A pré-compreensão na hermenêutica de Hans George gadamer

A pré-compreensão e a compreensão na hermenêutica de Hans Georg Gadamer e suas implicações na interpretação do direito

Daniela Rezende de Oliveira1 Rafael Soares Duarte de Moura2
Resumo: O presente artigo objetiva analisar a pré-compreensão e a compreensão em Hans-Georg Gadamer sob o prisma da hermenêutica jurídica, principalmente no que concerne ao ato de julgar. Palavras-chave: Pré-compreensão, Hermenêutica filosófica, Hermenêutica jurídica. Abstract: This article aims to analyze the pre-understanding and understanding of Hans-Georg Gadamer through the prism of legal interpretation, especially in what concerns the act of judging. Key words: Pre-understanding, Philosophy hermeneutics, Legal hermeneutics.

1. Introdução
Heidegger inova o modo tradicional de se entender o que vem a ser Hermenêutica ao trazer para o campo das reflexões hermenêuticas a concepção de que as coisas do mundo não são passíveis de serem compreendidas a partir da apropriação intelectiva do homem por meio da visão dicotômica sujeito/objeto, mas a partir da perspectiva de que as coisas são fenômenos que, independentemente do subjetivo humano, possuem a potencialidade de se apresentar como são. É nesse sentido que Falcão assinala que, em Heidegger, há o surgimento de uma nova perspectiva sobre a hermenêutica – bem diferente da perspectiva moderna/tradicional – em que o caráter normativo e metodológico é substituído por uma analítica filosófica, uma vez que a compreensão deve ser entendida como categoria fundante da existência humana; sendo essa perspectiva ontologicamente essencial a qualquer ato do ser.3

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Bacharela em Direito. Mestre em Filosofia do Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, e doutoranda em Filosofia do Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente, é bolsista do Programa de Fomento à Pesquisa da CAPES/PROF. Advogado, bacharel em Direito pela UFMG e mestrando em Direito pela UFMG. FALCÃO, Raimundo Bezerra. Hermenêutica. São Paulo: Malheiros Editores, 2000, p. 176.

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5 Nesse contexto. 2001. 4 5 6 STRECK. Isso é certo uma vez que na sua temporalidade e no seu estar sendo. e nos revela que ele “compreende a si mesmo a partir da existência. 45. Assim é que a interpretação de um texto por parte do intérprete – trazendo para dentro da atividade interpretativa as suas impressões e pré-compreensões – obtém um resultado que precisa ser permanentemente analisado. 187. com o passar do tempo. 3. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Isso porque. e eis que o intérprete não sai do movimento hermenêutico da mesma maneira como entrou. 35. Gadamer se preocupa não apenas com o fenômeno em tese. o seu destino é a finitude. a Hermenêutica é um campo da filosofia que. Segundo Gadamer. ao conduzir seus estudos para o que ficou conhecido como giro hermenêutico. também estuda o fenômeno da compreensão por si mesmo – o que demonstra ser ele adepto da hermenêutica fenomenológica. Hermenêutica jurídica. inserida na própria estrutura do ser humano. pois todo processo de compreensão continua dialeticamente a determinar-se e formar-se no outro. ou seja. mas à situação do Dasein no mundo. Por isso o ponto central da hermenêutica fenomenológica de Gadamer está na totalidade da inserção da existência do homem no mundo.Com Heidegger. Gadamer. Gadamer inaugurou a Hermenêutica como Hermenêutica Filosófica. a Hermenêutica passa a ser compreendida como fenomenologia da existência. além de ter um foco epistemológico. interpretação das leis e dos contratos. novos sentidos são dados ao texto. uma vez que. a hermenêutica é o processo pelo qual é possível a compreensão do Dasein. mas como possibilidade.” (MEGALE. o poder-ser-si mesmo do Dasein. Hermenêutica jurídica e(m) crise: uma exploração hermenêutica da construção do direito. posiciona-se contra a concepção – típica da Hermenêutica tradicional do século XIX – de que toda verdade é consequência lógica da aplicação de um método científico [clássico]. o surgimento da Hermenêutica contemporânea é atribuído a Hans-Georg Gadamer. Ernildo. Maria Helena Damasceno e Silva. ed. É nesse sentido que Megale afirma que o Dasein é preeminente sobre todos os demais entes. que pressupõe uma imersão no mundo. Esses novos sentidos superam e ultrapassam as pressuposições anteriores. 1996. 6 Interessante notar que. STEIN. Apesar da enorme contribuição do pensamento de Heidegger para a Hermenêutica. a compreensão apresenta uma estrutura espiral. isto é. Porto Alegre: Edipucis. com fundamento nas conclusões de Heidegger. 4 É nesse sentido que Stein afirma que a compreensão constitui um elemento que integra o modo de ser-nomundo. mas também com a operação intelectiva humana do compreender. 48 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 . pois as coisas que servem como objeto de interpretação devem ser vistas e analisadas de acordo com as suas possibilidades de existir e de se manifestar através das alternativas que se dão em cada tempo histórico. p.Belo Horizonte: Faculdade de Direito da UFMG. p. pois a compreensão não está relacionada à questão do reencontro com o outro. A hermenêutica como dimensão da existência. entendida esta não como uma existência determinada. Aproximações sobre hermenêutica. É próprio do Dasein não formar um todo acabado.). antes de tudo está voltada para o mundo do eu. p. é a existência humana como ser-no-mundo. 2001. Necessário ressaltar que foi Heidegger quem primeiro demonstrou que o processo de compreensão é composto de preconceitos. para Gadamer. Lenio Luiz.

por meio da linguagem. A pré-compreensão e a compreensão na teoria hermenêutica de Gadamer Inicialmente. o ser do intérprete jamais poderá se dissociar daquilo que se dá à interpretação. o sujeito já se encontra situado em um mundo simbolizado. em Verdade e método – aborda as seguintes estruturas fundamentais da compreensão – todas interligadas entre si: pré-compreensão e preconceito. percebemos que a interpretação não é uma questão de método. uma relação dialógica entre Hermenêutica e História. mas algo que está intrinsecamente relacionado à existência daquele que interpreta (intérprete). e por isso a verdade é discutível e. pois. 2. Para Gadamer. círculo hermenêutico.” (Conf. A obra hermenêutico-filosófica de Gadamer – em especial. a Hermenêutica está antes de qualquer método científico. Assim. tradição. vale esclarecer que o novo paradigma hermenêutico trazido pelas doutrinas de Heidegger e Gadamer propicia o nascimento de uma nova hermenêutica – de uma nova maneira de compreender e interpretar – em que o processo interpretativo não deriva do correto e verdadeiro sentido absoluto do texto. e sim através do minucioso exame das condições existenciais em que ocorre a compreensão. com Gadamer. o espírito. de modo que o ato de compreender torna-se uma realidade existencial. Por isso. da situação hermenêutica do intérprete que esteja aplicando o método. para ser aferida. pois esta se contrapõe ao paradigma da filosofia da consciência. No presente trabalho faremos alguns apontamentos acerca da concepção de pré-compreensão e compreensão no pensamento hermenêutico de Gadamer.7 Partindo desse pressuposto. é com base nessa estrutura prévia de sentido que somos capazes de compreender – ou tentar compreender – as coisas do mundo que nos cerca. Da interpretação à hermenêutica jurídica: uma leitura de Gadamer e Dworkin. segundo o qual o sujeito observador situa-se frente a um mundo entendido como totalidade dos entes. conforme acredita Gadamer. Nazaré do Socorro Conte. ao mundo da pré-compreensão – mundo em que nós somos e nos compreendemos como seres racionais a partir da estrutura prévia de sentido. obrigatoriamente. mesmo porque a obtenção de uma verdade absoluta (correta. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. demonstrando o seu papel e importância para a atividade jurídico.: FERREIRA. o diálogo e a linguística. depende. É por meio da reflexão – ato de voltar a consciência. PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 4 9 . horizonte histórico. exata) é algo inviável para o ser humano – do ponto de vista das ciências do espírito. Em sua concepção. e é por isso que toda interpretação se situa na História – instaurando. na hermenêutica gadameriana. 2004. o método jamais será um modo exato para a aferição da verdade. Gadamer demonstra que toda interpretação é o resultado de uma compreensão histórica. uma vez que o intérprete e o objeto analisado coexistem em um mesmo mundo. o sujeito e o objeto estão juntos. ao realizar a sua tarefa interpretativa. não podendo ser vistos como duas coisas isoladas. Assim é que. 40 – nota de rodapé n. para Gadamer.36). sobre si mesmo – que a compreensão se conecta ao contexto vital da existência humana. “não se verifica a cisão epistemológica sujeitoobjeto. 7 FERREIRA nos esclarece que.hermenêutica.Por outro lado é interessante observar que. p. Os estudos de Gadamer nos remetem a um universo em que a reflexão hermenêutica está relacionada ao mundo da experiência – ou ainda. portanto.

de maneira direta e acrítica. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. ao comentar as diferenças de sua experiência hermenêutica em relação à de Heidegger – sobretudo no que diz respeito à pré-estrutura da compreensão – adverte que: Heidegger somente entra na problemática da hermenêutica e das críticas históricas com a finalidade ontológica de desenvolver. nossos próprios hábitos linguísticos. Verdade e Método. Este ser é aquele ser que só pode ser compreendido na linguagem. em que os sentidos vão ser confirmados. diz Gadamer: [. desde o princípio. por meio de sua obra Verdade e método. 42. 404. Petrópolis: Vozes. pois. 400. 1999.. em princípio. O intérprete deve.”11 Essa abertura à opinião do texto é exposta por Gadamer ao tratar da noção de alteridade do texto. traz uma grandiosa contribuição para o desenvolvimento da hermenêutica contemporânea. p. a partir delas. Hans-Georg. Gadamer não faz distinção entre compreensão e interpretação. e afastados. para a alteridade do texto. Mas essa receptividade não pressupõe nem neutralidade em relação à coisa nem tampouco autoanulamento. GADAMER. sem lhe impor sua précompreensão. Hans-Georg. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. P. p. 50 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 . Meurer. apropriação que se destaca destes. mas o que é exigido é tão-somente “a abertura à opinião do outro ou à do texto. tem que estar disposto a deixar que ele diga alguma coisa por si. mas inclui a apropriação das próprias opiniões prévias e preconceitos. a pré-estrutura da compreensão. F. pois ele demonstra que o desenvolvimento do fenômeno da linguagem é o que revela e transmite a experiência humana no mundo – ou. Compartilhando as impressões de Heidegger. Por isso. Hans-Georg. permitir que o texto lhe diga algo por si. p. Assim é que. GADAMER. Já nós. Assim. Verdade e Método. é na linguagem que o homem representa o seu próprio ser no mundo.”8 Assim. uma vez liberada das inibições ontológicas do conceito de objetividade da ciência. se forem insuficientes. devemos entender que os preconceitos vão sendo paulatinamente afastados. Verdade e Método.Assim é que Hans-Georg Gadamer. dito de outra forma.] quem quer compreender um texto. pelo contrário. GADAMER. uma consciência formada hermeneuticamente tem que se mostrar receptiva. se compatíveis com o texto. Trad. Verdade e Método. 8 9 10 11 12 GADAMER. p.12 Dessa forma podemos verificar que o processo de interpretação pressupõe não apenas a inclusão das concepções prévias do intérprete – pré-compreensões – como também exige que o intérprete se comunique e interaja com aquilo que está sendo interpretado. a hermenêutica pôde fazer jus à historicidade da compreensão. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica..9 Entretanto Gadamer nos adverte que a atividade de compreender/ interpretar10 não consiste em inserir no texto. 405. dando lugar a conceitos mais adequados. Hans-Georg. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. perseguimos a questão de como. Gadamer entende que a atividade interpretativa se inicia sempre com “conceitos prévios que serão substituídos por outros mais adequados.

Gadamer nos esclarece que. mas que. Os pré-juízos são muito mais do que simples juízos individuais. p. porém. Hans-Georg. posição prévia) com o que o texto lhe oferece.”13 A interpretação tem seu início com a elaboração de um projeto preliminar. p. 228. GADAMER.Para Gadamer. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. não sendo nem subjetivo e nem objetivo. a compreensão somente é possível quando as opiniões prévias com as quais ela tem seu início não são arbitrárias. GADAMER. pois. isto é. com base na conjugação de suas concepções prévias (visão prévia. Essa tradição. não está a nosso dispor: antes de estar sob nosso poder. segundo Gadamer. o que possibilitará a elaboração de um novo projeto que. num primeiro instante. p. Manfredo Araújo de. o círculo hermenêutico não é de natureza formal. 407. GADAMER.”16 Entretanto é necessário estar ciente quanto ao fato de que quem se põe a interpretar pode incorrer em erros. quanto a sua origem e validez. Hans-Georg.15 É por essa razão que Gadamer afirma que “faz sentido que o intérprete não dirija aos textos diretamente. Onde quer que compreendamos algo. Hans-Georg. nós é que estamos sujeitos a ela. será submetido a reiteradas apreciações críticas em virtude da penetração mais profunda no texto do intérprete. 403. por sua vez. 403. 709. o intérprete capta o sentido imediato do texto. Verdade e Método. em face da adoção de pressupostos que não encontram sustentação no texto. Verdade e Método. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica.”14 Esses preconceitos – ou pré-juízos – que estruturam e dão forma à compreensão. p. conforme Oliveira: Compreendemos e buscamos a verdade a partir das nossas expectativas de sentido que nos dirigem e provêm de nossa tradição específica. São Paulo: Loyola. ele tão-somente descreve a compreensão como a interpretação do movimento da tradição e do movimento do intérprete. em si mesmo. Hans-Georg. Sendo assim. que nos marca e precisamente torna essa compreensão possível. o projeto preliminar será submetido à análise. Verdade e Método. 13 14 15 16 17 GADAMER. a compreensão tem como ponto de partida os preconceitos do intérprete (pré-juízos). OLIVEIRA.17 Conforme assevera Gadamer. mas constituem a realidade histórica do ser. pois. PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 5 1 . ao ser comparado com o anterior. Nesse sentido é que Gadamer assevera não haver compreensão que seja livre de todo preconceito “por mais que a vontade de nosso conhecimento tenha de estar sempre dirigida. não são arbitrários. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. mas que examine tais opiniões quanto a sua legitimidade. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. a partir da opinião prévia que lhe subjaz. p. nós o fazemos a partir do horizonte de uma tradição de sentido. fazendo com que delineie um significado do todo. É exatamente aqui que se faz necessário abordar a noção de tradição. E sobre o que vem a ser esse “preconceito”. no sentido de escapar ao conjunto dos nossos preconceitos. Em outras palavras. exposta por Gadamer. Reviravolta linguístico-pragmática. pois. “preconceito (Vorurteil) quer dizer um juízo (Urteil) que se forma antes da prova definitiva de todos os momentos determinantes segundo a coisa. elucidará cada vez mais o sentido do texto. Verdade e Método. 1996.

como a dimensão histórica. da mesma forma não nos compete rejeitá-los. Raimundo Bezerra. Não nos impede acolhê-los. Hans-Georg. a seu turno. mais do que isso.19 Devemos ainda atentar para o fato de que essa fusão de horizontes se apresenta constantemente na vigência da tradição. mesmo porque não se pode falar em horizonte do presente por si mesmo. se focalizados como juízos próprios. presente e futuro. 177-178. devemos sempre ter em mente que o ato de compreender deve ser sempre entendido como o processo de fusão desses horizontes – passado e presente – presumivelmente dados por si mesmos. O receptáculo e o meio de comunicação da tradição é a linguagem. p. GADAMER. é algo em que nos situamos e pelo qual existimos. 52 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 . Antes. ou ainda em horizontes históricos a serem ganhos. porém à vista dos questionamentos que se ponham sob o ângulo do presente. que é permanentemente determinada a partir dele mesmo. Tanto a linguagem.o círculo hermenêutico descreve a compreensão como sendo a dialética entre movimento da tradição e movimento do intérprete. No entanto o passado é um fluxo no qual nos movemos. Antes disso. Verdade e Método. É por esse motivo que Gadamer entende o círculo hermenêutico como algo que revela um momento estrutural ontológico da compreensão. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. p. constituem a realidade histórica do ser. É todo compreensão. quanto o ser estão inteiramente mesclados. Verdade e Método. p. GADAMER. Ao tratar da tradição e do papel do horizonte histórico na tarefa hermenêutica. Segundo Gadamer. 457. são também juízos prévios e. Mas existe uma operacionalidade do passado no presente. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica.”21 18 19 20 21 GADAMER. p. pois este só é visto e compreendido através da quadratura herdada do passado. toda interpretação pressupõe a inserção no processo de transmissão da tradição.”20 Nesse sentido. sem que um e outro cheguem a se destacar explicitamente por si mesmos. Daí a importância que esses juízos prévios têm na interpretação. que encara o mundo sempre numa visão de passado. Hans-Georg. pois são o substrato de nossa capacidade de compreensão histórica. A historicidade da compreensão consiste naquela temporalidade intrínseca da compreensão mesma. Verdade e Método. 439. o sentido de uma obra do passado não há de ser buscado somente nos seus próprios termos. 457-58. E esclarece ainda que o momento da pré-compreensão – anterior ao momento da compreensão – é um momento essencial do fenômeno hermenêutico e é impossível que o intérprete consiga de desvencilhar do círculo hermenêutico. Hans-Georg. Dessa forma. Gadamer quer nos demonstrar que o horizonte do presente não se forma à margem do passado. FALCÃO. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica.18 Gadamer também esclarece que a relação entre intérprete e tradição é instaurada por ele mesmo enquanto compreende. Hermenêutica. sem que a tradição se revele contrariamente a nós. os quais. a ponto de afirmar que a linguisticidade do ser é a sua realidade ôntica e o meio de sua historicidade. no momento em que participa do acontecer da tradição. Falcão assevera que: A História é compreendida apenas e sempre à luz de uma consciência que se situa no presente. Tornar-se ser é um acontecimento da linguagem na história e da história. pois nela “o velho e o novo crescem sempre juntos para uma validez vital. Portanto a compreensão se dá no interior de um conjunto relacional manifestada na forma de transmissão da tradição por meio da linguagem.

somente a partir da historicidade do intérprete é que é possível interpretar um texto histórico. Vejamos. porque a compreensão é sempre um processo de fusão de horizontes presumivelmente dados por si mesmos. A consciência histórica é consciente de sua própria alteridade e por isso destaca o horizonte da tradição com respeito ao seu próprio. PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 5 3 . para ele. Hans-Georg. mas se recupera no próprio horizonte compreensivo do presente. por outro lado. em que Gadamer trata da importância da tradição e da consciência histórica para a tarefa hermenêutica: Todo o encontro com a tradição realizado com consciência histórica experimenta por si mesmo a relação de tensão entre texto e presente. interpretação e aplicação. enfim. considerando como um processo unitário não somente a compreensão e interpretação. GADAMER. mas em desenvolvê-la conscientemente. como já procuramos mostrar.. temos de dizer que o problema central da hermenêutica se estriba precisamente nela.Importa salientar. Desse modo verificamos que compreender uma tradição significa projetar um horizonte histórico que dará ensejo ao surgimento de um novo horizonte presente. interpretar e aplicar constitui um processo hermenêutico unitário23. acerca da unidade do processo de compreensão.”22 E mais interessante ainda é o fato de que compreender. ela mesma não é. p. porém compreender é sempre interpretar e.] a aplicação é um momento do processo hermenêutico. leva a cabo simultaneamente sua suspensão. e por isso ela recolhe em seguida o que acaba de destacar. Enquanto.” (Op. ou seja. Esta é a razão por que o comportamento hermenêutico está obrigado a projetar um horizonte que se distinga do presente. p. mas também a aplicação [. que deve ser entendida como a consciência de uma situação hermenêutica. Assim. a seguinte passagem. não se prende na autoalienação de uma consciência passada. de uma situação em que nos encontramos em face da tradição que queremos compreender. o positivismo estático-histórico ocultou essa tarefa. E realizar essa fusão de horizontes históricos é o que Gadamer denomina de “tarefa da consciência da história efeitual”.. que Gadamer – em Verdade e Método – não diferencia a interpretação da compreensão.. A tarefa hermenêutica consiste em não ocultar esta tensão em uma assimilação ingênua. assinala: “Nesse sentido nos vemos obrigados a dar um passo mais além da hermenêutica romântica. tão essencial e integrante como a compreensão e a interpretação. a interpretação não pode ser considerada como “um ato posterior e oportunamente complementar à compreensão. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. compreender é sempre interpretar. portanto. pois. Verdade e Método. 460). 458. 459. com o projeto do horizonte histórico. Verdade e Método. Nós caracterizamos a realização controlada dessa fusão com a tarefa da consciência histórico-efeitual. cit. p. Hans-Georg. O projeto de um horizonte histórico é. Gadamer. na herança hermenêutica romântica. pois. Conforme assinala Gadamer. Mas. uma vez que a atividade interpretativa se dá por meio de uma fusão de horizontes. com o fim de intermediar-se consigo mesma na unidade do horizonte histórico que alcança dessa maneira. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. a interpretação é a forma explícita da compreensão.24 22 23 24 GADAMER. só uma fase ou momento na realização da compreensão. senão uma espécie de superposição sobre uma tradição que continua atuante. Na realização da compreensão tem lugar uma verdadeira fusão horizôntica que. por conseguinte.

então. Esse acréscimo de sentido feito pelo intérprete ao desenvolver a sua atividade é consequência da consciência da história efeitual do intérprete. 394. O ordenamento jurídico. essa fusão de horizontes se dá por meio da interpretação. em uma dialética infindável. ao nos depararmos com um texto. Conclui-se. tanto subjetivamente como objetivamente. – Porto Alegre: AJURIS. 104. na busca pela compreensão de um caso concreto. O novo conceito faz parte da existência humana. Revista da AJURIS/ Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul – v. trimestral. tanto no Direito como nas ciências físico-matemáticas. É por isso que a hermenêutica deve dar atenção para o aspecto construtivista da história. uma vez que. irá trilhar um raciocínio e caminho hermenêutico distinto daquele trilhado tendo em vista a busca pela solução de um problema físico ou matemático. mas juízo prévio é de suma importância. Daí a 25 GADAMER. Mártin Perius. admite a opinião prévia como forma de agir judicial. que a compreensão do Direito. é admissível desde que não seja tomado como juízo determinante em ultima ratio. não se apresenta como desprovido de valor e eficácia. sendo o modo da existência do homem. em continuidade ao caminho trilhado por Heidegger. mas devemos levar em consideração todos os eventos históricos vivenciados tanto pelo autor quanto pela intérprete da obra. em sendo um modo de julgar provisório. como. n. dezembro de 2006. segundo Gadamer. A possibilidade da vida dá-se na medida em que o homem compreende.”25 O juiz. 33. provisório. que é obtido através da adição de sentido que é dado pelo intérprete dentro de uma concepção dialógica. todo o esforço empreendido para compreender e interpretar só faz sentido porque o intérprete precisa aplicar a norma jurídica ao caso concreto. havendo por parte de cada pessoa a compreensão das suas possibilidades. a título de exemplificação. 26 HAEBERLIN. a possibilidade de concessão de liminares. 26 Na verdade. a compreensão e a interpretação do direito Hans-Georg Gadamer. apesar de tratar-se de uma modalidade de assentimento incerto. como visto anteriormente. 54 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 . O entendimento de que o preconceito não significa juízo falso. cautelas antecipadas e outros. está sujeita a normas própriasA compreensão faz parte do existir humano. Porém deve-se ter em mente que. Daí a constatação de que profissionais de áreas distintas partem da autocompreensão para a compreensão. Hans-Georg. e “todo compreender acaba sendo um compreenderse. em que a atividade interpretativa implica a produção de um texto novo. p. mediante o reconhecimento do caráter preconceituoso do compreender. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. diferentemente de ser racional-finalista. 3. não podemos apenas nos limitar a buscar a intenção do autor ou o significado originário de sua obra. Dessa forma temos diferentes métodos. parte do conceito de compreensão ao expor os traços da sua hermenêutica filosófica. antes de devidamente testado de forma racional.Necessário esclarecer que. mesmo porque. A pré-compreensão. Verdade e Método.

Considerações finais Ao analisarmos a teoria hermenêutica de Hans-George Gadamer – ainda que de uma maneira breve. 128. p. p. que envolve tanto o momento analítico da explicação da norma jurídica nos seus conceitos. na busca não de um conceito analítico. Verdade e Método. Compreender uma opinião quer dizer compreendê-la como resposta a uma pergunta. p. fenomenológica e sociológico-política. o intérprete é capaz de compreender. o direito humaniza-se. 30 Nesse entendimento. HERKENHOFF. uma vez que a hermenêutica. Hermenêutica filosófica e aplicação do Direito. a compreensão. sentir e melhor se posicionar diante do fato sob análise. Verdade e Método. mas do sentido da norma. surge uma nova perspectiva para a hermenêutica. PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 5 5 . podendo “dar fundamentação teórica ao humanismo que muitos juízes já possuem. Ricardo Henrique Carvalho. pois assume uma posição solidária com toda a coletividade humana. a aplicação dos cânones hermenêuticos da atualização. Hermenêutica filosófica e aplicação do Direito. da totalidade e da coerência se utiliza diretamente das categorias do preconceito e da pré-compreensão. com pejo. 32 4. 128. Hans-Georg. p. que está sempre ligado à noção de fim. João Baptista. 552. da autonomia. sob o temor de serem tidos. que capta imediatamente numa visão de totalidade do fato. antes de tudo está voltada para o mundo do eu. como dimensão da existência.”27 Para Gadamer.afirmação gadameriana: “compreender uma pergunta quer dizer perguntá-la. constatamos que o processo de elaboração das normas e o momento de sua aplicação não são momentos diversos. Salgado afirma que: Tudo isto forma a compreensão da norma jurídica. expostas por Gadamer. aqui torna-se uma hermenêutica filosófica de cunho fenomenológico – eis que a hermenêutica. Belo Horizonte: Del Rey. do intérprete. Hermenêutica filosófica e aplicação do Direito. 31 Ao tomarmos a totalidade da existência humana como eixo central do processo de interpretação e aplicação do direito.”29 Ademais. Hans-Georg. p. Ricardo Henrique Carvalho. como ‘bonzinhos’”. Ricardo Henrique Carvalho. depreciativamente. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. SALGADO. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. a interpretação e a aplicação são consideradas um processo unitário. Como aplicar o Direito à luz de uma perspectiva axiológica. do seu contexto. 100. Assim. 128 SALGADO. mas momentos que se fundem “segundo a dialética da fusão dos horizontes culturais de Gadamer. sob a perspectiva da realidade jurídica e de sua evolução histórica. e do objeto da interpretação. a partir dessa perspectiva. Destacam-se também os novos elementos trazidos para a hermenêutica. não revelam. SALGADO. 28 Dessa forma. bem como da fusão dos horizontes e da efeitualidade histórica. em que o caráter normativo da hermenêutica tradicional é substituído por uma analítica filosófica. como o momento da compreensão propriamente dita (Ricouer. p. como a análise realizada neste trabalho – verificamos que seu pensamento traz grandiosas e profundas alterações no panorama hermenêutico mundial. 460. da norma. entre os quais citamos: 27 28 29 30 31 32 GADAMER. mas que. e. GADAMER. 2005. Larenz).

experiência e existência do intérprete.a superação da dicotomia sujeito-objeto. FERREIRA. e sim de manifestação do ser e de sua des-ocultação perante o intérprete. Assim. 42. inclusive comunicando-se com ele (alteridade). Por isso as impressões. “a análise da compreensão encontra-se miscível ao exame da existência. a questão da fusão dos horizontes históricos existentes entre o momento histórico da obra e o momento histórico do intérprete. Essa renovação é que constituirá a dinâmica do compreender e do interpretar. pois o eixo central de sua teoria reside na estrutura da compreensão (e na influência da pré-compreensão sobre esta). p. Em outras palavras. p. Destarte. ele elabora um sentido prévio. por possibilitar que o ser se manifeste. autocompreenda-se e autorrevele-se.33 Em sua teoria. é indiscutível que – de acordo com o entendimento de Heidegger – o ser se revela na linguagem. Nazaré do Socorro Conte. que constitui um projeto preliminar em que a tarefa da hermenêutica é a de dar permanente continuidade a esse projeto. pois toda interpretação estará de acordo com a compreensão da época em que vive o intérprete (em consonância com o momento histórico em que a obra foi elaborada) e por fundamentar-se em seus preconceitos e pré-compreensões. o que ocorrerá à medida que o intérprete penetre e aprofunde-se no texto. nunca uma verdade absoluta e exata. ao descrever a compreensão e a interpretação como algo que ocorre antes dessa dicotomia. A interpretação – sobretudo em Gadamer – tem uma natureza construtiva em face da impossibilidade de reprodução de um sentido. depreende-se que a hermenêutica – ao apresentar o resultado da atividade interpretativa – sempre apresentará uma verdade discutível.”34 O filósofo inova as concepções da hermenêutica tradicional também quando assinala que o intérprete se aproxima do texto com seus pré-juízos e preconceitos. devem ser levadas em consideração no instante em que analisamos o resultado de uma interpretação. a verdade não constitui uma questão de método. FERREIRA. existencial e não metodológica. Desse modo constatamos que a hermenêutica gadameriana constitui uma teoria hermenêutica fenomenológica. pois haverá sempre a possibilidade de se alterarem a interpretação e a compreensão feitas de um texto. assim como na hermenêutica heideggeriana. 56 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 . p. e. e não na prescrição de processos e métodos para a compreensão. descrita por Gadamer. Dessa forma. Nazaré do Socorro Conte. em face do texto e de sua pré-compreensão. 33. a tradição acumulada e desenvolvida no processo histórico condiciona a compreensão de um texto. pois ela é “a morada do ser e nela habita o homem que é seu 33 34 35 FERREIRA. Da interpretação à hermenêutica jurídica: uma leitura de Gadamer e Dworkin. Da interpretação à hermenêutica jurídica: uma leitura de Gadamer e Dworkin. 33. a descrição do círculo hermenêutico e a ideia de tradição e alteridade do texto. Nazaré do Socorro Conte. Da interpretação à hermenêutica jurídica: uma leitura de Gadamer e Dworkin.35 Sempre haverá a possibilidade de ocorrerem novas (ou ainda mais adequadas) interpretações. Nunca haverá uma interpretação melhor ou superior a outra. bem como o momento histórico em que a obra foi produzida. a inclusão dos preconceitos e dos pré-juízos como elementos inclusos e influentes no resultado da atividade interpretativa. a noção de pré-compreensão e compreensão.

como condição de possibilidade. O intérprete do direito. PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 5 7 . filosóficas. como reflexo das alterações legislativas e. O intérprete do direito deve sempre. permeados pela prudentia. 36 HEIDEGGER. de Pinharanda Gomes. Carta sobre o humanismo. 1985. 33. deve ser vista como abertura para o mundo. pois. a mudanças na interpretação das normas. éticas. como constituinte e constituidora do conhecimento. Lisboa: Guimarães Editores.”36 A linguagem.. a harmonização entre a pré-compreensão do intérprete ao caso concreto e o texto normativo. muitas das quais desenvolvidas no mais natural processo de desenvolvimento humano.interpretar o caso concreto de acordo com as leis vigentes à época. aplicar a norma mediante a imprescindível observância da proporcionalidade e do senso de justiça. Martin. mesmo que subjetivamente munido de convicções políticas. consequentemente. etc.curador. como reflexo da mutação social e evolução dos costumes e padrões sociais. Trad. dessa forma. manifestar posição de abertura às novas argumentações. visando. p. deve.

Trad. 104. Manfredo Araújo de. São Paulo: Malheiros Editores. trimestral. Ricardo Henrique Carvalho. STEIN. FERREIRA. 2001. 2000. 1985. Belo Horizonte: Faculdade de Direito da UFMG. Maria Helena Damasceno e Silva. fenomenológica e sociológico-política.33. Trad. 2005. 1996. Meurer. HEIDEGGER. Belo Horizonte: Del Rey. Da interpretação à hermenêutica jurídica: uma leitura de Gadamer e Dworkin. ed. Hermenêutica jurídica e(m) crise: uma exploração hermenêutica da construção do direito. Lisboa: Guimarães Editores. Como aplicar o direito à luz de uma perspectiva axiológica. Porto Alegre: Livraria do Advogado. GADAMER. Mártin Perius. 2001. Rio de Janeiro. P. Verdade e Método. Carta sobre o humanismo. traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. ed. SALGADO. Aproximações sobre hermenêutica. 2004. 1994. F. Revista da AJURIS/ Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul – v. 3. São Paulo: Loyola. de Pinharanda Gomes. OLIVEIRA. – Porto Alegre: AJURIS.Referências FALCÃO. Petrópolis: Vozes. 58 PHRONESIS: Revista do Curso de Direito da FEAD • no 6 • Janeiro/Dezembro de 2010 . Reviravolta linguístico-pragmática. Martin. 1999. MEGALE. dezembro de 2006. Hermenêutica. 1996. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. Raimundo Bezerra. Porto Alegre: Edipucis. HERKENHOFF. HAEBERLIN. Nazaré do Socorro Conte. Hermenêutica jurídica: interpretação das leis e dos contratos. João Baptista. Hans-Georg. 3. n. STRECK. Lenio Luiz. Ernildo. Hermenêutica filosófica e aplicação do Direito.

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