RICARDO KELMER

ROMANCE São Paulo-SP - 2011
versão de avaliação para 2ª edição artepaubrasil.com.br
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CONTRACAPA Luca é um músico, obcecado pelo controle da vida, que se envolve com Isadora, uma viajante taoísta que afirma ser ele a reencarnação de seu mestre-amante do século 16. Ele inicia uma estranha aventura onde somem os limites entre sanidade e loucura, sonho e realidade, e, por fim, descobre que para merecer a mulher que ama terá antes de saber quem na verdade ele é. Nesta insólita história de amor, que acontece simultaneamente na Espanha quinhentista e no Brasil do século 21, os déjà-vu (sensação de já ter vivido uma certa situação atual) são portais do tempo através dos quais temos contato com nossas outras vidas. Blues, sexo e uísques duplos. Sonhos, experiências místicas e ordens secretas. Este romance exercita, numa história divertida e emocionante, intrigantes possibilidades do tempo, da vida e do que seja o "eu".

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ordens secretas e rituais misteriosos. Existirá mesmo a reencarnação? Ou essa crença será apenas o nível superficial de um entendimento bem mais profundo e abrangente da realidade? Haverá outros “eus” vivendo vidas simultâneas? Será possível alterar o passado? O encontro. Aconteceu? Talvez seja mais correto dizer que as duas histórias acontecem pois ambas se cruzam e se influenciam. 4 . de Luca e Isadora traz à tona todas essas questões. temperada com humor. levando os personagens a vivenciar o tempo de um modo diferente. ou reencontro. entre shows e agitos da noite. erotismo e mistério. a questionar suas noções sobre a vida e a morte e a viver no emocionante e perigoso limite da própria sanidade. pelas praias do Nordeste.ORELHA A história de Luca e Isadora é na verdade duas histórias. num mundo de intrigas políticas e religiosas. e a outra aconteceu no século 16. Convidamos você a acompanhá-los nesta intrigante história de amor. Uma acontece no século 21.

E obrigado também aos meus parceiros. a essa gente insistente. É a mesma história. mas agora está contada da forma que sempre deveria ter sido. este romance foi reescrito quinze anos depois. sim. que compuseram comigo a trilha sonora deste romance. A você que me ensinou a voar sobre o abismo dos meus medos 5 . Meu obrigado.AGRADECIMENTOS Publicado originalmente em 1996. portanto. Devo isso em boa parte a alguns leitores que durante anos me incentivaram a republicá-la.

– Tem certeza que não posso mesmo ir? – Já falamos sobre isso. – Há dias que você está estranho.. – Preciso ir agora. sempre passando pelo mesmo ponto. Enrique. Era como se estivesse num círculo. Em um mês ajeitarei as coisas em Lisboa e voltarei. uma tontura. ele a viu acenando. no meio da pressa dos funcionários do cais. girando num círculo. o passo rápido. juntinho a ela.. intei- ramente envolvido pela sensação de já ter vivido aquilo antes. Catarina. – Não sei.Prólogo ELE A ABRAÇOU e assim se deixou ficar.. Minutos depois o navio começou a afastar-se e. Olhou ao redor. Desfez o abraço e saiu caminhando em direção ao navio. naquela manhã enevoada. – Já estão a subir as velas – ele respondeu. sozinha no cais. no cais de Barcelona. sempre passando por aquele mesmo lugar... – Ela o abraçou novamente. Fechou os olhos e tentou lembrar quando vivera aquela mesma situação mas tudo que lhe veio foi a sensação de estar girando. sem olhar para trás. Quanto tempo se passara? Alguns segundos? Séculos? – O que foi? – ela perguntou. Sentia-se levemente tonto. girando. sempre.. Não foi o que combinamos? – Estou com medo. voltando a si.. girando. mais forte. certificando-se que continuava ali.. Abriu os olhos assustado.. da amurada.. E iremos juntos para o Brasil. no meio da né6 . – E se você não voltar? – Claro que voltarei.. sentindo o vento soprar.. Ela ainda estava abraçada a ele.

E de repente foi como se ela repetisse um gesto muito antigo. E se dirigiu à cabine. Quando haviam se despedido assim? Preciso de um trago. 7 . ele pensou. feito muito tempo atrás. um aceno triste que lhe cortava a alma. sentindo a alma pesada.voa. Ele não queria pensar nisso mas sabia: era só o início de uma longa e difícil viagem.

como ele mesmo se prometera. para que a vida não saísse do controle. ele pensou. um passeio de jangada. o pau da vela lhe batendo no rosto. que sonhava com aquela viagem. Sem relógio. era só para conferir se alguma garota havia deixado um recado urgente. nada mais.. Tudo porque queria impressionar uma garota. Na verdade levara o celular. a expressão sonolenta. aliviado. Felizmente não havia abismos por ali.. o LUCA DESPERTOU ASSUSTADO. poucos quilômetros antes de Pipa.1 Sonhara com um abismo. desde quando acertara a folga com a gráfica. o cabelo assanhado. Pequenos cuidados. Com acesso à internet. Amar era mesmo um perigo.. Esfregou os olhos e soltou um longo bocejo enquanto esticava as pernas sob a poltrona da frente. Ah. Agora tudo que faria pelos quatro dias seguintes. Mais um pouco e estaria em Pipa. Viu a cicatriz na face direita e lembrou do acidente. imenso e escuro. ainda era adolescente. as casinhas simples à beira da estrada. Sozinho. uma serra mais adiante. No fim da tarde. sim.. sem celular e sem internet. Pelo reflexo da janela pôde ver seu rosto. e também para acompanhar a venda de ingressos para o próximo show da banda. bem à sua frente. isso era muito importante. Olhou pela janela do ônibus e viu a paisagem passando.. seria descansar a cabeça e esquecer dos problemas em Fortaleza. Mas. a vegetação próxima. só isso.. 8 . a famosa praia no litoral sul do Rio Grande do Norte. Fazia seis meses. até domingo. um abismo aterrorizante. E também para ver se um amigo depositara em sua conta a grana que lhe devia.

Havia um barco ancorado e um bando de gaivotas brincava no céu.ônibus passou por uma cidadezinha e. Escolheu uma mesa sob a palhoça. À sua esquerda. a música não saiu. Encantado com a paisagem. Ficaria em Tibau do Sul. tudo ao seu redor flutuando feito um pedaço de terra que se solta do continente da realidade. E virou de um gole a bebida. Foi nesse momento. ele puxou o violão e. levemente frustrado. ele pensou. aquela paisagem. gente do mundo todo. lá embaixo. foi até a cabine do motorista e pediu que ele parasse. Rapidamente. * * * 9 . Tentou vários acordes mas nenhum deles conseguiu expressar devidamente a alma daquele instante. Mudara de ideia. onde havia um barzinho de estilo rústico. Luca lembrou do que os amigos falavam sobre Pipa. Além da lagoa. – Tibau do Sul. que mais à frente se transformava em rio e corria suave para o mar. encostando o violão. se espalhava uma grande lagoa.. Outra hora talvez. as pousadas. Luca sentiu seu olhar capturado por aquela beleza poética. as praias lindas. que a canção quis sair.. ela precisava sair. o sol se punha devagar. salpicando a água de reflexos que se misturavam aos botos que saltavam.. No entanto. deliciando-se com a brisa marinha e o cheiro da maresia. Não apenas queria. até a beira da encosta. do alto da encosta. pediu uma dose de cachaça e sentou. É uma antiga vila de pescadores. à entrada da cidade. ele caminhou de volta pela estrada e. quase musical.. feito uma ânsia. – Que cidade é esta? – perguntou à senhora do banco ao lado... por sobre a copa das árvores. A luz do fim de tarde banhava a paisagem de uma atmosfera meio onírica e de repente ele sentiu-se fora do tempo. Levantou da poltrona... Luca gostou do que viu. Mochila às costas e violão debaixo do braço. seguiu em direção ao mar. o agito dos barzinhos.

porém. um pequeno espaço arborizado próximo ao rio que a dona do terreno. estava muito cansado. – Mas antes não quer comer alguma coisa? Você tá muito magro. abandonou a faculdade e passou a se dedicar mais ao violão. tudo muito simples. uma senhora divorciada. faz muita sombra – sugeriu dona Zezé. Mas o banho ficaria para o dia seguinte. de repente lhe trouxeram muitos pensamentos. alugava para campistas. Ao lado ficavam sua casa. Em vez disso. Mas o futuro aconteceu diferente. Em poucos minutos Luca armou a barraca e trocou de roupa.quando Luca alcançou o camping. No restaurante ele comeu um sanduíche com refrigerante. A simplicidade e a beleza daquele lugar. Melhor impossível. ele se indagou. sem afobações financeiras. não veio rapidamente como ele queria. imaginava que logo estaria numa situação tranquila. sempre esperto para que a mão traiçoeira do destino não se metesse em suas chances de ser feliz. Como não estavam na alta estação e nem era feriado. conversou mais um pouco com dona Zezé e conheceu seus dois filhos adolescentes. Alguns passos para o norte e estaria à beira da encosta. O sono. – Eu venho depois. Após empregar-se numa gráfica.. a pousada estava vazia e no camping havia apenas uma barraca azul e nenhuma outra mais. em vez de relaxá-lo. Depois voltou à barraca e deitou.. Por que a vida não era mais fácil de ser vivida?. dona Zezé. Tinha agora vinte e oito anos e tudo continuava difícil e emJÁ ERA NOITE 10 . que moravam com ela e a ajudavam a administrar o negócio. obrigado. era preciso estar sempre atento para que a vida não fugisse do controle. uma pequena pousada e o restaurante. o rio alguns metros lá embaixo esperando-o para um banho. – Embaixo daquela mangueira é um lugarzinho bom pra você ficar. um velho prazer da adolescência. Por quê? Um contínuo e angustiante esforço de se estabilizar e economizar dinheiro – era a isso que se resumira sua vida. Quando tinha dezoito anos e cursava administração na faculdade.

apesar de todos os esforços dos últimos anos. E a banda.. O amor descontrola muito a vida da gente. onde podia se esconder da claridade traiçoeira dos dias. dizia ele. continuava andando em círculos. Dois anos antes conhecera Junior Rível.. e a irmã Celina. a comprar comida. Ser gerente de gráfica. Dona Glória já desistira de aconselhar o filho a tentar concurso público e se casar. – Topado – respondeu Luca. E nascia também a Bluz Neon. mãe. E quanto a casamento. apertando a mão do novo amigo. Pelo menos havia a música. era o máximo de concessão que podia fazer. A sensação era de que. Meia dúzia de shows por mês ajudavam a manter a duras penas o velho fusca. girando sobre o mesmo ponto. tudo 11 . sempre girando.. que namorava o baterista da banda. Festa é o que nos resta – era o lema da banda. – Tô fora. Inseguro. Olhou para o violão deitado ao lado. hesitou em aceitar. tomar uns uísques e pronto. sempre. Sentia-se cansado. muito uísque. O pai morrera quando eles eram bem pequenos e a mãe não casara novamente. Os cachês eram baixos e muitas vezes se apresentavam de graça mas o prazer de tocar compensava tudo. rock e irreverência na noite de Fortaleza. As despesas eram medidas e contadas e recontadas nos mínimos detalhes. era só. Isso dá um blues. pagar as contas.pacado. Blues. À noite ele estava a salvo. – Festa é o que nos resta nessa vida. – Opa. onde morava sozinho.. Dois anos antes ainda morava com a mãe. um sufoco permanente. Nascia assim a amizade entre Luca e Junior Rível. – Pensa bem. Agora o emprego de gerente na gráfica lhe garantia o aluguel da quitinete. cidadão – insistiu Junior – Muito show. que o convidou a cantar na banda que estava montando. E muita mulher! Argumento irresistível. E para Luca a Bluz Neon era o refúgio perfeito. dona Glória.

uísques e amores sob controle. Mais tarde. – Luca. Ele virou-se e viu uma garota. mantendo nele o olhar.. – Oi – ele respondeu. dirigiu-se ao restaurante para almoçar e foi nesse momento que ela surgiu. – ela repetiu. – Luca. Está tão diferente. com seus bares. era segura.sob perfeito controle. Qual fora a última vez em que entrara num rio? Nem lembrava. O único defeito era que no outro dia ele sempre tinha que acordar. Luca pôs o óculos escuro. – Sou sua vizinha de barraca. ele voltou ao camping. camiseta e sandália. Luca. – Oi. Demorara bastante a adormecer. Era como um sonho bom.. Após trocar de roupa... é urgente Um romance caliente Antes do dia nos lembrar Que o sonho não resiste à luz solar * NO DIA SEGUINTE * * Luca levantou tarde. Sentia-se mais disposto. conseguiria relaxar de verdade? Fazia uma manhã de sol claro em Tibau do Sul. simpático. – Prazer. Usava short jeans. Mas precisava fazer aquilo mais vezes. Isadora.. envolto em seus mil pensamentos. sentindo-se ainda cansado. reparando em seu corpo magro... após um demorado banho de rio. Será que nem ali. o cabelo despenteado. naquele paraíso.. deixou a barraca e foi ao restaurante da pousada tomar café. pensou. 12 . Teus olhos se acendem nos neons É o frisson de bar em bar É preciso ser feliz.. Era bonita e aparentava a mesma idade que ele. Ela riu. experimentando o nome em sua boca. A noite sim.

tem uma lan house na entrada da cidade. Minha vizinha me daria a honra? – Ele brincou de fazer um galanteio. – Se precisar. como se tirasse um chapéu da cabeça. – Sei – ele respondeu. não – ela corrigiu. Não trouxe nem o celular. Tenho uma banda. – Que bom! Já almoçou? – Não.. – O que vocês tocam? – Blues. E o que você faz? – Trabalho numa gráfica mas meu negócio é música. Mas você não tem muito sotaque. Um dia vou conhecer. Me sinto cidadã do mundo. – Sério? Por quê? – Digamos que eu. Peguei gosto por viagem. preciso me conectar mais comigo mesma. Percebeu também que ela o olhava de um modo estranho e sentiuse incomodado.. – Reencontros. – E o que você faz em São Paulo? – Trabalhava num banco. Luca percebeu que ela tinha belos olhos cor de mel. Como recusar? No restaurante.. Ela quis saber de onde ele era e ele respondeu que morava em Fortaleza. ele sugeriu moqueca de peixe e ela aceitou. nada de computador nessa viagem. – Ah. A cerveja chegou e ele sugeriu um brinde: – Aos encontros. Reencontros? Ele não entendeu mas deixou para lá.a cicatriz na face. E bebeu. Mas pedi as contas pra poder 13 .. – É que morei em vários lugares quando era pequena. não.. Eu sou de São Paulo. – Deve ser bem legal. sabe? – Não tem medo de viajar sozinha? – Claro que não. Conhece? – Não. a Bluz Neon. rock e o que der na telha futebol clube. sem ter certeza se realmente sabia. – Fortaleza. – Está sozinho? – Agora não estou mais.. – Hummm.. – Encontros..

– Quem? Ela girou o copo entre os dedos. – Sem planos? Caramba. – Por que você está me olhando assim? – Ahn. Nada mal mesmo.. Luca? – Não. mostrando o garoto que se aproximava com a bandeja. Segundo dia e um almoço com uma gata daquele naipe. – Você por acaso já viveu na Espanha. Mas que era uma gracinha. isso era. talvez ele a fizesse lembrar de alguém que ela não queria lembrar. Mas por quê? Você morou lá? E de novo ela não respondeu. talvez fosse isso. Sem planos.. Luca achou melhor não insistir. barracas vizinhas. – E você. é. Isadora? – Claro. você me lembra alguém. sorriu desconcertada e olhou para fora do restaurante. Luca pediu outra cerveja. não tem a impressão que também me conhece? – Por quê? A gente se conhece? Ela sorriu e novamente não respondeu. – Claro.fazer essa viagem. 14 . Isadora? – Por aí.. Por quê? – Tem certeza? – Claro.. você deve ser uma pessoa bem otimista. No final tudo sempre dá certo. é que você. – E daqui você vai pra onde. Nada mal. Serviram-se e comeram.. enquanto tomava um longo gole de cerveja. – Nossa moqueca chegou – ele avisou.. animado. Luca pensou. Em vez disso. Mas por que o olhava daquele jeito estranho? – Posso perguntar uma coisa. Cervejinha. Faz um mês que viajo pelo litoral nordestino.. Ela o confundia com outro. devia ser isso. nervosa. Ele continuava intrigado. Bonita e interessante..

. Luca pensou um pouco. 15 . as coisas saem do controle. Mas absurda demais para ser levada a sério. aqueles absurdos até que possuíam um certo charme. o aluguel do apartamento....– Admiro essa sua confiança na vida. Lógica perfeita. definitivamente não era possível. Se não há tentativa de controle. – Luca riu. Mas logo percebeu que não era.. a manutenção do carro.. achando que era uma brincadeira. vindo dela. onde passearam. A vida era uma grande boiada e era preciso domá-la o tempo todo. – Ora. a banda. O que Isadora propunha não passava de um mero romantismo.. Isadora contou das praias que conheceu naqueles dias. solta pelo mundo. As suas coisas. E os casos amorosos? Como tudo isso se resolveria por si só? Não. ele pensou. como as coisas vão sair do controle? – Ah. Não acha? Ela riu como se ele houvesse contado uma boa piada e respondeu: – Você sabe quando é que começamos a ter controle sobre as coisas? – Não. Mas desistiu. buscando compreender. o quanto se sentia em casa em todos os lugares e como se aproximava mais de si mesma assim. Após o almoço pegaram um ônibus e seguiram para Pipa. – Não entendi. No entanto. de que modo se ajeitariam por si próprias? O trabalho. tinha de admitir que.. Mas é o tipo da coisa que eu gostaria muitíssimo de saber. – Você está falando sério? – Claro que sim.. por exemplo. conheceram as pousadas e as lojinhas e tomaram sorvete na pracinha. – É quando abdicamos de ter controle sobre elas.. – E por que eu iria desconfiar dela? – Pelo simples fato de que se você não planejar e se precaver..

Fizemos um blues pra ela. é claro. – Até esses sofrimentos têm seu lado positivo. Lá eu sei me mover bem. * * de volta a Tibau do Sul. beibe Não me peça pra te amar – Você teve uma decepção amorosa muito forte? – ela quis saber. – Tive. Depois disso fiquei vacinado. Luca perguntou se Isadora gostaria de beber algo. Mas não concordava. * CHEGANDO AO CAMPING. – O melhor perigo do mundo. – Preciso te dizer uma coisa. Luca? Gosta de viajar também? – Gosto.– E você. – Entendi. Amar é um perigo. Mas já faz tempo. Mas não assim como você. Quer ouvir? Ela respondeu que sim e ele cantou: Amar é um perigo Só eu sei o que eu passei Nesse abismo deu vertigem E a angústia não se desfez Não quero a dor de mais um bis Depois só resta a cicatriz Só não me peça. – Claro que têm. E essa cicatriz aí? – Lembrancinha de um passeio de jangada. Luca. ele tinha um vinho na barraca. – É mesmo – Ela riu. – O quê? 16 . Luca riu também. – Como assim? Não quer mais amar novamente? – Prefiro não me arriscar. – Tem medo de se perder? – Acho que eu gosto mais da segurança da minha cidade.

– Não entendo. ameaçador. Isadora sorriu sem graça. então era bem original. escuro. cada vez mais intrigado. – No sonho que eu tive. – Juro que não sei de nenhum abismo – ele respondeu.. desapontada. Foi o que você disse. Mas era você. na semana passada. – Sério? Era eu mesmo. lembrou vagamente de um sonho.... – Você realmente está falando sério? – Estou... E você? – Eu o quê? – Nunca sonhou comigo? Eu adoraria dizer que sim. Então aqui estou.. Seria uma cantada? Se fosse. O que significava aquilo?. E que havia um rio. – O quê? – Que eu precisava te ajudar.. – Você disse mais uma coisa no sonho. – Comigo? Quando? – Seis meses atrás. só não sabia qual era a praia. Sonhara com um abismo aqueles dias... Como pode uma coisa dessa? – Mistérios da vida. Aí. assim como você me vê agora? – Não. Sim. – Mas a gente nem se conhecia. – ele quase respondeu. 17 . – Ajudar em quê? – A saltar no abismo..– Eu sonhei com você. coçando a cicatriz no rosto. pensou Luca. E de repente lembrou. um abismo... quando cheguei em Tibau do Sul. senti que seria aqui que eu encontraria você. – Não. Eu lembrei de tudo quando acordei. – Era você. você me pedia pra gente se encontrar nessa praia. Mas sabia que ficava nessa região. beibe.. – Que abismo?! – Não sei. sua imagem não era muito nítida.

Na verdade eu não quis pensar muito nisso.... Seria louca? – Se você realmente veio de tão longe por causa de um sonho. E prosseguiu sussurrando. impaciente. Não acreditava. Ele percebeu uma certa irritação no tom da frase.. – E você devia ter lembrado de mim... Só havia uma explicação: era louca. quase interrompendo-o. – Foi só um sonho. Como alguém podia sonhar com uma pessoa que não conhece e sair por aí em busca dela. – Acho que devia ter pensado. sem saber o que deduzir de tudo aquilo... sem qualquer garantia de encontrá-la? Isso era tão absurdo. Ela não podia estar falando sério. por que a gente não esquece esse assunto e toma um vinho? Você gosta de. – Desculpa. Isadora olhava para o céu estrelado e torcia as mãos.. – Vidas passadas? Por quê? – Acredita ou não? Ele pensou rápido. ele pensou. – E mesmo que soubesse. – Não pode ter sido só isso – ela respondeu. estou confusa. livrando-se da lembrança incômoda.. Então o que aconteceria se eu não aparecesse? – Bem. – Você acredita em vidas passadas. Eu achava que você.. Luca sentia-se meio perdido. – É que eu.. procurando entender tudo aquilo. mais para si mesma que para ele: – Não pode.Coincidência. uma coincidência. voltando-se para ele. Não gosto deles. claro.. E com loucos não se podia argumentar. não quis ser grosseira – ela falou. impossível a18 . quero distância de abismo. Apenas coincidência. Ou então não batia bem da cabeça. que você também. Mas também não parecia estar brincando... – Não sabe mesmo? – ela perguntou novamente. devia ser isso.. Luca. Ele queimava os neurônios. Ela devia estar brincando. uma brincadeira. – Escuta. Luca? – ela o interrompeu. tão inconcebível.

Luca. Acho que é um bom dia pra se acreditar em tudo. – De quê? – Depende do dia. Mas e se o sucesso da noite estivesse nas mãos de uma boa resposta? – Depende. ela abriu a barraca e entrou. – Ela pensou um pouco. Porque tenho uma história bem louca pra te contar. Enquanto ele procurava algo para dizer. – Porque eu é que não estou num bom dia pra acreditar em tudo. – Ótimo..creditar naquelas bobagens.. E como estará seu dia amanhã? – Amanhã. – Sei. 19 . – Por que não conta hoje? – Porque... – Boa noite.

.. quase sendo arrastado pelo repuxo. disposto a se divertir um pouco com o mar. no mesmo lugar.. em direção ao mar. Quando chegou à encosta. Levantou e desceu a encosta. Interessante mas infelizmente maluca. ao passo que sua vida era o oposto. quando DO RESTAURANTE. Na primeira onda que se ergueu à sua frente. com medo. o sol já ia alto no céu. a mesma coisa. Ela veio e. Ficou olhando para eles. a alguns metros da sua. faltou-lhe coragem e ele mergulhou para escapar. os corpos feito pranchas. escolhendo ficar um pouco distante dos garotos para não atrapalhar. percebeu que as ondas eram maiores que imaginava mas entrou mesmo assim. 20 .. Desistiu também na segunda. admirado de suas habilidades. Enquanto admirava a paisagem. Quando chegou. ele não pôde evitar de se comparar a ela: a Natureza não fazia força alguma para ser o que era. Começou a se achar ridículo. rumando para leste.. deslizando firmes na água. Na terceira. Então ela estava ali porque sonhara com um cara que não conhecia e que devia encontrá-lo numa praia do Nordeste? E o cara era ele? E aquela história de saltar no abismo? Não. a bola de fogo sobre o horizonte impondo-se lentamente dia adentro. Luca observava o camping ao lado.. Moça interessante. Mas Isadora não estava. Aquelas ideias de levar a vida sem planos. De repente os gritos de uns garotos pegando onda o despertaram de seus devaneios. Era muita doidice. jurou para si mesmo que não desistiria e aguardou sua chegada. ele pensou. A barraca azul estava lá.2 enquanto tomava café. Após o café Luca pegou a trilha. Quando a onda seguinte veio..

que aquelas ondas eram muito perigosas. a mulher de branco – por que ela lhe era tão familiar? E lembrou também que. por um rápido instante. Lembrou da alucinação. teve em suas mãos a decisão do que aconteceria. ainda envolvido pelas sensações. todo sofrimento se dissiparia como um sonho ruim do qual se desperta.. Entrou na barraca e sentou-se. Era bonita e olhava silenciosa e compreensiva para ele. Ela lhe estendeu a mão e ele compreendeu que se a aceitasse. Por um segundo pensou em protestar. Então sentiu agarrarem seus cabelos.chegou.. quando já estava esgotado e respirando água. enquanto os garotos voltaram para o mar e continuaram desafiando com naturalidade as enormes ondas.. passou a girar e girar. Soube instantaneamente que a conhecia de muito tempo atrás.. em pedir para ficar ali embaixo. Luca agradeceu e ficou ali. se debatendo e 21 . onde vomitou e aos poucos foi melhorando.. Parecia não estar mais na água. mas não teve forças. Luca perdeu totalmente o controle do próprio corpo e. Eles explicaram que ele não deveria mergulhar sozinho. submerso. Que merda! Estava vivo por um triz. Foi levado pelos garotos para a areia. Não teve tempo de decidir. Parecia estar fora do tempo. e se realmente tivesse tido chance de optar? Prosseguiria lutando. uma mulher de vestido branco. feito um boneco desengonçado. Em certo momento bateu a cabeça na areia e ficou tão zonzo que sequer sabia para que lado estava o céu. tudo ficou silencioso e sem dor. Tudo que precisava era segurar sua mão. A onda ganhou mais força e de repente quebrou. e a imensa massa de água caindo por cima dele. Percebeu que o puxavam à superfície. sentado na areia. só isso. que poderia tentar o derradeiro esforço para se salvar ou poderia aceitar a morte... ele deixou-se erguer. De repente. Mas.. Então ela surgiu bem à sua frente. No instante seguinte ele viu-se solto no ar. assustado. Como conseguiam controlá-las? Quando chegou ao camping foi que realmente se deu conta de que quase morrera. tanto tempo que seria inútil tentar lembrar. caindo.

.sofrendo até o último instante ou se deixaria levar. – Funciona como um instrumento pra você se investigar psicologicamente. – Muito místico pro meu gosto. Isadora arrumava um prato com queijo. a morte. Então armou a espreguiçadeira e pegou o violão. – Já ouvi falar. o além. 22 . Mas talvez você não capte a essência da mensagem. Um pouco de música para afugentar o além. Melhor não contar para ninguém e esquecer o assunto. o livro das mutações.. chegando com o vinho. Mas o objetivo de todo taoísta é um dia não precisar mais de oráculo pra conseguir captar os movimentos. buscando afastar o incômodo que sentia. – Aproveita que está em pé e guarda este livro. – Aos movimentos que nos trouxeram até essa fogueira. – E pra quem não acredita.. como eu. para longe do sofrimento. funciona? – Sempre funciona. mexe as varetas ou as moedas. – I Ching. – É o oráculo do Taoísmo – ela respondeu. pra captar os seus movimentos internos e harmonizá-los com os externos. Em frente à barraca azul uma pequena fogueira crepitava. – ele disse. – Vamos brindar a quê? – ele perguntou. – Faz séculos que não faço um piquenique – disse Luca. Luca abriu o vinho e serviu. – Boa. mantendo afastado o frio da noite. Sobre uma toalha. Não gostava daquelas coisas. * UMA LUA MINGUANTE * * subia no céu de Tibau do Sul junto com as primeiras estrelas. junto à mulher de branco? Levantou.. anota os resultados e no final lê a mensagem. pegando o livro das mãos dela e pondo dentro da barraca. tranquilamente. – Você se concentra numa questão. por favor.

um povoado pequeno. – Como assim? – Pertencia a uma ordem secreta. Ou melhor. – Dois anos atrás comecei a ter um sonho recorrente – ela começou. Não só vi – eu vivi.. E percebi que aquela criança era eu. Aí eu pude ver os olhos da menina. Ele visitava Catarina nos sonhos e juntos viviam experiências em outros planos da rea23 . E me vi neles. sabia outras línguas. tentando não transparecer sua incredulidade em relação aqueles assuntos.Tocaram os copos e beberam.. – Vi vários fatos da vida dessa menina passarem diante de mim. Não lembrei tudo mas lembrei muita coisa dessa vida. como num filme. as tramas políticas da Igreja.. a dança colorida das labaredas. Parecia final da Idade Média. mais distante. Fiz hipnose com uma terapeuta e as imagens vieram mais fortes. Sentiu-se puxado para dentro de um outro estado de ser. por aí. – Ora veja – comentou Luca.. – Como era a menina? – Ela se chamava Catarina.. essas coisas. Ele era um homem rico e ela aprendeu a ser uma dama. E ele reparou como ela estava bonita sob a luz bruxuleante da fogueira. sentindo as sensações da menina. viajava pra muitos países. um princípio de vertigem.. na Espanha.. revivi. Esse sonho se repetiu durante meses.. Em seus olhos Luca pôde ver o reflexo inquieto do fogo. – Era sempre o mesmo lugar. Era jesuíta e conhecia pessoas importantes. entrava no sonho dos outros.. o nome dele. Nesse momento teve uma sensação estranha. Enrique. E era meio bruxo. mais leve. – E a história que você disse que ia me contar? Ela olhou séria para ele. Era uma adolescente pobre quando se casou com um alemão e foi morar com ele na Alemanha.. No sonho tinha uma criança brincando mas eu nunca via os olhos dela. Ela tinha tudo pra levar uma vida tranquila e confortável mas um dia conheceu um missionário português e se apaixonou perdidamente. Usava os sonhos pra saber o que rolava na Corte. século dezesseis.

Mas não encontrou. Bem. Porque na verdade Catarina nunca soube. Um dia ela fugiu com Enrique. Isadora olhou para a fogueira. É provável que tenha sido preso ou algo assim. – Esse negócio de amar demais nunca termina bem. Em vez disso. Ele a amava demais. ela enlouqueceu. Catarina procurou por ele durante anos. Luca percebeu que ela estava emocionada. – Não.lidade.. – Sim. uma coisa bem louca. Luca abriu a boca para repetir a pergunta quando outra ideia lhe veio. Nem nos sonhos ele apareceu mais. que era melhor ficar quieto. – E o bruxo português? – O que é que tem ele? Ela continuou jogando pedrinhas na fogueira. A falta de Enrique a consumiu até o fim da vida. Apanhou algumas pedrinhas e atirou às chamas. perguntou: – Você lembrou mesmo de tudo isso? – É mais que lembrar. Eu vivi de novo. ficou louca. Luca teve vontade de perguntar que interesse ela tinha em lhe contar aquela história mas sentia que não devia fazê-lo. Eu fui. Luca. – E você. 24 . Luca? Essa história não lhe diz nada? – Não acredito em reencarnação. – Enlouqueceu? De verdade? Isadora demorou a responder. Mas é uma curiosidade que eu tenho. de verdade. – Morreu? – Não sei. – E você acredita mesmo que foi essa Catarina? – Eu não acredito. – Deve ter arrumado outra. procurando por ele.. Mas algo deu errado na fuga e ele desapareceu. Mas e depois? – Ela. E ela morreu assim. Durante algum tempo ninguém falou nada e o silêncio que se formou era como uma sombra entre eles. de cidade em cidade.

– ela falou.. Quando retornou. Ele levantou.– Peraí. as insinuações. A insanidade tinha olhos cor de mel. tentando organizar as ideias. Ele respirou fundo. Ajeitou-se sob o lençol. – Foi depois desse sonho que decidi largar tudo. Ela fez que sim com a cabeça. Mas eu reconheci Enrique em você – Ela virou o rosto. sua tal vida na Espanha.. Ele olhou para a barraca azul fechada e suspirou. Você não está achando que eu sou esse Enrique... né? Ela não respondeu. as doidices de Isadora. que fui esse Enrique? – Não. * * depois outro e finalmente os dois juntos. – Naquele seu sonho. olhando calmamente em seus olhos. – Isadora. E vim atrás de você. Catarina. que ela agora procurava nessa vida. o bruxo português. Mas aquilo era uma loucura. desanimado. Ele simplesmente não sabia o que dizer. esforçando-se para sorrir. * LUCA ABRIU UM OLHO. Então aquela mulher largara tudo para encontrar alguém de outro tempo. uma completa loucura. Súbito escutou seu nome. constrangido. Luca riu. – Era pra você lembrar também. lembrando a noite anterior. avisou que primeiro iria ao banheiro e saiu.. eu disse isso. Ainda estava escuro e fazia um pouco de frio. de outra vida. – Só que tem algo errado. E era como uma névoa a envolvê-lo. tenho uma sugestão – ele disse de repente. Precisava se afastar daquele assunto – Vamos ouvir música? Eu trouxe o violão.. viajando pelas praias do Nordeste? E ela achava que ele era o tal alguém? Então estava explicado o comportamento estranho dela. A voz de Isadora.. dirigindo-se ao restaurante. Isadora não estava mais lá. Levantou25 ..

– Com essa chuva aí? – Claro. Isadora já havia sumido na curva. – Vem.. – Isadora. me espera! Então. Há quanto tempo você não brinca na chuva? Ele esfregou os olhos.. um trovão ecoando.. de repente. tomado pela inquietante sensação de já ter vivido aquele momento antes. em algum tempo longínquo. – E eu não comi nada ainda. a água escorrendo pelo rosto. formando poças e espalhando pelo ar um frescor relaxante. – Meio-dia? Caramba. Em pouco tempo estavam ensopados. quando? Um dejá-vu... Mas ela já saía correndo à sua frente.. os pingos nos olhos. pensando na capacidade que ela tinha de dizer certas coisas como se fossem as mais simples e lógicas do mundo. Minutos depois seguiam caminhando lado a lado pela estradinha de areia. ele ali parado. desajeitado. muito tempo atrás... Luca apressou o passo. ele gritando seu nome. – Serviço de despertador pro senhor Luca de Luz Neon. uma noite. Estava ainda mais bela. enrolado no lençol.se e. dormi demais. A chuva caía leve. sumindo. Meio-dia. Ele começou a correr e um chinelo atolou na poça de lama. ele lembrou que um dia. Isadora sumindo na chuva.. – Se eu chegar gripado na gráfica vai ser uma merda. Agora já era dia e chovia fininho. e quando. absorvido pela misteriosa sensação. E parou de correr.. parado sob a chuva. em que impossível tempo? Continuou ali.. Isadora sorria à sua frente. Acho melhor. abriu a barraca. – Esqueça só por um momento que pode adoecer... ela sumindo. Onde vivera aquela mesma cena.. – Pra onde? – Passear. Mas foi por pouco tempo pois logo domi26 ... ofegante.

Ela percebia a essência das coisas com naturalidade. a chuva. Luca. Ela o havia arrancado de seu sono e o levara para conhecer as delícias de uma tarde chuvosa. Os problemas que o esperavam em Fortaleza agora pertenciam a uma distante realidade e a realidade em que ele estava naquele momento era feita de coisas tão simples. enquanto ele precisava de muitíssimo esforço para. Correram pela estrada. AINDA CAÍA UM RESTO DE CHUVA 27 . e admirou-se de como ela combinava com o momento. Luca sentia a cabeça flutuar leve e os pensamentos vagarem sem critérios.. entretida em seu prato.. Ele olhou para Isadora à sua frente. Riram de velhas piadas e comeram milho assado. a chuva que caía lá fora. a simplicidade do lugar. tomaram cachaça e olharam a chuva debaixo de tetos de palha. Mais uma vez? * * * quando a noite desceu em Tibau do Sul. No restaurante da pousada. Um dia perfeito.nou-o um angustiante pressentimento de que se não corresse. Luca e Isadora tomavam um caldo de peixe... aquela mulher sumiria de sua vida mais uma vez. Poderia perguntar mas não. Pela primeira vez naquela viagem sentia-se verdadeiramente descontraído. Não queria que ficasse constrangido com aquela história que contei. tomando caldo de peixe. E agora estavam ali. ele calculou mentalmente. um velho prazer esquecido de infância. Que horas? Talvez algo entre seis e sete. Isadora parecia viver num outro patamar de apreensão das coisas. Como todos os dias deveriam ser. ser simples. a musiquinha na rádio. que ele não alcançava. ele saboreando cada pedaço daquele delicioso momento: o gosto do caldo. estar com Isadora era como estar fora dele... Ou oito e nove. – Desculpa por ontem. o tempo já não importava.. não queria saber do tempo..

– Ah. fiquei curioso. eu juro. Mesmo vivendo no ritmo louco da cidade grande. – E como é? – Não vou te contar. é pra rir mesmo. É uma religião antiga. – Não vou rir. Havia algo ali que o incomodava bastante. – Por quê? – Você vai rir. – Então me fala sobre o Taoísmo. ou seja. Um modo que o jeito ocidental. – Prometo que não rio. não consegue entender. fica mais simples viver. – Filosoficamente falando. Se você se harmoniza com o Tao. É isso que o Taoísmo ensina. – Como seria um modo intuitivo de entender a realidade? – Captar os movimentos naturais da vida pra agir em harmonia com eles. dividido entre a curiosidade e o receio de retomar aqueles assuntos. pensando bem.– Você realmente sonhou comigo? – ele perguntou. Ele sentiu-se aliviado. né? – Tem uns cinco mil anos. aquilo que liga todas as coisas e liga também o eu ao todo. o Taoísmo é um modo intuitivo de entender a realidade. algo que ele não sabia precisar. consigo mesmo e com a Natureza. – Mente da Natureza? Você andou fumando? 28 . é possível se manter ligado com a mente da Natureza. Melhor mesmo não falar daquilo. Dá um nó no pensamento. – Podemos falar de outra coisa? – Claro. com as verdades simples e naturais. – Então um taoísta é alguém ligado à Natureza? – É alguém que está conectado com o Tao. O Tao é a unicidade de tudo que existe. com toda sua lógica científica. Há o lado religioso mas prefiro o filosófico.

Só dá pra intuir. Viver cansado. Luca escutou o eco daquelas incômodas palavras. E quem responde não o conhece.. E. – E se eu quiser ir contra o Tao? – Vai viver cansado. suas estações. Isso me cheira a uma certa passividade. – Aliás. que não tem vontade nem tem moral. – Mas isso é contraditório. – É porque não dá pra explicar o Tao.. Captar o fluxo do Tao é um difícil trabalho interno. – Estar em harmonia com as coisas. – Tao tem tradução? – O ideograma chinês que corresponde ao Tao é feito de pé mais cabeça.. não? – Pelo contrário. uma alquimia interior.. É algo impessoal. sinceramente. A Natureza é a vida e a vida tem seus movimentos. rindo. 29 . nada deixa por fazer. o fluxo natural da realidade. – Quem é uno com o Tao não precisa fazer nada.– Não – ela respondeu. O Tao já é a própria ação da vida. Esse dinamismo é o Tao. O que não muda. – O Tao seria um deus? – O Tao não é uma entidade personalizada como os deuses das religiões. Mas depois que consegue. nem sei o que tem pra entender nisso aí. apodrece. o sentido. – Não sei se entendi. – Eu não disse? Dá um nó no pensamento. Sabe quando a gente se apega demais a uma coisa? Isso é antinatural.. O caminho. – Deixa ver se consigo explicar. É essa conexão com o natural que guia o taoísta por entre todo o caos. Porque aquela coisa se transforma o tempo todo e a gente continua apegado a algo que não existe mais. você se ajusta às forças naturais da vida e se torna um com tudo que existe.. – Quem pergunta sobre o Tao não o imagina. no entanto.

. e maluca. Sentia-se envolvido 30 . e sussurrou: – Vem. debaixo de chuva.. em êxtase. como se fossem mangas maduras e suculentas e ele um miserável esfomeado. o último gole apressado de cerveja. deliciosamente maluca. – Pensando em quê. – E. não seria o Tao. Ela tomou a última colher do caldo. Depois foram as mãos. o caminho de volta para a barraca. Luca de Luz Neon? – Ahn.– Pra mim está mais pra “sem pé nem cabeça”. Quer que eu diga? Ele fez que sim com a cabeça.. Luca fechou os olhos. apertando-se sobre a mesa. Chegaram ofegantes e enlameados. Ela suspendeu a camiseta. o cabelo molhado. o beijo ávido. o inadiável encontro das línguas. Ele terminou de tomar o caldo e ficou olhando para ela. os seios se insinuando por baixo da camiseta... a boca bem torneada.. Primeiro foi o olhar de idiota dele... – Eu sei. Ele sentiu-se flagrado em seu desejo sexual. Ela agarrou sua cabeça e o puxou para si. se deliciando com o que via: os olhos cor de mel. – Não faz mal. quase derrubando a barraca. Depois a conta paga com urgência.. Ele se lançou sobre os seios daquela mulher com todas as mãos e bocas e línguas que possuía. enquanto arrancavam o que tivessem de roupa e rolavam. – Se não houvesse gargalhadas. Entraram na barraca dele e ajoelharam-se um de frente para o outro.... subindo e descendo. Depois as bocas. nada. se quer saber. limpou a boca e falou. – Ops. desculpa. – ele falou e riu. lhe exibindo os seios. correndo. pode ficar com o troco. De repente ela ergueu o rosto e seu olhar interceptou o dele. pode rir – ela disse. Ele não acreditou no que escutou. naturalmente: – Nos meus peitos. subindo e descendo. prendeu seus braços e o cavalgou. eu estava a-do-ran-do. Depois ela pôs-se por cima. rindo também.

Por um instante foi tomado por um medo terrível de que Isadora jamais houvesse existido.. Ficou parado. Tudo nela era bom demais.. Num segundo seus pedaços foram lançados para todos os lados numa velocidade impensável. o passeio na chuva. correu até o restaurante e lá perguntou pela moça da barraca azul. * PRIMEIRO UM OLHO. * * Depois o outro. lentamente. respondeu um dos filhos de dona Zezé.. E lá fora.. Nem sinal dela. simplesmente fechou os olhos e deixou-se levar pelas sensações... milhões de fragmentos expelidos para o Cosmos sem fim. A transa mais louca e mais maravilhosa de toda sua vida. sem saber o que concluir. Em vez de racionalizar. triste por não estar com Isadora mas aliviado por constatar que ela existia.. Novamente sentiu a vertigem.. Ela já havia ido embora. 31 . Ele sentou-se. Pediu um café forte e foi sentar-se à entrada do restaurante... a maciez da pele. o cheiro gostoso. não viu a barraca azul. Então. a sensação de que algo o engolia. uma sensação estranha de estar escorregando para dentro de um sonho.. O olhar meio hipnótico de Isadora. Pôs o óculos escuro... Então olhou para o lado e não viu Isadora. ritmadas.. Enquanto tomava o café. a sensação de compartilhar seu corpo. apagando. o engolia. diminuindo.pelas sensações de uma forma como nunca antes havia sentido.. sob a luz clara do dia. Para sempre.. Luca mexeu-se sob o lençol. morrendo.. lembrando de Isadora. o som musical de seus gemidos.. sentiu que deixava de existir. em sucções contínuas. enfraquecido pelo esforço.. que tudo acontecera de verdade. Levantou rapidamente e saiu. Teve um mau pressentimento. como podia ser tão bom? E tudo o envolvia de tal modo que pela primeira vez ele fazia sexo sem pensar exatamente no que fazia. o sabor irresistível de seu beijo.. a transa na barraca. De repente a explosão.

uma pequena cobra marrom surgiu à frente. No ônibus. Saltar no abismo.. A cobra também parou e por alguns segundos ficou ali.. e de repente a ausência de Isadora era um imenso e eterno vazio em sua alma. E depois seguiu seu caminho. Nesse instante. cruzando lentamente a estradinha. Uma hora depois. Como era possível que algo que três dias antes sequer existia pudesse agora encher o seu ser de um vazio sem fim? Quando chegou de volta à barraca foi que percebeu o papel dobrado sobre o lençol: Te encontrei. Que abismo? 32 . Salte no abismo.olhou para o camping. imaginando o pesadelo que seria despertar à noite com uma cobra dentro da barraca. Luca se certificou que não havia perigo e prosseguiu. sumindo mato adentro. olhando para ele. Que estranha sensação. Ele estancou e recuou um passo. Agora não há mais retorno. onde tomaria outro ônibus para Fortaleza. a morte que quase o levara no mar de Tibau do Sul. ele caminhava pela estradinha de areia em direção à rua onde pegaria o ônibus que o levaria para Natal. elas lhe faziam lembrar a morte. – Mas bem pior seria despertar dentro da cobra. para a barraca azul que não mais estava lá. ele leu o bilhete pela décima vez. – brincou. após desarmar a barraca e pagar sua conta.. Não gostava de cobras..

Bluz Neon! Todos no palco. Na sexta seria o aniversário do Balu. a meia hora da cidade. tocando as músicas próprias e alguns clássicos do rock e do blues.. Desceu do palco e cantou sentado numa mesa de garotas. dos personagens folclóricos do bairro e da magia que se espalhava pelas ruas feito maresia.. quando chamavam para o palco as meninas que estivessem com o umbigo à mostra e todos dançavam numa divertida mistura de blues com baião. – Tenho a honra de apresentar. bebendo no copo delas. Ranieri no baixo. anunciou. o tecladista da banda. – Boa noite. gravado durante um show em Canoa Quebrada. No fim anunciou que estava à venda o CD demo. – Carlito. Ninon na bateria. Fizeram. Encerraram. a nossa atração de toda quinta. falou de suas meninas bonitas. como sempre. – Com vocês. E no sábado a Bluz Neon tocaria num festival de rock na praia do Cumbuco. Na quinta a Bluz Neon faria um show no Papalégua. barzinho famoso no bairro da boêmia Praia de Iracema. Luca na voz e no violão. com o Umbigo blues. Luca cumpriu o velho ritual: virou uma dose de uísque e depois cumprimentou o público.3 estava animada. Balu nos teclados. – E no uísque! – alguém gritou da plateia. Luca homenageou a Praia de Iracema... – Junior na guitarra. Festa é A AGENDA DA SEMANA 33 . Festa é o que nos resta. Para Luca seriam boas oportunidades para se refugiar sob o manto generoso da noite e esquecer que o dia o aguardava do outro lado. o dono do Papalégua. como sempre faziam. um show bastante alegre.

Isadora e seus beijos. Aquela era a entrada no nível seguinte da realidade. Ele tomou um susto e virou-se. Será que ainda a veria outra vez? – Oi. despedindo-se da lembrança de Isadora e pedindo uma caneta ao barman. será que podia autografar? Claro que sim. como deixavam aquelas ninfetas entrar ali? Festa é o que nos resta E eu tô com pressa. a bendita ardência. No balcão há um lugar Pra quem não sabe aonde ir Nesse momento lembrou de Isadora. voltando do camarim. tinha o CD gravado em Canoa Quebrada. beibe Ele tomou um longo gole.. onde tudo podia acontecer. Três dias com ela e agora três semanas sem ideia de onde pudesse estar. sua loucura.. buscando a dona da voz. sentindo o líquido descer pela garganta.. puxou rapidamente a garota pela cintura e a beijou na boca. devia ter uns dezesseis anos. Tinha o cabelo vermelho e estava sentada ao lado no balcão. caramba. – Adoooro. Tomou um gole e cantarolou o rock que andava compondo. Mas. seus peitos. sonhos.o que nos resta. passando-lhe devagar o 34 . respondeu Luca. Depois do show. ele reparou. a fronteira proibida da noite. ah. vidas passadas.. abismos. Luca.. A menina era simpática. Aqueles papos de Tao.. e tinha um jeitinho delicioso de safada. Luca deu um gole em seu uísque. Ela sorria e dizia ser fã da banda. – Gosta de uísque? – ele perguntou. Luca estacionou no balcão e pediu um uísque duplo. E deu de cara com uma garota.

vai... Mas tem um vizinho que não concorda comigo. cara. passando o cigarro para ele... – Então vou botar o CD pra gente ouvir! Ele pensou em acender um incenso mas não encontrou a caixinha.uísque de sua boca para a dela. Como conseguira perder se estava com ela um minuto antes? Abriu outra cerveja e se divertiu ouvindo a garota cantar as músicas da Bluz Neon. ela disse. sentou no sofá e fez sinal para a garota sentar ao seu lado. Ruiva. – Ei... enquanto Ângela Ro-Ro cantava Mares da Espanha na sala do apartamento de Luca. – ela murmurou depois. até os comentários nos intervalos. – Caramba. A banda não tá precisando de uma vocalista ruiva?. Onde diabos estava o incenso? Ela pôs para tocar novamente a primeira música e ele foi sentar no sofá... sabia todas de cor. loira.. – Pô. psiu. Ela sorriu. 35 . Quero ver de perto seu famoso umbigo blues. – Foi o beijo mais embriagante da minha vida! Uma hora depois. – Ah. Na volta escorregou na cerveja derramada e quase caiu de novo. passou a língua provocantemente entre os lábios e foi se ajoelhar entre suas pernas. – Caramba. incrível. – Então canta um blues pra mim. desencana! Festa é o que nos resta! – ela protestou. mostrando o umbigo. o que é isso. já canto blues demais na banda. ainda surpresa.. um complô? Após enxugar o chão. morena. Mas errou o cálculo e caiu no chão.. derramando a cerveja. – Também acho. acho que a faxineira mudou o sofá de lugar. Ele riu da própria piada e saiu cambaleando para pegar um pano de chão. a garota acendeu um baseado enquanto ele pela segunda vez abaixava o volume do som. rindo. Ele riu e suspendeu a camisa. ela perguntou.. – Putaquipariu. ele respondeu. Quantos anos você. gatinha..

. A sala era uma penumbra agradável e a garota estava novamente absorta em seus carinhos. era estranho. banda muito próxima do estrelato procura vocalistas de fino trato. Tchum! De repente deu-se conta. claro.. À frente. Como fora parar lá? Aquele piercing na língua dela. que alívio. tudo bem. meio sorrindo... Luca. pensando bem não seria má ideia ter umas vocalistas na banda. Onde estava? Que horas eram? Estava bêbado demais. E sentiu-se relaxar. Por trás das cortinas. no sofá.. Por trás das cortinas... Depois puxou o zíper da calça.. das cortinas.. que merda.. Luca suspirou. – Ele esticou o braço em busca da latinha de cerveja mas não encontrou. sorrindo para ele. – Acho que não acredito.. entre suas pernas. Vai querer ou não? – Fechado. Dezessete e meio. É.. piscando. dizendo que ali havia um aparelho de som. Afastou a cortina vermelha para o lado e surgiu o olhinho azulado dela.. tratar com Luca à noite. meio impaciente. Ajoelhada entre suas pernas. Pôs o cabelo para trás da orelha e o encarou: – Última oferta... Definitivamente os objetos estavam de sacanagem com ele. Pela janela entrava um pouco da claridade da rua. Melhor deixar as meninas como estavam... Só um princípio de brancão. – Disse mesmo? Então eu esqueci. estava em casa. A latinha estava no chão.– Eu já disse. Em casa! Claro. Botariam anúncio no jornal. Muita birita. estô36 . Dezessete. – Dezoito. – Ah. Não. Mas era bom. ufa.. – Que tal dezesseis? – Tá bom. Na sala do seu apartamento. o cabelo feito uma cortina vermelha à frente do rosto. Juizado. Ele tomou outro gole. largado no sofá. Luca. ela interrompeu os carinhos e ergueu o rosto. já passou.. mulher na banda não ia dar certo. Ela beijou seu umbigo e lhe fez cócegas com o piercing da língua.. umas luzinhas verdes. claro.

intrigado. – Desculpa. tem outra gata aí do teu lado... afastando a cabeça dela de seu colo. – Você também pode ver? – Heim? – Ela morreu quando eu era pequena. Devia mesmo era ter ficado no bar com os caras. lírou beibi. como é mesmo? – Ah.. Tem dia que não é dia. não... Quem abrira a porta para ela entrar? Finalmente entendeu: estava tão louco que via tudo em duplicata... Ah. Duas?! Ele esfregou os olhos. pelo menos isso. – Teu nome. Talvez amiga da ruivinha. E aquelas duas ali. eu não queria te assustar mas.. elas olhavam a cidade. Mas e a outra? Não fazia a menor ideia. Não digo mais. A garota suspendeu os carinhos e perguntou se ele estava mesmo a-fim.. A vizinha de baixo.. entre suas pernas. Aquilo era a coisa mais engraçada do mundo. Vez em quando aparece. ajoelhadas no chão. Irmã gêmea? Morta? Aquilo era sério mesmo? Olhou mais uma vez para as duas mulheres ajoelhadas entre suas pernas e sentiu-se incomodado. – Só um instante. não.. Luca parou de rir.. – Ele ajeitou-se no sofá. Transar com espírito já era rock´n´roll demais. – ele disse. E voltou a rir.. – É só não ligar que ela vai embora. Foi à cozinha e abriu a geladeira. – É minha irmã gêmea – Ela sorriu contrariada. Sexo com duas mulheres era uma delícia mas não exatamente daquela forma. Ainda havia uma cerveja. Depois levantou-se e subiu a calça.. talvez? Tentou fixar o olhar mas não a reconheceu. – Hoje tá complicado. rindo da própria chapação. Uma era a ruivinha do bar. Procurou lembrar. Quando voltou à sala.. Luca. tiete da banda. E desatou a rir. – Bem.mago vazio. os corpos 37 ..

Soninha. vindo de longe. reconhecendo o quarto. – Eu? – A gente se vê de novo? – Se sua irmã deixar.. Pedofilia astral não era brincadeira. Que merda.. Ele cobriu a cabeça com o travesseiro... Luca? – Ahn. – Posso dormir aqui.. sábado mesmo. Ele esperou que elas entrassem no prédio e ligou o fusca. TIGRÃO! Três * * horas! Uma voz feminina. Vamos.. a claridade intrometida do dia dissipando a magia da noite. – Luz queimada. – Não é por mal que minha irmã faz isso. E lamentou... Como sempre. tão belos e convidativos.. Meia hora depois ele parou o carro em frente ao prédio delas.. Melhor nem contar. devia ser proibido 38 . Ainda pensou em reconsiderar a decisão. ninguém ia acreditar mesmo.nus encostados à janela. displicentes.. ambas na mesma posição. por favor... Ou seria sexta? Não. Luca abriu os olhos devagar. show à noite na praia do Cumbuco.. Por um instante admirou-os.. heim? – Fala mais baixo. – Tudo bem.... Às oito tinha que estar na gráfica. mas não. – Não sabia que você era sensitivo. pia entupida! E esse espelho rachado? A gente fica um monstro se olhando nele! Por que você não pega o cachê de hoje e ajeita esse banheiro. vendo as primeiras luzes da sexta-feira surgindo por cima da cidade. Melhor eu deixar vocês em casa. Dava para dormir uma horinha. Sábado.. Luca. * – LEVANTA. Irmã gêmea do além. três da tarde. Aos poucos sentiu conectar-se àquela súbita realidade.. E saiu. protegendo-se daquela tempestade sonora.

deixando-a apenas com as botas pretas. no chão.. e de manhã ela seguiria direto para a academia.. Quando ele a via na plateia dos shows da banda. Ele mandava um papo mole com uma amiga do Ninon. Enquanto Soninha calçava suas botas pretas de salto. Depois botou para tocar sua coletânea Blues do Balu Volume 9 e apertou um natural. aquelas botas.. estragando a noite. De família rica. Foi até a cozinha para tomar uma água mas lembrou de Jim Morrison. escândalos e arranhões.acordar um ser humano assim. que sempre usava quando estava mal-intencionada. Corpo musculoso de professora de ginástica. como resistir? Uma hora depois Balu abriu um uísque e serviu a todos.. Na festa de aniversário do Balu. ela faria questão de pagar tudo e depois o levaria a um cincoestrelas da orla onde ele rasgaria sua roupa.. frequentava as colunas sociais mas achava excitante caçar roqueiros cabeludos no submundo alternativo. na noite anterior.. na janela. Tigrão? Levantou-se ainda grogue. principalmente se o ser humano tivesse ido dormir ao meio-dia. Às sete da manhã Iana.. porque o futuro é incerto e o fim estará sempre por perto. a namorada do Balu. já sabia o roteiro da noite: tomariam todas. aquele olhar que ele já sabia. 39 . – Viu minha outra bota por aí. Soninha. mas. gostosa mas absolutamente destemperada. caso de polícia. Com muito álcool. teve de bater na porta do banheiro para avisar aos dois animadinhos que todo mundo já havia ido embora.. deu um bom gole na cerveja e pôs-se a admirá-la. sem dormir. Ou poderia ser o roteiro B: ela beberia demais e daria defeito. na bancada da cozinha. ele sentou na beira da cama. hummm. e fariam sexo feito dois bichos alucinados. Tinha também outro vício: sexo. ela aparecera usando um vestidinho curto e as famosas botas pretas. fazendo a festa engatar a quinta marcha. viciada em academia e anfetamina. Bonita. uma sede assombrosa a lhe rasgar a garganta. estava até interessado na menina. acordar e pegar logo uma cerveja. dava aula até no domingo.

...... a camisa desabotoada. errou.. os seios pequenos. Diana e Odair José.. nua e deliciosa.– Ah. A porta abriu e surgiu Luca. a marca do biquíni minúsculo. hummm. Luca deu mais um gole na cerveja e continuou admirando-a. enquanto era lentamente penetrada por Luca. imprevisto.. As coxas musculosas... das cinco. explicou à recepcionista da academia que chamasse o professor substituto pois. – O amanhã só chega quando a gente acorda – ele filosofou. professora. o cabelo sem um fio no lugar. * LUCA PEGOU UMA CANETA * * e. pegou o celular na bolsa. enquanto os outros afinavam os 40 . ai. Instantes depois. Até que Soninha ia bem quando cismou que uma garota paquerava Luca e partiu para cima dela.. Tigrão? Você não conseguia nem ficar em pé. acontecera um.. Típico roteiro B.. de olhos fechados e falando pausadamente. viu. um boteco no bairro do Mucuripe que tinha o caldo de carne e a cerveja ideais para finalizar as noites sem fim. paciente. ao lado da cama. – Dá tempo. derrubando-a no chão junto com as garrafas de cerveja. qualé?! – Soninha argumentou lá de dentro. ao som de Genival Santos. um.. solene.. – Hoje é sexta! – Nada disso – Iana discordou. ela esticou o braço.. é. ai.. bebeu metade e Soninha bebeu a outra... – Vai se atrasar pra aula. – Já é sábado. Com as botas pretas.. e só poderia dar a aula das. um pequeno imprevisto.. Então despediram-se e esticaram para o Roque Santeiro. só um momento.. Aí não houve mais clima e tiveram que ir embora... – Aquela de ontem no banheiro da casa do Balu não valeu. Ela estava em pé. digitou de novo e. digitou. Luca serviu mais uma dose.. só um momento.

instrumentos, sentou-se num canto do camarim e pôs-se a rabiscar num papel de guardanapo. – Saiu do forno agora, Junior – ele disse. E cantarolou para o amigo escutar. No balcão há um lugar Pra quem não sabe aonde ir Festa é o que nos resta E eu tô com pressa, beibe Uma dose agora Preciso beber pra me dirigir – Gostei. Mas não te empolga que o repertório de hoje já tá fechado, viu, cidadão? – Prometo. Minutos depois Ninon bateu no bumbo da bateria e Luca entrou no palco. Dali de cima ele podia ver a plateia espalhada pela areia da praia, o mar do lado direito, a lua imponente no céu... Ele virou a dose de uísque e pegou o microfone: – Boa noite. – Boa noite! – responderam algumas garotas próximas ao palco. – Festa... – É o que nos resta! – elas completaram, animadas. O show transcorreu normal. Mas no fim, após o tradicional Umbigo blues, Luca tirou um guardanapo do bolso e anunciou, a voz rouca pelos excessos dos últimos dias: – Essa se chama Uma dose agora. Ainda não está ensaiada. Os caras vão me esganar lá no camarim mas, porra, a gente está na praia, essa lua... Ele pegou o violão, sentou no banquinho, dedilhou um pouco e parou. Deu a indicação para Ninon, na bateria, começar. Os outros balançaram a cabeça, resignados, e acompanharam. A música saiu péssima, claro. Mas havia um grupo de garotas animadas e barulhentas bem em frente ao palco e elas aplaudiram e gritaram tanto que felizmente ninguém atentou
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muito para a música. Terminada a apresentação, Ranieri apareceu no camarim com uma das animadas, que disse ter adorado o show e que tinha umas amigas que queriam demais conhecer os caras da Bluz Neon. – Os neons solteiros, né, minha filha?... – consertou Celina, puxando o namorado Ninon pelo braço. – A gente já vai pra pousada. E você também, Balu, porque é hora dos casados irem dormir. Uma dúzia de cervejas depois estavam os neons solteiros com as novas amigas na areia da praia. A lua do Cumbuco, o vento nos coqueiros, o quebrar das ondas, todos falando ao mesmo tempo. Junior no violão faltando uma corda, Ranieri na latinha de cerveja amassada e Luca na quase voz. Mais músicas, mais cerveja. Alguém tem seda? Ah, Junior, toca aquela, vai. Fumar aqui não é sujeira? A gente vai ser multado por excesso de prazer. Arruma umas cortesias pro Papalégua pra gente, vai. Esta cerva é a minha? O umbigo mais lindo é o do Ranieri. Banho à noite no mar não faz mal. Não faz mal... faz mal... Tchum! De repente Luca deu por si. Em volta, tudo escuro. Um calor dos diabos. Estava numa sauna. Não, não, numa cama. Mas onde? E sob seu corpo suado havia uma... uma mulher. Entrava e saía de dentro dela com violência e ela dizia coisas que ele não compreendia. Assustou-se. Simplesmente não sabia quem era a mulher. Sem interromper os movimentos de vai e vem, ele tentou lembrar... mas só conseguiu recordar do show. O que acontecera depois não tinha nenhum registro. Olhou para o rosto sob seu corpo e nada viu, estava escuro demais. Atentou para o que ela dizia mas não entendeu uma só palavra. Seria estrangeira? Ou uma extraterrestre? Ainda estava muito bêbado. Fez um esforço para tentar lembrar alguma coisa, qualquer coisa... mas nada, não lhe acorria nenhuma imagem. Simplesmente não sabia com quem estava transando naquela cama. Que merda.
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O suor escorria pela pele, colando seu corpo ao da mulher anônima. O gozo não vinha e já não tinha forças para continuar por mais tempo. Para completar, alguém pusera para tocar bem próximo uma axé music qualquer, aê, aê, ô, ô. Pensou em levantar e ligar o ventilador. Pensou em gritar para que abaixassem o volume daquela música insuportável. Não. Tudo que precisava mesmo era terminar logo com aquilo, voltar para a pousada e cair em sua cama. Apagar. Fechou os olhos para se concentrar e esquecer do calor, da música, da mulher sem rosto. Mas logo abriu novamente pois o quarto todo rodou. Não, vomitar agora não...

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Torcendo por um bom show.. Estou na lagoa de Uruaú.. o bar do Carlito. Luca sorriu. excitado.. A cidade nua. elas e suas esquinas de amores em oferta. curioso..4 e Luca acelerou. Luca abriu o telegrama. 44 .. avançando o fusca pela avenida. Ele leu e releu e por alguns instantes sentiu-se deslizando lentamente por um buraco no tempo.. entregando-lhe um papel.. O SINAL FICOU VERDE A noite te veste de sorrisos E teu hálito é a brisa a me guiar Toda a pressa das esquinas São vitrines de retina Promessas de amar Alugue um prazer com vista pro mar Mais uma apresentação no Papalégua. o despudor no ar. Isadora. Depois do show Carlito dirigiu-se a Luca.. O hálito morno da noite. a amiga noite a seduzi-lo nos neons coloridos. um romance caliente. – Chegou no final da tarde – ele disse. Era preciso ser feliz. E dessa vez os companheiros o proibiram terminantemente de improvisar com músicas não ensaiadas. urgente. Dessa vez na sexta-feira pois na quinta Luca ainda estava bastante rouco. Pelo retrovisor via as ruas ficando para trás. dois meses antes.

talvez não fosse uma boa pegar estrada. Estava bêbado e cansado. 45 .. – Quem é Isadora? – perguntou Junior. queria chegar logo. estou indo agora pra Uruaú... Pouco depois já seguia pela estrada em seu fusca. Um estranho frisson tomava conta de seu corpo e de sua alma. Soninha agora era uma espécie de assessora da banda para assuntos de academia e. é só um rolo.Isadora. Detestava aquelas súbitas decisões. ele pensou. Luca Fajest agora ataca de esotéricas! – Ela é doidinha mas é maravilhosa. – E já mandou descer dois litros de Red. – Bicho. reencontrar Isadora. queria muito rever Isadora. – Luca falou.. fazendo-o acelerar o mais que podia. lembrando da última noite em Tibau do Sul.. Mas por outro lado. lendo o telegrama... Vai recusar? Luca olhou para a mesa e viu Soninha. eu conheço esse olhar. Amar é um perigo. – Que nada. ela e suas botas pretas assassinas. Ela achava que o Umbigo blues ficaria bem melhor se todos estivessem com o tórax definido. a que tu comeu numa vida passada. Então a danada estava na lagoa de Uruaú. – Ah. graças a seus bons contatos.. – Cuidado. – A gata de Tibau do Sul.. Luca virou a dose de uísque e anunciou: – Amigos.. Por alguns segundos Luca ficou em dúvida. enquanto escutava os blues de Celso Blues Boy. um outro amor na longa estrada. todos da banda podiam malhar sem pagar. – Ih.. cidadão. nossa personal treiner tá lá na mesa – Ranieri avisou. sentindo-se numa encruzilhada. – Uruaú me chama – ele finalmente respondeu. A gente se vê depois. – E guardem uma dose pra mim. – Que olhar? – De apaixonado.

. Então. – Como soube do show? – Vi no jornal. De repente viver era de uma simplicidade tão óbvia.. fez a volta e saiu a toda velocidade pela estradinha de areia. Luca entrou na barraca para trocar de roupa e momentos 46 .. Abraçaram-se em silêncio durante um longo tempo. É. parou o carro próximo à margem. um pouco mais e nada. o contato dos seios em seu peito. bocejando. tão óbvia. enegrecida pela noite sem lua. Dirigiu atento pelas estradinhas de areia que circundavam a lagoa. – Boa ideia. uma fogueira. E ao lado. lavou o rosto.. estava muito escuro. – Tá batendo o sono – ele disse. litoral leste do Ceará. Luca. Chateado. olhando para um canto na outra margem. Mas prosseguiu. a fogueira. – Que bom que você veio. E Isadora. Liguei. Mas havia pouca lua no céu. Isadora e seu jeito de fazer as coisas serem mais simples do que pareciam ser.. Ele reconheceu a sensação dos cabelos de Isadora lhe roçando o rosto. pedi o endereço e mandei o telegrama. Onde estava com a cabeça? Que merda.. E então deu-se conta de que havia esquecido. Rodou mais um pouco. o calor aconchegante de seu corpo. Então a paisagem abriu-se subitamente e a lagoa surgiu de novo à sua frente. Adiante pegou outro caminho e viu-se de repente no meio do mato. Molhou os pés na água fria. julgou distinguir.. desceu e caminhou até a lagoa. bobamente fascinado. Ele riu. não fora realmente uma boa ideia. – Tem algo pra beber? – Por que não toma um banho? A água está bem morninha.. E a barraca azul. Não encontrou a barraca. Voltou correndo ao carro.Noventa quilômetros depois chegou a Uruaú. poucos metros. Estava muito cansado. simplesmente havia esquecido de como era realmente maravilhoso estar com ela. procurando por uma barraca azul.

Quando viu Luca em Tibau do Sul. o sexo.. ela lutara silenciosamente contra a pressão dos dois lados da realidade. num primeiro instante.depois. Como iria encontrar alguém numa imensidão de lugares possíveis? E se tudo não passasse de uma tola e ridícula fantasia? Eram perguntas que doíam em sua alma. ao perceber que ele de nada lembrava e sequer acreditava em vidas passadas. o encontrou roncando. Ela achou graça da cena e. a sintonia perfeita dos corpos. Desde que os sonhos vieram.. o amor que quatrocentos anos antes ela perdera por motivos que nunca entendeu.. como ele não saía lá de dentro.. decidira seguir os sussurros. Então largou o emprego no banco. ali estava seu amado. um lado gritando que deixasse de maluquices. sentiuse perdida e frustrada. sussurrou em seu ouvido: – Enrique. Como o sexo podia ser tão perfeito com um desconhecido? Só se 47 . sem saber o que fazer. Então decidiu dar o passo seguinte. Isadora entrou e. e o outro lado cochichando no ouvido que permitisse que aquele antigo amor lhe guiasse o caminho. a mistura harmoniosa de ternura e violência. a boca aberta. um pé no tênis e o outro fora. A loucura de Catarina. que vidas passadas sequer podiam ser comprovadas de fato. e aquela noite maravilhosa na barraca só confirmou tudo. enquanto o ajeitava para dormir melhor. Após o sonho com Luca.. e ela finalmente o havia reencontrado. dois anos antes.. juntou as economias e rumou para as praias do Nordeste. a sombra da loucura. A mera consideração daquelas possibilidades lhe dava calafrios e nesses momentos uma imensa sombra a envolvia. Mas as dúvidas sempre a acompanharam. Sim. babando. só podia ser ele. esparramado no colchonete. Ele era Enrique. confirmou para si mesma. Quatrocentos anos depois. simplesmente não podia desistir assim de seu grande amor. sim. Mas já havia ido longe demais.. Nada que não fosse isso faria sentido. Porém. não teve mais dúvidas.. o prazer enlouquecedor.

definitivamente aquele não era o melhor jeito de saltar. Fazia calor. Isadora olhou para o homem estirado à sua frente. à sombra de uma goiabeira.. bocejando. Agindo assim. – Dormi antes ou depois da gente. Entretanto. Fosse o abismo que fosse. Luca tinha medo de amar. Luca de Luz Neon. – Muuuito antes – ela respondeu. – Você dormiu. havia uma diferença. como se de alguma forma a proximidade do mar pudesse trazer de volta seu amor perdido. compreendendo a Luca. a velha estratégia para não doer muito. Sentiu uma súbita pontada de medo. Um mês inteiro longe de Luca serviu para entendê-lo melhor. Reconheceu o interior da barraca azul de Isadora. – Que merda. – O que aconteceu ontem? – ele perguntou. ele lhe pedira que o ajudasse a saltar no abismo – mas parecia fugir dele. ambos tinham um elevado sentimento de autoimportância e se achavam capazes de dominar todos os acontecimentos ao redor. Estava certa. Ambos eram obcecados por querer controlar a vida... – Bem vindo ao dia. Mas ela não estava ao seu lado. Cada um a seu modo. Talvez ela também precisasse. já devia ser bem tarde. E.. Então decidiu prosseguir na viagem pelas praias. lendo o I Ching.. acabou também compreendendo um pouco mais ao próprio Enrique. bêbado e roncando..o desconhecido não fosse realmente desconhecido. Em seu sonho. Talvez Luca só precisasse de mais algum tempo. * LUCA ABRIU UM OLHO * * e depois o outro. rindo. porém. esqueciam de realmente viver a vida. O mesmo medo que sentira em Tibau do Sul quando procurava por ela no último dia. ela sabia: enquanto Enrique entregara-se ao amor que sentia por Catarina. Então saiu da barraca e a viu sentada ao lado. 48 .

– Em Canoa Quebrada quase fui presa. protegendo os olhos da claridade insuportável. você é a mulher ideal. – Sabe como é. E Isadora contou das praias por onde passara antes de chegar ali. a banda está ficando mais profissional. A banda estava realmente se profissionalizando mas a reunião não era com ninguém da 49 .. Hoje à noite tenho uma reunião importante. Na verdade. – A dona do camping desconfiou de mim e chamou a polícia mas não podia provar nada. – Oba. você é mesmo uma ameaça pra ordem estabelecida. No restaurante. sabia? – Por quê? – É que no camping tinha um viveiro de pássaros. tomando um gole de cerveja. – Tem show hoje? – Não. – Que pena. – E a vida em Fortaleza. – Negócios – ele completou. – O que você fez? – Soltei todos. Eu te empresto o meu. Não posso. como vai? – Tudo sob controle. ele pediu uma cerveja para rebater a ressaca. E eu não aguento ver passarinho preso. Então você pode ficar até amanhã. – Caramba.– Melhor assim. claro. – Isadora. não teria mandado aquele telegrama. – Vende óculos escuro aqui por perto? – ele perguntou. Ele sorriu. Inclusive para a minha. – Não acredito. – Sem desesperos.. ele quase completou. você estava num estado lastimável. – Ahn. o que dissera era uma meia-verdade. E ainda veio dirigindo! Se eu soubesse. por um triz.

inconformada. Tem que estar sempre atento pra não ser apunhalado pelas costas. E a sós. Ele vai te sussurrar o caminho se a gente se perder novamente. A tarde já caía quando eles saíram do restaurante e foram passear pelas margens da lagoa. Isso é uma ilusão. Ela soltou-se dele para apanhar uma concha.banda. vai. – Você está satisfeito com a sua vida. – Você confia na vida? Ele demorou a responder. guardando a concha no bolso. – Claro que não! Controlar a vida acaba travando a vida. Eu ajudo. Caminhavam abraçados pela areia e as ondas vinham lhe lamber os pés. Isadora? Que abismo é esse que eu tenho que saltar? – Não sei. eu sei. Mas tenta. Como alguém podia ser tão travado? – Entregue o controle. Isadora balançou a cabeça. – Não se pode confiar na vida cem por cento. – Claro que não. – Novamente? – ele perguntou. – Confiar na vida parece loucura. – Mas o abismo é seu – ela respondeu. – Sim. Você é quem devia saber. Ela tirou a areia da concha e lhe entregou. como quatro séculos atrás. você sabe disso. – Por quê? – Porque a vida é traiçoeira. Chutou uma pedra na areia. pisar descalço a areia. Era com uma tiete. – Está ouvindo? É o som do abismo. Luca. deixando conchas de lembrança. – E aquele bilhete. Luca? – Tem coisas que podiam melhorar. rindo. Ele a encostou no ouvido. O sonho foi seu. – Ilusão é achar que a vida se resolve por si só. É melhor controlar. 50 . sentir a brisa do fim de tarde. Isadora.

– Mas como pode ter tanta certeza? – Eu sei.. Nem sobra espaço pro amor. – Quem sabe você esteja desperdiçando seu poder tentando controlar tudo. a vida não flui. Isadora! – Ele não se conformava. – Se realmente precisar saber. – Como se tudo já estivesse escrito. Por que então não lembro? – Isso eu não sei.– Isadora. acho que ele acabou sendo pego. então eu poderia saber o que houve com ele. O cara era bruxo.. Apenas sei. meu amor real. – Se eu fui Enrique. – Não importa. se eu fui Enrique. Você é Enrique. – Fazer tudo? Isso não contradiz o seu princípio taoísta de não forçar as situações? – Contradiz mesmo. disso eu não consegui lembrar. pra Catarina? – Não sei. Enrique tinha inimigos. desistindo do assunto. Temos que fazer tudo. – Bem. então evoluí ao contrário. – Acredito no real. no que eu posso ver. fodão. vamos supor que seja eu mesmo. você sabe que eu não acredito em reencarnação – ele falou. Como alguém podia viver com lógicas tão absurdas? * * * 51 . Onde tem controle. – Por que ele não voltou pra você? Quer dizer. – Tudo bem. – Nada está escrito. sabia? – Você e Enrique se amavam mesmo? – Muito. Ele suspirou. tentando não ser rude. – E então? – Então temos de fazer tudo mas sem forçar as situações. saberá. – Isso é confiar demais no destino.

.. ele sabia.. De onde diabos tirara ideia tão insana? Neste instante. existia. Dessa vez. tão especial. incomodado com o rumo de seus pensamentos. ela em suas viagens e ele em Fortaleza. Seu instinto parecia alertá-lo: existia um grande perigo ali. sem as complicações que o amor sempre trazia. Com ela o sexo era sempre intenso. porém. E.. além de tudo. ele viu acender-se a luzinha vermelha de alerta. Isadora era louca demais. Casados? Não devia estar muito bem da cabeça. Luca acariciou seus cabelos enquanto se imaginava seu cavaleiro protetor.. E se fossem casados? Ele interrompeu a carícia. um quê de sagrado.. na segurança de seu mundo.. E tinha algo de misterioso. Ao seu lado viver se tornava mais instigante. de chamá-lo para dentro de si feito uma ordem a que não podia desobedecer. Estava solteiro. perguntouse. Isadora dormia ao seu lado. Aconchegou-se um pouco mais a ela enquanto lembrava da noite anterior. seu jeito gostoso de abraçar. No entanto ela era tão linda.e viu-se dentro da barraca azul. o corpo macio e generoso de Isadora. E o amor era algo que não fazia parte de seus planos. e isso era tudo de que não precisava. simplesmente não resistira a Isadora.. A reunião noturna com a tiete ele cancelara. Amar era perder o controle de si mesmo. E ainda fazia o melhor sexo do mundo. Melhor manter a coisa como estava. LUCA ACORDOU 52 . tentando imaginar como seria. mais misterioso. por acaso esquecera disso? Estava solteiro e gostava de sua vida assim. assustando-se com o próprio pensamento. Sim. sentindo o coração acelerado. E ela era tão linda dormindo. Mais prudente manter-se a uma distância segura. Abdicaria de todas as outras por ela? Sentou-se. E se por acaso morassem na mesma cidade?. E chamava-se amor. Ela era absolutamente diferente de qualquer mulher que conhecera em toda a vida. Pena que morava tão longe.

A lagoa estava ali havia séculos e nada a afobava. ela permitia que a vida se manifestasse em suas profundezas e que seres insignificantes como ele deslizassem em suas águas.. que permitia que uma criatura barulhenta como ele perturbasse a paz de sua superfície.. Então parou de remar. O caiaque avançava lagoa adentro enquanto a luminosidade do novo dia se derramava devagar sobre a lagoa. Sim. naquele imenso silêncio. Percebeu que a lagoa tinha perfeita consciência dele. em toda a sua grandeza. subitamente. Afundaria e morreria. ele morreria ali mesmo se a lagoa assim quisesse.. era estranho. Alojou-se dentro do caiaque e empurrou o chão com o remo. Umas boas remadas pela lagoa fariam bem.Levantou com cuidado para não acordá-la e saiu da barraca. De repente Luca sentiu que todo aquele silêncio era uma manifestação da lagoa e esta era tão grande. Sentiu medo de morrer. Digna e grandiosa. Ele não era tão puro quanto aquele silêncio. Sentiu-se indigno naquele ambiente. deslizando suavemente sobre a água. Luca não pôde deixar de atentar para o insólito da situação: seis horas da manhã de um domingo e ele num caiaque. não havia dúvidas quanto a isso. O amanhecer realmente era um mundo desconhecido. absolutamente nada. Caminhou até a casa que alugava caiaques e pegou um. compreendeu o quanto era pequeno diante daquilo tudo. que era impossível que não soubesse dele em sua superfície. Então abaixou a cabeça e. O caiaque prosseguiu deslizando mais um pouco. e começou a se arrepender de estar ali. claro. Nada poderia fazer e ninguém escutaria seus gritos. Não era digno como a lagoa. Foi um clarão repentino que iluminou sua mente e o fez entender instantaneamente que ele não significava nada. remando naquela imensa lagoa. sozinho como nunca esteve em 53 . tão digna. contaminando-o. Foi nesse momento que.. E o silêncio se manifestou inteiramente. O sol já subia no horizonte mas o dia estava nublado.

emitindo um som rouco.. Uma eternidade depois sentiu que o imenso silêncio relaxava sua força sobre ele. Então. enquanto as pequeninas ondas lhe chicoteavam os pés.sua vida inteira. o coração quase na boca. Agora foi a lagoa que quis me engolir. Começou a remar. Remou e remou até alcançar a margem. o rosto ainda escondido entre as mãos. Pisou a terra ainda um pouco atordoado. cautelosamente.. Isadora. Chorou de pavor. a lagoa tranquila. Era a lagoa a lhe mandar um último recado: não és nada. – Eu sei – falou baixinho. Não precisava repetir.. E a lagoa se mexeu. A mesma porta que um dia os seus estranhos sonhos também lhe abriram. 54 . Já sabia. Não estou gostando. – Você foi quem perguntou. Então abriu um olho.. depois o outro olho. Em Tibau do Sul eu quase morri afogado. o caiaque a flutuar sobre suas águas. chorou. enquanto aguardava o momento em que a lagoa finalmente estenderia das profundezas os seus tentáculos e o arrastaria para o fundo. inteiramente rendido. tomou o remo e o enfiou na água. – Pare de falar nisso. – Não acredito nesse abismo. Que diabo está havendo? Isadora olhou nos olhos de Luca e reconheceu neles o medo de quem acaba de abrir a porta do desconhecido de si mesmo. ainda temeroso. parecendo que ia acordar. Tudo continuava como antes. E tudo estaria terminado. ele sentiu-se saindo de um sonho. bem devagar. já disse. * * * – DEPOIS QUE A GENTE SE CONHECEU. Isadora. Quando finalmente o fundo do caiaque arrastou-se pela areia. não és nada. essas coisas estranhas começaram a acontecer. – Vai ver é o abismo se aproximando. é sério.

Pegou rapidamente um papel. – Luca de Luz Neon está me convidando pra experimentar seu mundo? – Estou. – Eu? Você está louca? – Foi a primeira música que você cantou pra mim. enquanto se despediam. – Mas eu vou. Nesse momento a possibilidade de nunca mais vê-la penetrou feito um punhal em seu peito e a dor agitou-se por todo o seu ser. E a angústia não se desfez. É. sem qualquer controle sobre a situação. escreveu seu telefone e endereço e entregou a ela.. Luca parou por um instante. de certa forma.. Luca pensou. Ao mesmo tempo que não resistia a estar com ela. Luca sentiu o coração apertado. Mas vamos mudar de assunto. – Lembro. Aquelas coisas o faziam sentir-se um joguete nas mãos do que não conhecia. também o fazia sentir-se assim. Luca.. E isso era realmente apavorante.. À noite. E no sábado vai rolar uma festa imperdível. – Não sei.. Na sexta vamos fazer um show bem legal. Acho que essa viagem não combina muito com cidade grande. Ele voltaria para Fortaleza enquanto Isadora continuaria sua viagem pelas praias do Ceará. – Que tal passar o fim de semana em Fortaleza comigo? Minha cama é espaçosa.. Isadora. sem sa55 . talvez fosse melhor ela não ir. A luzinha vermelha de alerta.. não lembra? Nesse abismo deu vertigem. ao lado do fusca. sabia que bastava sua presença para que de repente lhe faltasse o poder sobre suas próprias certezas. Estava nervoso.– Mas vive falando dele em seus shows.. O que estava fazendo? Aquilo era quase um pedido de namoro! Por alguns instantes seus atos e suas palavras simplesmente haviam adquirido vontade própria. – Suas fãs não vão gostar de me ver com você. lá em Tibau do Sul.

ele olhou pelo retrovisor e viu Isadora acenando. um aceno triste que lhe cortava a alma. um instante antes de sumir na curva.ber o que realmente desejava. Quando haviam se despedido assim? 56 . feito muito tempo atrás. E de repente foi como se ela repetisse um gesto muito antigo. Dentro do carro.

Um calafrio lhe percorreu a espinha e a visão – CAMARIM COM AR CONDICIONADO! 57 . novamente aquela sensação de escorregar para um sonho. – Uísque doze anos! A banda evoluiu. – E você. é o único que não está indo lá malhar. quando o palco quase não comportou todas as meninas de umbigo de fora que subiram. Era o maior cachê da história da banda. Reapareceu vestido numa túnica escura com capuz. Após o Umbigo blues. posicionou-se no centro do palco. Nesse momento as luzes dos refletores piscaram sobre seus olhos e ele sentiu uma leve vertigem. O repertório estava bem ensaiado e a banda fez a plateia dançar bastante. falou qualquer coisa sobre abismos e o show começou. Caminhou lentamente. Luca.5 – exclamou Ranieri. Estavam todos muito animados naquela sexta-feira. Às onze horas a Bluz Neon subiu ao palco e a luz verde desceu sobre Luca. sem distinguir os rostos na multidão. abriu os braços em cruz e olhou para a plateia. tomaram seus lugares e recomeçaram a tocar. A boate Karvalhedo estava lotada e eles fariam a abertura do show principal. Prometo. eles saíram bastante aplaudidos e do camarim escutaram os insistentes pedidos de bis. Ele tomou um gole de uísque.. da Baseado em Blues.. ao estilo dos monges medievais. deu boa-noite. Então voltaram. a realidade perdendo força. bicho! – É que o dono dessa boate é meu aluno na academia – explicou Soninha. viu? – Segunda-feira eu começo. Luca foi o último a voltar. destacando-o à frente dos demais.

né? – Soninha perguntou. Enquanto a fumaça de gelo seco envolvia seu corpo. a garrafa de uísque rodava de mão em mão. beibe. Então a porta do camarim abriu e Soninha entrou. Aquelas malditas decisões. Ela sorriu para Luca e ele imediatamente entendeu o que ela queria. Isadora bem que podia ter aceito seu convite de passar o fim de semana com ele.ficou turva. – Não – respondeu Luca. todos comemorando o bom show. E encerrou o show recitando o trecho final da letra: São tantas estações Eu ouço sinos nas esquinas E sorrio para as meninas Em seus decotes-perdição Eu erro a mão e me perco à meia-luz Eu sou o trem que me conduz À minha própria salvação No camarim. aquele olhar de caçadora do submundo que tão bem conhecia.. ele segurou-se no pedestal do microfone para não cair e respirou fundo algumas vezes até o mal-estar passar enquanto a banda levava a música sem ele. Vestia uma minissaia preta de couro e calçava suas botas pretas. festejando a nova fase da banda e o enorme su58 . – Dessa vez você não vai me trocar por uma lagoa. abraçando Soninha e beijandoa. dizendo que ninguém havia percebido nada.. Luca se desculpou pelo mal-estar ao final da apresentação mas Junior o tranquilizou. Assistiram ao show da atração principal todos juntos numa mesa. aproximando-se dele de um modo insinuante. após o show. que a vantagem de ser um cantor performático como ele era é que até mesmo um desmaio acabava parecendo parte do roteiro. – Hoje não tem lagoa. Luca lembrou de Isadora e sentiu-se novamente numa encruzilhada.

Tigrão. – Ah. Ele. porém. vamos terminar essa garrafa. Soninha mandou trazer outra garrafa de uísque e depois mais outra. voltando o olhar para o show. Luca? – Que verdade? – Que o cantor da Bluz Neon gosta mais de uísque que de mulher. Entendeu? Soninha resolveu tentar outra estratégia. Soninha não se conteve: – Já pensou quando essas fanzocas descobrirem a verdade. Eu vou ficar com meus nobres companheiros de luta.. pedras de gelo para todo lado. retirou sua mão. E sentou de novo. – Calma. Cadê teu copo? – Tá vendo como é teu amigo. Tenho que cuidar de você. então você quer classe. Você já passou do ponto. Sentou-se ao lado de Luca e meteu a mão sob a mesa. Soninha. – Pô. o líquido ensopando a camisa. – Ah.. enquanto Junior e Ranieri disfarçavam o riso. pode ir. Antes do final do show ela levantou e puxou Luca pelo braço. Luca olhou sério para ela.. Luca.. É uma pena que seu dinheiro não possa comprar classe – ele falou. Luca levantou. Essa serve? Num gesto rápido Soninha esticou o braço e esvaziou um copo inteiro de uísque sobre o peito de Luca. acariciando-o entre as pernas.cesso que os esperava. Nesse instante surgiu uma garota pedindo para tirar uma foto com ele. Sônia. – Vai sim. calmamente. – Eu sou sua personal. onde já se viu ir pra casa às três da manhã? Se quiser. abraçou-a e fez a foto. Junior? Bebe demais e depois não dá conta do recado. – Personal e não babá. né. – E você está despedido! Procure outra banda! – ela 59 . Depois a garota agradeceu dandolhe um beijo na boca e saiu feliz da vida. chefa. Ele ainda não queria ir embora mas ela insistiu.

pelo amor. que ainda não acreditava no que acontecera. Por ela. Luca puxou uma pedra de gelo de dentro da camisa encharcada e pôs na boca. cidadão. segurando Luca.. sim. – Calma. – Muita calma nessa hora.. Ao ver Luca. se quisesse conhecê-lo e entendê-lo melhor. fica aí vendo o show. por Luca. amanhã ela reconsidera. Luca. deu boa-noite a todos e falou: 60 . tô cansado dessa vida de rock star. no centro do palco. sentiuse orgulhosa dele.. – disse Junior. Explorar. um mundo caleidoscópico que podia confundi-la. experimentando o microfone. dando meia-volta e abrindo caminho entre as mesas. ela sabia. explorando aquilo que ainda não sabia de si. Sim. Lá estava o homem que amava. precisava de alguma forma experimentar seu mundo.completou. copo na mão. Mas estava disposta a se arriscar.. aventurar-se. mas podia ser uma boa oportunidade para exercitar sua intuição de taoísta. E podia também ser uma ótima oportunidade de conhecer melhor a si própria.. – Cadê a gatinha da foto. – Pensando bem.. Isadora sentiu uma emoção estranha. Acho que vou dar um tempo em Paris. Essas coisas envolviam riscos. – Deixa que eu vou atrás dela. sempre envolviam... alguém viu? * QUANDO ISADORA CHEGOU * * eram onze horas e a boate Karvalhedo já estava lotada mas ela conseguiu um lugar razoável para ver o show que começava. ela sabia que o mundo de Luca era uma festa sem fim. sua capacidade de se harmonizar com os sutis movimentos da vida. Por que não? Às onze horas a Bluz Neon subiu ao palco da Karvalhedo. Aceitara o convite de Luca para passar o fim de semana em Fortaleza porque concluiu que. Sob o facho de luz verde ele tomou um gole. aventurando-se pelas possibilidades de seu ser.

ele a olhava. a outra mão segurando a amurada. ele fizera exatamente aquilo. Foi nesse momento. No instante seguinte a fumaça de gelo seco havia se transformado em névoa e o palco à sua frente era agora. em algum tempo muito distante. Sentia um aperto no peito.. Ela usava um vestido com uma manta por cima e o vento sacudia seus cabelos. Então viu-se sozinha. Por que precisavam separar-se mais uma vez? Por que ainda esperar mais tempo? Por quê? Do navio ele acenou. Era uma manhã enevoada em Barcelona e os ventos sopravam favoráveis.. e seu aceno a fez lembrar. intrigada... Quando haviam se despedido assim? 61 . ondulando. tinha uma boa presença de palco e sabia envolver o público. que aconteceu. ele acompanhava a música com leves movimentos de cabeça. E o navio subia e descia. lentamente. o tombadilho de um navio. já não havia as pessoas ao redor.. Isadora viu quando Luca. A boca que ele beijara havia pouco. que em alguma época. a mesma mão acenando em despedida. Foi no final... E tem olhos cor de mel.. O show começou e ela rapidamente entrou no ritmo do rock e do blues. ondulando. As coisas começaram a perder a forma.. As músicas estavam bem ensaiadas e a plateia bastante animada. protegeu os olhos das luzes e olhou para a plateia como se procurasse alguém na multidão. levemente. À sua frente as velas do navio estavam abertas e. quando a banda voltava para o bis. Ela gostou de tudo mas gostou especialmente de Luca: ele era um pouco desajeitado mas cantava bem. Isadora sorriu e respondeu: – Que ele me ama. imóvel no convés.. o mesmo aceno triste.– A insanidade é um abismo irresistível.. e ela deixou de escutar a música. logo abaixo. vestido feito um monge medieval. ondulando bem à sua frente.. a boa seca. Seria ela? Depois voltou ao microfone e enquanto a banda tocava.. subitamente.. – O que ele quis dizer? – perguntou uma garota ao lado.

feito um relâmpago que rasga o céu. Estaria errada em amá-lo assim tão. Mas ela não se conformava. que não a deixasse sozinha. segurando a ânsia no peito. Os ventos cessaram. quantas vidas?. Sim. Ele a fizera experimentar a magia e a iniciara nos mistérios. e então fugiriam para o Brasil. A imagem dele no convés. Porque a vida simplesmente não fazia sentido sem ele. Era uma noite fresca e um resto de lua cruzava o céu. a despedida.. sim... mi corazón. Então o navio sumiu. bela e melancólica entre a névoa. um calafrio percorreu-lhe o corpo e pela primeira vez o pensamento tomou a 62 .O navio começou a se afastar e ela teve ímpetos de correr e gritar que ele a levasse também. Finalmente lembrara! Ainda sentindo o cheiro do mar.. Ela estava pasma. Sumiram o cais de pedras alinhadas e os funcionários atarefados. Olhando as estrelas. quantas despedidas? Quantas vidas.. saiu rapidamente e seguiu para o jardim da boate.. num palco que ainda ondulava. quantos mares de incertezas ainda teria de atravessar por aquele amor? Quantos perigos. ele lhe garantira que tudo correria bem e que logo voltaria para buscá-la. Sim.. Para onde realmente o levariam aqueles ventos? E ela. para viver livremente aquele amor que ainda tinham de esconder sob mentiras... tão loucamente? O navio se afastou.. O último encontro. Por que não agora? Por que ele não largava logo a Companhia e ficava agora com ela? Por um segundo vislumbrou a possibilidade de estar perdendo-o para sempre e uma angústia terrível lacerou sua alma. Mas agora tudo que ela tinha dentro de si era um enorme e doloroso vazio. Com ele viajou por mundos maravilhosos através dos sonhos e ele a ensinou a ser forte e enfrentar as dificuldades com coragem.. A boca que ele beijara minutos antes. permaneceu em sua mente. a névoa voltou a ser fumaça de gelo seco e Isadora deu por si a tempo de ver Luca concluir sua performance. Uma lágrima deslizou até sua boca. Mas conteve-se..

* POR TODOS OS LADOS * * se estendia um deserto feito um imenso lençol ondulado de areia. Fora a Fortaleza para conhecer melhor o mundo de Luca e acabara descobrindo ali. 63 .. Em algum lugar.. Mas ela não respondeu.... Uma ressaca horrorosa lhe secava a alma.. o braço para fora da cama. que merda. Um gole dágua. bom dia. Chamou de novo. podia deixar subir? Luca pediu um minutinho e pegou uma garrafa dágua na geladeira. Uma sede absurda a lhe dilacerar a garganta sem piedade. Mas o pior de tudo era a sede. Olhou o relógio: duas da tarde. apenas um gole. Chamou por Soninha.forma exata em sua mente: ele fugira. era o interfone. seo Luca.... um golinho e ele morreria saciado e feliz. O corpo estirado sobre o lençol de areia. Há quanto tempo ele caminhava? Dias? Anos? As pernas fraquejavam e a visão turvava. avisando que havia uma moça chamada Isadora querendo falar com ele. entre aquelas dunas sem fim.. – Alô! Alô! Mas não era o telefone que tocava. do outro lado do deserto sem fim. impotente ante a claridade tirânica.. numa boate. a verdade sobre Enrique. Era o porteiro. E uma dor de cabeça que de um segundo para outro explodiria seu cérebro em mil pedaços... um maldito telefone insistindo em tocar e tocar. Amanheceu e eu não percebi. Enrique fugira. tocando. Uma verdade óbvia mas que nem ela nem Catarina nunca admitiram. Não havia mais dúvidas. Teria que se arrastar até lá. lá na cozinha.. – Alô. Agora estava tudo explicado. teria ido embora? Eu abro os olhos. cadê você?... E em algum lugar daquele deserto um telefone tocando. Um sol escaldante a lhe torrar a pele em carne viva.

Feito isso. Que confusão. recolheu uma cueca de cima da tevê e botou uma música para tocar. Isadora. – Hotel? E por que não foi ao nosso show? – Eu fui. King. – Faz de conta que eu acredito. com cuidado para o cérebro não se desmanchar. Dormi num hotel. a solidão espremida entre o concreto. Voltou ao interfone e disse ao porteiro que tudo bem. Procurou no quarto. Deixou a porta da sala aberta e foi para o banheiro sob o som de seus miolos chacoalhando. B. – Não. – Oi. Ele estava com uma cara não muito boa mas até que gostava de vê-lo assim. – Até que você fica charmoso assim só de toalha..Caminhou devagar. Eu estou sozinho. sim. Estava perdendo a noção do tempo. 64 . os prédios a abafar os sonhos de crescer. outro da Janis Joplin. – Chegou agora? – Na verdade cheguei ontem. reparou no violão largado num canto.. Isadora merecia um ambiente melhorzinho. – Luca de Luz Neon? – Pode entrar! – ele gritou sob o chuveiro. podia deixar a moça subir. descabelado e de olhos esbugalhados. Então lembrou que ela dormira ali.. Ligou o chuveiro e a água gelada sacudiu seu corpo enquanto na sala o Blues Etílicos tocava O sol também me levanta. abraçando-o. mas duas noites antes. começando o dia. – Oi! – Ela lembrou que era a segunda vez que o acordava. não. Pôs a mochila sobre o sofá. No espelho rachado do banheiro o horrendo monstro do deserto o observava. – Espero não estar atrapalhando alguma coisa importante. Nenhum sinal de Soninha. Mas que surpresa boa você aqui. – Você me convidou e eu vim – ela disse.. no banheiro. um pôster do B. fotos de shows da Bluz Neon. Foi à janela e olhou a paisagem do oitavo andar. Isadora entrou e fechou a porta.

é?. Ele foi à cozinha e trouxe um copo dágua para ela. ele pensou. E agora? Deveria ou não perguntar o motivo? – Não quer saber o por quê? – Acho que já sei. E você é ótimo. Sentaram-se no sofá em silêncio. Que merda. Fui embora assim que o show terminou. – Sabe mesmo? – Olha. inconformado com o que fizera. – Adorei a banda. mas ainda assim sentia-se péssimo. – Achei melhor não. Sentia-se culpado. lembrando de Soninha. claro. – Mas. De repente percebeu que seus pensamentos estavam ao mesmo tempo se culpando e se absolvendo. espontaneamente. Ela certamente a vira com ele.. Era ela.. Meu lance com Soninha não é nada sério. Sim. Ele teve vontade de enfiar a cara no chão. E logo depois se arrependeu. era ele. Mas por outro lado. Era como se a houvesse traído. deixa eu esclarecer uma coisa. não tinham compromisso. dividindo-o ao meio. ele mesmo é quem estava criando fantasmas 65 . Isadora.– Você estava lá? Na Karvalhedo? – Sim. – Por que não foi falar comigo depois do show? – ele perguntou. Não. que tinha um caso com a personal treiner da banda. Mas não houvera traição. que o deixava neurótico. Mas não tinha que se sentir assim pois não havia qualquer compromisso entre eles. claro. me surpreendeu. – Ah. – Não vi. afinal ela não era sua namorada. isso era verdade. que estava comigo na mesa. – Tem água? – ela perguntou. não era ela.. – Está quente. Mas que merda. – Tem.... Isadora.. claro.. Acabara de confessar. Eu e ela. – Quem é Soninha? – Nossa personal.

. – Lembrei de novo daquela vida.naquele relacionamento. Ele é quem se precipitava e construía armadilhas para si próprio. – Não fui falar contigo depois do show porque aconteceu uma coisa enquanto eu via você cantando. no meio de um bocado de gente. Luca. – E dessa vez não foi sonho.. – Já estava bem louco. Luca. da sua energia. E enquanto falava. – Luca. – Como não? Você parecia tão concentrado. – Isso você já tinha contado. Você estava na amurada do navio. mais forte que todas as que lembrei. quase podia sentir as mesmas sensações da noite anterior. Isadora. Luca. no quanto ela teve de ser forte pra enfrentar aquela solidão toda e o pressentimento horrível de que não mais encontraria o grande amor de sua vida.. o que você sentiu durante aquele último número? – Eu não lembro muito bem dessa parte. Mas você não voltou nunca mais. Contou do cais. Foi uma cena muito forte. Eu estava acordada. E foi através de você. Qual é a novidade? – Depois eu saí pro jardim e fiquei pensando em Catarina. do navio e de Enrique acenando no tombadilho. – É que eu tinha tomado dois energéticos. O plano era que você voltaria pra me buscar. Foi só por uns instantes mas enquanto 66 . acenando pra mim. Ele suspirou. – Agora vamos cobrar um cachê mais caro: veja o show da Blues Neon e lembre das suas vidas passadas! Ele percebeu os olhos dela marejados e se arrependeu das piadinhas. Então ela contou. Eu senti de novo a mesma dor. tudo de novo.. que ele estava indo embora e que ela sentia que o perdia para sempre.. De novo aquele assunto chato. – Estou falando sério.. – Eu ainda não havia lembrado dessa parte.

era pra sempre. – Aliás.. – Por aí? – É. E pensar que tudo podia ter sido diferente. – O que eu tenho dá pra nós dois. Mas por que essa pergunta agora? – Muito ou pouco? – Talvez mais do que deveria. Mas só posso pedir folga no final do ano. pode ser. – Como assim? – É que às vezes você bagunça minhas certezas. isso é passado. – Mas. não foi? – ele perguntou.acontecia era.. – Claro que gosto. – Mas não era possível. por quê? Ela não respondeu. – Seria ótimo. Apenas olhou para ele... você. Isadora. Ontem eu soube disso. 67 . – Tá. tanto sofrimento evitado. Luca? – Eu? – Sim. Um imprevisto mudou os planos. devolvendo a pergunta. tentando ser o mais compreensivo que podia. – Pra onde? – Viajar por aí. ele fugiu? – Sim. – Você gosta de mim. Mas agora esqueça essa história... – Tudo bem. Era só a gente ter permanecido junto. – O que houve então? – Você fugiu. Enrique fugiu. – Eu fugi? – Sim. Mas não tenho grana pra isso. E deu-se conta do ridículo da coisa: falava como se tudo aquilo houvesse realmente acontecido. Depois você volta. – Então dá um tempo nas certezas e vem comigo. – Não houve nenhum imprevisto.

É que você me tira do sério. – Que coisas você não pode largar? – O trabalho. onde Luca pendurava suas contas. – Desculpa. E me desfiz novamente agora. seu bobo.. Escolheram uma mesa e Luca apresentou o amigo garçom: – Esse é o Pereira. Isadora! – ele quase gritou. a gente não teria se reencontrado. Entendeu ou quer que desenhe? – Eu me desfiz de tudo quatro séculos atrás. o oráculo. Luca balançou a cabeça. Isso parece bom. irritado. Era inútil conversar quando ela falava de vidas passadas. Ela parecia falar sério. seu garçom predileto. – Vou te levar num lugar que eu adoro. – Se não fosse pelos meus sonhos malucos. Essa é a Isadora. tudo. Por nós dois. Mas não. Pouco tempo depois entravam no restaurante. – Porque essas coisas são as minhas seguranças. principalmente sobre as mulheres que Luca levava para lá. – Então vamos almoçar – Ele levantou do sofá. – Lá vem esse papo outra vez. puxando-a pela mão. Vem. – Eu não posso largar minhas coisas assim. Ele saberia dizer se aquele romance tinha ou não futuro. – Por que não? Luca olhou para ela atentamente. era impossível que pudesse estar falando sério. Lá trabalhava o Pereira. O restaurante era o Colher de Pau. E à noite vamos numa festa erótica... meu velho conselheiro. a banda. suas opiniões geniais a respeito de todos os assuntos. – Muita. o Pereira e sua simplicidade e franqueza interioranas. – Bem vinda ao fabuloso mundo de Luca.– Não. forçando uma mudança de assunto. tem que ser agora. – Hummm. Pereira. Se não fosse por esses seus sonhos malucos. a gente podia se dar muito bem. 68 .. – Está com fome? – ele perguntou.

Não tinha certeza se aquilo era o que gostaria de ter ouvido. Essa aí já lhe fisgou. Porque faz tempo que não vejo ele olhar assim pra mulher. rindo. Esse moço esquece o que bebeu meia hora atrás. – Por quê? – A bem dizer. Luca ria. – Isso é verdade. Luca? – Só esqueço quando não tenho grana pra pagar a conta – respondeu Luca. senhora. bebeu e pediu outra. para total surpresa de Luca. – O senhor acha que é um caso perdido? – Acho não.. No som Lily Alcalay cantava Mar e sol. – Se a senhora era tão aprumada quanto é hoje. – Olhe.– Muito prazer – disse o garçom. Pereira? – Acho que seus dias de solteiro acabaram. é uma desfeita mesmo. viu? – Então o senhor acha que posso ter esperança? – Dele lembrar da senhora? – Sim. sem acreditar que aquilo estava acontecendo. servindo a cerveja. Isadora saiu para ir ao banheiro e Luca aproveitou para perguntar: – E aí. o senhor acredita em vidas passadas? – perguntou Isadora. não. eu não entendo dessas coisas. – Seo Pereira. Por quê? – Porque eu e esse rapaz vivemos juntos quatrocentos anos atrás e agora ele me faz a desfeita de dizer que não lembra de mim. moça. – Aí eu já acho difícil. Luca encheu o copo de cerveja. essa aí já lhe fisgou. 69 . rapaz. Ou se era justamente o que não desejava mesmo ouvir. Após pedirem o almoço..

Mas você está linda. Luca reparou discretamente numa das garçonetes. O tema da festa era sensualidade e erotismo e o ambiente lembrava os antigos cabarés. insatisfeita com o conjunto de saia e blusa que usava. que já conheciam a festa.6 Luca e Isadora voltaram ao apartamento. No trajeto para o local. uma bela loirinha que estava vestida como colegial. Tem umas que vêm de camisola. tomaram um rápido banho e saíram novamente. As pessoas se vestiam de modo sensual. – Essas até que estão comportadas. – Puxa. a festa que acontecia num charmoso casarão do centro da cidade. Isadora escutava. E lamentou não estar sozinho aquela noite. cortinas transparentes e músicas ao estilo. que eram filmadas. estou me sentindo uma santa com essa roupa – Isadora comentou. com luzes vermelhas. Luca e Junior. Só precisa de APÓS O ALMOÇO 70 . comentavam fatos divertidos das edições anteriores. e subiam ao palco para fazer performances divertidas. explorando os fetiches e as fantasias. Passaram na casa de Junior Rível para pegá-lo e rumaram para o Cabaré Soçaite. E perguntou para a garçonete. E logo na entrada da festa ela ficou impressionada: – Uau! As mulheres realmente entram no clima! – ela comentou com Junior enquanto observava um grupo de garotas trajadas de prostitutas fatais. curiosa e excitada por vivenciar o mundo de Luca. que lhes entregava as comandas de pedidos: – Por acaso não sobrou uma roupa de colegial como essa sua? – Infelizmente não.

Mas e a minha comanda. – Agora sim! – A garçonete riu. observando o resultado de sua intervenção. – Isso dá um blues. A garçonete virou Isadora de frente para ela e abriu dois botões de sua blusa. – Acertou. e sussurrou ao ouvido de Isadora: – Uns peitos desses não devem ficar escondidos. puxando Isadora pela mão e saindo com ela rumo ao balcão. cidadão. obrigado. vamos melhorar esse visual. 71 . Mas eu não ia aguentar de saudade. Sem querer contei pra Isadora sobre a gente. – Acho que tu tá gostando dessa menina. cadê? – Ah. Junior. – Ótimo nada. Principalmente no Cabaré Soçaite. – Tanta mulher e eu invento de querer uma que mora a três mil quilômetros de distância. Simpatizara com ela. Vem comigo pegar uma – disse a garçonete. Junior cutucou Luca: – Ei. – Então o que é que tu quer? Luca pensou um pouco. Isadora riu da espontaneidade da garota. – Onde? – Vem cá. deixando os seios mais à mostra. – Não sei. notícia de última hora: Soninha pediu demissão da banda. é. – Tem razão. – Não ia dar certo. – Ótimo. Apaixonadamente fudido.um ajuste na roupa. – Melhor assim que não enjoa. – É. – Tomara que ela não apareça por aqui. faltou a sua. Estou fudido. – Chama pra morar aqui. ela é louca demais. Éramos a única banda de blues do planeta com personal treiner.

– Desculpa. – Vou raptar teu amigo pra dançar esse bolero. – Que pena. Na pista de dança... – Eu sou o Luca. – Você é louca mesmo.– Dá licença.... 72 . – Talvez haja um jeito de.. Foi preciso um enorme esforço mas Luca conseguiu se controlar.. chegando de volta. – E eu vou me confessar com aquela freira ali. – E. Com todas as insanidades dele.. Não vamos estragar a noite. equilibrando os copos na bandeja. – Não fala assim. puxando Luca pela mão. Combinado? – Combinado. Junior Rível – disse Isadora. Ela sorriu e o beijou. – Como é teu nome? – Bebel. – Essa é a noite da nossa despedida. – Você sabe que é. – Hoje eu quero o seu mundo. – Já falamos sobre isso. a colegial sapeca a seu dispor. – Uau. não importa o que aconteça. Hoje eu tô cheio de pecado.. Não fala isso que hoje eu sou um homem casado. – Tudo bem.. Luca foi ao banheiro e na volta forjou um esbarrão na garçonete vestida de colegial. – Vem – ela falou. eles juntaram os corpos e começaram a dançar. prazer. – Não foi nada – ela falou. mão com mão. rosto com rosto. nós estaremos juntos. Luca. Depois colou os lábios em sua orelha para cantar junto com a música: Lo que valen son tus brazos cuando de noche me abrazan. Terminado o bolero. apertando-o forte em seus braços.

Ela é um charme. entregando a comanda. – Desculpa. – Dois uísques no capricho. O título veio primeiro: Poemas de saliva. Luca riu. Já vi um show da Bluz Neon no Papalégua. No telão eram exibidos textos eróticos. – Ah. é seu! Que demais! Isadora olhou de volta para o telão. – Assim eu fico sem jeito. levando com ela a bandeja de copos e também o olhar encantado de Luca. tá? Ela anotou o pedido e saiu. não sei dizer se somos namorados. Quando Isadora chegou. – Se não são. Na verdade. Instantes depois o poema seguinte começou a se formar no telão. Depois a autoria: Luca. pra você me desculpar um pouco mais. apertando sua bochecha. Luca. deviam ser. agora Bebel. E em seguida o poema surgiu no telão. – Só desculpo se você trouxer dois uísques – ele falou. Estavam todos querendo casá-lo? – Agora você ficou realmente sem jeito – ela brincou. E leu: Para Isadora. – Qual? – Espera que deve ser o próximo. – Quem? – Você e sua namorada.– Eu sei. Primeiro o Pereira. vocês dois são demais. – Uau. verso após verso: Deslizo poemas de saliva No rascunho da tua pele Sílabas molhadas 73 . ele já estava recomposto. você já viu os poemas que estão passando no telão? São lindos! – Tem um que é o mais lindo de todos. – Luca. – Aliás. – Sério? – Achei superbom! Você é demais.

Bebel era uma menina linda. e parecia também ter gostado dela. Dela e de Luca. o que deveria fazer? Bem. Bebel.. Sim. até mais do que imaginaria ser capaz. ela não desejava experimentar o mundo de Luca? Então. além disso tudo. Ele a pegou pela cintura e a beijou. – Caramba! – exclamou Luca. Foi tão romântico. E durante um tempo seus corpos unidos tiveram como pano de fundo a imagem do poema no telão. erguendo o copo e dando-se conta logo em seguida da absoluta sinceridade de sua frase.Rimas sensoriais O sentido mais profundo do meu verso Fala a língua dos teus gestos Em convulsões gramaticais Poemas depravados na tua pele de pecado Poemas de navalha no teu corpo sem perdão A figura de linguagem do desejo Fala a língua do meu beijo Sem tradução – Não sei o que dizer. não era? E. Seria isso que estava acontecendo? E se fosse realmente. – Obrigado – Bebel respondeu. Isadora lembrou que nunca antes havia desejado sexualmente uma mulher. ainda olhando para o telão. enquanto pegava os copos na bandeja. – ela murmurou emocionada. havia gostado daquela garota desde o início.. – Então este brinde é por você. delicada. a colegial mais linda da festa – falou Isadora. E estavam numa festa erótica. – Faz tempo que você está aí? – E ficaria o tempo que fosse preciso.. por que não? 74 ... ela admitia. – Agora com licença que eu tenho que ir ao banheiro. Enquanto a garçonete se afastava. – Dois uísques pro casal mais interessante da festa – Bebel falou após os dois terminarem o beijo..

Ele reparou em seus seios expostos pela blusa semiaberta. Luca encostou-se no balcão e observou as duas seguindo em direção ao banheiro... Relaxa. virou de um gole o uísque e lhe entregou o copo vazio. Quinze minutos depois Isadora apareceu. para logo em seguida olhar o relógio. – É uma festa erótica. Porque eu e meus peitos estamos adorando a festa. batom e fofoca – ela respondeu. Isadora começou a dançar à sua frente. No telão passavam cenas de outras edições da festa e ele entreteve-se um pouco com as imagens.– Também vou – disse Isadora de repente. está? – Claro que não. trazendo mais dois uísques. E que repetira antes de saírem. – Até que estou gostando dos personagens do seu mundo. Isadora? – Eu estou bem. Luca. – O que duas mulheres maravilhosas como eu e Bebel fazem num banheiro. Ele riu um riso sem graça. sabia? A Bebel é um doce de gente. – Claro que foi. impaciente. E. animada. para surpresa de Luca. – Você caprichou no decote. rindo. lembrando do beijo que trocara com Bebel no banheiro. – Não foi tanto tempo. pegando um dos copos. – Como? – Xixi. né? – Mas precisava tanto? – Você não está com ciúme. – Quantas você já tomou. Luca? – Exatamente o que eu perguntei. Ela riu da piada e tomou um gole de uísque. 75 . – Ainda bem. Luca sorriu meio sem graça. – Que diabo você fazia esse tempo todo no banheiro? – perguntou Luca. – Xiboca.

– Então relaxa. Isadora. trazia-lhe sensações estranhas 76 . certificando-se que continuava ali. – Estou relaxado. e não sabia lidar bem com o fato. Olhou ao redor. – Um minutinho só não vai atrapalhar. Fechou os olhos e tentou lembrar quando vivera aquela mesma situação mas tudo que lhe veio foi a sensação de estar girando.. sempre.. Aquela paixão por Isadora mexia na ordem de seu mundo.. – Eu não quero controlar ninguém. esse era o motivo. Estava apaixonado. girando num círculo. no Cabaré Soçaite. – Ainda bem que não é pra querer me controlar. voltando a si. não era exatamente isso. – Nós estamos juntos. inteiramente envolvido pela sensação de já ter vivido aquilo antes. – Estou cansado. girando. Sentia-se levemente tonto... – Então vou dançar com a Bebel. Era como se estivesse num círculo. Luca pôde sentir as batidas do coração de Isadora. girando.. vamos dançar. Luca. juntinho a ela. Ela ainda estava abraçada a ele. Quanto tempo se passara? Alguns segundos? Séculos? – Vem..– Só perguntei porque quero que você aproveite bem a festa. – Acho que não. Por quê? Talvez porque no dia seguinte Isadora iria embora novamente e isso o deixava incomodado. meu amor. sempre passando por aquele mesmo lugar. no meio das pessoas bebendo e dançando. ele sabia. Abriu os olhos assustado. – Ela está trabalhando. Ela tomou sua mão e a pôs sobre seu peito. Luca perguntou a si mesmo o que estava acontecendo. Não. vem. Ele a abraçou e assim se deixou ficar. – Ah. sempre passando pelo mesmo ponto. – Me dá um abraço.. Sentia-se irritado. Até ciúmes estava sentindo. Enquanto ela saía.

os sortilégios da noite. Ao final da música. A música fez uma pausa e o produtor da festa subiu ao palco. a sedução da luxúria. ganhou um crédito numa sex shop e um vinho importado. um mundo feito de bares. não parecia se esforçar. Então.. Não... a expressão lânguida. Precisava urgentemente de outro uísque. Como não se apaixonar? Virou o resto da dose e pôs o copo no balcão. e ele sentiu novamente o ciúme chegando. Luca engoliu seco. Mas não a viu. Isadora no concurso Musa do Cabaré – quando poderia imaginar uma coisa daquela? E quando imaginaria que ela. E fazia isso de uma maneira tão simples e natural. Meu nome é Ricardo Kelmer e sou o dono desse cabaré.. contorcendo-se em movimentos insinuantes.e o deixava desconfortável e inseguro. o público votou nas candidatas e elegeu a vencedora. feito um bicho à espreita. Precisava mesmo relaxar. Aquilo era ser taoísta? Ela era mesmo incrível. Música pra elas! Enquanto várias mulheres subiam ao palco e eram apresentadas ao público. os seios quase saltando do decote.. Ele simplesmente não acreditou.. dançasse tão bem? Ao seu lado. ela era mesmo. Luca procurou ao redor por Isadora. Isadora ficou em segundo lugar e. festas e neons coloridos. ela agradeceu aos aplausos e dedicou o prêmio: 77 . talvez fosse outra garota. As candidatas podem subir aqui e dançar. observando as candidatas.. Vamos agora começar o concurso Musa do Cabaré. muito parecida. como prêmio. E dançava sensualmente. Feliz.. pensativo. – Boa noite. a grande festa da embriaguez. um grupo de homens vibrava.. Isadora estava experimentando seu mundo. a mesma roupa. Espero que estejam se divertindo. Ele coçou a cicatriz do rosto. A festa estava ótima e no outro dia Isadora não estaria mais com ele.. Que merda. Não. Ela parecia querer viver o que ele vivia. tomou um susto: lá estava Isadora entre elas. assobiando e gritando seu nome.

. – Parabéns. adorei. Bebel. Um minuto depois Luca a encontrou no balcão com Bebel. Musa do Cabaré. Aonde ela queria chegar? – Está bem. Né. – Mas podia ter me avisado pra eu me preparar. Você foi demais. – O crédito da sex shop eu dou pra você. Bebel. – Podemos ir pro apartamento do Luca. Foi horrível. – O que uns uísques não fazem. – Com todo o prazer. – Ele aceitou.– Ao amor das minhas vidas. Luca. você é ótimo! – ela disse. abraçando-o de um jeito provocante. Isadora puxou Luca pela cintura. – Ouviu a dedicatória? – Claro. – Ai. Mas só posso depois da festa.. – Legal. Parece gente boa.. Vamos comemorar! Após Bebel se afastar.. pego de surpresa. eu gostei dela. Mas Bebel me convenceu. por favor. radiante de alegria. Aqueles caras gritando “Isadora! Isadora!”. – Ela merecia ganhar.. – Eu não ia participar do concurso.. – Por que não admite que gostou da menina? – Quem? Eu? – Vai dizer que não? Ele olhou sério para Isadora. rindo. vou superar. – O que você achou dela. Luca? Ele quase engasgou. – Só legal? – É. – Foi injustiça – disse Bebel. hum? – Dela quem? – Da Bebel. – Luca! – Ela o abraçou. obrigado! – Mas o vinho você vem tomar com a gente. – Puxa. que lindo! Meu Luca com ciúmes de mim! – Vou superar. E daí? 78 . – Ai.

– Eu também. * * Isadora? – perguntou Bebel enquanto Luca enfiava a chave na fechadura e abria a porta do apartamento. – Gostei como você gostou. por que não diz o que está tramando. Sim. Ficou pensativo. Luca não sabia o que concluir daquilo tudo. – Isso tudo tem algo a ver com a história da Soninha? – Como assim? – Você não me perdoou por ontem. olhando Isadora a dançar. Se eu estiver aqui no próximo. claro que entendera. totalmente sem controle. heim? – Não estou tramando nada.. Talvez não tivesse sido boa ideia convidar Isadora a conhecer seu mundo. – Você ainda não entendeu isso? Ele não respondeu. – Você está vendo fantasmas. – Nós estamos juntos. – Gostou como? Ele sentiu a mão dela apalpando-lhe o sexo sobre a calça. né? Já te disse que eu e Soninha. – Por acaso está usando Bebel pra me testar? – Claro que não. – Relaxa. você vai ver. Ele ouviu surpreso a resposta e de repente a situação toda era uma boiada à solta. Luca – ela tornou a dizer.. – Adorei.. Apenas convidei Bebel pra beber o vinho com a gente. Porque eu gostei dela e sei que você também gostou. Luca – ela o interrompeu.. Ou não? * – GOSTOU DO CABARÉ. – Você não acha que já está exagerando nessa coisa de experimentar o meu mundo? – Por quê? Você acha que eu não mereço? – Isadora. – E vai ganhar o primeiro prêmio! 79 . vou de cintaliga e tudo.

Você é quem podia relaxar um pouco mais. Por você. estou ótima. as mãos e bocas a deslizar 80 . – Porque a mulher da sua vida sou eu.. por mim. enrolada numa toalha.. – Eu acredito no que eu posso ver e tocar. exibindo os seios nus. – Por quê? Ela caminhou até o interruptor e apagou a luz do quarto. Posso? – Claro. Serviu e brindaram: – À Musa do Cabaré! Enquanto Bebel olhava com Isadora os pôsteres e os cartazes dos shows. Ela pôs o dedo em sua boca. Na verdade queria tomar um banho. – Não se preocupe. Luca pôs Ellis Mário para tocar e o som do sax preencheu suavemente o ambiente. Bebel? – Obrigado. e não nessas fantasias místicas que. – Você está bem? – ele perguntou. do vão da porta. – Pois então acredite. Isadora. sorriu e parou para observar por um instante. Isadora. Luca. Isadora levou Bebel até o banheiro. deixando-lhe uma toalha e prevenindo-a de que o espelho podia deixá-la com uma aparência estranha. – E por ela. Fechou a porta e sentou-se na cama ao lado de Luca.. eu não bebo muito. deixando-o suavemente iluminado pela luz que vinha da sala. de frente para ele. Depois desabotoou totalmente a blusa. impedindo-o de continuar. – Ela sorriu e apontou com os olhos para o banheiro.Luca foi à cozinha e voltou com os copos e o vinho aberto. – Você não tem ciúmes? – Não preciso ter ciúmes de você. Pouco depois Bebel saiu do banheiro e. Faz quatrocentos anos. estou me sentindo imunda.. O quarto estava na penumbra mas ela pôde ver bem os dois corpos deitados na cama. – Quer mais vinho. Depois tirou os tênis e posicionou-se de joelhos sobre a cama.

Mas disse sim. inteiramente nua. Nesse momento Isadora abriu os olhos e. Não queria. ahn. Deixou um beijo pra você.. recebendo Luca com um abraço e um beijo.. – Tirei um I Ching pra você. Mas leu. – E então. – Saiu o Receptivo. estendeu o braço para fora da cama. Mas prefiro você sozinho. – Essa coisa de sexo a três. Luca. – E Bebel? – ele perguntou. A saudade já ardia em seu peito. Vou anotar em sua agenda.... – Já foi. Ele sentou à mesa da cozinha e se serviu.por suas superfícies. pra você se concentrar mais em mim. – Não entendi nada.. Uma vez. tá? Ele serviu outra xícara de café.. primeira linha tensionada. Quer saber? Muito cedo para mistérios. na entrada da festa: – Vem. E da última parte? – Foi maravilhoso. – Quer um café quentinho? Acabei de fazer. em meio a um bocejo. tocou a mão de Bebel e a puxou.. duas vezes. – E isso é bom ou ruim? – Você é quem tem de interpretar. – Às vezes a mensagem só fica clara depois. o que achou do meu mundo? – Adorei. Quer ler? Não. Então deixou cair a toalha e... Você já tinha. * – BOM DIA. ele pensou. MEU AMOR * * – disse Isadora na porta da cozinha.. aproximou-se da cama. Logo mais levaria Isadora à rodoviária e ela prosseguiria sua viagem pelo litoral. Depois devolveu o livro. como Bebel fizera com ela horas antes. – Que bom. mantendo o rosto de Luca afundado entre suas pernas. 81 . bebendo o café..

– Então agora. – Foi o que senti. Ela terminou sua xícara de café. ele pensou. – O que é? – Ontem. – Você parecia tão à vontade. lembra? – Lembro. Mas depois ficou claro. – Aposto que pra você não foi nenhuma novidade. Nós ficamos. enxugou os lábios e preparou-se para dizer o que diria. – Não fui só eu quem ficou com ela. Mas sabia também que era hora de tomar uma decisão. estava tão bom! Estava mesmo.. foi uma sensação esquisita.. – Quero te falar uma coisa importante.. Poderia ter relaxado um pouco mais e esquecer o que o afligia. – Naquele momento eu senti que vocês ficariam juntos. – Claro. E foi você quem convidou Bebel pra vir aqui. Mas não estou falando de ontem.. – Não? – Estou falando de quando eu for embora. Isadora. Mesmo assim fora delicioso transar com ela e Bebel. Isadora indo embora no outro dia. seu súbito ciúme. lembrando da noite com a tiete ruivinha que conhecera no Papalégua. ela sabia.– Não. as suas coisas. Não seria fácil.. seus sentimentos confusos. – Sim. além do passado. logo quando chegamos. – Mais ou menos – ele falou. – Não estou entendendo. Bebel me levou para pegar uma comanda. convidei porque gostei dela.. Mas não vou negar que sempre tive curiosidade. – Heim? – Isso mesmo. E ainda sinto. Luca. E eu estava realmente disposta a experimentar o seu mundo.. aquela coisa da irmã gêmea morta. Vocês vão ficar juntos. 82 .. você também vê o futuro? – Na hora não entendi bem.

– Mas eu estou indo embora. Não estava gostando nada dos rumos daquela conversa. não.. Construiu um passado e me pôs nele. – Eu não vou ficar com Bebel. Mas não posso. – Por quê? O que te prende a São Paulo? – Nada.. tentando se acalmar. Isadora. Ele ouviu suas próprias palavras e se surpreendeu. Mas você vai ficar. lembra? – Ah. isso já é piração demais! – ele gritou. batendo na mesa. – Não precisa ficar nervoso. Ele respirou. de novo essa história. – Ainda bem. Vou ficar com você. – Por que você quer que eu fique com ela? – Eu não quero. – Esse não é o problema. – Então não vá. Não vê o quanto isso tudo é uma loucura absurda? 83 .. Luca tamborilava com os dedos na mesa.– Você está louca? – E quer saber? Bebel é uma menina muito legal. O problema é que você tem mania de construir mundos que não existem.. Vem morar aqui. Ela pode te ajudar. sonhos. você não saltará. – Eu não estou nervoso. sempre se cercando das suas seguranças e cada vez mais obcecado pelo controle de tudo. – Então qual é o motivo? – O motivo é que você precisa saltar um abismo. fazer o quê? – Isadora. abismos. Era isso mesmo? Acabara de pedir a ela para morar com ele? – Até que eu gostaria. E agora acaba de construir um futuro pra mim e pra Bebel. – Como assim? – Fica comigo. – E se eu ficar aqui em Fortaleza. Como Enrique. Luca. Seguirá em seu mundo seguro.

– Muito conveniente pois aí eu é que serei o bandido da história! Muito conveniente. Isadora? Já saquei. calmamente. – Pois então vamos ver. Ele olhou para ela com firmeza e uma raiva contida. – Pode ir. Ele julgou perceber uma ponta de amargura naquelas palavras. É o seu futuro contra o meu.. Só o passado é que é certo. ao menos uma vez na vida. exaltado. E sentou na cama.– Nunca tive dúvidas quanto a isso. – Eu não acredito.. Ela não respondeu. amarrava o cadarço do tênis. O que a gente fez um dia ou deixou de fazer não pode ser mudado. Luca – ela falou. Mas não existia esse lugar. Novamente ela não respondeu. Luca. não ficarei. Levantou-se e foi atrás de Isadora. Você é louca mas é esperta. Luca fechou os olhos. organizar as ideias confusas. – O que você quis dizer com isso? – Quis dizer o que eu disse.. – Nisso você tem toda razão. tentando. – Está na hora. pegando uma revista qualquer para 84 . – Você não está mais a fim. – Meu ônibus sai às quatro.. né. você vem dizer que eu vou ficar com Bebel depois que você for embora.. em algum lugar de seu ser. Entendeu? Não tem nada programado. – Se eu não quiser ficar com Bebel. Só o passado é que é certo.. Agachada no chão. se comportar como uma pessoa normal? – Não faço questão nenhuma de ser uma pessoa normal – ela respondeu enquanto levantava da cama. Você acaba de criar uma guerra de futuros. Ela lembrou outra vez da despedida no cais. e assim esse futuro que você viu não vai rolar. os sentimentos contraditórios. – Mas em vez de admitir. A porta está aberta. – Você não podia.

O coração explodiria no próximo segundo..ler. compreensiva. – Eu tentei. O mundo desabaria no instante seguinte. Sabia que haviam chegado ao fim do caminho. mas não devia mais insistir. folheando nervoso a revista. 85 .. – ele continuava falando. o rosto entre as mãos. Isadora. Ela quis se aproximar mas ele. que era o que precisava ser feito. Ele largou a revista e escondeu o rosto entre as mãos trêmulas. sim.. – Luca. Também havia tentado. Isadora – ele falou.. a impediu com um gesto de mão. – Eu tentei.. e pegou a mochila. Ela caminhou em silêncio até a sala. um medo horrível. Mas você. – Vá embora. Antes que eu enlouqueça também. com a mais calma das certezas. ela sabia disso. Tinha medo de estar perdendo-o para sempre. por favor.... – Eu juro que tentei. mas ele não tinha coragem de assumir o amor que sentia por ela e dar o passo seguinte.. eu tentei. Isadora. Ali estava o homem da sua vida. essa sua loucura. – Luca. Abandoná-lo agora era a decisão mais difícil de todas mas sabia. por favor. abriu a porta e saiu. E agora tudo que lhe restava era confiar na vida. Ela sorriu.. evitando olhar para ela.. o choro engasgado na garganta. que naquele momento não existiam mais possibilidades.. olha pra mim. está me afetando demais. Não precisamos nos afastar assim. envolta numa tristeza resignada. – Eu tentei. – Olha pra mim. Mais uma vez.

– Faz duas semanas que tu tá com essa cara de enterro. bem à frente do amigo. As cadeiras já repousavam de pernas para o ar sobre as mesas e os últimos resistentes da noite pagavam suas contas no caixa. Luca tomou um gole e pôs o copo de volta no balcão. – Não. E nem acessa a internet. não foi por isso.7 quase fechando. – Tu gosta mesmo da taoísta. Bebe aí. – Mas tu não dizia que ela era louca? – E é.. Tinha o semblante cansado e abatido.. Pensa bem. né? – Gosto. – Foi por quê? O PAPALÉGUA ESTAVA 86 . cidadão. E deu um tapinha em suas costas. – Esta é por minha conta. vocês morando tão longe um do outro. – E onde ela tá agora? – Sei lá. essa história nunca ia dar certo. – Eu chamei mas ela não quis vir morar comigo. ela tem a vida dela lá em São Paulo. Luca segurou o copo e balançou o gelo por um longo tempo. Nunca te vi assim por mulher nenhuma. Luca. – Claro. o olhar vago e silencioso. Junior Rível recebeu do barman os dois copos com uísque e pôs um deles no balcão. – Não tem mesmo como falar com ela? – Ela está sem celular. em alguma praia por aí. – Talvez tenha sido melhor desse jeito.

totalmente perdido.Luca tomou mais um gole. – Que abismo? – Também não sei. tudo. Por sinal. Te concentra na tua vida que logo mais tudo vai estar bem. – É disso que estou falando. ainda mais gostando dela. – Ah. o líquido ardente machucando a garganta. Não sou mais quem eu achava que era. – Não quero nenhuma gata. sempre achei que eu não fosse assim. sempre foi.. Quer dizer. cara. tu anda meio irritado ultimamente. – Tá vendo? Eu não sou assim. – Acho que eu me perdi de mim. Me sinto como se estivesse sozinho numa floresta escura. Simplesmente já não sei se acredito mais no que eu sempre acreditei sobre mim. olha que merda. – Mas tu mandou a moça embora! Não foi nem deixar a coitada na rodoviária.. não sou. a dor gelada reverberando no fundo da alma.. girando naquele redemoinho. – Não. Mas talvez eu seja e só agora é que percebo. Ele olhou dentro do copo e por um instante sentiu-se rodopiar junto com os gelos. Essa história com Isadora me fez virar um cara ciumento. – Como assim não sabe? – Não sei. – Você é um cara legal. Aliás. De repente me vi sendo grosseiro e agressivo. esse é o problema. você me conhece. cara. Está tudo fora do lugar. Quero Isadora. – É. – Foi por causa da merda de um abismo. Junior olhou para o amigo e riu. cá pra nós. Não se comporta com uma mulher como eu me comportei. inseguro. cara. é isso? Então não te preocupa porque logo mais alguma gata vai te achar. 87 . Eu não sei mais quem sou. isso não foi nada bonito. sem conseguir me controlar.. vai passar. Um cara legal não faz o que eu fiz. – É uma fase. não sei mais de nada.

Em casa. praia do litoral oeste.– Minha vida? Eu não sei mais o que é a vida. – Prometo. Beijos. – Amanhã tem ensaio. adorei te conhecer. – Fica frio. como se sentisse fome daquelas palavras. apertando a mão do amigo. E que anotasse para ser descontado no cachê do próximo show. – Não faz isso. E que esperava que ela estivesse bem. E só. né? Sempre fui o poeta da banda. No postal Isadora contava que estava em Icaraí de Amontada. Isso pelo menos eu sei que sou. né? Pois agora não tenho mais. ok? Luca riu com ironia. – Valeu a força. Não sei mais de nada. cidadão. Eu tinha todas as respostas. Sou covarde demais pra me matar. E adormeceu antes de terminar a primeira dose. Junior. Luca virou o resto do uísque e pediu que o barman pegasse uma garrafa cheia para ele levar para casa. Só isso. Não havia mesmo nada 88 . Dizia que a viagem seguia tranquila e que as praias daquele trecho eram ainda mais bonitas. Eu sempre soube. Não vai faltar de novo. Ele implorou para ver e Bebel lhe mostrou. – E não fique próximo de janelas. Luca leu outra vez e outra mais. Encheu um copo e ficou dedilhando o violão. – Vou indo. o cara que explicava tudo pela poesia. passeando sem rumo por melodias melancólicas. * UMA SEMANA DEPOIS * * Luca soube que Bebel havia recebido um postal de Isadora. Luca recebeu a garrafa de uísque do barman e assinou no papel. a meio caminho de Jericoacoara. deitou-se no sofá com a garrafa de uísque ao lado. Tu já tá com dois cachês pendurados. cara – ele disse. – Mais um não faz diferença. Luca leu com voracidade. um covarde.

Isadora. dessa vez haveria de conseguir também. Nada garantia que tal loucura desse certo mas se em Uruaú conseguira encontrá-la.. E não sabia como viveria sem ela. só isso. Confiar na vida. Na terceira 89 . nenhuma menção. precisava chegar o mais rápido possível. que merda!. E de repente atinou para o absurdo da situação: tentando carona numa estrada deserta para chegar ao posto mais próximo para consertar o pneu e então retornar para seguir viagem a uma praia. talvez ainda estivesse por lá. absolutamente nada. em casa. Parou no acostamento. que merda. Então botou Led Zeppelin para tocar no som do carro e postou-se mais à frente. Tentaria encontrá-la em Icaraí de Amontada.. praguejou. de olho no horizonte da estrada. À noite. olhando inconformado para os dois pneus murchos. – Um voto de confiança à vida – falou para si mesmo. E que ela era a mulher de sua vida. Era como se ele não existisse. onde talvez Isadora já não estivesse mais. Devia ser a isso que chamavam blues. – Como você mesma diria. ele decidiu: sairia no sábado pela manhã. né? – perguntou Bebel. Ele não respondeu. O pneu furado atrasou bastante a viagem e fez com que chegasse em Icaraí de Amontada somente à noite. Quando a madrugada já seguia alta. Em certo momento percebeu que havia algo errado. Só precisava encontrá-la novamente. percebendo seu sofrimento. Como se nunca houvesse existido. – Você queria que ela estivesse aqui. o carro puxava para o lado.. Tudo que queria era reencontrar Isadora. desceu e viu o motivo: pneu furado. Apenas devolveu o postal e foi embora.. Tentou manter-se calmo e otimista. rolava na cama sem conseguir dormir. No sábado acordou antes do amanhecer e pouco depois já seguia em alta velocidade pela estrada rumo ao litoral oeste. Quando abriu o porta-malas foi que percebeu que o estepe também estava furado. Merda.sobre ele. E que ardia de saudade. Precisava dizer-lhe o quanto fora estúpido e que estava arrependido.

No domingo de manhã deixou o fusca em Gijoca e embarcou na traseira da caminhonete que durante uma hora conduzia os turistas pelo trecho de dunas e lagoas até Jericoacoara. levantou e foi dar uma volta pela praia deserta. mas ele não a via: enquanto o veículo seguia. contando histórias mirabolantes 90 . Tentou comer alguma coisa mas engoliu sem gosto. O som do mar bem próximo era relaxante mas ele se sentia sozinho e desamparado. de onde só retornou quando as primeiras luzes do domingo surgiram no céu. Sentia-se esgotado e derrotado. Nada. ele já sabia mas fizera de conta que não. minha senhora. Na verdade... era isso.tentativa localizou a pousada onde Isadora fizera algumas refeições mas a gerente informou que ela não estava mais lá. comeu algo e acomodou-se numa rede na varanda da pousada. Dez minutos já valeriam a pena. A noite do domingo chegou e Luca não se conformava. pelas dunas. E nada. Finalmente em Jericoacoara. Nesse momento. ainda não contaminada pelo progresso. ansioso. ela o abandonara. saiu de pousada em pousada perguntando por Isadora. ele esfregava as mãos. Todo esforço seu por encontrá-la. Tinha de estar. de repente. – Amar é um perigo. deu-se o estalo e ele percebeu o papel ridículo que fizera: Isadora não estava mais a-fim. o céu estrelado lhe fazendo lembrar de Tibau do Sul. Nas ruas e becos tinha a sensação de que a qualquer momento ela surgiria à sua frente – mas nunca era ela. Quando a saudade de Isadora tornou-se insuportável. Procurou também nos campings. Um perigo. e torcia para que Isadora ainda estivesse por lá. nenhuma informação sobre ela. partiria de manhã cedo. E agora? Pensou um pouco e decidiu ficar. Provavelmente naquele momento ela já estava com outro cara. Luca sentiu o desânimo lhe pesar nos ombros. Sim. Sequer tomara um banho de mar. Procurou pela praia. por maior que fosse. Era uma paisagem bonita. que partira cinco dias antes para Jericoacoara. na pedra furada. Depois do banho. na lagoa. teria sido em vão.

O futuro de Isadora! Interrompeu o beijo e enquanto Bebel deitava a cabeça em seu peito. E agora? Como escapar desse dilema? Pois sim. Voltou para Fortaleza inteiramente consumido pela frustração e pela raiva. Se Isadora não o queria mais. Mas por outro lado. ir contra seu desejo e evitar Bebel apenas para não dar razão a Isadora era absurdo. ele até queria mesmo estar com Bebel. ela lhe fazia bem – mas agir assim seria cumprir o que a outra previra e isso soava como uma derrota. Dar razão a Isadora – não podia fazer isso. Era na lanchonete em que Bebel trabalhava como garçonete que ele ia desabafar.de vidas passadas. Chegou em casa na manhã da segunda quase sem forças e trazendo um resfriado que no dia seguinte se transformou numa forte gripe e o fez faltar ao trabalho por dois dias. O emprego de gerente de gráfica era sem graça e entediante mas era seguro.. Uma noite. ele decidiu.. E encher-se de relações superficiais podia até amplificar a solidão. Pois sim.. os bares cheios de mulheres.. Papel ridículo – foi o que ele fizera. O mundo dos bares e dos shows tinha um ritmo alucinante mas era seguro. Confiar na vida.. a espertinha. em seu carro. 91 . em que ele ficava com Bebel após ela ir embora. * * * as noites sem fim. Talvez Isadora quisesse justamente isso. ficaria com Bebel. E que Isadora LUCA RETOMOU O VELHO RITMO. trocaram um beijo e nesse instante ele lembrou. Conversavam e no final ele a deixava em casa.. mas era muito mais seguro que arriscar-se em sérios envolvimentos sentimentais que no fim só traziam decepção e sofrimento. por que se guardar para ela? Por que ter esperanças? Inútil. Por um lado. ele lembrou do futuro de Isadora. dividindo com ele sua barraca. E ainda o levou a cancelar um show. Inútil como aquela viagem desatinada pelas praias à procura de uma ilusão.

Nos últimos dias ele tinha a sensação de que algo queria sair de dentro dele. a próxima música. E mulheres que desejavam a ele e não a uma encarnação do passado. Ela nada exigia. – Cada um joga com as armas que tem – ele respondeu secamente. Bebel olhou para ele e em seu olhar Luca pôde ler a pergunta silenciosa: Você ainda gosta muito dela. E por alguns segundos ficou olhando o teto do quarto. que agora tinha empresário. ele rapidamente desviou o olhar. Nem pra você? – Ela não vai me escrever nunca mais. E é melhor assim. – Isadora não te escreveu mais? – ele um dia perguntou. – Luca. Ou não? Ou ele já estava imaginando coisas e pondo palavras no olhar de Bebel? Com medo de que seus olhos respondessem por si só à pergunta. você sempre foi tenso assim? – Bebel perguntou uma noite. apenas gostava dele. buscando não pensar. Lembrava de uma cena de Aliens.fosse à merda. Cada vez mais era nos braços de Bebel que ele buscava com desespero esquecer quem era. – Não. nada cobrava. E agora havia Bebel. Havia sempre a noite. Quando voltou. pelo contrário.. antes de adormecerem. né? Não era uma pergunta agressiva. em que a criatura irrompe de dentro do corpo do astronauta. Perguntou fingindo desinteresse. ela e seu futuro. a pergunta não estava mais lá.. devo contar sobre nós dois? – É bom mesmo que ela saiba. Ela parecia dizer. – Se ela escrever. Em seu lugar. Felizmente havia a banda. mesmo que houvessem se encontrado na noite anterior. três meses após aquele dia em que lera o postal. havia o olhar nítido de 92 . um bicho perigoso e enjaulado. sem uma única palavra e do seu jeitinho doce. Bebel. buscando o sono. a dose seguinte. que sabia de tudo e que o compreendia. que sempre o recebia com carinho e saudade. e os shows estavam cada vez mais cheios.

– ela falou. * * * No início foram pequenos contratempos caseiros. pontos externos e internos. hospital... Bebel – ele reclamou. Depois os acidentes foram ficando mais sérios. irritado. Outra noite foi bem pior: para economizar a entrada de uma festa. E ele obedeceu.uma mulher que o aceitava. E um mês sem poder tocar. acariciando a cicatriz em seu rosto. 93 . Um dia não percebeu o buraco na calçada e caiu. deslocando o osso do pé. – Sermão a essa hora da noite? – Tô preocupada com você. pedindo em seu íntimo que os lábios dela lhe fizessem esquecer por alguns instantes que ele não a merecia. – É praga de bruxa. esses acidentes todos. Saldo da economia: dois dedos com as pontas penduradas.. – Luca. tentou saltar o muro da casa mas errou o cálculo e enfiou as mãos nos pregos. Eu só queria que você soubesse Que as minhas noites são tão sozinhas E o meu coração é tão velho sem você Eu sirvo mais uma dose enfim Eu olho a cidade Da janela só a cidade sabe de mim.. Vai passar. – Me beija. ENTÃO OS ACIDENTES VIERAM. Luca. será que você não está bebendo demais? – Pô. coisas bobas como escorregar no banheiro e queimar-se ao fogão.

8 a Bluz Neon participou de um festival em Recife e ganhou elogios na mídia. Mas largar o emprego era um risco muito grande. em estúdio de primeira. porém. teria de estar disponível para viagens e compromissos. Um futuro ligado à música lhe acenava. era um dinheiro certo com o qual podia contar todo mês. A banda estava a cada dia mais conhecida e ganhava prestígio. mas era uma segurança. dessa vez um disco de boa qualidade. encheram a cara e tocaram os blues prediletos. é verdade. Todos eles sonharam com aquilo e agora estava acontecendo. destacando a qualidade técnica. por outro lado. As portas se abriam para a banda mas. Dias depois o empresário anunciou: conseguira um bom patrocínio e em breve começariam a gravar o CD. Bêbados e solenes. Não gostava dele. Era hora de tomar uma decisão. Participaram de um importante programa de tevê e receberam mais convites para shows. Jornais e revistas publicaram material sobre os bluseiros de Fortaleza. Luca. a mistura de ritmos e a capacidade de interação com a plateia. NAQUELE MÊS 94 . teria de se dedicar ainda mais. vivia o dilema de uma terrível encruzilhada. compraram um Jack Daniel´s e foram todos comemorar numa velha estação de trem desativada no centro da cidade. brindaram a todos que conseguiram lembrar e saudaram o futuro promissor. ele sabia. seu emprego impedia que viajassem mais e fizessem mais shows. Três anos antes a banda surgira como brincadeira de fim de semana e agora a coisa começava a ficar séria demais. uivando emocionados para a lua. Naquela mesma noite eles saíram do ensaio. Sentados sobre os trilhos.

Deu queixa do roubo. o que prejudicava bastante sua performance nos shows. lhe pedia prudência. a banda precisava dos dois. surpresa: Isadora telefonou.. E agora sua banda. não conseguia acreditar. Agora perdia o carro e não tinha condições de comprar outro. a pressão de ambos os lados. Para completar. Isadora – ele respondeu. A vida parecia estar brincando de lhe trazer as piores decisões possíveis. não soube o que fazer.Não conseguiu se decidir. cada vez mais a incomodá-lo. Junior o incentivava a apostar as fichas na banda. Pensou em desligar mas sentou-se no sofá. eles estariam juntos.. Então uma noite. E ele não conseguia se decidir.. que exigia que ele largasse a segurança de seu emprego. saindo da lanchonete com Bebel. pôs anúncio no jornal. – Oi. agora vivia gripado. Ficou completamente desesperado. Seis meses que ele lutava diariamente para esquecê-la. Não sabia mais o que realmente queria. Três meses antes quase perdera os dedos num acidente bobo. Dias depois. largar o emprego para viver de música. dona Glória. Adiou a resposta uma vez e depois outra e continuou adiando a decisão pela qual o resto da banda esperava. Não sabia mais de nada. Largar as seguranças para viver o amor. não obteve notícia alguma. que analisasse a situação toda com muita calma. Dias e dias mergulhado em dilema. O carro infelizmente não tinha seguro. Luca atendeu e. ele não encontrou seu fusca: o carro fora roubado. A mãe. ao ouvir sua voz. Fazia seis meses que ela o abandonara. Não sabia quem ele era no meio de todas as suas contradições. E a necessidade de tomar uma decisão quanto ao seu futuro na banda era uma pressão constante. um grande futuro os aguardava. Primeiro Isadora lhe pedindo que largasse suas seguranças para seguir com ela. Foi um golpe cruel. Ela disse que estava em São Paulo e queria saber como 95 . procurou em ferro-velho mas nada. nervoso. cada lado com mais dois lados a avaliar.. tentando não demonstrar a emoção que sentia.

Luca. Sentia agora a mesma sensação.ele estava. – Você. Largar tudo e seguir com Isadora. – Estou só dizendo que vou viajar... – Sempre se dá um jeito. Parecia querer dissuadi-la por ele próprio não ter a mesma coragem. a gravação do CD. né? Pensou em perguntar se ela havia economizado dinheiro suficiente mas seria apenas outra pergunta idiota. – Aqui está tudo sob controle – ele respondeu. – Pra você também. ele tentou passar em sua mente todos os detalhes que envolviam uma decisão como aquela. Ele lembrou daquela noite na festa: estamos juntos.. está me convidando? – ele perguntou. o clima de decisão. Ele sentia que as entrelinhas daquelas frases lhe diziam algo mais.. – Como vai se virar? – perguntou. Mas saio semana que vem... – Boa sorte. – E você? – Luca. o bom momento da banda. Luca. Em meio ao silêncio desconfortável... Vou viajar novamente. Sentiu no ar a importância do momento.. – Pra onde? – Ainda não decidi. toda a sua vida dependendo de sua decisão. todo um futuro dependendo do que escolhesse no próximo segundo. o emprego na gráfica. Isadora. Ele teve vontade de contar sobre todas as dificuldades que passava mas de repente entendeu que ela de algum modo já sabia. E não sei quando volto. Bebel. só liguei pra dizer que estou de partida. Mas logo adivinhou a resposta. Por que não dizia sim? – Como vai Bebel? 96 . ela e suas botas pretas. E súbito deu-se conta que não sabia a resposta que queria ouvir.. Por que não dizia sim para ela? Lembrou da noite em que Soninha surgiu no camarim após o show.

– Diz que eu mandei um beijo pra ela. Não posso.. Luca. Talvez estivesse perdendo naquele momento.. olhou-se no espelho rachado do banheiro e a imagem refletida lhe mostrou um 97 . Não. Sentia o coração apertado. Ele escutou o ruído do término da ligação e engoliu em seco.. Abriu os olhos e se segurou no sofá.. mostrar que aceitava. Ela está bem? Com aquela pergunta ela talvez quisesse oficializar. Ele fechou os olhos como se na escuridão pudesse ver uma saída. sua aprovação à união dos dois. – Ela está ótima. Mas foi tomado pela sensação de estar caindo. que partiria com ela e viveriam plenamente a grande loucura daquele amor? – Tchau. Ficou ali. para todo o sempre. – Não posso. chão. que não pensaria mal deles. Por que então não reagia? Por que não deixava de vez aquela inércia e dizia finalmente que sim.. Definitivamente.Ele não esperava por aquela pergunta. sua voz ainda ecoando feito um grito sumindo no abismo. não podia largar tudo. sentado no sofá. caindo.. Ela levantou cedo e se mandou Foi atrás de um sonho maior Deixou um beijo de saudade E essa cidade ao meu redor * ERA NOITE DE ENSAIO.. a mulher de sua vida. que largaria suas seguranças.. não posso. o fone no ouvido. Ela sabia que estavam juntos? Ou estava lhe jogando uma isca? – Quem? – Bebel. * * Luca trocou de roupa. sem dizer abertamente.. Com isso fechava a porta e jogava a chave fora..

Bebel esperando um filho seu... Não era possível. Fazia um mês que o empresário e os companheiros o pressionavam por uma decisão e ele simplesmente não conseguia decidir. fazia dias que estava com uma dor de cabeça insuportável.. Em casa. Seu carro fora roubado e ele. No caminho passou na farmácia para comprar um remédio. Ela explicava: exame positivo. No final do ensaio Bebel apareceu de surpresa.rosto inchado. eu juro. Encostou-a numa árvore e. nervosa. ele não conseguiu dormir. Ele levantou. o olhar cansado. – Não sei como foi acontecer. E foi pegar o ônibus na outra rua. Que se virasse pois ele não tinha nada a ver com aquela irresponsabilidade. Bebel. dedo em riste. De toda parte apareciam furos no barco e ele não tinha mãos suficientes para tapá-los. Ele não acreditou no que ouvia. já tinha problema demais a resolver. de um instante para outro. – Ela gaguejava.. olheiras profundas. pegou a garrafa de uísque e despejou uma dose no copo. virou-lhe as costas e saiu. Tomou de um gole só. mais de dois meses de gravidez. Ela tentou abraçá-lo mas Luca a repeliu. – Desculpa.. eu tomei cuidado. Luca. Bebel tentou explicar que naqueles últimos meses ele fora seu único homem mas logo desabou num forte choro e nada mais conseguiu falar.. apanhou a mochila e saiu para pegar o ônibus para o estúdio. A vida já estava jogando baixo demais.. puxou Bebel pelo braço e a levou para um canto mais afastado. falou que não sabia se o bebê era mesmo seu e que se fosse. a culpa então era dela que não tomara precauções. – Isso não pode ser verdade. se vira privado do 98 . Estava um tanto ansiosa e disse que queria conversar. andava cada vez mais irritado. Precisava se acalmar. Foi à cozinha.. Teve vontade de esmurrar o espelho. Ele despediu-se dos amigos e saiu com ela para a pracinha ao lado. Sentaram num banco e foi lá que ela lhe deu a péssima notícia: estava grávida. Não podia ser.

– Eu sei que você não esqueceu Isadora. A mulher que amava fora embora e agora Bebel esperava um filho seu. ela queria a criança. Foi um acidente. Bebel o abraçou e chorou em seus braços. E desculpou-se pelo que fizera. a sua contraofensiva? Ela vira também aquela criança no tal futuro? Enquanto Bebel dormia ao seu lado. eu não tenho a mínima condição de criar um bebê agora – Ele se esforçava para não atropelar as palavras.único patrimônio que possuía. não vamos? – ele perguntou. Luca suspirou. Arrumaria dinheiro emprestado e pagaria o aborto. todos eles. – Pra mim é bem vinda sim! Pronto. não conseguia acordar. Tentou manter-se controlado. Se realmente existisse reencarnação e ele de fato houvesse sido Enri99 . ele coçava a cicatriz e ruminava sobre o que ainda lhe restava fazer. – Bebel. rendido. escuta. estava arrependido. Apresentou argumentos. por mais que se debatesse. – Bebel. Foi encontrar Bebel na lanchonete na noite seguinte. entendeu? Essa criança não é bem vinda. O mundo inteiro ruía dentro e fora dele e. a gente não pode criar essa criança! – Ele se descontrolava e ela recomeçava a chorar. Ela apenas chorava. – E a gravidez? Vamos interromper. – Bebel. agarrada em seu pescoço. De matar. Esperou que ela terminasse o serviço e levou-a para seu apartamento. tudo perdido. uma resposta à decisão dela de ir embora. O que Isadora pensaria? Interpretaria aquela criança como a jogada final de sua parte. Não conseguia se concentrar direito no trabalho e até fora advertido severamente por seu chefe. Ele respirava fundo. os mais sensatos. Mas não me importo. Um filho seu. Definitivamente era um pesadelo. Quero ter esse filho. – Eu crio sozinha. A vontade era de gritar. A vida se tornara um pesadelo do qual não podia acordar. E dos piores. por favor. não precisa se preocupar. de bater. Parecia irreal.

ele conseguiu o carro emprestado de um amigo e a convidou para passarem o fim de semana numa praia. sem forças. Mas a lua não o desculpou. Só queria sumir. e ele ajoelhou-se no chão. descobrindo a barriga.. E adormeceu desejando com todas as suas forças que acontecesse alguma coisa.. Minutos depois. ele abriu uma garrafa de rum e fotografaram o pôr do sol. Empunhou a faca. Então ele tentou mais uma vez convencê-la a fazer o aborto. ao lado dela. A faca caiu de suas mãos. Qualquer coisa. Luca.. faca rasgando o coração. dilacerando a alma. chorando. sob o lençol. a raiva pronta para explodir. A realidade era diferente. e com cuidado puxou o lençol.que.. cambaleante. Luca pegou o copo e jogou contra a parede. Ela adorou a ideia. Quando Bebel completou o terceiro mês de gravidez. era cruel e insensível.. então ainda devia saber lidar com magia e resolveria aquele problema rapidinho. os estilhaços se espalhando pela varanda. Mais tarde ele voltou. a garrafa quase no fim. E mais uma vez Bebel não aceitou seus argumentos. 100 ... Bebel sentou ao seu lado. Mas não. uma tortura. Na penumbra viu Bebel dormindo na cama.. Ela olhou para ele e viu seus olhos vermelhos. só isso. fechou os olhos e respirou fundo. sumir para sempre. o que aconteceu? Que faca é essa? Você está bem? A voz dela.. abraçou-o e chorou com ele.. – Esse bebê é uma maldição! – ele gritou enquanto pegava a garrafa e saía. Na varanda da casa da praia. cortando tudo por dentro. ele olhou para a lua. o som metálico ecoando no silêncio da noite. aquelas coisas só existiam na cabeça perturbada de malucos como Isadora. na varanda. qualquer coisa que o livrasse daquele pesadelo absurdo. Luca? Luca? A voz veio de algum lugar. Parou em frente à porta do quarto. Antes que enlouquecesse de vez. Entrou pisando devagar. Ajoelhou-se no chão. e pediu desculpas por ser quem era.

A última coisa que lembrava era de uma discussão na varanda. Ela exigiu o volante 101 . Chegara ao fim das possibilidades. apenas enganara-se durante todo aquele tempo fingindo para si mesmo que lutava contra mil inimigos que a cada dia surgiam das sombras para atacá-lo. Como vencer o inimigo se o inimigo era ele mesmo?. uma ressaca horrível. – Você não é um fracasso. Os pensamentos. – ele balbuciou antes de adormecer. De repente. percebeu que sim. Luca estava sonolento e Bebel achou perigoso ele dirigir o carro. Nada mais importava. não havia mais para onde seguir. porém. Na verdade sempre soubera. segurando seu rosto entre as mãos – E vamos ser muito felizes. * NO DOMINGO * * ele acordou péssimo. – Eu sou um fracasso... e que agora simplesmente já não sabia mais por que lutava. meses. Não. entendeu? – Ela disse. semanas. um copo quebrado na parede. O que acontecera depois? Bebel o tranquilizou. subitamente. ele sabia sim quem era seu inimigo. Na hora de voltar para Fortaleza. buscando não pensar. Nós três. sentia isso. Amanhã será um novo dia. Estava exausto como um guerreiro que lutava havia dias. Era o fim. descobriu que sabia. tinham vida própria. Na barriga daquela mulher mexia-se seu filho ou sua filha. Bebel...Depois o levou para dentro e o deitou na cama. – Não mereço você. E como se derrotar se já não sabia mais quem era? Chegara ao final. perguntou-se em pensamento. disse que estava tudo bem. – Dorme. seu inimigo era um só e o emboscava todos os dias no espelho partido de seu banheiro. A ideia de ser pai era algo absurdo mas já não tinha forças para lutar contra ela. Ele pediu desculpas. Ele a abraçou e fechou os olhos. Contra quem estava brigando? Então. ali abraçado à barriga de Bebel. meu lindo.

ele apenas viu a luz e sentiu um imenso choque. Mas foi tudo muito rápido. e viu apenas uma luz forte surgindo subitamente ao lado. 102 . O que acontecia com as coisas que não chegavam a acontecer? Na entrada da cidade Luca estava distraído. quase dormindo. Ela então insistiu e tomou a chave: – Confie em mim. ele olhou para ela com carinho e pensou em como as coisas seriam diferentes se não houvesse Isadora. Enquanto Bebel ligava o carro.mas ele recusou. Depois tudo escureceu.

com cuidado para não escorregar nas pedras úmidas da caverna. A naja rastejou num movimento lento e ondulante e parou bem à A NOITE ERA DECISIVA. Ficou imóvel. Então segurou firme a espada e avançou em direção ao lago escuro.. à espera. sãos. os iniciados mostravam que eram bravos o bastante para suportar o que exigisse a defesa da Ordem. Ao vencê-la. Suspendeu a respiração. E nesse momento o pavor mais profundo irrompeu do interior de sua alma. O inimigo estava bem próximo. Enrique escutou um ruído vindo do lago de águas escuras e deteve-se. pois muitos sobreviviam mas retornavam da caverna irremediavelmente loucos – aqueles que detinham a força necessária para vencer o terror mais íntimo que habita a escuridão do espírito de cada um. feito vermes forçando a terra. espada em punho. As pernas fraquejaram e subitamente ele descobriu-se incapaz de enfrentar o que se anunciava em seu pensamento. Enrique sabia que não seria aceito na Ordem se não fosse capaz de chegar à galeria e enfrentar o inimigo que o esperava sorrateiro em alguma daquelas tantas sombras. o suor escorrendo pela face. E ele escutou seu sibilar aterrorizante. o coração prestes a explodir de medo e expectativa. Ela surgiu.9 A tão aguardada iniciação. Era mais que perigosa. 103 . E desse confronto só saíam vivos e sãos – sim. A prova da iniciação era terrivelmente perigosa.. Então pressentiu o que poderia vir. era a prova suprema que alguém podia suportar: o temido confronto com o Guardião do Conhecimento.

era real.. a Guardiã – ele soube seu nome assim que a viu.. E então a naja abriu a boca. Não podia haver um pesadelo pior e. se estava paralisado? A serpente arqueou a cabeça para trás e por um segundo ele percebeu que ainda era possível escapar. totalmente paralisado pelo terror. Seu corpo deslizou inteiro para dentro da serpente e ele pôde sentir os movimentos que ela fazia para impulsioná-lo através de si. O contato com o interior da serpente o enchia de asco e enquanto buscava desesperadamente respirar. De repente deu-se conta do quanto era insignificante diante daquele animal.. depois o tronco e então as pernas. Então não pôde mais respirar. não era absolutamente nada. estava sendo engolido enquanto berrava e esperneava e se contorcia. Seu sibilar era hipnótico. 104 . à margem do lago. seus órgãos já não lhe obedeciam... nada. todos tinham. no entanto. Desistiria e retornaria sem enfrentar aquele pesadelo. Primeiro a cabeça. Ele caiu ajoelhado. Ele achava que era forte. Julgava conhecer as forças da vida. subindo lentamente.. exibindo as presas letais.. Era gigantesca... Mas via então que não era nada. A espada rolou de suas mãos e caiu no chão. Ihlissssshhhh. ele podia desistir.. Por fim suspirou. subindo. sem forças. Ela ergueu o corpo. ele tinha o direito de recuar. Ihlish. Aos poucos perdeu o controle sobre o próprio corpo. E foi tão rápido que quando ele se deu conta. Um silêncio profundo tomava conta da caverna mas agora ela já não parecia tão escura e misteriosa. A serpente era o seu guardião pessoal do Conhecimento e era a ela que deveria vencer para prosseguir na Ordem. podia escutar o som de seus ossos sendo esmagados. Sim. Quando acordou. era seu próprio nome. o som metálico ricocheteando pelas paredes da caverna. Não houve mais tempo. encontrava-se deitado nu sobre a pedra.sua frente. Mas como. Enrique viu a imensa cabeça pairar bem próximo de seu rosto e o pescoço inflar lateralmente. A serpente atacou.

sim. que passara pela grande prova. que ele não conhecia. sem ferimentos. Mas compreendeu imediatamente. mas vivo. onde ela estivesse. os mercadores locais e de outras cidades com seus produtos e seu olho grande na possibilidade de voltar para casa com a bolsa tilintando de moedas. Por essa razão ele era a partir de agora Ihlish Vehdvar. Naja-Rei. Estava vivo! Um pouco cansado. * * * estava cheia como sempre. lá fora. A imagem era difusa. era apenas um rosto feminino.Levantou-se e percebeu que seu corpo estava inteiro. No lado norte da feira rapazotes se apresentavam no palco com suas espadas de madeira e narravam como El Cid caiu numa emboscada e lutou bravamente contra sete mouros que queriam a sua cabeça. um novo mundo o esperava. Então uma palavra veio à sua mente: Vehdvar. sempre fora Vehdvar e só agora percebia isso. além dele... um mundo que já não o derrotaria pois ele detinha o Conhecimento. e fazê-la sua discípula.. absolutamente numinoso. E NAQUELA MANHÃ A FEIRA DE VALÊNCIA 105 .. Sentindo a solenidade do momento. como se existisse desde sempre. Era o seu nome. Ele preparou-se para o retorno da serpente mas o que viu na superfície foi a imagem de uma.. somente Ihlish sabia e podia pronunciá-lo. Esta era sua próxima missão. Enrique prostrou-se virado para o lago escuro onde dormia a serpente e tocou o chão com a cabeça. mulher. Nesse momento as águas do lago ondularam. o nome que ele jamais lembraria fora da caverna mas que era só seu e que. Deveria encontrar aquela mulher.. cheio de reverência: – Naja Hannah. Isso era tão incrível que não parecia real. Mas era real sim e agora. O nome soou de um modo mágico. E ele sabia que somente os mais fortes eram dignos de levar junto ao seu o nome sagrado do Guardião. Entendeu que havia vencido.

. Enrique riu. Satisfeito com o sucesso do 106 . Na Espanha.. na Índia. acostumado em capitanear fugas de judeus. No outro dia retornaria a Barcelona onde pegaria o navio para Goa. Os mares da Espanha estavam infestados de turcos e todo cuidado era pouco. Dios os mantenga. para oferecer seu apoio aos amigos judeus-castelhanos que planejavam deixar a Espanha e ir para a Grécia. particularmente. que contassem os feitos menos discretos de Margarida.. a Louca. onde já se encontravam muitas famílias judias expulsas do país após a rendição de Granada – lá poderiam seguir livremente sua religião e também manter as tradições de Castela. recebera de presente um antigo e precioso texto cabalístico que havia muito procurava mas que teria de esconder muito bem pois já havia desconfiança demais quanto à relação de jesuítas com judeus. As historietas sobre os bastidores da Corte eram sempre mais interessantes que as tramas guerreiras do Cid. que de tão fogosa terminou matando o marido. sempre desconfiados dos cristãos que os viam como traidores emboscados e mais cedo ou mais tarde acabavam inventando coisas. junto com outros jesuítas. O Cid era mesmo herói daquela gente e eles não cansavam de cantar seus feitos. Pelos seus favores. Ou de como Joana puxava os cabelos e enlouquecia de tantos ciúmes de Filipe e assim se tornara Joana. na verdade. o príncipe João. ainda eram obrigados a se passar por cristãos convertidos. não continha mais que areia. terra de seus antepassados. irmã de Filipe. Despedira-se dos amigos deixando-os sob os cuidados de um missionário alemão. com medo da Santa Inquisição. Porém preferiria. com um cofre que ele garantia estar cheio de ouro e prata mas que. Fora a Valência em missão secreta. Eles partiriam para a Grécia e lá poderiam praticar sua religião em paz. a fim de formar um exército no exílio.contavam como El Cid dividia as conquistas das batalhas com seus vassalos para que enriquecessem junto com ele e de como El Cid ludibriou os judeus ao pagar o empréstimo que pedira..

. Ele aproximou-se devagar. pregaram-na numa cruz. Mas. mas as mãos mostravam que seu passado talvez a houvesse obrigado a serviços no campo. As imagens que Ihlish lhe permitira ver na caverna não a mostraram tão. tão interessante quanto na verdade era. anos atrás na caverna. os modos altivos. do outro lado da feira. Ele a observou atentamente. Portugal saberia no momento oportuno reencontrar o caminho de sua independência e sua glória. Tinha muitos amigos por ali e. O cheiro de seu cabelo o fazia sentir-se leve. os cabelos arrumados num penteado moderno. Uma sensação de formigamento tomou conta de sua mente. quando diziam serem os salvadores do catolicismo contra a Reforma protestante. enquanto a moça. enfim. cheios de um falso verniz aristocrático. Enrique pressentiu sua presença. Então ele a viu.. A mulher que seria sua discípula e o ajudaria a levar mundo afora o conhecimento secreto da Ordem. Percebeu que era casada. como andavam abatidos pela derrota da Invencível Armada para a Inglaterra! Já não ostentavam a mesma prepotência de antes. sentindo-se vingado. Talvez isso servisse para esfriar a arrogância daquele povo que reinava sobre seu querido Portugal e se julgava dono do mundo. Ihlish lhe revelara.. resolvera então relaxar e aproveitar um pouco da feira. Só podia ser ela. os olhos bisbilhoteiros. Bem feito!.. é ver107 . não devia desejar mal aos seus vizinhos espanhóis. A beleza juvenil. além do mais.. No instante em que se divertia escutando a história de como os judeus haviam raptado uma criancinha e. Era ela. E a pele não era tão clara – teria sangue mouro? As roupas e os modos eram aristocráticos. Tinha de ser ela.. E os espanhóis? Ah. Enrique sorriu. ele pensava. Ele aproximou-se um pouco mais e agora quase podia tocá-la. alegre e displicente. para representar mais realisticamente a Paixão do Senhor.. E mais: que seu olhar demorava-se sobre certos rapazes o tempo exato para não ser flagrada.. sim.plano. comprava sedas das Índias. a mulher cuja face.

a leste o rio Isar deslizando na escuridão da noite. a residência que procurava. Um pouco mais e já podia ver o par de fossos que circundava a cidade e as torres gêmeas da igreja de Nossa Senhora.. – Na hora marcada. E por um instante o tempo parou. minha Catarina. E. E cantarolou: – Lo que valen son tus brazos cuando de noche me abrazan. E seu olhar foi apanhado pelo dele. – ele respondeu. Que lugar?. E à medida que se aproximava. espremida entre as demais... adormecida na cama. cada vez mais. e depois as ruas tortuosas com suas adegas e as cervejarias a acolher as farras dos bêbados. – Meu Enrique. mas para ele era óbvio que ela não andava lá muito satisfeita no leito de seu casamento. – ela sussurrou. fazendo um galanteio como se tirasse um chapéu. janelas com parapeitos salientes e o telhado inclinado. Ao redor brilhavam lagos cristalinos e cachoeiras que liberavam espumas-borboletas transparentes.... A casa tinha dois andares. Era. viu o que seus olhos jamais haviam visto. E pediu para que ela fechasse os olhos. o suficiente para que o passado. Ela obedeceu e quando abriu. Ela estava lá.. podia sentir cada vez mais forte sua presença. Catarina 108 . * DE LONGE E DO ALTO * * ele avistou as muralhas e as torres: era Munique que surgia bem à frente. o mesmo tempo das outras senhoras... Ela olhava distraída os jograis quando teve um pressentimento e virou-se. Ele disse que gostaria de lhe mostrar um lugar. o presente e o futuro se alinhassem no ritmo exato do pulsar de seus corações. ele respondeu. Um paraíso. como todas.. ele sabia.dade. enfim. ela quis saber. À sua frente espalhava-se um cenário inacreditável: um bosque feito de rios de águas aveludadas que deslizavam feito uma suave melodia por entre árvores azuis.

formada por homens e mulheres de variados credos e nacionalidades e que mantinha uma secreta rede de informações espalhada por vários países. * * quando desembarcou em Goa pela primeira vez. E ela sentiu-se a mulher mais abençoada do mundo por estar com aquele homem maravilhoso que sabia conduzila aos sonhos mais belos e prazerosos que podiam existir. não era difícil entrar em contato e aprender sobre muitas outras coisas além da matéria oficial da Companhia. depois de dez meses viajando pelo mar. uma irmandade ocultista. Ela deitou sobre a relva macia e azulada e ele deitou sobre ela. que diziam sair em espírito 109 . que era usada para influenciar decisões políticas e religiosas. – E é. A origem da Ordem remontava a antigas crendices dos camponeses do norte da Itália. * ANOS ANTES. – Pensei que fosse viva. – Ele riu. entrar para a Companhia havia sido mesmo um bom negócio. – Estão a brincar contigo. Quando tocou uma delas. e pôs o pé esquerdo na terra. todas meio humanas e brincalhonas. e Goa. Foi assim que conheceu aqueles que o iniciaram na Ordem do Guardião. Seus membros valiam-se de estados especiais de consciência para obter visões e controlar os sonhos. Com missionários vindos de tantos países. e que. surpresa. Enrique respirou profundamente o ar daquele lugar estranho e teve a intuição de que algo muito importante o havia conduzido até ali.. amenizando o forte calor indiano. ad majorem Dei gloriam.. A Companhia de Jesus levava seus divulgadores do evangelho mundo afora. afinal. as monções de julho sopravam forte. algo que ele ainda não sabia o que era. ela estourou como se fosse bolha.surpreendeu-se com as borboletas que esvoaçavam junto dela. tornara-se um importante centro de estudos jesuíticos. – ela murmurou. como rezava a tradição dos marinheiros catalães. na costa ocidental da Índia.

durante a noite para caçar bruxas. Como isso sempre se dava no início das estações, quando os camponeses jejuavam por três dias, percebeu-se que era o jejum que propiciava os tais sonhos reais e assim a prática foi adotada pelos membros da Ordem em seus ritos de meditação. Num avançado estágio, a meditação conduzia à caverna e lá ocorria o confronto com o Guardião do Conhecimento, que se manifestava em formas diferentes de acordo com os medos íntimos de cada um. Aos que venciam o confronto, o Guardião conferia poderes para que pudessem seguir mais profundamente nos mistérios. A Ordem do Guardião aos poucos se espalhou entre iniciados de várias religiões e foi ali na Índia, em Goa, que ela atingiu a Companhia fundada por Inácio de Loyola e seduziu vários de seus jesuítas. Foi em Goa que teve a visão da funesta batalha de Alcácer-Quibir e viu o poderoso exército dos aliados dos turcos de Argel. Foi lá que viu dom Sebastião, rei de Portugal, ele e sua idiota ilusão de ser um predestinado de Deus, marchando glorioso para a trágica derrota. Ainda tentou intervir pois antevia ali o fracasso que levaria ao fim do sonho do grande império português. Mas foi inútil. Dom Sebastião agia feito um mentecapto e nem em seus sonhos parava para escutar os conselhos de seus compatriotas. Seu triste destino estava traçado. Com efeito, a morte do rei deixara vazio o trono português e Filipe II da Espanha o assumiu. Desde então Portugal seguia subordinado aos espanhóis, culpa do rei megalomaníaco. É verdade que dom Sebastião tinha partidários que defendiam um império português na África, bem mais próximo e econômico que nas Índias. Mas ele, Enrique, sabia por suas visões que a África era uma luta inglória, inútil. Porém, não o escutaram. E agora, que absurdo, surgiam boatos de que dom Sebastião estava vivo, milagrosamente vivo, e voltaria a qualquer momento para reorganizar seu exército e comandar com valentia a vocação lusitana para a glória... Balelas! Estavam então no final do século e ainda era vantajoso para as elites comerciantes portuguesas a união com a Espa110

nha, de forma que muitos concordaram com a subordinação ao trono espanhol. – São uns interesseiros!... – Ele não se conformava. – Pensam em si antes da pátria! O Guardião do Conhecimento era a entidade que aguardava em sua escura caverna por todos os membros da Ordem. Os derrotados do confronto com o Guardião retornavam transtornados e eram invariavelmente enviados a sanatórios. Agindo assim, os iniciados julgavam estar salvando seu segredo mas alguns, das profundezas de sua loucura e sofrimento, emergiam às vezes gritando coisas que aos médicos não fazia sentido – mas que levaram desconfiança às autoridades religiosas. Foi por isso que os iniciados, para se prevenir, passaram a exterminar todo aquele que não retornasse do confronto com a sanidade intacta. Entretanto, executar pessoas significava sempre um risco, principalmente quando ocupavam cargos importantes ou eram membros da Igreja. E, aos poucos, vieram à tona algumas ligações secretas dos iniciados europeus com judeus e também com árabes e pagãos. A existência da Ordem estava ameaçada. O braço implacável da Santa Inquisição fechava o cerco. *
ELA CHEGOU

*

*

e entrou apressadamente na carruagem. Enrique a recebeu com um beijo demorado. – Segue – ordenou ao cocheiro. Depois virou-se para ela. – Tira tua roupa, Catarina, e veste isso. Ela obedeceu e trocou o vestido pelo manto negro com capuz. A carruagem seguiu pela estrada deserta e escura durante um longo tempo e depois parou. Ele avisou ao cocheiro que seguiriam o resto do caminho a pé e pediu que aguardasse, antes do amanhecer estariam de volta. Pegou-a pela mão e disse que ela, a partir de então, não poderia mais falar até que tudo terminasse. Subiram a encosta com cuidado e então, lá no
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alto, a praia surgiu, envolta pela vasta escuridão da noite sem lua. – Eles estão daquele lado – Ele apontou na direção de uma distante fogueira. – Também trouxeram suas discípulas para serem iniciadas. Desceram a encosta e caminharam pela areia da praia. Não havia vento. Tudo que se ouvia era o barulho suave das ondas. Os outros já estavam ao redor da fogueira, em pé, onze ao todo. Ela segurou sua mão com mais força, tremendo de medo. – Fica tranquila – ele sussurrou, procurando acalmá-la. – Não há o que temer. Eles se aproximaram e ela viu que os outros também vestiam mantos escuros com capuzes que lhes ocultavam o rosto. Todos os saudaram com um leve aceno de cabeça e depois abaixaram os rostos, concentrados. O cálice foi servido e, junto com os outros discípulos, ela bebeu três vezes da poção amarga. Então começaram a ser proferidas as palavras do início do ritual e, com elas, o vento soprou e se atiçaram as chamas da fogueira. As palavras continuaram sendo entoadas em forma de mantra, alimentando o fogo e protegendo-o do vento que soprava cada vez mais forte. Logo depois Enrique percebeu que o corpo de Catarina oscilava para frente e para trás, devagar. Viu quando ela caiu de joelhos e ficou na areia, em silêncio, debruçada e contorcendo-se sobre si mesma. De repente ela ergueu-se e livrou-se do manto. E, inteiramente nua, começou a dançar, mexendo seu corpo em movimentos lentos e ondulantes enquanto as labaredas pareciam também dançar na superfície de seu corpo e o fogo reluzia em seus cabelos. Surpreendidos pela súbita visão do corpo nu de Catarina, os homens e mulheres presentes nada fizeram senão olhar e admirar. Enrique pensou em interromper a dança de sua discípula para que o ritual pudesse prosseguir normalmente mas não conseguiu se mover, fascinado pelo que via. Nesse momento o vento aumentou e veio a chuva. En112

ele confirmou tudo e viu que corriam sério perigo. aquela corrida desesperada.. * – MEU MARIDO * * descobriu tudo! – Ela exclamou. em que remoto tempo e lugar? Quando? Onde? Enfim. – Vem. Mas a praia agora era um imenso breu e ele pouco conseguia ver. Esta noite terei com ele. – Como? – Não sei! Estou com medo. Nesses instantes vinha-lhe a impressão. utilizando-se dos sonhos. Um marido traído era sempre perigoso. tão nítida. aquela mesma situação. o mesmo repentino medo de perdê-la.. abraçando-o assustada. Catarina abriu os braços para receber as primeiras gotas e logo em seguida virou-se e correu. Vamos acabar resfriados – ele disse. um marido com tantas influências. levantando-se. aquela chuva. sumindo na escuridão..quanto relâmpagos cruzavam o escuro da noite e os trovões ribombavam. Ela girava nua de braços abertos e seu corpo reluzia sob os clarões dos relâmpagos. – Esqueça só por um momento que pode adoecer. de já ter vivido aquele momento antes.. Mas ela o puxou de volta para o seu corpo nu. Ele gritava seu nome com toda a força mas com o barulho das ondas. mesmo ele mal se escutava. como ela não retornava. Iriam para Barcelona. lá eles poderiam se esconder até encon113 . era preciso deixar a cidade imediatamente. encontrou-a. Enrique decidiu sair à sua procura. que mantinha estreitas relações com o conselho ducal. tão exata. Depois de um tempo. do vento e dos trovões. À noite. A chuva virara tempestade e ele caminhava com esforço para não ser derrubado pela ventania. e beijou sua boca salgada. aliviado. era invencível. Ele a abraçou. Onde teria vivido aquilo. E caíram na areia. Enrique! – Fica calma. Porém. Sua permanência no colégio jesuíta de Munique se mostrava um enorme risco.

Era como estar à beira de um precipício. Seguiu direto para Goa. mulheres. Mesmo que fosse a mulher que amava. O mundo precisava cada vez mais dele e dos Iniciados da Ordem. Mas. Não retornou para o encontro combinado. acionaria seus melhores contatos na Corte e em um mês voltaria para reencontrá-la. botar um pouco de ordem nos estados papais.. Ingleses e holandeses tomavam o controle da rota do Oriente. Não podia.trar um lugar seguro. E ele tinha 114 . com Sisto V. Não podia largar a Companhia por uma mulher. Um polonês maluco chamado Copérnico publicara um livro em que afirmava que a Terra girava em torno do sol e outros malucos acreditavam nisso. ele teria que largar a Companhia. na Índia. A Invencível Armada espanhola fora derrotada pela Inglaterra.. Mas ele não desceu em Lisboa. * O NAVIO SE AFASTOU * * e tomou o rumo dos rochedos de Gibraltar. havia um problema.. O cais de Barcelona foi ficando para trás. para trás. A Reforma de Lutero triunfava e a Igreja tentava. facilidades. Poder.. seu salvo-conduto. onde poderiam viver em paz. E então fugiriam de vez para o Brasil. E os acontecimentos do mundo necessitavam da Ordem para se realizarem dentro do caminho traçado. a sua maior segurança. Ela lhe proporcionava viagens. Era o plano perfeito. E a Companhia de Jesus era seu disfarce perfeito. Atrás os problemas o pressionavam e à frente aguardava-o a decisão mais difícil de sua vida. dinheiro. a nova terra do sul. aquelas sete mil milhas tão valiosas para Portugal. Para viver com Catarina. Sentimentos não mudavam o mundo. Ele sentiu-se preso a um terrível dilema. Ele desembarcaria secretamente em Portugal. e a figura de Catarina enfim sumiu na névoa. O que mudava o mundo era a ação – ele não tinha dúvidas sobre isso. portal do imenso mar oceano.

ironicamente. O mundo precisa de nós! – Está apenas adiando o momento. Sim.. – Mas. no chão. – Não posso abdicar. Ele sabia. você provou que não está – a Guardiã lhe disse uma noite..que estar preparado para os confrontos que viriam. não posso. Quando? – Não posso. Mesmo assim. abdicam. Saltar no abismo. ele caiu de joelhos e ficou ali. E as minhas seguranças? De repente sentiu que já vivera aquele momento antes. Enquanto a serpente desaparecia nas águas escuras do lago. Está caminhando em círculo.. o desespero. quando o navio já seguia além do Bojador.. Nesse momento a imagem dela surgiu na superfície do lago. Só escapam dela os que.. – Não posso voltar para ela agora.. – Sem realmente sair do lugar. a armadilha final. o desamparo... Vehdvar. – Você falhou.... Entregar o controle... – Não. a sua voz ainda ecoando feito um grito sumindo no abismo. 115 . Sim. ele sabia de alguns membros que largaram a Ordem. Vehdvar.. Mas sempre julgara que o motivo fosse o medo de ser pego pela Inquisição.... na caverna. Sempre soubera. – Da Ordem... girando e girando. – A obsessão pelo controle é o derradeiro perigo para os Iniciados. Catarina. – Não posso. Ele sentia isso. ele não conseguia entender. – O que preciso fazer? – Você sabe. aquelas palavras. sem sair do lugar..

. a pele marrom e as escamas reluzentes. – Naja Hannah. não lembra? Aquela voz era familiar. Estava muito cansado.. suspirando. 116 .10 – QUEM É VOCÊ? Luca olhava para a estranha figura à sua frente.. – Ihlishhhhhh... – Uma velha amiga... A serpente ergueu parte do corpo e encheu os pulmões..... Vehdvar? Vehdvar. Mas é preciso. Luca não sentiu medo. inflando o pescoço.. – Vejo que não está querendo voltar lá fora.. Então abriu a boca e mostrou as presas afiadas.. ora! Só mesmo a velha serpente para animá-lo. tentando reconhecer o lugar. – Isso é real? Ou é um sonho? – O que não é real. Ele olhou ao redor. Ele conhecia aquele nome. você é.. – Ela deslizou para a pedra e enrolou-se sobre o próprio corpo para ficar ao lado dele. – Como andam as coisas? – Péssimas – ele respondeu.. Eu já estive aqui.. Ihlish.. Naja-Rei. geometricamente perfeitas.. – ele murmurou.. Não vou voltar praquele hospital. – Esta caverna. – Ora. Luca fixou o olhar e viu a enorme naja. lembrando de antigas palavras. – Estou lembrando. – Sou um fracasso.

.– E Isadora? – Isadora é uma louca. Ele tinha um olhar triste e diziam que a causa era um antigo amor. Ihlish.. E era a ele que recorriam para o benzimento de seus barcos com raminhos de alecrim no dia de Sant’Elmo. Ele virou-se para o lago escuro e percebeu que a água ondulava. E 117 .. a Ordem do Guardião. a tempestade. Luca sentiu uma emoção estranha.. as missões secretas. Estava envelhecido.. Soube muitas coisas sobre sua vida: a Companhia de Jesus. – Amor e ódio.. Passam os séculos e eles não se desgrudam. Grande parte da vida passara em barcos. singrando os mares. para onde nunca mais retornara. No entanto era bem mais que isso. heim? Mas antes de ir para os braços dela. Enrique estava no navio que balançava entre as ondas enormes. O trabalho como missionário o levara a terras distantes e o fizera conviver com outras culturas. era uma afinidade. os cabelos inteiramente brancos.. Quando lhe perguntavam sobre isso. Era como rever alguém muito querido depois de um longo tempo. o perigo da Inquisição. uma cumplicidade intensa. – Me deixe morrer em paz. ele citava os versos de March. E isso os enchera a todos dos piores presságios. Do tombadilho de um navio um homem observava o mar. – A dama de branco o encantou... o poeta catalão: Com se farâ que visca sens dolor tenint perdut lo bé que posseya? A noite. numa manhã enevoada. veja isso. o mar da China. a nave translúcida que conduzia as almas dos desaparecidos. Ao anoitecer um marinheiro havia visto no horizonte a fatídica caravela dos mortos. como explicar? Soube imediatamente que Enrique já estava no final da vida e que muitos anos haviam se passado desde que partira de um cais em Barcelona. Aos poucos uma cena começou a se formar na superfície. Os marinheiros catalães o chamavam de chamador de vientos porque ele sabia cantar e agitar o chapéu para trazer os ventos que necessitavam.. Luca soube imediatamente seu nome: Enrique.

ele cambaleou e perdeu o equilíbrio. tocando a cicatriz no rosto. que se identifica com a outra vida e entende isso como lembrança porque está preso ao tempo linear.. A tripulação lançava os botes na água mas o terror e a confusão dificultavam tudo. Ele sabia que Enrique havia se entregado quando poderia ter lutado mais um pouco por sua vida.. presente e futuro se 118 . as ondas invadindo o convés. ele afundou. E sabia também que em seu último pensamento estava Catarina. – Como assim? – A vida de Enrique. tudo sendo atirado violentamente de um lado a outro. Luca chorava. Você e Enrique se identificaram profundamente e suas experiências se cruzaram porque para o eu maior o tempo é uma rede onde passado. E caiu no mar gelado. Em certo momento Enrique perdeu o equilíbrio e bateu o rosto contra o mastro. onde passado. Tentou desesperadamente subir à tona para respirar mas nada podia contra os vagalhões que o faziam engolir cada vez mais água. e logo começou a sangrar.. – E não ocorrem? – Só para o ego. pode ser acessada por qualquer um pois todas as vidas estão interligadas através das experiências vividas. – Reencarnação.. Seu corpo começou a congelar e suas forças o abandonavam. formando uma vida só. Era preciso abandonar o navio. assim como qualquer vida. abrindo uma ferida do lado direito. E sumiu. a mulher que ele nunca esquecera e a quem abandonara no cais de Barcelona – Então Isadora estava certa? – murmurou Luca. inclusive a sua. – Então não existe. É uma ilusão do ego. um único eu.agora a tempestade repentina. ainda olhando para as águas escuras do lago. presente e futuro ocorrem em sequência. Quando o bote estava bem perto de salvá-lo. – Eu fui mesmo Enrique? – Tanto quanto qualquer outra pessoa foi – respondeu a serpente. Zonzo.

. – Sendo assim.. A serpente mexeu-se. o passado pode ser.. Ele deu um passo à frente. convidativo.. pois tudo está sempre acontecendo.. – Tarde demais.. – Vim te buscar..cruzam em todos os pontos.. – Do eu. – Ela deve ser mesmo muito bonita pra te enfeitiçar assim. nem os médicos têm esperança. Estava 119 .. . – Mas só uma mudança profunda do eu é que pode mudar o tempo... – Tente só mais um pouco. Da mesma forma o presente e o futuro. Por isso qualquer vida pode ser influenciada pela vida de qualquer pessoa de qualquer tempo. Luca virou-se. – Por quê? – Com a pneumonia que peguei no hospital. Ela o olhava de um jeito suave...... Aquela voz. Não pode desistir. – Mude você mesmo e a realidade mudará.. E todos os eus são todos os outros... – Isadora.. por favor. – Ao mesmo tempo.. Vem. – Agora. Luca. – Mudado. – Tudo acontece na mente. – Então todos os tempos acontecem. Porque na verdade o tempo está dentro. Vehdvar. deslizou até o lago. * UMA BELA MULHER * * de vestido branco. em direção à mulher de branco... sua compreensão.... . Isadora... – Você tem que tentar. e sumiu novamente nas águas escuras. – Eu cansei. Era de seu colo que precisava.

. contra si mesmo. contra tudo. – Isadora sussurrou. sobre tudo. um abismo escuro e profundo a sussurrar seu nome. E nesse momento o abismo surgiu bem ao lado. – Estou fazendo. Luca. não seria aceito na Ordem. Mas ele estava decidido. Ambos o chamavam. está me ouvindo? Ele não respondeu. o nunca mais ter que acordar.. A mulher de branco e o descanso. – Luca. – Não olhe pra ela. E seguiu em frente. e não seria mais quem era. Ele sentiu a mão de Isadora segurando a sua. Se saltasse para sua escuridão. 120 .. Ele virou-se para ela. seria apenas um pobre idiota do amor.. Só desejava apagar. seria o fim. – Então eu vou com você. não ter nunca mais que acordar. – Estamos juntos. a Inquisição o queimaria na fogueira. – Você não faria isso. ele saltou. Só isso. E antes que ela dissesse mais qualquer coisa. Luca – Isadora pediu.cansado de lutar contra a vida. – Olhe pra mim. firme. ele perderia de vez o controle sobre a própria vida.. seria expulso da banda.. O abismo escuro e a entrega do controle. surpreso.

. Mas nada vinha à sua mente. e havia um lençol branco sobre seu corpo. – Mãe.. muito longe.. – Quando? – Você esteve em coma durante um mês.. que bom que você.11 que ele viu foi uma luz suave e colorida. que dia é hoje? – ele perguntou e dona Glória quase caiu da cadeira. mãe. doce e protetora. Após um momento de confusão mental. o que aconteceu? – Um acidente... Ele se concentrou para lembrar de qualquer coisa que fosse mas não conseguiu. Estava deitado numa cama. – Ele não lembrava de nenhum acidente. enxugando uma lágrima. – Acidente?. A PRIMEIRA COISA 121 . Tentou falar algo mas o esforço foi tão grande que apagou. – Mas não pense nisso agora. um tubo de soro ligado a seu braço. – Luca!!! Ela o abraçou.. E ao lado estava sua mãe cochilando na cadeira. – O que aconteceu? – Meu filho. – Fala. Insistiu em saber sobre o acidente.. Em outro momento julgou perceber uma presença feminina. entendeu que estava deitado. Luca tentava lembrar do que poderia ter acontecido com ele.. um quarto de hospital. meu filho – ela respondeu. emocionada. Por fim abriu os olhos. o rosto para cima.. À sua frente a janela entreaberta deixava entrar a claridade do dia.. vinda de longe. Não sabia onde nem quando estava mas aquelas cores lhe trouxeram uma vaga alegria.. despertando de um susto...

um jesuíta português. surpreendendo a todos.. Subitamente ele lembrou de Bebel. * NO DIA SEGUINTE * * a lembrança trouxe outras imagens. – Eu pendurei na janela pra diminuir a claridade – disse dona Glória... inclusive os próprios médicos.A mãe explicou: um carro avançara a preferencial. E dormiu de novo. sentia-se mais disposto. – Um dia você abriu os olhos. Contou também que ele foi resgatado com muitos ferimentos e que no hospital contraiu uma pneumonia. feliz por ter o irmão de volta. Ela não precisou responder.. seu rosto. E adormeceu soluçando. – Eu estava sozinho? – Meu filho.. batida muito violenta. muitas coisas aconteceram com ele.. – Os meninos da banda trouxeram esse pano aí de presente pra ti – contou Celina.. 122 . viu o pano e sorriu. Ele olhou para o pano e o reconheceu. Teve o pressentimento de que. E adormeceu mais uma vez. tem que descansar. você está fraco. Como estariam? Mas outra coisa o preocupava. Dona Glória confirmou a morte imediata de Bebel e do bebê e explicou que o carro que dirigia fora totalmente destruído mas que o seguro pagara tudo. desanimando a todos. As lágrimas desceram e ele não conseguiu dizer mais nada. o sorriso meigo.. Foi nesse dia que eu tive a certeza que você ia voltar. Uma espanhola chamada Catarina. Porém. Tudo se confundia entre sonho e realidade mas eram imagens que o emocionavam. o fim de semana na praia.. Quando despertou novamente.. Era uma pintura colorida com o nome Bluz Neon em várias cores e as imagens dos cinco em silhueta. Sentiu saudade dos amigos. de um momento para outro ele se recuperou.... uma tremenda sorte ele estar vivo. enquanto esteve ali em coma.. viagens em navios. o que o deixou por vários dias à beira da morte. tocando.

Celina também não. Luca puxou o lençol. os medos. o mestre-amante de Catarina? Que coisa incrível. Como poderia sentir e saber tudo aquilo tão nitidamente se não houvesse realmente vivido. mano? – Celina perguntou. Não apenas lembrara – revivera tudo! De algum modo. E como explicar. Um aventureiro de várias identidades e que tecia sua vida nos cuidados da surdina e da dissimulação. fechando a porta do quarto. – ele murmurava.. Celina o abraçou e saiu... o catalão. como? E o contato com a pele de Catarina.. tudo. Um homem letrado. As roupas.. – Tem certeza? – Tenho. Ele sentiu a tristeza lhe invadir a alma. E viveu de novo todas as emoções.. – Incrível. as casas. Agora entendia o que significava aquela história de recordar uma outra vida. o bruxo português.. o que o tornara inimigo silencioso da Inquisição Católica. o castelhano. Então era verdade? Então Isadora tinha razão. sua alma viajou até o século 16 e viveu como Enrique. Um 123 . a Ordem do Guardião. seu cheiro?. Por onde andava? – Você está bem. naquelas semanas em que estivera em coma. nenhuma notícia. Qualquer coisa. dedicado a preservar a qualquer custo o conhecimento de sua ordem. Um conspirador religioso e nacionalista ferrenho. – Estou. os sentimentos.– Alguém tem notícia de Isadora? – ele perguntou e de repente estremeceu: ela ainda o esperava naquele cais? Não.. Isadora. um português que usava a fachada de missionário da Companhia de Jesus para desenvolver-se como iniciado de uma ordem secreta. Mas quero ficar um pouco só. junto com a mãe.. cada vez mais impressionado. ele fora Enrique. E fechou os olhos. dona Glória não sabia de Isadora. acomodando o corpo na cama. como? Era tão real quanto lembrar um fato ocorrido alguns anos antes.. o modo de falar o português. Sim... ele fora mesmo Enrique. grita. – Tá bem.

Abriu os olhos de repente. que havia uma outra maneira de compreender aquele fenômeno de recordar uma outra vida.. Vinham os sons das carruagens barulhentas e a poeira nos olhos. se havia uma outra forma de entender o que estava acontecendo com ele. quando ainda lhe restava uma última chance de viver. o cheiro das cervejarias de Munique. Uma ideia lhe chegava de algum lugar.. – Eu voltei... Porque não admitia abdicar da segurança que a Companhia representava. Sim. 124 . talvez descobrisse depois. Ele procurou lembrar mas não conseguiu. Era esse o próximo desafio. Ele fechava os olhos e elas voltavam. como se apenas aguardassem a chance de tornar a invadir seu pensamento. Ou haveria outra explicação? – Luca pensou enquanto lhe vinha a vaga lembrança de um sonho em que ele parecia descobrir que. de algum modo. algo assim. parecia haver uma outra explicação.... a noção de individualidade. – Catarina... estivera num outro tempo. Tinha algo a ver com a noção do eu. E a culpa por ter fugido o acompanhou feito uma chaga até o derradeiro momento. urgente: ele continuava onde Enrique havia parado. Por enquanto o que sabia era que ele. E também um homem que fugiu do confronto decisivo de sua vida: o amor por Catarina. * NOS DIAS SEGUINTES * * as lembranças da vida de Enrique ainda estavam vívidas. que Enrique recusara: abandonar o controle. do gengibre e da canela que os navios traziam como novidade das Índias. que levava a vida se arriscando e experimentando os mistérios. – Luca sussurrou. E foi ela que o fez optar pela morte naquele mar gelado. meu amor.homem dividido entre suas virtudes e defeitos. Bem.. E Isadora também estava lá. olhando a distância pela janela do quarto. Sim! A descida à caverna consistia agora em enfrentar o medo que ele tinha de perder o controle da vida. o gosto da pimenta.

Um súbito temor subiu por sua espinha. ele não entendera o recado. Uma noite antes de deixar o hospital sonhou com Isadora. a perda do carro.Agora entendia que talvez o Taoísmo lhe aparecera através de Isadora justamente para que alcançasse o conhecimento que faltou a Enrique. Vários quilos mais magro. Encostou a concha no ouvido e o som do mar aos poucos o acalmou. Ele acenou também. Ele a encontrava num lugar à beira do mar. – Não – ele corrigiu. os conflitos com a banda. um sonho forte e nítido. A cidade passando lentamente através da janela parecia lhe dar adeus. Junior. – Temos de acertar nossos relógios. Isadora? – De quatro minutos no futuro. a partida de Isadora e por fim a gravidez de Bebel.. os pequenos acidentes e as doenças frequentes. Dois meses antes estava saindo do hospital. Ranieri. Acomodou-se na poltrona e respirou fundo. de seguir um caminho que não sabia onde podia dar. A vida não poderia ter sido mais explícita. nem lembrava mais dela. sentindo-se ressuscitado. Era como se fosse um plano traçado para ele. Os problemas. Luca.. Na plataforma. Encontrara-a dias antes numa gaveta do armário. um gole de emoção entalado na garganta. brindando a ele. – De onde você vem... o ambiente ruim no trabalho. cicatrizes pelo corpo. Era como saltar no abismo. Abriu a mochila e pegou a concha que Isadora lhe dera na lagoa de Uruaú. * O ÔNIBUS COMEÇOU * * a sair e Luca olhou pela janela. E. Balu e Ninon acenavam com copos e uma garrafa de uísque. Estaria tudo já escrito? Pela própria vida? Antes do acidente as coisas já estavam fora do controle e só ele não percebia. – Foram quatrocentos anos. no entanto. Junior tocava no violão alguma música da banda. um medo de deixar tudo para trás. 125 . ela estava ainda mais bonita.

o dinheiro que ela lhe emprestara. esse gosto esquisito 126 . No meio da madrugada despertou lembrando de Bebel. vendeu algumas coisas e pagou a conta no restaurante. o quanto ela era importante. e que ele não pagou. recuperada da máquina de Bebel. que a irmã dela lhe dera. Celina ficou receosa de que o acidente houvesse afetado o juízo do irmão. ela foi embora. Sentia sua presença. tivesse se sacrificado por ele? Algum dia descobriria respostas para essas perguntas? Mas Bebel se fora. Mas para ele tudo estava claro. E comprou a passagem. o sol se pondo ao fundo. bem claro. Lembrou do duro que ela dava no bar. pondo para fora o que estava preso em seu peito: Ah. E lembrou que chegara a desejar ser Enrique só para livrar-se daquela gravidez. Em poucos dias acertou a saída da banda e do emprego. seus sonhos de retomar a faculdade. pegou a caneta e escreveu num pedaço de papel. culpado por sua morte? Retirou do bolso uma foto. Na foto estavam ele e Bebel. Vivia tão absorto em seus problemas. abraçados na varanda da casa de praia. seu corpo acolhedor. Não fora digno dela. entregou o apartamento. Dona Glória não gostou nada da ideia. o quanto era linda. fechado em seu egoísmo e em sua insana luta contra a vida. E no dia em que finalmente aceitou o filho que teriam.. Lembrou das noites de carinho. quase podia ver diante de si o rosto de menina e o sorriso franco. Para sempre. Seria ele. Os companheiros da banda não podiam compreender como ele largava um sonho tão próximo de concretizá-lo. seu olhar. E ele nem uma vez sequer dissera o quanto realmente gostava dela.. Emocionado. Lembrou do jeitinho sutil de reprovar seu comportamento autodestrutivo. de algum modo. Que exato sentido aquela mulher tivera em sua vida naqueles meses? Se ela não estivesse dirigindo. ele é quem teria morrido? Seria possível que ela.. de algum modo..ainda bastante debilitado. Eles foram embora.

Do amor que podia ter sido Mas que não foi E se foi pra nunca mais O amor que não pôde crescer Mas sempre brinca de ser Quando eu olho pra trás

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– MEU NOME É LUCA DE LUZ NEON

e toda sexta e sábado toco aqui no Papirar. Espero que tenham gostado. Obrigado. Luca agradeceu aos aplausos, levantou do banquinho e desligou o som. Guardou o violão no estojo e desceu do pequeno modulado de madeira que servia de palco. Charles foi até ele. – Hoje você mandou bem demais! – elogiou Charles, abraçando-o. – Foi realmente papirar o cabeção! – Obrigado. – Tô até pensando em aumentar seu cachê. – Não tenho nada contra. – Você merece, garotito. Agora senta aí que tá chegando uma moqueca de peixe daquele jeito que você gosta. Luca sentou à mesa e espreguiçou-se, esticando os braços e as pernas. O bar estava cheio, como ocorria todo fim de semana. Nas mesas ele podia reconhecer moradores de Pipa que sempre iam ao bar e algumas caras novas, de turistas brasileiros e estrangeiros. Charles, um ex-hippie sessentão, era o proprietário, e sua mulher Solange era sua sócia no negócio. Eles haviam gostado de seu estilo musical e o contrataram para ser músico fixo da casa. Luca abriu uma garrafa dágua e bebeu, matando a sede. Nove meses..., ele pensou. No dia seguinte completariam-se nove meses que voltara do coma. E sete meses que descera novamente em Tibau do Sul, ele, duas mochilas e o violão. Um impulso irresistível o levara até lá. Sabia, do fundo do seu ser, que era lá que deveria recomeçar sua vida. Foi estranho rever o lugar, aquelas árvores, o rio, os
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pássaros cantando ao amanhecer... No entanto, sentiu-se bem, era como estar em casa. Acampou novamente no camping de dona Zezé, que lembrava perfeitamente dele. Na segunda semana, no entanto, ela lhe propôs sair do camping e mudar para a pousada: trocaria o aluguel do quarto por aulas de violão e informática para seus dois filhos, que tal? O quarto era pequeno mas tinha armário, mesinha, ventilador, janela com cortina e banheiro. E o café da manhã estava incluído. Luca nem pensou duas vezes: negócio fechado. Na manhã do primeiro dia em seu novo quarto, ele acordou e foi ao banheiro. Ao passar pelo espelho, parou e olhou-se por um tempo. Havia algo estranho em seu rosto, em sua expressão... Olhou-se mais atentamente, procurando descobrir o que podia ser. Sim, havia realmente algo diferente, algo que ele não conseguia identificar. Nos dias seguintes teve a mesma impressão. Havia algo estranho sim, que diabos! Mas o que seria? Por mais que procurasse, não encontrou. Acabou desistindo. Foi dona Zezé, sempre atenciosa, quem o aconselhara a procurar trabalho em Pipa. Ele foi, conheceu Charles e Solange e no mesmo dia voltou empregado. Simples assim. Agora tinha trabalho fixo, um trabalho prazeroso, em que podia tocar as músicas preferidas, inclusive suas próprias músicas. E, que alívio, agora não tinha mais que se preocupar com aluguel e reuniões de condomínio. Nem com o preço da gasolina. E ainda podia tomar banho de mar todos os dias. Sete meses de solidão. Uma solidão ao início preenchida por lembranças insistentes que sempre vinham acompanhadas de dolorosas constatações. Uma armadura velha e enferrujada, era isso que ele usara por muito tempo, agora via muito bem, uma armadura feita de velhas ideias sobre a vida, que o protegia de certos perigos, sim, mas que cada vez mais o impedia de caminhar. E as máscaras, havia também as máscaras, caindo uma após outra, revelando seu verdadeiro ser, cheio de imperfeições. E havia os demônios, muitos, saltando para fora do armário a todo instante, forçando-o a reconhecê-los e enca129

desesperado. não sabia de nada. uma vez por mês viajava para Natal. Agora bebia menos. onde tocava numa casa de shows.rá-los. Uma cerveja pra comemorar! * O TRABALHO NO PAPIRAR * * era mesmo ótimo e a cada fim de semana ele conhecia muitas pessoas e fazia bons contatos profissionais. Mantinha contato com a família e os amigos pela internet. Por conta de um desses contatos. voltando à mesa. Não fosse a companhia de dona Zezé e as aulas das crianças. Poderia ter acabado num hospital psiquiátrico. Mas a longa noite havia passado. Não sabia o que lhe aconteceria. E compunha bastante. Em breve compraria um para ele mas. isso não lhe fazia falta. Como pudera errar tanto? E insistir tanto num caminho que o levava para longe de si mesmo? Houve dias em que. procurou alguém para conversar porque tinha medo dos próprios pensamentos. – Olha a moqueca quentinha! Era Charles. agora experimentando-se em outros ritmos além do blues. dormia mais e se alimentava melhor. coisa que nunca tivera nos tempos da banda. por enquanto. possivelmente teria surtado. rapidamente pôde comprar um violão novo e uma caixa de som importada. usando o computador de dona Zezé. Nadava todos os dias e tinha tempo para ler muitos livros. – Nove meses? Então amanhã você vai nascer. Como o dinheiro que ganhava era mais que suficiente para suas despesas. Levava uma vida simples e saudável. Não sabia quanto tempo continuaria ali em Tibau do Sul nem sabia para onde iria depois. Trazia na bandeja um prato de barro fumegante. Antes do acidente também não sabia 130 . – Sabia que amanhã faz nove meses que eu voltei do coma? – Luca comentou enquanto se servia. garotito.

– Isadora.... por onde você anda. Talvez agora fosse digno dela. – É isso! – exclamou. sua louca?. aquelas ideias confusas sobre a vida e o tempo. Talvez um dia fizessem mais sentido. Quanto a mulheres. Como não o fora ele também. sim. é verdade... durante os dias seguintes a lembrança daquele estranho sonho ocupou seu pensamento. mas a diferença é que agora não tinha nenhuma preocupação quanto a isso. E 131 . Eram ideias nada ortodoxas. Era esse o sonho que ele desejava lembrar desde que voltara do coma. elas sempre voltavam para suas cidades e ele prosseguia sozinho. sim. como não o fora Enrique naquela longínqua manhã no cais de Barcelona. Sabia apenas que fazia o que devia ser feito e essa calma certeza o enchia da maior das liberdades. Era um sonho com um clima misterioso. assim. Talvez já fosse digno de merecê-la. No dia seguinte. sentindo a brisa no rosto e se deliciando com o cheiro de mar. mas eram instigantes e ele sentia que elas escondiam coisas profundas e reveladoras. a serpente. folheando distraído uma revista. Lembrou de um sonho estranho... Ou já havia jogado fora todas as oportunidades? Um dia.. Sempre que podia. E..mais de nada. tomado por uma súbita euforia. Parecia ter sido tanto tempo atrás.. * PROGRAMA DE FIM DE TARDE: * * viajar no entardecer.. sagrada.. Sozinho. Luca descia a encosta do rio para ver o pôr do sol. viu a imagem de uma serpente naja. do tempo. – ele se perguntava todas as manhãs enquanto caminhava pela praia.. Luca. porém. A serpente lhe falava coisas sobre a natureza do eu. numinosa. vidas simultâneas.. uma atmosfera antiga. o trabalho no bar lhe possibilitou conhecer várias e até dormiu com algumas. e de repente lembrou... mas em seu pensamento uma certa mulher era presença constante.

os focinhos lisos. liberdade é só um sinônimo de não ter nada a perder. imensa e misteriosa. era a mesma Natureza. Sozinho. Agora olhava para trás e se espantava do quanto andara 132 . E. Lembrava da banda. certamente a mesma segurança que deviam sentir os bebês no colo da mãe. Tentava controlar a vida como se isso fosse possível. que tanto o apavorara naquela manhã na lagoa de Uruaú. Lembrava de dona Glória. E Soninha passara a namorar o baixista Ranieri.. os dois brigavam tanto que isso atrapalhou os trabalhos e acabou dividindo a banda. O resultado foi que não gravaram o CD e a banda acabou. No entanto. sentado à beira do rio. Luca ria. Junior e Soninha se separaram e ele agora tentava montar uma banda de disco music. sim. os shows inesquecíveis. sem saber que bastava fluir junto com ela. pensava ele. Vez em quando um ou outro saltava de repente e o corpo ágil brilhava sob os reflexos do sol poente. feliz: aquele era o jeito brincalhão deles de aplaudir sua arte e concordar que sim.tocava para os botos. ele tocava as músicas prediletas e lembrava. que ligava para perguntar o que o filho estava comendo e quando voltaria.. Após sua saída. Luca ria. no entanto. como fazia agora e como faziam os garotos que surfavam com o corpo no mar de Tibau do Sul. divertindo-se com as lembranças e tudo o que seus amigos aprontavam. os ensaios divertidos.. escutando. Bastava sentar à margem do rio e fazer o violão soar as primeiras notas que logo surgiam seus corpos cinzas à superfície. atentos. Meses antes se debatia em meio aos acontecimentos como quem luta desesperadamente para não se afogar. Junior havia assumido o vocal da Bluz Neon e começara a namorar Soninha. uma sensação boa de segurança. Quisera o destino que se separasse dos amigos. Tocar para os botos lhe trazia a maravilhosa sensação de estar conectado com a Natureza.. as faces risonhas. Ficavam bem perto. mas ele agora recebia o destino com um abraço confiante e estar vivo de repente era algo assombroso e excitante. domando as ondas sem competir com elas.

inteira. um outro Luca. Na saída. claro. todos os dias a superfície do espelho era uma fina membrana a separar duas realidades: numa delas Luca morria. como sempre fazia. amor e perdão. o do lado interno do espelho. parou na pia para lavar o rosto e. assim. Ele. compaixão. sempre fora o Luca a viver aquele tempo futuro. inteiro. sempre estivera ali. um inferno onde o que verdadeiramente ardia era seu medo de se entregar à vida. Era estranho vê-lo assim. Era como se houvesse fugido do inferno. viu a imagem de seu rosto. foi ao banheiro. De repente sentiu carinho por aquela pessoa que o observava no espelho. e visse apenas um Luca fragmentado. mas ao mesmo tempo era outra pessoa. E.. que todos os dias olhava para o Luca do lado de fora e lamentava que ele não o visse de verdade.cego e perdido. despedaçado em suas próprias contradições. um carinho feito de compreensão. Ali a imagem de seu rosto era uma imagem única. era ele mesmo. ao olhar-se no espelho. E então pôde perceber que ele. parecia outra pessoa. E riu. Subitamente ele entendeu que não estava do lado de fora do espelho – ele era o do espelho. e todos os dias tentou fazer com que o Luca de fora acordasse do sonho que vivia e percebesse que podia interromper o ciclo de autodestruição a que estava entregue. Luca deu por si e percebeu que continuava olhando-se 133 . uno. aquele tempo de encontro consigo mesmo. Nesse exato instante entendeu finalmente o motivo do estranhamento que sentia todos os dias sempre que se olhava naquele espelho. Sim. Ele estava dentro do espelho e olhava para o Luca que estava fora. * UMA MANHÃ * * Luca acordou e. Luca tocou a superfície do espelho como se acariciasse seu próprio rosto.. na outra ele renascia. o do espelho. dividido em várias partes. bem diferente da imagem dividida do espelho quebrado de seu antigo apartamento.

para em seguida se avolumar até a chegada da dissolução final. Logo estava rindo às lágrimas e o que era riso tornou-se um choro de felicidade. Leu e tomou um susto. O mesmo ocorre na vida. * UM DIA. na cozinha de seu apartamento de Fortaleza. feita da súbita convicção de que. CONVERSANDO * * com Charles e Solange. Imediatamente lembrou que uma vez. uma felicidade estranha e repentina. frio. Agora era tão óbvio! Escuridão. Sentiu-se um bobo. olhando para si mesmo como se nunca houvesse antes se visto. “No outono. surpreso com a relação delas com sua vida.. era preciso morrer para encontrar a si mesmo. quando cai a primeira geada. mais bobo se sentia e mais engraçada a coisa toda se tornava.. Como podia ser tão cego? Durante semanas matutou sobre aquela mensagem do I Ching e sua relação com as ideias que ultimamente tinha sobre 134 . os sinais da morte irão se multiplicando gradualmente até que chegue o rígido inverno com seu gelo. e estava rindo. o poder da escuridão e do frio começa a se manifestar. E ele simplesmente não captara o recado. rigidez. os sinais da morte. A decadência surge. os primeiros indícios.no espelho. decadência. Isadora consultara o oráculo para ele.. Pediu emprestado o livro e buscou o hexagrama Receptivo. E quanto mais pensava sobre o fato. Não poderia haver palavras mais precisas para resumir o que lhe acontecera. E que anotara o resultado em sua agenda. sim. Luca descobriu que eles tinham um I Ching. sem saber exatamente por que ria.” Ficou olhando para as palavras.. ao início sugerida por pequenos sinais.. Após os primeiros indícios..

feito uma ânsia. Luca respirava a maresia e olhava um barco ancorado. ela precisava sair. * NAQUELA MANHÃ * * nublada havia poucas gaivotas brincando no céu de Tibau do Sul. lembrando da noite anterior no Papirar.. Não apenas queria.. Nove meses. No entanto existiu. que a canção quis sair. espantado com a descoberta. Então. ou seja.. a música saiu.. – E também o passado. O vento no cabelo A poeira da estrada Pernoitar nessa pousada Amanhã cedo prosseguir A vida é uma carona incerta Mas sempre me leva Aonde eu preciso ir – Música bonita. É nova? Aquela voz. – Acabou de sair – ele respondeu. Ela sentou ao seu lado. aconteceu. assim.. teria alterado o que agora era passado. Charles dizendo que ele estava nascendo. parando de tocar. teria alterado um futuro que já aconteceu. O que teria acontecido.... ele puxou o violão e. se houvesse captado a mensagem.o tempo.. – Caramba. É possível alterar o futuro – concluiu Luca. como se já estivesse pronta em algum lugar dentro dele.. olhando para o imenso mar à 135 . Luca riu. Foi nesse momento. aquele futuro doloroso que ele posteriormente viveu não existiria. Naquele dia fazia exatamente nove meses que voltara do coma.. escorregando pelos dedos e pela boca. ele se perguntava. se houvesse captado aquela mensagem na primeira vez em que leu? Certamente teria alterado seu futuro e. Sob a palhoça de um bar à beira do penhasco da praia.. Rapidamente.

rio que desce para o mar. as ondas. Quando? Ele falou sobre o acidente. Mais bonita ainda que em seus sonhos. De repente a vida retomava seu curso. Agora quero dar um tempo. fluindo como deveria fluir. olhando-a de perfil: ela estava tão bonita. – Sério? Então me fala... Não soube cuidar dela. Ele virou devagar. fiquei um ano viajando. Isadora escutava impressionada. Ele contou também sobre Bebel. você soube? – Não. – Sofri um acidente. – Ela riu.frente. já achou uma definição pro Tao? – Ah.. finalmente encontrei. – Ela o consolou enquanto enxugava as próprias lágrimas. O cheiro do cabelo dela o fazia sentir-se leve. com uma cara saudável.. – Eu falhei. – Sim.. – Por falar nisso. naturalmente.. – Isso é um sonho? – ele perguntou. – Você fez o que pôde.. – E o que não é sonho.. De repente não se passara mais de um ano desde o último encontro. – Como foi a viagem? – Foi incrível. Luca? – Está vindo de onde? – Da pousada da dona Zezé. Isadora.. 136 . – Você está linda. o barco ancorado. Uma gaivota passou bem próximo. Ela disse que eu te encontraria aqui. o coma e sua recuperação. Luca riu.. Luca a tomou em seus braços e de repente nunca em tempo algum haviam se separado. Eles riram e de repente era como se ainda estivessem conversando naquela tarde chuvosa no restaurante de dona Zezé.. – O Tao é a tal coisa e coisa e Tao.. lembrando de uma antiga conversa. – E você está ótimo.

– Exatamente! – Que coincidência. – Então você lembrou?! – Sim. – Hummm. – Missão? – Voltar pra você.. – Você me libertou. – Por quê? – Sabe.. Ando pensando umas coisas sobre o tempo.. E talvez aquele tempo ainda esteja acontecendo. Eles riram juntos.. – Tive tanto medo de ter te perdido pra sempre. – Só se você me perdoar por eu ter te abandonado num momento tão difícil. Ela olhou surpresa para ele. A multidimensionalidade da existência. Dia desses li algo sobre isso e fiquei bem curiosa. 137 . Mas por enquanto quero apenas que você me perdoe. Ela sorriu e ele completou: – Como deveria ter feito quatrocentos anos atrás. algo mais profundo e bem mais louco. E eu nem sabia o quanto estava preso. a noção do eu.. Você me perdoa? – Por quê? – Por eu ter fugido. quero saber como foi. Mas não acho que lembrar é o termo correto. Luca? Ele tirou do bolso uma concha..– Por que voltou pra cá.. – Como assim? – Talvez todos tenham sido Enrique... É uma alternativa à teoria da reencarnação. – Ela me sussurrou que eu precisava completar minha missão. – Não acredito! Me conta. – É. Luca. Isadora. Talvez eu não tenha sido Enrique. – Foi durante o coma. Nada daquilo importava mais. Luca.. Acho que temos milhões de coisas pra conversar.

onde o tempo está sempre girando e retornando ao mesmo lugar para ser de novo. não tinha mais medo. porém.. Como se buscassem algo perdido na memória do tempo. o olhar vago... para ser eternamente de novo.. uma tontura.... Ele percebeu que a insanidade continuava lá.... Ele abriu os olhos. o suficiente para que o passado. sim.Mas eu sabia que você estava em seu próprio tempo.. sempre passando por aquele mesmo lugar.. – Mas. como se não estivessem ali. girando. isso antes.. bela e charmosa. um abismo cor de mel a sussurrar seu nome.. Ele a puxou e a beijou. Agora.. nós dois ao mesmo tempo? – Isso é possível? – Nós já vivemos. de outro modo. eu já vivi isso antes... De outro modo! – O que foi?– ela perguntou.. – Acho que podemos agora acertar nossos relógios. O mesmo ponto mas num outro nível – ele subitamente entendeu. uma espiral. Sim. Os olhos de Isadora. 138 . – Um dejà vu.. – Eu também. Era como se estivesse num círculo. – Isadora. Um outro nível! Porque na verdade não estava num círculo mas numa espiral. Fechou os olhos e tentou lembrar quando vivera aquela mesma situação mas tudo que lhe veio foi a sensação de estar girando. girando. o presente e o futuro se alinhassem no ritmo exato do pulsar de seus corações. Ela olhava para ele com uma expressão de espanto. Luca. juntinho a ela. sempre.. eu tinha que confiar.... Isadora.. E era como se o gosto de Isadora jamais houvesse deixado sua boca. Ele a abraçou e assim se deixou ficar.. sempre passando pelo mesmo ponto. mas em outro nível. E por um instante o tempo parou.. inteiramente envolvido pela sensação de já ter vivido aquilo antes.. Eles se olharam. – Não sei.. girando num círculo.

Olhou para os lados.. Ele puxou-a pela mão e começou a correr. – Explique logo essa mudança de ideia. – Não sei. correndo por entre a névoa. não íamos.. os marujos subindo as velas. Por que desistiu de ir? – Porque meu lugar é contigo. Logo dariam pela sua ausência.. entre o leve nevoeiro que fazia. preocupado que o vissem ali... nós íamos nos encontrar logo. – Mas. Rápido! – Mas. Vamos. não quero que me vejam.. e voltou. Por aqui. o navio continuava ancorado no cais. ela olhou bem nos 139 . Catarina. – Não. Ele continuou puxando-a pela mão. apressa. Mas explico depois.. – Vamos sair daqui.. – Mas. Enquanto ele procurava as palavras. balançando com as ondas. É segredo. não! – Ela estancou o passo. Pegou-a pelos ombros e falou baixinho: – Há uma maneira mais segura de chegarmos ao Brasil..– Há dias que você está estranho.. ofegante. Enrique! Só saio daqui depois que você me explicar! Ele respirou fundo. Ele parou mais adiante. – E a viagem? – Não mais irei. De repente eu.. – Não?! – Fala baixo.. – Você enlouqueceu? – Devia ter enlouquecido há muito tempo. soltando sua mão da dele. – E a Companhia? – Para o raio-que-o-parta a Companhia! – Ah. Ocorreu algo naquele momento.. Lá atrás. – Vem. – Não. – Como assim? – Eu explico depois....

– Sim.. um amor bonito que se perdeu no tempo. eu lembrei de mim... 140 . Um tempo onde a vida dava voltas em torno de si mesma sem sair do lugar... – ele continuava tentando encontrar as palavras. E aquele beijo teve um sabor diferente. – Eu estava perdido.. cantigas sobre uma mulher que espera por seu amor.. numa terra nova. Estamos juntos. meu amor.. repetindo-se mil vezes como as cantigas tristes que as mulheres de sua aldeia cantavam quando era pequena.. – Estamos juntos agora? – ela perguntou. Uma nova vida os esperava... um tempo de tristeza... Num novo tempo. nós dois separados. Não sei explicar. – De repente eu me vi.. não. Depois deramse as mãos e correram até sumirem no final da rua.olhos dele e de repente lhe chegaram lembranças de um estranho tempo que nunca houve. de loucura e solidão. Ele a puxou e beijaram-se. – É só isso que preciso saber. um sabor irresistível de primeira vez.

Renata Regina. José Maria Teixeira Jr. (João Pessoa-PB). Fabiano Brilhante. Alzira Aymoré. Maria Emília Lino da Silveira. Mardonio Veras (São Luís-MA). Francisco Fontenele Neto (Lourinhã-Portugal). Mariana Melo (Maceió-AL). Luciana Bergstrom (Suécia).GALERIA DE LEITORES ESPECIAIS Obrigado a todos os leitores que adquiriram este obra antecipadamente na promoção de pré-lançamento. Cesar Veneziani. Pedro Camargo. Suely Andrade (Brasília-DF). Regina Coeli Carvalho. Roberta Lossio e Tarcius Guedes (São Paulo-SP). Graziely Camargo. Arlene Amorim. José Carlos Neves (Belo Horizonte-MG). Gilvanilde Oliveira Falcão. Edgar Powarczuk. Rógeres Bessoni (Recife-PE). Ana Érika Galvão. Leopoldo F Noschese. Aluska Cavalcanti. Eugênio Leandro. Bárbara Leite. Fernando Veras (Camocim-CE). Ana Karine Oliveira. Paula Izabela (Juazeiro do Norte-CE). Viviane Avelar (Fortaleza-CE). Gisela Symanski (Porto Alegre-RS). André de Sena. Larissa Azevedo (Natal-RN). Gabriel Falcão. Verônica Guedes. Daniela Ramos (Rio de Janeiro-RJ) e Marcelo Gavini (São Paulo). Iana Bezerra. Kátia Regis Albuquerque. Christiane de Oliveira. Glaucia Costa. Celia Terpins. Katiê Ribeiro (Plymouth-Inglaterra). 141 . Emerson Figueiredo (Campina Grande-PB). Meg Lia (Paracuru-CE). Virginia Mancini (Leme-SP). Lucilene Pacheco. Joelson Maximiniano (Curitiba-PR). Monica Fuck. Pat Maria (Salvador-BA). Obrigado pelas observações valiosas: Rosa Emília Costa (Fortaleza-CE). Marta Aurélia. Sandra Macedo. estas pessoas são grandes incentivadoras do meu trabalho. Maria do Carmo Antunes. Waldemar Falcão. Antonio Venâncio. Thais Souza (Manaus-AM). Juliana Cupini. Bia Rocha. Mais que leitores. Jamile Mileipe (São CarlosSP). Wilza Mazur (Rio de Janeiro-RJ). Obrigado por tudo: Wanessa Bento (Fortaleza-CE). Arthur Valente.

música e poesia de Vinicius de Moraes. Integrou as bandas Os The Breg Brothers e Intocáveis Putz Band.SOBRE O AUTOR Ricardo Kelmer nasceu em Fortaleza. atua no espetáculo Viniciarte . Como produtor cultural. em 1964.wordpress. e produz a festa Cabaré Soçaite. Cursou Letras e Comunicação Social.Vida.com 142 . atuou em rádio e na produção de eventos. foi redator de publicidade e dono do bar Badauê na Praia de Iracema. letrista musical e palestrante. Publicou seu primeiro livro em 1995. Também é roteirista. de sua autoria. Blog do Kelmer .blogdokelmer. Mora atualmente na cidade de São Paulo.

os conflitos internos. 143 . seduzido. do processo de autorrealização do ser humano. Kelmer investiga o filme Matrix e nos oferece uma visão diferente da obra que revolucionou o cinema e é considerada um fenômeno cultural.. os grandes heróis de nossas próprias vidas. sem consciência do processo que vivemos. prostitutas. conquistando admiradores e instigando intensas discussões por onde passa. Em cada história. sacerdotisas pagãs. Nós podemos ser bem mais que meras peças autômatas de uma engrenagem. a autossabotagem. Neste livro vemos que Matrix é uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói e sua história nos fala. espiãs..OUTRAS OBRAS DO AUTOR Vocês Terráqueas Seduções e perdições do Feminino (Contos/crônicas) Nos contos e crônicas deste livro. lotando salas no mundo todo. a experiência do amor. finalmente. Kelmer mistura humor e erotismo para celebrar o Feminino em suas diversas e irresistíveis encarnações.em todas as personagens... santas. a morte e o renascer. o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza. dirigidos pelas circunstâncias. mistério. podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos. mulheres selvagens . o autoconhecer-se. Ciganas. com suas crises que levam ao despertar. Matrix e o Despertar do Herói A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas (Ensaio) Utilizando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem simples e descontraída. entidades do além. assumirmos nosso destino e nos tornarmos. o reflexo do olhar masculino fascinado. Em vez disso. sensualidade. amedrontado. metaforicamente. e inspiração. lolitas. a relação com o inconsciente.

Hoje é possível publicar. os personagens são surpreendidos por estranhos acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmos e deflagram crises tão intensas que podem se transformar numa questão de sobrevivência. Nesses contos estão reunidos aspectos engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha. onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes. o fantástico e o sobrenatural invadirão sua realidade. publicando e vendendo seus livros. o autor resume neste livro as idéias que divulga em suas palestras e oficinas. o velho sonho de ser escritor. Um livro sobre apocalipses pessoais. Com sua experiência no mercado editorial oficial e alternativo. assim. Você está preparado? Nos nove contos que formam este livro. a planta mais polêmica do planeta. ETs preocupados com a maconha terráquea. a loja que vende as mais loucas ideias. mostrando que os novos autores podem gerenciar a própria carreira independente. baratos e eficientes. Inclui glossário de termos e expressões canábicos..Guia do Escritor Independente Como publicar seus livros e gerenciar a carreira literária (Dicas) As novas tecnologias possibilitam cada vez mais aos escritores a oportunidade de desenvolver suas carreiras sem necessariamente estarem ligados a alguma editora.. conquistando seu público leitor e realizando. O Ministério da Saúde adverte: o consumo excessivo deste livro após o almoço dá um bode desgraçado. divulgar e vender os próprios livros usando-se a internet e outros meios alternativos. Baseado Nisso Liberando o bom humor da maconha (Contos/glossário) Os pais que decidem fumar um com o filho. Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (Contos) Em algum ponto do caminho. 144 .

Feito caranguejos tangidos na mesma direção.. erotismo. drogas. futebol. Blog do Kelmer blogdokelmer.wordpress.Blues da Vida Crônica (Crônicas) Sociedade. está de volta nesta seleção de 46 crônicas. arte. agudo e bem-humorado.com 145 . Elas compõem o melhor da produção de crônicas do autor entre 2003 e 2006. revistas e sites na Internet. mulher. aqui estão reunidos os vários Ricardos: o cronista gozador. as crônicas e artigos deste livro trazem o sagrado e o profano tão típicos do estilo de Ricardo Kelmer. internet. relacionamentos. Natureza. O velho olhar kelmérico.. o observador irônico e debochado dos costumes. política. boa parte publicada em sua coluna de jornal. misticismo. A Arte Zen de Tanger Caranguejos (Crônicas) Em sua maior parte publicados em jornais. o ousado viajante dos mistérios e também o pensador inquieto a desenrolar o novelo infinito das possibilidades filosóficas e existenciais.

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