaCola. .replicou Mary.O Tommy era empregado do bar. . decidida a aprofundar.voltou a inquirir Mary. Nada mal. a Sue e a Mandy serviam às mesas. . Na noite em questão. Também me conviria muito conhecer um neurocirurgião como ele.Não sei. .redarguiu Mary. . .Conheceu-o quando era empregada de mesa. .Sim. .extremamente solicitado. A Mandy embebedou-se e pegou no carro. a Sue e eu.ironizou Rainie antes de prosseguir e dando-se conta de que a sua interlocutora não apreciara o sarcasmo.Mais velho? .Suponho que podem ver-se as coisas dessa maneira .Jogaram até que horas? 75 .Jogávamos. Às grandes gorjetas seguiu-se a decisão de a sustentar em permanência. e ninguém recomeçava a trabalhar antes do meio-dia do dia seguinte. No meu caso.. . na defensiva.. Porque é que vem falar-me disso hoje? .Exacto.

Quer dizer que talvez ela tenha adicionado qualquer coisa.. Talvez a jovem mulher do Dr. Mary? Não viu! Pela forma como está a relatar os factos.Não viu. nunca soubemos que ela tinha um problema com a bebida. pensando em certas coisas. Da i cor da Coca-Cola.Faça um favor às duas e conte-me tudo.Sim . ninguém percebia e continuava a comportar-se como se nada fosse. depois de fecharmos. fizesse todo o sentido. Na altura. .Duas e meia da manhã. cruzava e descruzava os dedos.. Talvez uma boa dose de rum para reforçar. Em seguida.Ela não largou a lata de Coca-Cola a noite toda. poderia julgar-se que a Mandy tinha bebido.. . . Mesmo quando ela bebia muito.Completamente. .murmurou.. antes de voltar para casa. . Chegou às dez.Não! . não prestei atenção. .Não viu? . gabava-se muitas vezes de aguentar bem o álcool e todos acreditávamos nela. Mary levantou bruscamente o rosto com uma expressão sombria. embora mais tarde. No restaurante.E só havia Coca-Cola. nunca. Mais de quatro horas de Coca-Cola reforçada e não se apercebeu de nada? .Não vi. .Disse que não a tinha visto beber outra coisa. . Mary. de cabeça baixa. Na verdade.apressou-se a confirmar a anfitriã sem fitar a visitante nos olhos. e com um sabor semelhante. . virou-se para Mary e indagou num tom duro: . Tinha um ar normal. foi-se embora às duas e meia da manhã.É então possível que ela tivesse bebido nessa noite sem que você se apercebesse? 76 . Não teria sido a primeira vez.Disse ao pai da Mandy que ela só tinha bebido Coca-Cola Light. Mandy percebia um pouco de 89 misturas. mas devia fazer-lhe algum efeito. . nem mesmo para ir à casa de banho.É verdade que os alcoólicos aprendem uns bons truques aquiesceu Rainie. .Ficou portanto surpreendida ao saber que ela se juntara a um grupo dos Alcoólicos Anónimos? . tanto mais que ela era quase tão magra como eu e o álcool não se evapora com essa facilidade. ela sentava-se no bar e tomava sete ou oito copos. Olsen não fosse tão apagada quanto parecia. Algumas noites.Juro-lhe que não sabia . mas você não queria confessá-lo.. Rainie levantou-se e pousou a chávena na bandeja de prata. rodando febrilmente o enorme diamante que usava no anelar da mão esquerda.Se bem entendo. mas agora que penso no assunto. aliviada por não ter feito estragos. .exclamou Mary num tom visivelmente mais firme. não é verdade? .

começou a percorrer a sala de um lado para o outro.De qualquer maneira..Muito bem.Não. . desviou o olhar. pondo-se a torcer nervosamente os dedos.repetiu Mary. . assentindo energicamente com a cabeça. Disse-lhe tudo o que sabia a respeito da Mandy.É falso! Mister Quincy compreendeu mal. . Talvez estivesse tão desorientado que se agarrou a qualquer coisa. Está a dizer-me a verdade e nunca afirmarei o contrário.O problema é que contou uma outra versão no dia do enterro.Belos móveis! .E esse tal homem mistério? . . piscando os olhos. agradecendo-lhe a noite fantástica e o facto de se ocupar dela sempre que estava à beira de uma recaída? É difícil deixar de beber de um dia para o outro. Ignoro onde é que Mister Quincy foi desencantar essa ideia. .Enlouquecido pela dor? O Quincy? .ecoou Rainie num tom de dúvida.Por favor. . Parecia à beira das lágrimas.O homem mistério? . .Estou a contar-lhe o que sei. .replicou Mary. Mary não reagiu.Não lhe disse isso? . .. Vá-se Tá saber o que se passa na cabeça de um pai enlouquecido pela dor! .É verdade. . . Aliás.Talvez o Quincy tivesse percebido mal. eu não estava presente na noite fatídica. que se foi embora sozinha de carro e estava sozinha quando atropelou um pobre homem e o seu cão? . . sabe? Sei do que estou a falar. .. nenhum de nós.No enterro. .A voz prendeu-se-lhe na garganta e baixou a cabeça. Nenhum de nós.Tem a certeza de que quer manter essa versão dos factos.murmurou Mary. Porque é que havia de contar-lhe uma história dessas? Mary Ôlsen pronunciou as palavras depressa de mais para estar a ser sincera. nada mais. Depois. Mary? Ou seja. Como posso saber o que a sua melhor amiga bebeu na noite em que jogaram as cartas juntas pela última vez? Se ela ria naturalmente ou se estava tão bêbeda que já náo sabia o que fazia? Nem sequer sei se ela a beijou antes de se ir embora.De forma alguma. ao ponto de deturpar o que lhe contei.. deve ter-se sentido nas nuvens quando chegou aqui pela primeira vez. É difícil. que a sua melhor amiga bebeu às escondidas. com o rosto muito vermelho. Era o enterro da filha e ele não estava na sua melhor forma. mas 77 . Rainie pôs a cabeça de lado e estudou demoradamente a sua interlocutora antes de retomar o diálogo.Talvez.O Mark herdou quase tudo o que se encontra aqui . A Cinderela a entrar no castelo. deu a entender ao Quincy que a Mandy tinha encontrado o homem da sua vida. 90 Mary.O seu marido deve ter pago um balúrdio.elogiou. . ..Sem dúvida . . Não sei. Ou seja. . Rainie respirou fundo e observou Mary com um ar pensativo.

Mary? inquiriu.Tem a certeza de que não precisa de uma nova amiga.guinchou.A sua melhor amiga está morta e o seu marido passa o tempo a trabalhar. . .Obrigada pelo café . alguém que elogiasse o meu sorriso. antes de se virar para Mary. acho que faria tudo o que ele me pedisse. Mary baixou novamente a cabeça e os ombros tremiam-lhe. Rainie continuou a falar com a mesma falsa ingenuidade que Mary demonstrara minutos antes. não sente. Sente a falta dela nas noites de quarta-feira? . Se as vossas posições estivessem invertidas. com um ar fatigado e uma calvície avançada. . no alpendre da sua enorme casa. Por consideração para com ele.Saia! Sem se deixar intimidar. aposto que dava valor à amizade.gritou. .é que.Basta! Ignoro onde quer chegar. que em nada intimidava. .agradeceu Rainie ao mordomo. . .dirigiu-se Rainie a Mary. . apesar de a Mandy ser uma alcoólica.Ponha-a lá fora! . Era um homem de meia-idade.Saia! . O mordomo fitou Rainie. já. tenho a certeza de que ela sentiria a sua falta. vermelha de raiva.Estou certa de que teremos ocasião de retomar esta pequena conversa. com as feições distorcidas pelo ódio.O diabo que a carregue! .Já.atacou bruscamente Raime. . Mary? . mas basta . . . pelo contrário. esta pôs-se a gritar a plenos pulmões: 78 .Não tenho mais nada a dizer-lhe. indicava a visita com um dedo acusador. . e o pobre Harold não sabia o que fazer.retorquiu Mary. .A quem possa trair como fez com a Mandy? .Sente-se muito só. virou a cabeça na direcção de Mary Olsen.Harooooold!!!! O mordomo acabou por dar um passo na direcção de Rainie e agarrou-lhe firmemente o braço. Estranhamente.insistiu Rainie . Descobriu uma maneira de viver numa casa de conto de fadas que veio a revelar-se uma prisão dourada. Rainie. . Mary seguiu-os. pousara estrategicamente a mão direita numa consola 91 perto de um pesado candelabro. Se me sentisse assim tão só e conhecesse o homem certo que me dissesse que era bonita. a mão direita colocada defensivamente sobre o ventre.explodiu Mary. esforçando-se por manter intacta a sua dignidade.Continua a pensar na Mandy? .consegue-se quando se está rodeada de amigos verdadeiros.Harold! O mordomo acorreu ao ouvir os gritos histéricos da patroa e encontrou Rainie a bocejar com um ar despreocupado. erguendo a cabeça. .O mais estranho . Antes de abrir a porta do seu carro de aluguer. levantando-se bruscamente. Rainie deixou-se levar sem resistência até ao átrio da entrada.Harold! . ao mesmo tempo que Mary. De pé.

Vimo-nos há menos de doze horas. o seu novo colaborador na Virgínia. Rainie parou o carro na berma da estrada. . pediu-lhe que vigiasse Mary Olsen. Sentia-se repentinamente muito cansada. 92 .Desejava simplesmente saber se conseguiu localizar o jipe da Amanda Quincy. .A resposta é. Rainie inclinou-se e apoiou a testa no volante. Voltou a arrancar e meteu-se por uma pequena estrada rural. Acha que não tenho mais nada que fazer? .Não sei.O que deseja? . no seu tom de voz mais sedutor.perguntou o agente.Se bem percebo. Rainie telefonou depois a Vince Amity para a esquadra. .. mas a prova fora difícil e as mãos tremiam-lhe. . Amity suspirou por seu 79 .. portanto. um "não"? E eu a pensar que tinha um fraco por mim.. a sua vida não voltara a ser a mesma.E quando é que faço o meu trabalho? . Na última vez que os ouvidos lhe haviam zunido daquela maneira.O que deseja? .Vejo que percebeu. terei de dar calmantes a todos os habitantes da região. . apanhou-o no gabinete e sem nenhum assunto urgente entre mãos. mas o polícia de serviço informou-a de que ele saíra em patrulha. . incapaz de prosseguir caminho. . Para obter qualquer coisa daquele superagente.murmurou. talvez consiga um momento. Por sorte. mais valia usar o sentido de humor. Se conseguir que eles se matem menos na estrada nas próximas vinte e quatro horas.Você não faz ideia do que está a falar! Não faz a mínima ideia! Alguns quilómetros mais adiante.respondeu ele secamente. que a ligasse ao carro de Amity.Por isto é que não esperava.Duvido . Após uma curta exposição do caso. . Levou algum tempo a acalmar-se e a elaborar um bom plano. Na falta de um telemóvel.Como está o meu polícia favorito? . Conseguira manter a calma até ao fim. acabara de descobrir os cadáveres de duas meninas ao dobrar o corredor de uma escola. Pensou em Quincy e em todas as ameaças registadas no atendedor. Propôs-lhe transferir a chamada para a central e ela pediu-lhe. Rainie soltou um profundo suspiro. Desde então. Ouviu um zunido familiar nos ouvidos. Pensou na expressão de ódio e nas últimas palavras de Mary Olsen. mal atendeu. . Tudo depende dos nossos condutores.É por isso que estou a telefonar. parou na primeira estação de serviço para telefonar a Phil de Beers.Acha que terá tempo de arranjar essa informação amanhã? .

encontrava-se no local do acidente. . pôs-se atrás do volante e trancou as portas. havia tempo de parar ou. De súbito. sem dúvida colocada pela viúva de Oliver Jenkins. começar a travar. Mandy embatera contra o poste às cinco da manhã. A essa hora. A tremer. . Muito próximo do local. Rainie estacionou um pouco mais à frente e saiu do carro.turno.A primeira vez que consigo impressionar uma mulher. Mesmo que se fosse a uma certa velocidade. Tratava-se de uma estreita estrada rural que não levava a parte alguma. imóvel. vou fazê-lo amanhã. com pressa de se afastar. Man teve-se parada durante algum tempo. Regressou ao carro e examinou o relatório do acidente de Mandy. Uma súbita rajada agitou as árvores à volta. persuadida de que alguém a observara enquanto tinha passado em revista o poste telefónico.Folgo às quintas-feiras .Se não tiver tempo hoje. Quincy não lhe mentira. A estrada estava silenciosa e não se viam carros. Amity! . talvez para apagar o drama que ali ocorrera. provocando um murmúrio fácil de confundir com uma gargalhada. ligou o motor. deixando uma cicatriz que tentou fechar. Rainie avistou uma pequena cruz com uma coroa de flores em plástico. de ombros curvados.anunciou o agente. 12 80 . Desligou sem dar tempo a que Rainie respondesse. A pulsação de Rainie acelerou-se. A curva onde ocorrera o acidente era particularmente perigosa devido à presença do poste contra o qual o jipe embatera. O vento levantou-se. Manteve-se assim. interrogando-se sobre quantas vezes Quincy fizera aquela peregrinação. Rainie meteu-se de novo no carro. o que a poupou de lidar com a última declaração. 93 Percorreu os vinte metros que separavam a estrada do poste telefónico. Percorreu com os dedos as marcas deixadas pelo carro de Mandy no poste.resmungou. Entalhes profundos que tinham marcado a madeira. Até amanhã. . ela mora a cinco mil quilómetros. embalada por uma ligeira brisa. à espera que o coração se acalmasse. antes de desdobrar o mapa da Virgínia que acabara de comprar. pelo menos. O vento agitava as folhas das árvores proporcionando uma atmosfera estranha que a fazia pensar no bater dos ossos de uma dança macabra.Só me faltava esta! . puxando as compridas lascas. .É um amor. Quarenta minutos depois. Mandy não tinha qualquer motivo para seguir por aquela estrada sinuosa depois de sair da casa de Mary Olsen. ainda estava frio e o lugar parecia terrivelmente sinistro. minha senhora. quando os primeiros raios da aurora começavam a clarear a copa das árvores.

no que foi de imediato obedecido pela companheira. Avistaram mulheres percorrendo estradas cobertas de pó. prazenteira. Tristan instalara-se na relva.sugeriu. . Nunca a invadira tamanho prazer a conduzir um carro. Tristan sabia tudo sobre as várias seitas religiosas de origem germânica ainda existentes na região.O lugar ideal para o nosso piquenique . chegaram a uma estrada estreita. aspirando o cheiro a feno acabado de ceifar e respirando vida por todos os poros. Ao seu lado.. encostada a ele.Campo nos arredores de Filadélfia Há muito tempo que Bethie não se sentia tão feliz. Passaram por carroças puxadas por cavalos. que ela suspeitava ter uma namorada em Portland. Também ela lhe falou. A estrada cedeu lugar ao cascalho e seguiu-se um caminho de terra apenas com a largura suficiente para deixar passar o Audi vermelho por entre as espigas maduras. .propôs Tristan. .murmurou. travou no momento exacto antes de irem parar à água. comeram o caviar e saborearam o queijo brie. que serpenteava entre dois campos. Quando acabaram de comer. pusera um braço protector sobre a preciosa cicatriz. Ao fundo de um campo de trigo. 95 . da mãe. antes de a beijar nos lábios. apanhada de surpresa. Tristan saiu do descapotável. fascinada. Tristan desdobrava-se em histórias sobre a sua vida.Também eu trouxe champanhe.ordenou Tristan. enquanto as mãos procuravam os seios. antes de convidar a companheira a imitá-lo. . a quem Bethie não conseguia recusar nada.Que tranquilidade! Que beleza! E 81 . l . num tom despreocupado. avistaram um homem prestes a rachar lenha com um machado diante de uma granja. das filhas e mesmo do marido. Beberam champanhe. Bethie acariciou-lhe ternamente o flanco direito.E se a explorássemos? . protegidas com chapéus de algodão branco. A dado momento. não foram necessárias palavras. através dos espaços verdejantes e das velhas herdades daquela zona da Pensilvânia. sem rumo preciso.Que lugar maravilhoso! . Depois. O tempo correu com a mesma velocidade dos quilómetros. Pierce. no Oregon. e Bethie. O céu estava límpido e uma pequena brisa refrescava-lhe a nuca.Continua . Tinham começado por se dirigir para oeste. o que muito os divertiu. o caminho desembocava na mar gem relvada de um pequeno rio. antes de mudarem de opinião e seguirem para sul. Â certa altura. Bethie escutava-o.. Quando se levantaram para se vestir de novo. ele sacudiu as migalhas do vestido da companheira e deitou-a suavemente sobre a relva. e Bethie.

Pelo contrário. Ainda há bem pouco tempo. uma forma como qualquer outra de uns tipos tarados gastarem o tempo. um desporto que os descontrai. a morte acidental de Mandy resumia-se a um pretexto para traumatizar um agente do FBI. Em vez de regressar ao Motel 6. Uma tomada de consciência que a aproximava de Quincy. com passeios impecáveis. tinha aprendido a conhecer a perversidade da mente humana.Vamos passear . e já o imaginava. Se o objectivo era desestabilizar Quincy e levá-lo a desconcentrar-se. não seria difícil prever a sua reacção à morte da filha. Nesse caso. Quincy encontrava-se a seu lado e. 13 Virgínia Rainie preparava-se para se meter em sarilhos. Um bairro novo. Claro que talvez Mary Olsen não passasse de uma pequena arrivista um tanto estúpida. por vezes. chegara à conclusão de que devia ter uma conversa com ele. A maioria das pessoas imagina que os assassinos matam por necessidade. Contudo. agora. . o sofrimento e a morte são um prazer. considerando-a demasiado fria e maquiavélica. Rainie voltou a consultar o mapa de relance e concluiu que falhara a saída indicada. achava que qualquer coisa não encaixava bem no acidente de Mandy. mas que a pôs no bom caminho. conjecturando sozinho sobre coisas horríveis como o assassínio da filha. agora que os papéis se tinham invertido. capaz de matar e que tudo pode acontecer. É verdade em muitos casos. De tanto reflectir no assunto. Tristan virou-se para a fitar com um olhar que depois de fazerem amor se tornara ainda mais brilhante. 97 Quando Rainie descobrira à sua custa esta triste realidade. Rainie teria recusado acreditar na teoria da conspiração. ladeada de magnólias plantadas há pouco. consciente das consequências do seu acto.pensar que basta seguir este atalho para se encontrar o paraíso. e nem pensar em explicar-lhe isso por telefone.sugeriu simplesmente. Talvez ele tivesse forçado Mandy a beber na noite do acidente. Sabia. Quincy era um homem que analisava tudo até ao último pormenor. Enfiou por um beco e 82 . talvez a avalancha de mensagens no atendedor de Quincy fosse uma simples coincidência. os menos complicados. Ou talvez existisse mesmo um homem misterioso. longe de si pensar em abandoná-lo. que o homem é. após o drama de Bakersville no ano anterior. dinheiro novo. Embora nada houvesse descoberto de concreto. A rua era elegante. decidiu bruscamente pôr-se a caminho da casa de Quincy. E Bethie seguiu-o. como se este lugar nos pertencesse. Perguntas não faltavam. Fez imediatamente uma inversão de marcha ilegal. Dir-se-ia que estamos sós no mundo. como fora sua intenção. sentado na obscuridade do escritório. para alguns psicopatas.

Imaginara a casa de Quincy num bairro burguês. olhe para a câmara e mostre-me a sua identificação. Mostrei-lhe a minha documentação diante da câmara. 83 . de braços cruzados sobre o peito. cujo corte de cabelo..Quincy. Chamo-me Lorraine Conner e trabalho com o Quincy. exibindo o crachá do FBI.Por favor. exibindo a sua licença de detective particular. muito direita.Queria falar com o Quincy . a fim de evitar a presença de intrusos.descobriu . eram só quatro da tarde e não esperava que ele estivesse em casa. Na verdade. Rainie não precisou de verificar a morada para saber que era aquela a casa de Quincy: as árvores e os arbustos tinham sido cuidadosamente arrancados. "É agora ou nunca".Talvez tenha razão. . Tratava-se de uma mulher de idade indefinida. roupa severa e sapatos pretos em nada contribuíam para que parecesse mais nova. Rainie saiu do automóvel. onde se erguia uma casa mais pequena e mais discreta. . A porta da casa estava aberta e uma mulher aguardava-a à entrada. . . talvez menos.Hum. . e Rainie pôs-se a subir o acesso que conduzia à casa. jovem. Por outro lado.Se sabe ler.uma longa fila de bonitas casas estilo colonial com vastos e soberbos relvados.pronunciou a voz.Agradeço que me indique o seu nome e motivo da visita . ao deparar com o jardim mal cuidado. Quincy . Aguardava a visita. Além disso. "E muito menos a ex-mulher. conhece na perfeição o papel de governanta". ficando surpreendida quando uma voz lhe respondeu. um pouco afastada. .murmurou entre dentes. mas não esperava uma coisa destas. mas as minhas referências são superiores replicou. E ainda mais por se tratar de uma voz feminina.. 98 . pensou Rainie.. se bem conheço o tipo do Quincy.com alguma surpresa . decidida a entrar no jogo. . Talvez na casa dos quarenta. fui a primeira a perguntar. pensou Rainie.inquiriu de imediato. já está a par. Esboçou um sorriso forçado. para lhe dar a entender a insignificância da sua licença de detective. .Creio que devo ser eu a fazer essa pergunta.Quem é a senhora? . aproximando-se de ombros direitos e cabeça erguida. Avançou de olhar atento aos números até ao fim da rua. concluiu. intrigada e desapontada.Estás mesmo a precisar de umas férias! Parou diante do portão preto de ferro forjado e premiu o botão do intercomunicador. Quase correspondia à verdade. . ao mesmo tempo que olhava de frente para a câmara. protegidos por muros com portões gradeados. "Não parece a governanta".declarou Rainie franzindo as sobrancelhas e subitamente inquieta. ao volante do carro. O portão começou a deslizar quase de imediato sobre o carril com um leve estremecimento.

mas assentiu lentamente com a cabeça..Os telefonemas.É uma base de fuzileiros. . e já que sabe tudo a meu respeito. obviamente.Julgo que isso diz respeito a ele e não a si. e Rainie sentiu um súbito arrependimento por ter interferido. não dorme com ele.Por que motivo? . .. pode dizer-me onde está o Quincy? .Suponho que o encontrará em Quantico . . .Quantico. ao compreender: a roupa ideal para dissimular uma arma. Não duvidava de que a agente o poria ao corrente. . tinha à sua frente uma genuína e treinada agente federal.Neste momento.Bem.Na eventualidade de poder estar a falar com a ex-mulher dele.Eu conheço bem Quantico. após uma leve hesitação. . ..Obrigada. obviamente. o rosto impenetrável. .respondeu a severa guardiã. A agente do FBI levou uns segundos a interpretar o conteúdo das palavras e acabou por corar. . .Ele não volta hoje? . batendo na testa com a mão. .. com um ar surpreendido. Nesse caso. .Agora.exclamou Rainie. se não se importa.Parece-me que não entendeu bem a natureza do meu trabalho.. Meteu-se 84 .mentiu Rainie. Que se lixe!. . . observando-a com outros olhos e sentindo vontade de se enfiar pelo chão abaixo.Julguei ter percebido que era detective particular .redarguiu em seguida. Tratava-se de uma mulher que vivia. A agente não respondeu logo. o que diz respeito a Quincy também me diz a mim. . Rainie mordeu o lábio inferior.É tudo o que posso dizer-lhe. E ela não passava de uma detective particular. Entretanto.pronunciou-se ela. parecendo debater-se consigo própria. .Não posso dar-lhe mais nenhuma informação.Dir-lhe-ei que esteve cá.Portanto. . obrigada! A agente esboçou um pequeno sorriso. Rainie correspondeu-lhe com um movimento idêntico. jovem.Porquê? Dorme com ele? . Era aquele o mundo de Quincy.deixou escapar. é a guarda avançada. Rainie nem sequer se preocupou com despedidas. sem qualquer vantagem para Rainie.Oh! Percebo! . vou tentar passar pelo gabinete dele. em Quantico... para a Sua profissão.. Também ela observava a interlocutora com outros olhos e. Ah.. 99 . subitamente.Sim. Vou-me embora . o corte de cabelo regulamentar. . Em suma. as minhas coisas e as dele não lhe dizem respeito.

que os fuzileiros podiam cuidar de si próprios. Acabara de começar a descontrair-se quando avistou bruscamente um posto da guarda.. ninguém a mandou parar e ninguém lhe pediu que se identificasse.resmungou.Nunca pensei que fosse assim tão difícil! .contentou-se em dizer. ultrapassando várias vezes alguns pelotões de fuzileiros que corriam pelo lado esquerdo da estrada. a esperar dentro do carro.Que se lixe! . Rainie não devia ter insistido. . Contudo. Rainie! É a sede do FBI. Quincy saiu do recinto do FBI e fez-lhe sinal para que seguisse atrás dele. O ruído de tiros rompia frequentemente o silêncio. . Só preciso de lhe falar no seu gabinete. Parou diante da barreira e um guarda de expressão severa perguntou-lhe o nome e pediulhe a identificação. Quanto mais pensava. A cena distanciava-se 100 em muito do encontro hollywoodesco em que correriam um para o outro de braços abertos.novamente no carro e saiu a toda a velocidade da propriedade para que o portão não se fechasse nas suas costas.Ora. Seguiu pela saída para Quantico e atravessou uma floresta durante uns bons quinze minutos. sem dúvida. . ao sair do carro. De nada lhe valeu repetir o nome e insistir no seu estatuto de detective particular. . Decorridos quinze minutos. mas era teimosa. Na vida. enquanto ele contactava o Departamento de Ciências Comportamentais. Não é propriamente um sítio de entrada livre. 85 . Temos processos regulamentares e um protocolo. precisaria de dar o nome com muita antecedência. finalmente. onde estacionaram. O governo pensava. Não têm um passe para visitas? Ficou a saber que. Parecia cansado e não particularmente feliz em vê-la.Não estou a pedir-lhe para ir a qualquer lugar. cada vez mais convencida de que era uma intrusa naquele santuário das tropas de elite americanas. Tomaram a direcção da cidadezinha próxima. lado a lado. trabalho com o agente especial Pierce Quincy . Depois de uma morosa troca de impressões. Não sabia muito bem a que categoria pertencia. há os que estudam e conseguem aceder ao FBI e há os outros. . Passou junto a várias filas de edifícios. contrariamente aos agentes do FBI. O indivíduo continuou a impedir-lhe o acesso. Examinou demoradamente a licença antes de a informar de que não podia entrar.repetiu entre dentes. para ter esse direito. .Preciso de um café . Não sabia muito bem se devia sentir-se grata ou nervosa. antes de tomar consciência de que ia a uma velocidade excessiva para um bairro residencial tão chique como aquele. . Rainie viu aparecer o carro de Quincy.Convencida do caraças .Costumas forçar muitas vezes as regras de uma instituição governamental? . mais achava que nunca mais se safaria.replicou ela.tentou. no parque de um restaurante.Ouça.. o guarda autorizou-a.Olá para ti também! .

trouxe os cafés. Neste momento. apenas uma explicação. esta atitude irritou Rainie ainda mais. .pediu Quincy ao empregado.Dois cafés .Muito bem! . Basta arranjar o número da Segurança Social e o nome de solteira da mãe da pessoa em causa para se obter uma certidão 101 de nascimento. "A saúde física passa pelo aspecto psíquico. devo ao concessionário da Audi de Westchester a quantia de quarenta e oito mil 86 . mal Quincy se sentou." Bem lhe apetecia recordar-lhe os pequenos sermões do ano anterior. Há um ano. . Imperturbável.inquiriu Rainie num tom agressivo. Raime apercebeu-se das fundas olheiras e das faces inchadas.perguntou-lhe à queimaroupa. Quincy soprou ao de leve o seu café fumegante.O que se passa contigo? . incapaz de digerir aquela frieza. e está feito! É uma loucura o que pode acontecer em seguida. há duas semanas. . Para começar. . mas arriscava-se a que ele voltasse a acusá-la de ser infantil.Um simples e um com muitas natas e açúcar.Não há problema. com uma expressão divertida no rosto. tudo em nome da vítima inocente. se não queres levar com um oceano de leite e uma montanha de açúcar na gravata. .Um café é mais fácil . obter uma carta de condução perfeitamente válida. Rainie mantinha-se petrificada..Já ouviste falar de "roubo de identidade"? .Céus! É impossível que sejas tão infantil! . . .Suspirou.Em Nova Iorque. "O stresse é mais uma razão para que uma pessoa trate de si". Sentiu-se perturbada com a ironia da situação. Longe de servir para a acalmar.Alguém se serviu do teu nome para comprar um carro desportivo? . trago um vestido comprido. . Rainie sentou-se e bebeu um pequeno gole do seu café. . raios? Aconselho-te a dares-me uma resposta. até uma mesa de piquenique. O empregado. como se ele não dormisse há mais de uma semana. debaixo de umas árvores em que não reparara. Demorou uns momentos a segui-lo. Quincy pegou-os e arrastou Rainie para fora. antes de se dirigir à entrada do restaurante. . agarrandolhe no braço quando ele se aproximou do balcão. antes de assentir com a cabeça. dissera-lhe. antes de se comprar a crédito um bonito descapotável vermelho Audi TT. Depois.exclamou. Quincy.O que se passa. .limitou-se ele a responder.Não quero café.Se soubesses até que ponto hoje é fácil apropriarmo-nos da identidade de alguém.. Da próxima vez.. abrir uma conta bancária ou pedir um cartão. era ela quem tinha o ar de um fantasma e Quincy não parava de aconselhá-la a comer e a dormir. revirando os olhos. junto ao carro.

Não posso mais . Se os agentes do FBI fossem espertos. Rainie .Puseram a minha casa sob vigilância. passei de investigador a vítima. ainda vai para o emprego de gravata? Quincy olhou de relance para a sua gravata cor de vinho. .Claro que sabes. leva-me um bom avanço. Quincy. habitualmente.Queres dizer que alguém roubou a identidade de um agente do FBI? . A ironia é que.respondeu-lhe Quincy com uma expressão sombria. Rainie não acreditava no que ouvia. sou eu que me ocupo deste género de coisas. com os inevitáveis desenhos geométricos azuis e verdes.Alguém está a apoderar-se da minha vida e nem sequer sei o motivo.Mas o FBI não tem especialistas nesta área? . após uma pequena pausa. pagável em mensalidades de oitocentos dólares durante cinco anos.Os meus colegas Rodman eMontgomery estão a ocupar-se das mensagens que me deixaram no atendedor. . Mas.Porque não? Ele já tinha dado o número do meu telefone privado a metade dos criminosos com poder neste país. num fio de voz. . ele diverte-se a comprar um carro de luxo com o meu cartão de crédito.Sempre te disse que eram uns imbecis. deixariam de passear-se por aí todos vestidos de preto. .dólares. . Neste momento. Tu és o tipo bom e todos os vilões detestam o bom da fita. desde as sete e cinco desta manhã que nem sequer me pedem opinião. nos nossos dias. Quincy emitiu um longo suspiro e passou a mão pelos cabelos com um ar cansado. Pousou a chávena de café e Rainie verificou.Acredita que suspeitos não me faltam. Contudo.acabou por inquirir. embora a grande maioria deles esteja 87 . . pelo menos. .acrescentou. . quando o resto das pessoas passou a usar calças de ganga. Vigiam a minha casa e tentam investigar os pequenos anúncios publicados nesses boletins da prisão. Comparado com isso. Às sete e cinco desta manhã. Ignoro se existe qualquer relação 102 entre as duas coisas.proferiu.Esta tarde.O FBI tem especialistas em tudo . Enquanto eu me esforço por resolver o quebra-cabeças.prosseguiu. . Tentam também descobrir pistas junto do concessionário da Audi. que as mãos lhe tremiam. . . como se isso servisse para alguma coisa. e nunca me senti tão mal na vida. Quem é que. dediquei o dia inteiro a ler dossiês antigos para elaborar a lista de todos os tipos que mandei para a prisão . colegas meus dissimularam câmaras junto à campa da minha filha. mas trata-se provavelmente de mais uma estratégia do desconhecido.acrescentou Quincy. há que reconhecer que o homem tem bom gosto em matéria de carros . . surpreendida. comprar um descapotável em meu nome foi uma brincadeira.Hoje.

-Ah. por ter bebido Coca-Cola com rum? . Quanto ao amiguinho misterioso. a aranha teceu a teia e eu estou preso por todos os lados.sugeriu ele. . Alguém me escolheu para alvo.Amigos com quem podes contar. . Rainie. Não lhe apetecia responder à pergunta dele. . preferia ir directamente ao assunto. sim? .Queres dizer que a Mandy foi encontrada meio morta depois de embater contra um poste. . é que. ocultava-se uma outra interrogação 88 . . à semelhança de Quincy.apressou-se a retorquir num tom firme. Preciso de ouvir da tua boca ! o que ambos sabemos por intuição. a Mandy deu a sensação de ter passado essa noite a beber Coca-Cola. Apenas disse que tinha uma nova versão. Rainie. mas talvez tenha adicionado rum à lata. . Quincy.Seja como for. Se tinham alguma qualidade em comum.O que aprecio em ti. Por detrás daquela pergunta. há algo de estranho relativo à Mary Olsen.Diz-me o que soubeste hoje a respeito da Mandy. sem procurar dissimular a surpreHsa sentida. Porquê . algures numa estrada perdida. decerto interpretaste mal as suas palavras. mas também não queria jogar ao gato e ao rato. fitando-a bem de frente. a conclusão falava por si.Esta manhã fui visitá-la. É a explicação mais lógica. ainda não disponho de nenhum elemento concreto que me permita afirmar que ela foi assassinada.morta ou na prisão.Por outro lado.Tens razão . .Num inquérito. Quincy.Há algo que não me cheira bem em tudo isto. . mesmo quando te sentes perturbado. Á começar por mim. antes de retomar a palavra: . Quincy. 103 E acrescentou que. .exclamou Quincy. Rainie não conseguiu aguentar o olhar dele.. pois a Mandy não tinha nenhum caso. . . e ela negou tudo o que possa ter-te dito no enterro da Mandy. . . . Quincy aquiesceu com um ar ausente. como não era a primeira vez que a Mandy conduzia embriagada.Verdade? . Quincy . O problema .Não te esqueças de que tens amigos. Segundo a sua versão.replicou ela com uma voz meiga. .Não afirmei que a Mary tinha uma boa versão.redarguiu ele. Até agora. reside em saber quem e porquê.Mas porquê? Ela era a melhor amiga da minha filha.. Provavelmente trata-se de uma vingança.Por outro lado. a regra número um consiste em não se tirar conclusões precipitadas.Isso ainda não sei . .Ela foi assassinada? . Engoliu o resto do café. voltou a pousar a chávena vazia em cima da mesa e pôs-se a rodá-la entre as mãos. nunca abandonas a lógica.afirmou. era a franqueza.

Podes explicar-me o que isso quer dizer? . .A menos que lhe tenha fornecido a primeira versão para te atingir. e o pior é que estou a gostar.ainda mais inquietante.. endireitando-se.Referes-te à pessoa que me persegue? Queres dizer que lhe soprou uma outra versão? ..Quer dizer sobretudo que és o alvo errado. 104 .Acho que a Mandy era uma espécie de princesinha solitária respondeu Rainie. É como a nicotina. com o coração junto à boca e de punhos cerrados.Quer dizer.replicou Quincy num tom mais conciliador. . que mais valia apaziguar o jogo. sacudindo a poeira das mãos. quer dizer pura e simplesmente que estou cansado . Fixou-a bem no fundo dos olhos e de uma forma bem mais recomposta do que poderia pensar. .. Paremos com isto. Basta fumar um cigarro. .limitou-se a responder.Metes-me medo. .Desde ontem. Quincy.Qual é o problema. . . estes rumores sobre a morte da minha filha. A sério. Por que razão aquilo acontecera a Mandy e a ele também? Por que motivo o mundo não era tão simples quanto o desejavam todos os especialistas do comportamento humano? . mas ainda não renunciei ao meu enorme prazer pelas metáforas. Merda! Tudo isto fode-me o juízo concluiu. . . Peço-te que esqueças estas minhas palavras.Quer dizer que me encontro sob pressão e que me agarro à mínima hipótese de poder discutir.retorquiu num tom cortante. . este carro comprado no meu nome. 89 . .Também te apetece discutir.prosseguiu Quincy.Desde quando voltaste a dizer palavrões? . Sentiu-se mais uma vez espantada ante a sua capacidade de controlo.Não.indagou Rainie.Aparentemente. Nem sequer sabemos se se tratou de um acidente. . Rainie? Ela sabia que ele tinha razão. Incomoda-te que também possa ter reflexos humanos? Rainie levantou-se de rompante sem se dar conta do que fazia. Seis longos meses sem um único telefonema! . Rainie. antes que seja tarde de mais. . que ambos estavam excessivamente fatigados para desperdiçar forças. surpreendida. Quincy levantou-se por sua vez da mesa. Apenas sabemos que a Mary te contou umas coisas no enterro da Mandy que te levaram a pensar que talvez ela tivesse sido assassinada.Recomeçaste a fumar? . Estás à beira de um ataque de nervos.Tarde de mais. Estas mensagens no meu atendedor. também não perdeste o teu senso inato de diplomacia.. Rainie? . erguendo orgulhosamente a cabeça.Estou convencida de que não foi preciso muito para a manipular.Talvez .Alguém está a tentar desestabilizar-me .Quincy! .

Contudo.Queres saber por que é que o vulcão se extinguiu. Sem dúvida. Queria tocar-lhe. em Portland. revelava-se de uma suavidade incrível sob a carícia dos seus dedos.murmurou Quincy. Rainie. Da última noite que tinham passado juntos. Não acreditas em mim e. . num tom neutro. a nova Lorraine Conner continua descrente. Porque.perguntou bruscamente. olhaste-me como se fosse bater-te. Conversaram despreocupadamente. há oito meses.Pára de te armares em psicanalista.Não acredito? . Não é de um homem que precisas. como se eu fosse uma miúda? .Queres saber porque é que a nossa relação falhou? . um ano mais tarde. Pousou-lhe a mão no coração e escutou as batidas. sobretudo. Desde muito miúda. Foi por causa da tua descrença. Tocar-lhe no corpo todo. a assistir à exibição de um grupo. antes de a fazer deslizar pelos ombros.. o desejo.Limitei-me a comentar que não acreditas em nós e. Na condição de que ele se mantivesse assim. mal entrou em erupção? vou explicar-te. . Quincy . Tinham seguido para o hotel dele. . Haviam começado em Pioneer Square. Desapertara-lhe os botões da camisa.Se queres que te considere humano.contrapôs ela.É inútil esconderes-te por detrás dos teus belos sermões. Não sabia ao certo o que a levava a agir daquela maneira... O tronco dele..replicou.Sou eu que não acredito? Acho tudo isso muito curioso vindo de um homem que se sente obrigado a acreditar que a filha foi assassinada para conseguir aceitar que ela morreu.. . encarava a vida como uma luta implacável. Sempre adorara aquele cheiro. como se um sopro tivesse sido suficiente para a afastar. Rainie. bebendo um café na esplanada do Starbucks. . raios! Preciso de um homem e não de um terapeuta. . 90 . . Rainie ainda não morava no sótão e vivia num pequeno estúdio. mas como nunca conhecera o verdadeiro desejo.Precisas de um homem? Da última vez que tentei agir como um homem. mas lembrou-se bruscamente daquela noite. roçando-lhe o pescoço e a orelha com os lábios. Não percebes que passas o tempo a dar-me lições. muito pálido. um após outro. Ela aproximara-se mais ainda. Rainie não estava disposta a ceder.. Há muito que ela se sentia sozinha na cidade e estava contente por vê-lo. Quincy mantinha-se perfeitamente imóvel. Precisas de um boneco insuflável ou de um santo! . sem respirar. . não acreditas em ti..Cabrão! Rainie dispunha-se a prosseguir com os insultos. musculoso devido a anos de corrida diária. 105 Chegara-se mais a ele para lhe sentir o perfume. imóvel.Um a zero para a rapariga de calças de ganga . age como tal.

tenho pena de mim próprio.. deixava tocar o telefone sem atender.. Quincy. Durante muito tempo. E. A magia quebrara-se de imediato. Toda a gente os tem e não apenas tu. Sei que vou surpreender-te. vivi afastado da minha família. neste momento. . . Detivera-se sobre as cicatrizes com as pontas dos dedos. Nos meses seguintes. .. pedindo-lhe uns minutos de paciência.Devo mostrar-me paciente. .Sei que não é fácil. ao mesmo tempo que o corpo se petrificava e a mente se fixava nos campos de flores. mas. A solidão não passa de uma protecção efémera. contrariamente ao que pensas. Devo mostrar-me tudo. embaraçada. Algumas pessoas são más. em todas as receitas que aprendera a usar ao longo de tantos anos para se encerrar no seu desejo solitário. Só que não o fizera. humilhada.. raios! . Eu não posso fazer nada e a única pessoa que podia deter isto é a minha exmulher porque a sua família está muito bem relacionada. como fizera com outros. devo ser paciente . sobretudo neste momento.. Enterrei a minha filha no mês passado e agora os meus colegas montaram vigilância à sua campa.Lamento desiludir-te. Quincy afastara-a.É esse exactamente o problema. . abanando a cabeça.. Mas ele deveria ter entendido e prosseguido a conquista. abreviava a conversa. mas estou longe da perfeição. . menos frustrado ou enraivecido.Não acreditas .Mas não é isso o que te peço. Sentira-se envergonhada. Fora ela que deixara de responder aos seus telefonemas. mas há uma altura em que temos de acreditar. Mas depois perdi a minha filha e. na água de um ribeiro.replicou Quincy. julgando estar a proteger-me. Rainie. fingindo estar ocupada. Estou enraivecido! 106 . dissera-lhe que a culpa era toda dele e abandonara o quarto sem uma palavra. A mão do companheiro rodeara-lhe subitamente o pulso. quando deveria ser a tua calma a apaziguar-me. Estás prestes a tornar-te tão agressivo como eu. mas não consigo apanhá-la. Rainie. Continuara a acariciá-lo. quando ele casualmente conseguia apanhá-la em casa. o superherói. mas há outras generosas e desinteressadas. E. mas de uma forma mecânica. na 91 . erguera o rosto e detectara o desejo no olhar dele. O seu próprio desejo evaporara-se.Também eu tenho problemas.contentou-se ele em responder. Sei-o por experiência. três pequenas cicatrizes eram uma recordação de projécteis que o colete antibalas não conseguira deter. Quincy. Quincy tinha razão. como que adivinhando os seus pensamentos. Não é por te fechares na tua torre de marfim que consegues proteger-te. devo aceitar as tuas mudanças de humor. mas era tarde de mais. o teu temperamento e o teu passado sem uma palavra.Conheces tão bem como eu os meus problemas. Não estou louco.À altura da clavícula e no antebraço. .Em princípio. Rainie. quase rude. Rainie. dada a sua personalidade. obstinado. Surpreendida.

Quincy não tinha intenção de parar. . onde marcara encontro com Amity. retomou o caminho do restaurante para ligar da cabine telefónica da entrada. A noite começava a cair. . Rainie gostaria de dar-lhe uma resposta mais pertinente.prosseguiu. sinto que estou a afundar-me. Aparentemente não percebes.. Depois.verdade..pronunciou entre dentes. Pusera uma camisa preta de cowboy com umas calças de ganga coçadas e calçava botas 92 . Rainie anotou escrupulosamente os contactos de Mitz num pedaço de papel e decidiu não telefonar de volta. os clientes em perspectiva nunca se mostram tão ansiosos. meu caro . O agente já lá estava.. Um tal Carl Mitz parecia muito interessado em falar-lhe. Também ele tomara um duche. Lavou o cabelo e permaneceu muito tempo com a água quente a escorrer pelo pescoço e os ombros. como se não a tivesse ouvido. Era bastante estranho. Acabarei por me recompor .Não é por conseguires sobreviver que tudo correrá melhor gritou-lhe à distância. mas preciso absolutamente de telefonar à Bethie. Em vão.Burro velho não aprende línguas . Agora. orgulhosa de mais para ceder. . Enquanto conduzia. .. Esforçam-se por dar a entender que são eles que pretendem ser servidos e não o contrário. Faço o que posso.. mas vivemos num mundo de chacais.disse um momento depois ao seu interlocutor. Rainie pousou novamente o bloco em cima da mesa-de-cabeceira.. . não há problema. chacais por todo o lado. Quincy pegou no telemóvel e tentou mais uma vez ligar para a ex-mulher.. Cabia-lhe a ela dar o primeiro passo. .vou descobrir o filho-da-puta que fez isto. . Tivera tempo de passar pelo motel e tomar um duche rápido antes do seu encontro com Vince Amity. Rainie sentia-se nervosa e tensa. .Não te preocupes. será esse o meu caminho. Rainie. Despiuse e tomou um duche. esperava-a uma mensagem do advogado que já tentara contactá-la nessa manhã. Como Rainie não tinha telemóvel. por uma vez na vida. 14 Virgínia Às nove horas dessa noite.Quincy. pois Quincy já se afastara. Sabes que o pior está para vir. Reviu a infância num abrir e fechar de olhos e tomou consciência de que ninguém a tinha ensinado a amar. vestiu a mesma roupa velha e dirigiu-se ao bar. Por hábito. desculpa. mesmo que não seja grande coisa. Rainie. Venho convidá-lo para um copo. No quarto. Se for necessário falar como um carroceiro e portar-me como um bruto.E não é por enfrentares o problema que sairás vencedor. Deixara-lhe vários números. mas não estava no seu melhor. Quincy virou-lhe as costas e dirigiu-se ao carro.Boa noite. As suas palavras perderam-se no vento..Boa noite. E se for necessário odiar para o conseguir. Rainie.

mas não condenada.Faz investigações sobre todas as raparigas com quem sai? . De momento. A camisa salientava os ombros largos e as calças marcavam-lhe as coxas. . . Além disso. mas gosto de informar-me sobre as mulheres que me perseguem. tenho mais perguntas do que respostas e.Acusada. Não tem de fingir comigo. mas há sítios melhores do que o Motel 6. Deixou que o convite pairasse no ar. . Rainie deitou um olhar significativo para o físico bem constituído e ele respondeu-lhe com um leve sorriso. . 108 . pelo andamento das coisas. Nada tinha a criticar-se. Rainie.redarguiu ele. Lá. quando ele acrescentou num tom calmo: .Conta ficar uns tempos na Virgínia? ..De acordo.Não sei.Pode chamar-me bota-de-elástico.mexicanas usadas. E ficou surpreendida. Rainie limitou-se a assentir delicadamente com a cabeça. . Rainie mandou vir a sua habitual Bua Light gelada e tentou convencer-se de que não tinha saudades de Quincy.Onde está hospedada? . fez-me uma série de perguntas e nunca mais me largou . o passado era passado...Os famosos cavalheiros sulistas.Um homem tem de se acautelar. .No Motel 6.Também lhe contou que já fui acusada de assassínio? . consideramos todas as mulheres perigosas. mas deliciosas. onde apoiou firmemente os antebraços.Longe de mim criticar.. . . A empregada aproximou-se e Vince esperou que ela tomasse nota do pedido para retomar a conversa: . o seu amigo. Se tiver algum tempo livre e lhe apetecer conhecer um pouco da região.Nem todos conseguem estabelecer a diferença. . o xerife Hayes.E devia provar as batatas fritas.Fiz uma pequena investigação a seu respeito. 93 . Só que ninguém se recompõe num dia após anos seguidos de desconfiança e Rainie apercebeu-se de que acariciava furiosamente o gargalo gelado da garrafa de cerveja intacta .perguntou finalmente. Inclinou-se sobre a mesa de madeira. Quem iria pensar? Amity voltou a sorrir.disse Vince num tom desprendido. Faz parte do seu encanto. querida.Foi visitar-me no local de trabalho. . Já alguma vez provou batata-doce frita? Nada bom para o colesterol.Aqui servem umas costeletas óptimas .Sou um homem da Geórgia. fez grandes elogios a seu respeito. pode demorar uns tempos. O corpo ficou tenso de imediato. . Um belo espécime masculino.Por mim. tudo bem. .

o pequeno descapotável vermelho parou diante da sua casa às escuras.É a tua vez.E agora? Qual é o programa? . . . sim? Porquê? A empregada de mesa interrompeu a conversa. Ainda continuava provavelmente a sentir os efeitos do champanhe que bebera.murmurou alegremente. mas não gosto de passar por imbecil. chegara mesmo a interrogar-se como é que um homem que acabara de fazer um transplante de rim podia beber tanto. O casaco assentava-lhe bem. por volta das dez da noite.Não estás por acaso a armar-te em difícil? . para regar uma lagosta memorável no Bookbinder s. Contudo. coma as suas costeletas. depois de uma primeira garrafa à beira do rio. Estava lua cheia e uma brisa refrescante e perfumada acariciou-lhe o rosto. 109 Society Hill. trazendo dois pratos cheios de comida.Porque não? Serviria para apimentar um pouco a noite. Tristan dava a sensação de aguentar bem o champanhe. . finalmente. Recusara mesmo pegar no volante no caminho de regresso a casa.Não sei o que quer dizer. Vince esperou que ela se afastasse para comentar: . Pemilvânia Bethie cantarolava baixinho o velho refrão de uma cantiga quando. iremos ver o que resta do carro da Amanda Quincy.Ah.Sabe perfeitamente que não era comigo que queria jantar esta noite. .declarou sem rodeios -. inalando o perfume do companheiro. Tristan respondeu-lhe com um sorriso. seguida de uma outra ao fim do dia em Filadélfia nas docas. nem sequer no auge da adolescência.Você agrada-me . o que muito divertiu Tristan. antes de a noite acabar. Conseguira.perguntou. querida senhora. mau grado a hora tardia. sentia-se tão emocionada como quando tinham feito amor nessa tarde. também ficará a acreditar na minha amizade. Bethie soltou uma pequena gargalhada. descobrir do que se tratava e acabou por confessar-lhe que ele parecia um agente do FBI com aquele casaco. enroscada na larga camisola de lã grossa. Por um breve momento. por fim. ele despira a camisola e tapara-lhe os ombros com ela. à medida que o calor cedia lugar a um pôr do Sol de cor púrpura. tinha atenuantes a seu favor. Três horas antes. minha linda. pois nunca fora do género de dar risadas por tudo e por nada.Que noite magnífica! . .O xerife Hayes é um bom amigo... Contudo. retomando o ar sério.O Luke não sabe calar-se .. Fico feliz em saber que também os há no Oregon. E 94 .Primeiro.retorquiu Rainie com um esgar. . . Tristan foi buscar um btazer azul-escuro ao porta-bagagem para se aquecer. . felizmente para eles. o fim ideal para um dia maravilhoso. Depois. . Um dia que Bethie não queria que acabasse. Nesse momento. mas Bethie achara-lhe qualquer coisa estranha.

Ah! É a velha e boa.São sim os dobermans que habitualmente se encontram por detrás delas. .Bethie. Betty Wilson. .inquietou-se Bethie. por outro lado. Se avistar faróis. quando basta escalar uma rede de arame. .Um cemitério de automóveis sem um cão de guarda? Seria a primeira vez que via tal coisa. . O director da Sociedade Protectora dos Animais já apresentou queixa duas vezes contra o dono disto por maus tratos contra os animais. . É muito frequente entre esta gente. pondo-se a assobiar o tema de O Feiticeiro de Oz para mostrar a sua admiração.Não são as redes de arame que me assustam . Virgínia O cemitério de automóveis estava mergulhado na obscuridade.. 110 . não vejo porque não havemos de dar uma vista de olhos a esse jipe. . mas.replicou com um ar demasiado teatral.Tenho a impressão de que não estamos sós . Agora. O desconforto da situação acabou por fazê-los parar.Quando telefonei esta tarde .nem sequer o vira tomar qualquer medicamento.Nunca pensei que o Vince Amity tivesse pinta de assaltante exclamou ela. .Não há cães. Rainie sentiu-se impressionada. Bethie passou o braço à volta da cabeça de Tristan e beijou-o na boca. Já verifiquei antes.exclamou Rainie. 111 95 . mergulhe de cabeça. Não têm o mínimo desejo de que ele seja confiscado como objecto de um inquérito policial. . sendo apenas impedido pela alavanca de velocidades.Vem comigo! .Julguei que nunca mais me pedias. Tristan pousara despreocupadamente o braço nas costas do assento dela e Bethie aproximou-se mais. Quando compram um carro. Ele não ofereceu resistência e tentou mesmo apertá-la mais. . virando a cabeça para todos os lados. Os olhos de Tristan ficaram novamente mais escuros. .Não vejo ninguém . ele assinou contrato com uma empresa de segurança que faz rondas por aqui de hora a hora. . é sempre para o desmontar e vender novamente. Comprende-se.murmurou Tristan.Acontece.Fixe! .Os teus vizinhos. quase inquietante.pronunciou ele num tom rouco. . . mas Vince Amity pensara em tudo. . Tinha trazido duas potentes lanternas e depois prendeu um estranho saco cheio de ferramentas à volta da cintura. Passa o tempo a observar-me. o proprietário não me pareceu muito cooperante. Bethie sentiu que queria estar com ele e surpreendeuse com a violência do seu próprio desejo. Já era altura de ter algo a mostrar-lhe. . Ela adorava quando lhe via aquele brilho intenso.O quê? Onde? .garantiu Rainie. Por trás da cortina.Sorriu. ..redarguiu Vince com um encolher de ombros -.

. Continuaram em silêncio. verificavam qual era o modelo.assobiou Amity.Que horror! .É irónico andarmos a procurar um Explorer como se se tratasse de uma agulha num palheiro.E os passageiros foram provavelmente decapitados com o choque . Os veículos mais recentes encontravam-se um pouco mais longe. o carro levantara-se. antes de levar a mão à boca para abafar um grito. . aguardando em longas filas que alguém decidisse o seu destino. chegaram junto aos restos do que fora um carro e Rainie recuou ante o odor insuportável a sangue seco. O jipe esmagara-se contra o poste a mais de cinquenta quilómetros à hora. Vince Amity fez incidir o feixe da lanterna numa carrinha de quatro portas que se transformara à força num descapotável. 96 . dada a paisagem actual.gemeu Rainie. mas. O tecido dos assentos que havia sido azul apresentava-se coberto de sinistras manchas acastanhadas. demasiado próximo do descapotável ensanguentado. fingindo não se ter apercebido do tom de preocupação na voz do companheiro.Merda! . .Separamo-nos? . escalada a rede de arame. Um pouco mais adiante. . Um ruído de motor quebrou bruscamente o silêncio.Julguei que um jipe não seria difícil de encontrar.Esta deve ter-se enfaixado num camião . com a ajuda das lanternas.Cinco minutos depois. . Esconderam-se de imediato por detrás de uma montanha de carroçarias retorcidas. Sempre que se aproximavam dos restos de um jipe. Estava uma noite de lua cheia e viase como se fosse de dia. que Quincy lera dezenas de vezes. . o que levou Rainie a tapar o nariz para não vomitar. . afastando-se a toda a pressa. acho que fui um tanto convencida. A ronda da empresa de segurança. antes de prosseguir a sua busca interminável. . Rainie assentiu com a cabeça. Ante a violência do embate. passeando os olhos por um espaço que correspondia a dois campos de futebol a abarrotar de carros de sucata e montanhas de pneus. mas o espesso silêncio que reinava à volta deles e as sombras ameaçadoras das carcaças de automóveis teriam bastado para dissuadir os mais temerários. O volante tinha amortecido o choque e a coluna de direcção dobrara-se como estava previsto. projectando a infeliz para a frente.concordou ele. contornando carroçarias enferrujadas e comprimidas e montanhas de pára-choques.comentou Amity. Pensou novamente no relatório redigido no dia seguinte ao do acidente de Amanda.Não.O gosto americano pelos automóveis gigantescos . deambulavam tranquilamente pelo meio de um oceano de automóveis. A dado momento.exclamou. a fim de entender as circunstâncias da tragédia.

113 . Amity munira-se também de um canivete. . começando por desmontar o encaixe do cinto de segurança do lado do condutor. O carro de Amanda Quincy assemelhava-se a uma cabeça de peixe morto.O pára-brisas? . . indicando que não eram os primeiros a abri-lo. Toda a parte traseira do Explorer fora cortada à serra. As portas e os bancos haviam desaparecido. Por fim.Acho que descobri a maneira de identificar facilmente o Explorer . como devia ter feito. Apressemo-nos . sorrindo de forma obscena sob o olhar imperturbável da Lua. para bloquear mecanicamente o cinto. juro que vou verificar todos os cintos antes de redigir um relatório de um acidente de automóvel . mas a ideia de Rainie não tardou a provar-se eficaz. permitindo que Amity e Rainie se endireitassem.Sim. .murmurou Amity.Se ela tivesse levado o carro à garagem. com o pára-choques esmagado e a frente escancarada. regra geral. na situação presente. Rainie testou o mecanismo mais uma vez e constatou a sua inutilidade. virouse para o companheiro com uma expressão sombria: o encaixe de protecção do cinto apresentava riscos perfeitamente visíveis. Ao cabo de uns instantes.sugeriu Rainie. . o carro da segurança afastou-se.comentou Amity. provavelmente para ser aplicada num jipe com uma frente em bom estado. Estendeu o torniquete a Rainie e lançaram-se em silêncio ao trabalho. pondo a descoberto um mecanismo de enrolar a correia equipado com duas cavilhas: uma grande e uma mais pequena para o caso de a primeira não funcionar. Rainie pousou a lupa e agarrou no canivete de que se serviu para abrir o encaixe.Que coisa sinistra. A resposta poderia parecer horrível. uma chave de fendas.. Rainie aproveitou a luz da lanterna dele para examinar o encaixe com a lupa. . A carroçaria. . bem como os pneus. mas nunca se sabia. tal como constava do relatório de investigação de Amity.Doravante. Rainie verificou que o fecho não funcionava..murmurou ela. à maneira do monstro de Franfcenstein. a primeira fora limada e a mais pequena arrancada. Decerto não havia perigo de deixar impressões digitais. as duas cavilhas serviam. mas. o mecânico 97 .112 protegendo os órgãos internos.Sim. ao mesmo tempo que a parte de cima do crânio se enfiava no metal e o vidro do pára-brisas lhe desfazia os ossos do rosto. quatro sacos de plástico e uma lupa. o que dela restava. Durante um choque. ou melhor. O polícia abriu imediatamente a bolsa de onde tirou dois pares de luvas. um torniquete. mas nada pudera impedir que o tronco de Amanda se esmagasse contra o painel. Encontraram finalmente os restos verde-escuros do jipe ao fundo do cemitério de salvados.

mordendo o lábio inferior com o sobrolho franzido..Acho que é mais complicado do que isso . Amity já se aproximara e. passado um momento. Não acredito. Ninguém se diverte a montar um plano tão elaborado sem a certeza de que dará resultado. Os amigos da vítima sabem que ela costuma conduzir em estado de embriaguez. na esperança de que tenha um acidente. 114 . . o mecanismo funcionava na perfeição.concluiu Rainie. Mas é claro.acrescentou. . Puxou o cinto com força e este bloqueou de imediato. apontando com um dedo um sítio onde as fibras do tecido do cinto se haviam esticado uns centímetros. trata-se de um delito menor. . devido ao peso do passageiro no momento em que o jipe se enfaixara no poste telefónico. mesmo assim.replicou Rainie.. iluminou Rainie para que ela pudesse examinar com a lupa o material do cinto. é estranho. pensa-se simplesmente que teve a sorte que merecia e não se fazem muitas perguntas.A menos que o tipo estivesse muito atento. . Porquê esperar tanto tempo depois de ter inutilizado o cinto? No seu lugar.Num caso destes. mas.Cá está! . acabará por se verificar em qualquer outra ocasião. por conseguinte. com a lanterna na mão. de impedi-la a todo o custo de ir ver o que se passava com o carro.Filho-da-mãe . habitua-se a não o colocar e.Talvez a própria Mandy o tenha feito dezenas de vezes na vida. Contudo. . Rainie pegara na lupa e dera a volta ao carro destruído até ao lado do passageiro.verificaria logo o problema . Se não acontecer da primeira vez.É verdade . como se provaria quem avariara o cinto umas semanas antes do acidente? Só nos resta descobrir quem a levou a beber. ninguém se preocupa em verificar o mecanismo do cinto.As hipóteses de ela ter um acidente antes de mandar arranjar o cinto eram bastante reduzidas. . Obviamente! . talvez ande a ver televisão a mais.Mas.murmurou entre dentes.O nosso indivíduo teve. . Quanto a deixá-la pegar no volante do carro em estado de embriaguez. . . como ela já era maior.concluiu Amity.murmurou Raime com o olhar perdido no vazio -.exclamou ela. Ela percebe que o cinto está avariado. nada impedia o culpado de lhe servir álcool. diz-se apenas que a rapariga era uma idiota. . O suspeito arranja uma maneira de a levar a beber antes de a mandar para casa. . no dia em que tem um acidente depois de ter bebido.Uma encenação perfeita . mas comigo não pega.Mesmo assim é arriscado . Do lado do passageiro.Acredita mesmo nisso? Quando se pensa na quantidade de pessoas que conduzem embriagadas diariamente e nunca lhes acontece nada. -.Não necessariamente.Cá 98 .concordou Amity. Pense nisto: mesmo que se desse logo por isso. . arranjaria forma de provocar o acidente nesse mesmo dia. .O assassino planeou tudo e quis proteger-se . raios! Somos uns idiotas! Antes que Vince Amity pudesse recompor-se.

mas a pessoa tinha desligado. A sua alegria foi de curta duração. . A oeste nada de novo! Tristan aproveitou para fechar a porta atrás dele e trancá-la. . 99 . Olhou de relance para o atendedor de chamadas e ficou surpreendida ao ver que indicava oito novas mensagens. pensando na manhã seguinte e no pequeno-almoço que tomaria com Tristan na cama.Meu pobre Quincy! . . esperando que a empregada tivesse limpo o pó às garrafas de cristal. . . Bethie pousou o cesto de piquenique na entrada. Pensilvânia No instante em que Bethie abriu a porta de casa.suspirou com um nó na garganta. Há quanto tempo não preparava uma omeleta.Tenho uma coisa urgente para falar contigo . Sobre a Mandy.concluiu num tom vitorioso. vê psicopatas e assassinos em série por todo o lado. Mais um indício de que estava a começar uma nova vida. A primeira chamada ficara registada às sete e dez dessa manhã. Bethie indicou-lhe o pequeno bar na sala de jantar. . o nosso acordo de divórcio obriga o meu ex-marido a garantir a minha segurança e a das nossas filhas até ao fim dos seus dias.dizia a voz do ex-marido. Há quanto tempo não bebia xerez? Uns cinco anos.Que sistema tão sofisticado! . começou por desactivar o alarme por meio do código e verificou na memória do sistema se tudo estava em ordem à volta da casa. Mas o Quincy não se importa nada com essa condição. À quarta.perguntou. Uma nova chamada sem mensagem e mais outra. um pequeno sinal assinalou a presença do alarme. Como era seu hábito. era como se tivesse renascido. Pôs-se a cantarolar. Transpôs a ombreira e dirigiu-se à caixa de comando. pelo menos.Talvez tenhas razão. Tens xerez? Aproveito para servir uma bebida para nós.Acredites ou não. reconheceu a voz de Pierce que lhe telefonara pouco depois do meio-dia. panquecas ou crepes Suzette? Quando fora a última vez que começara o dia sem uma tosta que se limitava a ensopar no café? Aquele passeio com Tristan fora maravilhoso.Fica à vontade. Para Bediie. fazendo sinal para o mostrador digital. pois avaliou rapidamente as implicações da sua descoberta. pois.está a prova de que havia alguém ao lado da Mandy! .Desculpas-me um instante? . 15 Society Hill. 116 Agarrou num caderninho que estava ao lado do atendedor e carregou no botão. .comentou.retorquiu Tristan. Teria tempo de se ocupar dele mais tarde. . Bethie acabara de partir com Tristan.Nunca é de mais desconfiar . à força de se ocupar de tantos crimes abomináveis.

Elizabeth Quincy. esperava agora o pior. quem és tu? .. Tristan pousou lentamente os dois copos com xerez numa mesinha. tentei contactar-te o dia inteiro. mas tens essa cicatriz. Foge. Hoje. cada vez mais nervosa.Quem. Três novas chamadas sem mensagem. Agradeço que me ligues para o telemóvel assim que ouvires esta mensagem. Bethie ficou petrificada. Conseguiste finalmente surpreender-me. torturados. .Mas então. minha querida Bethie.. Contudo.Mas. O problema com as mulheres é que. fiz uma investigação sobre ele e essa pessoa não existe.. . Pelo menos. fitava-a com um olhar estranho. registada às oito horas e dois minutos da noite. mas era demasiado tarde. . uma agulha e um pouco de linha. com dois pequenos copos de xerez na mão.vou dizer-te uma coisa. Bastou uma lâmina esterilizada.Espanta-me a tua inconsciência. de pé na ombreira da porta. Tentou desajeitadamente desligar o altifalante do atendedor. desfigurados. claro. insistem em ver apenas o que querem ver. parecendo muito calmo. toquei-lhe! Não pudeste inventá-la! gritou num tom muito próximo da histeria. um pouco inquieta. encontrara as filhas a examinarem. pensou Bethie. Telefona-me com urgência. é outra história. A última mensagem. conhecias a Mandy! Por isso sabias o meu diminutivoe usavas as mesmas expressões que ela! 117 . 100 .De facto. quando estão apaixonadas. Recordou subitamente todos aqueles dossiês horríveis que Pierce costumava trazer do trabalho. Gosto sempre de dar uma pequena chance ao adversário.Pediste ao Pierce que fizesse uma investigação a meu respeito? Muito pálida. estou muito preocupado.Elizabeth.replicou ele. Tenho coisas muito importantes a dizer-te. estava na sua casa e não sabia para onde ir.. .. pilhas de fotografias a cores de corpos mutilados. Além de que precisamos absolutamente de conversar sobre esse Tristan Shandling de que me falaste. limitou-se a assentir estupidamente com a cabeça.. Não pode deixar-se nada ao acaso. Para ser franco. . Vi-a. Viste-me tomar algum comprimido hoje? E nunca te interrogaste como é que o meu belo rim novinho em folha poderia filtrar uma tal quantidade de champanhe? Contudo.. Tristan. A uma delas haviam mesmo arrancado os seios.Fi-la no próprio dia em que permitiste que desligassem o ventilador da Mandy. provinha novamente de Pierce. Foi fácil. com um ar aterrorizado.Bethie franziu as sobrancelhas. Queres ver a minha carta de condução? . deixei-te algumas pistas. . Sentia tudo a andar à roda e teve de amparar-se à parede para não cair. seja a que hora for. Um dia. Depois. não a inventei .. Bethie. .Não me reconheces? Sou o agente especial Pierce Quincy.

Aconteceralhe 118 mesmo sonhar com a mãe. com a tua personalidade de mãe galinha. foge! Greenwich Village.Foge.murmurou ele. Outras vezes.O Pierce tem um cargo muito importante no FBI. por mais gestos que Kimberly fizesse.Espero bem que sim. como evitar ter pesadelos outra vez? Por vezes. Preferia esperar que um dia te lançasses nos meus braços.. não compreendo. Nessa altura. no entanto. Sabes. Nova Iorque Kimberly Quincy acordou sobressaltada a meio da noite. . Bethie dançava num grupo de bailado. Em seguida. calçando as luvas. Não tinha obviamente nada a ver com isso. é tarde de mais para lamentações . Por fim. 101 . não ficava sozinha no pequeno apartamento. mesmo que voltasse a adormecer. Sonhos terríveis. tinha a T-shirt encharcada de suor e. Bethie. não tencionava terminar tão depressa a nossa bela história de amor. possessiva. Sentou-se à mesa da cozinha. acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira e dirigiu-se à cozinha às apalpadelas..Suplico-te! Não faças mal à Kimberly! Deixa a minha filha em paz! . Não te safarás assim tão facilmente! Ele esboçou um pequeno sorriso e tirou do bolso um par de luvas de cabedal preto.Infelizmente. Também a Mandy te odiava. resultantes de um subconsciente aterrorizado.. . Para ser sincero. O som acalmou-a. Mandy ia a conduzir o Explorer e Kimberly tentava desesperadamente arrancar-lhe o volante das mãos. mas. tentando em vão juntar-se ao pai. Bobby andava com uma nova namorada e nos últimos tempos ficava muitas vezes fora. E. Bastava-lhe levantar o auscultador para ligar à mãe ou ao pai e solucionar de uma vez por todas os problemas que a atormentavam. abria-se uma fenda no meio do palco e a mãe desaparecia bruscamente. embora abafada. a fim de acalmar as batidas do coração. Sufocava. tremia de frio. mas Kimberly gostava mais que ele estivesse presente. teimosa e estúpida. Aproveitaria para te dizer até que ponto ela te odiava.Estou-me nas tintas para que compreendas ou não. Foste tu. . explicando-me o que acabava de acontecer à tua pequena Kimberly. acrescentou: . Bethie. Pelo menos. nunca foi o pai que as traumatizou. a tua pequena Kimberly. Esforçou-se por controlar a respiração. O seu companheiro de apartamento tinha a porta fechada. corria até ficar sem fôlego através de um interminável túnel escuro. mas ouvia a respiração regular de Bobby. vestida com um tutu branco imaculado. Apenas se recordara de que vivera um pesadelo horrível. engolida pelo chão. minha querida Bethie! .Não. sabendo de antemão que não conseguiria pegar novamente no sono tão depressa. Kimberly pousou os olhos no telefone. a mãe nunca olhava na sua direcção.

o advogado misterioso que a perseguia há dois dias? Talvez se tratasse de algo pior. pensou Rainie. Pensilvânia Rainie estava muito agressiva quando chegou a Filadélfia duas horas depois. O mostrador luminoso do despertador indicava três horas da manhã. mas a precaução fora inútil pois outros três carros oficiais aproveitaram para estacionar no local que eles haviam deixado livre. Ignorara todos os limites de velocidade e as regras mais elementares de cortesia na estrada. Tratava-se certamente das equipas do FBI. na casa da Bethie. e todos tomavam consciência de que o dinheiro apenas fornece uma barreira efémera contra a violência e a morte. Só voltou para a cama uma hora depois. Virgínia No regresso da sua expedição ao cemitério de automóveis na companhia de Vince Amity. fitou o aparelho. interrogando-se sobre quem poderia ligar-lhe àquela hora: Quincy. bebendo maquinalmente um café entre dois bocejos.vou já . estou em Filadélfia.Rainie. Era Quincy. Provavelmente o dos agentes da Brigada de Homicídios. atrás de três carros-patrulha e de um automóvel vulgar.respondeu simplesmente Rainie. Generais a mais e soldados a menos. . Intrigada. observaram-na com um ar circunspecto da entrada das suas casas luxuosas. Parou o carro um quarteirão mais adiante e chegou à casa de Elizabeth quando o dia começava a clarear. Todos denotavam uma expressão receosa. completamente esgotada. interrogando-se sobre como Quincy estaria a reagir. a escutar o silêncio da noite. Não teve qualquer dificuldade em encontrar a bonita casa de Elizabeth Quincy. . Tinham tido a feliz ideia de estacionar igualmente em cima do passeio para permitirem a circulação. mas atendeu. vestidos com roupões de seda e gabardinas Burberry. Ao chegar à residência de Bethie. Motel 6. como em qualquer vulgar complexo de apartamentos. bloqueando momentaneamente o trânsito. 16 Society Hill. Rainie enfiou-se na cama no preciso instante em que tocou o telefone. A carrinha branca do médico-legista encontrava-se estacionada em cima do passeio. Rainie mostrou a sua licença de detective ao jovem agente que estava encarregado de vigiar o local do crime. as casas encontravam-se pegadas umas às outras. supostamente de uma grande tranquilidade. ou então Carl Mitz. Apesar da opulência discreta do local. Um dos moradores acabava de encontrar a morte num bairro burguês. Ela foi assassinada. mas não esboçou qualquer gesto e deixou-se ficar deitada sobre a mesa da cozinha.Não era a primeira vez que a invadia a tentação de lhes telefonar. 102 . Alguns vizinhos. em Society Hill: bastou-lhe seguir a panóplia de luzes que iluminavam o bairro.

.. na verdade. a fim de lhe dar uma ideia das circunstâncias da 103 . Havia. Desapareça.Seja como for. Os técnicos afadigavam-se à volta de uma mesa de nogueira com tampo encerado em busca de impressões digitais. ..esclareceu prontamente. que me telefonou esta noite e me pediu que viesse aqui e também porque não deves querer começar o dia a levar um pontapé no eu de uma bonita jovem.redarguiu com uma expressão ave e o sobrolho franzido. .Não se pode entrar . . O agente ergueu relutantemente a protecção de plástico que delimitava o seu reino e Rainie dirigiu-lhe um sorriso sedutor. e sentiu-se.Trabalho para o agente Pierce Quincy do FBI . Meu Deus. De pé.Se quiser seguir-me. Glenda Rodman entrou na sala de jantar e Rainie foi atrás. 120 Falas assim com a tua mãe? .declarou. enquanto outros dois agentes enrolavam com todo o cuidado um tapete oriental. Glenda parou novamente e Rainie compreendeu que ela avançava por etapas.Deixe-a passar e não se preocupe. .Simplesmente porque trabalho para ele. a fim de ser enviado para o laboratório. . Foi tudo o que lhe ocorreu. A mesinha da entrada fora derrubada. mas a estupidez das pessoas resmungou Rainie. agoniada..Vais fazer-me o favor de ir procurar o Lente especial Quincy e informá-lo de que a Lorraine Conner o aguarda. de imediato. humilhada por ser apanhada de novo numa posição de fraqueza. . sangue por todo o lado: nas paredes beges e nos quadros e em grandes poças espalhadas pelo soalho e nas preciosas alçatifas da infeliz Bethie.Agente! O jovem polícia virou-se.Não é a hora que me incomoda. Serve-te como explicação? . antes de retomar a expressão de circunstância. pensou Rainie. O cheiro a sangue era insuportável logo à entrada da porta. na ombreira da casa. não faço tenção de começar o dia a obedecer às ordens de uma. .. o atendedor de chamadas atirado pelos ares contra um espelho antigo de moldura dourada e os estilhaços de vidro de uma garrafa partida explicavam o cheiro adocicado do álcool à mistura com o da morte. Usava o mesmo fato cinzento da véspera.Por alma de quem? . mas tinha o cabelo preto um pouco mais desalinhado devido à pressa com que acorrera.O agente Quincy pediu realmente a presença de Miss Conner . a agente Glenda Rodman fez-lhe sinal. Glenda Rodman parou para lhe deitar um olhar quase compreensivo e Rainie teve consciência de que o pior estava para vir. . porque ela está sempre de mau humor a esta hora da manhã. a ficha do telefone arrancada.E eu sou o Pai Natal.limitou-se a declarar Glenda ao polícia. . Rainie nem sequer se preocupou com esse tipo de pormenor.

. surpreendida no momento da chegada a casa. ferida.tragédia. Acabara. 121 Bethie fora atacada na entrada. Bethie deveria ter agarrado numa caçarola ou em qualquer outro objecto pesado. A delicada Elizabeth atacada. Mais algumas manchas de sangue na parede do fundo. tenta defender-se. Ciente de que a batalha estava de antemão perdida. enfraquecida pelo sangue que perdera. Na medida em que já se vira confrontada com uma situação idêntica na altura da matança na escola de Bakersville. Corre para a sala de jantar. sem dúvida. Pobre. resolvida a tentar tudo por tudo. Rainie sabia até que ponto se torna difícil impedir as equipas de socorro e 104 . Glenda e Raime seguiram-nas até à cozinha e descobriram um conjunto de facas espalhadas no balcão forrado de mosaicos. e siga as marcas do chão. explica-se que a grande maioria das mulheres que procura defender-se com uma faca de cozinha acaba por ser morta com a própria arma. tentando inutilmente refugiar-se na cozinha.A partir daqui . por favor. alguém agarra num candeeiro cujo abajur está caído no chão um pouco mais à frente e em cuja base há vestígios de sangue e madeixas de cabelos. Cabelos dele? Dela? Tudo depende de quem agarrou primeiro no candeeiro.que procurava freneticamente as lâminas mais afiadas. Bethie não fora uma vítima fácil. a menos que o agressor tivesse querido prolongar o prazer. O instinto de sobrevivência é sempre o mais forte. Ali. atributos mais adequados a um homem. é preciso ser hábil. preste atenção. Para se defender eficazmente com um objecto cortante. Rainie via a cena com uma crescente clareza. Devia ter resistido. ele ou ela. onde alguém recebera uma terrível pancada. procurara vender cara a sua vida. ter força e o braço mais comprido que o do adversário. quem chegara primeiro? . pois a mancha de sangue estendia-se para além do balcão. capaz de fazer recuar o adversário. Demasiado bem-educada para saber que as mulheres nunca lutam com facas. Rainie não reparara numa fita adesiva colada no chão em ziguezague e atravessando toda a casa.mais uma vez. o assassino servira-se de uma faca ou de qualquer instrumento cortante. Muito provavelmente. Rainie imaginou o filme dos acontecimentos: Bethie. por compreendê-lo depois de ficar encurralada contra o balcão da cozinha. pobre Elizabeth. A julgar pelo formato das manchas de sangue. As mais pequenas tinham sido atiradas ao chão por alguém .murmurou Glenda Rodman -. Elizabeth. afasta as mais pequenas com um gesto desajeitado. Pegadas ensanguentadas atravessavam a sala de jantar. Nas escolas de polícia. mas era tarde de mais e escorregara até ao chão. enlouquecida pelo terror. Avista as facas de cozinha. agarrando-se desesperadamente às maçanetas dos armários. Ainda podia ver-se a marca da anca e da perna no lugar onde caíra. como o indicava uma enorme mancha de sangue no chão.

reagiu de imediato Rainie. . . Mãos ensanguentadas tinham deixado uma quantidade terrível de impressões digitais. . inquieto por não conseguir contactar a ex-mulher por telefone. . Também ali os espelhos tinham sido estilhaçados. evitando olhar a jovem mulher de frente.O Quincy passou por aqui? . .. Rainie evitou olhar para a cama ao dar-se conta de que o assistente do médico-legista. Meu Deus. -Várias vezes. Pedimos que nos fornecesse um relatório pormenorizado logo que possível.Mas. .Uma das teorias? . espalhando uma chuva de penas sobre a alcatifa. as impressões digitais são pequenas de mais para poderem ser dele.Afirma que chegou pouco depois da meia-noite. os apliques arrancados das paredes e o telefone atirado ao chão. .O que quer dizer com isso? Glenda Rodman hesitou um momento antes de responder. que formavam Desenhos sórdidos nas paredes. pensou novamente Rainie. ocupado com qualquer tarefa sórdida. Aprendera à sua custa.O antigo proprietário da casa era um pianista ..explicou Glenda. .Nesse caso.Não são dele .redarguiu a agente num tom neutro. Os frascos de perfume de Bethie também tinham sido partidos.O Quincy.sugeriu Rainie num fio de voz.Achamos que isto é obra do assassino depois de ter morto a vítijpa comentou Glenda. 105 .os técnicos de destruírem eventuais pistas. . 122 Seguiu a marcação nos bicos dos pés até ao vestíbulo. onde havia utras manchas de um vermelho-escuro.O Quincy?! Mas ele estava aqui? ..A propriedade está equipada com um sistema de alarme extremamente sofisticado. . Preferiu examinar o resto da divisão. quem chamou a polícia? . As duas mulheres chegaram finalmente ao quarto de Bethie. que não disparou. .Estamos a tentar averiguar junto da empresa de segurança. As almofadas haviam sido esventradas. um ano antes. foi necessário isolar completamente as paredes para deixar de incomodar os vizinhos.Como é que ninguém chamou a polícia? .Afirma? . . deixando uma curiosa mistura com o odor a sangue.Descobrimos um vidro da janela partido na casa de banho principal proferiu por fim. que era indispensável isolar os sectores a proteger.Uma das teorias é a de que o assassino entrou furtivamente na casa ao começo da noite e esperou que Mistress Quincy regressasse.Os vizinhos devem ter sido alertados pelo barulho .O alarme tinha sido activado? . estava prestes a vomitar. .Há vinte anos. . .perguntou Rainie de imediato.

. antes de se aproximar de Rainie.Não é meu hábito fazer confidências à primeira pessoa que aparece quando estou a investigar um caso. mas procurando não elevar a voz. não há problema. Pelo meu lado.Quero vê-lo.. Olhou de relance para o médico-legista e assistente. Miss Comer . para mais tarde recordar: um desfile de jovens. um elegante banquinho forrado de lilás.. passei o dia a escutar metade dos psicopatas deste país a deixarem-lhe mensagens obscenas no atendedor. ou seja. a julgar pelo papel de parede amarelo-claro com florinhas rosas e lilases. o FBI dá-lhe todo o apoio.disse.Claro que não. Rainie cometeu o erro de olhar para a cama e julgou que ia desmaiar.Ouça. ao vê-la ficar branca como a cal da parede. siga-me.Se os investigadores da polícia de Filadélfia estiverem de acordo. muito menos tratando-se de qualquer pseudo-agente. . No momento em que ia a transpor a ombreira da porta.indagou Rainie de cenho franzido.Uma treta! . . Glenda Rodman respondera num tom firme. minha querida. Até agora. 124 O mais alto dos dois inspectores instalara-se como pudera no único assento do quarto. mas ainda existem leis neste país.Ignoro se está ao corrente. que foi atacad por um familiar .Mas o FBI pode chamá-la à razão. Quero falar-lhe. .Claro que não. Quincy encontrava-se retido por dois inspectores à paisana que o interrogavam numa das raras divisões da casa poupadas à carnificina. .E pensam que esse alguém é Quincy? Suspeitam que ele possa ter assassinado a ex-mulher? . .Onde está o Quincy? .Se bem entendi. Mas vou mesmo assim darlhe um conselho: se é amiga do Quincy. o retrato de um colega. . Temos perfeita consciência de que este caso não é tão simples como parece. há uma segunda teoria. Noutras circunstâncias. obrigando o 106 . .O Quincy vai precisar de nós . Encostado a uma das paredes havia um toucador branco encimado por um espelho oval coberto com fotografias.123 .Então.explodiu Rainie. Rainie teria achado a cena divertida. um instantâneo do baile de finalistas. Glenda deu meia volta na direcção da entrada. Um raminho de flores secas pendia de uma fita sobre o rebordo do espelho e animais de peluche de todas as cores estavam alinhados sobre o tampo do toucador. . não é verdade? . mas nada nos indica que a polícia local vá reagir da mesma forma. ele vai precisar de si. a cama tapada com um edredão da mesma cor e um romântico dossel com cortinas de musselina. .limitou-se a repetir Glenda. O quarto pertencia a uma das filhas.

Quincy. 125 Não havia dúvida de que AIbright era o cérebro e Kincaid as pernas. . algures entre este local e a Virgínia. Testemunha hostil. soltando um enorme suspiro. . Rainie virou-se para o colega dele. Como já disse.pronunciou calmamente. O indivíduo tinha umas sobrancelhas grossas que se uniam por cima do nariz e formavam uma linha à altura da testa. depoimento evasivo.apresentou-se este último.Albright .Talões de portagem? . Lorraine Conner . Mistress Betty Wilson. .Pela lógica. convencidos de que se tratava da advogada de Quincy.A que horas chegou aqui? . . acentuando o contraste entre o seu aspecto de homem das cavernas e as roupas citadinas. . Os rostos viraram-se na sua direcção.Não me ocorreu pedir talões. estendendo a mão com um ar decidido. . altura de passar a coisas sérias. Os dois inspectores.Meus senhores . Rainie aproveitou o momento para interferir.A vizinha. onde moro. estava no meu carro. um homenzinho com uns olhos azuis cortantes.Tem testemunhas? . estava longe de pensar que iria precisar de um álibi. Quincy tinha-se sentado na cama de dossel com a perna encostada a uma almofada amarelo-claro amachucada.Onde estava às dez? . pensou Rainie. afirma que viu a vítima regressar a casa por volta das dez horas na companhia de alguém que corresponde à sua descrição.Quem é você? . ninguém. Nesse momento.respondeu. . Rainie aprendera a desconfiar dos polícia baixos com um ar insignificante. . Os dois inspectores trocaram um olhar cúmplice. ao mesmo tempo que a observava dos pés à cabeça. sentindo um aperto no coração ao olhar o rosto desfeito de Quincy. nem sequer reagiu. não olhei para o relógio. ainda em estado de choque após a visão de horror dos restos do corpo da ex-mulher em cima da cama.colega a ficar de pé.Apenas posso garantir que não estava aqui às dez da noite. O homem das cavernas apertou-lha de má vontade e uma força bruta.perguntou o inspector que se mantinha sentado.Pouco depois da meia-noite. apertando-lhe por sua vez a mão.À excepção do meu carro. . Repito-lhe que só cheguei depois da meia-noite. São geralmente os 107 . inspector. não dissimularam a irritação sentida.murmurou entre dentes. .Inspector Kincaid .O que acha? O meu nome é Conner. .gritou o homem das cavernas. A Gestapo de visita a Loura Ashley. . .

AIbright continuou a interrogar Quincy. Rainie aproveitou-se do efeito produzido para prosseguir num tom decidido: .Segundou explicou.É verdade . surpreendeu-se.Não.Não se esqueça de que se trata do ex-marido da vítima. . . estava preocupado com ela.. Glenda Rodman observava a cena com um pequeno sorriso.. instalando-se em cima da cama. . em Nova Iorque? .mais perigosos.redarguiu AIbright sem pestanejar . . .Tem direito a qualquer herança? .Oito anos.que está ao corrente dos oito telefonemas feitos pelo agente Quincy à ex-mulher nas últimas vinte e quatro horas? .Suponho .indagou Rainie.concluiu Rainie.Trata-se de uma compra fraudulenta efectuada por um desconhecido que se fez passar pelo agente especial Quincy. virando-se para Quincy. O detective da Brigada de Homicídios marcara um ponto. temos em nosso poder o registo do veículo em causa no nome de Mister Quincy.interferiu Quincy num tom calmo. O número do seu telefone privado foi divulgado entre detidos em várias penitenciárias do país. certamente.Não. 126 . . . como se a sua presença fosse natural. Evitando dar-lhe uma resposta directa. .Sabem. a afirmar que um agente do FBI é suspeito . virando-se novamente para o inspector mais baixo.Senhora advogada. da ombreira. . . . como pode ser confirmado pela agente Rodman.Confesso que me é difícil entender o que poderia ter levado o Quincy a assassinar a ex-mulher . olhando AIbright fixamente.Confirma que comprou um Audi TT vermelho há duas semanas. por acaso.respondeu Rainie em lugar dele. .declarou Glenda. .perguntou Rainie. informar-me-ia antes de ir mais longe.Por que motivo? Há oito anos que estavam divorciados.Algum processo em curso contra a Elizabeth Quincy? . que o agente especial Quincy está a ser alvo da perseguição de um desconhecido. 108 . aqui presente. .A tentar verificar o álibi. .Em que ponto estamos? .A Elizabeth tinha-me pedido que fizesse uma investigação sobre uma pessoa .Estão. Na ombreira da porta. ê FBI já se encontra ao corrente e está a investigar a ocorrência.Não .Há quanto tempo estavam divorciados? . No vosso lugar.

consciente de que a sua falsa compostura poderia levá-lo a afundar-se aos olhos dos dois polícias locais. Dada a sua incrível capacidade para dissimular emoções.replicou o inspector Albright. Um tipo com ciúmes da ex-mulher. o que era demonstrado pelos punhos cerrados. nada vejo no agente Quincy que possa permitir associá-lo a este crime.Não tenho a mínima ideia. era tarde de mais.interrompeu-o Quincy secamente. . sem lhe perguntar nada? .Também não sei. demasiado profissional..Então. . Observem o estado da casa após esta horrível carnificina.Rainie teria preferido que ele continuasse calado. inspector. Não acham estranho? . Contudo.Que nome é que ela lhe indicou? . faz uma investigação a pedido da sua ex-mulher. Quincy parecia demasiado composto.Como? . .Tristan Shandling. habituado aos crimes mais monstruosos.Não duvido do interesse desta conversa às cinco da manhã. que é um modelo de consciência profissional.Vida privada? Suspeitou.comentou o homem das cavernas. os sapatos estão impecavelmente engraxados.Não disse isso . A sua reacção não escapou a Albright.. há oito anos que estamos divorciados. Em vez disso.declarou num tom brusco. então. Não há a mínima dúvida de que aqui ocorreu uma luta feroz. . pensou Rainie. sobretudo depois do que me acontecera. Eis o móbil de que precisavam.Você. Teria dado tudo para poder abraçá-lo. . . .De onde é que ela o conhecia? . .Como teve a delicadeza de me recordar. fiquei preocupado com ela. Não tem o mínimo vestígio de sangue na roupa.Meus senhores .quis saber. Pessoalmente. .Deve ter aprendido com o O. mas tenho a impressão de que estão a ignorar o óbvio. J.Há quanto tempo o conhecia? . Nada tenho a ver com a sua vida privada. . . Conhecia-o bem e sentia a raiva surda por detrás daquele desprendimento simulado.Olhem à vossa volta. Quanto ao homem das cavernas reagiu de imediato com a habitual subtileza. franzindo o sobrolho. . 127 Rainie suspirou e procurou apoio por parte do inspector Albrigljt 109 . não compreendo .Como não encontrei nenhum registo do nome que a Bethie me indicara prosseguiu Quincy -. não apresenta uma só escoriação nas mãos ou no rosto. que se tratava de um amante. Ela sabia que essa indiferença não passava de uma fachada. Albright fitou-a com uma expressão intrigada. devia contentar-se em brincar aos advogados. Simpson . que se apressou a tomar apontamentos.

Glenda recusou pegarlhe. Que outra surpresa desagradável aguardava Rainie? E como reagiria Quincy quando ela lhe dissesse que o assassino de Bethie era provavelmente o mesmo que lhe matara a filha há catorze meses? O assistente do médico-legista apareceu à entrada da porta... como os que se usam nas prendas de Natal. Ainda resta uma.balbuciou Rainie. surpreendida. Virou-se para Quincy. na cavidade abdominal. formando uma mancha vermelho-escura.Lê-a! Rainie fechou os olhos. para se poder ler quando fosse descoberto nas entranhas de Elizabeth Quincy.Era.Parece uma mensagem . o que ainda se tornava mais inquietante. Está escrito: "Despacha-te. fitando o saco de plástico...Deus do céu! Petrificado. Segurava um saco de plástico nas mãos enluvadas. com o rosto da cor da cal.. Quincy apertava o edredão com tanta força que os tendões da mão se assemelhavam a cordas de violino.murmurou o homem de camisa branca.. tal como Glenda Rodman. deixou cair o saco que rolou pela alcatifa lilás. . Havia certamente algo que ela ignorava.. Pierce.sussurrou Quincy.Está escrito. Era uma folha de papel ensanguentado. mal conseguia dissimular o seu horror. ele evitou olhá-la.. exclamando de imediato: . como se se tratasse de uma víbora pronta a atacar.Constatou. como que hipnotizado pelo seu conteúdo. . deixando que fosse Albright a fazê-lo." 128 110 . escritas grosseiramente com a ajuda de parafina.Não! . Pensámos que deviam ver isto . Algo que Quincy e Glenda não tinham querido revelar aos inspectores da polícia de Filadélfia. . . Dir-se-ia um pedaço de papel de embrulho vermelho com listas prateadas. O inspector agarrou-o com uma mão trémula e observou-o à luz. que os seus argumentos não pareciam provocarlhe a mínima emoção. O homem das cavernas nem se atrevia a respirar. com letras formando palavras. Já decifrara as palavras terríveis. com os olhos perdidos nos padrões floridos do papel de parede amarelo-claro do quarto. Em cima da cama.Hum. .Encontrámos isso. .Lê-a . Rainie foi a primeira a reagir e baixou-se lentamente para pegar no saco com mil precauções. . O assistente do médico-legista.

Rainie! . Ele era um experiente agente do pBI. é a minha vez de te fazer uma pergunta: porque vieste a casa da tua exmulher precisamente esta noite? . Ela levou-o. pensou Rainie.pediu..gritou entre dois soluços. . . 130 . Agora. Se conseguirmos deitar mão ao nosso homem. . Mas o importante é que havia uma pessoa no carro com a Mandy na altura do acidente. Nova Iorque Rainie e Quincy percorreram em silêncio os cento e sessenta quilómetros que separam Filadélfia de Nova Iorque. Ás boas notícias são que o Vince Amity encontrou alguns cabelos no banco desse lado.Começa a falar . Kimberly iria saber que a mãe fora brutalmente assassinada por um louco e que ela seria com toda a probabilidade a próxima vítima. Descobrimos vestígios que não deixam margem para dúvida no cinto do lado do passageiro. O Amity é um bom profissional e tenho a certeza de que encontrará provas para apresentar diante de um júri. Depois de ter enterrado a irmã há umas semanas. cujo corpo foi sacudido um tremor incontrolável. Ninguém esperava a reacção de Quincy.. não há nenhuma lei que impeça alguém de se sentar ao lado do condutor num jipe. provar que ele estava no local do crime.. .exclamou Glenda Rodman da porta. . e Rainie encolheu a cabeça entre os ombros só de pensar nas notícias que o pai lhe levava. O tempo começara a contar e não podia deixar o campo livre ao adversário. Quincy. mas Rainie sabia que não adormecera.Sim. -Uma mensagem numa garrafa! Foda-se! Esse cabrão envia-me mensagem. -Acho que sim . virando-se finalmente para Rainie.Descobrimos o jipe da Mandy. . podemos.. ABethie nunca saía muito e tive um mau pressentimento depois de ter tentado em vão falar com ela ao telefone durante todo o dia. parecia que o rosto ganhara mais rugas e o cabelo embranquecera nas têmporas.Que crime? Tanto quanto sei.Veremos. Quincy precisava de recompor-se.A Kimberly. Tencionava ligar-te de manhã para te dar a notícia.replicou Quincy. Leva-me daqui. Ela ao volante e ele com a cabeça apoiada contra o vidro do lado do passageiro.Interrogo-me sobre se ele o saberia. ao mesmo tempo que um riso seco e ter Vel lhe saía bruscamente da garganta.A Kimberly! . .Estava preocupado com ela. um homem que ganhava a vida a ser confrontado todos os dias com cenas 111 .. A Elizabeth. pelo menos. Numa questão de horas.dirigiu-se-lhe ele bruscamente.. . Em menos de uma hora chegariam ao apartamento da filha. Quincy tinha os olhos fechados. 17 Greenwich Village.Alguém deu cabo do cinto de segurança.

. portanto. ao passo que a maioria das divisões foi vandalizada. Na minha opinião. A Elizabeth foi morta mediatamente e o resto da destruição foi depois. Refiro-me ao tipo parecido contigo e que foi visto pela vizinha às dez da noite. . descobrirão logo que o vidro foi partido do lado de dentro. E há ainda o local do crime. nada mais fácil do que apanhar os pedaços caídos no chão para os colocar na casa de banho. . Depois. quando a polícia de Filadélfia receber o relatório da companhia de segurança. . .indiscritíveis. .repetiu Quincy num tom estranhamente calmo. .Para tornar tudo ainda mais horrível? .Não restam dúvidas de que esse tal Tristan Shandling está a fazer tudo para te encostar à parede . Foi mais uma forma de me atingir.redarguiu Rainie. Não notei a mínima escoriação nos pulsos e nos tornozelos. Contudo. Rainie não estava segura de que a experiência lhe servisse de muito num momento como aquele. O assassino já estava dentro de casa quando estilhaçou a janela. O que não impede os especialistas de perceberem que o ângulo em que o vidro foi quebrado não corresponde ao objectivo. . Quando os especialistas examinarem os estilhaços.Pura encenação para despistar: dar a ideia de que o assassino era um 112 . Mas queria sobretudo saber o que tu e a tua colega descobriram e não contaram aos inspectores locais.Exacto.É verdade. a luta foi breve. Esse tipo é um profissional. Conhecia bem a perversidade de alguns psicopatas para não temer o pior relativamente a Kimberly.Quanto ao corpo.O relatório da autópsia vai confirmar. O mesmo em relação às mutilações.Ele entrou. . pensativa. Na realidade.Mas os bocados de vidro foram encontrados no chão da casa de banho e não no exterior. mas apostaria que a Elizabeth foi morta com bastante rapidez e não violada. a memória do alarme revelará que ele foi desactivado normalmente. E vais ver que..Quanto ao corpo .A janela da casa de banho foi uma coisa encenada. ao contrário do 131 que ele pretendeu dar a entender pela forma como a colocou em cima da cama.murmurou Rainie.. . com a Elizabeth . as manchas de sangue linutam-se a lugares exactos. O nível de destruição é superior ao do crime.retomou Rainie num tom suave. Mas basta observar com um pouco mais de atenção para perceber que a pancada foi aplicada do interior.É muito provável. . o que prova que ele a atou depois de a ter morto. Compra um carro em teu nome e arranja forma de parecer-se contigo no dia em que acompanha a Bethie a casa. .Qual o objectivo? .

Rainie.insistiu Rainie. Não lhe apetecia abrir. 113 . Kimberly estava a beber um café.Kimberly. se já o conheço um pouco. Rainie detectou um tom de amargura na voz.A polícia de Filadélfia não cairá nessa armadilha.tarado sexual sádico. tenha tomado medidas para que o sangue encontrado na canalização seja do mesmo grupo sanguíneo do meu. sentada à mesa da pequena cozinha. . Perdida no meio da cozinha. e pôr as ideias no lugar. O intercomunicador insistiu e ela decidiu ver quem poderia incomodá-la àquela hora. Que suspeito melhor do que um ex-marido.. Atravessou a cozinha muito devagar e abriu a porta. . Vá-se lá saber. esgotada por uma noite de insónia.Como assim? . Verás que descobrirão sangue nos tubos da canalização da casa de banho. . As calças do fato de treino caíam-lhe pelas ancas e a velha T-shirt mostrava a pele dos ossos. Merda. ouviu o pai bater à porta.É a prova de que não tens nada a ver com o caso.contrapôs com um estranho sorriso nos lábios. .Bem pelo contrário. um tempo decididamente curto 132 mais para ela ganhar mais cinco quilos. pensou. é o teu pai.Não poria a minha mão no fogo.Sim? . mas esse tarado está a apoderar-se da minha personalidade.Os próprios agentes puderam verificar que não tinhas nenhuma escoriação. . especialista em assassinos em série e outros psicopatas? . é a minha! Não sei como conseguiu. mas o pai demorou uns escassos minutos a subir os sete andares. interrogando-se sobre quantos quilómetros precisaria de correr para voltar a sentir-se humana. . Kimberly bebeu um gole de café. reflectindo no programa do seu segundo dia de liberdade forçada.. quando o intercomunícador soou. provando que o assassino se lavou depois do crime. Kimberly tinha o dia todo para fazer exercício..Argumentarão que eu tinha preparado bem o golpe. . carregando no botão para abrir a porta do prédioO prédio antigo não tinha elevador. dormir um pouco. recuperar o sono perdido. A caligrafia da mensagem. nem qualquer mancha de sangue pouco depois do crime.E essa mensagem horrível? .. Quincy voltou a bater e o coração de Kimberly começou a pulsar com mais força. sem que na verdade soubesse explicar porquê. Bobby tinha ido trabalhar depois de a informar que na noite seguinte dormiria em casa da namorada e não lhe apetecia ver ninguém. comer montes de legumes e fruta. . lavar Os cabelos e dar-lhes um pouco de brilho.Acredita no que te digo . Não me surpreenderia nada que o nosso desconhecido.

tentando acalmá-la. Tinha dificuldade em pronunciar as palavras. -Andamos a investigar . passando da incredulidade ao horror para depois mergulhar num estado muito próximo do torpor. prioridade aos que saíram recentemente da prisão.Mas andamos a investigar.Também tenho andado preocupado. . um irmão. Quincy e a sua amiga. estavam sentados na sala.A Mandy.Deve tratar-se sem dúvida de alguém ligado a qualquer dos teus casos. . Matou a Mandy. andei ocupada. ou um parente. não fazes a mínima ideia de quem poderá ser? . . Um assassino resolveu destruir-nos.Não .Eu sei.murmurou num tom trémulo e prestes a romper novamente em soluços. Kimberly já gastara uma caixa de Kleenex. a forte.. Um pai. .Não.respondeu Quincy num tom calmo.. Rodeou Kimberly num abraço e ela rompeu em soluços.perguntou finalmente. Estava preocupada contigo.Não .Não compreendo . matou a Bethie e tenciona atacar-te. a Mandy sentia-se sempre 133 atraída pelos homens errados! Contudo.Lamento tanto .Ela telefonou-me há dois dias. . A tua mãe morreu. Matou a Mandy. Vai-se eliminando e acaba por se encostar o tipo à parede! Kimberly expressava-se com uma voz à beira da histeria. Rainie Conner. sem dúvida. a mamã era cuidadosa e nunca se deixaria iludir por qualquer um e muito menos o meteria dentro de casa. não? Alguém que mandaste para a prisão. .. De olhos perdidos nos motivos da alcatifa azul usada.. no sofá.repetiu o pai. Kimberly.Nesse caso basta fazer uma lista com todos os nomes dos casos de que te ocupaste. .O pai fitava-a com uma expressão grave e vinha acompanhado de uma mulher jovem que Kimberly não conhecia. Dando. um filho..pronunciou num tom rouco.É provável. 114 . .. . A tua mãe morreu. .. . ou quase.. baixando a cabeça. Um assassino resolveu destruir-nos. matou a Bethie e tenciona atacar-te. Kimberly de pernas cruzadas no chão. como a mãe dizia sempre. tentava inutilmente recompor-se. . mesmo sem saber que má notícia lhe trazia o pai.Tinhas falado recentemente com a tua mãe? . as ideias coníundiam-se e tentava aguentar-se com todas as suas forças. A tua mãe foi assassinada. . Meia hora mais tarde. . A tua mãe foi assassinada.Andei.confessou Kimberly.

. virou-se e foi sentar-se no sofá. raios. Por um instante. quase desprendido.interrompeu-o Kimberly num tom mais calmo.redarguiu Kimberly.Recomecemos do princípio .Eu sei. Depois..Pelo menos um ano e meio? . . . Se pudesse.. Tem de haver alguma coisa que possamos fazer.Estou realmente metida nisto. agora a tua filha faz parte do caso. . E a Mandy é igual a ti! . . Quincy fechou os olhos. tudo mudara desde a morte de Mandy. no início. voltara a ser o homem impenetrável. 134 Quando retomou a palavra. .Quer queiras quer não. respondia inevitavelmente: Eu sei. mas ele recompôs-se. . . Preferiu manter-se calado. .. Quase recomeçou a chorar ao escutar na cabeça a voz da mãe: És igual ao teu pai! Nessas alturas. Kimberly.E eu lembro-te que pratico artes marciais e sei usar uma arma.Sou também o próximo alvo. mas Kimberly não se deixou levar.Ela tem razão! .Achamos que começou com a Mandy .. Não sabemos quem. usemos o processo de eliminação. Kimberly nunca o tinha visto tão pálido nem tão magro. talvez dois. Tudo o que sabemos é que há muito tempo que alguém anda a planear isto.prosseguiu -. Kimberly achou que o pai ia chorar.Lembro-te que tens apenas vinte e um anos. mais parecendo o agente do FBI do que o pai. e Kimberly sentiu um certo alívio. mas ela não se deixou intimidar. Quincy virou-se e fitou-a com aquele seu ar duro.Devíamos recomeçar do zero . Pode ser essa a nossa única defesa. Tal pai. . para se vingar.. Sabia sempre poupar as palavras na altura exacta. . tinha-o considerado um deus. Conheceu-a 115 ..Eu sei .. passara a compreender o mecanismo de funcionamento do pai. chocada. Mais vale dizer-lhe tudo.. tão peculiar. Quincy . . Pelo menos um ano e meio. Quincy levantou-se do sofá e pôs-se a andar de um lado para o outro.Sabemos que alguém está a tentar vingar-se de mim.Estamos convencidos de que a sua primeira vítima foi a Mandy.declarou. . suspirando. como era seu hábito quando estava muito tenso ou a trabalhar num caso particularmente difícil.. mamã. sentada no sofá.Não quero.Mas és minha filha.explicou Rainie. Também isso fazia parte de seguir as pisadas do pai.Está a acontecer-me tudo o que sempre tentei evitar. Durante muito tempo. até começar a estudar psicologia. .interveio Kimberly. . se sentira um tanto orgulhosa. tal como sugeriste. E se. mas. Não sou indefesa! ..propôs a jovem mulher morena. tal filha.. Quero saber tudo.Mas a realidade é diferente da que querias e estou convencida de que posso ser-vos útil. o seu lado manipulador. .

. Meteu-se no carro com a Mandy e colocou o seu cinto de segurança.Mas a Mandy não morreu . ultrapassava o que pudesse ter imaginado. ou agarrou no volante para que o Explorer se enfaixasse no poste fe telefónico. A Mandy parecia muito apaixonada.respondeu Rainie. encolhendo os ombros .O novo namorado! . a irmã atraía a má sorte. mas confesso que não prestei muita atenção.Sim. Ela mudava frequentemente.Não necessariamente . . mas ficaria em coma devido as lesões cerebrais.provavelmente através dos Alcoólicos Anónimos. .Céus! Mas então foi também ele que matou o velhote que andavá a passear o cão! Kimberly tapou a boca com a mão. E Kimberly pensara muito mais no pobre velhote e no cão.Estamos convencidos de que ele ia com ela no carro nessa noite . Kimberly não ficara surpreendida por aí além.A acreditar numa das suas amigas. Qual é a relação entre esse tipo e o acidente da Mandy? . .. .Mesmo assim.Mas.Sabe-se que ela tinha bebido antes de pegar no carro.acabou por dizer. portanto. continuamos sem saber como é que ele se aproximou da 116 .Ele estava a salvo. Quando Bethie lhe telefonara para a informar do acidente da irmã.exclamou Kimberly.prosseguiu Quincy. . Agora. a Mandy teria começado a beber no começo da noite. há duas hipóteses: ou contou com a sorte e arrastou-a para uma estrada secundária sinuosa. .contrapôs Kimberly.Talvez pudesse ter sobrevivido. . Sempre soubera que a vida de Mandy terminaria de uma forma trágica. com o seu comportamento autodestrutivo. horrorizada.Andaram vários meses. e o acidente? . entre parênteses. tomando sistematicamente as piores decisões. Mandy sempre viver de uma forma perigosa. mas este depoimento é suspeito.Ele estava com ela na altura do acidente? . não era a .replicou Rainie. . Se tudo aquilo era verdade. . e a Mandy pode ter sido embriagada depois pelo famoso namorado.Podemos dizer que tudo aconteceu segundo o plano. . o nosso desconhecido conseguiu avariar o cinto de segurança do jipe do lado do condutor. . .Isso terá feito com que o seu pseudonamorado entrasse em pânico? 135 .. Quem quer que seja.O indivíduo arranjou maneira de ocupar um lugar importante na sua vida . primeira vez.Mencionou-o uma vez. . o que.

nada . Quincy..A teoria dos dominós .Se te prenderem. o FBI será posto ao corrente. Um homem encantador e bem-educado conhece casualmente uma mãe que acaba de perder a filha e os dados estão lançados.balbuciou finalmente.. Um pouco da sua personalidade ou da sua alma. Um olhar de relance para o rosto grave do pai impediu-a de concluir o pensamento.. A Mandy era muito frágil a nível afectivo. .observou Kimberly por sua vez.murmurou Rainie.Não. ..Estou convencido de que. . ou seja a Mandy.exclamaram Rainie e Kimberly em simultâneo. Queria saber se o dador podia transmitir ao receptor alguma coisa mais para além do simples órgão.. mas a mãe não era do género de se lançar nos braços do primeiro desconhecido. nervosa. a Elizabeth autoriza os médicos a não prolongarem indefinidamente a vida da filha. .com a morte na alma.. achas que podes sair em liberdade condicional? . de que fingiu ter recebido um transplante de um dos órgãos da Mandy. .A Bethie acabava de enterrar a filha mais velha e devia sentir-se muito só.Está tudo explicado! O golpe montado. . O tempo bastante para ter reunido muitas informações sobre a tua mãe: os seus gostos musicais.Na última vez que falei com a Bethie ao telefone. Lembrate do que ainda há pouco te dizia.. Simples e eficaz! 136 .Desconfio que ele ainda foi mais longe para ganhar a confiança da Bethie .mamã.A Rainie tem razão.Começou pelo elo mais fraco. durante uns instantes.. aproveita o traumatismo resultante da sua morte para chegar à mãe. . .. O resultado dos testes do laboratório torna-te o suspeito número um. Tudo se encadeia: a morte da Mandy fragiliza a Bethie. contentei-me em dizer que era perfeitamente ridículo. Agora. não interessa ..Um cálculo perverso.Deus do céu! . ela fez-me perguntas estranhas sobre transplantes. questiono-me a esse respeito..Merda! . depois do que aconteceu.exclamou Rainie bruscamente. . Depois. a forma de vestir.comentou Quincy.. . Bastaria muito pouco para que resultasse. Por sua vez.replicou Quincy.O quê? . a Bethie é assassinada. levantando-se do sofá como que impelida por uma mola.perguntou Kimberly. mas. mas inteligente . Na altura. A partir do momento em que a polícia desconfie de mim.contrapôs Raime. . enquanto apodreces na prisão. a Kimberly torna-se uma presa fácil. . os pratos preferidos. Aparece então este tal Tristan Shandling que andou uns meses com a tua irmã. acusam-te do crime e. . Quincy olhou fixamente para Rainie e. A Bethie foi assassinada e ele arranja forma de ficares debaixo dos olhos da polícia. Tudo se torna muito simples. papá.Não podemos esquecer a sua vulnerabilidade . . Umas semanas mais tarde aparece de súbito na sua vida um tipo que finge ter uma parte da Mandy dentro dele. Num caso 117 .

dirigiu-se a Kimberly. vacas. diria doze. ainda é vivo . . convencido de que a filha corria risco de vida.gritou Kimberly.Suponho que não te poupou a comentários desagradáveis? . Ele já não reconhece ninguém.Deve ser difícil. soprando o café para que arrefecesse. que a fitava de olhos muito abertos. : . mesmo assim. A Mandy e eu adorávamos. Céus! Esse tipo pensou em tudo. íamos visitálo várias vezes por ano. depois de fazer café. Uma vez afastado o pai. Em poucos minutos.Desagradáveis? Numa escala de um a dez. terias chegado aos quinze. Nas últimas quarenta e oito horas. . sentando-se com ela à mesa da cozinha. queria mandá-la para a Europa. Quincy nunca falava do pai nem da mãe. Rainie recordava-se vagamente de o ter ouvido dizer uma vez que a mãe morrera quando ele era ainda muito novo.respondeu Kimberly. Contudo.Mas quem é esse filho-da puta? . .surpreendeu-se Rainie. portanto. íamos muitas vezes à herdade dele.Nada mal. mas Kimberly recusou categoricamente.O meu pai viu-te fazer isso? .O teu avô ainda é vivo? . mas há muito tempo que não o vejo. de pé na sala de estar.Não te rias . . Ninguém tinha uma resposta. tecnicamente. Quincy.Sim. Mesmo que fique em liberdade enquanto aguardo o desenrolar do processo.destes. 18 Greenwich Village. Rainie decidiu tomar as rédeas da situação e começou por mandar Quincy para a cama. com um sentido de humor muito próprio. não sabia o que fazer. Kimberly. o pai acusou a filha de ser arrogante e Kimberly respondeu que era o "roto a falar ao nu" e. . Havia galinhas. Quando eu era miúda. em Rhode Island. a discussão acendeu-se. nem sequer o papá. a lei dita que me coloquem no serviço burocrático. Sofre de Alzheímer e está internado num lar desde os meus dez ou onze anos. . . Que género de pessoa era ele antes da doença? 138 ..Duro. Terei até de entregar a arma. estarei de pés e mãos atados..Não suporto café preto. Por fim. ocupou-se da filha. Quincy. desatou a chorar. tal como o pai. Tínhamos espaço para correr e muitos sítios onde nos esconder e construir cabanas. Nova Iorque As coisas iam de mal a pior. a vê-la juntar toneladas de leite e açúcar no café. Dantes. Rainie conseguiu descobrir uma garrafa de leite no frigorífico e um açucareiro no fundo do armário. cavalos e um pomar enorme.Algumas vezes. 118 . .Pelo menos. sim. . bebia café preto e sem açúcar. ele dormira no máximo quatro e estava completamente esgotado. sem a mínima prerrogativa. com o meu avô. em seguida. o que em nada melhorou a situação. mas.

Nunca disse o contrário. .Andámos. Olha-os fixamente. O fosso é tanto maior porque ambos se encontram em momentos muito diferentes do vosso ciclo 119 .A Mandy tinha vinte e quatro quando morreu.. Lembro-me de um dia em que um balão de ar quente. então. pega numa garrafa de vinho e começa a explicar que lamenta o sucedido. Kimberly não deixava o crédito do pai por mãos alheias e prosseguiu o interrogatório. .Ah. o meu avô sai do galinheiro e vai plantar-se diante dos cinco infelizes passageiros do balão que não sabiam onde se meter. Agora. que o carro para os vir buscar aparecerá a qualquer momento e estende a garrafa ao meu avô pelo incómodo causado. .Mas não gostaria de o ter como pai .exclamou Kimberly. fixando o café. . .A diferença de idade entre vocês não explica tudo.Suponho que és a rapariga que perdeu o emprego por causa dessa história. antes de responder: "A terra pertence ao bom Deus. com um esgar. ê avô fixa-o durante um momento.Tens um dom para as perguntas fáceis . sincera. não sei muito bem. com o papá? .Tenho a certeza de que me agradaria . muito atrapalhado. faz-me um favor e pergunta-lhe. . meu Deus!" Então. sem pronunciar uma palavra.respondeu Kimberly com um pequeno sorriso. .perguntou finalmente Kimberly.Era um avô maravilhoso . . O proprietário do balão. . . . 139 .indagou Rainie. céptica. uma coisa para turistas. sim? Queres explicar-me? .comentou.retorquiu Kimberly. aterrou de emergência perto da herdade. -Mais um motivo para não ligar a essa estupidez da idade. assentindo com a cabeça com um ar entendido. Ainda me recordo da mamã a sair de casa.confirmou Kimberly. há uns tempos.Não diria isso . Instalou-se o silêncio. . muito excitada.Acho que compreendo . .comentou Rainie.acrescentou. . aos gritos: "Estão a ver isto? Oh.Que idade tens? -Trinta e dois." E volta ao galinheiro. .Andas. . O tipo encarregado da manobra gritava aos passageiros que se agarrassem aos ramos das macieiras para tentar amortecer a queda do balão e ele acabou a corrida mesmo no meio do campo do meu avô.Foi de facto um caso horrível.É verdade. apenas interrompido pelo barulho da colher de Rainie na chávena.Não se te pode esconder nada.Como é que se conheceram? .A tua mãe também gostava? . Era assim a personagem. .Andas com o papá? .És bastante nova . Quando o Quincy acordar.No ano passado. Na altura da tragédia de Bakersville.Oh! .redarguiu Rainie. .

viu-se. quem é que vai ajudar-me a planear o meu casamento? A quem telefonarei quando tiver um filho e reconhecer traços da Mandy e da mamã no rosto dele? . com uma almofada na mão. não te importas de continuar a falar? Impede-me de pensar no que está a acontecer-me neste momento. Pensa no que te aconteceu no ano passado. Rainie não sabia o que responder e Kimberly acabou por concluir: .Fixe. A conversa parou e ambas voltaram a mergulhar no silêncio. Também eu me interesso pelos distúrbios emocionais. murmurando-lhe palavras ternas. Bethie. um homem maduro no topo da carreira. antes de acariciar o rosto da mulher. com o cabelo despenteado e o rosto suado. tenho razão.Como vês. Errava pela casa destruída de Bethie.A minha foi sobre distúrbios emocionais. Nesse preciso momento. Kimberly perguntou num fio de voz: . . uma mulher ainda jovem que recomeça do zero. . com a filha mais velha nos braços. . Do outro.O preâmbulo perfeito para uma tese de psicologia . . estou a defender uma tese chamada "Os Desafios da Modernidade: As Consequências do Desenvolvimento Urbano nas Personalidades mais Perturbadas". . Não sabia que tinhas estudado psicologia.Agora.de vida. cheio de 120 . . recolhendo uma a uma as penas espalhadas e voltando a colocá-las no lugar.Se queres saber. o subconsciente ordenava-lhe que não se deixasse manipular pelo assassino. Quincy sonhava que estava em Filadélfia.Lamento muito. 140 Mesmo no sonho. Kimberly. muito mais novo. desesperado. mas nem por isso esqueceste. por que razão. . . mesmo assim. Passado um momento. os pés perfeitos. sentado ao lado da mulher.Interrogo-me sobre se servirá para alguma coisa. Nessa altura. . sem procurar dissimular a surpresa. Acabado o trabalho. tinha um sorriso do tamanho do mundo. . sim? .Nunca cheguei a fazer o mestrado. deitada na cama da clínica. tentava fazer o mesmo com as entranhas da ex-mulher. sem maquilhagem nem colar de pérolas. de famílias burguesas. no ventre. Descobriste o assassino dessas pobres miúdas com a ajuda do meu pai e mataste-o.ironizou Rainie. Pára! Lembra-te da Bethie como a conheceste e não te deixes dominar por esta imagem horrível! Por um efeito Àeflashback.Ah. então. saem pequenos psicopatas. Em resumo. voltando a enfiar-lhas.Rainie. O tipo de desafio com que as futuras gerações serão confrontadas com uma frequência cada vez maior. Quincy pousou suavemente a mão no rosto de Mandy e maravilhou-se ao examinar as mãozinhas delicadas.Vamos descobrir o safado que fez isto e obrigamo-lo a pagar caro.Obrigada. De um lado.replicou Kimberly.

Gostaria de poder parar o tempo. Encontrava-se dentro de casa no momento em que os primeiros tiros soaram na rua. os grandes olhos cinzentos e as maçãs do rosto salientes da segunda.. Na altura. a fim de vigiar Tess Williams.Melhor.Não aguento mais! . O yin e o yang.perguntara a Bethie num fim-de-semana em que viera buscar as filhas. A sua primeira reacção quando ela lhe explicara o que acontecera fora dizer-lhe que não passava de um arranhão. a ex-mulher de um perigoso assassino em série procurado por toda a polícia americana.Fazes-me falta. Pierce. Avisara Tess de que não se aproximasse da porta. .Mentira. Ao preparar cenouras na cozinha. . na penumbra.Bethie. Ele encontrava-se no Massachusetts.gritara Bethie. As meninas e eu não precisamos de alguém que se considera Deus. . chocada com tamanha indiferença. mas.disse. . Bethie. prometeu ser um pai melhor do que o seu. onde a única sobrevivente da sua triste família assistia a um episódio de MASH. Eram as duas bonitas à sua maneira e quase chorou ao vê-las. tinha cortado um dedo. tinha decidido abrandar o ritmo durante uns tempos. Não tinham dado pela sua presença e ficou muito tempo a observá-las. Mais tarde.. Pierce. dezasseis anos mais tarde. Lembrava-se de ter pensado por um breve instante: Para alguém que é de gelo. Deitado em cima da cama. A cena seguinte era mais recente. . acabara de chegar da Califórnia onde descobrira vinte e cinco cadáveres numa encosta. Elizabeth . reviu Bethie.Regressa ao trabalho. sinto-me a arder.Como estás? . as feições delicadas da primeira. sentada ao lado de Rainie. Como é que pude casar-me com alguém tão frio? Não és humano. mas a realidade transformara-se em pesadelo. quando Jim Beckett aparecera. Assaltou-o de imediato o contraste entre os compridos caracóis lou os de uma e o cabelo curto e castanho da outra. Convencera-se de que o psicopata acabaria por voltar ali. tinha atingido Quincy com uma rajada da caçadeira de cano duplo. Acordou sobressaltado e não compreendeu logo que se encontrava no apartamento da filha. preservar aquele instante 121 . agora que te foste embora. 141 . De súbito. entrando no salão. à saída do hospital.Lamento. És um cubo de gelo. dos quais quinze eram de mulheres jovens e dois de recém-nascidos. . observou a luz misturada com poeira que se infiltrava através das persianas corridas.boas intenções. com um ar perdido. . escutando os sons da cidade lá em baixo. Levantou-se e dirigiu-se à sala.

Uma coisa é não dormir.Fica à vontade. Pierce Quincy era conhecido como um lobo das estepes no FBI. trezentos e cinquenta e nove telefonemas. No ecrã. Glenda estava disposta a admitir que.para a eternidade. de detidos que tinham contas a ajustar com o FBI ou de presos que procuravam apenas matar o tédio. Havia um especialmente criativo que fora ao ponto de compor uma ameaçadora canção rap sobre Quincy e o resultado não era nada mau. a maioria das paredes apresentava-se nua e a cozinha terrivelmente vazia.Receio que não seja muito do agrado da polícia de Filadélfia . . Virgínia Naquela quinta-feira à tarde.disse. Sem esperar a resposta da colega. Depois de ter escutado as mensagens durante horas a fio. . antes de a convocarem de urgência para Filadélfia. outra é vigiar uma casa onde ocorreu um crime horrível.Tenho um plano. A única divisão um pouco menos sinistra era o escritório de Quincy e era sempre para lá que os seus passos a dirigiam quando queria escapar à atmosfera sufocante que a rodeava. em pé diante do portão da entrada. tornava-se difícil adivinhar o seu estado de espírito.Minhas senhoras . a agente especial Glenda Rodman tinha apenas vontade de se deitar. além de ter de escutar mensagens de psicopatas num atendedor. O agente não mudara de roupa e tinha um ar cansado. Glenda carregou no botão do controlo remoto que permitia o acesso de Quincy. provenientes de alguns dos criminosos que Quincy mandara para a prisão. e a fadiga começava a fazer-se sentir. a alguns. . 19 Casa de Quincy. 143 . física e moralmente. dormira apenas duas horas. pois não sabia muito bem que atitude tomar. desapareceu no escritório e Glenda ouviu-o a abrir e fechar armários. Resolveu aguardar. claro. com a bênção do Everett. Sentia-se sobretudo curiosa em saber como ele reagiria àquela acumulação de dramas pessoais. Há dois dias que estava a vigiar aquela casa e continuava a achá-la muito impessoal. A agente Rodman lamentava profundamente o que lhe acontecera. Na noite anterior. quando avistou no monitor de controlo a silhueta de Quincy. onde os colegas o consideravam uma verdadeira lenda. imaginação era coisa que não faltava. 122 .Lamento muito.declarou. Quincy bateu à porta da frente e Glenda apressou-se a abrir.Tenciono afastar-me durante uns dias.Vim buscar umas coisas . Ao todo. . . Várias divisões estavam desocupadas. mas a minha filha está primeiro. Não fora preciso muito tempo para que o boato se espalhasse pelas prisões americanas: através dos boletins internos de numerosos estabelecimentos prisionais era possível arranjar facilmente o número privado de um especialista em perfis psicológicos do FBI e muitos deles haviam-se apressado a prestar as suas homenagens.

pelo menos. Na sua ausência. Lamento as notícias sobre a boazona da tua filha. Pelo menos.contentou-se Quincy em replicar com um olhar na sua direcção.Constou-me que arranjaste uma nova forma de contactar connosco. . O mesmo não direi em relação à tua frígida ex-mulher. com um saco de viagem na mão. fixando o atendedor com uma expressão sombria. a fim de zombar do sistema. salvo a eficácia dos boletins internos das prisões. com a aparelhagem de som e as cassetes dejazz. a impressão de um mínimo de conforto.Olá. Sobretudo porque nestas bandas não há nenhuma conversa interessante. O interlocutor anónimo desligou.Quando penso em todos os tipos que meti na prisão. Amanda Quincy.Tenho cópia do anúncio publicado em todos os boletins apressou-se a elucidar Glenda Rodman. Dir-se-ia que espera 144 que alguém tivesse vindo enchê-lo durante a noite. Não me desiludas e continua. metade dos que ligavam deixava o nome e o número prisional. . A poltrona em couro preto era visivelmente confortável e de qualidade. sem dúvida. apostei em ti.explicou ela.O escritório não tinha nada de luxuoso. Tratava-se. em cem contra um. punha-se sempre à procura de algo mais. o telefone tocou. meu . .Ele apostou em mim. Além disso. da divisão favorita de Quincy sempre que estava em casa e ainda emanava um pouco do seu perfume. O anúncio indicava num pequeno enquadramento: Jornalista das produções DCCprocura informar-se sobre a vida no corredor da morte. Estendeu-lhe o faxe. no entanto. caro Quincy. Constou-me que alguém quer apanhar-te. Ciao. Enquanto ela foi buscar o anúncio ao escritório. tentando dar um ar profissional. Fantástico. na morada 123 . em molduras douradas. O seu próprio frigorífico continha apenas iojrurtes de baixas calorias e água e. O caçador transformou-se na presa. Glenda comreendeu-o perfeitamente. Segundo as instruções recebidas. Os presos interessados devem contactar o agente Pierce Quincy para o número mencionado em baixo. . Ao sair do escritório. O telefonema durara o tempo suficiente para permitir saber de onde fora feito. junto a uma pilha de caixotes de cartão. meu. deixou que o atendedor de chamadas disparasse. contactar a sua assistente. Glenda avistou Quincy na cozinha. Mas não te preocupes. .saudou uma voz rouca. Quincy pousara o saco de viagem e abrira a porta do frigorífico vazio. aguardavam encostados a uma parede que alguém os pendurasse. mas não serviria para provar grande coisa. acho que merecia melhor do que isso. Um faxe da última geração estava pousado numa bonita mesa antiga em madeira de cerejeira.Estamos a registar todas as mensagens . cem contra um . ajuda a passar o tempo. e os diplomas de Quincy. dão. mas dava. No momento em que se sentou no sofá. .

. . Pensou imediatamente em Ted Bundy.comentou Quincy com a costumada frieza. mas os quatro boletins chegam aos principais estabelecimentos prisionais do país.Os porteiros não têm motivo para invejar as nossas prisões em matéria de alcoviteirice . a fim de chamar a atenção dos outros membros da organização. este anúncio saiu em quatro boletins diferentes: Jornal das Prisões.Mantenho a posição do outro dia na reunião. . Ainda sob o choque dos últimos acontecimentos. o corredor da morte. . O seu olhar emanava uma tal violência que Glenda sentiu um calafrio na espinha. Serviu-se muito simplesmente da minha filha declarou.Não é muito subtil . Na maior parte das vezes. Amizades Prisionais e Liberdade para Todos. alguns presos comunicam entre eles com a ajuda de códigos mais subtis. O "passa palavra" terá feito o resto. O contraste entre a sua calma aparente e a intensidade do olhar apanharam a agente desprevenida.indicada. servem-se de truques como OBP M para "Organização Black Power Mensagem". pousando o faxe e fitando Glenda de frente pela primeira vez. Boletim das Prisões Americanas.Os códigos podem ser mais elaborados. está a tentar investigar como é que o nosso desconhecido pode ter tido acesso ao teu número privado. . Também ele deve dar-nos notícias em breve. o agente.redarguiu Quincy. "Detido de Raça Branca Prisão Perpétua".A Rainie Conner descobriu a prova de que alguém tinha avariado o cinto de segurança dela. .Segundo sabemos. surpreendida ante a semelhança do olhar do colega com o do ramoso assassino. o cliché funcionava. Mais de cinco mil assinantes. As minhas coordenadas foram comunicadas a tantas pessoas diferentes que nunca saberemos quem esteve na origem.Não vale a pena procurar muito longe. E o Randy Jackson. . Tanto quanto sei. O número não é muito elevado atendendo à população prisional. 124 . Por uma vez.Mesmo assim descobrimos o original do pequeno anúncio que foi enviado ao Boletim das Prisões Americanas. O laboratório está a examiná-lo e devemos ter mais informações dentro de dias.acrescentou ele.O poder e o jugo do jornalismo! É o que acontece quando as pessoas não têm nada melhor para ocupar o tempo. Quincy só conseguia controlar-se mediante um desdobramento 145 de personalidade. dos serviços técnicos. .A morte da minha filha não foi um acidente . Em vez do habitual DRB PP. acrescentando informações codificadas nos anúncios. publicam anúncios a pretexto de arranjarem correspondentes e brincam com os acrónimos.As produções DCC. . Ele conseguiu o meu número privado através da Mandy. . . Fala-se com frequência das semelhanças entre o caçador e a presa.

encontrara-se poeira de cimento no local dos vários crimes e a polícia de Los Angeles pretendia investigar no meio operário. Foi assim que conseguiu a minha morada e o meu número de telefone privado. com um leve sorriso.Começou por ganhar a sua confiança. Demasiado seguro de si. Não queria que fosses tu a pagar pelos próximos erros. erguendo as sobrancelhas. antes de lhe mostrar orgulhosamente uma caixa nova instalada ao lado da campainha. afirmara que o culpado actuava sozinho e que se tratava de um psicopata saído de um meio social privilegiado.Não te preocupes por minha causa. . tal como Ted Bundy.Não te preocupes. Foi ela que acabou por baixar os olhos. . Glenda. Ela começava a compreender de onde lhe vinha a reputação de frieza.. Toda a gente no serviço sabia que ele tinha sabotado o caso Sanchez há quinze anos. . Não estou sozinha. Já tinhas um sistema de alarme de primeira categoria. Arrastou-o até ao jardim e fechou a porta da frente atrás deles.Foi ele que insistiu. horrorizada. Não deves permanecer aqui sozinha. . Era sem dúvida maior do que a anterior: juntamente com um 125 . É perigoso. Tenho o meu adjunto AlbertMontgomery. os meus gostos. como se lhes chegasse ao íntimo. Contudo.comentou Quincy. Desde a sua chegada. Quincy fixou-a novamente. vou mostrar-te.. ao passo queMontgomery insistia para que o inquérito se fizesse entre a burguesia. mas ainda o melhorámos. a polícia já tinha provas de que várias pessoas estavam presentes na altura dos assassínios. Vá-se lá saber tudo o que conseguiu descobrir a meu respeito. 146 . Tinha uma maneira muito própria de perscrutar os outros. . antes de confiar o caso a Quincy.apressou-se Glenda a replicar para defender o colega. Além disso. . antes de fazer com que se enfaixasse num poste telefónico. as minhas manias.balbuciou ela. Os meus hábitos.Ele está errado e não é a primeira vez. É possível que a Mandy lhe tenha falado igualmente dos meus amigos.exclamou Glenda. antes do acidente. Quincy lançou-lhe um olhar interrogativo. Na tua qualidade de agente especial do FBI.Montgomery não tinha dado sinal de vida.Porque o encarregaram deste caso? Não tem o perfil adequado.OMontgomery. O resto fazia doravante parte da lenda de Quantico. Anda. o que te acontece diz-nos respeito a todos.Tinha outras coisas para fazer ..É verdade que já não tem muito a perder em termos de carreira reconheceu Glenda.Oh. . A polícia local acabara por levar a melhor e o FBI afastaraMontgomery. Não precisava de dizer mais. . . não! .Isso explica a atitude e a postura doMontgomery frente ao Everett no outro dia . OMontgomery foi o primeiro a ser encarregado de investigar o caso Sanchez .

. Desde que tenha um único dedo disponível. E mesmo que. um simples código já não basta para entrar na tua casa.Suponho que devem ter colocado na memória as impressões digitais de várias pessoas.Pergunto a mim mesmo porque é que não mandei instalar um sistema desses há mais tempo . Portanto. . A partir do momento em que se fecha à porta. O scâner não só analisa o desenho da impressão.Suponhamos que fico com a mão engessada. tinha frequentado cursos de autodefesa e não era nenhuma idiota.teclado. por exemplo. dispunha de um scâner e de um ecrã a cores. Podem acrescentarse mais. de uma carta enviada à Mandy. portanto.com este sistema primorosamente eficaz. não imagino o que possa acontecer-me. . .quis saber Quincy.Nada feito. câmaras instaladas em todas as divisões e o teu telefone sob escuta . Mas não te esqueças de que a minha mulher também estava convencida da eficácia do seu sistema de alarme. ou corto um dedo.murmurou Quincy. o proprietário pode entrar em casa. O que acontece? .Sim.O dono da empresa é ainda mais perverso do que tu. . É preciso marcar duas vezes o código e colocar em seguida o indicador no scâner para desbloquear o alarme.comentou ao transpor a ombreira -. . se necessário. por milagre. ainda me resta isto . Nada o impede de ter obtido as minhas impressões digitais a partir. O sistema apenas reconhece obviamente as impressões digitais colocadas na memória. satisfeita com a sua demonstração. visivelmente impressionado. . o desconhecido conseguisse entrar na casa. . . claro. O sistema memoriza as impressões digitais dos dez dedos. Uma falsa impressão digital não permitiria que o alarme se desactivasse. não há o risco de as perder ou de serem roubadas.Além do código tradicional. 147 .Em vez de destrancar a porta e desactivar o alarme da entrada.E se alguém se apoderar das minhas impressões digitais? .replicou. marcou o código duas vezes seguidas e colocou o indicador no scâner para abrir a porta. mas calcula igualmente a temperatura do corpo e as características electromagnéticas da pessoa em causa. o sistema de protecção exterior reactiva-se e a casa encontra-se sob protecção constante.Só agora é que ele está à disposição de casas particulares. Quincy assentiu com a cabeça. As tuas. o sistema protege igualmente a porta de entrada.De acordo. o scâner lê as impressões digitais explicou Glenda. . . E não são precisas chaves. Glenda. 126 . Nem mesmo um dedo cortado acrescentou com um sorriso forçado.concluiu com uma leve palmada na arma de serviço que usava no coldre.O assassino da Bethie já se serve do meu nome. Quincy.Mas deve haver uma maneira de provocar um curto-circuito no scâner em caso de necessidade . . as minhas e as doMontgomery.

sem dúvida mais do que confessava a si próprio. Preocupado e ferido no mais fundo de si. . e eu não. Quincy. Para eles. mas já conhecemos piores. Ele não respondeu. espero poder desestabilizá-lo. . onde e como vivemos..Não matei a Elizabeth! 148 .respondeu Glenda.Não sou perito. Contudo.Para não falar desta mensagem. .Não te subestimarei. . Mas não bastará para os convencer de que és um alvo. Ele sabe demasiado sobre nós.inquiriu. és o ex-marido da vítima e não irão procurar mais longe. . Preciso de ir andando.Quincy.bom. Acabaremos por encontrá-lo. .Onde tencionas ir? .Tiveste alguma notícia do laboratório a esse respeito? .inquiriu ele bruscamente. quem melhor do que um agente do FBI para montar um cenário destes? .É verdade. abanando a cabeça. . . Glenda acusou o golpe. A minha filha está a fazer o saco neste momento e a Rainie a ocupar-se dos últimos pormenores.perguntou num tom suave. Quincy.Não . deixada propositadamente no ventre da vítima. . Um acto terrível que parece um ajuste de contas.É cedo de mais.. .Sei disso.Este tipo. Partimos amanhã de manhã cedo. .. . Sobretudo com o que vão descobrir na casa da tua ex-mulher.balbuciou Quincy num fio de voz. .. . . Sei-o tão bem como tu. Pergunta à Bethie ou à Mandy o que acham.Para longe daqui. ignorava que se encontrava em perigo. . Afinal.O que devo dizer à polícia de Filadélfia? . Glenda.Sabes perfeitamente que não é assim tão simples. Glenda compreendeu pela primeira vez até que ponto ele estava preocupado. mas não é esse o caso dos dois inspectores da Brigada de Homicídios.É um golpe encenado.Que estou a cuidar da minha filha e os contactarei. Sei que és uma boa agente e que o que acredites que não assassinei a minha ex-mulher. .Queres dizer que há algo mais? . Num outro sítio. . Corres o risco de encararem a tua fuga como mais uma prova de que és culpado.Pode ser.Claro que não! Falo-te sinceramente. Quem somos. 127 .Tens razão. Não fizera carreira no FBI sem um mínimo fe discernimento e teria de ser surda para deixar escapar as entrelinhas.Este tipo é mesmo muito forte. .. se também não subestimares o nosso homem retorquiu Quincy com uma espécie de sorriso que lhe acentuou a gravidade do rosto. . Não me subestimes.

sabia que ao primeiro dia se seguiria o segundo. tanto se esforçara por obter.Achas mesmo? Andei à procura em todos os meus dossiês e não encontrei nada de conclusivo. Glenda. Grossas lágrimas rolavam-lhe pelas faces. No entanto. Mas. Precisava da bênção do professor antes de sair de Nova Iorque e queria pô-lo a par dos últimos acontecimentos. os últimos raios de sol haviam dado lugar ao cinzento do crepúsculo. toda a sua segurança desaparecera. Chegara. essa quinta-feira era o primeiro dia. meses. Por favor. . tinha o cabelo fino e grisalho. 20 Universidade de Nova Iorque. depois o terceiro e que se apagariam lentamente. dir-se-ia que queria parar o tempo. sabe-se lá quem atacará. Sentiu um nó na garganta.Não estás a perceber.Não consigo acreditar que ela esteja morta.. Prometera a si própria mostrar-se digna e calma. as mãos cruzadas. Contudo. prostrada numa cadeira. Glenda. só com o seu intenso olhar azul. toda a tristeza acumulada nas últimas horas rompera os diques. O primeiro dia sem a mãe. anos. poupando-lhe as frases feitas de compaixão. acabava de perder a mãe.. O Dr. Tinha intenção de lhe anunciar a sua firme decisão de renunciar àquele lugar de estagiária que. com as suas plantas verdes cobertas de poeira e as pilhas de livros antigos. a testa permanentemente franzida e uma inclinação pelo tweed. Depois. Marcus Andrews ensinava na Universidade de Nova Iorque e ganhara fama de severo junto dos estudantes. Para Kimberly Quincy. confrontada com a desordem daquele venerável aposento. por conseguinte. Uma estudante em vias de fazer o mestrado não se comporta como uma adolescente. Não fiques aqui sozinha. De dedos fincados nos braços da cadeira. Após ter enterrado a irmã mais velha.. numa sequência de semanas. contudo. Nova Iorque . Era célebre pela sua capacidade de fazer com que os alunos mais brilhantes 150 rompessem em lágrimas.Não te preocupes. De estatura mediana e uma forma física mantida por anos de ioga. vou levar a minha filha para longe daqui. com um ar seguro ao gabinete do professor. Se ele não puder chegar-lhe. Antes mesmo que se desse conta. Andrews tinha-a conduzido suavemente até junto de uma cadeira. antes de lhe levar um copo de água. . uma expressão grave à espera que ela se recompusesse. O encadeamento das circunstâncias marcara definitivamente a sua entrada na idade adulta. No gabinete do professor Andrews. Na casa dos sessenta. os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e foi incapaz de fingir indiferença frente àquele homem que respeitava quase tanto como o pai. Há dez anos que o Dr. Quincy. fora ali com a firme intenção de não perder o controlo. sentara-se do outro lado da secretária. Marcus Andrews era um monumento de dignidade quando subia à 128 .

Como acha que o seu pai se sentiria.Ficaria magoado..Quando falei no facto de a minha mãe detestar o trabalho dele. .A polícia é uma das profissões com a taxa de divórcio mais elevada. declarando que a própria natureza do universo prisional levava irremediavelmente os presos postos em liberdade a reincidirem. É muito doloroso e não conseguiria aguentar. À forma como ele parecia pertencer mais à profissão do que à família. Tenho vivido numa espécie de ruga constante. exigente e tirânico com os seus alunos. ao passo que agora.A minha mãe detestava o trabalho dele.perguntou o Dr.Talvez devesse começar pelo princípio . . Ela fizera tudo para nos proporcionar a maior harmonia possível. para o seu pai.É exactamente o que tento dizer-lhe. Andrews. Marcus Andrews era rude. . . e Kimberly votava-lhe um enorme respeito. Dera-lhe duas filhas maravilhosas e criara um lar fantástico. era como um lago. Quero encontrar esse filho-da-mãe Quero ler os 129 . A minha mãe está morta. incitando os estudantes a demonstrarem rnais curiosidade e imaginação e.cátedra. Hoje. não há lugar para a emoção.. começara a carreira como psiquiatra da tristemente célebre Prisão de San Quentin. mas também estou. Mesmo assim. A acreditar nos boatos. 151 . se tratava de uma missão . ele sentia-se aparentemente melhor no meio da sordidez. É a primeira vez desde há meses que me sinto lúcida. Por mais que o observássemos.Fazer-lhe mal . em vez de se reabilitarem. Curiosamente. .Tem de entender que. Miss Quincy . de que lado está actualmente a vitória? . acho que entendo melhor. Apaixonado pelo seu trabalho. Bebem para esquecer ou fumam como chaminés e praguejam como carroceiros.Na sua opinião. percebendo onde ele queria chegar. se pudesse ouvi-la neste momento? .retomou Andrews num tom doutoral -. .respondeu ela num fio de voz.Se isto é na verdade uma guerra. . não sei explicar-lhe. Não me sinto capaz. Para se conseguir viver normalmente. na Califórnia.Não. nada perturbava a superfície das águas. mas também um brilhante investigador. o que pretende esse homem que anda a atacar o seu pai? . nunca fui capaz de entender como é que o meu pai fazia para se mostrar sempre tão calmo quando regressava a casa depois do trabalho.. mais inteligência. sobretudo. Era um pouco como se voltasse da guerra.. referiame ao horror que ela tinha à violência. . Mas sempre que o nosso pai chegava. Lembro-me de que eu e a minha irmã achávamos normal.. Os polícias que aparecem nas séries televisivas nunca são assim. defendera uma tese sobre criminologia e ganhara fama graças aos seus estudos vanguardistas sobre o mundo das penitenciárias. e eu estou triste e furiosa.. motivada.sugeriu ele à jovem.

130 . Miss Quincy.. O nosso desejo de entender os mecanismos humanos supera a raiva suscitada pelos actos daqueles que estudamos. Não se esqueça de que os criminologistas. Por um momento. os sociólogos e os especialistas em comportamento são intelectuais. dissecar-lhe a personalidade doentia e desmascará-lo. eu. Quero descobrir os passos desse monstro. mas a raiva cega não leva a lado nenhum. Kimberly voltou a baixar a cabeça. Qual é o motivo? . Não. De facto. quase lhe pareceu humano. mesmo quando me sentia abandonada. Quero confessar-lhe algo. não é verdade.replicou a jovem com uma ponta de amargura. .Sem dúvida. Como era a Mandy.reagiu Kimberly. É a sua maneira de controlarem a situação.declarou o Dr. tentamos elaborar o perfil psicológico dos criminosos. Andrews esboçou um leve sorriso.Quem pode definir a normalidade? Sei apenas que temos uma maneira muito própria de intelectualizar as coisas. esperando ajudar a polícia e fazer progredir a justiça. Tinha muito orgulho nele.Quer dizer que não somos normais? . via o meu pai como uma espécie de general que combatia num país longínquo. Encostou-se para trás e Kimberly notou pela primeira vez quanto parecia emocionado. Falou-me neles. que me achasse uma pessoa assustadiça. cruzando e descruzando os dedos com nervosismo. Somos sobretudo curiosos. . mas tenho a impressão de que os omitiu ao seu pai.Refiro-me aos ataques de pânico. . foi para evitar que me julgasse. Penso mais nele do que na minha pobre mãe e isso preocupa-me. Miss Quincy! Já alguma vez se interrogou porque é que os criminologistas nunca se dedicam a um estudo sobre os criminologistas? . As rugas de expressão 152 tinham-se acentuado e o olhar era menos austero. Efectuamos pesquisas.Acredito sinceramente no orgulho que diz sentir pelo seu pai. O que há de errado com os Quincy.Quando era mais jovem .Mas a raiva é um sentimento nobre . Ficam.. doutor Andrews? A pergunta acabara por arrancar um sorriso ao austero professor.relatórios da polícia e da autópsia. não sei. Andrews num tom suave e inclinando-se para a frente. Encare as coisas assim: os polícias têm uma visão positiva do mundo..Não percebo o que quer dizer . . . Receio tê-la induzido em erro. .redarguiu Kimberly -. . Miss Quincy . mesmo quando ficava furiosa por ele faltar a um jogo de futebol ou a um aniversário. revoltados com o que vêem e fazem prisões.Mas tal não me impede de notar que ultimamente se tem distanciado dele. mas actuam sempre depois do facto consumado..Ah. . Acho que não quis preocupá-lo. obviamente.Eu. contraindo-se.

não!..Lamento muito. . Quando estava convencida de que me espiavam. interrogue-se sobre como funciona.. antes de compreender bruscamente. Talvez deva dar mais ouvidos as minhas próprias prelecções. não! Isso não. . mas hoje dispomos de alguns dados suplementares.. acha que era ele? .prosseguiu Andrews. mas a sua própria reacção espantou-a. a mais forte das duas Quincy.Como? ..Não afirmo nada. mas é possível . Por um lado. Não estava preparada para tolerar a mínima falha em Andrews. O que o move? .. tomou súbita consciência das implicações das palavras que acabava de ouvir. Sempre que um calafrio lhe percorria a nuca ou ficava com pele de galinha. professor. . porque toda a angústia que há semanas a oprimia não era fruto da sua imaginação.Fazia todo o sentido.replicou Andrews num tom pausado. Talvez fosse infantil da sua parte. antes de acrescentar com uma doçura invulgar: .Um jogo de nervos. Oh. Ponha-se na peugada do predador. Oh. pensou.. perplexa. não era apenas uma impressão.Enganei-me quando atribuí os seus ataques de pânico meramente ao stresse . Eu que passo o tempo a recomendar prudência aos meus alunos. . quase ficara aliviada. Miss Quincy. havia um motivo. Lívida.. que a observava com um ar aprovador. endireitando-se..Lembre-se do que sempre lhe disse. . 153 . não estava à beira da loucura. Andrews. .. Uma raiva salutar que lhe coloriu um pouco as faces pálidas e lhe devolveu o sentido de luta. Por outro... Ela.Gosta de jogar ao gato e ao rato . Recorde-se do que lhe disse o seu pai. um dos professores mais respeitados e temidos da Universidade de Nova Iorque. mas nos últimos tempos encaixara demasiados golpes para poder ver um dos seus ídolos deitado por terra. com o coração aos pulos. não devia ter sido tão imperativo. encorajou-a de imediato.respondeu ela sem hesitar . Não me desiluda.Enquadra-se nos métodos do indivíduo que persegue a sua família prosseguiu o Dr.redarguiu. 131 . Kimberly não conseguia tirar essa ideia da cabeça.Ele anda a perseguir-me.. Esse alguém fá-lo há mais de dois anos..Quando penso que esse safado anda a perseguir-me há tanto tempo! A surpresa de Kimberly cedera lugar à cólera. Nem pensar em ir-se abaixo! Andrews. . é isso? Acha.E daí?. Nunca perca a curiosidade que a incita. Tirei uma conclusão apressada. Sobretudo depois da morte da minha irmã. Alguém decidiu atacar a sua família.. sentia-se violada na sua intimidade ante a ideia de servir de presa àquele predador anónimo que se aplicava a destruir a sua existência.redarguiu Kimberly.Sim. Graças a Deus.Quer dizer. .

É a primeira vez que lhe ouço um cliché desde que nos conhecemos replicou Kimberly..O prazer foi todo meu.A mamã e a Mandy puseramno certamente a par. .proferiu Andrews. a boa aluna. .É. . veio despedir-se.. .Não posso dizer-lhe para onde vou. Talvez ainda não o tenha visto. correspondendo ao sorriso. ainda acabo por dizer tolices.Um namorado novo .Não quero tirar conclusões apressadas. .Esta impressão de que me observam.Uma retirada estratégica é uma opção perfeitamente válida. Kimberly.Não se preocupe. se quer a minha opinião.Sabe. Miss Quincy? . fazendo-se provavelmente passar por um receptor de um órgão da Mandy. . Kimberly levantou-se. 154 . então. provável que conheça o assassino. professor. em vez de preguiçar. E só me fará bem ser eu próprio a ler os meus apontamentos. já fez esse número com a Mandy e depois com a minha mãe.Se bem entendo. São os preliminares que lhe dão prazer. que gosta de futebol e de armas de fogo. .Nunca me ocorreria perguntar. A que começou a praticar artes marciais aos oito anos. Hesitou. . a que quer entrar para a polícia.Não sei como agradecer-lhe.Ele contenta-se em reconhecer o terreno . . Entendo perfeitamente que arranje outra estagiária. .. Trata-se de algo pessoal. . Doug James.Há uns meses. . . .Não tem tenção de nos matar já.Ignoro quanto tempo vou estar ausente. com ela. . . . pois uma silhueta tomara subitamente forma no seu cérebro. .. não precisaria de vigiar-me à distância. Estendeu a mão. Sem saber o que mais dizer.sugeriu o professor. Ele leva o seu tempo.Brilhante! .comentou Andrews. Um professor de sorriso encantador recrutado há pouco pelo seu clube de tiro. À força de Descansar nos meus estudantes. Kimberly reflectia em voz alta.Não.Se o conhecesse.. Já faria parte da minha vida. muito mais do que o crime em si. Obvio de mais.Mais vale prevenir do que remediar.. .Mas vou tomar nota.Talvez não.Sou supostamente o cérebro da família . como se aguardasse o melhor momento. com um pequeno sorriso cúmplice. ..prosseguiu. .. Que mais? . .Desde quando exactamente tem a impressão de que a seguem? .Ora! É tarde de mais para pensar nisso.Isso já sabíamos... Miss Quincy. não é? . continuando a reflectir em voz alta. procedeu de uma forma mais hábil. .Ocorreu-lhe alguém.murmurou Kimberly num tom surdo. . Além disso. . 132 .observou Andrews.

Teoricamente estava limpo e desempenhava na perfeição o papel de presidente do seu grupo de AA. Não lhe apetecia fazer uma figura ridícula diante do professor. Virgínia . Mister Zane.Tal como a nossa designação indica. Estava visivelmente pouco habituado a que se discutissem as suas ordens. o anonimato é o alicerce dos Alcoólicos Anónimos e não costumamos infringir a regra. . prometo. mas por outro lado. .Um último conselho. Não poderia esquecer-se de lhe mandar um cartão de boas-festas no 133 . será sempre um pseudónimo. . AL 21 Gabinete de William Zane. .. o tubo de escape de um carro rompeu o silêncio.obrigando Andrews a levantar-se também para lha apertar. hesitou longamente. Ele sabe sem dúvida como respeita o que está ligado à polícia.Doutor Andrews . irmã morreu. como um disparo em plena rua. Só estou a pedir-lhe que me descreva um suspeito numa conversa entre nós.Mensagem registada. Rainie aproveitou a pausa para reflectir que ele devia ir pelo menos no terceiro divórcio e tivera problemas com cocaína no passado.Sei até que ponto é uma apaixonada pelas investigações criminais. Sobretudo as pessoas fardadas ou com distintivo.Por favor. .acrescentou ele. . Kimberly teve uma última hesitação antes de sair. William Zane. . Era um gigante de um metro e noventa e cinco e cento e dez quilos. . Perscrutou a noite através da janela.Como quiser. . Simples intuição de polícia. vestido com um fato de três peças e que cheirava a banqueiro à distância. Lá fora. Kimberly sentiu-se tocada pelo ar solene dele. Trata-se da investigação de um homicídio e pode optar: ou me dá imediatamente as informações de que preciso. se me permitir .Vai afirmar que estou a repetir-me. Este homem tem visivelmente o dom de detectar as fraquezas dos outros. A minha. mas o anonimato é o alicerce dos Alcoólicos Anónimos e não costumamos infringir a regra. . Preciso sobretudo de uma descrição. importa-se de transmitir uma mensagem ao meu pai? A última pessoa que irei ver esta noite é um novo monitor do meu clube de tiro. presidente do grupo de Alcoólicos Anónimos a que Mandy Quincy pertencera. Que se lixe o nome.Se me acontecer alguma coisa. A menos que deseje ver publicado que um psicopata se infiltrou nas vossas reuniões para escolher as suas vítimas.Preciso de um nome. De qualquer maneira. .arriscou. ou será forçado a fazê-lo à polícia como parte de um inquérito oficial. pôr tudo em causa.. pensou. Primeiro dia. Miss Quincy. a minha mãe morreu e estou a aprender a. Chama-se Doug James.Não está a perceber. Estarei atenta. com a devida repercussão na imprensa.

Ignoro se tem noção do que me pede . tem de prometer guardar segredo.Recorda-se da Amanda Quincy? .concordou finalmente Zane.apressou-se a responder Zane.Não. . Agora. caso o anonimato não fosse respeitado.Prometido. é a minha única testemunha. Levantou-se da secretária e foi fechar cuidadosamente a porta do gabinete. empalidecendo e agitando as enormes mãos brancas em sinal de recusa. mas agora Rainie sentia-se cada vez mais preocupada com Kimberly e não fazia tenção de andar a fazer de detective na Virgínia. após soltar um suspiro. Neste momento. mas já lamentava a decisão. Não temos de prestar contas a ninguém. mas de momento só estava interessada no nome e na descrição do "amiguinho" de Mandy. William Zane suspirou. Somos uma associação de utilidade pública e. . quando era polícia.Não sei se faço bem . sente-se e conte-me tudo o que sabe. Mister Zane . então seja-o para as mulheres que correm o risco de morrer em circunstâncias abomináveis por causa deste homem. . E. 134 . .Natal a felicitá-lo. . a andar de um lado para o outro com um grande charuto entre dentes para não assistir ao parto. . . nessa qualidade.vou pô-lo à vontade. Talvez não tivesse sido casado três vezes. nunca teria continuado a ir às reuniões. na verdade. a Amanda já não precisa de colete salva-vidas.Sim.Se quer ser um colete salva-vidas.insistiu. servimos de colete salva-vidas a essas pessoas. não . . Nem sequer à polícia ou à justiça.prosseguiu Rainie por sua vez. Por outro lado. uma tentativa 156 de homicídio.Mas não é da Amanda que se trata.Contudo. .Ando à procura de um assassino. este indivíduo assassinou a Amanda Quincy. não. . mas Rainie imaginava-o facilmente na maternidade. Mister Zane . Só aceitara receber Rainie porque ela lhe dissera que o acidente de Amanda Quincy era. . na condição de deixarem de beber. Arranjou maneira de ela se enfeixar no pára-brisas e. pois pede-me que forneça informações confidenciais relativas a um dos membros actuais. Zane voltou a sentar-se atrás da secretária e Rainie aproveitou para pegar no bloco de apontamentos. se elas não fossem anónimas.começou. . entendo perfeitamente a sua posição. Eram seis da tarde de quinta-feira e faltavam doze horas para que todos se refugiassem em Portland. fez o que fez à mãe. Portanto. Juntou-se a nós há cerca de um ano e meio. Quer que lhe mostre fotografias? . em seguida. Interrogou-se sobre se ele alguma vez teria mudado a fralda aos filhos.O funcionamento dos Alcoólicos Anónimos assenta num princípio simples: fechar os olhos ao passado dos que se nos juntam. . Pense nas futuras vítimas.Lá onde se encontra.Eu própria me filiei nos Alcoólicos Anónimos e garanto-lhe que nunca teria continuado a assistir às reuniões.retomou.

Porque não? . Havia um tipo. pelo menos. . 157 . pelo menos..Estou a ver que se trata na verdade de um bom tipo ..Suponho que. Resolvida a não o deixar escapar-se.Sabe se a Mandy e esse tal Mister Tanz tinham relações extraprofissionais? Ou seja. de facto. .Ben.Outros membros que tivessem ingressado nos Alcoólicos Anónimos ao mesmo tempo que ela e ficado verdadeiros amigos.Por um lado. tinha um padrinho. um ano antes de iniciarem a mínima relação sentimental .Não me parece . Rainie olhou-o fixamente. .A Amanda Quincy foi apadrinhada pelo Larry Tanz. apavorado. Mas então a Mandy e o Larry andavam ou não a foder? . o Larry é um bom tipo.respondeu Zane.É incrível a quantidade de empregados de bar que são alcoólicos. Para não falar dos cozinheiros. Vi alguns dos membros mais motivados voltarem a entregar-se à bebida por causa de simples namoros e é por isso que recomendamos.Acho que não me fiz entender. . Para já não falar noutros tipos de stresse. sem dúvida uma recordação trazida de quaisquer férias exóticas. . O Larry juntou-se aos Alcoólicos Anónimos há mais de dez anos e não foi a primeira vez que serviu de padrinho a um funcionário.replicou Zane com uma expressão chocada.É o dono do restaurante onde ela trabalhava. tal significava que era também o antigo patrão de Mary Olsen.. muito sociável.Como é que a Amanda conheceu esse tal Larry Tanz? . se Larry Tanz era o patrão do restaurante onde Mandy trabalhava. 135 . .gritou Zane.. . .Era. um ano sem álcool antes de retomar uma vida afectiva normal. mas não o afectou pessoalmente.E quem mais? Suponho que ela devia dar-se com outros membros do grupo? . .. como todos os membros.Não.ironizou Rainie. além do facto de ser seu padrinho nos Alcoólicos Anónimos? . Foi uma morte trágica e sentiu-se talvez um pouco responsável.No nosso grupo. Interessante. sei até que ponto ficou triste e desiludido com o acidente da Mandy. Rainie revirou os olhos e depois rabiscou uma nota. não! . embora não destroçado.Zane fitou-a de esguelha antes de acrescentar: . sugerimos aos novos membros que esperem. por exemplo. Ben Zikka. . Zane mostrou uma hesitação que não escapou do olhar atento de Rainie. De qualquer maneira.Nome? .. .. Por outro. a menos que seja absolutamente necessário.bom. Um indivíduo muito decente. . Para ganhar tempo. pôs-se a brincar com um pisa-papéis colorido. como já lhe disse. .Que romântico.Sabe tão bem como eu que o álcool é uma droga dura de que não nos libertamos facilmente. Quer que lhe mostre o estado em que fica um crânio depois de se esmagar contra um pára-brisas? .Sim. mas preferia não lhe indicar o nome.

prosseguiu. bem vestido. loura. com barriga. Começaram a sair juntos das reuniões. quando se passa metade da vida a beber ou a drogar-se. mas cada vez mais espaçadas. O perfil do indivíduo não correspondia em nada à ideia que fizera do assassino. Sempre mal vestido . . antes de atingir a sobriedade. . Além disso. são raras as pessoas elegantes e bem vestidas. . ainda se sentia mais confusa do que no início. que não era de forma alguma o que esperava. Parece-me tê-lo ouvido dizer que era reformado da polícia ou algo do género. têm várias recaídas.O caso dela não é único . . Na maioria das vezes. Um homem mais velho que ela.Tem a certeza? . Provavelmente na casa dos cinquenta. mas mais difícil ainda é deixar de beber. na casa dos quarenta e muitos? Rainie indicava palavra a palavra a descrição do assassino feita pela vizinha de Bethie Quincy. mas. . com mais de um metro e oitenta. . Rainie franziu o sobrolho. apenas sei que se davam. A Mandy ainda participou em várias reuniões. que fazia palpitar os corações masculinos? . pode crer que se nota. Zane abanou a cabeça.. Fitou Zane bem de frente e ele aguentou o olhar. uma bonita rapariga de vinte e três anos. chegaram no mesmo carro. de olhos azuis. Miss Conner. Pediu-me que lhe falasse nos membros com quem estabeleceu amizade.A Mandy tinha outras amizades no grupo? Digamos. Rainie mal conseguia acreditar no que ouvia.Tenho quase a certeza. . O Larry Tanz tencionava telefonar-lhe por causa disso.anuiu Zane com um encolher de ombros.insistiu ela.Suponho que estamos a falar da mesma Mandy? Amanda Quincy. meio calvo. Agora de posse de um nome e de uma descrição. Não muito alto.Se bem entendi. o Zikka não ficou muito tempo connosco. quando soubemos do acidente.As pessoas já têm dificuldade em admitir que são alcoólicas. menos de um metro e oitenta. sobretudo após uma vida de excessos.Era realmente muito bonita . já começavam a ver-se as marcas. . elegante. Céus! Numa época em que metade da humanidade 136 .E acha que ela andava a sair com esse tal Zikka? .Não sei bem. Rainie absteve-se de comentar a descrição de Zane. o que explicaria o ar de quem comeu muitos donuts.acrescentou Zane. Entre nós.Descreva-mo. .Vejo que deixou de frequentar os grupos dos Alcoólicos Anónimos. Até mesmo em alguém como a Amanda Quincy. . ela aderiu ao grupo e foi depois de ter conhecido este tipo que começou a distanciar-se. Talvez seja o caso de algumas estrelas de Hollywood.Sim . . Cabelo 158 castanho.Ignore o que faziam juntos.anuiu Zane.Um homem mais velho e pouco interessante? E afirma que saía com a Mandy? . Um dia. passando mecanicamente a mão pelo seu fato feito à medida.

Terrivelmente. e sim para se punir. Contudo.De que falava a Mandy? Ao vê-lo hesitar.Claro.A Mandy vivia obcecada com a violência.Suponho que nas vossas reuniões falam de coisas bastante íntimas? . mas nunca desistia. tentando inutilmente distinguir as estrelas através da bruma. decidiu atear o fogo. Quanto a Quincy. Quanto a ela. Rainie ainda se sentia perturbada com a visita a Zane. Levantou-se.A Mandy era muito insegura. Ficava horrorizada. virou-se e fez-lhe uma última pergunta.Nem as do corpo mutilado de Mistress Quincy? . remexia nas coisas do pai para ler os dossiês e os relatórios. quando estacionou diante do prédio baixo onde se situava o escritório de Phil de Beers. O céu estava encoberto e havia electricidade no ar. de olhos azuis. Até os grilos se tinham calado. Já eram nove da noite. Devido à humidade. Em vez de se dirigir de imediato ao escritório de De Beers. devia ir a caminho de Nova Iorque. Foi por esse motivo que usei a expressão de "loura descartável". mas a noite apresentava-se densa e sufocante. O seu dia estava longe de ter acabado. Insistia sempre em que o pai era um ás na carreira. de ombros curvados... Porquê? . . 137 . Rainie tinha ainda duas entrevistas antes de se lhes juntar. Do seu ponto de vista. identificamo-nos com o polícia ou o herói. ali estava um tipo que dizia a verdade. 160 Boa noite. a Mandy identificava-se sempre com a vítima loura. Chegava-lhe vagamente o ruído dos carros na auto-estrada. parou no meio do parque de estacionamento e ergueu os olhos. como dizer-lhe? Achava-se uma loura descartável. .Uma loura descartável? . quando era pequena. Na maioria das vezes. Não me parece que o fizesse para se endurecer. Na ombreira da porta. 159 Consultou o relógio de relance. Contava-nos que. Saiu do carro. entrou-lhe pelas narinas um forte odor a madressilvas e amoras silvestres. apertou a mão a Zane e esforçou-se por ignorar o visível alívio do homem ao vê-la sair. Mister Zane? atirou. . pronta a disparar primeiro e a perguntar depois. Era quase lua cheia. fazia parte dessas belas raparigas que servem de presa aos psicopatas.. quando se vê um filme de terror ou se lê um romance policial. Miss Conner. Kimberly encontrava-se provavelmente na relativa segurança do seu apartamento. Quatro candeeiros de rua iluminavam frouxamente o asfalto preto. Não falhava um único filme de terror que se estreava nas salas de cinema e devorava livros sobre as grandes investigações criminais. como a mãe era bonita e a sua irmazinha muito inteligente.passa o tempo a mentir. depois de ter resolvido os seus assuntos e falado com o chefe em Quantico.. minha senhora.Tem a certeza de que não quer ver as fotos do acidente.

enquanto Rainie olhava em volta. Ela reconheceu-o logo por ter visto a fotografia dele no site da Internet.Fiz café .. numa sociedade como a nossa.ofereceu o detective.Também eu sou dependente do açúcar . . divertido com a sua ignorância. em pé. Rainie rodou sobre os calcanhares. mas apropriada. o açúcar e as gorduras são drogas aceites.Surpreendida. .brincou ele.Estou a ver alguns sinais de dependência .Lamento desapontá-lo. o que provocou um largo sorriso no rosto do detective negro. phil de Beers. Phil deitou uma dose de uísque no café. momentos depois..MÔ"M? .E como essas boas decisões não a fazem engordar.Não sei porquê. Provavelmente os grandes cá do sítio. apetece-me sempre beber uma coisa quente. De Beers sentou-se atrás da sua secretária numa cadeira de couro vermelho-vivo e Rainie teve de contentar-se com uma velha e bamba cadeira de cozinha. indicando-lhe o escritório. pensei que o café seria mais adequado. Rainie recusou. mas sou uma alcoólica recuperada e o café será óptimo.Bolas! .Sem dúvida. Ou então uísque.respondeu ele.Bolas! . . 161 . pronta a servir-se Já sua Glock. . pensou Rainie. . . A divisão era bastante pequena. Quando chegaram à pequena cozinha que os vários ocupantes do prédio partilhavam. 138 . .acrescentou ele galantemente e brindando-a com um olhar de admiração.Freeh quê? De Beers. mas. . mas a tempestade produz-me sempre o mesmo efeito. . . com uma parte da parede coberta de prateleiras onde se viam pilhas de revistas.confessou com um pequeno sorriso. .perguntou.. Na parede em frente estava pendurada uma série de molduras: um diploma da Academia de Polícia de Virgínia e várias fotografias de De Beers pousando ao lado de homens com fatos domingueiros. observava-a em silêncio.Tenho uísque também. Apesar do calor e da humidade. diante da entrada do prédio. baixo e impecavelmente vestido.comentou ele. Dado tratar-se de um encontro profissional. antes de a conduzir ao escritório.Apanhou-me . conquistando imediatamente a simpatia de Rainie. . mas assentiu com a cabeça. mastigando os AÍ M.O director Freeh . exibiu o seu mais belo sorriso. . .replicou Rainie. Rainie juntou tantas natas e açúcar ao seu que o detective desatou a rir.Alguém famoso? .Estaríamos melhor lá dentro . bem como os grossos volumes do Código Civil da Virgínia. . enquanto Phil agarrava numa mão-cheia deles. estendendo-lhe uma tacinha de chocolates.disse ele..propôs Phil num tom simpático. servindo-se apenas do poder de dedução.disse ele por sua vez. apontando uma delas ao acaso . Rainie sentiu um calafrio.

Estou curiosa por saber se o Tanz fez recentemente uma visita à Mary. as moradas e números das pessoas a quem telefonar.. mas tenho um contacto na companhia dos telefones. Uma cliente muito pouco interessante. Gostaria que investigasse um tal Larry Tanz. Vai passar-me o registo das chamadas para que lhe dê uma vista de olhos. é fácil consolar uma mulher assustada à distância.E já agora. . lamentando profundamente não poder beber um uísque. . Graças aos meus conhecimentos.Temos a prova de que a filha do meu cliente não morreu em consequência de um acidente de automóvel.com a Internet. Se as minhas informações estão correctas. De Beers aproveitou para falar de negócios." Um fotógrafo free-lance conseguira fotografar o vestíbulo de entrada da casa de Bediie Quincy. como me pediu. fitando-a com uma expressão interrogativa. Quanto à ex-mulher do meu cliente.Não se lhe pode esconder nada. Se a assustou. continue a vigiar a Mary.explicou Rainie.exclamou De Beers. . . . com as sinistras impressões ensanguentadas.Diz aqui que a vítima era a ex-mulher de um agente do FBI. antes de casar. o seu cliente.Vejo que não estamos apenas a brincar aos polícias e ladroes. na realidade. como se julgava .Se pudesse enviar-me por faxe as informações sobre aquelas a quem liga mais. .Não é uma grande ajuda essa.Ah! Esse Freeh.O chefe do FBI. .Acha que ela vai telefonar? .Claro .Não. Sem dúvida.anuiu Rainie.Tenho andado a vigiar a Maiy Olsen. . suponho? Sempre? . Conheço um agente da polícia estadual que pode fazer as verificações necessárias. foi brutalmente assassinada ontem à noite. trata-se do dono do restaurante onde a Amandy Quincy trabalhava na altura do acidente e onde a Mary Olsen teria trabalhado.Não foi em vão que escolheu ser detective. Certamente pelo mesmo indivíduo. seria excelente. . anda armado. . em Filadélfia.. Pousou-o em cima da secretária de forma a que Rainie lesse o título da primeira página: "Cena de horror 162 na alta sociedade.Entretanto. 139 . Desde ontem que não sai de casa.Brutalmente é o termo . . Receosa de continuar a passar por imbecil. . .contentou-se em observar De Beers. não terei qualquer problema em conseguir os nomes. Ah! Antes que me esqueça. De Beers franziu o sobrolho e levantou-se para ir buscar um jornal dobrado que estava numa prateleira.. . oh! . mergulhou o nariz no café. essa jovem Mistress Olsen.Sem problema. caso ela decida sair de casa. de um crime. duvido que passe o tempo diante do televisor.Tratou-se. .Oh. . .

surpreendeu-se De Beers. na esperança de que ela nos conduza àquele que anda a divertir-se a atacar familiares dos agentes do FBI. consultando o bloco de apontamentos.replicou De Beers. Soube-se logo que era falso. . . .disse -.Devia ter-me prevenido mais cedo para tomar as minhas precauções.Não agentes. o nosso desconhecido utilizou um nome para abrir uma conta.É estranho.. mas esse tipo deve ter uns tomates de aço. . 163 . .E eu que julgava tratar-se de um assunto simples. maquinalmente um olhar à primeira página do jornal. pelo menos. Basta-me pegar na lista telefonemas que me vão dar e verificar os nomes um a um. .Contas pessoais a ajustar? . o nome de que se servia há mais de um ano e meio quando conheceu a Amanda Quincy..Recapitulemos. . . descrição? . dois pseudónimos . 140 . .Pois é.É melhor ir buscar a minha bela TEC-DC9 novinha em folha e deixar a minha Special " de calibre trinta e oito para uma emergência. mas o Tristan Shandling í não existe.Qual? .Está bem .Corrija-me se i me enganar.. Soubemos isso há dois dias. o nome que usou em Filadélfia com a Elizabeth Quincy. Mal veja um apelido suspeito. pede-me que vigie uma rapariga. . .Conhecem-se-lhe. .O do agente do FBI Pierce Quincy. assentindo com a cabeça. De Beers arregalou os olhos. Ele foi ao ponto de roubar a identidade do meu cliente. . ou ainda Ben Zildta. mal tentámos introduzir o nome no sistema. aqui em Virgínia.Andei muito ocupada .Tristan Shandling.Antes de lhe bater. Parece que o assassino tem contas pessoais a ajustar. Há algo mais sobre esse merdas? Nome. o que provocou um sorriso em Rainie .disse De Beers. . . .Isso facilita-me as coisas . .De Beers suspirou. Se bem entendo.respondeu Rainie. Não eram polícias e não tinham qualquer motivo para efectuar a mínima investigação. entro em contacto com o seu amigo da polícia estadual.. Rainie teve subitamente uma ideia perante aquela observação.De Beers voltou a sentar-se e observou demoradamente a sua visitante. Um homem disposto a atacar um agente do FBI devia ser mais cuidadoso. idade.A Elizabeth Quincy e a filha nunca iriam desconfiar.respondeu simplesmente Rainie com um encolher de ombros. Ainda não tive tempo pára efectuar pesquisas sobre esse tal Ben Zikka. calce umas luvas de boxe. minha jovem amiga. deitando .Por falar em lista de telefonemas . voltando a suspirar. O FBI tem vários investigadores a trabalhar no caso... mas um agente.

Ouça. vou sair da cidade amanhã de manhã. com um metro e oitenta. como estarei a cinco mil quilómetros. . era um alcoólico em recuperação. Se a Mary Olsen se encontrar com o nosso desconhecido. mas são diferentes. Passava um pouco das dez da noite.O meu cliente tem mais uma filha viva . Se se vir em sarilhos. Dois minutos mais tarde.Eu tento. disparo a matar. mal vestido. ao mesmo tempo que os trovões ribombavam à distância. O que reduz em muito o campo das nossas investigações brincou De Beers. usou o nome de Tristan Shandling. Esse tipo tem tomates de cimento armado. Acabaram de me dar a informação.Vejamos! . bem constituído e elegante. .Como tenciona agir? . . Rainie arrancou sob o olhar atento de De Beers.Tomates de cimento .resmungou De Beers entre dentes. jovem! . Se todos os meus clientes fossem como você. calvo. pode ligar-me para o número indicado no meu cartão. mas.mas. e quero que assim continue. era alto. A acreditar nos seus antigos colegas dos Alcoólicos Anónimos. Mas voltemos ao nosso assunto. Quarenta e muitos.A outra descrição? . que a Amanda Quincy conheceu. telefone da minha parte ao Vince Amity da polícia da Virgínia. Um pouco como o meu cliente e mais ou menos da mesma idade. . evite armar em herói.Duas. receio bem que muitas coisas lhes escapem. dado o assassínio em Filadélfia. Estive nessa casa em Filadélfia e posso garantir-lhe que a fotografia do jornal é uma brincadeira em comparação ao que ele fez passar à vítima. fazia-se passar por polícia. barrigudo. não poderei fazer muita coisa. início dos cinquenta.Sem problema. 141 .É tudo. Ele insistira em acompanhá-la até ao carro e ficara-lhe agradecida 164 por isso.Não . Phil. Mais uma coisa.respondeu Rainie com ar pensativo. . É ele quem está à frente da investigação do acidente da Amanda Quincy.Em Filadélfia. Mal saíra do parque de estacionamento. Rainie assegurou-se de que o cinto de segurança funcionava normalmente.Em resumo. Mal aviste alguém semelhante a esse retrato robô. Um tipo fixe. Oito horas mais tarde. Tem alguma descrição do indivíduo? . a tempestade tinha desabado e trombas-d água abateram-se sobre o carro. . estariam a salvo.O tal Ben Zikka.respondeu Rainie com um pequeno sorriso -. Em caso de necessidade. Contente-se em observar e tomar notas. Nada mais? . Ainda não tive tempo de verificar. procuramos um indivíduo de raça branca e de meia-idade. . Segundo a nossa única testemunha.

pois o pobre moço olhava-a com inquietação.Está a dar uma aula. Uns minutos depois. Aos seus olhos.. as faces já estavam cobertas de uma fina penugem sedutoramente grisalha. o que não a impedia de fantasiar sempre que ele estava perto dela.O mais simples seria deixar-lhe uma mensagem. antes de o assassino a ter feito em postas? E Mandy? . Juro que demoro apenas um instante. De manhã apresentava-se barbeado. 166 Desde as suas primeiras lições juntos. De estatura média. Doug James apareceu. vindo de uma das salas de treino. Tenho consciência de que até eu poderia ser uma maníaca com instintos homicidas. .Não. Tinha visivelmente a intenção de obedecer às regras. dar-lheia um abanão. mas sem o pretensiosismo ou a superficialidade dos playboys que se encontram às dezenas nas praias.Quero falar com o Doug James. James era um homem casado e inacessível. caso contrário tudo seria mais fácil. mas. tinha um físico de atleta. O adolescente corou até à raiz dos cabelos e afastou-se na direcção das salas de tiro. os lábios entreabertos.22 Clube de tiro de Kimberly. . Se necessário. Tinha o olhar atento e perscrutador dos que estão habituados a viver ao ar livre e a apanhar sol.Ele é meu instrutor. O rosto devia expressar o que lhe ia na mente. 142 . O adolescente sentado atrás da secretária na recepção do clube emitiu um profundo suspiro.sussurrou-lhe para o desestabilizar. . Era um homem maduro com fios grisalhos nos cabelos castanhos que faziam sobressair o bronzeado da pele.Olá. Ocorreu-lhe o aviso do professor Andrews e sentiu um aperto no estômago. A mãe reagira da mesma maneira. incapaz de pronunciar uma palavra. no final do dia. Kimberly notara a aliança que Ae usava no anelar esquerdo. e ela lembrava-se da força dos seus braços quando a ajudava a ajustar a arma. Observou demoradamente o elegante Doug James e o desejo invadiu-a de novo. . pensou Kimberly. Preciso de falar-lhe pessoalmente. Kimberly.. Nova Jérsia . esperava que o estúpido jovem acabasse por ceder. Em que posso ajudar-te? Ela fitou-o com um olhar vago. . à beira de um ataque de nervos e com as mãos trémulas. apesar do medo físico. Argumento irrefutável. Só levarei um minuto. Olhou-a bem de frente e Kimberly teve de fazer um grande esforço para não esmorecer quanto à resolução tomada. É provável que conheça o assassino.Nunca se deve enervar uma rapariga com tensão pré-menstrual . James era elegante. Era novo ali e ainda não a conhecia. Kimberly.

Como é que ela se chama? .Acha que estou a meter-me no que não me diz respeito? . .Talvez sejamos amigos.Enervam-no? .Porquê? Tem alguma coisa a esconder? 167 Doug James manteve-se silencioso.vou regressar à minha aula . .Há quanto tempo estão casados? . Kirn berly.Lamento mesmo.Lamento muito. mas amava-nos muito. não? . . Kimberly. . espero? .. com o coração aos saltos e os punhos cerrados. .Tenho de cancelar as minhas aulas. com a minha mulher..Laurie.Julgava que éramos amigos. limitando-se a observá-la.Ainda não. Tentei telefonar-te para casa. James franziu o sobrolho e parecia sinceramente preocupado.A minha mãe era uma mulher fantástica.Não têm filhos. mas já tinhas saído. Mas Kimberly.Não voltarei mais. Ele transforma-se no que as vítimas pretendem.Escuta. . Só vim aqui de passagem buscar uns papéis. Alguém que seja terno.Para ser sincero. . Ignoro o que se passa na tua cabeça.. . fez tudo o que era possível para ser feliz.Desculpa. .. Kimberly. Porquê todas estas perguntas? . .. De pé. sabe? Talvez devesse ter-se esforçado mais para manter o casamento. não era eu. . aguentou o olhar sem pestanejar. . .Preciso de ir-me embora. pois não? .. no 143 . mas não me parece apropriada.Em casa. Desagrada-me o rumo que a conversa está a tomar. .Onde estava ontem? . . . Nada de grave. Andrews.Não pense que sou tão fácil como a minha mãe. mas fui directo para casa.E ontem à noite? .Sorriu. . .Não.Exacto.Não me sentia bem e foi por isso que faltei.acabou por dizer. .Esteve sempre com a sua mulher? . Ternura. mas as tuas perguntas não são nada amistosas.Sim. sim. É isso o que as mulheres pretendem. .. explicara-lhe o Dr. Os amigos podem fazer perguntas.Está bem. Num restaurante. Não quis assustar-te. Mesmo nos momentos mais difíceis. .Pareceu-me vê-lo num sítio qualquer. A voz de Kimberly morreu-lhe na garganta e rompeu em soluços.vou sair de Nova Iorque e nunca mais me verá.

. . no meio dos trofeus e das cabeças de animais embalsamados. Os que assistiam à cena desviaram a cara e Doug James aproveitou para desaparecer.átrio do clube de tiro. Virgínia Quincy abandonou as instalações do FBI pouco depois das dez da noite. Lamento tanto nunca ter percebido o que é estar sempre com medo. Devia efectivamente tratar-se da mulher.Oh?! Não era. Tentava encaixar as peças.Viste-a? .Por volta das oito . . na casa dos quarenta. quando começaram a cair as primeiras gotas. contendo as lágrimas.Como era ela? . A acreditar na senhora. .murmurou Kimberly de um fôlego.Menos bonita que você . . Tenho medo.Como era a mulher que vinha com o Doug? Loura. . Nove e meia. oferecia agora uma imagem ainda mais patética. Kimberly girou subitamente sobre os calcanhares e saiu. procurando desesperadamente a maçaneta da porta por detrás das suas costas. bem vestida? . sem saber muito bem onde ela queria chegar.Nem pensar .. .perguntou ela. A tempestade aproximava-se. casado e um futuro chefe de família.bom. por conseguinte.A que horas é que o Doug passou por aqui ontem? . Lá fora.A mulher do Doug é uma morena baixa e para o forte. e James era com toda a probabilidade um instrutor de tiro.balbuciou o jovem. Ao cabo de um minuto que pareceu durar uma eternidade. Julgo que está grávida.. 168 . Quantico. Acabara de se meter pelo acesso da 144 . Levantara-se vento. anunciando a tempestade. Ergueu os olhos e verificou que nuvens ameaçadoras tapavam por completo a Lua. chorava copiosamente sob os olhares dos outros membros do clube que passavam por ali. Kimberly virouse para a secretária onde o empregado novo a observava boquiaberto e nervoso. A mulher ficou à espera lá fora. . .apressou-se ele a responder. É apenas o primeiro dia e estou completamente baralhada.Sinto a falta da minha mãe . a noite estava escura como breu e o ar continuava asfixiante. a sua mãe quem estava com Doug na véspera à noite. O que dissera a vizinha da mãe? Elizabeth e o desconhecido tinham chegado a casa dela cerca das dez da noite num descapotável vermelho. a sua mãe estivera ausente o dia inteiro.respondeu o jovem. De olhos secos. sim..Veio buscar uns papéis. Mandy. franzindo o sobrolho. Kimberly assentiu vagarosamente com a cabeça. Doug James recuou até à entrada da sala de treino.

O vento soprava agora com mais força. Faltava pouco. Tratava-se de Carl Mitz. O jantar também podia esperar.ou talvez o mesmo . Motel 6. por se despedir sem grande entusiasmo. avistou. Quatro dos seus interlocutores . na verdade. devia ter sido provavelmente Mitz que desligara das outras vezes. Numa palavra. Everett não dissimulara a sua insatisfação quando Quincy lhe tinha anunciado que tencionava abandonar a região. A medida não era muito prudente. quando este fazia todo o possível para lhe proteger a família e a carreira. Tratava-se de uma situação de compromisso. os faróis de um carro que se aproximava. Chovia a cântaros e 169 ficou encharcada em menos de cinco segundos.Continuo a tentar contactar Lorraine Conner para um assunto do seu interesse. pegou no bloco de apontamentos e sentou-se em cima da cama. a luz vermelha do atendedor indicou-lhe que tinha mensagens e cerrou os dentes. Pedira-lhe que se mantivesse em contacto com o FBI e ficasse totalmente disponível.haviam desligado sem uma palavra. Afilha precisava dele. tomando em consideração que ninguém ou quase ninguém sabia onde contactá-la.Uma noite de merda! . Os dois homens acabaram pois. Recusara igualmente desfazer-se da sua arma de serviço de dez milímetros. 145 . . seis mensagens. pois nenhum organismo se encontra ao abrigo das fugas. O quinto deixara mensagem. quando o primeiro clarão iluminou o céu. Quincy dificilmente teria coragem de dizer ao chefe que não confiava nele. estava tão preparado quanto era possível. . O guarda da noite levantou a cabeça quando ela atravessou a porta como um raio. pensou. Pelo tom urgente da voz. inquieto.Que tempo horrível! . Um recorde. Faltavam poucas horas. No quarto. agitando as copas das árvores e forçando-o a abrandar. Percorreu o corredor e dirigiu-se ao quarto.corrigiu-o ela. inquieta. Pelo retrovisor. Por outro lado. Virgínia Eram dez e quarenta e cinco quando Rainie saiu a toda a pressa do carro de aluguer e correu para a entrada do motel. Dez e meia. Era só o tempo de arrumar as coisas e voltar a partir Tomaria um duche quando tivesse tempo. Havia. Suspirou. . a tremer por causa do ar condicionado.Auto-Estrada 95.comentou. a pingar água e pedaços de folhas trazidas pelo vento. Precisava de chegar a Nova Iorque o mais rapidamente possível. Faltavam poucas horas. Quincy metera o computador portátil e uma pilha de velhos dossiês no porta-bagagem do carro. Faltavam sete horas.

pois fora feita pelo seu ex-colega Luke Hayes. surpreendida. O gato prendia sempre o rato entre os dentes e depois largava-o. disposta a enfrentar o que quer que fosse. Faz-me um favor. . primeiro num tom agudo e depois mais fraco. informa-me de maneira a que possa aparecer de surpresa. Achei por bem prevenirte. Pensou em Bethie que optara por abrir a porta a um desconhecido depois de anos de solidão. Rainie consultou o relógio de relance. Decidiu telefonar a Luke para casa dele e respondeu-lhe o atendedor. Rainie levantou-se e atirou as coisas para dentro do saco de viagem. Como se fosse mais fácil morrer do que viver.Olá. Quinze anos depois da morte da mãe. porque era mais fácil morrer do que viver. Uma forma de a natureza se mostrar misericordiosa frente aos mais fracos. Faltavam sete horas para a partida e tinha duas de estrada pela frente. que tinha papos.anunciou. Depois. Olhou-se ao espelho e verificou. 170 Bethie lutara até ao limite das forças. a ponto de ir a Bakersville fazer perguntas sobre os seus antecedentes. Um tal Carl Mitz. O rato acabava sempre por desistir. pensou. mas regresso amanhã de manhã. Neste momento não estou em casa. Desligou.A sexta mensagem era sem dúvida mais surpreendente. Parecia uma punk. Rainie pensou em Mandy. Tu e ele. O infeliz continuava a guinchar. anda por aí um advogado que não pára de fazer perguntas estranhas sobre ti e a tua mãe. sem o cinto de segurança. que voltara subitamente a beber depois de todos os meses de abstinência e se pusera atrás do volante. divertida. Virgínia A agente especial Glenda Rodman mantinha-se enroscada num canto 146 . Não tinha tempo para tratar do assunto nesse momento. O cabelo parecia uma vassoura ensopada. Casa de Quincy. Fala a Rainie . Tinha dificuldade em reconhecer a sua imagem no espelho e sentiu repentinamente o peso da fadiga sobre os ombros. Conhecia o agressor e tentara inutilmente escapar-se. o Mitz em causa parecia ter muita urgência em falar-lhe. A vida é uma batalha.Rainie. . divertia-se a observar os gatos selvagens a perseguirem os ratos.Obrigada pela informação. . Onze horas. Há três dias que esse tipo anda atrás de mim e já chegou a altura de termos uma conversa. a recordação do que lhe acontecera ainda a perturbava. Ou a vítima de um vampiro. um ar cansado e estava pálida. Por outro lado. pensou. O que sente uma mulher num momento desses? Haverá tempo para se sentir atraiçoada pela vida? Ou terá simplesmente medo? Adrenalina ou testosterona? O instinto de sobrevivência é sempre mais forte? Quando era mais nova. Combina um encontro com esse tal Mitz. agora xerife da polícia municipal de Bakersville. Os cabelos molhados continuavam a pingar sobre a T-shirt. Luke.

entoou uma voz do outro lado da linha. Glenda Rodman telefonara à empresa de segurança e tinha decorado rapidamente o número.. Quincy assentiu com a cabeça e depois virou-se para a filha. . Simpático. . . . crime. Os detectives particulares não podem viajar de avião armados. crime . 171 23 Greenwich Village. de dez milímetros. o suficiente para aguentar um cerco. A campainha do telefone voltou a tocar e o atendedor respondeu na cozinha. o vento soprava.Morte. Levo também o spray para um caso de força maior. Por uma questão de segurança.Tens o quê? .perguntou Quincy. Thelma e Louise? 147 . crime. O gerador auxiliar não devia estar devidamente ligado. mais a que já se encontrava no cano. a chuva batia de encontro aos vidros. mas os raios começavam a diminuir. Lá fora.Já que se está armado. balançando-se nervosamente para a frente e para trás. matar.Spray de gás-pimenta? .disse Rainie -. nem sombra. usava dois carregadores suplementares no estojo de cabedal castanho. matar.declarou Kimberly num tom pausado e o pai sobressaltou-se. que estava de pé diante da mala. Quincy. . No ar pairava o odor da água-de-colónia de Quincy. Quanto ao seu colega. morte. devido a cortes de electricidade. cromada. De todas as vezes. matar. morte.Sim. matar.Também tenho uma Glock . ainda se ouvia ao longe o ruído da trovoada. AlbertMontgomery. quero que recuperem as vossas armas e as conservem sempre ao alcance da mão. . De vez em quando.Vai dar uma olhada à tua caixa de correio. matar. morte. De acordo.Armas? . Nova Iorque . Nove balas no carregador. fico encarregado de vos proteger durante a viagem. O alarme disparara pelo menos cinco vezes. Glenda enroscou-se mais sobre si própria. matar. agitados pelo temporal. que se esteja devidamente. A partir da chegada a Portland. mas preciso de declará-la. Ao todo trinta balas. Degolei o bonito cãozinho só para ti.Dado que sou o único a poder levar a arma comigo no avião disse -. sentada na alcatifa. não? Morte.do escritório. .Tenho a minha Glock . morte.. ao mesmo tempo que as luzes se apagaram e o alarme disparou mais uma vez. Como queres que me defenda com uma arma de calibre vinte e dois? Quincy franziu o sobrolho e exibiu a sua Smith o" Wesson. os ramos das árvores entrechocavam-se.

Como podes afirmar que a caligrafia é tua? Não foste tu que escreveste aquele horror! . a colocação dos pontos nos ii...Tenho um encontro com o Luke Hayes à chegada .Demasiado chamativo . Mal não fará. Há dois dias que quase não dormiam e preparavam maquinalmente as bagagens para se manterem acordados.. .Kimberly. mas não 148 .Na opinião ele.Não tens culpa. Quanto a mim. Tudo depende dos seus talentos de falsificador e do perito em grafologia. . Passava um pouco da uma da manhã.Não sei. papá.Os objectos de toalete .O doutor Andrews pensa que se trata provavelmente de alguém que eu conheço . com um pouco de sorte. . Fixou as riscas azuis e brancas do tecido com uma expressão vazia. Posso pedir-lhe que nos envie reforços da polícia de Bakersville à cautela. . Não tens culpa. O rosto de Kimberly iluminou-se ante aquela sugestão. parou bruscamente.Não sei. Não o vejo a abater-nos de um carro ou do alto de um telhado.Ainda não descobriram que a caligrafia da mensagem encontrada no ventre da Bethie é a minha. a mensagem ficará para o fim. Esse tipo andou obviamente a praticar. sempre tive um fascínio por fardas e distintivos. .objectou. mas não deu nada. AMandy sempre desejou que se ocupassem dela e ele sabia até que ponto a mamã sentia a falta da Mandy. Mas a verdade é que trabalho não lhes falta. .Chegaste a ver esse tal detective. . .afirmou Kimberly num tom calmo. não acredito na eficácia de agentes por perto.explicou Rainie.acabou por perguntar Quincy.. A inclinação das letras. . dirigindo-se à casa de banho.inquiriu Quincy em voz baixa.. O nosso homem não é do género de atirar de longe. .Sim. mas Quincy abanou a cabeça. Quincy esboçou um aceno de cabeça duvidoso e meteu a camisa num saco de viagem. mas é mesmo. o culpado procura antes de mais os pontos fracos das vítimas. duvido que a imitação seja perfeita. Prefere os cenários elaborados. chegou-lhes o ruído de frascos..E que mais? .Além disso.respondeu a filha. Os 172 guarda-costas não servem de nada quando a própria vítima deixa entrar o lobo no curral..Deve haver um meio de provar que é falsa. que se dedicava a dobrar com todo o cuidado uma das camisas da filha. Quincy. Instantes depois. E tu? Novidades? . uma coisa mais pessoal. Rainie? . enquanto ela remexia no armário. Para falar verdade. . deitando um olhar inquieto para a porta aberta da casa de banho. . . Por fim. Precisarão de alguns dias para examinar em pormenor todas as pistas encontradas na casa da Bethie.

Rainie.me servirá de nada. De qualquer maneira. Quincy pousou bruscamente a chávena. Pálida. no voo das seis da manha.O que se segue? .Há. os sacos estavam empilhados junto à porta. O que conta é que agora já sabes. desarmado e desacreditado. Dali a três horas. há uns meses que tenho ataques de pânico. foi o que pensei. que partilhava o apartamento com Kimberly. Ele apenas quer que se julgue reconhecer a minha caligrafia. já terei sido preso. mas a ideia de que o voo pudesse estar atrasado. Bobby era um rapaz esperto. Apanhara uma constipação devido as roupas molhadas em cima do corpo.... não me parece que se devessem unicamente ao stresse..A propósito do professor Andrews. pensou Rainie. Estava persuadida de que me espiavam constantemente e a angústia era tanta que sentia dificuldade em respirar. É o que me fascina nele. seria altura de partir para o Aeroporto JFK onde Rainie deveria começar por entregar o seu carro de aluguer. Estava a aguentar-se muito bem. . embora já tivessem a sua conta de cafeína.Ele andou a espiar-te .. derramando algumas gotas de café em cima da mesa. com as mãos à volta da chávena fumegante.afirmou Quincy num tom cortante. mas funcional. mas também eficiente. . tentava aquecer-se por todos os meios. A jovem limitou-se a encolher os ombros.. Quando o FBI se aperceber de que é falsa. atirou o nécessaire para dentro do saco de viagem e a conversa ficou por ali. antes de embarcar rumo a Portland com os seus dois companheiros. preferindo consolar-se nos braços da namorada a sobressaltar-se ao mínimo ruído durante a ausência deles. Depois de tudo o que se passou nos últimos dias.perguntou. a faculdade. . Kimberly hesitou. lançando um olhar furtivo ao pai e voltando a fitar a chávena de café.Na altura.Que mais te disse o teu professor? . Lá fora. o lugar de estagiária que tanto desejava.Porque não me disseste nada? . Trata-se de um tipo não só esperto. Instantes depois. . . ele aconselhou-me a contar-te.. Não eram os raios e trovões que o assustavam. julgava que era tudo devido ao stresse. Não sei. sou muito 149 . Bobby. Sentaram-se à volta da mesa da cozinha e Kimberly encheu as chávenas de café. nervosa. No fundo. Passava o tempo a vigiar-te e não me disseste nada. decidira ir-se embora quando Quincy lhe explicara a situação. . Além de que não é importante. 173 Tinham finalizado os preparativos.indagou finalmente a Kimberly. Kimberly regressou ao quarto. todos tinham atingido aquela fase em que se continua a avançar para não cair.Ando sempre com um spray de gás-pimenta na mochila. a tempestade desabava e Quincy olhava regularmente através da janela com uma expressão inquieta. . A morte da Mandy..

anunciou Quincy. Portanto. ter um marido e filhos que negligenciarei e o ciclo ficará completo.. -à .. pronta a disparar e tinham descido as persianas e diminuído as luzes para não servirem de alvos. Abriu a boca várias vezes. Sabe-o tão bem como eu. por uma espécie de acordo tácito. . O relógio marcava duas horas da manhã. . levantou-se.. Lá fora.Tu ouviste-as? . sem conseguir articular uma palavra. É a lei da vida. o Sanchez e um primo assassinaam jovens prostitutas. .Era obcecada pelo teu trabalho e quando te foste embora. . 150 . na Califórnia. mas. -Ah.Sabem uma coisa? . papá! Não vais passar a vida inteira a proteger-me! .redarguiu Rainie. Quincy cerrou os maxilares.exclamou Kimberly.Eu não. .Um dos tipos encarregados do inquérito. Oito raparigas ao todo. .Claro que vou. mas Rainie duvidava que os Quincy.És sobretudo humano. . . com a chávena de café na mão.explodiu Quincy.Estes momentos em família são muito tocantes.Esqueces que sou polícia. Depois.De que constava o caso Sanchez? . Por vezes. A Mandy .Mesmo assim. de olhos pregados na mesa. o AlbertMontgomery.. Kimberly! . O inquérito começou por lhe ser entregue. tem umas contas antigas a ajustar comigo por causa do caso Sanchez. .ripostou Kimberly no mesmo tom.. Tinham acompanhado o boletim meteorológico na televisão e previa-se uma calma para o início da manhã. A arma de Quincy estava pousada em cima da mesa. o temporal continuava.. devias ter-me falado.Os filhos crescem e acabam por se afastar. sim! As cassetes! . mas ele lixou tudo e o FBI passou-me o caso. prolongaam o prazer sentido. encolhendo os ombros. poderei ingressar na polícia.atenta e sei defender-me.Há quinze anos.observou Rainie.. Em desespero de causa.Também eu sou humana.Não me contaste o que soubeste . foi até à janela e mergulhou o olhar no escuro. vamos mas é apanhar esse safado para que possa acabar tranquilamente os meus estudos. Pergunto a mim mesmo de que me serve esta profissão se nem sequer a minha família consigo proteger? 174 . Kimberly. se queres saber . no estado de tensão em que se encontravam. É o meu trabalho. trinta minutos depois. como todos os outros pais. . tivessem realmente acreditado no locutor. . evitava fitar o pai de frente.respondeu a filha.Começo a ficar farto desta história toda! .Talvez tenha uma pista . Ora.Eu também. ninguém fora deitar-se. .

a ponto de ficar irreconhecível.Não há dúvida de que obedece a um plano cuidadosamente elaborado aquiesceu Quincy. levo-os ao hotel onde se registarão sob um nome falso. por exemplo. pois aguardou mais de um ano após o acidente da Mandy para recomeçar.Estavas a dizer que oMontgomery embirrava contigo . Os gordos dão frequentemente a ideia de que são mais baixos do que na realidade são.Então. A partir do momento em que o relatório lhe chegar às mãos.murmurou Kimberly. Mal cheguemos a Portland. o teu patrão parece apoiar-te e a Glenda Rodman não é do género de se deixar enganar pelo primeiro que apareça. não levantará um dedo para me ajudar. .O Monrgomeiy está convencido de que o desgracei ao pegar no caso Sanchez . Quincy virou-se para ela.interrompeu-o Rainie. Menos de um metro e oitenta. .Três dias no máximo . um tal Williarn Zane.O Ted Bundy.confirmou Quincy.Houve uma altura em que engordou vinte quilos.Ainda não chegámos lá .Céus! . não temos muito tempo . . alto e bem vestido . Pedi também ao Vince Amity que reabrisse o inquérito sobre o acidente da Mandy. mas a descrição do indivíduo está longe de corresponder às minhas expectativas.precisou Quincy num tom fatalista. . . Recapitulemos. Tenho quase a certeza de que lançará achas na fogueira. 175 .O que significaria que o nosso homem é um ás do disfarce retomou Rainie. Por outro lado. de olhos brilhantes e um ar irritado. no dia em que o suposto relatório de "provas" chegar de Filadélfia. O Phil de Beers.interveio Rainie.. barrigudo. O homem confirmou-me que ela conhecera alguém nas reuniões. mudava regularmente de aspecto e de personalidade . . . .Hoje. . calvo. Considero-a perfeitamente capaz de separar o trigo do joio. só nos resta esperar tranquilamente pelo assassino suspirou Kimberly num fio de voz.A vizinha referiu-se a um homem de aspecto agradável. passou mais de um ano e meio desde que a Mandy conheceu esse tipo e teve tempo de mudar de aspecto. .Se bem entendo.Exacto. vai ocupar-se da Mary Olsen e manter-me ao corrente. enquanto vou à minha entrevista.Digamos que. o Everett vai telefonar-me e mandar-me regressar. E mesmo que oMontgomery não seja de fiar.Sabe-se também que é muito paciente.retorquiu. conseguiu escapar à polícia durante mais de um ano.bom. Usava roupa enchumaçada e punha silicone na cara para modificar o aspecto geral.lembrou Kimberly. procurando acalmar o ambiente. mudando várias vezes de aparência. 151 . O Jim Beckett. o detective particular com quem me encontrei esta noite. Quincy. Avistei-me com o presidente do grupo dos Alcoólicos Anónimos de que a Mandy fazia parte. soube algumas coisas interessantes. descuidado. . . . . o assassino em série.

.contrapôs Rainie.repetiu Rainie. Ainda não sei nada sobre esse Tanz. serviu-se do nome de Ben Zikka para se aproximar da Mandy. um tal Larry Tanz.Por fim. . o tipo dos Alcoólicos Anónimos. . Rainie nunca o tinha visto assim. . Quando haviam elaborado a lista das pessoas ameaçadas. . o padrinho da Mandy era nem mais nem menos do que o patrão... Já agora. para ver se esse nome te lembra alguma coisa. Conseguiu prosseguir tranquilamente com a Bethie. Quincy. Acho que o meu leite com açúcar pode agora parecer perfeitamente respeitável.Uma pista a ter em conta ...Coloquei o meu novo amigo Phil de Beers na peugada.Cabrão de merda. Depressa. acho que devias passar uma vista de olhos por esses teus dossiês antigos.sublinhou Quincy. Precipitou-se para o telefone sem fios.rugiu Quincy ao telefone. Depois. .exclamou Rainie. Não tinha esse direito Quincy saltara literalmente da cadeira. A propósito. mas muito pouco tranquilizados. marcou um número e ficou à espera. mas a julgar pelo estranho comportamento da Mary.Tenho também uma nova pista.murmurou ela. virou-se para Kimberly e viu que a filha estava lívida. .Nada disso . Era incrível a semelhança entre pai e filha. Quincy e Kimberly reviraram os olhos ao mesmo tempo. na Virgínia.rematou olhando 176 para o relógio -. há um ano e meio. o que prova que tomámos a dianteira. tenho um segundo pseudónimo para o nosso assassino . . .prosseguiu Rainie.Ligue-me à Casa de Repouso de Shady Acres . .indagou bruscamente Quincy. mas a situação mudou. Decorreram alguns instantes num silêncio de morte. por favor.Sabe-se que usou o nome de Tristan Shandling em Filadélfia.Ele safou-se com a Mandy porque foi a sua primeira vítima..Que nome disseste? . estaremos longe da zona de ataque. .O meu avô . fechando os olhos. Filho-da-puta. E daqui a exactamente três horas . virando uma página do seu bloco.Ben Zikka .. porque ainda não nos tínhamos apercebido do caso. Rainie aproveitou para consultar de novo os seus apontamentos. Como? Ele não está? Claro que tem de 152 .Deus do céu! . . o Phil junta uísque ao café. ninguém pensara no pai de Quincy internado num lar por causa da doença de Alzheimer. A acreditar no William Zane. . de maxilar cerrado e os dedos crispados no aparelho.. Kimberly e Quincy assentiram com a cabeça. A Mary Olsen também trabalhou para ele.Abraham Quincy. Sem compreender o que o pusera num tal estado.

O meu pai nem sequer se recorda de mim! Porque é que esse fiIho-daputa quer matá-lo? Ele não se recorda de nada. O pesadelo continuava para Quincy.. Quincy! Lamento muito por ti. Talvez ele ainda esteja vivo. Ele é um velho e já nem sabe que tem um filho. Sabe-lo tão bem como eu. Um terrível pesadelo. nem sequer a ouviu.Trabalhou arduamente durante toda a vida. Diz que o filho foi buscá-lo ao princípio da tarde? Pierce Quincy? Suponho que lhe pediu que se identificasse. e nem sequer sabe que tem um filho. Sabia que Kimberly devia estar a pensar o mesmo.. Cresceram juntos. lançou o telefone pelo ar. como que a procurar um conforto impossível. . ninguém se atrevia a mexer-se. . apertou-o de encontro ao corpo. . Mandou-me para a faculdade.Ele está morto. Não vou deixar-te aqui sozinho. Não se reconhece ao espelho. Não é autónomo e não podia ir-se embora sozinho.Vens connosco. Kimberly e Rainie mantinham-se silenciosas. Nem sequer sabe que tem um filho. mas o teu pai está morto.. talvez esse porco não o tenha morto. Aos setenta e cinco anos.. faz qualquer coisa.. em Filadélfia. . Kimberly e Rainie não pronunciaram uma palavra... quando mal tinha para comer. Mostrou-lhe a carta de condução e era mesmo Pierce Quincy? Quincy estava desfigurado.. É bem possível que esse safado o torture antes de o assassinar e quando se pensa no que fez à Bethie. que se desfez em pedaços no mosaico. ..prosseguiu Quincy num sussurro. antes de atirar a cafeteira para o lava-louça e virar a mesa com um uivo de raiva impotente.. . pelo menos. Construiu uma quinta e criou-me sozinho. sem ousar romper o silêncio. . mas em vez de largar o telefone. . cego pela dor.Tenho de ficar.murmurou Quincy. nem sequer consegue urinar sozinho. É meu pai. incapaz de esboçar 177 um gesto. 153 . Não percebeste que é precisamente isso o que esse psicopata quer? . pensou Rainie. fizeram a guerra juntos. . merece. Lamento muito. agarrou numa cadeira que quebrou contra o balcão. céus. Porque era natural e achava que era seu dever. Quincy.Papá.O Ben Zikka era o melhor amigo do meu pai . Não compreendes.estar. . Quincy. É um homem de idade doente... Abraça-o. Na pequena cozinha. Desligou....É um velho . que tem medo de tudo. Rainie. raios. ..Quincy. Como se não lhe bastasse.. merda! De NADA! À beira de uma crise de histeria..E o meu pai. Nunca se sabe. uma vida de camaradagem. morrer com dignidade.Vens para Portland connosco. nem como me chamo. Já nem sequer sabe que tem um filho.Aos setenta e cinco anos.Fora de questão! .

178 Quincy virou-se para a filha sem se levantar. . os três mal conseguiram percorrer a passadeira rolante. com a testa apoiada ao encosto. .murmurou. Sob o efeito do cansaço e dos nervos acumulados. os joelhos de Quincy cederam e ele tombou sobre os bocados de madeira e de vidro espalhados no chão da cozinha. Durante um segundo. . mas não conseguia perceber o que diziam. subiram a bordo do avião com destino a Portland. ." 154 . Fechou os olhos e Rainie sabia a razão. Perguntava-lhe constantemente por que razão ela tinha morrido e ele respondia-me sempre: "Porque sim. Nova Iorque Na sexta-feira.Tudo correrá bem. . odiei o meu pai .Ataque cardíaco. À sua direita. Não voltara a tentar. Ao aflorar-lhe a mão numa carícia. Quincy assumira uma máscara artificialmente impassível. mas Quincy servira-se do seu distintivo do FBI para que os cartões de embarque fossem passados com nomes falsos. Tenho medo. Tinham sido obrigados a identificar-se ao balcão da companhia aérea antes de receber os bilhetes pagos na véspera em dinheiro. Abriu os braços e Kimberly precipitou-se para ele. encantada por participar no que julgava tratar-se de uma operação secreta. mas o céu permanecia ameaçador e a pista estava escorregadia devido à chuva.confessou ele... . O temporal afastara-se finalmente. Kimberly ocupou o seu lugar junto à janela e adormeceu de imediato. Só Deus sabe no que ele pensaria nesse momento.De súbito. Como tinha apenas trinta e quatro anos. ele retirara-a de imediato. hora de Nova Iorque. Funcionários com capas de oleado amarelo-vivo afadigavam-se e gesticulavam à volta do aparelho. de tudo o que a rodeava.O meu pai . o tempo parou. a fim de evitar indiscrições.Eu era muito jovem.O meu pobre pai. 24 Aeroporto Internacional JFK. Considerava-o responsável pelo sucedido.sussurrou-lhe ao ouvido. tinha uma percepção aguda. às cinco e trinta e cinco da manhã. Rainie passara a fase de cansaço em que o sono ainda é uma possibilidade. . .Quando a minha mãe morreu. até mesmo para impedir que a minha mãe morresse. Kimberly rompera em lágrimas. . Achava que o meu pai tinha poder para tudo.Papá.Mas o teu pai não teve culpa nenhuma. com um olhar para Rainie que ela nunca mais esqueceria. Rainie observava-os do seu lugar. Não queria que nenhuma delas visse que ele acabara de dizer uma mentira.Prometo-te que tudo correrá bem. Preciso de ti. A funcionária apressara-se a executar a tarefa. Kimmy . Sentada entre o pai e a filha. Por favor. arrumando as bagagens.De que morreu ela? . ninguém estava à espera. quase dolorosa.

com os motores ligados. Era aliás o que o tornava um sedutor para as mulheres. Luke emitiu um leve suspiro. Já era humilhante ser derrotado numa rixa de bar.Para um fazendeiro ianque como ele. era muito mais simples: a sua força vinha-lhe da calma e da ponderação. Uns olhos azuis que trespassavam a alma. Alguém o fez.respondeu finalmente. . porque aquele porte inofensivo dissimulava um homem capaz de bater com a rapidez e a força dos melhores lenhadores da região. voltou a abrir os olhos e deparou com Rainie.comentou Rainie. de olhos fechados.Vamos descobri-lo. Um suspeito acusara-o uma vez de praticar magia com o olhar. Oregon O xerife Luke Hayes. Tornei-me especialista em perfis psicológicos com o objectivo de ajudar as pessoas. no momento em que o avião. Rainie manteve-se silenciosa. É um osso duro de roer. imaginando uma brisa do mar naquele dia de canícula. À sua maneira.Também a Bethie não merecia morrer. parecia dormir. Levei anos a perceber que ele tinha razão. mas o seu olhar. Só com o olhar. o meu pai tentava fazer-me compreender algo de essencial. Desta vez. Rainie. era a sua maneira de o dizer. quanto mais por um tipo com um físico daqueles. Hoje.180 . Quero mesmo encontrá-lo e matá-lo. Na realidade.A Mandy não merecia morrer .A vida tem dessas merdas .Se é assim. Só na aparência.Mais uma vingança . . Luke conseguia acalmar o ímpeto dos bêbedos mais aguerridos ou pacificar jovens demasiado enervados. Há coisas que pura e simplesmente não se explicam. O trunfo principal de Luke Hayes não era a sua força. 155 . em pé. penso que não terei problemas de consciência rematou. não inspirava terror. . parecia um lagarto ao sol. é como se isso tivesse sido inútil.prosseguiu Quincy. Há muito que a população de Bakersville o sabia. Não aconteceu. mas Luke afastara o argumento com um gesto da mão. . PLANO B 25 Bakersville.Faço tenção de o matar. com o seu metro e setenta e cinco. já não se pode dizer "porque sim". Encostado ao carro. Para ele. . se preparava para descolar. careca e uma constituição física frágil. . . Mas o que é a sabedoria divina para um miúdo? Como inculcar-lhe o sentido do destino? A minha mãe morreu "porque sim". apoiado despreocupadamente ao carro em frente do Martha s Diner. tal como o meu pai. na sua frente. Quincy. com a cabeça um pouco erguida. Vês aquele gajo calvo? Afasta-te dele. protegia os olhos da luz do Sol. Achas que é um crime? Rainie hesitou. Quincy assentiu com a cabeça.

Estendeu a mão.brincou Rainie. nada de novo. com as maçãs do rosto salientes. Que prazer voltar a ver-te.À parte isso. . que Rainie conservou muito tempo entre as dela. Nada 156 . . Já para aí há um mês que não se atira a um pobre civil que apenas passou um semáforo vermelho. Contudo. Também temos saudades de ti . Ocuparam a divisória de sempre. sonhando acariciá-los na almofada. em nada a desfavorecia. bem pelo contrário.Calculo.Escolheste mal a profissão. . enchendo o peito de ar. o que lhes dava tempo para conversarem.Eu sou um garanhão .observou Luke. Olá. . Detesto dizê-lo. ou então teria de ser reembolsada. pois Rainie sempre fora uma bela 185 rapariga. Rainie. a boca de lábios grossos e os olhos cinzento-claros.. mas acho que a Sandy e o Shep fizeram bem em abandonar a cidade. Ele achou-a cansada. mas.A farda de xerife fica-te mesmo bem.Queres dizer que deixou de agredir os seus conterrâneos? Não vou reconhecê-lo.redarguiu dando-lhe o braço e levando-a para o interior do Martha s. Não engordara desde a última vez.perguntou Rainie depois de ter encomendado o prato do dia: um bife com muito molho e puré de batata com alho.Se soubesses as saudades que tenho de Bakersville. .O primeiro aniversário depois da carnificina foi bastante difícil . mas alguém tem de fazer o papel.. o que talvez não agradasse aos homens de Bakersville.O jovem Cunningham acalmou-se .Como está o Chuckie? . .Mostra-se mais confiante agora.Eu sei. e a sua constituição musculosa valorizava-a. . .. sabes? .. . repentinamente sério.Mais um dia agitado em Bakersville .respondeu Luke. Em vez de polícia.. que sempre haviam fantasiado sobre os seus longos caracóis castanhos.É duro ser herói. os Invernos são compridos. .. Como em todas as cidades pequenas. Rainie. . Mais um quilo garantido nas ancas.ironizou ela. As pessoas não os teriam aguentado. Rainie.. Em Oregon. . . .Que vergonha! .Podes ter a certeza de que vamos ter uma briga antes das seis da Itarde.Não é uma ideia má de todo. . como era hábito sempre que trabalhava demasiado.A natureza humana é mesmo assim. Talvez mesmo duas. devias vender ar condicionado. Andamos sempre à procura de bodes expiatórios.retorquiu Luke. E o resto da cidade? .Imagino as burguesas protestantes a fazerem bicha para te apresentar as filhas. .Muita paranóia. Podia começar por vender um a mim próprio. com este calor. Marcara um encontro com Carl Mitz para dali a uma hora. velhas querelas de novo à tona. . Além de que adoptara um penteado curto.

desiludido mesmo.Simplesmente que. Contudo. . Arranjou forma de a conhecer e seduzir. .O quê? . Era conscienciosa e. O único problema reside em que o Quincy pode ser preso de um momento para o outro. Pelo menos. Luke simpatizava bastante com Quincy. . és tu .retorquiu num tom cortante.Não sei muito bem. não? . ou melhor o seu descontentamento quando o Conselho Municipal exigira o afastamento de 186 Rainie.redarguiu Luke.Como reagiu o FBI? . . .O que queres dizer? . Uma carnificina horrível.Não deve ser pêra doce trabalhar para o FBI. . aproximandose de Rainie. -O acidente da filha não foi um acidente? Rainie assentiu com a cabeça. Pelo menos. Querem dizimar-lhe a família e não me vejo a mandá-lo deitar num sofá para me contar tudo. mesmo na altura em que trabalhavam juntos sob as ordens de Shep. para um agente federal.O Quincy está na merda disse ela bruscamente. como nos velhos tempos. soubera enfrentar os acontecimentos com coragem. pois Luke tinha o ar de quem ficara satisfeito. ficara surpreso. . . por ela aceitar a sentença sem uma palavra. Ela sempre fora muito reservada.O FBI está obviamente em campo.O assassino tenta culpá-lo do homicídio da ex-mulher. Mas não parou aí e o tipo aproveitou a morte da Mandy para escolher como alvo a ex-mulher do Quincy.Para ti é fácil. Luke não tinha escondido a sua tristeza.. quando as coisas haviam dado para o torto no ano anterior. com o seu humor instável e o seu mau feitio. Menos de vinte e quatro horas depois. . E tu? Rainie não respondeu logo. Convencido de que ela lutaria para manter o posto. 157 . Luke franziu o sobrolho. falhara rotundamente. Se Rainie tivera a intenção de intimidar o interlocutor. A atitude de Rainie também surpreendera muitos outros em Bakersville.Já tinha percebido. Quando esses tipos fazem inimigos é para a vida inteira. Como é que ele está a aguentar-se? . raptou o pai do Quincy. . Luke.muda. Muito grave. o que ele já esperava.Se alguém conhece bem o Quincy.Ora. rubra de cólera.Mudou alguma coisa entre vocês? . Apenas desejou ter trazido uma caixa de lápis para que ela pudesse parti-los uns atrás dos outros. antes de a matar.A Amanda foi assassinada por alguém que odeia o Quincy. Luke! Deves calcular que o Quincy não está no seu estado normal.indagou num tom grave. acerca de quem tinha uma boa opinião. Luke gostava de Rainie como era. .. a cor subira de novo ao rosto de Rainie.É grave. .

.respondeu finalmente. Rainie sentiu que a sua raiva desaparecia. . com quem se parece. . Luke sentiu vontade de lhe dizer: "Não foste feita para passar a vida num buraco como Bakersville. Aliás.. De momento. . raios!" Contudo. Acabará por nos descobrir e. pois. Franziu o sobrolho.Pois. Rainie? Acho que tu e o Quincy foram feitos um para o outro.A propósito de amizade. nem porque faz isto. nos leva sistematicamente dias de avanço. mas Luke não se deixou iludir e leu nos olhos da jovem algo muito semelhante à gratidão.murmurou.Não percebemos muito bem o funcionamento deste homem."Ataque" é uma palavra um tanto forte. Sabe-se apenas que é esperto. . . . .Sei muito bem o que quiseste dizer. Um momento depois. nesse dia. a única a achar que o seu caso com Quincy podia resultar. muito organizado e... . teria sido eu a puxar o assunto. Arranjará forma de um de nós lhe abrir a porta. preferiu calar-se com medo de que ela reagisse mal. . obrigada por dizeres a um polícia da Virgínia que eu tinha um fraco por um tipo do FBI. podes estar certo de que não atacará em força. mas consegue sempre atingir os seus objectivos. A empregada chegou com duas Coca-Colas e Luke recebeu-as com um sorriso. que uma rapariga do campo como ela podia despertar o interesse de um dos grandes do FBI. 158 . trata-se sobretudo de um plano de retirada. a patrulhar os jogos de futebol de fim-desemana.De qualquer maneira. enquanto Rainie pousou maquinalmente a dela na mesa com uma expressão ausente.murmurou Rainie entre dentes. Ou talvez ao alívio. a segunda filha do Quincy.O Carl Mitz.. Leva tempo. Orgulho-me de ti. Luke retomou o tom sério quando se lhe dirigiu. . .E tens? 187 .Luke Hayes! Ao detectar o brilho divertido nos olhos dele. O assassino conhece bem os hábitos deles na costa leste.Sabes.Precisas de ajuda? Rainie abanou a cabeça e passou a mão pelo cabelo curto. É para isso que servem os amigos. . Falo-te por experiência.Tens algum plano de ataque? . A maior parte das pessoas leva a vida à procura da alma gémea.É difícil explicar . É mais um caçador do que um simples assassino. Não era.Esse filho-da-mãe passa o tempo a perseguir o Quincy e nem sequer sabemos quem é. Decidimos refugiar-nos aqui com a Kimberly.Tudo isto é uma loucura. nunca devia ter-te contado isso.indagou Luke num tom calmo. . . sem nunca a encontrar.

. então.aquiesceu Luke.Luke suspirou. por várias vezes. da Kimberly. O Mitz contactou-me pela primeira vez há quatro dias.Provavelmente. .Que cliente? . .vou chamar-lhe Tristan Shandling. que lhe falou da Bethie e a Bethie falou-lhe.Exacto .começou.Não temos tempo para esquemas complicados.anuiu Rainie com um sorriso de carniceiro.O polícia mau. vou sentar-me na divisória ao lado e escondo-me atrás de um jornal para que o Mitz não possa reconhecer-me ao entrar. .Há que admitir que esse tipo surge numa altura suspeita. as tuas regras de jogo? . abanando a 159 . Figura igualmente na lista da Ordem dos Advogados de Oregon.redarguiu Luke.O nosso homem. também me parece que ele surge numa altura suspeita. . Começou pela Mandy. .Contratou. Ele é esperto e organizado. .Percebo o que queres dizer. não perco uma palavra da vossa conversa e quando ele se sair com o habitual: "Não podemos dar informações sobre os nossos clientes". portanto. Uma pessoa respeitável. alguém.O Mitz tem ar de advogado.Faço o papel de bom polícia .. Luke aprovou a dedução com um ar pensativo. Ele tem-se servido sempre de um membro da família para saber coisas sobre os outros. pousando as mãos de palmas abertas em cima da mesa.. Serviu-se mesmo. . convida-lo a sentar-se e finges-te disposto a colaborar. É assim que actua. . Ele parece saber tudo sobre o Quincy.retorquiu Luke.Nesse caso.concluiu Luke.Não sei muita coisa sobre ele. Para se descobrir o número de alguém.. por sua vez.. adro-me a ele e desfaço-o. Quais são. .Não pode tê-lo feito pessoalmente .O que é altamente provável. Por outro lado.Tens razão. na eventualidade de podermos desconfiar e investigá-la. . Indaguei junto dos escritórios da Avery Abbott em Portiand e eles confirmaram que faz parte do seu pessoal. da sua identidade. na falta do seu verdadeiro nome. . na tua opinião? . em Filadélfia. Tu recebe-lo. .Percebo onde queres chegar . 188 . Só que a Amanda e a Elizabeth não sabiam nada a meu respeito e a Kimberly conheceu-me ontem.Nada de estranho. Rainie assentiu com a cabeça e inclinou-se para diante. . . numa atitude de confidência.Isso mesmo. o Shandling precisou de uma fonte de informação sobre ti. . é um prazer voltar a ver-te . . . ...Andou demasiado ocupado com a Bethie. intrigado. basta dar um nome e o número da Segurança Social à companhia dos telefones. .Se ele sabe que o Quincy tem uma amigua em Portland.E o seu cliente? . Entretanto.reflectiu Rainie em voz alta. ..Decididamente.

Mas deve haver dossiês. Tempo é o que não falta e é sempre um prazer conhecer outras pessoas.Pois.cabeça. Não que o recém-chegado lhe despertasse qualquer receio: cabelo escasso. 160 .Quanto tempo? . fiel às calças de ganga e às camisas aos quadrados. A mãe dela chamava-se Molly Conner? . Sempre me ensinaram que não se deve perguntar a idade a uma senhora.. .. Achava que Luke exagerava um pouco no seu papel de polícia da província. Lorraine Conner. Rainie não conseguiu suster um sorriso. Rainie revirou os olhos. mas Mitz pareceu descontrairse e acabou mesmo por se recostar na banqueta. mas sentia-se vulnerável. A sua ficha pessoal. Por trás do jornal. com o fato de linho bege e a enorme pasta de cabedal castanho destoava no meio da clientela. . sentada na banqueta de napa vermelha. Pareceu-me um indivíduo sério.respondeu Luke num tom magicamente arrastado e grave. ela fez parte da polícia daqui. Creio que sim. anos. Se as minhas informações estão correctas. Identificou facilmente Luke devido à sua estrela de xerife e aproximou-se da mesa. Não queria obviamente largá-la um instante. bastante.Exacto.. um rosto de rato de biblioteca.Oh.Isso não. Muito bem. tentava passar o mais despercebida possível..Sim. . Nada melhor do que um contacto directo.. . na qualidade de polícia. meu amigo.Sem dúvida. . pois nenhum júri do mundo o levaria a sério. . . escondida atrás do jornal.Estou encarregado de um inquérito de rotina a propósito de uma pessoa que viveu há muito tempo em Bakersville.Oh! Sabe como é a vida nestas cidades pequenas. Diria.começou.De nada .Desejava antes do mais agradecer-lhe por ter aceite este encontro . ... fato de mau corte e óculos antiquados.retomou Mitz.Ela viveu aqui? . Eram cinco horas em ponto quando Carl Mitz entrou no Martha s Diner. . Mitz esboçou um esgar quando Luke lhe apertou a mão.Tem toda a razão.. É sempre mais fácil conversar com alguém a quem se aperta a mão e está diante de nós. Não devia ser um advogado de casos bicudos.Sabe por acaso a idade de Lorraine? . meio convencida da inocuidade da personagem: o assassino jamais lhe enviaria uma caricatura daquelas. Mitz sentou-se e colocou ao seu lado a enorme pasta que ocupava quase toda a banqueta. mas espero não lhe tomar muito tempo. 189 Rainie. . . .Trata-se de um assunto simples .

Mitz não era. pediu um cartão de crédito? .surpreendeu-se Mitz. quase 161 . Trata-se de algo que só diz respeito a Miss Conner. Trata-se de motivos que dizem respeito apenas a Miss Conner. visivelmente apanhado desprevenido. .Falou-se de um escândalo. nenhum idiota.Desculpe.Não que eu saiba .Um simples inquérito de rotina.respondeu Luke com um encolher de ombros. . .Exacto.Oh.Não.replicou Mitz vivamente.. . Pela primeira vez..O que quer saber a esse respeito? . mas ela trabalhava aqui na altura do meu antecessor. é confidencial. não. porém. tomando notas. . .Infelizmente. ou melhor. . mas então para que precisa de saber tudo isso? .acedeu Luke delicadamente. O xerife cedera bruscamente lugar a um polícia resoluto.Rotina . Teria de perguntar-lhe. Passemos agora ao resto da família. e não funcionário de um banco. . filhos.repetiu Mitz. Mas talvez possa dizer-me qual a sua especialidade? Simples curiosidade da minha parte. . Durante quantos anos é que a Lorraine Conner prestou serviço na polícia municipal? . só que ele já não vive em Bakersville.A Lorraine Conner pediu a demissão por motivos perfeitamente honrosos. portanto. Compreendo que se encontre sob segredo profissional. -Não tem.Não posso revelar-lhe mais nada.Longe de mim desejar parecer indiscreto.Vários . o xerife Shep O Grady..Acrescentarei que nada temos a censurar-lhe e nos sentimos muito orgulhosos com a prestação dela na polícia municipal. irmãos? . de um incidente de há quinze anos. Sou advogado.respondeu Luke despreocupadamente.retorquiu Mitz secamente. é isso? . . Luke hesitou.Então. . não insisto.É possível que esteja registado algures. . meu amigo.apressou-se a rectificar. xerife.Shep O Grady? . como lhe disse.Quer dizer então que ela tem família? . Porque é que pergunta? . . .Constou-me que pediu a demissão no ano passado. é isso? .Então.Faça favor . . . 190 . não.Não que eu saiba. .Foi você que fez a pergunta. marido.Julgo que não me levará a mal se fizer um pequeno inquérito a algumas pessoas durante a minha permanência aqui. mas pode explicarme o motivo de todas estas perguntas? Não é todos os dias que um advogado da cidade vem interrogar-nos sobre ex-colegas.Ela candidatou-se a algum lugar na sua firma.Muito bem. Dispunha-se a tomar mais apontamentos quando Luke lhe agarrou na mão. . Mister Mitz .Ainda bem .

É verdade.Interessa-se muito pelo meu passado. Dei-lhe o seu número de telefone na Virgínia e ele prometeu que lhe telefonava. pestanejando por detrás das lentes. como lhe chama. Já tinha a testa transpirada e Rainie não lhe dava mais de dez minutos antes que começassem a cair grossas gotas de suor para o seu fato de linho. Mister Mitz observou Rainie. É sempre um erro pôr a carroça à frente dos bois. deitou um olhar surpreendido a Luke. mas contii nua a ser uma amiga e pergunto-lhe mais uma vez de que trata toda i esta história. . Quando regressou à costa oeste? .Tem-se esforçado imenso para me encontrar.atacou.Sim. Rainie pensou imediatamente no interlocutor anónimo que desligara várias vezes.gaguejou ele. . não falou? ..com toda a honestidade.insistiu Mitz num tom seco.. .À herança.Sim. .Mas. . Mas já que está aqui. sentando-se na banqueta ao lado do advogado. Inclusive o.apressou-se Mitz a acrescentar. De forma alguma .A que notícia se refere? .. seria mais adequado que fosse ele a dar-lhe a notícia. recuperando o fôlego. mas não sabia.Teria sido mais simples fazer-me um telefonema a avisar.Ele não lhe telefonou.disse o advogado. 162 .Mas representa quem . Aproximou-se dele e pousou despreocupadamente a mão na volumosa pasta de cabedal. . . Quer dizer. A conversa não levava a parte alguma e Luke já começava a esquecer o seu papel de polícia delicado e a mostrar-se agressivo. não é verdade? . pois não? E.E eu repito-lhe que estou sob segredo profissional . sem lhe deixar mensagem. no entanto. surpresa. Talvez a Rainie já não viva aqui. Miss Conner. não.Falou com ele. .Acho que faz perguntas muito pessoais para um mero inquérito de rotina. caro Mister Mitz .indagou maquinalmente. o incidente de há quinze anos. Esteja descansada. Afinal. . í 191 . impedindo-lhe a retirada. mas não estou a perceber . sem entender nada.Oh.. Rainie achou que chegara a altura de intervir.. . .. É esse o motivo da minha presença aqui. . Sou especialista em testamentos e represento-o. céus! ..exclamou Mitz. Deslizou para fora da sua divisória e juntou-se aos dois homens com um largo sorriso estampado no rosto. Poderia trazer todo o dossiê e vir prevenido. mas este parecia tão baralhado como ela. devo informá-la de que sabemos tudo sobre o seu passado. Sempre pensara tratar-se de Mitz. Deixei-lhe várias mensagens na Virgínia.Surpresa.Incomoda-o? . . Mas ele não se preocupa nada com isso.Ele não se preocupa? De quem está a falar? Rainie. garantiu-me que o faria. .agressivo..

percorria a suíte em grandes passadas como um animal enjaulado. Segundo o seu advogado.Contentei Estás a gozar comigo. Aos trinta anos. Kimberiy via televisão com uma expressão ausente quando Rainie irrompera como um furacão. Miss Conner. por estar compleramente ancilosado e não representar qualquer perigo para a sociedade. degolou dois tipos numa rixa de bar.. aconselho-o a que me explique tudo. a obrigaria a engolir o televisor. como se ela não tivesse todos os parafusos. achamos que ele é seu pai.confessou por fim quase num murmúrio. Kimberiy tivera a infeliz ideia de querer saber a sua reacção ante a notícia de que talvez tivesse um pai.Mas na nossa profissão é normal. se ela lhe deitasse mais um olhar curioso. Rainie fitou Kimberiy. contratou um advogado para te descobrir .Fui contratado por Mister Ronald Dawson .replicou Rainie num tom cortante -.Mister Mitz.Em segundo lugar . Em vez de se acalmar. . . o pobre Ronnie tinha circunstâncias atenuantes. Mitz pestanejou novamente. vejamos quem é o pai. Um pai. 26 Portland. sob os nomes de Larry e Barbara Jones. Ronnie para os íntimos.Duvido muito. Furiosa ao ver-se encarada como cobaia pela jovem estudante de psicologia. Oregon . se não quer que lhe parta todos os ossos do corpo. não? De pé. na suíte que Quincy e a rilha ocupavam num hotel do centro de Portland. Regressara de Bakersville em menos de uma hora e meia. Só voltaram a pô-lo em liberdade aos sessenta e oito anos. . arriscou Kimberly num fio de voz. Nunca se sabe como os clientes reagem.De qualquer maneira. Não a conhecendo o bastante para temer as suas mudanças de humor. ao passo que o trajecto demorava normalmente mais de duas horas a efectuar.prosseguiu -.Tens um pai? . Rainie decidiu que.O Ronnie acha que. . dizes tu! 194 . 192 . estava demasiado bêbedo para saber o que fazia. o tal homem chamado Ronald Dawson. Quase abalroara um carro-patrulha e só não ficara sem a carta porque o polícia da brigada de trânsito era um amigo de Luke Hayes. fazendo ultrapassagens e desobedecendo a sinais de luzes. Rainie fuzilou-a com o olhar. O que a torna a sua única herdeira..Não pareces muito contente. Ou seja. Um bandido da pior espécie que passou trinta anos de vida atrás das grades por homicídio qualificado. o Carl Mitz.. bom. se o Ronnie anda à procura de um 163 . .. . Quincy estava a dormir no quarto ao lado. Mas garanto-te que não foi sempre assim.Antes do mais .

retorquiu Kimberly. portanto. num tom brusco.retorquiu Kimberly com um leve sorriso. A minha mãe não andava com muitos cientistas. Rainie! . forçados a esconderem-se para fugir aos comunistas. dizer que esta história é falsa. ninguém sonha que o pai é um gângster ou um bêbedo.Ora. . Eu própria me encarregarei de dar cabo de ti.Claro que é um preso..Não há nenhuma prova de que seja meu pai . franzindo o sobrolho. Contudo. tias. .Tens toda a razão. Rainie. . Kimberly! Sabes com o que é que sonham todos os órfãos? com os pais. mas nunca trabalhou nela. Esta história não me agrada nada.explodiu Rainie .Continua assim. é o dinheiro o que te desagrada? . .Não sei. Bela de mais para ser verdadeira. contentou-se em ir para a cama com a minha mãe há trinta e dois anos. . sinto-me grata ao avô Dawson. basta um teste de ADN para se saber. um ex-condenado. foi o pai que se encarregou de tudo e fez prosperar a herdade. . . O que me espanta é que o tenham posto cá fora. o pai vendeu as terras a um agente imobiliário . Passam o tempo a fantasiar coisas do género: "Sou o último herdeiro do rei e da rainha da Prússia. e o Tristan Shandling não precisa rá de ter muito trabalho. Deve ser chato herdar dez milhões de dólares! . seguindo a linha de raciocínio de Rainie." Os miúdos inventam histórias.Lá diz o ditado que não se escolhe a família . minha filha.Então.. 164 . Portanto. Um pai de carne e osso que procura encontrar-te por todos os meios. caricaturas da vida real. . .Digo-te que não sei.Hoje em dia. Na altura da explosão imobiliária em Beaverton. A quinta pertencia ao pai. É sempre bonito. porque preferiu dar cabo tranquilamente dos seus conterrâneos num sábado à noite. Nada mesmo! É Porque ele é um preso.Até prova em contrário. . .Queres. Não é isso o que me espanta. É mesmo assim uma boa notícia. 195 Kimberly reflectiu por momentos. ." Ou então: "O meu pai é um Prémio Nobel de Física assassinado pelos serviços secretos de uma grande potência que queria apoderar-se das suas descobertas. por dez milhões de dólares. pelos quais nada fez.herdeiro é supostamente para lhe legar os bens.Então. Enquanto esteve na cadeia. não tens tios. A tua mãe morreu. inteligente e rico. E acredita que não foi o único. mas decerto concordas que me mostre menos afectuosa com o tal Ronnie . no começo da década de noventa. Herdou uma quinta de quarenta hectares em Beaverton. irmãos ou irmãs e cai-te assim um pai do céu.Deixa-te de parvoíces.

Começa por identificar os desejos da vítima. Por um lado. .Estava convencida de que ele se apresentaria como polícia . . .Analisemos a questão . .Tens medo .vou começar por fazer uma análise ao sangue para ver se o meu ADN corresponde ao do Ronald Dawson. . .declarou Kimberly suavemente. o Shandling terá todo o tempo do mundo para conseguir o seu objectivo. .. Nada mais fácil de verificar. Também contactou os notários de Beaverton relativamente à venda dos terrenos.replicou Rainie. .respondeu Rainie.disse num tom resoluto. antes de se lhe apresentar.perguntou Rainie. Apesar da sua juventude.Pensa na altura em que surgiu. incito-me a não cair na armadilha. Kimberly foi sentar-se no sofá ao lado de Rainie.redarguiu Kimberly.Como é que o Tristan Shandling opera? . Tu própria falaste na ausência de tios. a determinação compensava a falta de experiência. Rainie. . mais revigorada.Parece-me sensato. . O mesmo relativamente à condenação do Dawson. irmãos e irmãs. Seria capaz de se disfarçar de cordeiro para entrar no redil .Não te esqueças de que o Tristan Shandling tem o dom de se misturar com a paisagem. tias. não quer dizer que elas não existam. Embora conhecendo os seus métodos. Há quinze anos que estou só no mundo. A solidão é um sentimento que apenas aqueles que a viveram podem compreender. .Mas sabes quanto tempo podem levar a dar-me o resultado? retorquiu Rainie com um sorriso amargo.. O tipo é um génio do mal. A gravidade dos acontecimentos parecia até ter-lhe aumentado a combatividade.No mínimo quatro semanas.Já tratei disso. ..Ou como detective particular. . 165 . talvez mais. Tinha os cabelos louros apanhados atrás com uma fita. .Lá porque náo acreditas em coincidências. Kimberly não tinha medo de nada. 196 . O Luke Hayes consultou o dossiê do Dawson a meu pedido e tudo corresponde. atirando-se para cima do sofá e martelando uma almofada com força. Sinto-me completamente dividida. não esperasse isto. fitando Kimberly bem de frente. Por outro.Não é isso.Dizes que o pai do Dawson vendeu as suas terras a um agente imobiliário de Beaverton. . tens medo. . Se for uma armadilha. Kimberly. Graças às horas que dormira no avião. nada te prova que seja uma armadilha. O Mitz deu-me o contacto de um laboratório especializado. sentia-se mais repousada.Qual é o passo seguinte? . É só que. quase acredito no Pai Natal..Contudo.Podemos fazer uma série de investigações primeiro .. .Deixa-te de psicanálise barata.

.Só que nessa altura ele só se interessava pela Mandy.Mas. Pode tratar-se perfeitamente de parte do esquema. Rainie não partilhava o mesmo entusiasmo. A minha mãe veio muito mais tarde. Ao longo do ano. Além disso. Esta tarde. Quincy estivesse acordado. tratava-se do Ronald Dawson. com a impressão de receber uma esmola. pensei que fosse por intervenção do Quincy e fiquei irritada com ele. o delegado do Ministério Público decidiu retirar as acusações contra mim. Além da fadiga. .. Se.O Luke levou bastante tempo a dizer-mo e nunca mencionou o nome dele por não lhe parecer importante. Ele sempre lhe garantira que era preciso confiar no destino. Esse tipo pode ser maquiavélico.confessou ela a Kimberly. não conseguia impedir-se de afastar do mais fundo de si um sentimento que em muito se assemelhava à esperança. . mas não tem o dom da ubiquidade. pedia sempre para trabalhar nos dias feriados por não ter mais nada que fazer. esta história não é uma coincidência. Queria falar-lhe de tudo aquilo. ao menos. Apesar de toda a sua desconfiança. a troçarem dos presentes pirosos que os filhos preparavam para o Dia do Pai.Na época da televisão por cabo e da Internet não me parece que as distâncias sejam um problema para ele. É mesmo possível ir e voltar no mesmo dia. Ouvia-os a queixarem-se dos sogros.Há oito meses. ele recebeu ordem para arquivar o caso do próprio delegado. Aos trinta e dois anos.exclamou Kimberly. a família era um clube reservado a uma elite. liguei ao adjunto. Rainie! Tens aí a prova de que o Ronald Dawson não é uma invenção do Tristan Shandling. mas possível. Cansativo. . Quando fazia parte da polícia de Bakersville. Umas semanas após a passagem do Dawson por lá. Segundo o adjunto. O Luke ainda tinha a indicação nos apontamentos. Na altura. sentia um medo incompreensível. então. . pois há mais de um ano que andava à tua procura. o seu comité de campanha teria recebido uma choruda soma de um tal Ronald Dawson. Este faz tenção de se candidatar às próximas eleições. via os colegas a regressarem à noite a casa. . depois do encontro com o Mitz. Na realidade. . nunca passara o Dia de Acção de Graças. Fácil de dizer.Fantástico! . o Natal ou a Páscoa em família. Na verdade. ficava invariavelmente numa ponta da mesa.Não te esqueças de que há vinte meses que o Shandling está no activo.Mesmo assim há meios mais baratos e mais simples de te apanhar do 166 . Oregon fica apenas 197 a umas horas de avião da costa leste. a criticarem as festas de família. E.. Aos seus olhos. apareceu um tipo em Bakersville que se pôs à procura da minha mãe . o Quincy nunca lhe telefonou. excitadíssima. quando a convidavam para jantar. Talvez desejasse mesmo que a abraçasse e lhe murmurasse palavras ternas.. um domínio privado a que ela não tinha direito. com toda a probabilidade devido a uma sua faceta vulnerável que sempre recusara assumir.

. Queres ou não que este tipo seja mesmo o teu pai? .. Kimberly! Não é propriamente dessas parvoíces que preciso neste momento. Garanto-te que é verdade.que untar as mãos a um delegado do Ministério Público .Ora! Deixa-te de psicologias de trazer por casa! . Kimberly.Não sei. antes de partir para outro lugar.retorquiu Kimberly. Sei 198 que o teu pai é diferente dos outros. . Quanto à simplicidade.resmungou Rainie.disse por fim.Mas é verdade! Talvez esteja prestes a acontecer-te uma coisa fantástica e fazes tudo para criares uma barreira de defesa. . Vê como mudou em tão pouco tempo. Claro! É por isso que te entendes tão bem com o meu pai.declarou Kimberly com uma expressão grave. estava convencida de que o problema na vossa relação era o meu pai . Contudo. foi um mero dador de esperma que fodeu a puta de Bakersville.O meu pai não bebe. Dezassete anos mais tarde. Não sei mesmo.pediu Kimberly. Mas agora sei que o problema não está no meu pai.Diz-me a verdade .Nunca me tinha apercebido de que eras tão pessimista.Dá-lhe uns dias e verás . Mas não basta saber. . Estou errada. Rainie? . . Kimberly não se deixou convencer. 167 . Rainie . . o distanciamento com a minha mãe. Estou aqui a pensar.Não me parece que Mister Shandling ande propriamente a contar os cêntimos. convencendo-te a ti própria de que é impossível.Por amor de Deus. .Por vários motivos: as dificuldades de se entender com o pai dele.. como se a vida fosse um filme da Walt Disney? Tens de compreender que a minha mãe me batia por mero gozo. amava-a. Não sei muito bem se me faço entender. Tem um Visa falso. Kimberly manteve-se silenciosa uns momentos.Ouve bem. franzindo o sobrolho. . vira as atenções para mim e ainda me falas de confiança? Claro que passo a vida a desconfiar dos outros. . Kimberly. a sua reserva com os próprios filhos. já se viu que não é do seu âmbito.Até aqui. Uma coisa é ter uma visão racional dos factos.Por que raio é que todos vocês insistem em falar na confiança.prosseguiu.Até há três dias também não dizia palavrões e tinha horror à palavra vingança. Quanto ao meu pai. . Embora a minha mãe fosse uma puta alcoólica e agressiva. És tu que não confias nele. . Acredita que o mundo em nada se assemelha ao universo da Disney.O papá nunca te faria mal . o amiguinho de momento da minha querida mãe decide que prefere carne fresca. .Que mal fiz eu a Deus para que passe o tempo a impingir-me psicólogos baratos? . .redarguiu Rainie num tom amargo.

E por isso que me sinto zangada. sinto-me aliviada.outra é estar convencido por dentro. considerando-o uma ameaça à sua própria sobrevivência.Achas que tenho uma idade mental de quatro anos? .reagiu Kimberly -.No ano passado . . com os gritos do elefante bebé na cabeça.Ele segue o seu instinto. Num dado momento. Segundo os especialistas. convencida de que o pequeno elefante vai salvar-se. sem pudor nem reservas. Rainie. . mas identificas-te com um dos protagonistas da tua história. Não acredito confessou Kimberly num tom pensativo. em vez de o ajudarem.No meu sonho é ele que morre. Ele perdeu a mãe e procura desesperadamente uma gota de água. que a sua persistência valeu a pena.Não. Surge. Não é de um dia para o outro que se mudam os hábitos de uma vida inteira. pelo contrário. Ele faria qualquer coisa para se juntar à manada. assentindo com a cabeça.. ele segue a manada aos tropeções. Porque é que ele decide atravessar o deserto? 199 E porque se levanta sempre apesar de tudo? Não é só para viver. nem do meu pai. Se luta é para se juntar à manada.Sim. . Não chega para confiar nele. fazem tudo para afastá-lo.Tenho o mesmo pesadelo duas ou três vezes por semana . sobressaltada.Ninguém o ajuda. . mas luta para sobreviver. No teu sonho. E o instinto gregário que rege a humanidade e está provado que a união faz a força. . mas sinto-me zangada com todos eles.Vejo um elefante bebé a correr pelo deserto. esse desejo o que o mantém vivo.É inútil repetir a mim própria que a minha mãe morreu.Não acredito. Passaram a minha vida a dizer-me que era forte e capaz de encaixar tudo. . Desfazem-no em bocados e acordo. . Então. .redarguiu Rainie. É inútil repetir a mim própria que o Quincy não é como os outros. caso se mostre 168 . mas teria agido melhor em viver só. . pois o que provoca a morte ao elefante bebé é o seu desejo de se unir aos outros. . é. não está ao alcance de todos. mas. então. . que nunca me fará mal. Ignoro porquê. com a esperança de ser reconhecido pelos outros. mas não consigo fugir a este pesadelo.Vejo que entendeste . as crianças identificam-se com a problemática da história e precisam de a ouvir um número de vezes suficiente até a assimilarem.. uma manada de elefantes. nesse preciso instante.Não no meu sonho. estudámos a fase da infância em que todos os miúdos querem que se lhes conte sempre a mesma história. Apesar de tudo. mas não quero ser forte. . Mas. os elefantes encontram água.explicou Rainie. aparece um bando de chacais esfaimados. da Mandy.Tento convencer-me de que a culpa não é da minha mãe. Confiar cegamente. . Por me terem abandonado. Provavelmente com o elefante bebé.

.Mas ele não vai deixar-nos em paz . Graças ao Ronnie Dawson. a observar o movimento da rua.Kimberly .. . quer acabem por aceitá-lo devido à sua força de carácter. Quer a manada encontre água e ele consiga um lugar entre eles. 200 que o seu pai poderia ter sido qualquer um.pronunciou Rainie carinhosamente. Não o fizeste. deitara-se com uma boa dezena de tipos de cujos nomes se 169 . o que é um peso adicional. Nunca virei a saber que adulta seria. mas tu continuavas a pensar que as coisas iam melhorar. A tua mãe batia-te. . Rainie. Era tão pouco provável. Depois de todas aquelas horas de angústia e agitação..replicou Rainie. Kimberly dormiria provavelmente toda a noite e não lhe chegava qualquer ruído do quarto onde Quincy descansava. Estava obcecada com a ideia de que talvez tivesse um pai. Porquê? . Também eu. . o ar devia ser irrespirável. não sabia. Kimberly. e Raime deixou-se ficar muito tempo encostada ao parapeito. O Sol quase desaparecera no horizonte e as paredes brancas da sala começavam a escurecer.Cada um carrega o seu fardo na vida ..anuiu Kimberly com um sorriso. . mas a verdade é que assassinei alguém aos dezassete anos. unir-se-á à manada. Levarei algum tempo a habituar-me à ideia. caso não o tivesse morto. mas na suíte com ar condicionado estava-se bem. Há coisas que te incomodam. . Acredita que não é uma coisa com que se possa conviver diariamente. Na altura em que ela fora concebida.Não costumo meter-me na vida dos outros ou dar-lhes conselhos. o que me torna uma criminosa. Matei uma pessoa. Nunca conseguirias recompor-te. Nunca o fará.Porque o sei.Mas pensa duas vezes. seis andares abaixo. o que é normal. Em qualquer destes casos. A diferença norária começava a produzir o seu efeito. o rosto oculto pelos compridos cabelos louros. Tal como tu. se o fizesses. Se não fosse o teu instinto de sobrevivência. Precisamos de defender-nos.Não. Para não mencionar que se tirou a vida a uma pessoa. com a sua habitual delicadeza. Rainie nunca tinha percebido até que ponto amava e detestava o silêncio ao mesmo tempo.murmurou Rainie.Sem dúvida . . Kimberly adormecera no sofá.E estúpida.insistiu Kimberly. Meia hora mais tarde. antes de pores uma pedra ao pescoço. estarias morta de uma cirrose ou já te terias suicidado. . salvo se o matarmos. o que me põe pouco à vontade.Porque sou teimosa . mas não faças isso.. espero sinceramente matar esse safado do Shandling. O Shandling é um tipo abjecto e ias pôr-te ao nível dele. Um dia a mãe dissera-lhe. .suficientemente forte. encolhendo os ombros. a calma que reinava na suíte era quase irreal.Porque dizes isso? . Lá fora. .Mas também porque acreditas no futuro. por exemplo. Rainie. a justiça acabou por me deixar em paz.

Interrogou-se sobre a razão de nunca lho ter perguntado. O tecido da camisa de algodão era macio e o braço quente. todos esses artifícios de que sempre se servira para escapar aos companheiros de uma noite.Quincy . Adormecia a cheirar a Quincy.. como se fosse um tesouro. atravessou a sala e empurrou a porta do quarto. surpreendida por não ter medo nem se sentir desconfortável.. Contentara-se em tirar os sapatos e a gravata. Desejara-o verdadeiramente. chegara a sentir-lhe o coração. por não ver desfilar ante os olhos campos de flores ou a água de um ribeiro. Estendeu a mão e tocou-lhe delicadamente no ombro. nem cabeça ou idade. Quincy dormia completamente vestido. Pousara a arma em cima da mesa-de-cabeceira. Tinha o colarinho da camisa branca aberto. Na sua cabeça. Rainie não se mexeu. Lembrou-se da última noite que haviam passado juntos.chamou baixinho para não o assustar. não tenhas muitas ilusões. E ficara tanto mais espantada quanto nunca se julgara capaz de desejar alguém. Quando acordava na manhã seguinte e o odor já havia desaparecido. ao alcance da mão. não a afastou. A menos que se tratasse de uma armadilha com a assinatura de Tristan Shandling. ficava desapontada. Rainie entrou no quarto e fechou a porta atrás dela. Na altura em que se viam com regularidade. sem que ele se mexesse. havia apenas o calor do corpo dele contra o seu. Talvez tivesse mesmo um pai. Nesse dia. Kimberly garantira-lhe que Quincy 170 . aconchegando-se no meio da roupa. Naquela ocasião. As persianas estavam descidas e a divisão mergulhada numa obscuridade intersectada pela luz do fim do dia. Desta vez. Portanto. Precisava de esforçar-se por acreditar e não se deixar levar uma vez mais pelo cinismo. Rainie continuava sem ter uma ideia do pai. Sou eu. dissera-lhe Molly." Aos trinta e dois anos. "Os homens são como a maré". . Era apenas uma silhueta negra. em cima da colcha. Sentada contra ele. como a que se vê por vezes nas revistas com um grande ponto de interrogação branco no meio. ele não tinha olhos. Ele suspirou fundo sem acordar e virou-se para o outro lado. Estendeu-se ao lado de Quincy. Dei-te a vida. Sabes quem sou? Rainie não fazia a mínima ideia.esquecera. por onde saíam uns tufos de pêlos escuros que ela já acariciara. com um braço estendido ao longo do corpo e o outro por cima da cabeça. Afastou-se da janela. respirou devagar o seu perfume. "Partem tão depressa como chegam. Há um ano que o conhecia e ainda não sabia que perfume é que ele usava. levava sempre o cheiro dele para casa.

quatro cascavéis soltas junto ao portão de entrada. sentada na sua poltrona e tinha o fato cinzento todo amarrotado. Na véspera de manhã. Podem baterI -nos. Pode fazer-se tudo isso ou. E quando a nossa própria mãe já não pode fazer-nos nada porque morreu. Passara a noite no escritório de Quincy. Era sábado e até mesmo para uma agente do FBI ser acordada às seis e meia da manha não era agradável: Glenda Rodman. Inalou demoradamente o perfume dele. Sempre pensara que era mais fácil mostrar-se agressiva e dura.. arrebatada pelo calor da mão na sua e dizendo de si para si que nunca se sentira tão bem. Ela já o sabia e estava convencida disso. com o único desejo de nos fazer pagar até à última gota. Pode deixar-se de beber. E depois agarrou-lhe na mão. Há algumas horas que tinham começado a chegar presentes. a fim de encontrar o seu lugar no mundo dos humanos. para jamais ser acusada de haver querido criar ilusões. Pode deixar-se de ir para a cama com todos. com o olhar enevoado pelo sono.Onde estiveste? Procuraram-te por todo o lado. Mas para tal é necessário confiar em si próprio. Batidas regulares.. nem que isso signifique a sua própria degradação. Mas daí a aceitar essa verdade. Podemos escolher entre castigarmo-nos diariamente ou prolongarmos a violência que nos destruiu. no vestíbulo de entrada da casa de Quincy. que acabava de chegar. Rainie esperou que o medo a invadisse. esperou as imagens de campos de flores e rios da montanha. Pôs-lhe o braço à volta da cintura e ele murmurou palavras ininteligíveis no sono. um cão mutilado na caixa de correio de Quincy. 27 Casa de Quincy. fortes. dirigia-se ao seu colega AlbertMontgomery. À tarde. fechou os olhos e adormeceu. Sentia-lhe as batidas do coração. Todos aqueles dias a ouvir os telefonemas ameaçadores deixados no atendedor de chamadas de Quincy haviam deixado as suas marcas. agarrada a Quincy. então. podem também morrer e abandonar-nos à nossa solidão 201 sem esperança. chamando a atenção de um gato e de 171 . Há quarenta e oito horas que Rodman não lhe punha a vista em cima. Virgínia . Podem deixar-nos física e moralmente destruídos. mas optara por lutar. simplesmente porque não sabemos agir de outro modo. e Rainie ainda tinha de fazer muitos progressos nesse domínio. O rosto vira melhores dias e não apenas por causa do cansaço. Pode tentar-se conseguir um pouco de auto-estima. Contudo. Encostou a cara às costas de Quincy. tentar mudar. E as coisas não ficaram por ali. ferir-nos. As pessoas têm mil e uma maneiras de nos magoar. Nada disso aconteceu. Poderia ter morrido no deserto. lentas. Por fim.nunca lhe faria mal. também existe a autopunição. ainda não aprendera a viver. Duas tinham conseguido deslizar para o jardim e as outras puseram-se a reconhecer o bairro.

contrariamente a ela. mas. Não se encontrará nada de interessante aqui.Só por causa dos telefonemas e do cadáver de um cão? Tens razão. Por sorte. -Montgomery. 203 . Diz-me lá o que descobriste de interessante nestes últimos três dias. . Na véspera.Sim. que. fechando a porta com o pé atrás de si. À excepção de escutar o triste rosário de ameaças contra o dono da casa. ninguém tinha muitas ilusões quanto ao futuro do pai. é lá que temos de concentrar-nos. por acaso. Rodman. Rodman. Agora.. visivelmente orgulhoso de si próprio. um interlocutor anónimo. Glenda não teve propriamente sonhos corde-rosa..Podes enfiá-la pelo cu acima. anunciara a Quincy no atendedor que no dia em que as cascavéis tivessem acabado com ele. O que se passara nas últimas quarenta e oito horas não fora na casa de Quincy. que os agentes locais sáo capazes de tratar devidamente um cenário desses? Raios! Tive até de lhes mostrar como se examinam estilhaços de vidro. de cenho franzido. a mãe da criança afastara-a a tempo e os bombeiros.A Filadélfia? Lembro-te que a nossa missão era a de vigiarmos juntos a casa do Quincy. antes de despir o velho impermeável. A raiva da agente fazia pensar na das mulheres enganadas que vêem regressar o marido tarde e a más horas. Imaginas.Esta casa não está tão calma quanto parece. Esses pobres idiotas estavam convencidos de que a janela fora partida do lado de fora. .uma criança de dois anos. Rodman contentara-se 172 .Fui a Filadélfia investigar. chamados de urgência. em Filadélfia que haviam assassinado a pobre Bethie. Quando finalmente adormeceu. De facto. É em Filadélfia que se desenrola a acção e. claro. a julgar pela sorte reservada à ex-mulher de Pierce. teria todo o prazer em vir esfolar pessoalmente o agente e fazer um cinto com a sua pele. Fora. tinham-se encarregado de controlar a situação. mas isso foi antes de ele transformar a mulher em picadinho. pelo contrário. Everett pusera imediatamente três dos seus agentes a trabalhar no caso. . . Glenda Rodman mudava o peso do corpo de um pé para o outro sob o olhar cheio de insinuações do colega. não se tinha passado grande coisa nos últimos dias.perguntouMontgomery com um ar surpreendido. lembro-te de que a tua missão. . se queremos perceber o que se passou.Onde achas que estive? . Nessa mesma noite. Everett telefonara a Glenda para a avisar de que o pai de Quincy tinha sido raptado da casa de repouso de Rhode Island. . deitou um olhar furibundo aMontgomery. à excepção dos telefonemas. tivera tempo de tomar um duche e mudar de roupa desde que o vira pela última vez.

ou seja. 204 Tudo foi encenado de forma a fazer-nos pensar que a vítima não conhecia o agressor. não tenho uma carreira a proteger no FBI e isso permite-me uma certa lucidez frente ao teu querido Quincy. . Até mesmo o cenário do crime prova que tudo se desenrolou muito rapidamente. ..Sei perfeitamente que não gostas de mim. .A tua incompetência nada tem a ver com a tua maneira de vestir.É indispensável detectar a origem desta fuga de informação declarou aMontgomery. quando a vizinha jura que viu Elizabeth Quincy a entrar em casa com um homem que corresponde à descrição do Quincy.Não estou convencido. já que precisas de que ponha os pontos nos ii.. . 173 . era essa a missão que lhe havia sido confiada e Glenda Rodman não costumava pôr em causa as decisões dos seus superiores hierárquicos. contrariamente a ti. .Não entendo.Cala-te! Furiosa. Mas isso não faz de mim um idiota. embora soubesse o que esperava a colega na casa de Quincy. mas sei. mas é treta. Rodman. ao contrário do que se pretendia que acreditássemos..Que culpado? O perseguidor fantasma com que o Quincy nos martela a cabeça? Espera aí. e os pedaços colocados de maneira a ocultar o facto.. ninguém assaltou a casa daquela mulher.Estás convencido de que o Quincy matou a mulher! . .Há muito tempo que não me vinham com uma dessas! . . Monrgomery não esperava um ataque tão directo e cerrou os punhos. Glenda virou-lhe as costas e refugiou-se na cozinha. Temos. .Entendes e muito bem. Contudo. ondeMontgomery foi juntar-se-lhe uns instantes depois. Foi partida do lado de dentro. esse sistema de alarme de último grito destinado a proteger a casa. . Contudo.em aguardar num estado de tensão crescente. Primeiro. vou explicar-te o que descobri nas minhas quarenta e oito horas em Filadélfia. sempre que me dão ordens. A começar pela janela da casa de banho pela qual o culpado terá supostamente entrado. as mutilações. Glenda. Só que. Rodrnan. mas com a tua conduta no caso Sanchez. Aposição do corpo. A história até parece um desses shows da Broadway.E quem sabe se o culpado não acabará por vir aqui? .. E chocava-a queMontgomery não tivesse tido a decência de a consultar. em seguida. não engraxo os superiores e recuso o papel de soldadinho obediente. . desactivado com a ajuda do código secreto perto das dez horas da noite.. tudo uma treta! Só para nos fazer engolir a tese de um predador sexual sádico.retorquiu. Não precisas de fazerme um desenho .insistiu. Não vais por acaso dizer-me que acreditas nesse rol de mentiras. sem violação nem tortura. É incrível a atitude das pessoas face às hierarquias! A mera ideia de desconfiar do Quincy põe-vos todos a tremer de medo.Tenho consciência de que não me visto bem.

nem tu nem ninguém. Provavelmente a única. .Ora! Toda a gente sabe que não tens o mínimo respeito por ele! Já foi difícil aceitares que te enganaste. Não sentia qualquer simpatia porMontgomery. Estou com cinquenta e dois anos. que o crime de Society Hill não era tão óbvio como parecia.Mas foi o Quincy que salvou as aparências. é tudo. pois acabava de ganhar um ponto. Parecia uma criança apanhada na teia das suas próprias mentiras. Confessa.Não! Raios! Já te disse que não! . mas ele argumentara de uma forma plausível. saber a verdade? . Quantas vezes passas em revista todo o caso e detestas o Quincy por causa da tua incompetência? Estou errada? O silêncio deMontgomery falou por si. sem saber o que pensar. nem os meus filhos. estava certo num ponto. então. Só aceitei ocupar-me deste caso para ajudar o Quincy. Tenho. Ganharia.Queres. Tinha consciência de que só uma boa acção me daria um futuro no FBI. Surpreendida? Mas não é difícil de perceber.Sim. .rugiuMontgomery.Glenda sentiu-se repentinamente melhor. 174 . Como queres que me safe se me despedirem? Glenda franziu o sobrolho. Depois do caso Sanchez. . . Albert. . Pelo menos. quando muito. .Há anos que aguardas este momento .Nunca disse que ele era um mau profissional. obstinado. pensei que. já que não podia ser o herói.Toda a gente sabe que lixaste o caso Sanchez. mas também não sou um idiota chapado. No seio de uma instituição como o FBI.retorquiu Glenda.Não! . mas pouco me importa. procurava a todo o custo uma saída elegante. desde o início. salvar um colega era um acto heróico. Este caso deu-te a oportunidade ideal de torpedeares a carreira do Quincy. novecentos dólares no banco. Glenda. mas nada tinha de estúpido.Enganei-me. Sabia. Longe de aceitar a tese dele. Isso ficou-te atravessado na 205 garganta. Visivelmente incomodado.Queres que te faça um desenho? Julguei que podia ajudar o Quincy. . O agente foi mesmo ao ponto de desviar os olhos. Podia ser vulgar e indisciplinado.O quê? . .prosseguiu Glenda Rodman. teria uma segunda oportunidade na carreira. podia pelo menos salvar o herói. Pode acontecer a qualquer um.acabou por confessar. SeMontgomery fosse o primeiro a deitar a mão a quem perseguia Quincy. estupefacta. assim. A minha exmulher não quer ver-me nem pintado. passou à ofensiva. Confessa. um lugar ao sol. mas ainda tinha dificuldade em escutar os argumentos de um colega tão suspeito comoMontgomery. .Não vais acreditar. E é verdade! Pensei também que isso podia ajudar-me a refazer a minha carreira. Não sou um santo como Mister Quincy. . quanto mais haver um colega que resolve o enigma e fica com o mérito. . .

Mas será que esse misterioso desconhecido existe mesmo? E se fosse um golpe montado pelo Quincy com o objectivo de matar a sua exmulher com toda a impunidade? . portanto. achas que te divertirias a passá-lo a presos para que eles deixassem ameaças aberrantes. Mas.Nota que ainda não foi encontrado o corpo do pai! 175 . . sem dúvida. especialmente numa época em que é tão fácil cometer um crime no anonimato. Ignoro a tua opinião.Podes crer. Trata-se. O facto de tudo ter sido encenado? . Trata-se de uma simples armadilha para baralhar as pistas e criar uma infinidade de suspeitos possíveis. essa pequena teoria tem o inconveniente de colocar a potencial vítima à defesa .retorquiuMontgomery.Quem diz que o culpado preferia a facilidade? Partindo do princípio de que a vingança era o móbil. mas eu pensaria duas vezes antes de atacar um tipo como o Quincy. Tu que conheces os psicopatas. sabendo de antemão que o Everett abriria logo um inquérito.. Suponhamos que o Quincy é mesmo perseguido 206 por alguém. quando podias matá-lo a qualquer momento? Eu não. Não faltam sites na Internet a explicarem o modo de cometer o crime perfeito. A minha teoria é mais simples e mais plausível.Talvez. Um psicopata. Preferia de longe o elemento surpresa.Gostava de saber o que te levou a mudar de opinião. . A partir de então. Suponhamos que o Quincy montou esta história de fio a pavio. o FBI em peso está disposto a jurar à polícia de Filadélfia que o Quincy é perseguido por um misterioso desconhecido. Para dar mais consistência ao caso. .O inconveniente é de vulto.E apesar de todas as tuas boas intenções . no dia em que se sabe que a sua mulher foi brutalmente assassinada. .Isso e muitas outras coisas . de um tipo que se cruzou com ele em qualquer altura da sua carreira. podia perfeitamente querer que ele sofresse o máximo antes de o matar. Estás a querer dizer-me que o Quincy montou uma armadilha ao FBI e fez mal ao próprio pai para matar tranquilamente a mulher? . Ou talvez estejamos a complicar tudo.Para te falar verdade. Se quisesses mesmo mal a alguém e tivesses o seu número de telefone. o seu pai é raptado no meio de toda a confusão. estás agora convencido de que o Quincy matou a ex-mulher. por outro lado.Exacto. . podendo ele fazê-lo? . ainda mais se ele estivesse ao corrente de que querem eliminá-lo. Ele próprio arranjou maneira de pôr o seu número a circular por todas as prisões da América através de pequenos anúncios.Debatemos longamente esse problema. todos esses telefonemas me deixam perplexo.Essa história não pega. Albert.retomou Glenda -. diz-me se algum deles se divertiria a falar em matá-lo. antes de ir pedir ajuda ao Everett.respondeuMontgomery com um encolher de ombros. . .

Em qualquer das hipóteses.Concluiu-se que alguém avariara o cinto de segurança e que havia uma pessoa no lugar do passageiro quando se deu o acidente. A menos que o Quincy faça um telefonema anónimo aos investigadores e se encontre o pai algures.anuiuMontgomery. mas esqueces de dar uma razão válida para este crime monstruoso.Em primeiro lugar.Qualquer um pode falsificar uma carta de condução. . o papá Quincy voltará a aparecer milagrosamente de 207 um dia para o outro.O quê?! . . Matou a ex-mulher de surpresa. encolhendo os ombros com um ar desdenhoso. está precisamente a morte da filha. . . como se julgava. Albert.Estás a esquecer que o papá Quincy foi levado pelo Pierce Quincy em pessoa e identificado. se a polícia engolir a tese do assassino fantasma.Há anos que o Quincy e a mulher estavam divorciados. garanto.O Abraham Quincy é um homem de idade que sofre de Alzheimer.Tu falas mesmo por falar. .exclamouMontgomery. Ainda é demasiado cedo. Quem te disse que ela retirou o nome dele do seguro de vida? Ou que não o responsabilizava pelo acidente da filha? Deixa-me investigar e encontrarei o que procuro. .Talvez tenha sido a própria filha a avariar o cinto de segurança para se suicidar. .Sim. sem perder a calma. ou usar uma verdadeira.Sempre disseram que a filha foi vítima de um acidente de viação. ela não teve tempo de o arranhar ou ferir. continuo sem perceber qual poderia ser o móbil prosseguiu Glenda. Não precisava de avariá-lo replicou Glenda.É verdade que não tenho explicação . Quanto ao sangue. Ainda não se encontrou o corpo. sabe-se que o assassino se lavou no local do crime. provavelmente pelo mesmo desconhecido. ..Além disso. 176 . A polícia da Virgínia acaba de reabrir a investigação.Por fim. Qual é a relação com um crime? . protestou Glenda.Fácil.Tenho dificuldade em acreditar nisso e por três boas razões . . Portanto. Há mais de vinte e quatro horas que desapareceu da casa de repouso onde se encontrava internado. . O velho Abraham pode ter sido instalado facilmente em qualquer lugar pelo próprio filho. . o Quincy safa-se sem problema. viste o Pierce em Filadélfia e não tinha o mínimo vestígio de sangue. Não. Glenda.Vejo é que a tua teoria não tem pés para andar . Estás para aí a descrever um esquema longamente premeditado. bastava-lhe simplesmente não colocar o cinto.redarguiu Glenda com uma expressão satisfeita. Se ela tivesse querido suicidar-se. . Condução em estado de embriaguez. perdendo o fôlego. AAmanda Quincy foi assassinada. . a tua história não tem fundamento. Encontraram-se vestígios nos canos. Verás que. . . O Quincy tem provas de que não se tratou de um acidente. após ter escapado às garras do agressor.

. pedir-lhe-iam que devolvesse o distintivo e a arma de serviço..Esta história é inacreditavelmente complexa . De qualquer maneira. Era normal que lhe falasse. Deixaria.O Everett não é dessa opinião. a sua vida encontrava-se agora mais do que nunca em risco. alternativa? Não podia infringir a lei para defender Kimberly. A agente tentou minorar a dor de cabeça. . Se for o Quincy o assassino. Telefonei-lhe ontem à noite. assim. havia fortes probabilidades de que Everett mandasse regressar Quincy de urgência.confessou Glenda. Por outro lado.Já falaste da tua teoria ao Everett? .Porque não. de facto. Preciso de reflectir em tudo isso . A essa hora.Não devias tê-lo feito. Safado!. O que podia fazer Quincy. . A campainha do faxe soou no escritório. Porque é que não podias ter esperado mais um ou dois dias? Mas tinhas de mostrar zelo para ganhares louros. cabia-lhe a ela desmascará-lo.Montgomery. Visivelmente desacoroçoado.surpreendeu-se Glenda. Fosse como fosse. Glenda? Detestas-me mesmo para dizeres isso replicou. Já não sabia o que pensar. massajando lentamente as fontes.. os punhos cerrados e o coração semelhante a um cavalo de corrida. raios! .Claro que sim. .. de pé no meio da cozinha.. e nenhuma delas brilhante para ninguém. o FBI acabará por sofrer com isso. de poder ajudar a filha. Nunca sentira tamanha raiva em toda a sua vida e recriminava-se por perder assim o sangue-frio. Duas hipóteses. se Quincy fosse realmente o assassino. E se Quincy estivesse inocente. se não houvesse nada a reprovar-lhe e tivesse dito a verdade. Não lhe restava alternativa. Glenda. O FBI nunca o permitiria e todos conheciam a eficácia com que sabiam meter na ordem os funcionários recalcitrantes. Estúpido de merda. .. estaria decerto encantado por ter posto três dos melhores agentes do FBI a dançar ao som da sua melodia. Não devíamos tirar conclusões precipitadas. abrindo a porta do frigorífico com um gesto brusco. Mas Quincy tinha.Não sei. Agora que estava ao corrente.. se Everett lhe desse ordens para regressar? A partir do momento em que franqueasse a ombreira do seu gabinete.Hum.Três dos familiares de um dos nossos agentes estão mortos ou desaparecidos. ou Quincy era o criminoso mais inteligente com que o FBI alguma vez lidara ou a vítima da maior das injustiças. Um leve ruído anunciou que a máquina estava em funcionamento e Glenda resolveu ir ver de que se 177 . antes de retomar a palavra. mas em vão. .. O toque do telefone interrompeu os sombrios pensamentos de Glenda e o atendedor disparou.declarou por fim. estavam todos prestes a cair na armadilha montada pelo assassino e este devia estar a esfregar as mãos de contente.grunhiuMontgomery. . tentava desesperadamente manter a calma. começou a percorrer a divisão de um lado para o outro com um esgar.Montgomery tinha levantado algumas questões interessantes e. .

Glenda suspirou. segundo os especialistas do laboratório. As maravilhas da tecnologia. um patrão a um dos empregados? Glenda olhou em volta. examinando o elegante escritório de Quincy. que o desconhecido era dono de um computador com o programa PowerPoint e tinha gostos requintados em matéria de papel de carta. fácil identificar o fabricante. Fora. Tudo de bom gosto.tratava. duas mil caixas por ano no mundo inteiro. Em vez do papel branco vulgar que seria de esperar. Eram ao todo quatro páginas que Glenda leu atentamente à medida que saíam do aparelho. ao preço de cem dólares por vinte e cinco folhas. em Old Bond Street. com os diabos. os funcionários do laboratório tinham-se divertido a examinar o documento com uma minúcia que lhes permitira encher três páginas de relatório. Os investigadores tinham um bom motivo para se preocuparem quanto ao futuro de uma época em que os assassinos em série começavam por se servir de um programa da Microsoft antes de passarem às coisas sérias. Glenda pousou o relatório. o que reduzia o campo de investigação a milhões de máquinas desse tipo comercializadas por todo o planeta. o redactor do anúncio servirase de um papel de escritório. lembrando-se da época gloriosa em que os criminosos ainda escreviam à mão. Talvez um presente que uma mulher podia oferecer ao marido. quem poderia divertir-se a enviar pequenos anúncios para um boletim de presos num papel de cem dólares? Imaginou folhas apresentadas em atraentes caixas de cartão decoradas com flores secas e com uma bonita cinta à volta. Ficara demonstrado que a tinta usada provinha de um tinteiro negro de impressoras laser HP. entregue aos seus pensamentos. Vendiam-se. Todas pertenciam a funcionários do Boletim das Prisões Americanas. apenas uns grãos de poeira idêntica à que havia na sede do jornal. fora possível determinar que era PowerPoint. o seu faxe de último modelo. O tipo de mobiliário que Bethie Quincy. com marca-d água.. o papel provinha de Itália e era vendido exclusivamente numa pequena loja de luxo.. não se encontrara o mínimo vestígio de ADN no papel ou no envelope. Era o relatório preliminar do laboratório sobre o original do anúncio colocado no Boletim das Prisões Americanas.. como digna esposa burguesa. o sofá de couro. Para que poderia servir a análise de um sistema informático? O tratamento de texto acabara com os pontos de interrogação hesitantes e os "t" cortados com raiva. aparentemente. Não havia cabelos nem qualquer fibra de 209 tecido. uma filha ao pai.. por conseguinte. Tinham encontrado cinco impressões digitais na folha de papel em que fora dactilografado o anúncio. Quanto ao programa de computador de que se servira o autor do anúncio. portanto. deixandoMontgomery na cozinha. Contudo. Sabia-se. E para completar. a luxuosa secretária. devia ter escolhido para o escravo de trabalho do marido na altura em que ainda eram casados. A última página do relatório era nitidamente mais esclarecedora. 178 . em Londres.

e Rainie detectou uma sombra no rosto de Quincy. olhava fixamente o ecrã. Eram sete da manhã. importado de Itália. Agarrou-a de passagem. antes de se interessar pela conversa. Tinha sobretudo um gosto desagradável na boca. em San Quentin. Rainie avistou uma terceira chávena de café trazida do Starbucks. Enganara-se ao imaginar caixas de cartão decoradas com flores secas. Há horas que Quincy e Kimberly deviam estar a pé. Quincy tinha ainda dezanove folhas. Quincy já não estava ao seu lado. 179 . apoiada no ombro dele. observou-se no espelho colocado por cima da cómoda e fez uma careta.redarguiu Quincy. fabricado pela Papelaria Geppetto. Ao todo.Que família? . . Kimberly centrava-se mais na pista Miguel Sanchez. .contabilizou Rainie.O Sanchez não tem ninguém à excepção da mãe. atadas com uma tira de cabedal. travavam uma acesa troca de impressões. Pai e filha viraram-se ao mesmo tempo. envoltas numa bonita cinta. O papel de carta de Quincy encontrava-se 210 no interior de luxuosas caixas de madeira de sândalo. Passou uma das mãos pelos cabelos. enfiou antes de sair do quarto as calças de ganga coçadas e a T-shirt branca com que andava há três dias..Glenda abriu maquinalmente a primeira gaveta da secretária e encontrou lápis. Munidos de chávenas de café. canetas. Pessoalmente. com a caixa na mão. Continuando a busca.balbuciou Glenda. Eles trabalhavam aparentemente na base de dados reunidos por Quincy. Papel de carta de luxo. quase por encetar. na última. havia três maços de papel de carta. Um quadro encantador para um sábado de manhã. Por fim. . . Os cabelos espetados no alto da cabeça davam a sensação de que metera os dedos numa tomada. Deitou um olhar de relance para o despertador cujos dígitos vermelhos brilhavam no escuro sobre a mesa-de-cabeceira. não consigo imaginá-lo no papel de criminoso da semana.argumentou Kimberly.Como pudeste fazernos isto? fazer-nos isto: 28 Portland. sem determinar o porquê. um porta-cheques Louis Vuitton. Saiu da cama e dirigiu-se à casa de banho. sem dúvida para ela. . uma mulher de setenta anos. dependente do ventilador.E a família dele? . dez na costa leste.. Quincy e a filha estavam sentados lado a lado na mesinha redonda na cozinha acoplada ao extremo oposto da sala. mas Quincy achava que ele não podia fazer grande coisa da cela onde se encontrava. ou seja. Kimberly. foi abrindo as várias gavetas. Quincy inclinava-se sobre o computador portátil. Quincy! . Oregon Quando Rainie acordou. depois de tomar um duche rápido que a despertou completamente. A pasta de dentes contribuiu para um hálito melhorado e.Um a zero para o Quincy .

Podem concluir que foste tu o responsável pela morte dele. . Teria gostado de saber como é que ele reagira quando acordara e a vira ao seu lado.E o primo dele? . o que acabou por causar a morte do Richie às mãos do Miguel.Estamos a passar a pente fino a minha base de dados. Rainie abanou a cabeça. . evitando-lhe o olhar. Richie . .Levantaram-se há muito? . pois foi a seguir ao caso Sanchez que o papá arranjou um inimigo mortal no AlbertMontgomery.212 . Basta consultar o dossiê.Sabes se os pais do Richie ainda estão vivos? .Vejamos quantos desmiolados tem na sua árvore genealógica.Ele teve a sorte de me apanhar. Mas uma coisa é certa: o Miguel Sanchez encontra-se atrás das grades na Califórnia e. . se quiseres. mas o mesmo podia ter acontecido a qualquer dos outros quarenta e sete condenados que já haviam deixado mensagens no meu atendedor. como o tratamento que deu ao seu primo Richie Millos prova que desconhece o perdão. .É este o meu ponto de vista: graças a ti. Não era visivelmente a primeira vez que fazia aquele trabalho. ..bom dia.Não faço a mínima ideia. . não o acho com inteligência bastante para ter montado este esquema. pois Kimberly já ocupara o sofá? .Esqueces que foi por acaso que atendi o telefonema do Sanchez .Há croissãs no saco. Sem esquecer o factorMontgomery.Acho que devíamos examinar mais a fundo o dossiê do Sanchez .Nada mal. decidida a pensar apenas no caso para não ter de se aventurar no terreno escorregadio da relação deles. Rainie ..Alguém a incriminar-me pela morte do Richie .interessou-se. Tal agradou a Rainie. . Teria ficado contente ou encarara a atitude pelo lado prático.inquiriu Rainie.respondeu Quincy. . .perguntou em seguida. a polícia decidiu concentrar todas as atenções no Richie. . como lhe chamas e muito bem.Não só é o único que conseguiu falar directamente com o papá ao telefone.salientou Kimberly.perguntou Kimberly. mergulhando os olhos na chávena de café. . não se pode encarar uma simples coincidência como uma verdadeira conspiração. . .Millos.saudou num tom calmo. pois exibiu um grande envelope de papel segundos depois. . que era o elo mais fraco do duo. Kimberly começou a remexer na caixa junto aos pés de Quincy.rectificou Quincy.O Millos? O que tem ele a ver com isto? Rainie sentou-se.leu na etiqueta. .Onde é que chegaram? . com toda a franqueza. 213 180 . Quanto ao "factorMontgomery". . que também não conseguia fitá-lo.Umas horas .murmurou Quincy com uma expressão vaga.

à partida. a mais nova.ripostou Kimberly. que se detivera a observar-lhe a curva do pescoço. . . pouco à vontade. Corou bruscamente ao aperceber-se de que ele a observava e desviou de imediato os olhos. Dá-se facilmente vinte anos a alguém sob pretexto de que usa T-shirt e calças de ganga.Não vejo nada mais a respeito dele.Nem sequer tem a idade adequada. já não é propriamente um menino de coro. trinta e três anos e sem cadastro. Podes dizer-me algo mais sobre esse tal Mickie.. O mesmo tipo.Chauvinismo. sem desviar os olhos de Rainie. E agora a sério. Boa. .Porquê ele? . Por fim. Será de verificar. todos mais novos do que ele. trinta e cinco anos.Nada mais fácil do que enganar na idade .Tem lógica ?. o elimina. Por que razão Quincy insistia em usar fatos completos. Fitou Rainie. . as testemunhas erram muito quanto aos cálculos da idade de um suspeito. conhecido por Mickie.. mas não se sabe nada a seu respeito. o que.replicou Quincy.. Tudo indica que o agente encarregado da sua investigação não foi mais longe.Dois irmãos e uma irmã. Temos depois o Mitchell Millos.Irmãos e irmãs? . . . O pai. de momento em liberdade.Aqui está! Temos uma mãe. quando a roupa desportiva lhe assentava tão bem. provavelmente porque ele não tinha antecedentes criminais. 181 .replicou Quincy. Porque será? . .dirigiu-se-lhe num tom meigo. valorizada pelo pólo azul-marinho que lhe ressaltava a cor dos olhos.murmurou Quincy.perguntou Quincy. É preciso tentar saber mais alguma coisa. doméstica.Além disso. -Tanto mais que sou minoritário nesta sala.? Porque não a acordara nessa manhã? Podia.Hum. um antigo porteiro de sessenta e três anos recebe uma pensão de invalidez. Cinquenta e nove anos.Prefiro ignorar esse género de insinuação . O FBI sempre teve fama de subestimar as mulheres brincou Rainie.Abriu o envelope com dedos firmes e tirou um relatório do interior pondose a folheá-lo rapidamente. José. . de fato completo.. Condenado várias vezes por roubo. Rosa Millos. parecendo aborrecido com aquela falta de pormenores. . . dará a sensação de ter ultrapassado os trinta. Tem mesmo um diploma de engenheiro da Universidade do Texas. . Aparentemente por artrite reumatóide crónica. Tens razão. Kimberly? A jovem voltou a folhear o dossiê. Parece que a família não produziu apenas fruta podre. franzindo o sobrolho. ter-lhe acariciado a face ou dizer-lhe qualquer coisa. . O nosso tipo é muito mais velho. pelo menos. Não quero dizer com isto que se deva desconfiar das testemunhas..Rainie? . O irmão mais novo. vinte e oito anos..

O Mickie é engenheiro . culto. diria que o nosso desconhecido é um homem inteligente. no entanto. tal significa que o nosso homem desembolsou um contributo apreciável para o fundo da campanha do delegado do Ministério Público e que contratou os serviços de um advogado.Exacto .observou Kimberly. . qual é o seu principal ponto vulnerável? O processo de eliminação. As suas deslocações custam igualmente dinheiro. Se esse pseudopai que te cai do céu for efectivamente o Tristan Shandling.Precisamos. . fitando o monte de dossiês que lhe faltava examinar. mas na nossa época. incluindo a sua conta bancária. . há a considerar os novos desenvolvimentos que se referem a ti. pertencia a outra geração. A priori. Se me pedissem que o descrevesse.Não tinha pensado nisso . O problema reside em saber se um engenheiro de trinta e três anos do género deste Mickie Millos tem tanta massa à disposição. Rainie. Nas actuais circunstâncias. .214 elas desempenham um papel primordial na maioria dos inquéritos.concordou Rainie. Rainie inclinou-se para a frente. de uma personagem subtil e manipuladora. Já temos um nome. pois. como pareces acreditar.E também uma pessoa com dinheiro . . Precisou mais uma vez de dinheiro. assentindo com a cabeça.Na vossa opinião. mas são facilmente manipuláveis.com o devido respeito . Vê com que facilidade conseguiu seduzir uma jovem como a tua irmã. . capaz de montar estratégias complexas e perversas. Entretanto. Trata-se. . o que significa que tem meios para não trabalhar. Quincy. Muito dinheiro.Mais cinquenta e podemos ir para a cama. É provável que o nome do nosso homem se encontre algures nos teus dossiês ou nos do FBI. quem sabe? ê Mickie pode ter feito uma pequena fortuna em alguns anos. não me surpreenderia que este caso monopolizasse todo o seu tempo. mas Rainie encolheu os ombros. . sem dúvida. Suspirou. Esse tipo tem contas pessoais a ajustar contigo 215 182 .Não tem de forma alguma o perfil de um criminoso.arguiu Rainie -. não me parece que esta base de dados nos leve muito longe. de fazer uma investigação exaustiva sobre o jovem Millos. Por outro lado. . A Kimberly contou-me o teu encontro com esse tal Carl Mitz. que. diria que não. Não contesto isso.lembrou Kimberly.Reflecte um segundo. Quincy e a filha fitaram-na com um ar surpreendido.acrescentou Quincy. . não me parece que isso seja uma grande ajuda pelo simples motivo de que ele também sabe que o seu nome está lá. com todos os informáticos e outros especialistas da Internet que ganham somas astronómicas. defendendo o seu ponto de vista num tom decidido. antes de fazer o mesmo com a tua mãe. sobretudo por alguém que tenha lido algo sobre o tema. elegante e desenvolto.O nosso homem é sofisticado. .

Sim. . ele acabará por nos encontrar. Na minha opinião. Na quinta rapta o avô. nunca conseguirás apanhá-lo. Porque o conheço . Catorze meses após o acidente da Mandy. O que significa que nem sequer nos dá tempo de reflectir. analisar e antecipar. usa um nome falso e mascara o seu crime de acidente. jogos e quebra-cabeças. ergueu os olhos para Rainie. optando por escolher a Mandy. Passa depois a uma segunda fase que consiste em confundir pistas. Enquanto andarem atrás de ti. sem te dar tempo para reflectir. Na sexta. . Há que tomar a ofensiva. deixa atrás de si uma série de provas falsas. Quincy manteve-se silencioso durante um longo momento.suspirou Kimberly num fio de voz.Este tipo é um verdadeiro enigma. E. . Portanto. não é ficando escondido em Portland a examinar uma base de dados que o conseguiremos.acrescentou Rainie com um sorriso. nunca cometeu o erro de te subestimar. e ele sabe isso. Enquanto reagires às suas provocações. Resta passar à última fase. Agora que sabes. sais a perder. Provavelmente mais cedo do que pensas. A partir do momento em que se ocupar da Bethie.respondeu Quincy. nem das suas intenções. Se ficarmos aqui. quer obrigar-te a actuar. estabelecer o nosso próprio plano de batalha. toda a gente o deixa em paz. Disfarçase. Ele toma todas as precauções para não nos fornecer qualquer pista concreta sobre os seus motivos. . sabe que ninguém é estúpido e as investigações começarão. a que designarei de rapidez. Como actuar para contornar esse obstáculo? Começa por trabalhar na sombra. Sabe até que ponto gostas dos mistérios. com um pouco de tempo. Pof fim.e sabe que. Sabe que é essa a tua vida.O que achas das declarações desse tal Carl Mitz sobre o teu pai. Tudo corre sobre rodas. Enquanto fizeres o que espera de ti. sobretudo. até agora.indagou. o primeiro passo reside em não suspeitares de nada.vincou Rainie. monta uma nova estratégia. . faz-se passar por ti. Muito simplesmente porque sabe que o tempo é o seu pior inimigo. Quincy . Dá a tua morada e o teu número de telefone particular a todos os psicopatas americanos. como. mais cedo ou mais tarde. mas ele está perfeitamente consciente de que não poderão afastar-se as suspeitas para sempre. prepara-se. o máximo de tempo possível.Porque ele te conhece. Quincy. Quem. começando por uma táctica de diversão. 216 183 . dado ela ter poucos contactos com o resto da família. Sabes porquê? . acabarás por identificá-lo.Que consiste em acelerar os acontecimentos .Na quarta-feira assassina a mamã . Assume o teu nome. Urge quebrar esse círculo vicioso. fugimos todos e a Rainie é contactada por um advogado desconhecido sobre o pai.Melhor ainda . porquê? Nada sabemos dele. . Portanto. a fim de confundir os investigadores de Filadélfia.concordou Quincy.

Éeste o meu plano: vou telefonar ao Mitz para que marque um almoço. . . Mas depois não digas que nunca fiz nada por ti. Rainie fechou momentaneamente os olhos. Aproveitarei para sondar o Ronnie sobre as suas supostas relações com a minha mãe. o Tristan Shandling tem o mau hábito de dizer às suas vítimas o que elas desejam ouvir.Como podes estar tão segura? ..Não o fará . o homem das mil caras. o que me assusta de morte. O Mitz parece sincero e a história pessoal desse tal Ronald Dawson joga a seu favor. . mas com o Luke e os rapazes de olho em mim.Se queres que me encontre com esse tal Ronnie. Passou a maior parte da vida na prisão e foi fácil verificar que o pai fez realmente fortuna com a venda das terras a um agente imobiliário.Se o Ronald Dawson e o Tristan Shandling forem uma e a mesma pessoa. obrigada! . tratava-se de uma prova quase insuperável.Seria a armadilha ideal . mesmo que me custe os olhos da cara. . .Se for ele o assassino.Eu nunca. Quincy tinha aquele brilho nos olhos de quando o seu cérebro congeminava um plano elaborado. não se precipitará sobre mim para me fazer em picado. .elucidou Rainie. Quince. mas não podia deixar de dar-lhe razão. regressarei com uma nova descrição do Shandling..E se o Mitz arranjasse uma maneira de te encontrares pessoalmente com o Dawson? . Mentiria se dissesse o contrário.Nem pensar .É impossível que estejam a falar a sério! .Por causa da técnica dele . Por outro lado. Mais uma vez.respondeu Rainie de imediato. Já percebi . óptimo. Entendera na perfeição o que ele desejava.Preciso de agir com a máxima cautela. Para ela.Entendi. Sei muito bem o que faço. Fui eu que acabei de explicar-vos em pormenor que precisamos de passar ao ataque. Todavia. . raptar-te ou pior ainda.Não sei. . .. Na pior das hipóteses. .garantiu Rainie. Se for o LJawson o assassino.explodiu Rainie num tom seco e retomando o fôlego em seguida. Não posso negar que esse tal Ronald Dawson me interessa. . Começará 217 184 .Só porque se trata de uma coincidência. abanando obstinadamente a cabeça. . . . .concordou Rainie.. Pelo contrário. .E se ele tentar qualquer coisa? .explodiu Kimberly.replicou Rainie. fechando os olhos. pode perfeitamente atacar-te...concluiu a meia-voz. troquemos-lhe as voltas..Não me parece que o teu encantador pai tenha tenção de me mandar sozinha para o matadouro . .bom. Cala a boca.Ora.Ainda que não se importe muito de usar-me como isco. não quer dizer.preocupou-se Kimberly.

. . .concordou Quincy. Para que nos serviria uma terceira? 185 . nunca deixei de ter medo.Não cometeste erro nenhum .retomou Quincy num tom invulgarmente calmo -. Já não quero que vás. de cenho franzido. .Temos mais uma ajuda na Virgínia . . verei se o Everett tem alguma novidade.vou fazê-lo. sobretudo à noite. . Acabaremos de qualquer maneira por saber quem é realmente esse tipo. .Sempre receei pela vida dos meus.interveio Rainie.arguiu Kimberly. Sem saber de onde vai partir o tiro. portanto não tentes dissuadir-me. Cometi um erro. tentará aliciar-me com o seu dinheiro e todas as histórias do que posso fazer com dez milhões de dólares..Mudei de opinião.Mas ele usa tantos disfarces .Desde que faço este trabalho . para sabermos por fim como é o nosso homem fisicamente. rangerei os dentes. Um pesado silêncio pairou na sala.Diz ao De Beers que se arranje como quiser. São ossos do ofício e nunca paro de pensar nisso. . sem esquecer que sou a melhor coisa que lhe aconteceu na vida. .. .Começaremos por investigar o Mitchell Millos .acabou Kimberly por comentar. .. passaremos ao Ronald Dawson. ou se estou sentada em frente de um perigoso psicopata.. . Pedi-lhe que continuasse a vigiar a Mary Olsen e muito francamente acho que fiz bem.Tens razão e sei-o tão bem como tu. .Mas é muito perigoso! . Nesse dia. . Quincy. . Bela perspectiva! . se conseguiu saber alguma coisa sobre o meu pai.Muito mesmo . Por um momento.empolgou-se ela.por dizer que sempre sonhou ter uma filha.Depois. duvidando de cada palavra.Rainie. assentindo com a cabeça e continuando a fixar Rainie.Nem sequer sabemos quem é este tipo e porque te quer tanto mal.Precisamos de fotografias .. .declarou Quincy. mas queremos as melhores fotos possíveis. Quincy. Farei o mesmo com mais cinco ou dez nomes dos meus dossiês. fitou Rainie sem desviar o olhar. Estou convencida de que terá tentado contactar com o nosso desconhecido e fará tudo para o encontrar. Matou a mamã e a Mandy e agora receias pela vida da Rainie e pela minha. Ali está uma rapariga que atraiçoou a sua melhor amiga e sente uns remorsos horríveis.disse Kimberly num tom decidido. Durante todo esse tempo. A minha decisão está tomada. sem saber se encontrei finalmente o meu pai.Tenho a certeza de que tudo correrá bem . Depois. caso contrário não me falaria assim.Mas não desta maneira.As duas primeiras descrições não conjugam. mas recompôs-se de imediato. ..prosseguiu Quincy. . O Phil de Beers. o olhar toldou-se-lhe.

Eu sei! A voz da jovem mulher. que o via raramente.Contactas. Sempre adorara a voz dele.Sinto-me tão só! . .prometeu Rainie. Virgínia Encolhida no canto mais fundo do seu roupeiro. suplico-te. Mandy dissera-lhe que se sentira atraída pelo poder de sedução do seu olhar.apressou-se a dizer ao seu interlocutor -. A voz era tão calma quanto a de Mary Olsen era histérica..Não se resolverá nada. Doíam-lhe as costas. ligo ao Mitz para combinar esse famoso almoço com o papá . como o teu pai disse ainda agora. estrangulou-se num soluço. com o auscultador colado à face esborratada pela maquilhagem.Vá lá. mas Mary. Há trinta e seis horas que o nosso psicopata favorito não ataca. . deixando-lhe umas 186 . a separação dos olhos. a maquilhagem esborratada e o leve roupão de seda azul-clara tapava dos olhares indiscretos um enorme hematoma arroxeado no ombro esquerdo.Nós supomos que o Shandling é um mestre do disfarce. Ficaria novamente cheia de nódoas negras. as costelas. Tinha os cabelos negros despenteados. vinha com uma horrível disposição e vingara-se nela.perguntou Quincy. Não posso mais! . com um guinchar de pneus. 29 Residência dos Olsen. meu querido. Os únicos critérios fiáveis são a forma geral do rosto. baseando-nos em testemunhos muito vagos.Depois. Mary agarrara no telefone. . todo o corpo. Um dia. usar barba ou rapá-la. o ventre. Mary Olsen segurava o auscultador junto ao ouvido. Tudo se resolverá. não esqueças . . .Há semanas que este tormento dura e nem sequer posso consolar-me com a ideia de que vou ver-te.acrescentou com um leve sorriso.Sei muito bem que me proibiste de ligar . de uma operação que correra mal. ele sabia apaziguar as suas angústias melhor que ninguém.218 . Acalma-te.Eu sei. Respira fundo.corrigiu Rainie. a das orelhas ou do queixo. Não imaginas o calvário que estou a viver.Temos de nos mexer. quando o marido estava a dormir. vestir-se de forma diferente. Preciso de ver-te. Nada mais fácil nos nossos dias do que mudar a cor do cabelo ou dos olhos. As pessoas baralham-se frequentemente ao descrever os suspeitos. Acredita que sei como tem sido difícil. Mal desaparecera umas horas mais tarde ao volante do seu Jaguar. minha querida.. Quando o marido regressara. . mas não posso mais. . À noite. Duvido que nos dê muito mais descanso. então. os especialistas desenhariam facilmente um retrato robô credível do assassino.vou já telefonar-lhe .prosseguiu com um gemido. . o De Beers? . Quem iria pensar que um homem que parecia tão meigo pudesse ser tão violento? . Apesar de estarem separados. Por favor. era sobretudo sensível à encantadora doçura da voz. com uma fotografia. ela podia finalmente dar livre curso às suas frustrações. cada vez mais aguda. ao amanhecer. .

187 . sobretudo depois de tudo por que passámos.respondeu num tom desolado..Não aguento mais.Mas nunca lhe dei qualquer razão de queixa! . Deus do céu! Fazes-me falta. Apesar do tom calmo da voz dele.. Diz-me onde queres encontrar-te comigo. Quanto menos tempo durar o casamento. surpreendida. . Havia manhãs em que nem sequer se sentia com forças para se levantar. Lamento. não podia dispensar o dinheiro do Dr. 220 . Sinto demasiado a tua falta. era ele o único a murmurar-lhe ao ouvido as palavras que lhe davam força para continuar a viver. Já não sei nada. Acho que vou enlouquecer! A voz calou-se do outro lado do fio. Mantive-me lá durante horas e o carro não se mexeu.O quê? ... querida. amor . Casada. Suplico-te. Que se foda! O que vamos fazer? . ou porque ela o permitia. vi um pequeno carro cinzento metalizado escondido nos bosques num sítio estratégico. Não podemos correr esse risco. bom.Não. seja onde for. os ombros. nada me impede! . meu amor! Estás a ser vigiada. Não havia provavelmente mais nada a dizer. . menos dinheiro conseguirás arrancar-lhe. embora ela ignorasse se ele a odiava porque lhe batia.Também adoraria ver-te.Acredita que.Nunca lhe darei essa satisfação! . . fazer.gemeu.Tu és uma mulher bonita. não. os braços. Mary.. não podes fazer isso.Há uns dois dias tentei fazer-te chegar um bilhete às mãos explicou. como vestir-me . O peito. . de onde pode ver-se tudo o que se passa na tua casa..Cabrão ciumento! Nunca lhe dei qualquer motivo. .arquejou. mais parecia odiá-la. Contudo. no dia em que o deixar.jurou Mary.. a detective particular. . Porque quis casar comigo se me detesta a este ponto? .. Não aguento mais.O que é que te impede? Nunca mais ouvi falar dessa Lorraine Conner.Ao aproximar-me. antes de ti. doía-lhe o corpo todo.Mas sabes que é impossível. Não temos nada a recear. . Olsen. ..Ele ordena-me o que hei-de dizer. Mary recomeçou a soluçar. . mas acho que o teu marido mandou alguém seguir-te.prosseguiu.. pelo menos. . Nunca julguei que fosse assim. Só tu podes fazer com que volte a sentir-me bonita. Aliás. sem recursos. sabes tão bem como eu o que acontecerá. Nem todos os homens sabem lidar com isso. Tomarei as precauções que me ensinaste.O que podemos fazer? Se ele consegue fotografar-nos. embora Mary não quisesse admiti-lo. meu querido! .. Daria tudo para que estivesses ao meu lado e me agarrasses na mão com aquele teu sorriso adorável.. . o filho-da-mãe vai pagar-me bem caro. Quanto mais o marido lhe batia. antes. Se tivesse dois dedos de cabeça. Preciso de ti.escassas horas de repouso. Como pude chegar a este ponto? Não sei. ia-me embora já.Quero dizer.

- Acho que tenho uma ideia - disse o amante. 221 - Oh, sim, meu amor. Qualquer coisa. Por favor. - Esta tarde, vais receber uma caixa de chocolates. Provavelmente Godiva. A marca não interessa. Estás a ouvir-me? - Sim, sim - murmurou Mary num fio de voz. - Pega na caixa, sai de casa e dirige-te ao carro cinzento metalizado de que te falei. Encontrarás um negro atrás do volante. - Oh, meu Deus! - Ele não te fará mal, querida. É um investigador privado, decerto o melhor que o dinheiro do teu marido pôde comprar. Bate no vidro da janela com o melhor dos teus sorrisos e diz-lhe que estás ao corrente da sua missão de te vigiar. Ele ficará atrapalhado e surpreendido por se ver apanhado. Então, usa todo o teu charme. Diz-lhe que queres falar com ele e senta-te do lado do passageiro, sem lhe dares tempo a reagir. Depois, abre-lhe o coração sobre o teu marido. Durante a conversa, aproveita para lhe ofereceres um chocolate, com um ar despreocupado. Se recusar, come tu um na frente dele, antes de insistires mais. Arranja forma de que ele coma dois ou três. Será suficiente. - Porquê? Estão envenenados? - perguntou, ao mesmo tempo que sentia um calafrio na espinha. - Claro que não. Não te disse que tu própria comesses um? O teu marido deu-te mesmo volta à cabeça para pensares que eu seria capaz de te envenenar. - Desculpa, querido... - Terei apenas injectado um laxante nos bombons, com uma seringa. Um só não deverá fazer-te mal nenhum. Dois ou três, pelo contrário, obrigarão o polícia a abandonar precipitadamente a vigilância. Enquanto ele estiver aflitíssimo à procura de uma casa de banho, aproveitas para fugir. - E vou ter contigo! - Exacto. Se soubesses até que ponto também sinto a tua falta. - Diz que me achas bonita. - És a mulher mais bonita que já conheci - apressou-se a dizer num tom convicto. - Sobretudo, quando usas roupa interior de renda preta. - vou pôr o cinto de ligas só para ti - sussurrou Mary. - E eu não porei nada... - Mal posso esperar para te ter nos meus braços! - Falta pouco, meu amor. Uma caixa de chocolates e os dados estão lançados. Pela primeira vez nesse dia, ela esboçou um sorriso. - Sabes... Dói-me o corpo todo e não devo parecer nada apetitosa - murmurou em seguida. - Para mim, serás sempre bonita. Basta que te beije toda para que a dor desapareça. No fundo do roupeiro, Mary Olsen chorava em silêncio, mas agora de alívio. Dali a umas horas ele faria com que esquecesse tudo, como

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222 sempre. Na primeira vez que lhe vira as equimoses, ela dissera-lhe que tinha caído nas escadas. Ele adivinhara imediatamente a verdade e, em vez de a repelir, abraçara-a com ternura para a confortar. - Minha pobre querida - dissera. - Como puderam fazer-te tanto mal? Nessa noite, Mary chorara durante horas a fio, enquanto ele lhe acariciava os cabelos, mantendo-a abraçada de encontro ao corpo. Nunca ninguém a tratara com tanta doçura em toda a sua vida. Por um momento, recordou o rosto de Amanda. Amanda que nunca lhe fizera mal. Amanda que era a sua melhor amiga. Amanda que ficara toda excitada ao apresentar-lhe o seu novo amor... Mas tu continuaste a beber, Mandy, pensou. Tinhas o homem mais perfeito do mundo e mesmo assim não abandonaste a bebida. Afinal, só te aconteceu o que merecias. Além disso, sempre tiveste todos os homens que querias... e eu precisava dele. Pousou o auscultador e limpou os restos de maquilhagem e de lágrimas com a manga do roupão. Uma caixa de chocolates e estaria novamente ao lado dele, pensou. Só esperava que chegassem depressa. 30 Pearl Distríct, Portland Passava um pouco das onze da manhã quando Quincy acompanhou Rainie até ao sótão onde ela morava. Rainie acendeu maquinalmente as luzes, embora o sol já entrasse a rodos pelas janelas. O apartamento emanava aquele cheiro a poeira e mofo dos lugares desabitados e que Quincy tão bem conhecia, já que o sentia sempre que regressava a casa. - Tenho que fazer umas coisas - anunciou Rainie secamente. Quincy esboçou um aceno de cabeça distraído e dirigiu-se à área da sala, enquanto Rainie se entregava às suas ocupações. Desde o começo da manhã que ela estava de mau humor, nervosa e pouco à vontade, desviando o olhar sempre que se cruzava com o dele, sobressaltando-se sistematicamente quando ele passava ao seu lado. Quincy julgava saber o que a atormentava, mas, nesse momento, não tinha certezas em relação a nada. Pouco depois da conversa dessa manhã, Rainie deixara uma mensagem no atendedor de Carl Mitz. Dado ser-lhe impossível indicar o número do telemóvel de Quincy sem correr o risco de revelar que ele estava com ela e ainda menos dar-lhe o do hotel em Portland sem comprometer o seu esconderijo, decidira comunicar o único número já conhecido de Mitz, o do seu sótão em Pearl District. Kimberly tinha optado por ficar no hotel, onde já usava o número de licença profissional de Rainie para obter as informações de que necessitavam junto dos organismos oficiais em causa. Fora decidido que Quincy e Rainie esperariam o telefonema de Mitz em casa dela, partilhando as tarefas da forma mais eficaz e sem segundas intenções. Quincy deu a volta ao sofá e parou diante de uma janela, expondo o rosto à carícia dos raios solares. Imóvel, de olhos fechados, sentiu que toda a

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tensão dos últimos dias desaparecia dos músculos contraídos. Respirou fundo e tentou concentrar-se na ideia de que o tempo não pára. Telefonara a Everett para saber se havia novidades a respeito do pai. Ainda não o tinham encontrado e Quincy sabia melhor do que ninguém que esse silêncio nada tinha de tranquilizante. Cada minuto passado 224 sem notícias de Abraham Quincy reduzia as hipóteses de achá-lo com vida. Há trinta e seis horas que ele desaparecera, abandonando repentinamente o quarto onde vivia tranquilo para partir pelo braço de um desconhecido que se fizera passar por seu filho. Um funcionário da casa de repouso declarou ter visto o velho senhor a subir para um pequeno descapotável vermelho, com toda a probabilidade aquele em que o assassino fora buscar Bethie. Depois, mais nada. Ninguém voltara a pôr a vista no carro nem no velho Abraham. Não havia o mínimo indício capaz de confortar Quincy. Aos seus olhos, e mais ainda do que os assassínios de Mandy e de Bethie, o rapto do pai era a derradeira prova do seu fracasso e da sua impotência. O homem orgulhoso e independente, que educara sozinho Pierce Quincy, cedera lugar a um velho vulnerável e indefeso, e o filho nunca se perdoaria por não ter sabido protegê-lo. Ante esta ideia, Quincy sentia-se ao mesmo tempo perdido e furioso, triste e inquieto, aniquilado, mas decidido a não baixar os braços. A sua raiva era tanto maior quanto lhe era impossível entender o que lhe acontecia. A sua lógica infalível e perfeitamente racional de nada lhe servia. Por que razão o meu pai desapareceu? Porque sim. Pela primeira vez na vida, o isolamento por detrás do qual sempre procurara esconder-se não bastava para protegê-lo, bem pelo contrário. Bruscamente, saído do nada, veio-lhe à memória um episódio há muito esquecido. Kimberly, aquela a que chamavam afectuosamente "pequena Kimmy", regressara a casa muito nervosa, na tarde da sua segunda aula de bailado. Voltou a vê-la, entrando como uma seta no salão onde se encontravam a irmã e os pais. Estacara diante deles, de mãos nas ancas e anunciara num tom irreversível: "Que se foda o bailado!" Quincy lembrava-se da expressão horrorizada de Bethie e do ar espantado de Mandy, enquanto ele fazia esforços desesperados para não desatar à gargalhada. "Que se foda o bailado." Toda a segurança e determinação da sua filha mais nova estavam contidas nessa frase e ele sentira-se particularmente orgulhoso. Não sabia se chegara a contar aquela história a Abraham. Decerto lhe agradaria muito. £ óbvio que não o diria, mas teria sorrido de uma forma inequívoca. Também ele sentia muito orgulho em Kimberly. Cada geração tem por dever conduzir a seguinte sempre mais longe no caminho do sucesso e esta era a prova de que o velho camponês ianque desempenhara bem o seu papel ao fazer do filho um brilhante agente federal, por sua vez pai de uma futura criminologista de personalidade vincada.

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O isolamento não servia de protecção a Pierce Quincy. Ao raptar-lhe o pai, quem sabe se o destino não quisera dar-lhe a oportunidade de redescobrir Kimberly? 225 - Preciso de mudar de roupa - anunciou Rainie do enorme roupeiro que lhe servia de quarto de vestir. - Se o telefone tocar, deixa-me atender. - Não estou aqui - prometeu Quincy. - Achas que a Kimberly precisa de qualquer coisa? - Penso que sabes melhor do que eu - respondeu com um leve sorriso. - Porquê? Não és nenhum autista ignorante. - Vindo de ti, considero um cumprimento. Rainie apareceu. Pequenos indícios mostravam que se sentia feliz por estar em casa. A começar por uma vivacidade que não mostrava nessa manhã e lhe aligeirava o passo. Trocara a velha T-shirt por uma camisa azul. Quincy não pôde deixar de notar a curva graciosa dos rins quando ela passou junto dele na direcção da cozinha. Como é bonita, pensou, e surpreendeu-se com essa reflexão. Ela não era simplesmente atraente ou sensual. Era bonita. Bonita com umas calças de ganga e uma camisa. Bonita na noite em que conseguira enganar os dois detectives da polícia de Filadélfia, fazendo-se passar por advogada, porque sabia que ele precisava dela. Como era bonita na presença dos seus colegas do FBI, apesar dos complexos que decerto sentiria ante profissionais nitidamente mais qualificados do que ela. Tal como era bonita na simplicidade com que decidira ficar ao lado dele, num momento em que teria sido muito mais fácil afastar-se. Rainie dissera-lhe um dia que desconhecia tudo sobre relações ou compromissos. Era, porém, a pessoa mais leal e digna de confiança que conhecera. - Rainie! - murmurou de súbito. - Esta manhã portei-me como um idiota! Ela estacou bruscamente com um pé na cozinha e outro no quarto. - Não sei do que estás a falar - respondeu. - Estava a meio de um sonho, o primeiro desde todos estes meses de pesadelo. Estávamos juntos, numa praia, deitados na areia e lembro-me de que te acariciava os cabelos. Não dizias nada, eu também não. Éramos simplesmente felizes. - Então, não há dúvida de que era mesmo um sonho. - Só que no momento em que acordei, encontravas-te realmente ao meu lado. - Estava a ressonar? - Não. - Uau! Escapei de boa! - brincou, enxugando a testa com um gesto falsamente dramático. - E eu que estava convencida de que fugiras por causa do meu ressonar. - Tinhas a cabeça pousada no meu ombro... - prosseguiu ele num tom meigo - e abraçavas-me. E puseras a perna... por cima da minha. 226

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Está certo.. fiquei extremamente satisfeito. erguendo os braços. pensou Quincy de imediato..Por. hipnotizado pelo dedo acusador. .Não sei como te dizer isto. . .Quero que metas isso na cabeça. sem que ele se desse conta. .prosseguiu ele num tom humilde. Õ Mitz pode telefonar a qualquer momento e não haverá tempo para explicações.Vai-te lixar. . .com o quê? . Os psiquiatras analisam. mostrar-te um pouco mais condescendente. ele pestanejou.Mas não queria. . 192 . . agitando os dedos.obedeceu ele docilmente. Continua. Entendido? .Desculpa .protestou Rainie.disse ele por fim. pois mostrava-se furiosa.Podias.Vá lá.apressou-se ele a replicar num tom dócil. Nunca o fui em toda a minha vida! .Deixa de armar em palhaço por um minuto. Mas onde? Estavam num sótão! . Esconder-se. . Quincy! Apanhado de surpresa. Tudo certo . .Não sou compreensiva .acrescentou ela. Nem foi por isso que me encostei a ti..Os namorados pedem desculpa. não é este o momento mais adequado para me interessar por alguém.Tencionas furar-me com isso? . ao tentares convencer-me de que agi por piedade.com esse dedo acusador..Fico encantada com essa confissão. Qual é o teu campo? . . Rainie. o seu discurso devia tê-la irritado. mas.rugiu ela. .. .Não fui deitar-me ao teu lado por ser compreensiva. Pede desculpa e não se fala mais nisso.Sabes que estás a tornar-te boa neste jogo? .Confesso que senti medo ao acordar esta manhã . Pára já com isso ou zango-me a sério. o que representou um passo enorme para mim. nunca nenhuma mulher se mostrou tão compreensiva comigo.. . pelo menos. Em qualquer momento.. É bastante difícil admiti-lo. í 227 . Dir-se-ia que me imitas. Sem lhe dar tempo para se recompor.Quincy! . Estendi-te a mão. a fúria de Rainie desapareceu tão depressa como surgira..E que mais? Vá lá. mas. Como ele não lhe deu resposta. -Talvez tenha reagido de uma forma egoísta . Quincy. Rainie avançou ao seu encontro. .Quando acordei e te vi ao meu lado. . Sabes. E não só te afastaste como um cobarde esta manhã como continuas a fazê-lo.Claro que querias. As pessoas que amo denotam tendência a ser assassinadas num curto espaço de tempo. de faces afogueadas e o dedo ameaçador..Isso é porque tenho frio durante o sono. ou que adormeci nos teus braços. .

E se te propuserem um talk-show na televisão. embora o simples facto de teres dormido comigo e agarrada a mim te custasse um esforço considerável..sussurrou. Mas sobretudo fora ela a trazer-lhe sonhos de uma praia de areia fina em vez de pesadelos. Desejava tanto tocar-lhe que sentia as pontas dos dedos dormentes.Para falar verdade.Continuarias a viver .Adorei acordar ao teu lado. sem dúvida. Sentia os nervos à flor da pele. não ressonaste ..respondeu. . . aceita sem hesitar. ou talvez por causa delas. resta-nos usufruir dos bons momentos. Quincy. . Alguém que muito respeito disse-me uma vez que não se pode afastar o infortúnio. desde o início da conversa. . . acontece. Quincy sabia até que ponto ela tinha medo.sussurrou.apressou-se a interrompê-lo. Ele obedeceu. . Agora. O mundo podia acabar ali. Farás um sucesso. de que estou consciente..Nem dei voltas e mais voltas? Não te roubei a roupa? Não te impedi de dormires? Continuou a aproximar-se. Esperava.. . Fora ela que o procurara. embora o desejasse. Sentiu-lhe a rigidez da nuca 228 no preciso instante em que a acariciou suavemente. que o desafiara. Rainie deixou de agitar as mãos. Rainie hesitou um último instante antes de erguer o rosto e oferecer-lhe os lábios. Pára de reflectir e analisar toda a gente e beija-me. Rainie. . Era agora ou nunca. o queixo voluntarioso.Não. a curva decidida dos lábios.Se te perdesse. Mas somos fortes e vamos safar-nos. Se Carl Mitz telefonasse. . Portanto. Achei-te mesmo muito acolhedor para um agente federal.E eu também. Pela primeira vez. pára de falar. Quincy encontrava-se agora muito próximo dela. E ele que durante tempo lutara por dissimular as suas emoções por detrás de um profissionalismo metódico. deitando-lhe um olhar de relance. que ele fosse violento e preparou-se para o ata- 193 .O que tem de acontecer. Estava tão próximo que lhe parecia ver pela primeira vez cada traço do rosto.interrompeu-o bruscamente.E eu não ressonei? Incapaz de se conter por mais tempo. esperaria. . Por ter fingido que não aconteceu nada.Pára antes que seja tarde de mais. sem que ela fizesse qualquer movimento.Não. ..Não quero magoar-te . chegava-lhe o perfume a sabonete e ao champô de maçã.Desculpa por ter saído do quarto como um ladrão a meio da noite. . também não achei desagradável ..Okay . . Apesar das suas ousadas palavras directas. sem sequer te acordar.. Ambos somos demasiado pragmáticos para reagirmos de outra forma. deu um passo na direcção dela e Rainie não procurou esquivar-se.

Fala comigo . das maçãs do rosto orgulhosas. Olha para mim.Descreves-me como se eu fosse um quadro de Picasso . antes de lhe acariciar o cabelo.Gosto desse queixo decidido. 229 . Rodeou-lhe a nuca com as mãos e colou-se contra o corpo dele. acariciava-lhe o corpo musculoso..Quando.És a mulher mais bonita que conheço. da cor de uma noite enevoada. Nunca te magoarei. Quincy sentia mesmo as batidas do coração. de uma profundidade insondável..pediu.. . Diz-me o que quiseres. com um movimento suave. Quincy não fazia a mínima tenção de ceder às pulsões masoquistas de Rainie. Pegou-lhe meigamente na mão e colocou-a sobre o seu peito. . Rainie.. também 194 .replicou ele.. o curioso contraste entre aqueles lábios gulosos e o resto da cara. . Ele nunca vira uns olhos assim...replicou ela.murmurou. A jovem mulher obedeceu. Lábios capazes de inspirarem os mais belos sonetos. com a mão a envolver-lhe a cintura.Fala comigo.. Conhecia bem a sua história. incitando-o. . Roçou-lhe o queixo com os lábios. antes de se entregar. talhada a cinzel. antes de se demorar longamente na curva delicada do pescoço. Lábios que apetecia beijar. pousou novamente os lábios no pescoço de Rainie. tornar-me campeã olímpica. . Quincy sentiu a pressão do corpo dela. de fazerem vender a alma..Acho que nunca te disse quanto gosto do teu perfil . . enquanto te toco . comer. . Rainie fechara os olhos e Quincy passou o polegar sobre as longas pestanas. . embriagado pelo perfume da sua pele. Sem deixar de a fitar. Rainie. Começou por roçar-lhe o canto da boca com os lábios.. Hum. que esquecesses tudo menos nós. Tal como ele. mesmo que ela achasse que esta seria a solução mais fácil.Não. Enquanto falava.Fazes-me cócegas . o que lhe provocou um sorriso. Confia em mim. .Abre os olhos. Rainie. . Como era possível que ela tivesse chegado aos trinta e dois anos sem deixar que a amassem? E sentiu-se honrado com a confiança que ela lhe oferecia. baixou um pouco a cabeça para a beijar no rosto. A respiração dela acelerou-se. Desde o primeiro encontro que ele apreciara a sua boca carnuda.murmurou num tom suave.Tens um físico de atleta . no sítio onde o seu próprio coração parecia um cavalo.. Contudo.Queria que deixasses de pensar. ao mesmo tempo que mergulhava a cabeça no decote da camisa. queria fazer ginástica. não consigo falar. quando era miúda .. .sussurrou.que.começou ela num tom rouco queria. Os lábios de Quincy desceram lentamente até aos de Rainie e esta estremeceu uma última vez. Sabia até que ponto ela encarava o sexo como dor e castigo e não desejava precipitar as coisas. exibindo um olhar cinzento e límpido.

barras paralelas. Aquele suspiro fê-lo entrar de novo em transe. .murmurou-lhe ela ao ouvido..Pensemos apenas nos exercícios de ginástica ..Rainie fazia jogging todas as manhãs.Não. desapertando o último botão da camisa.. Apeteceu-lhe gemer ao mesmo tempo. .comentou.Favorita como? . sem oferecer resistência. deslizou uma perna por entre as de Rainie e atraiu-a de encontro ao corpo.. Ele não lhe despiu logo a camisa. mas Rainie virou a cabeça e atraiu-o contra si.Um trampolim. . provocando-lhe um gemido de prazer.. precipitando as coisas. que se abriu.Tiveste aulas? . .A minha favorita era a Nadia Comaneci . depois o outro. .. sim. . Tomou-lhe um mamilo entre os dentes e.De ginástica. Não queria arriscar-se a perdê-la.. . ele pegou-a ao colo e levou-a para a enorme cama no extremo oposto da divisão. mas era demasiado cedo. preferindo ir ao encontro dos lábios que finalmente se entreabriam.perguntou em voz baixa. Beijou-lhe a linha do queixo. .. aproveitando para desapertar o fecho do sutiã..Aulas? .. Ooooh.Ah. ela apertou-o com mais força. revelando os seios. A pele era quente e sedosa e o corpo bem musculado. Quince continuou a beijar-lhe o pescoço.Via. .murmurou Raime.É falta de prática. devias fazê-lo só com uma mão .balbuciou ela. . imaginou os seus dois corpos entrelaçados numa cama branca. Oooh.. .chamou-o num tom meigo. Quincy acariciou-lhe as costas.. fundindo-se no corpo dele.. Na próxima. . em vez de o repelir. mas conseguiram aterrar em cima da cama.Já assististe a competições? Roçando os lábios pela clavícula. Mas não podia precipitar- 195 . não me esquecerei. sentir a pele dela contra a sua.Percebo ..retomou ele. via os Jogos Olímpicos na televisão. tropeçou num par de sapatos. enquanto ela se abandonava cada vez mais..Hum.Em princípio. . começando a desabotoar-lhe a camisa. . . Primeiro um.Na ginástica. com a cabeça entre os seios dela. Quincy.. beijou-a ternamente. É verdade. antes de lhe prender a língua. Deslizou as mãos por baixo da camisa de Rainie.E se fôssemos para a minha cama? Sem hesitar. 230 ... . Acariciou-a devagar. Rainie estremeceu. roçando o lóbulo da orelha. No último instante. Por um momento.Quincy? . Rainie desatou a rir-se às gargalhadas e Quincy.

guiado 196 .Quem te fez isto? ..Uma mulher às direitas. . decidido a dar-lhe prazer. A ex-mulher encarregou-se disso. Arrancou-a com um gesto e fez o mesmo com a camisa e o sutiã de Rainie. os seios brancos de Rainie contra o seu tronco bronzeado.se. debaixo dela. de dentes cerrados. .Por favor. Quincy deitou-se sobre ela. Como que hipnotizado.Rainie . .Deixa alguma coisa para mais tarde.O Jim Beckett. .Se tiveres outro amanhã à noite. ao mesmo tempo que um 231 brilho se fixava no olhar. Quincy susteve a respiração.Não.Vejo que me percebes.pediu ela. . Não podia precipitar-se. num movimento de vaivém cada vez mais rápido.O prazer é um direito. Desta vez.Não quero vir a ser como a minha mãe. . . . Contudo. atento às mínimas reacções. uma sensação maravilhosa que lhe punha a cabeça à roda..Mas tu nunca serás como a tua mãe. mato-o. decidido a abandonar-se ao seu anseio. . pousando-lhe um dedo sobre os lábios. Sem saber como. . a expressão quase dolorosa do rosto dela desvaneceu-se. antes de o ajudar a tirar as dele..Não sei como.Um homem diferente todas as noites.Nem eu. . .Okay. Rainie abriu as pernas e ergueu as ancas. Rainie notou a cicatriz que ele tinha no ombro esquerdo. Agora.Rainie? . Retomou fôlego. . . ele não deixava de olhar para o rosto de traços decididos onde lia pela primeira vez um resquício de esperança. antes de fazer o mesmo com a outra mais pequena no braço e depois.sussurrou. As feições suavizaram-se e o corpo descontraiu-se. então. Parou.. à volta dele.Já não me apetece falar dos Jogos Olímpicos .O quê? . Sentiu imediatamente que o corpo dela se tornava tenso e o rosto se contraía.suspirou ele. . .Devagar.pronunciou num tom grave. viu-se de costas. Interrompeu-se e cobriu-lhe o peito e o ventre de beijos.Não digas nada . . Aprenderemos juntos. ia enlouquecer se não despisse rapidamente a camisa. . Rainie despiu as calças de ganga. ..Quincy . .sussurrou ela. Rainie entrelaçou as pernas nas dele e Quincy penetrou-a suavemente. O cabelo curto de Rainie fazia-lhe cócegas. com a terceira. . Sentiu-a mover-se contra ele.. Por favor! Quincy baixou a cabeça.perguntou. à altura da clavícula. ..replicou ele num tom rouco.Mataste-o? .. De súbito. Prendeu-a entre os lábios.

Rainie . Quase a achava ainda mais bonita durante o sono.murmurou. o rosto pálido. Quincy deixou de pensar. Contrariamente ao que lhe dissera o amante. A caixa era bonita. a boca entreaberta por onde saía a respiração calma. Por um instante. O estafeta tinha uns bonitos olhos cor de avelã. 232 31 Residência dos Olsen. mediante entrega especial. Rainie soltou um grito. mas de um fabricante de chocolates que desconhecia. Levou o embrulho para dentro. Virgínia A caixa de chocolates chegou pouco depois das três da tarde. O edredão branco enrolara-se entre os corpos e o sol iluminava a divisão através dos vitrais coloridos. Doze trufas ao todo. De vez em quando. que podia começar a tocar a qualquer momento. 197 . em filas de três. as longas pestanas escuras sobre as maçãs salientes. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos e ela balbuciou palavras ininteligíveis no meio do sono. polvilhadas com cacau e com uma noz em cima. De súbito. as trufas apetitosas e restava verificar se o detective que a vigiava era guloso. Toda sua. . pois era sábado. de queixo voluntarioso. sozinha no quarto de hotel. não se atrevia a mexer-se com receio de acordar Rainie que tinha a cabeça apoiada no seu ombro e um braço sobre o ventre. Pensou na filha. por esta suprema prova de confiança que ela lhe oferecia. Em breve regressaria o momento da caça ao homem. de se controlar. Mary assinou o recibo que o jovem fardado lhe estendia e teve a satisfação de vê-lo corar quando lhe piscou o olho. Desatou a fita e abriu a caixa que emanava um intenso cheiro a chocolate agridoce e amêndoas. na idade que começava a fazer-se sentir. passando os seus dossiês a pente fino. Pensou em si próprio. desejosa de abri-lo. na sabedoria que lhe chegava através dos erros cometidos. certificando-se de que não estava a sonhar e que ela se encontrava ali. e encontrou uma encantadora caixa verdeescura anichada num mar de papel de lustro dourado. Uma Rainie semimulher. As tréguas haviam sido de curta duração. o seu olhar pousou no telefone. não eram trufas Godiva.pelas mãos ardentes de desejo de Rainie. Concluiu que era altura de deixar de se lamentar em relação ao passado e lutar pelo que lhe restava. Deitado de costas. Quincy demorou um pouco os olhos na expressão de beatitude de Rainie. semicriança. mas não tinha sono. antes de se abandonar por sua vez e mergulhar com ela num abismo fremente de prazer. Rainie adormeceu primeiro. percorria-lhe os dedos pelas costas. Quincy julgou que também adormeceria. na sua maneira de chamar as atenções por onde quer que passasse. Um misto de prazer e de surpresa. Pensou em Rainie.Nunca te magoarei. com a sua personalidade decidida. arrebatado pelos gemidos e pelo corpo de Rainie.

Uma espessa maquilhagem ajudara a disfarçar as olheiras e tapara as nódoas negras dos braços e dos ombros com um casaco de seda rosa. . 233 Enquanto debitava as palavras com um belo sorriso. espalhou-se um intenso odor a amêndoas e chocolate. . Mais do que isso. parecendo estudar um mapa das estradas. mostrou-lhe o mapa das estradas. pôs-se a olhar em todos os sentidos como um animal apanhado na armadilha. O plástico do porta-luvas queimava e Mary disse de si para si que devia ter trazido limonada ou chá gelado.Mas. A mulher perfeita de um médico com as suas roupas cor-de-rosa. . 198 .Achei que devia estar com fome..Trouxe-lhe uma coisa .Dirigiu-se ao espelho.indagou o detective com uma ponta de gulodice.. hesitou antes de pegar na caixa que ela lhe estendia.Nunca me passaria pela cabeça encontrar alguém tão belo neste deserto. Ela avançou sem hesitar e bateu no vidro da janela do lado do condutor. . vou mostrar-lhe no mapa.saudou ele de imediato. . São apenas trufas.Por favor! Não me tome por uma imbecil.Se pudesse indicar-me o caminho mais rápido para chegar à AutoEstrada Noventa e Cinco.. Imagine que estou completamente perdido e bem preciso de uma ajuda.Não vale a pena disfarçar.Sobretudo quando se olha para a mesma estrada dois dias seguidos. . mas sem conseguir evitar que ela o visse empurrar algo com o pé para baixo do assento.Repito-lhe que todas estas estradas no campo se assemelham e. Devido ao calor e ao espaço confinado. O automóvel cinzento encontrava-se no lugar descrito pelo amante e um afro-americano bem vestido aguardava calmamente atrás do volante. antes de pegar na caixa de chocolates e sair.. Importa-se? Indicou-lhe com um gesto o lugar do passageiro.. . . Os rolos no cabelo haviam produzido maravilhas e sentia-se de novo apresentável.Trufas de chocolate? . . . Provavelmente a máquina fotográfica. Sei que é um detective particular replicou a jovem mulher. Não tenha medo. Mal avistou Mary Olsen.Mary voltou a fechar a caixa e observou-se no espelho colocado por cima da cómoda da entrada. Ele já não sabia onde se enfiar. . Contudo.Os dados estão lançados. ..Sem problema. Estava bonita.. sem lhe dar tempo a protestar. Mary Olsen deu a volta ao carro e instalou-se ao lado dele. .. . A quem apeteceria comer chocolate com um tempo daqueles? Mas era tarde de mais para mudar de estratégia e estendeu-lhe a caixa de chocolates. Fazia um calor asfixiante dentro do carro e o vestido colou-se-lhe imediatamente à pele sobre o assento de veludo. minha linda . Mal a abriu.disse.Olá. baixando o vidro.

acho.Não sei se consigo segui-la . com um tal argumento a seu favor. Mas certamente não estou a dar-lhe uma novidade. sem o fitar. acho que vou comer um chocolate . De Beers estendeu-lhe a caixa e ela pegou-lhe.Sou guloso. Mary não duvidava da sua simpatia.. . Resolve casos desesperados e ajuda crianças. .Chamo-me Mary Olsen . e a minha vida resume-se a esperar o meu querido marido em casa. não vejo ninguém. Mister Beers. -Acho. Porque o faria? Porque rrie deixa tanto tempo sozinha? Porque me proíbe de ver a família e os amigos? vou explicar-lhe. muito pouco à vontade.disse ela num fio de voz. não é verdade? Fez deslizar o casaquinho rosa. Instalou-se um silêncio desconfortável que a jovem mulher foi a primeira a quebrar. .Quando nos conhecemos. virando-se para De Beers e fitando-o bem de frente. Acabei de almoçar.Phil de Beers . não sabia o que me esperava. . mas acho que vou resistir.Julga que passo o tempo a ir para a cama com os meus amantes. Mary desviou a cabeça.o odor era quase desagradável. desnudou o ombro e mostrou uma enorme equimose.respondeu delicadamente. mal ele vira as costas. 234 .Ele acha que o engano. Voltou a ajeitar o casaco de malha e abotoou-o até ao pescoço. Mary quase ficou aliviada. Na altura. 199 . O pobre sentia-se verdadeiramente perdido.confessou De Beers e talvez estivesse a falar verdade. tanto quanto sei. e ele apressou-se a fechar a caixa.Agradeço-lhe muito .indagou Mary. Sinto muito orgulho no trabalho dele. .Trabalha para o meu marido. soube que o apanhara.Quando me pediu em casamento . não? . Não trabalho.Neste momento. . Eu era um tanto ingénua. sou apenas um homem a viver um mau dia suspirou ele. Talvez conseguisse mesmo arranjar um aliado.prosseguiu a jovem mulher -.retomou Mary. pois estava convencida de que ele me escolhera por amor. . Ele também lhe disse isso. eu era uma mera empregada de mesa e senti-me lisonjeada pelo interesse dele. . . Ainda não compreendera que ele detestava a minha maneira de vestir e de falar. Ele é um famoso neurocirurgião. . Phil de Beers semicerrou os olhos e contraiu o maxilar. estendendo-lhe a mão.Tive a impressão de estar a viver um conto de fadas.respondeu o indivíduo. sentindo-se repentinamente desesperada e exposta.. Desta vez. Por fim. . . Quem sabe se não ganharia a batalha contra o marido? De Beers não pronunciou uma palavra e o silêncio tornou-se cada vez mais pesado. pousando a caixa no painel. senti-me nas nuvens.declarou.O meu marido não me ama . após um longo momento de hesitação. Phil de Beers assentiu com a cabeça.

mas as palavras presas na garganta não chegaram aos lábios de onde corria a espuma. Tentou esboçar um gesto para que se afastasse.. nunca a ter abraçado.O que é que pôs nestes chocolates. A trufa. mas não conseguia respirar.balbuciou De Beers. Nesse mesmo momento. estava como que paralisado..balbuciou penosamente. mas voltou a estender a mão para a caixa. Preparou-se para um gosto químico ou farmacêutico. Como é que ele poderia recusar. meteu-a na boca. Os lábios desenhavam um sorriso cínico. . o homem dos seus sonhos. Não era o mesmo homem. 235 . Vai-te embora. Em vez de lhe pegar na mão. Contudo. viu que ele segurava uma 200 . Sentia-se a espumar. antes de comer uma e depois pousou a caixa em cima do painel.. derreteu-se-lhe na boca. Beijarás as minhas nódoas negras.-Aceite uma trufa para me acompanhar . Ofereceu-lhe uma trufa. O coração começou a bater com mais força. fitava-a de uma maneira estranha. Aliás.Ajuda-me. Fez um esforço desesperado para agarrar a maçaneta da porta que conseguiu abrir penosamente. . . por que razão cortara o cabelo? Quis falar.. imóvel.. exalando um sabor a álcool misturado com o de amêndoa e chocolate preto.. Farás com que me sinta bonita. Viu-o dar a volta ao carro e aproximar-se de Phil de Beers.Não são óptimas? Quer outra? . Ele não pode ver-te..Obrigado. céus? Mary quis responder-lhe. Mais uma hora e estaremos juntos.. mas enganou-se. . estendendo as mãos na sua direcção. sobretudo num país como a Virgínia. Ele estava ali. agarrado com força ao volante e que observava o desconhecido. Agarrada ao painel. horrorizada." Depois.murmurou. Queria gritar. o homem afastou-se. mas a garganta ardia-lhe e o rosto. . Mary assentiu com a cabeça.Arde .O gosto a amêndoas.Arde. deliciosamente fresca. mas são um pouco fortes para o meu gosto. a suar. Parecia nunca a ter visto.indagou De Beers. Já o obriguei a comer um chocolate. sentiu um leve ardor na língua.murmurou.Ajuda-me . dizendo: "Saúde.. franzindo o sobrolho. deu-se conta de que também Phil de Beers arquejava. . . Deus do céu! Não!. procurando algo debaixo do assento. o sangue subiu-lhe à cabeça e tudo começou a girar à sua volta. .vou ? sentir-me menos culpada. Por favor.Fi. na sua frente. após uma breve hesitação. obrigando De Beers a imitá-la. filho da mãe . nunca lhe ter murmurado palavras ternas ao ouvido. famosa pela delicadeza sulista? Ergueu a trufa como se fosse um copo. .. O braço surgiu finalmente e Mary.Quem é o fabricante? . Grossas gotas de suor corriam-lhe da testa e os olhos saíam-lhe das órbitas. mas as mãos recusaram obedecer-lhe.

.Não te preocupes. Um sofrimento atroz. consultando o relógio.. .... ergueu os olhos para o homem que tanto amava.pronunciou Mary Olsen num último fôlego. O desconhecido precipitou-se e arrancou-a bruscamente para fora do carro..arma com mão trémula. crispou os olhos. Os lábios da mulher ainda se mexiam e ele aproximou-se para captar as palavras. confesso.. Um gorgolejo 236 sinistro saiu-lhe da garganta. As amêndoas.O que estás a dizer? Rezas? Mas.Oh.. Phil de Beers ergueu a arma com mão trémula.. Ajuda-me. os olhares cruzaram-se finalmente.. Mary não desfitava De Beers e.É teu.. . . Porque é que ele estava quase calvo? E por que motivo olhava para ela sem erguer um dedo para a ajudar? . Não te resta muito tempo . E eu que te amei tanto.Teu . mas porquê? Arde. O odor não é muito agradável. Arde. Já te esqueceste de que atraiçoaste a tua melhor amiga? Temo que Deus não te queira no seu paraíso. . Não me olhes. No meu ventre. pensou ela no momento em que a vida se apressava a deixá-la. O braço descaiu.conseguiu murmurar milagrosamente. as amêndoas. ao mesmo tempo que os espasmos da morte lhe sacudiam o corpo. Num derradeiro esforço. Ele pareceu pedir-lhe perdão. não! Isso não. Mary via-a girar loucamente ao ritmo do carro. . Ele franziu o sobrolho e seguiu maquinalmente com o olhar o movimento das mãos crispadas à volta do ventre. Estou aliás surpreendido por teres aguentado tanto tempo. Em vez de um laxante.Oh! Acho que me esqueci de te dizer ao telefone. dizer ao homem que amava para se afastar. no máximo.. As amêndoas.. Deitou-a sobre o asfalto quente e tentou reanimá-la com palmadas 201 . tentando desengatá-la.. os olhos reviraram-se e tombou sobre o volante num dilúvio de baba. mas as palavras não lhe saíam da boca.Um minuto.. Endireitou-se e os raios do sol em contraluz davam-lhe um ar de anjo exterminador.. minha pobre Mary. Ajuda-me.declarou friamente. É a prova de que as pessoas reagem todas de forma diferente. De súbito.. Mudei de opinião.É teu . . . naquele carro sufocante que não parava de girar. Mary desejou gritar. Não consigo respirar.. Ardia-lhe terrivelmente a garganta e tudo girava à sua volta.. mas é duplamente eficaz. desculpando-se por não poder fazer nada por ela. enquanto a arma caía ao chão. vejo que tens memória curta. achei que seria mais prudente injectar cento e cinquenta miligramas de cianeto em cada uma dessas belas trufas.. A minha maquilhagem escorre. Quem se interessaria por uma rapariga como eu? Um pensamento ainda mais forte pairava no seu espírito enevoado pelo veneno. Devia ter desconfiado.

. Pertenciam à primeira os que se haviam acostumado sem muita dificuldade às restrições da vida prisional. O pai tinha razão em vincar que só o acaso o fizera atender a chamada de Sanchez. Kimberly sabia que alguns presos têm direito a quatro horas de passeio diário no pátio da prisão. O cianeto provoca uma morte dolorosa. Fitálo-ia com uma expressão doce e inquieta. AGORA 32 Portland. 237 Se a tivesse deixado viver. caíam-lhe sobre os olhos e ela tentava voltar a colocá-las no lugar com um gesto impaciente.. Oregon Kimberly aplicou-se a reler o dossiê de Miguel Sanchez pela quarta vez em menos de duas horas. Estava convencida de que deixara escapar uma pista importante. mas extremamente rápida. o coração havia parado para sempre. raios! Não me faças isso.Pierce Quincy. sem dúvida um velho carrinho metálico. mas havia algo mais.. mas não conseguia desviar a atenção daquele maldito dossiê. ela sabia também que a presença de AlbertMontgomery na equipa de investigação organizada pelo FBI era uma simples coincidência. Mary.Acorda! Acorda. . Agora que estava só.. escapando do rabo-decavalo.nas faces. San Quentin tinha dois tipos de presos.sussurrou entre dentes. como se alguém empurrasse dificilmente algo no corredor. em troca do que usufruíam de 202 .Cabrão! Filho-da-puta! . depois de todos aqueles anos de solidão e abandono. A acreditar no pessoal da penitenciária. Contudo. o que excluía a possibilidade de um ex-condenado cúmplice ter decidido vingar Sanchez em seu lugar. . meu safado! Vê o que me fizeste! Vais pagar! Vais pagar!. Sanchez vivia sozinho numa cela de dois por três metros. fazem musculação e sabe-se lá que mais. classificados nas categorias A e B. o homem fitava enlouquecido o ventre que começara a arredondar-se. Encerrado há vários anos em San Quentin e condenado a prisão perpétua. Finas madeixas louras. O seu instinto sussurrava-lhe que a chave do enigma se encontrava algures no caso Sanchez. Por outro lado. . devia ter aproveitado para tomar um duche e mudar de roupa. ela dar-lhe-ia a notícia nessa mesma tarde. De pé. Obedeciam às regras e não causavam problemas aos guardas. Mary Olsen já não o ouvia.. Kimberly franziu o sobrolho e voltou a mergulhar no seu dossiê.. ele que perdera irremediavelmente a família. E ele. Um chiar de rodas. no meio de outros sessenta detidos com quem jogam basquetebol. ao lado do cadáver da jovem mulher. Suplico-te. procurando a sua aprovação. Foi interrompida por um ruído estranho do lado de fora do quarto. Agora. No seu peito. Devia haver outras hipóteses.

ao permitirem que revivesse os momentos mais excitantes do seu horrível percurso. pois tal não impedira que Richard Millos fosse assassinado no dia em que Sanchez se encontrava como por acaso na solitária. Quando este perito pedira para voltar a entrevistar Sanchez. Uma coisa era inegável: Miguel Sanchez nada tinha de cordeiro. O pessoal do hotel podia olear os carros de vez em quando. O facto de ter agido em parceria era tão raro no pequeno mundo dos assassinos em série que tanto jornalistas como criminologistas se haviam debruçado sobre o seu caso. O chiar das rodas no corredor começou a bulir seriamente com os nervos de Kimberly. especialmente o de conviver com os colegas na hora do recreio. Foram necessários quatro guardas para dominar Miguel e arrastá-lo para fora da divisão. por regra. as mais rígidas medidas disciplinares não bastavam para tornar inofensivo um preso do arcaboiço de Sanchez. Kimberly ficara a saber através destes artigos que Sanchez e Millos tinham sido precedidos por várias parcerias homem-mulher. incapaz de se relacionar em sociedade. Na verdade. pelo menos. com uma cabeleira rebelde que agradaria a Charles Manson e uns olhos 203 . Sanchez não gostava. para se atirar a ele e tentar estrangulá-lo. Teoricamente. Sob o manto da pesquisa científica. os peritos opinavam que o segundo servia de testemunha aos actos de Miguel. é. No caso de Miguel e Richard. nesses casos. Richard Millos tinha medo do primo e este retirava um certo prazer da situação. a mulher. regressou à B. pouco inclinada a fazer amizades. Contudo. Por outro lado. As entrevistas que Sanchez lhes concedia ajudavam-no sem dúvida a quebrar o tédio do quotidiano.alguns privilégios. com o interlocutor. Miguel Sanchez era um habitue da solitária. antes de se acalmar e passar à categoria A em 1997. a 239 ameaçar os guardas. sem algemas. Um perito em criminologia escrevera um dia que Richard era a personificação das tendências homossexuais retraídas de Miguel. Menos de seis meses depois. mais testemunha e vítima do que cúmplice. Estavam sempre a arranjar brigas com os outros detidos. ele esperara o momento de ficar a sós na sala de visitas. começara a pena como detido da categoria B. estes encontros lisonjeavam-lhe o ego. tal significava que não tivera tempo de estabelecer relações em San Quentin. Kimberly conseguira encontrar a sua foto na Internet. os presos da categoria B nunca se tinham resignado à prisão. na realidade. A maioria deles passava grande parte do cumprimento da pena em isolamento administrativo. A maioria dos psicopatas. obviamente. segundo o dossiê. o termo oficial para designar o que os presos chamam a "solitária". O dossiê de Sanchez continha dezenas de recortes de imprensa e perfis psicológicos. servia de escrava ao acólito. que se evocasse a sua homossexualidade latente. Era muito moreno.

.. Ou melhor. . Ao atacar a minha família. Quarta-feira.Muito bem. onde se plantou com a sua semiautomática. Baixou lentamente a arma. Quando quiser os seus morangos e o champanhe. As mãos de Kimberly tremiam tanto que não conseguia apontar a arma. ele próprio enriquecera a sua colecção em San Quentin. O truque do serviço do quarto era da idade do mundo e Kimberly não nascera ontem. Danuinismo. se a morte de Mandy a pusera a flutuar num conflito de raiva. basta ir buscá-los à cozinha. o meu avô. Kimberly reencontrou toda a sua combatividade.. Deve ser da lua cheia. Kimberly acabava de entrar na kitchenette. pensou. Tremia de alto abaixo e tinha a T-shirt 204 . Sexta. estava firmemente decidida a matar aquele safado. Sabia perfeitamente de que Amanda se tratava. Levantou-se e dirigiu-se à porta. todas as suas resoluções se esfumaram. Kimberly tivera de observar demoradamente a fotografia para conseguir decifrar as letras tatuadas num dos ombros.Tenho aqui um pedido para o serviço de quartos. O coração dera-lhe um salto no peito e levara um bom momento a recompor-se.Deve ter-se enganado no quarto .. Dispensava bem aquele tipo de distracção. com a ajuda de uma agulha e uma caneta. Estacou. quando bateram à porta. impediam-na de se concentrar. Mais um elo entre o psicopata e a família de Kimberly. Desde os doze anos que espero esse dia e não desisto facilmente. Mergulhada nas pesquisas. A sua tarefa já era bastante penosa sem que viessem perturbála com tais ruídos. Paradoxalmente. O chiar das rodas. cada vez mais próximo. Não era a morte de um tarado como Miguel Sanchez que a faria sentir-se culpada. O chiar das rodas voltou a soar e Kimberly ouviu o homem murmurar: . a minha mãe. quando eram miúdas. Num segundo. Segundo as suas palavras. .Vá-se embora imediatamente! Obteve o silêncio como única resposta. .Não sei o que lhes deu hoje. subitamente insegura. tratava-se de uma homenagem às suas vítimas. O mais forte mata o mais fraco. este porco deve estar preparado para as consequências. após meses de desconforto.anunciou uma voz aguda do outro lado da porta. e hoje será a minha vez! Nem pensar! Não vou deixar-me ir abaixo!. o que dela restava. Tinha os ombros cobertos de tatuagens. segundo um relatório da prisão. remexeu febrilmente a mochila de onde tirou a Glock.. conseguimos fugir. com arabescos: Amanda. antes de se dirigir em passo de corrida para diante da porta. Precipitou-se para o quarto. .. quinta.Serviço de quartos . Pálida e transpirada.cavados num rosto talhado a cinzel.gritou.. tristeza e medo. sentia palpitações. o assassínio da mãe devolvera um objectivo à sua vida. dado ter ouvido com Mandy as terríveis cassetes de Sanchez. Apesar dos avisos de Rainie.Oh.Afaste-se imediatamente dessa portal .

enumerou Rainie. Recuou a cabeça para a fitar e declarou no tom mais sério do mundo: . mas podes esquecer as caixas em forma de coração. talvez gostasse do nome. . . acariciando-lhe o cabelo. não sou do género de adorar cartões do Dia dos Namorados. mas sedosos. Também a ele não lhe apetecia levantar-se. pôs-se de gatas e espreitou por baixo da porta. sim. "meu docinho". tocou o telefone.. No preciso momento em que ela se preparava para o ressuscitar com a respiração boca a boca. . Não quero correr o risco de morrer estrangulado às tuas mãos. Gostava do torso bronzeado e musculoso. 205 . . Se não me chamares "torrãozinho".Mas preciso que me expliques o que entendes exactamente por "diminutivos ridículos".A propósito.E eu que julgava estar melhor .Entendido. Para teu governo. Nada de coisas com veludo vermelho. Evita a todo o custo. .. . .Vejo que tens aversão por tudo o que se relacione com açúcar. não te chamarei "meu queque machão adorado". O que nos conduz ao assunto espinhoso das caixas de chocolates e outros doces semelhantes. "meu torrão de açúcar" . Esteve quase a propor-lhe que retomassem a interessante conversa sobre as medalhas dos Jogos Olímpicos. Ah! É verdade.ensopada de suor. todos esses nomes que quando os ouvimos na boca dos outros nos dá logo vontade de os matar. Julgo que me agradaria. a Glock entre as pernas.Numa palavra.. . Os chocolates. dos pêlos crespos.Muito fácil.. com a cabeça pousada no ombro de Quincy. e a proibição absoluta de se inventarem diminutivos ridículos repetiu ironicamente Quincy. Não é nada o meu género. deitados lado a lado na cama dela. Quincy.Sabes Rainie. "meu rebuçadinho". O que te parece? Rainie e Quincy. 241 Sem se sentir em segurança. uma mistura de água-decolónia e de sexo. Passava do meio-dia. Rainie deu-lhe um pequeno soco no peito e ele fingiu-se atingido de morte. Acho que podia habituar-me às flores. o sol era intenso e o telefone podia tocar a qualquer momento. O coração batia-lhe com tanta força como se tivesse corrido a maratona e forçou-se a respirar fundo e a retomar o fôlego. Nem penses em dar-me diminutivos ridículos do tipo dos que se encontram nos cartões de aniversário ou nas novelas da televisão. desde que a caixa seja quadrada. ela traçava-lhe padrões imaginários sobre o peito. sobretudo rosas. pensando bem.murmurou com um ar sombrio e as costas apoiadas na parede. gostava do cheiro.vou recapitular: de acordo quanto às flores e aos chocolates. ainda não se tinham voltado a vestir. Foi só ao constatar que não havia qualquer sombra suspeita que se sentou no chão.

Não me parece que seja muito elegante da sua parte apagá-la tão depressa da sua existência. Se não me engano..Lorraine Conner! Que prazer falar consigo! Rainie franziu o sobrolho. caro amigo! Como se fosse uma honra estar na pele do Pierce Quincy.Quem fala? . A voz não lhe dizia nada..Está? . Não vou fazer nada disso. Sem se preocupar com a nudez.murmurou Quincy. E é assim que lhe agradece? 206 . A sua filha mais velha está morta.Vejo que estou a lidar com um paranóico que sofre da mania das grandezas. Não podia ser Carl Mitz ou o pseudopai de Rainie. . . . É decididamente um animal de sangue-frio. dês. raios? . Acabava de se fazer luz no seu espírito.Preferia continuar a nossa discussão sobre ginástica . mas quem quero. Portanto. portanto não posso ter mulher . ao mesmo tempo que se virava e estendia a mão para o telefone. O mais estranho era que ninguém ou quase ninguém o tratava pelo primeiro nome. ..Não sou casado.perguntou num tom calmo. fazendo um sinal a Rainie para que fosse buscar um gravador... se tens qualquer coisa a dizer. 242 .Ora. mas ele cortou-lhe o ímpeto com um olhar. a sua mulher está morta e o seu pai desapareceu.Então! Nada de criancices. Pierce.Não é o que quero.Quem fala? . Passe-me o Pierce.Como pode sabê-lo? Parte do princípio de que está morto para evitar qualquer sentimento de culpa.Quando falas para minha casa é comigo que falas. .ripostou Quincy.Desculpe. ele criou-o sozinho.explodiu Rainie. Estava a referir-me à sua ex-mulher. Pierce. aconselho-te a que te despaches.Como conseguiu este número.O que quer? .Sim? . ela saltou imediatamente da cama.inquiriu Quincy. .Sabemos ambos que ele está morto.. . meu cabrão.. . Não o acho assim tão poderoso. a fim de registar a conversa. . claro. .redarguiu.O Carl Mitz . pois Quincy arrancara-lhe o auscultador das mãos.É um empata! . . . . meu amigo. diz-se que quem espera sempre alcança. Levantou-se subitamente como uma fúria e o coração a bater desenfreado. Quer ver a minha carta de condução? Ou a minha caligrafia? .Sabe perfeitamente.Pierce Quincy.Receio que não seja o momento indicado.Telefonando para as informações. pois queria falar com Quincy. . Não teve tempo de acabar a frase. E se. Contudo. fazendo o papel de pai e de mãe. Rainie quis recuperá-lo. se não. . Ela deitou um olhar interrogativo ao companheiro.Vai-te foder. Passe-me o Pierce. Tem algo a dizer ao seu querido pai? . Passe-me o Pierce. .

De facto.perguntou Quincy.comentou num tom despreocupado. ela é muito mais nova.Vá lá. surpreendida. antes de se lembrar que Mickie Millos vivia no Texas.prosseguiu o desconhecido. .Porque me fala do Texas? Vejo que está no caminho errado. sabe? . mas bem vivo. . Quincy colocou o telefone o mais perto possível do microfone e ela carregou no botão para gravar. .Talvez fique menos chateado. A sua filha pelo seu pai.Bem escondido dos policiazecos do FBI. podia fazer-se uma troca com a bela Lorraine. quando lhe despir a camisa para lhe acariciar o peito.243 Mal o seu pai desaparece do lar. .O seu pai está vivo . não me aproximaria muito dela. arruinar-lhe a vida? É curioso como pude ter tanto impacte na sua vida e tê-lo esquecido tão depressa! Na verdade. Quincy estava a apalpar terreno.Que caminho me aconselha a tomar? O que já me permitiu dar cabo da sua carreira.O papá faz tenção de montar guarda junto da menina? .retornou o homem. E isso pode acontecer mais depressa do que julga. Pierce. Rainie fitou-o. mas. Se não quer trocar o seu pai.Engraçado! . . Pierce? De qualquer maneira.Ou então. quando tratar da sua fllhinha. Acrescento que ela tem um bonito cuzinho e como você nunca conserva as mulheres por muito tempo. Quincy bocejou ostensivamente. O homem soltou uma gargalhada. pois pode enfiar-lhe os tomates na garganta. . mete a cabeça na areia como a avestruz? Esperava mais de si. cruzaram-se tantos tarados na minha vida! . Não estou muito preocupado com ela. 207 .Não preciso. . meu caro? .A Bethie e a Mandy preferiam dar-lhes outro uso. Ainda posso matar muita gente que o rodeia. Rainie já estava de volta com um gravador. . No seu lugar.troçou. por outro lado.. O seu pai pela sua amante. . Quincy não respondeu. Ela grita quando a fode.Como está o tempo no Texas? . . Quincy continuou em silêncio. Foi a primeira vez desde o início da conversa que Quincy apertou o auscultador com mais força.. menos adulta do que ele. Dou-lhe uma hora para se meter num avião de regresso à Virgínia. A sua filha também. .Talvez pudesse fazer-se uma troca. Chega de piadas . A voz do desconhecido tornou-se repentinamente mais agressiva.Não tente irritar-me. . . posso dizer-lhe que a sua mulher gritava quando eu a fodia. Pierce.Sabe que está a ficar muito chato.Não duvido.Começo a achá-lo muito presunçoso. E bastante agitado. 244 . tenho de matar alguém no lugar dele.

com um brilho indescritível nos olhos. Glenda. Da próxima vez que contratar um detective particular. Ela só lho vira uma única vez. ... Tanto quanto sei.Pierce? Não creio. deve arranjar um que não goste de trufas de chocolate.OMontgomery está aí? . o melhor local para escalar a sebe e o acesso à propriedade.Ele pensa atacar-te . .Escuta bem. Há três dias que 208 . .pronunciaram ao mesmo tempo.Estás só.Nesse caso.Não me referia à Kimberly. Quincy. precipitando-se para o telefone e marcando um número com raiva. pensou ela. Ele é extremamente perigoso. Exige que eu regresse à Virgínia e ameaça matar alguém para me forçar a obedecer. . conhece a disposição do sítio. Os dedos de Glenda crisparam-se à volta do auscultador.Temos uma hora . Conhece perfeitamente como funciona o FBI e sabe. arranjarei maneira de a fazer sofrer terrivelmente antes de a matar. . antes de se virar para Rainie. Quincy manteve-se em silêncio. O assassino acaba de falar comigo ao telefone. Quer que voltes e atacou sem dúvida o De Beers. . . No seu lugar.A Glenda! . iria a correr para o aeroporto. O homem interrompeu a ligação e Quincy desligou.. sem dúvida. 33 Casa de Quincy. agente especial Quincy. Lembra-te das palavras dele. É um monstro. Não lhe restam muitos amigos. o que significa que está na costa leste. não creio. Rainie abanou a cabeça.Sai já dessa casa! . Suplico-te que saias já dessa casa.. .exclamou Quincy.Já lhe disse que a minha filha. .Não. .. . no escritório de Quincy.? . que haverá alguém a vigiar.Mas quem.. .Isso não te diz respeito.murmurou. Ah! Não se esqueça de dar um recado da minha parte a Miss Conner. Quincy. é isso? Nem sequer está aí para te proteger? Raios! Como pudeste confiar uma missão destas a esse incompetente doMontgomery? O assassino tem a minha morada.. na noite em que Hemy Hawkins tentara matá-la. Glenda. Estou convencido que és o alvo dele.Não devo falar contigo . Virgínia . De pé. Chegou a tua. Desejou não ter aceite aquele maldito caso. algures na Virgínia.Não me parece. Provavelmente.. só tinha olhos para o papel de carta dele de onde retirara uma folha para a enviar para o laboratório.Suponho que estejas a falar do teu misterioso assassino.. vez de ficares surpreendido. Glenda.declarou ela calmamente.

Pierce.O que se passa. . desta vez sem parar. 209 ... .O quê? Quincy não sabia o que dizer.estou a viver nesta casa a escutar mensagens cheias de ódio e afora interrogo-me sobre quem está a jogar ao gato e ao rato em toda esta história.OMontgomery tinha razão. ele que o tinha escrito! Pierce Quincy. é isso? . 246 .O que me prova que falas verdade? . não? E os peritos sabem que a letra da nota encontrada na Bethie se parece com a minha. Há sempre um ou dois pormenores que falham. Quincy . Aquele bilhete atroz e mórbido. Ignoro como o fez. . Esse tipo arranjou uma amostra da minha letra e a sua imitação é quase perfeita. mas não escrevi esse bilhete. Glenda sentiu-se satisfeita ao vê-lo hesitar. Ela fechou a tampa do telemóvel com um gesto raivoso e atirou-o para cima da alcatifa. Acreditara naquele homem... Pensa um pouco. Glenda. Achas que não reconheço a minha letra? No minuto em que o médico-legista me estendeu o papel. Não fui eu que escrevi esse bilhete. Mesmo depois de ter encontrado o papel de carta. Sei que tudo parece contra mim. Devias sabê-lo melhor que ninguém.O crime perfeito não existe. parecendo inseguro. Mas não fui eu que o escrevi.És um monstro. .Passas o tempo a mentir. Tenho a cabeça em água com tantas dúvidas. Não posso fazer-te mal .Estou no Oregon. mas. E Glenda sentiu-o. Começara a descontrair-se quando o telemóvel voltou a tocar. .Escuta. Não temos muito tempo.acabou por perguntar Quincy. Algures.gritou. um dos seus colegas mais conceituados.O relatório grafológico chegou de Filadélfia.Claro que escreveste. tinha frio.arquejou ao telefone.. então. o telemóvel começou a tocar. mãe de Deus. Sentia-se arrepiada. E não poderás matar-me com a facilidade que pensas. no seu íntimo.Nada disso. como se se tratasse de uma víbora. Quincy! . rogai por nós. o cansaço apoderara-se dela. Não deixaria que ele a manipulasse. Como era possível? Nunca mais se sentiria limpa. encontrado nas entranhas de Elizabeth Quincy! Fora. mas não quis atender. Merda! Apanhou o telemóvel e abriu bruscamente a tampa para o desligar. Após todas aquelas noites de vigília. .redarguiu. ainda duvidava da culpabilidade de Quincy.. ensopado de sangue. .Glenda. Tinha medo. . compreendi logo. És um monstro. e sabes que mais? Estou fana!. Mas tal nada era comparado ao mal estar que a invadiu. No chão. . de qualquer maneira. O toque prolongou-se durante uns dez segundos antes de chegar à caixa de mensagens e reinar o silêncio. Tu próprio o confessaste há momentos! . Mas agora. Sem saber se tu és o gato ou o rato. Glenda. posso jurar-te que foi ele e não eu. Estava perdido. Glenda? . Quincy. Santa Maria. Estou armada.Não acredito em ti! .

.balbuciou ela. Glenda! Porque havia de usar a minha letra? Sou um profissional e recebi aulas sobre como analisar caligrafias. Agora.constatou. não fazia sentido. à volta e verificou que as janelas do escritório nem sequer tinham cortinas. porque havia de cometer tamanha estupidez? 247 .Ouve-te a ti próprio. a atemorizar uma colega? Decididamente. Porquê elaborar um esquema tão complicado para depois me atraiçoar com o meu próprio papel de carta? Porquê deixar um bilhete sem me preocupar em disfarçar a minha letra depois de querer dar a entender que a Bethie fora assassinada por um assaltante? O que teria a ganhar com esses crimes? . E não há apenas o bilhete encontrado na tua ex-mulher. .Raios. Os argumentos de Quincy começaram a abalá-la. . . Se sou assim tão malvado.A.insistiu Quincy. Pela primeira vez. Sua cúmplice? Por que motivo? Qual o objectivo de ajudá-lo a matar a filha e a ex-mulher. Eu também. inconscientemente. Glenda. ..Não quero ouvir mais nada .Talvez não por estupidez.Talvez sentisses a falta e quiseste vingar-te.Acho. Lorraine Conner era então sua cúmplice.. Glenda começou a achar a situação bizarra. Para quê divertir-se a enviar 210 .Reflecte um minuto.. recompondo-se -. não! Ouviu-o retomar fôlego e falar em seguida em voz baixa com alguém que estava ao lado dele.Tarde de mais .. se é que existia. mas por arrogância. É a minha letra. E onde estariaMontgomery? . subiu-te à cabeça.. De tanto te achares mais esperto que os outros. Teve a súbita impressão de estar fechada num aquário à mercê de um gato. Porque piraste depois de todos estes anos de investigações..O que queres dizer? . isso prova que ele já esteve em minha casa. Até já nem mentir sabes. .Sentires-te intocável.gritou ela. a gaveta de baixo da minha secretária . suplico-te. Quincy. mas não fui eu. Deus do céu! Mas há anos que.. . .gaguejou ele. Reconheceu distintamente uma voz feminina. Quem sabe se Quincy não estaria a vigiá-la do exterior? Ou o seu misterioso assassino. Glenda . Olhou.És uma mulher inteligente. à beira da histeria. ou ainda mais serpentes como as outras? Sentia-se cansada. Não fiques aí. acho que está alguém lá fora. Tão cansada. .Assassinando a minha própria filha e a minha ex-mulher? Essa tese não tem fundamento e sabe-lo muito bem. O laboratório analisou o original do pequeno anúncio enviado aos jornais prisionais e sabemos que foi redigido no teu papel de carta. Quincy. Suplico-te.Há uma eternidade que não estou no terreno.Oh. . Seja como for . Não fiques nem mais um minuto nessa casa.

Mal ponha um pé lá fora. abate-me como a um coelho. Em menos de três minutos. . . devia estar morto. E a voz do assassino. de onde podia observar melhor o jardim e a porta de entrada. Está estacionado na rua.um pequeno anúncio anónimo num papel de cem dólares? Estupidez ou provocação? Sem largar o telemóvel.Nem pensar.Vais fazer o que te digo. Isso pode demorálo e dar-me algum tempo. Pega na tua Smith dr Wesson. Cá dentro. A gravação de um telefonema recebido no seu sótão de Portland. Tinha assassinado sem escrúpulos a filha de um agente do FBI e esventrado a sua ex-mulher. como as suas impressões digitais não estão computorizadas. Desapertou o coldre que usava ao ombro para poder sacar mais facilmente 248 da arma em caso de necessidade e verificou em seguida o revólver que tinha atado à volta do tornozelo. Quincy. Era perigoso. . as provas contra ele eram demasiado perfeitas e a ausência de móbil demasiado flagrante. Sairás dessa . Acredita que estou mais segura aqui dentro... Glenda. Deus do céu. Arranjarei maneira de a fazer sofrer terrivelmente antes de a matar. Quincy não estava a mentir.. numa árvore. não só precisa do código de acesso. como sabes. percebeu a gravidade da situação.Não tenho sítio onde me refugiar. .. mudámos o sistema de alarme. em qualquer lugar. Então. Segurava na sua arma de dez milímetros que desengatou com dificuldade devido às mãos suadas.Não. . O que significava que o criminoso existia.Tens carro? . Glenda ouviu um clique do outro lado da linha. vejo-o pelo menos chegar. Não.articulou finalmente. desengata-a e corre até ao carro. vou ajudar-te.Glenda.. . . Se não me acreditas. escuta bem. . Esta frase bastara para lhe abrir os olhos. enquanto lá fora.A três ou quatro minutos. É demasiado arriscado.De acordo . . Glenda. .. seguido de uma gravação de má qualidade.retomou ele num tom seguro. Glenda. Ele pode estar escondido no jardim do vizinho. Enquanto falava..Glenda! Ele conhece a casa. Arriscas-te a ser apanhada se ficares aí. perscrutava o jardim da janela da cozinha. quero que ouças uma gravação feita pela Rainie há vinte minutos.Não te preocupes. Glenda saiu do escritório e passou à cozinha. Até 211 .Não no jardim.. O teu jardim não oferece protecção. Sem falar do pai de Quincy que. Pensa como se fosse um exercício de treino. . Entretanto. nessa altura...Longe? . Além disso.O que fazemos? .Ele não se deixará impressionar pelo novo sistema de segurança.

respirando com dificuldade. Glenda conseguira finalmente ter a arma preparada.Se ele chegar entretanto. sem pronunciar palavra. . . Como se alguém a tivesse queimado com um ferro em brasa.pronunciou. A comunicação fora cortada e deixara cair o telefone em cima da cama de Rainie. De maneira nenhuma. Chorava.aconselhou Quincy num tom premente.Preciso de telefonar ao Everett para saber o que aconteceu balbuciou ele.Lembra-te da sua forma de operar . Nesse preciso momento. o telefone particular de Quincy começou a tocar.Lamento. enervado. Quincy gritou algo aos ouvidos de Glenda.. Respirou fundo e tentou dominar o medo. Mais um dos seus admiradores. Promete-me. querida! Sou eu! Quincy ouviu um tiro e depois mais nada. É urgente! O assassino não é uma invenção do Quincy. Pousou o telemóvel em cima do balcão da cozinha e tentou agarrar no telefone branco sem fios de Quincy.disse a Quincy com voz trémula. Procurou com os olhos a sua arma. Não vejo como possa manipular um alarme tão perfeito como este. Atenção! Está armado. Há uma hora que estou a tentar contactar-te para o telemóvel.Chamar a polícia. antes de ver AlbertMontgomery a entrar na cozinha. Glenda . que se quebrou no chão da cozinha. sempre demonstrou ter recursos para tudo. . 212 .Glenda! Glenda! Responde! Responde! Quincy pôs a cabeça entre as mãos. com o telemóvel numa mão e a arma de serviço na outra. reconheceu o som característico de alguém a desactivar o sistema de alarme seguido da abertura da porta de entrada. Tem uma faca. Soltou um grito e largou o telefone. Atira primeiro e deixa as perguntas para depois. Rainie rodeou-lhe os ombros com um braço. mas ela não prestou atenção. . .Pede reforços .. Glenda.murmurou.Cinco minutos.. pensou. impossibilitando-lhe qualquer movimento dos dedos. . mas uma dor horrível atravessou-lhe a mão. Dez no máximo. ao mesmo tempo que pegava no rádio para chamar reforços. . Quincy . No momento em que ia carregar no botão. quando telefono. 249 . O atendedor disparou e reconheceu de imediato a voz de AlbertMontgomery. . pousada um pouco mais longe.Já de seguida.Deus do céu. Baixou os olhos para a mão direita. Glenda concordou distraidamente.agora.Quanto tempo levarão a chegar? . cheia de bolhas. . . Existe mesmo e está aqui. Não posso perder o sangue-frio..Surpresa. .. não o deixes falar.Podias atender.. Esse tipo só está à vontade quando manipula as vítimas. . Não é a altura. queimada com uma espécie de ácido.

Apressara-se a falar a Kimberly e a filha tentara encarar tudo com humor. Quincy apressou-se a meter algumas coisas no saco de viagem. também ela convencida de que Glenda fora morta. mas ele bem vira que ficara abalada.Acabo de atirar contra o Monrgmery .Glenda? És mesmo tu? Deus seja louvado! . . tivera um problema com o serviço de quartos. na ombreira da porta. enquanto Rainie. antes que eu mude de opinião e dê cabo dele. Segundo parecia. nunca chegara a saber que ela tinha uma semiautomática carregada do outro lado da porta. decidido a não permitir que o interlocutor o apanhasse desprevenido. Quincy suspirou e estendeu a mão para o telefone. ele recusa responder às nossas perguntas e diz que só falará contigo.Estava a brincar .Apontei a matar. de ombros curvados. De pé. Mal Quincy regressou.Rainie preferiu manter-se silenciosa. O cretino julgou que me poria fora de combate.Estás bem? . 250 julgando adivinhar de quem se tratava. Durante a ausência deles.declarou com uma leve risada e desligou. Nesse mesmo instante. sentada no sofá da sala de estar. Preciso de tratar da mão direita. sem dúvida quando esteve aqui. Oregon De volta ao hotel. Feri-o apenas no joelho e na mão direita. O meu pai era polícia e ensinou-me a disparar com as duas mãos. Kimberly observava-os em silêncio. Hoje.Glenda. um jovem empregado stressado enganara-se no número de quarto e tentara entregar uma surpresa de aniversário a Kimberly. Pegou lentamente no auscultador. .Por sorte.. . O ataque sofrido por Glenda em nada contribuíra para a tranquilizar.E oMontgomery? . o Albert é tão mau atirador como investigador. . Felizmente para ele. Afirma saber onde está o teu pai. mas sobreviverei.inquiriu pela terceira vez com voz trémula. dizendo-me que nunca se sabe o que pode acontecer debaixo de fogo.. Sabia que querias obrigá-lo a falar. Quincy. antes de me atacar. A propósito. como que pronta a atacar.Glenda. 34 Portland. discutia ao telefone com Vince Amity. Precisas de voltar o mais rapidamente possível. devo-lhe a vida.A agente especial Glenda está mesmo bem? . o aparelho começou a tocar. .Não te preocupes. mas devia ter consultado o meu dossiê. .Ele tinha posto qualquer ácido no telefone. a gerência do hotel explicara-lhe o incidente.anunciou Glenda do outro lado do fio. . . 213 . . O rapaz estava à espera de uma boa gorjeta e deparara em vez disso com uma jovem histérica.

. . Quincy fechou os olhos para dominar os nervos. Quincy em vão tentara acalmá-la. Se o Albert fosse assim tão esperto.Eu sei . nunca teria tido problemas a nível do FBI.A ansiedade de Kimberly em nada mudara naquelas quarenta e oito horas. Quincy ignorava se a tranquilizara. ao mesmo tempo que enrolava as peúgas.replicou Quincy com voz calma. mas tenho a certeza de que não está sozinho nisto.Deve ser uma excelente atiradora. . . Bethie sempre soubera falar melhor com as filhas do que ele. Para ela. Kimberly! . e depois pusera uma boa camada de ácido íluorídrico..perguntou. .ripostou Quincy. baixando os olhos para o chão. não o vejo a seduzir a mamã. o ácido queimou-lhe a palma da mão e os dedos. erguendo o rosto e fitando a filha. Se ele é como me descreveste.Não te preocupes com ela .Seja como for. Há mais alguém.. Não te parece? . corresponde à descrição do indivíduo que a tua irmã conheceu no seu grupo de Alcoólicos Anónimos . Kimberly .respondeu num tom meigo.explodiu secamente.A Rainie vai ficar contigo e já não és uma miúda. Não te preocupes comigo. Em vez disso. descontente com as explicações recebidas.. OMontgomery confessou que aplicara Teflon no telefone com um spray. . Devido ao contacto com a mão suada de Glenda. .Encontra-se sob os cuidados dos melhores especialistas. Kimberly mordeu o lábio inferior. . . Eu sei que o AlbertMontgomery foi preso.Mas não sabes. Para já nem falar da sua estupidez. Sabe-lo tão bem como eu. A filha nada tinha de idiota.Julgo mesmo que ganhou várias medalhas.Tudo correrá bem. Ainda desconheço o prognóstico a longo prazo. .Não quero que te vás embora . Pratico tiro ao alvo três vezes por semana.Além disso é a mão direita. embora sem muita convicção. .. conseguiu superar a dor e pô-lo fora de combate. Queria incutir-lhe confiança. tanto mais que a mãe de Kimberly já não podia ajudá-lo nessa tarefa. .sussurrou a filha. Pode ficar inutilizada.Ainda não se sabe. como pôs oMontgomery fora de jogo com dois tiros. .Ouve.Também não me saio nada mal.Como está a mão da Glenda Rodman? . Fitou-o com uma expressão abatida.O Albert ia matá-la. Não te desmoralizes. Não só disparou.Quer dizer. Sentia-se totalmente sem forças. Mau grado o seu doutoramento em 214 . Quincy não sabia o que dizer nem o que fazer. 252 . .garantiu Quincy. já é uma vitória.. . um produto extremamente corrosivo.. .A Glenda é uma óptima profissional que soube enfrentar perfeitamente o perigo. Tenho a certeza de que tudo correrá pelo melhor.

. não ofereceu resistência. Até ter a certeza de que é ele. possivelmente de Abraham Quincy. assistia horrorizada à partida do pai rumo a um perigo desconhecido. Bethie sempre se havia mostrado mais dotada com as filhas. ..Sabes bem que não podes prometer isso. . Esqueceste que o teu velho pai é o ás de Quantico? . Kimberly . . Verás que tudo se comporá.pronunciou finalmente.Papá. . Õ desconhecido garantia que o velho senhor estava a salvo.A culpabilidade doMontgomery está mais que provada . sabia perfeitamente que a esperança de encontrar Abraham com vida diminuía de hora para hora. tão orgulhosa da sua independência. porque não nos deixas voltar contigo? . Kimberly. Kimberly não receava por ela... . mas por ele. Devia ter entendido logo a reacção dela. Que estúpido! Quincy deu a volta à cama e abraçou a filha. Os técnicos forenses do FBI haviam descoberto vestígios de urina no lugar do passageiro. Ele informara-o de que o pequeno Audi vermelho fora encontrado pela polícia às quarro horas da manhã no preciso local onde Mandy tivera o acidente há catorze meses. nunca actuo ao acaso e jamais 215 .explodiu Kimberly.. bem como cães.. Após haver perdido a maioria dos familiares. junto ao ouvido. Sabes que já se passaram quarenta e oito horas.A mamã não está aqui! . e podes respirar fundo. estarão melhor aqui. .declarou.retomou Quincy num tom firme.Nem a Mandy! Nem o avô. mas garanto-te que não é assim.Papá.Ficou a odiar-me desde o caso Sanchez e terá procurado vingar-se.Tenho muito mais prática do que vocês as duas. Kimberly.. recuando um passo para a olhar bem de frente. .Porque não estou cem por cento seguro e não quero que corram o mínimo risco. . Cães treinados na pesquisa de cadáveres. Se a filha queria ingressar na polícia.Claro que posso. e agora também tu te vais embora! Quincy tinha finalmente compreendido. Se tal se confirmar.. . Se não encontrar rapidamente o teu avô.Amo-te.. Por uma vez. É mesmo uma questão de dever. . . Prometo-te. Telefonara a Everett logo a seguir à sua conversa com Glenda. mas não me resta alternativa.Não me acontecerá nada . tudo acabou.Sou um bom profissional. A voz morreu-lhe na garganta. Kimberly .Também eu não quero deixar-te.Psicologia. . mas Quincy recebera novos pormenores nesse mesmo 253 dia. . Tinham trazido reforços para perscrutarem os arredores. OMontgomery afirma que tem informações relativas ao teu avô e só a mim as dará.Então.Ouve.garantiu-lhe. Talvez te pareça que confundo o querer e o dever.E tu? Não achas que é perigoso voltares à costa leste com tudo o que esse homem sabe a teu respeito? . Kimberly.

254 De pé. . perto da casa da Mary. Quincy virou-se e compreendeu logo pela sua expressão que ela tinha algo de grave a comunicar-lhe.Desembucha .replicou Quincy.Coloca.deduziu Quincy. Faltam duas e as restantes têm o mesmo cheiro a amêndoa. Estava quase a chorar. Quincy assentiu com a cabeça.exclamou Kimberly. .Queres dizer que alguém mandou entregar chocolates envenenados à Mary e que ela foi oferecê-los ao De Beers.. a Mary recebeu uma encomenda pouco antes de sair de casa. O cartão da embalagem ainda se encontrava na entrada.O Phil de Beers e a Mary Olsen estão mortos.pediu. Quincy.subestimo o adversário. pois quero voltar para junto da minha filha. Peço-lhes que sejam extremamente cautelosas. 216 . .Juras que não correrás riscos? . fála chegar à Mary e conta-lhe uma história qualquer para que ela os dê ao De Beers. Kimberly tinha os olhos húmidos.observou Kimberly com um arrepio. O Phil e a Mary tinham espuma branca junto à boca e havia um cheiro intenso a amêndoas.Encontraram uma caixa com trufas de chocolate no carro. OMontgomery conhecia a Mary por intermédio da Amanda e precisava de desembaraçar-se dela antes que ela falasse com esse detective incómodo.Que não acreditarás em tudo o que oMontgomery te contar? . . É por esse motivo que sempre me saí melhor do que os outros. . Estavas certo. veneno numa caixa de chocolates .Acabo de receber notícias da Virgínia . Segundo o mordomo dosOlsen. Mata dois coelhos de uma cajadada. então. O carro pertencia ao Phil. Esse tipo tem uma imaginação demoníaca.Vamos proteger-nos uma à outra. . .Cianeto .Imaginemos que oMontgomery apanhou o De Beers de vigia perto da casa da Mary Olsen. mas engoliu as lágrimas. . E tu vais tomar conta de ti e da Rainie. Sem a mínima indicação do remetente. .A morte por entrega especial .anunciou Rainie. antes de ela própria comer um deles? Não faz sentido! . filha. Rainie assentiu com uma expressão sombria.Terei o máximo cuidado. Será necessário esperar o relatório do médico-legista. A polícia encontrou os corpos há uma hora dentro de um carro. . na ombreira da porta. claro. perplexa. Nada mal. .. Não quero que vos aconteça nada. Rainie tossicou.Obrigado. . Suspirou fundo e largou a filha.Não estou assim tão certo . .insistiu. . mas a polícia inclina-se para a hipótese de envenenamento.prosseguiu Rainie -. É um jogo perigoso e nunca esqueço que a morte pode estar ao virar da esquina.

Quincy reprimiu um suspiro. Quincy teria de tomar os seus apontamentos com a caneta.comentou Kimberly. . És forte. .Acho que cometi uma gafe . Kimberly.Também te acontece sentires-te totalmente perdido. mas no momento seguinte morro de medo e estremeço ao mínimo ruído.Continuas com a sensação de que alguém te espia? .tranquilizou-a o pai.. Num momento tenho a impressão de controlar a situação.Voltaste a ter ataques de pânico? .Achas mesmo? . Uns instantes depois.surpreendeu-se ela. Partira-os.Não. . Além de que é uma estupidez pores-te a atacá-la para despejar frustrações. Kimberly baixou a cabeça.Lamento muito. entretanto. Surpreendida pela sua agressividade... com crises de angústia.Lamento..De lidares lado a lado com a morte todos os dias? . raivosa. .explodiu num tom agudo. .De quê? . .E não sentes medo? . Sinto-me de rastos. . o pai e a filha ouviram o som da madeira a partir-se. ao mesmo tempo que toda a sua ansiedade vinha à superfície. na defensiva. Kimberly . de nunca saber o que vai passar-se. Rainie acabara de deitar mão aos lápis de Quincy. 255 .retorquiu secamente.redarguiu a jovem com um ar lúgubre.prosseguiu.. .respondeu ela com um ar pensativo. mas vamos vencê-lo vincou Rainie. mas como criticá-la nas actuais circunstâncias? . pai! Eu que sempre fui a mais forte da família! . mas há quinze anos que ando nesta profissão.Claro que tenho medo.É verdade.Mas. . enervo-me por tudo e por nada. . o que significa que confiava e gostava dele. Estou farta de duvidar constantemente de mim. Estou tensa. Só que já nem sequer me conheço! .OMontgomery pode ser muito esperto.A Rainie conhecia o Phil de Beers e deu-lhe uma missão importante.respondeu ele. acho que te tens portado muito bem. .Não é a mim que deves pedir desculpa ..Não.Óptimo.retomou num tom meigo. . Rainie cerrou os dentes e girou sobre os calcanhares.Dadas as provações por que acabas de passar. . . Mas não penses que é insensível às pessoas e aos sentimentos.. 217 . Sabes o que se passou ainda há pouco com aquele empregado do hotel.perguntou Quincy. teres medo da própria sombra a ponto de sacares da arma se um empregado do hotel bate à porta? . Não estava habituado a ver a filha tão frágil. aproximando-se para a abraçar.. Estou convencido de que não vai desfazer-se em lágrimas.Kimberly .É verdade.Vai dizer isso ao Phil de Beers .. . ajuda-me a preparar a bagagem . Não aguento mais. Kimberly . dada a situação. Isso nunca mais me aconteceu desde que estou aqui.

repetiu Quincy de si para si antes de pronunciar num fio de voz: .Nem sequer tem muito dinheiro na sua conta bancária. Havia sempre uma segunda hipótese. Precisavam de chamar um táxi que o levasse ao aeroporto. Quincy compreendera perfeitamente a alusão. . Como tens uma memória excelente. Tinha de haver outra solução.Ainda tens duas horas . Kimberly não era estúpida. Diz qualquer coisa. . . queria que fizesses uma lista de todos os teus amigos e de todos os amigos da família.A melhor maneira de vencer é avançar. Todas as pessoas que conhecíamos quando eu ainda era casado com a tua mãe. Ele contentou-se em assentir com a cabeça. . como estava mesmo convencido do 256 contrário.. Chegados ao átrio.Rainie.Quem sabe se não acontece o mesmo com o nosso caso? murmurou ela. Aprende com os teus erros. endireitouse e fitou a filha.Preciso da tua ajuda . desde a tua infância. Kimberly! Que se fada o bailado! .Sinto-me estranho com este regresso. artigos sobre o Miguel Sanchez não faltam. . Não só duvidava de queMontgomery fosse o verdadeiro culpado. mergulhava como um principiante na armadilha que lhe estendiam. o que é raro. mas.Ei. . Descruzou os braços. Mas que alternativa lhe restava? Ele. soltou um fundo suspiro e agarrou num monte de camisas com uma tal determinação que Quincy sentiu um aperto no coração e lágrimas nos olhos. 218 .Dou-te a minha palavra. Mentira à filha para não a assustar.Não te preocupes.. Minutos depois. dirigiram-se para a saída. . . Rainie e Quincy desceram no elevador. . Rainie consultou o relógio. Kimberly assentiu com a cabeça. Fechou o saco.Acabou o intervalo. Faz qualquer coisa.disse Kimberly.disse. mas acabou por assentir com a cabeça.indicando o saco.apressou-se a acrescentar. . parecendo compreender que valia mais deixá-los sós. consciente de que tentavam uma vez mais manipulá-lo. um dos melhores agentes especiais do FBI.Tem cuidado contigo. Kimberly acedera em ficar na suíte.exclamou. mas as únicas palavras que lhe ocorriam eram exactamente as que Rainie o tinha proibido de dizer.começou com um ar despreocupado.Porque trabalhava em parceria com o primo. . Sabia ao que se expunha com o seu regresso à costa leste.Não descobri nada de interessante sobre o Millos . Também Rainie compreendera queMontgomery não era o cerne da questão. Escreveu-se mais sobre esse tipo do que sobre o Bundy. . esboçou um sorriso. Não acontecerá nada à Kimberly . Por outro lado. passado algum tempo. Quincy achava que devia dizer alguma coisa a Rainie. . A jovem manteve a expressão sombria.

Bem visto. nervosa desde a partida de Quincy. .E acho que se o Ronald Dawson for o nosso homem e lhe marcares um encontro aqui.Não sou eu que me vou atirar para o covil do lobo . . instalada diante do computador portátil de Quincy. Kimberly. Quando ele finalmente entrou no táxi. que parou e saiu do carro para pegar no saco de viagem. mas apercebeu-se de que as palavras não lhe saíam. Até breve. Quincy. Quincy.prometeu. . continuava a fitar Rainie.respondeu Kimberly. .Também te amo.Sem falta.Mas não para aqui. . . Receava ter um ar demasiado grave. já ela desaparecera no átrio do hotel... fingindo-se desentendido. mas continua a faltar-nos o general.Sugere-lhe um almoço. encostando-se no assento.Estava a pensar marcar um encontro com o Ronald Dawson para amanhã. . É mais seguro.Acho que o AlbertMontgomery é um idiota chapado . verificara as mensagens a partir do quarto de hotel. erguendo os olhos do ecrã. Em resumo. Receava sobretudo deixar transparecer a angústia que o dominava.Penso que a minha mãe nunca o teria deixado aproximar-se mais de vinte metros. Para o sótão.respondeu ela. O motorista mantinha a porta aberta com um ar impaciente. . acho que gosto do teu estilo! . caso quisesse telefonar-lhe. 219 .Eu telefono .Sabes. Rainie sussurrou.. Eram três horas da tarde quando Rainie teve finalmente notícias de Carl Mitz no atendedor de chamadas. Tinha o coração apertado. Avançou com um movimento brusco e beijou-o na boca. O que achas? .indicou ao motorista. . Mitz informava-a de que ouvira a mensagem dela e que estaria no seu escritório à tarde.Também eu.perguntou num tom calmo. Rainie sentara-se no sofá da sala. Rainie desligou e deitou um olhar de soslaio a Kimberly. . . Tudo se processava a cem à hora.redarguiu Raime com um leve sorriso.Concordo inteiramente. sem lhe dar tempo para reagir. Rainie pareceu compreender. 257 Quincy fez sinal ao motorista.Para o aeroporto . Para não deixar Kimberly sozinha. lia pela enésima vez os relatórios sobre Miguel Sanchez. desviando ostensivamente os olhos na direcção de um táxi que acabava de virar a esquina da rua. ele não pode estar na Virgínia. .Vai. Sabia agora o que precisava de dizer. . . sem se sentir ela própria. rapariga. Depois telefona ao teu amigo xerife e prepara a arma. pode ser um soldadinho obediente. .

afinal.exclamou Glenda. A intervenção correra bem. O FBI poderia ter forçado a situação. pediu-lhe que tomasse conta de qualquer ocorrência durante a sua ausência e meteu-se no carro. O ataque sofrido por Glenda ocorrera há vinte e quatro horas e ainda não tinham obtido permissão para falar comMontgomery. às três e quarenta.Montgomery pedira uma injecção para acalmar a dor obviamente para fazer esperar o FBI. abriu-o e colocou o lápis atrás da orelha. o telefone tocou no gabinete do xerife Luke Hayes. mas os médicos tinham proibido que fosse interrogado logo. este exigira ser tratado pelo médico. Quanto mais horas passavam.. Glenda trouxera-lhe um fato. Rainie ligou a Carl Mitz. apercebeu-se de que rodava maquinalmente um botão do casaco e parou de imediato. O FBI não tinha dúvida de que algo de importante estava em jogo. dado ser impossível fazer-lhe qualquer pergunta enquanto estivesse sob o efeito da morfina. Havia que esperar e. dado o estado do joelho e da mão direita. uma aptidão: sabia esquivar-se.258 As três e meia da tarde. Glenda Rodman pousou um dossiê diante do colega. Transportado para as urgências. informou Cunningham que precisava de ausentar-se. 35 Virgínia . Interrogava-se sobre como estaria Rainie. Glenda retomou o seu lugar na mesa. mas hoje tal não acontecia. AlbertMontgomery possuía. fora imediatamente levado para a sala de operações. A conversa durou cerca de um quarto de hora. às três e quarenta e cinco. Nessa manhã. sempre que vestia um fato completo recuperava a confiança. Por hábito. pois o ácido actuara sobre vários nervos.. Depois. Quincy. Primeiro. 260 Ninguém sabia se haveria sequelas provocadas pelas queimaduras. tratada na véspera devido a queimaduras de terceiro grau. a pretexto de haver sido submetido a uma anestesia geral. Ele seguiu-a com os olhos. O xerife desligou. Tinha a mão direita envolta numa ligadura branca. antes de recomeçar a percorrer de um lado para o outro a estreita sala de reuniões. O pior era que nem sequer podia telefonar-lhe para o hotel. Cada hora que passava aumentava o calvário dos seus ex-colegas.Aqui tens o que precisas de saber. sem pronunciar uma palavra. Ainda não recuperara o uso dos dedos e os médicos mantinham um diagnóstico reservado. Surpreendido. não lhe 220 . mais forte era a sensação de que a gravata o asfixiava. mas era um plano. . O plano não era perfeito. Eram quase três horas da tarde de domingo. mas o primeiro juiz a ser posto ao corrente invalidaria o resultado do interrogatório. a fim de mergulhar novamente no dossiê. o táxi de Quincy chegou ao aeroporto de Portland. em Bakersville. naquela fase do jogo.Acalma-te! .

agora mais a sério. . afirma ter passado quinta e sexta-feira com os tipos da Brigada de Homicídios de Filadélfia. O problema reside aparentemente no uso que faz da inteligência.AlbertMontgomery.declarou num tom neutro. As coisas que se inventam! .Não há dúvida de que se enquadra no perfil . Além disso. .Recordemos que ele já não era muito bem-visto pela administração. mas pode ter cometido os crimes. . pois resolveste o caso.Imprime a frase num autocolante e ponho-o no carro dele declarou. revirando os olhos.Nenhuma pista de agências de viagem.comentou Quincy num tom surdo e rouco. O Albert não tem álibi para essa noite.Inteligência emocional. quando um idiota consegue ser bem-sucedido num negócio e um génio veste as calças do avesso? . provando que o Sanchez tinha um comparsa. Pegou-se desde o início com a polícia local. afirmando de maneira peremptória que o Sanchez actuava só. campeão das causas dos funcionários perseguidos. Em vinte anos de carreira ao serviço do FBI. . É isso. A mulher do Albert deixou-o três semanas depois. . . na Virgínia.Verificámos os cartões de crédito. de quarta à tarde a sábado de manhã. Não se sabe. permanece um mistério.QE inteligência emocional .Discordo totalmente .O Albert não a tem. O cálculo aproximado da morte da Elizabeth situa-se as dez e meia da noite de quarta-feira. na altura do caso Sanchez . abaixo da média. como há meia dúzia de aeroportos a menos de três 221 . Como é que se chama agora. ou seja. o que é falso. A tua intervenção fê-lo perder toda a credibilidade. Glenda sorriu ante a observação. teve seis reprimendas. Nada. constata-se que lhe falta diligência e organização básica. Dispôs de todo o tempo do mundo para fazer uma visita à Mary Olsen. . . Em todos os casos de que se ocupou. não podemos esquecer uma coisa: o Albert talvez não seja um Einstein.O caminho do AlbertMontgomery cruzou-se pela primeira vez com o teu há quinze anos. Contudo. . . levando os dois filhos do casal. companhias aéreas ou hotéis? 261 . O restante uso do seu tempo. esse inquérito foi a gota de água que fez transbordar o copo.suspirou Glenda.especificou ele. Mencionemos entre parênteses que os miúdos nunca fizeram muita questão de passar os fins-de-semana com ele. mas. basicamente. à casa de repouso do teu pai em Rhode Island ou ir a uma entrevista em Portland.replicou Glenda.A situação corresponde mais ao perfil do que o próprio indivíduo. Arguiu em todas elas que não era incompetente e que o seu superior pretendia apanhá-lo.apetecia falar do assunto. Tão-pouco no aeroporto de Washington. Alf bert tem um QI de cento e trinta. Segundo o dossiê. Verifiquei junto dos investigadores que apenas o viram na manhã de sexta-feira.

aliás. E mostrou-se bastante convincente . Um assassínio cometido em tua casa.Esperto. 262 A falta de sono e a angústia liam-se-lhe no rosto.reagiu Glenda imediatamente.Montgomery.O Albert tem actualmente novecentos dólares na conta. Além disso.Sim. semeou a dúvida no meu espírito no dia seguinte. nada impedia um cúmplice de financiar as suas deslocações. Meteste-te connosco. Fez um telefonema ao Everett na sexta à noite para lhe dizer que provavelmente tinhas morto a tua ex-mulher. . os cartuchos das duas balas disparadas pelo Albert tinham as tuas impressões digitais. o que deixava campo de manobra ao Albert para o segundo acto. de que eras um dos únicos a saber o código. Espantoso! .E a conta bancária? . Ergueu mecanicamente os olhos e contemplou a sua imagem no enorme espelho pendurado na parede.E controla essa agitação toda. . Serviu-se provavelmente de uma das tuas caixas de munições numa das suas visitas. sabe-se que o Albert não se poupou a esforços para te colocar como suspeito.exclamou. . o que me parece um pouco curto para cometer loucuras. Parou logo. Mas.. Depois. acabado por ceder ao ler o relatório do laboratório sobre o papel de carta encontrado na tua casa. . O relatório ainda não chegou. momentaneamente esquecido das boas maneiras. E. . Pobre. parecia um fantasma.De qualquer maneira. Glenda sorriu. se é que ele existe. mas preguiçoso.. dando pela primeira vez a sensação de que fora ultrapassado pelos acontecimentos. Começara involuntariamente a triturar o botão do casaco. mas deve confirmar que o pequeno anúncio foi redigido no teu papel e o Everett ver-se-ia obrigado a chamar-te. ..O teu assassínio.Desculpa .horas de estrada. como um miúdo apanhado em falta.E até mesmo alguém incompetente e pouco zeloso pode causar muito mal em setenta e duas horas . não podia estar com aquele aspecto. . . foi apenas devido à falta de credibilidade do Albert. mas talvez subvencionado por um gangue de criminosos.confessou Glenda.. .O quê?! Que filho-da-puta! .pediu.O Everett hesitou muito antes de te mandar regressar. famoso pela sua impassibilidade e competência. Teria. . imaginando que pagou tudo em dinheiro.. Se não o fez. com um sistema de alarme ultra-sofisticado.. É impossível verificar enquanto não se souber o nome do cúmplice. agora chegou a minha vez. ouro sobre azul. Quando chegasse a ordem para interrogar AlbertMontgomery. ou de servir-se de um nome falso. eu duvidava cada vez mais da tua inocência. Não tinha 222 . O lendário agente especial Pierce Quincy. nada o impedia de ter apanhado um avião noutro sítio comprando um bilhete em dinheiro.Não deves falar assim.retorquiu Quincy com um esgar. .

anunciou Glenda calmamente. Começou novamente a rodar o botão do casaco! Por fim. . mergulhado numa semipenumbra. totalmente envolta numa grossa ligadura. como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos. mas precisas de te manter calmo. Glenda fora atacada há vinte e quatro horas.Porque é que ele não telefona? . Tensas e incapazes de conversar. No teu lugar. Trocara o fato habitualmente amarrotado pelo pijama azul-claro do hospital. Quincy baixou a cabeça e consultou o relógio pela enésima vez.Vão escoltar oMontgomery até à sala de interrogatório .perguntou. Os dois homens observaram-se durante cerca de trinta segundos.. . Apesar desses problemas. hora local. parecia em boa forma. Tu odeia-lo e desprezalo e tens vontade de esmagá-lo.Mas pensei que já devesse ter acontecido alguma coisa nesta altura. assentava sobre uma cadeira.Ele quer falar . -a porta abriu-se e um jovem colega enfiou a cabeça. repousava em cima da mesa. Rainie e Kimberly esperavam. AlbertMontgomery não passava de um peão em toda aquela história. É a melhor maneira de levá-lo a dizer tudo o que sabe. Quincy endireitou-se e verificou se o nó da gravata estava no lugar.anunciou.O Albert só pensa em provar que é mais esperto do que tu.nenhum motivo palpável para estar assim. A mão direita.Também eu . Sob o olhar crítico de Glenda. Se ao menos tivesse podido telefonar a Rainie.murmurou Rainie. engessada por causa do joelho operado. . Portland. não desviavam os olhos do telefone. .Montgomery parecia bastante à vontade. Não percas o sangue-frio e verás que tudo correrá bem. sem que 223 . fitando a porta de entrada. que lhes permitia vigiar ao mesmo tempo o quarto e a entrada da suíte. .Achas que estou bem? . . fingiria não acreditar numa única palavra do que me contasse. Virgínia O agente AlbertMontgomery estava sentado na sala de interrogatório. . 263 enquanto a perna esquerda. O tempo suficiente para alguém atravessar o país e fazer-se passar por qualquer pessoa. Eram três e trinta e dois. sentadas no estreito sofá. O cabelo estava penteado para trás e o rosto menos pálido do que o costume. Para alguém atingido por balas na véspera. Oregon Ao meio-dia e dezoito minutos. .. Afinal. Glenda assentiu com a cabeça e o jovem agente fechou a porta.perguntou finalmente Kimberly. Uma posição estratégica.Não deve ter novidades.

costa oeste. Por quem me tomas? Não achas que tinha bons motivos? Destruíste a minha carreira.Achas-te assim tão esperto. Cruzando os braços com um ar desdenhoso.. Quanto mais alto se está. AlbertMontgomery brindou-o com um simples sorriso. . Quincy? E a mãe das tuas filhas? E esse teu bom e velho pai que tanto precisa de ti? E não dou muito pela tua carreira quando chegar o relatório dos peritos de Filadélfia.Montgomery foi o primeiro a ceder.Vejo que continuas arrogante. . a minha mulher e os meus filhos saíram de casa e a minha vida está arruinada. Após todos os interrogatórios que fizera ao longo da sua carreira. .Querias falar-me e aqui estou . .arquejou num tom rouco. . Albert. Puxou uma cadeira e sentou-se. A sua posição permitia-lhe olharMontgomery de cima. O sangue afluiu ao rosto deMontgomery.replicou o seu interlocutor..Quem é ele.Não sei do que estás a falar. Apanhaste frio no avião. 264 . Quincy? Nunca pensaste que a vingança pode dar asas? Há quinze longos anos que aguardo este momento.nenhum deles quisesse ser o primeiro a baixar os olhos. Mas veremos quem ri por último. Quincy. aproximando-se da mesa.disse.Não montaste esta história sozinho..Uma ova! . . mas trabalhei toda a noite nesse sentido .Agora.Filho-da-mãe . .Agiste só? .Claro que sim. Albert deitou-lhe um olhar de ódio que ele devolveu de imediato.. Quincy articulou finalmenteMontgomery. Por tua causa.Até parece que também perdeste a voz . Onde está a tua bonita filha. .Obrigado. maior é a queda. . caso não se houvesse recordado dos conselhos de Glenda. Impossível dar-se ao luxo de matar Albert. Teria caído na armadilha. Quincy? Veremos se manterás a compostura quando os polícias de Filadélfia te deitarem a mão. Quincy? O seu interlocutor cerrou os punhos. desembucha. Podia 224 . Quincy? Essas coisas são ninhos de micróbios e com todas as tuas idas e vindas. fitou-o como se ele fosse o verme mais desprezível ao cimo da terra. Albert? Monrgomery não respondeu logo. . . conhecia os ossos do ofício. costa leste.Não tens inteligência bastante. Deteve brevemente o olhar no relógio pendurado na parede. Por seu lado. ou quê. hein.Não estou preocupado com a polícia de Filadélfia. Estás com um aspecto horrível. costa leste. mas sem se sentar. .troçou Albert. Como te sentes no papel de marioneta. Dependia demasiado do que o homem tinha a dizer. Já viste as prisões deles? Devias pedir para fazer uma pequena visita à tua futura casa.

Nem te vou falar do nível da conversa. Quincy. deu-me mesmo a ler as cartas deploráveis que lhe mandavas para tentar manter um simulacro de relação com ela.redarguiu em voz baixa. Era eu que a tinha na mão. No teu lugar. Glenda tinha razão. . ocorreu-me. Não era preciso ser Prémio Nobel para perceber que a Mandy era o elo mais fraco.Enganas-te. sentiria vergonha.Não. Sem falar dos pormenores que me forneceu a teu respeito. as tuas filhas.. Os teus hábitos. . . . a mim. Três reuniões depois. No dia em que percebi isso. Era um bocado arriscado.Comecei por me informar sobre o teu pai. . Então.Percebo agora como é que o assassino se apoderou de amostras da minha caligrafia..Montgomery estava certo de haver levado a melhor. E o que há de bom nestas reuniões de Alcoólicos Anónimos. Conheci a Mandy e apresentei-me como sendo o filho de um velho colega do teu pai. não era a melhor solução.Talvez a Mandy não tivesse amor-próprio. Não só bebia. Albert franziu o sobrolho. Nada me garantia que morresse. como pai ou como filho. mesmo quando mal se conhecem. Mas não és perfeito em tudo. Quincy . o que significava que lhe ferira a sensibilidade.E apresentaste-a ao teu patrão.Mas tens razão. . . deixas muito a desejar.Fui eu que tive a ideia de a embriagar e depois pô-la ao volante. Ben Zikka Júnior. As pessoas sentem-se imediatamente mais próximas. uma noite.Ele arrancou-lhe informações e depois matou-a . meu velho! Como marido. mas destruíste-a. Pierce.ter arranjado maneira de trabalhar numa das tuas investigações e passarte a perna. Para quê atacar-te directamente? No trabalho. mas será que nunca te viste ao espelho. Sem falar do meu papel de carta. Quincy. 265 . . Encantado com o efeito conseguido.Numa noite em que telefonaste. Em que é que te formaste. . O seu desejo de superioridade acabaria por levá-lo ao tapete. .Não precisei de muito tempo para que a tua filha me dissesse tudo sobre a tua encantadora família. mas era demasiado arriscado.retomou logo de seguida. a tua ex-mulher. Albert limitou-se a sorrir e voltou a olhar para o relógio de parede. afinal? Ele cerrou os dentes. Uma miúda à deriva.Ocorreu-wf. soube que te apanhara.Arranjaste forma de conhecer a Mandy numa reunião dos Alcoólicos Anónimos. o teu sistema de alarme. estás no teu elemento. . Ou então dar-te um tiro pelas costas e deitar as culpas para outro. . como ia para a cama com toda a gente. . Nunca compreendeste a tua filha.Ocorreu-lhe. Ignoro o que lhe fizeste quando ela era uma miúda. Talvez recuperasse a 225 . tinha-a na mão. mas era demasiado fácil. estava em casa da Mandy prosseguiu. Albert? Jamais permitiria que lhe tocasses. angustiada.

quando quero. traumatizada. . 266 .Não ficou ansioso? Suponho que não estava nos seus planos. foi uma brincadeira de criança. .. Quincy.prosseguiu Quincy. Mas não me surpreendeu muito que não te apercebesses de nada. Só a visitavas de vez em quando e concordaste em que se desligasse o ventilador.Usaste uma arma. Tu és o ás de Quantico. . mesmo assim. Foi por isso que me enviou a Mary Olsen. meu velho. Quincy.A morte dela era um primeiro teste. Pela terceira vez. A Mandy tinha-me falado muito da mãe. os seus pratos preferidos. encarou-o como a imagem viva da filha. os seus gostos musicais. . Precisava da minha atenção para que o jogo fosse interessante. . Afinal. . uma faca? .Não. . ..Como é que a mataste. dominar-se.Bastava-me . A Mandy tinha-nos. que conseguiu. Albert? . .Era mesmo uma pobre idiota .O amante conseguiu fazer-lhe chegar às mãos uma caixa de chocolates com cianeto.com as informações que ela te tinha dado. é a sério. . . és um zero à esquerda.Ele teve de esperar mais de um ano até que a Mandy morresse .E daí? .. Albert não conseguiu dissimular a surpresa. Falaste no plural. 226 . Depois.Sabes tão bem como eu que a matei a tiro. Eu conhecia o seu restaurante favorito. Foi ele que se encarregou de conhecê-la.Quando sou brilhante. estou-me nas tintas.. Por mim.A Bethie detestava os sedutores. olhou de relance para o relógio. . A vingança é um prato que se come frio.A Mary Olsen está morta.. Albert encarquilhou os olhos.Pobre idiota! A Mary morreu envenenada . . Sou muito sedutor. Começou a ficar nervoso. mas o que interessava? Estava tão bêbeda que não se lembraria de nada e bastava-nos levá-la ao hospital e arranjar lá um incidente. abanando a cabeça. .redarguiu sem convicção. Não esperava que Quincy soubesse tanta coisa. Albert.murmurou Albert. Nem sequer ficaste à cabeceira da cama. fingindo que lhe tinham transplantado um órgão da Mandy. . . A Bethie. cada vez mais desconfortável.. Quis ver se irias ao fundo da questão. mas será que já pensaste a sério no assunto? O seu interlocutor fez-se desentendido. Uma morte horrível.Não se pode esconder-te nada. . No que se refere à tua família. foste tu que mataste a tua filha. Desta vez franziu os olhos e empalideceu visivelmente.Não queria destruir-te assim tão depressa.grunhiu Quincy.Eu? Quer dizer.consciência.A paciência é uma virtude.rectificou. antes de voltar a fixar o seu ex-colega com uma expressão de desafio. . aproximaste-te da Bethie.Bastava-nos.

O meu pai está morto .Não tens saída. com os tomates enfiados na boca..Faz parte da profissão.Encontraram o corpo dele.empolgou-se Albert antes de compreender que se atraiçoara. agora? . ao menos. tudo aquilo acabasse. graças à Glenda. Satisfeito. .pronunciou num tom estranhamente calmo.. Endireitou-se e. O Sanchez ainda está vivo. Era um risco enorme. o pobre velho fez-me pena.explodiu. Quincy? Muito bem! Vais tê-las. que não levantarei um dedo.Como achas que ele vai matar-te? . Um perigo mortal. . . fazei com que esteja certo. . pois atraiçoou-vos a todos. .Então.Ou esqueceste o que aconteceu ao infeliz primo do Sanchez? Por vezes.Raios! Sou eu que decido tudo.Já te disse que agi só! . fitou ostensivamente o relógio. . estás acabado. . Se estivesse enganado.repetiu.. agarrando-se ao rebordo da mesa para não cair.Diz isso à Mary Olsen. És uma merda! . meu caro Albert . mas nunca os consideram seus iguais. desta vez. fitou-o com o rosto rubro de raiva.O meu pai está morto .O quê? 227 .Montgomery e o seu comparsa eram dois monstros.retomou Quincy num tom surdo.Mas ele não podia ter vindo ao cimo da água tão depressa.. Albert . os psicopatas têm cúmplices.Impossível! . Depois. De súbito.murmurou com um ar falsamente desprendido. Na sua precipitação. . ou pagas por ele. prova-o.Calas-te ou não? .. Meu Deus. Mas um perigo a que.Montgomery esboçou um sorriso cínico. ao mesmo tempo que o coração ameaçava saltar-lhe do peito.Veneno? Ou algo mais original? Certamente não duvidas que representas um perigo para ele. a Mandy não foi o primeiro alvo. Se. . Para teu governo. . talvez possas escapar..Filho-da-mãe pretensioso! Tinha tenção de dizer-te onde está o teu pai. 267 . a perna engessada tombou por terra com um ruído surdo e ele soltou um uivo. De qualquer maneira. mas sim a Kimberly. Tinha um nó na garganta e sentia um peso enorme no peito.Queres novidades. voltando a olhar para o relógio. com todos os pesos que lhe pusemos . portanto escolhe: ou nos contas o que sabes. Surpreende-nos com algo. . já que sabes tudo. .Queres ir vê-lo à morgue? .. Albert levantou-se de um salto para se atirar a Quincy. mas agora ele pode asfixiar-se na merda e afogarse no mijo.Filho-da-mãe! Deitaste-me o laço sem saberes se ele ainda estava vivo. mas o primo Richie acabou a sua triste existência nos duches da prisão.Cala o bico! .

. Boa tentativa. também a Bethie me surpreendeu. É incrível . . Rainie! Não está a querer por acaso privar-me da minha pequena recompensa depois de todo este esforço? Mereço uma nota alta.Se não soubesse que. Tenho um problema. Onde está? .Procurei o nome do hotel na lista.Muito bem. a Glenda Rodman está viva 228 . . No dia do nosso encontro com o Mitz..O que se passa? . Não se tratava de Luke Hayes.Esta voz.exclamou. A jovem compreendeu logo e foi buscar o seu Glack.É demasiado arriscado. Poderás dizer à tua filha que foi uma imprudência ficar num hotel cujas coordenadas o Everett me deu no outro dia. ora. na noite da sua morte. Uma hora. quatro e catorze minutos. deitando um olhar de soslaio a Kimberly. Interrogo-me porque é que o Quincy só se rodeou de mulheres desconfiadas.Merda! . quando percebi que ela fizera uma pequena investigação a meu respeito.Como arranjaste este número? . sim. .inquiriu maquinalmente. meu velho. telefonava para o hotel em Portland. ao mesmo tempo que revirava os olhos e fazia sinais desesperados a Kimberly. . tanto quanto sei. O homem modificou imediatamente a voz para uma entoação suave e sedosa de que Rainie se recordava da conversa da véspera. .O quê? Não compreendi o que disseste . . não disse. . mas de alguém com muito talento para fazer imitações. . Luke. Não estavam à espera de aguardar tanto tempo e daí a impaciência. .Nunca te disse onde estávamos. .Vê bem a hora. Miss Conner! Constato que nem sequer nos seus melhores amigos confia! Confesso-me agradavelmente surpreendido. Oregon Quando o telefone pousado na mesinha de café tocou finalmente. .murmurou Rainie.Merda! .inquiriu Rainie.ecoou a jovem.Claro que disseste. Podemos encontrar-nos antes e discutir o assunto? . mas tens de voltar a esforçar-te. Rainie agarrou no auscultador sem lhe dar tempo a tocar uma segunda vez.Rainie? Fala o Luke..Não me parece que o encontro desta tarde seja boa ideia.. .Pelo esforço. . Já 269 que falo nisso. A tua filha está morta. psicopata de merda. Contudo. Quincy! 36 Portland.Ora.declarou o homem do outro lado do fio com uma voz muito semelhante à do xerife de Bakersville. Rainie estava uma pilha de nervos.. Mas que estúpido! Já é tarde de mais! Não poderás voltar a falar com a pobre Kimberly. Rainie . No teu lugar. Além disso. ..Não.Isso apenas prova que sabe rodear-se de gente inteligente. . o Luke nunca me perguntaria onde estava.Está? .prosseguiu o indivíduo. Devia falar com o psiquiatra.

deixou as janelas abertas como haviam planeado.e não acreditei nem por um momento que você fosse o Luke Hayes. A eliminação da Glenda Rodman nunca esteve em causa. O homem podia. preocupava-me.Que importância tem? Além disso.respondeu-lhe. teriam acusado o Pierce do assassínio da Glenda e os superiores obrigá-loiam a regressar à Virgínia. um pobre guardanocturno que maltratava o nosso pobre Albert.Não se faça mais estúpida do que é. De qualquer maneira.imitou-o .Nada disso.redarguiu o homem com uma leve risada. o pai dele. O que não o impediu de seguir as pisadas desse progenitor detestado. Acabada a inspecção. Rainie? . Creio que herdou isso do pai.Pelo simples motivo de que a nossa vida neste mundo serve de treino. . . Kimberly fez um sinal de cabeça a indicar que 229 .Quis atrair o Quincy para o matar? . mesmo que o Albert se saísse bem.O sofrimento terrestre? Ora! Custa-me a crer que não tenha a esperança de uma recompensa à altura dos seus méritos no dia do Juízo Final. Falava-lhe apenas para a distrair. a fim de verificar se não havia ninguém escondido na escada de incêndio. .que tenha a mínima esperança de algum dia ir para o paraíso. Sinto que arderá para sempre nas chamas do inferno. o Albert é um falhado e eu tinha a certeza de que falharia a missão. mas não tardaria a aperceber-se do seu erro. mas não faço tenção de morrer hoje.Já que falamos disso. Rainie fez outro gesto a Kimberly. o que era o meu objectivo. Rainie! Não. Mas já que fala no assunto. Trabalhou na polícia e sabe bem a importância de se conhecerem as pequenas fraquezas dos colegas.Não. Mas não lhe ensino nada se lhe disser que a natureza humana não só é complexa como paradoxal. Produziu um Albert resolvido a provar que era melhor do que o pai a qualquer custo.comentou Rainie. .perguntou o homem. .Porquê? Tem um fraco por mulheres de farda? . Uma série de interferências confirmou a Rainie o que já sabia: o seu interlocutor estava a ligar de um telemóvel.Ups! Cometi uma gafe. Que falta de perspicácia. Pedi ao Albert que se ocupasse da Glenda por conhecer o seu ódio contra os representantes da autoridade pública. . Quis afastá-lo de Portland para a matar a si. . 270 aparecer a qualquer momento. Terminada a inspecção.Não entendeu nada. fez sinal a Rainie que estava tudo em ordem e dirigiu-se ao quarto. . .Não fica bem apostar contra o próprio cavalo . longe de mim desiludi-lo. a fim de continuar a tarefa. .Ambos sabemos que o AlbertMontgomery é um incompetente. no seu lugar. . erguendo as persianas cautelosamente. não tenho medo do inferno . Esta assentiu com a cabeça e foi observar todas as janelas. . assim. Passou a vida a perseguir o pobre Quincy e foi ao ponto de matar muita gente inocente. Rainie . Demasiado rígido.Tem medo do inferno. Custa-me a crer .

Parecia um transeunte normal. Sentia que ele estava muito próximo.A Kimberly está consigo? . nada do lado da porta. sabe? Visualizar o alvo. gostava de ser atacada por um assassino em série mudo. Doutor Andrews! .sussurrou por seu lado Kimberly com voz trémula. raios? . 271 ..exclamou. percorrendo a divisão com o olhar. 230 .Afirma-se muitas vezes que o que conta é a intenção. mas Rainie indicou-lhe que se afastasse. Kimberly precipitou-se para a porta de entrada no preciso instante em que o homem lhe murmurava ao ouvido: . Estava vestido de uma forma muito banal.Tenciona. A broca fora apenas um isco. . . Nada mais fácil do que aguardar junto dela. .estava tudo em ordem. . É muito mais difícil passar à acção. Nada na escada de incêndio. Nada do lado da escada de incêndio. Kimberly já havia escancarado a porta e o homem aguardava de arma apontada ao peito da jovem. O cano da arma encontrava-se muito próximo do peito de Kimberly.Foge! . Rainie levantou-se de um salto.. Rainie! Aceito com prazer o seu convite. matar-me.Não se entrega a arma . . mas não me parece que isso chegue. Para variar. . começava a ficar cada vez mais nervosa. Se o homem quisesse realmente furar o tecto. Contudo. e Rainie. à excepção de ter na mão uma semiautomática de nove milímetros e um grande saco de lona preto no ombro esquerdo. minhas senhoras . entrando na suíte antes de fechar a porta com o pé. mau grado a sua calma aparente. onde é que ele podia estar? Por onde iria aparecer? De súbito.Porquê? Não lhe chego? . imaginar-se vencedor.conseguiu articular num tom forçado. Nada.Acho-o muito fanfarrão. Aproximou-se da porta. A jovem estava lívida e não conseguia parar de fitá-lo. Designou a alcatifa e Kimberly pôsse de gatas e espreitou por baixo da porta. Apercebeu-se do erro.Obrigado. Kimberly pediu novas instruções com o olhar. Ouvira dizer muitas vezes que podia ser-se atingido através de uma porta e não tinha a mínima intenção de descobrir se seria verdade.replicou Rainie.Porque não? .perguntou o homem. Como é que ele fizera aquilo. .anunciou Marcus Andrews.inquiriu. E espreitar por baixo da porta não era seguro.Carl Mitz! . . ergueu os olhos e julgou avistar a ponta de uma broca a perfurar o tecto. .Decerto não me levarão a mal se as desarmar.Um polícia nunca entrega a sua arma. Rainie? . então. com calças de linho beges e camisa branca.Oh. mas era tarde de mais. meu Deus.gritou Rainie. Tinha visivelmente medo. tê-lo-ia ouvido antes. Aquele tipo tinha uma necessidade doentia de ver morrer as suas vítimas.

. .Uma de nós pode escapar . mas daí até querer que soubesse que já se dava com ele há bastante tempo. . .Mas os meus ataques de pânico.aconselhou-a.Muito bem. Kimberly. Falei-lhe do meu pai.insistiu Kimberly. . .. Não percebes? A culpa é minbal Andrews esboçou um leve sorriso e depois pousou o grande saco de lona no chão.. . mas ainda não baixara a sua pistola.. Disse-lhe que conhecia o seu assassino. sem dúvida. Olha para ele. Indicou com um gesto as suas calças impecavelmente engomadas e a camisa de linho branco. da minha irmã.. não pode matar-nos às duas..grunhiu Rainie. ao mesmo tempo que agarrava 231 . Perguntava a mim mesmo quando acabaria por entender. que transpirava abundantemente. . irritada. persuadida de que a situação podia descontrolar-se a qualquer momento.O que acha do meu novo aspecto? . era eu que precisava de tempo para me encarregar do resto da sua encantadora família.Na verdade. ele aplicou-lhe um golpe de gancho com a mão esquerda no braço direito. Todos temos as nossas prioridades. pouse a arma sem fazer gestos bruscos e empurre-a com o pé para junto de mim.Mesmo que ele atire. Kimberly tremia da cabeça aos pés. e dá-lhe a pistola . .. A jovem soltou um grito de dor e a pistola caiu no chão. Na verdade.Kimberly. Kimberly.perguntou em seguida. É incrível a mudança que uma peruca. Repeti-lhe vezes sem conta que conhecia o culpado... sabe? Mas achei que jamais iria desconfiar de um universitário com casaco de tweed.Deixa-te de parvoíces. Andrews virou bruscamente o rosto na sua direcção e Kimberly seguiu o olhar dele. Adoptei aos poucos o ar desleixado que me conheceu na universidade para ganhar a sua confiança.. que estava a dar-lhe tempo para que recuperasse do choque. Não lhe ocorreu que me viu muito pouco depois do enterro da sua irmã? Imaginou. Mal Kimberly deixou de fitar Andrews.Não se arme em estúpida . a roupa e lentes de contacto podem produzir..A culpa é toda minha. mas Andrews antecipara o gesto e já a tinha debaixo de mira. andei a segui-la. Rainie tentou aproveitar para usar a sua Glock. e durante todo esse tempo.Kimberly! .ordenou Rainie. .Quando penso que confiava cem por cento no senhor! Era o meu mentor e foi por isso que lhe contei tanta coisa sobre a minha família. Paradoxalmente..Isto não é o exame final de um curso na polícia e tu não és imortal. Agora que a discussão já vai longa. Nem sempre tive o ar de um velho professor descuidado. precisei de inverter o processo para me aproximar da sua mãe e da Mandy. Rainie não teve tempo de a avisar. da minha mãe.. quase a desmaiar. . 272 . .

para não falar de Rainie. mais cedo ou mais tarde. com os ombros curvos e a cabeça baixa. . meninas. Tinha curiosidade em saber qual a sua reacção. Se Kimberly e ela fossem capaz de ganhar um ou dois minutos. . Quincy não só perderia a única filha que lhe restava como viria a saber.. Perdera visivelmente toda a combatividade.E pensar que responsabilizava o meu pai por tudo o que nos acontecia - 232 . Andrews nem sequer precisava de uma grande quantidade de explosivos. Contudo. enquanto Rainie tentaria apoderar-se da arma. Fitou Kimberly. Precisavam de elaborar um plano. Estava fora de questão que fizesse ir pelos ares metade dos clientes do hotel para saldar as suas contas com Quincy. têm à vossa espera um trabalhinho. Empurre a arma para mim. mas conservou-se silencioso. que era ele o responsável pela catástrofe.. a escada de incêndio era de fácil acesso. As janelas estavam abertas. era tão jovem e a viver uma situação tão horrível! . Conseguira mante-lo bastante tempo ao telefone. Rainie decidiu-se a abrir novamente os olhos ao sentir uma corrente de ar. Encolheu os ombros na mira de levar o adversário a acreditar que não o fizera de propósito. Mantém a calma. Andrews franziu o sobrolho. Rainie fez-lhe sinal de que compreendera. Se. Um bastaria para fazer ir pelos ares uma divisão daquele tamanho e tanto pior se o mesmo acontecesse ao andar todo e aos outros 273 hóspedes. interrogou-se sobre o que poderia conter. O seu pai vai telefonar-lhe à uma e um quarto em ponto e conto dar-lhe o privilégio de fazer ir pelos ares a sua querida filha e a amante. Afinal. As janelas estavam escancaradas. . Rainie obedeceu e a pesada arma parou a menos de um metro de distância. Esta encontrava-se a menos de um metro. Ao avistar o grande saco de lona preta um pouco mais à frente. Vão ver como nos divertiremos os três.. só faltava chegar a cavalaria. Era possível.Kimberly e lhe torcia o braço atrás das costas. de cabeça baixa. As mãos tremiam-lhe e o coração parecia um cavalo. Fosse ele qual fosse..Agora que se portaram bem. servindo-se dela como escudo. achando que Kimberly já lhe dava bastante que fazer. O que estaria dentro daquele saco? Kimberly chorava em silêncio. Nunca se recomporia por ter morto a própria filha. Rainie respirou fundo.Agora. Era necessário impedir que aquele tarado fabricasse a bomba. com o pé. Andrews não estaria por perto. ao menos. Merda! Era então aquele o conteúdo do saco! Rainie fechou os olhos. mas não lhes restava muito tempo. Kimberly mantinha-se prostrada. Tão simples como um telefonema. Kimberly conseguisse distrair Andrews com perguntas. Bombas para fabricar e detonadores a aplicar nos telefones. disse de si para si. Para ele seria ouro sobre azul. sob a mesinha de café. tentando chamar-lhe a atenção.exclamou Andrews. Baixou-se devagar e pousou a arma na alcatifa. imobilizada por Andrews.Perfeito! .

a mãe não 233 . esse 274 porco punha a dele no meu caminho sem o saber! Uma filha inteligente e bonita.A questão residia em saber por que razão o culpado queria vingar-se passados tantos anos . Aproveitara a raiva dele para se aproximar ainda mais da sua Glock. céus! Passei o tempo a ler e a reler esse maldito dossiê.Diga antes que me caiu directamente nos braços! . antes de acrescentar com uma expressão sombria: . Andrews observava-a com uma expressão estranha.Era então um dos pacientes dele? . Tens de o obrigar a falar para ganhar tempo! .. ergueu bruscamente a cabeça e franziu os olhos. Podia tratar-se também da família de um criminoso. e mais uma vez.Desde o início que se esqueceu de fazer a pergunta essencial respondeu Andrews num tom neutro.balbuciou Kimberly. . . Mas ainda não chegava. fui eu que os atraiçoei a todos. convencida de que havia uma relação com o que nos acontecia! Claro que havia! As pesquisas do doutor Andrews na Prisão de San Quentin! Virou-se para lhe ver bem a cara.dirigiu-se Andrews à sua ex-aluna com um ar doutoral. . enquanto eu me via sem nada. mais para ela própria do que para Andrews. Rainie aproveitou para avançar um pouco.Maus tratos? Abusar? Nunca.Conhecia o Sanchez! É essa a ligação. privado das minhas filhas por causa desse pseudopsicólogo incompetente e arrogante? Fixou subitamente o olhar em Rainie. toda esta história nada tinha a ver com o trabalho do Quincy no FBI.replicou. mas porquê ter esperado tanto tempo? Ou então. Contudo. que o Quincy começava a divisar a verdade. Na opinião dela. .O caso Sanchez.Não compreendo .proferiu.Mas a minha ex-mulher era. mas com uma época anterior.Na realidade. foi pedir-lhe ajuda e contou-lhe uma série de histórias fantasiadas. Um dia.concluiu Kimberly. porém. . Como é que o destino podia ter-se mostrado tão generoso com ele. eu era um mau pai e traumatizava as minhas filhas. mas a pista morreu à nascença. . Contudo. enervado.Podia tratar-se de um criminoso saído recentemente da prisão e estou certo de que o pensamento lhe ocorreu.Porquê? Aplicava-lhes maus tratos ou abusou delas? . . porquê passado tanto tempo? Acho. . Kimberly.Nada disso .. É a tua vez. Assaltada por uma súbita ideia. decidida a seguir as pisadas do papá. Vinte anos depois de me ter tirado as minhas filhas. Ter-se-ia apercebido da manobra? Havia que distraí-lo.explodiu Andrews.Pura e simplesmente porque me encontrou . Eram minhas filhas! As minhas filhinhas que eu amava e por quem teria feito tudo. que logo se imobilizou. torcendo mais um pouco o braço da sua prisioneira. Como pude ser tão cega. a fim de se prevenir contra qualquer movimento inesperado. . meu Deus? .

presa sob a mesa. tornei-me um pária. Abandonado por todos.Ele declarou ao juiz que eu sofria de graves distúrbios de personalidade. Ela estava grávida de mim quando morreu. A minha vida estava arruinada e é essa a minha dívida para com o meu querido Quincy. Uma das cadeiras de metal da cozinha. Ninguém pode imaginar o inferno por que passei. Rainie queria tirar partido da situação. servia-me das minhas filhas para obter o que pretendia sem deixar que elas expandissem a sua personalidade. Tirou-me tudo o que eu amava. Rainie não tinha tempo de agarrar a arma. Após a sua acusação tiraram-me as minhas filhas e nunca mais pude voltar a vê-las. antes mesmo de eu saber que estava grávida.insistiu Rainie. Martelava cada uma das palavras. Na sua opinião. Já chegou a altura de passar a coisas sérias.O Quincy testemunhou contra si no julgamento e perdeu a custódia das suas filhas.. Atirou-se a Andrews como uma leoa. Foi ele que me obrigou a matá-la. olhando subitamente para trás de Andrews. Kimberly! Faz qualquer coisa! Rápido! . eu era um verdadeiro psicopata. De um dia para o outro.prosseguiu. egocêntrico. . mas tive de abandonar a Califórnia para refazer a minha vida em Nova Iorque. O pior é que talvez pudesse ter recomeçado do zero com a Mary Olsen.compreendia nada das minhas filhas. Mas a vida não é uma brincadeira! .Perdi tudo por causa dele. desprovido da capacidade de me relacionar normalmente. hoje acabou! A partir de agora. A jovem aproveitou o momento para lhe pisar o pé.O Pierce é um verdadeiro filho-da-mãe . mas o Pierce arranjou forma de voltar a destruir tudo. mas ainda se encontrava demasiado longe da arma. vou mostrar ao agente do FBI o que é um verdadeiro perito. sentindo pela primeira vez a corrente de ar e persuadido de que fora apanhado pelas costas. Kimberly esboçou um esgar de dor ao cair.gritou. mas ele previu a manobra. sou eu a tomar as rédeas. . . 275 A voz de Andrews adquiriu uma repentina tonalidade de ódio. . Sempre fora considerado um cidadão respeitável. Um perito em explosivos.Sim. Sem a ajuda de ninguém. Descreveu-me como um ser perigoso. Sem nada. Teríamos podido ser felizes. Só pensava em acarinhá-las. Tinham de fazer algo e decidiu jogar tudo por tudo.. Foi um acto desesperado.Luke! Finalmente! . tão à mostra debaixo da mesinha de café. deixá-las brincar.comentou Rainie fingindo-se surpreendida e encolhendo os ombros numa tentativa de incitar Andrews a prosseguir a sua diatribe. 234 .Mas mesmo assim não se saiu nada mal depois . é isso? . mas Andrews voltou-se. Por pouco não me retiraram a licença de trabalho. empurrou-a e fê-la desequilibrar-se. deixá-las crescer. . rejeitado pela sociedade. agarrando de passagem a única arma a que conseguiu deitar a mão. Tudo! Pois bem. Vá lá. abanando Kimberly como um boneco e torcendo-lhe mais o braço.

Um perito do FBI levara mais de duas horas a aplicá-la. O maxilar estalou com um ruído sinistro e ela tombou de costas. Coragem. mas este adivinhou-lhe a intenção. decidida a lutar até ao fim. Virou-se de rompante para a porta do quarto e baixou maquinalmente a arma.Kimberly.. antes de lhe aplicar um pontapé magistral. com os dedos crispados 235 . Rainie . Rainie. . Segundo. vindo do quarto contíguo.. tentando desesperadamenté apontar a sua semiautomática na direcção do perigo. mas Andrews deteve-a com um enorme pontapé no queixo.Adeus. Estás na Virgínia! Quincy entrou na sala. Quincy? Mas.... Rolando sobre o corpo. Agarrou na cadeira e atingiu-a na cabeça. Portland. não sou o Pierce Quincy. .. enquanto a cadeira se esmagava ruidosamente contra uma parede.O meu nome é Luke Hayes e sou um amigo da Rainie. Albert gostaria tanto de o ver chorar. Triunfante. O interrogador atravessou a sala mal iluminada e parou na sua frente. Albert! . Andrews. Nesse mesmo instante. . A arma! A salvação de ambas dependia da rapidez de acção. Rainie achou que ainda lhes restava uma oportunidade.Cabra! . . Demasiado tarde! Rainie atingiu-o em cheio com a cadeira. Tira as mãos de cima da minha filha. Contudo.Viva. cheia de dores. Rainie reconheceu a voz de Quincy. descalçou os sapatos de saltos altos e o casaco azul de chumaços.uivou. Kimberly tentou aproveitar para mergulhar na direcção da arma de Andrews.. a Kimberly está óptima.Kimberly. arrancou a peruca grisalha.. como.Qu. Juntando o gesto à palavra. . 276 .É a minha vez de te dar novidades...Olá. Em seguida. pensou. Rainie pôs-se de gatas para recuperar a sua Glock. ouviu o ruído característico de uma arma pronta a disparar e dispôs-se a morrer. avistou a Glock muito próximo. Andrews largou-a.despediu-se Andrews num tom frio. Primeiro.pronunciou com uma voz trocista que Albert não reconheceu. Oregon Ao ouvir a voz. quando Quincy se lhe juntou na sala de interrogatórios quinze minutos mais tarde. Agora! Kimberly enterrou o cotovelo nas costas do agressor. Andrews empalideceu. Antes viver do que morrer!. Acabara certamente de receber a confirmação da morte da filha. Andrews atirou a cadeira pelo ar e voltou a apanhar a sua semiautomática que se encontrava muito perto do corpo inerte de Kimberly. Como por entre a névoa. . A jovem quase conseguira. mas sem largar Kimberly. Quatro horas e trinta e dois minutos da tarde. Ele soltou um grito de dor e deixou escapar a arma que voou para uns metros mais longe. presa no pé da mesa. Em desequilíbrio. Virgínia AlbertMontgomery parecia ter recuperado a calma.. .

Apetecia-lhe precipitar-se para junto dela e abraçá-la. "Era provavelmente o sinal de que não gostava de armas de fogo". De acordo com o plano B.E foste tu que mataste a Bethie . O seu rival já devia estar no sexto andar.respondeu Andrews com um cinismo fingido que o tremor da voz atraiçoava. pensou. mas Kimberly era uma jovem corajosa. as suas vítimas estavam ali bem vivas.A Mandy? Uma morte engenhosa. Ao avistar o pai. Quincy? .na arma. passando bruscamente o braço à volta do pescoço de Kimberly para a manter agarrada.articulou ele.conseguiu articular. . onde Quincy avistou a pistola. a partir do momento em que o assassino tinha um rosto. o perfil típico de um psicopata. pois era preciso que ele esquecesse a presença de Rainie. desde que confiasse nele. subiu os degraus da escada de incêndio o mais depressa possível. o rosto ensombrou-se-lhe. Paradoxalmente. pensou Quincy. Tudo se tornava possível. Aproximou-se devagar e Andrews não esboçou o mínimo gesto. . Sabia que a filha era capaz de aguentar até ao fim. . Bela Adormecida! Chegou a hora de te despedires do papá! ordenou. O tempo retomara o seu curso. erguendo-a com um movimento brusco. de ti.Vá lá! De pé.Qual é a sensação. .Estava mesmo curioso por saber como é perder tudo sem sequer entender a 236 . Não tenhas medo. no quarto da filha. Pelo canto do olho. Kimberly abriu os olhos e deitou um olhar surpreendido à sua volta. Não tirava os olhos de Andrews. sentiu uma paz interior há muito esquecida diante daquele homem armado. Perdera mais de quinze minutos no átrio do hotel em busca de um homem de negócios que estivesse a usar o telemóvel e só depois compreendeu o erro. apercebeu-se de um ligeiro movimento junto à mesinha. torcendo maldosamente o braço de Kimberly e apertando-a ainda mais.Outra proeza! .disse Quincy para tentar acalmá-la e apagar a tristeza do olhar da filha. Aquele Andrews não era nada de excepcional: as feições vulgares de um homem vulgar.Foste tu. Andrews estreitou Kimberly com mais força. Por trás dele. Esforçou-se por desviar o olhar a fim de não a trair e fixou a atenção em Kimberly que começava a mexerse aos pés de Andrews. não foi? . o braço de Rainie avançava pouco a pouco na direcção do pé da mesinha.inquiriu Andrews. mas resistiu à tentação de se certificar. esboçando um sorriso inquietante. . 277 . sabendo que a maioria dos assassinos em série nunca enfrentava as suas vítimas e preferia matá-las de surpresa.exclamou Andrews. vou tomar conta. agachado junto à filha. . de meia-idade e estatura média. Todavia. que mataste a Mandy . sem que Quincy esboçasse qualquer gesto para o deter. . então. Fixou Andrews intensamente.Está tudo bem .

.vou sim! . a confiar nele. mas o movimento brusco da sua prisioneira tinha-o desequilibrado e a bala perdeu-se na parede. Rubro de raiva. Andrews premiu o gatilho. Podes odiar-me com todas as forças. as tuas filhas nunca mais voltarão a ver-te. apopléctico. vou estourar-te os miolos! . . mas os corpos de Kimberly e Andrews estavam demasiado entrelaçados. .Que se foda o bailado! Como se se tratasse de um sinal.redarguiu Quincy num tom coloquial. causando um esgar de dor em Kimberly. Felizmente para elas. Fazer-lhe perder o pouco de sangue-frio que lhe restava. Passaste toda a vida a fingir.Claro que não vais! . desprovida de sentimentos.gritou sem saber muito bem porquê. Elas teriam de portar-se com valentia.contrapôs num tom tão calmo quanto o de Andrews era histérico. O dedo de Andrews crispou-se no gatilho. Fixou a filha. com um uivo de surpresa. Precisas absolutamente de copiar os outros para te sentires um homem. visando a cabeça de Quincy. mas era tarde de mais. a tua vida deixaria de ter sentido. Kimberly e Rainie.rugiu. .Tu não és real! És uma casca vazia. . a fim de distrair o adversário. O que serias sem mim.vou matar-te. de humanidade. com uma calma 237 . quanto lamentava a violência do que ia seguir-se. ao mesmo tempo que Rainie recuperava finalmente a sua arma.Tinhas-te esquecido de mim? O homem virou-se bruscamente e Kimberly aproveitou a surpresa para se libertar do seu abraço.razão! . com os olhos a saltarem-lhe das órbitas..uivou Andrews.. incitando-a a não perder a coragem. estava à beira do descontrolo. .murmurou. . Quincy ergueu a sua arma. Nem sequer sabes quem és.chamou Rainie.Não! . . Quincy não desviava o olhar de Kimberly. Sem mim não és nada. qual boneca de trapos. tentando dizer-lhe quanto a amava.Ei. soltar o monstro que havia nele.Kimberly . Apontou a arma a Rainie. Exactamente o que Quincy pretendia. Um movimento pelo canto do olho. . ficarias 278 sem sonhos.Vai-te foder! . Kimberly deixou-se cair no chão.Kimberly! . Andrews.Para quê tanto esforço para mostrares que és mais esperto do que os outros? . mas não podes dispensar-me. Andrews! . Era um risco demasiado. Andrews ergueu a arma.Claro que não! Sem mim.Pai! . . Rainie e Kimberly. Andrews? Ficarias sem um objectivo. deslocando-se um pouco para a esquerda.

. Apertou-a meigamente contra o corpo.Acabou . . porém. Pousou de novo o auscultador e continuou a analisar as contas. como no dia em que ela nascera. Há muito que Andrews sonhava vingar-se de Quincy.Abram! Segurança! . que se inclinara sobre o corpo de Andrews. A verdade era que não vivia do ar e como o preço dos bilhetes de avião já tinha sido retirado da sua conta.resmungou entre dentes. Pierce Quincy compreendera finalmente que a solidão não era uma defesa. quando o eco do tiro se extinguiu. pois não tardara a regressar à Virgínia sob vários pretextos. pois ele não quisera saber. Na realidade. 238 .. bateram à porta.surpreendente. na sua secretária do sótão. Este acabara por contar o seu encontro com o Marcus Andrews dois anos e meio antes. mas o braço esquerdo não lhe obedeceu. . Rainie Conner estava sentada diante do computador. acariciando-lhe os cabelos sujos com o sangue coagulado.Acabou? . . analisava o orçamento.Que merda de som! . Muitos anos passariam antes que conseguissem resolver as diferenças que os separavam. Andrews caiu para não mais se levantar. acabara por aceitar o cheque. chorava em silêncio e ele embalava-a devagar.rugiu uma voz desconhecida. Salvara-lhe sem dúvida a vida. Nesse preciso momento. EPÍLOGO Pearl District. decidido a fazer tudo para se libertar em definitivo daquela carapaça de solidão que sempre o isolara do resto do mundo. mas também sabia que ela corria o risco de não se libertar tão cedo do trauma daquele dia.O jogo chegou ao fim. Portlarut Seis semanas mais tarde.. abraçada ao pai.murmurou. sem na realidade se interessar pelos números. Em desespero de causa. Quincy correu para a filha e abraçou-a. Quincy tinha-lhe pago. aguardava que o maldito telefone tocasse. Tinha os longos cabelos cheios de sangue de uma matéria cinzenta. 279 Kimberly. . Levantou o auscultador para se certificar de que a linha não estava avariada. Ela tremia dos pés à cabeça. Estava. Antes de mais. tinha de ajudar Quincy a fazer com que Albert Montmery soltasse a língua. . Tentou pôr-se de pé. dirigindo-se às duas. cada um mais falacioso do que o outro. Oficialmente.perguntou Kimberly.Não podemos fazer mais nada por ele . Quincy acabava de o atingir com uma bala em pleno peito. Virou-se para Rainie. De nada lhe servira gritar e ameaçá-lo em todos os tons de voz. A situação prolongava-se há dias e já não se sentia capaz de aguentar. a empresa de Lorraine Conner não ficara com saldo positivo muito tempo.disse por fim.

A existência daquele pai desconhecido era ainda demasiado recente para que Rainie ficasse afectada.Montgomery iniciara progressivamente Andrews nos segredos do FBI. Embora tivesse cumprido uma longa sentença atrás das grades antes de ser posto em liberdade condicional. na Virgínia. Se tinha um pai. De facto. Ronnie Dawson existia mesmo. por outro lado. 281 ficara ao corrente do papel desempenhado porMontgomery no inquérito e imaginara.Na altura em que Quincy ainda tinha o seu consultório particular. Esse advogado conceituado era mesmo um homem encantador. Montgomery investigara os dossiês do Departamento de Justiça do Oregon. dissera a si própria que não fazia sentido perder algo que nunca se tivera. Nenhum deles levara em consideração a quantidade de desequilibrados que ele tivera de enfrentar durante os anos em que mantivera o seu consultório prática particular. a roubar papel de carta de Quincy e. Emily. nunca ouvira. a encontrar o rasto deMontgomery. Movido pelo desejo de vingança. Fornecera sobretudo respostas concretas a várias das suas perguntas: Como reagia o FBI quando um dos seus agentes corria perigo ou a sua família se encontrava ameaçada? Quanto tempo precisava um serviço como o FBI para passar a pente fino dossiês de casos antigos? O que acontecia a um agente sob suspeita de assassínio?Montgomery tinha mergulhado cada vez mais fundo na perigosa engrenagem que o levara a apresentar Mandy a Andrews. então. Andrews dedicara-se. À medida que se familiarizava com os pormenores do caso. Bastara um jantar bem regado para queMontgomery se lhe juntasse na sua acção criminosa. quem sabe? Carl Mitz também existia. mobilizara todos os esforços de Quincy. com razão. a fim de descobrir um candidato credível para desempenhar o papel de pai de Rainie. talvez um dia o encontrasse. por fim. mas que esquecera durante anos. Um caso que. com uma coragem que a surpreendia. Bethie julgara que o perigo vinha do trabalho do seu marido para o FBI. Acabara por fazer-lhe o luto ao cabo de três dias penosos. Andrews entrevistara Miguel Sanchez no quadro das suas actividades universitárias. Há nove meses. esse velho ruivo de um metro e sessenta. falar de Molly Conner e ficara surpreendidíssimo ao saber que um donativo substancial fora feito em seu nome ao comité de campanha do delegado candidado a governador. a mulher de Andrews. O testemunho de Quincy revelara-se primordial na decisão do juiz quanto a proibir qualquer contacto entre Andrews e as filhas. que o colega de Quincy lhe votava um ódio mortal. na altura. a atacar Glenda Rodman. recorrera aos seus serviços de especialista para manter a custódia das filhas. como Rainie tivera oportunidade de constatar durante 239 . Andrews era um nome demasiado comum para que Quincy relacionasse os factos quando Kimberly lhe falara do seu querido professor. Estranhamente.

Albert já não tinha de preocupar-se com o seu futuro. Rainie mostrava-se particularmente compreensiva. Rainie não regressara à Virgínia inutilmente.um almoço. Desta vez. Quincy estava muito ocupado com o final do inquérito. que tentou tirar-lho da mão. com relativa frequência. Tinha insultado os detectives e gritado com o delegado do Ministério Público. até que Kimberly acabara por tirar o auscultador do descanso. Rainie e Quincy telefonavam-lhe todos os dias. Felizmente era jovem e saudável e recuperara com facilidade. Estes tinham encontrado inúmeras anomalias na caligrafia do bilhete e concluído que se tratava de uma falsificação. Rainie regressara uma vez mais a Poruand. sentimentos que desconhecia em absoluto.Montgomery pedira inocentemente que lhe trouxessem o frasco e abrira-o ao voltar da sua última entrevista com Quincy. Contudo. sentia vontade de desatar ao murro por tanta compreensão. Sempre que se falavam ao telefone. esforçando-se por dar provas de tolerância.Montgomery apenas tivera de descobrir o seu número da Segurança Social. Quincy agradeceu a Rainie por haver comparecido e Glenda teve direito a uma promoção merecida. já sem referir a filha. Quando desligava. era tarde de mais. Esta passara quarenta e oito horas no hospital para tratar de um braço partido e de um ferimento grave no couro cabeludo. Andrews deixara-lhe um presente de despedida: três cápsulas de cianeto no frasco de comprimidos para a tensão arterial. Por outro lado. um barco de pesca ao largo das costas de Maryland 240 . Entendia perfeitamente que não podia estar ao lado dele e mostrava-se disposta a todos os sacrifícios. onde queria reencontrar 282 o apartamento. após ter recebido um relatório do laboratório. o nome de solteira da mãe e a sua data de nascimento. mas ela insistira em regressar a Nova Iorque. Glenda acabou por convencer o delegado a pedir uma nova peritagem aos especialistas do FBI.Montgomery já engolira metade do conteúdo. como Rainie compreendeu perfeitamente. Nos primeiros tempos. mas não iria depor no banco das testemunhas. apoio e mesmo abnegação. Andrews encarregara-se do resto. como era de esperar entre dois adultos responsáveis. Duas semanas antes. Menos de um minuto depois. a polícia de Filadélfia quisera prender Quincy pelo assassínio da sua ex-mulher. Destapara o frasco e o odor de amêndoa que dele se escapava alertara o guarda. Ás coisas também não haviam sido fáceis para Quincy e Kimberly. Por seu lado. Quincy quisera levá-la com ele para a Virgínia. Montgomery anuíra em responder a todas as perguntas de Quincy. A sua independência voltara ao de cima e. onde o seu trabalho a aguardava. precisava de lidar com as coisas à sua maneira e a seu tempo. os estudos e o seu quotidiano. Duas semanas após o suicídio de AlbertMontgomery.

a fim de impedir Quincy de fazer o luto pelo pai. Rainie comprara imediatamente o seu terceiro bilhete para a Virgínia. mas não chega. Nem sequer tinham tido tempo de chegar ao quarto. Foi nesse preciso momento que compreendeu finalmente o grande segredo da vida. pois apercebeu-se de que estava exausto. acariciando-lhe o rosto. independentes. Depois ficou à espera de notícias de Quincy. apresentara-se no aeroporto dois dias antes da data prevista e exigira mudar o voo a pretexto de uma emergência familiar. mas nunca fora encontrado. atado com lastro. sabia-se que o corpo do velho. haviam regressado a casa dele e Rainie metera-o ajuizadamente na cama. Sabia que doravante tinha alguém com quem partilhar a dor. que chorava 241 . Rainie começara a sentir-se farta de tanta estupidez. raios! Não lhe apetecia apanhar o avião. Contara os seus cabelos grisalhos. quando se instalara ao lado dela. sem falarem. tinha-lhe aberto delicadamente a porta. rodear-lhe o corpo com as pernas. a amar. até o tempo começar a arrefecer. a odiar.apanhara nas suas redes o cadáver de Abraham Quincy. a terem filhos. foram ao Cemitério de Arlington e permaneceram lá a tarde inteira. sentados junto aos túmulos de Mandy e de Bethie. Para quê? Eram dois adultos. O que nos leva a todos a viver. aprendera a reconhecer cada uma das cicatrizes do seu peito. Rainie saltara-lhe para cima. Os Quincy pretendiam organizar uma cerimónia íntima em memória de Abraham e tinham pensado em convidar Rainie. decidiu ligar para o telemóvel. Ficara muito tempo ao lado dele. com as suas respectivas ocupações. consolando Kimberly. Desejava tocar-lhe. recebê-lo dentro de si. Cansada de esperar. Oito horas mais tarde. O que leva os humanos a lutar. instantes depois.Montgomery não quisera dizer a verdade antes. Após a gafe deMontgomery quando do confronto com Luke Hayes. antes de se mostrar realmente satisfeito. fora deitado ao mar por Andrews. O que leva os elefantes bebés a tentar o impossível para sobreviver no deserto. Umas horas mais tarde. Metera algumas coisas num saco. apertá-lo com força. deu-lhe a sensação de que ficara de repente quinze anos mais velha. Rainie soubera a notícia por Kimberly. O telefone é uma bela invenção. mas foi parar às mensagens. Contudo. e ele continuou silencioso. 283 Quincy agarrara-lhe na mão. Ela tinha trinta e dois anos e nunca andara de mão dada com um homem! Em seguida. Ao telefone. Assistiu ao funeral de Abraham Quincy. Não sentia o mínimo desejo de voltar a apanhar o avião e partir. a rir. detendo-se nas pequenas rugas que se negavam a desaparecer. batia à porta da casa de Quincy que não dissimulara a surpresa. ela sentira um aperto no coração. O que leva os que se amam a viverem juntos. mesmo durante o sono. De volta ao carro. ao lado de quem lutar e viver a tristeza.

Rainie! . ao seu sótão de Pearl District. Depois da cerimónia. . Ou não atendia. . faço esforços sobre-humanos.Eu telefono-te .Olá . . Há semanas que não o via sem fato e gravata.. Na segunda-feira de manhã.. . regressou a casa de Quincy. dirigindo-se ao ecrã do computador. e pegando na mão de Quincy. Quando tentou falar.Lamento. com o ar de trazer o mundo em cima das costas. mas isso não impede que o ache detestável. ele levou-a ao aeroporto e Rainie voltou a sentir o mesmo aperto no coração.Penso que sim. sem pronunciar palavra. Certificou-se de que nessa manhã não esquecera o desodorizante e tirou uma camisa branca do roupeiro no preciso momento em que a campainha soou. . Tentara apanhar Quincy. Voltou a assentir com a cabeça. O intercomunicador soou. era obstinada.Merda! .em silêncio. Sei perfeitamente que neste momento para ele não é fácil. . comporto-me como uma pessoa responsável e ele não dá sinal de vida. Agora. Haviam passado cinco dias.Olá.acabou Quincy por dizer.Em breve . mas de qualquer maneira bonito. insuportável.Porque é que nem sequer me deu a hipótese de tomar um duche? Que se lixasse o duche. 242 . Foi apresentada ao resto da família e espalhou simpatia a rodos.. a fim de passar o rosto por água. Uma última penteadela com as mãos e abriu a porta. Mantinha-se ali. e que tem mais com que se ocupar. .. as palavras não lhe saíram. mas sem saber realmente o que é que ele lamentava. Têm de ser sempre as mulheres a dar o primeiro passo e a curvar-se diante dos homens? Dantes. Era bonito dentro do seu género. escancarando a porta.disse ele simplesmente. seis horas e trinta e dois minutos e o seu telefone recusava-se a tocar.Não posso ser bem-comportadinha eternamente . com as calças de caqui e a camisa azul-marinho aberta no peito. Teria reconhecido os cabelos grisalhos em qualquer lugar.exclamou.Achas que foi porque o proibi de me chamar aqueles diminutivos ridículos? Talvez se o tivesse tratado por meu garanhão adorado. mas ele nunca estava em casa. Rainie . demasiado formal.proferiu.respondeu ela por fim. e fizeram amor como nunca haviam feito e como se aquela fosse a última vez.prometeu. sentia-me mal na minha pele e ele quis conhecer-me melhor. Carregou no botão para lhe abrir a porta e precipitou-se para o lava-louça da cozinha. .Não faz o meu género. de pé. O ecrã manteve-se mudo e quedo. Rainie assentiu com a cabeça. . . Regressou a Pordand. Rainie ergueu a cabeça e virou-se para o visor de controlo onde divisou uma silhueta masculina diante da porta do prédio. 284 .acrescentou. Talvez um pouco rígido.Posso entrar? .

Foste muito compreensiva.retorquiu.Já não sou agente do FBI . .Fechou a porta atrás de si.. Encontravam-se a uns metros um do outro.Então o que significa toda esta cena? Se não tencionas acabar comigo. a conversa prossegue com: "Como estás?". . Quincy suspirou e ela notou os círculos arroxeados à volta dos olhos. A caminho do aeroporto. .anunciou ele calmamente.Talvez porque eu tinha um bilhete de avião.De que é que estás a falar? . .redarguiu ele com uma careta. felizes por nos vermos.Estou a ficar uma 285 dessas mulheres que passam a vida ao lado do telefone. O agente especial Quincy tinha obviamente qualquer ideia em mente. pensei que já não tinha idade para essas parvoíces. Separava-os metade do sótão.pediu. Jurei nunca vir a ser uma delas.Ah! . nunca desejei ninguém como te desejei a ti. céus! Estás a acabar tudo comigo? . . que era não querer que te fosses embora. quase cambaleando e tão surpreendida como se ele lhe dissesse que tinha asas. . .Nunca disse isso . Depois.. Dirigiu-se sem hesitar para o canto da sala de estar e pôs-se a andar de um lado para o outro com grandes passadas.Bastava começar por um "olá".exclamou. aguardando inquieta o que ia seguir-se. Porque é que te levava ao aeroporto? .Mas não o fiz. juro que não queria fazer-te mal.Cinco dias. seis horas e trinta e sete minutos! . mas ela não ousava aproximar-se.Não sabia o que te dizer. . hesitante. Estavam tão próximos há seis dias e agora comportavam-se como dois estranhos. Há tão poucas coisas que me fazem feliz.Tinha tenção de te ligar . . posso garantir-te que nunca fiquei tão feliz por ver alguém em toda a minha vida. então di-lo de uma vez por todas. raios! .Não acredito . .Digo-o de uma vez por todas. . e eis onde cheguei! Devias ter vergonha! . . só pensava numa coisa.Vejo que estás a fazer progressos. Deus do céu! . confesso-te com toda a honestidade. tão surpreendido com as palavras de Rainie que deixou de percorrer a sala. Depois. erguendo os braços. tentando desesperadamente viver de uma forma normal.Oh. Desculpa . E depois vi-nos a passar a vida nos aeroportos. Nunca.És completamente doida .Do tempo que passou desde que prometeste telefonar-me em breve.redarguiu Rainie. É sempre mais simpático do que "Vai-te lixar. raios! . É o habitual. enquanto ela mordia o lábio inferior. Quando apareceste em minha casa na semana passada." ..disse ele. enquanto tudo nos separa.Pedi a demissão há dois dias..Rainie. 243 . ou uma coisa do estilo. infelizes por nos deixarmos. Rainie.

Não sabes quantas vezes já to disse.retorquiu Quincy.Muito bem. .Amo-te. Essas talvez não . Procuras compensar-me com uma proposta de trabalho. mas sei que necessita de mim..O problema é que preciso de uma sócia. mas seria ideal que me encontrasse por perto.Percorreste toda esta distância para me anunciares que vais trabalhar com a Glenda? . . para me propor um trabalho..Especialista de perfis psicológicos.Qual é o problema? . Quincy? .Neste momento. de poder contar comigo. A Kimberly voltou à faculdade e disse-me que está tudo bem. . . com segurança social e reforma incluídas. claro. seis horas e trinta e sete minutos. porque estavas sempre a dormir ou ausente. . Rainie. o que é muito diferente.Qual é o teu jogo. . Não te saltei para cima na semana passada para ter trabalho. ...O quê? . . aproximando-se de sobrolho franzido e dedo ameaçador. Só se aceitam as investigações que interessam. Rainie. é isso? Pois a minha resposta é esta: não é de um trabalho que preciso ao fim de cinco dias. não muito longe da cidade universitária. Acho que vou comprar um sótão. revirando os olhos.Faz isso. quando lhe apetecer. .Puseste-me em pulgas durante cinco dias.replicou Rainie..Amo-te.Apanhas o avião e vens à minha casa sem me avisar. Àrrisco-me a não ser um grande apoio se for morto em trabalho ou se passar o tempo a viajar. evitar que me trespasses com o dedo. para que ela possa vir jantar comigo ou conversar. .. É demasiado orgulhosa para o admitir. Em Nova Iorque.Decidi recomeçar a minha vida.Rainie.Um patrão. Falei em sociedade. como sempre fiz. ainda de dedo apontado. . por exemplo.replicou Quincy. .. pôr uma placa e oferecer os meus serviços como conselheiro independente. Quincy.bom. Não fiz a viagem de ida e volta três vezes em seis semanas para encontrar trabalho.exclamou. ultrajada.Não fazes ideia da quantidade de pessoas como eu que abandonam a profissão para se tornarem conselheiros. fica-se liberto da política das hierarquias.ripostou Rainie. .Vim até aqui para te fazer a proposta. sobretudo. 286 .Não te esqueças de que a minha firma está a começar. . Rainie. Merda. então .O quê? . parecendo inquieto. Não sou assim tão estúpido. Não vai querer que lhe agarre na mão. Não tinha a certeza de que estivesses 244 . . o que significa que precisa de ajuda. seis horas e trinta e sete minutos para me anunciar que tomas a cargo as minhas despesas no dentista? . não. é isso? Porque imaginas talvez que preciso de um patrão? . .gritou Rainie. não há horários e.

Cometi muitos erros no passado.Todos os casos que quiseres .Sabes que não sou fácil e há cinco dias que ando confuso.. .. .Mas. mas também não faço tenção de passar a vida a levar-te ao aeroporto. . Quincy? . Não posso abandonar a costa leste por causa da minha filha. Há muito que espero o momento de ser feliz. .Sabes.Acho que podias mostrar um pouco mais de imaginação e dizer mais do que isso..Também te amo. Sabes como funciono. Aproximou-se e abraçou-o ternamente.murmurou. Ela suspirou. Voltou a sentir o aperto no coração. .Estás a pôr-me nervoso.preparada.propôs-lhe num tom calmo. Amo-te. mas isso não interessa.. Rainie. Ou talvez fosse eu que não estivesse. .Entendi. Era então isso. mas tenho a firme intenção de me emendar. Nada de fácil. Contigo e por ti. Fim 245 . nem de monótono. Rainie. . .