Mestrado em Comunicação Audiovisual Fotografia e Cinema Documental

Santiago
Ética e Estética no documentário de João Moreira Salles

PATRÍCIA NOGUEIRA | 4100215 PORTO’ 2011

interrompendo seu ofício .disse Minós ao me ver. mas não te enganes! Canto V.Ó tu que entras no asilo da dor . Dante . O Inferno In: Divina Comédia.vê bem em quem confias e como entras aqui. É fácil de entrar.“.

.............................. páginas 12 e 13 ................... páginas 5 a 10 Conclusão ................................................................................................................................................................... página 4 Ética e Estética no Documentário . página 11 Bibliografia .............................ÍNDICE Introdução ........................................................................................................................

3:22 a 3:40 . diz que “a diferença entre um grande filme e um mau filme não é o tema. Santiago. não é o Mundo. O que mudou de 1992 para 2005 foi a experiência de vida e a própria concepção de Documentário do realizador. Santiago gostasse tanto dessa história”1. para João Moreira Salles o género documental não é uma experiência de imagens. orava em latim. para as recuperar e registá-las para o futuro. Santiago tem uma predilecção por histórias esquecidas. falava várias línguas. Rio de Janeiro: 2005. não é o objecto. 1 2 SALLES. como você narra o Mundo”2. Talvez por isso.com/2297919. Foi Dante quem a salvou do esquecimento. Mas por trás do desejo do realizador em registar a personagem. 56:37 a 57:02 SALLES. Entrevista disponível em: http://vimeo. Não existe praticamente nenhuma documentação sobre Francesca. João Moreira Salles. deu-lhe um nome. é uma das referências usadas por João Moreira Salles no filme. João Moreira. protagonizou “uma das grandes histórias de amor da literatura. mas a maneira como você se aproxima do Mundo. em entrevista.Introdução A Divina Comédia. Hoje. como o é Santiago. Francesca de Rimini. mas as dúvidas sobre o lugar que elas ocupam e as reacções que geram e o filme “Santiago” surge como uma síntese desse saber que se transformou. uma voz e um tormento. João Moreira. esconde-se o desejo de reviver as suas memórias da infância. conhecia todas as casas reais do Mundo. Talvez tenha sido esse o motivo que o impediu de montar o filme em 1992. Santiago Badariotti Merlo é uma personagem inquietante: tocava piano e castanholas. talvez tenha sido a inexperiência de um jovem sem capacidade para compreender e reconhecer uma personagem assombrosa. de Dante. uma personagem que aparece no segundo círculo do Inferno da Divina Comédia de Dante.

“Há 13 anos quando fiz essas imagens pensava que o filme começaria assim”3. p. Dep. O que se vê na imagem são fotografias. A “voz do documentário” é tudo o que está à disposição do poder criativo do realizador. Foram necessários 13 anos de maturação de ideias sobre o material. Bill. A voz do narrador na primeira pessoa indica um trabalho autobiográfico e proporciona um encontro do passado (a rodagem em 1992) com as reflexões do presente (montagem do filme em 2005). 1:37 a 1:45 SONTAG. A “voz do documentário”. Legal: 13438/86. Santiago. 18 5 NICHOLS. revelando a intenção do autor de entrar nas memórias de alguém. Lisboa: Publicações Dom Quixote. Ou. Ensaios sobre Fotografia.Ética e Estética no Documentário “Santiago” não é apenas um filme – é um filme dentro de outro filme. João Moreira Salles filmou em 1992 o que pretendia que fosse um documentário sobre Santiago e acabou por abandonar o material quando chegou à sala de montagem. A câmara move-se com lentidão em direcção às fotografias. Susan. 76 . A voz do documentário. In: Teoria Contemporânea do Cinema. 2004. Documentário e narratividade ficcional. “a voz do documentário transmite qual é o ponto de vista social do cineasta e como se manifesta esse ponto de vista no ato de criar o filme”5. Rio de Janeiro: 2005. na selecção e organização das imagens e sons para criar a estrutura narrativa do filme. As imagens a preto e branco sugerem o passado. não é apenas uma questão de estilo nem se resume ao que é de facto dito. p. Vol II. João Moreira. como diz o autor. que “proporcionam a posse imaginária de um passado irreal”4. para que o filme 3 4 SALLES. como lhe chama Bill Nichols. diz o realizador. dando a conhecer as suas intenções de 1992. 1986. as memórias da personagem e do realizador e as memórias de um filme que nunca terminou e que 13 anos mais tarde nasceu outro. fragmentos da memória. São Paulo: SENAC.

O tempo que não é a duração dos planos ou das cenas. 58 Ibidem: NICHOLS. Cayubi Novaes. nunca foi terminada. 6 SALLES. Santiago. Rio de Janeiro: 2005. 49 Ibidem: SALLES. A única sequência montada do filme de 1992 aparece com o timecode impresso. p. João Moreira. revelando os erros que cometeu durante a rodagem do filme. sob a forma de uma reflexão pessoal do realizador. A dificuldade do documentário. que nunca deixou de ser uma cópia de trabalho para se transformar em filme. tal como o filme.). Moreira Salles segue claramente este caminho ao misturar passagens observacionais com a entrevista a Santiago e com a sua própria voz. José Sousa.”9 O realizador desmonta desde logo o contrato com a “realidade” e desconstrói o processo de produção do documentário no próprio filme. João Moreira Salles torna esse tempo e essa reflexão tema central do filme. que tornam visíveis os pressupostos estéticos e epistemológicos”8 num estilo auto-reflexivo. para revelar que esta. partindo do compromisso com o público em que o documentário deve retratar a realidade. p. Bill (2004). é nesta dimensão que eles se encontram. A dada altura. Cornelia. É nesses momentos que realizador e personagem se encontram: a passagem do tempo define-os e relacionaos. Durante 80 minutos o realizador vai falando do processo de construção e desconstrução da obra. 7:14 a 7:24 7 8 9 10 . no entanto. Bill (2004). Bauru: EDUSC.nascesse outro. João Moreira Salles fala do guião inicial do filme e mostra como tentou “organizar o filme em torno de temas contrastantes: vida e morte. num registo confessional. considera que o documentário contemporâneo assume formas “mais complexas. Sylvia (orgs. João Moreira. p. deixando implícito que o documentário é uma forma de “re-presentação e nunca uma janela aberta para a ‘realidade’. Só através de um tempo fora do filme foi possível construir esta narrativa. 49 Ibidem: NICHOLS. in: MARTINS.7 Bill Nichols. 57-71 Ibidem: SALLES (2005). o tempo que o realizador demorou a encontrar a estrutura à qual não conseguiu chegar em 1992. p. Eckert. Na época isso me parecia uma ideia original”10. memória e esquecimento. 2005. Para que o documentário exista é fundamental que o espectador não perca fé nesse contrato”. O cineasta apresenta em “Santiago” o que o próprio denominou de “a dificuldade do género”6. O imaginário e o poético nas Ciências Sociais. presente em diferentes formas e através de diversos enunciados. deve apresentar “declarações sobre o mundo histórico e não sobre o mundo da imaginação.

com planos abertos e uma cinematografia severa. como uma autocrítica ao modo como o realizador conduziu o filme em 1992. sem a garrafinha?” . Salles reflecte também sobre o acto de filmar e a ética da “mise-en-scéne” no cinema documental. o processo do filme passa a fazer parte dele e aparece. influenciada pelo realizador japonês Yasujiro Ozu.Desta forma. Questiona os limites da encenação no género e desafia o espectador: “Será que nesse quarto encontramos mesmo essas cadeiras com um pano branco?” (…) “…e aqui? O que havia de facto? Uma cadeira e um abajour? O abajour e uma garrafinha? Ou somente o abajour. sobretudo. A rodagem foi claramente contaminada pela estética que o realizador queria impor.

eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa e ele nunca deixou de ser o nosso mordomo”12. Documentário “não é o que se pode fazer com o mundo.Hoje. não olha para a gente. Santiago. Durante todo o filme ouvem-se as instruções do realizador e da equipa técnica que ordenam a Santiago tudo o que ele deve fazer. p.”13 Mas este princípio não esteve presente na rodagem.”11 Na busca da fala perfeita. Rio de Janeiro: 2005. uma vez que ao comandar a câmara é ele quem decide o que vai filmar. num acto de poder e de submissão. Mas neste caso. É o que não se pode fazer com o personagem. Encosta de novo. é difícil saber até onde íamos em busca do quadro perfeito. João Moreira Salles exerce uma relação de poder ainda mais evidente e que só mais tarde reconheceu. Santiago. Santiago. 13 anos depois. Rio de Janeiro: 2005. João Moreira. Santiago. Salles defende hoje que o género documental tem um compromisso moral com as pessoas que retrata. o realizador realiza vários takes e dirige a personagem. qual o material que vai posteriormente utilizar na montagem. o documentarista encontra-se sempre numa posição de poder. De forma geral. 71 Ibidem: SALLES. Vai!”14 É um filme com várias camadas narrativas. 44:00 a 44:15 . da Casa da Gávea. da fala perfeita. que se vão sobrepondo e apresentando em montagem paralela ou sucessiva. encosta e não para a gente não. e o realizador utiliza estas memórias por substituição ou transferência para construir o seu próprio passado. 41:05 a 41:38 Ibidem: SALLES. 11 12 13 14 Ibidem: SALLES. da família Salles. É um filme sobre o encontro de memórias: as memórias de Santiago. tudo o que pode dizer. o que vai perguntar. homem aparentemente livre e espontâneo. Rio de Janeiro: 2005. João Moreira. 1:12:48 a 1:13:03 Ibidem: SALLES (2005). João Moreira. após a reflexão sobre o material bruto e que confessa no filme de 2005: “Durante os cinco dias de filmagem. acaba extenuado e com ar desolado enquanto obedece às ordens: “Santiago vai de novo.

Memória e Passado. fixar um estado de coisas. como dizia Bergman…”19 Estes silêncios são parte integrante da construção da memória. com rearranjos de discurso em função da afectividade dessas memórias. retomado e transformado”17. a claquete. In: Lembrar. p. o realizador revela também as partes do plano que normalmente não usaria no filme: as indicações do realizador. São fragmentos de História que Santiago organiza e interpreta. ele não fique o mesmo. ISNB: 8573263563. Michael. permitindo que “se o passado perdido for aí reencontrado. ele também. 2006. os erros e os retakes – tudo isto poderão ser considerados 15 16 Ibidem: SALLES. Além destes silêncios. o género documental revela-se como uma actividade de luto que não permite que estes rastos se apaguem. Silêncio Ibidem: SALLES. uma viagem de retorno às origens. materializar o imaterial”16. Rio de Janeiro: 2005. tropeços. para demonstrar o constrangimento do mordomo. imortalizar a morte. e também a Salles. p. As respostas são induzidas pelas perguntas. João Moreira. O passado irrompe no presente sob a forma de silêncios e que no caso do mordomo representam hesitações. tal como faz com as memórias da Casa da Gávea. adquirindo uma dimensão de lugar de memória. atribuindo ao documentário a capacidade de “bloquear o trabalho do esquecimento. 1:14:30 a 1:15:20 NORA.Estas memórias falam de desaparecimento. Memória. João Moreira. escrever. insegurança. mas seja. que não permite a Santiago recordações voluntárias. 22 17 GAGNEBIN. Entre memória e história: a problemática dos lugares. limitando e dirigindo as memórias que a personagem partilha. A personagem revela mesmo estas hesitações através das palavras: ”Estou aqui pensando. 39 18 De acordo com a concepção de Michael Pollack. João Moreira Salles vai revelando os silêncios de Santiago. Santiago. o passado aqui é sempre uma memória construída. o realizador faz escolhas conscientes. Ao longo de 30 anos recolheu seis mil anos de histórias sobre as várias casas reais do Mundo e compilou-as em 30 mil páginas. Pierre. POLACK. Nestes casos vale mais o “não-dito”18 do que as próprias palavras. Verdade. Por outro lado. Santiago conta que ao descer do apartamento. o jardineiro do prédio o questionou sobre a equipa que estava no apartamento a filmar o documentário e ele respondeu “me vão embalsamar… não sei se embalsamar ou empalhar”15. São Paulo: PUC. 1:39:58 19 . Jeanne Marie. Para a construção dessa imagem do passado. Esquecimento. mas da construção que permite a Santiago. sejam elas positivas ou negativas. Para este processo de construção do passado muito contribui a direcção do realizador. mas simultaneamente quer-se um antídoto contra esse mesmo esquecimento. esquecer. numa manhã de filmagens. São Paulo: Editora 34. Não se trata apenas de uma rememoração. de rastos e fragmentos do passado. 1993. mas também da personagem e do próprio filme. as conversas da equipa técnica. Santiago. O documentário torna-se assim um espaço de memórias afectivas. Também Santiago luta contra o esquecimento. Projecto História. Rio de Janeiro: 2005.

João Moreira. o realizador usa o som sem imagem criando um Silêncio Visual. quando Santiago me tentou falar do que lhe era mais íntimo. São as esperas.”20. um silêncio de memória. 20 21 Ibidem: SALLES. João Moreira Salles cita até o realizador Werner Herzog para dizer que “muitas vezes a beleza de um plano está naquilo que é resto. Em determinado momento da obra. Rio de Janeiro: 2005. para mais uma vez confessar os seus erros como realizador: “No fim. eu não liguei a câmara…”21. 1:13:50 . João Moreira. Mais à frente. o tempo morto. 1:10:20 Ibidem: SALLES. no que acontece fortuitamente antes e depois da acção. ou seja – os silêncios. Rio de Janeiro: 2005. Santiago. um retrato vazio. O negro é aqui uma ausência da personagem. os momentos em que quase nada acontece. Santiago.“silêncios de filme”.

A narração do filme tem um tom amargo e que evidencia a dor das ausências do realizador: a ausência da Casa da Gávea e da infância. a brutalidade de fazer documentários e de dirigir personagens e a consequente necessidade de as respeitar a cada momento. Em 1992 os cinco dias de rodagem decorreram com esta brutalidade e o filme do documentarista é uma reflexão sobre o tratamento das personagens. que morreu sem que “Joãozinho” tenha feito jus à personagem. sobra em generosidade na montagem. A sensibilidade que falta a João Moreira Salles na fase de rodagem. A brutalidade é aqui entendida em múltiplas dimensões: a brutalidade com que o realizador trata a sua personagem. um olhar atormentado e amargurado. um “acto de contrição” perante a personagem e perante o público. mas também uma reflexão sobre o próprio acto de filmar e de fazer documentários. ao longo de todo o filme.Conclusão “Santiago: uma reflexão sobre o material bruto” é um título que induz o espectador no Mundo em que mergulha João Moreira Salles. assume em tom confessional os seus erros e na nobreza de os partilhar com o público. A força do documentário reside exactamente na forma como o documentarista. a ausência do pai e da mãe e a ausência do próprio Santiago. João Moreira Salles expõe visceralmente os erros da sua concepção como documentarista e a amargura de uma oportunidade perdida com uma personagem fascinante. A brutalidade do material é compensado pela sinceridade do texto que nos conduz. .

p. Teoria contemporânea do cinema: Documentário e narratividade ficcional (vol. Michael. NICHOLS. Bloomington: Indiana University Press. José Sousa. 2001. São Paulo: PUC. Bill.BIBLIOGRAFIA ALIGHIERI. Lisboa: Publicações Dom Quixote. Memória e Identidade Social. POLLACK. in: MARTINS. 2004. 1989. Jeanne Marie. Dep. Rio de Janeiro: 2005. 200-212 RAMOS. Bill. 1992. Pierre. Documentário e narratividade ficcional. 1997. In: Teoria Contemporânea do Cinema. Rio de Janeiro. ISBN: 8573261218 GAGNEBIN. Barcelona: Paidós. Sylvia (orgs. 2007. La representación de la realidad. p. Escrever. Preto e Branco\Cor . Cap. 2005 SONTAG. Memória. Projecto História. Inferno. Cayubi Novaes. Nr. Eckert. 1993 POLLACK. Legal: 13438/86 FILMOGRAFIA Santiago. A voz do documentário. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Cornelia. 1986. ISBN: 8573594233 SALLES. 2004. 3. São Paulo: Editora 34. O imaginário e o poético nas Ciências Sociais. ISBN: 8573594233 NICHOLS. João Moreira. Vol II. A dificuldade do documentário. 5. ISBN: 8573263563. In: Estudos Históricos.10. João Moreira Salles. 3. Nr. Introduction to Documentary. São Paulo: SENAC. São Paulo: Editora 34. In: Lembrar. Susan. Michael. Esquecer. Silêncio. Vol. Ensaios sobre Fotografia. 2006. ISNB: 9780253214690 NICHOLS. ISBN: 8449304350 NORA. In: Estudos Históricos. A Divina Comédia. Verdade e Memória do Passado. Bill.). 3-15. Rio de Janeiro. Fernão Pessoa. Esquecimento. Dante. Bauru: EDUSC. II) São Paulo: Senac. 2. Vol.

Entrevista disponível em: http://bravonline.br/conteudo/cinema/cinemamateria_294973.shtml . João Moreira. Entrevista disponível em: http://vimeo.com. Bravo!.com/2297919 SALLES. edição de Agosto. “Fiz o filme para me curar”.abril. 2008.WEBLIOGRAFIA SALLES. João Moreira.