Estudo Hermenêutico Do Liber OZ Sub Figura LXXVII  De Aleister Crowley  Numa Perspectiva Lingüística

F. Aldebaran

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F. Aldebaran
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RESUMO

O referido trabalho monográfico tem como pretensão o uso da hermenêutica na análise do discurso, com a finalidade de tornar explícitos mecanismos implícitos de estruturação e de interpretação do texto Liber Oz sub figura LXXVII do poeta e mago inglês Aleister Crowley. As reflexões deste estudo têm como objetivo situar a investigação hermenêutica em uma tênue relação com a ciência lingüística. Busca-se justificar a necessidade de um método hermenêutico no processo de interpretação e compreensão textual. Trata-se, portanto, de uma abordagem que ultrapassa os limites de uma lingüística ortodoxa, justificando o motivo das inúmeras exceções da língua, considerando as relações das frases que compõem o Liber Oz sub figura LXXVII, extraídas do Liber AL vel Legis, com o sentido intencionado pelo próprio autor, como um jogo de linguagem através do qual emergem os sentidos, onde se assume o entendimento de que o signo não é nem puramente significante e nem puramente significado, mas a união dos dois.

Palavras – chave: Discurso, Hermenêutica, Lingüística, Interpretação.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO, p. 06 2 A ANÁLISE DO DISCURSO, p. 08 3 A HERMENÊUTICA, p.11 4 APLICAÇÃO DA HERMENÊUTICA NA ANÁLISE DO DISCURSO, p.13 5 ALEISTER CROWLEY, p. 20 5. 1 OBRAS DE ALEISTER CROWLEY, p. 25 6. LIBER OZ SUB FIGURA LXXVII, p. 37 6. 1 O SIGNIFICADO DO AUTOR, p. 58 6. 2 O SIGNIFICADO DO TEXTO, p. 64 7 O SIGNIFICADO DO LEITOR, p. 66 7. 1 COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO, p. 69 8 CONCLUSÃO, p. 73 ANEXO, p. 75 REFERÊNCIAS, p. 76 Sobre o autor, p. 78

“Hic sapientia est. Qui habet intellectum, computet numerum bestiae. Numerus enim hominis est: et numerus ejus sexcenti sexaginta sex.” Apocalypsis XIII, XVIII

“Aqui é que está a sabedoria: Quem tiver inteligência calcule o número da Besta, pois é o número do homem; e o seu número é 666”. Apocalipse 13:18

1 INTRODUÇÃO

Neste trabalho monográfico, se entende como estudo hermenêutico, método cientícofilosófico e teológico, aplicado à lingüística para explicar ou interpretar texto, como aquilo que estabelece e reconhece o texto Liber Oz Sub Figura LXXVII como uma produção intertextual. Fundamentado na Análise do Discurso, este estudo serve como base para desvelar o universo simbólico, valores sociais, morais, culturais, políticos e religiosos, contidos no texto, permitindo que ele se mantenha coeso. E mostra que é necessário que o pesquisador procure descobrir o significado do texto que está sendo estudado. Deve-se querer saber o que o texto significa. Para descobrirmos o significado do texto, teremos que verificar os componentes envolvidos na hermenêutica: o autor, o texto e o leitor. Este trabalho que realizamos tem como pretensão o uso da hermenêutica na análise do discurso, com a finalidade específica de tornar explícitos mecanismos implícitos de estruturação e de interpretação do texto Liber Oz Sub Figura LXXVII do autor Aleister Crowley. Procedimento mais ou menos intuitivo explicitado com o objetivo de contribuir para que um maior número de pessoas possa, de maneira eficaz, transformar-se em bons leitores. Utilizamos o método científico indutivo apoiado na pesquisa teórica e bibliográfica para descoberta dos princípios gerais contidos no Liber Oz Sub Figura LXXVII. Fizemos um levantamento dos principais dados e/ou informações referentes ao histórico da vida e obra do autor, além do levantamento das principais interpretações realizadas e divulgadas pela internet e por outros pesquisadores junto a “SETh” – Sociedade de Estudos Thelêmicos - ordem mística/filosófica vinculada a ordem mundial O.T.O – Ordo Templis Orientis, fundada pelo próprio autor para divulgação de seus escritos. Temos o intuito de fornecer aos leitores subsídios eficientes e eficazes através de um levantamento bibliográfico e reflexivo a cerca do texto num processo interpretativo. Visando através de uma perspectiva hermenêutica e lingüística levar a uma melhor interpretação e compreensão da obra, por meio de uma abordagem qualitativa. Parece-nos, pois, necessário, para entendimento e compreensão do texto Liber Oz Sub Figura LXXVII, levar mais adiante os sentidos dados pelo autor, Aleister Crowley, ao seu próprio texto. Desta forma visamos mostrar em que medida o estudo hermenêutico lingüístico do referido texto fornece bases para elucidar questões como aquelas que ocorrem em salas de aula, como quando o aluno pergunta como enxergar numa produção discursiva as coisas geniais que o professor percebeu no texto, quando faz abstração de algum poema, e explica ao aluno simplesmente dizendo que para se entender e compreender um texto é preciso sensibilidade e que para descobrir os

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sentidos do texto, é necessário lê-lo várias vezes. No entanto, esta informação não é eficiente para o processo de interpretação e compreensão textual (FIORIN, 2001). Este tipo de análise, que propomos neste trabalho, não se trata mais de permitir, por ecletismo, o livre curso de hipóteses heterogêneas. Estabelecemos a situação da mensagem textual sob dois pontos: relações entre texto poético e universo do discurso, condicionamentos determinados pelo princípio da adequação da parte ao todo criada pelo próprio autor.

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2 A ANÁLISE DO DISCURSO

Análise do discurso é uma prática e um campo da lingüística e da comunicação especializado em analisar construções ideológicas presentes em um texto. É muito utilizada, por exemplo, para analisar textos da mídia e as ideologias que trazem entre si. A análise do discurso é proposta a partir da filosofia materialista que põe em questão a prática das ciências humanas e a divisão do trabalho intelectual, de forma reflexiva1. A análise do discurso nasce no entremeio de três disciplinas, de modo que, desde sua gestação, evoca a interdisciplinaridade. De acordo com Pêcheux (1999), o nascimento da análise do discurso foi presidido por uma “tríplice aliança”. Uma teoria da História, para explicar os fenômenos das formações sociais; uma teoria da Lingüística, para explicar os processos de enunciação; e uma Teoria do Sujeito, para explicar a subjetividade e a relação do sujeito com o simbólico. Como vimos, o discurso é um objeto de estudo que não tem fronteiras definidas. Ele é tridimensional - está na intersecção do lingüístico, do histórico e do ideológico. Por isso, foi inevitável para a análise do discurso romper com os postulados da lingüística clássica, já que, se define como o estudo lingüístico das condições de produção de um enunciado.
A Análise do Discurso aparece no final dos anos 1960. Michel Pêcheux lança, em 1969, o livro Análise Automática do Discurso que, para a maioria dos estudiosos, representa a fundação dessa disciplina. “Pela primeira vez na história, a totalidade dos enunciados de uma sociedade, apreendida na multiplicidade de seus gêneros, é convocada a se tornar objeto de estudo” (CHARAUDEAU, 2004, p. 46).

A Análise do Discurso é um campo de estudo que ultimamente vem, cada vez mais, despertando o interesse de pesquisadores de várias áreas. Isso ocorre porque se trata de um espaço teórico transdisciplinar que oferece reflexão sobre a produção e a circulação dos sentidos sociais. Segundo Pêcheux (1988), fundador da teoria da Análise do Discurso, o discurso não é apenas um texto, mas um conjunto de relações que se estabelecem nos momentos antes e durante a produção desse texto e também dos efeitos que são produzidos após a enunciação desse texto. Os discursos produzidos são determinados pelos discursos anteriores e também determinam os discursos que virão após ele. A Análise do Discurso entende que os sentidos não são postos e que as palavras não possuem um sentido único, mas um dominante. Para a Análise do Discurso, a enunciação de uma mesma materialidade lingüística, em condições diversas, pode gerar diversos efeitos de sentidos. “Chamaremos de discurso um conjunto de enunciados que se apóiem na mesma formação discursiva” (FOUCAULT, 1986, p. 72).
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Informação obtida no site http://pt.wikipedia.org/wiki/An%C3%A 1 lise_do_Discurso

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Amaral (2002) diz, desde o surgimento da Análise do Discurso de linha francesa, no final dos anos 60 por Michel Pêcheux, que essa linha de estudos tem demonstrado ser um campo de pesquisa muito fértil. A Análise do Discurso surgiu na conjuntura política e intelectual francesa, marcada pela conjunção entre filosofia e prática política, já como um campo transdisciplinar. Atravessou fronteiras e movimentou o campo das ciências humanas, constituindo-se hoje em uma disciplina transversal. Por este motivo, tentamos neste trabalho monográfico aplicar recursos da Análise do Discurso em consonância com a ciência Hermenêutica na prática de compreensão e interpretação textual.
Nesse sentido, o discurso ultrapassa a simples referência a “coisas”, existe para além da mera utilização de letras, palavras e frases, não pode ser entendido como um fenômeno de mera “expressão” de algo: apresenta regularidades intrínsecas a si mesmo, através das quais é possível definir uma rede conceitual que lhe é própria (FOUCAULT, 1986,p.70).

É a esse “mais” que o autor se refere, sugerindo que seja descrito e apanhado a partir do próprio discurso, até porque as regras de formação dos conceitos, segundo Foucault, não residem na mentalidade nem na consciência dos indivíduos; pelo contrário, elas estão no próprio discurso e se impõem a todos aqueles que falam ou tentam falar dentro de um determinado campo discursivo.
Inicialmente, podemos afirmar que discurso, tomado como objeto da Análise do Discurso, não é a língua, nem texto, nem a fala, mas que necessita de elementos lingüísticos para ter uma existência material. Com isso, dizemos que discurso implica uma exterioridade à língua, encontra-se no social e envolve questões de natureza não estritamente lingüística. Referimo-nos a aspectos sociais e ideológicos impregnados nas palavras quando elas são pronunciadas (FENRNADES, 2005, p. 20).

Essas são algumas das inúmeras definições de Análise do Discurso. Tudo na obra do autor tem conexões que precisam ser explicitadas, caso contrário repete-se com outras palavras o que se pretende demonstrar, ou se cai no reino das definições circulares. Tomamos como ponto de partida a explicitação do conceito de discurso, para chegarmos posteriormente à análise da formação discursiva do texto, que parece ser o que sintetiza melhor a elaboração do autor sobre uma possível teoria do discurso no seu Liber Oz Sub Figura LXXVII. O que permitiu situar um emaranhado de enunciados numa certa organização foi justamente o fato deles pertencerem a uma certa formação discursiva.
Não há enunciado livre, neutro e independente; mas sempre um enunciado fazendo parte de uma série ou de um conjunto, desempenhando um papel no meio dos

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outros, neles se apoiando e deles se distinguindo: ele se integra sempre em um jogo enunciativo, onde tem sua participação, por ligeira e ínfima que seja. [...] Não há enunciado que não suponha outros; não há nenhum que não tenha, em torno de si, um campo de coexistências (FOUCAULT, 1986, p.114).

Os procedimentos que adotamos para a análise do discurso do Liber Oz Sub Figura LXXVII de Aleister Crowley foram os seguintes: elaboração de uma lista das principais obras do autor; elaboração de breves enunciados a partir dessas obras; organização dos enunciados e verificação de como eles se interligam; identificação de quais enunciados do autor são empregados como exemplos da obra que pretendemos veicular; quais enunciados secundários servem de sustentação aos enunciados principais; procurar visualizar a teia de enunciados, ou seja, como se compõe o texto, no que será possível encontrar estratégias argumentativas do autor.
A Análise do Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, com homens falando, considerando a produção de sentido enquanto parte de suas vidas, seja enquanto sujeitos, seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade (ORLANDI, 2005, p. 15-16).

A partir desta análise, que consiste em tomar como unidade básica, ou seja, como objeto particular de investigação, não mais a palavra ou a frase, mas sim o texto, por serem os textos a forma específica de manifestação da linguagem, do discurso poético, que é muito utilizado pela literatura e pelas manifestações artísticas que utilizam a linguagem como recurso, foi possível ultrapassar o cerco das palavras e encontrar o sentido do texto.

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3 A HERMENÊUTICA Nunes Júnior (2007)2 afirma que a hermenêutica é tida, hoje, como uma teoria ou filosofia de interpretação, capaz de tornar compreensível o objeto de estudo mais do que sua mera aparência ou superficialidade.
Hermenêutica é a ciência ou metodologia da interpretação, especialmente de um texto escrito. Uma forma ampla de interpretação, no sentido da procura do simbólico. Corrente de pensamento também dita filosofia prática, inspirada por Hans-Georg Gadamer. Considera que a praxis não está subordinada à teoria, como simples técnica resultante da dedução de um saber teórico. A prática é co-natural é teoria. Procurando distinguir-se da metafísica, tem como virtude fundamental a phronesis, entendida como ligação entre a razão (logos) e a experiência moral (ethos), entre a subjectividade (da consciência) e a objectividade (do ser) as grandes abstrações pluridisciplinares. Neste sentido, Gadamer salienta que a verdade é superior ao método (MALTEZ, 2007).

O termo hermenêutica deriva do verbo grego hermeneuein e do substantivo hermeneia, que significam, em sua extensão semântica, algo que “é tornado compreensível”, “levado à compreensão”. Muitos autores correlacionam o termo ao deus grego Hermes, o mensageiro dos deuses - a quem se atribui a origem da linguagem e da escrita -, que tinha o dom de permitir às divindades falarem entre si e também aos homens. De uma forma ou de outra, fato é que o termo está diretamente associado à idéia de compreensão de algo antes ininteligível (PEREIRA, 2001). A hermenêutica, porém, visa revelar, descobrir, esclarecer qual o significado mais profundo que está oculto, não-manifesto, não apenas de um texto ou norma, mas também da linguagem. Pode-se afirmar que, por meio da hermenêutica, chega-se a compreender o próprio homem, o mundo em que vive, sua história e sua existência (NUNES JR, 2007). Daí a necessidade de se implementar uma mudança na questão do estudo de análise textual, ultrapassando-se a visão tradicional, que a tem como um problema normativo e metodológico, isto é, um conjunto de métodos e técnicas destinado a interpretar a essência da norma, para chegar-se à visão contemporânea, que a tem como um problema universal, isto é, filosófico e ontológico, que afeta em geral toda a relação entre o homem e o real (Idem). A Hermenêutica fornece um referencial metodológico para a condução da análise do discurso. Dentro de cada fase do enfoque hermenêutica, existe uma variedade de métodos de pesquisa, que estão à disposição do pesquisador, tudo requer um prévio conhecimento do objeto de análise e da investigação que será desenvolvida. Escolhemos a declaração do código de ética thelêmico - que é o Liber Oz Sub Figura LXXVII, que é considerado como a máxima expressão da Lei de Thelema como objeto de nosso
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Professor do UniCEUB e da UniEURO, em Brasília –DF.

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estudo com a finalidade de tornar explícitos mecanismos implícitos de estruturação e de interpretação, pois observamos que muitos se atolam em interpretações e compreensões que impedem o alcance do sentido pretendido pelo autor inglês, Aleister Crowley.

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4 APLICAÇÃO DA HERMENÊUTICA NA ANÁLISE DO DISCURSO Puhl (2007)3 diz, a Análise Formal ou Discursiva surge em virtude dos objetos e das expressões que circulam nos campos sociais, que se tratam, também, de construções simbólicas complexas que apresentam uma estrutura articulada. As formas simbólicas são produtos contextualizados, que têm capacidade, e têm por objetivo, dizer alguma coisa sobre algo. Este tipo de análise, está preocupada com a organização interna das formas simbólicas, com suas características estruturais, seus padrões e relações, servindo para a construção do campo-objetivo. O estudo hermenêutico que realizamos é chamado de Interpretação/Re-interpretação, que é facilitado pela fase da Análise Discursiva, pois é através da análise discursiva que se constrói a interpretação. A interpretação implica um movimento novo de pensamento, ela procede por síntese, por construção criativa de possíveis significados. O processo da interpretação está localizado dentro do referencial da hermenêutica, mediado pelos métodos da Análise Discursiva, além disso, ele transcende a contextualização das formas simbólicas tratadas como produtos socialmente situados, e o fechamento das formas simbólicas, vistas como construções que apresentam uma estrutura articulada (Idem). A pesquisa que utiliza o método hermenêutico deve ser encarada de maneira aproximativa e provisória. Não existem afirmações, mas sim conclusões prévias. Ao tentarmos compreender o sentido “oculto” de um texto, é preciso conhecer os antecedentes, o passado que ficou, a cultura que gerou, a maneira particular de ser e a circunstância momentânea. O compreender do intérprete como fazendo parte de um acontecer que decorre do próprio texto que precisa de interpretação (Idem). Neste presente estudo hermenêutico, que cuida da interpretação do Liber Oz Sub Figura LXXVII, não há submissão às regras metódicas das ciências humanas, devido a exigências do texto proposto para obtenção do entendimento de seu próprio significado. Portanto, tornou-se indispensável a realização de um estudo a cerca da Cabala, Guematria, Tarô, “Magick”, Goetia, etc., o qual foi realizado junto a “SETh” – Sociedade de Estudos Thelêmicos, vinculada a O.T.O.,Ordo Templis Orientis/Brasil. Por isso, alertamos que este estudo é um estudo hermenêutico filosófico. Apesar de a hermenêutica filosófica desenvolver-se numa perspectiva crítica da metafísica, ela apresenta uma pretensão de universalidade.
Quem quer compreender um texto, em princípio, tem que estar disposto a deixar que ele diga alguma coisa por si. Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente tem que se mostrar receptiva, desde o princípio, para a alteridade do texto. Mas essa receptividade não
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Doutora em Comunicação Social da PUCRS.

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pressupõe nem neutralidade com relação à coisa nem tampouco auto-anulamento, mas inclui a apropriação das próprias opiniões prévias e preconceitos, apropriação que se destaca destes (GADAMER,1997, p. 405).

Porém tal universalidade assume uma forma não dogmática, restando-lhe, portanto, uma universalidade que se move muito próxima da universalidade da crítica. “A consciência hermenêutica atinge, fere e revela os limites da auto-suficiência das ciências naturais, ainda que não possa questionar a metodologia de que elas fazem” (STEIN, 2002). Finalmente, hoje uma esfera de interpretação alcançou atualidade social e exige, como nenhuma outra, a consciência hermenêutica, a saber, a tradução de informações na mídia, na literatura, etc., relevantes para a linguagem do mundo da vida social. Na medida em que a hermenêutica filosófica trabalha com o sentido, a analítica reduz a linguagem à unidade mínima que é o significado (Idem). Uma coisa é estabelecer uma práxis de interpretação opaca como princípio, e outra coisa bem diferente é inserir a interpretação num contexto, ou de caráter existencial, ou com as características do acontecer da tradição na história do ser - em que interpretar permite ser compreendido progressivamente como uma auto-compreensão de quem interpreta (Idem).
A hermenêutica filosófica nos ensina que o ser não pode ser compreendido em sua totalidade, não podendo assim, haver uma pretensão de totalidade da interpretação”. "Ser que pode ser compreendido é linguagem". “Em tudo o que uma linguagem desencadeia consigo mesma, ela remete sempre para além do enunciado como tal. (STEIN, 2002).

O uso da hermenêutica tem um forte ligâmen com as epopéias de Homero, com a explicação de sua Ilíada e Odisséia, na Escola Helenística de Alexandria; ao estudo e comentário das Escrituras Sagradas da Bíblia, relacionando-se com a Teologia; aqui, em terreno cristão, desenvolve-se fortemente em comunidades protestantes, que, não aceitando a leitura individual proporcionada pela Igreja, passam a definir um conjunto próprio de regras de interpretação; no romantismo alemão, a hermenêutica alça vôos mais intrépidos (SABBAD, 2004). Reagindo ao ideólogos da Revolução Francesa, bem como ao poder infrene do positivismo, a Alemanha, sob forte influência da corrente romântica, passa a desenvolver estudos em torno do problema do método nas ciências humanas, possibilitando, com isso, o surgimento das várias espécies de hermenêutica, como a jurídica, a filológica e a histórica - estava-se, aí, em pleno século XIX. Era, pois, o século da Hermenêutica Profana, ou que se secularizava progressivamente. Este método teve sua culminância em Scheleiermacher (Idem). Friedrich Daniel Ernest Scheleiermacher (1768-1835) é considerado o pai da Hermenêutica moderna. Segundo ele, ela, a Hermenêutica, é a arte de evitar os mal-entendidos. O mérito deste autor é grande, e pode resumir-se no seguinte: preocupou-se com o texto, seja ele qual 14

fosse; tentou responder à grave pergunta “o que significa compreender?”; propunha, como método de análise, o estudo da gênese da obra, o contexto em que ela surgiu, ou emergiu. Os estudos de Scheleiermacher levaram, de forma irreversível, a uma nova posição epistemológica das ciências humanas na enciclopédia das ciências (Idem). A hermenêutica tem que ver com o algo de sagrado que há no momento de proferimento de uma palavra, ou leitura de um texto. E quem diz, está a interpretar. Quem executa uma peça teatral, ou uma partitura musical, imprime-lhes seus estilo, sua versão intelectiva, ou sensitiva. E aqui, neste sentido, há outra característica: uma execução, um desempenho interpretativo, é um ato único; pode até se repetir, mas terá outros atributos, outra forma de sentir a mensagem (Idem). O horizonte desta técnica é o da restituição de um texto ou de uma palavra, mais fundamentalmente de um sentido, considerado como perdido ou obscurecido. Numa tal perspectiva, o sentido é menos para construir do que para reencontrar, como uma verdade que o tempo teria encoberto (BESSE, J. M.; BOISSIÉRE, 1998, p. 52-53). Nos últimos tempos, um grande número de mudanças ocorreu em diferentes partes do mundo, particularmente, talvez, no mundo ocidental. Mudanças políticas, sociais, culturais e também grandes mudanças tecnológicas, como a aquisição de informação instantânea advinda com a internet. Podemos afirmar que, no decorrer dos últimos dez ou vinte anos, ocorreram mais mudanças no mundo, do que durante qualquer período comparável na história da humanidade. No decorrer da última década, vimos mudanças ocorrerem em um grau constante de aceleração. Mais e mais mudanças parecem estar ocorrendo em períodos de tempo cada vez mais curtos. Antigamente, quando o ritmo era mais vagaroso, várias gerações transcorriam antes que uma mudança em algum departamento específico da vida se tornasse visível. Mas este não é mais o caso. Agora essas mudanças são perceptíveis no decorrer de um curto período de tempo. E vemos este ritmo acelerado de mudança em praticamente todas as esferas da vida humana e das realizações humanas, ou seja, no âmbito político, social, econômico e cultural. Mas nesta preleção interessa-nos apenas uma destas esferas, que chamaremos, para utilizar um termo geral e neutro, a esfera cultural. Neste campo em particular, uma das maiores mudanças e, potencialmente, uma das mais importantes que aconteceram em anos recentes refere-se ao tema “esoterismo”. Há vinte ou trinta anos, mal se ouvia falar em esoterismo, magia, yoga, meditação, etc., no Ocidente. Se havia qualquer interesse ou conhecimento no que se referia à magia, era em grande parte confinado a grupos obscuros e a indivíduos excêntricos. Mas agora, no período em que escritores como Paulo Coelho se tornam “best-sellers”, e filmes como “O Código da Vinci” e “Harry Potter” tornam-se recordistas de bilheterias, e a maioria das tele-novelas esgotam 15

fatidicamente o tema, o termo magia é quase uma palavra doméstica. Entretanto, o fato de que a palavra esteja amplamente divulgada não implica que seu significado tenha sido bem compreendido. A magia é relativamente nova no Ocidente. Não houve, ao menos na história recente, nada parecido ao alcance de nossa experiência. Não temos as palavras adequadas, os termos especializados adequados, para descrever os estados e os processos da magia. É natural, portanto, que aconteçam equívocos. Aleister Crowley (1988) no seu livro “Magick Without Tears” no capítulo I, diz: “magick is the Science and Art of causing Change to occur in conformity with Will” - magia é a arte e ciência, de causar mudanças de acordo com a própria vontade. É algo que alguém faz, ou vem a experimentar. Mas a maior parte das pessoas sabe sobre magia a partir de ouvir dizer. Não sabem a partir de sua própria prática e experiência pessoal. Portanto, elas confiam em informações de segunda, terceira, e até quarta mão. Algumas confiam em livros, talvez tenham que fazê-lo, para suprir-se de informações. Hoje em dia há diversos livros nas bancas de revistas, livrarias, bibliotecas e na internet que lidam, ou pretendem lidar, com este tema. Mas infelizmente, esses próprios livros muitas vezes são baseados nas mais infames especulações, e não em conhecimento e experiências pessoais. Neste campo há muitos que se auto-intitulam “Mestre dos Magos”. Quando algo se torna popular, como a magia está se tornando, logo muita gente procura tirar vantagens. Estamos vivendo uma explosão de espiritualidade, e pelo menos uma explosão modesta acerca da magia. Inúmeras pessoas estão insatisfeitas com suas vidas monotonamente baseadas na realidade, com o modo condicionado de viver e fazer as coisas. As pessoas não querem aceitar uma explicação científica da vida, apesar do grande sucesso prático da ciência ao lidar com o mundo material, enquanto que ao mesmo tempo elas são incapazes de aceitar, por outro lado, a explicação das coisas de um ponto de vista tradicional, especialmente judaico-cristão. Por isso, começam a procurar algo que as satisfaça de modo mais profundo, permanente, criativo e construtivo. Algumas pessoas olham na direção das tradições espirituais do Oriente, e especialmente na direção da yoga, meditação e magia. Querem saber sobre magia, praticar rituais, querem ir às aulas de yoga, acender velas e incensos, ir para retiros de finais de semana, e desse modo é criada uma demanda pelo esotérico, pelo místico, pelo oculto. Após profundos estudos junto a “SETh” – Sociedade de Estudos Thelêmicos, vinculada a Ordo Templi Orientis Draconis – O.T.O Draconiana, ordens que divulgam a filosofia e a mística thelêmica pelo mundo, através de graus iniciáticos, pudemos observar que no grande lamaçal do 16

equívoco, muitos se atolam em interpretações e compreensões que impedem o alcance do sentido pretendido pelo autor Aleister Crowley. Atualmente, a Lei de Thelema conta com milhares de seguidores em todo mundo. A ampla maioria destes seguidores prefere não estar associado diretamente a nenhum grupo institucionalizado que pretenda aparecer publicamente como representante da Lei de Thelema – pois devido à pretensão de institucionalizar-se como religião, os livros de Aleister Crowley podem ser baixados gratuitamente pela internet, obra semelhante à panfletagem dos protestantes, católicos, hare krishnas, etc. Quando muito, estes seguidores se reúnem em pequenos grupos, não oficiais, pois somente neles há a possibilidade do livre debate e estudo das premissas thelêmicas, de acordo com os textos de seu profeta, Aleister Crowley (RAPOSO, 2004). Contudo, até mesmo numa religião onde se pressupõe que a liberdade irrestrita seja a grande motivação, novamente existe a ameaça de se fazer valer o ditado homo homini lupus, “o homem é o lobo do homem”. Assim, embora atualmente contando com um inexpressivo séquito, existem algumas poucas seitas thelêmicas institucionalizadas, que se digladiam ferrenhamente pela posse das rentáveis obras de Aleister Crowley. O objetivo de tudo é, seguindo o conhecido modelo empregado pela Igreja Católica quando de seu famoso Concílio de Nicéa, se transformar na única representante oficial da religião da nova era, condenando qualquer outra opção a marginalidade (Idem). Estas seitas, infelizmente, por mais novas que sejam, já têm suas histórias marcadas pelo dogma, pragmatismo e pelo fanatismo, impingindo perseguições a todo e qualquer estudante sincero que não se submeta às suas rédeas. No Brasil, a Lei de Thelema, apenas a partir da década de 1970 é que viria ganhar certa popularidade, através da obra do genial Raul Seixas. Alguns de seus sucessos, muitos destes compostos em parceria com Paulo Coelho, tiveram como origem os textos do mago Aleister Crowley (Idem). Escolhemos a declaração do código de ética thelêmico - que é o Liber Oz Sub Figura LXXVII -, que é considerado como a máxima expressão da Lei de Thelema como objeto de nosso estudo. O texto é uma declaração a cerca dos direitos individuais de todo homem e de toda mulher. As reflexões deste estudo têm como objetivo situar a investigação hermenêutica em uma tênue relação com a ciência lingüística. Busca-se justificar a necessidade de um método hermenêutico no processo de interpretação e compreensão textual. Trata-se, portanto, de uma abordagem que ultrapassa os limites de uma lingüística ortodoxa. Considerando as relações das frases que compõem o Liber Oz Sub Figura LXXVII com o sentido intencionado pelo próprio poeta Aleister Crowley, como um jogo de linguagem através do

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qual emergem os sentidos, onde se assume o entendimento de que o signo não é nem puramente significante e nem puramente significado, mas a união dos dois. Serão pretendidas a compreensão e a interpretação da ausência que guarda sempre algo de inapreensível, místico, que torna ilimitada as relações associativas. Um estudo baseado num “texto aberto” como é o caso do Liber Oz Sub Figura LXXVII, aponta perspectivas que oferece ao pesquisador a possibilidade de novos estudos e aprofundamento e acrescentamento de novos métodos de interpretação e compreensão textual a partir da hermenêutica lingüística. Nessa perspectiva, é possível incluir, nos estudos lingüísticos, uma análise da enunciação e do discurso que comporta o autor, o texto, e o leitor. O trabalho que realizamos explora algumas possibilidades de uso da hermenêutica, das teorias da representação e da argumentação contidas no texto: Liber Oz Sub Figura LXXVII. O estudo terá por finalidade verificar os problemas de interpretação e compreensão do referido texto, e fornecer uma possível superação ao paradigma informacional, baseado nas teorias da propaganda e da informação inadequada que tanto influenciaram a constituição dos estudos de análise textual. Deseja-se, neste estudo, discutir incursões teóricas como a realidade prática que envolve o sentido do texto. Pretende-se, a partir de um balanço de algumas das opções teóricas existentes publicadas na internet, contribuir para a construção de novos paradigmas de métodos científicos de interpretação e compreensão textual. Estes estariam relacionados às mudanças contemporâneas - em gestação - em nossas realidades materiais e simbólicas, pautadas na centralidade sociais, culturais e econômicas do processo comunicacional e informacional. O compreender do intérprete como fazendo parte de um acontecer que decorre do próprio texto que precisa de interpretação. A interpretação implica um movimento novo de pensamento, ela procede por síntese, por construção criativa de possíveis sentidos/significados. O enfoque do estudo hermenêutico lingüístico que realizamos é um estudo de Interpretação/Reinterpretação, facilitado pela fase da Análise Discursiva, pois seus métodos procuram revelar os padrões e efeitos, que constituem e que operam dentro de uma forma simbólica ou discursiva. Uma esfera de interpretação alcançou a atualidade social, e exige, a consciência hermenêutica, a tradução de informações textuais relevantes para a linguagem do mundo da vida social deste novo milênio, e é através da análise discursiva que se constrói a interpretação dessas informações. Portanto, no estudo monográfico que aqui realizamos, entender-se-á como estudo hermenêutico, método cientíco-filosófico, filológico e teológico, aplicado à lingüística para explicar ou interpretar, a base para se obter a compreensão do texto Liber Oz Sub Figura LXXVII. Um recurso ao estudo lingüístico procurando descobrir o sentido do texto a ser estudado, com o objetivo 18

de querer saber o que o texto significa, descobrir o significado do texto, através da verificação dos componentes envolvidos na hermenêutica: o autor, o texto e o leitor.

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5 ALEISTER CROWLEY

Edward Alexander Crowley, nasceu no dia 12 de outubro de 1875, filho de um pastor de uma seita fundamentalista protestante. Seu pai morreu quando ele ainda era jovem. Sua mãe, segundo ele, era uma “estúpida”, e as inúmeras desavenças entre eles fizeram com que sua mãe o chamasse de Besta 666, nome que ele adotou posteriormente e que lhe trouxe a fama de pior homem do mundo. Mas, segundo explicações de Crowley, o número 666 o qual se refere a Bíblia, é o número “do homem”. E não “de um homem”. Porque quando se coloca “de um homem”, o sujeito fica indefinido. Mas quando se diz “do homem” significa do ser humano. Conceitos fundamentais para o entendimento da religião thelêmica estão presentes na simbologia da Besta 666 e de sua consorte, a deusa Babalon. “A Grande Besta” - ver em Apocalipse, capítulo 13 - foi talvez o principal pseudônimo, ou melhor, “moto mágico”, de Crowley. E a descrição de sua divindade Babilônia, também foi inteiramente retirada da Bíblia - ver Apocalipse, 17:3-5. De acordo com o biógrafo Pinheiro (2007), Aleister Crowley foi sem sombra de dúvida o maior mago do século XX. Suas explorações no campo das drogas e do sexo são enfatizadas em demasia por quase todas as pessoas que se põe a falar sobre ele. Essa sua faceta poderia ser explicada - talvez até possa ser justificada - como uma fuga genial da pútrida sociedade ultra puritana em que foi criado. O protestantismo vitoriano foi uma das manifestações mais repressoras de que já se teve notícia e Crowley, juntamente com alguns artistas de vanguarda de sua época teve a ousadia de se colocar contra todo esse sistema de valores e criar um sistema próprio, que por pior que fosse era melhor do que o sistema estabelecido. A mente de Crowley, um misto de Nietzsche e Rabelais, com uma estética egípcia e um negro senso de humor, era, de certa forma, inescrutável. Apesar de freudianamente seus complexos serem óbvios, lendo 20

Crowley nunca se tem certeza do que ele realmente quis dizer. Ele brincava com o leitor, geralmente o superestimando (principalmente nos primeiros livros, cheios de referências obscuras imprescindíveis para a compreensão da obra). Apesar disto escreveu excelentes poesias e prosas, mas que de forma alguma superaram o interesse do mundo na história de sua vida, atribulada, trágica e cheia de aventuras como foi, por si só uma obra de arte. Na escola se mostrou brilhante e obediente, até que foi culpado injustamente de um pequeno delito e foi posto de castigo, a pão e água, o que piorou sua já fraca saúde. Tempos depois, lhe receitariam heroína para a asma, substância que usou até os 72 anos de idade, quando morreu de parada cardíaca. Crowley nunca esqueceu desse tratamento, e desde menino começou a achar que havia algo de errado com o “senso comum” da época. Decidiu ser um homem santo, e cometer o maior pecado, como em uma lenda dos Plymouth Brothers (culto de seu pai) que afirmava que o maior santo cometeria o maior pecado. Na Universidade Crowley finalmente se encontrou. Com muito dinheiro - da herança de seu pai -, e livre da repressão da família, exerceu todas as atividades pelas quais ficou conhecido: alpinismo, poesia, enxadrismo, sexo e magia, e, dizem, foi excepcional em cada uma delas. Crowley travou contato com a Golden Dawn, uma ordem pseudo-maçonica de prática ritualística e iniciatória que esteve em seu auge no fim do século passado, quando Crowley a freqüentou. Subiu rapidamente pelos graus da ordem, mas foi barrado por um grupo de pessoas que chegaram a afirmar que a “ordem não era um reformatório”. Crowley era desconsiderado pelos intelectuais e desprezado pela burguesia, fato que o pode ter levado a suas inúmeras viagens e expedições de alpinismo. Crowley pode parecer extremamente arrogante e narcisista em seus escritos, mas isso não parece ser verdade, se examinarmos sua vida a fundo. Ele sempre buscou o reconhecimento e aprovação das pessoas, e quando notou que isso não era possível, mantendo sua crítica atroz aos absurdos do puritanismo inglês, ele resolveu aparecer fazendo escândalos, reais ou falsificados, ao estilo do esteriótipo “falem mal, mas falem”. Mesmo assim em sua autobiografia “Confessions of Aleister Crowley” ele se mostrou extremamente magoado quando a imprensa marrom inglesa conhecidíssima até hoje e abominada pela família real inglesa - inventava alguma coisa absurda e terrível ao seu respeito, como em uma ocasião em que o acusaram de comer carne humana na expedição ao monte K2. A Golden Dawn recusou iniciação a Crowley, mas seu chefe, McGreggor Mathers não. Talvez interessado no dinheiro do jovem Aleister Crowley ele o iniciou, e logo se tornou um mestre para Crowley. Seus trabalhos mágicos e estudos místicos o levaram as mais diversas partes do mundo, 21

experimentando com todas as formas de catarse e intoxicação, que considerava como bases da religião. Mas pouco a pouco se distanciava de Mathers, que a essa altura já havia se proclamado em contato direto com os “mestres” que regem a Terra, e com isso seu autoritarismo se tornou insuportável. Crowley foi o único a defendê-lo até o final, quando percebeu que tudo não passava de uma farsa. A crença de que existe um grupo de iniciados secretos que carregam o conhecimento humano e são os verdadeiros “chefes” da Terra é compartilhada no sentido estritamente literal por muitas pessoas e seitas. Crowley aceitou essa idéia de uma forma ou de outra até o fim da vida, mas, empregou diversas interpretações para estas entidades, algumas baseadas na psicologia - recém estabelecida como uma ciência por Freud, na mesma época. Desiludido com a Golden Dawn, passou alguns meses afastado da magia, e pouco a pouco se reaproximou, trabalhando sozinho. Então numa viagem ao Cairo em 1904, recém casado, sua esposa começou a falar algumas coisas estranhas das quais ela não poderia ter conhecimento. Ela o mandou invocar o deus Hórus. Dessa invocação surgiu um texto pequeno, de três capítulos, intenso e esquisito, ditado por um dos “ministros” da forma de Hórus conhecida por “Hoor-PaarKraat”, Harpócrates, Hórus, a criança. Aiwass era o nome dessa entidade, depois reconhecida como o Sagrado Anjo Guardião do próprio Crowley. Com isso três coisas estão subentendidas: Aiwass era um dos “mestres” que regiam o presente Aeon, dedicado ao Deus Hórus, seu mentor; era também uma entidade não totalmente separada de Crowley, embora devesse ser tratado como tal, alguns poderiam dizer que ele era o self junguiano de Crowley - mesmo ele reconheceu isso -, outros, maldosamente, que era sua sombra - termo que em psicologia junguiana designa a parte de nós que reprimimos e que contém aquilo que temos medo de admitir. Crowley demorou cerca de cinco anos para acatar o que o texto dizia. Uma das profecias previa a morte de seu filho, que acabou por morrer mesmo, de doença desconhecida. Quando finalmente aceitou o Livro da Lei estava em contato com um corpo germânico de iniciados, que em outro livro dele “The Book of Lies” encontraram um segredo de magia sexual que pensavam ter o monopólio no ocidente. Nem Crowley havia entendido o que tinha escrito, mas aceitou mesmo assim uma alta posição hierárquica na Ordem. Era a Ordo Templi Orientis, que até hoje detém os direitos sobre os textos de Crowley posteriores a 1910. A O.T.O. existe até hoje, ou melhor, existem, visto que houveram cisões e brigas e etc, que somando com os charlatães, devem somar mais de 30 O.T.Os., por alto. A maioria clama legitimidade. Crowley perdeu muito dinheiro publicando seus próprios livros e os vendendo a preço de banana. E a incompetência de um tesoureiro da O.T.O., que perdeu um galpão cheio de livros 22

num lance mal entendido até hoje, acabou causando sua bancarrota final. Além da O.T.O. que tinha bases maçônicas, Crowley criou um corpo próprio, designado como A.: A.:, Argenteum Astrum, esse corpo, muito mais velado, deveria servir como que “escola de treinamento” para os possíveis “mestres” da humanidade. Crowley sobreviveu de doações e venda de livros até o fim da vida. Ainda viciado em heroína, pouco tempo depois de terminar seu último trabalho, um livro sobre o Tarô que Lady Frieda Harris havia pintado com suas indicações, Crowley morreu em relativa miséria (PINHEIRO, 2007). Ao comentar sobre a vida de Aleister Crowley, não podemos esquecer de mencionar o seu encontro com o poeta português Fernando Pessoa. João Alves das Neves na apresentação intitulada de “A Besta 666 em Lisboa” do livro Fernando Pessoa – Poesias Ocultistas, 1996, diz: “Quando Fernando Pessoa publicou a tradução do "Hino a Pã", de Aleister Crowley, houve quem pensasse tratar-se de mais um heterônimo. É claro que não era. A personalidade foi ortônima e vários outros a conheceram e biografaram, cada um a seu modo, como fez Somerset Maugham, na novela O Mágico”. Cremos, porém, que o primeiro biógrafo a abordar as relações do “mágico” inglês com o poeta português foi João Gaspar Simões, que conta haver sido por causa da astrologia que Fernando Pessoa veio a conhecer "um estranho homem, verdadeiro Cagliostro dos tempos modernos, em cuja complexidade e desenvoltura se acusam os traços típicos desse misto de charlatão e de inspirado que o nosso tímido mistificador debalde procurou ser." Ao ler o horóscopo de Crowley, notou Fernando Pessoa algumas falhas e apressou-se a comunicá-las: “Tempos depois, não sem surpresa (...), recebe, de Londres, uma carta de Crowley, onde o célebre mago dava inteira razão ao astrólogo português seu confrade. Estabelece-se correspondência entre os dois; Pessoa envia a Crowley os seus “English Poems”, e um belo dia o mago anuncia ao seu émulo perdido nos confins ocidentais da Europa que virá a Portugal, propositadamente, para conhecer, em carne e osso, o prodígio astrológico que ele é”. Segundo o biógrafo, Fernando Pessoa ficou muito preocupado com a não esperada visita “daquele feiticeiro - cuja espantosa biografia lhe fora dado a conhecer lendo a história das suas estranhas aventuras na obra onde discernira o erro de interpretação astrológica”. Crowley teria 55 anos quando, em 1930, chegou a Lisboa, onde desembarcou do navio “Alcântara” no dia 2 de Setembro: “Em terra, Fernando Pessoa, transido e tímido, vê avançar para ele um homem alto, espadaúdo, envolto numa capa negra, cujos olhos, ao mesmo tempo maliciosos e satânicos, o fitam repreensivamente, enquanto exclama: “Então que idéia foi essa de me mandar um nevoeiro lá para

23

cima?” - O navio atrasara a partida de Vigo cerca de 24 horas, em virtude de um espesso nevoeiro que se abatera sobre o litoral português (NEVES, 1996).
O estudo deste livro é proibido. É prudente destruir esta cópia após a primeira leitura. Aquele que se interessar o faz por sua própria conta e risco. Estes são terrivelmente medonhos. Aqueles que discutem os conteúdos deverão ser evitados por todos como focos de pestilência. Todas as questões da Lei devem ser decididas apenas com apoio em meus escritos, cada qual por si. Não há lei além de faz o que tu queres (CROWLEY, 2000, Prólogo).

Portanto, o que o autor registrou em sua obra Liber Al vel Legis Sub Figura CCXX, também chamado de Liber AL – o qual afirma ter recebido de entidades denominadas de “preterhumanas” ou “mestres secretos” nos dias 8, 9 e 10 de Abril de 1904, de 12:00h. às 13:00h., no Cairo, Egito – que segundo o próprio mago Aleister Crowley, é a base de toda sua obra escrita e é pedra fundamental do seu sistema “Mágicko” chamado de A Sagrada Lei de Thelema, é a fonte esclarecedora que através de um estudo analógico com o Liber Oz Sub Figura LXXVII se obtém o entendimento e a compreensão pretendida.

24

5. 1 OBRAS DE ALEISTER CROWLEY

Durante sua vida, Crowley escreveu e publicou muitos trabalhos. A quantidade exata de suas obras ainda é discutível, mas causa grande confusão. Isso resulta numa abordagem aleatória e confusa ao tema. Conseqüentemente, muitos estudantes perdem o tom e a sutileza da filosofia Thelêmica que só pode ser apreciada depois de se gastar algum tempo em detalhada comparação. A lista que apresentamos está em ordem cronológica, inclui todos os seus trabalhos que são merecedores de estudo. É nossa intenção colocar estes trabalhos em um formato tal que capacite à pesquisa. Sendo assim, para ajudar o estudante, cada trabalho foi classificado nos seguintes termos temáticos:
• • • • • • •

Classe 1: Poesia e Trabalhos Literários Classe 2: Diários e Registros Mágicos (Autobiográfico) Classe 3: Trabalhos Mágicos (Geral) Classe 4: Místicismo Prático e Instruções Mágicas (Iluminismo Científico) Classe 5: Trabalhos Místicos e Filosóficos (Geral ou Teórico) Classe 6: A Lei de Thelema Classe 7: Trabalhos de Magia Sexual (O.T.O.) Muitos trabalhos pertencem a mais de uma classificação, mas por conveniência

classificamos cada trabalho em termos de maior ou menos compreensivo que se aplicava aquele 25

trabalho. Os títulos que possuem um asterisco (*) podem ser considerados como os trabalhos mais importantes. Ano 1898 Obra (*) Classif. White Stains: The Literary 1 Remains Archibald Empire of George a Bishop, Descrição Uma exploração poética dos tons filosóficos e psicológicos do problema do desejo que é o tema central de toda escritura poética inicial de Aleister 1905-7 The Works of Aleister * Crowley. 3 vols. 1 Crowley. Crítico literário, Charles Richard Cammell declarou que: “por variedade, gama de versatilidade,

Neuropath of the Second

humor, assunto e maneira, estes trabalhos, não teve absolutamente na 1906-7 Diaries 2 literatura de nenhum nosso semelhante ou contraparte tempo”. Estes diários cobrem o período durante o qual Aleister Crowley “cruzou o Abismo” e deu início a 1907 Konx Om Pax: Essays in Light. 1907? Liber DCLXXI vel Pyramidos 4 3 Ordem da A.'. A.'. Uma revolta da expressão mística, mágica, política e polêmica misturadas. O Ritual básico de Iniciação da A.'.A.'. de Aleister Crowley, composto durante o Retiro do seu 1909 777 vel Prolegomena * 3 John St. John. Aleister Crowley

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Symbolica Explicandae

ad

Systemam Viae

considerava este dicionário simbólico de referencias cruzadas de religiões comparativas à Árvore da

Sceptico-Mysticae Hieroglyphicum Sanctissimorum Summae.

Fundamentum Scientiae

Vida Cabalística e à sua comparação Ocidental e de cosmo as Chinês

contribuições principais aos 1909-13 The Equinox. 10 vols. * 3 estudantes. Escrito em grande parte por ele, este periódico a semestral Científico” Crowley resume de

pesquisa do “Iluminismo Aleister que período

conduziu ao trabalho do Cairo e sua consecução pessoal do grau de Mestre do Templo da A.'.A.'., documentado na biografia secessiva de J.F.C. Fuller , “The Temple of Solomon 1909 Clouds without Water 1 the King”. Aleister Crowley

considerou ser esse trabalho 1909? Liber Collegii Sancti 4 sua alta marca d´água lírica. Este programa oficial de tarefas Externa para da a Ordem é simples A.'.A.'.

enganosamente

mas de fato oculta uma profunda compreensão da Árvore da Vida e o Caminho do Sábio que

27

nega que as

à

mentira atribuições

da do

afirmação de Ellic Howe Golden Dawn à Árvore são 1910 1910 The Winged Beetle Ambergris: A Selection from the Poems of Aleister 1910 Crowley The Scented Garden of Abdullah Shiraz 1910 The World's Tragedy 1 the Satirist of 7 1 1 “Arbitrárias”. Mais poesia de Aleister Crowley. Um compêndio popular dos melhores poemas de Aleister Crowley. Um tratado profundo sobre o caminho místico de Sufismo sob o disfarce de entusiasmo homoerótico. Esta trabalho poético e polêmico contra Yahwismo inclui o ensaio importante autobiográfico vício

de Aleister Crowley sobre o fundamentalista Cristão, “Uma Juventude 1910 Thelema. 3 vols. * 6 no Inferno”. Estes livros sagrados inspirados, escritos em um estado de alto de transe, Aleister constituem a realização de superlativa Crowley e constituem o cânon sagrado da Ordem de Thelema que não pode ser estudada ou discutida mas que só pode ser apreciada e entendida 1912 Hail Mary! 1 através de realização direta. Aleister Crowley

28

publicou poemas

este

livro escrito todas

de à as Era pela foi

Cristãos,

originalmente provar base que

deusa egípcia Ísis, para religiões compartilham uma universal. usada até por que altamente Oficial escrita 1912? The Secret Rituals of the O.T.O. 7

Imprensa Católica Romana descoberta que havia sido Aleister Crowley. Esta compilação de ritos oficiais e instruções da seção de Aleister Crowley da Ordo Templi Orientis os modernos Cavaleiros Templários - foi editada recentemente por Francis King, e não mais disponível nas livrarias. Ao contrário da opinião popular, o segredo central da O.T.O. não era Magia Sexual per si, mas o coitus reservatus, ou o segredo de alcançar orgasmo sem ejaculação física 1913 The Book of Lies which Is * also Falsely Called Breaks: The Wanderings or Falsifications of the One 6 (veja Liber Crowley seu mais CCCLXX). Aleister enigmas profundo 29 ser e

considerava seu livro de completo

Thought of Frater Perdurabo, which Untrue Thought Is Itself

comentário sobre Livro da Lei. A escritura do livro era uma experiência em “entusiasmo energizado”,

mas não é considerado ser 1913 The Lost Continent 7 canônico. Modelado sobre o mito de Atlântida, o qual Aleister Crowley teve o bom senso para não levar literalmente, este livro é um tratado político alegórico e um do estudo Segredo

Supremo da O.T.O., como 1913 Book Four. 2 parts * 5 reconheceu Kenneth Anger. Originalmente contemplado partes respectivamente introdução clássica e um à de tratado do em quatro partes, as duas primeiras consistem de uma raja-ioga Patanjali, sobre o

baseado na sua Ioga Sutras, simbolismo Mágico, interpretado Templo uma

misticamente como

projeção do inconsciente do 1914 The Soul of the Desert 5 Magista. Este pequeno livro sobre virtude do Silêncio Mágico, se aproxima da sublime 1914 De Arte Mágicka 7 simplicidade do Zen. Um tratado técnico sobre várias 30 considerações

pertinentes 1914 The Paris Working 7

ao

Segredo

Supremo da O.T.O. Um exemplo prático detalhado de um Trabalho Mágicko Segredo muitos fundamentais baseado Supremo no da

O.T.O. Este livro revela segredos inclusive

Aleister Crowley como o 1914-20 The Magical Record of the Beast 666: The Diaries of Aleister Crowley. 2 daemon-logos do Aeon. Este registro inclui uma extensa Supremo Suprema consecução Crowley 1916 Liber LXX 6 ao série Segredo Ordália de grau de da da de experimentos utilizando o O.T.O., e faz alusão à Aleister

Ipsissimus da A.'.A.'. O ritual por meio do qual Aleister Crowley anulou formalmente a “sombra” do Aeon do Deus Morto, a “Grande Feitiçaria”, assim clareando o caminho para o advento do reino de Hórus, a Criança. O estudo de Aleister Crowley das origens e significados simbólicos do

1916

The Gospel According to St. George Bernard Shaw

5

1918

The Amalantrah Working (Liber XCVII)

6

culto Cristão. Este Trabalho constitui a melhor evidência de Aleister Crowley para sua 31

reivindicação básica de comunicação inteligências 1918 Liber Aleph vel CXI:The * Book of Wisdom or Folly 6

científica estar em com extra-

humanas. Um resumo profundo da Lei de Thelema escrito em um estado alterado mas de não consciência,

considerado ser um livro 1919 1. The Equinox. Vol. III, No. 6 sagrado. Este é o primeiro e único número de uma segunda série proposta do The Equinox a ser publicada, antes de Aleister Crowley finalmente dinheiro. O ficar número sem II

alcançou as gráficas mas nunca foi liberado. Este livro inclui vários dos principais documentos

constitucionais da O.T.O de 1922 The Law Is for All * 6 Aleister Crowley. O longo comentário de Aleister Crowley sobre o Livro da Lei. Correlaciona as profecias do livro com eventos atuais e provê um fundamento 1922 Preliminary Analysis of * Liber LXV 6 para sua interpretação esotérica. Este extraordinário trabalho Consecução Conhecimento 32 sobre a do e

Conversação do Sagrado Anjo Guardião é o mais compreensivo e profundo comentário de Aleister Crowley sobre um Sagrado 1922 The Diary of a Drug Fiend 6 Livro Thelêmico. Aqui ele desvela um caminho denominados de Luz, 1923 The Magical Diaries of To Mega Therion, the Beast 666, 1929 Aleister Crowley, 2 Este extenso e penetrante auto-estudo dos primeiros Rethe of Aleister 54 anos da vida de Aleister Crowley, busca documenta sua diligente, suas e psíquicas Logos Aionos Thelema, 93. The Spirit of Solitude: An * Autohagiography, Subsequently Antichristened Confessions Crowley. 6 vols. 2 Vida, Amor e Liberdade. Mais diários de Aleister Crowley.

experiências

paranormais, os Trabalhos do Cairo, e sua consecução ao grau de Magus da A.'.A.'. e desmistifica a Busca completamente 1929 Moonchild: A Prologue 7

Mística. Uma apresentação fictícia do Supremo Segredo da O.T.O. no contexto da luta universal Fraternidades entre Branca as e

1929

Magick in Theory and * Practice

3

Preta. Parte III do livro IV, foi descrito por Aleister Crowley como uma cidade 33

1936

The Scientific Solution of the Problem of Government

6

dentro de uma cidade. Este importante folheto fornece uma rara percepção da aplicação prática da Lei de Thelema aos políticos, especialmente jurisprudência, potencialmente eliminando tanto a lei comum quanto a lei estatutária com e os uma substituindo da

profunda teoria filosófica Verdadeira Vontade, como também superando a antítese de estado e o 1936 The Equinox of the Gods * 6 homem. Parte IV do Livro IV finalmente consentido com instruções de publicação da “Iwaz”, análise de igual inclusive intensiva Crowley relações uma da e de

metodologia de exegética Aleister nas alguma perspicácia sem

Aleister Crowley com seu 1938 The Heart of the Master 6 “Sagrado Anjo Guardião”. Um ensaio sobre “Aeonologia bem como Thelêmica” um relato

brilhante do Atus do Tarô 1938 Little Essays toward Truth * 5 na luz da Grande Obra. Um resumo dos resultados importantes 34 técnicos da mais Grande

Obra que constitui a base universal da espiritualidade humana. Este livro é a principal contribuição de Aleister literatura 1942 Liber LXXVII 6 Crowley da à “filosofia

perene”. A declaração Thelemica dos Direitos do Homem no Aeon respeito de ao Hórus, direito com à

liberdade é tão igualmente absoluto quanto o direito de viver provê a fundação para uma 1943 1943 The City of God Magick without Tears * 1 3 constituição Thelemica do futuro. Uma celebração poética do gênio russo. Este volume repleto de correspondências as Escolas de inclui Magia importantes ensaios sobre Branca, Negra e Amarela, metafísicas e as conclusões amadurecidas de Aleister Crowley relativas ao estado de ontológico do Sagrado 1944 The Book of Thoth * 6 Anjo Guardião. Este profundo tratado sobre o Caminho do Sábio sob o disfarce de um livro sobre adivinhação de Tarô contesta a afirmação insensata de que no fim da vida, o cérebro de Aleister 35

1944

The Thoth Tarot

*

6

Crowley foi “amaciado”. Geralmente considerado como a melhor capitulação moderna do baralho de Tarô, representando em da mágicka” forma gráfica a expressão simbólica “personalidade de Aleister Crowley.

Fonte: www.otobr.com

36

6 LIBER OZ SUB FIGURA LXXVII

As implicações ultrapassam os significados originais. O autor não estaria ciente de novas circunstâncias. Apesar disso, elas se enquadram legitimamente no padrão de significado pretendido por ele. Passaremos à compreensão e interpretação do Liber Oz Sub Figura LXXVII baseando-se no trabalho editado e publicado na internet por Rubens Bulad (2003) que são comentários de Marcelo Ramos Motta, o primeiro tradutor do Liber Al vel Legis comentado por To Mega Therion 4, da língua inglesa para a língua portuguesa, Marcelo Motta foi um dos primeiros brasileiros a entrar em contato com a filosofia thelêmica e com o próprio Aleister Crowley.

4

Nota de M. – To Mega Therion é o próprio Crowley.

37

O Título: Liber Oz Sub Figura LXXVII

Aleister Crowley escreveu Liber Oz Sub Figura LXXVII em 1942 para Louis Wilkinson (AKA Louis Marlow). O nome original do escrito era “O Livro da Cabra” o autor o considerou como um tipo de manifesto para O.T.O. (SCRIVEN, 2007). Liber Oz tende a significar “o Livro da Cabra” e “sub figura” seria uma das formas de elocução suscitadas pela imaginação, e que emprestam ao pensamento mais energia, mais vivacidade, e/ou conferem à frase mais beleza e graça (Idem). “OZ”, em hebreu, carrega vários significados. Dentre eles, significa “força”. Pronunciado “ezz” significa “ela-cabra”. Pronunciado “ahs” significa “forte”, mas pretende significar “levar refúgio”. Tanto nas cartas de Tarô, quanto na Cabala hermética Ayin Zayin que segundo a gematria - sistema criptográfico que consiste em atribuir valores numéricos às letras –, muito utilizada em todos os escritos de Aleister Crowley, somam 77, qual número também formula como “BOH”, “rezou”; e “MZL”, a influência de “Kether”, que é a esfera superior das dez esferas da Árvore da Vida, segundo a Cabala, traduzindo como “sorte” (Idem). Aqueles que aceitam esta declaração notavelmente simples e poética dos direitos naturais da humanidade, escrito completamente em “palavras de poucas sílabas”, que possui um sentido profundo, que se contemplado representa “a força” e o “refúgio”; e, se as orações são ferventes, e a “sorte” oferece, poderiam não ser abatidos sem atingir o seu alvo, a auto-realização (Idem). 38

O autor pretendia comunicar suas informações. Valeu-se, então, de um código de linguagem para transmitir sua mensagem – “Oz”, “sub figura”, “LXXVII”. O significado não pode ser alterado, pois o autor, levando em consideração suas possibilidades de interpretação, submeteuse conscientemente às normas de linguagem com as quais o leitor familiarizado (qualquer pessoa que entenda esse código de linguagem mística, o thelemita, o cabalista, etc.), pudesse entender. Da mesma maneira, os textos produzidos pelos autores da Bíblia, movidos pelo “Espírito Santo”, têm implicações que abrangem o significado específico que eles, conscientemente, procuraram transmitir. Isso é razoável, uma vez que o leitor deverá compreender a linguagem utilizada. “A Lei do Forte: esta é a nossa lei e a alegria do mundo”. AL II, 21. AL II, 21. Nós nada temos com o incapaz e o expulso: deixai-os morrer em sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é o vício dos reis: calcai aos pés os desgraçados e os fracos: esta é a lei do forte: esta é a nossa lei e a alegria do mundo. Não penses, ó rei, naquela mentira: Que Tu deves Morrer: em verdade, tu não morrerás, mas viverás. Agora seja isto compreendido: Se o corpo do Rei se dissolve, ele permanecerá em puro êxtase para sempre. Nuit! Hadit! Ra-HoorKhuit! O Sol, Força & Visão, Luz; estes são para os servidores da Estrela & da Cobra. Respeitando o conteúdo integral do texto, extraído do Liber AL vel Legis podemos analisar o termo “incapazes” como aqueles que não absorvem a mensagem Espiritual da Lei de Thelema, aqueles que não puderam concebê-la. “Expulsos” seriam aqueles que tentaram, mas não conseguiram. A receita para a compreensão é simples: “Nós nada temos com eles”. Não falamos com eles, não argumentamos com eles, não tentamos consolá-los, não tentamos auxiliá-los. Conseqüentemente, “deixe que morram em sua miséria”. O fértil panteão de deuses egípcios foi uma das fontes de onde Crowley mais buscou estereótipos que comporiam os seus próprios deuses. Além da já citada Nuit, uma variação da deusa Nu, Crowley aproveitaria conceitos como de Osíris, Hórus, Ra-Hoor-Khuit, Ísis, poeticamente entendida por Crowley como acróstico de “Infinite Space, and the Infinite Stars”, e tantos outros deuses mais, para formular o panteão de sua religião. E há ainda quem remonte a criação de seus deuses a culturas ainda mais longínquas, relacionando, por exemplo, Aiwass, a entidade que segundo o autor, ditou-lhe o Líber AL vel Legis, com deuses cultuados na antiqüíssima Suméria. O par de deuses que surgem no contexto da frase: “A Lei do Forte: esta é a nossa lei e a alegria do mundo”, é chave dentro do panteão de divindades cultuadas pelos thelemitas, é o casal estelar Hadit e Nuit, representações divinizadas do ponto e do círculo. Hadit, de acordo com os 39

Livros Santos Thelêmicos, é um deus que se apresenta dizendo: “Eu estou só. Não há deus onde eu sou”. A origem desta breve fala está intrinsecamente relacionada a Isaías 45:5: “Sou eu que sou o Senhor, não existe outro senão eu”. Nuit, por sua vez, que aparece em Líber AL como a “Rainha do Céu” a quem se deve queimar incenso segue o modelo da divindade estelar cultuada assim como a inspirada descrição bíblica apresentada em Jeremias 44:15-19. O texto indica que não se deve “ajudar os fracos”. Mas não existem “fracos”; não há diferença. O sentimento de “piedade” é uma projeção psicológica. É uma ilusão do ego. Na realidade, o “fraco” está cônscio de seu abjeto estado de escravidão. Por este motivo ele se nega em realizar a sua Verdadeira Vontade. Portanto, o texto incita: “calcai aos pés os desgraçados & os fracos”. Isto não quer dizer calcai aos pés o proletariado. O proletariado tem provado à sobeja que ninguém o calca aos pés impunemente - os sindicatos é uma prova desta afirmação. E se alguém o calcasse aos pés impunemente – ora, então, ele mereceria ser calcado – e continue-se a calcá-lo até que morra ou se erga. Em qualquer dos dois casos ele se erguerá. Pois eles renascem mais cônscios de sua verdadeira Vontade – Hadit. O texto mostra outra forma pela qual se pode conhecer os “fracos”, é que eles são incapazes de compreender a fórmula de Hórus – “O Sol, Força & Visão, Luz; estes são para os servidores da Estrela & da Cobra”. Eles persistem em interpretar tudo em termos da fórmula de Osíris – que seria a era patriarcal, ou melhor, pela visão do cristianismo. Pois segundo a Lei de Thelema a humanidade já passou por três “Aeons”; o Aeon de Ísis (período pagão), Aeon de Osíris (o cristianismo, Idade das Trevas), e o Aeon de Hórus (a Nova Era, período atual, de modificações em todos os aspectos da humanidade). Os “fracos” acham que iluminação espiritual só pode ser conquistada através de pobreza e humildade moral, características advindas do cristianismo. No entanto, segundo a Lei de Thelema, todo homem e toda mulher já são “Iluminados”, “Estrelas”, podem ser ricos e orgulhosos. O Vaticano é o segundo poder financeiro do mundo atual. Maior que ele, só os judeus. E quanto a orgulho - quer maior orgulho do que um fulano qualquer pensar que está capacitado para ensinar como viver a sua própria vida? Ou pior – como morrer sua própria morte? Um escritor judeu de grande sensibilidade – Franz Kafka – escreveu um romance que ele chamou de “A Metamorfose”, no qual a personagem Gregor Samsa sofre este drama. Se você demonstra orgulho, você deve ser rebaixado. “Os últimos serão os primeiros”. “Os humildes herdarão a terra”. Mas para Crowley, a idéia do deus sacrificado, Jesus, o nazareno, é uma idéia totalmente errônea. A idéia implicada é que o sacrifício do Rei dá vida e substância ao seu “povo”. 40

“Pelos sofrimentos dele nós fomos sarados”. “Jesus morreu pelos nossos pecados”. Tudo isso é descartado como mera tolice. É o espírito da escravidão manifestado. Este ideal do cristianismo estaria obsoleto, pois como o autor afirma a seguir: “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. Seguindo esta forma de pensamento, podemos dizer que se um homem ou uma mulher se identifica com os “pobres”, este será pobre. Portanto, uma vez mais, seria como se o autor quisesse dizer “cristãos aos leões”. Ou, se preferir: “deixa que os mortos enterrem seus mortos” – nota-se a influência do trauma, causado pela religião, vivido por Crowley na infância. Lembrando: “Nós nada temos com o incapaz e o expulso”. Nós nada temos com o Vaticano, com o Cristianismo, com Budismo, Islamismo, Bramanismo ou Taoísmo. Tudo que era verdadeiramente espiritual nessas correntes religiosas seria “purgado” pela verdadeira Vontade de cada ser humano, e isso fica bem explícito, na declaração: “Faz o que tu queres”. “Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei”. AL I, 40. AL I, 40. Quem nos chama Thelemitas não fará erro, se ele olhar bem de perto na palavra. Pois ali há três graus: o Eremita, o Amante, e o Homem da Terra. Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei. A “Lei”, que aqui é resultante da concretização de um feito do querer, pois, “há de ser”, justifica que cada pessoa possui uma Vontade verdadeira, uma única motivação geral para existir. A Lei de Thelema - Lei da Vontade - exige que cada pessoa siga sua Vontade verdadeira para alcançar a auto-realização e se libertar das limitações da vida condicionada. A frase “Faz o que tu queres” também não teria sido uma criação original de Aleister Crowley. Ela possui como elementos fundamentais, alguns princípios sacados livremente por Crowley das mais variadas fontes, com as quais ele esteve em contato. A frase tem antecedência em santo Agostinho que proclamou, ainda na aurora do cristianismo, “ama e faze o que quiseres” 5, uma de suas principais referências é em François Rabelais6, que já havia dito em um de seus textos: “Fais ce que veulx” 7. Crowley buscou o conceito
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Nota de M. - Homilia sobre a Primeira Epístola de São João, VII, VIII: Então, um pequeno preceito é fornecido aqui: Ama, e faze o que tu queres: se tu carregares esta paz, do começo ao fim o amor carregará esta paz; se tu choras, do começo ao fim o amor chorará; se tu és correto, do começo ao fim o amor será correto; se tu estiveres vazio, do começo ao fim o amor preencherá este vazio: deixa a raiz do amor ser interna, que nada possa brotar desta raiz a não ser coisas boas.
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Nota de M. - François Rabelais (1494?-1553) foi um Francês humanista, médico e satirizador cujos principais trabalhos foram Os Terríveis Feitos e Atos da Destreza de Pantagruel, Rei dos Amalucados (1532)e A Mui Terrível Vida do Grande Gargantua (1534), mais tarde coletados em Gargantua e Pantagruel. 7 Nota de M. - Francês, "Faz o que tu queres." No original de Rabelais é “Faictz ce que vouldras”, do Gargantua (1534); veja cap.54 da primeira edição (cap.57 do livro I de Gargantua e Pantagruel).

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de sua famosa “Abadia de Thelema” nos “Provérbios do Inferno” de William Blake, que dizia “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”, Crowley encontraria inspiração para recomendar que seus discípulos “excedessem” – fizessem o que quisessem - do filósofo Nietzsche, considerado por Crowley uma espécie de “avatar de mercúrio”, seria absorvida a forte idéia anticristã da completa negação de Deus. “Não há Deus”, diz enfaticamente o filósofo em seu Anticristo, ao que Crowley completa mais adiante, a inspirada declaração: “não há deus senão o homem” (RAPOSO, 2004). Segundo o autor, no seu comentário sobre o Liber Al vel Legis a frase “Faz o que tu queres” quer dizer: O Eremita, invisível, embora iluminando, seria a A.’.A.’. a Ordem “Argenteum Astrum” – a Estrela de Prata. O Amante, visível, a luz faiscante - o Colégio dos Adeptos. O Homem da Terra - a Torre Fulminada, que é o arcano número XVI do Tarô. As três chaves somam, segundo a gematria, 31 = (Não) e (Deus). Assim é o total de “Thelema” equivalente a Nuit, tudo contendo. Veja os arcanos do tarô para um estudo mais profundo destes graus. 14, o Pentagrama, domínio do espírito sobre a matéria ordenada. Força e Autoridade e secretamente 1 + 4 = 5, “O Hierofante”, arcano número V. Também “O Leão e O Carneiro”, em Isaías da Bíblia. 38, a palavra chave “Abrahadabra”, 418, dividida pelo número de suas letras, 11. Justiça ou Balança e o Carro ou Magistério. Um estado de progresso; a Igreja Militante. 41, o Pentagrama Invertido. Matéria dominando espírito. O Enforcado e o Tolo. A condição daqueles que não são “Iniciados”. “Faz o que tu queres” necessita não somente ser interpretado como “licença” ou mesmo como “Liberdade”. Deve, por exemplo, ser tomado como significando, “Faz o que tu (Ateh) queres; e Ateh é 406 = T, o signo da cruz. A passagem pode então ser lida como uma carga ao auto-sacrifício ou equilíbrio. As implicações do contexto do Liber AL são significativas, Crowley fez a fundação da Abadia de Thelema o clímax definitivo da sua história de Gargantua, de François Rebelais; ele descreve seu ideal de sociedade 8. Portanto, ele estava com certeza ocupado com a idéia do Novo Aeon, e ele viu, embora talvez vagamente, que “Fais ce que veulx” era a “Fórmula Magick”

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Nota de M. - Gargantua e Pantagruel, livro I, cap. 52-57, tem uma descrição da Abadia e suas regras monásticas: "LII: Como Gargantua Originou a construção da Abadia de Thelema para o Monge." "LIII: Como a Abadia dos Thelemitas foi construída e dotada." "LIV: A Inscrição colocada sobre o Grande Portal de Thelema." "LV: Qual o Modo de Residência que os Thelemitas têm." "LVI: Como os homense mulheres da Ordem Religiosa de Thelema foram adornados." "LVII: Como os Thelemitas foram governados, e da sua maneira de viver." Este capítulo ensina "Toda as suas vidas foram gastas não em leis, estatutos, ou regras, mas de acordo com suas vontades livres e prazer...Em todas as suas leis e mais severos laços da sua ordem, havia apenas uma clausula a ser observada: Faze o que tu queres será o todo da lei."

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requerida. Pois até mesmo um Cardeal chamado Jean du Bellay, de fato, reportou a Francis I que “Gargantua” era um “Novo Evangelho” 9. Segundo estudiosos da Lei de Thelema, este foi, de fato, o livro que faltava à Renascença; se tivesse este sido tomado como deveria, o mundo poderia ter dispensado o Protestantismo. Como o caráter de sua parábola demanda, ele confina a si próprio a pintar uma pintura de pura Beleza; ele não entra na questão da política econômica - e assuntos como este - o qual tem que ser resolvido de modo a realizar o ideal da Lei da Liberdade. Mas ele diz claramente que a religião de Thelema é para ser contrária a todas as outras. Verdade, pois Thelema é “Magick”, seria uma ciência, a antítese da hipótese religiosa10. “tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade. Faz aquilo, e nenhum outro dirá não”. AL I, 42-43.

AL I, 42. Deixa estar aquele estado de multiplicidade amarrada e odienta. Assim com teu tudo: tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade. Aquele que não faz a sua vontade seria como um corpo devorado pelo câncer, doença com crescimento independente, que não se consegue extirpar. A idéia de auto-sacrifício é um câncer moral exatamente neste senso, para Crowley. Similarmente, pode-se dizer que não fazer a própria vontade é evidência de insanidade mental ou moral. Quando “o dever aponta numa direção, e a inclinação pessoal noutra”, isto é prova de que você não é um, mas dois. Você ainda não centralizou seu controle. Esta dicotomia é o princípio de conflito, que pode resultar num efeito do tipo Jekyll-Hyde de Stevenson, em O Médico e o Monstro, e sugere que pode vir a ser descoberto que o homem é “uma mera agremiação” de muitos indivíduos. É claro que é melhor expulsar ou destruir um irreconciliável. “Se teu olho te ofende, arranque-o fora”. O erro na interpretação desta doutrina tem sido que ela não foi tomada tal como está. Ela tem sido interpretada assim: “Se teu olho ofende algum padrão artificial de direito, arranque-o fora”. A maldição da sociedade humana tem sido a moralidade a idéia de “pecado”, a ética do rebanho. A gente pensaria que uma simples olhada à Natureza bastaria para desvelar seu

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Nota de M. - Cardeal Jean du Bellay (1492-1560) foi o principal patrono de Rabelais, e Francis I (1494-1547) foi o Rei da França.

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Nota de M. - Veja também Liber Al vel Legis, Liber Al III:49-54.

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plano de individualidade tornada possível pela Ordem. Segundo Crowley e sua religião, “a palavra de pecado é restrição” 11. Crowley é bem claro sobre o que significa “Restrição”. Ele diz: “qualquer coisa que prenda a vontade, que a impeça, ou que a desvie, é “Pecado”. Sendo, pois, a restrição da vontade pessoal o principal obstáculo ao desenvolvimento individual, o esforço do fiel da religião thelêmica, o thelemita, deve ser orientado no sentido de identificar dois pontos básicos: a Vontade verdadeira e os elementos que impedem a sua manifestação. Eliminando o segundo, aquele faria o homem brilhar como estrela: “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. Portanto, direcionando a nossa imaginação para visualizar o pensamento de Crowley, chegaríamos a seguinte conclusão, que a lei constitucional seria o próprio cadáver da Justiça. A moralidade seria o cadáver da conduta. Religião a carcaça do medo. Felicidade seria o estado mental resultante do preenchimento livre de uma função. Um homem sagrado, seria, na opinião de Crowley, aquele que não fosse limitado por desejos padronizados pela débil normalidade. AL I, 43. Faze aquilo, e nenhum outro dirá não.

O significado geral deste verso é que tão grande é o poder de impor nosso direito que ele não será disputado por muito tempo. Pois assim fazendo nós apelamos para a Lei. Na prática é visto que a pessoa que está pronta para lutar pelos seus direitos é respeitada e deixada em paz. O espírito de escravidão convida a opressão.

“Todo homem e toda mulher é uma estrela”. AL I, 3 AL I, 3. Todo homem e toda mulher é uma estrela. Líber Oz Sub Figura LXXVII é aplicado a todos os homens e mulheres. Quem o aceita, reivindica estes direitos como sendo seus; mas também reconhece que eles pertencem como bem a todo outro homem e mulher, não a um ser individual, não só aos “Thelemitas”. “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. Assim, aceitando Líber Oz Sub Figura LXXVII, não se deveria infringir nos direitos de outros.

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Nota de M. - Liber Al I: 41.

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Não é para haver separação de sexos, O Livro da Lei é ainda mais explícito sobre este princípio social fundamental
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. Contudo, isto não nós leva a nenhuma sugestão de teorias

comunistas; elas são de fato especificamente repudiadas. A ética do Aeon de Hórus é igualmente individualista. “Vós reunireis provisões de mulheres e especiarias; vós vestireis ricas jóias” 13. Sua principal asserção é que cada ser humano é um elemento do Cosmo, auto-determinado e supremo, co-igual com todos os outros “Deuses”. Disto, a Lei “Faz o que tu queres” segue logicamente. Não existe deus senão o homem. Neste enunciado, o autor suspende as indicações que levam ao Líber Al vel Legis. O discurso do Líber Oz Sub Figura LXXVII passa a ser feito “dele” para “ele”, num movimento que indica interioridade do próprio discurso, o enunciado é do próprio Líber Oz e não do Líber Al. E isto acontece, de forma até bastante visual, no centro do próprio discurso. Neste ponto, gostaria de esclarecer certos mal-entendidos que existem com relação a esta frase, que também pode ser analisada, indevidamente, como um tipo de oxímoro. Entretanto, talvez não tenhamos uma idéia muito clara do que ela significa. Por este motivo, existem alguns sérios mal-entendidos sobre ela. Para o entendimento desta frase é necessário não pensarmos consciente ou inconscientemente, em termos cristãos, ou no mínimo em termos teístas, o que significa, em termos de um Deus pessoal, um ser supremo que criou o universo e que governa por sua providência. Para o Cristianismo Ortodoxo, como sabemos, Deus e o homem são seres inteiramente diferentes. Deus está “lá em cima” e o homem “aqui embaixo” e há um grande abismo entre os dois. Deus é o criador. Deus criou o homem, do pó. O homem é a criatura. Ele foi criado, segundo alguns relatos, como um ceramista cria um vaso. Além disso, Deus é puro, Deus é sagrado, Deus é sem pecado. Mas o homem é pecador, e o homem nunca pode tornar-se Deus. Tal idéia não teria sentido segundo o cristão ortodoxo, a tradição teísta. Não apenas isso. Com apenas uma exceção, Deus nunca tornou-se homem. A exceção, obviamente, é Jesus Cristo que, para o cristianismo ortodoxo, é deus encarnado. Obviamente, para o cristão ortodoxo, o homem não é Deus. (Só existe um Deus, de qualquer modo). Igualmente óbvio, ele não é Deus encarnado, uma vez que segundo o
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Nota de M. - Veja Liber Al I: 12 13; I: 41; I: 51-53: II: 52. Nota de M. - Liber Al I: 61.

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ensinamento cristão, Deus encarnou só uma vez, como Jesus Cristo, há mais de 2000 anos atrás. Então, sobraria apenas o homem. E o homem é classificado como homem comum, essencialmente como qualquer outro. Mas, por melhor que ele possa ser, ainda é visto como incomensuravelmente inferior a Deus e a Cristo. O segundo equívoco surge do primeiro. É costume dizer, mesmo entre os eruditos cristãos especializados em teologia, que embora o Cristo tivesse sido apenas um homem comum, seus seguidores o tornaram um Deus. Isso é indicado em Lucas 4:8, onde Jesus não pede para que os cristãos se ajoelhassem diante da imagem de um crucifixo e o adorasse. Freqüentemente lemos em livros, mesmo hoje, após mais de dois mil anos, que após sua morte os seguidores de Jesus o “deificaram”. Isto pelo fato de os cristãos venerarem o Cristo; bonés, camisetas, frases estampadas e outros suvenires com a imagem séria de um Cristo que nunca sorriu. E obviamente, a veneração é devida apenas a Deus, de acordo com a citação bíblica supracitada. Se um homem venera alguém ou algo, um cristão inevitavelmente pensará que se está tratando como Deus. Assim como muitos acreditam que budistas adoram a “imagem” do Buda. Os mal-entendidos podem ser esclarecidos facilmente. Tudo que se deve fazer é se libertar do condicionamento cristão, um condicionamento que afeta – ao menos inconscientemente – até mesmo aqueles que não mais se consideram cristãos. Esta frase comprova a forte admiração que Aleister Crowley inspirava pelo filósofo Nietzsche e ao budismo. A frase também é uma alusão ao texto bíblico de Salmos 10:1; 6. Não devemos supor, entretanto, que os textos bíblicos que tão fortemente marcaram a vida de Aleister Crowley, formem a única fonte de seu culto thelêmico. Há também em seu sistema de realização espiritual, muito de yoga, de magia e de misticismo. Do oriente, Crowley sorveu dos escritos de Vivekanada e Patanjali; enquanto que, do ocidente, todo o sistema de magia, assim como lhe ensinado pela G.'.D.'. original, foi aproveitado para que ele montasse o seu próprio sistema iniciático, e também sua magick. Em relação ao misticismo, muito foi revivido por Crowley a partir de ensinamentos que remontam a época das seitas gnósticas, em espécie aquelas relacionadas à Basilides e Valentino, os quais foram considerados por Crowley como autênticos Santos de sua Igreja Católica Gnóstica. Tão marcante é a influência destes na mente de Crowley que um dos principais ícones da crença thelêmica, Baphomet, foi concebido por ele a partir da suposta compreensão mística que lhe davam estes gnósticos. Desta forma podemos interpretar que a frase quer dizer que Deus não é externo ao homem, e nem o homem é externo a Deus, Deus estaria no homem, assim como o homem estaria 46

em Deus. Há também aqueles que interpretam “não existe deus senão o homem” analogamente ao Islã e seu fervoroso clamor “não há deus senão Alá”. Certamente, não existe como evitar esta comparação, principalmente se levarmos em consideração a admiração pelo Islamismo, nutrida por parte de muitos seguidores da religião thelêmica. Sobre a crença fundada por Maomé, Crowley vai além, afirmando que “os dogmas do Islã, retamente interpretados, não estão longe do nosso caminho de Vida e Luz e Amor e Liberdade. Isso se aplica especialmente ao dogma secreto. O credo externo é mera tolice apropriada à inteligência dos povos entre os quais foi promulgado; mas assim mesmo, o Islã é magnífico na prática. Seu código é o de um homem com coragem e honra e respeito próprio” (RAPOSO, 2004). 1. O ser humano tem o direito de viver pela sua própria lei; de viver da maneira como quiser viver; de trabalhar como quiser; de brincar como quiser; de descansar como quiser; de morrer quando e como quiser. 2. O ser humano tem o direito de comer o que quiser; de beber o que quiser; de morar onde quiser; de se mover como quiser sobre a face da terra. 3. O ser humano tem o direito de pensar o que quiser; de falar o que quiser; de escrever o que quiser; desenhar, pintar, lavrar, estampar, moldar, construir como quiser; de se vestir como quiser. 4. O ser humano tem o direito de amar como quiser: No capítulo 49 de “Magick Without Tears” o autor declara: “Violar os direitos de outro é perder a própria reivindicação da proteção no assunto envolvido”. Se alguém nega os direitos de outro, esse alguém negou a mesma existência desses direitos; e eles são perdidos para este. Não é um direito que se possui e se nega a outros. Portanto, enquanto uma pessoa pode possuir “o direito de amar quem quiser”, o outro pode “não querer ser amado por esta pessoa” (CROWLEY, 1988). O Líber Oz Sub Figura LXXVII não justifica o estupro, por exemplo. Um homem pode ter o direito de “pintar, esculpir... Como ele quiser, “mas o Líber Oz Sub Figura LXXVII não lhe comprará os materiais de arte. Realmente, ele pode ter o direito “de beber o que ele quiser”, mas, o 47

Líber Oz não lhe dará a habilidade para dirigir um carro seguramente, operar uma máquina... (SCRIVEN, 1997). O Líber Oz não provê abrigo das conseqüências e repercussões do exercício de nossos direitos naturais. O direito de um homem “descansar como quiser”, não o salvaguarda contra perder o sustento; o direito “de comer o que quiser” não o imuniza contra a obesidade; o direito “de falar o que quiser” não o abriga de críticas, ridicularizações, processos, ou a perda de amizade; o direito “de amar como quiser” não o isenta de paternidade; e o direito “de matar esses que contrariariam estes direitos” não o protege da cadeia ou da cadeira elétrica. O Líber Oz Sub Figura LXXVII não provê nenhuma garantia que o exercício de qualquer uso destes direitos naturais do homem tenha sucesso, felicidade, realização, satisfação, ou qualquer outro “resultado positivo” (Idem). O Líber Oz não livra de obrigações. Não justifica mentindo. Com estes direitos em mente, desfrute a vida. Os exercite para descobrir a “Verdadeira Vontade” e realizá-la. “Quando necessário, lute por seus direitos, e pelos direitos de todos os homens e mulheres” (CROWLEY, 1988, capítulo 49 - 72). Thelema traz ainda um alentado apelo liberal, que a mente menos perspicaz, em espécie aquela presa ou afetada por dogmas religiosos relacionados a proibições sociais e a sexualidade reprimida, pode entender como promíscuo ou libertino. Ainda sobre “pecado” ser identificado com “restrição”, por exemplo, Crowley completa: “o instinto sexual é uma das mais profundamente enraizadas expressões da Vontade; e não deve ser restringido”. Ele é ainda mais enfático e claro quando diz que “o homem tem o direito de amar como quiser: tomai sua fartura de amor como quiser” (Idem). Portanto, o direito de “amar como quiser” livra a obrigação imposta de “amar ao próximo como a si mesmo”. E autoriza o direito de “amar mais a si mesmo do que amar a qualquer um outro Ser”. “tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes”, AL I, 51. AL I, 51. Há quatro portões para um palácio; o chão daquele palácio é de prata e ouro; lápis-lazúli & jaspe estão ali; e todos os perfumes raros; jasmim & rosa, e os emblemas da morte. Que ele entre sucessiva ou simultaneamente pelos quatro portões; que ele fique de pé no chão do palácio. Não afundará ele? Amn. Ho! Guerreiro, se teu servo afunda? Mas há meios e meios. Sede bons portanto: vesti-vos finamente; comei comidas ricas e bebei vinhos doces e vinhos

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que espumejam! Também, tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes! Mas sempre para Me. A ligação com o Líber Al é retomada, dando a indicação filosófica ao leitor sobre o significado pretendido pelo autor. A frase parece descrever uma iniciação, ou talvez “A Iniciação”, em termos gerais. Sugeriríamos que o “Palácio” é a “Casa Santa” ou “Universo do Iniciado da Nova Lei”. Os quatro portões são talvez Luz, Vida, Amor, Liberdade – leia De Lege Libellum de Aleister Crowley. Lápis Lazúli é um símbolo de Nuit, Jaspe de Hadit. Os perfumes raros são, possivelmente, vários êxtases e “Samadhi” segundo Patanjali. Jasmim e Rosa são hieróglifos dos dois Sacramentos principais, enquanto os emblemas de morte podem referir-se a certos segredos de uma bem conhecida escola “exotérica” de iniciação cujos membros, com raríssimas exceções, não sabem o significado de seus símbolos. A questão então se ergue de como o Iniciado será capaz de ficar de pé firmemente neste “Lugar de Elevação”. Parece que isto se refere à vida ascética, comumente considerada como uma condição essencial da participação nestes mistérios. A resposta é que “há muitos meios”, implicando que nenhuma regra única é padrão. Isto está em harmonia com a interpretação geral da Lei; existem tantas regras quanto há indivíduos. A frase “tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes” é fácil de compreender, como se devêssemos gozar a vida completamente, de uma maneira absolutamente normal, exatamente como os livres e os grandes sempre fizeram no passado. O único ponto a recordar é que cada um é um membro do “Corpo de Deus”, uma Estrela no “Corpo de Nuit”. Isto sendo assegurado, urge-se que atinjamos a mais completa expansão de nossas diversas naturezas, com atenção especial a esses prazeres que não só expressam a alma, mas a auxiliam a atingir os mais altos desenvolvimentos daquela expressão. O ato de Amor é para o “cristão” um gesto animal grosseiro que envergonha a “humanidade” de que ele se gaba – a idéia absurda do pecado original. O apetite o arrasta pelos cascos; cansa-o, desgosta-o, o adoenta, torna-o ridículo até para seus próprios olhos. É a fonte de quase todas as neuroses – segundo Freud. Contra este “monstro” ele divisou duas “proteções”. Primeiro, pretende que o apetite é um “Príncipe Encantado” em disfarce, e enfeita-o com os trapos e falsos brilhos do romance, do sentimentalismo e da religião, chama-o de Amor; nega a força e sua verdade, e adora esta figura de cera do sentimento legítimo com toda sorte de lirismo amigável e sorrisinhos frescos. Thelemitas não deveriam ser escravos do Amor. Esta é a perspectiva do Tantrismo tibetano. “Amor sob Vontade” é a Lei. Estes recusam a considerar o amor vergonhoso ou degradante, como um perigo para o corpo e a alma. Recusam aceitá-lo como uma rendição do que é 49

divino ao que é animal; é o meio pelo qual o animal pode ser transformado em Esfinge Alada que levará o homem sobre seus ombros até a Casa dos Deuses. “Como quiserdes”. Deveria ser abundantemente claro das observações acima, que cada indivíduo tem direito absoluto e inatacável de usar seu veículo sexual de acordo com o seu próprio caráter, e que é responsável apenas para si mesmo. Mas não deve injuriar seu direito e a si mesmo; atos que invadam o igual direito de outros indivíduos são implicitamente agressões contra o próprio Ser. Um ladrão não pode se queixar na base de princípios teóricos se ele mesmo é roubado. Atos como o estupro, e o assalto ou sedução de menores, podem, portanto ser justamente considerados como ofensas contra a Lei da Liberdade, e restringidos no interesse da Lei thelêmica. Exclui-se também de “como quiserdes” o ato que comprometa a liberdade de outra pessoa indiretamente, como quando alguém toma vantagem da ignorância e boa fé de outra pessoa para expor aquela pessoa à constrição de doença, pobreza, ostracismo social, ou gravidez, a não ser com a bem informada e não influenciada livre vontade da outra pessoa. Deve-se, além do mais, evitar injuriar outra pessoa deformando sua natureza; por exemplo, açoitar crianças na puberdade, ou perto da puberdade, pode distorcer o seu caráter sexual nascente e imprimir sobre ela a estampa do masoquismo. Também, práticas homossexuais entre meninos podem, em certos casos privá-los de sua virilidade, psiquicamente ou até fisicamente. Tentar amedrontar adolescentes a respeito do sexo usando os bichos-papões do Inferno, da doença e da insanidade, pode deformar, permanentemente, a natureza moral e produzir hipocondria e outras doenças mentais, como perversões do instinto enervado e reprimido. Repressão da satisfação natural pode resultar em vícios secretos e perigosos que destroem sua vítima porque são aberrações artificiais e não naturais. Mas, por outro lado, não se teria o direito de interferir com qualquer tipo de manifestação do impulso sexual a priori. Cada pessoa deve descobrir, por experiências de todos os tipos, a extensão e intenção do seu próprio Universo sexual. Deve ser-lhe ensinado que todas as estradas são igualmente régias, e que a única questão que deve interessá-lo é: “Que estrada é a minha?”. Todos os detalhes provavelmente provarão ser igualmente essenciais ao seu plano social, todos igualmente “corretos” em si mesmos; a escolha pessoal é dele, a preferência de seu próximo deve ser “inalienável”. Não se deveria, portanto, se envergonhar ou se amedrontar de ser homossexual, bissexual, trissexual, ou o que quer que seja, se o é intimamente e de sua própria natureza; também não se deveria tentar violar sua própria verdadeira natureza por causa da “opinião pública”, ou da moralidade medieval, ou porque o preconceito “religioso” de outros desejaria forçálo a ser de outra forma.

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A Besta recusa portanto consentir em qualquer argumentos quanto à “propriedade” de qualquer maneira de formular a alma em símbolos de sexo. Um padrão não é menos mortífero no amor que na arte ou na literatura; sua aceitação sufoca o estilo, e sua imposição sobre outrem extingue a sinceridade. É melhor que uma pessoa de impulsos heterossexuais sofra toda calamidade com a reação indiretamente evocada do meio-ambiente pela execução de sua verdadeira Vontade do que desfrutar riqueza, saúde e felicidade através da supressão completa do sexo, ou da prostituição do sexo no serviço de Sodoma e Gomorra. O Líber Oz autoriza que todo homem, e toda mulher, e toda pessoa do sexo intermediário, é absolutamente livre para interpretar e comunicar seu Ser por meio de quaisquer práticas sexuais que sejam, quer diretas ou indiretas, racionais ou simbólicas, fisiologicamente, eticamente, ou teologicamente aprovadas ou não, contanto apenas que todas as partes de qualquer ato estejam completamente cônscias de todas as implicações e responsabilidades envolvidas, e concordem de todo coração em executar o ato. É de se observar que a “polidez” proibiu durante séculos qualquer referência direta ao assunto do sexo, com o único resultado que Freud e outros provaram que praticamente todo pensamento, fala, e gesto nosso, consciente ou inconsciente, é uma referência indireta ao sexo. Os nativos dos mares do sul (havaianos, etc.), antes de serem pervertidos por missionários, eram pagãos, amorais e nus; mandavam seus filhos e filhas adolescentes dormirem todos juntos no mesmo dormitório e cada família adotava crianças que assim resultassem; os adolescentes não eram considerados adultos até atingirem uma certa idade, e não lhes era permitido criarem filhos antes de atingirem esta idade. No entanto, até hoje, apesar do “cristianismo” que os interesses econômicos de países “civilizados” forçam sobre eles, esses nativos são amantes saudáveis e equilibrados, livres de “crimes passionais” histéricos, de obsessões sexuais, e da mania de perseguição puritana. A perversão é praticamente desconhecida entre eles. Podemos agora inquirir porque este Líber se esforça por admitir o amor “onde” e “quando” quisermos. Pouca gente, seguramente, já se incomodou seriamente com restrições de tempo ou local. Talvez esta permissividade seja tencional para indicar a propriedade de executarmos o ato sexual sem vergonha ou medo, sem esperar pela escuridão ou buscar segredo, mas à luz do dia em lugares públicos, tão serenamente como se fosse um incidente natural de um passeio matinal. O hábito cedo extinguiria a curiosidade, e copulação atrairia menos atenção do que uma nova moda de vestidos. Pois o existente interesse em assuntos sexuais é causado principalmente 51

pelo fato de que, comum como é, o ato é estritamente escondido. Ninguém se excita ao ver os outros comerem. Um livro “erótico” é tão tedioso quanto um livro de sermões; é preciso gênio para se escrever um dos dois tipos que interesse. Uma vez seja o amor aceito como corriqueiro, a mórbida fascinação do seu mistério desaparecerá. A prostituta, o proxeneta se acharão sem ofício. A doença irá direto aos médicos em vez de aos charlatões como acontece agora nos altares da falsa castidade onde escorre o sangue dos sacrifícios humanos. A ignorância ou falta de cuidado dos jovens nunca mais os atormentariam infernalmente. Acima de tudo, o mundo começaria a perceber a verdadeira natureza do processo sexual, a sua insignificância física enquanto uma entre muitas funções do corpo; a sua transcendente importância como o veículo da verdadeira Vontade e o primeiro dos invólucros do Espírito. Experimentação de todas as restrições usuais à conduta sexual resulta, após um breve período de perturbação dos diversos tipos, em que o assunto perde toda sua falsa importância; as pessoas tornam-se naturais, e espontaneamente vivem o que seria convencionalmente chamado vidas “estritamente morais”, sem perceberem que assim estão procedendo. 5. O homem tem o direito de matar esses que quereriam contrariar estes direitos. Assim como o enunciado “não existe deus senão o homem”, este também não tem referência no Líber Al, tornando-se próprio do Líber Oz. Acreditamos que a única “coisa” capaz de interferir nos direitos descritos no Liber Oz Sub Figura LXXVII seria o próprio Ser, isto é, o próprio Homem. Obviamente temos que colocar o que expressamos de forma linear para ficar mais compreensível. Quando dizemos que o homem é responsável por quebras de direitos descritos no Liber Oz, consideramos o homem da seguinte maneira: Corpo Físico, O Ego (eu inferior), Eu Superior (Anima/Animus), e Deus (o Todo/Nada ou inconsciente coletivo). Desta forma o corpo físico seria a ferramenta para a manifestação do ego, este seria a ferramenta para a manifestação da Vontade do Eu superior, que seria a ferramenta para a manifestação de “Deus” (O.T.O, 2001-2007). Levando em conta os fatos acima acabamos com o livre-arbítrio, a não ser que tenhamos a “consciência divina”. Crowley em seu sistema tenta orientar os interessados a conhecer algo que ele denomina como Verdadeira Vontade. As pessoas em geral não sabem o que são ou o que querem, e isto seria a causa de todos os conflitos internos e da dor. Seria esta ignorância, esta falta de conhecimento sobre “si mesmo”, que poderia contrariar os direitos descritos no Liber Oz, portanto, teríamos o “direito de matar estes que queiram 52

contrariar estes direitos”. Bom, se o que atrapalha é a limitada consciência que temos sobre nós mesmos, temos o direito de matá-la. Lembrando que praticamente tudo escrito por Crowley é baseado em simbolismo “esotérico”, podemos chegar à conclusão que a morte é simbólica. O Simbolismo da morte é a transformação, pois se refere à morte dos defeitos, dos obstáculos que impedem a realização da vontade. Logo seria uma transformação de consciência (Idem). Como provocar esta “morte” seria a parte mais polêmica de tudo, eu diria que não há um “meio” específico para isto a não ser a “Vontade”. Pois esta morte seria um auto-sacrifício, um ato de Vontade, os motivos os mais variados possíveis, na maioria dos casos causados por conflitos internos que tem sua origem na própria Vontade do indivíduo. Tecnicamente, esta morte hoje em dia tem base científica - no que podemos considerar a Psicologia uma ciência - em C. G. Jung e seus seguintes, e pode ser explicada de maneira “científica”. O que aconteceria “Além do Ego?”. Não pretendemos aqui abordar como dissolver o Ego ou “matá-lo”, mas sugestionar o que ocorreria com sua morte “transformação”. O ato de anular o que o Ser entende por si mesmo o “Ego”, faz com que a “taça” o “Ser” se esvazie, abrindo caminho para que a taça receba mais vinho “informações”, ou amplie sua consciência. Isto faz com que o Ser tenha contato/consciência com seu “Self” (anima/animus/inconsciente pessoal) e este por sua vez tenha contato/consciência com Deus (nada/todo ou, segundo Jung, o Inconsciente Coletivo) (Idem). Desta forma, em teoria, o ser descobriria o que É, e por conseqüência descobriria sua própria Vontade. Isto tudo não anularia uma outra interpretação para a palavra “matar” do Liber Oz. Portanto, se, por exemplo, por qualquer motivo uma pessoa mate outra, não importando a situação, esta pessoa estaria realizando sua própria vontade de qualquer maneira. Aí entra em questão o fato de que tirando a vida de alguém se está interferindo na “Vontade de Viver” do indivíduo, transgrediria a Lei e certamente seria morto também. Surge mais uma questão interessante, além de anular a verdadeira Vontade de outro. Enfim, se deveria ter a consciência de que a Razão, a Moral, e os Valores são individuais e tão ilusórios quanto nossa limitada consciência, portanto, aquele que tira a vida de uma outra pessoa, não está do ponto de vista divino cometendo um ato “errado”, e sim está apenas cumprindo a Vontade Divina, - Caim e Abel - quer moralistas queiram ou não. E é justamente isto que torna a tolerância algo tão importante para os homens. “Os escravos servirão”. AL II, 58

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AL II,58. Sim! Não penseis em mudança: vós sereis como sois, & não outro. Portanto os reis da terra serão Reis para sempre: os escravos servirão. Não existe quem será derrubado ou elevado: tudo é sempre como foi. No entanto existem uns mascarados meus servidores: pode ser que aquele mendigo ali seja um Rei. Um Rei pode escolher sua roupa como quiser: não existe teste certo: mas um mendigo não pode esconder sua pobreza. E então, ao final, “os filhos auto-escolhidos da Liberdade”, vêm para dentro de si próprios, e os “escravos da Restrição”, despidos de seu espólio enganoso, seus acúmulos de escórias de estupidez, são colocados em seu devido lugar como escravos dos verdadeiros Homens Livres (Idem). Assim, a grande maioria da humanidade está obcecada por um medo da liberdade; as principais objeções até agora urgidas contra a Lei tem sido as de pessoas, que não podem suportar a idéia dos horrores que resultariam se eles fossem livres para fazerem o que quisessem. O senso de pecado, vergonha, falta de auto-confiança, isto é o que faz com que pessoas se apeguem à escravidão do cristianismo e de outras crenças que impõem restrições. Elas acreditam num remédio, enquanto este é ruim de gosto; a raiz metafísica desta idéia está na degeneração sexual. Agora, “a Lei é para todos” (CROWLEY, 1988); mas tais defectivos a recusarão, e servirão, aos que são livres, com uma fidelidade tanto mais canina quanto a simplicidade da liberdade. Neste caso, os homens não deveriam ser forçados a aprenderem a ler e escrever; só deveriam aprender quando exibissem capacidade e disposição. Educação compulsória não auxilia ninguém. Impor uma constrição indevida sobre as pessoas que era tencionado beneficiar; segundo o pensamento utópico de Crowley, seria como uma presunção asnática da parte dos intelectuais, pensarem que uma migalha de cultura mental seria benefício universal. É uma forma de preconceito sectário. Deveria haver o reconhecimento do fato que a vasta maioria dos seres humanos não tem qualquer ambição na vida além do mero conforto físico e bem-estar animal. Seria o mesmo que permitir que essa gente satisfizesse as suas simples ambições sem interferência da parte de ninguém. Seria dar toda oportunidade aos que espontaneamente manifestam ambição, e assim estabelecer uma classe de homens e mulheres moral e intelectualmente superiores por natureza. Não se tentaria fazer com que carneiros cacem raposas, ou dêem aulas de história; cuidar-se-ia do bemestar deles, para em seguida desfrutar sua lã e sua carne. De forma análoga, nós teríamos uma classe contente de escravos que aceitariam as condições da existência tal qual elas são, e gozariam a vida com a calma sabedoria de gado. O Liber Oz indica com esta frase, que é dever fazer com que não falte nada a essa classe para ser feliz. O sistema hierárquico seria o melhor para todas as classes do que qualquer outro; as 54

objeções contra ele vem dos abusos do sistema. Mas os mestres ruins foram criados artificialmente pelo mesmíssimo erro que criou os maus servos. Seria essencial ensinar que cada pessoa devesse descobrir sua verdadeira Vontade, ser “Rei” ou ser “escravo”. Não há motivo na natureza pela competição pelas “boas coisas” da vida. Deve ser claramente compreendido que cada homem deve encontrar sua própria felicidade de uma maneira puramente pessoal. Dificuldades tem sido causadas pela suposição que todo mundo queira as mesmas “coisas boas”, e, portanto, o suprimento dessas coisas se tornou artificialmente limitado; mesmo esses benefícios de que há um reservatório inexaurível tem sido monopolizados. Por exemplo, ar fresco e lindas paisagens. Num mundo em que todos fizessem suas Vontades, ninguém teria falta dessas coisas. Em nossa presente sociedade, elas se tornaram o luxo dos ricos e ociosos, no entanto, elas ainda são acessíveis a qualquer pessoa com suficiente bom senso para se emancipar das alegadas vantagens da vida nas cidades. A sociedade atual tem deliberadamente treinado as pessoas para que desejem coisas que elas não querem realmente. Seria fácil elaborarmos este tema longamente, mas preferimos deixar que cada leitor matute sobre isto à luz de sua própria inteligência; porém, desejamos chamar a atenção particular de capitalistas e líderes trabalhistas para os princípios aqui expostos. “Amor é a lei, amor sob vontade”. AL I, 57. AL I, 57. Invocai-me sob as minhas estrelas! Amor é a lei, amor sob vontade. Nem confundam os tolos do amor; pois existem amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente. Escolhei bem! Ele, meu profeta, escolheu, conhecendo a lei da fortaleza, e o grande mistério da Casa de Deus. Todas estas velhas letras de meu Livro estão corretas; mas (Tzaddi) não é a estrela. Isto também é secreto: meu profeta revelará aos sábios. Apesar de, em muitos aspectos, a religião thelêmica não ser simpática ao cristianismo “Com minha cabeça de Falcão Eu bico os olhos de Jesus enquanto ele se dependura da cruz, AL III, 51”, paradoxalmente, foi exatamente a Bíblia cristã uma das principais fontes para Crowley montar sua religião. Por exemplo, o conceito de Vontade, de acordo com a religião thelêmica, está muito próximo da máxima cristã “seja feita a tua vontade” (Mateus, 6:10). “Existe a pomba e existe a serpente. Escolhei bem” - possui clara inspiração bíblica, quando esta compara pomba e serpente, através da alegada palavra de Jesus, ao recomendar que seus seguidores devessem ser “prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mateus 10:16). 55

No idioma grego a palavra “Ágape” que significa Amor, tem o mesmo valor numérico que “QELHMA” que significa Vontade. Por isto dá para entender que a Vontade Universal é da natureza do Amor. “O Amor é o incêndio em êxtase de Dois que querem se tornar Um” (RAPOSO, 2004). O Amor é poderoso, é a fonte da juventude, da alegria e da felicidade, assim, a ausência de Amor é sofrimento e morte. Existem muitas estradas e caminhos para se alcançar o Amor, alguns simples e diretos, alguns escondidos e misteriosos, “pois o Amor é infinito em diversidade, assim como são as Estrelas”. Por este motivo, desejasse com esta frase que o Amor entre no coração de todos, pois ele ensinará corretamente, bastando apenas, o servir sob Vontade (Idem). “Não se deve recear ou se surpreender com as estranhas peças que o Amor possa pregar. Pois ele é um menino travesso, sábio nos Artifícios de Afrodite, sua Mãe, e todos os seus gracejos e crueldades são temperos de um astucioso confeito ao qual nenhuma arte pode se igualar” - Crowley no seu Liber CL (CROWLEY, 2007). Contudo, “O que fazemos por amor sempre se consume além do bem e do mal”, disse Nietzsche. O que é feito por amor não é feito por coerção, nem, portanto, por dever, mas sob Vontade. Todos sabemos disso, e sabemos também que algumas de nossas experiências mais evidentemente éticas não têm, por isso, nada a ver com a moral, não porque a contradizem, é claro, mas porque não precisam de suas obrigações. Que mãe alimenta o filho por dever? E há expressão mais horrível do que dever conjugal? Quando o amor existe, quando o desejo existe, para que o dever? É nisto que consiste a frase “Amor é a lei, amor sob vontade”. Na doutrina platônica sobre o Amor, Platão ensinava que o Amor, “Eros”, é uma força que instiga a alma para atingir o bem. Ele não cessa de mover a alma enquanto essa não for satisfeita. O bem almejado é determinado pela parte da alma que prevalecer sobre as outras. Se fosse a sensual, por exemplo, a alma não buscaria um bem verdadeiro, pois procuraria a satisfação dos desejos que Platão julgava os mais baixos, como o apetite e a ganância (OLIVEIRA, 2007). Mas o que é o Amor? O Amor, ensina Diotima, nem é belo, nem feio, nem pobre nem rico, nem sábio, nem ignorante, nem mortal, nem imortal, nem homem, nem deus. O amor é um daimon, um gênio que serve de mediador entre os homens e os deuses. Sempre acompanha Afrodite porque foi concebido na festa divina em honra a essa deusa. É filho de Poros (Recurso) e Penia (Pobreza), pelo lado paterno é astuto, sofista, filósofo e caçador; pelo lado da mãe de tudo carece. Longe de ser um deus poderoso é uma “força perpetuamente insatisfeita e inquieta” (Idem).

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E pelo fato de ser uma força inquieta, constantemente podemos observar amores não correspondidos, apaixonados, brigas de amor, casamentos em crise, casos com casados, ciúmes, começando e recomeçando no amor, fim de namoro, gays, lésbicas e simpatizantes, indecisões, infidelidade, insegurança, namoro à distância, namoro complicado, namoro pela internet, separações e voltas, ficando, pessoas dizendo: Quero esquecer essa garota... Fizemos um trato, mas estou gostando de outra... Eu travo na hora de conversar com uma garota... Somos amigos, mas damos beijinhos... Eu o conheci quando estava namorando outro... Vivo atormentada sem ele... E o que é pior, aquele que está sozinho e se perguntando: o que há de errado comigo? O Liber Oz sub figura LXXVII afirma que o Amor somente pode existir, se for sob Vontade. Primeiramente, descubra-se, siga a verdadeira Vontade para que possa sentir o verdadeiro Amor. Quem não se ama, jamais poderá entender o que é o verdadeiro Amor. “Amor sob vontade” – não casual amor pagão; nem amor sob medo, como o cristão o faz ao obedecer aos Mandamentos com medo do fogo e das torturas de um Inferno. Mas Amor magickamente dirigido, e usado como fórmula espiritual. Este Amor, então, o deve ser o Amor serpente, o despertar da “Kundalini”14.

Maria Tereza de Miramar e A. Crowley

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Segundo várias correntes místicas e filosóficas do Oriente, Kundalini significa a serpente enroscada na coluna vertebral, energia sexual desperta.

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6. 1 O SIGNIFICADO DO AUTOR

Esse é o método mais tradicional. O significado que é aquilo que uma língua expressa acerca do mundo em que vivemos ou acerca de um mundo possível, corresponde ao conceito ou à noção, que passa a ser determinado pelo o que o escritor, conscientemente, quis dizer ao produzir o texto. É importante, e facilita a interpretação, saber um pouco sobre o autor e o que ele disse em outros escritos. O autor do texto é o homem historicamente situado, que vive a experiência no mundo com os homens, que participa do existir num tempo e num espaço específicos a partir de determinadas condições econômicas, políticas, ideológicas e culturais. Enquanto produto das suas relações com o mundo, é ao mesmo tempo produtor, que transforma o mundo colocando algo de si, mesmo quando não existe o desejo intencional de fazê-lo. A leitura não pode se reduzir a um conjunto de regras de explicação de um texto, como se ele fosse um objeto pronto, acabado, a ser assimilado pelo leitor. O abrir-se ao texto pressupõe o diálogo com o seu autor, exige o “ouvir” a sua palavra, o seu mundo, a compreensão dos significados nele implícitos. Esta tendência de pautar-se pela autoridade suprema do autor foi preponderante até o século XIX, pois, a partir de 1916, com as compilações de Charles Bally, Albert Sechehaye e colaboração de Albert Riedlinger, todos discípulos de Ferdinand de Saussure, foi inaugurada a Lingüística moderna com o livro Curso de Lingüística Geral. Até então, a relação entre língua e mundo era assaz forte. Predominava a controvérsia de duas vertentes gregas. Os analogistas, com o aval de Aristóteles, defendiam que a inter-relação mundo/língua era natural, ou seja, a língua denominava o mundo, refletido, sendo, pois, um sistema regular governado por leis. Afirmando a semelhança, para eles apenas uma língua-mãe existia, que, com o tempo, foi adaptada e ramificada a outros idiomas. Em contraposição, estavam os anomalistas, preconizando a convenção à frente da vinculação mundo/língua, pois o sistema lingüístico é uma coleção de exceções, dominado, em toda a extensão da palavra, pela irregularidade. Estas eram as idéias clássicas de língua. Com o advento do estruturalismo, houve um corte ou uma ruptura na concepção do vínculo língua/mundo. O lingüísta suíço Saussure demonstra que a língua pode definir-se per se, como um sistema autônomo, uma vez que ela é uma abstração. Assim, a visão imanentista, justamente centrada na intenção do texto, ganha magnitude, assistindo a seu zênite nos decênios de sessenta e setenta do século pretérito, sobretudo com as pesquisas universitárias. Importa, também, neste

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julgamento, “como” a significação é construída; não simplesmente “o que”, da forma como se dá numa descrição parafrástica (SILVA, 2006). A arte de Crowley, a Lei de Thelema, influenciou inúmeros artistas entre eles o guitarrista da famosa banda Led Zeppelin, Ozzy Osbourne e também os brasileiros Raul Seixas, considerado o pai do rock nacional, Rita Lee e o atual best-seller, o escritor Paulo Coelho. O grande poeta português Fernando Pessoa, embora tendo negado a influência de Crowley, mostrou claramente o contrário, no poema O Guardador de Rebanhos de seu heterônimo Alberto Caeiro, “o pagão”, precisamente nos versos número VIII, onde o poeta cita características do deus Hórus-Menino, da magia thelêmica, encarnado num “Menino Jesus” diferente do Jesus convencional. E além disso, o poeta português traduziu um poema de Crowley intitulado Hymn to Pan. Esse misticismo estranho de Aleister Crowley poderia ser explicado, talvez até possa ser justificado, como uma fuga da sociedade em que foi criado, o protestantismo vitoriano. A palavra “Thelema” vem do grego “Θελημα” que significa vontade. O autor determina em seus textos que o termo “vontade” que segundo Buarque (1999): [Do lat. voluntate.] Sf. 1. Faculdade de representar mentalmente um ato que pode ou não ser praticado em obediência a um impulso ou a motivos ditados pela razão. 2. Sentimento que incita alguém a atingir o fim proposto por esta faculdade; aspiração; anseio; desejo (...) 3. Capacidade de escolha, de decisão (...), passe a ser compreendido como crença religiosa, os termos “querer” e “vontade” estabelecem o conjunto de dogmas e doutrinas que constituem o culto e a arte que o mago Aleister Crowley, conscientemente, quis dizer ao produzir o texto. O termo “fé”, segundo o dicionário Aurélio (Idem): [Do lat. fide.] Sf. 1. Crença religiosa. 2. Conjunto de dogmas e doutrinas que constituem um culto. 4.Firmeza na execução de uma promessa ou de um compromisso. 5.Crença, confiança (...), é substituído pelo termo “vontade”. Thelema (ou Vontade), para ter o devido equilíbrio em força e beleza, deve ser usada em igual proporção a Ágape, palavra grega que significa Amor. Daí a compreensão do axioma “Amor é a lei, amor sob vontade” ser de vital importância para o exercício da religião thelêmica. A demonstração deste mistério pode ser apresentada através do uso da gematria, técnica em que valores são atribuídos às palavras. Deste modo, chega-se a uma fórmula bem simples, uma expressão matemática de busca de identidade, ou da Unidade, o numero 1. A palavra "Vontade", Thelema, segundo a gematria normalmente adotada o valor 93. A palavra “Amor”, Ágape, também vale 93. Assim, dizem os thelemitas, "amor sob vontade" pode ser representado por "93,93/93" e essa fração é igual a 1, a Unidade. O ser humano dotado de iguais medidas de Amor e de Vontade, teria assim a capacidade de

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realização espiritual máxima, sendo, ele mesmo, a expressão viva da Unidade primordial. Ágape também é compreensão e entendimento. Desprezar esta chave, que foi dada pelo próprio autor, é causar desequilíbrio entre os pratos da balança. Neste caso, teríamos vontade fraca e entendimento nulo. A obra fundamental para o conhecimento da filosofia thelêmica é o Liber OZ sub figura LXXVII, que é a declaração thelêmica dos direitos do homem. Nele é exposta a filosofia de liberdade thelêmica. Portanto, para melhor vislumbre deste estudo, expomos uma versão traduzida do texto Liber Oz sub figura LXXVII, retirado do livro “O Equinócio dos Deuses”, tradução do “The Book of the Law” para o português, editado no Brasil em 1976. Devemos levar em conta o idioma e a época em que o texto escolhido para análise foi escrito: inglês do início do século XX. Eles possuem um significado que não pode variar. Por outro lado, o texto está limitado ao que o autor disse exatamente? Por exemplo: lemos em Líber Oz sub figura LXXVII: “Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei”. Alguém poderia dizer: então, segundo a citação do texto, pode-se realizar as mais estranhas atitudes, como roubar, estuprar, etc... Esta compreensão adviria da falta do entendimento necessário para se compreender o significado daquilo que o autor quis dizer ao produzir o texto. Os escritos de Aleister Crowley vão além de sua consciência, como é o caso do Liber Al vel Legis, embora essas implicações não contradigam o significado original do Liber Oz sub figura LXXVII, antes fazem parte do texto e seu objetivo. Compreendemos então o Liber Al vel Legis como um princípio do Liber Oz Sub Figura LXXVII, pois mesmo que o autor não esteja ciente das circunstâncias futuras, ele transmitiu exatamente a sua intenção, divulgar um sistema Iniciático Artístico-Filosófico-Místico-Científico. De acordo com a doutrina thelêmica proposta pelo autor a expressão da “Lei Divina” no Aeon de Hórus, que seria esta era atual, é: “Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei”. A filosofia thelêmica postula que toda existência manifesta surge da interação de dois princípios cósmicos: o Contínuo Espaço-Temporal, infinitamente extenso e perpétuo, e o Princípio da Vida e Sabedoria, atômico e individual. Desta interação surge o Princípio da Consciência, o qual governa a existência. No Livro da Lei estes princípios divinos são personificados através de três divindades egípcias: Nuit, a deusa do espaço infinito, Hadit, a Serpente Alada da Luz, e Hórus, o deus solar com cabeça de falcão e senhor do Cosmo. O sistema filosófico thelêmico utiliza divindades de várias culturas e religiões como personificações de forças cósmicas arquetípicas — ou seja, estas personificações não são encaradas como divindades externas ao ser humano e sim como componentes do próprio espírito de cada homem e mulher. A doutrina thelêmica sustenta que todas as diversas religiões humanas baseiam-se em princípios fundamentais verdadeiros (verdades universais em suas simbologias, ainda que não 60

absolutas) e o estudo comparativo, desapaixonado e crítico, destas religiões é uma atividade de grande importância para muitos thelemitas. Respeitando os conceitos de cada indivíduo, Thelema segue o Hermetismo tradicional na doutrina de que cada pessoa possui um Corpo de Luz, uma alma organizada em “camadas” anexas ao corpo físico. Da mesma forma considera-se que cada indivíduo possui um Augoeides, ou Sagrado Anjo Guardião (SAG), o qual pode ser considerado como sendo o “Self Superior” – segundo Jung. No que tange aos conceitos de pós-morte, a própria vida é considerada como um continuum, sendo a morte parte integrante da mesma. A vida termina para que a vida continue. O SAG, entretanto, é imortal, não estando submetido aos ciclos de vida e morte. Tal como na doutrina budista, o Corpo de Luz é considerado como sendo passível de metempsicose (reencarnação) após a morte do corpo físico. Considera-se que Corpo de Luz evolui em sabedoria, consciência e poder espiritual através de tais ciclos de reencarnação, para aqueles que assim decidem proceder, até o ponto em que se encontra a Verdadeira Vontade daquele espírito e o indivíduo está capacitado a partir em direção à execução de sua Grande Obra, o objetivo máximo de sua existência enquanto parte do Todo representado por Nuit. Thelema incorpora a idéia da evolução cíclica da Consciência Cultural, bem como da Consciência Pessoal. A História é considerada como sendo dividida em uma série de Aeons, cada um dominado por um conceito de divindade e com sua própria forma de redenção e avanço espiritual. O Aeon é o de Hórus. O anterior foi o de Osíris e antes deste foi o de Isis. O Aeon neolítico de Isis é considerado como tendo sido dominado pela idéia matriarcal de divindade, sua fórmula envolvendo a devoção à Deusa-Mãe para a obtenção da nutrição que ela providenciava. O Aeon clássico/medieval de Osíris teve como dominante o princípio patriarcal, cuja fórmula de redenção era o auto-sacrifício e a submissão ao Deus-Pai. O contemporâneo Aeon de Hórus é centrado no Princípio da Criança, da sobrevivência individual, cuja fórmula é o crescimento, da consciência e do amor universal (Ágape), levando à auto-realização. De acordo com a doutrina thelêmica a expressão da Lei Divina no Aeon de Hórus é o “Faz o que tu queres será o todo da Lei”. Esta é a chamada Lei de Thelema e não deve ser interpretada como uma licença à realização de qualquer ato ou capricho e sim como uma missão divina de se encontrar sua Verdadeira Vontade, o propósito da vida de cada um, e ao cumprimento desta; permitindo a todos o trilhar de seus caminhos individuais. A aceitação (e verdadeira compreensão) da Lei de Thelema é o que define um thelemita; e a descoberta de sua Verdadeira Vontade sua maior motivação. Alcançar "o Conhecimento e a Conversação com o Sagrado Anjo Guardião" é considerado parte integrante deste processo. Os métodos e práticas para se alcançar tal feito são 61

vários e encontram-se agrupados no conceito de “Magick”. Crowley trouxe à palavra o “k” das língua inglesa arcaica para denominar o seu sistema “mágicko”, que é causar mudanças de acordo com a Vontade. E também transformou a sua casa, Boleskine House, 418, que fica na direção Norte, e que já foi comprada pelo guitarrista da banda Led Zeppelin, numa espécie de “Meca” para os thelemitas. Nem todos os thelemitas utilizam todas as práticas disponíveis; é considerado que cada um deva escolher as práticas que mais enquadrem-se às suas necessidades individuais. Algumas destas práticas são as mesmas ou bem similares às de várias religiões ou outras tradições ocultistas ou místicas, tanto do passado quanto do presente, tais como meditação, Yoga, estudo de textos religiosos, estudos de simbolismos, rituais, exercícios devocionais, auto-disciplina, Tantra, etc. A filosofia thelêmica considera que qualquer ato que vá contra a descoberta e o cumprimento da Verdadeira Vontade como sendo negativo. Isto inclui a interferência também no trilhar de terceiros. Reza a doutrina de Thelema que a desarmonia e o desequilíbrio causados por tais atitudes resultam em uma resposta compensatória do Universo, em busca de equilíbrio — um pensamento semelhante ao conceito oriental do Karma. Thelema não possui um conceito semelhante ao conceito judaico-cristão do Diabo ou Satã, ou mesmo do Mal. Contudo, uma pseudopersonificação do estado de confusão mental, ilusão e ignorância egoísta é referido pelo nome do demônio Chorozon. Quase todos os thelemitas mantém um registro de suas práticas pessoais e de seu progresso em um "diário mágico". Muitos thelemitas praticam diariamente o ritual descrito no Liber Resh vel Helios e/ou o banimento chamado Rubi Estrela. thelemitas também costumam adotar nomes mágicos (ou "motes"), como forma de determinar um objetivo, trabalhar um arquétipo determinado ou homenagear algo ou alguém e costumeiramente utilizam como cumprimento a Lei de Thelema. O livro “The Holy Books of Thelema” inclui a maioria dos livros considerados por Crowley como “inspirados”, os quais formam o cânon das escrituras sagradas thelêmicas. O principal destes é o Liber AL vel Legis, sub figura CCXX, comumente denominado o Livro da Lei. O conteúdo desta obra é bastante crítico e Crowley deixou alguns comentários para ajudar na sua compreensão - a maioria deles inclusa no livro “The Law is for All’. Entretanto considera-se que cada thelemita interprete o Liber AL à sua maneira particular, sem jamais forçar esta interpretação a outra pessoa. Um dos principais objetivos thelêmicos é sempre evitar qualquer forma de dogma. Outro livro que forma um par importante com o cânon thelêmico, apesar de não estar incluso no “The Holly Books of Thelema” por motivos técnicos é o Liber XXX Aerum vel Saeculi, 62

sub Figura CDXVII, comumente chamado “The Vision and The Voice”. O I Ching e o Tarot, apesar de pré-thelêmicos, são considerados como parte do cânon thelêmico informal. Outra obra fundamental para o conhecimento da filosofia thelêmica são o Liber OZ, sub figura LXXVII, talvez a primeira carta de direitos do Ser Humano. Nele é exposta a filosofia de liberdade thelêmica (O.T.O, 2001- 2007). Portanto, para o entendimento e compreensão dos textos de Aleister Crowley, o leitor deve ter em mente todas essas informações, que somente o próprio autor poderia transmitir para que outros pudessem entender e compreender os seus textos.

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6. 2 O SIGNIFICADO DO TEXTO Alguns eruditos afirmam que o significado tem autonomia semântica, sendo completamente independente do que o autor quis comunicar quando o escreveu. De acordo com esse ponto de vista, quando um determinado escrito se torna Literatura, as regras normais de comunicação não mais se lhe aplicam, transformou-se em texto literário. O texto, a obra, é a expressão do viver, experienciar, participar; é o produto colocado no mundo, tem a marca humana. É a manifestação do que o homem produz nos vários campos das artes, da literatura, do saber, é carregada de significações. O texto ilumina e esconde, obscurece o mundo e, ao mesmo tempo que pretende dar respostas aos questionamentos suscitados pelos homens, levanta outras questões, outras perguntas. Esclarece, obscurece. Os textos são as obras que expressam um conhecimento do mundo e que se diferenciam de outras expressões simbólicas, e mesmo de outras expressões do conhecimento, à medida que são sistematizados, organizados, metódicos. Expressam os saberes produzidos pelo homem ao longo da História e refletem infinitas posições a respeito das questões suscitadas no enfrentamento com a natureza, com os homens e com a própria produção do saber. Como toda obra humana, são imprimidos pela marca da historicidade, “carregam” os significados impressos pelo tempo e espaço em que são produzidos. Traduzem as angústias, os problemas, as questões que são suscitadas pelo mundo e que desafiam os homens, autores dos textos, das obras. A leitura de um texto pressupõe objetivos, intencionalidade. O leitor, ao se dirigir ao texto, está preocupado em responder às questões suscitadas pelo seu mundo e, através do enfrentamento das posições assumidas pelo autor, busca encontrar pistas que o auxiliem no desvendamento de sua realidade. É somente neste encontro histórico, onde experiências diferentes se defrontam, que é possível a compreensão e interpretação de textos. Neste sentido, compreender o texto é tomá-lo a partir de um determinado horizonte, da perspectiva de quem se sente problematizado por ele, e a partir daí deixar-se “possuir” por ele. O que o texto está realmente dizendo sobre o assunto? Analisando a declaração em Liber Oz Sub Figura LXXVII, nos perguntamos, qual é o objetivo do texto? Informar sobre os direitos do ser humano ou a proclamação do caos e do rompimento com as leis constitucionais? Seu objetivo era inferir sobre leis humanas ou esclarecer leis metafísicas? O significado que o poeta Aleister Crowley queria transmitir segundo as informações supracitadas, fica claro: “Não existe deus senão o próprio homem” – a mesma afirmação do Budismo. Deus é o homem e o homem é deus, um não é externo ao outro. Tomaremos então a relação entre significante/significado, o significante seria “homem” e o significado “deus”, apesar de indissolúvel o 64

significante sem o significado é apenas um objeto, que existe, mas não significa e o significado sem o significante é indizível, impensável e inexistente. A Lingüística Textual parte do pressuposto de que todo fazer (ação) é necessariamente acompanhado de processos de ordem cognitivo, de modo que o agente dispõe de modelos e tipos de operações mentais. No caso do texto, consideram-se os processos mentais de que resulta o texto, numa abordagem procedimental. De acordo com Koch (2004), nessa abordagem “os parceiros da comunicação possuem saberes acumulados quanto aos diversos tipos de atividades da vida social, têm conhecimentos na memória que necessitam ser ativados para que a atividade seja coroada de sucesso”. Essas atividades geram expectativas, de que resulta um projeto nas atividades de compreensão e produção do texto. O texto, em sua íntegra, ajudará o leitor a compreender cada palavra individualmente. Assim sendo, as palavras, ou conjunto de palavras, ajudam a compreender o todo. Como se pode perceber, o leitor deixa de ser considerado uma entidade passiva, uma vez que participa indiretamente do complexo de produção discursiva. O processo da leitura, destarte, compreende dois estágios ou, em outros termos, duas atividades no interior do ato: compreensão e interpretação. Inicialmente, o leitor atua na decodificação da superfície discursiva, englobando as organizações mórficas, sintáticas e semânticas. Exige-se na compreensão o reconhecimento intradiscursivo das regras de uso da língua natural. Num momento subseqüente, aprofundando a leitura, está a interpretação, que demanda um trabalho maior por parte do leitor, pois será necessário debruçar-se sobre as motivações ideológicas e inconscientes do texto, numa relação intertextual. Lopes (1978: 53) assim a concebe: “Ao trajeto que, partindo de um plano de expressão plurissignificacional, conotado, tem por ponto de chegada um único efeito de sentido denotado, chamamos interpretação”. Todo enunciado produzido está imerso numa formação ideológica e numa formação discursiva, além de ser uma soma de outros discursos (SILVA, 2006).

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7 O SIGNIFICADO DO LEITOR

Nessa perspectiva, o que determina o significado é o que o leitor compreende do texto. O leitor atualiza a interpretação do texto. Leitores distintos encontram diferentes significados, isso porque o texto lhes concede permitir essa multiplicidade. Segundo a ABRALIN – Associação Brasileira de Lingüística, a leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir dos seus objetivos, do conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a língua: características do gênero, do portador, do sistema de escrita, etc. Não se trata simplesmente de “extrair informação da escrita” decodificando-a letra por letra, palavra por palavra. Trata-se de uma atividade que implica, necessariamente, compreensão. Qualquer leitor experiente que conseguir analisar sua própria leitura, constatará que a decodificação é apenas um dos procedimentos que utiliza quando lê: a leitura fluente envolve uma série de outras estratégias como seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais não é possível rapidez e proficiência. É o uso de procedimentos desse tipo que permite controlar o que vai sendo lido, tomar decisões diante de dificuldades de compreensão, arriscar-se diante do desconhecido, buscar no texto a comprovação das suposições feitas etc. A leitura é fruto do processo da enunciação, atividade compreensível em duas vertentes: comunicação e produção. Na primeira, a enunciação é entendida por meio da relação do fazerpersuasivo de um produtor que visa agir sobre um receptor, encarregado, por seu turno, do fazerinterpretativo. Como se observa, é típico dos estudos da Retórica. Já no que diz respeito à produção, enunciação é um ato de pôr em funcionamento a língua, produzindo um enunciado15. É impossível estudá-la diretamente, porquanto é uma instância lingüística pressuposta pelo enunciado. Mas como seu produto, o enunciado pode conter traços que reconstituem o ato enunciativo. Esse mecanismo, que consiste em projetar no discurso as marcas de pessoa, tempo e espaço, é conhecido como debreagem, subdivida em dois tipos. A primeira é a debreagem enunciativa, que instala no enunciado as pessoas da enunciação (eu/tu), o espaço da enunciação (aqui) e o tempo da enunciação (agora), produzindo o efeito de sentido da subjetividade.

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Bakhtin (1992) contrapõe enunciado (unidade ou forma de discurso) à oração ou frase (unidade da gramática). Segundo ele, discurso é um acontecimento, um evento.Não é a parole, pois esta é individual, ao passo que o discurso é social e pertencente ao grupo. Constituindo a realização da língua, ele implica a atualização da fala. Na Análise de Discurso de linha francesa, o discurso é entendido como a manifestação de valores, dentro de formações discursivas. É bom lembrar que Mattoso Câmara traduz parole por discurso, distinguindo nele duas modalidades, de acordo com seu modo de manifestação: “fala” como discurso oral; “escrita” como discurso escrito.

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A segunda classificação é a debreagem enunciva, responsável pela instalação das pessoas do enunciado (ele), do espaço do enunciado (lá ou alhures) e do tempo do enunciado (então), criando o efeito de sentido da objetividade. É preciso que se distingam as nuanças do processo enunciativo. Todo e qualquer enunciado tem como pressuposto o fato de ter sido proferido por alguém num tempo e num espaço. É a idéia da enunciação pressuposta. Quando, nesse enunciado, está presente um “eu”, terá lugar a enunciação-enunciada, correspondendo a uma metáfora da enunciação pressuposta (simulacro similar). Se, um “ele”, terse-á o enunciado-enunciado ou o enunciado propriamente dito, configurando uma metonímia da enunciação pressuposta (de parte em relação ao todo). Mas as categorias de pessoa devem ser mais bem esclarecidas. O “eu” abarca duas instâncias: enunciador e narrador. No primeiro nível da enunciação, está o enunciador: é o “eu” pressuposto, equivalente ao autor implícito. É bom lembrar que autor implícito não é o mesmo que autor real. Ambos, por vezes, coincidem-se, mas não obrigatoriamente. A figura de carne e osso, pertencente ao mundo extralingüístico, pode fingir, criando, no discurso, a imagem de uma pessoa totalmente diferente de sua autêntica personalidade. Ele não pertence, portanto, ao texto. O enunciador, ao contrário, é uma imagem construída ao longo do texto, uma idealização do ser que produziu o discurso corrente, ex: Aleister Crowley escreveu Líber Oz e não Edward Alexander Crowley. Há uma complexidade em torno da idéia do significado do leitor. O “eu” é formado por uma ideologia, que, por seu turno, é formado por um feixe de fios ideológicos. Duas pessoas possuem valores em comum, mas também valores opostos. Por conseguinte, a competência de leitura está intimamente relacionada ao conhecimento enciclopédico do leitor; ele absorve um texto de acordo com sua vivência, aí incluído “n” fatores: lingüísticos, cultural, religioso, etc. (SILVA, 2006). É relevante o que pensa o leitor? Isto poderia influenciar o sentido do texto? Se compreendermos que há diferença de interpretação entre um leitor crente e outro que é ateu, a resposta é sim. Contudo é necessário que o leitor esteja em condições de entender o texto. Ao verificar como as palavras e os números são usados nas frases, e o significado dos números no texto. Como as orações são empregadas nos parágrafos, como os parágrafos se adequam ao texto e como os parágrafos são estruturados no texto, o leitor procurará compreender a intenção do autor. Sobre a intenção do leitor, a partir desta nova abordagem, o leitor exime-se da imagem de atuação passiva. Avulta seu papel ativo como parte da escalada produtiva. Do ponto de vista da 67

produção, seria inconcebível, caso se queira elaborar um texto eficiente, não levar em conta a quem se o destina. Do outro lado, ou seja, na perspectiva da recepção, o leitor ganha autonomia em sua interpretação. Não se diz que há a leitura certa ou errada, mas o ponto de vista de quem o lê, porque, num texto, coexistem várias leituras. Mas isso não quer dizer que qualquer uma é verdadeira. O significado deve estar ancorado no texto, caso contrário, chegar-se-ia ao extremo de afirmar que o discurso não tem importância, já que qualquer interpretação é válida. Portanto, o leitor ao fazer uma determinada leitura, não deveria se deixar levar pelos caprichos de seus desejos ou interpretação puramente própria, pois se pode ler qualquer coisa por trás de qualquer texto. Para Goodman (1967, 1971) (op.cit.), a leitura é um ”jogo psicolingüístico” no qual o leitor constrói a mensagem escrita pelo autor, ativando os processos mentais, usando suas experiências e conhecimentos prévios como pistas para confirmar suas predições.
O leitor constrói significados fazendo inferências e interpretações. A informação é armazenada na memória de longo prazo em estruturas de conhecimento organizadas. A essência da aprendizagem constitui em ligar novas informações ao conhecimento prévio sobre o tópico, a estrutura ou o gênero textual e as estratégias de leitura (SEDYCIAS, 2004).

Na década de 70, a partir de estudos realizados por Goodman e Smith (1971) e Carrell (1990), a leitura passa a ser vista como um processo e não, um produto. Esse processo é construído através da interação entre o texto e o leitor. Goodman e Smith (1971) consideram a leitura uma atividade individual e seletiva. O leitor é responsável por sua compreensão uma vez que cabe a ele apreender as informações recebidas, interpretar essas informações à luz de seus conhecimentos, fundamentais para isso, selecionar aquelas que são consideradas relevantes e refletir sobre elas. Podemos constatar que a utilização do modelo Hermenêutico-Lingüístico de leitura, possibilita aos alunos utilizar as estratégias de leitura mais adequadamente, aumentando assim sua capacidade de compreensão geral de um texto.

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7. 1 COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO

A compreensão e interpretação refere-se ao modo do leitor responder ao significado do texto. Um cristão ortodoxo atribuirá significação negativa às implicações do texto naturalmente. Um descrente, pelo contrário, poderá atribuir significação positiva. Mas, apesar de diferentes, são respostas às implicações legítimas do significado. Certamente, ao tocar em algum destes pontos sobrevêm polêmicas. Em toda a história da análise de textos sempre vigorou a idéia de que o analista deveria intentar descobrir exatamente qual seria o desígnio do autor real. Nessa busca pela intenção do sujeito-produtor do discurso, ler era uma investigação empírica, afinal o leitor submetia-se à autoridade autoral. Além do texto, a preocupação era desvendar a vida pessoal do autor, com suas tendências e predileções. Essa obsessão beirava, às vezes, o misticismo. A exegese de escritos psicografados era autorizada tão só a um médium, cuja revelação, conforme as crenças, fora uma dádiva (SILVA, 2006). Devemos considerar também a estratégia de apresentação do texto. É melhor optar pela apresentação progressiva do texto, pois a organização dos sucessivos segmentos que compõem o texto, permitem uma observação melhor das qualidades e dos defeitos da estrutura textual, pois aparecem de modo mais claro. Essa estratégia tem por objetivo também motivar de modo mais intenso por parte dos estudantes na função de interpretar o texto. A temática apresentada no texto, também é um dado muito significativo na questão da interpretação, pois sabemos que a caracterização é da ciência e não do objeto. Assim a adequação temática do texto não é tão importante quanto o questionamento proposto sobre ele. Discute-se os novos rumos do ensino da língua portuguesa no sentido de buscar a interdisciplinaridade explorando a relação significado, significação, sentido e posição discursiva. Há uma grande importância no desenvolvimento da leitura e compreensão de textos para determinação atuante no que diz respeito à vivência social, política e cultural do indivíduo. A criatividade e a sensibilidade são privilégios dos homens que conseguem perceber um universo externo. Cada pessoa possui uma representação interior de memórias associativas, de pensamentos e linguagens simbólicas. A experiência de viver dá origem às potencialidades criativas dos homens, dando formas expressivas à linguagem verbal e não verbal. Ao trabalhar o texto, os alunos não só desenvolvem a interpretação, mas também adquirem a compreensão de sua funcionalidade diante da variação de potencialidades de ocorrências representativas, de acordo com sua relação com a identidade do que está representado (BORBA, 1984). O Liber Oz sub figura LXXVII é uma declaração thelêmica dos direitos do homem. Devemos discernir qual o objetivo específico do autor. Diversos detalhes são agregados ao texto, 69

transmitindo-nos informações. Mas o que Aleister Crowley quis enfatizar realmente? Sua ênfase é percebida em vários lugares no próprio texto: “tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade. Faz aquilo, e nenhum outro dirá não”. AL I 42-3. “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. AL I 3. A declaração: “tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade”; seria exercer a plena faculdade de representar mentalmente um ato que pode ou não ser praticado em obediência a um impulso ou a motivos ditados pela razão. Sentimento que incita alguém a atingir o fim proposto por esta faculdade; aspiração; anseio; desejo. O uso do pronome “tu” utilizado na declaração feita pelo poeta Aleister Crowley pode-se ser bem explicada através das palavras de Borba (1984) em seu livro Introdução aos Estudos Lingüísticos, pág. 02, que diz: “A linguagem é o mais eficiente instrumento de ação e interação social de que o homem dispões. Por meio dela ele se constitui como sujeito uma vez que é ela que fundamenta o conceito ego. Mas a consciência do “eu” só é experimentada por contraste. Só emprego eu quando me dirijo a alguém. Logo eu pressupõe um “tu”. O que difere de como alguns leitores sem estas informações poderiam interpretar a sua declaração como uma apologia à violação das leis constitucionais estabelecidas. Aleister Crowley declara no texto que “todo homem e toda mulher é uma estrela”, sua principal asserção é que cada ser humano é um elemento do Cosmo, auto-determinado. Disto, a Lei “Faz o que tu queres” segue logicamente, dando a compreensão de que não existe na Terra, ou no Universo, ninguém semelhante, pois somente este tem a autoridade, sem relação com o regime político em que o poder executivo é limitado por uma constituição, para condenar ou perdoar seus próprios atos. Cada estrela tem seu próprio brilho e órbita, portanto, entendesse que “todo homem e toda mulher é uma estrela” não é somente uma parte de Deus, mas o Deus ultimal. A antiga definição de Deus toma novo significado. Cada um de nós é o Deus único. Isto podendo ser compreendido apenas pelo estudo analítico do conjunto de obras do autor; é necessário adquirir certo entendimento para se poder apreciar esta afirmação. qualquer uma estrela é tanto o Centro quanto qualquer outra. Cada homem instintivamente é representado como Centro do Cosmo, ou a parte fundamental que o forma, este pensamento é semelhante ao dos filósofos antropocentristas que defendiam em suas teses. A compreensão refere-se ao entendimento correto do significado pretendido pelo autor. Já que há apenas um significado, todo aquele que o compreender terá a mesma compreensão do padrão de significado do autor. Algumas compreensões podem ser mais completas do que outras, devido à maior percepção das várias implicações envolvidas. Como expressar essa compreensão? Há quase um

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número infinito de formas de expressar essa compreensão. Por exemplo: Aleister Crowley, ao declarar: “Amor é a lei, amor sob vontade”. AL I, 57, valeu-se de várias fontes filosóficas. Seria o mesmo que Kant chamava de amor prático: “O amor para com os homens é possível, para dizer a verdade, mas não pode ser comandado, pois não está ao alcance de nenhum homem amar alguém simplesmente por ordem. É, pois, simplesmente o amor prático que está incluído nesse núcleo de todas as leis. Somente quem ama não precisa mais agir como se amasse”. Ou como dizia Platão, que dedicou uma de suas obras exclusivamente ao discurso sobre o amor: O Banquete. Para Platão, que usa Sócrates como personagem, o amor é a insuficiência de algo e o desejo de conquistar aquilo de que sentimos falta (OLIVEIRA, 2007). Alguns intérpretes alegam que não existe sinônimo perfeito. Ainda assim, um autor, com o propósito de evitar o desgaste de vocábulos já empregados, pode, conscientemente, desejar usar outros com o mesmo sentido. Isto porque o uso de sinônimos é previsto pelas normas da linguagem, as quais também admitem uma extensão de possíveis significados para a mesma palavra. Pois há dois princípios para orientar o estudo Hermenêutico: palavra por palavra, ou pensamento por pensamento. A dificuldade do primeiro é que em idiomas e culturas diferentes nem sempre os vocábulos têm a mesma exatidão. O segundo princípio tem, também, suas dificuldades. Isso fica evidente quando procuramos determinar como um autor usa os mesmos termos em lugares diferentes com o mesmo significado. O valor da equivalência em tal tradução fica muito mais comprometido do que no propósito de comparar outras passagens nas quais o autor usa as mesmas palavras com o mesmo significado. A Lei de Thelema. O significado específico fica bem claro. Se os homens resolvessem seguir o código ético de direito expresso no Liber Oz sub figura LXXVII, estariam exercendo a Lei de Thelema, A Lei da Vontade. Agindo conforme a Lei Thelêmica expressa no Liber Oz, o ser não estaria renunciando a fé, recusando a graça de Deus, mas, conseqüentemente, estaria estabelecendo uma relação diferente com Deus, baseada em suas próprias obras. Analogamente, as implicações contidas no Liber Oz sub figura LXXVII contém implicações metafísicas semelhantes ao do texto de São Paulo, que diz: “É estritamente pela fé que somos salvos, fé sem circuncisão, fé sem indulgências, fé sem penitências, fé sem guardar o sábado. E em Tiago 2:26: “Deveras, assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta”. O que não é o “querer” senão a força impulsora à realização, a vontade. A implicação na frase “Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei” ultrapassa o significado de não submissão aos códigos constitucionais. Tal qual o mandamento “olho por olho, dente por dente” expresso em Êxodo 21:23; 25 que implica no exercício da justiça. Enquanto grupos religiosos cortam

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a mão de uma pessoa por roubar um objeto, as Escrituras ensinam uma justiça equivalente, como podemos analisar ao ler Êxodo 22:1: “O objeto roubado mais uma multa. Não uma retaliação física”.

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8 CONCLUSÃO

Esta breve monografia resume de modo magistral o espírito de liberdade desta nova religião, a religião thelêmica, genericamente conhecida como a Lei de Thelema. Aleister Crowley para muitos representa o papel de Profeta. Sua grande aspiração reflete a aspiração de todo ser humano: o anseio do homem por Liberdade. Seu trabalho pode ser compreendido não apenas como o resultado dos caprichos de uma controvertida personalidade, mas, principalmente, da necessidade humana de tomada de consciência, necessidade de vontade, necessidade de entendimento. Este era todo o anseio de Crowley e também o anseio de qualquer ser humano. Isto é liberdade, liberdade apenas para a realização da vontade verdadeira de cada um de nós, nada mais. Thelema pode ser livremente resumida como o eterno anseio do homem insatisfeito querendo revolucionar. Toda esta necessidade, de dar um novo sentido aos estudos, de fazer do velho, algo de fato novo. É a esta busca por irrestrita Liberdade, munidos pela Tradição, que os Adeptos e Seguidores da Estrela e da Serpente, os Estudantes de Thelema, dedicam sua Obra. Com este estudo tornamos explícitos mecanismos implícitos de estruturação e de interpretação do texto que é considerado como a máxima dessa nova religião. Procedimento mais ou menos intuitivo explicitado com o objetivo de contribuir para que um maior número de pessoas possa, de maneira eficaz, transformar-se em bons leitores. Utilizamos a hermenêutica numa perspectiva lingüística no processo de interpretação, suscitando mecanismos hermenêuticos que serviram de base para uma compreensão e interpretação textual competente. A Análise do Discurso nos ajudou analisar as construções ideológicas presentes no texto, considerando seu contexto histórico-social, suas condições de produção, a visão de mundo determinada, necessariamente, vinculada à do seu autor. Proporcionamos a melhor organização dos sentidos aplicados ao texto proposto utilizando o conhecimento hermenêutico e a Análise do Discurso para descrever as estruturas e os elementos utilizados para produzir o sentido do Liber Oz sub figura LXXVII com base em todos os escritos do poeta e mago inglês Aleister Crowley. Linguagem, sentido, e intepretação, constituem, a nosso parecer, a trilogia do humano, do “circunstancialmente” humano. Comprovamos esta afirmação através deste estudo que engloba Arte, Religião, Filosofia, Ciência e Mística, obras supremas do espírito humano, que dependem, fulcralmente, daquela trilogia, não só para interpretar o mundo, mas também para heterointepretarem-se. Todavia, considerando que o estudo foi limitado em termos de bibliografia, novas pesquisas e atividades fazem-se necessárias para confirmar as informações aqui apresentadas. 73

Enfim, a religião thelêmica, parte central do texto, talvez seja o fantástico produto de uma mentalidade incrivelmente sincrética, extraordinariamente ampla, alucinada, utópica e diversificada, que jamais permitiu se limitar por quaisquer fronteiras impostas seja por uma cultura seja por uma sociedade. Este é o principal exemplo e o legado de Aleister Crowley, A Besta 666.

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ANEXO Liber Oz Sub Figura LXXVII “A Lei do Forte: esta é a nossa lei e a alegria do mundo”. AL II, 21 “Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei”. AL I, 40 “tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade. Faz aquilo e nenhum outro dirá não”. AL I, 42-3 “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. AL I, 3 Não existe deus senão o homem. 1. O ser humano tem o direito de viver pela sua própria lei de viver da maneira como quiser viver; de trabalhar como quiser; de brincar como quiser; de descansar como quiser; de morrer quando e como quiser. 2. O homem tem o direito de comer o que quiser; de beber o que quiser; de morar onde quiser; de se mover como quiser sobre a face da terra. 3. O homem tem o direito de pensar o que quiser; de falar o que quiser; de escrever o que quiser; desenhar, pintar, lavrar, estampar, moldar, construir como quiser; de se vestir como quiser. 4. O homem tem o direito de amar como quiser: “tomai vossa fartura e vontade do amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes”. AL I, 51 5. O homem tem o direito de “matar” esses que quereriam contrariar estes direitos. “Os escravos servirão”. AL II, 58 “Amor é a lei, amor sob vontade”. AL I, 57 Aleister Crowley

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SOBRE O AUTOR

F. Aldebaran, escritor brasileiro, nasceu no dia 26 de maio de 1980 na cidade do Rio de Janeiro. Filho de Maria da Glória Fonseca dos Santos e de Pedro Honorato dos Santos. Radicado em Imperatriz (MA), vive com Zélia Nuit (esposa) e Radharani Aldebaran (filha). É autor dos livros: O poder da vontade (2005; uma coletânea de artigos intimistas sobre a filosofia thelêmica e poesias); O drama de uma mulher indecisa na alcova (2010; conto baseado nas obras do Marquês de Sade); O mistério da tarântula (2011; contos poéticos sobre o arquétipo aracnídeo); Modelo da vida (adaptação de um poema que escreveu em 1995 para romance); Ubu – A lenda do demiurgo (romance fantástico); A casa dos sete ventos (romance), os três últimos inacabados. Cursou Letras na Universidade Estadual do Maranhão; é professor, servidor do Poder Judiciário, sindicalizado pelo Sindjus-MA. Escreve para os jornais: O Progresso, Correio Popular e Tribuna do Tocantins. É estudante de psicanálise clínica, pesquisador de religião comparada, bonsaísta, pesquisador etnobotânico e micetólogo autodidata. Os seus textos abordam temas que parecem polêmicos e obscuros, ao leitor incauto, no entanto, pode se observar através de sua escrita um estilo próprio e ousado de fazer textos “psico-oníricos” sobre espiritualidade, política, delírios místicos, sexualidade, crises existenciais, sobre sonhos que parecem indecifráveis e enigmáticos, mas que apenas revelam sentimentos profundos e inconscientes, no eterno dilema do ser individual e social.

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